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Sociedade:. Ecumênica:. do Triângulo: e da Rosa:. Dourada:.

Fraternidade:. Espiritualista:. do Cruzeiro:. do Sul:.


Templo Xangô Quatro Luas:.

Núcleo de Estudos Espirituais

Orixás – Aspectos Teogônicos - II

Ògún - II

Ògún é o primeiro e o último Fogo


reconhecido no Planisfério Arqueométrico da
Umbanda que se destaca sobre o Altar. Ali, seu
quadrante se posiciona ao Leste, demarcando o
meio preciso ou a “Porta do Fogo”. Essa é a porta
do “Eu sou”, d impulso inicial que cria, que
manifesta a vontade, falando do início de uma
jornada evolutiva que culmina no topo da
montanha representada pela Casa de Obaluaiê. É
aquele que impulsiona a manifestação, mas também
o que destrói todas as formas ao final de cada ciclo,
permitindo a continuidade e a evolução da
existência. É o “Senhor da Vontade” que revela ao
plano dos homens os propósitos do Criador.
Na África o culto do Orixá encontra-se restrito
aos homens, aspecto que foi alterado no
Candomblé devido ao forte posicionamento matriarcal no qual foi fundado e que não permitia a presença de
homens no início. Antes que os homens pudessem ter acesso ao Candomblé como Bàbálorixás, as grandes
Iyálorixás encontraram uma maneira de fazer com que os Orixás pudessem ser todos cultuados e iniciados por
elas, o que confere do ponto de vista espiritual certo poder aos iniciadores. Isso porque somente eles detêm de
fato o conhecimento de “feitura” dos diferentes Orixás e somente por meio da tradição que conhecem podem
arrastar qualquer Orixá ao nascimento. Por isso as iniciações também implicam numa espécie de “dívida” muito
severa contraída entre o iniciador e a Divindade iniciada no seu noviço, existindo sempre uma exigência que
necessita ser “cobrada”, de modo que a harmonia não seja quebrada. Os iniciadores sempre pagam pelos filhos
que fazem. A honra de assentar o Orixá na cabeça de um indivíduo implica posicionamentos complexos.

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Contudo, as Íyalorixás mantiveram a tradição do sacrifício animal vinculada exclusivamente aos homens, o
asògún, mais precisamente, da mesma forma como conseguiram contornar a proibição das mulheres em jogar os
búzios, o que era permitido apenas aos homens iniciados em Ifá. Esse aspecto em relação ao sacrifício se deu
pelas relações diretas do Orixá com a faca e os instrumentos de corte. Quem já participou do ritual do sacrificial
em sua forma ritualizada, a qual difere consideravelmente de sacrifícios comuns e realizados sem conhecimento,
sabe como o Orixá é particularmente saudado. A tradição ritual determina que as primeiras gotas do sangue
devem cair diretamente na terra, de modo que ocorra um ressarcimento pela vida da vítima que é imolada.
Ògún é considerado o principal Orixá a descer do Orun para o Ayé logo após a criação, sendo então
denominado Osin Imolé “o primeiro Orixá a vir para a Terra”. Estudos apontam que foi provavelmente o
primeiro Orixá a ser cultuado pelos povos yorubás, fazendo parte das cosmogonias arcaicas dos primeiros
Deuses ferreiros aos quais foram rendidos cultos já no decurso das primeiras sociedades agrárias. Filho de
Oduduá, a Matriz Feminina Original, o aspecto mais arcaico do poder gerador simbolizado pela metade inferior
do Igbadú, a “Cabaça da Existência”, e de Oxalá, a Divindade Criadora reconhecida como o reflexo diferenciado
de Olodumaré, Ògún como o resultado da interação entre o Branco espermático Funfun e o Vermelho gerador
Pupá, se manifesta como a energia cósmica que impulsiona cada coisa para que ela possa encontrar sua essência e
sua afirmação no plano da matéria. Essencialmente vinculado ao plano da criação, esotericamente, Ògún
comparece como um “Progenitor divino” da humanidade, adentrando ao grupo de Deuses responsáveis pela
criação do homem e seus Princípios Inteligentes.
A princípio um Deus Solar vinculado ao Fogo Espiritual, Ògún relaciona-se por natureza e essência com o
ferro e a forja dos metais, o que o caracteriza Dudu por excelência, associado a todas as matrizes de manifestação
do Negro expansivo. Aquele que brota diretamente da Terra e que, ao emitir seu impulso inteligente, permite a
transformação de toda matéria inerte. Segundo um dos mitos mais antigos, Ògún teria sido originalmente um
poderoso Igbá-Imole, um dos duzentos Deuses que foram severamente punidos por Olórum por terem agido de
maneira errônea durante o processo da Criação. Sendo seu principal representante, Ogum foi condenado a
“descer”, tornando-se desde então o condutor dessa categoria de Espíritos divinos. Os Imolés, “Possuidores de
Intensa Luz”, constituem uma categoria de Deuses dos quais se desprendem quatrocentas energias Cósmicas.
Aqueles da direita, em número de duzentos, são conhecidos como Irunmolés, “Concebidos pela Luz do Orún”,
agregando as Forças e Divindades essenciais, aquelas que jamais se materializaram no plano físico,
permanecendo como Forças Originais. Dentre esses Irunmolés destacam-se Aná (o poder do Som), Irawó (as
Estrelas), Oshu (A Lua), Oru (o Sol), Agbá Lodé (a imensidão do Espaço) e assim sucessivamente, abarcando a
personificação de todas as grandes manifestações ou Princípios essenciais e fundamentais do Universo.
