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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE CURSO DE DOUTORADO EM SAÚDE COLETIVA

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE CURSO DE DOUTORADO EM SAÚDE COLETIVA

(ASSOCIAÇÃO AMPLA UECE/UFC/UNIFOR)

EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR E SAÚDE EM ESCOLAS PÚBLICAS MUNICIPAIS DE FORTALEZA: PROPOSTA DE ENSINO PARA SAÚDE

HERALDO SIMÕES FERREIRA

FORTALEZA – CEARÁ

2011

1

HERALDO SIMÕES FERREIRA

Educação Física Escolar e Saúde em Escolas Públicas Municipais de Fortaleza: Proposta de Ensino para Saúde

Tese apresentada ao Curso de Doutorado em Saúde Coletiva (Associação Ampla UECE/UFC/UNIFOR), como requisito parcial para a obtenção do Título de Doutor em Saúde Coletiva. Orientação do Prof. Dr. José Jackson Coelho Sampaio.

Fortaleza – Ceará

2011

2

FOLHA DE APROVAÇÃO

3

AGRADECIMENTOS

Para a realização desta Tese de Doutorado, necessitei da ajuda e contribuição de muitos, a quem especialmente agradeço:

à Universidade Estadual do Ceará, meu local de trabalho e estudo, pela acolhida e pelas possibilidades acadêmicas e profissionais;

à Prefeitura Municipal de Fortaleza, particularmente a Secretaria

Municipal de Educação, representada pelas escolas participantes do estudo, pela oportunidade e acesso as suas dependências; aos professores e alunos das escolas envolvidas, pela disponibilidade em participar da pesquisa; aos docentes do Doutorado em Saúde Coletiva, pela transmissão de conhecimentos; aos colegas do Doutorado em Saúde Coletiva, pela convivência repleta de descobertas; aos alunos que tive o prazer de acompanhar durante todo meu percurso como professor da escola básica e do ensino superior, aprendi muito com todos; ao aluno Felipe Catunda, meu bolsista de iniciação científica, pela contribuição e ajuda na pesquisa; ao mestre Prof. Luiz Carlos Cardoso do Nascimento, incentivador e também responsável pela minha busca em seguir o caminho da razão;

ao Prof. Dr. Antonio Germano Magalhães Junior, pelas conversas, conselhos e amizade;

à Profª. Drª Ana Maria Fontenelle Catrib, pela orientação no mestrado;

à Profª. Drª Suraya Cristino Darido, pela capacidade em elevar a Educação Física ao estatuto de Ciência; ao Prof. Dr. José Jackson Coelho Sampaio, pela orientação no doutorado pelo incentivo, aulas de vida e ensinamentos imersos em prosa e poesia.

4

Dedico este trabalho a Luiza Lúlia Feitosa Simões, minha eterna esposa; Priscilla Feitosa Simões e Heraldo Filho, meus filhos amados; Moisés Coelho de Oliveira (in memoriam), meu padrinho; Ildete Maria Ferreira, minha mãe; aos meus irmãos, Alexandre e Cláudio Simões.

5

Amar, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.

Vinícius de Morais

6

RESUMO

Educação Física Escolar e Saúde em Escolas Públicas Municipais de Fortaleza:

Proposta de Ensino Para Saúde. Orientador: Prof. Dr. José Jackson Coelho Sampaio. Autor: Heraldo Simões Ferreira. Tese de Doutorado. Curso de Doutorado em Saúde Coletiva (Associação Ampla UECE/UFC/UNIFOR). Centro de Ciências da Saúde. Universidade Estadual do Ceará, 2011.

Compreende-se saúde na atualidade como o resultado das condições físicas, sociais, psicológicas e materiais do ser humano. A prática da atividade física também é entendida como requisito para aquisição da saúde. A Educação Física é parte importante dos processos de conhecimento e de produção de saúde na escola. Sua inclusão nos currículos escolares responde a uma preocupação social sobre a busca de uma vida saudável. O objetivo deste estudo foi analisar a relação pedagógica entre a Educação Física e a saúde e com base nesta análise propor meios de ensino e aprendizagem sobre o tema. Para tanto foram formuladas questões-guias da atividade investigativa, entre as quais: Qual o entendimento sobre saúde dos alunos e dos professores da disciplina? Como os professores desenvolvem e aplicam o tema? Utilizou-se um estudo analítico-crítico, predominantemente qualitativo. Como referencial teórico recorreu-se a Minayo (1992), Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1998) e Darido (2003; 2005). O campo da pesquisa foi a rede municipal de ensino de Fortaleza, representada por seis escolas, uma de cada Secretaria Executiva Regional. O estudo foi composto por 914 alunos e todos os professores que lecionavam a disciplina Educação Física nas escolas participantes, totalizando número igual a nove. A coleta de dados foi realizada em duas etapas: primeiramente aplicou- se um questionário aos alunos e em seguida os professores foram entrevistados. As respostas do questionário foram analisadas por meio da Estatística Descritiva e da Análise de Conteúdo (BARDIN, 1977), assim como as entrevistas. Ao final, analisaram-se os dados coletados mediante uma triangulação metodológica. A Resolução nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde, foi a diretriz para os procedimentos éticos do estudo. Os principais resultados relacionados aos dados coletados junto aos alunos apontam que os participantes: compreendem que a Educação Física é da área da saúde; entendem que a prática do exercício isolada não pode oferecer saúde; percebem que a aula de Educação Física tal como lhes é oferecida, não contribui para a aquisição de conhecimento sobre saúde; conceituam saúde com suporte em expressões simples; percebem que são necessárias outras atitudes para a consecução da saúde, além da prática do exercício; gostariam que, nas aulas, o tema ‘relação atividade física/saúde’ fosse efetivamente abordado. Os principais resultados adquiridos com as informações dos docentes revelaram que:

formulam seus conceitos de saúde referendados pela conceituação da OMS; realizar a prevenção é o objetivo maior, quando se inclui o assunto nas aulas de Educação Física; não realizam aulas de campo e palestras sobre o conteúdo; a relação ‘atividade física/saúde’ é o conteúdo mais importante a ser abordado na visão dos docentes durante aulas; e acreditam que os alunos não estão melhorando seus conhecimentos sobre saúde por meio da Educação Física, da forma como é administrada. Após a análise dos resultados formulou-se uma proposta para inclusão do tema saúde nas aulas da disciplina composta por duas partes. A primeira apresentou um projeto com o objetivo de estruturar ambientes saudáveis na escola e a segunda ofereceu sugestões específicas de como inserir o tema saúde nos conteúdos da Educação Física. Ao analisar o objetivo principal, concluiu-se que a relação pedagógica entre a Educação Física e a saúde nas escolas apresenta programa não resolutivo, daí a necessidade de adotar propostas inovadoras, tal qual a defendida nesta tese.

Palavras Chave: Saúde Coletiva. Educação Física. Saúde em Ambientes Escolares.

7

ABSTRACT

Physical Education and Health in Fortaleza Municipal Public Schools: Proposal for Education in Health. Advisor: Prof. Dr. José Jackson Coelho Sampaio. Author: Heraldo Simões Ferreira. Doctoral Thesis. Doctorate in Colective Health (Wide Association UECE / UFC / UNIFOR). Health Sciences Center, Ceará State University, 2011.

Understands current health care as the result of physical, social, psychological and human material. The physical activity is also understood as a requirement for purchase of health. Physical Education is an important part of the processes of knowledge production and health in school. Its inclusion in school curricula responds to a social concern about the search for a healthy life. The objective of this study was to analyze the relationship between teaching physical education and health based on this analysis and propose ways of teaching and learning on the subject. For both questions were formulated investigative activity guides, including: What is the understanding of health of students and teachers of the discipline? As teachers develop and apply the theme? We used an analytical, critical, predominantly qualitative. As a theoretical framework used to Minayo (1992), the Paramêtros Curriculares Nacionais (BRAZIL, 1998) and Darido (2003, 2005). The field of research was the municipal school of Fortaleza, represented by six schools, one from each Regional Executive Office. The study consisted of 914 students and all teachers who taught Physical Education in the participating schools, a total number equal to nine. Data collection was performed in two steps: first we applied a questionnaire to students and then teachers were interviewed. The survey responses were analyzed by descriptive statistics and content analysis (Bardin, 1977), as well as interviews. In the end, we analyzed the data collected through a methodological triangulation. Resolution No. 196/96 of the National Health Council, was the guideline for ethical procedures of the study. The main results related to the data collected from the students point out that the participants understand that physical education is the area of health, understand that the practice of exercise alone can not provide health realize that the Physical Education class is offered asdoes not contribute to the acquisition of knowledge about health, health conceptualize supported in simple expressions, realize that other actions are necessary to achieve health, and the practice of exercise, like that in class, the theme 'physical activity relationship/health’ were effectively addressed. The main results obtained with the teachers revealed that information: formulate their concepts of health concept endorsed by the WHO to undertake prevention is the goal, when the subject is included in Physical Education classes, do not hold classes and lectures on field content, the relation 'physical activity/health' is the most important content to be addressed in the vision of teachers during classes, and believe that students are not improving their knowledge of health through physical education, the way it is administered. After analyzing the results formulated a proposal for inclusion of the health issue of discipline in the classroom consists of two parts. The first presented a project with the objective of structuring a healthy environmet in scholl and the second offered specific suggestions for how to enter the subject of health content in Physical Education. By analyzing the main goal, it was concluded that the pedagogical relationship between physical education and school health program has not decisive, hence the need to adopt innovative approaches, like the one advocated in this thesis.

Keywords: Health. Physical Education. Health in School Settings.

8

SUMÁRIO

1.

INTRODUÇÃO

11

1.1 Motivação

11

1.2 Problematização

12

1.3 Justificativas

13

1.4 Referenciais Teóricos

17

1.5 O tema e sua Delimitação

17

1.6 Problemas

18

1.7 Hipóteses

18

 

1.8 Tese

19

 

1.9 Objetivos

20

1.9.1 Objetivo Geral

20

1.9.2 Objetivos Específicos

20

1.10 Apresentação do Texto

20

2.

REVISÃO DE LITERATURA

21

2.1 Conceito de Saúde

21

2.2 As Relações entre Educação Física Escolar e Saúde: recortes

25

históricos e conceituais.

 

2.2.1 Tendência Higienista (até 1930)

38

2.2.2 Tendência Militarista (1930 – 1945)

41

2.2.3 Tendência Pedagogicista (1945 – 1964)

43

2.2.4 Tendência Esportivista (1964 – 1985)

44

2.2.5 Tendência Popular (1985 – atualidade)

46

2.2.6 Psicomotricidade.

48

2.2.7 Construtivista.

49

2.2.8 Desenvolvimentista.

49

2.2.9 Críticas.

50

2.2.10 Saúde Renovada

50

2.2.11 Parâmetros Curriculares Nacionais – PCNs

52

2.3

A Saúde Coletiva Aplicada a Educação Física Escolar: A humanização

55

em ação.

9

Escolar

3.

METODOLOGIA

65

3.1 Natureza Geral do Estudo

 

65

3.2 Cenário

67

3.3 Participantes

71

3.4 Instrumentos de coleta de dados e informações

 

74

3.5 Análises dos dados e das informações.

 

76

3.6 Procedimentos éticos.

 

77

4, O SABER DISCENTE SOBRE A SAÚDE NA EDUCAÇÃO FÍSICA

 

78

 

4.1 Área de conhecimento da Educação Física

 

78

4.2 Nível de entendimento de saúde adquirido por meio das aulas de

80

Educação Física

 
 

4.3 Discussões sobre saúde na aula de Educação Física.

 

82

4.4 A saúde e os exercícios físicos.

 

83

4.5 Conhecimento sobre Saúde na Educação Física

 

85

4.6 Atividades de campo sobre o tema saúde.

 

87

4.7 Aulas sobre saúde no laboratório de informática

 

88

4.8 Pesquisa sobre saúde

 

89

4.9 Questões Subjetivas

 

90

4.9.1 Conceito de saúde.

 

90

4.9.2 Obtenção de saúde, além da prática do exercício físico.

 

99

4.9.3 Conteúdos de saúde desejados nas aulas de Educação Física.

103

4.10

Principais achados

 

109

5.

A PRÁTICA DOCENTE SOBRE SAÚDE NA EDUCAÇÃO FÍSICA

 

110

5.1 Conceito de saúde.

 

110

5.2 Utilização do tema saúde nas aulas de Educação Física.

 

113

5.3 Aplicação do tema saúde nos conteúdos da Educação Física Escolar

118

(jogos, esportes, ginásticas, lutas e danças)

 
 

5.4 Objetivos da Educação Física Escolar no que se refere à saúde

120

5.5 Atividades

extra

sala,

utilização

do

laboratório

de

informática

123

epesquisas sobre o tema saúde

 
 

5.6

Conteúdos fundamentais para o ensino da saúde no ensino

 

125

fundamental II – 5º ao 9º ano.

10

alunos.

 

5.8

Principais achados

130

6.

SAÚDE NA EDUCAÇÃO FÍSICA - UMA PROPOSTA DE PROJETO

132

PEDAGÓGICO PARA A DISCIPLINA

 

6.1

Parte I – Saúde na Escola

135

6.1.1 Políticas de Saúde no Ambiente Escolar

135

6.1.2 Educação para a Saúde

139

6.1.3 Serviços de Saúde no Ambiente Escolar

141

6.2

Parte II: Sugestões de inserção do tema saúde nos conteúdos da

143

Educação Física

 

6.2.1 Bloco 1: Jogos e Brincadeiras

146

6.2.2 Bloco 1: Esportes

148

6.2.3 Bloco 1: Lutas

149

6.3.4 Bloco 1: Ginástica

149

6.2.5 Bloco 2: Atividades Rítmicas e Expressivas

150

6.2.6 Bloco 3 – O conhecimento sobre o corpo

152

6.2.7 Sugestões da proposta para inclusão do tema saúde nas aulas de

154

Educação Física baseada nos resultados da pesquisa com os docentes e

discentes envolvidos no estudo.

6.3 Indicador de Saúde na Escola e na Aula de Educação Física

156

 

6.3.1 Procedimentos para aplicação do instrumento

157

7.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

159

7.1 Considerações Gerais

159

7.2 Conclusões

160

7.3 Recomendações e sugestões finais

161

REFERÊNCIAS

163

ANEXO

 

167

APÊNDICES

168

11

1 INTRODUÇÃO

1.1 Motivação

A dúvida é o principio da sabedoria.

Aristóteles

Este estudo visa a responder a questionamentos surgidos após cursar mestrado na área da Saúde Coletiva, entre eles o de compreender a relação entre Educação Física Escolar e saúde. Busca também respostas sobre como desenvolver pedagogicamente os conteúdos e conceitos de saúde nas aulas de Educação Física. Atuei por mais de 16 anos como professor de Educação Física, 11 deles na rede particular e cinco no sistema público de ensino, e, desde 2005, sou professor da Universidade Estadual do Ceará. Neste período, lecionando, acompanhando alunos em estágios, ministrando treinamentos e palestras, pude observar que, na maioria das vezes, a Educação Física Escolar permanece em sua posição biologicista 1 , muitas vezes preocupada apenas com os aspectos do desenvolvimento orgânico. Os conteúdos da disciplina continuam, em grande parte, somente procedimentais. Há um abandono dos fatores afetivos e cognitivos. O tema saúde é entendido por muitos professores como sinônimo da prática de atividade física e raramente é discutido e debatido (DARIDO; RODRIGUES; SANCHES NETO, 2009). Há, ainda, ênfase na prática esportiva, sobretudo em tempos de Olimpíadas e Copa do Mundo. No curso desta trajetória, intrigava-me saber que o objetivo central da Educação Física é atingir excelência na consecução da qualidade de vida, promovendo saúde, mas, perguntava-me: como o professor de Educação Física pensa a saúde? Como é discutido o tema saúde nas aulas de Educação

1 Biologicismo: visão majoritária na Educação Física para explicar os procedimentos da disciplina. Afirma-se nos aspectos biológicos que consideram o indivíduo como um aglomerado de ossos, músculos e articulações, em que os contextos sociais, culturais, econômicos e históricos do indivíduo não são levados em consideração. Pode ser considerado como uma justificativa e reforço de padrões comportamentais da sociedade por meio do biológico. A Educação Física escolar, em muitos casos, é regida pelo biologicismo, que defende a prática de atividade física, e tão somente, como sinônimo de saúde (GLOBO, 2010)

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Física? Os preceitos da Saúde Coletiva 2 são utilizados nas sessões de Educação Física? A vontade crescente de analisar de que modo os conceitos de saúde são aplicados ou desenvolvidos, e como seus conhecimentos são adquiridos por meio da Educação Física Escolar, obteve reforço concomitante, em diversos outros momentos, quando a temática emergiu em congressos 3 , seminários e palestras. Nesses encontros, o tema envolvendo Educação Física e Saúde surgia quase sempre associado a crianças que apresentavam algum tipo de dificuldade, como doenças respiratórias, distúrbios mentais e distrofias musculares; ou a experiências sobre qualidade de vida com alunos doentes, ou ainda a situações que confrontavam a importância da Educação Física como Promoção da Saúde na escola. Chamava-me à atenção a falta de pesquisas que investigassem qual o verdadeiro papel da Educação Física Escolar em proporcionar o entendimento de saúde e, principalmente, como a disciplina se organizava pedagogicamente para abordar o assunto.

1.2 Problematização

Ao pensar nos impactos da Educação Física em oferecer saúde e qualidade de vida a escolares, o pesquisador se depara com o conceito da Organização Mundial de Saúde-OMS: “Saúde é o estado de completo bem estar físico, mental e social, e não apenas ausência de doença” (BRASIL, 1996). A Saúde Coletiva incorpora a este conceito a necessidade de atender situações como moradia, lazer, cultura, educação e emprego para atingir a excelência em saúde (MINAYO, 2006)

2 A Saúde Coletiva considera aspectos sociais como relevantes para a saúde dos indivíduos. São características da Saúde Coletiva: humanização, cuidado, vínculo, diálogo, integralidade, equidade, universalidade, entre outros.

Entre eles o IX Congresso dos Secretários e Secretarias do Ceará (2009), a I Conferência Esporte Educacional (2009), o Congresso Brasileiro de Atividade Física (2008), Congresso Nacional de Atividade Física (2007), Congresso Brasileiro de Psicomotricidade (2007), III Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (2005) e a 57ª Reunião Anual da SBPC (2005).

3

13

Este conceito deve constituir cenário-meta a ser alcançado pelo Sistema Único de Saúde-SUS e pela Educação Física Escolar, disciplina presente nos currículos das instituições de ensino. Apesar da busca incessante por parte dos profissionais em oferecer saúde aos seus usuários na escola, pouco se analisa o assunto, no que se refere à compreensão de saúde adquirida por meio, não só da Educação Física, mas principalmente pela escola, sobretudo quando se expressa na perspectiva da Saúde Coletiva. Entender-se-á, aqui, que a Educação Física é parte importante dos processos de conhecimento e de produção de saúde na escola. Sua inclusão nos currículos escolares responde a uma preocupação social sobre a busca de uma vida saudável. A Educação Física, sozinha, não pode levar aos alunos a compreensão totalitária do que venha a ser saúde, qualidade de vida ou hábitos saudáveis; é de conhecimento comum a influência de outros fatores para que se possa atingir estes objetivos; entretanto, a disciplina em questão pode fornecer informações e práticas que despertem o interesse no entendimento de saúde e hábitos saudáveis. Assim, pergunta-se: qual a relação pedagógica entre a Educação Física Escolar e a saúde? Qual o conhecimento de Saúde adquirido por intermédio da Educação Física Escolar? Qual a aplicabilidade dos princípios da Saúde Coletiva nas aulas de Educação Física? Como os conteúdos e conceitos de Saúde podem ser debatidos e desenvolvidos pedagogicamente nas aulas de Educação Física Escolar?

1.3 Justificativas

A revisão de literatura, realizada nos ambientes de busca Scielo, PubMed, Banco de Teses da Universidade de São Paulo-USP e da Universidade de Campinas-UNICAMP; bem como no Portal de Periódicos da CAPES, confirmou que são escassas pesquisas envolvendo Educação Física Escolar e Saúde Coletiva. Verificou-se, na busca bibliográfica, poucos registros acerca da preocupação de tratar o tema da saúde, na Educação Física Escolar, por meio

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de uma perspectiva social. Um destes registros encontra-se no livro ‘Para Ensinar Educação Física’ (DARIDO; SOUSA JÚNIOR, 2007) Encontrou-se ainda uma equipe de professores 4 de Educação Física da USP que mantém um grupo de estudos e pesquisas sobre Educação Física e Saúde Coletiva, porém não se dedica a explorar a relação no âmbito escolar. Apoiar-se-á o estudo por meio da pesquisa realizada por Darido, Rodrigues e Sanches Neto (2009). Os autores realizaram uma busca nas principais revistas brasileiras da área sobre trabalhos que buscavam compreender a relação Educação Física Escolar e Saúde, a época, os mais bem avaliados pela CAPES. Os periódicos analisados pelos pesquisadores citados foram: Revista de Atividade Física e Saúde; Revista Brasileira de Ciências do Esporte; Revista Brasileira de Ciência e Movimento; Revista Motriz; Revista Motrivivência; Revista Movimento; Revista Motus Corporis; Revista Paulista de Educação Física, atual Revista Brasileira de Educação Física; e, Revista da Universidade Estadual de Maringá. Os resultados da pesquisa realizada pelos autores demonstraram que os professores da disciplina Educação Física Escolar reconhecem que a saúde possui diversos fatores para ser adquirida, entretanto reproduzem em suas aulas tão somente a relação causal exercício-saúde; percebem que o objetivo da Educação Física relacionada a saúde só é atingido por meio da aptidão física e do esporte; valorizam muito pouco o contexto no qual seus alunos estão inseridos; entendem que os indivíduos são responsáveis pela sua saúde, optando por um estilo de vida ativo ou não; culpam-se por não conseguir desenvolver ações práticas pedagógicas para um programa de Educação em Saúde e por estarem pouco familiarizados com conceitos da área. Os autores ainda reforçam o fato de que os professores de Educação Física concordam que a saúde deve ser tratada nas aulas da disciplina, entretanto não apontam caminhos para uma proposta pedagógica da disciplina que possa estar integrada ao plano didático da escola. Darido, Rodrigues e Sanches Neto (2009) concluem sua pesquisa, revelando que, nos trabalhos pesquisados, é observado que a saúde é um dos

4 Um dos integrantes desta equipe é a Professora Yara Maria de Carvalho, renomada pesquisadora da Educação Física na área da Saúde Coletiva voltada para o Sistema Único de Saúde-SUS. Ver portal em http://pes.incubadora.fapesp.br/portal

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fins da Educação Física Escolar, entretanto ainda não existe uma proposta pedagógica eficaz para sua efetivação. Verificaram também que grande parte dos estudos possuía como objetivos analisar a avaliação física, composição corporal e nutricional dos alunos. Concluíram, então, afirmando a necessidade de novos debates e possibilidade da criação de uma proposta didático- pedagógica que aborde a saúde como objetivo da Educação Física Escolar, sobretudo com preocupações com os contextos sócio culturais de seus alunos, visando ao cidadão crítico. Palma (2001) já alertava para a urgente necessidade de abandonar o conceito restrito de saúde, reinante na Educação Física Escolar, que desconsidera os aspectos socioeconômicas e ignora o diálogo com outras ciências, como a Antropologia, a Filosofia e a Psicologia. Defrontando a dificuldade, e querendo de fato compreender como a saúde pode ser realmente integrada à proposta pedagógica da Educação Física Escolar, buscou-se refúgio numa literatura, que é pequena, mas crescente e consistente. Isto proporcionou diálogo com vários autores instigantes, em campos diversos, como Educação Física, Medicina, Antropologia, Psicologia e Filosofia. A percepção da importância do tema Saúde parece estar relacionada com a formação humanística de cada pesquisador. Além disso, a discussão sobre saúde na escola, em muitos casos é catalisada pela Educação Física. Darido e Rangel (2005) argumentam, fundamentadas nas discussões da Saúde Pública e Coletiva, que os problemas de saúde em todo o mundo estão relacionados às múltiplas desigualdades sociais e as carências de cuidado com os estilos de vida. É importante ressaltar que o debate, envolvendo Educação Física e saúde, deve ser considerado em vista da complexidade do tema que extrapola as discussões relacionadas somente ao exercício físico (DARIDO, RANGEL,

2005).

Considerando o papel que a Educação Física pode ter na escola, busca- se compreender o entendimento, de professores da disciplina e jovens escolares, sobre a relação entre saúde e Educação Física Escolar e analisar como os saberes da temática saúde são aplicados pedagogicamente nas aulas da disciplina.

16

Freire (1991) já destacava que a criança e o adolescente não devem ser privados da Educação Física a que têm direito. Concordando com este direito e procurando auxiliar o profissional da área, é que se ratifica a relevância deste estudo, pois buscará proporcionar aos profissionais de Educação Física e também de outras áreas, que atuam na educação municipal pública, subsídios para que possam repensar suas práticas educativas, pois, ao se compreender de que forma o tema saúde é aplicado e compreendido nas aulas de Educação Física, novas propostas pedagógicas podem surgir. Não se pode compreender a situação da saúde de escolares sem levar em conta o fato de que ela é produzida pelo contexto sócio cultural. O meio físico, cultural, religioso, familiar e a condição financeira são elementos que interferem claramente na aquisição da saúde infantil e juvenil. Existem vários fatores que podem determinar a saúde, entre eles:

condições biológicas, acesso à educação formal, lazer e aos serviços básicos de saúde (BRASIL, 1996). Com isso, pretende-se afirmar que a Educação Física, por si, não pode ser responsabilizada pela aquisição da saúde de crianças e adolescentes em idade escolar, porém pode, e deve, contribuir para tal finalidade. A criança e o adolescente, ao chegarem à escola, trazem consigo informações e conhecimentos oriundos de suas famílias e contextos sociais. Durante o período escolar, época decisiva na formação de suas condutas, a Educação Física passa a assumir um papel de destaque nesta formação em virtude da sua popularidade entre os alunos. A aula de Educação Física, para crianças e adolescentes, é esperada com ansiedade e é realizada com prazer, porém em que aspecto promove o conhecimento sobre saúde? Como o tema saúde é aplicado na aula de Educação Física Escolar? As aulas de Educação Física podem configurar espaço para discussão sobre a saúde na perspectiva de favorecer hábitos e conhecimento do tema. Compreender a saúde pelas interfaces relacionadas às condições de alimentação, renda, meio ambiente, transporte, emprego e lazer, tendo em vista a realidade em que são inseridos, são caminhos possíveis (DARIDO, RANGEL, 2005).

17

A Educação Física no Brasil foi regulamentada como profissão da área da saúde desde a Lei Federal nº 9696, de 01/09/1998, e, de acordo com o Manifesto Mundial da Educação Física (FIEP, 2000), o profissional de Educação Física deve exercer sua função de educador em saúde, contribuindo para elevar a qualidade de vida das pessoas ao desenvolver nelas hábitos saudáveis.

1.4 Referenciais Teóricos

Será utilizado na presente pesquisa o modelo de saúde de Minayo (1992). A autora entende que saúde é resultante das condições de alimentação, habitação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acesso aos serviços de saúde, desdobrando uma tradição acadêmica e política que, no mundo, remonta ao conceito formulado pela OMS e, no Brasil, aos princípios do SUS. Na utilização do método quantitativo e qualitativo, empregado nesta pesquisa, o referencial também será o proposto por Minayo (1993). Os Parâmetros Curriculares Nacionais-PCNs, do Ministério da Educação-MEC, referencial deste estudo no que se referem à saúde na escola, entendem Educação para a Saúde como fator de promoção e proteção à saúde e estratégia para a conquista dos direitos de cidadania (BRASIL, 1998). A escola pode fornecer elementos que capacitem as pessoas para uma vida mais saudável. Sua função, nesta dimensão específica, é de apoio aos serviços de saúde, possibilitando interface, tanto intersetorial como interdisciplinar. Como referencial teórico da Educação Física Escolar, a pesquisa recorre aos estudos e conceitos de Darido (2001; 2003; 2004; 2005), autora clássica da área.

1.5 O Tema e sua Delimitação

O tema deste projeto de pesquisa é a relação entre saúde e a Educação Física Escolar. Com origem no tema, formulou-se sua delimitação - A relação, no que diz respeito à aplicação e conhecimento de saúde nas aulas de

18

Educação Física Escolar em escolas públicas municipais de Fortaleza:

proposta de ensino para a disciplina.

1.6 Problemas

Considerando o tema e sua delimitação, que, por sua vez, remetem à problematização exposta no início desta introdução, cinco grandes questões foram formuladas ao campo, ao modo de perguntas norteadoras da investigação:

Qual o entendimento sobre saúde adquirido por meio da Educação Física, dos alunos da disciplina?

Qual o conhecimento sobre saúde adquirido dos professores da disciplina?

Como os professores desenvolvem e aplicam o tema saúde em suas aulas?

Como a disciplina Educação Física pode contribuir para o entendimento de saúde?

A Educação Física, da forma como é aplicada nas escolas da rede pública municipal de ensino de Fortaleza, promove a compreensão sobre os temas de saúde?

1.7 Hipóteses

Considerando a pesquisa de Ferreira (2005) sobre a qualidade de vida de escolares, e de Darido, Rodrigues e Sanches Neto (2009), acerca da inclusão do tema saúde nas aulas de Educação Física Escolar, é possível desenvolver algumas respostas às perguntas norteadoras formuladas no item anterior, a título de hipóteses operacionais a serem testadas:

o entendimento de aspectos relacionados ao exercício e aptidão física, abordados mediante a causalidade exercício-saúde, são conhecidos em parte pelos alunos, entretanto, aspectos socioeconômicos e culturais, que também favorecem a elaboração do conhecimento sobre a saúde,

19

hipoteticamente, não são ministrados nas aulas de Educação Física na rede municipal de ensino;

a compreensão dos professores sobre saúde é biológica e pautada na causalidade exercício-saúde;

os professores não recorrem ao tema saúde em suas aulas; utilizam práticas de jogos e esportes em suas aulas e, na maioria dos casos, não compreendem como abordar o assunto e realizar a transversalidade com os conteúdos da disciplina;

a disciplina Educação Física, de forma generalista, se apóia unicamente em práticas esportivas, repetitivas e mecânicas, e não atenta para os conteúdos específicos relacionados à saúde. Os conteúdos da área de Educação Física são jogos e brincadeiras, lutas, danças, ginásticas, esportes e conhecimento sobre o corpo; todos podem incluir, em suas dimensões conceituais, atitudinais e procedimentais, os temas relacionados à saúde por meio de propostas pedagógicas que reforcem atividades físicas para a compreensão da saúde; e

se a Educação Física prosseguir somente com práticas tecnicistas, biologicistas e atléticas, e não priorizar o conhecimento sobre hábitos e atitudes saudáveis, discutir e refletir sobre assuntos coletivos que interferem na saúde, em muito pouco estará contribuindo para a compreensão da temática saúde de seus alunos.

1.8 Tese

Um projeto de ensino para a disciplina Educação Física precisa incluir o desenvolvimento do tema saúde por meio de propostas práticas e teóricas, de modo a torná-la resolutiva em relação ao objetivo estratégico de favorecer o conhecimento sobre saúde dos alunos da rede pública municipal de ensino na cidade de Fortaleza.

20

1.9 Objetivos

1.9.1 Objetivo Geral

Propor um Projeto de Ensino para a disciplina de Educação Física Escolar, no Ensino Fundamental, séries finais, que contemple a temática Saúde.

1.9.2 Objetivos Específicos

Analisar a relação pedagógica entre a Educação Física Escolar e a saúde em escolas de ensino fundamental, de Fortaleza, Ceará;

Identificar o conhecimento dos alunos de 11 a 14 anos de idade, sobre a relação entre a Educação Física Escolar e saúde;

Verificar, na percepção dos alunos, se os professores de Educação Física Escolar, privilegiam em suas aulas o tema saúde;

Perceber o conhecimento dos professores sobre a relação entre Educação Física Escolar e saúde;

Averiguar se, e como, o tema saúde é contemplado nos planos de cursos dos professores envolvidos e, consequentemente, de que forma é transmitido em suas aulas.

1.10 Apresentação do Texto

Após a introdução será apresentada a revisão de literatura, e, em seguida, a metodologia. A seguir são apresentados os resultados e as discussões relativas ao questionário aplicado aos alunos, as informações coletadas das entrevistas com os docentes e posteriormente é apresenta a conseqüência prática da Tese, isto é, uma proposta de Ensino para a Saúde na disciplina de Educação Física Escolar. Por fim, serão reveladas as considerações finais, conclusões e recomendações.

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2 REVISÃO DE LITERATURA

Se alguém procura a saúde, pergunta-lhe primeiro se está disposto a evitar no futuro as causas da doença; em caso contrário, abstém-te de o ajudar.

2.1 Conceito de Saúde

Sócrates

O termo saúde possui sua origem, de forma determinada, do latim,

sanitas. Etimologicamente, seu significado se refere à integridade anatomo-

funcional dos organismos vivos (SÁ JUNIOR, 2004). Já o conceito de saúde, ao contrário, não possui um significado determinado, pois pode depender de toda uma estrutura, seja ela social,

econômica, política ou cultural. Não representa a mesma coisa para grupos diferentes. Depende da época, do local, da classe social; de valores individuais, de concepções científicas, religiosas e filosóficas (SCLIAR, 2007).

O conceito de saúde vem sendo alterado em diversos momentos da

história da humanidade. Segundo Berlinguer (1988) o conceito primitivo de saúde era a ausência, ou a supressão, de algum princípio vital; presença estranha e nociva de matéria impura, demônios ou animais perversos. Gozar saúde significava não estar doente, tão somente. Neste sentido, pode-se compreender que a primeira forma de entender saúde partia da premissa mágica religiosa, ou seja, a doença resultava da ação de forças alheias ao organismo, introduzidas neste pelo pecado ou a maldição. Scliar (2007) cita que, para os hebreus antigos, a doença significava a cólera divina, pois Deus representava o médico da vida. Assim, a saúde é compreendida como uma benção divina, e a doença é o castigo recebido pelos pecados. Em outras culturas, o xamã, o curandeiro ou o feiticeiro era o encarregado de expulsar os demônios do corpo, caracterizados como doenças,

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em rituais de feitiçaria e magia, caracterizando a compreensão de saúde como um fenômeno mágico (SCLIAR, 2007). Os gregos antigos cultuavam várias divindades que representavam a saúde. Além do deus da Medicina, Asclépio, Higeia, a saúde, e Panaceia, a cura, também eram veneradas. Portanto, por meio do culto às divindades, a cultura grega também compreendia saúde como basicamente religiosa ou mágica (SCLIAR, 2007). Hipócrates (460-337 a.C.), “o pai da Medicina”, introduz entre os gregos um conceito de saúde mais racional, ao abandonar os preceitos mágicos e religiosos do conceito sobre o tema. Em seu texto ‘A doença sagrada’, afirmava que toda doença não é mais divina ou sagrada do que qualquer outra e, sim, possui uma causa natural e sua origem supostamente humana reflete a ignorância humana. Hipócrates defendia o equilíbrio corporal, por meio dos quatro humores, para a consecução da saúde (SCLIAR, 2007). Ao dominar a Grécia, o Império Romano passa a utilizar os conceitos de saúde dos gregos. Galeno reformula a teoria de Hipócrates e afirma que a saúde poderia ser interpretada como algo endógeno, ou seja, estaria dentro do próprio homem, e que este deveria seguir uma vida com hábitos saudáveis que o levassem ao equilíbrio (BERLINGUER, 1988). No Oriente, o entendimento de saúde seguia caminhos opostos, porém de forma similar ao pensamento de Hipócrates, seus habitantes valorizam as terapias tradicionais e as forças vitais, como ocorre até os dias atuais. Na Idade Média, dominada pela Igreja Católica, a concepção de saúde volta a ser considerada algo de proporções divinas (SCLIAR, 2007). Posteriormente, René Descartes passa a defender a dicotomia corpo- mente, e sustenta a ideia do corpo interpretado como uma máquina. No mesmo período, o desenvolvimento da Anatomia promove o descrédito na concepção humoral da saúde, passando agora a ser entendida como o bom funcionamento dos órgãos. Sobre tal compreensão, Bichat anotava que saúde era o silêncio dos órgãos (SCLIAR, 2007). A partir do século XVII, o conhecimento do que vem a ser sadio e doente evolui de forma muito rápida. Giambattista Morgagni (1682-1771) cria a Anatomia Patológica e Claude Bernard (1813-1878) desenvolve a Fisiopatologia, mas é somente no final do século XIX que cientistas como Koch

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e Pasteur identificam causas e tratamentos para doenças seculares (BERLINGUER, 1988). Não havia, entretanto, um conceito universalmente aceito. A Liga das Nações, criada após a Primeira Guerra Mundial, não consegue estabelecer esta definição. Somente ao final da Segunda Guerra, com a criação da OMS, um conceito é estabelecido na Carta de Princípios de 7 de abril de 1948 - desde então Dia Mundial da Saúde - Saúde é o estado do mais completo bem- estar físico, mental e social e não apenas a ausência de enfermidade (BRASIL,

1996).

A Constituição Federal Brasileira de 1988, artigo 196, evita discutir o conceito e afirma que saúde é direito de todos e dever do Estado, que o Governo deve garantir políticas sociais e econômicas voltadas para a saúde e que deve garantir o acesso universal, integral e igualitário da população aos serviços de saúde. Estes são princípios que norteiam o Sistema Único de Saúde-SUS do Brasil. A 8ª Conferência Nacional da Saúde-CNS, realizada em 1986, proporciona um conceito mais social e coletivo ao termo, superando inclusive a definição da OMS, assinala o texto da Conferência que a saúde é “resultante das condições de alimentação, habitação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acesso aos serviços de saúde” (FLEURY, 1992, p. 170). De acordo com Nogueira (2003), baseado nas ideias de Ivan Illich, saúde é um meio de adaptação, aos ambientes mutáveis, ao crescimento e ao envelhecimento, à cura, ao sofrimento e à expectativa da morte. Compreende-se que o termo saúde é bastante generalista, de várias interpretações, significados e utilizações. Uma Comissão do Congresso Americano, criada para estudar a Saúde Pública, formula o conceito de que saúde é o que a sociedade faz para assegurar as condições que permitem a população ser saudável. Tal formulação de conceito se baseou na Carta de Otawwa, de 1986, que assinala que a saúde não é apenas a prevenção e o tratamento dos agravos, mas também, e acima de tudo, deve ser compreendida como resultante de uma ação da sociedade e da pessoa para proteger-se, para conhecer e superar os riscos de adoecimento e buscar um

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estilo de vida saudável, adequado à melhor integração dos seres humanos no seu socio-ecosistema (MINAYO, 2006). Segundo Minayo (2006), existem vários fatores que determinam a saúde de uma população. Para tanto, a autora recorre à figura do ‘Homem Vitruviano’ de Leonardo da Vinci:

Figura 1: O Homem Vitruviano, de Leonardo da Vinci, e sua relação com a saúde.

de Leonardo da Vinci, e sua relação com a saúde. Fonte : Minayo (2006). Segundo Minayo

Fonte: Minayo (2006).

Segundo Minayo (2006), as condições e qualidade de vida, como, por exemplo, os níveis de renda, salário, emprego, trabalho, de segurança e proteção social, são representados pela cabeça e a coluna vertebral da figura de Marco Vitrúvio Pólio. O braço esquerdo representa as políticas sociais, ou seja, as ações do Estado para a Promoção da Saúde, entre elas: direito ao trabalho, acesso à educação, moradia, sistema de transporte, lazer, seguridade social, saneamento e à infra estrutura geral e ambiental, dentre outros. O braço direito simboliza o desenvolvimento científico e tecnológico que busca novas

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descobertas, teorias e métodos para possibilitar uma vida saudável da população. A perna esquerda da obra significa os vários saberes das diferentes áreas da saúde, voltadas para o tratamento, assistência, alívio e cura dos doentes. Finalizando a explicação da figura vitruviana, a perna direita representa o conjunto de valores sociais e culturais, as crenças e valores sobre o processo saúde-doença. Ao expor a figura proposta por Leonardo da Vinci, Minayo (2006) reflete o pensamento do pesquisador do que vem a ser saúde. Urge na sociedade a necessidade de abandonar o pensamento individualista e biológico do entendimento de saúde, e, em vez disso, vislumbrar horizontes mais voltados para a saúde social e coletiva. Após contextualizar os conceitos e definições de saúde, porém, uma pergunta ainda insiste em incomodar: Qual o papel da saúde na Educação Física Escolar? A seguir, se inicia, sem pretensão de dar o assunto por encerrado, uma discussão teórica sobre o tema.

