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Eh

estudos históricos

66 Escravidão e
Liberdade nas
Américas

ISSN 2178-1494 | 2019


estudos históricos

EH66 Escravidão e
Liberdade nas
Américas

ISSN 2178-1494
Estudos Históricos, volume 32, número 66, jan.-abr. de 2019. Rio de Janeiro: Centro de Pesquisa e
Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas, 1988
Quadrimestral
Resumos em português, inglês e espanhol
Editada e distribuída pela Editora Fundação Getulio Vargas
ISSN: 2178-1494.
1. História 2. Historiografia 3. Periódicos 4. Ciências Sociais 5. Economia e Sociedade.
I – : Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas
CDD 981.005
CDU 981(051)

E-mail: eh@fgv.br
Endereço na internet: http://www.fgv.br/cpdoc/revista
Endereço postal: Fundação Getulio Vargas/CPDOC
Secretaria da Revista Estudos Históricos
Praia de Botafogo, 190, 14º andar, Rio de Janeiro 22.523-900 RJ
H estudos históricos 66|Escravidão e liberdade nas Américas
Rio de Janeiro, vol. 32, no 66, p. 001-348, janeiro-abril 2019

Sumário

ESCRAVIDÃO e LIBeRDADe NAS AMÉRICAS |1


SLAVeRY AND FReeDOM IN THe AMeRICAS
ESCLAVITUD Y LIBeRTAD eN LAS AMÉRICAS
Bernardo Borges Buarque de Hollanda, João Marcelo Ehlert Maia, Ynaê Lopes dos Santos

Artigos

DA OBRIGAÇÃO De ALIMeNTAR OS eSCRAVOS NO BRASIL COLONIAL |5


ON THe OBLIGATION OF FeeDING THe SLAVeS IN COLONIAL BRAZIL
De LA OBLIGACIÓN De ALIMeNTAR A LOS eSCLAVOS eN eL BRASIL COLONIAL
Ana Carolina de Carvalho Viotti

COMPADRIO, MOBILIDADe SOCIAL e ReDeS SOCIAIS: A TRAJeTÓRIA De UMA FAMÍLIA eNTRe A eSCRAVIDÃO e A LIBeRDADe
(MINAS GeRAIS, 1797-1828) |33
GODPAReNTAGe, SOCIAL MOBILITY AND SOCIAL NeTWORKS: THe LIFe STORY OF A FAMILY BeTWeeN SLAVeRY AND FReeDOM (MINAS GeRAIS, 1797-1828)
COMPADRAZGO, MOVILIDAD SOCIAL Y ReDeS SOCIALeS: LA TRAYeCTORIA De UNA FAMILIA eNTRe LA eSCLAVITUD Y LA LIBeRTAD (MINAS GeRAIS, 1797-1828)
Mateus Rezende Andrade

O RIO DA PRATA, A INDePeNDÊNCIA e A ABOLIÇÃO: PeRSPeCTIVAS De LIBeRDADe DOS eSCRAVOS NO ALÉM-FRONTeIRA |53
LA PLATA RIVeR, INDePeNDeNCe AND ABOLITION: PeRSPeCTIVeS OF FReeDOM OF THe SLAVeS BeYOND THe FRONTIeR
EL RÍO De LA PLATA, LA INDePeNDeNCIA Y LA ABOLICIÓN: PeRPSPeCTIVAS De LIBeRTAD De LOS eSCLAVOS MÁS ALLÁ De LA FRONTeRA
Hevelly Ferreira Acruche

SILÊNCIOS ATLÂNTICOS: SUJeITOS e LUGAReS PRAIeIROS NO TRÁFICO ILeGAL De AFRICANOS PARA O SUDeSTe BRASILeIRO
(C.1830 – C.1860) |79
ATLANTIC SILeNCeS: SUBJeCTS AND SeASIDe LOCATIONS IN THe ILLeGAL TRAFFIC OF AFRICANS TO THe SOUTHeAST OF BRAZIL (C.1830 – C.1860)
SILeNCIOS ATLÁNTICOS: SUJeTOS Y LUGAReS PLAYeROS eN eL TRÁFICO ILeGAL De AFRICANOS HACIA eL SUReSTe BRASILeÑO (H.1830 – H.1860)
Walter Luiz Carneiro de Mattos Pereira e Thiago Campos Pessoa

DA ESCRAVIDÃO À LIBeRDADe: A HISTÓRIA De MARIA DA CONCeIÇÃO, ROUBADA e eSCRAVIZADA


(NAZARÉ, 1830-1876) |101
FROM SLAVeRY TO FReeDOM: THe STORY OF MARIA DA CONCeIÇÃO, ABDUCTeD AND eNSLAVeD (NAZARÉ, 1830-1876)
De LA eSCLAVITUD A LA LIBeRTAD: LA HISTORIA De MARIA DA CONCeIÇÃO, RAPTADA Y eSCLAVIZADA (NAZARÉ, 1830-1876)
Virginia Queiroz Barreto
“OS JUÍZeS De PAZ SÃO TODOS UNS LADRÕeS”: AUTORIDADeS PÚBLICAS e O TRÁFICO De eSCRAVOS NO INTeRIOR DA
PROVÍNCIA DA BAHIA (C.1831 – C.1841) |123
‘THe JUSTICeS OF THe PeACe ARe ALL THIeVeS’: PUBLIC AUTHORITIeS AND THe SLAVe TRADe IN THe PROVINCe OF BAHIA (C.1831 – C.1841)
“LOS JUeCeS De PAZ SON TODOS UNOS LADRONeS”: AUTORIDADeS PÚBLICAS Y eL TRÁFICO De eSCLAVOS eN eL INTeRIOR De LA PROVINCIA De BAHIA (H.1831 – H.1841)
Alex Andrade Costa

VISUALIDADe e ADMINISTRAÇÃO DO TRABALHO eSCRAVO NAS FAZeNDAS De CAFÉ e eNGeNHOS De AÇÚCAR De


BRASIL e CUBA, C.1840-1880 |143
VISUALITY AND SLAVe MANAGeMeNT IN THe BRAZILIAN AND CUBAN COFFee AND SUGAR PLANTATIONS, C.1840-1880
VISUALIDAD Y ADMINISTRACIÓN DeL TRABAJO eSCLAVO eN LAS HACIeNDAS De CAFÉ e INGeNIOS De AZÚCAR De BRASIL Y CUBA, H.1840-1880
Rafael de Bivar Marquese

MUITO ALÉM DO CONSUMO De PÃO: CONDIÇÕeS De VIDA NO RIO De JANeIRO NA DÉCADA De 1870 |171
FAR BeYOND THe CONSUMPTION OF BReAD: LIVING CONDITIONS IN RIO De JANeIRO IN THe 1870S
MUCHO MÁS ALLÁ DeL CONSUMO De PAN: CONDICIONeS De VIDA eN RÍO De JANeIRO eN LA DÉCADA De 1870
André Boucinhas

HOMBReS De COLOR e OS SIGNIFICADOS DA LIBeRDADe NeGRA: CONTRIBUIÇÕeS À HISTÓRIA DO PÓS-ABOLIÇÃO


NO URUGUAI (1872) | 195
HOMBReS De COLOR AND THe MeANINGS OF BLACK FReeDOM: CONTRIBUTIONS TO THe HISTORY OF POST-ABOLITION IN URUGUAY (1872)
HOMBReS De COLOR Y LOS SIGNIFICADOS De LA LIBeRTAD NeGRA: CONTRIBUCIONeS A LA HISTORIA De LA POST-ABOLICIÓN eN URUGUAY (1872)
Fernanda Oliveira

“A eSCRAVIDÃO eSTÁ CONDeNADA PeLA ReLIGIÃO”: CATÓLICOS e PReSBITeRIANOS NO CONTeXTO DA ABOLIÇÃO


(MINAS GeRAIS, 1886-1888) |217
“SLAVeRY IS CONDeMNeD BY ReLIGION”: CATHOLICS AND PReSBYTeRIANS IN THe CONTeXT OF THe ABOLITION OF SLAVeRY (MINAS GeRAIS, 1886-1888)
“LA eSCLAVITUD eSTÁ CONDeNADA POR LA ReLIGIÓN”: CATÓLICOS Y PReSBITeRIANOS eN eL CONTeXTO De LA ABOLICIÓN (MINAS GeRAIS, 1886-1888)
Juliano Custodio Sobrinho

“MR. PeRPeTUAL MOTION” eNFReNTA O JIM CROW: ANDRÉ ReBOUÇAS e SUA PASSAGeM PeLOS
ESTADOS UNIDOS NO PÓS-ABOLIÇÃO |241
“MR. PeRPeTUAL MOTION” FACeS JIM CROW: ANDRÉ ReBOUÇAS AND HIS TRIP TO THe POST-ABOLITION UNITeD STATeS
“MR. PeRPeTUAL MOTION” eNFReNTA eL JIM CROW: ANDRÉ ReBOUÇAS Y SU VIAJe POR LOS ESTADOS UNIDOS eN eL POST-ABOLICIÓN
Luciana da Cruz Brito

VICeNTe De SOUZA: INTeRSeCÇÕeS e CONFLUÊNCIAS NA TRAJeTÓRIA De UM ABOLICIONISTA, RePUBLICANO e SOCIALISTA


NeGRO BRASILeIRO |267
VICeNTe De SOUZA: INTeRSeCTIONS AND CONFLUeNCeS IN THe TRAJeCTORY OF AN AFRICAN BRAZILIAN ABOLITIONIST, RePUBLICAN AND SOCIALIST 267
VICeNTe De SOUZA: INTeRSeCCIONeS Y CONFLICTOS eN LA TRAYeCTORIA De UN ABOLICIONISTA, RePUBLICANO Y SOCIALISTA NeGRO BRASILeÑO 267
Ana Flávia Magalhães Pinto

QUe LIBeRDADe? UMA ANÁLISe DA CRIMINALIZAÇÃO DAS SeRVIDORAS DOMÉSTICAS CARIOCAS (1880-1930) |287
WHICH FReeDOM? AN ANALYSIS OF THe CRIMINALIZATION OF THe DOMeSTIC WORKeRS FROM RIO De JANeIRO (1880-1930)
QUÉ LIBeRTAD? UN ANÁLISIS De LA CRIMINALIZACIÓN De LAS eMPLeADAS DOMÉSTICAS De RÍO De JANeIRO (1880-1930)
Natália Batista Peçanha
CLASSe, RAÇA e A HISTÓRIA SOCIAL DO TRABALHO NO BRASIL (2001-2016) |307
CLASS, RACe AND THe SOCIAL HISTORY OF LABOR IN BRAZIL (2001-2016)
CLASe, RAZA Y LA HISTORIA SOCIAL DeL TRABAJO eN BRASIL (2001-2016)
Fabiane Popinigis e Paulo Cruz Terra

O TRABALHO eSCRAVO CONTeMPORÂNeO: CONCeITO e eNFReNTAMeNTO À LUZ DO TRABALHO JURÍDICO e PASTORAL DO FReI
HeNRI BURIN DeS ROZIeRS |329
CONTeMPORARY SLAVe LABOR: CONCePT AND CONFRONTATION IN THe LIGHT OF THe LeGAL AND PASTORAL WORK OF FRIAR HeNRI BURIN DeS ROZIeRS
EL TRABAJO eSCLAVO CONTeMPORÁNeO: CONCePTO Y eNFReNTAMIeNTO A LA LUZ DeL TRABAJO JURÍDICO Y PASTORAL DeL FRAY HeNRI BURIN DeS ROZIeRS
Moisés Pereira Silva
Editorial

Escravidão e liberdade nas Américas


Slavery and freedom in the Americas
Esclavitud y libertad en las Américas

Bernardo Borges Buarque de HollandaI*,


João Marcelo Ehlert MaiaI*
Ynaê Lopes dos SantosI*

Editores

N o dia 02 de junho de 1888, duas semanas depois de abolida a escravidão, Angelo


Agostini e Luiz de Andrade afirmavam que “Na vida do Brasil, nenhum fato se poderá
comparar ao do dia 13 de maio do corrente ano. A própria independência, ao lado da escravi-
dão, era como uma data velada, uma conquista clandestina. Hoje sim, o Brasil é livre e inde-
pendente”. O entusiasmo dos editores da Revista Illustrada tinha uma razão faustosa: o Brasil
finalmente abandonava a pecha de único país das Américas a manter a nefanda instituição,
entrando assim para o rol das nações verdadeiramente livres e independentes.
Durante os anos subsequentes, o 13 de Maio foi comemorado como data máxima da
liberdade nacional. Mas, assim como a independência parecia ser uma data velada, num país
que mantinha a escravidão, a forma como a Primeira República festejou o Treze de Maio camu-
flou um sem-número de personagens e tramas que estiveram diretamente relacionados com
a assinatura da Lei Áurea, bem como silenciou grande parte das violências e exclusões que

http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942018000300001

II
Escola de CIências Sociais da Fundação Getulio Vargas (CPDOC/FGV) – Rio de Janeiro – Brasil.

*Professores da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getulio Vargas (CPDOC/FGV) e Editores da Revista Estudos
Históricos (bernardo.hollanda@fgv.br; joao.maia@fgv.br; ynae.santos@fgv.br)

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 1-4, janeiro-abril 2019 1
Bernardo Borges Buarque de Hollanda, João Marcelo Ehlert Maia e Ynaê Lopes dos Santos

marcaram os corpos e vidas de homens e mulheres cingidos pela escravidão. Tal silenciamento
há muito era pauta de denúncias como a que foi feita em março de 1933 pelos dirigentes do
jornal A Voz da Raça, um periódico “que se destinava à publicação de assuntos referentes aos
negros”, posto que “as outras folhas, aliás veteranas, por despeitos políticos, tem deixado de
o fazer”. Para os editores e jornalistas negros desse periódico, as comemorações da Abolição
pareciam ter sentidos diversos daqueles apregoados por muitos abolicionistas que viam na
liberdade o fim da escravidão, mas não enxergavam as dimensões do legado do escravismo.
A rememoração crítica dos 130 Anos da Abolição da Escravidão no dia 13 de maio de
2018 serviu como inspiração para o número 66 da Revista Estudos Históricos. No número que
se propõe analisar Escravidão e Liberdade nas Américas, entramos em contato com pesquisas
que consolidam e renovam a tradição historiográfica brasileira dos estudos sobre escravidão e
Pós-Abolição, com destaque para as abordagens transnacionais ou “conectadas” que permitam
reposicionar a agenda de investigações à luz de outras experiências no continente americano.
O número começa com o artigo de Ana Carolina Viotti, que, por meio de variado corpus
documental, analisou a obrigatoriedade que recaía sobre os senhores no tocante à alimenta-
ção dos escravos no período colonial. A reconstituição de redes de compadrio em Minas Gerais
na virada do século XVIII para a centúria seguinte é tema do artigo de Mateus Andrade, que
por meio de estudos de demografia histórica demonstra a intrínseca relação entre a confir-
mação cotidiana da liberdade de indivíduos alforriados e o caráter sistêmico da escravidão na
formação do Brasil. Outros significados de liberdade em meio ao mundo escravista e fronteiri-
ço da região do Prata foram trabalhados por Hevelly Acruche, no contexto marcado pelas lutas
de independência nos primeiros anos do século XIX. Partindo da política do Estado brasileiro,
que, em consonância com os interesses da elite cafeicultura, retomou o tráfico transatlântico
na ilegalidade após 1831, Walter Luiz Pereira e Thiago Campos Pessoa examinaram sujeitos e
lugares do tráfico transatlântico no Sudeste do Brasil, que durante muito tempo foram silen-
ciados pela historiografia. Por meio do exame de uma Ação de Liberdade movida por uma ne-
gra livre, vítima da prática ilícita de reduzir pessoas à escravidão, Virgínia Barreto demonstrou
como a força da escravidão se fazia sentir, mesmo na vida de homens e mulheres negros que
haviam nascido sob o signo da liberdade.
No sexto artigo, Alex Andrade Costa evidenciou, uma vez mais, como a escolha pela escra-
vidão e a reabertura do tráfico transatlântico na ilegalidade (após 1831) envolveu uma série de
autoridades públicas brasileiras. Numa proposta macroanalítica que parte da categoria de eco-
nomia-mundo, Rafael Marquese apresenta como a escolha pela escravidão pode ser observada
por meio de um novo regime visual da escravidão negra nas Américas, tomando os casos do

2 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 2-4, janeiro-abril 2019
editorial

Brasil cafeeiro e da Cuba açucareira como objetos de análise. No oitavo artigo, André Boucinhas
utiliza corpus documental variado para examinar quais eram as condições de vida dos trabalha-
dores livres e escravizados da Corte imperial do Brasil na década de 1870. A criação em 1872 do
Club Igualdad é o fio condutor por meio do qual Fernanda Oliveira avaliou a intrínseca relação
entre a libertação de escravizados e a formação do Estado Republicano do Uruguai. No décimo
artigo do dossiê, Juliano Sobrinho problematizou a participação do clero católico e presbiteriano
na luta abolicionista nos últimos anos de vigência da escravidão brasileira.
As interfaces do abolicionismo transbordam as fronteiras nacionais no décimo primeiro
artigo, no qual Luciana Brito examina a experiência de André Rebouças nos Estados Unidos
marcado pelas políticas de segregação racial conhecidas como Jim Crow. No artigo seguinte,
a trajetória de um consagrado (porém nem sempre lembrado) homem negro brasileiro – aboli-
cionista, republicano e socialista – é o fio condutor que permite a Ana Flávia Magalhães Pinto
revisitar as políticas de memória das pessoas livres do Brasil que viveram os últimos anos da
escravidão e os primeiros tempos do Pós-Abolição. Por meio do exame interseccional do uni-
verso dos serviços domésticos, os sentidos de liberdade voltam a ser questionados no artigo
de Natália Peçanha, que esmiúça os processos de criminalização das servidoras domésticas do
Rio de Janeiro entre finais do século XIX e início do século XX. Tão importante quanto pensar
e analisar sentidos e significados da escravidão e liberdade é examinar a produção da historio-
grafia sobre tais questões. É exatamente esse o objetivo do décimo quarto artigo do dossiê, no
qual Fabiane Popinigis e Paulo Terra examinam como a historiografia da História do Trabalho –
mais especificamente o GT Mundos do Trabalho, associado à Associação Nacional de História
(Anpuh) – tem dialogado com os estudos sobre escravidão e Pós-Abolição. Por fim, o último
artigo da revista, escrito por Moiséis Pereira Silva, permite pensar na longa duração do legado
escravista no Brasil, na medida em que se utiliza das denúncias de trabalho escravo na região
no Amazonas em plena década de 1970 para conceituar o trabalho escravo contemporâneo.
As abordagens teórico-metodológicas, os usos de fontes e os jogos de escalas presentes
nos quinze artigos que compõem este número da Revista Estudos Históricos demonstram que,
nas Américas, a multifacetada experiência de escravidão foi aspecto estruturante do conti-
nente, ao mesmo tempo em que as lutas pela liberdade revelam os avessos desses mesmos
lugares. Fica o convite para a leitura.

Notas

1 Biblioteca Nacional. Hemeroteca Digital. Revista Illustrada, ano 13, n. 499, p. 2, 1888.
2 Biblioteca Nacional. Hemeroteca Digital. A Voz da Raça, ano 1, n. 1, p. 1, 1933.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 3-4, janeiro-abril 2019 3
Artigo

Da obrigação de alimentar os escravos


no Brasil colonial1
On the Obligation of Feeding the Slaves in Colonial Brazil
De la obligación de alimentar a los esclavos en el Brasil colonial

Ana Carolina de Carvalho ViottiI*1

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942019000100002

1
O estudo que dá aporte a este artigo foi desenvolvido no âmbito do Projeto Temático Escritos sobre os Novos Mundos:
uma história da construção de valores morais em língua portuguesa (Proc. FAPESP 13/14786-6).

I Universidade Estadual Paulista (Unesp), Franca – SP, Brasil.

* Doutora em História Universidade Estadual Paulista (Unesp, campus de Franca), Franca – SP. Historiógrafa do Centro de
Documentação e Apoio à Pesquisa Histórica (Cedaph/Unesp), e pós-doutoranda em História das Ciências e da Saúde da
Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz). (carolina.viotti@unesp.br),
ORCID iD: https://orcid.org/0000-0002-3244-3514

Artigo recebido em 12 de novembro de 2018 e aceito para publicação em 19 de fevereiro de 2019.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 5-32, janeiro-abril 2019 5
Ana Carolina de Carvalho Viotti

Resumo
Para se servirem dos braços escravizados dentro do que se compreendia, então, como justo, aos senhores concorria
uma série de deveres. Entre os recorrentemente elencados como essenciais e irrefutáveis, três saltam aos olhos:
vesti-los adequadamente, castigá-los com justiça, e alimentar-lhes os corpos. Aqui, pois, tomando o último desses
aspectos, a alimentação, procuraremos apresentar os argumentos que fundamentavam a obrigatoriedade legal e
moral de o senhor fornecer, de forma adequada, mantimento em suficiente quantidade e de suficiente qualidade
para a escravaria. A partir, sobretudo, das impressões registradas por padres, administradores, moralistas e viajantes
que estiveram ou se fixaram no Brasil setecentista, o objetivo deste breve estudo é, mais do que tratar dos ingre-
dientes que compunham a ração dos cativos, discutir as justificações que respaldavam a assertiva de que alimentar
o corpo do escravo era dever inescusável do senhor.

Palavras-chave: Escravidão; Brasil colonial; Alimentação; Moral; Economia.

Abstract

To serve themselves of the enslaved workforce considering what was then understood as fair and correct, the slave
masters had to follow a series of prescriptions. Among those recurrently listed as essential and irrefutable duties,
three can be highlighted: to dress the slaves properly, to punish them with justice and to feed their bodies. Therefore,
in the present article, taking the last of these aspects, the food, we will try to present the arguments that supported
the legal and moral obligation on the part of the slave masters of adequately providing enough food in terms of
quality and quantity for the slaves. From the impressions recorded by priests, administrators, moralists and travellers
who passed by or settled in Brazil (mainly during the 18th century), the purpose of this brief study is, rather than to
present the ingredients that comprised the ration of the captives, to discuss the justifications that supported the
assertive that feeding the body of the slave was the inexcusable duty of the master.

Keywords: Slavery; Colonial Brazil; Food; Morals; Economy.

Resumen
Para servirse de la fuerza laboral esclavizada, considerando lo que entonces se entendía como justo y correcto, los
amos de los esclavos tenían que seguir una serie de prescripciones. Entre las que figuran de forma recurrente como
tareas esenciales e irrefutables, se pueden destacar tres: vestir a los esclavos adecuadamente, castigarlos con justicia
y alimentar a sus cuerpos. En este artículo, por lo tanto, tomando el último de estos aspectos, la alimentación, serán
presentados los argumentos que apoyaron la obligación moral y legal de proporcionar, adecuadamente, comida en
suficiente cantidad y calidad para el esclavo. A partir de las impresiones registradas por sacerdotes, administradores,
moralistas y viajeros que se pasaron por o se asentaron en Brasil (principalmente durante el siglo XVIII), el propósito
de este breve estudio es, en lugar de presentar los ingredientes que conformaron la ración de los cautivos, discutir
las justificaciones que apoyaron la asertiva de que alimentar el cuerpo del esclavo era un deber inexcusable del amo.

Palabras clave: Esclavitud; Brasil colonial; Comida; Moral; Economía.

6 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 6-32, janeiro-abril 2019
Da obrigação de alimentar os escravos no Brasil colonial

N o Brasil, costumam dizer que para o escravo são necessários três PPP, a saber, pau,
pão e pano” (Antonil, 1982: 91): a conhecida assertiva do jesuíta André João Antonil,
registrada em sua Cultura e opulência do Brasil, originalmente publicada em 1711, sintetiza
aquilo que se entendia ser necessário destinar ao escravo em seu tratamento cotidiano. Sin-
tetiza, portanto, quais eram as obrigações a que seu senhor estava submetido, por ser ele, em
última instância, o grande responsável por prover o castigo – adequado, exemplar, comedido
e apenas quando imperioso –, o alimento – em sua justa quantidade e qualidade – e as
vestimentas – que lhes cobrissem as vergonhas com decência e sem ostentação. E Antonil
não estaria só ao tecer tais recomendações: outros religiosos a ele coetâneos emitiriam se-
melhantes juízos acerca desses três grandes aspectos do trato, como Jorge Benci (1977), em
sua Economia cristã dos senhores no governo dos escravos, de 1700, e Manoel Ribeiro Rocha
(2017), em seu Etíope resgatado, empenhado, sustentado, corrigido, instruído e libertado,
originalmente publicado em 1758.
Aqui, tomaremos a última palavra da tríade anunciada por Antonil, o pão, que, de acordo
com Benci (1977:51), constava entre os deveres primeiros dos senhores, “para que [o servo]
não desfaleça”. O religioso argumentava que tal postura “não se funda[va] somente em algu-
ma lei positiva, senão também na mesma lei natural, que, obrigando a cada um a procurar o
sustento da própria vida; como o servo, por dever a seu senhor todas as obras de seu serviço,
o não possa granjear para si, obriga a que lhe dê o mesmo senhor” (Benci, 1977: 53-54).
Nesse sentido, o padre empreende um duplo movimento, associando ao senhor o dever de
providenciar a ração compatível com a atividade do cativo e condenando aos que faltavam no
provimento adequado de víveres aos sobrepujados.
Também Rocha (2017: 123), naquele que seria um “discurso Teológico-Jurídico, em que
se propõe o modo de comerciar, haver e possuir validamente, quanto a um e outro foro, os
Pretos cativos Africanos, e as principais obrigações que correm a quem deles se servir”, não
hesitava em afirmar que ignorar os aspectos mínimos relacionados ao trato poderia ocasionar,
entre tantos danos, a perda legal da propriedade do escravo. Respaldado em fundamentos
jurídicos, o padre sublinhava que, entre as “graves e condignas penas” impostas pelo direito
civil “aos possuidores de escravos” que descuidassem das suas obrigações, não acudindo
aos seus “com os alimentos e medicamentos necessários na enfermidade”, estava a de que
perdessem sobre eles o domínio, deixando-os “forros” (idem). Admoestar essa conduta im-
pulsionou o registro de críticas e, sobretudo, o regramento sobre o que seria justo, cristão e
necessário para alimentar os corpos dos escravizados.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 7-32, janeiro-abril 2019 7
Ana Carolina de Carvalho Viotti

Pela pena desses religiosos, e também de legisladores, de moralistas e de estrangeiros


que passaram ou se estabeleceram nos trópicos, uma série de impressões e prescrições sobre
o que configuraria o adequado trato alimentar dos escravos, bem como de juízos sobre a não
observância desse preceito, foram registradas. Trata-se, por certo, de relatos que indicam quais
os ingredientes que compunham, deveriam compor, ou que constantemente faltavam nas
cuias dos escravizados, mas que, sobretudo, apontam para a gravidade legal da falta de go-
verno ou do pecado cometido por um sustento mal observado e as virtudes cristãs exercitadas
pelos que proviam o adequado trato aos escravos. Escrutinaremos, pois, duas daquelas que
seriam as principais justificativas para a provisão de um sustento dito adequado aos corpos
escravizados – uma de eminente cunho moral e outra de caráter econômico, sobremaneira
relacionada ao preço de mercado dos cativos –, entrevistas sempre que observamos as reco-
mendações sobre o acesso àquele alimento.

Prover o pão em terra e em mar

e saída, cumpre salientar que a obrigação de alimentar o escravo acompanhava seu se-
nhor em qualquer dos estágios da posse. Isso quer dizer que embarcados ou em terra
firme, nas fazendas ou cidades, de forma temporária ou definitiva, deveriam receber o pão
de seus senhores ou, em outras palavras, que aquele que tivesse algum escravo sob seu
domínio era legal e moralmente responsável por lhes dar de comer. Por isso, não eram raras
correspondências como a enviada em 1751 pelo desembargador José Pereira ao rei d. José,
pedindo-lhe uma declaração de que não tinha a obrigação de alimentar os escravos que
estavam apenas provisoriamente em sua casa (Requerimento, 1751). Essa solicitação é bas-
tante significativa, pois dá indícios sobre a ciência por parte dos possuidores de escravos da
necessidade de lhes fornecer comida, e de que o não cumprimento de tal preceito poderia ter
consequências indesejadas.
Mesmo quando estavam entre ferros – em prisões ou servindo em galés –, a ração com
que podiam contar era fornecida mediante o pagamento e provisão de seus senhores, o que
ressalta, uma vez mais, a estreita ligação e obrigatoriedade do trato do cativo, ainda que atrás
das grades. No Livro I, título XXXIII, das Ordenações filipinas, lê-se uma indicação clara sobre o
assunto: “aos escravos que estiverem presos a que seus senhores não quiserem dar de comer,
o carcereiro lho dará e poderá gastar com cada um até $20 réis por dia” (Ordenações, 1870:
78). E a dívida não se extinguia caso o escravo viesse a óbito durante a prisão, pois “os dias
ao dito respeito pela fazenda de seu senhor” (idem) precisavam ser quitados.

8 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 8-32, janeiro-abril 2019
Da obrigação de alimentar os escravos no Brasil colonial

As ocasiões em que um terceiro estaria encarregado das despesas com os cativos nas
cadeias eram muito bem definidas, e a liberação da responsabilidade pelo sustento era pre-
viamente requerida, autorizada e registrada (Certidão, 1759). A letra da lei determinava ainda
que, “sendo livre por sentença”, o escravo “não será solto até que o senhor pague os ditos
gastos” (Ordenações, 1833: 150).1 É verdade, todavia, que mesmo quando as despesas de
sustento eram honradas pelo proprietário do cativo delituoso, um trato alimentar correto não
estava assegurado, visto que não seriam exceções os relatos de que escravos precisavam
esmolar, através das frestas das grades que davam para as ruas (Barreto, 1978: 107), para ter
algum dinheiro para comer (Edmundo, 1932: 520).
No mais, essa obrigação principiava antes mesmo da travessia atlântica, quando os es-
cravizados aguardavam pelo próximo “tumbeiro”, de modo que, à espera e também a cami-
nho para a América, havia alguém incumbido do provimento de víveres para eles. Especifica-
mente sobre os embarcados, a adequada aquisição e futura distribuição de comida estava a
cargo, respectivamente, dos armadores e dos marujos do navio e, de acordo com uma vasta
literatura sobre o tráfico, não era incomum que gêneros essenciais faltassem a bordo (Rediker,
2011: 15). Entre esses gêneros, vale destacar a constante advertência sobre haver água, fari-
nha e laranjas em suficiente quantidade, para que nutrissem os corpos e sanassem doenças.
Mesmo antes da identificação do ácido ascórbico – a vitamina C – e do estabelecimento sua
relação com o escorbuto ou mal de Luanda, uma das doenças que mais severamente incidiam
sobre os escravizados e homens do mar (Ofício, 1781; Mendes, 1793; 1812), a fruta já era
indicada como imprescindível aos negreiros. Mas nem sempre havia laranjas em quantidade
ou qualidade satisfatórias.
Das causas para que não houvesse comida suficiente nos cerca de 35 dias de viagem até
a Baía de Todos os Santos, ou os 50 dias até o Rio de Janeiro, valem ser ressaltadas as difi-
culdades climáticas que poderiam acometer as frotas no caminho – alongando as viagens –,
o indesejado encontro com corsários e piratas, além de, com certa frequência, a colocação de
uma vantagem econômica imediata pelos negociantes em detrimento das vidas dos cativos.
Nessas situações, a alimentação dos escravos ou acabava preterida em relação aos demais
tripulantes – o capitão, os marinheiros, o padre, o médico etc. –, ou nem chegava a ser adqui-
rida na quantidade necessária, com o desvio de valores destinados para a compra de comida
para benefício próprio (Caldeira, 2013: 133).
Mesmo assim, há análises que ressaltam o modelo português de mercancia, sobretudo
com a costa ocidental da África – incluindo-se aí o trato dos escravos embarcados –, como
um exemplo a ser reproduzido (Curto, 2008: 216), e relatos que vão no mesmo sentido. Vale

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Ana Carolina de Carvalho Viotti

a pena voltar os olhos para o Seiscentos, para as notas tomadas por dois conhecedores dos
meandros do comércio, para se ter ideia dos argumentos que embasavam tais juízos positivos.
Entre 1643 e 1644, o neerlandês Pieter Moortamer, então diretor da Companhia das Índias
Ocidentais em Luanda, descrevia a seus compatrícios os procedimentos que lhe pareciam co-
mercialmente mais acertados, incluindo-se aí o manejo com os africanos embarcados (Boxer,
1973: 232; Guedes, 2013: 113-146): “duas vezes por dia [os portugueses] cozinham para
os seus escravos alimentos quentes, quer feijão africano quer milho, tudo bem tenro e bem
cozido, a que misturam uma grande colherada de azeite de palma e um pouco de sal”. E ha-
via mais: “por vezes, juntam-lhe, em cada gamela, um grande peixe seco. Durante o dia, dão
sempre um pouco de mandioca e água em abundância” (Relatório, 1975: 359)
Algo semelhante seria dito por Francesco Carletti, mercador florentino e viajante conhe-
cido por percorrer grande parte do mundo entre finais do século XVI e início do XVII (Torrão;
Teixeira, 2005), em suas anotações sobre a alimentação dispensada aos cativos dos negreiros:
duas refeições diárias, dando-lhes “uma vez por dia, uma espécie de milho do país, cozido
em água e temperado com óleo e sal”, e, pela manhã, “davam, a cada um, um punhado de
certos grãos parecidos com grãos de anis, duros como estes, mas de gosto diferente” (Voya-
ge..., 1999: 67). Em um determinado local, diante da abundância de pescados, facultaram aos
escravos alguns bonitos, douradas e albacoras, “malcozidos ou quase crus” (idem).
O provimento de rações de forma tão metódica, tal qual indicado nesses dois relatórios,
parece mais exceção do que regra. São encontradas com mais frequência descrições de negros
enfileirados em porões baixos, com pouca ou nenhuma ventilação, raramente expostos ou em
atividade no convés (Rodrigues, 2005: 131-158), muitas vezes com a distribuição de apenas
uma porção completa de ração, às vezes meia – ou até menos – para o dia. Luís Martins de
Sousa, governador e capitão-general de Angola, dá notícia ao monarca, ainda no Seiscentos,
sobre “a ruim forma em que correm os despachos dos escravos que se embarcam para fora”,
visto que eram eles “o lucro que a fazenda real tem para as despesas dos presídios” (Carta...,
1657). Em 1643, ano do relato de Moortamer, também em Luanda, alguns carregadores re-
clamavam, a pedido dos moradores daquelas paragens, do expressivo e constante aumento do
número de negreiros a sair daqueles portos. Os habitantes da região, diz o documento (Sobre
se navegar, 1643), confirmavam a inexistência de uma fiscalização rigorosa dos navios – pelo
que sugeriam a nomeação de homens da confiança local para tal tarefa –, notadamente sobre
a quantidade de água e comida, além de constatarem o significativo aumento do número de
escravos que embarcavam, mas não aportavam com vida na outra borda do Atlântico.

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Da obrigação de alimentar os escravos no Brasil colonial

Talvez como resposta a essas e outras comunicações ao Conselho Ultramarino, o rei


Afonso VI despachou, em 1664, uma provisão direcionada ao governador e ao provedor da
Fazenda no Reino de Angola, para que tivessem “particular cuidado e vigilância no despa-
cho dos ditos navios, para que nenhum possa sair do porto da Cidade de São Paulo sem
levar para cem peças vinte e cinco pipas de água, bem acondicionadas, e arqueadas” (Provi-
são..., 1664). Era preciso estar precavido e com suficientes víveres para o período estimado
da viagem e algum excedente para possíveis imprevistos ou atrasos. Relatórios sucessivos
sobre as condições das viagens em negreiros dão, contudo, pistas de que a recomendação
não era de todo seguida.
Um exemplo pode ser encontrado nas linhas legadas por um francês de quem pouco se
sabe, conhecido apenas como Le Gentil la Barbinais, pelos idos de 1717, em sua segunda – e
mais longa – passagem pelo Brasil, mais precisamente pela Baía de Todos os Santos, quando
registrou que “frequentemente [...] os navios são muito carregados e a morte consome grande
parte dos escravos, seja pela falta de víveres, seja pela imundice, seja por outros acidentes”
(apud França, 2012: 14-19). Esse tipo de circunstância, não é equivocado supor, ocorreu com
alguma frequência, até que medidas de fiscalização mais rigorosas fossem levadas a cabo nas
zonas portuárias das duas bordas do Atlântico. No entanto, algumas décadas se passariam até
que uma preocupação régia mais sistemática com as condições mínimas de navegação para
os negreiros viesse a público.
Por meio de um alvará com valor de carta de lei, considerando esse novo modelo de
comércio linear entre costas, o monarca, já d. Pedro II, dispôs, em 25 artigos sobre diversas
matérias concernentes aos navios – inclusive as de caráter econômico, referentes a como
cobrar os impostos –, pela ciência que tinha da prática persistente de, “na condução dos ne-
gros cativos do Reino de Angola para o Estado do Brasil, obrarem os carregadores e mestres
das naus da violência de os trazerem tão apertados e vindos uns com os outros” (Alencastro,
2000: 118). O rei condenou semelhantes atos, pois botá-los daquele modo fazia-lhes faltar
“o desafogo necessário para a vida, cuja conservação é comum e natural para todos, ou se-
jam livres ou escravos, mas do aperto com que vêm sucede maltratarem-se de maneira que,
morrendo muitos, chegam infalivelmente lastimosos os que ficam vivos” (Registo..., 1948:
383-385). Em um capítulo à parte, destacava ser imperativo “os ditos navios e embarcações
levarem os mantimentos necessários para darem de comer aos ditos negros três vezes ao dia,
e a fazer e levar água que abunde para lhes darem de beber em cada um dia uma canada,
infalivelmente” (ibidem: 380). Relacionam-se, pois, nesse ponto, as normas de arqueação e a
dita necessidade de transportar e prover certos alimentos e água.

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Ana Carolina de Carvalho Viotti

Muito embora o soberano recebesse notícias de que o regulamento era estritamente ob-
servado e praticado “em todas as embarcações que dali saíam” (Consulta..., 1695), em maior
número eram os avisos sobre seu descumprimento total ou parcial. Dez anos após a promul-
gação da lei, o governador de Angola ainda relata ao Conselho Ultramarino a necessidade de
maior controle sobre a água destinada aos negreiros, dado que muitas das “aguadas que vão
nas embarcações [...] têm sempre mistura da salgada”, e salientava que a fonte para o abas-
tecimento de água, “como antes se fazia”, deveria ser o rio Bengo, com “grande cuidado [...]
para os navios e mais embarcações que daquele reino levarem carga de negros” (Consulta...,
1694). Dois anos depois, o mesmo governador, Luís Martins de Sousa, remete ao monarca em
tom queixoso a informação de que a nau2 Nossa Senhora del Popolo, antes vistoriada por ele
com “mil e setenta e nove cabeças as quais se embarcaram e despacharam com a aguada
e todos os conformes”, tinha recebido ilegalmente mais “peças”: “arqueando-se por minha
ordem a não que em mil cabeças de escravos, como faço em todos os mais que partem para o
Brasil, por evitar a mortandade que há nas armações por irem sobrecarregados: constou que
levando a dita nau setenta cabeças além das mil, se foram embarcar muitas mais escondida-
mente” (Carta..., 1657).
A regra de 1684, baliza para os comentários do supracitado governador e conhecida
como “Lei das Arqueações”, vigoraria inalterada – embora reiterada pelo monarca em 1719 –
até 1808,3 menos pela eficácia do que pelo hábito. Aqui, mais do que relacionar as arqueações
dos navios à mortalidade dos escravos (Cavalcanti, 2005), interessa-nos pontuar a existência
de prescrições sobre o trato, também nesse ambiente, e a tênue fronteira entre o alcance e os
limites das diretrizes morais e régias sobre essa matéria. O que se lê na citada carta de 1719
vai a esse encontro: o “lembrete” ao vice-rei da existência de uma legislação própria sobre o
trato dos escravos era assunto “de grave escrúpulo, porque envolve não só o interesse tem-
poral, que é a vida dos miseráveis escravos, mas o espiritual, que é a salvação de suas almas,
a que se deve muito atender” (Carta..., 1719). É, pois, uma recordação das relações morais
inerentes às determinações governamentais sobre essa matéria.
Nesse sentido, outros esforços metropolitanos podem ser identificados para recordar aos
possuidores de escravos o dever de alimentar e de não deixar faltar os gêneros básicos para o
sustento nos trajetos até os portos da América, como bem se apercebe, por exemplo, em uma
carta de 24 de julho de 1725, em que o governador da capitania de Pernambuco, d. Manoel
Rolim de Moura, escrevendo ao rei, d. João V, retrata os percalços e problemas relacionados à
aplicação da lei que determinava que os que enviassem embarcações para a Costa da Mina
deveriam ter escravos diretamente envolvidos na produção de mandioca (Carta..., 1725).

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Da obrigação de alimentar os escravos no Brasil colonial

Quer dizer, nas primeiras décadas do Setecentos, já se estabelecia uma espécie de condição
para que os navios que se pretendiam de transporte de escravizados pudessem partir do
Brasil: saírem com ração de mandioca providenciada pelos traficantes, que deveriam ter outros
escravos empregados nas roças que proveriam tais mantimentos. Havia, seguramente, alguma
resistência à aplicação da regra, e não seria exagero estabelecer um paralelo entre as diversas
diretrizes metropolitanas sobre o que deveria ser carregado nos navios além dos escravizados
e as notícias abundantes sobre um “comércio paralelo” – o contrabando (Alencastro, 2000).
Malgrado, porém, todas essas indicações de que o pão dos escravos deveria ser provi-
denciado por aqueles que detinham sua posse, definitiva ou provisória, não faltam notícias
sobre a pouca atenção dispensada à ração dos negros no Brasil. Do mesmo modo que, na
atribuição do preço final do escravo, um dos argumentos mais comezinhos para a pouca siste-
maticidade no provimento das rações era o alto custo dos alimentos,4 ou, como referiu Rolim
de Moura (Carta..., 1725), para a pouca disposição em direcionar braços produtivos para ali-
mentar os cativos, em terra ou em mar. O desmazelo com o fornecimento do pão será criticado
com veemência pela maioria das vozes coetâneas que se preocuparam em registrar o assunto.

Uma palavra dos padres

B enci (1977: 54), munido também da autoridade da lei, informava, na Economia cristã
dos senhores no governo dos escravos, que mesmo os “legisladores do Direito comum”
reconheciam “ser tão forçosa esta obrigação [de alimentar], que acharam que devia ser pre-
ferida à mesma obrigação que tem o pai de sustentar ao filho”. Essa leitura contemplava
também o escravo ou servo filho de pai livre, pois que “ao senhor, e não ao pai, pertencia
alimentá-lo” (idem). Era sobre quem poderia tirar proveito do “filho”, nas palavras daquele
inaciano, que recaíam as vantagens e desvantagens da posse ou do vínculo. No entanto,
ele observava a tirania e a “crueldade de alguns senhores”, que “até o sustento que tão
liberalmente dão aos animais brutos, negam aos cativos” (ibidem: 55). Se mesmo o gado, as
galinhas e os demais animais recebiam ração adequada, por que os que vivam em cativeiro
permaneciam constantemente à míngua?
Vale sublinhar que Benci não alegava que toda a escravaria passava os dias a jejuar,
mas questionava a qualidade e a quantidade do alimento oferecido em grande parte das fa-
zendas que conhecia. A insuficiência dos víveres disponibilizados nas senzalas dos engenhos
caracterizava uma equação desbalanceada entre o esforço demandado pelo trabalho, que não
cessava, e a reposição das forças pela comida ao meio e ao fim do dia:

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Ana Carolina de Carvalho Viotti

Senhores há que não faltam aos escravos com a ração quotidiana; mas esta é tão limitada e
escassa, que mais serve para que não morram à fome do que para que sustentem a vida. Se ao
servo se lhe medisse o trabalho pela mesma medida com que se lhe mede o sustento, calara-me
eu nesse ponto. Porém que haja o escravo de trabalhar como mouro e comer como formiga: não
sei que direito o permite. (Ibidem: 61-62)

Na mesma esteira, seu correligionário Antonil já advertia sobre o provimento do pão


como parte inexorável das obrigações do senhor, obrigações morais e jurídicas, “porque a
quem o serve deve o senhor de justiça dar suficiente alimento” (Antonil, 1982: 90). Aos olhos
do jesuíta, a mesma mão que designava o trabalho e a correção pelas faltas deveria dispor
o alimento, com alguma variedade e em porções que fossem minimamente proporcionais à
lida nas lavouras de cana, realidade com a qual mais tinha contato. Rogava ele a Deus, não
obstante, que “tão abundante fosse o comer e o vestir como muitas vezes é o castigo” (idem),
dada sua lamuriosa constatação de que havia um constante desequilíbrio entre os três princi-
pais deveres do senhor com relação aos seus escravos.
O padre Ribeiro Rocha concordará com os ditos de Antonil e Benci, entremeando, do
mesmo modo, elementos religiosos e legais para validar as prescrições por ele dispostas. Na
matéria do sustento, assevera, de saída, ser “constante e geral regra de direito que quem
se serve ou usa das obras de alguém está obrigado a alimentá-lo”, portanto, “enquanto os
cativos de que se trata existirem no poder e sujeição de seus possuidores, claro é que eles os
devem manter e sustentar” (Rocha, 2017: 121). Isso para a lei dos homens. Nas leis divinas,
relembra o religioso, “a obrigação de sustentar e vestir os escravos se compreende no quarto
preceito ou Mandamento da Lei de Deus, que os católicos professamos, o qual manda honrar
Pai e Mãe” (idem). Tomando a mesma direção, Benci (1977: 124) explica que “por filhos não
somente se entendem os gerados, senão também os possuídos, e isso por qualquer título cível
que o sejam, como é por familiares, por domésticos, por servos ou por escravos; e a obrigação,
assim como é recíproca dos Pais para os filhos, também o é dos senhores para os escravos”.
Não assistir adequadamente o escravo não era apenas um descuido na administração da
fazenda ou casa, mas um pecado grave, uma desobediência às leis primeiras do Cristianismo.
Os pagãos, “faltando à obrigação de sustentarem e vestirem seus filhos, escravos, servos e do-
mésticos, somente obram contra o direito natural, que é a sua única lei”, esclarece o religioso,
“mas os Cristãos, faltando a ela, não somente obram contra o direito natural e contra as leis
humanas, senão que também obram contra o Preceito e Lei Divina que professam, e por isso
nas obras piores são do que eles” (Rocha, 2017: 125).

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Da obrigação de alimentar os escravos no Brasil colonial

Preocupado, no entanto, com as obrigações mútuas entre servos e senhores, quer dizer,
com uma justiça também para os possuidores de escravos, Rocha ressalta que uma “hierar-
quia de talentos” deveria ser seguida na atribuição daquele sustento, ou, em poucas palavras,
da veste e do pão. Com alguma minúcia, prescreve que “aos escravos rurais, como, por exem-
plo, os das roças, fazendas e engenhos, basta que se dê sustento e vestuário suficiente, posto
que seja mais grosseiro”, já aos “escravos domésticos do serviço e companhia dos senhores
e possuidores, o sustento e o vestuário já deve ser mais competente e mais digno e, por con-
seguinte, menos grosseiro” (ibidem: 122). Resta incontestável, portanto, que o senhor cristão,
ainda que pudesse destinar víveres de qualidades diferentes aos cativos, deveria fazê-lo de
forma regular e satisfatória.
Um dos princípios defendidos por esses religiosos, como cita o próprio Rocha, era de-
vedor de um fundamento aristotélico (ibidem: 60): “o escravo não somente é destinado ao
uso do senhor, mas é parte deste”. Portanto, o prato vazio nas senzalas traria embaraço para
as mesas das casas grandes, casebres e sobrados. Não havia justificativa, em nenhuma das
esferas contempladas por esses religiosos, para que as mesas dos senhores contassem com
alimentos, por vezes em abundância, outras, com mais modéstia, enquanto escassa ração
circulava entre aqueles que dependiam do provimento de comida.
Igualmente, na perspectiva desses homens de fé, a obtenção do sustento não poderia
ser facultada ao escravo, numa prática que parece ter sido recorrente nos trópicos:5 destinar
um dia da semana para o trabalho e manutenção de hortas e roças próprias (Hall, 2017: 85;
Schwartz, 1995: 83). Na verdade, a censura dos religiosos não era propriamente à possibili-
dade de o escravo cultivar a terra para si, mas em relação a três fatores que se relacionavam
com essa “benesse” do senhor: valer-se em geral do domingo, o dia que todo o cristão deveria
guardar para se dedicar exclusivamente às matérias da alma, para laborar para si; a atribuição
de uma responsabilidade do senhor para seus subjugados – a de sustentá-los até que os víve-
res plantados dessem frutos – e, por fim, a supressão de um dia de descanso para os servos.
Jorge Benci (1977), um dos que destacavam ser o fornecimento do pão para o corpo dos
cativos indubitavelmente competência do senhor, atrelará a liberação dos domingos para as
matérias espirituais ao provimento de víveres em uma única obrigação. Convicto da neces-
sidade e dos benefícios de o escravo ser instruído no trabalho, com disciplina e assiduidade,
lembrava que “Deus, sem fazer diferença de senhores [e] servos, a todos manda que se de-
socupem nestes dias das obras servis e mecânicas”, julgando ser “muito maior mal [...] ex
genere suo mandar trabalhar o servo no tempo que a natureza e o Autor da mesma natureza
lhe dá para o descanso” (ibidem: 59). As prescrições divinas, ele argumenta, expostas no livro

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Ana Carolina de Carvalho Viotti

do Êxodo, não deixavam dúvidas de que, “assim como nos dias santos não devem os senhores
trabalhar, nem mandar trabalhar a seus filhos e filhas; assim também não devem mandar
trabalhar os escravos e as escravas” (ibidem: 185).
Antonil (1982: 91), embora tecesse críticas menos duras a essa matéria, não via com
bons olhos os senhores “não lhes dar farinha, nem dia para a plantarem, e querer que sirvam
de sol a sol no partido, de dia, e de noite com pouco descanso no engenho”. Em síntese, como
defende Benci (1977: 184), a fórmula a ser seguida para a disposição dos afazeres do escravo
era simples: “que o trabalho não seja tão contínuo e sem interpolação, que exceda os limites
do justo. E sem dúvida os excederia o senhor que mandasse trabalhar os servos nos tempos
que não são de trabalho, quais são os domingos e dias santos” .
O padre Ribeiro Rocha, de forma ainda mais direta, faz um apanhado sobre as implica-
ções dessa prática, censurando-a com argumentos que iam desde até a efetividade de repas-
sar aos cativos algo que não lhes cabia. Ele é enfático:

E quanto a outros possuidores de escravos, que por essas fazendas, engenhos e lavras minerais
lhe deixam livre o dia do Sábado, para nele adquirirem o sustento e o vestido, cuido que ainda
isto os não desobriga, e que nem o devem, nem o podem praticar; porque como, moralmente
falando, é impossível que em um só dia adquiram os pobres pretos com que passar todos os
sete da semana, o negócio se reduz aos termos de lhes darem nela o tal dia, para furtivamente
o haverem; e ainda que a necessidade do escravo poderá ser algumas vezes tal que o escuse
de pecado; não sei, contudo, que deixem ficar ligados nele estes seus possuidores; porque a
obrigação não é de lhes darem tempo, senão de lhes darem especificamente o sustento; e não
somente o sustento, senão também o vestido e tudo o mais necessário para viverem; e isso não
de qualquer sorte, senão com proporção e abastança. [...] E o darem aos escravos o sábado para
tudo adquirirem é tapar-lhes com isso a boca para que se não queixem, por lha não poderem
diretamente tapar, para que não comam; quando para que não fossem comer o pão alheio e
furtado, deviam e devem tapar-lha com o próprio diariamente repartido; isto é, devem dar-lhe
suficiente ração de farinha, com seu conduto, e não ração de tempo; porque o tempo não é
alimento e coisa comestível. (Rocha, 2017: 128; grifos meus.)

No entanto, censurada ou não, essa prática parece ter sido largamente utilizada. A
insistência no tópico entre os religiosos e a disposição de uma regra clara sobre as ativi-
dades dominicais e em dias santificados leva a crer que, já na primeira metade do Sete-
centos, o uso do trabalho do escravo aos domingos para si ou em prol do próprio senhor
não seria uma exceção. Para ficarmos em apenas um exemplo, já na década final daquele
século, o professor de grego e cronista Luís dos Santos Vilhena (1744-1814) observava,
em suas cartas sobre o cotidiano da Bahia, que havia muitos senhores “que não lhes
dando sustento algum, lhes facultam somente trabalharem no domingo, ou dia santo, em

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Da obrigação de alimentar os escravos no Brasil colonial

um pedacinho de terra a que chamam roça [para] daquele trabalho tirarem sustento para
toda a semana, acudindo somente com alguma gota de mel, o mais grosseiro, se é em
tempo de moagem” (Vilhena, 1921: 187-188).
Labutar aos domingos era contra as leis da Igreja,6 não contar com o braço escravo em
dias santos e em outra jornada era sinonímia de prejuízo,7 usar o dia livre para outros cultos e
práticas era contra a fazenda do senhor e as citadas diretrizes divinas, e não prover o sustento
do escravo era igualmente pecado e delito. Era um problema moral, é verdade, mas, pensando
na faceta mais pragmática do emprego da mão de obra escrava, uma questão logo é colocada:
a escassa ou inexistente oferta de comida não minaria a possibilidade de trabalho minima-
mente efetivo? E, no caminho para o Brasil, a falta de um trato adequado, ocasionando mortes
ou perdas, não seria prejudicial ao empreendimento escravista (Miller, 1988: 387)? É plausível
pensar que a melhor e mais rica distribuição de víveres aos escravos resultaria em trabalha-
dores com maior rendimento: bem alimentar o escravo seria uma espécie de investimento do
senhor. É plausível igualmente supor que nenhum traficante desejava perdas econômicas nos
navios conduzidos ao Brasil.8 Ao contrário, muitos dos senhores, já onerados pelo investimento
primeiro da aquisição do escravo, não tinham grande interesse em dispender boa parte de
seus lucros em matérias tomadas, muitas vezes, como supérfluas, e procuraram alternativas
para a dita obrigação de alimentar.

Valiosos e volumosos homens vindos da África

A provisão do sustento físico dos escravos, tratada como um dever do senhor cristão,
também guardava justificação de natureza econômica. Embora argumente-se que a re-
produção dos escravos fosse mais intensamente devedora do fluxo de novos cativos advindos
do tráfico a baixos custos (Florentino, 2014: 11), ou seja, que as baixas taxas de reprodução
interna dos escravos denunciavam a pouca importância atribuída à sua manutenção, não se
pode ignorar o julgamento sobre a precificação dessa mão de obra tecido pelos contempo-
râneos. Ao indicarem as (altas) cifras que pagavam por um moleque, uma ama ou um bugre,
literalmente a peso de ouro, sugerem que o montante investido na travessia e na aquisição
não era de se ignorar, e que, para o bem de suas fazendas – e de suas almas –, era importante
prover condições mínimas para o sustento daqueles corpos.
Para se ter uma ideia do valor de mercado de um escravo em idade produtiva, acompa-
nhemos mais de perto cifras médias (Begard, 2004) pagas para adquirir um negro em distintos
espaços durante a primeira metade do século XVIII.9 Na fazenda açucareira de Sergipe do

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Ana Carolina de Carvalho Viotti

Conde, no início do citado século, não passava de 130$000 réis o preço de um negro saudá-
vel; na Salvador, de 1719, 200$000 réis – montante que foi se acrescendo quase até dobrar
entre 1690 e 1725 –, nas Minas Gerais, já em 1735, o preço médio chegava na espantosa
casa de 400$000 réis (Russell-Wood, 2005: 163), seguido de flutuações até um aumento em
1780; por fim, no Rio de Janeiro, registrava-se, em 1800, o valor de 116$554 para um escravo
de 20 a 30 anos, saltando para 157$083 em 1820, e atingindo espantosos 519$583 em 1850
(Fragoso; Florentino, 2001: 146-148).
Mais do que pensar em números brutos ou nas curvas e oscilações dos valores, é inte-
ressante observar os discursos sobre os preços registrados pelos que compravam, vendiam
ou observavam o vaivém do comércio de almas. Esse alargamento dos dígitos, portanto, não
é apercebido apenas num olhar retrospectivo e distante, mas também nas impressões dos
coetâneos que se valiam da mão de obra escravizada. Antonil (1982: 139), tratando, nos anos
iniciais do Setecentos, dos preços antigos e modernos do açúcar, não pôde deixar de notar
que o produto encarecera “particularmente [pelo] valor dos escravos, que não os querem
largar por menos de cem mil réis, valendo antes quarenta e cinco mil réis os melhores”, em
decorrência das “descobertas das minas de ouro, que serviram para enriquecer a poucos e
para destruir a muitos”.
O jesuíta, a propósito, defensor da terra como maior riqueza do Brasil, tecerá duras
críticas à valorização das minas em detrimento da produção açucareira (Schwartz, 1995: 122-
144). A fim de mostrar os abusos nos valores praticados para a venda de mantimentos, vestuá-
rio e de escravos nas regiões auríferas, “esterilíssimas de tudo o que se há mister para a vida
humana”, ele lista as oitavas de ouro dispendidas para comprar diversos itens. Para lá eram
enviados, segundo ele, “o melhor que chega nos navios do Reino e de outras partes” (Antonil,
1982: 169). Enquanto uma galinha custava três ou quatro oitavas, um boi, cem oitavas, um
barrilote de azeite, duas oitavas, ou uma veste de seda, dezesseis oitavas (ibidem: 170-171);
observemos sua listagem sobre os valores dos escravos:

Por um negro bem feito, valente e ladino,10 trezentas oitavas.

Por um molecão, duzentas e cinquenta oitavas.

Por um moleque, cento e vinte oitavas.

Por um crioulo bom oficial, quinhentas oitavas.

Por um mulato de partes,11 ou oficial, quinhentas oitavas.

18 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 18-32, janeiro-abril 2019
Da obrigação de alimentar os escravos no Brasil colonial

Por um bom trombeteiro, quinhentas oitavas.

Por uma mulata de partes, seiscentas e mais oitavas.

Por uma negra ladina cozinheira, trezentas e cinquenta oitavas. (Idem)

Ofício, sexo, idade, habilidade ou “domesticação” eram, pois, algumas das características
que influíam diretamente na precificação do cativo. E vale sublinhar que quem determinava
como “tão altos” os custos para se adquirir um escravo era o próprio religioso. Não foi o único.
Em seu intento de recontar a história dessas terras, Sebastião da Rocha Pita, em sua História
da América portuguesa, falando também sobre essa primeira metade do século XVIII, diz-nos
que o Brasil padecia “de outro maior mal que ameaça a última ruína [...] os excessivos preços
[dos] escravos gentios de Guiné, que se conduzem da Costa de África” (Pita, 1730: 521). Em
sua opinião, consoante com a do irmão supracitado, o aumento dos preços dos braços negros
estava, “principalmente no tempo presente”, atrelado ao “descobrimento, e lavra das Minas,
que levam muitos escravos, [e] tem crescido o valor deles a excessivo preço, e a este respeito
os outros gêneros necessários para a cultura do açúcar” (ibidem: 20). É certo que os preços
variavam,12 não somente de região para região, mas com as imposições da oferta e procura,13
em constante movimento ao longo do recorte aqui vislumbrado. Tais aspectos podem ser vis-
tos nas frestas das críticas de Antonil e Rocha Pita.
A sensação de que os preços eram discricionários e elevados14 não cessam com seus
escritos: impressões como as de José João Teixeira Coelho (1930), indicadas na Instrução para
o governo da Capitania de Minas Gerais, já em 1779, reiteram não haver uma norma rígida
para a determinação dos montantes justos ou devidos. “Estando eu naquela cidade do Rio
de Janeiro”, diz ele, “chegaram ao porto dela dois navios carregados de negros, e logo uma
sociedade de negociantes comprou as carregações inteiras. Esses negociantes, como ficam
sendo senhores de todos os negros, são árbitros dos preços deles” (ibidem: 490).
Ao passo que revela os prejuízos causados por esse aumento de preço na produção rural
e o consequente desabastecimento de gêneros básicos cultivados por mãos negras, o religioso
e o historiador e poeta baiano supracitados sugerem que o africano escravizado deveria ser
preservado da venda ou migração para outras capitanias, prática aparentemente comum, bem
como dos descaminhos que o levariam a uma morte precoce. Em paralelo a essas notas, a nar-
rativa do intendente Teixeira Coelho reafirma a recorrência de altos custos para aquisição de
um cativo, custos esses que não seriam, por certo, empenhados ou dispendidos em vão. Dito
de outro modo, não é errado afirmar que era de interesse do proprietário de escravos manter

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 19-32, janeiro-abril 2019 19
Ana Carolina de Carvalho Viotti

vivos e produtivos aqueles que por alto montante adquiriu. Zelar pela manutenção do escravo
era, também, zelar por seu patrimônio.
E seria essa uma preocupação partilhada, dado que ser dono de escravos era extrema-
mente comum no Brasil de então.15 Ainda em 1699, durante uma estada de cerca de um mês
na Bahia, William Dampier assegurava que “excetuando-se as pessoas do mais baixo nível,
aqui dificilmente se encontra alguém que não tenha escravos na sua casa” (apud Boxer, 2000:
28). A posse de escravos era tão comum que um baiano no final do século XVIII sublinhava: “é
prova de mendacidade extrema o não ter um escravo: ter-se-ão todos os incômodos domésti-
cos, mas um escravo a toda lei” (Almeida, 1913). Em finais do Setecentos, quando a presença
de escravizados no Rio de Janeiro era ainda mais difusa do que nos tempos de Dampier, os
números são bastante ilustrativos da trivialidade da posse de um escravo: entre 1790 e 1835,
os inventários demonstram que nunca menos de 85% dos falecidos tinham ao menos um
escravo, chegando a impressionantes 90,31% entre 1790 e 1792, por exemplo (Florentino,
2014: 26-27). É certo que essa cifra não engloba todos os que morriam – há de se considerar
que nem todos legavam um testamento –, mas ilustra o caráter marcadamente escravista que
se podia presenciar nos trópicos.
Tal quadro não indica, é bom dizer, que a maior parte da população detinha um grande
plantel de cativos, ou que a condição de grande parte dos habitadores do Brasil era de abas-
tança. Indica, antes, a prioridade dada à compra de um escravo, numa casa ordinária, para
obter certo destaque – ou, ao menos, a não associação a “mendacidade” ou “baixo nível”.
Não seria incomum o registro de governadores e vice-reis, ao longo do período colonial, sobre
o hábito de os recém-chegados no Brasil, antes de saudar a terra firme ou dar graças a Deus
e à Virgem pela boa chegada, adquirir um escravo. Ainda na segunda metade do Seiscentos,
Pero de Magalhães Gândavo (1964: 44), em seu Tratado da terra do Brasil, especificamente no
segundo capítulo, “Dos costumes da terra”, dá notícia desse corrente hábito:

As pessoas que no Brasil querem viver, tanto que se fazem moradores da terra, por pobres que
sejam, se cada um alcançar dois pares ou meia dúzia de escravos (que pode um por outro custar
pouco mais ou menos até dez cruzados) logo tem remédio pera sua sustentação; porque uns lhe
pescam e caçam, outros lhe fazem mantimento.

Esse tipo de distinção será reafirmado no próprio uso dos escravos no meio urbano,
notadamente pelo corrente recurso a um tipo de cadeirinha ou de rede, com os quais se
transportava “a gente rica”, para lá e para cá, apoiados em ombros de negros. Amédée Frézier
(apud França, 2012: 22), na Salvador de 1714, é um dos que narram, em detalhe, tal cena:

20 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 20-32, janeiro-abril 2019
Da obrigação de alimentar os escravos no Brasil colonial

A gente rica, não obstante tal inconveniente [o terreno inclinado], nunca anda a pé. Empenha-
dos sempre em encontrar meios para se distinguirem dos homens tanto do resto da América
como da Europa, os habitantes daqui tem vergonha de utilizar as pernas que a natureza lhes
deu para caminharem. Em geral, deixam-se molemente carregar numa espécie de cama feita de
tecido de algodão, suspensa, de ambos os lados, por um grande bastão, que dois negros levam
sobre a cabeça ou sobre os ombros. Para evitar que a chuva ou o ardor do sol cause incômodo
a quem está sendo conduzido, as ditas camas são cobertas por um tejadilho ou por um tecido, o
qual, quando se deseja, pode ser removido. Aí, tranquilamente deitados, com a cabeça escorada
em um travesseiro de tecido fino, eles são transportados com muito mais comodidade.

Pela lei, pelos privilégios, pelas obrigações mútuas e, sobretudo, pelos costumes, os colo-
nos – dos mais minguados aos mais abastados – empenhavam-se em demarcar as fronteiras
entre as atividades pertinentes a este ou aquele grupo. Essa diferenciação poderia ser vista,
também, à mesa (Algranti, 2011: 9).

Alimentar como dever e como distinção

P ercorrendo os mais diferentes relatórios e notícias sobre as igualmente diferentes regiões


da então colônia de Portugal, não é raro concluir que grande parte dos produtos pre-
sentes nas dispensas das casas-grandes também estavam no chão das senzalas ou, dito de
outro modo, a base da alimentação diária do senhor e do escravo tinham muitas parecenças.
Alimentar-se como um escravo, no entanto, não era ansiado ou benquisto por aqueles que, por
razões diversas, dispunham mormente da mesma “matéria-prima” do que aquelas servidas
como ração. Um produto que bem exemplifica o uso ambivalente e as estratégias encontradas
para demarcar as fronteiras, pelos pratos, entre senhores (ou livres) e escravizados é o milho,
muito comum na América então portuguesa.
O manejo, preparo e apresentação do ingrediente eram fundamentais para alcançar tal
intento. Já nos hábitos e nos utensílios postos à mesa para poder consumir esse e outros
produtos vê-se, entre os senhores, métodos mais afeitos à moda europeia (Souza, 1997: 46).
Aqui, andavam, pois, lado a lado, uma vontade de diferenciação, fruto da estratificação so-
cial, promotora de diferentes hábitos entre os vários grupos, e a partilha de algumas culturas
culinárias (Silva, 1978: 4). Daí a ocorrência, em síntese, de duas formas de servir a iguaria: em
canjica fina, aos brancos, e grossa, aos negros (Notícia..., 1961: 117). A farinha mais fina era
utilizada na preparação de papas e broas, inclusive como ingrediente substituto em receitas
vindas do Reino, como os bolos e manjares (Cascudo, 1968: 108), e distava das senzalas.
Misturada à água, a farinha mais grosseira – ou, como depois seria chamada, pubá ou fubá,

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 21-32, janeiro-abril 2019 21
Ana Carolina de Carvalho Viotti

farinha em quimbundo (Lima, 1999: 79) –, cozida “em um tacho até secar” (Notícia..., 1961:
785), resultava em uma espécie de massa espessa, o angu, afamado como comida própria
para escravo e recusado até pelos mais pobres em razão dessa associação (Frieiro, 1966: 158).
Há algumas informações sobre a ocorrência desse preparo do milho ainda em terras
africanas e de sua transplantação para o outro continente pelos navios portugueses, como
se vê nas notas legadas, quase que no limiar do Setecentos, por Luis Antônio de Oliveira
Mendes em suas Memórias a respeito dos escravos ..., de 1793.16 Mendes, ao contar do que
os africanos se sustentavam antes da captura e escravização, dá destaque ao grão amarelo,
“primeiramente pisado, e depois, cozido, de que fazem várias comidas” (Mendes, 1812: 35).
Em discurso acadêmico, ele explicava o costume de reduzir “esse mesmo milho a uma espécie
de farinha grossa, e cozinhando-a simplesmente na consistência de pão malcozido, a isto
chamam [...] cuscuz”, (idem) além de outros pratos possíveis com o versátil grão, na língua
materna, anfunges, angus e aluás. Uma série de outros ingredientes, temperos e preparos
poderiam ser aventados, pois dão pistas sobre as formas de sobrevivência da população cativa
mesmo quando os senhores faltavam com sua obrigação primeva (Carney; Rosomoff, 2009).
Sublinhar, no entanto, o que seria próprio do senhor e do escravo no que tocava à ali-
mentação, pelo exemplo das variâncias de preparo do milho, não é simplesmente reforçar uma
dicotomia entre senhores e escravos, mas pontuar, como fizeram diversos coetâneos, uma von-
tade de firmar os limites existentes entre livres e escravizados, imbricada na colônia (Russell-
-Wood, 2005: 22). Uma vontade, como destacado, difusa naquela sociedade dependente de
braços negros. Fato é, nesse sentido, que a mão de obra escrava era consumida pela lavoura e
pelos serviços mais diversos com impressionante rapidez e voracidade, especialmente quando
são colocadas à mesa informações sobre o intenso e substantivo fluxo de negreiros nos portos
das duas bordas do Atlântico.17

Obrigações (des)cumpridas

M uitos desses proprietários de escravos serão reconhecidos, ao contrário do que indi-


cavam as leis dos homens e de Deus, pela falta de assistência e pelo não provimento
de víveres considerados elementares para o sustento daqueles sob sua custódia. As indicações
de Paulo em uma de suas cartas aos Colossenses – “Escravos, obedecei em tudo aos vossos
senhores daqui da terra” (Col 3, 22), “Senhores, tratai com justiça e equidade os vossos es-
cravos” (Col 4, 1) –, também pregada nessas terras como exemplo da dupla obrigação entre
possuidor e possuído, tiveram de ser insistentemente lembradas. Reitera Jorge Benci: “assim

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Da obrigação de alimentar os escravos no Brasil colonial

como o servo está obrigado ao senhor, assim o senhor está obrigado ao servo” (Benci, 1977:
50). E é esta, inclusive, uma das motivações para que empunhasse a pena, pois intentava dar
a público uma “regra, norma e modelo, por onde se devem governar os senhores Cristãos
para satisfazerem às obrigações de verdadeiros senhores” (ibidem: 49). Avaliava o jesuíta que
“muitos senhores que, por razão do senhorio, [acham que] têm tão livre e absoluto domínio
sobre os servos, como se fossem jumentos; de sorte que assim como ao jumento nenhuma
obrigação deve a seu dono, assim também nenhuma obrigação deve o senhor ao servo”
(idem), o que ele, porém, conclui ser “engano manifesto” (idem). Nessa via de mão dupla, o
senhor zelava, também, pelo cumprimento de seu papel de cristão, obrando pela salvação de
sua própria alma.
A observação dos víveres dispensados aos escravos nos dá pistas, por certo, sobre o
que se entendia diretamente por um trato justo, mas explicita algumas nuances da relação
entre senhores e seus subjugados: ao passo que indica algumas expectativas sobre a postura
dos senhores, informa sobre suas faltas, excessos, permissividades e desgovernos. Além disso,
fornece alguns indícios sobre as brechas de negociação e maleabilidade presentes no sistema
escravista. A partir das múltiplas indicações sobre como o escravo deveria ser mantido, é pos-
sível entender um pouco mais sobre os destinatários desses manuais, seus autores e as figuras
sobre as quais versavam.
Ainda que seja possível questionar o alcance de obras como as de Rocha ou Benci – a de
Antonil, por exemplo, que foi recolhida a mando régio pouquíssimo tempos após sua publica-
ção –, de histórias como as de Rocha Pita, de missivas portadoras de ordens e regulamentos
régios, ou de informações cotidianas, como as fornecidas pelos relatórios de viagem, fato é
que diversas personagens e agentes procuraram descrever, melhorar, regular e moralizar o
tratamento de escravos no período colonial. Cuidar da ração dos cativos de modo que os pre-
ceitos morais e econômicos estivessem em harmonia não era, como brevemente apresentado
nestas linhas, tarefa das mais simples. Cumpre dizer, especificamente sobre os textos com ca-
ráter mais normativo, que estes não foram tomados em contraponto às possíveis práticas de-
rivadas de sua observação. Os juízos de observadores, como os diversos viajantes e moralistas
que estiveram por essas plagas, não foram, do mesmo modo, tomados como um retrato mais
verdadeiro do que as prédicas e leis relacionadas ao sustento dos cativos, antes como uma
peça de composição do quadro multifacetado de perspectivas que a época produziu sobre o
tratamento dispensado ao escravo. A proposta, em outra via, foi a de apontar regras criadas,
alguns desvios a tais códigos, ou quais indicações, ao fim e ao cabo, eram correntes quando
o assunto era prover o sustento da escravaria. O que se pôde apurar, complementarmente,

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 23-32, janeiro-abril 2019 23
Ana Carolina de Carvalho Viotti

cotejando esses diversos textos, foram indícios de alguns desvios a essas regras, em geral
condenados e alvos de emendas pelos coetâneos.
Ao descreverem os alimentos usufruídos ou direcionados aos escravos, os homens da
colônia deixaram pistas sobre quais eram as melhores e mais acertadas ações dirigidas aos os
cativos ou, em síntese, que práticas permitiam qualificar como justo um senhor de escravos.
A despeito, contudo, de se ter visado o que contribuía para que os senhores pudessem ser
qualificados como “bons” nos limites daquela época, ou para se julgar que ele tinham ou não
seguido os conselhos e regras a eles direcionados, apresentamos, de forma bastante geral,
os meios pelos quais eles eram estimulados a agir com justiça em relação àqueles de quem
tinham posse. Aqui, portanto, a questão de ser o cativeiro “bom” ou “mau” – brando, cruel,
paternal, violento, mais ou menos atroz do que em outras paragens – não se coloca.18 Tam-
pouco, ao se indicar as prescrições para um trato adequado, pretendeu-se reafirmar a ideia de
um “senhor benevolente”. A escravidão, uma forma de exploração que veio a ser condenada
posteriormente, era, ao contrário, comumente defendida e endossada nos livros, cartas e leis
esquadrinhados neste artigo. Havia alguns pactos e regulamentos que lhe garantiram vida
longa, entre os quais o sustento salta aos olhos como primordial. As críticas dos coevos, iden-
tificadas aqui, portanto, direcionam-se mormente ao maltrato, e não ao cativeiro.
Lançar luz sobre as justificativas para dar de comer ao escravo, dentro de parâmetros
definidos pela Coroa e pela Igreja, dava as cores tanto do que aqueles homens, mulheres e
crianças deveriam receber para se manter sadios, dispostos ao trabalho e moralmente enqua-
drados nos preceitos cristãos, quanto das obrigações e virtudes senhoriais indispensáveis para
o cumprimento das leis divinas e dos homens, e em benefício de seu próprio erário. Valen-
do-nos uma vez mais do padre italiano (Antonil, 1982: 91-92), somos informados de que “o
que pertence ao sustento, vestido e moderação do trabalho, claro está, que se lhes não deve
negar”, simplesmente “porque a quem serve deve o senhor de justiça dar suficiente alimento,
mezinhas na doença e modo com que decentemente se cubra e vista”. Prover tais elementos
não seria facultativo, mas inerente àqueles que pretendiam agir com justiça, fortuna e dentro
dos preceitos cristãos.

24 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 24-32, janeiro-abril 2019
Da obrigação de alimentar os escravos no Brasil colonial

Notas

1 Silvia H. Lara (1988: 87) afirma que tal determinação, que não constava nas Ordenações manuelinas,
pauta-se em “um alvará de 27 de fevereiro de 1520, que ordenava que os escravos presos no Limoeiro que
não fossem alimentados por seus senhores recebessem alimentos através do carcereiro, que podia gastar com
cada um até $12 réis por dia”.
2 Frédéric Mauro (1997: 64) afirma que a nau, o mais antigo dos navios a vela, já poderia transportar entre
500 a 1.000 toneladas.
3 Quando é reeditada e passa a receber sugestões para ter novas alterações, por “questões econômicas e
humanitárias”. (Viotti, 2016: 1.169-1.189).
4 Em 1709, por exemplo, os preços dos gêneros de primeira necessidade alcançaram cifras muito elevadas,
tanto na região da Comarca do Rio das Mortes, onde desembocava o Caminho Novo para o Rio de Janeiro,
quanto na região mais ao norte do rio das Velhas. No Caminho Novo, Mathias Barbosa teria vendido uma
plantação de bananas por 50 mil cruzados. (Mello, 1979: 257).
5 Há registros na legislação sobre a necessidade – e, por que não, obrigatoriedade – de destinar ao menos
um dia da semana para que os homens e mulheres escravizados pudessem se dedicar a esse fim. A discussão
sobre essa regra remonta ainda a 1606, e é retomada em diversos momentos da primeira metade do século
XVIII (entre outros, ver El Rey..., 1606; El Rey..., 1701; Carta..., 1701.) Para obter mais informações sobre a
reiteração dessas ordens, ver Lara (1988: 209).
6 Aspecto diretamente mencionado e condenado nos textos de Antonil, Benci e Rocha, e, sobretudo, nas
Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia (Vide, 1853, livro II, título XIII, §379, p. 151-152).

7 Isso porque, embora a legislação indicasse a liberação de um dia para o escravo trabalhar para seu sus-
tento como um dever, há uma série de reclamações para a administração metropolitana sobre os prejuízos
causados para o erário e para a observação dos preceitos cristãos quando os escravizados recebiam esse “be-
nefício”. Ver, por exemplo, a Carta do ouvidor geral da Paraíba, Antonio Felipe Soares de Andrade e Brederode,
à rainha D. Maria I [...], remetida da Paraíba em 17 de julho de 1792.
8 Jacob Gorender (1980: 129-134) postula que a perda de mercadoria não era desejável, mas que muitas
vezes a sobrelotação – mais escravos do que víveres ou espaço – era lucrativa. Na hipótese de um navio que
era adequado para transportar 100 escravos acabar carregado com mais 100, o dobro da carga máxima, caso
se pense numa perda de 10%, ainda que moralmente condenável, a margem de lucro ainda seria significa-
tivamente maior do que seguindo as prescrições à risca. Herbert Klein et al., (2001: 93-118), por sua vez,
argumentam que a mortalidade a bordo dos negreiros estava relacionada, além do trato e da superlotação, a
fatores como as condições naturais, políticas e econômicas na origem da viagem, bem como aos períodos de
espera nos portos. A viagem, portanto, poderia potencializar problemas de saúde ou agravar doenças germi-
nadas em momentos antecedentes à travessia.
9 Nunca é demais lembrar que esses valores estavam sujeitos à dinâmica de oferta e demanda, e que a
saúde econômica da região interferia não só no custo do escravo como nos fluxos migratórios e demográficos.
10 Como sintetiza Edison Carneiro (1964: 168), eram reconhecidos por essa alcunha os cativos, em geral,
já nascidos no Brasil, ou que estavam habituados “ao português, ao trabalho nas fazendas ou nas minas, ao
serviço doméstico, à disciplina da escravidão e às artimanhas dos seus pares, com quem convivia[m], para
evitar punições e desmandos e garantir-se proteção ou segurança”. Maria Beatriz Nizza da Silva (1975: 146)

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 25-32, janeiro-abril 2019 25
Ana Carolina de Carvalho Viotti

dá notícia de uma gradação extensa entre os boçais e os ladinos – “pouco ladino, meio ladino, já ladino,
muito ladino” – a partir de sua pesquisa nos anúncios publicados na Gazeta do Rio de Janeiro nas primeiras
décadas do século XIX.
11 A expressão remete a um negro ou mulato que tivesse ascendência africana, “de partes” de mãe e de
pai. Poderia ser apenas de uma delas, e, nesse caso, indicava-se “de parte de mãe”, “de parte de pai”. Como
ainda não estavam “habituados” ao jugo da escravidão, valiam menos. No caso das mulatas “de partes”,
valiam muito mais por gerarem crianças mais fortes, conforme se acreditava naquele tempo (Akinwumi;
Saunders, 2014: 130).
12 Além desses testemunhos, outros tipos de documentos auxiliam na aferição de valores e de seu enqua-
dramento como “caros” ou “baratos”. Desse tipo de análise, expressivos estudos da história serial e econô-
mica já se ocuparam, e chegaram a conclusões interessantes sobre as flutuações de preços. Sobre as Minas,
a título de exemplo, destaca-se o trabalho de Carlos Leonardo Kelmer Mathias (2012: 254-273), que, a partir
de escrituras cartoriais dos Arquivos da Casa Setecentista de Mariana, constrói, a certa altura de sua obra, um
sólido argumento sobre a precificação dos cativos nas Minas. Ele indica, inclusive, a inconsistência decorrente
da análise de inventários post mortem para esse fim, decorrente de um “falseamento” dos valores nos inven-
tários, perceptível não somente nas minas. Para saber mais, ver, especialmente: Begard, 2004; Borrego, 2010;
Fragoso; Florentino, 2001; e Marcondes; Motta, 2001: 495-514.
13 Segundo Nireu Oliveira Cavalcanti (2005: 64-65), por exemplo, a oscilação no número de escravos advin-
dos ao porto do Rio de Janeiro saltou de 2 mil, em 1700, para 6 mil em 1730. Essas cifras vão se multiplicar
virtuosamente ao longo do século XVIII.
14 Sobre as indicações de que a demanda para as Minas supervalorizou o preço dos cativos e de que o
tráfico de Guiné, além do empreendido com Angola, também impulsionou o crescimento dos valores, ver
Boxer, 2000.
15 Na Bahia oitocentista, por exemplo, afirma Kátia Mattoso (1979: 32) que 50,8% dos testamentos deixa-
dos contavam com peças escravas.
16 A Memória de Oliveira Mendes foi lida na Real Academia das Ciências de Lisboa em 1793, mas publicada
somente em 1812.
17 Para informações sobre a frequência dos negreiros e do fluxo de africanos traficados, ver a atualizada
base de dados The Trans-Atlantic Slave Trade Database. Disponível em: <http://www.slavevoyages.org/>.
18 Discussão apresentada em detalhe por Sílvia Lara (1988, especialmente no capítulo “Conversas com a
bibliografia” p. 97-113).

