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ANAIS ELETRÔNICOS ISSN 235709765

PÓS-COLONIALISMO E AUTOFICÇÃO NA CONTÍSTICA DE LÍLIA


MOMPLÉ: “ACONTECEU EM SAUA-SAUA”, “O BAILE DE CELINA”
E “NINGUÉM MATOU SUHURA”

Maria Aparecida Nascimento de Almeida (PPGLI/UEPB) 1


Olavo Barreto de Souza (PPGLI/UEPB) 2

RESUMO
Subintitulada Estórias que ilustram a História, a obra literária Ninguém matou Suhura
(1988), de autoria da moçambicana Lília Maria Clara Carriére Momplé, oportuniza a
apreensão da realidade vivenciada no país de origem da supracitada escritora entre os
idos de 1935 e 1974, período de intensa instabilidade e hostilidade ocasionadas pela
violência colonial a qual eram submetidos seus compatriotas. O presente artigo aborda
a ficção contemporânea produzida em Moçambique sob uma dupla concepção: (1)
pós-colonial, aqui concebida como um conjunto de práticas discursivas de
enfrentamento as ideologias coloniais através de obras literárias que denunciam as
agruras do “ser” colonizado submetido à degradação física/moral e (2) a autoficional,
tendo em vista o fato da referida autora empreender uma perspectiva de escrita de si,
enquanto sujeito oprimido e comunidade subjugada por questões econômicas, sociais
e raciais, externadas a partir da ficcionalização de experiências próprias e alheias que
justificam a resistência aos resquícios da colonização, sinônimo de escravidão. Para
tanto elencamos três dos cinco contos que compõem a coletânea: Aconteceu em Saua-
Saua, O baile de Celina e Ninguém matou Suhura, a fim de analisar aspectos inerentes
ao pós-colonialismo e autoficção conforme problematização de Leite (2012), Klinger
(2007) e Fanon (2005), Bonnici (2009), Santos (2010), Colonna (2014) dentre
renomados autores que dedicam-se a linha de pesquisa aqui empreendida.

Palavras –Chave: Pós-colonialismo. Moçambique. Autoficção. Lília Momplé.

1
Graduada em Letras, pela Universidade Estadual da Paraíba; mestranda no Programa de pós-
graduação em Literatura e Interculturalidade, da mesma universidade. E-mail:
<ci.di.nhampb@hotmail.com>.
2
Graduado em Letras, pela Universidade Federal de Campina Grande; mestrando no Programa de pós-
graduação em Literatura e Interculturalidade, da Universidade Estadual da Paraíba. E-mail:
<olavo.barreto@live.com>.
Universidade Federal de Campina Grande
Programa de Pós-Graduação em Linguagem e Ensino 1
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INTRODUÇÃO

“A liberdade nunca é voluntariamente concedida pelo opressor; deve


ser exigida pelo oprimido”. (Martin Luther King)

O termo pós-colonial pressupõe necessariamente, e não unicamente, uma


noção temporal, haja vista o fato de a anterioridade ser imprescindível para existência
da posterioridade sinalizada semanticamente pelo prefixo pós. Desta forma, refletir
acerca do pós-colonialismo levando em consideração exclusivamente a cronologia
histórica é não apenas desconsiderar o discurso de resistência que permeia as
entrelinhas desse vocábulo, como também debruçar-se sobre uma pesquisa
desafiadora, afinal “Quando foi o pós-colonial?” em uma conjuntura política propicia
ao neocolonialismo como a que se configurara em Moçambique após a independência
ocorrida em 25 de junho de 1975, onde aliados, no embate contra a colônia,
transmutaram-se em inimigos na escalada pelo poder, ocasionando uma devastadora
e prolongada guerra civil que durou 16 longos anos, causando destruição, morte e
impulsionando o êxodo interno na pretensão de sobrevivência, pois os embates
associados a seca extrema que assolou o país dizimou milhares de pessoas.
Pelo exposto, torna-se notório que o questionamento provocativo de Stuart
Hall é retórico e evidencia a inviabilidade de uma abordagem puramente temporal,
pois os efeitos do colonialismo não ficaram submersos, ecoando até
contemporaneidade não apenas no território moçambicano, mas em todas as ex-
colônias de exploração, portuguesas ou não, haja vista a prevalência de uma estrutura
política colonizadora que impedia a autonomia do território “conquistado”, efetivando
uma dominação acirrada do espaço geográfico, através da extração dos recursos
naturais e minerais, como ocorrera no Brasil, e da subalternização dos habitantes,
conduzidos a um quadro de esgotamento físico e mental como averiguado em
Moçambique, onde concretizou-se um projeto colonial de coisificação e subjugação
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dos seres humanos, seja através da escravização e comercialização, seja através da


