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NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA

NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA


Uma Introdução à Neuropsicologia para Curiosos

Organizadores:
Bruno Santos Souza
Camila Nogueira Marchetti

>> Versão 2.0 <<

Para consultar qual a versão atual e


demais informações acesse:
www.neuropsicologia.com.br
Sobre os Autores
Bruno Santos Souza
Apaixonado por ciências desde que se entende por gente. Até
hoje uma "criança" curiosa, apesar de ter caminhado pela química
e um meio mestrado em engenharia, foram as neurociências que
arrebataram esse coração! Pós-Graduado em Neuropsicologia
Interdisciplinar. É o maluco por trás da ideia desse projeto

Camila Nogueira Marchetti


Diz a lenda que a primeira palavra que ela aprendeu a ler foi
matemática. Apaixonada pelo ensino, com mais de 15 anos de
sala de aula. Licenciada em Química e Pedagoga.
Atualmente nadando em meio a seu mestrado em química focado
ao ensino. É a pessoa que aguenta o maluco de cima e o ajuda a
organizar as ideias.

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Avisos Legais
IMPORTANTE

Esse e-book serve como ponto de partida para o início das discussões.
Materiais complementares, aprofundamentos e demais interações serão
possíveis através dos grupos fechados. Disponibilizados como BÔNUS
EXCLUSIVOS dentro da plataforma de membros.

Toda e qualquer informação aqui contida pode e deve ser replicada, distribuída e
espalhada!

Acreditamos que conhecimento deve ser compartilhado e divulgado! Como


educadores não poderíamos pensar diferente.

Pensamos que toda e qualquer contribuição, seja ela monetária ou não, deve ser
espontânea e fazer com que aquele que contribua se sinta melhor depois do que
antes.

Apenas pedimos que sejam mantidas as referências aqui usadas e que a presente
“obra” seja creditada sendo esse o caso.

O projeto Neuropsicologia Sem Neura é um projeto on-line que permite aos seus usuários obterem
informações e discutirem sobre temas relacionados à neuropsicologia. As informações contidas no projeto são
MERAMENTE INFORMATIVAS e fornecidas em boa fé, embora tenha o máximo cuidado na disponibilização do
material e considere confiável o seu conteúdo, se isenta de qualquer responsabilidade em relação a eventuais
erros ou imprecisões dos conteúdos, ou ainda pela falta de atualização das informações.

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Índice

6 | Prólogo

8 | Prefácio

9 | Introdução

10 | Regras do Jogo

12 | Desdizendo Bobagens

17 | Um Pouquinho de História

24 | Separando as Peças

30 | Sistema Nervoso

55 | Neuropsicologia , Cognição e Inteligência

65 | Neuropsicologia, Atenção e Funções Executivas

78 | Neuropsicologia e Memória(s)

92 | Neuropsicologia e Aprendizado

106 | Neuropsicologia e Linguagem

119 | Neuropsicologia e Emoções

136 | Considerações Finais

138 | Glossário

142 | Referências

144 | Conclusão

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Prólogo
Fala galera!

Em primeiro lugar vocês perceberão que a proposta desse material não é a de ser
algo exaustivo, maçante e tampouco a de cobrir a enorme gama da neuropsicologia.

Pretendo aqui justamente o contrário! De uma forma leve e descontraída, sem


aquele peso acadêmico, guiar o início da caminhada. Em suma, pretendo deixar aqui o
que gostaria de ter encontrado alguns anos atrás quando iniciei minha própria
caminhada. Escrevo para vocês da forma que escreveria para um “eu” do passado,
aquele que mal fazia ideia por onde começar.

Tomando o cuidado, porém, de não prejudicar a correta compreensão, em especial


de alguns conceitos e termos chaves para a construção de uma base sólida. Ajudando
como puder no início dessa caminhada por um território, que apesar de já bastante
explorado, mostra-se infindo a cada passo.

O ritmo será de um bate papo, portanto, fique à vontade para seguir da forma que
preferir. Sem neuras nem encanações, percorra as páginas como bem quiser para a
frente ou para trás.

O passeio é livre! Revisite os tópicos quantas vezes quiser ou precisar.

O projeto foi pensado como uma experiência ativa e dinâmica, para isso teremos
nossa comunidade em grupos fechados do whatsapp/telegram e facebook. Poderemos,
assim, escalar o conhecimento em conjunto.

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IMPORTANTE: Esse material é constantemente atualizado, de acordo com a
dinâmica entre os participantes, portanto, caso você tenha “pescado” esse E-Book no
“marzão” da internet é muito provável que esteja desatualizado.

Para conferir qual a versão atual visite o site www.neuropsicologia.com.br e caso o


que encontrar “tocar seu coração”, fica o convite para engrossar nossa comunidade
participando ativamente das discussões e futuras atualizações. O acesso aos grupos e
às atualizações desse material será vitalício e exclusivo aos participantes. Enquanto
estivermos nesse mundão estaremos em contato.

Coloco-me aqui apenas como mais um curioso nessa caminhada, na qual somos
todos iguais e buscamos os mesmos objetivos! Prefiro ser amigo antes de qualquer
outro rótulo! Podem contar comigo, assim como espero contar com vocês!

Minha missão aqui é a de levar, mesmo que superficialmente, uma noção geral que
sirva de ponto de partida para a construção de um conhecimento maior,
eventualmente especializado. Esse primeiro momento, porém, servirá para a
construção de uma base generalista que sustente uma caminhada futura.

Inicialmente, percorreremos um pouco da história buscando compreender como e


quando as neurociências começaram a ganhar importância. Seguindo ainda a linha
histórica, em muitos momentos “invocarei” tópicos que remontam a teoria da evolução.
Tornando, assim, mais clara a compreensão acerca do nosso sistema nervoso, suas
estruturas e funcionamento. Uma vez que essa abordagem nos permite analisar a
forma como evoluímos e chegamos até aqui!

Tentarei ser o mais didático e breve. Em alguns momentos, porém, não haverá
como fugir de alguns conceitos importantes, mas não se preocupe, a própria
recorrência dos mesmos ajudará na fixação.

Lembrando, mais uma vez, que a meta ao final dessas páginas é a de demonstrar,
em linhas gerais, a forma como nosso sistema nervoso atua nos bastidores do nosso
comportamento. Não entraremos, porém, em tópicos avançados, os quais ficarão
reservados para a continuidade desse projeto.

Espero que no decorrer dessas páginas você, amigo leitor, tenha o mesmo
entusiasmo que eu tenho agora ao escrevê-las.

Por hora, deixo o convite de embarcar nessa aventura rumo ao “desbravamento” do


que rola em nossa “caixola”.

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Prefácio
Inevitavelmente, devido a seu caráter interdisciplinar, a neuropsicologia cada vez
mais esbarrará nas mais diversas áreas do conhecimento. Portanto, o domínio, ao
menos mínimo, das competências dessa disciplina faz-se indispensável para uma
atuação coerente, atualizada e integrativa seja qual for a sua área principal de trabalho.

Nos dias atuais, aquele que atua em qualquer área onde exista alguma relação com
outro ser humano necessita, ainda que de forma superficial, possuir algum domínio em
relação à neuropsicologia, seja ele um educador físico ou um economista.

Com o fervente crescimento das neurociências, em seu amplo espectro, não dá mais
para ficar de fora daquilo que sem dúvida é o expoente das ciências na atualidade.
Muito se engana quem pensa que essa “explosão” se dá apenas no conjunto das
ciências biológicas, muito pelo contrário, todas as áreas do conhecimento, desde a
filosofia à física aplicada, passando pelas ciências sociais e históricas, bebem e
alimentam esse grande poço de conhecimento que só se alarga. Bem-vindos às
neurociências!

Educadores, terapeutas, comunicadores, gestores, vendedores e toda a infinidade


daqueles que lidam com comportamento podem e devem buscar uma melhor
compreensão das neurociências, seja como forma de suporte profissional, seja
simplesmente como conhecimento e satisfação pessoal.

Sendo esse, portanto, o pano de fundo onde irá se desenrolar a nossa querida
neuropsicologia. Apesar do foco maior ser dado aos componentes neurobiológicos, em
certos pontos da caminhada, teremos que fazer, ainda que breve, uma apresentação de
alguns carinhas famosos na história das psicologias (escrevo assim, pois, entendo que
não existe A psicologia e sim várias escolas que em conjunto compõe o estudo das
psicologias) para depois amarrá-los à neuropsicologia (essa sim coloco como grande
aliada na busca de uma unificação como ciência).

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Introdução
Para facilitar a leitura daqui para a frente deixarei um panorama geral, tipo um
trailer dos melhores momentos da nossa aventura.

Começaremos “acertando os ponteiros”, a ideia nesse momento será desfazer


alguns “mal-entendidos”. A lista, obviamente, não será exaustiva. Muita coisa surgirá
pelo caminho, mas listarei algumas “correções” que julgo as principais.

Feito isso, passaremos aos conceitos básicos do sistema nervoso, começando da


menor parte para a maior - do micro para o macro - entendendo um pouquinho da
química, depois da bioquímica, chegando à biologia, por fim desaguando no mar da
neuroanatomia e neurofisiologia encerrando com o ponto alto do show, o
comportamento e a cognição!

Como todo bom filme ou livro não espere que ao final tudo esteja resolvido, muito
pelo contrário, ficará um gostinho de quero mais! Aquela sensação: Acabou, e agora?

Por isso convoco a todos, mais uma vez, pois a continuidade dessa brincadeira
depende de vocês. Uma comunidade dinâmica não se cria sozinha!

Até o presente momento, em que escrevo essa página, o futuro desse projeto está
em branco, possivelmente tomará o rumo que vocês decidirem. A experiência rolará ao
estilo você decide. Aliás, será que existe o livre arbítrio? Deixarei essa para os
próximos episódios!

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Regras do Jogo
Sempre que surgir uma palavra esquisita vou deixar uma cola no rodapé e
glossário ao final do livro.

Sempre que alguma lembrança interessante ocorrer, criarei um tópico “Dica!!!”.

Sempre que algo curioso pintar na minha cabeça, criarei um tópico “Curiosidade”.

Conceitos importantes ganharão destaque como tópicos “Não Esqueça!!!”

Sim, já aviso que, eventualmente, esses tópicos aparecerão aleatoriamente, pois,


essa é a magia do processo, nunca dá para saber quando irá “pipocar” uma ideia.

Como já era de se esperar esse material será dinâmico, ou seja, sempre que sofrer
alguma alteração você poderá baixar a versão atualizada!

Aviso final e não menos importante, a verdade absoluta é uma ilusão! Ainda mais
quando lidamos com algo tão intrinsicamente complicado e em plena ebulição. Porém,
sempre que possível, deixarei as referências e indicarei as partes que são meros
devaneios da pessoa que aqui escreve.

Que comecem os jogos!

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Nota dos Autores
Caso você esteja lendo essa página, provavelmente é um dos apoiadores do
projeto e apostou no sucesso dessa empreitada. Obrigado!

Está pagina funcionará como um “painel de mensagens” em cada edição.

Nesse exato momento estamos disponibilizando a Versão 2.0 – A Primeira Versão


“Final” desse E-book!

A etapa atual do projeto é a de respirar, buscar fôlego, retomar os estudos, revisar


e ampliar o presente material!

Caso você tenha caído aqui de paraquedas e não faz ideia do que estou falando,
convido a visitar o site do projeto www.neuropsicologia.com.br e conhecer um pouco
mais do nosso trabalho.

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Desdizendo Bobagens

Em primeiro lugar, é chegada a hora de “desdizer" algumas bobagens. A ideia nesse


momento é a de “sincronizar” alguns termos e entendimentos, evitando confusões em
discussões futuras.

Bobagem número 1
Brain = Cérebro
Tudo aquilo que está dentro da nossa “caixola” é o que chamamos de encéfalo, porém,
até hoje o termo cérebro é usado por muita gente ao se referir ao encéfalo, causando
bastante confusão.
Ao que tudo indica, tudo isso começou devido a uma tradução equivocada, lá num
passado distante, no qual o termo Brain, em inglês, foi traduzido, equivocadamente, como
Cérebro.
Quando na verdade, deveria ter sido traduzido como Encéfalo. Uma vez que, na língua
inglesa, o outro termo equivalente a Brain, apesar de pouco usual, é Encephalon.
Cérebro em inglês é simplesmente Cerebrum, veja só que difícil! Então, a partir de
agora, não faremos mais confusão!
Portanto, durante nossas conversas, o que está dentro da “caixola” será o encéfalo e o
cérebro será apenas uma parte do encéfalo, como veremos mais à frente.

Bobagem número 2
Usamos só 10% do nosso “cérebro”.
Se você já começou a sacar dirá agora: - Encéfalo!
Essa é outra bobagem que remonta o passado obscuro das neurociências. Mais uma
vez, ao que tudo indica, esse “erro" foi propagado por um “dogma". Escrevo dogma, pois
apesar de todo livro de Neuroanatomia, de um passado não tão distante, trazer logo em
seu início o seguinte “mantra”:
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“O encéfalo é formado por 100 bilhões de neurônios e um número 10 vezes maior de


células gliais*”
Não se sabe ao certo como surgiu esse “mandamento”, acredita-se que essa
informação seja decorrente de estudos histológicos† em certas porções do encéfalo.
Recentemente, porém, uma equipe de neurocientistas brasileiros, em especial uma
cientista espetacular, Suzana Herculano-Houzel, demonstrou que um encéfalo adulto tem
em média 86 bilhões de neurônios e 85 bilhões de células gliais1, ou seja, temos
praticamente metade neurônios e metade não neurônios.
Sim, essa galera fez com que todos os livros tivessem quem ser reescritos!
Agora você pensa, tá bom... falou, falou, mas não explicou nada.
Calma meus jovens!
Então de onde surgiram os benditos 10%?
De uma informação equivocada e erroneamente interpretada! Pois, apesar das células
da glia não possuírem poder de “processamento”, que fica por conta dos neurônios, nosso
encéfalo está a todo momento 100% ativo. Mesmo as células não neuronais estão a todo
momento ativas! Aliás, operamos no limite energético para alimentar nosso “processador”.
Ora, então, se fosse para chutar, deveria ser algo assim: “usamos 50% do nosso
cérebro”. Seria, ao menos, uma bobagem mais bem chutada!

Bobagem número 3
O “cérebro” esquerdo é o racional e o direito é o criativo.
Então, agora você dirá: - Encéfalo! Nesse caso vou dizer: - Cérebro, tá ok! Veremos já
já, que a parte dividida em hemisférios é justamente o cérebro (apesar da delimitação do
cérebro não ser unanime entre os neuroanatomistas), porém, a parte correta da frase
acaba por aí!
Não podemos traçar uma linha divisória e encarar as “operações” de forma binária e
simplória. No decorrer dessas páginas, você perceberá que nossa circuitaria trabalha em
sintonia, parecendo muito mais uma orquestra do que artistas solos. Sendo, portanto,
infantil pensarmos numa lateralização dessa forma. Cada vez mais, conclui-se que os
vários aspectos cognitivos têm parcelas processadas em conjunto em ambos os lados.

*
As células da glia, geralmente chamadas neuróglia, nevróglia, gliócitos ou simplesmente glia (em grego,
γλία : "cola"), são células não neuronais do sistema nervoso.

Histologia - disciplina biomédica que realiza estudos da estrutura microscópica, composição e função
dos tecidos vivos.
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Claro que existem algumas distinções que apontam CERTA lateralização, mas pensar
de forma simplória acaba sendo infrutífera.

Bobagem número 4
O “cérebro” do ser humano é dividido em 3 partes. O cérebro reptiliano,
o cérebro mamífero e o cérebro humano.
Essa teoria é bonitinha e tem um apelo excelente! Porém, não faz sentido
neuroevolutivo. Darwin deve ter se remexido no túmulo um bom tempo por conta disso!
Ela foi proposta pelo Paul Mclean em meados do século XX2-3, mas já não é considerada
em nenhum círculo “sério” das neurociências.
Grosso modo, essa teoria assume a evolução como linear e teleológica*, ou seja, com
uma razão e direção certa. Como se caminhássemos linearmente em busca de nos
tornarmos um organismo cada vez mais “aprimorado” funcionalmente.
Darwin mostrou que a evolução não “tem dessas”! Ela vai se ramificando, como galhos
de uma árvore, e evoluir não necessariamente significa aprimorar.
Existem inúmeros exemplos de órgãos que “pioraram” evolutivamente!
No jogo da evolução a regra é clara. Caso a mutação favoreça a propagação dos genes,
excelente! Temos um vencedor!
O próprio ser humano é um exemplo! Evolutivamente, nosso sistema olfatório foi
regredindo e somos “cheiradores” muito ruins. Essa regressão do sistema olfatório, em
compensação, ao que tudo indica, permitiu o desenvolvimento evolutivo do nosso
telencéfalo†, em especial do nosso córtex pré-frontal‡.

Você sabia?

Na realidade os últimos estudos apontam que


nosso encéfalo “encolheu” nos últimos 20.000
4 anos, passando de 1.500cm³ para 1.350cm³,
em média4. Inúmeras teorias surgiram
buscando uma explicação, porém não existe
ainda um consenso da razão desse
“encolhimento”.

*
Teleologia - É o estudo filosófico dos fins, isto é, do propósito, objetivo ou finalidade.

As estruturas telencefálicas incluem os dois hemisférios cerebrais, que contêm o córtex cerebral.

Córtex pré-frontal - A área cortical na porção mais frontal do encéfalo.
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Bobagem número 5
Meu cérebro ficou feliz por causa da serotonina!
Outra coisa que você perceberá, logo de cara, é que gosto de pensar numa abordagem
integrativa. Ao invés de pensarmos isoladamente na neurobiologia, julgo mais produtivo e
promissor encarar o conjunto da obra quanto indivíduo*.
Gosto de pensar que somos seres biopsicossociais, por consequência, vejo nossa
mente como fruto da soma de várias parcelas, entre elas: sistema nervoso, fisiologia,
sociedade (incluindo a cultura) e muito possivelmente parcelas que ainda iremos descobrir
ou talvez nunca venhamos a desvendar.
Dificilmente você lerá por aqui coisas do tipo: neurotransmissor da felicidade; ou ainda
algo do gênero: o cérebro fica feliz, o cérebro escolheu, o cérebro sorriu, etc. Salvo alguma
real necessidade, “poética” ou didática, porém, com o devido aviso prévio!
As partes não são sujeitos da ação, toda ação tem como ator o indivíduo! Os
neurotransmissores são apenas moléculas bioquímicas e dependendo de onde eles
estiverem presentes, teremos um ou outro resultado.
Lembre-se, encararemos, como sujeito das ações, o indivíduo!
Essa parte é especialmente importante devido à interface entre as neurociências e a
filosofia. Sendo que, os filósofos adoram “dar porrada” em neurocientistas com a “bendita”
falácia mereológica†.
Acho que por enquanto é isso... Podemos, então, começar a brincadeira!

*
Visando “manter o foco”, nesse momento, não entraremos em embates que permeiam a filosofia,
coisas do tipo: behaviorismo radical X cognitivistas. Deixaremos esses assuntos para nossa diversão
futura nos grupos fechados!

A falácia mereológica da Neurociência é o erro de se atribuir ao cérebro, ou suas partes, predicados
que só fazem sentido quando atribuídos ao indivíduo inteiro.
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Referências
1
Azevedo, F. A. C. et al. Equal Numbers of Neuronal and Non-Neuronal Cells Make the Human Brain an
Isometrically Scaled-Up Primate Brain. J. Comp. Neurol. 513:532-41. 2009
2
Maclean, P.D. The limbic system and its hippocampal formation. J. Neurosurg. 11:29-44. 1954
3
Maclean, P.D. The triune brainin evolution: role in paleocerebral functions. New York: Plenum Press.
1990
4
McAuliffe, Kathleen. If Modern Humans Are So Smart, Why Are Our Brains Shrinking? Disponível em: <
http://discovermagazine.com/2010/sep/25-modern-humans-smart-why-brain-shrinking> Acesso em: 10
mar. 2019
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Um Pouquinho de História

Agora é hora de voltar no tempo e pensar um pouco em como tudo começou. A ideia
aqui é deixar um grande panorama, de forma simplificada, de como as neurociências
evoluíram através do tempo.

Como tudo começou?


É de se imaginar que desde o primeiro momento no qual o ser humano passou a ter
alguma “consciência”* sobre a vida e a morte, deve ter sacado que o sistema nervoso tinha
lá alguma importância para manter a nossa condição de vida, a “paleoneurologia†”
encontrou muitos registros de lesões cranianas fatais, possivelmente, causadas por outro
ser humano.

Figura 2.1 – (Fonte: memoangeles © 123RF.COM)

*
Não entraremos, ao menos nesse momento, numa explanação profunda e filosófica. Para efeitos
práticos consideraremos consciência aqui como capacidade de perceber a relação entre uma coisa e
outra.

Paleoneurologia - Ramo da paleontologia consagrado à evolução do sistema nervoso segundo os dados
fornecidos polos fósseis.
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Registros fósseis de mais de 7 mil anos já mostravam


práticas “medicinais” com perfurações cranianas1
(Figura 2.2).

Figura 2.2 - (Fonte: © pngtree.com)

Grécia Antiga
Lá na Grécia antiga existiu um tal de Hipócrates (460-377 a.C.), o pai da medicina
ocidental, para ele o encéfalo além de estar envolvido na percepção nas sensações,
também era a morada da inteligência. Já para Aristóteles (384-322 a.C.) o coração seria a
fonte de origem da inteligência enquanto o encéfalo funcionaria apenas como um radiador,
para onde o sangue fluía e era “resfriado” após sair “fervendo” do coração. Talvez daí que
remonte aquela bem conhecida expressão: Não faça nada de cabeça quente!

Medicina Romana
Vamos agora para uma fase “animada” da história, lá para a época dos gladiadores.
O “carinha” mais importante nessa época foi o Galeno (130-200 d.C.), ele seguia a
mesma linha de pensamento que Hipócrates em relação ao encéfalo. Galeno, porém, teve
uma enorme vantagem “acadêmica”, foi médico dos gladiadores, imagine a “festa” de
lesões que não era àquela época!
Como era de se esperar, foi uma época “frutífera” para o início da compreensão de
como funciona aquilo que fica dentro do nosso crânio. Época memorável, na qual foi
possível questionar coisas do tipo: o que será que acontece com um gladiador, quando
uma espada é atravessada na parte lateral esquerda da “caixola”? Ou ainda: será que
aquela pisada de leão, que arrancou uma parte de trás da cabeça do coitado, tem alguma
coisa a ver com a cegueira resultante?
Galeno também adorava dissecar encéfalos de animais e tinha uma predileção pelas
ovelhas. Com base em suas observações ele concluiu que o cérebro deve receber
sensações e o cerebelo* deve comandar os músculos.

*
O cerebelo é a parte do encéfalo responsável pela manutenção do equilíbrio, pelo controle do tônus
muscular, dos movimentos voluntários e aprendizagem motora.
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Galeno acreditava que as sensações deveriam ser “escritas” no cérebro, uma vez que
por ser mais mole, obviamente, facilitaria a “escrita”. É engraçado ver que por mais absurdo
que tenha sido o raciocínio, ele não ficou tão longe do que futuramente foi se descobrindo
em relação às sensações e controle motor.
Numa dessas ocasiões, Galeno percebeu que o interior do encéfalo é oco e preenchido
por um líquido, atualmente chamamos essas “câmaras” de ventrículos*, então para ele
fazia todo sentido que essa fosse a origem dos movimentos. Galeno propôs que as
sensações eram quem “comandavam” a dinâmica dos “fluídos vitais”. Esses por sua vez,
fluíam dos ventrículos para os nervos e vice e versa. Naquela época ainda se imaginavam
que os nervos fossem “canos ocos”, tais como os vasos sanguíneos.

Homem x Máquina
No decorrer da história é interessante perceber que sempre existe alguma comparação
entre o “funcionamento” do ser humano e a “máquina” predominante à época.
Vejamos o contexto da França no século XVII, época em que o auge da tecnologia eram
as máquinas hidráulicas. Nesse período as ideias de Galeno “caíram como uma luva”.
Àquela época, seria óbvio que nós humanos fossemos “seres hidráulicos”, uma vez que,
as máquinas funcionavam dessa forma.
É nessa época que aparece mais um “cara” famoso no pedaço, René Descartes (1596-
1650). Para ele essa teoria é bacana para explicar a relação entre o encéfalo e o
comportamento de outros animais, mas para o ser humano seria incompleta.

Uma vez que as pessoas possuem “inteligência” e


para ele, obviamente, isso só pode ser obra divina que
nos dotou de Alma.
Eis que surge o famoso modelo dualista! No qual as
capacidades mentais, exclusivamente humanas,
existiriam fora do encéfalo, na “mente”†, uma entidade
espiritual que recebia sensações e comandava os
movimentos, comunicando-se com a maquinaria do
encéfalo por meio da glândula pineal2 (Figura 2.3).

Figura 2.3 - (Fonte: René Descartes - https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Descartes_diagram.png)3

*
O sistema ventricular é composto por cavidades que se comunicam entre si e é contínuo chegando até
o canal central da medula espinhal.

Lembrando que não entraremos, ao menos nesse momento, nas discussões sobre “mente” que
acabarão enveredando pela Filosofia da Mente, mas fica o convite para a discussão nos grupos.
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Em 1751, surge uma outra figura, Benjamin Franklin (1706-1790), que começa a trazer
muitas novidades em relação aos fenômenos elétricos. Portanto, é de se esperar, que
nosso modelo “Homem Máquina” receba seu devido upgrade.
Pouco tempo depois, Luigi Galvani (1737-1798) e Emil du Bois-Reymond (1818-1896)
demonstram que quando estimulamos eletricamente os nervos os músculos se
movimentam. Demonstram também que o encéfalo gera eletricidade.
Passamos então, a pensar em um “novo” modelo “Homem Máquina”. Dessa vez os
nervos seriam, portanto, fios condutores.
Em um salto para a época atual, não só é esperada como tentadora, uma comparação
direta entre o modelo “Homem Máquina” e nossos computadores.
Deixo, portanto, a seguinte questão para reflexão. Historicamente, os modelos “Homem
Máquina” sempre se mostraram equivocados. Será que estamos no caminho certo dessa
vez? Será “fértil” ainda insistir nessa abordagem?

Início das Neurociências “Modernas”


Paul Broca (1824-1880) foi um neurologista francês e foi ele que começou a sacar a
localização de algumas funções encefálicas.
Broca teve um paciente com um caso curioso. Esse paciente compreendia tudo o que
era dito a ele, mas não conseguia falar, mesmo não aparentando qualquer alteração no
aparelho fonador.
Quando esse paciente morreu, Broca pode então analisar seu encéfalo e encontrou
uma lesão no lado esquerdo na parte da frente. Com o tempo e a observação recorrente
em outros pacientes com o mesmo tipo de lesão e o mesmo problema na fala, ele conclui
que aquela região específica deveria ser a responsável pela produção da fala.

Esse é o encéfalo preservado de um


paciente que perdeu a capacidade de falar
antes de morrer, em 1861. A lesão que
produziu esse déficit está indicada no círculo4
(Figura 2.4).