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Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 31-32, janeiro-abril 2019 31
Artigo

Compadrio, mobilidade social e redes


sociais: a trajetória de uma família entre
a escravidão e a liberdade (Minas Gerais,
1797-1828)
Godparentage, social mobility and social networks: the life story
of a family between slavery and freedom (Minas Gerais,
1797-1828)
Compadrazgo, movilidad social y redes sociales: la trayectoria de
una familia entre la esclavitud y la libertad (Minas Gerais,
1797-1828)

Mateus Rezende AndradeI*

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942019000100003

I
University of Guelph, Canadá.

* College of Arts, Department of History, University of Guelph, Canadá. College of Arts, Department of History, University
of Guelph, Canadá. (mateus.rezende@gmail.com), ORCID iD: http://orcid.org/0000-0001-8464-6367

Artigo recebido em 14 de novembro de 2018 e aceito para publicação em 28 de fevereiro de 2019.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 33-52, janeiro-abril 2019 33
Mateus Rezende Andrade

Resumo
Este artigo explora as interseções entre os mundos dos livres, libertos e escravos, propondo reflexões sobre as hie-
rarquias e desigualdades gestadas pela escravidão brasileira. A partir de métodos e técnicas da história da família,
da demografia histórica e da análise de redes sociais, reconstituíram-se as relações de compadrio de uma família
em seu processo histórico de confirmação da liberdade, o qual se apresentou difuso e repleto de estratégias que
contornavam incertezas. Como conclusão, demonstrou-se a liberdade como uma condição que cotidianamente pre-
cisou ser confirmada por indivíduos libertos e alforriados, o que salienta a força sistêmica da escravidão na formação
social brasileira.

Palavras-chave: Escravidão; Liberdade; Redes sociais; Compadrio.

Abstract
The present paper explores the intersections between the worlds of the free, the freed and the slaves, proposing re-
flections on the hierarchies and inequalities of Brazilian slavery. Based on methods and techniques of family history,
historical demography and social networks analysis, we reconstituted a family’s relationships of godparentage in
their historical process of shift from slavery to freedom, which was diffuse and filled with strategies that circumven-
ted uncertainties. As a conclusion, freedom was demonstrated as a condition that needed to be confirmed by freed
people on a daily basis, which highlights the systemic strength of slavery in the development of Brazilian society.

Keywords: Slavery; Freedom; Social networks; Godparentage.

Resumen
Este artículo explora las intersecciones entre los mundos de los libres, libertos y esclavos, proponiendo reflexiones
sobre las jerarquías y desigualdades gestadas por la esclavitud brasileña. A partir de métodos y técnicas de la
historia de la familia, de la demografía histórica y del análisis de redes sociales, se han reconstituido las relaciones
de compadrazgo de una familia en su proceso histórico de confirmación de la libertad, lo cual se presentó difuso y
repleto de estrategias que circunvalaban incertidumbres. Como conclusión, se ha demostrado la libertad como una
condición que cotidianamente necesitó ser confirmada por individuos libertos, lo que evidencia la fuerza sistémica
de la esclavitud en la formación social brasileña.

Palabras clave: Esclavitud; Libertad; Redes sociales; Compadrazgo.

34 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 34-52, janeiro-abril 2019
Compadrio, mobilidade social e redes sociais: a trajetória de
uma família entre a escravidão e a liberdade (Minas Gerais, 1797-1828)

Introdução

N o dia 7 de agosto de 1797, foi batizada pelo padre João de Souza Ferreira – na igreja
matriz do Arraial de Piranga, distrito da cidade de Mariana – a Senhorinha Maria,
primeira filha de Ana Maria de São José, na ocasião, escrava do tenente Rodrigo José da Silva.1
Trinta e quatro anos depois, no recenseamento nominativo do ano de 1831, Ana Maria de
São José foi recenseada como chefe de seu domicílio, no qual também foram listados sua filha
mais velha, Senhorinha Maria, e uma filha e um filho mais novos, todos eles livres.2
Noutro recenseamento realizado na localidade, no ano de 1839, o seu único filho ho-
mem, Antônio Anacleto Varela, já casado, é listado como chefe de seu domicílio, proprietário
de três escravos. Em 1854, já era capitão Antônio Anacleto Varela, reconhecido proprietário
de terras daquela localidade, e o primeiro a se dirigir ao pároco da igreja matriz de Piranga
para fazer o registro dessas terras.3 Pode-se perceber por estas informações introdutórias
que estou a versar sobre uma trajetória de mobilidade social e ascensão econômica de
egressos do cativeiro, algo não incomum no passado escravista brasileiro (Guedes, 2008;
Dantas, 2016; Libby, 2016).
Tendo conhecimento destes dados, ainda incipientes, mas com um valor histórico rele-
vante, me questionei sobre os caminhos deste processo social de transição entre o cativeiro
e a liberdade, fenômeno distintivo da escravidão brasileira (Gonçalves, 2011). “O que torna
possível uma família de egressos do cativeiro vir a ser proprietária de escravos? Quais eram
os mecanismos e as hierarquias sociais vigentes que permearam a trajetória de vida daquelas
pessoas que vivenciaram essa travessia?”, eram algumas das várias perguntas que me inquie-
tavam e instigavam a vasculhar mais e mais os fundos documentais em busca de respostas.
Foi possível rascunhar algumas respostas a partir de longas reflexões e extensivo traba-
lho com fontes históricas, e outras, nem tanto. Nem tudo cabe em um artigo científico.
Assim, neste artigo, irei enfocar os anos que sucederam ao sacramento batismal da pri-
meira filha de Ana Maria de São José, nos quais se podem enxergar as estratégias familiares
nos primórdios do seu processo de enraizamento social e afirmação da liberdade, no qual, ao
longo de algumas décadas, a família se elevou à condição de uma família reconhecida social-
mente, detentora de títulos, escravos e propriedades.
O objetivo principal é proporcionar a reflexão sobre as interseções entre os mundos dos
livres, libertos e escravos, demonstrando as possibilidades de ascensão social, sem, contudo,
deixar de lado os imperativos das hierarquias e desigualdades que marcaram o passado bra-

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 35-52, janeiro-abril 2019 35
Mateus Rezende Andrade

sileiro, aspectos que me conduziram a explorar o contexto histórico das suas sociabilidades
cotidianas, estas, por sua vez, refletidas nas relações de compadrio daquela família.
Do ponto de vista metodológico, além dos registros paroquiais de batismos, elementos
fundamentais utilizados para se compor as redes sociais desta família, foram igualmente de-
terminantes as informações recolhidas nas listas nominativas da década de 1830, as quais
permitiram preencher lacunas presentes nos registros paroquiais, principalmente referentes às
estruturas familiares, seja da família em tela ou das de seus compadres.
Pode-se vislumbrar que uma gama variada de informações irá compor a narrativa deste
artigo, e é meu interesse inter-relacioná-las à produção de um espaço social, cotejado por
hierarquias que se redefiniam pelas possibilidades de mobilidade e ascensão social, pautadas
na busca por afirmação da liberdade.

Do cativeiro à liberdade

A julgar pelas informações contidas nos assentos de batismos desta família que se for-
mou no limiar entre a escravidão e a liberdade, é possível resgatar as tramas da sua
trajetória antes mesmo que nascesse a primeira filha de Ana Maria de São José no ano de
1797, pois são notórias as estratégias postas em práticas por esta mulher para estabelecer o
seu lugar no mundo dos livres e libertos.
Certamente, a liberdade era a maior dádiva que ela poderia legar aos seus filhos,
pois abria oportunidades de ascensão e mobilidade social restritas ao cativeiro até então.
Portanto, explorar a transição da condição de cativo à liberto é muito importante para se
compreender os vínculos existentes entre esta família e as comunidades dos indivíduos
livres, libertos e escravos, o que permite tecer reflexões sobre as possibilidades de ascen-
são social. Para tanto, busquei em registros de batismos informações sobre os compadres
desta família, as quais esclarecem o universo relacional e as sociabilidades cotidianas que
marcaram a transição do cativeiro à liberdade. Na Figura 1 estão representados os laços de
compadrio a partir dos padrinhos de batismo das filhas e do filho de Ana Maria de São José
e dos batismos em que ela e suas filhas atuaram como madrinhas, relações que permitiram
explorar o contexto social em que foram gestadas as estratégias de acesso e manutenção
da liberdade nas décadas iniciais do século XIX.
Entre 1760 e 1812, em 42 ocasiões, crianças nascidas na senzala do tenente Rodrigo
José da Silva, senhor de Ana Maria de São José, foram batizadas na igreja matriz do arraial
de Piranga. Chama atenção em apenas um destes sacramentos a criança ter sido alforriada

36 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 36-52, janeiro-abril 2019
Compadrio, mobilidade social e redes sociais: a trajetória de
uma família entre a escravidão e a liberdade (Minas Gerais, 1797-1828)

na pia batismal, junto com sua mãe: justamente o batismo de Senhorinha Maria.4 Apesar
de ser um episódio único neste efetivo escravo, não restam dúvidas de que esta “dádiva da
alforria” não foi um evento acidental,5 pois, conforme anotou o coadjutor Cristóvão Jorge
de Barcelos, responsável pelo registro do batismo, a madrinha entregou ao tenente Rodrigo
32 oitavas de ouro para que fossem outorgadas as liberdades de mãe e filha;6 portanto, foi
fruto de um processo que envolveu Ana Maria, o tenente Rodrigo e a madrinha de batismo,
dona Francisca Inácia.7
Há vasta historiografia sobre os tênues limites que divisavam a escravidão e a liberda-
de no passado brasileiro. Dentro desta temática, alguns pesquisadores focaram os tortuosos
processos sociais que envolviam a alforria, demonstrando que a porta de saída do cativeiro
demandava uma série de negociações, e poucas vezes significou a plena liberdade ao indi-
víduo liberto.
A este respeito, Silvia Lara (1998), perscrutando a agência social de indivíduos escravi-
zados, demonstrou que no século XIX vigoraram diferentes concepções de liberdade, desta-
cando que liberdade não se restringiu à possibilidade de vender voluntariamente sua força de
trabalho. Conforme salientou a autora, ser livre poderia significar a possibilidade de não servir
a mais ninguém ou viver longe da tutela senhorial, podendo ir e vir sem controle e restrições
de capatazes e feitores. A autora também destacou que a liberdade, em diversas situações,
significou a capacidade de constituir família e manter laços afetivos sem o perigo de ver filhos
e cônjuge serem comercializados pelo seu proprietário.
Cabe salientar que Silvia Lara é uma pesquisadora que compôs a vanguarda da virada
historiográfica sobre a escravidão no Brasil, a qual combateu, principalmente, os pressu-
postos teóricos que generalizavam experiências e coisificavam os indivíduos escravizados.8
Assim, obras como as de Sidney Chalhoub (1990), João José Reis (1986), Hebe Maria Ma-
ttos de Castro (1987) e Silvia Lara (1988) trouxeram à abordagem dos estudos históricos
a agência social de indivíduos escravizados e libertos, matizando suas escolhas, objetivos e
estratégias sociais.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 37-52, janeiro-abril 2019 37
Figura 1. Compadrio e sociabilidades, família Varela, Arraial de Piranga (1797-1828)

Fontes: Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana. Livros de Batismo, Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga;
Arquivo da Casa Paroquial de Piranga, Livros de Batismo.
Compadrio, mobilidade social e redes sociais: a trajetória de
uma família entre a escravidão e a liberdade (Minas Gerais, 1797-1828)

Ao fim e ao cabo, sobre a temática do acesso à liberdade no passado escravista bra-


sileiro, um dos principais legados desta historiografia foi a visão de que alforria e outros
ganhos materiais ou simbólicos não devem ser considerados uma flexibilização da violência
do sistema escravista e manifestação da bondade senhorial, pois não se tratava somente de
benefícios concedidos pelos proprietários de escravos; eram, também, frutos da luta e resis-
tência dos indivíduos escravizados.
Por outro lado, há aqueles autores que enfatizaram a função estrutural da alforria para
a reprodução do sistema escravista, os quais destacaram a persistência de uma liberdade
conservadora sustentada pelo próprio sistema. A este respeito, Manolo Florentino ressaltou
que muitos indivíduos libertos, ao ascenderem economicamente, tornavam-se proprietários de
escravos, aspecto, segundo ele, que perpetuava a expectativa entre escravos de não apenas
um dia alcançar a tão almejada liberdade, como também desfrutar de um status quo de se-
nhor de escravos entre os indivíduos livres. Grosso modo, tal situação significava efetivamente
a reprodução das estruturas vigentes, isto é, a reiteração do escravismo.9
Outro pesquisador a destacar as alforrias como elementos de manutenção da escravidão
foi Rafael de Bivar Marquese. Baseado nos pressupostos teóricos postulados por Orlando Pa-
tterson (1970) e Igor Kopytoff (1982), Marquese (2006) propõe que, no passado brasileiro, a
escravização, a situação da escravidão e a manumissão fizeram parte de um mesmo processo
que institucionalizou a escravidão. Finalmente, em artigo mais recente (ibidem, 2013), teceu
importantes críticas aos trabalhos supracitados de Silvia Lara e Sidney Chalhoub, os quais,
segundo Marquese, apropriram-se seletivamente de algumas proposições de Edward Thomp-
son, deixando de lado a dimensão da expansão capitalista em curso no século XIX. Segundo
o autor, deixar de lado a perspectiva do capital significa incorrer no risco de perder de vista a
escravidão como instituição que deu sentido à formação social e econômica do Brasil.
A proposta de Rafael Marquese é fornecer um quadro teórico mais robusto à compreen-
são da dimensão sistêmica do escravismo brasileiro. Para ele, mesmo que haja trabalhos que
há décadas destaquem a estreita relação entre tráfico negreiro transatlântico e as elevadas
taxas de manumissão, é ainda restrito o entendimento das limitadas possibilidades de suces-
so da resistência escrava coletiva no Brasil, o que, para o autor, explica-se “sem dissociar a
condição escrava da condição liberta e o tráfico negreiro das alforrias” (ibidem, 2006: 110).
Grosso modo, os números do tráfico transatlântico permitiam as altas taxas de manumissão
averiguadas, pois tão logo um cativo alcançava a liberdade, outro africano era escravizado e
transportado para o Brasil, o que disseminou a escravidão pelo tecido social brasileiro, marca
distintiva daquele sistema escravista (Florentino, 2014). Finalmente, a escravidão, na condição

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 39-52, janeiro-abril 2019 39
Mateus Rezende Andrade

de fundamento da sociedade brasileira, ganhou as penas da lei nos quadros do Estado


nacional brasileiro especificamente no contexto da Independência, quando os construtores
do Império tomaram consciência da experiência histórica que combinou tráfico negreiro e
alforrias (Marquese, 2006: 110).
É importante ter em mente estes pressupostos interpretativos, pois estou dissertando
neste artigo sobre uma família que traçou o seu caminho entre a escravidão e a liberdade;
portanto, deixo em tela estratégias de indivíduos que resistiram à escravidão e desenharam,
socialmente, suas condições de indivíduos livres. Volto, pois, a escrever sobre o processo de
alforria da irmã e da mãe de Anacleto.
Apesar de ter sido um dos vértices envolvidos neste processo de alforria, são desconheci-
das as relações existentes até o ano de 1797, entre dona Francisca Inácia e Ana Maria de São
José. Inicialmente, supus que Senhorinha fosse fruto de alguma união consensual com algum
aparentado de dona Francisca Inácia, porém, não há qualquer indício nas fontes pesquisadas
que me permitam aprofundar esta hipótese. Uma segunda possibilidade seria imaginar algu-
ma proximidade social entre a madrinha e o senhor de Ana Maria; todavia, do mesmo modo,
não há outras informações que permitam levar adiante este pressuposto. Em nenhuma outra
ocasião os dois estiveram juntos diante da pia batismal ou mesmo envolvidos de forma indi-
reta, como, por exemplo, no compadrio com uma mesma família ou sendo apadrinhados por
indivíduos aparentados. Obviamente não eram desconhecidos, e duvido que houvesse alguma
desavença, mas não há rastros que me possibilitem conjecturar alguma afinidade relacional
entre ambos que tivesse entrado como variável determinante no processo de batismo de Se-
nhorinha, seguido da alforria dela e de sua mãe.
Diante destas constatações, é mais acertado considerar que o senhor agiu como proprie-
tário e, portanto, esteve envolvido tão somente na definição do valor exigido pela liberdade
de uma peça do seu efetivo escravo. Deste modo, negociações que envolveram o pagamento
de tal valor estiveram restritas à desconhecida relação que havia entre a madrinha e a mãe da
criança batizada. Apesar de ser uma incógnita, não causa nenhum embargo à compreensão
de todo o processo, visto que muito provavelmente Francisca Inácia e Ana Maria continuaram
próximas nos anos que se seguiram, pois, no ano de 1831, por meio do recenseamento feito
no distrito de Piranga,10 constatei que Clementina Ferreira de Araújo,11 futura esposa de Antô-
nio Anacleto Varela,12 era agregada no domicílio de Rita Francisca Ferreira,13 filha de Francisca
Inácia, naquele ano já falecida.14
Tal informação quebra a linha narrativa e a cronologia do processo de transição do
cativeiro à liberdade vivenciado por Ana Maria e seus filhos. De todo modo, lancei mão de

40 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 40-52, janeiro-abril 2019
Compadrio, mobilidade social e redes sociais: a trajetória de
uma família entre a escravidão e a liberdade (Minas Gerais, 1797-1828)

apresentá-la para explicitar que Francisca Inácia e Ana Maria tinham alguma ligação que não
se restringiu à pia batismal e que, além de ter possibilitado o acesso à liberdade, muito prova-
velmente esteve na base da manutenção desta condição. Desta forma, mais uma vez, o dia 7
de agosto de 1797 é um ponto de inflexão nas tramas cotidianas de Ana Maria de São José, a
partir do qual é possível elencar uma série de hipóteses sobre suas estratégias.
Alcançada a liberdade, não eram automáticos a aceitação social e o reconhecimento do
indivíduo pela comunidade. A escravidão estigmatizou os afrodescendentes, e cotidianamente
demandava destes indivíduos estratégias de manutenção da sua condição de pessoa livre.
Sobre a instabilidade da liberdade a que eram constrangidos cotidianamente homens e mu-
lheres escravizados, Silvia Lara (1988: 254-258) demonstrou que a morte do senhor era um
momento determinante para escravos que haviam alcançado ganhos materiais e simbólicos
que os afastavam do cativeiro. Segundo ela, muitos podiam perder determinadas conquistas
em função de algum desafeto com herdeiros do antigo proprietário, o que significava o reor-
denamento de estratégias e profundas transformações nas condições de vida.
Sobre o mesmo tema, Sidney Chalhoub (2012: 231-242) demonstrou que uma das mar-
cas da sociedade oitocentista brasileira foi sua alta capacidade de privar de suas liberdades
indivíduos africanos e afrodescendentes. Segundo o autor, o medo de retornar à condição de
cativo pautou o pensamento, a conduta e as estratégias de vida dos negros brasileiros. Não
foi diferente com Ana Maria de São José. Pouco mais de um ano após ter deixado o cativeiro
do tenente Rodrigo,15 no registro de batismo de sua segunda filha, Ana,16 no dia 7 de outubro
de 1798, o mesmo coadjutor responsável por registrar sua alforria no ano anterior fez questão
de assinalar que a batizanda era filha de “Ana Maria de São José, parda forra, escrava que foi
do tenente Rodrigo José da Silva”.17
Diante deste cenário no qual era identificada pela memória do cativeiro, suas estratégias
delineavam-se pela busca por inserção social e por se tornar conhecida não por ter sido es-
crava de outrem, mas, eventualmente, pelos seus importantes e distintos compadres. Além de
dona Francisca Inácia, uma importante mulher apadrinhadora daquelas localidades, que foi
madrinha em 20 ocasiões entre os anos de 1790 e 1810, no ano 1797, o padrinho de Senho-
rinha também foi um indivíduo com amplo capital social: o licenciado Francisco José Alves da
Silva,18 padrinho em 18 ocasiões entre os anos de 1793 e 1808.
Todos os compadres de Ana Maria foram pessoas detentoras de títulos de distinção ou
patentes militares. No batizado de Ana Florinda, no ano de 179819, o padrinho foi o padre Ma-
noel Carvalho de Morais,20 filho do capitão Diogo Carvalho de Morais,21 o maior proprietário
de escravos daquelas paragens, com nada menos do que 82 cativos em sua posse em 1804.22

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 41-52, janeiro-abril 2019 41
Mateus Rezende Andrade

Neste sacramento batismal, a madrinha foi dona Ana Esmeria de São Joaquim,23 discriminada
no assento de batismo como “cunhada do capitão comandante Antônio Gomes Sande”,24
importante proprietário de engenho naquelas paragens, figura muito conhecida e com grande
poderio econômico e social. Ana Esmeria, entre 1789 e 1810, apadrinhou 12 crianças, das
quais somente 2 eram filhas naturais, entre elas Ana Florinda, filha de Ana Maria de São José,
o que realça ainda mais os feitos de adentrar distintos espaços de sociabilidade alcançados
por Ana Maria de São José na pia batismal.
Dois anos depois, Ana Maria ficou grávida de gêmeos, ampliando as oportunidades de
inserção e reconhecimento social, pois os dois batismos de uma só vez a fizeram contrair
quatro relações de compadrio. Ao nascerem as duas meninas, batizadas Antônia25 e Maria,26
os padrinhos escolhidos para Antônia foram o próprio capitão Diogo Carvalho de Morais27 e
sua filha, dona Antônia Rosa de Jesus.28. Já os padrinhos de Maria foram o alferes Antônio
Gonçalves Heleno,29 21 vezes nomeado em outras oportunidades, e Clara de Souza,30 esposa
do tenente Joaquim Alves da Cruz.
Finalmente, em 1805, Antônio Anacleto Varela31 é batizado, tendo sido apadrinhado pela
dona Clara Joaquina de Jesus,32 esposa do capitão José Soares Valente, e tendo por padrinho
o capitão Antônio Teixeira Guimarães,33 genro do capitão Diogo Carvalho de Morais, o que
dá importantes pistas sobre o modus operandi de Ana Maria de São José. Em busca de re-
conhecimento e afirmação de sua liberdade, se instalou à sombra do poder de influência da
família Carvalho de Morais, pressuposição confirmada quando se tornaram conhecidas duas
ocasiões nas quais Ana Maria atuou como madrinha, ambas apadrinhando crianças nascidas
do vasto efetivo escravo dos Carvalho de Morais. Em 1801, meses após sua filha Antônia ter
sido apadrinhada pelo capitão Diogo e sua filha Antônia Rosa, Ana Maria foi madrinha de
batismo de Germana,34 filha natural de Leocadia Crioula. Em 1806, quando Antônio Anacleto
era uma criança de 1 ano e poucos meses, foi a vez de Joana,35 filha legítima de João Angola
e Joaquina Crioula, ser apadrinhada por Ana Maria de São José.
Creio que Ana Maria de São José já estivesse próxima do ambiente social e imersa em
relações cotidianas tecidas em torno daquela senzala de uma importante família da loca-
lidade desde 1798, ou até mesmo antes, quando o padre Manoel Carvalho de Morais foi
nomeado padrinho de sua filha Ana. Muito provavelmente, a partir destas relações, viu se
entreabrir a oportunidade de solidificar as bases de sua liberdade por meio de laços fortes
com famílias reconhecidas e respeitadas. Eventualmente, num ato de negociação ou simples
retribuição de favores, atuava como madrinha de cativos que não tinham a quem recorrer
em hora tão necessitada.

42 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 42-52, janeiro-abril 2019
Compadrio, mobilidade social e redes sociais: a trajetória de
uma família entre a escravidão e a liberdade (Minas Gerais, 1797-1828)

A confirmação da liberdade

A trajetória de Ana Maria de São José é um prato cheio para se conhecer os significados
do compadrio na sociedade brasileira oitocentista. Como já foi destacado na introdu-
ção deste artigo, na lista nominativa do ano de 1831, em seu domicílio foram recenseadas
as duas filhas mais velhas, Senhorinha Maria e Ana Florinda, a primeira, viúva, e a segunda,
solteira, ambas com filhos também listados naquele domicílio. Ao recolher informações so-
bre seus batizados, fizeram-se conhecidos os laços de compadrio da segunda geração desta
família, os quais guardam consigo uma série de significados que ajudam a interpretar as hie-
rarquias e como funcionou o fenômeno da mobilidade social. Neste recenseamento, Antônio
Anacleto, aos 25 anos, era negociante e também listado no domicílio chefiado por sua mãe.
Além destes, um casal de agregados, Tomás de Aquino e Maria Felisberta,36 foi listado no
domicílio, o que indica que as coisas iam relativamente bem para aquela família, pois, além
de terem condições de constituir domicílio próprio, foram capazes de agregar um jovem casal,
muito provavelmente desprovido de auxílios que lhe permitisse desenvolver suas atividades e
acumular algum pecúlio em domicílio próprio.
Não foram listadas as gêmeas Antônia e Maria, nem mesmo em outros domicílios da
localidade, o que me levou a pressupor que faleceram ainda crianças, fato que demandou ou-
tras estratégias relacionais daquela família que confirmassem o seu lugar naquela sociedade.
Em outras palavras, efetivamente, já não mais existiam as relações de compadrio confirmadas
nos batismos das gêmeas Antônia e Maria; portanto, o capitão Diogo Carvalho de Morais, sua
filha, o Alferes Antônio Gonçalves Heleno e Clara de Souza eram compadres sem afilhados, no
caso específico, sem afilhadas.
Assim sendo, o elemento central da relação de compadrio, a criança batizada, já não se
fazia intermediária entre Ana Maria de São José e aqueles compadres. Pode-se imaginar que
no dia a dia do arraial, Antônia e Maria não tomavam a benção de seus padrinhos e madri-
nhas, reiterando o respeito que Ana Maria tanto ansiava demonstrar. Do mesmo modo, a pres-
tação de certos favores que aquelas duas crianças poderiam receber ou realizar, estendendo
os laços de parentesco espiritual para o cotidiano material, conferindo prestígio a Ana Maria
de São José, deixou de ser uma prática de que pudesse lançar mão.
Diante desta situação de enfraquecimento de determinados laços sociais já constituídos,
uma possibilidade talvez fosse a reiteração destas relações, mas, muito provavelmente, Ana
Maria havia chegado ao fim do seu ciclo reprodutivo, por motivos diversos e desconhecidos,
entre os quais, arrisco dizer, a morte de seu companheiro.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 43-52, janeiro-abril 2019 43
Mateus Rezende Andrade

Sobre este aspecto, cabe salientar alguns importantes aspectos de vasta historiografia
sobre a atuação e o lugar social das mulheres solteiras no passado brasileiro. Sílvia Maria
Jardim Brügger, em seu livro Minas patriarcal (2007), introduz um debate que complexifica
a reflexão sobre mulheres solteiras chefiando domicílios. Para Brügger, a relação consensual
muitas vezes assumia os mesmos significados que uma relação sacramentada pela Igreja, ou
seja, organizava a vida do indivíduo em torno dos sentidos privados da família, quais sejam:
constituir o domicílio, gerar filhos e criar afetos (ibidem: 65-132). Grosso modo, o que a pes-
quisadora retoma em seu livro é a crítica da crítica ao modelo interpretativo patriarcalista.37
Na esteira interpretativa de Ronaldo Vainfas (1989: 108-112) e Sheila de Castro Faria (1998:
45-48), Brügger (2007: 47-64) segue a linha analítica que destaca o patriarcalismo como tra-
ço distintivo da sociedade brasileira, pois, mesmo ausente em algumas estruturas familiares,
esteve presente nas ideologias e mentalidades que fundaram nossa história.
Exemplo ilustrativo destas relações familiares em que estavam envolvidas mulheres
solteiras surge na estrutura do domicílio chefiado por Maria Cipriana do Espírito Santo,
uma mulher parda de 48 anos de idade, solteira. Além dela, em seu domicílio estão lis-
tadas Graciana Rosa, 26, parda, casada, Ana Teodora, 20, parda, solteira, e Maria, 1 ano
de idade. Numa busca feita nos assentos de batismo, descobri que Maria, batizada no
dia 17 de outubro de 1830, era filha natural de Ana Teodora.38 Avançando a busca para o
recenseamento produzido no ano de 1839, encontro Maria Cipriana, agora aos 60 anos de
idade, ainda solteira e chefiando seu domicílio. Além dela, Ana Teodora, também solteira,
e sua filha Maria, de 10 anos de idade, foram listadas, e mais 3 crianças: Francisca, José
Vidal e Teobalda, com idades de 7, 4 e 1 ano, respectivamente. Graciana estava ausente
desta composição domiciliar, mas o seu lugar na lista, logo abaixo de Maria Cipriana, foi
ocupado por José Antônio da Cunha, um homem pardo, de 30 anos de idade, declarado
viúvo, sapateiro, e que sabia ler.
A simples presença deste homem é um primeiro indício de que se trata do companheiro
de Ana Teodora. Porém, outras crianças nascidas entre os dois recenseamentos me levaram
a acreditar no que seria somente indício e buscar confirmações. Estas, felizmente, foram en-
contradas no registro de batismo de Francisca, batizada no dia 30 de setembro de 1832 na
capela de Santo Antônio do Calambau, filial da matriz de Piranga. Na ocasião, Francisca, filha
natural de Ana Teodora foi apadrinhada por José Antônio da Cunha, “morador da freguesia da
Pomba”.39 A partir destes dados, sugiro que Ana Teodora e José Antônio da Cunha mantinham
uma relação consensual já havia alguns anos e ele, ao enviuvar-se, migrou para a freguesia do
Piranga para viver próximo a sua companheira e os seus quatro filhos.

44 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 44-52, janeiro-abril 2019
Compadrio, mobilidade social e redes sociais: a trajetória de
uma família entre a escravidão e a liberdade (Minas Gerais, 1797-1828)

Por fim, outra busca pelos assentos de batismo sacramentados na localidade confirma-
ram que Graciana Rosa e Ana Teodora eram irmãs, nascidas em 1807 e 1811, respectivamen-
te, filhas naturais de Maria Cipriana, a qual, nas ocasiões dos batismos, foi declarada parda
forra.40 Assim, a partir da história destas mulheres, podemos vislumbrar duas gerações, mãe e
filha, que não contraíram matrimônio, mas que mantiveram relações consensuais, tecendo o
cotidiano e as estratégias de reprodução social a partir de laços familiares. Por exemplo, no já
mencionado batismo de Maria, primeira filha de Ana Teodora, a madrinha foi sua irmã, por-
tanto, tia da batizanda, Graciana Rosa, enquanto no batismo de Teobalda, sacramentado no
dia 20 de março de 1837, a madrinha foi Maria Cipriana, avó materna da criança.41 Portanto,
ainda que a documentação oficial e a norma religiosa não reconhecessem o casamento e,
assim, a legitimidade desta família, no dia a dia destas mulheres a estrutura familiar pairou
acima daquilo que é canonizado e ditou as estratégias da reprodução social.
A composição domiciliar e as relações familiares de Maria Cipriana me levaram a assumir
que sua trajetória de vida seja correlata à de Ana Maria de São José. Desta forma, sugiro que
Ana Maria, até o nascimento de Antônio Anacleto Varela, no ano de 1805, ou nos anos logo
após, tinha um companheiro, com o qual eventualmente viveu junto e certamente era o pai de
suas filhas e filhos. Ou, ainda, algum homem casado e bem relacionado daquela comunidade
era o pai de toda esta prole, e esteve por trás dos bons compadres que Ana Maria teve ao
longo de sua vida.
Voltando à cronologia dos eventos que marcaram o processo de transição do cativeiro
à liberdade desta família e, especificamente, a provável perda de seu companheiro, pai dos
seus filhos, é prudente assumir que já não era possível que Ana Maria oferecesse outros
filhos como afilhados, reafirmando, por exemplo, a relação de clientela que havia entre ela
e os Carvalho de Morais.
Quando no ano de 1815 é batizado Francisco, filho de Senhorinha Maria de Jesus, por-
tanto, primeiro neto de Ana Maria de São José, compreendem-se os rumos traçados por esta
família em corroborar sua liberdade e os significados do compadrio no passado brasileiro.
Entre 1806 e 1815, como já salientei, as fortes relações entre a família de Ana Maria e os
Carvalho de Morais foram se enfraquecendo e, provavelmente, oferecer um neto como afilha-
do pudesse ser uma boa iniciativa a dar novas feições às relações entre ambas as famílias.
Porém, não é isso o que acontece. Nenhum dos padrinhos de Francisco descende da família
do capitão Diogo Carvalho de Morais.
Como alguns autores já demonstraram, após a reformulação dos significados do batismo
previstos pelo Concílio de Trento, o compadrio tornou-se uma relação marcada pela cerimônia

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Mateus Rezende Andrade

religiosa, repleta de símbolos que podem não surtir efeitos práticos nas trajetórias de vida de
nenhum dos envolvidos (Berteau, 2010). Por outro lado, como detectado por outro estudo que
se debruçou sobre a mesma região, porém enfocando as sociabilidades intraelites, laços de
compadrio foram recorrentemente reiterados ao longo do ciclo de vida dos indivíduos e suas
famílias, indicando que desempenharam funções sociais nas comunidades em que se deram
(Andrade, 2015: 143-157).
A própria atuação de Ana Maria na pia batismal é emblemática deste caráter que o
parentesco espiritual pode assumir. Como demonstrei, entre 1798 e 1806, criou e intensifi-
cou laços de compadrio com os Carvalho de Morais. Por sua vez, em função de variáveis que
lhe fugiam ao controle (morte de suas filhas e provável perda do seu companheiro), viu-se
diante da impossibilidade de reforçar pelas vias do compadrio as relações já estabelecidas
com esta família nos anos que se seguiram. Desta forma, no trato cotidiano, quando neces-
sário, recorreu a outros compadres, entre os quais dona Clara Joaquina de Jesus, madrinha
de Antônio Anacleto Varela.
Por que suponho que foi esta madrinha e sua família que Ana Maria teve como ponto
de apoio em suas estratégias de ascensão e enraizamento social? Primeiro, porque Antônio
Anacleto ultrapassou os riscos de morte e pode ter sido aquele afilhado intermediador entre
sua mãe e seus compadres. Além disso, no dia 1o de maio de 1815, quando foi batizado
Francisco, filho de Senhorinha Maria, o padrinho escolhido foi João Soares Valente,42 filho de
dona Clara Joaquina de Jesus. Dois anos depois, em maio de 1817, no batismo de outro filho
homônimo do primeiro, que muito provavelmente falecera antes de completar 1 ano de vida, o
padrinho escolhido novamente é um Soares Valente, desta vez, Antônio,43 primo de João, por-
tanto, sobrinho de dona Clara. A madrinha de Francisco, Ana Leocadia de São Joaquim,44 era
concunhada de dona Clara Joaquina, o que demonstra as novas oportunidades abertas com
estas relações tecidas com os Soares Valente, que envolveram outras famílias da freguesia.
Confirmando o estabelecimento destes laços, em 1820, no batismo de Sabino, terceiro filho
de Senhorinha Maria, o padrinho nomeado foi Antônio Bernardes,45 esposo de Ana Leocadia.
No mês de dezembro do ano de 1817, especificamente no dia 26, portanto, logo após
as festividades natalinas, foi sacramentado o batismo de Rita, filha natural de Ana Florinda.
Num ato de demonstração de que eram fortes as relações com os Soares Valente, o padrinho
da vez foi o alferes Francisco Soares Valente,46 cunhado de dona Clara Joaquina, tio dos com-
padres de Senhorinha Maria. Finalmente, em 1820, o padrinho de seu segundo filho, Joaquim
Anacleto, foi o capitão João Pinto de Morais Sarmento,47 um homem de negócios, importante
apadrinhador local. Visto em conjunto com os batismos dos filhos de Senhorinha Maria, os

46 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 46-52, janeiro-abril 2019
Compadrio, mobilidade social e redes sociais: a trajetória de
uma família entre a escravidão e a liberdade (Minas Gerais, 1797-1828)

padrinhos escolhidos evidenciam certo padrão no qual laços estabelecidos são reforçados,
mas, vez por outra, indivíduos de fora de determinados grupos familiares eram nomeados
padrinhos, o que demonstra a estratégia de abertura dos círculos relacionais a novas oportu-
nidades que o compadrio poderia ocasionar.
Definitivamente, Ana Maria, suas filhas e filhos haviam transmigrado da clientela dos
Carvalho de Morais para a clientela dos Soares Valente, o que deixa claro que os laços de
compadrio, propensos a todo tipo de intempéries, eram passíveis de reordenamentos estra-
tégicos e intergeracionais. Neste caso específico de uma família egressa do cativeiro e alme-
jando reconhecimento social, sua condição de liberdade precisava ser dia a dia reafirmada,
perpetuando assim o lugar destes na hierarquia social. Fluxo privilegiado do prestígio numa
sociedade altamente hierarquizada, o compadrio corroborou com a manutenção da condição
de liberdade daqueles indivíduos, e em determinados momentos sustentou a arquitetura so-
cial que possibilitou a ascensão e a mobilidade.
A inserção de Ana Florinda e Senhorinha Maria nestas redes de compadrio não se deu
somente pela posição de mães, como também por meio da atuação como madrinhas de
batismo. Em 1827, Ana Florinda foi madrinha de uma das filhas de Ana Parda,48 escrava de
Manoel Alves Pereira,49 genro do capitão Antônio Teixeira Guimarães, o mesmo que 22 anos
antes apadrinhara Antônio Anacleto Varela. Assim como sua mãe, mediante relações de trocas
desiguais, Ana Florinda atuava nas interseções entre o mundo dos escravos, dos indivíduos li-
vres e libertos de cor, e da elite escravista local, o que dá respaldo à hipótese de que indivíduos
“pardos livres” transitavam no meio termo entre as senzalas e as casas-grandes. Em outras
palavras, eram indivíduos que interconectavam as redes de sociabilidades constituídas tanto
pelos cativos quanto por indivíduos livres, conferindo fluidez às hierarquias sociais.
Saliento também que as relações existentes entre os envolvidos neste assento de batis-
mo são sugestivas do funcionamento da mobilidade social no passado brasileiro. Como venho
enfatizando, a liberdade necessitava ser continuamente corroborada, o que congregava indi-
víduos libertos e outros que transitavam nas margens da hierarquia social vigente em espaços
de sociabilidades nos quais eram reconhecidos como indivíduos livres.
O que isso quer dizer? Dificilmente Ana Florinda iria integrar, por exemplo, redes de
compadrio das cidades de Mariana ou Ouro Preto. Tendo em vista a sua qualidade de mulher
parda numa sociedade matizada pela cor da pele, na qual o lugar social do indivíduo estava
intimamente relacionado à distância deste com a escravidão, naqueles espaços sua liberdade
eventualmente talvez pudesse ser posta à prova.

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Mateus Rezende Andrade

Não é preciso exemplificar com localidades muito distantes como Mariana e Ouro Preto,
situadas fora dos limites da freguesia em que comungavam. Verdade é que Ana Florinda,
Senhorinha Maria e Ana Maria de São José somente estiveram presentes em sacramentos
batismais que foram realizados na matriz de Piranga, portanto, nem mesmo outras capelas da
freguesia compuseram o espaço no qual tiveram a liberdade de atuar como madrinhas. Em
vista dos seus compadres e das relações familiares dos senhores proprietários das crianças
apadrinhadas por estas mulheres, não é arriscado afirmar que as sociabilidades que conferiam
o lugar social desta família egressa do cativeiro estiveram restritas ao subsídio relacional que
sua rede de compadrio pôde proporcionar. Não à toa, a liberdade é uma qualidade da condi-
ção social do indivíduo, a qual esteve sujeita ao reconhecimento e à aceitação da comunidade
na qual pudesse se manifestar.

Conclusão

E ntre os anos de 1797 e 1828, demonstrei o processo de gestação e corroboração da


liberdade de Ana Maria de São José e suas filhas e filho. Por meio de um jogo de trocas
desiguais, viu-se que foram abertas oportunidades ao enraizamento social desta família, a
qual, no limiar entre o mundo dos senhores e dos escravos, afirmou sua liberdade.
Neste processo histórico, salientou-se a fluidez relacional e o reordenamento de estraté-
gias, as quais eram estruturadas pelas hierarquias vigentes, contudo, direcionadas por deman-
das cotidianas e genuinamente ocasionais, como no caso concreto analisado neste artigo: a
morte de filhos e o consequente esmaecimento das relações de compadrio.
Por fim, a análise da trajetória de vida desta família reforça os postulados de uma his-
toriografia que salienta a força sistêmica da escravidão na formação social brasileira, aspecto
que, por sua vez, legou uma liberdade condicionada à capacidade dos indivíduos de sustentá-
-la socialmente por meio da constituição de redes sociais em que fossem reconhecidos.

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Compadrio, mobilidade social e redes sociais: a trajetória de
uma família entre a escravidão e a liberdade (Minas Gerais, 1797-1828)

Notas

1 Arquivo da Cúria Eclesiástica de Mariana. Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de


Guarapiranga. Livro 2, folhas 44v e 45

2 Efetivamente, visto saber que Ana Maria havia sido cativa, sua condição, após a alforria, deveria ser de
mulher liberta e não mulher livre, conforme optou o recenseador..
3 Arquivo Público Mineiro. Sessão Provincial. Repartição Especial das Terras Públicas. Registro Paroquial de
Terras da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição do Piranga. TP-1-160, rolo 13, registro 1518/01; 1518/02;
1519/03.
4 Chama atenção porque a prática não era difundida na localidade, afinal, no mesmo período, dos 3.932 batismos
de filhos de mães cativas que foram sacramentados nas capelas dos arraiais e outras localidades do vale do rio
Piranga, em apenas 120 ocasiões constatou-se a libertação na pia batismal. Portanto, chama atenção por ser um
caso único e específico dentro do universo daquele efetivo escravo que chama tanta atenção, e por se tratar de uma
família que não só alcançou a liberdade, mas ascendeu economicamente e enraizou-se na localidade.
5 Importantes discussões e análises sobre o tema podem ser encontradas em Soares (2009) e Gonçalves
(2011).
6 Na figura 1, quadrante C..
7 Na figura 1, quadrante B
8 A principal obra criticada por estes autores revisionistas é Gorender (1978).
9 Sobre estas perspectivas que destacaram a função estrutural das alforrias em reproduzir as estruturas
escravistas, ver Florentino, 2005.
10 Arquivo Público Mineiro. Sessão Provincial. Listas Nominativas. Disponível em: www.poplin.cedeplar.
ufmg.br., acessado em 2 de outubro de 2015.
11 Na figura 1, quadrante D...
12 Na figura 1, quadrante D
13 Na figura 1, quadrante D
14 Arquivo da Casa Setecentista de Mariana. Inventário post-mortem de Dona Francisca Inácia de Souza
(1816). 1º Ofício, códice 98, auto 2.045.
15 Na figura 1, quadrante A.
16 Na figura 1, quadrante C.
17 Arquivo da Cúria Eclesiástica de Mariana. Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga.
Livro 2, folha 54.
18 Na figura 1, quadrante A.
19 Arquivo da Cúria Eclesiástica de Mariana. Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga.
Livro 2, folha 54
20 Na figura 1, quadrante B.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 49-52, janeiro-abril 2019 49
Mateus Rezende Andrade

21 Na figura 1, quadrante A.
22 Arquivo Público Mineiro. Secretaria de Governo da Capitania. Recenseamento populacional do distrito de
Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga. Caixa 77.
23 Na figura 1, quadrante A.
24 Na figura 1, quadrante B.
25 Na figura 1, quadrante C.
26 Na figura 1, quadrante C.
27 Na figura 1, quadrante A.
28 Na figura 1, quadrante A.
29 Na figura 1, quadrante A.
30 Na figura 1, quadrante A.
31 Na figura 1, quadrante D.
32 Na figura 1, quadrante B.
33 Na figura 1, quadrante A.
34 Na figura 1, quadrante C.
35 Na figura 1, quadrante C.
36 Na figura 1, quadrante D.
37 Sobre esta crítica ao modelo patriarcalista, ver Samara (1989), especialmente a introdução.
38 Arquivo da Cúria Eclesiástica de Mariana. Livros de Batismo – Paróquia de Nossa Senhora da Conceição
de Guarapiranga. Livro 11, folha 91.
39 Ibidem, livro 11, folha 101v.
40 Ibidem, livro 8, folha 162v; livro 5, folha 40.
41 Ibidem, livro 11, folha 210.
42 Na figura 1, quadrante B.
43 Na figura 1, quadrante B.
44 Na figura 1, quadrante B.
45 Na figura 1, quadrante B.
46 Na figura 1, quadrante B.
47 Na figura 1, quadrante B.
48 Na figura 1, quadrante C.
49 Arquivo da Cúria Eclesiástica de Mariana. Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Guarapiranga.
Livro 11, folhas 87v-88.

50 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 50-52, janeiro-abril 2019
Compadrio, mobilidade social e redes sociais: a trajetória de
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52 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 52-52, janeiro-abril 2019
Artigo

O Rio da Prata, a independência e a abolição:


perspectivas de liberdade dos escravos no
além-fronteira 1
La Plata River, Independence and Abolition: Perspectives of Freedom
of the Slaves Beyond the Frontier
El Río de la Plata, la independencia y la abolición: perpspectivas
de libertad de los esclavos más allá de la frontera

Hevelly Ferreira AcrucheI*

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S2178-149420190001000004

Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro – RJ, Brasil.


I

*
Formada em História pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), com Mestrado e Doutorado em
História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atualmente, é professora de História na Secretaria de Estado e Edu-
cação do Rio de Janeiro (SEEDUC), Professora Substituta de História da América na UFRJ e Professora Adjunta no curso de
História e Pedagogia das Faculdades Unyleya. (hfacruche@gmail.com),
ORCID iD: https://orcid.org/0000-0003-4895-6629

Artigo recebido em 15 de Novembro de 2018 e aceito para publicação em 12 de fevereiro de 2019.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 53-78, janeiro-abril 2019 53
Hevelly Ferreira Acruche

Resumo
o presente artigo tem por objetivo analisar as possibilidades de liberdade de escravos oriundos de terras do Brasil
para as colônias espanholas no contexto das lutas pela independência política ocorridas a partir de 1810. Procura-
mos dar um panorama da política nesse período e apresentar algumas trajetórias negras no decorrer destas lutas,
sobretudo após a publicação da lei de 1813 e do decreto que permitia aos escravos vindos de terras estrangeiras a
aquisição da liberdade.

Palavras-chave: Liberdade; Escravidão; Guerras de independência.

Abstract

Abstract: The present article aims to analyze the possibilities of freedom of slaves from Brazil to Spanish colonies in
the context of the political independence struggles that took place ever since 1810. We sought to give an overview
of the strategy in this period and to present some life stories of black people in the course of these struggles, mainly
after the publication of the law of 1813 and the decree that allowed slaves coming from foreign lands to acquire
freedom.

Keywords: Freedom; Slavery; independence wars.

Resumen
El presente artículo tiene por objetivo analizar las posibilidades de libertad de esclavos oriundos de tierras de Brasil
hacia las colonias españolas en el contexto de las luchas por la independencia política ocurridas a partir de 1810.
Buscamos dar un panorama de la política en ese período y presentar algunas trayectorias negras en el transcurso
de estas luchas, sobre todo después de la publicación de la ley de 1813 y del decreto que permitía a los esclavos
provenientes de tierras extranjeras la adquisición de la libertad.

Palabras clave: Libertad; Esclavitud; Guerras de independencia.

54 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 54-78, janeiro-abril 2019
O Rio da Prata, a independência e a abolição:
perspectivas de liberdade dos escravos no além-fronteira

Introdução

O ano de 1808 foi fundamental para os processos separatistas envolvendo a América


hispânica e a Europa. Apesar de França e Espanha serem aliadas políticas e terem um
relacionamento cordial desde o Tratado de Basileia (1795), a saída de Fernando VII do poder e
a ascensão do francês José Bonaparte em seu lugar era inaceitável. Para François-Xavier Guer-
ra, a crise inaugurada em 1807 era inesperada, e sua dinâmica contribuiu para uma mudança
ideológica na América. Tanto para espanhóis quanto para os colonos, os eventos que culmi-
naram na abdicação de Bayona foram uma traição de um país que era aliado da Espanha, um
“ato de força pura” (Guerra, 1994: 198-200).
Uma fração da elite espanhola cogitava uma reforma da monarquia inspirada em valores
franceses, porém, sem a eclosão de uma revolução. A resistência contra Napoleão, iniciada sob
termos tradicionais, mesclava atitudes e princípios de ideias revolucionárias e liberais (Neves,
2010). Entretanto, o universo colonial experimentava problemas envolvendo a aplicação das
chamadas Reformas Bourbônicas, cujo impacto contribuiu para o descontentamento das elites
criollas com a maior centralização importa pela Coroa, ameaçando sentimentos de autonomia
e identidade em fins do século XVIII. Assim, podemos pensar no impacto destas reformas no
conjunto colonial hispânico; os quais com os acontecimentos de 1807 ficaram mais aflorados
(Mäder; Pamplona, 2007: 226).
Diante do vazio de poder e da não aceitação de um governante estrangeiro tanto na
Espanha quanto em suas colônias americanas, a criação de Juntas de governo foi uma pri-
meira iniciativa, a qual também pode ser vista como uma instância revolucionária. Na falta do
rei, a soberania era do povo, da nação, do reino. Inicialmente, a Junta Central promovia um
equilíbrio; porém, com as vitórias francesas, um Conselho de Regência foi adotado em 1810.
Apesar das desigualdades entre criollos e peninsulares, os discursos da época evocavam
a união dos povos em torno do rei (Guerra, 1994: 201). De acordo com Bushnell (2001),
uma historiografia mais tradicional via as Juntas de 1810 como “parte integrante do mesmo
processo revolucionário [...] que gerou a Revolução Anglo-Americana de 1776 e a Revolução
Francesa de 1789”. Entretanto, há uma vertente que analisa os precedentes da ideologia dos
próprios criollos no pensamento hispânico tradicional, o qual evocava a ideia de soberania
destinada ao povo na ausência do rei (Bushnell, 2001: 132).
Entretanto, discussões em torno do tema da representação nas Cortes de Cádiz con-
fluíram para problemas entre peninsulares e as elites criollas. De acordo com Guerra (1994),
as tensões entre colonos e peninsulares se modificaram diante de uma nova forma de fazer

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 55-78, janeiro-abril 2019 55
Hevelly Ferreira Acruche

política a partir da representação, na qual os direitos da América se tornaram alvo de discus-


são, bem como o vazio de poder. As reclamações envolvendo a igualdade entre colonos e
peninsulares eram, naquele momento, pautadas em termos como direito natural e soberania
dos povos. O reconhecimento das Juntas americanas pelas Cortes foi negado, bem como
um pequeno número de representantes das colônias americanas iam para a Junta Central e
a Junta de Cádiz, elementos estes que são pedra de toque da compreensão do rechaço às
instituições metropolitanas.
Para Manuel Chust (2008), a Constituição de 1812 teve peso considerável, pois trazia uma
leitura de soberania nacional, ou seja, não estava vinculada ao rei. A diversidade dos reinos re-
montava à pluralidade da monarquia hispânica, a qual passava a dar lugar à nação naquele novo
contexto. Esta constituição teve impactos importantes tanto na Espanha quanto na América, pois
trazia propostas de reformas liberais, conferindo a ampliação da participação política, ainda que
as elites tivessem maior projeção no processo (Mader; Pamplona, 2007: 10-12).
Em estudos recentes, as revoluções de independência na América espanhola e os pro-
blemas metropolitanos fizeram parte de um mesmo contexto que envolveu a chegada da Mo-
dernidade numa monarquia de Antigo Regime que desembocou na desagregação do Império
Espanhol (Neves, 2010; Guerra, 1994). Portanto, o processo de independência da América
hispânica está relacionado diretamente com a chegada de Napoleão Bonaparte à Espanha e
a consequente abdicação de Fernando VII. Ademais, podemos sinalizar que no período ocor-
reu uma mudança ideológica, na qual os efeitos da Revolução Francesa (1789) serviram de
substrato ideológico que não poderia enveredar para a radicalização. O governo deveria ser
fundado em ideias revolucionárias, “mas estável e respeitoso da lei e da liberdade” (ibidem:
211). Além disso, o impacto das ideias francesas foi variável no conjunto do Império Espanhol,
sendo difícil avaliá-lo em sua totalidade (Martínez, 2008: 63).
Com a decisão das Cortes de Cádiz de tornar a nação espanhola um Estado unitário e,
anos depois, com a retomada do poder por Fernando VII, os membros da elite criolla passaram
a pensar sobre a independência, ainda que dentro de uma concepção moderada de governo
(Neves, 2010: 11). Nesse sentido, os cabildos tiveram peso importante na vida política da
América naqueles anos, na qual as lutas pela independência marcaram mudanças em relação
à América e sua identidade. Partindo das Juntas, os movimentos da elite criolla se transforma-
ram em independência, e eles nutriam suas ideias com base em farta contribuição ideológica.
Tais ideias poderiam vir desde a Revolução Francesa ou a partir da própria tradição hispânica
do período medieval, que trazia um arcabouço teórico em que a ideia de soberania era oriunda
do povo, essencial para os acontecimentos inaugurados em 1810 (Martínez, 2008: 74).

56 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 56-78, janeiro-abril 2019
O Rio da Prata, a independência e a abolição:
perspectivas de liberdade dos escravos no além-fronteira

Assistimos ao gradual processo de construção de identidades opostas: o espanhol e


o americano como forma de legitimar as lutas políticas, sobretudo a partir da Restauração.
As ações do rei, pautadas sobretudo na violência, desencadearam uma série de reações de
uma minoria que almejava a independência (Mäder; Pamplona, 2007: 13). Por conseguinte,
percebemos uma quebra nas relações com o rei, que inicialmente os colonos juraram proteger,
passando a uma luta pela emancipação política (Guerra, 1994: 217-219).
Para os fins deste texto, procuramos tratar do processo de independência e o consequen-
te desmantelamento do Império Espanhol, tendo como enfoque o Rio da Prata. Procuraremos
mostrar as possibilidades de liberdade dos escravos, expressas muitas vezes em resgates e/ou
fugas de seus amos com o intuito de servir à defesa da pátria contra os espanhóis. Além disso,
veremos como este processo impactou na manutenção da escravidão em terras portuguesas
e as reclamações envolvendo o precedente aberto pelo decreto de 4 de fevereiro de 1813,
no qual os negros eram livres apenas pelo fato de haverem pisado o solo das recém-criadas
Províncias Unidas do Rio da Prata.

A sinuosa política: os caminhos até a independência


do Prata

2 2 de maio de 1810. Naquele dia, um cabildo abierto foi realizado em Buenos Aires para
decidir os rumos daquele pedaço do Império Espanhol diante da vacância do trono e da
instauração de um Conselho de Regência na Espanha sob domínio francês. O vice-rei, Baltazar
de Cisneros, chegado àquela praça em 1809 para substituir o vice-rei interino Santiago de
Liniers, foi deposto pela pressão das autoridades criollas frente aos líderes do cabildo nos dias
seguintes. Esta instituição colonial tinha, a partir daquele momento, a responsabilidade de tu-
telar os direitos do rei Fernando VII por meio de uma Junta de Governo (Goldman; Tervanasio,
2010: 58). Assim, se iniciava o processo de crise política e de um campo de possibilidades que
culminaria na independência das repúblicas hispano-americanas.
Esta Junta Governativa era composta por nove membros, dentre os quais assumia a
liderança o chefe das milícias, Cornelio de Saavedra. Este deveria representar os direitos do
rei Fernando VII em nome da legitimidade de seu governo frente ao representante francês na
Espanha, José Bonaparte. Tal estado de coisas duraria enquanto perdurasse o “cativeiro” de
Fernando VII, em nome da soberania dos povos. Em outras palavras, da concepção de que o
poder emanava do povo, expressa em eventos como a Revolução Francesa (1789-1799), a
Revolução Americana (1776) e a filosofia iluminista de meados do século XVIII.

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Hevelly Ferreira Acruche

Com a formação destas juntas governativas nas colônias, muitas de suas ações depen-
deriam tanto dos caminhos tomados pela metrópole quanto das peculiaridades do espaço
variado que compunha o Império Espanhol. Em relação à metrópole, a Junta de Cádiz não
jurou fidelidade à Regência instituída e, diante da fragilidade da situação, a junta convocou
as Cortes Gerais para decidir os rumos a serem tomados tanto pela Espanha quanto por suas
colônias. As Cortes teriam representantes peninsulares e coloniais, mas a representação destes
últimos era consideravelmente menor do que a dos primeiros. De acordo com Marcela Terva-
nasio e Noemí Goldman (2010), as diferenciações na representatividade colonial e metropoli-
tana nas Cortes provocaram sérias frações de interesses dentro das elites coloniais, o que, por
sua vez levou a Junta de Buenos Aires a não participar da reunião das Cortes.
Nesse sentido, havia um duplo caminho a ser seguido pelas colônias americanas: o ca-
minho daqueles que se dirigiram às Cortes e o caminho daqueles que resolveram seguir uma
postura autônoma, sem necessariamente influir na independência política. Em Buenos Aires,
foram emitidas circulares enviadas às várias cidades do interior a fim de realizar convocações
para eleger cabildos abiertos e enviar uma representação a Cádiz. Contudo, nem todas as
áreas subordinadas À capital do Vice-Reino responderam de maneira positiva a esta convoca-
ção. Regiões como o Paraguai adotaram uma postura autônoma em relação a Buenos Aires,
ao passo que Montevidéu se manteve como foco dos espanhóis realistas por muitos anos.
As ambiguidades suscitadas por este processo culminaram numa crise interna na Junta
a ser enviada a Cádiz. A fidelidade a um rei mantido preso, bem como as instituições que
erigiam a colônia sem poder promover mudanças de cunho político-institucional passaram
a ser um incômodo. E isso refletia diretamente nas propostas de representação pensadas no
seio deste grupo, em que formular uma Constituição soava radical para aqueles que preferiam
manter a Junta Governativa sem romper definitivamente com as Cortes de Cádiz.1 A chamada
Junta Grande, criada a partir de 1811, passou a lidar com problemas de ordem política na
medida em que tinha o direito à soberania, mas se encontrava atada para pensar em caminhos
e possibilidades diante de um contexto internacional cambiante.
Nesse ínterim, as limitações estabelecidas pelo próprio estatuto colonial acarretaram
numa oposição entre Buenos Aires, de caráter mais centralista, e várias cidades que passaram
a ver numa proposta autônoma um caminho possível. Algumas cidades passaram a pensar
na autonomia pautadas na ideia da soberania emanada dos povos e com base nos seus
respectivos cabildos. Desta maneira, muitas cidades subordinadas à capital do Vice-Reino do
Prata passaram a postular uma ideia de que uma proposta de autogoverno seria revertida,
também, numa proposta de maior participação ante ao governo da capital. A instabilidade

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O Rio da Prata, a independência e a abolição:
perspectivas de liberdade dos escravos no além-fronteira

política daqueles anos se refletiu na dissolução da Junta Grande e na consequente criação de


um Triunvirato para governar as então Províncias Unidas do Rio da Prata. A postura moderada
do Triunvirato no ano de 1812 suscitou uma série de oposições que exigiam uma postura mais
radical por parte do governo colonial, representado pelos cabildos, frente aos espanhóis.
Internamente, o quadro político platino era complexo, marcado por conflitos internos
entre os membros das elites criollas. No âmbito externo, a situação também era indefinida. A
Constituição de 1812, resultado da reunião dos deputados metropolitanos e coloniais esco-
lhidos desde 1810, era caracterizada como liberal; contudo, restringia bastante o quadro de
alternativas: cabia às pessoas fazer parte daquele novo modelo de país pensado para os dois
lados do Atlântico ou não. Buenos Aires acabou se negando a participar deste novo modelo,
e isto significava tornar-se um rebelde frente a um grupo “espanhol” oposto a um grupo
“americano”. Novas identidades acabariam surgindo no decorrer deste processo, sobretudo
pelas desigualdades suscitadas entre os vindos da metrópole e aqueles considerados colonos.
O ano de 1812 marcou uma mudança de rumos nas políticas hispana e americana, na
qual a mediação inglesa para promover uma coexistência nas representações tanto da colônia
quanto da metrópole, em caráter de igualdade mediante certo grau de autonomia local, não
surtiu efeito positivo. O caráter provisório instaurado desde 1810 em nome da lealdade ao
rei começava a ruir, e era necessário estabelecer um novo rumo político para a região platina.
Para tal intento, convocar uma Assembleia Constituinte que representasse todos os povos
era fundamental, e isto foi feito pelo Segundo Triunvirato, de características mais radicais, ao
postular as ideias de emancipação e de independência.
Assim, houve a reunião conhecida como a Assembleia do Ano XIII, considerado o mo-
mento mais radical da revolução no Prata. Como resultados desta assembleia, ficou estabe-
lecida a liberdade de imprensa, a extinção de tributos dos indígenas, tais como a mita e a
encomienda, o fim dos títulos de nobreza e a liberdade de ventre às escravas. Mas, do ponto
de vista simbólico, as relações entre Espanha e Buenos Aires estavam estremecidas, e isto
se expressa pela supressão do juramento de fidelidade ao rei, Fernando VII. A partir daquele
momento, os deputados e autoridades coloniais deveriam fazer seu juramento à “nação”, a
qual não sabiam ainda como definir (Pimenta, 2002).
A partir de 1814, outros ventos passaram a circular nas colônias espanholas, dadas as
crescentes derrotas de Napoleão, iniciadas em 1812. O retorno de Fernando VII ao poder,
bem como a propagação de um clima mais conservador nas estruturas políticas europeias,
repercutiu na dinâmica interna das colônias hispânicas – as quais também estavam convulsio-
nadas internamente. Ao passo que Fernando VII procurava reaver o domínio de suas colônias,

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 59-78, janeiro-abril 2019 59
Hevelly Ferreira Acruche

investindo militarmente para conter as regiões rebeldes e os liberais concentrados nas Cortes
de Cádiz, havia conflitos entre espanhóis e locais, liderados por membros da elite criolla, em
favor da autonomia frente ao absolutismo.
No Rio da Prata especificamente, além das disputas envolvendo as tropas espanholas,
havia o confronto envolvendo José Gervasio Artigas, representante da Banda Oriental do
Uruguai, e as autoridades de Buenos Aires. Tal confronto colocava em evidência novos pro-
jetos de governo para aquelas paragens. A concepção de Artigas para a formação de um
governo confederado, em que as províncias poderiam usufruir de maior autonomia e auto-
governo frente ao Poder Central, representado por Buenos Aires, constituía um problema
latente nos caminhos políticos pensados no Prata. É importante salientar que em diversos
momentos as populações oscilaram entre a simples autonomia, a união com os governos
centrais, e as propostas confederadas de Artigas (Goldman; Tervanasio, 2010: 57). Estas
últimas propostas, por sua vez, mobilizaram índios e negros nas paragens do Prata tanto
pela luta contra a dominação espanhola quanto pelos conflitos envolvendo a política a ser
implementada no Prata.
A partir de 1810, percebemos um processo de quebra das estruturas político-sociais
que pautavam o chamado pacto colonial. À luz dos acontecimentos no Velho Mundo, no
qual a fragilidade da monarquia espanhola ficou clara mediante a expansão napoleônica,
abriu-se caminho para os processos de emancipação nas colônias americanas. Por outro
lado, o Brasil assistia ao reforço da monarquia com a vinda da Corte portuguesa, em 1808,
a qual, mesmo com seu processo de independência. manteve o governo monárquico e a
escravidão (Pimenta, 2002).
No Congresso de Tucumán, em 9 de julho de 1816, a proclamação da independência
das então Províncias Unidas do Rio da Prata contribuiu para que a construção da ideia de
nação estivesse vinculada ao Río de la Plata. Este aparecia em associação com o Estado, o
Congresso, a Constituição, e a forma de governo instituída. A soberania pensada para este
novo regime de poder, advinda de ideias das Revoluções Francesa e Americana, concebem
um tipo de relação entre os representantes e seus representados por meio de um contrato.
Tal concepção sustentava a formação de um Estado unitário em oposição à defesa de uma
série de hegemonias existentes no vice-reinado. Nesse ínterim, a coexistência do cabildo
como um representante das cidades frente a assembleias e aos poderes centrais – os quais
pleiteavam um poder nacional – pautaram as indefinições políticas dos primeiros anos
revolucionários.

60 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 60-78, janeiro-abril 2019
O Rio da Prata, a independência e a abolição:
perspectivas de liberdade dos escravos no além-fronteira

Escravos em guerra: batalhões em nome da Pátria

“[...] piensa valerse de los negros y mulatos esclavos de los españoles, dándoles libertad con tal
de que se hagan soldados y ciertamente ésta es mucha mejor milicia que la del país.” (Baltazar
de Cisneros, 1810)2

Durante muito tempo, o papel das populações negras nas Américas foi interpretado
como parte do processo de colonização europeia, no qual a benignidade do sistema escravista
transparecia em muitas das interpretações correntes sobre o mundo colonial e independente.
A historiografia americana inspirou-se nos trabalhos de Frank Tannembaum (1946) sobre os
Estados Unidos e as diferenciações entre os sistemas escravistas desenvolvidos nas Américas,
em que o papel das leis era pedra de toque para a compreensão do mundo dos escravos e seu
papel naquelas sociedades. No caso da historiografia brasileira, o trabalho de Gilberto Freyre
(1933) foi fundamental para a difusão de uma visão benevolente do sistema escravista na
América lusitana – alcunhado de “democracia racial” – em contraposição ao mundo colonial
anglo-francês. As comparações são elemento metodológico importante para a execução de
um modelo mais amplo de História. Seguindo as ideias Tannembaum, Herbert Klein e Cláudio
Véliz se preocuparam com as comparações no âmbito das leis e das instituições nas sociedades
ibéricas, tendo como norteadores as colônias do Império Britânico (Armitage, 2004: 17-18).
Nos anos 1980, mudanças no modo de fazer História deram lugar a outras interpre-
tações sobre o passado. De análises com um viés quantitativo, passamos a uma abordagem
onomástica dos grupos subalternos na qual, segundo Secreto (2016: 443), era possível tra-
balhar “a subjetividade do vivido, combinando micro-história com história social, ou história
da cultura com micro-história”. Nesta linha de raciocínio, a escravidão passou a ser estudada
a partir das concepções de liberdade, e os historiadores buscavam nas fontes existentes as
ações e possibilidades do escravo na condição de protagonista nas sociedades construídas
nas paragens atlânticas. Este protagonismo do escravo passou a ser alvo de inquietação dos
historiadores, e uma série de trabalhos envolvendo a família, as relações sociais, a cultura, a
religiosidade, a resistência e a justiça foram publicados, dando uma nova face aos estudos
sobre a escravidão (Schwartz, 2009: 190-192).
A produção historiográfica sobre a escravidão no Rio da Prata despontou a partir
dos anos 1980 com temas e problemas da História Econômica e Social (Socolow, 1984).
Alguns autores ressaltaram aspectos importantes da presença negra na América hispânica
colonial e o papel desempenhado por esses agentes em questões sociais, econômicas e
culturais do estuário platino, proporcionando releituras de um passado histórico branco e eu-

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Hevelly Ferreira Acruche

ropeu a partir dos chamados grupos subalternos (Andrews, 1989; Johnson, 1976: 333-348;
Studer, 1984). No que tange a Argentina colonial e independente, um processo de exclusão
das populações negras foi realizado para dar lugar à construção de um país branco e euro-
peu nas Américas de inícios do século XX. Um dos argumentos reiterados para tal exclusão
e para o endosso da tese do desaparecimento das populações negras da capital argentina
foi justamente as lutas de independência travadas a partir de 1810 e sua incorporação aos
exércitos revolucionários (Andrews, 1989).
Nesta direção, cabe ressaltar que o Exército era uma instituição que aceitava os escra-
vos desde os inícios da colonização hispânica. O uso de batalhões formados por morenos,
pardos e negros era corriqueiro para as defesas do Império Espanhol (Mallo; Telesca, 2010).
Valores como bravura e a defesa do território em nome de Sua Majestade Católica foram
acionados por alguns negros com a finalidade de sair da escravidão. No contexto do processo
de independência, não foi muito diferente. O uso de negros escravizados nas tropas, fossem
elas formadas exclusivamente por negros ou lideradas pelas elites criollas – e a liberdade era
vista como moeda de troca –, seduziu muitos cativos, ao passo que também desestruturava
as bases de domínio estabelecidas por seus senhores. A condição escrava nas guerras de
independência ficou fragilizada.
O vice-rei Cisneros apontava que, embora não desejasse, precisava utilizar a força dos
negros para a defesa do Rio da Prata contra as forças espanholas. Uma das medidas adotadas
por ele naquele momento foi a libertação de escravos dos espanhóis para compor as forças
no campo de batalha. Com a formação da primeira Junta, liderada por Cornelio Saavedra em
1811, os ânimos se exaltaram. Um de seus generais, Rondeau, chegou a Montevidéu – local
onde os contrarrevolucionários ou realistas estavam alojados – e prometeu a liberdade aos
escravos em troca de seu serviço no Exército. Tal promessa teve repercussão no meio daqueles
homens, e muitos se juntaram às tropas revolucionárias. Porém, após algumas negociações
com os senhores de Montevidéu, os escravos que foram para os batalhões de Buenos Aires
acabaram sendo devolvidos (Bernand, 2010).
Nesta direção, percebemos que a revolução liderada por Buenos Aires culminou num
campo de possibilidades aos escravos em que, de um lado, havia o sentido de obtenção da
liberdade e, de outro, certo temor construído pelos donos e autoridades a respeito dos escra-
vizados (Chavez, 2009). De acordo com Marta Goldberg (2010), havia distintas formas de
ingresso nos batalhões negros no Prata, as quais iam desde doações de senhores em nome da
causa revolucionária, o uso de prisioneiros – livres ou não –, até a prática do corso e o resgate.
A vontade dos escravos também era levada em consideração, e servia como um dos caminhos

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O Rio da Prata, a independência e a abolição:
perspectivas de liberdade dos escravos no além-fronteira

para a aquisição tanto de homens para as tropas quanto para o fim do cativeiro. A partir de
1813, regimentos próprios de negros escravos foram montados. Os mesmos serviriam à pátria
por cinco anos nos exércitos de linha, e obteriam a liberdade quando seu tempo de serviço
terminasse (ibidem: 45-49).
O caso dos resgates é interessante. O Estado solicitava aos senhores a entrega de pelo
menos um escravo para compor as tropas desde maio de 1813. Desta primeira prerrogativa
legal, surgiram outras de acordo com as demandas que apareciam tanto por parte do Esta-
do quanto dos proprietários. Havia uma comissão própria para realizar os resgates, de modo
que o senhor deveria entregar o cativo em troca de um valor a ser pago pelo governo – valor
este que era irrisório se comparado ao custo do escravo para o senhor. Inicialmente, este
programa não sofreu muita resistência por parte dos escravos, o que não se pode dizer dos
senhores, ciosos de perderem suas propriedades para o governo e para a guerra (Andrews,
1989: 140).
Diante das manobras realizadas para evitar o envio de escravos às tropas, em dezembro
do mesmo ano de 1813 o Estado revolucionário solicitou que os senhores que possuíssem
mais de um escravo e não tivessem contribuído à causa oferecessem um escravo para uma
listagem a ser feita pela comissão de resgates e, daquele conjunto, seria realizado um sorteio
dos que seriam enviados para o Exército. Outros proprietários, entre os quais aqueles que pos-
suíam excedentes, deveriam enviar o nome de um escravo para cada excedente a fim de que
fosse realizado o sorteio. Respectivamente, teríamos de cada tipo de proprietário em torno de
15% e 30% das tropas (Bernard; Quijada; Schneider, 2000: 127).
Os escravos dos espanhóis eram alvos potenciais destas ações do Estado. O caso do
médico d. Miguel de Gorman se enquadra no que abordamos anteriormente. Segundo infor-
mações, Gorman tinha em seu poder três escravos homens, dos quais nenhum fora enviado
ao batalhão de Libertos. O médico alegava que Pedro, de 23 anos, era o único que estava a
seu serviço. O outro, chamado Joaquim, com 24 anos, “hace el espacio de dos meses que lo
tiene con papel de venta, aguardando [que de] un día para otro le presente comprador”. O
último, Gregorio, de 9 anos de idade “lo ha tomado fiado a Ermenegildo Echavia, a quien le
tiene dado en cuenta de pago una cierta parte en alquileres”.3 Dadas estas informações, que
evidenciam a pluralidade das relações de trabalho estabelecidas nas cidades hispano-crioulas,
o médico achou que seu caso constituía uma exceção ao bando que dispunha sobre o tema
do resgate de escravos.
Em 1815, o médico notificava as autoridades de Buenos Aires a fuga de Gregorio, o
qual deveria ter entre 11 e 12 anos de idade. Segundo o médico, o escravo sentou praça de

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Hevelly Ferreira Acruche

soldado no Regimento de número 10. Solicitava que, com base na justiça, “se me devuelva
y entregue dicho mulato; pues carezco de su servicio”, posto que o médico se encontrava
de cama. Outro argumento usado pelo médico foi o de que o nome de Gregorio não estava
incluído no bando publicado “para q. los Europeos Españoles entreguense sus esclavos para
el servicio de la Patria”.4 Pelas leis, escravos menores de 16 anos não deveriam incorporar as
tropas; contudo, podemos perceber que esta norma não fora levada em consideração. Miguel
Pestana, de 10 anos, e Antonio Molera, de 8, foram enviados ao serviço das armas e tiveram
como resgate 140 e 100 pesos, respectivamente. Possivelmente estes menores foram usados
como tambores nas tropas.5
Outro caso que tinha como precedente o bando de 1813 foi o da senhora dona Juana
Azevedo, esposa de d. Juan Lopes. A mesma afirmou que, devido ao último bando expedido,
pelo qual os europeus deveriam entregar os escravos que tivessem idades entre 16 a 30
anos, seu marido entregou o único escravo que tinha, chamado Juan. Sua súplica consistia
basicamente em “entregar otro Negro à satisfaccion de la Comisión q. estoy pronta a comprar
pª rescatar al expresado negro Juan”.6 Tal troca deveria ser realizada posto que houve muito
empenho em ensinar ao escravo o ofício de seu marido para subsistência e sustento da famí-
lia. Escravos com alguma especialização eram valiosos para seus senhores, o que explicava o
pleito de dona Juana na medida em que a sobrevivência de sua família estava em jogo caso
o escravo não fosse devolvido.
D. Juan Batista Mujica apresentou uma solicitação semelhante. Ele havia entregado dois
de seis escravos que tinha sob seu domínio quando da publicação do bando. Um deles foi
considerado inapto para o serviço militar; e aqueles que foram selecionados para substituir o
escravo arrumaram outros meios para fugir deste serviço. Com isso, Mujica teve de apresentar
todos os seus criados à comissão de resgate, e Antonio foi escolhido. Era ferreiro de ofício,
“[...] y el único que dirige y trabaja en la Herrería”.7 Por Antonio, Mujica ofereceu dinheiro
para substitui-lo, o que lhe foi negado; propôs comprar um escravo que pudesse satisfazer
a comissão e realizar uma troca, o que foi aceito. Antonio foi trocado por um negro de 18
anos de idade, “sano, robusto, y q. llena los deseos de la Comisión misma; pero se excusa a
aceptarlo a pretexto de hallarse filiado el Antonio”.8 Mujica se sentia lesado em seus direitos
e interpretava o fato:

Sobre todo la dificultad, parece que está reducida a dar de baja un soldado que debió ser ex-
cusado legitimam[en]te, y yo reduzco mi solicitud á q. V.E. se sirva mandar que se me admita el
que presento en su remplazo [...] y se me devuelva el Antonio.”9

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O Rio da Prata, a independência e a abolição:
perspectivas de liberdade dos escravos no além-fronteira

Dias depois, o escravo Antonio foi devolvido ao seu senhor,10 o que mostra também a
necessidade de o governo arbitrar a questão dos escravos arrolados para a guerra de modo
a não afetar os interesses diretos de seus donos. Os sorteios envolvendo escravos de proprie-
tários espanhóis poderiam suscitar uma série de problemas nos quais o direito à propriedade
acabava sendo um princípio norteador das ações contrárias à comissão de resgate. Substituir
os inválidos, bem como escravos com algum tipo de especialização, representava despesas aos
senhores, seja para enviar outro escravo e realizar uma troca, seja para sustentar o que fora
enviado ao sorteio e não aproveitado pela comissão. Desta forma, de uma inicial corrente de
ânimo em torno da causa revolucionária, os resgates passaram a ser questionados por meio
de petições e pedidos de abonos ao governo, motivados pela dependência econômica dos
senhores em relação aos escravos arrolados nos sorteios (Andrews, 1989: 140).
Outro elemento importante era o valor do resgate. Um exemplo é o caso do escravo
Gerônimo Balbino, o qual foi reclamado por seu senhor “ó su importe por su tasación [...]
que al poco tiempo de su compra se me huyó”. Em resposta, datada de 23 de novembro,
afirmavam que não poderiam se desfazer do escravo por “no tener facultades para reponer
el q. reclama”, podendo ceder em seu valor em duzentos pesos, “rebajando de su total valor
cincuenta pesos [,] inclusa la deuda de Alcabala”.11 Nesse caso, o senhor tinha prejuízo na
medida em que gastara um determinado valor e receberia em torno de 150 pesos pelo escra-
vo. Se considerarmos que, em média, o proprietário poderia receber 200 pesos pelo resgate;
os mesmos tinham prejuízos consideráveis, pois o valor dado pelo Estado era muito menor do
que o escravo valia (Bernand; Quijada; Schneider, 2000: 127).
Além das discussões em torno do preço ou da devolução do escravo ao seu proprietário,
havia também a questão dos inválidos e a constante ameaça de fugas. Aqueles considerados
incapacitados pela comissão de resgates deveriam ser devolvidos aos seus senhores e, por
conseguinte, substituídos por outros do mesmo proprietário. Em 1814, houve a notificação da
fuga de dois escravos, chamados José e Gordiano, fugidos da Vila do Rosário, de propriedade
de d. José Diaz.12 Os escravos foram conduzidos ao seu dono pelo tropeiro d. José Antonio
Villa, o que se explica pelo fato de eles serem considerados inúteis no Batalhão número 8.13
Estes escravos deveriam ser substituídos por seu senhor no serviço das armas. No entanto,
o referido tropeiro deveria conduzir o Batalhão número 9 e, por isso, deixou os escravos aos
cuidados do juiz territorial da Vila dos Ranchos.14 De acordo com o juiz de Santa Fé, Pedro
Ferreira, o tropeiro afirmou que os referidos escravos fugiram das carretas quando ele chegou
a Buenos Aires e solicitou aos seus superiores que fossem capturados.15 No caso arrolado, a
mobilidade dos escravos no percurso até chegar a seu senhor em Rosário acabava por auxi-

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Hevelly Ferreira Acruche

liá-los no empreendimento da fuga, pois podiam se misturar a outros de cor negra viventes
nas cidades platinas.
Na fronteira de Buenos Aires, esta possibilidade também era evidente. Dona Maria Josefa
Chaves, viúva do tenente-coronel d. Manuel Fernandes, do Regimento de Blandengues, disse
que um negro chamado Santiago, com aproximadamente 20 anos de idade, são e sem vícios
conhecidos, havia fugido “de mi lado en el partido de Chascumús”.16 Informou também que
o escravo havia se apresentado no serviço militar e que descobriu tal informação por casuali-
dade, visto que alguns membros do Batalhão de Aguerridos estavam realizando exercícios na
praça principal da cidade. Ao saber disso,

“Inmediatamente reclamé a mi Esclavo, y sobre ello hablé con el Comandante del Batallón,
quien impuesto a mi reclamación, me contestó q. hacía pocos dias q. habia sido aprendido
como vago y conducido como tal desde las Conchas donde corría por libre; y bajo este concepto
filiándola. El esclavo confesó en el acto ser yo su ama pero con en el mismo acto manifestase
alguna inclinación al ejercicio militar quedé en recurrir a V.E. pª q. sirviéndose disponer y me
entregara su importancia de un modo efectivo, pudiese continuar en el mismo servicio de las
armas; o si no me fuese entregado el Esclavo conservándose entre tanto como detenido”17

Provavelmente Santiago sabia das notícias envolvendo o recrutamento de homens de cor


e, consequentemente, a obtenção da liberdade em contrapartida. Possivelmente fugira para
alcançar tal objetivo. Por outro lado, o escravo, considerado um homem vago pelas autorida-
des militares da região, foi visto como um alvo fácil para o recrutamento. A resposta, dada
em 3 de janeiro de 1818, colocava em evidência o direito de a senhora requerer o escravo,
devendo assim deliberar para que o resgate fosse realizado. Portanto, o direito à propriedade
pesava tanto quanto o direito à liberdade. Por outro lado, pode se afirmar que muitos negros
conseguiram obter certo prestígio e ascensão no serviço das armas, tornando-se heróis daque-
les tempos (Andrews, 1989).
Embora houvesse dificuldades em torno do resgate dos escravos, esta era uma forma de
obter um número expressivo de homens para compor as tropas revolucionárias. Nesse sentido,
o projeto era positivo. Defender a pátria era fundamental, ainda que uma das moedas de troca
para isto fosse a liberdade dos escravos. As guerras pela independência no Rio da Prata ero-
diam as bases da escravidão, embora houvesse resistências por parte dos senhores. Viajantes
da época, como Emeric Vidal, observavam que este projeto de resgates era benéfico, expressão
da benignidade porteña para o fim da escravidão. Contudo, este não levava em consideração
as dificuldades inerentes ao processo de obtenção da liberdade: a necessidade de servir por
mais um ou dois anos no campo de batalha, as intempéries e a própria sobrevivência dos
cativos para usufruir de tal liberdade (idem).

