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Refere-se ao Art.

de mesmo nome, 6(1/2), 19-33, 1996 OPlNIAO


Rev. Bras. Cresc. Des. Hum./ S.
ATUALIZAÇÃO
Paulo, 6(1/2), 1996
OPINlON / CURIRENT COMENTS

ALIMENTAÇÃO DE BEBÊS E CRIANÇAS PEQUENAS EM


CONTEXTOS COLETIVOS: MEDIADORES, INTERAÇÕES E
PROGRAMAÇÕES EM EDUCAÇÃO INFANTIL*

FEEDING INFANTS AND TODDLERS IN CRÈCHES:


MEDIATORS. INTERACTIONS AND PROGRAMS
IN EARLY CHILD EDUCATION
Marlene E. M. Amaral 1
Viviane Morelli 2
Rosa V. Pantoni 3
Maria Clotilde Rossetti-Ferreira 4

AMARAL, M. F. M.; MORELLI, V.; PANTONI, R. V.; ROSSETTI-FERREIRA, M. C. Alimen-


tação de Bebês e Crianças Pequenas em Contextos Coletivos: Mediadores, Interações e Progra-
mações em Educação infantil. Rev. Bras. Cresc. Desenv. Human., São Paulo, 6 (1/2), 1996.

Resumo: O presente artigo discute aspectos envolvidos no trabalho da creche para desenvolver
o processo de aquisição de novos hábitos alimentares, tanto no momento em que o bebe começa
a frequentar a creche, como no decorrer de seu desenvolvimento nela. Neste, a busca de coope-
ração entre creche e família é enfatizada como eixo fundamental para que a iniciativa seja bem
sucedida. Partindo de uma reflexão sobre o alimento como construção social e simbólica, contra-
põe-se a idéia do que seria uma dieta equilibrada e balanceada e qual seria sua função no desen-
volvimento da criança. A apresentação tem por base a experiência prática acumulada pelas edu-
cadoras e técnicos da Creche Carochinha nestes últimos anos e uma pesquisa.recentemente
realizada pelo Centro de investigação sobre Desenvolvimento e Educação infantil (CINDEDI)
com o objetivo de registrar e analisar os processos de adaptação de bebés, seus familiares e as
educadoras, durante os primeiros meses de frequência à Creche Carochinha. São apresentadas as
diretrizes que orientam nosso trabalho nessa área, enfatizando o respeito devido à criança en-
quanto sujeito ativo neste processo de aquisição. Alguns elementos norteadores para a elabora-
ção do cardápio são discutidos, discriminando procedimentos e etapas seguidas na introdução de
modificações, particularmente quando estas coincidem com o período de integração da criança e
da família à creche. São referidas algumas situações que requerem procedimentos específicos.
Como conclusão, são feitos alguns comentários sobre a formação do educador, questão básica
quando se quer garantir uma educação de qualidade.

Palavras-chave: desenvolvimento de hábitos alimentares em creche, alimentação coletiva de


bebês, programações e alimentação em creche.

* Uma versão preliminar deste trabalho foi apresentada no “Seminário Comemorativo dos 10 Anos do Programa Creche do Curso de
Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da USP”, coordenado pela Profa. Dra. Maria Angela Bittar, São Paulo, Novembro de
1995.
1 Auxiliar de Enfennagem da Creche Carochinha - COSEAS/USP - Ribeirão Preto.
2 Técnica em Nutrição e Dietética da Creche Carochinha - COSEAS/USP - Ribeirão Preto.
3 Psicóloga da Creche Carochinha - COSEAS/USP - Ribeirão Preto.
4 Profa. Tit. da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto – Depto. de Psicologia da Universidade de São Paulo.
End.: Av. Bandeirantes, 3900 - Ribeirão Preto - S.P. CEP: 14040-900 Fone: (016) 633-1010 r. 374/491 – Fax: (016) 623-2792.

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INTROD UÇÃO original de encarar a introdução de hábitos ali-


mentares na educação coletiva de crianças peque-
O cuidado e educação de bebês em am- nas em instituições tipo creche.
bientes coletivos, em regime de tempo integral, A partir de urna reflexão sobre o alimento
constitui um fenômeno relativamente novo em como construção social e simbólica, procuraremos
nossa sociedade. Nos últimos vinte anos tem ha- analisar o que seria uma dieta equilibrada e balan-
vido um número crescente de experiências e es- ceada e qual seria sua função no desenvolvimento
tudos sobre a organização de um ambiente coleti- da criança. Apresentaremos as diretrizes que orien-
vo adequado às necessidades da criança nos tam nosso trabalho nessa área, enfatizando a im-
primeiros anos de vida, que possibilite uiva boa portância do envolvimento da família e do respei-
integração entre a família e as educadoras respon- to devido à criança enquanto sujeito ativo do
sáveis pela criança e que favoreça um desenvol- processo de aquisição de hábitos alimentares. Dis-
vimento harmonioso da criança em seu grupo de cutiremos alguns elementos norteadores para ela-
convivência na creche. A Creche Carochinha- boração do cardápio, discriminando procedimen-
COSEAS-USP, no Campus de Ribeirão Preto, e tos e etapas seguidas na introdução de
o Centro de Investigação sobre Desenvolvimento modificações, particularmente quando essas coin-
e Educação Infantil (CINDEDI) têm participado cidem com o período de integração da criança e da
conjuntamente de algumas dessas investigações família à creche. Serão referidas algumas situações
e experiências, com o objetivo de fornecer subsí- especiais que requerem procedimentos específicos.
dios para uma organização do espaço físico da Para concluir, teceremos alguns comentários so-
creche e do planejamento pedagógico que, siste- bre a formação do educador, questão básica quan-
matizados, promovam melhores condições para do se quer garantir uma educação de qualidade,
o desenvolvimento integral da criança. Têm pro- como também apresentaremos algumas estratégias
curado também contribuir para o trabalho de for- que vêm sendo utilizadas, pela instituição referida,
mação do educador; agente fundamental do pro- visando articular dentro da proposta pedagógica as
cesso educativo (ROSSETTI-FERREIRA et al., ações vinculadas à alimentação.
1991; OLIVEIRA et al., 1992, VITORIA & A Creche Carochinha existe há dez anos e
ROSSETTI-FERREIRA, 1993). conta com uma clientela que envolve famílias com
Este artigo tem por base a experiência prá- vínculo de trabalho com a Universidade, consti-
tica acumulada pelas educadoras e técnicos da tuída por funcionários (70%), docentes (15%), es-
Creche Carochinha nestes últimos anos e uma pes- tudantes de graduação e pós (5%). Nesse perío-
quisa recentemente realizada pelo Centro de In- do, a direção da creche tem conseguido elaborar
vestigação sobre Desenvolvimento e Educação o papel social e pedagógico dessa instituição.
Infantil (CINDEDI) com o objetivo de registrar e Concebida como local complementar ao cuidado
analisar os processos de adaptação de bebês, seus da família com quem compartilha a responsabili-
familiares e as educadoras, durante os primeiros dade de educação da criança, ela oferece um con-
meses de frequência à Creche Carochinha5 (ROS- texto coletivo especialmente planejado para pro-
SETTI-FERREIRA et. al., 1994). mover o desenvolvimento infantil. Organiza-se
Pretendemos trazer alguma contribuição enquanto um espaço onde as interações das crian-
para uma discussão sobre como a creche e a fa- ças são favorecidas, tanto com os adultos como
mília podem trabalhar conjuntamente de forma a com as outras crianças, compreendendo a neces-
favorecer o processo de aquisição de novos hábi- sidade de que o processo de integração ocorra de
tos alimentares, tanto no momento que o bebê co- forma mais adequada possível tanto para a crian-
meça a freqüentar a creche, como no decorrer do ça como para sua família. Na fase do ingresso das
seu desenvolvimento nela. crianças, a creche prepara-se de forma a promo-
Faz-se necessário ressaltar que a importân- ver o conhecimento e a confiança mútua, favore-
cia deste trabalho foi estimulada inicialmente pela cendo assim a integração e o estabelecimento de
nutricionista Iara Mattos, Diretora da Divisão de vínculos entre estas e as educadoras. Para isso
Creches da Coordenadoria de Assistência Social programa cuidadosamente o ingresso das crian-
(COSEAS) - USP, ao introduzir em algumas cre- ças e respectivas famílias à creche. Inicialmente
ches dessa Universidade e particularmente na é realizada uma reunião com todas as famílias para
Creche Carochinha, uma maneira inovadora e se discutir o processo de adaptação e agendar as

5 ROSSETTI-FERREIRA. M. C. Processos de Adaptação de Bebês à Creche Ribeirão Preto, 1994. [Projeto de Pesquisa - Centro
Brasileiro de Investigações sobre Desenvolvimento e Educação infantil (CINDEDI). Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de
Ribeirão Preto - USP.]