Figura 2.4 – Área de Broca (Fonte: Dronkers, N. F. et al. 2007. Fig 3 – A)


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Em 1874, o neurologista alemão Karl Wernicke (1848-1905) sacou que lesões numa
região diferente do mesmo hemisfério também prejudicavam a fala normal. Apesar de
também ser no hemisfério esquerdo, era uma região bastante distinta daquela encontrada
por Broca, em uma região mais posterior.
O problema na fala observado por Wernicke também era bastante diferente daquele
relatado por Broca. Wernicke percebeu que apesar da fala continuar fluente, não
apresentando alteração na “emissão” das palavras, ela passava a não apresentar muita
lógica e coerência e a compreensão do que era ouvido também ficava prejudicada.
Foram definidas, então, duas regiões distintas que seriam responsáveis pela fala,
ambas no lado esquerdo do cérebro*.
Ainda dentro do repertório histórico de lesões, temos o icônico e famoso caso do
Phineas Gage, onde “simplesmente” um bastão de ferro atravessou sua cabeça! O Dr.
John Harlow relatou as consequências desse acidente no artigo intitulado “Passagem de
um bastão de ferro através da cabeça”5.
Atualmente, as lesões ainda são potenciais fontes de estudos das neurociências, porém
com a evolução tecnológica surgiu a possibilidade de também estudar o encéfalo saudável,
através de técnicas de imageamento, dentre as quais, a imagem por ressonância
magnética funcional (IRMf) é provavelmente a mais conhecida (Figura 2.5). Existem,
também, técnicas eletrofisiológicas envolvendo o registro de sinais elétricos gerados pelo
cérebro, o eletroencefalograma (EEG) é o mais famoso e usual deles.

Figura 2.5 - Ressonância magnética funcional - (Fonte: tussik13 © 123RF.COM)

*
Os termos área de Broca e área de Wernicke são comumente utilizados, mas seus limites não são
claramente definidos e parecem ser bastante variáveis de uma pessoa para outra.
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Uma técnica moderna e bastante interessante é a estimulação magnética


transcraniana (TMS) (Figura 2.6). Técnica na qual uma bobina é colocada próxima à
cabeça do paciente e uma pulsação de corrente magnética, muito breve, passa através
dela. Isso produz um campo magnético de curta duração que, geralmente, inibe o
processamento na área alvo do encéfalo. Como se causasse uma “lesão” instantânea e
momentânea. Partindo dessa alteração “artificial” especula-se qual resposta esperar de
uma lesão equivalente, porém, real.

Figura 2.6 - Estimulação magnética transcraniana – (Fonte: ID 141478273 © Diego Vito Cervo | Dreamstime.com)

Utilizando da combinação das diversas técnicas: estimulação magnética transcraniana


(TMS), técnicas de neuroimagem e eletrofisiológicas. Podem ser feitos progressos para
elucidar a atividade encefálica e seus efeitos.

Figura 2.7 - (Fonte: © pngtree.com)


NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 23

Referências
1
Alt K.W.; Jeunesse C.; Buitrago-Téllez C.H.; Wächter R.; Boës E.; Pichler S.L. Evidence for stone age
cranial surgery. Nature 387:360. 1997
2
Finger S. Origins of Neuroscience. New York: Oxford University Press. 1994
3
René Descartes(https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Descartes_diagram.png), Descartes
diagram“, marked as public domain, more details on Wikimedia Commons:
https://commons.wikimedia.org/wiki/Template:PD-old.)
4
Dronkers, N. F.; Plaisant, O.; Iba-Zizen, M. T.; Cabanis, E. A. Paul Broca’s historic cases: high resolution
MR imaging of the brains of Leborgne and Lelong. Brain, 130(5):1432–1441. 2007
5
Harlow J.M. Passage of an iron rod through the head. Boston Medical and Surgical Journal 39:389–393.
1848
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 24

Separando as Peças

Neurônios e Glia
Agora é hora de começar a entender as principais peças do nosso sistema nervoso, os
neurônios e a glia. Apesar de serem categorias amplas - possuindo muitos tipos de células
diferentes em estrutura, química e função - faremos uma primeira macro distinção entre
neurônios e glia.
Existem, em média, 86 bilhões de neurônios e 85 bilhões de células gliais no encéfalo
humano adulto, os neurônios são responsáveis pelo “poder de processamento” do sistema
nervoso. São eles que “sentem” o ambiente, comunicam a outros neurônios e que
comandam as respostas, mas não podemos menosprezar a glia!
As células gliais são fundamentais para o que os neurônios possam fazer seu trabalho.
São elas que garantem isolamento, sustentação, nutrição e eventualmente “reparação” dos
neurônios.
O termo glia vem lá dos gregos, da palavra grega para “cola”, portanto, é de se imaginar
que a principal função da glia seja a de manter tudo em seu devido lugar. Por exemplo:
imaginando nosso encéfalo como um enorme panetone os neurônios seriam as frutas
cristalizadas e a glia seria a massa que preenche todos os espaços, fazendo com que as
frutas se mantenham em seus lugares apropriados.

Entendendo os Neurônios
Em primeiro lugar, vale a pena dar uma passada rápida na história de como surge o
neurônio, essa célula extremamente especializada e bastante diferente de qualquer outra
do nosso corpo.
Uns 4 bilhões de anos atrás, surgem os primeiros seres unicelulares. Nesses
organismos uma capacidade de irritabilidade* geral e uniforme propicia uma onda de
excitação que se espalha de forma homogênea em todas as direções, quando são
estimulados química ou fisicamente1.

*
Irritabilidade – Capacidade de responder a estímulos internos ou externos. Tais como, luz, pressão e
temperatura.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 25

Ao longo da evolução, essa propriedade de irritabilidade foi sendo gradualmente


especializada, atuando localmente e se adaptando a novos desafios ambientais. Isso
ocorreu por conta de mecanismos de condutibilidade* e contratilidade†, com isso apenas
partes do organismo e de formas mais específicas, passaram a responder a determinados
estímulos.
Há cerca de 1 bilhão e meio de anos, começam a surgir os seres multicelulares. Surge,
então, a necessidade de comunicação e cooperação entre as células que vão se
diferenciando e especializando. Algumas delas em perceber o ambiente externo e outras
adquirindo funções, primitivamente motoras, atuando sobre o ambiente. Por exemplo: a
movimentação em busca de “alimento” ou a fuga de uma possível ameaça.
Ao que parece o sistema nervoso mais simples, das espécies vivas atualmente, são os
dos cnidários‡ como a hidra ou a anêmona-do-mar, por semelhança, conseguimos
especular sobre como seriam os sistemas nervosos dos ancestrais dos animais atuais2.

Entendendo a Glia
A glia é fundamental para a atividade dos neurônios, apesar de ser considerada
“subordinada”, sem a glia o sistema nervoso simplesmente não funcionaria.

As células gliais que existem


em maior número no encéfalo
são os astrócitos (Figura 3.1),
esses “caras” aí acabam
sendo “pau pra toda obra” eles
são fundamentais no
“preenchimento” dos espaços
entre os neurônios, mas não
servem somente como
“suporte” físico eles também
participam da regulação
química desses espaços3.

Figura 3.1 – Células Gliais - (Fonte: designua © 123RF.COM - Editada)

*
Condutibilidade – propriedade que permite a transmissão de um impulso elétrico.

Contratilidade – propriedade de “encurtamento” da célula em resposta a um estímulo.

Cnidários ou celenterados (filo Cnidaria) são organismos pluricelulares que vivem em ambientes
aquáticos, sendo a grande maioria marinha.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 26

Agora é a vez dos oligodendrócitos e das células de Schwann (Figura 3.1), elas
formam as camadas de isolamentos dos axônios*, a bainha de mielina†.

A bainha de mielina é responsável


pelo isolamento elétrico, favorecendo a
agilidade na transmissão de informações
pelos neurônios, aumentando a sua
velocidade (Figura 3.2).

Figura 3.2 – Detalhe de um axônio - (Fonte: guniita © 123RF.COM - Editada)

Para Lembrar:

Os oligodendrócitos são encontrados apenas


no sistema nervoso central (encéfalo e medula), já
as células de Schwann são encontradas somente
no sistema nervoso periférico (partes externas ao
crânio e à coluna vertebral).

Substância Branca e Substância Cinzenta


Você já deve ter ouvido falar nas tais, substância branca e substância cinzenta.
Quando damos uma olhada no sistema nervoso, conseguimos identificar duas regiões
bastante distintas. Uma mais esbranquiçada e outra um tanto acinzentada, mas o que
será que faz com que essas regiões sejam distintas? Fácil! A presença da mielina!

*
Axônio é uma parte do neurônio responsável pela condução dos impulsos elétricos que partem do
corpo celular

A bainha de mielina consiste em muitas voltas de membrana fornecidas por células gliais.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 27

A substância branca é basicamente composta pelos axônios dos neurônios, portanto,


possui grande parte de suas fibras mielinizadas, o que dá esse aspecto branco ao interior
do encéfalo e à parte externa da medula. Enquanto a substância cinzenta é composta
pelos corpos dos neurônios, não possuindo, portanto, mielina, localizando-se na parte
mais externa do encéfalo e no interior da medula (Figura 3.3).

Figura 3.3 – Substância branca e substância cinzenta - (Fonte: Joshua Abbas/bilderriese © 123RF.COM - Editada)

Também observamos substância cinzenta, pontualmente, no interior do encéfalo,


quando temos agrupamentos de neurônios, pois, os corpos dos neurônios agrupados “se
destacam” em meio à substância branca. Por exemplo, quando falamos nos núcleos da
base*.

Dica:

Quando temos um conjunto de corpos de


neurônios bem definidos, se estão dentro do
sistema nervoso central são chamados de
núcleos e quando estão fora do sistema
nervoso central são chamados de gânglios,
gosto de seguir essa nomenclatura, pois, é hoje a
mais usual dentre os neuroanatomistas e evita
confusão.

*
Núcleos da base - Conjunto de núcleos profundos do cérebro com diferentes estruturas e atividades.
Emitem e recebem projeções entre si e com o córtex cerebral, tálamo e tronco cerebral – Estudaremos
mais à frente.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 28

Há um terceiro tipo de substância que é a negra ou nigra, localizada no mesencéfalo*


é uma das regiões com grande produção de dopamina e a sua cor característica é devido
à neuromelanina (Figura 3.4).

Figura 3.4 – Substância Negra - (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)

Outras células do Sistema Nervoso


Células ependimais, “forram” os ventrículos no encéfalo e durante o desenvolvimento
do encéfalo ajudam no direcionamento da migração celular.
Micróglia, são células fagocitárias que fazem a remoção de resíduos gerados pela
morte ou degeneração de neurônios e da glia (Figura 3.2).

*
Estudaremos o mesencéfalo mais à frente, em suma, é uma das estruturas do tronco encefálico.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 29

Referências
1
Furnes, H.; de Wit M.; Staudigel, H.; Rosing, M.; Muehlenbachs, K. A vestige of earth’s oldest ophiolite.
Science. 315(5819):1704-1707. 2007
2
Brusca R.C.; Brusca G.J. Invertebrados. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. 2007
3
Eroglu, C.; Barres, B.A. Regulation of synaptic connectivity by glia. Nature 468:223–231. 2010
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 30

Sistema Nervoso

Por dentro do neurônio


Agora que entendemos um pouco dos neurônios por fora, vamos dar uma olhada por
dentro. Entender essas benditas sinapses, neurotransmissores, coisa e tal...

Figura 4.1 - (Fonte: Andrea Danti © 123RF.COM)

O núcleo celular aparece com vários nomes nas diversas fontes: corpo celular, soma e
pericário, você pode escolher o que achar melhor ou mais bonito, sem problemas, eu
prefiro usar corpo celular, pois, acho mais fácil. Os “tubinhos” que saem do corpo celular
são chamados de neuritos, sendo eles os axônios e os dendritos (Figura 4.2).
Começaremos pelo axônio, ele é altamente especializado nos processos de
transferência de informações, podendo “percorrer” enormes distâncias do sistema nervoso.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 31

Do corpo celular, em geral, origina-se um único axônio, porém, os axônios


frequentemente se ramificam nas chamadas ramificações colaterais axonais.
Além do axônio propriamente dito, podemos, ainda, identificar a parte onde o axônio se
inicia, “saindo” do corpo celular, conhecido como cone de implantação. Já a sua parte final
é chamada de terminação axonal, ou botão terminal.
A terminação é o local onde o axônio entra em contato com outros neurônios ou outros
tipos de células e passa a informação para eles. Esse ponto de contato é chamado de
sinapse, uma palavra derivada do grego para “amarrar junto”.
Os dendritos atuam como as “antenas” do neurônio recebendo as sinalizações que
chegam, também conhecidas como aferências.
A “transferência” de informação dos axônios para os dendritos é feita por meio de
substâncias químicas produzidas nas terminações dos axônios, denominadas
neurotransmissores. Do lado dendrítico, nas sinapses, há proteínas específicas para
cada neurotransmissor, chamadas receptores.
Existem muitos neurotransmissores e muitos receptores diferentes. Veremos alguns
daqui a pouco!

Figura 4.2 – Elementos básicos de um neurônio - (Fonte: guniita © 123RF.COM - Editada)

Os neurônios “recebem” terminações de axônios de muitos outros neurônios, podendo


chegar aos milhares. Mas emitem um axônio só, que se ramifica no máximo algumas
vezes. É como se os neurônios soubessem que “ouvir é melhor do que falar”: recebem
informação de muitos outros neurônios, mas a retransmitem para poucos.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 32

Figura 4.3 - Existem muitas sinapses em seus dendritos, porém um único axônio que se ramifica e faz sinapse
com outros neurônios - (Fonte: oleksiy © 123RF.COM)

Os receptores, ao interagirem com os neurotransmissores, podem apresentar uma


resposta excitatória ou inibitória.
Os receptores excitatórios diminuem, por um tempo, a diferença de potencial entre o
interior dos neurônios e o meio que os rodeia, o que chamamos carinhosamente de
despolarização.
Os receptores inibitórios fazem exatamente o contrário e aumentam esse potencial,
nesse caso dizemos que ocorreu uma hiperpolarização.
Calma! Não se assuste! O principal entendimento que você precisa tirar daqui é o
seguinte:
Para que um neurônio possa se comunicar com os seguintes, ele precisa ser
despolarizado até certo nível, o qual é chamado limiar, e produzir um “pulso” que
chamamos de potencial de ação é assim que a “informação” é propagada.
Os efeitos excitatórios e inibitórios das interações entre os neurotransmissores e seus
receptores se “somam” e caso atinjam o limiar a informação é propagada!
De uma forma simplificada, para não assustar ninguém logo de cara. Os efeitos
excitatórios e inibitórios dependem do fluxo de íons* de dentro para fora da célula e vice e
versa.

*
Íons - é uma espécie química eletricamente carregada, que resulta de um átomo ou molécula que
perdeu ou ganhou elétrons.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 33

Via de regra, o interior da maioria dos neurônios tem potencial negativo. A entrada de
íons positivos - os famosos cátions -, em especial o sódio e o cálcio, reduz a diferença de
potencial, ou seja, despolariza. Já a entrada de íons negativos – ânions –, especialmente
o cloro, ou ainda a saída de cátions como o potássio produz um efeito contrário, aumenta
a diferença de potencial negativa, ou seja, hiperpolariza o neurônio.

Figura 4.4 – Exemplos de Canais Iônicos - (Fonte: designua © 123RF.COM - Editada)

A nomenclatura, tanto do neurônio quanto do receptor, costuma seguir o nome do


neurotransmissor que o axônio libera e os receptores nos dendritos “recebem”.
Por exemplo, os neurônios cujo axônios liberam glutamato, o principal
neurotransmissor excitatório, e os receptores que “respondem” ao glutamato são
denominados, ambos, glutamatérgicos.
Vamos agora às nomenclaturas mais importantes!
O principal neurotransmissor inibitório é conhecido por GABA, que vem da sigla em
inglês do ácido gama-aminobutírico, portanto, os neurônios que o liberam e os receptores
aos quais se liga são denominados GABAérgicos.
Os receptores de dopamina são chamados dopaminérgicos, portanto, os neurônios
que liberam esse neurotransmissor também.
Os receptores para a noradrenalina se chamam noradrenérgicos, tal como os
neurônios que liberam essa substância.
No caso da serotonina, aparecem dois termos equivalentes serotonérgico ou
serotoninérgico.
Quando o neurotransmissor é a acetilcolina, emprega-se a expressão colinérgico.
Há muitos subtipos de cada receptor e a interação do respectivo neurotransmissor
sobre eles produz efeitos completamente diferentes, portanto, desde já, devemos evitar
aquelas generalizações, que a mídia adora, em relação aos neurotransmissores.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 34

Por exemplo, os receptores dopaminérgicos existem como subtipos D1 a D5,


possivelmente ainda devem aparecer mais alguns no futuro, e estão espalhados em toda
a “caixola”1!

Neurotransmissor Subtipo de Receptor


Nicotínico
Acetilcolina
Muscarínico
Receptor α
Noradrenalina
Receptor ß
AMPA
Glutamato
NMDA
GABAA
GABA
GABAB
Tabela 4.1 – Exemplos de neurotransmissores e seus receptores

O glutamato, o GABA, a dopamina, a noradrenalina, a serotonina e a acetilcolina


são moléculas simples e relativamente pequenas. São os principais neurotransmissores
que você irá se deparar por essas páginas.
Obviamente, existem muitos outros, inclusive moléculas maiores. Muitos desses são
peptídeos*.
Existem diversas substâncias liberadas pelos axônios que atingem receptores
espalhados por muitos neurônios vizinhos, não ficando restritas ao dendrito mais próximo.
Essas substâncias são chamadas de neuromoduladores. Um bom exemplo são as
endorfinas†, que são liberadas e atuam como um “analgésico”, inibindo a atividade dos
neurônios próximos.
Outros exemplos são os hormônios liberados pela hipófise, vasopressina‡ e
oxitocina§, que regulam, respectivamente, entre outras coisas, a produção de urina e as
contrações do útero, atuando em inúmeras sinapses espalhadas. Existem centenas de
neuromoduladores, aqui estão listados apenas alguns exemplos.

*
Peptídeos – sequências de aminoácidos mais curtas do que aquelas que constituem as proteínas

Endorfina – peptídeos opioides endógenos com efeitos semelhantes àqueles da morfina.

Vasopressina – Pequeno hormônio que promove a retenção de água e diminui a produção de urina
pelos rins; também denominada hormônio antidiurético (ADH)
§
Ocitocina – Pequeno hormônio que estimula as contrações uterinas e a ejeção de leite das glândulas
mamárias.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 35

Aprendendo a se orientar
Agora vamos afastar um pouco o zoom e começar a olhar de uma forma mais macro.
Agora aqui vale a pena respirar e dar uma pausa, pegar um café, para quem é de café
e aprender direitinho essa parada!
Aprender a “andar” e se orientar no nosso sistema nervoso será muito importante para
os próximos passos.
Quem já manja pode pular, quem tá mais ou menos vale a pena dar uma revisada e
para quem nunca viu, boa sorte!
Para facilitar nossas vidas, vou usar como exemplo um amigo muito conhecido nos
laboratórios, o rato!
A orientação, rumo ao “nariz” do rato é chamada de anterior ou rostral. Já a direção
rumo ao rabo do rato é posterior ou caudal.
A direção que aponta para cima é chamada de dorsal e a direção que aponta para
baixo de ventral. Assim, a medula espinhal do rato percorre da região anterior à posterior.
O lado superior da medula espinhal é o lado dorsal, o lado inferior é o lado ventral (Figura
4.3).

Figura 4.3 – Principais orientações anatômicas - (Fonte: © pngtree.com - Editada)


NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 36

Com poucas exceções, as estruturas do sistema nervoso são pares, uma do lado direito,
e a outra, do esquerdo. A linha imaginária que divide ao meio o sistema nervoso é chamada
de linha medial. As estruturas que estão mais próximas à linha média são mediais, as
estruturas afastadas da linha média são laterais. Por exemplo, o focinho situa-se
medialmente em relação aos olhos, os olhos são mediais em relação às orelhas, e assim
por diante (Figura 4.3).
A partir de agora quando você ler algo do tipo córtex pré-frontal dorsolateral já fica mais
fácil sacar em que pedaço do encéfalo deve estar esse “cara”.

Figura 4.4 – (Fonte: © pngtree.com)


NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 37

Vejamos agora em nossa “caixola”:

Figura 4.5 - (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)

Figura 4.6 - (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)


NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 38

Sistema Nervoso Central


Ufa! Agora que a bússola já está calibrada, bola pra frente e segue o jogo.
Começando pelo sistema nervoso central (SNC), aquele que, como é de se esperar,
fica no centro. Para nunca mais esquecer basta pensar que é o que fica “por dentro" do
crânio e da coluna vertebral.
Agora podemos começar a fatiar nosso sistema nervoso central, começando pelo
encéfalo.
Grosso modo, podemos dividir em 3 grandes partes, embriologicamente falando
(lembrando, mais uma vez, que existem várias classificações e nomenclaturas possíveis,
mas nosso foco será sempre na mais usual):
Prosencéfalo, mesencéfalo e rombencéfalo.
O prosencéfalo por sua vez se divide em telencéfalo e diencéfalo. O prosencéfalo é o
que chamamos propriamente de cérebro é aquele “cara” que é dividido em dois hemisférios
e fica por cima de tudo.
O rombencéfalo se divide formando o cerebelo, a ponte e o bulbo, que em conjunto
com o mesencéfalo formam o tronco cerebral.
A partir de agora então teremos cérebro, tronco encefálico e cerebelo (Figura 4.6).

Figura 4.6 – Principais divisões do encéfalo. (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 39

Sistema Nervoso Periférico


Já o sistema nervoso periférico é o que fica para fora, basicamente se resume aos 31
pares de nervos espinhais (Figura 4.7), os 12 nervos cranianos - embora 2 não sejam
propriamente nervos - (Figura 4.8), gânglios e terminações nervosas.

Figura 4.7 – Nervos Espinhais - (Fonte: Sebastian Kaulitzki © 123RF.COM - Editada)

Figura 4.8 – Nervos Cranianos (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 40

Entendendo o Encéfalo
Daremos início ao detalhamento do encéfalo. Então, como diria o Jack, vamos,
literalmente, por partes.
Vimos que o encéfalo se divide em cérebro, tronco encefálico e cerebelo. Nesse
primeiro momento iremos nos concentrar nas 5 grandes divisões do cérebro.
Talvez você já tenha escutado falar dos tais dos lobos cerebrais, eles são as 5 grandes
regiões em que dividimos o cérebro.
Para entendermos melhor como se dá essa divisão, vale a pena falarmos um pouco
sobre os sulcos e giros. Você já deve ter percebido que o cérebro é todo “enrugado”, essa
foi uma “solução” que a evolução arrumou para conseguir “enfiar” mais neurônios num
volume que é razoavelmente limitado.
Esse “enrugamento” é fruto da grande expansão da área da superfície do córtex*, a fina
camada de células sob a superfície do cérebro durante o desenvolvimento fetal humano.
Como consequência desse “enrugamento” temos os giros (essas partes que parecem
gomos de linguiça) e os sulcos (que são os “cortes” entre os gomos). Existem sulcos que
são bem conhecidos e servem para delimitar certas “porções”. Entre eles o mais importante
e que a partir de agora não deve ser esquecido, é o sulco central (Figura 4.9).

Figura 4.9 – Exemplos de sulcos e giros - (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)

*
Córtex - A palavra córtex vem do latim para "casca", geralmente, usado para se referir à camada mais
externa do cérebro dos vertebrados, apesar de existirem outros “tipos” de córtex, o uso do termo córtex
acabou se tornando sinônimo do que chamamos de neocórtex ou mais recentemente de isocórtex.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 41

Quando esses “cortes” são mais


pronunciados chamamos de fissuras.
Dentre elas temos duas que devemos
gravar, a fissura lateral (ou de Sylvius) e
a fissura longitudinal. Sendo que a fissura
longitudinal é a que divide o cérebro em
dois hemisférios.

Figura 4.10 – Fissura Longitudinal - (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)

Agora é a hora de dar nome aos “bois”, em geral, cada lobo recebe o nome de acordo
com o osso craniano que está mais próximo (Figura 4.11).
A parte anterior do cérebro está abaixo do osso frontal do crânio, portanto, é chamada
de lobo frontal.
O sulco central marca a borda posterior do lobo frontal, e para trás deste sulco localiza-
se o lobo parietal, sob o osso parietal.
Caudal ao parietal, na parte posterior do cérebro, sob o osso occipital, encontra-se o
lobo occipital.

Figura 4.11 – Lobos Encefálicos - (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 42

Logo abaixo do osso temporal, temos a porção que chamamos de lobo temporal.
“Escondido” por baixo das “dobras” externas fica uma região chamada de ínsula ou lobo
insular, apesar de muitos autores não trazerem ela de forma separada, a maioria a trata
como um lobo individual, para “espiar” a ínsula é preciso “abrir” a fissura lateral (Figura 4.11).
Evidências clínicas e experimentais indicam que o córtex é o local da capacidade única
de raciocínio e de cognição do ser humano. Sem o córtex cerebral, uma pessoa seria cega,
surda, muda e incapaz de iniciar movimento voluntário.
Você perceberá que no decorrer das páginas o “cara” que mais aparece é o tal do córtex
pré-frontal e não é por menos! Em nossa espécie, o córtex pré-frontal corresponde a mais
ou menos 29% de todo o córtex!
Nós humanos somos a espécie com a maior quantidade de córtex associativo. Essa é
uma aquisição evolutiva recente e marcante nos cérebros de primatas2.
O córtex associativo é aquele que não está “ocupado”, diretamente, com as vias
sensoriais e motoras primárias. Desta forma, tirando os córtex sensoriais e motores
primários, todo o restante compõe o córtex associativo, chegando a representar cerca de
80% de toda a área cortical, principalmente nos lobos frontal e temporal3.

Figura 4.12 - (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)


NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 43

O surgimento da “mente”* – nossa habilidade para interpretar os comportamentos, tanto


os nossos quanto os dos outros, em termos de estados mentais inobserváveis, como
desejos, intenções e crenças – está extremamente correlacionado com a expansão do
córtex pré-frontal. De fato, lesões no córtex pré-frontal podem alterar profundamente a
personalidade de uma pessoa.

Sistema Límbico
Agora, “entraremos” numa parte mais profunda do encéfalo, o sistema límbico, ao qual,
usualmente, se atribui o controle das emoções e dos processos motivacionais.
Porém, ainda não existe um “mapeamento” de um sistema emocional, bem delineado,
da mesma maneira que os sistemas sensoriais e motores já foram mapeados, por exemplo.
O termo límbico, foi inicialmente proposto por Broca, aquele mesmo do começo do livro,
pois o termo límbico significa “o que está envolta”, da palavra em latim limbus, e até então
simplesmente considerava a região neuroanatomica de suas “peças” e suas posições.
Uma vez que, em suas observações ele percebeu que todos os mamíferos possuem, nas
porções mais mediais do encéfalo, certas áreas corticais que são bastante distintas do
córtex circundante e que formam um anel, ou borda, ao redor do tronco encefálico, Broca
decidiu nomear de lobo límbico (Figura 4.13).

Figura 4.13 – Lobo límbico de Broca - (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)

*
Lembrando, mais uma vez, que quando faço uso do termo “mente” não considero, de forma alguma, o
modelo dualista, onde a “mente” é algo “metafísico”. O termo aqui basicamente serve como
“categorização” daquilo que não podemos “observar” de forma direta.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 44

Sendo o lobo límbico, portanto, formado em especial pelo giro cingulado, o córtex
temporal medial e o hipocampo (Figura 4.13).
Broca, em momento algum, relacionou essas estruturas às emoções. Essa relação, na
verdade, foi feita posteriormente, por outros autores. Inicialmente elas foram associadas,
primordialmente, ao olfato.
Posteriormente, começaram a surgir evidências que apontavam o envolvimento de
algumas estruturas límbicas nas emoções, portanto, o termo continuou sendo usado. O
neurologista norte-americano James Papez (1883-1958) propôs que houvesse, um
“sistema da emoção”, que ligaria o córtex ao hipotálamo*. O chamado de circuito de Papez.
Ele acreditava, como ainda hoje a maioria acredita, que o córtex estivesse intimamente
ligado à experiencia emocional.

Figura 4.14 – Principais partes do Circuito de Papez - (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)

No circuito de Papez, o hipotálamo é quem comanda a expressão da emoção. O


hipotálamo e o isocórtex (neocórtex) poderiam influenciar um no outro, ligando, portanto,
a expressão e a experiencia da emoção.

