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]cultura[

L I V R O S + T E CN O LO G I A + A RT E + ESTILO DE VIDA + CONECTIVIDADE / JULHO DE 2 018 #2

YUVAL HARARI
EXCLUSIVO
AS LIÇÕES DO AUTOR
DE SAPIENS E HOMO DEUS
PARA SALVAR O MUNDO

N AT H A L I A A R C U R I B E R E N I C E A B B OT T JA N N W E N N E R
Por que o best-seller Me Poupe! Sérgio Augusto escreve sobre a A vida rock’n’roll do ambicioso
virou referência até para o BC fotógrafa que retratou Nova York editor da revista Rolling Stone
CARTA DO EDITOR | 1

Amor, paixão e o que deixamos pelo caminho no


novo livro do autor de Me chame pelo seu nome

]cultura[
Chegamos ao segundo número da revista ]cultura[, mas, antes de apresentá-lo, quero agradecer
a todos que se manifestaram sobre o nascimento desta publicação. Foram dezenas e dezenas de
mensagens positivas, o que nos estimula. Afinal, mantivemos uma revista consistente por mais de
uma década e hoje o que nos move é aperfeiçoar este canal de comunicação, tão antigo quanto
moderno, com clientes e amigos.  ][  Nossa revista olha para o futuro, sem perder de vista o passa-
do.Assim também se constrói o conteúdo desta edição. Se temos jornalistas conhecidos escreven-
do sobre personagens e temas que fizeram história – Sergio Augusto nos fala da fotógrafa ameri-
cana Berenice Abbott, Joaquim Ferreira dos Santos, da famosa crônica de Rubem Braga, “Ai de
Ti, Copacabana”, e André Forastieri relembra o mundo de sexo, drogas & rock’n’roll do criador
da revista Rolling Stone – publicamos também uma entrevista exclusiva do historiador israelense
Yuval Noah Harari, autor dos best-sellers Sapiens: Uma Breve História da Humanidade e Homo Deus:
Uma Breve História do Amanhã. ][ Em Sapiens, Harari trata do passado. Em Homo Deus, do futuro.
E, em seu terceiro e novo livro, 21 Lições para o Século 21, lançamento mundial em agosto (aqui,
pela Companhia das Letras), Harari se debruça sobre o presente – os dilemas do nosso tempo,
terrorismo, fake news, imigrações... Acredito nessa visão integradora do tempo que não é só fei-
to de passado, presente ou antevisões de futuro. É feito das três dimensões – e essa é a mensagem
que gostaria de transmitir aos leitores mais jovens. Não se deixem dominar apenas pelo que está
se passando à sua frente, hoje.  ][  O agora é resultado da experiência vivida. Para usar a analogia
dos carros, não conseguiremos dirigir o nosso apenas olhando o para-brisa dianteiro, mas também
utilizando os retrovisores (estou falando de carros conduzidos por humanos, não por robôs...). Quer
dizer, mais do que nunca é importante conhecer o passado, ainda que a incrível corrida tecnológica
nos arremesse para o amanhã!  ][  Já percebi que, no fundo, todo criador almeja ser um clássico. E
não só os escritores. Quem não quer ser um Tom Jobim? Quem reclamaria de chegar perto da
genialidade de um Machado de Assis? Isso me traz a lembrança de dois versos do poeta Carlos
Drummond de Andrade: “E como ficou chato ser moderno. Agora serei eterno”. Então, me di-
gam: o que é a eternidade senão o passar contínuo do tempo?

A todos, ótima leitura.


Um abraço,

Pedro Herz
PUBLISHER

Viagens, infância e a beleza do cotidiano no


primeiro livro de crônicas de Míriam Leitão
COLABORADORES | 3

EXPEDIENTE

LIVRARIA CULTURA, J OAQ U I M FE R R E I R A A N D R É FO R A S TI E R I J U LIA N A


FNAC BRASIL & ESTANTE VIRTUAL D OS SA NTOS
Com 50 anos de jornalis-
Começou no jornalismo
na Folha em 1988. Foi
M O N ACH E S I
Curadora e crítica de
PRESIDENTE DO CONSELHO ADMINISTRATIVO mo, foi editor e repórter editor das revistas Bizz e arte, foi jornalista nos
de publicações como cadernos Ilustrada
Pedro Herz Set, de música e cinema,
Veja e Jornal do Brasil. cocriador de publicações e mais!, nas revistas
DIRE TOR - PRESIDENTE Colunista de O Globo, como Herói e General, seLecT e Bazaar, além de
Sergio Herz escreve uma crônica e fundador de editoras editora-chefe da Bazaar
semanal no Segundo como Conrad, Pixel e Art. É responsável pela

]cultura[
Caderno. É autor da crô- Tambor. Escreveu aqui curadoria das obras
nica-reportagem sobre sobre o ambicioso editor de arte que ilustram as
Ai de Ti, Copacabana!. da Rolling Stone. nossas colunas.

PUBLISHER 
Pedro Herz
DIREÇÃO EDITORIAL 
Laura Greenhalgh
DIREÇÃO DE ARTE  A N A FR A N CI S C A S É RG I O AU G U S TO G I S E L E V ITÓ R IA
Renata Buono P O NZI O Carioca, jornalista e Jornalista niteroiense,
Jornalista e crítica de escritor, começou na mora em São Paulo
EDITOR - CHEFE  dança, trabalhou nos Tribuna da Imprensa, desde 1991. Passou por
Ivan Marsiglia jornais Estadão, Folha foi crítico do Correio da Jornal do Brasil, Rádio
de S.Paulo, Valor Eco- Manhã e fundador do Globo, jornal O Globo
EDITORA - ASSISTENTE  nômico, revista Bravo!, Pasquim, entre outras e dirigiu revistas como
Livia Deodato além de colaborar com publicações. Escreve IstoÉ Gente, Planeta e
publicações estrangeiras. desde 1996 no Estadão. Menu. Editora-chefe
REVISÃO E VERSÃO ONLINE  Aqui, ela comenta uma Para a ]cultura[, ele da Robb Report Brasil,
Kamila Queiroz temporada especial de radiografou a fotógrafa escreveu o perfil da best-
dança em São Paulo. Berenice Abbott. seller Nathalia Arcuri.
PRODUÇÃO 
Caio Zalc (321 production)
COMERCIAL 
Paulo Carvalho Castro
paulo.cas tro@livrariacultura.com.br
(11) 3056 4300, r. 2569

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(61) 3326-0110
A LFR E D O R ACH E L G U E D E S LU C A S L E V ITA N
S TE R N H E I M Formada em artes Artista plástico radicado
Cineasta e jornalista, plásticas, estudou foto- em Madri, fez mestrado
CONTATOS dirigiu mais de 30 filmes, grafia em Boston, EUA. em Design Gráfico pela
revistacultura@livrariacultura.com.br entre longas e curtas, Atuou nos jornais Folha University of the Arts
como Noturno, exibido de S.Paulo, Estadão, O London e já expôs na
IMPRESSÃO no Festival de Veneza. Globo, na Revista da Folha Light Contemporary Gal-
Plural Indústria Gráfica LTDA É autor do livro Cinema da e Caros Amigos, entre lery, The Picture Room
Boca: Dicionário de Dire- outras publicações. Nesta Gallery e Barbican Cen-
TIRAGEM
tores. Homenageia nesta edição, clicou a autora ter. Ilustrou a reportagem
40 mil exemplares edição Ingmar Bergman. Nathalia Arcuri. “Oráculos de Papel”.
4 | SUMÁRIO

L I VR O S + TE C NOLO GI A ARTE + ESTI LO DE VI DA + CO N ECT IV ID A D E

14
JANN WENNER
Helena Cintra

06YUVAL
20
BERENICE
18
CORTINA RÁPIDA
A coluna de Clarice Niskier
52
GENTILEZA
A coluna de
Clóvis de Barros Filho

72
Like a Rolling Stone

33 HARARI ABBOTT
Entrevista exclusiva com o Lentes da rebeldia
54

26
guru da tecnociência
CADERNO
FRAGMENTOS SHAOLIN
TOURS
Menu degustação
do mercado editorial 46 ÚLTIMA PÁGINA
48
Viaje pela milenar
arte do kung fu
INGMAR Perguntar ofende?
ROB(Ó)TICA BERGMAN Bernard Shaw responde

ORÁCULOS DE 41

58
A coluna de O centenário
Marcos Pereira Barretto do cineasta da alma
PAPEL AI DE TI,
A autoajuda de resultados COPACABANA!
50
Crônica de uma crônica anunciada
67
30 44 INOVAÇÃO
Produtos para
CIRCUITO IN VINO
NATHALIA ARCURI
Me poupe, ESTANTE
uma vida high tech
Dança, teatro
e música por aí NATURALIS
Tintos e brancos sem aditivos
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Banco Central! Lançamentos, raridades dos livros e produtos citados
e uma dica de autor nesta edição
ENTREVISTA | 7

POR IVAN MARSIGLIA

O INÍCIO,
O FIM E O MEIO
Em seu novo livro, Yuval Noah Harari, que
sintetizou o passado em Sapiens e vislumbrou
o futuro em Homo Deus , volta-se para
o presente – e as lições que a humanidade
tem que aprender para sobreviver ao século 21

UVAL NOAH HARARI é uma espécie rara de escritor.Aos 42


anos, ele alia como ninguém profundos conhecimentos em ci-
ência, história e filosofia com um texto fluido e uma capacidade
extraordinária de se comunicar. Seu primeiro grande livro, Sa-
piens – Uma Breve História da Humanidade, que resume em 459
páginas os 70 mil anos de história do gênero humano na Terra,
foi lançado em 2011 em Israel, terra natal de Harari, e já vendeu
1 milhão de cópias no mundo todo. Na sequência veio Homo
Deus – Uma Breve História do Amanhã (2015), que especula sobre
os efeitos de uma tecnologia que se expressará no próprio cor-
po dos indivíduos, outro best-seller imediato.Agora, ele prepara o
lançamento da conclusão dessa trilogia: 21 Lições para o Século 21,
com lançamento mundial a partir de agosto (a edição brasileira
sai pela Companhia das Letras).
Na entrevista a seguir, concedida com exclusividade para a re-
vista ]cultura[, este PhD em História pela Universidade de Ox-
ford e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém fala dos
riscos que ameaçam o ser humano de extinção neste decisivo sé-
culo 21. Relata o tsunami que a celebridade causou em sua an-
tes pacata vida de acadêmico. Descreve o cotidiano simples que
procura manter ao lado do marido e do cachorro. Ressalta o pa-
Cortesia do autor

pel fundamental da yoga e da meditação para manter a tranquili-


dade de sua mente hiperativa. E chama a atenção para as contra-
dições do progresso na análise da crise brasileira.

Harari: o PhD em História pela Universidade


de Oxford que virou best-seller global ↳
8 | ENTREVISTA

SUCESSO lealdades a pequenos grupos


como uma tribo, uma compa-
1 milhão
↳ de cópias vendeu no mundo
inteiro Sapiens, primeiro
nhia de infantaria ou uma em-
presa de família, mas é pou-
co natural nos sentirmos leais
livro da trilogia de Harari a milhões de completos estra-
Seu primeiro livro, Sapiens, fala regras seguras para a bioenge- nhos. Esse tipo de lealdade de
de nossa origem: sobre como nharia ou a inteligência artifi- AS LIÇÕES massa surgiu só há poucos mi-
uma espécie fisicamente frágil cial. Não será suficiente se ape- Os maiores riscos lhares de anos – na manhã de
conseguiu dominar o planeta. O nas a China decidir reduzir suas que a humanidade ontem, em termos evolucio-
segundo, Homo Deus, é focado emisões de gases de efeito estu- enfrenta neste momento nistas – e requer um imenso
em para onde vamos: um futu- fa, enquanto os EUA continua- são a guerra nuclear, as esforço de construção social.
ro de alta tecnologia povoado rem a fazer seus negócios como mudanças climáticas e a As pessoas só construíram essas
por super-humanos, enfrentan- de costume, nem será de gran- ascensão das tecnologias coletividades nacionais porque
do riscos terríveis. Por que falar de ajuda se a União Europeia foram confrontadas com desa-
sobre o presente agora? proibir a produção de robôs TECNO-RISCO fios que não podiam ser resol-
Porque as pessoas me pergunta- militares assassinos, mas Rússia Para o autor, vidos por nenhuma tribo iso-
ram sobre ele.21 Lições foi escri- e Israel autorizarem sua produ- a menos que encontremos ladamente.Agora, enfrentamos
to a partir do diálogo que man- ção. De forma análoga, temos soluções em nível global desafios que não podem ser so-
tive com o meu público. Ele se que criar uma rede global de para as disrupturas lucionados por nenhuma na-
baseou em conversas que tive, segurança para proteger os hu- econômicas causadas pela ção sozinha – então precisamos
entrevistas que dei e conferên- manos contra os choques eco- tecnologia, países inteiros transcender a nação e forjar le-
cias que ministrei no mundo in- nômicos que a introdução da poderão colapsar aldades globais.
teiro ao longo dos últimos anos. inteligência artificial causará.A
Muita gente me questionou so- automação irá produzir imen- Nesse contexto, o que a vitória
bre temas como imigração, ter- sas riquezas em hubs de alta tec- de Trump e a ascensão da extre-
rorismo, fake news e a crise das nologia como oVale do Silício, Então será preciso constituir ma-direita na Europa significam?
democracias liberais. Meu novo mas seus efeitos nefastos serão uma espécie de governo global? Há políticos demais tentando
livro é uma tentativa de dar res- sentidos em países em desen- A ideia de um “governo glo- nos vender fantasias nostálgi-
posta a essas questões. volvimento como Honduras e bal” é duvidosa e irrealista. Em cas em vez de preparar o nos-
Bangladesh. Haverá mais em- vez disso, acho que políticos so futuro. Isso acontece porque
21 Lições para o Século 21 elenca pregos para engenheiros de sof- nacionais e mesmo munici- a maioria das pessoas não quer
vários problemas com os quais a tware na Califórnia, mas me- pais deveriam dar mais peso mudanças radicais e teme o des-
humanidade está lidando hoje. nos empregos para operários às questões globais. Por isso, na conhecido. Elas querem estabi-
Qual é o mais urgente deles e o da indústria têxtil ou motoris- hora de escolher um governa- lidade e uma identidade segu-
que você propõe como solução? tas de caminhão hondurenhos. dor de estado ou um prefei- ra que dê sentido às suas vidas.
O desafio mais imediato é a as- Os governos norte-americanos to, precisamos levar em con- A atual onda de visões políticas
censão dos fundamentalismos aumentariam os impostos dos ta tanto suas políticas voltadas nostálgicas tem mais a ver com
e nacionalismos. A humani- gigantes da alta tecnologia no para as questões globais quan- o passado do que com o futu-
dade enfrenta neste momen- Vale do Silício para sustentar ou to para as locais. É importante ro: políticos de diversos países,
to três grandes riscos: a guerra reciclar desempregados hondu- que a gente se lembre de que incluindo os EUA, Inglaterra,
nuclear, as mudanças climáticas renhos? É improvável.Vivemos não há nada de natural ou eter- Rússia e Índia, estão guinando
e as tecnologias disruptivas.To- hoje numa economia global, no sobre as nações. Nenhuma para o nacionalismo tradicional
das questões globais por natu- mas a política é ainda muito das nações existentes hoje no ou religioso, prometendo um
reza, que só podem ser resol- nacional.A menos que encon- mundo estava aí há 5 ou 50 mil retorno a uma espécie de pas-
vidas por meio de cooperação tremos soluções em nível glo- anos. E, ao contrário do que sado dourado. No meu próprio
internacional. Nenhum país so- bal para as disrupturas causadas alguns dizem, o sentimento país, Israel, o governo usa a Bí-
zinho poderá deter o aqueci- pela tecnologia, países inteiros de nacionalismo não tem ra- blia e as tradições judaicas para
mento global ou evitar a guerra poderão colapsar – e o caos re- ízes na biologia humana. Hu-


nuclear, assim como uma na- sultante, a violência e as ondas manos são animais sociais com
ção só não terá como definir de imigração irão desestabilizar a lealdade ao grupo impres-
Lalo de Almeida/Folhapress

o mundo inteiro. É por isso que sa em seus genes. Entretanto,


a atual onda de xenofobia e na- por centenas de milhares de
cionalismo é tão perigosa: não anos viveram em comunida- Somalis no campo de refugiados
de Dadaab, Quênia: inteligência
haverá soluções nacionais para des compostas por poucas dú- artificial provocará desemprego
os problemas globais. zias de pessoas. Desenvolvemos e migrações em massa
10 | E N T R E V I S T A

A cruel pecuária isso, precisamos desenvolver to dos laços de amor entre BÔNUS as. Há dez anos, ninguém sabia
moderna será novas tecnologias verdes que mães e filhotes. Uma vaca ja- “Ser um best-seller quem eu era e ninguém espe-