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entrevistas de matrícula. Nestas, busca-se inúme- doces e outras guloseimas a pessoas queridas
ras informações quanto à história da criança no (bombom no dia dos namorados e das mães, o
que se refere à saúde, hábitos alimentares, rela- chocolate “surpresa” dado à criança na entrada
ção com outras crianças e adultos e comportamen- ou saída da creche etc). Sem falar da grande im-
tos em geral (como dorme, como se alimenta, rea- portância que a refeição adquire nas comemora-
ções de medo, estranhamentos etc). Esses dados ções religiosas (o almoço da Páscoa, a Ceia de
são fundamentais para evitar alterações bruscas Natal etc). Podemos ainda observar o quanto é
na rotina da criança. O ingresso é feito progressi- importante a presença de alimentos em jantares
vamente, duas crianças por semana em cada tur- de negócios, banquetes de casamento, visitas etc.
ma, cada criança iniciando em um período do dia, Já do ponto de vista político-econômico,
o que dá às educadoras uma maior disponibilida- podemos dizer que o alimento é freqüentemente
de no atendimento ao bebê e sua família. No pe- usado, em nossa sociedade, como forma de in-
ríodo de uma a duas semanas é solicitado que al- fluência e domínio. Não são raras as situações
gum dos familiares permaneça com a criança na onde é utilizado para obter votos ou manter a tra-
creche. O tempo de permanência do bebê vai au- dição de políticas fisiológicas. sendo um elemen-
mentando progressivamente, a medida que dimi- to importante que contribui para a manutenção
nui o tempo de permanência do familiar, até o das disparidades entre as diferentes classes sociais.
bebê ficar tranqüilamente o periodo integral (a Sendo assim, o alimento acaba por adquirir um
chegada à creche dá-se entre 7:20 e 8:30 hs e a poder de demarcar diferentes espaços (“status”)
saída entre 16:30 e 17:30 hs.). para as diferentes camadas sociais.
A pesquisa em que se baseia este artigo Diante dessas considerações, o alimento
acompanhou 26 bebês (faixa etária de 4 meses a deixa de ter apenas a finalidade de suprir as ne-
1 ano e 5 meses), que começaram gradualmente a cessidades nutricionais, para tornar-se uma mer-
freqüentar a creche em março-abril de 1994. Os cadoria de consumo. E, como tal, gera um inves-
dados foram coletados através de entrevistas, fi- timento maciço, por parte da mídia em geral, com
chas diárias de frequência, de estado de saúde, o objetivo de propagar os chamados alimentos
registros de intercorrências médicas e observações “mais adequados” ou associar determinados ali-
da criança, durante o primeiro ano de freqüência mentos a este ou aquele padrão de consumo. Pa-
na instituição, envolvendo para tal as educadoras rafraseando um famoso comercial de jeans, po-
e respectivas famílias. demos dizer que: “o mundo trata melhor quem
come ‘bem’”.
Este padrão dito mais adequado entretanto
O ALIMENTO COMO CONSTRUÇÃO nem sempre preconiza dietas apropriadas do ponto
SOCIAL de vista nutricional. Em termos nutricionais po-
demos definir como adequada uma dieta equili-
O homem, diferentemente de outros ani- brada e balanceada que supre as necessidades fun-
mais, não ingere alimentos apenas para saciar suas damentais para a manutenção e preservação da
necessidades fisiológicos. Além da sensação de vida. Segundo Mattos6, para cumprir estes objeti-
satisfação obtida pela saciação da fome, o comer vos a alimentação precisaria cumprir algumas leis
supre outras necessidades advindas das significa- propostas pela Ciência da Nutzição:
ções sociais que cada indivíduo vivencia em seu Lei da Quantidade: deve cobrir às exigên-
grupo social. cias energéticas do corpo e manter seu equilíbrio.
Dessa forma, o comer também constitui no Lei da Qualidade: deve ser completa. con-
homem uma atividade simbólica, mediada tanto tendo os nutrientes necessários a cada indivíduo e
por fatores socioeconômicos, quanto culturais e petmitir um bom funcionamento do metabolismo.
psicológicos. Assim sendo, está permeado por di- Lei da Harmonia: os nutrientes que a com-
ferentes valores e significados, dos quais os indi- põem devem guardar entre si relação de proporção
víduos vão se apropriando ao longo do seu de- e de harmonia em relação à consistência e à cor.
senvolvimento. Lei da Adequação: precisa assegurar o per-
Na literatura leiga há referências freqüen- feito crescimento e desenvolvimento. ou seja,
tes ao papel do alimento como representante de adequar-se às necessidades de cada faixa etária e
inúmeras gratificações e, associado a isto, a idéia ao estado de saúde.
deste como elemento simbolizador de afeto. É bas- Com base nessas colocações podemos re-
tante freqüente em nossa sociedade o presentear fletir que apesar da diversidade de hábitos

