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MASARYKOVA UNIVERZITA V BRNĚ

Filozofická fakulta

Ústav románských jazyků a literatur


Portugalský jazyk a literatura

Nikola Štěrbová

O Medo na Poesia de Al Berto

Bakalářská diplomová práce

Vedoucí práce: Mgr. et Mgr. Vlastimil Váně

Brno 2008
Prohlašuji, že jsem bakalářskou diplomovou práci vypracovala
samostatně s využitím uvedených pramenů a literatury.

V Brně dne 8. 1. 2008 …………………………………….

2
Za cenné připomínky, věnovaný čas, trpělivost a především vstřícné vedení mé
bakalářské práce bych velmi ráda poděkovala Mgr. et Mgr. Vlastimilu Váňovi.

3
ÍNDICE

ÍNDICE ......................................................................................................................... 4
INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 5
1. O CONTEXTO CULTURAL E LITERÁRIO DOS ANOS 70 E 80 DO SÉCULO
XX ................................................................................................................................. 7
2. BREVE APRESENTAÇÃO DE AL BERTO ....................................................... 10
3. OS MODELOS E PILARES DA POESIA DE AL BERTO .................................. 14
3.1. Os modelos literários e culturais ...................................................................... 14
3.1.1. Camões ...................................................................................................... 16
3.1.2. Cesário Verde ............................................................................................ 18
3.1.3. Pessoa/ Álvaro de Campos ........................................................................ 19
3.2. A função de escrita na obra al bertiana ............................................................ 20

4. O MEDO – TRABALHO POÉTICO 1974-1997 ................................................... 23


4.1. À Procura do Vento num Jardim d´Agosto ...................................................... 24
4.2. Trabalhos do Olhar ........................................................................................... 27
4.3. Horto de Incêndio ............................................................................................. 28

5. O TEMA DO MEDO N´O MEDO ......................................................................... 31


5.1. Medo do tempo ................................................................................................ 33
5.2. Medo da perda .................................................................................................. 35
5.3. Medo de permanecer ........................................................................................ 36

CONCLUSÃO ............................................................................................................ 38
BIBLIOGRAFIA......................................................................................................... 40

4
INTRODUÇÃO

O presente trabalho quer oferecer uma análise da obra poética do escritor


português Al Berto. A delimitação deste trabalho consiste na investigação acerca da
temática da poesia al bertiana, principalmente do medo e das suas manifestações nos
versos na reunião da poesia publicada do autor intitulada O Medo. Vamos também
aludir à vida do poeta, mencionando os factos da sua vida que consideramos
relevantes e importantes para perceber a sua produção literária.
A obra poética al bertiana é tão extensa que seria impossível fazer um estudo
pormenorizado da temática do medo e das suas manifestações que abrangesse todas
as colectâneas publicadas n´O Medo. As proporções deste trabalho são limitados e
por isso somos obrigados a fazer certa selecção e dirigimos a nossa atenção às
colectâneas que consideramos mais relevantes para o estudo do tema.
Neste lugar ainda cabe um breve comentário que indique os poucos trabalhos
críticos existentes respeito da obra de Al Berto. Trata-se dos trabalhos mais
importantes e exaustivos sobre a producção literária al bertiana. A primeira referência
significativa registra-se em Joaquim Manuel Magalhães no texto Alguns aspectos dos
últimos anos. O autor continua com a crítica mais acadêmica no livro Os Dois
Crepúsculos – sobre a poesia portuguesa actual e outras crônicas. Logo Fernando
Pinto Amaral no estudo O Mosaico Fluido contempla a modernidade e pós-
modernidade na poesia dos anos 70 e 80 e dedica um capítulo exclusivo à poesia de
Al Berto. Entre os ensaios curtos sobre a poesia de Al Berto destacam-se trabalhos de
Eduardo Prado Coelho e António Ramos Rosa, entre outros. Os pesquisadores Mário
César Lugarinho e Mark Sabine têm contribuído à crítica da obra de Al Berto à luz
das teorias de estudos gay e lésbicos e da teoria queer, aludindo ao facto de que a
obra do poeta ofecere ajuda na compreensão da cultura gay lusitana. É importante
mencionar os trabalhos do poeta e ensaísta português Manuel de Freitas, Noite dos
Espelhos e Me, Myself and I (Autobiografia e Imobilidade na Poesia de Al Berto). E
por último, no Brasil, surgiram recentemente Dissertações, primeira escrita por
Tatiana Pequeno Silva, Al Berto: Um Corpo de Incêndio no Jardim da Melancolia, e
segunda por Emerson da Cruz Inacio, A Herença Invisível: Ecos da “Literatura
Viva“ na Poesia de Al Berto.

5
O nosso trabalho está dividido em cinco capítulos principais. No âmbito do
primeiro capítulo vamos fazer a introdução ao tema, apresentando o contexto cultural
e literário das décadas da maior produção literária de Al Berto.
No segundo capítulo pretendemos brevemente apresentar o escritor Al Berto cuja
obra revela, como mostraremos, forte tendência autobiográfica. Vamos apoiar-nos na
única biografia de Al Berto, escrita pela pesquisadora romena Golgona Anghel.
O capítulo seguinte vai convocar os “fantasmas“ de Al Berto, quer dizer os
modelos culturais e literários relevantes à leitura intertextual da sua poesia e,
segundo, vai tratar da função de escrita na sua poesia, sendo a escrita contra o medo.
No capítulo quarto vamos apresentar a reunião das colectâneas do autor,
intitulada O Medo e vamos escolher colectâneas significantes para fazer o estudo
pormenorizado e assim para mostrar a evolução na obra al bertiana, no mais de vinte
anos de escrita.
E, finalmente, o objectico do último capítulo é tentar encontrar as manifestações
do tema do medo nos versos de Al Berto, de acordo como aponta o próprio título do
presente trabalho.

6
1. O CONTEXTO CULTURAL E LITERÁRIO DOS
ANOS 70 E 80 DO SÉCULO XX

Em Portugal, a época dos 70 e 80 é marcada e inseparávelmente ligada com a


Revolução dos Cravos e com a liberdade assim conseguida; encontrando-nos no
campo artístico, podemos falar sobre a liberdade de expressão novamente atingida.
Emergem os novos discursos literários que já não têm que obedecer a máxima
salazarista “Deus, Pátria e Família“. Isso constitui o certo rompimento com a
tradição, quer social, quer cultural, quer literária.
Neste contexto há-de considerar também relevante o movimento que surgiu nos
Estados Unidos e Europa na década dos 60. É muito difícil de denominá-lo, mas
significou uma liberação total das ideias, do pensamento, do moral. Tratou-se de um
ataque profundo na sociedade conservadora do mundo occidental. Podemos falar
sobre underground, sobre cultura alternativa, marginal, até podemos chamá-lo
contracultura, o nome tanto faz. O que é importante é o impacto que tinha na cultura
da civilização occidental. Os precursores, que influirão mais tarde também o autor do
corpus deste trabalho, eram já nos anos 50 os jovens intelectuais, que nos Estados
Unidos contestavam o consumismo da sociedade daquela época, formando a
chamada Geração Beat. Logo se segue o movimento Hippie que negou radicalmente
todos os valores que a sociedade tinha considerado importantes. Não podemos
esquecer também a rebelião estudantil ocorrida na França em 1968.
Acabámos de citar os acontecimentos importantes que depois da caída da
dictadura em Portugal influirão consideravelmente o campo cultural e literário
português. Também os artistas portugueses vão buscar as novas expressões artísticas,
já que, com a desaparição da censura, se abrem novas possibilidades temáticas. Os
ambientes de underground da Europa representaram os ideais democráticos e
libertários e o clichê de aquel então, “sexo, drogas e rock’n’roll“, significou a fonte
de inspiração para muitos artistas.
A abertura política e cultural que procedeu da Revolução dos Cravos possibilitou
a escrita sobre o desejo erótico, particularmente sobre a homossexualidade masculina.
Neste lugar é preciso aludir a António Botto e Mário de Sá-Carneiro e,
consequentemente, à homossexualidade destes escritores. Na primera metade do
Século XX a sua producção literária revelou a “estética pederástica“ que significou o
impulso importante para a escrita sobre o desejo homoerótico em Portugal. Não

7
podemos deixar Al Berto de parte, sendo denominado por alguns críticos literários
“poeta queer“1. O conceito “queer“ neste contexto empleou na literatura William S.
Burroughs em 1953 com a publicação da novela do mesmo nome. Literalmente
significa “estranho“, o seu significado actual está ligado com movimentos gays,
lésbicos e transgêneros e podemos traduzi-lo como “gay“. A disseminação global da
consciência gay surge nos anos 60, sobretudo depois dos motins de Stonewall em
1969, uma série de conflictos violentos entre polícia e grupos de homossexuais no bar
chamado Stonewall In em Nova Iorque. Como já afirmamos, é somente depois da
Revolução de 1974 quando as vozes que nomeiam o desejo homoerótico tornam-se
audíveis em Portugal. E é próprio Al Berto quem introduz à literatura portuguesa
pontos cardeais da subcultura queer, motivos como é o uso da droga ou ambiente dos
bares nocturnos e quartos de hotel por hora, e também vocábulos chaves pertencentes
ao calão homossexual. O poeta assim oferece auxílio para a compreensão da cultura
queer portuguesa.
Neste lugar queremos descrever o ambiente literário em Portugal, principalmente
o campo da poesia. O que pretendemos com este pequeno resumo da época
determinada da poesia portuguesa é uma introdução ao corpus deste trabalho. É
preciso dizer que fazer aquel resumo é sempre um trabalho incompleto e bastante
artificial, ora pelo número dos artistas a referir, ora pelas fronteiras muitas vezes
vagas entre estéticas e modelos. Queremos indicar só as tendências e estéticas que
achamos relevantes no contexto deste trabalho.
De acordo com Fernando Pinto do Amaral2, podemos mencionar características
básicas do período dado. Trata-se da noção da pósmodernidade; da ausência de
grupos homogéneos e emergência de obras individuais; do regresso a um certo
lirismo e a uma expressividade mais próxima das sensações e dos sentimentos
individuais. Nos anos 70 surge na poesia um discurso emocional, como explica outro
crítico literário, Joaquim Manuel Magalhães na sua obra Os dois crepúsculos: “(…)
Assim irrompe uma explicitação dos lugares do corpo, uma afirmação dos desejos e

1
Assim caracteriza a obra de Al Berto Mário César Lugarinho, professor da Literatura Portuguesa da
Universidad Federal Fluminense: em Al Berto, In Memoriam, o luso princípio queer ou Mark Sabine,
professor da Literatura Portuguesa da Universidade de Nottingham em: Um Olhar Consumidor: O
antropofagismo luso-queer nos Truques de ilusionismo de Al Berto.
2
Pinto do Amaral, Fernando. Anos 70 e 80 – Poesia. In Óscar Lopes, Maria de Fátima Marinho (dir.).
História da Literatura Portuguesa, vol. 7 – As Correntes Contemporâneas. Lisboa: Publicações Alfa,
2002, pág. 417.

