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  A Mala de Hana 
   
   
   
   
   

Introdução 
A Mala de Hana é uma história verdadeira que decorre em
três continentes durante um período de quase setenta anos.
Reúne as experiências de uma rapariga e da sua família na
Checoslováquia nos anos 30 e 40, de uma jovem e de um grupo
de crianças em Tóquio, no Japão, e de um homem, em Toronto,
 
no Canadá, nos dias de hoje.
Entre 1939 e 1945 o mundo esteve em guerra. Adolf
Hitler, ditador nazi, queria que a Alemanha dominasse o Globo.
No centro da sua visão estava a brutal exterminação do povo
judeu da face da Terra. Para se ver livre dos seus «inimigos»,
construiu dezenas de campos de prisioneiros – chamados
campos de concentração — por toda a Europa. Mulheres,
homens e crianças judias de quase todos os países do continente
foram deportados; arrancados das suas casas e enviados para os
campos, onde passaram por terríveis sofrimentos. Muitas
pessoas morreram de fome e de doença. A maioria foi
assassinada. Nestes campos de morte e em outros lugares – onde
Karen Levine
Lisboa, Terramar, 2005 os seguidores de Hitler levaram a cabo o seu terrível plano –
(adaptação)

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foram mortos seis milhões de judeus. Entre eles, um milhão e Agradecimentos 
meio de crianças.
Em primeiro lugar e acima de tudo, quero agradecer a
Em 1945, a guerra acabou, e o mundo inteiro ficou a saber
George Brady e Fumiko Ishioka. Esta é a sua história. Cada um
dos horrores que se tinham passado nos campos de
deles, com notável dedicação e generosidade, ajudou-me a
concentração. Desde então, as pessoas têm querido saber mais
compor o livro. São pessoas muito tenazes e compassivas,
sobre o que hoje é conhecido como «Holocausto», o pior
motivadas pela vontade de tornar o mundo um lugar melhor,
exemplo de assassínio em massa – ou genocídio – da história da
despertando a atenção e homenageando a memória de Hana
Humanidade. Como é que aconteceu? O que podemos fazer
Brady. Bem hajam!
para que não volte a acontecer?
O meu coração bateu mais forte a primeira vez que tomei
No Japão, um país aliado da Alemanha Nazi durante a
conhecimento da mala de Hana através de um artigo de Paul
Segunda Guerra Mundial, o interesse pela história do
Lungen no «Canadian Jewish News». A história tocou-me de tal
Holocausto é relativamente recente. Um benemérito japonês
forma que decidi sair do «exílio» e produzir o meu primeiro
anónimo, que queria contribuir para a tolerância e a
documentário radiofónico num espaço de doze anos. O
compreensão a nível global, pensou que era importante que os
resultado foi A Mala de Hana, que saiu para o ar na edição de
jovens japoneses ficassem a conhecer melhor este aspecto da
domingo da Rádio Um da CBC, em Janeiro de 2001.
história mundial. Sozinho, este benemérito patrocinou o
O meu filho – Gabriel Zev Enright Levine –, que tem
Holocaust Education Resource Center de Tóquio, que se dedica a
agora seis anos, é demasiado jovem para conhecer a história de
este propósito.
Hana. Mas quando tiver idade suficiente, ler-lha-ei. Espero que
No Fórum Infantil sobre o Holocausto que se efectuou
ele se sinta tão atraído por Hana, George e Fumiko como eu.
em 1999, duzentos alunos vindos de escolas da zona de Tóquio
Também espero que ele aprenda que a História é importante, e
encontraram-se com Yaffa Eliach, sobrevivente do Holocausto.
que, apesar da mais inconcebível maldade, as pessoas boas e as
Ela contou-lhes como quase todos os judeus da sua aldeia, jovens
boas acções podem fazer toda a diferença.
e idosos, foram assassinados pelos Nazis. No final do discurso,
recordou ao público que as crianças têm poder «para criar paz
para o futuro». Uma dúzia de jovens japoneses que a escutaram
levou o desafio a sério e formou um grupo chamado «Pequenas
Asas». Agora, os membros do «Pequenas Asas», com idades
compreendidas entre os oito c os dezoito anos, reúnem-se todos
os meses. Publicam um boletim, ajudam a dirigir o Holocaust
Education Resource Center de Tóquio e trabalham para despertar
em outras crianças japonesas o interesse pela história do

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Nós, os «Pequenas Asas», Holocausto. Realizam o seu trabalho sob a orientação de
Contaremos a todas as crianças japonesas Fumiko Ishioka, directora do Centro de Tóquio.
O que aconteceu a Hana. A mala – a mala de Hana – é uma das chaves para o
Nós, os «Pequenas Asas», sucesso da sua missão. Ela encerra uma história de extrema
Nunca nos esqueceremos do que aconteceu tristeza e grande alegria, uma recordação da brutalidade do
A um milhão e meio de crianças judias. passado e de esperança para o futuro.
Nós, crianças,
Podemos fazer a diferença na construção
Da paz no mundo Tóquio, Japão, Inverno 2000 
– Para que o Holocausto não volte a acontecer.
Na verdade, trata-se de uma mala com aspecto bastante
comum. Um pouco gasta nos cantos, mas em bom estado.
É castanha. É grande. Poderíamos guardar muitas coisas lá
«Pequenas Asas», Dezembro de 2000.
dentro – roupa para uma grande viagem, talvez. Livros, jogos,
Tóquio, Japão.
tesouros, brinquedos. Mas agora não tem nada lá dentro.
(Traduzido do japonês para inglês por Fumiko Ishioka)
Todos os dias vêm crianças a um pequeno museu em
Tóquio, no Japão, para ver esta mala. Está dentro de um
armário de vidro. E através do vidro vemos que a mala tem
Posfácio 
coisas escritas. Escrito a tinta branca, na parte da frente, está o
A mala de Hana continua a sua viagem. nome de uma rapariga: Hana Brady. Uma data de nascimento:
Depois de passar algum tempo com as crianças no Centro 16 de Maio, 1931. E uma outra palavra: Waisenkind. É a palavra
do Holocausto em Tóquio, George e Lara Brady, na companhia alemã para órfã.
de Fumiko Ishioka e Maiko Kurihara, líder do grupo «Pequenas As crianças japonesas sabem que a mala veio de
Asas», visitaram Hiroxima para partilhar a história de Hana Auschwitz, um campo de concentração onde milhões de pessoas
com alunos e professores dessa cidade. sofreram e morreram durante a Segunda Guerra Mundial, entre
Em 2002, a exposição O Holocausto visto pelos olhos das 1939 e 1945. Mas quem foi Hana Brady? De onde veio ela? Para
crianças tinha viajado por mais de cinquenta localidades do onde viajava?
Japão, sendo vista por mais de 52 000 pessoas. O que levava na mala? Como é que ficou órfã? Que tipo
de rapariga era ela e o que lhe terá acontecido?
As crianças têm muitas perguntas. E o mesmo acontece
com Fumiko Ishioka, directora do museu, uma jovem elegante
de longo cabelo preto.

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Fumiko e as crianças tiram cuidadosamente a mala de Quando terminaram, Maiko levantou-se, respirou fundo, e leu
dentro do armário e abrem-na. Procuram nos bolsos laterais. um poema em voz alta.
Talvez Hana tenha deixado alguma coisa que possa servir de
pista. Nada. Vêem por debaixo do forro às pintas. Também não Hana Brady, de treze anos de idade, era a dona desta mala.
há pistas. Há cinquenta anos, no dia 18 de Maio de 1942 – dois dias
Fumiko promete às crianças fazer tudo ao seu alcance para depois
descobrir a história da rapariga a quem a mala pertenceu, Do seu décimo primeiro aniversário – foi levada para
promete resolver o mistério. E, no ano seguinte, transforma-se Terezin
em detective, vasculhando o mundo em busca de pistas para a Na Checoslováquia.
história de Hana Brady. A 23 de Outubro de 1944, num comboio de carga apinhado
de gente,
foi levada para Auchwitz.
Nove Mesto, Checoslováquia, Anos 30  E imediatamente conduzida a uma câmara de gás.
As pessoas só podiam levar uma mala com elas.
Entre montanhas onduladas, no meio da antiga
O que será que Hana levou dentro da sua mala?
Checoslováquia, numa província chamada Morávia, havia uma
pequena cidade chamada Nove Mesto. Não era grande, mas era
Hoje, Hana teria sessenta e nove anos,
famosa. E no Inverno, em especial, era um local cheio de
Mas a sua vida terminou aos treze anos.
actividade. Vinham pessoas de todo o país para esquiar em Nove
Que tipo de rapariga seria?
Mesto. Havia corridas de esqui para disputar. Havia pistas a
Os desenhos que fez em Terezin
desbravar e lagos gelados para patinar. No Verão, havia natação,
– São as únicas coisas que nos deixou.
vela, pesca e campismo.
O que é que estes desenhos nos dizem?
Nove Mesto tinha 4 000 habitantes. Em tempos fora
Memórias felizes da família?
conhecida pelo fabrico de vidro. Porém, nos anos 30, as pessoas
Sonhos e esperanças para o futuro?
trabalhavam nas florestas e em pequenas oficinas que fabricavam
Porque a mataram?
esquis. Na rua principal havia um grande edifício branco de dois
Havia um motivo.
andares. O edifício tinha um sótão de dois andares, e na cave
Nasceu judia.
uma passagem secreta que conduzia à igreja na praça principal
Nome: Hana Brady.
da aldeia. Em tempos idos, quando a aldeia estava cercada, era
Data de Nascimento: 16 de Maio de 1931.
usada pelos soldados para guardar alimentos e outros bens de
Órfã.
primeira necessidade para as pessoas de Nove Mesto.

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vénia. Akira ofereceu a George um bonito colar colorido de O grande armazém da cidade ficava no rés-do-chão. Podia
origami. As crianças empurravam-se gentilmente para comprar-se lá quase tudo – botões, compota, candeeiros a
conseguirem aproximar-se dele. Depois de terem ouvido petróleo e ancinhos, campainhas para trenós, pedras para afiar
Fumiko falar de George durante tantos meses, estavam facas, pratos, papel, canetas e guloseimas. No segundo andar
encantadas por finalmente o conhecerem pessoalmente. vivia a família Brady: o pai, Karel, a mãe, Marketa, Hana, e o
Fumiko pegou no braço de George. irmão mais velho, George.
— Venha connosco, agora, ver a mala da sua irmã. O pai trabalhava na loja, seis dias por semana. Era atleta,
Caminharam até à zona da exposição. E ali, rodeado pelas conhecido por quase todos em Nove Mesto por gostar muito de,
crianças, com Fumiko a pegar-lhe numa das mãos, e a sua filha esqui e ginástica. Era também actor amador e tinha uma voz
Lara, na outra, George viu a mala pela primeira vez desde há poderosa que se ouvia de um lado ao outro do campo de jogos.
mais de cinquenta anos. Subitamente, sentiu uma tristeza quase Devido à sua voz, o pai foi escolhido para anunciar, por um
insuportável. Ali estava a mala que pertencera à sua irmã mais megafone, as corridas de esqui, de modo a que todos ouvissem o
nova. Ali estava o nome dela escrito na mala. Hana Brady. A sinal de partida. Era também bombeiro voluntário e, com
sua irmã, linda, forte, traquina, generosa, que adorava divertir- outros homens da aldeia, ia no carro dos bombeiros ajudar as
-se. Morrera tão nova e de um modo tão terrível. George baixou pessoas, em casos de emergência.
a cabeça e deixou as lágrimas correrem livremente. A família Brady abria a sua casa a todos os tipos de artistas
Mas, passados alguns minutos, quando levantou os olhos, – músicos, pintores e poetas, escultores e actores. Quando
viu a filha. Viu Fumiko, que tanto trabalhara para o encontrar e tinham fome, podiam sempre encontrar uma refeição quente
descobrir a história de Hana. E viu os rostos expectantes de cozinhada por Boshka, a governanta e cozinheira da família. Os
todas aquelas crianças japonesas para quem Hana se tornara tão talentos artísticos encontravam um público atento, que, é claro,
importante, tão viva. incluía duas crianças travessas – Hana e George. Às vezes
George compreendeu que, no final, um dos desejos de George era chamado para tocar violino. Hana tinha mais do que
Hana se tinha realizado. Hana tornara-se professora. Graças a vontade de demonstrar as suas competências no piano da sala,
ela – à sua mala e à sua história – milhares de crianças japonesas para quem quer que a quisesse ouvir. E, no meio da sala, havia
estavam a aprender o que George acreditava serem os valores grafonola. Hana tocava a sua canção preferida – Eu Tenho Nove
mais importantes do mundo: tolerância, respeito e compaixão. Canários –, vezes sem conta.
«Que presente Fumiko e as crianças lhe haviam dado!», pensou A mãe era uma anfitriã calorosa e generosa com bom
ele. «E que homenagem haviam feito a Hana!» sentido de humor e gargalhadas muito sonoras. Também ela
Fumiko pediu às crianças para se sentarem em círculo. trabalhava, seis dias por semana, na loja, muitas vezes as pessoas
Sentiu-se orgulhosíssima, quando, uma a uma, as crianças entravam só para conversar ouvir as suas piadas. Ela prestava
ofereceram a George os seus desenhos e poemas sobre Hana. especial atenção aos pobres de Nove Mesto que viviam nos
subúrbios da cidade. Uma vez por semana, preparava uma