coerção e constate dominação a qual os colonos eram submetidos durante a
hegemonia portuguesa, conforme constatamos ao analisar os contos: Aconteceu em
Saua-Saua; o Baile de Celina e Ninguém Matou Suhura de autoria da escritora Lilia
Momplé.
Ressalte-se que a representação ficcional dessas “estórias que ilustram a
história”, sob a ótica feminina, propiciam uma dupla perspectiva de investigação da
subalternização: do “ser” colonizado e do “ser” mulher numa sociedade
eminentemente patriarcalista, pois a autora em questão trás à tona conflitos coloniais
individuais e coletivos com a propriedade de quem vivenciou e presenciou a
hostilidade de gênero, já que duplamente subalternizada, a mulher foi, e continua
sendo, silenciada sobretudo no sul de Moçambique, já que no norte do país ainda
configura-se estruturas familiares matrelineares, aqui citadas a título de informação,
pois persiste significativamente o poderio patriarcal ao longo das terras
moçambicanas.
Desta forma, torna-se pertinente propor não apenas uma investigação pós-
colonial como também autoficcional, já que compreendendo uma linha temporal de
1935, ano de nascimento da autora, a 1974, ano anterior à independência de
Moçambique, a obra literária Ninguém Matou Suhura sugere um caráter testemunhal,
evidenciado tanto nos contos do supracitado livro, como também nos raros momentos
de exposição pública da escritora (entrevistas, conferências, palestra, etc.) o que nos
possibilita a compreensão dos sujeitos pós-coloniais, do real ao ficcional, como
“produtos de uma época, mas do que sucessores dela” (LEITE, 2012, p.129).
Portanto, evidencie-se que nosso intuito não é propor uma discussão a-história
nem incentivar a persistência de contendas (colonizador X colonizado), mas refletir
acerca das consequências que o período colonial acarretou a vida da população
moçambicana, a quem foi historicamente negado o acesso ao lugar de fala, hoje
concedido sob a pena da literatura que revela as agruras dos “seres”: colonizado e
duplamente colonizado em Moçambique.

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1 DA SUJEIÇÃO A RESISTÊNCIA: O DISCURSO PÓS-COLONIAL E AUTOFICCIONAL

1.1 Pós-colonialismo: noções e análises preliminares

Trazer ao centro da discussão a literatura pós-colonial, constitui-se como


empreendimento delicado, tendo em vista a problemática que envolve o uso desse
adjetivo, que se concebido exclusivamente a partir do prefixo “pós” dá margem a uma
série de questionamentos, pelo fato de semanticamente relacionar-se a
posterioridade, ao “depois” do colonial.
Para além do posicionamento crítico de Stuart Hall em sua obra Da diáspora:
identidades e mediações culturais (2003), onde indaga quando foi o pós-colonial?
Conforme elucidado anteriormente, outras questões merecem reflexão a fim de
corroborar nosso posicionamento analítico, pois é a coerência das réplicas às
contestações de uso do termo pós-colonial, que evidenciam sua adequação e
aplicabilidade aos estudos literários.
Desta forma, destacamos como ponto de partida duas vertentes de raciocínio
que combatem o pós-colonialismo, a saber: a que concebe o vocábulo, unicamente,
em sentido cronológico, haja vista a corrente utilização do mesmo por historiadores,
que após a II Guerra Mundial adotavam-no numa referência as nações recém
independentes, e a que considera tal nomenclatura inapropriada por sugerir o
fechamento de um ciclo passado, indigno de ser pensado por não oferecer vínculo com
o presente, as quais aliadas culminam na problematização de Hall (2003), pois
evidenciam um caráter cronológico, consequentemente ultimado de uma época.
Discordando de ambas as perspectivas, não pela ausência de lógica, pois tais
reflexões são extremamente pertinentes, mas pelo cunho reducionista; adotamos a
terminologia pós-colonialismo, conscientes de que a teoria e crítica basilar para análise
literária sob esta vertente de discurso, deve levar em consideração não apenas a
historicidade do período colonial, como também as consequências deste para os