8
das intenções, uma narração dos confrontos com a ordem do lugar, ligados a um
discurso mais empenhado em declarar do que em sintetizar ou visualizar. Daqui,
igualmente, um novo impulso ideológico, pelo qual o político regressa ao claramente
exprimido. Não já o da ordem burocrática do neo-realismo, mas o da agressão, da
sexualidade, da droga, da desordem.(…)“3
Dentro deste período também surgem duas estéticas que consideramos bastante
antinómicas. Paula Cristina Costa, ensaísta e crítica portuguesa, fala no seu artigo
chamado “Algumas tendências da poesia portuguesa contemporânea desde os anos
50 até 2000“4 sobre um novo realismo na década dos 70, sobretudo após 25 de
Abril. Este novo realismo é representado por exemplo pelos chamados poetas do
Cartucho: Joaquim Manuel Magalhães, João Miguel Fernandes Jorge, António
Franco e Helder Moura Pereira. Trata-se duma crónica dos acontecimentos banais e
quotidianos, tentativa de fixar-se a realidade que nos rodeia, regresso ao real. É
relacionado com a certa inclinação à narratividade.
Por outro lado, podemos observar outra tendência, de teor neo-romântico, como
afirma Fernando Pinto Amaral: “(…)Em todo o caso, convém referir que alguns
autores regressaram a um certo lirismo e a uma expressividade mais próxima das
sensações e dos sentimentos individuais, onde avultam grandes obsessões do amor,
da morte, do tempo, etc. Tal retorno aparece recortado num pano de fundo onde se
verifica o recrudescimento de um pathos irracional, fruto das emoções e por isso
associado ao eclodir de uma subjectividade por vezes mesmo confessional ou
intimista, que se oferece à partilha afectiva do leitor e recorre com alguma
frequência a imagens ou símbolos de teor neo-romântico.(…)“5
Achamos que essas duas características da poesia, a narratividade por um lado e
o lirismo confessional por outro lado, podemos detectar na obra do autor do corpus
deste trabalho e vamos tratar disso nos capítulos que seguem.

3
Cf. Magalhães, Joaquim Manuel. Os Dois Crepúsculos. Lisboa: A Regra do Jogo, 1981. In:
Barreiros, António José. História da Literatura Portuguesa, vol. 2: Séculos XIX-XX. Braga: Pax, 11ª
ed., 1985, pág. 607.
4
disponível em < http://www.secrel.com.br/jpoesia/lv01ensaio4.htm >.
5
Pinto do Amaral, Fernando. Anos 70 e 80 – Poesia. In Óscar Lopes, Maria de Fátima Marinho (dir.).
História da Literatura Portuguesa, vol. 7 – As Correntes Contemporâneas. Lisboa: Publicações Alfa,
2002, pág. 420.

9
2. BREVE APRESENTAÇÃO DE AL BERTO

Al Berto pertence inegavelmente ao grupo dos escritores que na segunda


metade do Século XX marcaram e influíram significativamente a literatura e cultura
portuguesa. Não consideramos necessário dedicar-se detalhadamente à vida do autor,
mas vamos mencionar alguns factos que, a nosso ver, são importantes para perceber
melhor a sua obra literária: a infância, a adolescência, a preocupação pela pintura, a
actividade editorial, a promoção de uma política que defende a homossexualidade, a
práctica da escrita, a doença e a morte. Também pretendemos com este pequeno
resumo panorâmico acercar a personalidade do poeta.
Alberto Raposo Pidwell Tavares nasceu em Coimbra em 1948. Passou parte da
infância e adolescência junto com os seus irmãos mais novos em Sines, na quinta de
Santa Catarina. O genius loci da quinta posteriormente notar-se-á na obra dele,
mesmo no poema chamado “Quinta de Santa Catarina“:

a casa foi abandonada, permanece vazia. duma janela avista-se outra janela. o
interior é húmido e escuro. onde uma porta enquadra outra porta não se prestem mais
sinais de vida. apenas flutuam aromas, presenças ténues de corpos. o olhar demora-se
sobre as geometrias musgosas dos tectos. uma sombra desliza junto ao piano, o
estuque esfarela-se, cai. ouve-se um rumor misterioso de poços, de insectos por dentro
das paredes.6

Desde a adolescência o futuro escritor destacava-se pela originalidade do seu


traje e dos seus atitudes, o que provocava escândalos, sendo filho da família da alta
burguesia inglesa duma estirpe nobre. Especialmente os avós Pidwell Tavares eram
extremamente conservadores (“Lembro-me da primeira vez que me chamaram
maricas – foi a minha avó“ disse Al Berto ao jornal Independente7). Quando morreu
o seu filho, pai do jovem Alberto, tentavam apoderar-se da educação de Alberto e dos
seus irmãos.
Já deste infância mostrava o extraordinário dom natural para pintura e por isso
em 1965 foi estudar para Escola António Arroio em Lisboa. Naquela altura
frequentava também o Curso de Formação Artística do SNBA (Sociedade Nacional
de Belas Artes). Em 1967, dez anos antes da publicação da sua primeira colectânea
escrita em português, abandonou Portugal e exilou-se en Bruxelas. Escolheu Bruxelas

6
Al Berto. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005, pág. 131.
7
Cf. Anghel, Golgona. Eis-me Acordado Muito Tempo depois de Mim. Vila Nova de Famalicão:
Quasi Edições, 2006, pág. 24.

10
por causa de ter existido lá a sede da ONU – era mais fácil obter o estatuto de
refugiado político e entrar na universidade. Entrou para a École Nationale Supérieure
d’Architecture et des Arts Visuels na época influída pelo Maio de 68, época da
enorme agitação social, cultural e política, época da permanente vertigem. Fundou
com alguns amigos, principalmente artistas plásticos, fotógrafos e escritores, a
associação Monfaucon Research Center e publicou um livro de desenhos Projects 69.
Viajava muito por Italia e Espanha a assim pouco a pouco começou a escrever,
estreando com os diários de viagens. Assim o comentou em 1994 para Radio Cultura:

(…) havia um diário de viagens imenso. Não era só escrito era desenhado e era onde
eu arrecadava practicamente tudo o que eu encontrava pelo caminho: desde
fotografias e postais, a nomes de pensões, de ruas, mapas de cidades etc. E comecei a
me aperceber que nesse imenso diário, digamos assim, havia material que tinha uma
qualidade e que não era propriamente um registro imediato, mas sim, apontava-me
para outras preocupações.8

Essas preocupações levaram-lhe em 1971 até o abandono definitivo do curso da


pintura. As causas daquela decisão explicou em 1993 para revista Litoral Alentejano:

(…) Vivia-se na altura em permanente vertigem. Por qualquer razão que não era
muito consciente, senti que deveria registrar num diario tudo que estava acontecendo
na altura. Como a pintura é miuto mais demorada de executar, requer outros meios,
mais caros, à escrita basta o papel e caneta, começou assim a minha mudança para a
Literatura.9

Apesar disso, continuava a levar uma vida muito ligada às artes plásticas, à
pintura e à fotografia, o que se manifestará mais tarde na colectânea A Secreta Vida
das Imagens. Por isso é preciso levar em consideração a imagem no contexto da obra
al bertiana, tal como a iconografia presente nas capas das colectâneas poéticas.
Até então escrevia em francês. Em 1974, ainda em Bruxelas, expressou-se pela
primeira vez em português escrevendo Epopeia antes da Queda que logo destrui. E
também pela primeira vez apareceu o seu pseudónimo, Al Berto. A criação do
pseudónimo estava intimamente ligada à transição do pintor para o poeta, com a
Morte e o Nascimento. Assim o explicou para Diário Popular:

(…) Senti necessidade de abrir a brecha com uma coisa que era muito minha e abri o nome
ao meio, uma cisão num determinado percurso. Foi a maneira de não esquecer esse abismo.

8
Ibid., pág. 46.
9
Ibid., pág. 45.

11
Depois, Al Berto, dito à francesa, Al Bertô, é mesmo árabe e é anónimo. E há qualquer coisa
no anonimato que me seduz. E o nome funciona bem em termos de se reter.10

Podemos falar até sobre a multiplicidade de vozes existentes nele, sobre um


corpo que se manifesta múltiplo11.
Em Portugal, entretanto, ocorreu a Revolução e a caída da dictadura. Al Berto
regressou definitivamente à Pátria em Novembro de 1974 e começou a sua actividade
editorial, sob o slogan SEJA BREVE STOP LEIA-NOS STOP. A editora Editorial
Pidwell Tavares produziu entre anos 1977 e 1980 vários livros, mas economicamente
se tratou de uma desgraça. Em Sines abriu a livraria Tanto Mar. Como editor tinha
coragem de publicar textos que destruíam alguns tabus sociais, que falavam
abertamente sobre a homossexualidade masculina. Editava os livros próprios e os dos
seus amigos, completamente fora das grandes casas editoriais e do mainstream. O
trabalho editorial e poético de Al Berto inaugurou em Portugal um certo debate no
ambiente intelectual sobre questões ligadas à homossexualidade, defendendo o direito
da liberdade sexual, e o tratamento literário do tema contribuiu para o fim da
segregação: a primeira vez que a comunidade homossexual portuguesa se reuniu
publicamente era no dia 1 de Junho de 1995, no Dia do Orgulho Gay, que significa a
commemoração mundial dos motins de Stonewall. Al Berto era presente, lendo os
seus poemas no Jardim Constantino em Lisboa.
Da actividade editorial já são poucos passos à produção literária. Como temos
dito, no projecto Editorial Pidwell Tavares editou as suas primeiras colectâneas, À
Procura do Vento num Jardim d’Agosto, em 1977, e Meu Fruto de Morder, Todas as
Horas em 198012. Saíram as primeiras críticas, Al Berto-poeta já se instalou, vivia
escrevendo. O tema da escrita tornou-se muito importante, nos seus poemas
contemplou a escrita, o processo de criação, o ofício do escritor. Nos anos 80
publicou grande parte da sua obra poética. Em 1987 foi reunida n´O Medo –
Trabalho Poético 1974-1986. Com este livro ganhou o ano seguinte o PEN-CLUB de
Poesia 1987.