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trouxa com comida e roupas que Hana entregava aos vizinhos — Está tudo bem — disse ela, tropeçando nas palavras.
mais necessitados. Hana tinha muito orgulho na sua missão e — Estou apenas muito contente, muito entusiasmada. Vejam, é
insistia com a mãe para que ela fizesse trouxas para os uma fotografia de Hana. Esta é a bonita menina cuja história
necessitados com maior frequência. nos tem dado tanto trabalho a descobrir.
Hana também ajudava na loja. Desde muito pequenos, a Juntamente com as fotografias, havia uma longa carta de
Hana e o George tinham por tarefa manter as prateleiras cheias, George. A partir dela, Fumiko ficou a saber dos primeiros anos
limpas e arrumadas. Aprenderam a cortar levedura, a moldar felizes de Hana em Nove Mesto, a família, e como ela gostava de
pequenos cubinhos de açúcar que vinha do pão-de-açúcar, a esquiar e de patinar. Era reconfortante saber que Hana tinha
pesar condimentos temperos e a enrolar papel em forma de cone tido uma vida boa, antes de a guerra ter estragado tudo.
para encher de guloseimas que eram vendidas como presentes E Fumiko também ficou a saber coisas acerca de George.
especiais. Enquanto ia lendo coisas da sua vida no Canadá, dos filhos e
De vez em quando, a mãe reparava que alguns desses netos, Fumiko sentiu-se a explodir de felicidade. Começou a
cartuchos de guloseimas desapareciam. Hana nunca denunciava chorar. Ele sobreviveu, repetia para si própria sem parar. Ele
George. E George nunca denunciava Hana. sobreviveu. Mais do que isso, ele tem uma família linda. Estava
Havia sempre gatos em volta do fogão, que trabalhavam a ansiosa para contar tudo aos «Pequenas Asas».
tempo inteiro como caçadores de ratos. Mas uma vez, como
surpresa especial, a mãe e o pai encomendaram gatinhos angorá
para Hana e George. Os dois novelos fofinhos chegaram pelo Tóquio, Março 2001 
correio numa caixa com orifícios para respirar. No início,
— Acalmem-se! — disse Fumiko, com um sorriso. — Eles
Sylva, a dogue-alemã da família, um grande animal cinzento e
não tardam, acreditem.
peludo, farejou-os, desconfiada. Mas passado pouco tempo os
Mas nada do que ela pudesse dizer conseguiria domar o
gatinhos, a quem Hana deu o nome de Micki e Mourek,
entusiasmo das crianças naquela manhã. Corriam pelo Centro,
tornaram-se verdadeiros membros da família, aceites por todos.
reliam os seus poemas, ajeitavam a roupa pela milésima vez,
Hana e George frequentavam a escola pública. Eram
contavam anedotas parvas, só para o tempo passar mais
crianças medianas, que se metiam em sarilhos ocasionalmente e
depressa. Até mesmo Maiko, cuja tarefa consistia em acalmar os
que tinham os problemas e os triunfos habituais. Tinham apenas
outros, estava irrequieta. Então, por fim, a espera acabou.
uma coisa diferente. Os Brady eram judeus. Não eram uma
George Brady chegara. E trouxera com ele a sua filha de
família religiosa. Mas a mãe e o pai queriam que as crianças
dezassete anos, Lara Hana.
conhecessem a sua herança. Uma vez por semana, enquanto os
As crianças ficaram muito caladas. Na entrada principal
colegas iam à igreja, Hana e George ficavam com um professor
do Centro, juntaram-se à volta de George. Fizeram-lhe uma
especial que lhes falava das festas judaicas e da história dos
vénia, como é habitual no Japão. George também lhes fez uma
judeus.

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de madeira e retirou um álbum de fotografias. Queria entrar em Havia algumas outras famílias judias em Nove Mesto. Mas
contacto com Fumiko Ishioka o mais depressa possível. Hana e George eram as únicas crianças judias da aldeia. No
início, ninguém realmente reparou ou se importou que eles
fossem diferentes. Passado pouco tempo, porém, o facto de
Tóquio, Setembro 2000  serem judeus iria tornar-se a coisa mais importante a seu
respeito.
Desde que enviara a carta para Toronto, Fumiko andava
muito nervosa. Será que George Brady iria responder? Será que
nos irá ajudar a conhecer Hana? Até mesmo o carteiro que
Tóquio, Inverno 2000 
entregava o correio no Centro sabia da ansiedade de Fumiko.
— Hoje chegou alguma coisa do Canadá? — perguntava- De volta ao seu gabinete, no Japão, a meio mundo de
-lhe no momento em que o via subir o caminho até à porta da distância e mais de meio século depois, Fumiko Ishioka
frente. recordava como a mala lhe chegara às mãos.
A ele custava-lhe muito ver a sua desilusão quando, dia Em 1998, começara a desempenhar o seu cargo de
após dia, a resposta era não. Então, no último dia do mês, coordenadora de um pequeno museu, chamado Centro do
Fumiko estava no Centro a receber quarenta visitantes. Eram Holocausto de Tóquio. O museu dedicava-se a ensinar a história
professores e alunos que tinham vindo para saber mais sobre o do Holocausto às crianças japonesas. Numa conferência em
Holocausto e ver a mala. Pelo canto do olho, pela janela, viu o Israel, Fumiko encontrara alguns sobreviventes do Holocausto,
carteiro a caminhar muito depressa em direcção ao edifício, com pessoas que passaram pelos horrores dos campos de
um grande sorriso estampado no rosto. Fumiko pediu licença e concentração. Ficou surpreendida com o seu optimismo e
correu para ir ter com ele. alegria de viver, apesar de tudo por que haviam passado.
— Aqui está — disse ele, radiante. Quando Fumiko se sentia triste com coisas da sua própria vida,
E entregou-lhe um envelope grosso vindo de Toronto. muitas vezes pensava nestes sobreviventes. Tinham tanta força
— Oh, muito obrigada! — gritou Fumiko. — Muito de vontade e tanta sensatez. Tinham tanto para lhe ensinar.
obrigada por me ter feito ganhar o dia! Fumiko queria que os jovens japoneses também
Ela levou a carta ao seu gabinete e abriu-a. Quando tirou soubessem do Holocausto. A sua tarefa era fazer com que isso
as páginas, saltaram fotografias. Quatro fotografias de Hana, acontecesse. E não era tarefa fácil. Como, pensava ela, poderia
com o cabelo loiro a brilhar, em volta do rosto sorridente. ajudar as crianças japonesas a compreender a terrível história do
Fumiko deu um grito. Não conseguiu conter-se. Alguns dos que aconteceu a milhões de crianças judias num continente
professores e dos alunos visitantes correram até à porta do seu longínquo há mais de cinquenta anos?
gabinete. Concluiu que a melhor maneira de começar seria através
— O que aconteceu? O que se passa? — perguntaram. de objectos físicos que as crianças pudessem ver e tocar.

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Escreveu para museus judaicos e museus do Holocausto de todo Toronto, Agosto 2000 
o mundo – da Polónia, Alemanha, Estados Unidos e Israel – a
Durante os mais de cinquenta anos que decorreram depois
pedir o empréstimo de artefactos que tivessem pertencido a
de George ter tomado conhecimento dos terríveis destinos dos
crianças. Enviou o pedido através da Internet. Escreveu a
pais e da irmã, muita coisa aconteceu. Aos dezassete anos,
pessoas que julgou que pudessem ajudar. Fumiko estava à
George deixara Nove Mestro. Andou de cidade em cidade na
procura de um par de sapatos e de uma mala.
Europa, levando consigo o seu único tesouro – a caixa de
Todos recusaram o seu pedido, dizendo que os objectos
fotografias da família que o tio Ludvik e a tia Hedda lhe tinham
que haviam preservado com tanto cuidado eram demasiado
escondido. Então, no início de 1951, mudou-se para Toronto e
preciosos para serem enviados para um museu tão pequeno, tão
montou uma pequena empresa de canalização com outro
distante. Fumiko não sabia o que havia de fazer a seguir. Mas
sobrevivente do Holocausto. A empresa teve muito êxito.
não era o tipo de pessoa que desistisse facilmente. Pelo
George casou, teve três filhos e, muito mais tarde, uma filha.
contrário. Quanto mais respostas negativas recebia, mais se
George orgulhava-se do facto de – apesar do seu
dedicava.
sofrimento durante o Holocausto e de a mãe, o pai e a irmã
Nesse Outono, Fumiko viajou até à Polónia onde muitos
terem sido assassinados pelos nazis – ter continuado com a sua
dos campos de concentração Nazis se situavam. Uma vez lá, no
vida. Era um homem de negócios de sucesso, um pai orgulhoso.
local onde se situara o campo mais conhecido, visitou o Museu
Considerava-se uma pessoa saudável que, de um modo geral,
de Auschwitz. Fumiko pediu para marcar uma curta entrevista
conseguira deixar as experiências de guerra para trás. Mas, por
com o assistente do director do museu. Foram-lhe concedidos
mais triunfos que alcançasse, por mais alegria que sentisse,
cinco minutos para explicar o que queria. Quando saiu do
nunca conseguia esquecer a memória da sua bonita irmã mais
gabinete do assistente do director, tinha a promessa de que o seu
nova e o horror do seu destino.
pedido iria ser considerado.
E agora, ali estava ele, com uma carta vinda do outro lado
Passado poucos meses, chegou uma encomenda do Museu
do mundo, que lhe contava o modo como a mala da irmã estava
de Auschwitz: uma meia e um sapato de uma criança, uma
a ajudar uma nova geração de crianças japonesas a conhecer a
camisola, uma lata de gás venenoso Zyklon B e uma mala – a
história do Holocausto. A carta de Fumiko pedia também,
mala de Hana.
muito gentilmente, a sua ajuda.
George mal conseguia acreditar. Tantas ligações
surpreendentes e estranhas coincidências reuniram dois mundos:
Nove Mesto, 1938 
o mundo das crianças no Japão, George no Canadá, e o mundo
Hana tinha o cabelo loiro, olhos azuis e um rosto redondo há muito perdido de uma rapariga judia da Checoslováquia que
muito bonito. Tinha muita força. De vez em quando, Hana morrera há tanto tempo. Ele quase a ouvia rir, quase sentia as
provocava uma luta com George, só para exibir os seus suas mãos macias nas suas. George dirigiu-se à grande cómoda

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em Terezin. Mas apenas isso. Na esperança de conseguir músculos. Apesar de o irmão ser três anos mais velho, por
obter mais informações acerca de Hana, fui a Terezin vezes, Hana saía vencedora. Mas, de um modo geral, Hana e
em Julho, onde encontrei o seu nome na lista que obtive George entendiam-se bem a brincar juntos.
no Museu do Gueto, e fiquei a saber que o senhor havia No Verão, no ribeiro atrás da casa, faziam de conta que
sobrevivido. Tive então a sorte de encontrar o Sr. eram marinheiros. Subiam para uma velha banheira feita de
Koutouc em Praga, reuni-me com ele, e soube que vive madeira, e aí navegavam, até que um ou o outro puxavam a
actualmente em Toronto. As crianças dos «Pequenas válvula no fundo da banheira e afundavam-se os dois, a rir e a
Asas» ficaram muito entusiasmadas quando souberam chapinhar. Havia três tipos de baloiços no relvado das traseiras
que Hana tinha um irmão e que ele conseguiu – um para uma crianças pequenas, com dois lugares, e outro,
sobreviver. pendurado numa árvore gigante sobre o ribeiro. Às vezes, as
Pensei que talvez pudesse contar-nos a sua história crianças da vizinhança juntavam-se para fazer concursos de
e a de Hana, dos tempos que passaram juntos antes de baloiços. Quem é que baloiçava mais alto? Quem é que saltava
serem enviados para o campo, as coisas de que falava mais longe? Muitas vezes era Hana.
com ela, os vossos sonhos, e tudo que pudesse ajudar as Nos compridos corredores do apartamento por cima da
nossas crianças a sentirem-se mais próximas de si e de loja, Hana corria na sua trotineta vermelha, e George, na sua,
Hana, para que compreendessem o que o preconceito, a que era azul. No Inverno, Hana e George construíam castelos
intolerância e o ódio fizeram às crianças judias. Se de neve e esquiavam. Mas o maior gosto de Hana era patinar, e
possível, ficaria muito grata se pudesse enviar-nos treinava muito no lago gelado de Nove Mesto para aperfeiçoar
qualquer tipo de artigo de recordação, como por as suas piruetas. Às vezes, quando usava o seu fato vermelho
exemplo fotografias da sua família. Ajudar-nos-ia muito especial de patinagem – o que tinha as mangas debruadas a pele
a promover o nosso objectivo de dar a todas as crianças branca –, imaginava que era uma princesa bailarina. Os pais, os
do Japão uma oportunidade de conhecerem a história do amigos e o irmão aplaudiam o espectáculo e o sonho.
Holocausto. Uma vez que os pais trabalhavam seis dias por semana, as
Muito obrigada pelo seu tempo. Agradecer-lhe-ia manhãs de domingo eram especiais para a família. Quando
muito a sua gentil compreensão pelas nossas actividades. acordavam, George e Hana aninhavam-se na cama dos pais
debaixo do fofo edredão de penas. Nas tardes de domingo, no
Melhores cumprimentos, Verão, metiam-se todos no carro e dirigiam-se aos parques mais
Fumiko Ishioka próximos para fazer um piquenique, às vezes com o tio Ludvik
Directora e a tia Hedda, que também viviam em Nove Mesto. No
Inverno, havia passeios de trenó e longas aventuras de esqui
através dos campos. Hana era uma óptima esquiadora. Na
corrida de oito quilómetros entre Nove Mesto e a cidade mais

