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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS
DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA
CURSO DE TURISMO

O Museu de Congonhas: Um estudo da relação de pertencimento do


morador com o patrimônio

Belo Horizonte
2019
VITÓRIA ABUCATER AZEVEDO

O Museu de Congonhas: Um estudo da relação de pertencimento do


morador com o patrimônio

Trabalho de conclusão do curso de Turismo no Departamento de


Geografia da Universidade Federal de Minas Gerais, sob a
orientação da professora Dra. Diomira Maria Cicci Pinto Faria,
para obtenção do título de Bacharel em Turismo.

Belo Horizonte
2019
AGRADECIMENTOS

Agradeço a oportunidade concedida de estudar na UFMG, e poder concluir minha


graduação em Turismo com este trabalho sobre a cidade em que eu amo estar. E
há pessoas que fazem parte dessa história que eu preciso deixar meu sincero
agradecimento, a minha mãe Hosana, por quantas vezes me apoiou nas minhas
decisões acadêmicas, quantas vezes não deixou eu desistir, e esteve e está ao
meu lado sempre, MÃE você é meu exemplo de vida. A minha tia e madrinha
Josefa que esteve ao meu lado e incentivando para que eu seguisse a profissão
dos meus sonhos. A Tercia amiga querida da família que me deu suporte total
para que essa pesquisa pudesse ser concluída com sucesso, meu eterno
agradecimento a você e sua família. Meu companheiro e parceiro de vida Arthur,
obrigada pelo nosso presente Lorenzo e toda paciência e incentivo para conclusão
da monografia. Pamela Novais, amiga companheira da graduação que sempre
me ajudou, e com esta pesquisa não poderia ser diferente, obrigada.
A instituição Museu de Congonhas, Natalia e Janice, e toda equipe de monitores
que juntos me ajudaram a construir essa pesquisa, e me permitiram que eu tivesse
total liberdade. Essa pesquisa e para enriquecer o Museu, e espero ter contribuído
de alguma forma. A Jurema Machado, por tanta disponibilidade e carinho com a
pesquisa que envolveu todo seu trabalho no Museu. E minha querida mestre
Diomira Faria, por tanto zelo e conhecimento orientando sempre para o melhor
caminho da graduação e deste trabalho final, obrigada !
CITAÇÃO DE POEMA OU FRASE
RESUMO
ABSTRACT
LISTA DE FIGURAS
LISTA DE GRÁFICOS
LISTA DE MAPAS
LISTA DE TABELAS E QUADROS
LISTA DE SIGLAS

MCO – Museu de Congonhas


UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a
Cultura
ONU – Organizações das Nações Unidas
IBRAM – Instituto Brasileiro de Museus
IPHAN – Instituto Patrimônio Histórico Artistísco Nacional
ICOM -
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ______________________________________________
CAPÍTULO 1 - REFERÊNCIAL TEÓRICO ________________________
1.1 - Pertencimento, identidade ________________________________
1.2 - Museus e a nova museologia _____________________________
1.3 - A função social dos museus ______________________________
1.4 - Desenvolvimento local __________________________________
CAPÍTULO 2 - O ESTUDO DO LUGAR _______________________
2.1 - O território Congonhas ________________________________
2.2 - O beco dos canudos__________________________________
CAPÍTULO 3 - O PATRIMÓNIO MUNDIAL BOM JESUS DO MATOSINHOS
3.1 - A vocação da fé ____________________________________
3.2-O Museu de Congonhas______________________________________
CAPÍTULO 4 - A PESQUISA E SEUS RESULTADOS
4.1 - Delimitação da pesquisa____________________________________
4.2- Resultados_______________________________________________
CAPÍTULO 5 - CONSIDERAÇÕES FINAIS__________________________
APENDICES____________________________________________________
1

INTRODUÇÃO
A pós- modernidade tem sido relevante para a construção de identidades
culturais, para a descentração do sujeito moderno. Neste contexto assim os
museus assumem novas concepções, sendo reflexo de uma sociedade mais
dinâmica e ativa, que está em busca do novo, que traga um novo sentido a esse
espaço cultural chamado museu.
Para começar a investigação desta pesquisa, precisa-se entender como um
museu é constituído, qual importância da existência de uma instituição
museológica em um determinado local, e quais as suas finalidades, funções, a
serem desempenhadas para que se cumpra com o planejamento determinado.
Esta pesquisa de monografia irá propor estudar a complexa relação museu e
morador, para que se tenha um entendimento maior das funções sociais que hoje
se discute sobre a nova museologia.
A pesquisa tenciona estudar o morador da cidade de Congonhas situada em
Minas Gerais, e o recente museu de sitio construído Museu de Congonhas (mCo)
que dialoga com o patrimônio mundial que a cidade abriga, o Santuário Bom Jesus
do Matosinhos. Pretende-se também entender a princípio sobre o sentimento de
pertencimento deste morador com este patrimônio, e se o Museu trouxe
possibilidades para que esse pertencer fosse descoberto, ou de alguma forma
reforçado, se estão inseridos na memória que o museu guarda.
A pesquisa irá fundamentar-se nos conceitos da museologia da função social do
museu, entender sua inserção em uma comunidade, o conceito de pertencimento
e relação com o patrimônio. O questionamento da pesquisa é:
A construção do Museu de Congonhas trouxe mudança no sentimento de
pertencimento do morador com o patrimônio?
O estado da arte traz os conceitos primordiais que irão nortear a pesquisa para o
referencial teórico, é baseado em conceitos que conversem com a museologia, e
para isto foram consultado artigos, periódicos que tratam da questão patrimonial
e relação com comunidades e para o território de onde está inserido o museu e
patrimônio.
Foram pesquisados autores como Sturt Hall (2006) Clerton Martins (2006),
Eduardo Yagizi (2002), e Amaral (2004) para conceber o conceito de
2

pertencimento. Na museologia, relacionar os conceitos de lugar, patrimônio, e


pertencimento, a pesquisa traz os princípios definidos pelo Instituto Brasileiro de
Museus - IBRAM, e também irá apoiar na definição de patrimônio defendida pela
UNESCO1, pois o museu em destaque na pesquisa é a “ponte” para o diálogo do
patrimônio com os moradores da cidade, patrimônio este que se trata do Santuário
Bom Jesus do Matosinhos. O Santuário foi elevado pela UNESCO a Património
Mundial, em 1985, é considerado a obra-prima de Antônio Francisco Lisboa, o
Aleijadinho, e foi realizado em várias etapas, a partir de 1757. Este magnífico
conjunto arquitetônico e escultórico, onde estão as imagens dos 12 Profetas,
transformou a cidade em centro de peregrinação religiosa, desde o século XVIII
(IPHAN, 2014).
É por conta da preservação deste patrimônio que se teve a ideia do Governo
Federal em parceria com o Ministério da Cultura de desenvolver o projeto da
construção do Museu de Congonhas, tendo a princípio a ideia de alocar os
mesmos dentro da instituição museológica alegando a preservação das imagens
dos profetas, desgastadas pelo tempo, e pela ação da mineração que é a atividade
econômica mais recorrente no território.
O desígnio de se estudar o sentimento de pertencimento nesta pesquisa, vem da
necessidade por se estudar o território em um contexto amplo e social. Um
patrimônio, antes de ser visto e contemplado por outros, pertence ao morador
local. Se não existe um reconhecimento por parte de pessoas próximas sob
aquele patrimônio, como o mesmo irá se preservar?
O encantamento pelos museus proporciona a relação chave entre patrimônio,
morador e pertencimento. Estudar a complexidade das funções sociais atribuídas
ao museu se torna importante, para difundir a importância do mesmo. Sendo