6 MATTOS, 1. Contexto da alimentação na história do homem. São Paulo, COSEAS/USP. 1994. [Trabalho não publicado].

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alimentazes nas diferentes culturas, é possível Esse contexto reforça o sentimento de fra-
definir uma certa regularidade nos elementos que casso (embora pouco externalizado socialmente)
compõem o conceito de dieta adequada. Pode- que muitas mulheres vivenciam quando não con-
se e deve-se observar e respeitar as diferenças seguem amamentar ou quando possuem um filho
no que se refere às receitas e pratos típicos que de estrutura longilínea (maior altura que ganho
compõetn o cardápio de cada grupo social. as de peso).
formas de manusear e preparar os alimentos, Partindo dessas considerações, o presente
de se comportar durante as refeições etc. Toda- artigo visa trazer algumas contribuições no que
via, do ponto de vista biológico. é importante se refere à introdução de hábitos alimentares de
considerarmos os conhecimentos da Nutrição, crianças de 0 a 6 anos que freqüentam institui-
da Fisiologia e de outras ciências, quando nos ções de cuidado e educação coletiva em tempo
propomos a realizar uma definição de dieta ade- integral.
quada. O principal pressuposto que orienta essa
Retomando a questão dos alimentos reflexão é o de que uma orientação dietética ade-
como mercadoria de consumo, podemos perce- quada, desde o início da vida, é de suma impor-
ber que muitas das representações prevalentes em tância para o desenvolvimento saudável do indi-
nossa sociedade no que diz respeito aos alimen- víduo, e portanto para sua sobrevida em boas
tos ou ao papel da alimentação na vida das crian- condições de saúde, como para a formação de
ças. distanciam-se muito dessa definição. Um bons hábitos alimentares. A não ocorrência de
exemplo disso é pontuado por WOISKI (1988, procedimentos adequados durante este período
pg. 107): “a ilusão do aumento de peso como si- torna esta última tarefa difícil em idades poste-
nal de saúde leva freqüentemente ao hábito de riores. A prática educativa tem mostrado, por
aumentar as concentrações de hidratos de carbo- exemplo, que crianças com 4 anos de idade, que
no (sendo mais popularmente utilizado o açúcar já constituíram o hábito de comer apenas arroz e
refinado), desenvolvendo maus hábitos alimen- feijão no almoço e/ou jantar, apresentam dificul-
tares que se prolongam por toda vida”. dades para incorporar legumes ou verfuras às suas
Associada a essa idéia positiva de aumen- refeições.
to de peso, percebemos como prevalente a repre-
sentação da “boa mãe” como sendo aquela que
possui leite em abundância para oferecer ao fi-
lho, estabelecendo-se no imaginário a seguinte re- PRINCIPAIS DIRETRIZES QUE
lação: bebê saudável equivale a bebê gordinho ORIENTAM NOSSO TRABALHO
(fofinho). Isso pode ser verificado em um trecho
de entrevista com uma das mães do grupo 1. Além da preocupação com relação ao
pesquisado: oferecimento de dietas adequadas do ponto de
“Eu tenho uma preocupação assim muito vista nutricional, o trabalho realizado junto às
grande em relação à comida, eu tenho porque ela crianças tem também incorporado conhecimen-
magrinha ... come pouco... então eu me preocu- tos advindos da Fisiologia e da Fonoaudiologia.
po demais, quando eu vejo a criança gorda. for- Assim, tem-se também a preocupação com o de-
te.. então eu já não tenho uma preocupação de senvolvimento adequado das funções neurove-
alimentação: agora como ela não é... então fico getativas: respiração, sucção mastigação e coor-
super preocupada” (S, mãe de X, 9 meses, denação dos órgãos fonoarticulatórios (lingual,
28.04.94). lábios, bochecha e palato), dado que o desenvol-
Podemos perceber que, em nossa socieda- vimento dessas funções tem grande importância
de esse ponto é muito explorado pela midia. Inú- para o desenvolvimento da fala, e conseqüente-
meras propagandas (de leites, iogurtes etc) asso- mente, socialização da criança.
ciam bebês gordinhos com frases que indicam
bons cuidados. Muitas delas centralizam o dis- 2. O respeito à criança enqunanto ser ativo no
curso em aspectos relacionados aos sentimentos processo de aquisição de conhecimento
de culpa vivenciados pelos pais em situações de Com base na concepção sócio-inte-
alimentação, reforçando o embate criança versus racionista construtivista de desenvolvimento, sa-
adulto. Um exemplo sutil desse embate pode ser bemos que o desenvolvimento humano ocorre nas
observado em cenas onde a ação da criança, ao e através das inúmeras interações que a criança
burlar uma determinada combinação (por exem- estabelece, desde muito pequena, com o meio fí-
plo mudar um prato de arroz e feijão por um pra- sico e social (ou seja, com os objetos, espaços,
to de batata frita) transmite a tão difundida idéia adultos e crianças, com os quais convivem), agin-
de levar vantagem. do ativamente na construção de seus conhecimen-

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tos. (OLIVEIRA, et al., 1992). Segundo as auto- ções realizadas anteriommente (leis da nutrição),
ras, essa atitude ativa faz com que, ao mesmo tem- são priorizados produtos que não contenham
po, a criança modifique o meio físico e social e conservantes e aromatizantes artificiais, sendo
seja modificada por ele. feitas considerações especiais quanto à quantida-
Nesse sentido entendemos que, com rela- de de sal, açúcar e óleo. Especialmente no mo-
ção à alimentação, o trabalho da instituição tam- mento de introdução de algum alimento novo, a
bém deve ser o de incentivar procedimentos que prática de se evitar o uso de aromatizantes e
favoreçam níveis cada vez maiores de autonomia conservantes tem como finalidade evitar-se uma
da criança, no que se refere ao processo de apro- avaliação equivocada no caso de ocorrência de
priação de hábitos alimentares. Ou seja, que ao reações alérgicas ou adversas relacionadas a essa
longo desse processo, a criança possa ir definin- introdução7.
do o ritmo e a velocidade com que deseja comer,
tendo acesso a um repertório variado de alimen-
tos, para que, gradativamente, possa reconhecer PROCEDIMENTOS DE INSERÇÃO DA
suas preferências, escolhendo inclusive perto de CRIANÇA E DA FAMÍLIA À CRECHE E A
quem deseja realizar suas refeições etc. OFERTA DE ALIMENTOS DURANTE O
PROCESSO DE ADAPTAÇÃO
3. Realização de um trahalho compartilhado
com a família Assim como a alimentação de forma geral,
Com base então na concepção acima men- a introdução e/ou modificação de hábitos alimen-
cionada e considerando o desenvolvimento glo- tares são ações bastante complexas, que envolvem
bal da criança, temos a preocupação de realizar aspectos políticos, econômicos e culturais, entre
ações que possam ser compartilhadas com o nú- outros, cuja repercussão acarreta interrogações,
cleo familiar, procurando organizar estratégias que questionamentos, desconfiança e muita ansiedade
possibilitem socializar conhecimentos e refletir por parte das pessoas envolvidas no processo.
conjuntamente com as famílias a respeito dos pro- Várias mulheres sentem-se incompetentes
cedimentos que a creche se propõe a realizar. quando seu filho se recusa a comer a refeição fei-
Entendemos que a creche ou outra insti- ta por elas com tanto carinho ou quando, por al-
tuição educativa deve realizar um trabalho com- gum motivo, a criança apresenta reações adver-
plementar e compartilhado e não de substituição sas durante o período de introdução de algo novo.
à família, pois ambas possuem responsabilidades Imaginemos então essas ações ocorrendo
e papéis específicos frente à educação e cuidado nos primeiros dias em que a criança e seus fami-
da criança. liares fieqüentam um ambiente novo e desconhe-
cido (período de inserção na creche).
4. Elementos norteadores para elaboração dos Um exemplo retirado de entrevista de uma
cardápios mãe do grupo pesquisado (S, mãe de X, 9 meses,
O primeiro ponto a ser colocado refere-se 08.05.94) pode ilustrar um pouco a situação de
à cobertura das necessidades nutricionais que de- desconfiança frente à instituição durante este pe-
veriam ser supridas durante o período que a crian- ríodo:
ça passa na creche. Considerando o tempo de per- “Na... na nessa creche eles dão muita coi-
manência diário (cerca de 9 a 10 horas) e a sa diferente, e ela não está acostumada a comer
capacidade de absorção do organismo no respec- muita coisa misturuda.” “Para suprir assim
tivo intervalo de tempo, na Creche Carochinha a ...dela não comer na creche, chego em casa, eu
elaboração do cardápio se propõe a suprir cerca faço a janta, tento dar alguma coisinha pra ela...
de 70% das necessidades nutricionais diárias, sen- se não comer dou uma frutinha ou uma vitamina,
do o restante de responsabilidade da família. uma coisa assim.”
O segundo ponto refere-se à elaboração dos Esse discurso revela o quanto essa mãe
cardápios, conjuntamente com o planejamento e desconfia da aceitação do alimento oferecido à
a organização das refeições. Além das considera- criança na creche e tenta oferecer-lhe o máximo

7 Essa linha de trabalho baseia-se também no fato de que, cada vez mais, um grande número de famílias que recorrem ao consumo
de “fast food” (atualmente encontrado em abundância no mercado), em função da praticidade e rapidez de preparação e consumo
do mesmos. Esses alimentos geralmente contêm aromatizantes e conservantes. Nesse sentido. a creche, ao evitar sua utilização e.
ao mesmo tempo oferecer um tipo de alimentação diferente, pode contribuir para que a criança tenha acesso a um repertório mais
amplo e variado.

