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DIALÓGICA

PLATÃO,

3

ARISTÓTELESSS

MAQUIAVEI,

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O selo DIALÓGICA da Editora InterSaberes

publicações que privilegiam uma linguagem na qual o autor dia- loga com oleitor por meio de recursos textuais e visuais, o que torna o conteúdo muito mais dinâmico. São livros quecriam um ambiente de interação como leitor — seu universo cultural, social e de elaboração de conhecimentos —, possibilitando um real pro-

cesso deinterlocução para que a comunicação se efetive.

faz referência às

O Estado na teoria política clássica:

Platão, Aristóteles, Maquiavel e os contratualistas

Doacir Gonçalves de Quadros

SMA,

DES

| EDITORA

intersaberes

anvicnchiatado strtóranda

Coscermatono: Comme

wrameedioraintesaberes.combr Fone: (41)2103-7306

cdiorastcditoraimersaberescombr

conselhoeditorial * De, IvoJosé Both (presidente) Drs Elena Godoy Dr. Nelson Luís Dias Dr. Neri dos Santos Dr. UIFGregor Baranow editor-chefe * Lindsay Azambuja edizor-assistente + Ariadne Nunes Wenger preparação de originais + Palavra Arteira capa * Alexandre Correa projetográfico + Raphael Bernadelli “adupração deprojeto gráfico * Silvio Gabriel Spannenberg

diagramação * Cassiano Darela

Dados Internacionais de Catalogaçãona Publicação (CIP) (Câmara Brasileira doLivro, SP, Brasil)

Quadros, Doacir Goncalves de Estadonateoria política clásica: Platão, Aristóteles, Maquiavele os contratualistas [livroeletrônico)/Doacir Gonçalves de Quadros. Curitiba: InterSaberes, 2016. 2Mb; PDF Bibliografia. ISBN 978-85-5972-109-6 Aristóteles 2, Filosofia política 3. Machiavelli, Niccol, 1469-1927 4. O Estado 5. Platão 1. Título.

1605188

2. catálogosistemático

Índices para

1.

Filosofia política 320.01

CDD-n0.0r

Iredição, 2016. Foifeiao depósitolegal Informamos que é de inteira responsabilidadedo autora emissão de conceitos, Nenhumapartedestapublicaçãopoderá serreproduzidaporqualquermeio. ouforma sema préviaautorizaçãoda EditoraInteaberes

Aviolaçãodsdiretos auraé rime estabelecido maLei. 9,6101998 €

punido pelo ar 184 do Código Penal,

Apresentação, 7

Como aproveitar ao máximo este livro, 11 Introdução, 15

capítulo um

O Estado na teoria política grega clássica, 20

1.1 Algumascategorias fundamentais para pensar o Estado,22

1.2 As formas de governo propostas por Platão

em 4 república, 24

13 A classificação das formas de governo segundo Aristóteles em Política, 29

capírulo dois O Estado na teoria política de Maquiavel,

54

21 Maquiavel: o precursor da ciência política, 56

22 OEstado absoluto em O príncipe, 58

23 As formas de governo segundo Maquiavel em

Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio, 64

2.4 Algumaslições de Maquiavel paraosdias atuais, 66

capítulo três

O Estado no modelo contratualista, 82

Algumascategorias no contratualismo,84

Hobbes e o Leviatã; 87 Locke e o tratadodo governocivil, 93

34 Rousseai do Discurso sobre à origemdadesigualdade a

Ocontratosocial, 100

Para concluir

Referências, 132 Respostas, 135 Sobre o autor, 139

129

Neste livro, você encontrará uma exposição do pensamento de

alguns dos principais autores clássicos da política, os quais comun-

gama ideia de que, para a organização política da sociedade, é

necesssário existir um poder político, que deveria formar-se com

base em um poder central chamado Estado. O objetivo deste livro é modesto: pretende servir para você, leitor, como umafonte introdutória a alguns pensadores da teoria

políticaclássica, Você terá a oportunidade de conhecer algumas das ideias deseis dos principais pensadores clássicos da teoria política, os quais influenciaram os governos em suas épocas e têm segui-

dores até os dias atuais. São eles: Platão, Aristóteles, Maquiavel, e

os contratualistas Hobbes, Locke e Rousseau. Você pode estar se perguntando:por queesses pensadorese não outros? Eles foram, ao mesmotempo, homense intelectuais políticos com umacrença de

que podiamintervir concretamente nas transformações da socie-

dade emqueviviam, oferecendodiferentes propostas de reforma

social e política. Forampensadores políticos que sustentavam que o Estado como podercentral deveria colocar-se como a organização

mais perfeita possível. As ideias de tais pensadores serviram como força motriz,a partir do século XIX, para outros pensadores polí- ticos que tinham igualmente o propósito de reformara sociedade.

É bom ressaltar que osfilósofos reunidos nesta obrasão clássicos não somente porqueviveram em um tempo bemdistante do nosso

século XXI, mas porqueas ideias que defendiamrepresentam temas

atuais

e que ainda repercutem, principalmente quando procura-

mosentender melhor o Estado como umaentidade política. Não

nos referimos à política restrita à prática partidária, como somos levadosa entendê-la atualmente, mas no sentido de organização po-

lítica como instrumento paracanalizaros diferentes interesses defendidos pelos distintos grupos que compõem umasociedade.

Porisso, nesta obra, tencionamos mostrar como, por meio de seus

diagnósticos sobre o homem a sociedade, os pensadores políticos selecionadosfizeram seus prognósticos sobre a melhor forma parase organizar politicamentea sociedade com fundamentos no Estado.

Alémdisso, osfilósofos escolhidos apresentam concepçõestais de sociedade e de natureza humanaque servem como modelo para se organizar o Estado nointuito de resolver conflitos de maneira

harmônica e pacífica, beneficiando a todososinteressados.

Para que estelivro atenda ao objetivo proposto, no primeiro capítulo expomosalgunsdosprincipais critérios usados para melhor compreender o Estado e suas atividades, com base naclassificação

das formas de governode Platão e Aristóteles. Você poderá entender quais critérios cada um deles utilizou para formular umaclassifi- cação distinta dos Estados. Além disso, poderá identificar a que motivoeles atribuíram a degeneração dos governos. Finalizando o

capítulo, apresentamos umareflexão sobre alguns temas atuais e polêmicos (a democracia, as boas formas de governar, a importância

da classe média etc.) que também fizeramparte dos diagnósticos que Platão e Aristóteles elaboraram respeito do Estado.

No segundocapítulo, abordamosalgumas lições de Maquiavel

paraa teoria política contemporânea. Você tomará conhecimento

pensador para a análise do

de algumas das contribuições des

Estado, a partir de formulações e tipologias (regimes políticos), teorias gerais (comportamento do governante) e leis relativas aos

fenômenospolíticos que ele descreveu emseus escritos. Como em

Platão e Ari: óteles, você observará que o filósofoitaliano propôs um diagnóstico sobre qual seria o motivo da ruína do governo, apontando que a arte de governar era a solução para se evitar o caos do governo. Noterceiro e último capítulo, trazemos para a nossareflexão o modelo contratualista, o qual é aceito universalmente como uma

explicação alternativa sobre a origem e os fundamentos do Estado moderno.Pelo resgate de algunsdosprincipais pensadores políticos

desse modelo que viveram entre os séculos XVIL e XVIII (Hobbes, Locke e Rousseau), você compreenderá que, por meio de seus escri-

tos, eles propuseram umateoria racional para oferecer fortes e

convincentes argumentos a fim deexplicar a existência

moderno. Nesse capítulo, você também conhecerá os principais

conceitos adotados pelos pensadores contratualistas e os motivos

que,navisão deles, levaram à formaçãoda sociedade. Você notará, nesse momentoda leitura, as semelhanças e as diferenças entre os

argumentos de Hobbes, Locke e Rousseau para tal formação, os quais resultaram em projetos políticos distintos nos séculos XVII e XVIII,a saber: o Estado absolutista, o Estadoliberal e o Estado

democrático. Advertimosque nestelivro você não encontrará uma descrição

exaustiva da vida e da obra dos pensadores políticos aqui aborda-

dos. Nossa proposta é promover uma reflexão inicial e introdutória sobre as teorias políticas detais filósofos sem percorrer os sistemas

filosóficos de cada umdeles. O termo teoria representa aqui um con-

junto de explicações sistematizadas sobre um determinado assunto:

do Estado

o Estado. O leitor que tem como intenção conhecer de maneira profundae sistematizada o pensamento político dosfilósofos clás-

sicos aqui reunidos deverá inevitavelmente se debruçar noestudo das fontes originais e dos comentários especializados de estudiosos, cujas obras são sugeridas ao final de cada capítulo, juntamente com os exercícios para reflexão e para fixação do conteúdo. Boaleitura

Como aproveitar

ao máximo este livro

Este livrotraz alguns recursos quevis

menriquecer seu aprendi-

zado,facilitar a compreensão dos conteúdose tornaraleitura mais

dinâmica. São ferramentas projetadas de acordo com a natureza dos temas que vamos examinar. Veja a seguir comoesses recursos se encontram distribuídos no decorrerdesta obra.