1
UNESCO é o acrónimo de “United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization”
(Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura). Trata-se de um organismo
da ONU que foi fundado em 1945 e cuja sede social se encontra em Paris (França).
A UNESCO dedica-se a ajudar as nações a gerirem o seu desenvolvimento através da
preservação dos recursos naturais e culturais. O objectivo é que cada povo possa modernizar-se
e inserir-se no panorama mundial sem perder a sua própria identidade.
A UNESCO encarrega-se de nomear e confirmar todos os sítios que são declarados Património
da Humanidade. O programa conta com o apoio de 184 países e visa principalmente na
preservação e na divulgação de lugares de relevância natural ou cultural excepcional, que se
consideram como parte da herança comum da Humanidade e que devem ser protegidos para as
próximas gerações.
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assim, a instituição museu não está atribuída somente a guarda de pertences


antigos, um museu pode ir além de a preservação reforçar o vínculo histórico,
cultural de uma comunidade.
Como objetivo geral norteador da pesquisa, pretende-se
compreender se a presença do Museu de Congonhas trouxe mudança no
sentimento de pertencimento do morador com o patrimônio.
Os objetivos específicos de:
● Entender o conceito de pertencimento do sujeito
● Entender a função social que um museu desempenha
● Conceber a relação museu e comunidade local, pela perspectiva da
história contada no Museu de Congonhas.
● Compreender o sentimento de pertencimento dos moradores para
com o patrimônio, e identificar as mudanças após a construção do
Museu.
A natureza desta pesquisa de monografia é exploratória e descritiva, uma vez que
se utiliza de materiais bibliográficos como livros e artigos que tem como objetivo
proporcionar mais informações sobre os termos abordados neste trabalho, e
utiliza de questionário que irá orientar para responder a pergunta norteadora da
monografia. Propõe- se uma pesquisa de origem qualitativa tendo um questionário
semiestruturado com questões abertas para os moradores relatarem as suas
experiências e percepções, foram elaborados dois tipos de questionários, A e B,
onde A aborda-se moradores que estão em circulação no centro da cidade, e B a
ser aplicado com moradores que estão no perímetro próximo ao museu ou saindo
do mesmo. O proposito é mensurar o quanto o museu contribuiu para o pertencer
deste morador, se as estratégias que a instituição utiliza consegue abranger todos
que habitam o território. A amostra foi definida por conveniência, abordando
pessoas que se dispunham seu tempo para responder o questionário, foram
aplicados até o instante 57 questionários in loco. Após a coleta de dados, houve
a análise das informações tentando sempre atrelar aos conceitos abordados e
relacionando com os objetivos propostos da pesquisa e visando responder a
questão colocada neste estudo.
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CAPÍTULO 1 - REFERENCIAL TEÓRICO

1.1 - Pertencimento, identidade

A palavra identidade está ligado irrestritamente ao conceito de memória, e sendo


primordial para construção de identidades culturais, de identificação com espaços
que contém uma história que perpetuam símbolos, e que são considerados como
patrimônio2.
A memória pode ser entendida como a capacidade de relacionar um
evento atual com um evento passado do mesmo tipo, portanto como uma
capacidade de evocar o passado através do presente (JAPIASSÚ, 1996,
apud MAGALHÃES 2005).

O território que resguarda as suas memórias celebrativas, contribui para que os


sujeitos se identifiquem e transmitem sentimentos, histórias, que despertam no
inconsciente uma construção identitaria. Sendo assim, podemos considerar a
memória como fio condutor da construção da identidade, o que resultam o
sentimento de pertença.
Yázigi (2002) trata da identidade como modo de entender sob dois prismas: o
inato e o adquirido, e o inato é aquilo que está em nosso DNA, ou seja nascemos
com aquelas características que dão a nossa identidade, e a adquirida se remete
ao socialmente falando, como nacionalidade, cidadania e pertencimento a
qualquer agrupamento humano, nunca somos uma coisa só.
Este conceito se encaixa perante ao de HALL (2006) que se posiciona
basicamente afirmando que as identidades modernas estão sendo “descentradas”
isto é deslocadas ou fragmentadas. Mas, como este conceito interfere no
sentimento de pertença que se deseja entender e aprofundar nesta pesquisa?
Para entender o significado da palavra identidade, que subtende em a pertencer

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PATRIMÔNIO:“ [...]O patrimônio é o legado que recebemos do passado, vivemos no presente
e transmitimos às futuras gerações. Nosso patrimônio cultural e natural é fonte insubstituível de
vida e inspiração, nossa pedra de toque, nosso ponto de referência, nossa identidade.O que faz
com que o conceito de Patrimônio Mundial seja excepcional é sua aplicação universal. Os sítios
do Patrimônio Mundial pertencem a todos os povos do mundo, independentemente do território
em que estejam localizados.” (UNESCO 2017)
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a um lugar, temos que entender o ser humano no seu contexto social, entender
como ele interage com o meio em que vive, o sujeito moderno.

Um tipo diferente de mudança estrutural está transformando as


sociedades modernas no final do século XX, isso está fragmentando as
paisagens culturais de classe, que no passado nos tinham fornecido
sólidas localizações como indivíduos sociais. Estas transformações
estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a ideia
que temos de nós próprios como sujeitos integrados. (HALL, 2006, p9).