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próxima (que tinha um maravilhoso salão de chá com bolos de Além de recebermos as crianças no nosso Centro
creme deliciosos), Hana liderava sempre o grande grupo de para visitarem exposições e frequentarem programas de
primos, apesar de ser a mais jovem. estudo, este ano organizámos uma exposição itinerante,
Mas na véspera do Ano Novo de 1938 pairava uma O Holocausto visto pelos olhos das crianças com
atmosfera ameaçadora. Falava-se de guerra. Adolf Hitler e os vista a alcançar um maior número de crianças que
seus nazis estavam no poder na Alemanha. No início desse ano, vivem longe do Centro. Para este projecto, pedimos
Hitler havia ocupado a Áustria. Em seguida, os seus exércitos emprestados alguns artigos de crianças a indivíduos e
tinham marchado sobre algumas zonas da Checoslováquia. museus da Europa, entre os quais se encontra a mala de
Começaram a aparecer refugiados – pessoas que tentavam fugir Hana Brady do Museu de Auschwitz. Muitas crianças
aos nazis – à porta dos Brady, a pedir dinheiro, comida e abrigo. visitam o nosso Centro para ver esta mala e aprender
Encontravam sempre uma calorosa recepção por parte da mãe e coisas sobre o Holocausto. Em Junho, organizámos o
do pai. Mas as crianças estavam confusas. «Quem são estas Fórum Infantil sobre o Holocausto 2000, onde o grupo
pessoas?», interrogava-se Hana. «Porque é que vêm para cá? do nosso Centro, os «Pequenas Asas», fez uma pequena
Porque é que não ficam nas suas próprias casas?» apresentação acerca da mala de Hana. O grupo
Ao serão, depois de Hana e George terem sido mandados «Pequenas Asas» é formado por crianças, com idades
para a cama, a mãe e o pai sentavam-se junto ao rádio para ouvir compreendidas entre os 8 e os 18 anos, que escrevem
as notícias. Muitas vezes apareciam amigos que vinham fazer- boletins e fazem vídeos, para que as outras crianças
-lhes companhia, e ficavam a conversar até tarde acerca das fiquem a conhecer a história do Holocausto e também
notícias que tinham ouvido. para partilharem com elas o que aprenderam. No
— Vamos falar baixo — diziam —, para não acordar as Fórum decidimos usar a mala de Hana como uma
crianças. apresentação para as crianças que nunca tinham ouvido
A conversa dos adultos era tão intensa, as discussões tão falar do Holocausto. Esta abordagem conseguiu ajudar
acesas, que raramente ouviam ranger as tábuas do chão no os participantes do Fórum a concentrar-se numa jovem
corredor escuro quando Hana e George iam em bicos de pés vida, entre um milhão e meio de vidas perdidas durante
para o seu posto de escuta secreto do outro lado da porta da o Holocausto, e a pensar na importância de recordar a
sala. As crianças ouviram as conversas sobre as leis antijudaicas sua história.
na Áustria. Ouviram falar da Kristallnacht na Alemanha, em Quando recebi a mala do Museu de Auschwitz,
que bandos de nazis percorreram os bairros judeus, partiram toda a informação de que dispunha era o que estava
janelas de casas e montras de lojas, queimaram sinagogas e escrito na mala, o nome e a data de nascimento de
espancaram pessoas nas ruas. Hana. A partir do livro de registos de Terezin obtive a
— Não poderia acontecer aqui, pois não? — sussurrou data em que Hana foi deportada para Auschwitz.
Hana ao irmão. Também consegui encontrar 4 desenhos de Hana feitos

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Caro Sr. Brady, — Psiuu!! — disse George. — Se falarmos agora, eles
Tomámos a liberdade de lhe escrever para o pôr ouvem-nos e mandam-nos outra vez para a cama.
ao corrente das nossas actividades no Japão. Chamo-me Uma noite, o vizinho, Sr. Rott, apresentou uma ideia
Fumiko Ishioka e sou directora do Centro Educacional chocante aos adultos.
do Holocaust Education Resource Center (Centro do — Todos pressentimos que vem aí uma guerra — começou
Holocausto), de Tóquio. Em Julho deste ano encontrei- ele. — Não é seguro para nós, judeus, ficarmos aqui. Devíamos
-me com Sr. Kurt Juri Korouk, em Praga, que me deu o sair de Nove Mesto, sair da Checoslováquia, e ir para a
seu endereço. Escrevo-lhe, porque neste momento América, para a Palestina, para o Canadá. Para qualquer lugar.
estamos a expor a mala de sua irmã, Hana Brady, no Partir agora, antes que seja tarde de mais.
nosso Centro. Peço desculpa se a minha carta o magoa, O resto do grupo ficou surpreendido.
fazendo-o recordar as suas difíceis vivências passadas. — Perdeu o juízo, Sr. Rott? — perguntou um deles. — Esta
Mas ficaria muito grata se pudesse dispor de algum é a nossa terra. É aqui que devemos ficar.
tempo para ler esta carta. E o assunto ficou encerrado.
Deixe-me começar com uma pequena explicação Apesar dos tempos difíceis, os Bradys estavam decididos a
do que fazemos no Japão. O Holocaust Education festejar a chegada de 1939. Na véspera do Ano Novo, depois de
Resource Center (Centro do Holocausto) de Tóquio, um grande jantar com peru, salsichas, salame e sobremesa, as
fundado em Outubro de 1998, é uma organização crianças preparavam-se para jogar o jogo tradicional de prever o
educativa sem fins lucrativos que tem como objectivo futuro. Hana, George e os seus jovens primos de cidades
promover a compreensão da história do Holocausto, próximas receberam meia noz, dentro da qual colocaram uma
especialmente entre as crianças japonesas. Aqui, as pequena vela.
crianças têm oportunidade de conhecer a história do Um grande alguidar de água foi arrastado para o meio da
Holocausto. Porém, acreditamos que é também nossa sala. Cada criança colocou um pequeno barco de noz lá dentro.
responsabilidade fazer com que a próxima geração George, de onze anos, pôs o seu barco dentro do alguidar, este
aprenda as lições do Holocausto, de forma a que uma balançou na água, virou-se, voltou a virar-se e acabou por parar,
tragédia assim nunca mais volte repetir-se em nenhum de pernas para o ar. A vela continuou a arder. Hana, de oito
lugar do mundo. Para além de aprenderem a verdade anos, lançou o seu barco e, por um momento, o barco deslizou
sobre o Holocausto, é também muito importante para as sem tremer. Depois tremeu, virou-se, a vela bateu na água e
crianças, na nossa opinião, pensarem no que podem apagou-se.
fazer para combater o racismo e a intolerância e para
criarem paz pelas suas próprias mãos.

54  11 
Tóquio, Março 2000  família, amor e segurança. Quando os tios abriram a porta e
viram o sobrinho, atiraram-se a ele – abraçaram-no, beijaram-
Desde o dia em que a mala chegou, Fumiko e as crianças
-no, tocaram-lhe, choraram – mal conseguindo acreditar que
sentiram-se atraídas por ela. Akira, de dez anos, que geralmente
George estava vivo.
gostava de brincar e dizer piadas, interrogou-se, em voz alta,
Mas a enorme alegria do reencontro foi curta.
como seria ser-se órfã. Maiko, que era mais velha, gostava muito
— Onde está a mãe e o pai? — perguntou George.
de brincar e era uma excelente praticante de natação
Ludvik e Hedda foram obrigados a contar-lhe a horrível
sincronizada. Na presença da mala, ficava sempre muito calada.
verdade. Marketa havia sido enviada de Ravensbruck para
Fazia-a pensar como é que seria ser-se mandada para longe dos
Auschwitz onde fora assassinada em 1942. Karel fora morto no
seus amigos.
mesmo ano.
A mala era o único objecto que tinham no Centro que
— E Hana? — sussurrou George.
estava ligado a um nome. A partir da data inscrita na mala,
Tudo o que a tia e o tio sabiam era que ela tinha sido
Fumiko e as crianças deduziram que Hana deveria ter treze anos
enviada para Aushwitz. Durante meses, George acalentou a
quando fora enviada para Auschwitz. Um ano mais nova do que
ténue esperança que, de alguma forma, em algum lugar, Hana
eu, disse uma rapariga. Exactamente da idade da minha irmã
haveria de aparecer. Procurava-a em todos os rostos de raparigas
mais velha, disse Akira. Fumiko escreveu novamente para o
que via, em todos os rabos-de-cavalo que passavam, em todos os
Museu de Auschwitz. Será que poderiam ajudá-la a descobrir
passos alegres e confiantes das crianças saudáveis por quem
alguma coisa acerca da rapariga a quem a mala pertencera?
passava na rua. Um dia, George encontrou uma adolescente na
«Não!», foi a resposta. Eles não sabiam mais do que ela. Fumiko
rua principal de Praga. Ela parou à sua frente.
informou as crianças.
— George? — perguntou. — Não é George Brady, o irmão
— Tente noutro lugar — pediu Maiko.
de Hana? Chamo-me Marta. Conhecia Hana. Todas nós, as
— Não desista — disse Akira.
raparigas mais velhas de Theresienstadt, gostávamos muito dela.
As crianças entoaram o encorajamento como um coro:
George olhou nos olhos de Marta à procura de
— Continue a procurar.
informações, de esperança. Ela apercebeu-se de que George
Fumiko prometeu que era isso mesmo que iria fazer.
ainda não sabia a derradeira verdade sobre a irmã.
Escreveu ao Yad Vashem, (Museu do Holocausto), em Israel.
— George — disse-lhe ela em voz baixa, directamente,
«Não, nunca ouvimos falar de uma rapariga chamada Hana
pegando-lhe nas mãos. — Hana foi enviada para a câmara de gás
Brady», escreveu o director. «Já tentou o Holocaust Memorial
de Auschwitz, no dia em que chegou. Lamento muito, George.
Museum em Washington DC?» Fumiko apressou-se a escrever
Hana morreu.
uma carta para Washington, mas a resposta foi a mesma: «Não
Os joelhos de George fraquejaram e viu tudo escuro.
temos qualquer informação sobre uma rapariga chamada Hana
Brady.» Como era desencorajador!

12  53 
passos do carteiro, o som dos envelopes a serem metidos na Então, sem mais nem menos, Fumiko recebeu um cartão
caixa do correio da porta, e o barulho que estes fizeram quando do Museu de Auschwitz. Tinham descoberto uma coisa.
bateram no chão. Apanho-os mais tarde, pensou. Então tocaram Tinham encontrado o nome de Hana numa lista. Mostrava que
à campainha. Hana tinha vindo para Auschwitz de um lugar chamado
Quando abriu a porta, viu o carteiro. Theresienstadt.
— Isto não entrava na caixa — disse ele, entregando uma
encomenda a George.
A encomenda tinha carimbos do Japão. «O que poderia Nove Mesto, 1939 
ser?», questionou-se George. Ele não conhecia ninguém no
No dia 15 de Março de 1939, as tropas nazis de Hitler
Japão. Quando abriu a encomenda e começou a ler a carta, o
ocuparam o resto da Checoslováquia, e a vida da família Brady
coração começou a bater com mais força. Fechou os olhos.
mudou para sempre. Os nazis declararam que os judeus eram
Abriu-os, fechou-os e voltou a abri-los com força, para ter a
maus, má influência, perigosos. A partir de agora, a família
certeza de que o que estava a ler era verdade. Será que estaria a
Brady e os outros judeus de Nove Mesto teriam de reger-se por
sonhar acordado?
regras diferentes.
A perda da irmã Hana era o desgosto mais íntimo e
Os judeus só podiam sair de casa a determinadas horas do
profundo de George. Vivera com ele durante mais de meio
dia. Só podiam fazer compras em determinadas lojas e apenas a
século e nunca conseguira ultrapassar a sensação de que deveria
determinadas horas. Os judeus não estavam autorizados a viajar,
ter conseguido proteger a irmã. Agora, surpreendentemente, no
por isso não haveria mais visitas aos bem-amados tios, tias e
outro lado do mundo, contavam a sua história e homenageavam
avós nas cidades vizinhas. Os Bradys foram obrigados a declarar
a sua vida. George ficou estupefacto. Sentou-se e deixou a sua
aos nazis todos os seus bens – obras de arte, jóias, talheres,
mente recuar cinquenta e cinco anos.
registos bancários. Apressaram-se a esconder os papéis mais
Quando Auschwitz foi libertada, em Janeiro de 1945,
preciosos debaixo do soalho do sótão. A colecção de selos do pai
George Brady tinha dezassete anos. Conseguira sobreviver aos
e as pratas da mãe ficaram escondidas com amigos não-
horrores do campo, por ser jovem e forte, por sorte e por ter
-religiosos, não-judeus. Mas o rádio da família teve de ser levado
utilizado o ofício que havia aprendido em Theresienstadt – o de
para um escritório central e foi entregue a um agente nazi.
canalizador. Quando foi libertado, estava muito fraco e
Um dia, Hana e George estavam na bicha do cinema para
terrivelmente magro. Porém, estava decidido a regressar a Nove
comprar bilhetes para A Branca de Neve e os Sete Anões. Quando
Mesto – para ir ter com os pais e a irmã pequena, Hana. Queria
chegaram à bilheteira, viram uma placa que dizia «Proibida a
muito que a família voltasse a reunir-se.
Entrada a Judeus». Com os rostos vermelhos, e os olhos a
A pé, de comboio e à boleia, George conseguiu regressar à
faiscar, viraram as costas e foram para casa. Quando Hana
casa que adorava em Maio de 1945. Foi directamente a casa do
entrou em casa, estava furiosa e muito perturbada.
tio Ludvik e da tia Hedda. Era o último local onde tinham tido