substituída pela
“carne cultivada”,
sustentem o crescimento eco- mais produz leite a menos que abriu novas possibilidades rava nada de mim. Agora, re-
acredita Harari nômico sem destruir o ecossis- engravide e dê à luz um be- em minha vida e me cebo inúmeros pedidos de en-
tema. Um exemplo é a pecu- zerro. Mas aí os humanos re- deixou satisfeito por trevistas, palestras e projetos, e
ária. A produção industrial de tiram o bezerro dela para ser saber que meus livros tenho de dizer “não” a 99% de-
justificar suas ações. É confor- carne é uma das maiores cau- abatido e ordenham o leite da ajudam as pessoas a les. Faço um enorme esforço
tável recorrer ao nacionalismo sas de poluição do ar, da terra e vaca. Um processo que provo- entenderem o mundo” para dedicar tempo à minha fa-
e à religião porque eles ofere- das águas, além de responsável ca dor e agonia a milhões des- mília, aos meus amigos e a mim
cem explicações simples sobre o por uma grande porcentagem ses animais a cada ano. Julgada ÔNUS mesmo. E procuro manter uma
que está acontecendo no mun- das emissões de gases de efei- pela quantidade de sofrimen- “Virar celebridade rotina diária. Começo o meu
do, sobre quem somos nós e to estufa. Uma maneira ética to que produz, a pecuária mo- envolve tanta pressão dia meditando por uma hora.
qual o significado de nossas vi- e ecológica de resolver o pro- derna é provavelmente um dos e distrações que eu Então, tomo café da manhã e
das. Eles pretendem nos ofere- blema é desenvolver a chama- piores crimes da história. Seria não poderia lidar com trabalho por cerca de 6 ou 7
cer uma âncora de certezas em da “carne cultivada” – produzir muito mais ético alimentar as isso sem o foco e a paz horas no computador. Aí faço
um mundo tempestuoso. Infe- carne a partir da multiplicação pessoas com uma dieta basea- proporcionados pela yoga e levo meu cachorro para
lizmente, eles não serão capazes de células em vez de criar ani- da em vegetais – que é tam- meditação” passear por cerca de uma hora
de resolver os enormes proble- mais inteiros para abatê-los. O bém mais ecológica. Produzir na floresta próxima de casa – o
mas em que estamos mergulha- primeiro hambúrguer cultiva- carne usa muito mais recur- VIPA SSANA cachorro é só um pretexto para
dos neste século 21. Como li- do surgiu em 2014 e custou sos e gera muito mais poluição “É uma técnica eu poder contemplar algumas
dar com o aquecimento global? US$ 300 mil. Foi só um pri- do que produzir a quantidade meditativa baseada na árvores e animais, e não apenas
O que fazer quando a tecnolo- meiro experimento: atualmen- equivalente de alimentos vege- percepção de que o computadores e e-mails. Então,
gia empurrar bilhões de pessoas te o preço já caiu para US$ 11 tais. Por exemplo, são necessá- sofrimento não é uma eu sento para mais uma hora de
para fora do mercado de traba- e, com mais pesquisas e produ- rios cerca de 15 mil litros de condição objetiva meditação. Meu marido e eu
lho? Como fazer uso do enor- ção em escala industrial, a car- água doce para produzir um do mundo exterior, mas às vezes saímos para encontrar
me potencial da engenharia ge- ne cultivada pode ser mais ba- quilo de carne, em compara- uma reação mental a ele” amigos ou assistimos a um fil-
nética? Você não vai encontrar rata que a atual. Por que gastar ção com os 287 litros neces- me antes de dormir.
esse tipo de resposta na Bíblia. tanto dinheiro criando uma sários para produzir um quilo
A realidade no século 21 é tão vaca inteira quando você pode de batatas. Para quem não qui- de-sabre, preguiças-gigantes e A meditação o ajuda a lidar com
assustadora que eu entendo por fazer crescer um bife? ser se tornar vegetariano, espe- outros animais que o Homo sa- essa vida de celebridade?
que algumas pessoas preferem ro que em uma década ou duas piens levou à extinção depois Ser uma celebridade envolve
olhar para o outro lado. Mas não Você sempre diz que a pecuária possamos produzir carne limpa que a colonizou. tanta pressão e distrações que
temos escolha. atual “é provavelmente o maior em escala industrial. eu não sei como poderia lidar
crime da história”. Por quê? Ter se transformado num best- com isso sem o foco e a paz
Você já declarou que “a crise Bilhões de animais domestica- Sapiens mostra como a nossa seller internacional mudou de proporcionados pela medita-
ecológica no século 21 irá pro- dos, como vacas e galinhas, são espécie superou outros mem- que maneira a sua vida? ção. Pratico há quase vinte anos
vocar uma aceleração do pro- tratados pela indústria de carne, bros do gênero Homo que não Mudou minha vida de mui- Vipassana, uma técnica basea-
gresso tecnológico semelhan- laticínios e ovos como máqui- sobreviveram. Como seria o tas maneiras. Abriu novas pos- da na percepção de que o flu-
te à causada pelas duas guerras nas, não como criaturas vivas mundo hoje se o Homo rudol- sibilidades, mas também criou xo da mente está intimamen-
mundiais do século 20”. Esse capazes de sentir dor e angús- fensis ou o Homo neandertha- uma série de problemas. Ob- te ligado às sensações corporais.
progresso será capaz de evitar tia. E a ciência nos mostra que lensis tivesse prevalecido? viamente, estou muito satisfei- Entre mim e o mundo, há sem-
a destruição do planeta? vacas e galinhas vivenciam um Essa é fácil. Até onde se pode to com o sucesso – é bom saber pre sensações corporais: eu não
Espero que sim. Mas se levar- mundo complexo de emoções especular, o mundo ainda esta- que, depois de trabalhar tanto reajo aos eventos do mundo
mos em conta o momento atu- e sensações. Elas são capazes de ria na Idade da Pedra.Teríamos para pesquisar e escrever Sa- exterior, reajo às sensações que
al de desenvolvimento da tec- sentir dor, medo e ansiedade, alguns milhões de humanos vi- piens e Homo Deus, esses livros eles provocam no meu cor-
nologia, a única maneira de além de alegria, tranquilidade vendo na África,Ásia e Europa, alcançaram pessoas e as ajuda- po. Quando a sensação é de-
deter a mudança climática seria e amor.Ainda assim, os huma- sem agricultura, indústria ou ram a entender melhor o mun- sagradável, sinto aversão. Se é
Aumsama/Shutterstock

freando o crescimento econô- nos ignoram completamente cidades. Não haveria nenhum do. No entanto, há também agradável, desejo mais. Mesmo
mico. Só que o crescimento é a seu sofrimento. Toda a indús- homem na América, que seria um lado negativo.Tenho mui- quando penso que estou rea-
prioridade número 1 de quase tria de laticínios, por exem- ainda um continente domina- to menos tempo do que antes gindo a uma memória antiga
todos os países e governos. Por plo, é baseada no rompimen- do por mamutes, tigres-dente- e muito mais compromissos. de infância ou ao que alguém
Passo muito tempo repetin- escreveu sobre mim no jornal,
do o que já sei e tenho menos a verdade é que tudo se dá no
tempo para explorar novos co- meu corpo.Vipassana me trei-

“A atual onda de xenofobia e nacionalismo é muito perigosa porque não haverá soluções nacionais para os problemas globais”
nhecimentos. Sou obrigado a
desapontar muito mais pesso-
na a me concentrar no que está
acontecendo dentro de mim, ↳
L I T E R A T U R A | 13

↳ “O futuro da própria vida na Terra depende de como usaremos a IA e a biotecnologia”

e não no mundo exterior, re- lo 21, a inteligência artificial e des e uma sociedade desigual e lhorar as coisas”. Ao longo da
velando assim os padrões bá- a biotecnologia vão mudar o violenta. Hoje, após um período história humana, aqueles que
sicos da minha mente. O so- mundo, mas não precisamos ser de relativo avanço social, o país prometeram soluções mági-
frimento não é uma condição fatalistas. Como usar a tecnolo- enfrenta uma grave crise. O que cas e rápidas para os problemas
objetiva no mundo exterior, é gia sabiamente é a questão mais você poderia dizer aos leitores acabaram causando mais vio-
uma reação gerada pela nossa importante que a humanida- brasileiros sobre as contradições lência e miséria – como nas re-
mente.Além de meditar, a cada de enfrenta hoje – mais impor- do progresso? voluções russa e chinesa. Como
ano faço um longo retiro por tante que a crise econômica, as O progresso resolve questões eu disse no início da entrevis-
um mês ou dois. Não é uma guerras no Oriente Médio ou antigas e cria novas. As pesso- ta, hoje o futuro do Brasil não
fuga da realidade, é o contrá- a crise de refugiados na Euro- as então tomam como certas as depende apenas dele mesmo,
rio: sinto que por pelo menos pa. O futuro não só da huma- conquistas do passado, concen- mas do estabelecimento de
duas horas por dia eu realmente nidade, mas provavelmente da tram-se nos problemas do pre- uma melhor cooperação glo-
observo a realidade como ela é. própria vida na Terra, depende sente e concluem que “as coisas bal entre os países. O governo
Nas outras 22 fico sobrecarre- de como escolheremos usar a nunca foram tão ruins”. É uma brasileiro, por si só, não pode-
gado com e-mails, tuítes e ví- IA e a biotecnologia. ilusão. Apesar da crise, o Bra- rá protegê-lo contra as amea-
deos engraçadinhos de gatos. sil está em uma situação mui- ças do aquecimento global e
O Brasil sempre foi considerado to melhor do que há 50 ou 100 da ascensão da IA. No entanto,
Lendo seus livros têm-se a im- uma espécie de “laboratório do anos. Mesmo brasileiros pobres como líder da América Latina
pressão de que você é fascina- futuro”, no bom e no mau sen- têm hoje menos probabilidade e possivelmente a mais pacífica
do pelo progresso tecnológico e tido: um caldeirão de culturas de morrer de peste, fome ou das grandes potências do mun-
que, no fim das contas, acredita aberto a diferentes nacionalida- violência do que em 1968 ou do, o Brasil tem muito a contri-
que seus efeitos perversos serão 1918. Claro que isso não nega buir para essa cooperação glo-
controlados pela moralidade hu- os imensos problemas que o bal. É um país que faz fronteira
mana. Mas avanços como a inte- Brasil enfrenta, mas nos adver- com outras dez nações, mas por
ligência artificial não podem nos BRASIL EM CRISE te contra a crença de que “ne- mais de um século não invadiu
tornar simplesmente incapazes “Mesmo brasileiros nhum progresso aconteceu, a nenhuma outra. Se os brasilei-
de decidir nossos destinos? pobres têm hoje menos situação é tão ruim como sem- ros puderem ensinar seu segre-
Certamente o risco é imen- probabilidade de morrer de pre, o sistema está corrompido do a outras potências do mun-
so. Mas acredito que a huma- peste, fome ou violência do até o osso e nada, exceto uma do, será uma grande bênção
nidade será capaz de enfrentar que em 1968 ou 1918” revolução completa, irá me- para a humanidade. 
o desafio. A tecnologia nunca
é determinista: podemos usar
os mesmos avanços para criar
tipos muito diferentes de so-
ciedades e situações. No século
20, as pessoas usaram a tecno-
logia da Revolução Industrial
– trens, eletricidade, rádio, tele-
fone – tanto para criar ditadu-
ras comunistas e fascistas quan-
to democracias. Coreia do Sul

Cagatay/Getty Images
e Coreia do Norte tiveram
acesso à mesma tecnologia,
mas optaram por empregá-la
de formas distintas. No sécu-

Desastre ecológico do Mar de Aral,


no Uzbequistão: tecnologia da
Revolução Industrial foi usada
para o bem e para o mal
Q
14 | C O M P O R T A M E N T O

POR ANDRÉ FORASTIERI

ROCKSTAR
DO JORNALISMO
Biografia conta a trajetória de sexo, drogas
e muito dinheiro de Jann Wenner, o visionário
e controvertido editor da revista Rolling Stone

uando a Rolling Stone estava começando, Wenner escolheu pessoal-


perguntaram a seu criador, Jann Wenner, mente Hagan, jornalista sé-
então com 20 anos: você quer fazer jorna- rio, investigativo, e deu a ele li-
lismo de primeira, crítica musical ou tram- vre acesso a cinco décadas de
bique para tirar dinheiro dos adolescentes? arquivos, diários, cadernos e
Todas as alternativas: é a resposta de Joe mais horas e horas de entre-
Hagan, autor de Sticky Fingers – The Life vistas. Trabalharam juntos no
And Times of Jann Wenner and Rolling Sto- projeto por quase quatro anos.
ne Magazine. O resultado é irresistível, es-
Trata-se da biografia autorizada de pecialmente para leitores de
Wenner, que posteriormente a desautori- uma certa geração, a minha.
zaria – detonado que é pelo autor desde Fui editor da revista de rock
o título. Sticky fingers,“dedos lambuzados” Bizz (1990-1993) e encabecei
em inglês, é uma referência ao álbum clás- a primeira tentativa de trazer a
sico da banda Rolling Stones, mas também Rolling Stone para o Brasil, no
uma gíria para “mão leve”, gatuno, indiví- ano de 2001, pela Conrad, edi-
duo que furta dissimuladamente (além de tora da qual eu era sócio.
aludir à masturbação a dois). Lembro de entrar na re-
dação, na Sexta Avenida, em
Nova York, e pensar: “Isso
aqui é tudo que uma revista
de rock não deveria ser”. Era
um claustro sepulcral, sombrio,
polar, com jornalistas isolados
STICKY FINGERS em baias altas e concentrados
Joe Hagan como monges. Ao longo do
Foto: Baron Wolman/Getty Images
Foto: Robin Platzer/Getty Images

foi escolhido para escrever corredor que levava à sala de


a biografia pelo próprio reuniões, ampliações de capas
Wenner, que mais tarde a da revista dos últimos meses,
desautorizou em que lendas anti-establishment
como Bob Dylan e U2 dispu-
tavam espaço com jovens fenô-

Na página ao lado, Wenner em 1968, na redação original da Rolling Stone em São Francisco; acima, já na época
em que a revista se mudou para a efervescente Nova York das festas de Andy Warhol no lendário Studio 54
16 | C O M P O R T A M E N T O

ternet. Wenner, como quase

↳ “A única coisa que ele tinha dentro de si era apetite”, disse o jornalista Chet Flippo, que integrou o staff da revista nos anos 1970
toda a velha mídia, perdeu o
barco da era digital. E hoje é
uma sombra do que já foi. A
edição brasileira – que eu não
menos de pouca roupa como nheci”, confirma a mulher de O ambiente de excessos com chegaria a editar, pois a nossa
Britney Spears e N’Sync. Wenner, Jane, herdeira de uma celebridades se intensificou negociação não avançou – foi
Wenner sabia, desde cedo, família judia que financiou o com a mudança da revista de dirigida por jornalistas como
que a ideia de “enfrentar o sis- começo da revista. São Francisco para Nova York. Ricardo Cruz e Pablo Miya-
tema” era só mais uma estra- O livro traz histórias dos Eram os tempos do lendário zawa e publicou ótimos arti-
tégia de marketing das bandas colaboradores da Rolling Sto- Studio 54, o clube de Andy gos, embora nunca tenha tido
e gravadoras, e sua, para fatu- ne tão saborosas quanto as de Warhol, da decadência gla- o apelo político da americana.
rar.“Nós não queríamos ser hi- seu fundador.Vemos Hunter S. mourosa e das polaroides feitas Deixou de circular em maio.
ppies”, diz a Hagan: “Eu sem- Thompson consumindo mon- pelo rei da pop art. O aparta- Hoje, Jann Wenner é um se-
pre fui burguês.A Rolling Stone tanhas de drogas, sempre afiado mento nova-iorquino de Jann nhor de 71 anos, a mesma ida-
é burguesa. Seus leitores são e provocador, parindo reporta- e Jane transformou-se numa de de Donald Trump, com
burgueses. Toda essa bestei- gens alucinadas. A equipe en- festa permanente, com drogas quem tem muito em comum,
ra de contracultura é merda”. fiava o pé na jaca, com estímulo a rodo e porta jamais trancada. observa o biógrafo Joe Ha-
Um cinismo que acompanha, e colaboração do chefe. O es- Por ela passavam roqueiros de gan:“O egoísmo cru, a carên-
desde a infância e a adolescên- critório tinha uma salinha de- todos os naipes e gente como cia emocional, a devoção to-
cia na São Francisco dos beat- dicada ao consumo de drogas. os atores Michael Douglas e tal à celebridade e ao poder...
niks e da revolta estudantil, esse Wenner pagava bônus para os Richard Gere, o bailarino Mi- Wenner foi um pioneiro da Era
personagem obcecado por ser melhores funcionários em pa- khail Baryshnikov e o come- do Narcisismo. E viu a ascensão
aceito pelas pessoas “certas”, pelotes de cocaína. Assediava diante John Belushi. de Trump como tudo na vida:
que faria do jornalismo um sexualmente funcionários, gays mais uma oportunidade.”

E
caminho para a ascensão social. e héteros, homens e mulheres. m seu auge,Wenner com- Durante a campanha pre-

Foto: Bettmann/Getty Images


Mas o olho clínico de Wen- prou seu próprio jatinho sidencial, enquanto a Rolling

N
ão é por outro motivo ner também revelava talentos. para ser respeitado no jet Stone criticava Trump, outra
que o jornalista Chet Fli- A fotógrafa Annie Leibovitz set e flertou com Hollywood, revista de Wenner, a USWeekly
ppo, que fez parte do staff foi descoberta por ele aos 21 tentando inutilmente transfor- publicava lindas fotos do em-
da revista na década de 1970, anos de idade.Ao longo de sua mar-se em produtor de cine- presário-candidato com Mela-
comparou certa vez o ex-che- carreira,Annie clicou os prin- ma e TV.Ainda assim, o impac- nia e sua “linda família”.Wen-
fe a um tubarão:“A única coi- AMBICIOSO assinatura dela”. Em 1975, cha- Pelo mesmo motivo, trai cipais personagens da época, to social e cultural da publicação ner explicou: “Você tem que
sa que ele tinha dentro de si Em 1975, o editor pado de cocaína, se empantur- seu ídolo máximo, John Len- de Warren Beatty a Ken Ke- que ele concebeu foi gigantes- respeitar Trump, ele trabalha
era apetite”. Em busca de sta- quis se candidatar à ra de comida congelada, sem non, que salvara a revista logo sey, de Truman Capote a Jane co. Não dá para não se emocio- duro”. Pouco tempo depois,
tus e de aprovação, Wenner presidência dos EUA lembrar de descongelá-la an- no início ao lançar uma his- Fonda, de Salvador Dalí a Ali- nar com depoimentos como o Wenner venderia a US Weekly
dissimulava até a sua orienta- tes, e quase morre. tórica entrevista em forma- ce Cooper, e capturaria como de Bruce Springsteen, isolado para um milionário apoiador
ção homossexual e só transa- ‘OLHEIRO’ Nesse mesmo ano, cogita to de livro sem a autorização ninguém o sex-appeal da cul- em sua pequenina Long Bran- de Trump, David Becker.
va com homens escondido (o Annie Leibovitz foi candidatar-se à presidência dos do ex-Beatle. Apropria-se do tura pop.“Quando digo ‘que- ch, em New Jersey, encontran- Assim se completa a sua tra-
editor sairia definitivamente do descoberta por ele, aos 21 EUA e por pouco não se lança. Rock’n’Roll Hall of Fame da ro fotografar alguém’, signi- do seu rumo ao ver o primeiro jetória, em consonância com a
armário apenas em 1995, apai- anos. Mais tarde, Wenner, sua “Jann decidiu que é mais des- mão de seus fundadores e ainda fica que quero conhecer essa exemplar da Rolling Stone na far- do próprio rock, que, de po-
xonado por um jovem mode- mulher e a fotógrafa colado andar com políticos do se jacta: “Ferramos eles”. Pas- pessoa – transar com ela”, de- mácia da esquina:“A revista era tente agente de mudança, caldo
lo e designer, Matt Nye, com tiveram um caso a três que com roqueiros”, ironizou sa a perna em sócios, inclusive finiu ela certa vez. Uma me- a única prova de que alguém, lá alucinante e contraditório, dei-
quem adotou três filhos e con- o lendário repórter Hunter S. Mick Jagger, com quem lança- táfora muitas vezes literal. An- fora, pensava no rock da mesma xa hoje apenas o oportunismo.
tinua casado até hoje). FESTEIRO Thompson, criador do “jor- ra a edição britânica da revis- nie se envolveu com vários maneira que a gente”. O rockstar máximo da nossa
Nessa fome de poder, passa O apartamento de nalismo gonzo”, seu amigo e ta (ainda que Jagger, pragmá- de seus fotografados, manteve A Rolling Stone começou a época é Trump, que se elegeu
por cima de tudo. Em 1970, ao Wenner e Jane era local de colaborador da revista, numa tico, não tenha se ressentido e uma longa e complicada re- perder sua importância quan- gritando contra o sistema, em
saber da morte de Janis Joplin festas com drogas, artistas e entrevista ao Washington Post: mantenha a amizade com ele lação com Mick Jagger e um do o rock deixou de ser o prin- turnê permanente, mentindo
por overdose, limita-se a orde- porta sempre aberta “Claro que ele quer ser presi- há décadas). “Jann era a pes- trio com o próprio Wenner e cipal disseminador do novo, e nas redes e dando show para a
nar para a secretária:“Cancele a dente. É o máximo de poder.” soa mais ambiciosa que já co- sua mulher Jane. com a entrada em cena da in- tietagem, tudo pela fama e for-
P R AG M ÁT I CO tuna. E assim chegou ao posto
Quando Janis Joplin com que Wenner, o maior edi-
morreu de overdose, em 1970, tor da história do rock, apenas
O editor, em 1970, no quartel-general da
o chefão da RS disse apenas:
publicação, que teve entre seus colaboradores
sonhou: o de homem mais po-
“Cancele a assinatura dela” nomes como Hunter S. Thompson e Tom Wolfe deroso do mundo. 
18 | C O R T I N A R Á P I D A