O que Hall (2006) explica é que há uma perda de um “sentido de si” e é chamada
algumas vezes de deslocamento ou descentração do sujeito, tanto na questão de
pertencer ao seu lugar no mundo social e cultural, quanto a si mesmos. O que
pressupõe a nós, como sujeitos sociológicos a indagar sobre certas questões, se
quer de fato pertencer a um legado, se eu me identifico com tal pensamento,
tradição ou comportamento.
Hall (2006) trata dessa “inquietação” do sujeito como “crise identitária”, e a
globalização contribuiu para esta crise, que permite o sujeito a ter diversas noções
e pensamentos sobre seu lugar, suas escolhas e seu modo de interpretar os
símbolos e memórias. Onde o mesmo traz sobre as três concepções diferentes
de identidade i)do iluminismo, ii) sujeito sociológico e ii) sujeito pós moderno. A
que melhor se aplica ao conceito identitário e pertencimento é a concepção do
sujeito sociológico que HALL traz.
A noção de sujeito sociológico refletia a crescente complexidade do
mundo moderno e a consciência de que este núcleo interior do sujeito
não era autônomo, mas era formado na relação com outras pessoas
importantes para ele que mediaram para o sujeito os valores sentidos e
símbolos - a cultura - dos mundos que ele/ela habitava. (STURT HALL
2006)

O autor Eduardo Yazigi (2002) diz que a questão identitária de lugar não pode ser
eterna. Mas, isso não significa que sua personalidade deva se perder, porque o
homem busca a estabilidade do lugar. Como então ficamos perante a dinâmica
da mudança? Hall(2006) diz que as sociedades modernas são por definição
sociedades de mudança constante e que é preciso distinguir entre sociedades “
tradicionais” e as modernas. Anthony Giddens argumenta que:
“Nas sociedades tradicionais o passado é venerado e os símbolos são
valorizados porque contêm e perpetuam a experiência de gerações. A
tradição é um meio de lidar com o tempo e o espaço inserindo qualquer
atividade ou experiência particular na continuidade do passado presente
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e futuro os quais por sua vez são estruturados por práticas sociais
recorrentes. “ ( Hall, apud Giddens 1999)

Clerton Martins (2003) permite pensar que o conceito de pertencimento está


interligado aos estudos sociológicos, antropológicos e só permite uma argumentação
desse conceito após a observação do comportamento do indivíduo com o meio em
que vive, na tentativa de se estabelecer relação entre identidade social e identidades
próprias, e que território, a cultura, a história e património têm papel fundamental na
formação e na consolidação de identidades locais e individuais. Um território enquanto
espaço que abriga um patrimônio, tem relação direta com os indivíduos que interagem
com o espaço, porém cada indivíduo imprime sua relação com o espaço, o patrimônio,
o território, podendo ou não ser uma impressão positiva com este lugar.
A tradição, termo mencionado por GIDDENS é fundamental para se entender a
perpetuação de certos comportamentos das sociedades inseridas em um determinado
espaço. Tradição que é passada através de geração em geração, tende, a dar vida
ao passado daquela comunidade, ela preserva a memória, que é fundamental para
criação de vínculos, e sentimento de pertença.
Hall (2006) vai definir tradições como parte da construção das culturas nacionais,
segundo o autor as culturas nacionais não são compostas apenas de instituições
culturais, mas também de símbolos e representações. É um discurso, que permite a
construção de identidades. Para o autor, existe uma resposta abrangente sobre as
culturas nacionais, uma deles é a narrativa da nação, tal como é contada nas histórias
e literaturas. Uma cultura nacional é um discurso, um modo de construir sentidos que
influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós
mesmos. As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre “a nação“, sentidos com
os quais podemos nos identificar, constroem identidades.
Amaral (2006) diz que o estado nação homogeneíza o passado, ou seja se assegura
na história que transpõe os significados atribuídos a um patrimônio a fim de facultar
um processo de continuidade. O autor crítica quanto a questão legítima dos interesses
da nação, que ao se preocupar com a continuidade e perpetuação das estórias,
"impõe uma visão de mundo particular à arena do conflito social" onde os reais
interesses e anseios de uma comunidade são camuflados pela tentativa do estado
nação em celebrar os esforços feitos para perpetuação da memória de um local.
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Porém o sujeito moderno que mencionamos de acordo com HALL é descentrado ou


fragmentado, ele mesmo constrói e absorve tudo aquilo que está em sua volta, o
sujeito moderno é um grande agente questionador de suas ações e principalmente
capaz de criticar e ter entendimento das intenções do estado para com as memórias
coletivas relacionadas a construção de uma identidade.
Gastal concorda em afirmar que “ a nova construção da subjetividade mostrará um
sujeito fragmentado, com uma nova maneira de ser e estar no tempo e espaço e de
mostrar-se no palco da cidade”. (GASTAL 2006, pag.35)
O sujeito moderno pode identificar com símbolos, no caso um patrimônio, reconhecer
a importância de sua preservação, mas este sujeito pode não se identificar com
tradição que o patrimônio lhe compete, um exemplo, é o Santuário Bom Jesus do
Matosinhos objeto de estudo desta pesquisa, um patrimônio que possui tradições
católicas que são perpetuadas de geração em geração. Que indica o sujeito moderno
pode reconhecer e elucidar sobre o patrimônio, mas não necessariamente seguir a
tradição de culto católico que é colocada como teor principal da ascendência do
santuário, e, tão mesmo, este sujeito moderno pode não concordar com as tentativas
do estado em perpetuar estas memórias, como exemplo a construção do mCo. Neste
sentido Luchiari (2005) diz:
Quando nos referimos à preservação do patrimônio cultural
remetemo-nos a um processo histórico seletivo de atribuição de
valores às formas e às práticas culturais que engendram
intervenções, decisões e escolhas balizadas por um projeto
político que a estrutura social de cada tempo constrói. Por isto os
bens culturais tombados como patrimônio representam,
tradicionalmente, os grupos sociais hegemônicos. ( Luchiari 2005,
pág 96.)

Para fim de se manter uma linha de entendimento claro sobre as questões postas e
dos autores aqui mencionados, devemos ter em mente que para a construção de uma
identidade é preciso acessar as memórias do um sujeito moderno que sejam capazes
de direcionar e trazer à luz sentimentos de identificação ou de afastamento seja do
local do patrimônio. Em relação ao afastamento do lugar o autor Eduardo Yazigi diz:

No contexto da globalização a negação do lugar se vê acentuada


pelo crescente fenômeno de nomadização dos homens que
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buscam trabalho, Então, regiões tradicionalmente habitadas por


limitado número de etnias deparam-se com um constante
vaivém de trabalhadores que se instalam num lugar, enquanto
outros vão embora.” (Yagizi 2002 pag 16)

A colocação do nomadismo é importante nesta pesquisa pois o território estudado é


bastante afetado por esta questão, por se tratar de um lugar com diversas
oportunidades de trabalho na predominância das mineradoras em Congonhas que da
oportunidade de pessoas migrarem para o território em função do trabalho ligado a
mineração. Portanto, é comum encontrar pessoas que tem suas origens em outros
lugares e não terem relação sentimental com o patrimônio aqui estudado, é a
“negação” do lugar que o Yagizi (2002) trata.
O sujeito moderno então, dinamizado pela globalização, carregado de sentidos
atribuido pelo que o estado impõe, como, o tombamento de patrimônios ou mesmo a
construção de uma instituição museologica, constroi sua identidade adquirida como
Yazigi (2002) comenta. Desta forma Luchiari (2005) argumenta que a construção
social, no processo histórico, que elege, em cada tempo, as formas dignas de
preservação e as funções que elas devem acolher. Gastal (2006) sobre este fato
comenta que “a fragmentação do sujeito na cidade é mesmo um reflexo dos universos
de significação e realidade que se tecem na cidade”. (GASTAL, 2006).
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1.2 - Museus e a nova museologia