2.2 As Relações entre Educação Física Escolar e Saúde: Recortes Históricos e Conceituais

Debater, discutir e compreender, nas aulas de Educação Física, os aspectos da saúde, deveria ser algo corriqueiro entre alunos escolares e universitários, professores de Educação Física Escolar e docentes de ensino superior. Observa-se, entretanto, que há escassa participação de experts na área, seja nas formulações de políticas públicas de saúde; no envolvimento em congressos, seminários e palestras, na administração do conteúdo da Educação Física na escola, conteúdo este ainda muito esportivista, na maioria dos casos; e nas pesquisas, em sua grande parte, voltadas para aspectos biológicos. Talvez, e meramente supondo, o motivo da constatação ora citada seja que o conhecimento de Saúde Pública e Coletiva é pouco fomentado na formação do profissional de Educação Física. No corpo curricular dos cursos

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de Educação Física que formaram professores hoje atuantes, e aqui se incluí uma imensa quantidade de cursos no Brasil, a formação oferecida é, ou foi, quase exclusivamente técnica e mecanicista. Disciplinas de ordem biológica foram priorizadas em detrimento daquelas de cunho sociológico. Luz (2007), ao comentar a formação do professor de Educação Física, alerta sobre a complexidade da área, situada no campo biomédico, na grande área da saúde, permeada por disciplinas como Fisiologia e Anatomia, direcionada pelo quadro epistemológico biomecânico moderno e herdeira de práticas ligadas ao treinamento e adestramento do corpo. A Educação Física segue o modelo biomédico, que, por sua vez, considera o paradigma cartesiano como sua diretriz. Elimina as dúvidas, compreende o todo com origem em suas partes, respeita a hierarquia dos saberes, enumera para replicar e valoriza a mente em detrimento da matéria (ROCHA; CENTURIÃO, 2007) A Educação Física Escolar, em sua origem, biológica, buscava formar corpos idealizados pelo pensamento higienista 5 . Apoiava-se na eugenia 6 e possuía uma orientação militar de disciplinamento e controle biopolítico dos corpos (FOUCAULT, 1984), com o objetivo de servir à pátria e não estimular a consciência crítica. Atualmente, ainda é possível observar cursos de formação de professores de Educação Física centrados na melhoria da aptidão física e preocupados somente com a aprendizagem de gestos e técnicas motoras, em detrimento do estímulo à reflexão. Certos cursos se encontram pautados na visão reducionista da Educação Física, implementando a defesa do esporte e da saúde individual (BAGRICHEVSKY, 2007). Assim, não é de se estranhar que a Educação Física, em enorme parcela de seu universo, compreenda a saúde apenas como sinônimo de práticas de exercícios corporais (GÓIS JÚNIOR; LOVISOLO, 2003). Pensando assim, deixa de considerar aspectos importantes para o entendimento de

5 Higienismo: movimento nos campos da Medicina e das políticas públicas de saúde. Espécie de policiamento sanitário que incorpora a lógica militar na linguagem, no planejamento e na forma de realizar as práticas de saúde (GLOBO, 2010). 6 A eugenia é um termo criado por Francis Galton (antropologista, meteorologista, matemático e estatístico inglês, nascido em 1822 e morto em 1911), que a definiu como o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente (GLOBO, 2010).

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saúde como: distribuição de renda, condições de saneamento, moradia, alimentação, escolaridade, tempo livre e acesso a serviços de saúde e educação; pois, como reforça Alves Junior (2001, p.43), “falar em saúde nas aulas de Educação Física nos impõe a pensar na miséria, na desnutrição, nos que não tem onde morar e nem onde plantar”. Palma (2001) em uma extensa revisão de literatura sobre Educação Física e saúde, acentua que a prática de atividade física, por si, não produz saúde. Parâmetros e informações socioeconômicos e culturais podem influenciar o processo. Costa e Venâncio (2004) compreendem que uma parte dos professores de Educação Física despreza o posicionamento crítico e ético sobre saúde e promove atividades físicas apenas com o intuito de transformar o corpo em um ideal atlético para corresponder a apelos da mídia. Somente o exercício físico não resulta em saúde, de forma linear e determinista. Ainda que os indivíduos que praticam atividade física possuam suporte nutricional, financeiro e tempo livre, ou seja, grande parcela da população, neste caso, segundo o autor, está excluída da prática de atividade física. Palma (2001) explica que os frequentadores de atividades físicas se enquadram nas classes sociais mais abastadas. Refletindo assim, considera-se que os programas e políticas públicas possuem pouca eficácia na maioria da população, pertencentes estes a camadas sociais menos favorecidas. Na Educação Física Escolar, movimento contrário poderia estar ocorrendo. A disciplina é um componente curricular obrigatório em todo o ensino básico, de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação-LDB (BRASIL, 2000 a). Assim, a oferta da disciplina, em escolas particulares e públicas, deveria estar sendo utilizada como um meio de Promoção e Educação em Saúde, já que atingiria a todos os alunos, das classes mais favorecidas às mais baixas. A escola, apoiada pela família e pelas políticas públicas, deveria ser o primeiro contato das crianças com a compreensão de saúde. O ambiente educacional possui os requisitos necessários para ser o momento de partida na busca pelo conhecimento em saúde mediante ações de Educação e Promoção da Saúde. Gerber (1992) e Maitino (1998) garantem que, ao educar crianças para a saúde, se produzem futuros adultos saudáveis. Desta forma, a

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Educação Física Escolar, por ser um componente da área da saúde e figurar obrigatoriamente no corpo de disciplinas da escola, se impõe como um poderoso meio para tal finalidade. Maitino (1998) enfatiza, ainda, que a Educação Física Escolar, por estudar o movimento humano, pode proporcionar conhecimento aos alunos no que se refere a manutenção e aquisição de saúde. Segundo os PCNs (BRASIL, 1988 b, p.36):

As relações que se estabelecem entre Saúde e Educação Física são perceptíveis ao considerar-se a similaridade de objetos de conhecimento envolvidos e relevantes em ambas às abordagens. Dessa forma, a preocupação e a responsabilidade na valorização de conhecimentos relativos à construção da auto-estima e da identidade pessoal, ao cuidado do corpo, à consecução de amplitudes gestuais, à valorização dos vínculos afetivos e a negociação de atitudes e todas as implicações relativas à saúde da coletividade, são compartilhadas e constituem um campo de interação na atuação escolar.

A Educação Física Escolar, entretanto, não é reconhecida socialmente como um campo do saber. Para muitos trata-se apenas de um momento de prática de ginástica ou esportes. Muitos professores da disciplina, tecnicistas, realizam suas atividades meramente práticas e desprovidas de discussões teóricas, não só sobre saúde, mas a respeito de qualquer tema. De acordo com Miranda Junior (2006), a Educação Física não é efetivamente resolutiva quando se pensa em proporcionar conhecimento sobre saúde aos escolares. Concordando, Sleap (1990) ressalta que a Educação Física não pode estagnar na representação de uma educação do corpo, devendo avançar para o entendimento de uma educação para o corpo. Compreende-se, assim como Luz (2007), que a Educação Física não deve-se restringir a treinar o corpo, no caso do esporte; adestrá-lo, no caso de grande parte das ginásticas; ou habilitá-lo, no caso da Educação Física Escolar; deve ultrapassar estas barreiras e colocar as pessoas em contato com seu próprio corpo, senti-lo e ouvi-lo, tratá-lo como sua casa. Autores como Guedes e Guedes (1993) defendem a proposta de que a Educação Física Escolar necessita, em sua proposta pedagógica, direcionar-se a novos rumos, no caso, à Educação e à Promoção da Saúde em âmbitos escolares. Com efeito, a disciplina deve superar suas raízes técnicas e

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biológicas, voltadas unicamente para desenvolvimento de habilidades esportivas e atléticas, e incluir em seus conteúdos o tema saúde. Os autores realizam sua teoria para a Educação Física com base na relação atividade física-saúde, porém, compreende-se que a saúde não pode ser adquirida somente com a prática da atividade física, e, além disso, esta prática pode não resultar em saúde. A saúde envolve muito mais do que somente a prática da atividade física. A teoria de Guedes e Guedes (1993), denominada de Saúde Renovada por Darido e Rangel (2005), colabora com a Educação Física, combate o esportivismo e o tecnicismo, estimula os professores a favorecer o conhecimento sobre atividade física e o posicionamento final de estimular a uma vida ativa, mesmo após a idade escolar. Ao pensar a saúde na perspectiva coletiva, porém, com todos os seus fatores sociais, vislumbra-se a falta de debates sobre condições de alimentação, habitação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acesso aos serviços de saúde.

Rocha e Centurião (2007) explicam que pensar centrado na doença, conduz a uma noção de saúde relativa apenas aos aspectos orgânicos. Desta forma, pensar a Educação Física apenas como um método para combater o sedentarismo e a obesidade promove a redução da disciplina a aspectos orgânicos. Os mesmos autores explicam que a importância, em demasia, dos princípios científicos na área da saúde, conduz a uma atenção centrada na doença. O indivíduo, a coletividade e os aspectos educacionais são deixados à revelia.

Rocha e Centurião (2007) completam seu pensamento e citam que se deve considerar a questão saúde para além de preocupações orgânicas e os aspectos sociais devem ser considerados. Para isso, o profissional da saúde deve ampliar seus horizontes e adquirir outros saberes que não somente os da área biomédica. Bagrichevsky (2007) também critica a relação atividade física – saúde como única preocupação da Educação Física. O autor menciona que, durante o início da década de 1980, discutir aptidão física significava preocupar-se com

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saúde. Garante que nenhum autor se preocupou em questionar as dimensões individualistas e a preocupação única da área com o paradigma atividade física-saúde. Para o autor, houve um conformismo sobre o aspecto biológico da saúde na Educação Física. Os aspectos de saúde extra-atividade física, como significado resultante das condições de vida oferecidas pelo Estado, foram excluídos dos debates acadêmicos na Educação Física. Outros autores demonstram preocupação com o axioma inquestionável da Educação Física: atividade física é saúde. Ceccim e Bilibio (2007) relatam que a Educação Física foi considerada positivista pela relação de causa e efeito entre exercício físico e saúde, em que a falta da atividade física é considerada a causa de doenças e sua aplicação a restauração da saúde. Para os autores, a Educação Física não deve possuir como objeto a cura ou a aptidão física, mas a produção do cuidado para com a vida em sua expressão corporal. E é na escola que a Educação Física pode se legitimar como um meio efetivo para a Educação em Saúde. Miranda Junior (2006) alerta para o fato de que a Educação Física possui grande possibilidade de proporcionar o entendimento de saúde a todos, pois é o único lugar onde crianças, não importando sua classe, cor, credo, sexo, habilidades técnicas e desempenho motor, praticam atividades físicas e desta forma deveriam ser instruídas para a compreensão de saúde e hábitos saudáveis. Maitino (1998) preconiza que a Educação Física Escolar deve ter como objetivo principal a inclusão da atividade física relacionada à saúde e a compreensão desta, ou seja, atingir a finalidade de proporcionar aos alunos a independência quanto as suas atividades além do entendimento de saúde. Comenta que os professores devem desenvolver suas atividades estimulando nos alunos a autonomia e a internacionalização dos conceitos de saúde, no sentido de que, quando a criança se tornar adulto, possa dar continuidade ao estilo de incluir vida saudável. Guedes (1999) faz uma crítica à Educação Física tradicional. Para o autor, o objetivo da disciplina deveria se concentrar na fundamentação teórica e prática que levasse os alunos a incorporar conhecimentos de atividade física relacionada à saúde, e que, desta forma, os conduzisse a praticar uma vida saudável, não só na infância e adolescência, como também na fase adulta.

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A duração, o tipo e a intensidade da atividade física devem ser compreendidos pelos alunos. É fundamental o entendimento por parte dos

educandos do que estão realizando. O professor de Educação Física deve explicar o que fazer e não simplesmente solicitar aos alunos a repetição de movimentos (GUEDES, 1999). Discutir, refletir e criticar temas relacionados à saúde, como alimentação, saneamento, lazer, empregos, felicidade, entre tantos outros, são conteúdos que deveriam permear a Educação Física na busca de proporcionar saúde para seus alunos. Muitos aspectos da escola e do próprio desenvolvimento dos alunos em fase escolar favorecem a Educação Física a proporcionar o entendimento de saúde. Miranda Junior (2006) sustenta que as curiosidades dos alunos com

o próprio corpo e a descoberta das possibilidades corporais favorecem a

receptividade às informações de saúde. Para Sleap (1990), a Educação Física Escolar é o melhor local para a Promoção e a Educação em Saúde. Para ele, é difícil imaginar que os objetivos da disciplina não sejam senão os de favorecer o conhecimento de saúde. De acordo com a LDB (BRASIL, 2000 a) a Educação Física, integrada

à proposta pedagógica da escola, é componente curricular obrigatório na Educação Básica, ajustando-se às faixas etárias e às condições da população escolar, de modo a contribuir para o desenvolvimento do organismo e da personalidade do educando. Assim, observa-se que o professor de Educação Física, resguardando seu direito de liberdade de planejamento, deve fazer valer sua formação, da área da saúde, e recorrer a temas que subsidiem ações de Educação em Saúde nos ambientes de ensino. Nas escolas e fora delas, a sociedade, por meio de ampla divulgação, reconhece o professor de Educação Física como profissional de saúde, pois este já se faz presente nos diversos campos de atuação deste âmbito, incluindo a participação da categoria, também, no SUS. O SUS é formado pelo conjunto de ações e serviços de saúde prestados por órgãos e instituições púbicas federais distritais, estaduais e municipais – e, também, em caráter complementar, pela iniciativa privada.

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Acredita-se que, nas escolas, a Promoção e a Educação em Saúde poderiam se transformar em ações do SUS. O SUS foi formulado com a intenção final de que a população do Brasil possa acessar os serviços de saúde. Seus princípios foram determinados pela Lei Orgânica de Saúde, em 1990, com base no artigo 198 da Constituição Federal de 1988, são eles: Universalidade, que afirma ser um dever estatal promover a atenção à saúde; Integralidade, pois a atenção à saúde deve ser tanto através de meios curativos quanto preventivos; e Equidade, ao explicar a ideia de que todos são iguais e devem possuir o mesmo direito de acesso aos serviços de saúde (BRASIL, 2000 b). Tais princípios podem facilmente ser exportados para a prática da Educação Física Escolar. A Universalidade já é observada, haja vista a obrigação do Estado em oferecer a educação gratuita a todos os cidadãos brasileiros; a Integralidade na Educação Física, no entanto, necessita ser implantada pois se observam muitos professores preocupados apenas com o desenvolvimento biológico, deixando de lado os aspectos sociais e afetivos; por fim, a Equidade deve ser aprefeiçoada, para que todos, sem distinção alguma, usufruam da aula de Educação Física. Assim, compreende-se que os currículos de Educação Física deveriam realizar profundas transformações em seus conteúdos, deixando de lado preocupações exclusivamente voltadas ao desenvolvimento de habilidades esportivas e motoras, privilegiando aqueles mais hábeis e excluindo os menos dotados, e desenvolver temas que estimulem os alunos a pensar a saúde. Rodrigues (2000) determina a existência de duas abordagens na Educação Física Escolar para a compreensão de saúde, e além disso, critica as duas. Trata-se da Promoção da Saúde e da Cultura Corporal. Para o mesmo autor, a Promoção da Saúde é influenciada pelo biologicismo e higienismo, visando a sistematizar a aprendizagem dos conteúdos relacionados à qualidade de vida, incorporando hábitos de prática de atividade física por toda a vida. Com a prática da Educação Física Escolar, pretende-se conscientizar aos alunos acerca da relevância de adotar um estilo de vida ativo. O professor da disciplina deve orientar, explicar e prescrever exercícios para favorecer uma vida saudável. Os conteúdos a serem

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desenvolvidos nas aulas devem estar, o mais diretamente possível, relacionados com a Promoção da Saúde. Nesta abordagem, a crítica de Rodrigues (2000) se refere à relação prática de atividade física-saúde, como se esta relação fosse o objetivo único da Educação Física na questão saúde. A Cultura Corporal é representada pelo modelo materialista-histórico- dialético e busca a aprendizagem, pela expressão corporal, como linguagem. Esta abordagem, consoante Rodrigues (2000), respeita a história dos alunos, considera a cultura e a sociedade como formadores do homem. Por intemédio do corpo, o ser humano se movimenta, cria formas de linguagem e expressa seu saber. Com isso, os conteúdos da Educação Física Escolar, como o jogo, a dança, o esporte, a ginástica e as lutas são identificados como conteúdos/temas a serem desenvolvidos durante o ensino-aprendizagem. O autor cita que, na Educação Física, sob os princípios da Cultura Corporal, a saúde não é tratada de forma direta. O tema saúde é explorado em consequência das aulas e dos conteúdos já citados. Rodrigues (2000) critica a Cultura Corporal, pois, em sua visão, o tema saúde é abordado sobre o pressuposto da Saúde Pública, isto é, reduzido à assistência simplificada. Ao contrário de Rodrigues (2000), este estudo compreende a Cultura Corporal como uma perspectiva que fundamenta o professor em sua prática. Conforme Betti (1991), a Cultura Corporal engloba a cultura esportiva e a corporeidade. De acordo com Zabala (2002) esta é a área que mais se aproxima da realidade do cotidiano, pois valoriza o social e não somente a reprodução de metodologias científicas. Deste modo, compreende-se que a Cultura Corporal, com todos os seus conteúdos característicos da Educação Física, pode, de forma direta, tratar a saúde, seja recorrendo às práticas ou discutindo e refletindo com os alunos, com suporte nos conteúdos ministrados, questões pertinentes ao conhecimento de saúde. De acordo com os PCNs (BRASIL, 2000) a história da humanidade é a história de sua cultura. Cultura é um conjunto de símbolos reconhecidos pelos grupos sociais. Por questões biológicas, os homens foram desenvolvendo possibilidades de novos movimentos, às vezes por questões fisiológicas, outras por motivos religiosos e até lúdicos. Surgiu daí uma diversidade de

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conhecimentos, constituindo então uma Cultura Corporal. Dentre estas culturas, a Educação Física incorpora o jogo, a luta, a dança, os esportes e as ginásticas, que possuem em comum a representação corporal de várias culturas humanas. Os PCNs (1998) entendem que a Educação Física é uma área da Cultura Corporal do Movimento, e a Educação Física tem como objetivo integrar o aluno nesta cultura, formando cidadãos. Ao indicar a cidadania como eixo norteador, os PCNs solicitam que a Educação Física seja responsável pela formação de alunos capazes de, entre outras coisas, adotar atitudes saudáveis, compreender sua saúde como coletiva e conhecer a diversidade de padrões de saúde nos diferentes grupos sociais (BRASIL, 1998). Por fim Rodrigues (2000) lembra que a Cultura Corporal aborda o tema saúde sobre o pressuposto da Saúde Pública. Para ele isso não é positivo. Compreende-se que a Saúde Coletiva não somente estabelece uma crítica ao universalismo naturalista do saber médico, mas também rompe com a con- cepção de Saúde Pública, negando o monopólio do discurso biológico. Já para Devide (1996), a Educação Física Escolar, em relação à saúde, utiliza dois enfoques: o da Promoção e Educação em Saúde e o da prática da atividade física. Para o autor, ambos trazem contribuições positivas, no entanto também oferecem limitações. A Promoção e Educação em Saúde são introduzidas na Educação Física, primeiramente nos estudos de Faria Junior (1991), porém não são apresentadas formas práticas de como aplicar seus conteúdos na escola, o que começa a ser apresentado posteriormente, com outros autores, entre eles Devide (2002). Quanto à atividade física relacionada à saúde, os estudos de Guedes e Guedes (1993; 1994) tentam sistematizar, por meio de sugestões, práticas como ministrar o conteúdo nas aulas de Educação Física. Ferreira (2001) realiza uma crítica a este modelo. Para esse autor, o enfoque da atividade física relacionada à saúde produz o reducionismo do termo ao seu aspecto biológico; desconsidera o social como fator preponderante à saúde; defende a individualização; e a reprodução da relação causal entre prática de exercício e melhoria da saúde.

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Desta forma, é importante estabelecer uma ponte entre o abismo que se forma entre os dois modos de compreensão de saúde sob a ótica da

Educação Física de Devide (1996). É necessário um estreitamento entre estes métodos para a disciplina poder ampliar seus horizontes. Para tal finalidade, a Educação Física deve optar por conteúdos de relevância social para os alunos, que retratem a saúde e levem em consideração os aspectos sociais e coletivos (DEVIDE, 2002). Partindo do debate como pressuposto teórico, a Educação Física pode se tornar um meio eficaz na aquisição e no conhecimento sobre a saúde de seus alunos (COLETIVO DE AUTORES, 1992). Devide (2002) reforça a noção de que o enlaçamento entre as tendências da Promoção e Educação em Saúde e da atividade física relacionada à saúde, além de promover o amadurecimento sobre a função da disciplina no que se refere ao tema saúde, oferece novos elementos para a prática dos professores em virtude da realidade de seus alunos.

O autor também explica que o professor de Educação Física Escolar

deve contextualizar os conteúdos da disciplina referentes à saúde ante as condições de vida de seus alunos. Assuntos como fatores de saúde relacionados aos exercícios físicos, falta de espaços públicos, dificuldade de acesso ao lazer, más condições de trabalho, moradia, transporte, educação etc. (FERREIRA, 2001) devem ser discutidos, ampliando assim a relação da disciplina com a saúde, ultrapassando a barreira de simplesmente praticar

atividades físicas. Na compreensão de Palma (2001), a Educação Física necessita romper com os conceitos de saúde tradicionais, dimensionados no individual e procurar compreender o tema como algo de elaboração coletiva, rumo à cidadania. Defende-se neste estudo o argumento de que a Educação Física deve

ultrapassar os aspectos individuais e biológicos de suas práticas e partir para um novo rumo coletivo.

O que se observa, entretanto, não é isso. Para entender melhor a

situação da saúde, como conteúdo da disciplina será realizado a seguir um resgate do contexto histórico da saúde na Educação Física Escolar.

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Conceituar Educação Física não é uma tarefa simples. Inicia-se pela discussão do corpo, objeto de estudo da disciplina. Serres (2004) explica que a dualidade cartesiana corpo e mente deve ser invertida. O corpo é o princípio. É pelo corpo que se vive, sente, age e aprende. É no corpo, por ele e com ele, que se adquirem saberes. O corpo que detém a atenção da Educação Física necessita de saúde. Ceccin e Bilibio (2007) são categóricos: a Educação Física surge como um sentido para a saúde. Citam que é por ela ou por meio dela que se chega à Saúde Coletiva. Moreira (1995) explica que a Educação Física se inicia na Pré-História, quando os exercícios físicos, de forma rudimentar, e com o objetivo de sobrevivência, já eram praticados. Para o autor, é considerada área de conhecimento do movimento humano e incorpora saberes de outros segmentos. Acompanha a cultura do homem e corresponde aos ideais sociais, políticos e econômicos de várias épocas da humanidade. Na antiga Grécia, possível origem da figura do professor de Educação Física, a valorização da ginástica era considerável. O profissional da área, assim como os médicos, já atuava como educador de jovens por meio de jogos e exercícios; representava um mestre, líder e coordenador de ginásios e centros culturais (Da COSTA, 1999). Masson (1988) argumenta que os primeiros indícios de sistematização da Educação Física Escolar ocorreu por meio de Basedow e do movimento ginástico germânico de 1790, Ling e o movimento sueco de 1839 e com Amoros e Demeny, representantes do movimento francês de 1848. O autor também explica que, ao final do século XIX, a criação do método natural de Hébert, ao utilizar trabalhos de deslocamentos e exercícios naturais de execução simples - como andar, correr, saltar, pular, arremessar e lançar - buscava desenvolver o homem de forma integral. A Educação Física, entretanto, na forma instrumentalizada pelos métodos ginásticos, avança ao longo do tempo para um caminho que a reduziu à prática biológica de exercícios repetitivos e sem explicações teóricas, ao ensino de regras e técnicas desportivas, ao aluno sendo considerado um simples objeto, ou seja, ator mecânico do trabalho corporal (BRANDL, 2002).

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Esse autor esclarece que, na década de 1970, surgem novas contribuições para a Educação Física, entre elas a Psicomotricidade e a Motricidade Humana, que irão influenciar práticas corporais mais reflexivas. Vários são os autores que identificam a relação histórica entre a Educação Física e a saúde. Entre estes, Ghiraldelli Júnior (1998), Soares (1994) e Carvalho (1995) identificam duas formas de reproduzir a relação citada: uma identifica a prática da atividade física como produtora de saúde e outra como prevenção. Para Carvalho (1995), ambas constroem sua epistemologia na concepção de que somente o exercício físico é o responsável pela saúde dos alunos, desconsiderando aspectos tais como políticas públicas, cultura, contexto social e saneamento. Pode-se incluir, ainda, outra forma de pensar a Educação Física relacionada à saúde: por meio da Educação e Promoção da Saúde em âmbitos escolares. Nos capítulos posteriores deste estudo este assunto será retomado. Para se compreender o papel da saúde na Educação Física Escolar no Brasil, é necessário reaver a história da disciplina e seus respectivos períodos. A introdução da Educação Física nas escolas brasileiras se deu efetivamente pela Reforma Couto Ferraz, em 1851. Consoante a reforma realizada pelo jurista Rui Barbosa, em 1882, houve uma recomendação de que a ginástica fosse obrigatória. Foi, no entanto, somente de 1920 em diante que vários estados incluíram a Educação Física em suas reformas educacionais (BETTI, 1991) Ghiraldelli (1998) explica que a Educação Física brasileira apresenta concepções históricas, identificando-as em cinco tendências 7 : Higienista (até 1930), Militarista (de 1930 a 1945), Pedagogicista (1945 a 1964), Competitivista (1964 a 1985) e Popular (de 1985 até os dias atuais). A Educação Física Popular se desmembra em várias abordagens 8 . A seguir será analisada cada uma delas, tendências e abordagens, bem como sua relação com a saúde com base na experiência do autor como

7 Tendências da Educação Física: são relacionadas com os períodos históricos do Brasil. Suas características acompanham do contexto sócio-cultural que o país atravessa.

Abordagens da Educação Física: são entendimentos da Educação Física por autores, ou grupo de autores, onde cada qual procura explicar os conteúdos, sistemas e métodos da disciplina dentro de sua própria experiência teórica e prática.

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professor de Educação Física Escolar; em vivências em palestras, encontros, seminários e congressos; na observação, como aluno, de outros professores e mestres, na escola e na graduação; e nas interpretações de leituras de autores clássicos da área, como Betti, Bracht, Castellani Filho, Coletivo de Autores, Darido, Freire, Ghiraldelli Junior, Go Tani, Guedes e Guedes e Nahas. Assim, determinados parágrafos não apresentam fontes utilizadas, pois são manifestações do entendimento, vivência e compreensão do tema pelo autor pesquisador.

2.2.1 Tendência Higienista (até 1930)

A tendência da Educação Física Escolar denominada Higienista figurou como representativa da disciplina até 1930. Foi bastante influenciada pela Medicina e pela Eugenia. Segundo Darido e Rangel (2005) esta concepção possuía como preocupação principal os hábitos de higiene e saúde, valorizando tanto o desenvolvimento físico quanto o moral, com procedência no exercício. De acordo com Luz (2007), a Medicina teve papel estratégico no desenvolvimento da Educação Física. Para o autor, os saberes e práticas da Educação Física passam a receber influências dos saberes da área médica, buscando uma legitimação científica, principalmente no campo biomédico, como todos os saberes relativos ao corpo. Esta tendência da Educação Física possuía como característica a utilização da ginástica calistênica. Os professores eram da área médica e não havia interação dos alunos com o professor. Os mais fracos e doentes eram excluídos das aulas e não havia nenhuma interação com as questões pedagógicas da escola. O tema saúde era uma preocupação da elite econômica da época, que temendo contaminações, utilizou a Educação Física como um meio de doutrinar as classes não favorecidas, no sentido de fiscalizar e promover a assepsia corporal. Tal fiscalização era realizada no início das aulas, quando se efetivava a inspeção, momento em que os alunos deveriam mostrar aos

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professores a limpeza corporal – unhas, cabelos, pescoço, braços e pernas. Alunos com qualquer tipo de doença eram eliminados das aulas; aqueles que estivessem demonstrando qualquer tipo de impureza – roupa suja, unhas a fazer etc. - eram sumariamente excluídos. As blusas do uniforme da prática de Educação Física deveriam ser brancas, fato até hoje corriqueiro nas aulas da disciplina. Esta finalidade foi admitida pelo fato de representar a pureza e a limpeza.

Em contra posição a Educação Física da época teve influência do Movimento Social do Século XIX, disposto entre 1830 e 1870, difundiu-se na Europa e foi contemporâneo do surgimento e ascensão do capitalismo, situando-se como oposição a este (ROSEN, 1980). Este movimento navegava no sentido contrário aos interesses das classes favorecidas e exigia melhores condições para os trabalhadores da época (DA ROS, 2000). Assim, alguns professores de Educação Física deste período, ou melhor, de Ginástica, na verdade, pouquíssimos, ainda que muito timidamente, partiram para a defesa dos menos afortunados, baseados nos princípios do Movimento Social. Infelizmente, não conseguem produzir seguidores (DA ROS, 2000) Com a descoberta das vacinas, porém, e da associação causal entre bactéria e doença, a partir de Pasteur, a Medicina Biológica conferiu mais força. Rosen (1980, p. 49) cita a frase de Behring, em 1896: “Agora, com a descoberta das bactérias, desnudada a causa das doenças, o médico não precisa mais se preocupar com a sociedade”. Por conseguinte, este passou a ser o modelo a vigorar no fim do século XIX e início do século XX: o modelo unicausal de explicação da doença, que negava os aspectos sociais, econômicos e culturais do processo saúde-doença. Tal modelo invade e toma conta das direções da Educação Física na escola. Além disso, o modelo de saúde utilizado pelos estadunidenses também aporta no Brasil, modelo este impregnado de ideias capitalistas. O modelo de ensino da área médica e de saúde, no período, passa a ser centrado na unicausalidade e no biologicismo. Era fragmentado, positivista e considerava-se dono da verdade científica (DA ROS, 2000). Tais formandos destas escolas, muitas vezes se aventuravam a ministrar aulas de Educação Física Escolar.

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Como consequência, os modelos eugênico, higienista e biologicista de encarar a saúde podem ser considerados os precursores da pedagogia da Educação Física Escolar, baseada na apologia ao estilo de vida ativo adquirido pela exercitação mecânica, cujos fundamentos, até hoje, produzem sentimentos de culpa naqueles que não seguem os direcionamentos impostos por esta tendência da disciplina, no que diz respeito a aparência física (SOARES, 1994). Como assinalam Goldberg e Ramos (2002, p. 25): “devido a mais nova moral, a da ‘boa forma’, a exposição do corpo em nossos dias, não exige dos indivíduos apenas o controle de suas pulsões, mas também o controle de sua aparência física”. A seguir, demonstra-se a ideologia da Educação Física da época, biologicista, ilustrado por uma passagem do livro ‘Da Educação Physica’ de Fernando de Azevedo (1920, p.70):

Por meio dessa ginástica, assim caracterizada, devem

adquirir-se, sobre o ponto de vista fisio-anatômico: a beleza corporal e, sob o ponto de vista psicológico, a coragem, a iniciativa, a vontade perseverante, ou, em uma palavra, certas aptidões morais, além do equilíbrio funcional dos órgãos, que

é a expressão e o índice da saúde do corpo, e, por fim, a

beleza na forma e no movimento. Deve ela, pois, na concepção moderna, tender, não ao engrossamento do músculo, mas ao desenvolvimento racional de todos os órgãos

e de todas as funções, para chegar, por um treinamento, isto

é, por uma progressão lenta, gradativa e metódica, a favorecer

o desenvolvimento do sistema nervoso e a coordenação de

suas manifestações, e a facilitar assim todos os atos da vida, pondo uma alma sã num corpo igualmente sadio e vigoroso.

Oliveira (2005) defende a hipótese de que a instituição médica, baseada no biologicismo, favoreceu o entendimento da Educação Física como sinônimo de saúde e criação de hábitos higiênicos que afastassem da população a possibilidade de contaminação por doenças e outros agravos, e como um caminho para a promoção da eugenia, ou seja, o melhoramento da raça. Portanto, a Medicina contribuiu para a constituição de uma Educação Física com bases biológicas, desconsiderando questões que fugissem aos aspectos anatômicos e de rendimento físico. Considera-se que, no período da tendência higienista, corroborando Ramos e Ferreira (2000), a preocupação da Educação Física era com a

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formação de um homem ‘brasileiro’, que pudesse representar a Nação, observando-se suas características eugênicas, e que, desta forma, reforçava a ideia da saúde utilitarista, de caráter médico-higiênico (RAMOS; FERREIRA,

2000).

Encerrando este tópico, Faria Junior (1991) e Mota (1992) lembram que a busca por indivíduos fortes, a preocupação com os aspectos posturais, a influência médica e a boa aparência eram as metas dos programas de Educação Física da época. Para ambos, o processo de “medicalização” da Educação Física ainda persiste como método, até os dias atuais. A tendência higienista encerra seu ciclo, em 1930, com o advento de um mundo preocupado, não mais com o desenvolvimento da Medicina, mas com a guerra.

2.2.2 Tendência Militarista (1930 – 1945)

Outra tendência da Educação Física, compreendida entre 1930 e 1945, é a militarista. Fundamentalmente biologicista, como sustenta Daolio (1995), expressa a forma como os professores compreendiam os alunos, considerando-os de forma homogênea. Com a implantação do Estado Novo, na década de 1930, a escola passa a ser alvo de transformações nos programas das disciplinas. Assim, os professores de Educação Física passam a atuar recorrendo a filosofia da militarização, institucionalizando os corpos de seus alunos e negando o aspecto educacional da prática (GUEDES, 1999). A Educação Física militarista é influenciada pelas questões bélicas. As preocupações com eventuais guerras e o envolvimento do País nestes conflitos chegam a Educação Física com avidez. O período militarista se configura entre o final da Primeira e a Segunda Guerra Mundial, portanto, uma época de conturbações políticas. Havia a necessidade de preparar jovens para possíveis envios de tropas à guerra. Assim, o Governo brasileiro encara a Educação Física como um meio de treinamento para os alunos. As aulas passam a ser ministradas,

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em sua maioria, por militares. Exercícios como polichinelo, abdominal, flexão de braço, corridas, defesa pessoal, instruções militares e ginásticas passam a configurar como conteúdos da Educação Física Escolar. A relação aluno-professor abandona a postura paciente-médico, como era considerada na tendência higienista, e passa a vigorar como recruta- sargento. Não há diálogo entre ambos. Os fundamentos do nazismo e do fascismo, em ascensão na Europa, também são percebidos. O nacionalismo exacerbado e reproduzido em hinos e canções de louvor a pátria, a preocupação com a limpeza da raça, o racismo, o culto ao belo e a exclusão dos ditos inferiores são situações frequentes nas sessões de Educação Física. O tema saúde era abordado somente na prática, na preparação de futuros soldados, fortes e doutrinados, capazes de representar a pátria em combates. Havia a exclusão dos mais fracos e incapazes, pois a eugenia ainda era preconizada como meio de seleção dos melhores. Para que o Brasil fosse

à guerra, como de fato acabou ocorrendo, eram necessários jovens saudáveis

e dispostos. As mulheres começaram a ser incluídas de modo mais intenso nas aulas de Educação Física, porém separadas dos homens. A separação ocorria, pois os exercícios masculinos eram mais rigorosos e a ginástica feminina era mais branda. O objetivo desta inclusão era favorecer a saúde feminina, porém atrás desta ação, na verdade, o que havia de fato era a preocupação com as futuras mães. Assim, a Educação Física feminina se preocupava em preparar o corpo de suas alunas para uma boa gestação. Ao ficarem grávidas eram dispensadas das aulas. O pensamento era voltado para o nascimento de brasileiros puros e saudáveis; para tanto, deveriam ter mães saudáveis. Com o final da guerra, em 1945, e consequentemente o fim do pensamento militar e o início da formação de um novo mundo, a Educação Física no Brasil, seguindo os países do ocidente, volta-se ao modelo dos EUA, um dos países vencedores da Segunda Guerra.

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2.2.3 Tendência “Pedagogicista” (1945 – 1964)

Após a Segunda Guerra Mundial, com a derrota do nazifacismo e a vitória também dos Aliados, a Educação Física recebe a influência do liberalismo ianque, assim como grande parte do mundo ocidental. Nos Estados Unidos a Educação Física recorria a jogos e brincadeiras, ginásticas, lutas e esportes, principalmente o basquetebol e o voleibol, conteúdos logo assimilados pela disciplina no Brasil. Ainda no campo da atividade física, os estadunidenses investiram em programas de exercícios físicos e na formação de atletas (SESC, 2003) No Brasil, com o crescimento da escola pública, como atesta Ghiraldelli Júnior (1998), a Educação Física recebeu impulsos da ideologia desenvolvimentista do governo de Juscelino Kubitscheck e integrou pela primeira vez as questões pedagógicas na escola. Neste período, a Educação Física é o centro vivo da escola, responde à preparação de alunos para festas, torneios, desfiles, formação de bandas musicais, entre outras. A participação dos alunos é mais inclusiva. Pela primeira vez a saúde é discutida de forma teórica, e assuntos como primeiros socorros, higiene, prevenção de doenças e alimentação saudável são incorporados às aulas de Educação Física. No período, entretanto, ainda não se notava uma preocupação com a saúde coletiva, e sim individual. Não havia discussões sobre lazer, moradia, emprego e saneamento, condições básicas para a saúde, na visão da Saúde Coletiva. Um fato negativo desta tendência é o início do culto ao corpo de forma consumista, a partir década de 1960, fortemente apoiado pelo modelo american way of life, que passa a ser copiado pela sociedade brasileira (COURTINE, 1995). De forma inversa, agora positivamente, a tendência “pedagogicista”, denominada por alguns como biopsicossocial, foi inspirada no discurso liberal da Escola Nova e buscava efetivar um caráter mais educacional à Educação Física.

Guedes (1999) explica que a introdução de ideias pedagógicas fez com que a Educação Física fosse reconhecida como um meio de educação, pois

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advogava no sentido de explicar que o homem, para ser instruído de forma integral, deveria não somente ser educado cognitiva e afetivamente, mas,

também, no campo físico. Para o autor, tal fato proporcionou aos professores da disciplina substituir os métodos mecânicos da prática.

O autor ainda assinala que, da mesma forma como os militares tentaram

superar os métodos médicos da tendência higienista, foram os pedagogos que procuraram tomar o lugar dos militares na tendência “pedagogicista”, apesar de

resquícios das áreas médica e militar que se mantiveram presentes nas aulas dos professores da época. Assim a relação agora era, enfim, aluno-professor.

A Educação Física brasileira parecia caminhar a largos passos para uma

boa utilização de seus métodos, passando a defender a discussão teórica educacional, porém, havia em seu caminho um empecilho que lhe proporcionou uma vertiginosa queda de volta ao biologicismo: a ditadura militar.

2.2.4 Tendência Esportivista (1964 – 1985)

No ano de 1959, a Revolução Cubana tomava conta daquele país da América Central. A revolução, com características populares, impulsionava o socialismo no Continente. O governo dos EUA, temeroso de novas ordens revolucionárias, apoiou movimentos de repressão a populares de esquerda que questionavam a exploração capitalista. Em 1º de abril de 1964, no Brasil, os militares tomam o poder e, a partir de então, instalam um governo no qual as pessoas com ideias contrárias eram rigorosamente punidas com perseguições, cadeia, exílio e morte. A censura foi exercida e ocorrem a fiscalização de sindicatos, entidades estudantis e partidárias. Nesse mesmo período, o Brasil consegue vários resultados expressivos no esporte, como o tricampeonato da seleção brasileira de futebol, no México, em 1970, o título mundial no boxe, com Éder Jofre, e as conquistas de Maria Esther Bueno, no tênis. O povo comemorava nas ruas as vitórias brasileiras. O Governo patrocinava as festas e, desta forma, percebeu que a população adorava esportes e que, com a atenção direcionada às disputas, se afastava das

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discussões políticas. Assim, os militares resolvem incentivar a prática esportiva, com objetivos claros: descobrir talentos e transformar o Brasil em potência olímpica. Havia, porém, objetivos transversos: ao praticar esportes, a população se ocupava e deixava de lado as preocupações com o Governo. Para atingir os objetivos traçados, o Governo resolve então apoiar a prática de esportes na escola e a Educação Física se torna o alvo prefeito. Desde este momento, a Educação Física, que buscava um avanço como meio educativo, na tendência Pedagogicista, retorna ao biologicismo. Os professores agora deveriam deixar de lado os aspectos sociais, educativos e afetivos e se preocupar somente com o rendimento e o aprimoramento das habilidades esportivas. A Educação Física é dominada pelos esportes, ou melhor, era sinônimo de esportes. Há uma exclusão generalizada daqueles que não possuem habilidades e a competição passa a ser o objetivo do processo. A relação professor-aluno era a de técnico-atleta. O período que compreende esta tendência na Educação Física é de 1964 a 1985. Nesta tendência da Educação Física a saúde, física, se torna um tema importante, pois é necessário atender aos futuros atletas. A fisiologia e o treinamento esportivo, principalmente, atingem um grande desenvolvimento. Outro fato impulsionou a vertente biológica da Educação Física no período. No início da década de 1970, o método Cooper havia se tornado referência na prática da atividade física. Para Cooper (1987), a prática de exercícios era fundamental para a conservação da saúde, pois estes eram responsáveis pela manutenção do bom funcionamento do sistema cárdiorespiratório, que, por sua vez, promovia melhoras no condicionamento físico e na qualidade de vida das pessoas. O método de Cooper foi utilizado como argumento para os professores de Educação Física da época referendarem suas práticas tecnicistas. Ainda nesse período a Educação Física também recebeu influências dos discursos econômicos, pois, preocupados com os problemas de saúde, alertavam para a realização de atividades físicas pela população. O argumento na verdade era o de tornar menos custosa a saúde para os governos. Esse movimento, denominado healthism, teve origem nos Estados Unidos e, anos mais tarde, no Brasil, se chamou de Movimento da Saúde (SOARES, 1994).

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O Movimento da Saúde é pautado pelo individualismo, em detrimento das questões sociais. Assim, as atividades físicas são medidas privadas, diferentemente das tendências higienista e militarista, em que a ideologia era voltada para o Estado por meio da consecução da eugenia e sua busca incessante pela melhoria da raça (GÓIS JÚNIOR; LOVISOLO, 2003). Também conhecida como tendência competitivista, mecanicista ou tecnicista, a tendência esportivista ainda hoje é muito representativa na área da Educação Física Escolar. Seus métodos, conteúdos, formas e meios se resumem, como o nome já informa, à prática esportiva, com todas as suas normas, técnicas, táticas e busca de performances. Talvez esta seja a tendência que mais raízes deixou na prática da Educação Física Escolar. Desde meados dos anos 1980, a ditadura brasileira se sentiu desprivilegiada e sem forças que a sustentassem no poder. Os movimentos democráticos começam a se fortalecer, entre eles as Diretas Já. O Brasil não se torna uma potência olímpica, pelo contrário, os resultados em competições internacionais são pífios. Com eleição de um presidente civil e a retomada da democracia, a Educação Física penetra a era da Tendência Popular.

