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As vozes das mulheres no início do Principado Romano

Article · November 2019

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2 authors:

Renata Senna Garraffoni Pedro Funari


Universidade Federal do Paraná University of Campinas
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Índice general

Introducción 9
(Manel García Sánchez, Renata S. Garraffoni)

Clío es nombre de mujer 11


(Manel García Sánchez)

História das Mulheres na Antiguidade Clássica: contribuições brasileiras 15


(Renata S. Garraffoni)

Grecia/ Grécia

El universo femenino de los poemas homéricos 21


(Susana Reboreda Morillo)

Liderazgo femenino en la Grecia antigua 37


(Marta Oller Guzmán)

Humor, nojo, sexo e música: abordagens heterodoxas do erotismo na pintura dos vasos 53
áticos (séc. VI e V a.C.)
(Fábio Vergara Cerqueira)

Stephanopolides, Vendedoras de coronas en la Antigua Atenas 67


(Irene Cisneros)

O Simpósio feminino na pintura da cerâmica ática: reflexões sobre questões de gênero 85


(José Geraldo Costa Grillo)

Pues era necesario que también existiera la hembra 97


(M. Joana Zaragoza Gras)

Gênero, violência e erotismo na cerâmica grega antiga 107


(Flávia Regina Marquetti)

Riqueza, poder y memoria: Mujeres promotoras de arquitectura en Grecia helenística 123


(Mª Dolores Mirón Pérez)

Vistiendo a los ξόανα femeninos en los santuarios griegos: ritualidad y vida cotidiana 139
según Pausanias
(Carmen Alfaro Giner)

Modelando al varón: Macrina vs. Iscómaco 161


(Mª Teresa Fau Ramos, Montserrat Jufresa Muñoz)
Roma

Domus, mujeres y género. Imágenes y espacios de la dependencia femenina 173


(Rosa María Cid López)

Representação da mulher em narrativas biográficas e romanescas no período romano- 193


helenístico
(Pedro Ipiranga Jr.)

Las cartas de las mujeres de la familia de Augusto 205


(Aurora López López, Andrés Pociña Pérez)

Que viva el que ama: Sexualidad y género en la época de Augusto 215


(Manel García Sánchez)

In honorem Iuliae Caesaris filiae. Luces y sombras en la Domus 241


(Almudena Domínguez Arranz, Mª Carmen Delia Gregorio Navarro)

As vozes das mulheres no início do Principado Romano: Linguagem, discursos e 281


escrita
(Renata S. Garraffoni, Pedro Paulo A. Funari)

Entre a Potência e a Fertilidade: As representações de Hermafrodito em Pompeia 293


(Pérola de Paula de Sanfelice)

Sex in the Ancient World: Pompeii – lo "erótico" romano en las pantallas de 313
televisión
(Lourdes Conde Feitosa, Victória Regina Vóros)

Jesus e a Mulher Samaritana. O Evangelho do Discípulo que Jesus Amava e as 321


Experiências Cotidianas no Mediterrâneo
(André Leonardo Chevitarese, Daniel Brasil Justi)

Política y violencia de género en Hispania tardoantigua. Los matrimonios regios 335


visigodos
(Henar Gallego Franco)

Boudica: una heroína para recordar 351


(Taís Pagoto Bélo)
As vozes das mulheres no início do Principado Romano:
Linguagem, discursos e escrita

Renata S. Garraffoni
Pedro Paulo A. Funari1

Introdução

Cullen2, ao publicar sobre as contribuições dos feminismos à Arqueologia, afirmava, no final


da década de 1990, que pouco se discutia sobre seus impactos nos estudos sobre a Antiguidade. De
acordo com suas considerações e levantamentos, a maioria dos trabalhos na ocasião se centrava na
Antropologia, mas os que haviam sido realizados na área de História já apontavam para a necessidade
do questionamento do androcentrismo desde 1984. Cullen, ao se posicionar sobre a questão, indica
suas insatisfações em relação a dois pontos: a pouca crítica a perspectiva da história da humanidade
centrada nos homens como protagonistas e à perspectiva na qual a mulher, quando mencionada,
mesmo em alguns contextos das Histórias das Mulheres, estariam submissas ao poder masculino.

Os incômodos de Cullen diante desses trabalhos surgem a partir da postura que adota, pois
defende abordagens múltiplas que congreguem as críticas feministas e a arqueologia pós-processual
e criem possibilidades de narrativas alternativas ao passado. Cullen é bastante perspicaz ao chamar
atenção para o fato de que é preciso questionar análises sexistas tanto no passado, por meio da
construção de perspectivas mais plurais, quanto no presente, criticando a constituição da Arqueologia

1
 Professora do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR), resenna93@gmail.com; Professor
titular do Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ppfunari@uol.com.br.
2
  T. Cullen Contributions to feminism in Archeology, American Journal of Archaeology, 100: 409-414, 1996.

281
como disciplina e as relações de poder inerentes a ela. Em outras palavras, a contribuição feminista
para Arqueologia clássica precisaria avançar no campo epistemológico, examinando como os modelos
teóricos são estabelecidos, como são organizadas as relações nas escavações, suas histórias, como
o campo se estabeleceu. Como a literatura que chegou até nós quase sempre é escrita por homens, a
Arqueologia poderia contribuir ao desafiar aos estudiosos e estudiosas a questionarem a neutralidade
do discurso acadêmicos, construindo uma teoria social mais engajada e renovada.