*
O hipotálamo é uma região do encéfalo dos mamíferos (tamanho aproximado ao de uma amêndoa),
tendo como função regular processos metabólicos e outras atividades autônomas. O hipotálamo
controla a temperatura corporal, a fome e sede; mas também está envolvido no controle das emoções e
atividade sexual.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 45

O conjunto de estruturas no circuito de Papez é geralmente denominado como sistema


límbico, apesar de a noção ideia inicialmente proposta por Broca para o lobo límbico não
ter nada relacionado à emoção ao ser concebida.

Você sabia?

Uma das razões que levou Papez a imaginar


que o hipocampo estivesse envolvido com as
emoções é que ele é um dos “alvos” vírus da
raiva e como a raiva se caracteriza por uma
resposta emocional desproporcional, como
medo ou agressividade exagerados, faria,
então, bastante sentido.

Cerebelo
O cerebelo, é assim chamado devido ao termo em latim para “pequeno cérebro”, é
um centro importante do controle do movimento, é a parte do encéfalo responsável pela
manutenção do equilíbrio, pelo controle do tônus muscular, dos movimentos voluntários e
aprendizagem motora.
Ele está intimamente conectado à medula espinhal e à ponte*. A medula envia
informações sobre a posição do corpo no espaço. A ponte repassa as informações vindas
do córtex cerebral, indicando as intenções dos movimentos.
O cerebelo confronta esses dois conjuntos de “dados” e “responde” de forma a atingir
as metas pretendidas dos movimentos.
Dependemos do cerebelo para andar, correr, pular, andar de bicicleta e as inúmeras
atividades cotidianas.
Ele é formado por 2 hemisférios - os hemisférios cerebelares, e por uma parte central,
chamada de Verme ou Vermis (Figura 4.15)

*
Falaremos sobre a ponte daqui a pouco, no próximo tópico.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 46

Figura 4.15 – Estruturas do Cerebelo - (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)

Tronco Encefálico

O que sobrou do encéfalo é o tronco encefálico. Formados pelo bulbo, ponte e


mesencéfalo (Figura 4.16)
O tronco encefálico é composto por um conjunto de fibras e de neurônios, sendo que,
sua função, em grande parte, é de retransmissão das informações entre cérebro, medula
espinhal e cerebelo.
Outra função, literalmente vital, é a regulação de funções autônomas e primordiais. Tais
como, respiração, estado de vigília, controle da temperatura corporal etc.
Dessa forma, ainda que o tronco encefálico seja uma parte pequena e “remota” na
evolução sistema nervoso dos mamíferos, é, talvez, a mais importante para a
sobrevivência. Uma lesão no cérebro ou cerebelo, pode deixar sequelas, porém ainda
permite a sobrevida de uma pessoa. Ao passo que lesões no tronco encefálico,
geralmente, são letais.
Em nossa espécie, cerca de 20 milhões de axônios, fazem sinapses com os neurônios
da ponte. Os neurônios “pontinos” atuam como uma grande rede de distribuição, fazendo
jus ao seu nome. Para “caber” toda essa “rede” de conexões a ponte forma uma região
mais projetada na região ventral do tronco encefálico (Figura 4.16).
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 47

Figura 4.16 – Tronco Encefálico - (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)

Os axônios que não acabam na ponte continuam e integram a região do bulbo. A


maioria desses axônios tem origem no córtex cerebral.
Outras funções somatossensoriais do bulbo ainda incluem o tato, gustação e audição.
O bulbo retransmite informações somatossensoriais às estruturas “superiores” do nosso
sistema nervoso. A destruição de neurônios “bulbares” pode causar uma perda de
sensibilidade, por exemplo. Outros neurônios do bulbo retransmitem a informação
gustatória da língua ao cérebro. Já dentre os neurônios motores do bulbo estão os que
controlam a musculatura da língua através do nervo craniano XII.
O mesencéfalo, em especial, além de conduzir informação da medula espinhal ao
cérebro e vice-versa, possui neurônios que estão envolvidos com os sistemas
somatossensoriais, e atencionais; tais como, controle do movimento voluntário e
movimento dos olhos além de outras funções.
A substância negra, já comentada, está envolvida com o controle do movimento
voluntário (Figura 4.19).
Outros grupos dispersos no mesencéfalo têm axônios que se projetam amplamente por
todo o sistema nervoso e regulam a consciência, o humor, o prazer e a dor, conforme
veremos mais a frente nos sistemas modulatórios de projeção difusa.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 48

Sistemas Modulatórios de Projeção Difusa


O encéfalo tem muitos conjuntos de neurônios, com determinados neurotransmissores
que fazem conexões bastante dispersas e difusas, se espalhando por regiões extensas.
Esses sistemas desempenham funções modulatórias atuando em um vasto conjunto de
neurônios pós-sinápticos, desde estruturas como o córtex cerebral até a medula espinhal.
Essa modulação faz com que esses neurônios se tornem mais ou menos excitáveis,
mais ou menos sincronizados etc. Como se fossem os botões de volume do seu TV, que
apesar de não mudar o que você está vendo ou ouvindo, “regulam” a forma como essas
informações chegam a você.
Esses componentes também se caracterizam pela duração de seus efeitos, que podem
variar de minutos a horas.
De modo geral, esses sistemas são caracterizados e nomeados, essencialmente, pelos
neurotransmissores que utilizam.
Esses sistemas parecem estarem envolvidos em processos essenciais de nossas vidas,
tais como, motivação, humor, motricidade, memória, metabolismo, estado de vigília e por
aí vai.
Mas o que têm em comum esses sistemas? Vamos lá!
 Geralmente, o núcleo principal de cada sistema possui um conjunto bem definido
de neurônios, alguns milhares deles.

 Os neurônios dos sistemas modulatórios ficam na porção mais central do encéfalo,


geralmente, no tronco encefálico.

 Cada neurônio pode “modular” muitos outros espalhados pelo encéfalo, já que,
como já vimos, cada axônio pode formar mais de 100 mil sinapses com outros neurônios.

 As sinapses estabelecidas por esses sistemas podem, em muitos casos, liberar


moléculas de neurotransmissores além do espaço da fenda sináptica, dessa forma podem
se difundir para muitos neurônios, em vez de atuarem simplesmente nos neurônios
imediatamente vizinhos.
Nesse momento, iremos destacar os sistemas modulatórios que utilizam
noradrenalina, serotonina e dopamina como neurotransmissores.
É importante lembrar que diversos outros sistemas de neurotransmissores também
estão envolvidos, de forma coordenada.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 49

Apesar de ainda existir muito a se descobrir em relação a esses sistemas, algumas


funções já estão bem estabelecidas e essas serão o nosso foco agora.

O Sistema Noradrenérgico
A Noradrenalina é utilizada por neurônios do locus ceruleus, que na expressão em
latim significa “lugar azul”, o locus ceruleus fica localizado na ponte e as células dessa
região conferem uma coloração bem azulada.
Cada locus ceruleus humano tem, em média, cerca de 12 mil neurônios. Sendo que
temos um par deles, um de cada lado. Os axônios que partem do locus ceruleus se
espalham por praticamente todo o encéfalo. Desde o córtex cerebral, até a medula espinhal
(Figura 4.17). Além do córtex cerebelar!4
Tendo em vista possuir conexões muito espalhadas, o locus ceruleus pode influenciar
praticamente todas as partes do encéfalo.

Figura 4.17 – Sistema Noradrenégico – (Fonte: guniita © 123RF.COM - Editada)

É relativamente recente a “aceitação” da noradrenalina como neurotransmissor.


As células do locus ceruleus parecem estar envolvidas na regulação da atenção e
alerta, além dos ciclos de sono-vigília. Participam também dos mecanismos de memória e
como consequência nos processos de aprendizado. Estudos em animais mostram que os
neurônios do locus ceruleus são ativados mais intensamente por estímulos sensoriais
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 50

novos, inesperados ou não dolorosos que ocorrem no ambiente. Já quando o animal não
está vigilante, essa atividade se mostra reduzida5.
O locus ceruleus parece participar na modulação do estado geral de alerta do encéfalo
durante estímulos exteriores “interessantes”. Tendo em vista o caráter “modulatório”, uma
vez que a noradrenalina pode tornar os neurônios do córtex cerebral mais “sensíveis” aos
estímulos sensoriais, o locus ceruleus pode atuar aumentando a capacidade encefálica em
responder a esses estímulos, acelerando o processamento da informação e tornando
esses estímulos e suas respostas mais eficientes.

O Sistema Serotoninérgicos
Os neurônios contendo serotonina estão, em sua maioria, agrupados nos núcleos
serotoninérgicos da Rafe, derivado do termo grego que significa “linha tracejada” os
núcleos da rafe encontram-se na linha medial do tronco encefálico distribuídos em ambos
os lados, num total de nove núcleos.
Esses núcleos se projetam para diferentes regiões do sistema nervoso (Figura 4.13).
Onde os mais caudais, no bulbo, se projetam para a medula espinhal e modulam sinais
relativos à dor. Aqueles mais rostrais, localizados na ponte e mesencéfalo, se projetam de
forma difusa para o restante do encéfalo.
De forma semelhante ao que acontece com os neurônios do locus ceruleus, os núcleos
da rafe disparam mais durante a vigília, enquanto se mantém o estado de alerta. Sendo
menos ativos durante o sono.
O locus ceruleus e os núcleos da rafe, em conjunto, são “rotulados” no chamado
sistema ativador reticular ascendente, ou sistema SARA, sendo o principal sistema
envolvido em processos de alerta e vigília.
Os neurônios da rafe ao que tudo indica estão envolvidos no controle dos ciclos de
sono-vigília e nos diferentes estágios do sono.
Os neurônios serotoninérgicos da rafe também têm sido implicados no controle do
humor e de certos tipos de comportamento emocional.6
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 51

Figura 4.18 – Sistema Serotoninérgico - (Fonte: guniita © 123RF.COM - Editada)

O Sistema Dopaminérgico
Apesar dos neurônios dopaminérgicos estarem espalhados por todo o encéfalo, existem
dois grupos de células dopaminérgicas bastante importantes e estudados, a Substância
Negra e a Área Tegmentar Ventral (ATV), uma vez que possuem características de
sistemas modulatórios e constituem vias dopaminérgicas importantes.
A primeira delas origina-se da substância negra, no mesencéfalo (Figura 4.19). Essas
células projetam axônios ao núcleo caudado e ao putâmen (Figura 4.20), onde, facilitam o
início de movimentos voluntários. Embora ainda não se compreendam completamente
como ocorre esse processo.

Figura 4.19 – Substância Negra - (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 52

Figura 4.20 – Núcleo Caudado e Putâmen - (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)

A doença de Parkinson é resultante da morte de células dopaminérgicas da substância


negra, produzindo distúrbios motores.
No mesencéfalo também se origina a outra via do sistema modulatório dopaminérgico.
Um grupo de células próximo à substância negra, na área tegmentar ventral. Sendo que
os axônios desses neurônios se projetam para o córtex frontal e partes do sistema límbico.
Diversas funções usualmente são atribuídas a essa complicada via. Por exemplo,
evidências indicam que essa região está envolvida no sistema de “motivação” e
“recompensa”, que atribui valor para certos comportamentos, reforços positivos e negativos
e possuem inestimável valor adaptativos, evolutivo e de sobrevivência7.

Figura 4.21 – Sistema Dopaminérgico - (Fonte: guniita © 123RF.COM - Editada)


NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 53

A motivação pode ser pensada como a força “propulsora” que permite um


comportamento acontecer.

Esses neurônios se comunicam com


muitas estruturas, mas um dos seus principais
alvos é um dos núcleos da base, o núcleo
accumbens (Figura 4.22), cujos neurônios,
por sua vez, se conectam ao córtex pré-
frontal. Estimulações dessa via provocam
sensação de prazer e bem-estar.

Figura 4.22 – Núcleo Accumbens - (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)

Ao que tudo indica, esse circuito se desenvolveu de forma a “impulsionar”


comportamentos buscando suprir necessidades vitais, como a alimentação e a
reprodução. Portanto, trata-se de uma via fundamental para a sobrevivência tanto como
indivíduos quanto como espécies.

Muitas drogas de abuso atuam diretamente sobre sistemas modulatórios, em especial


nos sistemas noradrenérgico, dopaminérgico e serotoninérgico.

Não Concluindo!
No decorrer dessas páginas tentei deixar, ao menos minimamente, uma breve noção
sobre os principais “elementos”, de forma a permitir uma melhor compreensão global da
neuroanatomia e neurofisiologia por trás do que se seguirá nos próximos capítulos!
Obviamente, foi apenas uma “pincelada” do “conjunto da obra”, podemos continuar e
aprofundar o bate-papo tanto na plataforma de membros quanto nos grupos fechados!
Por hora é isso aí!
Bora continuar a aventura!
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 54

Referências

1
Nicoll, R.; Malenka, R.; Kauer, J. Functional comparison of neurotransmitter receptor subtypes in the
mammalian nervous system. Physiological Reviews 70:513–565. 1990
2
Kaas, JH. The evolution of neocortex. Brain, Behavior and Evolution 46:187–196. 1995
3
Kaas, JH. The evolution of brains from early mammals to humans. Wiley Interdisciplinary
Reviews. Cognitive Science 4:33–45. 2013
4
Foote, S.L.; Bloom, F.E.; Aston-Jones G. Nucleus locus ceruleus: new evidence of anatomical and
physiological specificity. Physiological Reviews 63:844–914. 1983
5
Aston-Jones, G.; Bloom, FE. Norepinephrine-containing locus coeruleus neurons in behaving rats
exhibit pronounced responses to non-noxious environmental stimuli. Journal of Neuroscience 1:887–
900. 1981
6
Julius, D. Serotonin receptor knockouts: a moody subject. Proceedings of the National Academy of
Sciences USA 95:15153–15154. 1998
7
Berridge, K.C.; Robinson, T.E.; What is the role of dopamine in reward: hedonic impact, reward
learning, or incentive salience? Brain Research Review 28:308–367. 1998
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 55

Neuropsicologia,
Cognição e Inteligência

Cognição
Para as neurociências em geral, incluindo a neuropsicologia, a palavra “cognição” não
se resume apenas ao pensamento e sim envolve todo o conjunto de processos “mentais”
realizados pela enquanto nós estamos em atividade como, por exemplo, a percepção, a
atenção, a associação, a memória, o raciocínio, o planejamento, a linguagem, a
imaginação e assim por diante. As funções cognitivas são, portanto, resultantes da
atividade constante de regiões e circuitos cognitivos complexos.
Não podemos nos iludir, porém, na busca de um “fatiamento cirúrgico” entre essas
funções, pois, os processos e estruturas do sistema cognitivo são interdependentes. Por
exemplo, enquanto você lê este livro, está aprendendo, mas vários outros processos
também estão em andamento. A percepção visual na “captura” das palavras, a atenção
para não se perder entre as linhas. Você deve dominar também habilidades linguísticas,
além de possuir um “repertório” relevante na memória de longo prazo. Os elementos de
resolução de problema são “ativados” quando alguma bobagem que eu escrevo aqui
entra em conflito com alguma outra bobagem que você já leu em algum outro lugar.
E o que dizer em relação ao estado emocional, o qual, para complicar mais um pouco,
“corre em paralelo” modulando tudo isso. Se você estiver com fome, ou brigado com
alguém um pouco antes de se sentar para ler essas páginas, existem grandes chances de
seu aproveitamento ser péssimo. Por fim, quando você resolve contar tudo que aprendeu
aqui, para seu amiguinho favorito, toda essa informação deve ser recuperada e
conscientemente avaliada para montar a sua explanação.
Resumo da ópera! Cada processo depende de outros processos e estruturas, portanto,
cada vez mais, pensar no conjunto da obra se torna mais produtivo.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 56

Estudaremos as funções cognitivas


mais importantes para a Neuropsicologia,
a começar pela inteligência.

Figura 5.1 - (Fonte: © pngtree.com)

Inteligência e Psicometria
Pessoal, essa é uma das partes que pensei bastante antes de incluir no presente
material, pelo fato de ser notavelmente polêmico. Porém não poderia deixar de lado,
mesmo que brevemente, uma noção de como a neuropsicologia encara esse assunto.
Inegavelmente, percebemos diferenças entre pessoas, tanto facilidades quanto
dificuldades. Um Einstein não passaria despercebido!

Você sabia?

v O encéfalo de Einstein era menor que um


encéfalo médio de um homem adulto. Pesava
1
“apenas” 1.230g, porém possuía inúmeras
peculiaridades que foram analisadas por
diversos pesquisadores em busca do
“segredo” de sua genialidade¹.

Mas como identificar o que faz com que essas pessoas sejam diferentes?
Atualmente é o uso da análise fatorial* que permite uma classificação geral das
capacidades cognitivas. Buscando correlacionar causas e consequências, cognição e
comportamento. Nos estudos psicométricos da inteligência, analisa-se a correlações entre

*
A principal função das diferentes técnicas de análise fatorial é reduzir uma grande quantidade de
variáveis observadas a um número reduzido de fatores.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 57

um conjunto de testes cognitivos que requerem uma mesma capacidade cognitiva, ou seja,
têm uma causa comum. Espera-se, portanto, que pessoas com essa capacidade
desenvolvida apresentem bons desempenhos em todos eles. Ao passo que, pessoas com
menor desenvolvimento apresentarão um desempenho pior.
Então agrupando-se os testes por categorias, com base nas capacidades esperadas
como causa e usando um pouco de “engenharia reversa” começou a busca por definir
quantas e quais seriam essas capacidades cognitivas.
Um dos primeiros a “esquadrinhar” a inteligência foi Charles Spearman2 (1863-1945),
um psicólogo inglês, que buscava uma forma de quantificar a inteligência. Entre os anos
de 1904 e 1927 lançou a hipótese da existência de um fator de inteligência geral, ou seja,
uma habilidade única e geral responsável pelo desempenho em habilidades diversas,
denominando então de “fator G”. Ele também cunhou o termo “fatores S”, para os fatores
de “inteligência” que não eram compartilhados entre diversas habilidades, ou seja, eram
específicos para certas habilidades. Sendo que o peso maior ficaria sempre no fator G.
Na sequência surge Raymond B. Cattell (1905-1998), aluno de Spearman, entre os
anos de 1941 e 1971 propôs que o fator geral de inteligência (fator G), seria por sua vez
dividido em dois subcomponentes, a inteligência fluida (fator Gf), que seria responsável
pelo raciocínio geral e a inteligência cristalizada (fator Gc), que seria o resultado da
aprendizagem cristalizada, ou seja, o conhecimento geral. Numa analogia, com a devida
liberdade poética, seria algo como o poder de processamento e o poder de
armazenamento e integração.
Algum tempo depois, Jonh Horn (1928-2006), discípulo de Cattell, e na sequência John
Bissel Carroll (1916-2003) ampliaram e consolidaram os subfatores, criando o que ficou
conhecido como Teoria dos Três Estratos, com a ideia de camadas dispostas em três
níveis, o primeiro composto por 65 fatores, o segundo composto por domínios mais amplos
do conhecimento e, por fim, o terceiro estrato, correspondente a um fator geral.
Como era de se esperar acabou se tornando por demais confuso e pouco prático.
Atualmente ocorreu a “fusão” de todas essas ideias na chamada Teoria Cattell-Horn-
Carroll de Inteligência, ou simplesmente CHC3
O modelo é bastante abrangente e integra várias esferas, portanto, não se apegue a
querer gravar essa infinidade de siglas. Apenas tenha uma noção geral, deixarei um
diagrama e suas legendas, uma versão adaptada de Schneider e McGrew (2012)4. Os
fatores englobam desde áreas amplas do funcionamento cognitivo, processamento
cognitivo e a domínios de conhecimento (Figura 5.2).
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 58

Figura 5.2 – (Fonte: Figura Composta com base em Schneider e McGrew. 2012)
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 59

Figura 5.3 – (Fonte: Schneider e McGrew. 2012 - Figura 4.7 - Adaptada)

Agora iremos explorar um pouco dos principais subfatores dos 3 grandes grupos

Inteligência como processo: capacidades gerais


As capacidades gerais são “genéricas” e estão por detrás de todas as atividades
intelectuais, sendo o raciocínio, a memória e a velocidade geral.
Raciocínio
Inteligência fluida (Gf) – O termo “fluido” vem da definição de Cattell, de que essa
capacidade “flui” entre diferentes processos cognitivos. Sendo a capacidade geral para
executar processos básicos na percepção de relações entre informações para formar
conceitos, classificar, inferir regras e generalizar. Sendo a base do raciocínio lógico. Essa
inteligência, muitas vezes, é percebida como a capacidade de resolver problemas novos e
aprender, quando não há informações memorizadas prontamente disponíveis, sendo,
portanto, necessário formular novo conhecimento5.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 60

Memória*
Memória de curto prazo (Gsm) – É a capacidade de “manipular” a memória
imediata, por depender da atenção para codificar, manter e transformar a informação está
intimamente ligada às funções executivas, sendo assim, não é puramente uma tarefa de
memória.
Memória de longo prazo (Glm) – É a habilidade de reter e recuperar informações,
o processo de “revisitar” as informações periodicamente é crucial também no
fortalecimento desses registros.

Velocidade Geral
Velocidade de processamento (Gs) – É a habilidade de realizar tarefas cognitivas
simples e repetitivas de forma rápida e fluente. Quanto mais rápido for o processamento,
mais recursos de processamento sobrarão para outros processos.
Velocidade psicomotora (Gps) – É a velocidade e a fluidez com que os
movimentos físicos do corpo podem ser realizados, envolvendo as partes do corpo: braços,
pernas, dedos, articulação vocal, etc.
Rapidez de decisão (Gt) – É a velocidade de reagir, tomar decisões ou realizar
julgamentos em tarefas que envolvem processamentos mais complexos, apresentadas
uma de cada vez. Enquanto Gs refere-se à eficiência em se trabalhar rapidamente
executando tarefas cognitivas simples, Gt implica reação rápida a um problema envolvendo
processamento e decisão.

Inteligência como conhecimento: conhecimento adquirido


Segundo Cattell, o exercício das capacidades gerais consolida quatro habilidades
distintas (Gc, Gkn, Grw e Gq) armazenadas na memória de longo prazo, cada uma com
suas devidas particularidades.
Inteligência cristalizada (Gc) – É a extensão e a profundidade de domínio dos
conhecimentos e dos comportamentos que são valorizados por determinada cultura. Está
associada ao conhecimento declarativo (conhecimento de fatos, ideias, conceitos) e ao
conhecimento de procedimentos (raciocinar com procedimentos aprendidos previamente
para transformar o conhecimento). Reflete o grau em que o indivíduo aprendeu e utiliza
conhecimentos e competências valorizados socialmente, sendo, portanto, impossível
avaliar a Gc de forma independente da cultura. Comparada com outras habilidades

*
O assunto memória será amplamente explorado no capítulo dedicado ao tema.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 61

cognitivas, mostra-se relativamente influenciada com mais facilidade por fatores como
experiência, educação e oportunidades culturais.6
Conhecimento de domínios específicos (Gkn) – Envolve a profundidade, a amplitude
e o domínio de um tipo de conhecimento especializado, que não se espera que todos
daquela sociedade possuam. Costuma ser adquirido devido a demandas específicas seja
ela uma profissão, hobby ou ainda outros interesses, como religião ou esportes. Muitas
vezes, o aprendizado de um domínio específico mostra-se influenciado por variáveis
situacionais e individuais, ligadas a fatores de personalidade, tais como abertura a
experiências e engajamento intelectual.
Leitura e escrita (Grw) – Representa a amplitude e a profundidade de conhecimento
relacionadas à linguagem escrita. Envolve habilidades de decodificação de leitura
(identificar palavras em um texto), compreensão da leitura (compreender o discurso
escrito), velocidade de leitura (rapidez com que o indivíduo consegue ler e compreender
um texto), soletrar, uso do idioma (conhecimento de regras de pontuação, emprego de
vocabulário), habilidade escrita (comunicar claramente suas ideias por meio do texto) e
velocidade de escrita (copiar e gerar textos com rapidez). Pessoas com habilidade alta
nessa área em geral não têm dificuldade em ler e escrever, de modo que a linguagem se
encontra bem desenvolvida. Em contrapartida, aquelas com dificuldade, em geral, não
conseguem compreender textos ou comunicar-se de forma clara.
Conhecimento quantitativo (Gq) – Pode ser definido como a amplitude e a
profundidade do conhecimento relacionado à matemática. Consiste nos conhecimentos
acumulados sobre matemática, tais como o conhecimento dos símbolos matemáticos (ex:
≠, ≤, +, −, ×, ÷, √), operações (ex: adição, subtração, divisão e multiplicação),
procedimentos computacionais (ex: divisões longas e frações) e outros habilidades
relacionadas com usar uma calculadora ou um software de matemática, por exemplo.

