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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ

CENTRO DE ESTUDOS SOCIAIS APLICADOS

MESTRADO ACADÊMICO EM POLÍTICAS PÚBLICAS E SOCIEDADE

REBECA MOREIRA RANGEL

COMANDO TÁTICO RURAL: ENTRE O TRABALHO PRESCRITO E


O REAL NA BUSCA DE SER - “UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL” PARA
AS COMUNIDADES DO INTERIOR DO ESTADO

FORTALEZA – CEARÁ
2015
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REBECA MOREIRA RANGEL

COMANDO TÁTICO RURAL: ENTRE O TRABALHO PRESCRITO E


O REAL NA BUSCA DE SER - “UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL” PARA
AS COMUNIDADES DO INTERIOR DO ESTADO

Dissertação submetida à Coordenação do Curso de


Mestrado Acadêmico em Políticas Públicas e
Sociedade, da Universidade Estadual do Ceará,
como requisito parcial para obtenção do título de
Mestre.

Orientador: Prof. Dr. João Bosco Feitosa dos


Santos.

FORTALEZA – CEARÁ

2015
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Aos Policiais do Batalhão de Polícia de


Choque da Polícia Militar do Ceará, que
desempenham seu trabalho com bravura e o
empenho de suas vidas.
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AGRADECIMENTOS

A Deus, por sempre me haver abençoado e me confortado em todos os momentos de minha


vida.

Ao meu pai, Abelardo, e minha mãe, Liliana, por terem me criado com todo o amor e carinho,
por terem investido em mim e por sempre estarem ao meu lado, me ensinando, me cobrando,
me motivando e acreditando no meu potencial.

Às minhas irmãs Lilia e Deborah, por sempre terem sido as irmãs e amigas, ajudando,
confortando, estimulando e acompanhando.

Ao meu namorado, Rafael, por sempre estar do meu lado como namorado e companheiro,
incentivando quando estava desmotivada e compreendendo quando estava ocupada com meus
estudos, além de sempre me fazer rir quando eu precisava.

A minha pequena Rebeca, que esperava ansiosamente o fim deste trabalho, sempre torcendo a
cada página escrita.

Ao meu Orientador, Prof. Dr. João Bosco, que, desde o início, me acolheu, compreendeu
minhas dificuldades, estimulou minhas virtudes e me passou a tranquilidade necessária à
obtenção do meu objetivo.

A todos os policiais do Batalhão de Choque da Polícia Militar do Ceará, representados por:


Comandante Major Alexandre, Capitão Alkimar e Capitão Rodrigues que, desde o início, me
aceitaram nos seus trabalhos e nas suas vidas, confiaram em mim e contribuíram para minha
formação pessoal e profissional.

À grande amiga Aline, que compartilhou as noites de sono perdidas, as angústias e as alegrias
desse percurso, incentivando, rindo e chorando comigo, que tornou tudo isso mais prazeroso.

As minhas amigas Veridiana, Karla e Rebeka, simplesmente por serem minhas verdadeiras
amigas, compreendendo minhas angústias e me incentivando.

Aos Professores Doutores Regina Maciel e Geovani Jacó, integrantes da banca avaliadora da
qualificação e defesa, pela aceitação do convite, tempo dispensado à leitura e pelas
contribuições que enriqueceram sobremodo a pesquisa.
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A todos os policiais que colaboraram de forma direta ou indireta com minha pesquisa, com
disponibilidade e atenção, mostrando o quão difícil, porém admirável, é seu trabalho. Eu os
admiro mais a cada dia!
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Parei para pensar sobre a profissão que abracei


com muito amor: a de “policial”.

Devo ser louco...

Somente um louco sai do aconchego do lar


para passar as noites frias e sombrias correndo
atrás de bandidos.

Somente um louco coloca a vida em risco para


proteger a vida de alguém que não conhece.

Somente um louco vai em direção ao perigo


enquanto todos fogem.

Somente um louco jura morrer para defender


uma sociedade que não o reconhece.

Somente um louco entra numa profissão que


tira dele a própria paz.

Sou louco, sim!

Peçam a Deus para que sempre existam loucos


como eu, porque, se ficarmos lúcidos, vocês
ficarão loucos!

(Autor Desconhecido)
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RESUMO

Discute o trabalho dos policiais do COTAR, buscando compreender sua organização e


condições de trabalho, num entendimento da relação entre o prescrito e o real dessa
atividade. De modo específico, objetiva-se conhecer: o perfil do policial do COTAR, o
percurso laboral, a organização e as condições de trabalho, a formação e o
aperfeiçoamento dos policiais, a hierarquia e a disciplina expressas no cotidiano, a
relação dos policiais com a sociedade, além da percepção dos policiais sobre os riscos
e agravos de seu trabalho. Constata-se que o COTAR é a Companhia mais jovem do
Batalhão de Choque, formada por policiais que trabalham no interior do Estado, com o
objetivo principal de atuar na repressão de assaltos a banco. A sede da Companhia é
no Quartel do Batalhão de Choque, localizado em Fortaleza, porém, após a saída do
quartel, a previsão de retorno a ele é apenas no fim do serviço. Os policiais possuem
jornada de trabalho de 6x7 e 6x8 - seis dias de trabalho por sete dias de folga e seis
dias de trabalho por oito dias de folga, ficando a maior parte do tempo no interior do
Estado e longe das famílias. O trabalho dos policiais é de patrulhamento direcionado
para a realidade de caatinga. Na ausência de operações, eles realizam o patrulhamento
preventivo, com o intuito de coibir os assaltos, além de efetivar outras atividades,
como transporte de presos, atuação em rebeliões de presídios, apreensão de drogas e
armas, dentre outros. No caso de ocorrências, os policiais, em muitas ocasiões,
necessitam se deslocar em altas velocidades, o que foi citado como fator de estresse
para eles. Em virtude das condições físicas do interior do Estado e da falta de estrutura
física específica, os policiais ficam sem alojamento, comendo e dormindo apenas
quando possível, além de serem expostos às condições climáticas do interior do
Estado, como calor e altas temperaturas. Vale ressaltar, ainda, o peso carregado pelos
policiais, que, em razão da natureza de seus trabalhos, causa problemas de coluna e
afastamentos. Além do desgaste causado por essas condições, há, ainda, o desrespeito
de alguns comandantes de patrulha, que descumprem o previsto em relação ao quadro
de serviço, seja sobre o sono, o descanso ou a realização das atividades físicas. Em
geral, os policiais relatam a união na execução das atividades e nas operações, e, na
preocupação com os demais, porém, reclamam da existência de abusos e assédios no
decorrer do trabalho. Conclui-se que, em geral, os policiais gostam da atividade e de
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ser policiais, porém reconhecem a desgastante jornada de trabalho e os consequentes


adoecimentos.

Palavras-chave: Polícia. Policial. Trabalho. Adoecimento.


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ABSTRACT

It discusses the job of COTAR police officers and their labor activity, searching for
understanding their organization and work conditions, with an understanding about
the relation between the prescribed and the real situation of this activity. Specifically,
the purpose is to know: the profile of the COTAR police officer, labor course,
organization and work conditions, formation and police officers improvement,
hierarchy and discipline expressed daily, relationship between the police officers and
the society, besides the police officers perception about the risks and harm of their
work. I notes that the COTAR is the youngest corporation of the Riot control,
constituted by police officers that work in the countryside of the state, with the main
goal of acting in the repression of bank robbery. The company head office is in the
Riot control quarter, localized in Fortaleza, however, after departure from the
quarter, the return forecast is just in the end of the duty. The police officers have a
work journey of 6x7 and 6x8 – six days of work of seven days off and six days of
work of eight days off, which are most of the time at the inner cities of state and far
from their families. The police officers job is the patrol directed for the caatinga’s
reality. In the absence of operations, they do the preventive patrol, with the intention
to restrain robbery, besides doing other activities like prisoners transport, action in
the jail rebellions, capture of drugs and guns, aside from others. In the case of police
report, the police officers, in several occasions, need to move in high velocity, which
already have mentioned as a stressful factor for them. Because of the physical
conditions of the state countryside and the lack of special physical structure, the
police officers remain without accommodation, eating and sleeping only when
possible, besides being exposed to the climatic conditions of the countryside, like
heat and high temperatures. It is noteworthy the burden lived by the police officers,
that, because of their work nature, has caused problems with the spine and
withdrawals. Besides the waste caused by these conditions, there is still the
disrespect of some patrol commanders that renege the foreseen about the service
board, about the sleep, rest or the physical activity execution. In general, the police
officers report union in the activities execution and operation, concern with others,
however, reclaim about the existence of abuse and harassment on the work. One
concludes that the police officers generally like activity and being police officers, but
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recognize the exhausting workday and the resulting illnesses .

Keywords: Police. Police officers. Work. Illness.


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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ACSMCE Associação de Cabos e Soldados Militares do Ceará


AESP Academia Estadual de Segurança Pública do Ceará
ASPRAMECE Associação de Praças da Polícia Militar e Corpo de Bombeiros Militar do
Ceará
BPChoque Batalhão de Policiamento de Choque
BPM Batalhão de Polícia Militar
BpRaio Batalhão de Ronda de Ações Intensivas e Ostensivas
Canil Canil (Grupo de Patrulhamento com cães)
CATE Curso de Ações Táticas Especiais
CBM Corpo de Bombeiros Militar
CDC Controle de Distúrbios Civis
COTAM Comando Tático Motorizado
COTAR Comando Tático Rural
CPE Comando de Policiamento Especializado
CPI Comando de Policiamento do Interior
FTA Força Tática de Apoio
GATE Grupo de Ações Táticas Especiais
LOB Lei de Organização Básica
LTS Licença para Tratamento de Saúde
PC Polícia Civil
PM Polícia Militar
PM CE Polícia Militar do Ceará
PRE Polícia Rodoviária Estadual
TAF Teste de Aptidão Física
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LISTA DE QUADROS

Quadro 1 - Processo histórico - do policiamento à Polícia................................................. 36

Quadro 2 - Postos atuais da PM CE.................................................................................... 43

Quadro 3 - Efetivo do BPChoque....................................................................................... 50

Quadro 4 - Efetivo COTAR................................................................................................ 63


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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Brasão do BPChoque...................................................................................... 55

Figura 2 - Policiais do Choque no pátio do Batalhão...................................................... 57

Figura 3 - Policiais do COTAR em serviço..................................................................... 75

Figura 4 - Policial do COTAR pronto para entrar de serviço.......................................... 80

Figura 5 - Viatura do COTAR......................................................................................... 84

Figura 6 - Pátio do Batalhão de Choque.......................................................................... 88

Figura 7 - Brasão do II COTAR...................................................................................... 96


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LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1 - Distribuição proporcional dos policiais do COTAR, segundo a

faixa etária............................................................................................. 65

Gráfico 2 - Distribuição proporcional dos policiais do COTAR, segundo número

de filhos................................................................................................. 66

Gráfico 3 - Distribuição proporcional da renda mensal líquida (aproximada)

do domicílio dos policiais do COTAR.................................................. 67

Gráfico 4 - Distribuição proporcional dos motivos que levaram os policiais

a escolher esta profissão....................................................................... 72

Gráfico 5 - Distribuição proporcional dos policiais nos respectivos anos de

ingresso na instituição........................................................................... 73

Gráfico 6 - Distribuição proporcional das atividades desempenhadas pelos

policiais do COTAR.............................................................................. 79

Gráfico 7 - Distribuição proporcional da avaliação dos equipamentos/acessórios

com os quais os policiais trabalham...................................................... 82

Gráfico 8 - Distribuição proporcional das horas dormidas pelos policiais do

COTAR durante a noite........................................................................ 87

Gráfico 9 - Distribuição proporcional das cobranças diárias feitas aos policiais

do COTAR............................................................................................ 91

Gráfico 10 - Distribuição proporcional da duração do Curso de Formação

dos Policiais Militares........................................................................... 93

Gráfico 11 - Distribuição proporcional das relações com os colegas de

posição hierárquica equivalente, inferior ou superior........................... 99

Gráfico 12 - Distribuição proporcional dos cuidados que os policiais do COTAR

têm com sua saúde.............................................................................. 106


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Gráfico 13 - Distribuição proporcional dos sintomas sentidos pelos policiais

no decorrer dos últimos 12 meses...................................................... 111

Gráfico 14 - Distribuição proporcional da influência da atividade policial na vida

dos policiais do COTAR.................................................................... 112


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LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Moradia atual.................................................................................................... 68

Tabela 2 - Abusos e assédios na Instituição...................................................................... 100

Tabela 3 - Exposição da violência física........................................................................... 101


20

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO.: O OBJETO DE PESQUISA................................................... 22

2 O TRABALHO DO POLICIAL MILITAR E SUA CONSTITUIÇÃO

HISTÓRICA E SOCIAL..................................................................................... 30

2.1 SER “POLICIAL” NA INSTITUIÇÃO POLÍCIA.......................................... 31

2.2 A POLÍCIA NO BRASIL: ANTECEDENTES HISTÓRICOS....................... 34

2.3 A POLÍCIA MILITAR DO CEARÁ: DO CORONELISMO

À DEMOCRACIA........................................................................................... 40

3 PERCURSO METODOLÓGICO................................................................. 45

3.1 PESQUISA EXPLORATÓRIA INICIAL...................................................... 47

4 LOCUS DA PESQUISA................................................................................ 55

4.1 Batalhão de Polícia de Choque: Coragem, Sacrifício e Abnegação................. 55

4.2 Comando Tático Rural – COTAR................................................................... 61

5 O TRABALHO DO POLICIAL “SERTÃO”: ORGANIZAÇÃO E

CONDIÇÕES DE TRABALHO.................................................................... 65

5.1 Perfil dos Policiais do COTAR........................................................................ 65

5.2 Histórico do Trabalho: O Percurso Laboral

dos Policiais...................................................................................................... 71

5.2.1 A trajetória antes do ingresso na Polícia Militar............................................... 71

5.2.2 O percurso laboral na Polícia Militar................................................................ 73

5.3 A Atividade do Policial do COTAR: Entre o Prescrito e o Real do


21

Trabalho............................................................................................................ 75

5.4 A Formação e a Capacitação do Policial do COTAR...................................... 92

5.5 Hierarquia e Disciplina: Atividade introjetada na identidade do Policial ....... 97

5.6 Polícia e Sociedade: O Poder da farda........................................................... 103

5.7 Prazer e Sofrimento no cotidiano do COTAR............................................... 105

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS....................................................................... 113

REFERÊNCIAS............................................................................................ 116

APÊNDICES................................................................................................. 120

APÊNDICE A – ROTEIRO DE ENTREVISTA DE TRABALHO............. 120

APÊNDICE B – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E

ESCLARECIDO............................................................................................. 121

ANEXOS........................................................................................................ 123
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1 INTRODUÇÃO: O OBJETO DE PESQUISA

No ano de 2013, vivemos no Brasil a preparação para a Copa do Mundo de 2014, além
da realização da Copa das Confederações (eventos de futebol internacionais). Neste período,
porém, o País também deparava um momento de questionamentos sobre o cenário político e
social, potencializado pelos investimentos que estavam sendo feitos em obras para os eventos
da FIFA, em detrimento das necessidades urgentes, como melhorias na educação, saúde,
dentre outros setores.
Desse modo, o período de 2012 a 2014 foi marcado pelo constante movimento da
população nas ruas, por meio de manifestações, cujo ápice, em junho de 2013, teve como
motivador inicial a insatisfação com o aumento das passagens de ônibus em várias cidades
brasileiras, mas que posteriormente foram ampliadas em razão das repetidas denúncias de
corrupção, e os investimentos nos eventos internacionais, conforme citado.
Nesse contexto de manifestações, foram se ampliando as reivindicações e o
movimento popular nas ruas, e o que inicialmente era apenas o livre direito de manifestar
democraticamente insatisfação e indignação tomou outras proporções, gerando violência, o
que pôde ser visto nos mais diversos programas jornalísticos no Brasil e no mundo, jornais
impressos, além da repercussão nas redes sociais, como Facebook, o qual foi bastante
utilizado, tanto na organização, como nos comentários sobre as manifestações.
Segundo Fachinetto (2013), vários foram os temas abordados nesse período: uns
surgiram como motivação para as manifestações (o preço do aumento das passagens de
ônibus) e outros em decorrência do que foi observado junto ao povo nas ruas (o trabalho
policial e sua legalidade). De acordo com o observado, na análise sobre a percepção das
pessoas acerca das manifestações, a polícia foi tomando relevância como tema de debate e
sendo alvo de questionamentos e críticas por parte dos media, das redes sociais e da
população em geral, chegando o assunto sobre a violência policial a ser o segundo mais
debatido em alguns jornais e redes sociais. Bastava ligar o televisor ou acessar a internet para
depararmos a enorme quantidade de matérias nos noticiários e publicações (no caso das redes
sociais) sobre o assunto. Algumas demonstravam indignação com a ação policial (utilização
de munição de borracha, granas de efeito moral), porém, em contrapartida, outras elogiavam
as ações policiais e as incentivavam.
De fato, essas reivindicações resultam de uma característica histórica do cotidiano,
vivido pela maioria da população brasileira que, segundo Jesus (2008) e Pinheiro (1997), é
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formado por uma situação de profundas desigualdades sociais, desempregos, aumento da


criminalidade e violência.

Outro dado também relevante ao contexto social brasileiro, mas principalmente no


Estado do Ceará, refere-se à atual sensação de insegurança decorrente da violência urbana,
representada pelas altas taxas de homicídios, segundo informações da SSPDS (Secretaria de
Segurança Pública e Defesa Social), com o reforço de estudos da ONG mexicana Conselho
Cidadão para Segurança Pública e Justiça Penal, de 2014, em que consta Fortaleza como a 7ª
capital de maiores taxas de homicídio no mundo e a segunda no Brasil.

A segurança pública, que outrora se tornara tema frequente, como na ocasião de


manifestações ou mesmo nas greves de 1997 e de 2013, volta a ser notícia nos media e na
sociedade em geral, como pode ser percebido em jornais como Diário do Nordeste, O Povo,
Tribuna do Ceará, além das manchetes nos jornais televisivos e na internet. A postura e o
trabalho da Polícia Civil, e, principalmente, da Militar, viraram alvo de questionamentos e
críticas. Os media apresentavam os fatos e teciam julgamentos sobre quem eram esses
policiais, quais seus deveres e direitos, influenciando um processo em que a polícia
permanecia no centro das atenções e críticas. Esta situação provocou em vários âmbitos a
necessidade de se conhecer melhor e se repensar sobre a Polícia no Brasil.

Considerando esta realidade e mediante trabalho voluntário como psicóloga no


Batalhão de Choque da Polícia Militar do Ceará, em que o trabalho e a vida dos policiais
foram tomados como referência, o objeto da pesquisa foi se configurando, ao se
intensificarem as pressões e críticas aos policiais cujas ações eram expressas, questionadas e
até criticadas nos noticiários dos jornais e nas redes sociais.
O percurso na polícia se iniciou através de convite para fazer um trabalho de
desaceleração1 com os alunos do CATE. Em razão do elevado grau de estresse da atividade,
houve oportunidade e interesse, por parte do Comando do GATE, de que esse trabalho de
acompanhamento psicológico continuasse, então com os policiais da Companhia. O trabalho
perdurou por dois anos apenas no GATE, mas, posteriormente, se expandiu para as demais
Companhias do BPChoque. À medida que o objeto tomava corpo e o trabalho ia sendo
realizado, as observações também foram se ampliando.
Embora nosso ingresso na instituição tenha partido de convite do Comando do GATE,
isso não quis dizer plena aceitação de todo o efetivo. Deparamos o preconceito e o descrédito

1
No final de todos os cursos da polícia, existe o momento de desaceleração, no qual o policial, que estava em
constante pressão e ansiedade, é preparado para retornar para suas famílias.
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que havia por parte da maioria desses policiais. A atuação de uma psicóloga parecia inquietá-
los, incomodá-los, tanto pela condição profissional quanto de gênero, num contexto
predominantemente masculino. Havia desconfiança, receio de ser visto pelo grupo como
‘doente’, além de relativa relutância em falar em decorrência da realidade da estrutura
hierárquica na qual estavam inseridos. No decorrer do contato, eles foram permitindo a
aproximação e a possibilidade de ajudá-los, mediante o estabelecimento de uma relação de
confiança e na promessa do sigilo. Posteriormente, ficou evidente que o preconceito por parte
deles não era apenas com psicólogos, mas, também, com sociólogos, justificado pelas
experiências em que os policiais eram usados apenas como “cobaias”, objeto de estudo, e
depois nem sequer uma devolutiva recebiam. Por essa razão, tanto durante o
acompanhamento quanto no decurso da pesquisa, um dos pilares da nossa relação de
confiança partiu de sinceridade, ética, sigilo e comprometimento em sempre dar devolutiva
aos policiais, fosse no acompanhamento na qualidade de psicóloga ou no próprio resultado da
dissertação como pesquisadora, haja vista julgarmos ser direito deles terem o retorno de toda a
pesquisa.
Os policiais se mostraram diante de nós não apenas como sujeitos individualizados,
mas também como agentes sociais que tinham papel relevante na sociedade, e foi onde o olhar
como psicóloga já não bastava para compreendê-los. Para ampliar saberes sobre a polícia, era
necessário exercitar uma verdadeira “conversão do olhar” (BORDIEU, 1983), em que fosse
possível experimentar uma visão transposta ao apreendido como profissional de Psicologia.
Em verdade, a experiência profissional apontava questionamentos sobre algumas
características do trabalho policial: jornadas de trabalho não definidas por lei; insatisfações
desses “servidores” do governo; falta de reconhecimento profissional, refletido no tempo de
demora para as promoções; falta de reconhecimento do Comando ou mesmo dos colegas de
Batalhão. No que se refere ao bom resultado de operações realizadas, surgiam questões
relativas às relações de poder e disciplina existentes na instituição, aos entraves burocráticos,
à falta de investimento no trabalhador policial, representada pela reduzida quantidade de
uniformes; o não respeito às folgas, dentre outros.
Neste contexto, torna-se relevante pensar sobre o percurso pelo qual esses policiais
passaram até os dias atuais, principalmente tomando como referência a repercussão de
acontecimentos e características da PM cearense no ano de 2013: a) o Ceará apresenta o
segundo menor efetivo de policiais em relação ao número de habitantes por Estado; b) possui
um dos piores salários da categoria no Brasil (como exemplo, tem-se que os oficiais cearenses
detêm o segundo lugar como os mais mal pagos do país); c) as manifestações que marcaram
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os anos de 2013 e 2014, em que os policiais, principalmente do Batalhão de Choque,


passaram a ser vistos como inimigos da população, o que pôde ser percebido pelas manchetes
televisivas, nos debates acadêmicos, e até mesmo no dia a dia da população; d) o aumento do
número de homicídios (aproximadamente doze pessoas por dia), levando Fortaleza a aparecer
em 2014 como a 7ª cidade mais violenta do mundo e a 2ª do Brasil, segundo dados recentes
da ONG mexicana Conselho Cidadão para Segurança Pública e Justiça Penal, que foram
divulgados em meios de comunicação diversos por todo o Brasil.
Mencionamos ainda a mais atual greve da PM e BM CE, que teve início no dia 29 de
dezembro de 2011, estendendo-se até o início de janeiro de 2012. Os policiais cearenses
reivindicavam uma escala de 40 horas semanais, 80% de reajuste salarial pelo menos até
2014, a realização de promoções na categoria e a anistia dos militares que participaram de
uma manifestação contra o governo. Por conta da paralisação, a cidade de Fortaleza viveu um
momento de caos, com a ocorrência de saques, arrastões, assaltos e depredação de
estabelecimentos comerciais. Foi convocado efetivo de mais de 2.500 militares do Exército,
Força Nacional de Segurança, além do trabalho do Batalhão de Choque e Raio, os quais não
aderiram ao movimento.
Após a greve, a sociedade deparou-se com a necessidade de a PM e BM nas ruas,
enquanto o Estado tentava contornar a sensação de insegurança da população e a falta de
controle sobre os policiais. Em consequência, foi publicado no Diário Oficial do Estado do
Ceará a Lei número 15.133, em março de 2012, a qual criava a Gratificação de Policiamento
Especializado – GPE para os militares estaduais do BPChoque e BPRaio, como visto no
Anexo A.
Após a greve, alguns policiais foram expulsos da Corporação em razão do possível
envolvimento no movimento. Os fatos decorrentes dessa greve da PM deixaram marcas, tanto
para a Polícia como para os governantes. O período eleitoral de 2014 refletiu as repercussões
desses eventos, pois dois ex-policiais que foram expulsos da Corporação em decorrência das
greves ou de movimentos contra o Estado concorreram aos cargos de deputado estadual e
deputado federal. No decorrer das campanhas houve mobilização em massa dos policiais, uns
de forma aberta e outros de maneira velada, em virtude de proibição perante o Regimento
Disciplinar de quaisquer expressões desse modo por profissionais da PM. Ambos os
candidatos venceram as eleições, e o deputado estadual foi um dos mais votados no Brasil.
Na busca de entender o trabalho desses policiais, faremos uma visitação aos conceitos
de trabalho prescrito e real, de acordo com Dejours (2011) e Ferreira (2000). Segundo os
autores, o termos foram criados com base numa inspiração taylorista, a qual tinha o objetivo
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de disciplinar o fazer a partir do corpo, mas também da mente das pessoas. Com efeito, o
trabalho prescrito era o previsto pela organização, na qual eram fixadas regras e objetivos. Já
o trabalho real se baseava na atividade do sujeito, onde ele põe em jogo todo seu corpo,
experiência e afetividade, com base nas reais condições de trabalho.
Desse modo, buscamos compreender até que ponto há disparidade entre o prescrito e o
real do trabalho dos policiais, atividade baseada no imprevisto.
Em primeiro lugar, convém chamar a atenção para o caráter de imprevisibilidade da
atividade que requer a cada instante a inteligência criadora do trabalhador, e não
pode ser interpretada automaticamente como sinônimo de interesse ou de prazer no
trabalho, posto que, a fadiga, o sentimento de monotonia, a insatisfação e o
sofrimento podem co-habitar num mesmo posto de trabalho. Em segundo lugar, o
eixo da atividade apontado pela ergonomia colocou em primeiro plano o valor do
conhecimento e do savoir-faire dos operadores como fator inesgotável para garantir
os clássicos imperativos empresariais de produtividade, eficiência e qualidade.
(FERREIRA, 2000, p.06)