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possível de refeições a fim de sentir-se segura. espaço e às novas pessoas, de orientações médi-
Assim como esta, muitas outras desconfianças e cas e também em função de condições fisiológi-
ansiedades aparecem durante as primeiras sema- cos e de maturação dos órgãos responsáveis pela
nas em que a família freqüenta a instituição: des- mas-tigação. Essas modificações podem ter iní-
confia-se de que a criança não comeu, mesmo cio logo no segundo mes após o ingresso da
quando a educadora falou que comeu; desconfia- criança na instituição ou demorar um pouco mais.
se de que o cardápio elaborado e à disposição dos Trata-se de um processo demorado, na medida
familiares não é igual ao oferecido, duvida-se das em que se procura respeitar o ritmo de desen-
quantidades ingeridas, da forma de oferecimento volvimento de cada faixa etária e de cada crian-
etc. Para contornar essa desconfiança, o planeja- ça individualmente.
mento e a organização relacionados aos proces- Com relação ao adulto, que lida diretamen-
sos de introdução e ou a modificação de hábitos te com as crianças. faz-se necessário considerar a
alimentares precisam ser efetuados de forma muito influência de suas representações sociais nas ações
cautelosa durante o período de adaptação, pois as e interações que estabelece com as crianças e fa-
ações realizadas acabam por interferir intensamen- mílias. Analisando aquelas representações que
te tanto na rotina familiar, como nas representa- vinculam o doce ao afeto, podemos perceber que
ções das famílias acerca da alimentação e do pa- a grande maioria dos adultos vivenciam sentimen-
pel da creche neste processo. tos de dó pelo fato das crianças estarem ingerin-
A primeira etapa da realização dessas ações do alimentos com sabor natural. como o leite por
ocorre por ocasião da matrícula da criança onde, exemplo. menos adoçados do que aqueles que in-
através de um roteiro detalhado de entrevista gerem em casa. Nas situações de diminuição do
semiestruturada, são investigados seus hábitos açúcar. os adultos muitas vezes não lidam de for-
alimentares: horários, quantidades, alimentos de ma positiva, na medida em que a percepção dessa
maior ou menor aceitação, formas de oferecimen- ação é tida como castigo ou punição, e não como
to, local e participação da criança no momento da algo bom, capaz de prevenir problemas e favore-
refeição etc. cer um desenvolvimento saudável.
Com base nesses dados a creche procura É importante lembrar que existem no meio
inicialmente oferecer o alimento da forma mais científico várias pesquisas sobre alimentação, re-
semelhante possível ao da família, seguindo seus velando que a adição excessiva de açúcar,
horários, forma de oferecimento e produtos. Na carboidratos, sal, condimentos, entre outros,
medida do possível, gradativamente, são introdu- relacionam-se diretamente com distúrbios orgâ-
zidas as modificações necessárias, visando cum- nicos e doenças degcnerativas do organismo. As-
prir os objetivos expostos anteriormente (retirada sim procuramos. ao longo do periodo de perma-
de carboidratos. redução de alimentos que conte- nência da criança na creche, retirar ou dimmuir
nham corantes, aromatizantes e conservantes, di- (em conjinto com as famílias) os hábitos de inges-
minuição de açúcar e do sal, modificações nos tão excessiva desses componentes. Um exemplo
horários de oferecimento, na forma e velocidade disso são os sucos. dentre os quais apenas os de
da oferta etc). teor mais azedo recebem a adição do açúcar (numa
Durante esse processo é feita a elaboração proporção de 3% do volume total). Outro exem-
de um cardápio próprio adequado a cada idade, plo é o leite. Se a criança está habituada a ingerir
com introdução gradativa de ingredientes (que uma mamadeira com 2 colheres de açúcar, a cre-
varia de 2 a 3 por vez) sendo ainda observados che passa a colocar uma e meia depois uma de-
aspectos como: quantidade, consistência, reações pois meia. até que finalmente a criança consiga
pós-oferta, etc.). Se a criança está com aleitamento ingerí-la sem açúcar.
materno exclusivo nessa etapa, a introdução de Essas etapas vão ocorrendo gradativamente
alimentos complementares ocorre a partir de orien- durante o período de adaptação. Nesse sentido. é
tações pediátricas individuais, respeitando-se as- importante lembrarmos que para algumas crian-
sim a idade em que o médico da criança avalia ças o ingresso à creche coincide com o período
ser mais adequada para iniciar a complementação. de transição do leite materno para o leite de vaca.
De modo geral, temos observado que esta Assim, as orientações pediátricas de introdução
complementação tem sido iniciada entre o 4° e 6° do leite de vaca prevêem modificações como a
mes de idade da criança. diluição do leite em égua, acrescida de 5 a 7% de
Com relação às primeiras modificações açúcar. Esse procedimento tem como objetivo di-
referentes à consistência dos alimentos, com minuir a quantidade de proteina do leite. conco-
crianças de 4 meses a 1 ano e 6 meses, o traba- mitantemente ao aumento do suporte calórico. no
lho realizado na creche sofre variações em fun- sentido de aproximá-lo da composição do leite
ção da adaptação da criança e da família ao novo humano e torná-lo assim compatível com a capa-

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cidade digestiva do bebê. Tais orientações são lingual que caracterizam uma atividade prepara-
respeitadas e. gradativamante, vai-se negociando tória para a mastigação. Assim, embora ainda não
com a família; o pediatra e a criança, havendo tenha sido introduzida a alimentação sólida para
modificações com o crescimento e desenvolvi- a criança, é possível oferecer-lhe pedaços de pão
mento da crtança. e bolachas e/ou outros alimentos de consistência
Segundo MITCHELL et al (1978). a intro- mais dura. “A criança leva este alimento para a
dução de alimentos suplementares à lactação so- parte lateral da boca e realiza uma série de movi-
freu grandes mudanças nos últimos 30 anos. An- mentos: suga, abre e fecha as mandíbulas em
tigamente se preconizava que esta introdução não movimento de protrusão, participando tanto do
deveria ocorrer antes do 1° ano de vida. Nas dé- amolecimento como depois de retirado um peda-
cadas de 70 e 80 chegou-se a procedimentos opos- ço, da lateralização do alimento. Dessa forma, ela
tos, como, por exemplo, introduziu semi-sólidos estará sendo estimulada a ir preparando a
já no primeiro mês de vida. mastigação de sólidos nas refeições.’` (GOMES
“A experiência aliada aos melhores instru- et al., 1991).
mentos de nutrição vieram mostrar que a alimen- Neste período é possível também oferecer,
tação láctea exclusiva, prolongada até um ano de entre outros alimentos. frutas amassadas ou ras-
idade, não atendia a todas as exigências do orga- padas (nas sobremesas e lanche). O treino dessas
nismo em dcsenvolvimento especialmente no que atividades vai levando a um progressivo aperfei-
diz respeito às vitaminas e sais minerais” çoamento e o esboço do mastigatório sofre modi-
(WOISKI, 1988). ficações. A papa, de amassada pode ser mistura-
Através da literatura da área, pode-se ob- da com alimentos sólidos (“papa meio a meio”)
servar que as idades mais adequadas para se rea- e, progressivamente, aproximar-se do padrão ali-
lizar essas introduções seguem orientações diver- mentar do adulto, o que ocorre quando a criança
sas no que se refere aos vários tipos de alimentos está com aproximadamente 3 anos, segundo as
e variam entre os diferentes autores. Porém todos autoras acima mencionadas.
concordam quanto à necessidade de se realizar A mudança no padrão mastigatório ocorre
uma introdução gradual de modo a “tatear’’ a to- em função da modificação dos movimentos de
lerância individual c estar atento às condições fi- inandíbula, que anteriormente eram apenas verti-
siológicas de mastigação, digestão e absorção des- cais e, posteriormente. tornam-se verticais e hori-
tes alimentos. zontais.
O fato da criança ter tido a oportunidade Durante a introdução dos alimentos semi-
(ou não) de passar por um processo de aleitamen- sólidos é importante estar atento à quantidade de
to materno e a época de ocorrência do desmame alimento por colherada e a velocidade de oferta,
também são fatores orientadores sobre a melhor procurando respeitar o ritmo individual de cada
época para realizar essas introduções. criança. Ao conceber a criança como ser ativo
A liquidificação de papas. durante o pro- neste processo é possível estimular gradativamen-
cesso de introdução de alimentação semi-sólida, te maiores níveis de autonomia. Inicialmente, o
não é recomendada, visto que uma consistência educador Ihe dá a refeição, estimulando-a aos
líquida pouco ajudará no processo de fortaleci- poucos a participar, oferecendo-lhe outra colher
mento dos músculos faciais, dificultando assim, concomitantemente à utilizada pelo adulto. Nes-
a emergência do padrão mastigatório. A princí- se momento, é possível permitir à criança explo-
pio, então, as papas são peneiradas e, de acordo rar este objeto e aos poucos auxiliá-la em suas
com o desenvolvimento dos primeiros esboços de primeiras tentativas de levá-lo à boca, o que exi-
mastigação e a erupção dos primeiros dentes (que ge movimentos cada vez mais coordenados, esti-
ocorre em tomo dos 6 meses), passam a ser amas- mulando assim um maior desenvolvimento
sadas e não mais peneiradas. Nessa fase. a ali- psicomotor.
mentação com a colher vai se tornando cada vez Pode-se observar que, por volta dos 2 anos,
mais facilitada, uma vez que já existe uma ação após todo esse processo, a criança já se apresenta
labial mais coordenada e desenvolvida, juntamen- apta a realizar esses movimentos autonomamen-
te com uma melhor coordenação mãos- olhos. te, determinando a quantidade e a velocidade de
É importante salientar que nesta fase a sua refeição. Nesse período é comum ela selecio-
criança jà tem condições de ter experimentado nar alguns alimentos. O educador assume então
todos os ingredientes que compõem a alimenta- uma função importante de mediar a construção
ção do lactente (feculentos, carne, gema de ovo, progressiva de uin repertório alimentar mais am-
caldo de feijão, leguminosas, folhas e cereais). plo possível.
Em torno dos 7/8 meses podem ser claramente E importante lembrarmos que na creche
observados alguns movimentos de mandíbula e todo esse processo está ocorrendo num ambiente