Capacidades sensório-motoras (dependentes de domínio)7


Algumas habilidades estão associadas a modalidades sensoriais. Entre elas, destacam-
se o processamento visual (Gv), processamento auditivo (Ga), processamento olfativo
(Go), processamento tátil (Gh), a habilidade sinestésica (Gk) e a habilidade psicomotora
(Gp).
Processamento visual (Gv) – É a habilidade de gerar, perceber, armazenar, analisar,
manipular e transformar imagens visuais para resolver problemas. Utilizando, portanto,
processos de representação e transformação mental de imagens. Um exemplo de uso
desta habilidade é quando bolamos um plano para passar aquele sofá enorme pela
minúscula porta da sala (resolução de problemas visuoespaciais), ou quando avaliamos
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 62

se o carro cabe naquela vaga apertada numa rua movimentada. Fazem parte da Gv, a
memória visual e as habilidades visuoespaciais.
Processamento auditivo (Ga) – É a habilidade de detectar processos que envolvem,
principalmente, informação não verbal em forma de som. Essa definição pode causar
confusão, porque não estamos acostumados a ter um vocabulário bem desenvolvido sobre
som, a menos que se esteja falando de sons da fala ou de música. Envolve o uso de
informações sensoriais capturadas pelo ouvido, às vezes muito tempo depois de um som
ter sido escutado. Está associado a habilidades do tipo codificação fonética (distinguir
fonemas), discriminação dos sons da fala (detectar e discriminar diferenças entre os sons
da fala em casos de pouca ou nenhuma distração ou distorção), resistência à distorção do
estímulo auditivo (escutar corretamente as palavras mesmo em condições de distorção ou
ruído alto de fundo), memória de curto prazo para padrões sonoros (tais como tom, padrões
de tons e vozes), reconhecer e saber manter um ritmo musical; ter habilidades musicais
relativas à melodia, harmonia, e aspectos como tempo e variações de intensidade; ter
ouvido absoluto* e saber localizar os sons no espaço.
Processamento olfativo (Go) – É a habilidade para detectar e processar informações
em relação a odores. Não se refere à sensibilidade do sistema olfativo, mas sim à cognição
processada a partir do que o nariz é capaz de “capturar”. Envolve habilidades relacionadas
a memória olfativa, memória episódica de algum odor, sensibilidade olfativa, habilidades
específicas de odor, identificação e detecção de odores, nomeação de odores e
imaginação olfativa.
Processamento tátil (Gh) – É a habilidade para detectar e processar informações nas
sensações táteis. Não se refere à sensibilidade ao toque, mas à cognição ou à
interpretação das sensações que envolvem o tato. Associa-se a visualização tátil
(identificação de objetos via apalpamento), localização tátil (onde foi tocado), memória tátil
(lembrar onde foi tocado), conhecimento de texturas (por meio da nomeação de
superfícies, texturas e tecidos ao toque). Envolve a sensibilidade tátil (habilidade de fazer
discriminações finas em sensações táteis).
Habilidade cinestésica (Gk) – É a habilidade para detectar e processar informações
sobre sensações proprioceptivas†. Pode ser avaliada por meio da capacidade de inferir
características de objetos, tais como noção de quantidade de força necessária nos
membros para mover objetos de acordo com seu tamanho, peso e distribuição de massa.
Habilidade psicomotora (Gp) – É a habilidade para executar movimentos corporais e
físicos, tais como movimento dos dedos, das mãos e das pernas com precisão,
coordenação e força. Habilidades específicas envolvidas em Gp relacionam-se à força

*
Ouvido absoluto - habilidade de identificar os tons musicais

Propriocepção - detectar posição dos membros e movimento via proprioceptores, órgãos sensoriais
presentes nos músculos e nos ligamentos que detectam o alongamento.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 63

estática (de exercer força muscular para mover um objeto imóvel ou pesado), coordenação
multimembros (fazer movimentos motores específicos ou discretos com os braços ou as
pernas), destreza dos dedos (fazer movimentos precisos e coordenados com os dedos),
destreza manual (realizar movimentos coordenados com a mão ou com a combinação
mão-braço), estabilidade braço-mão (usar de modo preciso e coordenado no espaço),
precisão de controle (executar movimentos de resposta ao feedback ambiental), pontaria
(habilidade de executar uma sequência de movimentos que exijam coordenação olho-mão)
e equilíbrio (manter o corpo na posição vertical).
Concluindo, podemos encarar a inteligência em um aspecto multidimensional, porém,
muitas evidências indicam haver uma relação entre todas essas capacidades e um fator
geral.
O modelo CHC vem sendo de muita importância, quando aliado às avaliações por meio
de testes psicométricos e neuropsicológicos, trazendo uma certa objetividade aos
resultados.
É importante ressaltar que as habilidades intelectuais de uma pessoa não são estáticas,
elas se desenvolvem na medida em que são estimuladas, portanto, não devemos ser
“fatalistas”.
Outro termo, bastante conhecido e utilizado, é o que convencionou-se chamar de QI
(quociente de inteligência). O quociente de inteligência é um conceito que surge
conjuntamente com os primeiros testes de inteligência e desde então tem sido utilizado
como representação da inteligência de uma pessoa. Através da pontuação que ela obtém
em testes padronizados.
Existem inúmeras críticas, porém, às correlações entre QI e desempenho cognitivo
geral do sujeito, em especial nos casos de “Super QI”8. Sendo, portanto, uma métrica mais
utilizada no sentido de identificar/presumir déficits específicos no intelecto e atrasos no
desenvolvimento cognitivo.
Assim, é prudente encarar o resultado de um teste de QI como uma estimativa do nível
atual de inteligência do indivíduo, que poderá mudar ao longo do tempo. Não sendo algo
fixo e imutável.
É importante ressaltar que o modelo de inteligência que apresentamos, apesar de ser
o mais usual, não é unanimemente aceito. Para autores como Howard Gardner, psicólogo
da universidade de Harvard, modelos assim deixam de fora habilidades igualmente
significativas e que também deveriam ser consideradas formas de inteligência.
Em seus estudos, Gardner elenca diversos tipos de inteligências: linguística, lógico
matemática, espacial, musical, cinestésica, interpessoal e intrapessoal, introduzindo a
esse campo, habilidades emocionais e sociais.9
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 64

Referências
1
Witelson, S.F.; Kigar, D.L.; Harvey, T. The exceptional brain of Albert Einstein. Lancet. 353:2149–2153.
1999
2
Spearman, C. General intelligence, objectively determined and measured. American Journal of
Psychology. 15(2), 201-293. 1904
3
McGrew, K. S. CHC theory and the human cognitive abilities project: Standing on the
shoulders of the giants of psychometric intelligence research. Intelligence. 37(1):1-10. 2009
4
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D. P. Flanagan; P. L. Harrison (Eds.), Contemporary intellectual assessment: Theories, tests, and
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Davis, K.; Christodoulou, J.; Seider, S.; Gardner, H. The Theory of Multiple Intelligences. Cambridge
Handbook of Intelligence. 485-503. 2011
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 65

Neuropsicologia, Atenção
e Funções Executivas

Atenção!
Será que conseguimos prestar atenção em tudo que nos rodeia? Provavelmente você
responderá, claro que não! Então será que, ao menos, prestamos atenção à grande
maioria das informações que recebemos a todo momento? Agora ficou mais difícil
responder!
Vamos a um teste rápido de atenção e memória! Responda rápido! Qual o ícone de
aplicativo que está no canto inferior direito da sua primeira tela do celular?

Figura 6.1 - (Fonte: © pngtree.com - Editada)

Pronto! Agora pegue seu celular e confira! Acertou?


Muito bem!
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 66

Agora só mais uma perguntinha rápida, dessa vez sem pegar o celular ou “colar”. Que
horas marcava no seu celular? Provavelmente essa informação estava pulando na sua
frente, seja tela de bloqueio, na barra de cima ou ainda bem no meio da tela, mas qual a
razão de simplesmente ignorarmos? Bora lá entender um pouco mais sobre essa tal
“atenção”!
Em neurociências atenção é definida como um conjunto de processos que levam a
pessoa a priorizar alguns estímulos e ignorar outros. Podendo ser estímulos externos ou
internos, quantas vezes nos pegamos “viajando na maionese” enquanto um monte de coisa
está rolando “aqui fora”!
E qual a importância da atenção? Caso você tenha prestado atenção! Já deve ser
sacado que a atenção é a “alma do negócio”, ela é a porta de entrada que permite todo o
resto acontecer, aprender, fazer associações, interpretar, filtrar as informações, tomar
decisões, guiar o próprio comportamento. Por isso, ela é tão importante do ponto de vista
neuropsicológico sendo considerada a base dos nossos processos mentais.
Por conjunto de processos, entenda que a atenção pode ser dividida em tipos e subtipos
e envolver diferentes modalidades sensoriais. A primeira grande divisão que pode ser feita
é com relação à sua origem, voluntária ou involuntária.
Atenção voluntária ou controlada – Quando intencionalmente estamos focando
nossa atenção de forma voluntária. Por exemplo, você nesse momento lendo essas linhas!
Atenção involuntária ou automática – É “disparada” por estímulos alheios à nossa
vontade e “roubam” nossa atenção, atraindo um ou vários sentidos em direção a eles. Por
exemplo, o cheiro de um café recém coado naquele momento em que você já está se
cansando de passar os olhos nessas páginas!*†

Dica:

Outros termos usuais para Atenção


voluntária e Atenção involuntária são
“bottom-up*” (processamento de baixo para
cima) e “top-down†” (processamento de cima
para baixo).

*
bottom-up (processamento de baixo para cima) – Processamento diretamente influenciado por
estímulos do ambiente.

top-down (processamento de cima para baixo) – A atenção é direcionada pelo indivíduo de modo
deliberado para algum objeto ou lugar.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 67

Outra divisão importante é em relação à forma como a atenção está “operando”,


podendo ser categorizada em quatro tipos: seletiva, sustentada, alternada e dividida.
Lembrando, porém, que os limites entre elas nem sempre são fáceis de traçar.
Atenção seletiva – É a capacidade de se concentrar em estímulos determinados,
enquanto se ignora outros. É o mecanismo central da atenção. O exemplo mais clássico
de atenção seletiva é o chamado “efeito coquetel”1 aquele que acontece quando estamos
numa festa barulhenta e mesmo assim conseguimos conversar com alguém, “isolando”
apenas a voz daquela pessoa em nossa atenção e ignorando todo o resto (Figura 6.2).

Figura 6.2 – Exemplo do Efeito Coquetel - (Fonte: Mark Bowden © 123RF.COM)

Atenção sustentada – É quando a atenção seletiva é mantida por um tempo


prolongado sobre algum estímulo. Por exemplo, quando aquela mesma pessoa da festa
tem um papo excelente e vocês ficam a noite toda conversando e nem percebem o tempo
passar. Acontece quando executamos tarefas que exigem concentração, por exemplo, ler
esse livro ou assistir a um filme (Figura 6.3).

Figura 6.3 – Exemplo de Atenção Sustentada - (Fonte: Antonio Guillem © 123RF.COM)


NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 68

Atenção alternada – É a capacidade de mudar o foco da atenção, alternando entre um


estímulo e outro. Por exemplo, quando você está fazendo anotações do que está lendo
nesse livro, ao ler alguma coisa interessante (Figura 6.4). No momento em que começa a
anotar aquilo que leu você tira a atenção do texto e passa para a escrita de suas notas.
Não conseguimos escrever ao mesmo tempo em que lemos, temos que alternar os focos.

Figura 6.4 – Exemplo de Atenção Alternada - (Fonte: Antonio Guillem © 123RF.COM)

Atenção dividida – É parecida com a atenção alternada, porém acontece quando


fazemos duas tarefas simultaneamente. Por exemplo, conversar enquanto dirigimos. Para
que essa atenção seja possível, é necessário que uma das tarefas que estejamos
realizando já tenha sido automatizada. Uma tarefa precisa ser executada pelo
“processamento automático”, enquanto a outra por meio de esforço cognitivo. Portanto,
quando você ainda está aprendendo a dirigir se torna muito difícil conversar e dirigir, pois,
a ação de dirigir ainda está demandando recursos cognitivos o que força a alternância do
foco da atenção.

Para Lembrar:

Não somos seres multitarefas! Não caia


nessa armadilha! Duas tarefas simultâneas
que requerem esforço cognitivo sempre terão
a atenção alternada entre elas.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 69

É importante saber que existem vários fatores capazes de interferir na modulação da


atenção. Tais como: a motivação, sono, fome, dor, sede, entre outros... Você já deve ter
passado por isso várias vezes em sua vida, em especial assistindo aulas, são vários fatores
“concorrentes” e nem sempre a motivação é quem vence.
Agora você me pergunta, qual a importância de ficar “desdobrando” e categorizando a
atenção em tantas fatias? É interessante ter essa noção geral, uma vez que o
desenvolvimento da atenção se dá com a evolução da idade, portanto, possibilita uma
análise mais coerente do esperado em relação à atenção em cada fase do
desenvolvimento, veremos mais à frente como se dá a “maturação” de nosso encéfalo e
por consequência a maturação das funções cognitivas.
Já se perguntou por que é tão difícil manter a atenção de uma criança?
A atenção seletiva das crianças só começa a “operar” com maior poder de
“sustentação”, em média, por volta dos 6 anos de idade.
Além disso, por exemplo, existem alterações cognitivas que podem comprometer a
atenção sustentada, mas não as atenções, alternada e dividida e vice-versa, portanto, é
importante saber distingui-las.
Estudos dos mecanismos envolvidos na atenção indicam a existência de dois sistemas
envolvendo circuitos diferentes que regulam os processos que discutimos anteriormente.
Um primeiro circuito é tido como o “orientador” e fica localizado no córtex parietal. Ele
permite a alternância do foco da atenção entre um estímulo e outro, além do “ajuste fino”
para que os estímulos sejam melhor percebidos.
Uma região importante, localizada fora do córtex, participa desse circuito, os colículos
superiores (Figura 6.5), situados no mesencéfalo, os quais são responsáveis pelo
direcionamento de nossos olhos controlando o foco visual da atenção.

Figura 6.5 – Mesencéfalo em detalhe - (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 70

O segundo circuito é o que permite manter a atenção sustentada ao mesmo tempo em


que inibe os estímulos distratores, sendo chamado de circuito executivo. Tendo como
região mais importante uma área do córtex pré-frontal, que veremos na segunda parte
do capítulo, o córtex cingulado anterior (Fig. 6.8), situado na parte interna do hemisfério
cerebral.
Essa “atenção executiva” está relacionada aos mecanismos de autorregulação e
capacidade de modulação do comportamento de acordo com as demandas cognitivas,
emocionais e sociais. Passaremos, portanto, ao estudo das Funções Executivas!

Figura 6.6 - (Fonte: © pngtree.com)


NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 71

Funções Executivas
Já parou para pensar quais funções cognitivas podem estar por trás de habilidades
como, a tomada de decisões, a flexibilidade, o controle emocional, a administração da
rotina, o planejamento e a resolução de problemas? Serão essas habilidades fruto somente
da nossa inteligência? O que poderia estar por trás, por exemplo, daquela “repassada”
matinal, ainda mentalmente, pelas tarefas que teremos que encarar no dia, categorizando
e priorizando as mais urgentes e deixando outras atividades de lado. Eu, por exemplo,
estou aqui escrevendo enquanto poderia estar no clube curtindo uma piscina!
As funções executivas são processos mentais, responsáveis pelo controle,
monitoramento e regulação das nossas ações, pensamentos e emoções. Graças a estas
funções nós conseguimos direcionar o nosso comportamento a metas; flexibilizar
estratégias e pensar de forma a alcançar objetivos; controlar os nossos impulsos e adequar
as nossas ações às regras sociais; tomar decisões baseadas nos objetivos pretendidos;
realizar planos e solucionar problemas e, tudo isso, ao mesmo tempo em que nos auto
monitoramos para verificar a eficácia das estratégias que estamos utilizando.
As funções executivas estão presentes em decisões e tarefas corriqueiras, mas também
em planejamentos de longo prazo, como decidir qual vestibular prestar ou a viagem das
próximas férias. As pessoas normalmente são capazes de projetar, executar e monitorar
seu comportamento até atingir um objetivo que tenham em mente, seja ele de curto ou de
longo prazo.
Mas você pode estar se perguntando: Qual a razão de habilidades tão distintas estarem
colocadas no mesmo “balaio”? Simples! Ao que tudo indica, elas estão, primordialmente,
relacionadas a um mesmo agrupamento de regiões cerebrais (Figura 6.7).
Apesar dessas funções também
serem comuns a outros animais,
elas atingiram o máximo do seu
desenvolvimento em nossa
espécie. Em relação aos aspectos
neuroanatômicos, as funções
executivas ficam, de forma
predominante, no nosso lobo
frontal, mais especificamente, no
córtex pré-frontal, que é uma região
especialmente desenvolvida no ser
humano.
Figura 6.7 – Córtex Pré-Frontal - (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 72

Lesões no córtex pré-frontal, geralmente, acarretam uma série de problemas, as


chamadas “disfunções executivas”. Algumas pessoas, apesar de não apresentarem
alterações nos níveis de inteligência, se tornam apáticas e incapazes de tomar decisões
do dia a dia. Ou passam a tomar sem levar em conta prioridades, consequências ou os
riscos envolvidos, de forma desastrosa. Não percebendo nem avaliando os próprios erros.
Outras podem se tornar impulsivas e incapazes de inibir comportamentos inadequados,
deixando de avaliar as consequências de suas ações ou ainda comportando-se de forma
antissocial.
Podemos ainda observar uma dificuldade em flexibilizar sua conduta, apesar de
constatar que aquelas ações não levarão à meta pretendida.
Hoje, admite-se que existem pelo menos três regiões distintas em diferentes regiões do
córtex pré-frontal, que coordenam as funções executivas (Figura 6.6).
A primeira região é o córtex pré-frontal dorsolateral, localizada na parte lateral externa,
estando relacionada com o planejamento do comportamento e a flexibilização das ações
em andamento, além de estar envolvida no funcionamento da memória de trabalho.
A segunda está na superfície medial do cérebro, sendo a parte mais anterior do giro
cingulado, o córtex cingulado anterior. Ao que parece, ela se encarrega das atividades de
auto monitoramento e correção de erros, estando envolvida, também, na atenção.
A terceira região fica logo acima da órbita, sendo, portanto, conhecida como córtex
orbitofrontal. Ela se encarrega da avaliação de riscos envolvidos nas ações e pode inibir
respostas inapropriadas.

Figura 6.8 – Regiões envolvidas nas Funções Executivas - (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)

Assim como a inteligência, as funções executivas, também podem ser consideradas um


conceito “guarda-chuva”, sendo amplo e abrigando diversas competências.
Porém, diferente da inteligência, ainda não existe um modelo teórico, majoritariamente
aceito, que explique quais são todas as essas habilidades. Usualmente elas são divididas
em 3 principais componentes:
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 73

Inibição (ou controle inibitório): é a capacidade de controlar impulsos, emoções ou


respostas automáticas inapropriadas à situação. Ela envolve os processos de atenção e o
pensamento, pois para responder de acordo com a situação, precisamos estar atentos ao
contexto, ignorar estímulos internos e externos que sejam irrelevantes para aquele
momento e pensar antes de emitir uma resposta (Figura 6.9).

Como se pode ver, a inibição está


diretamente relacionada com disciplina,
habilidades sociais e com se comportar
de forma adaptativa.
Acredita-se que a capacidade de
inibição começa a se desenvolver por
volta dos 12 meses de idade. Porém, só
passa a ser mais evidente entre os 3 e 5
anos e atinge seu auge ao final da
adolescência.
Sabidamente, a região encefálica
que mais demora em se desenvolver
plenamente é o córtex pré-frontal, em
termos neuroanatomicos, atingindo seu
tamanho final por volta dos 17-18 anos.
Figura 6.9 – Controle Inibitório - (Fonte: Anastasia Vish © 123RF.COM)

Memória de trabalho (ou memória operacional): é a habilidade de sustentar uma


informação “ativa” pelo tempo suficiente para utilizá-la na solução de algum problema, fazer
relações de ideias ou ainda integrá-la a outras informações presentes na memória de longo
prazo. A memória de trabalho “faz o meio de campo”, ela sustenta a informação para que
as outras funções possam acontecer. Por exemplo, imaginar qual posição, possivelmente,
fará com que aquele sofá enorme passe pela porta minúscula (manipulação de informação
visuoespacial); fazer cálculos matemáticos de cabeça; integrar informações novas, tal
como não esquecer o telefone que você conseguiu na festa e não teve onde anotar; ler um
texto do início ao fim, sem esquecer o que leu no início; lembrar-se do que iria falar depois
de uma distração e por aí vai...

Flexibilidade: é a habilidade de mudar o foco atencional, o ponto de vista, as


prioridades ou as regras para adaptar-se às demandas do ambiente. É isto o que nos
possibilita lidar com situações novas ou mudanças bruscas.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 74

Algumas das outras habilidades que emergem destas 3 principais e são consideradas
funções executivas, são:

Categorização: é o ato de categorizar, identificando características comuns entre


objetos e agrupando com base nessas características (Figura 6.8). Por exemplo, cachorro
e cavalo fazem parte da categoria animais de quatro patas.
É um processo natural do ser humano,
possivelmente uma vantagem evolutiva, a criação de
grupos, permite organizar e simplificar as
informações de modo a facilitar o “acesso”, sendo,
portanto, uma forma de “otimizar” o desempenho e
economizar “energia” cognitiva. Evoluímos de forma
a, sempre que possível, economizar “recursos”,
somos mestres em “criar atalhos” para acesso
imediato às informações.
Figura 6.8 – Categorização - (Fonte: © pngtree.com)

Planejamento e Solução de problemas: são as capacidades de estabelecer metas;


identificar problemas a serem resolvidos; pensar em alternativas possíveis para alcançar
o objetivo; escolher a estratégia mais eficiente, executá-la e monitorar a sua eficácia.

Tomada de decisões: é a escolha de uma dentre duas ou mais alternativas. Exigindo


análise de custo, benefício e consequências a curto, médio e longo prazo (Figura 6.9).

Figura 6.9 – Tomada de Decisão - (Fonte: Sergey Nivens © 123RF.COM)


NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 75

Autorregulação emocional: é a habilidade da pessoa em reagir de forma proporcional


às situações. Controlando a expressão das emoções que o acometem sem deixar dominar-
se por ela. Isso requer controle inibitório e uma adequada avaliação do contexto.
Ponderando demandas, avaliando a eficiência e pertinência da resposta que será dada.

Figura 6.10 – Autorregulação Emocional - (Fonte: Olesia Bilkei © 123RF.COM)

Como pudemos ver, as funções executivas possuem um papel muito importante em


nossas vidas, especialmente na idade adulta, quando, normalmente, aumentam as nossas
responsabilidades e desafios. Tamanha é a complexidade destas funções, que elas
continuam a se desenvolver mesmo após a segunda década de vida, apesar do córtex pré-
frontal atingir seu tamanho final na adolescência, a completa mielinização de suas fibras
só o ocorre por volta dos 28-30 anos de idade!
É por isso que é comum vermos jovens cometerem tantos atos inconsequentes. Ainda
falta o pleno desenvolvimento de habilidades como, o controle inibitório, a auto regulação
emocional, dentre outras. É importante ressaltar que, para que essas habilidades sejam
bem desenvolvidas, precisamos da estimulação adequada. Estudos mostram que crianças
que, desde bem cedo receberam estimulação para desenvolverem as funções executivas
tornaram-se jovens e adultos com melhor saúde mental, comportamento, sociabilidade e
desempenho acadêmico e profissional.2-3-4-5
Apesar do córtex pré-frontal, aparentemente, ser o “maestro” das funções executivas,
estudos indicam que outras regiões encefálicas podem estar envolvidas, incluindo
estruturas subcorticais, como os núcleos da base, o tálamo e o cerebelo6
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 76

Etapas do desenvolvimento das Funções Executivas

Idade Marcos do desenvolvimento das funções executivas:


Surgem os primeiros sinais da memória de trabalho e do controle inibitório.
7 - 9 meses Lembrar que objetos não visíveis ainda estão lá (brinquedo escondido embaixo do pano).
Aprender a colocar duas ações juntas numa sequência (remover pano e pegar brinquedo).
Executar tarefas simples com até 2 etapas de forma integrada, como olhar para um local e
9 - 11 meses
ir até lá. Inibir uma ação ao ver que existe uma barreira impeditiva.
Realizar atividades do dia-a-dia, como: se alimentar, tomar banho, escovar os dentes e se
trocar.
Inibir alguns comportamentos, ainda de forma irregular. Por exemplo, “não pule daí”, “não
1 – 4 anos
coloque a o dedo na tomada”, “não coloque isso na boca”.
Manter na memória até 2 regras e agir com base nelas. Por exemplo, separar brinquedos
com base em duas cores.
Realizar tarefas de 3 etapas. Por exemplo, “vá até o quarto, pegue seu casaco e coloque
na mochila”.
Compreender que a aparência nem sempre é igual à realidade. Por exemplo, distinguir
4 – 5 anos uma fruta de mentira de uma real.
Flexibilizar regras. Por exemplo, alternar a ordenação de cartões entre formato e cor.
Conseguir guardar um doce para comer mais tarde.
Organizar o quarto e arrumar a cama, talvez ainda necessite ser lembrado).
Realizar tarefas de múltiplas etapas, que envolvem mais tempo, sem ajuda.
Realizar tarefas domésticas por até meia hora, sem perder o foco.
Cuidar dos seus pertences quando estão fora de casa.
6 – 10 anos Realizar tarefas escolares mais longas e projetos escolares simples, como leitura e resumo
Administrar atividades extracurriculares.
Guardar dinheiro para algo desejado e planejar como gastar o dinheiro.
Inibir comportamentos inadequados de forma autônoma, sem supervisão.
Realizar tarefas de múltiplas etapas, incluindo responsabilidades diárias.
Realizar tarefas domésticas com mais de uma hora de duração.
Cuidar dos irmãos ou crianças menores.
11 – 14 anos
Utilizar métodos de organização em agenda, computador.
Planejar e conduzir projetos de longo prazo.
Programar sua rotina. Como, tarefas, atividades, lazer e responsabilidades familiares.
Administrar tarefas diárias e se preparar para provas em tempo hábil.
Modular o esforço e a dedicação conforme a demanda.
15 – 17 anos
Melhor controle inibitório, flexibilidade e auto regulação emocional.
Separar períodos para obrigação e para lazer, fazendo o uso adequado de cada um.
(Adaptado de Arruda, 2014; Miranda, 2014)7-8
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 77

Referências
1
Eysenck, M.; Keane, M. Psicologia cognitiva: Um manual introdutório. Porto Alegre. Artmed. 1994
2
Prince, M. et al. No health without mental health. Lancet 370:859-877. 2007
3
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4
Dunn, J. R. Health behavior vs the stress of low socioeconomic status and health outcomes. Jama.
303:1199-1200. 2010
5
Diamond, A.; Lee, K. Interventions shown to aid executive function development in children 4 to 12
years old. Science. 333:959-964. 2011
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Alvarez, J. A.; Emory, E. Executive function and the frontal lobes: A meta-analytic review.
Neuropsychology Review. 16(1):17-42. 2006
7
Miranda, M.; Piza, C.; Freitas, T. Projeto pela primeira infância: temas em desenvolvimento infantil. São
Paulo. 2014
8
Arruda, M. A.; Almeida, M. Cartilha da Inclusão Escolar. Inclusão Baseada em Evidências Científicas,
Ribeirão Preto e São Pedro. 2014
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 78

Neuropsicologia e
Memória

Memória(s)
Continuando nosso bate-papo sobre as funções cognitivas o convite agora é o de
explorar o território das memórias!
Como você já deve ter percebido, nessa altura do campeonato, geralmente,
trabalhamos com conceitos amplos que abarcam “entidades” relativamente diferentes.
Com a memória não será diferente!
As memórias provêm das experiências. Por isso, é mais proveitoso falar em “memórias”
ao invés de “memória”, já que existem tantas memórias quanto experiências possíveis.
É evidente que a memória da sua festa de casamento é diferente da memória de sua
casa da infância que, por sua vez, é diferente da memória de como dirigir o seu carro.
Algumas dessas memórias podem ser adquiridas
instantaneamente como a de um cheiro ou sabor
desagradável. Não precisamos de muitas tentativas para
aprender a não repetir uma comida estragada.
Outras podem levam semanas, meses ou até anos.
Como aprender a dirigir um carro, executar com maestria
uma habilidade ou obter domínio em uma profissão.

Figura 7.1 - (Fonte: © pngtree.com)

Umas são muito visuais, talvez como a casa da sua vó quando você era criança, outras
apenas olfativas, quem sabe aquele bolo de fubá quentinho.
Algumas podem ser basicamente motoras ou musculares, como dirigir ou simplesmente
andar.
Existem as que dão prazer e as que podem ser terríveis!
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 79

Algumas memórias surgem numa súbita associação de outras memórias que já


existiam, naquele “momento de iluminação”, por exemplo.
Outras não requerem qualquer conhecimento prévio, sendo naturais ou quase
inevitáveis, como a de um trauma após um acidente.
Algumas misturam um bocado de informações, que nem sempre fazem sentido ou
sequer são reais, tais como nossos sonhos.
É de se esperar que os mecanismos de cada um desses tipos de memória não sejam
os mesmos, tampouco, os componentes emocionais associados a cada uma delas.
Vamos explorar, então, quais são esses mecanismos e como eles são influenciados
pelos diversos componentes emocionais.
“Memória” significa aquisição, formação, conservação e evocação de informações.
A parte de aquisição, formação, conservação é o que também costumamos chamar de
aprendizado. Só “gravamos” aquilo que foi aprendido.
Já a evocação é aquilo que chamamos de recordação ou lembrança. Só lembramos
aquilo que gravamos, aquilo que foi aprendido.

Somos aquilo que recordamos!


São os momentos e experiências
que vivemos que “formatam” a nossa
existência. Desde aprender a andar
até escrever um livro, por exemplo.
Nossa personalidade também é
moldada com base nas experiências
da vida. Nossos gostos e opiniões.

