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CIÊNCIAS FORENSES II

Teóricas – Professor Pedro Almeida

3º ANO – 2º SEMESTRE
Ano letivo 2018/2019

Realizada por: Margarida Oliveira e Tânia Soares


Ciências Forenses II | Margarida Oliveira e Tânia Soares

PSICOPATIA VS. PERTURBAÇÃO DE PERSONALIDADE ANTISSOCIAL E


OUTRAS

O termo DSM surgiu em 1952, sendo que em 1980 a fiabilidade do DSM-II começa a ser posta
em causa, uma vez que este DSM ainda é muito influenciado pela pseudodinâmica, psicanálise e
pela interpretação subjetiva dos sintomas. Assim, no diagnóstico dos clínicos verificava-se falta
de fiabilidade intercotadores, dado que havia muitas inferências acerca do funcionamento da
personalidade das pessoas, do background clínico, da sua relação com os pais, etc. Deste modo,
a operacionalização era muito fraca.

Por sua vez, a passagem do DSM-II para o DSM-III é semelhante à mudança dinâmica da
pseudodinâmica para o comportamentalismo, dado que passa a considerar-se que não existem
modelos mentais nem expectativas, uma vez que não os podemos observar e por isso não existem.
Deste modo, muda-se de paradigma, passando a considerar-se só os critérios observáveis e, por
isso, só estes itens observáveis podem entrar para o diagnóstico, não havendo assim diagnósticos
subjetivos não observáveis. Assim, aumenta a fiabilidade intercotadores, mas, por outro lado, o
diagnóstico pode estar errado porque, por exemplo, as pessoas podem estar a apresentar e a
preencher diferentes critérios por muitas razões distintas. Ou seja, esta mudança paradigmática
cria uma grande categoria de indivíduos identificados com a perturbação antissocial da
personalidade, mas esta esconde algo porque nem toda a gente que apresenta comportamentos
antissociais é igual do ponto de vista psicológico.

Já o DSM-V inclina-se para a conceptualização moderna da psicopatia e para aspetos relacionados


com o comportamento e a personalidade.

COMPORTAMENTOS ANTISSOCIAIS QUE PODEM SER CONSIDERADOS


PSICOPÁTICOS VS. COMPORTAMENTOS ANTISSOCIAIS QUE NÃO SÃO
CONSIDERADOS PSICOPÁTICOS

Exemplos

1. J é um rapaz de 11 anos de uma família da classe média. Ambos os pais estão empregados.
Começou por apresentar problemas comportamentais desde cedo e foi inscrito numa escola
especial para crianças com problemas emocionais e comportamentais aos 5 anos. Começou a
fugir de casa e da escola a partir de uma tenra idade. Agora é frequente ser apanhado pela
polícia porque costuma vaguear pelas ruas da sua cidade até muito tarde. Recentemente
invadiu uma obra de construção civil e ateou fogo aos materiais, causando 15.000 € de
prejuízos. J é muitas vezes cruel com animais. Uma vez pendurou o seu hamster por cima de

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uma panela com água a ferver e ameaçou que o deixaria cair se os seus pais não lhe dessem
dinheiro. É frequentemente violento para com os seus pais, irmãos e pares. Em várias ocasiões
ameaçou agredir a mãe e por diversas vezes foram encontradas facas no seu quarto. Uma vez
atirou uma faca de cozinha à mãe. J não tem nenhum amigo genuíno na escola. Os professores
muitas vezes queixam-se que têm dificuldades em tratar J gentilmente, uma vez que sentem
que os seus bons comportamentos não são sinceros. É muito gabarolas acerca das suas
capacidades e tem uma ideia inflacionada da sua inteligência. J muitas vezes tenta fazer as
pessoas acreditar que os outros simplesmente não o compreendem.

2. B é um rapaz de 11 anos proveniente de um ambiente familiar e social complicado. Ambos


os seus pais estão na cadeia, o pai por assalto à mão armada e a mãe por posse de droga. B
tem tomado conta da sua irmã mais nova. Apresenta, muitas vezes, comportamento de
oposição em casa e na escola. É rude com os professores, muitas vezes, recusa fazer os
deveres e falta muitas vezes às aulas. Roubou alguns bens de lojas locais. Luta muitas vezes
com os colegas e uma vez utilizou uma arma (tijolo) nestas lutas. No entanto, normalmente
pede desculpa se tem genuinamente culpa. Gosta de jogar desportos com os colegas. Expressa
muitas vezes carinho com a sua irmã e sente-se bem quando ela está presente. As suas
emoções são muitas vezes turbulentas. Muitas vezes reporta falta de autoestima.

Diferenças entre os dois:

1) Ambiente familiar
J tem pais empregados e B tem pais problemáticos.

2) Demonstração de afeto
J não tem amigos a sério, nem pede desculpa pelos seus comportamentos demonstrando frieza
emocional. Já B tem amigos apesar de por vezes ser violento, mas pede desculpa pelos seus
atos.

Conclui-se assim que o primeiro é mais psicopata do que o segundo. Segundo o DSM-IV, ambos
apresentam uma perturbação de conduta.

Relativamente a estes casos, J e B apresentam uma perturbação de conduta com início na segunda
infância, sendo que esta é visível em J porque este revela lutas físicas; utilização de arma; é cruel
para animais; lançou fogo a uma construção; falta às aulas; e em B porque este revela lutas físicas;
utilização de arma; e falta às aulas.

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Para além disso, J e B apresentam uma perturbação antissocial da personalidade, uma vez que o
diagnóstico é baseado em critérios observáveis, nomeadamente ausência de conformidade com
as normas; atos impulsivos, agressividade e irresponsabilidade que é apresentada tanto por J como
B.

3. R tem 35 anos e está a cumprir uma sentença de 25 anos por homicídio. Sempre teve mau
feitio, e desta vez o que se iniciou como uma luta de bar acabou por retirar a vida ao seu
opositor. R dá a impressão de ser algo imaturo, jocoso, mas sincero. Os outros reclusos
gostam bastante de R e não há qualquer registo na prisão contra si.
R tem aproximadamente meia dúzia de crimes no seu registo, que começa com a idade de 17
anos quando foi detido por furto a uma loja. Apesar de nunca ter tido nenhum contacto com
a autoridade antes da adolescência, os seus pais reportam que começou a ter em problemas
em casa e na escola com cerca de 15 anos. Os seus pais dizem que ele era difícil de controlar,
desrespeitava a hora de ir para casa, mentia frequentemente, vandalizava propriedades, e fugia
de casa. Na escola costumava lutar frequentemente. R saiu da escola com 16 anos e começou
a trabalhar como artesão. Apesar de ter sido despedido algumas vezes por não se dar com os
seus colegas, conseguiu manter-se empregado. No entanto, bebia bastante e gastava o seu
dinheiro sem responsabilidade, descobrindo muitas vezes que não tinha dinheiro para pagar
as suas contas. De forma a ganhar mais dinheiro começou a vender marijuana e
ocasionalmente roubava equipamento das obras onde trabalhava. Estas atividade resultaram
que fosse detido aos 18 anos.
R encontrou emprego e foi viver com a namorada. Apesar das discussões frequentes por causa
dos gastos de R, venda de droga e consumo de álcool, a relação permaneceu estável. R teve
dois casos extraconjugais, mas acabou ambos porque se sentia culpado e tinha medo que a
sua namorada descobrisse e o deixasse.
O consumo de álcool tornou-se pior e uma noite envolveu-se numa luta num bar. Apesar de
normalmente ser capaz de evitar uma luta, desta vez R voltou e deu com uma garrafa na
cabeça do oponente que partiu e desferiu um golpe fatal na garganta. A polícia foi chamada
e R contou imediatamente o que se passou. No tribunal declarou-se culpado.

4. T tem 39 anos e está a cumprir 25 anos de cadeia por matar o seu companheiro de viagem
para lhe roubar o dinheiro. É utilizador de drogas pesadas e traficante. É bem-humorado e
divertido, mas as suas conversas acabam sempre por ser inapropriadas e sugestivas. Teve
vários empregos, mas nunca nenhum durou mais do que algumas semanas. Esta

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constantemente em apuros por não ser de confiança e ter explosões violentas quando a sua
vontade não é satisfeita.
O seu cadastro tem várias páginas. O seu primeiro crime reportado ocorreu aos 9 anos quando
roubou equipamento da escola. Aos 11 anos foi apanhado enquanto tentava afogar um colega
da escola que se tinha recusado a dar-lhe dinheiro. Quando lhe foi perguntado o que tinha
acontecido, riu-se ao dizer que o colega era maior do que ele e que teria “terminado o
trabalho” se a professora não tivesse chegado. Depois disto a vida de T foi passada dentro e
fora de centros de detenção enquanto criança, adolescente e adulto. A sua lista de crimes
contém todas as categorias imagináveis, desde roubo a agressões e fazer reféns. Nunca teve
uma profissão real mais de duas semanas. Em vez disso vive do apoio dos amigos ou através
de atividades criminosas como tráfico, roubo ou proxenetismo. Nunca passou mais do que
algumas semanas no mesmo sítio, preferindo divagar. Pode parecer muito amistoso e não tem
problemas em conhecer pessoas que lhe oferecem guarida. Muitas vezes estes acordos
acabam com discussões violentas, e T começa de novo. Nunca foi casado, mas teve várias
parceiras com quem morou. Em todos os casos foi morar com elas após “lhes ter dado a volta
à cabeça”, como reporta. A relação mais longa durou seis meses, mas foi marcada pela
instabilidade e violência. Conta várias vezes em que se encontrava envolvido com outras
mulheres, enquanto vivia com uma parceira. Quando perguntado se alguma vez foi
monogâmico diz que sempre foi. Quando lhe apresentam a contradição, ele nega-a dizendo:
“sempre fui monogâmico porque é fisicamente impossível estar em dois sítios ao mesmo
tempo, compreende?”
Há muitas provas que T cometeu o crime pelo qual está detido, mas em tribunal ele declarou-
se inocente. Ainda insiste que é inocente e não demonstra piedade pela vítima ou pela família.
Apesar de estar a iniciar a pena e de lhe dizerem que provavelmente não haverá redução, é
muito teimoso e fala como se a sua libertação estivesse para breve.

Diferenças entre os dois:

1) Culpado vs. Inocente


R entende que é culpado da sua conduta, enquanto que T se considera inocente.

2) Remorsos pela vítima vs. Ausência de remorsos


R apresenta remorsos pela vítima, enquanto T não apresenta remorsos perante a vítima.

3) Início da carreira criminal

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R inicia a sua carreira criminal aos 15 anos e T inicia-a aos 9 e comete crimes
instrumentais, de manipulação do outro para obter recompensas

T poderia ser diagnosticado como psicopata. No entanto, segundo o DSM-IV R e T têm o mesmo
diagnóstico de perturbação antissocial da personalidade, sendo que para tal tiveram de apresentar
perturbação de conduta. Contudo, no DSM-V também são diagnosticados assim, mas para a
perturbação da personalidade é preciso avaliar se as pessoas têm ou não défices no funcionamento
afetivo, falta de empatia, frieza emocional, remorsos e culpa, uma vez que estes indicadores são
especificadores muito importantes porque determinam o tipo de intervenção que se pode fazer
com estas pessoas, dado que é diferente uma pessoa que tem perturbação antissocial da
personalidade e tem traços psicopáticos e aquelas que não têm esses traços, dado que nos
primeiros se destaca mais o domínio da ausência da internalização, muito baixa ansiedade e muito
baixo medo e nos segundos se destaca mais o domínio da externalização de comportamentos, a
incapacidade de aprender e a vulnerabilidade à agressão.

A HISTÓRIA DA PSICOPATIA

A primeira vez que o construto de psicopatia foi referido foi por Pinel nos fins do século XIX,
surgindo com este autor a categoria da “insanidade sem delírio”, tendo-se considerado que as
pessoas que se encaixam nesta categoria são insanas do ponto de vista moral, mas não são
delirantes, ou seja, não são verdadeiramente doentes mentais. Isto porque os doentes mentais são
alguém cuja experiência com a realidade, no sentido da psicopatia clássica, é qualitativamente
diferente da nossa. Assim, a verdadeira psicopatologia, a verdadeira doença mental, é aquela que
podemos explicar, mas não podemos compreender, no sentido em que a experiência de um doente
com doença mental propriamente dita é qualitativamente diferente da nossa, ou seja, há uma
rutura com a nossa realidade. Neste sentido, na perturbação de personalidade não há doença
mental propriamente dita, dado que conseguimos compreender como é que alguém tem este tipo
de perturbação. O delírio é uma coisa diferente, havendo uma quebra com a realidade.