Além dos duzentos Irunmolés da direita, destacam-se mais duzentas Divindades conhecidas como os
“Deuses da Esquerda” ou Igbámolés “Aqueles que nasceram com Luz”, constituindo essa uma classe de Deuses
que desceram ao plano físico encarnando durante o advento das primeiras Raças. É precisamente esse mito que
encerra um dos mistérios cosmogônicos ao qual Ogum se encontra vinculado, tendo sido preservado por
milênios graças ao conjunto de textos sagrados dos antigos Babalaôs, bem como pela rígida tradição oral dos
velhos sacerdotes. De fato, um dos ensinamentos da Sabedoria Arcaica se encontra velado no mito, mantendo
todas as suas características essenciais, o que acosta o conjunto de teorias cosmogônicas dos antigos sacerdotes
africanos aos sistemas místicos da antiguidade, não sendo improvável que sua rica tradição tenha derivado ou
mesmo se estabelecido segundo a estrutura cosmogônica dos egípcios e hindus.
Esotericamente, é preciso compreender que os Orixás caracterizam não somente Divindades
individualizadas, mas que cosmogônicamente também expressam em seus mistérios a Gênese oculta,
simbolizando por vezes períodos de tempo ou inteiras hierarquias de Seres Espirituais relacionados com os
mistérios da Criação. Essa característica se encontra evidenciada nos mitos por meio dos números, dos símbolos,
dos animais e das relações entre os diversos Deuses, sendo fato acertado que o mito existe para velar a mais
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antiga tradição secreta a respeito da criação do Universo e de seus processos evolutivos. Não devem assim,
obviamente, serem considerados como acontecimentos reais, mas sim como alegorias esotéricas ao interno das
quais se encontra preservada a verdade.
Ògún é ferro, Princípio do Negro que ao ser exposto ao fogo, símbolo da luz, ressurge como matéria
diferenciada que se transforma no elemento propiciador de toda vida. Aqui a matéria não deve ser compreendida
em seu aspecto condensado, mas sim como uma emanação diferenciada do Éter possibilitador de toda
manifestação. O orbe, ferroso, encerra a essência do Orixá. Expressando o homem incorpóreo ou o protótipo da
perfeição espiritual na matéria, Ògún se manifesta como o impulsionador da Luz. O Verbo que se converte em
forma, desdobramento da primeira manifestação cósmica reconhecida em Èxú e que encerra em si a totalidade
das Forças ou Princípios Criadores, o que o converte em “Primogênito de todos os seres” ou própria
“Inteligência divina manifesta”. Como ocorria no antigo Egito, onde as Divindades tutelares de cada nomo ou
região administrativa eram consideradas “universais”, os Orixás se manifestam de forma muito semelhante. Cada
cidade possuía seu Deus principal, o qual vinha considerado o “Pai”, a “Mãe”, o “Criador” e sustentador da
existência.
Originalmente Ògún se manifesta como andrógeno, aspecto evidenciado em Obá, contraparte feminina de
sua energia cósmica, tal como todo aspecto diferenciado da Divindade, mas mantém a autonomia do seu poder
masculino intacta. Assim, é Fogo (Ògún) e Água (Obá) ou o aspecto masculino e feminino que ao se fundir
permite a manifestação da Luz Original ou da matéria. Obá, por sua vez, é considerada a “Misericórdia do
Criador” ou a totalidade dos poderes criadores que ao se unirem impulsionam a existência ou que animam toda
matéria, colocando em ação todas as Forças existentes sobre a Terra.
Tal aspecto está representado pelo simbolismo da bigorna do ferreiro, que misticamente se associa ao
princípio passivo que deve receber os golpes fecundadores do machete de ferro, elemento ativo e fecundador
que permite a moldagem e manifestação das formas. Se Èxú como o raio ou o Fogo Original desprendido da
Divindade, se manifesta como o Pensamento divino ou a eletricidade cósmica, o “Primogênito do Universo”,
Ògún se caracteriza como o aspecto desprendido dessa mesma energia que preenche a matéria em seu estado
original, dotando-a de consciência. Dessa forma, ao fundir simbolicamente os metais, símbolo da pré-matéria
original, Ògún aglomera os átomos permitindo a manifestação da vida.
Ferreiro divino, Ògún é aquele que misticamente desagrupa e combina os Elementos, simbolizado pelos
metais, por intermédio de sua forja, em realidade o Fogo ou a Luz Astral, impulsionando-os ou moldando-os de
modo que possam adquirir forma e razão de ser. É então que Èxú (a eletricidade) impulsiona a matéria
preenchendo-a com energia e vitalidade, estando esotericamente os dois irmãos divinos (Ògún e Èxú)
inseparáveis. Ambos são Fogo e se combinam universalmente como energias de modo que a consciência da
Divindade possa se manifestar por sobre a criação como inteligência e razão.
Segundo os conceitos da Sabedoria Arcaica, os Progenitores são considerados muito sagrados por terem
sido de fato os verdadeiros “Antepassados” dos seres humanos. Esse grupamento de Deuses se encontra
dividido em sete classes distintas, o que reforça suas relações com o número sete e sua denominação como Ògún
megê, “aquele que faz a guerra sete vezes, expressão clara dos ciclos controlados pelas Forças evolucionais. Dessa
forma, Ògún representa a totalidade das Hierarquias Setenárias responsáveis pelos processos de Criação. Ainda
segundo os ensinamentos arcaicos, essa classe de Deuses fora obrigada a nascer no plano físico durante as
primeiras Raças. Constituíram assim os primitivos seres sobre a Terra, em virtude de terem se negado a dotar os
primeiros homens de seus princípios essenciais, tendo sido por essa razão punidos pelo Karma.