Figura 7.2 - (Fonte: © pngtree.com)

Não conseguimos nomear uma cor que nunca vimos, nem contar uma história que
nunca ouvimos, aquilo que não esteja em nossa memória não nos é acessível. Não fazem
parte de nós os eventos que nunca vivemos. O “baú” de nossas memórias nos transforma
em um indivíduo único, não existem duas pessoas iguais!
O termo memória pode ser tão amplo quanto se queira, extrapolando a esfera individual.
Você já deve ter escutado alguém dizer, por exemplo, temos que preservar nossas
memórias! Ao se referir a memórias comuns que caracterizam um grupo, povos, países,
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 80

civilizações, etc... esse conjunto de memórias conhecemos como História e são elas que
constituem o que chamamos de Cultura. O conjunto dessas lembranças é o que nos faz
brasileiros, por exemplo. O mesmo acontece com os outros países e as memórias de seus
habitantes.
Em termos mais amplos, por exemplo, somos membros da civilização ocidental, nosso
registro coletivo de memórias, permite elos entre os diferentes grupos e com base na
memória coletiva fazemos novas associações.
Para um brasileiro que desembarca na China, em geral, é mais fácil arrumar um amigo
“ocidental”, algum outro “latino”, por exemplo, do que com um nativo.
Amplamente falando, portanto, o termo “memória” comporta desde componentes
eletrônicos, como o Pen Drive que carregamos no bolso; conceitos “imateriais” de
armazenamento de dados, como a tal nuvem de dados; até a história de cada cidade, país,
povo ou civilização. Incluindo as memórias individuais dos animais e das pessoas.
Analisaremos o termo “memória” dentro do espectro da memória individual, seus
diferentes mecanismos de aquisição, armazenamento e evocação. Sendo uma função
complexa, que envolve diferentes processos, são divididas em categorias distintas.
A memória humana é muito parecida com a dos demais mamíferos quando pensamos
em seus mecanismos essenciais, neurobiologicamente falando. Difere, porém, em
essência e conteúdo.
Um ser humano lembra de poemas, histórias, canções, ou ainda o teorema de Pitágoras
ou a fórmula de Bhaskara; uma girafa, não!
Os seres humanos, desde muito cedo, fazem uso da linguagem para adquirir, codificar,
guardar ou evocar memórias.
Porém, fora as áreas da linguagem, usamos mais ou menos as mesmas regiões
encefálicas e mecanismos biomoleculares que todos os outros mamíferos construir e
evocar memórias.
Basicamente, os sistemas neuronais de todas as espécies de mamíferos são muito
semelhantes seja um homem ou um rato.
Os estudos em outras essas espécies de mamíferos, podem ser relacionados aos
humanos com alto grau de confiança. Grande parte do que conhecemos sobre a “memória”
vem de estudos com animais.
Uma lesão do lobo temporal altera de forma semelhante os mecanismos de memória
tanto no homem quanto no rato, por exemplo.
Alterações bioquímicas no encéfalo também geram efeitos similares sobre a memória,
seja no rato ou seja no homem.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 81

Figura 7.3 - (Fonte: Kirill Kurashov © 123RF.COM)

As memórias são “criadas” pelos neurônios, armazenam-se em redes de neurônios e


são evocadas pelas mesmas redes neuronais ou ainda por outras. Sendo moduladas pelas
emoções, pelo nível de consciência e pelos estados de ânimo. Veja como, mais uma vez,
a emoção, o “humor” e a disposição modulam nossa cognição.
Os maiores reguladores da aquisição, da formação e da evocação das memórias são
justamente as emoções e os estados de ânimo. Quem nunca percebeu que, como mágica,
“gravamos” a aula inteira de um professor que gostamos, ao passo que, a aula de outro
professor, que apaga qualquer ponta de animo que restava, parece “não entrar na nossa
cabeça” de jeito nenhum.
Caminhando um pouco mais na cadeia evolutiva, percebemos que, mesmo em espécies
distantes, como aves ou até invertebrados os mecanismos essenciais de formação das
memórias são semelhantes aos dos mamíferos e podem ser considerados, portanto,
propriedades básicas dos sistemas nervosos em geral, seja qual for a espécie.
Qualquer que seja o animal, desde uma formiga até uma baleia, percebe que se um
estímulo é desagradável a melhor coisa a se fazer numa próxima oportunidade é evitá-lo!
Essa é uma forma básica de aprendizagem chamada esquiva inibitória.
Uma criança aprende, geralmente de primeira, a não colocar nuca mais o dedo na
tomada. Um ditado equivalente é “Macaco velho não põe a mão na cumbuca!”
Experimentos levam a crer que neurônios na amígdala* podem “aprender” a responder
certos estímulos associados à dor, e, uma vez aprendidos, esses estímulos passam a
evocar o medo como resposta.

*
Amígdala – Núcleo com formato de amêndoa no interior do lobo temporal.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 82

Geralmente, essa é uma das formas de aprendizagem mais utilizada nos estudos
biológicos sobre a memória. Uma vez que se adquire em uma única vez, permanece por
muito tempo, podendo durar a vida toda e tem um valor biológico importante.

Você confia em sua “memória”?


Diferente de um computador, que consegue gravar e recuperar as informações
rigorosamente como foram gravadas pela primeira vez, “lembrando” todos os 0 e 1 por trás
de uma foto do seu filho, por exemplo. Nossa memória pessoal e coletiva descarta o que
não considera importante e, muitas vezes, incorpora fatos que jamais aconteceram.
Nosso “hardware”, diferente de um HDD de computador, é formado por complexas
redes de neurônios. Os processos utilizados pelos neurônios são completamente
diferentes da “realidade” alvo tanto na ida (registro) quanto na volta (evocação).
Quando você olha para sua imagem no espelho a visão do seu rosto é transformada,
utilizando da mais primorosa bioquímica, em sinais elétricos e “viaja” por meio de várias
conexões neuronais ao córtex occipital.
Uma informação verbal, embora possa penetrar também pela retina, como no exato
momento em que você está lendo essa página, vai parar em outras regiões do córtex
cerebral.
Há regiões do cérebro em que todas essas vias convergem, regiões associativas sendo
que, evolutivamente, o ser humano possui muito mais regiões corticais associativas do que
regiões sensoriais primárias.
Vamos perdendo, ao longo do tempo, aquilo que não interessa ou que não nos marcou.
Dificilmente lembramos o que jantamos na segunda-feira, quando já estamos perto do final
da semana, a não ser que tenha sido o primeiro encontro com seu novo “crush”.

Figura 7.4 - (Fonte: avemario © 123RF.COM)


NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 83

Não costumamos lembrar sequer detalhes da manhã do dia de hoje!


Mas também temos uma enorme habilidade em incorporar, ao longo do tempo,
“mentiras” e versões que, geralmente, deixam as histórias cada vez mais interessantes!
O próprio conceito de memória envolve distorções, pois, a lembrança nunca será igual
à realidade.
Existe um processo de “interpretação” entre a realidade das experiências e a formação
da memória que a representa, o mesmo ocorre no caminho inverso, quando ocorre a
evocação daquela memória.
Os humanos usam muito a linguagem para fazer essas traduções, diferentemente dos
animais. As emoções e o “ambiente”, geralmente a combinação de ambos, influenciam a
aquisição e a evocação das memórias.
Nesse vai-e-vem de “informações”, os neurônios convertem e reconvertem sinais
bioquímicos e elétricos. Em cada “viagem”, ocorrem perdas ou mudanças.

Tipos de Memórias

Tipos de memórias de acordo com a função:


Uma boa forma de começar a classificar as memórias é de acordo com sua função,
tempo que duram e seu conteúdo.
De acordo com sua função, basicamente, existem dois tipos de memória.
A primeira seria a memória propriamente dita, o “acervo” de informações consolidadas
que possuímos e duram desde horas até a vida toda.
Já a outra, uma memória extremamente rápida e “frágil”, que some em instantes, serve
para lidar com o “ambiente”. Confrontando as “informações” que estão rolando no momento
com as que já constam em nosso “acervo”, possibilitando uma “avaliação” se vale a pena
ou não fazer uma nova memória daquela informação. Essa é a memória de trabalho ou
memória operacional. É uma memória “on-line”.
Dura o suficiente para a aquisição e processamento momentâneo daquela informação,
alguns segundos ou no máximo poucos minutos. Ajuda a saber onde estamos ou o que
estamos fazendo a cada momento e o que fizemos ou onde estávamos no momento
anterior.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 84

É ela que nos permite ter uma noção de continuidade e, ao que tudo indica, nos permite
distinguir a “realidade” externa da nossa “imaginação”, ou seja, nossa “realidade” interna.
Acredita-se que portadores de esquizofrenia, tenham grande parte de seus problemas
como resultado de um funcionamento falho da memória de trabalho.
Por exemplo, ao ler essa página “retemos” na memória, por alguns segundos, as
palavras anteriores até “alcançarmos” as próximas. Assim, então, “conseguimos criar” um
sentido para uma frase. Em seguida esquecemos as palavras e provavelmente a frase
toda, “ficamos” apenas com o “entendimento”.
É muito difícil você conseguir repetir na íntegra uma frase que acabou de ler, a não ser
que esteja ensaiando para uma peça e esteja “decorando” um texto, veja, nesse caso,
como ao “avisarmos” a memória de trabalho de nosso propósito a forma de retenção muda!
Num passado, não tão distante, costumava-se usar a memória de trabalho ao perguntar
um número de telefone a uma outra pessoa, aquele número era “retido” na memória até o
momento do telefonema. Logo na sequência, então, era esquecido. Desde a invenção do
celular, porém, essa prática caiu no “esquecimento”!
Inclusive, um dos testes mais usuais da memória de trabalho é justamente pedir para
que o sujeito “grave” uma sequência de números, prática conhecida como teste de span
de dígito. Espera-se que um ser humano normal e saudável consiga “reter” na memória de
trabalho, em média, 7 dígitos aleatórios, podendo variar de 5 a 9, e repeti-los na sequência
correta após alguns segundos.
A memória de trabalho é processada primordialmente pelo córtex pré-frontal
anterolateral e o córtex orbitofrontal. Através do córtex entorrinal, embaixo do lobo
temporal, realizam conexões com a amígdala e o hipocampo. O córtex parietal superior e
o córtex cingulado anterior também participam dessa integração da memória de trabalho1
(Figura 7.3).
Segundo algumas pesquisas, a amígdala além de modular, armazena memórias,
principalmente, quando estas possuem componentes de alerta emocional2.
O córtex pré-frontal recebe axônios de regiões encefálicas ligadas à regulação dos
estados de ânimo, dos níveis de consciência e das emoções. Os neurotransmissores
liberados por esses axônios, que vêm de estruturas muito distantes, modulam
intensamente as células do lobo frontal que se encarregam da memória de trabalho.
Isso, possivelmente, explica o fato tão comum onde um estado de ânimo negativo, seja
por falta de sono, depressão, simples tristeza ou desânimo, perturba nossa memória de
trabalho. Em algum momento todos nós já passamos pela experiência de tentar, sem
sucesso, entender algo, ou simplesmente recordar um número telefônico por tempo
suficiente para discá-lo, quando estamos distraídos, desanimados, cansados ou sem
vontade.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 85

Figura 7.3 – Principais estruturas envolvidas na formação e evocação das memórias


(Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)

Para Lembrar:

Equivocadamente, ainda se encontram referências


onde memória de trabalho e memória de curta duração
são tratadas como a mesma coisa.

Elas não são!

Memória de trabalho dura, geralmente, segundos e


não deixa “rastros” neuroquímicos.

Ao passo que a memória de curta duração dura de


1 a 6 horas e possuem mecanismos próprios bastante
conhecidos.

A memória de trabalho não deixa traços, diferente dos demais tipos de memória. Ela
depende, simplesmente, da atividade elétrica dos neurônios nas regiões envolvidas.
Esses neurônios “disparam” seus potenciais de ação, de forma coordenada entre eles,
no início, no meio ou no fim dos acontecimentos.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 86

Dessa forma muitos autores consideram a memória de trabalho como um sistema


gerenciador central e não um verdadeiro tipo de memória. Esse gerenciador mantém a
informação “viva” pelo tempo suficiente para poder eventualmente entrar ou não na
memória propriamente dita.
As células que detectam o início e o fim dos eventos denominam-se neurônios-on e
neurônios-off. Sendo encontrados não só no córtex pré-frontal, mas também em todas as
vias sensoriais. Alguns autores usam o termo memória sensorial, justamente por essa
“brevidade” e associação com os sistemas sensoriais.
Os neurônios-on-off são muito estudados nas vias visuais. Podemos perceber a
“persistência” da atividade elétrica desses neurônios quando olhamos fixamente uma
imagem por muito tempo, ela se “mantem” em nossa “memória visual” mesmo após
pararmos de olhar a imagem e focarmos em uma parede branca, por exemplo.
Segue uma brincadeira abaixo, fixe o olhar na imagem abaixo por uns 30 segundos e
depois olhe imediatamente para uma parede branca!

Figura 7.4 - (Fonte: © pngtree.com - Editada)

Como “capricho” adicional, nossa “memória visual” inverte as cores da imagem,


podemos discutir essa particularidade com mais detalhes nos complementos na área de
membros.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 87

Consideramos como memória, geralmente, o registro de coisas que já aconteceram.


Porém, existe um terceiro tipo de memória, considerado por alguns autores como
distinta das anteriores. Relacionada não ao passado, mas sim ao futuro.
A habilidade de memorizar eventos ou situações que ainda acontecerão, ou o “lembrar
de lembrar”.
Esse tipo de memória é a chamada memória prospectiva, sendo utilizada
continuamente enquanto planejamos estratégias que refletirão em consequências futuras,
tais como o planejamento e supervisão de nossa atividade diária.

Tipos de memórias de acordo com o conteúdo:


Os estudos em relação à memória, levaram a distinção em dois grandes grupos:
As memórias declarativas e as memórias não declarativas.

Memórias Declarativas
São as memórias que registram fatos, eventos ou conhecimento. Como o próprio nome
sugere são chamadas declarativas, porque nós, podemos “declarar” que existem, dessa
forma, são memórias exclusivamente da espécie humana.
Entre elas, encontram-se as memórias referentes a eventos aos quais assistimos ou
participamos. Por exemplo, aquela aula bacana ou ainda sua festa de casamento. Essas
memórias denominam-se episódicas ou autobiográficas. As memórias de conhecimentos
gerais, são denominadas semânticas. Por exemplo, as capitais dos estados brasileiros,
caso ainda tenha elas em sua memória.
Quase sempre, as memórias semânticas são adquiridas por meio de memórias
episódicas. Por exemplo, para aprender matemática, você precisa ter ido às aulas de
matemática!
Geralmente, conseguimos lembrar os episódios nos quais adquirimos memórias
semânticas. As aulas de matemática que tivemos que encarar! Dificilmente, porém,
conseguimos estabelecer o limite entre o começo e o fim de um episódio. Na realidade, é
praticamente impossível para nós, “aqui do lado de fora”, determinar o início e o fim da
aquisição de cada memória declarativa. A determinação do início e do fim de cada episódio
envolve uma interação entre memória declarativa e memória de trabalho por meio de suas
respectivas regiões neuroanatomicas3.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 88

Memórias Não Declarativas


Alguns autores dividem as memórias não declarativas em diversas categorias, mas na
prática se estuda a chamada memória procedural ou de procedimentos, as quais
costumamos entender como nossos hábitos e habilidades.
Por exemplo, tocar um instrumento musical, praticar um esporte ou ainda coisas que
fazemos a todo momento, tais como, abotoar um camisa e amarrar os sapatos.
Uma outra diferença é que as memórias declarativas são frequentemente fáceis de
formar e, também, facilmente esquecidas. Ao passo que, a formação de memórias não
declarativas exige repetição e prática durante longos períodos, mas essas memórias são
menos prováveis de serem esquecidas.
Considere a diferença entre aprender a partitura de uma música, uma memória
episódica declarativa, e a sua execução em um instrumento musical, uma memória
claramente procedural. Pode ser que, com o passar do tempo, você se esqueça como
tocar, especificamente, aquela música. Dificilmente, porém, esquecerá como se toca o
instrumento.
Os circuitos responsáveis pelas memórias de procedimentos envolvem o núcleo
caudado e o cerebelo. Porém, durante o início da aquisição elas também podem recorrer
a circuitos do lobo temporal, em especial o hipocampo e o córtex entorrinal.

Figura 7.5 – Núcleo caudado e cerebelo - (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 89

Memórias Explícitas e Implícitas


Pensando na forma de aquisição das memórias, podemos dividir as memórias em
explícitas e implícitas.
As memórias de procedimentos são, em geral, adquiridas de maneira implícita, mais ou
menos de forma automática, sem que se perceba claramente como e quando as estamos
formando, sendo resultado direto da experiência. Dessa forma, se torna difícil descrever o
passo a passo de sua aquisição.
Já as memórias explícitas são adquiridas com plena intervenção da consciência, sendo
resultantes de um esforço cognitivo maior.
Até pouco tempo atrás, consideravam-se explícitas as memórias declarativas. Porém,
muitas memórias semânticas também são adquiridas de maneira inconsciente ou implícita,
por exemplo, sua língua materna.

Tipos de memórias de acordo com a duração:


As memórias também podem ser classificadas pela sua duração. podendo durar alguns
minutos, horas, dias, anos ou simplesmente a vida toda!

Memórias Declarativas de Longo Prazo


São aquelas que você pode recordar dias, meses ou anos após terem sido
armazenadas. Obviamente, representa apenas uma parcela, bastante pequena, das
informações com as quais somos “bombardeados” a todo o momento diariamente. A maior
parte da informação é mantida no encéfalo apenas temporariamente, geralmente horas.
As memórias declarativas de longo prazo levam tempo para serem consolidadas. Nas
primeiras horas após sua aquisição, são frágeis e ficam sujeitas à interferência por
inúmeros fatores, inclusive à ocorrência de outras memórias. Portanto, a exposição a um
novo ambiente ou novos estímulos, dentro das primeiras horas após a aquisição, pode
distorcer, “embaralhar” ou até impedir, a formação definitiva de uma memória de longo
prazo4.
Uma pequena liberação de hormônios do estresse, como a adrenalina ou
glicocorticoides, nos minutos logo após aquisição pode melhorar a consolidação da
memória de longo prazo, já uma liberação excessiva pode prejudicar ou até impedir a
consolidação.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 90

Memórias Declarativas de Curto Prazo


As memórias declarativas de curto prazo duram entre 1 e 6 horas, servindo como uma
espécie de “backup” durante o tempo necessário para que as memórias de longo prazo se
consolidem.
Durante muito tempo, acreditou-se que a memória de curto prazo fosse simplesmente
a fase inicial da memória, como se seguisse uma “trilha” única até a formação da memória
de longo prazo.
Atualmente, porém, é sabido que a memória de curto prazo e a de longo prazo envolvem
processos paralelos e, até certo ponto, independentes. Apesar de utilizarem as mesmas
estruturas nervosas, possuem mecanismos próprios e distintos5.
O papel da memória de curto prazo é, basicamente, o de manter uma “cópia” provisória
da memória principal, enquanto ela ainda não está plenamente formada. Com duração
estimada de até 6 horas. A partir desse intervalo, passa a ser gradativamente substituída
pela memória de longo prazo.

Memórias Declarativas Remotas


Por último, temos as memórias de longo prazo que duram muitos anos, eventualmente
a vida toda. Por esta razão, costumam ser denominadas memórias remotas. Tais como,
as memórias das nossas infâncias ou experiências traumáticas.

Figura 7.6 - (Fonte: © pngtree.com)


NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 91

Referências
1
Izquierdo, I. Memória. 3. ed. Porto Alegre. Artmed. 2018
2
Izquierdo, I.; Furini, C. R. G; Myskiw, J. C. Fear memory. Physiological Reviews. 96:795-850. 2016.
3
Piolino, P.; Desgranges, B.; Eustache, F. Episodic autobiographical memories over the course of time:
cognitive, neuropsychological and neuroimaging findings. Neuropsychologia. 47:2314-2329. 2009.
4
Izquierdo, I.; Medina, J. H.; Vianna, M. R. M.; Izquierdo, L. A.; Barros, D. M. Separate mechanisms for
short- and long-term memory. Behavioural Brain Research. 103(1):1-11. 1999.
5
Izquierdo, I.; Barros, D.M.; Mello e Souza, T.; de Souza, M.M.; Izquierdo, L.A.; Medina, J. H.
Mechanisms for memory types differ. Nature. 393(6686):635-636. 1998.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 92

Neuropsicologia e
Aprendizagem

É chegada a hora de começarmos a juntar tudo que vimos até agora e entender como
saímos do “zero”, ou quase isso, ao nascermos e conseguimos chegar ao ponto de estar
lendo essas páginas nesse exato momento!
Em um primeiro momento abordaremos os temas e conceitos relacionados à
aprendizagem, para então fecharmos o capítulo com uma breve passagem sobre os
transtornos de aprendizagem, em especial o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade
(TDAH) e transtorno do espectro autista (TEA).
Ps. Deixarei algumas cartilhas sobre Aprendizagem/Transtornos de aprendizagem
disponíveis na plataforma de membros.
As “explorações” ligadas à linguagem ficarão para o próximo capítulo, uma vez que,
este capítulo já estava se tornando muito extenso e possivelmente cansativo.
Ufa! Bora lá!

Como tudo começa?


Muita gente não sabe, mas nascemos com muito mais neurônios do que teremos,
posteriormente, na vida adulta. Ao contrário do que se possa imaginar, os números de
neurônios não aumentam com o nosso crescimento e sim diminuem!
Existe uma “morte programada” para uma boa parte dos neurônios, ou porque não se
localizaram no lugar certo, ou porque não conseguiram formar as ligações necessárias, ou
ainda porque as ligações formadas não eram corretas ou não se tornaram funcionais.
Porém, essa “fartura neuronal” confere ao sistema nervoso uma enorme plasticidade
nos primeiros anos de vida. A capacidade de formação de novas sinapses é enorme!
Por exemplo, sabemos que o hemisfério esquerdo, na maior parte dos indivíduos, é
responsável pelo processamento da linguagem. Uma lesão nas áreas da linguagem, em
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 93

um adulto, geralmente, provocará uma afasia*, já numa criança, podem ocorrer lesões que
não deixam sequelas, pois o hemisfério do outro lado ainda pode assumir as funções
perdidas, por conta dessa plasticidade característica nas crianças.

Da mesma forma, muitas sinapses formadas no


início da vida irão desaparecer, por um processo de
“poda” sináptica. Esse processo é especialmente
acelerado na adolescência, juntamente com a
aceleração do processo de mielinização de muitas
fibras nervosas. É como se o sistema nervoso
estivesse se “especializando” e se preparando para
a vida adulta.

Figura 8.1 - (Fonte: © pngtree.com)

Você sabia?

Atualmente, já se sabe que novos neurônios


“nascem” em algumas regiões do encéfalo
humano, em especial no Hipocampo e no Bulbo
Olfatório, porém, a grande maioria tem uma
“vida” breve. De qualquer forma, tudo indica,
que impactam nos processos de memória e por
consequência de aprendizagem.
Assista ao vídeo na área de membros!

Como já vimos anteriormente, o córtex pré-frontal, tem um desenvolvimento bastante


lento e mesmo na adolescência não está plenamente maduro, inclusive em sua capacidade
de inibir impulsos. Durante a adolescência, também ocorrem alterações nos circuitos
motivacionais, fazendo com que a busca por novidades aumente, como se fosse um “test-
drive” da vida adulta, possibilitando a aprendizagem para tomadas de decisões no “mundo
real”, de forma mais apropriada para cada situação.
Porém, um aumento na busca por experiências novas junto com uma capacidade
inibitória ainda imatura pode ser uma “fórmula desastrosa” favorecendo ações impulsivas

*
Afasia - Perda da capacidade de expressar ou de compreender a linguagem verbal.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 94

e comportamentos de risco, inclusive sendo um período crítico como “porta de entrada”


para as drogas.
Na fase adulta a taxa de aprendizagem de novas informações diminui, mas aumenta a
capacidade de usar e elaborar o que já foi aprendido. A aprendizagem pode levar não só
ao aumento da complexidade das ligações em um circuito neuronal, mas também à
associação de circuitos até então não relacionados.
Vale a pena dar uma passadinha no capítulo de inteligência para relembrar os conceitos
de inteligência fluída e inteligência cristalizada.
As primeiras fases do desenvolvimento do sistema nervoso são fundamentais para um
funcionamento adequado das diversas estruturas neuroanatomicas e desempenho futuro
de suas funções.
Problemas genéticos ou ambientais, podem resultar em distúrbios ou incapacidades por
toda a vida. A formação do encéfalo durante a gestação, é guiada pelas informações
genéticas recebidas dos pais, mas pode ser alterada por condições específicas da
gestação.
Uma criança cuja mãe tenha rubéola durante a gestação, por exemplo, poderá
apresentar funções sensoriais ou cognitivas comprometidas. Uma vez que o vírus da
rubéola altera os neurônios do sistema nervoso em desenvolvimento, tanto em
organização quanto em funcionamento.
Gestantes que apresentem quadros de desnutrição, abuso de drogas, consumo de
álcool ou tabagismo podem também potencializam uma má formação do sistema nervoso.
As informações genéticas também podem apresentar alterações, resultando em má
formação do sistema nervoso, ou ainda em falhas de processos bioquímicos fundamentais
na formação neurotransmissores, por exemplo.
Esses eventos, ou a soma deles, podem acarretar prejuízos em inúmeras funções e
consequentemente afetar a forma que se dará o aprendizado.
Portanto, é necessária uma atenção especial desde a gestação até a primeira infância.
Em nossa espécie, a maior parte dos comportamentos é aprendida. Diferente do que
acontece com outros animais que já trazem boa parte da “programação” de sua própria
natureza.
Um potro recém-nascido em questão de minutos já está correndo e trotando, ao passo
que um bebê, apesar de já nascer com o reflexo de marcha, demora em média 1 ano para
dar seus primeiros passos. Em compensação, por volta dessa idade, já começamos a
balbuciar as primeiras palavras, já um cavalo nunca irá falar! Troca justa!
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 95

Nosso sistema nervoso, assim que nascemos, é muito imaturo. Essa é uma das razões
que nos torna uma das espécies que precisa de cuidados parentais por um tempo bastante
longo. Como resultado, porém, depois do pleno desenvolvimento nosso sistema nervoso
é incomparável com o de qualquer outra espécie!
A interação com o ambiente é muito importante, pois é ela que reforça conexões já
criadas e induz a formação de novas conexões neurais. Resultando na consolidação da
aprendizagem e ainda no aparecimento de novos comportamentos decorrentes dessa
interação.
Por exemplo, “aprendemos” a ver logo ao nascermos, porém não temos “acesso” às
informações sobre essa “aprendizagem”, uma vez que, não guardamos registros, em
memórias “acessíveis”, de nosso primeiro ano de vida.
Nascemos com a “circuitaria” da visão pronta, porém só enxergamos um “borrão” do
mundo que vai se tornando mais nítido com o passar do tempo. À medida que as interações
e os estímulos acontecem, novas sinapses se formam e as que já existem se fortalecem,
melhorando a nossa visão.
A maioria dos comportamentos motivados, direcionados a um objetivo, é aprendida. A
própria obtenção da comida e água, quando “bate a fome” ou a sede, segue esta regra.
Desde que nascemos, ainda recém-nascido, começamos a selecionar alguns
comportamentos que obtém sucesso nessa missão e passamos a repeti-los no futuro,
quando nos deparamos com situação semelhante. Nossas motivações nos levam a repetir
as ações que obtiveram “sucesso” numa situação passada, ou “adaptações” dessas ações,
buscando obter um resultado similar numa situação futura semelhante.