2.2.5 Tendência Popular (1985 – atualidade)

A década de 1980 faz fervilhar os movimentos populares. O Movimento Sanitário cresce nos municípios e se organiza. Em 1986, na já comentada 8ª Conferência Nacional de Saúde, ocorre o reconhecimento do Conceito Ampliado de Saúde, que entende saúde como um conjunto de situações que vão além do biológico, incluindo o social, o cultural e o econômico (BRASIL, 1986). A Educação Física pautada na tendência Popular é dominada pelos anseios operários de ascensão na sociedade. Conceitos como inclusão, participação, cooperação, afetividade, lazer e qualidade de vida vigoram nos debates da disciplina. O aluno, depois de um longo período, desde a tendência “pedagogicista”, entre 1945 e 1964, era parte do processo, sendo ouvido, podendo sugerir e criticar.

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A saúde como tema deste período da Educação Física engloba

diversos assuntos, como o sedentarismo, as doenças sexualmente

transmissíveis, o combate às drogas e os primeiros socorros.

A força do biologicismo, tão presente em outras tendências da

Educação Física, parece declinar. Lesões, traumas, estresse e uso de drogas para aumentar o rendimento direcionam a atenção da população para os efeitos do esportivismo e de sua busca pelo alto rendimento. Solomon (1991) assegura que somente a dedicação aos exercícios não é suficiente para a prevenção de doenças cardíacas. A afirmação produz efeito devastador na Educação Física, que inicia, então, outra leitura do seu papel como produtora

de saúde. A Educação Física, na verdade, entra em crise epistemológica. O que fazer? Não se respiram mais os ares do higienismo e sua assepsia corporal; não se pretende mais produzir futuros soldados, como preconizava a tendência

militarista; não há a necessidade de produzir atletas, pois a escola não possui esta função, como queria a tendência esportivista. Qual a ciência da Educação Física? A que se destina? Qual o verdadeiro papel da saúde na Educação Física? Desta crise, aflorada pela necessidade de sobrevivência, surgem as abordagens da Educação Física. Darido (2005) explica que na década de 1980, é iniciado um amplo debate nas comunidades acadêmicas sobre os pressupostos e a especificidade da Educação Física. Como resultado, surgem várias abordagens pedagógicas para a área, como as abordagens Psicomotora, Desenvolvimentista, Construtivista, Saúde Renovada, Crítico-Superadora, Critíco-Emancipatória, entre outras. A autora sustenta que as abordagens da Educação Física possuem determinados fundamentos das tendências e, por isso, trazem consigo aspectos biológicos, psicológicos, sociológicos e filosóficos, já percebidos, entretanto apresentam enfoques científicos distintos na busca de uma Educação Física que valorize mais as múltiplas dimensões do ser humano e a tentativa de se opor aos modelos tecnicistas e mecânicos.

A Educação Física, então, realiza importantes mudanças em sua

estrutura: reformulação curricular, conteúdos desenvolvidos para a escola, reflexões críticas acerca da falta de ideologia na área, entre outras (RAMOS;

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FERREIRA, 2000). Tais discussões fazem surgir outro cenário, marcado pela ruptura com o biologicismo reinante. Desta forma, a Educação Física avança para a ampliação de seus conteúdos e percepção do corpo e do movimento, voltando-se, então, para a compreensão da cultura corporal (BRACHT, 1996; COLETVO DE AUTORES 1992). Betti (1992) concorda com o avanço, e explica que a Educação Física “deve preocupar-se com a formação do cidadão que irá usufruir, partilhar,

produzir, reproduzir e transformar as formas culturais da atividade física”. (BETTI, 1992, p.285).

A seguir, se apresentam as principais abordagens da Educação Física

Escolar, na visão de Darido (2005), e sua relação com a saúde.

2.2.6 Psicomotricidade

A psicomotricidade é o primeiro movimento a se articular como uma

abordagem da Educação Física Escolar. Seus princípios extrapolam a ordem biológica e de rendimento corporal, inserindo na prática o conhecimento de ordem psicológica (DARIDO, 2001). Soares (1996) assevera que esta abordagem visa ao desenvolvimento integral do aluno, estimulando os aspectos motores, cognitivos e afetivos. Seu grande difusor foi o francês Le Boulch (1986), que preconizava a educação psicomotora por meio de movimentos espontâneos com o intuito de

favorecer a imagem do corpo. Para o autor citado, o núcleo central da personalidade.

A psicomotricidade busca desenvolver fatores como a noção de corpo,

tonicidade, equilíbrio, estrutura espaço-temporal, lateralidade, coordenação

motora global e coordenação fina (FERREIRA, 2001). Segundo Le Boulch (1986), o objetivo da Educação Física é o domínio

do corpo, que corresponde na realidade ao desenvolvimento das funções psicomotoras.

A saúde, nesta abordagem, é vista de forma indireta como resultado

do desenvolvimento dos fatores psicomotores, afetivos e cognitivos (FERREIRA, 2001)

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2.2.7 Construtivista

Esta abordagem é baseada no Construtivismo de Piaget (1998). Darido (2001) expressa que a corrente construtivista recebeu influências da psicomotricidade, no sentido de valorizar aspectos psicológicos, afetivos e cognitivos no desenvolvimento do movimento humano. Dentro desta complexidade, a formulação do conhecimento ocorre na interação sujeito- mundo.

Freire (1991) pode ser considerado como o responsável pela introdução desta abordagem na Educação Física Escolar. Seu livro Educação de Corpo Inteiro (1991) é considerado obra de referência no contexto construtivista. Para o autor, a criança é uma especialista no jogo, no brincar e no brinquedo; possui um conhecimento prévio, que deve ser respeitado, e considera o erro como um processo para a aprendizagem.

O tema saúde na abordagem construtivista é, assim como na

psicomotricidade, compreendido de forma indireta.

2.2.8 Desenvolvimentista

A abordagem desenvolvimentista preocupa-se com o desenvolvimento

das habilidades motoras básicas, entre as quais habilidades locomotoras, de manipulação e estabilização.

No Brasil, Go Tani (1988) é o representante desta abordagem. O autor

explica que a Educação Física deve se preocupar com o crescimento e desenvolvimento motor, pois esta abordagem defende o movimento como o principal meio e fim da Educação Física. Por ser mais biologiscista, a abordagem desenvolvimentista possui um conceito de saúde indireto, resumindo-se à preocupação com a aprendizagem das habilidades motoras, pois é por seu intermédio que os seres humanos se

adaptam aos problemas do cotidiano (DARIDO, 2001).

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2.2.9 Críticas

Ao fazerem oposição ao tecnicismo da Educação Física Escolar, alguns autores elaboram uma proposta de mudanças para a área, regida pelo marxismo. Essas abordagens críticas, também denominadas progressivas, exigem do professor de Educação Física uma percepção da realidade de modo mais político. Tentam combater a alienação dos alunos e defender uma postura de superação das injustiças sociais, econômicas e políticas. Dentre essas abordagens pode-se, mencionar as abordagens Crítico-Superadora e Crítico- Emancipatória (DARIDO, 2001).

O livro, representativo da abordagem Crítico-Superadora, Metodologia

do Ensino da Educação Física, publicado por um Coletivo de Autores (1992), instiga a reflexão sobre questões de poder, interesse, esforço e contestação. Na sua análise, não se deve apenas explicar como ensinar, mas sobretudo,

como se adquire conhecimento, e, neste âmbito, respeita os aspectos socioculturais dos alunos. Sugere que os conteúdos da Educação Física Escolar devem considerar a realidade dos operários. Nesta abordagem, a

disciplina é tida como um tipo de conhecimento que trata da cultura corporal (DARIDO, 2001).

A abordagem crítico-emancipatória possui como principal autor Kunz

(1994). Segue as diretrizes da Escola de Frankfurt e busca um ensino, por meio da Educação Física, de libertação de falsas ilusões, interesses e desejos

criados por uma mídia com escopo capitalista (DARIDO, 2001). As abordagens críticas iniciam, após a tendência “pedagogicista”, o debate sobre saúde, porém este que é apresentado nestas abordagens reflete o pensamento marxista do Coletivo de Autores (1992) e Kunz (1994), de tal forma que as discussões envolvendo saúde se direcionam mais para as questões de justiça social.

2.2.10 Saúde Renovada

Com origem na década de 1990, ocorre a existência de uma abordagem da Educação Física Escolar voltada para as discussões da saúde, não apenas repetindo os conceitos da tendência higienista, mas ampliando a

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discussão (DARIDO, 2003). A autora denominou a abordagem de Saúde Renovada. Para Darido (2003), os principais teóricos da abordagem são Nahas (1997) e Guedes e Guedes (1996). Nahas (1997) e Guedes e Guedes (1996) defendem a ideia de uma Educação Física Escolar dentro da perspectiva biológica, para explicar as causas e fenômenos da saúde, entretanto não se afastam dos problemas sociais. Discutem o sentido de qualidade de vida e bem-estar. Guedes e Guedes (1996) alertam para as preocupações com a incidência de distúrbios orgânicos associados à falta de atividade física. Guedes e Guedes (1996) ressaltam que a prática da atividade física, mediada pela Educação Física Escolar, na infância e adolescência, pode estimular uma vida saudável na fase adulta. Para tanto o hábito da vida saudável deve ser ensinado na escola. Sugerem a reformulação dos programas de Educação Física Escolar, agora como um meio de Educação e Promoção da Saúde. Para Darido (2003), essa abordagem é considerada renovada, pois incorpora os preceitos positivos do higienismo, descarta soluções negativas, como o eugenismo e recorre a um enfoque mais sociocultural do que biológico. Na lição de Nahas (1997), o objetivo da Educação Física Escolar é ensinar conceitos básicos da relação atividade física-saúde, perspectiva que inclui todos os alunos, principalmente os mais necessitados, como sedentários, obesos, portadores de baixa aptidão física e especiais. Tais reflexões expressam o pensamento de Betti (1991), ao alertar para a necessidade da inclusão de todos os alunos nas aulas de Educação Física. A compreensão de saúde e o entendimento dos benefícios que a atividade física produz no organismo são informações que não se resumem apenas à prática costumeira dos esportes. Estes conceitos devem ser assimilados e, sendo incorporados, produzirão futuros adultos conscientes dos hábitos saudáveis ao longo da vida (GUEDES; GUEDES, 1996; NAHAS, 1997). Para os autores citados, a compreensão de saúde deve envolver temas como estresse, sedentarismo, doenças hipocinéticas, problemas cardíacos, entre outros. Os autores compreendem saúde como a capacidade do indivíduo desfrutar a vida com bem-estar, e não é apenas ausência de doença. Consideram que a saúde não é um estado estável e sim mutável,

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constituído individualmente ao longo da vida, e, para isso, a Educação Física Escolar é fundamental. Já realizou-se uma crítica anteriormente sobre esta abordagem. Percebe-se que o conceito de saúde aqui está focado no individual e não no social. Palma (2001), sustentando a crítica, preconiza a necessidade de considerar os fatores sociais e ambientais como propulsores da saúde.

2.2.11 Parâmetros Curriculares Nacionais 9 – PCNs

O Ministério da Educação e do Desporto, inspirado no modelo

educacional espanhol, convidou um grupo de pesquisadores de áreas diversas do conhecimento, entre elas a Educação Física, para a elaboração dos PCNs (DARIDO, 2001). Em 1998, a Secretaria de Ensino Fundamental e Médio do Ministério

da Educação e do Desporto distribuiu para as escolas públicas do País um documento intitulado PCNs (BRASIL, 1998), incluindo uma edição específica para a Educação Física. Os PCNs são uma referência nacional para o ensino fundamental e médio no sentido de apontar caminhos programáticos e pedagógicos para as várias disciplinas escolares. Os documentos que fazem parte dos PCNs são: documento introdutório, temas transversais - Saúde, Meio Ambiente, Ética, Pluralidade Cultural, Orientação Sexual, e Trabalho e Consumo - e documentos específicos com o conteúdo de cada disciplina escolar.

De acordo com Darido et al (2001), as propostas dos PCNs-Educação

Física apresentavam avanços, embora muitos dos conteúdos do documento já tivessem sido discutidos em obras anteriores (BETTI,1991; COLETIVO DE AUTORES, 1992; BETTI, 1994; 1995;). Para a autora, três aspectos levantados nos PCNs-Educação Física são relevantes: princípio da inclusão; as dimensões de conteúdo atitudinais, conceituais e procedimentais; e os temas transversais. Na Educação Física Escolar, a preocupação com saúde, em momentos, é voltada ao higienismo, ora a eugenia e em outros à aptidão física

9 Reconhecido como uma abordagem no livro Educação Física na Escola, de Darido e Rangel

(2005)

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(RAMOS; FERREIRA, 2000). O tema saúde, na verdade, é muito pouco explorado pelos professores de Educação Física e os PCNs propõem alterar este quadro. Os PCNs-Saúde buscam atrelar-se a um conceito de saúde que supere o paradigma biológico e informativo. No documento, são considerados os diversos enfoques que formam a composição do cenário da saúde, incluindo aí os aspectos sociais, econômicos, culturais, afetivos e psicológicos (BRASIL, 1998). O texto introdutório dos PCNs-Saúde apresenta o desafio de educar para a saúde, no que se refere a hábitos e atitudes de vida (BRASIL, 2000). A transmissão de conhecimento de saúde no Brasil nas escolas se efetivam por intermédio de meras informações sobre os aspectos biológicos do corpo, a descrição de doenças e suas causas e de hábitos e de higiene. Estas situações não são resolutivas para que os alunos desenvolvam atitudes de vida saudável (BRASIL, 1998). Peregrino (2000) também reforça a ideia do ensino de saúde errôneo na educação do Brasil. De acordo com a autora, o ensino é linear e tradicional, segue uma complexidade crescente, mas fragmentada, não há uma relação dos assuntos de saúde com o contexto social e cultural dos alunos. Os PCNs-Saúde, inspirados nos textos e nas obras de Canguilhem, idealizam o preenchimento desta lacuna no ensino de saúde. Buscam um modelo de compreensão de saúde mais abrangente, não excluem as questões biológicas, mas defendem o fenômeno social como fator decisivo do entendimento de saúde (BRASIL, 2000). Esta é a abordagem que mais se aproxima dos ideais da Saúde Coletiva, por abordar e considerar fatores externos, e não somente a prática de exercícios, como indicadores de saúde, entretanto deixa de incluir características importantes no campo da própria Saúde Coletiva, como a humanização, o cuidado consigo e com o outro, o vínculo e o diálogo. Após a apresentação de todas estas tendências e abordagens da Educação Física Escolar, se faz necessário sintetizar o papel da saúde em cada uma delas. O quadro 01 representa o entendimento do pesquisador sobre o assunto.

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Quadro 01: O papel da saúde nas tendências e abordagens da Educação Física Escolar.

Tendência/abordagem

Papel da saúde

Higienista

Promover a assepsia social; preocupação com a limpeza corporal, eugenia. Somente aulas práticas. Tema saúde abordado indiretamente. Visão biologicista e individualista de saúde.

Militarista

Preparar alunos saudáveis com exercícios militares para representar o Brasil em futuras guerras. Somente aulas práticas. Tema saúde abordado indiretamente. Visão biologicista e individualista de saúde.

“Pedagogicista”

Início de discussões teóricas sobre o tema, mesmo que simplórias, sobre primeiros socorros, higiene, prevenção de doenças e alimentação saudável. Visão individualista de saúde.

Esportivista

Os alunos deveriam possuir saúde para tornarem-se atletas. Desenvolvimento da fisiologia e do treinamento esportivo. Somente aulas práticas. Tema saúde abordado indiretamente. Visão biologicista e individualista de saúde.

Popular

Discussões teóricas sobre diversos temas, como o sedentarismo, as doenças sexualmente transmissíveis, o combate às drogas e os primeiros socorros. O biologicismo começa a declinar. Percepção de que somente a dedicação aos exercícios não é suficiente para a prevenção de doenças. Crise epistemológica na Educação Física, que provoca nova leitura do seu papel como produtora de saúde.

Psicomotricidade

Saúde tratada de forma indireta por meio de atividades que desenvolvam os aspectos psicomotores, cognitivos e afetivos. Somente aulas práticas. Visão não biologicista, porém individualista de saúde.

Construtivista

Saúde tratada de forma indireta com atividades lúdicas. Envolvendo o jogo. Visão não biologicista, porém individualista de saúde.

Desenvolvimentista

Saúde tratada de forma indireta com atividades que desenvolvam as habilidades motoras. Somente aulas práticas. Visão biologicista e individualista de saúde.

Críticas

Saúde tratada de forma direta em discussões e debates sobre as injustiças sociais pautadas no marxismo. Visão não biologicista e socialista de saúde.

Saúde Renovada

Saúde tratada de forma direta com discussões e aulas práticas. A relação atividade física – saúde é tida como causa efeito. Visão não completamente biologicista, porém defende de forma veemente as questões orgânicas como indutoras da saúde. Visão individualista de saúde.

PCNs

Saúde tratada de forma direta em discussões e aulas práticas. Aproxima-se do campo da Saúde Coletiva. Considera a cidadania como saúde. Visão não biologicista e, ainda que não tão incisiva, coletiva de saúde.

Fonte: autoria própria

Após este quadro-síntese, compreende-se a necessidade de uma nova proposta de ensino para a Educação Física Escolar, no sentido de

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desenvolver os conteúdos e conceitos de saúde. Esta nova proposta deve ser ancorada nos princípios da Saúde Coletiva. Entende-se Saúde Coletiva neste estudo como uma área da saúde que compreende fatores sociais, culturais, econômicos e históricos como pré- requisitos de saúde. Estes fatores podem ser discutidos nas aulas de Educação Física Escolar, seja na teoria ou na prática, associando as práticas corporais e os exercícios físicos com tais temas. A presença das ciências sociais e humanas (Antropologia, Sociologia, Economia, Política, História, Filosofia, Ética) foi se consolidando, sendo consideradas como fundamentais para a compreensão da Saúde Coletiva. Na Educação Física Escolar, também, há a necessidade da inclusão destas ciências para entender o aluno de forma integral. Não é possível compreender um ser somente com base na Biologia e suas funções orgânicas. Aspectos como moradia, alimentação, lazer, emprego, acesso a serviços de saúde, saneamento e cultura são considerados indispensáveis para a aquisição da saúde. Tais aspectos são, até certo ponto, como já comentado, cobertos pelos PCNs. As normas e procedimentos relacionados à humanização, entretanto, como o diálogo, o cuidado e o vínculo também fazem parte da Saúde Coletiva. Na Educação Física Escolar, considera-se que a humanização ainda não é praticada.

2.3 Saúde Coletiva Aplicada à Educação Física Escolar: A Humanização em Ação

O debate sobre humanização do cuidado em saúde não é um tema novo, nem mesmo um modismo, pois, desde a década de 1970 o assunto é abordado. É deste período que a abordagem da Sociologia Médica confere destaques nas revistas e livros acadêmicos. O ponto de partida para as discussões foi o simpósio denominado Humanizando o Cuidado em Saúde, em São Francisco, Califórnia (DESLANDES, 2004). Como já citado, os professores de Educação Física discutem suas necessidades escolares no que se refere ao conceito mais amplo da saúde somente na década de 1990, baseada nos debates marxistas promovidos

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pelos campos críticos da própria Educação Física. Ao se falar em humanização na Educação Física, deve-se lembrar que o professor da disciplina era da área médica, no período higienista; ou militar, durante o militarismo; portanto, não afeto a relacionamentos participativos, portanto, nada humanizadores. Somente nos anos 1990, na maioria dos casos, a relação professor de Educação Física – aluno passou a ser (re)pensada. A relação exigiu a humanização, de tal forma, o diálogo, o respeito, a escuta e os sentimentos surgem como pioneiros na humanização dentro da Educação Física. Mas o que é Humanização? Pode-se conceituar humanização como o entrelaçamento do uso de meios, métodos, tecnologias, saberes, teorias e fazeres da área médica, com o uso de instrumentos relacionais como o diálogo, a escuta e o afeto, buscando como objetivo final proporcionar a felicidade humana (AYRES, 2005). Na perspectiva de Ayres (2005), a humanização busca horizontes normativos que tentam fugir do conceito restrito de saúde, tal qual difundido durante a Declaração de Alma-Ata (2001), onde saúde é considerada, além da ausência de doença, um completo bem-estar físico, mental e social. Saúde completa, indica um fim a ser alcançado, porém a saúde não pode, nunca ser completa, pois precisa ser constantemente reconstituída, e, para tanto, necessita de um projeto de felicidade. Ayres (2001), quando remete à idéia de projeto de felicidade, quer na verdade sugerir que os planejamentos, desenvolvimentos e avaliações em saúde fujam do tecnicismo, do automatismo, e considerem as experiências vividas dos sujeitos entendidas como saúde. O autor ainda defende a tese da felicidade como um projeto pessoal e a saúde como uma política pública a cargo do Estado, de tal modo que, no campo da saúde, a ideia de felicidade individual é indissociável da vida em sociedade. A Educação Física Escolar, como campo disciplinar, busca proporcionar o conhecimento sobre a cultura corporal de forma lúdica, quando possível, ao seu aluno, mediante não apenas a prática da atividade física, mas também com vistas a proporcionar contato com o corpo, pois o indivíduo é um corpo vivido que experimenta situações de desenvolvimento motor, cognitivo e afetivo. Pode-se realizar uma analogia com as propostas de Ayres (2001) e

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permitir que a Educação Física Escolar pode contribuir com a proposta de felicidade do aluno nas aulas da disciplina. Deslandes (2004) destaca a ideia de que a humanização se opõe a violência e negação do outro, e, por outro lado, busca oferecer atendimento de qualidade, unindo tecnologia e bom relacionamento. O objetivo da humanização é promover um novo paradigma para a cultura do atendimento. Observa-se que a negação da violência nas sessões de Educação Física Escolar já é considerada prática corriqueira; apesar de décadas de “esportivização”, e assim absorção da doutrina do rendimento, da competição e da ânsia do vencer, em tempos atuais, percebe-se que a Educação Física busca a humanização por meio da boa relação entre os participantes do processo, no caso o professor de Educação Física e o aluno. Esta relação, direcionada pelo Código de Ética da profissão, exige respeito, cordialidade, imparcialidade, benevolência. O debate envolvendo ética e a disciplina em questão resultou na feitura do Código de Ética do profissional de Educação Física, obra realizada pelo Conselho Federal desta categoria em 15 de agosto de 2003 (CONFEF, 2003). O Código citado possui como ponto de partida as Declarações Universais de Direitos Humanos e da Cultura, como também a Agenda 21, que situa a proteção do meio ambiente em termos de relação entre homens e mulheres em sociedade. Leva em consideração valores como liberdade, igualdade e fraternidade, tornando-se evidente, portanto, o fato de que a Educação Física Escolar se volta para uma ética dirigida à humanização. Retornando às ideias de Deslandes (2004), a humanização engloba o acolhimento e o vínculo. O conceito de vínculo abrange a ideia de ligação afetiva entre o profissional de saúde com uma determinada população que, por sua vez, é situada em um espaço territorial. Acolhimento, segundo Teixeira (2003), é uma atitude contida no cuidado. Promover um escuta atenciosa, identificar necessidades e propor intervenção, estes seriam os objetivos do acolhimento. O autor ainda exprime que, para tanto, é necessário reconhecer o paciente como sujeito e adotar uma cultura de comunicação. Entretanto Deslandes (2004) nos lembra, dos desafios do acolhimento, sobretudo nas dificuldades da linguagem, em que a compreensão linguística de uns é completamente diversa da de outros.

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Na Educação Física, o acolhimento e o vínculo também podem ser observados. O vínculo se dá de forma prazerosa, devendo-se ressaltar que a prática da Educação Física, quando bem orientada, sempre é voltada para a realização de atividades físicas que façam florescer a consciência corporal, em movimentos expressivos e ludicidade. A ludicidade favorece a quebra de espaços entre os sujeitos, pois pelo toque, sorriso e movimento corporal, situações que geram vínculos afetivos são fáceis de adquirir. Ao se realizar a prática corporal, a Educação Física também se propõe a acolher, já que escuta, respeita o que ouve e, então, intervém, tentando alcançar o objetivo proposto para a prática. Deslandes (2004) informa que, em 1975, Geiger criou um modelo para explicar como ocorre a desumanização na área da saúde. Para ele, os motivos são: as desigualdades sociais, que ocasionam preferências no atendimento médico; a especialização médica, que leva o profissional a não conseguir sentir o homem como um ser integral; e a formação médica, que dificulta a comunicação entre médico e paciente É preciso em todas as profissões atentar-se para tais situações. A Educação Física Escolar não está exclusa de promover tais atitudes, pois atender melhor quem possui mais condição financeira, tirar proveito da posição social do aluno, possuir preferência entre os indivíduos a serem cuidados e não considerar o ser como um todo, como já citado, promove a desumanização e, como conseqüência, a desmoralização da profissão e do profissional. Howard (1975) também cria seu modelo explicativo para desumanização do cuidado em saúde e apresenta 11 práticas que levam desumanização, porém, de forma inovadora, demonstra oito formas humanizadoras de cuidado em saúde. Para o autor citado, são práticas desumanizadoras: tratar pessoas como coisas; cuidar por meio de máquinas e procedimentos; tratar por experimentação; ver os doentes como problemas; considerar os indivíduos adoentados como pessoas de menor valor; tratar os pacientes como pessoas sem vínculo; cuidar de forma padronizada; observar as pessoas como cidadão sem escolha; interagir de forma fria com o paciente; inserir o doente em local sem acolhimento; e, finalmente, não debater a responsabilidade na preservação da vida do outro.

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O mesmo autor cita as práticas humanizadoras: valorizar a vida humana; cada ser humano é insubstituível; as pessoas devem ser consideradas em sua totalidade; o doente deve possuir liberdade de ação; a igualdade deve ser permeada no tratamento das diferentes pessoas; as tomadas de decisões devem ser comunicadas aos pacientes; deve haver empatia entre o cuidador e o indivíduo a ser cuidado; e, por fim, a relação entre médico e paciente deve ser pautada pela afetuosidade. Como já foram citadas situações desumanizadoras na Educação Física, o estudo se deterá às causas humanizadoras de Howard (1975), relacionando-as com a Educação Física. Durante todo o curso de graduação em Educação Física, na maioria das instituições de ensino superior do Brasil, os alunos são lembrados de que sua futura profissão é de grande responsabilidade, pois ao atuar, estarão cuidando de seres humanos, portanto, devem valorizar a vida acima de tudo. O aluno, na atual concepção de Educação Física, possui liberdade de ação, podendo intervir na própria aula, sugerindo, criticando e contribuindo. A igualdade de tratamento e a clareza na tomada de decisões são atitudes impostas pelo já citado Código de Ética do professor de Educação Física. A empatia e a afetuosidade, infelizmente, não podem ser compradas ou aprendidas em bancos de universidade, porém já é percebida, em grande parte, pelos profissionais de Educação Física, o fato de que ambas são essenciais em seu trabalho e que, sem eles, podem estar fora do mercado. Um dos princípios da humanização deve ser aplicado na Educação Física Escolar com enorme necessidade: o cuidado.

2.3.1 O Cuidado em Saúde e as Possíveis Interfaces com a Educação Física Escolar

Após pretensão de esboço conceitual de humanização e sua relação com a Educação Física, as discussões serão centradas no cuidado em saúde e sobre as possibilidades do tema na área da Educação Física Escolar. De forma inicial, ao comentar a palavra cuidado, deve-se ter a precaução de não ser conquistado pelo senso comum, que entende o cuidado como um conjunto de procedimentos direcionados para um tratamento com

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sucesso. Segundo Ayres (2001), a expressão cuidado, em saúde, deve ser considerada um constructo filosófico, um conjunto de saberes que busca êxitos nas práticas de saúde, ultrapassando os modelos apenas mecanicistas, considerando o sujeito como um ser integral e em busca de sua felicidade. O mesmo autor solicita que os trabalhadores em saúde transformem seus métodos, pede que se afastem da intervenção apenas técnica e se aproximem da noção de cuidado. Existem várias formas de se entender o cuidado na Educação Física Escolar. Pode-se compreender que se deve ter cuidado para que o aluno não se machuque fisicamente, porém este é um pensamento empírico, observável. O cuidado na Educação Física deve ultrapassar o sentido de apenas cuidar fisicamente. A Educação Física deve promover o cuidado afetivo, em situações corporais em que sentimentos e emoções são demonstrados; o cuidado cognitivo, proporcionando o saber-pensar aos que estão sendo cuidados, mediante debates e discussões, afirmando que o ser é um corpo; e o cuidado motor, apresentando ao indivíduo em intervenção o seu corpo e seus limites e sua potencialidades. Pinheiro (2008) utiliza uma série de três blocos conceituais ao se referir ao cuidado. No primeiro bloco, relacionado a formulação de políticas públicas de saúde, observa-se o cuidado como integrante do âmbito do sistema de saúde, procedimento e conduta assistencial. O segundo bloco, ligado às tecnociências, considera cuidado como tecnologia, que utiliza os conhecimentos de anatomoclínica, fisiopatologia e genética médica como um conjunto de saberes técnico-práticos. O último bloco, entrelaçado à operacionalização da política pública de saúde, refere-se ao cuidado como elemento das rotinas assistenciais, firmado pela atitude técnica e profissional. Na compreensão de Pinheiro (2008), entretanto, o cuidado deve ultrapassar o que está contido nestes blocos conceituais, deve ser uma ação integral, com significados e sentidos com o objetivo de compreender a saúde como direito do ser humano. Boff (1999) também defende a opção pelo cuidado. Cuidar, como ele acentua, é mais do que um ato, uma atitude de preocupação, responsabilidade e envolvimento afetivo com o outro. O autor referido reforça a 60déia de que, mais do que ter cuidado, o homem é o próprio cuidado, pois, sem ele o homem

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deixa de ser humano. Cuidado, assim, pode ser representado pelo carinho, solidariedade, perdão, atenção e cooperação com os outros. Observa-se que a disciplina Educação Física Escolar evoluiu em suas propostas, saindo do cuidar apenas corporal e físico, passando a preocupar-se também com os aspectos psíquicos, mentais e afetivos. A simples preocupação do professor de Educação Física em saber como o outro está, o que sente e o que pensa, produz sentimento positivo ao próximo, personalizando assim o ato do cuidado. Existem vários fatores que podem desencadear falhas no processo humanizatório do cuidado, entre os quais fatores se encontram as tecnologias. As tecnologias na saúde são fatores operacionais importantes para a cura, diagnósticos e prevenção de doenças, entretanto também podem ser perigosas para a humanização do cuidado em saúde. De acordo com Foucault (1984), é no corpo do homem que as tecnologias são aplicadas, potencializando-os como força de produção. Ayres (2005) aponta que as tecnologias na saúde promovem fatores positivos, como a aumento da eficácia e eficiência nas intervenções médicas, no entanto, também podem decretar pontos negativos como o encarecimento dos tratamentos, a não atenção aos aspectos psicossociais dos pacientes e a excessiva segmentação dos doentes em órgãos e funções. As tecnologias na Educação Física configuram elemento que requer atenção para profissionais da área. Máquinas e aparelhos de musculação, bolas, colchonetes, pesos e outros apetrechos utilizados para a prática de atividades físicas não podem ser considerados o centro das sessões. Os sujeitos, profissional e indivíduo a ser cuidado, são os agentes principais. Neste ato, as tecnologias não podem ser um fim em si mesmo, devem ser um meio de intervenção, porém não podem criar barreiras de relacionamento. Para a interação humana, não há necessidade de máquinas, é solicitado apenas que existam duas pessoas dispostas ao relacionamento Convém lembrar que a utilização de tecnologias na saúde não pode nem deve, transformar o profissional de saúde em um mero expectador e aplicador tecnológico. O aparelho que traz a tecnologia não há de ser o centro do processo, muito pelo contrário, deve ser o um elo entre o paciente e o profissional. A humanização dos cuidadores em saúde não pode ser dominada pela manipulação de objetos (AYRES, 2005). Afinal, como se deve cuidar?

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Para Merhy (2004), cuidar implica na relação de trabalho vivo em ato entre o sujeito desejante e o profissional da área da saúde, isto é, um encontro

entre dois seres, com sentimentos, expectativas e desejos, de forma intersubjetiva, na qual se busca produzir vínculo e aceitação. Na Educação Física, o ato vivo, a realização da prática corporal, por si, retrata o pensamento do autor. Imagine-se um atendimento de Educação Física entre um professor e um aluno com necessidades especiais. Ambos se encontram para a prática, e

o sentimento do professor é ajudar,, mediado pelo seu trabalho que o aluno recupere sua autonomia para as atividades da vida diária-AVDs. O aluno

deseja nas atividades físicas, sentir-se melhor e mais disposto. Os dois iniciam

o processo em busca de objetivos. Ao se encontrar várias vezes, irão criar

laços afetivos. A empatia será necessária para o sucesso da intervenção. A responsabilidade de cuidar do outro pelo professor de Educação Física será exigida. O fato de estabelecer diálogo produzirá interação. A Educação Física Escolar, neste caso irá oferecer, ao professor e ao aluno, um vínculo afetivo. O cuidador não pode se preocupar unicamente com o objeto de intervenção técnica. Tal atitude não permite a percepção das trocas promovidas pela interação com o paciente ou aluno (AYRES, 2004). De acordo com as idéias do autor citado, porém, o diálogo é a condição mais básica do ato de cuidar. O fato de escutar o outro, romper o monólogo, ouvir com respeito, trocar palavras e sentir a linguagem do próximo, é atitude positiva na atenção ao indivíduo. É necessário, entretanto, avaliar qualitativamente que tipo de escuta é oferecido. Percebe-se que dialogar é necessário ao cuidador, mas prontificar-se

a escutar traz consigo algo de grande importância na humanização do cuidado em saúde, a responsabilidade. Aqui é lembrado Saint Exuperie, que, no livro Pequeno Príncipe, cita: “Você se torna responsável por tudo aquilo que cativa”. Ora, o que é o diálogo com o outro, em situação de carência acima de tudo afetiva, se não cativar o próximo? Isso não representa a responsabilidade? Acredita-se que a posição de quem cuida, ao dialogar, é oferecer palavras não só de conforto, mas também de alegria, motivação e felicidade. Por meio desta linguagem e usando a empatia, o paciente ou o aluno é cativado e, assim, o cuidador se torna responsável.

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Na situação citada há pouco entre o professor de Educação Física e o aluno, o docente cativa, em conversas, palavras de estímulo, toque acolhedor e forma prazerosa como executa seu trabalho, de tal forma que se torna responsável por ele. Ayres (2005) também lembra que é necessário aos trabalhadores em saúde realizar uma autoavaliação e se questionar por que, como e o quanto estão responsáveis por aqueles de cuja saúde cuidam. Ao ser responsável pelo outro, se oferece o bem e, em troca, são recebidas gratidão e respeito. Neste sentido, o cuidado pode ser compreendido como dádiva. Na perspectiva de Mauss (1974), dádiva ou dom ritual era o modo como as sociedades antigas realizavam suas trocas. Trabalhavam a seguinte forma de mercado: dar, receber, contribuir. O sentido deste processo era compreender que, ao receber algo, necessito oferecer algo. Pode ser compreendido como qualquer ação de prestação de serviço realizada sem a cobrança do retorno. Desta forma, ressalta-se que o cuidado só pode ser formalizado se ocorrer mediante uma ação em conjunto. É fato também que as profissões de saúde trazem em seus genes históricos a ação da doação, marcada pela benevolência e a caridade. O cuidado pode ser envolvido pela atmosfera do círculo: doação, recebimento e retribuição. O cuidado pode ser até considerado um valor. Outra vez reportando-se ao caso do professor de Educação Física e do aluno com necessidades especiais: ao desenvolver seu trabalho com afeto, carinho, responsabilidade e amor, o professor de Educação Física tenta alcançar seus objetivos, e o aluno, ao perceber que é bem acolhido, retribui na mesma proporção, reconhecendo, agradecendo e procurando oferecer também algo em troca. De acordo com Pinheiro (2008), é possível considerar o cuidado como um valor, desde o momento em que se considera o ato de cuidar parte do ethos humano. O valor está ligado à constituição do sentido, e o sentido é algo estritamente humano. Este mesmo sentido é o que faz o indivíduo definir suas escolhas e finalidades de ação. Ao realizar estas definições, organiza-se a vida, seja pessoal ou coletiva, sistematiza-se o mundo ou o ethos. Assim, ao escolher cuidar, se oferece sentido à vida. Portanto, o cuidado é uma escolha

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do sentido e, como o valor está presente nos sentidos, concluí-se que o cuidado é um valor. Boff (1999) observa que o capitalismo reinante promove a falta de respeito em relação às condições básicas do ser humano, pois a exploração visando ao lucro é a grande ferramenta do sistema atual. Assim, é preciso que o cuidado com o próximo seja ativado para o resgate do respeito e do sentimento por todos. Para isso é necessária a ênfase no sentimento, já que a razão está ameaçada pelo capital.

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3 METODOLOGIA

Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo

Fernando Pessoa

3.1 Natureza Geral do Estudo

Este é um estudo ou pesquisa de campo, analítico-crítico, quali- quantitativo, contextualizando a Educação Física, no período pós-SUS e pós- LDB.

Para Gil (2002), o estudo de campo é aquele que possui a finalidade de promover reflexões sobre questões emergentes do pesquisador em relação a um só grupo ou comunidade, por meio de instrumentos que possam facilitar a compreensão das situações vivenciadas por determinado grupo. De acordo com Leopardi (2002), a pesquisa de campo busca verificar como sucedem as práticas comportamentais, crenças e atitudes de indivíduos ou de grupos de indivíduos na vida cotidiana, por meio do material narrado, como conversas com indivíduos ou documentos disponíveis. A autora ensina que, neste tipo de busca, o pesquisador deve se aproximar dos participantes do estudo para então tentar compreender o problema central da atividade investigativa. Recorrendo ao pensamento cartesiano, sob o qual fenômenos são explicados por partes a fim de produzir compreensão sobre o todo, o estudo analítico será empregado nesta pesquisa, como segundo momento do processo de compreensão, após a ocasião descritiva. Pequeno (2003) garante

que a capacidade de analisar é intrínseca ao ato de filosofar, e que o momento inicial do pensamento reflexivo consiste na análise de fatos, fenômenos e processos. A necessidade de observar as diferentes perspectivas constitui o

exercício essencial do filosofar, e que “[

ao utilizarmos o rigor analítico

podemos tornar explícito o que se afigura difuso, nebuloso, intransparente [ ] de posse dessa explicação analítica, podemos, mediante o refinamento da

]

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análise, aceder com mais segurança ao universo dos fatos” (PEQUENO, 2003,

p.22).

A escolha pelo estudo de natureza analítica decorreu da busca de uma compreensão do problema proposto, para sínteses e críticas posteriores. Os achados possibilitaram desenvolver propostas de solução para a pesquisa, contribuindo desta forma com os agentes e com o tema envolvido. Portanto, este estudo também é crítico, já que utilizará o discernimento criterioso, em contextos históricos bem demarcados, aceitando ou discordando de ideias formuladas pelo conhecimento humano, recorrendo-se, então, à lógica dialética. A abordagem da dialética compreende os fatos e as quantidades como faces dos fenômenos, não expressão fiel ou totalidade (MINAYO et al.,1994). A compreensão e a relação com o todo, buscando a interiorização e exteriorização como constituintes do fenômeno social, que deve ser entendido nas suas determinações e transformações dadas pelos sujeitos, são objetivos do estudo crítico. O estudo, em parte, é quantitativo, pois determinados resultados, na fase descritiva, foram verificados por meio de técnicas estatísticas, entretanto, é predominantemente qualitativo, já que foram utilizadas lógicas e ferramentas interpretativas, valorativas, levando em conta a compreensão dinâmica dos fenômenos sociais e o significado que lhe atribuem os agentes. Deste modo, pratica-se a abordagem metodológica qualitativa e quantitativa. De acordo com Matos e Vieira (2001, p.37), a quantificação deve ser qualificada, pois “os números têm significado, expressam situações, valores, emoções, e precisam ser traduzidos dentro de contextos diferenciados”. Os dados numéricos expressam valores e fornecem indicações sobre as situações estudadas, superando assim a aparência e a positividade. Matos e Vieira (2001) lecionam que a melhor forma de se proceder nos estudos sociais é combinar métodos qualitativos e quantitativos, pois desta forma o pesquisador terá maior flexibilidade no pensar e no agir. Na mesma linha de raciocínio, Minayo e Sanches (1993) sugerem que os métodos qualitativos e quantitativos se completam.

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3.2 Cenário

O cenário da pesquisa foi a rede municipal de ensino básico da cidade de Fortaleza, capital do Ceará, sob responsabilidade da Secretaria Municipal de Educação-SME, que administra o Sistema Municipal de Educação, coordenando a Política Municipal de Educação, mediante a formulação de princípios, diretrizes e métodos, visando a garantir padrões de qualidade do modelo educacional e o consequente aumento dos índices municipais de escolaridade. Em 1° de janeiro de 1997, foi aprovada a Lei n° 8.000, por meio da qual a cidade de Fortaleza ganhou uma estrutura organizacional baseada em seis secretarias executivas regionais-SER, definindo territórios vivos, por agregação de bairros com identidade cultural, identidade histórica e rede de acesso de transporte coletivo (SME, 2008). A SER I é composta por bairros da zona oeste da Cidade, sendo o bairro da Barra do Ceará, com 56.616 habitantes, o mais populoso, e o bairro Moura Brasil, aquele que apresenta a menor população, com 3.151 pessoas. Abrange os seguintes bairros: Vila Velha, Jardim Guanabara, Jardim Iracema, Barra do Ceará, Floresta, Álvaro Weyne, Cristo Redentor, Ellery, São Gerardo, Monte Castelo, Carlito Pamplona, Pirambu, Farias Brito, Jacarecanga e Moura Brasil. (SME, 2008). Possui uma densidade demográfica de 133 habitantes por hectare. Apresenta nível de alfabetização de 69,6%, com renda per capita mensal, de chefe de família, de 2,4 salários mínimos, com 76% deles percebendo renda de 0 a 3 salários mínimos. Abriga 10% das escolas públicas do Município. Possui doze unidades de saúde, da rede pública, sendo um hospital de nível secundário de atenção. Esta “regional” possui 38 favelas, 18 delas localizadas na Barra do Ceará (SME, 2008). A SER II possui dois importantes bairros, o Centro e a Aldeota, com grande adensamento comercial e de serviços, responsáveis por uma importante fatia da arrecadação estadual e municipal; ao mesmo tempo concentra 15 áreas de risco, onde moram 2.808 famílias. É a “regional” com maior renda per capita mensal, de chefe de família, de 8,5 salários mínimos- SM, com 46% deles ganhando de 0 a 3 salários mínimos (SME, 2008).