Deste modo, estes indivíduos eram um conjunto de indivíduos insanos, mas cuja experiência era
qualitativamente igual à nossa. Assim, a psiquiatria do fim do século XIX não se preocupava com
os criminosos, mas com um subgrupo de criminosos que eram estes que não são “malucos” e que
nada no ambiente faria prever que eram criminosos, ou seja, vêm de boas famílias, são normais
até determinado ponto e de repente tornam-se explosivos e violentos. O núcleo destes indivíduos
está então aqui, ou seja, em perceber que temos faculdades diferentes que podem estar
comprometidas, sendo que no caso destes indivíduos tínhamos o comprometimento da faculdade
moral, mas não das outras. Esta e a génese da psicopatia.

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Este construto de “insanidade sem delírio” foi ao longo da história conhecido por muitos nomes.
Por exemplo, em 1913, em Inglaterra, surge uma grande preocupação em identificar indivíduos
que são antissociais persistentemente e que podem ser levados para o sistema de saúde mental,
emergindo assim o conceito de insanidade moral que significa o mesmo que a “insanidade sem
delírio”, havendo apenas nestes indivíduos um comprometimento da faculdade moral, segundo
Pritchard.

Por sua vez, Benjamin Rush introduz o conceito de imbecilidade moral, imoralidade
constitucional, sociopatia e inferioridade psicopática. Este último é utilizado pela primeira vez
por Bosch que descrevia indivíduos que não estavam associados ao comportamento antissocial,
mas apresentavam alterações quantitativas da personalidade que fazia com que causassem
sofrimento aos outros.

Vemos assim que, temos por um lado a tradição francesa e inglesa da mania sem delírio e a
insanidade moral, sendo o núcleo destas a agressão, o comportamento violento, o crime, a
perversão dos sentimentos naturais e a perversão das disposições morais. Mas, por outro lado,
temos a tradição alemã com o conceito Schneideriano, na qual se considera que o indivíduo tem
um desvio estatístico, ou seja, considera-se que as psicopatias eram perturbações da personalidade
qualitativamente iguais à nossa experiência, mas quantitativamente diferentes na sua
personalidade que causa sofrimento ao próprio e aos outros. No entanto, o comportamento
antissocial não é um critério, sendo que das dez psicopatias só uma tem critério de comportamento
antissocial persistente.

Conclui-se então que a violência sem delírio é o núcleo agregador da psicopatia em pessoas que
têm uma capacidade intelectual normal.

Por sua vez, há quem defenda que há uma terceira tradição francesa que é a de Morel e a sua
teoria da degenerescência, na qual se defende que os indivíduos degenerescentes, apesar de
intelectualmente serem normais, estão num estado mais baixo de desenvolvimento moral,
havendo a possibilidade de degenerar de um estado mais baixo ou alto. Isto porque, de acordo
com a neurologia, nestes indivíduos as camadas mais baixas do sistema nervoso assumem o
controlo, fazendo com que os indivíduos percam as suas faculdades morais superiores.

A GRANDE SISTEMATIZAÇÃO DE CLECKLEY

Em 1946, surge o autor mais importante da história da psicopatia chamado Hervey Cleckley que
escreve um livro intitulado “The Mask of Sanity”, no qual refere que há uma grande confusão
relativamente ao conceito de psicopatia. O autor considerava que o tratamento do conceito não

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fazia jus à sua história e, por isso, quis perceber qual era a história do conceito, percebendo que
historicamente a psicopatia é o comportamento antissocial sem delírio. Assim, elencou o que
achava que devia ser o conceito de psicopatia.

Para perceber o conceito, Cleckley observou uma série de casos de indivíduos que vinham de
classes altas cujo meio não fazia prever que seriam problemáticos, mas que por alguma alteração
de personalidade provocavam sofrimento a si próprios e aos outros, ou seja, o autor olhou para as
características dos indivíduos. A partir da sua análise, o autor elencou os traços clínicos da
psicopatia, nomeadamente:

1. Encanto superficial e boa inteligência, isto é, usam uma máscara.


2. Ausência de alucinações ou outros sinais de pensamento irracional, ou seja, não são
esquizofrénicos.
3. Ausência de nervosismo e manifestações psiconeuróticas, isto é, não são neuróticos.
4. Ser indigno de confiança.
5. Ser mentiroso e insincero.
6. Falta de remorsos ou vergonha.
7. Comportamento antissocial inadequadamente motivado. Ou seja, não se percebe porque
são antissociais. Atualmente já se percebe porquê, nomeadamente para manipular e
conseguirem o que querem.
8. Julgamento pobre e défices na aprendizagem pela experiência.
9. Egocentrismo patológico e incapacidade para amar.
10. Pobreza geral nas principais relações afetivas.
11. Perda específica de insight, ou seja, não têm a capacidade de perceber que o seu
funcionamento afetivo é deficiente e os seus comportamentos são anormais.
12. Ausência de responsividade na maioria das relações interpessoais.
13. Comportamento fantasioso e pouco convidativo com e, por vezes, sem consumo de
bebidas alcoólicas.
14. Suicídio raramente consumado, mas muitas vezes ameaçado.
15. Vida sexual pessoal trivial e pouco integrada.
16. Incapacidade para seguir qualquer plano de vida.

Para além disto, Cleckley tenta avançar na etiologia da psicopatia, tentando perceber o que a
causa. No entanto, o autor não diz se a psicopatia é ou não hereditária, mas diz antes que estes
indivíduos fazem sofrer os outros e a eles próprios, não têm insight, não estando
instrumentalmente a ter comportamentos antissociais (pouca relevância dada aos comportamentos
antissociais e à psicologia criminal). Neste sentido, apresentavam antes falta de relações afetivas
e falta de laços sociais porque estes indivíduos, apesar de usarem a máscara da sanidade, por trás

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são máquinas, isto é, não têm capacidade de sentir a parte afetiva das relações e da vida, não
conseguindo, por isso, sentir as emoções para guiar os seus comportamentos.

A obra de Cleckley foi muito importante por dois motivos. Primeiro foi importante em termos
etiológicos, dado que os restantes autores começaram a inspirar-se nela para produzir modelos
cada vez mais elaborados sobre a psicopatia e em segundo porque quando os autores começaram
a querer operacionalizar a psicopatia basearam-se nos critérios apresentados pelo autor.

HARE E A PCL

Mais tarde, Hare pega nos critérios de Cleckley e usa-os, transformando-os, em 1980, numa escala
– a PCL. Neste sentido, a PCL é muito baseada nos critérios de Cleckley.

Na época em que se começa a desenvolver a PCL, o autor vai buscar outras influências, para além
de Cleckley, nomeadamente ao PCI, que tem itens relacionados com o comportamento antissocial
persistente, e a McCord, sendo que ambos estudavam essencialmente psicologia criminal.
Contudo, Cleckley não tinha grande relevância na psicologia criminal, no entanto, Hare aplica os
seus critérios a populações criminais reincidentes. Deste modo, Hare engloba tanto itens da
psicologia criminal que estavam relacionados com o comportamento antissocial persistente, como
itens relacionados com o comportamento afetivo e aplica-os a amostras criminais, surgindo aqui
dois fatores ou dimensões na PCL, uma dimensão relacionada com as características afetivas e
interpessoais (confiante, mentiroso compulsivo, manipulador, falta de empatia, falta de
nervosismo) e outra relacionada com o estilo de vida, impulsividade e comportamento antissocial,
sendo que esta última dimensão aparece porque o autor trabalha com indivíduos antissociais.

Neste sentido, na PCL estas dimensões estão correlacionadas, ou seja, valores elevados numa
conduzem a valores elevados na outra. Assim, tendencialmente, elevados valores no fator 1 da
PCL (características afetivas e interpessoais) levam a elevados valores no fator 2 da PCL (estilo
de vida, impulsividade e comportamento antissocial), ou seja, indivíduos com problemas ao nível
afetivo e interpessoal são mais impulsivos e apresentam mais comportamentos antissociais.
Contudo, uma dimensão não explica totalmente a outra, uma vez que há indivíduos impulsivos,
com problemas ao nível afetivo e comportamentos antissociais, mas que não são psicopáticos.

Deste modo, este construto da psicopatia tem em conta tanto fatores comportamentais (fator 2)
como fatores relacionados com a personalidade (fator 1). O fator 2 está muito relacionado com o
DSM, uma vez que é externalização, mas o fator 1 está pouco relacionado com a perturbação
antissocial da personalidade porque não tem em conta fatores da personalidade.

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A perturbação da personalidade antissocial a e psicopatia não são assim sinónimos, sendo que a
psicopatia procura caracterizar um grupo de sujeitos com uma disfunção de etiologia comum, isto
é, procura caraterizar um grupo de sujeitos que estão relacionados com a perturbação antissocial
da personalidade e que têm uma etiologia comum.

Assim, Hare refere que dentro dos reclusos reincidentes, a maior parte apresenta perturbação
antissocial da personalidade, mas dentro destes reclusos há alguns que são psicopatas que têm em
comum com os primeiros o fator 2 da PCL, mas têm uma coisa em particular porque nestes
últimos também o fator 1 é elevado que faz com que sejam um grupo especial e diferente dos
primeiros. Para além disso, diz que há psicopatas que não são reclusos, são os chamados bem-
sucedidos.

Estrutura conceptual da PCL

Duas dimensões (1 – dimensão interpessoal e dimensão afetiva e 2 – dimensão do estilo de vida


e dimensão antissocial) conceptualizadas em 4 facetas (1 – interpessoal; 2 – afetiva; 3 – estilo de
vida; 4 – antissocial) da psicopatia:

Assim:

1. Dimensão interpessoal e dimensão afetiva estão altamente correlacionadas – F1


• Falta de empatia
• Loquacidade/charme superficial
• Frieza

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• Falta de remorsos ou vergonha


• Afeto superficial

2. Dimensão do estilo de vida e dimensão antissocial estão altamente correlacionadas – F2


• Necessidade de estimulação
• Baixo controlo comportamental
• Problemas comportamentais precoces
• Revogação de liberdade condicional
• Versatilidade criminal

Existem correlações moderadas entre cada uma delas (ver imagem).

Contudo, Cooke e Richie (2001) defendem que na verdade a psicopatia deve ter três dimensões e
não quatro, nomeadamente defendem que o comportamento antissocial deve sair da estrutura da
psicopatia, sendo algumas razões para tal:

1. O facto de o modelo conceptual de psicopatia ser fortemente baseado em Cleckley que não
considerava que o comportamento antissocial fosse uma parte da estrutura conceptual da
psicopatia, considerando antes que este era uma consequência desta. Ou seja, o autor
considerava que indivíduos com psicopatia tinham maior probabilidade de ter
comportamentos antissociais e, portanto, estes comportamentos eram uma consequência da
psicopatia. Assim, não podemos utilizar como critério o que queremos prever, isto é, os
comportamentos antissociais.
2. O facto de o que queremos prever não poder ser aquilo que utilizamos para medir o que
queremos prever (comportamentos antissociais) → argumento tautológico relacionado com o
anterior.
3. O facto de que quando se faz uma análise fatorial confirmatória com um modelo estrutural
com três fatores, este modelo ajusta muito melhor psicometricamente à variação dos dados.

Foi esta obra que fez com que Hare em 2006/2007 afirmasse que efetivamente três
fatores/dimensões ajustam melhor estatisticamente que quatro dimensões.

Atualmente, a psicopatia é, para a maior parte dos autores, um cluster de características e traços
de personalidade, como a ausência de remorsos, frieza, falta de empatia, egocentrismo,
desrespeito pelos direitos dos outros, tendência para mentir e manipular os outros, impulsividade
entre outros. Estas características constituem um preditor de uma tendência para estilo de vida

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antissocial, maior probabilidade de reincidir e fator de risco para comportamento violento. Além
disso, os indivíduos com psicopatia estão sobre representados em contextos prisionais.

Contudo, não se deve dizer que um indivíduo é psicopata, devendo dizer-se antes que tem altos
níveis de psicopatia.

DISTINÇÃO ENTRE PSICOPATIA E OUTROS QUADROS DE


EXTERNALIZAÇÃO PERSISTENTE

A distinção entre psicopatia e outros quadros de externalização persistente, sendo que estes se
referem a pessoas que reiteradamente têm comportamentos antissociais, agressivos e violentos, é
feita com base no tipo de agressividade apresentada.

Assim, uma das manifestações distintivas da psicopatia é a utilização da agressividade


instrumental (Blair, 2005) que se pode distinguir da agressividade reativa.

A agressividade reativa (afetiva) ocorre quando um evento ameaçador ou frustrante inicia um ato
agressivo que frequentemente induz raiva. A agressão é iniciada sem vista a obter um objetivo
potencial, como bens ou estatuto. O FFF (Blanchard, 1977) é um modelo que descreve o
comportamento típico dos mamíferos em termos de ameaça, descrevendo uma escalada de reação
a diferentes níveis de ameaça.

A agressividade instrumental (proativa) é um tipo de agressividade que caracteriza crianças com


comportamento antissocial e agressivo muito precoce. Esta agressão é propositada e dirigida a
um objetivo, não havendo aqui uma demonstração da expressão facial de raiva porque este tipo
de agressividade não é afetiva. Para além disso, o nível de agressão instrumental caracteriza os
sujeitos cujos padrões de agressividade são mais precoces e prediz a delinquência futura, assim
como os traços de frieza emocional dos mesmos.