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O Rio da Prata, a independência e a abolição:
perspectivas de liberdade dos escravos no além-fronteira

A abolição não foi fruto imediato da independência, porém a gradual extinção do traba-
lho escravo foi uma das consequências de tal processo. De acordo com Maria Eugenia Chavez
(2009), é importante analisarmos os significados distintos que a palavra liberdade assumiu
naquele momento como forma de compreender melhor as ações dos escravos no período
das guerras de independência. A liberdade poderia estar condicionada à guerra, ou ser fruto
do costume ou mesmo ser uma prerrogativa alcançada com o uso das leis e das instituições.
Ademais, a concepção de que o serviço militar poderia libertar os cativos atraiu, por um lado,
pessoas escravizadas de várias paragens do Prata e, por outro lado, escravos vindos de suas
fronteiras, em especial do Brasil. A promessa de liberdade no solo das Províncias Unidas,
associada ao contexto de guerras pela defesa da pátria contra o inimigo espanhol, não en-
volveu apenas os interesses dos senhores da futura Argentina, como também o de senhores
luso-brasileiros viventes no Rio Grande do Sul, os quais assistiam aos acontecimentos do
Prata com preocupações que esbarraram também no âmbito do relacionamento diplomático
daqueles anos.
O decreto de 4 de fevereiro de 1813 provocou impactos nas escravarias da fronteira
meridional: “La Asemblea General ordena que todos los Esclavos de países estrangeros, que
de cualquier modo se introduzcan desde este día en adelante, queden libres por solo el hecho
de pisar el territorio de las Provincias Unidas.” 18
Entre os anos de 1810 e 1812, pode se afirmar que as fugas escravas do Rio Grande
rumo ao Rio da Prata foram pouco expressivas. O mesmo não se poderá dizer dos anos seguin-
tes. O decorrer dos processos de independência das futuras repúblicas hispano-americanas
gerou uma série de problemas tanto internos quanto externos. Se, por um lado, havia o cres-
cente exagero das autoridades portuguesas com relação à movimentação de escravos pela
fronteira meridional, por outro, havia uma série de objetivos geopolíticos envolvidos, entre os
quais a consolidação de uma política de intervenção no Prata e assegurar uma determinada
territorialidade que integrasse o Amazonas ao Prata no conjunto da colônia luso-brasileira e,
posteriormente, o Império do Brasil.
Quando da Revolução de Maio, as autoridades de Montevidéu permitiram uma primeira
intervenção portuguesa no Prata, em 1811. Tal intervenção tinha duas razões: a primeira de-
las é sua posição estratégica, numa das margens do estuário platino. A segunda consistia na
riqueza da Banda Oriental, a pecuária (Ferreira, 2014: 325). A união de Artigas com Buenos
Aires contra os espanhóis de Montevidéu culminou no envio de uma “força pacificadora”
por d. João VI. A pressão envolvendo portugueses e portenhos permitiu a assinatura, em
1812, de um armistício entre Buenos Aires e Portugal. Este armistício ficou conhecido como

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Hevelly Ferreira Acruche

Tratado Rademaker-Herrera. De acordo com Gabriel Aladrén (2012: 256-257), se por um lado
o armistício tinha por premissa a retirada das tropas lusitanas de Montevidéu, por outro, a
guerra entre os interesses centralistas de Buenos Aires e as propostas confederadas de Artigas
mantinha o clima de instabilidade na região, promovendo problemas de ordem internacional
que ameaçavam os interesses lusitanos naquelas fronteiras.
Tanto o governo português quanto o de Buenos Aires acordaram na não invasão dos
territórios a fim de esperar o final do conflito para solucionar questões relativas às terras dos
campos neutrais e da Lagoa Mirim. As questões sobre o que fazer com estas paragens e outras
querelas envolvendo limites deveriam ser resolvidas sob o arbítrio das Majestades Católica e
Fidelíssima quando a paz se restabelecesse. Porém, se a questão territorial era deixada para
outro momento, a circulação das pessoas pela fronteira deveria ser solucionada. O conde
de Linhares escrevia, entre outros pontos considerados relevantes aos portugueses para a
negociação do armistício, a recíproca libertação de portugueses e espanhóis aprisionados nos
territórios espanhol e português, os negociantes portugueses “presos em Buenos Aires [...]
assim como entregarão todos os Escravos fugidos a Portugueses empregados no Exército de
Buenos Aires aos quais Rondeau deu Cartas de Liberdade ou de d’Alforria, e que montão a
mais de oitocentos”.19
Não sabemos se o general Rondeau chegou a libertar esse número de oitocentos escra-
vos ou se consistia num certo exagero do conde de Linhares para solucionar mais rapidamente
a questão. O que podemos depreender é que, naquele momento, os bens e propriedades dos
portugueses presos em Buenos Aires ou que perderam seus escravos pelas ações no Prata de-
veriam ser assegurados por seu governo, representado na figura de d. João VI, que apreciava
o andamento das negociações. Portanto, o problema das demarcações de fronteira estava
em segundo plano, ao passo que os escravos fugitivos consistiam numa questão de primeira
ordem para as autoridades lusitanas.
A assembleia do ano XIII foi fundamental para o amadurecimento dos projetos de inde-
pendência, bem como apontava para os possíveis caminhos da emancipação política. Diante
da negativa à proposta artiguista, os conflitos envolvendo, de um lado, a Banda Oriental e ou-
tras províncias e, de outro, Buenos Aires, prevaleciam. Naquele mesmo ano, foi assinada uma
lei que previa a liberdade de ventre das escravas, e um decreto em que se concedia a liberdade
aos escravos pelo simples fato de haverem pisado o território das Províncias Unidas do Prata.
Por isso, o aumento das fugas escravas do Rio Grande para a fronteira do Prata tornou-se um
assunto recorrente entre as autoridades diplomáticas. De acordo com o conde de Galvêas, este
fato novo causava inquietações ao ânimo de Sua Alteza Real, o príncipe regente. Seguindo

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O Rio da Prata, a independência e a abolição:
perspectivas de liberdade dos escravos no além-fronteira

seu raciocínio, tal decreto poderia “[...] atentar direta e positivamente contra a segurança da
Propriedade individual dos vassalos residentes nas Capitanias limítrofes”.20
Para o conde, isso abalava as relações de amizade e confiança, além da boa-fé entre
as duas partes. Para demonstrar isto, colocava em evidência o papel da Convenção de 26 de
maio de 1812, ou seja, o armistício que retirou as tropas pacificadoras de Montevidéu. Tal
procedimento do governo de Buenos Aires tinha como consequência a “furtiva passagem que
começam a fazer os Escravos dos Habitantes da Capitania de São Pedro”.21 Solicitava, assim, a
pronta devolução dos fugitivos, e que diligências fossem realizadas para evitar a continuidade
de um “semelhante mal”.22 Embora os portugueses usassem o armistício como argumento
para legitimar seus pedidos de devolução dos escravos, o mesmo princípio não estava inserido
na lei. Ou seja, as argumentações traçadas pelo conde de Linhares para o retorno dos escravos
não foram aceitas como parte do acordo entre Brasil e Buenos Aires, embora, para as autori-
dades hispano-crioulas, ficasse evidente que o “problema dos escravos” seria solucionado tão
logo terminasse a guerra. Por isso não se estranha certa antipatia das autoridades luso-brasi-
leiras com relação a este acordo.
Pode se afirmar que o decreto de 1813 trouxe a continuidade de traços coloniais, tais
como a manutenção do derecho de asilo espanhol, que desde as Reais Cédulas do século XVIII
tratava da libertação de escravos oriundos de colônias estrangeiras. Esta continuidade pode
ser justificada pelas agruras da guerra e a constante necessidade de recursos e homens, sendo
a liberdade um meio para atrair pessoas escravizadas ao Prata. O decreto também reafirmava
uma série de dificuldades diplomáticas envolvendo o Brasil, pois o aumento das fugas escra-
vas poderia ser indicativo de perdas de homens leais ao reino português. Isto fica mais claro
na medida em que as constantes reclamações portuguesas no decorrer daquele ano eram
pautadas no decoro “de seus direitos de soberania, e utilidade de seus vassalos”.23 Nesse
ínterim, manter a propriedade escrava dos súditos do Rio Grande do Sul era fundamental para
a garantia daquele território frente aos conflitos envolvendo Buenos Aires e a Banda Oriental.
Os efeitos deste decreto e do armistício foram negativos aos interesses dos senhores
luso-brasileiros. Suas desvantagens eram expressas em narrativas veiculadas pela imprensa
daqueles tempos. O Correio Braziliense, cujo editor era Hipólito José da Costa, analisava o im-
pacto das investidas de Artigas no conjunto das fronteiras luso-brasileiras. Segundo o mesmo
editor “Tendo Montevidéu caído nas mãos dos Insurgentes, logo eles começaram a infestar as
fronteiras do Brasil, e a convidar os Índios e os Negros que se revoltassem”.24
A imprensa, importante veículo de circulação de notícias sobre o andamento dos rumos
políticos do Prata, foi fundamental para a formação de novas identidades políticas, espelhan-

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do de um lado uma noção de unidade luso-brasileira em relação à anarquia e às imprecisões


políticas vividas no Império Espanhol. Isto seria crucial para a formação de identidades po-
líticas e a conceituação de temas como Estado, nação, república, e governo. Este processo,
analisado por João Paulo Pimenta mediante periódicos do período, nos evidencia uma série de
problemas em torno da legitimidade do poder e os caminhos políticos pensados tanto pelos
líderes dos processos de independência quanto contidos nas intenções e expectativas dos
editores de jornais (Pimenta, 2002).
Ademais, no que diz respeito ao decreto de 1813, podemos pensar seus efeitos pelo
menos em duas frentes: uma envolvendo as relações entre os lusitanos e Buenos Aires, e outra
envolvendo os mesmos lusitanos e Artigas, o qual se esquivava das instruções para a devolu-
ção dos escravos, alegando que as mesmas não eram de sua responsabilidade, na medida em
que seu “mando en esta Provincia es puramente militar, y asuntos de esta classe no son de
mi resorte”.25 A passagem dos escravos para territórios hispânicos continuava, o que causava
alarde às autoridades diplomáticas e aos senhores de escravos do Rio Grande de São Pedro, e
mostrava tanto a insegurança das fronteiras quanto a ameaça à propriedade.
Alguns casos são elucidativos dos problemas envolvendo os portugueses e Artigas
na Banda Oriental. Suas ações na campanha contra Buenos Aires eram objeto de atração
para os escravos, sobretudo pelas promessas de liberdade em torno do serviço militar. Em
novembro de 1813, Pedro Fagundes de Oliveira remetia uma reclamação ao governo em
que dizia que oito escravos de sua propriedade passaram “além do Rio Negro [...] fugidos”
e enviava a filiação dos mesmos para que fossem “[...] remetidos, por via do meu bastante
Procurador, para cujo fim o tenho constituído, e lhe abdicado todos os meus poderes sobre
semelhante objeto”.26
Além disso, Fagundes assegurava que reclamou os escravos a Artigas, presumindo que
este tinha autoridade sobre a causa reclamada, mas o dito general “[...] me faz ver pelo Seu
horroroso ofício, q. não é de sua jurisdição deliberar sobre semelhantes assuntos”.27 As es-
cusas de Artigas para arbitrar a questão dos escravos eram, para as autoridades e senhores
do Rio Grande, uma afronta. Já para os escravos, significavam uma forma de proteção e asilo
frente ao cativeiro, o que garantia sua mobilidade pelos territórios fronteiriços. Nesse ínterim,
fugas individuais e coletivas ocorreram nas paragens do Prata associadas tanto ao contexto
da guerra quanto à possibilidade de aquisição da liberdade – o que corrobora o protagonismo
dos negros tanto nas lutas pela independência política quanto pela sua emancipação indivi-
dual. Dias depois, o mesmo Pedro Fagundes noticiava a Francisco Xavier Curado o andamento
das tropas de Artigas na fronteira, e contava que dois espanhóis, chamados Francisco de Oli-

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O Rio da Prata, a independência e a abolição:
perspectivas de liberdade dos escravos no além-fronteira

veira e Lourenço, estavam mancomunados para fugir com todos os seus escravos e os de seus
vizinhos, e que no dia combinado para o embuste,

[...] prendi uns, e fugiram outros, de sorte que pelas diligências que fiz foi preso o dito Olivei-
ra, em um mato com dois Escravos meus, e uma Escrava que já trazia de Cerro Largo, tendo
então já feito prender o outro Espanhol seu companheiro, os quais remeti à prisão da Vila
do Rio Grande.28

Ao passo que as negociações com Artigas se complicavam na Banda Oriental, em Buenos


Aires os interesses lusitanos na devolução dos escravos seriam obtidos. Consta que em 1814 o
governo revolucionário ordenou que todo escravo fugido do Brasil deveria ser devolvido a seu
dono (Andrews, 1989; Blackburn, 2002). Em Montevidéu, esta medida foi tomada em agosto
do mesmo ano. De acordo com o documento, ficava determinado que todos os escravos que
foram roubados dos vizinhos e se achassem em poder dos apresadores seriam devolvidos a
seus donos toda vez que fossem reclamados e tivessem sua propriedade justificada.29
Levando em consideração que Montevidéu estava sob o mando dos contrarrevolucioná-
rios espanhóis naquele momento, compreendem-se os interesses envolvidos em tal decisão.
Com os rumos incertos da política do Prata e a continuidade do cativeiro do rei Fernando VII, a
quem se mantinham fiéis pela monarquia, os mesmos mantinham uma aliança com Portugal
pela imprevisibilidade dos acontecimentos, em caso de um conflito maior com Artigas e com
Buenos Aires. Desde que o proprietário justificasse a propriedade, o escravo era devolvido a
seu legítimo senhor ao partir da premissa de que a propriedade valia mais do que a liberdade.
Além disso, Artigas controlava as fronteiras, e os escravos fugidos eram incorporados a seu
exército. Compreende-se as motivações para a revogação do decreto de 4 de fevereiro de
1813, posto que as tropas inimigas eram engrossadas por batalhões, desfavorecendo tanto
Buenos Aires quanto Montevidéu (Aladrén, 2012: 270).
Contudo, as brechas da legislação permitiam a continuidade de um trânsito de escravos
pela fronteira justificado pelo seu uso pessoal ou pelas necessidades da guerra. Em Monte-
vidéu, um decreto de novembro de 1814 dizia que os escravos fugidos daquela praça que se
encontrassem nas mãos de paisanos e oficiais, os quais mantiveram estes escravos sob seu do-
mínio, deveriam ser imediatamente enviados ao Batalhão de Libertos número 10. Esta medida
também era ameaçadora aos portugueses, pois escravos de sua propriedade poderiam estar
a serviço de algum oficial ou paisano no Prata.30 Por outro lado, algumas famílias em Buenos
Aires incorreram a permissões especiais para trazer escravos para si mesmos. Além disso,
escravas grávidas também eram trazidas de outros locais ao Prata para dar à luz filhos que se-
riam escravos, driblando os efeitos da Lei do Ventre Livre, de 1813. Nesse ínterim, as medidas

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 71-78, janeiro-abril 2019 71
Hevelly Ferreira Acruche

tomadas pelos senhores do Prata para garantir acesso à mão de obra africana prevaleciam
frente aos interesses em torno da liberdade dos mesmos (Andrews, 1989: 65). Era mais uma
forma de manter o trabalho escravo e, consequentemente, o sistema escravista vigorava na
contramão do processo de abolição no Rio da Prata.
No que tange ao conflito, o ano de 1814 foi emblemático na medida em que as tropas
artiguistas foram derrotadas e precisaram realizar um acordo diante da tomada de Montevi-
déu pelos portenhos. Os portenhos precisavam derrotar Artigas e conseguir um maior controle
sobre a Banda Oriental. Este acordo, pelo qual o líder da Banda Oriental deveria reconhecer
o governo das Províncias Unidas, bem como abrir mão de suas pretensões na região de Entre
Rios, não durou dois meses. Os conflitos foram retomados, abrindo uma fase de maior radica-
lização política contra as forças de Buenos Aires. O apoio da população da Banda Oriental foi
fundamental a este processo (Aladrén, 2012: 274).
Pelo lado lusitano, os registros das reclamações pelos escravos fugitivos continuavam. O
marquês de Alegrete escreveu em 1815 uma reclamação a Artigas pelos escravos fugitivos do
Rio Grande. Como resposta, recebeu:

Cuantos Esclavos han venido de esos Territorios, otros tantos he devuelto al reclamo de sus
dueños. Los Morenos que actualmente sirven en mi Ejército son desertados de las Tropas
de Buenos Aires: Aquel Gobierno será responsable de su comportación, y no es regular que
manteniendo con él la guerra le haga las reclamaciones que V.E. reclama y que adjunto
devuelvo.31

Podemos perceber que o assunto dos escravos fugidos para as terras espanholas con-
tinuava a fazer parte do bojo das argumentações portuguesas com Artigas. Nesse sentido,
uma questão importante é pensar o impacto ameaçador das campanhas artiguistas na Banda
Oriental que, ao passo que atraía os povos indígenas e negros para o confronto, atemorizava
portugueses, espanhóis realistas e hispano-crioulos de Buenos Aires. Inicialmente apoiado
pela junta de Buenos Aires, Artigas tornou-se, nas palavras de João Paulo Pimenta, um “prota-
gonista de um projeto político próprio” que se opunha a outras concepções políticas em curso.
Em adição a tal aspecto, a ocupação territorial era cada vez mais importante na medida
em que tanto para portugueses quanto para realistas o uso dos territórios era imprescindível
para a manutenção da soberania e da obediência aos poderes de Sua Majestade o rei Fernan-
do VII. Nesse ínterim, a mola propulsora das intervenções lusitanas foi a ocupação territorial
para dar conta de uma ordem em meio ao caos representado pela figura de Artigas. Além da
constituição de novas identidades políticas, as intervenções lusitanas também expunham a
debilidade das províncias do Império Espanhol, e o caminho pela independência tornou-se

72 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 72-78, janeiro-abril 2019
O Rio da Prata, a independência e a abolição:
perspectivas de liberdade dos escravos no além-fronteira

uma escolha após o retorno de Fernando VII ao poder e sua necessidade de reaver seus vastos
domínios na América.

***

No decorrer das linhas deste artigo, foi possível perceber que a constituição de novas
identidades políticas também acarretou a formação de novas territorialidades. Mesmo com a
ideia de delimitar as fronteiras, tais tentativas malograram nos conturbados anos da indepen-
dência política, os quais também culminaram na abolição gradativa da escravidão nas futuras
repúblicas hispânicas (Andrews, 1989; Pimenta, 2002: 122). A mudança de categorias analíti-
cas deste período nos evidencia também as mudanças nas concepções de mundo vivenciadas
no contexto da crise do mundo colonial. Novas ideias, novos caminhos e expectativas surgiram
no decorrer deste processo envolvendo os interesses de diversos grupos sociais. É possível
perceber uma maior visibilidade nesse processo na medida em que a soberania, antes oriunda
do rei e de sua relação com os súditos, passava a emanar do povo.
Ao passo que no período colonial temas como a ocupação e defesa de um dado território
legitimavam a posse da terra, nos primeiros anos do século XIX tal ocupação esteve imbri-
cada em termos mais abrangentes, tais como a relação do indivíduo com a terra, com seus
recursos, com as leis e seu impacto na vida cotidiana. Nessa direção, o status jurídico de uma
pessoa poderia ser modificado dependendo do local onde estivesse, ponto importante para
a compreensão do decreto de 1813 e de seus efeitos numa fronteira conturbada pela guerra
(Grinberg, 2007: 267-285).
A questão da liberdade do solo, premissa pensada pelo decreto de 1813, não estava pre-
sente apenas no universo dos escravos fugitivos dos senhores do Rio Grande; estava presente
também entre os povos indígenas e colonos da América hispânica. Como tal ideia se espraiou,
gerando anseios e expectativas a tão distintos grupos, separados pela condição jurídica e
social? Por um lado, pensamos que tal processo aconteceu na medida em que a presença da
Coroa Espanhola iria, gradativamente, representar um cativeiro que não cabia mais às elites
criollas. Por outro lado, a ideia de governar livremente um determinado território passou a
atrair indígenas que almejavam ter seus próprios líderes como representantes. Aos negros,
fugitivos ou não, a perspectiva da liberdade, fosse ao adentrar o solo das Províncias Unidas
do Prata, fosse para compor as forças artiguistas, representava um conjunto de expectativas e
possibilidades no decorrer daqueles anos – mesmo com as pressões lusitanas em torno de um
tema de difícil arbitragem: a devolução mútua e recíproca de escravos fugitivos da fronteira, o
que esbarrava nos preceitos de liberdade do cativeiro presentes no ideário político da América
espanhola recém-independente.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 73-78, janeiro-abril 2019 73
Hevelly Ferreira Acruche

A segunda intervenção lusitana, liderada por Carlos Lecor em 1817, esteve diretamente
associada ao andamento do processo de independência do Prata. A vitória portuguesa e sua
entrada na Banda Oriental culminou numa série de ações que, se por um lado objetivavam
manter o acesso lusitano aos recursos daquela região, também pulverizavam as dissidências
internas em prol de um interesse em comum. Nesse ínterim, a anexação da Banda Oriental ao
território do Brasil, a qual se chamaria província Cisplatina, bem como a consequente derrota
do artiguismo, em 1820, contribuíram a constituição de identidades políticas nas quais, se,
num primeiro momento, o domínio lusitano era visto como positivo, ele depois passou a ser
corolário de inimizades e de novas propostas políticas.
Num contexto belicoso e cambiante, as ações de escravos e seu ir e vir por fronteiras in-
determinadas foi aspecto importante para a obtenção de sua liberdade ou mesmo de uma me-
lhoria de sua condição no seio da escravidão. As possibilidades abertas de luta pela liberdade
num contexto de mudanças políticas mais amplas nos remetem à correlação existente entre a
liberdade da pátria e a liberdade dos povos, em que a persistência da escravidão era proble-
mática aos novos Estados Nacionais em formação naquele momento, e se transformou num
espaço de disputas com o Brasil, onde a escravidão foi mantida até fins do século XIX. Nesse
sentido, a relação entre as emancipações políticas, o serviço militar e a alforria aos escravos
marcaram os futuros Estados Nacionais, nos quais a participação dos negros como agentes
históricos foi fundamental para a instauração de regimes republicanos no Rio da Prata.

NOTAS

1 Tais ideias eram representadas, respectivamente, por Mariano Moreno e Cornelio Saavedra. Moreno era
considerado um radical ao pensar numa constituição, e veiculava suas ideias na Gazeta de Buenos Aires. Saa-
vedra, por sua vez, procurava diminuir a exaltação dos ânimos com uma proposta que mantinha a lealdade
ao monarca, sem, contudo, obedecer a Regência e as Cortes de Cádiz.
2 DOCUMENTOS REFERENTES a la insurrección de la ciudad de Buenos Aires en el año 1810. Biblioteca
Nacional de Madrid, MS 7.225, f. 3.
3 NOTA DEL Ayudante-Mayor de la Plaza, d. Jorge Robredo. Buenos Aires, 17 de agosto de 1813. Archivo
General de la Nación Argentina (Doravante AGNA). Esclavos (Rescate de guerra) – 1813-1817, sala X, 43-6-7.
4 RECLAMACIÓN DE d. Miguel Gorman. Buenos Aires, 14 de noviembre de 1815. AGNA. Esclavos (Rescate
de guerra) – 1813-1817, sala X. 43-6-7.
5 RESCATE DE los esclavos Miguel Pestana y Antonio Molera. AGNA. Policia. Libertos. Sala X. 43-6-9.
6 CARTA de Dona Juana Azevedo para el Excmo. Supremo Director de las Provincias Unidas del Río da Prata.
Buenos Aires, 23 de febrero de 1815. AGNA. Esclavos (Rescate de guerra) – 1813-1817, sala X, 43-6-7.

74 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 74-78, janeiro-abril 2019
O Rio da Prata, a independência e a abolição:
perspectivas de liberdade dos escravos no além-fronteira

7 REQUERIMIENTO de Juan Batista de Mujica. Buenos Aires, 08 de marzo de 1814. AGN. Esclavos (Rescate
de guerra) – 1813-1817, sala X, 43-6-7.
8 Idem.
9 Idem.
10 NOTA SOBRE el esclavo Antonio. Acampamento de Olivos, 10 de marzo de 1814. AGN. Esclavos (Rescate
de guerra) – 1813-1817, sala X, 43- 6-7.
11 RESCATE DEL esclavo Geronimo Balbino. Buenos Aires, 16 de noviembre de 1815. AGN. Esclavos (Rescate
de guerra) – 1813-1817, sala X, 43-6-7.
12 RESCATE DE los esclavos José y Gordiano. Córdoba, 09 de octubre de 1814. AGN. Esclavos (Rescate de
guerra) – 1813-1817, sala X, 43-6-7.
13 Este batalhão era formado exclusivamente por negros resgatados. Cf. Andrews, 1989.
14 RESCATE DE los esclavos José y Gordiano. Buenos Aires, 22 de agosto de 1814. AGN. Esclavos (Rescate
de guerra) – 1813-1817, sala X, 43-6-7.
15 Idem. Rosário, 26 de setembro de 1814.
16 RECLAMO DE Dueña María Josefa Chaves. Buenos Aires, 24 de diciembre de 1817. AGN. Esclavos (Res-
cate de guerra) – 1813-1817, sala X, 43-6-7.
17 Idem.
18 CÓPIA DO decreto de 4 de fevereiro de 1813. Arquivo Histórico do Itamaraty (doravante AHI). Documen-
tação do Ministério anterior a 1822. Época da independência – Rio da Prata (1812-1816). lata 193, maço
2, pasta 8.

19 CARTA do conde de Linhares para Diego de Sousa. Rio de Janeiro, 1o de novembro de 1811. Arquivo
Nacional do Rio de Janeiro (Doravante ANRJ). Coleção Artigas, tomo 6, p. 255-256.
20 CÓPIA DA carta do conde de Galvêas à Junta Governativa de Buenos Aires. Rio de Janeiro, 03 de novem-
bro de 1813. AHI. Época da independência (1813). Documentação anterior a 1822, lata 193, maço 3, pasta 9.
21 Idem.
22 Idem.
23 CARTA DO governo de S.A.R. o Príncipe Regente a D. Gervasio Posadas, Diretor Supremo das Províncias
Unidas. Rio de Janeiro, abril de 1814. AHI. Época da independência (1813). Documentação anterior a 1822,
lata 193, maço 2, pasta 11.
24 COSTA, Hipólito José da. Correio Braziliense, ou Armazém literário, v. 18, Londres, p. 652, 1817.
25 CARTA DE Artigas para Pedro Fagundes de Oliveira. Quartel General en Salto Chico Occidental, 11 de
octubre o de 1813. ANRJ. Coleção Artigas, tomo 8, p. 202.
26 CARTA DE Pedro Fagundes de Oliveira ao Governo Econômico. Guarda de Bagé, 02 de noviembre de
1813. ANRJ. Coleção Artigas, tomo 8, p. 210.
27 Idem.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 75-78, janeiro-abril 2019 75
Hevelly Ferreira Acruche

28 CARTA DE Pedro Fagundes de Oliveira a Xavier Curado. Guarda de Bagé, 10 de noviembre de 1813.
ANRJ. Coleção Artigas, tomo 8, p. 429-430.
29 OFÍCIO DE Nicolás Rodriguez Peña a Nicolás Herrera. Montevidéu, 1º de agosto de 1814. ANRJ. Coleção
Artigas, tomo 15, p. 183 – 184.
30 NOTA CIRCULAR dirigida por Manuel Estanislao Soler ao Cabildo de Montevidéu. Montevidéu, 11 de
noviembre de 1814. ANRJ. Coleção Artigas, tomo 16, p. 139.
31 OFICIO DE José Artigas al Capitán General de Porto Alegre, Marqués de Alegrete. Quartel do Paraná, 31
de marzo de 1815. ANRJ. Coleção Artigas, tomo 30, p. 218.

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Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 77-78, janeiro-abril 2019 77
Artigo

Silêncios atlânticos: sujeitos e lugares


praieiros no tráfico ilegal de africanos
para o Sudeste brasileiro (c.1830 – c.1860)
Atlantic Silences: Subjects and Seaside Locations in the Illegal
Traffic of Africans to the Southeast of Brazil (c.1830 – c.1860)
Silencios atlánticos: sujetos y lugares playeros en el tráfico ilegal
de africanos hacia el Sureste brasileño (h.1830 – h.1860)

Walter Luiz Carneiro de Mattos PereiraI*

Thiago Campos Pessoa I**

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942019000100005

I
Universidade Federal Fluminense (UFF), Niterói – RJ, Brasil

* Professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF). (walterpereira@globo.com)


ORCID iD: http://orcid.org/0000-0002-5688-8462

**Pesquisador pós-doutor no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense (UFF), com
apoio da FAPERJ” (tcpessoa@hotmail.com) ORCID iD: http://orcid.org/0000-0001-8873-6511

Artigo recebido em 29 de outubro de 2018 e aceito para publicação em 28 de fevereiro de 2019.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 79-100, janeiro-abril 2019 79
Walter Luiz Carneiro de Mattos Pereira e Thiago Campos Pessoa

Resumo
A ilegalidade do tráfico de africanos para o Brasil impôs profundos silêncios à sua história. No Sudeste, os desem-
barques de africanos eram sustentados por uma estrutura ajustada. Nas franjas do Atlântico, grandes propriedades
praieiras serviam à recepção desses africanos. Seus donos, comendadores e nobres, animados pelo dinamismo do
complexo cafeeiro, fundaram uma aristocracia ungida pela ilicitude. As fazendas negreiras e seus senhores reer-
gueram o tráfico sob o manto da ilegalidade. Quebrar esse silêncio construído como política de Estado significa
identificar sujeitos e lugares, valendo-se de indícios apresentados por uma cartografia de fontes pouco exploradas
pela historiografia.

Palavras-chave: Tráfico ilegal de africanos; Praias atlânticas; Fazendeiros negreiros.

Abstract
The illegal trade of Africans to Brazil imposed deep silences on their history. In the Southeast, the landings of Africans
were supported by a tight structure. In the fringes of the Atlantic, large properties close to beaches were used to
receive these Africans. Its owners, commanders and nobles, excitedby the dynamism of the coffee production, estab-
lished an aristocracy anointed by illicitness. The slave farms and their masters reinstated the traffic under the cloak
of illegality. Breaking this silence that was established as a State policy means identifying subjects and places, using
evidence presented by a cartography of sources little explored by historiography.

Keywords: Illegal Trade; Atlantic Beaches; Slave-based Farms.

Resumen
La ilegalidad del tráfico de africanos hacia Brasil impuso profundos silencios a su historia. En el Sureste, los desem-
barques de africanos eran sostenidos por una estructura ajustada. En las franjas del Atlántico, grandes propiedades
cercanas a las playas eran usadas para recibir esos africanos. Sus dueños, comendadores y nobles, animados por el
dinamismo de la caficultura, fundaron una aristocracia ungida por la ilicitud. Las haciendas negras y sus señores res-
tablecieron el tráfico bajo el manto de la ilegalidad. Romper ese silencio construido como política de Estado significa
identificar sujetos y lugares, valiéndose de indicios presentados por una cartografía de fuentes poco exploradas por
la historiografía.

Palabras clave: Tráfico ilegal de africanos; Playas atlánticas; Haciendas negreras.

80 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 80-100, janeiro-abril 2019
Silêncios atlânticos: sujeitos e lugares praieiros no tráfico ilegal de africanos para o
Sudeste brasileiro (c.1830 – c.1860)

J oão Tiago Von Tschudi, diplomata e nobre suíço, ministro plenipotenciário da Confede-
ração Helvética no Brasil, empreendeu viagem ao longo das províncias do Rio de Janeiro
e São Paulo entre 1858 e 1859. O registro dos caminhos percorridos naquelas paragens foi
publicado na Alemanha sob o título de Viagens às Províncias do Rio de Janeiro e São Paulo
(1958). Von Tschudi, em uma das passagens de seu relato de viajante, narra sua chegada ao
extremo norte da província fluminense, oriundo do Espírito Santo, ao tocar fazendas a cami-
nho de Campos dos Goytacazes. Portava uma carta de apresentação escrita pelo barão de Ita-
pemirim, Joaquim Marcelino da Silva Lima, poderoso potentado do sul da província capixaba.
O nobre brasileiro o recomendava a André Gonçalves da Graça, fazendeiro em São João da
Barra, que prestasse o apoio necessário a sua empreitada.
André Gonçalves da Graça era português de Trás-os-Montes. Dedicara sua vida à traves-
sia atlântica em navios negreiros, mantendo propriedades que chegavam até a orla atlântica
do norte fluminense. Na percepção de Von Tschudi, tais viagens teriam sido muito lucrativas
para o fazendeiro, por lhe permitir trocar o “sextante pelo arado”(ibidem; p. 15-16). Sua fa-
zenda de São Pedro era vizinha de outra propriedade, ainda maior, “otimamente cultivadas”
(ibidem; p. 16). Ambas surpreenderam o barão suíço “pela extensão, como pelas instalações
e distribuição racional” (ibidem; p. 16): máquina a vapor, prensa de açúcar, monjolo de café,
moinho de milho, serra circular. Modernidade escravista aos olhos de um nobre europeu.
Além da produção de açúcar e café, mantinha indústria madeireira de “consideráveis lucros”
(ibidem; p. 16) ao explorar as grandes matas que circundavam suas terras. Para escoar sua
múltipla produção, Graça não encontraria maiores problemas, pois sua fazenda ficava a uma
légua da costa, além de ser cortada por rios navegáveis, beneficiando-se de instalações por-
tuárias nos limites fluviais com o Atlântico.
O relato de Von Tschudi, produzido na década de extinção do tráfico de africanos para o
Brasil, ilumina um ponto ainda bastante obscuro na historiografia brasileira: o protagonismo
de traficantes, negociantes e fazendeiros no comércio ilícito de africanos entre 1830 e 1860.
André Gonçalves da Graça, por exemplo, já era notável fazendeiro quando, em 1851, fora
capturado e arrolado em extenso processo na Auditoria Geral de Marinha, no Rio de Janeiro.
Velho conhecido da repressão inglesa, capitaneada no Rio de Janeiro pelo diplomata britânico
James Hudson, Graça era acusado de ser operador do tráfico transatlântico na ilegalidade,
alvo da inibição circunscrita pelos tratados bilaterais anglo-brasileiros e, no início dos anos
1850, da execução das leis nacionais anti tráfico (Bethell, 1976).Não somente ele, como tam-
bém outros senhores, detentores de ilícitas fortunas, operavam no tráfico ao longo da costa
brasileira, com suas fazendas negreiras com logísticas para receber navios negreiros e operar

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 81-100, janeiro-abril 2019 81
Walter Luiz Carneiro de Mattos Pereira e Thiago Campos Pessoa

a redução de indivíduos livres à escravidão, organizando da quarentena à redistribuição dos


escravizados em mercados negreiros locais. Como desvendar a atuação desses homens num
processo recoberto de silêncios institucionais, papéis destruídos, embarcações postas a pique,
incendiadas, e dissimulações de toda a ordem para apagar os indícios do crime praticado no
contexto de clandestinidade? Este é um problema que se impõe à história do tráfico durante
sua ilegalidade no Atlântico, construída na primeira metade dos Oitocentos, e, no Império do
Brasil, particularmente entre as décadas de 1830 e 1850, com suspeitas de desembarque até
o início dos anos de 1860.Aqui, portanto, ampliamos o marco temporal visando encontrar
evidências das ações de tais sujeitos e lugares descritos em três fontes diferenciadas: um re-
latório de época, produzido em 1853 (Alcoforado, 1853); um guia de fontes elaborado pouco
mais de cem anos depois (Casadei, 1966); e um livro publicado em 1985 (Oscar, 1985) na
perspectiva da história local, sobre uma das mais importantes áreas escravistas do Império.
Levando em consideração as múltiplas possibilidades de fontes e acervos a serem explorados
sobre o tráfico ilegal de africanos, utilizamos essas três referências como um exercício meto-
dológico e ponto de partida do projeto “Fazendeiros negreiros: traficantes e tráfico ilegal de
africanos no Rio de Janeiro (1830-1860)”.1 No sentido de enfrentarmos os silêncios “produzi-
dos de indústria”, como se dizia na época, pelo pacto entre Estado e sociedade escravista no
Brasil sobre suas bases ilegais (Mamigoniam, 2011; Chalhoub, 2012), propomos uma ampla
prospecção nos arquivos nacionais e estrangeiros a fim de qualificarmos melhor os lugares e
os personagens que protagonizaram o reerguimento da escravidão no mundo atlântico pela
reabertura do tráfico e sua sistematização nas nossas costas atlânticas, especialmente no que
hoje chamamos de litoral sudeste brasileiro.
Para tanto, de início, montamos um quadro sucinto dos trabalhos que questionaram, em
alguma medida, o silêncio sobre a ilicitude do comércio negreiro, deslocando a temática para
o centro da agenda da historiografia sobre a escravidão no Brasil. Em seguida, cotejaremos
as três fontes indicadas na perspectiva indiciária (Ginzburg, 1990: 143-179) atrás de pistas e
rastros que nos conduzam ao mosaico de sujeitos e lugares relacionados ao tráfico ilegal de
africanos para o Sudeste, com destaque especial para indicação de que fazendeiros fizeram
fortunas ilícitas controlando barracões e fazendas negreiras nessa faixa litorânea. As três fon-
tes elencadas reúnem evidências para recompormos as décadas finais do empreendimento
atlântico entre o norte de São Paulo e o sul capixaba, camuflados na ilicitude do comércio
negreiro e na conhecida cumplicidade do Estado imperial.
Nossa questão central será identificar sujeitos e lugares que protagonizavam a redução
de indivíduos livres à escravidão em território nacional. Os recortes costeiros formados por

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Silêncios atlânticos: sujeitos e lugares praieiros no tráfico ilegal de africanos para o
Sudeste brasileiro (c.1830 – c.1860)

praias, portos e ancoradouros, abrigavam fazendas, barracões e trapiches em pleno funcio-


namento. Tais locais serviam ao escoamento da produção e ao abastecimento das fazendas,
ao mesmo tempo em que possibilitavam a reestruturação do tráfico, e, consequentemente
da escravidão, no processo de expansão cafeeira pelo Vale do Paraíba. Nesse sentido, os
grandes fazendeiros praieiros não se valiam dos negócios negreiros apenas de maneira utili-
tária, visando unicamente a mão de obra de seus plantéis. Ao contrário, estavam intimamente
vinculados ao tráfico em sua dimensão atlântica, estruturando propriedades no litoral para
sua finalização, sustentadas em redes de negócio transnacionais(Pessoa, 2015: 90-140; Pe-
reira, 2018).  Paralelamente às agências políticas, acionadas a fim de viabilizar a reabertura
do comércio negreiro, esses senhores empreenderam a construção de complexos agrários e
mercantis tendo por base a reorganização da logística traficante no litoral que margeava o
extenso vale (Pessoa, 2018a; 2018c; Pereira, 2012b; 2018).

A historiografia e seus combates ao silêncio

A ilegalidade do tráfico de africanos no mundo atlântico passou a compor a agenda da


política externa luso-brasileira desde o início dos Oitocentos. De 1810 a 1817, tratados
foram ratificados entre a Coroa Portuguesa e o Império Britânico a fim de abolir progressiva-
mente o comércio de escravos para o principal porto negreiro das Américas, sediado na cidade
do Rio de Janeiro. Com a Independência do Brasil, selava-se o último acordo da era legal do
tráfico de africanos. A partir da prerrogativa britânica de reconhecimento da nação brasileira,
em 1826, era estabelecida convenção que previa que o Império recém-criado aboliria o tráfico
três anos após a ratificação do novo acordo, feita no ano seguinte (Bethell, 1976; Conrad,
1985). Assim, a partir de março de 1830, nos termos do tratado, o comércio negreiro entre
a África e o Brasil era equiparado à pirataria. Essa nova condição levou à regulação interna
do assunto e à aprovação do projeto do marquês de Barbacena, que originou a lei de 7 de
novembro de 1831. Em seu artigo primeiro ficava estabelecido que “todos os escravos, que
entrarem no território ou portos do Brasil, vindos de fora, ficam livres” (Brasil, 1831).
Entretanto, até o final da década de 1830, a perspectiva de aplicabilidade da lei de 1831
caminhou sempre acompanhada de seu questionamento, fosse por interesses políticos ou pela
própria prática social escravista circunspecta à realidade brasileira (Rodrigues, 2000; Pessoa,
2010: 89-98; Parron, 2011). Somente após a renúncia da regência liberal de Feijó, em setem-
bro de 1837, ascendendo ao poder Araújo Lima, os rumos da repressão ao tráfico mudariam.
Na frente do novo gabinete, acumulando as pastas do Império e da Justiça, figurava Bernardo

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 83-100, janeiro-abril 2019 83
Walter Luiz Carneiro de Mattos Pereira e Thiago Campos Pessoa

Pereira de Vasconcelos, maior representante do Partido Conservador e, àquela altura, arguto


defensor da reabertura do tráfico negreiro em escala atlântica (Mattos, 2004). O regresso
conservador, ao estabelecer-se no poder no início de 1838, facilitaria a reabertura do tráfico de
maneira tácita, e assim o sustentaria durante toda a década de 1840, a despeito da repressão
inglesa (Needell, 2006; Parron, 2011).
Somente no início da década de 1850, 12anos após intensa atividade traficante, quando
cerca de 800 mil africanos foram ilegalmente reduzidos à escravidão no Império (Mamigo-
niam, 2017), o limite institucional, político e moral do tráfico foi definitivamente decretado. A
lei de 4 de setembro de 1850, aprovada quando Eusébio de Queiroz ocupava a pasta da Jus-
tiça, incorporara e reafirmara os estatutos de outra lei,decretada em 7 de novembro de 1831,
depois da tentativa fracassada de sua ab-rogação. A repressão decisiva nos primeiros anos
da década de 1850 desenvolveu-se no mar, nas fazendas litorâneas e em instalações praiei-
ras suspeitas de acolher os desembarques de africanos durante a ilegalidade (Pereira, 2011;
2012a; 2018;Pessoa, 2015: 90-140). De fato, as forças de repressão tinham informações
possíveis e detalhadas dos desembarques e de sua complexidade, para identificar os principais
agentes da clandestinidade (Ferreira, 1995; 2012; Pessoa, 2018b:165-206).
Em termos teóricos, fazendas, barracões, trapiches e mercados edificados no litoral, a fim
de atender às demandas da produção cafeeirae, ao mesmo tempo, receber africanos ilegal-
mente importados, eram partes integrantes de uma estrutura histórica que atualmente a his-
toriografia tem caracterizado como Segunda Escravidão (Tomich, 2011; Muaze; Salles, 2015;
Marquese; Salles, 2016). O conceito surge como um importante instrumento para explicar o
processo no qual, em pleno século XIX, a escravidão se reergueu em escala surpreendente no
sul dos Estados Unidos, Brasil e Cuba, para atender à crescente demanda mundial de algodão,
café e açúcar, respectivamente, movimento que em perspectiva global se inscreve em etapa
renovada da Revolução Industrial e de expansão do capitalismo (Tomich, 2011; Blackburn,
2016). Na província do Rio de Janeiro, a população escrava saltou de pouco mais de 100 mil,
em 1780 (Marcondes, 1995: 235-270), para quase 300 mil, em 1872 (Salles, 2008: 258-59)!
Os desembarques contabilizados pelo site The Trans-Atlantic Slave Database, circunscritos à
região costeira de Campos dos Goytacazes, entre os anos de 1838 e 1850, registram cerca de
48 mil africanos chegando às praias do norte da província, fazendo daquelas enseadas, ilhas
e praias espaços privilegiados nos desembarques de negreiros no Atlântico. Frente a esses da-
dos, insistimos que a reabertura do tráfico e sua sustentação tácita, por quase duas décadas,
viabilizou o boom da economia cafeeira no Império. A construção de fortunas colossais dos
fazendeiros negreiros esteve assentada nessa escravidão ilegal, não somente pelo fato desses

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Silêncios atlânticos: sujeitos e lugares praieiros no tráfico ilegal de africanos para o
Sudeste brasileiro (c.1830 – c.1860)

senhores transformarem suas fazendas no resultado concreto dessas transações, mas, sobre-
tudo, porque foram eles também os agentes que viabilizaram a logística e a estrutura política,
social e econômica de retomada dos negócios negreiros em dimensões atlânticas (Pessoa,
2015, 2018c; Pereira, 2011, 2018).
Ainda que seja um tema amplamente discutido pela historiografia brasileira, os especia-
listas, seja pela escassez de fontes ou pela ênfase em análises no âmbito político, negligen-
ciaram a estrutura de recepção dos africanos na costa brasileira e os agentes que operavam
a complexa rede transcontinental de negócios que cortava o Atlântico. Se há consenso sobre
a amplitude do comércio negreiro durante a década de 1840, quase nada sabemos acerca
das estruturas de recepção e dos sujeitos que as operavam, não obstante referências de longa
data a tais agentes serem citadas em fontes primárias, como no caso do relatório de Joaquim
de Paula Guedes Alcoforado, de 1853. O compromisso do governo imperial com o ilícito trato,
até a lei de 4 de setembro de 1850, fez com que o comércio negreiro não fosse efetivamente
combatido, e, por isso, deixasse de ter registros. Operava-se o silêncio tácito como política
de Estado sobre o comércio ilegal de africanos no processo de construção e consolidação do
Império do Brasil (Mamigoniam, 2011; 2017; Chalhoub, 2012; Pessoa, 2018a)
As primeiras pesquisas acadêmicas sobre o período ilegal do tráfico de africanos se con-
centraram nos processos de elaboração de tratados de restrição e abolição do comércio negreiro
entre 1810 e a aprovação da lei de 7 de novembro de 1831 (Goulart, 1949; Bethell, 1976).
Quase ao mesmo tempo, outros estudos retomaram a discussão, aprofundando os significados
e as consequências desses acordos para o comércio atlântico de almas (Conrad, 1985; Ver-
ger,2002). Nos últimos vinte anos, o campo de estudos sobre o tema desenvolveu-se a partir
de análises que tomaram como mote diferentes dimensões do tráfico ilegal. Nessa perspectiva,
foram analisadas as redes de relações comerciais transcontinentais no contexto de consolidação
do capitalismo e de reestruturação dos negócios negreiros no Atlântico (Tavares, 1988; Ferreira,
1995;2012; Carvalho, 2012; 2016; Albuquerque, 2016).As experiências daqueles que de perto
conheceram a diáspora africana na condição de vítimas de crime, tratado como nefasto aos
princípios da humanidade e da moralidade universal, desde o Congresso de Viena, em 1815,
também foram objeto de amplas pesquisas (Mamigonian, 2002, 2017; Rodrigues, 2005); além
do processo de construção da ilegalidade e seu questionamento no parlamento, na política, e em
parte da imprensa brasileira (Rodrigues, 2000; Parron, 2011; El Youssef, 2016).
Portanto, se a hegemonia e a ordem empreendida pelos conservadores garantia certa es-
tabilidade política e institucional no processo de recrudescimento do tráfico, foi ele próprio re-
sultado da tessitura do projeto hegemônico no Império do Brasil, no qual o fortalecimento da

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 85-100, janeiro-abril 2019 85
Walter Luiz Carneiro de Mattos Pereira e Thiago Campos Pessoa

escravidão, por meiodo comércio ilegal de africanos, assumia papel edificante (Bethell, 1976;
Mattos, 2004). Na prática social, fazendeiros e negreiros do extenso Vale do Paraíba, molas
mestras da economia imperial, foram agentes protagonistas dessa construção hegemônica,
atuando diretamente na retomada do tráfico, para muito além de suas agências políticas.
Assim, somos levados a propor a análise do vínculo estruturante entre as maiores fortunas do
Império e a migração forçada de cerca de 800 mil africanos sob do signo da ilegalidade (Pes-
soa, 2018c: 422-449). Uma relação que tem sua dimensão histórica na dinâmica dos sujeitos
e lugares, nas redes de sociabilidade, nos vínculos políticos e em contornos econômicos esta-
belecidos por aqueles que na montagem do complexo cafeeiro escravista agiram igualmente
em prol da retomada do tráfico no mundo atlântico na primeira metade dos Oitocentos.
Apesar do avanço no campo das pesquisas, os desembarques na clandestinidade em praias
desertas do litoral brasileiro são quase sempre vistos como episódios fragmentados e desarticu-
lados, com a exceção de análises mais recentes (Carvalho, 2012; Mattos, 2013; Pessoa, 2018c:
442-449; Pereira, 2012ab; 2018). Em contraste à generalização sobre o litoral brasileiro, os estu-
dos que abordam o outro lado do Atlântico evidenciaram exatamente o contrário: uma complexa
rede logística, econômica e política estruturada a fim de viabilizar os negócios negreiros, mesmo
na ilegalidade (Ferreira, 1995; 2012; Capela, 2012).A repressão empreendida pelo abolicionismo
inglês e a própria abolição do tráfico decretada por Portugal em 1836, se de um lado desarticu-
laram as antigas estruturas negreiras estabelecidas na costa centro-ocidental africana, por outro
lado provocaram a dispersão e a interiorização dos embarques para fora das zonas de controle
português e, relativamente, protegidas da repressão britânica e da soberania europeia (Ferreira,
2012). Nesse aspecto, cresciam em importância os portos de Cabinda e Ambriz, ao norte de
Luanda (Chichelli,2006; Wisembach, 2015), ao passo que se ampliava cada vez mais a participa-
ção do litoral moçambicano nos negócios negreiros no Atlântico (Capela, 2016).
Na costa brasileira,após aprovação da lei de 7 de novembro de 1831, as antigas estrutu-
ras portuárias de desembarque, acomodação e distribuição dos africanos recém-chegados fo-
ram desmontadas ao longo daqueles anos. Entretanto, antes mesmo da reabertura do tráfico
em escala nacional, no final de 1830, a logística de desembarque, quarentena e redistribuição
dos novos africanos foi refeita em outras bases e lugares, tendo à frente novos agentes, di-
ferentes daqueles que empreenderam, financiavam e asseguravam os empreendimentos ne-
greiros entre o final do século XVIII e as três primeiras décadas do século seguinte. (Carvalho,
2012; 2016; Mattos, 2013; Pessoa, 2015; 2018c:422-449)
Essa renovação estrutural do comércio de africanos representou mudanças também em
relação aos negociantes que faziam funcionar as redes atlânticas. Comparando os grandes

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Silêncios atlânticos: sujeitos e lugares praieiros no tráfico ilegal de africanos para o
Sudeste brasileiro (c.1830 – c.1860)

traficantes atuantes entre o Rio de Janeiro e a costa da África entre 1811 e 1830, com refe-
rências àqueles envolvidos no tráfico após 1831, somente José Bernardino de Sá já figurava
ativamente nos negócios negreiros antes de 1830 (Florentino, 1997:254-256). Assim, parece
patente que durante a clandestinidade houve um amplo processo de reestruturação e reno-
vação das redes dos negreiros, possivelmente atrelada à maior proximidade entre traficantes
e fazendeiros, marcando um novo padrão das relações de comércio no Atlântico. No entanto,
ainda hoje, há um grande desconhecimento a respeito desses negociantes que atuaram na
ilegalidade, lacuna apontada há quase duas décadas por Jaime Rodrigues (2000). Quando
citados, aparecem quase sempre desvinculados de uma estrutura operacional organizada para
a efetivação do empreendimento negreiro. Não custa lembrar que foram essas estruturas e
esses sujeitos que possibilitaram a redução de milhares de africanos à escravidão ilegal no
Brasil. Continuamos sem saber sobre a relação entre os traficantes, suas redes e a logística
edificada no litoral brasileiro durante os anos de 1830 e toda a década seguinte. Por isso,
acreditamos ser imprescindível conhecermos melhor os sujeitos que construíram e os locais
que se tornaram cenários do reerguimento do tráfico na clandestinidade. Para tanto, voltamos
ao nosso trio indicativo de fontes para nos somarmos àquelas pesquisas que buscaram, cada
qual com a sua questão, romper o silêncio costurado pelos conservadores sob a habilida-
de do então ministro da Justiça, Eusébio de Queiroz. Eusébio, no início de 1850, prometera
aos fazendeiros e à classe política não “resolver o passado”, em referência a duas décadas
de descumprimento da lei de 1831 e à escravidão ilegal de milhares de indivíduos (Pessoa,
2010:142-163). O compromisso do Estado brasileiro, no que chamaríamos hoje de garantia
de segurança jurídica sobre o cativeiro amealhado na clandestinidade, assentava-se em fór-
mula simples na aparência e complexa no conteúdo: bastava silenciar em termos políticos a
ilegalidade estabelecida antes de 1850, costurá-la juridicamente, considerando criminosos
apenasaqueles que se mantivessem no tráfico a partir de setembro de 1850, assim como
juridicamente livres somente os africanos desembarcados após o novo marco (Mamigonian,
2017; Pessoa, 2018a). A despeito das denúncias do abolicionismo já ativo no final dos anos
de 1860, o arranjo saiu vitorioso à sua época, e se manteve por longo tempo na sociedade
brasileira, incluindo nela seus historiadores.

Sujeitos e lugares: os elos da ilegalidade silenciada

O relatório de Joaquim de Paula Guedes Alcoforado (1853) foi o primeiro e um dos mais
significativos inventários de sujeitos e lugares ligados ao tráfico ilegal de africanos no
Rio de Janeiro.O documento, em tom de denúncia, fala sobre o passado que o Estado brasilei-

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Walter Luiz Carneiro de Mattos Pereira e Thiago Campos Pessoa

ro não quis “resolver”. Ao listar ano a ano a atuação dos envolvidos no comércio ilegal e os
pontos de desembarques, o exímio conhecedor dos meandros do tráfico buscou a redenção
de seu passado traficante, convertendo-se em informante do Foreign Office britânico no final
dos anos de 1840, além de agente da repressão do Ministério da Justiça do Império do Brasil,
no início da década seguinte (Ferreira, 1995).2No ministério, além de se tornar estrategista
da repressão, Alcoforado foi responsável pela comissão incumbida de apurar as denúncias
recebidas, de produzir diligências e projetar o desmonte dos empreendimentos negreiros até,
no mínimo, 1857 (Pessoa, 2018b: 165-206). Tarefa à altura de quem tinha intimidade com o
negócio atlântico.
O relatório de Alcoforado arrola sujeitos bastante conhecidos na capital negreira do Im-
pério, mas pouco evidentes hoje nas análises sobre a escravidão que abordam os meados
dos Oitocentos. José Bernardino de Sá certamente é um deles. Destaque em seu relatório,
Bernardino era velho conhecido de Alcoforado, com quem se correspondia enquanto prestava
serviços aos dois impérios. O protagonismo de Bernardino de Sá no tráfico de africanos era
patente e contumaz. Ao contrário da maior parte de seus pares que atuaram na ilegalidade,
o português tinha estrada no negócio atlântico. Manolo Florentino (1997) o encontrou no rol
dos negociantes de carne humana estabelecidos no Rio de Janeiro, em meados de 1820. As
atividades do barão/visconde de Vila Nova do Minho começaram cedo. O primeiro desembar-
que sob os seus auspícios ocorreu em 1825. A embarcação partiu do Rio de Janeiro, arribou
em Luanda, e de lá trouxe 466 africanos, 422 dos quais pisaram em solo carioca em 27 de
julho daquele ano.3Daí por diante, em diversos e diferentes navios, foram mais de 49 viagens!
Dito de outra forma, somente no banco de dados The Trans-Atlantic Slave Trade Database,
José Bernardino de Sá figura em meia centena de expedições como proprietário de tumbei-
ros que cruzavam o Atlântico, alcançando, inclusive, o litoral oriental da África, sobretudo os
portos moçambicanos. Ao todo, entre 1825 e 1851, 19.022 africanos desembarcaram em
36 navios a ele consignados, alguns de sua propriedade. O barão/visconde português, títulos
posteriormente reconhecidos pelo Império do Brasil, atuava no Atlântico, e no lado brasileiro
estabeleceu fazendas praieiras em Ubatuba e São Sebastião, ao norte da província de São
Paulo, espraiando-se pelo litoral fluminense, mantendo palacetes e casas de negócios na Corte
e fazenda negreira em Macaé. Em Ambriz, ao norte de Luanda, montou barracões voltados
ao comércio de escravos ao longo da década de 1840, a despeito da repressão inglesa, que
incendiou um deles em 1842.
Entre os personagens alvos da pena de Alcoforado, duas outras figuras se destacam em
sua mira: os comendadores André Gonçalves da Graça e Joaquim Thomaz de Faria, ambos

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Silêncios atlânticos: sujeitos e lugares praieiros no tráfico ilegal de africanos para o
Sudeste brasileiro (c.1830 – c.1860)

citados como homens dotados de intimidade com o Atlântico: Graça foi reconhecido por ele
como antigo marinheiro, que participou de diversas viagens à África. Faria foi patrão-mor, ou
seja, principal prático do porto de São João da Barra, um dos mais importantes da província
do Rio de Janeiro, onde trabalhavam, por volta de 1860, cerca de 700 homens, entre livres e
escravos (Pereira, 2011, 2019). Em 1851, os dois já figuravam como grandes fazendeiros ne-
greiros no norte fluminense quando se tornaram réus em processos instaurados pela Auditoria
Geral de Marinha por tráfico ilegal de africanos.Ambos tinham relações com José Bernardino
de Sá. Não se deve duvidar que até mesmo se agrupassem em uma espécie de confraria ne-
greira. O próprio Alcoforado, antigo traficante, mantinha interlocução e laços de amizade com
o catalão Francisco Ruviroza y Urgelles – referido também como Urzellas – figura de destaque
no tráfico ilegal entre Cuba, Brasil, Estados Unidos e a costa da África (Nerín, 2016). Junto
com eles estavam Elias José Alves e o português João Pedro da Costa Coimbra. Todos atados
em uma rede restrita de grandes negreiros, com diferentes vínculos com o Atlântico escravista
entre o final dos de 1830 e início de 1850.
André Gonçalves da Graça e Joaquim Thomaz de Faria concentravam seus negócios em
São João da Barra e Campos dos Goytacazes, no extremo norte do Rio de Janeiro, onde ergue-
ram um dos principais pontos de recepção ao tráfico ilegal no Império. Estima-se, segundo os
dados do The Trans-Atlantic Slave Trade Database, que 74 mil africanos tenham desembarcado
entre Campos e Macaé entre 1836 e 1850, configurando a maior zona de recepção negreira
no Brasil no período da clandestinidade. Cumpre salientar que cerca de 60% da população
de Campos dos Goytacazes, entre os anos de 1836 e 1850, era composta de escravos. O
contingente de 38 mil cativos, em 1850, aproximava-se dos 39 mil cativos existentes, naquele
mesmo ano, nos municípios de Valença e Vassouras juntos. Esses números indicam que os
principais complexos agrários fluminenses rivalizavam na demanda por africanos durante a
ilegalidade (Soares, 2015). Graça e Thomaz dominavam o tráfico na região do extremo norte
fluminense, eram donos de embarcações, estaleiros, trapiches, barracões e engenhos, ao mes-
mo tempo em que cultivam cana de açúcar, café e atuavam como capitalistas locais. Ambos,
comendadores no Império da ilegalidade, sustentavam um arco de relações sociais e políticas
que iam muito além das suas praias, passando pela Corte, e atravessando o Atlântico, em
portos europeus e africanos (Oscar, 1985; Pereira, 2018; 2019).
No rol dos traficantes identificados por Alcoforado estava um dos mais célebres articulis-
tas do comércio ilegal ao sul da província do Rio de Janeiro, o comendador Joaquim de Souza
Breves e seu irmão José de Souza Breves, possuidores de terras costeiras em Mangaratiba, Ilha
Grande, Angra dos Reis, além da propriedade da Restinga de Marambaia. Os irmãos Breves

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Walter Luiz Carneiro de Mattos Pereira e Thiago Campos Pessoa

mantinham relações com João Henrique Ulrich, português, proprietário de barracões no porto
de Ambriz no início dos anos de 1840. No Brasil, Ulrich era dono da firma João Rodrigues
Ulrich e Cia., casa comissária vinculada ao vale do café. Na intercessão café e tráfico, os Souza
Breves mantinham também negócios com o negreiro Manuel Vieira de Aguiar, protagonista no
tráfico para o Rio Grande do Sul nas primeiras décadas dos Oitocentos (Berute, 2011). Juntos
dominavam os portos de recepção de africanos em Itaguaí e Mangaratiba, espraiando-se a
Angra dos Reis com José Breves, dono da fazenda do Bracuí e ilhas anexas na baia da Ribeira
(Pessoa, 2015: 90-140;2018c: 422-449).
Nesse arco de relacionamentos negreiros no sul fluminense, incluímos o comendador
Antônio da Cunha Barbosa Guimarães, possuidor de barracões e fazendas em Dois Rios, na
Ilha Grande, e seu irmão José Joaquim Guimarães, ambos proprietários da firma Guimarães
& Irmão, e responsáveis por desembarques na Ilha Grande, em Macaé e em portos do litoral
da província do Rio de Janeiro. Segundo os dados do The Trans-Atlantic Slave Trade Database,
5.237 indivíduos atravessaram o Atlântico em navios de propriedade ou consignados pelos
irmãos Guimarães (Pessoa, 2018b: 165-206).
Note-se que a família Souza Breves, especialmente os irmãos José e Joaquim, foram pro-
prietários de um extenso complexo cafeeiro ao sul do Vale do Paraíba fluminense, que incluía
praias, ilhas, restingas e portos no litoral meridional da província. Nesse caso, parece evidente
que a montagem do complexo cafeeiro esteve indissociavelmente atrelada à reabertura do
tráfico em escala atlântica. A partir da movimentação das casas comissárias do município de
Mangaratiba, das redes de negócios tecidas naqueles espaços e na imensidão do Atlântico,
das agências de repressão empreendidas pelas autoridades após 1850, sabemos que um dos
maiores complexos de fazendas do Brasil imperial teve seu erguimento condicionado e estru-
turado pela reabertura do tráfico atlântico de africanos a partir de meados dos anos de 1830
(Pessoa, 2015: 90-140).
A cronologia apresentada por Alcoforado, delimitada entre os anos de 1833 e 1853,
coincide com as mudanças conjunturais em torno do quadro político no Império. Nesse aspec-
to, o relatório destaca a reabertura e o impulso nos negócios transatlânticos a partir do “Re-
gresso Conservador” e a intensificação da repressão inglesa nas margens atlânticas, em espe-
cial nas praias, portos, trapiches, barracões e deltas de rios que tocavam o litoral da província
fluminense. A repressão inglesa depois da Lei Aberdeem abriu o leque dos desembarques na
geografia praieira, pontuados pelo delator pago com recursos do serviço secreto inglês e pelo
governo brasileiro: Dois Rios, Mangaratiba, Ilha Grande, Cabo Frio, Rio das Ostras, Macaé,
Campos, São João da Barra, Manguinhos e Itabapoana, com conexões no litoral sul do Espírito

90 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 90-100, janeiro-abril 2019
Silêncios atlânticos: sujeitos e lugares praieiros no tráfico ilegal de africanos para o
Sudeste brasileiro (c.1830 – c.1860)

Santo, onde André Gonçalves da Graça mantinha propriedades; e ao norte da província de


São Paulo, particularmente em São Sebastião e Ubatuba, onde José Bernardino de Sá também
encontrava refúgio para fundear seus tumbeiros. A escalada do tráfico ampliava-se, fazendo
das praias e ilhas desertas um porto seguro para os navios negreiros.
A prosperidade do negócio ilícito incluía o suborno de autoridades e a proteção política
descarada ao comércio ilegal. Inclua-se, ainda, o envolvimento de empresas transnacionais
que especulavam com o tráfico, como as portuguesas Maia Saraiva Patacão & Barroso, e Gui-
marães Rocha Brandão e Cia., segundo o delator. Para escapar, os traficantes podiam contar
com as defesas feitas por eminentes bacharéis, de alto calibre na Corte, como João Manoel
Pereira da Silva, que, segundo Alcoforado, “ativou então sua carreira como defensor dos ne-
greiros” na Assembleia Provincial Fluminense (Pessoa, 2010: 89-98) e fora dela (Parron, 2011:
224-230). Além de Pereira da Silva, contavam com João Siqueira Queirós, João Antônio de
Miranda e os jurisconsultos Agostinho Marques Perdigão Malheiro (Pereira, 2019) e Augusto
Teixeira de Freitas (Pessoa, 2018a).
Thalita de Oliveira Casadei (1966) talvez tenha produzido o primeiro guia de fontes para
a identificação de sujeitos e lugares do tráfico ilegal na província fluminense. Numa agenda
anual, a partir de 1835, Casadei montou um registro indicativo de ofícios e outros documentos
trocados entre autoridades fluminenses e da Corte, como parte do acervo da “Sala de Estudos
Fluminenses Matoso Maia”, mantido na Biblioteca Pública do Estado, em Niterói. A maior
incidência de documentos nesse intercâmbio ocorre a partir de 1850, quando da vigência
da Lei Eusébio de Queiroz. Dos 100 papéis listados entre os anos de 1835 e 1855, 80 deles
referem-se ao período posterior a 1850, denotando que o Estado brasileiro, deliberadamente,
evitou ao máximo produzir prova que materializasse a ilegalidade da escravidão nacional
entre 1830 e1850 (Mamigoniam, 2011).
Desde 1836,no entanto, num dos primeiros registros feitos por Casadei, já ficara evidente
o envolvimento de autoridades locais no comércio ilegal de africanos, como no caso do juiz de
paz do distrito de Taipu, padre Antônio Joaquim de Sá, além de Francisco Raimundo de Barros,
Manoel Luz das Lindas Flores e Possidônio José de Souza. Notícias de desembarques envol-
vendo tais figuras evidenciam como as praias de Niterói, capital da província, eram bastante
utilizadas por negreiros. Em um desembarque ocorrido na praia de Imbuí, naquele mesmo ano,
na margem esquerda da barra de entrada da baía de Guanabara, os africanos foram levados
às terras do major Lutero e de Francisco de Albuquerque. Em 1850, Eusébio de Queiroz alertou
o presidente da província sobre desembarques em Jurujuba, outra praia contornada pelas
tranquilas águas da baía de Guanabara, cenário da antiga vila do Arraial da Praia Grande.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 91-100, janeiro-abril 2019 91
Walter Luiz Carneiro de Mattos Pereira e Thiago Campos Pessoa

Logo, a capital da província era um ponto recorrente de desembarques ilegais desde meados
dos anos de 1830. Nesse aspecto, podemos inferir que os desembarques, ainda que tenham se
afastado das praias próximas à Corte, com a desarticulação da estrutura do Valongo, mantive-
ram-se em seus arredores. Exemplo disso está no alerta do presidente da província fluminense,
Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho, que, em março de 1848, comunicava às autoridades
locais o desembarque de 900 africanos fora da barra do Rio de Janeiro, entre as fortalezas de
São João e a praia Vermelha, a menos de 10 quilômetros do Paço Imperial.
Os documentos indicados no guia de fontes organizado por Thalita Casadei reportavam-
-se a desembarques em toda a extensão do litoral fluminense, de Paraty a São João da Barra.
José Bernardino de Sá, além de outros traficantes estabelecidos em Macaé, surgem no alerta
dado pelo chefe da legação britânica no Rio de Janeiro, Hamilton Hamilton, ao governo impe-
rial, em 1842, de que o lendário traficante mantinha armazéns na cidade portuária do litoral
norte, em que negreiros tinham trânsito direto com a costa da África. Bernardino de Sá tam-
bém era suspeito de ter negócios com um traficante de nome Botelho, e de manter relações
com as casas de Amaral & Bastos Guimarães. Macaé, que passara a ser um ponto visado pelas
autoridades, também figurava nas referências feitas por Eusébio de Queiroz sobre o desem-
barque do brigue Polka, em 1850,e nos indícios de que Francisco Jose da Conceição, residente
na Rua da Praia, fazia negócios no ilícito trato. Havia, ainda, a suspeita de que o juiz municipal
da vila, o bacharel Joaquim Augusto de Holanda Costa Ferreira, igualmente estivesse atrelado
ao comércio de africanos, corroborando a desconfiança do governo com o comprometimento
de autoridades locais com o tráfico ilegal, mesmo após a lei de 1850.
Em outro alerta citado por Casadei, o ministro da Justiça escreveu a respeito de diligên-
cias realizadas pela polícia em Cabo Frio e Rio das Ostras, dando conta da existência de “mui-
tas pessoas”, principalmente portugueses, a prestar auxílio aos desembarques. Em Cabo Frio
havia o indicativo de cinco barracões ligados ao tráfico. Ali, em 1851, o cerco e o abate aos
negócios do português e comendador José Gonçalves da Silva serviram de primeira punição
a um traficante no litoral fluminense. Silva foi detido e teve confiscados seus bens arrolados
no tráfico, destacando-se a primazia, o ineditismo e o caráter exemplar da medida punitiva
aplicada pelo governo brasileiro, depois da lei de 1850. Seu drama foi posto em cena por um
libelo publicado e lembrado de forma recorrente nos anos seguintes, em que o negociante
de grosso trato, fortuna local, traficante, contrabandista, influente na cidade de Cabo Frio e
na Corte, afirmou ter sido injustamente subtraído de seus armazéns, de seu barracão, de seu
trapiche, e de demais bens, incluindo escravos, por suas ligações com práticas ilícitas pelo trato
de africanos (Pereira, 2009; 2011).

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Silêncios atlânticos: sujeitos e lugares praieiros no tráfico ilegal de africanos para o
Sudeste brasileiro (c.1830 – c.1860)

Armazéns e barracões eram locais citados com frequência na interlocução entre as


autoridades. Como forma de coibir a participação de estrangeiros no negócio, Eusébio de
Queiroz determinou ao presidente da província ativar o recrutamento na Marinha e no Exér-
cito para enquadrar aqueles envolvidos no tráfico ilegal. Para os estrangeiros, o engajamento
deveria ser feito na Armada e, caso recusassem, deveriam deixar o País. Talvez, o tipo de
coação atingisse especialmente cidadãos portugueses, pelo fato de serem homens dotados de
maior intimidade com viagens atlânticas entre o Brasil e a África, como ocaso do comendador
André Gonçalves da Graça. Às vésperas da nova lei, não havia mais pontos desconhecidos
pelos operadores do comércio atlântico ilegal no litoral fluminense. As correspondências epis-
tolares codificadas por Thalita Casadei pontuavam todo o recorte atlântico da província, de
Mangaratiba a Itaguaí, na praia do Saí, na casa de F. Monte Bello, de uma ilha próxima à fre-
guesia de Itacuruçá a suspeitas da existência de depósitos nas fazendas de Coroa Grande, no
porto de Estrela, um dos mais frequentados por traficantes, e na praia de Ubatuba, em Quissa-
man, com o resgate da barca Tentativa, com 454 africanos a serem desembarcados em Cabo
Frio, além de seus dez tripulantes, todos procedentes de Quilimane, na costa oriental africana.
Na vigilância empreendida no litoral sul da província, o guia de Thalita Casadei destaca
a ação dos irmãos Breves, em que sobressaem declarações prestadas por Laureano Antônio
Lopes Coelho, Domingos Antônio Lopes Coelho e Domiciano Rodrigues da Silva sobre afri-
canos desembarcados em Coroa Grande, na localidade denominada Maromba, onde eram
conduzidos “serra acima” por “um tal de Pimenta”, sobrinho dos Breves, até a localidade
de São João Marcos. Logo depois, descortina-se um desembarque na Coroa, no município de
Itaguaí, conforme depoimento prestado ao juiz Luciano da Silva Rangel. O depoente dizia ter
conhecimento da ação de guias para conduzir africanos da Restinga de Marambaia até as
terras de Joaquim Breves. Em outra correspondência citada no mesmo guia de fontes, Eusébio
de Queiroz repassa informações sobre Tomaz da Costa Ramos, o Maneta, que encomendou
na Itália uma nova embarcação destinada ao tráfico, cuja construção estava a cargo de um
armador em Gênova. O trabalho no estaleiro era acompanhado por Vitor da Silva Freire, cida-
dão baiano, cunhado de Ramos.
Ao dar continuidade à política de repressão, Ildefonso de Souza Ramos, substituto de
Eusébio de Queiroz no Ministério da Justiça, recomendou manter a vigilância sobre Bernardino
Ferreira, em Niterói, e André Van Randvyk Schert, proprietário do patacho português Paquete
de Loanda. O primeiro era proprietário da Lagoinha, no norte de São Paulo, e teve sua fazenda
praiana devassada no início de 1856 sob a suspeita de servir de barracão para o tráfico ilegal.
Um pouco antes, o ministro determinara aos delegados de polícia no litoral da província a

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Walter Luiz Carneiro de Mattos Pereira e Thiago Campos Pessoa

captura de João Pedro da Costa Coimbra, português envolvido no desembarque do porto


do Bracuí, em dezembro de 1852, um dos últimos e mais famosos casos de desembarque
ilegal na imprensa da Corte (Abreu, 1995). Coimbra foi também citado por Alcoforado como
alguém relacionado com o catalão Francisco Ruviroza y Urgelles. No avançar da década de
1850, as autoridades do Império mapearam as praias supostamente desertas que abrigavam
as embarcações negreiras que cortavam o Atlântico. Os agentes vinculados ao tráfico ilegal
teciam uma rede nesse caleidoscópio de nomes, constituindo-se, para nós, verdadeiros que-
bra-cabeças a serem montados pela história. Em relação aos lugares onde se praticava o crime
de reduzir pessoas livres ao cativeiro em solo brasileiro, alista das praias litorâneas convertidas
em pontos de recepção perpassava todo o litoral referenciado por Alcoforado e Casadei, do
norte de São Paulo, entre Iguape e Ubatuba, ao sul do Espírito Santo, nas praias de Itapemirim
a Benevente.
João Oscar (1985; 59-103), outro pesquisador no lastro de fontes sobre os negócios
negreiros, apresentou documentos encontrados no Arquivo Nacional e na Biblioteca Nacional
que evidenciam os meandros da ilegalidade ao norte da província do Rio de Janeiro. O pri-
meiro destaque na obra de Oscar é a movimentação de embarcações no porto de São João
da Barra. Ao apresentar uma amostra das entradas naquele porto entre 13 e 30 de janeiro
de 1852, o autor revela expressiva cabotagem que passava por um dos principais portos da
província, onde 30 navios diferentes haviam aportado ali naqueles 18 dias, além das entra-
das no porto de Itabapoana, no limite com a província do Espírito Santo. Oscar nomeia as
principais figuras envolvidas e seus entrepostos mantidos no litoral: José Gonçalves da Silva e
José Luiz Lopes Trindade, vulgo José do Peró, ambos atuando em Cabo Frio; João Antônio de
Brito, Joaquim de Abreu da Silva Braga, Luiz Mendes Ribeiro, Manuel Soares, André Gonçalves
da Graça e Joaquim Thomaz de Faria, em São João da Barra. Em Macaé, sobressaio italiano
Victório Emanuel Paretto, deportado naquele ano de 1852, embora circulasse pela cidade
protegido pelo delegado local;o já experiente José Bernardino de Sá; Joaquim Ferramenta;
José de Souza Velho, talvez portador de relações de parentesco com a baronesa de Macaé,
Leonarda Velho da Silva, segundo Manolo Florentino (1997: 192), uma das maiores fortunas
envolvidas no tráfico na praça do Rio de Janeiro, antes de 1830, além de Francisco Domingues
de Araújo. Na fronteira com a província capixaba foram citados Aurélio Jorge Silva Quintaes e
Joaquim Marcelino, barão de Itapemirim, além de outros, atuando em Marobá, no Cerry e em
Itapemirim, no litoral sul do Espírito Santo.
Nesse mosaico de nomes, ao contrário de sua aparente desconexão, os vínculos desses
indivíduos ao tráfico ilegal de homens, mulheres e muitas crianças estreitam suas trajetórias.