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Localiza-se na zona leste da Cidade e o nível de alfabetização é de 76,6%. Apresenta o bairro da Aldeota como o mais populoso, 36.880 habitantes. É uma região turística com grande contingente policial e viaturas, principalmente na orla marítima. Apresenta 13 unidades de saúde da rede pública, uma delas sendo um grande hospital de emergência–urgência (SME,

2008).

.Esta “regional” possui 42 favelas, inseridas entre os bairros, sendo os bairros de Vicente Pinzon e Papicu os que mais aglomeram favelas. Os demais bairros dessa “regional” são: Aldeota, Centro, São João do Tauape, Cais do Porto, Joaquim Távora, Luciano Cavalcante, Dionísio Torres, Cocó, Praia do Futuro I, Praia do Futuro II, Mucuripe, Cidade 2000, Varjota, Praia de Iracema, Salinas, Guararapes, Manuel Dias Branco, Meireles e Bairro de Lourdes (SME,

2008).

A SER III apresenta-se como porta de entrada de migrantes da região

norte do Estado, principalmente retirantes da seca. Possui o bairro Quintino Cunha como o mais populoso, com 39.472 habitantes, e o Parque Araxá como o menos populoso, com 7.288 habitantes. Os alfabetizados são 69,6%. Possui 16 unidades de saúde sendo um hospital de nível secundário de atenção (SME, 2008).

A SER III possui 58 favelas, sendo o bairro Quintino Cunha o que

apresenta o maior número, com 16 favelas. Os bairros que compõem esta regional são: Amadeu Furtado, Antônio Bezerra, Autran Nunes, Bom Sucesso,

Bela Vista, Dom Lustosa, Henrique Jorge, João XXIII, Jóquei Clube, Padre Andrade, Parque Araxá, Pici, Parquelândia, Presidente Kennedy, Rodolfo Teófilo e Quintino Cunha (SME, 2008).

A SER IV foi criada em 25 de abril de 1997. Seu perfil socioeconômico é

caracterizado por serviços, com uma das maiores feiras livres da cidade, a da Parangaba, e vários corredores comerciais, entre eles o Montese. O nível de alfabetização é de 76%. O bairro de Parangaba é o mais populoso. Possui 12 unidades de saúde sendo dois hospitais. Essa “regional” possui 46 favelas em seu território (SME, 2008).

Concentra oito áreas de risco e possui a segunda maior emergência do Estado do Ceará, o “Frotinha” da Parangaba. Os bairros pertencentes a esta área são José Bonifácio, Benfica, Fátima, Jardim América, Damas, Parreão,

69

Bom Futuro, Vila União, Montese, Couto Fernandes, Pan Americano,

Demócrito Rocha, Itaoca, Parangaba, Serrinha, Aeroporto, Itaperi, Dendê e Vila

Pery (SME, 2008).

A SER V tem como meta garantir a melhoria da qualidade de vida dos

habitantes dos 16 bairros que abrange, desenvolvendo ações nas áreas de

saúde, educação, esporte e lazer, entre outras. Possui 8 unidades de saúde

sendo 2 hospitais. A “regional” V possui 40 favelas. Os bairros da SER V são:

Conjunto Ceará, Siqueira, Mondubim, Conjunto José Walter, Granja Lisboa,

Granja Portugal, Bom Jardim, Genibaú, Canindezinho, Vila Manoel Sátiro,

Parque São José, Parque Santa Rosa, Maraponga, Jardim Cearense, Conjunto

Esperança e Presidente Vargas (SME, 2008).

A SER VI atende diretamente aos moradores de 42% do território de

Fortaleza: Sabiaguaba, Edson Queiroz, Sapiranga, Alagadiço Novo, Curió,

Guajeru, Coaçu, Paupina, Parque Manibura, Cambeba, Messejana, Ancuri,

Pedras, Jardim das Oliveiras, Cidade dos Funcionários, Parque Iracema, Auto

da Balança, Aerolândia, Dias Macedo, Castelão, Mata-Galinha, Cajazeiras,

Barroso, Jangurussu, Passaré, Parque Dois Irmãos e Lagoa Redonda.

Messejana é o bairro mais populoso com 40.356 habitantes e o bairro de

Sabiaguaba, o menos, com 706 pessoas (SME, 2008).

Possui 20 unidades de saúde, sendo 2 hospitais. Essa “regional” possui

72 favelas distribuídas por todos os bairros (SME, 2008).

No Quadro 2, apresenta-se um demonstrativo das características socio-

demográficas, gerais, das SER de Fortaleza.

Quadro 2: Características Sócial e Econômicas das SER, Fortaleza, Ceará.

Regionais

Nº de

Renda per capita Mensal, por Chefe de Família

Área

Nº de

N o de Unidades de Saúde

Alfabetização

Bairros

Habits.

I 15

 

2,40 S.M.

2.538,2 ha

338.486

12

69,60%

II 20

8,50 S.M.

4.933,9 ha

323.165

13

76,60%

III 16

2,60 S.M.

2.777,0 ha

341.592

16

69,60%

IV 19

4,16 S.M.

3.427,2 ha

289.522

12

76,00%

V 17

1,73 S.M.

6.346,7 ha

359.480

18

63,63%

VI 27

2,59 S.M.

13.492,8 ha

315.120

20

62,39%

S.M. = Salário Mínimo Fonte: SME (2008)

70

A distribuição das escolas de educação básica municipais de Fortaleza,

com o número de alunos matriculados no ensino fundamental II, excluindo-se

anexos, escolas especiais e creches, ocorre conforme o Quadro 3.

Quadro 3: Distribuição de Escolas Municipais de Ensino Fundamental II, por SER, Fortaleza, Ceará

Regional

N o de Escolas

N o de alunos matriculados do 6º ao 9º ano do ensino fundamental II

SER I

38

20.464

SER II

20

10.995

SER III

33

16.618

SER IV

37

8.752

SER V

72

36.092

SER VI

65

35.974

Total

265

128.895

Fonte: SME (2008)

Visando estabelecer o caso municipal de Fortaleza, foi escolhida,

intencionalmente, uma escola por SER. O critério fundamental para a escolha

de cada escola foi o de maior número de alunos matriculados em 2009 no

ensino fundamental II. Considera-se que cada SER apresenta um perfil socio-

econômico e cultural específico, mais homogêneo internamente do que na

comparação externa com as demais SER. Considera-se, igualmente, que a

escola com maior número de alunos de uma SER representa as demais da

mesma SER, atuando como caso paradigmático regional.

Assim, as escolas escolhidas como cenário desta pesquisa foram as

Escolas de Educação Infantil e Ensino Fundamental-EEIEF “José Rebouças

Macambira”, da SER I, “José Torres de Melo”, da SER II, “15 de Outubro”, da

SER III, “Mozart Pinto”, da SER IV, “Henriqueta Galeno”, da SER V e “Odilon

Braveza”, da SER VI, com a distribuição geral, no período e por ano dos alunos

matriculados, como disposto no Quadro 4.

71

Quadro 4: Escolas de Educação Infantil e Ensino Fundamental Participantes da Pesquisa, por SER, Fortaleza, Ceará, e a Distribuição de Alunos Matriculados

ESCOLAS

Alunos matriculados em 2009, em todas as turmas

Alunos matriculados em 2009, do 6º ao 9º ano

José Rebouças Macambira (SER I)

1.396

0530

José Torres de Melo (SER II)

1.199

0610

15 de Outubro (SER III)

1.541

0761

Mozart Pinto (SER IV)

0.912

0424

Henriqueta Galeno (SER V)

1.390

0496

Odilon Braveza (SER VI)

0.850

0584

Total

7.888

3405

Fonte: Secretaria das Escolas (abril de 2009)

3.3 Participantes

O universo da pesquisa foi constituído pelo número de alunos

matriculados no ensino fundamental, do 6º ao 9º ano, nas escolas da rede

municipal de ensino, totalizando 128.895 alunos.

O estudo foi composto por uma população de 3.405 crianças e

adolescentes, com idades de 11 a 14 anos, matriculadas em 2010 nas escolas

participantes da pesquisa, do 6° ao 9° ano do ensino fundamental da rede

municipal, dos sexos feminino e masculino. A amostra do estudo foi de 914

alunos, com base no estabelecimento de 3% como erro estatístico 10 ,

independentemente do sexo, tomados de forma probabilística, estratificada

aleatoriamente de acordo com o total de alunos matriculados na escola que

apresentou o maior número de estudantes em cada “regional”.

Participaram da pesquisa indivíduos classificados como crianças e

adolescentes, já que os alunos do fundamental II se distribuem na faixa etária

entre 11 e 14 anos. De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente,

(ECA, 1990, p.2), em seu artigo 2º, "considera-se criança, para os efeitos desta

lei, a pessoa até 12 anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre 12

e 18 anos de idade".

10 Aproximadamente 27% do número inicial, conforme assessoria técnica em Estatística do Professor Doutor Maia Pinto, docente do Curso de Mestrado Acadêmico em Saúde Pública da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

72

Os participantes, de cada escola, foram tomados de forma aleatória. Foi

solicitada, na secretaria da instituição educacional escolhida, uma lista em

ordem alfabética de todos os alunos matriculadas, com idade entre 11 a 14

anos, do 6º ao 9º ano. Então foi realizado um sorteio. Após o sorteio da 1ª

criança ou adolescente, a escolha dos seguintes se deu a partir do intervalo

amostral a cada 10 alunos 11 .

Considerando cada uma das seis escolas escolhidas como

paradigmáticas de cada SER, os sujeitos desta pesquisa foram distribuídos em

conformidade com o exposto no quadro 5.

Quadro 5: Número de Alunos participantes da pesquisa, por escola.

Escolas

Participantes de cada escola:

Erro de 3% V = 3% (0,000234)

José

Rebouças

Macambira

142

(SER I)

José Torres de Melo (SER II)

164

15 de Outubro (SER III)

204

Mozart Pinto (SER IV)

 

114

Henriqueta Galeno (SER V)

133

Odilon Braveza (SER VI)

157

 

Total

914

Fonte: dados da pesquisa

O critério de inclusão dos alunos considerou aqueles que estavam

regularmente matriculados na escola escolhida, frequentando regularmente as

turmas do ensino fundamental II, que participavam das aulas de Educação

Física e cujos respectivos responsáveis assinaram o Termo de Consentimento

Livre e Esclarecido-TCLE (APÊNDICE A). Como critério de exclusão, foi

utilizado a não permissão dos pais ou o próprio desejo do jovem em não

participar do estudo.

Optou-se pela escolha de alunos desta faixa etária, já que as crianças e

adolescentes estão categorizadas, de acordo com Piaget (1998), em sua teoria

do desenvolvimento cognitivo, no estádio das operações formais. Neste estádio

11 Novamente conforme assessoria técnica em Estatística do Professor Doutor Maia Pinto, docente do Curso de Mestrado Acadêmico em Saúde Pública da Universidade Estadual do Ceará (UECE)

73

os indivíduos possuem entre 11-12 anos em diante e começam a desenvolver

as operações de raciocínio abstrato. Para Piaget, nesta fase, o sujeito torna-se

capaz de raciocinar corretamente sobre proposições em que não acredita, ou

que ainda não acredita, consideradas hipóteses puras.

Também é justificado o fato de ser nesta faixa de idade, dos 11 aos 14

anos, que as crianças e adolescentes estão cursando fase da oferta do ensino

básico na qual a Educação Física é prática obrigatória, segundo a LDB

(BRASIL, 2000a). A disciplina em questão, voltada para alunos da idade citada,

é de fundamental importância para o prosseguimento de uma vida ativa, pois,

por meio de atividades práticas e teóricas diversificadas, como jogos,

brincadeiras, esportes, lutas, ginásticas e danças, mais facilmente se promove

o conhecimento do corpo e o tema Educação para a Saúde pode perfeitamente

ser incluído, direta ou indiretamente.

Participaram também da pesquisa todos os professores que lecionavam

a disciplina Educação Física nas escolas participantes do estudo, totalizando,

na proposta inicial, 18 docentes, posteriormente alterada para número-n igual a

nove, já que foi incluída na proposta a possibilidade de parar as entrevistas

quando as respostas passassem a apresentar saturação. Uma grande lógica

da pesquisa qualitativa pode ser traduzida pela formulação de critérios, para

fase posterior, ao final das principais análises referentes à fase anterior.

Desta forma, a entrevista foi aplicada somente a nove professores que

ministravam aulas de Educação Física Escolar, conforme previsto nos critérios

de inclusão.

Assim, participaram efetivamente professores oriundos de cada escola

representativa da sua SER:

Quadro 6: Número de Professores participantes da pesquisa, por escola.

Escolas

Professores participantes de cada escola

José Rebouças Macambira (SER I)

2

José Torres de Melo (SER II)

2

15 de Outubro (SER III)

1

Mozart Pinto (SER IV)

1

Henriqueta Galeno (SER V)

2

Odilon Braveza (SER VI)

1

Total

9

Fonte: dados da pesquisa

74

O critério final de inclusão dos professores englobou aqueles que estavam, no momento da pesquisa, lecionando a disciplina Educação Física na escola escolhida para as turmas do ensino fundamental II, e que assinaram o TCLE (APÊNDICE B) Como critério de exclusão, foi utilizado o critério de o professor não possuir graduação completa em Educação Física, de tal forma que foram excluídos da pesquisa estagiários e outros docentes que porventura estavam assumindo a disciplina em questão, porém não graduados na área.

3.4 Instrumentos de Coleta de Dados e Informações Para melhor apresentação dos procedimentos de pesquisa, a coleta de dados será exposta em três fases.

Fase 1 Questionário aplicado aos alunos

Para conhecer como aos alunos percebem saúde e como o tema é aplicado nas aulas de Educação Física, aplicou-se um questionário (APÊNDICE C) aos participantes da pesquisa, contendo três questões abertas

e oito fechadas. Foi aplicado um teste-piloto com o questionário. Para tanto, foram convidados dez alunos de cada escola, que não estavam inseridos na amostra final, totalizando 60 alunos para a testagem. Após a aplicação, verificou-se que o instrumento não apresentava dúvidas aos alunos, era claro em seus questionamentos e de fácil entendimento. Após o teste-piloto, os questionários foram aplicados em sala de aula com a amostra final, depois de uma breve explanação do responsável pela pesquisa. A escolha deste instrumento para a coleta justifica-se pelo fato de ser econômico, de simples padronização e registro de resultados, além de garantir

o anonimato dos sujeitos da pesquisa. A aplicação do questionário seguiu o mesmo padrão metodológico em todas as escolas. Os alunos eram tomados aleatoriamente e então respondiam ao questionário em sala de aula, sem a presença do professor de Educação Física. Observou-se que, após a explicação do pesquisador sobre os procedimentos, a maioria dos alunos respondeu o questionário sem apresentar

75

dúvidas em relação ao instrumento. Em média, os alunos levaram aproximadamente 15 minutos para completar o questionário. Consoante Oliveira (2005), o questionário permite que o pesquisador conheça algum objeto de estudo. Lakatos e Marconi (2001) expressam que se trata de um instrumento para recolher informação. É uma técnica de investigação composta por questões apresentadas por escrito a pessoas.

Fase 2 Entrevistas com os professores Nesta fase, pretendeu-se verificar os conhecimentos dos professores envolvidos no estudo sobre aspectos conceituais de saúde acerca de como aplicavam o tema em suas aulas. Para tanto, foi utilizada a entrevista estruturada. O conjunto de sete perguntas abertas, da entrevista, encontra-se no Apêndice D. O objetivo da entrevista é colher informações relevantes de determinadas fontes ou pessoas, em contato direto do pesquisador com os sujeitos da amostra. A entrevista estruturada contém uma sequência de perguntas fixas (MATTOS, 2004). Entrevista, para Lakatos e Marconi (2001), é um procedimento usado na investigação social para coletar dados ou ajudar no diagnóstico ou mesmo tentar solucionar problemas sociais. Acontece em um colóquio entre duas pessoas em que uma delas vai passar informações para a outra. Em todas as escolas, o pesquisador foi muito bem recebido pelos professores, que se mostraram dispostos a contribuir com o estudo. A aplicação da entrevista seguiu o mesmo padrão metodológico em todas as escolas. Os docentes marcavam dia e horário para a entrevista e esta era realizada na sala dos professores da escola. Normalmente, a entrevista ocorria somente com a presença do participante e do entrevistador e durava em média 20 minutos. Observou-se que, após a explicação do pesquisador sobre os procedimentos, os professores respondiam às perguntas com certo nervosismo. Alguns perguntavam se estavam sendo avaliados e se teriam acesso aos resultados.

Fase 3 Análise documental Nesta fase, seriam analisados os planos de curso dos professores para detectar se, e como, o tema saúde era planejado para ser desenvolvido nas

76

aulas. Foi solicitado aos professores o plano de curso anual de suas turmas do nível fundamental II, porém eles não foram disponibilizados. Percebeu-se que a demanda foi compreendida como cobrança, avaliação persecutória de desempenho, e, desta forma, os professores não se dispuseram a colaborar. A análise documental é uma das técnicas para a pesquisa em ciências sociais e humanas. Saint-Georges (1997, p. 30) ressalta que “a pesquisa documental apresenta-se como um método de recolha e de verificação de dados: visa o acesso às fontes pertinentes, escritas ou não, e, a esse título, faz parte integrante da heurística da investigação”.

3.5 Análises dos Dados e das Informações Analisou-se os dados coletados por meio de uma triangulação metodológica. Leciona Minayo (2005) que triangulação é um conceito que vem do interacionismo simbólico, significando a combinação e o cruzamento de múltiplos pontos de vista; a visão de vários informantes e o emprego de uma variedade de técnicas de coleta de dados que acompanham o trabalho de investigação. Antes, porém, foi analisada cada fase, separadamente.

Fase 1 O questionário aplicado aos alunos As respostas fechadas do questionário foram analisadas pelo programa estatístico Statistical Program of Social Science-SPSS, versão 2007. Os resultados foram apresentados em quadros e gráficos. As respostas abertas foram verificadas pela análise de conteúdo (BARDIN, 1977). De acordo com Bardin (1977, s/p), a análise de conteúdo é definida

como

Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos, sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens.

Fase 2 Entrevistas com os professores A análise dos dados obtidos pelas entrevistas foi realizada por meio da interpretação das falas dos agentes envolvidos. Para tanto, também foi utilizada a análise de conteúdo (BARDIN, 1977).

77

As entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas na integra. Após a transcrição das falas dos professores, foi realizada uma decodificação de temas que surgiram dos relatos dos envolvidos. A análise foi demonstrada em forma de categorias analíticas. Bardin (1997) explica que existem três fases neste processo: pré- análise; exploração do material; e, o tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação. A autora afirma que a pré-análise corresponde à organização do material propriamente dito. Com isso, é possível sistematizar as ideias iniciais, na exploração, e formular um programa flexível, porém preciso, ou seja, o tratamento.

3.6 Procedimentos Éticos

Um dos procedimentos iniciais da investigação foi o pedido da autorização dos pais das crianças, jovens e professores envolvidos por meio do TCLE.Também foi solicitado um termo de anuência da SME e de cada escola envolvida, destinado a permitir a realização da pesquisa (APÊNDICE E). Atendendo à Resolução nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde- CNS (1996), o pesquisador comunicou o objetivo, a justificativa e os riscos de participação na pesquisa e se comprometeu a preservar a privacidade, salvaguardar os direitos, inclusive o da desistência da participação, e interesses dos informantes; além de se comprometer a não explorar as informações captadas para outros fins que não os estabelecidos nos objetivos do estudo e manter os registros, bem como dispensar o texto final do estudo realizado à disposição dos informantes. Todos os dados obtidos na pesquisa, pelas observações, anotações ou gravações, foram utilizados somente como forma de trabalho científico e, neste caso, sua finalidade foi de auxílio à ciência. A identidade de todos os sujeitos envolvidos foi preservada. Atendendo às normas da Universidade Estadual do Ceará (UECE), este estudo foi submetido ao Comitê de Ética e Pesquisa da instituição obtendo aprovação plena como pode ser constatado no Processo nº 10030697-7, folha de rosto nº 324317 (ANEXO A).

78

4 O SABER DISCENTE SOBRE A SAÚDE NA EDUCAÇÃO FÍSICA

Queremos ter certezas e não dúvidas, resultados e não experiências, mas nem mesmo percebemos que as certezas só podem surgir através das dúvidas e os resultados somente através das experiências.

Carl Gustav Jung

Neste capítulo, são exibidos os resultados e as discussões dos dados

obtidos junto ao alunado das escolas incluídas no estudo.

4.1 Área de Conhecimento da Educação Física

Foi perguntado aos envolvidos em qual área profissional a Educação

Física se enquadrava. Os resultados encontrados estão dispostos no Quadro 7.

Quadro 07 - Questão 01 (Por escola): Você acha que a Educação Física é de que área?

 

SER I (n - %)

SER II (n - %)

SER III (n - %)

SER IV (n - %)

SER V (n - %)

SER VI (n - %)

Total

(n- %)

Outra

002

004

012

005

005

009

037

01%

03%

06%

04%

04%

06%

04%

Artes

020

022

010

015

008

019

094

14%

13%

05%

13%

06%

12%

10%

Educação

061

061

061

049

044

081

357

43%

37%

30%

43%

33%

52%

39%

Saúde

059

077

121

045

076

048

426

44%

47%

59%

40%

57%

30%

47%

Total

142

164

204

114

133

157

914

100%

100%

100%

100%

100%

100%

100%

n - Número de alunos que marcaram a opção % - Percentual do total de alunos da escola Fonte: dados da pesquisa

Nas escolas das SER II, III e V, o resultados são semelhantes: maior

número de votos para saúde, seguida de educação, artes e outras. Nas

escolas pertencentes às SER I, IV e VI, há inversão nas duas primeiras

colocações: a mais votada é a opção educação, seguida por saúde.

79

Como se observa no Quadro 7, 426 alunos consideram a Educação Física como uma profissão ou disciplina da área da saúde. Tal resultado está

de acordo com a Resolução nº 218 do Conselho Nacional de Saúde - CNS, homologada em 06 de março de 1997, onde está expresso que o profissional de Educação Física é reconhecido como da área de saúde (CONFEF, 2010). O mesmo se dá nos programas de Pós Graduação da CAPES e CNPQ, onde a Educação Física é classificada na área 21 – saúde. No entanto há críticas, pois se entende também uma aproximação com a área da educação. Um número expressivo dos participantes, 357, compreende que a Educação Física faz parte da área da educação. Tal pensamento é justificável, pois a Educação Física é uma disciplina escolar obrigatória desde a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB, promulgada em 1961. Em 1996,

a Educação Física passou a ser considerada componente curricular obrigatório

em toda a educação básica (BRASIL, 1996). Vale ressaltar que muitos destes alunos só possuem contato com a Educação Física na escola, deixando assim de vivenciar o trabalho do profissional da Educação Física em academias, postos de saúde, hospitais e clínicas, espaços estes ligados à prática do cuidado em saúde. Além disso, como lembram Darido e Rangel (2005), a Educação Física pode ser compreendida de três formas: como um componente curricular escolar, como uma profissão da área da saúde, e como uma área de estudos científicos. Consoante a premissa defendida pelas autoras, pode-se entender que tanto os alunos que compreendem a Educação Física como saúde e aqueles que a entendem como da área da educação, estão corretos (somados chegam

a 86% do total). Aqui cabe o registro dos alunos que citaram a Educação Física como integrante da área das artes (10%) e também, neste caso, não se pode falar de erro.

De acordo com Schwartz (1999) pode-se perceber como a arte está presente na história da Educação Física, com a evolução da estética do corpo, da indumentária, das técnicas corporais e da inserção de vários esportes relativos ao componente beleza; além disso, a pintura, a escultura, o teatro e a dança sempre influenciaram e foram influenciados pelo cuidado e o culto ao

80

corpo, tão característicos da atividade física. Esculturas como o Discóbolo 12 de

Mirón demonstram a relação entre Educação Física e as artes.

4.2 Nível de Entendimento de Saúde Adquirido por Meio das Aulas de

Educação Física

Foi perguntado aos participantes do estudo qual era o nível de

entendimento sobre conceitos de saúde, adquiridos por meio das aulas de

Educação Física. As respostas encontram-se expressas no Quadro 8.

Quadro 08 - Questão 02 (Por Escola): Seu entendimento de conceitos de saúde adquiridos por meio da Educação Física é

 

SER I (n - %)

SER II (n - %)

SER III (n - %)

SER IV (n - %)

SER V (n - %)

SER VI (n - %)

Total (n - %)

Nenhum

048

014

055

031

024

076

248

34%

09%

27%

27%

18%

48%

27%

Pouco

031

025

045

029

033

044

207

22%

15%

22%

25,5%

25%

28%

23%

Razoável

025

056

059

029

035

025

229

17%

34%

29%

25,5%

26%

16%

25%

Muito

038

069

045

025

041

012

230

27%

42%

22%

22%

31%

8%

25%

Total

142-

164-

204

114

133

157

914

100%

100%

100%

100%

100%

100%

100%

Fonte: dados da pesquisa

O Quadro 8 apresenta grande variedade de respostas, entretanto nos

chamam a atenção os dados relativos à opção ‘nenhum entendimento’. Nas

escolas pertencentes às SER I, IV e VI, foi a opção de resposta mais marcada

12 Discóbolo ("O arremessador do disco") do escultor grego Miron, feito em mármore, datado de 450 a.C. (sec V aC). Atualmente, cópias em bronze encontram-se em vários museus europeus, como o Nazionale Romano, Itália, e o de Berlim, Alemanha. O arremesso do disco, criada na Grécia clássica, é considerada a mais antiga prova de arremesso do atletismo. Supõe-se que os primeiros discos eram de pedra e não tinham o formato atual, ou seja, aperfeiçoaram-se através dos tempos até alcançarem o formato circular de hoje. Esse esporte tornou-se bastante popular, inclusive levando vários artistas a estudá-lo, provavelmente pela variedade de posições que o corpo adota durante o arremesso. Na estatuária, destacam-se os discóbolos de Alcamenes e de Miron. O CONFEF aprovou o Discóbulo de Mirón como símbolo oficial dos Profissionais de Educação Física do Brasi:”SÍMBOLO: Discóbolo - por estar baseado nos movimentos do corpo humano em ação. O corpo, na escultura de Míron, revela um cuidadoso estudo de todos os movimentos musculares, tendões e ossos que fazem parte da ação; as pernas, os braços e o tronco inclinam-se para imprimir maior impulso ao golpe; o rosto não parece contorcido pelo esforço, mas calmo e confiante na vitória. (CONFEF, 2002).

81

entre os alunos. Na escola pertencente à SER III, a opção ‘razoável entendimento’ foi a mais escolhida. Nas escolas das SER II e V, as respostas prevalecentes foram ‘muito entendimento’. Posteriormente, foi verificado, na entrevista com os professores da disciplina Educação Física das escolas participantes da pesquisa, que realmente em relação aquelas que contemplam o tema saúde como conteúdo a ser debatido nas aulas, as escolas das SER II e V foram as que obtiveram a opção ‘muito entendimento’ como a mais votada. Somando as respostas dos alunos das seis escolas, o resultado aponta para a resposta ‘nenhum entendimento’, como o mais escolhido entre todos os participantes da pesquisa. De um total de 914 alunos, 248 (27%) responderam que o entendimento sobre saúde, adquirido por meio da Educação Física Escolar, é nenhum. Tal fato leva à reflexão sobre a prática do professor de Educação Física na escola. O tema saúde é discutido como conteúdo da Educação Física desde

a

década de 1990. O Coletivo de Autores (1992) já mencionava a necessidade

e

a relevância de se discutir problemas sociais nas aulas, dentre eles a saúde

pública. Segundo os autores, a reflexão sobre os problemas sociais leva o aluno a compreender a realidade em que vive. Para Galvão e Rodrigues (2005), o professor de Educação Física pode utilizar o tema saúde em qualquer conteúdo que ministre aos seus alunos. No esporte, por exemplo, ao buscar compreendê-lo, é necessário debater com os alunos assuntos referentes a nutrição, gasto energético, lesões, uso de anabolizantes e desenvolvimento de capacidades físicas. Além disso, argumentos relativos à Saúde Coletiva devem ser incorporados ao discurso e à prática do professor de Educação Física. Temas como humanização do cuidado, cuidados preventivos e Promoção de Saúde podem e devem ser discutidos nas aulas da disciplina. Sobre os motivos da não realização de aulas com o objetivo de auxiliar no entendimento sobre saúde, Darido e Silva (2002) explicam que os professores de Educação Física, na maioria das vezes, se acham inseguros em realizar atividades que não privilegiem a prática esportiva tradicional, já que receberam uma formação somente tecnicista (DARIDO, SILVA, 2002).

82

4.3 Discussões sobre Saúde na Aula de Educação Física.

Foi questionado na pergunta 03 se o professor de Educação Física

comentava, discutia ou debatia o assunto saúde nas aulas. Encontram-se nos

Quadro 9 os resultados.

Quadro 9 - Questão 03 (Por Escola): Seu professor, nas aulas de Educação Física, fala sobre saúde?

 

SER I (n - %)

SER II (n - %)

SER III (n - %)

SER IV (n - %)

SER V (n - %)

SER VI (n - %)

Total (n - %)

Sim

044

129

043

039

045

062

362

31%

79%

21%

34%

34%

39%

40%

Não

098

035

161

075

088

095

552

69%

21%

79%

66%

66%

61%

60%

Total

142-

164

204

114

133

157

914

100%

100%

100%

100%

100%

100%

100%

Fonte: dados da pesquisa

O Quadro 9 aponta que somente em uma instituição o resultado foi

positivo. Nas escolas das SER I, III, IV, V e VI, a maioria dos alunos respondeu

que os professores não recorrem ao tema saúde nas suas aulas. Somente na

escola da SER II, os alunos afirmaram, em grande parte, que recebem tais

conceitos.

Na observação indireta, de aula na escola da SER II, foi constatado que

o tema da saúde era incorporado ao conteúdo da Educação Física. A resposta

dos alunos é consistente com a prática: 79% deles relataram que o professor

da disciplina comenta o tema em suas aulas. O resultado total, porém, revela

que 60% dos alunos pesquisados disseram que o professor de Educação

Física não comenta o tema saúde em suas aulas.

Nahas (2006) exprime que as propostas de Educação Física são

basicamente organizadas em torno dos esportes tradicionais. Infelizmente, a

afirmação do autor reflete a situação da Educação Física na maioria das

escolas, onde o esporte é inserido como conteúdo único, enquanto os temas

da cultura corporal, dentre eles a saúde, são desprivilegiados.

Guedes (1999) lembra a importância da transmissão de conceitos sobre

saúde na Educação Física Escolar. Para o autor, os hábitos da prática da

atividade física, incorporados na infância e na adolescência, possivelmente são

83

transferidos para a idade adulta. Continuando, acentua que a finalidade de programas de Educação em Saúde por meio da Educação Física Escolar é proporcionar fundamentação teórica e prática sobre o assunto. A discussão sobre o currículo da Educação Física e a inserção da saúde como conteúdo tem crescido desde a década de 1990 (FARIA JÚNIOR, 1991; NAHAS et al., 1995). Barros, Cunha e Silva Júnior (2007) defendem a proposta de que se deve debater a Promoção da Saúde por meio da Educação Física Escolar, com base em argumentos reveladores que somente a prática da atividade física não basta para a aquisição da saúde, pois são necessárias também ações de prevenção e aprofundamento de discussões sobre a saúde social. Na pesquisa de doutorado de Guedes (1994), a sugestão final é de que urge a necessidade de a Educação Física desenvolver estudos e adequar seu currículo com a finalidade de reaver no contexto educacional a prática da atividade física como Promoção da Saúde. Somente a prática da atividade física, porém, por si, não implica a adoção de hábitos saudáveis. Araújo (1996) ressalta que a Educação Física Escolar deve se propor educar para a saúde em oposição ao adestramento de atividades físicas. É importante ressaltar que o fato de determinados professores não apresentarem em suas aulas conceitos e práticas sobre o tema saúde, também pode estar relacionado com as condições de trabalho, ausência de políticas públicas para capacitação de docentes e formação deficitária.

4.4 A Saúde e os Exercícios Físicos

Na questão 04, perguntou-se aos alunos se acreditavam que poderiam obter saúde somente pela prática de exercícios físicos. Os resultados revelados estão sistematizados no Quadro 10.

84

Quadro 10 - Questão 04 (Por Escola): Você acredita que, a saúde pode ser obtida somente com a prática de exercícios?

 

SER I (n - %)

SER II (n - %)

SER III (n - %)

SER IV (n - %)

SER V (n - %)

SER VI (n - %)

Total (n - %)

Sim

046

045

094

012

041

078

317

32%

27%

46%

11%

31%

49,7%

35%

Não

096

119

110

102

092

079

597

68%

73%

54%

90%

69,%

50,3%

65%

Total

142

164

204

114

133

157

914

100%

100%

100%

100%

100%

100%

100%

Fonte: dados da pesquisa

O Quadro 10 mostra que, em todas as escolas, a maioria dos alunos

entende que somente a prática do exercício não enseja saúde. Em duas

escolas, representantes das SER III e VI, os alunos ficaram divididos em suas

respostas, principalmente na escola da SER VI, entretanto houve ligeira

vantagem para a resposta ‘não’. Já os alunos das escolas das SER I, II, IV e V

foram em grande parte, 60% acima, defensores da ideia de que somente a

prática do exercício físico não traz benefícios à saúde.

Os resultados apresentados, ao somar as respostas de todos os

participantes da pesquisa, revelam que a maioria dos alunos, 65%, entende

que não basta a prática do exercício físico para a aquisição da saúde.

Os resultados estão em consonância com os estudos de Ferreira e Najar

(2010) ao assinalarem que, de fato, a prática regular é apontada como

importante ação na área da saúde, contudo, revelam que a relação entre a

prática de atividade física e saúde vem sendo questionada. Explicam que há

quem argumente, por exemplo, que ela pode ser interpretada de outro modo:

as pessoas praticam exercícios porque gozam de melhor saúde, e não o

inverso.

Solomon (1991) apresenta vários estudos que negam a ideia de que o

exercício físico auxilia na longevidade. Carvalho (2004) também critica a

causalidade na relação exercício físico – saúde. Haskell et al. (1985) defendem

a hipótese de que a prática de exercícios físicos não necessariamente provoca

a melhoria do estado de saúde dos indivíduos. Meeusen e Borms (1992) citam

que atletas submetidos ao exercício intenso por longos anos podem apresentar

no futuro sequelas no organismo.

85

Ferreira e Najar (2010) reconhecem o exercício físico como um dos

fatores que podem contribuir na aquisição e melhora da saúde, porém

recusando a relação de casualidade entre eles. Reconhece-se, assim como a

maioria dos alunos pesquisados, que para se obter saúde, é necessário muito

mais do que somente praticar exercícios físicos, pois se requisita higiene, boa

alimentação, saneamento, educação, moradia, lazer, renda, dentre outros

fatores extremamente necessários.

4.5 Conhecimento sobre Saúde na Educação Física

Esta questão buscou verificar se os conhecimentos sobre saúde dos

alunos melhoraram por meio da Educação Física, da forma como a disciplina é

ministrada. O Quadro 11 registra os resultados

Quadro 11 - Questão 05 (Por Escola): Você acredita que, ao praticar Educação Física da forma como é oferecida em sua escola, seus conhecimentos sobre saúde melhoram?

 

SER I (n - %)

SER II (n - %)

SER III (n - %)

SER IV (n - %)

SER V (n - %)

SER VI (n - %)

Total (n - %)

Sim

028

152

094

017

061

024

376

20%

93%

46%

15%

46%

15%

41%

Não

114

012

110

097

072

133

538

80%

07%

54%

85%

54%

85%

59%

Total

142

164

204

114

133

157

914

100%

100%

100%

100%

100%

100%

100%

Fonte: dados da pesquisa

O Quadro 11 apresenta resultado igual para as escolas pertencentes às

SER I, III, IV, V, e VI. Nestes estabelecimentos de ensino, o resultado revela

que a maioria dos alunos pesquisados não acredita que a prática da Educação

Física, como vem sendo oferecida na escola, contribua para a melhoria dos

seus conhecimentos sobre saúde.

No mesmo quadro, entretanto, observa-se que, na escola da SER II, os

alunos apontaram o inverso. Quase a totalidade dos alunos, 93%, citou que

melhoraram seus conhecimentos acerca de saúde com a participação nas

aulas de Educação Física, como é ministrada na atualidade.

86

Vale ressaltar que, nesta escola, o professor apresenta em suas aulas o tema saúde, sejam teóricas ou práticas, o que justifica os alunos terem optado pela resposta positiva. Como apresentado no quadro, entretanto, quando somados todos os alunos da pesquisa, percebe-se que 59% dos participantes responderam negativamente à questão proposta. De fato, a Educação Física, como lembram Darido e Sanches Neto (2005), ainda é objeto de posturas pedagógicas tradicionais e sem cunho didático de certos professores. A disciplina é predominantemente prática, recorre quase que unicamente aos esportes, e, em muitos casos, os alunos escolhem e decidem o que vão fazer nas aulas. Os autores reforçam a ideia de que esse modelo é muito representativo no contexto escolar, porém é condenável, já que desconsidera os procedimentos metodológicos do processo ensino aprendizagem, o planejamento e o projeto político pedagógico da escola. Entretanto, Darido (2005) afirma que foram realizadas mudanças na área desde a da década de 1980, como alterações nas concepções, pesquisas, métodos de ensino e práticas pedagógicas. Considerando o encontrado, parece que as boas práticas aconteceram, principalmente, nos discursos acadêmicos, já que, na prática, a Educação Física na escola, em grande parte, é alvo das práticas sem comprometimento pedagógico. Se a Educação Física continua sendo administrada da forma como foi exposta até aqui, como os conceitos sobre saúde são assimilados? Defende-se a recomendação de que o professor da disciplina, e alguns já o fazem, cumpra com os conteúdos expostos em livros e documentos específicos da Educação Física, dentre eles os PCN (BRASIL, 1988). Se faz necessário, todavia, que haja comprometimento político dos gestores da educação em apoiar melhores condições de trabalho e formação para os professores. Os PCN (BRASIL, 1988) indicam ao professor de Educação Física a necessidade de inserir o aluno na cultura corporal do movimento, fazendo com que vivencie situações conceituais, procedimentais e atitudinais. Os temas transversais, onde a saúde se enquadra, também são conteúdos a serem apresentados aos alunos. Como se observa, a Educação Física não se resume

87

somente à prática de esportes e exercícios. Cabe ao professor alterar a

imagem da disciplina.

4.6 Atividades de Campo sobre o Tema Saúde

Pergunta-se, na questão 06, se os alunos já haviam participado de aulas

de campo ou palestras sobre saúde. Os resultados serão apresentados no

Quadro 12.

Quadro 12 - Questão 06 (Por Escola): Você já participou de alguma aula de campo ou palestra sobre saúde, promovida pelo professor de Educação Física?

 

SER I (n - %)

SER II (n - %)

SER III (n - %)

SER IV (n - %)

SER V (n - %)

SER VI (n - %)

Total (n - %)

Sim

007

045

006

006

017

012

093

5%

27,5%

03%

05%

13%

08%

10%

Não

135

119

198

108

116

145

821

95%

72,5%

97%

95%

87%

92%

90%

Total

142

164

204

114

133

157

914

100%

100%

100%

100%

100%

100%

100%

Fonte: dados da pesquisa

Os resultados do Quadro 12 mostram que os alunos, separados por

escolas, com um percentual de 72,5%, na escola da SER II, e 97%, na escola

da SER III, relataram nunca ter participado, na disciplina de Educação Física,

de aulas de campo sobre saúde. Ao somar todos os participantes da pesquisa,

chega-se a uma situação-limite: 90% dos alunos revelaram não haver

vivenciado aulas de campo sobre saúde, por meio da disciplina.

A aula de campo e o convite a outros profissionais – palestras - são

recursos importantes para a compreensão de conceitos e estabelece relação

entre teoria e prática. Embora utilizada em pesquisas e no ensino superior,

esta metodologia ainda é pouco recorrente na educação básica. A aula de

campo e a palestra devem fundamentar-se em propostas interdisciplinares e,

na Educação Física, quando o assunto é saúde, visita a postos de saúde,

clínicas, hospitais e palestras de agentes da área são fundamentais.

88

4.7 Aulas sobre saúde no Laboratório de Informática

As respostas sobre aulas que abordavam ou não o tema saúde nos

laboratórios de Informática foram sistematizadas no Quadro 13.

Quadro 13 - Questão 07 (Por Escola): Você já participou de alguma aula de Educação Física sobre saúde no laboratório de Informática de sua escola?

 

SER I (n - %)

SER II (n - %)

SER III (n - %)

SER IV (n - %)

SER V (n - %)

SER VI (n - %)

Total (n - %)

Sim

012

018

029

002

020

009

090

08%

11%

14%

02%

15%

06%

10%

Não

130

146

175

112

113

148

824

92%

89%

86%

98%

85%

94%

90%

Total

142-

164-

204

114-

133-

157-

914

100%

100%

100%

100%

100%

100%

100%

Fonte: dados da pesquisa

O Quadro 13 nos revela que, em todas as escolas, em proporção

sempre superior a 85%, os alunos nunca tiveram aula sobre o tema saúde,

proposto pelo professor de Educação Física, com o recurso da Informática. Ao

somar as respostas de todos os envolvidos, apresenta um dado mais

preocupante: 90% dos alunos não tiveram a oportunidade de ter aulas sobre

saúde, amparadas na Informática, nas sessões de Educação Física.