Estes tipos de agressividade são mediados por circuitos neurocognitivos distintos, ou seja, por
diferentes partes do cérebro:

• Pacientes com lesão orbito-frontal demonstram padrões de elevada violência reativa.


Assim, nestes pacientes, estamos perante a sociopatia adquirida por lesão ou
pseudopsicopatia que consiste num padrão de comportamento psicopático, causado por
lesões cerebrais, caracterizado pela incapacidade de manter um emprego, défices na
demonstração de emoções nas suas relações interpessoais, entre outras. Logo, perante a
frustração, estes pacientes explodem, não conseguindo controlar as suas emoções e
demonstrando grande agressividade reativa.

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• Alguns psicopatas demonstram elevados níveis de violência reativa, especialmente os que


são altos no F2 da PCL, mas também elevados níveis de violência instrumental,
especialmente os que são altos no F1 da PCL.

PSICOPATIA VS. SOCIOPATIA

Na literatura clássica, os termos psicopatia e sociopatia são muitas vezes utilizados de forma
indistinta. Contudo, em 1995, Lykken propõe uma distinção entre estes termos:

• Psicopata é um indivíduo criminoso por disposição temperamental, sendo esta disposição


hereditária. Assim, os criminosos são reincidentes por uma disposição hereditária por não
conseguirem assimilar normas.
• Sociopatas são indivíduos cujo caráter não socializado se deve primariamente a falhas
nas instâncias socializadoras. Estes são a maior parte dos indivíduos antissociais
persistentes, ou seja, aqueles que o são, não por haver algo de errado na sua biologia ou
personalidade, mas porque são levados para contextos criminosos, por falhas nas
instâncias socializadoras, como os indivíduos vítimas de abuso, que nascem em contextos
socialmente desviantes e que apresentam desvantagens socioeconómicas.

ORDEM CRIMINOLÓGICA (LYKKEN, 1995)

• Os ofensores normais não têm uma personalidade antissocial, ou seja, não têm nada neles que
os empurre para o comportamento antissocial. Podemos distinguir:
o Inocente
o Vítima das circunstâncias: são aqueles indivíduos que fizeram alguma coisa de errado
e as circunstâncias empurraram-nos para uma vida de crime.
o Alguns criminosos de carreira: indivíduos que escolhem a vida criminal por ser o
caminho mais fácil.
o Alguns criminosos de colarinho branco: indivíduos que cometem crimes para obter
vantagens e porque consideram que há pouca probabilidade de serem apanhados.

• Os ofensores psicóticos são aqueles que, por norma, se encontram nas alas psiquiátricas, como
os esquizofrénicos.
• Personalidades antissociais:

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o Sociopatas são indivíduos que têm uma personalidade antissocial por falha nas
instâncias socializadoras, como por exemplo indivíduos que foram alvo de práticas
parentais inadequadas. Assim, estes são indivíduos que têm capacidade para seguirem
regras, mas estas regras são erradas, uma vez que estes não tiveram condições para
adquirirem a consciência moral da sociedade geral.
− Comum
− Alienado
− Agressivo
− Dissocial

o Psicopatas, ao contrário dos sociopatas, são indivíduos que podem não ter capacidade
para seguir regras, sendo que podem mesmo quebrar as regras de conduta de forma
instrumental.
− Primário são indivíduos essencialmente psicopatas F1 que apresentam muito
baixa ansiedade.
− Secundário são indivíduos psicopatas essencialmente F2 que apresentam muita
externalização e muita impulsividade.
− Destemperado
− Carismático

o Neuróticos são aqueles que têm desregulação do eixo HPA porque foram vítimas de
maus tratos, por exemplo. São pessoas extremamente ansiosas e explosivas, ao ponto
de se poderem tornar muito violentas.

PSICOPATIA E REINCIDÊNCIA

Os psicopatas têm cerca de três vezes mais probabilidade de reincidir e quatro vezes mais
probabilidade de reincidir violentamente no primeiro ano após libertação (Hamphill et al., 1998;
Grann et al, 1999; Hare et al., 2000).

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PSICOPATIA E TRATAMENTO

Os psicopatas não respondem à maior parte das intervenções e tratamentos de que são alvo, mas
também não há muitas intervenções para pessoas psicopáticas. Para além disso, a maior parte dos
programas que existem não são ajustados a este padrão de personalidade.

MODELO TRIÁTICO DA PSICOPATIA – TRIARCHIC MODEL OF


PSYCHOPATHY, 2009

Patrick and Bernat, 2009; Patrick, Fowles, and Krueger, 2009

Este é um modelo alternativo da psicopatia. Os autores deste modelo referem que quando se olha
para toda a história da psicopatia vê-se sempre três grandes grupos de coisas a surgir, que são os
chamados constituintes fenótipos da psicopatia. Assim, estes são:

1. Boldness (falta de ansiedade ou ousadia)

A ousadia consiste na capacidade para manter a calma e o foco em situações que envolvem
pressão e ameaça, capacidade de recuperar rapidamente de eventos stressantes, alta autoconfiança
e eficácia social, e tolerância ao desconhecido e ao perigo. Estas são as chamadas características
positivas da psicopatia.

A boldness é preditora de comportamento antissocial e é avaliada na PPI. Contudo, é de notar que


Miller e Lynch defendem que esta componente, por si só, não é psicopatia, tratando-se das
características positivas da psicopatia.

2. Meanness (malvadez)

A mavadez é aquilo que é mesmo característico da psicopatia. A malvadez consiste na constelação


de traços fenotípicos, incluindo empatia deficiente, desprezo e falta de laços afetivos, busca de
excitação, exploração e empoderamento através da crueldade.

A malvadez está inversamente relacionada com a empatia emocional e, por isso, há falta de
empatia.

3. Deshinibition (desinibição)

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A desinibição é uma propensão fenotípica geral em direção a problemas de controlo de impulsos,


falta de capacidade de planeamento, falta de capacidade para pensar a longo prazo, regulamento
do afeto, insistência na gratificação imediata e incapacidade de controlo comportamental.

Esta dimensão não tem muito a ver com as dimensões anteriores.

Quando olhamos para as causas destes traços verificamos que as causas são independentes.
Assim, uma coisa é a causa da ousadia e da malvadez que estão relacionadas com a incapacidade
ou capacidade reduzida de sentir medo (frieza emocional) e, independentemente disso, temos a
causa da desinibição que está relacionada com a vulnerabilidade à externalização.

Por sua vez, quando olhamos para o substrato cerebral destes dois processos etiológicos, vemos
que estes dois processos dependem de circuitos cerebrais diferentes, assim como a agressividade
reativa e instrumental. Deste modo, o processo subjacente à ousadia e à malvadez depende do
sistema de deteção e resposta à ameaça e da aprendizagem de associações (amigdalina) e o
processo subjacente à desinibição depende do córtex pré-frontal.

MODELOS

No modelo anterior levantaram-se algumas questões, como:

• Que modelos conceptuais explicam a génese das especificidades afetivas e interpessoais


nucleares em psicopatas?
• Quais os processos básicos envolvidos nesta perturbação?
• Como nos movemos de perturbações no funcionamento afetivo para défices nos padrões
de funcionamento social?
• Os modelos têm plausibilidade do ponto de vista biológico?

Existem diferentes tentativas para responder a estas questões, sendo que estas tentativas
correspondem a diferentes Modelos.

1. MODELO DE LYKKEN

Uma tentativa de resposta a estas questões é o modelo da disfunção no sistema do medo,


proposto na década de 50 e formalizado em 1957 por Lykken. É de notar que a hipótese de

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disfunção nos mecanismos neurobiológicos de deteção e resposta à ameaça é uma das posições
mais fortes no estudo da psicopatia (e.g. Lykken, 1957; Fowles, 1980; Patrick, 1994)

Neste sentido, este modelo apresenta a hipótese de baixo medo que nos diz que:

• Os psicopatas têm um défice fundamental no sistema de medo ou ansiedade (baixo Fear


Questionnaire).
• A socialização normal depende da associação do comportamento antissocial com a
punição, resultando na inibição do comportamento futuro.
• Indivíduos com baixo Fear Questionnaire são mais difíceis de socializar deste modo.

Lykken demonstrou esta situação através do uso:

• Hiporeatividade eletrotérmica em paradigma de condicionamento aversivo. Este é o


marcador biológico mais repetido e utilizado para estudar a psicopatia.
Lykken, baseando-se no condicionamento clássico, utilizou o condicionamento aversivo
para medir a resposta elétrica da pele dos indivíduos perante diferentes estímulos. Assim,
o autor apresentava um tom de aviso, como uma campainha, ao qual se seguia um choque
(estímulo aversivo). Neste sentido, era esperado que os indivíduos ao fim de algumas
repetições quando ouvissem o som da campainha começassem a suar ou aumentasse o
seu ritmo cardíaco (resposta emocional), por exemplo, porque já sabiam que se seguia
um estímulo aversivo.
No entanto, o autor verificou que os indivíduos com psicopatia não emparelhavam a
campainha-choque, ou seja, estes indivíduos não condicionavam a nível implícito, no
sentido em que não associavam implicitamente o choque à campainha, mas se lhes
perguntássemos o que estava a acontecer, eles diziam que depois de ouvirem a campainha
levavam um choque.
Isto diz-nos que há diferentes níveis de controlo e aprendizagem e, portanto, indivíduos
com lesões na amígdala não aprendem a nível implícito, mas conseguem verbalizar o que
está a acontecer, já indivíduos com lesões no hipocampo aprendem a nível implícito, mas
não são capazes de verbalizar o que está a acontecer.

• Pobre evitamento passivo consiste em aprender o que não se deve fazer. Este é um
paradigma de resposta de condicionamento operatório por oposição ao condicionamento
clássico. Assim, no condicionamento clássico, não há resposta, havendo apenas uma
associação, enquanto que no condicionamento operatório há a emissão de uma resposta e
seguidamente uma recompensa ou punição por emitir essa resposta.

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Aqui o objetivo era aprender a evitar as punições. Assim, era pedido aos indivíduos para
navegarem por um labirinto, sendo que quando chegavam a um determinado local tinham
de optar por uma de quatro hipóteses, sendo que duas eram neutras, uma era um choque
e outra era a resposta certa. O que se verificou aqui foi que indivíduos com psicopatia
primária aprendem tão bem como os controlos quais são as respostas certas, mas não
compreendem tão bem as respostas erradas. Neste sentido, o indivíduo controlo ao ter
optado uma vez pelo caminho em que leva um choque nunca mais vai por aquele caminho
porque sabe que se for vai levar um choque, já os psicopatas não pensam assim. Isto
significa que a punição não tem efeito nos indivíduos com psicopatia.

• APQ (Activity Preference Questionnaire). Aqui pretendia-se perceber até que ponto as
respostas comportamentais das pessoas dependem da aversão ao risco ou da procura do
risco. Assim, era pedido aos indivíduos para escolherem entre uma atividade perigosa e
uma atividade muito aborrecida. Verificou-se aqui que as escolhas comportamentais dos
indivíduos com psicopatia primária eram sempre as atividades perigosas.

Para além disto, o modelo de Lykken diz-nos que os indivíduos com psicopatia são:

O modelo do Lykken põe aqui em perspetiva a socialização vs. a competência parental. Assim,
olhando para o gráfico podemos ter pais muito maus, médios ou muito bons e, em termos de
socialização podemos ser muito antissociais, médios ou muito socializados.

Por sua vez, verifica-se que temos três tipos de genótipo:

1. Genótipo de difícil socialização: são as crianças que têm pouco medo e, por isso, mesmo
que tenham pais excecionais vão ser sempre médios na socialização e nunca muito
socializados. É aqui que se encontra a psicopatia que se caracteriza pela difícil
socialização especialmente quando esta aparece combinada com pais muito maus.

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Contudo, indivíduos psicopatas mesmo que tenham pais que são muito competentes, vão
ser sempre socializados abaixo da média, independentemente dos esforços dos pais e,
por isso, por muito que sejam punidos pelos pais nunca vão ser socializados.

2. Genótipo médio de socialização. Neste caso, se os pais forem muito maus temos
indivíduos que são sociopatas que aprendem as regras desviantes ou não aprendem regras
porque não lhes ensinam. Contudo, se os pais forem médios, estes indivíduos também
serão médios na socialização.

3. Genótipo de fácil socialização: são indivíduos que aprendem rapidamente e, por isso,
são sempre mais ou menos socializados, independentemente da competência parental
baixa.

Modulação do reflexo ocular de sobressalto

Hoje o modelo de baixo medo, é muito replicado através de demonstrações laboratoriais, sendo
que o que tem sido proposto como um marcador biológico da psicopatia primária é a incapacidade
de modulação do reflexo ocular.