“Os museus não valem como depósito de cultura ou


experiências acumuladas mas como instrumentos
geradores de novas experiências e renovação da
cultura”
Carlos Drummond de Andrade

Esta pesquisa vai elucidar sobre os importantes aspectos do significado do museu


como instituição de sustento da continuidade da memória atribuída ao patrimônio
em questão. Para referir-se ao objeto de estudo da pesquisa recorreu a vários
conceitos de museu para melhor condizer com a realidade do museu estudado.
O IBRAM instituto Brasileiro de Museus traz o conceito de Museu de acordo com
a Lei nº 11.904, de 14 de janeiro de 2009, que instituiu o Estatuto de Museus:
“Consideram-se museus, para os efeitos desta Lei, as instituições sem
fins lucrativos que conservam, investigam, comunicam, interpretam e
expõem, para fins de preservação, estudo, pesquisa, educação,
contemplação e turismo, conjuntos e coleções de valor histórico,
artístico, científico, técnico ou de qualquer outra natureza cultural,
abertas ao público, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento.”
(IBRAM, 2009)

O mCo é um museu de sítio que tem por sua finalidade a comunicação entre o
santuário e um público em específico, a comunidade, o conceito de museu de sítio
surge historicamente relacionado à arqueologia e à história arquitetura e, mais
tarde, à etnologia, sendo a primeira menção ao conceito em um documento da
UNESCO que se dá no pós guerra. (MACHADO,2017)
A UNESCO deixa como ideia a priori, de que museu de sítio é um “museu
consagrado ao monumento”, no que diz a respeito:
Deve ser reservado, próximo a cada monumento de interesse
artístico e histórico excepcional e histórico excepcional um local
onde sejam expostas obras, documentos e objetos, de forma a
colocar clara e diretamente em evidência o lugar ocupado pelo
monumento na arte e na história e a fornecer as informações
indispensáveis sobre o edifício a ser visitado, assim como dos
principais personagens e eventos a ele associados (UNESCO,
1949)

Machado (2017) menciona o ICOM, que em 1982 pública a definição de museu


de sitio seguindo perto a Carta de Veneza, para enfatizar a importância do
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patrimônio construído e seu ambiente. Um museu concebido e criado para


proteger um bem natural ou cultural, móvel ou imóvel, no seu sitio original,
preservado in situ, ou seja, no local onde esse bem tenha sido criado ou
identificado (UNESCO, 1982).

O reforço do conceito de museu de sitio se faz presente neste trabalho, pois o


objeto de estudo é intitulado como sendo um museu de sitio, para proteger um
bem patrimonial reconhecido mundialmente. Pode-se perceber que o conceito
discutido, não é tão recente, ao avaliarmos a data de 1949 em que se começa a
pensar nestes sítios, sejam arqueológicos, ou de natureza cultural que necessitam
de uma preservação maior, e a instituição museu surge como uma alternativa de
se preservar esta memória.

Diversas experiências apresentam os museus não apensas como


instrumentos de conhecimento capazes de explicar os sítios, mas
sobretudo como lugares da mediação, símbolos da relação entre
as sociedades e o seu patrimônio em um dado momento.
(MACHADO, pag 62, 2017).

O museu, sendo ele intitulado um Museu de Sitio, precisa ter em sua essência o
teor do conteúdo de que pretende perpetuar, para isto, o conhecimento e a
comunicação sobre o sitio compõem um dos principais eixos estruturadores da
concepção museológica segundo Machado (2017). Diante desse pensamento, a
autora trás três principais diretrizes em que um Museu de sitio tende a cumprir e
são elas:

A)Promover o conhecimento e a comunicação, sob uma


perspectiva de consciência critica e dialogo.
B)Promover o aprimoramento cientifico no campo da
conservação e o monitoramento permanente do Sítio.
C) Contribuir para um modelo de desenvolvimento local mais
equilibrado, por meio da ampliação da oferta turística, da
qualificação dos serviços e das capacidades relacionadas a
cultura e ao patrimônio. (MACHADO, pág, 59 e 60, 2017)

Neste sentido JULIÃO (2012) vem colocar a sua visão sobre estas diretrizes
acerca do papel do museu de sitio:

Visa tão somente qualificar, por meio de exposições e ação


educativa, experiência insubstituível de estar no lugar,
intensificando os sentidos, o conhecimento e a percepção do
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conjunto patrimonial, seja por meio de descrições de


interpretações ou outros meios que criem condições favoráveis à
fruição. (MACHADO APUD GOMES; JULIÃO,2012)

A ressignificação do patrimônio edificado tem levado a discussão sobre os


museus de sitio que são espaços de conhecimento e principalmente instrumentos
de comunicação, assim como toda instituição museológica tem o seu papel
fundamental do diálogo como Amaral menciona.

Ao que se refere a nova museologia, Chagas (2011) debate que os museus estão
passando por um processo de democratização, ressignificação e de apropriação
cultural. Mas o que seria a nova museologia de fato ? Antes mesmo de se pensar
nos moldes da nova museologia, carecemos refletir sobre o conceito antecedente
do que seria esta instituição, que, a mesma teria, com o objetivo da guarda de
artefatos antigos e enaltecer a memória da nação. Sob uma influência politica
acerca sobre o ressurgimento dos museus, Amaral argumenta que:

O museu já nasce sob o signo da legitimação ideológica e da


construção de um passado que se quer ser hegemônico e total,
significando toda a sociedade e respaldando todo o aparato
politico do estado-nação. É o lugar privilegiado da ação artificial e
intencional da construção de uma memória coletiva substitutiva.
No cerne de um mundo que se projeta para a modernidade, as
identidades são objeto da preocupação oficial. (AMARAL,2011
pág 54)
Amaral deixa explicito que, os museus são uma armadilha ideológica da elite
politica interessada na manutenção do status, e diz também que as condições
que permearam o nascimento do museu não podem confundir-se com as novas
possibilidades do seu uso, e, então se deve estar atento ao potencial educativo
e, à nova ação dos museus no seio das coletividades. (AMARAL,2011,pág 55)

O mCo, museu de estudo desta pesquisa, foi construído nos moldes de um


museu com democratização cultural tendo como principio a maior abrangencia
da participação da comunidade de Congonhas, porém percebe-se claramente o
quanto a instituição é elitizada e politicamente influente no territorio da cidade, e
é desejo desta pesquisa entender esta relação comunidade e museu.