Figura 8.2 - (Fonte: © pngtree.com)


NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 96

Ao que tudo indica, é a liberação de dopamina em algumas regiões encefálicas,


associadas a essa percepção de “sucesso” como uma forma de “recompensa”, que leva à
aprendizagem. Caso queira, dê um pulo lá no capítulo sobre o sistema nervoso para
relembrar as principais vias dopaminérgicas.
Esse circuito parece ter se desenvolvido, evolutivamente, como um mecanismo
importante para o início, manutenção e regulação de comportamentos que levam a suprir
necessidades vitais, como a alimentação ou a reprodução.
As sinapses dopaminérgicas parecem atuar quando ocorre uma gratificação
inesperada, enquanto os eventos aversivos, ao contrário, inibem os neurônios
dopaminérgicos.
Quando ocorre repetição e aprendizagem de uma tarefa, a liberação de dopamina
passa a se antecipar, sinalizando e prevendo a recompensa que virá na sequência. Caso
a recompensa esperada não venha, os neurônios dopaminérgicos param de “disparar”. Ou
seja, a dopamina é um importante neurotransmissor que atua no, convencionalmente
chamado, circuito de recompensa.
Portanto, é uma estrutura fundamental para a sobrevivência dos organismos, seja como
indivíduo seja como espécie, e de fundamental importância para a aprendizagem em geral.
Aquilo que chamamos de motivação, é apontado como resultando dessa circuitaria.
Sendo que, a motivação parece resultar da atividade encefálica resultante a estímulos
internos, tais como, fome, dor e libido; além dos estímulos externos, tais como, ameaças
e oportunidades. Determinando, então, qual comportamento adequado a ser “elegido”.
A motivação não se refere a comportamentos reflexos ou localizados, mas envolve a
aprendizagem e outros processos cognitivos que se encarregam de “bolar” a estratégia
que obtenha a melhor chance de sucesso.
A maior parte das drogas de abuso, como a cocaína e anfetaminas, por exemplo, atuam
estimulando as sinapses desses circuitos dopaminérgicos, o que provoca um prazer
“artificial”, que “pega carona” nesse mecanismo evolutivo de sobrevivência.
Essa categoria de drogas psicoativa tem como “alvo” o sistema de recompensa e leva
o indivíduo a repetir o comportamento que “disparou” aquela sensação, ainda que ela não
tenha qualquer ligação com as necessidades vitais do organismo.
Os adolescentes, por estarem passando por uma fase de grande mudança encefálica,
costumam ser suscetíveis à ação e ao apelo das drogas, conforme citamos anteriormente.
A estimulação adequada, portanto, é de fundamental importância durante todas as
etapas do desenvolvimento.
Um ponto, porém, deve ser relevado. Será que a estimulação excessiva ajuda a
“acelerar” a aprendizagem?
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 97

Não existe um consenso, mas, pensando evolutivamente, temos em nossa história


evolutiva ao menos 150 mil anos como Homo Sapiens e a revolução tecnológica, a qual
permitiu esse “bombardeamento” de informações, é extremamente recente.
Portanto, em termos neurobiológicos, a evolução “natural” está longe de acompanhar a
evolução “artificial”, dessa forma ainda é prudente respeitar o desenvolvimento
neurobiológico, que ainda segue etapas dependentes do amadurecimento progressivo das
conexões que se fazem entre os neurônios e pela mielinização das fibras nervosas
envolvidas na sua execução. Na dúvida, melhor não abusar!

Você sabia?

Durante muitos anos, correu pelo mundo a


ideia de que escutar as músicas de Mozart
“turbinavam” o aprendizado, em especial em
bebês e crianças. O chamado "Efeito Mozart".

Porém, anos depois pesquisadores mostraram


1
não se passar de uma grande balela!1

Experiências feitas com animais mostraram que, quando se retira a estimulação


necessária para o desenvolvimento de determinadas capacidades, elas simplesmente não
se desenvolvem, ou se desenvolvem de forma inadequada. Isso levou ao conceito de
períodos “críticos” do desenvolvimento e desencadeou o receio de que, mesmo em
humanos, também existam períodos que, se não aproveitados, levariam a perdas
irreversíveis.
Embora existam, realmente, períodos em que determinadas aprendizagens ocorram de
forma ideal, tudo indica que uma eventual perda de oportunidade nesses períodos
sensíveis pode ser corrigida no futuro, embora somente ao custo de esforços muito
maiores2.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 98

Juntando as Peças
Se você chegou até aqui, já deve ter percebido, que, por mais que se façam divisões
“didáticas” todas as funções cognitivas estão “amarradas”.
Portanto, é impossível falar de aprendizagem sem falar sobre atenção, funções
executivas e memória.
Adolescentes e adultos jovens
frequentemente abusam de sua
capacidade atencional, e muitas vezes
vemos eles por aí lendo em um livro
aberto em frente a um computador
ligado, ouvindo música com fones de
ouvido e ainda tentando “encaixar”
alguma outra atividade.
Lembremos, conforme já vimos,
que duas informações que “correm”
juntas por um mesmo canal sensorial
não conseguem ser processadas
simultaneamente. Teremos que
alternar a atenção entre todas as
informações que estão competindo.
Figura 8.3 - (Fonte: © pngtree.com)

Não devemos esquecer que nossa “circuitaria” foi aperfeiçoada pela natureza durante
milhões de anos de evolução com a finalidade de detectar estímulos ambientais
importantes para a sobrevivência como indivíduo e espécie.
Dessa forma estamos, permanentemente, preparados para aprendermos quais
estímulos são significantes e como responder na próxima vez que os encontrá-los.
Possuímos uma motivação intrínseca para aprender. Porém, só estamos dispostos a
aprender algo caso, realmente, reconheçamos como significante.
A manutenção da atenção por um período prolongado exige a ativação de circuitos
neurais específicos, porém, após algum tempo, a tendência é que o foco da atenção seja
desviado por outros estímulos do ambiente ou por outros processos internos, como
pensamentos intrusivos, por exemplo.
Portanto, manter o foco atencional durante longos períodos, em estímulos constantes e
semelhantes, se torna uma tarefa árdua! Nesse caso devemos buscar “fracionar” a
exposição. Isso pode ser feito por meio de pausas para descanso e pela divisão do tempo
disponível em diferentes “estratégias” de aprendizagem, ou conteúdos distintos.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 99

Transtorno de Aprendizagem
Reservei para o final a discussão sobre os transtornos de aprendizagem, os quais,
geralmente, envolverão déficits nos processos de memória e/ou atenção.
Somos uma “máquina” poderosa e extremamente complexa que, infelizmente, às vezes
não funciona em sua melhor performance.
As dificuldades de aprendizagem podem resultar de diversos aspectos que interferem
na aquisição de novos “conhecimentos” e habilidades, ou seja, na consolidação e
reorganização de conexões neurais seja na manutenção ou produção de novos
comportamentos.
Sendo, portanto, uma gama grande de problemas, muitas vezes bastante distintos, mas
capazes de afetar a capacidade de aprender como um todo. Esses problemas, muitas
vezes, podem estar relacionados ao funcionamento atípico do sistema nervoso.
A síndrome de Down, ou o autismo, por exemplo, são condições que alteram vários
circuitos e comprometem um leque variado de funções. Nesses casos, além das
dificuldades para a aprendizagem, o indivíduo apresentará também alterações, maiores ou
menores, relacionadas ao comportamento socioemocional, com prejuízo da comunicação
e, consequentemente, da sua interação social com as demais pessoas. Podendo ainda
trazer prejuízos em atividades comuns do dia-a-dia.
A síndrome de Down produz alterações no tamanho de estruturas do sistema nervoso,
no número de neurônios e na taxa de formação de sinapses. A alteração genética tem
consequências bioquímicas, que levam à modificação da formação e do funcionamento de
sinapses no sistema nervoso3.

Figura 8.4 - (Fonte: Denys Kuvaiev © 123RF.COM)


NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 100

Nos casos de síndrome de Down, observa-se uma diminuição do diâmetro do encéfalo


nos primeiros meses de vida. Aparentemente decorre de uma redução no crescimento dos
lobos frontais. Há diminuição do tronco encefálico, cerebelo e de neurônios corticais.
No entanto, como ao nascer essas diferenças são muito discretas, os portadores da
síndrome, apresentam resultados na porção inferior do padrão de normalidade, quando
avaliados. Porém, costuma ocorrer um atraso na primeira fase da mielinização, que deveria
ocorrer logo após o nascimento, em pelo menos em 25% dos casos.
Costumam surgir outros problemas do desenvolvimento, como no sistema auditivo, por
exemplo. Embora sejam capazes de adquirir conhecimentos, os portadores da síndrome
de Down irão apresentar dificuldades de aprendizagem, de leve a moderada.
As pesquisas atuais buscam entender melhor as suas causas. Tudo indica que os
déficits não são generalizados, mas se localizam nos sistemas que dependem do
hipocampo e do córtex pré-frontal. Possivelmente, o cerebelo também esteja envolvido. A
memória de procedimentos costuma ser normal, embora possam ocorrer alterações no
desenvolvimento motor.
A estimulação precoce e intensiva, utilizando intervenções interdisciplinares, tais como,
psicomotoras, pedagógicas, fonoaudiólogas, pode levar a adequações e a formação de
novos padrões de comportamento.
Cada crianças com síndrome de Down, entretanto, terá seu próprio ritmo de
desenvolvimento decorrente de suas características individuais e que envolvem diversos
fatores, desde a herança genética até a forma como é estimulada no dia a dia nos mais
diferentes contextos.
Estudos recentes têm procurado avaliar o efeito de medicamentos que agem nos
processos de plasticidade e neurotransmissão como perspectiva terapêutica para a
síndrome de Down.
O transtorno do espectro autista (TEA) ou autismo é um transtorno neurobiológico do
desenvolvimento que, ao que parece, tem uma origem genética poligênica* que pode afetar
muitos órgãos, mas predominantemente o funcionamento do sistema nervoso central.
Podendo se apresentar de formas diversas, porém todas elas categorizadas dentro do
mesmo “rótulo”, TEA. Nelas se inclui, além do autismo propriamente dito, a síndrome de
Asperger, a qual veremos em breve4.
Particularmente, algumas estruturas, como o córtex cerebral, o cerebelo e áreas do
sistema límbico, parecem estar prejudicadas. Especialmente, em relação à formação das

*
Poligênica - Herança quantitativa ou poligênica é um tipo de herança genética, na qual participam dois
ou mais pares de genes independente, resultando em um efeito acumulativo dos vários genes
envolvidos, cada um contribuindo com uma parcela para a formação da característica.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 101

sinapses, uma das causas possíveis é uma expressão muito baixa de espinhos
dendríticos*.
Estudos apontam modificação no funcionamento dos chamados “neurônios espelho†”,
que não se ativam como nas pessoas sem autismo. Essa deficiência poderia contribuir
para as dificuldades sociais e emocionais no autismo.
O problema principal parece envolver os neurônios e as conexões das regiões
secundárias e terciárias do córtex cerebral. Parecem, também, estar comprometidas as
conexões que ligam diferentes regiões do mesmo hemisfério cerebral, assim como há
alterações nos circuitos intracorticais. Daí decorrem deficiências no funcionamento
cognitivo, principalmente nas tarefas que envolvem integração da informação e a
coordenação de múltiplos sistemas neurais.
Provavelmente, ocorrem alterações moleculares que levam a um desequilíbrio nas
funções excitatórias e inibitórias das sinapses corticais que são responsáveis pela
mediação de comportamentos sociais e do processamento cognitivo.
O autismo é caracterizado por anormalidades no comportamento envolvendo a
interação social, a linguagem e a cognição. Com atraso mental em até 70% dos casos e
convulsões em 30% deles. O diagnóstico clínico é baseado em evidências na observação
do comportamento.

Figura 8.5 - (Fonte: Maria Dubova © 123RF.COM)

*
Espinhos dendríticos - estruturas especializadas, que recebem alguns tipos de aferências sinápticas. Os
espinhos se parecem com pequenas bolsas penduradas em torno do dendrito

Neurônios espelho - Estão presentes no córtex pré-motor e “disparam” quando observamos ou
imitamos as ações de outras pessoas e parece ser importante para a compreensão das suas ações e
intenções. Acredita-se que esse sistema poderia mediar a compreensão das emoções sentidas pelos
outros como se fossem próprias, sendo a base para a empatia.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 102

As características marcantes são os comportamentos estereotipados, repetitivos e


restritos. Além de problemas de comunicação, habilidade social e cognição. Os TEA têm
um componente genético, como mencionamos, e costumam ocorrer com uma frequência
quatro vezes maior em meninos que em meninas.
A incidência costumava ser de 2 a 4 crianças por 10 mil, mas atualmente é estimada
em 1 criança para cada 150. Possivelmente, se deve, a um diagnóstico mais assertivo
devido à maior atenção que pais e educadores têm dado aos sintomas nos últimos anos.
Ocorre comprometimento da linguagem e da habilidade em compreender o humor e a
intenção dos outros indivíduos, prejudicando a empatia e a capacidade de socialização.
Geralmente, apresentam rigidez e perseverarão de comportamentos, resistência à
mudança e grande necessidade de manutenção da rotina a qual estão acostumados.
Os sintomas aparecem gradativamente e são mais bem diagnosticados a partir do
segundo ano de vida. Podendo se manifestar como isolamento ou comportamento social
impróprio, contato visual pobre, dificuldade em participar de atividades em grupo,
indiferença afetiva ou demonstrações inapropriadas de afeto, falta de empatia social e
emocional.
Geralmente apresentam dificuldades de comunicação verbal e não verbal. Crianças
com autismo frequentemente não interagem nem olham para as pessoas, comportando-
se como se estivessem em um mundo de coisas e não de indivíduos. Há aqueles que
conversam, mas não é fácil entendê-los.
No autismo, a circunferência da cabeça costuma ser maior em relação ao restante da
população, sendo que uma parcela dos autistas têm macrocefalia. O volume aumentado
do cérebro é mais saliente nos lobos frontais, pode ser notado na primeira infância, porém
não é notado a partir da adolescência. Esse crescimento excessivo é um forte indício do
início da manifestação do transtorno, uma vez que, costuma ocorrer no mesmo período em
que surgem os primeiros sintomas do autismo5.
Nessas crianças, o cerebelo também pode apresentar um crescimento excessivo até
por volta dos 5 anos com uma posterior diminuição à medida que envelhecem.
Não se sabe ao certo a causa desse crescimento excessivo, mas acredita-se que possa
resultar de um processo deficitário de “poda sináptica” - redução e eliminação das sinapses
que ocorre durante o desenvolvimento -, ou ainda, que o número de neurônios e de células
gliais sofra um aumento, por alguma razão, seja por superprodução ou por uma falha no
processo de morte programada neuronal, que resulta em menos mortes celulares e,
portanto, mais neurônios.
A síndrome de Asperger, que, como dissemos, costuma ser colocada no mesmo
“balaio” junto com as doenças que compõe os transtornos do espectro autista, é um quadro
em que a criança apesar de apresentar características semelhantes ao autismo, com
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 103

dificuldades na comunicação social, possui uma inteligência, frequentemente, alta aliada a


um bom desempenho verbal e adesão às regras sociais.

Figura 8.6 - (Fonte: © pngtree.com)

Como os sintomas são menos evidentes e a criança, geralmente, apresenta bom


desempenho escolar, o diagnóstico costuma ser mais tardio, já por volta dos 8 anos, na
maioria das vezes a suspeita surge da observação recorrente de tentativas frustradas de
socialização com outras crianças.
Outro problema, cada vez mais comum - ou ao menos, diagnosticado com maior
assertividade - é o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH), que também
costuma trazer alterações na capacidade de aprendizagem. Ao que parece, alguns
circuitos encefálicos relacionados ao comportamento socioemocional, podem apresentar
alterações. Apesar desse distúrbio se iniciar na infância, pode persistir pela vida toda.
Muitos genes, que interagem entre si, contribuem para a formação do sistema nervoso.
Porém, além do fator genético, alguns fatores ambientais parecem atuar em conjunto no
surgimento dessas alterações. O nascimento prematuro ou com baixo peso, a exposição
da gestante ao álcool ou à nicotina, a contaminação por substâncias tóxicas como o
chumbo, entre outros fatores, têm sido apontados como potencializadores.
Inicialmente, acreditava-se que o transtorno afetava principalmente os meninos, mas
hoje tudo indica ser uma enfermidade crônica afetando ambos os sexos. O TDAH não
costuma ser diagnosticado antes dos 3 anos, mas estima-se que até 2% das crianças em
idade pré-escolar se enquadrem nos critérios diagnósticos.
O transtorno caracteriza-se por uma disfunção atencional e executiva, bem como
alteração do controle emocional e dos processos motivacionais. Nele se observa uma
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 104

impulsividade inapropriada ao contexto, problemas de atenção e, em alguns casos,


hiperatividade.
Existem subtipos de TDAH, predominantemente sem atenção, predominantemente
hiperativo-impulsivo, e a forma combinada das duas.

É comum encontrar uma redução do


tamanho encefálico que persiste até a
adolescência. Sabe-se que há uma
diminuição da função da região do
córtex pré-frontal e parece haver
modificação estrutural e funcional da
circuitaria que liga o córtex pré-frontal,
alguns núcleos da base e o cerebelo6.

Figura 8.7 - (Fonte: © pngtree.com)

Além disso, parece haver uma diminuição na atividade de circuitos que utilizam os
neurotransmissores noradrenalina e dopamina, importantes para a regulação da função do
córtex pré-frontal. Conforme vimos, a motivação está associada a uma via dopaminérgica.
Portanto, alterações no funcionamento desses circuitos, provavelmente, estão associadas
aos resultados que apontam alterações na motivação.
Nas crianças com TDAH, aparentemente, ocorre uma falha na liberação de dopamina,
fazendo com que a sinalização da gratificação não ocorra de forma adequada resultando
numa demora maior na sensibilização do reforço comportamental.
Elas parecem prestar atenção aos estímulos que podem levar a uma gratificação
imediata e não se prendem àqueles que apenas resultarão uma gratificação no futuro, o
que explicaria boa parte dos sintomas.
As drogas usadas no tratamento do TDAH, por exemplo a Ritalina, atuam ativando as
sinapses dopaminérgicas, possibilitando a espera das gratificações mais tardias. Sem o
devido tratamento, crianças com TDAH dificilmente conseguem esperar uma recompensa
futura, preferindo as mais imediatas, mesmo que sejam piores.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 105

Referências
1
Pietschnig, J.; Voracek, M.; Formann, A. K. Mozart effect–Shmozart effect: A meta-analysis.
Intelligence. 38(3):314–323. 2010
2
Mason, L. Bridging neuroscience and education: A two-way path is possible. Cortex. 45(4):548-549.
2009
3
Contestabile, A.; Benfenati, F.; Gasparini, L. Communication breaks-Down: from neurodevelopment
defects to cognitive disabilities in Down syndrome. Progress in Neurobiology. 91:1-22. 2010
4
Rapin, I.; Tuchman, R. F. Autism: definition, neurobiology, screening and diagnosis. Pediatr Clin N. Am.
55:1129–1146. 2008
5
Lainhart, J. E.; Bigler, E.D.; Bocian, M.; et al. Head circumference and height in autism: a study by the
Collaborative Program of Excellence in Autism. American journal of medical genetics. Part A, 140(21):
2257–2274. 2006
6
Bush, G.; Valera, E. M.; Seidman, L. J. Functional neuroimaging of attention-deficit/hyperactivity
disorder: A review and suggested future directions. Biological Psychiatry. 57(11):1273-1284. 2005
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 106

Neuropsicologia e
Linguagem

Resolvi fazer um capítulo à parte tratando exclusivamente da linguagem, a princípio os


tópicos seguintes estariam no mesmo capítulo de aprendizagem, porém ele já estava se
tornando muito extenso.
Aqui entrará também as partes referentes à linguagem matemática, dada a
“semelhança”.
Uma vez conversado sobre a(s) linguagem(ns) abordaremos brevemente os transtornos
de linguagem, em especial a dislexia e a discalculia.
Bora lá!

Linguagem
A linguagem, seguindo o conceito que utilizaremos aqui, será considerada uma
habilidade exclusivamente humana. Os outros animais, pode-se dizer que possuem um
sistema de comunicação entre eles, mas só nós, seres humanos, somos dotados das
habilidades de falar, ler e escrever.
A linguagem, por ser uma função complexa, atua em conjunto com várias outras
funções cognitivas, em especial as funções executivas. Por exemplo, se uma pessoa
apresenta déficit nas funções executivas envolvendo a capacidade de planejamento e
monitoramento do comportamento, provavelmente, terá dificuldade para organizar a
estrutura do pensamento, do discurso e, portanto, da linguagem como um todo.
O processamento da linguagem se dá principalmente no hemisfério esquerdo do
cérebro, para a maioria das pessoas. Existem, porém, pessoas que apresentam essa
função no lado oposto, o direito, estima-se que cerca de 7% da população.
Duas regiões encefálicas, já bastante conhecidas desde o século XIX, a área de Broca
e a área de Wernicke, que chegamos a citar no começo do livro. Até hoje “levam a fama”
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 107

pelo processamento da linguagem, apesar de atualmente já existir uma maior


compreensão de outras áreas importantes na linguagem.
A área de Broca localiza-se no hemisfério esquerdo na região do lobo frontal e é
relacionada com a expressão da linguagem. Em casos de lesão, o sujeito apresenta
dificuldade em falar, embora possa entender a linguagem ouvida ou lida.
A área de Wernicke localiza-se na junção entre os lobos temporal e parietal, também
do lado esquerdo, e está relacionada com a compreensão da linguagem. Em casos de
lesão, apesar do discurso permanecer fluente, a compreensão é pobre.
Outras áreas são importantes no processamento da linguagem, tais como as regiões
do córtex motor que controlam o movimento da boca e lábios e o giro angular (Figura 9.1).

Figura 9.1 – Regiões envolvidas no processamento da linguagem falada


(Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)

A linguagem falada, não precisa ser ensinada, visto que as crianças a adquirem
espontaneamente quando estão em contato com a sociedade.
Existem evidências de que, ao nascer, as crianças já conseguem distinguir certos
fonemas1, em especial alguns presentes em línguas que ela nunca teve contato. Na
verdade, com a passar do tempo, ao longo do primeiro ano de vida, essa capacidade vai
se perdendo, uma vez que, esses fonemas não são comuns à língua a que estão expostas.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 108

Por exemplo, as crianças japonesas deixam de discriminar entre o som do “R” e do “L”,
por não serem sons utilizados na língua japonesa. Como já vimos, algumas conexões
formadas no período pré-natal podem ser eliminadas se não forem expostas a estímulos
depois do nascimento.
Outro aspecto importante em relação à linguagem verbal é que ela está estreitamente
relacionada com a nossa capacidade de abstração e representação simbólica, afinal de
contas, ela permite a via de mão dupla entre o “mundo interno” e o “mundo externo”. Por
isso, as crianças começam a desenvolver a capacidade de abstração, na medida em que
começam a adquirir a linguagem verbal.
Falar é fácil, mas ler já é um pouco mais difícil. A linguagem escrita, justamente por ser
uma aquisição recente na história da nossa espécie, não dispõe de um aparato
neurobiológico “preparado”. Ela precisa ser ensinada, ou seja, é necessária a adaptação
da nossa circuitaria para que a leitura seja possível, exigindo muito treino e persistência.
Por essa razão, em média, só começa a ganhar fluência por volta dos 5 anos de idade.
Tendo em vista que estruturas e circuitos desenvolvidos ao longo da evolução para
executarem outras funções precisarão “aprender” a processar a linguagem escrita. A
aprendizagem da leitura modificará permanentemente o encéfalo, fazendo com que ele
reaja de forma diferente não só aos estímulos linguísticos visuais, mas também na forma
como processa a própria linguagem falada.
Por exemplo, os alfabetizados passam a ter consciência de que as palavras são
constituídas por elementos menores, sílabas e fonemas. Já os analfabetos não possuem
essa consciência.
Ao que tudo indica, a leitura das palavras. Além de utilizar as regiões já apontadas
anteriormente para a compreensão da linguagem falada, também depende da região do
córtex visual (figura 9.2).
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 109

Figura 9.2 – Regiões envolvidas na repetição em voz alta de uma palavra escrita
(Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)

Os estímulos visuais chegam às áreas corticais da visão, levados pelas vias óticas e de
lá, ao que parece, pode seguir duas vias distintas até ser “decodificada” em termos da
linguagem.
Através da primeira via, ocorre um processo de “montagem” passo a passo das letras
em sons (grafo-fonológica). Sendo que dois tipos de decodificação fonológica ocorrem na
leitura. No primeiro deles, o som da está de certa forma ligado à articulação da palavra,
uma vez que ela é processada na região que integra a área de Broca que, como já vimos,
está envolvida da expressão da linguagem.
Poderíamos pensar que a ativação dessa área só ocorre na leitura em voz alta, mas ela
também se ativa quando lemos em silêncio!
No segundo tipo de decodificação fonológica ocorre algo como “enxergar o som da
palavra” em um processo similar ao da percepção auditiva, porém ativada pela informação
que chega ao córtex visual e depois segue para o córtex auditivo. Uma espécie de fusão
nos sentidos da visão e audição.
Através da segunda via, a palavra é reconhecida de forma global em um processo de
identificação direta, e por isso mesmo essa área é conhecida como “área da forma visual
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 110

da palavra”. Essa região costuma ser conhecida como VWFA*, sendo uma região que faz
parte das zonas corticais associativas da visão.
É como se a palavra fosse reconhecida como uma imagem. Essa área é apontada como
envolvida em outras habilidades associativas de síntese de vários componentes visuais e
não apenas específica para o reconhecimento de palavras.
Sendo, portanto, uma região com outras funções na percepção visual, mas que, no
hemisfério esquerdo, acabou de adaptando também ao processamento da leitura.
Algumas pesquisas mostram que dependendo do idioma que está sendo “processado”
surgem diferenças na ativação das duas vias. A área da forma visual da palavra é ativada
preferencialmente nos leitores das línguas inglesa e francesa. Enquanto para a leitura em
italiano, a região ligada ao processamento fonológico, é mais ativada do que a área da
forma visual da palavra.
Ao que tudo indica, essa variação ocorre porque o inglês e o francês são línguas em
que muitas palavras são grafadas de forma diferente de sua pronúncia, o que é conhecido
como ortografia “profunda”. Dessa forma a leitura depende de um conhecimento prévio, do
contexto e da experiência. Já o italiano, e possivelmente o português, são línguas de
ortografia “superficial”, com palavras geralmente lidas da mesma forma que se escreve2.
O processo de leitura também mobiliza os processos de atenção. Dessa forma, com a
participação da atenção, podemos decodificar uma palavra por uma via ou por outra,
invertendo a prioridade das vias de acordo com as necessidades atencionais requeridas
em cada contexto.
Aprender a ler é uma tarefa multifacetada exigindo, portanto, várias habilidades entre
elas, o conhecimento dos símbolos da escrita e a sua devida correspondência com os sons
da linguagem. Muitas pesquisas têm mostrado, no entanto, que o melhor indicador para o
aprendizado da leitura é a habilidade que a criança tenha de lidar com os fonemas.
Leitores ruins parecem não identificar adequadamente os sons constituintes das
palavras, o que os impede de fazer a conexão da representação gráfica das letras com os
sons de forma automática.
A habilidade de ler é um processo que tem início já no primeiro ano de vida, no qual a
interação social começa a moldar a percepção dos fonemas da língua nativa.
Esse processo além de importante para o desenvolvimento da linguagem falada é
fundamental para a aprendizagem da leitura. O aprendiz da leitura utiliza o sistema
fonológico para decodificar palavras novas.

*
VWFA vem da sigla em inglês “Visual Word Form Area”
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 111

Com o passar do tempo e, consequentemente, o aumento da habilidade, vamos nos


tornando capazes de reconhecermos os padrões ortográficos e a processá-los de forma
rápida, utilizando preferencialmente a segunda via, de percepção global.
A decodificação fonológica pode passar, então, a uma forma “subsidiária” no processo
da leitura fluente.
Estudos mostram que em crianças com dificuldade de leitura não ocorre a ativação
adequada das áreas posteriores do encéfalo enquanto leem. Em compensação, há uma
ativação maior da área frontal, o que é um indicativo de que um maior “esforço cognitivo”.

Você sabia?

A leitura do chinês parece envolver outros


circuitos encefálicos, uma vez que a escrita é
ideográfica. Uma região localizada no lobo
parietal, que se ocupa normalmente com a
percepção espacial é “recrutada” mostrando
como a neuroplasticidade permite regiões
distintas assumirem as funções da leitura.