Quando nós apanhamos um susto o nosso corpo liberta uma expressão, como fechar os olhos,
sendo que uma das fórmulas inteligentes de eu perceber quanto é que eu me assusto é medir a
frequência com que fecho os olhos após um susto. Assim, sabemos que a modulação do reflexo
de sobressalto é modelada pelo contexto, como os filmes de terror. A esta medição corresponde
a modulação do reflexo ocular de sobressalto.

Por exemplo, num caso vamos a andar pela faculdade e pregam-nos um susto, enquanto noutro
caso, acontece o mesmo, mas à noite no cemitério. É de notar que neste último caso vamos reagir
mais, pois em ambientes ameaçadores temos reações de sobressalto mais elevadas.

Aquilo que se verifica é que indivíduos com psicopatia não demonstram modelação do reflexo
ocular de sobressalto.

DÉFICES NO CONDICIONAMENTO AVERSIVO

• Lykken, 1957; Hare, 1965, 1982 (...) – Hiporeatividade em psicopatas primários.


• Ziskind et al., 1978 – Baixo condicionamento, mas conhecimento das contingências em
psicopatas.

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• Aniskiewitz, 1979 – Baixo condicionamento vicariante em psicopatas.


• Raine & Venables, 1981 – Estes autores demonstram que os indivíduos de classe alta e baixa
são diferentes na relação entre o condicionamento aversivo e a antissociabilidade.
− Os sujeitos antissociais de classe alta, demonstram baixo condicionamento aversivo,
enquanto que os indivíduos antissociais de classe baixa demonstram maior
condicionamento. Isto quer dizer que nos sujeitos de classe alta, o comportamento
antissocial é explicado pelo baixo condicionamento, ou seja, a instância socializadora dos
mesmos existe, mas estes não conseguem aprender as regras, enquanto que os indivíduos
de classe baixa que aprendem mais são mais antissociais, porque aprendem as regras
sociais do seu meio desviante.
− Os indivíduos pró-sociais de classe baixa condicionam menos, pois são indivíduos que
não aprendem as regras do meio em que estão inseridos, pois estas regras são desviantes
e disfuncionais. Neste sentido, a falta de medo predisposicional e incapacidade de
condicionar pode ser um fator de risco em sujeitos de classe alta, mas um fator de proteção
em indivíduos de classe baixa, uma vez que o sujeito de classe baixa, se tiver menos
medo, então é mais resistente ao stress ambiental e, por isso, a falta de medo nestes
ambiente pode ser um fator de proteção.

Assim, concluímos que crianças com psicopatia não são capazes de responder às punições, não
demonstram respostas condicionadas ao estímulo que inicialmente é neutro e depois se torna
condicionado e, para além disso, não aprendem quais são as respostas erradas. Assim,
neurobiologicamente há algo nestas crianças que diz que a punição não é eficaz.

Por sua vez, os défices de condicionamento só aparecem em indivíduos antissociais de classe alta
e, por isso, nestes indivíduos há alguma coisa que em termos neurobiológicos os empurra para a
antissociabilidade. Isto significa que nos indivíduos antissociais de classe baixa é o meio que os
empurra para o comportamento antissocial e, por isso, são normais do ponto de vista

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neurofisiológico. Assim, os indivíduos antissociais de classe baixa são mais condicionáveis, o que
significa que aprendem rapidamente as regras do meio.

RST (GRAY, 1975, 1987) E PSICOPATIA

Gray é um autor que começa a falar da biologia do medo e que trabalhava essencialmente para a
indústria farmacêutica no desenvolvimento de comprimidos para a ansiedade ligada ao medo. No
fundo, Gray não estudava psicopatia, mas antes os efeitos de ansiolíticos.

Uma das grandes contribuições deste autor foi a sua conceptualização a que se chama de
ortogonalidade do sistema motivacional. Assim, segundo Gray, quando olhamos para o sistema
motivacional dos mamíferos conseguimos identificar dois sistemas que são completamente
independentes entre si em termos fisiológicos, em termos de substrato neurobiológico, em termos
da sua ação e em termos de comportamento. Estes sistemas são:

1) Sistema da ativação comportamental que é responsável pela procura de recompensas. Por


exemplo, quando um rato está na sua gaiola sem fazer nada vai explorar o ambiente em
busca de oportunidades, comida ou de outros animais.
2) Sistema de inibição comportamental que é aquele que, quando surge alguma coisa no
meio faz com que o rato não receba a recompensa esperada ou receba uma punição,
fazendo com que o rato pare e perceba que algo mudou no seu meio. Neste sentido, o rato
está perante o medo. Por sua vez, o correlato psicológico nos humanos que traduz a
atividade do sistema de inibição comportamental é a ansiedade que surge quando nos
deparamos com algo que não conhecemos e de que temos medo.

Gray diz-nos que estes dois sistemas são independentes, o que significa que podemos estar num
estado de ativação muito forte, mas ao mesmo tempo podemos estar num estado de inibição muito
forte. Assim, um indivíduo pode estar num cenário em que está altamente motivado para um
determinado objetivo e, ao mesmo tempo, está altamente inibido para realizar esse objetivo, sendo
um exemplo disto a pedofilia, uma vez que os pedófilos, muitas vezes, sentem repulsa e ansiedade
sobre o seu comportamento, mas ao mesmo tempo estão motivados para levar a cabo esse seu
comportamento; outro exemplo disto são os comportamentos aditivos, como fumar. Deste modo,
percebemos que há momentos de aproximação e momentos de fuga que são controlados por dois
sistemas diferentes e que nos permitem perceber porque é que as pessoas têm determinados
comportamentos destrutivos e porque sentem ansiedade ao fazê-lo.

Por sua vez, Gray com o seu trabalho encontrou um conjunto de descobertas:

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1. Ao administrar-se ansiolíticos poderia fazer-se com que o sistema inibidor


comportamental diminuísse.
2. A ansiedade, o medo ou a atividade do sistema inibidor comportamental é altamente
hereditária, sendo que para demonstrar esta afirmação, o autor criou linhagens de ratos
com muito medo e com pouco medo ao cruzar essas linhagens.
3. Ao administrar-se ansiolíticos aos ratos que têm muito medo eles passam a comportar-se
como os que não têm medo e, por isso, há qualquer coisa no cérebro que controla a
questão da inibição comportamental.
4. Para conseguir chegar a todas estas descobertas, o autor começou a retirar partes do
cérebro, tendo verificado que ao retirar o sistema septo-hipocampal os ratos medrosos
tornavam-se ratos sem medo nenhum. Assim, Gary testa a hipótese de que a sede do
sistema inibidor comportamental está no sistema septo-hipocampal através da colocação
de microeléctrodos no hipocampo para medir a sua atividade nos ratos, tendo verificado
que quando o rato parava o hipocampo estava a funcionar numa frequência muito
específica (7,7 hz) e, por isso, nessa frequência o animal inibia qualquer tipo de
comportamento.

Mais tarde, um autor chamado David Fowles recupera o que Gray tinha escrito e diz que na
verdade podemos aplicar o modelo de Gray à psicopatia, tendo Fowles batizado este modelo como
RTS (Teoria da Sensibilidade ao Reforço). Assim, segundo Fowles, conseguimos conceptualizar
a psicopatia e os seus diferentes tipos recorrendo à ideia de que há dois sistemas motivacionais e
as pessoas variam nesses sistemas.

Deste modo, os indivíduos podem apresentar défices nos sistemas motivacionais e assim:

• Os psicopatas primários têm um sistema de ativação comportamental normal e, por isso,


identificam recompensas, mas têm um sistema de inibição comportamental deficitário, o
que significa que há qualquer coisa no sistema septo-hipocampal que faz com que estes
indivíduos respondam menos à punição.
• Os psicopatas secundários são altamente antissociais, mas são ansiosos. Neste sentido,
estes têm um sistema de inibição comportamental normal e, por isso, sentem tanta
ansiedade como os outros, mas têm um sistema ativador comportamental hiperativo e,
por isso, respondem mais do que é normal à recompensa, ou seja, se veem qualquer coisa
que querem não conseguem resistir, não sendo capazes de não se aproximar. Um exemplo
disto é a pedofilia.

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EVIDÊNCIAS EXPERIMENTAIS DE APOIO AOS MODELOS DE BAIXO MEDO

• Williamson et al. (1991); Kiehl et al. (1999) – Ausência de diferenciação ERP e de tempo de
reação em tarefas de discriminação e decisão lexical a palavras negativas vs. positivas e
abstratas vs. concretas.
• Patrick et al. (1993); Levenston et al. (2000); Pastor et al. (2003) – menor potenciação do
reflexo ocular de defesa no contexto de primes aversivos.
• Patrick et al. (1994) – menor reatividade eletrodérmica à imaginação de cenas de medo ou
desagradáveis.
• Marsh e Blair (2008) – défices no reconhecimento de expressões faciais de medo e tristeza
Estes autores, no seu estudo, concluem que uma das consequências dos défices
neurobiológicos nos indivíduos com níveis extremos de psicopatia é não serem capazes de
reconhecer expressões faciais de medo e tristeza. Contudo, estes autores fizeram um estudo
com indivíduos antissociais reincidentes, nomeadamente reclusos e vão compará-los com os
indivíduos controlos. No final, os autores consideram que os resultados também se aplicam a
indivíduos com psicopatia, contudo este resultado é duvidoso.

PSICOPATIA

MODELOS CLÁSSICOS DA PSICOPATIA

• Ênfase na distribuição emocional:


− Critérios clínicos de Cleckley (1941);
− Modelo de Baixo Medo (Lykken, 1957);
− BIS/BAS (Gray, 1970).

1) Violence Inhibition Mechanism (Blair, 1995);


2) Integrated Emotion System (Blair, 2005);
3) Modulação de resposta (Newman, 1998).

EVOLUÇÕES DO MODELO DE BAIXO MEDO

Blair é responsável por uma das evoluções dos modelos de baixo medo. Contudo, quando falamos
no modelo de baixo medo temos de ter em conta que este se divide em modelos afetivos e
emocionais, por um lado, e em modelos cognitivos, por outro lado. Relativamente aos modelos
emocionais, o responsável é Blair, sendo que dentro destes modelos podemos distinguir dois, (1)

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o mecanismo da inibição da violência e (2) o sistema integrado de emoção. Já nos modelos


cognitivos temos o (3) RSM (Response Set Modulation).

1) Violence Inhibition Mechanism (Blair, 1995)

Este modelo é no fundo uma sofisticação do modelo de baixo medo.

Desde logo, Blair diz que parece ser duvidoso que a punição seja a técnica mais eficaz da
socialização, apesar de Lykken e Eysenck partirem do pressuposto de que a socialização se faz
pela punição. Assim, Blair diz que os métodos mais eficazes para promover a pró-sociabilidade
na maior parte das crianças são as técnicas indutivas e não as técnicas punitivas. As técnicas
indutivas consistem em chamar a atenção das crianças para as consequências do seu
comportamento nos outros, sendo que isto funciona muito melhor do que a punição porque esta
última normalmente cria crianças agressivas. No entanto, segundo Blair, quando as crianças têm
traços de frieza emocional, as técnicas indutivas não resultam mesmo.

Assim, Blair parte da ideia de que há um subsistema de inibição comportamental que é um sistema
de inibição da violência. Deste modo, o autor refere que existem certas pistas que quando são
percebidas ativam mecanismos de inibição comportamental, sendo essas pistas faces ou
vocalizações de medo ou tristeza. Neste sentido, quando estas pistas são percebidas, isto leva a
que o indivíduo pare o seu comportamento porque percebe que esse está a causar sofrimento ao
outro, ativando assim o sistema de inibição comportamental. Deste modo, as pistas de sofrimento
no outro normalmente aparecem quando se faz uma transgressão moral, sendo que quando essas
pistas surgem o indivíduo começa a estabelecer associações entre os atos que provocam
sofrimento ao outro e a exibição de faces de sofrimento pelos outros. Assim,
desenvolvimentalmente aprendemos a inibir comportamentos que causam este tipo de
consequências.

Contudo, Blair verificou que crianças com psicopatia não são capazes de reconhecer faces ou
vocalizações de medo ou tristeza, uma vez que o substrato neurobiológico deste reconhecimento
é o mesmo que é responsável pela associação do condicionamento aversivo. Deste modo, estas
crianças não têm o que é necessário para fazer as associações entre o seu comportamento
transgressivo e as faces e vocalizações de medo e tristeza exibidos pelos outros e, por isso, o
mecanismo de inibição de violência não funciona em indivíduos com psicopatia.

Para explicar este seu achado, Blair distinguiu as transgressões morais das transgressões
convencionais. As transgressões morais são transgressões que são vistas como universalmente
erradas, graves e não dependentes de autoridade, como por exemplo matar uma pessoa. Assim,

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estas transgressões constituem uma regra exterior a nós que não é convencional. Por outro lado,
as transgressões convencionais é por exemplo conduzir pelo lado direito da rua porque há uma
convenção em Portugal que assim o determinou.