Alguns anos mais tarde Voss apontou que, embora a Arqueologia privilegiasse a experiência
masculina, as teorias feministas, em um primeiro momento, e os estudos queer, posteriormente,
foram fundamentais para novas abordagens acerca de identidades sexuais e a estigmatização das
relações no passado e presente3. Voss atribui aos feminismos rupturas importantes na forma de se
organizar o trabalho de campo, assim como alterações epistemológicas, mesmo que viesse, naquele
momento, conflitar com os estudos queer.

Os trabalhos de Cullen e Voss são relevantes na medida em que propõem balanços sobre a
atuação profissional dos arqueólogos em campo e, também, na sua produção escrita. Praticamente
duas décadas nos separam dessas publicações, mas mencioná-las nos pareceu relevante na medida
em que muito dos trabalhos que foram feitos ao longo desse período procuram responder a esses
desafios. Seguramente os desdobramentos dos estudos de gênero e os estudos queer impactaram e
transformaram o modo de nos aproximarmos da cultura material e dos passados possíveis, permitindo
novas abordagens sobre as ações femininas, bem como as relações culturais e gênero.

É dentro desse contexto de busca por outras narrativas para a agência feminina que a
presente reflexão se insere. Nosso objetivo com esse texto é contribuir com a crítica ao essencialismo
e androcentrismo, destacando a relevância da produção feminista para a construção de novos
paradigmas de análise da cultura material4 e da Literatura romana. Nesse sentido, optamos por realizar,
nessa ocasião, um estudo de caso a partir de alguns grafites de Pompeia e de um trecho do Satyricon,
de Petrônio, conhecido como A matrona de Éfeso. A escolha por essa documentação se deu a partir
de uma perspectiva que temos explorado há alguns anos, a importância da escrita na constituições de
visões de mundo. Como o Satyricon é caracterizado pelo uso do sermo humilis, o latim não erudito,
se aproxima muito das formas de escrita encontradas nas paredes pompeianas. Assim, é possível, por
meio da linguagem, em dois contextos distintos, um literário e outro material, perceber as diferentes
formas de percepção da agência feminina no início do Principado romano. Acreditamos, portanto,
que a análise filológica, combinada com uma abordagem feminista, pode nos proporcionar olhares
múltiplos sobre as complexas relações entre homens e mulheres nesse momento na Antiguidade.

Para tanto, dividimos nossa argumentação em três momentos: em primeiro lugar apresentaremos
considerações sobre os impactos das teorias feministas nos estudos sobre a Antiguidade, com especial
foco a produção brasileira, para, em um segundo momento analisar como uma leitura a contrapelo
da comicidade do Satyricon pode apresentar uma série de ações das mulheres pouco estudadas na
historiografia. Por fim, em um terceiro momento, focaremos nos grafites parietais. Esse pequeno
corpus selecionado visa questionar aquilo que muitos defenderam não existir: a escrita das mulheres
romanas. Esses grafites, mesmo que poucos, podem ser lidos como de autoria feminina e, portanto,
evidências, mesmo que fragmentadas, de seus desejos e percepções. Uma leitura comprada de ambos
tipos de escrita permitirão novas reflexões sobre agência feminina no início do Principado romano.

3
  B.L. Voss, Feminisms, Queer Theories, and Archaeological study of past sexualities, World Archaeology, 32: 180-192, 2000.
4
  R. Gilchrist, Gender and Archaeology – contesting the past, Londres: Routledge, 1999.

282
As mulheres, de subjugadas a ativas

O estudo da História, em geral, e da História Antiga, em particular, foi caracterizado pela


atenção, quase que naturalizada e despercebida, ao sexo masculino. Naturalizada, pois se partia do
pressuposto que eram os reis, cônsules, magistrados a governar e guerrear e seria, pois, natural dar
ênfase a tais personagens do passado. Despercebida, pois não havia, em geral, uma explicitação do
masculino, que era tomado quase como universal. No entanto, as mulheres estiveram presentes na
narrativa historiográfica desde o início, com Heródoto5 e Tucídides6, mais no primeiro, mas também
no segundo (cf. Aspásia). Nos séculos seguintes, também as mulheres apareceram como parte da
narrativa, mesmo quando o centro estivesse no masculino. Isso reflete, também, o fato de a escrita
da História ser apenas masculina, ou, ao menos, essa foi a que chegou até nós. Ou seja, um ponto de
vista masculino estava implícito em toda a historiografia, até tempos mais ou menos recentes.

Essa situação mudou devido às transformações da sociedade moderna, e os feminismos abriram


mais oportunidades de expressão para as mulheres. Desde sempre as mulheres se manifestaram,
como atesta a poesia de Safo, no século VI a.C., ou, em tempos mais modernos como foi o caso,
entre outros, de George Sand (1804-1876), mas foi a emancipação das mulheres a responsável pela
multiplicação das vozes femininas. Movimentos pelo direito de voto, pelo acesso à educação e à
universidade, assim como a crescente presença feminina na vida pública, em particular a partir do
século XX, foram determinantes para uma presença muito mais intensa e visível. Os feminismos têm
sido estímulos poderosos para perspectivas não só feminina como que possa superar a dicotomia
masculino/feminino, servindo não só às mulheres, mas a todos. A multiplicação de narrativas
femininas deve-se, ainda, à presença crescente e marcante das mulheres na academia, a ponto que,
hoje, em muitas universidades e publicações predominem as mulheres7.