Com base nessa teoria, o objeto desta pesquisa foi tomando relevância em meio a
questionamentos que esboçavam a intenção de pesquisa: como se constitui o trabalho desses
policiais? Qual o sentido que eles conferem à sua atividade laboral? Quem são os policiais
que trabalham no Batalhão de Choque (sexo, idade, escolaridade, cor da pele, situação
conjugal, patente, número de filhos, tempo de serviço, formação profissional, renda familiar)?
Qual a trajetória profissional dos policiais militares do Batalhão de Choque? Como se
configuram a sistemática e as objetivas condições de trabalho dos policiais militares do
Batalhão de Choque no exercício de suas práticas cotidianas? Quais os riscos e agravos
provenientes do trabalho policial?
Com suporte nestas indagações, decidimos realizar estudo sobre o trabalho do Policial
Militar do Batalhão de Choque do Ceará, sob o ponto de vista do policial acerca do seu
trabalho, bem como as repercussões das condições do trabalho em suas vidas. O Batalhão de
Polícia de Choque foi o "escolhido" em virtude da proximidade com os policiais, o que
facilitaria o acesso aos dados, a repercussão que os policiais do Choque tiveram nos media no
decorrer do período da realização da pesquisa, além da importância do trabalho do Choque,
principalmente nesse momento de manifestações, aumento da criminalidade, crescimento do
número de homicídios e assaltos a banco, dentre outros.
Nessa busca por compreender o trabalho do policial militar, hoje, se tornou relevante
conhecermos como se constituiu a Polícia e qual foi o processo de formação do trabalho do
policial militar, tomando como base a história da Instituição e o trabalho do policial
propriamente dito, atualmente classificado na esfera dos serviços.
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Deste modo, objetivamos conhecer o trabalho policial na óptica dos próprios


trabalhadores, a fim de: apreender o perfil desses policiais, conhecer as suas trajetórias de
trabalho no que se refere ao percurso profissional pelo qual eles passaram para chegar às
atividades atuais, identificar a organização e condições de trabalho desses policiais; e,
finalmente, por meio dos estudos sobre a relação trabalho e saúde/ adoecimento, tendo como
subsídio os escritos de Dejours (1987), nos propusemos perceber como este trabalho afeta a
vida dos policiais.
O Batalhão de Polícia de Choque é uma unidade de enfrentamento da Polícia Militar
do Ceará, responsável por atuar na área urbana e rural do Ceará. É composto por cinco
companhias: COTAM (Comando Tático Motorizado), CDC (Controle de Distúrbios Civis),
GATE (Grupo de Ações Táticas Especiais), Canil e COTAR (Comando Tático Rural).
Em razão do curto tempo para a realização da pesquisa, não se mostrou viável
tomarmos como campo de estudo todo o contingente do Batalhão em foco, pois o Choque
expressa uma identificação geral como Choque, mas que, em contrapartida, cada Companhia
possui várias especificidades, tais como: a farda, a postura, as atividades, o local de atuação,
dentre outras.
O Comando Tático Rural (COTAR) é a mais jovem dentre as cinco companhias do
Batalhão de Choque, e escolhida como objeto de estudo, principalmente em decorrência da
especificidade das condições do trabalho, representada pela extenuante jornada laboral, além
das condições físicas do descanso, da realização das atividades, ambiente de trabalho,
desgaste físico e emocional, dentre outras especificidades, que serão mostradas no decorrer da
investigação. Outro ponto relevante foi o elevado número de assaltos a bancos no interior do
Ceará, ocorrência que influencia significativamente a rotina de vida das pessoas do Estado em
geral, principalmente do interior, e que faz parte das atividades do COTAR. Ademais, sendo
uma companhia recente, o COTAR abriga policiais experientes em outras companhias do
Choque
Objetivamos, deste modo, conhecer a realidade deste policial, profissional que busca
reconhecimento político, institucional e social, e que é também um sujeito não linear, mas
múltiplo, e que está em profundo conflito, seja na relação com a sociedade, na vinculação
com a própria família ou nas suas relações na qualidade de cidadão e sujeito, o qual precisa
estar sadio e motivado para melhor exercer sua função, pois, como 'cuidar' e 'proteger' uma
sociedade adoecida quando também se está adoecido ou desmotivado?!
Ressaltamos que esta pesquisa é parte de uma bem mais ampla, intitulada “Projeto de
Pesquisa Políticas de Segurança Pública, Trabalho Policial e Conflitualidades (Processo
28

552454/2011-7)(Chamada Pública MCT/CNPq/CAPES- Ação Transversal nº 06/2011-


Casadinho/Procad)” que está sendo realizada por meio do convênio entre a Universidade
Estadual do Ceará e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A pesquisa em foco tem
por finalidade estabelecer comparação entre a realidade da Polícia Militar do Ceará e a da
Polícia Militar do Rio Grande do Sul. Ela se divide em quatros eixos de estudo: Polícia e
Juventude, Polícia Comunitária, Mulheres na Polícia, e Condições de Trabalho - no qual
nossa pesquisa se encontra inserida.
Na segunda seção, buscamos entender como se constituiu, histórica e socialmente, a
Polícia no Brasil e no mundo, e como este processo sucedeu no Ceará. Com origem na
definição e consequente diferenciação entre polícia e policial, percebemos que, para
compreender o trabalho policial, precisaríamos partir do início das suas atividades e do
processo de maturação social, o qual ainda se encontrava em elaboração; entender o contexto
social, o momento de surgimento e a necessidade que levou à criação da Polícia Militar para,
desde então, podermos compreender o que é o policial.
Com efeito, compreender como necessário o fato de nos determos, ainda, sobre como
a polícia cearense se constituiu, de que modo se faz nos dias de hoje, com suas divisões e
modo de funcionamento. Ainda no contexto cearense, descreveremos o Batalhão de Choque,
de modo a explicar as raízes do COTAR e a identidade do policial choqueano, pois, além de
ser do COTAR, ele é também do Choque.
Na terceira seção, abordamos o percurso de elaboração metodológica da pesquisa.
Escolhemos como método de busca a observação e a aplicação de entrevistas e questionários,
todos objetivando melhor apreensão do cotidiano do trabalho dos policiais do COTAR.
A quarta seção trata da exploração de quem são esses trabalhadores como
profissionais, tendo como objetivo conhecer a história de trabalho deles, desde o primeiro até
suas tarefas atuais no COTAR. Nesse percurso, buscamos entender as motivações e os
percalços pelos quais os policiais passaram até chegarem às atividades de hoje, e, com isso,
também entender quais são as atividades que realizam, desde sua rotina de trabalho até as
dificuldades e benefícios da profissão policial e da atividade do COTAR, para então
aprofundarmos o estudo acerca do trabalho e atividade do policial do COTAR, desde a
formação e treinamentos até as operações. Com efeito, imergimos na instituição Polícia
Militar e buscamos perceber como esta reflete na vida dos policiais, seja no que se refere à
hierarquia e disciplina, quanto em relação ao processo de reconhecimento ou falta de
reconhecimento desses profissionais. Além da relação que a Polícia mostra com a sociedade,
29

pois, além de trabalhadores, eles também são sujeitos e cidadãos, os quais são motivados ou
desmotivados nas relações com o social.
Em adição, também no decorrer do apreendido nas leituras e com suporte nos
documentos e narrativas dos policiais, buscamos compreender como sucede o trabalho dos
policiais do COTAR no que se refere a condições de trabalho, natureza da atividade e
reconhecimento profissional, além de compreender a relação entre o trabalho e o adoecimento
físico e psicológico.
Na seção conclusiva, delineamos a síntese de alguns pontos desenvolvidos, tendo
como referência as fundamentações teóricas, considerações sobre a fala dos entrevistados e os
dados colhidos dos questionários, além das percepções pessoais na qualidade de pesquisadora.
30

2 O TRABALHO DO POLICIAL MILITAR E SUA CONSTITUIÇÃO HISTÓRICA E


SOCIAL

Era o primeiro dia de acompanhamento com os policiais. As informações prévias


acerca da tropa e da demanda já haviam sido repassadas pelo Comandante da Companhia, por
telefone, porém, tivemos uma surpresa, ao percebermos que o que julgávamos ser polícia não
parecia dar conta do vivenciado naquela tarde.

No primeiro momento, o muro pintado com o nome da Companhia, as paredes, em sua


maioria, camufladas, a recepção desconfiada e a seriedade dos sujeitos armados que cruzavam
nossos olhares, à medida que íamos ao encontro do Comandante nos despertaram a
curiosidade Tudo isso contrastava com a imagem de polícia que tínhamos, que víamos na
televisão, no cotidiano das ruas, como sujeitos sérios, pouco amigáveis, violentos e
insensíveis. À medida que as horas passaram, no entanto, os policiais que ali se encontravam 2
começaram a nos mostrar outra realidade, a qual não conseguia ser explicada apenas por
intermédio do que julgávamos ser a Polícia: eram sujeitos cansados, ansiosos, porém
apaixonados pela escolha de “ser policial”, buscando reconhecimento por meio do Brevê3do
Curso de Ações Táticas Especiais - CATE.

As polícias são bem mais do que simples instituições de policiamento. Ao


acompanharmos de perto a realidade do trabalho policial, percebemos que a imagem que
temos da polícia e dos policiais não dá conta de explicá-los. A realidade da Polícia abrange
uma estrutura, um modo de agir, pensar e existir; que pode ser configurado como um ethos
policial.

Desse modo, em busca de entendermos a Polícia, faz-se necessário, primeiramente,


entendermos o que é a Polícia, partindo não apenas do que já sabemos ser a polícia, mas de
um estudo sobre como esta se constituiu e o que representa nos dias de hoje.

2
Policiais que estavam na última fase do III CATE.
3
O brevê é usado por policiais que terminam cursos e simboliza a qualificação profissional. Pode ser
emborrachado ou de metal e é utilizado fixado na farda do policial.
31

2.1 Ser “Policial” na Instituição Polícia

Parece simples, ao público em geral, responder a essa pergunta: o que é a Polícia?


Essa é, no entanto, uma definição complicada não apenas para a sociedade, mas até mesmo
para grande parte dos pesquisadores sobre Polícia. Segundo Bretas (1997), ainda há
dificuldade em definir o que é polícia, pois, geralmente, se parte de uma ideia geral aplicada
sobre um todo, sem que se discutam suas especificidades. Reiner (2000) acredita que existe
hoje certo ‘fetichismo’ sobre a Polícia, no qual se considera que ela é um prerrequisito
essencial para a ordem social, mas sem maior aprofundamento sobre o que seria a Polícia.

Como explicar, no entanto, a existência de sociedades que não possuem polícias? Daí
a necessidade de entendermos a diferença entre policiamento e polícia. O policiamento é bem
antigo e tem como função assegurar a ordem social, podendo ser realizado por várias
instituições, tanto públicas como privadas. Suas primeiras evidências são do período colonial,
sendo exercidas por cidadãos ou funcionários privados, sem organização ou vínculo
propriamente dito.

Já a Polícia, consoante informa Reiner (2000), surge em decorrência do crescimento


demográfico e da especialização econômica, na passagem de uma sociedade dominada pelas
relações familiares a uma sociedade determinada por classes.

A Polícia surge em França, no século XVII, mediante a profissionalização do Exército


com pagamentos regulares, postos e graduações bem definidos e sentido de corpo, além de
constituir uma organização policial para manter a ordem interna. Ela disseminou sua
influência para Portugal e, posteriormente, para o Brasil.

A realidade de cada cidade, entretanto, fez emergir a necessidade de policiamento


específico. Foi o que aconteceu na Inglaterra, onde o modelo francês se mostrava ineficaz
para o controle da ordem. Desse modo, surgiu em 1829 (REINER, 2000) a Polícia Inglesa
moderna, organizada por orientação de Robert Peel, a qual possuía estruturas e funções bem
diversas do modelo francês. O novo modelo de policiamento surgiu de uma necessidade de
controle social como as demais, porém não mais sendo efetivada por via do uso da força e das
práticas de violência, mas mediante aproximação maior com a sociedade, que podia ser
percebida pela própria aparência do policial, o Bobby4: de fardamento azul, sem armas de

4
Como era chamado o policial inglês.
32

fogo, tendo como arma o cassetete, utilizado apenas em situações em que a conversa não
resolvesse.

A ‘nova’ Polícia surgia com o estabelecimento de uma força em tempo integral,


organizada burocraticamente, e na qual a admissão e a promoção eram por mérito. Buscava-se
comprometer os homens na utilização dos poderes, respeitando a proteção legal das liberdades
dos cidadãos, distinguindo-se da francesa por sua abstenção do uso de armas quase total, com
exceção das rondas perigosas ou operações específicas.

Mesmo surgindo da necessidade de organização, a Nova Polícia não foi bem aceita,
inicialmente, seja pelas classes altas e médias, que tinham receio de perder sua liberdade
mediante a intromissão do governo em assuntos locais, seja pela classe operária, com o uso da
polícia no controle da reforma industrial. A violência nesse período caiu, mas julga-se que
não em virtude apenas da Polícia, mas em razão de mudanças de comportamento da
sociedade.

Consoante, ainda, a narração de Reiner - aqui desenvolvida em tradução livre - apenas


de 1850 a 1875 surgiu a noção de trabalho na polícia, como identidade profissional e
especialidade. A Polícia conquista respeito e admiração popular, e a classe operária começa a
ver o trabalho policial como possibilidade de mobilidade social.

A polícia foi bem sucedida em conseguir tal grau de legitimidade, não mais sendo
vista por todos como uma força politicamente opressiva, através de uma combinação
de estratégias específicas que deram à polícia inglesa uma característica distinta, que
a implantou firmemente em uma mitologia nacional. (REINER, 2000, p.78).

O segredo desse trabalho bem-sucedido de policiamento com o devido consentimento5


foi o de minimizar o recurso à força, pois, conforme citado, o bobby era desarmado, exceto
pela presença do cassetete, que podia ser empregado quando falhava a conciliação pacífica.
Segundo Reiner (2000), a polícia existe justamente pela falta de consenso de valores e modos
de agir, pois, caso as coisas sempre se resolvessem da melhor forma, não seria necessária a
existência de instituição para controlar a ordem.

A relação da sociedade com a Polícia se baseia na confiança, em que o policial passa a


ser visto de certa forma como ‘um amigo’, e isso perdura até meados de 1960, em que casos
de corrupção eclodem, gerando uma onda de desconfiança e de descrédito ocorridos na
própria instituição e para com ela.

5
A expressão policiamento por consentimento foi utilizada em Reiner (2000) para explicar todo o trabalho de
renovação da polícia, baseada em mudanças que buscavam aceitação da sociedade.
33

Em meio aos casos de corrupção, tomam relevância os abusos de poder por parte dos
policiais, o que levou ao entendimento de que algumas das regras pareciam não ser
conhecidas pelos policiais. Passa-se a acreditar que, se o que estava prescrito para a atividade
policial fosse cumprido, não haveria eficiência por parte da polícia.
De certa maneira, os meios de força policiais se inserem em uma espécie de interseção dos
condicionamentos de dois níveis: de um lado, a configuração formal-legal da autoridade do
Estado e, de outro, o conjunto diversificado de demandas concretas e inadiáveis provenientes
do convívio em sociedade. Esse limites transformam-se em objetos de constante negociação,
na prática policial. É, por excelência, nos encontros ordinários entre policiais e cidadãos, em
alguma esquina ou rua de nossa cidade, que os princípios da legalidade e da legitimidade, que
conformam o abstrato “estado de direito”, são negociados, reinterpretados, experimentados e
mesmo constituídos. (MUNIZ, 1999 p.39).

No decorrer dos anos 1970, a disposição da Polícia em manter a ordem pública


expande-se e aprimora-se, acompanhada do processo de militarização institucional que
avançava rapidamente, em busca de contornar as desordens mais graves. Surgem os órgãos de
controle interno da Instituição, com o mister de acompanhar e punir os desvios ocorridos,
coibindo a corrupção e abusos de autoridade. Há insatisfação com salários por parte dos
policiais e a quebra da confiança da sociedade, levando à necessidade da criação de outros
métodos de organizar a sociedade. São criados grupamentos especiais, com preparação para
controle de tumultos, com a utilização de gás lacrimogêneo, pela primeira vez, em 1981.
Táticas mais duras, mais equipamentos e poderes legais mais repressivos entram em jogo.

Desde seu surgimento como instituição, a Polícia muda e se reestrutura, na busca de


acompanhar as mudanças ocorridas no mundo: o crescimento populacional, o aumento da
violência difusa na sociedade e um crescente descompasso em relação às políticas públicas
sociais e de infraestrutura.

Com o passar dos tempos, a Polícia, ao mesmo tempo em que é a instituição mais
conhecida é a menos entendida (BRETAS, 1997, MUNIZ, 1999). O que alguns estudiosos do
tema procuram estudar não é a atividade policial propriamente dita, mas o trabalho como
repetição cumulativa de atos semelhantes e a ligação da polícia com o crime. Dessa forma, o
policial ora é o “vilão”, quando se fala sobre abuso de autoridade ou execução de crimes; ora
é a “vítima”, quando é assassinado, alvejado; além de ora ser o “herói”, quando, finalmente,
suas ocorrências que obtiveram resultados positivos são mostrados nos media, o que não é
ordinário, fato natural.
34

Embora existam várias diferenças entre as polícias no mundo, que podem ser
representadas pelo uniforme, local de trabalho, jornada de trabalho, viaturas, armamento, etc,
elas possuem algo em comum: uma cultura policial, que pode ser expressa: pela constante
cobrança de resultado, pela vivência entre Leis do mundo e Mundo das leis, pelo vício em
adrenalina, pela suspeição, pelo isolamento, o não direito ao questionamento, a solidariedade
entre os pares e, principalmente, pelo fato de ser policial não constituir apenas uma profissão,
mas um meio de vida. Esse é o que se conhece por ethos policial, um modo de existir que só
pode ser aprendido nas ruas, e que, geralmente, não é percebido pela maioria das pessoas.
(REINER, 2000; BRETAS, 1997; MENANDRO e SOUSA, 1996; BRODEUR, 2004).

Dá-se ao policial o poder da autoridade e espera-se dele um bom uso da


discricionariedade, do discernimento em escolher a coisa certa, na hora exata. Isso, porém,
não é ensinado no curso de formação, mas apenas aprendido na vivência nas ruas. Daí o
proposto por Bretas (1997) - a passagem do estudo da polícia para o policial, caso
tencionemos compreender a fundo o mundo da polícia, o ethos policial e o trabalho policial
como meio de vida.

2.2 A Polícia no Brasil: Antecedentes Históricos.

A origem da polícia brasileira teve como cenário histórico o período imperial, porém
suas raízes já estão na história desde o período colonial. Na sua constituição, a polícia passou
por várias transformações até chegar ao que hoje conhecemos como Polícia Militar Brasileira.
É difícil, segundo Holanda (1987), precisar as origens da Polícia em virtude da falta de
documentação e da perda de arquivos importantes. A despreocupação e a desorganização
observadas nas organizações policiais com papéis e documentos relevantes permanecem até
os dias atuais, segundo relato dos responsáveis pelo Instituto Histórico da PM do Ceará.

Merece destaque a participação e influência das Forças Armadas na formação da


Polícia Militar, pois as polícias brasileiras surgiram com base no modelo do exército, e em
muitos momentos de sua história se viram subordinadas às Forças Armadas. Até os dias atuais
é percebida a continuidade dessas influências, seja no próprio nome, na estrutura ou nas
regras do Código Disciplinar, que em muito se assemelham às do Exército.

Brasil (1989) cita a constituição das polícias e ressalta que o aparelho policial não
nasceu de ensejos da sociedade civil, mas sim com origem na preocupação das classes
35

dirigentes em manter a ordem, tendo como objetivo o controle social por meio da repressão e
prevenção.

A Polícia Militar no Brasil é considerada instituição ‘nova’, sendo institucionalizada


apenas no século XIX. Anterior a esse período, existiram outras formas de policiamento,
porém realizado por outros grupos, mas que não possuíam ainda a formação de Polícia. Até a
criação da Polícia como instituição, houve um processo de várias mudanças no policiamento,
que acompanharam em muitos momentos as mudanças ocorridas na sociedade. Podemos
dizer, no entanto, que a Polícia ainda está em formação e maturação, em muitos momentos
parecendo não estar muito bem estabelecido o que é a Polícia no Brasil nos dias de hoje.
Os primeiros relatos sobre as atividades de policiamento no Brasil datam da
colonização (HOLANDA, 1987). No ano de 1549, com a chegada de Tomé de Souza, a
justiça era de responsabilidade do ouvidor-mor, a fazenda do procurador, e a vigilância e
guarda do litoral do capitão-mor-da-costa. Nesse mesmo período é criado o Regimento D’EL
Rei, o qual funcionava como um embrião das forças armadas.
Segundo Holanda (1987), há confusão no que se refere aos nomes constantes nas
documentações, ora milícias, ora terços, ora regimentos, porém todos realizando atividades
que iam desde o controle social à defesa, ora atividades de policiamento, ora de defesa das
fronteiras (função que posteriormente será de responsabilidade do Exército).
O quadro seguinte resume com o processo histórico de policiamento, com datas e
funções, até a constituição da Polícia propriamente dita:

Quadro 01 - Processo histórico - do policiamento à Polícia


ANO NOME COMPOSIÇÃO FUNÇÃO
1808 Intendência Geral de Polícia Real de caráter Organizar uma polícia eficiente e capaz
Polícia da Corte nacional. Formado por de prevenir a infiltração de espiões,
Intendentes Gerais de resguardar a integridade da família real e
Polícia, corregedores e combater as ações consideradas
juízes do crime. perniciosas e subversivas, inspiradas nas
ideias liberais francesas.
1809 Guarda Real de Sujeitos que fossem Patrulhar, reprimir contrabandos, prender
Polícia potencialmente eleitores escravos e desordeiros.
(indicação)
1831 Guardas Municipais e cidadãos eleitores e seus
Guarda Nacional filhos, com renda anual Policiamento e segurança pública,
superior a 200 mil réis mantendo a obediência às leis,
nas grandes cidades, e conservação e restabelecimento da
100 mil réis nas demais ordem, além de auxiliar o Exército
regiões, esses indivíduos
36

não exerciam
profissionalmente a
atividade militar, mas,
depois de qualificados
como guardas nacionais,
passavam a fazer parte
do serviço ordinário ou
da reserva da instituição
1834 Corpos de Guardas Segmentos sociais à Manter a ordem pública e auxiliar a
Municipais parte das relações de justiça
Permanentes produção
1866 Polícia da Corte Sujeitos menos abastados Montar guarda, patrulhar a cidade, além
e com menores de realizarem atividades preventivas e
escolaridades repressivas
1967 Inspetoria Geral das Efetivos transferidos das Manter a ordem, através de policiamento
Polícias Militares Guardas Civis e fardado, subordinado ao Exército
anteriores organizações
militares.
Fonte: Dados constantes em Holanda (1987) e Brasil (1989)

A Polícia Militar brasileira surgiu arrimada nos modelos de polícia francesa e inglesa,
representados pela hierarquia, disciplina, dedicação exclusiva e pagamento de soldos
(salários) por intermédio dos cofres públicos, do modelo francês, além do policiamento
comunitário e a busca de aproximação com a sociedade, do padrão inglês.
Como informa Muniz (1999), a implantação das polícias denotou o esforço em
transformar a segurança em um bem público universal, não sendo mais aceitável o emprego
do combate para manutenção da ordem contra civis desarmados, surgindo a ideia de
segurança como responsabilidade, agora do Estado, sendo as organizações policiais as
agências que mais se transformaram no curso da história. Esse processo foi acompanhado
pelo fato de que as polícias sempre foram expostas às críticas públicas:
As polícias, desde sua criação, tornaram-se a face mais delicada do Estado. Elas têm se
apresentado como o lugar no qual se pode legitimar ou descredenciar o valor atribuído à
autoridade. Isto porque as agências policiais representam, por um lado, a encarnação mais
concreta e cotidiana da autoridade governamental na vida dos cidadãos; e por outro, o único
meio de força legal, disponível diuturnamente, capaz de responder de forma imediata e
emergencial às mais distintas e heteróclitas demandas citadinas por ordem pública. (MUNIZ,
1999, p.37).

De acordo com Brasil (1989), a Polícia está vinculada à manutenção da ordem, o que
em alguns momentos da história do Brasil conduziu as forças policiais a servirem para a
sustentação do sistema político, muitas vezes defendido pelas oligarquias: a polícia como
“braço do Estado”.
A denominação oficial da Polícia Militar ocorreu após a Segunda Guerra Mundial.
Desde então, foi dado novo direcionamento no emprego das polícias militares, sendo
37

diversificadas suas atividades e criados serviços especializados; progressivamente,


desenvolvendo a configuração que possuem atualmente.

Após o fim do Governo Militar, as polícias militares se voltaram para o objetivo de


recompor as próprias identidades, fortemente marcadas pela imagem da repressão dos dois
longos períodos de regime de exceção (de 1930 a 1945 e de 1964 a 1988). Passou-se a investir
numa reaproximação com a sociedade; tentando-se recuperar antigas modalidades de
policiamentos e desenvolver outras novas.

É na sociedade moderna que a polícia, como aparelho de Estado, exercerá as


funções de disciplinamento social com o objetivo de manter a ordem e a segurança
pública e se fará pelo uso da “força legal” que lhe delegou o Estado, um
instrumento disciplinar repressivo. (BRASIL, 1989, p.42).

No nosso país, a função de policiamento é exercida atualmente por três


instituições autônomas, porém interdependentes: Polícia Federal, Polícia Civil e Polícia
Militar. A PF é subordinada ao Ministério da Justiça e tem como função exercer a segurança
pública mediante a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas, bem como
dos bens e interesses da União. A Polícia Civil é subordinada ao Ministério Público do Estado
e atua depois que um crime ocorre, buscando esclarecer o que aconteceu. Em seu trabalho
cotidiano, a polícia civil registra as ocorrências, coletando as primeiras informações por meio
do Boletim de Ocorrência (BO) e, em seguida, passa a elaborar o Inquérito Policial (IP). Já a
Polícia Militar é também subordinada ao Ministério Público Estadual, sendo responsável pela
segurança da população e por impedir que crimes ocorram. Quando necessário, a Polícia
Militar também deve perseguir criminosos e pode efetuar prisões, desde que elas estejam de
acordo com a lei.

A Polícia Militar no Brasil possui uma mesma estrutura hierárquica e disciplinar em


todo o território, porém cada Estado guarda autonomia no que se refere a regimento e código
disciplinar. Como o próprio nome já deixa a entender, a PM é uma instituição militarizada,
tendo como base aspectos da estrutura militar, como hierarquia e disciplina. Vale citar que, no
momento atual, o tema da militarização da Polícia vem à tona, pois tanto a população quanto
os próprios policiais questionam se, ocorrendo uma desmilitarização da instituição, haveria
diminuição dos abusos de poder, tanto dos policiais com a sociedade quanto dos policiais
entre si, sobre o que não há consenso ainda.
38

Com suporte nessa formação, os estados foram criando suas PM’s, com características
e processos históricos diferenciados, partindo das necessidades e dos processos de cada
Estado, porém bastante similares no modo de acontecer.

Desse modo, a PM brasileira é uma instituição de prestação de serviços, que expressa uma
organização burocrática e se baseia em princípios como hierarquia e disciplina,

Retomando o que fora dito na seção anterior, observamos no relatado que há


diferenças nas polícias em todo o mundo, seja no uniforme, na utilização da força, no grau de
perigo enfrentado, porém, a cultura coletiva policial parece bastante similar. Segundo Bretas
(1997), características como conservadorismo, cinismo, pessimismo, preconceito racial,
suspeita, isolamento da comunidade e sentimento de grupo, de modo geral, fazem parte dessa
cultura policial coletiva. As diferenças não se encontram no que os policiais pensam, mas em
como agem, pois as polícias não são muito diferentes assim. E aqui vale lembrar o ponto que
provavelmente é o mais questionado na atualidade: a dificuldade de enquadrar o poder de
polícia com o uso da força “necessária”, a capacidade da discricionariedade em cada situação
específica. É exigido do policial que ele seja rápido, preciso e eficaz, decidindo em questão de
segundos qual será a melhor decisão a ser tomada, buscando agir sempre com legitimidade.
Isto parece ser simples na teoria, porém bastante complexo na prática no mundo das ruas.

É esperado do policial que ele seja cordial com os cidadãos e repressor com os
desordeiros e malfeitores, que lide com todas as mazelas do mundo, pois ele é o profissional
que convive diariamente com a pobreza, a drogadição, com o mundo do crime, com a
perversidade das relações e que, por outro lado, tem que estar bem para retornar ao lar.

A crise vivenciada pela polícia nos anos 1960 no plano mundial ocorreu também no
Brasil, no decorrer dos anos 1980 (BRETAS, 2000), período em que a polícia foi convocada a
fazer frente às manifestações da campanha das “Diretas-já”. Esperava-se haver comunhão de
propósitos entre Estado e Polícia, em que o Estado se moveria de forma coesa, sem
negociações internas e sem mediações com o mundo externo, o que passou a não fazer sentido
quando iniciaram os movimentos sindicais dos profissionais de polícia, sobretudo nos Estados
Unidos e na Inglaterra (MUNIZ, 1999).

No Brasil, mesmo não sendo permitida a sindicalização dos policiais militares, de


acordo com o previsto no Regimento Disciplinar da Instituição6, em meados dos anos 1990,

6
O Regimento Disciplinar é um conjunto de condutas as quais baseiam o permitido e o proibido aos policiais.
Cada Estado possui regimento com normas específicas, porém havendo bastante consenso na maior parte das
normas gerais.
39

ocorre maior mobilização trabalhista dos policiais, que culminou na greve de 1997, conhecida
como “revolta das praças”, episódio em que, segundo Muniz (1999), as praças da PM, os
Pm’s de mais baixas patentes (soldado, cabo, sargento) desafiaram o Estado, reivindicando
melhores salários. O episódio, que iniciou em Minas Gerais, se espalhou por outros estados,
desencadeando desconfiança por parte do Estado e maior atenção, agora não mais apenas na
população, mas também nas polícias que eles haviam criado, deslocando a atenção do que
esses homens armados faziam no trabalho nas ruas para o que esses policiais poderiam estar
fazendo contra o Estado.