Apesar do grande avanço na compreensão dos mecanismos neurobiológicos da leitura


das palavras, pouco ainda se conhece sobre o processo pelo qual lidamos com o
significado das palavras, ou seja, o conhecimento semântico.
Sabemos o importante papel da memória de trabalho na manutenção da informação na
consciência, de forma que o leitor possa chegar ao final de uma frase e ao ler as últimas
palavras ainda recordar das primeiras e assim ter uma compreensão global. Sabemos
também que não precisamos nos lembrar de cada palavra de um parágrafo, mas
guardamos a essência do seu significado para relacioná-lo com a informação que virá na
sequência e depois registramos tudo isso de forma única e pessoal.
Esses e outros problemas continuam a desafiar os pesquisadores, mas pode-se esperar
que, em breve, muito se descubra de como nosso encéfalo é capaz de decifrar os sinais
gráficos da linguagem.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 112

Transtornos de Aprendizagem da Leitura

A dislexia é o mais frequente dentre os transtornos da aprendizagem, correspondendo


à cerca de 80% dos diagnósticos.
A dificuldade na compreensão da leitura observada em crianças denomina-se dislexia
do desenvolvimento para diferenciá-la da dislexia que pode aparecer decorrente de alguma
lesão ou neuropatologia, em pacientes que anteriormente eram capazes de ler, porém
passaram a apresentar o transtorno já em idade mais avançada.
A dislexia é um distúrbio neurobiológico caracterizado pela dificuldade no
reconhecimento das palavras de forma precisa e fluente, também é observada a
dificuldade em soletrar e recodificar os sinais gráficos em sons.
O problema resulta de uma deficiência do componente fonológico da linguagem, que
geralmente contrasta com as demais habilidades cognitivas do indivíduo que, geralmente,
apresenta inteligência normal.
Estudos com neuroimagem mostram que os disléxicos têm um menor desenvolvimento
das áreas corticais posteriores envolvidas no processamento da leitura. Apesar de ainda
não se conheça ao certo a origem do problema, ela pode estar ligada a uma alteração sutil
no desenvolvimento encefálico, no posicionamento das células neuronais ou ainda no
estabelecimento de suas conexões durante o período embrionário.
A dislexia parece ser mais séria nos falantes do inglês e do francês, por conta da
ortografia profunda. Disléxicos italianos conseguem aprender a ler e escrever com um
pouco mais de desenvoltura, embora a leitura ainda seja mais lenta que a de seus pares
não disléxicos e que elas tenham um desempenho menor nas atividades de memória
verbal2. Novamente, podemos esperar algo semelhante no caso de disléxicos falantes do
português.
Os disléxicos costumam apresentar dificuldades já nos primeiros anos de vida, ainda
com a linguagem falada. Apresentando problemas com a memória verbal e com o
aprendizado de palavras novas. Essas crianças podem ter ainda, como sintomas
associados, déficit de atenção ou na coordenação motora, que apesar de não serem a
causa da dificuldade de leitura, podem contribuir para ela.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 113

“Linguagem” Matemática

De forma semelhante ao que ocorre com a linguagem, temos características


programadas geneticamente para a lidarmos com quantidades e números. Muito
precocemente já somos capazes de processar o conceito de quantidade.
Crianças com poucos meses já conseguem discriminar quantidades e até mesmo
realizar cálculos simples, ao contrário do que se pensava antes.
Essa capacidade foi evidenciada em experimentos nos quais os bebês observam
bonecas que eram escondidas por um anteparo. Os bebês então viam uma, duas ou três
bonecas serem escondidas detrás de um anteparo, que depois era retirado. Caso o número
de bonecas correspondesse ao que eles viram antes, não perdiam muito tempo analisando
o “resultado”. Porém, ao se depararem com uma boneca a mais ou a menos, eles
demoravam um tempo muito maior analisando o resultado, intrigados com a situação
inesperada.
Estimar quantidades e fazer comparações entre elas é uma habilidade que pode ser
observada não só nos bebês humanos, mas também em outros animais. Está presente,
desde ratos, pombos, golfinhos, papagaios e, claro, macacos e outros primatas;
discriminando magnitudes, seja sob a forma da percepção visual de um grupo de objetos,
seja sob a forma da percepção auditiva de uma sequência de sons. Os animais podem
realizar aproximações simples de adição ou subtração, além da comparação de
quantidades.
Tudo leva a crer que o senso numérico, é uma propriedade básica da representação
dos objetos também para os animais. Ou seja, os objetos são categorizados pela
quantidade, da mesma forma que o são pela cor, forma ou localização.
Isso é claramente uma vantagem evolutiva, pois um macaco que não consiga distinguir
qual cacho tem mais bananas, certamente, encontrará dificuldades de sobrevivência.
Macacos podem ser treinados para discriminar símbolos numéricos, inclusive nossos
números e relacioná-los com as quantidades que representam.3 Assista ao vídeo na
plataforma de membros - http://bit.ly/chipanzes
As pessoas, geralmente, conseguem dizer quase instantaneamente qual número é o
maior dentre dois, respondendo mais rápido de acordo com a “distância” entre a
quantidade que representam. Por exemplo, a diferença entre 27 e 9 é percebida mais
rapidamente que a diferença entre 9 e 8. Possivelmente isso se deve ao fato de que nossa
representação mental para os números segue uma forma linear, enfileirando um atrás do
outro. (Figura 9.3)
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 114

De modo a criar uma correlação “espacial” entre a distância entre os números e as


quantidades que representam, aumentando linearmente em quantidade e no espaço.

Figura 9.3 – Fileira numérica - (Fonte: © pngtree.com)

Você sabia?

Nas culturas em que a escrita é feita da


direita para a esquerda, ao contrário da nossa.
Como o árabe, o hebraico e o persa por
exemplo, a representação mental da fileira de
números também ocorre nesse sentido.

A percepção da quantidade parece depender de um circuito localizado no córtex


parietal, em uma região que também está envolvida no processamento da percepção
espacial. O que pode justificar o fato de que, geralmente as habilidades matemáticas e
espaciais andam juntas. Pessoas que apresentam uma boa desenvoltura em atividades
que requerem habilidades espaciais costumam se sair bem com a matemática.
Lesões na região do lobo parietal podem acarretar, simultaneamente, perda na
capacidade de realizar operações matemáticas e o aparecimento de problemas de
orientação espaciais.
Não é possível, entretanto, afirmar existir um “circuito” específico para a matemática,
uma vez que muitas “peças” distintas podem contribuir para o processamento matemático.
De forma semelhante do que acontece na leitura, nas atividades matemáticas são
recrutados vários circuitos que, embora não sejam programados originalmente para isso,
adaptam-se e passam a “acumular” funções e atuar de forma integrada aos circuitos que
lidam com a noção de quantidade (Figura 9.4).
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 115

Figura 9.4 – Possíveis regiões envolvidas no “processamento” numérico


(Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)

Pesquisas apontam ao menos três regiões envolvidas nessa função. Apesar de não ser
ainda um modelo “pacífico” na literatura, o triplo código é o mais usual4 (Figura 9.4)
Segundo esse modelo, os números são processados em três circuitos diferentes:
O primeiro está relacionado à percepção das quantidades, ou seja, a magnitude não
simbólica. Localiza-se, no córtex parietal dos dois hemisférios cerebrais, ao redor do sulco
intraparietal.
O segundo é responsável pela decodificação dos algarismos, ou seja, as
representações simbólicas visuais, que correspondem aos numerais arábicos sendo
processadas no córtex inferotemporal, em especial no giro fusiforme.
O terceiro circuito nos possibilita perceber a representação verbal e auditiva dos
algarismos, ou seja, a quantidade falada, o processamento ocorre principalmente numa
região que sobrepõe parte da Área de Wernicke e do giro angular do hemisfério esquerdo,
o que indica, envolver regiões ligadas ao processamento da linguagem.
Portanto, o processamento das quantidades e dos números envolve circuitos distintos,
porém interligados de alguma forma. Assim a informação caminha por todos eles sendo
“integradas”, por fim, resultando em uma informação complexa e multifacetada. Esse
padrão de organização parece já estar estabelecido, em média, a partir dos 5 anos de
idade.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 116

As crianças têm um senso natural em estimar quantidades, apresentando habilidades


elementares para lidar com somas e subtrações, começam a aprender a contar, em média,
já aos 2 anos de idade. Com o passar do tempo e a exposição tanto à linguagem, quanto
à matemática, ocorre o desenvolvimento da capacidade em reconhecer algarismos,
expressá-los verbalmente e operá-los para realização de cálculos mais complexos,
extrapolando a simples “matemática intuitiva”.
Conforme vimos, geralmente, o hemisfério “dominante” para o processamento da
linguagem falada é o esquerdo, portanto, é de se esperar que a representação verbal dos
algarismos fique a cargo dele.
Existem casos de pessoas com lesão hemisfério esquerdo que apresentam a
capacidade de fazer cálculos prejudicada, porém, conservam a noção de quantidade e são
capazes de fazer estimativas. Isso, possivelmente, é feito por intermédio do hemisfério
direito.
Pesquisas mostram que, quando as pessoas comparam números ou quantidades,
ocorre ativação do lobo parietal bilateralmente, com predomínio do lado direito, mas
quando elas executam tarefas mais complexas como uma multiplicação, por exemplo, é o
hemisfério esquerdo que “assume o posto” apresentando uma maior ativação.
Indicando que, possivelmente, a capacidade de fazer cálculos precisos dependa das
áreas da linguagem e, portanto, do envolvimento do hemisfério esquerdo, enquanto a
estimativa aproximada depende de regiões não verbais, que lidam com o processamento
espacial e visual.
As operações matemáticas complexas dependem da maturação das diversas regiões
envolvidas e de treino! Por exemplo, a multiplicação, inclusive a famosa tabuada, é
aprendida com o envolvimento da linguagem e da memória declarativa e, uma vez
aprendida, não utiliza mais a representação de quantidade quando é “ativada”.
Consequentemente, uma criança com dificuldades de leitura ou linguagem pode acabar
apresentando também dificuldades em matemática.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 117

Transtornos de Aprendizagem da Matemática

Algumas crianças têm uma dificuldade inata em “lidar” com os números, mesmo que
não necessariamente tenham qualquer déficit de inteligência. Essas crianças sofrem com
a chamada discalculia do desenvolvimento, de forma similar ao que ocorre com a leitura,
a dislexia. Esse problema parece resultar de uma deficiência do senso numérico, ou seja,
da capacidade de relacionar números e suas quantidades.
Em crianças que sofrem de discalculia, a capacidade de adquirir as habilidades
matemáticas é prejudicada. Muitas vezes não conseguem lidar nem mesmo com o conceito
de número, e as situações que envolvem matemática tornam-se incômodas.
Deve-se considerar as demais habilidades em outras áreas cognitivas, evitando
dificultar, ainda mais, a vida dessas pessoas por causa dos seus problemas com a
matemática.
As dificuldades com a matemática podem, além de tudo, causar insegurança, medo e
ansiedade, que interferem no funcionamento de outras áreas cognitivas, ainda que
perfeitas e bem desenvolvidas.
Ainda não se sabe ao certo o que causa a discalculia, uma das possibilidades é uma
alteração dos circuitos do lobo parietal, devido à alteração congênita ou ainda lesão
precoce.
Existe suspeitas que componentes genéticos estejam envolvidos na causa da
discalculia, uma vez que a incidência é maior em algumas famílias.
Conforme já percebemos, apesar da dislexia e a discalculia serem problemas diferentes
e independentes, podem ocorrer ao mesmo tempo em uma mesma pessoa.
As relações entre a matemática e a “circuitaria” encefálica começaram a ser
desvendadas muito recentemente. Apesar de termos uma certa compreensão de como
“processamos” os números e a matemática básica.
O que se pode afirmar é que a memória operacional e a atenção estão envolvidas na
resolução dos problemas matemáticos e, portanto, os circuitos relacionados a elas
certamente são “recrutados”.
As habilidades matemáticas mais complexas ainda estão longe de serem
compreendidas de forma satisfatória, e possivelmente envolvem ainda outros sistemas
encefálicos.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 118

Referências
1
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infants. Science 298:2013–2015. 2002
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4
Dehaene,S.; Molko, N.; Cohen, L.; Wilson A. J. Arithmetic and the brain. Current Opinion in
Neurobiology. 14:218–224. 2004
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 119

Neuropsicologia e
Emoções

Pano de Fundo
Por definição, a palavra “emoção” surge da combinação do termo motio, “movimento”
em latim, com o prefixo ex que significa "fora". Numa “tradução” significaria algo como
“movimento para fora”.
Ou seja, o significado etimológico da palavra “emoção” pode ser interpretado como
“movimento para fora”, uma definição que cabe muito bem no conceito de emoção como
função cognitiva.
As emoções, sem nenhuma dúvida, são um fenômeno central de nossa existência e
sabemos que elas têm grande influência na aprendizagem e na memória. Sabemos que
momentos nos quais experimentamos uma carga emocional ficamos mais vigilantes e
nossa atenção se volta para os detalhes considerados importantes, pois as emoções estão
intrinsicamente ligadas aos processos motivacionais.
Além disso, sabe-se que a amígdala interage com o hipocampo e pode influenciar o
processo de consolidação da memória. Portanto, uma pequena excitação, como já vimos,
pode ajudar no estabelecimento e conservação de uma lembrança.
Existe, porém, o outro lado da moeda, as emoções podem prejudicar a memorização e
a aprendizagem, começando já na “porta de entrada” que é a atenção. Além disso, a
ansiedade e o estresse prolongado sustentam a produção de hormônios glicocorticoides
que ao alcançarem os neurônios do hipocampo, podem chegar a, literalmente, matá-los. E
uma vez que esses neurônios são muito importantes, funcionando como uma “alça de
retroalimentação”, auto regulando a liberação desses mesmos hormônios, cria-se,
portanto, um “círculo vicioso” que se auto alimenta.
Intuitivamente, sabemos, o que são as emoções e podemos facilmente elencar algumas
delas, como alegria, raiva, medo ou tristeza. Porém não é tão simples “explicá-las” ou dizer
a serventia delas. Do ponto de vista que aqui nos interessa, as emoções apontam a
presença de algo importante ou significante em um determinado momento na vida.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 120

Elas se manifestam por meio de alterações fisiológicas e neurofisiológicas, portanto,


“sequestram” os recursos cognitivos disponíveis, como a atenção e a percepção.
As emoções atuam como um sinalizador interno de que algo importante está prestes a
acontecer, acontecendo ou aconteceu. Elas vão além da esfera individual, sendo crucial
para a dinâmica social de grupos. Reconhecer emoções uns dos outros e, por meio delas,
comunicar situações e decisões relevantes aos demais indivíduos ao nosso redor é de
fundamental importância para o sucesso coletivo.
Os animais também são capazes de perceber as respostas emocionais dos seus
semelhantes e reagir de forma adequada.
O valor de sobrevivência coletivo é fundamental para a garantia da perpetuação do
grupo. Por exemplo, o medo demonstrado por um membro do grupo pode servir de alerta
para que todos se prontifiquem em resposta à ameaça presente.
Charles Darwin, o criador da teoria da evolução, já havia chamado a atenção para a
importância das expressões das emoções no comportamento animal (Figura 10.1), e
pesquisas mais recentes demonstraram que as expressões faciais relativas às emoções
básicas: Alegria, tristeza, medo, raiva, surpresa e nojo; são invariáveis nas diversas
culturas, o que as tornam instantaneamente identificáveis, mesmo para indivíduos de
culturas distantes e até as mais remotas1.
Ao que tudo indica, o fenômeno emocional tem raízes biológicas antigas e foi mantido
na evolução exatamente por seu valor na garantia da sobrevivência como espécies e
indivíduos.

Figura 10.1 - (Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Expression_of_the_Emotions_Figure_20.png -


https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Expression_of_the_Emotions_Figure_15.png)
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 121

O desenvolvimento das emoções foi essencial para a evolução, porque elas permitem
atingir objetivos úteis. Como, por exemplo, lutar ou fugir de predadores, motivados pela
emoção de medo; intimidar um competidor, através da demonstração de raiva; evitar o
consumo de alimentos estragados, mediante sensação de nojo e assim por diante2.
Da mesma forma, o desenvolvimento das emoções é extremamente útil, também, para
a sobrevivência da criança, no início da vida. Este que é o período em que as suas
necessidades são vividas como sensações corporais e expressas na forma de reações
emocionais. As reações emocionais do bebê assumem um papel fundamental na
construção de vínculos afetivos com os seus cuidadores, além de funcionar como uma
espécie de sinalizador das suas necessidades e vontades3.
Em nossa cultura, as emoções costumam ser consideradas um resíduo da evolução
animal e são tidas como um elemento perturbador para a tomada de decisões racionais.
Acredita-se que os seres humanos deveriam controlar suas emoções, afinal somos
seres racionais! Na verdade, as neurociências têm mostrado que os processos cognitivos
e emocionais estão profundamente enraizados no funcionamento basal neurofisiológico e
cada vez mais traz a biologia à tona! Evidenciando que as emoções são importantes para
“eleger” o comportamento mais adequado à sobrevivência em momentos cruciais da vida
dos indivíduos.
A ausência das emoções nos tornaria como uma legião de zumbis, aquelas que estão
na moda em filmes e séries de TV.
Todos nós experimentamos emoções e sentimentos em diversos momentos.
Entretanto, o que os define precisamente? Serão sinais sensoriais de nosso corpo, padrões
de atividade espalhados em nosso córtex, ou seria algo mais?
As emoções envolvem respostas que podem ser observadas “externamente”, como o
aumento do estado de alerta, dilatação da pupila, sudorese, lacrimejamento, alteração da
expressão facial, etc. Além disso, nós mesmo somos capazes de perceber alterações
internas, como o coração acelerado, “saindo pela boca”; “borboletas no estômago” ou
ainda o famoso “nó na garganta”.
Essas respostas fisiológicas são acompanhadas por um sentimento emocional, ligado
ao universo afetivo do organismo: euforia, desânimo, irritação, etc. Além disso, na maioria
das vezes, podemos identificar o que estamos sentindo: amor, medo, ódio, ciúme,
decepção e por aí vai.
Acredita-se que esta “consciência” emocional esteja presente apenas na nossa espécie,
enquanto os outros animais, são capazes apenas de experimentar os demais aspectos do
fenômeno emocional. Nesse sentido, as emoções dos animais são um pouco diferentes
das emoções humanas.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 122

As emoções, portanto, são importantes para os seres humanos da mesma forma que
para os outros animais. Contudo, diferentemente deles, somos capazes de tomar
consciência desses fenômenos, identificá-los e rotulá-los. Em animais, a atividade
encefálica e os efeitos de lesões no encéfalo foram observados e interpretados no contexto
de emoções, porém, não podemos determinar os “sentimentos” dos animais.
Os órgãos dos sentidos enviam as informações relevantes até o encéfalo por meio de
diversos circuitos neuronais. Se um estímulo importante, é captado, por conta de sua
“carga emocional” ele acaba mobilizando a atenção e atingindo as regiões corticais
específicas, onde é percebido, identificado e interpretado, tornando-se “consciente”.
Conforme já vimos anteriormente, a amígdala parece desempenhar um papel crucial
nesse processo. Pesquisas têm demonstrado, em diferentes espécies, que lesões da
amígdala atenuam as emoções.
É interessante termos em mente o fato de que a informação proveniente de todos os
sistemas sensoriais alimenta a amígdala, sobretudo os núcleos basolaterais (figura 10.2).

Figura 10.2 – Núcleos da amígdala - (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)

Em nosso dia-a-dia, as informações sensoriais podem nos chegar de forma neutra ou


virem acompanhadas de um “peso” emocional, negativo ou positivo. Um hamster, por
exemplo, pode ser apenas um “dado ambiental”, mas caso esse tenha sido seu animal de
estimação quando criança, pode provocar uma sensação agradável, ou simplesmente
“despertar” pânico caso você tenha aversão a ratos.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 123

Esse “valor” emocional é rotulado quando a informação atinge as regiões, como a


amígdala, encarregadas do processamento das emoções.
Cada sistema sensorial apresenta um padrão de projeção diferente para os núcleos da
amígdala (figura 10.2), e interconexões dentro da amígdala permitem a integração de todas
essas informações quem chegam das diferentes modalidades sensoriais. Por sua vez, a
amígdala também interage com o córtex cerebral, hipocampo e giro cingulado permitindo
que a emoção seja identificada, e podendo afetar, inclusive, o estado de humor*.
A amígdala é importante ainda na aprendizagem das reações de medo e na
identificação das expressões faciais a ele relacionadas.
Pessoas ou animais em que a amígdala foi comprometida, geralmente, não identificam
os sinais de perigo emitidos pelos seus pares e com isso não reagem adequadamente
quando em situações ameaçadoras. Sendo um dos sintomas a incapacidade de
reconhecer o medo em expressões faciais.
Existem diversos relatos indicando que a estimulação elétrica da amígdala em seres
humanos leva à quadros de ansiedade e medo. Não é à toa, que a amígdala esteja sempre
associada às teorias sobre transtornos de ansiedade.
Pode-se ainda confundir a emoção que estamos sentindo, já que emoções distintas
podem ter as mesmas respostas periféricas. Por exemplo, nosso coração “dispara” quando
estamos com raiva, mas também quando estamos alegres. Choramos por alegria ou
tristeza.
Além disso, somos capazes de aprender a controlar, inibir, nossas reações emocionais
de acordo com as conveniências sociais, mas para isso é necessário a intervenção
“consciente” o que nos leva ao segundo ponto de discussão, os sentimentos!

Emoção x Sentimento
Existe diferença entre emoção e sentimento?
De acordo alguns autores, a experiência mental, que começa com um estado
emocional, seria o sentimento. Mas nem todos os sentimentos parecem “emergir” de uma
emoção.
O sentimento de bem-estar, por exemplo, pode aparecer simplesmente pelo fato de nos
percebermos “de boa” com a vida que estamos levando. Por essa razão, entende-se que
nem todos os sentimentos provém de emoções, porém todas as emoções podem originar
sentimentos4.

*
Humor é um estado de duração mais prolongada do que a emoção e o sentimento e não é de caráter
reativo como os dois últimos
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 124

Uma forma de distinguir emoção de sentimento é compreendendo que as emoções


dizem respeito ao conjunto de alterações fisiológicas e comportamentais provocadas por
determinado estímulo do qual não necessariamente tomamos consciência, já o sentimento
é a experiência mental que temos quando estamos avaliando, “conscientemente”, essas
alterações. As emoções podem ser observáveis, os sentimentos, pelo fato de serem
“mentais”, nem sempre.
Da mesma forma que contribuem com a nossa adaptação ao meio, as emoções e
sentimentos também nos prejudicam. Isso acontece, principalmente, quando nos deixamos
dominar pelas emoções e sentimentos negativos, como, a raiva, o medo, a culpa e a
vergonha.
Porém, quando conseguimos “assumir o controle”, é possível não externalizar e
apresentar comportamentos mais adequados e equilibrados ao contexto social, garantido
assim consequências mais amenas.
Podemos, inclusive, disfarçá-lo, comportando-se como se estivesse sentindo o oposto
do que sente na realidade. Por exemplo, quando seu chefe, que já estava “fumegando” e
vem te pedir para buscar um café, apesar de internamente você estar morrendo de vontade
de mandá-lo “catar coquinho”, você simplesmente sorri, respira fundo e diz: - Sim, claro!

Figura 10.3 - (Fonte: © pngtree.com)


NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 125

Classificando as Emoções
Agora que aprendemos a distinguir emoção de sentimento é importante sabermos que,
pela sua complexidade, as emoções podem ser divididas em categorias. Geralmente são
divididas em duas: primárias e secundárias.

Emoções Primárias
As emoções primárias seriam aquelas consideradas inatas, adquiridas pelo ser humano
ao longo de sua evolução e ocorrem de maneira involuntária. Ou seja, são emoções que
já vieram “programadas” em nosso DNA para serem ativadas toda vez que nos deparamos
com determinados estímulos ambientais.
As emoções primárias surgem com uma determinada função em nossa evolução, como
“soluções” encontradas pela natureza para respostas rápidas e efetivas, garantindo a
sobrevivência e bem-estar. As emoções nos permitem, avaliarmos os estímulos do
ambiente quase instantaneamente, nos preparar e motivar para as ações; expressar as
nossas intenções e, também, perceber as do outro.
As outras emoções consideradas primárias, via de regra, são5:

 O medo, diante de estímulos que podem representar uma ameaça à nossa


sobrevivência;
 a raiva, quando nos deparamos com um obstáculo que nos impede de atingir
os nossos objetivos;
 a tristeza, quando perdemos algo ou alguém com grande valor afetivo;
 a surpresa ao nos depararmos com algo ou alguém inesperado ou quando
ocorre a interrupção súbita de um estímulo;
 a alegria, diante da conquista de algo a que se atribui valor;
 o nojo, quando estamos diante de um objeto repulsivo ou indesejável.

Não existe um consenso em relação a quantas e quais são todas as emoções primárias
e as secundárias, porém a maioria dos pesquisadores costuma considerar como emoções
primárias, as 6 listadas acima. Os mais românticos acrescentam ainda o amor dentro da
categoria de emoções primárias.
As emoções primárias são comuns a todos os seres humanos, independente da cultura
e, também, à algumas espécies de animais. E cada uma destas emoções possuem formas
de expressão comportamental típicas.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 126

Elas podem ser expressas através de mudanças em nossa expressão vocal, tom,
volume e ritmo; na gesticulação, podendo variar de acordo com a cultura em questão; na
expressão facial (Figura 10.4), sendo esse o aspecto mais estudado dessas
manifestações, pois, aparentemente, trata-se de uma manifestação universal, ou seja,
comum a seres humanos de diferentes culturas e até mesmo outros primatas6.

Figura 10.4 - (Fonte: lassedesignen © 123RF.COM)

Não podemos esquecer que por trás desses comportamentos observáveis existem uma
série de alterações fisiológicas acontecendo no organismo2:

 Sistema motor, que gera as expressões faciais e posturas corporais.

 Sistema endócrino e peptídico, promovendo ações químicas que resultam


em mudanças no estado do corpo e do cérebro.

 Neurotransmissores, que realizam a ativação e inibição de determinadas


regiões encefálicas.

 Sistema visceral, responsável pela alteração no funcionamento do coração,


pulmões, intestino e pele.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 127

Emoções Secundárias
Enquanto as emoções primárias são respostas inatas, evolutivas e partilhadas por
todos, as emoções secundárias resultam da aprendizagem pessoal. Está relacionada com
a nossa história de vida, nossas experiências individuais, sociais e culturais2. De um modo
geral, com a forma como percebemos o mundo.
São emoções associadas a fatos, situações, acontecimentos, estímulos da nossa
história pessoal aos quais atribuímos algum valor afetivo, negativo ou positivo, passando
a ser ativadas sempre que as circunstâncias às quais elas foram associadas vêm à tona
novamente, seja através de um pensamento, uma memória, uma situação que esteja
sendo vivenciada ou ainda a expectativa dessa situação.
Alguns autores também consideram emoções secundárias como sendo o resultado da
junção entre duas emoções primárias. Por exemplo, decepção seria a mistura de surpresa
e tristeza; remorso, a mistura de tristeza e nojo; saudade, a mistura de alegria e tristeza;
desprezo, a mistura de nojo e raiva; vergonha, a mistura de medo e tristeza e assim por
diante7.

Teorias da Emoção
Muitos “nomes” importantes, pensaram na questão de como o encéfalo está envolvido
na expressão das emoções, alguns muito conhecidos como Darwin e Freud. Porém
algumas das primeiras teorias foram propostas por autores, talvez, não conhecido por
todos. Então vamos agora dar uma passadinha por elas.