Logona abertura do

capítulo, você fica conhe-

cendo os conteúdos que

serão nele abordados.

Você tambémé infor- madoa respeito das

competências que irá

desenvolver e dos conhe-

cimentos queirá adquirir

com o estudo docapítulo.

Conteúdos do capitulo:

Apésoestudodestecapitulo,vocêserácapazde:

1

Síntese

Para reflir

Você dispõe, ao final do capítulo, de umasíntese

que traz os principais con-

ceitos nele abordados.

Nesta seção você dispõe de algumas reflexões diri- gidas com basena leitura de excertos de obras dos

princip

autores comen-

tadosneste livro.

na

Comestasatividades,

você tem a possibilidade

de rever osprincipais conceitos analisados. Ao final dolivro, o autor disponibiliza as respostas

às questões, a fim de que

você possa verificar como

está sua aprendizagem.

B

Nesta seção, a proposta

é levá-lo a refletir criti-

camente sobre alguns

assuntose trocar ideias

e experiências comseus pares.

Estudo de caso

Estudo de caso

Você pode consultar as obras indicadas nesta seção para aprofundar sua aprendizagem.

Esta seção traz ao seu

EAR

conhecimentosituações que vão aproximar os conteúdos estudados de sua prática profissional.

E

O que é política? Vocêjá se fez essa pergunta? Atualmente, trata-se

de uma das perguntas mais difíceis de serem respondidas. Fre-

quentemente, na linguagem comum, o termo política representa as

atividades exercidas pelos partidos políticos, políticos e governos.

Por outro lado, na perspectiva dos especialistas, esse termo está

associado à ideia de exercício de poder ou relação de poder.

Todavia, se a política for assim entendida, surge, naturalmente,

outra pergunta: o que é uma relação de poder? Osestudos sobre

as relações de poder indicam que essa é uma temática que atual-

mente tem recebido grande atenção no estudo da política e tem sido analisada e pesquisada pela filosofia política e pelas ciências

sociais contemporâneas (Bobbio; Matteucci; Pasquino, 2004,p. 940; Lebrun, 1984). Nesse campo de estudos, foram oscientistas políticos

norte-americanos que definiram o poder emseuexercício como a

capacidade de influenciar o comportamento das pessoas (Kaplan; Lasswell, 1998; Dahl, 1976). Atualmente, há uma vasta literatura

que procura esclarecer de modo simples e prático o que é o poder. Política: quem manda, por que manda, como manda, escrito porJoão

Ubaldo Ribeiro (1985), é um desses livros. Esse autor procurou des-

fazer alguns equívocose preconceitos sobre o que são a política e o

poder,ao tratar de ssuntos como Estado,nação, democracia, ditadu- ras, sistemaseleitorais, partidos políticosetc. semseater aos jargões

científicose especializados.

Ribeiro (1985) definiu o termo política de maneira simples e

esclarecedora ao indicá-lo como portador de duas características que lhe são singulares: um interesse e uma decisão. Explicamos:

por exemplo, vamos imaginar que você pretende influenciar o

comportamento de outra pessoa, ou seja, você tem um interesse:

levá-la a adotar umadeterminada conduta oua tomar uma decisão queseja de seuinteresse. Se você conseguiu tal resultado, é porque

você é quem tem, ou teve, poder na relação.

O termopolítica, a quem tem poder, quais

as formas para se chegar ao poder e

m conceituado, permite investigarmos

quais são as maneiras disponíveis para exercê-lo. Quando inves-

tigadas, as relações de poder revelam que é possível encontrar em

toda e qualquer sociedade algumas fontes, ourecursos, úteis para se

exercer o poder, as quais nos remetemà seguinte ideia: se dispomos

de uma dessas fontes, somos potencialmente poderosos (Bobbio; Matteucci; Pasquino, 2004, p. 936). Entre algumas dasfontes, ou

recursos, que irradiampodere são valorizadas atualmente, encon-

tram-se os atributos pessoais (carisma, liderança, personalidade, beleza etc.), o conhecimento,a força, a informação, o prestígio, a popularidade, o dinheiroe as posses, bem como a ocupação de um

posto nas organizações ou instituições sociais. Você já observou

que é muito comum considerarmos como poderosas pessoas que

possuem um ou mais recursos ou fontes de poder? E, ainda, que

temos a percepção de que, pela posse de tais recursos, elas conse-

guem influenciar o comportamento de outras pessoas, levando-as a decidir em favor de quem detémo poder?

Essa percepção tambémvale para as pessoas potencialmente poderosas que ocupampostos ou cargos importantes dentro das

hierarquias estabelecidas internamente nas instituições sociais

presentes em toda e qualquer sociedade. No estudo da política, a análise de tais instituições e estruturas hierárquicas coloca o

poder em evidência (Bobbio; Matteucci; Pasquino, 2004, p. 941). Referimo-nos ainstituições sociais comoa Igreja, a escola,a polícia,

os partidos políticos, o governo, o Estado, bem como as que con-

trolam meios de comunicação, entre outras. Nessas instituições,

encontramos, respectivamente, o padre, o professor, o policial, o político, o presidente e o jornalista como pessoas que ocupam

determinado cargo dentro da hierarquia interna daquelas insti-

tuições e são potencialmente poderosas, porque têm a capacidade, ou melhor, são virtualmente capazes de influenciar o comporta-

mento de seusfiéis, alunos, seguidores, simpatizantes, leitoresetc.

Esse poder potencial, entendido como a habilidade de conseguir influenciar o comportamento de outras pessoas, reveste-se de uma virtualidade, de umacapacidade que esteja em condições deser

exercida a qualquer momento (Lebrun, 1984).

pessoas se colo-

Você pode, então, perguntar: mas por quees:

cam comopotencialmente poderosas? É importante saber que socio-

logicamenteas instituiçõessociais cumpremuma função importante

perante o todo social. Segundoos cientistas sociais, as instituições

sociais têm a função de fazer a programação do comportamento dosindivíduos, e tal programação é impostapela sociedade. Ouseja,

elas atuam no processo de socialização do indivíduo, de modo que ele aprende a ser um membro dasociedade. O sentido usual para o

termo instituição é representado por uma organização formada por

pessoas. Por exemplo,a instituição socialfamília é a organização de

determinadas pessoas que têm em comum o parentesco,e tal orga- nização tem comofunção programare controlar o comportamento da criança queali chega para que cla se insira na defesa dos valores e dos comportamentosaceitos comocorretos pela sociedade.

Naapresentação deste livro, comentamos que o termo Estado refere-se à organizaçãopolítica da sociedade, sendo que todo Estado tem um governo. À instituição governo é composta por pessoas

designadas para governar o Estado, as quais são poderosas por- que têm em mãos a função de administrá-lo. O cientista político

canadense David Easton(1968), emseulivro Uma teoria de análise

política, esclarece bem quea função do governo no âmbito político

é receber os inputs sociais (as demandas) para, posteriormente, gerar os outputs (as decisões). O governo administra o Estadoa partir do recolhimento das demandase interesses provenientes dos grupos

sociais que formam o todo social e processa as informações e as analisa para tomar as decisões. Depois de aprovadas as delibera-

ções decorrentes do processo das demandas, as decisões tomadas

passam a influenciar todos os membros da sociedade. Tal processo — administrado pelo governo — é designado como processo político e

está presente emtoda asociedade, de modo que “Queiramos ou não, estamos submetidos a um processo político que penetra em

todas as nossas atitudes, em toda a nossa maneira deser ou de agir”

(Ribeiro, 1985, p. 21).

Vale destacarqueesse processo político a que estamos submetidos tem um caráter estritamente público e, além disso, se coloca como socialmente necessário. Explicamos por quê: é público no sentido

de que o processo político serve como uminstrumento parase for- mularem decisões de interesse geral, comuns, e, quandoas decisões são tomadaspelos governantes, elas impactam o comportamento de

todas as pessoas que fazem parte da sociedade; é necessário porque tem comofunção organizar politicamentea sociedade, uma vez que

os diferentes interesses pertencentes aos mais variados gruposinse-

ridos no interior da sociedade geram tensões e, consequentemente,

conflitos de interesses. Na teoria política e na filosofia política, o ideal é quetais tensõese conflitos, muito comunsnassociedades,sejam

solucionados por mecanismos que atuemna canalização e pacifi-

cação desses problemas. Segundo os pensadores políticos clássicos

apresentadosneste livro,essa é a função do Estado. O Estado é formado pelas instituições governo, parlamento e

tribunal, as quais nascem com o objetivo de administrar o processo

político a que os homens estão submetidos nointerior dasociedade.

É desse tema quetrataremos no primeiro capítulo,a seguir.

Pri

O Estado na

teoria política

grega clássica

Conteúdosdo capítulo:

* Categorias do Estado.