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países, e principalmente, para os sujeitos que vivenciaram as agruras de uma


colonização territorial, física e mental, pois os que resistiam a assimilação e
exploração, eram punidos com castigos corpóreos, que visavam exterminar qualquer
foco de resistência, moldando comportamentos e ocasionando conflitos subjetivos:
étnico, raciais e culturais persistentes até a atualidade.
Assim não se pode conceber o pós-colonialismo como tendência a-histórica e
impensável, pois seus reflexos ainda se podem sentir sofregamente até
contemporaneidade, o pós-colonial ainda não foi, permanece e só será pretérito
perfeito, nas palavras de Fanon (1968) quando se concretizar a “descolonização do
Ser” e é nessa concepção de embate que os literatos se dedicam a refletir acerca do
pós-colonial. Reivindicado o acesso ao lugar de fala outrora negado, os escritores, tal
qual Lilia Momlé, reconciliam a “tragédia e a língua”, não numa perspectiva submissa,
mas de enfrentamento, pois valem-se dessa estratégia de dominação a fim de
denunciar em todo o universo lusófono a degradação humana ocasionada por um
projeto colonial de exploração e subalternização, o que não seria possível se as
produções literárias fossem restritas as línguas nativas.
Tal empreitada, de resistência discursiva, torna-se possível a partir da década
de 1970, com a publicação da obra Orientalismo, na qual o palestino Edward Said
reflete como o olhar do outro perpetua um discurso de dominação; reivindicando o
direito de falar sobre si, o supracitado autor evidencia em sua escrita que a “criação”
do Oriente sob a ótica ocidental, constitui-se como uma estratégia de manutenção do
poder, a qual assemelha-se a empreendida sobre a África, já que a “invenção” do
continente africano sob o prisma europeu perpetua a sobreposição deste e a
subordinação daquele.

2 Do pós-colonialismo a autoficção

Pelo exposto, torna-se público e notório que os estudos pós-coloniais surgem


de uma necessidade de investigar as relações de poder imbricadas entre os sujeitos

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(colonizador X colonizado) envolvidos nos processos de colonização/pós-colonização,


tendo como foco da resistência, a emanação do lugar de fala que delineia o
enfrentamento as posições-sujeito impostas pela conjuntura colonial. Santos (2010) e
Bonnici (2009) enfatizam a importância desses estudos a fim de averiguar a
constituição da escrita e do discurso literários empreendidos com ações da objeção
dos sujeitos que escrevem, tal qual torna-se perceptível na obra da escritora
moçambicana Lilia Momplé, autora dos livros: Ninguém matou Suhura (contos, 1988),
Neighbours (romance, 1996) e Os olhos da cobra verde (contos, 1997) os quais figuram
no cenário contemporâneo como escopo de projetos literários pós-colonialistas,
adjetivo aqui concebido como sinônimo de resistência; o que nos é revelado, no caso
da obra que nos propomos a analisar, primordialmente, pelo subtítulo, elemento
paratextual que elucida a perspectiva de escrita adotada pela autora, pois ao afirmar
que as “estórias” de crueldade ali narradas, “ilustram a história”, esta procura,
segundo Santos (op. cit., p. 343) “[...] subverter, tanto temática, quanto formalmente,
os discursos que sustentam a expressão colonial”, colocando-se numa posição de
embate ao colonizador, responsável por trágicos e sanguinários capítulos da história
de Moçambique.
Assim, O termo pós-colonialismo [...] é passível de englobar além dos escritos
provenientes das ex-colônias da Europa, o conjunto de práticas discursivas, em que
predomina a resistência às ideologias colonialistas. (LEITE, 2012, p. 129-130), o que
evidencia que a adoção de uma postura pós-colonialista não pressupõe a
nacionalidade, mas a conduta adota perante o colonialismo.
Vale salientar que Leite (2012, p. 129-130) inclui no âmbito dos estudos pós-
coloniais além das estratégias discursivas, também as “performáticas (criativas, críticas
e teóricas)” o que leva-nos, nesse contexto, a compreender os literatos na concepção
de Klinger (2007, p. 55),

O autor é considerado como sujeito de uma performance, de uma


atuação, um sujeito que “representa um papel” na própria “vida

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real”, na sua exposição pública, em suas múltiplas falas de si, nas
entrevistas, nas crônicas e auto-retratos, nas palestras.