A palavra informática, derivada de informação e automação, denomina

a ciência que trata a informação pelo uso do computador ou de equipamentos

de processamento de dados (FERREIRA, 2000). O uso do computador, no

ambiente escolar, deve ser entendido como método atraente e diferenciado da

sala de aula convencional. Atualmente, exige-se que a escola fique atenta às

dificuldades do processo de aprendizagem dos alunos, instrumentalizando-se

com o que tiver apelo aos jovens (WEISS; CRUZ, 2001).

Percebe-se, empiricamente, que a utilização da Informática resulta em

situação muito prazerosa para os escolares. Redes sociais, como orkut,

facebook, twiter, comunicações online, como mensager e skype, e-mails, jogos

em rede, blogs, sites e youtube são recursos da Informática que o professor de

89

Educação Física pode utilizar para a discussão sobre saúde. Nas escolas

participantes, observou-se presença de laboratório de Informática, inclusive

com um professor especializado para atender as turmas e professores de

outras disciplinas. Em conversa informal com os professores destes

laboratórios, foi transmitida a informação de que os professores de Educação

Física não utilizam o laboratório para suas aulas, com exceção do professor da

SER II.

4.8 Pesquisas sobre Saúde

No Quadro 14 apresentam-se as respostas dos alunos à questão sobre

pesquisa envolvendo o tema saúde.

Quadro 14 - Questão 08 (Por Escola): Você já realizou pesquisas sobre o tema saúde por meio de solicitação do professor de Educação Física?

 

SER I (n - %)

SER II (n - %)

SER III (n - %)

SER IV (n - %)

SER V (n - %)

SER VI (n - %)

Total (n - %)

Sim

010

048

010

008

017

013

106

7%

29%

05%

07%

13%

08%

12%

Não

132

116

194

106

116

144

808

93%

71%

95%

93%

87%

92%

88%

Total

142

164

204

114

133

157

914

100%

100%

100%

100%

100%

100%

100%

Fonte: dados da pesquisa

No Quadro 14, percebe-se que, em nenhuma escola, foi positiva a

resposta à pergunta sobre a realização de pesquisas sobre saúde propostas

pelo professor de Educação Física. Em duas escolas das SER II e V, mais de

70% dos alunos, e em quatro escolas das SER I, III, IV e VI, mais de 90% deles

relataram jamais haver pesquisas por solicitação do professor da disciplina. Ao

serem somadas todas as respostas, o quadro revela que 88% dos alunos não

vivenciaram a pesquisa sobre saúde como meio de aprendizagem.

90

Defende-se a proposta de que a pesquisa é uma aliada na assimilação e reflexão dos conteúdos no ensino fundamental. Para Freire (2001) não há possibilidades de existir pesquisa sem ensino e tampouco ensino sem pesquisa, portanto, desde o início da escolarização, deve ser ressaltada a importância da pesquisa na elaboração do conhecimento. Demo (2007) propõe que a base da educação escolar seja a pesquisa, pois ao pesquisar, o aluno descobre e intervém de forma criativa, crítica, reflexiva e propositora. Deste modo, o autor solicita aos professores que superem o método expositivo de ministrar aulas, onde cabe ao professor apenas transmitir informações já estipuladas como verdadeiras e reproduzir conceitos.

4.9 Questões Subjetivas

As questões subjetivas e abertas do estudo foram em número de três, e versaram sobre: a) conceito de saúde; b) atitudes que beneficiam a saúde, além da prática do exercício físico; e c) quais temas relacionados à saúde os alunos desejavam aprender nas aulas de Educação Física. As duas últimas, apesar de abertas, eram respondidas em forma de itens, e não de dissertação, como a primeira. Pelo fato de as questões subjetivas requererem mais tempo para o aluno responder e implicarem em texto redacional, alguns alunos não completaram o questionário. O apelo dado pelas questões abertas permitiu liberdade de pensamento, daí o fato de muitas respostas conterem mais de um dado para serem categorizados na análise. Os textos resultantes tornaram possível a elaboração de novas categorias, classificadas com base na frequência. Os resultados e suas discussões são apresentados a seguir.

4.9.1 Conceito de saúde.

Na primeira questão subjetiva, foi perguntado aos alunos qual o conceito que detinham sobre saúde. As respostas foram categorizadas e apresentaram o resultado organizado nos Quadros 15 e 16.

91

Quadro 15 – Quadro da ocorrência superior a 10 aparições - Para você, o que é saúde?

Categorias

SER I

SER II

SER III

SER IV

SER V

SER VI

Total

n

n

n

n

n

n

n

Alimentação

43

60

32

26

45

39

245

Praticar

38

40

49

28

35

36

226

Exercícios

Ausência de

20

27

31

22

19

24

143

Doença

Cuidar-se

19

15

14

15

20

09

092

Praticar Esportes

21

10

13

18

05

08

075

Bem-Estar Físico

09

11

17

09

17

07

070

Brincar e Jogar

08

15

12

08

02

04

049

Não Apresentar

09

10

05

04

02

08

038

Dor/Cansaço

Higiene

02

15

01

00

10

00

028

Felicidade e Paz

06

10

02

01

02

01

022

Bem-Estar

01

09

01

00

10

00

021

Espiritual

Condições

00

01

00

00

08

11

019

Materiais

Sobrevivência

00

03

00

00

14

00

017

Disposição

08

05

00

00

04

00

017

Moradia

00

00

00

00

05

08

013

Não Beber, Fumar e nem usar Drogas

03

00

01

01

05

02

012

Diversão, Lazer

01

02

03

00

05

00

011

Descansar

02

05

02

01

01

00

011

Onde: n = número de aparições de termos que foram inseridos na categoria Fonte: dados da pesquisa

Quadro 16 – Quadro da ocorrência inferior a 10 aparições - Para você, o que é saúde?

Categorias

 

SER I

SER II

SER III

SER IV

SER V

SER VI

Total

n

n

n

n

n

n

n

Estudar,

 

00

05

00

00

02

00

007

Educação

Vacinar-se

 

03

01

02

00

00

00

006

Manter Peso

02

01

02

00

01

00

006

Trabalhar

 

00

01

00

00

00

03

004

Valorizar

 

00

04

00

00

00

00

004

Vida

Preocupar-

00

00

00

00

01

00

001

se

com

os

Outros

Ambiente

 

00

00

00

00

01

00

001

Limpo

Sexo

00

01

00

00

00

00

001

Ler

00

01

00

00

00

00

001

Onde: n = número de aparições de termos que foram inseridos na categoria. Fonte: dados da pesquisa

92

De forma geral, nota-se que a maioria dos alunos não formulou um conceito de saúde, e sim apresentou elementos que favorecem a saúde. A categoria mais frequente é alimentação (n = 245 aparições), seguida de praticar exercícios (n = 226) e ausência de doenças (n = 143). A alimentação merece destaque nas respostas de muitos alunos, surgindo em primeiro lugar de aparições. O ato de alimentar-se bem, para muitos, constitui sinônimo de saúde. O alimento é considerado a maior fonte de energia do ser humano, e, por sua ingestão, pode-se realizar movimentos, pensar e sentir. O alimento está intimamente ligado com o nosso bem-estar físico, social e mental, definido segundo a OMS (LUCIA, 2003). A prática de exercícios, segunda categoria em número de aparições, no imaginário destes alunos, parece ser responsável direto pela saúde, pois se verifica, neste caso, o princípio da causalidade exercício físico-saúde. Matsudo e Matsudo (2000) denotam que os benefícios da prática da atividade física são muitos, entre eles: a) melhoria fisiológica - volume sistólico, potência aeróbica, ventilação pulmonar, perfil lipídico, sensibilidade à insulina, pressão arterial, metabolismo, frequência cardíaca em repouso e no trabalho submáximo; b) melhoria antropométrica e neuromuscular - gordura corporal, força e massa muscular, densidade óssea e flexibilidade; e c) melhoria psicológica - autoestima, autoconceito, imagem corporal, funções cognitivas e socialização, diminuição do estresse, ansiedade e consumo de medicamentos. Observa-se que a prática do exercício físico e a boa alimentação representam elementos recorrentes nos conceitos de saúde da maioria dos alunos, como revelado nas respostas a seguir:

Saúde na minha opinião, é fazer tudo de cada coisa: comer bem, fazer exercícios, etc. (6º ano, SER II).

É praticar esportes, comer bem, etc. (6º ano, SER III).

É uma coisa, que nós, seres humanos, temos. Par ter saúde é

preciso se alimentar bem e praticar exercícios (7º ano, SER

V). Ser forte, fazer exercício, alimentação correta (8º ano, SER V).

É você estar bem consigo próprio, ter alimentação equilibrada,

praticar exercícios e não estar doente. (8º ano, SER VI).

A ausência de doenças, expressão que também faz parte da definição de saúde da OMS, surge como a terceira categoria mais frequente e demonstra

93

a adesão a padrões consagrados, incorporados ao senso comum, de grande parte dos envolvidos, como as seguintes respostas demonstram:

Não ter doenças, ser normal ser igual a todos os seres humanos. (6º ano, SER I). Saúde é o cuidado que devemos ter com nosso corpo para não pegar nenhuma doença. (6º ano, SER II).

É não ter nenhum tipo de dor. (7º ano, SER III).

É uma pessoa sem doença. (8º ano – SER IV).

É nosso corpo perfeito, sem nenhuma doença (8º ano, SER

V).

É você se prevenir das doenças, bactérias e várias coisas que

trazem mal a sua saúde e ao seu corpo. (8º ano, SER VI).

É o que precisamos para viver bem. (9º ano, SER II).

É o nosso organismo bem forte para agüentar certas doenças.

(9º ano, SER III).

É a qualidade ou estado de vida de uma pessoa, se ela está

ou não imune a alguma doença. (9º ano, SER IV).

É quando a pessoa não fica doente. (9º ano, SER V).

A compreensão da saúde como ausência de doença é amplamente

aceita pelo communis opinio e é estimulada pela Medicina, como pode ser

comprovado na maioria das pesquisas e da produção tecnológica em saúde, de acordo com Batistella (2008).

A categoria cuidar-se, quarta em número de aparições, é generalista,

pois os alunos, ao se referirem ao cuidado, apontam para variadas situações

físicas, mentais, espirituais ou afetivas - com recursos categóricos (“saúde é se

cuidar”) ou tautológicos (‘saúde é

cuidar da saúde”):

Saúde é se cuidar, não ter nenhuma dor, doença grave, etc. (6º ano, SER II). Saúde é se cuidar. (7º ano, SER III). Saúde é simplesmente cuidar da gente, ou seja, cuidar da saúde. (7º ano, SER IV).

É cuidar do corpo. (8º ano, SER V).

É se cuidar para viver mais e melhor. (9º ano, SER V).

Saúde é se cuidar, e se preocupar com os outros também. (9º ano, SER VI).

O cuidado em saúde, entretanto, se refere, entre outros fatores, a uma

relação usuário/profissional de saúde voltada para a escuta da subjetividade do indivíduo, além de estar relacionada ao atendimento das necessidades de

tecnologia. O cuidado se volta para o acolhimento do usuário de maneira mais

94

ampla, considerando o indivíduo partícipe de um âmbito sociocultural específico (PINHEIRO; MATTOS, 2004). Talvez, influenciados pelo fato de saberem que se tratava de uma pesquisa envolvendo a Educação Física, expressões como praticar esportes (n = 75), bem-estar físico (n = 70), jogar e brincar (n = 49), quinta, sexta e sétima categorias em número de aparições, surgiram com muita freqüência. Somado à categoria praticar exercícios (n = 226), o conjunto poderia receber outro título, atividades corporais, e chegaria à marca de 420 aparições, o que reflete a preocupação dos jovens participantes com a atividade física. Subtraindo-se a categoria bem-estar físico (n = 70) desta nova subcategoria, pois afinal estar bem fisicamente não representa, necessariamente, realizar atividades físicas, mesmo assim seriam 350 aparições, um número expressivo.

É a pessoa estar bem fisicamente. (6º ano, SER I). Saúde é correr, brincar, jogar, tomar banho. (6º ano, SER II). Saúde é você não sentir dores e praticar exercícios físicos, cuidar do corpo, não ter nenhuma doença nem obesidade, cuidar bem da alimentação, do corpo, brincar, ser magro e não gordão. (7º ano, SER V). Saúde é você estar bem com seu corpo fazendo com que você fique com peso normal. (9º ano, SER VI). É uma pessoa com boa postura. (6º ano, SER III).

O Programa Vida Ativa, promovido pela OMS, reconhece a importância da atividade física para a saúde das pessoas. Estabelece como público-alvo crianças e jovens, demonstrando que uma atividade física regular é essencial para um melhor cuidado da maturação de crianças e adolescentes e assinala que um estilo de vida ativo constitui um dos melhores meios de Promoção de Saúde e de boa qualidade de vida (FERREIRA, 2005). Apesar disso, não é possível a aquisição da saúde somente com a prática da atividade física. Não apresentar dor/cansaço foi a oitava categoria em número de aparições. O sentimento de dor pode ser relacionado com doença. Neste caso esta categoria estaria relacionada com ausência de doença, já mencionada como a terceira em número de aparições.

É estar bem, não sentir dores nem cansaço, ter uma alimentação boa e praticar esportes. (6º ano, SER IV). Saúde para mim é a pessoa que esteja bem, que não sinta dores fortes, não esteja pra baixo e outras coisas também. (6º ano, SER V).

95

Saúde para mim é melhorar minha vida, não ficar com dores. (8º ano, SER II).

É ter energia, paz, correr, pular e não ter dor. (9º ano, SER I).

Segundo a Sociedade Brasileira para Estudo da Dor-SBED, a dor afeta pelo menos 30% dos indivíduos durante algum momento da sua vida. Constitui a causa principal de sofrimento, incapacitação para o trabalho e ocasiona graves consequências psicossociais e econômicas. A incidência da dor crônica no mundo oscila entre 7 e 40% da população e, como consequência desta, cerca de 50 a 60% dos que a sofrem ficam parcial ou totalmente incapacitados, de maneira transitória ou permanente, comprometendo de modo significativo a qualidade de vida (SBED, 2011). A nona categoria em número de aparições foi higiene, um tema muito debatido nas escolas, em razão da política de assepsia social, promovida pela elite brasileira, especialmente na Educação Física do início do século XX. Pelo que se depreende dos resultados deste estudo, a promoção higienista deixou raízes no conceito popular sobre saúde.

Saúde é limpeza e cuidado. (6º ano, SER V).

É limpeza e ambiente limpo. (7ºano, SER III).

Saúde é a pessoa que tem bons hábitos, higiene, ter alimentação saudável. (8º ano, SER V). Em minha opinião saúde para mim é comer frutas, manter sempre as mãos limpas, os dentes limpos e as unhas limpas.

(6º ano, SER IV). Ser higiênico com si mesmo, fazer tudo no seu horário, exemplo: café da manhã, merenda, almoço, lanche, jantar tudo no seu devido tempo, hora. (6º ano, SER II).

A palavra higiene vem do grego hygeinos e significa o que é são ou sadio. Em sua ideia original era entendida como uma qualidade da saúde. Os indivíduos deveriam possuir uma saúde higiênica. Posteriormente, a palavra passou a ser compreendida como um conjunto de hábitos que se deve possuir para alcançar a saúde, relacionando-se com a limpeza do corpo. No século XIX, passou a ser compreendida como o ramo da Medicina que busca a preservação da saúde, estabelecendo normas e recomendações para prevenir as doenças (FARIA; MONLEVADE, 2008). As categorias felicidade/paz e espiritualidade foram classificadas, respectivamente, como décima e décima primeira em número de aparições.

96

Destaque-se a inclusão destas categorias, mas em posição distante na hierarquia das reflexões dos estudantes.

Saúde é ser feliz, trabalhar, ir ao médico. (6º ano, SER I).

É viver feliz. (6º ano, SER IV).

É quando agente está bem de vida espiritual e corporal. (7º

ano, SER II).

É bem-estar, paz, alegria e amor. (7º ano, SER III).

É você estar bem física e espiritualmente. (7º ano, SER V).

sem

preocupações. (8º ano, SER VI).

Saúde é viver bem. (8º ano, SER II).

É estar feliz, bem com o corpo e consigo. (8º ano, SER II).

É se sentir bem e em paz. (8º ano, SER V).

É o que precisamos pra viver bem de espírito. (9º ano, SER

V).

É o bem estar do corpo com a vida! (9º ano, SER V).

Saúde é você bem de vida, sem doenças e sem estresse. (6º ano, SER II).

É a pessoa sentir paz e não ter problemas. (6º ano, SER V).

Para

forma

mim saúde é

uma

de

viver mais feliz,

Ayres (2005) lembra de que, em uma perspectiva filosófica, a busca da felicidade é um ideal de humanização e está relacionada à saúde. Para tanto, o autor solicita o encontro entre as tecnociências da saúde e os valores condicionantes à felicidade humana. Também foram citadas, pelos alunos, em décimo segundo lugar em número de aparições, as condições materiais como integrantes do conceito de saúde. Nota-se que, para alguns, é necessário se ter uma “vida boa” para poder ter saúde.

Saúde é ser saudável e ter boas condições de vida, fazer muito exercício, mas sem exagerar. (6º ano, SER II).

É ter uma vida boa. (8º ano, SER V).

Outro aspecto importante é a valorização da saúde como um aspecto de sobrevivência, décima terceira categoria em número de aparições. O ato de ser saudável, para diversos alunos, por si, garante a sobrevivência no mundo.

É algo que nós precisamos muito, pois, sem saúde, nós não

podemos viver. (6º ano, SER VI).

Ter disposição, eleita a décima quarta categoria em número de aparições, remete, diretamente, a estado de saúde ou de espírito (FERREIRA, 2000). O estar bem disposto pode ser interpretado como estar saudável, assim,

97

disposição, para muitos dos alunos pesquisados, é similar a possuir saúde ou, ambiguamente, condição para se ter saúde.

É um bom desempenho, comer bem e estar disposto. (7º ano,

SER I). Saúde é uma coisa que nos deixa com mais disposição e com

mais vontade de estudar. (6º ano, SER IV).

É você ter disposição para praticar exercícios e uma boa

alimentação. (9º ano, SER III).

A décima quinta categoria em número de aparições foi moradia. A

consciência de uma carência pode levar à valorização do que falta. Quem não tem moradia fixa, a tem precária ou a sobrevivência sempre peleja com o dinheiro reservado ao aluguel, há de colocar moradia em alta prioridade. Causa estranheza, no grupo social de onde emerge a quase totalidade deste alunado,

o problema ser tão pouco destacado, não integrando à lista dos dez mais.

Saúde é estar sempre em forma, não muito gorda, mas nem muito magra, se alimentar bem, ter lazer e moradia. (6º ano, SER V).

É limpeza, higiene, lazer, cultura, ginástica, esporte e

moradia. (6º ano, SER II).

A não utilização de fumo, álcool e outras drogas foi registrada em

décimo sexto lugar na lista dos critérios conceituais sobre saúde. São os

problemas determinantes, concomitantes e consequentes da dependência química. Os danos irreparáveis à saúde, à qualidade de vida e às relações sociais foram pouco lembrados pelos alunos.

É uma pessoa que não fuma, não bebe, não usa drogas. (7º

ano, SER V).

É não conviver com drogas. (6º ano, SER VI).

Saúde é não chegar perto de ladrões, marginais, drogas e drogados. (6º ano, SER IV).

É não se misturar com drogas. (6º ano, SER II).

Saúde é a pessoa se cuidar, não beber, não fumar, não usar

drogas

para viver melhor. (6º ano, SER III).

De acordo com a OMS (BRASIL, 2003) cerca de 10% da população urbana do mundo utilizam substâncias psicoativas. Tal realidade global é reproduzida no Brasil, onde se observa que a utilização de drogas de abuso possui um caráter multifatorial, não se reduzindo a um problema unicamente do

98

âmbito do sistema de atenção à saúde, exigindo políticas de segurança e de educação. Aspectos como ‘diversão/lazer’ e ‘descansar/dormir’, respectivamente, conhecidos como décima sétima e décima oitava categorias, em número de aparições, também foram identificados pelos alunos:

Saúde é comer bem, poder descansar e se divertir (6º ano, SER I). Ter cuidados com o corpo, se consultar, comer bem, dormir

tranqüilo

(7º ano, SER II).

O lazer, encarado como Promoção da Saúde integral, tem três funções

primordiais. Sua primeira função - descanso, descontração ou recuperação - busca reparar as fadigas físicas e mentais, resultantes das obrigações

cotidianas. A segunda função - divertimento, recreação e entretenimento - é a oposição contra o tédio e se reflete na necessidade de distração do ser humano, em sua dimensão lúdica. A terceira função se refere ao desenvolvimento pleno da personalidade, por meio de estímulos intelectuais, éticos e culturais. Os momentos de lazer fornecem ao indivíduo pleno desenvolvimento, condição necessária para seu bem-estar social (DUMAZEDIER, 1976).

A educação foi registrada pelo alunado incluído na pesquisa, ocupando

a décima nona categoria em número de aparições. A aparição do termo educação, por um lado, demonstra que os alunos valorizam o fato de aprender e que esta ação produz conhecimento para a saúde. De outra parte preocupa sua longínqua priorização, apesar de frequentar os discursos políticos e dos

meios de massa.

Saúde é ter educação e viver feliz. (6º ano, SER III).

Como a vigésima categoria em número de aparições, o termo vacina se confunde com prevenção de doenças, agravos e acidentes. Para os alunos, a vacinação compõe um “pacote” de elementos representativos da saúde.

Saúde é praticar exercícios, ter uma boa alimentação, tomar vacina, não ter nenhum tipo de doença, ser saudável, ser higiênico, etc. (9º ano, SER IV).

99

Em suas respostas à pergunta sobre o conceito de saúde, os alunos deslocaram-se em várias direções, apresentando respostas mais completas, envolvendo elementos biológicos, higienistas e socioculturais:

Saúde é bem estar, indicando que a pessoa tem disposição para praticar esportes, comer bem, dormir em perfeitas condições, tomar banho e ficar limpo, se cuidar, estar sempre em forma e não ficar doente. (6º ano, SER II). Saúde é a prática de estimular o corpo a não ter doenças e que pode ser aplicada em vários tipos de coisas como:

alimento saudável, bem estar, exercícios, médicos e outras coisas. (8º ano – SER IV).

Destaque-se uma afirmação categórica, ufanista, que situa saúde como síntese da experiência vital perfeita:

Saúde é a melhor coisa do mundo que a pessoa pode ter. (7º ano, SER V).

Ao encerrar a discussão sobre a questão – O que é saúde? – porém, uma resposta em especial, no meio de 914, incomodou bastante: uma afirmação também categórica, franca, de desconhecimento

Pra falar a verdade, eu não sei o que é saúde (6º ano,SER V).

O

que

o

ufanismo

generalista

e

este

reconhecimento

franco

de

desconhecimento

podem

estar

dizendo,

além

de

todas

as

categorias

ensaiadas?

4.9.2 Obtenção de Saúde, além da Prática do Exercício Físico.

Na segunda questão aberta, perguntou-se aos discentes qual outra atitude deveriam assumir, além da prática de exercícios físicos, para auxiliar na obtenção da saúde. As respostas foram muito diversificadas, porém sintéticas, sob forma de itens, e são apresentadas nos Quadros 17 e 18.

100

Quadro 17 – Quadro da ocorrência superior a 10 aparições - Além da prática do exercício físico, que outra atitude é importante para se obter saúde?

Categorias

SER I

SER II

SER III

SER IV

SER V

SER VI

Total

n

n

n

n

n

n

n

Alimentação

61

70

66

51

75

55

378

Praticar

29

30

17

13

17

18

124

esportes

Não fumar,

09

12

07

08

04

03

043

beber,

drogas

Cuidar-se

04

06

06

04

09

09

038

Higiene

09

12

04

03

08

01

037

Visitar

03

11

04

02

10

01

031

médico

Educação

00

04

01

00

09

00

014

Participar

03

05

02

03

04

01

018

da Ed.

Física

Lazer

01

02

00

02

05

01

011

Trabalhar

00

06

00

00

04

01

011

Fonte: dados da pesquisa

Quadro 18 – Quadro da ocorrência inferior a 10 aparições - Além da prática do exercício físico, que outra atitude é importante para se obter saúde?

Categorias

SER I

SER II

SER III

SER IV

SER V

SER VI

Total

n

n

n

n

n

n

n

Descanso

00

05

01

00

02

00

008

Manter peso

02

01

01

03

00

01

008

Acesso a

00

01

01

02

00

03

007

serviços de

saúde

Moradia

01

00

01

02

01

02

007

Evitar o sol

00

02

01

01

01

00

005

Família,

00

00

00

00

03

01

004

Amigos

Evitar

00

01

01

00

01

00

003

Estresse

Vacinar-se

01

01

00

00

00

01

003

Espiritualidade

00

00

00

01

01

01

003

Ler

00

02

00

00

00

00

002

Valorizar vida

00

02

00

00

00

00

002

Pensamento

00

01

00

00

00

00

001

Positivo

Onde: n = número de aparições de termos que foram inseridos na categoria. Fonte: dados da pesquisa

101

Seguem-se os comentários sobre as dez expressões que obtiveram mais de dez ocorrências. Respectivamente, alimentação (n = 378 aparições), praticar esportes (n = 226) e não fumar/beber/usar drogas (n = 43 aparições) ocupam as primeiras colocações na hierarquia de referências. Reforça-se, aqui, a posição da percepção social que associa diretamente saúde com alimentação. Relatar a prática de esportes constitui uma espécie de redundância, pois a pergunta já solicitava o que mais poderiam fazer, além da prática de atividade física, o que transfere para o segundo lugar o conceito de hábitos saudáveis de não fumar, não beber e não usar outras drogas. É provável que alguns alunos compreendam que praticar esportes, como jogar futebol na várzea ou frescobol na praia, constitua algo diferente da atividade física, composta por série de exercícios, como alongamento, musculação e ginástica, inscritos num currículo, na escola. O ato de não fumar, ingerir álcool ou utilizar de drogas (n = 43) aparece como terceira categoria mais frequente. Tal categoria nos remete à situação na qual se encontra a cidade de Fortaleza, locus da pesquisa, no que se refere ao uso de substâncias ilícitas, com crescente incidência de registros de dependência química e de atos violentos associados, também crescentemente divulgados nos meios de propagação coletiva e na internet. A expressão ‘cuidar-se’ foi classificada em quarto lugar. Pode-se hipotetizar o pensamento de que os alunos, ao citarem que é necessário o cuidado de si para a consecução da saúde, se referem ao cuidado de forma global, físico, mental e social. No sentido físico, é o cuidado com o corpo, o ato de prevenir lesões e de adquirir doenças com impactos físicos; no aspecto mental, trata-se de manter-se bem equilibrado, sem depressão ou doenças mentais; e, na dimensão social, pode-se supor que os alunos se remetem a questões afetivas relacionais. Reforça-se aqui o pensamento de Ayres (2001), referência já utilizada na revisão de literatura: o cuidado não pode ser banalizado pelo sentido coloquial, mas deve ser refletido filosoficamente, no sentido da busca da felicidade. A ‘higiene’ foi considerada em quinto lugar, como atitude para conseguir saúde. É percebida como muito mais do que um ato relacionado à saúde, pois

102

alguns alunos também a compreendem como um procedimento de educação. Assim, o aluno não higiênico seria mal-educado. Essa cultura é transmitida pelos pais e reproduzida no meio ambiente onde os alunos estão inseridos. Parece-nos que esta consciência há muito povoa a compreensão de saúde dos populares. Darido e Rangel (2005) garantem que a promoção de hábitos de higiene e saúde, mediante exercício, não eram meios, mas fins da prática da Educação Física, já nos anos 1930. A categoria ‘visitas ao médico’ foi escolhida como a sexta mais indicada pelos alunos. Esta foi uma surpresa, já que muitos alunos pesquisados não costumam realizar consultas médicas regularmente, conforme percebido nos relatos informais. Pesquisa realizada pelo Ibope Mídia revelou que 62% dos brasileiros só vão ao médico quando estão realmente doentes. O percentual é ainda maior entre os homens: 64%. A pesquisa foi feita em nove capitais das regiões Sul e Sudeste, com mais de 18 mil pessoas de 18 a 64 anos, entre agosto de 2009 e julho de 2010 (FOLHA, 2011). O termo ‘educação’ aparece em sexto posto, segundo o número de aparições nas respostas dos alunos. Conforme atesta Freire (1969) a educação é o espelho da realidade. Assim, é compreensível que, se o aluno possui capacidade cognitiva advinda do estudo, pode, então, compreender melhor sobre a saúde também. Interessante é observar que ‘Participar da Aula de Educação Física’ também foi considerada por muitos alunos como uma atitude para se obter saúde, demarcando a sétima colocação. Muitos dos alunos pesquisados não possuem condições financeiras de arcar com o valor de uma mensalidade em uma academia de ginástica ou musculação e, desta forma, só possuem a aula de Educação Física como único momento de aprendizagem sobre práticas corporais. Sleap (1990), como já citado, reforça a posição dos alunos ao acentuar ser a aula de Educação Física o melhor local para a busca de conhecimentos sobre saúde na escola. O ‘lazer’ e o ‘trabalhar’ são considerados por parte dos alunos, respectivamente, o nono e o décimo termo em aparições. Apesar de serem distintos em seus conceitos, ambos são relevantes e deveras necessários para a obtenção da saúde.

103

Lazer, de acordo com Houaiss (2001), significa repouso, descanso, tempo que sobra do horário de trabalho e/ou do cumprimento de obrigações, aproveitável para o exercício de atividades prazerosas. Em dimensão crítica, pode-se entendê-lo, segundo Dumazedier (1976, p. 19), como “um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se [ ].” Trabalho, de acordo com o Aurélio (FERREIRA, 2000), deve ser entendido como aplicação das forças e faculdades humanas para alcançar um determinado fim, resultando em atividade coordenada, de caráter físico e/ou intelectual, necessária à realização de qualquer tarefa, serviço ou empreendimento. Este sentido descritivo exige maior reflexão, como a estabelecida por Sampaio (1998, p. 125):

Complexo de atividades que resulta na apropriação da natureza pelo homem, revestindo-se de formas específicas a cada modo de produção e de organização social. Apresenta, no capitalismo, uma dupla e contraditória natureza: concreta (atos necessários à criação de um determinado produto ou utilidade) e abstrata (tempo socialmente necessário para produção de mercadoria). O trabalho gera utilidade, mercadoria e relações sociais, parte de um projeto e transforma o transformador.

Como se percebe, após os conceitos de lazer e trabalho, determinados alunos entendem que possuir um tempo livre para a diversão e estar em condições físicas e mentais de realizar um trabalho são condições para a aquisição da saúde.

4.9.3 Conteúdos de Saúde Desejados nas Aulas de Educação Física.

A terceira e última questão subjetiva versava sobre quais conteúdos,

relativos à saúde, os alunos desejavam aprender durante as

Educação Física na escola. Os Quadros 19 e 20 sistematizam o resultado encontrado.

sessões de

104

Quadro 19 – Quadro da ocorrência superior ou igual a 20 aparições - O que gostaria de aprender sobre saúde, na aula de Educação Física?

Categorias

SER I

SER II

SER III

SER IV

SER V

SER VI

Total

n

n

n

n

n

n

n

Relação

30

51

62

24

39

46

252

Ativ.Fís/Saúde

Educação

para

22

40

23

21

44

31

181

Saúde

Alimentação

12

25

15

20

40

19

131

Drogas, álcool e fumo

12

11

11

10

13

11

068

Lazer e saúde

08

10

06

07

17

14

064

Saúde Sexual

08

12

04

05

11

02

042

Saúde

do

03

14

01

01

06

09

034

Coração

Higiene

04

09

02

01

11

03

030

Gravidez

03

11

04

02

03

01

024

precoce

Postura corporal

01

05

01

01

10

02

020

Fonte: dados da pesquisa

Quadro 20 – Quadro da ocorrência inferior a 20 aparições - O que gostaria de aprender sobre saúde, na aula de Educação Física?

Categorias

SER I

SER II

SER III

SER IV

SER V

SER VI

Total

n

n

n

n

n

n

n

Cultura e saúde

01

05

00

00

13

00

019

Serviços de

01

03

01

01

07

03

016

Saúde

Bulimia e

02

05

01

01

04

01

014

anorexia

Pesquisa Saúde

00

05

00

00

02

00

007

Sedentarismo

01

05

00

00

02

00

007

Obesidade

00

04

00

00

03

00

007

Moradia

00

01

00

00

01

04

006

Alongamento

00

04

01

00

00

00

005

Saúde Bucal

00

01

00

00

02

00

003

Doenças

00

00

01

00

03

00

004

Transmissíveis

Cidadania

00

00

00

00

02

00

002

Boas Maneiras

00

00

00

00

02

00

002

Amizade

00

00

00

00

02

00

002

Doenças

00

01

00

00

01

00

002

Respiratórias

Meio Ambiente

00

00

00

00

01

00

001

Família

00

01

00

00

00

00

001

Sistema

00

01

00

00

00

00

001

Muscular

Descanso/Sono

00

01

00

00

00

00

001

Paz

00

01

00

00

00

00

001

Onde: n = número de aparições de termos que foram inseridos na categoria. Fonte: dados da pesquisa

105

Serão comentados a seguir os 10 termos mais frequentes nas respostas dos alunos. A categoria que surgiu com maior frequência, na pergunta sobre o que os alunos desejavam aprender relacionado à saúde nas aulas de Educação Física, foi ‘Relação Atividade Física – Saúde’, com 252 aparições. O resultado demonstra a curiosidade e o interesse de grande parte dos alunos em aprender as causas, efeitos e mitos na inter-relação da prática da atividade física com a saúde, como apresentado nas falas a seguir.

Gostaria de aprender as características da Educação Física. (6º ano, SER I) Saber sobre como fazer exercícios. (6º ano, SER IV) Como ganhar saúde no futebol. (7º ano, SER III) O que é alongamento. (7º ano, SER V) Eu gostaria de saber mais sobre a Educação Física e os Esportes na saúde. (8º ano, SER I) Gostaria de saber se o esporte faz bem para a saúde. (8º ano, SER VI) Como praticar esporte para ter boa saúde. (9º ano, SER II) Sobre o bem estar de praticar atividade física. (9º ano, SER I)

De acordo com Darido (2005), a relação atividade física-saúde já é produzida na Educação Física. Para a autora, a abordagem da Saúde Renovada, proposta por Guedes e Guedes (1996), traz à tona esta discussão. Ficou entendido, entretanto, que os alunos envolvidos ainda não haviam sido apresentados a esta abordagem. Em segundo lugar os alunos elegeram a categoria ‘Educação para Saúde’, com 181 aparições. Esta categoria, na verdade foi um apanhado de sugestões que os alunos escreveram em suas respostas, como:

Tema sobre a boca, coração e outras partes importantes do corpo. (6º ano, SER I) Sistema muscular. (7º ano, SER VI) Hábitos saudáveis. (7º ano, SER II) Sistemas do corpo. (7º ano, SER V) Sobre pessoas que não podem fazer atividade física por que são doentes. (7º ano, SER IV) Como devemos fazer para ter uma saúde saudável. (8º ano, SER VI). Como eu posso me cuidar em casa para não pegar doenças. (9º ano, SER II).

106

Na perspectiva de Pedrosa (2001, p.270), Educação para Saúde é entendida por “quaisquer combinações de experiências de aprendizagem delineadas com vistas a facilitar ações voluntárias conducentes à saúde”. A categoria ‘Alimentação’, que nas duas perguntas anteriores apareceram em primeiro lugar, surge em terceiro posto nesta questão, com 131 aparições. Novamente nota-se que o assunto alimentação, destacado anteriormente como integrante do conceito de saúde, na primeira questão, e lembrado como uma atitude que produz saúde, no segundo questionamento; volta à tona. Os alunos sentem a necessidade de que este assunto precisa ser mais debatido nas aulas de Educação Física, pois a manutenção do peso, ligado ás questões de saúde e estética, estão relacionados à prática da atividade física.

Saúde alimentar. (6º ano, SER I). Alimentação saudável. (6º ano, SER II). Como comer bem e se exercitar. (7º ano, SER VI). Como se alimentar para ficar saudável. (8º ano, SER I). O que devemos comer para ter mais saúde. (9º ano, SER IV). Aprender a se alimentar direito. (9º ano, SER V).

A curiosidade sobre a relação entre o consumo de álcool, fumo e drogas com a saúde é a quarta colocada em número de aparições (n = 168). É importante ressaltar que o interesse neste tema por escolares é de grande relevância, pois, de acordo com pesquisa realizada em 2006, pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas-CEBRID, 12 anos é a média de idade em que ocorre o primeiro contato com algumas dessas drogas (FIEB, 2011). As falas a seguir demonstram a preocupação dos envolvidos:

Aprender a não usar drogas nem álcool. (6º ano, SER II). Entender porque as drogas fazem tanto mal. (7º ano, SER IV). Estudar os efeitos do álcool. (7º ano, SER V).

Os dados até aqui apresentados corroboram com as propostas de discussão sobre o tema saúde na aula de Educação Física Escolar, apresentados por Darido e Sousa Junior (2007). A categoria ‘Lazer e Saúde’ foi indicada como a quinta em número de aparições (n = 64). Entende-se que os alunos querem debater, discutir e entender o papel das práticas de lazer na saúde. Compreender como o jogo, a brincadeira, o esporte descompromissado, os momentos com os amigos e as

107

diversões de um modo geral influenciam na saúde é uma demanda de parte dos alunos.

Gostaria de aprender sobre saúde, lazer e brincadeiras. (6º ano, SER II). Estudar sobre como o lazer ajuda na saúde. (6º ano, SER I).

Queria saber como brincar ajuda a ter saúde. (8º ano, SER V). Diversão e saúde. (9º ano, SER IV)

.

A preocupação com a saúde sexual foi a sexta categoria em número de

aparições (n = 42). Assuntos ligados ao sexo e à saúde, como doenças sexualmente transmissíveis –DST estão entre as preocupações dos escolares.

Gostaria de saber como se pega doença na hora do sexo. (6º ano, SER VI). Sobre as doenças sexuais. (7º ano, SER V). Sobre AIDS. (8º ano, SER IV). Entender o que é saúde sexual. (9º ano, SER III).

De acordo com os PCNs (BRASIL, 1988b), o aumento vertiginoso da gravidez indesejada e da contaminação pelo vírus da AIDS entre adolescentes

faz com que o tema “Orientação Sexual” receba atenção especial na escola. A instituição escolar, e não somente a família, deve proporcionar a criticidade e a reflexão sobre o tema. A Educação Física, ainda segundo os PCNs (BRASIL, 1988b), é considerada um espaço privilegiado para a orientação sexual.

A categoria ‘Saúde do Coração’ foi a sétima em número de aparições (n

= 34). Esta foi uma das categorias que causou espanto e surpresa. Na idade dos alunos pesquisados, são mínimas as possibilidades de possuírem algum tipo de doença coronariana. Talvez o fato de que alguns alunos possuam pais ou parentes que apresentem alguma enfermidade no órgão, ou até preocupações de desenvolver doenças cardíacas no futuro, seja o motivo para o interesse no tema.

Aprender sobre as doenças no coração. (6º ano, SER I) Doenças cardíacas. (6º ano, SER II). Como fazer pra melhorar a saúde do coração. (7º ano, SER I). Por que acontecem doenças no coração. (9º ano, SER I).

A categoria ‘Higiene’, também presente nas

outras duas

questões

anteriores, se apresenta como a oitava em número de aparições (n = 30).

Sobre a limpeza e a saúde. (6º ano, SER III). Queria saber tudo sobre higiene do corpo. (6º ano, SER IV).

108

Higiene com alimentos. (7º ano, SER II). Higiene na hora em que estamos fazendo esportes. (8º ano, SER VI).

As preocupações com a gravidez na adolescência, aqui classificada como categoria ‘Gravidez Precoce’, com 24 aparições, ficou na nona colocação. Apesar de também ser um assunto relacionado com a saúde sexual, o tema foi separado, pois foram termos distintos usados pelos alunos quando responderam o que queriam aprender nas aulas de Educação Física sobre saúde. Enquanto alguns responderam assuntos ligados basicamente à saúde sexual como citado na sexta categoria desta análise, aqui os participantes tencionavam saber especificamente sobre como evitar a gravidez por meio de métodos anticoncepcionais.

Queria saber como não ficar grávida. (8º ano, SER I). Como evitar ter bebê. (8º ano, SER II). Como fazer sexo e não ficar grávida. (8º ano, SER IV). Como faço para minha namorada não ficar grávida. (9º ano, SER VI).

A décima categoria em números de aparições foi ‘Postura corporal’ (20). A postura do corpo, para muitos alunos, também interpretada como questão estética e não somente biomecânica, pode ser a causa da pretensão de compreender este tema.

Como ter um corpo como postura, bonito. (6º ano, SER V). Aprender sobre a postura do corpo. (8º ano, SER I). Conhecer como ficar com o corpo reto, bonito, forte. (9º ano, SER I). Porque devemos ter uma boa postura. (9º ano, SER III)

A categoria ‘Cultura e saúde’, com 19 aparições, colocando-se em décimo primeiro lugar, também muito nos surpreendeu. Questões relacionadas a cultura e saúde não são muito comuns em debates na idade escolar.

Queria saber sobre a cultura de outros países sobre saúde. (6º ano, SER II).

O

que a cultura influencia na saúde. (6º ano, SER IV).

O

que é cultura da saúde. (7º ano, SER III)

A

saúde e a cultura. (9º ano, SER V)

109

Ao apresentar os resultados, verificou-se o interesse dos alunos na aplicação dos Temas Transversais propostos por meio dos PCNs (BRASIL,

1998).

4.10 Principais Achados

Após a apresentação dos resultados e da análise dos dados, verifica-se, como principais achados, voltados ao saber discente, que os participantes, em sua maioria, compreendem que a Educação Física é da área da saúde, entretanto, afirmam que receberam poucas informações sobre o tema durante as aulas da disciplina. Informaram também que são poucos os professores que recorrem ao conteúdo temático da saúde em suas aulas. Apesar deste dado, entendem que a prática do exercício, isolada, não pode oferecer saúde. Percebem que a aula de Educação Física, tal como que lhes é oferecida, não contribui para a aquisição de conhecimento sobre saúde. A maior parte dos envolvidos jamais participou de uma aula de campo, realizou pesquisas ou participou de sessões de Informática sobre o tema saúde.