10
Ibid., pág. 49.
11
O motivo da separação entre Alberto e Al Berto aparece no poema “atrium“ que inaugura O Medo.
Neste lugar não vamos dedicar-nos a esse poema, voltamos a essa problemática nos capítulos que
seguem.
12
Neste lugar não vamos mencionar cronologicamente as colectâneas publicadas, já que o faremos no
capítulo 4 chamado “O Medo – trabalho poético 1974-1997; A estrutura da obra“.

12
Como temos mencionado, Al Berto já se instalou como escritor, fazendo parte
importante da vida intelectual em Portugal. Em 1989 a RTP 2 passou o programa
Lusitânia Expresso, quarto trabalhos em vídeo experimentais. Um deles, realizado
por Paulo Miguel Forte, chamou-se Os Dias sem Ninguém e baseou-se na poesia de
Al Berto.
Na primeira metade dos anos 90 assistia à muitos acontecimentos literários
públicos, apareceu por exemplo num recital em homenagem aos poetas que tinham
passado pelo Bairo Alto, junto com Mário Cesariny; no bienal da cultura portuguesa
em Bordéus junto com Sophia de Mello Breyner Andresen e Nuno Júdice; esteve
inserido no programa Lisboa|94, um Encontro Europeu de Poesia, que decorreu em
Lisboa na Casa Pessoa; no II Encontro Internacional de Poetas , em Coimbra, junto
com Alberto Pimenta, Egito Gonçalves, Fernando Assis Pacheco, Ana Haterly,
Antonio Ramos Rosa entre outros.
Em 1996 escreveu Horto de Incêndio, último livro publicado na sua vida que é
profundamente influído pela noção e presença da morte próxima. A colectânea
contém o poema “morte de rimbaud dita em voz alta no coliseu de lisboa, a 20 de
novembro de 1996“13, influído precisamente da doença. Na altura de publicação do
livro já era muito doente e vivia num constante medo da morte. Disse numa das
últimas entrevista da sua vida:

(…) Quando li o poema, no Coliseu, em Novembro de 1996, estive a anunciar a minha


morte sem que as pessoas o soubessem. Talvez seja um privilégio um poeta anunciar a
sua morte. Durante 15 dias vivi nessa expectativa do fim. Todos os dias morremos
muitas vezes: as perdas, os erros, aquilo que arrumamos dentro de nós… Seria ideal
atingir o momento da morte com uma grande serenidade. Yourcenar disse que queria
morrer de olhos abertos e atenta. O mesmo digo eu.14

O poeta foi internado no Hospital de Santo António dos Capuchos em Lisboa em


Abril de 1997 para uma intervenção cirúrgica. Falece dia 13 de Junho de 1997. 15

13
Os nomes de poemas aparecem escritas com letras iniciais minúsculas n´O Medo.
14
Cf. Anghel, Golgona. Eis-me Acordado Muito Tempo depois de Mim. Vila Nova de Famalicão:
Quasi Edições, 2006, pág. 132.
15
No Correio de Manhã de 15 de Julho de 1997 aparece o artigo “Poesia perde Al Berto“ em que
Eduardo Prado Coelho, Nuno Júdice e Mário Cesariny falam sobre poesia de Al Berto e despedem-se
com ele (nos artigos “A justiça poética“; “Para a memória de Al Berto“ e “O bicho da noite“,
respectivamente). A mesma coisa faz Eduardo Lourenço no artigo “Al Berto todo um poeta“ na revista
Visão no 19 de Junho de 1997. Achamos que isso comprova a importância do poeta Al Berto no
ambiente português.

13
3. OS MODELOS E PILARES DA POESIA DE AL BERTO

A obra de Al Berto tem como característica comum o facto que nos seus poemas
podemos observar a existência óbvia dos modelos literários e culturais em geral (quer
dizer, de outros domínios artísticos como é a música, as artes plásticas e a fotografia).
Esta tendência de nomear e aludir aos seus inspiradores pode-se relacionar também
com a preocupação metalingüística pela literatura e pela própria escrita como a
condição da existência. Neste capítulo vamos dedicar-nos primeiro aos modelos
literários e culturais que nós parecem relevantes para a leitura intertextual da obra de
Al Berto; segundo, à função de escrita na obra al bertiana, já que essa está ligada ao
tema do nosso trabalho: “(…) escrevo para não me deixar invadir pelo medo.“16

3.1. Os modelos literários e culturais

A problemática da influência literaria tem provocado muitas polémicas e


actualmente faz parte da teoria literária moderna. Harold Bloom17 no seu livro The
Anxiety of Influence: A Theory of Poetry elaborou uma teoria dedicada ao estudo das
relações intertextuais e da influência entre poetas de diferentes épocas históricas.
Afirma que tal processo é parte da formação de poeta como artista que reconhece na
sua obra inspiração, quer estética, quer estilística, de outro poeta. Inacio Emerson da
Cruz, na sua tese de pós-graduação18, afirma que esta inspiração/influência marcada
por Bloom não diminui a originalidade de Al Berto, pelo contrário, fortalece o
carácter específico da poesia do “poeta forte“.
Al Berto é transparente nas alusões, gosta de nomear explicitamente os seus
inspiradores e modelos literários, ou, pelo menos, a presença deles pode-se sentir nos
seus poemas:

(…) Willy B. mostra o sexo distendido e mole. (…) continuamente perdida pelas noites
da cidade paira a sombra imensa de Willy B. (…) 19

16
Al Berto. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005, pág. 370.
17
Professor e crítico literário estadounidense, autor da teoria sobre as influências literárias.
18
Emerson da Cruz, Inacio. A Herença Invisível: Ecos da “Literatura Viva“ na Poesia de Al Berto.
Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2006, pág. 152.
19
Al Berto. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005, pág pág. 36.

14
(…) já não consigo compreender as tolices do papagaio da Ilha do Tesouro. nem o
surdo ruminar da boca mascando coca. onde estão as cartas da Colômbia? e Macondo?
onde estão os selos com panteras brancas da Amazónia? e a cegueira labiríntica de
Jorge L.B. (…)?20

(…) escuta
a partir de hoje abandono-te para sempre
ao silêncio de quem escreve versos
em Portugal
tens trinta e sete anos como Rimbaud
talvez seja tempo de começares a morrer21

bateram à porta – não abriste


estavas a convocar nesse instante a brancura
dos dados por lançar e o corvo do sr. poe mais
o maléfio negrume dos mares de melville e
os passos em redor do andarilho etíope e
as mulheres da patagónia que estão sentadas
ao fim da tarde
à beira de insondáveis glariares(…) 22

De acordo com Manuel de Freitas23 podemos afirmar que a obra de Al Berto é


marcada por alusões claras à poesia dos poetas da Geração Beat norte-americana, de
Charles Baudelaire, Jean Genet, Malcolm Lowry e Arthur Rimbaud. No contexto da
literatura portuguesa podemos encontrar certas alusões a Luís de Camões, Cesário
Vedre e Álvaro de Campos. Alguns dos autores mencionados aparecem como
personagens dos poemas de Al Berto, por exemplo William S. Burroughs. Todos os
autores mencionados (com a exepção de Camões que, sendo “pai da poesia
portuguesa“, influiu em algum aspecto grande parte dos poetas da língua portuguesa)
revelam na sua obra características comuns, principalmente a marginalidade, a
rebeldia e a oposicão à cultura oficial. Falando dos aspectos concretos em que os
escritores acima citados influíram a obra al bertiana, trata-se das drogas e das
sustâncias alteradoras da consciência em William Burroughs; do tempo em Charles
Baudelaire; dos travestis e sexo homossexual em Jean Genet; do álcool em Malcolm
Lowry e do silêncio em Arthur Rimbaud.
Quanto à música, Manuel de Freitas menciona dois importantes grupos musicais
que tinham impacto na poética al bertiana: o lirismo de Velvet Underground e o

20
Al Berto. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005, pág. 43.
21
Ibid., pág. 542.
22
Ibid., pág. 614.
23
Freitas, Manuel de. A Noite dos Espelhos (Modelos e Desvios Culturais na Poesia de Al Berto).
Lisboa: Frenesi, 1999.

15
niilismo de Joy Division. Finalmente, a influência das artes plásticas é notável na
colectânea A Secreta Vida das Imagens, onde o poema é unido (tal no nível de
conteúdo como no nível gráfico) com o quadro24.
Embora a nossa atenção se concentre preferencialmente às colectâneas reunidas
n’O Medo, queremos neste lugar relembar também outra produção do autor, O Anjo
Mudo. Trata-se duma reunião dos textos do autor publicados em revistas e catálogos
de exposições de pintura e fotografia. A quarta parte d’O Anjo Mudo é formada
apenas pelas homenagens litererárias a Arthur Rimbaud, Bruce Chatwin, Fernando
Pessoa, Malcolm Lowry, William S. Burroughs e Jean Genet, entre outros. Al Berto
assim cria uma mitologia privada25, com escritores acima citados no papel de
personagem ou de destinário.
A análise detalhada das influências poéticas de todos os autores acima citados
na obra al bertiana decerto ocuparia grande parte deste trabalho, por isso somos
obrigados a fazer uma selecção. Neste lugar, vamos tratar só dos autores da língua
portuguesa acima mencionados e vamos aludir às sua principais características e
influências na poética al bertiana.

3.1.1. Camões
As influências camonianas poderíamos, indiscutivelmnete, encontrar na obra da
grande parte dos poetas da língua portuguesa, e assim acontece também no caso de
Al Berto. Camões, o Príncipe da cultura e literatura portuguesa, sente nos seus versos
forte desconcerto de estar no mundo, a própria existência parece vão. Resulta uma
visão imensamente pessimista da vida:

(…)Porque aqueles que estão na noite escura,



nunca sentirão tanto o triste abiso,

se ignorarem o bem do Paraíso.


Canção, nô mais, que já não sei que digo;



mas porque a dor me seja menos forte,

diga o pregão a causa desta morte.26

24
É preciso dizer que não se trata da técnica de colagem nesta colectânea, o poema é constituído pela
reprodução dum quadro e pelo texto que segue o quadro, sendo os dois unidos temáticamente.
25
Freitas, Manuel de. A Noite dos Espelhos (Modelos e Desvios Culturais na Poesia de Al Berto).
Lisboa: Frenesi, 1999, pág. 15.
26
Camões, Luís Vaz de. A Instabilidade da Fortuna, disponível em:
< http://www.revista.agulha.nom.br/camoes27.html >.