As últimas décadas testemunharam essa transformação radical. No início do século XX


ainda, as mulheres tinham uma presença muito limitada na academia e na vida pública em geral. As
poucas mulheres que conseguiam se destacar na ciência - como Marie Curie (1867-1934) - o faziam
a despeito das circunstâncias adversas e à custa, muitas vezes, da sua própria reputação como seres
humanos8. A situação mudou muito a partir do momento em que as mulheres tiveram acesso ao voto,
à universidade, ao trabalho e ao controle do próprio corpo, como quando da introdução da pílula
contraceptiva, no início da década de 1960. Foi nesse momento que se multiplicaram as estudiosas
em todos os campos de investigação, mas também na vida profissional em geral.

Na historiografia isso fica bem claro. As escolas historiográficas foram apanágio masculino
até o Pós-Guerra e a maioria das grandes historiadoras está ainda viva, o que mostra que são filhas
da revolução social que fez das mulheres protagonistas. São nomes como Joan Scott ou, no âmbito
da Antiguidade, Mireille Corbier, Haiganuch Sarian, Maria Helena da Rocha Pereira, María José
Hidalgo de la Vega, Lynn Foxhall, para citar apenas algumas. Certas pioneiras já morreram, como
Margareth Lyding Will, mas isso não muda que se trata de algo muito recente e que estamos diante
de uma participação feminina como fenômeno contemporâneo.

5
  J. Blok, Women in Herodotus’ Histories, In E. Bakker, I.J.F. de Jong & H. van Wees (Eds.), A New Companion to Hero-
dotus Leiden: Brill, 2002, 225-242.
6
  D. Harvey, Women in Thucydides, Arethusa, 18, 1, 1985, 67-90.
7
  L. M. Rago, Epistemologia Feminista, Gênero e Historia. masculino, feminino, plural, Florianópolis: editora das Mu-
lheres, 1998, 1-17.
8
  L. Schiebinger, Has Feminism Changed Science? Signs, 25, 4 2000, 1171-1175.

283
Essas estudiosas trataram dos mais variados temas, da iconografia à psicanálise, da religiosidade
à vida camponesa, das ânforas à epigrafia. A perspectiva feminista estava incluída nesses temas. Houve,
também, uma preocupação crescente com o estudo da mulher e das relações de gênero, em particular
após a década de 1980, sem que as estudiosas abdicassem do estudo de temas não relacionados a
essas questões. De fato, até hoje, já na segunda década do século XXI, as mulheres tratam, em sua
maioria, de temas distantes das relações de gênero, como podem ser os retratos de Augusto9, as práticas
mortuárias10 ou os gregos sob o domínio romano11, para citar estudos recentes de brasileiras sobre a
Antiguidade Clássica. Mesmo assim, cresceram, de maneira exponencial, os estudos sobre as mulheres,
algumas vezes também de autoria masculina. Isto significa que temas referentes à mulher e às relações
de gênero adquiriram uma presença regular nos estudos sobre o passado, tanto por historiadores, stricto
sensu, como por arqueólogos, filólogos, antropólogos, entre outros.

No que se refere à Antiguidade, os estudos da literatura e da cultura material revelaram-se


profícuos de maneira particular. De fato, para épocas mais recentes, há uma profusão de fontes, de
modo que os estudiosos do passado contam com uma variedade bem maior de categorias documentais,
de arquivos a fotos, de registros orais a fílmicos, para citar alguns deles apenas. Para a Antiguidade,
no entanto, duas categorias têm se destacado, por motivos diversos. Por um lado, os feminismos
contribuíram para novas leitura da literatura antiga, fornecendo um imenso manancial para leitura a
contrapelo, ao buscar em obras literárias antigas masculinas informações preciosas sobre as mulheres
e as relações de gênero. Essa estratégia analítica, com notável contribuição da Filologia, surgiu antes
e notabilizou-se pelo estudo não só das obras de mais direta temática feminina, mas de outras menos
óbvias. Assim, Lisístrata e sua greve do sexo, ou Fedra, de Sêneca, sobre o desejo feminino, oferecem
amplo campo para abordar temas complexos e buscar na narrativa masculina outra perspectiva12.
Mas também as mulheres e as relações de gênero foram encontradas em obras na aparência muito
mais distantes da temática, como nas surpresas de Heródoto e o medo das mulheres em Tácito13. Houve, pois,
uma atenção à literatura, tão conhecida, mas nem tanto explorada em uma perspectiva de gênero.

O outro grande campo aberto para ser perscrutado refere-se à cultura material14. Por meio
da Arqueologia, a cada ano aumentam os vestígios materiais do mundo antigo. Graças a uma maior
atenção à questão feminina e de gênero, uma imensa variedade de evidências foram estudadas, da
iconografia à numismática, das joias à estatuária, sem descuidar de aspectos na aparência menos
óbvios, como as inscrições ou as vasilhas. As mulheres estavam presentes tanto nas representações,
como autoras ou referidas em epígrafes, além de usuárias de muitas coisas. Ambas a fontes, literárias
e materiais, têm sido estudadas no Brasil, em parte pelo avanço dos estudos de gênero em geral que
influenciou de maneira mais precoce e profunda os estudiosos da Antiguidade15.