52  13 
— O que é que nos está a acontecer? Porque é que não — Que idade tem? — queria saber um menino.
posso ir ao cinema? Porque é que não posso ignorar a placa? — Ele sabe que nós temos a mala de Hana? — perguntou
A mãe e o pai olharam um para o outro, preocupados. Akira.
Não havia respostas fáceis. Parecia que todas as semanas surgia Fumiko contou-lhes tudo o que sabia. E disse-lhes que iria
uma nova restrição. Proibida a entrada a judeus no parque trabalhar até tarde nessa noite para escrever uma carta a George.
infantil. Proibida a entrada a judeus nos campos de jogos. — Podemos enviar alguma coisa com a carta? — perguntou
Proibida a entrada a judeus em parques. Passado pouco tempo, Maiko.
Hana deixou de poder ir à ginástica. Até mesmo o lago de As crianças mais velhas espalharam-se pelo Centro para
patinagem estava fora do seu alcance. procurar locais sossegados para comporem poemas.
Os amigos de Hana – todos eles não-judeus – no início — O que posso eu fazer? — perguntou Akira a Maiko.
ficaram tão confusos com as regras como Hana. Sentavam-se — Faz um desenho de Hana – respondeu ela.
juntos na escola como sempre haviam feito, e continuavam a — Mas não sei como ela é — disse ele.
divertir-se a fazer partidas nas salas de aula e nos jardins das suas — Desenha-a como a imaginas — disse Maiko.
casas. E foi o que Akira fez.
— Ficaremos juntos para sempre, aconteça o que Fumiko escreveu a carta, com todo o cuidado. Sabia que
acontecer! — prometeu Maria, a melhor amiga de Hana. seria um choque para George recebê-la. Sabia que os
— Não vamos permitir que ninguém nos diga com quem sobreviventes do Holocausto se recusavam sempre a falar das
podemos brincar! suas experiências. Fumiko receava que as memórias de George
Mas, gradualmente, à medida que os meses foram pudessem ser tão amargas e dolorosas que ele nem sequer
passando, todos os colegas de Hana, até mesmo Maria, deixaram quisesse ouvir falar na mala de Hana nem do Centro do
de aparecer lá em casa, depois da escola e aos fins-de-semana. Os Holocausto no Japão. Fumiko fez cópias dos desenhos de Hana
pais de Maria tinham-lhe dado ordem para se manter afastada de e empacotou-os cuidadosamente, juntamente com os textos e
Hana. Tinham medo que os nazis castigassem toda a família por desenhos das crianças. Em seguida levou a encomenda aos
autorizar Maria a ser amiga de uma criança judia. Hana sentia-se Correios, cruzou os dedos e enviou-a para o Canadá.
terrivelmente sozinha. A cada perda de amizade e a cada nova
restrição, Hana e George sentiam que o seu mundo havia ficado
mais pequeno. Sentiam-se revoltados. Sentiam-se tristes. E Toronto, Canadá, Agosto 2000 
estavam frustrados.
Estava uma tarde quente e soalheira de Agosto. George
— O que podemos fazer? — perguntaram aos pais. — Para
Brady, de setenta e dois anos, chegara cedo do trabalho e
onde podemos ir?
pensara passar uma tarde sossegada na casa vazia, a organizar as
contas. Estava sentado à mesa da sala de jantar, quando ouviu os

14  51 
Logo a seguir, o Sr. Kotouc saiu praticamente a correr do A mãe e o pai tentaram fazer o seu melhor para distrair as
gabinete, com a bagagem na mão. Fumiko exibia um sorriso de crianças, para ajudá-las a encontrar novas maneiras de se
orelha a orelha. Toda a sua persistência havia sido divertir.
recompensada. Disse a Michaela quão grata estava pela sua — Temos sorte — disse-lhes a mãe — em termos um
ajuda. Na manhã seguinte, Fumiko instalou-se no seu lugar para jardim tão grande. Podem jogar às escondidas. Podem baloiçar
o longo voo até ao Japão. Ainda estava a tremer de entusiasmo. nas árvores. Podem inventar jogos. Podem brincar aos
Tentou recordar-se de todas as notícias que tinha para as detectives nos armazéns. Podem explorar o túnel secreto.
crianças do Centro. Podem fazer charadas. Estejam gratos por se terem um ao outro!
Quando pensava que Hana tinha um irmão mais velho, Hana e George estavam gratos por se terem um ao outro e
não conseguia deixar de imaginar a sua própria irmã, três anos brincavam juntos, mas isso não os fazia sentir menos afectados
mais nova. Fumiko fora sempre a sua protectora, e tentou por haver coisas que já não podiam fazer, por haver tantos
imaginar o que faria se a irmã mais nova corresse perigo. O lugares onde já não podiam ir. Num lindo dia ensolarado de
mero pensamento fê-la estremecer. Olhou pela janela enquanto Primavera, os dois sentaram-se no prado, entediados, a brincar
repetia a história muitas vezes na sua mente. Passada uma hora, com a erva. De repente, Hana desatou a chorar.
adormeceu profundamente, a primeira vez que tal acontecia — Não é justo — disse ela a chorar. — Detesto isto. Quero
desde há muito tempo. que as coisas sejam como dantes.
Arrancou um punhado de erva do chão e atirou-o ao ar.
Olhou para o irmão. Ela sabia que ele se sentia tão triste como
Tóquio, Agosto 2000  ela.
— Espera aqui! — disse ele. — Tenho uma ideia.
De regresso a Tóquio, Fumiko marcou uma reunião
Passado poucos minutos, estava de volta, trazendo consigo
especial com os «Pequenas Asas». Partilhou todos os
um bloco de papel, uma caneta, uma garrafa vazia e uma pá.
pormenores da sua aventura com as crianças. As más notícias
— Para que é isso tudo? — perguntou a Hana.
vieram primeiro. Com as crianças sentadas à sua volta em
— Talvez nos sintamos melhor se anotarmos todas as
círculo, Fumiko contou-lhes, em voz baixa, o que elas já
coisas que nos estão a aborrecer — explicou ele.
imaginavam. Hana tinha morrido em Auschwitz.
— Que disparate! — respondeu Hana. — Não vai trazer o
— Mas tenho uma surpresa maravilhosa — disse Fumiko.
parque nem o jardim infantil de volta. Não vai trazer a Maria de
Os rostos das crianças animaram-se.
volta.
— Hana tinha um irmão chamado George — e ele
Mas George insistiu. Ele era, afinal, o irmão mais velho, e
sobreviveu!
Hana não tinha uma ideia melhor. E, durante as horas que se
As perguntas apareceram imediatamente:
seguiram, as crianças transferiram toda a sua infelicidade para o
— Onde está ele? — perguntou Maiko.
papel, sendo George quem mais escrevia, e Hana quem mais

50  15 
falava. Fizeram listas de todas as coisas de que tinham saudades, chamada sobre chamada. Cada pessoa com quem falava indicava-
listas do que os fazia sentirem-se revoltados. Fizeram listas de -lhe outro número de telefone e desejava-lhe sorte na sua
todas as coisas que fariam, todas as coisas que teriam, e de todos procura. Por fim, falou para um gabinete onde Mr. Kotouc
os sítios aonde iriam quando estes tempos negros acabassem. trabalhava como historiador de arte. Michaela passou o telefone
Quando terminaram, George pegou nas folhas de papel, a Fumiko, que tentou explicar o que pretendia, mas a secretária
enrolou-as, meteu-as dentro da garrafa e pôs a rolha. informou-a de que Mr. Kotouc partia para o estrangeiro nessa
Caminharam então em direcção a casa, parando junto do mesma noite: «Lamento, mas é impossível agendar uma
baloiço de dois lugares. Aí, Hana escavou um grande buraco. reunião.»; «Não, o Sr. Kotouc nem sequer tem tempo para
Serviria de esconderijo para parte das suas tristezas e frustrações. atender o telefone.»
George colocou a garrafa no fundo do buraco, e Hana encheu o Michaela viu a expressão de desalento de Fumiko. Voltou
espaço restante de terra. E, quando acabaram, o mundo pareceu- a pegar no telefone e insistiu com a secretária.
-lhes um pouco mais luminoso e alegre, pelo menos por aquele — Não faz ideia de quão desesperada está esta jovem. Tem
dia. de regressar ao Japão de manhã. É a única hipótese que tem.
Era difícil compreender tudo o que se estava a passar. A secretária acabou por ceder. Duas horas depois, o céu
Especialmente agora, que o rádio da família tinha desaparecido. estava escuro e o Museu oficialmente fechado. Todos os
O pai e a mãe tinham o hábito de ouvir sempre as notícias das empregados tinham ido para casa. Porém, um dos gabinetes
oito horas, de Londres, Inglaterra, para se manterem a par das continuava bem iluminado. Aí, Fumika e Michaela esperavam a
últimas perfídias de Hitler. Mas os judeus tinham ordem para chegada de Mr. Kotouc. Finalmente chegou. O homem robusto,
estar em casa às oito horas. Ouvir rádio era absolutamente de olhos brilhantes, tinha muito para contar.
proibido, e o castigo para quem quebrasse qualquer lei era — Só tenho meia hora — disse ele —, antes de partir para o
muito severo. Todos tinham medo de ser presos. aeroporto. É claro que me recordo de George Brady.
O pai engendrou um plano, uma forma engenhosa de dar Partilhámos um beliche em Theresienstadt e muito mais. Nunca
a volta aos regulamentos nazis. Pediu a um velho amigo, que se esquecem as ligações que se estabelecem num local como
tomava conta do relógio da torre, para lhe fazer um favor. Será Theresienstadt. E não é apenas isso — disse ele —, nós
que ele se importaria, pediu o pai, de atrasar o relógio quinze continuamos a ser amigos. Ele vive em Toronto, no Canadá.
minutos todos os dias ao anoitecer? Assim, o pai podia correr O Sr. Kotouc tirou uma pequena agenda de cabedal do
até casa do vizinho, ouvir as notícias, e estar em casa em bolso.
segurança quando o sino batesse as oito horas (que eram na — Aqui está o que procuram — disse ele com um sorriso.
verdade oito horas e quinze minutos). O guarda nazi que O Sr. Kotouc copiou o endereço de George Brady e deu-o
patrulhava a praça da cidade não fazia a mínima ideia do que se a Fumiko.
passava. E o pai ficou encantado por o seu plano ter resultado. — Oh, Sr. Kotouc, não tenho palavras para lhe agradecer!
Infelizmente, as notícias que conseguia ouvir na rádio eram más.

16  49 
Fumiko agarrou na sua pasta, saiu do gabinete e correu até à Muito más. Os nazis estavam a ganhar todas as batalhas, a
praça da cidade. O autocarro para Praga devia estar a chegar a avançar em todas as frentes.
qualquer momento.