16
O sujeito lírico de Camões sofre muita adversidade, é inquieto, sente dor de
existir vinculada também à condição amorosa (dirige-se muitas vezes a sua Senhora),
sente-se no mundo como se fosse extrangeiro, querendo compreender as coisas do
mundo. A dialéctica camoniana baseia-se nos contrastes (mundo terrestre e mundo
ideal; o bem e o mal etc.).
Al Berto, o poeta nómada inquieto, dialoga com a poesia camoniana. O conceito
de mar é muito presente na poesia portuguesa e Al Berto não faz exepção. Camões,
nos Lusíadas, construiu o mito nacional. Al Berto, n’O Mito da Sereia em Plástico
Português, responde a Camões com a imagem do mar cheio de lixo, preservativos,
garrafas e embalagens de tal maneira que o mito camoniano parece destruído.
Tal como Camões, Al Berto usa muito as antíteses na sua poesia. Um dos pares
antitéticos que aparecem com frequência é constituído pelo sono e pela insónia (a
última prevalece, talvez porque a escrita presuma em estado de vigília). Outra relação
antitética se estabelece entre memória e esquecimento. O sujeito poético expressa
muitas vezes o desejo de perder a memória (e fá-lo pelos remédios diversos: quer
fuga, quer drogas, quer álcool). Isso pode ser entendido, no contexto da relação
Camões - Al Berto como a ansiedade pelo mundo ideal e eterno: “(…) tento perder a
memória / única tarrefa que tem a ver com a eternidade.“27
Também podemos indicar a proximidade entre os dois poetas no que diz respeito
à presença de um interlocutor – seja a Senhora no caso de Camões, seja a relação Eu-
Tu no caso de Al Berto:

Se tanta pena tenho merecida


em pago de sofrer tantas durezas,
provai, Senhora, em mim vossas cruezas,
em aqui tendes na alma oferecida.(…)28

(…) tentei ser teu e amar o falso ouro… quis ser grande e morrer contigo
enfeitar-me com tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda…
cantar-te os gestos com ternura29

27
Al Berto. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005, pág. 316.
28
Camões, Luís Vaz de. Se Tanta Pena Tenho Merecida, disponível em
< http://www.revista.agulha.nom.br/camoes82.html>.
29
Al Berto. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005, pág. 160.

17
3.1.2. Cesário Verde
Achamos importante nomear a influêncaia de Cesário Verde na poética al
bertiana. Cesário Vedre, poeta oitocentista, no Sentimento dum Ocidental critica a
Civilização, é o poeta da permanente vertigem e do tédio. É o poeta da cidade,
cidade cheia dos tísicos e engomadeiras; podemos concebir a sua poesia, em oposição
a Camões, como o anúncio poético do fim do domínio marítimo e da história
monumental, com os seus poemas fecha uma época e abre a porta da época da
sociedade industrial urbana. As contrariedades que ele observa são precisamente a
podridão da Civilização industrial de aquel então no contraste com a passada euforia
expansionista.
Al Berto dialoga com a poesia de Cesário Verde na poética de Lisboa. Os dois
poetas escrevem sobre os problemas da cidade, sobre Tejo sujo e infeccioso. Pode-se
tratar duma metáfora clara da condição humana, marcada pela doença, quer de
tuberculose, quer da Sida. Os dois poetas são obsessionados por Lisboa, mas têm
uma visão bastante decadente da cidade:

Nas nossas ruas, ao anoitecer,


Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,


O gás extravasado enjoa-nos, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba,
Toldam-se duma cor monótona e londrina.(…)30

da escrita dos inumeráveis povos quase


nada resta – deitas-te exausto na lâmina da lua
sem saberes que o tejo te corrói e te suprime
de todas as idades da europa

mais além – para od lados do corpo – permanece


a tosse dos cacilheiros os olhos revirados
dos mendigos - o tecto onde um navio
nos separa de um vácuo alimentado a soro(…)31

30
Verde, Cesário. O Livro de Cesário Verde. Lisboa: Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 4ª
ed., 1995, pág. 94.
31
Al Berto. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005, pág. 624.

18
3.1.3. Pessoa/ Álvaro de Campos
Podemos encontrar uma relação intertextual entre Al Berto e heterónimo
pessoano: Álvaro de Campos. N´O Opiário, o sujeito poético está deprimido,
cansado, tedioso, em febre. Usa drogas como a fuga da sua depressão. Passa horas
escrevendo no bordo:

(…)Esta vida de bordo há-de matar-me. 



São dias só de febre na cabeça 

E, por mais que procure até que adoeça, 

já não encontro a mola pra adaptar-me.
(…)
Por isso eu tomo ópio. É um remédio 

Sou um convalescente do Momento. 

Moro no rés-do-chão do pensamento 

E ver passar a Vida faz-me tédio.(…)32

Vemos clara relação entre Álvaro de Campos e Al Berto, principalmente no que


diz respeito ao sujeito poético. O carécter nómada da voz poética al bertiana, junto
com a sua obsessão da escrita e com o consumo das substâncias que alteram a
consciência, faz lembrar precisamente o heterónimo pessoano.
Outra relação óbvia se estabelece ao considerar a problemática da multiplicidade
e das máscaras, falando neste caso já sobre poética pessoana em geral. Tal como
Fernando Pessoa cria os seus heterónimos, Al Berto também se manifesta múltiplo e
as vozes existentes nele são vários. Divide o seu próprio nome, como se demostra na
poema que inaugura O Medo:

(…)eis a deriva pela insónia de quem se mantém vivo num túnel da noite. os corpos de
Alberto e Al Berto vergados à coincidência suicidária das cidades(…)33

32
Pessoa, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Edições Ática, 1993. pág. 94.
33
Al Berto. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005, pág.11.

19
3.2. A função de escrita na obra al bertiana

esqueço-me de tudo, por isso escrevo. longe do terror ao sismo inesperado das estelas,
escrevo com a certeza de que tudo o que escrevo se apagará do papel no momento da
minha morte.(…)34

(…) definha-se texto a texto, e nunca se consegue escrever o livro desejado. morre-se
com uma overdose de palavras, e nunca se escreve a não ser que se esteja viciado.
morre-se, quando já não é necessário escrever seja o que for, mas o vício de escrever
é ainda tão forte que o facto de já não escrever nos mantém vivos.(…)35

O processo de escrever e as reflexões sobre a escrita relevam-se como um dos


temas centrais da poesia de Al Berto. Pensamos que no seu caso podemos falar sobre
a tendência autobiográfica na escrita, o que comprovam as palavras de Fernando
Pinto do Amaral, quem designa a poética al bertiana como um dos mais assumidos
confessionalismos da lírica portuguesa no qual o leitor fica confrontado com a
exibição ostensiva da personalidade do poeta36. Esta inclinação ao narcisismo e à
escrita diarística é evidente já nos títulos de alguns poemas: “nota autobiográfica &
stop“, “auto-retrato com revólover“ ou “notas para o diário“. Porém, os textos que
obedecem às regras do género da escrita autobiográfica e ao mesmo tempo
contemplam a escrita são as três sequências designadas em comum O Medo - O
Medo(1), O Medo(2), O Medo(3)37. Aparece a datação, a fragmentação em dias
cronologicamente classificados e o carácter circunstancial, que faz lembrar certos
apontamentos diários:

22 de janeiro
dormi bem. de quando em quando consigo dormir bem. há um mês que deixei os
soníferos.
quase não leio, deixei de ir ao cinema, não saio de casa. apesar de tudo não me sinto
desesperado. mantenho-me neste estado vegetativo.(…)38

Como já temos mencionado, O Medo até parecerá um diário propriamente dito,


mas não é assim. Nos textos abundam pasagens puramente líricas e, o que é mais
importante, o própio narrador d´O Medo afirma que não estamos – ainda – presentes
de um diário:

34
Ibid., pág. 225.
35
Ibid., pág. 369.
36
Esta característica feita por Fernando Pinto Amaral aparece em: Freitas, Manuel de. Me, Myself and
I (Autobiografia e Imobilidade na Poesia de Al Berto). Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, pág. 22.
37
Al Berto. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005, pág, 223-236, 357-376 e 455-462
respectivamente.
38
Ibid., pág. 362.

20
(…) … um dia começarei a redigir um diário, mas ainda é cedo, um diário requer
uma entrega total, um vigor, uma disciplina, de que não sou capaz. tenho medo, medo
de voltar a escrever incessantemente e rasgar tudo o que escrevo. medo, medo de
ouvir aquilo que não se ouve a não ser quando escrevo, como se o corpo todo
estremecesse pela última vez.39

Já neste fragmento aparece a reflexão de escrita. O narrador oscila entre dois


pólos:
(…)ali estava, enfim, a morte de inocência, e a revelação do destino que me
propunha cumprir: escrever, escrever sempre40;

e
(…)abandonei do mundo que está para lá do portão. abandonei a estrada, essa
ideia de fuga. abandonei o corpo segregado pelas palavras. vivo ao ritmo da
terra, deixei de escrever.41

Não encontra solução daquela obsessão pela escrita:

(…)se escrevo, acode-me quase sempre o desejo de parar de escrever. se não


escrevo, assalta-me o violento desejo de o fazer.42

Achamos interessantes, quanto à representação da escrita, os finais de cada uma


das partes d’O Medo. No final d´O Medo(1) há uma certa sugestão do silêncio
previsto:

(…)a espera, a espera de mim mesmo acabara. estou agora vivo na escrita que me
define, me evoca e me esquece. mas soaria a falso o que tenho a dizer sobre a morte,
calo-me…43

A conclusão d´O Medo(2) é muito mais agressiva, até faz lembrar uma
dependência física nas palavras (“(…) morre-se com uma overdose de palavras“44):

(…)às vezes, o dia inteiro resume-se a uma palavra; mas hoje, se não conseguir
escrever, saio para a rua e mato alguém.45

39
Ibid., pág. 234.
40
Ibid., pág. 367.
41
Ibid., pág. 373.
42
Ibid., pág. 376.
43
Ibid., pág. 236.
44
Ibid., pág. 369.

21
Por último, O Medo(3) termina com um notável alívio, mas obviamente não
definitivo:

(…)a noite vem fria e ligeira como um insecto. pouso a cabeça em tua voz. cubro o
rosto com as asas duma íbis. apenas o tiquetaque do despertador me avisa de que
continuo vivo. são horas de me erguer e caminhar fora do túmulo das palavras.46

Neste contexto inevitavelmente surge pergunta, posta pelo próprio narrador:


“(…)escrever, passar a vida a escrever, para quê?“47 Já sabemos que o processo
criativo representa uma obsessão permanente, uma dependência forte. Por outro lado,
também é possível escrever contra alguma coisa: “(…)escrevo, luto contra a
insónia“48. Más não é só insónia contra que a escrita serve:

(…)escrevo para não me deixar invadir pelo medo“49


(..)a partir deste momento acumulei infindáveis cadernos escritos; era esta a única
maneira de remediar o medo e de não possuir nada, e de ter possuído tudo.50

Como tentámos mostrar até este momento, a escrita contra o medo é um dos
temas centrais da poesia de Al Berto, o medo é omnipresente e omnipotente e o
sujeito poético parece não ter otro remédio senão escrever. Perante esta “poética do
medo“51 queremos recordar uma das epígrafes à primera edição d´O Medo do ano
1987: “(…) Fiz alguma coisa contra o medo. Fiquei toda a noite sentado a escrever.(…)“52

45
Ibid., pág. 376.
46
Ibid., pág. 462.
47
Ibid., pág. 359.
48
Ibid., pág. 230.
49
Ibid., pág. 370.
50
Ibid., pág. 367.
51
Freitas, Manuel de. Me, Myself and I (Autobiografia e Imobilidade na Poesia de Al Berto). Lisboa:
Assírio & Alvim, 2004, pág. 26.
52
Rilke, Rainer Maria. Cadernos de Malte Laurids Brigge. In Al Berto O Medo. Lisboa: Assírio &
Alvim, 5ª ed., 2005, pág. 661.