Desse modo, foi criada uma cultura política orientada pela suspeita, em que os
interesses do Governo Executivo eram mais significativos do que consolidar o monopólio
estatal do uso da força. Então, as hostilidades e os embates entre a sociedade e a Polícia
tomaram relevância, proporcionando atos de abuso de autoridade e baixa visibilidade do
trabalho policial, denotativa de segurança pública era apenas prender pessoas. Vale lembrar,
entretanto, que, de acordo com o artigo 144 da Constituição Federal de 1988, Segurança
Pública passa a ser direito e dever de todos. Nesse âmbito, “A polícia é o setor da
administração pública oficialmente responsável pelo exercício do controle social e pela garantia
da segurança pública.” (MENANDRO e SOUZA, 1996, p. 133)

2.3 A Polícia Militar do Ceará: do Coronelismo à Democracia

A história da Polícia Militar do Ceará tem início com a criação do Corpo Policial do
Ceará, com origem na lei número 13, de 24 de maio de 1835 (BRASIL, 1989: 52), período em
que o Ceará ainda era província. O então presidente da Província, José Martiniano de Alencar,
preocupado com a segurança e o bem-estar dos seus habitantes, criou a Força Pública do
Ceará, embrião da Polícia Militar do Ceará, a qual possuiu várias denominações, até que, em
4 de janeiro de 1947, passou a ser chamada Polícia Militar do Estado (segundo a Constituição
de 1947).

Desde então, a história da polícia se confunde com a história do Estado, que foi
marcado por acontecimentos como a Guerra do Paraguai (1864-1870), a Sedição de Juazeiro
(1914), Revolução de 1930 no Ceará, Combate ao Cangaço (1920-1930), todos
acontecimentos históricos que contaram com a participação das forças do Estado. Nesse
período, que abrange cerca de meio século, o Corpo Policial não possuía um efetivo
40

representativo, em razão de vários homens terem sido deslocados para trabalhar nos eventos
ora mencionados. (BRASIL, 1989).

Segundo Freitas, Mello, Almeida (2009), a Segurança Pública do Estado do Ceará


ainda é “um campo em elaboração”. Os autores relatam o processo pelo qual o Estado do
Ceará passou no ano de 1997, com a implantação de modelos de operacionalização que
refletiram as necessidades surgidas nas mudanças políticas da época.
Até meados da década de 80 do século XX, o Ceará era governado por chefes
políticos, e a população se encontrava ávida pela criação de políticas públicas em todos os
setores, inclusive na segurança (BRASIL, 1997). A polícia não era divisada como defensora
do direito do cidadão, mas apenas como repressora de quem não obedecia às regras dos
“coronéis”. Os policiais possuíam, na sua maioria, baixa escolaridade, e eram acostumados a
trabalhar com violência. Essa era a cultura da época, que ainda permanece nos dias de hoje,
como resquício deste período que não é tão distante:
A polícia só vai mudar quando o pessoal da velha guarda se aposentar. Pois o que vemos hoje
é que o pessoal novo que entra na polícia tem nível superior ou até especialização ou mestrado,
mas que quando entra para trabalhar na instituição não é permitido de pensar ou trabalhar de
forma diferente (Oficial PM CE).

A fala do oficial reflete uma realidade que era bastante ativa na citada década (anos
1980), mas que, mesmo após 30 anos, ainda existe. Por mais que nesse ano o nível de
escolaridade exigido para concurso PM CE seja maior - nível médio para concurso de praça e
nível superior para concurso dos oficiais - ainda há resistências reais de mudanças na
instituição, que quiçá serão alcançadas quando os oficiais mais antigos forem para a reserva,
porém, não há como ignorar as reformulações ocorridas no decorrer dos anos 1980.
Num breve relato sobre as mudanças acontecidas neste período, podemos relatar o
conjunto de acontecimentos que envolveram o “governo das mudanças”, de Tasso Jereissati,
que teve início em 1986 e representou a transição de um regime autoritário para um regime
democrático. Mesmo com esse intuito de mudanças, apenas no segundo governo (1995-1998),
com origem em crises profundas envolvendo a credibilidade da segurança pública (abuso de
autoridade, corrupção policial, roubos, envolvimento com tráfico de drogas) que realmente se
iniciaram as mudanças na segurança pública. O primeiro marco foi a criação da Secretaria de
Segurança Pública e Defesa da Cidadania/SSPDC, a qual passou a atuar com um comando
único para as Polícias Civil e Militar e Bombeiros. Neste período, foi também criada a
Corregedoria dos Órgãos de Segurança Pública, hoje denominada Controladoria, que surge
com o papel de fiscalizar, organizar e orientar esses órgãos (BRASIL, 1997).
41

É interessante citar, neste ínterim, a visão de alguns policiais sobre o trabalho da


Controladoria, pois, segundo um oficial da PMCE: “o policial hoje só tem quem puna, quem
persiga...ele não tem a quem recorrer.” Segundo os entrevistados, a Controladoria foi um
órgão criado para punir os policiais, o que, na maioria das vezes, é feito de forma que acaba
por atrapalhar o trabalho dos policiais, como o percebido na seguinte fala:
A gente tá no meio da operação e tem que parar o meliante que tá atirando na gente, mas
ainda temos que lembrar que mesmo estando fazendo apenas o nosso trabalho, apenas
buscando defender a população e se defender, provavelmente vamos responder pros caras lá
sobre o acontecido, em muitas vezes tendo que responder processo, mesmo estando certos.
(Soldado COTAR)

Desse modo, a Controladoria foi um órgão criado em decorrência das várias acusações
que recaíam sobre os policiais. Foi uma iniciativa com intuito de renovar a credibilidade da
população sobre a capacidade de o Estado garantir a segurança, a qual estava vulnerável, além
de uma nova forma de controle sobre os policiais, os quais seriam vigiados de forma mais
próxima, em busca de maior controle por parte do Estado no que se refere à segurança.
Percebemos, assim, que a Segurança Pública, como órgão reconhecido, é algo recente,
e que, desde seu início, foi perpassada por várias crises, como a da separação das polícias em
20057, a divulgação da existência de grupos de extermínio dentro da Polícia e a redução dos
investimentos na segurança pública, marcadamente no governo de descontinuidade de Lúcio
Alcântara, no que se refere à Segurança Pública.
Neste momento, a imagem da Polícia novamente aparece como negativa, e as ações de
alguns grupos de policiais criminosos denigrem a imagem da instituição perante a população.
Em 2006, foi eleito o governador Cid Gomes, o qual também iniciou seu governo com
proposta de modernização, estruturação e resolução de crimes de policiais. Ele nomeou para
assumir como Secretário de Segurança Pública não mais um general, mas um delegado
aposentado da Polícia Federal. Novos investimentos foram feitos com a Criação do Programa
Ronda do Quarteirão8, com proposta de policial mais próximo da sociedade. Como, porém,
investir numa mudança como estas sem antes preparar a sociedade e ajustar o homem que
entraria numa instituição conhecida pelo trabalho ostensivo, mediante uma forma rústica de
abordagem?
Desse modo, é importante ressaltar que a existência de crises, violência e corrupção se
repete em momentos históricos diferentes na área da Segurança Pública, no Brasil e no

7
Separaram a PM da PC, como órgãos distintos, mas que trabalham em conjunto, ambos subordinados à
SSPDC.
8
Ronda do Quarteirão é um programa de Segurança Pública implementado no Estado do Ceará em novembro de
2007, que tinha como proposta maior aproximação entre policiais e população.
42

mundo, conforme já citado, as quais se refletem diretamente no trabalho e vida dos policiais,
bem assim na existência da sociedade em geral.
No ano ora corrente, a Polícia Militar do Ceará é formada por cerca de 1650 militares,
sendo apenas 457 mulheres. O contingente é dividido em Comando de Policiamento da
Capital (CPC), Comando de Policiamento Especializado (CPE), Comando de Policiamento
Metropolitano (CPM), Comando de Polícia Comunitária (CPCOM), Comandos de
Policiamento do Interior Sul e Norte (CPI), Batalhão de Policiamento Rodoviário Estadual
(BPRE), Coordenadoria de Inteligência Policial (CIP) e Coordenadoria de Feitos Judiciários
Militares (CFJM).
O Comando da Capital é composto por batalhões, os quais possuem atividades e
jornadas diferenciadas. A PM é comandada por um oficial do mais alto posto – coronel - que
recebe o nome de Comandante Geral, sendo responsável por todo o efetivo da PM CE.

Quadro 02 – Postos atuais da PM CE


GRADUAÇÕES/ FUNÇÕES
POSTOS
OFICIAIS
Coronel
Oficiais Superiores Tenente Coronel
Major
Oficiais Capitão São preparados para exercerem funções de comando, chefia
Intermediários Primeiro Tenente e direção.
Subalternos Segundo Tenente
Praças especiais Aspirante a Oficial
Aluno Oficial
PRAÇAS
Subtenente Auxiliam as atividades dos oficiais
Subtenentes e Primeiro Sargento Desempenham também atividades de policiamento
Sargentos Segundo Sargento ostensivo.
Terceiro Sargento
Cabos e Soldados Cabo São, essencialmente, os profissionais que devem executar as
Soldado tarefas de policiamento.
Fonte: Ajudância do Batalhão de Choque PM CE.

Dentre os comandos existentes na PMCE, destacamos o Comando de Policiamento


Especializado (CPE), criado no decorrer de 2013, mas que até o momento não possui sede
própria. O CPE tem a missão de coordenar as ‘tropas especiais’ da PM: Batalhão de Polícia
de Choque (BPChoque), Batalhão de Polícia Ronda de Ações Intensivas e Ostensivas
(BPRaio), Cavalaria, Batalhão de Policiamento Turístico (BPTur) e Batalhão de Eventos.
Como a própria denominação já demonstra, o Comando Especializado foi criado com o
intuito de coordenar os grupos especiais da Polícia, ou seja, grupos que possuem treinamentos
especializados e que atuam em operações específicas. Em alguns casos, esses grupos são
43

convocados para trabalhar juntos numa mesma operação, como exemplo, na Copa do Mundo
de 2014.
O COTAR, objeto de estudo desta pesquisa, pertence ao BPChoque, sobre o qual nos
aprofundaremos posteriormente.
A PMCE, ao longo de sua existência, passou por várias mudanças, tendo que adaptar
suas estruturas e modo de funcionamento de acordo com as mudanças da sociedade. Dentre as
mais recentes mudanças, podemos citar a reestruturação que ocorreu mediante a Lei de
Organização Básica9, a qual apresenta em seu artigo 1º do capítulo I uma definição atual da
PMCE:
A Polícia Militar do Estado do Ceará - PMCE, instituição permanente, força auxiliar e
reserva do Exército, organizada com base na hierarquia e na disciplina, destina-se à
preservação da ordem pública, à polícia ostensiva, além de outras atribuições previstas na
legislação federal e estadual, tendo por base os seguintes princípios: I - respeito aos direitos
individuais e coletivos e à integridade moral das pessoas; II - uso moderado e proporcional
da força; III - unidade de comando; IV - eficiência; V - pronto atendimento; VI - emprego de
técnicas proporcionais e adequadas de controle de distúrbios civis; VII - qualificação
especial para a gestão de conflitos sociais; VIII - colaboração com outras forças policiais na
troca de informações e no monitoramento da segurança comunitária.

Observamos nessa lei que as expressões: uso moderado e proporcional da força, e


emprego de técnicas proporcionais e adequadas podem ser interpretadas como contraditórios
se nos baseamos nos enfoques dados pela mídia. Não podemos esquecer, no entanto, é de que
o poder de polícia se baseia justamente na busca da legitimidade, que deve ser alcançada pela
capacidade de discricionariedade dos policiais, ou seja, a leitura correta sobre a
proporcionalidade da força e das técnicas que devem ser usadas em cada situação. Essa
observação demonstra o peso real de vestir uma farda de policial, pois, além de atividade
laboral, trabalho, é também a responsabilidade de decidir em questão de segundos a medida
adequada de resposta, e, caso haja erros, as consequências podem ser a morte de pessoas.
No contexto de 2015, deparamos o início de um novo mandato de governador –
Camilo Santana- o qual ainda está no início, mas que durante sua campanha teve um encontro
com o Comando anterior da Polícia em busca de apoio político e com promessas de melhorias
para os policiais. Percebemos, entretanto, que os movimentos grevistas que levaram à atual
conjuntura política ficam como forma de aviso aos governantes, pois, mesmo com todas as
proibições, os policiais, de modo generalizado, parecem ter conseguido se fazer notar como
insatisfeitos, e também como necessários para a população.

9
Lei número 15.217, que dispõe sobre a nova Organização Básica da Polícia Militar do Ceará (LOB/PMCE)
44

3 PERCURSO METODOLÓGICO

Esta pesquisa utilizou vertente quanti-qualitativa do tipo exploratória, tendo como


técnicas de natureza qualitativa a observação direta, a entrevista semiestruturada gravada e
entrevistas com policiais que aceitaram ser entrevistados sem permissão para gravar sua
narrativa, ao que denominamos de entrevista informal. Foram observadas as rotinas dos
policiais do COTAR apenas no quartel, em razão da impossibilidade de acompanhá-los no
decorrer do serviço, primeiramente pelo local de trabalho ser no interior do Estado, além das
condições nas quais eles trabalham, o que será mais bem delineado adiante. Desde o início,
houve total aprovação da pesquisa por parte, tanto do comandante da Companhia, quanto do
lado do comandante do Choque, porém, ficou vedado o acompanhamento das atividades
dentro das viaturas, em prol da nossa segurança. Foram observadas também as instalações, os
relacionamentos interpessoais, os equipamentos, os rituais e normas, além da execução de
cursos como o I COTAR – Curso de Operações Táticas Rurais, realizado no primeiro
semestre de 2014. A observação constou também de publicações de policiais em redes sociais,
como Facebook.
Por fazer parte de uma pesquisa mais ampla, nosso estudo teve como instrumento de
natureza quantitativa um questionário proveniente do Projeto de Pesquisa, que foi
disponibilizado para 113 dos 122 policiais da Companhia, os quais estavam disponíveis para o
serviço no período da aplicação, porém, apenas 37 responderam. Acreditamos que este
percentual de 36,73% do efetivo disponível decorrem de fatores como: pouco tempo de
disponibilidade dos policiais no quartel e da grande extensão dos questionários. Os contatos
iniciais constaram de várias visitas, nas quais, por meio de conversas informais, fora
explicada aos policiais a pesquisa e foi apresentado o questionário, o qual ficou disponível por
três meses na ajudância do COTAR. Nesse período, foram enviados e-mails para os policiais
de forma a esclarecer o que não fora possível no contato anterior, além de reforçar o convite à
participação na pesquisa. Este procedimento, embora específico ao COTAR, por ser objeto
desta dissertação, foi o mesmo realizado na pesquisa Casadinho/PROCAD, sendo que esta
abrangeu todos os policiais do Ceará.
Este contingente inclui apenas um subtenente e 36 cabos e soldados. Por serem cabos
e soldados os postos predominantemente disponíveis no COTAR, obtivemos resposta de
35,64% dos questionários de cabos e soldados, o que significa 32,74% em comparação ao
efetivo disponível total.
45

Na etapa qualitativa da pesquisa, foi utilizada entrevista semiestruturada com os


policiais do COTAR, com o intuito de, com base na técnica de história do trabalho, se
conhecer a trajetória laboral desses profissionais. Ao se mencionar história de trabalho e não
história de vida como procedimento metodológico, compreendemos ser um procedimento que
considera à incorporação no roteiro de entrevista semiestruturada tópicos relacionados a vida
laboral como: início de sua trajetória laboral até a ocupação atual; atividades cotidianas no
exercício do trabalho atual; relação do trabalho e saúde, expectativas, realizações e frustrações
ao longo da experiência pessoal e social no trabalho; relação interpessoal no trabalho; e,
ainda, a repercussão na vida familiar e social dos entrevistados. Este procedimento foi, então,
utilizado com os policiais do COTAR.
A escolha dos entrevistados se deu de acordo com a disponibilidade e/ou interesse de
participar, vinculado com a consideração dos seguintes critérios: policiais com variados
tempos de serviço, com experiências em outras companhias; que trabalhem em áreas e
municípios diferentes; policiais que residam em outros estados. Para a realização da
entrevista, foram feitos convites, pessoalmente, além da colaboração do comandante da
Companhia, que disponibilizava e incentivava os policiais a irem conversar conosco. Mesmo
a maioria se mostrando bastante disponível, foi difícil conseguir algum tempo para a
entrevista, em razão de outras atividades nas quais estavam empregados. Geralmente, mesmo
quando no quartel, eles eram convocados para realizar outras atividades, como depor no
Fórum, realizar manutenção nas viaturas, dentre outras. No total, foram realizadas seis
entrevistas semiestruturadas com policiais do COTAR, e uma entrevista com o comandante
do Batalhão, além de outras treze entrevistas com outros policiais da companhia, mas que não
foram gravadas. Ressaltamos, ainda, a importância das conversas informais com o
comandante da Companhia e com policiais que trabalham no COTAR, que, mesmo não tendo
sido gravadas como as outras entrevistas, contribuíram bastante para a pesquisa. O número
total de entrevistas foi de vinte, entre gravadas e não gravadas.
As entrevistas foram realizadas de modo individual e presencial, de preferência no
momento em que os sujeitos estavam entrando de serviço, por observarmos ser a ocasião em
que eles estavam mais descansados e disponíveis. Todas as entrevistas foram gravadas
mediante permissão dos entrevistados.
Ressalvamos que os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido e que a pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade
Estadual do Ceará (CEP/UECE). Todos os sujeitos de pesquisa foram informados quanto aos
objetivos do projeto e procedimentos metodológicos, bem como quanto aos possíveis riscos e
46

benefícios e o compromisso de nossa parte em relação à confidencialidade das informações e


da identidade dos participantes. Todos os participantes forneceram consentimento, conforme
as normas e princípios da Declaração de Helsinque e da Resolução nº 466/2012, do Conselho
Nacional de Saúde, que regulamenta a investigação com seres humanos (Maxima Nobili). A
autora declara que não tem nenhum conflito de interesse.
Foi explicitado a todos – comandantes e demais policiais – que não seria divulgada a
identidade dos sujeitos participantes da pesquisa, seja dos que responderam aos questionários
ou às entrevistas, ou mesmo os que participaram das conversas informais, de modo a
preservá-los; visto que, em virtude da estrutura hierárquica e disciplinar, quaisquer
informações divulgadas associadas a policiais podem trazer consequências para eles, o que em
nenhum momento era nosso objetivo.
Posteriormente, os dados quantitativos receberam o tratamento do Statistical Package
for the Social Sciences (SPSS), que deu suporte à análise dos dados provenientes dos
questionários. As entrevistas foram categorizadas e a análise teve como subsídio teórico a
interpretação dos sentidos (GEERTZ, 1989) das narrativas e anotações de falas das entrevistas
informais.
Realizamos também consultas documentais em regimentos, códigos disciplinares e
documentos administrativos da Instituição, além da constante busca de respaldo bibliográfico
nas obras de autores como Dejours , Reiner, Minayo, Muniz, Brasil e Bretas, entre outros.

3.1 Pesquisa Exploratória Inicial

Em junho de 2013, teve início a parte exploratória da pesquisa, mediante a realização


de observações, visitas, acompanhamento em redes sociais, observação de cursos internos,
conversas informais, análise documental e pesquisa bibliográfica.

Na constituição do objeto, foram realizadas visitas exploratórias à Perícia Militar do


Ceará, ao Instituto Histórico da PM CE e a associações, como a ASPRAMECE e a ACSMCE,
além das visitas às cinco companhias do Batalhão de Choque. Nessa etapa, pudemos ampliar
os conhecimentos sobre os policiais, que, segundo dados da Perícia, referentes ao ano de
2012, era a segunda classe de servidores que mais adoecia. Nessas visitas, foi apresentado o
Código Disciplinar da PM CE, além de dados sobre trabalho, identidade, adoecimento e o
papel do Estado.
47

A condição de psicóloga e pesquisadora pode ter sido motivo inicial de preconceito,


porém, o que inicialmente foi motivo de distanciamento, posteriormente se tornou fato de
aproximação, pois permitiu que novos vínculos e outras visões pudessem ser criados, entre
pesquisadora e sujeitos da pesquisa. O mais importante, porém, foi que nesta nova fase eles
tiveram a possibilidade de se exprimir como sujeitos que pensam e que podem falar seus
desejos e incômodos, o que não era corriqueiro em virtude de imposição da disciplina e
hierarquia.
Enquanto a relação se tornava mais próxima, foi interessante o modo como eles
próprios passaram a sentir-se convidados e estimulados a contribuir, seja com perguntas sobre
a pesquisa, ou até mesmo se oferecendo para participar. Havia expectativa por parte dos
policiais em serem ouvidos, em poderem exprimir suas satisfações e insatisfações, e grande
excitabilidade por parte de alguns em descrever seu trabalho, seu modo de vida. Estávamos
dando voz a eles, o que foi favorecido pelo momento em que o BPChoque estava passando,
pois, além de ser reconhecido pela gratificação, eles eram comandados por um oficial a quem
a maioria admirava, pois, diferentemente do que a literatura (MUNIZ, 1999) exprime sobre o
trabalho dos oficiais que apenas dão ordens de longe, não estando na ‘linha de frente’ com as
praças, no Choque, a prática era bem diferente, começando pelo posicionamento do próprio
Comandante. Sua sala era sempre aberta e com sua mesa posicionada para a porta, onde todos
sabiam que havia livre acesso. Em algumas operações, como no período da Copa do Mundo
de 2014, em que várias manifestações populares aconteciam, o comandante era um dos que
primeiro chegava, recebendo os policiais na entrada do Batalhão. E esse modo de liderar fez
com que os policiais se achassem motivados para trabalhar, sentindo que os oficiais, e até
mesmo o comandante, estariam junto com eles nas operações, e não apenas no quartel, dando
ordens. É um modo de fazer polícia que respeita hierarquia e disciplina, entretanto sem nunca
esquecer de que há sujeitos por detrás das fardas, como observado na fala de um dos policiais:
“O comandante sabe nosso nome, da nossa esposa...se a gente tem um problema ele pergunta
como estão as coisas...” (Soldado do BPChoque)
Nesse momento exploratório do estudo, foram realizadas observações de alguns dos
cursos do Batalhão, como os quatro últimos CATE (Curso de Ações Táticas Especiais) e o
primeiro COTAR (Curso de Operações Táticas Rurais), além dos últimos CDC (Curso de
Distúrbios Civis). Pelo fato de ser uma tropa especializada, cada uma das companhias do
Choque possui identidade e atividades específicas, e, para isso, foram criados os cursos, com
suporte nas experiências das forças especiais de outros Estados, com o intuito de selecionar e
treinar os policiais que querem adentrar a Companhia, como também para treinar os já
48

admitidos não cursados. Cada Companhia possui curso específico, no qual são abordadas as
atividades e operações específicas de cada composição: COTAM – Curso de Patrulhamento
Urbano, CDC – Curso de Distúrbios Civis, GATE – Curso de Ações Táticas Especiais, Canil
– Curso de Cinotecnia e COTAR – Curso de Ações Táticas Rurais.
A observação dos cursos tornou-se relevante e possibilitou o entendimento mais
aprofundado do Batalhão e de suas companhias, com destaque a representação simbólica do
uniforme para eles, o que os fazia sentir “choqueanos” em algumas ocasiões e “catianos,
sertão, CDC, canil e COTAM” em outros. Passavam por avaliações, treinamentos, provas em
que ficavam com comida e sono reduzidos, em busca, muitas vezes, de um sonho, como o
percebido na fala de um aluno do I COTAR: “Desde bem pequenininho eu via meu tio
vestindo a farda do Choque e pensava que um dia seria eu...”
No decorrer do nosso trabalho, as diferenças dos policiais das companhias foram se
tornando mais claras, pois, mesmo quando estavam todos com o uniforme camuflado do
Choque, as particularidades dos comportamentos, do modo de trabalhar, da descrição das
atividades, do relacionamento do grupo, iam se tornando mais sensíveis. Isso decorre do fato
de que os policiais, em muitas ocasiões, trabalham como Choque, não vestindo a farda de sua
Companhia, nem atuando especificamente. Essa é uma das características relevantes do
trabalho do policial do Choque, pois eles têm que ser preparados e treinados não apenas para
atuar nas ocorrências específicas da sua Companhia, mas também nas ocorrências que forem
de competência do Choque. Isto é algo que pode parecer contraditório, pois é um policial
especializado, mas que tem de ser multifacetado, estando sempre pronto para o que aparecer.
Com a exceção dos policiais do GATE que, na maior parte do tempo, estão com seu
fardamento específico preto, os demais parecem se misturar ao caminharem no pátio do
quartel ou nos momentos de descontração. Durante o acompanhamento dos grupos, a
realização de palestras (anteriores ao momento da pesquisa, porém não menos relevantes) ou
mesmo na observações das rotinas ou cursos, fácil era identificar que estávamos com policiais
de variadas companhias, seja pela união que era mais visível em alguns grupos, seja pela
vaidade de se julgar ser um policial de uma Companhia superior, representado por um
conjunto de vaidades individuais e certa forma de competitividade, nem sempre sadia. Foi
interessante observar as diferenças e as inúmeras semelhanças entre um grupo de 616 homens
e mulheres que representam o Choque.

Quadro 03 – Efetivo do BPChoque


49

COMPANHIA EFETIVO INDISPONÍVEL10 FUNÇÃO


Estado Maior 06 00 Assessorar o Comandante do Batalhão com
informações. São geralmente cargos de
confiança.
Pelotão de 14 01 Coordenar toda parte administrativa e de
Comando de segurança do Batalhão. É formado pelo
Serviços - PCS BP quadro administrativo e pelo efetivo da
Choque Guarda do Quartel.

COTAM 118 07 Coibir e combater os crimes violentos


ocorridos na esfera estadual e Região
Metropolitana de Fortaleza, tais como:
roubos a bancos, a estabelecimentos
comerciais e similares, ao crime organizado,
a criminosos armados em locais de difícil
acesso e outras ocorrências onde se faça
necessário o uso de tropa especializada em
policiamento Urbano.
CDC 188 10 É uma Subunidade empregada em
CONTROLE DE DISTÚRBIOS CIVIS, tais
como; Praças Desportivas, Estádios,
manifestações em público, turba, shows e
outros grandes eventos.
GATE 72 07 Atua somente nas ocorrências de alta
complexidade, tais como: ocorrências com
reféns localizados, ocorrências em
estabelecimentos penais, assaltos a bancos
ou a grandes estabelecimentos comercias,
seqüestros, escolta a presos de alta
periculosidade além de outras missões a
critério do Comando da PMCE.

COMPANHIA EFETIVO INDISPONÍVEL FUNÇÃO


Canil 58 04 Policiamento Ostensivo em todos os eventos
onde se faça necessário o emprego de cães
para preservação da ordem publica. Conta
ainda com Cães farejadores utilizados para a
busca e localização de materiais
entorpecentes e de caráter explosivos.
COTAR 122 09
Atua somente no interior no Estado. Tem
como foco atuar preventivamente e
repressivamente em ocorrências de assaltos
a banco.

TOTAL 578 38 616


Fonte: Ajudância do Batalhão.