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coletivo, onde a estruturação e organização do e fala, bem como pela promoção a maturação dos
espaço físico e dos objetos, bem como das ações órgãos fonoarticulatórios.
dos adultos precisam ser pensados de acordo com A amamentação natural é a forma mais
as necessidades dos diferentes grupos de crian- adequada de desenvolver a sucção. Quando esta
ças, geralmente de faixas etárias variadas, respei- não ocorre, é importante oferecer às crianças es-
tando as diferenças individuais. Assim o educa- tímulos semelhantes, ou seja, bicos de mamadei-
dor tem um papel fundamental enquanto mediador ra com furos que imitem o fluxo de leite do seio
e promotor desse desenvolvimento. As interações materno8.
entre as crianças desempenham um papel impor- O uso das chupetas também precisa ser pen-
tante. Interagindo com companheiros que se en- sado. A maioiia das existentes no mercado tela au-
contram em diferentes fases e níveis de desenvol- réola invertida, não mantendo contato com o lá-
vimento, e através da observação e imitação dos bio, o que interfere no bom desenvolvimento do
seus comportamentos, as crianças têm inúmeras padrão de sucção e deglutição. Inverter a auréola
oportunidades de construir novos conhecimentos, da chupeta constitui uma alternativa que temos
aprimorar suas habilidades e avançar em seu pro- sugerido e usado para superar esse problema.
cesso de desenvolvimento. Outro procedimento utilizado para desen-
volver essas funções é a utilização de canecas com
furinho “chup chup”, que permitem que a criança
aprenda a beber em goles, sendo intermediária
PROCEDIMENTOS COMPLEMENTARES entre a mamadeira e a caneca comum. Este tipo
QUE VISAM O DESENVOLVIMENTO DOS de caneca pode ser introduzida a partir dos 9 me-
ORGÃOS FONO-ARTICULATÓRIOS ses, época em que também é possível introduzir
canudos, outra forma de estimular a sucção de
Como já dito anteriormente, a introdução maneira prazerosa e divertida, além de favorecer
e/ou modificação de hábitos alimentares visa tam- o desenvolvimento de postura mais adequada, ou
bém um desenvolvimento adequado das funções seja, sentada.
neurovegetativas. Nesse sentido, além dos aspec- O uso exagerado de chupetas, sucção de
tos salientados como importantes durante a intro- dedos, fluxo muito grande de leite na mamadeira,
dução de alimentos semi-sólidos e sólidos, a cre- consistências inadequadas de papas, velocidade
che realiza outros procedimentos que auxiliam a rápida de oferta, ingestão de quantidades exage-
maturação dos órgãos responsáveis pelas funções radas de comida por colherada etc, são fatores que
neurovegetativas. interferem na deglutição. É importante lembrar
Sabemos que a respiração inadequada ou que esta, embora constitua um ato reflexo nos re-
bucal se instala por diversas causas como, adenói- cém-nascidos, torna-se um padrão aprendido com
des aumentadas, rinites crônicas, sinusites, etc. o transcorrer dos meses. Outro aspecto importan-
muito presentes em nossa região (Município de te a ser observado durante o desenvolvimento des-
Ribeirão Preto-SP) em função do clima e das quei- sas funções, especialmente no período de transi-
madas de cana-de-açúcar. Ela pode surgir tam- ção de alimentos semi-sólidos para sólidos até o
bém em conseqüência de maus hábitos alimenta- aperfeiçoamento do padrão mastigatório é o ta-
res. Exercícios de estimulação respiratória podem manho da colher. Sugerimos a de papa inicialmen-
estimular o desenvolvimento de um padrão cor- te (tamanho da colher de chá) e posteriormente a
reto de mastigação. Assim, para a realização de de sobremesa.
um trabalho preventivo, a creche oferece às crian-
ças, desde muito pequenas, oportunidades para
exercitarem esse padrão correto de respiração,
oferecendo-lhes apitos, flautas e outros instrumen- ALGUMAS SITUAÇOES ESPECIAIS
tos (objetos de sopro), bem como oportunidades DURANTE O PROCESSO DE
para fazerem bolhinhas com água e sabão, uso de INTRODUÇÃO DE NOVOS HÁBITOS
canudos e outras atividades afins. ALIMENTARES
Outra função importante, particularmente
em bebês, é a sucção, que é responsável pelo cres- Nem sempre os procedimentos realizados
cimento da mandíbula, pela sustentação do pes- pela creche coincidem com os hábitos alimenta-
coço e pela estimulação da deglutição, mastigação res das famílias que ingressam ou freqûentam a

8 Segundo orientações técnicas, os bicos mais adequados para isso são os ortodônticos, cujo gotejamento seja de 22 a 30 gotas/
minuto, independente ds consistêmcia.