22
4. O MEDO – TRABALHO POÉTICO 1974-1997

Este capítulo tem como objectivo apresentar a reunião da poesia publicada de Al


Berto, intitulada O Medo, no que diz respeito à estrutura da obra tal como aos
principais aspectos temáticos. A obra completa de Al Berto circula em cinco edições.
O livro foi publicado pela primeira vez em 1987 e pela segunda vez em 1991, ambos
pela Contexto, ambos traziam foto que representara o autor na capa. Em 1997 se
publicou postumamente terceira edição, já pela Assírio & Alvim, que continha novas
coletâneas Luminoso Afogado e Horto de Incêndio. Da capa preta, lombada das
folhas em roxo, sem a foto do poeta, fato que se repete na quarta edição de 2000. As
cores usadas dessas duas publicacões, relacionadas ao luto, e a manifestação da
ausência do poeta aludem à sua morte. Recentemente, em 2005, Assírio & Alvim
publica até agora a última edição d´O Medo, encapada com a fotografia feita por
Paulo Nozolino, usada já nos primeiro livros da Contexto, que representa o poeta em
homenagem ao pintor Caravaggio. Essa última edição traz algumas modificacões.
Achamos importante mencionar que a organização dos textos deve-se a Munuel de
Freitas, experto da poesia de Al Berto.
A última edição de 2005 compõe-se de quinze livros organizados
cronologicamente que na maioria dos casos correspondem com os títulos de
colectâneas. O primeiro livro data-se do ano 1974, o último (que contém a única
colectânea publicada postumamente, Poeira de Lume) do ano 1997. Consideramos
interessante recordar que no segundo livro d´O Medo aparecem também colectâneas
escritas em francês53.
Também neste lugar somos obrigados a fazer certa selecção. Não vamos tratar
de todas as colectâneas d´O Medo por um motivo simples: no nosso trabalho não há
espaço suficiente para fazer tal coisa. Vamos deixar de lado os textos intitulados O
Medo (1,2,3), uma vez que deles tratámos no capítulo anterior. A nossa selecção
dever-nos-ia servir para sermos capazes de indicar a evolução na poesia de Al Berto,
já que escrevia e publicava a sua obra em três décadas, entre 1974 até 1997.
Escolhemos três livros d´O Medo, primeiro, quarto e décimo quarto, que
correspondem com as colectâneas À Procura do Vento num Jardim d´Agosto,

53
Trata-se de: Salive, Hôtel de la Gare; Le Plus Grand Calligraphe, de 1975 e Le Navigateur du
Soleil Incandescent, de 1979.

23
Trabalhos de Olhar e Horto de Incêndio. O motivo desta selecção é óbvio, trata-se da
primeira colectânea publicada em Portugal, da colectânea da fase madura do poeta já
estabelecido no ambiente português e da última colectânea na vida do autor, levando
em consideração também as nossas preferências subjectivas. Também queremos
aludir ao capítulo anterior, onde temos tratado de três textos escritos nos anos 80.

4.1. À Procura do Vento num Jardim d´Agosto

A primeira colectânea d´O Medo, À Procura do Vento num Jardim d´Agosto (1974),
contém sete poemas extensos, escritos em prosa poética: “atrium“54, “equinócios de
tangerina“, “teus dedos de noite açucarada“, “push here com uma polariod“, “as mãos
de kapa num jardim d´agosto“, “nota autobiográfica & stop“ e “o pranto das mulheres
sábias“. O poema que inaugura a colectânea funciona como uma espécie de
preâmbulo poético ou uma iniciação na poética do autor:

luta de sonâmbulos animais sob a chuva. insectos quentes escavam geometrias de


baba pelas paredes do quarto. em agonia, incham, explodem contra a límpida lâmina
da noite. são os resíduos ensanguentados do ritual.
na cal viva da memória dorme o corpo. vem lamber-lhe as pálpebras um cão ferido.
acorda-o para a inútil deambulação da escrita.
abandonado vou pelo caminho de sinuosas cidades. sozinho, procuro o fio de neón
que me indica a saída.
eis a deriva pela insónia de quem se mantém vivo num túnel da noite. os corpos de
Alberto e Al Berto vergados à coincidência suicidária das cidades.
eis a travessia deste coração de múltiplos nomes: vento, fogo, areia, metamorfose,
água, fúria, lucidez, cinzas.(…)55

Inicia-se com uma descrição dum ritual que faz lembrar o encontro sexual,
observado pelo sujeito poético que parece estar fora do se corpo. Tudo acontece num
espaço urbano, muitas vezes onírico por causa de ser modificado por sustâncias
químicas, como se comprovará posteriormente. No poema reflecte-se a
multiplicidade de vozes existentes na expressão de Al Berto. Aparece a separação
entre Alberto e Al Berto, que denota a distância já aludida do sujeito poético com a
relação com si próprio - um eu poético, olhando para si mesmo, fora do seu corpo.

54
Queremos mencionar que na primeira edição de À Porcura do Vento num Jardim d´Agosto o poema
atrium ocupava a última posição da colectânea, então aconteceu uma significativa intervenção do
poeta na sua obra. Os motivos para tal acontecimento não conhecemos. O facto de deslocar o poema
pode significar o interesse do autor em dirigir a leitura dos outros poemas.
55
Al Berto. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005, pág, 11.

24
Este jogo das alteridades está ligado ao espelho, motivo frequente da toda poesia al
bertiana:

(…)passaram doze anos e esquecer-te seria esquecer-me. repara no estremecimento


do sangue, a morte rendilhando peste nos ossos, os dedos paralisados, a fala, os
espelhos.(…)56

Este jogo com a fragmentação do eu aparece na fase inicial da obra de Al Berto,


precisamente na década dos 70. Nessas obras, frutos duma juventude rebelde, há
também uma forte influência da música rock, nomeadamente dos grupos como Joy
Division, The Velvet Underground57, The Doors ou cantores como Nick Cave, Bob
Dylan o David Bowie. Simbolizam o mundo rápido, cheio da êxtase e permanente
vertigem. O espaço dos poemas é internacinal, aparecem os lugares de exílio –
Bruxelas, Paris, Barcelona, Londres; com isso está relacionado também o facto que
Al Berto gosta de usar estrangeirismos ou palavras e frases de língua estrangeira, seja
inglês, seja francês:

(…)invento o mundo e o meu própio inferno. reconstruo-o a minha vontade. a minha


velha cabeça psicadélica pede mais sex drugs and rock and roll, volto já.(…)58

(…)o gira-discos tremia, a agulha avançava estria a estria num arranhado solo de
guitarra. how many roads must a man walk down/ before you call him a man59? ele
aproximava-se, as veias picadas, anca de lado ameaçava. vomitava num balde e
voltava cambaleando com Acid Queen nos braços.(…)60

(…)queria somente contar-te qualquer coisa sobre este arrepio, sobre as túlipas de
vidro fosco do candeeiro, ou como embarquei em Ostende e cheguei a Londres com
cem francos belgas no bolso e metade de um Toblerone. queria dizer-te que me sentia
frágil, que ainda me lembrava de Nému e de Albrecht. voávamos de concerto em
concerto, e não havia tempo. fugitivos sempre, chegámos a Barcelona, mas não me
perguntes como.(…)61

A projecção da cultura underground no Al Berto é evidente, igualmente como o


gosto do ambiente urbano nocturno, isolado, melancólico e depressivo, cheio de
drogas e de travestis. Os diálogos entre fotografia, pintura, música e poesia
constituem um traço inportante na obra do poeta; e é exactamente esta projecção e

56
Ibid., pág. 11.
57
A presença dos Velvet Underground é mais intensa e significativa em Lunário, romance de 1988,
junto com já mencionado O Anjo Mudo único texto em prosa publicado do autor.
58
Al Berto. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005, pág. 26.
59
Esta frase é tirada da canção de Bob Dylan chamada “Blowin‘ in the wind“.
60
Al Berto. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005, pág. 54.
61
Ibid., pág. 22.