Tendo por base esta distinção, Blair diz que as regras morais, relacionadas com as transgressões
morais, são as que estão desenvolvimentalmente associadas ao sofrimento nos outros e, por isso,
é que elas assumem um caráter sobrenatural, fazendo com que nós saibamos que não podemos
violar essas normas. Assim, o que acontece com os indivíduos com psicopatia é que não são
capazes de distinguir entre transgressões e normas morais e convencionais, ao contrário dos
restantes indivíduos ditos normais que sabem que dar um tiro noutra pessoa é errado,
independentemente de haver uma regra que o permita.

O autor chegou a esta conclusão ao fazer um estudo em que comparou indivíduos com
comportamentos antissociais que estavam na cadeia e indivíduos controlo, pedindo para eles
apelidarem um conjunto de transgressões como morais ou convencionais. O autor concluiu que
os indivíduos que estavam na cadeia julgam todas as normas e regras como morais porque não
têm mecanismos que permitam reconhecer expressões faciais de medo e tristeza, assim como não
têm mecanismos que lhes permitam distinguir transgressões morais de convencionais e, por isso,
respondem de acordo com aquilo que é desejável socialmente. Assim, para ter dados mais fiáveis,
Blair fez o mesmo teste com crianças com traços de frieza emocional e verificou que estas julgam
todas as transgressões como convencionais porque estas não se encontram na cadeia.

Mais tarde, num estudo desenvolvido verificou-se que indivíduos com psicopatia não demonstram
resposta eletrodérmica da pele a faces ou vocalizações de medo ou tristeza.

Por sua vez, há autores que discutem porque é que as nossas expressões faciais são como são,
sendo que estudos revelam que as emoções são elementos de preparação para a ação e, por isso,
a emoção é uma reposta fisiológica a determinados estímulos evolutivos. Contudo, expressões de
nojo e o medo podem ter outras funções. Desde logo, estas são expressões contrárias uma da outra
e, por isso, quando fazemos uma expressão de nojo estamos numa situação evolutiva em que
estamos a rejeitar estímulos ambientais, ou seja, estamos a rejeitar informação porque,
normalmente, fazemos uma expressão que implica semicerrar os olhos, e, contrariamente quando
fazemos uma expressão de medo estamos a captar mais estímulos periféricos do ambiente porque
abrimos mais os olhos e ficamos mais alerta. Já Marsh (2005) diz que quando fazemos uma face
de medo estamos a aumentar a semelhança da nossa face à face de um bebé, isto porque os seres
humanos estão evolutivamente programados para cuidar de bebés e assim estamos de certo modo
a protegermo-nos.

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2) Integrated Emotion System (Blair, 2005)

Em 2005, Blair complexifica o modelo anterior, sendo este uma elaboração neuro-cognitiva do
anterior. Aqui Blair especifica porque é que as crianças com tendências psicopáticas não
reconhecem pistas de tristeza e de medo. Já em 1994, Patrick tinha referido isto.

Nesta altura, começa a perceber-se o papel da amígdala e, por isso, em 2005, Blair publica um
artigo muito importante em que diz que na verdade, os indivíduos com psicopatia têm
hereditariamente uma disfunção na amígdala, sendo a amígdala uma estrutura subcortical
responsável pelo processamento da informação, avaliação dos estímulos positivos e negativos e
preparação do corpo a esses estímulos. Deste modo, a amígdala é muito importante na deteção de
expressões faciais de medo, processamento e resposta a expressões de medo e no estabelecimento
de aprendizagens por associação.

Neste sentido, nos psicopatas a amígdala tem menor volume e menor funcionamento em tarefas
emocionais. Assim, segundo Blair, as crianças que têm tendências psicopáticas apresentam uma
predisposição genética para baixo medo traço, para não reconhecer expressões faciais nos outros
e não conseguir aprender por associação porque têm uma disfunção na amígdala.

Esta disfunção do funcionamento amigdalino está relacionada com défices na aprendizagem


emocional que resulta em défices no evitamento passivo e reconhecimento do medo, disfunção
emocional (PCL1) e se houver uma aprendizagem e história de atos antissociais, isso pode
também resultar em agressão instrumental e atos antissociais (PCL2).

A amígdala está relacionada com representações de estímulos condicionados (associado com


respostas emocionais) e, por sua vez, o córtex pré-frontal vetro medial está relacionado com a
computação das expectativas relativas ao sofrimento dos outros. Assim, a psicopatia resulta da
disfunção destas estruturas.

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Blair, baseado em estudos de indivíduos na prisão com psicopatia conclui que há uma lesão na
amígdala e no córtex pré-frontal. Assim, Blair questiona-se de onde podem surgir os défices no
córtex pré-frontal na psicopatia, apresentando diferentes hipóteses:

1) Ou há um fator comum ao desenvolvimento da amígdala e do córtex pré-frontal (o que é


pouco provável porque os tempos maturacionais da amígdala e do córtex são muito
diferentes), ou seja, a mesma predisposição genética que está relacionada com défices
amigdalinos pode também estar relacionado com défices no córtex pré-frontal;
2) Ou o facto de os indivíduos com psicopatia terem maior tendência para comportamentos
antissociais tenham estilos de vida mais arriscados tendo lesões no córtex pré-frontal (ex.
consumo de álcool e drogas em idades precoces estão ligadas a lesões no córtex pré-
frontal).
3) O córtex pré-frontal não tem nada a ver com a amígdala.

Blair nunca considera que as lesões no córtex pré-frontal podem ser um artefacto experimental.

CÉREBRO, NORMA E TRANSGRESSÃO

Evidências abundantes para défices estruturais e funcionais na amígdala:

• Tiihonen et al., 2000; Yang et al., 2009; Vieira, Almeida et al., 2015 – MRI.
• Birbaumaer et al., 2005; Gordon et al., 2004; Kihl et al., 2001 – fMRI.
• Jones et al., 2009; Marsh et al., 2008 – fMRI em crianças.
• Flor et al., 2002; Lykken, 1957 – condicionamento aversivo.
• Newman & Kosson, 1986; Lykken, 1957 – evitamento passivo.
• Levenson et al., 2000; Patrick et al., 1993 – modulação do reflexo de defesa.

Défices no reconhecimento de medo e tristeza

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3) Modelo de Modulação de Resposta (Newman, 1998)

Este modelo refere que a disfunção da psicopatia não tem a ver com a emoção, mas antes com a
atenção. Assim, na psicopatia o que está a acontecer é que estes indivíduos têm problemas
atencionais.

Os modelos cognitivos dizem que a psicopatia não tem a ver com a emoção, mas com a atenção.
Por exemplo, um rato numa gaiola que não está a fazer nada começa a procurar oportunidades
como comida, mas se de repente acontecer alguma coisa, como acende-se uma luz, o rato pára o
que está a fazer e verifica o que se está a passar no ambiente ao seu redor, verificando-se assim
uma modulação de resposta. Contudo, os indivíduos com psicopatia não são capazes de parar,
refletir e mudar a sua resposta quando surge uma informação periférica, sendo que, na maior parte
das vezes, esta informação periférica é informação emocional. Deste modo, a perturbação central
da psicopatia prende-se com uma incapacidade para modular o set de resposta de acordo com as
pistas ambientais, havendo uma dificuldade na acomodação de informação periférica
independentemente da informação periférica ser emocional ou não.

A modulação de resposta está relacionada com a capacidade que eu tenho de estar dirigido a um
objetivo, mas quando o contexto muda eu tenho a capacidade de modular a minha resposta a esse
novo contexto. Assim, a modulação de resposta é a capacidade para eu suspender a atividade que
eu estou a fazer, em reação a um evento negativo, novo ou inesperado, recorrendo para isso à
integração da informação contextual periférica.

Este modelo diz-nos o que está a acontecer no evitamento passivo, referindo que ao realizar uma
determinada tarefa, como o jogo do labirinto em que o objetivo é chegar ao final do labirinto e o
objetivo periférico é evitar levar um choque. Assim, as pessoas perante a oportunidade de obter
uma recompensa adotam um response set de aproximação. Contudo, quando ocorre um
acontecimento inesperado, por exemplo uma punição, há um aumento do arousal não específico
e, por isso, as pessoas param e reavaliam a situação (retrospective reflexion), aprendendo assim
as pistas que estão associadas à punição e necessárias ao evitamento passivo. No entanto, os
psicopatas perante um acontecimento inesperado o que ocorre é a facilitação do comportamento
em curso, sem processamento do feedback da resposta, ou seja, os psicopatas ficam excitados
com a punição investindo mais no comportamento porque têm um comportamento dirigido aos
objetivos, ou seja, chegar ao fim do labirinto.

No domínio do processamento de expressões faciais de emoção, os indivíduos com psicopatia


podem não apresentar diferenças no processamento, mas vão ser diferentes dos controlos em
autorrelato.

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Contudo, em determinadas condições os psicopatas primários demonstram performances ao nível


de controlos:

1) Avaliações de intensidade e violência emocional ou ativação emocional auto-reportada


(e.g. Patrick et al., 1993; Patrick et al. 1994; Glass & Newman, 2006). Estes dois estudos
mostram que as repostas elétricas da pele dos psicopatas em resposta às imagens
utilizadas são iguais às dos controlos. Isto pode ser explicado pelo facto de que a
informação, neste caso, as imagens utilizadas, é periférica, sendo que a tarefa principal
dos psicopatas se centra em focar-se no choque.
2) Evitamento passivo se o set de resposta é apenas punição (Newman & Kosson, 1986) ou
feedback é apresentado durante um período estendido (Newman et al., 1987) – Este autor
construiu dois paradigmas. Um primeiro paradigma consistia em demonstrar números
complexos aos indivíduos, sendo que estes tinham de aprender a que determinados
números tinham de responder. Assim, se os indivíduos conseguissem responder a 1, 2, 3
ganhavam pontos, se conseguissem responder a 4, 5, 6 não acontecia nada e, por fim, se
conseguissem responder a 7, 8, 9 perdiam pontos. Face a isto, o autor concluiu que os
psicopatas aprendem tão bem como controlos a responder a 1, 2, 3, mas não aprendem a
não responder a 7, 8, 9. Newman explica isto dizendo que o objetivo central dos
psicopatas é ser recompensando e perceber como responder aos números que lhes
permitem ganhar pontos, sendo que não responder a números que lhes fariam perdem
pontos é apenas um objetivo periférico. Um segundo paradigma consistia em que os
indivíduos que respondessem a 1, 2, 3 perdiam pontos, bem como se respondessem a 7,
8, 9 também perdiam pontos. Assim, como o objetivo é evitar perder pontos, percebe-se
que os psicopatas aprendem tão bem a não responder a esses números como os controlos.
Logo, este autor concluiu que os psicopatas não têm défices de evitamento passivo, mas
défices em integrar informação periférica.
3) Ativação autonómica a estímulos desagradáveis – condutância elétrica da pele, por
exemplo (e.g. Patrick et al., 1993, Levenston et al., 2000).

SUPORTE AO MODELO RSM

Newman apresentou um conjunto de letras aos indivíduos, estando eles a ver, por exemplo, um
(A) preto ou um (A) vermelho ou um (a) preto ou um (a) vermelho. Os indivíduos tinham de
identificar se a letra era maiúscula ou minúscula ou identificar se a letra está escrita a preto ou a
vermelho. A seguir, a probabilidade do choque foi emparelhada com o facto de a letra ser
maiúscula ou minúscula ou preta ou vermelha. Assim, quando apareciam, por exemplo, letras
maiúsculas levavam um choque, ou seja, a tarefa que estão a fazer (identificar as letras

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Ciências Forenses II | Margarida Oliveira e Tânia Soares

maiúsculas) é congruente com levarem um choque e, por isso, quando aparece uma maiúscula o
corpo prepara-se, ao fim de algumas repetições, para levar um choque. Na condição incongruente
o indivíduo leva um choque relacionado com a cor da letra. Assim, a condição incongruente está
focada numa coisa alternativa que não é o que assinala o choque e, nesta condição, os psicopatas
não apresentam modulação de resposta. No entanto, na condição congruente os psicopatas
modulam a sua resposta porque se está a forçar o set de resposta e, por isso, os indivíduos
psicopatas não têm uma disfunção emocional, mas atencional, não estando isto relacionado com
a amígdala.

Défices no processamento de pistas periféricas neutras (Newman et al., 1997)

Aqui isto não é emocional. O défice tem de aparecer com estímulos que não são emocionais, então
Newman em 1997 fez:

O objetivo era questionar os participantes se a primeira imagem se relaciona com a segunda, sendo
a resposta não. Aqui o estímulo rain é periférico e causa interferência. Assim, os controlos
demoram mais tempo a dizer que não no primeiro par de imagens do que os indivíduos com
psicopatia. Neste sentido, não há interferência da informação periférica mesmo que essa
informação seja neutra nos psicopatas.