Tóquio, Março 2000 
Praga, Julho 2000 
Theresienstadt. Agora, Fumiko e as crianças sabiam que
Fumiko dispunha apenas de escassas horas de luz do dia Hana viera para Auschwitz de Theresienstadt. Fumiko estava
antes de o avião partir para o Japão na manhã seguinte. Logo entusiasmada. Fora a primeira informação concreta que
que saiu do autocarro em Praga, fez sinal a um táxi: descobrira a respeito de Hana. A primeira pista.
— Para o Museu Judaico, por favor — disse, tentando Theresienstadt foi o nome que os nazis deram à cidade
recuperar o fôlego. checa de Terezin. Era uma cidadezinha bonita, com dois fortes
Chegou ao Museu Judaico de Praga, mesmo antes da hora imponentes, construídos por volta de 1800 para albergar presos
de fechar. O guarda disse-lhe que regressasse no dia seguinte. militares e políticos. Depois de os nazis terem invadido a
— Mas não posso — suplicou Fumiko. — Tenho de Checoslováquia, transformaram Terezin no gueto de
regressar ao Japão amanhã de manhã. Venho falar com Michaela Theresienstadt – uma cidade-prisão murada, guardada,
Hajek. Ela ajudou-me a encontrar uns desenhos muito sobrepovoada e destinada a albergar judeus que tinham sido
importantes. obrigados a abandonar as suas casas. Durante a Segunda Guerra
Quando já nada parecia convencer o guarda, Fumiko Mundial, mais de 140 000 judeus foram para lá enviados –
resolveu faltar um pouco à verdade 15 000 deles eram crianças.
— Ela está à minha espera — disse ao homem, com um ar No centro escuro permanecia a luz de um candeeiro no
confiante. gabinete de Fumiko, que ficou acordada até tarde, a ler tudo o
E ele deixou-a entrar. Desta vez, a sorte estava do lado de que conseguiu encontrar sobre Theresienstadt. Descobriu que
Fumiko. Michaela Hajek estava no seu gabinete e lembrava-se tinham acontecido coisas terríveis em Theresienstadt, e que, no
da história de Hana. Escutou atentamente enquanto Fumiko lhe decurso de alguns anos, quase todas as pessoas do gueto haviam
explicou o que tinha descoberto. sido novamente deportadas, postas em comboios e enviadas para
— Ouvi falar de Kurt Kotouc — respondeu em voz baixa. os mais terríveis campos de concentração do Oriente, que se
Fumiko mal conseguia acreditar. sabia serem campos de morte.
— Vou tentar ajudá-la a encontrá-lo — prometeu Mas Fumiko descobriu também que em Theresienstadt
Michaela. tinham acontecido coisas corajosas e inspiradoras. Entre os
Compreendeu que Fumiko não tinha tempo a perder. adultos havia pessoas muito especiais – grandes artistas, músicos
Fumiko ficou sentada em silêncio enquanto Michaela fazia famosos, historiadores, filósofos, criadores de moda, assistentes

48  17 
sociais. Todos estavam em Theresienstadt por serem judeus. Se Fumiko conseguisse encontrá-lo, talvez ele pudesse
Uma surpreendente quantidade de talento, formação e ajudá-la a descobrir mais coisas sobre Hana. Fumiko começou a
conhecimento concentrada entre as paredes do gueto. Debaixo vibrar de entusiasmo. Ludmila lançou um olhar triste a Fumiko,
dos narizes dos nazis e correndo grandes riscos, os residentes do outro lado da secretária. Ela compreendia quanto Fumiko
fizeram planos em segredo, estabelecendo um horário elaborado queria saber.
de ensino, aprendizagem, produção e teatro para crianças e — Não faço ideia do que lhe terá acontecido — disse em
adultos. Estavam decididos a recordar aos alunos que – apesar da voz baixa. — A guerra foi há tanto tempo, sabe. Ele pode ter ido
guerra, apesar do ambiente cinzento e sobrepovoado, apesar de para qualquer lugar do mundo. Até pode ter mudado de nome.
tudo – o mundo era um local de beleza, e todos os indivíduos Ou pode ter morrido, muito depois da guerra.
podiam contribuir para ela. — Por favor — implorou Fumiko —, tem de me ajudar a
Fumiko descobriu, ainda, que as crianças em encontrá-lo.
Therensienstadt tinham aulas de Pintura e Desenho. E que, Ludmila suspirou e virou-se novamente para as estantes
milagrosamente, 4 500 desenhos feitos por essas crianças haviam apinhadas de volumes com nomes e listas.
sobrevivido à guerra. O coração de Fumiko começou a bater — Podemos continuar a procurar pistas aqui — disse ela.
mais depressa. Será que entre esses desenhos haveria um ou mais Durante uma hora, Fumiko e Ludmila procuraram em
desenhos de Hana Brady? livros cheios de nomes, à procura de outra referência a George
Brady. E, por fim, encontraram. Estava na lista de nomes dos
residentes do Kinderheim L417, a Casa dos Rapazes em
Nove Mesto, Outono 1940 – Primavera 1941  Theresienstadt. Os nomes estavam agrupados em grupos de seis,
uma vez que dois rapazes partilhavam cada colchão dos beliches
O Outono trouxe consigo o ar frio, bem como novas
triplos. Quando Ludmila verificou os nomes do grupo de
restrições e dificuldades. Hana estava para iniciar a terceira
George Brady, olhou para Fumiko e estremeceu.
classe, quando os nazis anunciaram que as crianças judias já não
— Kurt Kotouc — disse ela. — Kurt Kotouc — repetiu. —
podiam ir para a escola.
Conheço este nome. Ele está vivo. Creio que o companheiro de
— Agora, nunca mais vou ver os meus amigos! — disse
beliche de George Brady vivia em Praga, mas não faço ideia
Hana, a chorar, quando os pais lhe deram a má notícia. —
onde. Se conseguirmos localizá-lo, talvez ele possa dizer-nos o
Agora, nunca poderei ser professora, quando for grande!
que aconteceu ao irmão de Hana. Infelizmente, aqui não posso
Hana sempre sonhara estar de pé em frente de uma sala
fazer mais nada por si. Tente o Museu Judaico de Praga. Talvez
cheia de alunos, todos a escutar atentamente tudo que ela tinha
alguém lá possa ajudá-la.
a dizer. A mãe e o pai estavam determinados a que tanto Hana
Fumiko agradeceu a Ludmila várias vezes por tudo o que
como o irmão continuassem a sua educação. Felizmente, tinham
ela havia feito. Abraçou-a e prometeu-lhe mantê-la a par dos
dinheiro suficiente para contratar uma jovem da aldeia mais
resultados da sua investigação. Ludmila desejou-lhe sorte. Então

18  47 
mais pareciam esqueletos, dos prisioneiros com fardas às riscas a próxima para ser professora de Hana, e um velho professor
espreitar pelas portas. Mandaram-nas entrar num edifício refugiado para ensinar George.
grande. A porta fechou-se, com um estrondo assustador. A mãe tentava mostrar-se alegre.
— Bom dia, Ana — dizia ela numa voz cantante, quando o
Sol nascia. — Está na hora do pequeno-almoço. Não queres
Terezin, Julho 2000  chegar tarde à escola!
Todas as manhãs, Hana encontrava a nova professora à
— O que significa o visto? — perguntou Fumiko, quando
mesa da sala de jantar. Era uma jovem afável que dava o seu
olhou para a página que continha os nomes de Hana Brady e
melhor para encorajar Hana a ler, escrever e aprender
George Brady.
Aritmética. Trazia consigo um pequeno quadro preto que
Ludmila hesitou e, em seguida, disse, cuidadosamente:
apoiava numa cadeira. De vez em quando, deixava Hana
— O visto significa que essa pessoa não sobreviveu.
desenhar com o giz e sacudir o giz da esponja de apagar o
Fumiko olhou novamente para o papel. O nome de Hana
quadro. Porém, nesta escola não havia colegas, não havia
tinha um visto ao lado. Assim, como quase todas as 15 000
brincadeiras, não havia intervalos. Hana tinha mais dificuldade
crianças que passaram por Theresienstadt, Hana morrera em
em prestar atenção e concentrar-se nas lições. Na escuridão do
Auschwitz. Fumiko baixou a cabeça e fechou os olhos. Já tinha
Inverno, o mundo parecia estar a fechar-se sobre a família
adivinhado a horrível verdade. Mas ouvi-la pronunciada, vê-la
Brady.
escrita num papel continuava a ser um golpe. Fumiko
Na verdade, quando a Primavera chegou, aconteceu o
permaneceu sentada em silêncio durante alguns minutos,
desastre. Em Março de 1941, a mãe foi presa pela Gestapo, a
tentando digerir a notícia.
receada polícia secreta de Hitler. Chegou uma carta a intimar a
Em seguida recompôs-se e levantou os olhos. A história de
mãe para se apresentar às nove horas da manhã nos escritórios
Hana não tinha acabado. Agora, mais do que nunca, Fumiko
da Gestapo na vizinha cidade de Iglau. Para chegar a horas, ela
queria saber tudo sobre ela – por si mesma, pelas crianças que a
teria de sair de casa, a meio da noite. Tinha apenas um dia para
esperavam no Japão, e pela memória de Hana. Estava
organizar tudo e para se despedir da família.
absolutamente decidida a que esta vida, que terminara de uma
Chamou Hana e George à sala, sentou-se no sofá e puxou
forma tão injusta, e tão cedo, não fosse esquecida. Fazer com
as crianças para junto dela. Disse-lhes que ia para fora durante
que isso acontecesse tornara-se a sua missão.
algum tempo. Hana aconchegou-se um pouco mais.
— Não há nenhum visto ao lado do nome de George —
— Tens de te portar bem enquanto eu estiver fora — disse
disse Fumiko. — Haverá alguma maneira — gaguejou — de o
ela. — Ouve o pai com muita atenção e obedece-lhe. Eu escrevo
conseguirmos encontrar? O que lhe aconteceu? Para onde foi?
— prometeu ela. — Vocês vão responder às minhas cartas?
Será que ainda está vivo?

46  19 
George afastou os olhos. Hana tremeu. As crianças Por isso, quando tenho vontade de chorar,
estavam demasiado chocadas para responder. A mãe nunca os Recordo simplesmente a centopeia.
tinha deixado antes. Imagino-me no seu lugar,
E então a minha vida parece-me mesmo boa.

Nove Mesto, Outono 1941  As raparigas levantaram a cabeça. Fecharam os olhos e


tentaram imaginar que estavam em outro lugar qualquer. Cada
Uma vez que tinha prometido à mãe, Hana esforçou-se
uma imaginou uma coisa diferente. Quando Hana fechou os
para se portar bem. Ajudava o pai, sempre que podia e
olhos, viu o rosto forte e sorridente do irmão. E então,
frequentava as lições. Boshka, a governanta de quem gostavam
subitamente, no meio da noite de 23 de Outubro de 1944, as
muito, tentava cozinhar os pratos preferidos de Hana e dar-lhe
rodas do comboio pararam com grande chiadeira. Abriram-se as
uma quantidade suplementar de sobremesa. Mas Hana tinha
portas. As raparigas receberam ordem para sair do vagão.
muitas saudades da mãe, especialmente à noite. Ninguém sabia
Estavam em Auschwitz.
afagar-lhe o cabelo da mesma maneira. Ninguém mais sabia
Um guarda mal-humorado mandou-as permanecer de pé,
cantar-lhe a sua canção de embalar. E aquela gargalhada forte da
direitas e em silêncio, na plataforma. Segurava com força a trela
mãe – todos sentiam saudades dela! As crianças souberam que a
de um grande cão, ansioso por atacar. O guarda avaliou o grupo
mãe estava num local chamado Ravensbruck, um campo de
rapidamente. Estalou o chicote na direcção de uma rapariga que
concentração para mulheres na Alemanha.
sempre se envergonhara por ser tão alta.
— É muito longe? — perguntou Hana ao pai.
— Tu! — disse ele. — Tu aí, do lado esquerdo! — Estalou
— Quando é que ela volta para casa? — quis saber George.
novamente o chicote a uma das raparigas mais velhas. — Tu aí,
O pai tranquilizou as crianças, dizendo-lhes que estava a
também.
fazer todo o possível para que ela fosse libertada. Um dia, Hana
Em seguida, gritou a um grupo de jovens soldados que
estava no quarto a ler, quando ouviu Boshka chamá-la. Decidiu
estavam de pé na beira da plataforma.
ignorá-la. Hana não estava com vontade de fazer quaisquer
— Levem-nas agora! — disse ele, apontando para Hana e
tarefas. E que mais haveria a desejar? Mas Boshka continuou a
para o resto do seu grupo.
chamar:
As enormes lanternas quase cegavam as raparigas.
— Hana, Hana? Onde estás? Vem depressa! Está uma coisa
— Deixem as vossas malas na plataforma — ordenaram os
muito especial à tua espera nos Correios.
soldados.
Ao ouvir isto, Hana largou o livro. Poderia ser o que ela
Hana e as antigas companheiras de quarto entraram por
mais ansiava? Saiu de casa, de rompante, e correu pela rua
um portão de ferro forjado sob o olhar atento dos agressivos
abaixo até aos Correios. Hana aproximou-se da funcionária:
cães e dos homens de uniforme. Hana segurava a mão de Ella
— Tem alguma coisa para mim? — perguntou.
com força. Passaram por casernas enormes, viram os rostos, que

20  45 
quadradinho de sabão para lavar o rosto de Hana e limpar-lhe o A mulher que estava atrás do balcão fez deslizar uma
cabelo sujo e emaranhado. Com um pedaço de pano, atou o pequena encomenda castanha pelo orifício. O coração de Hana
cabelo de Hana num rabo-de-cavalo. Beliscou-lhe o rosto para deu um pulo, ao reconhecer a letra da mãe. Os dedos tremeram-
lhe dar cor. Em seguida recuou para observar o resultado dos lhe quando abriu a encomenda. Dentro, havia um pequeno
seus esforços. O rosto de Hana resplandecia de esperança. coração castanho. Era feito de pão e tinha as iniciais «HB»
— Muito obrigada, Ella — disse Hana, abraçando a gravadas. Havia também uma carta.
rapariga mais velha. — Não sei o que faria sem ti.
Pela primeira vez desde a partida de George, Hana parecia Minha querida filha, desejo-te tudo de melhor no
feliz. Nessa noite, Hana fez a mala. Não havia muita coisa para dia do teu aniversário. Tenho muita pena de não poder
pôr lá dentro: algumas peças de roupa muito usadas, um dos ajudar-te a apagar as velas este ano. Mas este coração é
seus desenhos preferidos, da aula de Desenho de Friedl, e um um pendente que fiz para a tua pulseira. A tua roupa já
livro de histórias que Ella lhe tinha dado. Quando terminou, estará a ficar pequena? Pede ao papá e ao Georgie para
Hana deitou-se no beliche e dormiu a sua última noite em falarem com as tuas tias para mandar fazer mais roupa
Theresienstadt. para a minha menina crescida. Penso em ti e no teu
Na manhã seguinte, ela e muitas das outras raparigas do irmão, a toda a hora. Estou bem. Tens sido uma
Kinderheim L410 foram conduzidas até à linha do comboio. Os menina bem-comportada? Vais escrever-me uma carta?
guardas nazis ladravam ordens, e os seus cães mostravam os Espero que tu e George estejam a continuar os vossos
dentes e rosnavam. Ninguém saía da linha. estudos. Eu estou bem. Tenho muitas saudades tuas,
— Para onde é que pensas que vamos? — sussurrou Hana a minha querida Hanichka. Um beijo para ti.
Ella. Muitas saudades, mãe. Maio 1941. Ravensbruck.
Na verdade, ninguém sabia. As raparigas entraram uma à
uma no vagão escurecido, até não sobrar um centímetro de Hana fechou os olhos e agarrou o pequeno coração de pão
espaço livre no comboio. O ar cheirava a azedo. E as rodas com força. Tentou imaginar que tinha a mãe a seu lado.
começaram a girar. O comboio avançou ruidosamente durante Aquele Outono trouxe outro golpe. Um dia, o pai chegou
um dia e uma noite. Não havia comida. Não havia água. Não a casa com três quadrados de pano. Cada quadrado tinha uma
havia casa de banho. As raparigas não faziam ideia de quanto estrela de David amarela e no meio da estrela uma palavra:
tempo a viagem levaria. Tinham a garganta seca, doíam-lhes os «Jude» – Judeu.
ossos, as barrigas revolviam-se de fome. Tentavam reconfortar- — Venham, meninos! — disse o pai, tirando um par de
-se umas às outras, cantando canções de suas casas. tesouras da gaveta da cozinha. — Temos de recortar estas
— Apoia-te a mim — dise Ella — e ouve, Hana. estrelas e pregá-las nos casacos. Temos de as usar, sempre que
sairmos de casa.