25
absorção da chamada contracultura que contribui à denominação de Al Berto como o
poeta marginal ou maldito.
Os poemas deste primeira colectânea também se caracterizam por terem um tom
narrativo. Trata-se de longos poemas, com muitos versos sublinhados pelo autor, seja
com letra itálica, seja com letra maiúscula, seja com a combinação das palavras em
português, inglês e francês. Frequentemente aparece verso anafórico, no poema
“equinócios de tangerina“ trata-se do verso: “um vapor lilás imenso e
transparente“62, que aparece nesta forma ou, no fim do poema, na forma modificada:
“um vapor lilás imenso“; “um vapor lilás“, “um vapor“; “um“63, o que pode servir
para indicar uma gradação no texto e para chamar a atenção à conclusão do poema.
Algumas passagens revelam a influência da Geração Beat não só no nível temático,
mas também no nível formal. Os textos, com frequência, não estão divididos em
estrofas, e falta a pontuação, até fazem lembrar a escrita automática usada na poesia
surrealista:

(…)STOP
guitarras eléctricas um rock insupurtável uma cantata nocturna em cores nova
orleans yes I shot the king por causa disso apresentamos um programa de música
ininterrupta corpos nus em arabescos de mesquitas antigas pó hermafrodita
gelatinoso sobremesa compacta de morangos plastificados sexos beijando-se texto sob
um estado invento um sexo de fumo bato à punheta no canto prolongado dos
mergulhões em cio tentando estacionar na voz superafastada black follies sem luz
especial todo o ritual que não é interior não é texto sob um estado visitações cena
erótica esgares de cão assustado o carro avança ele queria que engolisse o chá de
ópio pesei então as palavras e os gestos mais curtos e espaçados como num tremer do
corpo afastei da boca a sabedoria dos dedos e das mãos e eles não repararem em
nada porque estivera sempre longe dali absent admitamos que não estou a mentir e
que assim aconteceu
STOP(…)64

O crítico literário Joaquim Manuel Magalhães foi um dos primeiros a ter


identificado e relacionado as influências da Geração Beat: “Poder-se-á sentir, ainda,
a presença das convenções pós-surrealistas e pós-beatnick. Mas acontece que essas
convenções são apenas o pano de fundo continuamente ultrapassado por uma
vertigem própria e por uma marca de abismo que é, indiscutivelmente, pessoal.“65

62
Ibid.. pág. 15.
63
Ibid., pág. 29.
64
Ibid., pág. 55.
65
Magalhães, Joaquim Manuel. Os Dois Crepúsculos. Lisboa: A Regra do Jogo, 1981, pág. 271.
in: Pequeno da Silva, Tatiana. Al Berto: Um Corpo de Incêndio no Jardim da Melancolia. Rio de
Janeiro: Trabalho de Dissertação, 2006.

26
4.2. Trabalhos do Olhar

A colectânea Trabalhos de Olhar foi publicada em 1982 e consta de sete


conjuntos poéticos chamados: “mar-de-leva“, “dispersos de milfonte“, “alguns
truques de ilusionismo“, “sete dos ofícios“, “tentativas para um regresso à terra“,
“filmagens“ e “trabalhos de olhar“.
Achamos interessante aludir à importância do título da colectânea. No sentido
geral, o nome pode enfatizar o significado do olhar no contexto artístico. Mais
especificamente, o olhar é importante também na empresa erótica – nos poemas, a
visualização da realidade por um olhar explicitamente homossexual pode servir para
tornar visível a existência de uma subcultura homossexual em Portugal. O espaço é
deslocado desde os lugares de exílio para um espaço menos específico, mas já alude à
uma actualidade nacional.
No conjunto de poemas “alguns truques de ilusionismo“ podemos encontrar os
pontos cardeais da subcultura homossexual e uma linguagem homoerotizada, como já
mencionámos no primeiro capítulo deste trabalho. Vamos ilustrar esta afirmação no
exemplo dos poemas “truque do gato“ e “truque do pêssego“66. No primeiro poema
aparece o motivo de voyeurismo67. O sujeito poético observa, de janela para janela
duma casa, um rapaz acariciando o gato. Está a recolher a roupa, “(…) três camisas,
dois lenços de assoar, cinco ou seis lençóis(…)“, o que pode ser percebido como
símbolos da masculinidade e do encontro sexual. Também a disposição das casas e
janelas numa rua estreita fazem lembrar uma arquitectura tipicamente portuguesa,
lisboeta. Aparece outro símbolo claro, do gato, que no contexto coloquial pode
significar um ser sexualmente desejado. No fim do poema, o sujeito poético torna o
seu desejo provocado na matéria dum texto literário: “(…) sorrio à minha ficcão
quotidiana/ pego num lápis e começo a escrever.“
No poema “truque do pêssego“ observa-se a mesma estratégia: o símbolo de
pêssego – rapariga linda – é transferido ao contexto homossexual, sendo o pêssego
símbolo dum rapaz jovem que provoca a excitação do sujeito poético:

vou levantar-me e morder um pêssego


trincá-lo, para que o sumo escorra aveludado pela língua , e um travo de

66
Al Berto. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005, pág. 173 e 177 respectivamente.
67
Isso podemos denominar como um topos literário, quando o protagonista, masculino e
heterossexual, observa o seu objecto desejado femenino, por exemplo em Romeo e Julieta de
Shakespeare.

27
natureza morta se me cristalize na garganta
terá que Rubens pintado pêssegos nus? e Hockney quartos semelhantes a piscinas
vazias?(…)68

Outra vez estamos perante uma alusão explícita à pintura, neste caso aos artistas
associados com a representação do corpo humano. Natureza morta evoca o símbolo
da pintura clássica como imagem da beleza ou prazeres da vida, mas implícitamente
alude ao outro pintor, Caravaggio: “Conhecida já a fascinação de Al Berto pela
pintura de Caravaggio, é interesante considerar a reputação de Caravaggio não só
como primeiro grande mestre da arte da natureza morta como também criador
exemplar das imagens de presumida significância homoerótica(…)“69
Al Berto, em Trabalhos de Olhar, introduz o sujeito poético homossexual num
contexto quotidiano e local e assim estabelece uma identidade de homosexual
masculino presente na actualidade portuguesa.

4.3. Horto de Incêndio

Horto de Incêndio é uma colectânea composta de duas partes. A primeira parte


consta de vinte e nove poemas. A segunda parte consiste nos quarto textos poéticos
intitulados “morte de rimbaud dita em voz alta no coliseu de lisboa, a 20 de
novembro de 1996“. O livro foi publicado em 1997 pela Assírio & Alvim e na capa
desta edição70 figura a fotografia da parte do rosto do poeta que está escondendo o
seu rosto nas mãos. O olho esquerdo fica semitapado pela mão. Considerando a
importância da imagem no contexto poético de Al Berto, achamos interessante aludir
à capa do livro; primeiro, porque o gesto se pode perceber como a protecção da
pessoa que sente medo, segundo, porque o tema da visão e do olhar é importante e
frequente na poesia de Al Berto, como mostrámos no subcapítulo anterior.
A primeira parte da colectânea inclui poemas que são em todos os casos
designados muito simplesmente (“horto“, “vestígios“, “inferno“, “sida“, entre

68
Al Berto. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005, pág 177.
69
Sabine, M.J., 2004. Um Olhar Consumidor: O antropofagismo luso-queer nos "Truques de
ilusionismo" de Al Berto. in: Aboud, S., Lopes, D., Mello, B., Garcia, W. Imagem e Diversidade
Sexual. São Paulo: Nojosa edições/ABEH, 2004.
70
Al Berto. Horto de Incêndio. Lisboa: Assírio & Alvim, 1ª ed., 1997.

28
outros). Trata-se duma poesia da retórica de solidão e esgotamento, escrita pelo poeta
já cansado e enfraquecido pela doença que está omnipresente nos poemas. O sujeito
poético no Horto de Incêndio é nostálgico e melancólico pelo passado que contrasta
com a realidade actual de “sessenta comprimidos letais ao pequeno-almoço“71. Este
contraste é bem notável no poema “vestígios“:

noutros tempos
quando acreditávamos na existência da lua
foi-nos possível escrever poemas e
envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído
pelas salivas proibidas – noutros tempos
os dias corriam com água e limpavam
os líquenes das imundas máscaras

hoje
nenhuma palavra pode ser escrita
nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras
ou se expande pelo corpo estendido
no quarto do zinabre e do alcoól – pernoita-se(…)72

Como já temos afirmado, nesta colectânea, publicada meses antes do


falecimento do autor, aparece uma retórica de solidão. Tal como no resto da obra de
Al Berto, também aqui o interlocutor é sempre presente, um “Tu“ é sempre invitado
ao colóquio, mas isso não significa nenhum obstáculo para que o sujeito poético não
se sinta solitário. Al Berto estabelece nesta colectânea algo que se pode chamar uma
enunciação da solidão. Os sujeitos líricos que aparecem nos poemas são
profundamente marcados pelo abandono:

(…) a dor de todas as ruas vazias.


sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.
a dor de todas as ruas vazias.(…)73

Há, no Horto de Incêndio, uma clara alusão a Portugal. Ao contrário dos seus
primeiros livros, onde prevalece a imagem da Europa como espaço acolhedor dos

71
Al Berto. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005, pág. 605.
72
Ibid., pág. 606.
73
Ibid., pág. 622.

29
seus poemas, neste último livro de Al Berto o território é indiscutivelmente nacional,
principalmente nos poemas Lisboa (1), Lisboa (2), Lisboa (3) e Lisboa (4). Também
nos outros poemas existe uma menção ao lugar, especialmente ao mar. O sujeito
lírico encontra-se muitas vezes próximo desse mar, “(…) o atlântico uivando de
abandono(…)“74.
O grande tema desta colectânea final é a reflexão sobre a morte nos poemas,
escritos num tom elegíaco, que contrasta com a glorificação de juventude e
entretenimento dos primeiros livros do autor. No caso de Horto de Incêndio, o último
sujeito lírico do poeta está definitivamente cansado, esgotado, de tal modo que
podemos considerar este livro inteiro como uma metáfora clara da doença e da morte.
Os poemas, neste contexto, oferecem uma visão do Homem que sabe certamente que
está muito próximo da sua morte. O poema sida é cheio do luto e baseia-se na ideia
de dor e da perda. O sujeito lírico é neste caso aquel que permanece, sofrendo a
ausência daqueles que um dia emagrecem – partem, e que deve acostumar-se com o
vazio:

(…) e mais nada se move na centrifugação


dos segundos – tudo nos falta

nem a vida nem o que dela resta nos consola


a ausência fulgura na aurora das manhãs
e com o rosto ainda sujo de sono ouvimos
o rumor do corpo a encher-se de mágoa(…)75

Como já mencionamos, a segunda parte do Horto de Incêndio consta do poema


“morte de rimbaud dita em voz alta no coliseu de lisboa a 20 de novembro de 1996“.
Trata-se dos quatro poemas menores que encerram a obra publicada na vida do poeta
Al Berto. Apresentam os principais temas já aludidos na primeira parte da colectânea
e concluem a sua arte poética. Recapitulando os passos de Rimbaud que acabam na
sua morte, o sujeito poético revela a fusão entre ele e Rimbaud.
Assim podemos ler o poema, tal como a colectânea inteira, como um testamento
poético frente à certeza da morte próxima.