Há, no entanto, uma questão epistemológica prévia: as mulheres podem ter sido agentes, ou
foram, na verdade, oprimidas, sem escapatória? Essa é uma questão complexa que foge, talvez, à

9
  N. F. José Retratos de Augusto: A Construção de Um Imperador Romano. Curitiba: Prismas, 2016.
10
  L. M. Omena, Memória e Morte: uma abordagem da família romana por meio da cultura material. Revista de Arqueologia
Pública, 09, 2015, 19-29.
11
  M. A. O. Silva, Plutarco e Roma: O Mundo Grego no Império. São Paulo: Edusp, 2014.
12
  P. P. A. Funari, Resenha de “Feminist theory and the classics”. Cadernos Pagu, 3, 1994, 267-272.
13
  B. Baldwin, Women in Tacitus, Prudentia, 4, 2, 1972, 83-101; F.S. L’Hoir, Tacitus and women’s usurpation of power,
The Classical World, 1994, 88, 1, 1994, 5-25.
14
  M. R. Cavicchioli, Arqueologia de Género del Mundo Grecoromano. In: V. Willians, B. Alberti (Orgs.). Género y Etni-
cidad en la Arqueología Sudamericana. Olavarría: Unicen, 2006, 97-101.
15
  L. M. G. C. Feitosa, História, gênero, amor e sexualidade: olhares metodológicos. Revista do Museu de Arqueologia e
Etnologia 13, 2003, 101-115; R. S. Garraffoni, Estudos Clássicos no Brasil: conquistas e desafios. Hélade 1, 2015, 44-53.

284
objetividade, pois como se pode determinar onde começa a opressão ou se expressa a liberdade? A
nosso juízo, não é possível uma resposta neutra e de todo objetiva, pois como estudiosos estamos
sempre envolvidos. Não cabe dúvida que as mulheres sofreram restrições diversas no decorrer da
História e, em particular, nas sociedades antigas. Por outro lado, mesmo nessas circunstâncias, a
nosso juízo, elas puderam expressar-se, tanto nas camadas abastadas, como também nas subalternas.
Essa é uma perspectiva que tem sido adotada, em grande parte, pela teoria social, derivada de uma
observação de que, mesmo nas situações mais difíceis, as pessoas têm um poder de atuar (agency).
Os escravos são sempre citados, por ser um exemplo extremo de privação de liberdade, mas que,
mesmo assim, mantinham alguma capacidade de ação própria. O mesmo aplica-se aos colonizados,
ou a qualquer grupo subalterno ou marginalizado16. Trata-se de uma posição epistemológica, que
pressupõe que a toda opressão corresponda uma reação, que a capacidade de intervenção está
sempre presente dynamei, em potência. Pôde buscar-se, a partir daí, as manifestações de autonomia
(agency). Essa mudança de ponto-de-vista, a nosso ver, permitiu que se investigassem as evidências
em busca dessa independência e insubordinação. E é exatamente nesse contexto que se insere nossa
abordagem. O que pretendemos explorar a seguir é a convergência desses pontos, isto é, como uma
leitura pautada em uma epistemologia feminista e explorando questões de gênero em textos e na
cultura material pode contribuir para uma maior compreensão da agência das mulheres no início do
Principado romano. Iniciamos, então, com algumas considerações sobre o Satyricon de Petrônio e a
anedota da Matrona de Éfeso.

A Matrona e o Satyricon

O Satyricon, escrito por Petrônio provavelmente no século I d.C., é uma obra cômica envolta
por polêmicas. Pouco se sabe sobre seu autor e sobre como seria a obra como um todo, pois o
que chegou até nós são apenas fragmentos. Sabemos que a obra é narrada em primeira pessoa por
Encóplio, aventureiro que se envolve em inúmeras situações hilárias com seus amigos e amantes
Ascilto e Giton. Como em outras ocasiões nos detivemos ao estudo mais completos da obra17,
nessa ocasião nos reportaremos apenas a uma parte dela, a história da matrona do Éfeso. A razão da
escolha dessa passagem se justifica por ser uma anedota breve, ouvida por Encóplio enquanto viajava
clandestino no navio de Licas. A anedota está completa e apresenta uma sequencia de elementos
filológicos que gostaríamos de abordar sobre a agência feminina em um texto de autoria masculina.
Apresentaremos o original latino para, em seguida, tecer algumas considerações18.

Matrona quaedam Ephesi

[CXI] “Matrona quaedam Ephesi tam notae erat pudicitiae, ut vicinarum quoque gentium
feminas ad spectaculum sui evocaret. Haec ergo cum virum extulisset, non contenta vulgari more
funus passis prosequi crinibus aut nudatum pectus in conspectu frequentiae plangere, in conditorium
etiam prosecuta est defunctum, positumque in hypogaeo Graeco more corpus custodire ac flere totis
noctibus diebusque coepit. Sic adflictantem se ac mortem inedia persequentem non parentes potuerunt
abducere, non propinqui; magistratus ultimo repulsi abierunt, complorataque singularis exempli

16
  F. Mallon, The Promise and Dilemma of Subaltern Studies: Perspectives from Latin American History, The American
Historical Review, 99, 5, 1994, 1491-1515.
17
  R.S. Garraffoni, Bandidos e Salteardores na Roma Antiga, Sâo Paulo: Annablume, 2002; R. S. Garraffoni, P.P.A.
Funari Gênero e conflitos no Satyricon: o caso da dama de Éfeso. História. Questões e Debates, 48/49, 2008, 101-117.
18
  Tanto o texto latino com a tradução de Sandra Bianchet se encontram publicados em R. S. Garraffoni, P.P.A. Funari
2008, 108-115. Para essa ocasião, selecionamos o texto latino e algumas partes dos argumentos que desenvolvemos naquela
ocasião, adaptando-os de maneira resumida para a presente reflexão.