De modo geral, conceituam saúde a partir de expressões simples, basicamente extraídas do senso comum. Para grande fatia dos participantes, o conceito está ligado aos atos biológicos de alimentar-se, praticar exercícios e não possuir doenças. Para estes alunos, são necessárias outras atitudes para a consecução da saúde, além da prática do exercício: alimentação adequada, praticar esportes e não fumar/beber/usar drogas. Por fim, a maioria gostaria que, nas aulas de Educação Física, o tema ‘relação atividade física/saúde’ fosse efetivamente abordado.

110

5

FÍSICA

A

PRÁTICA

DOCENTE

SOBRE

SAÚDE

NA

EDUCAÇÃO

Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.

Cora Coralina

Neste capítulo são aduzidas as informações obtidas nas entrevistas aos nove docentes das escolas envolvidas. As questões versaram sobre: a) conceito de saúde; b) utilização do tema saúde nas aulas de Educação Física; c) aplicação do tema nas aulas da disciplina; d) objetivo da Educação Física no que se refere a saúde; e) aplicações de aula de campo envolvendo o tema; f) aspectos mais relevantes em saúde para serem abordados nas aulas; e g) percepção do envolvido sobre a resolubilidade da aula de Educação Física e a aquisição de conceitos de saúde pelos alunos. Os resultados e suas discussões são apresentados a seguir.

5.1 Conceito de Saúde

A primeira questão da entrevista versava sobre o conceito de saúde dos

docentes. Percebe-se que as respostas foram objetivas, curtas e demonstrando conhecimento fragmentado. Foram alocadas em três categorias:

a primeira, mais frequente, recorre à memória da clássica conceituação de saúde da OMS; a segunda sugere uma formulação conceitual similar aos preceitos da Saúde Coletiva; e a terceira envolve respostas que se voltam para a relação causal atividade física-saúde e a preocupação exclusivamente com o corpo, como reflexo do pensamento predominantemente biológico na Educação Física.

A maior parte das respostas, dois terços dos envolvidos, conecta-se ao

conceito da OMS conforme é descrita em sequência.

É

bem complexo não é só a ausência de doença tem que ser

o

bem-estar físico e mental. (SER I, Prof. 1)

Saúde na minha visão é uma sensação de bem estar da pessoa. (SER I, Prof. 2)

111

Saúde para mim é fora dizer os conceitos pré-estabelecidos é um utilize geral do ser humano, seja no aspecto físico, seja no aspecto espiritual ou mental, quando você consegue de alguma maneira equilibrar todos esses aspectos no ser humano, eu posso dizer que é uma pessoa que está com saúde. (SER II, Prof. 1) É o completo bem-estar físico, mental e psicológico do ser humano. (SER I, Prof. 2) Conceito de saúde é o bem-estar físico e mental do individuo para realização de suas atividades diária e cotidiana. (SER III, Prof. 1) É o completo bem estar físico e mental. (SER V, Prof. 2)

O conceito da OMS, divulgado em 7 de abril de 1948, reforça o reconhecimento do direito à saúde e da obrigação do Poder Público de

oferecer saúde. Diz que “Saúde é o estado do mais completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de enfermidade”. Saúde deveria expressar o direito a uma vida plena, sem privações (SCLIAR, 2007).

A proposição da OMS apresenta pontos que devem ser debatidos: a) o

conceito de bem-estar é por demais subjetivo, pois o que é bem-estar para uma pessoa pode não ser para outra; b) o conceito é utópico e definir a saúde

como um estado de completo bem-estar faz com que a saúde seja algo ideal, inatingível; c) o conceito pode abrir portas para abusos por parte do Estado a título de promoção de saúde de sua população. Segundo Scliar (2007), o conceito de saúde reflete a conjuntura social, econômica, política e cultural. Para o autor, saúde não possui o mesmo

significado para pessoas distintas e depende da época, do lugar e da classe social do indivíduo. Depende, ainda, de valores individuais, concepções científicas, religiosas e filosóficas. Finaliza sua idéia, expressando que o mesmo pode ser dito das doenças.

A definição de saúde da OMS é do ano de 1948 e, pelo número de

respostas dos participantes deste estudo que concordam com este conceito,

nota-se que a teoria da Educação Física necessita se atualizar e discutir com esteio nos novos prismas da saúde.

A resposta que indica uma conexão com o conceito da Saúde Coletiva

foi única:

Saúde nos dias atuais é um conceito bem mais amplo do que somente ausência de doença, passa por um bem estar, não só

112

físico, não só orgânico como também um bem estar social se não tem garantia de condições de moradia, acesso a saúde como um bem a pessoa pode considerar ter saúde. Eu entendo saúde não só como a questão da doença, mais a questão de bem estar geral. (SER IV, Prof. 1).

A resposta do docente nos remete a Bagrichevsky e Estevão (2005, p.71) quando ressaltam que “o campo da Saúde Coletiva designa um agregado de saberes e práticas referido à saúde como fenômeno social e, portanto, de interesse público”. Uma das respostas conduz o conceito de saúde predominante na Educação Física biologicista, em que a prática de atividade física é vista como sinônimo de vida saudável:

Saúde não é só a ausência de doença, muita gente confunde que saúde é não ter doença, você pode muito bem conviver com alguma doença e ter saúde promovendo atividades

físicas adequadas (

). (SER V, Prof. 1).

Na mesma linha, a intensa relação entre a Educação Física e o corpo como sua única fonte de preocupação foi apresentada em uma resposta:

É você se sentir bem com o seu corpo e estar saudável. (SER VI, Prof. 1)

As duas respostas exibidas assinalam que a Educação Física desconsidera, muitas vezes, os aspectos sociológicos da saúde e abraça o “enfoque reducionista de saúde que a Educação Física tem hegemonicamente advogado, permitindo para si um papel difusor de ideias rasas e simplistas do tipo ‘pratique exercício e ganhe saúde”. (BAGRICHEVSKY; ESTEVÃO, 2005,

p.69).

Em muitos campos da Educação Física, a saúde privilegia o enfoque biológico, que implica a defesa da relação causal atividade física/saúde, desconsiderando aspectos sociais, culturais, filosóficos e econômicos, responsabilizando unicamente o indivíduo por sua saúde (BAGRICHEVSKY; ESTEVÃO, 2005; CARVALHO, 2004; DESLANDES, 2004).

113

Quando comparados com os resultados dos alunos 13 , que citaram como conceito de saúde, principalmente, a junção entre boa alimentação, prática de exercícios e ausência de doenças, compreende-se que os professores envolvidos no estudo, em sua maioria, possuem conceitos semelhantes aos discentes. Observou-se que os alunos, mesmo sem o conhecimento técnico do conceito da OMS, abordam o bem-estar físico, com destaque para alimentação e atividade física, mental e social, novamente conseguido pela prática de atividades físicas; e a ausência de enfermidades e invalidez. Tal comparação proporciona a reflexão acerca do conceito de saúde da OMS como definição difundida pela população em geral, tornando-se senso comum. Pelo exposto nesta discussão compreende-se o aceite dos alunos pela popularização do conceito da OMS, entretanto, é necessário que os docentes, os cursos de formação de professores de Educação Física e a literatura da área elevem a discussão sobre o conceito em foco. Costa e Venâncio (2004, p.70) garantem que “uma parte dos profissionais de Educação Física está deixando de apresentar um posicionamento crítico e ético diante da ação da mídia e dos avanços biotecnológicos”.

5.2 Utilização do Tema Saúde nas Aulas de Educação Física

Em todas as respostas a esta pergunta a afirmação positiva foi percebida. Os nove professores disseram utilizar o tema saúde em suas aulas. Antes da apresentação e discussão destes resultados, porém, uma grande preocupação ficou registrada no diário de campo, durante a coleta de dados com os professores. Ao serem comparados os resultados desta questão com a pergunta direcionada aos alunos – “Seu professor, nas aulas de Educação Física, fala sobre saúde?” 14 – emerge, claramente, uma contradição. Verificou-se que dos 914 participantes discentes da pesquisa, 552 envolvidos, 61% exprimiram que

13 As categorias mais freqüentes nas respostas dos alunos foram: Alimentação (n = 245 aparições), Praticar Exercícios (n = 226) e Ausência de Doenças (n = 143).

14 Questão 03 do questionário aplicado aos discentes da pesquisa.

114

o docente não comentava ou abordava este assunto nas sessões de Educação Física.

Como tantos alunos reportaram-se à não utilização do tema saúde pelos docentes se 100% dos professores envolvidos afirmaram recorrer ao tema em questão? Ao lembrar a aplicação das entrevistas, observou-se, em alguns casos, insegurança por parte dos envolvidos em relação ao seu anonimato. Além disso, certos professores desconfiavam que suas práticas estivessem sendo avaliadas. Talvez por estes motivos uma parte dos participantes tenha retido ou omitido informações importantes. Mais grave: ao comparar os resultados com as respostas dos alunos, percebe-se que algumas respostas não diziam com a realidade da prática dos docentes. Observação do pesquisador, pelos cenários do estudo, realizada informalmente e registrada no diário de campo, possibilitou perceber que, em sua maioria, as aulas se davam apenas pela prática com bola, sem nenhuma relação com a teoria e muito menos envolvendo algum tema ligado a saúde. Não havia discussões nem debates, o que difere do conteúdo das respostas dos docentes. Tais fatos são alertados por Parry (2000). Em seu estudo, o autor ressalta que a coleta de dados obtida por meio de entrevista possui desvantagens, como a falta de motivação do entrevistado para responder às perguntas e fornecimento de respostas falsas por motivos pessoais ou políticos. Apesar do exposto, realizou-se o exercício de análise dos conteúdos das falas, da maneira como se ofereceram ao pesquisador. As respostas para esta questão revelam, ao menos nas falas dos envolvidos, que todos os professores participantes da pesquisa usam o tema saúde em suas aulas. Na verdade, as diferenças se apresentavam nos motivos e metodologias. As respostas foram classificadas em duas categorias: motivos da utilização do tema saúde nas aulas e metodologias de ensino. A seguir se apresentam os motivos citados pelos professores:

as vezes eles não tem o acesso a determinadas

informações e nós professores de Educação Física, nós somos o meio pra informar hábitos saudáveis de vida, sobre higiene, que tudo leva a ter saúde. (SER I, Prof. 1).

) (

115

porque é um tema que precisa ser lembrado a todo o

momento pelos alunos (

aspectos da saúde, seja mental, seja espiritual, seja do corpo, eu tô abordando com eles. (SER II, Prof. 1). Exatamente por ter esse conceito amplo, envolver vários segmentos da vida cotidiana do aluno, tem que se fazer

presente aí, tem uma grande importância porque a partir deles nós vamos discutir outras situações corriqueiras, a gente trabalha em comunidade carente, sem saneamento básico, isso passa por saúde. (SER IV, Prof 1).

) (

abordo muito esse problema da saúde, sobre a

) (

então enquanto puder falar desses

)

alimentação, quebrar alguns paradigmas. (SER V, Prof. 1). Sempre quando há necessidade, informação começa pela higiene que faz bem pra saúde, a importância de fazer exercícios os benefícios. (SER V, Prof. 2).

Os motivos ora citados, para a utilização do tema saúde nas aulas de Educação Física, apresentam consonância com determinadas propostas da Saúde Coletiva, ao abordar temas favoráveis à saúde, além da atividade física. Nos motivos citados a seguir, entretanto, o pensamento da relação causal entre ‘atividade física/aquisição da saúde’ retorna aos discursos dos professores, como é compreensível nas falas:

) (

importância do exercício que ele está fazendo, as atividade,

que ele está desenvolvendo, principalmente porque a própria Educação Física leva o aluno a ter uma melhor condição de vida, uma melhor saúde, dependendo da forma como ela for executada. (SER I, Prof. 2).

Para eles terem consciência sobre o próprio corpo, para eles terem cuidado com as decisões, entenderem que as escolhas que eles fazem tem um impacto diretamente na saúde deles e

a importância desse conteúdo nas aulas de Educação Física.

(SER II, Prof. 2). O objetivo de mostrar o bem-estar pra realização de suas atividades. Se o aluno estiver bem consigo, com os outros, mentalmente e na sua condição física ele está bem com a saúde. Eu digo até pra eles uma boa atividade física, mais uma boa alimentação e um bom descanso, é igual à saúde é

a fórmula básica para ter uma boa qualidade de vida. (SER III, Prof. 1) 15 .

porque a Educação Física tem a ver com a saúde, acho

que ela não tem só a relação pedagógica, ela tem também a

porque eu acho interessante que os alunos entendam a

) (

15 Grifo do autor.

116

relação com a saúde, porque o aluno, na prática de Educação Física, ele está se exercitando e aquele exercício que ele está fazendo vai trazer benefícios pra saúde deles, seja na parte esportiva mais ligada ao objeto que é o esporte, seja na luta, seja na dança. (SER VI, Prof. 1) 16 .

Ao observar as falas citadas, não seria correto deixar de concordar e até aceitar o fato de que as práticas de atividades físicas trazem benefícios para a saúde, porém esta prática não pode ser restrita somente ao seu componente biológico, devendo, porém, ser entendida em seu conceito mais amplo. Conforme Bagrichevsky e Estevão (2005, p.67), “é complicado consentir na aceitação acrítica de que é tão simplesmente mantendo-se ativo que se obtém saúde”. A proposta é de que, junto com a prática da atividade física, aspectos sociais e da realidade dos alunos também sejam abordados, pois só assim a saúde dos indivíduos poderá ser discutida. Este tópico pode ser finalizado com apoio de Carvalho (2004), autora para quem a saúde humana resulta das incorporações individuais das transformações econômicas, sociais e políticas. Se o conteúdo está manifesto, qual o método de ensino, usado pelos professores, para abordar o tema da saúde? As falas a seguir apresentam a posição dos envolvidos:

Nas aulas teóricas (

deles a importância daquele exercício e a finalidade o objetivo que iremos atingir levando em conta a saúde, a postura, a

respiração, coisas desse tipo (

(

questões contextualizando com a realidade deles e também

na questão prática eu fiz um trabalho de relaxamento com eles

falando da importância (

estado emocional (

mas, que de certa forma, trabalha esse tema. (SER II, Prof. 2). Eu utilizo mais nas aulas teóricas associando e mostrando pra

eles que pra ter uma boa prática eles têm que ter uma boa saúde. (SER III, Prof. 1). Eu trabalho a saúde com informações, nesse bimestre a gente tá fazendo um trabalho sobre alimentação, recortando rótulos, aprendendo um pouco sobre informações nutricionais em outro bimestre falamos sobre higiene pessoal. Nas aulas práticas, temos dificuldades por não temos quadro nem

para a saúde mental deles e o

eu não digo que é exatamente saúde

de forma que essas

agente procura passar para cada um

)

).

(SER I, Prof. 2).

)

)

de forma teórica na sala de aula (

)

)

16 Idem

117

espaço, aí nos adaptamos alguma coisa em sala mesmo, texto, alguma coisa assim. (SER IV, Prof. 1).

Aulas teóricas através de trabalhos, mando pesquisar, dou o tema e eles vão pesquisar. (SER V, Prof. 1).

A gente faz uns comentários tipo conversa (

tem depois das aulas. Eu não passo muito teoria, peço mais

que ele façam pesquisa, isso eu faço mais na recuperação agora quando é, digamos assim, no período normal se eu passar um trabalho agente faz mais é conversar e debater sobre o tema. (SER V, Prof. 2).

)

que a gente

Nas falas citadas nota-se que a aula teórica é o caminho único para tratar o tema nas sessões de Educação Física, pois, para a maioria destes docentes, a aula prática não é o local ideal para a aplicação do tema saúde. Ressalte-se o fato de que 1/3 dos entrevistados defende a transmissão do conteúdo em aulas teórico-práticas:

Nas aulas teóricas, com trabalhos e pesquisas, na parte prática principalmente na questão de alongamento, postura, na importância da atividade física. (SER I, Prof. 1).

) (

aula eu tenho trabalhado o Yoga, que é ai que eu vou fazendo

meus trabalhos em grupo. (SER II, Prof. 1).

) (

esse tema saúde de forma bem diversificada, se for trabalhar da 1ª á 4ª séria você pode trabalhar o tema de forma mais

recreativa (

dentro da própria aula a gente sai abordando o tema, isso não que dizer que a gente não possa abordar da forma de trabalho, um trabalho que passei esse ano foi sobre

obesidade, onde eles tinham que pesquisar calcular o IMC deles. Eu abordo de forma indireta mais que poderia ser aprofundado muito mais. (SER VI, Prof. 1).

(

eu venho trabalhando mais as ginásticas e em sala de

de forma indireta, dependendo da série, a gente utiliza

)

)

geralmente eu abordo na própria aula prática

Cabe aqui uma pequena digressão sobre as aulas teóricas na Educação Física. Há escolas onde a disciplina é realizada somente de forma prática; outras em que existem aulas distintas, teóricas e práticas; e, ainda, há aquelas nas quais a teoria divide espaço com momentos práticos. Barbosa (1997), em seus estudos sobre teoria e prática, sustenta a tese de que o processo interno e abstrato, o pensamento, é adquirido na teoria e, por sua vez, o ato concreto de sentir, ver, ouvir e sentir o conteúdo da aprendizagem só é transmitido pela prática. Assevera ainda, ser na aula prática

118

que os conteúdos das aulas teóricas são inseridos na práxis dos alunos mediante a realização do gesto motor imbuído de cultura corporal. Todas as aulas podem ser divididas em dois momentos: segmento teórico e segmento prático, como defendem Mattos e Neira (2000). Para esses autores, a parte teórica objetiva a compreensão de conceitos e a parte prática objetiva vivenciar o que foi assimilado na teoria. As aulas teóricas na Educação Física ainda são escassas. Zimbres (2001) demonstra a afirmação e explica que os principais motivos são: os conhecimentos teóricos são relacionados aos interesses dos professores e não direcionados aos interesses dos alunos; tanto professores como alunos compreendem que as aulas teóricas devem ter como ambiente exclusivo a sala de aula ou qualquer outro ambiente fechado; grande parte dos professores não possui embasamento teórico e domínio de técnicas criativas para transmitir os conteúdos aos alunos, independentemente do cenário; muitos professores se mantêm reféns da concepção de que teoria é metafísica, especulação, perda de tempo nas aulas. A presente pesquisa identifica a utilização de aulas práticas e teóricas para a transmissão do conceito de saúde. Deduz-se, portanto, que somente a minoria dos docentes entrevistados compreendem que teoria e prática se completam.

5.3 Aplicação do Tema Saúde nos Conteúdos da Educação Física Escolar (Jogos, Esportes, Ginásticas, Lutas e Danças)

As respostas a esta questão representam outra contradição entre docentes e discentes. Ante a pergunta ‘se os professores utilizavam o tema saúde em suas aulas e como o faziam’, dos nove respondentes, seis recorriam a aulas unicamente teóricas e três relataram que recorriam tanto as aulas práticas quanto às teóricas. Nesta questão, todavia, os nove participantes exprimiram que utilizavam o tema saúde durante as aulas práticas que envolviam os conteúdos da Educação Física Escolar (jogos, esportes, ginásticas, lutas e danças), como é observado nos exemplos a seguir:

119

Sim. Mostrando pra eles que a prática regular de atividade

que eles

possam ter essas informações para aplicar também no dia a dia. (SER I, Prof. 1).

Sim. Jogo deve falar dos cuidados que os atletas devem ter a questão da higiene, treinamento. Lutas: a origem da luta, como eles se comportam, como e que eles lidam com o corpo deles, até falo também de qualidade de vida que inclui saúde também; Dança: agente fez um trabalho de São João, agente

falou do cuidado que tem que ter (

Sim, deve através da realização de seminários, mostrando

para eles que o bom desenvolvimento nos jogos, nos esportes e na luta ele tem que ter uma boa saúde física e mental. Na prática eu divido minhas aulas sempre em início, meio e fim sendo o início sempre uma palestra sobre um assunto da atualidade. Saúde eu abordo este tema sempre no começo do ano trabalhando com a parte da avaliação física, avaliação biométrica e falo de qualidade de vida e falo de boa alimentação ligada á saúde. (SER III, Prof. 1).

É possível (

eu trabalho no ensino fundamental II, são as

crianças maiores, aí você tem de usar um linguajar, um procedimento didático que o alcance, se for falar coisas muito

científicas entra no ouvido e sai no outro. Abordo dentro dos

eu acho que quando você está

dando a prática também está dando a teórica ao mesmo

tempo (

física também vai influenciar na saúde deles (

)

).

(SER II, Prof. 2).

)

jogos, dentro das aulas (

)

)

na aula prática você pode abordar a parte teórica,

dá logo o exemplo na hora. (SER V, Prof. 1). Sim, através dos jogos na iniciação nas crianças da 1ª á 4ª série a questão da saúde conhecendo o que acontece com o corpo deles, verificando os batimentos cardíacos após uma brincadeira, noções de higiene conhecimento sobre o próprio corpo, já do 5º ao 9º ano, de forma mais abstrata, depois da atividade física também pedir os batimentos cardíacos, você junto com eles fazer uma pesquisa na área, acho que neste

sentido, passar alguns trabalhos relacionados à própria área

(

)

(SER VI, Prof. 1).

De acordo com Betti (1991), a Educação Física não deve se preocupar apenas com o ato motor, com o saber fazer; é necessário que o aluno entenda os motivos e os benefícios da atividade física, compreenda os conceitos referentes à saúde e assimilem conhecimentos teóricos que apoiem suas práticas. Concordando com o autor citado, Zabala (1999) explica que é relevante, no ensino-aprendizagem, fazer com que o aluno compreenda o conceito, o

120

aplique na prática e o utilize como um fator atitudinal, extraindo lições para a vida pessoal. O professor pode aplicar o tema saúde ao utilizar jogos, esportes, ginásticas, lutas e danças. Por exemplo, em uma aula de dança, pode explicar, teoricamente, os benefícios da prática da dança para a saúde, o controle da frequência cardíaca e o cuidado para evitar lesões. No momento prático, pode aplicar o que foi estudado, solicitando aos alunos que verifiquem sua frequência cardíaca antes, durante e depois da aula.

5.4 Objetivos da Educação Física Escolar no que se Refere à Saúde

Para melhor compreensão, este tópico foi dividido em duas partes, a primeira relacionada ao objetivo da aplicação do tema saúde nas aulas de Educação Física e a segunda ao modo como o objetivo poderia ser atingido. Sobre o objetivo, as falas dos envolvidos apresentavam:

Informar os alunos nesse aspecto geral como eu já falei, na

prevenção (

Conscientizar os alunos sobre a importância da saúde, nos sabemos que a prevenção e muito mais importante do que tratar a doença lá na frente e como a gente trabalha com criança, você desenvolve esse pensamento desde o começo, irão se tornar adultos mais conscientes que podem cuidar mais da sua saúde e das dos outros. (SER IV, Prof. 1). É você cuidar bem do seu corpo e se utilizar da Educação Física como forma de prevenção contra doenças, incentivar através da Educação Física uma vida de exercício físico, promover um estilo de vida saudável e oferecer também uma prática, não se ater só a teoria mas ao mesmo tempo oferecer essa prática de Educação Física com objetivo ter esse estilo de vida saudável. (SER VI, Prof. 1).

).

(SER I, Prof. 1).

Nestas três respostas, evidencia-se o uso da palavra prevenção. A prevenção em saúde "exige uma ação antecipada, baseada no conhecimento da história do caso a fim de tornar improvável o progresso posterior da doença" (LEAVELL; CLARCK, 1976, p.17). A prevenção é de grande relevância em qualquer área, seja no combate às injustiças sociais, à violência, ao analfabetismo, ao uso de drogas, à gravidez precoce, às doenças sexualmente

121

transmissíveis, por exemplo. Prevenir é antecipar-se e controlar situações que podem ensejar conflitos sociais e prejuízos as pessoas individualmente. No campo da saúde, a prática da atividade física pode ser um dos componentes ativos para a aquisição da boa qualidade de vida dos sujeitos coletivos. Isolada de outros fatores, porém, a atividade física não é capaz de produzir saúde. O que não se pode é renunciar ao seu uso, pois, somada a vários dispositivos das dimensões sociais, econômicas, familiares, financeiras e psicológicas, desempenha forte papel preventivo. De acordo com a Carta Brasileira de Prevenção Integrada na Área da Saúde (CONFEF, 2011) as ações de prevenção são estratégias positivas de intervenção para o desenvolvimento humano; provoca o bem-estar dos indivíduos; deve ser entendida como uma ação de enfrentamento a desafios relativos a saúde e qualidade de vida; e deve ser desenvolvida na perspectiva integral, interdisciplinar e intersetorial. Outros objetivos foram citados:

a Educação Física, quando a gente volta pra esta parte da saúde, a gente prioriza muito isso, ver a necessidade e

realidade do aluno (

(

)

). (SER I, Prof. 2).

) (

enquanto eles não tiverem cuidando das suas saúdes,

como todos esses aspectos eles realmente não vão ser pessoas felizes. Tem que trabalhar todos esses aspectos constantemente (SER II, Prof. 1).

trabalhar o ser humano de forma holística, pois, tudo que

se trabalha desta forma está incluído o entendimento sobre saúde pelos princípios da Educação Física. (SER II, Prof. 2)

A melhoria do desenvolvimento físico, mental (

Prof. 1).

(

estar físico, como também o social. Pela Educação Física a gente pode fazer com que os alunos sejam mais cooperadores, mais companheiros, solidários, e tenham a noção do mundo em geral e das regras da sociedade através do esporte, porque ao praticar aquela modalidade, ele tem que obedecer as regras então eles sabem os limites e as penalidades que isso acarreta.(SER V, Prof. 2)

) é fazer com que os alunos se interessem não só pelo bem

) (

)

(SER V,

Os objetivos citados demonstram aspectos relacionados à realidade dos alunos, fundamentando-os na perspectiva humanística do cuidado, da integralidade e do respeito ao contexto social de produção das condições de existência, dos estilos de vida e das representações. Estes objetivos fazem

122

parte das preocupações da Saúde Coletiva para o bom desenvolvimento do ser humano. Ayres (2001), inspirado no filósofo Heidegger, assevera que o sentido da existência humana é a atitude, a condição e a ação de cuidar. O cuidado, na visão desse autor, é considerado um elemento essencial que oferece a oportunidade de compreender a condição de ser humano. A condição de cuidar, durante uma sessão prática da Educação Física, oferece ao profissional ser na essência humano, já que ao cuidar, atinge sua excelência como homem. Outro objetivo, isolado e redutivo à dimensão biológica, foi citado, exemplificando a lógica causal, direta, entre atividade física e saúde:

Mostrar pra eles que a atividade física ligada à saúde tem uma continuidade no decorrer de sua vida, não aquela atividade física só pela atividade física. (SER III, Prof. 1).

Sobre

como

apresentavam:

atingir

os

objetivos

citados,

as

falas

dos

envolvidos

Costumo dar aulas teóricas pelo menos uma vez ao mês.

(SER I, Prof. 1). Através de todas as atividades que a Educação Física oferece

) (

ela de aspecto lúdico, recreativo, ou então mesmo através dos esportes, apresentando todas essas ações nas atividades você imediatamente já consegue atrelar a esse aspecto da saúde, é assim que eu acredito. (SER II, Prof. 1).

)Montando (

estratégias onde os alunos percebam essa

a gente pode fazer uso de um gama de atividades, seja

importância, essa forma de ver o ser humano em todas as

suas dimensões sociais (

respeito, eles trabalharem um pouco a tolerância com o outro

e com as diferenças. (SER II, Prof. 2).

Tentando usar o que tiver de disponível de recursos o máximo possível procurar ler sobre e discutir com os colegas (SER IV, Prof. 1).

A gente faz competições, faz jogos lúdicos com eles, procura

passar pra eles o coletivo e o individual, respeitando sempre o

colega, os valores morais, não só o valor esportivo, o valor moral. (SER V, Prof. 1). Através da aplicação das aulas, fazendo com que eles pratiquem e se interessem pelas aulas e gostem de vir para as aulas de Educação Física. (SER V, Prof. 2). É você trabalhar de forma conjunta com o colégio, com planejamento com as coisas andando de forma mais interligada. (SER VI, Prof. 1).

como lidar com o corpo, o

)

123

É necessário que exista planejamento para que os professores de

Educação Física atinjam seus objetivos. Na observação informal, notou-se que os docentes realizavam suas aulas sem planejamento prévio, o que impossibilita a sequência pedagógica.

O planejamento é processo que inclui reflexão, decisão, previsão de

necessidades, meios e recursos disponíveis, “visando à concretização de objetivos, em prazos determinados e etapas definidas, a partir dos resultados das avaliações” (PADILHA, 2001, p. 30).

5.5 Atividades Extras Sala, Utilização do Laboratório de Informática e Pesquisas sobre o Tema Saúde

Havia três perguntas no questionário aplicado aos alunos relacionadas

ao tema desta questão oferecida aos professores. Em duas, as respostas indicam contradição, e em uma aponta consonância.

A maioria dos alunos relatou jamais haver participado de aulas de

Educação Física no laboratório de Informática da escola e nunca ter realizado pesquisas sobre saúde a rogo do professor de Educação Física.

Surpreendentemente, todos os professores envolvidos, exceto um - “Ainda não, mas eu pretendo fazer” (SER II, Prof. 1) - responderam que solicitavam pesquisas e realizavam aulas em laboratórios sobre o tema saúde. Mais uma vez, parece que alunos e professores situam-se em escolas diferentes. Sobre a discordância da realização de pesquisas sobre o tema saúde, pode-se destacar, nas falas dos docentes:

Eles foram ao posto de saúde e lá fizeram os testes, eles trouxeram os resultados e nos fizemos uma estatística de como estava a turma, foram ao laboratório fazer pesquisa sobre os temas que pedi. (SER I, Prof. 1). Só pesquisa sobre o tema saúde e no laboratório: Para os alunos que são dispensados ou por motivos de Saúde passo um trabalho sobre os benefícios da atividade física para a saúde. (SER I, Prof. 2).

ditadura da

no laboratório pedi para pesquisar sobre ( beleza. (SER II, Prof. 2).

(

)

)

124

Só pesquisa sobre o tema saúde. A saúde ligada a

importância da atividade física pra eles no futuro da sua qualidade de vida.(SER III, Prof. 1).

Já realizei palestras em sala de aula (

aula no laboratório sobre o tema do bimestre, que é os alimentos. (SER IV, Prof. 1). Já solicitei pesquisa sobre saúde, e laboratório de informática eles também tem acesso pra pesquisar qualquer tipo de

já programei uma

)

já pensei em trazer um

profissional da saúde, um médico, um nutricionista. (SER V, Prof. 1).

Solicito pesquisas, mais na recuperação, esporadicamente

dependendo de um tema (

Já solicitei pesquisa sobre obesidade, à história do vôlei e geralmente voltada para o conteúdo em que estou trabalhando. (SER VI, Prof. 1).

assunto ligado à saúde, esporte (

)

) (SER V, Prof. 2).

De acordo com Demo (2002, p. 52), “pesquisa é ainda um fetiche acadêmico”, e é encarada por muitos professores como uma atividade que requer muito tempo, recursos materiais e físicos e formação própria. Neste pensamento, a pesquisa seria atividade destinada somente a pesquisadores, mestres e doutores, no âmbito das universidades, e não na escola. A maioria dos alunos declarou que seus professores não promoviam palestras ou aulas de campo sobre saúde. Todos os docentes, ao serem questionados sobre isso, assumiram a não realização da prática. Explorando melhor esta concordância, encontram-se as seguintes afirmações por parte dos professores:

Não, recentemente não, mas uma vez eu fiz pra que eles trabalhassem a questão do IMC, eles foram fazer medição e

peso porque na escola não tinha balança, eles foram ao posto

de saúde e lá fizeram os testes(

Não, não houve tempo, eu só estou há um mês aqui. Ainda não, mas eu pretendo fazer. (SER II, Prof. 1). Nos outros locais nunca levei. (SER I, Prof. 2).

Não tive tempo de visitar posto de saúde

Só trabalhei a parte de pesquisa não trabalhei o restante (visitas). (SER III, Prof. 1). Não saímos da escola. (SER IV, Prof. 1). No posto de saúde não tem a mínima condição de levá-los (SER V, Prof. 1). Não realizei outras atividades por falta de tempo e pra gente ir para um posto desses requer uma série de dificuldades por conta da burocracia é uma responsabilidade de sair com estes

). (SER I, Prof. 1).

(SER II, Prof. 2).

125

alunos fora do comum, ai é melhor não mexer no que está quieto. (SER V, Prof. 2).

Não, (

a gente volta àquela questão de novo, o tempo e os

a fazeres que o professor tem no colégio, é muito pouco, isso

atrapalha (

)

).

(SER VI, Prof. 1).

A aula de campo é uma importante ferramenta para a assimilação de conteúdos. Freire (2001) ressalta que é necessário formular o conhecimento coletivo, articulando o saber popular, crítico e científico por meio das experiências do mundo. Desta forma, observa-se um déficit na condução do ensino-aprendizagem dos envolvidos.

5.6 Conteúdos Fundamentais para o Ensino da Saúde no Ensino Fundamental II – 5º ao 9º ano

Quando questionados sobre quais conteúdos consideravam mais relevantes para o ensino-aprendizagem sobre saúde nas aulas de Educação Física, os professores relataram:

Higiene básica de saúde corporal, a questão da alimentação que eles devem ter, alimentação saudável, a postura nos exercícios, o próprio incentivo pela prática regular de atividade física não só a Educação Física, dentro da escola, mas fora também e promover o esporte. (SER I, Prof. 1).

aspecto da higiene, eu acho que é uma coisa que

precisa ser muito bem trabalhada (

saúde e a higiene do corpo (

saúde dos dentes, a

)o (

)

).

(SER II, Prof. 1).

postura de sentar, de movimentar, de andar de fazer os

exercícios corretos, a saúde, principalmente em relação a doenças sexualmente transmissíveis e também ligados a saúde, hoje eu falei em relação as drogas. Ter cuidado com a droga para poder ter uma boa qualidade de vida, uma boa

saúde.(SER III, Prof. 1). Primeiro ele ter essa noção de quebrar o paradigma de que ter

saúde é não estar doente (

É fundamental pro resto da vida, você sabe que os bons

hábitos (

adequada, repouso e controle do stress (sono). A atividade

física. O corpo não pode ficar parado.(SER V, Prof. 1).

Como eu já falei anteriormente é o cuidado consigo mesmo, é

a importância deles saberem que cuidando da higiene da

saúde, praticando exercício, atividade física, isso gera benefícios pra ele de grande importância, não só aquele negócio de jogar, de praticar, mas eles terem com eles a

) (

).(SER IV, Prof. 1).

)

alimentação, atividade física regular, alimentação

126

necessidade de saber que isso faz bem até o fim da vida. (SER V, Prof. 2). Eu acho que é muito viável trabalhar a questão do corpo, da estética, com relação à saúde, como o estilo de vida saudável, eu acho que é legal abordar, neste sentido também abordar noções básicos de fisiologia.(SER VI, Prof. 1).

As categorias inseridas nas falas dos docentes que surgiram com maior frequência foram: relação atividade física/saúde, com seis aparições; higiene, com três aparições; alimentação, postura e qualidade de vida, cada qual com duas aparições; e saúde bucal, cuidado de si, autonomia, doenças sexualmente transmissíveis, drogas, conceito de saúde, repouso, estresse, fisiologia e corpo/estética, cada qual como uma aparição. A maior parte dos alunos demonstrou interesse em compreender as causas, efeitos e mitos na relação entre a prática da atividade física e a saúde. Da mesma forma, a maioria dos professores envolvidos no estudo reúne esta categoria como o conteúdo mais relevante para abordar o tema saúde. Tal resultado vai de encontro ao pensamento de Darido (2004), quando a autora assinala que a Educação Física deve oferecer autonomia ao aluno para que ele, após o período escolar, possa compreender a necessidade de manter um programa de atividade física regular sem o auxílio de especialistas, se assim o quiserem.

5.7 A Educação Física e a Melhoria dos Conhecimentos Sobre Saúde dos Alunos

Somente dois professores concordaram com a situação de que, da forma como a Educação Física é oferecida na escola, os conhecimentos dos alunos não melhoram, ou melhoram muito pouco. As falas representam o entendimento dos docentes.

Não, eu acho que tem muitas falhas, eles visam a Educação Física mais com só jogar bola e eu acredito que eu, enquanto professora falho nesta situação. Deveria incentivar mais, deveria dar uma abordagem melhor e maior de uma forma mais direta para que eles tenham o interesse e tentar tirar um pouco a história que a Educação Física é só um esporte. Fazer palestras, mostrar um filme, passar trabalhos que eles

127

possam ir à internet, pesquisar, acredito que nessa forma seja mais incentivador.(SER I, Prof. 1).

você trabalha a saúde mais de

uma forma indireta apesar de alguns momentos a gente vai falar sobre adolescência e sexualidade, a gente aborda a questão da saúde e da prevenção através de uma forma direta com textos e a gente faz uma peça teatral todo ano, mas esses momentos, que não são ligados a área esportiva, são momentos raros. Acho que seria plenamente possível fazer isso aí, mas teria que fazer uma nova reeducação e talvez mexer até na própria estrutura curricular da Educação Física (SER VI, Prof. 1).

Melhoram muito pouco (

)

O professor 1 da SER I, em seu discurso, reconhece como falha a

concepção da Educação Física esportivista, segundo a qual a aula se resume à prática de esportes, mais ainda, à prática de um esporte, em leque restrito a futebol ou futebol de salão. O docente cita que deveria estimular mais os alunos e reconhece que deve alterar sua metodologia de ensino. O professor 1 da SER VI clama por mudanças no currículo da Educação Física para inserir o conteúdo saúde, pela consciência manifesta dos limites e da legitimação do único profissional, formalmente da saúde, que existe na

escola. Darido (2004) lembra que uma das hipóteses para a reduzida participação nas aulas de Educação Física e, consequentemente, o pouco conhecimento acerca do tema saúde, é ocasionada pelas experiências anteriores nas aulas da disciplina. Para a autora, muitos alunos não encontram prazer, nem conhecimento nas aulas.

O prazer e o conhecimento sobre a prática da atividade física e seus

benefícios à saúde devem ser adquiridos com uma nova postura da Educação Física na escola: a vivência e a aprendizagem de aspectos vinculados ao corpo/movimento; daí a importância da abordagem do tema saúde. É observado nas aulas de Educação Física que apenas parte dos alunos, os mais habilidosos, se interessa pela aula, da forma como é ministrada, e os professores, ainda pautados pelo esportivismo, continuam valorizando estes alunos. Tal situação leva ao afastamento de grande parte dos alunos que não possuem aderência à prática esportiva apenas (DARIDO, 2004).

128

Três professores informaram que os alunos melhoram em parte os seus conceitos sobre saúde, da forma como a Educação Física é administrada:

Melhora se a gente tivesse assim uma condição de trabalho

melhor no que diz respeito à educação física, (

vezes nós poderíamos trabalhar a questão da saúde, muito mais se oferecido um espaço maior de tempo, um contato maior com aluno e a carga horária acaba sendo muito pequena para isso mas a importância é muito grande.(SER I, Prof. 2). Não tanto como eu gostaria devido a essas salas muito cheias, poucos materiais, os recursos não são adequados. Poderia ser melhor, a gente tenta dentro daquilo que nos temos passar aquilo que é possível o que é melhor pra eles então assim pelo menos alguma conceitos básicos eles conseguem sair. Para mudar esse quadro, é preciso fazer um amplo debate com todos os envolvidos, mostrar o grau de importância de se começar a falar na escola desse conteúdo saúde, depois adequar melhor essas escolas para a disciplina Educação Física que infelizmente na realidade essa disciplina

muitas

)

fica meio que no escanteio, apesar dos avanços que já houve ainda não temos nosso espaço garantido dentro da escola quanto mais gente ajudando nessa luta fortaleça mais a gente. (SER IV, Prof. 1). Eu acredito que não é o ideal, mas pra quem não tem nada, já

é uma coisa (

Física é só construir uma quadra coberta e jogar uma bola e acabou, você está lidando com vida, você está lidando com a saúde de uma pessoa, se você não tiver consciência do que está fazendo, em vez de estar melhorando, tá é piorando, está desencadeando uma doença, uma coisa. Você tem que ter conhecimento, e não deixar de se atualizar, o profissional de educação, como qualquer outro profissional. Mas, às vezes existe a acomodação, a falta de recurso, a falta de fonte ( ) você tem que pesquisar. (SER V, Prof. 1).

)

não tem material (

)

acham que a Educação

As três falas apresentam um ponto em comum: reclamação sobre falta de espaço adequado e de materiais nas escolas para as aulas de Educação Física; tempo insatisfatório e insuficiente de contacto com os alunos; ausência de reconhecimento da disciplina. Reclamações antigas na área da Educação Física Escolar, como a experiência prática e a literatura indicam. Dos participantes docentes, três estavam satisfeitos com a melhoria da aprendizagem dos conceitos de saúde pelos alunos por meio da Educação Física, tal como é administrada:

129

Melhoram, sem duvida nenhuma, por que constantemente eu

como professora de Educação Física tenho a chance de falar

sobre esse assunto (

eu não sei se todos os outros professores de

Educação Física fazem isso. (SER II, Prof. 1). Melhora, pois como eu estou trazendo esses assuntos, estes

temas pra eles, com isso acabam conhecendo algo que nunca tinha sido abordado, principalmente nas aulas de Educação

Física, pois nos temos uma liberdade de tratar esses temas com eles, pois eles são muito mais abertos a falarem com a

gente

metodologias para que isso não fique repetitivo e possa se tornar mais claro para eles, pois dificilmente quando você trabalha uma só vez o conteúdo vai possibilitar que eles compreendam e se sensibilizem tornando necessário que seja aprofundado nos anos seguintes. (SER II, Prof. 2).