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Silêncios atlânticos: sujeitos e lugares praieiros no tráfico ilegal de africanos para o
Sudeste brasileiro (c.1830 – c.1860)

Ainda sabemos pouco sobre eles. Nomeá-los, como fizeram Alcoforado, e, mais de um século
depois, Casadei e Oscar, são os primeiros passos para recuperarmos suas agências e respon-
sabilidades históricas com relação a ilicitude que cometeram. Destaca-se que nos referimos à
figuras da elite imperial, espalhada por vários cantos das províncias do Sudeste. Gente como
André Gonçalves da Graça, que ocupou a vice-presidência da Câmara Municipal de São João
da Barra, ou Joaquim Thomaz de Faria, que exerceu os cargos de delegado de polícia, patrão-
-mor do porto de São João da Barra e presidente da Câmara. Ambos eram comendadores da
Ordem da Rosa e da Ordem de Cristo. Os dois importavam africanos que depois de internados
em suas fazendas praieiras eram enviados para Campos, São Fidélis, Espírito Santo e Minas
Gerais, não sem antes “adestrá-los”, em termos de época, em suas terras. A dupla mantinha
relações com José Bernardino de Sá, atuante no litoral de Macaé. Ali, encontravam-se expos-
tos, segundo o diplomata britânico Hamilton Hamilton, três mil africanos novos em armazéns
locais. Certamente, havia uma íntima conexão desses traficantes com a costa central atlântica
africana e com o mar do Caribe, como evidenciam cartas apreendidas escritas de Luanda,
Benguela, Ambriz e Havana (Oscar, 1985). As missivas foram assinadas por negreiros como
Raphael de Toca, Francisco Antônio Flores, Luiz Mendes Ribeiro Abreu, e Salvador de Castro,
em Havana; novamente Luiz Mendes, Bento Luiz Pereira e Manoel Domingues Dias Pereira,
em Ambriz; além de Joaquim Antônio da Fonseca Guimarães, José Rodrigues Pinto Coimbra
e Manoel da Silva Pereira Ramos Cardoso (idem). Sujeitos que fizeram funcionar a estrutura
transatlântica que reatualizou o tráfico negreiro no segundo quartel dos oitocentos, mas ainda
na penumbra nas análises históricas, encobertos pelo silêncio imposto pela ilegalidade.

Aristocracia negreira: uma ideia em construção

F azendeiros negreiros atuaram na viabilização, na reabertura do tráfico e na revitalização


da escravidão no Brasil. Reforçamos o argumento de que esses senhores agenciaram
diretamente o processo de reestruturação do tráfico de africanos nos Oitocentos. Ao erguerem
seus complexos agrários, tiveram por base a reabertura do comércio negreiro e sua estabi-
lização na década de 1840. Portanto, as maiores fortunas imperiais, assim como a própria
receita do Estado brasileiro, estiveram indelevelmente atreladas à reabertura e manutenção
do comércio negreiro na clandestinidade. A construção da questão nesses termos garante uma
abordagem inovadora de dois objetos erroneamente apartados da historiografia: a formação
do amplo complexo cafeeiro da bacia do Paraíba, cuja extensão, paralela ao arco litorâneo da
província do Rio de Janeiro, estende-se do norte de São Paulo ao sul do Espírito Santo; e o
comércio negreiro em sua fase clandestina (Pessoa, 2015: 90-140).

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Walter Luiz Carneiro de Mattos Pereira e Thiago Campos Pessoa

O exercício proposto pela análise do relatório Alcoforado, pelo guia de fontes de Thalita
Casadei e pelos indícios apontados no livro de João Oscar faz ver que os espaços montados
para a prática do crime de redução de indivíduos juridicamente livres ao cativeiro envolviam re-
des transatlânticas de negócios e poder. Da mesma forma, esses lugares serviam de suporte aos
desembarques, à recuperação e à redistribuição de africanos destinados à lavoura açucareira e
aos cafezais que cresciam nas bacias do Paraíba e do Itapemirim-Itabapoana. Note-se que não
estamos nos referindo a simples portos de recepção de tumbeiros. A descrição dos bens dos
comendadores Graça e Faria, dos irmãos Breves e do barão/visconde de Vila Nova do Minho re-
velam amplas propriedades costeiras, que poderíamos chamar de “complexos negreiros”: ilhas,
praias, barracões, trapiches, brigues e iates compunham patrimônios oceânicos postos a serviço
da finalização dos empreendimentos negreiros. Ao longo do litoral brasileiro, outros complexos
semelhantes foram montados com o intuito de reduzir indivíduos livres à escravidão e remontar
a estrutura de mercados negreiros, semelhante ao Valongo, fechado na Corte como decorrên-
cia da lei de 7 de novembro de 1831. Sobre eles, sabemos muito pouco. Remontá-los em sua
estrutura, funções e agências dos que os faziam funcionar é o primeiro passo para rompermos
com o compromisso de silêncio alinhavado pelo Estado imperial brasileiro.
Vale destacar que devemos navegar em águas profundas para trazer de lá sujeitos an-
corados na ilegalidade expressa pela diáspora forçada de milhares de africanos entregues à
escravidão no Império do Brasil. Traficantes nobilitados pela monarquia brasileira e portugue-
sa, a despeito de afrontarem as leis nacionais, reconhecidos por negociar a “carne humana”,
como denunciava o jornal O Philantropo, expoente na imprensa abolicionista dos anos de
1850.Consolidava-se, assim, uma “aristocracia negreira”. Comendadores e barões fizeram do
crime profissão no Império do Brasil e, com esse ofício, amealharam fortunas colossais. Muitos,
em seu descanso eterno, ocultaram-se por trás do compromisso do Estado, materializado nas
palavras do então ministro Eusébio de Queiroz,de não “resolver o passado”. Marca indelével
da nossa história, agentes, lugares e a cumplicidade do País recém-fundado e de sua so-
ciedade com negócios negreiros foram relegados intencionalmente ao esquecimento porque
atentavam contra seus próprios estatutos jurídicos, contra a própria moralidade do mundo
dito civilizado em meados dos Oitocentos, evidenciando, em última instância, a natureza da
formação nacional e do mundo do trabalho em redefinição no Brasil. Nesse sofisticado arranjo,
o Estado brasileiro cobriu com véu sedoso a aristocracia reinventada nos trópicos, livrando-a
da adjetivação negreira, incensada pelo manto imperial. Confrontar o passado que se fez calar
é desafio aberto e inconcluso, que procuramos encaminhar neste texto que se encerra como
agenda para o futuro.

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Silêncios atlânticos: sujeitos e lugares praieiros no tráfico ilegal de africanos para o
Sudeste brasileiro (c.1830 – c.1860)

Notas

1 O projeto em questão foi proposto pelos autores, aprovado, e está sendo apoiado pelo Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meioda Chamada Universal MCTI/CNPq 28/2018,
com previsão de término no início de 2022, culminando com a publicação de um livro sobre a reorganização
dos negócios negreiros em sua fase ilegal do litoral que segue do sul do Espírito Santo ao norte de São Paulo.

2 O relatório de Joaquim de P. G. Alcoforado foi publicado em tradução de sua versão inglesa por Ferreira
(1995). Recentemente, republicamos o texto do relatório na versão entregue ao Ministério da Justiça do Im-
pério do Brasil, com pouquíssimas diferenças em relação à sua versão anterior (Pessoa, 2018a).

3 Ver The Trans-Atlantic Slave Trade Database.

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100 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 100-100, janeiro-abril 2019
Artigo

DA ESCRAVIDÃO À LIBERDADE: A história


de Maria da Conceição, roubada e
escravizada (Nazaré, 1830-1876)
From Slavery to Freedom: The story of Maria da Conceição,
abducted and enslaved (Nazaré, 1830-1876)
De La esclavitud a La Libertad: La historia de Maria da
Conceição, raptada y esclavizada (Nazaré, 1830-1876)

Virginia Queiroz BarretoI*

http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942019000100006

I Universidade do Estado da Bahia (UNEB) - Salvador – BA, Brasil.

* Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Departamento de Ciências Humanas – Campus I, Salvador – BA, Brasil.
(vqbarreto@gmail.com), ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8305-974X

Artigo recebido em 15 de novembro de 2018 e aceito para publicação em 12 de fevereiro de 2019.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 101-122, janeiro-abril 2019 101
Virginia Queiroz Barreto

Resumo
Em 1830, Maria da Conceição, moradora da Vila de Nossa Senhora da Ajuda de Jaguaripe, recôncavo sul da Bahia,
foi vítima da prática ilícita de “reduzir pessoa livre à escravidão”. No longo período de 1830 a 1876, permaneceu
ilegalmente como escrava. No Brasil, a legislação em vigor poderia ajudar a referida “escrava” na tentativa de obter
a sua liberdade de volta, mas o caminho empreendido por ela até a Justiça, na qual teve que provar sua condição
de mulher livre, levou longos e penosos 46 anos. Essa história será contada a partir do processo civil de ação de
liberdade movido por ela em 1876. Os dados localizados em tal processo e o cruzamento de outras fontes foram
o fio condutor para entender as tramas vividas por essa mulher que, na contramão de uma sociedade escravista
marcada pela hierarquia de gênero, conseguiu alcançar seus objetivos, revelando, assim, que em diversas situações,
o resultado das relações de poder nem sempre foi negativo para as mulheres. Sua história de vida possibilitou, ainda,
trazer à tona muitas outras histórias de sujeitos que compuseram o universo vivido por essa personagem.

Palavras-chave: Escravidão; Liberdade; Recôncavo baiano; História das mulheres.

Abstract
In 1830, Maria da Conceição, a resident of the village of Nossa Senhora da Ajuda de Jaguaripe, in the southern
region of the Bahia cove, was a victim of the illegal practice of ‘reducing free people to slavery.’ In the long period
between1830 and1876, she lived as anillegal slave. In Brazil, the legislation in effect at the time could help the
aforesaid ‘slave’ tryto gain her freedom back, but the path she took to Justice, in whichshe had to prove her status
as a free woman, took a long and arduous 46 years. This story will be told based on the action of freedom civil action
moved by her in 1876. The data located in this civil action and the crossing of other sources were the guidelines to
understand the situations lived by this woman who, going against a slave society marked by gender hierarchy, was
able to achieve her goals, thus revealing that in several situations the result of power relations has not always been
negative for women. Her life story has also made it possible to bring to light many other stories of the individual
swho were part of the universe in which this character lived.

Keywords: Slavery; Bahia cove; Women’s history.

Resumen
En el año 1830, Maria da Conceição, moradora del pueblo de Nossa Senhora da Ajuda de Jaguaripe, en la ensenada
sur de Bahía, fue víctima de la práctica ilícita de “reducir a la persona libre a la esclavitud”. En el largo periodo
de1830 a 1876, permaneció ilegalmente como esclava. En Brasil, la legislación en vigor podría ayudar a la referida
“esclava” en su intento de reconquistar la libertad, pero el camino hecho por ella hacia la Justicia, en la cual tuvo
que probar su condición de mujer libre, llevó largos y penosos 46 años. Esa historia será contada a partir de la
demanda civil de acción de libertad presentada por ella en 1876. Los datos localizados en tal demanda y el cruce con
otras fuentes han sido el hilo conductor para comprenderlas situaciones vividas por esta mujer que, a contramano
de una sociedad esclavista marcada por la jerarquía de género, logró alcanzar sus objetivos, revelando, por lo tanto,
que en diversas situaciones el resultado de las relaciones de poder ni siempre ha sido negativo para las mujeres. Su
historia de vida posibilitó aún sacar a la luz muchas otras historias de individuos que compusieron el universo vivido
por ese personaje.

Palavras clave: Esclavitud; Libertad; Ensenada de Bahía; Historia de las mujeres.

102 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 102-122, janeiro-abril 2019
DA ESCRAVIDÃO À LIBERDADE:A história de Maria da Conceição, roubada e
escravizada (Nazaré, 1830-1876)

N os primeiros dias do mês de junho do ano de 1876, Maria da Conceição, de cor “cabra”,
56 anos de idade, escrava de dona Maria Josefina de Andrade, moradora na freguesia de
Santo Antônio de Jesus, conseguiu permissão de sua senhora para ir à vila de Jaguaripe, ocasião
em que a mesma deu entrada em uma ação de liberdade contra os seus “pretensos senhores”.
A princípio, a ação proposta por Maria da Conceição, em que uma escrava reivindicava
o direito à liberdade por considerar injusto o cativeiro em que se encontrava, me pareceu
corriqueira. No entanto, uma leitura mais minuciosa das 424 páginas que compõem o seu pro-
cesso, iniciado em junho de 1876, revelou uma situação bem diferente daquelas que levaram
muitos escravos à Justiça.
A autora não alegava discordar do preço fixado por seu senhor para a compra de sua
alforria; não alegava maus-tratos; não tinha sido liberta de pia, e continuava em cativeiro
mesmo após a morte do seu senhor; e não alegava ter sido reescravizada, mas declarava
ter sido escravizada ilegalmente. Nascida em 1830, filha da liberta Antonia Francisca, Maria
revelou no documento judicial “ter nascido de ventre livre”, ter sido “furtada” aos 10 anos de
idade na vila de Jaguaripe, onde vivia com sua mãe, e ter sido vendida como escrava a Felix
José Barreto, na freguesia de Santo Antonio de Jesus, onde permaneceu cativa por 46 anos de
sua vida. Assim, a ação proposta por Maria da Conceição apresentava um elemento novo: a
escravização de pessoa de cor, livre.
Além dessa peculiaridade, outro ponto também chamou a minha atenção: a ação pro-
posta por ela não requeria apenas a sua liberdade, mas, igualmente, a de suas duas filhas e
seus sete netos, todos nascidos na escravidão, entre os anos de 1830 e 1875. Portanto, essa
era uma ação que envolvia diretamente a liberdade de toda uma família escravizada ilegal-
mente no recôncavo baiano, totalizando dez indivíduos em posse de senhores diversos. Em
termos legais e concretos, estes fatos configuravam uma ação complicada.
Já nas primeiras páginas daquele processo judicial iniciado em 1876, que consumiu lon-
gos dias de uma minuciosa leitura, foi se descortinando a história da vida de quatro gerações
de mulheres que vivenciaram a escravidão e a liberdade no recôncavo baiano durante o Oi-
tocentos. Nas entrelinhas do processo, observa-se a ilegalidade da condição escrava imposta
a três dessas quatro gerações, a partir de uma atrocidade cometida nas primeiras décadas do
século XIX. Embora numerosas pesquisas tenham tratado das ações de liberdade movidas por
escravos, revelando uma variedade de motivações (Chalhoub, 1990; Mattos, 2013; Abrahão,
1992; Grinberg, 2008), situações como a vivida por Maria da Conceição – mulher livre de cor,
vendida como escrava –, pouco documentadas pela historiografia, contribuem não apenas

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 103-122, janeiro-abril 2019 103
Virginia Queiroz Barreto

para aprofundar a análise sobre as diversas formas de ilegalidade às quais foram submeti-
dos os sujeitos escravizados no Brasil, como também abre uma brecha por onde podemos
espreitar a construção de importantes redes de proteção, laços de solidariedade e formas de
sobrevivência criados por mulheres negras no difícil cotidiano da vida escrava.
Contrariando a ideia de que aceitavam a dominação com passividade (Paixão; Gomes,
2012: 298), mulheres negras escravizadas, como Maria da Conceição, marcaram suas vidas re-
inventando formas de resistência, construindo ambientes de solidariedade, articulando meios
de preservar a própria vida e a de seus familiares. No Brasil, estudos sobre a vida cotidiana
de mulheres na escravidão, os caminhos trilhados por elas para a conquista da liberdade e
seus significados lançaram luz sobre suas práticas sociais, revelando, entre outras coisas, o
papel primordial que ocuparam no mercado informal de trabalho e o papel das identidades de
gênero (Dias, 1984; Soares, 1996; Farias, 2015; Cowling, 2012).
No caso aqui estudado, a documentação encontrada já sinalizava a possibilidade de
se recuperar, por meio de uma personagem singular, a trajetória de uma família escravizada
ilegalmente no mundo rural do sul do Recôncavo Baiano do século XIX. No entanto, fazia-se
necessário varrer os arquivos da região e da capital da Bahia em busca de outros documentos
que trouxessem mais informações sobre a região e sobre outros sujeitos que, de uma forma
ou de outra, estivessem ligados a essa família.
Além da já citada ação de liberdade, localizamos outros documentos que envolviam a fa-
mília de Maria da Conceição, entre eles, os assentos de batismo, inventários, testamentos e uma
provável ação criminal contra Antonia Francisca, mãe de Maria da Conceição. Documentos como
os autos criminais de Jaguaripe, situados entre os anos de 1830 e 1876, envolvendo outros
sujeitos, também foram escrutinados, e trouxeram elementos importantes para se compreender
a escravidão naquela localidade, fazendo emergir não apenas a relação básica entre escravos e
senhores, mas toda uma rede mais ampla de conexões que os envolvia: laços afetivos, cadeias
hierárquicas, relações de vizinhança e de parentesco. Tais documentos revelaram também a exis-
tência de uma linha tênue que marca a fronteira entre a escravidão e a liberdade na região.

Uma vida, muitas histórias

E m 27 de novembro de 1820, Antonia Francisca, liberta, natural e moradora na Vila de


Nossa Senhora D’Ajuda de Jaguaripe, levou em seus braços a pequena Maria da Con-
ceição, sua filha recém-nascida, para receber aquele seu primeiro sacramento cristão, o qual,
anos mais tarde, serviria para provar sua condição de nascida livre.

104 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 104-122, janeiro-abril 2019
DA ESCRAVIDÃO À LIBERDADE:A história de Maria da Conceição, roubada e
escravizada (Nazaré, 1830-1876)

A capela escolhida para o batismo ficava a “três léguas de distância” da vila de Jaguari-
pe, localizada na fazenda Santo Antônio das Barreiras e, ao que tudo indica, os arranjos para
tal batismo em uma capela na qual “ninguém as conhecia” foram feitos por Pedro Agapito,
sacristão e amásio de Antonia Francisca à época. Esses arranjos, segundo a defesa dos réus
no processo de ação de liberdade, serviram para esconder a sua real condição: escrava e não
liberta. Eis algumas ponderações sugeridas por esta pesquisa, caso considerássemos que a de-
fesa tivesse razão: como poderia uma escrava ter se mantido tanto tempo longe do cativeiro,
posto que Maria, morando com sua mãe na vila de Jaguaripe, alegava ter sido roubada aos
10anos de idade?
É fato que a crioula Antonia Francisca, mãe de Maria da Conceição, viveu na condição
de escrava de ganho durante o tempo em que era cativa, e usufruiu das facilidades que essa
condição lhe garantia. É fato, também, bastante documentado pela historiografia da escravi-
dão, que o trabalho de ganho executado por mulheres escravas as aproximava do mundo das
libertas, uma vez que essa atividade possibilitava uma maior mobilidade, pouco diferenciando
o cotidiano vivido por elas daquele experimentado por mulheres pobres livres e forras (Dias,
1984; Wissenbach,1998; Soares, 1996; Andrade, 1988).
No sul do Recôncavo Baiano, essa foi uma realidade. A documentação escrutinada
sinalizou a presença de mulheres escravizadas ocupando as mesmas funções que as pobres
livres e forras. Com autorização de seus senhores, as escravizadas circulavam pelas povoa-
ções e vilas da região comprando e vendendo mercadorias, habitavam casas ou quartinhos
de aluguel, e estabeleciam seus horários de trabalho. Ainda que tivessem de prestar conta
de suas atividades, era, sem dúvida, uma vida mais “livre” do que aquela vivenciada por
suas companheiras de condição alocadas nas propriedades rurais da região e submetidas à
rotina rígida das lavouras.
Tornar-se escrava de ganho foi, certamente, uma condição que muitas mulheres escravi-
zadas almejavam. As “vantagens” variavam, entre outras, desde a de viver livremente “sobre
si” até a de angariar recursos para a compra da liberdade. Assim, tornar-se uma escrava de
ganho e poder circular livremente pelas vilas e freguesias da região foi uma conquista que
Antonia Francisca não deixou escapar. A permissão concedida por sua senhora Anna de Jesus
para “negociar e pagar semanas” – como declararam as testemunhas no processo – foi, sem
dúvida, um passo definitivo na busca de sua liberdade. Viver de sua agência, mesmo que de
tempos em tempos, de acordo com o contrato estabelecido com sua senhora, tivesse de retor-
nar ao cativeiro para prestar contas do trabalho executado na semana, trazia certa autonomia.
Além da flexibilidade dos horários de trabalho, podia administrar seus ganhos, construir espa-

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 105-122, janeiro-abril 2019 105
Virginia Queiroz Barreto

ços afetivos e, principalmente, deslocar-se por entre as vilas, freguesias e pequenas povoações
rurais do sul do Recôncavo Baiano.
Ainda sob o domínio de sua senhora Anna de Jesus, Antonia Francisca penou merca-
dejando pelas povoações pertencentes ao município de Jaguaripe, vendendo e comprando
víveres, atividade que compartilhou, muitas vezes, com outras companheiras de infortúnio,
também escravizadas. Como vendedoras ambulantes – sozinhas ou, muitas vezes, em peque-
nos grupos de duas ou três –, cumpriam uma rotina diária de trabalho que incluía transpor
grandes distâncias por difíceis caminhos de barro, enfrentar travessias de rios e encarar as
dificuldades impostas pela mata existente naquela região. Esse foi o caso da escrava africana
Felicidade, que transitava por entre as diversas povoações daquela localidade mercadejando
frutas e verduras “a serviço de seu senhor”, como ela mesma declarou ao ser arrolada como
informante no processo crime ocorrido em Jaguaripe no ano de 18641.
Além dos perigos impostos pela atividade realizada, o deslocamento por variadas lo-
calidades possibilitou o acesso a importantes relações afetivas e de companheirismo com
diversos sujeitos que, no caso de Antonia Francisca, seriam, mais tarde, peças fundamentais
na disputa judicial envolvendo sua filha, netos e bisnetos. Ao que tudo indica, o trabalho de
ganho praticado por Antonia foi essencial não apenas para a construção de uma importante
rede afetiva, pois foi também nas ruas que conseguiu amealhar alguns vinténs “por meio de
esmolas que agenciara com o consentimento de Anna de Jesus” sua senhora àquela época,
para a compra de sua liberdade, quatro anos antes do nascimento de Maria da Conceição,
como afirmam as testemunhas2.
Uma vez liberta, sua rotina de trabalho pouco mudou. Continuou mercadejando e resi-
dindo na mesma casinha de aluguel na rua do Torce Umbigo, na qual morava quando escrava.
Durante o tempo em que ali viveu, Antonia construiu importantes laços de solidariedade com
mulheres que, assim como ela, viveram as dificuldades de criar seus filhos sem a presença de
um companheiro. Consta, na documentação, que ela teve uma filha parda de nome Umbe-
linda, de pai ignorado, e que pouco tempo depois engravidou novamente e deu à luz outra
menina de nome Maria da Conceição, fruto de um relacionamento com um tal de Manoel
Rugeso, morador do Mucujó, povoado ribeirinho próximo à vila de Jaguaripe. Esse relaciona-
mento, assim como o anterior, parece não ter durado muito tempo. Antes mesmo de Maria
nascer, Antonia já tinha outro parceiro, o sacristão Pedro Agapito, que a ajudou no batismo
da recém-nascida na capela da fazenda de Santo Antonio das Barreiras. Não sabemos quanto
tempo durou tal relação; mas, ao que tudo indica, eles já não mais conviviam na época do
desaparecimento de Maria, em 1830.

106 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 106-122, janeiro-abril 2019
DA ESCRAVIDÃO À LIBERDADE:A história de Maria da Conceição, roubada e
escravizada (Nazaré, 1830-1876)

Mãe de duas crianças, Antonia Francisca revela em sua singular trajetória “uma espécie
de sumário de muitas outras trajetórias entrecruzadas e similares” (Paiva, 2002: 16). Assim
como ela, outras mulheres cativas cruzaram a fronteira entre a escravidão e a liberdade sem
que, no entanto, tivessem mudanças sociais e econômicas significativas em suas vidas. Con-
tinuavam pobres, morando em casebres, e, sós, criavam seus filhos, frutos de “tratos ilícitos”,
gerados no sabor de paixões passageiras. As relações que estas mulheres estabeleceram entre
si foram, muitas vezes, favorecidas pela proximidade de suas moradias e pela condição de
pobreza em que viveram. A descrição de hábitos diários como ir na fonte buscar água e tirar
lenha no mato ou deixar seus filhos aos cuidados de vizinhos, recorrente nas narrativas de
testemunhas, réus ou vítimas em diversos processos judiciais, atestam a convivência cotidiana
e a importância de tais redes sociais na dura vida de uma mulher pobre. Tratava-se de laços
afetivos importantes dos quais poderiam lançar mão sempre que precisassem de apoio, so-
bretudo em momentos cruciais como o da ação de liberdade, na qual Maria teve de provar
sua condição de “nascida livre”, 46 anos depois de ter sido roubada e vendida como escrava.
E foi, provavelmente, à procura desse apoio que Maria buscou, em Jaguaripe, localizar
pessoas – muitas delas, assim como sua mãe, egressas da escravidão – para atuar como
testemunhas na ação de liberdade em que revela a atrocidade vivida por ela em meados de
1830, com apenas 10 anos de idade. Das oito testemunhas indicadas pela defesa no processo,
cinco eram moradoras da vila de Jaguaripe desde o tempo em que Maria havia sido roubada
em 1830, conheceram sua mãe no tempo da escravidão, e atestaram em juízo a sua liberdade
antes do nascimento de Maria. Duas delas, em 1876, já libertas, continuavam morando na
mesma vila de Jaguaripe: Úrsula Antonia da Conceição e Rachel de Seixas, africanas com mais
de 60 anos de idade.
Vizinhas e parceiras na dura luta pela sobrevivência, Úrsula Antonia da Conceição afir-
mou, categoricamente, que Antonia, ao dar a luz a Maria da Conceição, “havia quatro anos
que se libertara, o que ela, testemunha, sabe por ter conhecido a mesma Antonia Francisca
a qual era tida e havida como forra na referida Villa de Jaguaripe”.3 Naquela época, Úrsula
era uma jovem de aproximadamente 18 anos, morava com sua filha em uma casinha na rua
do Torce Umbigo, e, ao ser questionada acerca do desaparecimento de Maria, recordou que
“no dia seguinte ao desaparecimento, a mãe de Maria foi ter com ela, perguntando-lhe pela
autora, dizendo-lhe ter esta desaparecido”.4
Naquele tempo, a exemplo do que ocorre nas pequenas cidades do interior nos dias
de hoje, os acontecimentos tinham grande repercussão. Sabia-se, por exemplo, quem tinha
participado desse ou daquele crime, quem era escravo e a qual senhor pertencia, quem

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 107-122, janeiro-abril 2019 107
Virginia Queiroz Barreto

conseguiu se alforriar e, principalmente, se essa ou aquela mulher era honesta ou não,


apenas por ser “voz pública”. No dia seguinte ao desaparecimento de Maria, a cidade já
comentava o ocorrido sem que se soubesse o seu paradeiro. Em 1877, 47 anos depois do
desaparecimento de Maria, Athanasio Rodrigues, natural de Mucujó – localidade próxima à
vila de Jaguaripe –, ainda lembrava que “era público e notório na referida Villa o furto da
mesma Maria da Conceição”.5
Desqualificados pelos advogados dos réus, por serem, “analphabetas” e “escravas”, as
testemunhas revelam a proximidade e, até mesmo, certa cumplicidade existente nesses rela-
cionamentos, principalmente entre aqueles que também haviam experimentado trajetórias de
vida marcadas pela sujeição e exploração de seu trabalho. O relacionamento muito próximo,
“quase uma irmandade”, desenvolvido pela crioula Antonia na pequena vila de Jaguaripe
com seus vizinhos era uma característica das pequenas cidades e vilas do interior do Brasil.
Naquela época, e durante todo o século XIX, a vila de Jaguaripe não passava de uma pe-
quena povoação – não dispomos de dados sobre a população na década de 1830, época
do desaparecimento de Maria, mas em 1872 a vila contava com uma população de 2.537
pessoas, e, destas, apenas 342 (13%) eram escravizadas, e o número de pardos e pretos su-
perava o dos brancos.6
De fato, outros dados revelam que essa vila pouco se desenvolveu ao longo do século
XIX. Seus habitantes, homens e mulheres de poucas posses, proprietários de pequenos
7

negócios, lavradores, açougueiros, embarcadiços, oleiros – para citar apenas algumas das
atividades ali desenvolvidas – parecem ter partilhado com escravos de ganho e libertos
as ruas mais periféricas da cidade. Alguns desses homens e mulheres de diferentes status
sociais residiam em ruas como “nas Pedrinhas” ou na “rua da Quitanda”, locais onde,
possivelmente, os aluguéis tinham um preço mais acessível a essa camada da população
economicamente menos favorecida. Foi nesse ambiente que nasceu e viveu até os 10 anos
de idade a pequena Maria.
Com uma trajetória de vida oposta à de sua mãe, que nasceu escrava e conquistou a
liberdade com a compra de sua alforria, Maria nasceu livre e cruzou a fronteira da liberdade
para a escravidão ao ser vendida ilegalmente como escrava em 1830. Embora convivesse
diariamente com a escravidão na vila de Jaguaripe – sua própria mãe tinha sido escrava, e
outros amigos e conhecidos ainda permaneciam nessa condição –, talvez ela não imaginasse
o quanto a escravidão poderia ter faces diversas: a escravidão urbana, mais frouxa, com a qual
ela conviveu, e na qual o cativo tinha uma maior mobilidade; e a rural, que viveu na própria
pele durante 46 anos.

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DA ESCRAVIDÃO À LIBERDADE:A história de Maria da Conceição, roubada e
escravizada (Nazaré, 1830-1876)

Por meio das informações trazidas pelos depoentes no processo de ação de liberdade,
aberto em 1876, sabemos que ela viveu livre em companhia de sua mãe até os 10 anos de
idade. Durante o tempo em que residiu em Jaguaripe, Maria conviveu com a ausência tempo-
rária de sua mãe, quando esta saía da vila para mercadejar em outras praças. Da beira do cais,
ela costumava observar o movimento rápido das embarcações que subiam e desciam o rio em
direção a Nazaré, Estiva, Aldeia, Maragogipinho e a outros povoados ribeirinhos da região. Ela
própria já tinha feito algumas incursões por esses caminhos, sempre em companhia de sua
mãe, para povoações mais próximas.
Desde tempos remotos, pequenas embarcações eram utilizadas pela população daquelas
localidades “onde barcos, saveiros e canoas, às centenas, faziam o câmbio com as fazendas
e os povoados que nasciam perto dos engenhos”, como pontuou Isaías Alves (1967: 18).
Embora possa ter sido o meio mais rápido para transpor as distâncias entre as povoações, eco-
nomizando dias de caminhada, nem sempre foi possível para a população mais pobre, fosse
livre ou até mesmo escravos de ganho, utilizar esse meio de transporte, pois o preço pago pelo
serviço onerava demais aqueles cujos recursos eram parcos.
A opção por fazer o percurso a pé, sujeito a “ataques e roubos”, que eram comuns
nesses caminhos, nem sempre foi uma alternativa, mas a falta dela. Sozinhas ou em pequenos
grupos, mulheres eram vistas nesses caminhos carregando seus balaios com aipins, toucinhos,
peixes moqueados, mariscos e outros produtos; barulhentas, passavam cantando e, por vezes,
paravam para oferecer os produtos ou para negociar outros. A própria Maria, em diversas
oportunidades, esteve ao lado de sua mãe nessas caminhadas.
A proximidade desses povoados de centros maiores, como Nazaré e, até mesmo, a ca-
pital Salvador – favorecida pelo uso de embarcações – trouxe àquelas localidades um maior
intercâmbio de mercadorias e pessoas. Era comum nas manhãs de sexta e sábado, quando
ocorriam tradicionalmente as feiras livres, se observar um fluxo maior de pessoas e mercado-
rias embarcadas nas pequenas canoas deslocando-se para essas povoações. Ainda na primeira
metade do século XIX, o intenso trânsito de pessoas que entravam e saíam das povoações e
o aumento significativo de queixas de roubo e fuga de escravos e outros crimes cometidos
naquelas localidades, onde “vadios e ladrões” encontravam facilmente locais para se acoitar,
levaram as autoridades daquelas povoações a empreender um rígido controle sobre a movi-
mentação de pessoas.8
De fato, além de ser uma área de atração de pessoas vindas de diversas partes do
recôncavo e da capital em busca de trabalho nas fazendas, a geografia do sul do recôncavo
também propiciava mil possibilidades de ocultar crimes. Dadas as condições da natureza, a

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Virginia Queiroz Barreto

qual ofertava largos rios e uma área densamente coberta de Mata Atlântica pouco povoada,
a formação de mocambos, quilombos e ranchos que abrigavam todo tipo de gente foi uma
realidade da qual as autoridades tinham conhecimento, mas pouco podiam controlar por es-
cassez de pessoal (Gomes, 2015). As diversas correspondências trocadas entre as autoridades
municipais e o presidente da Província – cujo teor estava sempre relacionado a questões de
segurança – atestam um índice elevado de sujeitos perambulando livremente pelas praças do
recôncavo. Indubitavelmente, alguns sujeitos que por ali viviam eram oriundos da escravidão
e nunca tinham praticado qualquer tipo de contravenção penal. Para homens e mulheres
egressos do cativeiro que logravam meios de sobrevivência, aquele era um ambiente impor-
tantíssimo por proporcionar múltiplas alternativas de ganhos. Os homens empregavam-se
nos destacamentos policiais, envolviam-se em serviços associados ao comércio local – no
abastecimento da cidade de Salvador e outras localidades do recôncavo –, ou, simplesmente,
adaptavam-se ao meio ambiente, retirando dos rios e das matas os víveres necessários a sua
sobrevivência (Castellucci Jr., 2008: 61).
A esses trabalhadores sazonais misturavam-se mulheres que, vivendo em situação de
extrema pobreza, buscavam alternativas de sobrevivência nas vilas e povoados ribeirinhos.
O ambiente em que circulavam esses homens e mulheres “despossuídos” propiciava, além
do trabalho, desentendimentos, brigas, roubos e até mortes que geraram inúmeros proces-
sos judiciais, possibilitando aos historiadores uma maior aproximação dos meios de vida
praticados por eles e de vivências cotidianas em que se multiplicam formas peculiares de re-
sistência e luta (Dias, 1984). A mobilidade espacial dessa gente pobre livre, apresentada nos
diversos documentos da época, também propiciava a “reinserção social” desses indivíduos
nas vilas e cidades para onde afluíam em suas andanças, como pontuou Hebe Mattos ao
estudar os significados da liberdade no sudeste escravista. Segundo a autora, “o recurso à
mobilidade espacial era comum a ‘ricos’ e ‘pobres’, mesmo considerando-se as expressivas
diferenças que a posse [...] poderia representar nas oportunidades abertas de reinserção
social” (Mattos, 2013: 41).
No sul do recôncavo, essa “mobilidade”, principalmente de uma “gente de cor”, livre
e liberta, que entrava e saía das povoações, deixou, em certa medida, as autoridades locais
em estado de constante alerta. A postura criada em 1831 refletia bem esse temor. Ficavam, a
partir daquela data, proibidos o embarque e o desembarque de indivíduos, nos cais e portos,
depois das 22 horas, assim como todo indivíduo que fosse pernoitar naquela povoação teria
de apresentar documentos de sua origem.9 Com isso, acreditavam as autoridades, estariam
inibindo a vadiagem e os crimes contra os “cidadãos de bem”, reduzindo os acidentes, assal-

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DA ESCRAVIDÃO À LIBERDADE:A história de Maria da Conceição, roubada e
escravizada (Nazaré, 1830-1876)

tos e crimes, o que nem sempre ocorreu. Wellington Castellucci confirma, em suas pesquisas
sobre o recôncavo no século XIX, a presença de negros fugidos que buscavam abrigo nessas
localidades, a exemplo do cabra Tibúrcio, escravo fugido, que em 1852 morreu na cadeia de
Nazaré. O mesmo autor sublinha ainda que “era cada vez mais difícil controlar e registrar
pessoas que apareciam e logo desapareciam das paróquias pertencentes à Comarca de Na-
zaré das Farinhas” (Castellucci Jr., 2007: 158). E era, certamente, esse tipo de gente que as
autoridades queriam controlar ao criarem a Postura Municipal de 1831.
Ainda que pesasse sobre essa população pobre de cor a obrigatoriedade de apresentar a
documentação comprobatória de sua condição e residência, parece que essa exigência pouco
inibiu a circulação de foragidos da Justiça e de escravos fugidos, assim como pouco coibiu os
constantes furtos de cativos na região, principalmente de crianças escravas, que eram vendi-
das em outras freguesias. Por meio das informações disponibilizadas nas correspondências
entre as autoridades municipais e o presidente da Província, sabemos que, em 1839, circula-
vam naquela região “indivíduos de má índole” que foram denominados como “passadores
de escravos furtados”. Além disso, as autoridades denunciavam a necessidade de aumentar o
corpo policial, visto que a região, além de “abundante de vadios, é mesmo um dos pontos de
desembarque de escravos furtados”,10 o que nos leva a crer que a pequena Maria poderia ter
sido levada por um desses indivíduos.
No dia em que foi “roubada alta noite” de Jaguaripe, Maria cumpria tranquilamente a
sua rotina diária. Era o mês de setembro, aproximava-se o verão, época em que os mariscos
abundavam nos mangues e a fartura de peixes proporcionada pelo rio Jaguaripe trazia renda
extra para as mulheres marisqueiras e para aquelas que comercializavam, em tabuleiros, o
pescado miúdo – moqueado ou in natura – nas vilas. Tal atividade exigia algumas horas longe
de casa e, consequentemente, seus filhos menores, que ainda não estavam incorporados a
esse mercado de trabalho, teriam de ficar sós ou em companhia de algum parente ou vizinho.
Numa sociedade marcada muito mais pelas relações de camaradagem e vizinhança do que de
parentesco, estabelecer laços de solidariedade e vizinhança era essencial para a sobrevivência,
e Antonia Francisca sabia disso. Ao deixar Maria da Conceição, com apenas 10 anos de idade,
aos cuidados de Maria, filha de Rangel de Magalhães, ela acreditava que sua filha estaria
segura e ainda teria a oportunidade de aprender a “ler e coser”.
Aquele teria sido um dia comum como tantos outros, caso não tivesse Maria desapa-
recido “repentinamente, sem que sua mãe pudesse descobrir o destino que tivera ella”.11
As circunstâncias do roubo de Maria não são reveladas na documentação, sabemos apenas
que ela foi roubada “alta noite” da casa de Rangel de Magalhães e que sua mãe, na manhã

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Virginia Queiroz Barreto

seguinte, teria saído em busca de informações sobre seu paradeiro, sem sucesso. Os vizinhos
de Antonia naquela época informaram que a perda da filha foi um golpe fatal na vida daquela
crioula, posto que ela “pouco sobreviveu” ao seu desaparecimento.
Àquela altura – enquanto sua mãe a procurava desesperadamente em Jaguaripe –, Ma-
ria já se encontrava em Nazaré das Farinhas na casa de Manoel Ribeiro. Ao que parece, a
negociação de sua venda já tinha sido previamente acertada entre o “passador de escravos
roubados” Manoel Ribeiro e Francisco Esteves da Conceição (parente e dito procurador de
Anna de Jesus, ex-senhora de sua mãe), e, já nos primeiros dias após seu desaparecimento da
vila de Jaguaripe, ela já tinha sido conduzida para a freguesia de Santo Antonio de Jesus, onde
foi incorporada ao plantel de Félix José Barreto.
Proprietário de muitas terras, Félix Barreto ostentava prestígio e poder naquela freguesia.
Seu sítio, denominado Rio da Prata, produzia boa parte do açúcar comercializado na praça
de Nazaré. Além do engenho de açúcar, contava ainda com outra propriedade com casa de
fazer farinha e um alambique. Seus escravos trabalhavam, de sol a sol, nas extensas lavouras
de cana – que parece ter sido a principal atividade daquele sítio –, e também trabalhavam na
produção de mandioca e café. Assíduo frequentador das rodas de venda de escravos situadas
na praça principal de Nazaré, Felix Barreto negociava e comprava “peças” para atender à
crescente demanda por mão de obra de suas propriedades. Naquele mesmo ano de 1830 e
em anos seguintes, a família Barreto adquiriu mais 6 escravos: Joaquim, africano, 35 anos de
idade; Pedro, cabra, 14 anos de idade; Silvestre, crioulo, 25 anos de idade; Zeferino, crioulo, 20
anos de idade; Eustáquio, crioulo, 30 anos de idade, e um crioulinho de nome Manoel, com
apenas 2 anos de idade.12 Assim como Maria, todos foram levados para seu sítio.
A vida naquela propriedade rural se diferenciava muito da vida a que a pequena Maria
estava acostumada. Em Jaguaripe, vivia livre em companhia de sua mãe e de sua irmã Umbe-
lina; agora, longe de casa, estava cativa e teria de construir, no cativeiro, um espaço mínimo
de sociabilidade. Assim como ela, outros escravos recém-comprados passavam a integrar a co-
munidade já existente de cativos daquela propriedade e, na senzala onde passavam boa parte
do tempo quando não estavam na lavoura, buscavam, entre os companheiros de escravidão,
encontrar apoio para enfrentar as amarguras da vida em cativeiro. No caso da pequena Maria,
com apenas 10 anos, a construção de laços afetivos seria ainda mais importante para superar
a separação da mãe e construir, ainda que as condições materiais não a favorecessem, um
eventual caminho de volta à liberdade. Sabemos, pelo processo estudado, que a experiência
de liberdade vivida por Maria continuou em suas lembranças, definindo-se em oposição à
escravidão à qual foi submetida. As diversas tentativas frustradas de fuga empreendidas por
ela revelam sua inconformidade com tal situação.13

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DA ESCRAVIDÃO À LIBERDADE:A história de Maria da Conceição, roubada e
escravizada (Nazaré, 1830-1876)

Segundo ela própria relatou, durante o tempo que esteve cativa,“fez diversas tentativas
para ir a supra dita villa [de Jaguaripe] tractar de sua liberdade, mas seus esforços para esse
fim forão sempre frustrados, sendo ella suplicante presa por duas vezes em caminho para a
mesma...”.14 No contexto das fazendas, sítios e pequenas propriedades do interior rural do sul
do recôncavo, onde a lida diária nas lavouras de cana, mandioca e café ocupava boa parte
do tempo de trabalho, poucos eram os espaços de autonomia e as possibilidades de que um
escravo podia valer-se para se ausentar do cativeiro. Essa foi, certamente, uma dificuldade que
Maria vivenciou em seu cativeiro na zona rural do recôncavo.
Nas fazendas da região, uma possível “autonomia” escrava estava ligada muito mais à
concessão de um pedaço de terra para o cultivo de subsistência e de uma casa – na própria
propriedade – onde pudesse habitar com sua família do que à possibilidade de mobilida-
de espacial experimentada por cativos, que vivenciaram a experiência da escravidão urbana,
como ficou evidente na linha de defesa apresentada pelo advogado dos réus no processo de
ação de liberdade. Segundo este, a mobilidade espacial vivenciada por Antonia Francisca, mãe
da cabra Maria, refletia muito mais uma concessão feita pelo senhor, que permitia que seus
escravos “residissem fora de casa e athe mesmo fora do município de sua residência com a
obrigação do estipêndio semanário, ou mensal”. Essa permissão estava longe de constituir-se
em “direito à prescrição do captiveiro” ou “de direito à liberdade”.15
Embora essa concessão dependesse, obviamente, da boa vontade do senhor, a situa-
ção descrita pelo advogado em sua defesa evidencia ainda que, em alguns casos, o escra-
vo urbano podia migrar e fixar residência em outros municípios, situação que se opunha
diametralmente ao que vivenciava o escravo do mundo rural, obrigado a se fixar nas terras
do seu senhor, condição na qual agora vivia Maria. Se as evidências revelam as poucas
oportunidades de mobilidade espacial do escravo rural, elas não negam que esses cativos,
embora “presos à terra”, conseguiram estabelecer relações com libertos e pobres livres,
assim como com outros escravos de propriedades diferentes. Pelo menos é o que se observa
nos registros de casamento e batismo ao se estudar acerca dos laços de solidariedade e
família escrava (Barreto, 2016: 76-111).
Sem conseguir provar sua condição de livre, nasce no cativeiro, em 1841, Josefa, sua
primeira filha. Naquela época, onze anos após sua chegada àquela propriedade, ela contava
21 anos de idade, e ainda permanecia na condição de escravizada no sítio Rio da Prata. Sua
segunda filha, Leandra, nasceu em 1848, 7 anos após o nascimento de Josefa. Assim como a
maioria das mulheres cativas daquela região, Maria não formalizou sua união consensual na
igreja, e suas duas filhas engrossavam o número de crias ilegítimas daquela propriedade. A

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 113-122, janeiro-abril 2019 113
Virginia Queiroz Barreto

documentação não nos possibilita saber por quanto tempo Maria manteve o relacionamento
com o pai de suas filhas, tampouco se as duas eram fruto de uma mesma relação.
Ainda no cativeiro, Maria experimentou o contato com pessoas livres de cor, assim como
com ex-escravos que, sazonalmente, atuavam na propriedade em que ela era cativa. Parece ter
sido comum, no interior da área estudada, assim como o foi em outras áreas do Brasil oitocen-
tista, a presença de trabalhadores temporários: jornaleiros que permaneciam por algum tempo
na propriedade. No sítio Rio da Prata, o emprego de trabalhadores temporários, especializados
ou não, parece ter sido comum. João Evangelista de Sousa Cajueiro, 38 anos de idade, natural
de Nazaré das Farinhas, por exemplo, trabalhou “cerca de dois anos” como pedreiro naquela
propriedade. Assim como ele, outros trabalhadores livres podem ter vivido temporariamente
ali, o que teria criado possibilidades de relacionamentos afetivos entre cativas e indivíduos
de outros estratos sociais. Embora os senhores pouco se interessassem pelos “tratos ilícitos”
praticados por suas escravas e escravos, do ponto de vista econômico parece ter sido bastante
interessante para eles que essas relações dessem frutos. Afinal, em tempos de crise de mão
de obra, sobretudo após a lei de 1850, esses novos escravos movimentariam o comércio de
cativos naquela região.
Entre os anos de 1868 e 1871, foram negociados 82 escravos na freguesia de Santo
Antonio de Jesus. Desses, 24 eram crianças com idades entre 6 meses e 12 anos, represen-
tando quase 30% do total de escravos comercializados. Outro dado chama ainda mais a
nossa atenção: das 24 crianças vendidas, apenas 7 (29%) foram comercializadas com suas
mães, enquanto a maioria, ou seja, 71%, foram vendidas sozinhas, sem a companhia de suas
progenitoras. Apesar da determinação da lei de 25 de agosto de 1869, que proibia separar
a mãe dos filhos, “exceto quando o filho tivesse mais de 15 anos de idade” (Conrad, 1978:
107), e das pesadas multas previstas para o seu não cumprimento, parece que o atendimento
a esta foi negligenciado tanto pelos proprietários de escravos quanto pelos tabeliães que
atestaram tais vendas. Ainda que o comércio de crianças sós, sem seus pais, tenha sido uma
prática comum de senhores escravocratas naquela região, como apontam as fontes, alguns
senhores mantinham mães e filhos convivendo na mesma propriedade durante muitos anos,
como ocorreu com a então escrava Maria da Conceição, que viveu com suas duas filhas e três
de seus netos até o falecimento de Felix Barreto, em 1864.
Sem qualquer possibilidade de mobilizar-se para obter sua liberdade, Maria e sua família
mantiveram-se sob a posse de Felix Barreto até 1864, quando a morte daquele senhor foi
anunciada, e a partilha dos seus bens foi efetivada. O falecimento daquele senhor promoveu
uma verdadeira reviravolta na vida de Maria da Conceição. Trinta e quatro anos haviam se

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DA ESCRAVIDÃO À LIBERDADE:A história de Maria da Conceição, roubada e
escravizada (Nazaré, 1830-1876)

passado desde que ela fora “roubada e vendida com escrava”; sua família crescera e, àquela
época, ela já era mãe de duas mulheres e avó de três netos – Marcelino, Manoel e Belmira –,
filhos de Josefa, a mais velha, e todos residiam na mesma propriedade. Entretanto, de repen-
te, chegou a notícia de que ela e Leandra, sua filha de 16 anos, tinham sido aquinhoadas a
Ignácio Dias Barreto, um dos filhos daquele senhor, enquanto Josefa e seus três filhos perma-
neceriam morando na antiga propriedade com a proprietária Francisca Maria de Jesus, viúva
de Felix Barreto. Logo depois dessa primeira separação, ocorrida em 1864, outra separação
transferiu Leandra, por dote, para a posse de Severiano Sampaio de Oliveira Sandes. Naquela
época, sua família foi dividida entre os herdeiros de Felix Barreto, e parecia pouco provável que
ela conseguisse reverter aquela situação.
No decorrer dos doze anos em que esteve em posse de Ignácio Dias Barreto (1864-
1876), Maria acompanhou, mesmo que distante, o nascimento de mais cinco netos (Leandro
e Marcolino, filhos de Josefa; e Julio, Primitivo e Maria, filhos de Leandra) e o infortúnio da
morte de Belmira, sua neta, filha de Josefa, com apenas 10 anos de idade. Assim como ela
própria, suas filhas não formalizaram uma união, e seus netos nasceram como escravos, frutos
de relações amorosas vividas por suas mães no cativeiro.
Em 1875 nasceu Maria, filha natural de Leandra e última neta de Maria da Conceição,
fechando assim a rede familiar iniciada por Antonia Francisca, escrava de ganho que conquis-
tou sua liberdade com o fruto de seu trabalho nas primeiras décadas do século XIX. A terceira
geração de mulheres daquela família nasceu e viveu, por um longo período, sob o regime da
escravidão rural, na freguesia de Santo Antonio de Jesus, ainda que a matriarca Antonia Fran-
cisca tivesse lutado para iniciar sua família fora do cativeiro, ao ter se alforriado nas primeiras
décadas do século XIX, como indicam as fontes analisadas.

O início do fim...

M uitos anos haviam se passado, e Maria ainda guardava na memória o tempo em que
vivera livre na vila de Jaguaripe, e foi, provavelmente, essa memória que manteve
acesa sua esperança de um dia conseguir provar sua condição de livre. Grande parte de sua
trajetória sob o domínio dos familiares de seu primeiro senhor permaneceu ofuscada pela au-
sência de informações. No entanto, em 1876, ao ser negociada em uma transação de compra
e venda feita entre Ignácio Dias Barreto e Maria Josefina de Andrade, Maria pôde, mais uma
vez, sonhar com a liberdade.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 115-122, janeiro-abril 2019 115
Virginia Queiroz Barreto

Sob a posse desta senhora, e antes mesmo que a transação tivesse sido registrada em
cartório, Maria da Conceição, com 56 anos de idade, conseguiu, pela primeira vez, consenti-
mento para se ausentar do cativeiro e ir à vila de Jaguaripe, onde obteve um “mandado de
manutenção de liberdade” expedido pelo juiz municipal daquela localidade, tendo em vista a
ação de liberdade a que finalmente dera início contra seus “pretensos” senhores, ação que,
como dito anteriormente, se estendia à sua prole.
Não sabemos ao certo quais argumentos ela utilizou para que Maria Josefina de An-
drade, sua senhora naquela oportunidade, a deixasse ir à vila de Jaguaripe. É bem possível
que ela tenha sido adquirida para servir de escrava de ganho e, como tal, tenha recebido
permissão para ir à dita vila (embora os autos não revelem tal atividade). Dificilmente a
senhora soubesse o real motivo da escrava, ou, se o soubesse, o fez acreditando que não
perderia seu investimento.
A obtenção da autorização para se ausentar do cativeiro foi apenas a primeira vitória
conquistada por Maria na difícil caminhada que ainda teria que empreender na busca da
liberdade de si mesma, de suas filhas, e de seus netos. Sua viagem até a vila de Jaguaripe,
desde o início, foi arriscada. Afinal, atravessar grande extensão territorial, a pé, sozinha e sem
recursos, por caminhos abertos nas matas, enfrentando todo tipo de dificuldade, até Nazaré e,
de lá, com sorte, conseguir alguma embarcação que a levaria à vila de Jaguaripe, não parece
ter sido tarefa fácil.
A documentação judicial com a qual trabalhamos para compor a história de vida dessa
mulher negra, escravizada ilegalmente, não nos possibilita saber, ao certo, quanto tempo ela
levou em sua viagem até Jaguaripe, tampouco se estava sozinha ou em companhia de algum
camarada durante sua empreitada. Tudo leva a crer que Maria não arquitetou sozinha seu
plano, pois seria muito difícil para uma escrava, principalmente para uma escrava pertencente
a uma freguesia rural como a de Santo Antonio de Jesus, conseguir voz na Justiça. As possíveis
alianças tecidas por Maria foram apontadas nas alegações interpostas pelo advogado dos
réus (herdeiros de Felix Barreto).
Ainda que, muitas vezes, essas alianças não apareçam de forma explícita nos autos (pelo
menos na ação de liberdade que analisamos, a ligação de Maria “com quem a protege” não
revela quem são, tampouco qual o grau de envolvimento, desta ou destas pessoas, com a sua
causa de liberdade), não podemos negar que “o acesso à estrutura jurídica e ao judiciário
dependia, e muito, das relações pessoais que o escravo mantivesse com homens livres e po-
derosos do local”, como bem avaliou Keila Grinberg (2008: 37-38). É possível, portanto, que
ela tenha conseguido auxílio dos componentes da rede de amizade que construiu ainda no

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DA ESCRAVIDÃO À LIBERDADE:A história de Maria da Conceição, roubada e
escravizada (Nazaré, 1830-1876)

cativeiro: indivíduos, a exemplo do pedreiro João Evangelista, morador na cidade de Nazaré,


ou até mesmo do comerciante José Osório Galdino, os quais mais tarde figurariam no rol das
testemunhas do processo.
Em situações nas quais era necessário provar sua condição de libertos, e, no caso de
Maria, pessoa livre escravizada de forma ilegal, a proteção de pessoas livres bem estabeleci-
das foi de extrema importância para provar seu status. No caso de Ovídia, tratado por Maria
Helena Machado, fica evidente a ligação que essa mulher estabeleceu ao longo de sua vida
com homens livres, da qual ela lançou mão ao se ver nas garras da Justiça (Machado, 2010).
Assim como a história dela, outras histórias, como a de Adelaide, provável liberta, que peram-
bulou por Cuba e pela Luisiana nos primeiros anos do século XIX, aludida por Rebeca Scott
(2009), revelam os vínculos que constituíram durante suas vidas. São mulheres que, embora
presas ao mundo do cativeiro, conquistaram redes de proteção importantes, tanto para a sua
sobrevivência local quanto para empreender possíveis deslocamentos geográficos em busca
de melhores condições de vida.
Toda ação judicial proposta por um escravo deveria ser impetrada por uma pessoa livre
que assinaria o requerimento “a rogo” dele. Assim, antes mesmo de ser instaurada a ação, o
escravo teria de ter acesso a um curador que o representaria judicialmente: “sem um curador,
a ação não prossegue” (Grinberg, 2008: 37). Diante de tal fato, para o indivíduo que se en-
contrava em situação de escravidão, viabilizar uma possível ação contra seu senhor significava,
em primeiro lugar, estabelecer relações sociais com pessoas que pudessem aproximá-lo do
mundo dos livres (ibidem: 39), assim como reunir o maior número de informações possíveis
para compor a justificativa a ser apresentada ao juiz. Sem essas prerrogativas, dificilmente o
escravizado lograria sucesso em sua empreitada.
O processo de ação de liberdade movido por Maria da Conceição é um dos onze que
localizei no Arquivo Público do Estado da Bahia (Apeb) que, durante o século XIX, chegaram
ao Tribunal da Relação vindos da comarca de Nazaré. A leitura desses processos chama a
atenção para a capacidade dos cativos de criar redes e artifícios capazes de proporcionar a
eles a transição da escravidão à liberdade pelos meios “legais”. Ainda que submetidos a todo
tipo de vicissitudes e adversidades impostas pelo cativeiro, pelos rígidos quadros do domínio
escravista, como o isolamento rural imposto a Maria, nossa personagem, fica evidente, nos
processos, a capacidade de criar artifícios de sobrevivência que iriam além da sua existência
material e que, efetivamente, aumentariam suas chances de alcançar o sonho de ser livre.
É bastante revelador, nesse sentido, observar as estratégias criadas e recriadas por eles
para atingir seus objetivos. Nas circunstâncias em que vivia Maria, iniciar o processo na vila

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Virginia Queiroz Barreto

de Jaguaripe, longe do raio de influência daquele senhor que a escravizava, lhe garantiria,
provavelmente, uma maior possibilidade de conseguir alguém que aceitasse participar de tal
empreitada judicial. Em Nazaré e na freguesia de Santo Antonio de Jesus, ela dificilmente teria
tido sucesso devido ao grande prestígio e poder que exercia a família Barreto na região.
Não foi à toa que ela enfrentou, bravamente, vários dias de caminhada até a vila de
Jaguaripe, de onde sairia com um documento de manutenção de liberdade expedido pelo
juiz municipal. Iniciava-se, assim, em 1876, década em que foi promulgada a primeira lei
abolicionista brasileira (a Lei do Ventre Livre), um longo processo de ação de liberdade que
envolvia nove cativos: Maria da Conceição, suas duas filhas e seis netos. Àquela época, sua
neta Belmira já havia falecido.
A batalha judicial entre a “escrava” Maria e seus senhores revelou aspectos interessan-
tes para se pensar o direito no Brasil escravista do Oitocentos, no que diz respeito ao transito
da escravidão para a liberdade (ainda que esta não seja nossa principal linha de investigação).
Os calorosos debates empreendidos por curadores, advogados dos réus e juízes contra e a
favor da causa da liberdade, revelam além da apresentação das leis, a força dos costumes
e das relações de poder ali existentes. Iluminam, segundo Hebe (Mattos, 2013), as tensões
entre arbítrio e legitimidade do poder senhorial. Assim como, expõe a vasta rede de relações
familiares e comunitárias construídas no cativeiro e fora dele (ibidem: 183).
Maria, na condição de escrava em que se encontrava, legalmente não poderia ter sido
mantida em liberdade durante o trâmite do processo. No entanto, ela saiu de Jaguaripe de
posse de um documento de “manutenção de liberdade”, quando deveria, pela lei, ter sido
depositada, como escrava que era, até que a ilegitimidade do cativeiro fosse provada. Ainda
que os advogados dos réus tenham contestado tal ação do juiz, ela não foi revogada, e Maria
acompanhou todo o processo em liberdade. Suas filhas e netos não tiveram a mesma sorte.
Durante o tempo em que durou a batalha judicial, eles sofreram todo o tipo de atrocidades.
Mantidas em posse de seus senhores, Josefa e Leandra só conseguiram ser depositadas
em janeiro de 1877, quase 7 meses após o início do processo, por força das alegações que
revelaram “rigorosos castigos que constantemente sofrem de palmatória, correia e troncos”
como aponta a petição apresentada pelo curador de sua mãe, e depois de terem sido “joga-
das” no depósito público da cidade de Nazaré, lugar “notoriamente insalubre”, e que “muito
pode prejudicar a saúde dos suplicantes e dos referidos menores”, por falta de um depositário
legal. Ainda assim, dois de seus netos, Julio e Primitivo, filhos de Leandra, continuaram em
posse de Severiano Sampaio até o final do processo.

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DA ESCRAVIDÃO À LIBERDADE:A história de Maria da Conceição, roubada e
escravizada (Nazaré, 1830-1876)

Quando a sentença foi publicada, em 9 de agosto de 1877, já havia se passado mais


de um ano do início da ação, e ela foi totalmente favorável à causa da liberdade. Imediata-
mente após a publicação da sentença, os curadores de Maria solicitaram o “levantamento
do depósito” de suas filhas e netos, e um mandado de apreensão e entrega dos menores
ingênuos Julio e Primitivo, que se achavam, até aquela época, em poder de Severiano Sam-
paio.Os autos não revelam em quais condições aquela família viveu durante o tempo em
que tramitou o processo no Tribunal da Relação; sabemos, no entanto, que elas não mais
estavam sob o poder de seus “pretensos” senhores. Entretanto, a notícia da sentença deve
ter surpreendido Maria da Conceição, que, àquela altura, havia mais de um ano vivia com
suas filhas e netos, livremente, sem ser importunada.

Considerações finais

A vida de Maria da Conceição, retratada no processo de ação de liberdade, trouxe impor-


tantes informações sobre a escravidão no mundo rural e urbano do sul do recôncavo na
segunda metade de século XIX. Questões sobre espaço de autonomia no cativeiro, construção
de laços de solidariedade e o estabelecimento de sólidas relações familiares e pessoais entre
escravos – fossem de uma mesma propriedade ou não – libertos e mesmo pobres livres que
circulavam em busca de trabalho temporário naquelas propriedades são temas apresentados
nas diversas falas das testemunhas, advogados e curadores.
A trama que envolveu Maria, suas duas filhas e sete netos, revelou experiências
complexas de luta. Sucessos/fracassos, perdas/ganhos fizeram parte do fluxo permanente
na vida dessa mulher. Constatar isso pode ser pouco, mas são histórias como essas que
abrem caminhos para se analisar um universo mais amplo de questões envolvendo mu-
lheres negras escravizadas.

Notas

1 Arquivo Público de Estado da Bahia (Apeb).Processo crime,12/481/05. Depoimento da escrava Felicidade,


Jaguaripe, 1864.
2 Ibidem.Processo civil, 47/1666/14, Depoimento de Manoel Hygino de Seixas, 1877.
3 Ibidem.Processo civil, 47/1666/14, Depoimento de Úrsula Antonia da Conceição, 1877.
4 Ibidem.Processo civil, 47/1666/14, Depoimento de Úrsula Antonia da Conceição, 1877.
5 Ibidem.Processo civil, 47/1666/14, Depoimento de Athanasio Rodrigues, 1877.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 119-122, janeiro-abril 2019 119
Virginia Queiroz Barreto

6 RECENSEAMENTO DO Brazil em1872. Bahia. Rio de Janeiro: Typ. G. Leuzinger, [1874?]. V.3. Disponível
em:<https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv25477_v3_ba.pdf>. Acesso em: 29 de maio de 2012.
7 Além dos registros dos viajantes oitocentistas, os dados apresentados pelo censo de 1872, comparados
com o quadro da polícia datado de 1838, são reveladores nesse sentido.
8 Apeb. Seção Colonial/provincial. Série Presidência da Província. Correspondências da Câmara Municipal
da vila de Jaguaripe ao Presidente de Província. 1832-1838, Maço 1.332. Série Judiciário – Juízes Nazaré.
1839-1842, Maço 2.503.
9 Ibidem. Seção Colonial/provincial, 04/1437/10, 1831.
10 Ibidem. Seção Colonial/Provincial. Série Judiciário - Juízes de Nazaré, 1839-1842. Maço 2.503.
11 Ibidem. Processo civil, 47/1666/14. Alegação do advogado das autoras, Ação de Liberdade, 1877.
12 Ibidem. Livro de Notas do Tabelião, 1830-1875 – Santo Antonio de Jesus.
13 O processo revela que Maria foi “presa por duas vezes em caminho para a vila de Jaguaripe”. Ibidem.
Processo civil, 47/1666/14. Ação de Liberdade, Maria da Conceição, 1877.
14 Ibidem. Processo civil, 47/1666/14. Ação de Liberdade, Maria da Conceição, 1877. (Grifo nosso)
15 Ibidem. Processo civil, 47/1666/14. Ação de Liberdade, Defesa do advogado dos réus, 1877.
16 Ibidem.Processo civil, 47/1666/14. Ação de Liberdade, Maria da Conceição, 1877.

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Artigo

“Os juízes de paz são todos uns ladrões”:


autoridades públicas e o tráfico de
escravos no interior da província da
Bahia (c.1831 – c.1841)
‘The Justices of the Peace Are All Thieves’: Public Authorities and
the Slave Trade in the Province of Bahia (c.1831 – c.1841)
“Los jueces de paz son todos unos ladrones”: autoridades públicas
y el tráfico de esclavos en el interior de la provincia de Bahia
(h.1831 – h.1841)

Alex Andrade CostaI*

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942019000100007

I Universidade Federal da Bahia (UFBA), Bahia – BA, Brasil.

* Professor Adjunto da Universidade Federal da Bahia (UFBA). (alexhisto@gmail.com),


ORCID iD: http://orcid.org/0000-0002-8974-9696

Artigo recebido em 24 de setembro de 2018 e aceito para publicação em 12 de fevereiro de 2019.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 123-142, janeiro-abril 2019 123
Alex Andrade Costa

Resumo
Este artigo analisa o envolvimento de autoridades públicas no tráfico de escravos no contexto da implementação
da lei de 1831 que proibiu o comércio de africanos para o Brasil. Juízes, promotores e outros agentes públicos não
só acobertaram atividades do tráfico como se beneficiaram do cargo para realizar negócios a partir das novas rotas
de desembarque e de distribuição de africanos recém-chegados no interior da província da Bahia. Essas autoridades
tiveram papel fundamental na continuidade das atividades do tráfico.

Palavras-chave:Tráfico de escravos; Bahia; Século XIX; Autoridades públicas.

Abstract
The present article analyzes the involvement of public authorities in the slave trade in the context of the
implementation of the 1831 law that prohibited the trade of Africans to Brazil. Judges, prosecutors and other agents
not only covered up the traffic but also benefited from their positions to conduct business in the new landing and
distribution routes for newly-arrived Africans in the interior of the province of Bahia. These authorities played a key
role in the continuity of slave trade.

Keywords:Slave trade; Bahia; 19th century; Public officials.

Resumen
Este artículo analiza la participación de autoridades públicas en el tráfico de esclavos en el contexto de la implementación
de la ley de 1831 que prohibió el comercio de africanos para Brasil. Jueces, promotores y otros agentes públicos no sólo
encubrieron actividades del tráfico como se beneficiaron del puesto para realizar negocios a partir de las nuevas rutas
de desembarque y de distribución de africanos recién llegados en el interior de la provincia de Bahia. Esas autoridades
tuvieron un papel fundamental para la continuidad de las actividades del tráfico.

Palabras clave:Tráfico de esclavos; Bahia; Siglo XIX; Autoridades públicas.

124 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 124-142, janeiro-abril 2019
“Os juízes de paz são todos uns ladrões”: autoridades públicas e o tráfico de
escravos no interior da província da Bahia (c.1831 – c.1841)

N o dia 7 de novembro de 1831 foi promulgada no Brasil a lei, conhecida como Lei
Feijó, que declarava livres todos os africanos que entrassem no País a partir daquela
data, o que na prática equivalia a extinguir o secular comércio negreiro atlântico. Parecia ser
o ponto final de uma longa disputa política travada entre Portugal – e, após 1822, o Brasil
– e a Grã-Bretanha, com avanços e recuos, desde 1808. Uma conjunção de fatores, porém,
engolfou a lei a partir da segunda metade daquela mesma década.1 Além da retomada econô-
mica de algumas regiões como a Bahia e o Vale do Paraíba, muito estimulada pela conjuntura
internacional que se abria à exportação de produtos brasileiros, os acontecimentos políticos
derivados da abdicação de d. Pedro I e a reorganização das forças políticas conservadoras
criaram um clima favorável para que o debate a favor da escravidão, que tinha arrefecido em
período anterior a 1831, ganhasse novamente espaço (Carvalho, 2003). Por volta de 1838,
reduziram-se dramaticamente os espaços de opinião pública que condenavam o contrabando
e, no limite, o cativeiro (Parron, 2011: 101), enquanto boa parte da imprensa estava ocupada
em atacar sistematicamente a ação dos cruzadores ingleses que perseguiam e apresavam
navios negreiros (Reis; Gomes; Carvalho, 2010: 113).2
O comércio atlântico de africanos dificilmente se estabeleceria na forma de contrabando,
após 1831, sem a anuência e a participação das autoridades (Parron, 2011: 125). Trata-se
de um argumento semelhante ao utilizado por João Reis, Flávio Gomes e Marcus Carvalho
(2010: ,78) no qual afirmam que “funcionários grandes e pequenos, no nível local, provincial e
nacional, autoridades policiais e judiciais, parlamentares e governantes”, em todo canto havia
alguém que era conivente com a ilegalidade. Ubiratan Castro de Araújo (1998: 102) já cha-
mava atenção para isso ao indicar que os grandes cúmplices do tráfico eram os funcionários
do Estado em suas mais diversas posições e funções, que enchiam os bolsos de propina para
facilitar o negócio. Por fim, para Robert Conrad (1985: 88), um “número significativo de auto-
ridades brasileiras de todos os níveis estavam comprometidas com o princípio de que o tráfico
escravista africano, legal ou não, era benéfico e precisava ser encorajado”. Motivado por essa
conjuntura e sob a vigência da lei de 1831, o tráfico se reelaborou com novos agentes, novos
lugares e novas estratégias.
Embora a historiografia frequentemente trate da colaboração de autoridades públicas,
especialmente do Judiciário, no negócio negreiro, os estudos dedicados a entender o tipo e a
abrangência desses atos ainda são poucos. Sem pretender esgotar o tema, este artigo discute
como, no desempenho das suas funções, agentes públicos atuavam a favor do contrabando
de escravos após 1831.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 125-142, janeiro-abril 2019 125
Alex Andrade Costa

“Não há homem neste mundo como o nosso juiz de paz”

E ra dia 8 de setembro de 1837 quando as águas calmas da localidade de Barra dos Car-
valhos, na baía de Camamu, distrito da vila de Boipeba, foram sacudidas por uma lancha
que se preparava para aportar, despertando a atenção dos moradores da povoação, que logo
espalharam a notícia de que escravos novos estavam sendo desembarcados. A suspeita da
população se explica por ser aquele litoral um habitual espaço de desembarque de escravos,
especialmente naqueles anos da década de 1830.
A baía de Camamu, com extensas matas entrecortadas por inúmeros rios e ilhas de todos
os tamanhos, era uma região com terras pouco habitadas, e que estava distante cerca de 300
quilômetros ao sul de Salvador.3 Ali, após a tenebrosa viagem atlântica e antes de partir para
uma longa e penosa caminhada sertões adentro pelas estradas que ligavam o litoral ao Alto
Sertão e seguiam para Minas Gerais, traficantes e escravos poderiam ter acesso a alimento e
água potável.4 Ou seja, era um local propício para se esconder e realizar ilegalidades, longe
de uma fiscalização mais ostensiva das autoridades, de modo que reunia as condições ideais
para que negociantes de escravos continuassem com suas atividades. Por conta dessas carac-
terísticas, a baía de Camamu foi uma importante porta de entrada para introduzir africanos no
interior do País nas primeiras décadas do século XIX.5
As notícias sobre o desembarque em Barra dos Carvalhos circularam rapidamente, em
velocidade oposta às providências das autoridades. Quando soube do fato, o juiz de paz de
Boipeba, Antônio José Bernardino, até que foi ágil, e, em dois dias, se reportou ao juiz de direi-
to da comarca de Valença, João Antônio de Vasconcelos, o qual, estranhamente, demorou tre-
ze dias para repassar a investigação para o juiz da vizinha Camamu, Antônio José Bernardes.6
Com o despacho em mãos, Bernardes se dirigiu à localidade de Barra dos Carvalhos e
pôs-se a indagar os moradores sobre o acontecido, sendo informado pelo alferes Antônio Braz
que na fazenda de um certo Antônio Pereira Franco, proprietário de terras na localidade, mas
que morava na cidade de Salvador, “desembarcaram 84 escravos, pouco mais ou menos, entre
africanos e crioulos, solteiros e casados, muitos já com três ou quatro filhos”.7 Tais escravos,
segundo o alferes, pertenciam a um senhor de engenho do Recôncavo que estava em vias de
ter seus bens penhorados pela justiça, em virtude de falência, e “retirara a flor da escravatura
e os mandara para a dita fazenda por consenso do seu proprietário, o que se verificava nas
cartas encaminhados pelo senhor ao feitor”.8 Numa aparente tentativa de abreviar as investi-
gações, o alferes antecipou ao juiz as conclusões sobre o caso, e procurava dar por finalizada
aquela visita.

126 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 126-142, janeiro-abril 2019
“Os juízes de paz são todos uns ladrões”: autoridades públicas e o tráfico de
escravos no interior da província da Bahia (c.1831 – c.1841)

Depois das primeiras averiguações, o juiz somente voltou a se manifestar sobre o caso
36 dias após a lancha ter ancorado e cerca de 20 dias após ter feito a visita ao alferes. Chama
atenção a morosidade em encaminhar os procedimentos investigativos, indicando uma atitu-
de deliberada para atrasar o processo.
Em 14 de outubro, por volta das 4 horas da madrugada, o juiz de paz, o escrivão e
um grupo de pessoas chegaram à fazenda de Antônio Pereira Franco. Achavam-se ali vários
escravos acordados que correram para as matas, levando o juiz a ordenar a busca de todos.
Enquanto a balburdia se instalava, o feitor da fazenda, Joaquim José de Almeida, indignado,
indagou sobre “o motivo de toda aquela violência” e se adiantou a dar a sua versão sobre
o caso, afirmando que se tratava de um desembarque legal de escravos pertencentes a um
senhor de engenho do Recôncavo, que os mandara para ali, e que depois os conduziria para
o Sul. Disse também que os escravos já eram ladinos, e que muitos deles tinham ofícios, como
o de carpina, e se apressou a mostrar as ferramentas de trabalho deles. 9
Mesmo com essas explicações, o juiz pediu que o feitor chamasse os escravos que esta-
vam escondidos nos matos. A manhã se passou, e somente 35 dos 57 escravos que o feitor
alegara ter recebido foram encontrados. Este número estava muito aquém dos mais de oitenta
que os denunciantes afirmaram terem visto desembarcando. Com os escravos reunidos, o juiz
passou a lhes fazer perguntas, no que os escravos também apresentaram suas ferramentas de
trabalho, o dinheiro que possuíam e outros objetos.10 A insistência em apresentar ferramentas
e dinheiro não aconteceu sem razão: serviam como comprobatórios da condição de ladinos.
Na tentativa de alargar os critérios que definiam um ladino eram utilizados os mais
variados recursos como comprovação, podendo incluir a posse de algum bem, ferramentas de
trabalho ou dinheiro, como se verifica no caso. Já o interrogatório dos escravos suspeitos de
ingresso no Brasil após a lei de 1831 era geralmente feito de perguntas resumidas, objetivas
e repetitivas, que se esperava que também fossem respondidas de forma monossilábica, e
não raro eram memorizadas, com o fim de incluir o maior número de africanos na categoria
de ladino.11 A falta de rigor e critérios no que diz respeito à prova de propriedade escrava
pós-1831 permitiu que muitos africanos traficados ilegalmente não alcançassem a liberdade
prevista pela lei, por conta “de mecanismos que isentavam o senhor de apresentar certificado
de importação legal do africano escravizado e a prática de produção de papéis que davam
aparência de legalidade ao que fora adquirido por contrabando” (Chalhoub, 2012: 104). Para
Beatriz Mamigonian (2017), os impactos dessa situação sobre os africanos que deveriam ser
libertados a partir da lei de 1831 tiveram repercussão política e jurídica que se prolongou até
o fim da escravidão.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 127-142, janeiro-abril 2019 127
Alex Andrade Costa

Retornando ao caso do desembarque, chama atenção a discordância entre os números:


na denúncia inicial, eram cerca de 84 os desembarcados; na explicação do feitor, o número
caiu para 57; já a averiguação do juiz contabilizou somente 35 pessoas. Além de possíveis
fugas e mortes, o tempo entre a denúncia e a investigação in loco pode ter sido imprescindível
para que outros arranjos fossem feitos no sentido de ocultar, vender ou mesmo ladinizar esses
africanos. Esses dados reforçam a ideia de que o atraso das autoridades na investigação foi
proposital.
Além de um atraso intencional, outros fatores depõem contra a atuação do juiz de paz
naquele caso, indicando uma conivência: o silenciamento em torno do nome do suposto pro-
prietário dos desembarcados e a inesperada interrupção do processo ainda na fase dos depoi-
mentos, sem nenhuma conclusão.
A lei de 7 de novembro de 1831 proibia o comércio de escravos da África para o Brasil,
mas não especificava as responsabilidades e ritos das investigações e punições, o que só se
deu com o decreto de 12 de abril de 1832. Esse decreto determinava, entre outras coisas,
que a justiça local era a instância responsável pela apuração dos fatos relacionados ao tráfico
ilegal, sendo que a condução do processo deveria ficar a cargo do juiz de paz.12
O cargo de juiz de paz, por sua vez, foi instituído por lei de 15 de outubro de 1827 que
elencava as variadas atribuições, que iam desde a destruição de quilombos a “fazer pôr em
custódia o bêbado, durante a bebedice”, ou seja, uma espécie de faz-tudo na administração
pública local.13 Era cargo eletivo, mas, considerando o perfil das pessoas aptas a elegerem e
serem eleitas – senhores de escravos, proprietários de terras, as pessoas mais gradas da lo-
calidade –, entende-se que o juiz de paz sofria forte influência do grupo ao qual pertencia na
tomada de decisões (Flory, 1986: 100).14
O procedimento de eleição do juiz de paz foi estabelecido pela lei de 1º de outubro de
1828.15 Posteriormente, a legislação foi normatizando a função por meio de outras leis, como
o Código Criminal do Império do Brasil de 1830, o Código do Processo Criminal de Primeira
Instância de 1832, e a Lei de Reforma do Código Criminal de 1841. Destes, porém, o Código
de 1832 foi o que causou maior impacto por estabelecer amplos poderes para os ocupantes
do cargo, entre eles os de interrogar, solicitar o corpo de delito, inquirir testemunhas, emitir
denúncia e sentenciar, mas, também, como cita o artigo 145 da mesma lei, o poder de dizer
“nos autos que não julga procedente a queixa, ou denúncia”, inocentando o possível crimino-
so e finalizando o caso. Os poderes que o juiz de paz detinha tornavam-no tão poderoso que
o artigo 325 da Lei de 1832 estabelecia que “ninguém é isento da jurisdição do Juiz de Paz,
exceto os privilegiados pela Constituição, aos quais será imposta a pena pelo Juiz competen-

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“Os juízes de paz são todos uns ladrões”: autoridades públicas e o tráfico de
escravos no interior da província da Bahia (c.1831 – c.1841)

te”.16 Trata-se, portanto, de pessoas que, no interior do País, concentravam amplos poderes
que podiam levá-los ao controle quase absoluto da localidade. Raymundo Faoro (1989: 306)
chegou a afirmar que talvez fosse o terceiro cargo de maior importância no País, depois da
regência e dos ministros. Considerando as distâncias geográficas em relação à administração
central, esse poder se agigantava.
A maré liberal que estava em alta no País naquele fim de década de 1820, mas que teve
vida curta, provocou algumas reformas administrativas. Com as mudanças na legislação em
1828, as Câmaras tiveram o seu poder esvaziado em detrimento ao do juiz de paz. Para Faoro
(1989: 307), esses juízes se aproveitaram dessa onda para se transformar no “senhorio da
impunidade”. Oliveira Viana (1999: 274), na mesma linha, afirmou que esses agentes públicos
atuavam de forma autoritária, com base em interesses privados, posto que prisões injustifica-
das e intimações policiais eram usadas para intimidar e perseguir desafetos.
Escrito em 1833 e publicado em 1838, ou seja, bem no auge dos acontecimentos re-
lacionados à lei de 1831 e à criação do juizado de paz, a comédia O juiz de paz na roça, de
autoria de Martins Pena, é uma crítica aguda à atuação desses agentes. Nesta peça de teatro
estão presentes as práticas de corrupção, mandonismo e prevaricação por parte do juiz de paz,
o protagonista. Astuto observador da sociedade daquele período, Martins Penna escreveu a
sua peça imerso nos acontecimentos que o cercavam, tratando com ironia a inclinação do juiz
de paz ao suborno, ao autoritarismo, e o pouco conhecimento que ele detinha da legislação.
A peça ressalta a dificuldade de separação entre o público e o privado, além de destacar a
atuação do juiz de paz em atender aos interesses dos seus mais chegados, fato exaltado nos
versos: “Em cima daquele morro/há um pé de ananás; não há homem neste mundo/como o
nosso juiz de paz” (Pena, 2007: 103).
Eleitos por seus semelhantes, vizinhos e conhecidos, os juízes eram impactados pela
proximidade da convivência com essas pessoas, o que tornava suas decisões mais suscetíveis
às interferências de senhores de escravos, traficantes e demais interessados no negócio, sendo
um dos responsáveis pelo êxito do contrabando de africanos após 1831.