285
femina ab omnibus quintum iam diem sine alimento trahebat. Adsidebat aegrae fidissima ancilla,
simulque et lacrimas commodabat lugenti, et quotienscumque defecerat positum in monumento
lumen renovabat. “Una igitur in tota civitate fabula erat: solum illud adfulsisse verum pudicitiae
amorisque exemplum omnis ordinis homines confitebantur, cum interim imperator provinciae
latrones iussit crucibus affigi secundum illam casulam, in qua recens cadaver matrona deflebat.
“Proxima ergo nocte, cum miles, qui cruces asservabat, ne quis ad sepulturam corpus
detraheret, notasset sibi lumen inter monumenta clarius fulgens et gemitum lugentis audisset, vitio
gentis humanae concupiit scire quis aut quid faceret. Descendit igitur in conditorium, visaque
pulcherrima muliere, primo quasi quodam monstro infernisque imaginibus turbatus substitit; deinde
ut et corpus iacentis conspexit et lacrimas consideravit faciemque unguibus sectam, ratus (scilicet
id quod erat) desiderium extincti non posse feminam pati, attulit in monumentum cenulam suam,
coepitque hortari lugentem ne perseveraret in dolore supervacuo, ac nihil profuturo gemitu pectus
diduceret: ‘omnium eumdem esse exitum et idem domicilium’ et cetera quibus exulceratae mentes ad
sanitatem revocantur.
«At illa ignota consolatione percussa laceravit vehementius pectus, ruptosque crines
super corpus iacentis imposuit. Non recessit tamen miles, sed eadem exhortatione temptavit dare
mulierculae cibum, donec ancilla, vini odore corrupta, primum ipsa porrexit ad humanitatem
invitantis victam manum, deinde retecta potione et cibo expugnare dominae pertinaciam coepit et:
‘Quid proderit, inquit, hoc tibi, si soluta inedia fueris, si te vivam sepelieris, si antequam fata poscant
indemnatum spiritum effuderis? Id cinerem aut manes credis sentire sepultos? Vis tu reviviscere! Vis
discusso muliebri errore! Quam diu licuerit, lucis commodis frui! Ipsum te iacentis corpus admonere
debet ut vivas.’ «Nemo invitus audit, cum cogitur aut cibum sumere aut vivere. Itaque mulier aliquot
dierum abstinentia sicca passa est frangi pertinaciam suam, nec minus avide replevit se cibo quam
ancilla, quae prior victa est.
[CXII] «Ceterum, scitis quid plerumque soleat temptare humanam satietatem. Quibus
blanditiis impetraverat miles ut matrona vellet vivere, iisdem etiam pudicitiam eius aggressus est. Nec
deformis aut infacundus iuvenis castae videbatur, conciliante gratiam ancilla ac subinde dicente:
‘Placitone etiam pugnabis amori?“Quid diutius moror? Jacuerunt ergo una non tantum
illa nocte, qua nuptias fecerunt, sed postero etiam ac tertio die, praeclusis videlicet conditorii
foribus, ut quisquis ex notis ignotisque ad monumentum venisset, putasset expirasse super corpus
viri pudicissimam uxorem”.
“Ceterum, delectatus miles et forma mulieris et secreto, quicquid boni per facultates
poterat coemebat et, prima statim nocte, in monumentum ferebat. Itaque unius cruciarii parentes ut
viderunt laxatam custodiam, detraxere nocte pendentem supremoque mandaverunt officio. At miles
circumscriptus dum desidet, ut postero die vidit unam sine cadavere crucem, veritus supplicium,
mulieri quid accidisset exponit: ‘nec se expectaturum iudicis sententiam, sed gladio ius dicturum
ignaviae suae. Commodaret ergo illa perituro locum, et fatale conditorium familiari ac viro faceret.’
Mulier non minus misericors quam pudica: ‘Ne istud, inquit, dii sinant, ut eodem tempore duorum
mihi carissimorum hominum duo funera spectem. Malo mortuum impendere quam vivum occidere.’
Secundum hanc orationem iubet ex arca corpus mariti sui tolli atque illi, quae vacabat, cruci affigi”.
«Usus est miles ingenio prudentissimae feminae, posteroque die populus miratus est qua
ratione mortuus isset in crucem19.»

  http://www.thelatinlibrary.com/petronius1.html.
19

286
Essa anedota da Dama de Éfeso apresenta um uso particular do vocabulário sobre as relações
de gênero e de poder, que não são fáceis de serem mantidos em traduções. A primeira observação
refere-se ao uso de expressões para se referir à dama. Logo de início, ela é apresentada como matrona,
uma senhora, caracterizada pela pudicitia, a ponto de atrair para si (ad spectaculum sui) as feminae
da vizinhança. O marido é descrito como uir. A viúva decide encerrar-se na tumba o que a transforma
em “mulher de exemplo singular” (singularis exempli femina). Ali chorava o cadáver recente do
marido, ainda como matrona (recens cadauer matrona deflebat). O soldado que tomava conta dos
crucificados nas redondezas aproximou-se daquela que é descrita como pulcherrima muliere. O
termo mulier encontra-se no extremo oposto ao elevado matrona, usado para descrever a mulher de
baixa extração. Como bela mulher, o parecia atingir como um monstro e imagens infernais (monstro
infernisque imaginibus). A mulher é, portanto, associada aos mistérios do mundo dos mortos. O
soldado logo vê o corpo do morto e compreende do que se tratava: uma mulher (feminam) que não
podia aguentar o desejo do morto (desiderium extincti). A mulher, descrita com um termo médio
(femina), nem tão alto como matrona, nem tão baixo como mulier, sentia desejo (desiderium). O
termo significa, em primeiro lugar, desejo, mas, por extensão, tem a conotação de saudade. Quando o
soldado tenta dar comida, a palavra usada para se referir à senhora abaixa para muliercula, expressão
não tão frequente na literatura antiga, cujo sentido é um tanto depreciativo (“uma mera mulher”), tal
como o masculino homunculus.