No entanto Chagas diz que:

O desafio é democratizar a ferramenta museu e colocá-la ao


serviço dos movimentos sociais; colocá-la a favor, por exemplo,
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da construção de um outro mundo, de uma outra globalização,


com mais justiça, humanidade, solidariedade e dignidade social.”
(Chagas, 2011, pág 6)
De fato é interessante pensar em todo processo na construção de significados,
onde entendemos o sujeito moderno, para depois entender a instituição museu
com as suas novas diretrizes, significados, e principalmente o conceito de museu
de sitio. Todo processo, está interligado com a globalização, e então a nova visão
de mundo do sujeito moderno. Sobre este pensamento onde podemos
relacionar, o lugar do sujeito moderno, com a ressignificação das instituições
culturais, a autora Luchiari (2005) imprimiu a sua opinião sobre este processo.

No período histórico atual, a lógica globalizante revela uma


nova racionalidade da organização sócio espacial
contemporânea, revestindo de novos e valores e conteúdos
tanto o espaço dos fluxos, que diz respeito à circulação,
informação e à comunicação, quanto o espaço dos fixos ou
das formas, referente aos objetos naturais e técnicos
presentes na paisagem, incluindo o patrimônio histórico.
(Luchiari, 2005)
O que podemos refletir sobre este período histórico atual, é que os museus
contemporâneos e a nova museologia assumem funções e papeis diferentes,
explorando cada vez mais da capacidade do sujeito moderno ao se reportar para
tal periodo, ou tal memoria que o museu guarda, neste sentido Chagas debate
sobre a nova museologia:

Desde o século XVIII até a atualidade eles (museus) constituem


campos privilegiados tanto para o exercício de uma imaginação
criadora que leva em conta o poder das imagens, como para a
dramaturgia do passado artístico, filosófico, religioso, científico -
em uma palavra: cultural. É na moldura da modernidade que o
museu se enquadra como palco, tecnologia e nave do tempo e da
memória. (CHAGAS,2011 pág, 7)

A metáfora utilizada por Chagas ao referir-se museu como sendo palco,


tecnologia e nave do tempo e memória, pode ser analisada da seguinte forma

(...) Palco, pois, ele é espaço de teatralização e narração de


dramas, romances, comédias e tragédias coletivas e individuais;
como tecnologia ele se constitui em dispositivo e ferramenta de
intervenção social; como nave ele promove deslocamentos
imaginários e memoráveis no rio da memória e do tempo. Tudo
isso implica a produção de novos sentidos e conhecimentos, a
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partir de sentidos, sentimentos e conhecimentos anteriores.


(Chagas, 2011, pág 8).

Com este pensamento, baseado nos autores aqui relacionados que debatem
sobre museus, museu de sitio e a nova museologia, podemos refletir sobre as
funções sociais que os museus assumem.
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1.3 - A função social dos museus

De acordo com Amaral (2006) a função social dos museus transpassa pela função
educacional que os museus tendem a assumir para atraírem novos olhares para
se tornarem uma instituição na sua funcionalidade de tempos da modernidade na
nova museologia. Contudo, Chagas diz que:
Durante longo tempo os museus serviram apenas para preservar
os registros de memória e a visão de mundo das classes mais
abastadas; de igual modo funcionaram como dispositivos
ideológicos do estado e também para disciplinar e controlar o
passado, o presente e o futuro das sociedades em movimento. Na
atualidade, ao lado dessas práticas clássicas um fenômeno
novo já pode ser observado. (Chagas, 2011 pág 5)

O museu precisa ser interdisciplinar, ser um instrumento eficiente de atração das


identidades coletivas, o museu guarda profusa facilidade de reflexão e deve ser
como um interlocutor entre a sociedade e seu passado. A concepção de
modernidade implica com o de moderno, pois afinal, o que são museus? Para
além de uma instituição sem fins lucrativos, o museu é instrumento de
comunicação, “a vocação do museu é a do diálogo” Amaral (pág 58, 2006).

A reflexão atual sobre os museus aponta para mudanças de sentido no


seu papel cultural, social e econômico. É inegável a importância que os
museus têm nas sociedades complexas. Não é incomum encontrar
casos em que eles são acionados como recurso para alavancar
processos de revitalização de áreas urbanas, consolidar roteiros
turísticos e inserir cidades no circuito internacional, promover
megaexposições ou grandes mostras capazes de atrair investimentosdo
mercado,preservação e representação de valores e práticas, produção
de conhecimentos, documentação, criação de narrativas,conformação
designificados e os recontextualizam nas relações de poder e memória
(ENCONTROS, 2014, p. 35).

Desta forma, percebe-se como a instituição acompanha as mudanças globais,


com novas perspectivas com novos olhares, mas sempre no seu papel da
comunicação e da mediação de uma memória do passado que deseja se tornar
presente. Diante disso Chagas (2011) trás a reflexão

Da modernidade ao mundo contemporâneo os museus são


reconhecidos por seu poder de produzir metamorfoses de
significados e funções, por sua aptidão para a adaptação aos
condicionamentos históricos e sociais e sua vocação para a
mediação cultural. (CHAGAS, 2011)
15

O que se precisa, é de um olhar mais aprofundado para as instituições com alta


influência politica, assim como o mCo foi concebido, para que não se desvirtue do
que realmente foi-lhe proposto, que é da aproximação com a comunidade em toda
a sua totalidade. Assim, mais do que um “bastião da afirmação social de grupos
tradicionalmente marginalizados pela história social, o museu torna-se um espaço
dedicado à cidadania”.3
Ainda sobre a luz do pensamento de Amaral uma das funções sociais do museu
é ser um elemento de interlocução com a sociedade que o cerca. “A falta de
identificação entre os propósitos museológicos e a sociedade é um duro golpe
para a sobrevivência dos museus, que perdem a sua legitimidade social” 4.
A instituição museu estará sempre em constante evolução, como segundo os
autores comentam “o mundo dos museus evoluiu amplamente com o tempo, tanto
do ponto de vista de suas funções quanto por sua materialidade e a dos
principais elementos que sustentam o seu trabalho”5 apud DESVALLÉES e
MAIRESSE, 2009, p. 23).
É passível então, que se pense na função dos museus, como o Paolot (2011)
menciona, cinco delas são – colecionar, conservar, estudar, interpretar e expor.
Algumas destas, ou talvez todas, estão envolvendo a comunidade e portanto
tange o social, o autor expõe três das cinco funções mencionadas, que são
importantes para o desenvolver socialmente falando a comunidade que está ao
seu entorno.
São elas, a de conservar, estudar e expor, a de conservar é o que pode se tornar
determinante para o surgimento de uma instituição museológica, está ligada
totalmente a preservação do patrimônio, estudar permite ampliar horizontes sobre
todo acervo que esteja preservado, e expor, toca no que é mais importante para
o crescimento da instituição, a comunicação, a tal forma que a maneira de expor
a história agora estudada e preservada, vá de fato atingir a comunidade que tanto
espera com a sua identificação.