Pelo exposto, defendemos que a referida conduta de produção dos escritores


favorecem o estabelecimento de um pacto ficcional com o público leitor, mas é
importante salientar, que mesmo apresentando uma postura reservada, no que toca
sua exposição pública, Lília Momplé em entrevista concedida a Revista Literatas, na
qual foi homenageada em 2012, oferece-nos indícios da perspectiva autoficcional
adotada, os quais permite-nos relacionar sua vida com a personagem Celina, do conto
posteriormente analisado. Assim, para além das proposições específicas relacionadas à
obra da supracitada autora, em sentido geral, concebemos a autoficção como,

[...] a ficção que eu como escritor, decidi apresentar de mim mesmo


e por mim mesmo, incorporando, no sentido estrito do termo, a
experiência de análise, não somente no tema, mas também na
produção do texto. (DOUBROVSKY apud KLINGER, 2007, p. 52)

A autonomia de análise do tema, da qual dispõe o autor que dedica-se a


empreender uma escrita autoficcional, possibilita liberdade não apenas na temática
como também na abordagem e estrutura textual propostas, o que leva-nos a defender
a hipótese, no caso de Lilia Momplé, de um duplo quadro de escrita de si: individual,
enquanto sujeito que vivencia conflitos particulares, os quais são transpostos para
ficção, como constatamos no conto O baile de Celina, e étnica, já que a autora, tal qual
seus compatriotas moçambicanos, enfrentou privações, cobranças e sujeições, que
iguala-os pela impossibilidade de resolução dos conflitos, pois a resistência ao sistema
colonial pressupunha necessariamente a opressão e a morte, conforme constatado
nos contos: Aconteceu em Saua-Saua e Ninguém matou Suhura, nos quais a escritora
ficcionaliza fatos ocorridos com outrem, mas que a comove, o que é perceptível no
relato do narrador, pela sua pertinência àquela etnia subjugada e massacrada. Tal
assertiva possibilita uma ótica autoficcional enquanto comunidade oprimida, onde o
falar sobre si, pressupõe o falar sobre o outro, e o falar sobre outro, revela a sujeição

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de si, já que ambos, o eu e o outro, compartilham dos mesmos receios e anseios,


desconsiderados e silenciados pelo colonizador.
Ao adotarmos as designações escritas de si: individual e étnica (coletiva), Vicent
Colonna trata-as como autoficcção: biográfica e intrusiva (autoral) as quais são assim
explicadas,

A autoficcção biográfica
Definição- o escritor continua sendo o herói de sua história, o pivô
em torno do qual a matéria narrativa se ordena, mas fabula sua
existência a partir de dados reais, permanece mais próximo da
verossimilhança e atribui a seu texto uma verdade ao menos
subjetiva ou até mais que isso. (COLONNA, 2014, p. 44)

A autoficção intrusiva (autoral)


Definição – Nessa postura, se pudermos considera-la de fato como
tal, a transformação do escritor não acontece através de uma
personagem, seu intérprete não pertence à intriga propriamente
dita. O avatar do escritor é um recitante, um contador ou
comentador, enfim um “narrador-autor” à margem da intriga. [...]
Nessa “intrusão do autor”, o narrador faz longos discursos, [...]
garante a veracidade dos fatos ou os contradiz [...] (idem, p. 56)

Desta forma, evidenciamos a existência de ambas as perspectivas nos contos


analisados, pois no Baile de Celina, autora constrói personagens e ambienta a narrativa
em espaços que remontam a sua vida, em “Ninguém matou Suhura” e “Aconteceu em
Saua-Saua”, observamos um “narrador-autor” tão onisciente, como introspectivo,
configurando-se como aquele que não apenas sabe, mas sente o sofrimento do outro.