Número que expressa a totalidade e o equilíbrio entre o Plano Espiritual (simbolizado pelo três) e aquele
físico (representado pelo quatro), o sete se manifesta permeado por um valor cíclico e regenerador, equivalendo
ao próprio sentido de movimento do Universo. Número sagrado a todas as tradições arcaicas desde tempos
imemoráveis, o sete se apresenta como o representante do próprio homem sobre a Terra e suas relações com o
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plano espiritual, expressando complementaridade. As relações de Ògún com o número sete se encontram
evidenciadas não somente em suas lendas, como também na tradição que lhe atribui sete personificações
distintas, cada qual associada com um Princípio e um aspecto agressivo ou polarizado da Natureza. Segundo um
antigo mito, Ògún teria travado uma grande contenda com Oyá por causa de Xangô, ao final da qual fora o
Orixá divido em sete partes, passando a ser denominado Megè, ao passo que a Deusa fora dividida em nove,
recebendo desde então a denominação de Ìyámésàn ou “Yansã”, a “Mãe convertida em nove”.
Esse mito complexo expressa as profundas relações de Ògún como “Ferreiro divino”, ou aquele que
encarna o papel de organizador do mundo, titulatura conferida desde a antiguidade às Divindades estreitamente
relacionadas com as manifestações do fogo e que se revelam como um aspecto desdobrado da Divindade
Criadora, associando-se ao divino esquerdo feminino e ao divino direito masculino. Esotericamente, o mito
também fala do momento evolucional em que ocorre a separação dos sexos no decurso da Terceira Raça Raiz ou
a diferenciação do ser em macho e fêmea, aspecto reconhecido misticamente como a separação dos metais.
Sendo Ògún a Divindade que expressa o homem perfeito, o sete se impõe como símbolo da perfeição
divina, mas também de sua natureza masculina e feminina representada respectivamente pelo três e pelo quatro.
Direcionador de todos os impulsos agressivos e essenciais que necessitam ser harmonizados ou “domados” pela
consciência superior, Ògún em sua associação com o sete revela ainda as relações do ser com a atividade, a
vontade, a espiritualidade, a intuição, o raciocínio, a emoção e os desejos.
Ógún adentra na categoria das Divindades Solares que regem o nosso Sistema Solar, sendo esses
conhecidos pela Escola Universal como os “Senhores da Chama”, os “Filhos do Fogo” que figuraram no topo
da Cadeia de Evolução durante as primeiras Raças, estando atualmente vinculados com o desenvolvimento
mental e coletivo da própria raça humana. De fato, esse é o sentido oculto no mito da Criação, quando Ògún se
coloca como Asiwajú ou “Aquele que precede todos os demais”, indicando o caminho para Oduduá. Esse
também é o ensinamento ocultado por detrás do mito onde Ògún, tendo sido punido por Olodumaré, é
obrigado a descer e comandar desde então os duzentos Imolés da esquerda.
Trata-se em realidade das Hierarquias de Deuses Progenitores destinados a encarnarem em nosso plano
para darem início às primeiras “Raças Divinas”. Abarcando esse profundo simbolismo, Ògún como Imolé,
“Aquele que traz a Luz”, é também associado a Lúcifer, o “Condutor da Aurora”, Aquele que “aponta”
primeiramente no horizonte antes do nascer do Sol, arrastando consigo a Luz. Tal sentido esotérico deve ser
observado à luz do simbolismo, não cabendo, no entanto, espaço para aproximações absurdas do Deus com o
sentido inferior comumente associado ao nome, sendo essa “Luz” que comparece em todos os anais antigos e da
qual Lúcifer é o seu portador, a consciência ou inteligência despertada nos seres humanos por ordem das
Hierarquias Criadoras durante o período médio da Terceira Raça.
Impulsionador da vontade, Ògún é aquele que se opõe à dependência das forças instintivas, convertendo-
se no civilizador. Dessa maneira, assim como Èxú se manifesta como encarnação do Verbo no Universo, Ògún
se afirma como a encarnação do Verbo na humanidade e seu aspecto mais divinizado, revestindo-se por um
profundo caráter cosmogônico. Cosmicamente, Ògún não é a imagem da Ideação encerrada na mente do
Criador, papel reservado a Èxú Elegbára como o reflexo direto dos poderes criadores responsáveis pela
expansão do Universo. A realidade desses mesmos poderes transfigurados no homem, aspecto simbólico
evidenciado em Ògún Xoroquê, aquele que seria metade Ògún e metade Èxú, segundo os mitos antigos e que
revela as estreitas relações de ambas as Divindades com o mesmo Princípio cósmico da criação desdobrado em
energias similares.
Segundo os mitos, Ògún Xoroquê teria saltado de dentro de um vulcão em erupção como magma não
solidificado, sendo considerado o Senhor da Noite, que anda acompanhado por Èxú de encruzilhada em
encruzilhada, controlando os caminhos dos homens. O fato de o mito afirmar que teria nascido como magma já
expressa o caráter violento e agressivo associado às forças ígneas encerradas no interior da Terra, cujo vulcão
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evoca o simbolismo do centro e da transcendência de um estado para outro. O magma passa assim, a ser o
símbolo da realidade eterna da própria humanidade, cuja forma divina e ígnea habita ao interno da estrutura
solidificada representada pelo corpo ou a terra.
Ògún Sóròkè (do yorubá sóro, falar, e kè, mais alto) é possuidor de Fundamentos, ritualística e significados
muito complexos. É o aspecto do Orixá que mais se aproxima de Èxú, sendo reconhecido como o “Senhor da
noite e das Encruzilhadas”, o “Juiz dos Caminhos dos homens”. Denominado o “Vingador do Firmamento”, esse
Ògún atua em concordância direta com os Princípios reguladores da Lei de Ação e Reação, estando encarregado
de reprimir todo excesso e de manter o homem dentro dos limites da natureza e da Justiça, sob o impacto de
severas sanções e punições.