* Formas de governo noslivros 4 república, de Platão,e Política, de Aristóteles.

* Temasatuais nos pensamentospolíticos de Platão e Aristóteles.

Apóso estudo deste capítulo, você será capaz de:

1. compreender a importância das ideias de Platãoe de Aristóteles na reflexão sobre o Estado;

2. identificar algumas categorias presentes nos pensamentos políticos de Platão e de Aristóteles para pensar o Estado;

3. apontar algumas ideias de Platão e de Aristóteles que reper- cutem até os dias atuais.

1 Algumas categoriasfundamentaispara pensar o Estado

Atualmente, usamos diversos critérios para melhor compreender

o Estadoe suasatividades (Fiuza; Costa, 2007; Dallari, 2011).

Podemos, por exemplo, classificar os Estados de acordo com o poderio econômico, o poderio militare o tipo de estrutura estatal que apresentam. Umaclassificação muito comumdos Estados baseia-se nas características econômicas que lhes são peculiares!

22 Entre essas características está, por exemplo, a do desempenho econômico atrelado ao PIB (Produto Interno Bruto), que deu ori-

gem à classificação dos Estados a seguir: grandes países centrais, outros países centrais, grandes países periféricos e demais países

periféricos? (Dupas, 2005).

Também é possível classificar os Estados com base nosistema de governo que rege o relacionamento entre os Poderes Executivo

e Legislativo. Há dois sistemas de governo mais utilizados: presi-

dencialismo e parlamentarismo. No Brasil e nos demais países da

América doSul, adota-se o sistema de governo presidencialista, em que o presidente é eleito pelo voto direto do povo e concentra em

si os cargos de chefe de Estado e chefe de governo, diferentemente do que ocorrenosistema de governo parlamentarista, presente em grande parte dos países europeus. Nesse sistema de governo, os

cargos de chefe de Estado e de chefe de governo são ocupados por

1 Neste livro, à palavra Estado se refere a uma forma organizacional de natureza política; trata do poder soberanopara governar determinado povoem dadoterritório, formando,assim, um Portanto, neste primeirocapítulo, os termos Estarlo « país serão usadoscomo sinônimos.

2 Os grandes países cenrais são poucos nun ricamente e constituemaqueles que

ta com base noinvestimento do Estado emmateriais bélicos. Nações

concentram 62%

comoRússia

é

do PIB mundial, Os grandes países periféricos, que incluem o Brasil, a China e Rússia, concen- tram9% do PIB mundial, Outra classificação dos Estados, bem presente nos principais meios de

comunica

e Estados Unidos, apesar de direcionarem baixos percentuais relativos aos seus PIBpara a defesa

militar, mostram-se como os Estadosque mais investem financeiramente na sua defesa, Estil

que os Estados Unidos gastem 4% do seu PIB para a defesa nacional,o que equivale a 480 bilhões de

dólares. Ou seja, esse gasto coloca esse país como umagrande potência militar mundial.

pessoas diferentes (Acquaviva, 2010). Assim é na Inglaterra, naItália,

na Alemanhae na Espanha,entre outrospaíses. O chefe de governo

não é escolhido pelo voto direto do povo, mas pelo parlamento”.

Outra possibilidade declassificação dos Estados é analisá-los de acordo com o regime político, enfatizando a maneira como o poder

do Estado é exercido pelo governante e como este governa o povo. São duas as formas possíveis de regimes políticos: democrático e

não democrático, ou autocrático!. Para Norberto Bobbio (1986), o

quediferencia substancialmente um regimepolítico democrático de um não democrático é que o primeiro garante aos seus cidadãos os principais direitos de liberdade, protege as eleições livres e compe- titivas entre diferentes partidos, aplica o sufrágio universal e segue

o princípio da regra da maioria nas decisões de foro coletivo. Esse princípio sugere que o poder da maioria deveser limitado por meio

do reconhecimento e da proteção dos interesses defendidos pelas minorias derrotadas nos processos decisórios”.

Noentanto, a classificação

dos Estados que nosinteressa aqui

é a feita combase na forma de governo que designa como o poder do governo se organizae é exercido noslimites doterritório (Fiuza;

Costa, 2007). Observe que é considerando esse tipo declassificação que podemosidentificar algumas das contribuições do pensamento político de Platãoe de Aristóteles no queserefere à organização dos

Estados. Ambos reconheceram quais eram as formasde governo pos-

síveis parase exercere se organizar o poder nointerior do Estado. Esses

dois pensadores políticos gregos classificaram as formas de governo

existentes em suasrespectivas épocas de mododescritivo,isso porque conheceram diferentes Estadose,a partir da visualização empírica de comoos governos eram organizados e exercidos nascidades helêni-

3 Para saber mais sobre ossistemas de gove

ialista e parlamentarista, uma boa leitura

€ Oplebiscito e asformas de governo, de Arg

iredo e Marcus Figueiredo(1993), emque os

autores resumem comofunciona cada sistema de governo.

4 Vocêencontra noquarto capítulo do livro Elementos de teoria geral do Estado, de Dalmo Dallari

(gorn), uma exposiçãoclara acerca de alguns dos Fundamentos do regime político democrático.

5 Para saber mais

Norberto Bobbio (1986).

sobre a democracia, leia Ofuturo da democracia: uma defesa das regras do jogo, de

3

faller

Crédito: André

cas, construíram suasrespectivas tipologias dos Estados. Além disso,

como você poderá observara seguir, ambos também prescreveram

em seus escritos a melhor forma de governoa ser adotada”, ouseja,

exprimiram umapreferência por determinada forma de governo.

12 As formas de governo propostas por Platão em A república

24 Cronologia”

* 4274.€. — Platão nasce em Atenas, na Grécia.

* 409a.C.— Torna-se discípulo de Sócrates.

* 3974.C. - Viaja para o Egito e paraa Sicília.

* 387a.C. - Retorna para Atenas.

* 3874.C.:3474.C. — Escreve suas principais obras, entre elas À república.

* 3474.C. - Platão morre em Atenas.

Platão, no livro 4 república, desen-

volve sua teoria e sua classificação

sobre as formas de governo com base

na observação histórica. Ele usa como modelos as formas como os governos

se organizaram nas cidades gregas, e

suatipologia dos Estadosapresenta um

determinismo inafastável (Acquaviva,

2010). Isso porque, para ele, todas as cidades gregas eram governadas por

Advertimos que não serão abordados ossistemas filosóficosde Platãoe de Aristóteles.

6

tenhainteresse nesse assunto, indicamos a

(2012),queoferecemumaexcelente

leitura de Marisa da Silva Lopes e José CarlosEs

nálise introdutória sobre ossistemas filosóficos de ambos.

formas de governos “corrompidas ou imperfeitas”, uma vez que

eram guiadospelosvícios passionais e apetitosos de seus governan-

tes. Tal determinismo pessimista de Platão é indicado por Bobbio

(1997a, p. 46), na interpretação que este faz do pensador greg

“Todos os Estados que realmente existem, os Estadosreais, são

corrompidos — embora de mododesigual. Enquanto o Estado per-

feito é um só(e não pode deixar de ser assim, porque só pode haver umaconstituição perfeita), os Estados imperfeitos são muitos”.

O pessimismo de Platão quanto às formas de governovigentes

na Grécia fica evidente para o leitor dolivro À república, quando

o filósofo declara que a melhor constituição do governo é uma

formaideal.

Digo que umadasformasde governoé justamente a queconsidera-

mos(a constituição ideal), que podemos chamarde duas maneiras:

se um dentre os governantes predominasobre os outros, é a monar-

;se a direção do governo cabe a umapessoa, é a aristocracia. [ ]

qui

Essas duas modalidades constituem,portanto, uma única forma[. (Platão, 2010, citado por Bobbio, 1981, p. 46)

Essa ideia de governo ideal presente na passagem acimaleva

Lopes e Estêvão (2012) a afirmarem quetal ideia não corresponde

a nenhuma cidade existente, advertindo, porém, queesse governo

ideal seria um governo regido pela justiça.

O queresta então, prezadoleitor, segundo Platão,sãoas formas

más para se governar. Oscritérios usados porele para descrevê-las

são: quem governa; a paixão dominante; o motivo da corrupção; e

a moléstia do Estado, Desses quatrocritérios adotadospelo filósofo grego resultam as formas de governo corrompidas ou imperfeitas

e que são chamadas por ele de timocracia, oligarquia, democracia

e tirania.