O COTAM é a 1ª Companhia e fica localizado no quartel. É composto de policiais


especializados para trabalharem com patrulhamento urbano, realizado no serviço de rondas
pela cidade de Fortaleza. Ao entrarmos na sua ajudância, deparamos com ambiente
organizado, com paredes claras (pintadas no ano passado com o dinheiro dos próprios

10
Indisponíveis são os policiais que não estão na escala de serviço, seja por estarem afastados ou de férias.
50

policiais). Possuem uma sala de aulas e alojamentos com banheiro para os policiais. Como em
algumas companhias do Choque, há os alojamentos dos oficiais e das praças. Os policiais do
COTAM são geralmente os que aparecem mais rápido nas ocorrências, pelo fato de sempre
estarem patrulhando na Cidade, além de possuírem o segundo maior efetivo, o que facilita sua
chegada às ocorrências.
O CDC é a 2ª Companhia. É comandada por um capitão e também é localizada no
Choque, mas possui várias diferenças facilmente observadas. Primeiramente, em virtude da
essência de seu trabalho, pois não é uma tropa de patrulhamento, mas é específica para
controle de distúrbios, como a denominação de pronto já esclarece. Seus policiais,
geralmente, ficam no quartel, esperando convocação para operações, algumas já planejadas,
como eventos esportivos, reintegração de posse e outras imprevisíveis, como greves e
rebeliões. Pelo fato de ser a Companhia de entrada no Batalhão, percebe-se um clima de
maior receptividade para policiais vindos de outras companhias ou batalhões, justamente por
ser a Companhia mais convocada para trabalhar em grupos.
O GATE é a 3ª Companhia. É comandada por um capitão e localizada em
Maranguape, pela necessidade de rápida locomoção em virtude de ocorrências específicas.
Possui sede própria, mas, no decorrer de oito anos, mudou três vezes de local. O que,
tecnicamente, deveria ser algo de responsabilidade do Governo, na prática era
responsabilidade deles, pois, acompanhando as mudanças de sede, não havia nenhuma
participação do governo do Estado, mas apenas dos próprios policiais que saíam pela cidade
em busca de locais pertencentes ao Governo que estivessem desocupados. E era assim a
mudança de endereço das companhias, motivadas não por suas necessidades ou intenções,
mas, em geral, por determinação da Secretaria. Como exemplo, podemos comentar a mudança
da sede do GATE da Avenida Bezerra de Menezes: havia um prédio desocupado, sem uso
naquele momento, até que o GATE solicitou mudança de sede para lá, ocupou o prédio,
pintou-o, arrumou-o (estruturação observada no decorrer do acompanhamento), e, quando
estava funcionando, pronto, logo foi solicitado que fosse desocupado, pois seria utilizado pela
Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Ceará; é o prédio onde até hoje funciona a
Secretaria. Vale ressaltar que, em muitos casos, a tinta que era utilizada, e até alguns móveis
do quartel, eram conseguidos pelos policiais, o que acontece em todas as companhias do
Batalhão.
O Canil é a 4ª Companhia. É comandada por um major e localizada no bairro
Conjunto Esperança. Em razão da especialidade do Patrulhamento com cães, percebemos que
o Canil também difere das demais companhias, seja pela estrutura física, pela simples
51

existência dos cães, o que já necessita de todo um aparato para cuidar e treinar o cão desde
seu nascimento, além do modo de trabalho, viaturas. Por ser uma das últimas companhias a
ser incorporadas ao Choque, e pelo modo como essa incorporação foi feita, percebemos certo
distanciamento dos policiais do Canil em relação aos demais, não sendo possível, nesse
momento, nos aprofundarmos para melhor entender essa relação. Ressaltamos que cada
policial do Canil possui pelo menos um cão, com o qual guarda um relacionamento bem
próximo, pois o policial passa a ser responsável por seu animal.
Já a 5ª Companhia, o COTAR, é a mais recente e possui outras especificidades que
serão mais aprofundadas em seguida.
Importante é ressaltar que, pelo percebido na primeira fase da pesquisa, os dados e
documentos da instituição se encontram desatualizados e, em alguns casos, informados pelos
próprios policiais como perdidos, o que pôde ser confirmado em inúmeros contatos, visitas e
conversas informais com policiais do Instituto Histórico da PM, ou de policiais que já estão
na reserva11, mas que trabalham na atualização de dados da Instituição. Faltam informações
no próprio site do governo do Estado, além de vários dados, como o número de policiais da
Instituição, que está desatualizado. Indicadores como a existência da 5ª Companhia do
Choque – COTAR ainda não existem de forma atualizada no site, mesmo após mais de dois
anos de efetivação. Outro ponto relevante é a falta de informações sobre os benefícios e
serviços disponíveis para os policiais, como os cedidos pelo Centro Biopsicossocial12, além de
dados atualizados da Perícia sobre como estão os policiais que voltaram de afastamentos, ou
até mesmo quantos afastamentos houve de pessoas diferentes em um ano, pois apenas sabem
o número de afastamentos, mas não sabem se foi uma mesma pessoa que se ausentou três
vezes no ano, ou se foram três pessoas diferentes que se afastaram. Isso mostra a
desorganização e a falta de cuidado com os sujeitos da Instituição.

De acordo com o relato de um oficial da reserva entrevistado, a PM CE não possui


história, e para ele: “quem não tem passado não tem futuro”’ Segundo ele, cada Batalhão
possuía documentos históricos, que se perderam, o que demonstra a falta de interesse por
parte da maioria dos responsáveis da Instituição em se conhecer e/ou manter a História da PM
CE. Citamos também a inexistência de uma disciplina de História da PM no Curso de
Formação dos Policiais, o que reforça a fala do oficial.

11
O policial não se aposenta, ele vai para a Reserva.
12
O Centro é um local de acolhimento e acompanhamento de policiais com problemas. Há vários serviços
ofertados aos policiais, que ou não são divulgados para os mesmos ou não acontecem de modo eficaz, como o
serviço de Psicologia, pois há uma psicóloga para 1.650 homens.
52

Na fase exploratória da pesquisa, percebemos que os policiais se mostraram curiosos e


satisfeitos por poderem falar sobre seus trabalhos. Em muitos casos, estavam cansados e
insatisfeitos com alguns aspectos, como reconhecimento e jornada de trabalho, mas, na maior
parte do tempo, satisfeitos por serem policiais do Choque, mesmo com as dificuldades. Eles
relatam não se sentirem reconhecidos por parte da Instituição, da sociedade, e alguns por parte
mesmo da família, mas é interessante ressaltarmos que também falta reconhecimento entre
eles próprios, pois há vaidades em excesso e falta de humildade em alguns casos, em que se
torna difícil sequer elogiar o companheiro de outra Companhia e às vezes até da própria
Companhia. E como se sentir motivado sem sentir-se reconhecido? Parafraseando Dejours
(2011), o homem precisa sentir-se reconhecido pelo trabalho que realiza. Caso não aconteça a
consequência pode ser o adoecimento.
Com amparo nesses dados, delimitamos, inicialmente, como sujeito do estudo, os
policiais das cinco companhias do Choque, o que se mostrou inviável em virtude do curto
espaço de tempo que o Mestrado permitia. Com suporte nessa experiência, definimos a
seleção de apenas uma Companhia para a realização da pesquisa: o COTAR. Para tanto, é
necessário que seja apresentado o Batalhão de Choque, uma vez, que antes de ser do COTAR,
o policial pertence ao Choque.
Além de fazer parte do efetivo do Choque, o policial do COTAR tem o Batalhão
também como sede, pois é lá onde se localizam os alojamentos, os armamentos, os
equipamentos e as viaturas, além da ajudância da Companhia.
53

4 LOCUS DA PESQUISA

4.1 O Batalhão de Polícia de Choque: “Coragem, Sacrifício e Abnegação”

Figura 01- Brasão do BPChoque

O
Fonte: Imagem retirada da internet

O Batalhão de Polícia de Choque originou-se da Companhia de Policiamento de


Choque do 5º BPM, a qual teve sua criação no dia 22 de outubro de 1977, por força da lei
estadual nº10.145, segundo dados da Instituição.
No dia 23 de maio de 1985, foi criada a antiga Companhia de Choque da PMCE, para
fazer frente às manifestações das Diretas na década de 80. Segundo documentos da
Instituição, o BPChoque foi formado por policiais hábeis em artes marciais, considerados
mais voluntariosos do que os demais para enfrentar esse tipo de situação no tempo da
redemocratização do País. Inicialmente, funcionava apenas como Companhia do 5º Batalhão
de Polícia, mas que já tinha a especificidade de ser uma tropa de reação do comandante,
formada por policiais escolhidos pela aptidão. Nesse período, a Companhia foi tomando
corpo, e evoluiu para um Batalhão, constituído apenas por três companhias: 1ª Motorizada, 2ª
Aproximação Bancária e 3ª Especializada.
Segundo documento da Instituição, no final da década de 1980, começo de 1990,
começou a segunda fase do BPChoque, com base na ideia de que seria o Batalhão que trataria
de problemas disciplinares de policiais. Pelo fato de ser mais rigoroso, com demandas
específicas, disciplina mais forte e mais profunda, os policiais da PMCE que não se
adaptavam às regras da Instituição eram mandados para o Choque a fim de serem ‘ajeitados’,
‘consertados’, sendo considerado uma espécie de castigo ser enviado para o BPChoque,
54

segundo relato do atual comandante do Batalhão. Nesse momento, o Choque ainda era
localizado no 5º BPM, mas agora já como Batalhão.
Por volta de 1996, inicia-se o envio de oficiais do Batalhão para outros estados a fim
de fazerem cursos, como o de Ações Táticas e de Operações Táticas. Nesse momento, inicia-
se uma visão diferenciada do que seria o Batalhão de Choque, com uma estrutura de três
companhias mais definidas e especializadas: 1ª Motorizada, 2ª Controle de Distúrbios Civis -
CDC e 3ª Grupo de Ações Táticas Especiais - GATE.
Desde o projeto inicial do BPChoque estava prevista a inclusão do Canil, mas, por
questões administrativas, políticas e de instalações13, ele ficou vinculado ao 6º Batalhão, o
que perdurou até 2008, quando, finalmente, a Companhia foi incorporada ao BPChoque,
passando a ser a 4ª Companhia, que é a de Policiamento com Cães.
Atualmente, o Batalhão, como força de reação do comandante geral da PMCE, é uma
unidade de antiguerrilha, controle de tumulto, patrulhamento urbano e rural. Situa-se na Rua
Antônio Pompeu, 260 – Centro, e possui um efetivo de 612 policiais, segundo dados da
Ajudância14 do Batalhão15. No momento atual, policiais advindos de outras unidades estão
sendo treinados para serem integrados ao efetivo do Choque, além de outros já treinados que
estão esperando a liberação para serem transferidos. Seu efetivo atual é dividido em cinco
companhias, cada uma com especialidades: 1ª Cia/ COTAM (Comando Tático Motorizado),
2ª Cia/ CDC (Controle de Distúrbios Civis) a 3ª Cia/ GATE, a 4ªCia/ Canil, e a 5ª Cia/
COTAR (Comando Tático Rural), criada mais recentemente.
Ao discorrermos acerca do Choque, é importante entender estes três termos constantes
no brasão do Batalhão e que definem com eficiência o ser ‘choqueano’: Coragem, Sacrifício e
Abnegação. Segundo palavras dos próprios policiais, “coragem se refere a não andar para trás,
a enfrentar o perigo, o inimigo”, “abnegação é nosso dia a dia, quando renunciamos da nossa
vontade, quando nos colocamos em risco para salvar a vida dos outros”, e finalmente
“sacrifício, que é o fato de não termos rotina, de termos de estar sempre disponíveis, e passar
pelo que for necessário para realizar nosso trabalho”.

O Batalhão dispõe de um arsenal especializado e viaturas novas, em sua maioria,


adquiridas nos governos de Cid Gomes (2006-2014). As companhias apresentam suas

13
O Canil é uma companhia de patrulhamento com cães, e, por tal razão, necessita de espaço adequado para
criação e treinamento de cães, o que exige instalações mais específicas.
14
A ajudância do Batalhão é onde ficam os dados e documentos do referido contingente.
15
Segundo as associações visitadas e a própria ajudância, os dados do Governo encontram-se defasados, seja no
que se refere ao contingente total de policiais da PMCE ou aos policiais do Batalhão, o que pode ser visto no
próprio site do Governo do Estado.
55

especialidades, mas sempre estão a serviço do Batalhão de Choque, podendo o policial ser
convocado para operações sem a identificação de sua companhia, apenas representando o
Choque. As atividades desempenhadas são: a segurança em eventos esportivos, como jogos
de futebol, manifestações, rebeliões de presos, assaltos a bancos, sequestros, busca e
apreensão de drogas, busca de explosivos, dentre outras.

O policial que atua no Batalhão tem uma tarefa especializada e de relevante


importância para a sociedade, pois o trabalho deles se inicia quando ultrapassam os limites de
atuação da polícia ostensiva de rua, como em ocasiões de maior complexidade. Eles
pertencem a uma instituição maior, a Polícia Militar do Ceará, mas possuem normas e
hierarquias próprias, as quais caracterizam um trabalho especializado. Ademais, a jornada do
policial não se limita apenas ao horário de trabalho preestabelecido. Em muitos momentos, a
carga horária predeterminada é estendida pela necessidade de urgência de maior efetivo. O
policial que estiver saindo de folga é obrigado a assumir esta responsabilidade, pois é a vida
de pessoas que está em jogo e não há como simplesmente abandonar uma operação no meio
por ter terminado o expediente.

Figura 02 – Policiais do Choque no pátio do Batalhão

Fonte: Imagem retirada da internet.

O policial do Choque pode ser facilmente identificável, seja por sua farda em tecido
camuflado (calças e blusa com estampa camuflada e tecido mais resistente), coturno (bota –
comum aos PM’s), boina vermelha, que pode ser substituída pelo capacete quando em
56

operações; além do colete a prova de balas e o escudo; ou, ainda, pela forma como se
apresentam nas ruas e nas operações: um grupamento com armamento com maior poder de
fogo (pistola, fuzis, granadas), viaturas camufladas com quatro homens em cada uma,
portando armas visíveis16 e vidros abertos (diferente dos policiais do Ronda que andam em
número de três e de vidros fechados), além da própria atuação do Choque, que é em grupo.
Embora o Choque, até esse momento, fosse um Batalhão específico, não havia
diferença nos soldos (salários) recebidos por seus policiais. Com a não adesão do BPChoque e
do BPRaio à greve da PM ocorrida em 2012, no entanto, foi criada uma gratificação
específica para esses contingentes, com o objetivo de reconhecer que somente eles foram os
que “ficaram do lado do Estado”. Desde a LOB/PMCE de 2012, o efetivo que trabalhava no
Choque passa a receber gratificação mensal, a qual é paga apenas ao Choque e ao RAIO,
denominada Gratificação de Policiamento Especializado - GPE. Vale ressaltar que essa
gratificação ensejou sentimento de incômodo nos demais policiais da Instituição, que já não
estavam satisfeitos. Em contrapartida, para os policiais do Choque, foi um reconhecimento da
fidelidade e do trabalho desenvolvido. De acordo com a percepção dos policiais do Choque, a
gratificação veio como um incentivo, mas que hoje, segundo alguns dos entrevistados, já se
incorporaram aos seus salários, não sendo mais objeto de motivação.
A inserção no BPChoque até a década de 2000 era feita apenas por transferências e
indicações, o que mudou de certa forma, apresentando-se atualmente de modo mais
organizado. Em decorrência da rotina de atividades especializadas, necessidade de policiais
que trabalhem em equipe17e, até mesmo, por notícia da gratificação, houve, com o passar dos
tempos, um aperfeiçoamento na seleção para este Batalhão.
Em meados do ano de 2012, após a greve, foi implementado um processo de
recrutamento e seleção do Batalhão, em que foram estabelecidos critérios para ingresso no
BPChoque:
 tempo mínimo de serviço de dois anos, com o último ano na execução de atividades
operacionais – em razão da responsabilidade por operações de alta complexidade
operacional, técnica e política, que precisam de um domínio melhor da situação;

16
Os choqueanos andam com armamento visíveis para poderem reagir prontamente a possíveis ocorrências,
além de buscar intimidar os criminosos.
17
Os policiais que ingressam na Instituição, geralmente, trabalham em duplas ou trios, não estando acostumados
ao trabalho em grupos, como o necessário no Choque.
57

 capacidade física acima da média, com pelo menos 80%, baseado nos testes normais
da corporação - Ele tem que tirar 80% no TAF18, no mínimo;
 ter uma conduta individual e profissional ilibada; e
 não estar respondendo a nenhum tipo de processo de crime, com exceção em objeto de
serviço, que não seja por corrupção.
Geralmente a porta de entrada do Choque é a companhia CDC. Por atuar com
distúrbios civis, é a Companhia escolhida para preparar o policial a fim de trabalhar em grupo.
Essa preparação pode ser observada no treinamento das formações nas quais os policiais têm
de se organizar e se desorganizar, sempre buscando se proteger e proteger os demais com os
escudos. Caso um dos policiais falhe, deixando espaço entre os escudos, no caso de uma
operação, pode causar danos e até a morte de seus colegas de trabalho, o que reflete a
responsabilidade e atenção necessárias nas atividades.
Há casos, entretanto, em que policiais entram no Choque por meio de outras
companhias, mas também respeitando os critérios de admissão. Essa inserção é realizada por
meio da conclusão dos cursos específicos das Companhias, o que será mais bem explicado em
seguida.
O Choque possui treinamentos anuais e semestrais gerais, além dos treinamentos
específicos, realizados pelas próprias companhias, como o Curso de Ações Táticas Especiais
– realizado pelo GATE, Curso de Distúrbios Civis – efetivado pelo CDC, Curso de Operações
Táticas Rurais – efetivado pelo COTAR, Curso de Cinotecnia – levado a efeito pelo Canil, e
Curso de Patrulhamento Urbano – conduzido pelo COTAM. A participação nos cursos é
aberta para a Instituição PMCE e geralmente com reserva para policiais de outros Estados.
Após a finalização do curso, o aluno recebe um brevê, que é pregado ou abotoado ao seu
uniforme e que é um modo de mostrar a qualificação deste profissional. O brevê dos cursos
enseja tratamento diferenciado e até mesmo respeito por parte dos profissionais da área. Após
a conclusão do curso, o policial pode ser removido para o Choque, mediante necessidade de
efetivo e solicitação do comandante do Batalhão.

O Choque é comandado atualmente por um major, e as companhias por capitães, com


exceção do Canil, comandado por um major. Não há patente específica para assumir qualquer
comando, mas a patente do comandante tem de ser a maior ou igual.

18
O Teste de Aptidão Física é uma avaliação pela qual todos os policiais passam no ingresso, ou na inscrição
para cursos. Ao ingressarem, a média exigida para aprovação é de 50%.
58

Cada uma das companhias do Choque possui atividades especiais, com jornadas de
trabalho específicas, que podem ser de 24/4819, 24/72 ou 6/8 e 6\0920. Dentre as Companhias,
apenas duas apresentam sede no Choque, COTAM e CDC. O COTAR deveria, segundo relato
dos próprios policiais, situar-se no mesmo prédio do GATE (próximo ao Município de
Maranguape), mas, na prática, seus alojamentos e seu comando estão no Choque. O Canil
também possui sede fora do Choque pela necessidade de espaço para os cães. Das cinco
companhias, a única que tem atividades preferencialmente desenvolvidas fora da Capital é o
COTAR.

Deste modo, percebemos que, além da identidade policial, o trabalhador do BChoque


possui a identidade do ser ‘choqueano’, que representa um novo ethos, inserido na categoria
maior de policial militar. O orgulho da farda representa, além de ‘uma razão de ser’, conforme
Muniz (1999), um modo de ser diferenciado, dentre a escolha de vida policial, uma identidade
que ultrapassa os muros do quartel e os horários de trabalho, e que, por muitas vezes, deixa a
identidade pessoal dos sujeitos em segundo plano.

No fim do ano de 2009, começaram a se intensificar as ocorrências de roubos a bancos


no interior do Estado e a ação do crime organizado de forma mais intensa nessas regiões. As
populações que moravam no interior começaram a clamar por um efetivo, uma tropa mais
especializada, que tivesse condições de fazer frente a essas ocorrências. Em resposta, foi
criado um projeto-piloto, com base no que acontecia em outros estados, como Pernambuco,
Bahia, Paraíba e Rio Grande do Norte, de um efetivo que tivesse condição de dar suporte às
unidades no interior do Estado, o policiamento normal que não dava conta de lidar com as
ocorrências. A partir daí, o Comando da PM começou a mandar uma tropa do Choque fazer
viagens no interior do Estado, mas ainda não havendo uma tropa específica para isso. Vale
ressaltar que essa atitude foi fruto de um projeto antigo, de 1994, mas que na época o objetivo
era o policiamento de divisas.
Em 2011, começaram a planejar o que veio a ser o COTAR. O atual comandante do
Batalhão já estava no Comando nesse período, quando apareceu a demanda de tirar essa
missão do BPChoque e passar para o Comando de Policiamento do Interior. Houve, no
entanto, convencimento junto à Secretaria e ao Comando Geral de que seria necessária a
criação de uma Companhia realmente especial, dentro do Choque, e que esta tinha de ter um

19
Trabalha-se 24 horas para folgar 48 horas ou 72 horas.
20
Trabalha 6 dias e folga 8, para em seguida trabalhar 6 dias e folgar 9. Jornada específica do COTAR.
59

nascimento diferente do que qualquer projeto: teria que ser primeiramente planejada,
formatada, para depois passar a atuar efetivamente 21.
Desse modo, houve duas frentes de trabalho, duas linhas de trabalho: a primeira era
manter essas viagens, conservar-se no interior, mas não como unidade específica para tal, e a
segunda era formatar o que seria o COTAR hoje.

4.2 Comando Tático Rural - COTAR

Em 23.04.2012, foi criado o COTAR, uma tropa especializada para trabalhar no


interior, mediante ocorrências como assaltos a bancos, e patrulhamento de modo geral.
Segundo os próprios policiais, pode ser definida como: "COTAR, uma equipe choqueana
fazendo a lei ser cumprida no sertão do Ceará."

O COTAR foi criado com o intuito de coibir as ações criminosas no interior do


Estado, principalmente os assaltos a bancos. Inicialmente, foram convocados os efetivos das
outras companhias do BPChoque, além de pessoas de outras instituições ou de outros
Estados, os quais receberam um treinamento de Patrulhamento Rural, com duração de 15 dias.
O processo avaliativo inicial era composto de TAF (Teste de Aptidão Física), além da
execução de provas eliminatórias no decorrer dos 15 dias. A curta duração do curso decorreu
da necessidade de que o trabalho se iniciasse.
O COTAR iniciou com 64 policiais. Na época, foram testados modelos de escala, tipo
de viatura que seria utilizada, espécie de fardamento mais adequado, gênero de treinamento
necessário, sendo tudo discutido até chegar num padrão que é o utilizado hoje.
A escala de serviço foi escolhida com base no que já existia em outros estados, como o
CIOSAC em PE, o CPAC na BA, que trabalhavam no ritmo 7x7 (7 dias de serviço e sete dias
de folga), só que com uma dinâmica muito diferente do COTAR, pois, segundo fala do atual
comandante do Choque,
O modelo do COTAR hoje é único no país, porque essas outras unidades eram totalmente
independentes e vinculadas ao interior, tinham doutrina própria, e aqui não; aqui é uma
unidade vinculada ao Batalhão de Choque, com a mesma doutrina da capital, com a mesma
formação, e com a capacidade de atuar com um leque de funções, ele é multifacetado, para
atuar em várias situações, e não só em policiamento rural.

Segundo o comandante, caso o COTAR precise fazer reintegração de posse, fazer um


trabalho voltado para patrulhamento urbano, se for preciso atuar na Capital, num policiamento

21
Diferente porque, dentro da Polícia, e até mesmo da Segurança Pública, de modo geral, tudo é feito ao
contrário, primeiro realizando para depois ser planejado.
60

de práticas desportivas como tropa de choque, ele atua, pois o COTAR possui um conjunto de
atuações bem mais amplo do que qualquer outra unidade dessa natureza no Brasil, hoje.
Em agosto de 2013, houve o I COTAR – Curso de Operações Táticas Rurais, no qual
policiais provenientes do Choque ou de outros batalhões foram treinados e preparados para o
trabalho no ‘sertão’. No decorrer de aproximadamente 40 dias, eles receberam treinamentos
específicos chamados por eles de “caatinga”, formado por: instruções sobre rapel e operações
helitransportadas, treinamento em patrulha de combate, cartografia, orientação, tiro de
combate com arma longa, tiro em situação de alto risco, operações em regiões inóspitas,
atendimento a ocorrências com material explosivo, abordagem a edificações e em barreiras,
resgates, sobrevivência e primeiros socorros.

O modo de inscrição no I COTAR foi o mesmo feito na seleção inicial de entrada,


porém mais bem estruturado e com abertura para policiais de toda a Corporação PM CE.
Primeiramente, houve o TAF, em que eles tinham que atingir um mínimo de 80%.22 Em
seguida, houve a avaliação da ficha profissional do policial, além de contato com o
comandante do local de onde o candidato vem, a fim de saber se o postulante é recomendado
ou não. Após a Avaliação Psicológica, houve os treinamentos de caatinga, em que os
candidatos eram colocados em situações-limite, com água, alimento e sono reduzidos. A
elaboração dos cursos do BPChoque é semelhante, em que todos possuem as fases de seleção
iniciais com TAF, ficha profissional, e, em alguns casos, com avaliação psicológica, porém,
os treinamentos, testes e as situações expressas aos cursandos variam bastante de uma
companhia a outra.

Após o curso, houve um aumento do efetivo do COTAR, o que na época possibilitou


mudança na jornada de trabalho, passando de 7 x 7 (trabalhando sete dias e folgando sete),
para 5 x 7. Essa diminuição da jornada produziu imediatamente satisfação na tropa, visto que
a maior reclamação, segundo o Comando, era sobre a jornada de trabalho, que diminuía o
tempo de permanência com os familiares, reduzia tempo de lazer, dificultava a realização de
um curso superior, além de ser muito cansativa.

O ‘descanso’ durou pouco, no entanto, pois no mesmo semestre chegaram mais


viaturas à Companhia, ensejando uma redistribuição do efetivo, novamente retornando à
jornada 7 x 7. Isso decorreu do defasado número de policiais com relação ao quantitativo de
habitantes do Estado, o que levou ao crescimento das horas trabalhadas.
22
No TAF para ingresso na PM CE, é requirido do candidato que atinja 50%, o que mostra a maior exigência
física para o policial do COTAR
61

Em decorrência, porém, do cansaço da tropa, elevado número de policiais com


problemas de coluna, além de questões de relacionamento, no final de 2014, houve outra
alteração nas jornadas de trabalho, passando a 6 x 8 e 6 x 9, em que um policial trabalha seis
dias e folga oito e na próxima escala trabalha 6 dias e folga nove. Essa modificação promoveu
alívio e satisfação na tropa, reduzindo o total de policiais que queria ser transferido para
outras companhias.

Atualmente, o COTAR é composto por 122 policiais, todos do sexo masculino, dos
quais 113 se encontram disponíveis no momento.

Quadro 04 – Efetivo COTAR

Postos Geral Indisponível Disponível


Capitão 05 01 04
Tenente 01 - 01
Subtenente 07 01 06
Sargento 01 - 01
Cabo 26 01 25
Soldado 81 05 76
Civil 01 - -
Total 121 08 113
Fonte: Comando da Companhia

Podemos observar que quase todo o contingente do COTAR atua em atividades-fim,


significando que eles trabalham na rua, não sendo administrativos. Como na maioria das
companhias do Choque, há um civil, pelo menos, o qual atua diretamente no setor
administrativo. Dos 121 policiais, oito estão, no momento, indisponíveis, seja por estarem de
férias ou afastados com Licença para Tratamento de Saúde - LTS.

Eles atuam geralmente no interior do Ceará, podendo, porém, ser convocados para
trabalhar pelo Choque em Fortaleza. Suas atividades se estendem a todos os municípios do
Estado, afora Fortaleza.
62

5 O TRABALHO DO POLICIAL “SERTÃO”: ORGANIZAÇÃO E CONDIÇÕES DE


TRABALHO

Neste capítulo, buscamos aprofundar o conhecimento sobre quem são os policiais do


COTAR e como eles percebem seu trabalho, com apoio em informações sobre perfil
sociodemográfico, profissional e econômico; aspectos organizacionais; condições materiais,
técnicas e ambientais; jornada de trabalho; interação dos pares e com os chefes; relação do
trabalho e saúde; e, por fim, mas não menos importante, questões sobre a relação do policial
militar do COTAR com a sociedade.

5.1 Perfil dos Policiais do COTAR

O contingente do COTAR é composto apenas por homens. Em sua maioria, adultos


com idades de 30 a 35 anos (48,6%) ou acima (40,60%), como podemos observar no Gráfico
1. A idade madura dos policiais pode ser explicada em razão de os primeiros policiais da
Companhia terem vindo de outras companhias, notadamente do Choque.

Gráfico 01 – Distribuição proporcional dos policiais do COTAR, segundo faixa etária.

50% 40,60%
40%
29,70%
30%
18,90%
20%
10% 5,40% 5,40%
0%
24 a 26 anos 27 a 29 anos 30 a 32 anos 33 a 35 anos 36 em diante

No que se refere à família, 87,51 % são casados ou estão em união consensual, e


apenas 15,63% são solteiros. Segundo Gráfico 2, dentre os que possuem filhos, 59,38%
possuem um filho, 31,25% dois filhos e 9,38% três filhos. Vale ressaltar que 15,63% não
responderam, o que coincide com o número de solteiros na corporação.