POR CLARICE NISKIER

levam. Nem todos colaboram. Nem toda região está lar-

Zé Rendeiro
gada à própria sorte, mas todos sabem. Doloroso Brasil,
tanta beleza genuína, tudo tão penoso. Se esse país fos-
se meu, mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhante
para o meu amor passar e diria às filhas da terra recém-
nascidas dos rios, vocês sonham com o mar, mas não se

MENINAS DE LUA
entreguem, façam um pedido: “Lua maior que o Céu,
maior que o Sol, amor dos dilúvios, navegue sobre nós
de barriga para cima à deriva, sem bússola, permita que
sejamos instrumento de suas esferas e nos livre da mal-

d
dição das bestas feras, ó Lua, cheia de signos, sóis, ilumi-
e repente, ela vem.Vem, não. Ela sempre está. A lumi- ne nossas escamas no balanço das águas para que seja-
nosidade do dia é que vai mudando, mudou, o sol vai se mos constelações, corpos ornados de gozo, alucinações,
pôr, se pôs, como é bonita essa frase, o sol vai se pôr. Ele penetre nossos poros, retire o arpão cruel do nosso ven-
se põe.Também vou me pôr, você também vai se pôr, é tre, a escravidão, permita ao sangue correr sem dor na
a conjugação da vida.A lua se põe disponível ao sol e, se cama, na terra, nas vastidões das suas lagoas e nos aban-
fosse minha, mandava ladrilhar e declarava para os de- done, livres do medo, nas ondas de suas crateras, que-
vidos fins que é masculina. Estrela feminina é o sol, en- remos viver soltas, suspensas, na vertiginosa escuridão”.
fim, os desejos se refletem, que noite linda, meu Deus. Ó Lua maior que o Céu, maior que o Sol, se a pobre-
A rede se estende sob o meu corpo, as águas do mar se za é lugar nenhum, para onde você conseguirá voltar?
entregam de barriga para cima à fina lâmina de prata, As poucas que conseguiram, foram para Salvador estu-
gemem, seios à mostra, volumosos vãos de moléculas dar, façam o mesmo, sigam direto pra lá, por que não?
em movimento, silencioso tormento feminino ser es- O que sei eu? Estou aqui há dez dias.Vou-me embora
curidão desmedida, baleia-cachorra a oferecer-se aos amanhã.Tenho para onde voltar. Se a vida fosse minha,
carinhos do dono, olho de peixe, sedução serena, celes- mandava ladrilhar as costas do sol, para que a fuga não
te, constante, me despe, seu nome já não é mais terreno, fosse em vão e os pés não se despedaçassem em carne
onde estou mesmo? Sinto um delicado tremor perante viva. Meninas rainhas, quanta alegria ainda, nos braços
tanta beleza, mas estou estável diante de mim, viver às dos rios que desembocam em mares distantes dos ma-
escuras ou às claras já não faz diferença, as profundidades res sem calmarias, que possamos reencontrar os corpos
são irmãs siamesas. Os sapos é que me trazem de volta. selvagens, suados, sonhados ao luar.   
Se não há céu que não me explique, nem véu que não
me excite, os sapos são a gramática mais antiga do meu Clarice Niskier é atriz, diretora e dramaturga. Seu espetáculo A Alma
inconsciente; eu os estranho. Saci de duas pernas, solu- Imoral, baseado no livro do rabino Nilton Bonder, em cartaz no Teatro Eva
ço, praga indecifrável, nunca vi um deles virar príncipe. Herz, em São Paulo, estreou há 12 anos.
Vai esfriar, esfriou, me fecho afundada na rede, durmo
despida e, quando acordar, o sobrenatural terá partido
e a viagem continuará real. Estou em uma pousada de
vilarejo na região da Costa do Sol, Bahia. O rio corre
paralelo ao mar, o mar corre paralelo à areia, os ventos
correm paralelos às galáxias.Vida indígena, negra, mes-
tiça, clandestina, madrasta, onde tudo é ocupação, usu-
Cortesia da artista

capião, areia movediça, danação, luz que ofusca a reali-


dade pagã. O futuro é ficção. O presente é violento. Os
estrangeiros se firmam, constroem casas, pousadas, res-
taurantes, levam as meninas, escravas sexuais. Nem todos

Mudança de Planos (detalhe), óleo sobre tela, de CLARICE GONÇALVES,2010


20 | F O T O G R A F I A

E
POR SÉRGIO AUGUSTO  | FOTOS BERENICE ABBOTT

A REBELDE DA
FOTOGRAFIA LA NÃO SE ACHAVA BONITA. Nem se preocupava
com a aparência, como algumas de suas modelos. Não
obstante, ainda bem jovem, posou nua algumas vezes para
Livros contam a vida e a obra da sustentar suas difusas ambições profissionais. Tesa e “do
fotógrafa americana Berenice Abbott, interior” (nascida e criada em Springfield, Ohio), tentou
a protegida de Man Ray, que primeiro ser jornalista, depois escritora e finalmente es-
já foi definida como cultora – até descobrir que seu destino era olhar e recriar
“delicada, mas sombria” o mundo através das lentes de uma câmera.
Reduto originalmente masculino, a profissão de fo-
tógrafo custou um pouco a abrir-se ao olhar feminino.
Um século separa o trabalho pioneiro da retratista Julia
Margaret Cameron, no império britânico, das expres-
sivas imagens registradas por Dorothea Lange, Marga-
ret Bourke-White, Gisèle Freund, Ruth Orkin, Lee
Miller, Tina Modotti, Helen Levitt, Diane Arbus, Eve
Arnold, Cindy Sherman, Annie Leibovitz. Com um e
outro acréscimo, essas talvez sejam os expoentes má-
ximos da categoria. É a essa liga que Berenice Abbott
(1898-1991) pertence.
Gente, paisagens urbanas, coisas grandes, pequenas e
moleculares – em diferentes épocas da vida Abbott fi-
xou-se em modelos específicos. Começou, à maneira
de Margaret Cameron, fazendo retratos de celebridades
literárias residentes em Paris (na trilha de Man Ray);
em seguida retratou as ruas, os prédios, os habitantes e as
metamorfoses de Manhattan (ao estilo Eugène Atget),
depois saiu on the road pela América (à maneira de
Walker Evans) e revolucionou a fotografia científica
(sem inspirar-se em ninguém).
Keystone-France / Getty Images

Definia-se, com orgulho, como “uma rebelde”. Tão


precocemente rebelde que acrescentou uma quarta vo-
gal ao nome – nascera Bernice – sem pedir licença à fa-
mília ou avisar os amigos. “Ficou mais sonoro”, foi sua
única justificativa. Seu inconformismo, porém, não se
limitou à alteração no nome. Aos 18 anos, mandou-se
para Nova York, para estudar jornalismo, mas não resistiu Berenice Abbott/Getty Images

às tentações da efervescente vida boêmia do Greenwich


Acima, a fotógrafa Berenice Abbott, em retrato de autoria Village, onde rachou aluguel com o crítico literário Mal-
desconhecida; na página ao lado, foto tirada por ela
nos Estados Unidos, Crianças na Feira, de 1967 colm Cowley, a escritora de vanguarda (e musa gay) Dju-
na Barnes e a poeta dadaísta e baronesa Elsa von Freytag-
Loringhoven – e caiu, sem retorno, no mundo das artes.


22 | F O T O G R A F I A

Manhattan do topo do edifício Irving Trust,


em 1938; na página ao lado, a dançarina Lucia


Joyce (1907-1982), filha do escritor irlandês
James Joyce, fotografada entre 1926 e 1927
Berenice Abbott/Photography Collection, NYPL

Berenice Abbott/Getty Images

Retratou Jean Cocteau, André Gide, James Joyce, Max Ernst, Coco Chanel e Marcel Duchamp
24 | F O T O G R A F I A

neidade dos fotografados. Não A colecionadora de arte


Peggy Guggenheim,
economizava negativo para di- fotografada com seu

↳ minuir despesas, mas para evi-


tar que a clientela se sentisse
desconfortável ou mesmo se
cachorro, por Berenice
Abbott em 1926

entediasse com mais de uma


Protegida de Man Ray, ser- sessão de fotos. Só em 1985 só em parte financiado pelos
viu-lhe de modelo para uma seus Paris Portraits foram edita- programas de auxílio às artes
foto que não ganhou o título dos em livro pela Steidl. do governo Roosevelt. Todas
de Nue sur un Lit por ela ter Deve-se a ela a descoberta as 307 fotos em preto-e-bran-
posado vestida deitada numa – ou, pelo menos, o reconhe- co por ela feitas entre 1935 e
cama. Os dois voltariam a tra- cimento público – de Eugène a Feira Mundial de 1939 fo-
balhar juntos em Paris, três Atget, singular fotógrafo fran- ram reproduzidas no livro Be-
anos depois. De tanto insistir, cês que dedicou 40 dos seus renice Abbott: Changing New
Berenice virou laboratorista 70 anos de vida a captar aus- York (The New Press, 1939)
no estúdio de Ray, que a in- teras imagens de Paris sem um e podem ser acessadas gratui-
centivou a aprender o metiê, escasso ser humano à vista. O tamente pela internet, no site
emprestando-lhe uma de suas velho Eugène vivia à míngua da Biblioteca Pública de Nova
câmeras. As primeiras fotos da até conhecer Berenice, que York (www.nypl.org).
discípula foram tiradas da sa- lhe tirou a última foto, em Fisicamente Berenice lem-
cada do estúdio. 1927, e comprou-lhe o acer- brava uma melindrosa, “deli-
Em pouco tempo, a apren- vo fotográfico com dinheiro cada, mas sombria”, no dizer
diz de fotógrafo quase tirou emprestado, levando-o consi- de Julia Van Haaften, curado-
do patrão o mercado de ce- go para Nova York, dois anos ra de fotografia da Biblioteca
lebridades da cidade. Bereni- depois, onde a obra de Atget Pública de Nova York e au-
ce fez retratos de Jean Cocte- ganhou enorme visibilidade, tora da mais recente biografia
au, André Gide, James Joyce, prestígio e finalmente foi doa- da fotógrafa Berenice Abbott: A
Max Ernst, Coco Chanel, en- da ao MoMA. Life in Photography (Norton,
tre outros, que dividiram com Foi inspirada em Atget que 2018). Era lésbica, namorou
os de Ray as paredes da mí- Berenice registrou as trans- atrizes, escritoras, escultoras e
tica Livraria Shakespeare & formações da Nova York pós- até uma princesa, neta de Na-
Company, antes de a galeria Depressão: as demolições, os poleão 3o, mas, discretíssima,
Au Sacré du Printemps sele- BIOGRAFIA edifícios em construção,o oca- nunca falou publicamente de
cioná-los para uma exposição Lançada este ano, so dos velhos negócios, o ven- seus casos amorosos. Embora
individual, no verão de 1926. A Life in Photography, de daval de modernidade e pros- tenha sido presa numa batida
Com direito a um lauto regis- Julia Van Haaften, traz peridade varrendo a metró- a um clube sáfico, só uma vez
tro da revista The New Yorker, detalhes da vida pessoal pole, para o bem e para o mal. foi parar numa delegacia – por
assinado por sua correspon- de Berenice Abbott, Algumas das mais belas e im- embriaguez.
dente em Paris, Janet Flanner. como namoros com pressionantes imagens notur- Depois da morte da crítica
Quando a socialite Peg- diversas mulheres e a nas de Manhattan foram tira- de arte Elizabeth McCaus-
gy Guggenheim exigiu posar prisão por embriaguez das por ela nos anos 1930, em land, sua companheira de três
exclusivamente para Bereni- perspectivas que outros tenta- décadas, refugiou-se à beira de
ce, Ray, enciumado, afastou- ESTILO ram em vão repetir. Usava tri- um lago, no Maine, onde pas-
se dela. E ainda teve de aturar Berenice se pé, parecia um lambe-lambe, sou a viver como uma reclusa
comentários do tipo “as mu- destacou atraía o olhar de todo mun- até seus 93 anos. Ou uma “ve-
lheres são melhores retratistas por seus retratos de do e, por vezes, não encontrou lha excêntrica”, como prefe- Berenice Abbott/Getty Images

que os homens porque mais celebridades e suas boa receptividade nos cantos ria autodefinir-se. Que bebia
intuitivas e detalhistas”. imagens da Nova York mais broncos da ilha. cerveja ao volante de seu ca-
Calma e meticulosa, preo- pós-Depressão, com as Bancou do próprio bolso os lhambeque, frequentemente
cupava-se acima de tudo com demolições e edifícios primeiros anos do projeto, o em alta velocidade. Uma re-
a expressividade e a esponta- em construção mais importante de sua vida, belde até o fim. 

Quando Peggy Guggenheim posou para Abbott, Man Ray, enciumado, afastou-se da assistente
26 | L I T E R A T U R A

crevem e leitores que buscam


dicas rápidas, fáceis e duvido-
samente eficazes, geralmente
POR LIVIA DEODATO | ILUSTRAÇÕES LUCAS LEVITAN organizadas em listas.
“O termo autoajuda é um
grande guarda-chuva. Nos
anos 80, tínhamos uma autoa-

ORÁCULOS DE PAPEL
juda mais inspiradora ou mís-
tica e agora ela é mais prática e
acompanha o mundo em que
estamos”, diz a editora e agente

D
literária Alessandra Ruiz, que
Como a autoajuda se transformou no gênero que alavanca já trabalhou em grandes edito-
os números do mercado editorial no Brasil e no mundo ras e acaba de fundar sua pró-
pria agência, Authoria. “Den-
tro do gênero, você encontra
livros de negócios, ciência, es-
piritualidade, desenvolvimento
E PROBLEMAS DE SAÚDE humano, que servem para apli-
a questões políticas, o Orácu- cação tanto em sua vida pessoal
lo de Delfos, mais importante quanto profissional. A grande
centro religioso da Grécia An- mudança que observo atual-
tiga, atendia de cidadãos co- mente é que há um número
muns a governantes e filósofos cada vez maior de livros mais
que estavam em busca de con- sérios, baseados em pesquisas
selhos assertivos. Logo na en- acadêmicas, inclusive, traduzi-
trada, a inscrição “conhece-te das de maneira mais popular e
a ti mesmo” se tornou a base da abrangente”, completa ela, que
filosofia que conhecemos hoje, trabalha no mercado editorial
difundida inicialmente por Só- há 25 anos.
A A L AVA N C A DA crates. Sem dúvida, era o pri- Auto-ajuda, na opinião de
meiro movimento de que se Tomás daVeiga Pereira, sócio-
11% tem notícia em direção ao au- -diretor da Sextante, é uma
foi o aumento da venda toconhecimento – em outras maneira de tornar acessível
de livros de 2017 para 2018, palavras, ao que hoje também ao grande público conheci-
impulsionado sobretudo podemos denominar como mentos, experiências e pes-
pela autoajuda autoajuda. quisas sobre os mais diversos
O gênero, assim como o temas, com o objetivo de al-
DÉFICIT Oráculo de Delfos, abrange cançar aquilo que se propõe.
DE LEITURA diversas questões e temas no Ele conta que já seguiu a die-
Brasil. E é atualmente o res- ta chamada South Beach, re-
44% ponsável por alavancar as ven- comendada por um médico
da população das de livros em todo o mun- seu para tratar sua insônia re-
brasileira do e especialmente neste país corrente. “Aquilo me ajudou
não lê livros e que sempre foi conhecido muito e, pouco tempo depois,
como um lugar de não leito- publicamos a tradução deste
30% res. De 2017 para cá, houve um livro homônimo escrito pelo
dela nunca aumento de mais de 11%, se- cardiologista norte-americano
comprou um gundo painel das vendas de li- Arthur Agatston, que estudou
vros no Brasil de maio levan- a fundo as causas das dores e
tado pelo Sindicato Nacional doenças trazidas por seus pa-
dos Editores de Livros (SNEL)
e a Nielsen Bookscan Brasil.
Isso porque a autoajuda, hoje,
deixou de ser apenas o nicho
comum entre autores que es- ↳
L I T E R A T U R A | 29

NO TOPO zer Amigos e Influenciar Pessoas


Os 20 livros (Simon & Schuster), de Dale

↳ mais vendidos
da Livraria Cultura
atualmente são de autoajuda
Carnegie (1888-1955), con-
siderado a “bíblia” da autoaju-
da, publicado pela primeira vez
em 1936 e que já vendeu mais
cientes e apresentou uma ma- O TOPO DO TOPO de 50 milhões de exemplares. hoje à frente da Buzz Edito-
neira de curá-los.” A Sutil Arte de “A Sutil Arte... é o avesso da ra. A obra escrita por Cerbasi
Seja por pura retórica ou Ligar o F*da-se, autoajuda tradicional: o livro vendeu mais de 1,3 milhão de
abrangência do conceito, o fato de Mark Manson, já vendeu diz que o leitor não é tão espe- exemplares – e tem feito escola.
é que, se analisarmos o senti- mais de 183 mil exemplares cial assim e que vai ser mais fá- A especialista em finanças
do estrito da palavra, todo livro no Brasil e mantém-se em cil viver se ele parar de se tor- pessoais e youtuber Nathalia
pode ser considerado autoaju- primeiro lugar no ranking turar para pensar positivo”, diz Arcuri (leia mais nas páginas a
da. “Um manual de redação e geral dos mais vendidos Raquel Cozer, editora da In- seguir) vendeu 2.672 exempla-
estilo para aprimorar a escrita, trínseca.“Acho natural que, em res de seu livro Me Poupe! só no
um livro para organizar a vida A ‘ BÍ B LIA’ tempos de crise como a que vi- mês de lançamento, marcando
financeira, outro para meditar, Como Fazer Amigos e vemos hoje, essa busca aumen- um recorde para a Sextante.
outro para aprofundar uma dis- Influenciar Pessoas, te. É muito simbólico que esse Isso o levou a ocupar a quar-
cussão filosófica, um conto ou de Dale Carnegie, é livro tenha vendido mais que ta posição no ranking geral de
poesia...Todas essas variedades considerado a “bíblia” da qualquer outro de qualquer vendas da PublishNews. O lan-
são escolhas, consideradas im- autoajuda. Publicado pela gênero no Brasil neste ano.” A çamento, ocorrido em maio na
portantes por seus leitores, que primeira vez em 1936, já Sutil Arte... já vendeu, até o fe- Livraria Cultura do Conjunto
tornam os livros mestres para vendeu mais de 50 milhões chamento desta revista, mais Nacional, em São Paulo, cau-
quem os lê. Afinal, o que bus- de exemplares em todo o de 183 mil exemplares no país, sou frisson e fez com que seu
cam é um meio de aprimorar mundo e segue na lista dos mantendo-se em primeira po- livro esgotasse em três horas.As
algo em si, ampliar conheci- mais vendidos por aqui sição no ranking geral dos mais resenhas breves feitas por lei-
mento, diálogo. Para mim, são vendidos, de acordo com a Pu- tores no canal da autora levam
todos autoajuda”, diz o jor- A N OVA S E N SAÇ ÃO blishNews (Sapiens, de Yuval a crer na eficácia do conteú-
nalista e professor de literatu- Me Poupe!, de Noah Harari, personagem da do:“Li seu livro em dois dias e
ra Pedro Almeida, proprietário Nathalia Arcuri, capa, aparece em quarto lugar, aprendi bastante coisa” ou ain-
da Faro Editorial. esgotou em três horas no com mais de 79 mil exempla- da “acompanho seu canal há
lançamento em São Paulo, res vendidos). um ano, li o seu livro em quatro

O
filósofo e professor uni- o que o levou a ocupar o Outro livro que ficou nas dias e é maravilhoso, já fiz vá-
versitário Mario Sergio quarto lugar no ranking paradas de sucesso por bas- rias mudanças e bora ser rica!”
Cortella é uma das per- geral de vendas tante tempo é Casais Inteligen-

A
sonalidades que ultrapassaram a tes Enriquecem Juntos (Sextan- editora Raíssa Castro, da
barreira da academia e transitam te, 2004), de Gustavo Cerbasi. BestSeller eVerus, que in-
livremente pelos corredores po- juda. Erra quem pensa que isso O livro trata de finanças pesso- tegram o Grupo Editorial
pulares de TVs, rádios, revistas, o incomoda. O autor já repetiu ais de modo acessível, mas tam- Record, afirma que um dos cri-
jornais, eventos corporativos e mais de uma vez que “toda filo- bém teve outro propósito se- térios estabelecidos para seleção
estantes de livros.Ao falar de te- sofia é autoajuda” e que, como gundo seu editor à época do das obras do gênero está ligado
mas caros a todos os seres hu- em todo gênero, há obras de lançamento: diminuir o índice ao momento atual da sociedade
manos, sem rodeios e com irre- boa e de má qualidade. de separação entre casais. “Eu e suas respectivas buscas.“O que
verência, Cortella deixa os que Os primeiros 20 livros da lis- havia lido uma pesquisa inglesa importa é como o conteúdo de
o assistem hipnotizados. Al- ta de mais vendidos da Livra- que dizia que o segundo maior determinado livro é processado
guns de seus livros mais recen- ria Cultura atualmente são de motivo de separação no mun- internamente pelo leitor. De
tes, como A Sorte Segue a Co- autoajuda. Nela aparecem tí- do era dinheiro – a falta ou o que adianta ler um clássico da
ragem (Planeta, 2018) e Por que tulos como A Sutil Arte de Li- excesso dele. Daí pensei:‘Ima- literatura universal ou um tex-
Fazemos o que Fazemos? (Plane- gar o F*da-se (Intrínseca, 2017), gina um livro que possa dimi- to filosófico altamente elabora-
ta, 2016), estão classificados em de Mark Manson, texano de nuir esse índice?’”, relembra o do se o leitor não é transforma-
algumas livrarias como autoa- 34 anos, e também Como Fa- editor Anderson Cavalcante, do por essa leitura?”  