Os modelos de Blair e de Newman são dois modelos que propõem que apenas haja uma causa
para a psicopatia, mas se calhar quando olhamos para as populações nos quais são feitos os
estudos do Blair e do Newman vemos que estas são diferentes. Assim, vemos que as amostras de
Blair são pouco externalizantes, indivíduos muito pouco ansiosos e impulsivos, contrariamente
às amostras de Newman que são muito externalizantes, como assassinos, psicopatias F2 e

29
Ciências Forenses II | Margarida Oliveira e Tânia Soares

indivíduos muito impulsivos. Neste sentido, na verdade, os modelos estão a explicar duas coisas
diferentes, o de Blair o baixo medo e o de Newman a externalização.

NEUROIMAGIOLOGIA ESTRUTURAL

• 11% de redução no volume do córtex pré-frontal em ofensores violentos com elevado grau
de psicopatia (Raineetal, 2000).
• Aumento do volume do corpo caloso e corona radiata relacionado com grau de psicopatia e
baixa reatividade autonómica ao stress (Raineetal, 2003).
• O volume reduzido no córtex pré-frontal, bem como reduções no hipocampo anterior
caracteriza apenas psicopatas condenados (Yangetal, 2005).
• Redução de volume no hipocampo posterior relacionado com índice de psicopatia em sujeitos
alcoólicos com ASPD (Laaksoetal, 2001).
• Redução do volume de massa cinzenta ao nível do sulco temporal superior (Mulleretal, 2007).

Nestes estudos, quando comparo os dois grupos coloco o meu poder estatístico todo nessas duas
regiões de interesse. Isto porque, quando comparo dois itens posso utilizar o meu nível de
significância todo nessa região. Contudo, quando comparo 10 itens em cada uma delas há 5% de
probabilidade de cometer um erro Tipo I (probabilidade de rejeitar a hipótese nula quando esta é
verdadeira, ou seja, digo que há diferenças quando não há). Logo, quando comparo muitas coisas
aumenta a probabilidade de cometer um erro Tipo I.

Deste modo, na neuroimagiologia tenho de dizer qual é a parte do cérebro que vou comparar,
porque se comparar vários locais posso cometer um erro tipo I e, por isso, é que se defende que
na neuroimagiologia se realize uma análise de regiões de interesse. Logo, mesmo que apareçam
diferenças noutras partes do cérebro, devem-se ignorar as mesmas.

Portanto, os estudos de neuroimagem são estudos de regiões de interesse, ou seja, procura-se


perceber se os indivíduos com alta psicopatia são diferentes no córtex pré-frontal quando
comparados com indivíduos com baixa psicopatia.

Neste sentido, para se poder comparar várias dimensões no cérebro, desenvolveram-se diversas
técnicas, nomeadamente a VDM – morfometria baseada em fósseis. Esta técnica consiste em
projetar diversos cérebros, projetar o cérebro “normal” (MNI – modelo do instituto neurológico
de Montreal) e depois comparar os cérebros projetados no “normal”. Assim, o MNI é um modelo
de um cérebro com vários pixels, que serve para comparar esses pixels nos MNI do grupo de
controlo e experimental, de modo a aferir as diferenças do mesmo para perceber onde cada grupo

30
Ciências Forenses II | Margarida Oliveira e Tânia Soares

tem mais densidade no voxer (pixel tridimensional). Logo, a VDM é um método sofisticado para
correção do erro tipo I, ou seja, só diz que há diferença naquela região se houver vários voxers
que diferem nessa região com comparação ao outro MNI.

OLIVEIRA-SOUZA ET AL., 2008

Os cientistas, nesse estudo, quando comparam grupos com ou sem psicopatia olharam para áreas
com menor densidade de neurónios em algumas zonas do cérebro (a matéria cinzenta são os
corpos dos neurónios e a matéria branca são os axónios ou feixes).

Assim, este estudo evidencia reduções de concentração de matéria cinzenta no:

• córtex temporal anterior esquerdo;

• córtex orbito-frontal medial esquerdo;

• córtex orbito-frontal lateral e posterior aparece todo


alterado pela psicopatia;

• córtex frontopolar;

• suco temporal superior é uma área fundamental de


cognição social, ou seja, no processo de olhar para o outro
e inferir que tem estado mental diferente dos meus – empatia. Isso coloca a psicopatia
numa zona muito bordeline com o autismo.

• insula média anterior.

Quando comparamos grupos pode haver erros. Por exemplo, neste estudo não aparecem
diferenças na amígdala, isso porque ela é difícil de registar e varia muito inter-individualmente.
Contudo, quando há menor matéria branca em crianças psicopáticas, quer dizer que a amígdala
pode ter a mesma densidade, mas há menos
ligações/comunicação. Além disso, quando
olhamos para a matéria cinzenta vemos
algumas áreas que aparecem com poder
estatístico que permite dizer que,
provavelmente é uma tendência, não é só
nessa área.

Comparando grupos com baixo e alto score


da PCL, quando mais PCL mais matéria

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cinzenta. Mas quando faço isso com o Fator 1 da PCL (afetivo/interpessoal) aparece o córtex
orbito frontal medial por baixo do corpo caloso (matéria branca) e o sub temporal superior e o
córtex frontopolar.

NEUROIMAGIOLOGIA ESTRUTURAL

O Córtex Orbito Frontal Ventromedial está relacionado com a:

• Regulação da conduta social. Por isso, pessoas com lesões no córtex são mais
problemáticas a nível comportamental.
• Controlo comportamental (e.g. tarefas Go/NoGo). Por isso, pessoas com lesões no córtex
têm o seu controlo comportamental problematizado.
• Vinculação e cooperação intersocial.
• Resposta eletrodérmica. Por isso, pessoas com lesões no córtex apresentam menos
capacidade de produzir essas respostas.
• Tomada de decisão em tarefas de gambling. A tarefa mais famosa de gambling é a de
Iowa Ganbling Task que consiste numa tarefa com 4 baralhos e temos de dizer de qual
dos baralhos queremos tirar cartas, sendo que no baralho A e B temos baixas
recompensas, mas baixas punições (perdemos menos pontos, apesar dos ganhos serem
baixos, mas acaba por ser positivo), enquanto os restantes baralhos são de altíssima
recompensa e altíssima punição e no fim acabam sem pontos. Neste sentido, Becker
demonstrou que depois de cerca 20 cartas, ainda antes das pessoas perceberem muito bem
as regras, – marcador somático – o corpo começa a reagir, ou seja, as pessoas depois de
20 ensaios quando vão com a mão para os baralhos arriscados aparece uma resposta
elétrica da pele e ao fim de mais alguns ensaios as pessoas deixam de jogar esses baralhos.
Contudo, as pessoas que tenham lesões no pré-frontal, não têm resposta eletrodérmica da
pele e não param de jogar esses baralhos, ou seja, elas são altamente movidas pela
recompensa e não conseguem integrar a probabilidade de punição.

O Córtex Frontopolar está relacionado com:


• Branching que consiste na capacidade que tenho de partir para uma atividade complexa
em passos até chegar ao objetivo final. Por exemplo, se quiser apertar os cordões dos
sapatos tenho de fazer um conjunto de procedimentos antes de fazer outros
procedimentos, sendo que o objetivo é apertar os sapatos. Contudo, a degeneração
neuropsicológica faz com que os indivíduos não saibam qual é a ordem, ou seja, apesar
de saberem o objetivo, perdem a ordem.

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• Representação de objetivos e valores sociais a longo prazo. Por exemplo, é saber que é
preciso estudar para tirar boas notas e, além disso, ter de levar este objetivo a longo prazo,
de modo a tirar boas notas e ser um bom aluno.
• Inibição de respostas prepotentes em favor de recompensas a longo prazo, ou seja, ser
capaz de pensar a longo prazo, inibir o que posso ter agora, mas aguardar e ter uma
recompensa a longo prazo.

O Córtex Temporal Anterior está relacionado com:


• Processamento de som, ao nível físico.
• Representação de conhecimento conceptual social. Isto tem haver com o conhecimento
das palavras, objetos, ligação entre uma coisa e aquilo a que corresponde a nível temporal.
Porém, as pessoas com lesões neste córtex temporal, nomeadamente esquerdo, perdem o
sentido das palavras e o significado.

O Sulco Temporal Superior está relacionado com:

• Inferência de intencionalidade e agência (TOM). Assim, o sulco temporal superior está


relacionado com o conhecimento concetual acerca do estado mental do outro, ou seja, a
teoria da mente é a capacidade que temos de saber que os outros têm estados mentais que
são diferentes dos nossos e que têm conhecimentos e crenças que são diferentes das
nossas. Assim, as crianças pequenas não têm theory of mind, isto é, não conseguem
perceber que o que sabem não é o que as outras pessoas sabem e vice-versa. Neste sentido,
os indivíduos com autismo têm muitas dificuldades em paradigmas com a teoria da
mente.

A Insula Anterior está relacionada com:

• Integração de processos viscerais e associativos de ordem elevada com estados corporais.


Assim, isto está relacionado com o sentimento de nojo, seja devido ao cheiro ou a algo
social. Neste sentido, a insula aparece quando vejo os outros a sofrer, especialmente entes
queridos, transformando coisas corporais em estados cognitivos superiores, pois, por
exemplo, permite passar do nojo físico para o social.

Na psicopatia temos disfunções relacionadas com o controlo comportamental – exteriorização –


e com o pensamento concetual – inferência de agência – que é o conjunto de zonas que parecem
ser responsáveis pelo conhecimento social.

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NEUROPSICOLOGIA

A avaliação neuropsicológica está a entrar na questão da avaliação psicológica forense porque há


provas que se forem aplicadas podem dar uma evidência grande da falta de controlo
comportamental. Isso importa, por exemplo, nos casos onde se julga a inimputabilidade nos EUA,
mas também importa para os seguros no sentido se de fazer uma análise de responsabilidade.

A neuropsicologia é prima da neurociência cognitiva, sendo que esta última é uma área que tenta
mapear os processos cognitivos do cérebro, utilizando uma geologia (ressonância
eletromagnética, tonografia). Assim, classicamente, a neuropsicologia tenta fazer a mesma coisa,
mas através de casos de lesão, nomeadamente tentando compreender em que área se encontra essa
lesão e vendo os processos que estão comprometidos.

Neste sentido, enquanto que a neurociência cognitiva é o estudo e a quantificação de processos


cognitivos, podendo ser realizada através da aplicação de escalas estandardizadas para perceber e
quantificar a função (ex: memória, capacidade de inibição de resposta...), na neuropsicologia
clínica, recorre-se aos princípios da clínica (entrevista semiestruturada ou não estruturada) e a
exames psicométricos (escalas, provas estandardizadas) e, através disso, tenta-se perceber qual é
a possível disfunção cerebral de determinada pessoa, o grau de incapacidade da mesma, entre
outros.

HISTÓRIA DA NEUROPSICOLOGIA

A história da neuropsicologia é um embate de perspetivas diferentes, nomeadamente o embate


entre o localizacionismo e o holismo.

Localizacionismo

Os autores do localizacionismo, como Paul Broca, Franx e Gall, defendem que é possível
identificar zonas cerebrais responsáveis por determinadas funções. Por exemplo, Paul Broca
apresentou o primeiro caso onde há, provavelmente, uma localização explícita de uma lesão
cerebral para um problema comportamental. Por sua vez, Tantan, que tinha afazia motora,
conseguia compreender as palavras, mas não conseguia produzir discurso, só dizia tan tan. Assim,
após a sua morte, verificou-se que este tinha uma lesão no cérebro numa área que se chama broca
(terceira frontal esquerda). Logo, percebeu-se que nos casos de problemas de vocalizar, os
indivíduos têm uma lesão na área da broca.

34
Ciências Forenses II | Margarida Oliveira e Tânia Soares

Ao mesmo tempo, Carl Wernicke era capaz de produzir discurso, mas perdeu a relação entre o
significado e o significante (entre a palavra e o que a palavra significa – incapaz de compreender
o discurso). Assim, chegou-se à conclusão de que este tinha uma afasia sensorial ou wernicke,
sendo que doentes com essa afasia têm uma lesão na área de wernicke que é temporal,
demonstrando défices na compreensão semântica auditiva.

Holismo

Holo significa que todo o cérebro contribui para a função ou equipotencialidade, ou seja, todo o
cérebro tem o potencial de produzir informação cognitiva.

Assim, os autores destas escola eram essencialmente reticolaristas e, por isso, defendiam que o
cérebro era todo ele um órgão interligado, sendo que isso era a passagem mais fácil entre o que
era o corpo físico e a alma, ou seja, o reticulo era onde a alma se projeta (cérebro). Logo, os
défices observados nas lesões psicológicas não se relacionam com uma área específica, mas sim
com a quantidade do cérebro que perdem, quantidade essa que está ligada com a perda da função.

Atualmente, sabemos que ambos têm razão, pois as funções cerebrais dependem de redes, então
posso ter uma lesão no feixo longitudinal (liga vertebral e broca), mas também dependem da
quantidade da função que se perder, então posso ter uma afasia.