Também conhecido como “O Inevitável”, uma vez que faz estreita referência a tudo aquilo que não pode ser
desviado ou mudado em decorrência dos aspectos diretos da Lei de Ação e Reação, Ògún Sóròkè representa o
efeito imutável das causas criadas e postas em movimento. É justo e imparcial (não sendo por acaso que
responde no centro neutral do Òpòn), reservando sua cólera para aqueles cuja inteligência encontra-se
chafurdada no orgulho, no egoísmo, na falsidade e na arrogância.
Ògún Sóròkè é representado simbolicamente como sendo possuidor de dois lados, vestindo-se metade de
vermelho (lado esquerdo) e a outra metade de azul (lado direito), o que de imediato evoca o sentido de
sentenciação e execução a que se encontra vinculado. Em razão das energias que movimenta, é Orixá perigoso
para ser assentado em um Orí, necessitando que seus Fundamentos sejam realizados ao aberto,
preferencialmente em uma encruzilhada e sendo tudo duplo, inclusive o kélé, o Assentamento, as Guias, as
oferendas, o Bará e os próprios ritos que se repetem.
Contudo, é um grupo especial de Orixás denominados Ajàs que acompanham Ògún que ressalta ainda mais
as relações do Orixá com o sentido de ordem e execução da Justiça Divina. Ajà (Aqueles que lutam) é a
contração do termo Ajàgun (Os que fazem a guerra), considerados os “Guerreiros Brancos” reconhecidos em
algumas Divindades temidas e fortemente associadas ao Karma e sua execução direta.1 Aguerridos, ordenadores
do Caos, equilibradores de todo desequilíbrio, são denominados “Aqueles que executam todas as sentenças”,
revidando toda violação das regras, desobediência e falta de compromisso dos seres por meio dos Princípios da
ética e da moral quando perturbada a harmonia, sendo, em relação aos Iniciados, os seus “sentenciadores” diante
das ações positivas e negativas que esses venham a cometer ou desencadear dentro do plano reacionário.
Os Ajàguns são os responsáveis diretos por envolverem os seres humanos na complexa teia de
acontecimentos reacionários negativos, gerados imediatamente pelo peso das causas que abarcam Princípios
como a ética e a estrutura da coletividade. São “Aqueles que pesam” na Balança da Lei, o cunho das ações
humanas e a influência direta das mesmas sobre o todo, desencadeando um complexo sistema harmonizador, o
qual requer que o equilíbrio seja alcançado pela dor, pela experimentação daquilo que é bom e ruim por meio da
aquisição e da privação, pela diferenciação e pela conscientização coletiva. Em outros termos: atuam sobre a
humanidade como os verdadeiros Senhores do Karma em sua contraparte reacionária negativa, sendo, por isso,
considerados Ordenadores diretos da Lei na Esquerda.2
Rompido o equilíbrio, os Ajàs instauram imediatamente a desordem e a perturbação como reação direta,
desencadeando um turbilhão de acontecimentos nefastos, até que, por meio de lições bastante árduas, dolorosas
e que por vezes requerem muito tempo, a ordem e a harmonia sejam novamente restauradas. Três Divindades
principais encabeçam esse grupo de Deuses: Ògúnjá, “O condutor da guerra” (o Ògún que se veste inteiramente

1 Ajà, do yorubá: a, aqueles e jà, cobatem. Ajàgun: de a, aqueles; jàgun, fazem a guerra. Apenas por curiosidade, a palavra
“jagunço” utilizado para expressar um “capanga”, “matador”, deriva do termo jàgun.
2Aqui, “esquerda” assume o sentido de reação negativa, equilíbrio e retificação e não aquele de associação ao Princípio
Feminino.
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de Branco); Obaluaiê Jàgun, “O Guerreiro”, manifestação particularmente bela, muito jovem e belicosa do Orixá,
cujo Filá e demais paramentas se apresentam inteiramente brancos; e Ajágunã, “Que surpreende na batalha”, o
líder do panteão dos Oxaguiàns, dono do pilão de prata.3
Na sequência destacam-se: Ayrá Ajáossí, o “Guerreiro da Esquerda”, eterno “companheiro” de Oxaguiàn;
Yemanjá Ogunté, “Aquela que reúne na batalha”; Oxum Ajagurá, “A Guerreira que acaba com a guerra”; Obá Gideò,
“Que caça com persistência”; Oyá Furé, “Que surge repentinamente”, portando uma foice e se cobrindo com um
Filá de palha da costa; Xangô Ajaká, “O Guerreiro que ceifa”, e o próprio Oxaguiàn, o “Comedor de inhame
pilado”, todos, particularmente relacionados com o sentido de manutenção da Ordem, da harmonia e da Justiça,
através de privações, punições e da instauração do caos desencadeado pelas correntes acionárias contrárias.
Esotericamente, Ògún representa a síntese da criação, o que o aproxima do simbolismo do centro, o qual
expressa a ideia de princípio ou de realidade manifesta e absoluta. O lugar para onde confluem todas as forças
fundamentais no intento de manifestar a obra da criação humana. O ponto que se converte a partir do um em
muitos. É o não manifesto que se converte em manifesto. De igual modo, essa relação o aproxima do
simbolismo cosmogônico associado às árvores que também figuram como expressões do centro, como a Árvore
Cósmica ou a Árvore da Vida, que em relação ao Orixá se associa ao akokò, afirmando a contínua regeneração de
todo o criado.