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—Porquê? — perguntou Hana. — As pessoas já sabem que — Parto amanhã — disse ele. — Agora, mais do que nunca,
somos judeus. tens de comer o máximo que puderes. Tens de aproveitar todas
— É o que temos de fazer — respondeu o pai. as oportunidades que tiveres para respirar ar fresco. Tens de ter
Parecia tão abatido, triste e cansado que Hana e George cuidado com a tua saúde. Sê forte. Aqui tens a minha última
não discutiram. A partir desse dia, Hana começou a sair cada ração. Come-a até à última migalha.
vez menos. Fazia quase tudo o que era possível para evitar usar George abraçou-a com força e afastou-lhe gentilmente o
em público o crachá amarelo. Odiava a estrela. Era muito cabelo dos olhos.
humilhante. Fazia-a sentir-se envergonhada. Já não bastava, — Prometi à mãe e ao pai que tomaria conta de ti e que te
pensavam as crianças, terem perdido o parque, o lago, a escola e levaria para casa, sã e salva, para que pudéssemos reunir a nossa
os amigos? Mas agora, sempre que saíam de casa, era com a família novamente. Não quero quebrar a minha promessa.
estrela presa à roupa. Em seguida soou o sinal de recolher, e George
Um judeu da cidade não estava disposto a obedecer. desapareceu. Hana começou a sentir-se infeliz e desesperada.
Estava farto de todas as regras e restrições. Por isso, um dia, no Não suportava a separação do irmão. Primeiro, os pais; agora,
final do mês de Setembro de 1941, saiu de casa, com uma certa George. Sentia-se tão sozinha no mundo. Às vezes, quando as
ousadia. Decidira não recortar a estrela e pregar o pano inteiro outras raparigas a tentavam animar, Hana virava-lhes a cara e
ao casaco. Este pequeno acto de rebelião foi imediatamente chegava mesmo a ripostar:
detectado pelo agente nazi encarregado de Nove Mesto. Ficou — Não são capazes de me deixar em paz?
furioso. Declarou que Nove Mesto tinha de ser judenfrei, Apenas a gentil Ella conseguia convencê-la a comer as suas
depurada de judeus, imediatamente. magras rações.
Na manhã seguinte, um grande carro preto conduzido por — Não te esqueças do que o teu irmão disse. Tens de
um agente nazi parou em frente da casa dos Brady. Quatro tomar conta de ti e manter-te forte — por ele.
judeus assustados já estavam dentro do carro. Bateram à porta. Quatro semanas mais tarde, Hana soube que também ela
O pai abriu. Hana e George estavam atrás dele. O agente da ia para leste. Um reencontro!
Gestapo disse agressivamente ao pai para sair imediatamente. — Vou voltar a ver George! — disse a todos. — Ele está à
Hana e George não acreditavam no que estavam a ouvir. minha espera.
Ficaram ali de pé, paralisados, aterrorizados e em silêncio. O pai Foi ter com Ella.
abraçou-os, implorou-lhes que fossem corajosos. E, em seguida, — Podes ajudar-me? — pediu-lhe. — Quero estar bonita
ele também desapareceu. quando me encontrar com o meu irmão. Quero mostrar-lhe que
tomei muito bem conta de mim.
Apesar dos seus próprios receios, Ella queria alimentar as
esperanças da sua jovem amiga. Sorriu-lhe e dedicou-se ao
trabalho. Foi buscar água à bomba e usou o seu último

22  43 
Começou a chorar. Ella passou-lhe disfarçadamente um pedaço Tóquio, Primavera 2000 
de pão que tinha escondido dentro do casaco.
Fumiko ficou encantada com os desenhos de Hana. Ela
— Come isto, Hana — pediu-lhe em voz baixa. — Vais
sabia que os desenhos iriam ajudar as crianças a imaginar melhor
sentir-te melhor.
o tipo de pessoa que Hana tinha sido. Ser-lhes-ia mais fácil pôr-
Mas as lágrimas de Hana continuavam a cair. A rapariga
-se no seu lugar. Fumiko tinha razão.
mais velha virou-se então para ela
Mais do que nunca, as crianças que apareciam no Centro
— Escuta-me com atenção — sussurrou ela. — Estás triste e
focavam a sua atenção em Hana. Lideradas por Maiko, algumas
com medo. É exactamente assim que os nazis nos querem ver a
delas formaram um grupo com a missão de transmitir aos outros
todos. Não lhes podes dar essa satisfação, Hana. Não lhes podes
meninos o que estavam a aprender. Deram o nome de
dar o que eles querem. Nós somos mais fortes e melhores do
«Pequenas Asas» ao seu clube. Uma vez por mês, reuniam-se
que eles. Tens de secar essas lágrimas, Hana, e pôr um ar
para planear o seu boletim. Todos tinham o seu papel. As
corajoso.
crianças mais velhas escreviam artigos. As mais novas eram
Milagrosamente, foi o que Hana fez. O comandante nazi
encorajadas a fazer desenhos. Outras, escreviam poemas. Com a
começou a gritar nomes. Todos os nomes tinham de ser
ajuda de Fumiko, enviavam o boletim para escolas, em todo o
justificados. Por fim, depois de oito horas de pé, fustigados por
lado, para que outros meninos ficassem a conhecer a história do
um vento forte, receberam ordem de regressar todos às casernas.
Holocausto e a busca em relação a Hana.
Corria o mês de Setembro de 1944. Quando os nazis
Mais do que qualquer outra coisa, as crianças queriam
começaram a aperceber-se de que estavam a perder a guerra,
saber qual era o aspecto de Hana. Queriam ver o rosto desta
anunciaram que iam sair mais pessoas de Theresienstadt. Os
rapariguinha cuja história ansiavam por conhecer. Fumiko
transportes foram acelerados. Agora havia uma nova lista de
apercebeu-se de que, se conseguisse encontrar uma fotografia de
nomes todos os dias.
Hana, ela ficaria ainda mais viva para as crianças do que um ser
Todas as manhãs, com o coração a bater com muita força,
humano real. Agora que tinha os desenhos, uma meia, o sapato,
Hana corria até à entrada principal do edifício onde a lista era
a camisola, e, é claro, a mala de Hana, Fumiko pensou que
afixada. E um dia lá estava – o nome que ela temia encontrar –
estava na hora de inaugurar a exposição para que trabalhara: O
George Brady. Os joelhos de Hana cederam. Sentou-se no chão
Holocausto visto pelos olhos das crianças.
a chorar. George, o seu querido irmão, seu protector, ia ser
enviado para leste. Aquele rapazinho magro, agora um jovem,
tinha ordem para se apresentar nos comboios juntamente com
Nove Mesto, Inverno 1941­1942 
outros 2 000 homens fisicamente capazes.
Na última vez que se encontraram, no caminho de terra Agora havia apenas duas crianças. Sem pais. George pôs o
entre a Casa dos Rapazes e a Kinderheim L410, George pedira a braço em volta da irmã de dez anos e prometeu-lhe que tomaria
Hana para o ouvir com atenção. conta dela. Boshka, a governanta, tentava distraí-los com pratos

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especiais e conversas ligeiras. Não funcionava. As crianças para leste, para um destino desconhecido. Falava-se dos
estavam tristes e com muito medo. Algumas horas depois da transportes dentro das paredes de Theresienstadt. Alguns
prisão do pai, bateram novamente à porta. O coração de Hana tentavam convencer-se a si mesmos e convencer os outros de
deu um salto. George engoliu em seco. Quem viriam eles buscar que uma vida melhor esperava quem ia nos comboios. Porém, à
agora? Mas quando abriram a porta, viram o tio Ludvik, o medida que o tempo passava, histórias sobre campos de morte,
querido tio Ludvik. brutalidade e assassínios em massa circulavam por todo o lado.
— Soube agora mesmo da má notícia — disse ele, Quando ouvia falar nestas coisas, Hana tapava os ouvidos.
abraçando Hana com um braço e George com o outro. — Vêm Toda as semanas as detestadas listas eram afixadas em cada
os dois comigo. Devem estar junto da família, com pessoas que edifício. As pessoas cujos nomes constavam nelas tinham de se
vos amam. apresentar num átrio de reunião perto da estação de comboios
O tio Ludvik era cristão e tinha casado com a irmã do pai. no espaço de dois dias. Listas. Havia listas por todo o lado. Os
Uma vez que não era judeu, não era alvo imediato dos nazis. nazis mantinham registos sistemáticos, e queriam que todos os
Porém demonstrou coragem ao receber George e Hana. A prisioneiros o soubessem. Através das contagens constantes e
Gestapo avisara que quem quer que ajudasse judeus sofreria das listagens de pessoas, os nazis recordavam aos prisioneiros
horríveis represálias. O tio Ludvik disse às crianças para irem quem mandava. Todas as pessoas sabiam que ser contado, dar
buscar as coisas de que mais gostavam. Hana levou a sua boneca nas vistas, poderia significar ir juntar-se ao número dos que dali
de tamanho natural, Nana, que tinha desde os cinco anos. eram transportados para outro lado, e mais uma separação da
George reuniu todas as fotografias da família. família e amigos.
Cada um deles encheu uma mala com roupa. Hana Uma manhã, quando Hana estava a realizar as suas tarefas,
escolheu uma grande mala castanha que já havia usado em os habitantes do campo receberam ordem para deixar o que
viagens com a família. Adorava o forro às pintas. Depois de estavam a fazer e reunir-se num vasto campo, nos arredores da
tudo estar empacotado, apagaram as luzes e fecharam a porta. cidade. Todos – velhos e jovens. Foram conduzidos por guardas
Nessa noite, a tia e o tio deitaram Hana numa cama grande com nazis armados de metralhadoras, de quem receberam ordens
um edredão de penas. para permanecer de pé, sem comida, sem água, e com a sensação
— Tomaremos conta de ti, até os teus pais voltarem, Hana de que estava prestes a acontecer algo de terrível. Hana e as
— prometerem eles. — E estamos mesmo ali ao fundo do outras raparigas nem sequer se atreviam a sussurrar entre si.
corredor, se acordares no meio da noite. Hana não suportava a ideia de poder ser separada de
Hana permaneceu acordada, a piscar os olhos na escuridão George. Nem da rapariga do Kinderheim L410, a quem
desconhecida. Estava numa cama estranha. E o mundo – agora considerava quase uma irmã. Já não chegava os pais terem sido
cheio de perigos – parecia estar de pernas para o ar. «O que levados para longe? Ella estava de pé ao lado de Hana, e tentou
acontecerá a seguir?», pensou Hana, receosa. Por fim, fechou os animá-la, sorrindo e piscando os olhos. Porém, depois de várias
olhos e adormeceu. horas de pé, Hana não conseguiu conter o seu desespero.