Juízes: entre provas e convicções

A lei de 1831 forçou o redirecionamento do comércio de escravos, antes praticado livre-


mente nos principais portos, para lugares alternativos e muitas vezes improvisados, por
conta da intensa fiscalização que se estabeleceu. Antes, existiam rotinas estabelecidas nos
portos das principais cidades costeiras para receber e negociar os africanos, mas, com o ad-

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 129-142, janeiro-abril 2019 129
Alex Andrade Costa

vento da lei, localidades mais distantes, e que normalmente adquiriam escravos por um valor
majorado, se tornaram centros de desembarque e distribuição de escravos, como foi o caso
da vila de Ilhéus, que passou a receber escravos diretamente da África, barateando o acesso
para a população local, a tal ponto que um morador da vila se queixou da facilidade com que
navios negreiros aportavam na cidade, dando prosseguimento ao “escandaloso e ilícito tráfico
de africanos” (Mahony, 2001: 103).
Estimativas mais recentes indicam que entre os anos de 1800 e 1830 foram realizadas
1.091 viagens da África para a Bahia, das quais desembarcaram cerca de 316.309 africanos.
Já na vigência da ilegalidade, entre 1831 e 1850, o contrabando transatlântico teria realizado
pelo menos outras 223 viagens que resultaram na entrada de estimados 84.401 africanos no
mundo da escravidão do Brasil pelas praias da Bahia.17 Nesse mesmo período, dos locais de
desembarque que foram identificados, The Trans-Atlantic Slave Trade Database registrou 14
desembarques que se deram em portos ao sul de Salvador, sendo um na vila de Porto Seguro
e os treze restantes na localidade de Taipus.18 Nesse último local, os desembarques se deram
no período entre 1836 e 1839, colocando em terra estimados 6.278 africanos, a maioria iden-
tificada como de origem centro-ocidental. De todo modo, não é crível que os desembarques
na região tenham se limitado a esses treze. Em alguns desses anos, como no ano de 1837, os
escravos postos em terras de Taipus superaram em muito o total que se estima ter entrado em
toda província da Bahia e que não tiveram a especificação do local de desembarque: foram 6
carregamentos com aproximadamente 3.552 escravos em Taipus contra cerca de 567 escravos
para todas as outras localidades da Bahia não especificadas, reforçando a importância dessa
região no contexto pós-1831.19
O afastamento dos grandes centros, porém, não foi total. Desembarques de africanos
continuavam a acontecer, mesmo em menor número, tanto nas capitais quanto em seu entor-
no, mas “isso era um atrevimento de traficantes excessivamente ousados. Desobedecer à lei
assim tão frontalmente era desafiar não apenas os governos provinciais, mas a Marinha Bra-
sileira e a própria Coroa” (Carvalho, 2012: 227). Beatriz Mamigonian (2017: 86) lembra que:

A despeito da preocupação de certas autoridades com os desembarques de africanos novos,


esses continuavam acontecendo ainda que em volume menor se comparado ao de anos an-
teriores a 1830. Além disso, mantinham-se abertas as rotas de redistribuição dos africanos
recém-chegados pelo comércio interno graças a subterfúgios nos registros.

Foi nesse contexto que uma denúncia, em outubro de 1835, indicou um desembarque
ilegal em plena vila de Itaparica, nas franjas de Salvador. Segundo a denúncia, havia “nessa
cidade dois homens portugueses e irmãos, um de nome José Francisco da Costa, que mora

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“Os juízes de paz são todos uns ladrões”: autoridades públicas e o tráfico de
escravos no interior da província da Bahia (c.1831 – c.1841)

defronte do Rosário da Baixa dos Sapateiros, e João Pedro Carreirão que mora no Maciel”,20
ambas regiões centrais da cidade de Salvador, os quais “meteram nessa ilha uma embarcação
de escravos de Angola, e não há quem não tenha seu escravo novo”.21
Três anos antes, José Francisco já havia sido denunciado por crime semelhante, porém
continuava em liberdade, indicando uma relação de cumplicidade, ou, no mínimo, de letargia
das autoridades. A nova denúncia partiu de José da Silva e Azevedo, o qual afirmou que o
desembarque acontecera na propriedade de um tal Pimentel, e que esse acontecimento seria
apenas mais um entre tantos outros que frequentemente se davam naquelas terras. Inclusive,
afirmava o denunciante, os mesmos traficantes estariam prontos para desembarcar uma nova
remessa de africanos de Angola nos dias seguintes, levando-o a clamar pela imediata ação
policial para impedir tal prática, endêmica na região. José da Silva e Azevedo recomendou que

Determine o juiz de Polícia para ir em casa destes dois homens e darem uma busca geral porque
me consta, pelo mesmo Pimentel, que uns escravos doentes foram para lá para serem tratados
e mesmo os escravos ladinos que eles têm em casa, me consta que já são vindos depois da
proibição, a dois para três anos. [Grifo nosso]22

Além de reforçar que a comprovação da condição de ladino era bastante frouxa, a fala de
Azevedo advertia “que não mande pelo Juiz de Paz, que todos são uns ladrões, fazer as inda-
gações”.23 A suspeição levantada contra o juiz João Ferreira de Oliveira tinha razão de ser, pois,
durante o interrogatório, o traficante José Francisco da Costa revelou que era cunhado do juiz
de paz. A informação dada pelo acusado durante a inquirição parece ter sido uma tentativa de
usar o poder do cargo que seu parente ocupava para pressionar pelo fim das investigações.24
De todo modo, se evidencia que o Judiciário, afamado por estar envolvido em malfeitos, não
gozava de grande confiança de parte da população.
Com a Lei Feijó, a atuação das autoridades no combate ao tráfico de escravos se in-
tensificou, mas era impossível que cobrissem toda a longa e desprotegida costa brasileira. A
própria lei de 1831, considerando as dificuldades das autoridades em impedir a prática desse
crime, incentivava a participação da população na fiscalização, estabelecendo no artigo 5º
uma recompensa no valor de 30 mil réis por pessoa apreendida para aqueles que denuncias-
sem o desembarque de africanos novos, o que pode ter motivado as denúncias.25 O que se
depreende é que o expediente da delação foi utilizado, mesmo na ausência de provas, tendo
por base apenas a própria convicção.
A denúncia efetuada por José Azevedo se deu em outubro de 1835, poucos meses depois
da insurreição dos escravos malês em Salvador, que ainda deixava inquieta a população por
causa da grande presença e circulação de africanos por Salvador e pelo Recôncavo, além do

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Alex Andrade Costa

medo de que a chegada de novos africanos engrossasse as fileiras rebeldes. Não por acaso o
denunciante considerou as rebeliões e revoltas como um “grande mal que nos causa[m] os
africanos nesta terra”.26 José de Azevedo se sentia incomodado com o tráfico de africanos,
mas deve ter ficado de olho, também, na recompensa advinda de tal denúncia, uma vez que o
artigo 8º da lei de novembro de 1831 ampliava os alvos das denúncias de tráfico ilegal: não só
os africanos, mas os comandantes das embarcações, mestres e contramestres também pode-
riam ser denunciados, e o delator, igualmente recompensado. Ao fim da carta, Azevedo insistiu
na incapacidade do juízo local em resolver aquele caso, dizendo esperar as providências toma-
das pela presidência da província, mas “nunca por via de juiz de paz”.27Além da discordância
em relação ao tráfico e o interesse na recompensa, outros motivos também poderiam justificar
as denúncias, como a concorrência entre traficantes ou receptadores de escravos, cuja imputa-
ção do crime contribuiria para desestruturar os negócios de possíveis desafetos.
Ainda sobre os desembarques de africanos nas propriedades de Pimentel e de Antônio
Pereira Franco, é possível que esses locais tenham servido não apenas para o desembarque, mas
como fazendas especializadas em receber e abrigar africanos novos enquanto os negociantes ar-
ticulavam as vendas e os deslocamentos. Como já foi apontado em pesquisas anteriores (Pessoa,
2013), essa foi uma das saídas encontradas para se resguardar de punições e perdas.
Outra denúncia feita em junho de 1838 alertava as autoridades sobre um iminente de-
sembarque de africanos num dos rios da vila de Aldeia, ao Sul do Recôncavo, o que levou o
juiz de Direito de Nazaré a ordenar a apreensão da embarcação com o uso da força policial.28
Ao avistar a patrulha, Miguel Luis Vianna, que estava com onze africanos adultos e uma crian-
ça num barco de passageiros pertencente a Manoel A. da Silva indo em direção à vila de Al-
deia, tentou fugir se jogando no rio e se embrenhando nos mangues, assim como os escravos,
mas todos foram capturados. Miguel Luiz estava em companhia de Tomaz Antônio Pinheiro,
sobre o qual a documentação silencia. Talvez fosse o comprador dos escravos.29
Miguel Luiz Vianna era muito conhecido, pois, “figura de principal agente nesse negó-
cio”. Ganhava a vida como um intermediador do tráfico, um repassador de escravos. Em
30

localidades onde não havia grandes mercados de escravos e num momento em que o comér-
cio atlântico de escravos atuava com discrição, essas pessoas eram as principais responsáveis
pela interiorização dos cativos. Elas ficavam encarregadas de receber os pedidos e de levar os
escravizados até o seu destino, gozando de algum prestígio e poder conferidos pela rede de
comércio na qual estavam inseridas. Tanto é que Miguel Luiz passou poucos dias na cadeia,
conseguindo fugir com a conivência do chefe da guarda policial, Jacinto Francisco dos Santos,
o qual, embora tenha sido preso, também passou pouco tempo atrás das grades por ter “fu-
gido com a maior desonra da cadeia” no dia 22 de junho de 1838. O juiz acusou o carcereiro
de ter facilitado a fuga de ambos, mandando-o à prisão.31

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“Os juízes de paz são todos uns ladrões”: autoridades públicas e o tráfico de
escravos no interior da província da Bahia (c.1831 – c.1841)

Os escravos traficados por Vianna foram conduzidos num barco de passageiros e eram
em número reduzido – apenas onze, segundo os dados oficiais –, o que também era uma
forma de despistar a fiscalização e evitar as denúncias. Entre as estratégias utilizadas pelos
traficantes estava o deslocamento de africanos em pequenos grupos, evitando chamar aten-
ção, e, caso ocorresse uma apreensão, os prejuízos seriam menores.32 Toda essa instabilidade
inflacionava o preço do escravo, favorecendo os lucros dos traficantes e justificando os riscos.
Durante as averiguações na embarcação, “foi achado um recibo entre os papéis que
deixou Miguel, passado pelo proprietário do engenho em que estiveram depositados os afri-
canos. Onde o proprietário afirma ter recebido a soma de 2:430$000 pela estada dos pretos
no engenho durante a data”.33 Esse valor, no entanto, era uma quantia muito alta para cor-
responder aos gastos de apenas onze escravos, pois, ao ficarem na prisão durante pelo menos
dezoito dias após a apreensão, os onze escravos consumiram 104 libras de carne de sertão,
ao custo total de 13$520; 3 alqueires e meio quarto de farinha, no valor de 8$100, e a lenha
com a qual eles mesmos faziam o fogo da alimentação, no valor de $400, custando ao Estado
o valor estimado em 23$020.34 Isso leva a crer que o número de africanos desembarcados e
o tempo de espera no engenho foram muito maiores do que os encontrados nos registros do
barco. Aparentemente, aqueles escravos eram parte de um grupo maior que devia ter chegado
já havia algum tempo, e foram ali mantidos enquanto eram negociados em pequenos grupos
e passavam pelo processo de “ladinização”. Trata-se de mais um indício de que naquela re-
gião havia propriedades, se não especializadas, com forte atuação na receptação e guarda de
africanos recém-chegados.
Os desembarques pós-1831 contaram com uma forte conivência não só de juízes, como
também de outros agentes da lei e autoridades públicas, favorecidos principalmente pela
proximidade com que essas pessoas se relacionavam nos variados espaços sociais, tornando-
-os especialmente vulneráveis às pressões políticas e econômicas, bem como às práticas de
corrupção e o envolvimento em negócios escusos.

“Não há roças nem alambiques que não tenham


escravos angolas novos”35

V iajantes estrangeiros e autoridades provinciais que visitaram as vilas no entorno da


baía de Camamu se depararam com uma população majoritariamente negra e mestiça.
Também tiveram notícias dos inúmeros quilombos que ali existiam desde pelo menos o século
XVII, levando-lhes a caracterizar aquela localidade como terra de homens insolentes, cheios
de vícios e propícios a crimes diversos.36 Tais adjetivos, no entanto, são bastante pertinentes

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para identificar outros grupos que talvez não estivessem na mira dos viajantes: as autoridades
locais. Como veremos adiante, membros da Justiça e do corpo militar, não raro, utilizaram-se
do poder de seus cargos em benefício próprio, promovendo uma série de ilegalidades. Essa
prática se tornou forte especialmente entre os anos de 1832 e 1843, que, não por coinci-
dência, foi o período de auge da repressão ao tráfico atlântico e da incrementação do tráfico
interprovincial, mas também um período de sobressaltos na política e na organização admi-
nistrativa e da Justiça no País.
Após 1837, com a chegada dos conservadores ao poder, as manifestações favoráveis
ao tráfico ficaram cada vez mais abertas. Nessa esteira, a reforma do Código Criminal e do
Código de Processo Criminal (1839-1841) minguou as atribuições do juiz de paz: investigação
dos fatos, auto de corpo de delito, interrogatório, inquirição das testemunhas e indicação do
culpado, tudo isso passou a ser tarefa do chefe de Polícia e dos delegados (Flory, 1975: 668).
Essa perda de poderes por parte dos juízes de paz pode ser entendida como uma tentativa de
flexibilizar a entrada de africanos contrabandeados, uma vez que nem todos os juízes eram
favoráveis ao tráfico. Muitos desses agentes públicos trabalhavam para prender e punir os
contrabandistas, seus escravos e embarcações.
No dia 17 de maio de 1838, o juiz da vila de Jequiriçá, Antônio Dias de Castro, enca-
minhou à presidência da província um ofício noticiando e pedindo providências para coibir o
tráfico de escravos que “está introduzido no Recôncavo, e hoje em todo o sul, com grande
prejuízo dos proprietários e pacíficos lavradores”.37 Essa não foi uma denúncia contra o tráfico
atlântico, como era comum no período, mas uma queixa relacionada à existência de um inten-
so tráfico interno. Segundo o juiz, os traficantes agiam nas propriedades da região sempre na
calada da noite, e roubavam escravos e até mesmo pessoas livres, dando-lhes destino ignora-
do. Aquela não foi a primeira correspondência que o juiz enviou às autoridades requisitando
força policial, pois, segundo ele, nem sempre se podia contar com a guarda nacional, posto
que também estava envolvida em atividades ilícitas. Nesse último ofício, o juiz já demonstrava
uma certa impaciência com o governo e lembrava que, por vários motivos, já tinha entregue o
cargo, estando somente no aguardo da oficialização da demissão.38
A impotência do juiz em agir se justificava pela conivência da guarda com as ações dos
traficantes, o que inviabilizava a repressão e pode ter influenciado o pedido de demissão da
função. Embora o tráfico interno de escravos tenha alcançado o pico no período posterior à lei
de 1850, ele já era praticado com uma certa regularidade e organização desde muito antes,
sendo um importante vetor de abastecimento de mão de obra em vários lugares, integrando
regiões mais distantes aos principais centros de receptação de africanos. O crescimento desse

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“Os juízes de paz são todos uns ladrões”: autoridades públicas e o tráfico de
escravos no interior da província da Bahia (c.1831 – c.1841)

modelo de tráfico nos anos imediatamente posteriores a 1831 foi, de algum modo, uma res-
posta às dificuldades estruturais para a continuidade do comércio nos moldes anteriores, es-
pecialmente para as regiões com maior demanda (Motta, 2012; Pires, 2009; Graham, 2002).
O roubo de escravos para o tráfico interno não teria tanto fôlego se os efeitos da lei de
1831 não reverberassem Brasil adentro. Da mesma forma, a dinâmica do roubo de escravos
e o deslocamento dos cativos até um novo comprador, em pequenas localidades, dificilmente
funcionaria com êxito sem a participação direta ou a conivência de pessoas influentes e que
tivessem livre trânsito entre os diversos grupos sociais, principalmente quando revestidas de
Poder Público, como era o caso do promotor de Justiça Reginaldo Muniz Freire.
Reginaldo foi preso nos arredores de Jequiriçá em 1838, acusado de envolvimento com
o tráfico de escravos. Mas essa não foi a primeira vez que ele se meteu em encrenca. Somente
após tomar posse no cargo de promotor naquela vila foi que se tornou pública a notícia de
que ele já havia sido expulso da cidade de Nazaré das Farinhas por “mal comportamento”,
mas, por não ter apresentado a folha corrida – documento obrigatório para assumir funções
públicas –, sua vida pretérita ficou oculta, e acabou sendo nomeado juiz interino de Jequi-
riçá.39 A prisão em 1838 foi justificada pelo fato de Reginaldo Freire ter tirado do aljube, de
forma ilegal, um escravo que lá se encontrava por ter sido roubado ou estar em fuga. Ainda
pesava sobre o promotor a acusação de que promovia falsificação de documentos, fazendo
“requerimentos de partes com a sua mesma letra em nome de qualquer um”, com o objetivo
de soltar escravos presos.40
Reginaldo Freire não estava sozinho na empreitada. Atuava em conluio com o então juiz
de paz Inocêncio R. de Olliveira, o qual, segundo a acusação, “sem respeito às leis e as auto-
ridades constituídas [...] quis à força das armas ir à cadeia tirar o dito Reginaldo”, não con-
seguindo pelo fato de o juiz de direito se encontrar em visita na localidade e manter reforço
policial.41 O juiz Inocêncio, a pedido de Reginaldo Freire, já havia nomeado um certo Antônio
dos Santos como promotor interino, tendo se utilizado do poder que o cargo lhe conferia para
obrigar o carcereiro a soltar da cadeia um grupo de ciganos ladrões de escravos, entre os quais
estava Manoel Pinheiro, que, após ser solto, pagou 400 mil réis para que o carcereiro facili-
tasse a fuga de vários outros escravos que haviam sido apreendidos.42 Trata-se, enfim, de uma
ampla rede de pessoas das mais diversas condições sociais usufruindo dos escravos roubados
para realizar negócios no tráfico interno.
Em seu obsessivo combate ao tráfico, o juiz Manoel Nunes decretou a prisão do ex-pro-
motor Reginaldo Muniz Freire, do juiz de paz Inocêncio de Olliveira, e dos ex-juízes Thomaz
Joaquim Peroba e Antônio dos Santos Silva, todos acusados de se envolverem com os roubos

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de escravos e outros crimes.43 Em vez de deixá-los em Jequiriçá, onde considerou precária a


segurança da cadeia, o juiz decidiu que seriam enviados para a vila de Valença como forma
de também se distanciarem de suas zonas de influência, porém, até onde a documentação
permite seguir, não há notícia da efetiva prisão deles.
Até o início do século XIX, o comércio de africanos para o Brasil se organizou sem
maiores sobressaltos, mas o contexto de implantação da lei de 1831, somado às condições
políticas e econômicas, provocaram a formação de novas estratégias que asseguravam o su-
cesso do desembarque e da comercialização dos escravos, coisa que seria facilitada com o
envolvimento de autoridades de diferentes níveis e poderes, as quais, é bem verdade, nunca
estiveram distantes do trato negreiro (Parron, 2011). Alavancado pela retomada econômica
do início do século XIX, o contrabando de africanos criou artimanhas não só de manutenção,
mas de estímulo ao negócio, uma vez que a escravidão estava integrada “no todo do sistema
capitalista” (Tavares, 1988: 45).
O perfil do cargo de juiz de paz, as condições políticas em vigor a partir da segunda
metade da década de 1830, e o distanciamento geográfico em relação ao poder central são
fatores que contribuíram para que autoridades públicas do poder local estivessem diretamente
envolvidas com o contrabando de escravos. Muitas dessas autoridades, como vimos, agiam
visando garantir o funcionamento dessa engrenagem da qual podiam se beneficiar diretamen-
te. Não se descarta, no entanto, que alguns desses agentes – em especial os juízes de paz,
por ser um cargo eletivo e que, por algum tempo, concentrou poderes assombrosos – esti-
vessem sob pressão e a serviço de grupos mais poderosos, com os quais mantinham relações
de adulação e sujeição. Em pequenas vilas e distritos situados a longas distâncias da capital,
autoridades públicas podiam se tornar sujeitas às ingerências externas, difundindo a percep-
ção de impunidade e favorecendo a prática de ilicitudes. Isso explica a aversão que parte da
população tinha em relação aos juízes, expressa, por exemplo, na afirmação de que “todos
são uns ladrões”.44

Notas

1 Os estudos sobre a lei de 1831 e seus impactos no tráfico de escravos não são recentes e tampouco res-
tritos. Alguns trabalhos marcaram a historiografia ao questionarem a eficácia da lei, engrossando o coro de
que se tratava de uma “lei para inglês ver”: Leslie Bethell (2002), Ubiratan Castro de Araújo (1998) e Robert
Conrad (1985) se situam nesse campo. Autores como João J. Reis (2003: 36), Tâmis Parron (2011: 125) e
Beatriz Mamigonian (2017: 86) mostraram que, nos momentos imediatamente posteriores à 1831, houve
uma sensível diminuição na importação de africanos para o Brasil e, consequentemente, uma diminuição na
oferta; e um aumento de preços e a sensação de crise entre os proprietários de escravos, o que descarta a

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“Os juízes de paz são todos uns ladrões”: autoridades públicas e o tráfico de
escravos no interior da província da Bahia (c.1831 – c.1841)

ideia de que a lei tivesse sido criada como mera tapeação. Jaime Rodrigues (2000) e Beatriz Mamigonian
(2009) também apontaram que a lei foi um posicionamento do governo brasileiro contra os excessos de inter-
venção do Império Britânico na questão do tráfico, avocando para si a responsabilidade pela regulamentação
do negócio. Além disso, o fato de a lei de 1831 nunca ter sido revogada possibilitou que, décadas mais tarde,
abolicionistas, escravos e advogados recorressem aos tribunais exigindo a liberdade de africanos introduzidos
ilegalmente no País após aquele ano (Azevedo, 2007; Grinberg, 2007; Silva, 2007).
2 Para Reis, Gomes e Carvalho (2010: 257), “os defensores do tráfico no Brasil apropriaram-se de um dis-
curso nacionalista segundo o qual o tráfico seria um direito dos brasileiros, que não deveriam se submeter ao
império britânico”.
3 Segundo Luís dos Santos Vilhena (1969: 675-733), aquela região também tinha matas que estavam cheias
de caças do ar e da terra, como porcos, pacas, peruas, tatus, coelhos, preás, entre outros; além de não faltar
peixes e frutas silvestres abundantes, oferecendo condições excepcionais para quem quisesse procurar refúgio.
4 Parte desse trânsito seguia pela Estrada do Salitre, uma das rotas de comércio mais conhecidas, partindo de
Camamu e alcançando a vila de Montes Altos, já na fronteira com Minas Gerais. Era por ali que transitava boa
parte dos escravos levados para a região. João J. Reis (2003: 36) tratou da exportação de escravos da Bahia e
de outras províncias do Nordeste para as regiões cafeeiras na década de 1830.
5 Sobre o uso de áreas remotas do litoral para o desembarque de escravos após 1831, Jaime Rodrigues
(2000: 143) confirma que neles a perseguição se tornava mais difícil “porque as bocas dos rios, enseadas e
pequenas baías ofereciam refúgios que dificultam as ações dos temidos cruzeiros britânicos e das autoridades
locais, em geral baseadas nas sedes das vilas”.
6 Arquivo Público do Estado da Bahia (Apeb). Seção Colonial Provincial. Juízes de Valença, maço 2.419.
“Auto do exame que procedeu o juiz de paz do distrito, Antônio José Bernardes, da freguesia de Boipeba, por
ofício que lhe dirigiu o doutor juiz de Direito da Comarca de Valença, João Antônio de Vasconcelos”. Boipeba,
10 de setembro de 1837.
7 Ibidem. Seção Colonial Provincial. Juízes de Valença, maço 2.419. Correspondência enviada pelo Juiz de
Paz Antônio José Bernardes ao Juiz de Direito da Comarca de Valença, João Antônio de Vasconcelos, 10 de
setembro de 1837.
8 Idem.
9 Ibidem. Seção Colonial Provincial. Juízes de Valença, maço 2.419. “Auto de exame que procedeu o Juiz de
Paz do distrito e freguesia de Boipeba por ofício que lhe dirigiu o Doutor Juiz de Direito desta Comarca”, 14
de setembro de 1837.
10 Idem.
11 Sidney Chalhoub (2012: 95-108) discutiu as artimanhas utilizadas para driblar a legislação e “compro-
var” que um africano recém-chegado era ladino.
12 Coleção de Leis do Império do Brasil. Decreto de 12 de abril de 1832, página 100, v. 1, pt. II (publicação
original). Segundo o decreto de 12 de abril de 1832 que regulamentava a lei de 7 de novembro de 1831, no
artigo 6º, “o Intendente Geral da Polícia, ou o Juiz de Paz, que proceder à visita, encontrando indícios de ter o
barco conduzido pretos, procederá às indagações que julgar necessárias para se certificar do fato, e procederá
na forma da lei citada.”

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Alex Andrade Costa

13 Brasil. Lei de 15 de outubro de 1827. Cria em cada uma das freguesias e das capelas curadas um Juiz
de Paz e suplente. Artigo 5º, §1º. Disponível em: http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei_sn/1824-1899/
lei-38396-15-outubro-1827-566688-publicacaooriginal-90219-pl.html. Acesso em: 4 de setembro de 2018.
14 Segundo Flory (1986: 81-89), a instituição da função de juiz de paz absorveu as atividades desempenha-
das por outras três personagens que atuavam no Judiciário desde o período colonial: o juiz ordinário, o juiz de
vintena e o almotacel, cargos que, na época da extinção, não desfrutavam de quase nenhum prestígio, sendo
seus ocupantes comumente acusados de incapacidade e de promover atos à revelia das leis e tirando proveito
próprio ou para seu círculo de interesse.
15 Câmara dos Deputados. Lei de 1º de outubro de 1828. Dá nova forma às Câmaras Municipais, marca
suas atribuições, e o processo para a sua eleição, e dos Juízes de Paz. Disponível em: http://www2.camara.
leg.br/legin/fed/lei_sn/1824-1899/lei-38281-1-outubro-1828-566368-publicacaooriginal-89945-pl.html.
Acesso em: 4 de setembro de 2018.
16 Brasil. Lei de 29 de novembro de 1832. Promulga o Código do Processo Criminal de primeira instância
com disposição provisória acerca da administração da Justiça Civil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.
br/ccivil_03/Leis/LIM/LIM-29-11-1832.htm>. Acesso em: 4 de setembro de 2018.
17 Os dados foram cotejados do The Trans-Atlantic Slave Trade Database (TSTD). Disponível em: http://www.
slavevoyages.org. Acesso em: 15 de agosto de 2018.
18 Na primeira metade do século XIX, Taipus correspondia ao termo da vila de Marau. Possivelmente
“Taipus” foi usada como uma identificação genérica para as muitas localidades que tiveram desembarques
em toda aquela região, o que incluía a baía de Camamu, ali bem próximo. Preferi utilizar a nomenclatura
atualizada: Taipus.
19 Ver The Trans-Atlantic Slave Trade Database. Disponível em http://www.slavevoyages.org. Acesso em: 15
de agosto de 2018.
20 Apeb. Seção Colonial e Provincial. Escravos: Assuntos diversos, 1835, Mmço 2.896. Correspondência en-
viada por José da Silva e Azevedo ao presidente da província da Bahia, Joaquim Marcelino de Britto. Itaparica,
29 de outubro de 1835.
21 Idem.
22 Idem.
23 Idem.
24 Os portugueses, como os acusados José Francisco da Costa e João Pedro Carreirão, eram os principais
agentes do tráfico na Bahia (Silva Júnior, 2012: 176).
25 Apeb. Seção Colonial Provincial. Juízes de Valença, maço 2.419. “Auto do exame que procedeu o juiz de
paz do distrito, Antônio José Bernardes, da freguesia de Boipeba, por ofício que lhe dirigiu o doutor juiz de
Direito da Comarca de Valença, João Antônio de Vasconcelos”. Boipeba, 10 de setembro de 1837.
26 Ibidem. Seção Colonial e Provincial. Escravos: Assuntos diversos, ano de 1835, maço 2.896. Correspon-
dência enviada por José da Silva e Azevedo ao presidente da província da Bahia, Joaquim Marcelino de Britto.
Itaparica, 29 de outubro de 1835.
27 Idem.

138 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 138-142, janeiro-abril 2019
“Os juízes de paz são todos uns ladrões”: autoridades públicas e o tráfico de
escravos no interior da província da Bahia (c.1831 – c.1841)

28 Ibidem. Seção Colonial e Provincial. Juízes de Nazaré, maço 2.502, caixa 815. Correspondência enviada
pelo Juiz de Direito de Nazaré, André Corsino Pinto Chichorro da Gama, ao presidente da província da Bahia,
Thomaz Xavier Garcia de Almeida. Nazaré, 18 de junho de 1838.
29 Idem.
30 Idem.
31 Ibidem. Seção Colonial Provincial. Juízes de Nazaré, maço 2.502, caixa 815. Correspondência enviada
pelo Juiz de Direito de Nazaré, André Corsino Pinto Chichorro da Gama, ao presidente da província da Bahia,
Thomaz Xavier Garcia de Almeida. Nazaré, 22 de junho de 1838.
32 Os lucros obtidos com o tráfico sempre foram enormes. Pessoas com poucos recursos que se aventuras-
sem a investir nesse negócio podiam obter um bom incremento em suas economias. Sobre isso, Carlos Silva
Júnior (2012) explica trajetórias de alguns traficantes e financiadores do tráfico, como o português Francisco
Gonçalves Dantas, que, de caixeiro de um grande comerciante, obteve recursos suficientes para se lançar
como financista do tráfico em Salvador no século XVIII.
33 Apeb. Seção Colonial Provincial. Juízes de Nazaré, maço 2.502, caixa 815. Correspondência enviada
pelo Juiz de Direito de Nazaré, André Corsino Pinto Chichorro da Gama, ao presidente da província da Bahia,
Thomaz Xavier Garcia de Almeida. Nazaré, 9 de julho de 1838.
34 Ibidem. Seção Colonial Provincial. Juízes de Nazaré, maço 2.502, caixa 815. Correspondência enviada
pelo Juiz de Direito de Nazaré, André Corsino Pinto Chichorro da Gama, ao presidente da província da Bahia,
Thomaz Xavier Garcia de Almeida. Nazaré, 23 de julho de 1838.
35 Ibidem. Seção Colonial e Provincial. Escravos: Assuntos diversos, ano de 1835, maço 2.896. Correspondência
enviada por José da Silva e Azevedo ao presidente Joaquim Marcelino de Britto. Itaparica, 29 de outubro de 1835.
36 De passagem pela região, Martius e Spix (1938: 70) ainda avaliaram que “os portugueses aí estabele-
cidos pertencem às classes baixas: são marinheiros, carregadores e lavradores aborrecidos do trabalho, que,
se considerando iguais aos privilegiados, não podem elevar a moralidade, nem a indústria dessa população
decaída”.
37 Apeb. Seção Colonial e Provincial. Judiciário, Juízes de Jequiriçá, anos de 1829 a 1877, maço 2.446. Cor-
respondência enviada pelo juiz municipal de Jequiriçá, Antonio Dias de Castro, para o presidente da província
da Bahia, Thomas Xavier Garcia de Almeida. Jequiriçá, 17 de maio de 1838.
38 Idem.
39 Segundo o regulamento 120, de 31 de janeiro de 1842: “Art. 216 Para exercer o cargo de promotor
serão com preferência escolhidos bacharéis Formados, e quando os não haja idôneos para os lugares, serão
nomeados indivíduos que tenham as qualidades requeridas pela Lei de 3 de Dezembro de 1841 para ser Ju-
rado, a necessária inteligência, instrução, e bom procedimento, preferindo-se aqueles que nos desempenhos
dos deveres de outros cargos públicos já tiverem dado provas de que possuem essas qualidades. Art. 217 - Os
promotores serão nomeados pelo Imperador no Município da Corte, e pelos Presidentes nas províncias, por
tempo indefinido; e servirão enquanto convier a sua conservação ao Serviço público, sendo, no caso contrá-
rio, indistintamente demitidos pelo Imperador, ou pelos Presidentes das Províncias nas mesmas províncias.
Art. 218 - Na falta, ou impedimento dos promotores, os juízes de Direito nomearão quem interinamente os
substitua, e no primeiro caso (o de falta) participarão a vaga aos Presidentes das Províncias, com informação

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 139-142, janeiro-abril 2019 139
Alex Andrade Costa

circunstanciada acerca das pessoas que julgarem dignas de ser nomeadas, ficando porém inteiramente livre
aos mesmos Presidentes a escolha d’outras, quando as julgarem mais idôneas.” Ministério Publico Federal.
Procuradoria da República em Pernambuco. Regulamento n. 120, de 31 de janeiro de 1842. Disponível em
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-JANEIRO-DE-1842. Acesso em 16 de julho de 2015.
40 Apeb. Seção Colonial e Provincial. Judiciário, Juízes de Jequiriçá, maço 2.446, anos de 1829 a 1877.
Correspondência enviada por Manoel Nunes da Silva ao presidente da província da Bahia em 10 de outubro
de 1839.
41 Idem.
42 Idem.
43 Idem.
44 Ibidem. Seção Colonial Provincial. Juízes de Valença, maço 2.419. Auto do exame que procedeu o juiz
de paz do distrito, Antônio José Bernardes, da freguesia de Boipeba, por ofício que lhe dirigiu o doutor juiz de
Direito da Comarca de Valença, João Antônio de Vasconcelos. Boipeba, 10 de setembro de 1837.

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Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 141-142, janeiro-abril 2019 141
Artigo

Visualidade e administração do trabalho


escravo nas fazendas de café e engenhos de
açúcar de Brasil e Cuba, c.1840-1880
Visuality and Slave Management in the Brazilian and Cuban
Coffee and Sugar Plantations, c.1840-1880
Visualidad y administración del trabajo esclavo en las haciendas
de café e ingenios de azúcar de Brasil y Cuba, h.1840-1880

Rafael de Bivar MarqueseI*

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942019000100008

I Universidade de São Paulo (FFLCH/USP) São Paulo – SP, Brasil.

*Professor titular do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de
São Paulo. (FFLCH/USP) (marquese@usp.br), ORCID iD: https://orcid.org/0000-0002-5566-3579

Agradeço os comentários de Leonardo Marques a uma versão anterior desse artigo, bem como a Dale Tomich, Reinaldo
Funes e Carlos Venegas pelo nosso trabalho conjunto. Agradeço também aos dois pareceristas anônimos da Estudos His-
tóricos, que me ajudaram a melhorá-lo. O artigo contou com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq) por meio de uma bolsa de Produtividade 1-D.

Artigo recebido em 14 de outubro de 2018 e aceito para publicação em 12 de fevereiro de 2019.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 143-170, janeiro-abril 2019 143
Rafael de Bivar Marquese

Resumo
O objetivo deste artigo é compreender como os novos mecanismos de administração do trabalho escravo elaborados
nas fronteiras açucareiras e cafeeiras de Cuba e do Brasil do século XIX se relacionaram com uma nova visualidade
da escravidão. O artigo argumenta que é possível identificar um feixe de novas estratégias mobilizadas para
extrair mais trabalho dos escravos, nos cafezais e canaviais do Brasil e de Cuba, como resposta à reorganização da
economia-mundo sob a égide do capitalismo industrial e aos novos padrões de resistência escrava. Essas estratégias
podem ser concebidas como parte de um novo regime visual da escravidão negra nas Américas.

Palavras-chave:Escravidão; Visualidade; Café; Açúcar; Brasil; Cuba.

Abstract
The aim of the present article is to understand how the new mechanisms of slave management developed in the
Cuban and Brazilian sugar and coffee frontiers during the 19th century were connected to a new visuality of slavery.
The argument is that it is possible to identify a cluster of new strategies to extract more labor from slaves in the
coffee and sugar cane plantations of Brazil and Cuba, which was a response not only to the major reorganization of
the world economy under industrial capitalism but also to new patterns of slave resistance. Those strategies can be
conceived as part of a new visual regime of New World slavery.

Keywords:Slavery; Visuality; Coffee; Sugar; Brazil; Cuba.

Resumen
El objetivo de este artículo es comprender como los nuevos mecanismos de administración del trabajo esclavo
desarrollados en las fronteras azucareras y de la caficultura de Cuba y de Brasil del siglo XIX se relacionaron con una
nueva visualidad de la esclavitud. El artículo argumenta que es posible identificar un grupo de nuevas estrategias
movilizadas para extraer más trabajo de los esclavos, en los cafetales y cañaverales de Brasil y de Cuba, como
respuesta a la reorganización de la economía-mundo bajo la égida del capitalismo industrial y a los nuevos patrones
de resistencia esclava. Se puede concebir esas estrategias como parte de un nuevo régimen visual de la esclavitud
negra en las Américas.

Palabras-clave:Esclavitud; Visualidad; Café; Azúcar; Brasil; Cuba.

144 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 144-170, janeiro-abril 2019
Visualidade e administração do trabalho escravo nas fazendas de café e engenhos
de açúcar de Brasil e Cuba, c.1840-1880

I.

A companhando o movimento geral da chamada “virada visual” nas ciências sociais, a


cultura visual da escravidão negra nas Américas é um assunto que gerou boa fortuna
crítica nas últimas duas décadas. De fato, hoje dispomos de um número considerável de es-
tudos sobre as múltiplas formas de representação visual da escravidão do Novo Mundo. Com
base em enfoques e perspectivas teóricas diversas, esses trabalhos ajudaram a iluminar os
meios pelos quais a escravidão negra foi apreendida visualmente nos embates sociais e políti-
cos que disputaram sua legitimidade a partir do final do século XVIII; como a cultura visual da
escravidão se articulou ao nascimento da sociedade de consumo e à cultura do refinamento;
como foram representados, a partir de distintos suportes, os ambientes construídos rurais e
urbanos em que viveram os sujeitos escravizados; e quais foram os desdobramentos do arqui-
vo visual da época da escravidão para a política da memória no tempo presente (Wood, 2000;
ibidem, 2013; Quilley e Kriz, 2003; Kriz, 2008; Vlach, 2002; Dresser e Hann, 2013; Cauna,
2009: 21-48; Gikandi, 2011; Ellis e Ginsburg, 2010; Slenes, 2002; Lima, 2007; Sela, 2008;
Koutsoukos, 2010; Beltramin, 2013; Araújo, 2010; ibidem, 2014).
Tais pesquisas muito contribuíram para o entendimento das formas pelas quais a escra-
vidão negra foi representada em diferentes tempos e espaços. Em alguns casos, os pesquisa-
dores foram particularmente felizes em conjugar o exame das representações visuais com a
análise dos efeitos que elas produziram sobre o mundo social em que se inscreveram (McInnis,
2005; 2012). Os estudos disponíveis, no entanto, pouco se preocuparam em perscrutar como
o vasto repertório visual do mundo da escravidão se relacionou concretamente com a explo-
ração do trabalho escravo. 1
Neste artigo, procurarei preencher tal lacuna ao examinar duas zonas de ponta da escra-
vidão negra do século XIX: a região ocidental de Cuba, especializada na produção açucareira,
e o vale do rio Paraíba do Sul, o grande centro de produção de café no Brasil oitocentista. Não
obstante as particularidades de cada qual, a formação desses espaços pode ser conceituada
a partir do processo unificado que foi denominado por Dale Tomich e por outros historiado-
res como a “segunda escravidão” do mundo atlântico (Tomich, 2004: 56-71; Marquese e
Salles, 2016). O conceito tem gerado uma boa fortuna na historiografia relativa à economia
e à sociedade algodoeiras do Sul dos Estados Unidos (Kaye, 2009; Dal Lago, 2012; Baptist,
2014; Beckert, 2014). O mesmo pode ser dito sobre Brasil e Cuba. Temos à disposição estudos
comparativos sobre esses dois espaços – eventualmente incorporando também os Estados
Unidos – que tratam das ideias sobre a administração de escravos, da política da escravidão,
do tráfico transatlântico, da escravidão urbana, do ordenamento e das práticas jurídicas,

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 145-170, janeiro-abril 2019 145
Rafael de Bivar Marquese

da ciência e da técnica escravistas (Marquese, 2004; Marquese, Parron e Berbel, 2016;


Blackburn, 2011; Schmidt-Nowara, 2011; Parron, 2015; Marques, 2016; Santos, 2012; Silva
Jr., 2015; Rood, 2017).
Valendo-me da perspectiva analítica da segunda escravidão, cujas linhas de força serão
explicitadas a seguir, meu objetivo neste artigo é voltar-me ao exame de um conjunto de fon-
tes visuais relativas aos espaços de plantation das novas zonas escravistas de Cuba e Brasil,
com o propósito de compreender como os novos mecanismos de administração do trabalho
escravo elaborados em suas fronteiras açucareiras e cafeeiras se relacionaram com uma nova
visualidade da escravidão. Ao fazê-lo, pretendo dialogar com autores que recentemente escre-
veram sobre temas correlatos para o Sul algodoeiro (Baptist, 2014: 111-144; Johnson, 2013:
151-175), mas que não se valeram de registros visuais para a construção de suas análises.
Para tanto, o artigo está dividido em três partes. Na primeira, apresento brevemente o proces-
so de formação recíproca, via mercado mundial, das novas zonas açucareiras e cafeeiras em
Cuba e no Brasil, e o aparecimento, nessas regiões, de novas unidades produtivas nas décadas
de 1830 e 1840, cujas plantas romperam com os padrões anteriormente vigentes no mundo
atlântico. Na segunda e na terceira parte, analiso os novos mecanismos visuais empregados
para a exploração do trabalho escravo e da natureza nessas novas plantations açucareiras
e cafeeiras. O argumento que pretendo desenvolver é o de que, após as décadas de 1830 e
1840, é possível identificar um feixe de novas estratégias mobilizadas para extrair mais traba-
lho dos escravos nos cafezais e canaviais do Brasil e de Cuba, que devem ser concebidas como
parte de um novo regime visual da escravidão negra nas Américas.

II.

O s primeiros engenhos de açúcar brasileiros e cubanos foram fundados ainda no pri-


meiro século da exploração europeia do Novo Mundo. Antes da segunda metade dos
setecentos, contudo, Cuba, com suas unidades em pequena escala concentradas nos arre-
dores de Havana, ocupou lugar insignificante no mercado mundial. Pernambuco e Bahia se
destacaram como produtores de vulto já na passagem do século XVI para o XVII, mas, entre
1660 e 1760, as duas capitanias açucareiras da América portuguesa perderam espaço no mer-
cado mundial para a pujante indústria açucareira das Antilhas britânicas e francesas. Como
resultado das políticas de estímulo promovidas pelas reformas ilustradas ibéricas, a partir da
década de 1770 houve acentuado crescimento das exportações açucareiras do Brasil (que
contava agora com o produto das capitanias do Rio de Janeiro e de São Paulo) e do ocidente

146 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 146-170, janeiro-abril 2019
Visualidade e administração do trabalho escravo nas fazendas de café e engenhos
de açúcar de Brasil e Cuba, c.1840-1880

de Cuba, movimento que recebeu impulso renovado com a eclosão da revolução escrava na
colônia francesa de Saint-Domingue. Quanto ao café, antes da década de 1790 as exportações
cubanas e brasileiras foram virtualmente inexistentes. Somente as colônias francesas, holan-
desas e, em escala bem menor, britânicas exportavam café, sendo a posição principal ocupada
por Saint-Domingue, responsável por cerca de 50% da oferta mundial do artigo em 1790, com
um volume total de 34.650 toneladas (Piqueras, 2014: 97-144; Schwartz, 1988: 144-176;
337-355; Marquese, 2013: 293-297).
A partir de 1790, Brasil e Cuba tiveram seus destinos açucareiros e cafeeiros entrelaçados
de forma estreita. No plano imediato, o início da Revolução do Haiti estimulou o rápido avanço
da produção açucareira, lastreada no aumento do tráfico negreiro transatlântico. Entre 1790
e 1820, a exportação açucareira combinada das diversas capitanias da América portuguesa
cresceu de 13 mil para 35 mil toneladas; os desembarques decenais de africanos escravizados
saltaram de cerca de 190 mil indivíduos, na década de 1780, para 451 mil, na década de 1810
(é importante destacar que a economia colonial brasileira verificou grande diversificação em
sua pauta de exportações, com destaque para o algodão). Em Cuba, o salto foi ainda mais
impressionante: de 15 mil para 55 mil toneladas de açúcar exportadas, com a importação de
cerca de 15 mil escravos na década de 1780, e 115 mil na década de 1810. Na produção de
café, as curvas de crescimento foram semelhantes: partindo de um volume praticamente nulo
em 1790, em 1821, Brasil e Cuba exportavam, respectivamente, 13.500 e 10 mil toneladas
de café2 (Moreno Fraginals, 1989, v. 2: 355; Arruda, 1986: 234; Marquese, 2013: 297-298).
De 1820 em diante, alimentados por um gigantesco tráfico negreiro transatlântico (entre
1821 e 1860, os dois espaços juntos importariam mais de 1,77 milhão de africanos escravi-
zados), Cuba e Brasil lograram impor-se como os maiores produtores mundiais de açúcar e
de café. Com a independência do Haiti, as possessões francesas produtoras de açúcar/café
foram drasticamente reduzidas. As Antilhas britânicas, acuadas pelo movimento antiescravista
metropolitano que interditara o tráfico transatlântico em 1807, e com a deriva dos interesses
imperiais para o espaço do Índico, rapidamente perderam o pé da competição com suas rivais
no espaço americano. Mas o mais interessante a registrar é como a reorganização do mercado
mundial após a década de 1820 conduziu a uma crescente especialização de Cuba no açúcar
e do Brasil no café. Veja-se, para efeitos de comparação, a trajetória desses dois produtos
nesses dois espaços.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 147-170, janeiro-abril 2019 147
Rafael de Bivar Marquese

Tabela 1: Médias quinquenais de exportação de café e açúcar em toneladas, 1821-1860.

Açúcar Café
Brasil Cuba Brasil Cuba
1821-1825 41.400 63.100 14.060 10.900
1826-1830 54.800 84.130 25.680 19.340
1831-1835 69.600 101.400 53.320 22.400
1836-1840 81.600 129.800 71.020 21.180
1841-1845 88.600 170.400 88.260 15.020
1846-1850 117.800 253.400 124.900 8.680
1851-1855 123.800 389.600 153.800 6.180
1856-1860 105.800 435.200 168.500 4.200

Fontes: Moreno Fraginals, 1989, v. 2: 355-357 (açúcar em Cuba); IBGE, 1987: 342 (açúcar no Brasil); Samper e
Fernando, 2003: 428-433 (café). Nota: Números arredondados.

Se no início do período em tela os volumes de açúcar e de café remetidos por Brasil e


Cuba ao mercado mundial eram relativamente equiparáveis, ao final dele a discrepância era
evidente. O volume das exportações cubanas no quinquênio 1856-1860 equivalia a 25% da
produção mundial de açúcar (cana e beterraba somadas); as exportações brasileiras de café
foram responsáveis, nessa mesma quadra, por 52% da oferta ao mercado mundial. Mas o
que se destaca é a tendência à estagnação do açúcar brasileiro em 1840-1860, quando as
exportações de Cuba triplicaram. Algo semelhante, porém em sinal trocado, aconteceu com o
café: o volume brasileiro mais do duplicou entre 1840 e 1860, enquanto o de Cuba encolheu
quatro vezes, sendo, em 1860, menos da metade do que havia sido em 1820.
Resta indagar se esses movimentos tiveram relação. A resposta é positiva. Em um regime
de livre competição internacional, a eficácia dos senhores de engenho cubanos em enfrentar
as condições adversas do mercado mundial, ofertando um produto crescente a baixo custo,
alterou as condições de operação de seus rivais. Mesmo que a produção brasileira de açúcar
tenha crescido entre 1820-1860, ela foi incapaz de acompanhar o ritmo de Cuba. Sem o
concurso do tráfico negreiro transatlântico, encerrado em 1850, a produção brasileira de açú-
car diminuiu; antigas áreas açucareiras, como o Oeste de São Paulo, foram convertidas para
a produção cafeeira. No reverso da moeda, o avanço da produção cafeeira do Brasil foi um
vetor decisivo para a crise da cafeicultura em Cuba. Em 1830, engenhos e cafezais cubanos
empregavam um número equivalente de escravos, cerca de 50 mil cada. Diante da ineficácia
da cafeicultura cubana face ao Brasil, houve, nas décadas de 1830 e 1840, um deslocamento
massivo de escravos em Cuba dos cafezais para os canaviais, movimento que por sua vez foi

148 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 148-170, janeiro-abril 2019
Visualidade e administração do trabalho escravo nas fazendas de café e engenhos
de açúcar de Brasil e Cuba, c.1840-1880

importante para o salto açucareiro da ilha – e, portanto, para a própria estagnação da produ-
ção de açúcar no Brasil (Marquese e Tomich, 2009: 339-383).
Uma das razões para as trajetórias divergentes, porém mutuamente condicionadas, de
Brasil e Cuba residiu nas condições geoecológicas de produção, isto é, nos diferenciais de alti-
tude, clima e produtividade do solo, que tornavam cada zona mais adequada para tal ou qual
artigo. Porém, para que os potenciais açucareiro, do ocidente de Cuba, e cafeeiro, do Vale do
Paraíba, se realizassem plenamente, transcorreu um período considerável de experimentação,
até que se cristalizasse uma nova forma de configuração espacial da plantation escravista.
Noutros termos, o salto cafeeiro do Brasil e açucareiro de Cuba em grande parte foi cauda-
tário de uma nova planta produtiva que apareceu justamente nas décadas de 1830 e 1840.
Lastreada na importação maciça de africanos e na abertura de zonas de fronteira agrícola até
então despovoadas – ou ocupadas por posseiros e pequenos proprietários cujos modos de
vida tradicionais foram varridos pela força do capital –, essa planta rompeu com os padrões
anteriormente vigentes no Caribe britânico e francês (Funes e Tomich, 2009: 75-117; Piqueras,
2014: 171-186; Marquese, 2009: 215-252).
Mais amplos, mais capitalizados, empregando um número maior de escravos, as fazendas
de café do Vale do Paraíba e os engenhos de açúcar do ocidente de Cuba promoveram uma
substantiva concentração da propriedade escrava e da estrutura fundiária. A configuração
espacial dessas novas plantations teve que enfrentar um novo quadro na luta entre senhores
e escravos, entre as forças escravistas e as forças antiescravistas, tanto no plano local quanto
no plano global. A introdução massiva de africanos em Cuba e no Brasil se deu sob o signo da
ilegalidade (o tráfico transatlântico de escravos fora formalmente proibido para os dois países
em 1820 e 1831), sempre a contrapelo da fortíssima pressão diplomática da Grã-Bretanha.
A profunda alteração da demografia do campo cubano colocou a colônia espanhola sob o
risco permanente de revoltas escravas em larga escala, que não deixaram de pontear a zona
ocidental entre 1825 e 1844. Os senhores de escravos do Brasil lidaram com problema seme-
lhante, ainda que não na intensidade do que se passou em Cuba (Marquese, Parron e Berbel,
2016; Barcia Paz, 2008; Gomes, 2006: 144-247; Grinberg, Salles e Borges, 2009: 235-270).
Portanto, a resistência escrava deve ser considerada parte estruturante da formação des-
sas duas novas zonas escravistas e de suas respectivas unidades produtivas. Como aumentar
a exploração do trabalho escravo, em engenhos e fazendas com escala inédita, sem colocar
a perder todo o edifício escravista? O restante do artigo argumentará que parte da resposta
pode ser encontrada no novo mecanismo de funcionamento do olho senhorial-escravista – ou
seja, em uma nova visualidade da escravidão.

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Rafael de Bivar Marquese

III.

E ntre março de 1855 e fevereiro de 1857, foi impressa na tipografia havanesa de Louis
Marquier, francês há dez anos residente em Cuba, o que certamente é a mais incrível
série de litografias sobre as plantations escravistas do Novo Mundo. Preparadas por Eduardo
Laplante (outro francês que se mudara para Cuba no final da década de 1840 como repre-
sentante da firma de maquinário açucareiro Derosne & Cail, e que logo começou a trabalhar
também como litógrafo para a indústria tabaqueira local), com textos explicativos de Justo
Cantero (poderoso senhor de engenho em Trinidad, na costa sul da ilha, com formação em
medicina nos Estados Unidos), essa série compunha um total de 28 estampas em cores ilu-
minadas uma a uma, acrescidas de 4 plantas arquitetônicas de engenhos e 4 plantas de
maquinário das moendas, caldeiras e centrífugas. Para a preparação desse material, Laplante
e Cantero visitaram 25 engenhos do ocidente de Cuba, a maior parte dos quais situados na
planície de Colón, zona de Matanzas-Cárdenas. A seleção obedeceu a um critério preciso: sal-
vo uma ou outra exceção, essas eram unidades produtivas escravistas de ponta, que permitiam
expor ao consumidor das vistas e textos a diversidade de soluções técnicas empregadas pelos
engenhos mais avançados de Cuba. Concebido como um veículo para a construção da identi-
dade de classe da sacarocracia cubana na conjuntura crítica dos anos 1850, o projeto editorial
representava em composição luxuosa a economia escravista da ilha no seu ponto máximo de
desenvolvimento produtivo e tecnológico.3
Um dos engenhos visitados por Laplante/Cantero foi o Purísima Concepción, localizado
em Banagüises, a norte de Colón (figura 1).

150 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 150-170, janeiro-abril 2019
Visualidade e administração do trabalho escravo nas fazendas de café e engenhos
de açúcar de Brasil e Cuba, c.1840-1880

Figura 1: Eduardo Laplante (lit.), Ingenio Purísima Concepción (a) Echeverría, propiedad de la sra. da. Francisca
Pedroso y Herrera, 1857 [lit. aquarelada, imagem original 36,5 x 23,8 cm] (Cantero, 2006: 236).

O engenho começara a ser montado em 1847, entrando em produção plena a partir de


1851. Quanto da elaboração da litografia, suas dimensões eram de 91 caballerías de terra
(251 alqueires geométricos), das quais 40 (110 alqueires) plantadas com cana. Residiam no
engenho 362 escravos e 50 trabalhadores asiáticos sob o regime de servidão temporária por
contrato. O potencial de safra estimada era de 117 mil arrobas de açúcar. O engenho contava
com seis trens jamaicanos e suas correspondentes clarificadoras, tratando-se, portanto, de
uma unidade semimecanizada ao combinar moendas de ferro movidas a vapor com caldeiras
abertas. Porém, um dos elementos que o particularizavam era sua integração, via trilhos inter-
nos, com outra unidade açucareira, o engenho San Martín. Na litografia, este segundo enge-
nho fornece o ponto de fuga da composição; ao centro da imagem, observam-se claramente
os trilhos que conectam a casa de moendas/caldeira do Purísima Concepción com o batey
(termo que denomina a sede da plantation, com todas as instalações produtivas e moradias
de trabalhadores) de sua unidade irmã. No plano do batey de San Martín preparado por
Laplante (figura 2), nota-se como os trilhos articulavam diretamente as duas fábricas (o ramal
à direita conectava o engenho ao ramal do caminho de ferro que ligava Banagüises à baia de
Cárdenas; trata-se da mesma linha de ferro representada à esquerda da litografia do Purísima

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Rafael de Bivar Marquese

Concepción). A escala de San Martín era ainda mais grandiosa: completamente mecanizado,
isto é, com moenda a vapor, caldeiras a vácuo e centrífugas, força de trabalho composta por
452 escravos e 125 trabalhadores asiáticos sob servidão temporária, e 55 caballerías planta-
das com cana (de um total de 222 caballerías), a safra estimada por Cantero para 1855 seria
de 273 mil arrobas de açúcar.

Figura 2: Eduardo Laplante (lit.), detalhe do Plano de las fábricas del Ingenio San Martín, propiedad de la sra. da.
Francisca Pedroso y Herrera, 1857 [imagem original 36,5 x 23,8 cm] (Cantero, 2006: 199).

Portanto, somadas as duas unidades, o complexo contaria com um total de 100 ca-
ballerías plantadas com cana e 989 trabalhadores, capazes de produzir 390 mil arrobas de
açúcar. Uma rápida comparação da relação área plantada em canco/trabalhadores/produção

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Visualidade e administração do trabalho escravo nas fazendas de café e engenhos
de açúcar de Brasil e Cuba, c.1840-1880

de açúcar/escravo mostra como Cuba rompera com o padrão anteriormente vigente no Caribe.
Na Jamaica e em Saint-Domingue na virada do século XVIII para o XIX, a proporção girava em
torno de 1,20 a 1,50 acres plantados com cana por trabalhador residente no engenho; nas 25
unidades visitadas por Laplante e Cantero, essa proporção era de 3,85 acres por trabalhador.
Quanto à produção de açúcar por escravo, em 1861 se obtinha em Cuba o triplo de suas
rivais caribenhas na década de 1790 (Higman, 1995: 163; Bonnet, 2008: 127; García Mora
e Santamaria García, 2006: 44; Piqueras, 2014: 179, gráfico 5). A junção de duas unidades
com o porte do Purísima Concepción/San Martín em um único complexo articulado por trilhos
internos ainda era pouco usual na década de 1850. Tampouco os engenhos completamente
mecanizados – como San Martín – constituíam a regra: em 1860, eles eram apenas 4,86%
das unidades açucareiras de Cuba, responsáveis, naquele ano, por 14,80% da produção total
da ilha. O perfil dominante da indústria açucareira cubana aproximava-se mais do caso do en-
genho Purísima Concepción, isto é, das unidades semimecanizadas, que englobavam 67,45%
dos engenhos da ilha, responsáveis por 76,62% da produção total em 1860 (Idem: 180).
Uma questão básica se apresenta a partir desses dados: diante da escala humana e
espacial dos engenhos cubanos, como administrá-los com eficácia? As demandas de orga-
nização do trabalho e da produção das plantations açucareiras do Novo Mundo há muito
as colocavam na linha de frente das práticas administrativas da economia-mundo capitalista
(Marquese, 2004: 71-80; 162-165; 377-379). As novas dimensões dos engenhos cubanos, to-
davia, com centenas de escravos (em sua maioria africanos) sendo compelidos a cumprir uma
carga inaudita de trabalho, em uma conjuntura de profunda tensão nas relações escravistas,
exigiam novas soluções administrativas.
As próprias imagens de Laplante nos ajudam a entender como se resolveu o problema,
a começar pelo padrão de moradia escrava. Na paisagem do engenho Purísima Concepcíon
observa-se, à esquerda da casa de moagem/caldeiras, um grande edifício retangular, com
entrada única e pequenas janelas gradeadas. O programa arquitetônico dessa edificação fica
mais evidente se observarmos sua congênere na planta do engenho San Martín, isto é, a gran-
de construção quadrangular à esquerda, o maior edifício do batey, novamente com entrada
única, tendo todos os seus cem cubículos voltados a um pátio interno. Trata-se do famoso
barracón, modelo de moradia escrava que foi concebido em meados da década de 1820 como
resposta dos poderes escravistas cubanos aos levantes escravos que pontilharam o ocidente
da ilha naquela ocasião, e que se disseminaria nos grandes engenhos semimecanizados no
começo da década de 1840, no quadro imediato da repressão à vasta articulação para um
levante escravo envolvendo diversas plantations da zona de Matanzas-Cárdenas – a chamada
“Conspiração de la Escalera” (Marquese, 2005: 175-185).

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O objetivo imediato do barracón, portanto, era garantir o estrito confinamento noturno


dos escravos, para impedi-los de contatar seus parceiros de cativeiro nas plantations vizinhas.
Mas, além desse propósito de controle espacial, decorrente da necessidade de permanente
visualização dos escravos, havia outro, derivado das imposições do processo produtivo dos
engenhos cubanos. Como se sabe, a produção de açúcar exige estrita coordenação entre a
esfera agrícola e a manufatureira: depois de cortada, a cana deve ser moída em 24 horas, caso
contrário seu caldo não se cristalizará. Quanto mais produtiva é a manufatura e mais ampla
a área plantada, maiores são os problemas de coordenação das duas esferas e, portanto,
de coordenação do trabalho coletivo. O caráter prisional/militarizado dos barracones era um
importante instrumento para regular de forma estreita, por meio de rígidos protocolos de
visibilidade que restringiam brutalmente a autonomia escrava, o tempo de descanso e a arre-
gimentação das turmas de trabalho para as diferentes tarefas do ciclo de produção (Marquese,
2004: 314-327; Tomich, 2009: 133-150). Essas necessidades de confinamento e coordenação
também ajudam a explicar a divisão do complexo Purísima Concepción–San Martín em duas
unidades distintas, porém articuladas. Os trilhos internos permitiam que a matéria-prima (cana
cortada, porém não moída; açúcar a ser purgado etc.) pudesse ser rapidamente transferida de
uma para outra unidade, dando vazão ao fluxo do processo de produção. Integrá-las em um
único batey traria enormes problemas para a gestão do trabalho (como o confinamento de
um milhar de escravos) e da produção (tempo excessivo de deslocamento dos escravos dos
barracones para o campo; volume muito grande de matéria-prima a ser processada).
Isso nos traz de volta ao problema da escala dos engenhos. Como se leu no parágrafo
anterior, as dimensões da área cultivada com cana eram determinadas pela capacidade de
processamento na manufatura. A crescente mecanização dos engenhos cubanos exigiu a am-
pliação dos campos em cultivo, com a consequente ampliação da força de trabalho (o novo
maquinário poupava mão de obra, e, portanto, permitia o deslocamento de mais escravos para
o campo, mas isso era insuficiente). A gestão dos engenhos semimecanizados e mecanizados
cubanos, assim, precisava dar conta do manejo de canaviais cada vez mais vastos e, em es-
pecial, da aceleração do ritmo de corte para manter o novo maquinário em níveis ótimos de
operação (Tomich, 2009: 136-138). Esse sentido de movimento contínuo, aliás, foi o que deu
a tônica da organização visual da litografia de Laplante: movimento das carretas de cana e da
composição ferroviária, ambas moduladas pelo eixo diagonal do ponto de fuga da imagem;
movimento das moendas e das caldeiras (registrado pela operação das chaminés das máqui-
nas a vapor); e movimento dos escravos dispondo lenha para as fornalhas.

154 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 154-170, janeiro-abril 2019
Visualidade e administração do trabalho escravo nas fazendas de café e engenhos
de açúcar de Brasil e Cuba, c.1840-1880

E é igualmente nesse sentido de movimento que se encontra outra dimensão importante


da nova visualidade da gestão do trabalho escravo. Historicamente, o trabalho escravo nas
operações de cultivo e corte da cana sempre foi organizado de acordo com o chamado gang
system, ou seja, turmas de escravos trabalhando em uníssono sob o comando unificado do
feitor (Morgan,: 1988; 189-220; Marquese, 2004: 71-75). Em Cuba, esse sistema era chama-
do de cuadrillas. Mas as demandas impostas pela nova escala espacial do engenho cubano
exigiram algumas modificações no sistema anteriormente empregado nos engenhos ingleses
e franceses. Na litografia do engenho Santa Teresa, uma unidade completamente mecanizada
montada em fins da década de 1840 em Colón, com 60 caballerías com cana e uma força
de trabalho total com 380 escravos, Laplante deu a ver no que consistia o padrão cubano de
organização das cuadrillas (figura 3). O artista francês expressou aqui a conexão estreita entre
cuadros (talhões) de cana, as guardarrayas (os caminhos para os carros de bois, que também
separavam os cuadros de cana) e os carretones (carros de boi). Vemos, à direita, uma cuadrilla
com 25 escravos, sob o comando de um capataz (contramayoral) a cavalo – possivelmente,
acompanhado por um mayoral (feitor), também a cavalo –, cortando cana. As guardarrayas
estão no eixo diagonal à esquerda, articulando o campo ao batey. Um olhar mais próximo dos
carrretones (algo que também vale para a linha de sete carros que pode ser vista entrando no
batey do Purísima Concepción) permite observar a uniformidade desses veículos, construídos
para carregar cada qual 100 arrobas de cana cortada (Zayas, 1836: 174; Moreno Fraginals,
1989, v.1: 244, 27n).

Figura 3: Eduardo Laplante (lit.), detalhe do Ingenio Sta. Teresa (a) Agüica, propiedad del excmo. sr. conde de
Fernandina, 1857 [lit. aquarelada, imagem original 36,5 x 23,8 cm](Cantero, 2006: 128).

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Rafael de Bivar Marquese

A topografia plana da zona de Matanzas/Cárdenas/Colón facilitava a imposição de um


novo padrão de trabalho ao sistema de cuadrillas,por meio do estabelecimento de uma ri-
gorosa regularidade de plantios, caminhos e carros, em uma paisagem geometrizada. O an-
damento do processamento na fábrica demandava um controle preciso da quantidade de
matéria-prima: daí a importância da estandardização dos carros e da quantidade de cana em
cada qual. Mas, sem uma exata representação do campo, de nada adiantaria essa regularida-
de. A composição de mapas tornou-se peça essencial para as operações dos engenhos, e os
manuais agronômicos cubanos não se furtaram a apresentar modelos para a sua elaboração.4
Temos um bom exemplo dessa prática cartográfica no mapa do ingenio Merced, com-
posto em1863 (figura 4). O engenho, semimecanizado, foi fundado em 1856, também na
região de Colón. Em 1860, apenas 22 de suas 50 caballerías estavam ocupadas com cana;
conforme o censo agrícola de 1877, suas dimensões haviam sido então ampliadas para um
total de 70 caballerías, das quais 40 com cana, com uma força de trabalho de 283 escravos
e 83 “asiáticos” (García Mora e Santamaria García, 2006, apêndice I: 314; ibidem, 2006,
apêndice II: 380). Como se pode verificar pela sua fatura, o mapa foi claramente composto
para fins de controle do processo de trabalho. Inserido dentro de um livro contábil, ele
permitia rápida visualização de todo o espaço do engenho (batey, guardarrayas, cuadros
de cana, pastos, bananal etc.) O plano do engenho cumpriu à risca as recomendações de
simetria prescritas pela literatura agronômica coeva, com o batey situado exatamente no
centro da propriedade.5

156 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 156-170, janeiro-abril 2019
Visualidade e administração do trabalho escravo nas fazendas de café e engenhos
de açúcar de Brasil e Cuba, c.1840-1880

Figura 4: Plano del batey y cañaverales del ingenio Merced. Fondo Serafín Sánchez Govín, Fundación Antonio
Nuñez Jimenez de la Naturaleza y el Hombre, Habana, Cuba.

A novidade do sistema de cuadrillas cubano se inscreve na própria disposição espacial


representada por esse mapa. Ao contrário do Caribe, onde as gangs de escravos eram orga-
nizadas conforme a força dos cativos, em Cuba as cuadrillas eram estruturadas a partir dos
carros de boi: tempo e movimento eram os pontos-chave desse novo sistema de trabalhos por
turmas (Tomich, 2009: 142-146). Cada cuadrilla era composta por uma dada proporção de
cortadores de cana (macheteros, homens fortes), juntadores (alzadores, em geral mulheres) e
condutores dos carros de boi (carreteros). Se o cuadro de cana (as formas retangulares, nume-
radas, que se pode observar no mapa de La Merced) estivesse próximo ao batey, a proporção
seria de 2 cortadores/2 juntadores para cada condutor; 2 cuadrillas (cada qual com cerca
de 35 trabalhadores e 7 carros) dariam conta do montante a ser cortado e transportado às
moendas. Para os cuadros distantes, com maior demanda de carros, a proporção seria de 20

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Rafael de Bivar Marquese

cortadores/20 juntadores/14 condutores, modificando-se, portanto, a composição numérica


das cuadrillas e a quantidade de carros mobilizados. Essas proporções, contudo, não eram
fixas, pois variavam conforme a área de cada cuadro,sua distância do batey e o andamento da
safra. Esperava-se que a média diária por cortador fosse de 500 arrobas de cana, ou 5 carros
cheios (Landa, 1866: 48).
A litografia do Purísima Concepción (figura 1) representou a entrada de uma cuadrilla de
carretas com sete peças no batey do engenho; outra deveria estar a caminho do campo. Com
esse sistema de administração, capaz de extrair uma enorme carga de trabalho dos escravos
por meio de uma rígida coordenação do trabalho coletivo no tempo e no espaço, os senhores
cubanos lograram ampliar em muito a área cultivada com cana. Mas, se o espaço do engenho
não fosse devidamente esquadrinhado, isto é, visualizado, tal engrenagem de exploração do
trabalho escravo não funcionaria. Este foi o sentido da composição de mapas como o de La
Merced. Com a numeração dos cuadros de cana (um total de 118, cada qual equivalente a
1 dia de corte), tal mapa permitia efetuar cálculos precisos sobre a quantidade de cana a ser
cortada e, portanto, sobre a administração dos escravos no processo de produção de açúcar. A
relação do mapa com o processo de trabalho e o processo de produção era direta. A propor-
cionalidade matemática da manufatura projetava-se sobre o campo e ordenava o andamento
do trabalho coletivo dos escravos. Ao mapa somava-se, ainda, um controle contábil cuidadoso
da quantidade de cana que entrava diariamente na moenda; a partir dos informes diários do
“capataz de las carretas”, o administrador geral se encarregaria da quantificação semanal
desses dados.6
Após visitar o engenho Unión, unidade mecanizada com 498 escravos, Cantero anotou
que:

[...] o número total de caballerías plantadas é de 45, com a distinção de serem todos os cua-
dros perfeitamente regulares, formando quadrilongos de um terço de caballería, igualdade que
facilita muito as operações. Este simples fato, por si só suficiente para demonstrar a inteligência
dos proprietários, coincide com outro que não podemos deixar de citar para cumprir o dever
de justiça. Oferecendo-nos um livro que eles mantêm e no qual anotam com escrupulosa pre-
cisão cada safra, o número total de terrenos plantados com as subdivisões correspondentes de
caballerías, o número de carros de cana que cada uma delas produz, os pães de açúcar que
rendem, a época em que foi plantado cada cuadro, que se distingue dos demais pela numera-
ção etc. Com o auxílio de tão bem ordenado plano, com uma só olhada se colocam a par dos
produtos comparativos dos anos que conta em existência a propriedade, e têm sempre à vista
o estado em que esta se encontra. (Cantero, 2006: 184; tradução livre.).

158 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 158-170, janeiro-abril 2019
Visualidade e administração do trabalho escravo nas fazendas de café e engenhos
de açúcar de Brasil e Cuba, c.1840-1880

Com o mapa em um livro contábil, “com uma só olhada” o proprietário tomaria ciência
de tudo o que se passava em seu engenho: eis uma clara expressão do regime visual da se-
gunda escravidão, variável-chave para o sucesso da produção cubana de açúcar no mercado
mundial do século XIX.

IV.

E ntre os anos 1870 e meados da década seguinte, o pintor italiano Nicolau Antonio Fac-
chinetti, residente na Corte do Rio de Janeiro desde 1849, foi requisitado por algumas
famílias de fazendeiros do Vale do Paraíba para registrar as paisagens de suas propriedades.
Finalizado em abril de 1875, o óleo sobre madeira da fazenda Flores do Paraíso, localizada no
município de Valença, Vale do Paraíba fluminense (atualmente Rio das Flores, Rio de Janeiro),
é sem dúvida o melhor resultado dessa série. O quadro lhe fora encomendado por Domingos
Custódio Guimarães Filho. Tendo recebido o título de segundo barão do Rio Preto em 1874, e
a fazenda – como herança materna – um ano antes, com a encomenda Custódio Guimarães
Filho pretendia ter nas paredes de sua residência na capital do Império do Brasil o registro
visual da propriedade que tanto notabilizara sua família, a partir do pincel de um dos artistas
mais requisitados de então.7
As terras que deram origem à fazenda haviam sido adquiridas em 1843 pelo pai de
Custódio Guimarães, o primeiro barão (1854) – posteriormente (1867) visconde – do Rio
Preto. Na segunda metade dos anos 1840, Guimarães pai investiu pesadamente na aquisição
de escravos africanos (comprados no tráfico ilegal), no plantio de pés de café, e na construção
da luxuosa sede de sua fazenda. Flores do Paraíso tornou-se o centro de um complexo de
propriedades que, em 1868 (ano da morte do visconde do Rio Preto), englobava outras seis
grandes fazendas que iam da fronteira das províncias do Rio de Janeiro com Minas Gerais até
quase às margens do rio Paraíba, contando com mais de um milhar de escravos. A fazenda
Flores do Paraíso se destacava tanto pelo seu vocabulário arquitetônico (casa de vivenda
assobradada em estilo neoclássico, planta da sede em U conforme o modelo canônico da villa
palladiana) quanto, em especial, pelo seu padrão técnico. A plantation foi uma das primeiras
do Vale do Paraíba a adotar, ainda no começo da década de 1860, o maquinário Lidgerwood
de beneficiamento do café em substituição aos antigos engenhos de pilões.8
Ao contrário do que ocorre com o açúcar, a cafeicultura é viável economicamente tanto
em pequenas quanto em grandes propriedades. Dada a variação na estrutura de posse escrava
e nas dimensões fundiárias das fazendas, não se pode assinalar um perfil preciso do que seria
a unidade produtiva “típica” do Vale do Paraíba. Nessa região, houve de fato um número

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substantivo de propriedades, escravistas ou não, que operaram em pequena escala. O grosso


de sua produção de café, no entanto, era obtido em fazendas que concentravam grandes
fundos territoriais, com escravarias numerosas. De acordo com estudos sobre os municípios de
Vassouras (RJ) e Bananal (SP), cerca de metade de seus cativos residia em fazendas com mais
de 100 trabalhadores escravizados, em unidades que compreendiam de 100 a 300 alqueires
de terras cada uma (Salles, 2008; Ribas, 1989: 49-50; Moreno, 2013: 180-207).
A fazenda Flores do Paraíso pertenceu ao perfil dessas grandes unidades cafeeiras que
dominavam a paisagem do vale. Quando da composição do óleo de Facchinetti, ela conta-
va com 316 alqueires (114 caballerías), dos quais 130 (47 caballerías) plantados com 601
mil pés de café, e uma força de trabalho total formada por 454 escravos. A geomorfologia
da região e as práticas agronômicas empregadas, contudo, impediam a imposição de uma
geometria regular dos plantios, tal como se verificou nos canaviais de Cuba. Como se pode
observar no óleo de Facchinetti, a paisagem do Vale do Paraíba era caracterizada por uma
grande irregularidade na conformação de seus campos, a começar pela topografia dos cha-
mados “mares de morros”. Nas encostas das elevações em meia-laranja, entremeavam-se
cafezais em diferentes idades e níveis de produtividade, terras esgotadas, pastos para gado e
matas virgens. Dados os padrões de cultivo extensivo do café, profundamente dilapidadores
dos recursos naturais, essa paisagem verificava grandes transformações em intervalos relati-
vamente curtos de tempo, o que tornava inócuo o uso da cartografia para a administração das
fazendas (Marquese, 2008).Noutros termos, ao contrário do que se deu em Cuba, no Vale do
Paraíba jamais se utilizaram mapas para o controle do trabalho escravo.
No entanto, os mecanismos de visualização empregados para a gestão escravista em ambos
os espaços guardaram importantes pontos de contato, a começar pela moradia escrava (figura 5).

Figura 5: Detalhe de Fazenda Flores do Paraíso, de Nicolau Antonio Facchinetti, 1875, óleo sobre madeira, 54 x 73
cm (Martins e Piccoli, 2004: 16).

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Visualidade e administração do trabalho escravo nas fazendas de café e engenhos
de açúcar de Brasil e Cuba, c.1840-1880

Neste detalhe do óleo de Facchinetti, observa-se à esquerda do complexo da sede uma


grande edificação quadrangular, articulada aos dois terreiros de secar café (o primeiro, de
terra, o segundo, de macadame) por uma construção cujo corpo projeta-se por um torreão
no sobrepiso; nele, havia um relógio com sino; ao rés do chão, a passagem (separada por
um portão) do pátio interno da construção quadrangular ao terreiro. Trata-se da senzala em
quadra, um arranjo de moradia notavelmente próximo ao dos barracones cubanos, haja vista
que marcado por entrada única, cubículos todos voltados a um pátio interno, e ausência de
janelas externas. No caso da fazenda Flores do Paraíso, as janelas observadas na pintura de
Facchinetti eram falsas, isto é, tratava-se de um recurso de trompe l’oeil inscrito na própria
edificação que buscava conferir uniformidade visual ao conjunto arquitetônico da sede.9 A
gênese desse arranjo de moradia se encontra no mesmo feixe de forças que levou à adoção
dos barracones em Cuba: a conjuntura de questionamento à ordem escravista brasileira nas
décadas de 1830 e 1840, em um momento no qual se montavam grandes fazendas inteira-
mente fundadas na importação massiva de africanos ilegalmente escravizados. A despeito
de não serem construídas em alvenaria e estarem articuladas ao corpo das casas de vivenda
monumentais, as senzalas em quadra do Vale do Paraíba obedeceram aos mesmos ditames de
controle dos trabalhadores escravizados que deram origem aos barracones cubanos, funda-
dos em rigorosos protocolos de confinamento. E, tal como nos engenhos cubanos, são esses
preceitos de controle espacial que igualmente explicam o fato de megaproprietários como os
Custódio Guimarães montarem várias fazendas contíguas, em vez de fundirem-nas em uma
única plantation (Marquese, 2005: 175-185).
Ainda que o processo de produção do café não impusesse um ritmo equivalente à inte-
gração campo–manufatura que o açúcar exigia, as senzalas em quadra cumpriram papel im-
portante para a coordenação do trabalho escravo no espaço e no tempo. A notável série de fo-
tografias que Marc Ferrez compôs na última década da escravidão no Brasil bem o demonstra.
Buscando atingir o público consumidor estrangeiro ávido pelas chamadas fotos souvenirs do
mundo tropical, entre 1880 e 1885 Ferrez registrou as múltiplas situações que caracterizavam
o trabalho escravo nas fazendas de café do Vale do Paraíba, um mundo que todos os coevos
– inclusive os próprios senhores – sabiam estar condenado ao desaparecimento em médio ou
curto prazo. Como bem denominou uma estudiosa recente dessa série, o impulso de Ferrez foi
claramente ordenado pelo objetivo de tornar a escravidão “monumentalizada”, equiparando
“a força humana ao patrimônio construído” (Muaze, 2014: 163-182; ibidem, 2017).