Um mito antigo narra que no início da Criação, a Ògún teria sido dada a incumbência de levar um saco de
terra negra para o Ayé, no local estabelecido por Oxalá para que surgisse a vida. Tendo descido pelo Pilar que
sustenta o mundo, Ògún parou para descansar no alto de um dendezeiro e dele retirou algumas folhas que, após
terem sido desfiadas, o Orixá usou para cobrir seu corpo. Caiu então uma chuva torrencial e Ògún começou a
espalhar a terra negra que trouxera consigo em todas as direções do alto da palmeira cujas folhas, o mariwò, se
converteriam em um de seus mais importantes símbolos. Da terra espalhada em contato com a chuva surgiu uma
lagoa cheia de lama e do fundo dessa lagoa emergiu Nanã já carregando em suas mãos o Ibirí, seu instrumento-
símbolo, profundamente relacionado com os processos da criação, tendo ambas as Divindades, em seguida,
propiciado todas as coisas sobre a Terra.
O mito deixa entrever a antiguidade concedida a Ògún como Divindade Primordial que auxilia
diretamente o Criador em sua obra, aspecto concedido às Divindades que se caracterizam como “ferreiros
divinos” nas mais diversas tradições antigas. Também exalta a presença do primeiro Par Criador Original,
aspecto esse que também corrobora com os ensinamentos arcaicos e a participação da água e da terra como
elementos essenciais para a manifestação da existência. Ògún, segundo afirma o mito, arranca algumas folhas de
palmeira e, após desfiá-las, utiliza-as para encobrir seu corpo. Estando as folhas das árvores associadas ao sentido
de multiplicidade da existência, Ògún reafirma então não somente a sua posição como o “Primogênito da
Humanidade”, como também exalta o sentido de coletividade e descendência que representa por meio das folhas
do mariwò.
De fato, o mariwò, além de representar a essência de todo mistério, exaltando algo que deve permanecer
encoberto, se afirma como o elemento símbolo que expressa a inteira coletividade dos seres humanos,
convertendo-se em uma das principais representações simbólicas de Ògún. De igual modo, o mito evoca o
simbolismo do centro cósmico de onde emana a criação, associada por sua vez à palmeira como a árvore
essencial reconhecida como o eixo do mundo. Assim se estabelecem as relações entre os planos espiritual e
material ou entre Ayé e Orún.
Símbolo da conectividade transcendente que entrelaça e permite o estabelecimento das relações entre os
dois mundos, Ògún se associa sobretudo ao Akokò, a árvore sagrada que, encravando suas raízes profundamente

3
No lugar do Sàsàrà, Obaluaiê Jàgún leva na mão uma lança de guerra, sendo que recebe em suas oferendas o igbín
(caracol), assim como Òxàlúfàn.
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na terra, se eleva, atravessando os nove espaços do Orún, permitindo a intercomunicação entre todas as
dimensões em que se manifesta a energia cósmica essencial. Tema recorrente ao interno da estrutura mística
africana, a árvore como símbolo essencial se revela nos mitos como a primeira coisa a ser criada no Ayé antes
mesmo do surgimento dos homens. Vincula-se estreitamente ao ì gbá ì wà nù, “o tempo quando sobreveio a
existência”, fórmula característica utilizada pelos antigos Sacerdotes quando da narrativa de seus mitos
cosmogônicos.
Assim, é pela Árvore Primordial, segundo a tradição esotérica, que descem as Divindades soberanas que
auxiliam ou que se responsabilizam pela obra da Criação, representando a mesma não somente a fonte
inesgotável de toda existência, como o elemento de regeneração cíclica do inteiro cosmos. É através da Árvore
ou do Pilar da Criação que desce Oduduá em companhia dos outros Orixás primordiais para criar o mundo,
tendo sido Ògún o responsável por lhes mostrar o caminho. Òsáyìn vincula-se ao simbolismo da Árvore do
Conhecimento, que encerra em suas folhas e galhos o segredo de toda ciência, ao passo que Oxóssi vincula-se à
Árvore da Vida; Igí Iroko se afirma como a Árvore Cósmica por excelência, identificando-se com o próprio
sentido de eternidade e permanência do Tempo, enquanto que Oxalá, embriagado, descansa aos pés de uma
palmeira esquecendo-se de criar o mundo.
Xangô se identifica com as árvores, símbolo da matéria individualizada e, consequentemente, com as
gamelas, mas também se enforca segundo os mitos em um obizeiro, símbolo da vitória essencial sobre a morte e
da continuidade da vida em todos os planos. Ibéji associa-se à Árvore da Ciência do Bem e do Mal e ao sentido
de descendência também revelado por seu pai divino, Xangô. Oxumaré, como a “Serpente Primordial” sai do
interior da Árvore da Vida para criar os rios e vales, permitindo que a água como elemento de fecundidade se
derrame por toda a Terra; Yansã auxilia a subida das Almas ao Orún, permitindo-lhes de escalarem a mesma
árvore.
Obaluaiê afirma-se como a Árvore Ancestral, a qual recebe e encerra em seu tronco o mistério dos
antepassados; Yewá relaciona-se com os aspectos da transição por intermédio do conhecimento encerrado na
Árvore da Vida; Nanã associa-se ao obizeiro como a Árvore Primordial que evoca o centro ou o eixo cósmico
onde se manifesta a vida; Logúnedé exalta o simbolismo regenerador e renovador das árvores; Oxum identifica-
se com o fruto da “Árvore Proibida” ou o conhecimento que permite a libertação do espírito e a compreensão
de sua própria encarnação. As Iyámis, símbolo do poder gerador primordial habitam o alto das árvores enquanto
que Ikú, a Morte, descansa aos pés de um grande Iroko. Exu, por fim, figura como a personificação central da
própria Árvore Cósmica, símbolo de toda expansão e de toda evolução que descende como raio manifesto
diretamente da Matriz Absoluta.