“Livros são mestres para quem os lê. Para mim, são todos autoajuda”, diz dono da Faro Editorial
P E R F I L | 31

–É
POR GISELE VITÓRIA | FOTOS RACHEL GUEDES

PÃO - DU R A a conversa com uma ressalva:


“Presidente, eu sou normal, tá?
R$ 1 milhão Talvez um pouco exaltada ou
é o que Nathalia tem em feliz demais”.
investimentos, mas ela não gasta A irreverência, traço que a
mais que R$ 6 mil por mês jornalista tem desde a infân-
dessa aqui que eu estava te falando. Olha só que cia, não a impediu de fazer
A CIFRA conteúdo incrível ela tem... perguntas complexas. Natha-
– E será que ela fala com a gente? lia abordou taxa Selic, inflação,
1.768.409 – Não custa tentar. O “não” a gente já tem. spread, paradoxos entre con-
é o número de seguidores do O diálogo acima seria uma trivial tro- sumo e crescimento, e des-
canal, até o fechamento da ca de e-mails não fosse pelo remetente concertou algumas vezes um
edição desta revista que saltava na caixa de mensagens: Ban- acanhado Goldfajn. Ele sorriu
co Central do Brasil. A conversa, entre timidamente quando a moça
dois funcionários da instituição, que pa- disparou o seu bordão “que-
recia tratar de uma candidata ao Nobel ro desfoder o Brasil”. O retor-
de Economia, era sobre Nathalia Arcuri, a no foi imediato – e com juros.
youtuber de 32 anos que ensina a poupar “O mais gratificante foi ouvir
brincando e já tem 1,7 milhão de inscritos do pessoal do BC que aquela
no Me Poupe!, o maior canal de finanças tinha sido a melhor entrevista
pessoais do Brasil noYouTube. do Ilan”, diz.
O sucesso nas redes rendeu um livro Filha de um engenheiro ci-
homônimo à jovem empreendedora de vil e uma psicóloga, Nath nas-
educação financeira e ex-repórter da TV ceu em uma família de classe
Record. Me Poupe! – 10 Passos para Nun- média, de origem italiana. Eco-
ca Mais Faltar Dinheiro no seu Bolso (Sex- nomiza dinheiro desde os sete
tante, 2018) teve 22 mil exemplares ven- anos, quando já sonhava com
didos em duas semanas o primeiro carro.“Apenas nas-
e já está na quarta edi- ci assim”, ri. Diverte-se lem-
Com dicas bem-humoradas para economizar, a paulistana ção. Nath franze a testa brando que escondia seu di-
Nathalia Arcuri, autora do best-seller e, voz empostada, olha de nheiro das duas irmãs. A fama
Me Poupe! , criou o maior canal de finanças soslaio. O riso é inevitável. de pão-dura se alastrou entre as
pessoais do YouTube e deu Ela narra a troca de mensa- amigas. “Nunca me privei de
lições até para o Banco Central gens – que não haviam sido nada, mas só compro roupa em
apagadas e repousavam por brechó, sempre opto pelo res-
engano na sua tela, abaixo taurante mais barato. Comprei

COM DINHEIRO
de um convite oficial – com uma cômica meu primeiro apartamento
expressão de espanto. Mas era sério: no fim com 23 anos. Meu jeito inco-
do ano passado, o BC estava ciente do su- modava. O que para mim era
cesso em alta de Me Poupe! e convidava a óbvio, percebi que para mui-

SE BRINCA
autora para um evento. tos não era. Por isso criei um
“Levei um susto. Respondi, com humor, blog”, explica. “Me habituei a
que não sabia que havia vida inteligente no guardar 70% do meu salário,
BC”, conta ela. Foram duas aparições na que era então de R$ 10 mil.”
agenda do BC. Na segunda, em Goiânia, Nath ganhou do primeiro ma-
Nath participou de um painel e conhe-
ceu o presidente Ilan Goldfajn. Aprovei-
tou para amarrar uma entrevista com ele,
que foi ao ar em janeiro e lhe rendeu pres-
tígio e 185.741 visualizações. Nath iniciou ↳
32 | P E R F I L


Nathalia Arcuri e a
colher batizada como Margarete,
que serviu por um bom tempo
para que ela fizesse
sozinha o foco da câmera
f]ragmentos[
PÁGINAS S EL ECIONADAS
buraco, mas o dinheiro está aí.
Você deve oferecer valor para PARA A S UA L EITURA: O NOVO ROM ANCE DE ENRIQUE VILA - M ATA S ,
ter acesso a ele. Eu oferto va- UM HÍBRIDO DE FICÇÃO E ENS AIO
lor.” Para ela, o brasileiro tem
“dinheirofobia”, vergonha de DE FEL IPE CHARBEL E UM  POEM A INÉDITO DE LEDUCHA
dizer quanto ganha ou quan-
to quer ganhar.Apesar do êxi- POR SANDRA ESPILOTRO  | ILUSTRAÇÕES HELENA CINTRA
to, Nath também tem seus ha-
ters. Já ouviu que o dinheiro
que anunciou ter acumulado é
ME POUPE! uma invenção. Mas ela nem se
Nathalia Arcuri abala. Três anos de análise lhe
Ed. Sextante (2018) dão suporte para seguir pláci-
Para ela, o brasileiro tem da, ganhando seu dindim, en-
“dinheirofobia”, vergonha de quanto os haters odeiam.
dizer quanto ganha ou

A
quanto quer ganhar reviravolta em sua vida
aconteceu em 2014, quan-
do a separação do primei-
rido o apelido de Sara (“nome ro marido coincidiu com o pe-
tipicamente judaico, e os ju- dido de demissão na Record.
deus têm fama de cuidar bem No ano seguinte, ela decidiu
do próprio dinheiro”, explica apostar todas as fichas no canal
ela). O apelido virou nome de e no blog. Buscou se credenciar
seu primeiro blog, poupecomsa- com cursos de planejamen-
ra. “Ser ‘Sara’ me garantiu rea- to financeiro, finanças pessoais,
lizações e é o que vai me levar neurolinguística, marketing di-
a um futuro próspero”, ensina. gital, mentoria e empreende- Mundial. Foi entrevistada pela o primeiro patrão de Nathalia.
dorismo. Nunca perdeu o há- Globo. Mas o ápice da emoção, “Não houve espaço para co-

O
Me Poupe! nasceu em bito de pedir desconto e buscar conta, foi dividir o palco com mentar que comecei naque-
2015. Inicialmente era alternativas gratuitas. Em três Silvio Santos no SBT. Em mar- les corredores do SBT”, con-

e
um projeto de reality anos, o canal explodiu. E ela ço, Nath deu conselhos a Silvio, ta Nathalia, que trabalhou na
show que ela ofereceu para a também se reencontrou afeti- disse-lhe que sua poupança es- produção do SBT. Lá, ela ou-
Record, mas não vingou. Em vamente. Com o sucesso, Nath tava “meio caída” e sugeriu que viu de um chefe que não teria
2017, Nathalia anunciou no se impõe mais metas: ter 4.800 as “colegas de trabalho” pre- a menor chance como repór- m seu novo livro, Mac e Seu Contratempo, o escritor catalão Enrique Vila-Matas nos apre-
canal o seu primeiro milhão novos inscritos no canal por sentes no auditório aplicassem ter. Mudou de emprego. Na
em investimentos. Ou seja, vi- dia é uma delas. Para manter a no Tesouro Direto as notas de Record, cobriu in loco o tsu-
senta Mac, personagem de meia-idade, desempregado, entediado, vivendo às custas da
rou milionária. Planeja acu- credibilidade, a youtuber não R$ 50 que ganhavam no Quem nami na Indonésia em 2004 e mulher. A única salvação para a sua vida monótona são os livros, e Mac decide reescrever
mular R$ 5 milhões.“Hoje eu aceita patrocínios de bancos. Quer Dinheiro?. De quebra, ain- foi apresentadora substituta do
vivo com R$ 6 mil por mês “O Itaú e o Bradesco já para- da se colocou à disposição para programa Hoje em Dia.“Cinco a primeira obra de um autor de sucesso, seu vizinho. O romance nos confronta com a ideia
e guardo o restante”, ressalva, ram de me procurar. Banco só trabalhar a marca de cosméti- anos foram suficientes para fa- de repetição na criação literária de hoje. Em Janelas Irreais: um Diário de Releituras, o professor da
sem esconder as cifras: o ca- serve para endividar as pessoas.” cos Jequiti, do grupo SS. Silvio zer tudo o que eu queria. Des-
nal faturou R$ 2,2 milhões no Não foi só o Banco Central se rendeu:“Ela é boa, hein?”. cobri que, ali, não iria longe.” UFRJ Felipe Charbel traz um narrador que relê livros decisivos para sua formação, com o propósito
ano passado. Este ano a meta é que procurou Nathalia. Ela já No entanto, o que o apre- Agora, o céu é o limite para de procurar neles sinais da pessoa que ele um dia foi. E na seção licença poética , um poema bilíngue
R$ 10 milhões.“O país está no recebeu e-mails até do Banco sentador não sabia é que ele foi Nathalia Arcuri. 
da paulista Ledusha Spinardi, que integra a coletânea Lua na Jaula.

“O país está no buraco, mas o dinheiro está aí. Você deve oferecer valor para ter acesso a ele” →
34 | F R A G M E N T O S

MAC E SEU CONTRATEMPO voz sabe que há dois meses e sete dias, des-
de que a empresa de construção da família
quebrou, eu me sinto abatido mas também
que, se eu falisse completamente, não ficaria
pior do que estive na época em que construí
casas que me deram mundos e fundos, mas
de Enrique Vila-Matas imensamente livre, como se o fechamento também insatisfações e várias neuroses.
de todos os escritórios e a dura suspensão de Embora os assuntos mundanos logo te-
pagamentos tivessem me ajudado a me situ- nham me levado por caminhos inespera-
ar no mundo? dos e até hoje eu nunca tenha escrito nada
Adoro o gênero dos livros póstumos, ulti- que eu nasci, e gostaram muito do momen- Tenho motivos para me sentir melhor do com intenção literária, sempre fui apaixona-
mamente tão em voga, e estou pensando em to em que o xerife Wyatt pergunta ao velho que quando ganhava a vida como um cons- do pela leitura. Primeiro, fui leitor de poesia;
falsificar um que, ainda que parecesse póstu- que atende no saloon: trutor próspero. Mas essa — vamos chamá- mais tarde, de relatos, um amante das for-
mo e inacabado, na verdade já estaria com- — Mac, você nunca se apaixonou? -la assim — felicidade não é algo que eu mas breves. Adoro contos. Por outro lado,
pletamente terminado. Se eu morresse en- — Não, eu fui garçom a vida inteira. esteja exatamente querendo que os outros não simpatizo com romances, porque eles
quanto o escrevo ele iria se transformar, aí Eles adoraram a resposta do velho, e des- percebam. Não gosto de nenhum tipo de são, como dizia Barthes, uma forma de mor-
sim, num livro de fato último e interrompido, de então, desde um dia de abril do final dos ostentação. Sempre tive necessidade de pas- te: transformam a vida em destino. Se um
o que acabaria, entre outras coisas, com esse anos 1940, eu sou o Mac. sar o mais despercebido possível. Daí minha dia eu escrevesse um romance, gostaria de
meu anseio por falsificar. Mas um estreante Mac daqui, Mac de lá. Sempre Mac, pra tendência, sempre que isso é possível, a me perdê-lo como quem perde uma maçã ao
tem de estar preparado para aceitar tudo, e todo mundo. Nos últimos tempos, em mais esconder. comprar várias no paquistanês entulhado da
eu, na verdade, não passo de um principian- de uma ocasião me confundiram com um Esconder-me, entrincheirar-me nestas esquina. Gostaria de perdê-lo para mostrar
te. Meu nome é Mac. Como estou estrean- Macintosh, o computador. Quando isso páginas vai fazer com que eu me sinta muito que não dou a mínima para romances e que
do, talvez seja melhor eu ser prudente e es- aconteceu eu curti loucamente, talvez por bem, mas que conste que se eventualmen- prefiro outras formas literárias. Me marcou
perar um tempo antes de encarar qualquer pensar que é melhor ser conhecido por Mac te me descobrissem, eu não veria nisso uma demais um relato muito breve de Ana Ma-
desafio da envergadura de um livro póstumo do que por meu nome verdadeiro, que, afi- catástrofe. Em todo o caso, a opção é que o ría Matute, no qual se dizia que o conto tem
falso. Dada minha condição de principiante nal, é horroroso — uma imposição tirânica diário seja secreto; isso me dá mais liberda- um velho coração vagabundo e chega às ci-
na escrita, minha prioridade não será cons- do meu avô paterno —, que me recuso a de para tudo, como para dizer, por exemplo, dades caminhando e logo desaparece… E
truir imediatamente esse livro último, nem pronunciar, que dirá a escrever. que alguém pode passar anos a fio se consi- Matute concluía:“O conto vai embora, mas
tramar qualquer outro tipo de falsificação, Tudo o que eu disser neste diário direi derando escritor e certamente ninguém vai deixa seu rastro”.
mas simplesmente escrever todos os dias e a mim mesmo, porque ninguém vai lê-lo. aparecer e se dar ao trabalho de dizer: Es- Às vezes penso que me salvei de um gran-
ver o que acontece. E então quem sabe che- Eu me isolo neste espaço privado no qual, queça, você não é escritor. No entanto, se de infortúnio quando, ainda muito jovem,
gue a hora em que, sentindo-me prepara- entre outras coisas, procuro comprovar que, um dia essa pessoa resolve estrear e pôr to- tudo foi conspirando para que eu não tives-
do, eu resolva ensaiar esse livro falsamente como dizia Nathalie Sarraute, escrever é das as cartas na mesa e finalmente escrever, o se um minuto sequer para comprovar que
interrompido pela morte, pelo desapareci- tentar saber o que escreveríamos se viésse- que esse principiante atrevido logo vai no- escrever é deixar de escrever. Se eu tives-
mento ou pelo suicídio. Por enquanto me mos a escrever. É um diário secreto de ini- tar é que, se for honesto consigo mesmo, sua se disposto desse tempo livre, talvez agora
contento em escrever este diário que co- ciação, que não sabe sequer se está dando si- atividade não tem a menor relação com sua estivesse transbordando de talento literário,
meço hoje, completamente apavorado, sem nais de já ter sido começado. Mas acho que ideia grosseira de se considerar escritor. Pois ou então estivesse simplesmente destruí-
me atrever sequer a me olhar no espelho, sim, acho que já estou emitindo sinais, em na verdade, e quero dizer isso sem mais de- do e acabado como escritor, mas, nos dois
pra não correr o risco de ver minha cabeça meus sessenta e tantos anos, de ter iniciado longas, escrever é deixar de ser escritor. casos, sem condições de aproveitar o mara-
afundando no colarinho. um caminho. Creio que esperei tempo de- Embora nos próximos dias eu vá vender vilhoso espírito de principiante que tanto
Como eu já disse, meu nome é Mac. E mais por este momento para agora pôr tudo por um preço lamentável um apartamen- me alegra neste preciso — mais que exato
vivo aqui, no bairro do Coyote. Estou senta- a perder. O instante está chegando, se é que to que consegui não perder depois da der- — momento, instante perfeito, ao meio-dia
do em meu aposento habitual, onde parece já não chegou. rocada econômica, tenho receio de acabar em ponto desta manhã de 29 de junho, jus-
que sempre estive. Escuto a música de Kate — Mac, Mac, Mac. dependendo totalmente do negócio que tamente quando me disponho a abrir um
Bush e depois vou ouvir Bowie. Lá fora o Quem fala? Carmen gerencia, ou de ter que pedir aju- Vega Sicilia de 66, como que sentindo o
verão é ameaçador, e Barcelona se prepa- É a voz de um morto que parece estar da a meus filhos. Quem diria que eu ficaria contentamento de quem se sabe inédito e
ra — os meteorologistas anunciam — para alojado em minha cabeça. Imagino que ele à mercê do ateliê de restauração de móveis comemora o início de um diário de apren-
MAC E SEU uma grande elevação da temperatura. quer me advertir de que não devo me pre- da minha mulher quando, há apenas pou- dizagem, de um diário secreto, e olha ao re-
CO N T R AT E M P O Me chamam de Mac por uma famo- cipitar. Mas nem por isso vou frear as expec- cas semanas, eu era dono de uma sólida es- dor, no silêncio da manhã, e percebe um ar
Enrique Vila-Matas sa cena de My Darling Clementine, de John tativas de minha mente. Essa voz não vai me trutura imobiliária? Acabar dependendo de frouxamente luminoso, que talvez só exista
Editora Cia. das Letras Ford. Meus pais viram o filme logo depois intimidar, então fico na minha. Será que essa Carmen me deixa preocupado, mas acho dentro de seu cérebro. 
36 | F R A G M E N T O S

JANELAS IRREAIS: A despedida dos palcos. Exit Ghost. Só hoje


de manhã fiquei sabendo que tinha sido a
e comprei um balde de café, mas só tomei
a metade — um balde inteiro me deixaria