3
Amaral, 2006 pág 58
4
Amaral, 2006 pág 60
5
DE MELO, CARVALHO, Douglas, Rita. Relações entre Patrimônio cultural e museus: um referêncial
teórico para o desenvolvimento. Mosaico. Volume 7 Número 10 2016
16

Já Varine (2013) prefere remeter o uso do patrimônio como termo, do que à sua
função. Para o autor, o patrimônio tem como principio o consumo cultural,
relacionado à contemplação, fruição estética, para que assim possa, conservar e
transmitir. Porém, não obstante a isso, o autor tambem menciona funções
semelhantes a que Paolot (2011) diz: estudos e pesquisas, ação cultural,
educação e ensino, socialização e inserção, economia, promoção da identidade
e, por fim, os serviços públicos. No tanto o que percebe que Varine toca na
questão da promoção da identidade, elemento importante para destaque da
função dos museus.

De um lado os habitantes se verão valorizados aos seus proprios


olhos e se sentirão obrigados a proteger, a promover e acolher.
Não se pode dar aos outros senão a imagem que temos de nós
mesmos,e, alias não se faz bem a promoção senão daquilo que
amamos. (Varine,2013, pág 97)

O objeto de estudo desta pesquisa é um museu que assim como o autor diz é
concebido para administrar o patrimônio global que se encontra tombado pela
própria UNESCO, o qual o autor mesmo critica quanto a sua visão. Pois Varine
(2013) em determinado momento comenta que acredita que o “tombamento do
patrimônio mundial promovido pela UNESCO é um erro estratégico que reforça
uma globalização cultural que não trará proveito, em última instância, senão aos
poderes econômicos” (Varine,2013,pág 104).

O pensamento de Varine (2013) sobre o tombamento da UNESCO, relacionado a


comunidade que é estudada nesta pesquisa tem sentido na questão de que o
efeito provocado pelo tombamento mundial gerou dois sentimentos nos
Congonhences, orgulho e medo, orgulho pela visibilidade e reconhecimento de
um patrimônio importante, e medo que a partir dai daria abertura da retirada das
esculturas, seja para preservação ou para exposições temporárias (mesmo que
esta exposição se encontre dentro do mCo), e até mesmo se pensava em furto.

Entretanto, mesmo com este sentimento de medo, o tombamento trouxe


benefícios ao sitio, mais do que incertezas, e como Chagas (2011) trás “acionados
17

pelos movimentos sociais como mediadores entre tempos distintos, grupos sociais
experiências distintas os museus se apresentam como práticas comprometidas
com a vida, com o presente, com o cotidiano, com a transformação
social.”(Chagas 2011, pág 7)

Então, a criação do museu possibilitou o fortalecimento da relação comunidade e


patrimônio. É sobre este parecer, que não deixa de agregar a função social que o
mCo exerce, que Machado (2017) comenta, “favorecer a preservação e ampliar a
apropriação social do excepcional acervo do Santuário do Bom Jesus do
Matosinhos em Congonhas o princípio motivador da criação do Museu.”
(MACHADO,2017,pág 43)
18

1.4 Desenvolvimento local

O conceito de desenvolvimento abarca muitas vertentes acerca do que se espera


para uma cidade já que seu conceito de acordo com o dicionário, Aurélio está
relacionado “Acto ou effeito de desenvolver. Crescimento. Amplia. Minuciosidade.”

O crescimento a fim de proporcionar o desenvolvimento local que se pretende


entender neste item, está interligado com a cultura e todos aspectos que a mesma
carrega. A UNESCO trás o conceito de cultura:

A cultura deve ser considerada como o conjunto dos


traços distintivo- espirituais e materiais, intelectuais e
afetivos que caracterizam uma sociedade ou um grupo
social e que abrange, além das artes e das letras, os
modos de vida, as maneiras de viver juntos, os
sistemas de valores, as tradições e as crenças.
(UNESCO, 2002, p. 2)
Claxton (1994) pensa a cultura como um fator primordial para o
desenvolvimento, e, a considera como referência para medir os demais fatores.
Para tanto , o desenvolvimento se torna inexistente quando deixa de utilizar a
força da cultura. Ou seja, a cultura é capaz de transformar o território e a
sociedade e criar elos capazes de gerar o desenvolvimento.

Varine (2013) é o autor que trata da relação desenvolvimento atrelado ao


patrimônio, seja este patrimônio humano ou material, debater sobre o
desenvolvimento local, concentra em ampliar uma análise sobre os efeitos que o
museu provoca em sua comunidade. Patrimônio que também nos remete a cultura
assim como as instituições museológicas, por isto pensar nos museus como
instituições provedoras da cultura nacional, e do reforço da identidade de um local,
nos faz pensar em museus como agentes de mudança social e de
desenvolvimento.

Porém, este exercício de se pensar no museu com essa nova função, é complexo.
Como Carvalho e Melo (2016) diz, “nas últimas, décadas, a ideia de museu está
inserida numa perspectiva voltada para o desenvolvimento socioeconômico”.

Nascimento (2009) traz uma reflexão acerca da cultura como agente do


desenvolvimento e indaga o seguinte questionamento sobre os museus:
19

É importante ressaltar que a cultura – rede simbólica de relações –


quando devidamente valorizada, contribui para a dignidade humana e o
exercício da cidadania, e que sua valorização faz parte dos reptos
enfrentados pela gestão pública. Nesse quadro, duas questões se
destacam: é possível contribuir para as estratégias de desenvolvimento
local a partir das políticas públicas de cultura? De que forma os museus
podem contribuir para a vivência da cidade e o exercício da cidadania?
(Nascimento,2009,pág 156)

A ideia que Nascimento (2009) trás, para o desenvolvimento tanto econômico


quanto para cultura, permeia pela gestão pública, e as políticas estrategicamente
pensadas para fomento da cultura e como consequência a pratica da cidadania,
pois democratizar o acesso da população aos bens culturais, democratizar a
produção cultural e ampliar o consumo cultural é também apresentar à população
ampla oferta de serviços de atividades culturais e, ao mesmo tempo, pensar a
cidade como um fenômeno cultural, totalmente articulada, cerzida, costurada pela
cultura..(Nascimento, 2009, pág,157)