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instituição, seja no que se refere ao tipo de ali- de adaptação, estabelece-se o vínculo afetivo ne-
mento oferecido, à consistência, à forma de ofe- cessário para uma troca mais íntima e informa-
recimento etc. Nesse sentido, mesmo a creche ções mais fidedignas.
acompanhando atentamente as ações realizadas Situação 2 – Refere-se ao modo como o
durante esse processo, este não se faz sem confli- educador segura a criança ou o alimento durante
tos, dificuldades, imprevistos. a refeição e a sua interferência na aceitação:
Durante o processo de inserção das novas “... mas nós temos o problema da MI,
crianças e famílias, especialmente no primeiro ano (criança de 8 meses) que ela não pode ver o teu
de vida do bebê, essas diferenças são ainda mais rosto (no diálogo está se referindo ao momento
delicadas, pois ainda não foi construído um vín- da refeição), você cata no colo e deixa virada pro
culo de confiança entre creche e família. Além outro lado ela acalma e fica agora se ela te vê...”
disso outras variáveis interferem, como por exem- “ ... tem uma posição prá ela tomar ma-
plo, a reação de estranhamento da criança aos madeira em outra ela não toma.”
novos educadores, ao novo ambiente, às novas (Trechos extraidos de entrevista com edu-
preparações. cadora V. em 24.03.94)
No dia a dia é possível observar inúmeras Esses exemplos mostram o quanto a crian-
situações conflituosas que devem ser objeto de ça, durante o processo de adaptação, precisa ha-
reflexão por parte da creche, no sentido de buscar bituar-se tanto com as características dos alimen-
estratégias que visem aproximar as famílias, tos, por exemplo: cheiro, cor, sabor, consistência,
explicitando o papel da creche, suas característi- como também com as características do educa-
cas específicas enquanto contexto de educação dor: feição, voz, movimentos, enfim as várias
coletiva, e as limitações necessárias para o bom ações que envolvem diretamente a interação com
desenvolvimento do trabalho coletivo da mesma. a criança. Em nossas observações essas reações
Tentaremos aqui, a partir da análise de al- foram mais evidentes nas crianças de faixa etária
guns trechos de entrevistas com mães e educado- próxima aos 7 meses. Note-se que tanto pesqui-
ras do grupo estudado, ilustrar as sutilezas destas sadores como pediatras e outros profissionais que
situações com alguns exemplos de variáveis que atendem crianças referem que, em torno dessa
podem interferir neste processo. idade, as crianças tendem a reagir mais diante de
Situação 1 – algumas famílias, já conhe- estranhos, mostrando nítida preferência pelo co-
cendo anteriormente o trabalho da creche, omitem nhecido, particularmente quando se encontram em
ou falseiam informações durante a matrícula: situações novas, pouco familiares. ROSSETTI-
Fala da educadora: “... Hoje nós descobri- FERREIRA (1984) faz uma discussão a respeito,
mos que para X (criança)... o leite de soja.. ele é em sua revisão sobre “O Apego e as reações da
bem... com bastante açúcar... que na entrevista criança à separação da mãe”.
não foi passado isso. A mãe entrou em contradi- Pode-se dizer que durante esse processo o
ção na hora que ela foi experimentar, pôs a mão educador tem duas tarefas básicas: usar estraté-
na boca e disse – Ah! mas nao tem açúcar aí. gias mais parecidas possível com as quais a criança
“(negrito refere-se à fala da mãe). Continuando está habituada, a fim de possibilitar segurança e a
o trecho temos: – Mas na pasta não tem, ce não constiução de um bom vínculo afetivo e, aos pou-
contou (fala da educadora). E a mãe responde: – cos, ir modificando-as em função da rotina da ins-
Ai eu litro contei? Não contei? E a educadora tituição, de suas características pessoais e das pró-
continua: “Aí nós conheçamos a colocar açúcar... prias necessidades da criança, que vão se alterando
a partir de hoje já tomou uma mamadeira ao longo do tempo. Nesse processo, o vínculo
inteirinha.” construído entre educador e cada criança é único
(Trechos extraídos de entrevista com edu- e segue urna trajetória singular.
cadora A, na primeira semana de freqüência da Situação 3 – Crianças com hábitos alimen-
criança X de 7 meses, na creche em 24.03.94). tares diferentes daqueles oferecidos na instituição:
Esse tipo de postura, por parte da família, “... Ela não tá acostuntada a comer muita
pode ocorrer por vários motivos, mas o que nos coisa misturada. E eu já percebi que mesmo em
parece mais plausível é um certo medo de que casa que eu faço assim... coisa misturada ela não
seu filho(a) não seja aceito na creche, ou deste come... mas se eu cozinho legume separado ar-
não se adaptar por ter uma rotina alimentar dife- roz e feijão muita coisa separada da outra e po-
rente. Mesmo quando se deixa claro qual a fun- nho no prato aí ela come. Ela não gosta de mis-
ção da entrevista e da adaptação, algumas famí- turar... Então a gente já conversou a X (técnica
lias não se sentem seguras para compartilhar dietética da creche) vai passar a dar separado...
algumas informações. Somente aos poucos, con- Diz que ontem no almoço separado ela comeu
vivendo com as educadoras durante o processo melhor ...”

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(Trecho extraído de entrevista com mãe de tunidade de apreender as formas variadas com que
G, de 1 ano e 7 meses, no segundo mes de fre- cada família educa e cuida dos seus filhos.
quência à creche, 18.05.94) Situação 5 – Diferenças quanto às formas
Essa situação repete a busca constante por de oferecimento dos alimentos realizadas pela
parte da instituição em procurar adequar-se inicial- família e pela creche:
mente aos hábitos da criança, visando uma maior “... O comer (referindo-se ao comer da
aceitação alimentar e o estabelecimento de um bom criança) é bem diet bem pouquinho... então eu
vínculo da família com a creche, para posterior- tento assim... colocar comida assim forçosamen-
mente inserir modificações. Entretanto, nem sem- te fico assim um espaço muito grande dando ali-
pre é possível adequar alguns hábitos individuais mento na minha casa e forço mesmo... às vezes
com o trabalho desenvolvido para o coletivo, seja coisa que na creche acho que não pode não te-
por questões de infraestrutura, seja pela própria nho autorização9 para eu forçar se bem que na
concepção da instituição quanto às dietas adequa- creche eu tenho observado que tá melhorando...”
das ao desenvolvimento das crianças. (Trecho extraído de entrevista com mãe de
Situação 4 – Quando a creche desconfia X, criança de 9 meses, no 2° mês de freqüência à
da informação da família creche, 28.04.94).
“Ele fica muito bravo ...eu cheguei até a Situação 6 – Estado de humor da criança
pensar... a achar que ele nunca tinha tomado ma- interferindo na aceitação dos alimentos:
madeira que ele até engolia o leite que escorria “... E quando ele fica nervoso não adianta
na boca mas ele se recusava a pegar a mamadei- ele não come ... ele faz.... então ele não come e
ra. Ai eu tive um papo com ela (mãe), ela disse dorme... ele fica que nem um ...”
que não que tomava sim o leite naquele dia à tar- (Trecho extraído de entrevistas com as edu-
de ele tomou uma mamadeira inteirinha com cadoras V. e M., com relação a criança R, de 1
ela...” ano e 2 meses, abril de 1994).
(Trecho extraído de entrevista com educa- As situações em que a criança se recusa a
dora Z, na primeira semana de frequência da crian- comer sempre trazem ansiedade para pais e edu-
ça L, de 4 meses, na creche, 24.03.94). cadores, mesmo quando se consegue avaliar o
Essa situação retrata que durante o proces- motivo da ação da criança (como por exemplo:
so de construção de um vínculo de confiança en- estados de humor – irritação, sonolência – ou qua-
tre as duas instituições, tanto as famílias como dro febril, ocorrência de alguma doença etc). Nes-
educadores estão aprendendo a se conhecerem uns se sentido, a creche tem um papel importante de
aos outros e, nesse processo, aparecem descon- ajudá-los a controlarem sua ansiedade. Conside-
fianças dos dois lados, que precisam ser averi- rando que o desenvolvimento se dá nas e através
guadas e trabalhadas. O que poderia acontecer, das interações, podemos observar que uma pos-
caso a educadora não tivesse tido a oportunidade tura mais ansiosa por parte do adulto no momen-
de verificar, checar sua hipótese – de que a crian- to da refeição pode induzir ansiedade na criança
ça ainda não tinha tido contato com mamadeira? e, às vezes, contribuir para que a ela continue a
a educadora poderia julgar a mãe mentirosa, crian- apresentar esse comportamento como forma de
do-se um desencontro e afastamento entre creche controle, de chamar sua atenção. Freqüentemente
e família, com algum prejuizo para o bom desen- é necessário instrurnentalizar o educador, para que
volvimento da criança. Isso vem reforçar a pro- possa avaliar o desenvolvimento global de cada
posta desenvolvida na creche, quanto à importân- criança, ajudando-o a compreender os motivos que
cia da participação ativa das famílias no momento podem estar contribuíndo para a falta de apetite
de ingresso da criança na creche. Nestas situa- da criança, esclarecendo que a ocorrência ocasio-
ções, elas têm oportunidade de verificar e obser- nal de um episódio destes é diferente de dias se-
var a rotina, os procedimentos e ações realizadas guidos sem se alimentar. Ajudá-lo também a per-
pela creche e, por outro lado, a creche tem opor- ceber que existem necessidades individuais de

9 Para uma adequada compreensão desse discurso é importante entender a rotina do berçário, que esta criança freqüenta. No horário
das 12h00min às 13h00min é permitida a visita de pais e/ou outros familiares ou amigos Nessas visitas, pode coincidir da criança
estar almoçando. Então o combinado com os pais é de que, caso queiram, podem oferecer a refeição à criança. Nesse sentido, a
creche estimula a ocorrência de momentos prazerosos durante as refeições para as crianças. Quando isto não ocorre, nos casos em
que alguns pais forçam a criança a comer, há uma interferência da creche com conversas. explicando o porquê de não aceitarmos
esse tipo de ação. Caso a familia não concorde, ela pode vir normalmente fazer a visita diária, mas quem oferece o almoço é o
educador.