UM DIÁRIO DE RELEITURAS despedida, quando a Hanna me mostrou


a matéria do The New York Times sobre o
evento. Não ligamos para eventos literários,
um mês sem dormir. Ela pediu um brownie
ou um muffin ou um scone ou um cupcake
ou um cookie. Dizem que os esquimós têm
de Felipe Charbel a Hanna e eu. Quando publicou o seu pri- quarenta palavras para neve; os americanos
meiro romance, ela se recusou a fazer uma têm quarenta palavras para bolo. Saímos de
noite de autógrafos. Achava a ideia repul- lá e caminhamos de forma acelerada (menos
20 de abril o protagonista de Invisible Man meio século siva. Eu não me importei de estar presen- por pressa que por assimilação subserviente
antes. Ele desistiu de se suicidar e, após dois te no lançamento do meu livro — um livro dos costumes locais), até a instituição judaica
Encontro duas marcações a lápis, quase im- dias bem movimentados, que, entre ações e acadêmico, é bem verdade, nada que possa de nome esquisito onde o evento se realiza-
perceptíveis, nas páginas 340 e 341. São os lembranças, ocupam três quartos da narra- comprometer o autor diante da família e da ria, o 92nd Street Y. Mostrei ao segurança o
únicos rabiscos no livro, fora os da folha de tiva, Sabbath volta a pensar em Drenka. E sociedade. Vendi quarenta e quatro exem- meu tíquete azul. 57 dólares. Pensei que se-
rosto. Li O teatro de Sabbath durante o luto pensa na morte dela. Todos os dias, depois plares e me alcoolizei severamente. Na ma- ria delicado, um gesto elegante, retribuir a
pela morte do meu pai — nos primeiros do horário oficial de visitas, ele a encontra- nhã seguinte ao lançamento, por coincidên- cortesia e levar o amigo que nos presenteou
meses perdi completamente o interesse por va no hospital. “Meu namoradinho ameri- cia, o romance da Hanna seria resenhado no com o tíquete para jantar, mas onde? Sem-
literatura, e esse foi um dos poucos roman- cano”, ela dizia, quando Sabbath chegava, e suplemento literário de um jornal carioca. pre comemos as mesmas coisas, nos mesmos
ces que consegui terminar naqueles dias. mesmo sob o efeito da morfina ela conver- Ainda não estávamos juntos, mas esperei lugares, comida pronta do Whole Foods, res-
“Sabbath sentia uma sublime efervescên- sava com ele, e os dois reviviam suas melho- com ela o dia nascer, compramos o jornal taurantes a quilo no Brasil, não dá para levar
cia por não ser ele o bom menino dentro res transas, e lamentavam o que não pude- e li a resenha em voz alta, numa rua deserta um diplomata num restaurante a quilo. Per-
daquela caixa” (aqui é certo que eu tenha ram viver na companhia do outro. Até que do Flamengo, ela tão bonita naquele vestido guntei a Hanna se ela estava ansiosa. Ela dis-
pensado no “antes ele do que eu”, repeti- um dia é o último, o encontro final. A cena lilás combinando com o cabelo ruivo, e tão se que não. Eu também não estava. Ao lado
do à exaustão em Ruído branco). O segundo da morte de Drenka, a sua última noite no feliz porque a resenha era inequivocamente da fila havia uma bancada com livros previa-
trecho: “a caixa sempre deixava todo mun- mundo, sintetiza o arco narrativo e exis- elogiosa. Enfim. Não gostamos de eventos mente assinados por Roth. Não haveria ses-
do impressionado. Seja qual for a idade da tencial do romance — é como se as vozes literários, mas herdamos os tíquetes de um são de autógrafos.
pessoa, a visão daquela caixa nunca per- de Sabbath, de Roth e da própria Drenka amigo, escritor e diplomata (uma pessoa re- A sala Kaufmann de concertos é ampla e
de seu poder. Não ocupamos mais espaço trabalhassem em conjunto, se misturando almente importante), que precisou voltar ao imponente. Assentos de madeira devida-
que o de uma caixa”. Essas marcações são para dar o maior vigor possível a esse últi- Brasil para assumir um cargo em Brasília. Os mente acolchoados, um palco com dimen-
como documentos, vestígios da leitura, pro- mo contato que temos com a humanidade americanos são fascinados por tíquetes, pas- sões consideráveis — daria para encenar
vas concretas de que deixamos no livro algo transbordante da imigrante croata. sam meses se vangloriando, I’ve got a ticket for uma ópera inspirada em Guerra e Paz se eles
de nosso. O fato de não grifar obras de fic- this, I’ve got a ticket for that. Até agora ficamos quisessem. No canto direito, um púlpito.
ção diz muito sobre a pessoa que fui e, de (...) imunes a essa urgência, e só o que esse capri- Por um instante imaginei que o Roth fa-
certo modo, continuo sendo. Eu queria, na Na sua extinção, Drenka aparece como uma cho nos assegurou foi a exclusão voluntária laria dali, mas logo reparei na mesa de ma-
realidade precisava, manter os meus segre- pessoa completa, um ser humano real. Ela é das formas de socialização adulta mais corri- deira, sobriamente iluminada, no centro do
dos bem guardados, imunes à bisbilhotice, e a imigrante que nunca conseguiu, verdadei- queiras neste país. Mas ontem experimenta- tablado. E o mais impressionante — três no-
aquelas verdades sublinháveis podiam se re- ramente, se assimilar à vida americana, e tem mos o gostinho do tíquete. E é bom ter um mes bíblicos cravados na madeira com letras
velar bastante incômodas se eu as deixasse no amante a principal conexão com a terra tíquete, preciso reconhecer. Os americanos garrafais e douradas, pairando acima do pú-
circular livremente por aí. Mas nesses rabis- adotiva. “Sabbath tinha conseguido — uma sabem das coisas. blico, DAVID MOSES ISAIAH. Decidida-
cos isolados algo falou mais alto que o ins- risada veio do fundo da garganta de Drenka mente uma atmosfera litúrgica. Aos poucos
tinto de autopreservação. Era a maneira que e os olhos dela eram os olhos de Drenka!”. (...) a expectativa foi se tornando quase palpável.
eu tinha de gritar, acho: dois pequenos ris- O líquido amarelo ainda circula — nem Marquei com a Hanna na Lexington Ave- Balanço as pernas freneticamente, são quase
cos nas margens de uma frase. toda a alma foi sugada pelo dreno. nue, no Upper East Side, um bairro de gente oito e meia. Só paro de me mexer quando
esnobe. Passamos as duas primeiras semanas chamam ao palco a biógrafa de Roth, que
JANELAS IRREAIS: 24 de abril NovaYork. 9 de maio de 2014 da viagem nessa região, dez quarteirões ao fará a abertura. Do púlpito, ela lê um texto
UM DIÁRIO DE sul, no apartamento de uns brasileiros mi- preparado para a ocasião, alguma coisa sobre
RELEITURAS Nas últimas páginas, Drenka volta à cena. (...) lionários, amigos da irmã da Hanna, que o corpo e as mulheres, ou o corpo femini-
Felipe Charbel
Relicário Edições
Enrolado na bandeira americana que cobriu
o caixão do seu irmão, Sabbath vaga como
Ontem fomos ver o Philip Roth. Sua última
palestra, a última leitura pública, na verdade.
nos alugaram o quarto e sala pela metade do
preço de mercado. Paramos num Starbucks
no em Roth, ou segmentos da sua obra não
assimilados pela crítica. Logo depois é a vez →
ença poética[
38 | F R A G M E N T O S

i]lc
→ da escritora Nicole Krauss. Ela lê um de-
poimento sobre as conversas que teve com
Roth nos últimos anos e, se entendo bem, o
vel fantasiar com o retorno à harmonia da
infância, quando os Sabbath eram uma fa-
mília unida e feliz morando perto da praia,
que é sempre uma questão, não vai nos in-
troduzir à obra dele — por que apresentar
antes de serem estripados por uma pequena
lasca da História mundial.
LEDUSHA SPINARDI
ao público a razão de estarmos aqui, reu- Ágil, articulado, com uma voz envolven- Lua na Jaula, Editora Todavia, 2018
nidos? —, e sim nos preparar para a voz de te e o tempo perfeito da leitura, Roth ri do
Roth, para a sua elegância, para o seu mag- que escreveu vinte anos atrás, e nos faz rir,
netismo. Ela irá nos amansar para a presença e nos emociona exatamente porque nos
do Autor. Muito nervosa e acelerada, trope- faz rir. O procedimento do capítulo vai ge-
çando no próprio texto, era como se ela nos rando, aos poucos, um impacto notável na
dissesse, “não esperem não ser tragados pelo
carisma desse homem, não esperem não se
audiência: a sequência de epitáfios (“nossa
amada mãe Minnie”,“nosso amado marido
ei-lo
envolver pelo seu charme, é bom que este- e pai Sidney”, “amada mãe e avó Frieda”),
jam prontos para o que vai acontecer”. entrecortada pelas memórias de Sabbath e
Roth é chamado. Saúda a plateia, senta- por novos epitáfios (“amada esposa e mãe água e ar à míngua
se e anuncia que lerá uma passagem de O Fannie”, “amada esposa e mãe Hannah”,
teatro de Sabbath. Eu e Hanna trocamos um “amado marido e pai Jack”), inunda o te- sangradas todas as línguas
sorriso. Era o nosso Roth, e calhava de ser o atro de melancolia. É como se Mickey Sa-
Roth favorito do próprio Roth. Após uma bbath estivesse na plateia. Ou como se pai- a baba de babel sobrevive
breve introdução apresentando o protago-
nista e suas vicissitudes — “este Sabbath é
rasse, acima daqueles nomes bíblicos, como
um fantasma ditando sua história para o “se-
– naufrágio do bateau ivre!
um piadista como Hamlet, que pisca para o cretário do invisível” instalado no centro da o que fora joie de vivre
gênero da tragédia ao contar piadas, assim arena. Compreendo pela primeira vez a be-
como Sabbath pisca para o gênero da co- leza dessa imagem de Czesław Miłosz — o é júbilo moribundo
média ao planejar suicídio” —, Roth lê um acontecimento da literatura como saída de
longo trecho, uma das cenas mais impactan- si, tanto do autor como dos leitores e ou- antigozo pornotrágico
tes do romance, quando Sabbath caminha vintes, o acontecimento da literatura como
no pequeno cemitério judaico procurando transbordamento que abre caminho para o escuro cru do mundo
um espaço livre para ser enterrado, já que a uma possessão.
última vaga no jazigo da família, onde es- Voltando para casa, ainda no táxi, me vem
tão os restos mortais da sua mãe, do seu pai à mente a frase de Kafka citada por Roth
e do seu irmão, havia sido ocupada alguns em algum momento da noite — “o sentido
anos antes por uma tia. Nem para morrer na da vida é que ela acaba”. Isso também vale
hora certa ele serve. Agora já não será possí- para a literatura, penso. Alguma coisa tinha
sido encenada naquele teatro: o réquiem de
um autor, feito por ele mesmo e com pala-
vras emprestadas da sua obra. Mas não era só
isso. Toda uma ideia de literatura, toda uma
ideia de autoria — baseada na exaustão, na
busca maníaca da originalidade, na renún-
cia da vida em nome da arte —, parecia sair
de cena, junto com o fantasma de Mickey
Sabbath e com a imponência viril do cor-
po que lhe emprestou uma voz. De volta ao
muquifo, abrimos uma garrafa de vinho tin-
to e bebemos em silêncio. A coisa real, the
real thing, havia estado diante de nós. 
L I T E R A T U R A | 41

POR JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS

Foto: Vítor Nogueira


DE TI, COPACABANA, que assim se passaram 60 anos desde que, numa
edição de janeiro de 1958 da revista Manchete, Rubem Braga escreveu com
este título o mais importante texto da história da crônica brasileira.Ai de ti,
Copacabana, ai de ti, princesinha do mar, porque esse mote seria repetido
ao longo do texto genial e já então não era elogio o que o grande mestre fa-
zia, mas uma oração fúnebre aos teus pecados, tua devassidão e decadência.
Ai de ti, Copacabana, que o cronista maior de tuas mazelas foi quem ver-
balizou primeiro, e o tempo futuro só fez confirmar, que em tuas boates nas-
ceu o samba-canção, nos teus becos, a bossa nova, e no entanto nada disso te
redimiria dos pecados de tantas traições e vitupérios jogados noite alta pelas
janelas das tuas quitinetes grosseiras.
Disse Rubem Braga, o capixaba morador de Ipanema, que cingiram tua
fronte, ó Copacabana, com uma coroa de mentiras, ó falsa nobre das ondas
azuis, e que tu destes risadas ébrias, e que tu destes risadas vãs no seio da noi-
te vil. O preço desta vida em pecado, pela eternidade dos tempos, tu pagarás.
Até quando os famintos do Beco da Fome, as prostitutas da Prado Junior
e o fantasma da Aída Curi, a jovem currada pela juventude transviada ao sair
da escola de freiras, assombrarão os militares aposentados que jogam peteca
no Posto 6? E as beatas da Igreja da Serzedelo Correia, o
templo sagrado conspurcado pelo comércio vulgar que
um dia lhe colou, na loja ao lado, um palco de peep-show

COPACABANA, PECADORA,
estrelado pelas coxas roliças da loura Angie?
Há quem diga que os meninos cheiram cola na areia
da tua praia poluída, línguas negras de esgoto domésti-

DECADENTE... E ÚNICA
co mar adentro, e esses meninos desamparados pela in-
diferença do teu preconceito conseguem ver ainda hoje,
principalmente em meio ao foguetório do réveillon, a
pobre coitada da Aída Curi caindo da cobertura para
Há seis décadas, a revista Manchete publicou um texto do que a virgindade não lhe fosse corrompida pelos tarados.
escritor Rubem Braga que moldaria o mais brasileiro dos Ai de ti, Copacabana, que tuas virgens já não se ma-
gêneros literários – a crônica. Falava de um pedaço do Rio tam pela violação de qualquer pundonor e nem aí estão
onde tudo aconteceu, aqui revisitado sob novo olhar elas para a ressaca dos mares, para o escarro verde que as
algas despejarão em tuas ventas maquiadas para as últi-
mas noitadas nos inferninhos, na Help e nos subterrâne-
os da galeria Alaska. Ouve a onda do juízo final. Nada te absolverá das trom-
betas da invasão amanhã pela manhã, ao cantar do primeiro galo nas franjas
do morro do Pavão-Pavãozinho.

No alto, Rubem Braga em


Cachoeiro de Itapemirim, 1984 ↳
42 | L I T E R A T U R A

Ouve a onda do juízo final. Nada te absolverá das trombetas da invasão amanhã pela manhã, ao cantar do primeiro galo nas franjas do morro do Pavão-Pavãozinho Joaquim Ferreira dos Santos

↳ Todo dia tu ouves, e pela eternidade dos tempos continuarás ouvindo, a música lúgubre que Bené
Nunes tocará no piano submarino plantado na pedra onde outrora estava a Igrejinha de Nossa Se-
nhora de Copacabana. Na letra estará de novo a maldição já proclamada na crônica bíblica de Ru-
“Ai de ti,
Copacabana, porque
bem Braga:“Os escuros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua face”. eu já fiz o sinal bem
Ai de ti, Copacabana, porque, depois de saciadas as arraias negras, ainda te abusarão das intimidades os claro de que é chegada
polvos das braçadeiras roxas e depois, mas ainda não por fim, os siris de cabeça vermelha virão te arra-
nhar a carcaça, e todos eles se juntarão aos camelôs, aos proxenetas das casas de massagem e aos tabaréus
a véspera de teu dia,
AI DE TI, das milícias. E esse cardume empesteado pela poluição que mandaste aos mares, ele consumirá as últimas e tu não viste; porém
COPACABANA! gotas de oxigênio dos que insistem em caminhar sobre o inferno das tuas calçadas de pedrinhas portu- minha voz te abalará
Rubem Braga guesas. Malditas sejam todas, e que ao correres dos badejos furibundos sobre elas tropeces no soluço final.
até as entranhas.
Editora Record (2004)

N
Crônicas escritas de abril ada do teu tráfego de buzinas andará, nada mais de teus surfistas nadará e, se ainda há dúvida so-
de 1955 a março de 1960, bre o fim dos teus tempos, eis que um antigo morador da Prado Júnior, de nome Chico Bu- Ai de ti, Copacabana,
selecionadas pelo autor arque, anuncia para o meio-dia deste dia mais quente de tua existência a chegada, vinda pelo
porque a ti chamaram
túnel do Pasmado, da Caravana do Irajá, e, vinda pela boca da estação Cardeal Arcoverde, da carava-
C A R AVA N A S na do Arará.Aos sobreviventes do referver das ondas ensandecidas, esses invasores dos quilombos da Princesa do Mar, e
Chico Buarque Zona Norte, segundo o anúncio de Chico Buarque, farão justiça com o tesão em êxtase dos facões cingiram tua fronte
Biscoito Fino (2017) e das adagas em riste que malocam em suas sungas sempre estufadas, prontas para a justiça tardia dos
com uma coroa de
O último CD de estúdio do desprezados por tua luxúria e tuas champanhotas.
compositor traz a canção As Ai de ti, das tuas quitinetes no Edifício Master, das batidas de limão do Bip-Bip e do que ia de he- mentiras; e deste risadas
Caravanas, citada neste texto resia malsã no carnaval das vedetes no Clube dos Cafajestes. O Vogue já tinha se incendiado desde ébrias e vãs no seio
agosto de 1955 e perfumado de fuligem fúnebre o glamour do samba-canção de Antônio Maria, o da noite. Já movi o
EDIFÍCIO MASTER autor de Ninguém Me Ama, Ninguém Me Quer, hino choroso de tuas mulheres tristes, sempre pos-
Eduardo Coutinho tas à procura do que nunca chegava e, de bar em bar, de cigarro em cigarro, de boca em boca, nun- mar de uma parte e
Bretz Filmes (2002) ca lhes saciava a índole infeliz. de outra parte, e suas
Em seu premiado documentário, “Canta a tua última canção, Copacabana”, é como Rubem Braga coloca o ponto final no tsuma- ondas tomaram
o cineasta faz a radiografia de ni moralista sobre teus hábitos lamentáveis, tuas bundas de mulatas esculpidas nas areias no Posto 5,
um típico prédio de Copacabana tuas propostas de sexo perdulário aos turistas e os grafites cínicos gritando em tuas paredes a desfa- o Leme e o Arpoador,
çatez absolvitória do “não fui eu”. São todos culpa- e tu não viste este sinal;
dos de tantas aleivosias vãs, da cornucópia de risadas estás perdida e cega
ébrias no peito siliconado da noite loquaz e, mais uma
vez, 60 anos depois do primeiro aviso, ouvem-se as no meio de tuas
trombetas da crônica sagrada lembrando da maldição. iniquidades e de tua
De nada adiantará tua portaria 24 horas, o plan- malícia. Sem Leme,
tão da Delegacia Legal na Hilário de Gouveia. Fos-
te iníqua perante o oceano e o oceano mandará so- quem te governará?
bre ti a multidão em pânico de suas ondas. Os meros Foste iníqua perante

Alberto Ferreira / Cortesia Galeria Lume


Alberto Ferreira/Cortesia Galeria Lume

se entocarão gosmentos na Galeria Menescal, as ne- o oceano, e o oceano


gras jamantas reinarão doidivanas no salão que foi da
Marta Rocha, os bagres comandarão a concierge do mandará sobre
Copacabana Palace e todo o resto de mal já está pos- ti a multidão
to hoje com o caos dos teus motoristas e desempre- de suas ondas.” (...)
gados infernizando as ruas. Rubem Braga avisou e
nada fizeste. Chegou a hora de encerrar tua crônica
nefasta.Te entrega, Copacabana.  Rubem Braga

O clima praiano de Copa, imortalizado


na foto Meninas na Praia, de 1965; na página ao lado,
Praia Vista de Cima, de 1968. Ambas de Alberto Ferreira,
prêmio Esso de fotografia em 1963
44 | E S T A N T E