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Rafael de Bivar Marquese

Figura 6: Marc Ferrez. Départ pour la cuillette du café, 1880. Acervo do Museu Afro-Brasil, São Paulo/SP.

É justamente esse caráter de “monumentalização” do projeto visual de Ferrez que o


torna particularmente válido ao argumento deste artigo. Na figura 6, por exemplo, seu objeti-
vo foi anotar visualmente a relação estreita entre a quadra da senzala e o terreiro de secagem
do café, em um padrão de trabalho que era rigorosamente ordenado no tempo e no espaço.
O local de moradia dos trabalhadores escravizados era, ao mesmo tempo, o principal local de
beneficiamento do café: em torno da ou acoplados à quadra da senzala, eram dispostos os
terreiros de secagem do café colhido, a casa dos engenhos que procediam à separação mecâ-
nica entre polpa/pergaminho e grãos, e as tulhas de armazenagem dos grãos beneficiados. A
senzala em quadra atendia tanto ao objetivo de controlar a mobilidade noturna dos escravos
quanto ao de comandar o trabalho coletivo deles. O agenciamento da quadra facilitava a
coordenação de grupos numerosos de escravos por meio de procedimentos espaciais cotidia-
namente reiterados, dentre os quais o que vemos na foto, ou seja, a reunião dos escravos no
terreiro logo após o nascer do sol para a inspeção e distribuição das tarefas do dia, ou, então,
o trabalho repetitivo de revolvimento dos grãos de café para a secagem ao sol (Marquese,
2010: 96-98).

162 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 162-170, janeiro-abril 2019
Visualidade e administração do trabalho escravo nas fazendas de café e engenhos
de açúcar de Brasil e Cuba, c.1840-1880

Na esfera agrícola, a cafeicultura brasileira se destacou frente às suas rivais no Caribe


(Jamaica, Cuba) e no espaço asiático (Java, Ceilão) pelo aumento crescente da taxa de explo-
ração dos escravos, medida pela proporção de pés de café alocados a cada escravo adulto.
Há vários registros qualitativos a respeito desse ponto na documentação do século XIX. A
pesquisa recente de Breno Moreno (2013), contudo, conseguiu identificar quantitativamente
esta tendência por meio do exame seriado de inventários post-mortem lavrados em Bananal
(SP) entre as décadas de 1830 e 1860. Veja-se, a respeito, o gráfico a seguir.

Gráfico 1: Evolução da exploração do trabalho escravo (em pés de café por escravo adulto).
Bananal, 1830-1859

Fonte: Moreno, 2013: 223.

Como foi possível impor essa quantidade crescente de pés de café aos escravos? Uma
vez mais, os novos mecanismos visuais de controle do trabalho escravo nos ajudam a entender
a matéria. Os pés de café têm o caráter de bens de capital: uma vez em plena produção (o
que demora cinco anos para ocorrer após o plantio inicial), eles produzem frutos por até duas
décadas, exigindo como trato cultural apenas de duas a três capinas anuais. Na cafeicultura
brasileira, essa atividade era organizada conforme o gang system clássico, isto é, trabalho
coletivo feitorizado sob comando unificado: cada escravo era responsável por uma carreira
entre os pés, devendo trabalhar em uníssono conforme os escravos mais rápidos, colocados
nas pontas do cafezal, todos supervisionados por um feitor ou capataz. A novidade do Brasil
consistiu na forma de disposição dos pés de café, com plantio alinhado da base ao topo dos
morros de meia-laranja, e com grande afastamento entre as fileiras. Nesse sistema de plantio,

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 163-170, janeiro-abril 2019 163
Rafael de Bivar Marquese

havia uma quantidade muito menor de pés de café por área do que, por exemplo, no Caribe.
O consequente desperdício de terreno no Brasil era mais do que compensado pelo fato de este
sistema permitir fácil visualização da gang de escravos pelo feitor na base do morro e, con-
sequentemente, a imposição de um número maior de pés de café por trabalhador (Marquese,
2008: 199-203; ibidem, 2010: 104-109).
As lentes de Marc Ferrez captaram magnificamente essa técnica. Na figura 7, os escravos
estão concentrados em algumas poucas linhas por razões da composição fotográfica, mas o
que se vê aí é uma turma de trabalhadores em um típico cafezal do Vale do Paraíba, aberto
o suficiente de modo a permitir sua imediata observação para quem estivesse afastado do
morro de meia-laranja.

Figura 7: Marc Ferrez. Escravos na colheita de café, 1882 (Acervo do Instituto Moreira Salles, Rio de Janeiro/RJ).

164 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 164-170, janeiro-abril 2019
Visualidade e administração do trabalho escravo nas fazendas de café e engenhos
de açúcar de Brasil e Cuba, c.1840-1880

A atividade na qual os escravos estavam envolvidos no momento em que Ferrez os repre-


sentou não era a capina, mas a colheita: os pés de café desnudos bem o demonstram. Aqui,
chegamos ao ponto final da análise. Mais pés de café por trabalhador significavam mais grãos
a serem colhidos por escravo na época da safra – os cafezais brasileiros, aliás, destacavam-se
também por sua maior produtividade. No entanto, em razão da variação bianual das safras
no Brasil (algo comum quando os cafeeiros são plantados a pleno sol, sem sombreamento),
era impossível à gerência escravista ter ciência prévia do volume a ser colhido. Em anos ruins,
a força de trabalho disponível na fazenda dava conta facilmente da colheita, mas, em anos
bons, a pressão sobre os trabalhadores aumentava. A solução adotada no Vale do Paraíba se
aproximou notavelmente da prática do Sul algodoeiro, ou seja, um sistema de tarefas indivi-
dualizado, variável conforme a avaliação sobre o andamento da safra e a capacidade de cada
trabalhador, e que o compelia a colher a maior quantidade possível de produto sob o risco
de ser punido fisicamente caso não cumprisse a cota mínima estipulada, recebendo prêmio
monetário correspondente ao montante extra, caso a ultrapassasse.10
O que tudo isso significava em termos de sobretrabalho para os escravos foi bem ano-
tado pelo jornalista britânico G. A. Crüwell, que veio ao Brasil na década de 1870, a mando
dos cafeicultores do Ceilão, com o objetivo de descobrir os segredos da enorme eficiência da
produção brasileira. De acordo com ele,

O trabalho exigido e executado pelos escravos é enorme. Está além do máximo do que os seres
humanos são capazes de realizar sem destruir os recursos físicos do indivíduo. No Brasil, um es-
cravo é obrigado a colher, na safra, 12 bushels de café por dia, enquanto no Ceilão dois bushels
são a tarefa do coolie; embora se pague qualquer coisa além dessa tarefa, e o coolie possa
trazer um ou dois bushels a mais, e a colheita de apenas frutas maduras seja um trabalho mais
difícil no Ceilão do que a derriça no solo (incluindo terra e pedras) e uma colheita indiscriminada
das bagas nas plantações brasileiras, quatro alqueires no Ceilão é o máximo que um coolie é
capaz de fazer, e nada mais. (Crüwell & Blacklaw, 1876: 18-19; tradução livre.)

Noutras palavras, era impossível aos trabalhadores coolies do Ceilão competirem com
o montante de trabalho extraído dos escravos do Brasil, obtido a partir de um sistema de
gestão fundado na estrita visualização dos escravos, no campo, na sede, nos terreiros. E, tal
como o que ocorreu na produção açucareira de Cuba, essa nova visualidade é crucial para se
compreender o domínio que o Vale do Paraíba exerceu sobre o mercado mundial do café nos
tempos da segunda escravidão.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 165-170, janeiro-abril 2019 165
Rafael de Bivar Marquese

Notas

1 Uma das poucas exceções é a “contra-história da visualidade” de um dos principais expoentes no campo
da cultura visual (Mirzoeff, 2011: 48-76). Esse livro, no entanto, contém sérios problemas, a começar por sua
definição anistórica e abstrata do que seja a “visualidade” e a “contravisualidade”. Tal enquadramento o
conduz a um tratamento igualmente anistórico – e muito simplificador – da organização visual da plantation
escravista do Caribe francês.

2 Cf. The Trans-Atlantic Slave Trade Database (TSTD). Disponível em: http://www.slavevoyages.org.
3 Há uma excelente edição crítica (García Mora e Santamaria García, 2006). Todas as imagens de Laplante
usadas neste artigo foram retiradas desta edição, a cujos organizadores agradeço pela gentileza em cedê-las
para reprodução. Veja-se, também, Venegas, 1996.

4 Ver, em especial, o modelo proposto pela Cartilla práctica…, 1862.


5 Veja-se, por exemplo, a recomendação da Cartilla práctica…, 1862: 18: “el batey de un ingenio debería
colocarse en el centro de las 49 caballerías de tierra que se han destinado desde un principio para campo
de caña, a no ser que hubiese algún accidente que lo impidiera, a fin de acortar en todo lo posible las
distancias, cuestión de mucha importancia para hacer el tiro de la caña con facilidad, brevedad y economía
posibles”. O ingenio Merced, aliás, pareceu seguir de perto as proporções recomendadas neste manual:
40 caballerías com cana (e mais 4 para guardarrayas/batey e 5 para produção de mantimentos), força de
trabalho com cerca de 320 trabalhadores, e moenda a vapor com 5 trens jamaicanos, capazes de produzir
117.300 arrobas de açúcar.

6 Ver os modelos de controle fornecidos por Landa, 1866: 60-61.


7 A respeito desta pintura de Facchinetti, ver Marquese (2007). Na p. 217 deste artigo, há uma reprodução
dela: http://www.revistas.usp.br/rieb/article/view/34562/37300.

8 Museu da Justiça do Estado do Rio de Janeiro. Inventário – Visconde do Rio Preto, 1869. Cartório do 1º
Ofício de Valença, Rio de Janeiro.

9 A técnica de pintura parietal em trompe l’oeil na fachada externa de senzalas pode ser observada ainda
hoje em uma fazenda relativamente próxima a Flores do Paraíso, a fazenda Santa Clara, localizada no muni-
cípio de Santa Rita do Jacutinga, Minas Gerais. Ver, a respeito, as fotografias contidas no caderno de imagens
de Marquese (2004, imagens 11 a 13), e Salles (2008, imagem 19).

10 A melhor descrição contemporânea desse sistema está em Andrade, 1989: 108-111. Sobre o Sul algo-
doeiro, ver Baptist, 2014: 111-144.

166 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 166-170, janeiro-abril 2019
Visualidade e administração do trabalho escravo nas fazendas de café e engenhos
de açúcar de Brasil e Cuba, c.1840-1880

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170 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 170-170, janeiro-abril 2019
Artigo

Muito além do consumo de pão:


condições de vida no Rio de Janeiro
na década de 1870
Far beyond the consumption of bread: living conditions in Rio de
Janeiro in the 1870s
Mucho más allá del consumo de pan: condiciones de vida en Río
de Janeiro en la década de 1870

André BoucinhasI*

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942019000100009

I
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre – RS, Brasil.

* Doutor em Letras pela Universidade Federal do rio Grande do Sul. Atualmente é professor do Ensino Médio do Colégio
Santo Inácio, Rio de Janeiro. (E-mail: andredb@hotmail.com), ORCID iD: https://orcid.org/0000-0001-7827-7710

Artigo recebido em 13 de novembro de 2018 e aceito para publicação em 14 de março de 2019.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 171-194, janeiro-abril 2019 171
André Boucinhas

Resumo
O artigo apresenta, lançando mão de diversas fontes – jornais de época, inventários post-mortem, lista de qualifi-
cação de votantes, romances –, as condições de vida dos trabalhadores da Corte, com o objetivo de mostrar que,
apesar das inúmeras dificuldades, havia uma margem para consumo de supérfluos e mesmo de acumulação de bens,
e que suas escolhas no mercado não são fruto apenas de uma lógica econômica, mas, como argumentou Giovani
Levi, refletem também aspectos importantes da cultura desses grupos.

Palavras-chave: Segundo Reinado; Rio de Janeiro; Condições de vida; Escravidão; Cultura material.

Abstract

The article presents, through various sources – periodicals, post-mortem inventories, voter qualification lists, novels
–, the living conditions of Court workers, in order to show that despite the difficulties there was a margin for the con-
sumption of superfluous products and even accumulation of goods, and that their choices in the market are not re-
sults of a pure economic logic, but, as Giovanni Levi argued, reflect important aspects of the culture of these groups.

Keywords: Second Empire; Rio de Janeiro; Living conditions; Slavery; Material culture.

Resumen
El artículo presenta, utilizando diversas fuentes – diarios de época, inventarios post-mortem, lista de calificación de
votantes, romances –, las condiciones de vida de los trabajadores de la Corte, con el objetivo de mostrar que, a pesar
de las numerosas dificultades, había un margen para el consumo de superfluos e incluso de acumulación de bienes,
y que sus elecciones no son fruto sólo de una lógica económica, sino que, como argumentó Giovanni Levi, reflejan
un aspecto importante de la cultura de esos grupos.

Palabras clave: Segundo Reinado; Río de Janeiro; Condiciones de vida; Esclavitud; Cultura material.

172 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 172-194, janeiro-abril 2019
Muito além do consumo de pão: condições
de vida no Rio de Janeiro na década de 1870

E ste artigo parte de uma pergunta bastante simples, mas ao mesmo tempo de difícil res-
posta: como eram as condições de vida daqueles que dependiam de salários – trabalha-
dores livres e escravos de ganho – na cidade do Rio de Janeiro durante o Segundo Reinado?
Evidentemente seus rendimentos eram baixos; porém, o que conseguiam fazer com eles?
Durante muito tempo, essa questão pareceu descabida ao historiador, pois se considerava que
seus ganhos eram suficientes apenas para se alimentarem mal. De acordo com esse ponto de
vista, só fazia sentido investigar a qualidade do pão consumido pelas classes populares, para
ressaltar a penúria de suas vidas. A ênfase excessiva dos estudiosos nos gastos em um único
item levou o historiador T. S. Ashton a afirmar ironicamente que esse homem simples, aos
olhos dos pesquisadores, “não ocupava uma casa ou, no mínimo, não era obrigado a pagar
aluguel. Ele se permitia somente uma quantidade moderada de pão e um pouco de mingau,
e nunca provou batatas ou uma bebida forte” (Ashton, 1993: 96; tradução livre). No entanto,
como veremos, mesmo com todas as dificuldades, os trabalhadores pobres, incluindo escravos
de ganho, tinham condições de consumir produtos e serviços que estavam além das necessi-
dades básicas e, eventualmente, até de acumular bens ao fim da vida.
O foco deste texto será a década de 1870, momento em que uma série de processos
iniciados com o fim do tráfico negreiro, ocorrido em 1850, já se faziam sentir, como a intensi-
ficação da imigração portuguesa, e o aumento do preço do escravo e também da quantidade
de cativos alforriados e “vivendo sobre si”, ou seja, sendo responsáveis pela sua própria
moradia, trabalho e alimentação. Antes de tratarmos dessas questões, porém, analisemos a
desigualdade econômica a partir do Quadro 1.

Quadro 1: Concentração de renda a partir dos inventários post-mortem

Faixa de renda número de inventários; renda total;


(mil-réis) percentual percentual
0-500 6; 5,0 % 2.055,58; 0,026%
501-1.000 2; 1,7 % 1.303,257; 0,016%
1.001-2.000 5; 4,2 % 7.356,5; 0,095%
2.001-5.000 15; 12,6 % 50.583,875; 0,657%
5.001-10.000 12; 10,1 % 90.607,29; 1,178%
10.001-20.000 17; 14,3 % 24.0348,75; 3,125%
20.001-50.000 32; 26,9 % 953.987,36; 12,407%
50.001-100.000 10; 8,4 % 788.743,61; 10,257%
100.001-200.000 11; 9,2 % 1.536.989,18;19,989%
mais de 200.000 9; 7,6 % 4.017.108.81; 52,244%
Total 119; 100% 7.689.084,212; 100%
Fonte: Inventários post-mortem (1870), cartórios do Rio de Janeiro. Arquivo Nacional.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 173-194, janeiro-abril 2019 173
André Boucinhas

O Quadro 1, feito com base em todos os inventários post-mortem existentes no Arquivo


Nacional para o ano de 1870, indica uma forte concentração, em que os 7% mais ricos, que
faleceram com uma fortuna maior do que 200 contos de réis, concentram aproximadamente
50% da riqueza, enquanto os 48% mais pobres possuem somente 7% do valor total arrolado.
Para verificar os dados encontrados, observemos o Quadro 2, elaborado a partir das listas de
qualificação de votantes de 1876, por serem as que têm o maior número de freguesias com a
discriminação da renda.

Quadro 2: Concentração de renda a partir da lista de qualificação de votantes

Faixa de renda número de pessoas; renda;


(mil-réis) percentual percentual
0-200 1.443; 15,65% 286:630; 1,67%
201-500 1.362; 14,77% 499:742; 2,9%
501-750 1.361; 14,76% 848:233; 4,93%
751-1.000 1.364; 14,80% 1.236:998; 7,19%
1.001-2.500 1.816; 19,70% 3.065:332; 17,81%
2.501-5.000 741; 8,04% 2.781:780; 16,16%
5.001-7.500 866; 9,39% 5.131:500; 29,82%
7.501-10.000 174; 1,89% 1.593:125; 9,26%
10.001-15.000 60; 0,65% 860:600; 5%
15.001 – 20.000 26; 0,28% 542:600; 3,15%
mais de 20.000 6; 0,07% 364:000; 2,11%
Total 9.219; 100% 17.210:540$000; 100%
Fonte: Lista de qualificação eleitoral (1876). Arquivo Municipal do Rio de Janeiro.

A significativa diferença entre os valores dos dois quadros decorre da natureza das fon-
tes, pois o que está em jogo na última é somente a renda anual da pessoa, e não o total de
seus bens ao final da vida, como nos inventários. Por isso, devemos nos ater à concentração
apresentada: os 45% mais pobres são responsáveis por pouco menos de 10% da riqueza
levantada, e os 12% de maior renda possuem 49% do total. A despeito da pequena variação,
não há dúvidas sobre a forte desigualdade existente na Corte no período. No entanto, a lista
de qualificação apresenta uma concentração um pouco menor, o que demonstra a existência
de um número maior de pobres entre os inventariados do que entre os votantes. Ainda assim,
os desfavorecidos estão sub-representados, pois dificilmente aqueles com um montante entre
10 e 50 contos de réis (40% dos inventariados) superavam numericamente os que estavam
entre os três menores níveis de riqueza (12%).

174 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 174-194, janeiro-abril 2019
Muito além do consumo de pão: condições
de vida no Rio de Janeiro na década de 1870

Identifiquemos outros traços econômicos gerais. A partir do quadro ocupacional da Corte


(Quadro 3), feito com base no Censo de 1872, nota-se que as ocupações que mais empre-
gavam na Corte naquele momento eram, na ordem: serviço doméstico (55.011); criados e
jornaleiros (25.686); comerciantes, guarda-livros e caixeiros (23.481); e operários (18.091). O
grande número do grupo do serviço doméstico, assim como do grupo das costureiras (11.592),
evidencia uma realidade em que a mulher pobre precisava ganhar seu sustento e não tinha
muitas opções, justificando a alta proporção de mulheres nessas ocupações – respectiva-
mente, 70% e 100%. Agora, se lembrarmos que grande parte dos criados e jornaleiros devia
trabalhar nas manufaturas e no comércio, vemos que essas duas ocupações tinham de fato
um espaço privilegiado na vida econômica da Corte.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 175-194, janeiro-abril 2019 175
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Quadro 3: População da Corte por ocupação profissional em 1872

Total Livres Escravos


Religiosos 264 264 0
Juristas 625 625 0
Médicos 394 394 0
Cirurgiões 44 44 0
Farmacêuticos 369 369 0
Profissionais liberais (5,3%)
Parteiros 54 54 0
Professores e homens
897 897 0
de letras
Empregados públicos 2.351 2.351 0
Artistas 9.428 8.930 498
Militares (2,0%) 5.474 5.474 0
Marítimos (2,9%) 8.039 7.512 527
Pescadores (0,4%) 1.216 1.042 174
Capitalistas e proprietários (0,7%) 2.007 2.007 0
Manufatureiros e
822 822 0
Profissões industriais e comerciais fabricantes
(8,8%) Comerciantes, guarda-
23.481 23.481 0
-livros e caixeiros
Costureiras 11.592 10.208 1.384
Canteiros, calceteiros,
928 863 65
mineiros, cavouqueiros
Em metais 2.987 2.711 276
Em madeiras 5.920 5.230 690
Profissões manuais ou Em tecidos 14 14 0
mecânicas (10,8%) Operários Em edificações 2.738 2.142 596
Em couros e peles 479 425 54
Em tinturaria 8 8 0
Em vestuários 2.519 2.287 232
Em chapéus 498 464 34
Em calçados 2.000 1.812 188
Lavradores 17.021 11.326 5.695
Profissões agrícolas (6,2%)
Criadores 0 0 0
Criados e jornaleiros 25.686 19.901 5.785
Pessoas assalariadas (29,4%) Serviços domésticos 55.011 32.169 22.842
Sem profissão (33,5%) 92.106 82.207 9.899
Total 274.972 226.033 48.939

Fonte: Recenseamento da População do Império do Brasil de 1872.

176 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 176-194, janeiro-abril 2019
Muito além do consumo de pão: condições
de vida no Rio de Janeiro na década de 1870

Um fato que mexeu muito no mercado de trabalho do Rio de Janeiro a partir de 1850 foi
a intensa chegada de imigrantes, sobretudo vindos de Portugal. De acordo com Luis Felipe de
Alencastro (1988), desde a primeira metade do século XIX, registra-se uma enorme quantida-
de de desembarques de portugueses, tanto para trabalhar no comércio (pelo Quadro 3, 74%
das pessoas no grupo “comerciantes, guarda-livros e caixeiros” eram estrangeiras) como para
serem operários manufatureiros. No início da década de 1870, essa migração adquire propor-
ções inéditas, como aponta o Quadro 4. Ainda que os números dos recenseamentos anteriores
ao de 1872 sejam menos confiáveis, o aumento em mais de 100% de portugueses entre 1849
e 1872 não deixa margem para dúvida. E eles chegavam aqui para disputar emprego com o
restante da população livre e também com os escravos de ganho ou alugados.

Quadro 4: População do município do Rio de Janeiro,


respectivamente, em 1821, 1849, 1856 e 1872

Anos 1821 1849 1856 1872


Número % Número % Número % Número %
Livres 57.605 51,2 155.864 58,5 103.496 68,2 226.033 82,2
Escravos 55.090 48,8 110.602 41,5 48.282 31,8 48.939 17,7
População total 112.695 266.466 151.776 274.972
População
26.749 10 55.933 20,3
portuguesa
População
8.449 3,1 7.092 2,5
africana livre
População
109.491 41 152.727 55,5
brasileira livre

Fonte: Alencastro, 1988: 53-54.

Segundo Alencastro (1988), essa imigração, aliada ao fim do tráfico atlântico de escravos
e em boa medida causada por ele, levou à inversão do movimento populacional existente até
então entre cidade e campo. Antes de 1850, os bons salários faziam com que os escravos la-
dinos fossem encaminhados para a área urbana. Com a chegada dos portugueses, o aumento
da concorrência pelo mercado de trabalho e a consequente queda dos salários, os proprie-
tários de escravos nas cidades decidem vendê-los para zonas rurais. Apesar disso, os portu-
gueses preferiam permanecer nas cidades em função das péssimas experiências de trabalho
no campo vividas por alguns patrícios sob o regime de engajamento. Como a procura por
escravos e consequentemente seu preço continuaram altos até meados da década de 1870

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 177-194, janeiro-abril 2019 177
André Boucinhas

nas áreas cafeeiras, inclusive algumas do Vale do Paraíba (Slenes, 1986), de fato o mercado
contribuía para o movimento de venda de escravos para o campo.
São inúmeras as evidências de substituição, na zona urbana, da mão-de-obra escrava pela
livre, especialmente portuguesa. Um observador afirmou, em 1849, que “uma grande parte
de indivíduos das ilhas (Açores e Madeira) empenha-se exclusivamente em recolher água nas
fontes públicas da cidade, com carroças e tonéis puxados por animais [...] abastecendo assim
quase toda a população que antes empregava muitos escravos para esse fim” (Alencastro,
1988: 41). Entre os trabalhadores de estabelecimentos artesanais e industriais recenseados
no Rio de Janeiro em 1852, 64,5% eram escravos, e, em 1872, o recenseamento registrou —
entre artesãos e trabalhadores — 10,2% de cativos e 40,6% de estrangeiros livres (ibidem:
43). Esse crescimento revelou algo até então impensável e potencialmente perturbador para
a elite nacional: a existência de europeus pobres, que executavam funções típicas de negros e
mulatos para ganhar seu sustento. Nesse contexto, compreende-se a afirmação de Chalhoub
(1990: 212-248) de que na década de 1870 já havia uma preocupação por parte da minoria
privilegiada de reorganizar a sociedade em novos termos: bons versus maus trabalhadores. O
autor mostrou como alguém, escravo ou livre, aumentava suas chances de ser absolvido em
um julgamento caso fosse apresentado como um empregado exemplar. Tratava-se do projeto
de uma elite que pretendia garantir o controle sobre o resto da população, transformando em
mérito aquilo que antes considerava nada mais do que a obrigação dos pobres: o trabalho.
A crise deflagrada pela Lei Eusébio de Queirós, que eliminou definitivamente o tráfico
atlântico de escravos em 1850, contribuiu de forma decisiva para essa desestruturação da
hierarquia social tradicional. Na Corte, a escravidão ocupava um papel crucial, e estava am-
plamente difundida – 41,5% da sua população total em 1849 era cativa (Quadro 2). Porém,
com a venda de escravos para a zona rural, em 1872, essa proporção de escravos passou
para apenas 17,7% (Quadro 2). Outra consequência praticamente imediata da Lei Eusébio de
Queirós foi a elevação do preço do escravo, que se tornou um bem cada vez menos acessível.
Segundo Pedro Carvalho de Mello (1984: 104), o preço real de um escravo no mercado do Rio
de Janeiro aumentou de 627 mil-réis em 1835 para 1:007$900 em 1870, um acréscimo de
mais de 60% em um período em que os salários estavam se desvalorizando.
Esses fatores – redução de cativos na Corte e sua valorização financeira – acabaram
gerando maiores condições de negociação para o próprio cativo, que se tornou um bem mais
difícil de ser substituído. Não foi mera coincidência, portanto, que a partir da década de 1860
as cartas de alforria se multiplicaram. Essa mudança, porém, não foi somente resultado de um
frio cálculo senhorial, e deve ser entendida também como uma conquista dos escravos, obtida

178 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 178-194, janeiro-abril 2019
Muito além do consumo de pão: condições
de vida no Rio de Janeiro na década de 1870

em um momento que lhes era favorável. Como demonstraram Hebe Mattos (1998) e Sidney
Chalhoub (1990), os objetivos dos cativos e libertos eram construídos a partir de elementos
identificados como característicos de pessoas livres. Esses elementos, no entanto, variavam da
zona urbana para a rural. Nesta última, por exemplo, a liberdade de movimento constituía-se
em algo desejado, mas nas áreas urbanas tratava-se de um fato consumado, porque o escravo
normalmente tinha permissão para caminhar livremente durante o dia e, às vezes, à noite.
Assim, uma das aspirações na cidade era se tornar um escravo de ganho para poder ”viver
sobre si”, mesmo tendo que pagar periodicamente uma considerável quantia em dinheiro ao
seu senhor. Essa estratégia podia muitas vezes se mostrar desvantajosa financeiramente, pois,
como vimos, tratava-se de um período de queda dos salários, sem mencionar o desemprego.
Entretanto, a possibilidade de levar uma vida mais próxima à do homem livre – escolhendo
onde, como e com quem morar e trabalhar – parecia compensar o esforço, e os escravos pres-
sionavam os senhores para consegui-la. Na segunda metade do século XIX, foram cada vez
mais bem-sucedidos nesse objetivo.
O número crescente de cativos “vivendo sobre si” e de alforriados na Corte banalizou a
figura do negro e do mulato andando “livremente” nas ruas e os aproximou, pelo menos aos
olhos das elites, da população branca pobre, o que pode ser confirmado a partir de um simples
anúncio de “precisa-se” publicado no Jornal do Commercio no dia 1º de janeiro de 1874:
“Precisa-se de uma criada, branca ou de cor, livre ou escrava, para o serviço doméstico de uma
família que consta de 3 pessoas, e onde não há crianças, podendo, se quiser, pernoitar fora”.1
A aceitação de uma pessoa de qualquer cor e condição – e anúncios desse tipo podem
ser encontrados facilmente – evidencia que esses elementos não eram mais tão fundamentais
para a contratação para os trabalhos menos qualificados. Além disso, quando o anunciante
avisou que a criada podia dormir fora, pode-se concluir que ele sabia que esse era um desejo
comum entre os grupos sociais pobres, e dá mais um indício de que isso se tornava cada vez
mais usual.
Uma das maiores dificuldades para um cativo que passasse a “viver sobre si” ou que
conquistasse a alforria era a moradia. Segundo Carlos Eugênio Soares (1998), a população
de cor criara um tipo de local para abrigar temporariamente aqueles que precisavam de uma
habitação, conhecido como casas de zungu. Mas e depois? Como muitos portugueses e outros
brancos pobres, boa parte acabava indo procurar abrigo nos cortiços. Com base no Quadro 5,
podemos avaliar o peso deles para a questão habitacional. Em 1856, apenas 4.003 pessoas
moravam nesse tipo de habitação (4% da população urbana); já em 1868, existiam na Cor-
te 642 cortiços, que abrigavam 21.929 pessoas, representando aproximadamente 12% da

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 179-194, janeiro-abril 2019 179
André Boucinhas

população urbana – o que significa dizer que ocorreu uma ampliação de 448% em números
absolutos. E isso era só o começo, visto que o crescimento dos cortiços, evidentemente coinci-
dindo com o aumento de escravos de ganho, libertos e de imigrantes, intensificou-se a partir
da década de 1860 e continuou até pelo menos o final do século XIX.

Quadro 5: Número de cortiços e sua população na Corte em 1856 e 1870

Ano 1856 1868


Número de cortiços 114 642
Número total de quartos - 9.671
População nos cortiços 4003 21.929
População urbana estimada 97.137 191.002
População total estimada 151.776 235.421

Fonte: Lobo, 1978: 360, 440; e Lobo et al.,1973: 161.

Não surpreende o fato de que em 1856 os portugueses fossem maioria nos cortiços
(52% dos moradores), pois eram recém-chegados, muitas vezes sem nenhuma conexão ou
emprego certo, e precisavam ir para as hospedagens disponíveis e baratas. Isso não significa
que negros e pardos não recorressem também a eles, como apontou Carlos Eugênio Soares
(1998: 64; 101). Nos dados sobre 1856, não há informações sobre a população dos cortiços
em relação à cor, somente que 212 (5%) eram africanos livres e 60 (1,5%), escravos (Lobo,
1973: 161). Como a maior parte das ocupações encontradas entre os habitantes dos cortiços
(costureiras, operários, quitandeiras, lavadeiras e engomadeiras, além dos “sem ofício”) eram
comumente exercidas por negros e pardos, existem fortes motivos para acreditar que eles
deviam representar uma proporção significativa dessas habitações já na década de 1850. E,
depois de 1870, os homens e mulheres de cor deviam estar mais presentes nos cortiços, pois
o número de libertos cresceu só no final dos anos 1860, bem como a prática de permitir que
os escravos “vivessem sobre si”.
Voltando ao Quadro 5, podemos ver que em 1868 existiam em média 2,3 pessoas por
quarto, um número alto se lembrarmos que muitas vezes não eram mais do que cubículos.
Para termos uma ideia do que era a vida nesses locais, vejamos um trecho de uma tese de
1877 do higienista Barata Ribeiro.

Todos sabem o que é cortiço. [...] Alimenta-os a lubricidade do vício, que os ostenta impudono-
rosa, ferindo os olhos e os ouvidos da sociedade séria que deles se aproxima, e a miséria andra-
josa e repugnante, que faz da ociosidade um trono [...]. No cortiço acha-se de tudo: o mendigo

180 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 180-194, janeiro-abril 2019
Muito além do consumo de pão: condições
de vida no Rio de Janeiro na década de 1870

que atravessa as ruas como um monturo ambulante; a meretriz impudica, que se compraz em
degradar corpo e alma, os tipos de vícios e até [...] o representante do trabalho [...]. Compreen-
de-se desde logo o papel que representam na insalubridade da cidade estas habitações, quando
nos lembrarmos que além de todas as funções orgânicas dos seres que o povoam, no cortiço
lava-se, engoma-se, cozinha-se, criam-se aves, etc. (Chalhoub, 1996: 51)

Claro que a declaração do higienista está permeada de preconceito, mas dá uma ideia
das péssimas condições desse tipo de estabelecimento. Mesmo assim, devido ao aumento da
procura, certamente os preços dessas habitações foram se elevando durante o período. De
acordo com Eulália Lobo et al. (1971: 256), em 1882, o aluguel de um quarto de cortiço para
casal variava de 9.842 a 12.654 réis por mês, e, para solteiro, de 7.030 a 8.436. Para comparar,
analisemos alguns anúncios de aluguéis de casas ou cômodos no Jornal do Commercio do ano
de 1874, em dois dias (01/01 e 01/02). Dos dez anúncios com valores, apenas 1 custava menos
de 15 mil-réis mensais, e dizia o seguinte: “aluga-se um bom cômodo, com água dentro e quin-
tal separado, por 10$000 [10 mil-réis], serve para lavadeira com pouca família”. O fato de ser
aconselhado às lavadeiras evidencia o tipo de imóvel, posto que aquela era uma das ocupações
mais comuns entre escravas e libertas. Pelo anúncio e preço, pode-se imaginar que se tratava de
um cortiço e, como não era um quarto para solteiros, corrobora o número indicado por Eulália
Lobo et al.. Dos outros exemplos encontrados, dois pediam 15 mil, um, 16 mil, e o restante
cobrava mais de 20 mil mensais, chegando a 780 mil-réis anuais por um sobrado.
Além do custo com a habitação, temos que levar em consideração a alimentação. Lobo
et al (idem) levantou os valores de diversos produtos considerados básicos (feijão preto, arroz,
carne seca, farinha de mandioca, farinha de trigo, açúcar mascavinho, café, bacalhau em tina,
carne fresca de vaca, manteiga, toucinho, azeite de iluminação e pano de algodão) em um
largo espaço de tempo (1820 a 1930), e, a partir disso, construiu um quadro com um índice
de variação anual dos preços. De acordo com eles, em toda a segunda metade do século
XIX houve uma tendência inflacionária no que se refere aos produtos do mercado interno,
com uma forte alta entre 1865 e 1870, justificada pela “guerra contra o Paraguai associada
à depressão dos preços dos principais produtos de exportação e consequente restrição das
importações, sobretudo de gêneros alimentícios preteridos pela compra de material bélico”.
(ibidem: 246) O fim do conflito levou a uma imediata deflação no ano de 1871, mas depois
os preços oscilaram com uma leve inclinação a alta até 1889, quando a inflação se tornou
novamente acentuada. Estamos então diante de um quadro delicado, em que os preços dos
produtos básicos subiam e os salários eram pressionados para baixo.
O mesmo grupo de historiadores, utilizando as contas de duas fábricas da Corte, afirma-
ram que em 1874 o custo mensal da alimentação de seus escravos e colonos era de 12 mil-réis

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 181-194, janeiro-abril 2019 181
André Boucinhas

para cada um, e dos empregados livres, 45 mil (ibidem: 253-254). Mesmo sabendo que essa
quantia devia propiciar uma dieta inadequada, vamos usá-la como referência para o custo mí-
nimo possível em comida. A partir desses dados, então, chegamos ao gasto mensal mínimo de
alguém que morasse sozinho e se alimentasse por conta própria na Corte, no início da década
de 1870, de algo em torno de 19 mil-réis (7 mil de aluguel + 12 mil de alimentação) e, para
um casal sem filhos, 34 mil-réis (10 mil de aluguel + 24 mil de alimentação).
Passemos agora para os salários. O Quadro 6 foi montado a partir de um levantamento
feito por Maria Yedda Linhares (1979) das profissões e respectivos rendimentos declarados
pelos votantes da Corte em 1876. Desde a reforma eleitoral de 1846 até a de 1881, uma das
condições para ser votante no Império era ter uma renda anual maior ou igual a 200 mil-réis.
Essa averiguação ficava registrada em um livro (a lista de qualificação de votantes) e normal-
mente anotava-se, entre outras informações, o nome da pessoa e seu rendimento aproximado.

Quadro 6: Votantes por tipo de ocupação e sua renda média


Porcentagem da Porcentagem das
Renda média anual
renda em relação à pessoas em relação ao
(renda mensal)
soma total arrolada total de votantes

Agricultura e
281.000 (23.400) 3,2 18,4
atividades extrativistas
Trabalhadores urbanos
721.000 (60.000) 11,3 24,6
e artesãos
Empregados em
959.000 (80.000) 1,1 1,9
transportes
Empregados a serviço 1.735.000
23,5 21,3
do Estado (144.600)
Empregados a serviço
1.260.000
de entidades públicas 3,7 4,6
(105.000)
e privadas
Patrões 38,1 19,9
Profissões liberais 18,6 8,6

Fonte: Linhares, 1979.

Como só existem registros das pessoas qualificadas para votar, seria possível imaginar que
os rendimentos médios estejam distorcidos para cima, visto que aqueles abaixo da exigência
mínima não foram contados. Entretanto, podemos citar vários exemplos que confirmam a média
indicada. No romance O cortiço, cuja trama se desenrola no início da década de 1870, o pedreiro
Jerônimo não aceita trabalhar por menos de 70 mil-réis mensais (Azevedo, 1997: 38), equiva-

182 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 182-194, janeiro-abril 2019
Muito além do consumo de pão: condições
de vida no Rio de Janeiro na década de 1870

lente a 840 mil-réis anuais. Encontramos esse mesmo valor em um processo de 1869 descrito
por Chalhoub (1996: 218), em que um advogado afirma que um bom pedreiro consegue ganhar
de 2 mil a 2.500 réis por dia. Em outra passagem do romance de Aluísio Azevedo (ibidem: 79),
afirma-se que estavam “pagando muito bem às amas”, porque chegavam a ganhar os mesmos
70 mil-réis por mês. Este último número revela que uma grande parte das pessoas envolvidas
em serviços domésticos devia ganhar a renda necessária para votar, e só não o fazia porque a
lei excluía criados de servir. O mesmo comentário se aplica aos donos de pequenos comércios4
(açougueiros, taverneiros etc.), que não estão entre os qualificados para votar somente por este
ser um setor dominado por portugueses. Um total de 74% do grupo “comerciantes, guarda-
-livros e caixeiros” era de estrangeiros. Difícil imaginar que uma venda, ainda que pequena,
gerasse menos renda do que o trabalho de ama ou o de pedreiro.
Também podemos recorrer ao Jornal do Commercio para reiterar a validade das infor-
mações da lista de qualificação, pois há anúncios de “precisa-se” e “aluga-se” para diversas
ocupações. Selecionando no dia 1º de janeiro de 1874 aqueles que continham os salários
pedidos ou oferecidos, encontramos o seguinte:
.aluga-se uma rapariga para lavar e serviços domésticos por 25$000 [vinte e cinco mil- réis]
mensais.
.precisa-se de dois homens brancos ou de cor para vender na rua e carregar na cabeça, pagan-
do-se 50$000 mensais “para cima”.
.precisa-se de um segundo cozinheiro para um restaurante de 1ª. Ordem, que esteja bem acos-
tumado em hotel português, paga-se 70$000 réis mensais.
.precisa-se, para a Estrada de Ferro Macaé Campos, de bons:
canteiros - jornal 3.600 a 4.200
carpinteiros - 3.400 a 3.800
pedreiros - 3.000 a 3.800
cavouqueiros - 2.500 a 3.000
trabalhadores de ferro [?] - 2.000 a 2.500
ferreiros - 5.000 a 6.000
.precisa-se de uma criada livre, branca ou parda, para cozinhar, lavar e mais serviços internos
de casa de pouca família, mesmo que tenha alguma criança, não sendo de colo, paga-se 25$
ou 30$000.
.precisa-se de uma pequena, livre ou escrava, de qualquer cor, para serviços de uma senhora
portas adentro, que seu aluguel não exceda a 12$000
.precisa-se de uma criada de boa conduta, que seja boa cozinheira, pagando-se 30$ a 35$ para
casa de família, com a condição de não sair à rua.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 183-194, janeiro-abril 2019 183
André Boucinhas

Onze dos doze salários apresentados estão acima dos 200 mil-réis anuais, e batem com
os valores encontrados por Linhares (1979). Uma questão transversal interessante é saber
como as pessoas pobres tinham acesso a esses anúncios de empregos de baixa remuneração e
habitações populares, posto que, segundo o Censo de 1872, 56% da população da Corte era
analfabeta. A resposta pode ser encontrada em O Cortiço, de Aluísio Azevedo. Lá descobrimos
que uma das moradoras, a Pombinha, além de escrever cartas, lia jornais para os colegas de
cortiço (Azevedo, 1997: 34).
Mesmo procurando em diversas fontes e analisando as ocupações que estavam entre as
de pior remuneração – servente de pedreiro, domésticos, vendedores ambulantes e operários
– encontramos um solitário exemplo de salário abaixo de 200 mil-réis anuais. Na verdade,
como se tratava de um anúncio de “precisa-se”, resta saber se alguém aceitou a proposta.
De qualquer forma, podemos afirmar com segurança que as médias apresentadas no Quadro
6 estão corretas, e que os salários insuficientes para a qualificação eram extremamente raros.
Assim, os excluídos das listas eleitorais por questões financeiras eram desempregados ou, pelo
menos, não trabalharam durante uma parte significativa do ano em que se fez a pesquisa, que
devia ser realizada de dois em dois anos.
Tentemos estimar o peso do desemprego na Corte no início da década de 1870. Ainda
que possamos calcular a população total para o ano de 1876 a partir da taxa média de cres-
cimento anual (Carvalho, 1998: 17), continuaremos a utilizar os dados do Censo de 1872.
Como não houve, nesse intervalo, alteração da lei eleitoral ou da forma de qualificação, e o
crescimento demográfico se deu basicamente pela imigração portuguesa – e os estrangeiros
estavam excluídos do processo eleitoral –, o número de votantes certamente não sofreu am-
pliação ou redução significativa. Além dos estrangeiros, não podiam votar escravos e mulhe-
res; portanto, sobram somente os 78 mil brasileiros homens. No entanto, temos que excluir
ainda os brasileiros homens menores de 25 anos, que se aproximavam dos 46.200, e os cria-
dos de servir (serviços domésticos), 4.100. Em números redondos, havia então 27.700 votan-
tes em potencial, dos quais 16.000 foram qualificados, de acordo com Maria Yedda Linhares
(1979: 132). Podemos concluir que aproximadamente 11.700 pessoas entre os brasileiros
livres maiores de 25 anos (42%) não conseguiram comprovar a renda de 200 mil-réis anuais,
em um momento em que se aceitava uma simples declaração do empregador. Ainda que esse
número funcione somente como uma referência geral, nos alerta para um fato importante. Se
o valor exigido para votar era pequeno, o simples fato de se exigir comprovação de renda –
qualquer uma – tornava o sistema eleitoral bastante seletivo.
Ao falarmos do valor relativamente baixo de 200 mil-réis anuais, estamos nos referindo
ao contexto econômico da Corte, uma área atípica em muitos aspectos, visto que era basi-

184 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 184-194, janeiro-abril 2019
Muito além do consumo de pão: condições
de vida no Rio de Janeiro na década de 1870

camente urbana, centro comercial e capital do país. As únicas atividades cujo rendimento se
aproximava do mínimo exigido eram aquelas classificadas como “agricultores e atividades
extrativistas” no quadro 4. A maior representação deste grupo entre os votantes (18,4%) do
que entre a população total (6,2%) pode causar estranheza, mas temos que lembrar que eram
majoritariamente brasileiros, ao contrário da zona urbana, repleta de imigrantes.
Como os escravos não tinham direito ao voto, ficaram invisíveis na lista de qualificação
de votantes. Vimos que em muitas atividades não se fazia mais distinção entre livres e cativos,
que por vezes ganhavam o mesmo salário. No entanto, os escravos com direito a escolher seus
empregos tinham um gasto adicional: o jornal para seus senhores. Em um processo encontra-
do por Sidney Chalhoub, o advogado declarou não considerar um jornal diário de 1.500 réis
(45 mil-réis mensais) alto para ser pago por um cativo; já a quitandeira Bertoleza, de O Cortiço
(Azevedo, 1997), tinha que enviar 20 mil-réis mensais ao seu senhor. Ainda que sejam valores
altos, provam que os salários deviam ser superiores a esses valores, pois, do contrário, essa
forma de trabalho não teria aumentado naquele momento.
Construímos um panorama bastante detalhado das condições de vida na Corte na déca-
da de 1870. É necessário ter o máximo de precisão possível sobre o orçamento da população
e o custo de vida, para que possamos conhecer as possibilidades e entender as atitudes dos
diferentes grupos sociais frente às opções existentes. O Quadro 7 pretende justamente esque-
matizar os dados levantados aqui sobre salários e preços, focando os grupos sociais urbanos
baixos e intermediários. No entanto, precisamos lembrar que os salários estão indicados pela
média, enquanto os custos de alimentação, moradia e jornais dos escravos são os valores
mínimos encontrados.

Quadro 7: Média dos salários e custo mínimo de vida na década de 1870 (valores em réis)

Custo mínimo Custo mínimo Jornal mínimo


Renda
de alimentação de aluguel de para escravo
mensal
individual um cômodo de ganho

Serviços
32.500
domésticos5
7.000
Trabalhadores
(individual)
urbanos e artesãos 60.000
12.000 20.000
Empregados em
10.000
transportes 80.000
(casal)
Empregados a
144.600
serviço do Estado

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 185-194, janeiro-abril 2019 185
André Boucinhas

Imaginemos a seguinte situação: um pedreiro livre vivendo junto com uma escrava de
ganho, lavadeira, e uma criança. A renda familiar seria de aproximadamente 92 mil-réis, e
seus gastos fixos – caso conseguissem gastar sempre o mínimo possível, o que não devia ser
fácil –, 66 mil. Havia também alguns meios de aumentar um pouco o orçamento, como, por
exemplo, no caso da Machona, de O Cortiço, que faz o seu filho regar a horta de um comen-
dador por dois mil-réis mensais (ibidem: 36). De qualquer maneira, fica evidente que mesmo
as pessoas com os trabalhos mais mal pagos da Corte teriam condições de gastar um pouco
com roupas, móveis e, é claro, diversão. Na festa do Divino, a entrada para uma das barracas
mais procuradas – a Barraca das Três Cidras do Amor, que oferecia teatro de bonecos, músicas,
danças, mágicas, entre outros entretenimentos – custava apenas 500 réis em 1851 (Abreu,
1999: 74). Para dar um exemplo mais próximo do período analisado aqui, a aposta mínima
permitida na corrida de cavalinhos de pau, em 1879, era de 200 réis (ibidem: 264). E, para
entrar em um batuque – reunião em que se cantavam e dançavam músicas de influência
africana – cobrava-se somente 80 réis (ibidem: 287). Esses são alguns exemplos de diversões
extremamente populares na segunda metade do século XIX que estavam de fato ao alcance
da grande maioria da população.
No entanto, se provamos que as pessoas pobres eram capazes e de fato destinavam uma
parte de seu orçamento para atividades e bens considerados supérfluos, sem estarem, com
isso, deixando de comer ou pagar o aluguel, não podemos deixar de ressaltar a instabilidade
da situação desse grupo. No exemplo imaginado anteriormente, se o pedreiro sofresse um
acidente ou se enrabichasse por outra mulher, a lavadeira teria que pedir ajuda a alguém ou
não seria capaz de sustentar seu filho.
Vimos que as classes mais baixas tinham condições de consumir, mas o que conseguiam
acumular? Com base nos inventários post-mortem de 1870, passemos à observação do gru-
po mais pobre, aquele cujos bens somados alcançavam no máximo 2 contos e 500 mil-réis
(Quadro 8)

186 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 186-194, janeiro-abril 2019
Muito além do consumo de pão: condições
de vida no Rio de Janeiro na década de 1870

Quadro 8

Número do Imóveis Escravos Bens móveis Joia Monte Monte


inventário urbanos (nº) (nº) (valor) (valor) bruto líquido

0b 1 (usufruto) 0 0
8 1 46 61 307 307
Não havia Não havia
9 2 315,38 315,38
valores valores
7 361 281,09
3 384,4 40,5 425,4 -35,6
2 1 6,5 476,5 -145
1d 1 550 -6213,6
12r 36,2 753,257 753,257
10 1.102,11 1.113,59 431,09
13 3 60 20 1.130,00 1.130,00
16 2 1.600 1.600
Junto com
11d 1.712,91 568,107
imóveis
17 1 1.800 1.800
20 2 1.034,00 110,2 2.150,00 2.150,00
Não havia
19 2.232,82 2.005,10
valores

Fonte: Inventários post-mortem (1870), cartórios do Rio de Janeiro. Arquivo Nacional.

Em uma sociedade em que o problema de moradia se tornava cada vez mais crítico,
com os preços dos aluguéis aumentando e a queda progressiva de qualidade das habitações
populares, podemos imaginar que uma das principais preocupações de qualquer um seria
conseguir um lugar para viver. O que percebemos, entretanto, é a baixa proporção de proprie-
tários de imóveis nesses dois níveis, o que se torna mais acentuado quando examinamos mais
detidamente os inventários. Dos treze inventariados mais pobres, apenas seis possuíam casas
ou terrenos. No entanto, dois deles terminaram sua vida com um montante líquido negativo
(inventários 2 e 1d), ou seja, o valor de suas dívidas somadas era mais alto do que o de todo
o seu patrimônio junto. Em outro (inventário 17), o único item declarado foi um imóvel e seu
respectivo terreno. Como se tratou de uma partilha amigável, na qual não é requisitado um
avaliador, provavelmente a família só se preocupou em declarar os bens mais valiosos, prática
comum em casos assim. Dessa forma, o montante total desse indivíduo deveria ser maior, pois

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 187-194, janeiro-abril 2019 187
André Boucinhas

dificilmente alguém que possuísse um imóvel de 1.800 mil-réis não seria capaz de ter bons
móveis, dinheiro ou objetos de ouro e prata. Os outros três casos foram de moradores da zona
rural, sendo um deles uma liberta (inventários 11d, 12r e 7).
E quanto aos escravos? Se lembrarmos que, segundo João Fragoso (1998: 92), entre
1810 e 1830, cerca de 90% dos inventariados eram proprietários, e que mesmo na faixa de
menor renda o índice chegava a 88%, a observação desse quadro nos traz a comprovação de
que a propriedade escrava estava cada vez menos difundida, pois a porcentagem de senho-
res cai para 30%. A explicação simples para isso seria que o valor do escravo vinha subindo
desde 1850, tornando essa posse mais difícil para as camadas populares. No entanto, esse
fator – crucial, sem dúvida – é apenas parte da resposta. Afinal, se a maior parte dos inven-
tariados possuíam cativos na primeira metade do século, não só as pessoas decidiram vender
os escravos que tinham, como desistiram de poupar para conseguir comprar um. Além do
cálculo econômico, há que se considerar também o crescimento do abolicionismo nos anos
1860 (Alonso, 2015), que tornava cada vez menos bem vista a posse de escravos. Um exemplo
vindo da elite aparece no romance Quincas Borba, quando o rico e culto comerciante Cristiano
Palha convence o interiorano Rubião da necessidade de ter criados brancos em vez de negros
(Machado de Assis, 2004: 643). A pequeníssima proporção de senhores entre os inventariados
das camadas populares é um elemento importante para observar a penetração do sentimento
antiescravista nesse grupo.
A posse de joias, entendidas aqui como qualquer objeto de ouro e prata, desde anéis e
cordões até talheres, também não era comum nos inventários mais pobres. E é preciso res-
saltar que elas funcionavam como um investimento, visto que podiam ser penhoradas com
facilidade. Isso ocorria mesmo entre a população pobre, pois, em O Cortiço, ficamos sabendo
que João Romão, o dono da estalagem popular, aceitava a penhora de ouro e prata de alguns
dos moradores (Azevedo, 1997: 21). Cinco inventariados (39%) possuíam algum metal pre-
cioso; no entanto, um deles era negociador de joias, e todos os seus bens estavam listados
como de sua loja.
Restam ainda os bens móveis. Aparentemente, repete-se a mesma situação observada
das outras vezes, com a sua posse pouco difundida, ainda mais se considerarmos o baixo
preço do que estamos tratando. No nível 1, 46% dos inventariados possuíam algum móvel
no momento de sua morte, enquanto no nível 2 esse índice alcança 73%; porém, aqui a
análise tem que ser feita de forma diferente. Em alguns casos, os bens móveis não devem ter
aparecido por razões circunstanciais. Dois deles são os exemplos de partilha amigável, comen-
tados anteriormente. Além disso, há dois inventários (11d e 15) em que a casa foi leiloada

188 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 188-194, janeiro-abril 2019
Muito além do consumo de pão: condições
de vida no Rio de Janeiro na década de 1870

e possivelmente os bens foram vendidos em conjunto; um inventariado diagnosticado como


louco (inventário 29) e que não administrava seus bens, e, portanto, devia morar com alguém
ou mesmo internado; e um recém-chegado de Santa Catarina (inventário 16), que trouxera
apenas os escravos consigo. Mesmo assim, ainda teríamos alguns inventariados sem móvel
algum, o que parece difícil de entender, visto que existem bens desse tipo avaliados por menos
de mil-réis. Não podemos esquecer, porém, que grande parte dessa população devia morar
em cortiços, quartos alugados ou mesmo “de favor”, o que eliminava a necessidade – mas
não a possibilidade – de aquisição de móveis. Foi exatamente o que ocorreu com um hóspede
da casa de pensão de Madame Brizard, personagem de Casa de pensão, que, quando mor-
reu, descobriu- se que seu único bem era um baú sem nada de valor dentro (Azevedo, 1993:
175). Observando atentamente os inventários post-mortem, percebe-se que alguns proprie-
tários de imóveis moravam em outro lugar, provavelmente porque o lucro com o aluguel, em
tempos de crescimento populacional, devia compensar. Somente nos níveis 1 e 2, de poucos
proprietários, foram encontrados 3 casos. Observamos também que, dentro desse grupo, os
que tinham a menor proporção de riqueza investida em móveis eram justamente os donos
de imóvel. Ou seja, esses poucos que decidiam investir em imóveis urbanos estavam abrindo
mão de outros tipos de bens e de um maior luxo no seu cotidiano. Isso reforça a ideia de que
a inexistência de móveis em alguns inventários decorre de uma situação real – e não de uma
falha do documento –, gerada por uma opção consciente dos agentes sociais. Poderíamos
imaginar que o empenho em ter sua própria casa devia guiar a população humilde da época,
sobretudo por conta do alto preço das moradias; no entanto, o grande valor despendido em
bens móveis mostra que nem todos pensavam assim. Muitos deviam achar que valia a pena
investir em mais luxo e conforto, visto que a oferta de bens no mercado cresceu muito devido
às inovações dos transportes e da indústria europeia na segunda metade do século XIX. A
pressão social por ter produtos “da moda” tornava-se cada vez mais forte naquele momento,
com todas as lojas que foram se consolidando, sobretudo na rua Ouvidor e na rua Direita, e
uma imprensa especializada em costumes. Mais uma vez, o padrão encontrado nos inventá-
rios – neste caso, a falta de um comportamento comum – reflete um dilema cultural daquele
momento específico.
Dos bens móveis, os elementos mais à disposição das camadas populares eram as ves-
timentas; no entanto, elas não aparecem muito nos inventários, pois os avaliadores tinham
como regra ignorá-las. Entretanto, é possível perceber o seu papel de destaque no cotidiano
popular recorrendo, mais uma vez, à leitura de O Cortiço. Quando Léonie, uma prostituta de
vida um pouco melhor do que sua afilhada, visitava-a no cortiço, as personagens

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André Boucinhas

não se fartavam de olhar para ela, de admirá-la; chegavam a examinar-lhe a roupa, revistar-lhe
as saias, apalpar-lhe as meias, levantando-lhe o vestido, com a exclamação de tanto luxo de
rendas e bordados. [...] Piedade declarou que a roupa branca de madama era rica nem como a
da Nossa Senhora da Penha. (Ibidem, 1997: 85)

Podemos imaginar, inclusive, que Léonie escolheu usar aquelas roupas “luxuosas” pois
sabia o efeito que causariam. Em um caso estudado por Chalhoub (1996: 217), uma escrava
acusada de roubar o seu senhor afirma tê-lo feito para o seu companheiro Jerônimo, que dizia
que “precisava ou de um par de botinas, ou de um chapéu ou de qualquer outra roupa, e por
isso lhe pedia que ela Interrogada procurasse haver a si o dinheiro que ele precisava, tirando
de seu senhor que era muito rico”. Jerônimo não precisava de roupas novas, pois nem ao
certo sabia o que comprar, e os exemplos que deu – par de botinas e chapéu – estão longe de
serem itens de necessidade básica. Ao fim, ela acabou encomendando uma calça e um colete,
este último também uma peça nada essencial. No entanto, querer que Jerônimo usasse um
colete é mais um indício da influência que as modas europeias exerciam sobre as camadas
populares. Gilberto Freyre (2000) afirmava observar no século XIX brasileiro uma europeiza-
ção dos costumes, que começou com a vinda da Corte, e, ao fim do Oitocentos, como indica
esse caso, até mesmo grupos humildes passavam por esse processo. A motivação da escrava,
portanto, foi o desejo de ver o companheiro mais bem-vestido e na moda, e é bastante signi-
ficativo ver que ele acreditava que por isso valia a pena roubar.
Entre os bens móveis, os objetos de casa eram o segundo item a atrair a atenção da
população, e veremos que era possível ter um mínimo por quantidades ínfimas. Quando Je-
rônimo, o pedreiro que ganhava o bom salário de 80 mil-réis mensais, vai morar com Rita,
monta uma casa “que era um regalo; tinham cortinado na cama, lençóis de linho, fronhas de
renda, muita roupa branca, para mudar todos os dias, toalhas de mesa, guardanapo; comiam
em pratos de porcelana e usavam sabonetes finos” (Azevedo, 1997: 149). Jerônimo tentava
impressionar, e fez todo o esforço para deixar a casa ao gosto de sua amada; ou seja, esse
deve ser considerado o máximo do luxo que uma pessoa de sua condição poderia obter. Ten-
tando calcular o valor dos objetos citados a partir de avaliações desses bens em inventários,
podemos arriscar que deviam valer em torno de 25 mil-réis. Realmente é um valor alto, se
pensarmos que não se trata dos móveis mais básicos, como cama, mesas e cadeiras, que
deviam existir ainda que em pequena quantidade. O próprio fato de eles não serem descritos
pelo autor – que, no entanto, confirma a existência da cama falando de um “cortinado na
cama” – serve como indício de que deviam ser comuns à grande maioria das casas. Dos 30
inventariados mais pobres, 17 tiveram móveis descritos; desses, 8 possuíam cama (3 de ferro,
3 de vinhático e 2 sem descrição). Ainda que seja um número próximo a 50%, ele pode

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Muito além do consumo de pão: condições
de vida no Rio de Janeiro na década de 1870

ser considerado alto, visto que sabemos que muitos moravam em quartos alugados e corti-
ços, onde frequentemente existiam os móveis mais básicos. Além disso, as camas descritas
como de ferro foram avaliadas em no máximo 2 mil-réis, um valor bastante acessível. Câmara
Cascudo (2003), em seu estudo sobre as redes de dormir, já se referia à difusão da cama no
século XIX, mesmo entre os africanos, que, de início, preferiam deitar sobre esteiras por conta
do costume, e nos inventários confirmamos essa tendência, que, mais uma vez, aponta para
uma atração das camadas populares pelos hábitos de consumo europeus.
Se compararmos o gasto de Jerônimo e Rita em móveis com o de outras pessoas, ve-
remos que o lar deles estava mesmo acima da média. Chalhoub encontrou dois casos que
são bastante relevantes. Em um processo, um liberto desaparece para não ter de pagar o
aluguel e abandona seus bens, que são avaliados todos por pouco mais de 20 mil-réis, con-
sistindo em duas mesas e dois bancos de pinho, uma marquesa também de pinho, um baú,
uma cadeira velha, louças diversas, dezesseis sacos de carvão, um barril, uma moringa, três
alguidares, um fogão de ferro, dez abanos, e uma bandeja de limões. (Chalhoub, 1996: 239)
Em seguida, o autor faz menção a um processo em que os bens de quatro quartos somados
valiam 6 mil-réis. Ou seja, mesmo as pessoas humildes, quando podiam, incrementavam seu
lar com alguns tipos de móveis e outros caprichos; no entanto, as oportunidades para isso
não eram frequentes.
Concluindo, há muito a aprender problematizando as opções de consumo das classes
trabalhadoras. Como afirmou Giovanni Levi (1998: 216) em um estudo pioneiro, não basta
sublinhar o óbvio de que as camadas populares vivam com muito pouco, “importa descobrir
a relação entre as formas de consumo e a segmentação da estrutura social: as lógicas que
comandam os comportamentos têm valências diferentes não apenas em contextos diferentes,
mas também em meios sociais diferentes no interior da mesma sociedade”. Ser proprietário
de um imóvel, como vimos, para os trabalhadores significava abrir mão de bens de consumo,
problema que obviamente não atingia a elite. Muitos elementos estavam em jogo nessa es-
colha, tanto econômicos quanto culturais, posto que bens de consumo são sinais visíveis de
status, e sua oferta crescia no final do século XIX. Seguindo ainda a pista de Levi, observamos
como a decisão das camadas populares de não possuir mais escravos esteve associada ao
crescimento do sentimento abolicionista; que algumas opções de consumo (compra de camas,
coletes etc.) eram fruto de uma europeização dos costumes que ganhava força entre elas.
Outras hipóteses podem surgir dos dados aqui levantados, mas esperamos ter demonstrado
como a investigação sobre as condições de vida e as práticas de consumo pode revelar ou
confirmar aspectos culturais dos grupos sociais analisados.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 191-194, janeiro-abril 2019 191
André Boucinhas

Notas

1 A grafia de todos os anúncios citados neste trabalho foi adaptada para o português corrente.
2 Usei para a população total de 1868 os dados do Censo de 1870, pois este provavelmente subestimou a
população real. Como a tendência do período era de um pequeno crescimento demográfico, o número indi-
cado no Censo de 1870 deve ser mais correto para anos anteriores. Para o ano de 1856, não chegaram os
dados da freguesia de Sant’Ana, e em 1868, os da Candelária.

3 M. Y. Linhares preferiu não incluir esta ocupação dentro do grupo “patrão” por julgar que simbolizavam
estratos sociais diferentes.

4 Como os criados não podiam votar e, portanto, não apareciam nas listas de qualificação, fiz a média entre
todas as referências a salários de serviços domésticos citados neste artigo.

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Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 193-194, janeiro-abril 2019 193
Artigo

Hombres de color e os significados


da liberdade negra: contribuições à
história do pós-abolição no Uruguai
(1872)
Hombres de Color and the Meanings of Black Freedom:
Contributions to the History of Post-Abolition in Uruguay (1872)
Hombres de color y los significados de la libertad negra:
contribuciones a la historia de la post-abolición en Uruguay (1872)

Fernanda OliveiraI*

DOI:http://dx.doi.org/10.1590/S2178-149420190001000010

I
Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Pelotas – RS, Brasil.

*Professora substituta do Curso de História da Universidade Federal de Pelotas. Estágio pós-doutoral pela UFRRJ, coorde-
nadora da Setorial Sul do GT Emancipações e Pós-Abolição da ANPUH. (feolisilva@gmail.com),
ORCID iD: https://orcid.org/0000-0001-8198-3552

Artigo recebido em 15 de novembro de 2018 e aceito para publicação em 12 de fevereiro de 2019.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 195-215, janeiro-abril 2019 195
Fernanda Oliveira

Resumo
A conformação do Estado republicano uruguaio e sua relação com a libertação dos escravizados é assunto recorrente
nos estudos históricos. Com o intuito de contribuir para esse debate, alargando-o a partir de apontamentos sobre
as condições do pós-abolição, apresento este artigo adotando por fio condutor um acontecimento de 1872: a
criação do Club Igualdad. Composto por um grupo de homens de color em um contexto de disputas eleitorais, a
justificativa para a sua criação estava na denúncia de que a ideia de raça apresentava uma intrínseca relação com o
acesso à cidadania naquela capital emancipada desde a década de 1840.

Palavras-chave: Uruguai; Liberdade; Pós-abolição; Negros; Branquitude; República.

Abstract
The conformation of the Uruguayan republican State and its relationship with the liberation of the enslaved is
a recurrent subject in historical studies. In order to contribute to this debate, extending it based on notes on the
conditions of post-abolition, I present this article taking as guideline an event of the year 1872: the creation of Club
Igualdad. Composed of a group of men of color in a context of electoral disputes, the justification for its creation
resided in the denunciation that the idea of race had an intrinsic relationship with the access to the citizenship in
that emancipated capital ever since the 1840s.

Keywords: Uruguay; Freedom; Post-abolition; Blacks; Whiteness; Republic.

Resumen
La conformación del Estado republicano uruguayo y su relación con la liberación de los esclavizados es asunto
recurrente en los estudios históricos. Con el fin de contribuir a ese debate, ampliándolo a partir de apuntes sobre
las condiciones de la post-abolición, presento este artículo tomando por hilo conductor un acontecimiento del año
1872: la creación del Club Igualdad. Compuesto por un grupo de hombres de color en un contexto de disputas
electorales, la justificación para su creación estaba en la denuncia de que la idea de raza presentaba una intrínseca
relación con el acceso a la ciudadanía en aquella capital emancipada desde la década de 1840.

Palabras clave: Uruguay; Libertad; Post-abolición; Negros; Blancura; Republica.

196 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 196-215, janeiro-abril 2019
Hombres de color e os significados da liberdade negra: contribuições à história
do pós-abolição no Uruguai (1872)

Dilemas institucionais da liberdade negra

L evar à “Representación Nacional un hombre de nuestra clase” era a reivindicação do can-


didato do Club Igualdad, o militar de color José María Rodriguez. Por clase leia-se coletivo
de pessoas que compartilhavam um mesmo objetivo: o fim dos recrutamentos forçados de ho-
mens negros instituídos pelas leis de abolição, como veremos em seguida. O clube foi fundado
em 25 de agosto de 1872 por Eulogio Alsina, José María Rodriguez, Timoteo Olivera, Manuel
Aturaola, Manuel Gutiérrez e, possivelmente, outros homens negros, e teve como porta-voz o
jornal La Conservación, principal fonte utilizada nesse artigo.1
As demandas do Club Igualdad adquirem sentido ao observarmos os dilemas da história
da população negra naquela nação, sem perder de vista a realidade das Américas. As duas
leis de abolição da escravidão uruguaia foram promulgadas no contexto da Guerra Grande
(1839-1851) e estavam relacionadas aos interesses de ambos os lados envolvidos no conflito.2
A primeira delas foi promulgada em 1842 pelo governo colorado, comandado por Fructuoso
Rivera, com sede em Montevidéu, sob apoio dos unitários argentinos, da França e da Ingla-
terra.3 A lei institucionalizava a obrigatoriedade do serviço militar aos homens negros pelo
tempo que fosse necessário, e informava que mulheres, crianças e homens não aptos à função
de soldados ficariam prestando serviço aos seus antigos senhores, na modalidade de regime
de patronato, com o estabelecimento dos contratos de peonagem. Alerto que, se os homens
negros eram quase-cidadãos,4 ou seja, não mais escravizados, mas tampouco cidadãos com
direito a liberdade incondicional,5 a mesma coisa não valia para as mulheres e as crianças,
pois estas seguiam sob jugo do mesmo senhor, e sequer anteviam uma data para o acesso ao
direito de ir e vir.6
Os contratos de trabalho não foram uma especificidade uruguaia no processo de
emancipação da escravidão, e, assim como a maioria dos demais espaços americanos, ex-
cluindo-se apenas o Brasil, o significado desse processo estava diretamente vinculado com o
contexto histórico das guerras de independência, no qual se encontra a Guerra Grande (Coo-
per; Holt; Scott, 2005: 89-129; Andrews, 2007: 83-150). É importante destacar que o governo
radicado em Montevidéu, denominado Gobierno de la Defensa, assinou um acordo para o
fim do tráfico de escravos com a Inglaterra no ano inicial do conflito (1839), e a influência é
marcante na redação da lei de abolição, que advém da ratificação do referido acordo: “Que
en ningún caso es más urgente el reconocimiento de los derechos que estos individuos tienen
de la naturaleza, la Constitución y la opinión ilustrada de nuestro siglo”. Em seguida, afirma
“que en las actuales circunstancias en que la República necesita de hombres libres, que de-
fiendan las libertades y la independencia de la Nación”.7 A redação da referida lei é bastante

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 197-215, janeiro-abril 2019 197
Fernanda Oliveira

ilustrativa dos ideários e do contexto específico. Conforme se pode observar no referente às


condições da liberdade dos escravizados:
Artículo 1°. – Desde la promulgación de la presente resolución, no hay esclavos en todo
el territorio de la República.

2°. – El Gobierno destinará los varones útiles que han sido esclavos, colonos o pupilos,
cualquiera que sea su denominación, al servicio de las armas por el tiempo que crea ne-
cesario.

3°. – Los que no sean útiles para el servicio militar, y las mujeres, se conservarán en clase
de pupilos al servicio de sus amos, con sujeción por ahora a la ley patria sobre pupilos o
colonos africanos.

4°. – Los derechos que se consideren perjudicados por la presente resolución serán indem-
nizados por leyes posteriores.

Comuníquese al P. E., etc.

Sala de Sesiones en Montevideo, a 12 de diciembre de l842.

Manuel B. Bustamante.

Juan A. la Bandera. (Grifos do original.)8

Estas condições reforçam elementos que já haviam figurado antes, e, entre estes estavam
os colonos e pupilos, ou qualquer que fosse sua denominação, uma referência explícita aos
hombres de color referenciados na Assembleia Geral de 1837.9 A referência racializada substi-
tuía uma menção ao estatuto jurídico e/ou ao trabalho que desempenhavam, como escravos,
colonos ou pupilos. Enfatizava o traço compartilhado por todos – de color –, e afirmava que
todos seriam considerados livres, sendo que os menores de 25 anos deveriam servir os seus
senhores, agora denominados patrões, por um período de três anos, pelo regime de patro-
nato, independendo de serem livres ou escravizados antes da promulgação da lei. Além de
configurar uma franca aparição da forma como a racialização10 de homens – e talvez mulheres
– negros se deu na formulação de leis no território oriental, apresenta também uma restrição
de cidadania ao ampliar o controle sobre os significados da liberdade para os homens negros
livres, sobretudo no que tange ao cerceamento de escolha de trabalho. Um efeito prático da lei
foi o cerceamento da liberdade por meio da manutenção do patronato, o qual só seria extinto
no início da década de 1860.
Em um intervalo de quatro anos, a lei promulgada pelo governo radicado em Montevi-
déu foi seguida pela promulgação de lei semelhante, em 26 de outubro de 1846, por parte

198 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 198-215, janeiro-abril 2019
Hombres de color e os significados da liberdade negra: contribuições à história
do pós-abolição no Uruguai (1872)

do governo radicado no interior. Sob as diretrizes dos blancos liderados por Manoel Oribe
e Bernardo Berro, essa lei, em seu artigo 1º, informa que “Queda abolida para siempre la
esclavitud en la República”. Em seguida, “se establece que, desde la promulgación de esa ley
‘entran al goce de su libertad todos aquellos esclavos que no hayan sido emancipados de de-
recho’” (Borucki, Chagas, Stalla, 2009: 70).11 Um efeito da lei foi o fortalecimento das fileiras
dos exércitos, visto que por meio das solicitações de indenização pelos senhores, o governo
pôde contabilizar e certificar-se das condições dos escravizados com vistas ao recrutamento, o
que de fato se deu em seguida (Menegat, 2015).
A lei de abolição do ano de 1842 permite observar a racialização e, ainda, a questão do
patronato/custódia/pupilagem, que aponta para a ideia de aprendizado da liberdade. Estes
termos foram desenvolvidos por Thomas Holt como forma de caracterizar a justificativa acio-
nada na concessão restrita de liberdade pelo programa britânico de emancipação na Jamaica
entre 1833 e 1866 (Cooper, Holt, Scott, 2005: 89-129). As discussões legislativas sobre a
restrição da liberdade no território uruguaio permitem acompanhar a ênfase no controle, sob
a justificativa de uma possível desordem frente à (suposta) não experiência dos antigos escra-
vizados com a liberdade, assim como a propensão à vadiagem, prostituição e crimes de toda
a ordem (Borucki, Chagas, Stalla, 2009).12
Nesse sentido, interpreto que os contratos compõem um importante significado da pe-
dagogia adotada pelo governo uruguaio para ensinar os trâmites da liberdade, notadamente
limitada e mantenedora de lugares sociais estabelecidos durante a vigência da escravidão. O
governo tinha como objetivo a manutenção de mão de obra e população, bem como a defesa
da nação, de forma a ter uma população que justificasse e assegurasse a soberania nacional.
Ressalto que se trata de população e não de cidadãos com poder de decidir o futuro político
da nação, visto que a Constituição de 1830, embora considerasse que ninguém mais nasceria
escravo, ou seja, o ventre passava a ser livre, suspendia a cidadania aos soldados de línea,
por exemplo. Logo, a restrição de cidadania aos homens negros com menos de 25 anos e a
obrigatoriedade de ser soldado legalizavam a relação entre coerção sobre a força de trabalho
livre e direitos políticos em tempos de liberdade. Não esquecendo que a coerção sobre a força
de trabalho livre, mediante os contratos de peonagem, alcançou também as mulheres negras
livres, homens negros considerados inaptos. e menores negros. O fim formal dessa prática em
relação aos menores negros se deu em 2 de maio de 1853, enquanto que os demais foram
atingidos apenas em 2 de julho de 1862, com a declaração de nulidade dos contratos de
peonagem pelo então presidente Bernardo Berro (Borucki, Chagas, Stalla, 2009: 96, 147).
Destaco ainda o elemento censitário, a política de incentivo à imigração europeia, e a
relação de ambos com o conteúdo das demandas do Club Igualdad. O último Censo Nacional

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 199-215, janeiro-abril 2019 199
Fernanda Oliveira

uruguaio do século XIX, que contabilizou em separado negros e brancos, além de mulatos,
mestiços e indígenas, data de 1852, enquanto que o último Censo Municipal (para Montevi-
déu) data de 1884. Em 1852, de um total de 131.969 habitantes, as categorias “negros” e
“mulatos” representavam 8.8%, frente a 64.1% de brancos; em 1884, na cidade de Monte-
vidéu foi contabilizada uma população de 214.951 habitantes, sendo 0.9% negros e mulatos
e 98.8% brancos (Andrews, 2011: 23). A primeira lei geral que regulou e previu incentivos à
imigração no país data de 1890. No entanto, a Ley no 320, de 1853, direcionada à agricultura,
já explicitava benefícios aos colonos europeus que se estabelecessem em colônias agrárias,
denominados colonos inmigrantes (Arocena; Aguiar, 2007: 47), denominação esta que tam-
bém foi racializada: vale lembrar que o 2º artigo da Lei da Abolição, de 1842, mencionava os
colonos, leia-se os hombres de color. As leis mostram que, enquanto as pessoas negras tinham
sua liberdade condicionada e, consequentemente, sua cidadania limitada, os europeus eram
bem-vindos no Estado Oriental e beneficiados com incentivos. Os dados dos censos de 1852 e
1884 certamente precisam ser problematizados, e possivelmente não correspondem à realida-
de (Andrews, 2011), mas, somados ao contexto de chegada dos imigrantes europeus, são um
indício de que população e cidadãos eram considerados importantes para as autoridades da
jovem nação, assim como são um indício do significado de clase na demanda do Club Igual-
dad, explicitado no jornal La Conservación. Feito o preâmbulo acerca das leis de emancipação
e da forma como a racialização se fez presente, é momento de voltarmos ao Club Igualdad e
à sociedad de color.

A sociedad de color e os ideais republicanos

O primeiro número do jornal La Conservación – Órgano de la Sociedad de Color, que


circulou nas ruas de Montevidéu a partir do dia 4 de agosto de 1872,13 trazia no editorial –
cuja redação estava a cargo de Marcos Padín, Augustin Garcia e Andrés Seco – a justificativa
para a sua criação: “Nosotros nos presentamos defendiendo un derecho justo, un derecho de
principios, un derecho sagrado”.14 Após pouco mais de um mês, o jornal que circulou no dia
15 de setembro de 1872 informava também no editorial que “La Conservación es un órgano
de la sociedad de color, es un periódico sin color político, que viene a la prensa a defender
nuestros derechos”.15
Corria a campanha eleitoral para a asamblea general,16 a se realizar no último domingo
de novembro daquele ano, e a experiência de formar clubes de caráter político fazia parte de
um repertório cultural disponível, ou minimamente conhecido pelos moradores e moradoras

200 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 200-215, janeiro-abril 2019
Hombres de color e os significados da liberdade negra: contribuições à história
do pós-abolição no Uruguai (1872)

da capital uruguaia. A década de 1870 foi marcada por uma profusão de clubes vinculados
à política institucional na capital uruguaia, todos buscando alcançar adeptos, fosse por meio
de antigas cores que nomeavam os dois principais partidos, o Blanco e o Colorado, ou com
novos nomes na cena política. Ao abordar a experiência negra no Uruguai, o historiador Geor-
ge Andrews (2011) fala da existência de um furor clubista que caracterizava Montevidéu na
segunda metade do século XIX. No entanto, essa não foi uma experiência condicionada ao
Uruguai, tampouco às Américas. O historiador Peter Burke (2002), em um texto jornalístico
intitulado História social dos clubes, lança alguns elementos que auxiliam na compreensão da
cultura de clubes. O veículo de divulgação do referido texto em parte corrobora a popularida-
de da experiência clubista, a qual, nas palavras do autor, surgiu no século XIV, no mundo de
fala inglesa. O auge foi nos séculos XVIII e XIX em uma intrincada relação com as ideias de
modernidade, democracia, iluminismo e urbanização que, por sua vez, foram vivenciadas nos
clubes. Tais colocações permitem que tenhamos noção de que o social a que o autor se refere
é o europeu; no entanto, ele não se exime de apresentar exemplos fora deste centro, com
ênfase para as sociedades asiáticas e africanas e um pequeno exemplo nas Américas, mais
precisamente nos Estados Unidos da América.
Dois elementos principais do texto de Burke auxiliam na construção do argumento deste
artigo: associação e democracia. O autor identifica a formação dos clubes como parte de uma
longa experiência de criação de associações voluntárias. Estas tiveram/têm suas expressões
em diferentes partes do mundo, como, por exemplo, os clubes de interesses especiais, de
integração de imigrantes, políticos (séc. XVII), de esporte (séc. XVIII), étnicos (séc. XVII) e tri-
bais. Argumento que é na organização e no fazer-se dos clubes que reside a possibilidade de
vivenciar aquilo que identifico por aprendizagem da democracia e consolidação de uma cida-
dania, na esteira de Cooper, Holt e Scott (2005) em relação à liberdade. Fortaleço o argumento
destacando a perspectiva do associado de um clube americano do século XVIII reproduzida
por Peter Burke (2002): “os clubes eram ‘governos em miniatura’ ou pequenos ‘Parlamentos’,
oferecendo um treinamento em cultura democrática, em liberdade, igualdade e, sobretudo em
fraternidade”.
Sobre os clubes no século XIX, Burke destaca o papel de mediação que desempenhavam
entre aquilo que era de cunho privado (âmbito da família) e público (âmbito do Estado), o que,
por sua vez, nos permite remontar às sociedades civis reivindicadas pelo intelectual negro
uruguaio Jacinto Ventura de Molina. Para Molina, os homens – de forma universal – construí-
ram, ao longo da história, uma gama de corporações, denominadas sociedades civiles, por
meio das quais podiam assegurar a “libertad, seguridad de sus propiedades, librándose de la
violencia de los extranjeros”.17

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 201-215, janeiro-abril 2019 201
Fernanda Oliveira

É o conteúdo de uma parte da sociedade civil, a denominada sociedad de color, que


acompanhamos por meio da experiência do Club Igualdad, criado no ano das eleições para
o Parlamento Nacional. O clube tinha como presidente um de seus fundadores, José María
Rodríguez, militar negro que alcançou o posto de major e era secretariado por Luis Gonzalez,
também negro. O jornal era editado em Montevidéu, e circulou semanalmente (aos domingos)
entre os dias 4 de agosto e 24 de novembro de 1872.
Nas matérias do jornal, encontramos a defesa do direito à igualdade, civil e política, que,
por sua vez, dava nome ao clube. Essa igualdade era entendida como negada à raza negra
pelos preconceitos arraigados no simples fato de terem os indivíduos a ela pertencente a faz
de color oscura. De forma filtrada, referia-se às señoritas, mas o conteúdo do jornal era majo-
ritariamente direcionado ao público masculino. Considerando o objetivo político institucional
do clube, é de se entender que as mulheres figurem pouco, afinal, elas não tinham direito ao
voto. É importante observar que essa questão não foi problematizada, permitindo interpretar
uma sociedad de color de significado supostamente universal, mas concretamente entendida
como masculina.
O clube pleiteou a construção de uma pauta política compartilhada com a/na sociedad
de color, consolidando um nome que o representasse nas eleições. Este nome foi apresen-
tado na edição de 29 de setembro de 1872, e tratava-se do presidente do clube, “El señor
Rodríguez, hombre ilustrado e intrépido, para desempeñar ese puesto, ó mas bien dicho para
representar nuestra raza”.18 Afinal, alertavam os então redatores Marcos Padín e Andres Seco:
“¿Quién mejor que el señor Rodríguez puede dignificar una raza, que marcha hoy á pasos
agigantados hacia la senda del progreso de la ilustración?”.19 Ainda nas palavras dos redato-
res está o que para mim é a síntese desse projeto e do seu contexto histórico:
La base de las sublimes instituciones democráticas es, a no dudarlo, la libertad.