2 O SER COLONIZADO: ACONTECEU EM SAUA-SAUA

O conto Aconteceu em Saua-Saua, temporalizado em junho de 1935, narra à


dramática e comovente história de Musa Racua, humilde camponês da etnia macua,
recrutado pela administração colonial para o plantio de arroz, com a incumbência de
gerar o lucro que lhe foi imposto a partir da produção de arroz determinada. Como
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naquele ano a seca castigara o pais, este lança-se numa incessante marcha a fim de
conseguir os dois sacos de arroz que lhe faltam para alcançar a meta estipulada,
desolado por conhecer a punição imposta aos que não alcançavam o propósito,
destinado a jamais voltar a plantação de sisal e temendo ser abandonado pela segunda
esposa, esta personagem resolve pôr fim a própria vida, como forma de resistência a
opressão colonial.
Para além das inúmeras e frutíferas possibilidades de análise fornecidas por
esse conto, optamos por enfatizar os discursos de poder associados aos processos de
subalternização empreendidos por aqueles que possuem status de dominador. Para
tanto selecionamos no referido conto dois trechos nos quais o colonizador impõe sua
força de dominação sobre o colonizado, de modo a este deixar transparecer em sua
performance corporal e postura psicológica a valorização do dominante, neste
processo, inicialmente, encontramos, nos momentos finais do conto, o seguinte
excerto:

Horas depois, um camponês seco e esfarrapado é introduzido quase


à força no gabinete do administrador. O homem é constantemente
sacudido por tremores que não consegue reprimir. O Língua, um
mulato mal-humorado, fala por ele. Já tinha ouvido a história toda
em macua e conta-a agora em português. (MOMPLÉ, 2009, p. 19).

Destacamos dois pontos neste trecho. O primeiro refere-se ao modo de o


camponês se apresentar, em seu desempenho corporal, no gabinete do administrador.
O “tremor”, signo do temor, saldo da dominação que impõe ao camponês uma posição
menor e, portanto, vulnerável, releva o modo de como as relações de poder estão
inscritas na narrativa. O não conseguir reprimir, citado pelo narrador que observa a
cena com minúcia, pode ser considerado como um índice do grau de dominação.
Neste caso, as relações impositivas custam um grande contingente de temor, de
domínio sob o corpo do subalterno, que manifesta sua submissão pelo descontrole do
seu nervosismo por estar diante do administrador. O segundo ponto refere-se à
presença do Língua que traduz do macua, língua autóctone, para o português, língua
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da colonização. O aspecto da subalternização, neste exemplo, qualifica como menor as


expressões de linguagem do homem em posição inferiorizada no processo colonizador.
Expressar-se em macua é uma marca minoritária, irrelevante para a comunicação, no
excerto. Tal processo, o de comunicar, está interditado, de modo imediato, sendo
necessária a mediação de um sujeito que está em um lugar que engendra a relação de
poderio entre o polo da socialização de domínio e da dominação, cuja interação só
pode ocorrer de modo pleno pelo artífice, neste trecho do conto, do Língua.
Outro momento que nos chama atenção, refere-se ao modo de tratar do
administrador com a situação empreendida na narrativa, cuja afetação, pelo ocorrido,
é tomada com sentimento de repulsa, outra marca da dominação:

Os dramas dos negros não lhe interessam, ou melhor, irritam-no! Por


isso, não suporta os preâmbulos do Língua. Esse, que gosta de
traduzir tudo minuciosamente, fica desorientado com as pressas do
administrador. [...] Sem o ver, o administrador segue-o com os olhos
até a porta. Depois, voltando-se com uma raiva impaciente: - Esses
cães, assim que lhes cheira a trabalho, arranjam sempre chatices. Ou
fogem ou suicidam-se. Maldita raça! (MOMPLÉ, 2009, p. 20-21).

Os dramas, ou melhor, a vivência do negro, considerados pelo poderio colonial


menor em relação ao branco dominador, é o fulcro da irritação do administrador. O
tratamento por “cães”, no trecho, evidencia o aspecto valorativo do colonizador. Essa
mesma adjetivação pejorativa pode ser encontrada no sintagma “Maldita raça”. Além
disso, outras marcas concorrem para a ambientação da irritação, como exemplo
“Depois, volvendo-se com uma raiva impaciente”. São elementos que inscrevem o
grau de apatia do dominador em relação ao dominado.
No que tange a autoficção, aqui denominada étnica, destacamos a pertença da
personagem Musa Racua a mesma etnia de Lilia Momplé, os macuas, que tem seus
sofrimentos transpostos para língua do colonizador, sob uma voz autoral e narracional
que vale-se do português não para ratificar o discurso colonial, mas para combatê-lo
vorazmente.