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outras pessoas idosas e doentes. Corria o mês de Julho, e o sótão No dia seguinte, acordou com um ladrar ansioso do lado
estava extremamente quente. Os irmãos ficaram horrorizados de fora da janela. Sentiu um baque no coração. O que poderia
com o que viram. O bonito cabelo branco da avó, antes sempre ter acontecido? Depois, reconheceu o som. Era Sylva, a sua
impecável, estava todo despenteado. As roupas estavam rasgadas cadela fiel. Sylva encontrara o caminho pelo meio da cidade
e sujas. para ir ter com Hana e George. Pelo menos alguns amigos,
— Trouxe-lhe um dos meus desenhos — exclamou Hana, pensou Hana, mantêm-se fiéis. Era uma pequena consolação.
pensando que isto pudesse fazer sorrir a velha senhora. A casa da tia Hedda e do tio Ludvik era pequena mas
Mas a avó mal conseguia virar a cabeça. Então, Hana confortável, com um bonito jardim nas traseiras. Ficava muito
dobrou o papel grosso e transformou o desenho num leque. perto da escola do bairro, e, todos os dias, George e Hana viam
— Descanse — disse ela à avó, tentando criar uma brisa as outras crianças, com as sacolas com livros, a rir, a brincar, a
refrescante. caminho da escola.
Hana orgulhava-se da sua tarefa de fazer com que a avó se — Eu também quero ir! — Hanna bateu o pé, magoada e
sentisse melhor. Hana depressa descobriu que, em frustrada.
Theresienstadt, davam aos idosos rações mais pequenas e piores Mas ninguém a podia ajudar.
do que as outras. A comida que a avó recebia não era de forma Nos meses que se seguiram, o tio Ludvik e a tia Hedda
alguma suficiente e muitas vezes estava cheia de bichos. E não fizeram todos os esforços para manter as crianças ocupadas.
havia remédios. As crianças visitavam a avó sempre que podiam George rachava lenha, horas a fio. Hana lia livros e jogava
e tentavam animá-la, levavam-lhe objectos feitos por elas e jogos. Os primos, Vera e Jiri, gostavam muito dela. Às vezes até
cantavam-lhe canções que haviam aprendido. ia à igreja com eles. Todos os dias, à hora de almoço, Hana e
— Estes tempos difíceis vão acabar em breve — disse-lhe George regressavam à sua antiga casa, para uma refeição familiar
George. com a governanta, Boshka, que os mimava, abraçava e beijava,
— A mãe e o pai estão a contar com que nos recordando-lhes que havia prometido aos pais mantê-los
mantenhamos todos fortes — disse Hana. saudáveis, alimentando-os bem.
Contudo, passados três meses, a avó morreu. Além de Toda as semanas chegava uma carta do pai, que estava
Hana e de George, poucas pessoas deram grande atenção ao detido em Iglau, uma prisão da Gestapo. George só lia as partes
facto. A morte estava por todo o lado. Na verdade, morriam alegres à irmã. George achava que Hana era demasiado nova
tantas pessoas e tão rapidamente que o cemitério estava cheio. para saber toda a verdade sobre as duras condições na prisão, e
Apoiando-se um no outro, Hana e George tentaram recordar-se que o pai estava desesperado para ser libertado.
dos tempos felizes que tinham passado com a avó, e choraram Mas não era demasiado jovem, porém, para ser deportada
juntos. pelos nazis! Boshka não tinha respostas. A governanta disse a
A medida que mais pessoas iam chegando a Terezin, Hana que ela também ia deixar Nove Mesto para ir ter com um
milhares iam saindo. Iam apinhados em vagões e eram enviados irmão que vivia numa quinta. Hana retirou a grande mala

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castanha com forro às bolinhas que tinha debaixo da cama. Lá — Sim — disse ela — é muito possível que fosse um irmão.
dentro colocou um saco-cama, para poder sempre recordar-se do Os nazis colocavam as pessoas da mesma família na mesma lista.
cheiro de casa, por mais longe que estivessem. George fez o Fumiko reparou ainda em outra coisa. Ao lado do nome
mesmo. Havia salame e doces para meter entre as roupas, bem de Hana havia um «visto». Na verdade, havia um «visto» ao lado
como algumas recordações. de todos os nomes da página – excepto de um. Ao lado do outro
O tio Ludvik estava desolado com a partida dos pequenos Brady, George Brady, não havia nada. O que é que isto
sobrinhos. Pediu a um cocheiro para os levar ao centro de significava?
deportação. Não tinha coragem para o fazer. Ele e a mulher
esforçaram-se o mais possível para conter as lágrimas ao
despedirem-se de Hana e de George. Prometeram esperar pelo Theresienstadt, 1943­44 
seu regresso a Nove Mesto, depois de a guerra acabar. Quando o
A medida que os dias e os meses passavam, Theresienstadt
cocheiro tocou os sinos e os cavalos se puseram em marcha,
ia ficando cada vez mais sobrepovoada e confinada. Estavam
ninguém disse palavra.
sempre a chegar novos comboios carregados de pessoas. Isto
Várias horas mais tarde, o cocheiro deixou Hana e George
significava que havia menos comida para todos, e as pessoas iam
em frente de um grande armazém. Juntaram-se à fila, perto, da
ficando mais fracas e doentes. Os mais velhos e os mais jovens
entrada. Quando chegaram à mesa de registo, deram os nomes a
eram os que corriam maiores riscos.
um soldado mal-encarado que os mandou entrar para um
Um dia, depois de já estar há um ano no gueto, Hana
edifício escuro e abafado. O pavimento do edifício estava
recebeu um recado urgente do irmão: «Vem ter comigo à Casa
coberto de tapetes. Hana e George encontraram dois tapetes
dos Rapazes às seis da tarde. Tenho uma surpresa maravilhosa
juntos num canto e sentaram-se. Quando olharam em volta,
para ti.» George estava impaciente para partilhar a boa notícia.
aperceberam-se de que quase não havia outras crianças. Mas
— A avó está cá! Chegou a noite passada!
havia centenas de judeus, homens e mulheres, à espera de serem
As crianças ficaram felicíssimas com a ideia de irem ver a
enviados para um local chamado Theresienstadt. Todos eles iam
avó. Também ficaram preocupadas. A avó de George e de
ser deportados.
Hanna fora uma mulher requintada que tivera uma vida
Durante quatro dias e quatro noites, Hanna e George
confortável e culta na capital, Praga. Fora esta avó generosa que
ficaram dentro do armazém, comeram os alimentos que traziam
lhes havia dado as trotinetas. Quando eles iam visitá-la à grande
na mala, dormiram em cima dos tapetes. Apesar de alguns dos
cidade, a avó dava-lhes sempre bananas e laranjas. Mas, nos
adultos tentarem ser simpáticos para com as crianças, Hana e
últimos anos, tinha estado bastante doente. Como iria aguentar
George não tinham vontade de ter companhia. Tinham-se um
este sítio horrível? Mal, como se verificou.
ao outro e passaram o tempo a ler, a conversar, a dormir e a
As crianças encontraram-na num sótão sobrepovoado,
pensar na sua casa. Foi neste armazém, no dia 16 de Maio de
com apenas um monte de palha como colchão, entre muitas

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Não tenhas vergonha. Não te sintas sozinha. Podes vir visitar- 1942, com algumas guloseimas e um coto de vela, que Hana
-me todos os dias. Podes chamar-me «mãe». Brady comemorou o seu décimo primeiro aniversário.
— Eu tenho uma mãe — disparou Hana. — Vá-se embora!
Deixe-me em paz!
Hana recusou-se a voltar a vê-la. Tinha saudades da sua Tóquio, Junho 2000 
mãe verdadeira. Ninguém poderia tomar o seu lugar.
A exposição O Holocausto visto pelos olhos das crianças
atraiu mais visitantes, adultos e crianças, do que Fumiko alguma
vez julgara possível. A história do Holocausto era nova para
Terezin, Julho 2000 
muitas das pessoas que vinham ao Museu. Como Fumiko
No Museu do Gueto de Terezin, Ludmila, sentada à sua esperara, a sua tragédia tornava-se real, devido aos objectos que
secretária, olhava para a jovem japonesa sentada na borda da havia recolhido e à história que eles contavam.
cadeira à sua frente. A forte determinação de Fumiko estava-lhe Apesar de os visitantes se interessarem pelo sapato, pela
escrita no rosto. Ludmila gostava de Fumiko e queria ajudá-la a lata de gás Zyklon B e pela pequena camisola, foi a mala que se
descobrir mais coisas sobre esta rapariga, Hana Brady. Tirou um transformou num íman. Crianças e pais reuniam-se
grande livro da estante. Dentro do livro estavam os nomes de constantemente em volta dela e liam os escritos: Hana Brady, 16
quase 90 000 homens, mulheres e crianças que estiveram presos de Maio de 1931, Waisenkind – órfã. Liam os poemas escritos
em Theresienstadt e que foram transportados para oriente. pelos jovens membros dos Pequenas Asas. E admiravam os
Procuraram a secção dos Bs: Brachova, Herminia, Brachova, desenhos que Hana havia feito em Theresienstadt.
Suzana. Brada, Thomas. Bradacova, Marta. Bradleova, Zdenka. — Sabem mais alguma coisa acerca dela? — perguntavam.
— Aqui está ela — gritou Ludmila. — O que é que lhe aconteceu?
E estava mesmo: Hana Brady, 16 de Maio de 1931. Fumiko decidiu redobrar os seus esforços para encontrar
— Como é que posso descobrir mais coisas sobre ela? — uma fotografia de Hana. Algures, teria de haver alguém que
perguntou Fumiko. pudesse ajudá-los. Fumiko voltou a escrever ao Museu do Gueto
— Quem me dera saber — respondeu Ludmila. de Terezin. «Não!», foi a resposta. «Já lhe dissemos. Não
— Mas veja — disse Fumiko, apontando para outra linha sabemos nada acerca de uma rapariga chamada Hana Brady.»
do livro. Havia outro Brady, que está mesmo a seguir a Hana. — Fumiko era simplesmente incapaz de aceitar isto. Decidiu
Poderia pertencer à sua família? — questionou-se Fumiko, em ir a Terezin ela própria.
voz alta.
Ludmila olhou para as datas de nascimento. Uma
diferença de três anos.

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Centro de Deportação, Maio 1942  metia em sarilhos. Queria que ela se mantivesse o mais feliz e
saudável possível até puderem estar novamente com os pais.
Na manhã do quarto dia, soou um apito alto, e um
E Hana era igualmente dedicada a George. Em Terezin,
soldado nazi marchou pelo armazém adentro. Hana e George
onde nunca havia comida suficiente, os residentes recebiam uma
encolheram-se no seu canto enquanto ele ia ladrando ordens.
pequena butcha, um bolo simples, uma vez por semana. Hana
— Devem todos comparecer junto às linhas de caminho-
nunca comia o dela. Levava-o a George, para que ele pudesse
-de-ferro daqui a uma hora. Cada um pode levar uma mala.
ficar forte e manter-se doce.
Vinte e cinco quilos. Nem mais um grama. Formem filas
Hana tinha a impressão que todos os dias chegavam
direitas. Não falem. Cumpram as ordens.
pessoas a Theresienstadt. No início vinham homens, mulheres e
A voz era muito ríspida, muito assustadora. Hana e
crianças de toda a Checoslováquia, e depois de todos os outros
George juntaram rapidamente as suas coisas. Alguns adultos
países europeus. Cada vez que um novo grupo de pessoas saía
tentaram ajudá-los, a fim de verificar se as crianças estavam
dos comboios, Hana procurava rostos familiares. E às vezes,
preparadas. Pobrezinhos, pensavam eles. Uma viagem tão
quando se sentia mais forte, abordava desconhecidos e
difícil, e ainda por cima sozinhos, sem os pais.
perguntava:
Sob o olhar ameaçador dos soldados, saíram todos do
— Conhecem a minha mãe e o meu pai? Estiveram num
armazém em fila indiana e alinharam-se junto à linha de
local chamado Ravensbruck? A minha mãe está lá! Têm alguma
caminhos-de-ferro. Deixando a luz brilhante da manhã, Hana e
notícia de Karel e Marketa Brady?
George entraram com as malas no comboio escuro. A seguir a
A resposta era sempre a mesma, mas dada com
eles entraram mais pessoas, até o comboio ficar cheio. As portas
amabilidade e pena, que mal conseguiam esconder.
então fecharam-se, e o comboio começou a andar.
— Não, querida, não conhecemos a tua mãe nem o teu
pai. Mas se soubermos de alguma coisa – o que quer que seja –
vamos procurar-te para te contar.
Terezin, Julho 2000 
Então, um dia, apareceu um rosto familiar – uma velha
Theresienstadt. O nome que os nazis deram à cidade checa amiga dos pais que não tinha filhos. No início, Hana ficou
de Terezin. Fumiko sabia que, para resolver o mistério da mala encantada ao vê-la. Tudo que a recordasse de casa, que a
de Hana, teria de ir lá. Mas como? A República Checa ficava a aproximasse mais um passo da mãe e do pai, era um conforto.
milhares de quilómetros do Japão, e um bilhete de avião custava Porém, a certa altura, parecia que, para onde quer que Hana
muito dinheiro, que Fumiko não tinha. Porém, desta vez, tinha fosse, ela estava à sua espera. Cada vez que Hana dobrava uma
a sorte do seu lado. Fumiko foi convidada para assistir a uma esquina, lá estava ela. Beliscava o rosto de Hana, dava-lhe
conferência sobre o Holocausto em Inglaterra. De lá, seria uma beijinhos. E, depois, um dia, foi longe de mais.
curta viagem até Praga, a capital da República Checa. De Praga — Anda cá, pequenina – disse ela, estendendo-lhe a mão.
— Lembra-te de todos os bons momentos que passámos juntas.