Estava presente a serva: aquela mulher de menor status e valor (ancilla), que levaria a dama
à perdição da honra. A escrava tenta a patroa, e o faz com o uso do verbo “querer” (uolo): queres
voltar a viver? A primeira a ceder é a ancilla. A senhora é descrita como abstinentia sicca, “seca
pela abstinência”. As traduções costumam verter por “faminta pelo jejum”, o que não deixa de estar
correto, mas não dá conta do duplo sentido: ela estava também seca pela abstinência sexual. Sicca
opõe-se a úmida.

Estabelecida a supremacia do desejo, nas mulheres, o tom ambíguo, de duplo sentido das
palavras, acentua-se. O soldado (miles) torna-se amante (miles), jogo de palavras impossível em
português, mas sempre presente no original latino. O soldado aproximou-se com carícias (blanditiae),
palavra que caracteriza, na literatura amorosa latina, as mulheres e que se opõe, aqui, à abstinentia
sicca. A ironia aparece logo, pois o jovem não parecia feio ou pouco loquaz “para a casta”. Para
completar a degradação, quem incentivava a patroa era a escrava.

A mulher não mais se absteve de saciar uma parte do seu corpo e logo o miles vitorioso
persuadiu-a de ambas. Aqui, são duas partes do corpo: uma explícita, outra implícita. Passam,
ambas, do seco ao úmido: boca e genitália. Casam-se ou contraem núpcias, segundo o vocabulário
técnico usado com ironia: nuptias fecerunt. Todos deviam pensar que lá estava a mais pudica esposa,
expressada com o uso da palavra mais erudita e menos usada, uxor (pudicissima uxor).

O miles, que pensava dominar a situação, era dominado. Estava encantado pela beleza da
mulher e pelo segredo. O soldado estava delectatus, o que pode também ser ambíguo e significar tanto
atraído, como se deleitando, aproveitando. A degradação continua. Viram que a guarda era frouxa. O
soldado foi enganado (circumscriptus), hesita, teme o suplício (ueritus supplicium), expõe a situação
à mulher (mulier): não esperaria a condenação do juiz, morreria pela espada. Que estivesse em um
lugar comum o marido (uir) e o amigo: a palavra usada, familiaris mostra o caráter servil e subalterno
(à senhora de Éfeso) do soldado. A mulher (mulier) mostra-se misericordiosa e pudica. Que os deuses
não permitam que perca dois homens caríssimos (carissimi homines duo). Ambos, marido e amante,
são simples “seres humanos” (homines). Manda que o corpo do marido seja colocado na cruz. O

287
soldado aceitou o plano da mulher mais inteligente (prudentíssima femina).

Os termos mais usados são mulier e seus derivados (7 ocorrências), miles (6), femina (4),
matrona e uir (3 cada) e uxor e maritus (1 cada). Essas frequências indicam o predomínio, no relato,
do par mulier/miles, que degradam a relação respeitável, representada por uxor/maritus e matrona/
uir. O texto se inicia, portanto, com termos mais eruditos, segue a degradação, em particular da
esposa, divertindo os ouvintes20. No entanto, uma leitura atenta e a contrapelo nos revela aspectos
importantes sobre as identidades e conflitos sociais no mundo romano, em particular no âmbito das
relações de gênero e de status. As mulheres, no caso a matrona e a escrava, aparecem em múltiplas
dimensões, como submissas e castas, mas também como dominadoras e senhoras da situação. O
domínio patriarcal aparece como norma, logo colocada de ponta-cabeça. As hierarquias sociais
tampouco se mantêm rígidas, ao demonstrar a fluidez de toda a situação. Mesmo que a anedota,
no limite, tenha sido escrita por Petrônio para causar o riso, as mulheres não são descritas de
maneira uniforme, os termos ambíguos são usados para o soldado e as mulheres, essas apresentam
comportamentos não esperados, lideram, enquanto o jovem soldado que age no começo, diante do
problema se torna passivo.

O limite apontado - de ser texto narrado por um autor pertencente à aristocracia romana -
foi, durante muito tempo, um entrave para o estudo da agência feminina na Antiguidade, mas com
os avanços da teoria social as ambiguidades dos discursos, em especial dos cômicos, passaram a se
tornar documentos importantes para pensar outros passados possíveis. A cultura material também tem
relevância nesse processo, conforme já adiantamos. Passamos, então, a discutir essa questão.

É possível saber o que as mulheres pensavam no início do Principado romano?

Amedeo Maiuri, no início dos anos 1950, ao analisar duas pinturas de Pompeia em que
mulheres aparecem com instrumentos de escrita afirmou que uma escrevia, no máximo, cartas de
amor ao pretendente e a outra tinha uma expressão constrangida por não saber usar o instrumento21.
Moses Finley, logo depois no final da década de 1960 publicou, em Aspectos da Antiguidade
(Aspects of Antiquity: Discoveries and Controversies) o ensaio ‘Mulheres silenciosas de Roma’ em
que discute a dificuldade de se estudar mulheres por que essas praticamente não deixaram relatos
escritos22. Embora sejam separados por algumas décadas, os trabalhos de Maiuri no pós-guerra e o de
Finley, já na efervescência do movimento feminista da década de 1960, o que chama atenção nessas
publicações é a negação da capacidade de ação dessas mulheres, mesmo diante das evidências.