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3 O SER DUPLAMENTE COLONIZADO: O BAILE DE CELINA E NINGUÉM MATOU


SUHURA

Se a subalternização imposta pela colonização já ocasionara a degradação


humana, qual não é o desalento do “ser” duplamente colonizado: pelo sistema e por
questões culturais de poder que sujeitam o gênero feminino a mais sôfrega forma de
submissão. Este é o ponto de partida para análise dos contos “O baile de Celina”, onde
além dos conflitos coloniais, enfocaremos a autoficção individual e “Ninguém matou
Suhura”, onde o poderio, a violência e a impunidade são levados ao extremo.
De 1935 a 1950, “O baile de Celina” é ambiento em Lourenço Marques, antiga
designação da cidade de Maputo, capital de Moçambique, quinze anos após a
comovente história de Musa Racua. Nesta narrativa verifica-se a obsessão de D.
Violante pela formação educacional de Celina.

[...] D. Violante vai-se consumindo alegremente, colada dia e noite à


máquina de costura para que não falte o dinheiro para as propinas,
os livros e a roupa da filha. E, quando esta por vezes se lamenta do
desprezo ou da indiferença dos colegas, ela responde num tom de
inabalável confiança: - Estuda, filha! Só a instrução pode apagar a
nossa cor. Quanto mais estudares, mais depressa serás gente!
(MOMPLÉ, 2009, p. 51)

No trecho acima encontramos o modo de sujeição do subalternizado ao


discurso do colonizador, pois no imaginário assimilado de D. Violante, a instrução é
uma espécie de ascese a classe superior, cujo saldo desse processo é o apagamento da
cor que pressupõe o “ser gente”. Condição primordial para ascensão social.
No caso do conto, o estado de indiferença por ser negro, pode ser superado a
partir da educação, pois na concepção da mãe de Celina a instrução iguala os seres
humanos, independente da cor. Muito embora seja esta a cosmovisão de D. Violante, a

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condição racial está marcada de modo determinista, pois apesar dos esforços da
genitora e sua filha, esta será proibida de participar do baile de formatura,

- Quero avisar-vos que não podem ir ao baile dos finalistas [...] Sem
dúvidas que vocês compreendem [...] Vem o senhor Governador-
Geral e pessoas que não estão habituadas a conviver com gente de
cor. E vocês também não haviam de sentir-se à vontade no meio
deles! Para evitar aborrecimentos de parte a parte, achamos melhor
vocês não irem ao baile[...]. (MOMPLÉ, 2009, p. 50-54)

Assim, desmoronam os sonhos de Celina e D. Violante, pois constataram que


no sistema colonial de exploração não existe meios de igualar-se ao dominador, já que
até a assimilação pressupõe subordinação, a língua, religião e cultura do colonizador.
Com relação à autoficção, aqui referenciada como individual, apontamos
aspectos biográficos da autora que tal como Celina estudou no colégio Luís Salazar e
contou com o auxílio da mãe, também costureira, conforme revelado por Lília Momplé
à revista Literatas,

[...] aos 13 anos, estudei no Liceu Luís Salazar, uma escola que era
apenas para brancos e pessoas com as melhores condições. Eu era a
única negra e minha mãe teve que fazer muito sacrifício para que eu
estudasse lá. Ela passava noites a costurar para poder pagar a minha
escola, foi uma fase muito difícil. Foi mesmo um acto heroico estudar
lá. (MOMPLÉ, 2012, p. 09)

Se a experiência autoficcional individual, em O baile de Celina propicia um


debruçar-se sobre uma nuance da violência simbólica, em Ninguém matou Suhura,
deparamo-nos com atos de violência: física, moral e sexual.
Adolescente que ainda não desenvolvera o corpo de mulher, Suhura passa a ser
cobiçada pelo administrador da província a partir de um encontro casual com o
mesmo, que não aceita a recusa de sua avó em saciar os seus desejos carnais e põe em
ação a equipe de cúmplices a fim de satisfazer os seus instintos, pois,