La base que sirve para formar un buen ciudadano es la práctica de esa libertad.

No es hombre libre, ni ciudadano, el que no practique los sagrados derechos que la libertad le
confía.

No hay hombre más libre que aquel que está dispuesto a sacrificarse por sus derechos.

En este sentido; ciudadanos de nuestra raza, qué más podemos deciros, sino que la práctica de
la libertad bien entendida es el culto que debemos a la sublime religión de la patria.

Esa práctica consiste, principalmente, en depositar, en las Urnas Electorales, nuestro voto por el
hombre que nos parece más apto para representarnos en el Parlamento Nacional; voto nacido
de nuestra libre y espontánea libertad.20

202 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 202-215, janeiro-abril 2019
Hombres de color e os significados da liberdade negra: contribuições à história
do pós-abolição no Uruguai (1872)

O clube foi criado dez anos após o fim da legalidade dos contratos de peonagem. Mas
ainda vigoravam os recrutamentos forçados de homens negros, algo que só seria abolido em
1876 pelo governante ditatorial, Lorenzo Latorre. De acordo com o jornal, os negros eram
vistos por muitos como carne de cañón,21 ou seja, como disponíveis e obrigados a aceitar o re-
crutamento. Na citação anterior, cujo conteúdo foi retomado em todos os números posteriores
disponíveis para pesquisa, estão presentes noções universais próprias de instituições demo-
cráticas modernas, como liberdade, cidadania política e direito ao voto. Essas noções foram
reivindicadas dentro da sociedade uruguaia, e, especialmente, frente à instituição política, o
Parlamento Nacional, no qual os adeptos do clube não se viam representados e respeitados
em seu direito de igualdade, algo que deveria ser inerente à liberdade em se tratando de
instituições democráticas. A falta de igualdade era entendida como diretamente ligada ao pas-
sado escravista, com a manutenção de lugares sociais próprios do passado e a consequente
exclusão que se colocou lado a lado da abolição e reverberou na instituição de representação
política, cerceando o significado de liberdade.
Percebo um traço do que Frederick Cooper, Thomas Holt e Rebecca Scott (2005) iden-
tificaram como problemas da liberdade,22 e do que W. E. B. Du Bois, em seu estudo sobre a
sociedade norte-americana no pós-emancipação, rotulou como democracia da abolição, que,
na interpretação de Angela Davis (2009: 86-87):

Significa falar não unicamente, e nem fundamentalmente, sobre a abolição como um processo
negativo de demolição, mas também como um processo de construção, de criação de novas
instituições. [...] Du Bois salientou que, para abolir completamente as condições opressivas
produzidas pela escravidão, novas instituições democráticas teriam de ser criadas. Por isso não
ter ocorrido, os negros encontraram novas formas de escravidão.

A partir da edição em que foi abertamente contestada a igualdade com base em uma
ideia de raça que inferiorizava os negros daquela capital, e daquele país, se acessa uma re-
percussão pouco favorável às denúncias e afirmações feitas nas páginas do jornal. Observa-se
tanto o rechaço de outros órgãos da imprensa montevideana23 frente à divulgação de que a
demanda por igualdade era explicitamente racializada, em virtude da não ação de homens
brancos em prol de homens negros, quanto a não aceitação dos mesmos ideais por membros
de outro clube negro, o Club Defensa,24 cujos vínculos políticos eram com o Partido Colorado.
São essas discussões que acompanharemos em seguida.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 203-215, janeiro-abril 2019 203
Fernanda Oliveira

A branquitude também faz parte da racialização

A percepção, que coloca em evidência a ação de homens brancos, foi acionada algumas
vezes nas páginas do La Conservación. Transcrevo a seguir uma reportagem bastante
peculiar, e que, embora longa, é aqui utilizada como síntese das discussões feitas na emanci-
pada, mas não tão democrática, Montevidéu:
Los hombres blancos serán siempre los mismos, por más que ellos quieran disimular su despego,
a nuestra raza aparentando sentimientos liberales, y democráticos.

La prueba la estamos viendo con lo que sucede hoy, al Club Defensa, q’ creyendo de que con ser
fiel al partido por el cual tanta sangre derramaron los hombres de color, en todas las luchas que
dicho partido á sostenido y sostiene, desde mucho tiempo, y sobre todo, en la inmortal defensa
de la nueva Troya, en que nuestra raza, con un valor a toda prueba hicieron prodigios que son
unas de las páginas más gloriosas; de nuestra historia.

¡Creyeron, repito; que ese partido no sería ingrato y que hoy que nuestra raza reclaman como
premio a sus servicios, el más sagrado, de los derechos del hombre, q’ es el derecho de igualdad;
hoy esos hombres temen hacharse con tener como a sus iguales a los hombres de color!

Fatal; contraste.

El Imperio del Brasil, donde reina la aristocracia; y la esclavitud, seden a los hombres de color,
el derecho de igualdad.

La gran Confederación argentina admite en su representación a los hombres de color.

Pero la República del Uruguay no puede admitir en su Representación a los hombres de color.

¿Por qué será esto, serán los hombres de color ciudadanos legales de la República o no?

Creo que sí, una vez que cuando la Patria está en los mayores peligros llaman en su defensa a
todos sus hijos sin distinción de color.

[…]

Por qué los hombres de color han conocido que en esta República, los hombres blancos, sea cual
sea la opinión á que pertenezcan, son enemigos de nuestra raza.25

Tais afirmativas, comuns nas edições do jornal, permitem interpretar uma leitura comple-
xa da exclusão com base na ideia de raça, em que, de um lado, estão os excluídos, no caso, os
negros, e de outro, os beneficiados, os brancos. A interpretação acerca dos hombres blancos
permite a aproximação da noção de branquitude, que, nas palavras do cientista social Lou-
renço Cardoso (2014: 17), é a “pertença étnico-racial atribuída ao branco”, sendo que “ser

204 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 204-215, janeiro-abril 2019
Hombres de color e os significados da liberdade negra: contribuições à história
do pós-abolição no Uruguai (1872)

branco consiste em ser proprietário de privilégios raciais simbólicos e materiais. Ser branco
significa mais do que ocupar os espaços de poder. Significa a própria geografia existencial do
poder”. A esta compreensão alio a de Frederick Cooper, Thomas Holt e Rebecca Scott (2005:
58) em relação à noção de liberdade e cidadania em meados do século XIX:

[...] a liberdade, para a maioria dos brancos de ambos os lados do mundo atlântico, envolvia
pertencer a um corpo político. Pertencia-se a uma comunidade como cidadão e através da
cidadania; os cidadãos, como um coletivo, constituíam e, em teoria, governavam a sociedade
da qual faziam parte. Com esta mudança [emancipação dos escravos], e sem importar até que
ponto pode ter sido real na prática, os problemas da manumissão e da emancipação foram re-
definidos. À questão de como os escravos se tornariam livres acrescentou-se o problema do que
provocaria sua nova relação com a sociedade como um todo. Seriam eles também cidadãos?

A demanda do clube foi justificada em bases sociais a partir da importância da popula-


ção negra. A transcrição está repleta de elementos históricos, e evidencia compreensões como
a defesa da capital durante a Guerra Grande, evocada como nuestra Troya,26 as experiências de
hombres de color nas nações vizinhas, incluindo o Brasil, o sentido de cidadania como igual-
dade, e o caráter não igualitário denunciado na República do Uruguai, sendo que república
e hombres blancos são tomados como sinônimos (aqui há ainda uma ironia em relação às
cores dos partidos), e finaliza colocando a discussão em termos explicitamente racializados, ao
enfatizar os enemigos de nuestra raza.
A discussão foi intensa acerca das considerações sobre os homens brancos e, consequen-
temente, sobre o que interpreto como forma de reagir a uma racialização que se impunha
aos negros da capital oriental, dentro da qual eles dialogaram e também consolidaram suas
formas de ver o mundo e reivindicar transformações sociais condizentes com a abolição da
escravidão e a efetivação da cidadania. Embora não tenha me dedicado ao exame de outras
fontes periódicas, algo que foge ao foco desta pesquisa, as análises a que tive acesso sobre
esse momento histórico apontam para uma repercussão acentuada; logo, é possível que a
demanda tenha provocado atenção e incômodo (Goldman, 2016; 2015).
Os redatores do La Conservacíon destacaram que a cidadania, entendida como um fazer
parte do corpo político, estava cerceada, calcada em uma diferença de cores que sustentava
a ideia de raça, branca e de color, mesmo que fossem eles ciudadanos libres. Essa situação só
seria revertida quando um homem negro comprometido com as questões da sociedad de color
ocupasse uma cadeira na Representación Nacional.
Amparado na análise de outros jornais que circularam na cidade de Montevidéu no ano
de 1872, Gustavo Goldman informa que os membros de ambos os clubes negros, Igualdad e

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 205-215, janeiro-abril 2019 205
Fernanda Oliveira

Defensa, uniram-se em torno da indicação do nome do senhor Rodríguez, sócio de ambos


os clubes. Pleitearam que este nome estivesse incluso na lista do Partido Colorado. Quando
este partido aparentemente declinou da indicação, os membros do Club Igualdad passaram
a exigir que o Club Defensa abandonasse o referido partido e os apoiasse em torno do
nome (ibidem, 2016).
Até o último número disponível para a pesquisa, que data de 24 de novembro de 1872,
a capa e parte da página 2 estão repletas de posicionamentos sobre a desunião da sociedad
de color, com seus hombres de color e las morochas,27 cujo traço comum era a cor da pele e os
antepassados escravizados e/ou carnes de cañón. Aqui estão alguns elementos que permitem
acessar tanto as divergências de estratégias políticas entre os grupos negros quanto a racia-
lização que se fazia em tempos de pós-abolição, em uma sociedade tida como democrática e
exemplar em termos de direitos civis e políticos quando se trata das Américas.
Na esteira de Paul Gilroy (2001: 234) sobre a interpretação da cultura dos negros na
diáspora, devidamente informado por W. E. B Du Bois, a análise do periódico La Conservación
permite explicar um fazer-se da raça que inclui, a partir da consciência de se ver como negro
e uruguaio, sem que tais identidades sejam conflituosas, mas simultâneas: uma fundamenta e
fortalece a outra no sujeito que a vive. Aparentemente, os sujeitos negros compreenderam que
essa simultaneidade foi percebida pelos hombres blancos, os quais eram os representantes da
República del Uruguay, como uma duplicidade que anulava a noção de cidadania plena ao ser
negro. A complexidade do que é vivenciado pelo sujeito frente à percepção de um não lugar
na sociedade, marcado pela cor de sua pele, que, por seu turno, fundamenta uma ideia de
raça, é traduzida aqui na ideia de dupla consciência (Du Bois, 1999: 54), a qual se aproxima
da ideia de autoconsciência desenvolvida por Frantz Fanon (2008).
Ter a consciência de se olhar pelos olhos dos outros é um atributo que constitui a iden-
tidade social, faz parte da relação dialógica inerente à identidade (Jenkins, 2005). O eu-racial
é complementado pela perspectiva de Frantz Fanon (2008), esse é o argumento central de
seu livro Pele negra, máscaras brancas, que versa sobre a autopercepção dos negros frente à
opressão com base na cor da pele, que se traduz na consciência da condição de oprimidos e
na busca por emancipação. Por meio dos exemplos, procurei demonstrar aquilo que Thomas
Holt (1995) denomina de marcação da raça na história, ou seja, a ideia de raça foi/é um
marcador importante que denota diferentes lugares sociais de acordo com a operacionalidade
dos seus significados e formas no arranjo social. Acredito que esse olhar pautado em um po-
sicionamento bem delimitado – pessoas negras envolvidas na manutenção do Club Igualdad,
e a comunidade negra imaginada28 por estas – nos auxilia a observar elementos que comple-

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Hombres de color e os significados da liberdade negra: contribuições à história
do pós-abolição no Uruguai (1872)

xificam os próprios sentidos de igualdade na República uruguaia. Estes elementos permitem


interpretar a historicidade dos significados de cidadania dentro de um processo que comporta
simultaneidades e compreensões da modernidade, a partir do papel político reivindicado pelos
negros orientais, e, não obstante, denotam a forma como o racismo incidiu diretamente sobre
as possibilidades de existência daquelas pessoas.
A explicitação das evidências da racialização e dos indicativos sobre a natureza do racis-
mo – assentados na violação da liberdade inerente à obrigatoriedade de que todos os homens
negros servissem às tropas – reativado na década de 1880 e mantido até a década de 1900,
me levam a estender o argumento de Hebe Mattos de que silenciamentos sobre a cor são
dificilmente explicados por coincidência. Há evidências de que o contexto influenciou para
que não mais se contabilizasse a população com base em raça a partir de 1884 na capital.
Enfatizo ainda que, mesmo fora do âmbito político institucional, tais violações de liberdade
foram vivenciadas cotidianamente, como se pode observar ao olhar para a sociabilidade de
forma mais pontual.

A sociabilidade racializada, ou apenas mais um capítulo


da história da liberdade negra

A edição de 24 de novembro de 1872 trazia dois informes bem ilustrativos. No primeiro,


foi descrita a primeira reunião “con el objeto de llevar al [...] Legislativo; un hombre
de color”,29 que está de acordo com o previamente disposto aqui. Além de permitir imaginar
a reunião em que falaram os então redatores, Marcos Padín e Timoteo Olivera, e o antigo,
Andres Seco, é possível perceber como a questão racial era central para o sentido de cidadania
que eles estavam pleiteando. Andres Seco propôs que se desse um título à reunião, e o nome
sugerido por Olivera foi “Club Raza de Color”, o qual intitula a referente matéria. No segundo,
foi informado a “los accionistas del Club Igualdad sobre la formación de la biblioteca”,30 a
qual era uma construção coletiva, visto que José C. Gutierrez, comisionado interino, informava
que cada associado havia se comprometido em doar uma obra para o acervo. Em seguida,
Gutierrez estendia a solicitação às pessoas apoiadoras do clube e informava que, em janeiro
do ano seguinte, 1873, seria realizada a inauguração do órgão.31
Nesse sentido, cabe explicitar que o Club Igualdad tinha caráter político institucional,
mantido por associados e fundamentado em uma ideia de raça negra. Não obstante, o jornal
aponta para um circuito cultural de clubes e outras sociedades, consideravelmente hetero-
gêneo, também compartilhado por seus membros, bem como por aquelas pessoas que não

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 207-215, janeiro-abril 2019 207
Fernanda Oliveira

faziam parte no clube, mas das quais o clube se pretendia representante, como as mulheres.
As mulheres são referidas especialmente na coluna de crônicas relacionadas aos espaços
sociais, sobretudo os bailes, e aos códigos de bom comportamento, e são constantemente
apresentadas como um corpo que deve ser controlado.
Encontro ainda alguns anúncios e escritos que apontam para as relações sociais raciali-
zadas, vivenciadas além da esfera política institucional, mais precisamente uma sociabilidade
negra. As nominações enunciam o caráter racializado das coletividades que compunham a di-
nâmica da sociedad de color cujos membros tinham a faz de color oscuro; negritos; pichones e
pichoncitos,32 e, dessa forma, independem de tais pessoas serem adeptas, ou não, do posicio-
namento do jornal. Entre essas associações encontravam-se a Sociedad Negros Argentinos,33
La Raza Africana34 e a Sociedad Pobres Negros Orientales.35
Goldman (2008: 17) traça a vinculação de membros do Club Igualdad com essas asso-
ciações, o que corrobora para o entendimento da sociabilidade negra:

Miembros de la Sociedad Pobres Negros Orientales, a su vez, eran socios del Club Igualdad:
Manuel Aturaola […] en 1869 era el Secretario de la Sociedad Pobres Negros Orientales, y el
25 de agosto de 1872 fue socio fundador del Club Igualdad. Lo mismo puede decirse de Manuel
Gutiérrez, director de la academia de música de la Sociedad Pobres Negros Orientales y también
fundador del Club Igualdad.

O autor informa ainda sobre a circulação e atuação de Marcos Padín e Andrés Seco,
associados do Club Igualdad e redatores do jornal La Conservación, os quais se mantiveram
“vinculados a todo el movimiento asociativo a partir del año 1872, participaron activamente
como autores de textos y de músicas para las comparsas de carnaval”. Ambos estavam ligados
à comparsa Raza Africana, assim como as salas de naciones africanas36 Bayombe e Esclavos
de Guinea, e Seco compunha letras para as comparsas Raza Africana e Negros Gramillas.
Ambos os redatores sediaram em suas casas, localizadas na zona sul da vieja ciudad, região
onde se concentravam os candombes, a administração e redação do jornal La Conservación:

Hacia finales del siglo XIX y principios del XX la mayoría de las sedes de sociedades y comparsas
de negros se comienzan a localizar en los barrios Sur y en Palermo — barrios ubicados a pocas
cuadras del centro de la ciudad y del centro de decisión política —, dando continuidad a la
participación de la población de origen africano, empalmando territorialmente manifestaciones
relacionadas con la africanidad que portaban los antiguos miembros de las salas de nación, con
las comparsas carnavalescas de negros, fortaleciendo y legitimando a su vez a estos territorios
como el lugar en que se localizaban las producciones simbólicas de los africanos y sus descen-
dientes. (Ibidem, 2015: 59).

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Hombres de color e os significados da liberdade negra: contribuições à história
do pós-abolição no Uruguai (1872)

Ao que tudo indica, o jornal La Conservación parou de circular em novembro de 1872,


ainda antes das eleições; porém, não é equivocado admitir que o Club Igualdad se manteve
ativo, ou pelo menos não encerrou oficialmente sua existência, visto que o jornal La Broma
de 18 de maio de 1876, representante da imprensa negra argentina, na coluna intitulada
“Correspondencia de Montevideo”, publicava: “El Club Igualdad está paralizado, no hay tra-
bajos, sufre la crisis por que todos pasamos”.37 A justificativa encontra correspondência na
historiografia, visto que teve início em 1873, e se manteve pelo menos até a década seguinte,
uma das crises mais intensas que atingiu o mercado internacional, engendrada na Inglaterra,
de onde se espalhou por diferentes países e alcançou o Uruguai (Coggiola, 2009). Não obs-
tante, as lutas em torno da liberdade negra, tanto em termos políticos institucionais quanto
de sociabilidade, seguiram sendo tecidas, por meio daquele que já era um legado de homens
e mulheres negras.

Considerações finais

M esmo que Rodríguez não tenha se elegido e o jornal, aparentemente, tenha deixado
de circular no ano de 1872, as demandas do Club Igualdad permitem entender
melhor as visões sobre a cidadania gestadas por um grupo, assim como as evidências da
racialização, que, por sua vez, apontavam para as limitações da liberdade e da própria noção
de república democrática no Uruguai, uma nação que aboliu a escravidão havia cerca de três
décadas, mas que ainda limitava a cidadania com base em elementos raciais, e, desta feita,
vivenciava o pós-abolição.
A experiência da criação do Club Igualdad, de caráter político, e do jornal La Conser-
vación, feito seu porta-voz, denota formatos que eram plenamente reconhecidos nas ruas
daquela capital e eles eram os veículos dos ares da modernidade que se forjava. Conforme
apresentei ao longo deste artigo, foi por meio destas experiências que os homens nelas envol-
vidos levantaram uma bandeira política institucional com configurações raciais explicitamente
colocadas na sociedade civil. Também compartilharam o circuito cultural no qual estavam
outras pessoas negras, e expressaram as divergências dentro da própria sociedad de color,
especialmente nas matérias acerca dos problemas decorrentes da desunião e sobre a expe-
riência do Club Defensa.
Embora identifique uma identidade compartilhada por estas pessoas – autoidentificadas
como raza/sociedad/faz de color – ela sozinha não comporta a explicação acerca dos interes-
ses que mobilizaram a empreitada coletiva do Club Igualdad. Reivindico que ela está aliada

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 209-215, janeiro-abril 2019 209
Fernanda Oliveira

ao tracejo de uma estratégia de ação específica, que denota a forma como o entendimento
acerca da identidade de base racial afetou o modo como essas pessoas julgaram que suas re-
lações sociais deveriam ser estabelecidas tendo em vista os ideais republicanos, sobremaneira
a igualdad. A indicação ao Parlamento de um representante que pudesse falar e agir em prol
das pessoas de color que, por sua vez, é entendida aqui como uma dimensão de cidadania
forjada, simultaneamente política (inclusiva), cultural e social. Ao entendimento desta dimen-
são se soma o caráter da racialização historicamente determinada, que excluía parte da po-
pulação negra do acesso à cidadania política desde a abolição da escravidão, fundamentada
nos contratos de peonagem, no recrutamento forçado e no gênero, ao mesmo tempo em que
incluía pessoas brancas.
Todos esses elementos apontam para as experiências em tempos de liberdade, ainda
pautadas por noções de raça, bem como para a heterogeneidade de entendimentos a partir da
(auto)identificação com base em uma ideia de raça, e compuseram o sentido do projeto levado
a cabo pelas pessoas que fundaram o referido clube. Neste projeto, não se fazia necessário
negar a pertença racial e tampouco relegar sua representação a outro grupo, como os hom-
bres blancos e/ou o Partido Colorado, visto que tais elementos eram simultâneos e mesmo
duplos – mas não ambíguos –, como explicitado anteriormente. Estes elementos dão conta da
complexidade do processo histórico vivenciado nos idos do ano de 1872, em Montevidéu, em
que uma identidade negra compartilhada, pela qual se definiam os contornos da comunidade
imaginada, aliada aos interesses em comum, resultou na construção de um projeto coletivo,
que, por sua vez, estava inserido na comunidade, mas não era a sua expressão em termos de
homogeneidade ou totalidade. Este processo dá corpo à assertiva da filósofa Angela Davis
(2009: 119) acerca das comunidades, cujas delimitações são conferidas pelos projetos políti-
cos compartilhados.
O Club Igualdad foi a expressão que forneceu alguns dos elementos para a análise dos
processos de liberdade negra no Uruguai. A trajetória uruguaia foi marcada por três momen-
tos. O primeiro foi culminado pelas leis de emancipação gradual, que datam da segunda
década do século XIX. O segundo foi marcado pelas leis de abolição, promulgadas em 1842
e 1846, que limitaram a cidadania negra por meio da adoção dos contratos de peonagem e
recrutamento forçado. A partir destas leis, o significado da raça, atribuído pelo Estado Orien-
tal, foi aliado à restrição de cidadania. De posse desse entendimento, já se afastando mais
de duas décadas das leis de abolição e cientes das retóricas democráticas, temos o terceiro
momento, em que a cidadania foi reivindicada publicamente por um coletivo de homens ne-
gros, não como algo a ser conquistado, mas como algo a ser assegurado. Cidadania entendida

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Hombres de color e os significados da liberdade negra: contribuições à história
do pós-abolição no Uruguai (1872)

como um direito de acordo com os ditames do governo republicano que regia o Estado Orien-
tal e, em parte, uma livre interpretação das leis de abolição da escravidão, que, por sua vez,
marca as demandas observadas no ano de 1872, como o exemplo do Club Igualdade permite
acompanhar.
Fosse pelo caráter político de fazer parte das determinações da nação por meio de um
representante, ou fosse pelo seu caráter social de constituir e manter espaços de lazer próprios
para as pessoas negras e, até mesmo da divulgação da existência desses espaços nos países
vizinhos, as pessoas que deram corpo a estas múltiplas experiências estavam também fazendo
a história da jovem República uruguaia em tempos de pós-abolição. Desta feita, a análise com
o foco aqui apresentado permite que, na condição de historiadoras e historiadores, possamos
fazer um exercício de destacar outros lugares e corpos que também foram atravessados pela
perversidade da racialização, ou seja, pelo que hoje denominamos de racismo.

Notas
1 Os 17 exemplares do La Conservación foram publicados entre 4 de agosto de 1872 e 24 de novembro
de 1872, e estão disponíveis no site da Biblioteca Nacional del Uruguay (http://bibliotecadigital.bibna.gub.
uy:8080/jspui/handle/123456789/25840).
2 “Guerra Grande é a denominação que a historiografia uruguaia dá ao conflito entre os partidos Colorado
e Blanco. Profundamente aliados aos unitários argentinos, os colorados, liderados por Fructuoso Rivera, tor-
naram-se alvo do presidente vizinho Juan Manuel Rosas, que, por sua vez, era aliado do principal líder dos
blancos, Manuel Oribe. Por mais que seja considerada uma guerra civil, este conflito extrapolava as fronteiras,
coexistindo na Argentina e apenas tendo sido encerrado graças à interferência militar do Império do Brasil”
(Menegat, 2015: 12-13).
3 Refiro-me à Ley nº 242, Esclavitud (I) (República Oriental del Uruguay, 1842).
4 Ao reportar questões semelhantes no Brasil (Cunha; Gomes, 2007).
5 A Constituição de 1830 (República Oriental del Uruguay, 1830) assegurava a cidadania a todos os cidadãos
maiores de 20 anos, fossem eles naturais, homens livres nascidos no solo oriental, ou legais, cujas exigências
estavam ali descritas. A cidadania poderia ser suspensa em casos previstos, dos quais destaco a inaptidão físi-
ca ou moral, bem como “por la condición de sirviente a sueldo, peón jornalero, simples soldado de línea, noto-
riamente vago o legalmente procesado en causa criminal, de que pueda resultar pena corporal o infamante”.
6 Para uma análise do trabalho das mulheres escravizadas e na modalidade de contratos, ver Iglesias, Karla
Chagas. De escravas, “contratadas” e criadas: os relatos de Cecília sobre o trabalho na fronteira uruguaio-
-brasileira. In: Grinberg, Keila. As fronteiras da escravidão e da liberdade no sul da América. Rio de Janeiro:
Faperj, 2013. p. 199-211.
7 Ver nota 3.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 211-215, janeiro-abril 2019 211
Fernanda Oliveira

8 Idem.
9 A assembleia regulamentou o fim do tráfico de escravos e decretou que negros que adentrassem o território
seriam considerados livres. Porém, na prática instituiu-se a tutela, pela autoridade pública, para os menores de
25 anos até completar essa idade, e para os maiores pelo prazo de três anos (Flores, 2014).
10 A ideia de raça denota uma hierarquização, cujos significados são forjados em um processo e contexto
social e histórico determinados (Silva, 2017).
11 A primeira lei ficou conhecida como “Ley de la Abolición”; a segunda, como “Ley de la Abolición Definitiva”,
e ambas trouxeram a questão da indenização. A primeira previu a indenização em caso de descontentamento
dos senhores, o que de fato não se deu de pronto, e a segunda informava que os valores dos escravos eram uma
dívida da nação, logo, os donos seriam recompensados de acordo com valores estipulados pelas normas da lei.
12 Semelhante ao que o historiador Sidney Chalhoub apontou para o Rio de Janeiro nas últimas décadas
do século XIX, quando o Brasil também discutia a abolição. Ver: Chalhoub, Sidney. Visões da liberdade: uma
história das últimas décadas da escravidão na Corte. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
13Ano que marca a paz social, com o fim de conflitos que haviam se estendido por quatro décadas, e que
assinalava aos negros uruguaios a possibilidade de uma mudança política significativa que fizesse valer os
ideais liberais, entre os quais a igualdade (Goldman, 2016).
14 La Conservación, 4 de agosto de 1872, p. 1. As páginas do jornal não estão numeradas, a numeração
aqui presente faz referência à capa (1), ao verso da capa (2), ao verso da contracapa (3) e à contracapa (4).
15 La Conservación, 15 de setembro de 1872, p. 1.
16 Composta pelas Câmaras de Representantes e de Senadores, responsáveis por eleger o presidente da
República em março de 1873. (República Oriental del Uruguay, 1830).
17 A definição foi escrita provavelmente no ano de 1834. Jacinto Ventura de Molina nasceu em Rio Gran-
de de São Pedro, na fronteira entre os impérios espanhol e português, no ano de 1766, e foi tenente na
Compañía de Morenos Libres de 1807, formado em Direito e secretário da Cofradía de San Benit. (Acree Jr.;
Borucki, 2008: 129).
18 La Conservación, 29 de setembro de 1872, p. 1.
19 Idem.
20 Idem.
21 Ibidem, 22 de setembro de 1872, p. 1.
22 Os autores analisam o que estava além da escravidão nas sociedades pós-emancipação, atentando para
como as reflexões sobre inclusão e exclusão foram direcionadas e reconduzidas quando a escravidão estava
sucumbindo.
23 La Conservación, 6 de novembro de 1872, p. 2.
24 Fundado em 1872, de caráter político. Com base em matéria publicada no periódico montevideano Ferro
Carril, Gustavo Goldman (2016: 183) afirma que “El Club Defensa se presentaba a la opinión pública como
una ‘asociación política de todos los ciudadanos de color que simpatizan con las elevadas y patrióticas ideas
del Partido Colorado’”.

212 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 212-215, janeiro-abril 2019
25 La Conservación, 27 de outubro de 1872, p. 1.
26 O governo que se estabeleceu em Montevidéu – a Troya – recebeu o nome Gobierno de la Defensa, sendo
que o clube referido, também de negros, adotava a nominação “Defensa”, o que podia denotar um referencial
de nacionalidade.
27 Em geral, a escrita é direcionada a um sujeito negro universal, e em alguns casos refere-se às mulheres
da raça, morochas e pichonas.
28 Concordo com a ideia de comunidade imaginada desenvolvida por Benedict Anderson. O autor desen-
volve tal concepção para pensar a nação, a qual é entendida como “uma comunidade política imaginada – e
imaginada como sendo intrinsecamente limitada e, ao mesmo tempo, soberana. Ela é imaginada, porque
mesmo os membros da mais minúscula das nações jamais conhecerão, encontrarão ou sequer ouvirão falar
da maioria de seus companheiros, embora todos tenham em mente a imagem viva da comunhão entre eles”
(Anderson, 2008: 32).
29 La Conservación, 24 de novembro de 1872, p. 2.
30 Ibidem, p. 3.
31 Idem.
32 Terminologias presentes no jornal e que fazem menção a indivíduos tidos como da mesma sociedade cujo
jornal se arroga o título de representante – órgano de la sociedad de color. Apenas pichón aparece generifi-
cado, por meio da expressão pichona.
33 La Conservación, 13 de outubro de 1872, p. 3. Gustavo Goldman (2015: 58) destaca que essa associação
foi provavelmente fundada no ano de 1872, e tinha uma comparsa atuante no Carnaval. Comparsa é um
grupo carnavalesco, com instrumentos de sopro e cordas, e havia comparsas de negros. Surgiu como uma
extensão das Salas de Nación, e tinha forte vínculo com o candombe, manifestação de carnaval uruguaio.
34 La Conservación, 4 de agosto de 1872, p. 3. Comparsa criada em 1867 (a única sociedade do período
que evoca a África). (Andrews, 2011: 67)
35 La Conservación, 18 de agosto de 1872, p. 2. A comparsa foi criada em 1869. Ao analisar o regulamento
dessa associação, Andrews (2011: 76) destaca que “se planteó como finalidad la creación de una academia
de música y la participación en el carnaval”.
36 Sociedades de africanos, organizadas por grupos de origem étnica que remontam ao período colonial.
37 La Broma, 18 de maio de 1876, p. 2. O jornal La Broma foi editado em Buenos Aires entre 1º de maio de
1876 e 28 de dezembro de 1882 (Cirio, 2009).

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Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 215-215, janeiro-abril 2019 215
Artigo

“A escravidão está condenada pela


religião”: católicos e presbiterianos no
contexto da abolição (Minas Gerais,
1886-1888)
“Slavery is Condemned by Religion”: Catholics and
Presbyterians in the Context of the Abolition of Slavery (Minas
Gerais, 1886-1888)
“La esclavitud está condenada por la religión”: católicos y
presbiterianos en el contexto de la abolición (Minas Gerais,
1886-1888)

Juliano Custodio SobrinhoI*

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S2178-149420190001000011

I
Universidade Nove de Julho, (UNINOVE) São Paulo – SP, Brasil.

* Professor do Departamento de História da Universidade Nove de Julho, (UNINOVE). Doutor em História Social pela
Universidade de São Paulo, São Paulo – SP, Brasil. (jcsobrinho@yahoo.com.br),
ORCID iD: https://orcid.org/0000-0003-3337-3877

Artigo recebido em 15 de novembro de 2018 e aceito para publicação em 8 de março de 2019.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 217-240, janeiro-abril 2019 217
Juliano Custodio Sobrinho

Resumo
As mais recentes pesquisas sobre a abolição vêm apontando um processo multifacetado e complexo, que não pode
ser entendido apenas pelo simbólico Treze de Maio de 1888. Tais estudos consideram a participação de diferentes
agentes que, à sua maneira, produziram distintas e inúmeras ações de ativismo contra o cativeiro. Partindo de uma
problematização sobre o discurso religioso e os ideais abolicionistas, este artigo analisa a presença de católicos e
presbiterianos em Minas Gerais, entre 1886 a 1888, período em que as movimentações sociais ficam mais agitadas
e decisivas. Por meio da documentação de polícia e dos jornais, foi possível analisar a participação do clero católico
e de presbiterianos numa trama de disputas políticas, interesses pessoais e ideias abolicionistas. Somada a tantas
outras manifestações populares, produzidas por escravizados e libertos na região, essa atuação minou, pouco a
pouco, os pilares da escravidão.

Palavras-chave: Abolição; Abolicionismo; Catolicismo; Presbiterianismo; Minas Gerais.

Abstract
The latest research on abolition has indicated a multifaceted and complex process, which cannot be understood
only by the symbolic date of May 13th, 1888. These studies consider the participation of different social agents who,
in their own way, produced distinct and numerous actions of activism against captivity. This article analyzes the
presence of Catholics and Presbyterians in Minas Gerais from 1886 to 1888, a period in which social movements
are more agitated and decisive, based on a problematization of religious discourse and abolitionist ideals. Through
police documentation and newspapers, it was possible to analyze the participation of the Catholic clergy and of
Presbyterians in a network of political disputes, personal interests and abolitionist ideas. In addition to so many
other popular manifestations produced by slaves and freedmen in the region, these activities gradually undermined
the pillars of slavery.

Keywords: Abolition; Abolitionism; Catholicism; Presbyterianism; Minas Gerais.

Resumen
Las más recientes investigaciones sobre la abolición ven señalando un proceso multifacético y complejo que no
puede ser entendido únicamente por la simbólica fecha del Trece de Mayo de 1988. Tales estudios consideran la
participación de diferentes agentes que, a su manera, produjeron diversas e inúmeras acciones de activismo contra
el cautiverio. Partiendo de una problematización sobre el discurso religioso y los ideales abolicionistas, este artículo
analiza la presencia de católicos y presbiterianos en Minas Gerais entre 1886 y 1888, período en el cual los mo-
vimientos sociales se muestran más agitados. A través de documentación de la policía y de periódicos, fue posible
analizar la participación del clero católico y de los presbiterianos en una trama de disputas políticas, intereses per-
sonales e ideales abolicionistas que, sumada a tantas otras manifestaciones populares provenientes de esclavizados
y libertos en la región, minaron, poco a poco, los pilares de la esclavitud.

Palabras claves: Abolición; Abolicionismo; Catolicismo; Presbiterianismo; Minas Gerais.

218 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 218-240, janeiro-abril 2019
“A escravidão está condenada pela religião”: católicos e presbiterianos no contexto da
abolição (Minas Gerais, 1886-1888)

As lutas abolicionistas e o clero católico

À s vésperas da abolição, a tensão social ganhou as ruas das pequenas cidades do sul de
Minas Gerais. O conflito entre escravistas e abolicionistas, que produziu ameaças e per-
seguições a escravizados e agentes da lei (advogados, delegados, policiais e juízes), envolveu
toda a cidade de Três Pontas. Tal tensão imprimiu sua marca, que também contou com uma
militância religiosa que, não contente apenas com o púlpito da igreja, produziu lutas com sig-
nificados abolicionistas. A participação do padre Joaquim Soares Calixto, líder e porta-voz do
Club Abolicionista Três-Pontano, possibilita refletir sobre como o discurso e a prática religiosa
influenciaram o rumo final da escravidão no Brasil.
Em 12 de agosto de 1887, a cidade foi tomada por centenas de cavaleiros para agredir
e matar 4 advogados, dentre os quais os presidentes do Club Republicano e do Club Abo-
licionista Três-Pontano. Armados e com galões de querosene, o bando partiu para o ataque
querendo incendiar casas e expulsar os abolicionistas da cidade. Atônita, a população se viu
desprotegida com a guerra anunciada. A escassa força policial, juntamente com o juiz, procu-
rou conter os fazendeiros. Os advogados eram vistos como “inimigos da ordem”, pois teriam
propagado aos quatro venntos que “não defendiam causas contra a liberdade do homem
escravo, por serem abolicionistas”.1
O presente texto tem como intuito contribuir para as recentes discussões sobre o proces-
so de abolição, em que se levantam as vivências e experiências de líderes católicos e presbite-
rianos no contexto final do escravismo, mais especificamente nos derradeiros anos de 1886 a
1888, em que o discurso religioso atravessa, muitas vezes, as ações daqueles sujeitos. O artigo
não se propõe discutir uma profunda relação entre profissão de fé e a abolição, mas defender
que essa associação não esteve ausente nem distante do contexto brasileiro. O foco está na
atuação religiosa, mas o texto também clarifica a participação popular, com o povo aqui en-
tendido como os escravizados, libertos e todo o populacho, que, nas esferas menos visíveis da
sociedade, enfrentaram os últimos pilares da resistência escravista.
As narrativas ora apresentadas fazem parte de uma coletânea de documentos de polícia
e de jornais produzida para o sul de Minas Gerais, um dos últimos redutos escravistas naquele
momento, região com pouca adesão à imigração e à mão de obra nacional, saudosa dos
tempos da ordem e da pujante presença de escravizados no trabalho das fazendas.2 Apontada
como a província com o maior contingente cativo do Império, às vésperas da abolição, com
economia baseada fortemente na agropecuária (Slenes, 1985: 149), a ideia de um enredo
abolicionista “pacato” e inspirado na “mineiridade” (Oiliam, 1962) não coadunava com as

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Juliano Custodio Sobrinho

ebulições sociais que aconteceram. Assim, as trajetórias de escravizados, que se somam às dos
grupos e indivíduos abolicionistas, provocaram pânico nos resilientes escravistas, que tiveram
que lidar com as fugas, revoltas, agitações e projetos de liberdade que inspiravam cotidiana-
mente aqueles que ainda estavam cativos nas lavouras da região.
Mesmo em área escravista relutante em acabar com o trabalho servil, as pequenas cida-
des do sul mineiro procuraram, ao seu modo, reelaborar as propostas abolicionistas que che-
gavam no Brasil. Nas principais cidades brasileiras, o movimento abolicionista ganhou força
a partir das transformações sociais enfrentadas no final do Oitocentos, como o crescimento
urbano, a emergência dos novos setores médios e das instituições nascentes, como bancos,
comércio, serviços e negócios, e o florescimento da produção econômica após o fim do tráfico
(Alonso, 2015: 91-92). Nesse sentido, o poder social que se deslocava dos campos para as
cidades, solo fértil para as ideias abolicionistas, também tomava os ideais dos citadinos do sul
de Minas, como os abolicionistas do clube de Três Pontas.
Veja-se o efeito que se produziu quando o clube decidiu enfrentar os fazendeiros sul-
-mineiros. Ao não aceitarem causas que fossem contra a liberdade dos escravizados, os advo-
gados do clube levaram até eles uma gama de pessoas que procuravam justificar legalmente
o direito à alforria. Muitos escravizados enxergaram nessa aproximação uma estratégia mais
eficaz de conquista, como Felicidade, cujo caso se tornou o estopim do supracitado conflito
entre fazendeiros e abolicionistas em Três Pontas.
Alegando sofrer maus-tratos diários e ter sido “ameaçada de morte” pelo senhor,
Felicidade procurou Custódio de Brito para “tratar dos seus direitos”.3 Tendo cuidado ante-
riormente do caso de Adão, marido de Felicidade, Brito tratou de requerer a sua liberdade
e garantir proteção ao seu filho. O juiz acatou a solicitação, e Felicidade se tornou liberta
em poucos dias. Contudo, como ela havia sido comprada em sociedade com outros con-
dôminos, e estes alegaram não ser justo que a punição ao principal proprietário recaísse
sobre eles. Solicitaram, assim, que a liberta trabalhasse por mais sete anos como forma de
indenização, pedido que foi deferido.4
A busca por Felicidade parecia o limite das investidas de escravizados e abolicionistas
para aqueles senhores. Não era a fuga de Felicidade e Adão em si que preocupava os fazen-
deiros, mas os efeitos dessa conquista diante de toda a escravaria. As denúncias de que uma
insurreição escrava estava sendo planejada ganharam as páginas dos jornais e o imaginário
senhorial. E era de se pressupor que os escravizados souberam ler quando os ventos sopravam
a seu favor e trataram de forjar a liberdade.

220 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 220-240, janeiro-abril 2019
“A escravidão está condenada pela religião”: católicos e presbiterianos no contexto da
abolição (Minas Gerais, 1886-1888)

Na ocasião de 12 de agosto de 1887, os fazendeiros afirmaram que os advogados perse-


guidos incitavam fugas, amparavam escravizados e os apoiavam em um plano de insurreição,
que havia sido descoberto. Se eram reais tais denúncias, não foi possível saber. Mas fato é
que os advogados já haviam causado bastante transtorno para aqueles homens, que, além de
enfrentar a escassez de mão de obra, tiveram que se preocupar com a fuga de escravizados
em busca dos benfeitores que anunciavam aos quatro ventos que defendiam a liberdade de
quem quisesse ser livre.
Parte de todos os escritos sobre o Club Abolicionista foi produzido por padre Calixto, que
exerceu presença constante na Gazeta Sul-Mineira, defendendo o grupo contra os ataques
dos fazendeiros. Além de ocupar o ministério da Igreja, foi também o fundador do Partido
Republicano, chegando a assumir cargos políticos na pós-emancipação, como o deputado de
Minas Gerais em 1896 (Miranda,1980: 36). Em artigo para o jornal, padre Calixto afirmou
que a causa era justa e , e que os advogados eram apoiados pela população. Sacrificá-los era
banhar de sangue as ruas da cidade, assim como faziam nas fazendas com os escravizados.
Na tentativa de elevar os espíritos da caridade e do heroísmo daqueles abolicionistas, o padre
criava analogias que mexiam com o imaginário social. Segundo ele, Custódio de Brito, o líder
entre os jovens libertários, era um novo “Tiradentes” em solo mineiro, respeitado e merecedor
do título de “mártir da redenção”.5
Outro redator frequente nas páginas da Gazeta Sul-Mineira foi Pelicano – pseudôni-
mo que deixava o autor muito à vontade para expor críticas, sem poupar xingamentos aos
fazendeiros. Para ele, os integrantes do clube haviam sido vítimas das circunstâncias em que
se encontrava a escravidão no País. Pelicano se declarava branco e livre, cidadão contrário à
escravidão e preocupado com as agruras do cativeiro. Carregar nas tintas e apontar para uma
instituição que padecia, sem deixar de ser cruel, era uma forma de sensibilizar seus leitores a
acreditar em suas narrativas. Contudo, ao mesmo tempo em que se vitimizava, o porta-voz do
clube endurecia nas palavras ao deixar claro para os senhores que a luta na região tinha um
propósito e um objetivo a ser alcançado.
Mas quem seria o ousado Pelicano? O próprio padre Calixto ou outro militante? Apesar
de não terem sido encontradas evidências sobre a identidade desse personagem, é irresistível
não creditá-la ao religioso. Os fazendeiros criticados diariamente nos periódicos também in-
sinuavam que sim. Em resposta aos abolicionistas, os fazendeiros procuraram as páginas do
Monitor Sul-Mineiro para se defender dos ataques sofridos pelo grupo. Sob o pseudônimo de
“Enxame de fazendeiros”, o redator inicia o texto afirmando que “Pelicano é uma máscara, e
nós não nos divertimos com mascarados”.6 Logo em seguida, as investidas são contra o padre

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Juliano Custodio Sobrinho

Calixto, como se o texto falasse da mesma pessoa, “o heroe que devíamos enfrentar, porque
nos sucessos de Três Pontas, figurou como o principal protagonista”.7
Tanto Pelicano quanto padre Calixto se utilizavam de passagens bíblicas e citações filo-
sóficas para criticar os fazendeiros. Segundo o artigo publicado no Monitor, o papel do sacer-
dócio não era incitar a população contra cidadãos de bem, e o propósito do padre extrapolava
suas funções de religioso. Pelo fato de ele não se manter nos limites do púlpito da igreja, o
artigo rejeitava a atuação do líder, pois “um ministro do Senhor tem por alta e nobre missão
procurar a paz na terra entre os homens e conquistar [almas] para o céo, e o reverendíssimo
padre Joaquim Soares Calixto transviou-se dessa missão, inverteu o seu papel, e transformou-
-se em advogado do diabo”.8
Para além dos escritos na Gazeta Sul-Mineira, nada mais encontramos de autoria de
padre Calixto ou Pelicano. A reboque dos discursos de promoção do seu partido, o padre
defendia as ideias da abolição, procurando justificar que o desespero dos senhores se devia às
próprias anormalidades perante as leis – os castigos excessivos aos escravizados, o não cum-
primento das matrículas e a reescravização de sexagenários. O castigo dos céus que aqueles
senhores recebiam era o abandono dos trabalhadores das fazendas.
Como ministro da Igreja, a ousadia de padre Calixto não era a única a ser divulgada nos
jornais e no espaço público. Nos anos finais da escravidão, membros do clero assumiram um
discurso mais incisivo a favor da abolição, mesmo diante da discrição dos cânones da Igreja.
As irmandades religiosas negras, desde o período colonial, já demonstravam formas de resistir
à escravidão, procurando acumular pecúlios para a compra de alforrias (Soares, 2000). Ao
adentrar a segunda metade do Oitocentos, muitas irmandades produziram críticas à continui-
dade do elemento servil, manifestando um catolicismo mais “popular” frente às formalidades
da prática religiosa das elites e do alto clero.
Apesar da resistência do setor católico mais conservador e defensor das interferências da
Igreja no Estado, os projetos modernizadores que ventilavam com mais frequência, principal-
mente a partir do último quartel do século XIX, impuseram um desafio para os seus membros
frente às ideias do progresso, das ciências e da liberdade, que pululavam pelo País.
Os novos tempos condenavam algumas posturas católicas, colocando em xeque a sua
própria participação, considerada acanhada nas discussões sobre os rumos da escravidão.
Dessa forma, fiéis e sacerdotes assumiram posicionamentos distintos, que, por vezes, ficavam
na contramão dos ditames da Igreja. Alguns fiéis se descolaram dos figurinos clássicos que
vestiam a prática religiosa, apostando nas novas ideias de nação que penetravam no coti-
diano, sem que isso significasse desvinculação com as suas crenças (Abreu, 1999: 316-326).

222 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 222-240, janeiro-abril 2019
“A escravidão está condenada pela religião”: católicos e presbiterianos no contexto da
abolição (Minas Gerais, 1886-1888)

Nesse sentido, ao engendrar suas lutas abolicionistas nas páginas dos jornais e nas disputas
políticas, padre Calixto era influenciado pelas transformações sociais que o País viveu no limiar
da abolição. Como um representante do clero e militante do Partido Republicano, ele enxer-
gava nos novos projetos civilizatórios e políticos os motivos que deveriam definir seu prelado.
Atuações de sacerdotes a favor dos projetos abolicionistas em Minas Gerais não eram
raras, mesmo diante do apego à escravidão até as vésperas do Treze de Maio. Os confrontos
entre bispos e padres, favoráveis e contrários ao cativeiro, se davam por meio dos púlpitos,
das missões religiosas, e em correspondências trocadas entre as autoridades. Ao estudar as
sociedades emancipadoras das comarcas de Diamantina e Ouro Preto, Luiz Gustavo Cota
(Cota: 2013: 178-179) também pôde acompanhar as iniciativas de tais grupos a partir das
arrecadações para a compra de alforrias e na promoção de discursos em prol das ideias abo-
licionistas, mesmo que de forma bastante tímida.
Para padre Calixto, cabia aos cristãos proteger os “justos” e garantir a pregação dos
“mártires”. Era a crença em uma prática gloriosa, uma marca da Igreja Católica, que propa-
gava as histórias heroicas de santos e bem-aventurados que deram suas vidas em defesa do
próximo e do sagrado. Essa ardorosa defesa do religioso aos abolicionistas trazia para si não
só a imagem de porta-voz, mas simbolizava um discurso paternal e protetor em benefício
de seus colegas. A ponto de escrever na Gazeta Sul-Mineira que, se ansiavam assassinar os
abolicionistas, que antes “descarregassem seus golpes de morte” sobre ele próprio. Oferecer a
sua vida em prol dos seus protegidos era doar o sangue e o corpo em favor dos seus “filhos”,
assim como fez o lendário “pelicano eucarístico”, símbolo católico que representa o deus que
se ofereceu em sacrifício para salvar a humanidade.
Dessa maneira, padre Calixto doava sua vida à causa, forjando para si a imagem de
salvador. A ideia de conceder aos “pobres” escravizados a liberdade também era uma ação
cristã, uma benfeitoria, levando adiante o ensinamento basilar de “amar o próximo como
a ti mesmo”. Assim, o baixo clero, que estava mais próximo dos populares e escravizados,
reafirmava o papel de orientar a vida desses sujeitos num mundo em transformação. Apesar
de a perspectiva paternalista-humanitária fazer parte do imaginário e das ações de alguns
abolicionistas e republicanos, que subestimavam a capacidade de resistência e articulação
dos escravizados (Daibert, 2004: 124-125), parece que o padre sabia que a insubordinação
negra que se armava naqueles tempos dava sinais de que a abolição poderia surgir como
um risco à ordem social.
Se, para os católicos, “Deus escreve certo por linhas tortas”, a liturgia produzida por su-
jeitos como padre Calixto parece exemplar desse ditado, e desvela um oásis de possibilidades
para o entendimento sobre o abolicionismo e sua relação com o pensamento cristão.

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Juliano Custodio Sobrinho

Mas que fim teria levado o padre Calixto após os eventos de agosto de 1887? Segundo
os relatos dos memorialistas, o sacerdote intensificou sua campanha republicana e, com a
derrubada da Monarquia, tornou-se deputado por Minas Gerais ao longo dos primeiros anos
da República. Nas obras sobre a história de Três Pontas, padre Calixto parece não ter entrado
no rol dos ilustres da cidade, sendo mencionado de forma bastante rápida, quando da criação
do Partido Republicano (Miranda, 1980: 36).
Contudo, nos escritos memorialísticos sobre o conflito em Três Pontas, outra figura
religiosa pareceu ganhar destaque, sendo considerada a redentora, aquela capaz de libertar
Felicidade do cativeiro. Segundo Amélio Miranda (ibidem: 44), a paz só voltou a reinar na
cidade por conta da intervenção de padre Francisco de Paula Victor, conhecido popular-
mente como padre Victor, negro e figura lendária no Sul de Minas, beatificado pela Igreja
Católica em 2015.9
Nascido em Campanha em 1827 e filho de escravizada com pai desconhecido, padre
Victor é figura mitológica na região. De acordo com seu processo de beatificação, ele foi
escravo de Marianna Bárbara Ferreira e, mais tarde, foi apadrinhado pelo bispo de Mariana,
dom Antônio Ferreira Viçoso, que o conduziu para os estudos no seminário daquela cidade.
Como pároco em Três Pontas, a trajetória de padre Victor foi marcada pela luta e conquista por
inserção social, em um contexto em que a cor era um importante elemento de identificação
e hierarquia, e em um contexto de forte crescimento da racialização das relações sociais. Sua
fama de milagroso e benfeitor se espalhou rapidamente pela região, e sua pastoral o envolvia
no trato com os doentes e com a escolarização de crianças pobres. Atuante e disposto a ser
aceito pela população local, o padre negro fundou escola e realizava exorcismos sempre que
“maus espíritos” se apossavam de seu rebanho (ibidem: 144).
Pela breve biografia de padre Victor supramencionada, fica evidente que o sacerdote foi
contemporâneo dos personagens de que tratamos até aqui. Segundo o memorialista Amélio
de Miranda, teria sido ele que, “empunhando o crucifixo na entrada da cidade”, em 1887,
exigiu que os fazendeiros deixassem a cidade (ibidem: 146). O “feito heróico” atribuído ao
padre Victor livrou Felicidade, Adão e os abolicionistas das garras dos fazendeiros, e ele, impe-
lido pelo “nobre sentimento de gratidão”, bradou a todos eles que, se estivessem dispostos a
cometer qualquer violência, teriam que passar “por cima do corpo do Vigário” (idem). A figura
salvacionista, como a do “pelicano eucarístico” que dava a vida pelos fieis, foi novamente
apropriada, dessa vez para eleger padre Victor como o herói do desfecho daquele cenário, às
vésperas da abolição.
Além destes relatos, nada encontramos na documentação pesquisada a respeito de qual-
quer participação de padre Victor nos episódios de Três Pontas. Podemos arriscar que a entra-

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“A escravidão está condenada pela religião”: católicos e presbiterianos no contexto da
abolição (Minas Gerais, 1886-1888)

da do sacerdote para a memória oficial da cidade, no que tange aos conflitos pela abolição
que se deram naqueles tempos, parece incidir com as intencionalidades de se construir uma
imagem de santidade para o padre negro, desde sua morte até os dias atuais.
Alçado ao posto de “redentor” dos escravizados, e por ter dedicado sua vida aos
mais pobres e desvalidos, padre Victor tem, hoje, sua história como uma das atrações do cir-
cuito turístico religioso da região. Atualmente, o sacerdote é postulante a se tornar o primeiro
santo negro do Brasil em processo de santificação aberto no Vaticano. Para a tradição popular
e local, padre Victor já é santo, transformado pelo povo em uma entidade arquetípica, ao
mesmo tempo divina e guerreira, capaz de ter dado a vida pelos seus seguidores e pela defesa
da justiça entre os homens.

Os presbiterianos no limiar da abolição

E m fins do século XIX, missões presbiterianas percorreram o sul de Minas Gerais conver-
tendo pessoas e auxiliando-as na fundação das primeiras comunidades. Tendo emigrado
dos Estados Unidos para o Brasil a partir da década de 1860, os presbiterianos traziam con-
sigo mais do que o projeto missionário: a Guerra Civil e a abolição da escravidão nos Estados
Uni,dos conferiram à questão escravista lugar de destaque em seus discursos e reflexões e
impactou os processos emancipatórios no restante do continente (Miranda, 2017: 26-28).
Para parte dos imigrantes, a busca pela “terra prometida” era um pretexto, uma estratégia
de negar a sociedade pós-escravista organizada em seu país de origem (Brito, 2014: 160).
Para eles, a vinda para o Brasil simbolizava a busca pela continuidade e pela possibilidade de
retomar as vivências senhoriais.
Os missionários presbiterianos americanos sulistas e nortistas, algumas vezes, repre-
sentavam posições ideológicas e políticas diferentes em relação às questões escravistas e
abolicionistas, tendo, a despeito disso, unido forças na busca de terreno religioso, em uma
seara desconhecida e adversa. Se sobrepunha às divergências um “destino comum” revelado,
sendo preciso “cumprir os desígnios de Deus, através do estabelecimento de ‘um novo proces-
so civilizatório’” (Oliveira, 1995: 106).
Alinhados com novas diretrizes do liberalismo, os missionários passaram a bradar pela
ampliação da liberdade de culto e pelas bandeiras do cientificismo, da república e da aboli-
ção da escravidão no Brasil (Abreu, 1999: 316-317). Além disso, há registros de convertidos
brasileiros que, logo após abraçarem o presbiterianismo, se envolveram com os dramas da
escravidão em seus momentos derradeiros.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 225-240, janeiro-abril 2019 225
Juliano Custodio Sobrinho

Ao longo da pesquisa realizada no Acervo de Polícia do Arquivo Público Mineiro, tivemos


contato com diversas correspondências sobre um núcleo presbiteriano em Cabo Verde (MG)
acusado de participar das “desordens” abolicionistas que tomavam conta da região em 1887.
Naquele ano, o delegado Antonio de Pádua Dias se envolveu em uma imbricada história, ao
defender um sexagenário que lhe pediu socorro contra seu antigo senhor, que queria reescra-
vizá-lo.10 Tal episódio constituiu um dos motivos das inúmeras acusações que recaíram sobre
o delegado, custando-lhe o cargo público.
Antonio de Pádua Dias e seu irmão, Francisco de Assis Dias, foram convertidos ao presbi-
terianismo em 1879 pelo missionário americano John Boyle e pelo missionário convertido Mi-
guel Torres.11 Logo, ajudaram a formar o primeiro núcleo presbiteriano na cidade. Antonio de
Pádua era sitiante, mas já havia sido tropeiro, comerciante, policial e rábula, antes de assumir
a delegacia. Os primeiros cultos aconteceram na casa da família Dias, e quando o missionário
John Boyle e o colportor12 Felipe Wengenton chegaram a Cabo Verde, Antonio de Pádua Dias
passou a realizar os cultos dentro dos salões da loja maçônica, da qual era membro.13
A assistência mútua entre protestantes e maçons no período representava os anseios
daqueles indivíduos diante das ideias liberais, da valorização da liberdade de culto, da edu-
cação e das razões do progresso e da civilização no Brasil. Além disso, a Igreja Presbiteriana
e a Maçonaria somavam forças frente à perseguição católica (Mansur, 1999). Ao realizar os
primeiros cultos da Igreja Presbiteriana na loja maçônica, Antonio de Pádua Dias se colocou
cada vez mais em rota de colisão com os católicos da cidade. Não à toa, os conflitos que se
deram em Cabo Verde a partir de sua demissão desencadearam uma série de questões que
estavam em disputa no campo social, que perpassavam razões pessoais, políticas e religiosas,
e que seriam potencializadas pelas acusações apresentadas por seus adversários de que ele
seria favorável às causas abolicionistas.
A cruzada católica contra as atuações protestantes em Cabo Verde teve na figura do
suplente do juiz municipal Luiz Antonio Navarro uma ardorosa militância, na tentativa de
derrubar Antonio de Pádua Dias do comando da delegacia. Em outra correspondência enca-
minhada diretamente à Presidência da Província, o suplente acusou o grupo de Antonio de
Pádua Dias de “gente ruim, mais própria para salteadores, que anda aos bandos, cantando
pelas estradas, cathequisando os pobres ignorantes”.14 Desamparados, os cidadãos estavam
expostos aos perigos provocados pela desobediência daquela gente presbiteriana, que tinha
na figura pública do delegado o “presbítero da seita”.15
Os conflitos religiosos no sul mineiro estamparam as páginas da Gazeta de Notícias, no
Rio de Janeiro. Uma carta enviada ao periódico informava os abusos de Antonio de Pádua Dias

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“A escravidão está condenada pela religião”: católicos e presbiterianos no contexto da
abolição (Minas Gerais, 1886-1888)

por abandono da delegacia em função de seus compromissos com a fé protestante, chegando


a deixar a cadeia “deserta” de policiamento e a cidade vulnerável aos desmandos daquele
momento de crise da escravidão. Como solução ao descalabro na cidadezinha mineira, a su-
gestiva carta solicitava que o ministro da Justiça substituísse imediatamente o delegado por
outro cidadão capaz de zelar pela segurança e pela manutenção da ordem.16
O primeiro grupo presbiteriano de Cabo Verde esteva inserido em um bairro da cidade
que hoje recebe o nome de São Bartolomeu. De acordo com os memorialistas, aquela era uma
área afastada do centro urbano, que fazia parte do complexo cafeicultor da região (Ferreira,
2010: 115). Ao denunciar as “badernas” produzidas por aquele grupo de “pobres ignoran-
tes”, Luiz Antonio Navarro promovia uma perspectiva de inferiorizar os protestantes frente
aos católicos e suas famílias distintas e bem-nascidas.17 Acontece que a família Dias se tornou
uma poderosa força para a evangelização na região, e conduziu uma massa de gente simples,
possivelmente, também formada por libertos e negros livres, que acompanhava o ministério
liderado por Antonio de Pádua e Francisco de Assis: “os pobres, dizia Pádua Dias, são nossos
irmãos; guardemos a coragem para enfrentar os ricos” (idem). Assim, o discurso de preocupa-
ção de Luiz Antonio Navarro, ao denunciar os presbiterianos, ganha mais sentido, posto que,
antes vigiados e repreendidos pela força policial, estavam naquele momento se servindo dela,
representada pela figura do delegado.
Ao ser destituído do cargo, Antonio de Pádua Dias foi substituído por seu irmão, o su-
plente Francisco de Assis Dias, que foi incansável defensor do delegado contra as acusações de
Luiz Antonio Navarro. Segundo ele, era evidente que havia uma perseguição política e pessoal
arquitetada pelos descrentes da fidelidade de Antonio de Pádua Dias à política imperial e ao
cumprimento das leis. Além disso, tanto ele quanto o irmão eram perseguidos por professarem
o presbiterianismo. Em discurso nas inúmeras correspondências que enviou para a chefia de
polícia e para a Presidência da Província, Francisco de Assis Pádua procurava construir para si
e para o irmão uma narrativa que os vitimizasse frente às injustiças de senhores e católicos
da cidade. Para isso, utilizava metáforas bíblicas para expor sua versão dos fatos e recuperar o
cargo de Antônio de Pádua. Ele afirmava ser “servidor fiel do governo e de deos”, e dizia não
temer os “filisteus”, porque a justiça de “deos e dos homens triunpham”.18
No apelo religioso percebido nas palavras de Francisco de Assis, era possível verificar as-
sociações bíblicas com o drama vivido pelo irmão. A imagem de Antônio de Pádua era narrada
como a de um verdadeiro “apóstolo”, perseguido e injustiçado por seus opositores políticos,
que se comportavam como grandes caluniadores contra um “servo de Deus em nome da Jus-
tiça”.19 Para Francisco de Assis, ao denunciarem as irregularidades do mandonismo local, não

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 227-240, janeiro-abril 2019 227
Juliano Custodio Sobrinho

fizeram nada além do que as leis os obrigavam, sempre com a justiça de Deus e a dos homens,
mesmo sabendo que as consequências poderiam se voltar contra eles.
Apesar do posicionamento do juiz municipal de Caldas, José Ignácio de Barros Cobra
Júnior, de que Antonio de Pádua apenas cumprira a lei ao não aceitar a manutenção do cati-
veiro de um sexagenário, além da ausência de provas quanto ao aliciamento de escravizados
fugidos, outros elementos foram acrescentados à denúncia.20 Sua atuação como rábula anos
antes de assumir a delegacia promoveu a liberdade de alguns escravizados, por meio das
ações de liberdade, e este fato endossava os argumentos de Luiz Antônio Navarro.
Assim, as denúncias feitas contra o delegado representam uma grande reunião de in-
teresses locais. A crescente insubordinação negra, somada às atuações de advogados e au-
toridades frente aos interesses senhoriais, tensionavam as relações entre os homens da lei e
os escravistas. Antonio de Pádua Dias nada mais fez do que colocar em prática, tanto como
rábula quanto como delegado, aquilo que interpretava das leis emancipacionistas em prol de
seus próprios interesses e das causas que defendia.
Fato é que, em nossa pesquisa, não encontramos evidências de que Antônio de Pádua
tenha se envolvido com um abolicionismo formal. Sequer encontramos escritos do próprio
delegado discorrendo em sua defesa. Contudo, é lógico pensar que tanto sua atuação na
libertação de escravizados, por meio de ações de liberdade, quanto o cumprimento de suas
funções como autoridade deram a ele o figurino apropriado para que fosse visto como um
radical, desertor dos interesses senhoriais. Vale pontuarmos também que, mesmo ao agir de
acordo com as leis, os irmãos Dias não negaram em momento algum o poder coercitivo da
polícia no combate às repressões sobre as revoltas escravas e na preservação do direito à
propriedade privada (Santos, 1980: 49). Cada qual o via de acordo com o prisma que lhe era
mais conveniente. As outras ocorrências da delegacia de Cabo Verde, que revelavam o dia a
dia dos afazeres da polícia no combate aos escravizados fugidos ou contra aqueles que se
rebelavam, nos deixam cientes disso.21
O que talvez colocasse os irmãos Dias em rota de colisão com os fazendeiros mais re-
sistentes ao fim do escravismo no cenário sul-mineiro estava ligado ao forte apego à mão
de obra escrava por parte de alguns proprietários, que enxergavam somente na escravidão a
sobrevivência da lavoura e de seus negócios. Em uma região com ares rurais bem definidos e
uma produção cafeeira considerável, Cabo Verde poderia ser um palco perigoso para qualquer
autoridade que buscasse agir conforme os ditames das leis emancipadoras, mesmo que não
alardeasse nada a favor da extinção do cativeiro.
Vale lembrar que as ameaças contra a integridade de autoridades eram uma constante
naqueles anos derradeiros da escravidão (Machado, 2011: 26-28). Sem outros agentes que

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“A escravidão está condenada pela religião”: católicos e presbiterianos no contexto da
abolição (Minas Gerais, 1886-1888)

tornassem públicas suas ideias abolicionistas e que engrossassem as fileiras da causa na cida-
de – mesmo que elas fossem regidas por práticas que somente estabelecessem as estratégias
das alforrias condicionais e do controle do trabalho do liberto –, a integridade de agentes
como os irmãos Dias parecia estar mesmo em sério perigo.
Ao ser acusado de “advogado dos escravos”, tratou logo de se apoiar nos serviços do
colega advogado Alberto John Monteiro de Barros, que se prontificou a enviar à Secretaria
de Polícia uma série de ofícios de juízes da região que comprovavam serem falsas as acusa-
ções. Além disso, o advogado requereu do juiz de órfãos certidões das decisões de ação de
liberdade em que Antonio de Pádua estava envolvido. E, de acordo com o ofício, o delegado
havia realmente conseguido deferir algumas solicitações, como as dos escravizados Domingos,
Felicidade e do casal Adão e Narciza.22
Infelizmente, as ações de liberdade que foram abertas pelo nosso personagem não foram
encontradas nos arquivos consultados. Mas os ofícios encaminhados à Secretaria de Polícia
nos deram conta de que, desde a década de 1870, Antonio de Pádua tinha executado a
abertura de pelo menos 12 pedidos de liberdade, entre eles as solicitações dos africanos
Domingos, Pedro e Joanna e seus filhos, que vieram para o Brasil cerca de 20 anos após a
Lei de 1831.23 Sua carreira como advogado também fora impulsionada pelos anúncios que
ele mesmo divulgava nos jornais, como encontrado na edição de 1883 do Liberal Mineiro, de
Ouro Preto, quando publicou sobre seus serviços nas causas dos escravizados.24
Na correspondência para a Secretaria de Polícia, em fins de 1887, parece-nos que Anto-
nio de Pádua Dias foi vitorioso em sua luta pela volta ao cargo de delegado. De acordo com o
documento, o governo provincial atestava que, em consulta ao ministro da Justiça, não havia
nada que desaprovasse a figura do acusado, tendo suas ações sido geradas dentro da lei. Da
mesma forma, sua profissão de fé protestante não impedia que fosse delegado, visto que o
cargo não era restrito aos indivíduos que pertenciam à religião oficial do Estado.25
Ciente de que sobre si pesavam duas acusações e que elas poderiam comprometer o seu
cargo – a filiação protestante e a fama de “advogado dos escravos” –, preferiu ele assumir
a primeira e negar a segunda, por ser um denominativo comprometedor diante dos projetos
que queria conquistar. O fato é que a trajetória dos irmãos Dias, mais especificamente o drama
social em que esteve envolvido Antonio de Pádua Dias, nos revela a dinâmica dos enredos
ligados às agendas da abolição, em meio a uma imensidão de histórias de indivíduos que
reagiram de maneiras muito diversas e complexas.
Contudo, na história eternizada nos relatos memorialísticos, nos parece convincente que
os Dias (e seus descendentes) trataram de alcançar o posto de anfitriões da comunidade pres-

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 229-240, janeiro-abril 2019 229
Juliano Custodio Sobrinho

biteriana do sul mineiro, bem como de destacar seus feitos no campo jurídico da cidade. Já nas
vésperas da abolição, Antonio de Pádua aderiu às ideias republicanas e se tornou promotor
público em Cabo Verde. Francisco de Assis pleiteou o cargo de vereador no mesmo período.
Nenhuma menção ao denominativo “advogado dos escravos” parece ter sobrevivido ao tem-
po, pelo menos não nos escritos dos memorialistas (Carvalho, s.d.: 240-249).

A intelectualidade protestante na luta contra a


escravidão

E m 1886, a Igreja Presbiteriana, diante das inúmeras movimentações sociais que se apre-
sentavam nas ruas e no Parlamento, resolveu condenar a escravidão em seu 22o Pres-
bitério, realizado no Rio de Janeiro. Para isso, os missionários americanos e os presbíteros
brasileiros tomaram como inspiração a Declaração da Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana
dos Estados Unidos, de 1818. Em consonância com as transformações que conclamavam pelo
progresso e pelos ideais civilizatórios no País, os religiosos discutiram sobre os dilemas da
instituição escravista e sua Igreja, “desejando ardentemente que este país se liberte do grande
mal da escravidão, vê com alegria a propaganda abolicionista se firmando no terreno seguro
da consciência cristã” (Lessa, 2010: 165-168).
Por iniciativa de Eduardo Carlos Pereira – pastor e intelectual presbiteriano que havia
movimentado aquela década final da escravidão com sua militância abolicionista –, o concílio
congratulou-se com a campanha pela abolição brasileira, e coube a ele proferir a Abertura
Anual do Presbitério (ibidem: 265). Nascido em 1855 em Caldas, Minas Gerais, em uma fa-
zenda escravista voltada à agropecuária de subsistência e de abastecimento, Eduardo Carlos
construiu uma trajetória de vida dedicada aos estudos e à profissão de fé. Sua iniciação no
presbiterianismo é atribuída a George N. Morton, que chegou com a Junta Missionária do Sul
em 1869. (Matos, 2004: 171-175).
Mais tarde, Eduardo Carlos se transferiu para São Paulo com a pretensão de estudar na
Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, objetivo não alcançado. Na capital, sua forma-
ção esteve sob a responsabilidade dos reverendos George Chamberlain e John Beatty Howell,
ambos missionários do Norte dos Estados Unidos, o que pode ter dado a ele inspiração para
a militância religiosa e abolicionista. Com o crescimento do movimento em São Paulo, Cham-
berlain acolheu os filhos de republicanos e abolicionistas que estavam sofrendo represálias
nos outros colégios da cidade (Matos, 1999: 68).
Na década de 1880, Eduardo Carlos partiu para as missões no interior de São Paulo e
de Minas Gerais. Grande parte de sua atuação no abolicionismo foi desenvolvida quando era

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“A escravidão está condenada pela religião”: católicos e presbiterianos no contexto da
abolição (Minas Gerais, 1886-1888)

pastor em Campanha no sul mineiro. Por meio do mundo das letras, do ensino e das missões
evangélicas, ele se inseriu nas lutas pela abolição, forjando um intenso debate na imprensa e
angariando adeptos protestantes e inimigos escravistas.
Naquele contexto, a educação formal protestante destinava-se à formação de uma nova
elite brasileira, prezando por um ensino liberal e progressista, reverberado pelos currículos
americanos. De acordo com alguns missionários, a evangelização era uma consequência natu-
ral da educação formal (Oliveira, 1995: 162-166). Tal qual fosse a experiência protestante, nos
colégios ou nas igrejas, esta não poderia ser vivenciada sem que a consciência cristã influen-
ciasse seus fiéis nas leituras que produziam sobre a realidade escravista brasileira.
Diferentemente dos irmãos Dias, Eduardo Carlos imergiu na formação intelectual ao
mesmo tempo em que militou pelo abolicionismo por diversos cenários da escravidão, em suas
andanças pelo sul de Minas, Rio de Janeiro e São Paulo. Sua chegada em Campanha se deu
em 1883, quando assumiu a liderança da Igreja Presbiteriana na região. Além de desenvolver
uma agenda abolicionista, nosso personagem se envolveu nas disputas religiosas com os
católicos da cidade, representados na figura do padre José Theophilo Moinhos de Vilhena. O
Monitor Sul-Mineiro abriu espaço para os dois pastores, que se dispuseram a usar as páginas
do periódico. Para o padre José Theophilo, o protestantismo era uma “religião falsa, completa-
mente falsa, galho decepado da grande árvore do catholicismo, o protestantismo estrebucha,
contorce-se em movimentos automáticos, sem direção, norte, princípio e nem fio”.26
A resposta imediata de Eduardo Carlos se resumiria no versículo bíblico “ide por todo o
mundo e pregai o evangelho a toda creatura”.27 Diante do princípio salvacionista e de busca
de uma nova “Canaã”, o presbiteriano desenvolvia seu discurso para defender a ideia de que
a fé deveria estar livre do atraso e da omissão dos católicos. Nesse caso, ele criticava a Igreja
Católica por não assumir um discurso mais efetivo na luta abolicionista. Como missionário, ele
estava preparado para todas as intempéries que seus algozes pudessem provocar. Já o padre
José Theophilo buscava alertar seus fiéis para que não fossem ludibriados pela sedução da fala
protestante, causadora de “anarchias” e “rupturas” e em defesa de um princípio de liberdade
que não era cristão.28 Certamente, o sacerdote parecia compactuar com os setores católicos
que preferiram se omitir do enfrentamento abolicionista até às vésperas do Treze de Maio. As
divergências entre os dois ministros cristãos se arrastaram pelos jornais durante o período em
que Eduardo Carlos residiu na cidade, encerrando-se com sua transferência para São Paulo,
em 1888, para assumir a Igreja da capital.
Se Antonio de Pádua Dias usava os tribunais e a delegacia para se posicionar socialmente
em espaços anteriormente dominados por católicos, Eduardo Carlos buscou atuar no ensino

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 231-240, janeiro-abril 2019 231
Juliano Custodio Sobrinho

e na formação pastoral, da mesma forma que se escorou na imprensa para garantir que fosse
ouvido. Além do Monitor Sul-Mineiro, ele era correspondente do jornal Imprensa Evangélica,
publicado quinzenalmente no Rio de Janeiro,entre 1864 e 1892. Já na pós-emancipação,
se envolveu com os estudos da gramática, bem como foi um dos fundadores do jornal O
Estandarte, periódico oficial da Igreja Presbiteriana Independente. Na vida de nossos dois
personagens, a evangelização ganhava destaque, o que não impediu que desenvolvessem
inúmeros projetos que, de alguma maneira, esbarravam nos interesses pessoais e coletivos de
outras pessoas. Ao seu modo, cada um procurou construir representações, atitudes e práticas
que lhes asseguravam certa estabilidade e sobrevivência diante dos grandes dramas sociais
e políticos do País. E no momento em que as disputas religiosas acrescentavam desafios, pa-
rece importante entendermos as potencialidades de as “representações”, como afirma Roger
Chartier (1990: 23), tecerem as hierarquias do mundo social.
Eduardo Carlos assumiu uma constante luta pela abolição. Em 1886, publicou a obra
A religião christã em suas relações com a escravidão, uma coletânea de artigos lançados
anteriormente no jornal Imprensa Evangélica, que gerou grande repercussão no meio cristão.
Foi fundador da Sociedade Brasileira de Tratados Evangélicos, que durante anos publicou 17
livretos de ideias protestantes, entre eles o supramencionado. Em seu livro, Eduardo Carlos se
propôs a não só condenar a escravidão, como também conscientizar seus fiéis das incompati-
bilidades entre o Cristianismo e o sistema escravista, em especial a profissão de fé presbiteria-
na, na qual ele acreditava. Era fruto de suas vivências como missionário pelo interior, pregando
em igrejas improvisadas e escrevendo em jornais. Eduardo Carlos e os missionários america-
nos profetizavam o fim da escravidão no Brasil, mostravam a experiência bem-sucedida da
abolição dos Estados Unidos, e incitavam os fiéis a libertarem os escravizados. Alguns deles
estenderam sua militância em correspondências às lideranças da Igreja e aos políticos dos Es-
tados Unidos, denunciando as mazelas que a escravidão causava no Brasil (Silva, 2010: 56-65).
Os estudos sobre o abolicionismo presbiteriano no Brasil se concentram entre teólogos,
memorialistas e intelectuais da própria Igreja e, de acordo com essa literatura, os missionários
da Igreja Presbiteriana do Norte sempre foram mais encorajados a produzir críticas sobre a
escravidão brasileira. Foram retratados como “abolicionistas convictos”, que tinham experiên-
cias nas lutas que se deram ao longo do processo da abolição nos Estados Unidos. Já entre
os missionários sulistas, parecia haver certo silenciamento sobre essas questões, pelo menos
nos escritos deixados por eles. Vale lembrar que, apesar das diferenças ideológicas entre os
dois grupos, as necessidades missionárias da evangelização no Brasil obrigaram esses sujeitos
a pastorearem conjuntamente, o que também não significa que as divergências fossem total-

232 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 232-240, janeiro-abril 2019
“A escravidão está condenada pela religião”: católicos e presbiterianos no contexto da
abolição (Minas Gerais, 1886-1888)

mente vencidas. Logo após o lançamento da obra de Eduardo Carlos, houve uma reação de
missionários sulistas, que escreveram um tratado antiabolicionista como crítica às investidas
do pastor brasileiro (ibidem: 60).
Segundo Evaristo de Moraes (Moraes, 1986: 240), Eduardo Carlos acertava diretamente
outros pastores que, de forma apática ou omissa, se esquivavam da aproximação das pa-
rábolas bíblicas com a realidade social. Produzia uma resposta que criticava aqueles que
pretendiam conciliar a posse de escravizados com os sentimentos religiosos. Ainda segundo
Moraes, os escritos de Eduardo Carlos mobilizavam outros missionários e fiéis que adentraram
a campanha abolicionista em São Paulo, militando ao lado de figuras como Antonio Bento. As
escolas de cunho protestante passaram a assumir um discurso mais explícito sobre as mazelas
sociais provocadas pela escravidão.
Eduardo Carlos afirmava que a escravidão atrasava o progresso brasileiro e constituía
um “crime” contra Deus. Em um tom de pregação e de tentativa de convencimento de seus
fiéis e leitores, ele lamentava o fato de que muitos cristãos se entregavam ao “sacrilégio” de
defender a propriedade escrava, utilizando para isso a “palavra de Deus, de justiça e de amor”
(Pereira, 1886: 8). A obra foi dividida em seis capítulos, e versa sobre as impressões do autor
sobre o mundo da escravidão, a condenação do cativeiro pela Bíblia, e as diretrizes que os fiéis
deveriam seguir para não agir com incoerência diante da ideia da liberdade.
Para ele, a escravidão seria um “roubo”, uma síntese do pecado, pois a liberdade seria
um “dom primitivo” de Deus e essencial para a vida humana. Seu discurso nos auxilia a
entender como as transformações da ideia sobre o pecado fomentaram o pensamento an-
tiescravista, sobretudo o pensamento protestante (Davis, 2001: 329-336). Ao evocar também
o “cientificismo” e a razão da intelectualidade brasileira, acreditava ele que as evidências
contrárias à continuidade da escravidão estavam postas na sociedade. Eduardo Carlos elevava
as lutas abolicionistas do último quartel do Oitocentos lamentando essa frente não ter sido
lançada em tempos anteriores (Pereira, 1886: 28-29). Nos ensejos dos últimos suspiros da es-
cravidão e em um momento de efervescência das ideias abolicionistas, ele procurava angariar
a simpatia de um maior número de adeptos para as causas da abolição.
Eduardo Carlos falava a linguagem da religião para professar suas ideias sobre a aboli-
ção, em que o sagrado ocupava o centro das discussões e conduzia à liberdade. Esse parece
um ponto instigante para repensarmos o papel do abolicionismo brasileiro, melhor dizendo, a
densa construção desse movimento que produziu discursos e ações bastante diversas.
Como um segmento desse abolicionismo religioso – defendido tanto por missionários
americanos quanto por brasileiros – é representativo da presença presbiteriana no Brasil,

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 233-240, janeiro-abril 2019 233
Juliano Custodio Sobrinho

discordamos de Celia Maria de Azevedo (2003), que, ao produzir um estudo comparado


entre as dimensões abolicionistas no Brasil e nos Estados Unidos, considerou a dimensão
brasileira de “linguagem secular”, ou seja, sem envolvimento com princípios religiosos,
costurando seus argumentos de forma pragmática e conectada aos interesses da política
nacional e do progresso econômico. De acordo com a autora, o abolicionismo americano
seria essencialmente religioso, cuja imagem central é Deus, condenando a escravidão pela
via da moral e do pecado (ibidem: 43-45). Entretanto, se quisermos compreender um mo-
vimento multifacetado, complexo, e que contou com a participação de inúmeros sujeitos,
parece que a chave de leitura para o processo abolicionista brasileiro não está somente no
formalismo e na atuação política parlamentar.
Em 1903, Eduardo Carlos rompeu com a matriz missionária americana, fundando a Igre-
ja Presbiteriana Independente. Essa cisão não fez com que ele deixasse de admirar as conquis-
tas abolicionistas dos Estados Unidos, valorizando a formação dos movimentos nortistas e o
progresso gerado na região com o fim da escravidão. Conectado com as campanhas abolicio-
nistas internacionais, dava salvas aos americanos Willian Garrison e John Brown pela luta em
seu país, iluminados pelo “fogo sagrado do Evangelho” (Pereira, 1886). As pressões inglesas
pelo fim da escravidão no Brasil eram louvadas por meio das figuras de William Wilberfore e
Thomas Buxton, que, apoderados pelo “espírito do christianismo” (ibidem), deveriam servir de
inspiração para os brasileiros. Para os mais resistentes escravistas, servia a lição tomada pelos
próprios sulistas, que, castigados pela resistência que promoveram contra o fim da escravidão,
viram o progresso triunfar no Norte do país.29
Neste sentido, a cristandade precisava se posicionar e defender a libertação dos es-
cravizados em prol de uma sociedade na Terra que fosse mais justa para uma garantia de
salvação divina. Eis:

Se a religião, portanto, que professas, condemna o captiveiro, escolhe entre ella e os escravos
que possues. Ou guarda teus escravos, e continua aproveitar do suor do rosto do teu próximo,
e, neste caso, imitando o exemplo dos gadarenos, pede a Jesus que se retire de tua casa; ou
então, restitue a teus escravos a liberdade roubada e declara por esse acto que não és um mero
hypocrita. (ibidem: 36)

Para Eduardo Carlos, o escravizado era a imagem de Deus e, assim, a sua propriedade
pertencia ao criador e era “sagrada”. Aos protestantes não cabia o direito de roubar o “direito
inviolável” do pastor, que, como senhor de todos – livres e escravizados –, era o único con-
dutor da vida dos seres humanos. A mensagem do presbiteriano era clara, “de um captiveiro
amargo e degradante não te libertou o sangue do compassivo Redemptor? E agora ao con-
templares teu escravo, não ouves a terrível repulsão de teu Senhor?” (ibidem: 44).