Se há poucos registros canônicos que chegaram até nós de textos de autoria feminina, isso
não significa que nenhuma dominaria a arte da escrita, afinal, são conhecidos os fragmentos de
Safo e Sulpícia, só para citar alguns exemplos, e a própria cultura material nos apresenta evidências
que a escrita estaria também presente entre as mulheres. A negação da possibilidade das mulheres
articularem seus registros e memórias estaria, portanto, no olhar os estudiosos e não só na dificuldade
de se encontrar documentos. Embora os registros sejam esparsos, uma aproximação da cultura
material, a partir de uma perspectiva feminista crítica, é possível encontrar elementos que desafiam
essas posições e abrem espaço para novas abordagens.

20
  Petrônio, Satyricon, CXIII: Risu excepere fabulam nautae (“os marinhos caíram na gargalhada com a anedota”).
21
  Mais detalhes sobre a questão R. S. Garraffoni, P. P. Sanfelice, Escavando Pompeia no início do século XX: Arqueo-
logia, Nacionalismo e identidades em Conflito. In: G.J. Silva; R.S. Garraffoni; P.P.A. Funari; J. Gralha; R. Rufino,
(Orgs.). Antiguidade como Presença: Antigos, Modernos e usos do passado. Curitiba: Editora Prismas, 2017, 269-296.
22
  M. Finley, Aspectos da Antiguidade, Lisboa: Edições 70, 1990 (1a edição 1968).

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Portela, por exemplo, chama atenção sobre dois corpus de documentos ainda pouco explorados
pelos classicistas: os vasos áticos de figuras vermelhas, no caso da Grécia da época clássica, e os
afrescos de Pompeia, no caso de Roma que apresentam muitas imagens de mulheres retratadas junto
a rolos e material de escrita e leitura, em muitos dos rolos trechos de poemas estão inscritos23. Se,
como considera a autora, mulheres eram representadas junto aos mais nobres instrumentos de escrita,
faltaria, portanto, investir mais estudos na área e discutir seus significados simbólicos e práticos.
Afinal, se há mulheres escritoras, seguramente haveria mulheres leitoras e, sem dúvida, ouvintes.
Mesmo que possamos considerar que o universo de alfabetização na Antiguidade fosse mais restrito,
é importante salientar que a cultura material apresenta registros em que as mulheres estariam inseridas
entre aqueles que dominavam a arte da escrita.

Além da iconografia analisada por Portela, consideramos que a Epigrafia também é um


campo profícuo para que possamos explorar essa questão24. Destacamos alguns grafites de Pompeia
que permitem com que possamos refletir sobre a relação das mulheres com a escrita e, até mesmo,
em alguns casos, sua própria expressão de desejos25:

1. Amplexus teneros hac si quis quaerit in ur(be)


Expect (at ceras) nulla puella uiri (CIL IV 1796)

[Se alguém procura nessa cidade abraços amorosos,


saiba que nenhuma garota espera carta de homens]

2. Suauis uinaria sitit rogo uos et ualde


Sitit Calpurnia tibi dicti. Val(e) (CIL IV 1819)

[Digo a você: desejo teu doce vinho e desejo muito.


Calpúrnia te diz. Saudações!]

3. Virum uendere nolo meom m(...) (CIL IV 3061)

[não vou vender meu homem...]

4. Venus enim plagiaria est quia exsanguni meum


petit in uies tumultum pariet optet sibi ut
bene nauiget quod et Ario sua rogat. (CIL IV 1410)

[Vênus, efetivamente, é uma desencaminhadora porque deseja


aquele que é do meu próprio sangue, e provocará tumultos nos
caminhos; que ele escolha bem por si mesmo para navegar com êxito, o que também deseja sua
amada Arione]

23
  J.A. Portela, Os rolos das mulheres na Antiguidade Clássica: adereços de cultura ou livros de leitura? Ágora. Estudos
Clássicos em Debate, 14, 2012, 134.
24
  Embora nosso foco aqui seja nos grafites, cabe destacar que Funari já chamou atenção para a importância das escava-
ções arqueológicas para explorar aspectos da escrita das mulheres. Nesse artigo de 1995 comenta sobre as escavações de
Vindolanda, atual Inglaterra, e analisa tabuinhas com convites de mulheres para mulheres para celebração de festas de
aniversário. Cf. P. P. A. Funari, Romanas por elas mesmas. Cadernos Pagu, 5, 1995, 179-200.
25
  As traduções são de autoria de L. M. G. C. Feitosa, Amor e Sexualidade: o masculino e o feminino em grafites de Pom-
péia, São Paulo: Annablume, 2005, 120-121. Para os grafites cf. Corpus Inscriptionum Latinarum, volume IV, Berlim:
Akademie der Wissenschften, desde 1871.

289
Os três primeiros exemplos foram encontrados nas paredes da Basílica de Pompeia e o
quarto na casa de Hércules e podem ser atribuídos a mulheres. O primeiro, nos faz pensar sobre o
fato de Pompeia ser uma cidade próxima ao mar, de trânsito intenso de pessoas de diferente locais
de origem, e alerta aos homens que, se acaso se envolveram com as mulheres locais, não esperem
delas respostas a suas cartas. O curioso desse grafite é que ele contradiz a afirmação de Maiuri: se o
arqueólogo afirma que mulheres no máximos escreveriam cartas aos maridos, o grafite em si provoca
essa ideia de que a mulher seria passiva na relação. Lourdes Feitosa, ao comentar esse grafite, abre
uma reflexão que nos interessa aqui: o grafite remete a possibilidade de ação feminina, que a mulher
não ficaria a espera do homem, mas que a batalha amorosa exigia sua mobilização também26.