Localizacionismo Holismo
Axiomas Cada função é regulada por uma área específica Todas as funções dependem do funcionamento
cerebral global
Aspetos 1. Identifica áreas envolvidas na regulação de 1. Funcionamento cerebral unitário, ou seja, o
positivos funções mentais de alto nível. Por exemplo, holismo entende que o cérebro funciona como um
em relação aos indivíduos incapazes de todo – uma rede.
produzir palavras tentam relacionar défices
funcionais e défices estruturais. 2. Implicação de amplas áreas na regulação das
funções superiores. Ou seja, quanto mais
2. Afasta-se da tese dualista ao dizer que todas desenvolvida for uma função mais depende de
as funções dependem do funcionamento geral muitas estruturas e das ligações entre estas, ou
do cérebro e, por isso, entendem que não seja, funções complexas dependem de redes
existem células separadas no cérebro, mas complexas.
antes um órgão da função.

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Ciências Forenses II | Margarida Oliveira e Tânia Soares

Estes modelos reticularistas eram modelos 3. Noção de organização funcional diferenciada em


dualistas que tinham na sua base a crença de níveis hierárquicos. Ou seja, entendem que a
que existem duas coisas diferentes: o corpo e mesma função é controlada por níveis diferentes,
a alma, sendo o cérebro a interface entre estes. sendo que quanto maior a função, maior o nível de
No entanto, os localizacionistas afastam-se do controlo e mais complexidade há em torno da
holismo por dizerem que a mente está função.
localizada na matéria e, por isso, a mente é um Assim, quando vemos um objeto, a informação
conjunto de faculdades localizadas em viaja pelo nervo ótico, seguida do tálamo e depois
determinadas regiões cerebrais. é projetada no córtex visual, contudo se um
indivíduo tiver uma lesão no córtex visual
3. Estabelece as noções de lateralização e primário tem a condição de cegueira psíquica e,
dominância hemisférica. O localizacionismo por isso, fica cego. No entanto, os estudos
entende que os diferentes hemisférios, demonstraram que a informação visual pode viajar
especialmente para as funções superiores, têm por outras vias subcorticais. Neste sentido, a
diferentes funções. Assim, para as pessoas informação viaja pelo nervo ótico, passa para o
que têm uma dominância do hemisfério tálamo e depois é projetada pela amígdala. Deste
esquerdo e, portanto, que são destras, têm modo, o indivíduo com cegueira psíquica não tem
uma maior dominância em termos de noção do que está a ver, mas se lhe mostrarmos
linguagem. Isto porque o hemisfério esquerdo uma aranha, apesar de não a ver, consegue dizer
é responsável pela linguagem. que aquele objeto é desagradável. Por sua vez, se
Deste modo, o campo visual direito é lhe mostrarmos uma imagem agradável como
processado no hemisfério esquerdo e o campo comida o indivíduo diz que aquele é um objeto
visual esquerdo é processado pelo hemisfério agradável. Isto acontece porque a amígdala está
direito. relacionada com as emoções. Para além disso, os
Se estivermos perante uma pessoa com uma indivíduos produzem mesmo respostas elétricas
uma lesão no corpo caloso, esta não apresenta da pele concordantes com o estímulo que estão a
comunicação entre os hemisférios e, por isso, ver.
se isolarmos os campos visuais e Assim, na visão conseguimos identificar dois tipos
apresentarmos palavras escritas no campo de vias: as que dão acesso à consciência
visual direito, esta é capaz de ler, mas se (superiores) e as que não dão acesso à consciência,
apresentarmos as palavras ao lado esquerdo, a por exemplo sabemos que o sistema visual das
pessoa não será capaz de ler porque o aves não tem acesso à consciência e, por isso, estas
hemisfério direito não compreende só compreendem se estão perante um estímulo
linguagem. Por sua vez, pessoas com lesões positivo ou negativo, não tendo noção do que
ao nível do hemisfério direito deixam de veem, tal como acontece na cegueira psíquica →
compreender a entoação das palavras, mas Noção de hierarquização das funções.

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Ciências Forenses II | Margarida Oliveira e Tânia Soares

percebem o seu significado. Apesar do 4. Infere a existência de áreas associativas. As áreas


hemisfério direito não conseguir ler, ele associativas são áreas comuns a todos os sentidos
consegue compreender imagens. e, por isso, não é primaria nem secundária. Uma
área primária na visão reconhece coisas como
orientação, cor e contraste. Uma área primária na
audição reconhece coisas como o tom e o ritmo.
No entanto, estas áreas primárias não juntam
sentidos. Assim, uma área de associação
reconhece a cor, a forma, o cheiro, o som e, com
essa informação, associa a um objeto e planeia. Ou
seja, é uma área multimodal que congrega
diferentes tipos de sentidos para formar percetos e
fazer planos sobre estes.
Aspetos 1. Reducionismo topográfico: funções 1. Reforça a hipótese dualista
negativos importantes em áreas pequenas. No entanto,
podemos localizar uma função numa 2. Apoia a noção errada do contributo indiferenciado
determinada área, por exemplo podemos de diferentes áreas para a regulação de funções
localizar o sentido moral no córtex pré-frontal mentais.
ventromedial.

2. Reforça a ideia do inatismo das funções


mentais. Ou seja, o localizacionismo entende
que as funções mentais, mesmo as superiores,
existem na espécie humana por efeito da
seleção natural e, por isso, nascemos com o
potencial para desenvolvermos um sentido
moral e, por isso, é inato detetarmos o
sofrimento nos outros. Contudo, esta função
não é inata, mas antes cultural.

Escolas Hierárquicas

Existem, ainda, as escolas hierárquicas, que surgem entre o Localizacionismo e o Holismo.


Assim, estas escolas defendem que as funções psicológicas têm diferentes níveis de controlo do
cérebro. Por exemplo, o comportamento de aproximação básico pode ser controlado ao nível da
formação reticular.

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Ciências Forenses II | Margarida Oliveira e Tânia Soares

Na verdade, muitas espécies, o máximo de controlo de comportamento que têm é o reticular.


Contudo, à medida que as espécies vão evoluindo filogeneticamente, os níveis de controlo
comportamental vão sendo mais complexos, ou seja, o mesmo comportamento pode ser explicado
por níveis de controlo muitos diferentes. Portanto, a escola de Jackson diz que podemos identificar
para o mesmo comportamento diferentes níveis de controlo com idades filogenéticas diferentes e
à medida que avançamos para os níveis de controlo comportamental, o que nos é permitido fazer
vai-se exponenciando.

SUBSÍDIOS HISTÓRICOS E CONCEPTUAIS

O modelo hierárquico de funcionamento cerebral de Luria foi o primeiro modelo a dizer que
quando olhamos para o cérebro conseguimos identificar diferentes áreas responsáveis por
diferentes tipos de funções (bloco 1, bloco 2 e bloco 3) e quando olhamos para a evolução das
espécies vemos que há espécies que só têm o bloco 1 ou só têm o bloco 1 e 2, mas não há espécies
que tenham o bloco 2 e/ou o bloco 3 sem terem o bloco 1 porque estas constroem-se em camadas.
Assim, os blocos cerebrais são estruturas subcorticais, que estão por baixo do córtex.

• Bloco1 – Estruturas basais do cérebro


Este bloco é fonte de energia e “tonalidade”. Assim, quando há uma lesão ao nível das
estruturas basais tudo o que está para cima desliga, ou seja, morremos, sendo esta lesão
fatal. Um exemplo é o ritmo cardíaco.

• Bloco 2 – Córtice cerebral posterior


O córtice é uma estrutura cortical organizada em giros e sulcos que servem para aumentar
área, ou seja, para que em menos espaço possamos ter mais matéria. O sulco central
separa o córtice motor frontal e o córtice posterior e está essencialmente relacionado com
a identificação, perceção e organização para compreensão dos estímulos sensoriais.
Assim, quando alguém tem uma lesão de receção de informação tem uma lesão no bloco
2.

• Bloco3 – Córtice cerebral anterior.


O córtice cerebral anterior é importante em termos de lesões neuropsicológicas, como por
exemplo, no caso de pessoas incapazes de produzir palavras. Assim, o bloco 3 é
responsável pela produção e monitorização de respostas motoras.

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Ciências Forenses II | Margarida Oliveira e Tânia Soares

Subdivisões dos blocos 2 e 3:

• Áreas primárias: recebem a informação


• Áreas secundárias: codificação da cor, forma ou movimento, por exemplo. Assim, esta é
unisensorial, ou seja, refere apenas a uma determinada função, por exemplo visual.
• Áreas terciárias: integração multimodal, ou seja, é capaz de associar diferentes tipos de
sensações. Isto é, verificando que determinado objeto tem esta cor, movimento e faz este
barulho é um camião, por exemplo. Verifica-se aqui uma convergência sensorial, visual
e auditiva.

Vemos assim que as funções mais complexas, como a monitorização e integração, não são apenas
frontais, mas também pré-frontais. A informação visual chega ao córtice visual primário,
passando para o secundário e, posteriormente, para o terciário e é transformada de sensação para
processo simbólico. Estes processos simbólicos da unidade sensorial são transportados para as
intenções localizadas nas zonas motoras terciárias e depois passam a ser padrões de ação
localizados nas zonas motoras primárias e secundárias.

As tarefas de avaliação neuropsicológica são desenhadas para apanhar cada um destes passos.

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Ciências Forenses II | Margarida Oliveira e Tânia Soares

Leis de Luria
Lei da estruturação hierárquica 1. Durante o desenvolvimento, as áreas
primárias assumem preponderância
funcional.

2. Na idade adulta as áreas associativas


assumem preponderância funcional.

Assim, começamos pelo desenvolvimento das


áreas menos nobres, ou seja, primeiro o bloco
1, depois o bloco 2 e, por fim, o bloco 3. Neste
sentido, uma pessoa muito guiada por
estímulos externos, apesar de ser adulta, ainda
vai apresentar uma preponderância das áreas
primárias. Isto significa que, muitas vezes, por
exemplo, o défice de autocontrolo pode ser
visto como uma espécie de imaturidade das
zonas cerebrais que controlam os processos
associativos.
Lei da especificidade diminuída 1. Quanto mais específico e complexo é um
comportamento mais a sua regulação
tende a estar distribuída, sendo que
comportamentos altamente complexos
são comportamentos que dependem de
redes, como por exemplo a inferência de
intencionalidade que depende do
subtemporal superior.

2. Quanto mais básico e inespecífico, mais a


sua regulação tende a estar localizada em
áreas cerebrais delimitas.
Lei da lateralização progressiva A diferenciação hemisférica ocorre nas áreas
secundárias e terciárias, sendo que a
diferenciação funcional se manifesta de forma
mais forte nas últimas.

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Ciências Forenses II | Margarida Oliveira e Tânia Soares

Por exemplo, os sons que o nosso ouvido


percebe do lado direito são processados pelo
hemisfério esquerdo a nível primário. Por sua
vez, à medida que vamos subindo o nível do
som e quando percebemos as palavras,
estamos prante uma função mais complexa, o
que significa que a integração da informação
maior vai levar a uma maior lateralização. É
de notar que a linguagem falada é altamente
complexa e está altamente lateralizada no
hemisfério esquerdo.

Estas leis devem ser respeitadas na avaliação neuropsicológica.

CONCEITOS BÁSICOS DA NEUROPSICOLOGIA

A avaliação neuropsicológica consiste:

• No estudo dos “produtos” do funcionamento cerebral – o comportamento.


• Teorias e técnicas da avaliação psicológica (entrevistas, testes estandardizados, provas
qualitativas e questionários).
• Funcionamento cerebral como quadro conceptual de referência.

Assim, uma avaliação neuropsicológica é uma espécie de entrevista clínica de avaliação auxiliada
por instrumentos psicométricos que têm uma especificidade “são instrumentos que, pela
investigação, como estudos de imagiologia cerebral, conseguem perceber que a realização de
determinada tarefa ativa determinados sistemas cerebrais”. Assim, este é um tipo especial de
avaliação psicológica.

Por sua vez, a avaliação neuropsicológica forense é outro tipo de avaliação ainda mais especial
que é realizada para informar o sistema de justiça acerca, por exemplo, da capacidade de
testemunhar ou não ou do grau de dano causado numa determinada pessoa.

Deste modo, o neuropsicólogo essencialmente estuda o comportamento como em todas as


entrevistas clínicas, avaliando:

• A intensidade, eficiência, reatividade e adequação das respostas comportamentais dos


indivíduos examinados.

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Ciências Forenses II | Margarida Oliveira e Tânia Soares

• As instruções, questões ou estimulações de sistemas ou subsistemas neuronais


particulares.
• Infere o funcionamento e a integridade dos sistemas neuroanatómicos, examinando os
padrões comportamentais por eles gerados, ou notando a sua ausência.

Vemos assim que a neuropsicologia tenta isolar sistemas neuronais, sendo que por isso
conseguimos avaliar o funcionamento executivo e dentro deste podemos avaliar a memória
operatória (decorar itens a curto prazo).