Gráfico 2 – Distribuição proporcional dos policiais do COTAR, segundo o número de filhos.


63

70%
59,38%
60%
50%
40% 31,25%
30%
20% 15,63%
9,38%
10%
0%
1 2 3 Não respondeu

Com a informação do número de filhos, observamos também a posição dos policiais


na família e o número de dependentes de cada um, de modo a compreendermos o papel que
estes policiais possuem no grupo familiar. Dentre os entrevistados, 81,08% possuem posição
de chefe de família, 10,81% são filhos e 5,41% são agregados, o que, todavia, não implica a
não participação na renda familiar, como observado no Gráfico 3. Sobre os dependentes,
65,63% possuem de um a dois dependentes, 37,5% de três a quatro dependentes e 6,26% de
cinco a seis dependentes. Isso se torna relevante, visto que os policiais, passando quase uma
semana fora de casa, de 15 em 15 dias não acompanham com maior proximidade os seus
dependentes, sobretudo os filhos, delegando às suas mulheres este papel. Segundo o Comando
da Companhia, um dos grandes problemas atuais no COTAR é o das crises conjugais, em
razão do tempo que passam fora de casa, além da escassa participação na vida dos filhos, o
que pode ser percebido nas seguintes falas de policiais:

O ponto negativo é a ausência da família né, que deixa a gente ...que mexe um
pouquinho com o psicológico da gente por conta da ausência de casa. Às vezes o
policial vai trabalhar, sai da folga, aí vai passar 7 dias longe e fica pendência pra
resolver em casa...(Entrevistado 6).

...o garoto tá na fase que tá aprendendo a nadar e eu sempre fui um companheiro


dele, né? Um pai e professor. Aí muitas vezes ele cobra. ‘pai, a gente vai nadar
amanhã?’ ‘quando é que o senhor vem nadar?’ E a minha filha, é porque ela é
competidora de judô, e as últimas competições, nesses últimos anos, eu não
acompanhei mais, só vejo pelo whattsapp os vídeos. É uma cobrança grande e ainda
tem a cobrança pessoal de tá perdendo tudo isso. (Entrevistado 5).

Podemos, assim, inferir que o soldo (como é chamado o salário) recebido pelos
policiais é parte importante da renda familiar, pois 62,16% dos entrevistados (ressaltando que
64

apenas praças responderam o questionário) recebem de R$2.715,00 a R$5.424,00, o que pode


ser percebido como parte significativa, e, em muitos casos, a única renda da casa.

Gráfico 03 – Distribuição proporcional da renda mensal líquida (aproximada) do domicílio


dos policiais do COTAR.

100%
90%
80%
70% 62,16%
60%
50%
40%
30%
16,22% 16,22%
20%
10% 5,41%
0,00% 0,00% 0,00%
0%

Mais de R$
Menos de R$

De R$ 679,00 a R$

De R$ 1.357,00 a

De R$ 2.715,00 a

De R$ 5.431,00 a

Não respondeu
10.861,00
R$ 10.860,00
R$ 2.714,00

R$ 5.430,00
678,00

1.356,00

O COTAR é formado por policiais nascidos no Ceará (86,49%), mas também por
outros advindos de outros estados do Nordeste, como Pernambuco (5,41%). Dentre os que são
cearenses, 51,36% nasceram no interior do Ceará ou na Região Metropolitana de Fortaleza.
Os demais (48,65%) são de Fortaleza. Essa raiz interiorana facilita o conhecimento da
realidade e maior adaptação ao local onde trabalham, pois, de acordo com os entrevistados, o
trabalho no interior é bem diferente daquele na Capital: trânsito fluido, sem estresse; maior
liberdade e autonomia no trabalho, em razão da distância do Comando e do menor acesso dos
meios de comunicação social, como pode ser percebido nas falas seguintes:

É uma cultura totalmente diferente, por conta das dificuldades que o pessoal do
interior tem, das carências e dos anseios. Até pra trabalhar de polícia tem que ter
uma atenção diferenciada, que nenhum tratamento pode ser igual...eu acho que o
pessoal do interior é mais,... mais obediente, no caso das autoridades.(Entrevistado
6).

Bem melhor do que na capital, bem melhor...é menos movimento, menos


movimento de carros, menos movimento de pessoas. A gente fica um pouco mais
65

livre. Eu pelo menos, particularmente, me sinto mais livre trabalhando no interior do


que aqui na capital. Questão de deslocamento, você chegar num determinado ponto,
não pegar trânsito... Autonomia! A palavra é essa! A gente não precisa tá
dependendo tanto de outros pra poder fazer o serviço. Não tem essa obrigação com o
quartel. (Entrevistado 2).

Também, entretanto, há os pontos negativos de se trabalhar no interior: os policiais


passam aproximadamente todo o tempo de serviço no Interior do Estado, às vezes no meio do
mato, o que exige trato diferenciado com a população, alojamentos improvisados em muitos
casos, com água e comida escassas.

Desse modo, querer trabalhar no interior é algo relevante, e um dos pontos


questionados no processo seletivo para entrada no COTAR, pois, segundo o Comando, o
trabalho do COTAR é completamente direcionado para o interior.

Tabela 01 – Moradia atual

Moradia atual %
Capital 48,65%
Região Metropolitana 16,22%
Interior 35,14%
Total 100,00%

Atualmente, o COTAR é formado por 48,65% de policiais que habitam na Capital,


16,22% na Região Metropolitana e 35,14% no interior (dentre eles, alguns no interior de
Pernambuco, quase fronteira com o Ceará). É relevante ressaltar que os policiais que moram
no interior parecem se habituar mais facilmente ao trabalho no COTAR do que os que moram
na Capital, segundo a percepção dos que habitam no interior.

Eu conheço o interior, sei...gosto. Parte de sobrevivência de caatinga já é natural da


gente mesmo que é do interior, que foi criado lá, e o serviço pra mim é o melhor
serviço que acho pra mim hoje na polícia é o COTAR. Gosto do serviço e não tem
tempo ruim comigo não. (Entrevistado 3)

O policial do COTAR possui um perfil de escolaridade mínima de Ensino Médio


completo. Dentre os entrevistados, 43,2% possuem Ensino Médio, 18,9% Ensino Superior
completo e 2,7% Especialização, o que denota a mudança do perfil de escolaridade da
Instituição, de acordo com o percebido na revisão histórica, em que o nível de escolaridade
dos policiais militares evoluiu. De fato, os primeiros policiais possuíam baixa escolaridade, e
66

mesmo nos primeiros concursos era exigido dos policiais apenas nível fundamental.
Atualmente, para concurso de praças (soldado), é necessário nível médio, e para concurso de
oficiais (tenente), nível superior. Como consequência, observamos profissionais mais bem
preparados intelectualmente, mas também mais exigentes e com maior dificuldade de
obediência à disciplina imposta. Reflexo disso é a ocorrência de greves, como as de 1997 e de
2013, motivadas por cobrança de melhores salários e mais dignas condições de trabalho.

No que se refere ao contexto familiar do qual os policiais são provenientes,


observamos que os pais dos policiais possuem, em sua maioria, baixa escolaridade. Dentre os
pais, 13,5% são analfabetos, 27% possuem nível fundamental incompleto e 24,3% nível
fundamental completo. Dentre as mães, 5,4% são analfabetas, 27% possuem nível
fundamental incompleto e 29,7% nível fundamental completo. Esse dado nos remete à
referida busca de estabilidade financeira, que foi um dos motivos expressos, pois, mesmo com
uma mudança da escolaridade dos policiais, percebemos que um número relevante vem de
uma classe social mais baixa.

Ainda sobre a família, constatamos que 56,8% dos entrevistados possuem familiares
que são ou foram profissionais de segurança pública. Desses, 59,5% pertencem ou
pertenceram à Polícia Militar, o que demonstra uma tradição familiar, em que o ethos policial
é buscado e tomado como referência, como o percebido nas falas:

Aí eu resolvi que um dia ia ser policial militar. Meu pai era policial militar, meus
tios também são policiais militares, então eu já me via policial militar. Então um dia
eu chorando disse: eu vou ser um policial e sair desse sofrimento. (Entrevistado 4).

Meu irmão já era polícia, e eu tinha nele uma espécie de referência, porque meu pai
saiu de casa eu tinha um ano e meio, e ele era meu exemplo de vida. Eu só tenho ele
de irmão...eu via ele como exemplo...E ele era do Batalhão. (Entrevistado 2).

No que se refere à confissão religiosa, 91,9% dos entrevistados são cristãos, sendo
católicos 62,2% do total dos entrevistados. Vale ressaltar que, dentro do BPChoque, há uma
capela reservada aos cultos realizados nos fins de semana. Há, de modo geral, respeito pelas
crenças dentro do quartel, e a maioria percebe a religião como auxiliar do equilíbrio dos
sujeitos, norteando suas vidas. Algumas patrulhas têm o hábito de fazer uma oração toda vez
que saem do quartel, no primeiro dia de serviço, em busca de proteção para a jornada de
trabalho que se segue.

Sempre quando sai, na parte da manhã ou da noite, qualquer hora, sempre tem a
nossa oração, pedido de clemência a Deus né? E sempre Deus tem nos abençoado.
67

Todas as vezes que a gente vai sair a gente faz a nossa oração pedindo
agradecimento a Deus...E isso tem nos protegido até hoje, Graças a Deus! Já tem
acontecido tantas coisas que Deus tem passado a mão por cima neh, nos protegendo.
(Entrevistado 4)

...o que me marcou foi ver o cenário: muito, muito, muitos tiros nas paredes. A
gente via pelo chão lá, muito estojos, é de fuzil,...e nenhum colega nosso ter sido
alvejado. É onde mais a gente sente a presença de Deus né, porque todos os dias,
quando a gente vai iniciar nosso serviço, todo dia a gente ora. (Entrevistado 5)

No que se refere à orientação sexual, é interessante perceber que 10,8% dos


entrevistados não responderam a questão. Numa instituição predominantemente masculina e
machista esse se torna um dado relevante, não pela orientação sexual em si, mas por esses
sujeitos não se sentirem confortáveis em responder, mesmo num questionário sem
identificação.

O perfil de graduação/posto23 dos que responderam aos questionários foi de 67,6% de


soldados, 24,3% de cabos e 8,1% de subtenentes. Vale ressaltar que nenhum oficial do
COTAR participou da pesquisa, seja nos questionários ou nas entrevistas, com exceção do
comandante da Companhia, que sempre se mostrou disponível para responder a questões, e
interessado em conhecer sua tropa. Não podemos deixar de ressaltar, no entanto, que há
apenas 06 (4,96%) oficiais na Corporação, um número mínimo comparado ao de soldados 81
(67%), o que, de certa forma, explica maior tendência às praças responderem (91,9%).

5.2 Histórico do Trabalho: o Percurso Laboral dos Policiais

Conhecer a história laboral dos policiais nos proporcionou informações sobre a


condição em que este profissional se encontrava antes de entrar para a Instituição, o motivo da
escolha profissional, e a representação que essa atividade possui na vida deles.

5.2.1 A trajetória antes do ingresso na Polícia Militar

O percurso laboral dos policiais antes de entrarem na Polícia é bem diversificado: uns
trabalhavam na roça com a família, outros em comércio, alguns ensinavam, já outros
trabalhavam nas Forças Armadas, além de alguns que eram concursados em outras

23
Graduação é utilizado para as praças e posto para os oficiais.
68

instituições. Em suma, não foi percebido um perfil predominante de trabalho anterior à


entrada na Polícia, apenas uma relativa influência de familiares militares (seja da Polícia ou
das Forças Armadas), como observados em extratos das falas de alguns policiais:

Eu comecei a trabalhar cedo, com treze anos, aí fui trabalhar em supermercado, aí


depois me formei em magistério...aí eu dava aula...depois arrumei outro bico como
cobrador de ônibus...Aí depois eu passei no concurso da Prefeitura Municipal para
auxiliar de farmácia...Aí quando foi em 2000 eu fiz o concurso para polícia daqui do
Ceará. Passei e ingressei em 2001. (Entrevistado 3)

A minha vida profissional começou dentro da Polícia Militar. Eu entrei aos 19 anos.
Eu só estudava, aí foi minha primeira experiência profissional, foi entrar na PM.
(Entrevistado 1)

Como expresso, a variedade de profissões anteriores à PM é extensa e sem muitos


padrões, no entanto, foi identificado o fato de que 75,6% estavam trabalhando antes de
ingressar na Polícia: 40,5% trabalhando com carteira assinada, 27% sem vínculo empregatício
e 8,1% eram funcionários públicos em outras instituições, o que nos remete à ideia de que
muitos os que buscaram a carreira de policial militar tal decorrem da intenção de ser policial,
o que pode ser confirmado pelo Gráfico 4, onde observamos que os motivos mais frequentes
pelos quais os policiais buscaram concurso para Polícia foram: 43,2% estabilidade do serviço
público, 37,8% intuito de defender e/ou ajudar os cidadãos, além de 32,4% afirmarem ter
vocação. Vale ressaltar que alguns relataram mais de um motivo para a escolha profissional. É
relevante citar o fato de que nenhum respondeu a escolha da profissão de policial militar
como busca de status ou prestígio social da profissão, o que denota certa falta de
reconhecimento social desse ofício.

Gráfico 4: Distribuição proporcional dos motivos que levaram os policiais a escolherem esta
profissão

50% 43,2%
45%
40% 32,4%
35%
30% 21,6%
25% 16,2% 16,2%
20% 10,8%
15% 8,1% 8,1%
10%
5% 0,0% 2,7% 2,7% 0,0% 0,0%
0%
familiares/am…

atividade/adr…

associado à…

sabe/nunca…
no mercado…
Falta de opção

Vocação
Oportunidade

Oportunidade
e/ou benefícios

Agir na defesa

Status/prestígio
Estabilidade do

Outro
serviço público

de prestar…
Influência de

Natureza da
Remuneração

do cidadão

(estava…

Poder
social…

Não
69

Os dados encontrados referentes à escolha profissional apenas ratificaram o que já


havíamos percebido no decorrer das observações. Estão explícitos nas conversas dos policiais
a vocação, o desejo de ser policial, de ajudar os outros como motivo de ingresso na
Instituição: “ Porque eu queria, achava bonito. E eu sou apaixonado pela Polícia mesmo
(risos) Se tem um cabra que é apaixonado pela polícia sou eu!” (Entrevistado 3). Em
contrapartida, é bastante recorrente na fala de outros, o fato de que fizeram o concurso como
meio de melhorar de vida, financeiramente, ou conseguir certa estabilidade profissional,
mesmo sem possuir qualquer conhecimento ou apreço anterior pela profissão. Percebemos, no
entanto, que, a despeito de muitos terem buscado a Polícia apenas com o intuito financeiro, ao
entrarem em contato com a realidade do trabalho da PM, descobriram forte identificação com
o ethos policial, e hoje não se imaginam realizando outro tipo de atividade, senão de policial.

Eu não vou mentir. Fiz o concurso da polícia só buscando uma estabilidade e quem
sabe uma ponte para outros concursos. Mas depois que a gente começa a trabalhar,
que sente a adrenalina e vê como acontece o trabalho, as coisas mudam. Hoje eu
não me vejo fazendo outra coisa senão sendo PM. (Fala de soldado PM em conversa
informal).

5.2.2 O percurso laboral na Polícia Militar

Segundo o Gráfico 5, dentre os entrevistados, 16,2% ingressaram na Instituição antes


de 1995, período no qual o Batalhão de Choque ainda não possuía suas companhias
formatadas como na atualidade - COTAM, CDC, GATE e Canil. 21,6% ingressaram de 1995
a 2000, 13,5% de 2001 a 2005 e 45,93% de 2006 em diante. Pelo fato de o COTAR ser uma
companhia nova, de menos de três anos, a maioria do efetivo está na companhia desde sua
criação, ou pelo menos desde o I COTAR (curso), o que reforça a unidade e identidade do
grupo.

Gráfico 5 - Distribuição proporcional dos policiais nos respectivos anos de ingresso na


Instituição
70

50%
45%
40%
35%
30% 24,33%
25%
20%
15% 10,80% 10,80% 10,80% 10,80%
8,10% 8,10%
10% 5,40%
2,70% 2,70% 2,70%
5%
0%
1992

1993

1994

1995

1997

1998

2001

2003

2007

2009

2010
A maioria do efetivo atual do COTAR iniciou sua carreira na PM no policiamento de
rua, o qual é bastante diferente do trabalho realizado pelo policial do Choque, por vários
motivos: o trabalho de rua é de dupla ou, no máximo, trio; os policiais andam em carro ou
motocicleta; e realizam trabalho unicamente ostensivo, ou seja, de prevenção à ocorrência de
crimes. Enquanto isso, o trabalho do Choque é no mínimo de três por viatura, sem utilização
de moto, e sem policiamento a pé. Além do mais, realizam trabalho ostensivo e repressivo,
visando a prevenir e reprimir a ocorrência de crimes. Outra grande diferença é no que se
refere à qualidade e à quantidade dos equipamentos do Choque, os quais não se comparam
aos existentes em outros batalhões da Capital, e menos ainda quando comparado à realidade
da PM no interior do Estado, a qual possui pouca ou nenhuma estrutura, o que se torna
relevante, visto ser o local de trabalho do COTAR. “No interior é muito carente em material,
de homens treinados. Os FTA’s do interior é feito na cara e na coragem, quem é mais valente
vai pra lá,..., só na cara e na coragem, mas não têm material. Os caras têm que ter
material.”(Entrevistado 3).

Todos os policiais, ao entrarem na PM, passam por um Curso de Formação, os quais


possuem formatos, tempo de duração e conteúdo diferentes de acordo com o concurso: praça
ou oficial. Em virtude de a PMCE ser uma instituição recente, vários foram os formatos e os
locais de execução do curso, uns tendo sido realizados no interior, outros na Capital; certas
turmas sendo formadas no Choque, outras já na AESP (Academia Estadual de Segurança
Pública do Estado do Ceará). Dentre os policiais pertencentes ao COTAR, alguns fizeram o
curso no interior do Estado, outros na AESP e outros no próprio Choque.

No que se refere ao percurso laboral, os entrevistados relataram vários caminhos


percorridos até a chegada ao COTAR, em que muitos não vieram especificamente para
71

trabalhar no COTAR. O que há de comum entre todos os entrevistados é a unanimidade em


relação à busca por trabalhar no Choque, por julgarem ser um trabalho mais especializado,
onde haveria mais treinamentos, trabalho em equipe...como citado agora.

E nesse meio tempo desses três anos e meio eu vinha ao Choque, deixava minha
ficha individual, porque era querendo vir pra cá já...Eu queria muito porque eu
queria muito tá aqui: policiamento, questão de comportamento, visão de mundo é
diferente. (Entrevistado 2).

É interessante relatarmos que, mesmo o COTAR sendo formado por policiais de


realidades distintas, seja pelo local de nascimento ou moradia atual, seja pelo local da PM no
qual estavam empregados anteriormente, algo que parece comum à maioria dos entrevistados
se refere à prática anterior em atividades especiais, seja nas Forças Táticas de Apoio24 ou na
Força Nacional de Segurança Pública 25, ou mesmo em ambas.

O efetivo do COTAR hoje é formado, em sua maioria, por policiais que trabalham
apenas na Polícia. 93,8% dos policiais responderam que, no momento, não desenvolvem
nenhum outra atividade remunerada fora da instituição. Isto decorre da complexidade das
ocorrências e das condições de trabalho, as quais desgastam os policiais física e
psicologicamente, sendo bastante complicado assumirem outra atividade externa. Por mais
que no Regimento da PMCE seja vetado aos policiais terem outra atividade remunerada, é
conhecido o fato de que grande número de policiais militares, e muitos choqueanos, realizam
o que denominam de ‘zig’, de modo a complementar a renda.

O fato de trabalharem só no COTAR aponta maior investimento pessoal no trabalho e


identificação com o serviço, atividade e realidade do policial com o COTAR.

5.3 A atividade do Policial do COTAR: entre o Prescrito e o Real do Trabalho

Figura 03 – Policiais do COTAR em serviço

24
As FTA´s são grupos especializados por todo o território cearense. Elas são acionadas quando o policiamento
ostensivo local não consegue resolver a ocorrência.
25
A FNSP foi criada pelo Governo Federal e formada por policiais federais e policiais dos estados . É um
programa de cooperação de segurança, a qual é acionada sempre que situações de distúrbio público, originadas
em qualquer ponto do Território Nacional, requerem seus serviços. Para tanto, é necessário que exista a
aquiescência do governador do Estado na sua utilização.
72

Fonte: Retirada da Rede Social Facebook

Segundo Dejours (2011), o trabalho exige da pessoa o corpo todo, numa constante
busca de enfrentar o que não é dado pela organização do trabalho (o prescrito). No cotidiano
de trabalho percebe-se que aquilo que fora proposto como descrição do trabalho é vivido na
prática de modo muito mais complexo, exigindo não apenas o corpo do trabalhador, mas
também sua capacidade de criar e de agir perante o imprevisto.

Há, desse modo, diferenciação no que se refere a tarefa e atividade, sendo a primeira
aquilo que era previsto e a segunda o que se faz realmente. “Para enfrentar a realidade do
trabalho, é necessário mobilizar uma forma de inteligência que convoca o corpo todo –
inteligência do corpo – e não apenas o funcionamento cognitivo”. (DEJOURS, 2011, p. 155).
Desse modo, é exigido do trabalhador não apenas o esforço mental, mas o esforço do corpo
todo.

Com base no conceito de trabalho real e prescrito, conforme Dejours (2011),


buscamos descrever a atividade laboral dos trabalhadores do COTAR, mediante a percepção
dos próprios policiais, os quais, em sua maioria (94,6%), trabalham em atividades
operacionais, e apenas 5,4% em ações administrativas. Eles geralmente assumem mais de uma
atividade, as quais são classificadas como: 54,1% especialistas, 43,2% atividade-fim, 32,4%
apoio, 16,2% comando e 13,5% estratégica. Tal classificação, possivelmente, se tenha dado
com base nas divisões de atividades na patrulha, o que incide em geralmente o comandante e
o subcomandante da patrulha comandarem ou a viatura realiza apoio ou intervenção
propriamente dita, o que será explicado adiante.

Os policiais trabalham em forma de patrulha, a qual é formada por duas viaturas, cada
uma com quatro homens. Há um comandante na primeira viatura e o subcomandante na
segunda, os quais são os de mais alta patente no grupo. A primeira viatura é a de assalto e a
segunda a de apoio. As duas sempre andam juntas, conforme fala de um soldado: “uma é a
73

sombra da outra”. Todos na patrulha são treinados para realizar todas as atividades
necessárias na ocorrência, mas cada um tem sua especialidade, como os integrantes de cada
viatura possuem também seu modo de atuar. “Cada integrante de fração, no caso a patrulha
são as duas frações. Cada integrante da fração tem a sua responsabilidade.”(Entrevistado 2).

A escolha dos patrulheiros e a avaliação é feita pelos comandantes das patrulhas, que
os selecionam por afinidade e por preparação operacional. A fala de um policial descreve bem
essa divisão:

O comandante é a maior patente. É um comandante pras duas viaturas, só que a


viatura, porque nós chamamos a viatura de assalto e de apoio. A viatura de apoio,
que é a de trás, tem um subcomandante, que geralmente é o graduado, mas eles estão
sempre interligados...A de apoio é responsável por dar o suporte pro assalto. Porque
assim, no cumprimento do verbo da missão quem faz é o assalto. O apoio vai dar o
suporte. Quem é apoio é sempre apoio, e quem é assalto é sempre assalto, mas se
alguém falha o outro cobre. (Entrevistado 2).

A jornada de trabalho dos policiais do COTAR era de 7 x 7 (sete dias trabalhado e sete
dias de folga) desde sua criação, com base nos exemplos de efetivos semelhantes em outros
estados, como o CIOSAC de Pernambuco. Ao final do I COTAR, porém, haja vista a entrada
de mais policiais, foi possível a diminuição da jornada para 6 x 8, o que, para frustração dos
policiais, durou pouco tempo, pela chegada de novas viaturas, o que demandou maior efetivo
policial. No momento, a jornada oficial é de 6 x 8 e 6 x 9, significando que o policial trabalha
seis dias e folga oito, e depois trabalha seis dias e folga nove. Em virtude, no entanto, da
realização do II COTAR, a jornada retornou a ser 7 x 7 apenas do decorrer do curso, pois
alguns dos policiais do COTAR estão acompanhando os alunos do curso, ficando
indisponíveis para as viagens, o que reduz o efetivo de serviço. Assim que o curso finalizar,
há previsão de retorno para escala oficial de 6 x 8 e 6 x 9, ou até melhoria, caso muitas
pessoas terminem o curso, o que significaria um maior efetivo no COTAR.

No que se refere à rotina de trabalho, os policiais chegam ao quartel entre 06h30min e


7 horas. Fazem a passagem de serviço, na qual os que estão saindo de serviço entregam a
viatura e os armamentos, passando informações necessárias. Logo após a passagem de
serviço, eles preparam os armamentos, avaliam as viaturas, realizando reparos, se necessário,
ou mesmo as levando para conserto fora do quartel, para logo serem empregadas no fim do
dia. Alguns policiais relatam que, mesmo que ela não esteja em condições adequadas de uso,
há a necessidade de ser colocada na rua, em virtude do reduzido número de veículos, ou
74

melhor, o reduzido número, na prática, pois, na teoria, há outras duas viaturas que ninguém
nunca viu. “Tem duas reservas, não sei onde anda, mas...tem duas reservas...(risos)”
(Entrevistado 2) ou “Ela só vai parar se ela quebrar. Ou seja, tem a manutenção corretiva,
aliás, preventiva, mas ela não tem substitutas pra que ela fique parada.”(Entrevistado 1).

A partir daí, os policiais ficam à disposição no quartel, podendo ser enviados para
depor, ministrar treinamentos na AESP ou realizar qualquer outra operação enquanto
aguardam as viaturas para seguir viagem. Há também a liberação dos policiais que moram no
interior para resolverem assuntos pessoais, caso haja necessidade. Logo que chegam ao
quartel, eles são informados do plano de atuação proposto para o serviço, no qual, com base
nas demandas da semana ou com suporte em informações do serviço secreto do Batalhão, os
policiais são informados para que região do interior do Estado serão enviados inicialmente.
Vale ressaltar que, em algumas ocasiões, quando há ocorrências no momento de saída do
quartel, eles já saem em direção do local, porém, em outras ocasiões, viajam com o intuito de
patrulhamento, em direção a uma cidade específica.

Estava previsto para ir para Itapipoca. Aí quando nós saímos, tivemos que ir dar
suporte a um assalto que teve, que é justamente...Já saímos daqui, nos organizamos
bem rápido, jogamos o material, porque nós fomos e a ocorrência já estava em
andamento. Teve o primeiro confronto e a outra equipe já estava lá. (Entrevistado 1).

Caso haja ocorrências no decorrer do percurso, as viaturas mais próximas são


chamadas para se deslocar para o local. Em alguns casos, é necessário dirigirem em altas
velocidades para chegarem o mais rápido possível, percorrendo longas distâncias, como no
caso de assaltos a banco, por exemplo. Percebemos, entretanto, que, com a repetição destas
atividades, alguns policiais passam a ficar ansiosos e preocupados, com a expectativa dos
chamados, gerando aumento do nível de estresse.

Existe também a necessidade de deslocamentos para ocorrências nas cidades, pois,


caso haja uma prisão em uma cidade, é necessário manter o acusado até o momento em que
todo o processo seja encerrado, o que, em alguns casos, demora várias horas. Nestas
ocorrências, os policiais não param nem para comer nem para dormir, apenas quando a
ocorrência e os procedimentos necessários se encerram:

Aconteceu certa vez aqui no COTAR que a gente prendeu três rapazes que tavam
armados pela madrugada em Boa Viagem. A gente teve que ir até Canindé deixar
que eles pernoitassem lá, porque Boa Viagem não tinha delegada, pois só ia estar
pela manhã. Canindé também não tinha delegado. Aí a gente teve que pernoitar em
75

Canindé pra voltar no dia seguinte pra ser feito o procedimento. Chegou em Canindé
a gente colocou ele lá na delegacia pra ficar fazendo a segurança...No dia seguinte,
quando a gente voltou para Boa Viagem, quando veio terminar o flagrante era por
volta de 7 horas da noite. (Entrevistado 5).