28  37 
Quando as aulas terminavam e todas as tarefas estavam seria apenas uma viagem de duas horas de carro até Terezin.
feitas, jogavam um jogo de tabuleiro chamado smelina, que fora Fumiko estava ansiosa para partir.
inventado ali mesmo, no gueto. Era inspirado no «Monopólio», Na manhã de 11 de Julho de 2000, Fumiko desceu do
criado para as crianças por um engenheiro chamado Oswald autocarro na praça principal de Terezin. A primeira vista,
Pock que fora deportado para Terezin. Os jogadores chegavam a parecia uma vulgar cidade bonita. Havia ruas largas ladeadas de
propriedades tal como Entwesund, a estação de desinfestação de árvores e casas de três andares bem cuidadas com floreiras nas
roupas, e às casernas dos soldados. Em vez de construir um janelas. Mas Fumiko mal prestou atenção. Tinha exactamente
hotel, os jogadores construíam um kumbal, um esconderijo no um dia para levar a cabo a sua missão. Nessa noite teria de
sótão das casernas. Como dinheiro, usavam-se as notas de papel regressar a Praga. O avião para o Japão partia na manhã
do gueto chamadas gueto-kronen. seguinte. Fumiko não telefonara sequer, a avisar que vinha. Não
Mas, por melhores que fossem as distracções, Hana tinha nenhuma reunião marcada no Museu. Mas logo em frente
acabava sempre por se sentir com fome e sozinha. Tinha muitas da praça principal, viu um comprido edifício amarelo de dois
saudades de George. Certo dia anunciaram que as regras do andares. Era o Museu do Gueto de Terezin.
gueto iam mudar. As raparigas passavam a ter autorização para Fumiko abriu a pesada porta da frente e entrou no foyer
sair uma vez por semana durante duas horas. Hana atravessou fresco. Estava assustadoramente sossegado. Onde estariam
imediatamente a praça e correu até à Casa dos Rapazes. todos? Espreitou em alguns dos gabinetes do corredor principal.
— George, George Brady! — chamou. — Onde está o meu Estavam vazios. Parecia não haver ninguém no edifício. «O que
irmão? Viram o meu irmão? teria acontecido?», questionou-se Fumiko. «Será que tinham
Corria de quarto em quarto, perguntando a todos os todos saído para almoçar? Não, eram apenas dez horas da
rapazes que encontrava. Hana estavam tão ansiosa por manhã.»
encontrar o irmão, que abriu mesmo a porta de uma casa de Fumiko regressou à praça e tocou no ombro de um
banho. E ali encontrou George, a trabalhar no seu novo ofício homem de aspecto amável que estava sentado num banco de
de canalizador. Que alegre reencontro! George deixou cair as jardim.
ferramentas, e Hana correu-lhe para os braços. Riram-se. — Será que me pode ajudar? — perguntou ela. — Estou à
Choraram. Fizeram muitas perguntas um ao outro. procura de alguém que me possa dar uma informação no Museu.
— Estás bem? Tiveste alguma notícia da mãe e do pai? — Oh, hoje não vai encontrar ninguém, menina. É
Tens comido o suficiente? feriado, e todas as pessoas que lá trabalham estão fora a
A partir dessa altura, aproveitavam todas as oportunidades comemorar — respondeu o homem. — Receio que esteja com
que tinham para estar juntos. George levava a sua azar.
responsabilidade de irmão mais velho muito a sério. Sentia que
era sua obrigação proteger Hana e assegurar-se de que ela não se

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Theresienstadt, Maio 1942  Também havia lições de Costura. Hana nunca tinha dado
um ponto na vida, e tinha dificuldade com a agulha. Muitas
A viagem de comboio foi calma, sem incidentes. As
vezes, a professora tinha de pedir a Hana para parar de rir
pessoas pareciam reservadas, perdidas nos seus pensamentos e
quando fazia um erro tonto. No entanto, Hana conseguiu
receios acerca do futuro. Depois de algumas horas, o comboio
terminar uma blusa azul de que muito se orgulhava. Mas a aula
parou abruptamente. As portas abriram-se, e os assustados
preferida de Hana era a de Desenho. Os materiais de desenho e
passageiros que estavam mais perto das portas viram a placa que
pintura eram difíceis de arranjar. Algumas pessoas tinham
dizia «Estação de Bohusovic». Hana piscou os olhos para se
conseguido trazer alguns para o gueto, escondidos dentro de
ajustar à luz do sol enquanto ela e George tiravam as malas do
malas. O papel era roubado, muitas vezes com grande risco, dos
comboio. Na estação receberam ordem para continuarem o
armazéns nazis.
caminho a pé até ao Forte de Theresienstadt.
Usava-se simples papel de embrulho, quando não havia
Ficava apenas a alguns quilómetros de distância, mas as
mais nada. De uma forma ou de outra, nos primeiros tempos,
malas eram incómodas e pesadas. Será que não seria melhor
havia sempre lápis de cera e lápis coloridos. A professora de
deixar algumas coisas aqui, pensaram Hana e George, para
Desenho, Friedl Dicker-Brandeis, fora uma pintora famosa e era
aliviar a carga? Não, tudo o que tinham dentro das malas era
agora uma colega prisioneira em Theresienstadt. Friedl ensinava
precioso, as únicas recordações da vida que tinham
às alunas coisas sérias, como perspectiva e textura. E, às vezes, as
anteriormente. George carregou uma mala. A outra, puseram-na
raparigas desenhavam objectos sérios: as paredes do gueto,
numa carroça empurrada por prisioneiros.
pessoas na bicha, à espera de comida, residentes a serem
Hana e George aproximaram-se da entrada do forte
espancados por soldados nazis.
murado e juntaram-se a uma fila. Todas as pessoas usavam uma
Contudo, mais do que qualquer outra coisa, Friedl queria
estrela amarela, tal como eles. Em frente da fila, um soldado
que as suas aulas ajudassem as crianças a esquecer-se, pelo menos
perguntava às pessoas o nome, a idade e o local de nascimento.
durante um bocado, do ambiente brutal em que se encontravam.
Os rapazes e os homens eram mandados para um lado; as
— Pensem em espaço — dizia ela a Hana e às outras. —
raparigas e as mulheres, para outro.
Pensem em liberdade. Deixem voar a vossa imaginação.
— Para onde é que eles vão? — perguntou Hana a George.
Contem-me o que vos vai no coração. Transfiram-no para o
Mais do que qualquer outra coisa, Hana receava ser
papel.
separada do irmão.
Como surpresa especial, levava-as para o cimo do telhado
— Posso ficar contigo? — implorou ela.
do edifício, para poderem estar mais perto do céu. Daquele
— Está calada, Hana! — disse George à irmã. — Não cries
lugar, podiam ver para além dos muros do campo e avistar ao
confusão.
longe as montanhas circundantes. Podiam sonhar com pássaros
Quando chegaram ao primeiro lugar da fila, o soldado
e borboletas, lagos e baloiços. E, usando lápis de cera ou de cor,
olhou para eles.
podiam dar-lhes vida.

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quinze anos trabalhavam no jardim, onde se plantavam árvores — Onde estão os vossos pais? — perguntou ele.
de fruta, vegetais e flores para os soldados nazis. De vez em — Eles es.. estão, nou.. noutro, campo — gaguejou
quando, o Sr. Schwartzbart, o encarregado do jardim, deixava George.
Hana sair com o grupo de trabalho e gozar o ar fresco e o sol. — Esperávamos que aqui nos pudéssemos reencontrar.
Hana gostava muito desta oportunidade de trabalhar no jardim O soldado não estava interessado em conversas. Anotou
com as outras raparigas mais velhas. E havia um bónus os nomes em fichas indexadas e revistou as malas, à procura de
suplementar. Um grande feijão, aqui, um morango, acolá, dinheiro e de jóias. Depois fechou-as, com estrondo:
conseguiam sempre encontrar o caminho para a boca de uma — Para o lado esquerdo! — ordenou a George. — Para o
rapariga faminta. lado direito! — ordenou a Hana.
Porém, na maior parte das ocasiões, Hana tinha de ficar — Por favor, posso ficar com o meu irmão? — perguntou
com raparigas da sua idade ou mais novas, e obedecer ao Hana.
supervisor destacado para o dormitório. Todos os dias, as — Vamos! Imediatamente! — ordenou o soldado.
raparigas limpavam o pó e varriam debaixo das camas. Os O que Hana receara estava prestes a acontecer. George
pratos, assim como os rostos, eram lavados numa bomba de deu-lhe um abraço rápido.
água. E todos os dias havia lições secretas no sótão do — Não te preocupes — disse ele. — Vou ter contigo, logo
Kinderheim L410. que possa.
Nas lições de Música, as raparigas aprendiam canções Reprimindo as lágrimas, Hana agarrou na mala e seguiu as
novas. Cantavam baixinho para não acordar os guardas. No outras raparigas até ao Kinderheim (Casa de crianças) L410, uma
final de cada aula, escolhia-se uma criança para cantar uma grande caserna para raparigas que iria ser a casa de Hana durante
canção preferida das que costumava cantar em casa. Quando os dois anos seguintes.
chegava a vez de Hana, ela cantava sempre uma canção chamada
Stonozka, a canção da centopeia.
Terezin, Julho 2000 
A vida dela não é fácil.
Fumiko nem queria acreditar. Estava muito aborrecida –
Imaginem como ela sofre quando
consigo própria e com o seu azar. «Fiz toda esta viagem, e todas
Caminha até lhe doerem os pezinhos.
as pessoas que me poderiam ajudar estão a comemorar um
Tem bons motivos para se queixar,
feriado. Como é que fui escolher uma altura tão má para vir ao
Por isso, quando tenho vontade de chorar,
Museu de Terezin? Como pude ser tão estúpida?», pensou ela.
Recordo simplesmente a centopeia.
«Que faço agora?» Sob o sol quente, uma lágrima de frustração
Imagino-me no seu lugar,
rolou pelo rosto de Fumiko. Decidiu voltar ao Museu para
E então a minha vida parece-me mesmo boa.

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tentar organizar as ideias. Talvez conseguisse arquitectar um 5 000 habitantes. Os nazis meteram dez vezes esse número de
plano diferente. prisioneiros no mesmo espaço. Nunca havia espaço suficiente,
Fumiko estava sentada num banco no foyer, quando ouviu nunca havia comida suficiente, nunca havia hipótese de ter um
um som de papéis. Parecia vir de um dos gabinetes no fundo do momento de privacidade. Havia demasiadas pessoas, demasiados
corredor. Fumiko avançou em bicos de pés em direcção ao som. insectos e ratos e demasiados nazis que patrulhavam o campo
No último gabinete do lado direito, encontrou uma mulher com com disciplina cruel.
os óculos na ponta do nariz, a organizar um enorme monte de No início, Hana, como era uma criança pequena, não
papéis. Apanhada de surpresa, ela quase saltou da cadeira estava autorizada a sair do edifício. Isso significava que não
quando viu Fumiko. podia ver George. Ele vivia no Kinderheim L417, que era só
— Quem é você? — perguntou-lhe. — O que está aqui a para rapazes, a poucos quarteirões de distância. Hana tinha
fazer? O Museu está fechado. muitas saudades do irmão, e estava sempre a pedir notícias dele
— Chamo-me Fumiko Ishioka — respondeu ela. — Fiz às outras raparigas, que tinham autorização para sair. As
uma longa viagem desde o Japão para descobrir coisas sobre raparigas protegiam Hana. Sentiam pena dela, sozinha no
uma menina que esteve aqui em Theresienstadt. Temos a mala mundo, sem a mãe nem o pai, afastada do irmão.
dela no nosso museu em Tóquio. Hana tornou-se amiga de uma rapariga mais velha que
— Volte noutro dia — respondeu a mulher, educadamente, dormia no beliche do lado. Ella era baixa, morena e muito
— alguém tentará ajudá-la. vivaça. Tinha uma gargalhada fácil e gostava de passar o tempo
— Mas eu não disponho de outro dia — exclamou com uma rapariga mais nova que a admirava e a quem podia
Fumiko. — O meu avião para o Japão parte amanhã de manhã. reconfortar em momentos difíceis.
Por favor — pediu. — Ajude-me a encontrar Hana Brady. O homem que distribuía as senhas de comida afeiçoara-se
A mulher tirou os óculos. Fitou a jovem japonesa e viu a Hana e preocupava-se com a sua saúde. Sabia que Hana estava
como ela estava ansiosa e decidida. A checa suspirou! sempre com fome. Oferecia-lhe amavelmente senhas
— Está bem! — disse ela. — Não posso prometer-lhe nada. suplementares, para mais uma malga de sopa aguada e um
Mas vou tentar ajudá-la. Chamo-me Ludmila. pedaço de pão escuro. O estômago de Hana dava horas, e a boca
enchia-se-lhe de água perante a perspectiva de mais comida.
Contudo, cada vez que ele lhe oferecia mais senhas, ela recusava-
Theresienstadt, 1942­43  -as, educadamente. Ella e as outras raparigas mais velhas tinham-
-na avisado que teria sérios problemas com os guardas, se fosse
O Kinderheim L410 era um edifício grande e feio, com
apanhada a infringir uma regra.
cerca de dez quartos-dormitórios. Dormiam vinte raparigas em
Separadas das suas famílias, amontoadas em espaços
cada quarto, em beliches de três andares em cima de colchões de
exíguos, com quase nada para comer, as raparigas tentavam fazer
serapilheira cheios de palha. Antes da guerra, a cidade albergara
o melhor de uma situação muito má. As que tinham mais de

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