Esotericamente, as grandes árvores relacionam-se com a fonte inesgotável da própria criação ao interno
das quais se encontram o germe ou semente de toda manifestação. A palmeira particularmente se encontra
associada ao simbolismo de regeneração, ascendência e imortalidade. Ao encobrir-se com o mariwò, Ògún
afirma a continuidade dos ciclos existenciais, aspecto esse também evidenciado pelo número sete e o caráter
imortal da criação que se regenera incessantemente.
Assim como Obaluaiê se manifesta como a personificação da Terra vermelha de onde procede toda
existência, Ògún se exalta como o símbolo eterno do Amor da Divindade pelos seres criados, a partir de sua
imagem divina ou de seu reflexo cósmico. É a representação mística do inteiro conjunto de forças reunidas que
impulsionam e doam sentido à vida. É o falar, o caminhar, o agir, o movimentar, o construir, o interagir e o
desenvolver de toda a humanidade. As relações de Ògún com o Princípio Ancestral e consequentemente com as
árvores e o sentido condutor, seja no Aiyé, seja no Orún, aproxima o Orixá do simbolismo dos cães, animais
míticos associados ao mundo subterrâneo e à morte como guardiões e condutores de almas. Assume então o
aspecto psicopompo; aquele que conduz os espíritos pelo mundo dos mortos, mostrando-lhes o caminho a ser
percorrido em sua jornada evolutiva pelas esferas transitantes.
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Fora Xangô, quem segundo um mito, antigo roubou os cães de Ògún e os entregou a Obaluaiê para que o
acompanhassem desde então e lhe servissem de guardiões, expressando o mito às relações místicas entre esse
animal e as Forças ctonianas regentes dos planos intermediários. Ògún como aquele que abre todos os caminhos,
é o responsável por guiar os homens em sua jornada evolutiva quando de sua manifestação no plano da matéria,
passando a ser denominado o “Guardião do dia”, cujos cães caminham sempre à frente como companheiros
extraordinários, fazendo ver aos homens a direção a ser percorrida.
Ao roubar os cães de Ògún e os entregar a Obaluaiê, Xangô exalta miticamente o aspecto ctoniano e
noturno associado aos mesmos como aqueles que conduzem as almas em meio à região dos mortos. Assume
então Obaluaiê a titulatura de “Condutor” ou “Guardião da Noite”, aquele que guia o espírito em meio aos
planos transitórios sempre em direção a uma nova iluminação. Pertencendo à categoria de Orixás Guerreiros,
Ògún se afirma como o senhor da guerra, do ferro, do Fogo, da forja, das armas e do trabalho com metais,
estendendo seus domínios a todos os instintos agressivos e violentos da Natureza. São também recordadas suas
profundas relações com a tecnologia e o progresso alcançado pelas civilizações segundo seus estágios evolutivos,
mas também sua regência sobre a sexualidade e a fecundidade masculina, atributo esse condividido com Exu.
Na antiguidade, tanto os ferreiros como os escultores se reuniam em Confrarias secretas responsáveis por
transmitirem e preservarem o conhecimento relativo à execução das estátuas e utensílios sagrados, quer fossem
destinados aos Templos, quer fizesse parte do culto dos antepassados e demais Espíritos de cuja influência
dependia o equilíbrio da inteira estrutura religiosa e por vezes social. Associados ao Princípio Masculino da
existência, o aspecto do direito e ao próprio mistério da manifestação da criação, os antigos sacerdotes de Ògún
constituíam uma confraria secreta interdita às mulheres, os quais exaltavam a asseguração do poder fecundador,
assim como a sociedade das Iyámis exaltava o poder gerador feminino, sendo o culto e a ritualística do Orixá
permeados ainda hoje por Fundamentos e preceitos de natureza sigilosa.
Ferreiro divino, Ògún se exalta como o senhor de todos os metais, aspecto esse que abarca tanto o
simbolismo ctoniano relacionado com os processos de transformação, como também revela o aspecto
sustentador da civilização em virtude dos utensílios e ferramentas necessários ao desenvolvimento e equilíbrio da
inteira ordem social. Denominado Alagbedè, é o Orixá “aquele que forja” os princípios animadores da matéria
simbolizados pelos metais, cujo fogo purificador e regenerador transforma todos os estados. Esse aspecto
permite o aperfeiçoamento por intermédio da libertação de todo condicionamento humano, o que se dá através
dos estados de experimentação, associados por sua vez à Lei de Ação e Reação.
Dessa forma, Ògún passa a possuir tanto uma natureza divina e celeste, associada aos processos de
regeneração e restabelecimento de todo desequilíbrio, como também encarna o papel do “destruidor das
formas”, aquele que impulsiona a natureza humana ao conflito represetado pelo desejo em reencarnar.
Convertendo os estados de solidificação da matéria de modo que o puro possa se separar do impuro, o que faz
por meio da exposição dos metais (símbolo da matéria física) ao fogo de sua forja, Ògún encarna o aspecto do
“Ferreiro sacrificador” que impulsiona a Alma ao renascimento na Luz.
O metal em estado líquido, essencialmente espiritual, deve ser forjado ou moldado, ou seja, deve “cair”
novamente na matéria, de modo a renascer segundo uma outra forma. Ao final do ciclo existencial, a matéria é
exposta mais uma vez ao fogo consumidor da natureza inferior do desejo, regressando a seu estado original de
iluminação. De igual modo, o metal que se derrete em contato com o fogo ardente da forja de Ògún, o qual
segundo os mitos ora é mantido aceso por Yansã, ora por Oxum, ambas as Deusas possuidoras do fole cósmico
associado ao “sopro” que controla o ritmo da própria vida, encarna o simbolismo de libertação do Espírito dos
estados solidificados da matéria ou o desejo ardente em evoluir.