Já o segundo, fala de desejo: Calpurnia deseja compartilhar o vinho e deseja muito. Essa
questão do vinho é bastante interessante, pois embora muitos argumentem que as mulheres não
poderiam tomar vinho baseados em legislações e alguns textos, Marina Cavicchioli tem argumentado
que essa ideia não se sustenta quando observamos a cultura material27.

Em pesquisas recentes, levantou uma série de evidencias materiais, inclusive a pintura da


Vila dos Mistérios que pode ser lida como um ritual báquico encomendada pela proprietária da casa,
e tem demonstrado que há uma diversidade de vinhos produzidos entre os romanos e que os mais
doces seriam permitidos às mulheres. Portanto, ao desejar o vinho e o amante, essa inscrição nos
remete a relação das mulheres com os prazeres da vida, entre eles bebidas alcoólicas que, até muito
recentemente, se acreditava algo fora do universo feminino.

A terceira inscrição, mais fragmentada de todas, pode ser de autoria feminina e indica
uma relação entre senhora e escravo ou entre amantes, afirmar com segurança é difícil dada a sua
fragmentação, mas chama atenção pelo fato da decisão de venda poder ser atribuída a uma mulher. Já
o quarto e último grafite, por ser mais completo, nos permite algumas reflexões mais amplas: Feitosa
considera que o grafite tenha sido escrito por Arione que, diante da dúvida do amante, ela o deixaria
livre para decidir seu caminho28. Vênus, deusa do amor, teria o desencaminhado, então, resta a Arione
desejar êxito em sua jornada. O interessante desse grafite é que Arione, ao se perceber em dificuldade
em uma relação amorosa prefere se retirar e deixar o amante a sua sorte, a decisão ao final coube a ela.

Seja nas pinturas que representam as mulheres com instrumentos de escrita, seja nesses
exemplares de grafites que destacamos que podem ser de autoria feminina, o que gostaríamos de
enfatizar é que, embora os indícios da prática da escrita sejam poucos, eles existem e precisam de
olhares atentos. Todas essas evidências materiais indicam que essas mulheres tinham desejos, não
ficavam a espera da ação masculina: dentro de seus contextos, mesmo que possam ser desfavoráveis
em alguns aspectos como já comentamos no início, elas agiam. Sabiam quando avançar ou recuar em
uma conquista amorosa, bebiam e, mesmo para a surpresa de muitos estudiosos modernos, evidências
materiais e iconográficas indicam que poderiam sim escrever. Expressar, por meio da escrita, não
era, portanto, exclusividade masculina. Todos esses temas aqui arrolados seguramente precisam de
investigação mais aprofundada, mas as evidências materiais permitem, na sua fragmentação, novos
desafios e abordagens sobre a vida e o cotidiano dessas mulheres que ainda está por ser contado.

26
  L. M. G. C. Feitosa, Op. Cit., 2005, 120.
27
  M. R. Cavicchioli, Wine consumption in Archaic Rome: a gender perspective, In: WAC - 08 World Archaeological Con-
gress, Quioto: Universidade de Doshisha, 2016, 254.
28
  L. M. G. C. Feitosa, Op. Cit., 2005, 121.

290
Considerações Finais

A dominação masculina não exclui o protagonismo feminino, se não nos limitarmos à


narrativa dominante29. O que buscamos aqui foi deslocar alguns pressupostos ainda muito arraigados
na historiografia, chamando atenção para o fato de que há estudos contestando noções como a
proibição tácita da bebida às mulheres ou a negação de sua capacidade de expressão pela escrita.
É possível que sejamos questionados por nos basearmos em um texto cômico ou em grafites, mas
essa documentação, por vezes, considerada marginal entre as preferências dos estudiosos, ainda
pouco explorada na sua potencialidade, mesmo na sua fragmentação traz elementos para que sejam
possíveis outros devires femininos. Se, como afirmaram Cullen e Voss, os feminismos contribuem
para uma nova epistemologia, temos que considerar, nesse processo, novas fontes e abordagens. É
preciso criar novas estratégias de aproximações dos discursos que nos restaram, sejam eles textuais
ou epigráficos.

Por fim, cabe ressaltar que em muitas fontes literárias a misoginia e mesmo o temor da
atuação das mulheres pode iludir àqueles que procuram enxergar apenas dominação, sem olhos para
o protagonismo. Isso releva mais sobre o observador, do que sobre as fontes.

Neste capítulo, mostramos como uma leitura a contrapelo da tradição textual pode se
mostrar reveladora de insuspeitados protagonismos. Também deve ser ressaltada a atenção dada à
Arqueologia, sem a qual a História Antiga sai muito empobrecida30. Estaremos contentes se tivermos
mostrado que o protagonismo feminino vem de longe e desconhecê-lo é sintomático de preconceitos
ainda persistentes na sociedade contemporânea. Fica, portanto, o desafio para a busca por leituras
mais plurais sobre as relações afetivas, sobre os devires entre os romanos e as romanas no início do
Principado.

29
  Contra J. A. Dabdab Trabulsi, Ainda o gênero em debate. Resenha de L. Foxhall, Studying gender en Classical Antiq-
uity. Hélade, 2016, p. 68-72.
30
  Pace G. Alföldy, Die Römische Gesellschaft, Stuttgart, 1986: in unserer Zeit Alte Geschichte ohne Archäologie nicht
mehr denkbar ist.

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