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ingestão, em função da estrutura física, histórico DES & LIMA, 1980) para tornar-se mediador
de vida e momento atual de saúde da criança, as importante na relação creche e família.
quais devem ser respeitadas. Nesse contexto, o educador assume um
Situação 7 – Interferência do novo espaço papel importantíssima, pois ao mesmo tempo re-
físico na aceitação dos alimentos: presenta para a família uma figura de confiança e
“... Nos dois primeiros dias ela ficou as- de ameaça. Assim as interações cotidianas entre
sim ... eufórica com a diferença né do local... educadores e membros da família tornam-se o
aquele monte de brinquedos... Então eu vi que grande palco que pode aproximar ou afastar as
caiu um pouco a alimentação sabe... mas isso por- duas instituições.
que ela não parava... ela não queria parar prá
mamar, prá comer... porque era tudo novidade...
mas a partir do 3° dia já achei que estabilizou...” FORMACÃO DO EDUCADOR
(Trecho extraído de entrevista com mãe da
criança L, com 1 ano de idade, na 23º semana de Podemos perceber, a partir das considera-
frequência à creche, 28.03.94). ções feitas sobre o papel do educador neste pro-
Esse exemplo vem colaborar com a refle- cesso, que um trabalho de qualidade em institui-
xão a respeito da situação anterior, ilustrando o ções de cuidado e educação infantil, preocupado
quanto pode ser complexo o processo de aquisi- em promover a apropriação de bons hábitos ali-
ção de novos hábitos alimentares no que se refere mentares pela criança, exige um investimento sé-
às variáveis que podem interferir no apetite e/ou rio na formação de seus educadores. Essa forma-
na aceitação dos alimentos, no momento da adap- ção, tanto inicial quanto continuada em serviço,
tação da família e da criança na creche, bem como enfrenta o grande desafio de criar oportunidades
as diferentes reações de cada criança diante das para que os educadores se conscientizein da im-
mesmas. portância de seu papel e do papel da instituição
Além dessas situações, muitas outras po- como um todo, no que se refere ao atendimento
dem ocorrer. Algumas permeadas por uma maior das crianças e respectivas famílias. Deve também
ou menor ansiedade por parte dos familiares, oferecer um suporte teórico e metodológico, o qual
crianças e educadores; lembrando sempre que instrumentalize os educadores para lidarem com
cada caso é um caso, cada família é uma família, as difíceis situações que surgem a todo momento.
cada educador é um educador e cada creche é uma Faz-se necessária a criação de momentos especí-
creche, com suas especificidades e singularida- ficos para reflexões e avaliações das ações reali-
des próprias. Cada um vivenciando mais ou me- zadas, com a preocupação de acompanhar a cons-
nos intensamente cada uma das situações. O que trução das relações entre creche e família. Quanto
parece ser mais comum durante esse processo é mais essas ações forem compartilhadas, melhor
que, enquanto a família e creche não conseguem será o desenvolvimento das crianças que freqüen-
construir uma relação complementar, que possi- tam a creche.
bilite, compartilhar as ações realizadas junto à É importante salientarmos que um projeto
criança, o alimento passa a servir como instru- desse tipo não pode ser planejado e executado iso-
mento de disputa entre as duas instituições. Cada ladamente, sem envolver outras áreas de atuação
uma tenta demonstrar maior competência para ou outros projetos da creche. Como se pode de-
alimentar a criança, ou melhor, para cuidar e edu- duzir, envolver as áreas de relação creche e famí-
car a mesma. lia e a de formação continuada é imprescindível,
Assim, os comportamentos da criança fren- porém não é suficiente. O planejamento das ações
te às refeições podem estar a serviço de outros a serem realizadas junto às crianças e famílias
desejos, tanto da família quanto dos educadores, precisam estar articuladas com a proposta psicope-
tais como: de controle, de maior atenção etc. As dagógica, com o funcionamento das diferentes ro-
observações feitas durante esse período revelam tinas, enfim com todo o programa da creche.
que, ao mesmo tempo, as famílias ficam aflitas
quando a criança diminui a aceitação de algum
alimento, sentem-se também inseguras quando
ocorre o contrário. Por exemplo, quando, na cre- ARTICULAÇÃO ENTRE AÇÕES DE
che, a criança passa a ingerir ou aceitar melhor CUIDADO E EDUCAÇÃO EM AMBIENTE
determinados alimentos que não aceita em casa, COLETIVO – O DESAFIO DA
o receio fantasioso de perder o amor do filho para ALIMENTAÇÃO
a instituição se instala. Isso faz com que o ali-
mento deixe de ser ‘’mais do que matéria orgâni- Embora tenhamos colocado ênfase no pe-
ca e inorgânica colocada no prato”, (MARCON- ríodo de adaptação, é importante ressaltar que o

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processo de aquisição de hábitos alimentares acon- alimentares mas de outros aspectos, tais como:
tece durante todo o período em que a criança fre- danças, jogos, lendas, entre outras coisas. Isso
qüenta a instituição. Nesse sentido, o planejamen- amplia o seu repertório e o contato com a diversi-
to do trabalho, dentro de uma perspectiva dade, e permite a construção de uma visão mais
educativa, envolverá necessariamente a articula- diversificada do mundo e dos costumes e valores
ção do comer com as atividades pedagógicas afins. sociais, estimulando um maior respeito às dife-
Ou seja, as situações que envolvem alimento pre- renças.
cisam criar também oportunidades para a cons- Com relação à alimentação, especificamen-
trução de conhecimentos. Realizar essa tarefa, bus- te, pudemos observar como resultado desse tra-
cando articulá-la com uma estrutura de balho, uma ampliação da aceitação de uma maior
atendimento coletivo que ao mesmo tempo res- variedade de alimentos.
peite as diferenças individuais, nem sempre é uma
tarefa fácil. Realização do trabalho de self-service com as
As ações começam desde a confecção do crianças maiores de 3 anos
cardápio, o qual é elaborado com base na média Esse trabalho surgiu com o objetivo de aju-
de idade das crianças, um para crianças de até 1 dar a criança a tornar-se mais autônoma durante
ano e outro para crianças maiores, até o planeja- as refeições, tendo maior noção do que e do quanto
mento das atividades a serem realizadas com cada comer, bem como reconhecer os diferentes sabo-
turma de crianças, além de eventos envolvendo a res, cores e formas que compõem os diferentes
participação das famílias. pratos.
Tentaremos contar algo sobre algumas
ações que a Creche Carochinha vem desenvol- Trabalho com contadores de estória com as
vendo, lembrando que o resultado atual é fruto de crianças na faixa etária de 2 a 7 anos
um trabalho coletivo realizado por educadores e Esse trabalho surgiu com o intuito de me-
equipe técnica, o qual vem sendo avaliado, refei- lhor articular o binômio cuidado-educação atra-
to e reavaliado anualmente, ao longo de seus 10 vés de uma forma lúdica e prazerosa para as crian-
anos de funcionamento. Realização de um cardá- ças e adultos. Através da linguagem dramática
pio individualizado nos casos de alergia alimen- (faz-de-conta) propicia-se às crianças oportuni-
tar, acompanhamento de anemias, obesidade, bai- dades para conhecerem a importância da alimen-
xo peso, entre outros. tação, características e funções de diferentes
alimentos. Para sua realização, o educador fanta-
Realização da semana da alimentação sia-se de determinado personagem e conta estó-
Inicialmente chamada de Feira de Alimen- rias para os diferentes grupos de crianças. Os te-
tos, surgiu com a preocupação de incentivar a mas e conteúdos variam em função das diferentes
criança a conhecer e valorizar diferentes tipos de faixas etárias e também das diferentes necessida-
alimentos, bem como construir hábitos saudáveis des de cada grupo.
no que se refere à alimentação. A primeira feira
foi organizada em 1989, com o objetivo de pro- Utilização de painéis, como por exemplo do
porcionar às crianças e educadoras oportunida- “ajudante do dia”
des de confeccionarem juntas diferentes pratos e Nesta ocasião, a criança responsável pela
degustarem os novos preparos, especialmente ajuda fica encarregada de levar os pratos e/ou ta-
aqueles de pouco conhecimento e de baixa acei- lheres para os colegas. O ato de servir faz com
tação. Mais tarde, a feira foi integrada ao Projeto que a criança valorize o momento da refeição. Essa
Pedagógico da Etnia Brasileira, e a confecção dos estratégia possibilita, além da construção do sen-
pratos vinculou-se aos costumes das diferentes so de responsabilidade e companheirismo, uma
culturas de onde provêm. Assim, durante os três diminuição do tempo de espera no momento das
anos posteriores, foi desenvolvido junto às crian- refeições, facilitando e melhorando a qualidade
ças de 3 a 7 anos um trabalho envolvendo pratos das interações entre as crianças.
indígenas, portugueses, africanos. Neste ano, a
vinculação foi com relação à cultura ribeirão Organização do restaurante flor do campo
pretana – município onde se localiza a creche, res- Este trabalho visa oferecer às crianças
gatando os hábitos alimentares dos imigrantes que maiores de 3 anos, oportunidades de vivenciarem
para cá vieram. práticas sociais relacionadas à alimentação, bem
Durante o desenvolvimento deste o proje- como ajudá-las a construir noções de desperdí-
to, através de um trabalho integrado com a peda- cio. O trabalho consiste em organizar um restau-
gogia, é possível à criança conhecer diferentes cul- rante (mesas, cadeiras, menus, as educadoras tor-
turas, apropriando-se não apenas dos hábitos nam-se garçonetes com distribuição prévia de