A vinculação dos metais com o fogo e a forja expressa misticamente todos os processos de purificação e
transmutação da matéria do bruto ao luminoso. Considerados ejés ou sangues do interior da Terra em estado
sólido e síntese mística da matéria planetária, os metais findam por representar a totalidade das energias
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universais solidificadas ao interno da Terra. A presença das substâncias fundamentais contidas no Todo em meio
ao plano da matéria e ao interno do corpo humano, carregado de metais. Dessa forma, Ògún passa a simbolizar
todas as substâncias minerais presentes no corpo e os processos de durabilidade da matéria, sendo caracterizado
como o “sustentador da estrutura física”. Assim, fósforo, cálcio, carvão, magnésio, sal, enxofre, alumínio,
chumbo, ferro, cádmio, cobre, zinco e outros componentes presentes na estrutura orgânica do homem figuram
como manifestações da energia purificadora e equilibradora simbolizada por Ògún.
Mas se Ògún é o Ferreiro ou o “Construtor”, o Fogo impulsionador da existência corpórea, Yansã,
considerada sua esposa mítica, é o “Sopro divino”, aquela que permite a descida do espírito para animar a
matéria e que doa ao homem sua centelha espiritual. Yansã e Ògún relacionam-se com a totalidade das forças
ígneas em manifestação, mas também com o aspecto do “Ferreiro” e do “Justiceiro” cósmico, os “fecundadores”
por excelência. Ssintetizam a interação original entre as forças masculinas e femininas, associando-se ao touro e
ao carneiro, a simbolizar o aspecto viril e fecundo não dos homens como criaturas em si, mas sim de toda a
Natureza, uma vez que o carneiro simboliza as forças genésicas que despertam o impulso sexual e por
conseguinte a continuidade e a permanência dos ciclos existenciais.
Criador e destruidor, Ògún caracteriza ao lado de Yansã o impulso sexual animador da vida, associado, por
sua vez, ao fogo e ao intenso desejo de manifestar-se a criação no plano das formas, mas também ao desejo
caótico, desordenado e destruidor de usufruir das forças sexuais apenas como elemento de auto-satisfação,
dando então geração ao desequilíbrio. Impulso sexual feminino, ao lado de Ogum, Yansã expressa o fogo que
forja, que integra, constrói e permite o progresso. Sintetiza assim o fogo da vida; aquele que doa sentido à
própria existência e que percorre todas as veias do corpo através do coração, afirmando dessa forma a presença
do macrocosmo no micro. É o fogo do conhecimento. Aquele que permite ao homem sair da escuridão e que o
converte em espírito em ascensão.
Seja como for, Ògún assume energeticamente a regência sobre a própria vitalidade do corpo físico,
vinculando-se profundamente com a corrente sanguínea e o sistema nervoso, exercendo domínio sobre a
sexualidade, quando então encarna o aspecto do “garanhão” reprodutor, o “Grande carneiro fecundador” que
pela preservação do aspecto masculino da Natureza, permite a continuidade e a descendência, sendo dessa forma
considerado “Aquele que distancia a Morte”. Animal associado tanto à Ògún quanto à Xangô, o carneiro
simboliza o inteiro conjunto das forças genésicas que se movem e se interagem, de modo a permitir a
manifestação da vida por meio do instinto de reprodução. Relacionado com os atributos de poder e autoridade,
os chifres do carneiro possuem simbolismo solar vinculando-se à exaltação da força vital, da capacidade
reprodutora e da fecundidade e virilidade de toda a Natureza.
Grande fecundador cósmico, Ògún abarca o simbolismo do garanhão, do procriador, do macho viril que
encerra em si todas as potencialidades genésicas representadas pelos poderes encerrados no sangue, acostando
sua energia àquela de Yansã e suas relações com a fertilidade da Terra. Dotado misticamente de natureza ígnea, o
carneiro simboliza o desencadear da força ou do princípio animal no homem, a virilidade original e o impulso
primordial da vida. Representação das forças agressivas da natureza simbolizadas pelo vermelho, o carneiro
encerra o simbolismo tumultuado, impulsivo, incandescente, convulsivo, colérico, violento, ardente e perigoso
característico dos arquétipos de Orixás como Ògún, Xangô e Yansã.
Esotericamente, no carneiro habita a essência da vida, o impulso criador, o desejo em se manifestar e o
princípio da reprodução dos seres, características também evidenciadas em Ògún. Contudo, em seu aspecto mais
primitivo e brutal, a simbolizar a sede do fogo criador no próprio homem, sentido esse reconhecido na afirmação
que “Ògún tendo água em casa, se lava com sangue”, o que caracterizou inúmeros erros de interpretação que
findaram por associar o Orixá a todas as formas de violência, o que obviamente não é verossímil do ponto de
vista simbólico e esotérico.

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Seja como for, Ògún evoca o Poder característico das Divindades fecundadoras que exercem pleno domínio
sobre a agressividade original, passando a controlá-la tanto em seu aspecto positivo quanto negativo,
representando criação e destruição a um só tempo. Em essência, o carneiro assume a representação das forças
originais que animam o fogo e que determinam seu caráter criador e destruidor, vinculando os seus chifres
espiralados à própria manifestação da inteligência criativa, bem como ao impulso espiritual em se materializar no
plano das formas por meio de um novo ciclo de evolução.
Nesse contexto, o vasto simbolismo primordial e essencial que acompanha Ògún, permite sua
identificação arcaica como Divindade Original responsável por auxiliar diretamente a Divindade nos processos
da Criação. A manifestação diferenciada da Unidade em seu intento de moldar ou edificar todas as formas
existentes. Prerrogativa seguramente perdida ao longo dos séculos com o advento de novos conceitos
cosmogônicos e com a substituição de seus valores esotéricos por outras Divindades e que se atém ao
simbolismo cósmico do ferreiro divino.