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O senhor administrador nada sabe sobre a rapariga, nem sequer o
nome. É apenas mais uma bela negrinha que lhe passa pelas mãos,
sem dúvida muito menos importante para ela que qualquer dos seus
animais de estimação. Mas, mesmo assim, é-lhe extremamente
agradável saber que à tarde a terá à sua disposição, no discreto
quartinho de D. Júlia Sá. [...]
Entretanto, a velha Agira continuava a felicitar a avó pela
grande sorte que tivera, visto a neta, uma negra sem qualquer
valor, ser pretendida pelo senhor administrador. (MOMPLÉ,
2009, p. 66-81)

Atordoada, mas impossibilitada de resolver tal conflito, a avó tenta convencer


Suhura, que recusa-se terminantemente, mas acaba por ceder, sem saber que assinava
naquele momento sua sentença de morte, pois a repulsa que sentia por aquele
homem insolente, não lhe permitia ser tocada por ele, percebendo o desprezo daquela
a quem desejava, o administrador enfurecido não aceita ser recusado por um “ser”
subalternizado e ambos travam uma luta ferrenha, onde o mais forte fisicamente
sobrevive. Percebendo o que ocorrera o administrador com a desfaçatez que lhe é
própria, encarrega seus cúmplices de resolver a situação consciente de que nenhuma
punição lhe afetaria. A avó nada resta fazer após o recado que recebe com o corpo
desfalecido da neta,

- Não grita, velha. Ninguém matou Suhura. Ninguém matou Suhura.


Compreende!?
A avó compreende muito bem. (MOMPLÉ, 2009, p. 87-88)

A proposição de que o silenciamento imposto à avó, também foi aceito por


Suhura é questionável, pois segundo Bonnici (2009, p. 265) “o colonizado fala quando
se transforma num ser politicamente consciente que enfrenta o opressor” tal qual o
fizeram Musa Racua e Suhura, pois suas mortes constituem-se, respectivamente, como
ato e consequência da resistência ao sistema colonial português.

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Na mesma entrevista concedida a revista Literatas, indagada acerca do


surgimento do seu primeiro livro, a autora elucida,

Escrevi o primeiro livro porque tinha uma carga muito grande sobre o
colonialismo em Moçambique. Eu tinha raiva do colonialismo. Muita
raiva. Tinha raiva da injustiça. Eu nunca me conformava por tudo que
via: massacres sofrimento, opressão isso incomodava-me. Escrevi o
Ninguém Matou Suhura porque eu queria conversar com alguém
sobre o que vi e vivi durante aquele tempo. Tinha que me revelar.
(MOMPLÉ, 2012, p. 09)

É interessante notar, que ao revelar seu objetivo de escrita do livro, a autora


termina por corroborar, de forma inconsciente logicamente, com a dupla perspectiva
de autoficção aqui proposta, pois o “conversar sobre o que vi” atribui um caráter
testemunhal e possibilita a escrita de si étnica e o “conversar sobre o que [...] vivi”
pressupõe experiência vivenciada, conforme proposto pelo que denominamos de
autoficção individual.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Lília Momplé, escritora moçambicana, autora do livro Ninguém matou Suhura,


publicado inicialmente em 1988, com subtítulo “estórias que ilustram a história”,
figura umas das obras que podem ser consideradas no escopo de projetos literários
com intenções pós-colonialistas. O próprio elemento paratextual, o subtítulo, nos dá a
compreensão disso. Pois, uma vez que, segundo Santos (op. cit., p. 343), as produções
pós-coloniais estão para aquelas dotadas de uma ação estético-política que “[...]
procuram subverter, tanto temática, quanto formalmente, os discursos que sustentam
a expressão colonial”, a citação apresentada aponta que os contos compostos para o
livro incidem para uma ação, de certo modo, subversiva em relação aos discursos
coloniais aos quais as narrativas aqui analisadas expressam. A ilustração mencionada
figura diegeticamente as intempéries provocadas pelo poder do colonizador, mediante