A avaliação neuropsicológica fornece assim informação sobre a presença, gravidade e, por vezes,
localização da lesão cerebral (Stringer & Green, 1996). Atualmente, pode ser feito através de uma
ressonância magnética. Para além disso, contribui com informação exclusiva sobre as forças e
fraquezas funcionais que é necessária para o diagnóstico, prognóstico e planeamento da
reabilitação e que a imagiologia não pode fornecer (Volpe, 2003).

Por sua vez, a avaliação neuropsicológica é baseada em normas, o que significa que quando se
faz uma avaliação psicológica se esta não for feita para estudos de avaliação científica, mas antes
para efeitos de diagnóstico, prognóstico e avaliação de risco é necessário comparar-se a pontuação
do indivíduo com normas, ou seja, ver o que é alto e o que é baixo.

Principais Quadros de Avaliação Neuropsicológica

• TCE – Traumatismo crânio encefálico


• AVC – Acidente Vascular Cerebral
• Défices de atenção e dificuldades de aprendizagem
• Transtornos neuropsiquiátricos
• Epilepsia
• Demências: doenças degenerativas, como o alzheimer
• Toxicodependências e sequelas tóxicas

Relevância forense

A primeira relação estabelecida entre a lesão cerebral e o crime foi feita por Phineas Gage, que
estabeleceu como pressuposto que existe uma maior propensão para a manifestação de
comportamentos antissociais em alguns indivíduos que sofreram lesões cerebrais em

42
Ciências Forenses II | Margarida Oliveira e Tânia Soares

determinadas regiões, contudo, isto é diferente de dizer que todos os criminosos apresentam
anomalias cerebrais.

Assim, dizer que os indivíduos com maior propensão para o comportamento antissocial
apresentam uma maior probabilidade de ter lesões em determinadas zonas cerebrais como no
córtex pré-frontal, não é a mesma coisa que dizer que todos os criminosos apresentam anomalias
cerebrais. Isto pode também querer dizer que determinados indivíduos com lesões em
determinadas áreas têm maior propensão para comportamentos antissociais.

Por sua vez, quando queremos comparar a existência de lesões pré-frontais e olhamos para a
população em geral e para criminosos reincidentes e verificamos que há uma maior proporção de
criminosos reincidentes com lesões pré-frontais do que indivíduos na população geral. No
entanto, isto não significa que a lesão pré-frontal leva ao comportamento antissocial, pode querer
antes dizer que o comportamento antissocial leva a lesão pré-frontal.

No entanto, a Neuropsicologia Clínica atua em todas as dimensões do sistema legal onde possa
existir um impacto na disfunção cerebral no processo, fornecendo evidência da existência ou não
de anomalia fisiológica e do seu impacto comportamental. Assim, a neuropsicologia atua junto
do Direito Civil e do Trabalho, na avaliação do dano, no Direito Penal (por exemplo, para verificar
se um indivíduo reincidente é mais perigoso porque tem lesão cerebral), ao nível da
responsabilidade criminal e na avaliação de risco.

Objetivos

Verifica-se que os objetivos da neuropsicologia evoluíram ao longo do tempo. Inicialmente o


grande objetivo passava pelo diagnóstico, nomeadamente pretendia-se despistar a existência de
disfunção cerebral e identificar “pontos fortes e fracos” em termos de tipo e grau de problemas
cognitivos e comportamentais.

Atualmente, o objetivo está mais relacionado com o Prognóstico, mais propriamente pretende-se
estimar o grau de recuperação após TCE e estimar o grau/rapidez de declínio neurodegenerativo.

Assim, verifica-se que o objetivo na maior parte das vezes não é apenas o diagnóstico, mas cada
vez mais, com o desenvolvimento do conhecimento técnico, a intervenção na avaliação da lesão
cerebral, estimar o grau de recuperação e delinear planos de reabilitação neurocognitiva.

Dimensões e variáveis a avaliar

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• Orientação e consciência
• Funções sensoriais, percetivas e motoras
• Atenção
• Memória
• Processamento visual e auditivo
• Linguagem
• Funcionamento executivo (formação conceitos, resolução problemas, planeamento e
organização). O funcionamento executivo pode ser divido em três capacidades:
− Memória a curto prazo ou memória operatória é a capacidade de manter em lupa um
conjunto de itens importantes para uma tarefa que estou a realizar como, por exemplo,
memorizar um número de telefone, saber que passos que tenho de fazer para atingir
um dado objetivo, entre outros. A memória operatória é importante nomeadamente
as funções que estão localizadas no mesmo local desta, ou seja, no córtex pré-frontal
dorso-lateral e, por isso, falamos daqui de tarefas em que é necessário inibir uma
reposta que é imediata, intuitiva e emocional em favor de uma resposta a longo prazo.

− Inibição de resposta está relacionada com as questões do enforcement process, ou


seja, de mudar uma resposta automática que está programada para dar uma outra
resposta que exige esforço. Tarefas, por exemplo, como a ANT.

− Reversão de resposta consiste em ser capaz de compreender que se as regras


mudaram e, por isso, é preciso mudar o comportamento, ou seja, aprender
contingências e desaprender contingências. Assim, é a capacidade de reverter uma
resposta operatória inicialmente aprendida, visto que é preciso compreender que se a
resposta operatória tradicional já não conduz a uma recompensa, é preciso mudar o
padrão de resposta e aprender a reverter a mesma.

• Velocidade de processamento
• Capacidade intelectual
• Competências académicas
• Personalidade, área afetiva e alterações do comportamento

Entrevista clínica

A avaliação neuropsicológica pode ser feita através da entrevista clínica que procura obter
informações acerca de:

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• História pessoal
• História desenvolvimental
• História académico-laboral
• História psiquiátrica
• Funcionalidade
• Dados psicossociais
• Sintomatologia
o Visão (desfocada, dupla, escotoma, alucinações visuais)
o Audição (tinitos, zumbidos, alucinações auditivas)
o Tato (sensação de ardor na pele, calafrios)
o Olfato
o Dores/Cefaleias
o Equilíbrio (tonturas, coordenação motora, calafrios, ataxia)
o Sono (apneia do sono)
o Alimentação
o Linguagem
o Sexualidade

Por norma para avaliar a sintomatologia recorre-se ao BSI (Brief Symptom Inventory),
nomeadamente para avaliar:

− Somatização
− Obsessão-compulsão
− Sensibilidade Interpessoal
− Depressão
− Ansiedade
− Hostilidade
− Ansiedade Fóbica
− Ideação Paranóide
− Psicoticismo

• Comportamento durante a entrevista


o Cooperação (hostilidade, agressividade, exigente, interessado)
o Alterações emocionais (ansioso, voz trémula, sudação, rubor, triste, lágrimas)
o Humor (eutímico/distímico, sintónico/distónico)
o Postura (tenso, próximo, afastado)
o Atividade psicomotora (agitação, maneirismos, tiques)

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o Labilidade emocional (gargalhadas fora do contexto)


o Linguagem (gaguez, ecolalia)
o Expressão Facial
o Aspeto geral (cuidado, descuidado)

Psicometria

Domínios Neuropsicológicos:

• Perceção
• Atenção
• Memória
• Linguagem
• Funcionamento Executivo
• Velocidade de processamento/Impulsividade

Este quadro refere-se a tarefas de avaliação neuropsicológica que podem aparecer em relatórios
de avaliação neuropsicológica em ciências forenses. Um exemplo de tarefa é os CPT´s que
consiste em colocar os indivíduos a ouvir diferentes sons e pedir para identificarem esses mesmos
sons durante várias horas.

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O PEBL é uma linguagem de programação que permite programar tarefas de psicologia


experimental, sendo muitas das tarefas usadas na avaliação neuropsicológica forense. Assim, as
diferentes Tarefas que podem ser usadas são:

• ANT – esta é uma tarefa de inibição de resposta, em que tenho de ser capaz de inibir uma
resposta que é automática em favor de uma reposta que não é automática, envolvendo um
esforço cognitivo. Esta tarefa dá-nos um biomarcador, em termos comportamentais, da
capacidade de a pessoa inibir as respostas.
• BART – esta é uma tarefa de tomada de decisão sobre o risco que coloca a minha
motivação de aproximação em conflito com a motivação de afastamento.
• Wisconsin Card Sorting Test – esta é uma tarefa em que tenho de organizar uma carta em
função da cor, do número, ou da forma.
• Iowa Gambling Task– esta tarefa consiste em dois baralhos que são arriscados e outros
dois que não são arriscados. Assim, nos baralhos arriscados ganha-se mais dinheiro, mas
também se perde muito mais dinheiro. Normalmente, as pessoas mais externalizantes,
jogam no baralho mais arriscado.
• Go/ No Go – esta é uma tarefa de controlo de inibição, em que sempre que aparece um P
temos de clicar no rato, mas sempre que aparece o R não devo clicar, controlando a
resposta. Assim, as pessoas que tem tendência a ser mais rápidas, tem tendência a dar
mais falsos alarmes (erros) e, por isso, quando dão um erro, passam a ser mais lentas.
Contudo, as pessoas com falta de inibição, dão muitos falsos alarmes.
• Stroop – esta é uma tarefa de controlo de inibição em que se tem de dizer a cor da palavra
e não ler a palavra ou, então temos de ler a palavra e não ler a cor. Pessoas com défices,
tem muita dificuldade em dizer isto.

CORTÉX PRÉ-FRONTAL

Normalmente, as patologias que têm mais importância para a avaliação neuropsicológica forense
são aquelas que surgem como consequência de uma lesão no córtex pré-frontal.

Córtice cerebral

• Lobo frontal

O lobo frontal é responsável pela atividade motora voluntária:

− Córtice motor primário situado em frente ao córtice sensorial primário

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− Estimulação de diferentes áreas do córtice motor primário causam o movimento de


músculos em diferentes partes do corpo
− Ligações contralaterais
− Planificação de movimentos voluntários complexos (córtice motor de associação)

Por sua vez, quando olhamos para as lesões frontais verificam-se um conjunto de manifestações
dessas lesões frontais:

• Incapacidade de realizar movimentos dependentes das áreas motoras afetadas (incluindo


falar).
• Perda da expressividade facial e gestual: uma parte importante dos músculos depende do
tronco cerebral, mas depende também de partes frontais do cérebro.
• Apatia, perda de iniciativa e motivação: pode surgir a incapacidade para fazer planos.
• Indiferença
• Distractibilidade: incapacidade de se focar e de inibir estímulos que são periféricos e que
entram no nosso foco de atenção.
• Puerilidade no comportamento (comportamento bastante primário)
• Comportamento eufórico e impulsivo/desinibido
• Diminuição da autocrítica e consciência

• Lobo pré-frontal
▪ Atenção ATENÇÃO E REGULAÇÃO DE
▪ Memória operatória ARMAZENAMENTO
▪ Atenção seletiva
▪ Planificação e previsão FUNÇÕES EXECUTIVAS
▪ Organização temporal da experiência
▪ Aprendizagem de estratégias
▪ Flexibilidade do comportamento
▪ Criatividade
▪ Pensamento abstrato e categorização
▪ Juízo de racionalidade
▪ Inibição e autocontrolo CONTROLO COMPORTAMENTAL
▪ Personalidade e estabilidade emotiva

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Estudo de lesões

Pacientes com lesões orbitofrontais ventromediais (BA 12, 25 e 11 caudal) ou frontopolares


apresentam padrões de comportamento semelhantes, mas não sobreponíveis à psicopatia,
chamando-se a isto sociopatia adquirida (ex. Damasio 1994, Mitchell et al., 2002).

Assim, o que difere entre a psicopatia desenvolvimental e a sociopatia adquirida é o facto de a


primeira ser caracterizada por padrões de agressividade instrumental e a segunda ser caracterizada
pela agressividade reativa, sendo que este tipo de agressividade reativa ocorre nos pacientes com
sociopatia adquirida porque estes são incapazes de compreender mudanças nas contingências, ou
seja, são incapazes de compreender que as coisas mudam e, por isso, o comportamento tem de
mudar na mesma medida e, por isso, não compreendem que podemos ter comportamentos que
são adequados de num determinado contexto, mas não são adequados noutro. Assim, esta situação
leva à criação de padrões de agressividade por frustração porque as coisas que o indivíduo acha
que vão acontecer nunca acontecem, isto porque os indivíduos não compreendem as
contingências.

Pacientes com lesões orbito-frontais:

• Agressão reativa
• Falta de motivação
• Falta de empatia
• Impulsividade
• Irresponsabilidade
• Falta de insight: incapacidade de perceber que se tem uma condição médica, como
acontece com os doentes com esquizofrenia.
• Desinibição comportamental
• Défices na identificação de vocalização e expressões emocionais
• Extinção de respostas
• Response reversal
• Défices na tomada de decisão (tarefas de gambling)

Síndrome do lobo frontal:

• Desatenção
• Incapacidade de exploração espacial

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• Desorientação temporal
• Recordações imprecisas, vagas e confusas
• Tendência para a mentira
• Preservação e falta de originalidade
• Superficialidade
• Descuido e despreocupação
• Falta de escrúpulos, de delicadeza e de inibição
• Impulsividade e instabilidade emotiva
• Incoerência e inconsistência

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