Já examinamoso homem quese ajusta à aristocracia [governoideal]; nãoé poracasoqueoconsideramosbom ejusto. [ Passamos agora

]

2

em revista os tiposinferiores, isto é, o tipo de homem prepotente e

ambicioso, que podemosconsiderar como correspondenteà cons-

tituição espartana[timocracia]; emseguida,o oligárquico, o demo-

crático e o tirânico, de modo que, compreendido qual o que mais se afasta da justiça, possamos opor-lhe o que é maisjusto. (Platão,

2010, citado por Bobbio, 1981, p. 48)

Para Platão,essas formas de governo são imperfeitas por conta

da paixão dominante que orienta a ação do governante. Na timo-

cracia, tal paixão se traduz no desejo pela honra; na oligarquia, no

desejo pela riqueza; na democracia, no desejo pela liberdade; na

26 tirania, no desejo pela violência. A degeneração desses governos

ocorre porque os governantes se corrompem e suas paixões se tor-

nam imoderadas, causando a moléstia do Estado. Na timocracia, a

moléstia, ou doença do governo,ocorre quandoo governante passa a sentir um desejo passional irracional pela obtenção da honra e da glória. Na oligarquia, o governo adoece quando o governante

assume seu apetite imoderado pela riqueza, tornando-se um oli-

garca. Na democracia, o governo adoece em virtude do apetite

imoderado dos governantes pela liberdade. Natirania, a doença do

governo decorre do uso que o tirano faz da violência sem limites. Portanto, você já deve ter notado que, para Platão, a moléstia ou doença dos governos corrompidosdas cidades gregas advém dos vícios e dos desejos imparciais e imoderados, presentes na própria natureza humana do governante.

121 Alguns temas atuais no pensamento platônico

Em 4 república, salta-nos aos olhos o tratamento que Platão dá à

democracia — uma má forma de governo. Atualmente, em vários

países, há um consenso universal no sentido de tornar a democracia

uma forma de governo hegemônica na organização dos Estados. Mas tenhamos calma! Para compreendermos melhora perspectiva negativa soba qual Platão analisa a democracia, designando-a como umaforma de governo imperfeita, é importante atentarmos para

dois pontos.

O primeiro ponto é que, quandoPlatão elaborasuaclassificação

das formas de governo, posicionando a democracia como corrom- pida, ele a julga na perspectiva do governante (ex parte principi),

ou seja, de quemestá no poderê. A visão de Platão sobre a demo-

cracia é restrita porque se concentra na necessidade dese evitar a

degradação da unidade do poder do governante. A democracia propicia maiorliberdade aos governados, fato que compromete a

ordem social”. O segundo ponto sobre a perspectiva negativa de

Platão é que a democracia é tida como um governo em que o povo

ocupa o poder e dispõe umaliberdade desenfreada, semlimites e sem responsabilidade para prestar contas à sociedade.

Essa visão sobre a democracia era muito comum no tempo

em que Platão viveu; porém, no decorrer dos séculos seguintes,

sofreu profundas alterações, principalmente durante o período da Idade Média, mais precisamente entre os séculos XII e XV, quandoela passoua ser caracterizada como o poder supremo que derivava do povo. Cabia ao povo escolher seus representantes, os

quais formavam, assim, o governo representativo eleito por meio

do mecanismo da delegação!º. Ou seja, a partir da Idade Média, os pensadores políticos passaram a não considerar a democracia como um governosustentado pelo povo no poder, comose pensava na época de Platão. Em seu viés representativo e que atualmente

prevalece, a democracia se tornou uma concepção moderna no sentido tradicional do termoe recebeu,a partir do século XV, um

melhorrefinamento. Nos dias de hoje, mostra-se como a melhor forma de governo, sendo defendida pelas mais diferentes perso- nalidades e lideranças políticas em vários países. Portanto, você

27

Sobre as perspectivas ex parte populi e es:parte principis, umaboa leitura é o prefácio escrito por Celso Lafer no livro Àteoria dasformas degoverno, de Norberto Bobbio (19974,p. 13-29).

9 Essa interpretaçãoé característica de governosditatoriais e autoritários, definidospor regimes em

que o poder está nas mãos de uma únicapessoa oude um grupode pessoas, há ocontrole rígido quanto à distribuição dopoder e a oposição nãotem “legitimidade”.

10

Para saber mais,leia o verbete democracia no Dicionário de política, organizado por Bobbio,

Matteucci e Pasquino(2004).

deve compreender que atualmente a democracia nãose caracteriza como um regime em que o povo ocupa diretamente o poder, como pensava Platão, mas como uma formade governo em que o povo tem o poder para escolher seus governantes. “Temas comotirania e oligarquia, que fazem parte do pensa-

mento platônico, também são atuais. As observações que Platão faz sobre a forma de governo denominada porele tirania se apro- ximam da concepção atual que podemos ter sobre as ditas ditadu- ras modernas", Tal comoestas,astiranias gregas que existiam na

28 época de Platão nasciam como desdobramento das crises políticas e das desagregações sociais provenientes do conflito aberto entre os diferentes interesses nointerior da sociedade, os quais exigiam a

ampliação da participação política nas democracias gregas. Tanto o governotirano comoo ditador são consideradoslegítimos,legal-

mente consentidos pelo povo, porque impõem o poder pela força, além de não serem temporários.

A palavra oligarquia, nos escritos de Platão, indica uma forma

de governo em quesão osricos que mandam e não partilham com

os pobres as benesses do governo e do poder. Para Platão, na oli- garquia, o poder supremoestá nas mãos de um restrito grupo de pessoas que podem estarligadas por vínculos de sangue, de ideias

ou deriquezas e que têm como propósito final de seu governo gozar de privilégios particulares. Além disso, a oligarquia usa de todos os meiospara se conservar no poder.

É essa perpectiva dePlatão respeito da noção de oligarquia que

ainda repercute na atualidade, principalmente nos meios jornalísticos, nos quais esse termo é utilizado para indicar uma forma “viciada” de governo. Naciência política contemporânea, a palavra oligarquia vem sendoadotada também parasintetizara organização política do

Estado.A oligarquia designa um governo comandado por minorias organizadas, sendo a única forma possível de organizar um governo

representativo. Em toda forma de governo, os comandantes serão sempre numericamente inferiores aos comandados; portanto,nessa concepção, todos os governos podem ser denominados oligarquias. Mas comodiferenciar a boa da má oligarquia! A boa tem como

fonte de poder a legitimidade do voto popular e, no exercício do poder, leva em contaos interesses da oposição. A má tem como fonte de poder o voto dirigido como única opção para o povoe, no

exercício do poder, não reconhece a oposição e a persegue.

134 classificação dasformas de governo

segundo Aristóteles em Política

Cronologia'*

* 3844.C. — Aristóteles nasce em Estagira, na Grécia.

* 3674.C. — Estuda na Academia de Platão, em Atenas.

* 335a.C. — Fundaa escola Liceu, em Atenas.

* 335 4.C.-3224.€. — Escreve suas principais obras em lógica, filoso- fia da naturezae filosofia prática, entre elas Política.

* 3224.€. — Morre emCálcia, na Eubeia.

Aristóteles, discípulo de Platão, apresenta, no livro Política, dois

29

critérios para a avaliação dos diferentes tipos de governo e para a classificação das formas de governo.

Antes de examinarmosa tipologia aristotélica, é importante sabermos comoo filósofo sugere que ocorreu a origem do Estado e com qual objetivo este surgiu. Neste ponto, fazemos a você,

leitor, um lembrete: entre os pensadores políticosclássicos que se

12 Para saber mais sobre como o conceito de oligarquia é utilizado na ciência política, leia o verbete oligarquia no Dicionário de política, de Bobbio, Matteucci e Pasquino (2004). 13 Fonte das informações: Aristóteles,1985.

dedicam à teoria política, encontramosdiferentes interpretações sobre a origem e o fundamento do Estado. O modelo contratua-

lista é uma primeira interpretação sobre a origem do Estado e que

é bem influente nateoria política (reservamos o Capítulo 3 para que você conheça melhor essa interpretação).

da sociedade natural ou familiar,

da qual Aristóteles é um dos seguidores. Nessa interpretação, o Estado, entendido também comocidade ou polis, tem como matriz

a família, e o argumento é que os homens são seres políticos e não

Aqui, destacamosa teoria

30 vivemisolados, de modo que estão sempre reunidos em grupos. Internamente,esses grupos são hierarquizados — alguns indivíduos ocupam posições superiores, e outros, inferiores.

Você já deveter identificado que para a abordagem da sociedade natural o Estado surge, então, da união de várias famílias, que

passam a formar povoadose, posteriormente, cidades. A agregação das famílias ocorre em virtude da necessidade natural que o homem tem de cooperar com seus semelhantes para conseguir a proteção

e os meios necessários para sua subsistência (Dallari, 2orr; Bobbio,

1991). Nessa abordagem, o homem consegue,a partir da formação

do Estado, “os meios necessários para que possa atingir os fins de sua existência, desenvolvendo todo o seu potencial de aperfeiçoa-

mento, no campo intelectual, moral ou técnico” (Dallari, 2011, p.23).