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a uma comunidade massacrada pela dominação ocidental, de um ponto de vista


concreto, com narrações de momentos de flagelo corporal, matanças, etc., bem como
de um ponto de vista simbólico, com apropriações de discursos não autóctones em
direção do colonizador, como meio de estabelecer um contato amistoso com a cultura
do outro que naquele momento tem o direto à fala.
É interessante apontar, acerca da estrutura epistemológica dos estudos pós-
coloniais, o cume de suas discussões, o elemento fulcral do seu aporte teórico que
incide na análise, na reflexão, sobre a posição do colonizado como “outro”, “[...]
incapaz de assumir o papel principal de suprir suas necessidades como sujeito”
(SAMUEL, 2010, p. 183). Mas, sobretudo, colocando em foco, também, os modos de
enfrentamento do poder ocidental, suas reescrituras e releituras, seus modos de
subverter a ordem impositiva e castradora do direito a voz estabelecida pelos que
detém o poder de fala (BONNICI, 2009). Para tanto, na concepção de Spivak (2010), a
autonomia do subalterno é importante nas relações coercitivas implicadas na
representação da subalternidade, da outridade, aqui compreendida como os sujeitos
minoritários no processo civilizatório ocidental. A essa autonomia, entendemos,
portanto, como a possibilidade de voz do subalterno, pois, como indica Bonnici (2009,
p. 265) “o colonizado fala quando se transforma num ser politicamente consciente que
enfrenta o opressor”. Assim, a literatura, como agenciadora da estética da palavra, dos
meios de comunicar e denunciar através da constituição dos ideários esteticizantes
tem grande valor na possibilidade de dar voz ao subalterno. Nesse sentido,
compreendemos que Lília Momplé, com sua obra Ninguém matou Suhura, está inscrita
nesse processo de empoderamento, no qual as experiências com o poder colonizador
são postas em discussão, pelo signo literário, na representação de narrativas que
tecem as relações de poder no processo colonial.
O vínculo entre a autoficcção e o pós-colonialismo, vocábulos formados a partir
de um processo de justaposição, nos quais os prefixos sugerem respectivamente, uma
imersão na subjetividade, já que pressupõe, no caso de Lilia Momplé, um duplo quadro

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de escrita de si: individual, enquanto sujeito que vivencia conflitos particulares, e


étnica
É oportuno elucidar que a referência à época colonial, esclarece que o pós-
colonialismo não deve ser concebido num sentido cronológico, já que se assim fosse
tal referência seria inadequada, mas ao contrário é retomada par subsidiar o discurso
de resistência as consequências acarretadas por esse sistema.

REFERÊNCIAS

BONNICI, Thomas. Teoria e crítica pós-colonialistas. In: _____; ZOLIN, Lúcia Osana
(orgs.). Teoria literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. 3ª ed.
rev. e ampl. Maringá: Eduem, 2009.
COLONNA, Vicent. Tipologia da autoficção. In: _____. Ensaios sobre a autoficção. Belo
Horizonte: Editora UFMG, 2014 p. 39-66.
FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S. A.,
1968.
HALL, Satuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte:
Editora UFMG, 2003.
KLINGER, Diana Irene. Escritas de si, escritas do outro o retorno do autor e a virada
etnográfica. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007
LEITE, Ana Mafalda, Oralidades e escritas pós-coloniais: estudos sobre literaturas
africanas. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2012.
MOMPLÉ, Lília. Ninguém matou Suhura. Maputo: AEMO, [1988] 2009.
_____. Entrevista: “se não escrever mais nada não me importo”. In: Literatas. Centro
Cultural Brasil-Moçambique, Movimento Literário Kuphaluxa. Ano II, n.º 43, Maputo,
agosto de 2012. p. 11-13.
SPIVAK, Gayatri Chacravorty. Pode o subalterno falar? Trad. Sandra Regina Goulart de
Almeida; Marcos Pereira Feitosa; André Pereira Feitosa. Belo Horizonte: Editora UFMG,
2010.
SAMUEL, Rogel. Teoria pós-colonial. In: _____. Novo manual de teoria literária. 5ª ed.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.
SANTOS, Eloína Prati. Pós-colonialismo e Pós-colonialidade. In: FIGUEREDO, Eurídice
(org.). Conceitos de literatura e cultura. 2ª ed. Niterói: EdUFF; Juiz de Fora: EdUFJF,
2010.

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