Em toda questão que envolve o desenvolvimento local associado a economia da


região, precisa de contextualização do local de estudo quanto a sua atividade
econômica exercida, pois a cidade de Congonhas sempre foi destacada pelos
recursos minerais assim explorados desde o século XVIII e, a partir do inicio do
século XX até o presente, a exploração do minério de ferro tornou-se sua principal
atividade econômica. (Machado,2017.pág 21). Mas até o ponto que a mineração
entra em decadência no estado de Minas Gerais desde 2008, e o desastre
ambiental ocorrido em 2015 em Mariana acarreta pontos negativos com relação a
economia do município Machado (2017) comenta sobre o fato:

O desastre colocou em evidencia um debate que, embora recorrente,


nunca havia assumido uma dimensão tão concreta: além do
aprimoramento do controle sobre os impactos ambientais, a dimensão
tão concreta: além do aprimoramento do controle sobre os impactos
ambientais, a necessidade de diversificação da economia das cidades
mineradoras, visando à redução de sua dependência em relação a uma
única atividade econômica. (Machado,2017, pág 23)

Começa então, a se pensar em estratégias para alavancar a economia da região


e, uma delas é baseada no turismo cultural que a cidade tem grande potencial
para desenvolvimento da atividade.

A criação do mCo em 2015, depois de muitas discussões acerca do seu papel na


20

cidade, chega com a estratégia de propiciar o cidadão Congonhense um contato


maior com a cultura daquela cidade, sobre aquele patrimônio, visando também no
fomento da atividade turística no território. Sobre estratégias de politicas publicas
bem executadas Nascimento(2009) ressalta:

“Antes de pensar em construir centros culturais e museus, devemos criar


uma pauta, um plano estratégico de desenvolvimento e revitalização das
cidades para depois analisar o que isso significa do ponto de vista da
materialização de espaços culturais ou não.” (Nascimento,20019, pág
156)

Varine (2013) coloca sua opinião também, ressaltando que após a construção de
espaços culturais, as estratégias traçadas para o planejamento de uma atividade
eficaz, tenham condições no mínimo favoráveis a de inclusão da sociedade na
participação das atividades e que com essa condição, os membros da
comunidade darão conta de que o projeto de desenvolvimento é uma causa sua,
deles próprios e não apenas dos políticos, (Varine,2013,pág 38) pois a partir da
compreensão de patrimônio comunitário o desenvolvimento sustentável visa a não
fragilização do mesmo.

Varine (2013, pág 157) critica quanto a pratica do turismo cultural e todos atores
sociais envolvidos na atividade , que enxergam no turismo como a única fonte de
renda possível, e que não estão preparados suficiente para gestão da atividade
sustentável. Mas ainda sim, o turismo cultural se torna uma alternativa econômica
que propicie o desenvolvimento socioeconômico, já que em tempos de uma
sociedade dinâmica os museus se tornaram espaços culturalmente atraídos pela
sociedade e pelos turistas, além de toda cadeia do turismo.

É preciso ter em vista, a mais ampla participação da comunidade em suas


tomadas de decisões acerca da gestão destes espaços, em especifico, o mCo,
para que fomente de forma fluida a atividade turística, e assim temos um
crescimento, e desenvolvimento local atrelado a este patrimônio, pois hoje o
museu e a museologia e o patrimônio se caracterizam por desempenharem uma
uma função produtiva no desenvolvimento de forma integral e integrada com
ações políticas, de planejamento, educativa, lazer, preservação e crescimento
econômico. (De Melo; Carvalho, 2016,pág 5).

Como meio de identificar os pontos positivos e negativos após a construção do mCo, e


21

assim poder fazer uma analise acerca do desenvolvimento que ocasionou a população
Congonhense, a arquiteta e urbanista da UNESCO, Jurema Machado, realizou uma
matriz SWOT, do impacto do mCo. Segue abaixo a analise:

CAPÍTULO 2 - O ESTUDO DO LUGAR

2.1 O território Congonhas

A cidade de Congonhas localiza-se em uma região geológica há cerca de 7.000


22

km², denominada Quadrilátero Ferrífero, na porç ão central do estado de Minas


Gerais e do Brasil, distante 80 km da capital Belo Horizonte. Sempre destacada
pelos recursos minerais, sua ocupação foi motivada pela extração do ouro durante
o século XVIII e, a partir do início do século XX até o presente, a exploração do
minério de ferro tornou-se sua principal atividade econômica. Situam-se no
Quadrilátero Ferrífero importantes núcleos urbanos surgidos da mineração, na
sua maioria detentores de acervos históricos reconhecidos como patrimônio
nacional, e dois deles – Ouro Preto e Congonhas – como Patrimônio Mundial
(LINS, 2016)

FONTE: IBGE (2019) MAPA:1

Segundo o site da prefeitura de Congonhas a historia que se conhece sobre o


território é que a cidade foi fundada por volta de 1700, onde alguns portugueses
fundavam aldeias em busca de ouro, e devido a grande quantidade de ouro
encontrada às margens do rio Maranhão muitos se fixaram no território. Esse
importante centro de mineração gerou fortunas para muitos homens que aqui se
instalaram. Em 1746, numa lista secreta dos homens mais abastados da Capitania
constaram dez nomes da Freguesia de Congonhas e todos eram mineiros. O
historiador Augusto de Lima Júnior, na Revista de História e Arte, nº 01, afirmou
que as lavras das Goiabeiras, Boa Esperança, Casa de Pedra, do Pires, da
Forquilha e do Veeiro são indicadores de um passado de larga prosperidade, além
do famoso Batateiro, assim chamado pelo tamanho avultado dos grandes
23

granetes de ouro, que fizeram a riqueza de inúmeros mineradores. (Congonhas


(MG). Prefeitura.)

FONTE IPHAN 2014

2.2 O beco dos canudos

Local principal de movimentação da economia no setor do turismo, tem o nome


curioso “canudos” remetido aos “canos” que passavam por debaixo do calçamento
de pedra, é um local formado por casas de propriedade da Reitoria da Basílica do
Senhor Bom Jesus, preserva a arquitetura característica do período colonial.
Estas edificações abrigam lojas de “souvenir”. O artesanato comercializado é
bastante diversificado. São vendidos artigos feitos em gesso, pedra-
sabão, madeira, cerâmica, tapeçaria, cestos, estanhos, pedras semipreciosas e
outros. É neste local em que se concentram os artesões em pedra sabão, a
população que possui maior poder econômico.
24

FONTE : IPHAN 2014

CAPÍTULO 3 - O PATRIMÓNIO MUNDIAL BOM JESUS DO MATOSINHOS

3.1 A vocação da fé

A cidade histórica, construída para fins de interesse da mineração na região das


Minas Gerais, já que se tinha uma proximidade de Congonhas com Ouro Preto é
tradicionalmente cultivada pela fé católica, e não menos poderia ser diferente,
Congonhas segue a tradição do culto religioso e das Igrejas dedicadas a fé dos
fieis. Não é curioso que a cidade possui mais 5 Igrejas históricas além da Igreja
Bom Jesus do Matosinhos, todas dotadas do sec XVII até meados do sec XX, com
cada uma com suas particularidades, e frutos da fé cristã. São elas:

 Igreja de Nossa Senhora do Rosário (século XVII)


A mais antiga de Congonhas. Sua construção foi “realizada” pelos negros, no
início da formação do povoado. Acredita-se que a obra foi realizada em 1697.

 Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição (1734)


25

Na igreja encontram-se várias fases do Barroco. A construção é da primeira


metade do século XVIII.

 Igreja de Nossa Senhora da Ajuda (1746)


Localizada no distrito de Alto Maranhão, pouco se conhece a respeito da
construção dessa capela. Sua análise construtiva formal permite incluí-la a partir
da segunda metade do século XVIII, conforme informações do IEPHA-MG.

 Igreja de Nossa Senhora da Soledade (séc. XVIII)

Localizada no distrito de Lobo Leite

 Igreja Matriz de São José (Finalizada no início do século XX)

Localizada na Ladeira Histórica de Congonhas, a Igreja Matriz de São José


Operário foi iniciada em 1817; entretanto suas obras foram terminadas somente
no início do século XX.

E a Igreja que compõe o Santuário Bom Jesus do Matosinhos onde segundo o


site de Congonhas e o portal do IPHAN (2014)6 a sua construção foi iniciada em
1757, em agradecimento pela cura de uma doença grave enfrentada pelo
emigrante português Feliciano Mendes, que escolheu como padroeiro o Bom
Jesus de Matozinhos - o Cristo crucificado - venerado na localidade de
Matozinhos, próxima à cidade do Porto, no norte de Portugal. Os trabalhos foram
financiados pelas esmolas recolhidas por Feliciano com essa finalidade e, mais
tarde, por seus sucessores na administração da nova devoção constituída em
Confraria.

Quando o fundador faleceu, em 1765, oito anos após o início dos


trabalhos, a igreja já podia ser usada para o culto com três de seus
altares instalados: o altar-mor com a imagem de Cristo na cruz importada
de Portugal e os dois altares laterais consagrados a Santo Antônio e a
São Francisco de Paula. A edificação foi concluída em 1772 e, até o
presente, atrai multidões por ser um local de peregrinação religiosa, cujo
testemunho maior é a fabulosa coleção de ex-votos, abrigados na Sala
dos Milagres. A Igreja do Bom Jesus de Congonhas representa um
momento de transição na evolução que se processa na arquitetura
religiosa da região mineradora, em meados do século XVIII. (IPHAN,
2014)

6
Todas informações foram obtidas no site do IPHAN, 2014 disponível em
<http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/1658/>
26

A peregrinação religiosa da qual o Iphan se refere é o Jubileu Bom Jesus do


Matosinhos que acontece todo ano no período de 7 à 14 de setembro há mais de
261 anos segundo o site da Prefeitura de Congonhas, sendo a maior do Estado
de Minas Gerais, em devoção ao Bom Jesus, onde atrai fieis do Brasil inteiro.

Jubileu 1940 Foto: Marcel Gautherot/Reprodução

Com esta questão importante, é necessário destacar o quanto a religiosidade é


influente no território, e como que contribui para formação de identificação do
morador com este patrimônio. Há relatos da luta da sobrevivência do santuário,
da não retirada dos profetas do Adro, e sim, isto significou um elo, uma conexão
que todos aqueles moradores tem
27

3.2 O Museu de Congonhas

A idealização da construção do mCo se deu em meados de 2003 com a inscrição


de Congonhas no programa Monumenta (1999)

O Museu de Congonhas foi inaugurado em dezembro de 2015, ao lado


do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, sítio histórico, com título
internacional, que foi declarado como Patrimônio Cultural Mundial desde
1985. Neste sítio, o acervo arquitetônico, paisagístico e escultórico
denominado de “Conjunto de Congonhas” tem o início de sua construção
em 1757 e se estende até o início do século XIX, no morro do Maranhão,
onde estão localizadas obras artísticas, “do mais surpreendente e
representativo da cultura brasileira e do barroco luso-
americano”.(LINS,2016)

CAPÍTULO 4 - A PESQUISA E SEUS RESULTADOS

4.1 DELIMITAÇÃO DA PESQUISA

4.2 Resultados

CAPITULO 5 – CONSIDERAÇÕES FINAIS


28

6. REFERÊNCIAS

BRASIL. Lei nº 11.904, de 14 de janeiro de 2009. Institui o Estatuto de Museus e


dá outras providências. Diário Oficial da União. Brasília, 15 jan. 2009. Disponível
em:http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/lei/l11904 acesso
em: 10 de agosto de 2019

CHAGAS, Mário Souza. Museus, memórias e movimentos sociais. Cadernos de


Sociomuseologia, v. 41, n. 41, 2012.

DE MELO, Douglas Brandão; CARVALHO, Rita de Cássia Moura. Relações entre


patrimônio cultural e museus: um referencial teórico para o
desenvolvimento. Mosaico, v. 7, n. 10, 2016.
29

DA SILVA, Frederico Barbosa. Encontros com o futuro: prospecções do campo


museal brasileiro no início do século XXI Brasília, DF: Ibram, 2014. Coleção
Museu, economia e sustentabilidade. Ibram, 2014

GASTAL, Susana. Alegorias urbanas: o passado como subterfúgio – tempo,


espaço e visualidade na pós-modernidade. Campinas: Papirus, 2006.

HALL, Stuart; LOURO, Guacira Lopes; SILVA, Tomaz Tadeu da. A identidade
cultural na pós-modernidade. 4. ed. Rio de Janeiro: 2006.

MACHADO, Jurema. Museu de Congonhas: Um relato de uma experiência.


UNESCO. Brasília. 2017

MARTINS, Clerton. Patrimônio Cultural e Identidade: Significado e Sentido do


Lugar Turístico. In: MARTINS, Clerton (Org). Patrimônio Cultural: Da Memória
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DE MELO, CARVALHO. Relações entre patrimônio cultural e museus: um


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Número 10 – 2016.

POULOT, Dominique. Museo y Museologia. Madri: editora ABADA. 2011.

LINS, Cristina. 1º Relatório preliminar de diagnóstico e formulação de


monitoramento para o Museu de Congonhas. Brasília: UNESCO, 2016.

Santos, M. C. T. M. Museu e comunidade: uma relação necessária. Biológico:


São Paulo (2000):
VARINE, Hugues de. As Raízes do Futuro: O patrimônio a serviço do
Desenvolvimento Local. Porto Alegre: Medianiz, 2013.

YAZIGI, Eduardo. A Alma do lugar: turismo, plenejamento e cotidiano em


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30

https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/mg/congonhas.html MAPA