Esotericamente, os Deuses ferreiros responsáveis pelos processos de transformação e que comparecem no
início da criação se apresentam como um tema recorrente em inúmeras tradições antigas. Ao manipular a forja, o
Deus ferreiro purifica e solda todas as partes, simbolizando Ògún a organização ou estruturação dos seres vivos
a partir da matéria original. Manifestando-se não como o próprio Criador, mas sim como um reflexo emanado
diretamente de sua fonte original, o ferreiro se afirma como “aquele que auxilia” e que se reveste no plano das
formas como o organizador de todas as coisas criadas.
Tal aspecto encontra-se evidenciado nos mitos em que Ògún comparece como o responsável pela
fundição do Opaxorô de Oxalá, do Oxé de Xangô, das espadas de Yansã e Obá, dos Abebès de Oxum e
Yemanjá, do Opá de Ossaím, das ferramentas símbolos dos Orixás e claro, de seu próprio machete e de sua
espada sagrada, o que lhe outorga a primazia sobre a atividade criadora essencial, responsável pela inteira
organização do mundo. Esotericamente, o machete ou martelo de Ògún, com o qual ele golpeia incessantemente
o ferro, associa-se à atividade divina e ao impulso criativo que todas as coisas colocadas em movimento doando-
lhes sua razão de ser.
Símbolo da ação do Demiurgo no início e no fim de cada grande ciclo universal, o martelo divino de Ògún
representa a Vontade celeste que executa as Leis Universais, evocando todo esse rico simbolismo as
prerrogativas do Orixá como a Divindade detentora do poder de manifestação da existência. Aquele que faz com
que as coisas aconteçam. O sentido da manifestação que por intermédio da vontade dirigida estabelece a ordem,
civilizando o mundo. Ferreiro, Ògún estabelece as relações entre o ferro, o fogo e a forja, todos eles símbolos do
domínio do espírito ou da inteligência sobre a força bruta. Receptáculo onde se fundem todas as formas, a forja
relaciona-se com o útero da Terra, cujo calor transforma todas as formas que irão renascer, determinando as
relações ocultas entre o espírito e a matéria sublimada pelo aperfeiçoamento.
O ferro golpeado incessantemente representa a própria criatura humana sendo moldada segundo as
necessidades de sua evolução. O fogo queima e incandesce, destruindo as imperfeições, enquanto que a água
executa o seu papel como regeneradora e estabilizadora de toda forma. Funde-se assim equilibradamente os
opostos, o que converte Ògún na Divindade responsável pelo amadurecimento ou aperfeiçoamento evolutivo do
próprio homem enquanto matéria que necessita ser constantemente testada no fogo divino e no fogo terrestre.
Como Èxú, Ògún é detentor de um poder divino que lhe doa o direito de forjar ou organizar o inteiro
cosmos, dando-lhe um sentido, podendo esse poder ser utilizado tanto contra os homens como contra os
Deuses, uma vez que a atividade depende de sua força para ser transformada de maneira coerente. Conhecedor
profundo dos mistérios relacionados com o mundo ctoniano, o Orixá relaciona-se com o fogo subterrâneo, mas
também com aquele celeste, abarcando tanto os aspectos de iluminação quanto aqueles da destruição e
regeneração cíclica de todas as coisas. Ògún é aquele que possuindo a Luz divina ou celeste, faz arder às chamas
do mundo inferior, impulsionando todos os estados de transição, o que o qualifica como Divindade ctoniana
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responsável pelos processos de purificação e ajustamento das Almas. Manifestando-se como Warin, o Feiticeiro
noturno, cujo poder se relaciona com os Antepassados, encarando o aspecto de psicopompo, aquele que guia os
espíritos pelo mundo dos mortos, mostrando-lhes o caminho a ser percorrido em sua jornada evolutiva pelas
esferas transitantes.
“Condutor” no Ayé e no Orún, responsável por guiar os homens em seu caminho evolutivo quando de sua
manifestação no plano da matéria, passa a sê-lo também quando da transição do Espírito para as regiões
intermediárias. Denominado o “Guardião da noite” cujos cães caminham sempre a sua frente como guias
extraordinários, fazendo ver aos homens a direção a ser percorrida. Como Xangô, Ògún também encarna o
papel de “executor da Justiça divina”. Contudo, enquanto Xangô ergue seu Oxé, o duplo machado, evocando a
justiça do alto segundo os atos, Ògún é aquele que mantém sua espada voltada para baixo a decretar o
ajustamento ou a necessidade de equilibrar os desajustes pelas ações imparciais da Lei que disciplina e pune o
faltoso segundo o peso de seus atos.
É então que o Orixá se manifesta como Onijé, o Justiceiro que age violentamente por meio dos processos
ajustadores da Lei, assumindo para si todas as prerrogativas como Juiz e ordenador de todo caos ou antagonismo
desencadeado pelas ações não pensadas ou não pesadas, mantendo relações profundas com “Yansã Igbalé”, a
“Senhora dos Eguns”. Reconhecido como a “Vontade do Criador” em pura atividade evolutiva. A conexão entre
o fogo celeste puramente espiritual e aquele material representado pela sabedoria. A força vital que anima a
matéria e que se projeta como o impulso de elevação da Alma em direção ao Criador, Ògún é o Fogo divino que,
penetrando na forma, aciona a vontade do ser em se transformar e expressar sua razão de ser, aspecto
evidenciado no mito onde o Orixá toma Obá à força, estabelecendo assim os combates entre Alma e
personalidade, de modo que através das inúmeras lutas internas travadas pelo espírito ao longo de sua cadeia de
reencarnações ele possa novamente se fundir na forja com o Todo, onde novamente metal em estado líquido se
converterá apenas em essência, transformando-se em criatura imortal.

Flávio Juliano:.
Dirigente

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