- , Agora que vocêjá conhece a perspectiva

, defendida por Aristóteles sobre como sur- giu o Estado, podemospassar à próxima etapa, que é analisar quais são, para esse

filósofo, as formas possíveis de se organizar

o Estado.A classificação dos Estados con- formeAristótelesse bascia em doiscritérios:

quem governa e comogoverna (Acquaviva,

2010; Fiuza; Costa, 2007). Devemos dar

especial atenção para o segundocritério, anais porque é a partir dele que Aristótelesdefine

quais são as boase as más formas de governo. No Capítulo V do Livro 3 de Política, Aristóteles escreve sobre as formas de governo

ao sereferir ao termo constituição:

Uma vez que constituição significa o mesmo que governo, e o

governo é o poder supremo de umacidade, e o mando podeestar nas mãos de uma única pessoa, ou de poucaspessoas, ou da maio- ria, no caso em que esta única pessoa, ou as poucas pessoas, ou à

maioria, governam tendo em vista o bem comum,estas constitui-

ções devem ser forçosamenteas corretas, ao contrário, constituem

desvios os casos em queo governo exercido comvistas ao próprio

interesse da única pessoa, ou das poucas pessoas, ou da maioria [.

(Aristóteles, 1985, p. 97)

Napassagem citada, podemos observar que, de acordo com Aristóteles, o governante pode ser uma única pessoa, poucas ou

muitas pessoas. E também é possível notar que o filósofo se refere

às boas formasde governo comoas corretas,

de governo constituem as más formas. Eis a pergunta que devemos fazer neste momento: qual é, para Aristóteles, o critério que dife-

rencia a boa e a má forma de governo? Conformeo trechocitado, o critério se baseia em como o governante comanda: se em favor de

seus interesses pessoais ou dosinteressescoletivos. O autorprossegue:

Osdesviosdasconstituições mencionadas são a tirania, correspon-

dente à monarquia, a oligarquia à aristocracia, e a democracia ao

governoconstitucional; de fato,a tirania é a monarquia governando

ao passo que os desvios

3

no interesse do monarca, a oligarquia é o governo no interesse dosricos, e a democracia é o governo nointeresse dos pobres, e

nenhuma destas formas governa para o bem de toda a comunidade.

(Aristóteles, 1985, p. 97)

Portanto, as más formasde governosãoa tirania, a oligarquia ea

democracia,pois seus governantes (um, poucos ou muitos) lideram em favor deseus interesses pessoais. Na tirania, o monarca se torna

32

um opressor porque governa em prol de seus interesses; na oligar-

quia,os ricos comandam visando aos própriosinteresses; na demo- cracia, os pobres governam para si próprios, deixando de lado osinteresses dos outros grupos da sociedade. As boas formas de governo, ou as entendidas como não corrompidas, como Aristóteles

denomina, são aquelas em que os governantes no poder orientam suas ações e tomadas de decisão para atender ao bem comum.

A monarquia,a aristocracia e o governo constitucional, ou politia!á,

Aristóteles caracteriza como governos bons, retos ou puros, emque

o governante procura atender aos interesses do todo social. Mas, para Aristóteles, qual é a melhor forma de governo? Para

o filósofo,é o constitucional, ou polítia, também chamadoporele de governo misto. Emqueele consiste? Nas palavras do autor, “Em quase todasas cidades, então, existe o chamado governo constitu- cional, pois a mescla não vai além do que harmonizar osricos e os

pobres, a riqueza e a liberdade” (Aristóteles, 1985, p. 144).

No governo constitucional, ou misto, as ações do governante

são orientadas para atender aosinteresses de todos, dosricos e dos

pobres. Assim, trata-se de um governo que atenuao conflito exis-

tente entre as duas forças presentes em qualquer sociedade(ricos

e pobres), os quais têm, frequentemente, interesses antagônicos.

Tal forma de governo asseguraria, segundo Aristóteles, a paz e a

maiorestabilidade ao Estado.

13.1 Alguns temas atuais no pensamento aristotélico

O temaclasse média recebe umaatenção especial no livro Política. Para Aristóteles, em uma sociedade em quea classe média é nume-

ricamente maior em relação às outras classes, há reais possibilida- des de seus cidadãos obedecerem à razão nas tomadas de deci.

14 Alguns estudiosose tradutores do pensamento de Aristótelestraduzemo termo constitucional por politia,comoadverte Bobbio (1997)

Esse argumento de Aristóteles se fundamenta na tese de que, em uma comunidade na qual há um número maior de pessoas

na composição da classe média, existe maior estabilidade para

o governo nas tomadas de decisão. Isso é ressaltado por Bobbio

(1997a, p. 62), quando afirma: “Chamamos a atenção doleitor para este tema:a “estabilidade”. Um tema verdadeiramente central na história das reflexões acerca do bom governo,pois um doscritérios fundamentais que permite distinguir (ainda hoje) o bom governo do maué sua estabilidade.” A estabilidade do governo defendida por Aristóteles decorre do

perfil do cidadão que compõea classe média, que não é rico nem

pobre financeiramente. Trata-se de um cidadão bem informado, que orienta suas ações pela razão, e não pela emoção, e valoriza o próprio bem-estar. A classe média evita a possibilidade de agir

por meio de ações violentas, revoltas, revoluções ou conspirações

contra o governo.

partir dessa perspectiva, podemosentender melhor porque,

para o filósofo, a melhor forma de governoé a constitucional: ela

é o resultado de uma fusão entre a democracia e a oligarquia. Na

análise de Bobbio (1997a,p. 62) sobre o pensamento de Aristóteles,

O

quefaz com que a mistura de democracia e oligarquia seja boa —

se

com ela se busca uma determinada forma política correspon-

dentea certaestrutura social, caracterizada pela predominância de

uma classe que não rica, como naoligarquia, nem pobre, como

na democracia —

justamente o fato de que está menos sujeita às

3

mutações rápidas provocadas pelos conflitos sociais os quais, por

sua vez, resultam dadivisão muito nítida entre classes contrapostas.

Nasegunda metade do século XX, o argumento de quea classe média é a solução para a estabilidade do governo ganhou força no meio acadêmicoe intelectual e ocupou espaço no debate acerca da consolidação da democracia como regime político mais propício

para os países adotarem.

34

É o que encontramosna obra Poliarquia, de Robert Dahl(1997),

ao citar o livro Alguns requisitos sociais da democracia, escrito em 1959 pelo sociólogo Seymour Lipser'>. Nesse texto, Lipset sugere que a democracia somente seria possível em países que se desen-

volveram/modernizaram internamente de modoa ampliar o poder

de consumoe de renda de seus cidadãos. Ainda segundo essa tese,

em países em que predomina numericamente a classe baixa ou

pobre na composição de sua população, os governosteriam sérios problemas de estabilidade e, em razão disso, tais nações estariam fadadas a ser governadas porlíderes autoritários e não democráti-

cos (Dahl, 1997).

A exemplo de Aristóteles, Lipset (2012) também defende que

uma numerosa classe média amenizaria os conflitos sociais, ate-

nuando os possíveis motivos para tais conflitos e abrindoa possibi- lidade de resolvê-los pela via pacíficae eleitoral. Ressaltamos que a teoria da modernização paraos países pobres, proposta por Lipset, baseia-se na necessidade de os governos fazerem investimentos em

áreas como educação, urbanização e desenvolvimento econômico.

O investimento nesses campos favoreceria a formação de uma

comunidade em que a população passaria a ser bem informada,

inteligente e participativa nos assuntos de interesse comum. Desse

modo, formar-se-ia uma população com boa autoestimae autodis-

ciplina, características que contribuiriam para que não sucumbisse

aos apelos de governantes demagogosirresponsáveis e autoritários.

Você provavelmente notou a atualidade dessa discussão.

Observamos, no final do século XX e início do século XXI, a

preocupação dos governos vigentes em alguns países da América

do Sul, da África e da Ásia em diminuir a desigualdade na distri-

buição de renda por intermédio de investimentos em educação e

15 Esse livro foi traduzido emforma de artigopela revista Primeiros Estudos (Lipset, 2012) e é uma excelente fonte de consulta sobre a teoria do sociólogo.

desenvolvimento econômico, com o intuito de ampliar o contin- gente de seus cidadãos na classe média!S. No Brasil, em 2012,a classe média representava 54% da popu-

lação, contra 34% em 2005. Dados divulgados pelo Programadas Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) mostraram que prefeitos das cidadesbrasileiras que apresentaram maior aumento proporcional no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal

(IDHM) em 2010tiveram maior dificuldade dese reeleger em 2012,

mesmo com osinvestimentos em renda, educaçãoe saúde que com- põem o índice. O resultado político-eleitoral é claro: indica que

o eleitor, ao receber mais educaçãoe renda, tende a usara eleição

para naturalizar os ganhose exigir mais do governante. Em 2004,

o índice dereeleição era de 82%, mas caiu para 48% em 2012. Tais dados e conclusões servem como fortes indícios da importância

das ideias de Aristóteles sobre o temaclasse média (Unisinos, 2013).

Outro tema atual e que também está presente nolivro Política é

a busca que a comunidade deve fazer pela melhor forma de governo.