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“A escravidão está condenada pela religião”: católicos e presbiterianos no contexto da
abolição (Minas Gerais, 1886-1888)

Ao estudar os missionários batistas no Caribe, Emília Viotti da Costa (1998: 28-33)


afirma que o Cristianismo havia se tornado um alento e um modo de iluminar as desigual-
dades sociais com que se deparavam aqueles fiéis. De qualquer maneira, aquela linguagem
bíblica e cristã poderia provocar um sentido de subserviência em um contexto de rebeldia
social. Por conta disso, havia uma rejeição ferrenha à presença missionária naquela região
por parte de muitos proprietários. Da mesma maneira, Eduardo Carlos sabia os riscos que
corria, e que suas ações poderiam provocar incômodos nos mais recalcitrantes escravistas,
fossem eles protestantes ou não.
Mesmo assim, às vésperas da abolição e consciente das movimentações que se davam
pelo fim do cativeiro, Eduardo Carlos foi convicto em se posicionar frente a uma abolição
imediata e capaz de extinguir o “mal” sobre a terra. Por isso, ele postulava a ideia de que o
púlpito não poderia ser acometido de ressalvas e receios, se a abolição se encontrava à “luz
de verdades incontestáveis”. Se a escravidão era uma instituição ilícita e ofensiva a Deus, “por
que então a reserva, o silêncio medroso ante um crime tão grave?” (Pereira, 1886). Com isso,
convocava seus fiéis a criar condições para “dissimular os tempos desta ignorância” (ibidem:
31), devendo tornar o trabalho missionário uma forma de preparação de escravizados que
receberiam tal benesse. A reboque de um abolicionismo legalista, dos discursos paternalista-
-humanitários e dos princípios de tutela sobre o escravizado, considerado incapaz de conduzir
sua vida sozinho, Eduardo Carlos reproduzia o tom conservador também presente em outros
projetos abolicionistas discutidos até então. Para ele, não bastaria abolir a escravidão, pois
seria necessário preparar o “povo” e “elevar a sociedade a comprehensão da justiça e santi-
dade” (idem). Se assim não fosse, “era deitar remendo de panno novo em vestido velho, ou
despejar vinho novo em velhos ôdres” (idem).
Apesar dos códigos de conduta e do sentimento de culpa serem bastante alargados
nas falas protestantes, sobretudo no que vimos na apresentação da obra de Eduardo Carlos,
parte do que ele enxergava do outro era a reprodução de uma visão estereotipada. Assim,
se a escravidão era “pecado”, caberia aos fiéis levar a “verdade” e preparar os escravizados,
moralmente degenerados pelas agruras do cativeiro.
Com escrita enfática e direta, Eduardo Carlos construiu uma narrativa de condenação à
escravidão, incitando os fieis a cumprirem os ensinamentos da Igreja em consonância com os
mandamentos de Deus. A ideia de um protestantismo que apresentasse uma interpretação
bíblica vinculada à realidade e que não aceitava a escravidão de seus pares foi a tônica que
movimentou a vida do pastor e intelectual presbiteriano.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 235-240, janeiro-abril 2019 235
Juliano Custodio Sobrinho

Considerações finais

C omo apontamos, o sul de Minas contou com um dos maiores contingentes de es-
cravizados no limiar da abolição. Foi uma região de forte permanência da escravidão
até os seus últimos minutos, em que os embates pelas ideias escravistas/abolicionistas são
essenciais para se entender o denso e multifacetado processo da abolição brasileira. Inseridos
no contexto da crise do escravismo, os sujeitos e grupos religiosos que tratamos neste texto
produziram discursos e ações que nos convencem de que a religião é também um elemento
de compreensão do abolicionismo no Brasil, visto que as ideias escravistas e antiescravistas
estavam, sim, atuando com as questões religiosas. O envolvimento do baixo clero católico e
dos convertidos protestantes demonstra as insatisfações daqueles setores com as políticas do
Império, que não atendiam às necessidades dos novos tempos.
De alguma forma, padre Calixto e os presbiterianos percebiam a necessidade de se inse-
rirem na sociedade. A via das ações e discursos abolicionistas – fosse cumprindo as leis, como
no caso do delegado Antonio de Pádua, ou incitando a fuga e proteção para cativos, como
discursado por Eduardo Carlos –, pode ter sido uma saída encontrada por eles para lutar por
seus projetos e pelos significados religiosos que abraçavam.
Assim, padre Calixto seguiu na defesa do abolicionismo orgânico, representado pelo Club
Abolicionista Três Pontano, utilizando-se dos jornais e da política para ventilar os propósitos do
grupo e defender a liberdade dos escravizados da região. Já os irmãos presbíteros, Antonio de
Pádua e Francisco de Assis, buscaram garantir os espaços da delegacia e da Igreja que haviam
conquistado, mesmo em tempos difíceis em que estava em jogo uma imbricada disputa de poder
local, interesses escravistas/abolicionistas, legalistas e religiosos. A mesma coisa parece ter sido
construída por Eduardo Carlos, que, ao ter sua trajetória marcada por um sentido de propagação
do presbiterianismo intelectual, não economizou no ativismo ao procurar conscientizar os fiéis
ao alinhamento de uma fé mais coerente com os novos tempos.
A partir de agendas que ora se distinguem, ora se assemelham, as trajetórias desses
agentes da fé abrem janelas para entendermos melhor os abolicionismos que se desenhavam
no Brasil. Apesar de alinhados a grupos de certa elite local ou que buscavam reconheci-
mento e ascensão, nossos personagens representam novas formas de pensar as bandeiras
abolicionistas, que, em contato com sujeitos das esferas populares, contribuíram por sacudir
os derradeiros pilares escravistas. Redimensionar as considerações sobre como os religiosos
encaravam aqueles projetos poderá trazer novas cores para compreendermos um processo
de abolição complexo e multifacetado, que não pode ser resumido apenas a um conjunto de
sujeitos ou grupos, tampouco ser entendido pelo viés formalista e conservador que ganhou
as páginas historiográficas por longas décadas desde o desfecho do Treze de Maio de 1888.

236 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 236-240, janeiro-abril 2019
“A escravidão está condenada pela religião”: católicos e presbiterianos no contexto da
abolição (Minas Gerais, 1886-1888)

Notas

1 Gazeta Sul-Mineira, 25 de setembro de 1887, São Gonçalo do Sapucaí, CECML, fl. 04.
2 A discussão proposta neste texto faz parte da tese de doutorado “Sobre um tempo de incertezas: o pro-
cesso da abolição e os significados da liberdade em Minas Gerais (1880-1888)”, defendida no Programa
de Pós-Graduação em História Social da Universidade de São Paulo e publicada recentemente (Custódio
Sobrinho, 2018).
3 Gazeta Sul-Mineira, 14 de agosto de 1887, São Gonçalo do Sapucaí, CECML, fl. 02.
4 Monitor Sul-Mineiro, 02 de outubro de 1887, Campanha, CECML, fl. 03.
5 Gazeta Sul-Mineira, 11 de setembro de 1887, São Gonçalo do Sapucaí, CECML, fl. 01.
6 Monitor Sul-Mineiro, 02 dde outubro de 1887, Campanha, CECML, fl. 03.
7 Idem.
8 Idem.
9 A beatificação de padre Victor ocorreu em 14 de novembro de 2015, em cerimônia que contou com a pre-
sença do prefeito da Congregação da Causa dos Santos da Santa Sé, o cardeal Angelo Amato, representante
do papa Francisco. Disponível em: <http://padrevictor.com.br>. Acesso em: 05 de março de 2017.
10 Ofício do delegado de Caldas para o chefe de polícia, 05 de maio de 1887,.APM, Polícia, POL 1 3, cx.
26, doc. 14.
11 Uma das questões que abrem margem para estudos futuros tem a ver com o nível de penetração das
ideias acerca da escravidão/abolição no Brasil, proferidas pelos missionários das igrejas presbiterianas do Sul
e do Norte. Não nos debruçamos em analisar escritos produzidos por esses missionários, o que contribuiria
para entendermos a complexidade dessas ideias em contexto brasileiro. John Boyle, missionário responsável
pela conversão dos irmãos Dias, era da porção Sul do país. Sobre estas hipóteses, ver Léonard, 1981: 101; e
Matos, 2004: 195-200.
12 Os colportores eram responsáveis por vender e distribuir bíblias e folhetos das igrejas, abrindo caminhos
para a chegada de missionários que trabalhariam para a conversão da comunidade. Eles eram assistentes no
processo de evangelização.
13 História da formação da Igreja Presbiteriana de Cabo Verde. Manuscrito de 25 de outubro de 1912,
de Joaquim Leonel de Magalhães, membro presbiteriano. Acervo particular da Igreja Presbiteriana de Cabo
Verde-MG.
14 Correspondência recebida pela Presidência da Província, 07 de janeiro de 1887. APM, Polícia, POL 1 3,
cx. 03, doc. 09.
15 Idem.
16 Gazeta de Notícias, 15 de novembro de 1887, Rio de Janeiro, BN, fl. 02.
17 Correspondência recebida pela Presidência da Província, 07 de janeiro de 1887. APM, Polícia, POL 1 3,
cx. 03, doc. 09.
18 Ofício recebido da delegacia de Cabo Verde, 13 de fevereiro de 1887. APM, Polícia, POL 1 3, cx.03, doc. 12.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 237-240, janeiro-abril 2019 237
Juliano Custodio Sobrinho

19 IdemOfício recebido da delegacia de Cabo Verde, 13/02/1887, APM, Polícia, POL 1 3, cx.03, doc. 12.
20 Ofício do delegado de Caldas para o chefe de polícia, 05 de maio de 1887. APM, Polícia, POL 1 3, cx.
26, doc. 14; Correspondência expedida pela Secretaria de Polícia ao Governo Provincial, 21de maio de 1887.
APM, Polícia, POL 93, n. 471, fl. 123v.
21 Em geral, nos referimos à tentativa de combate da delegacia de Cabo Verde de conter as movimentações
escravas e as ideias de perturbações da ordem pública, como a Correspondência reservada expedida pela Se-
cretaria de Polícia, 22 de novembro de 1887. APM, Polícia, Pol 98, fl. 99; e outros casos, como: Ofício recebido
da delegacia de Cabo Verde, 20 de janeiro de 1887. APM, Polícia, POL 1 3, cx. 03, doc. 06; Ofício recebido da
delegacia de Cabo Verde, 20 de janeiro de 1887. APM, Polícia, POL 1 3, cx. 03, doc. 07; e a Correspondência
expedida pela Secretaria de Polícia ao Governo Provincial, 15 de dezembro de 1887. APM, Polícia, POL 93,
n. 1703.
22 Ofício do advogado Alberto John Monteiro de Barros para o juiz municipal de Cabo Verde e Muzambinho,
14 de abril de 1887. APM, Polícia, POL 1 3, cx.26., doc. 29.
23 Idem.
24 Liberal Mineiro, 1o de fevereiro de 1883, Ouro Preto, BN, fl.02.
25 Correspondência da Secretaria de Governo para a Secretaria de Polícia, 16 de dezembro de 1887. APM,
Polícia, SG 487, n. 536.
26 Monitor Sul-Mineiro, 18 de novembro de 1882, Campanha, CECML, fl. 01.
27 Ibidem, 20 de novembro de 1882, Campanha, CECML, fl. 02.
28 Ibidem, 31 de julho de 1887, Campanha, CECML, fl. 01.
29 Segundo Pereira (1886: 33-39): “Julgavam os Estados do Sul, na América do Norte, que acabar com os
escravos era matar o ‘rei algodão’, destruir a lavoura, e, consequentemente, a riqueza e prosperidade do paiz.
No 1º de janeiro de 1863, um golpe violento do grande Lincoln converte em cidadãos 4 milhões de escravos.
Após o terrível abalo, e apesar de 4 annos de tremenda guerra civil, a riqueza e progresso dos Estados Unidos
não tem rivaes, e os sulistas em nada têm que invejar a prosperidade do Norte”.

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240 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 240-240, janeiro-abril 2019
Artigo

“Mr. Perpetual Motion” enfrenta o Jim


Crow: André Rebouças e sua passagem
pelos Estados Unidos no pós-abolição
“Mr. Perpetual Motion” faces Jim Crow: André Rebouças and his trip
to the post-abolition United States
“Mr. Perpetual Motion” enfrenta el Jim Crow: André Rebouças
y su viaje por los Estados Unidos en el post-abolición

Luciana da Cruz BritoI* 1

DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S2178-14942019000100012

I
Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Bahia – BA, Brasil.

* Professora do colegiado de História da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). (lucianabrito@ufrb.edu.br),


ORCID iD: https://orcid.org/0000-0001-8426-0552

Agradeço às/aos colegas da linha de pesquisa “Escravidão e Invenção da Liberdade”, da Universidade Federal da Bahia,
que com seus comentários e observações contribuíram muito com a (re)escrita desse artigo.

Artigo recebido em 15 de novembro de 2018 e aceito para publicação em 12 de fevereiro de 2019.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 241-266, janeiro-abril 2019 241
Luciana da Cruz Brito

Resumo
No verão de 1873, o jovem engenheiro afro-brasileiro André Rebouças chegava à cidade de Nova York. Segundo
ele, conforme anotou no seu diário, a sua viagem era a “de alguém que vai estudar e aprender”. Porém, a passagem
de Rebouças pelos Estados Unidos também foi marcada por repetidos episódios de racismo e segregação na Região
Norte daquele país durante o período conhecido como Reconstrução. Com base no seu diário e matérias de jornais
estadunidenses, este artigo vai utilizar a passagem de Rebouças pelos Estados Unidos para discutir as políticas de
segregação racial vigentes naquele país, conhecidas como Jim Crow. Além disso, meu objetivo é situar Rebouças na
condição de viajante negro, analisando sua condição racial, de classe e gênero para compreender as suas subjetivi-
dades e especificidades do seu lugar por diferentes sociedades pós-escravistas.

Palavras-chave: André Rebouças, Estados Unidos, Jim Crow.

Abstract

In the summer of 1873, the young Afro-Brazilian engineer André Rebouças arrived in New York City. According
to the notes he made on his journal, his trip was that ‘of one who intends to study and learn.’ But the time spent
by Rebouças in the United States was also marked by repeated episodes of racismo and segregation in the North
during the period known as the Reconstruction era. Based on his journal and on American newspaper articles, the
present article will use Rebouças’ trip to the United States to discuss the racial segregation policies in effect in that
country, known as Jim Crow. My goal is also to place Rebouças in the condition of Black traveller, analyzing his racial
condition, class status and gender in order to comprehend their subjectivities and the specificities of his position im
different post-slavery societies.

Keywords: André Rebouças; United States; Jim Crow.

Resumen
En el verano del año 1873, el joven abolicionista André Rebouças llegaba a la ciudad de Nueva York. Según apuntó
en su diario, su viaje era la de “uno que va a estudiar y aprender”. Pero el viaje de Rebouças por los Estados Unidos
también fue marcado por repetidos episodios de racismo y segregación en la Región Norte de aquél país durante
el periodo conocido como Reconstrucción. Con base en su diario y en artículos de periódicos estadunidenses, este
artículo utilizará el viaje de Rebouças por los Estados Unidos para discutir las políticas de segregación racial vigentes
en aquél país, conocidas como Jim Crow. Más allá de eso, mi objetivo es situar Rebouças en la condición de viajero
negro, analizando su condición racial, de clase y género para comprender sus subjetividades e especificidades de su
posición por diferentes sociedades post-esclavistas.

Palabras clave: André Rebouças; Estados Unidos; Jim Crow.

242 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 242-266, janeiro-abril 2019
“Mr. Perpetual Motion” enfrenta o Jim Crow: André Rebouças
e sua passagem pelos Estados Unidos no pós-abolição

A década de 1870 foi intensa na cidade de Nova York. Nos anos finais do período pós-
-abolição, chamado de Reconstrução, o lugar de negros e brancos naquela sociedade
ainda estava por ser definido, abrindo um tenso campo de disputas. De um lado, a população
branca, inclusive aquela pobre, trabalhadora e imigrante, buscava caminhos para manter
antigas regras de exclusão e desigualdade racial como forma de garantir privilégios. Do outro
lado, estava a comunidade negra, ainda engajada em torno do movimento abolicionista,
mantendo uma agenda de luta por direitos e cidadania. Um dos maiores objetivos do movi-
mento abolicionista era garantir o cumprimento das leis federais que asseguravam o direito
de voto, do livre trânsito entre as cidades, entre outras leis que reconheciam a cidadania de
milhões de afro-americanos libertos em 1865.1
Nos anos finais da década de 1860 e ao longo da década seguinte, diversas ideias so-
bre o significado da liberdade, direitos e cidadania estavam sendo disputadas por diferentes
grupos sociais e raciais. Trabalhadores brancos lutavam por melhores condições de trabalho
ao mesmo tempo em que expressavam sua antipatia pela agenda dos trabalhadores negros.
Os irlandeses, por exemplo, que até pouco tempo eram considerados os “negros da Europa”,
adotaram a estratégia de atacar homens e mulheres negros utilizando as mesmas ferramentas
de violência da população branca nacional para assim se afastarem do estigma da pobreza,
escravidão e negritude. Dessa forma, reivindicaram o principal elo de ligação com a população
branca local; a cor da pele (Harris, 1999). Esse cenário de conflitos fez com que o pós-abolição
e a fase pós-Reconstrução fosse um dos períodos mais violentos da cidade (Quigley, 2004).
Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, um jovem engenheiro negro se preparava
para a viagem que marcaria sua vida. André Rebouças estava a caminho da Europa numa
jornada que terminaria nos Estados Unidos, só que agora não mais como estudante, mas
como engenheiro do Império Brasileiro. No auge da sua carreira, Rebouças estava ávido por
conhecimento e pelo acesso a novas tecnologias que levariam o Brasil para o caminho do
progresso, o que era sua grande meta. Nas notas que fez no seu diário antes de partir, ele
expressou as suas expectativas sobre essa experiência da seguinte forma: “A sua viagem é de
alguém que vai estudar e aprender” (Rebouças, 1938: 207.).
Ainda de acordo com seus registros pessoais, ao longo da sua estadia na Europa, Re-
bouças foi de fato tratado e reconhecido como um representante do Império Brasileiro. Nas
palavras do historiador Leo Spitzer, naqueles dias em que estava em solo europeu, Rebouças
certamente se sentia num ambiente seguro, afinal, na sua jornada de inserção no mundo das
elites, a forma como era tratado entre os europeus poderia sugerir que ele haveria conquis-
tado total reconhecimento. Ao que tudo indica, era assim que André Rebouças se percebia

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 243-266, janeiro-abril 2019 243
Luciana da Cruz Brito

intimamente e publicamente, como um membro das elites intelectuais. Seu status social, so-
fisticação e habilidades profissionais, notadamente reconhecidos pelo imperador, fariam com
que o engenheiro transitasse muito bem no universo das letras, das viagens e da cultura
clássica. Spitzer esforça-se para traduzir o quão complexa era essa condição de pessoas que,
como Rebouças, viviam entre “dois mundos”, sobretudo num momento das suas vidas em
que buscavam reconhecimento, ascensão social e participação no mundo das elites (Spitzer,
1989: 3-6).
O livre acesso e diálogo com as elites europeias, sobretudo aquelas ligadas à sua área
de atuação profissional, a engenharia, fez com que Rebouças tivesse notícias do que havia
de mais moderno no campo das obras públicas, sobretudo o sistema marítimo e o transporte
ferroviário. Foi ainda em Marselha, por meio do chefe marítimo daquela cidade, o doutor
Pascal, que ele obteve as primeiras informações fora do Brasil sobre a vanguarda dos portos
de Nova York. Segundo Rebouças, Pascal havia lhe dito que “no estado atual do comércio,
com os caminhos de ferro, os vapores e o telégrafo elétrico, não há outras docas possíveis que
as de Nova York” (Rebouças, 1938: 214). Todas essas notícias deixavam o jovem engenheiro
ainda mais ansioso para ver de perto a tecnologia empregada nos sistemas públicos da cidade
estadunidense. Num arroubo de excitação pela viagem que estava por vir, chegou a dizer que
havia ouvido aquelas palavras com surpresa e prazer, e ainda disse mais, que “dou graças a
deus por ter me inspirado desde 1867 nessas verdades (idem).
André Rebouças e o doutor Pascal compartilhavam a admiração pelas obras públicas dos
Estados Unidos. Os portos, as linhas de trens, a arquitetura moderna, tudo isso eram aspira-
ções dos dois engenheiros ansiosos por fazer parte do que havia de mais moderno no campo
da tecnologia. O brasileiro observou que o engenheiro Pascal tinha na parede do seu escri-
tório, emoldurado como uma obra de arte, o plano das docas de Nova York. Para aumentar
ainda mais a admiração do jovem engenheiro brasileiro, naquela época com 35 anos, Pascal
ainda lhe disse que as docas de Liverpool e Marselha deveriam ser demolidas e reconstruídas
“no sistema dos americanos” (ibidem, p. 215).
Segundo o historiador Antônio Higino dos Santos (2018), os planos de modernização do
Brasil sonhados por Rebouças se sustentavam numa associação entre uso de tecnologia, libe-
ralismo econômico, associacionismo e trabalho livre. Em 1867, Rebouças começou a defender
que os serviços de embarque e desembarque das docas fossem pagos, e que assim custeas-
sem o processo de modernização do porto do Rio de Janeiro. Em 1870, recebeu concessão
imperial para explorar as atividades nas docas por meio da empresa que criou, as Docas Dom
Pedro II. Não faltaram impasses às realizações dos planos de Rebouças, que acabou sendo

244 Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 244-266, janeiro-abril 2019
“Mr. Perpetual Motion” enfrenta o Jim Crow: André Rebouças
e sua passagem pelos Estados Unidos no pós-abolição

demitido da empresa que ele mesmo havia criado. Diante de tamanha decepção, resolveu
partir para a Europa e Estados Unidos em 1872. No seu diário, o jovem engenheiro afirmou
que a viagem servia de pretexto para fugir do constrangimento de ver escapar-lhe das mãos
o projeto das docas, projeto mediante o qual buscava realizar os seus maiores sonhos pes-
soais, que estavam diretamente ligados ao progresso do Brasil, tanto no regime de trabalho
empregado, o livre, quanto no que diz respeito ao processo de modernização do País (ibidem:
8-25). Contudo, veremos que escapar de uma decepção profissional e uma dor pessoal não
eram as principais razões da viagem de Rebouças. Sua viagem era uma turnê de pesquisa, de
aprendizado, como ele mesmo afirmou.
Quanto às impressões dos Estados Unidos que foram sendo construídas ao longo da
sua viagem, elas não eram aquelas do pós-abolição que mantinha a segregação racial e a
violência contra pessoas negras livres nas regiões Norte e Sul. Para Rebouças, os Estados Uni-
dos estavam representados na modernidade do seu sistema marítimo e ferroviário e também
no país que havia abolido a escravidão mesmo que isso significasse a sua divisão. Aquela
também seria a nação dos “direitos do homem”, que, desde o século XVIII eram descritos
como criados iguais, ideia presente na carta de independência, fundadora daquela nação. As
expectativas positivas sobre os Estados Unidos revelam que Rebouças não estava preparado
para o que iria vivenciar, ou que até mesmo havia subestimado os efeitos do regime do Jim
Crow sobre si mesmo.
É possível que Rebouças não soubesse que, mesmo sob o período da Reconstrução,
os avanços sociais conquistados pelos afro-americanos nem sempre estavam assegurados,
mesmo na Região Norte. Podemos sugerir que o engenheiro estava ansioso para ver de perto
o regime de trabalho livre naquela região, onde a escravidão fora abolida gradativamente
desde a primeira metade do século XIX. Contudo, também plausível pensar que Rebouças
sabia da violência racial disseminada nos Estados Unidos na década de 1870, mas acreditava
que não seria afetado pelo regime do Jim Crow, pois era estrangeiro e carregava o status de
representante do Império do Brasil.
O objetivo deste artigo é utilizar a passagem de Rebouças pelos Estados Unidos para
provocar duas reflexões. A primeira, e a mais importante neste texto, é entender o cenário
social e racial da Região Norte dos Estados Unidos durante a Reconstrução (1865-1877),
período de conquistas importantes para a população negra do País. Esse momento também
foi de graves tensionamentos, uma vez que a população branca do País resistia a aceitar a
população negra como parte do corpo social, como iguais e cidadãos. Assim, a passagem
de Rebouças é um fio condutor para que conheçamos essa realidade, na qual as políticas de

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 245-266, janeiro-abril 2019 245
Luciana da Cruz Brito

segregação racial, conhecidas como “Jim Crow”, ainda funcionavam de forma costumeira na
Região Norte, e posteriormente ganhariam amplo status legal e se consolidariam após o fim
de período.
O segundo objetivo deste texto é situar a passagem de Rebouças pelos Estados Unidos
como uma experiência de um viajante negro. Assim, desejo refletir sobre as especificidades da
população negra no mundo atlântico quando estavam em trânsito, sobretudo em sociedades
em que os códigos raciais e sociais poderiam variar. Portanto, não se trata de fazer uma bio-
grafia de André Rebouças, já amplamente pesquisada e disponível nos trabalhos referenciais
de Hebe Mattos (2016; 2018), Joselice Jucá, Leo Spitzer (1989), Maria Alice R. de Carvalho,
Sydnei Santos, Antônio Higino dos Santos (2018), entre outros. Nosso objetivo específico é
pensar como as categorias de classe, raça e gênero operam de diferentes formas a depender
do local por onde a pessoa negra viajante estivesse passando. Isso pode nos revelar não so-
mente o quão complexas eram as identidades mobilizadas por estas pessoas, como também
como os códigos de conduta e identificação racial, além de políticas de exclusão ou inclusão,
poderiam variar de um destino para outro durante e após a abolição.

O Norte dos Estados Unidos na era do Jim Crow

P ara a população negra dos Estados Unidos, viajar livremente era uma sinal de liberdade e
de cidadania. Na contramão desse significado, na primeira metade do século XIX, quan-
do os estados do Norte começaram um lento processo de abolição, homens e mulheres negras
que viajavam, e que antes eram tidos como fugitivos, agora eram tratados como criminosos.
O estado de Massachusetts, por exemplo, proibiu a entrada de imigrantes pobres em 1821,
dificultando a entrada no estado de pessoas negras que vinham da Região Sul. Viajar era
um privilégio que tinha classe, cor e gênero: somente homens brancos e de posses poderiam
adentrar vagões de trem e navios sem o medo de que pudessem ser violentados, agredidos
ou arrastados para fora do trem ou para uma parte mais barata e insalubre, mesmo tendo
comprado uma passagem de primeira classe (Pryor, 2016: 44-47).
No pós-abolição, o uso da violência era uma resposta à reivindicação da população
negra pela livre mobilidade como um direito. De acordo com a historiadora Elizabeth Pryor, a
presença negra nos vagões contrastava com o significado das ferrovias, então associadas ao
progresso e sofisticação. A década de 1860, que marcou uma revolução nos transportes, foi
também a década da Guerra Civil e da abolição. Para a população branca, inclusive, e talvez
sobretudo para aquelas pessoas que faziam parte da classe trabalhadora, a presença negra
nos vagões era deslocada desse contexto de modernização. Assim, o Jim Crow era um reper-

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“Mr. Perpetual Motion” enfrenta o Jim Crow: André Rebouças
e sua passagem pelos Estados Unidos no pós-abolição

tório de leis que proibiam e criminalizavam a presença negra nos trens, gerando suspeição,
vigilância e violência contra pessoas negras que estavam em trânsito (ibidem: 46-48).
Homens e mulheres negros viajando sozinhos, sobretudo se comprassem uma passagem
de primeira classe, também representavam uma ameaça por conta do medo da amalgamação,
ou mistura racial. Entendida como qualquer contato entre negros e brancos, fosse sexual ou
não, a amalgamação atentava contra a ideia da pureza de sangue, que se confundia com a
ideia de identidade nacional fortalecida no pós-abolição. Compartilhar o vagão ou o assento
com um homem negro, ainda que ele fizesse parte da burguesia, significaria um atentado à
segurança das mulheres brancas presentes, num momento em que o estigma do estuprador
ou sedutor negro era uma grande preocupação das famílias brancas. Evidentemente que as
mesmas preocupações não se aplicam às mulheres negras nos vagões, cuja presença só era
relativamente tolerada quando viajavam na condição de acompanhantes das famílias brancas.
Em situações diferentes dessa, elas eram alvo de abuso, assédio e violência (ibidem: 65-66).2
É importante situar que o Jim Crow surge na Região Norte, ainda na primeira metade
do século XIX. Na Região Sul, no pós-abolição, vigoravam de forma específica leis chamadas
de black codes, que passaram a valer logo após a abolição. Michelle Alexander (2017: 66-
73) define os “códigos negros” como leis criadas logo após o fim da Guerra Civil por elites
brancas sulistas movidas por um forte sentimento de “supremacia branca”. Assim, os “black
codes” eram leis que garantiam a permanência do trabalho forçado e criminalizavam práticas
ordinárias da vida de homens e mulheres afro-americanas, sobretudo dos homens. As leis de
vadiagem da época visavam punir e controlar pessoas negras com o intuito final de arrastá-
-las para o trabalho compulsório, mantendo assim o mesmo sistema de trabalho aplicado no
regime escravista, então recém-extinto. De acordo com Alexander, tudo isso era possível por
causa de uma brecha importante na lei da abolição declarada em 1863: ela acabava com o
cativeiro, mas o mantinha como punição por crime.
Após o período conhecido por Reconstrução, que, a partir de 1867 revogou estes códi-
gos negros, o Jim Crow se estabeleceria no Sul a partir de 1877 na forma de leis que só seriam
derrubadas na década de 1960, com o movimento em prol dos direitos civis. No final do sécu-
lo XIX, aquilo que Jerrold Packard (2002: 39-65) havia chamado de “proto-Jim Crow”, termo
pelo qual se referiu aos códigos negros, agora voltaria aplicando os princípios de segregação
racial, criminalização e vigilância da vida negra. Nesse sentido, a Ku Klux Klan cumpriria papel
fundamental ao usar o terror e a violência como práticas para intimidar e amedrontar a popu-
lação negra que ansiava por novas relações de trabalho, além de novas configurações sociais
e politicas na Região Sul pós-abolição.

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 247-266, janeiro-abril 2019 247
Luciana da Cruz Brito

Podemos dizer que na Região Norte, onde a abolição foi um processo iniciado desde
o início do século XIX, e onde vigoravam outras relações de trabalho, sociais e políticas, o
medo da mistura racial, ou amalgamação, justificou o surgimento do Jim Crow. A mesma
noção de white supremacy, em cada região, manifestou-se de formas distintas, mas produziu
uma imagem estereotipada e racista a respeito de pessoas negras escravizadas, e, no Norte,
sobretudo, das pessoas libertas. O exemplo da Região Norte nos revela que a abolição não
necessariamente significou o fim das crenças em distinções raciais.
De acordo com o historiador Richard Archer (2017: 92-93), não seria possível entender
as origens do Jim Crow sem compreender as hierarquias raciais vigentes nos vagões dos trens
da Região Norte. Segundo Archer, embora na década de 1830 não existissem leis segregacio-
nistas na região, qualquer condutor poderia, após a solicitação de passageiro branco, expulsar
uma pessoa negra de um vagão. O termo “Jim Crow” tem sua origem nas performances do
artista branco Thomas Rice, que já em 1832, maquiado com blackface, fazia performances
daquilo que acreditava ser o comportamento das pessoas negras. Obviamente, tais atuações
eram carregadas de racismo e preconceito, manifestos numa forma jocosa de falar, andar e
dançar que era característica de um dito personagem negro chamado de Jim Crow. As perfor-
mances de Rice eram feitas com na música “Jump Jim Crow” como canção de fundo. Assim,
já no início dos anos de 1830, “Jim Crow” era o termo pejorativo utilizado para se referir às
pessoas negras e a tudo relativo a elas (ibidem: 94-95).
Num importante trabalho sobre a cultura negra produzida no atlântico escravista e pós-
-escravista, a historiadora Martha Abreu (2017) nos mostra como a cultura popular e o merca-
do de entretenimento nos Estados Unidos no século XIX desempenharam um importante pa-
pel na disseminação de uma imagem infantilizada, debochada e desumanizante da população
afro-americana, fortalecendo o racismo e legitimando o Jim Crow. Ao mesmo tempo, aspectos
da cultura negra estadunidense, danças como o cakewalk, além dos spirituals e outras ex-
pressões de resistência cultural, caíram no gosto de uma plateia branca em busca de diversão
e exotismo. Assim, apropriações e paródias do que era um comportamento “tipicamente
negro” encenado por artistas brancos, e também negros, circularam nos Estados Unidos e na
Europa na segunda metade do século XIX, por meio de companhias de teatro e dança. Sendo
um apreciador de arte e cultura, é possível que, mesmo antes da sua primeira viagem aos
Estados Unidos, tenha sido mediante esses espetáculos, em solo brasileiro ou europeu, que
Rebouças tenha construído algumas das suas impressões sobre os negros estadunidenses.
Pessoas negras que viajavam nos transportes públicos demandavam a mesma respeita-
bilidade dirigida aos homens e mulheres brancas. No caso dos homens negros, estes reivin-

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“Mr. Perpetual Motion” enfrenta o Jim Crow: André Rebouças
e sua passagem pelos Estados Unidos no pós-abolição

dicavam algo mais, que era o reconhecimento da sua masculinidade. Muitas dessas pessoas
negras que enfrentavam as tais regras de trens segregados eram ativistas que denunciavam a
existência de um espaço distinto e insalubre destinado a pessoas negras dentro dos trens. Este
espaço, criado ainda nos finais dos anos 1830, foi chamado de “Jim Crow car”. O vagão se-
gregado foi preservado até o século XX por trabalhadores brancos que garantiam que negros
e negras não ultrapassassem aquele espaço, independente da sua classe social. Engajados no
movimento abolicionista ou não, viajantes negros denunciavam a existência do “vagão do Jim
Crow” e a violência que sofriam nesta parte do veículo (Pryor, 2016: 77-79).
No caso dos trens do Norte, esta era uma importante rota de abolicionistas e de negros
fugitivos do Sul, que, escondidos ou disfarçados, rumavam para a região em busca da sua
liberdade. Portanto, informações sobre o nível de vigilância e perseguição a pessoas negras,
assim como o uso da violência e a existência de segregação no transporte público eram
fundamentais. Entretanto, esse não foi o caso de André Rebouças, que, quando chegou a
Nova York em 9 de junho de 1873, esperava somente ser tratado como representante do
Império Brasileiro e reconhecido como um homem letrado, sofisticado e disposto a aprender
com o progresso tecnológico daquela que acreditava ser uma grande nação. Possivelmente
desavisado da dinâmica racial do País ou acreditando que as rígidas regras raciais não va-
leriam para ele, como estrangeiro, Rebouças não contava que os elementos que de alguma
maneira lhe protegiam da violência racial no Brasil, nos Estados Unidos fariam pouca ou
nenhuma diferença.

Rebouças encontra o Jim Crow

A ndré Rebouças chegou aos Estados Unidos ainda durante a Reconstrução (1865-1877).
Naquele momento, estava em questão um jogo de forças entre os republicanos, muitos
deles negros, e democratas ainda desgostosos com os avanços no acesso a direitos conquis-
tados pelos afro-americanos no pós-abolição.
No ano da chegada do engenheiro brasileiro, 1873, a cidade ainda refletia a tensão do
ano de 1870, que foi a primeira vez, desde o início do século XIX, que homens negros votaram
em condição de igualdade em relação aos homens brancos naquela cidade. Foram necessárias
duas medidas federais, uma em 1870 e outra em 1871, para garantir o respeito à 15a emen-
da, que estabelecia o direito de voto sem discriminação de raça ou cor. Tropas federais enco-
rajaram homens negros a se juntarem a eles na tarefa de assegurar um clima de estabilidade
na cidade no dia da votação, sobretudo na região conhecida como “Black Manhattan”. Isso

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 249-266, janeiro-abril 2019 249
Luciana da Cruz Brito

porque não faltaram atos de intimidação e violência praticados por eleitores brancos nos dias
que antecederam a eleição. O motivo para tais atos era a inconformidade com o fato de milha-
res de eleitores negros agora estarem dispostos a fazer valer seu direito ao voto. A cidadania
negra, garantida no período da Reconstrução pela 14a emenda, que reconhecia a cidadania
da população negra, além do sufrágio negro, foi motivo de protestos e de conflitos violentos
nas ruas da cidade. A luta por um significado de liberdade que se estendesse a todas as pes-
soas, nos anos 1870, acabou sendo uma ideia abandonada pelo governo federal e continuou
a ser pauta dos movimentos abolicionistas mais radicais (Quigley, 2004: 71; 2003: 300-306).
Assim, quando chegou a Nova York no verão de 1873, André Rebouças não esperava
que o clima de tensão racial da cidade afetaria seus planos, de maneira que ele seria impedido
de concretizar todos os seus projetos de viagem. Logo no desembarque, depois de quase
15 dias de viagem de Londres para Nova York, Rebouças demonstrou estranhamento com
relação à forma como foi feita a revista da sua bagagem. O viajante descreveu a revista como
“mais aparatosa do que rigorosa” (Rebouças, 1938: 245). Sem dar muitos detalhes, ele não
explicou o que aconteceu, mas cabe notar que a tal “revista” foi tão marcante que já valeu
um breve registro no seu diário. Como frequentemente acontece nos registros de viajantes
sobre a primeira impressão de um destino, não foi o clima, a paisagem ou o primeiro contato
com as pessoas locais que valeram o registro da sua primeira impressão sobre sua chegada
aos Estados Unidos.
Rebouças chegou a Nova York sozinho e parecia não estar preparado para os perigos a
que estava exposto, sobretudo se adentrasse espaços reconhecidamente hostis à população
negra. Seu primeiro contato com o racismo “à moda dos Estados Unidos”, como sabemos por
suas biografias e por seu próprio diário, foi nos hotéis. O nosso viajante não imaginava que
encontrar uma hospedagem no Centro de Manhattan seria tarefa tão difícil para um homem
negro. Na condição de visitante negro em uma cidade conflituosa e segregada, Rebouças
ouviu várias negativas dos diversos lugares onde tentou se hospedar. O primeiro foi o 5th Ave-
nue Hotel, fundado em 1856, que tinha a reputação de ser o mais elegante hotel da cidade.
Reconhecido como um local das elites políticas e econômicas do País quando de passagem
pela cidade, o hotel era conhecido como o local apropriado para a burguesia se hospedar
quando a caminho do Norte do País. Certamente, Rebouças recebeu essa recomendação e
acreditou que esse hotel era ideal para um homem como ele: sofisticado, membro das classes
privilegiadas, que estava de passagem por Nova York.
Foi já nessa primeira busca por aposentos que Rebouças entendeu que os códigos raciais
da sociedade estadunidense eram distintos daqueles dos países europeus por onde passara.

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“Mr. Perpetual Motion” enfrenta o Jim Crow: André Rebouças
e sua passagem pelos Estados Unidos no pós-abolição

De acordo com Leo Spitzer (1989), pessoas nessa condição de assimilação e mobilidade no
mundo das elites não se percebem o tempo inteiro como membros de um grupo subalterno.
No Brasil, sendo membro das elites nacionais e protegido por uma rede de amigos poderosos,
como a própria família imperial, Rebouças custou a aceitar a fragilidade e a localidade da sua
condição, que mudaria fora do território nacional. Ainda de acordo com Spitzer, momentos
como esse, de exclusão e rejeição, eram geradores de crises existenciais e incertezas, e pes-
soas nessa condição “intermediária” questionavam sua identidade, suas escolhas e seu ver-
dadeiro lugar no mundo (ibidem: 135; 145). No meio dessa possível crise de identidade pro-
vocada pela rejeição, Rebouças pode ter se sentido sozinho e inseguro como se tivesse sido
descoberto, semelhante à maneira como se sente um impostor. Foi ele mesmo que, depois de
algumas recusas, entendeu o motivo das recusas nos hotéis: “Depois de algumas tentativas,
compreendi que era a dificuldade da cor a causa das recusas de aposento” (ibidem: 245-246).
Rebouças fez o que deveria ser feito em situações como essa. Buscou apoio na sua rede
de proteção entre os amigos brasileiros, que eram cientes da sua condição de pessoa ben-
quista pelo imperador. Dirigiu-se então ao consulado brasileiro, e foi o filho do cônsul quem
se encarregou de lhe arranjar um quarto no Washington Hotel. Ainda assim, o problema não
estava resolvido por completo: a hospedagem se daria sob a condição de que o hóspede negro
fizesse as refeições no quarto, e nunca no restaurante. O quarto ficava no terceiro andar, num
aposento que ele descreveu como um “quartinho muito sujo”. Lá, Rebouças teria contato com
outros hóspedes no corredor, e, para evitar que isso ocorresse, ele logo foi transferido para ou-
tro aposento, dessa vez no térreo. O novo cômodo tinha saída direta para a avenida Broadway,
e ali ele não teria contato com nenhum hóspede branco nos corredores ou em outras áreas de
convívio, evitando assim que sua presença incomodasse outros visitantes (ibidem: 246).
Alguns fatores desse episódio nos revelam muito sobre as práticas segregacionistas dos
Estados Unidos e o choque de Rebouças com o Jim Crow. A forma como esse incidente foi tra-
tado pelo próprio cônsul brasileiro, Luiz Henrique Ferreira de Aguiar, nos revela a fragilidade
das redes de solidariedade e influência de Rebouças quando em território estadunidense. Em
se tratando de um representante do Império em visita oficial, questionamos se a questão da
hospedagem de Rebouças não deveria ser resolvida pelo próprio cônsul, e não pelo seu filho.
Além disso, a solução encontrada pelo filho do cônsul parecia estar longe de ser a mais apro-
priada, visto que as condições do quarto, tal como descritas pelo próprio Rebouças, estavam
longe daquilo que era o ideal para alguém do seu prestígio.
O cônsul, assim como seu filho, desapareceram das páginas do diário de Rebouças dali
por diante, não figurando entre as pessoas que o ajudariam em qualquer outro incidente.

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Luciana da Cruz Brito

Como morador de Nova York, certamente o cônsul estava ciente dos limites que Rebouças
encontraria no País, pois se tratava de um visitante negro. Não faltariam fontes desse tipo de
informação ao diplomata, uma vez que episódios como este vivido pelo engenheiro brasileiro
eram frequentemente noticiados na imprensa da época. Assim como aconteceu com Rebou-
ças, outros viajantes negros também se mostraram surpresos com o ambiente de hostilidade
racial, mesmo após a Guerra Civil e a abolição em todo o País.
Em 1866, portanto, um ano após o fim da Guerra Civil, o jornal abolicionista negro The
Christian Recorder publicou um episódio envolvendo um jovem advogado negro inglês. Na
carta publicada no jornal, o viajante denunciava o preconceito dos nortistas contra negros e
pessoas de cor. Segundo o advogado, numa curta passagem por Nova York, ele já esperava
ser tratado de forma discriminatória nos hotéis de Manhattan, mas seus companheiros de
viagem o garantiram que tais preconceitos haviam cessado desde o fim da guerra, o que o
convenceu a buscar hospedagem no mesmo hotel que seus amigos. Quando se dirigiram
para o French Hotel, o mesmo em que Rebouças se hospedaria, como veremos adiante, o
viajante encontrou resistência à sua acomodação. Por fim, aceitaram que ficasse somente
por uma noite, saindo na manhã seguinte. O advogado também teve seu acesso negado
em cafés, teatros e até mesmo na igreja. O problema da sua hospedagem foi resolvido pelo
capitão do navio inglês, que permitiu que ele descansasse na sua cabine de viagem até que
partisse para Liverpool.3
Elizabeth Pryor (2016: 85-91) nos informa como as práticas segregacionistas também
estavam carregadas de rituais de humilhação, sobretudo de uma classe média negra que
exigia o direito ao acesso a consumo de bens que acreditavam ser mais adequados ao seu
status social. De acordo com essa historiadora, a hostilidade e violência eram ainda maiores
em relação aos membros da burguesia negra, que naquele momento debatiam diversas es-
tratégias de respeitabilidade que pudessem amenizar a violência racial. Abolicionistas negros
frequentemente debatiam a melhor forma de enfrentar o Jim Crow: se sendo pacífico ou
reagindo à violência. Vestir-se ao modo das elites e adotar modos sofisticados também eram
estratégias debatidas, mas que não funcionavam diante da rigidez da segregação racial, que
não respeitava nem mesmo as personalidades negras mais conhecidas e influentes.
O Jim Crow também afetou os planos de Rebouças de outra forma. Uma prática que
manteve nas cidades europeias, que era frequentar a ópera, foi impossível na Nova York
segregada. É interessante perceber que Rebouças não se sentiu intimidado e tentou manter
seus planos, inicialmente ignorando (ou enfrentando) o Jim Crow, mesmo depois dos episó-
dios nos hotéis. Podemos nos questionar se alguém advertiu Rebouças, informando-o sobre

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“Mr. Perpetual Motion” enfrenta o Jim Crow: André Rebouças
e sua passagem pelos Estados Unidos no pós-abolição

as hostilidades e a tensão racial vigentes na cidade. Sendo um homem de gosto refinado e de


grande acúmulo intelectual e cultural, certamente ser impedido de assistir a um espetáculo,
sobretudo se o motivo era a cor de sua pele, teria lhe deixado chocado, mas, como veremos,
mesmo assim ele não desistiu de levar adiante seus projetos de viagem (Rebouças, 1938: 246;
Spitzer, 1989: 141).
Quando o incidente no teatro Opera House aconteceu, Rebouças estava acompanhado
de José Carlos Rodrigues, jornalista brasileiro residente em Nova York. Foi ele quem explicou a
Rebouças sobre os códigos raciais e a segregação nos Estados Unidos. Foi também Rodrigues
que, para consolar o amigo, contou-lhe que até mesmo o grande abolicionista Frederick Dou-
glass “velho amigo do presidente Grant”, havia sido rejeitado nos hotéis da capital, Washin-
gton (Rebouças, 1938: 247). Este episódio foi fundamental para que Rebouças entendesse a
sua condição nos Estados Unidos, porque ele certamente encontrou muitos pontos em comum
na sua trajetória e na do abolicionista. Ambos eram conhecidos das elites dos seus países,
ele, do Imperador, e Douglass, do presidente Lincoln. Rebouças descreve Douglass como “o
mulato Douglass”, fazendo menção à origem birracial dos dois. Não por acaso, Rodrigues usa
o exemplo de Douglass e não dos diversos casos de anônimos vítimas do regime do Jim Crow.
O reconhecido brilhantismo de Douglass como escritor e intelectual negro seria importante
para que Rebouças entendesse que sua condição social não o protegeria da violência racial
nos Estados Unidos.
Esse reconhecido pertencimento às elites intelectuais nos faze pensar em outras possí-
veis semelhanças entre as personagens de Frederick Douglass e André Rebouças. Segundo
o historiador John Stauffer, a “autorrepresentação” foi uma estratégia muito empregada por
Douglass para construir sua imagem de pessoa pública. A função de orador era a forma utili-
zada por Douglass para construir sua persona e convencer plateias de brancos e negros sobre
os horrores da escravidão. Já Rebouças, talvez menos simpático aos parlatórios, legitimava-se
social e politicamente como homem das ciências com os olhos voltados para o futuro. Assim,
cada um a seu modo encontrou uma forma de se colocar socialmente, da maneira que consi-
deraram digna, num ambiente em que supostamente não deveriam estar, desafiando de forma
muito particular os códigos das sociedades escravistas americanas (Stauffer, 2007: 201-217).
Contudo, entre as várias diferenças nas vidas de André Rebouças e Frederick Douglass,
a mais importante delas é que, enquanto Douglass falava na condição de um homem que
havia vivido na condição de escravizado, André Rebouças descrevia as experiências de um
homem livre, que nunca experimentara o cativeiro e que, a despeito da sua cor da pele, sem-
pre vivera entre as elites políticas e intelectuais brasileiras. Essa grande diferença marcaria a

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Luciana da Cruz Brito

forma como Douglass e Rebouças entrariam no cenário político dos seus países. Enquanto o
engenheiro brasileiro teve acesso a toda uma educação formal, inclusive na Europa, focada
principalmente, pelo menos até a década de 1860, no mundo da ciência e da tecnologia,
Douglass entrou na vida pública ainda na condição de escravo, sendo uma voz importante do
movimento abolicionista (idem).
Nesse sentido, pela experiência do cativeiro e pelo uso da oratória e da escrita como
armas de denúncia contra os horrores da escravidão, e os clamores pela cidadania das po-
pulações negras nas Américas, podemos aproximar Douglass do abolicionista brasileiro Luis
Gama, também ex-escravo que se tornou um dos maiores intelectuais brasileiros do século
XIX, atuando como advogado abolicionista desde a década de 1860 (Ferreira, 2011). Di-
ferenças a parte, as histórias de Douglass, Gama e André Rebouças demonstram o quão
diversa poderia ser a experiência negra e masculina nas Américas ao mesmo tempo em que,
a despeito das barreiras geográficas, todas as suas vidas e experiências eram marcadas pela
sua condição racial.
Até antes da década de 1870, Rebouças não era um abolicionista e não se colocava pu-
blicamente como um homem negro. Enquanto isso, Frederick Douglass, já na década de 1830,
era uma reconhecida liderança nacional e internacional do movimento abolicionista, e começou
a desafiar a prática de Jim Crow nos trens, recusando-se a ir para um vagão de negros a partir
de 1841 (Archer, 2017: 98-99). Quando Douglass tentava ser atendido em qualquer estabe-
lecimento público do Norte dos Estados Unidos, ele sabia que seria vítima do Jim Crow, não
importava sua condição de amigo do presidente ou de personalidade negra pública. Ainda as-
sim, Douglass fazia isso porque tinha em mente o acesso a espaços públicos como um direito,
na condição de cidadão estadunidense. Ele também demandava respeitabilidade na condição
de homem das elites intelectuais do País, e exigia que fosse tratado da mesma forma que um
homem branco naquela condição. Douglass acreditava que as pessoas que compunham uma
burguesia negra eram as maiores vítimas do ódio branco, porque desafiavam lugares raciais e
estereótipos, contrariando argumentos de que pessoas negras deveriam estar num determina-
do lugar racial porque eram inferiores biológica e socialmente (Pryor, 2016: 67-68).
Frederick Douglass vivia o dilema de carregar em si o aparente paradoxo de ser negro e
estadunidense, vivenciando aquilo que, anos mais tarde, o intelectual negro William Edward
Burghardt du Bois (2003: 9) chamaria de “dupla consciência”. Provavelmente, Rebouças não
vivia exatamente esse mesmo sentimento naquele momento, visto que o fato de ser um ho-
mem negro, uma identidade que ele ainda não evocava veemente e publicamente naquela
época, não estava em choque com sua condição de cidadão brasileiro. Pelo menos até certo

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“Mr. Perpetual Motion” enfrenta o Jim Crow: André Rebouças
e sua passagem pelos Estados Unidos no pós-abolição

momento, ser negro e ser brasileiro,, para Rebouças não era uma contradição. Talvez o fato
de ele ser um dos atores principais da política nacional, e a sua proximidade com a família
imperial e sua dedicação a projetos que estivessem voltados para a modernização da nação
sejam indicativos do seu sentimento de pertencimento ao seu país. A historiadora Hebe Mattos
(2018: 74-123), que também se dedicou extensamente a entender como essa viagem para os
Estados Unidos e o exílio no continente africano impactaram os projetos políticos e subjetivi-
dade de Rebouças, afirma que o engenheiro estava em busca de modelos de modernização
em sociedades pós-escravistas que incluíssem pessoas negras nesse processo. Nesse sentido,
Mattos, que acompanhou a trajetória de Rebouças até sua morte, mostra como, processual-
mente, o engenheiro vai entendendo seu lugar no mundo e a sociedade brasileira sob a chave
do racismo, ao mesmo tempo que fortalecia sua identidade como homem negro. Esse processo,
de forma mais intensa, é também tributário dessa viagem aos Estados Unidos e daquilo que
viu, em termos de avanços tecnológicos, e daquilo que vivenciou numa sociedade segregada.
Rebouças acreditava, até sua partida definitiva do Brasil, que seu país poderia agregar aquilo
que nos Estados Unidos era impossível: modernização e cidadania para as pessoas negras.
Ainda segundo Mattos, é somente em 1892, quando decidiu imigrar para o continente
africano, é que Rebouças manifesta publicamente seus dilemas na condição de cidadão negro
de uma nação que não lhe acolhe. Foi nesse período que Rebouças passou a ver o continente
africano como “terra de origem” e a se declarar como homem negro, meio brasileiro e meio
africano. As motivações para seu exílio seriam idênticas àquelas que fariam Du Bois também
migrar para a África e rejeitar a cidadania estadunidense (idem).
Na década de 1870, é possível que Rebouças acreditasse que episódios de preconceito
racial como os vividos por seu pai enquanto era conselheiro do Império estivessem superados.
Ele dificilmente seria barrado nos estabelecimentos públicos do Rio de Janeiro, visto que os
códigos de discriminação racial no Brasil eram outros. Portanto, após uma passagem pela Eu-
ropa, onde experimentou uma completa liberdade de trânsito e de acesso a locais públicos, a
vivência com o Jim Crow nos Estados Unidos certamente foi objeto de dor pessoal e constran-
gimento registrados em segredo no seu diário. Enquanto isso, Frederick Douglass, que era um
militante da causa da igualdade e cidadania para a população negra e das mulheres, transfor-
mava esses episódios em que era vítima de violência racial em fatos públicos e políticos. Além
disso, ele estimulava toda a comunidade negra estadunidense a fazer a mesma coisa. Tornar
público o preconceito e violência racial nos Estados Unidos, inclusive internacionalmente, era
uma importante estratégia para evidenciar o racismo na nação que se proclamava “terra da
liberdade” (Brito, 2014).

Estudos Históricos Rio de Janeiro, vol 32, nº 66, p. 255-266, janeiro-abril 2019 255
Luciana da Cruz Brito

Longe de compartilhar do radicalismo abolicionista de Douglass, no verão de 1873,


Rebouças ainda tentava sobreviver na Nova York segregada do pós-abolição, o que não
deixava de, ao seu modo, ser uma forma de enfrentamento, como veremos. Os irmãos Lid-
gerwood, que eram seus amigos e também engenheiros, trataram de acompanhar Rebouças
em sua jornada pela cidade já no dia 10 de junho, portanto, um dia após a sua chegada.
Eles sabiam que, na condição de homens brancos, poderiam evitar muitos desses episódios
ao atestarem que Rebouças era um homem negro confiável, ou sob controle. Rebouças logo
entendeu isso, e registrou que, a partir daquele momento, pelo menos um dos irmãos ou
o próprio José Carlos Rodrigues o acompanhariam para evitar “dificuldades do prejuízo de
cor” (Rebouças, 1938: 246).
Foi John Lidgerwood quem o acompanhou quando deixou Nova York e seguiu mais para
o norte do país em uma curta viagem em que esperava conhecer o sistema ferroviário e algu-
mas fábricas ao longo do caminho. As dificuldades causadas pelo Jim Crow, obviamente, con-
tinuaram. Quando tomou o luxuoso navio Providence, construído em 1866 para fazer a rota
de New York para o norte com destino final em Rhode Island, Rebouças não imaginava que,
mesmo na companhia do amigo branco, teria que seguir viagem num vagão para coloreds. O
brasileiro não mencionou esse fato no seu diário, somente registrou que os vagões eram mui-
to simples, e que “os passageiros de menos educação jogavam cartas sobre as mesas e davam
fortes socos sobre as mesmas” (ibidem: 248). Sendo o Providence um navio luxuoso, imagi-
namos que esse tipo de coisa não acontecia nas cabines regulares ou nas da primeira classe,
nas quais provavelmente Rebouças encontraria em outras condições. Já que o transporte
público também era segregado, fossem navios ou trens, Rebouças provavelmente não viajou
na companhia do amigo, tendo sido conduzido para um vagão de negros. Tentar contestar o
lugar da viagem poderia gerar um episódio de violência, como constantemente acontecia. Os
vagões e cabines eram verdadeiras zonas de combate e disputas entre abolicionistas radicais
que demandavam sua cidadania e funcionários de trens e vapores (Pryor, 2016: 86).
Ainda segundo Pryor, foram os trabalhadores dos trens que criaram o termo “Jim Crow
car”. Quando negros reivindicavam um assento nos melhores vagões, para os trabalhadores
brancos pobres, aqueles passageiros estavam invertendo a ordem da supremacia branca que
lhes conferia privilégios raciais e que seguiria mantida no pós-abolição. O possível convívio
entre negros e brancos numa condição de igualdade era entendido como um nivelamento das
condições raciais, o que significaria a perda de vantagens garantidas pela cor da pele. O pri-
vilégio racial teria nesses trabalhadores seus maiores defensores, que garantiam que pessoas
negras viajassem em vagões insalubres, impedindo que eles acessassem outros espaços. Fre-

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“Mr. Perpetual Motion” enfrenta o Jim Crow: André Rebouças
e sua passagem pelos Estados Unidos no pós-abolição

quentemente, estes trabalhadores contavam com o apoio de outros funcionários e viajantes


para agredir pessoas negras que insistissem em reivindicar o direito aos melhores aposentos,
ainda que tivessem comprado assentos na primeira classe (ibidem: 90-96).
Rebouças, então, talvez orientado pelo amigo, decidiu acatar as regras locais, ainda que
a contragosto. Na sua viagem pelo Norte dos Estados Unidos, o dinheiro e o prestígio de re-
presentante oficial do Império Brasileiro não lhe permitiriam ter acesso aos bens de consumo
sofisticados aos quais estava habituado. Ele reclamou de tudo, dos quartinhos sujos em que
dormiu, do banheiro da barbearia onde foi obrigado a tomar banho, e cujas toalhas eram “pe-
quenas e mesquinhas” (Rebouças, 1938: 246), dos passageiros barulhentos e mal educados
do vagão em que viajou. Portanto, indagamos por que Rebouças não mencionou a dinâmica
racial dos vagões? Por que omitiu esse fato? Por que resolveu negar a segregação dos vagões,
afirmando que “os vagões de trem dos EUA não estavam divididos por classe como na Euro-
pa” (ibidem: 246). Rebouças de fato afirmou que havia vagões para imigrantes, mas omitiu a
existência do Jim Crow car, mesmo que, provavelmente, tenha viajado em um deles.
Devemos fazer o esforço de entender o impacto dessa experiência de violência racial
para responder a tais questões. O relativo silêncio de Rebouças a respeito de detalhes da
segregação racial na sociedade estadunidense pode também ter sido orientado pela sua es-
tratégia familiar de sobrevivência no mundo dos brancos. De acordo com Keila Grinberg, o pai
de André, Antônio Rebouças, silenciou em vários dos episódios de violência racial que sofreu,
inclusive com relação às acusações de estar envolvido em revoltas de escravos (2002: 67-95).
Spitzer (1989: 121-122) interpreta o silêncio como uma forma de minimizar a existência da
discriminação, que seria combatida com uma ação individual positiva e/ou uma leitura otimis-
ta dos fatos. Esse “otimismo” se manifestaria nos registros de demonstração de aceitação
e integração no mundo das elites da época. Para Spitzer, foi essa estratégia, em vez de uma
contestação aos privilégios e à necessidade de validação no mundo branco, o ensinamento
que Antônio legou aos seus filhos para que ascendessem socialmente, ainda que numa so-
ciedade escravista.
Contudo, é possível apontar outras possibilidades de interpretação destes supostos si-
lêncios, se é que existiram por completo. A historiadora Hebe Mattos (2016), na busca por
entender como o racismo impactou as subjetividades e a construção das identidades dos ho-
mens da família Rebouças, indica que o patriarca, o conselheiro Antônio Rebouças, apontou
como a questão da raça era determinante na política imperial brasileira. Ele foi defensor da
imigração de africanos livres, quando se afirmava publicamente que o africano era a causa do
atraso e do barbarismo no Brasil. Além disso, ele denunciou quando argumentos relativos à

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cor da sua pele foram mobilizados por inimigos políticos, que inclusive o acusaram de líder de
revoltas, ou “haitianismo”.
No caso de André Rebouças, é possível que a escolha por não revelar (ou denunciar)
detalhadamente o sistema do Jim Crow fosse porque ele estava atento à dinâmica do racismo
estadunidense e incerto, naquele momento, sobre os possíveis impactos de tais informações
no Brasil. Tornar público o registro das práticas de segregação numa sociedade pós-abolição
pode ter sido entendido como algo perigoso ou não apropriado no Império ainda escravista.
André Rebouças também pode ter avaliado que divulgar as recusas da sua presença nos es-
paços públicos, podia significar mais exposição pessoal, munindo seus adversários com mais
argumentos racistas em futuros conflitos. Talvez, antecipando ser ridicularizado na sua volta
ao Brasil, é plausível pensar que possivelmente Rebouças deixou seus queixumes e indignação
para as conversas com os amigos mais íntimos, como Rodrigues.
No mais, não só o racismo impactou sua viagem, como também a modernização que
tanto queria ver de perto. Vejamos como André lançou mão desses registros de aceitação para
provar aos outros, e a si mesmo, que os casos de violência racial eram pontuais, ainda que
no Norte dos Estados Unidos durante o Jim Crow. Ao longo da viagem pelo Norte, o enge-
nheiro vivenciou outros episódios de discriminação, sobretudo em restaurantes. Durante uma
parada de 20 minutos para uma refeição na cidade de Wicca, ele registrou que aquela seria
a primeira vez ao longo da viagem que o dono do restaurante reclamou sobre “sua cor”. Um
fato a se notar é que Rebouças estava acompanhado do amigo John Lidgerwood, que estava
tentando fazer o amigo acessar os mesmos lugares que ele, um homem branco. Isso fazia de
Rebouças totalmente dependente da validação do anfitrião, que tinha a função de garantir
que o colored que o acompanhava se comportaria bem. Não sabemos se Rebouças se recusou
ou se John Lidgerwood não o orientou a utilizar banheiros, restaurantes e outros espaços
destinados a pessoas de cor. John Lidgerhood optou por enfatizar a excepcional personalida-
de do amigo negro e sua condição de estrangeiro como uma forma de convencer o dono do
restaurante de que Rebouças não fazia parte da dinâmica em que estavam localizados negros
e brancos nos Estados Unidos.
Ainda em Wicca, também no restaurante, Rebouças registrou satisfeito que o amigo in-
tencionalmente abusava a cada momento do tratamento de doctor ao se dirigir a ele. Essa era
uma tentativa de fazer com que Rebouças fosse aceito nos espaços segregados, de distingui-lo
dos demais negros, afastando assim o visitante brasileiro de qualquer associação com os mi-
lhões de afro-americanos trabalhadores que viviam no Norte do país. Aliás, parece que pouca
ou quase nenhuma foi a interação entre Rebouças e a população negra local, à qual, de forma

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“Mr. Perpetual Motion” enfrenta o Jim Crow: André Rebouças
e sua passagem pelos Estados Unidos no pós-abolição

distante e em terceira pessoa, ele se referia como “negros”, “mulatos” ou “pretos”. Além da
cidade de Titusville, o engenheiro notou que em Pittsburg e na Filadélfia o serviço nos trens e
nos hotéis era feito por afro-americanos, que eram parcela considerável da população nesses
locais. Na Filadélfia, por exemplo, era marcante a presença negra, tanto entre as elites quanto
entre os trabalhadores sulistas empobrecidos que fugiam do Sul e imigravam para o Norte num
movimento que ficou historicamente conhecido como “great migration” (Berlin, 2010).
Além da rápida menção a Frederick Doulglass e às atividades dos trabalhadores, nada
mais foi dito sobre a comunidade negra, mesmo aquela com que possivelmente Rebouças pu-
desse estabelecer uma identidade de classe, além de racial. Vindo de um país ainda escravista,
Rebouças aparentemente não conheceu o movimento abolicionista negro estadunidense, nem
mencionou ter tido acesso aos jornais da imprensa negra, ou mesmo ter frequentado espaços
da comunidade negra. Ainda de acordo com Spitzer (1989: 119-126), isso fazia parte de um
pacto silencioso entre a família Rebouças e as elites de quem buscavam acolhimento. O preço
pela aceitação era o distanciamento dos outros membros da comunidade negra. Aqui, amplo
conceito de embranquecimento utilizado por Spitzer, que o define como um franco processo
de clareamento da pele por meio de relações sexo-afetivas com pessoas brancas. Entendo o
embranquecimento também como uma espécie de “embranquecimento social”, que é esse
mergulho no mundo das elites brancas como forma de aceitação social, sobrevivência e prote-
ção individual, além de outras afinidades. Assim, a família Rebouças também afirmava, pelas
palavras e pelos atos, que compartilhava dos valores desse universo social, sendo um deles
o fato de também serem senhores de escravos.Contudo, é também possível que Rebouças
simplesmente não tenha tido a chance de conhecer abolicionistas negros porque eles estavam
fora do círculo de amizades dos seus anfitriões brasileiros, que eram brancos. Ademais, esse
é o Rebouças do início da década de 1870, aquele das décadas seguintes, que evocava poli-
ticamente sua identidade racial, certamente haveria feito outras escolhas durante a viagem.
Ao longo da passagem pelo Norte, outros episódios de segregação nos restaurantes
aconteceram. Sabemos que dormiu com fome por duas noites e só conseguiu se alimentar
no hotel Binghamhouse, sob a condição de fazer as refeições no quarto. Ainda assim, a via-
gem pelo Norte também teve seus aspectos positivos, que também foram registrados. Tal
como planejava, ele visitou diversas obras públicas e empreendimentos modernos, como
estaleiros, fábricas de algodão, a ponte que transportava os carros dos Estados Unidos
para ao navio para com destino para o Canadá, e considerou essa obra “uma das mais
belas coisas que a engenharia tinha produzido” (Rebouças, 1938:249). Admirou a beleza
de Niagara Falls, da cidade de Lowell, e dos edifícios de estilos diversificados da cidade de

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Boston. As cidades e estradas arborizadas lhe fizeram pensar em desenvolver a silvicultura


no Brasil. Mas Rebouças não fez somente elogios a tudo o que viu; também foi crítico, e um
exemplo disso foi quando recriminou as ruas da Filadéfia, que, segundo ele, eram “sujas e
mal calçadas” (ibidem: 253).
Todas estas foram distrações importantes, que talvez tenham feito o jovem engenheiro
se esquecer um pouco dos episódios ocorridos nos hotéis de Nova York, e que continuariam
a acontecer na volta para a cidade, no dia 18 de junho. No seu retorno, vivenciou a mesma
dificuldade de encontrar hospedagem. Já era noite, e Rebouças não havia encontrado um
aposento, até que seu amigo John Lidgerwood decidiu compartilhar com ele um quarto de
hotel. No dia seguinte, Rebouças mudaria novamente de hospedagem, e acabou se transfe-
rindo para o French Hotel após uma reserva feita pelo amigo brasileiro José Rodrigues, que o
hospedou num quarto localizado bem próximo ao seu. Este era o mesmo estabelecimento em
que um já mencionado homem negro de Liverpool havia encontrado recusas para se hospedar
anos antes. Ao que parece, a esta altura, os irmãos Lidgerwood e o jornalista brasileiro esta-
vam muito preocupados com o amigo viajante, e entenderam que deveriam permanecer bem
próximo dele, evitando assim que ele se envolvesse em problemas. Podemos fazer um esforço
e imaginar o quão constrangedor deve ter sido para Rebouças, um homem autônomo e sofis-
ticado, depender dos seus amigos durante toda essa viagem para executar tarefas cotidianas.
Mais ainda, podemos especular que o mais intrigante para ele era que isso ocorria na terra
da liberdade, que tanto admirava. Outro fator que também certamente afetou Rebouças foi o
motivo da rejeição que sofria: a cor da sua pele.
Com tantos episódios embaraçosos e constrangedores, deve ter sido importante para
Rebouças ter recebido uma singela homenagem do guardador de livros do jornal Novo Mun-
do, periódico brasileiro que circulava naquela cidade desde 1870, e que tinha por editor chefe
e fundador o já conhecido amigo de Rebouças, José Carlos Rodrigues. Na visita ao jornal, o
engenheiro foi surpreendido com o entusiasmo de um funcionário, que, admirado com a jor-
nada do viajante pelo Norte do país, propôs que fosse publicada uma matéria cujo título seria
“Mr. Perpetual Motion Rebouças”. A alcunha de “Senhor em constante movimento” seria
uma referência à sua inquietude e sede de conhecimento, que levava o jovem engenheiro a
diversos destinos, a despeito dos desafios que encontrou. “Perpetual Motion” também dava
uma ideia de progresso e mudanças, elementos que sempre fizeram parte dos projetos de
Rebouças para um Brasil moderno. A modéstia do nosso engenheiro fez com que, ao que pa-
rece, ele não permitisse que o artigo sobre suas viagens pelo Norte dos Estados Unidos fosse
publicado. Ainda que o fosse, o artigo não daria conta de expressar todas as suas experiências

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“Mr. Perpetual Motion” enfrenta o Jim Crow: André Rebouças
e sua passagem pelos Estados Unidos no pós-abolição

durante essa viagem. A insistência em manter sua agenda em Nova York fortalece ainda mais
seu caráter de inquietude e busca, fazendo de André Rebouças um homem em constante
movimento e em contínua transformação pessoal. Ao seu modo, também enfrentou as regras
de segregação que lhes foram impostas, uma vez que não desistiu dos seus compromissos de
viagem nem se intimidou diante das recusas que recebeu.
No ano de 1892, quando chegou no continente africano após abandonar seus so-
nhos para o Brasil moderno e livre, Rebouças seria um outro homem, diferente daquele que
havia visitado os Estados Unidos na década de 1870. O objetivo da viagem também seria bem
distinto daquele que o levara para os Estados Unidos. Conforme declarou, ele havia ido para
a África do Sul para “combater a escravidão e o monopólio territorial” (Mattos, 2018:92).
Como nos mostrou Hebe Mattos na sua busca por evidências que deixassem pistas sobre um
novo momento da vida do engenheiro, em que a identidade racial e o combate ao preconceito
de cor eram sentimentos pulsantes, o Rebouças de então era um vocal combatente do racismo
que chamava o Jim Crow de “brutalidade yankee”. Por uma coincidência muito interessante,
naquele mesmo ano de 1892, a vida do engenheiro André Rebouças seria divulgada e cele-
brada nos jornais nortistas estadunidenses, que o descreviam como “o maior engenheiro do
Brasil”. A biografia de Rebouças foi apropriada nos jornais num contexto de denúncia do Jim
Crow estadunidense, através de uma conhecida estratégia, que era apontar o Brasil como
uma nação sem preconceito racial.4

State Capital, Springfield, Illinois, 13 de Agosto de 1892.

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Luciana da Cruz Brito

Ao longo do artigo, o exemplo brasileiro, evidenciado na trajetória do engenheiro Re-


bouças, era utilizado para questionar as crenças científicas muito consolidadas nos Estados
Unidos desde a primeira metade do século XIX, que afirmavam que indivíduos de origem bir-
racial, os ditos mulatos, carregavam as piores características dos ancestrais negros e brancos
(Fredrickson, 1971). Ao descreverem aquele que era anunciado como “o maior engenheiro do
Brasil” como um mulato, Rebouças servia para eles como prova das capacidades intelectuais
de negros e mulatos e da possibilidade de lealdade patriótica que potencialmente também
carregavam os negros estadunidenses. Também circulava na matéria, que foi replicada em
diversos jornais estadunidenses, o suposto episódio de um baile ocorrido no palácio real do
Império Brasileiro em que Rebouças, desafiando mais uma vez o Jim Crow estadunidense,
recebe uma negativa de uma visitante branca da cidade de Baltimore, após convidá-la para
dançar. O constrangimento é resolvido quando a própria princesa Isabel convida o engenheiro
negro para dançar com ela mesma, aos olhos de todos os convidados, inclusive da própria
estadunidense. Essa seria uma forma de mostrar à estrangeira que, no Brasil, pelo menos
para um grupo seleto de pessoas negras, as coisas eram diferentes do seu país segregado:
no Império, o negro André era, antes de mais nada, o engenheiro André Rebouças, amigo da
família imperial.

Considerações finais

P ara os negros que viviam nos Estados Unidos no pós-abolição, ser cidadão também era
ter direito a transitar por onde quisessem, além de poderem viajar sem correr o risco de
sofrer um ataque, muitas vezes, violento. Segundo muitos deles, foi somente fora do país
que experimentaram pela primeira vez a sensação de liberdade e tranquilidade durante uma
viagem . Foi na Europa que abolicionistas negros como William G. Allen, Frederick Dou-
glass, William Wells Brown, entre outros, afirmaram terem sido reconhecidos e tratados como
homens e cidadãos. O respeito à sua condição racial, de gênero e de classe era aquilo que
vinham exigindo no seu país natal. No pós-abolição, enquanto a população branca, composta
tanto pelas elites quanto por trabalhadores pobres, tentava consolidar uma sociedade pós-es-
cravista organizada por regras de hierarquia e diferenciação racial. E a população negra tinha
outros planos, e tentavam imprimir naquele momento como uma nova fase de igualdade e
cidadania expandida para todas as pessoas daquele país.
Quando estes abolicionistas negros estadunidenses estavam viajando pelo mundo, a
ausência do Jim Crow os fazia acreditar que essa sociedade sem barreiras raciais era possível.
Assim, os mesmos sujeitos, quando viajantes, transitando em realidades sociais distintas,

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e sua passagem pelos Estados Unidos no pós-abolição

poderiam vivenciar diferentes sensações e atribuir novos significados ao seu lugar no mundo
e à sua terra natal. Nesse sentido, Paul Gilroy já havia indicado a importância de se analisar as
experiências de viajantes negros como forma de se entender diferenças culturais importantes
para a história do atlântico negro, além do impacto da transitoriedade na formação de novas
identidades.
Quando André Rebouças chegou aos Estados Unidos em 1873, ele estava indo para um
destino que estava na “contramão da cidadania”, mergulhando no paradoxo estadunidense
nos anos finais da Reconstruçã