ENTRE NOVOS, RAROS E INDICADOS


Livros que chegam às prateleiras
(1 a 5), esgotados que você
acha na Estante Virtual (6 e 7)
e uma indicação de autor (8)

1 QUANDO ELA
ERA BOA
Philip Roth
COMPANHIA DAS
LETRAS
......................................
Esta obra do escritor
norte-americano morto
em maio foi publicada
pela primeira vez em
1967. A narrativa se passa
numa cidadezinha do
2 COLEÇÃO MIR
Dostoiévski e Tolstói,
3 CONSTRUIR E
HABITAR
4 PUNK
Antonio Bivar
5 A UM PASSO
Elvira Vigna
6 HOMEM LENTO
J. M. Coetzee
7 ÚRSULA
Maria Firmina dos Reis
8 CABECEIRA
meio-oeste americano entre outros Richard Sennett EDIÇÕES BARBATANA COMPANHIA DAS COMPANHIA DAS PUC MINAS O livro que o escritor
na década de 40 e KALINKA/LIVRARIA RECORD ...................................... LETRAS LETRAS ...................................... está lendo agora
acompanha a história da CULTURA ...................................... Para a geração que ...................................... ...................................... Maria Firmina dos
jovem Lucy que, depois ...................................... Considerado um dos tem hoje entre 40 e 50 Elvira Vigna publicou O autor sul-africano, Reis foi a primeira THE ADMINISTRATION
de ver seu pai alcóolatra A Coleção Mir é para os maiores pensadores anos, este livro é um originalmente esta obra ganhador do Prêmio escritora a retratar a OF FEAR
ser preso, rebelou-se amantes da literatura da atualidade na área gatilho para a memória em 1990 e costumava Nobel em 2003 e escravidão do ponto Paul Virilio / SEMIOTEXT(E)
contra sua vida de classe russa: reúne edições de sociologia urbana, emocional. Reedição dizer que era o seu vencedor do Man Booker de vista dos escravos, ......................................................
média. É o único livro de bilíngues de prosas curtas, Richard Sennett lançou do clássico O Que É romance favorito. O Prize duas vezes, lançou mais especificamente O medo, em períodos anteriores
Roth cuja protagonista contos e novelas. Integram em 2009 a primeira parte Punk – publicado pela título original era A um Homem Lento em 2007. das escravas mulheres. da história, restringia-se a causas
é uma mulher. Há a coleção dois autores da trilogia Projeto Homo Editora Brasiliense na Passo do Eldorado e, Àquela época ele tinha Nascida em 1825 em concretas. Era um sentimento
quem diga que Lucy foi consagrados, Fiódor Faber, que trata sobre as coleção Primeiros Passos depois que ganhou uma 67 anos, e o protagonista São Luís do Maranhão, ela pejorativo a ser sublimado por adultos
inspirada em sua primeira Dostoiévski e Liev Tolstói, habilidades necessárias à em 1982, em sincronia nova edição em 2004, do livro, o fotógrafo Paul é considerada por muitos dispostos a driblar os perigos do
mulher, que infernizou e também nomes menos vida cotidiana. Chamada com a eclosão do a autora resolveu fazer Rayment, também estava especialistas a primeira mundo. Nos tempos atuais, o medo
sua vida por anos e só se conhecidos no país, caso O Artífice, a obra defende movimento em São Paulo algumas alterações, na mesma faixa de idade. romancista brasileira disseminou-se por meio de ameaças
casou com ele depois de Fiódor Sologub e a ideia de que é preciso –, é o reconhecimento inclusive no título. A O enredo acompanha a mulher e negra da história. abstratas (alguém me explique
de apresentar uma Zinaída Guíppius. Os três fazer para pensar e, definitivo do papel de seu obra experimental da luta desse homem para Foi contemporânea de o que são as pedaladas fiscais?),
prova falsa de que primeiros livros da cole- assim, estimular o autor na compreensão da escritora, que morreu recuperar a autoestima José de Alencar, mas não propulsionado, multiplicado, enfim
estava grávida. ção, vendida com exclusi- trabalho da mente com cultura jovem da maior há um ano, trata da depois de sofrer um sério teve nem um terço de seu exagerado, pela internet.
vidade na Livraria Cultura as mãos. No segundo metrópole brasileira no dificuldade de narrar por acidente de bicicleta. reconhecimento. O livro Neste livro, o filósofo Paul Virilio
e Fnac Brasil, são Bobók volume, Juntos, Sennett fim do século 20. Aos 79 meio de personagens Uma enfermeira croata Úrsula, publicado pela critica a loucura coletiva introduzida
& Meia Carta <<de um traz uma reflexão em anos, o escritor Antonio que vão contando um aparece para cuidar do primeira vez em 1859, pela sincronização das emoções.
Sujeito>>, de Dostoiévski, torno da cooperação e Bivar mantém o vigor a história do outro. fotógrafo e, quando acompanha a história de “Se existe medo é porque a Terra
O Elefante, de Aleksandr de como é necessário que o permitiu viver Há desde histórias de se dá conta, ele se vê amor entre dois jovens e está encolhendo e o espaço está
Kuprin, e A Velha, de Daniil se mostrar receptivo ao (e transcrever) como assassinato até uma apaixonado por ela. Os tem como pano de fundo diminuindo, comprimido pelo tempo
Kharms. Cada livro traz outro. Construir e Habitar, ninguém a cena punk vingança por um abuso desafios e as descobertas as injustiças e os crimes instantâneo”, afirma. É fundamental
um QRCode impresso na terceira e última parte britânica e seus reflexos sofrido na infância. do envelhecer percorrem cometidos contra os conhecer a visão de um dos mais
capa, o que possibilita ao da trilogia, é um estudo naquela São Paulo toda a narrativa, e africanos forçados a viajar ácidos opositores do neoglobalismo
leitor acessar o áudio do acessível sobre o homem operária e underground provocam os leitores a ao Brasil. A nova edição militarizado.
texto, em russo nativo. na cidade e como as nos estertores da refletirem sobre o amor, o inclui o conto A Escrava,
Mir, em russo, significa construções afetam a ditadura militar. sexo e a mortalidade. de 1887. Joca Reiners Terron é autor, entre outros
“paz” e “mundo”. vida das pessoas. (Ivan Marsiglia) romances, de Noite Dentro da Noite - Uma
(Tatiana Bandeira) Autobiografia (Cia. das Letras, 2017)
46 | C I N E M A

Ilha de Bergman, documentário


de 2004 de Marie Nyreröd.
“Com o sucesso, passei a ter
POR ALFREDO STERNHEIM carta branca da Svensk Film.”
Com efeito, Bergman até
então enfrentava as limitações
impostas pelas produtoras aos

O CINEASTA DA ALMA
diretores – como a obrigato-
riedade de entregar diaria-
mente cerca de três minutos
de material filmado que fosse
útil à narrativa. Uma pressão
Centenário de nascimento de Ingmar Bergman põe a mais na sua paixão pelo ci-
em destaque sua obra singular e inquietante nema, surgida na infância em
Uppsala, na Suécia, onde nas-
ceu em 14 de julho de 1918.
A outra: o clima repressivo im-

É
A OBRA um consenso: o cinema posto pelo pai, um pastor lu-
70 filmes deixou de ser o mesmo terano. Esse e outros tormen-
foram dirigidos por Bergman depois que Ingmar Berg- tos familiares que lhe serviram
entre 1946 e 2007, entre man se consagrou fora de de inspiração, não o impediram
eles O Sétimo Selo e Gritos e sua pátria. De fato, até meados de ir em frente. Trabalhou no
Sussurros dos anos de 1950, jamais se ha- teatro como diretor assisten-
via visto uma criatividade tão te, escreveu peças e fez roteiros
O RECONHECIMENTO singular e inquietante na ên- para Svensk. Em 1944, um de-
72 prêmios fase dos conflitos da alma. O les foi filmado por Alf Sjöberg
foram conquistados curioso é que em 1954, dois em Tormento. No ano seguinte,
por ele, inclusive um anos antes do êxito do cineasta estreou como diretor em Cri-
Oscar e um Urso de Ouro no festival de Cannes, o críti- se – título premonitório para o
no Festival de Berlim co Rubem Biáfora e o cineasta que viria a seguir em sua obra.
Walter Hugo Khouri “desco- Com trama novelesca, o lon-
A MUSA briram” Bergman em Noites de ga traz a influência das peças
A atriz Liv Ullmann Circo, que representava a Suécia de August Strindberg e alguns
foi a grande estrela de no Festival Internacional do 4o dos temas que abordaria com
Bergman, tendo participado Centenário de São Paulo. Na- frequência: o desgaste conjugal,

Bonniers Hylen / Getty Images


de 10 de seus filmes para quele drama centralizado em o egoísmo afetivo, o desencan-
cinema e TV. Tiveram um um circo pobre do século 19, to e a morte.
romance entre 1965 e 1970 Biáfora e Khouri perceberam “Esse assunto sempre me
e uma filha, Linn Ullmann, um artista incomum na des- perturbou. Por isso, após o su-
nascida em 1966 crição intimista da angústia e cesso em Cannes, quando ob-
da desconexão provocadas por tive a liberdade criativa da
tropeços de comportamento. Svensk, pedi mais recursos para
Entusiasmo que ficou restri- fazer O Sétimo Selo, cujo rotei- filme seguinte, Morangos Silves- ção da ópera A Flauta Mágica, uma estética que o confirmou cuidou do calor humano.
to às fronteiras locais. Já a láurea ro havia sido rejeitado”, disse tres, em que concilia o oníri- suas realizações passaram a ofe- como um diretor arrojado e “Nosso trabalho no cinema
de humor poético que Can- Bergman. Novo êxito mun- co com o real de forma poéti- recer um clima mais sufocan- cuidadoso no visual. O cineas- começa com os rostos”, afir-
nes deu em 1956 a Sorrisos de dial. Com influência de Akira ca. Em especial no reencontro te, como em Gritos e Sussurros. ta da incomunicabilidade – de- mou certa vez. Daí a sua profí-
uma Noite de Amor foi diferen- Kurosawa, esse afresco traz um do professor vivido por Victor Nesse drama em que três mu- signação que, depois, também cua obra, com 70 títulos como
te.“Nem sabia que o filme seria cavaleiro das Cruzadas dialo- Sjöstrom (cineasta que Berg- lheres em uma casa convivem foi dada a Michelangelo An- diretor, continuar provocando
exibido ali. Mas o prêmio aca- gando com a personificação da man venerava) com os mo- com uma moribunda, ao acen- tonioni (coincidentemente, os profunda emoção sem nunca
bou sendo um divisor em mi- morte. A iminência dela se faz mentos do passado. tuar o contraste entre o verme- dois diretores morreram em 30 abandonar a genial visão exis-
nha carreira”, contou ele em A presente de forma lírica no seu Posteriormente, com exce- lho e o branco, Bergman impôs de julho de 2007) – jamais des- tencial que a marcou. 

Filmes de Bergman;
na página ao lado,
o cineasta na Suécia,
em 1960 Filho de um pastor luterano repressivo, Bergman abordou com frequência temas como o egoísmo e a morte
48 | R O B ( Ó ) T I C A

POR MARCOS PEREIRA BARRETTO

Segundo Mori, o grau de estranheza pode aumentar


se a criatura estiver em movimento. Em 1970, o roboti-
cista japonês nem poderia imaginar os robôs humanoi-
des que surgiriam nos anos seguintes. Certamente, a des-
peito de seus traços suaves, a robô Sophia, de que falamos
na coluna de junho, provoca arrepios em muitas pessoas.
Mas o conceito deVale da Estranheza não é uma unani-
midade. David Hanson, o criador de Sophia, realizou um

e
NO VALE DA ESTRANHEZA
estudo para refutar essa ideia e demonstrou que a sensa-
ção de estranheza não ocorre apenas com criaturas artifi-
ciais: pessoas veem estranheza em outras pessoas também.
A mais abrangente análise sobre a existência doVale da
Estranheza seria feita em 2015 por Jari Kätsyri e colegas,
m 1970, o roboticista Masahiro Mori foi convidado para em artigo publicado na revista acadêmica Frontiers in Psy-
escrever um artigo para uma revista obscura japonesa, em chology. Eles fizeram uma revisão nos trabalhos que bus-
uma edição sobre Robotics and Thought. Sabendo que te- cavam verificar experimentalmente se existe realmente
ria a seu lado os artigos de um escritor de ficção científica um Vale da Estranheza. Suas conclusões indicam que o
e de um professor de filosofia, Mori decidiu refletir sobre estranhamento, quando há, é resultado do descasamento
o medo que sempre teve dos bonecos de cera dos tem- entre a nossa expectativa e a aparência/comportamento
plos japoneses, imagens que lhe provocam puro terror. da criatura. E pode ser provocado por imagens irrealistas,
Esse artigo ficou esquecido por mais de trinta anos – até falta de sincronismo na fala, deformações faciais ou va-
se transformar em uma referência e um princípio da ro- riações inusitadas na velocidade dos movimentos. Outros
bótica, quase tão famoso quanto as Leis da Robótica do estudos sugerem que a estranheza seria um mecanismo
escritor Isaac Asimov. No texto, Mori discute a estra- de defesa evolucionista: aparência ou movimentos ines-
nheza que a aparência quase humana de próteses e ro- perados provocam medo.

Foto: Francisco Kochen / Cortesia do artista Michael Landy, Francisco Kochen e Thomas Dane Gallery, Londres
bôs nos provoca, e definiu-a como oVale da Estranheza, Em 2007, o modelo de Mori foi ampliado pelo fu-
no gráfico abaixo. turista Jamais Cascio, que identificou um segundo Vale
da Estranheza: aquele que se forma quando a tecnolo-
+ vale da estranheza gia modifica/estende a natureza humana. Os chamados
em movimento
}

estático
boneco Bunkaru
pessoa sadia trans-humanos provocariam estranheza crescente. Em
robô humanoide
pequena escala, o uso intensivo dos celulares já traz para
FAMILIARIDADE

animal
nós um vislumbre do que é a condição trans-humana:
empalhado
/de pelúcia certa estranheza advém em todos nós quando percebe-
robô industrial mos pessoas caminhando com olhos no celular e não em
seu caminho ou “falando sozinhos” com o uso de fones
semelhança com humanos 50%
cadáver
100% de ouvido. Alguém pode argumentar que o personagem
mão protética
Capitão América teve suas habilidades físicas ampliadas
- zumbi pelo “soro do supersoldado” e não é assustador. Mas o que
dizer dos olhos vermelhos do Exterminador do Futuro,
As curvas desse gráfico, que se tornou célebre, defi- do filme de Arnold Schwarzenegger? Conseguiremos
nem a sensação de familiaridade causada por criaturas ver traços de humanidade em seres pós-humanos radi-
assemelhadas, mas diferentes, do humano. Uma boneca cais do futuro? Talvez isso não seja importante, porque a
ou um robô humanoide seriam, a princípio, bastante fa- sociedade será então dominada por eles. 
miliares. Mas, conforme se aproximam em semelhança,
em determinado momento esta familiaridade despenca Marcos Pereira Barretto é professor do curso de Engenharia Mecatrôni-
– formando oVale da Estranheza. É o lugar que ocupam ca da Escola Politécnica da USP há mais de três décadas. Publicou mais
em nossa percepção os cadáveres, as próteses, os zumbis. de uma centena de artigos científicos.

Saint Apollonia, f ibra de vidro, tint a, engrenagens mecânicas e pedal para acionar o movimento da escult ura, de MIC HAE L L AND Y, 2013
50 | I N O V A Ç Ã O

PULSO ESPORTIVO
NOME Moov Now
DESENVOLVEDOR Moov
.......................................................................
Duas obsessões modernas se encontraram
neste início do século 21: a onipresença da
tecnologia digital e a febre de estar em forma.
A primeira colisão aconteceu com a chegada ANALÓGICA-DIGITAL
do smartphone, que permitiu acompanhar os POR ALEXANDRE MATIAS NOME D850 FABRICANTE Nikon
passos (além de rastrear percursos e contar .....................................................................................................................................................
calorias queimadas) do usuário que quisesse A comunidade fotográfica na internet ­— que cresce exponencialmente — aguardava a suces-

OLHAR ELETRÔNICO
manter-se em forma. Mas a ideia evoluiu para sora do célebre modelo D810 da Nikon para que a marca seguisse como fabricante da principal
pulseiras que funcionam como verdadeiros câmera DSLR do mercado. A sigla designa, em inglês, as câmeras digitais reflex monobjetivas,
assistentes de exercícios. A novidade da Moov GOVERNANTA DIGITAL talvez o melhor meio-termo entre as tradicionais analógicas e a atual tecnologia digital. Com
Now é que, ao contrário da maioria dos aces- NOME AWS DeepLens DESENVOLVEDOR Amazon qualidade e bom acabamento externo, a D850 conseguiu definitivamente realizar seu intento.
sórios disponíveis no mercado atualmente, ela .......................................................................................
transfere a tela para o smartphone, limitando- Que tal uma câmera com inteligência artificial para ad-
se à função de contabilizar dados sobre o seu ministrar as necessidades do seu lar? Essa ideia digna
corpo – o que a torna discreta, durável (a vida dos delírios mais paranoicos de George Orwell está sen-
útil da bateria é gigantesca) e à prova d’água. do lançada pela Amazon, primeiro para desenvolvedo-
res — quando começou a ser vendida por US$ 250 no
mês passado — para então chegar ao consumidor. Mas o
que parece ser uma ideia puramente conspiratória tem lá
seus desdobramentos práticos: desde ajudar a repor as
compras do mês até auxiliar pessoas com problemas de
memória. A empresa, que ainda estuda alguns aperfeiço-
amentos, promete levá-la muito em breve ao mercado.