Como exposto, Aristóteles propõe aderir ao governo constitucional,

o qual, segundo o pensador grego, atenuaria o conflito existente

entre ricos e pobres decorrente dos interesses antagônicos desses

dois grupos. Tal forma de governo asseguraria, de acordo com o

filósofo, a paz entre as duasclasses, garantindo, assim, maioresta- bilidade ao Estado.Essainterpretação é corroboradapela análise de

Bobbio (1997a,p. 61), ao citar que o governo misto “é um regime

em que a união dosricos e dos pobres deveria remediar a causa

mais importante de tensão em todas as sociedades — luta dos que não possuem contraos proprietários. É o regime mais propício para assegurar a paz social”,

3

16 Por exemplo, noBrasil, o critério adotado para definir as classes sociais é o poder de compra e

de

número de pontos que ela soma. Tomando-se por base essecritério, temos observado nosúltimos anos.

consumode determinadositens, comotelevisão,rádio, celular, automóvel e

instrução, Cada item vale determinados pontos,e o que define a classe social de dada famíli

ira, alémdo grau

umavançono contingente da populaçãoque compõe a classe média emváriospaíses daAmérica doSul,

36

Aorefletirmossobre esse aspecto, caroleitor, podemos presumir que a melhor forma de governo não depende exclusivamente das

habilidadese virtudes de quem governa ou de quem está no poder tomando as decisões, como veremos no próximo capitulo. Para

Aristóteles, a melhor forma de governo se fundamenta exclusiva-

mente em“para quem se governa”, Neste caso, consequentemente,

governojusto é aquele que procura atender ao bem comum. O bom governante, em vez dese ater aos próprios interesses, é aquele que

visa ao bemefetivo de todos(ricos e pobres), buscandoa justiça e

o bem-estar da comunidade, conforme observamos na passagem

a seguir:

É obvio, então, que as constituições cujo objetivo é o bem comum

são corretamenteestruturadas, de conformidade comos princípios essenciais da justiça, enquanto as que visam apenas ao bem dos próprios governantes, são todas defeituosas e constituem desvios

das constituições corretas [

].

(Aristóteles, 1985, p. 90)

Tocamos num temacontemporâneoe polêmico queé a corrup-

ção no governo. Você provavelmentesabe que ela ocorre quandoo

funcionário público faz uso de recursos públicos para atender aos

própriosinteresses e obter vantagens pessoais. Nafilosofia política

e nateoria política

contemporânea, a corrupção é vista como uma

prática frequente dos governantes e se mostra como uma prática generalizada na vida pública. Assim é porque, de acordo com a

filosofia política, a origem da corrupção está na própria natureza humana, quando há a degradação dos costumese a violação das leis. Para Aristóteles, a corrupção acontece quando os homens dei-

xamdeagir e defenderosinteresses públicos e passam seorientar pelos desejos pessoais. A corrupção,nessesentido,é enfatizada nos costumes dos cidadãos, os quais fazem prevalecer seus próprios anseios em detrimento dosinteresses da sociedade em geral. Atualmente, a ênfase no debate sobre a corrupção na vida

pública faz referência à apropriação privada de fundos públicos,

de modo que o corrupto toma como propriedade privada aquilo

que é de domínio público (dinheiro, posses, conhecimento, poder

etc). Se em Aristóteles o corrupto era aquele que degradava os cos- tumes, hoje o corrupto é aquele que na vida pública age em torno

do furto e do roubo para os mais diversos fins pessoais, inclusive para se perpetuar no poder!”

Síntese

Chegamosao final deste primeiro capítulo. Nele, examinamos

algunscritérios para melhor compreender o Estado e suas ativida- des. Vimos que é possível, por exemplo, agrupar os Estados com

base nos poderios econômico e militar, bem comono tipo de estru-

tura que apresentam; também Podemosclassificá-los de acordo com

o modo como se relacionam os Poderes Legislativo e Executivo.

Analisamos que Platão e Aristóteles categorizam o Estado com base nas formas possíveis de exercer e de organizar o poder no

interior dele. Platão, no livro A república, desenvolve sua teoria e sua classificação sobre as formas de governo fundamentando-se na observação histórica. Como vimos,os critérios usados por ele

são: quem governa; a paixão dominante; o motivo da corrupção;

e a moléstia do Estado. Desses quatro critérios adotados resultam as formas de governo corrompidas ou imperfeitas, chamadas por ele timocracia, oligarquia, democracia e tirania. A degeneração do governoocorre quandoos governantesse corrompem suaspaixões

se tornam imoderadas, causando a moléstia do Estado.

Destacamos também,neste capítulo, a perspectiva negativa de Platão sobre a democracia, considerada a uma forma de governo imperfeita, uma vez que esse filósofo a julga na perspectiva do governante. No entanto,tal perspectiva sofreu grandes alterações

37

a interpretação se encontra nolivro Reformapolítica no Brasil, no capítulointitulado “Financiamento de campanha (público versus privado)”, de Renato Janine Ribeiro (2006).

38

principalmente entre os séculos XII e XV. As observações que Platão faz sobre a forma de governo denominada porele tirania aproximam-nado que hoje entendemosporditadura moderna. Finalizamos este capítulo mostrando que, para Aristóteles, os

homens sãoseres políticos e não vivem isolados, isto é, estão sem-

pre reunidos em grupos, famílias,tribos e cidades. Internamente, tais grupos apresentam hierarquias — alguns indivíduos ocupam

posições superiores, e outros, inferiores. O Estado surge, então, da união de várias famílias, que passam a formar povoadose, poste- riormente, cidades.

Comentamos também que a classificação dos Estados em Aristóteles decorre de doiscritérios: quem governa e comogoverna.

Examinamosas boas e as más formas de governo segundo Aristóteles,

sendo as boas aquelas em que os governantes orientam açõese deci-

sões nointuito de satisfazer o bem comum.

Sobre o temaclasse média, Aristóteles entende que há reais pos-

sibilidades de cidadãos obedecerem à razão nas tomadasde decisão

se a sociedade à qual pertencem for majoritariamente composta por

cidadãos dessaclasse. Por fim, demonstramos que, para o filósofo grego, o governo constitucional é a melhor forma paraliderar e se fundamenta exclusi- vamente em “para quem se governa”, Nessecaso, consequentemente,

governojusto é aquele que governa para atender ao bem comum.

Para refletir

Textos de Platão — A república

Leia a passagem a seguir e observe que, no diálogo escrito por

Platão, a moléstia ou doença dos governos corrompidos (constitui- ções políticas) que constituemas cidades gregas é entendida como decorrente dosvícios e desejos imparciais e imoderados que estão presentes na própria alma ou natureza humana.

— Porconsequência, a virtude é, parece, saúde, beleza, boa dis-

posição da alma, e o vício, doença, feiura e fraqueza.

— assim mesmo.

— Mas as belas ações não levam à aquisição davirtude e as

vergonhosas,à do vício?

— Com necessidade.

— Devemos, agora, examinarapenas se é proveitoso agir jus-

tamente, aplicar-se ao que é honesto ser justo, sejamos ou não

conhecidos comotais, ou cometerinjustiça e ser injusto, embora não sejamos punidos e não nos tornemos melhores pelo castigo.

— Mas, Sócrates — observouele — este exame me parece dora-

vante ridículo. Pois, se a vida se afigura insuportável quando a

constituição do corpoestá arruinada, mesmo com todososprazeres

da mesa, com todaa riquezae todo o poder possíveis, sê-lo-á com

maiorrazãoainda,quandoseuprincípioestáalteradoecorrompido,

ainda que tenhamoso poderdefazertudo à nossa vontade — exceto

o de escaparao vício e à injustiça e adquirir a justiça e a virtude. Bemcompreendido:se estas coisas são tais comoas descrevemos.

— Com efeito, este exame seria ridículo — confessei. —

Entretanto, comoatingimos um ponto de onde podemosdiscer

com amaior clarezaque talé averdade, não devemos fraquejar.

— Não, por Zeus — assentiu ele — de forma nenhumadeve-

mosfraquejar.

— Aproxima-te, pois — disse eu — para ver sob quantasfor-

masse apresenta o vício: aquelas ao menos que, na minha opinião,

merecem chamara atenção.

39

— Estoute seguindo, podes mostrá-las.

— Muito bem! Vendoascoisas do observatório em que estamos,

pois é onde a discussão nos conduziu, parece-me que a forma da virtude é umae as formas do vício são inúmeras, mas queexistem

quatro dignas de retenção.

Fonte: Platão,1965,p. 237.

Leia a passagem a seguir e observe que, para Platão, há cinco maneiras de administrar o Estado (monarquia, timocracia, oligar-

quia, democracia e tirania), mas a monarquia a aristocracia são

duas formas similarese ideais de bons governosa serem adotados.

Isso porque são administradas por pessoas virtuosas, detentoras de boas qualidades pessoais.

— Poderia acontecer — repliquei— que houvesse tantasespécies

de almas quantasas espécies de constituições políticas.

— E quantas há?

— Cincoespécies de constituiçõespolíticas e cincoespécies de

almas.