Ficamos na operação até que eles se renderam. Viemos com o material e as pessoas
presas para Fortaleza pra apresentar aqui na delegacia da Roubos e Furtos, pra fazer
o procedimento, levar pro IML, fazer exame de corpo delito...nesse dia da operação
ninguém dormiu, porque foi concluir o flagrante já por volta de 2h da tarde.
(Entrevistado 1 falando sobre operação que iniciou no fim da tarde do dia anterior).

Desse modo, depois que o policial entra em uma ocorrência, ele só pode descansar
quando ela é encerrada, o que muitas vezes demora horas, podendo chegar a dias, dependendo
da operação. Por esse motivo, os policiais levam água e comida nas suas mochilas, para se
manterem minimamente no decorrer das atividades. É como se o policial do COTAR fosse
preparado para não dormir e não comer, apenas quando possível, o que é mais complicado
ainda em decorrência de o trabalho ser no mato, em algumas ocasiões.

Dentre as atividades realizadas pelos policiais, as mais relevantes, segundo o Gráfico


6, foram: abordagem de pessoas e veículos, com 75,6%; patrulhamento ostensivo, com
59,4%; operações especiais, com 45,9%; e condução de viatura, com 40,5%. As atividades
são realizadas com o intuito de coibir os assaltos a banco, porém, o trabalho no COTAR não
se limita a isso. São realizados: patrulhamento de tipo preventivo e ostensivo, em que os
policiais saem pelas estradas de carroçáveis em busca de possíveis suspeitos, e com o intuito
de marcar presença, pois as estradas de carroçal são as mais utilizadas pelos assaltantes a
banco. No que se refere às operações especiais, eles atuam em rebeliões de presídios no
interior do Estado, condução de presos, além de outras atividades ligadas ao Choque.
76

Gráfico 6 - Distribuição proporcional das atividades desempenhadas pelos policiais do


COTAR

80% 75,6%
70%
59,4%
60%
50% 45,9%
40,5%
40% 32,4%
27,0%
30%
20% 10,8%
5,4% 5,4% 8,1%
10% 0,0% 2,7% 2,7%
0%
Condução de viatura

Blitzer

Patrulhamento ostensivo

Ronda escolar
Transporte e custódia de

Outro
Contatos com a comunidade
Registro de ocorrências
Atividades administrativas

Elaboração de estatísticas

Abordagens de pessoas e

Elaboração de relatórios

Operações especiais
veículos
presos

A indumentária do policial do COTAR é composta por: coturno (bota), chapéu de


selva, gandola, camisa de malha, calças, colete e capa tática 26, conforme figura 3. Ao sair do
Choque, ele carrega uma mochila com seus objetos pessoais para sua manutenção, caso haja
alguma ocorrência em que necessitem ficar no mato por várias horas, como higiene pessoal e
obréia27; obrigatoriamente um facão de tamanho grande chamado terçado, uma pistola com
sete carregadores, um fuzil com sete carregadores e um aspargedor (spray de pimenta). Vale
ressaltar que a pistola, o colete e o aspargedor são de uso individual.

26
A capa tática é um acessório que o policial usa por cima do colete, para ele colocar os carregadores-reservas,
para que, durante uma situação de combate, ele tenha à mão as munições de reposição.
.
27
Como eles chamam o lanche que levam nas mochilas.
77

Figura 04- Policial do COTAR pronto para entrar de serviço

Fonte: Foto tirada no Choque para a pesquisa

Segundo o Comando, tudo é fornecido pelo Batalhão. O BPChoque tem como


característica a distribuição de uma pistola para cada policial, além de um colete balístico e
um capacete. Levam fuzil e pistola, tudo com os carregadores. Calcula-se que um policial do
COTAR carrega em média 15 kg. Quando ele sai do Quartel do Choque, em Fortaleza, já sai
pronto para qualquer operação no meio do caminho, pois perceberam que, caso ele não esteja
completamente pronto, provavelmente esquecerá algo importante numa situação súbita de
confronto.
Porque se ele se deparar com uma ocorrência ou alguma coisa, se deparar numa
abordagem em que possa se deparar no mato, ou alguém, se ele tiver que
desembarcar, se ele não tiver com o equipamento com ele, ele não vai lembrar na
hora, porque ele vai abrir a porta e sair. Ele só vai lembrar quando ele já estiver lá
fora, aí não tem mais jeito porque talvez o cara já esteja atirando contra a viatura.
(Entrevistado 1).
Os 15 quilos descritos acima são mais relevantes quando avaliado o tempo em que o
policial carrega este peso, além da posição em que ele se encontra no serviço. O policial sai,
78

em meio ao calor intenso, com 15 quilos de farda e equipamento, passa várias horas sentado,
muitas vezes andando em estradas carroçáveis, nas quais a viatura vibra bastante e gera
incômodo na coluna, segundo policiais. Além disso, no curso das ocorrências, os policiais
permanecem nas mais variadas posições com essa mesma carga de peso, apenas tirando-a
quando for seu momento de descanso, na Educação Física ou quando for tomar banho.
Essa prontidão para atuar cobra a existência de um policial bem preparado, atento e
munido de equipamentos em boas condições de uso, de modo a atuarem de forma satisfatória
no decorrer das ocorrências. O Gráfico 7 mostra a avaliação dos policiais no que se refere aos
seus equipamentos e acessórios.

Gráfico 7 - Distribuição proporcional da avaliação dos equipamentos/ acessórios com os quais


os policiais trabalham
84,4%

84,4%
81,3%

81,3%
90,0%
68,8%

80,0%
65,6%

56,3%
70,0%
60,0%
37,5%

50,0%
34,4%
31,3%
28,1%

40,0%
21,9%
18,8%

18,8%

18,8%

30,0%
15,6%

15,6%
15,6%
9,4%

9,4%

9,4%
20,0%
6,3%

6,3%

6,3%
3,1%

3,1%

3,1%
0,0%

0,0%
0,0%

0,0%
0,0%

0,0%

0,0%

0,0%
0,0%

10,0%
0,0%
Viatura
Arma de grosso calibre
Arma de porte

Telefone celular funcional


Rádio portátil
Armamento não letal

Bastão (cassetete, tonfa)


Colete balístico

Algemas

Péssimo/Ruim Razoável Bom Não sabe/não utiliza

Papel importante nessa Companhia é o desempenhado pelo motorista. Cada viatura


possui um motorista principal, o mais apto para operações, porém, outro diferencial do
79

COTAR está no fato de que é a única Companhia em que todos estão habilitados e
capacitados para dirigir, com um maior ou menor nível de habilidade, mas todos têm que ter a
capacidade de dirigir, diferentemente das outras Companhias do Choque, onde isso não é
requerido. É um diferencial criado pela necessidade, pois o percurso de patrulhamento do
COTAR numa semana chega de três a cinco mil km rodados, dependendo da missão, e para
uma semana, um só motorista rodar tanto, o nível de desgaste dele seria muito elevado. Ao
dividir entre os quatro integrantes da viatura, há uma possibilidade desse desgaste ser menor
para cada um. Os motoristas principais, no entanto, são aqueles responsáveis pelas grandes
viagens ou deslocamento entre cidades. Vale ressaltar que esse deslocamento nem sempre é
tranquilo, pois, além de dirigir por longas distâncias, o motorista, muitas vezes, precisa fazer
isso em alta velocidade, chegando a 160km/h em média, e às vezes fazer manobras perigosas,
em virtude de perseguições ou mesmo de chegar mais rapidamente para auxiliar outros
colegas que já estejam em uma operação.
Estava em Russas. A gente tava até fazendo atividade física quando o policiamento
local solicitou pra gente. solicitou nosso apoio, informou a situação. A gente se
equipou rápido e seguiu. Deu...Russas é o quilômetro cento e ...deu 13 ou 14 km só.
Foi perto, só que eu tava muito rápido neh. Eu tive que fazer uma manobra. Eu tava
no assalto, dirigindo a viatura da frente. Eu vi os caras passando pela gente com os
fuzis. Eu tive que fazer um cavalo de pau no meio da BR, e os componentes da
patrulha rapidamente já desembarcaram. Por isso, por isso que me marcou, porque
qualquer atitude errada eu podia ter capotado a viatura e ter desabado tudo, ter sido
um desastre. (Entrevistado 6).
Além da direção, o motorista também é responsável por vigiar a viatura e carregar o
material coletivo, como na seguinte fala:
O motorista dá cobertura aos três, ao comandante e aos dois patrulheiros na hora da
abordagem. No deslocamento do mato ele geralmente fica de olho nas viaturas, aí
vai só os três. No caso se tiver mais de duas patrulhas, fica dois motoristas e os
outros dois acompanham. No caso dos motoristas acompanharem o restante da
patrulha, eles são encarregados de levar o material coletivo, questão de granada,
lançadores. (Entrevistado 2)
Conforme exposto, a vivência do risco é constante para eles. Alguns policiais chegam
a dizer que têm mais medo de morrer nos deslocamentos do que na própria troca de tiros. E o
que está na função de motorista no serviço tem a responsabilidade de fazer com que todos os
chamados sejam atendidos em tempo hábil, mas que também todos cheguem bem, o que
parece ser um fator gerador de estresse para os motoristas, mas também para a equipe como
um todo.
80

Em virtude da atividade desenvolvida pelo COTAR e do papel importante exercido


pelo motorista, quem exerce essa função tem alguns benefícios, pois sempre é o primeiro a
comer e dormir. Além disso, ele não tira o quarto de hora, tendo uma condição de descanso
mais preservada. Mesmo com os benefícios, todavia, o desgaste também os alcança. Em busca
de se manterem acordados, eles utilizam estratégias como ingerir energéticos, tomar café, mas
que nem sempre resolve.
Uns deles tomam café, Redbull, toma produtos pra tentar permanecer acordado. Só
que quando o sono chegar, vai chegar tão de repente que ele não vai perceber.
Quando ele se perceber já tá jogando o carro em cima de uma carreta, de um local de
serra. Graças a Deus isso ainda não aconteceu, mas pode vir a acontecer porque é a
sobrecarga que dá. (Entrevistado 1)

Figura 05 – Viatura do COTAR

Fonte: Foto tirada no pátio do Choque para a pesquisa

Além da gratificação do Choque, os policiais do COTAR recebem diárias referentes às


viagens, que variam de acordo com a hierarquia: praças ganham aproximadamente 94% do
valor que os oficiais ganham; ou de acordo com a cidade para qual são enviados: pequeno
porte, médio porte, grande porte. Como exemplo, citamos a diária paga em uma viagem para
Sobral, em que um soldado recebeu o valor de R$73,60 e um oficial R$77,80. Essa
gratificação é vista como necessária pelos policiais, haja vista eles passarem sete dias, sem a
81

certeza de que terão onde se alimentar. Policiais relataram que, no início do COTAR, as
prefeituras e os órgãos das cidades lhes ofereciam refeições, porém, com o passar do tempo
isso quase não acontece. A variação do valor das diárias, mesmo sendo pequena, causa
aborrecimentos para os policiais, pois questionam o porquê da diferença dos valores de
acordo com a hierarquia, visto que o valor é uma ajuda de custo para alimentação, como
citado por um policial: “tipo, um soldado come menos que um cabo. Um cabo come menos
que um sargento...tipo assim, eu acho que pode ser por isso, né? Se é para alimentação, é pra
ser igual. Todos comem igual, não?” (Entrevistado 4). Outro ponto que os chateia é que eles
também recebem de acordo com o local para onde são mandados, e não para onde realmente
vão, pois eles saem em direção a uma cidade de pequeno porte, que possui baixa diária, por
exemplo, e acabam sendo direcionados para outra, desta vez de grande porte. O valor que eles
recebem, no entanto, é o da cidade para onde eles foram inicialmente enviados, como
percebido na seguinte fala:
Aí Quixadá já é outro valor menor. Aí aqui em Itapipoca, que são regiões mais
próximas e menores diárias, só que você vai pra lá, Itapipoca, mas não permanece lá.
Pode ficar umas horas lá e ser jogado para outra cidade, e a diária não acompanha.
(Entrevistado 1).
No que se refere às condições de trabalho, 8,1% responderam péssimas, 13,5% ruins,
45,9% razoáveis e apenas 32,4% boas. Tais dados nos mostram que, por mais que os policiais
pareçam se identificar completamente com seu serviço, já há desgaste evidente. Esses
percentuais de condições boas e razoáveis podem ser uma forma de naturalização dos riscos e
agravos à saúde a que estão submetidos, em que os policiais passam a considerar como um
hábito as más condições de trabalho ou até mesmo o perigo da morte.

Tem o problema mais de coluna, mas não é por causa do serviço do COTAR, o cara
já tem tendência, hérnia de disco e outras bobagenzinhas. Mas dá pra se ausentar
muito tempo não. O que demora mais foi o pessoal que já teve hérnia de disco.
(Entrevistado 3).

O policial do COTAR geralmente é um policial rústico, né? Ele se acostuma com o


desconforto . Ele tem ...pra ele o desconforto não é uma coisa que incomoda tanto
quanto incomoda os outros policiais né; até porque o sol do sertão é bastante forte.
Às vezes é necessário você passar o dia inteiro sem comer quando você tá em
alguma missão no meio do mato atrás de bandido e você não pode deixar de cumprir
sua missão por causa que você tá com fome..E a gente também leva comida,
assim...leva as obréia. (Entrevistado 6).
82

O sono é um ponto significativo no trabalho do COTAR. Os policiais precisam de


sono e descanso para poderem pensar, ‘fazer a leitura’ do que está se passando nas
ocorrências e ter calma para reagir às ocorrências, como citado na fala seguinte:

...ele tem que dar o descanso, porque ele tem o motorista dele que tem que
descansar, tem uma equipe dele, e se o pessoal não estiver descansado ele não vai ter
o raciocínio para na hora de uma ocorrência poder dar atendimento a altura.
(Entrevistado 1).

Há no COTAR um planejamento sobre a escala de sono e descanso, chamado Quadro


de Horário, o qual é para ser respeitado, caso não haja ocorrências. “Nós patrulhamos de meio
dia às 19:00h, e de zero horas às três da manhã, na hora do período crítico bancário. Aí
encosta de três horas e só sai no outro dia as oito, nove.” (Entrevistado 3). Nesses intervalos
é para haver um descanso, dividido em Quarto de Hora, que significa que cada patrulheiro
ficará de plantão por uma hora, enquanto os demais descansam. Com exceção dos motoristas,
todos tiram um quarto de hora. No Gráfico 8, observamos a média de horas dormidas pelos
policiais por noite. Ressaltamos, porém, que este sono é interrompido pelo quarto de hora, por
chamados para ocorrências, ou até mesmo pelo barulho, calor, dependendo de onde eles
estejam. Entre os entrevistados, vários relatam que apresentam variação na qualidade do sono,
mesmo quando estão em casa, pois, ao sair de serviço, passam dois dias para relaxarem e,
quando começam a dormir bem, têm de retornar. A vivência do sono para eles pode ser mais
bem explicada pelas falas dos policiais:

Aí quando é hoje, primeiro dia, é o pior. É porque eu já estou acostumado a dormir


oito horas da noite. Eu não posso dormir, eu tenho que continuar. Então é um pouco
cansativo, pesado. Se torna mais pesado, só que aí você vai se adaptando até se
acostumar. Mas é cansativo, é doído. (Entrevistado 4).

A escolha para quem vai dormir primeiro é realizada por antiguidade, ou seja, o mais
recente no COTAR é o que tira o pior quarto de hora. O sono, desse modo, é essencial para
que tudo ocorra dentro do esperado, pois, quando há desgaste, há maior risco para os policiais
e para a sociedade, como relatado a seguir:

E eu ouvi os tiros de lá pra cá. Se eu estivesse estressado, se eu estivesse mais


estressado que o normal, porque o serviço em si já deixa a gente mais tenso. Se eu
estivesse além do normal, com certeza eu teria efetuado os disparos nos colegas,
sem saber que era eles... (Entrevistado 2).
83

É evidente que alimentação e sono são necessários para que uma pessoa tenha uma
vida saudável. Mesmo havendo variação, em média, ela necessita de oito horas de sono
ininterrupto. Além da reduzida quantidade de horas de sono, porém, esse descanso não é
linear, pois pode ser interrompido por vários motivos. Mesmo com os oito dias de folga, os
desgastes produzidos na vida desse policial não são facilmente recuperáveis, e, como eles
mesmos relatam, no fim do serviço, a atenção e a paciência já não são as mesmas, o que,
numa atividade tão delicada, pode vir a salvar uma vida.

Gráfico 8 - Distribuição proporcional das horas dormidas pelos policiais do COTAR durante a
noite.

60%
50% 43,75%
40%
30% 18,75%
20% 12,50% 9,38%
6,25% 3,13% 6,25%
10%
0%

Não respondeu
4 horas

5 horas

6 horas

7 horas

8 horas

9 horas
-10%

No dia a dia do trabalho, os policiais são cobrados pelos resultados. Considerando a


atividade policial como serviço, fica subjetivo medir o rendimento dos policiais. No caso do
COTAR, o controle das metas é feito tomando por base os assaltos a banco, apreensão de
drogas e armas. Segundo relato de policiais, o COTAR é a companhia que mais apreende
armas hoje no Ceará, dado que não pôde ser confirmado, mas que enseja satisfação e orgulho
para os policiais. Alguns deles consideram que as cobranças por algumas metas são
exageradas, e desgastantes, nem sempre sendo possível de ser alcançadas pela patrulha.

Ele quer produzir, mas ele não quer ver o bem-estar do efetivo. Ele quer dar
resultado, quer apresentar resultado. Então esse é o ponto crucial, que melhoraria se
a pessoa não visse só os vencimentos. Não adianta ganhar um valor até a mais, mas
trabalhar triplicado. (Entrevistado 1)
84

A instituição PMCE oferece aos policiais benefícios como assistência médica, por
meio do plano de saúde ISSEC. Todos os policiais e servidores do Estado têm direito ao
plano, inclusive esposa e filhos. É contraditório, porém, o fato de que apenas 62,2% relataram
possuir assistência médica. Vale ressaltar que há várias reclamações sobre o plano de saúde,
pois, segundo policiais, há poucos médicos, além de algumas especialidades sem nenhum,
como é o caso de psiquiatras, o que leva o policial a buscar o atendimento de forma particular.

Dentre os outros benefícios recebidos, foi citado uniforme, com 51,4%. Não há,
todavia, uniformidade na distribuição das fardas. Em alguns anos, são entregues novos
uniformes, em outros não. Há casos de policiais que, em três anos de Choque, receberam, um
uniforme, outros receberam um em cada ano. Os que já possuíam também não podem contar
com recebimento de novos em período determinado. Nesses casos, os policiais adquirem com
o com seu próprio dinheiro. “Demorou. Eu recebi a primeira farda e quando eu recebi a
segunda foi só com dois anos depois. Demorou! Não tem frequência não!” (Entrevistado 5).

Sobre a estrutura física disponível aos policiais, há apenas as referentes ao Choque,


pois, conforme citado pela maioria dos entrevistados, eles não possuem sede própria, apenas
tendo como quartel o Choque, localizado em Fortaleza.

Há no Batalhão de Choque o setor administrativo do COTAR e um alojamento com


banheiro. As demais estruturas são utilizadas pelo Choque, o qual também não oferece espaço
e melhores condições para treinamento e descanso, como ginásios, cozinha, salas de aula. Eles
têm que se virar com o que têm.
85

Figura 06 – Pátio do Batalhão de Choque

Fonte: Foto tirada para a pesquisa

As folgas são outro ponto diferencial do COTAR, pois, em geral, o comandante do


Choque tenta ao máximo poupá-los, não os convocando quando não estão de serviço. Caso
haja a necessidade, porém, eles precisam comparecer mesmo em suas folgas. Acontece ainda
de eles terem que passar mais tempo em serviço do que os seis dias previstos, caso eles
estejam saindo de serviço e sejam chamados para alguma operação em que estejam próximos.
Ficar seis dias trabalhando já é cansativo, imagine-se ultrapassar esses dias. Os policiais
entendem a necessidade do chamado e sempre vão, mas relatam o desgaste causado como
consequência, e até a dificuldade em atingir o desempenho máximo na operação.

Nos momentos de folga, 81,1% deles optam por fazer atividades com a família, o que
é explicado pela ausência deles no decorrer da semana. Essa ausência leva a duas respostas
diferentes dos policiais para com suas famílias: uns se aproximam bem mais, buscando
suprimir a falta dos dias ausentes, já outros, optam pelo zig, que é como eles chamam a outra
atividade, seja um “trabalho extra” ou até mesmo uma “mulher extra”. Em decorrência, fica
evidente o alto número de separações e problemas conjugais dentro do COTAR.

De fato, na rotina de trabalho, os policiais passam pelo menos uma semana sem ver os
familiares, esposas e filhos, o que é visto como um problema para eles. Segundo relato do
86

próprio Comando, há vários casos de problemas de relacionamento conjugal em decorrência


do tempo fora de casa.

Outras atividades desenvolvidas nos momentos de lazer são: atividades esportivas,


com 73%, igreja ou associação religiosa, com 59,5% e cinema com 40,5%, dentre outras com
menores percentuais. Em média, os policiais possuem de oito a 20 horas de lazer na semana.

O período de férias dos policiais, em geral, é respeitado, tanto no período quanto na


duração, porém, sempre pode haver necessidade de convocação, mesmo nas férias, o que, no
caso do Choque, tenta ser evitado, mas nem sempre se consegue. Nesse período, os policiais
optam por descansar com a família, viajar e trabalhar em casa, preferencialmente.

Deste modo, podemos perceber toda a especificidade que existe no trabalho do policial
do COTAR, que o acompanha desde o momento de entrada na Companhia até as atividades-
fim que são o patrulhamento e o trabalho repressivo no interior do Estado.

Em março de 2015, iniciou o II COTAR, e com ele o ingresso de mais policiais e a


possibilidade de nova diminuição da jornada de trabalho para 6 x 10. Vale ressaltar a
mobilização que acontece antes e no decorrer do curso, pois tanto o Comando da Companhia
como a tropa são convocados a acompanhar os cursandos, seja em instruções ou avaliações.

Desde o momento de sua criação, houve a preocupação em formatarem tudo o que se


referia ao COTAR. A Companhia foi planejada, desde o uniforme, os armamentos
necessários, a jornada de trabalho, as escalas de sono. É percebido, porém, que, como todo
trabalho de Polícia, não é possível atingir o que fora prescrito. Primeiramente, porque estamos
falando de pessoas, e não há um parâmetro fechado para que possamos saber como estas vão
agir e como seus corpos reagirão. O policial trabalha com o imprevisto na maioria das vezes.
O policial do COTAR tem de estar pronto para reagir a qualquer momento, desde a saída do
quartel. E não há uma regularidade no que pode vir a acontecer. Até mesmo quando eles são
enviados para uma operação em andamento, eles não têm total conhecimento do que está
acontecendo lá, e o modo de agir vai acompanhar isso.

Fala corrente nos diálogos policiais é que ‘trabalho de polícia se aprende na rua’. E
isso é verdade, pois a realidade do que vai ser necessário fazer no momento de uma operação
nem sempre pode ser prevista. Claro é que há planejamento, estudos sobre modos corretos de
agir com base em outros eventos passados, mas algo evidente é que eles vão aprendendo em
87

cada ocasião; cada dia de trabalho mostra novas realidades, as quais fazem da profissão
policial um constante aprendizado.

Esse descompasso do prescrito em relação ao real do trabalho, segundo Ferreira &


Barros (2003), que é vivenciado na relação prazer-sofrimento da atividade, enseja uma
sobrecarga de trabalho e conduz, não muito raramente, ao adoecimento.

No momento atual, confrontamos todos os dias notícias sobre o trabalho dos policiais
militares, as quais, em sua maioria, são críticas sobre suas atuações ou omissões. Nesse
contexto, a Instituição Policial Militar cobra desses trabalhadores a habilidade de
improvisação, iniciativa, criatividade e o bom discernimento dos policiais, de modo que eles
estejam preparados para responder por seus atos e intervir em distintas situações, sempre
tendo em vista a preservação da vida, inclusive da sua. Até que ponto, entretanto, são dadas
reais condições para que o policial desempenhe essas tarefas?
No Gráfico 9, podemos perceber um pouco da realidade desse trabalho e de como eles
são tratados pelos colegas de mesma graduação e pelos superiores. Podemos perceber que há
cobranças arbitrárias, críticas muitas vezes desnecessárias, e tarefas em alguns momentos
consideradas absurdas, como terem que ficar parados em um local não previsto apenas por
vontade do comandante da patrulha.
88

Gráfico 9 - Distribuição proporcional das cobranças diárias feitas aos policiais do COTAR

50,00%
48,28%
48,28%
60%

44,83%

44,44%

41,38%
37,93%

37,93%
50%
35,48%
35,48%

34,48%
34,48%

34,48%
31,03%

31,03%

31,03%
31,03%

31,03%
29,63%

27,59%
27,59%

26,67%
40%

24,14%

24,14%
18,52%

17,24%
30%

13,79%

13,79%

13,33%
12,90%

10,34%

10,00%
9,68%

20%

7,41%

6,90%

6,90%

6,90%
6,45%

3,45%
0,00%
responsabilidade por outras de… 0,00%

0,00%
0,00%

0,00%

0,00%

0,00%
0,00%

0,00%

0,00%

0,00%
10%

0%
... recebe críticas injustas ou sem

atualização e aperfeiçoamento?
... lhe deixam ocioso(a), sem nada

... recebe tarefas que exigem uma


... lhe atribuem um volume de
... seu trabalho é monitorado de

... lhe negam ou não lhe repassam

... recebe tarefas com objetivos

... recebe tarefas absurdas ou sem


ou prazos difíceis de cumprir?
... lhe retiram ou substituem

desempenho de suas tarefas?

participação em cursos de
competências profissionais?
experiência maior que suas
tarefas que eram da sua

forma desnecessária ou

... dificultam o acesso à


motivo ao seu trabalho?

informações úteis para o

trabalho exagerado?
excessiva?
para fazer?

sentido?

Nunca Quase nunca Às vezes Quase sempre Sempre

Conforme exposto no Gráfico 9, mais da metade dos entrevistados (51,66%) relata


receber críticas injustas ou sem motivos referentes ao trabalho; 51,85% relatam perceber o
monitoramento desnecessário sobre o trabalho; 20,69% exprime quase sempre ou sempre
receber tarefas com objetivos ou prazos difíceis de cumprir; e 50% dizem que às vezes ter
atribuições de trabalho em volume exagerado. Percebemos, assim, que há descompasso no
que é previsto para os policiais em relação ao que é cobrado deles. Há excesso de volume de
trabalho, além de moderada, ou até mesmo, sobradas críticas referentes ao trabalho. Como
consequência, isto desmotiva o trabalhador e pode levar ao adoecimento, seja pela sobrecarga
ou pela falta de reconhecimento, o que, segundo Dejours (2001), é um fator causador de
adoecimento, pois todo trabalhador precisa se sentir útil e ter, como troca de seu trabalho,
reconhecimento.
Desse modo, está predeterminado ao policial que aprenda a lidar com o imprevisto da
realidade do seu trabalho, porém, respondendo de acordo com o previsto no Código
Disciplinar (o prescrito), se torna ainda mais complexo quando ele depara as precárias
89

condições de trabalho oferecidas e, muitas vezes, as difíceis relações entre subordinados e


profissionais com maiores graduações.

5.4 A Formação e a Capacitação do Policial do COTAR

A estrutura hierárquica das corporações policiais militares brasileiras é oriunda das


nossas Forças Armadas, mais especificamente, do Exército. Nesta estrutura, existem duas
formas de ingresso na Corporação, por meio da carreira das praças ou na dos oficiais.

As carreiras de praça e oficial PM distinguem-se, primordialmente, pelo tempo e


caráter da formação, tendo os primeiros algo como um curso técnico e os segundos um curso
superior (geralmente reconhecido pelo MEC). Há estados brasileiros em que se exige nível
superior para ingresso em quaisquer carreiras, sendo solicitada até a especificidade do curso
de Direito para se tornar oficial PM. Na realidade do Ceará, porém, é exigido nível médio
para praça e nível superior para oficial, indeterminado o curso. Mesmo assim, ainda foi
registrado entre os entrevistados 21,6% que, mesmo sendo praças, possuem nível superior ou
especialização.

O Curso de Formação dos oficiais é bem mais amplo do que o das Praças, no Ceará,
sendo atualmente de um ano e meio. Essa diferença é um reflexo do que é esperado de um
praça e de um oficial. A duração decorre das atividades que os oficiais vão exercer, pois,
desde o momento do curso, antes mesmo de ingressar na Instituição, eles já possuem nível
hierárquico mais elevado do que o do praça mais antigo em serviço. Isso significa que os
oficiais são treinados para exercerem funções de comando, de chefia, diferentemente dos
praças, treinados para a obediência.