Creio que sim, pois eu falo bastante em todas as minhas aulas sobre a perspectiva de vida de trabalho, saúde, até questões familiares para o futuro deles. Uma dificuldade que encontro é o pouco de tempo que eu passo com eles, apenas duas vezes por semana para realização dessas atividades é pouco para mudar na sua consciência, mas dizer que a minha Educação Física em si vai torná-lo um atleta com saúde e qualidade de vida, não. Mas que ele leve essas práticas que eu passo pra eles, essas aulas teóricas pra vida deles e que possam também ter uma continuidade não só na escola, em outros

(SER

horários, mais na sua família e no seu próprio lazer ( III, Prof. 1).

você tem que trazer outras estratégias e

solitário (

um trabalho assim, relativamente

)

(

)

).

Ao observar as falas desses docentes, nota-se que a repetição e a ênfase no conteúdo saúde é a forma que os professores encontraram para melhorar a aprendizagem dos alunos sobre o tema. Em resposta a pergunta similar, a maioria dos alunos evidenciou que seus conhecimentos sobre saúde não melhoraram no decorrer das aulas de Educação Física. Entre os docentes, dois terços consideram que os alunos não melhoraram ou melhoraram parcialmente/muito pouco. A precariedade se revela nos discursos de docentes e discentes. Verificou-se falha na prática do professor de Educação Física em transmitir conceitos de saúde. Tais resultados não estão de acordo com Darido et al (2001, p 27), quando sugerem que é responsabilidade do professor de Educação Física “identificar o contexto da saúde na área, construindo e

130

incentivando discussões e reflexões que possibilitem ao aluno fazer uma

leitura crítica do meio que o mesmo está envolvido”.

5.8 Principais Achados

Ao realizar a triangulação metodológica na análise verificou-se que os

principais achados deste capítulo, quando cruzados com as respostas dos

discentes, ora são contraditórios, ora se harmonizam, como sistematizado no

Quadro 21.

Quadro 21: Comparativo entre resultados da coleta com docentes e discentes

ITENS

DOCENTES

DISCENTES

Conceito de saúde

Baseado no conceito da OMS

Baseado no conceito da OMS

Utilização do tema saúde em aula

Afirmam que recorrem ao tema

Afirmam que os docentes não recorrem ao tema

Realização de atividades de pesquisa ou de informática sobre temas ligados a saúde

Afirmam que realizam tais atividades

Afirmam que os docentes não realizam tais atividades

Realização de aulas de campo e palestras sobre o conteúdo saúde

Reconhecem que não realizam tais atividades

Afirmam que os docentes não realizam tais atividades

Conteúdo mais importante a ser abordado na visão dos docentes durante aulas sobre saúde.

Relação ‘Atividade Física/Saúde’

Relação ‘Atividade Física/Saúde’

Melhoria dos conhecimentos dos alunos sobre saúde por meio da Educação Física

Reconhecem que os conhecimentos dos alunos não melhoraram

Não melhoraram seus conhecimentos

Fonte: dados da pesquisa

Observa-se que os docentes, em sua maior parte, do mesmo modo que

os discentes formulam seus conceitos de saúde referendados pela

conceituação da OMS.

Quando questionados sobre a utilização do tema saúde em suas aulas,

os docentes foram enfáticos em dizer que recorriam ao tema, diferentemente

131

do que foi relatado pelos discentes. As aulas teóricas são os momentos eleitos, pela maioria, para a aplicação do tema saúde. Para os docentes, realizar a prevenção é o objetivo maior, quando se inclui o assunto saúde nas aulas de Educação Física. Mais um ponto discordante das respostas dos alunos foi verificado, quando se perguntou aos professores se realizavam atividades de pesquisa ou de informática sobre temas ligados a saúde. Somente um deles relatou não realizar estas atividades. Foi constatado nas entrevistas o fato de que os docentes não realizam aulas de campo e palestras sobre o conteúdo saúde, situação semelhante às respostas dos alunos. Também foi verificado que a relação ‘atividade física/saúde’ é o conteúdo mais importante a ser abordado na visão dos docentes durante aulas sobre saúde. O mesmo resultado foi encontrado nos dados obtidos com os discentes. Por fim, o maior número dos docentes acredita que os alunos não estão melhorando seus conhecimentos sobre saúde por meio da Educação Física, da forma como é administrada, resultado similar ao dos discentes. Percebem ainda suas falhas, mas não sabem como superá-las.

132

6 SAÚDE NA EDUCAÇÃO FÍSICA: UMA PROPOSTA DE TEMÁTICAS PARA ENSINO E REFLEXÃO

Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas. Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Escolas que são asas amam pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.

Rubem Alves

Neste capítulo apresenta-se a proposta de temas para o ensino para a disciplina Educação Física Escolar, com foco nos conhecimentos de saúde. Para tanto, considerou-se os resultados dos questionários aplicados aos alunos e das entrevistas realizadas com os docentes. A proposta leva em conta os princípios da diversidade, inclusão e categoria das dimensões de conteúdos. O princípio da diversidade considera a necessidade de escolher múltiplos conteúdos, visando a apresentar ao aluno a cultura corporal do movimento, proporcionando-lhe uma vasta vivência de conhecimento teórico e prático do corpo e movimento humano. Incluir todos os alunos em todas as atividades da Educação Física é o desafio do princípio da inclusão. Segundo este princípio, o professor deve criar estratégias e opções para que os alunos participem das aulas propostas. Considera-se, sob tal aspecto, uma quebra de paradigmas, já que a área possui histórico de privilegiar os mais aptos em relação às práticas corporais. A categoria dimensões de conteúdos se mostra em três formas distintas:

procedimental, ligada ao fazer; conceitual, relacionada a conhecimentos teóricos, conceitos e fatos; e, atitudinal, voltada às questões de valores, atitudes e normas. Por fim, a proposta será apresentada no nível do ensino fundamental, foco da pesquisa. O ensino fundamental, integrante da educação básica, possui diversas áreas de agrupamento das disciplinas. A área de Linguagens e

133

Códigos contempla a Língua Portuguesa e Estrangeira, Arte, Informática e Educação Física.

No ensino fundamental, composto por nove séries, há a divisão em turmas por faixa etária: de seis anos, na primeira série, a 14 anos, na nona série. Nesta proposta, apresenta-se sugestões para as séries finais, sexto ao nono ano, nível de ensino dos participantes da pesquisa. Sugere-se aos professores de Educação Física a alternativa no que se refere à prática da disciplina, enraizada na lógica tecnicista. As aulas neste nível de ensino tendem a ser direcionadas para a prática quase exclusiva dos esportes, afastando-se, pois, dos objetivos voltados à saúde. Ao confrontar a realidade da Educação Física nas escolas, nota-se que

a distância entre os objetivos da disciplina e a realidade ainda é grande, porém tende a ser reduzida com a renovação dos quadros docentes. Na verdade, a prática pedagógica, em muitos casos, pouco contribuí para compreensão dos conceitos de saúde em ambientes escolares. Outro fato relevante na discussão deve ser apontado. Enquanto disciplinas como Matemática, Português e História possuem conteúdos que se completam e a cada série ou ano se renovam, na maioria das vezes o conteúdo da Educação Física constitui repetição contínua, quase sempre voltado a esporte e jogo. A disciplina em foco necessita revisitar sua identidade, assumindo-se como ciência que estuda o movimento humano inserido na cultura corporal, na qual se inclui a saúde. Pensando assim, vincular os conteúdos da Educação Física à Promoção

e Educação para a Saúde parece ser uma solução com vistas a desenvolver, entre os alunos, a criticidade e o entendimento sobre os temas relacionados à qualidade de vida, em sentido mais global. Observa-se o afastamento progressivo dos alunos da Educação Física na escola. Aderem a outros espaços, como academias, parques, condomínios,

e lá realizam suas atividades físicas. Afastam-se da aula de Educação Física e não da atividade física. Tal fato revela a necessidade urgente de apresentar outras propostas de ensino para a disciplina, que levem aos alunos a diversidade de conteúdos, que os façam perceber a relevância da saúde como instrumento para uma boa vida ativa, não apenas uma ocupação burocrática de tempo escolar.

134

Considera-se, na proposta, que a Educação para a Saúde é a alternativa viável para as aulas de Educação Física. Bento (1991) reforça esta proposição, ao exprimir a idéia de que a orientação para a saúde é um meio de concretizar as pretensões e justificativas da Educação Física. Guedes e Guedes (1994) solicitam que a aptidão física voltada para a saúde deve ser fim e não meio da Educação Física na escola. Para os autores, entretanto, a Educação Física ainda não consegue transformar seus praticantes em adultos conscientes da importância da prática da vida ativa. Entende-se que não basta realizar atividade física para a consecução da saúde, pois é necessário compreender a saúde em toda a sua magnitude. Justifica-se desta forma uma proposta inovadora que atinja os objetivos da Educação Física como meio de transmissão de conceitos sobre saúde. Buscando apresentar novos meios de ensino da disciplina, envolvendo aspectos relacionados ao entendimento de saúde, a proposta visualiza a participação de todos os alunos e não somente aqueles que possuem habilidades técnicas para a prática esportiva. De acordo com a LDB (BRASIL, 1996), uma proposta de ensino de qualquer disciplina deve ser analisada pelo professor, equipe pedagógica e comunidade escolar. Necessita ser aprovado e estar de acordo com o projeto pedagógico da própria escola. O currículo deixou de ser rígido, mantém uma base nacional, mas pode ser complementado. Portanto, é possível uma proposta de Educação Física voltada aos preceitos da saúde. A justificativa da inclusão da Educação para Saúde confirma a ideia de que o aluno deve desenvolver o entendimento da relação saúde/doença, entender os aspectos da promoção e, por fim, ser agente principal de sua condição de saúde, no campo coletivo ou individual. Mattos e Neira (2008) explicam que um programa de Educação Física deve gravitar à órbita de competências de autoconhecimento e autocuidado, desenvolver a consciência sanitária e reforçar o entendimento da Saúde Coletiva. A proposta a seguir é composta por duas partes distintas. A primeira apresenta um projeto macro, no qual toda a escola se envolve na Promoção e Educação para Saúde, incluindo a Educação Física e tem por objetivo

135

estruturar ambientes saudáveis na escola e em seu entorno, além de educar para a saúde e praticar o ensino de habilidades para a vida (CDC, 2000). A segunda parte aborda sugestões específicas de como inserir o tema saúde nos conteúdos da Educação Física, sob a óptica da experiência prática e teórica do pesquisador. Ao final deste capítulo será apresentado, a partir da proposta, um instrumento indicador de saúde, na escola e na aula de Educação Física.

6.1 Parte I Saúde na Escola

6.1.1 Políticas de Saúde no Ambiente Escolar

É necessário que seja constituída, em cada escola, uma equipe de saúde destinada a envolver a comunidade escolar, objetivando integrar educação, saúde e qualidade de vida nos processos de formação. Tal equipe deve ser formada por um representante de cada segmento destacado: membro do núcleo gestor; professor de Educação Física; pais, docentes, funcionários, merendeiros e alunos; enfermeiro, médico ou nutricionista; devendo reunir-se, a cada semestre, para planejar as ações relacionadas à: prática das atividades físicas; alimentação saudável; condições de saneamento; combate a violência; não utilização de drogas e tabaco; sexualidade; moradia; e emprego. As ações da equipe de saúde refletem o acompanhamento das aulas de Educação Física e das práticas de atividades físicas; da higiene dos alunos e do espaço escolar; estabelecimento de metas relativas a controle da dengue e doenças viróticas; registro de surtos de patologias na escola; promoção de palestras e encontros sobre saúde; promoção de ações em conjunto com postos e unidades de saúde da região próxima ao ambiente escolar; e supervisão da merenda escolar oferecida. Na visão dos alunos, a saúde é compreendida como um composto de atitudes. De acordo com um dos participantes, saúde é:

(

equilibrada, praticar exercícios e não estar doente. (8º ano, SER VI).

)

você

estar

bem

consigo

próprio,

ter

alimentação

136

A proposta, entretanto, enfatiza a realização de atividades físicas e a boa alimentação. Leva em consideração o conceito formulado pela maioria dos alunos, que inclui a alimentação e a prática da atividade física como elementos primordiais para a consecução da saúde, como se observa na fala a seguir:

Saúde é ser uma pessoa bem alegre, é comer muito e praticar exercícios. (7º ano, SER I).

Os momentos em que as atividades físicas devem ocorrer para a Promoção da Saúde devem ser monitorados pela equipe. O recreio é um momento em que hábitos de vida ativa devem ser estimulados. O recreio deve possuir no mínimo 30 minutos de duração, pois o tempo estipulado em muitas escolas da rede municipal, de até 20 minutos, é desencorajador para um comportamento ativo. Os alunos, chegando ao espaço destinado ao recreio, vão ao banheiro, entram na fila, merendam, conversam e, muitas vezes, não lhes resta mais tempo para a atividade física. Nesta proposta, sugere-se que haja dez minutos para a merenda, cinco minutos para descanso e mais 15 minutos de recreio com atividade física moderada. Durante o recreio, é necessário estimular os alunos a participarem das atividades. Desta forma, monitores, materiais e atividades programadas devem fazer parte do momento. As atividades do recreio devem primar pela segurança, motivação e envolvimento de todos. Esta ação é, de fato, compreendida pelos alunos como um instrumento para a aquisição da saúde, já que no recreio se praticam padrões motores favoráveis à atividade física:

Saúde é correr, brincar, jogar (

É ter energia, paz, correr, pular (

). (6º ano, SER II).

). (9º ano, SER I).

Sugere-se criar uma equipe de professores exclusivamente para planejar as ações no recreio, estimular a participação e proporcionar a prática ativa dos alunos, abandonando hábitos sedentários. Ressalte-se que os alunos já passam muito tempo do seu cotidiano sentados em carteiras, com movimentos quase nulos, de forma que o recreio se torne um momento importante para o desenvolvimento de hábitos motores necessários à saúde.

137

Entende-se que há diferenças entre a prática da atividade física e uma aula de Educação Física. A escola deve incentivar a prática da atividade física, seja ou não na aula de Educação Física. Para tanto se questiona qual a motivação que as escolas oferecem para

a prática da atividade física ou da Educação Física. As quadras devem ser cobertas, proporcionando proteção contra sol e chuva; os equipamentos e materiais devem ser adequados para a idade escolar, evitando riscos à segurança dos participantes; as turmas devem conter um número não superior

a 40 alunos; as atividades físicas extracurriculares devem ser oferecidas para

todos os alunos interessados, não discriminando fatores econômicos, sem superlotação e com segurança. Os alunos devem ser estimulados a realizar atividades físicas em momentos externos à aula de Educação Física. A escola há que proporcionar escolinhas de esporte; permitir o uso da quadra, pátios e playgrounds em horários distintos da grade curricular; liberar os espaços aos finais de semana para jogos e atividades recreativas; e oferecer professores e monitores capacitados para acompanhar estas atividades. Esta ação de incentivo é fundamental para a inclusão dos jovens em ambiente de sociabilidade crítica, pleno de estímulos ao crescimento pessoal, com Promoção de Saúde. A escola não deve realizar medidas punitivas utilizando a não permissão da prática da atividade física ou da Educação Física como castigo. Tal método afasta o aluno da realização dos padrões motores de movimento; produz aversão à prática física, já que o aluno faz a relação atividade física-punição; favorece o sedentarismo; estimula o autoconceito de fracassado; e proporciona a não inclusão. A oferta da atividade física e da própria Educação Física, a promoção de refeições escolares saudáveis e o incentivo à realização de aulas de educação nutricional são propostas plausíveis e resolutivas em ambientes escolares para o combate a obesidade. A alimentação é uma preocupação latente no discurso dos alunos:

Saúde é aquela pessoa que se alimenta bem e tem o corpo forte. (8º ano, SER II). Como se alimentar para ficar saudável? (8º ano, SER I). O que devemos comer para ter mais saúde? (9º ano, SER IV).

138

A escola deve oferecer alimentação de forma gratuita a todos os alunos, professores e funcionários da escola. A alimentação, planejada por um

nutricionista, deve conter: alimentos variados, aceitos pelos alunos e à base de vegetais, frutas, legumes, cereais, carnes, grãos e derivados do leite, com baixo teor de gordura.

A escolha, preparo e apresentação dos alimentos devem promover o

interesse dos alunos, respeitando a cultura, tradição e hábitos alimentares da comunidade. A alimentação deve favorecer a moderação de gorduras, sódio e açúcares. O refeitório deve ser agradável, bem higienizado e seguro. Os profissionais que vão atuar na alimentação oferecida pela escola devem ser capacitados, compreender sobre emergências alimentares, colaborar entre si para instrumentalizar a política da boa alimentação e participar da elaboração, implantação e avaliação das políticas nutricionais da escola.

A escola deve vedar a venda e a distribuição de alimentos de valor

nutricional mínimo, isto é, refrigerantes e doces; alimentos ricos em calorias na forma de gorduras ou açúcares e contendo poucas vitaminas ou sais minerais, como frituras, sucos artificiais e bolachas recheadas. Assim, deve proibir a distribuição de alimentos ricos em açúcares como prêmio em atividades diversas, tais como tarefas realizadas e sucesso em provas e testes. Da mesma forma não deve punir alunos com a negação ao acesso de alimentos, em razão de comportamento impróprio.

Os professores devem assegurar tempo para que os alunos realizem a higienização das mãos antes e após as refeições, estimulando este hábito ao longo da vida, fato citado por um aluno:

Em minha opinião saúde

mãos limpas, os dentes limpos e as unhas limpas. (6º ano, SER IV).

manter sempre as

para mim é (

)

A proposta de políticas de saúde em ambientes escolares sugere que

todos os funcionários e professores da escola devem conhecer a política de saúde proposta, favorecer o acesso dos alunos ao ambiente escolar para a prática da atividade física; estimulá-los a participar das aulas de Educação Física; orientar sobre a alimentação saudável no interior da escola; e responsabilizar-se por uma conduta exemplar.

139

6.1.2 Educação para a Saúde

O currículo obediente às diretrizes da Educação para a Saúde deve ser

aplicado em todas as séries do ensino fundamental, considerando o aumento

do grau de complexidade de acordo com a idade dos alunos. Deve ser sequencial e não repetitivo; amplo e diversificado, envolvendo temas de interesse os alunos, como, por exemplo, os citados:

Sistema muscular. (7º ano, SER VI) Hábitos saudáveis. (7º ano, SER II) Sistemas do corpo. (7º ano, SER V) Como eu posso me cuidar em casa para não pegar doenças. (9º ano, SER II).

O currículo há de abordar os temas atividade física e saúde, englobando

os seguintes tópicos: benefícios fisiológicos, psicológicos e sociais da atividade

física; componentes da aptidão física relacionados com a saúde: resistência cardiovascular, velocidade e força muscular, flexibilidade e composição corporal; importância das fases de uma atividade física - aquecimento, alongamento, parte principal e volta a calma; prevenção de lesões durante a atividade física e primeiros socorros básicos; sedentarismo; influência da família, da cultura e da mídia nas escolhas e práticas da atividade física; como apoiar e incentivar outras pessoas à realização de atividade física. No que se refere aos temas de alimentação saudável, devem ser abordados: benefícios da alimentação saudável; pirâmide alimentar; identificação de alimentos ricos em vitaminas e minerais; identificação de alimentos ricos em gorduras saturadas, colesterol, sódio e açúcares; segurança alimentar: higiene, compra, preparo e estocagem alimentos; relação entre a ingestão alimentar e a atividade física; diferenças corporais; distúrbios e doenças relacionados com alimentação; influência da família, cultura e mídia no comportamento alimentar; e práticas de controle de peso saudável. Também devem ser inseridos no currículo temas sobre o abuso de drogas, álcool e tabaco; doenças sexualmente transmissíveis; violência e saúde; doenças coronarianas, diabetes, educação e saúde; higiene corporal; moradia, saneamento e saúde; trabalho, lazer e ócio; saúde bucal; e aspectos socioculturais relacionados à saúde.

140

Em se tratando do tema lazer, há uma necessidade do debate, por parte dos alunos, como se observa nas falas a seguir:

Gostaria de aprender sobre saúde, lazer e brincadeiras. (6º ano, SER II). Estudar sobre como o lazer ajuda na saúde. (6º ano, SER I).

Mais especificamente, se referindo à não utilização de drogas, o tema proposto deve ser ressaltado, apesar de já ser compreendido pelos alunos como indicativo de saúde:

É uma pessoa que não fuma, não bebe, não usa drogas. (7º

ano, SER V).

É não se misturar com drogas. (6º ano, SER II).

Saúde é a pessoa se cuidar, não beber, não fumar, não usar

drogas

para viver melhor. (6º ano, SER III).

As aulas de Educação para a Saúde devem possuir estratégias motivantes, agradáveis, importantes e diversificadas. As ações devem levar em consideração o meio sociocultural dos alunos e sua realidade. A aprendizagem há que ser ativa e participativa, realizada apor meio de práticas laboratoriais ou de exposições dialogadas. Deve, ainda, favorecer a adoção de comportamentos saudáveis. São exemplos de atividades didáticas para atingir as finalidades da Promoção para Saúde na escola por intermédio das aulas: identificar alimentos saudáveis; planejar alimentação saudável em casa; monitorar o próprio comportamento alimentar; compreender noções de primeiros socorros; analisar seus hábitos de atividade física; identificar problemas de moradia e saneamento em seu entorno; compreender a correta realização da higienização bucal; realizar o autocuidado; prevenir lesões na prática da atividade física; e orientar para a educação sexual. Este último tema, aliás, é um conteúdo que desperta interesse dos jovens alunos, como se vê:

Queria saber como não ficar grávida. (8º ano, SER I). Como fazer sexo e não ficar grávida? (8º ano, SER IV). Sobre as doenças sexuais. (7º ano, SER V). Entender o que é saúde sexual. (9º ano, SER III).

141

Os professores de Educação para Saúde devem ser capacitados para tratar o assunto de forma didática e acessível aos alunos; devem possuir formação específica e capacitação constante. São atitudes que se espera deste profissional: favorecer a participação de todos os alunos; não estigmatizar ou estereotipar qualquer indivíduo ou grupo; promover em seus alunos a autoestima; promover estudos, pesquisas e tarefas de casa com os pais e a comunidade, propagando os saberes da Promoção da Saúde; propiciar levantamentos sobre o nível de atividade física e alimentação saudável de familiares; realizar projetos com os alunos sobre Saúde Coletiva e apresentar em exposições, feiras de ciências e festivais de dança, esportes, ginásticas, lutas e competições.

6.1.3 Serviços de Saúde no Ambiente Escolar

A escola deve oferecer serviços de saúde, promover a Educação Física e a prática da atividade física, desenvolver a política da boa alimentação para a comunidade escolar e propagar Educação para a Saúde por meio de:

elaboração de cartilhas e materiais educacionais sobre o tema; apresentação de palestras e seminários; e aconselhamentos individuais e em grupo. Da mesma forma, é necessário colaborar para a Promoção da Saúde dos funcionários, professores e estudantes da escola por meio do:

desenvolvimento de políticas de saúde; desenvolvimento do currículo para a educação para a saúde; planejamento de aulas, eventos e projetos; treinamento e capacitação dos envolvidos no que se refere aos benefícios da prática da atividade física e boa alimentação; e encorajamento às boas práticas. É também de grande importância que o serviço de saúde da escola identifique alunos com problemas relacionados à atividade física ou imagem corporal, como: anemia, bulimia, anorexia, vigorexia, diabetes, obesidade, asma, uso de asteróides, anabolizantes ou medicamentos. Tais alunos devem ser encaminhados para setores específicos onde serão aconselhados e acompanhados.

142

O serviço de saúde da escola coletará dados sobre a situação da saúde dos alunos da escola uma vez ao ano e, quando permitido pelos responsáveis, transmitir essas informações aos professores e funcionários. Por fim, realizará acompanhamento psicológico aos alunos, desenvolverá materiais educacionais, promoverá discussões e debates sobre a saúde em salas de aula; realizará encontros e palestras; desenvolverá política, currículo, aulas e planos de unidade; realizará treinamento de funcionários, professores e alunos sobre o tema saúde. A escola deve promover a saúde de funcionários e professores por via de avaliações anuais de aptidão física relacionada à saúde. Os testes serão gratuitos e envolverão: medidas antropométricas, pressão sanguínea, colesterol, diabetes, glicemia, percentual de gordura e índice de massa corporal. Além dos testes físicos, é necessário realizar com os professores e funcionários um levantamento sobre como os aspectos sociais, econômicos, familiares e relacionados ao trabalho estão influenciando sua saúde. Este levantamento também há de ser realizado uma vez ao ano. A instituição oferecerá programas de atividades físicas para seus professores e funcionários, tais como escolinhas de dança, futsal, voleibol, ginástica e lutas. Além da oferta, a escola estimulará e facilitará a participação dos envolvidos. Por fim, a escola promoverá a Educação para a Saúde de seus professores e funcionários mediante campanhas educativas por meio de cartazes, murais, jornais, palestras e encontros. Também é necessário que a escola assegure um plano de saúde para seus trabalhadores. A escola oferecerá também à comunidade e a família dos alunos Educação para Saúde através de palestras, seminários, feiras, encontros, visitas domiciliares, reuniões de pais e mestres, caminhadas, passeios ciclísticos e prática de modalidades esportivas. Uma avaliação sobre a participação e o envolvimento dos alunos com os programas de saúde da escola há de ser realizada anualmente com a família e a comunidade, com vistas a analisar os resultados das ações da escola.

143

Os pais ou responsáveis pelos alunos participarão ativamente da política de saúde da escola, sugerindo, atuando voluntariamente, criticando e auxiliando nas atividades propostas.

6.2 Parte II Sugestões de Inserção do Tema Saúde nos Conteúdos da Educação Física

Na proposta, a aula de Educação Física há que:

possuir frequência mínima de três sessões semanais, já que a realização de aulas únicas ou em duas sessões pouco favorecem a vida ativa;

possuir um tempo mínimo de 50 minutos de aula propriamente dita;

ser expandida a todos os alunos, sem exceção, inclusive aqueles que estão liberados da prática, por atestado médico ou por outro motivo, que neste caso devem realizar aulas teóricas sobre saúde;

possuir relevância social no que se refere à aplicação dos conteúdos, aulas e programas de atividades extracurriculares, indo ao encontro das necessidades do alunado;

ser diversificada e prazerosa, incluindo situações competitivas e não competitivas;

possuir número de alunos/professor de forma similar a outras matérias, para que não haja superlotação e todos tenham oportunidade de orientação adequada;

ser considerada pelos estudantes como uma experiência agradável;

promover e estimular o hábito da atividade física ao longo da vida.

O programa de Educação Física voltado para a saúde deve ser focado no desenvolvimento dos aspectos integrais do desenvolvimento humano, compostos por fatores psicomotores, tais como noção de corpo, lateralidade, equilíbrio, tonicidade, estrutura espaço-temporal, coordenação global e coordenação fina; fatores cognitivos, tais como estratégia, memória, concentração, atenção, percepção, assimilação e compreensão; e fatores afetivos, como sentimentos, emoções e relacionamentos.

144

Outro aspecto importante é o desenvolvimento das habilidades motoras como andar, correr, saltar, pular, arremessar, lançar, chutar e subir. As

capacidades motoras também devem ser priorizadas: velocidade, agilidade, resistência, flexibilidade e força. Para tanto, se faz necessária a utilização de toda a gama da cultura corporal do movimento, traduzida em jogos, dança, ginástica, lutas, esportes e atividades aquáticas. É importante discutir a aptidão física relacionada com a saúde durante

as aulas e favorecer a aprendizagem e a prática dos comportamentos e hábitos

físicos para saúde. Tais discussões não podem ocorrer sem que o professor

deixe de debater os outros fatores necessários para a aquisição da saúde, entre os quais moradia, saneamento, trabalho, lazer, ócio, educação e segurança, dentre outros.

As sugestões dos professores envolvidos na pesquisa contribuem para a

proposta no sentido da proposição de temas:

Higiene (

incentivo pela prática regular de atividade física não só a

Educação Física dentro da escola mais fora também( I, Prof. 1).

(

estratégias para serem autônomos e decidir quais escolhas são boas ou ruins. (SER II, Prof. 2).

(

(SER

)

)

alimentação saudável, postura nos exercícios, (

).

(SER II, Prof. 1).

).

)

)

saúde dos dentes (

(

)

postura, (

)

doenças sexualmente transmissíveis, drogas

(

).

(SER III, Prof. 1).

 

(

)alimentação

adequada, repouso e controle do stress sono

(

).

(SER V, Prof. 1).

 

(

)

o cuidado consigo mesmo (

).

(SER V, Prof. 2).

a questão do corpo, da estética, ( fisiologia. (SER VI, Prof. 1).

(

)

)

noções básicas de

O programa seguirá os padrões de segurança para a prática da

Educação Física, entre eles: supervisão adequada pelo professor; utilização de roupas, sapatos e equipamentos adequados; reparo regular dos equipamentos

e instalações; evitar exposição ao sol, fumaça e temperaturas extremas;

controle de infecção por contato com sangue e outros fluidos corporais. Para a utilização de meios de ensino apropriados aos alunos, faz-se necessário adaptar metas e objetivos da Educação Física e realizar testes sem finalidades de comparação.

145

Durante as aulas serão realizadas ações de debates em classe, trabalhos, pesquisas e estudos sobre o tema. De acordo com Darido e Sousa

Junior (2007), os professores de Educação Física podem recorrer a opções distintas em suas aulas além do tradicional uso das quadras e bolas. Segundo os autores citados, podem ser criados hemerotecas e painéis de notícias sobre temas ligados à saúde, tais como: uso de anabolizantes, lesões, violência nos esportes, padrões impostos de beleza e outros. O uso de materiais audiovisuais, como filmes, músicas, documentários, reportagens e desenhos também é atrativo e pode estabelecer relações com os assuntos abordados em aula. Instrumentalizar a coleta de informações sobre saúde na internet é uma opção indispensável para as aulas de Educação Física, haja vista a intimidade que a população jovem possui com este instrumento. Um aspecto interessante e de importância nas aulas de Educação Física são as palestras sobre saúde, quando convidados e conhecedores do tema podem favorecer a transmissão de conceitos diversos. As palestras são também um meio de aproximação entre a comunidade e o ambiente escolar. Durante as aulas, a ênfase será imprimida nos benefícios que os alunos podem obter por meio da prática regular de atividades físicas, somadas aos aspectos da Saúde Coletiva.

As aulas podem ocupar espaços internos da escola, como ginásio, pátio,

laboratórios de Informática, Biologia, Química e Física, biblioteca; e espaços externos diversos, como praças, parques, praias, rios, montanhas e as próprias

ruas do entorno da instituição.

O professor de Educação Física deve ser graduado na modalidade

licenciatura e participar de cursos de capacitação e educação continuada, ao menos uma vez por ano. Apresentam-se a seguir sugestões de aulas de Educação Física para o Ensino Fundamental, séries finais, pautadas pelo objetivo de inserir os conhecimentos de saúde nos blocos de conteúdos da disciplina, que são: jogos e brincadeiras, ginásticas, lutas e esportes no primeiro bloco, atividades rítmicas e expressivas no segundo bloco, e, no terceiro e último, conhecimento

sobre o corpo. Como os dois primeiros blocos interagem e possuem conteúdos em comum, a proposta é dividir em apenas dois blocos, deixando em separado o

146

bloco conhecimentos sobre o corpo, que tem conteúdos não incluídos nos demais. Para cada conteúdo citado, serão apresentados meios de inserção do tema saúde nas dimensões procedimentais, atitudinais e conceituais. A prática de jogos, esportes, lutas, danças e ginásticas é compreendida,

e dominada pelo senso comum, como sinônimo de saúde. Essa relação

incondicional de causa e efeito é estimulada pela mídia e indústria da saúde,

ao cultivar e estimular valores de corpos ideais. É também citada como “método infalível no combate ao uso abusivo de álcool, fumo e drogas, e como recurso de integração social do jovem e do adolescente” (BRASIL, 1997, p 37). Durante todo o texto desta tese, uma preocupação foi fundamentada, teorizada e amplamente discutida: saúde não é adquirida com o simples ato de praticar atividade física. Os requisitos para a consecução da saúde são mais amplos do que o pensamento positivista biológico. É necessário reforçar este entendimento e ao propor um projeto para a disciplina, o estudo baseia-se nos preceitos da Saúde Coletiva e não puramente biomédica.

6.2.1 Bloco 1 Jogos e Brincadeiras

Os jogos e as brincadeiras constituem atividades lúdicas com regras adaptadas que se estabelecem em comum acordo entre seus participantes. Observando a dificuldade de distinguir jogo e brincadeira na Língua Portuguesa, optou-se, assim como Darido e Rangel (2005) realizaram em seus estudos, pelo entendimento indistinto. Adotar hábitos de autocuidado, valorizar atitudes relacionadas à higiene

e segurança, respeitando regras de convívio social, são objetivos da prática

dos jogos e brincadeiras na Educação Física. Estes hábitos também entram em congruência com as finalidades de compreender a saúde, como se observa na interpretação de um aluno:

Saúde é correr, brincar, jogar, tomar banho. (6º ano, SER II).

Verifica-se que a prática dos jogos e brincadeiras está desvinculada da associação com a saúde. Tal procedimento é refletido na fala de um dos

participantes:

147

Queria saber como brincar ajuda a ter saúde (8º ano, SER 5).

As atividades relativas aos jogos e brincadeiras podem favorecer a compreensão dos conceitos de saúde. Brincadeiras infantis, como os jogos imitativos, podem ser adaptadas à higiene corporal Por exemplo, solicitar aos alunos que imitem as ações de tomar banho, escovar os dentes ou lavar as mãos. O tema higiene também é uma solicitação dos alunos, quando se trata

de saúde na Educação Física:

Queria saber tudo sobre higiene do corpo. (6º ano, SER IV). Higiene na hora em que estamos fazendo esportes. (8º ano, SER VI).

Jogos de perseguição podem ser utilizados como meio de conhecimento da saúde, ao relacionar o desenvolvimento da resistência aeróbia na corrida com o combate ao sedentarismo. A utilização de materiais de sucata, como garrafas pet e papelão, na elaboração de jogos e brincadeiras, estimulam a consciência e a saúde ambiental. Brincadeiras populares, como corda, jogo da amarelinha ou saltar elástico, podem levar os alunos a refletir o quanto seus pais eram ativos e como estão realizando atividades físicas na atualidade. Podem ser articuladas ações de conhecimento do corpo por meio de

desenhos, esculturas e estudo de obras de artes. Outra orientação é favorecer

o reconhecimento dos sinais vitais, como respiração e os batimentos

cardíacos. Conversar com os alunos sobre as reações que o corpo sofre durante as atividades físicas assegura o entendimento entre a relação saúde e movimento. Aulas em laboratórios de Informática para a prática de jogos computacionais podem transmitir aos discentes noções de postura ao sentar para trabalhar no computador. Pesquisas sobre gasto calórico durante a prática

de jogos e brincadeiras podem estimular a vida ativa.

148

6.2.2 Bloco 1 Esportes

Os esportes são atividades com regras universais, ações institucionalizadas, praticados em determinado espaço e tempo, em forma de competição entre dois ou mais oponentes, cuja finalidade é determinar vencedor ou registrar recorde (BETTI, 1991). Da mesma forma que o conteúdo dos jogos e brincadeiras, há uma lacuna em grande parte das aulas de Educação Física, pois o conteúdo esporte, quando aplicado, se volta somente às questões técnicas e táticas. Pouco se tem discutido sobre a influência do esporte na saúde. As falas dos alunos, apresentadas a seguir demonstram o anseio da descoberta:

Eu gostaria de saber mais sobre a Educação Física e os Esportes na saúde. (8º ano, SER I). Gostaria de saber se o esporte faz bem para a saúde. (8º ano, SER VI). Como praticar esporte para ter boa saúde? (9º ano, SER II).

A prática esportiva favorece a saúde mental, já que proporciona melhoria das ações motoras, maior nível de concentração e memória mais apurada; reduz riscos de doenças cardíacas; proporciona a variação positiva no humor, o que diminui a possibilidade de depressão; regula a taxa de açúcar no sangue, reduzindo o aparecimento do diabetes; fortalece músculos; mantém a independência física; mantém a massa óssea; e libera o estresse. Durante as aulas esportivas, o docente pode relacionar as capacidades físicas e as habilidades motoras com a saúde dos alunos. Da mesma forma, o debate sobre dopping ou uso de drogas e álcool entre atletas pode favorecer o entendimento do prejuízo ao organismo acarretado por substâncias ilícitas. Na prática esportiva, é comum ocorrer lesões entre os competidores, de sorte que o professor da disciplina pode transmitir noções de primeiros socorros em suas aulas; além disso, explicar aos alunos sobre o funcionamento fisiológico do corpo estimulará os alunos a compreender melhor seu corpo e os limites deste. Levar o debate à luz de análises sociológicas e filosóficas do esporte favorece aos alunos a reflexão do papel das modalidades na saúde social e mental dos indivíduos.

149

6.2.3 Bloco 1 Lutas

As Lutas são “disputas em que os oponentes devem ser subjugados, com técnicas e estratégias de desequilíbrio, contusão, imobilização ou exclusão de um determinado espaço na combinação de ações de ataque e defesa” (BRASIL, 1997, p32). Durante a prática de exercícios de lutas, há o ganho de condicionamento muscular e cardiovascular, força, flexibilidade, coordenação motora e agilidade. O professor deve reforçar os benefícios físicos da prática da luta, porém não pode deixar de debater com os alunos os ganhos cognitivos, como a estratégia, a atenção e a concentração; e os ganhos afetivos, como os relacionamentos, sentimentos e emoções decorridos da prática. Tais aspectos devem ser relacionados com a saúde dos alunos. A prática da luta favorece a disciplina, requisito fundamental para a consecução da saúde; promove a auto estima, o que favorece a saúde da imagem corporal; e estimula a manutenção da postura e respiração corretas. Durante a aplicação deste conteúdo, podem ser produzidas discussões sobre as distinções entre luta e briga. O debate sobre violência acarreta o ganho em segurança pessoal, favorecendo ao aluno o bem estar corporal.

6.2.4 Bloco 1 Ginástica

A ginástica está relacionada ao exercício do corpo, à preparação física e ao embelezamento corporal. Os alunos envolvidos na pesquisa relataram a intenção de compreender mais sobre a prática da ginástica e seus benefícios, como se percebe:

Saber sobre como fazer exercícios. (6º ano, SER IV). O que é alongamento. (7º ano, SER V).

A prática da caminhada ou da corrida deve ser desenvolvida durante as aulas de Educação Física para atingir o objetivo de proporcionar ao aluno o completo entendimento de seus benefícios. Durante estas práticas, o aluno deve ser instruído a: verificar sua frequência cardíaca, realizar alongamento antes e depois da atividade, compreendendo sua necessidade; compreender a diferença entre resistência aeróbia e anaeróbia; entender o impacto deste tipo

150

de exercício em sua saúde; perceber quais os principais grupos musculares exigidos; e refletir sobre sua condição física. Compreende-se que as atividades de andar e correr acompanharão os alunos em sua vida adulta como principal alternativa democrática de realizar atividade física; daí a necessidade de sua completa compreensão por parte do alunado. Aulas de ginástica com exercícios localizados são relevantes para o enrijecimento muscular. Tal prática deve ser elevada à discussão de assuntos que envolvam a busca desmedida pela beleza corporal como a anorexia, bulimia, vigorexia, usos de esteróides anabolizantes e treinamento excessivo. A prática da musculação, ginástica com exercícios de contrarresistência, com objetivo de hipertrofia ou definição muscular, muito aceita entre o público jovem, deve ser um tema de atenção do professor. Aulas teóricas e reflexões sobre o assunto podem contribuir para a saúde dos alunos, que muitas vezes se iniciam na modalidade sem os devidos cuidados.

6.2.5 Bloco 2: Atividades Rítmicas e Expressivas

As atividades rítmicas e expressivas incluem as manifestações da

cultura corporal que recorrem a expressão e comunicação por meio de gestos, sons, ritmos, tons musicais e contemplam a dança e a música.

O bloco 2 possui como objetivos: aprofundar o conhecimento acerca das

manifestações de dança e música das diversas culturas, relacionando-as à consecução e manutenção da saúde; e valorizar as atividades rítmicas e compreender seus benefícios para as capacidades físicas.

O quadro 30 apresenta sugestões de como abordar o tema saúde nas

dimensões procedimentais, conceituais e atitudinais durante a execução das práticas dos Blocos 1 e 2, já que ambos possuem conteúdos que se intercalam.

151

Quadro 22: Tema saúde inserido nos Bloco 1 - Jogos e Brincadeiras, Esportes, Ginásticas e Lutas; e, Bloco 2 - Atividades Rítmicas e Expressivas

Dimensão Procedimental:

Dimensão Conceitual:

Dimensão Atitudinal:

Vivenciar as atividades. Experimentar as práticas. Relacionada ao fazer.

Discutir conceitos. Relacionada à teoria.

Desenvolver atitudes, normas e valores. Relacionada à conduta.

*

Durante as atividades,

Explicar aos alunos a importância do acompanhamento da frequência cardíaca.

*

*

Estimular o

solicitar aos alunos o monitoramento da freqüência cardíaca

acompanhamento da frequência cardíaca ao praticar atividade física

*

Refletir sobre a atividade física realizada e seu impacto contra o sedentarismo

*

*

Realizar movimentos e

ações de gasto calórico, o que combate o

Estimular a vida ativa

sedentarismo

*

Estimular atividade de

*

Entender o conceito da

Proporcionar o hábito da prática de atividades aeróbias

*

resistência aeróbia, visando

diferença entre a atividade

melhoria do sistema cardiorespiratório.

à

aeróbia e a anaeróbia.

*

*

habilidades motoras necessárias para a realização das atividades e

Compreender as

Proporcionar o hábito da prática de atividades físicas fora da escola

*

Desenvolver as

habilidades motoras como,

andar, correr, saltar, pular, lançar, arremessar, rastejar

e

nadar, relacionando-as

sua importância para a aquisição da saúde

 

com a aquisição da saúde.