— Queira nomeá-las.

— Eilas: a constituição por nós descrita é uma delas, embora

se possa designá-la pordois nomes. Se, com efeito, há um homem

entre os chefes que supere notavelmente os outros, chamamo-la monarquia, se há muitos, aristocracia.

— É exato.

— Mas afirmo que se trata aí de umasó espécie de constitui-

ção; pois sejam muitos os chefes ou um só, em nada abalarão as

leis fundamentais da cidade, enquanto observaremos princípios de educação quedescrevemos.

— Parece que não.

Fonte:Platão,1965,p. 237:238,

Na passagem a seguir, Platão argumenta que no bom governo

prevalece a justiça e que ele é orientado pela ação racional dos

governantes em detrimento dos instintos apetitosos (reputação,

riqueza, licenciosidadee violência), os quais levam ao maugoverno.

— evidente que Homerorepresentaaqui doisprincípiosdistin-

tos, um, que raciocinou sobre o melhore o pior, sofreando o outro,

quese exacerba de maneira desarrazoada.

— Está perfeitamente bem expresso.

— Eis portanto — prossegui; — Estasdificuldades penosamente

transpostas a nado eis realmente reconhecido haver na cidade e

naalma do

indivíduo partes correspondentes e iguais em número.

— Sim.

— Por consequência, não é já necessário que o indivíduo seja

sábio da mesma maneira e pelo mesmoelemento que a cidade?

— Equea cidade sejacorajosa pelo mesmoelemento e da mesma

Sim, sem dúvida.

maneira que o indivíduo? Enfim,que tudo quantose refere àvirtude

se encontre similarmente numa e noutra?

— É necessário.

— Assim, Glauco, diremos, penso, quea justiça no indivíduo

apresenta o mesmo caráter que na cidade.

— Ora,nãoesquecemos, porcerto,quea cidadeerajustadevido

Isso também é absolutamente necessário.

aofato de cada uma de suas três classes se ocupar de sua própria tarefa.

— Não me parece que o tenhamosesquecido.

— Lembremo-nos, pois, de que, do mesmo modo, cada um de

nós, em que em cadaelemento preencheráa sua própria tarefa, será justo e preencherá, por suavez, a sua própria tarefa.

Sim, porcerto,épreciso lembrar-se disso.

— Por conseguinte, não compete à razão comandar,visto ser

sábiae ter o encargo daprevidência paraa alma inteira, e à cólera

obedecer e secundara razão?

4

— Sim, certamente.

— Masnão é como dissemos, uma mistura de música e ginás-

tica que porá de acordoestas partes, fortalecendo e nutrindo uma

com belosdiscursos e com as ciências, afrouxando, apaziguando e

abrandandoaoutra pelaharmoniae peloritmo?

— Sem dúvida.

Fonte;Platão,1965,p. 231

Textos de Aristóteles — Política Leiaas passagens a seguir, extraídas dolivro Política, de Aristóteles,

e observe que, para o filósofo, o governante pode ser uma única pessoa, poucas ou muitas pessoas. Também é possívelidentificar o

critério com base no qual o governantelidera: se em favor de seus interesses pessoais ou dos interesses coletivos.

Livro II — Capítulo IX

Talvez seja conveniente, após a discussão dos assuntos anteriores,

passar ao exame da monarquia, pois admitimosque ela é umadas

formascorretas de governo. Vejamos,então,se é vantajoso, para uma

cidade ou umanaçãoqueaspira a um bomgoverno ser dirigida por

umrei, ou se alguma outra instituição é mais conveniente, ou se o

governo monárquico émaisconvenienteparaalgumas cidades, mas

não para outras. É necessário, todavia, determinar primeiro se há

umaúnica espécie de governo monárquico ou se há várias.

É fácil perceberque hávárias espécies de governo monárquico, e

que o modo de governar não é o mesmo em todas. O rei na consti-

tuição lacedemônia, por exemplo,tida comorepresentativa da forma regidapela lei, não temsoberania sobre todosos assuntos, emboraele,

quando no comandode uma expedição militar além das fronteiras,

detenha o poder supremo em todososassuntosrelativosà guerra,e osassuntos pertinentes religião também lheestejam jurisdicionados.

Este governo monárquico é portanto umaespécie de comando militar

autocrático evitalício, masorei não tem o poderde condenaralguém

à morte, exceto em circunstâncias especiais, comoosreis em suasex- pedições militares nos tempos mais remotos, que podiam matarpela lei de sua mão; Homero provaesta circunstância, pois Agamêmnon

ouvia pacientemente acusaçõesnas assembleiasnacidade, massaindo

em expediçõestinhaautoridade para matar; com efeito, Homerodiz:

“Quem quer que eu veja abandonando o posto, em plena luta não poderá fugir de forma algumaaoscãese abutres, pois tenho a morte

em minhas mãos!”

Este comandomilitarvitalício é então umaespécie de governo

monárquico, e algumasdestas espécies de monarquia são hereditá-

rias e outras eletivas; paralelamentea estas há outro tipo de monar-

quia, de que são exemplos os governos monárquicos existentes entre

alguns povos.

Fonte: Aristóteles,1985,p.107.

Livro III - Capítulo XII

Dissemosqueas formascorretas de governosãotrês, e destas a exer-

cida pelos melhores homens deve ser necessariamente a melhor, e

esta é aquela em que algum homem,ou umafamília inteira, ou um

grupo de homens, pode mostrar-se superior em qualidadesa todos os demaiscidadãosjuntos, e na qual os cidadãos querem ser gover- nados,e aquele homem,ou a família inteira, ou o grupo de homens,

quer governar com o objetivo de dara todosa vida mais desejável.

Naprimeira parte de nossa exposição demonstramos também que

na melhorcidade as qualidades de um homem e de um cidadão

devem ser necessariamente as mesmas; é evidente, então, que da

mesma forma e pelos mesmos meios graças aos quais um homem

se torna verdadeiramente bom, ele poderá constituir uma cidade

a ser governada por umaaristocracia ou por uma monarquia, e se

descobrirá que a mesma educação e os mesmoshábitos fazem um

bom homem de bem e um homem aptoa ser um estadista e um rei.

Depois de chegara estas conclusões deveremos falar, em continua-

ção, das melhores formasde constituição, e dizer a maneira natural

pelaqual elaspassam aexistir,ecomo elasdevem serorganizadas.

Fonte: Aristóteles,1985,p.125,

Leia a passagem a seguir e observe que,para Aristóteles, o bom governo pode ser a monarquia absoluta, em que o governante é uma única pessoa que tomatodas as decisões, as quais devem ser

limitadaspelalei.

Livro II — Capítulo XI

Nossa discussão nos leva agora ao caso do rei que age segundo sua

própria vontade em todosos assuntos; examinemos, então,esse tipo de

rei. A chamada monarquia constitucional, comodissemos, não corres- ponde a um tipo especial de constituição (um comandomilitar vitalício podeexistir sob todas asconstituições — por exemplo, sob a democracia ea aristocracia — e muitos povos dão a um homem o poder soberano

quanto à administração da cidade — há um governodesta espécie em Epídamnos, etambém em Opos, embora com poderes mais limitados

44 nesta última). Agora, porém,tratemos da chamada monarquiaabsoluta, ou seja a monarquia na qual o rei governa todos os homensde acordo com sua própria vontade. Algumas pessoas pensam que é absoluta-

mente contrário à natureza o fato de alguém exercero poder soberano sobre todosos cidadãos numacidade onde todos os homenssão iguais,

pois pessoas iguais por natureza têm necessariamente o mesmo con-

ceito de justiça e o mesmo valor; com efeito, se é prejudicial aos corpos

de pessoas desiguais receberem quantidadesiguais de alimento ou rou-

pas iguais, o mesmoacontece quantoàs honrarias; de formaidêntica,

portanto, é um erro dartratamento desigual a pessoas iguais, e con-

sequentemente não é maisjusto para uma pessoa do que para outra governar ou ser governada. Logo, todos devem governar e ser gover-

nados alternadamente. Istoé uma lei,pois um princípioordenador é

umalei. Então,a lei deve governar preferentemente a qualquer cida-

dão, e segundo o mesmoprincípio, mesmo sendo melhorquecertos homens governem elesdevem ser nomeadosapenasguardiãesdasleis

e subordinadosa elas; de fato, tem de haver alguém no governo, mas evidentemente nãoé justo,segundo dizem, que umadeterminada pes-

soa governese todos os cidadãos são iguais. Pode realmente havercasos quea lei parece incapaz de resolver, masestes um homem também não

poderia decidir. Naverdade, a lei deve primeiro educar os magistrados comeste objetivo específico, e só depois deve incumbi-los de apre- ciar, e decidiros casos omissos “julgando da maneira maisjusta”) [ ]

Questõespara revisão

1. (Adaptada de UEL — 2008) Leia atentamente o texto a seguir. A palavra que empregamos como “Estado” não significa outra

coisa que “cidade”. Apesarde Aristóteles ter vivido até ao fim

da idade de ouro davida da cidade grega e ter estado em íntimo

contato comFilipe e Alexandre, foi na cidadee não no império

que ele viu, não apenas a forma mais elevada de vida política conveniente à sua época, mas também a forma mais elevada que era capaz de conceber. Todo agregado mais vasto constituía para si uma mera tribo ou um emaranhado de pessoas sem homoge-

neidade. Nenhum império impondoasuacivilização aos povos

maisatrasados, nem umanação constituída em Estado,estavam

ao alcance da sua vi o. (Ross, 1987, p. 243)

Com baseno excerto e em seus conhecimentossobre o pen- samento político de Aristóteles, considere as afirmativas a

seguir.