As respostas sobre a duração do curso de formação expressas no Gráfico 10 mostram


como os cursos de formação passaram por mudanças desde a criação da PM. Mesmo todos os
que responderam ao questionário sendo praças, houve variação de tempo do curso de três
meses a um ano. Apesar, no entanto, das variações, fica evidente o quão curta é a formação
desses policiais, o que nos incita à questão de até que ponto o curso, e a academia preparam
os policiais para o trabalho de policial, o trabalho de rua. Além disso, ao relatarem sobre a
avaliação do curso: 6,25% relataram ser péssimo, 9,38% ruim, 56,25% razoável, 37,50% bom
e apenas 6,25% ótimo.
90

Gráfico 10 – Distribuição proporcional da duração do Curso de Formação dos Policiais

50,0%
50% 46,9%
45%
40%
35%
30%
25% 18,8%
20%
15%
10%
5% 0,0% 0,0% 0,0% 0,0%
0%

Com duração

Com duração

Com duração

Outro
mês a 3 meses

ano até 3 anos


meses até 12
nenhum curso

de até 1 mês

de mais de 3

de mais de 6
Com duração

Com duração
até 6 meses
Não realizou

de mais de 1

de mais de 1
meses
Militares.

As disciplinas que compõem o curso de formação versam sobre Educação Física,


Defesa Civil, Defesa Pessoal, Informática, Direito Penal, Mediação de Conflitos, Técnicas de
Abordagem e Tiro, dentre outras. Para eles, as disciplinas mais relevantes para sua atuação
profissional são: Técnicas de Abordagem (89,2%); Educação Física (83,8%); Tiro (94,6%);
Defesa Pessoal (48,6%); e Direito Penal (48,6%). Ao serem questionados sobre as disciplinas
em que mais sentiram carência no curso, eles responderam 59,5% tiro e 37,8% Direito Penal e
Defesa Pessoal. Parece-nos óbvia a necessidade de Tiro, Defesa Pessoal, mas Direito
Penal? Sim, o Direito Penal é considerado como essencial para o trabalho deles, como
mostrado a seguir.

No decorrer das entrevistas, ratificamos a necessidade do Direito Penal para eles,


explicado como forma de melhor preparação para lidar com todo tipo de público,
principalmente o mais esclarecido. Segundo relato, muitas pessoas querem questionar a
autoridade dos policiais, o motivo pelo qual estão sendo abordados ou em que lei podem ser
enquadrados. Além disso, eles próprios precisam saber até onde podem ir, qual o direito e
dever das pessoas abordadas. Para isso, torna-se necessário que eles tenham conhecimento em
Direito Penal, como percebido na seguinte fala:

Muitas vezes a gente aborda pessoas que se acham melhor que as outras, e gosta de
argumentar neh? Se você for um policial leigo, que não entende de lei, ele vai lhe
enrolar bem facinho. Então eu concordo que o direito penal você tem que saber a
fundo. (Entrevistado 4).
91

O Direito Penal, no entanto, pode lhes proporcionar também o conhecimento para lidar
com o imprevisto das ocorrências, pois, quando em meio a condições de extremo desgaste
emocional, eles podem cometer infrações que os tornem vilões ou “vitimizadores”. E,
conhecendo melhor seus deveres, mas também seus direitos, eles podem melhor entender suas
possíveis falhas e até que ponto seriam culpados ou inocentes, tendo como referência todas as
condições disponibilizadas ao trabalho deles.

Os cursos de formação ainda estão em decurso de mudanças. A cada concurso,


algumas disciplinas são reformuladas, sempre no intuito de melhor preparar este profissional
para a sociedade. Mesmo com essas atualizações, todavia, mesmo em cursos de formação que
ocorreram após o ano 2000, que podem ser considerados recentes, houve policiais que
efetuaram apenas 50 disparos no decorrer do curso inteiro, segundo relato de policial que hoje
é do Choque, confirmando que o problema não passa apenas pela curta duração, mas também
pela qualidade limitada da preparação desses policiais, o que é confirmado pelo seguinte
relato: “Se for preparar em termos da formação da academia pra realidade é totalmente
diferente.” (Entrevistado 5).

Desse modo, mesmo com mudanças de um curso para outro, percebemos o


desinteresse por parte do Estado em gerir de forma mais apropriada a formação desses que
serão os responsáveis por promover a segurança. Em virtude da pressa para mostrar à
sociedade que mais policiais estão sendo “entregues” para fortalecer o quadro que hoje ainda
está desfalcado, peca-se em não fazer esse procedimento de forma adequada, formando
pessoas despreparadas para o trabalho nas ruas, e que muitas vezes podem até mesmo adoecer
em decorrência da falta de preparo para lidar com as conflitualidades do mundo.

No decorrer da carreira policial, 95% relatam já haver participado de alguma


atualização ou qualificação profissional, sendo 80% presencial e 15% a distância. Já no que se
refere a cursos de Pós-graduação, 91,9% dizem não haver participado de nenhum curso de
Pós-graduação. Pelo fato de a escala de serviço do COTAR ser de 6 X 8, 6 X 9, fica inviável
aos policiais sequer cursarem uma graduação, o que para alguns é um grande incômodo, pois
não permite que eles cresçam profissionalmente nem realizem outras intenções que existem
fora a vida policial.

Dentro da realidade do Choque, existem treinamentos de reciclagem semestrais ou, no


máximo, anuais, com todo o efetivo, além dos treinamentos das próprias companhias que têm
a previsão de acontecerem anualmente. Em decorrência, contudo, do dinamismo da rotina do
quartel, nem sempre se torna possível que esses treinamentos de reciclagem sejam realizados,
92

acontecendo, então, treinamentos menores nos intervalos em que o serviço está mais
tranquilo, com menores ocorrências. É percebido nos próprios policiais um desejo por
treinamento e aperfeiçoamento operacional especializado. Esse foi justamente o motivo
principal de a maioria ter optado pelo Choque, por ser um contingente preparado, treinado e
com melhores armamentos. Desse modo, existem os treinamentos de reciclagem e
nivelamento, os treinamentos mais pontuais que são feitos na maioria dos serviços, e os
treinamentos especiais, no caso da aquisição de novos materiais. Abaixo, estão reproduzidas
as falas de policiais que melhor exemplificam:

Eu fiz um nivelamento para ingressar no COTAR e , e depois disso teve um outro


nivelamento, em média de um ano. No dia a dia a gente treina, cada patrulha dentro
das suas respectivas sempre treina, porque às vezes muda um ou outro e aí, a forma
e o entrosamento tem que ser o mesmo...a gente sempre acaba treinando para manter
o padrão de qualidade. (Entrevistado 5).

Tivemos um treinamento agora com um armamento novo que a gente recebeu, aí


cada policial foi num stand, fizemos um teste e tudo com o fuzil que a gente recebeu
e as outras coisas. (Entrevistado 6).

O treinamento nosso, capitão marca aí e vai chamando por patrulha, por quem está
entrando de serviço e vai dando devagarzinho. (Entrevistado 3)

O Choque possui papel relevante na segurança pública do Ceará atualmente, pois,


além de ser importante por sua atuação profissional como policial, é também relevante como
centro de treinamento e aperfeiçoamento profissional. Vários são os policiais das mais
variadas partes do Ceará, e dos mais diversos postos de serviço, que são enviados ao Choque
para serem treinados, o que mostra a confiança do Estado nos profissionais que lá estão. São
treinados policiais dos FTA´s interior e Capital, policiais que trabalham na segurança do
Comando, policiais civis, policiais rodoviários estaduais, e todo o efetivo que o Comando ou
o secretário de Segurança Pública julgar necessário.

Já os cursos específicos de cada Companhia têm duração de 15 dias a três meses,


dependendo da Companhia, e cada companhia possui o seu. No caso do COTAR, o curso
recebe o nome de COTAR – Curso de Operações Táticas Rurais, e contempla o que eles
chamam de treinamento caatinga, o qual visa a preparar os policiais para sobrevivência e
trabalho no interior e em condições, em alguns casos, inóspitas, com água, comida e repouso
reduzidos. No momento, está ocorrendo o II COTAR, que tem como intuito selecionar
policiais para a Companhia e treinar os que ainda não são cursados. Ser cursado dentro de
qualquer das companhias do Choque, e até mesmo, dentro da Polícia, é motivo de orgulho e
93

respeito para quem carrega o brevê ao peito. Significa que o profissional merece o respeito do
grupo, por ser mais bem preparado, ter passado por barreiras pelas quais nem todos passam, e
até mesmo ter tido a coragem de fazer o curso.

Figura 07 – Brasão do II COTAR

Fonte: Retirada do facebook da Companhia

5.5 Hierarquia e Disciplina: atividade laboral introjetada na identidade pessoal.

O policial demonstra-se como parte de um universo social, de um grupo profissional


de identificação, com hierarquias e valores próprios, ensejando um status valor e status social,
que repercutem na sua vida como um todo, e não apenas na vida profissional. Na perspectiva
de Sá (2002), mesmo após reformado, ou seja, como policial da reserva, os laços sociais
formais e informais da pessoa com o grupo permanecem, inclusive do ponto de vista
disciplinar. Ele é policial dentro e fora do horário de serviço, e mesmo a paisana. Isso decorre
das características do trabalho do policial militar e suas peculiaridades, o que o faz diferente
da maioria dos trabalhadores.

A disciplina e a hierarquia têm início desde o primeiro contato da pessoa com a


instituição, no processo seletivo, composto por provas objetivas de conhecimentos, provas
físicas, avaliação psicológica e, finalmente, o curso de formação. Como já citado no item
anterior, o curso de formação das praças é diferente do de oficiais.
94

Há quem defenda uma só via de entrada pelas corporações PM, iniciando-se da menor
graduação (soldado PM), porém seria impossível que todos os policiais chegassem aos
escalões superiores, já que a estrutura de pessoal de qualquer administração é piramidal (mais
executores do que gestores).

A proposta de unificar as carreiras não fará com que uma corporação de 40 mil
homens, por exemplo, tenha 40 mil coronéis – ideia de alguns que parecem querer,
inadivertidamente. Em qualquer organização, os gestores precisam trilhar o caminho da
liderança. Não é diferente nas polícias militares, que lidam com bens jurídicos cruciais para a
existência da sociedade.

Com base no Código Disciplinar da Polícia e da percepção de como é a vivência deste


processo de disciplina e hierarquia para os policiais, analisamos como essas relações
influenciam na vida profissional do policial, e até que ponto elas atingem também a vida
pessoal. Para isso, pesquisamos sobre: relação interpessoal, o tratamento por colegas de
posição hierárquica, seja inferior, equivalente ou superior; existência de abusos ou violência e,
finalmente, o respeito como são tratados pelos colegas de trabalho e pela sociedade.

No que se refere ao relacionamento interpessoal, percebemos no Gráfico 11 que a


maioria do efetivo julga haver bom relacionamento entre os colegas de trabalho, e até mesmo
de posição hierárquica superior. Os policiais relataram unanimamente nas entrevistas que há
muita união no grupo, e que, em geral, o relacionamento é muito bom, alguns citando os
colegas de patrulha como quase irmãos, o que eles acreditam decorrer do tipo de serviço
realizado e da duração longe de casa.

Hoje eu tenho a visão mais ampla do Batalhão de Choque, e eu percebo que o


COTAR, devido ao serviço talvez, é uma das companhias mais unidas que tem. A
gente não anda falando de ninguém, cada um pega sua responsabilidade e acabou,
enquanto outras fica muito a contento, sabe?! (Entrevistado 2).

Já no relacionamento com os superiores, principalmente com os comandantes de


patrulha, foi relatado certo abuso/desrespeito à necessidade de descanso, alimentação e
educação física do efetivo, conforme as narrativas seguintes:

Cada comandante pensa de uma forma diferente e age com uma forma diferente, e
lida com o sono, cansaço e atividade física, alimentação e todos os fatores de uma
forma diferente. Uns preservam, outros não preservam. Uns acha que precisa, outros
acha que não precisa, aí fica nisso, entendeu? (Entrevistado 6).
95

Porque o horário de descanso numa ocorrência tudo bem, mas quando não, a pessoa
que tá na frente pensa: ‘eu não quero comer. Então, se eu não quero comer ninguém
quer comer’. Eu não entendo essa ordem, eu ainda não entendi. (Entrevistado 1).

No que se refere, no entanto, ao relacionamento com superiores, é relevante que o


comandante da Companhia, que é o oficial de maior autoridade, é admirado e visto como
preocupado com o efetivo. É contraditório porque o próprio comandante respeita os horários
de descanso, de atividade física, alimentação, enquanto que os Comandantes das patrulhas,
que possuem menor autoridade dentro da Companhia, e até menor hierarquia, em alguns
casos, não respeitam.

E o que mais me intriga, por incrível que pareça, eu viajei com o comandante da
companhia, e ele respeita isso demais. Ei fiquei ...a primeira vez que eu viajei com
ele eu fiquei abismado. Quem não respeita são os demais. O cara que é o chefe faz, e
a pessoa que deveria seguir a orientação dele não faz. (Entrevistado 1).

Segundo alguns policiais, existem casos em que os soldados são mais bem tratados
pelos oficiais do que pelas praças de maior hierarquia, como sargentos e subtenentes,
conforme vemos no relato seguinte:

Têm oficiais que se saem muito melhor, questão comportamental, interpessoal do


que praças: sargento,...saem muito melhor do que os próprios praças, e era para ser,
como você está mais próximo, hierarquia menor, mais próximo ali, era para dar
menos complicação... (Entrevistado 2).
96

Gráfico 11 – Distribuição proporcional das relações com os colegas, de posição hierárquica


equivalente, inferior ou superior.

62,07%

62,07%
61,29%

61,29%
70%
60%

41,38%
37,93%
35,48%
50%
32,26%

31,03%
40%

24,14%
30%

13,79%
20%

6,90%

6,90%
6,90%

6,90%
3,23%

3,23%

3,23%
0,00%

0,00%
0,00%

0,00%

0,00%

0,00%
0,00%
10%
0%

hostilidade ao se aproximar do

dirigem a palavra, como se você


... é permitido que você converse
... é permitido que os colegas

... se sente isolado dos demais

colegas ou superior hierárquico


... sua presença é ignorada, os
superior hierárquico ou dos

conversam entre si e não lhe


... enfrenta algum tipo de
conversem com você?

demais colegas?
com os colegas?

não existisse?
Nunca Quase nunca Às vezes Quase sempre colegas? Sempre

No que se refere ao modo como são tratados por colegas de posição hierárquica
equivalente, inferior ou superior que a deles, mostrado na Tabela 02 foi percebido que, por
parte da maioria, há respeito entre os colegas, porém, 17,86% relata ser tratado com gritos ou
de forma agressiva às vezes, e 7,14% às vezes ser alvo de insinuações sobre a saúde mental. O
segundo item foi percebido também durante a observação, pois, em forma de brincadeira,
existiram ocasiões em que foi questionado o estado de saúde mental de alguns policiais na
frente deles, de modo jocoso, o que não foi possível percebermos se era apenas uma
brincadeira comum entre eles ou algo perjorativo. Mesmo, porém, sendo em forma de
brincadeira, não há como avaliar o abalo que os comentários ou gritos causarão em quem os
recebe, pois cada pessoa possui individualidade, problemas e seu modo de lidar com as
situações desagradáveis. O que para uma pessoa pode soar apenas como brincadeira, para
outra pode provocar desmotivação e até traumas em alguns casos, dependendo da situação, do
modo como a pessoa está no momento e da frequência a que são expostos.
97

Tabela 02 – Abusos e assédio na Instituição


Em relação ao comportamento dos colegas,
de posição hierárquica equivalente, superior Nunca Quase nunca Às vezes
ou inferior, com que frequência...
... você é alvo de insinuações sobre sua saúde 57,14% 35,71% 7,14%
mental?
... você é humilhado(a)/ridicularizado(a) na 60,71% 35,71% 3,57%
frente dos colegas ou de terceiros?
... criticam questões relativas à sua vida 57,14% 39,29% 3,57%
particular?
... dirigem-se a você com gritos ou de forma 39,29% 42,86% 17,86%
agressiva?
... utilizam termos obscenos ou degradantes 75,00% 25,00% 0,00%
ao se referirem a você?
... intimidam você com acusações, invasões 75,00% 21,43% 3,57%
de espaço, empurrões ou bloqueios físicos?
... você é alvo de fofocas ou calúnias que 57,14% 42,86% 0,00%
prejudicam a sua imagem ou reputação?

Ainda no que se refere aos tratamentos e relacionamentos entre os policiais, é dado


relevante a existência de ameaças, de violência durante o serviço e alguns tipo de tortura no
decurso dos treinamentos, o que pode mais claramente ser percebido no Gráfico 12. Neste
sentido, os percentuais mais relevantes se referiram a: ter sido vítima de violência física em
serviço uma vez (20%), ter sido ameaçado em serviço de morte ou violência física algumas
vezes (14,29%) e ser vítima de tortura em treinamentos (11,43%) algumas vezes.

Tabela 03 – Exposição à violência física na Instituição


No desenvolvimento das suas atividades, por parte de colegas
Algumas
de posição hierárquica equivalente, superior ou inferior, você Nunca Uma vez
vezes
já...
... foi vítima de violência física em serviço? 80,00% 20,00% 0,00%
... foi vítima de violência física em período de folga? 100,00% 0,00% 0,00%
... foi ameaçado(a), em serviço, de morte ou de sofrer violência 80,00% 5,71% 14,29%
física?
... foi ameaçado(a), em período de folga, de morte ou de sofrer 77,14% 11,43% 11,43%
violência física?
... foi vítima de tortura em treinamento? 85,71% 2,86% 11,43%
... foi vítima de tortura fora de treinamento? 100,00% 0,00% 0,00%
Fonte: Elaboração própria.
98

No que se refere ao tratamento desrespeitoso e até mesmo violento em alguns


momentos, podemos identificar o assédio moral, o qual é mais bem explicado na definição de
Heloani (2004):

Em nosso entender, o assédio moral caracteriza-se pela intencionalidade; consiste na


constante e deliberada desqualificação da vítima, seguida de sua consequente
fragilização, com o intuito de neutralizá-la em termos de poder. Esse
enfraquecimento psíquico pode levar o indivíduo vitimizado a uma paulatina
despersonalização. Sem dúvida, trata-se de um processo disciplinador em que se
procura anular a vontade daquele que, para o agressor, se representa como ameaça.

Segundo Freire (2009) há a necessidade, por parte do superior hierárquico, de


repetição ou sistematização, de modo que o fenômeno passe a fazer parte da rotina de trabalho
da pessoa, o que degrada seu ambiente de trabalho. Há ainda a necessidade de que, para que
seja considerado abuso moral, o sujeito se reconheça como abusado, como o que pode ser
percebido em várias falas de policiais do COTAR. Alguns relatam que no começo era pior, e
que hoje os abusos acontecem em menor escala.

É preocupante a realidade em que 51,85% já se sentiram desrespeitados algumas vezes


e 3,7% muitas vezes. Além de 11,54% e 11,11% terem se sentido discriminados por cor/raça e
por convicções religiosas, respectivamente.

De modo geral, 9,4% dos policiais relataram sofrer assédio moral, e 28,1% não
responderam, o que é um número relevante quando relacionado com o tema em questão. Ao
serem questionados, no entanto, sobre o porquê de não reclamarem, ou levarem a queixa a um
superior competente, eles respondem que isso poderia ser julgado como insubordinação por
parte de alguns, e até mesmo sofreriam retaliações em alguns casos.

A relação com os abusos em certos momentos soam como tão frequentes que muitos
policiais parecem acostumados, assimilando-as como normais à profissão. Alguns mostram
desconforto e até indignação, dependendo do caso, já outros, respondem de forma pacífica,
chegando a ignorar a existência dos abusos. Acreditamos que essa reação decorre de dois
motivos: percepção de que não vai adiantar se incomodar, pois não haverá mudanças ou
punições para os abusadores, ou mesmo a ideia de que isso faz parte da carreira policial, como
percebido na seguinte fala de um policial:

Porque eu acho que venho pra tirar meu serviço, se o Comandante não quiser tomar
banho passo sete dias mais ele sem tomar banho, se não quiser comer também, não
vai morrer de fome (risos). Eu sou desse jeito, eu não fico me lamentando não, senão
os sete dias não passam, se você ficar se lamentando. (Entrevistado 3).
99

Pensamos assim, num certo conformismo perante os abusos por parte de alguns, como
se ser policial incluísse a realidade de sofrer assédios ou abusos. Muitos nem consideram que
estão sofrendo assédio moral, como se naturalizassem os desrespeitos presentes.

Disciplina e hierarquia passam a ser mais relevantes ao pensarmos que não estamos
falando apenas das relações de trabalho, mas também das vivências dos policiais, do ethos
policial militar, que não se encerra assim que o policial deixa o serviço.

A utilização perversa de mecanismos como esses há pouco sugeridos fizeram com que
caísse sobre os oficiais uma generalização de perseguição e abuso. É lamentável, pois é óbvio
que muitos oficiais são líderes, lutam por seus comandados e têm convivência salutar com
eles. Para dissipar esses estigmas, é preciso que as praças entendam esta dinâmica e valorizem
aqueles que não se adéquam às posturas negativas aqui discutidas. Destacar o positivo é o
mesmo que diminuir o negativo.

Por outro lado, os ocupantes de cargos estratégicos das corporações PM não podem
tolerar abusos nem perseguições, tampouco devem evitar ser justos porque um servidor
policial faz parte de uma ou de outra carreira.

O sujeito policial, desse modo, é antes de tudo um policial. Citando Muniz (1999), em
‘Ser policial é, sobretudo, uma razão de ser’, são ratificadas a relevância e a influência que a
hierarquia e a disciplina têm na vida do sujeito, em sua casa, na sua folga, com amigos e até
com membros familiares. Isso pode ser explicado por vários motivos: seja pela identidade que
é criada desde o ingresso na carreira policial, seja pelo contínuo reforço no decorrer das
atividades, no modo de execução, na falta de liberdade para falar...o policial respira disciplina
desde o momento em que acorda ao instante em que vai dormir. Ele perde a identidade de
José, Marcos ou Fábio e passa a ser Azevedo, Rocha, ou até mesmo sendo conhecido por
números que se referem ao curso de formação ou à numeração em outros cursos como os do
Choque.

O policial do Choque, como os demais, conduz o ethos policial entranhado em suas


vidas, porém, a cobrança pelo respeito a normas e diretrizes, muitas vezes parece ser mais
forte no Choque. Para exemplificar, basta lembrar o citado sobre a participação em greves, e
que foi ratificado com o pensamento deles sobre o direito de participar de greves, pois 78,1%
responderam não achar legítimo participar de greves. Isso pode ser confirmado pela própria
100

história do Choque e pelo surgimento da gratificação que eles possuem como reconhecimento
por eles não terem aderido à greve.

Sendo assim, o policial do COTAR veste uma farda que não está sob a pele, mas sim
impregnada na sua pele, no seu modo de agir, na sua vida.

5.6 Polícia e Sociedade: O poder da farda

Com suporte no que exploramos acerca da história da Polícia, percebemos que a


relação da polícia com a sociedade foi alicerçada de forma nem sempre positiva, pois a
Polícia como representante do Estado estava sempre pronta para defender os direitos de uma
minoria dirigente, o que ensejou cobranças e críticas, que deveriam ser endereçadas ao
Estado, mas que foram direcionadas à Polícia. Neste contexto, “é no policial que recai a
frustração individual, bem como a da sociedade” (MOREIRA, GUIZARDI, RODRIGUES et
alii, 1999), ou seja, a frustração individual do próprio policial e da sociedade em geral, como
se somente eles fossem os responsáveis pela violência e falta de segurança nas cidades, o que
pode ser percebido nas narrativas de policiais do Choque: “a sociedade nos vê como um mal
necessário”, ou “quem precisa, tem nós como heróis, ou talvez como a última alternativa.”

No caso específico do COTAR, é necessário lembrar que ele foi criado


especificamente da necessidade de suprimir os assaltos a banco que estavam aumentando em
todo o Estado. Quando os assaltos eram na Capital, efetivos das companhias resolviam os
problemas, porém, para chegar ao interior, já se tornava difícil, visto ser uma realidade
diferente. O efetivo do Choque não estava preparado para essa extensão ao interior tão
específica, por mais que fossem eles os enviados para resolver os chamados.

Ao refletirmos sobre a realidade precária das polícias no interior do Estado, fica


evidente que a chegada de uma tropa que para reforçar o serviço da PM local e dos FTA´s
seria bem-vinda, pois os assaltos a banco causam grande impacto na vida das pessoas, seja no
momento do assalto ou nas suas consequências que, em muitos casos, ficam sem agências na
cidade.

Além disso, o trabalho do COTAR não se resume apenas a prevenção e repressão de


assaltos a banco. O simples comparecimento dos policiais às cidades já causa interferência na
vida da população. Os policiais relatam que o COTAR realiza grande apreensão de armas,
101

controle de tráfico de drogas, controle de rebeliões em presídios dos municípios mais


afastados, transferência de presos ou o que houver necessidade. O foco da patrulha é assaltos
a banco, mas o serviço deles se estende ao serviço de Choque, também.

O policial do COTAR é antes de tudo policial do Choque. Tal afirmação implica


distintas identidades, atividades, estruturas, relacionamentos interpessoais e condições de
trabalho. Um policial, certa vez, relatou que ser do COTAR é ser ‘três fardas’: ser policial
militar, ser choqueano e ser COTAR. O que parece ser bastante similar, em razão da
identidade militar, tem como consequência várias implicações, pois, ao serem julgados na
Controladoria, eles são apenas policiais militares como tantos outros; ao atuarem com o
uniforme camuflado, seja em manifestações, rebeliões, eles são Choque, independentemente
da Companhia; além de serem COTAR, quando são vistos numa perseguição contra
assaltantes de banco, ou em operações na caatinga. E cada uma dessas fardas, por um lado,
representa uma só característica: serem policiais, mas, ao mesmo tempo, representam uma
variedade de expectativas, atitudes e reconhecimento social.

Na sua maioria, os policiais do COTAR consideram-se vistos de forma positiva pela


sociedade, diferentemente da percepção que os policiais de outros batalhões têm dessa
relação. Em muitas ocasiões, relatam serem ovacionados, receberem convites para almoçar,
serem bem tratados de modo geral, o que pode ser percebido na seguinte fala:

O policial do COTAR é visto como o policial perfeito! Ele é visto como o policial
que não pode errar, não pode relaxar, não pode sentar, não pode vacilar de hipótese
nenhuma...a maioria da sociedade vê a gente como um exemplo mesmo, uma polícia
que é honesta, uma polícia que não erra. (Entrevistado 6).

Sendo assim, o relacionamento entre policial do COTAR e a sociedade, geralmente, é


visto como motivador e como fator de reconhecimento, pois eles percebem que as populações
interioranas se sentem seguras com as de patrulhas do COTAR. Outros policiais ainda relatam
que o policial do COTAR é visto como honesto, como trabalhador, em detrimento da
seriedade com que outros profissionais da PM CE trabalham no interior.

Ao questionar um aluno do I COTAR o que representava o COTAR, obtivemos como


resposta: “o COTAR é uma luz no fim do túnel para as comunidades no interior do Estado”,
o que denota o respeito e a admiração, não apenas da sociedade civil, mas também dos
colegas de farda. E, como expresso anteriormente, o reconhecimento é fator motivacional
necessário para bom desenvolvimento e para manutenção da saúde mental.
102

5.7 Prazer e Sofrimento no cotidiano do COTAR

Ao pensarmos sobre o trabalho dos policias do COTAR, é inevitável observar a


relação de prazer e sofrimento que se estabelece, mas que muitas vezes é divisada por eles
como normal, cotidiana. Há certo desprezo da real complexidade e possibilidade de
adoecimento advindo do trabalho, mesmo com os adoecimentos e afastamentos.
No que se refere à saúde, eles relataram que têm pouco cuidado com eles mesmos.
Dentre os policiais, 30% vão raramente ao dentista, 38,71% raramente fazem consulta com
médicos e 43,3% raramente fazem exames preventivos. O único fator da saúde que eles
parecem cuidar é o condicionamento físico, como pode ser visto no Gráfico 12; todavia, não
pode ser descartado o fato de que a educação física é necessária para ele como policial, para a
melhor execução de suas atividades, o que nos leva a concluir que esse cuidado seja tomado,
visando novamente ao bom desempenho profissional, e não à saúde pessoal.