PRECISÃO
PET SOUNDS Uma das principais
novidades da câmera
NOME Furbo Dog Camera CAMUFLADA
da Nikon é seu
DESENVOLVEDOR Furbo NOME Q9FN QLED FABRICANTE Samsung  
impressionante sistema
....................................................................... ............................................................ ....................................................................................... de foco automático,
Que tal uma câmera para ver como seu cachor- Esta televisão, que talvez seja a melhor do mercado hoje, mistura o brilho da tecnologia Quantum Dot LED perfeito para registrar
ro se comporta quando você não está em casa? com o forte escuro da tecnologia OLED, criando a melhor e mais precisa sensação para o consumidor. A cenas em movimento,
gravando nove

Fotos: Divulgação
A inacreditável Furbo parece ter vindo de um Q9FN QLED faz jus à resolução 4K Ultra HD disponível e exerce toda a força em cenas coloridas e luminosas.
filme de ficção científica que parodia o futuro, A TV ainda conta com um impressionante “modo camuflagem” que permite que a tela mimetize a imagem fotos por minuto
mas é real — e manda alertas de latidos para da parede de fundo onde ela foi instalada — fazendo-a praticamente desaparecer na sala de visitas.
o seu celular quando seu pet estiver se mani-
festando. Ela também atira petiscos para os
bichos (que podem ser solicitados pelo som de
sua própria voz), e a câmera ainda funciona no
escuro, com visão noturna infravermelha.
A tecnologia digital embrenhou-se em todos os aspectos da vida cotidiana: em nossos hobbies, nossas casas e até em nossa relação com os pets
52 | G E N T I L E Z A

POR CLÓVIS DE BARROS FILHO

será moralismo.Vizinho até da moral. Mas que com ela


não se confunde.
Agora, cá entre nós. Isso de julgar a atitude dos outros,
em especial de quem não se encontra presente, sempre
esteve e continua súper na moda. Socializa, agrega, cria

PENSAR A VIDA
grupos. Sobretudo se o valor atribuído for negativo.
Minha experiência em salas de professores nos últimos
trinta anos me abasteceu com um corpus mais que repre-

n
E VIVER O PENSAMENTO
sentativo sobre o moralismo na academia. Mas há tam-
bém fora dela. Nos espaços de convivência das empresas,
por exemplo. No café, em volta das máquinas de expresso.
Quem ali não se encontra, acaba com a orelha em chamas.
Além do moralismo, moral também não é mera prefe-
a livraria, a cor parda da capa de papelão não é chama- rência. Se na sorveteria a sua opção é por sorvete de mo-
tiva. São muitos títulos.Todos enfileirados. Do mesmo rango, existe pensamento sobre a própria conduta, que
autor: André Comte-Sponville. Quando foi meu pro- termina numa deliberação e numa ação. Mas nada tem a
fessor, há mais de 30 anos, era sósia incrível de Belchior. ver com moral. E por que não? Porque o sorvete de mo-
Todo final de aula imaginava uma canja com Paralelas rango é apenas uma preferência. Que, como qualquer ou-
ou Medo de Avião. tra, não advém de nenhuma superioridade de valor. Por
Sponville apresenta a filosofia. Com didática genial. isso, ninguém pode pretender a sua universalidade. Só um
Para repertórios variados. Na sua Apresentação da Filoso- déspota tentaria converter sua preferência pelo morango
fia, um dos capítulos é sobre moral. Nossa. Como vale a em regra ou padrão de conduta.
pena ler! Tudo que segue aqui só conta por essa suges- O mesmo não acontece quando deliberamos não ofen-
tão de leitura. der, não discriminar, não matar, não roubar. Nesses casos,
A palavra moral está em desuso. Faz lembrar nossos an- não se trata de preferir. Podemos pretender a universali-
tepassados. Nas agendas públicas e privadas sua presen- dade da conduta deliberada. Podemos esperar que outros
ça é cada vez mais rara. Por que será? O leitor pode su- deliberem de forma análoga. Por estarmos convencidos
gerir que um sinônimo a tenha substituído. Mas se ética da superioridade dos argumentos que lhe dão fundamen-
lhe veio à mente, os termos não se equivalem em senti- to. O fim da moral coincide com a negação do dever que
do.Talvez um dia. Mas, hoje, não mais. acreditamos universal em proveito da radicalização das
Moral é uma reflexão sobre o próprio comporta- preferências de cada um.
mento. Na intimidade da consciência. Mas é também Querido leitor, a educação que hoje propomos aos
esse comportamento. Deliberado por quem acaba de nossos filhos, bem como a que recebem como clien-
refletir sobre ele. Portanto, moral é pensar a vida e vi- tes nas escolas, não estaria contribuindo dia a dia para o
ver o pensamento. triunfo das preferências pessoais sobre o respeito devido

Cortesia do artista e Gagosian Gallery, Nova York e Londres


Assim, não se restringe a um diagnóstico das possibi- a qualquer um?
lidades de ação.Tampouco à atribuição de valor a todas Talvez você não veja sentido em pensar sobre isso. So-
elas. Também não é só a identificação da alternativa de bretudo enquanto estiver obtendo do mundo boa parte
maior valor. Porque tudo isso é só pensamento.A moral do que o satisfaz. Até o dia em que alguém prefira ir na
se completa na execução da atitude pensada. Na inter- contramão da sua dignidade. Ou pior. Fazer da preferên-
venção sobre o mundo. Na transformação da realidade. cia dele a tristeza de quem você ama.   
Na afetação daquele com quem interagimos.
Muita coisa fica fora desta definição. Como o julga- Clóvis de Barros Filho, professor de ética e conferencista, é doutor pela
mento da ação do outro. Da tua, leitor. Da vossa, leitores. Escola de Comunicações e Artes da USP e autor, entre outros livros, de
Dele ou dela.A atribuição de valor à atitude de terceiro Shinsetsu – O Poder da Gentileza (Editora Planeta, 2018).

Detalhe de Reconstructing Seurat (Orange), pintura de MICHAEL CRAIG-MARTIN, 2004


54 | E S C A P A D A

a pessoa com quem dialoguei


nos meses anteriores, para or-
ganizar minha estadia e meu
POR AMÉRICO SOMMERMAN treinamento.
Passamos pelas catracas do
parque, o sr. Wang e eu, num
carrinho de golf elétrico com

MERGULHO NA TRADIÇÃO
capacidade para umas 20 pes-
soas, já que automóvel de pas-
seio ou ônibus de turismo lá
não circulam. Até a entrada do
monastério, mais quarenta mi-
Uma viagem cultural e espiritual ao interior da China: é possível praticar nutos de percurso. Não estáva-
kung fu dentro dos muros do mitológico Templo Shaolin mos sós, afinal, milhares de tu-
ristas chineses entram todos os
dias nessa reserva, justamente
para visitar o templo. Ao che-

E
m novembro de 2017, Ele foi construído numa garmos, Wang me levou até a
publiquei no Brasil, pela província, ou estado, do cen- sala de treinos, onde encontrei
minha editora, livro do tro da China, chamada Henan. aqueles que seriam meus cole-
atual abade do Templo Situa-se no meio de um vale, gas por algumas semanas. Fa-
Shaolin, um monastério perto do topo da montanha ziam as práticas matinais.
erguido no século 5o, no centro sagrada Song (Song Shan em Suas idades variavam dos 17
da China. Passados 1500 anos, mandarim). A cidade mais pró- aos 32 anos. Eram pessoas de
esse lugar continua vivo e atu- xima dali, Denfeng, está a 13 vários países do mundo, pre-
ante, o que é impressionante. km do parque nacional criado dominantemente asiáticos: da
Arquivo pessoal

Livro feito, tive dúvidas sobre pelo governo chinês para pre- Rússia, do Cazaquistão, da Ín-
se deveria ir até o templo le- servar justamente os tesouros dia, do Sri Lanka, mas também
var a minha edição às mãos do culturais do vale e da monta- da Costa do Marfim, da Sérvia,
abade, até que um evento deci- nha – em especial, o venerado da Alemanha. Alguns estavam
diu o impasse: recebi o e-mail O TEMPLO SHAOLIN Templo Shaolin. ali para treinar por poucas se-
de um amigo francês, que foi o NO MEU CORAÇÃO Para encontrar esse lugar manas; outros por três, seis me-
meu orientador de mestrado, Polar Editora (2017) mítico é necessário tomar um ses; e um deles viera para ficar
propondo me encontrar... na O abade Shi Yongxin, líder trem ou um avião em Pequim três anos.Voltará ao seu país, a
China. Era um sinal, uma sin- espiritual e administrativo ou Xangai para duas cidades Costa do Marfim, como mes-
cronicidade, eu deveria ir. Co- do templo, recebe o livro das maiores que Henan, Zheng- tre e professor.
mecei a preparar a viagem. mãos do discípulo brasileiro zhou ou Luoyang, que por sua Até que os aposentos para
Pratico kung fu de maneira vez distam 1h30 de carro do alunos estrangeiros são bons:
ininterrupta há 14 anos. Já tinha P R ÁT I C A templo. Desta vez, cheguei no dois beliches e um banheiro,
ido à China, e ao templo, duas Té c n i c a s m i l e n a r e s começo da primavera: os dias mas é possível, com um pe-
vezes para treinar com os mon- O visitante pode aprender já não eram tão frios e as árvo- queno acréscimo no valor, fi-
ges e os instrutores de Shaolin. formas clássicas como o Boxe res começavam a recuperar o car sozinho num quarto – o
Na minha primeira viagem, Sete Estrelas, as sequências verde brilhante de suas folhas. que para mim foi fundamen-
há seis anos, fiquei hospedado do Louva-a-Deus e do Tigre Fui recebido na entrada do tal, pois, depois dos treinos, eu
num hotel a 800 metros da en- Negro e o uso de armas como parque pelo responsável de As- poderia dedicar-me ao meu
trada do templo. Na segunda o bastão Shaolin suntos Internacionais do Tem- trabalho como editor (realizei China Photos/Getty Images
viagem, há três anos, numa es- plo Shaolin, sr. Wang Yumin, ali, durante as noites, a tradução
cola de kung fu mais distante ERA DE OURO justamente quem havia me da minha próxima publicação:
dele. Esta seria a primeira vez D i n a s t i a Ta n g dado a autorização para pu- o Corpus Hermeticum de Her-
que ficaria hospedado nos alo- O mosteiro viveu seu auge no blicar no Brasil o livro do aba- mes Trismegisto, obra do sécu-
jamentos do próprio templo. início do século 7o, quando de Shi Yongxin. E foi também lo II).A alimentação prevê três
um grupo de 13 monges
salvou o futuro imperador
Li Shimin, que ao chegar ao
Monge pratica movimentos com o bastão nos
poder fez generosas arredores do mosteiro, que fica na província de
doações à ordem Henan, região central da China
E S C A P A D A | 57


refeições ao dia, simples, mas
corretas. Aliás, nunca há co-
midas “estranhas” por lá, assim
como raramente se encontram
na China de hoje pratos muito
diferentes para o nosso paladar.
Tudo ajeitado, começo meu
treinamento de 4 horas diárias:
duas pela manhã, duas à tarde,
seguindo um currículo preci-
so. Desta vez aprendi uma das
sequências (taolus ou katis) do
bastão de Shaolin, o Peque-
no Bastão de Fogo. Também

VCG/Getty Images
pude “lapidar” uma das for-
mas clássicas de mãos: o Boxe
Sete Estrelas. Nas viagens ante-
riores, aprendi, entre outras se- Acima, encostas fabulosas fazem parte da
paisagem pontilhada por praticantes de artes
quências, a do Louva-a-Deus marciais; à esq., templo budista da linha Chan
e a do Tigre Negro. Que ale-
gria aprender mais uma nova
sequência, dentro dos muros do estudo dos sutras e do kung
de Shaolin! fu, eles ainda praticam a medi-
O que fazer e por onde ir cina. Foi no início da segunda
fora desses muros? Ali, bem semana que pude encontrar o

Jeremy Horner/Getty Images


perto, há mais um templo bu- abade Shi Yongxin, líder espi-
dista a ser visitado. Pode-se su- ritual e administrativo do tem-
bir ao topo das montanhas pelas plo. Dei a ele a edição brasilei-
trilhas bem cuidadas e demar- ra do seu livro, OTemplo Shaolin
cadas com degraus de pedras, no meu Coração (São Paulo: Po-
mas há também dois teleféri- lar Editora, 2017). Conversa-
cos levando aos picos mais altos, ta, a segunda delas com o meu RESILIÊNCIA mos por 15 minutos. O abade
de onde se tem belíssimas vistas amigo e orientador Gaston Pi- Guerras e traições mostrou-se feliz ao se ver pu-
dos vales. E há ainda a tradicio- neau, de 79 anos, que veio me O templo passou por blicado em língua portuguesa
nal, e sagrada, escalada à gruta encontrar ao final da estadia sucessivas destruições e e me presenteou com a edição
no topo da montanha atrás do em Shaolin. Subimos sozinhos, reconstruções ao longo da atualizada do mesmo livro, em
Templo Shaolin, na qual ficou num dia frio e chuvoso. Foi in- história. Em 1733, os manchus mandarim, autografada por ele.
meditando por 9 anos, no sé- crível fazer a silenciosa subida subornaram um monge, Foram quinze minutos de to-
culo 6o, um grande monge. Ele com Gaston, depois da primei- que envenenou a água e tal simplicidade. Mas foi a peça
veio da Índia, criou a medita- ra que fiz, seis anos antes, tam- incendiou o templo. Apenas que completou o sentido vi-
ção Zen (Chan em mandarim) bém sob a chuva... cinco mestres e quinze sível do deslocamento dos 17
e o kung fu de Shaolin. Cha- Hoje moram no templo algo discípulos sobreviveram para mil km entre Brasil e China. 
mava-se Bodhidharma. como 300 monges Shaolin.Ao difundir o kung fu
Dessa vez fiz duas vezes a su- longo do dia, além do Chan Américo Sommerman é educador e
bida de 40 minutos até a gru- (meditação), das preces diárias, editor da Polar Editora.

Além de meditação, estudo de sutras e kung fu, os monges ainda praticam a medicina
58 | G A S T R O N O M I A

Clima de aconchego e simplicidade dos vinhos


naturais conquista mais adeptos a cada dia;
POR NANA TUCCI Lis Cereja, na segunda foto, é uma das entusiastas

VIVOS, ELEGANTES
OS MELHORES
Três naturais
franceses que

E SINCEROS
valem cada gole
(Dicas da

Garrafa Livre)

Os vinhos naturais, orgânicos e biodinâmicos Fleur de


chegam à mesa da alimentação saudável – e com Cailloux
qualidade comparável à dos convencionais Vinho branco
de aroma cítrico

Pinot Noir
Tinto profundo
e frutado, com
taninos sedosos
que acompanham
ELE NADA SE ADICIONA e dele nada a cereja griotte
se retira. Na sua produção, a natureza age
sem interferência. O homem observa e cria Du Rat des
as condições favoráveis para que a mágica Pâquerettes
aconteça. E se não acontecer, paciência. Foi Tinto de textura
um ano seco, choveu demais? Assim como densa e madura,
um queijo que não é pasteurizado ou um aveludada, com
suco de laranja fresco não têm sempre o notas de menta
mesmo sabor, o vinho natural é único, por
isso é também chamado de vinho vivo. ..............................
Os vinhos naturais costumam ser vinhos ONDE BEBER
frutados e aromáticos, daqueles que nos des- Jardim dos
pertam depois de um gole, por isso há quem Vinhos Vivos.
diga que sejam deliciosamente “perigo- Tel. (11) 99133 4000
sos”.Têm reputação de ser mais saudáveis e Enoteca Saint
não causar a temida ressaca no dia seguinte. VinSaint.
Há quem diga que podem não enve- Tel. (11) 3846 0384
lhecer bem, por ter muito pouco ou qua- App para encontrar
se nada de conservantes – para ser natural, vinhos naturais:
precisa ter até 40 mg/l de anidrido sulfuroso Raisin: The Natural
(SO2). No vinho convencional, são permi- Wine App
tidos 200 mg/l. “Quanto mais vivo e mais
equilibrado um vinho, mais ele pode en- Fotos: Enoteca Saint VinSaint
velhecer. Existem vinhos naturais que vi-
vem mais de 100 anos”, rebate Lis Cere-
ja, dona da Enoteca SaintVinSaint, em São
Paulo, pioneira na divulgação do vinho na-
tural no Brasil. ↳

Frutados e aromáticos, eles têm reputação de ser mais saudáveis e não causar a temida ressaca do dia seguinte
G A S T R O N O M I A | 61

O movimento, que se for-


taleceu no Brasil nos últimos
dois anos, já vem se consoli-
dando na Europa há pelo me-
nos dez. A França e a Itália,
com tradição antiga de peque-
nos produtores de vinhos, são
os países que têm hoje a mais
expressiva produção de vinho
natural no mundo.

A
lgumas das preciosidades
feitas na França são trazi-
das pelo brasileiro Paulo
Almeida, da importadora Gar-
rafa Livre. Por sua vez, a impor-
tadora Metaformosi traz hypa-
dos biodinâmicos italianos,
como os OrsiVigneto SanVito.
À moda francesa, a brasileira
Analu Torres e o francês Xa-
vier Meney promovem cursos
e degustações no Jardim dos
Vinhos Vivos, em São Paulo.
Também dá pra chegar e to-
mar só uma taça de um ótimo

Fotos: Enoteca Saint VinSaint


vinho natural francês por cer-
ca de R$ 30.
No Brasil, há alguns produ-
tores que que vêm ganhando
destaque na elaboração de vi-
nhos naturais, como Mari-
na Santos, da Vinha Unna, em
No vinho natural, as leve- fertilizantes químicos por adu- dinâmicos e naturais. Há dez Pinto Bandeira (RS), que pra-
duras nativas que estão presen- bos naturais no cultivo das uvas, anos, Lis Cereja trabalha na di- tica a vinicultura biodinâmica.
tes na casca da uva trabalham mas é permitido adicionar in- vulgação desses vinhos e, nos Em tempo: no país, com
sozinhas no mosto até ele vi- sumos na etapa da vinificação. últimos dois, colhe os fru- base na Lei do Vinho Colonial,
rar vinho, sem química, ajustes tos de seu empenho: o con- quem pratica a vinificação na-

O
ou filtragem. No caso do vi- s biodinâmicos têm como sumo deles está crescendo no tural hoje só pode vender seu
nho convencional, muitas ve- base os estudos do filóso- país. Em São Paulo, restauran- produto dentro do próprio es-
zes as uvas já vêm com pesti- fo Rudolf Steiner, funda- tes como o ChefVivi e o Tuju tado ou em feiras especializadas.
cidas e sem leveduras nativas. dor da Antroposofia. Para sua já têm algumas opções na car- Para quem quiser conhecer
Depois, podem receber aditi- produção, são levados em con- ta. “O D.O.M. está reformu- mais sobre o tema, no dia 4 de
vos químicos e insumos para ta aspectos como as fases da lua lando sua carta para incluir agosto será realizada a 6a edi-
“corrigir defeitos” e manter o e a influência cósmica dos pla- mais opções”, diz a curadora ção da Feira Naturebas. Orga-
padrão do vinho. netas, e é valorizada a interação de vinhos do grupo, Gabrie- nizado por Lis Cereja, o evento
Entre o vinho 100% natu- das videiras com os animais. la Monteleone. Essa tendên- contará com 22 “vinhateiros”
ral e o convencional, existem Na Enoteca Saint VinSaint, cia vem junto com o crescente brasileiros e 29 estrangeiros.
os orgânicos e os biodinâmicos. a carta agrupa como “nature- interesse das pessoas pelo con- Corra: os ingressos já estão
Um vinho orgânico substitui bas” os vinhos orgânicos, bio- sumo de alimentos orgânicos acabando. 
e, de modo geral, pela busca
de uma vida o mais simples e
A tendência vem junto natural possível: mais bicicle-
com o crescente interesse
pelo consumo de
ta e menos carro, mais praças
alimentos orgânicos e menos shoppings.
62 | M O D A

laram usando hijab, casacos le-


ves, botas e acessórios de tricô.
“O problema, na minha opi-
POR GUILHERME NOVELLI nião, é confundir apreciação

@halima/Instagram
cultural com apropriação cul-
tural, uma questão muito com-

DESVELANDO
plexa, já que a moda sempre se Num governo fruto da aliança
inspirou nas diversas culturas da centro-esquerda com o par-
e hoje, por questões políticas, tido Fraternidade Muçulmana,

A INTOLERÂNCIA
tudo é mais sensível”, comple- o presidente Abbes elimina o
menta a estilista. desemprego ao vetar o direito
Exemplo radical disso é Mia das mulheres de participar do

@miakhalifa/Instagram
Khalifa, libanesa de 25 anos, ex- mercado de trabalho, e as esti-
Mundo da moda abraça o tradicional hijab e reedita visões antagônicas atriz pornô que atuou na in- mula a ficarem em casa ou fre-
sobre a cultura muçulmana, como na ficção de Michel Houellebecq dústria norte-americana en- quentarem apenas os cursos de
tre os anos de 2014 e 2016. Ela humanas das universidades. Os
aparece em sexto lugar entre as índices de violência são reduzi-