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dinheiro de faz de conta). Cada criança utiliza o mês para que pais, crianças e funcionários acom-
dinheiro para comprar uma ficha que lhe dá direi- panhem a ingestão. Os resultados apontam índi-
to a uma refeição com repetição e outra que lhe ces de redução de sobras, possibilitando às crian-
dá direito à sobremesa. A quantidade em dinheiro ças levantarem diferentes hipóteses sobre noções
é maior que o valor da refeição. Sendo assim, sem- de quantidade, numerais (por exemplo o zero).
pre sobra troco. Este troco serve para repetição Esse trabalho tem possibilitado a observação de
da sobremesa ou para pagar o lixeiro (persona- três grandes pontos:
gem que cobra uma taxa para levar o resto-ingesta 1. observação coletiva dos diferentes gru-
de alimento do prato). Isso faz com que a criança pos e de cada criança individualmente,
atente para o que e para a quantidade que escolhe diagnosticando melhor a aceitação. Sa-
comer. bemos que nos diferentes grupos sem-
pre haverá diferenças individuais quan-
Organização do café da manhã com a to à quantidade e variedade de
participação das famílias alimentos.
Essa estratégia surgiu a partir da constata- 2. observação da diminuição (considerá-
ção de que um grande número de famílias vem vel) do lixo organico.
construíndo o hábito de não se alimentar pela ma- 3. observação da mudança de comporta-
nhã. Essa prática vem se avolumando entre a po- mento das crianças no que se refere a
pulação, especialmente nos grandes centros ur- ter maior atenção na quantidade que vai
banos, onde o local de trabalho é bem distante da colocar no prato.
residência, com precárias condições de transpor- Essas são algumas das atividades desen-
te. Isto faz com que, muitas vezes, as famílias volvidas pela creche. É importante dizer que o
saiam correndo pela manhã, sem dar a devida aten- resultado das mesmas só tem sido possível em
ção à importância dessa refeição para um desen- função do trabalho conjunto e interdisciplinar, no
volvimento em boas condições de saúde. Essa ati- qual a contribuição de cada funcionário tem sido
vidade costuma ocorrer na Creche Carochinha fundamental. A princípio pode parecer muito so-
pelo menos uma vez por ano, por ocasião da pro- fisticado para algumas realidades, nesse sentido
gramação da semana da primavera. Além de in- é importante lembrarmos que o resultado dessas
centivar as famílias a construirem esse hábito, as ações é fruto de um trabalho de 10 anos, durante
agradáveis interações entre crianças, pais e edu- os quais foram realizadas várias sistematizações
cadoras, nessas ocasiões, têm contribuído para e avaliações. Nossa aposta, contudo, é que a me-
melhorar a relação entre creche e famílias. lhoria da qualidade de atendimento às crianças
deve ser uma busca contínua. Cabe a cada insti-
Vale quanto pesa tuição avaliar seu momento atual e ir definindo
Este trabalho vem sendo desenvolvido com metas a curto, médio e longo prazo para que esse
quatro grupos de crianças de 3 a 7 anos e tem aperfeiçoamento aconteça. Seguramente não ocor-
como objetivo reduzir o resto de comida e conse- rerá da mesma forma para cada uma. Nossa in-
qüentemente a quantidade de lixo orgânico, bem tenção, ao socializar a fundamentação teórica bem
como oferecer oportunidades para as crianças como as práticas aqui descritas, é contribuir para
ampliarem o repertório alimentar. As atividades essa busca.
são realizadas semanalmente com os grupos de
crianças durante o almoço. Após estas passarem
pelo self-service e também ao término da refei- AGRADECIMENTOS
ção, o prato de cada criança é pesado. De acordo
com as quantidades ingeridas, cada criança rece- Agradecemos a todos os funcionários da
be cartões de diferentes cores (verde: mais de 90 Creche Carochinha, em especial aos educadores,
gramas, amarelo: de 45 a 85 gramas e azul: me- pela colaboração; à Iara Mattos, Isa M. G. Jorge,
nos de 45 gramas). As anotações são realizadas Ana Mello e Telma Vitória, por suas contribui-
em quadros (um para cada turma), pelas crianças ções e à FAPESP (Proc. 91/3584) e ao CNPq
e adultos. Os quadros permanecem durante um (Proc. 52 2350/94.1) por auxílios e bolsas.

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Refere-se ao Art. de mesmo nome, 6(1/2), 19-33, 1996 Rev. Bras. Cresc. Des. Hum. S. Paulo, 6(1/2), 1996

Abstract: This paper discusses various issues concerning the work developed by early child
care institutions in order to foster and deal with the children’s acquisition of feeding habits, both
when the infant starts day-care, and during his/her later development in it. The cooperation
between the crèche staffand the family is emphasized as the main axis on which the success
ofthis work relies. Feeding is proposed as a social and symbolic construction. This, each family
has its own peculiar choice of foods and of ways of preparing and giving them to their children.
On the other hand, there are some guidelines concerning what is a well-balanced diet for children
at various ages which are able to promote their healthy development. Furthermore, in the collective
context of a crèche, the educares10 must coordinate a personal attention to individual needs with
the group requirements and routines. This presentation is based on the 10 years’ accumulated
experience ofthe educares and technicians of “Creche Carochinha”, a crèche which attends
children whose parents work or study at University of São Paulo - Campus of Ribeirão Preto,
and on a research developed by CINDEDI (Brazilian Research Center on Early Child Care and
Education) on ‘The adaptation processes of babies. families and educares during their first months
at the crèche”. Some principles which guide our work in this arca are presented, emphasizing the
hnportance of considering the child as an active subject whose autonomy should be respected
and enhanced during the learr~ing process. Some guidelines concerning the organization of the
menu are discussed together with some details about special procedures and milestones to be
considered when new foods and habits are introduced, specially when those changes coincide
with the child’s and the family’s integration in the crèche. Some individual cases and specific
procedures are presented. The educares’ previous and continuous training is discussed and
higl^1lighted as one of the most relevant issues when quality of care is to be achieved.

Key-words: child feeding in crèches, development of feeding habits, feeding programs in crèches.

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10 Educare is being used to designate the staff who cares for and educates infants and toddlers in child care institutions.

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