Gráfico 12 - Distribuição proporcional dos cuidados que os policiais do COTAR têm com a
saúde

42,86%
41,18%

40,00%

38,24%
37,84%
37,84%

45,00%
32,35%
32,35%
29,41%

40,00%
24,32%

35,00%
23,53%
20,59%

30,00%
17,65%

17,65%
14,71%

14,71%
25,00%
11,76%
11,43%

20,00%
5,88%

5,71%

15,00%
10,00%
0,00%

0,00%

0,00%

0,00%

0,00%

5,00%
0,00%
Faz consultas com o dentista

Faz consultas com o médico

Cuida da alimentação
Faz exames preventivos

Faz atividade física

Nunca Raramente Às vezes Frequentemente Sempre


103

Os policiais do COTAR trabalham, a maior parte do tempo, a céu aberto, estando


expostos ao calor e às prováveis intempéries. Há também o constante risco, que, segundo
Minayo e Constantino (2008), é algo vivenciado pelos policiais, independentemente das
patentes, pois todos se sentem sempre em alerta. Para eles, sua profissão submete a risco tanto
sua integridade física quanto seus membros familiares, mesmo que o próprio risco seja maior,
segundo os próprios policiais.
Consoante os policiais, um dos problemas de saúde mais comuns é o de coluna, em
decorrência do excesso de peso que carregam durante longo período, o que aumenta o
desgaste, provoca adoecimentos e afastamentos; além de chegar ao ponto de alguns policiais
quererem sair da Companhia por isso. Um dos entrevistados relatou que, no ano passado, o
número de policiais do COTAR que queria sair da Companhia por cansaço chegava a 35
pessoas. Segundo dados do Comando, realmente houve solicitação para saída da Companhia,
mas que chegou a 15 policiais. Dentre os que responderam à pesquisa, 25% relatam já terem
feito cirurgia em decorrência da atividade profissional, o que é por demais relevante.
A saída da Companhia não é bem aceita pelo Comando, pois, pela falta de efetivo, eles
dificultam esse processo. Segundo informação dos policiais do COTAR, caso algum queira
sair da Companhia, apenas poderá ser transferido para fora do Batalhão, o que para eles soa
como punição, pois a maioria adora trabalhar no Choque, e geralmente busca outra
Companhia pela escala do COTAR. Essa dificuldade em transferir policiais de uma
Companhia para outra não é realidade vigente apenas no COTAR, mas em todas as
companhias do Choque.
Além do peso que eles carregam, padecem do sono reduzido, da dificuldade de
dormir, comer ou trabalhar com uma postura ergometricamente desejada pelo fato de
trabalharem, comerem e dormirem no meio do mato ou em condições inóspitas, como na fala
desse policial:
O cara não tem um sono como é para ser..nos matos, nas fazendas, sítios, e onde a
gente fizer amizade. Fica pedindo, se der pra gente armar uma rede, sendo uma
barraca...já dormi várias vezes naquele açude Castanhão, embaixo daqueles
enlatados ali...quente!!! Pegando fogo! Dentro dos matos, e aonde der para armar
uma rede. Num pé de pau...é a nossa casa! (Entrevistado 4).
Somando-se a isso, Minayo (2008) denuncia a existência de uma violência social
que gera mortes e que é difícil de ser definida. Existe o medo dos crimes reais e da percepção
subjetiva sobre os riscos de “vitimização”. Na medida em que eles trabalham reprimindo a
criminalidade, se expõem como os inimigos do crime, e se tornarem possíveis vítimas de
104

retaliação, em alguns casos direcionada aos próprios sujeitos, em outros dirigida à instituição
Polícia Militar.
Segundo dados dos jornais Folha de São Paulo e Diário do Nordeste28, de dezembro de
2014 e março de 2015, respectivamente, é considerado alto o número de policiais mortos ou
feridos anualmente, o que torna o risco desse trabalho maior, influenciando o nível de
adoecimento e a insatisfação por parte de muitos. De acordo com o Diário do Nordeste, a
Câmara aprovou projeto que torna hediondos crimes contra policiais, e até mesmo contra seus
familiares, caso seja provada ligação da agressão com o fato de ser familiar de policial.
Os policiais relatam que os bandidos estão cada vez mais “atrevidos” e com menor
medo da Polícia, o que aumenta a sensação de insegurança para os policiais e seus familiares,
e têm como decorrência a criação de projetos de lei como o citado anteriormente, como forma
de conter os bandidos. Eles relatam que, antigamente, os policiais do Choque eram
respeitados e até temidos em qualquer lugar onde chegassem. Já, hoje, algum enfrentam e até
provocam os policiais, além de demonstrarem não sentir medo ou respeito em alguns casos,
como em uma ocorrência do COTAR na qual ao serem cercados por uma patrulha do
COTAR, um dos bandidos aparece para os policiais dizendo: “Perdeu!”
A iminência da morte é constante na vida dos policiais. Após certo tempo de profissão,
percebemos que, como defesa intrapsíquica, o sujeito passa a se tornar frio, de modo a melhor
lidar com essa possibilidade constante, percebendo a morte como algo natural:
É natural! No mundo de hoje tá natural! Você chega, você pode olhar que quando a
gente vê uma morte assim, a gente vê até as crianças sorrindo neh, perto do morto.
Então, se para uma criança hoje é natural, imagina para um policial que tá sempre
ali. (Entrevistado 4).
Sobre a morte deles, é interessante perceber que quase todos relatam não sentir medo
de morrer, mas sim de que os colegas morram, ou os familiares, o que pode ser percebido na
seguinte fala:
Rapaz, nesse dia eu vi a viatura a uns 160 km/h. A 160, numa estrada estreita, e
assim,... naquele momento, medo da morte a gente não sentiu não, porque a gente se
preocupava mais em chegar lá, por causa dos nossos colegas.29 ( Entrevistado 5).

28
Dados encontrados nos seguintes endereços: http://www1.folha.uol.com.br/co...iolencia-contra-policiais.shtml
http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/nacional/online/camara-aprova-projeto-que-torna-
hediondos-crimes-contra-policiais-1.1253490

29
Relato de policial do COTAR que teve sua patrulha convocada para ir dar apoio a colegas que estavam em
troca de tiros com assaltantes.
105

De fato, o espírito de corporação é forte entre esses policiais. O vínculo de amizade e


ajuda mútua cresce a cada experiência de confronto com os bandidos. O medo da própria
morte aparece como diminuído, o que é ratificado pelo dado expressando que 96,88% dos
policiais não possuem seguro de vida ou de proteção contra acidentes. É número bem elevado
quando se trata de um profissional que trabalha dia e noite com a ameaça da morte. Alguns
relatam ter medo, o que é mais evidente nos momentos de deslocamentos nas estradas, pois,
na hora em que estão nas operações, eles só conseguem pensar no objetivo principal, que é o
de deter o meliante e proteger os demais colegas, esquecendo-se até das próprias vidas; mas
como seria o trabalho dos policiais se eles vivessem constantemente preocupados com a
própria morte? Pela natureza da sua atividade, torna-se natural para ele tratar a morte e o
medo da morte como singelos, porém, a frieza também pode levar a um desapego, ensejando
desrespeito pela figura humana, o que pode ser preocupante. Desse modo, o policial vive entre
o respeito às pessoas, mas, por outro lado, há frieza em lidar com o objetivo a ser alcançado
nas operações.
O cansaço, a constante exposição ao sol, o peso excessivo dos equipamentos e
fardamento, o sono reduzido, a alimentação desregulada e a ‘falta de tempo’ para irem ao
médico ou realizarem consultas médicas são fatores diretamente ligados ao desencadeamento
de problemas físicos e emocionais; além da distância da família, dos problemas de
relacionamento pessoal e profissional, pelas circunstâncias do trabalho, agravados pela
ausência em casa que também desestabilizam os sujeitos.
Citamos falas de policiais que exemplificam com suas vivências:
Todos que entraram no COTAR desde o começo tiveram um grande, uma velhice
prematura. Todo mundo envelheceu rápido demais, de rosto mesmo, na fisionomia.
Ficou todo mundo baqueado! O sol, a temperatura, a quentura, neh. (Entrevistado 4).
Eu não aguento mais, tá? Tipo assim, vida de cigano: chega equipe, tira a farda
todinha, ‘bora, arma rede’, passa umas duas horas, “equipe, desarma rede!’. ‘Bora na
mochila, veste a farda’. Eu já cheguei a fazer seis vezes durante um dia. Então se
torna muito cansativo...mas já tá tão prático que a gente faz em questão de minutos
isso aí. Mas aí a gente vai se acostumando, mas é um pouco desgastante.
(Entrevistado 4).
...quando eu to em casa, nos dois primeiros dias, eu não consigo dormir tranquilo. É
como se eu estivesse de serviço ainda! Aí quando eu começo a dormir tranquilo, nos
dois últimos dias, me preocupo porque tenho de voltar de novo. Com a alimentação,
muitas vezes quando to em casa, às vezes não janto...já é reflexo do trabalho.
(Entrevistado 5).
106

Segundo Esteves e Gomes (2013), o estresse é uma adaptação do ser humano a


mudanças. No que se refere ao trabalho, existe o estresse ocupacional, que aparece nos
trabalhadores quando seus recursos são reduzidos em face das exigências que têm de enfrentar
nas atividades laborais.
Segundo o autor, o estresse ocupacional também pode levar ao adoecimento. Há
fatores que predispõem o aparecimento do estresse ocupacional, relacionado às condições
físicas, como temperatura, ventilação, iluminação e características específicas da função,
como número de horas trabalhadas e exposição a riscos. Tomando como referência as
atividades laborais dos policiais do COTAR, concluímos que, tanto no que se refere às
condições físicas, quanto às características da função, há um desgaste exacerbado do policial,
que é exposto a péssimas condições físicas, relacionamentos interpessoais em alguns
momentos com abusos, além do extenuante número de horas, sono reduzido, fatores altamente
estressantes e que podem levar a um esgotamento por parte do sujeito, chamado burnout.
Vale ressaltar ainda que, segundo Hurrell, Worthigton e Driscoll (1996), o estresse no
ambiente laboral pode contribuir para a violência no trabalho, o que pode ocorrer no
relacionamento entre os colegas, ou ainda entre policiais e sociedade.
Os policiais relatam que, no último ano, apresentaram variados sintomas, que apenas
por isso não poderiam ser obrigatoriamente considerados como decorrentes das atividades.
Em razão, todavia, da alta frequência de resposta de muitos, e dos relatos de problemas físicos
de outros, concluímos haver relação diretamente proporcional decorrente da atividade do
COTAR: problemas osteomioarticulares30 pelo peso carregado e a exacerbada rotina de
trabalho versus o escasso descanso; problemas emocionais decorrentes do esgotamento físico
e mental e da distância de casa e da família; além de desconfortos estomacais decorrentes das
péssimas condições de alimentação na rotina do serviço e do estresse pela natureza do
trabalho pleno de imprevistos. Os sintomas ora relatados estão representados no Gráfico 13, e
figurados nas falas dos policiais sobre os adoecimentos:
Na questão da doença, o que mais tem ocasionado é problema na coluna, problema
na lombar por conta do peso do equipamento que a gente carrega, que é bastante
pesado. É em torno de 15 a 20 quilos que você carrega, no seu colete, equipamentos,
né? (Entrevistado 6).
Só uma vez senti umas dores muito fortes no ombro esquerdo. Eu acho que um
princípio de bursite. Eu não tava nem aguentando suspender meu braço. Eu passei
vinte dias dormindo sentado, porque eu não aguentava me deitar. Eu atribuo isso ao

30
Problemas nos músculos, ossos e articulações.
107

peso. É, é o lado que eu boto o fuzil, o peso. E nessa época eu tava dirigindo muito,
com o fuzil cruzado aqui. Eu acho que desgastou!” (Entrevistado 4).

Gráfico 13 - Distribuição proporcional dos sintomas sentidos pelos policiais no decorrer dos
últimos doze meses.

60% 54,1%
51,4%
48,6%
50%

40% 37,8%
32,4%
30% 27,0%
24,3%

20% 16,2% 16,2%


13,5%
8,1% 8,1%
10% 5,4% 5,4% 5,4%
2,7% 2,7% 2,7%2,7%
0,0%0,0% 0,0% 0,0%0,0%
0%
Anorexia/buli…

Colesterol…

Enxaqueca/cef…

Problemas…
Problemas…
Problemas…
Problemas…
Problemas…
Problemas…
Problemas…
Problemas…
Distúrbios do…
Transtornos…
Síndrome do…
Aumento de…

Não deseja…
Não teve…
Hipertensão

Não lembra
Depressão
Câncer

Outro
Ansiedade

Diabetes

-10%

Mesmo com todas essas condições adversas, porém, constatamos que o número de
afastamentos para tratamento da sua saúde, nos últimos 12 meses, não é tão relevante, pois
apenas 24,3% dos policiais do COTAR entraram de Licença para Tratamento de Saúde (LTS).
De acordo com os dados da Perícia Médica, os policiais são o segundo lugar entre os
servidores que mais adoecem, ficando atrás apenas dos professores. Deste modo, com suporte,
partimos dos dados do capítulo imediatamente anterior, referentes à organização e às
condições de trabalho, buscaremos entender qual a relação entre trabalho policial e
adoecimento, e quais são os maiores motivos dos afastamentos.
Mesmo considerando tudo o que foi aqui relatado, percebemos que há bastante
orgulho em ser policial e, principalmente, em ser do COTAR, mesmo com as dificuldades e
com a pesada jornada de trabalho. Muitos relatam querer sair do COTAR apenas em
decorrência da jornada que os deixa muito cansados e longe das famílias, porém, sempre
relatando que sentem bastante prazer nas atividades e no serviço. Em geral, os policiais do
COTAR, no momento da pesquisa, se encontravam em grande parte insatisfeitos, como
108

observado no Gráfico 14. Após a diminuição das escalas para 6x8, 6x9, no entanto, foi
perceptível a empolgação dos policiais, e o número de pedido para sair teve certa redução,
conforme relato abaixo:
A questão da jornada de trabalho é excessiva, é cansativa. A gente chega em casa
um pouco...deu uma melhorada agora, 6 x 8, mas antes era muito fatigante. É tanto
que nessa mudança agora a gente viaja e tá todo mundo sorridente.
Melhorou!”(Entrevistado 6).

Gráfico 14 - Distribuição proporcional da influência da atividade policial na vida dos policiais


do COTAR
48,65%

48,65%
60%

43,24%
50%
35,14%

27,03%
40%
21,62%
18,92%

30%
13,51%
10,81%

10,81%
8,11%

20%
5,41%

5,41%
2,70%
0,00%

10%

0%
Sente orgulho em contar que é Sente que seu trabalho requer Sente que sua profissão
policia que você esconda suas prejudica sua vida
emoções pessoal/familiar
Nunca Raramente Às vezes Frequentemente Sempre Não sabe

Desse modo, percebemos que, segundo Gráfico 14, mesmo com todas as adversidades,
os policiais do COTAR sentem orgulho em contar que são policiais, mas que, em geral,
percebem que a atividade policial cobra deles como profissionais e sujeitos, levando-os à
necessidade de esconderem as emoções. Em geral, é notório que o trabalho é desgastante e
que pode levar ao adoecimento, porém, não sendo motivo o suficiente para saírem da
Companhia ou pensarem em mudar de profissão.
109

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Considerando a mais recente Companhia do Batalhão de Choque, o COTAR, como


objeto desta pesquisa, enveredamos em busca de conhecer esse policiais e suas relações com o
trabalho policial.

Nessa busca, descobrimos que o COTAR é formado por um contingente


exclusivamente masculino, o qual, em sua maioria, veio de outras companhias do Choque. De
estado civil predominantemente casados, esses policiais possuem filhos e ocupam o papel de
chefe de família, sendo sua renda a fonte principal para a renda familiar e às vezes a única.
Neste contexto, a renda do policial do COTAR é expressiva em comparação com a de outros
policiais da mesma graduação/patente de outros batalhões, pois eles recebem além dos
vencimentos, relativos à graduação, no caso de um soldado, uma gratificação que é quase
50% do seu salário, além de diárias em torno de R$70,00. Em contrapartida, são mais
ausentes de casa do que os demais policiais, pois, pela rotina de trabalho, viajam e passam
quase sete dias longe da família, o que já tem causado muitos problemas de relacionamento
familiar e, sobretudo, conjugal.

Diferentemente de tudo o que geralmente acontece na PM, o COTAR teve sua criação
planejada, desde o uniforme, formato da viatura, formação da patrulha, jornada de trabalho e
modo de abordagem, tendo como base os exemplos de outras tropas “caatinga” já existentes
no Nordeste, como o CIOSAC, de Pernambuco.

O COTAR possui jornada de trabalho atualmente de 6 x 8, 6 x 9, trabalhando no


interior do Estado. Possui sua sede em Fortaleza, atualmente no Choque, porém sem sede no
interior do Ceará, o que compromete as condições de sono, hospedagem e alimentação. Como
dito, sua indumentária foi projetada para o serviço na “selva”, e seu treinamento inicial foi
todo baseado em técnicas de sobrevivência na caatinga. Deste modo, o policial do COTAR,
desde o momento de seu ingresso na Companhia, é preparado para viver na realidade do
interior, aprender a lidar com a população dali, estar preparado para as intempéries, como sol
escaldante, água escassa, incursões pelo mato, dormidas sem alojamento específico, ao que se
somam dificuldades provenientes das condições físicas do local, ainda existindo as
provenientes da atividade. Em virtude do foco na repressão de assaltos a banco, os policiais
possuem: a) escalas de sono diminuídas e descontínuas; b) alimentação desregulada; c) falta
de tempo para descanso; d) deslocamentos realizados em altas velocidades às vezes por
110

longos percursos em vias e estradas sem qualquer estrutura, na maior parte do tempo; e)
excesso de peso que o acompanha desde o momento que sai do quartel até o fim do serviço; e
f) a constante incerteza do que pode ocorrer durante o serviço.

No que se refere à instrução, os policiais do COTAR recebem treinamentos de


nivelamento anuais ou semestrais, além das instruções que recebem toda vez que entram de
serviço. Mesmo sem linearidade, os policiais realizam atividades físicas quando na ausência
de ocorrências, o que nem sempre é respeitado pelos comandantes das patrulhas.

Sendo assim, com base no modo de trabalho, das atividades como patrulhamento ou
confronto armado, os policiais do COTAR têm de estar sempre prontos. É exigida deles,
produção, que pode ser medida pela quantidade de armas apreendidas ou pelas ocorrências de
assaltos de que participam como repressores.

Nesse contexto, percebemos que os policiais do COTAR têm uma jornada de trabalho
considerada estressante, convivendo desde o momento que saem do quartel até o fim do
serviço com o imprevisível, tendo de estar sempre prontos para reagir a situações violentas.
Necessitam se deslocar em altas velocidades, indo ao encontro de algo que eles não sabem
bem o que é, porém, focados apenas no objetivo da missão, ou com a necessidade de dar
cobertura aos colegas que já estejam em ocorrências; policiais multifacetados, preparados seja
para fazer patrulhamento, seja para arriscarem suas vidas, salvando reféns ou mesmo
impedindo que os criminosos escapem. Precisam ter calma para realizar o tiro seletivo, para
fazer a leitura adequada das ocorrências, mesmo quando estão cansados com o peso dos
armamentos, ou simplesmente estão sem dormir ou comer. Esses são os policiais do COTAR!

Desse modo, foi identificado nas narrativas dos entrevistados o adoecimento


recorrente nas conversas informais. Dentre os principais riscos e agravos, destacam-se
problemas dermatológicos, intestinais, e, principalmente, de coluna e doenças
osteomioarticulares. Ademais, o risco de ferimentos ou morte por fazerem parte de sua rotina
é naturalizado por alguns, embora seja uma ameaça permanente. Todos esses agravos à saúde
física também repercutem na saúde mental, notadamente pelo fato de a natureza do trabalho
ter como característica principal a surpresa, o inusitado, o perigo. A imprevisibilidade e o
risco acompanham o policial, inclusive nos momentos de lazer e férias, o que é apontado por
eles como fator gerador de estresse.
111

Além disso, ainda são expostos a situações de abuso moral, seja pelo desrespeito ao
sono e alimentação programados, ou até por críticas, ofensas verbais e até ameaças ou maus
tratos no caso de treinamentos.

Mesmo ante o descompasso permanente do prescrito em relação ao real do trabalho, os


policiais demonstram que se sentem bem, como policiais, gostam de ser do COTAR, sentem-
se vocacionados a essa atividade, contribuindo para a sociedade, mesmo reconhecendo por
vezes a possibilidade de serem incompreendidos pela sociedade.

Finalmente, dá para se apreender daqui que, a partir das narrativas foram captadas
sugestões para o COTAR, como: diminuição da jornada de trabalho para 5 X 10; melhoria da
infraestrutura de apoio nos municípios possibilitando melhor descanso e apoio para os
policiais; maior oferta de capacitações, com liberação e investimento por parte do Governo do
Estado; aumento do número de viaturas e do efetivo; o devido cumprimento do previsto no
Quadro de Horários de descanso e atividades físicas; atividade física direcionada para a
atividade.
112

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2004.
DOCUMENTOS

- Código Disciplinar da PMCE e do CBM. Marco Aurélio Macedo de Melo (org) – Ten Cel –
março de 2012

- Constituição da República Federativa do Brasil de 5 de Outubro de 1988

- Lei de Organização Básica – Estrutura Organizacional da Polícia militar do Ceará – Marco


Aurélio de Melo (org) – Ten Cel – março de 2013
116

APÊNDICES

APÊNDICE A – ROTEIRO DE ENTREVISTA DE TRABALHO


1) Conte-me, por favor, todos os locais onde trabalhou antes de entrar para a Polícia.
2) Quanto tempo ficou?
3) Por que saiu?
4) E quando entrou na PM CE? Entrou por onde? Tinha a intenção de trabalhar onde? Fazer o
quê?
5) Qual o percurso dentro da PM CE até entrar no Batalhão?
6) E no Batalhão?
7) Por que o COTAR?
8) Como é trabalhar no COTAR, hoje?
9) E para os demais policiais?
10) Conte sua rotina de trabalho?
11) Com quem trabalha?
12) Como é trabalhar no interior?
13) Qual a periodicidade com que vocês recebem treinamentos?
14) Quais os pontos positivos?
15) E os negativos do trabalho?
16) E segundo seus colegas?
17) Conte uma experiência (uma operação) que o marcou no COTAR?
18) Como a sua rotina de trabalho no COTAR influencia a sua vida familiar/ conjugal?
19) Como são as condições de alimentação, sono, descanso e execução de exercícios físicos no
decorrer da sua rotina de trabalho?
20) Depois de entrar no COTAR, houve alteração no seu sono, alimentação, cansaço?
21) Houve problemas dermatológicos, gástricos ou de qualquer outro tipo?
22) E o que foi feito para resolver isso?
23) Depois que entrou para o COTAR, já teve que se ausentar por algum problema de saúde
em virtude das condições de trabalho?
24) E seus colegas?
25) Como acredita que o PM do COTAR é visto pela sociedade?
26) Caso cometam erros em serviço, e como são as providências tomadas (punições...)?
27) Qual o diferencial do policial do COTAR para os demais?
28) A folga é respeitada? Há expediente?
29) Como é lidar com a proximidade da morte? Do que tem medo?
30) Quais benefícios recebem e com que periodicidade? E as fardas, EPI´s?
31) Como funciona a escala de sono no decorrer das atividades?
32) Nos questionários, colocaram ser importante estudar Direito Penal. Por quê?
33) Na entrevista há vários funcionários insatisfeitos. Por que acha que eles continuam?
117

APÊNDICE B – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ


CENTRO DE ESTUDOS SOCIAIS APLICADOS
PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA
COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA EM SERES HUMANOS

TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO

TÍTULO DA PESQUISA: Comando Tático Rural - Entre o trabalho prescrito e o real,


na busca de ser: “Uma luz no fim do túnel” para as comunidades do interior do Estado.

PESQUISADOR RESPONSÁVEL: Rebeca Moreira Rangel

Prezado Colaborador;

O Sr. está sendo convidado a participar desta pesquisa que tem como objetivos:
 conhecer os policiais do COTAR;
 observar e analisar as condições e organização do trabalho dos policiais;
 descrever as trajetórias de trabalho de policiais do COTAR; e
 identificar e analisar os riscos de trabalho a que estão submetidos os trabalhadores do
COTAR.

Ao participar desta pesquisa, o Sr. será entrevistado individualmente, quando contará um


pouco sobre as atividades realizadas no seu dia a dia, as condições de trabalho e os riscos
envolvidos nessa atividade. Essa entrevista será gravada e transcrita para posterior análise.
Lembramos que a sua participação é voluntária, e o Sr. tem a liberdade de não querer
participar, e pode desistir, em qualquer momento, mesmo após ter iniciado a ENTREVISTA,
sem nenhum prejuízo para o Senhor. Caso aceite participar da pesquisa, não receberá
nenhuma compensação financeira.
São os benefícios de sua participação nesta pesquisa: conhecer as condições de trabalho;
compreender quem são os policiais do COTAR; perceber os riscos e agravos a que os policiais
estão submetidos em decorrência da atividade.
O risco em participar dessa pesquisa é mínimo, pois são perguntas amplas sobre o dia a dia
de trabalho; entretanto, é importante esclarecer que, se em qualquer momento sentir
desconforto psicológico e, dessa forma, não deseje responder a alguma pergunta ou mesmo
encerrar a entrevista, sinta-se à vontade.
Todas as informações que o Sr. nos fornecer na entrevista serão utilizadas somente nesta
pesquisa. Suas respostas e dados pessoais ficarão em segredo e seu nome não aparecerá em
nenhuma das gravações ou formulários, nem quando os resultados forem apresentados.
118

Se tiver alguma dúvida a respeito da pesquisa e/ou dos métodos nela utilizados, pode
procurar a qualquer momento os pesquisadores responsáveis.

Se pretender obter informações sobre os seus direitos e os aspectos éticos envolvidos na


pesquisa poderá consultar o Comitê de Ética da Universidade Estadual do Ceará, Ce.

Se o Sr. estiver de acordo em participar, deverá preencher e assinar o Termo de


Consentimento Pós-Esclarecido que se segue, e receberá uma cópia desse documento.
Importante também é que sua rubrica conste em cada página do referido termo junto com a
desta pesquisadora.

TERMO DE CONSENTIMENTO PÓS-ESCLARECIDO

Pelo presente instrumento que atende às exigências legais, o


Sr.(a)_____________________________________________________________, portador(a)
da cédula de identidade __________________________, declara que, após leitura minuciosa
do TCLE, teve oportunidade de fazer perguntas, esclarecer dúvidas, devidamente explicadas
pelos pesquisadores, ciente dos serviços e procedimentos aos quais será submetido e, não
restando quaisquer dúvidas a respeito do lido e explicado, firma seu CONSENTIMENTO
LIVRE E ESCLARECIDO em participar voluntariamente desta pesquisa.
E, por estar de acordo, assina o presente termo.

Fortaleza-CE, ____ de ________________ de ________.

______________________________
Assinatura do participante

______________________________
Assinatura do Pesquisador
119

ANEXOS

ANEXO A – TABELA DE VALORES DA GRATIFICAÇÃO DE POLICIAMENTO


ESPECIALIZADO

GRADUAÇÃO/ PATENTE SALÁRIO GPE


CORONEL 10.873,72
TENENTE CORONEL 8.894,25 3.957,53
MAJOR 7.337,86 3.170,49
CAPITÃO 6.523,07 2.765,75
1º TENENTE 4.896,52 1.935, 51
2° TENENTE 4.488,98
ASPIRANTE-A-OFICIAL 4.146,91
SUBTENENTE 4.124,03 1.573,48
1º SARGENTO 3.827,12 1.424,49
2º SARGENTO 3.547,48
3º SARGENTO 3.220,89
CABO 3.216,22 1.100,22
SOLDADO 3.134,58 1.047,36
Tabela de vencimentos da PM CE, de acordo com Lei nº 15.747, de 30 de dezembro de 2014, no percentual 6,45%, com vigência a partir de
janeiro de 2015, publicada no Diário Oficial do Estado. Dados cedidos pela ACSMCE.