A
edição britânica da re- “Acho que a ideia da capa mais assistidas no ranking do dos e a família volta a ser a cé-
vista Vogue surpreen- da Vogue está muito mais liga- site norte-americano RedTube, lula-base da sociedade francesa.
deu seus leitores ao da em pautar a diversidade em que tem 6,5 mil atrizes inscri- Outro escritor francês, Ale-
estampar, na capa de cima dos estereótipos, pois o tas. Mia se notabilizou por, além xandre Mendel, autor de Parti-
maio, um grupo de véu ao longo da história sem- de sua beleza e talento, usar hi- lha: Crônica da Secessão Islamita
modelos de origem africana, pre entra como um estereóti- jab em cena. Recebeu ameaças na França, acredita que o cha-
entre elas, Halima Aden, de 20 po da mulher árabe”, defende de morte por isso, mas também mado multiculturalismo é uma
anos – nascida num campo de a consultora de moda Bia Paes despontou como celebridade ameaça ao Ocidente e que em

Reprodução
refugiados no Quênia –, usan- de Barros, que atua com mar- meteórica no Instagram e no dez ou vinte anos a França se
do o hijab, véu que tradicional- cas como a Tiffany. Twitter. Hoje em dia, Mia apa- tornará um “novo Líbano”.
mente cobre a cabeça e o pes- Não apenas Halima, mas ou- rece no Instagram sem o véu, “Não há solução, é muito tar-
coço das mulheres muçulmanas. tras modelos, como a neozelan- com seus longos cabelos lisos Mohamed Ben Abbes. Cada de”, declarou Mendel em en-
O fato, inédito nos 102 anos desa de ascendência indoné- e morenos, usando óculos, em homem, a partir de então, passa trevista ao site Sputnik Brasil.
da revista, desencadeou uma SUBMISSÃO sia Nurul Shamsul, finalista do poses sensuais. a poder desposar três mulheres Em dados reais, a população
discussão sobre a potência desse Alfaguara (2015) concurso Miss Mundo Nova Para escritores como o fran- e todas elas, imigrantes ou não, muçulmana (refugiados e imi-
gesto. Para alguns, a inclusão de A obra do autor francês Zelândia, a ser realizado em cês Michel Houellebecq – que são obrigadas a usar o hijab. grantes) na Europa cresceu em
um adereço típico da iconogra- traz uma visão distópica e agosto, orgulham-se do vestuá- tem uma visão pessimista quan- O dilema na narrativa acon- 3,7 milhões, entre 2010 e 2016.
fia islâmica em uma prestigiada pessimista a respeito de uma rio tradicional. E mulheres mu- to ao fluxo de refugiados e imi- tece quando François, um pro- Atualmente, os muçulmanos
publicação da moda ocidental suposta dominação islâmica çulmanas das mais diversas pro- grantes muçulmanos para a fessor de literatura da Sorbon- na França correspondem a 9%
reforçou os valores da tolerân- fissões que vivem no Ocidente Europa – a tendência de assi- ne, se vê dividido entre se da população (5,9 milhões).
cia e da coexistência. Para ou- ostentam seus véus no dia a dia. milação dos símbolos do Islã no converter ao Islã para man- Segundo o site Gatestone Ins-
tros, não fez mais que legitimar davam desveladas, e sua esposa, “Costumes por si só não são Ocidente poderia abrir as por- ter seu emprego – e gozar dos titute, no ano de lançamento
um símbolo da opressão femi- a imperatriz Farah Diba Pahla- a causa de retrocessos, pois têm tas para a dominação do ultra- amplos privilégios que essa de Submissão, cerca de 80 mil
nina naqueles países. vi, hoje com 79 anos, foi con- como objetivo a continuida- conservadorismo islâmico. vida lhe proporciona – ou carros foram incendiados na
De fato, não é simples tomar siderada uma das mais elegan- de de uma tradição, diferente- Seu polêmico romanceSub- abandonar a França e uma Eu- França por gangues rivais mu-
posição nesse debate. Pouco tes do seu tempo, juntamente mente de políticas extremistas, missão, uma paródia das disto- ropa em processo de domina- çulmanas que desejavam com-
tempo atrás, irmãs de crença com Maria Callas, Jackie Ke- que realmente podem prejudi- pias com enredos e cenários ção muçulmana patrocina- petir pelos holofotes da mídia.

Zé Takahashi/Fotosite - Cortesia UMA


iranianas da modelo Halima nnedy, Grace Kelly. Também car o futuro”, argumenta Ra- futuristas como a série Black do pelas “petromonarquias”. Debaixo dos muitos véus que
foram presas por tirar o véu em é preciso levar em conta que, quel Davidowicz, estilista da Mirror, foi lançado em Paris em Além disso, esse patriarcado cobrem a polêmica, estão os
público como forma de pro- em 2010, quando o presiden- grife UMA, que apresentou 7 de janeiro 2015, fatídico dia poligâmico, com um abono valores do diálogo e do respei-
testo.Vale lembrar que na épo- te francês Nicolas Sarkozy de- na última edição da São Pau- do atentado jihadista ao jornal familiar estatal tirado da ver- to às diferenças, única manei-
ca de Mohamed Reza Pahlavi, fendeu a proibição do uso dos lo Fashion Week (SPFW), em Charlie Hebdo. Na obra, que se ba anteriormente destinada à ra que se encontrou até hoje
Xá do Irã até a Revolução Islâ- véus integrais na França em abril, um desfile com roupas de passa em 2022, a França elege educação pública, mostra-se para aproximar visões de mun-
mica de 1979, as mulheres an- nome de valores “essenciais do refugiados. Suas modelos desfi- seu primeiro presidente árabe, também atraente para ele. do conflitantes. 
contrato republicano”, críti-
cos viram na medida um des-
respeito à liberdade individual
Na foto maior, modelo da grife UMA desfila de hijab na
e de crença das cidadãs muçul- SPFW 2018; no destaque, a modelo Halima Aden,
manas daquele país. a ex-atriz pornô Mia Khalifa e a capa da Vogue inglesa
C I R C U I T O | 67

POR ANA FRANCISCA PONZIO

CORPOS EM FESTA
Pina Bausch e Mats Ek são os destaques da
temporada que celebra 20 anos do Teatro Alfa

A
súbita morte de Pina Baus- DANÇA 2018
ch em 1990 não interrom- De 3/8 a 2/12
peu a trajetória da compa- Com Grupo Corpo, Philippe
nhia de dança por ela fundada Decouflé, SP Cia. de Dança,

Foto: José Luiz Pederneiras


em 1973, na cidade alemã de Deborah Colker, Mats Ek e
Wuppertal. A avidez em torno Ana Laguna, Pina Bausch.
da obra atemporal de Pina pa- Alfa, tel. (11) 5693 4000
rece até maior hoje e continua
provocando comoção em pla-
teias de todas as culturas. pação do bailarinoYvan Auzely,
Depois de sete anos de au- chega a ser histórico.Artistas da banda Metá Metá, e 21 – cria-
sência dos palcos brasileiros, a mesma geração, Mats Ek e Pina ção que inaugurou em 1992,
Pina Bausch Tanztheater Wu- construíram linguagens trans- com o compositor Marco An-
ppertal volta a se apresentar no formadoras, com abordagens tônio Guimarães,as parcerias do
Brasil, como um dos destaques diversas da teatralidade na dan- coreógrafo Rodrigo Pedernei-
da Temporada de Dança de ça.Até então, a obra de Ek tran- ras com autores da música bra-

Foto: Lesley Leslie-Spinks


2018 do Teatro Alfa, que cele- sitou no Brasil por intermédio sileira. Philippe Decouflé, com
bra duas décadas de atividades. do Cullberg Ballet,a companhia seus espetáculos oníricos, in-
O programa que reúne Mats fundada em 1967 pela mãe do fluenciados por HQs, circo e
Ek e Ana Laguna, com partici- coreógrafo, Birgit Cullberg, ou cinema, traz a produção Nou-
velles Pièces Courtes, que estreou
por meio das coreografias dan- na França em 2017. E Deborah
çadas por Ana Laguna e Mikhail Colker apresenta a sua primei-
Baryshnikov, em espetáculos ra incursão na dramaturgia: Nó,
apresentados também no Alfa metáfora sobre o desejo conce-
em 2010. Agora, pela primeira bida em 2005, com bailarinos se
vez, Mats Ek, de 73 anos, pode- movendo em um emaranhado
rá ser visto no palco dançando de 120 cordas. Para completar, a
com Laguna, 63 – uma celebra- São Paulo Companhia de Dan-
ção da maturidade, questão que ça estreia uma criação de Joël-
permeia a dança atual. le Bouvier, coreógrafa da nova
O Grupo Corpo, que fez do dança francesa, e mais duas pe-
Alfa uma espécie de palco-re- ças: Melhor Único Dia, do bra-
sidência onde se apresenta des- sileiro Henrique Rodovalho,
de 1998, traz de volta os espetá- e 14’20”, do tcheco Jirí Kyli-
culo sGira, de 2017, que associa án. Não é pouco, em um ano
a poética dos orixás ao som da de crise política e econômica.
Foto: Meyer Originals

De cima para baixo: Gira, do Grupo Corpo;


Mats Ek e Ana Laguna, que têm três espetáculos no
programa; e Nefés, da Pina Bausch
C I R C U I T O | 69

POR IVAN MARSIGLIA

CIFRAS E VALORES
Peça discute com humor cáustico os limites
das convicções humanas

Foto: Cris Lyra


A V I S I TA DA V E L H A S E N H O R A
Com Denise Fraga

EU SOU UMA OUTRA


De 12 a 15/7 no Teatro Iguatemi, Campinas; 19 a 22/7 no
Teatro Unip, Brasília; 26 a 29/7 no Teatro Guairinha, Curitiba;
e 3/8 a 30/9 no Teatro Sérgio Cardoso, São Paulo

O
dramaturgo suíço Friedrich Dürrenmatt pode Atriz explora com virtuosismo deslocamentos
não ser um nome conhecido no Brasil, mas o en- da obra de Doris Lessing
redo desta peça, que ele escreveu em 1956, é bem

“O
familiar aos brasileiros. Mulher rica de meia idade re- s filhos então a envolveram, for-
torna à pequena e decadente cidade onde nasceu – de mando uma jaula humana de bra-
onde saíra pobre e com péssima reputação – para ser ços carinhosos”, diz, sobre si mes-
paparicada por seus interesseiros conterrâneos e exe- ma, a personagem vivida por Amanda Lyra
cutar sua vingança. AVisita daVelha Senhora, que teria a certa altura deste extraordinário monó-
inspirado Jorge Amado a escrever a sua Tieta do Agres- logo. É a história de uma mulher de classe
te, fala da precariedade dos nossos princípios quando média que se casou por escolha, virou mãe
entra em cena a palavra dinheiro. de três filhos e optou por parar de trabalhar
Na montagem dirigida por LuizVillaça, Denise Fra- para se dedicar à criação deles. Ela espera a
ga constrói uma hilariante e implacável protagonista, hora em que o mais novo entrará para a es- QUARTO 19
que desdenha da justiça seletiva dos homens – a seme- cola para enfim “ter algum tempo para si”. Com Amanda Lyra
lhança com o Brasil da Lava Jato não é mera coinci- Quando isso acontece, porém, ela não en- De 5 a 29/7 no Teatro Poeirinha,
dência.“Acredito no teatro como espelho do mundo, contra a liberdade que esperava. Rio de Janeiro; e dias 6, 13, 20
nos fazendo rir para nos reconhecer”, afirma a atriz. Inspirada no conto To Room Nineteen, e 27/8 no auditório da Biblioteca
Em um elenco afiado, destaque também para as atua- da escritora britânica Doris Lessing (1919- Mário de Andrade, São Paulo
ções de Maristela Chelala e Fábio Herford. 2013) – uma das 14 mulheres ganhadoras
do Prêmio Nobel de Literatura na histó- Amanda: “Às vezes uso a ter-
ria, contra uma centena homens –, a peça é ceira pessoa com o engaja-
um projeto radicalmente autoral de Aman- mento de quem fala de si. Em
da, que traduziu e adaptou o texto que in- outras, uso a primeira com dis-
terpreta. Para a direção, chamou Leonardo tanciamento, como se me refe-
Moreira, da Companhia Hiato, que traba- risse a uma estranha”. O efeito
lhara com ela na elogiada montagem O Jar- é desconcertante e arrebata-
dim (2011). A consistência de sua atuação dor. “O fato de um texto es-

Foto: Cacá Bernardes


rendeu a esta paulista de São José do Rio crito em 1963 sobre o que se
Preto uma indicação ao Prêmio Shell de espera da mulher na materni-
Melhor Atriz em 2017. dade continuar tão atual mos-
Quarto 19 se vale do clássico recurso tra o quanto a gente não ca-
de alguém que entra e conta uma histó- minhou nesse sentido.”  (IM)
ria, potencializado por um dos trunfos do
texto de Lessing: a alternância entre a nar-
rativa em primeira e terceira pessoa. “O
Denise, com Tuca Andrada:
uma protagonista
conto já tem esse jogo entre ‘eu’ e ‘ela’,
hilariante e implacável que ampliamos na dramaturgia”, conta
C I R C U I T O | 71

dessa mulher, de origem pobre,


que teve de começar a traba-
lhar aos 12 anos e, com incen-
tivo de seu pai, se dedicou ao
que mais gostava de fazer, com
inteligência e determinação.
“Mary Anning não recebeu
em vida o reconhecimento
merecido e nossa peça é uma
tentativa de corrigir isso”, diz
a atriz Thaís Medeiros.“Ela foi

Foto: Camila Picolo


uma mulher visionária e sua
história prova que não impor-
ta gênero, raça ou classe social:
qualquer pessoa pode realizar
coisas grandiosas.”

M
POR LIVIA DEODATO uito já se ouviu falar de grandes Além de Thaís, as atrizes Ce-
cientistas homens na história, cujas cília Magalhães e Julia Ianina

A MULHER CIENTISTA
descobertas são estudadas ao longo (foto) se revezam no papel de
da vida. O mesmo não acontece com as Mary Anning como criança,
cientistas mulheres, que ficaram esquecidas jovem e adulta. Também in-
em algum lugar do passado.A Companhia terpretam outros 14 perso-
Peça infantil conta história Delas de Teatro resgatou uma dessas gran- nagens que interagem com
da paleontóloga que descobriu o primeiro des personalidades para o seu mais novo es- a protagonista, como a mãe,
esqueleto de um ictiossauro petáculo: Mary Anning, paleontóloga que o pai, o irmão e até mesmo a
viveu na Inglaterra do século 19 e foi a res- morte. Um espetáculo imper-
MARY E OS ponsável por remontar em 1811 o primei- dível para toda a família, espe-
MONSTROS MARINHOS ro esqueleto de um ictiossauro (réptil mari- cialmente para as crianças, que
C o m C o m p a n h i a D e l a s d e Te a t r o nho que viveu no período Jurássico). vão ter a certeza de que não
Até 29/7, no Sesc Pompeia, A peça Mary e os Monstros Marinhos, di- existe limite para sonhar, sejam
São Paulo, tel. (11) 3871 7700 rigida por Rhena de Faria, conta a história meninos ou meninas.

MORTE E VIDA DE HENRY


AQUI JAZ HENRY
Com Renato Wiemer
Até 29/7, no Teatro
Eva Herz, São Paulo,
tel. (11) 3170 4059 Monólogo do autor canadense Daniel Maclvor
trata da impermanência do ser humano

A
qui Jaz Henry foi escrita pelo ator, diretor e dra- coolismo, que vivi de perto em
maturgo canadense Daniel Maclvor, que fez bas- minha família”, conta Renato.
tante sucesso no Brasil com a peça In On It. Foi Como o título indica, a peça
depois de assistir a essa montagem, que ficou em car- apresenta a história de um ho-
taz entre os anos de 2010 e 2016, que o ator Renato mem que acabou de morrer e

Foto: Patricia Ribeiro


Wiemer decidiu estudar mais a fundo a produção de começa a refletir sobre o que vi-
Maclvor.“Comecei a ler sobre ele e suas obras, e aca- veu e deixou de viver.A imper-
bei encontrando o monólogo Aqui Jaz Henry que fala manência do ser humano, a in-
de questões tocantes como o amor, a rejeição e o al- constância nos relacionamentos
e a homossexualidade são ques-
tões que vêm à tona de uma
forma verborrágica, em que os O ator
Renato Wiemer
limites entre a verdade e a men- em cena
tira se confundem. (LD) como Henry
72 | Ú L T I M A P Á G I N A

ILUSTRAÇÃO CÁSSIO LOREDANO

Hayden Church - Por que, na sua opinião,


as mulheres têm derrotado os homens
em tudo nos últimos tempos? Amy
Johnson, por exemplo, que conquistou a
Taça do Rei de corrida aérea, e uma outra
inglesa, que levou o Prêmio do Rei no
campeonato de rifle de Bisley.

Bernard Shaw - O que há de tão


surpreendente nisso? Foi um avião que
voou para a Austrália e não a senhorita
Johnson. Ela apenas dirigiu o avião. O
Prêmio do Rei foi conquistado por um
rifle. Existe alguma razão para que os
olhos de uma mulher não possam alinhar
uma alça de mira, e para que não use a
inteligência para calcular o vento e puxar
o gatilho tão bem quanto um homem?
Se o senhor ler o jornal verá que muitas
mulheres tiveram bebê ontem sem a
ajuda de nenhuma máquina. Prove que
um homem conquistou um feito tão
surpreendente e difícil e nós vamos poder

UMA PERGUNTA sentar e discutir o significado da sua


vitória com seriedade.

/ UMA RESPOSTA O trecho e a ilustração foram retirados do livro


A Arte da Entrevista, org. Fábio Altman (Boitempo, 2004).

GEORGE Esgotado, o livro está disponível na Estante Virtual.

BERNARD SHAW
O dramaturgo e ensaísta inglês George Bernard Shaw
(1856-1950) era considerado “o mais ardente feminista” de sua
época. Em entrevista a Hayden Church, da revista
norte-americana Liberty, em 1931, ele já propagava com verve suas
ideias sobre a igualdade de gêneros.
72 | Ú L T I M A P Á G I N A

ILUSTRAÇÃO CÁSSIO LOREDANO

Hayden Church - Por que, na sua opinião,


as mulheres têm derrotado os homens
em tudo nos últimos tempos? Amy
Johnson, por exemplo, que conquistou a
Taça do Rei de corrida aérea, e uma outra
inglesa, que levou o Prêmio do Rei no
campeonato de rifle de Bisley.

Bernard Shaw - O que há de tão


surpreendente nisso? Foi um avião que
voou para a Austrália e não a senhorita
Johnson. Ela apenas dirigiu o avião. O
Prêmio do Rei foi conquistado por um
rifle. Existe alguma razão para que os
olhos de uma mulher não possam alinhar
uma alça de mira, e para que não use a
inteligência para calcular o vento e puxar
o gatilho tão bem quanto um homem?
Se o senhor ler o jornal verá que muitas
mulheres tiveram bebê ontem sem a
ajuda de nenhuma máquina. Prove que
um homem conquistou um feito tão
surpreendente e difícil e nós vamos poder

UMA PERGUNTA sentar e discutir o significado da sua


vitória com seriedade.

/ UMA RESPOSTA O trecho e a ilustração foram retirados do livro


A Arte da Entrevista, org. Fábio Altman (Boitempo, 2004).

GEORGE Esgotado, o livro está disponível na Estante Virtual.

BERNARD SHAW
O dramaturgo e ensaísta inglês George Bernard Shaw
(1856-1950) era considerado “o mais ardente feminista” de sua
época. Em entrevista a Hayden Church, da revista
norte-americana Liberty, em 1931, ele já propagava com verve suas
ideias sobre a igualdade de gêneros.