74
Ibid., pág. 631.
75
Ibid., pág. 620.

30
5. O TEMA DO MEDO N´O MEDO

O objectivo deste capítulo é analisar o tema do medo na obra de Al Berto. A sua


poesia é cheia da sensação do medo e a importância deste sentimento é sublinhada
pelo próprio autor que denominou sob o título d´O Medo a reunião da sua poesia
publicada. Não evitamos pôr a questão o que quer o poeta dizer com essa
denominação, pelos quais motivos intitulou assim a sua obra inteira.
Segundo o Dicionário da Lingua Portuguesa76 tem a palavra medo varias
significações, mas achamos relevante no contexto da poesia al bertiana a definição
que caracteriza o medo como o “sentimento de inquietação que surge com a ideia de
um perigo real ou aparente“77. Oferece-se outra pergunta importante: o que é este
perigo ou, por outras palavras, medo de quê?
Antes de analizarmos o tema do medo concretamente, queremos neste lugar
mencionar o poema que Al Berto apresentou quase obssesivamente em todas as
leituras públicas ao longo da sua vida, acreditando que a sua obra se podia reduzir a
este único texto78. No poema aparecem os mais importantes conjuntos temáticos
ligados ao tema principal do medo e as respostas possíveis para a questão posta
acima: medo de quê?

se um dia a juventude voltasse


na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder… eu


veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquel que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois… mudaria de nome de casa de cidade de rio


de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite

76
Dicionário da Lingua Portuguesa 2004. Porto: Porto Editora, 2004.
77
Ibid., pág. 1083.
78
Anghel, Golgona. Eis-me Acordado Muito Tempo depois de Mim. Vila Nova de Famalição: Quasi
Edições, 2006, pág. 99.

31
onde deambulava a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim


com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitação no leme do frágil barco… eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição79

O poema dialoga em alguns aspectos com o texto chamado “Aprendiz de


Viajante“, publicado no livro O Anjo Modo80, o que comprova a importância dos
motivos que aparecem no poema e que podem caracterizar a obra inteira do autor:

(…) Atravessei cidades inóspitas, perdi-me entre mares e desertos, mudei-de casa
quarenta e quatro vezes e conheci corpos que deambulavam pela vasta noite…
Avancei sempre, sem destino certo.
(…)
Hoje sei que o viajante ideal é aquel que, no decorrer da vida, se despojou das coisas
materiais e das tarrefas quotidianas. Aprender a viver sem possuir nada, sem um
modo de vida(…)81

No poema “se um dia a juventude voltasse“ aparecem os três principais receios


do sujeito poético al bertiano que se notam no resto da obra do autor, os quais vamos
denominar como medo do tempo (relacionado com os preocupações sobre o tempo, o
“agora“, o envelhecimento ou a morte), medo da perda (relacionado com o tema de
amor e com as preocupações existencias) e, finalmente, medo de permanecer
(relacionado com a obssesão pelos viagens e pela vida nómada). É preciso relembrar
que o sujeito poético não está passivo, não ignora o seu medo, pelo contrário, através
do processo criativo luta contra o medo, não encontrando otro remédio senão
escrever.
O medo na perspectiva al bertiana significa o conflito permanente no sujeito
poético – o conflito entre a sua vida e o mundo que lhe toca, invade, abandona. É o
impulso essencial da condição humana, antecede muitos acontecimentos na vida
humana e é ligado com a própria existência. Por isso tornou-se o tema principal da
poesia de Al Berto.

79
Al Berto. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005, pág. 332.
80
Al Berto. O Anjo Mudo. Lisboa: Assírio & Alvim, 2ª ed., 2001
81
Ibid., pág. 9, 10

32
5.1. Medo do tempo

No capítulo número três, ao aludir aos inspiradores e modelos literários, temos


mencionado a contribuição baudelaireana para a obra de Al Berto, concretamente no
que diz respeito à temática do tempo. O tempo é indubitavelmente um dos topos por
excelência da poesia de todas as épocas, mas foi Baudelaire quem introduziu esse
topos na poesia moderna82 e influiu profundamente a poesia al bertiana. Manuel de
Freitas no livro A Noite dos Espelhos (Modelos e Desvios Culturais na Poesia de Al
Berto) afirma que em nenhum outro livro da poesia portuguesa se pergunte tantas
vezes as horas como n´O Medo. Sublinha-se a obsessão de Al Berto pela pergunta
“que horas são“?:

(…) que horas serão para lá desta precária sílaba(…)83


(…) que horas serão para lá deste século(…)?84

Aparece também o motivo de incorporação do tempo que esté ligado ao motivo


de intemporalidade:

(…)que horas serão dentro do meu corpo(…)85


(…) descobri o lugar onde o corpo e a mente pernoitam fora do tempo.86

(…) o tempo é coisa que não existe mais(…)87

Daí a importância do “agora“ na poesia de Al Berto, trata-se duma questão


permanente – quando estamos agora? É possível saber quando estamos neste
momento, neste agora? O sujeito poético formula perguntas mas as perguntas ficam
sem respostas concretas. Servem como as reflexões sobre o tempo. Ss vezes aludem
à corporeidad (que horas serão dentro do meu corpo?). Os acontecimentos ideais
acontecem fora do tempo, diferentemente da actualidade, do triste “agora“:

82
Freitas, Manuel de. A Noite dos Espelhos (Modelos e Desvios Culturais na Poesia de Al Berto).
Lisboa: Frenesi, 1999, pág. 17.
83
Al Berto. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005, pág. 312.
84
Ibid., pág. 458
85
Ibid., pág. 375, 643.
86
Ibid., pág. 459.
87
Ibid., pág. 465.

33
(…) aceito como único corpo aquel que não cresceu dos relógios do mundo.“
Surge também a imagem do tempo devorador:

(…) o tempo foi sempre a minha ruína…(…)88


passo os dias a observar os objectos
sinto o tempo devorá-los impiedosamente(…)89

Este conceito do tempo devorador é inseparável doutro conceito ligado à


problemática do tempo: trata-se do medo da velhice que é “uma das mais eficazes e
melancólicas pulsões da poesia de Al Berto“90. A sua poesia é cheia das reflexões e
meditações sobre a juventude já passada, sobre a velhice que inevitavelmente tem que
chegar e invadir o corpo, sobre a doença, morte e, daquí, do carácter fugidio da
existência humana e, finalmente, sobre os tempos passados nos quias tudo era
possível comparando com o hoje, o agora.

revejo fotografias. retratos que me tiraram por volta se 1970. é espantoso como quinze
anos depois, ao olhá-los, chego à conclusão de que sou a síntese viva daquilo que já
não sou. fui todas aquelas máscaras, e a que trago hoje é um imenso e paciente
trabalho de composição, nela estão fragmentos de todas as outras.
dificilmente me reconheço naquelas imagens. terei sido assim alguma vez? só estas
fotografias mo poderiam dizer e explicar. mas, em todas elas, sem exepção, se me
revelam somente pequenos detalhes de como hoje me vejo. a imagem que tenho está
dispersa e morta, espalhada em pedaços, ao acaso nas fotografias de 70.(…)91

(…) vou destruir todas as imagens onde me reconheço


e passar o resto da vida assobiando ao medo.92

poro a poro as sombras erguem-se para o sol


tocam o umbral da memória onde guardei
o corpo feliz do adolescente que fui(…)93

eis-me acordado
com o pouco que me sobejou a juventude nas mãos(…)94

noutros tempos
quando acreditávamos na existência da lua
foi-nos possível escrever poemas
(…)

88
Ibid., pág. 232.
89
Ibid., pág. 334.
90
Freitas, Manuel de. A Noite dos Espelhos (Modelos e Desvios Culturais na Poesia de Al Berto).
Lisboa: Frenesi, 1999, pág. 19.
91
Al Berto. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005, pág. 312.
92
Ibid., pág. 317.
93
Ibid., pág. 539.
94
Ibid., pág. 541.

34
hoje
nenhuma palavra pode ser escrita(…)95

5.2. Medo da perda

A poesia de Al Berto nasce de um desamparo existencial e este desamparo nota-


se claramente nos versos. Na obra de Al Berto deparamos, segundo António Ramos
Rosa96, com uma poesia da violência do mundo e da realidade insuportável, da
violenta negatividade que é uma pulsão de liberdade absoluta, procurando o sujeito
poético o seu espaço vital e fugindo de todos os espaços que o sufocam. Tomar
contacto com o mundo quase sempre significa uma perda irreparável e um grito de
medo.
Nos versos aparece a expressão explícita do medo de perder outra pessoa, do
interlocutor presente:

(…) o amor
deve ser esta persegição de sombras
esta cabeça de mármole decepada
ou este deserto
onde o receio de te perder permanece oculto
na sujidade antiga dos dias97

(…) sulcaria com as unhas o medo de te perder…(…)98

(…) o receio
de abrir os olhos e as rosas não estarem onde as sonhei
e teu rosto ter desaparecido no fundo do mar(…)99

Não se pode denominar a sua poesia como poesia amorosa, O Medo certamente
não é o livro de amor. Embora possamos encontrar reflexões sobre amor, quase
nunca se trata dum amor ideal. Al Berto poeticamente anuncia a crise na existência
humana, e esta crise tem impacto também no amor, na capacidade de amar outra
pessoa. Até podemos afirmar que mais do que amor Al Berto canta a sexualidade, o
erotismo, apoiando-se frequentemente nas palavras como é o desejo, o corpo, o fogo,
a paixão ou o sexo. As vezes parece que o sujeito poético não quer amar e que as suas

95
Ibid. pág. 606.
96
Ramos Rosa, Antonio. Al Berto ou a Violência do Desamparo. In A Parede Azul. Estudos sobre
Poesia e Artes Plásticas. Lisboa: Editorial Caminho, 1991, pág. 119.
97
Al Berto. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005, pág. 522.
98
Ibid., pág. 332.
99
Ibid. pág. 333.

35
relações amorosas não se baseiam no amor senão no sexo. O seu medo da possível
perda impede-lhe amar o outro.
(…) tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro… quis ser grande e morrer
contigo
efeitar-me com tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda…
cantar-te os gestos com ternura
mas não(…)100

O tema de amor está ligado ao narcisismo ou a obsessão excessiva por si próprio.


Talvez por ser a única possibilidade do amor onde o sujeito poético não se encontra
no perigo da perda:

só conseguia amar-te se falasse de mim


sem cessar(…)101

5.3. Medo de permanecer

O sujeito poético al bertiano parece sentir a necessidade de fugir sempre,


procurando a liberdade absoluta, e daí a importância da viagem e o carácter nômada
da voz poética al bertiana. A viagem caracteriza-se sobretudo por meio da experência
e representa o estilo de vida do sujeito poético. Sua experiência urbana de Bruxelas,
Londres, Paris e Barcelona da década dos setenta reflecte-se no seu discurso poético:

TELEGRAMA:
para viagem directa STOP renuncio atravessar a cidade cheia de aventuras STOP102

(…)como embarquei em Ostende e cheguei a Londres com cem francos belgas no


bolso e metade de um Toblerone.(…)103

A viagem talvez seja o tema básico da obra O Anjo Mudo onde esclarece-se o
conceito de nomadismo al bertiano:

(…) Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos purifica. Afasta o espírito do que é
supérfluo e inútil; e o corpo reencontra a harmonia perdida – entre o homem e a
terra.