*

Desenvolver as

*

Compreender as

Proporcionar o hábito da prática de atividades físicas fora da escola

*

capacidades físicas, como velocidade, força, resistência, agilidade e flexibilidade, relacionando- as com a aquisição da saúde.

capacidades físicas necessárias para a realização das atividades e sua importância para a aquisição da saúde

*

*

habilidades específicas necessárias para a realização das atividades e sua importância para a aquisição da saúde

Compreender as

Proporcionar o hábito da prática de exercícios físicos fora da escola

*

Desenvolver habilidades

específicas para o ato de praticar esportes, dançar,

lutar, jogar e brincar, relacionando-as com a aquisição da saúde.

 

*

Proporcionar a prática de

*

Realizar pesquisas na

Proporcionar o hábito da prática de exercícios físicos fora da escola

*

exercícios de alongamento,

relaxamento, força, flexibilidade, ginástica localizada e apresentá-los

internet sobre a relação

entre as diversas atividades física e a consecução da saúde.

*

Favorecer a prática da

 

*

Promover aula de

atividade física e o afastamento de vícios, como álcool e drogas.

como indicativos de vida ativa

campo, palestras e seminários com convidados para abordar o tema saúde e prática de atividade física

Fonte: autoria própria

152

6.2.6 Bloco 3 - O conhecimento sobre o corpo

O bloco sobre conhecimento sobre o corpo reflete a compreensão, conhecimento e entendimento sobre as práticas corporais contidas nos dois blocos anteriores e que favorecem a autonomia do aluno para gerenciar sua atividade corporal (BRASIL, 1998). De acordo com Mattos e Neira (2008), este bloco possui como objetivos: favorecer o conhecimento do funcionamento do organismo humano; aprofundar as noções de esforço, intensidade e frequência dos exercícios físicos; refletir sobre as informações da cultura corporal, de modo a manter uma postura autônoma na manutenção ou aquisição da saúde; estimular o aluno a adotar uma postura ativa de praticante de atividades físicas. O corpo não pode ser compreendido somente como um aglomerado de ossos, músculos, tendões, articulações, órgãos e pele, mas sim como um organismo complexo, composto de aspectos biológicos, sociais, culturais e filosóficos. Assim, nas aulas de Educação Física voltada para a saúde, o corpo não deve ser entendido somente por meio dos conceitos biológicos, tais como:

anatomia, biologia, biomecânica, cinesiologia, histologia e bioquímica, mas também por meio de discussões sociológicas, filosóficas e culturais. As falas dos alunos a seguir apresentam a relação entre corpo e saúde, que vão além do biologicismo:

Saúde é você estar bem com seu corpo fazendo com que você fique com peso normal. (9º ano, SER VI). Saúde é simplesmente cuidar da gente, ou seja, cuidar da saúde. (7º ano, SER IV). É cuidar do corpo. (8º ano, SER V).

Os conhecimentos de Anatomia podem ser aplicados durante as práticas, quando o professor solicita aos alunos a realização da anatomia palmatória, quando os alunos de maneira cinestésica percebem seus músculos atuando. Durante as sessões, o professor deve favorecer a aplicação dos conhecimentos fisiológicos, ao demonstrar para os alunos as alterações pelos quais os sistemas do corpo sofrem durante a atividade física.

153

O quadro 23 apresenta sugestões de como abordar o tema saúde nas dimensões procedimentais, conceituais e atitudinais durante a execução das práticas do Bloco 3.

Quadro 23: O tema saúde inserido no Bloco 3 – Conhecimento Sobre o Corpo

Dimensão Procedimental:

Dimensão Conceitual:

Dimensão Atitudinal:

Vivenciar as atividades. Experimentar as práticas. Relacionada ao fazer.

Discutir conceitos. Relacionada à teoria.

Desenvolver atitudes, normas e valores. Relacionada à conduta.

*

Solicitar aos alunos o

*

Relatar sobre a

Estimular a prática da higiene como meio de combate a doenças

*

asseio e a realização da higiene corporal antes do início das aulas, assim como no término da sessão.

necessidade da higiene corporal antes, durante e depois da atividade.

Verificar e controlar o que os alunos ingerem antes e a após as aulas

*

*

Discutir sobre a

*

Fornecer dados sobre

alimentação antes e depois da prática do exercício físico.

alimentação para proporcionar autonomia na escolha dos alimentos saudáveis.

Realizar testes de IMC para controle do peso

*

*

teóricos aos alunos para o

Oferecer subsídios

*

peso por meio da alimentação correta.

Manter e controlar o

 

controle do peso

*

Promover aula de campo,

Debater temas sobre sexualidade

*

*

Respeitar sua

assistir a vídeos, palestras

sexualidade e se prevenir

e

seminários com

 

contra DST e gravidez precoce.

convidados para abordar o

tema

 

*

Realizar pesquisas na

*

Debater sobre os

*

Compreender os riscos

internet sobre o consumo de álcool e drogas.

malefícios do consumo de álcool e drogas

da utilização do consumo de álcool e drogas

*

comunidades de risco.

Realizar visitas a

Estimular o debate sobre aspectos influentes na saúde, como moradia, renda, segurança e lazer

*

Entender que a saúde não é somente a ausência de doença

*

*

Assistir a vídeos, palestras

*

Dialogar sobre as

*

Compreender a

seminários com convidados para abordar o

e

disfunções da imagem corporal, como anorexia,

influência da mídia na imagem corporal e aceitar seu corpo como único

tema

bulimia e vigorexia.

*

Promover palestras e

*

Analisar em conjunto

*Estimular o cuidado com o próprio corpo.

seminários com convidados

com os alunos o cuidado ao próximo e o autocuidado como fatores associados à saúde

para abordar o tema

 

Fonte: autoria própria

154

6.2.7 Sugestões da Proposta para Inclusão do Tema Saúde nas Aulas de Educação Física Baseada nos Resultados da Pesquisa com os Docentes e Discentes Envolvidos no Estudo.

Com apoio no estudo com os alunos e docentes formulou-se sugestões práticas e teóricas para abordar o tema saúde. Aproximadamente a metade dos envolvidos, 47% dos alunos, reconhece a Educação Física como integrante da área da saúde, entretanto 53% a entendem como de outro segmento. Sugere-se, então que os professores solicitem aos alunos a realização de pesquisas na internet, promovam aulas de campo e ministrem aulas expositivas onde o tema central deve ser a Educação Física como integrante do rol das profissões da área da saúde. Apenas 50% dos alunos consideram que possuem razoável ou bom entendimento de saúde adquirido por meio da Educação Física. Desta forma, os professores devem atuar mais em sua prática, abordando temas relacionados a saúde, não só relacionados aos aspectos específicos da relação atividade física-saúde, mas também aqueles relativos a Saúde Coletiva. Um percentual de 60% dos alunos assinalou que o professor de Educação Física não utiliza, debate ou promove reflexões sobre saúde nas aulas. Sugere-se que o professor deve ser estimulado e capacitado para abordar o tema saúde em suas aulas. A escola deve oferecer oportunidades de educação continuada. Com base na capacitação, o professor deve rever seus planejamento e incluir de forma efetiva o tema saúde em suas aulas. Para 65% dos alunos, não existe a possibilidade de obtenção da saúde somente com a prática de exercícios. O professor deve considerar em suas aulas requisitos necessários para a aquisição da saúde que não somente a prática da atividade física. Conceitos de Saúde Coletiva devem ser inseridos nos planos de aula e curso. Foi revelado por 59% dos alunos que, da forma como a disciplina de Educação Física é oferecida, seus conhecimentos sobre saúde não melhoram. Assim, é necessária uma reformulação das políticas de saúde na escola de forma global e não apenas na Educação Física. É preciso a inclusão do currículo de Educação para a Saúde na disciplina e também na escola.

155

Muitos alunos, 90% do total, nunca participaram de uma aula de campo sobre saúde propiciada no momento da aula de Educação Física. O professor de Educação Física pode realizar diversas aulas de campo sobre o tema, tais como: visitar um posto de saúde ou um hospital; levar os alunos a uma palestra; realizar visita solidária a creches, asilos ou orfanatos; promover campanhas sobre Educação para a Saúde na comunidade; e realizar caminhadas, corridas e passeios na cidade para promover a saúde. O mesmo número de alunos citado no parágrafo anterior nunca foi agraciado com aulas no laboratório de Informática sobre o tema saúde, durante as aulas de Educação Física. Os recursos da tecnologia computacional, que devem ser utilizados pelos professores, são meios de transmitir conhecimentos sobre saúde. O aluno pode jogar, assistir a vídeos, realizar conversas on line; pesquisar em diversos sites; e produzir apresentações sobre o tema. As pesquisas sobre saúde a pedido do professor da disciplina, nas respostas de 88% dos alunos, não são realizadas. A proposta sugere que os professores podem solicitar aos alunos que verifiquem entre seus familiares e comunidade hábitos de saúde e prática de atividade física. Tais ações são meios de utilizar a pesquisa como caminho de aprendizagem. Para os alunos, o conceito de saúde é formado pela tríade alimentação, prática de exercícios e ausência de doenças. Os professores devem explicar aos alunos que a saúde comporta mais do que somente estes fatores. Além de proporcionar aulas, palestras e pesquisas sobre os três integrantes dos conceitos dos alunos, o professor pode inserir temas como moradia, segurança, lazer, ócio, higiene, violência, relacionamentos sociais, imagem corporal, dentre outros em suas aulas. Para a maior parte dos alunos, preocupar-se com a alimentação e não fumar/beber/usar drogas são atitudes que devem realizar, além da prática de atividades física para manter a saúde. O professor de Educação Física deve dar uma atenção especial para estes dois temas. A alimentação aliada à prática da atividade física deve ser um tema constante nas aulas. Palestras com nutricionistas e visitas a supermercados e à própria cozinha da escola devem ser promovidas. Da mesma forma, a preocupação com o uso de drogas, seus malefícios e causas hão de ser discutidos. Aulas de campo e visitas a

156

clínicas de reabilitação e palestras com ex-usuários podem ser de grande relevância.

A maioria dos alunos quer aulas que tratem da relação atividade física-

saúde. Os alunos declaram, insistentemente, que necessitam compreender a relação atividade física-saúde, de maneira ampla, daí a importância de o professor utilizar temas específicos da área da Educação Física, tais como:

fisiologia do exercício, anatomia, biomecânica e cinesiologia, benefícios da

atividade física na saúde, adequando-os à faixa etária.

A maioria dos professores elege o conceito da OMS como modelo para

a definição do que é saúde. É necessário analisar com os professores, por meio de processos de educação permanente, os diversos conceitos de saúde, além de refletir, analisar e criticar o conceito da OMS à luz da Saúde Coletiva. Dois terços dos professores disseram que o tema saúde só pode ser ministrado de forma teórica. Capacitando os professores, existe a possibilidade

de compreensão de que as aulas práticas também podem ser locais da aplicação do tema saúde. Aulas práticas sobre primeiros socorros, verificação da frequência cardíaca, testes físicos para análise da condição física, testes antropométricos, dentre outras possibilidades, são instrumentos de assimilação dos conceitos de saúde nas aulas. Os professores mostraram-se divididos quanto aos objetivos da Educação Física no que se refere à saúde nas aulas: prevenção, cuidado e dimensões biológicas. Mediante a capacitação os professores podem perceber outras dimensões da saúde na Educação Física e assim adquirir a capacidade de transmitir tais conceitos aos seus alunos, superando o pensamento biologicista predominante na área.

6.3 Indicador de Saúde na Escola e na Aula de Educação Física

A elaboração da proposta ora apresentada proporcionou a necessidade

de formular um instrumento para avaliar os indicadores de saúde, tanto na escola, quanto nas aulas de Educação Física, transformando a teoria, discutida

e debatida, em produto (APÊNDICE F). Na realização de estudos acerca da qualidade da assistência em saúde escolar, considera-se relevante a utilização de indicadores que se tornem

157

parâmetros recomendados com a finalidade de avaliação. Os indicadores irão promover o acompanhamento das tendências de saúde (ALMEIDA FILHO; ROUQUAYROL, 1999).

Os indicadores são considerados, ainda, como medidas avaliativas para

descrever situações existentes passíveis de mudanças. A maioria dos indicadores são instrumentos quantitativos, mas há aqueles qualitativos (WAUGHN; MOROW, 1992).

O indicador possui representatividade quando apresentam, com

fidedignidade e praticidade, os aspectos de saúde de uma coletividade

(PEREIRA, 1995).

Os requisitos para a formulação de um indicador são: haver dados

disponíveis; ser de construção fácil e simples; possuir bom entendimento; ser plausível de reprodução; refletir fatores que impactam na saúde dos indivíduos; e permitir comparações (SANTOS, 2001).

Para que se tenham maiores informações e se realizem

acompanhamentos sobre a saúde na escola e na aula de Educação Física, tornam-se necessários parâmetros que possam ser utilizados e facilitem a avaliação destes serviços. Assim, acredita-se que os indicadores aqui propostos podem ser resolutivos quanto a necessidade exposta.

Os indicadores foram elaborados por meio da proposta apresentada

neste capítulo e foi instrumentalizado segundo o modelo de Santos (2001).

6.3.1 Procedimentos para aplicação do instrumento

O instrumento é dividido em duas partes, ambas verificam informações. A primeira verifica as políticas, a educação e os serviços de saúde da escola. A segunda analisa como a saúde é tratada nas aulas de Educação Física. Tais informações são denominadas, no instrumento, índices. Neste instrumento, atribuem-se valores para cada resposta, cinco ou zero, esses somados, refletem a pontuação de cada índice, que, mais uma vez somados, levam a uma pontuação total e à classificação da escola e da aula de Educação Física, no que se refere ao indicador de saúde.

De acordo com Vuori (1982), os índices que atingiram ou superaram

valores de 80%, tendo como base a soma, devem ser considerados. O autor

158

sugere uma classificação boa quando 80% dos critérios estabelecidos forem satisfeitos. Para classificar a escola e a aula de Educação Física, é estabelecido um ponto de corte – bom – na escala ordinal. Com base neste ponto, considera-se a assistência de boa qualidade, ou seja, representada pela frequência de 80% no preenchimento dos critérios. É importante ressaltar que a presente pesquisa apenas apresenta o instrumento como um meio de colaboração à ciência, e que o mesmo deve ser validado em futuros estudos. Para melhor entendimento, a pontuação em percentual deve ser entendida como se apresenta:

Quadro 24: Pontuação do Indicador de Saúde na Escola e na Aula de Educação Física

Percentual da soma

Classificação

80

a 100%

Bom

60

a 79%

Regular

40

a 59%

Fraco

20

a 39%

Ruim

Até 19 %

Péssimo

Fonte: Autoria Própria

Quadro 25: Resumo da pontuação a ser obtida:

Variável Índice

 

Pontuação

 

Indicador

de

Saúde

na

520

pontos

100%

da

Escola

e

na

Aula

de

Parte I e II

 

Educação Física: Soma da

 

Parte I e II

 

Parte I Saúde na Escola

 

235

pontos

100%

da

 

Parte I

Parte II

Tema Saúde nos

285

pontos

100%

da

Conteúdos da Educação

Parte II

 

Física

 

Fonte: Autoria Própria

159

7 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Acabou: o temido foi dito e era bem pior que o temido; Acabou: e não soube, não quis, não pude evitar

Jackson Sampaio

Neste texto derradeiro, apresentam-se as considerações gerais, as conclusões e as recomendações do estudo.

7.1 Considerações Gerais

Na busca de respostas às perguntas norteadoras do estudo, verificou-se que o professor de Educação Física pensa a saúde imerso no antigo conceito da OMS e, paradoxalmente, também mergulhado nas correntes do reducionismo biologicista, prática enraizada na cultura da disciplina. Para escapar de tais amarras, necessita pensar a saúde em uma vertente mais ampla e para que isso ocorra efetivamente, as políticas públicas devem se preocupar com a formação, condições de trabalho e, oportunamente, com a própria saúde do professor.

É notável o fato de que o tema saúde é pouco discutido nas aulas de

Educação Física, fazendo-se necessário um projeto de educação permanente

em serviço para habilitar o professor a abordar o assunto. De forma geral, os preceitos da Saúde Coletiva não são utilizados nas

sessões de Educação Física, e, quando o tema saúde surge, o professor se volta apenas para a relação causal exercício físico e saúde. Percebe-se que a relação pedagógica entre a Educação Física Escolar e a Saúde ainda requer propostas práticas de aplicação do tema em aulas e solicita maior adesão nos planos de aula e curso dos professores.

O conhecimento sobre saúde adquirido por meio da Educação Física

Escolar ainda é delicado, a ênfase no esporte e em jogos e brincadeiras parece

ser fim e não meio da disciplina, apenas aspectos da melhoria da condição física se impõem aos debates sobre saúde.

160

Os princípios da Saúde Coletiva aplicáveis nas aulas de Educação Física são, da mesma forma, desmembrados da prática e muito frágeis. Constata-se, no entanto, que os conteúdos e conceitos de saúde podem e devem ser debatidos e desenvolvidos pedagogicamente nas aulas de Educação Física Escolar.

7.2 Conclusões

Ao analisar o objetivo principal, concluiu-se que a relação pedagógica entre a Educação Física e a Saúde nas escolas apresenta programa não resolutivo, por falta de capacitação docente e de propostas curriculares

voltadas para a inserção do tema em ambientes escolares, tal como proposto no Capítulo III.

O conhecimento dos alunos participantes do estudo sobre a relação

entre a Educação Física Escolar e saúde é confuso e irresoluto; verificou-se, na visão dos alunos, que os professores de Educação Física das escolas envolvidas não privilegiam em suas aulas o tema saúde; e analisou-se o fato de que o conhecimento dos professores sobre a relação entre Educação Física e Saúde ainda é reducionista e conservador.

O entendimento sobre saúde, adquirido por meio da Educação Física,

pelos alunos da disciplina, é relativamente modesto. O conhecimento acerca de saúde desenvolvido pelos professores da disciplina é biologicista na prática e,

no plano do discurso, vagamente afiliado ao conceito da OMS, elaborado no início dos anos 1950. Os professores desenvolvem e aplicam o tema saúde de maneira inconstante e, quando ocorre, de forma não planejada. A disciplina Educação Física pode contribuir para o entendimento de saúde se for conduzida por professores capacitados e comprometidos com o objetivo da disciplina de promover e educar para a saúde. A disciplina Educação Física, da forma como é aplicada nas escolas da rede pública municipal de ensino de Fortaleza, infelizmente, promove a compreensão sobre os temas de saúde de forma desarticulada, não planejada, não contextualizada e sem propósitos voltados para Saúde Coletiva. Todas as hipóteses foram confirmadas, de tal modo conclui-se que, realmente, assim como indicado antes da realização da pesquisa de campo: o

161

entendimento dos aspectos biológicos da saúde é conhecido em parte pelos alunos, entretanto os aspectos socioeconômicos e culturais, não ministrados

nas aulas de Educação Física, não fazem parte do repertório dos alunos; a compreensão dos docentes acerca de saúde é biológico e pautado na causalidade exercício-saúde; os professores não recorrem ao tema saúde em suas aulas, utilizam práticas históricas da disciplina voltadas quase que exclusivamente para os jogos e os esportes em suas aulas; a disciplina Educação Física não se volta aos conteúdos da saúde. Examinou-se o caminho metodológico percorrido, percebendo-se que a abordagem utilizada, quantitativa e qualitativa, foi eficiente, já que proporcionou

o trato com números, estatísticas, percentuais e também com percepções,

opiniões, valores e crenças. Os instrumentos utilizados, questionários e entrevistas, também se mostraram capazes de alcançar as respostas para os quais foram propostos. O fato da não possibilidade de acesso aos planos de curso dos docentes, como previsto na coleta de dados, impossibilitou maior verificação da verdade entre as falas dos docentes e sua ação prática. Para evitar tal possível falácia do estudo o pesquisador sugere que, em futura pesquisa similar, a observação seja inserida na metodologia. Conclui-se, como proposta desta tese o fato de ser urgente a implantação de um projeto de ensino para a disciplina de Educação Física e também à escola, voltado para a promoção e educação para a saúde. A proposta lançada, como conteúdo do Capítulo III, apresenta-se como alternativa aos professores, incluindo o instrumento para avaliar os indicadores de saúde na escola e nas aulas de Educação Física.

7.3 Recomendações e Sugestões Finais

Ao concluir o estudo, sugere-se que os professores da disciplina utilizem

o tema saúde em suas aulas, recorrendo não somente à prática de atividades relacionadas aos esportes e jogos, mas também a todos os conteúdos da cultura corporal do movimento e aos temas transversais. Recomenda-se que os docentes: percebam a importância de incluir o tema saúde em suas aulas, utilizando as dimensões de conteúdo

162

procedimental, conceitual e atitudinal; realizem capacitações sobre a temática; produzam planos de aula e curso que sejam resolutivos no que se refere à inclusão da saúde como conteúdo a ser abordado; e que recorram a metodologias abertas, motivadoras e inclusivas em suas aulas. Os professores devem, ainda, promover encontros, palestras, debates e aulas de campo sobre saúde. A realização de pesquisas, visitas às bibliotecas e a utilização dos meios da informática também devem ser ações presentes nas aulas de Educação Física sobre Saúde. Quanto às escolas, recomenda-se que haja esforço na implantação de conteúdos da saúde buscando excelência no favorecimento aos hábitos saudáveis. Quanto à SME, sugere-se que ela possa contribuir com cursos de capacitação aos docentes e equipes de saúde das escolas. Quanto aos governantes, espera-se políticas que possam valorizar os professores, que favoreçam as condições de trabalho, que estimulem-os com bons salários, para que possam comprar livros, realizar cursos de capacitação e financiar pós-graduação. Propõe-se que novos estudos sejam realizados sobre a implantação da saúde em ambientes escolares, mais precisamente por meio da Educação Física. Da mesma forma, é necessário validar o instrumento apresentado na proposta. Esta tese de doutorado termina reproduzindo o seu primeiro parágrafo, ainda na introdução: o estudo visava a responder a questionamentos do pesquisador, surgidos após cursar mestrado na área da Saúde Coletiva, e atuar como docente, entre eles o de compreender a relação entre Educação Física Escolar e Saúde; buscava também respostas sobre como desenvolver pedagogicamente os conteúdos e conceitos de saúde nas aulas de Educação Física. Tais respostas, agora, ao concluir a tese, e ao apresentar a proposta, parecem ser claras e satisfatórias ao que se propôs. Parecem. O autor insistirá na busca de procurar respostas que completem o que aqui foi analisado, discutido e debatido. O pesquisador não se deterá neste ponto final.

163

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177

ANEXO A - Comitê de Ética

178

APÊNDICE A: TCLE – Alunos

Pelo presente Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, você está sendo convidado (a) a participar de um estudo que tem como título: A relação Educação Física escolar e Saúde em escolas públicas municipais de Fortaleza: proposta de Ensino em Saúde, a ser realizado por Heraldo Simões Ferreira, aluno do curso de Doutorado em Saúde Coletiva da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Informamos que sua participação não trará prejuízos para sua saúde, sendo garantida a privacidade dos depoimentos prestados e dos dados coletados, que serão utilizados cientificamente. Informamos também que você não será submetido (a) a despesas financeiras, nem receberá gratificação ou pagamento pela participação neste estudo. Você poderá receber esclarecimentos sobre o andamento da pesquisa quando requisitar podendo desistir de continuar colaborando se assim o desejar.

Fortaleza,

de

de 20

Aluno pesquisador: Heraldo Simões Ferreira Fone para contato: 88014256

Pesquisador Responsável: Prof. Dr. José Jackson Coelho Sampaio Fone para contato: 31019808

Para os pais ou responsáveis pelos menores envolvidos na pesquisa

Concordo que meu filho participe como voluntário (a) no estudo acima citado. Declaro ter sido informado (a) pelo pesquisador sobre o desenvolvimento da pesquisa, os procedimentos nela envolvidos, as finalidades, assim como os possíveis riscos e benefícios decorrentes da participação.

Fortaleza,

de

de 20

Assinatura do pai ou responsável pela criança envolvida

179

APÊNDICE B: TCLE – Professores

Pelo presente Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, você está sendo convidado (a) a participar de um estudo que tem como título: A relação Educação Física Escolar e Saúde em escolas públicas municipais de Fortaleza: proposta de Ensino em Saúde, a ser realizado por Heraldo Simões Ferreira, aluno do curso de Doutorado em Saúde Coletiva da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Informamos que sua participação não trará prejuízos para sua saúde, sendo garantida a privacidade dos depoimentos prestados e dos dados coletados, que serão utilizados cientificamente. Informamos também que você não será submetido (a) a despesas financeiras, nem receberá gratificação ou pagamento pela participação neste estudo. Você poderá receber esclarecimentos sobre o andamento da pesquisa quando requisitar podendo desistir de continuar colaborando se assim o desejar.

Fortaleza,

de

de 20

Aluno pesquisador: Heraldo Simões Ferreira Fone para contato: 88014256

Pesquisador Responsável: Prof. Dr. José Jackson Coelho Sampaio Fone para contato: 31019808

180

APÊNDICE C

Modelo de questionário aplicado aos alunos envolvidos na pesquisa

1. Para

conhecimento?

você, a Educação Física é integrante de que uma área de

a.

Artes (

)

b. Educação (

)

c.

Saúde (

)

d. Outra (

)

2.

Seu entendimento de saúde adquirido por meio da Educação Física é:

a.

Nenhum ( )

b. Pouco (

)

c.

Razoável ( )

d. Muito (

)

3.

Seu professor, nas aulas de Educação Física, fala sobre saúde?

a.

Sim (

) b. Não (

)

4.

Você acredita que, a saúde pode ser obtida somente com a prática de

exercícios?

a.

Sim (

) b. Não (

)

5.

Você acredita que, ao praticar Educação Física da forma como ela é

oferecida em sua escola, seus conhecimentos sobre saúde melhoram?

a.

sim (

)

b.

não (

)

6.

Você já participou de alguma aula de campo ou palestra sobre saúde,

promovidos pelo professor de Educação Física?

a.

sim (

)

b.

não ( )

7.

Você já participou de alguma aula de Educação Física sobre saúde no

laboratório de Informática de sua escola?

a.

sim (

)

b.

não ( )

8.

Você já realizou pesquisas sobre o tema saúde por meio de solicitação

do professor de Educação Física?

a.

sim (

)

b.

não (

)

9.

Questões abertas:

9.1 Para você, o que é saúde?

9.2 Além da prática do exercício físico, que outra atitude é importante para se

obter saúde?

181

APÊNDICE D Roteiro da entrevista realizada com os professores envolvidos:

1. Comente seu conceito de saúde.

2. Você utiliza o tema saúde em suas aulas. Como?

3. É possível aplicar o tema saúde nos conteúdos da Educação Física Escolar

(jogos, esportes, ginásticas, lutas e danças)? Como?

4. Qual o objetivo da Educação Física Escolar no que se refere à saúde? Como

atingir este objetivo?

5. Você recorre a atividades extra sala, uso do laboratório de informática e

solicita pesquisas sobre o tema saúde? Como faz isso?

6. Quais conteúdos você considera mais relevantes para o processo ensino aprendizagem sobre saúde nas aulas de Educação Física?

7. Da forma como a Educação Física é oferecida na escola em que você é o

professor, os conhecimentos dos alunos sobre saúde têm melhorado? Por quê?

182

APÊNDICE E Termo de Anuência - SME

diretor(a)

, esclarecimentos de Heraldo Simões Ferreira (estudante do Curso de Doutorado em Saúde Coletiva sobre a pesquisa intitulada: A relação Educação Física Escolar e saúde em escolas públicas municipais de Fortaleza: uma proposta de Ensino em Saúde, venho por meio desta autorizar a realização do estudo proposto. Fui informado que a estrutura da instituição e muito menos os participantes da pesquisa não sofrerão risco algum e a qualquer momento do estudo os envolvidos poderão desistir de contribuir. Estou ciente de que o pesquisador responsável é o Professor Orientador Dr. José Jackson Coelho Sampaio (docente do curso de Doutorado em Saúde Coletiva da Universidade Estadual do Ceará)

da

os

Eu,

,

após

Fortaleza,

de

de 20

Responsável pela instituição

183

APÊNDICE F

Indicador de Saúde na Escola e na Aula de Educação Física (Índice: 520 Pontos – 100%)

Parte I Saúde na Escola (Índice: 235 Pontos - 100%)

1 Políticas de Saúde no Ambiente Escolar (Índice: 125 pontos - 100%)

a) Politicas de Saúde (20 pontos – 100%)

Há na escola uma equipe de saúde?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

Há estímulo para a prática da atividade física na escola, retirando-se a aula de Educação Física?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

O tempo de recreio que inclui lanche e atividade física livre é de:

30 minutos (

) 5 pontos

Inferior a 30 minutos (

) Zero ponto

Há uma equipe de professores exclusivamente para planejar as ações no recreio?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

b) Motivação que as escolas oferecem para a prática da atividade física ou da Educação Física (45 pontos – 100%)

Possui quadra coberta?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

Os equipamentos e materiais são adequados para a idade escolar?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

As turmas contêm um número não superior a 40 alunos?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

As atividades físicas extracurriculares são oferecidas para todos os alunos

interessados, não discriminando fatores econômicos, sem superlotação e segurança? Sim ( ) 5 pontos Não ( ) Nenhum ponto

com

Há oferta de escolinhas de esporte?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

É permitido o uso da quadra, pátios e playgrounds em horários distintos da grade

curricular?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

Os espaços da escola são liberados aos finais de semana para jogos e atividades recreativas?

184

A escola oferece professores e monitores capacitados para acompanhar as atividades

físicas?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

A escola realiza medidas punitivas utilizando a não permissão da prática da atividade

física ou da Educação Física como castigo?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

c) Educação nutricional (60 pontos – 100%)

São realizadas aulas de educação nutricional?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

A escola oferece alimentação gratuita a todos os alunos, professores e funcionários?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

A alimentação é planejada por um nutricionista?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

O refeitório é agradável, bem higienizado e seguro?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

Os profissionais atuam na alimentação oferecida pela escola são capacitados, e compreendem sobre emergências alimentares? Sim ( ) 5 pontos Não ( ) Nenhum ponto

A escola veda a venda e a distribuição de alimentos de valor nutricional mínimo?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

A escola realiza medidas punitivas a negação ao acesso de alimentos, em razão de

comportamento impróprio?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

Os professores asseguram tempo para que os alunos realizem a higienização das mãos antes e após as refeições, estimulando este hábito? Sim ( ) 5 pontos Não ( ) Nenhum ponto

Todos os funcionários e professores da escola conhecem a política de saúde proposta pela escola?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

Favorecem o acesso dos alunos ao ambiente escolar para a prática da atividade

física?

Sim ( ) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

Estimulam os alunos a participar das aulas de Educação Física?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

Orientam sobre a alimentação saudável no interior da escola?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

2 Educação para a Saúde (Índice: 30 pontos – 100%)

a) O currículo é obediente às diretrizes da Educação para a Saúde, como citado nos Parâmetros Curriculares nacionais (1998)?

185

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

b) O currículo aborda temas de atividade física e saúde?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

c) O currículo aborda temas de alimentação saudável?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

d) O currículo aborda temas, tais como: abuso de drogas, álcool e tabaco; doenças

sexualmente transmissíveis; violência e saúde; doenças coronarianas, diabetes, educação e saúde; higiene corporal; moradia, saneamento e saúde; trabalho, lazer e

ócio; saúde bucal; e aspectos socioculturais relacionados à saúde. Sim ( ) 5 pontos Não ( ) Nenhum ponto

e) As aulas de Educação para a Saúde possuem estratégias motivantes? Levam em

consideração o meio sociocultural dos alunos? Favorecem a adoção de comportamentos saudáveis?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

f) Os professores de Educação para Saúde são capacitados para tratar o assunto de forma didática e acessível aos alunos? Sim ( ) 5 pontos Não ( ) Nenhum ponto

3 Serviços de Saúde no Ambiente Escolar (Índice: 80 pontos – 100%)

a) A escola oferece serviços de saúde, promove a Educação Física e a prática da

atividade física, desenvolve a política da boa alimentação para a comunidade escolar e propaga a Educação para a Saúde? Sim ( ) 5 pontos Não ( ) Nenhum ponto

b) Realiza a elaboração de cartilhas e materiais educacionais sobre saúde; apresentação de palestras e seminários; e aconselhamentos individuais e em grupo? Sim ( ) 5 pontos Não ( ) Nenhum ponto

c) Colabora para a Promoção da Saúde dos funcionários, professores e estudantes da

escola por meio do: desenvolvimento de políticas de saúde; desenvolvimento do currículo para a educação para a saúde; planejamento de aulas, eventos e projetos; treinamento e capacitação dos envolvidos no que se refere aos benefícios da prática da atividade física e boa alimentação; e encorajamento às boas práticas?

Sim ( ) 5 pontos Não ( ) Nenhum ponto

d) Identifica alunos com problemas relacionados à atividade física ou imagem corporal,

como: anemia, bulimia, anorexia, vigorexia, diabetes, obesidade, asma, uso de asteróides, anabolizantes ou medicamentos? Sim ( ) 5 pontos Não ( ) Nenhum ponto

e) Os alunos com problemas relacionados à atividade física ou imagem corporal são

encaminhados para setores específicos?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

f) Há coleta dados sobre a situação da saúde dos alunos da escola uma vez ao ano?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

g) A escola realiza acompanhamento psicológico aos alunos, desenvolve materiais

educacionais, promove discussões e debates sobre a saúde em salas de aula; realiza

186

encontros e palestras; desenvolve política, currículo, aulas e planos de unidade; realiza treinamento de funcionários, professores e alunos sobre o tema saúde? Sim ( ) 5 pontos Não ( ) Nenhum ponto

h) Promove a saúde de funcionários e professores por via de avaliações anuais de

aptidão física relacionada à saúde?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

i) Realiza anualmente com os professores e funcionários um levantamento sobre como os aspectos sociais, econômicos, familiares e relacionados ao trabalho estão influenciando em sua saúde? Sim ( ) 5 pontos Não ( ) Nenhum ponto

j) Oferece programas de atividades físicas para seus professores e funcionários, tais como escolinhas de dança, futsal, voleibol, ginástica e lutas?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

k) Estimula e facilita a participação em atividades físicas para seus professores e

funcionários?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

l) Promove a Educação para a Saúde de seus professores e funcionários mediante

campanhas educativas por meio de cartazes, murais, jornais, palestras e encontros?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

m) Assegura plano de saúde para seus trabalhadores?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

n) Oferece à comunidade e a família dos alunos Educação para Saúde através de

palestras, seminários, feiras, encontros, visitas domiciliares, reuniões de pais e mestres, caminhadas, passeios ciclísticos e prática de modalidades esportivas?

Sim ( ) 5 pontos Não ( )

Nenhum ponto

o) Realiza avaliação sobre a participação e o envolvimento dos alunos com os

programas de saúde da escola, anualmente, com a família e a comunidade?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

p) Os pais ou responsáveis pelos alunos participam ativamente da política de saúde

da escola, sugerindo, atuando voluntariamente, criticando e auxiliando nas atividades

propostas? Sim ( ) 5 pontos Não ( ) Nenhum ponto

Parte II Tema Saúde nos Conteúdos da Educação Física (Ìndice: 285 pontos –

100%)

1 A aula de Educação Física (Índice: 105 pontos – 100%)

a) Possui frequência mínima de três sessões semanais?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

b) Possui um tempo mínimo de 50 minutos de aula propriamente dita?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

187

c) É expandida a todos os alunos, sem exceção, inclusive aqueles que estão liberados

da prática, por atestado médico ou por outro motivo, que neste caso devem realizar aulas teóricas sobre saúde? Sim ( ) 5 pontos Não ( ) Nenhum ponto

d) Possui relevância social no que se refere à aplicação dos conteúdos, aulas e

programas de atividades extracurriculares, indo ao encontro das necessidades do

alunado? Sim ( ) 5 pontos Não ( ) Nenhum ponto

e) É diversificada e prazerosa, incluindo situações competitivas e não competitivas?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

f) Possui número de alunos/professor de forma similar a outras matérias, para que não haja superlotação e todos tenham oportunidade de orientação adequada?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

g) É considerada pelos estudantes como uma experiência agradável?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

h) Promove e estimular o hábito da atividade física ao longo da vida?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

i) É focado no desenvolvimento dos aspectos integrais do desenvolvimento humano, compostos por fatores psicomotores, cognitivos e afetivos?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

j) Busca desenvolver as habilidades motoras como andar, correr, saltar, pular,

arremessar, lançar, chutar e subir; e as capacidades motoras: velocidade, agilidade, resistência, flexibilidade e força? Sim ( ) 5 pontos Não ( ) Nenhum ponto

k) Utiliza de toda a gama da cultura corporal do movimento, traduzida em jogos,

dança, ginástica, lutas, esportes e atividades aquáticas?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

l) Discute a aptidão física relacionada com a saúde e favorece a aprendizagem e a prática dos comportamentos e hábitos físicos para saúde?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

m) Debate outros fatores necessários para a aquisição da saúde, entre os quais moradia, saneamento, trabalho, lazer, ócio, educação e segurança, dentre outros? Sim ( ) 5 pontos Não ( ) Nenhum ponto

n) O programa segue os padrões de segurança para a prática da Educação Física,

entre eles: supervisão adequada pelo professor; utilização de roupas, sapatos e equipamentos adequados; reparo regular dos equipamentos e instalações; evitar exposição ao sol, fumaça e temperaturas extremas; controle de infecção por contato com sangue e outros fluidos corporais? Sim ( ) 5 pontos Não ( ) Nenhum ponto

o) Realiza testes físicos e de aptidão física sem finalidades de comparação?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

p) Realiza ações de debates em classe, trabalhos, pesquisas e estudos sobre o tema?

188

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

q) Realiza palestras sobre saúde?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

r) As aulas ocupam espaços internos da escola, como ginásio, pátio, laboratórios de Informática, Biologia, Química e Física, biblioteca; e espaços externos diversos, como praças, parques, praias, rios, montanhas e as próprias ruas do entorno da instituição? Sim ( ) 5 pontos Não ( ) Nenhum ponto

s) O professor de Educação Física é graduado em licenciatura?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

t) O professor de Educação Física evita práticas que resultem em momento de pouca

ou nenhuma atividade motora dos alunos durante as aulas?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

u) O professor de Educação Física participa de cursos de capacitação e educação

continuada, ao menos uma vez por ano?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

2 Aplicação do Tema Saúde nos Conteúdos da Educação Física (Índice: 180 pontos – 100%)

a) O professor de Educação Física adota hábitos de autocuidado?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

b) Valoriza atitudes relacionadas à higiene e segurança?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

c) Respeita regras de convívio social?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

2.1 Jogos e Brincadeiras

a) O tema saúde é utilizado nas aulas práticas de jogos e brincadeiras?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

b) Há utilização de materiais de sucata, como garrafas pet e papelão, na elaboração

de jogos e brincadeiras, com o objetivo de estimular a consciência e a saúde ambiental?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

c) São solicitadas pesquisas sobre jogos populares praticados pelos seus pais para

verificar como eram ativos e como estão realizando atividades físicas na atualidade?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

d) são realizados debates sobre as reações que o corpo sofre durante as atividades

físicas?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

e) São realizadas aulas em laboratórios de Informática para a prática de jogos computacionais no sentido de transmitir aos discentes noções de postura ao sentar para trabalhar no computador? Sim ( ) 5 pontos Não ( ) Nenhum ponto

189

f) São realizadas pesquisas sobre gasto calórico durante a prática de jogos e

brincadeiras?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

2.2 Esportes

a) O tema saúde é utilizado nas aulas práticas de esportes?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

b) São relacionadas as capacidades físicas e as habilidades motoras com a saúde dos

alunos?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

c) São realizados debates sobre dopping ou uso de drogas e álcool entre atletas?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

d) São transmitidas noções de primeiros socorros nas aulas de esportes?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

e) É explicado aos alunos o funcionamento fisiológico do corpo?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

f) São promovidas análises sociológicas e filosóficas do esporte?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

2.3 Lutas

a) O tema saúde é utilizado nas aulas práticas das lutas?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

b) O professor reforça os benefícios físicos da prática da luta?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

c) São produzidas discussões sobre as distinções entre luta e briga?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

2.4 Ginástica

a) O tema saúde é utilizado nas aulas práticas de ginástica?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

b) A prática da caminhada ou da corrida é desenvolvida durante as aulas de Educação

Física?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

c) O aluno é solicitado a verificar sua frequência cardíaca?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

d) É realizado o alongamento antes e depois da atividade?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

e) O professor explica a diferença entre resistência aeróbia e anaeróbia?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

190

f) O professor favorece o entendimento do impacto da ginástica na saúde?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

g) É promovido o debate acerca da busca desmedida pela beleza corporal como a

anorexia, bulimia, vigorexia, usos de esteróides anabolizantes e treinamento excessivo?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

h) São discutidos os cuidados para a prática da musculação?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

2.5 Atividades Rítmicas e Expressivas

a) O tema saúde é utilizado nas aulas práticas de Atividades Rítmicas e Expressivas?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

b) É promovido o conhecimento acerca das manifestações de dança e música das

diversas culturas, relacionando-as à consecução e manutenção da saúde?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

c) É discutido os benefícios das atividades rítmicas para as capacidades físicas?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

2.6 O conhecimento sobre o corpo

a) O tema saúde é utilizado nas aulas práticas de Atividades Rítmicas e Expressivas?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

b) É favorecido o conhecimento do funcionamento do organismo humano, as noções

de esforço, intensidade e frequência dos exercícios físicos?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

c) O professor de Educação Física reflete sobre as informações da cultura corporal, de modo a manter uma postura autônoma na manutenção ou aquisição da saúde?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

d) Estimula o aluno a adotar uma postura ativa de praticante de atividades físicas?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

e) Nas aulas, o corpo é compreendido somente como um organismo complexo,

composto de aspectos biológicos, sociais, culturais e filosóficos?

Sim (

) 5 pontos

Não (

) Nenhum ponto

f) Os conhecimentos de Anatomia são aplicados durante as práticas, quando o professor solicita aos alunos a realização da anatomia palmatória, quando os alunos de maneira cinestésica percebem seus músculos atuando? Sim ( ) 5 pontos Não ( ) Nenhum ponto

g) O professor favorece a aplicação dos conhecimentos fisiológicos, ao demonstrar

para os alunos as alterações pelos quais os sistemas do corpo sofrem durante a atividade física?