A Teoria de James-Lange
Uma das primeiras teorias acerca da emoção foi proposta, em 1884, pelo renomado
psicólogo e filósofo norte-americano, William James (1842-1910). E de forma semelhante
pelo psicólogo dinamarquês Carl Lange (1834-1900).
Sendo, portanto, conhecida como teoria de James-Lange. Segundo essa teoria a
emoção é “percebida” como resposta das alterações fisiológicas em nosso corpo. Por
exemplo:
Você acordou sentido cócegas em sua perna e percebe que é o hamster de estimação
do seu sobrinho. Se você for aquela pessoa do exemplo, com pavor de ratos, poderá
começar a ter uma “palpitação” e uma “suadeira”. Para James-Lange, o seu sistema
sensorial envia uma “mensagem” para o seu encéfalo, que responde enviando comandos,
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 128

os quais alteram funções em músculos e demais órgãos. Sendo que essas respostas
seriam consequências diretas da entrada sensorial, ainda sem um componente emocional.
Em outras palavras, você não pula para fora da cama em resposta ao medo que sente,
você, na verdade, sente medo porque tomou consciência de seu coração disparando e de
seu pulo da cama. Isso pode parecer para você um tanto quanto estranho, como também
pareceu na época.
Até essa teoria ser proposta, a ideia comum era de que uma emoção é evocada por
uma situação, e o corpo muda em resposta à emoção: você fica com medo quando vê
certo animal, então, em seguida, seu corpo reage. Segundo a teoria de James-Lange
ocorre exatamente o contrário.
Vejamos a explicação que essa teoria propõe:
Suponha que você está com muita raiva, pois acabou de chegar ao estacionamento e
bateram no seu carro. Vamos então à seguinte experiência, tire todas as alterações
fisiológicas associadas a essa emoção. O coração em disparada se acalma, os músculos
tensos relaxam e a sua face irritada volta a ficar calma. Conforme a teoria propunha, é
difícil imaginar como manter a raiva na ausência de qualquer uma dessas respostas
fisiológicas.
Resumindo, a teoria de James-Lange diz que não é a emoção que causa as alterações
corporais, mas, sim, que as alterações corporais causam a emoção.

A Teoria de Cannon-Bard
A teoria de James-Lang, apesar de ter se tornado popular, foi rapidamente contestada.
Em 1927, o fisiologista norte-americano Walter Cannon (1871-1945) fez inúmeras
críticas à teoria de James-Lange e apresentou uma nova abordagem.
A teoria de Cannon foi modificada por Philip Bard (1898-1977), passando a ser
conhecida como teoria de Cannon-Bard da emoção. Ela propõe que a experiência
emocional pode ocorrer independentemente da expressão emocional.
Um dos argumentos de Cannon foi de que as emoções podem ser experimentadas
mesmo quando mudanças fisiológicas não podem ser sentidas. Para apoiar essa hipótese,
ele descreveu os casos de animais, após transecção* da medula espinhal.
Essa cirurgia elimina a “percepção” sensorial do organismo abaixo do nível do corte,
mas, aparentemente, as emoções permanecem. Em animais nos quais foi possível manter
o controle motor muscular da porção superior ao corte, ainda eram observados sinais de

*
Transecção - Cortes transversais
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 129

emoções. Cannon também observou em humanos que uma transecção de medula não
diminuía a emoção.
Se a experiência emocional, conforme propõe a teoria de James-Lange, ocorre quando
o encéfalo “percebe” as mudanças fisiológicas do organismo, a eliminação das sensações
deveria, portanto, eliminar as emoções, e isso não acontecia.
Uma segunda observação de Cannon, é de que não há correlação confiável entre a
experiência emocional e o estado fisiológico do organismo. Por exemplo, o medo é
acompanhado por um aumento da frequência cardíaca, uma inibição da digestão e um
aumento da sudorese. Entretanto, essas mesmas mudanças fisiológicas acompanham
outras emoções, como raiva, ou ainda sintomas de patologias, como um estado febril.
Como, então, pode o medo ser uma consequência de mudanças fisiológicas, quando
essas mesmas mudanças estão associadas a outros estados além do medo?

A teoria de Cannon colocou como


peça central o tálamo* (Figura 10.5) o
qual teria um papel especial nas
sensações emocionais. Em sua teoria, a
entrada sensorial é recebida pelo córtex
cerebral, que, por sua vez, ativa certas
mudanças no organismo.

Figura 10.5 – Tálamo - (Fonte: http://www.brainfacts.org/3d-brain - © Society for Neuroscience - Editada)

Ainda, de acordo com Cannon, esse circuito neural de estímulo-resposta, em si, é


desprovido de emoção. As emoções são produzidas quando sinais alcançam o tálamo,
seja diretamente, a partir dos receptores sensoriais. Lembram do conceito de bottom-up?
Seja por estímulos corticais descendentes, top-down.
Dessa forma, segundo essa teoria, a emoção é determinada pelo padrão de ativação
do tálamo, independentemente da resposta fisiológica à entrada sensorial.

*
Tálamo – Parte dorsal do diencéfalo, altamente interconectada com o neocórtex.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 130

Vamos comparar as duas teorias e entender as suas diferenças (Figura 10.6):


De acordo com James-Lange, você sente tristeza quando sente que está chorando; se
você pudesse evitar chorar, a tristeza se iria também.
Na teoria de Cannon, você não precisa chorar para estar triste: basta, apenas, que
ocorra a ativação apropriada do seu tálamo em resposta à situação.

Figura 10.6 - comparação das teorias de James-Lange e de Cannon-Bard. - (Fonte: © pngtree.com - Editada)

Trabalhos posteriores demonstraram que cada uma das velhas teorias tinha seus
méritos, assim como suas falhas.
Por exemplo, ao contrário do que imaginava Cannon, medo e raiva estão associados a
respostas fisiológicas distintas, embora as duas ativem basicamente o sistema nervoso
simpático*. Embora isso não prove que essas emoções resultem de respostas fisiológicas
distintas, as respostas ao menos são diferentes.

*
O Sistema Nervoso Simpático estimula ações que permitem ao organismo responder a situações de
estresse, como a reação de lutar ou fuga. Essas ações são: a aceleração dos batimentos cardíacos,
aumento da pressão arterial, o aumento da adrenalina, a concentração de açúcar no sangue e pela
ativação do metabolismo geral do corpo e processam-se de forma automática, independentemente da
nossa vontade.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 131

Alguns estudos mostram também que, de certo modo, podemos ter consciência da
função “visceral*” de nosso corpo a chamada interocepção† consciente, que é um
componente-chave para a teoria de James-Lange. Por exemplo, foi demonstrado que as
pessoas são capazes de julgar as suas frequências cardíacas.
Estudos posteriores, mostraram que, algumas vezes, as emoções são afetadas por
lesão da medula espinhal, contrariando a teoria de Cannon-Bard. Em um estudo com
homens adultos lesionados na medula, encontrou-se uma correlação entre a perda
sensorial e as diminuições nas experiências emocionais, embora outros estudos de
indivíduos com lesão espinhal nem sempre encontrem semelhante correlação.
Trabalhos experimentais apoiam a hipótese de que algumas das estruturas no lobo
límbico de Broca e no circuito de Papez tenham um papel na emoção, conforme vimos no
capítulo sobre o sistema nervoso.
Dada a diversidade das emoções que experimentamos e as diferentes atividades
encefálicas associadas a cada uma delas, não há uma razão para pensarmos que apenas
um sistema esteja envolvido. Evidências indicam que algumas estruturas envolvidas no
processamento da emoção estão também envolvidas em outras funções; dificilmente
podemos afirmar categoricamente “uma estrutura, uma função” quando falamos de nosso
sistema nervoso.
Embora o termo sistema límbico seja ainda comumente utilizado em discussões acerca
dos mecanismos encefálicos da emoção, está se tornando cada vez mais claro que não
existe um sistema único e bem delimitado para as emoções.
As teorias iniciais da emoção e as descrições subsequentes do sistema límbico foram
construídas baseada principalmente em lesões e doenças encefálicas: se uma estrutura
do encéfalo é lesionada, resultando em alteração da expressão ou da experiência
emocional, imaginamos, portanto, que aquela estrutura seja importante para a função
emocional normal. Porém, o estudo de doenças e consequências de lesões não são ideais
para revelar a função normal do encéfalo.
Analisando sob a perspectiva de circuitos distintos para diferentes emoções, a atividade
da amígdala está mais associada ao medo que à tristeza, e a atividade do córtex pré-frontal
medial está mais associada à tristeza8

*
O Sistema Nervoso Visceral é a parte do sistema nervoso que está relacionada ao controle da vida
vegetativa, ou seja, controla funções como a respiração, circulação do sangue, controle de temperatura
e digestão.

Interocepção é a capacidade de reconhecer os estímulos e sensações que nosso corpo nos envia sobre
seu status fisiológico e patológico.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 132

Uma outra possibilidade sugerida para as teorias básicas das emoções são as teorias
dimensionais, baseadas na ideia de que as emoções, podem ser “desmembradas” em
“peças” menores que se combinam de formas e em quantidades diferentes (Figura 10.7).
Exemplos de possibilidades dimensionais são os pares, “prazeroso (positivo) -
desagradável (negativo)” e “emoção fraca (alerta baixo) - emoção forte (alerta alto)”.
Podemos, então, imaginar um gráfico bidimensional da seguinte forma:

Figura 10.7 - representação dimensional das emoções básicas (Fonte: Gráfico Composto com base em Hamann, 2012)
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 133

Algumas coisinhas mais


A partir do que vimos, podemos concluir que a emoção é uma função cognitiva que
cumpre um papel decisivo em nossas vidas e relações sociais, no processo de construção
de vínculos afetivos, em nossa sobrevivência, motivação para ação e adoção de atitudes,
além do forte poder no modulador nos estados de atenção, memória e aprendizagem.

Humor
O humor está ligado ao nosso estado de ânimo. É um estado de duração mais
prolongada do que a emoção e o sentimento e não tem caráter reativo e instantâneo.
Por ser mais duradouro, o humor está mais relacionado com um estado de “base”, ao
passo que as emoções e os sentimentos são estados mais superficiais e passageiros.
O humor representa o somatório de diversas experiências afetivas, de emoções e
sentimentos, em um dado momento da nossa vida e pode persistir durante dias, semanas
ou anos. Também envolve componentes somáticos e psíquicos.
Alguns exemplos de humor são: calmo, feliz, triste, ansioso, deprimido, alegre, eufórico,
tenso, hostil, apático, sério e exaltado.

Teoria da Mente
Considerada um dos domínios da cognição social, a teoria da mente é objeto de
investigação e de teorização de muitos estudiosos. O conceito de teoria da mente é fruto
de muitas controvérsias entre os teóricos, vamos, portanto, buscar a forma como mais
comumente tem sido postulado.
Denomina-se de teoria da mente, a capacidade de deduzir, a partir das circunstâncias,
o que o outro pode estar pensando, crendo, sentindo ou desejando. Ou seja, é criar uma
“teoria hipotética” sobre o que pode estar “passando pela mente” do outro. Coisa que não
é possível fazer quando não se tem a compreensão de que os outros podem ter
pensamentos, crenças, sentimentos e desejos diferentes dos nossos9.
A teoria da mente é uma capacidade muito complexa e demanda a aquisição prévia de
outras competências para se desenvolver, tais como: a empatia, a capacidade de
representação simbólica e compreensão da linguagem figurativa, a diferenciação entre o
mundo da imaginação e o mundo real, a imitação, dentre outras. Por este motivo o seu
desenvolvimento se dá no final da primeira infância, por volta dos 4 anos de idade.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 134

Vale ressaltar que, assim como a maioria das habilidades cognitivas, o funcionamento
da “teoria da mente” depende de uma série de outros processos mentais, como: a atenção,
a memória, a linguagem e as funções executivas10.

Figura 10.7 - (Fonte: © pngtree.com)


NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 135

Referências
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8
Hamann, S. Mapping discrete and dimensional emotions onto the brain: controversies and
consensus. Trends in Cognitive Sciences 16:458–466. 2012
9
Jou, G.; Sperb, T. Teoria da mente: diferentes abordagens. Revista Psicologia: reflexão e crítica. Vol. 12.
n.2:287-306. Porto Alegre. 1999
10
Organizadores: Fuentes, D.; Malloy-Diniz, L. F.; Camargo, C. H. P. de.; Cosenza, R. M. Neuropsicologia:
teoria e prática. 2ª Ed. Porto Alegre. Artmed. 2014
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Considerações Finais

Em primeiro lugar, agradeço a todos que chegaram até aqui!


Muito obrigado, pela paciência e confiança!
Percebemos que com o avanço das neurociências, em especial as que envolvem
técnicas de neuroimageamento e monitoramento, a cada dia que passa conseguimos
“enxergar” com uma maior resolução o que está acontecendo no encéfalo vivo e saudável;
ao vivo e “a cores”.
É tentador, portanto, tirarmos conclusões acerca desses achados. Porém é justamente
nesses momentos que devemos ser cautelosos e prudentes, para não cairmos em uma
armadilha, que adora “capturar” inclusive os pesquisadores, o bom e velho “viés de
confirmação”*.
Sem dúvida vivemos tempos nos quais os resultados são gerados em um ritmo como
nunca visto. Essa fartura, porém, começa a nos apontar certas sobreposições1.
Começamos a perceber que processos distintos podem “ativar” áreas encefálicas em
comum, ou seja, que estão envolvidas em muitas “operações” diferentes, portanto, cabe
cautela, em olhar para o todo e não apenas para o que queremos enxergar.
Devemos estar abertos às novidades. Porém, sempre que possível, buscando enxergar
da forma mais ampla possível. Esse é um critério válido para qualquer coisa dessa vida!
No mais, o passeio por esse mundo das “neurocoisas” sempre será muito encantador,
surpreendente e sem dúvida um caminho sem volta!

Desejo a todos uma boa caminhada daqui em diante!

*
Viés de confirmação, é a tendência de interpretar ou pesquisar por informações de maneira a
confirmar uma hipótese inicial. Reunindo as informações de forma seletiva, ou interpretando de forma
tendenciosa.
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Referências
1
Lindquist, K.A.; Wager, T.D.; Kober, H.; Bliss-Moreau, E.; Barrett, L.F. The brain basis of emotion: A
meta- analytic review. Behavioral and Brain Sciences. 35: 121–43. 2012
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Glossário
A
Acetilcolina – Amina que funciona como um neurotransmissor em muitas sinapses nos sistemas nervosos central e
periférico, incluindo a junção neuromuscular.
Ácido gama-aminobutírico (GABA) – Aminoácido sintetizado a partir do glutamato; o principal neurotransmissor
inibitório no sistema nervoso central.
Adrenalina – Catecolamina que funciona como neurotransmissor e como hormônio, sintetizada a partir da
noradrenalina; também denominada epinefrina.
Afasia – Perda parcial ou completa da capacidade de linguagem.
Afasia de Broca – Distúrbio de linguagem no qual uma pessoa tem dificuldade em falar ou repetir palavras, mas
pode entender a linguagem; também conhecida como afasia motora ou não fluente.
Afasia de Wernicke – Distúrbio de linguagem no qual o discurso é fluente, mas a compreensão é pobre.
Amígdala – Núcleo com formato de amêndoa no interior do lobo temporal, acredita estar envolvido com a emoção e
certos tipos de aprendizado e memória.
Ânion – Íon carregado negativamente.
Área de Broca – Região do lobo frontal associada, quando lesionada, com a afasia (motora) de Broca.
Área de Wernicke – Região na superfície superior do lobo temporal associada, quando lesionada, com a afasia de
Wernicke.
Astrócito – Célula glial no encéfalo que dá suporte aos neurônios e regula os meios iônico e químico extracelulares.
Axônio – Neurito especializado na condução de impulsos nervosos, ou potenciais de ação.

B
Bulbo – Parte do rombencéfalo caudal à ponte e ao cerebelo. Também chamado de medula oblonga ou medula
oblongata.

C
Catecolaminas – Os neurotransmissores dopamina, noradrenalina e adrenalina.
Cátion – Íon carregado positivamente.
Célula de Schwann – Célula glial que fornece a mielina no sistema nervoso periférico.
Célula ependimária – Célula glial que fornece o revestimento do sistema ventricular do encéfalo.
Cerebelo – Estrutura derivada do rombencéfalo, ligada ao tronco encefálico na ponte; um importante centro do
controle do movimento.
Cérebro – A maior parte do prosencéfalo; também denominado telencéfalo.
Circuito de Papez – Circuito de estruturas anatômicas interconectando o hipotálamo e o córtex, que Papez propôs
ser um sistema para a emoção.
Colículo superior – Estrutura no teto do mesencéfalo que recebe aferentes diretos da retina e controla os
movimentos sacádicos dos olhos.
Colinérgico – Descreve neurônios ou sinapses que produzem e liberam acetilcolina.
Corpo caloso – Axônios que conectam o córtex dos dois hemisférios cerebrais.
Córtex – Qualquer conjunto de neurônios que formam uma lâmina fina, normalmente na superfície do encéfalo.
Cortisol – Hormônio esteroide liberado pela glândula suprarrenal.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 139

D
Dendrito – Neurito especializado em receber sinais de entrada sinápticos de outros neurônios.
Dislexia – Dificuldade de aprender a ler, apesar de inteligência e treino normais.
Dopa – Precursor químico da dopamina e de outras catecolaminas
Dopamina – Catecolaminas que funciona como neurotransmissor, sintetizada a partir do dopa.

E
Encéfalo – A parte do sistema nervoso central contida na caixa craniana, consistindo de cérebro, cerebelo, tronco
encefálico.
Eletrencefalograma (EEG) – Mensuração da atividade elétrica gerada pelo encéfalo.
Espinhos dendríticos – Estruturas especializadas, que recebem alguns tipos de aferências sinápticas. Os espinhos
se parecem com pequenas bolsas penduradas em torno do dendrito.
Endorfina – peptídeos opioides endógenos com efeitos semelhantes àqueles da morfina.

F
Fenda sináptica – Região separando as membranas pré e pós-sinápticas.
Fonemas – O conjunto de sons distintos utilizados em uma língua.
Falácia mereológica da Neurociência – É o erro de se atribuir ao cérebro, ou suas partes, predicados
que só fazem sentido quando atribuídos ao indivíduo inteiro.

G
GABAérgico – Descreve neurônios ou sinapses que produzem e liberam ácido gama-aminobutírico.
Gânglio – Conjunto de neurônios no sistema nervoso periférico.
Giro – Saliência sinuosa situada entre os sulcos do cérebro.
Glia – Célula de suporte no sistema nervoso.
Glutamato – Aminoácido; o principal neurotransmissor excitatório no sistema nervoso central.

H
Hipocampo – Em seres humanos, o hipocampo situa-se no lobo temporal e tem um papel especial no aprendizado
e na memória e na regulação do eixo hipotálamo-hipófise.
Hipotálamo – Parte envolvida no controle do sistema simpático/parassimpático e da glândula hipofisária.
Histologia – Estudo microscópico da estrutura dos tecidos.
Humor – Estado de duração mais prolongada do que a emoção e o sentimento e não é de caráter reativo como os
dois últimos.

I
Ínsula – Parte do córtex cerebral, também conhecida como córtex insular, situada dentro do sulco lateral, entre os
lobos temporal e parietal.
Íon – Átomo ou molécula que apresenta uma carga elétrica líquida devido a uma diferença entre o número de
elétrons e o número de prótons.
Interocepção – Capacidade de reconhecer os estímulos e sensações que nosso corpo nos envia sobre seu status
fisiológico e patológico.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 140

M
Micróglia – Célula que funciona como um fagócito no sistema nervoso para remover fragmentos deixados por
neurônios ou glia mortos.
Mielina – Envoltório membranoso que envolve axônios.

N
Neocórtex – O córtex cerebral, com seis ou mais camadas de neurônios, encontrado apenas em mamíferos.
Neurito - Fino tubo que se estende a partir do corpo celular neuronal; há dois tipos, axônios e dendritos.
Neurônio – A célula de processamento de informação no sistema nervoso; também chamado de célula nervosa.
Neurônios espelho – Estão presentes no córtex pré-motor e “disparam” quando observamos ou imitamos as ações
de outras pessoas.
Neurotransmissor – Substância química que é liberada por um elemento pré-sináptico por estimulação e que ativa
receptores pós-sinápticos.
Noradrenalina – Neurotransmissor sintetizado a partir da dopamina; também denominado norepinefrina.
Noradrenérgico – Neurônios ou sinapses que produzem e liberam noradrenalina.
Núcleos da base – Conjunto de núcleos profundos do cérebro com diferentes estruturas e atividades.

O
Ocitocina – Pequeno hormônio que estimula as contrações uterinas e a ejeção de leite das glândulas mamárias.
Ouvido absoluto – Habilidade de identificar os tons musicais.

P
Paleoneurologia – Ramo da paleontologia consagrado à evolução do sistema nervoso segundo os dados
fornecidos polos fósseis.
Peptídeos – sequências de aminoácidos mais curtas do que aquelas que constituem as proteínas.
Poligênica – Herança quantitativa ou poligênica é um tipo de herança genética, na qual participam dois ou mais
pares de genes independente.
Processamento de baixo para cima (bottom-up) – Processamento diretamente influenciado por estímulos do
ambiente.
Processamento de cima para baixo (top-down) – A atenção é direcionada pelo indivíduo de modo deliberado
para algum objeto ou lugar.
Propriocepção – A sensação da posição e do movimento do corpo, utilizando sinais sensoriais dos músculos,
articulações e pele.

S
Serotonina (5-HT) – Amina neurotransmissora, 5-hidroxitriptamina.
Serotoninérgico – Neurônios ou sinapses que produzem e liberam serotonina.
Sinapse – Região de contato onde um neurônio transfere informação para uma outra célula.
Sistema límbico – Grupo de estruturas, incluindo aquelas do lobo límbico e do circuito de Papez, que são
anatomicamente interconectadas e estão provavelmente envolvidas na emoção, no aprendizado e na memória.
Sistemas modulatórios difusos –Sistemas de neurônios do sistema nervoso central que se projetam amplamente
e de forma difusa para grandes áreas do encéfalo e utilizam neurotransmissores modulatórios, incluindo a
dopamina, a noradrenalina, a serotonina e a acetilcolina.
Sistema Nervoso Simpático – Estimula ações que permitem ao organismo responder a situações de estresse,
como a reação de lutar ou fuga.
Sistema Nervoso Visceral – Parte do sistema nervoso que está relacionada ao controle da vida vegetativa.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 141

Sistema ventricular – Os espaços preenchidos com líquido cerebrospinal dentro do encéfalo, consistindo dos
ventrículos laterais, o terceiro ventrículo, o aqueduto cerebral e o quarto ventrículo.
Substância branca – Termo genérico para designar um conjunto de axônios do sistema nervoso central.
Substância cinzenta – Termo genérico para o conjunto de corpos celulares neuronais no sistema nervoso central.
Substância negra ou nigra – Um grupo de células no mesencéfalo que utiliza dopamina como neurotransmissor.
Sulco – Depressão na superfície do cérebro correndo entre giros vizinhos.

T
Tálamo – Parte dorsal do diencéfalo, altamente interconectada com o neocórtex.
Teleologia – É o estudo filosófico dos fins, isto é, do propósito, objetivo ou finalidade.
Terminal axonal – Região final de um axônio, normalmente um sítio de contato sináptico com outra célula; também
chamado de botão terminal ou terminal pré-sináptico.
Transecção – Cortes transversais.
Tronco encefálico – O mesencéfalo, a ponte e o bulbo. (Alguns anatomistas incluem o diencéfalo).

V
Vasopressina – Pequeno hormônio que promove a retenção de água e diminui a produção de urina pelos rins;
também denominada hormônio antidiurético (ADH)
Vesícula sináptica – Estrutura delimitada por membrana, contendo neurotransmissores e encontrada no local de
contato sináptico.
Viés de confirmação – Tendência de interpretar ou pesquisar por informações de maneira a confirmar uma
hipótese inicial.
NEUROPSICOLOGIA SEM NEURA 142

Referências e
Sugestões de Leitura

Deixo as referências dos livros que, direta ou indiretamente, contribuíram para a


construção desse material e que eventualmente possam não ter sido foram referenciados
antes. Sendo, portanto, uma lista sugerida para eventuais consultas e leitura.

Referências:
 Bear, Mark F. Neurociências: desvendando o sistema nervoso. 4ª Ed. Porto Alegre. Artmed. 2017
 Darwin, C. The Expression of the Emotions in Man and Animals. 2ª Ed. New York. Cambridge
University Press. 2009
 Brusca R.C.; Brusca G.J. Invertebrados. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. 2007.
 Krebs, Claudia. Neurociências ilustrada. Porto Alegre. Artmed. 2013
 Eysenck, M.; Keane, M. Psicologia cognitiva: Um manual introdutório. Porto Alegre. Artmed. 1994
 Izquierdo, I. Memória. 3. ed. Porto Alegre. Artmed. 2018
 Organizadores: Santos, F. H. dos.; Andrade, M. V.; Bueno, O. F. A. Neuropsicologia hoje. 2ª Ed.
Porto Alegre. Artmed, 2015.
 Dalgalarrondo, P. Evolução do cérebro: sistema nervoso, psicologia e psicopatologia sob a
perspectiva evolucionista. Porto Alegre. Artmed. 2011
 Dalgalarrondo, P. Psicologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre. Artmed. 2000
 Organizadores: Caixeta, L.; Ferreira, S. Manual de neuropsicologia: dos princípios à reabilitação.
São Paulo. Atheneu. 2012
 Lent, R. Cem Bilhões de Neurônios? Conceitos Fundamentais de Neurociências. 2ª Ed. São Paulo.
Atheneu. 2010
 Kandel, Eric R. et al. Princípio de Neurociências. 5ª ed. Porto Alegre. Artmed. 2014
 Cosenza, Ramon M.; Guerra, Leonor B. Neurociência e educação: como o cérebro aprende.
Porto Alegre. Artmed. 2014
 Organizadores: Fuentes, D.; Malloy-Diniz, L. F.; Camargo, C. H. P. de.; Cosenza, R. M.
Neuropsicologia: teoria e prática. 2ª Ed. Porto Alegre. Artmed. 2014
 Herculano-Houzel, S. A Vantagem Humana. São Paulo. CIA das Letras. 2017
 Damásio, A. R. O Erro de Descartes. São Paulo. CIA das Letras. 2012
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Referências das imagens:


As imagens utilizadas para compor o material são provenientes dos seguintes bancos
de imagens e com edição dos próprios autores, quando necessária:
https://commons.wikimedia.org
https://pngtree.com
https://123rf.com
https://dreamstime.com

As imagens utilizadas para construção das representações neuroanatomicas, foram


compostas pelos autores utilizando imagens bases que podem ser consultadas e utilizadas
gratuitamente no site abaixo, desde que creditadas:

 http://www.brainfacts.org/3d-brain - Copyright © Society for Neuroscience

Referências do glossário:
 Bear, Mark F. Neurociências: desvendando o sistema nervoso. 4ª Ed. Porto Alegre. Artmed. 2017
 https://www.wikipedia.org/
Conclusão
Infelizmente chegamos ao final de nossa
primeira jornada.

Esperamos, de coração, que tenha


chegado até aqui com a mesma
sensação que a nossa, de enorme
satisfação e ao mesmo tempo uma certa
melancolia.

Esperamos que a caminhada daqui para


a frente siga suave e prazerosa.
Lembrando sempre que o caminho será
percorrido em conjunto, estaremos lado
a lado e à disposição para crescermos
juntos.

Não importa qual o contexto, pensar


como comunidade é muito mais
proveitoso e construtivo do que seguir
sozinho.

Por fim, desejamos profundamente que


esses tenham sido apenas os primeiros
passos de um longa caminhada!

…Continuem participando em nossos


grupos e até a próxima atualização!!!

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