100
Ibid., pág. 160.
101
Ibid., pág. 521.
102
Ibid. pág. 52.
103
Ibid., pág. 22.

36
O viajante aprendeu, assim, a cantar a terra, a noite e a luz, os astros, as águas e a
treva, os peixes, os pássaros e as plantas. Aprendeu a nomear o mundo.
Separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era
nómada; sabe que o homem não foi feito para ficar quieto. A sedentarização
empobrece-o, seca-lhe o sangue, mata-lhe a alma – estagna o pensamento.
Por tudo isto, o viajante escolheu o lado nómada da linha de água. Vive ali, e canta –
sabendo que a vida não terá sido um abismo, se conseguir que o seu canto, ou
estilhações dele, o una de novo ao Universo.104

De acordo com António Ramos Rosa105 podemos afirmar que o sujeito poético
fuge de todos es espaços que o sufocam:

(…) mais uma vez mudámos de casa, mais uma vez morremos, mais uma vez largámos
um rasto de coisas vivas e mortas. desta ferida escapa-se a voz que nos persegue, o
fumo azulado de muitos cigarros. vagabundeamos pelos bairros de Barcelona,
habitámos os subúrbios doutras cidades sem nome. tudo o que possuímos é o que
transportámos sobre o corpo, esta sopa azeda e viscosa concedida pela vida que nos
resta atravessar. fugimos sempre que deparamos com um espelho.106

Daí nota-se o chamado medo de permanecer, o sujeito poético errante não pode
permanecer num lugar, sempre tem que fugir e avançar, procurando o seu espaço
vital, porque não quer levar a vida no fundo do abismo: “Al Berto insere-se na
experiência e no destino dos grandes poetas modernos que, víctima de uma obscura
maldição, como “horribles travailleurs“, procuram a sua palavra nas ruínas da
linguagem e mergulham na escuridão para apreenderem a vida no seio de
abismo.“107
O sujeito poético sente medo de permanecer, porque se ficasse parado e quieto,
nunca seria feliz. Acredita que se permanecesse num lugar, seria devorado pelo
mundo, porque para o ser humano é natural avançar sempre.

104
Al Berto. O Anjo Mudo. Lisboa: Assírio & Alvim, 2ª ed., 2001, pág. 10.
105
Ramos Rosa, Antonio. Al Berto ou a Violência do Desamparo. In: A Parede Azul. Estudos sobre
Poesia e Artes Plásticas. Lisboa: Editorial Caminho, 1991.
106
Al Berto. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005, pág. 18
107
Ramos Rosa, Antonio. Al Berto ou a Violência do Desamparo. In: A Parede Azul. Estudos sobre
Poesia e Artes Plásticas. Lisboa: Editorial Caminho, 1991, pág. 120

37
CONCLUSÃO

Um mês antes de morrer disse Al Berto ao jornal Expresso: “Todos os meus


livros tiveram um carácter de urgência“108. Achamos que esta frase realmente
caracterize a obra do autor que acabámos de analizar neste trabalho. A urgência, ao
nosso ver, acentua a poética do escritor e impressiona o leitor imediatamente.
A criação poética de Al Berto é marcada pela fusão entre a obra de arte e vida
artística; ao correr mais de vinte anos da produção poética o poeta ficcionalizou
bastante a própria vida. Concretamente o que podemos encontrar nos seus poemas a é
experiência íntima com o exílio, com o desejo homoerótico, com o modo de vida
errante e, finalmente, com a doença e a noção da morte próxima. Esses conjuntos
temáticos são, ao nosso ver, os mais importantes na poesia al bertiana.
Outros apectos importantes na obra al beriana avistamos nos enlaces
intertextuais com vários escritores europeus, estadounienses e também portugueses e
na reflexão metaligüistica pela própria escrita como processo que serve para lutar
contra o medo.
Temos marcado a evolução na poesia al bertiana. No presente trabalho temos
seleccionado três colectâneas d´O Medo os quais temos submetido à investigação
detalhada. A primeira colectânea escolhida, À Procura do Vento num Jardim
d´Agosto, representa a fase inicial do poeta, sendo a primeira colectânea publicada
em Portugal. A segunda colectânea escolhida, Trabalhos de Olhar, percence na
producção madura do poeta já estabelecido, E finalmente, a terceira colectânea
escolhida e ao mesmo tempo a última publicada na vida do autor, Horto de Incêndio,
representa o testamento poético ao enfrentar o poeta a morte próxima.
A fase inicial é influída pela juventude rebelde do poeta e pela cultura
underground europeia. Os poemas destacam-se da narratividade e da
intertextualidade, principalmente no diálogo com o mundo da música rock. Os

108
Cf. Nogueira, Lucila. Al Berto Descoberto. disponível em:
<http://www.secrel.com.br/jpoesia/ag44berto.htm>

38
poemas não estão divididos em estrofas e falta a pontuação, muitas vezes trata-se da
prosa poética.
A fase madura, representada na nossa selecção pela colectânea Trabalhos de
Olhar, caracteriza-se pelos poemas já divididos em estrofes escritos no verso livre.
Temos acentuado o tema da “estética pederástica“ e temos encontrado os pontos
cardeais da subcultura homossexual e uma linguagem homoerotizada. De acordo com
os pesquisadores Sabine e Lugarinho vemos a contribuição da poesia al bertiana na
compreensão da cultura gay lusitana e o enriquecimento da linguagem dessa
subcultura.
Na fase final temos deparado com os versos cheios da sensação de solidão e
esgotamento, escritos pelo poeta enfraquecido pela doença, omnipresente nos
poemas. Aparecem também as reflexões sobre a morte, escritos num tom elegíaco, o
que contrasta com a poética da permanente vertigem e da vida activa a rápida dos
poemas da fase inicial. Igual como na fase madura, aparecem poemas escritos no
verso livre, intitulados simplesmente.
O grande tema do poética al bertiana é o medo. No último capítulo do presente
trabalho temos procurado mostrar as manifestações do medo nos versos concretos,
dividindo a temática do medo em três grupos complexos chamados medo do tempo,
medo da perda e medo de permanecer. Temos tentado revelar os motivos pelos quais
o tema do medo tornou-se principal da poesia al bertiana e daí, por quê o poeta
intitulou a sua colectânea com esse nome. Na nossa opinião não é preciso procurar
respostas complicadas. A palavra medo aparece com frequência nos versos do poeta,
ele explicitamente indica os seus receios principais e considera este sentimento como
a condição fundamental da vida humana.

39
BIBLIOGRAFIA

PRIMÁRIA

• Al Berto. Horto de Incêndio. Lisboa: Assírio & Alvim, 1ª ed., 1997.


• Al Berto. O Medo. Lisboa: Assírio & Alvim, 5ª ed., 2005.
• Al Berto. Lunário. Lisboa: Assírio & Alvim, 2ª ed., 1999.
• Al Berto. O Anjo Mudo. Lisboa: Assírio & Alvim, 2ª ed., 2001.
• Pessoa, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Edições Ática,
1993.
• Verde, Cesário. O Livro de Cesário Verde. Lisboa: Biblioteca Ulisseia de
Autores Portugueses, 4ª ed., 1995.

SECUNDÁRIA

• Anghel, Golgona. Eis-me Acordado Muito Tempo depois de Mim. Vila Nova
de Famalição: Quasi Edições, 2006.
• Barreiros, António José. História da Literatura Portuguesa, vol. 2: Séculos
XIX-XX. Braga: Pax, 11ª ed., 1985.
• Dicionário da Lingua Portuguesa 2004. Porto: Porto Editora, 2004.
• Emerson da Cruz, Inacio. A Herença Invisível: Ecos da “Literatura Viva“ na
Poesia de Al Berto. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro,
2006.
• Freitas, Manuel de. A Noite dos Espelhos (Modelos e Desvios Culturais na
Poesia de Al Berto). Lisboa: Frenesi, 1999.
• Freitas, Manuel de. Me, Myself and I (Autobiografia e Imobilidade na Poesia
de Al Berto). Lisboa: Assírio & Alvim, 2004.
• Frias Martins, Manuel. 10 Anos da Poesia em Portugal 1974 – 1984, Leitura
de uma Década. Lisboa: Editorial Caminho, 1986.

40
• Guimarães, Fernando. A Poesia Contemporânea Portuguesa (do Final dos
Anos 50 aos Anos 90). Vila Nova de Famalição: Quasi Edições, 2002.
• Moisés, Massaud. A Criação Literária: Poesia. São Paulo : Cultrix,
1984.
• Pequeno da Silva, Tatiana. Al Berto: Um Corpo de Incêndio no Jardim
da Melancolia. Rio de Janeiro: Trabalho de Dissertação, 2006.
• Pinto do Amaral, Fernando. Anos 70 e 80 – Poesia. in: Óscar Lopes, Maria de
Fátima Marinho (dir.). História da Literatura Portuguesa, vol. 7 – As
Correntes Contemporâneas. Lisboa: Publicações Alfa, 2002.
• Prado Coelho, Eduardo. A Noite do Mundo. Lisboa: IN-CM, 1988.
• Ramos Rosa, Antonio. A Parede Azul. Estudos sobre Poesia e Artes
Plásticas. Lisboa: Editorial Caminho, 1991.
• Sabine, M.J., 2004. Um Olhar Consumidor: O antropofagismo luso-queer nos
"Truques de ilusionismo" de Al Berto. In: Aboud, S., Lopes, D., Mello, B.,
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2004

PÁGINAS DE INTERNET

• Camões, Luís Vaz de. A Inestabilidade de Fortuna. Disponível em


<http://www.revista.agulha.nom.br/camoes27.html>, acessado em 8 de enero
de 2008.

• Camões, Luís Vaz de. Se Tanta Pena Tenho Merecida. Disponível em


<http://www.revista.agulha.nom.br/camoes82.html>, acessado em 8 de enero
de 2008.

• Costa, Paula Cristina. Algumas tendências da poesia portuguesa


contemporânea desde os anos 50 até 2000. Disponível em
<http://www.secrel.com.br/jpoesia/lv01ensaio4.htm>, acessado em 11 de
dezembro de 2007.

41
• Nogueira, Lucila. Al Berto Descoberto. Disponível em
<http://www.revista.agulha.nom.br/ag44berto.htm> , acessado em 8 de enero
de 2008.

42