1. A forma devida mais adequada para o cidadão é aque- la na qual todos os habitantes da cidade, indistinta-

mente, participam da vida política, governandoe sendo governados. 1. O Estado nasce com o objetivo de proporcionar a vida

boa, compreendida comoestandovinculada às questões

morais e intelectuais.

4s

mm. Assim como outros autores da tradição, também

Aristóteles pensa a origem do Estado como um ato de

mera convenção sem vínculos com a natureza humana. 1v. Na teorização que Aristóteles faz sobre o Estado,está presente a família, como, por exemplo,na tese de que o “Estado deriva da família”.

Estão corretas somenteas afirmativas:

46

2.

a.

Tell.

b.

TelV.

e.

MelV.

d.

1, Me.

e.

IL, e IV.

A forma como os gregos viviam as questões da polis levou às

primeiras reflexões sobre as formas ideais de governo. Coube

a Platão escrever umadas primeiras obras sistematizadas da

ciência política do Ocidente, À república. Nela,o filósofo

discute temas comojustiça, educação, cidadania e formação

de governo. Assinale a seguir a alternativa que apresenta as piores formas de governo para Platão, em 4 república:

a. Democracia, oligarquia, tirania e monarquia.

b. Timocracia, oligarquia, democracia e tirania.

c. Timocracia, democracia, aristocracia e tirania.

d. Aristocracia, tirania, timocracia e oligarquia.

e. Democracia, principado, timocracia e oligarquia.

(Adaptada de UEL — 2004) Leia atentamente o texto que

segue.

Umavez que constituição significa o mesmo que governo,e o

governo é o poder supremo em umacidade, e o mando pode

estar nas mãos de uma única pessoa, ou de poucas pessoas, ou

da maioria, nos casos em queesta única pessoa, ou as poucas

pessoas, ou à maioria, governam tendo em vista o bem comum,

estas constituições devem ser forçosamenteas corretas; ao con- trário, constituem desvios os casos em que o governoé exercido comvistas ao próprio interesse da única pessoa, ou das poucas

pessoas, ou da maioria, pois ou se deve dizer que os cidadãos não

participam do governo dacidade, ou é necessário que eles real-

mente participem. (Aristóteles, 1997, p. 97)

Com base no excerto e em seus conhecimentos sobre as formas de governo em Aristóteles, analise as afirmativas a

seguir.

1. A democracia é uma forma de governo reta, ou seja, um

governo que prioriza o exercício do poder em benefício do interesse comum. m. À democracia faz parte das formas degeneradas de

governo,entreas quais se destacam tirania e a oligarquia.

11. À

democracia é uma forma de governo que desconsidera

o bem detodos; antes, porém, visa favorecer indevida- mente os interesses dos mais pobres, reduzindo-se, desse modo, a uma acepção demagógica.

1v. À democracia é a forma de governo mais conveniente

paraas cidades gregas, justamente porquerealiza o bem do Estado, que é o bem comum.

Estão corretas apenas as afirmativas:

a. Te II.

b. Te IV.

e. Mell.

d. Let.

e. IL Ie IV.

47

Que correntes de pensamento explicam a vocação do ho- mempara viver em sociedade?

Qual é o filósofo grego partidário da corrente de pensamen- to naturalista e o que essa corrente apregoa?

Questõespara reflexão

1. Leia a matéria a seguir:

Mensalõesfragilizam debate ético em 2010

A deflagração, na semanapassada, do esquema de corrupção no

Distrito Federal apelidado de mensalão do DEM arrasta mais um grande partido dosistema político brasileiro para a seara da

corrupção que já abateu diretamente PT

e PSDB.

Indiretamente, várias outras siglas, como PMDB, PP, PR (ex-PL), PTB, PDT e PPS, foram envolvidas ou citadas nos escân- dalos do mensalão petista, no valerioduto do PSDB e norecente mensalão do DEM. Já o Datafolha mostra que, em maio de 2002, o percentual

deeleitores que não se identificava com nenhum partidoatingia

42%. Na pesquisa de agosto de 2009, o número dos sem partido

subiu para 57%.

Para o professortitular de Ciência Política da USPJosé Álvaro

Moisés, apenas os candidatos como indivíduos poderãotrazer o temada ética para o embate eleitoral. Masisso “exigiria que eles, ao mesmo tempo, fossem capazes de dizer o que acham que os

seus próprios partidos devem fazer(ou deveriam terfeito) diante das denúncias de que alguns de seus membros estiveram ouestão

envolvidos em corrupção”.

E.

“A democracia nãose define apenas pelo direito deos eleitores

escolherem governos, mas também pelo seu poder de avaliarem

a ação dos que governam e adotarem medidas de apoio ou de correção dos rumos”, complementa Moisés.

Fonte:Melo;Delgado,2009.

Neste capítulo, refletimos sobre algumas das lições do pen- samento político grego clássico para a teoria política con- temporânea. Tendoisso em conta, explique qualé o critério ético/qualitativo usado por Aristóteles para fazer a classifica-

ção dos governos e comoesse critério pode ser aplicado para avaliar o caso de corrupção retratado na matéria reproduzida (explique com exemplos extraídos desse texto).

- Atualmente, podemosusardiferentes critérios para melhor classificar os Estados, como o critério baseado nos poderios econômico e militar. Discorra sobre outras formas de clas- sificação dos Estados.

Encontramos em 4 república alguns temas discutidos por

Platão quesão extremamente atuais, como democracia e

tirania. Comente comoo filósofo aborda essas formas de

governo em seu livro.

O temaclasse média está presente na obra Política, em que Aristóteles chamaatenção para o fato de que, em uma so- ciedade na qual a classe média é numericamente maior em relação às outras classes, há reais possibilidades de que o

governo seja mais estável. Discorra sobre alguns dos argu- mentos de Aristóteles para fundamentaressa afirmação.

Para saber mais

Leia o texto intitulado “Platão e Aristóteles: o nascimento da filosofia política”, que é o primeiro capítulo do livro Manual defilosofia política:

para os cursos de Teoria do Estado e Ciência Política, Filosofia e Ciências Sociais. Nesse texto, você poderá conhecer algumas caracteristicas rela-

tivas aos pensamentos filosóficos de Platãoe Aristóteles.

LOPES, M.S.; ESTÊVÃO, ]. Platão e Aristóteles: o nascimento da filo-

so

sofia política. In: RAMOS, F.; MELO, R.; FRATESCHI, Y.(Org). Manualdefilosofia política: para os cursos de teoria do Estado e ciência política, filosofia e ciências sociais. São Paulo: Saraiva, 2012.

Pp.19-42.

Leia o segundoe terceiro capítulosdo livro A teoria das formasde governo, escrito por Norberto Bobbio, e observe a análise que o autor oferece sobre os pensamentospolíticos de Platãoe Aristóteles.

BOBBIO,N. À teoria das formas de governo.9. ed. Tradução de Sérgio

Bath. Brasília: Ed. da UnB, 1997.

Leia o livro Política: quem manda, por que manda, como manda,escrito por João UbaldoRibeiro. Você encontrará uma explicaçãosimples, didá-

tica e esclarecedora sobre o queé política e porque elainteressa a todos.

RIBEIRO, J.U. Política: quem manda, por que manda, como manda.

Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

Estudo de caso

Uma pesquisa divulgada nosprincipais veículos de comunica-

ção em dezembro de 2014,realizada pela entidade Transparência

Internacional, mostrou que o Brasil era o 69º no ranking de cor- rupção de um total de 175 países (Rossi, 2014). De acordo com a

pesquisa, depois do Brasil, apareciam países comoBulgária e Grécia.

Os países exemplares no controle da corrupção eram Dinamarca,

NovaZelândia, Finlândia,SuéciaeNoruega. Comparando-seessa posiçãoalcançada peloBrasilcom apesquisadivulgadapelamesma

entidade em 2013 (Verillo, 2014), o país subiu somentetrês posições. Isso significa que o dinheiro público que deveria ser investido para atender aos interesses dos representados continua sendo desviado

pelos representantes parafins próprios ou de seus corruptores. Este é

um temapresente nos pensamentospolíticos de Platão e Aristóteles,

os quais atribuem à paixão imoderada dos governantes pelo dinheiro a degeneração do governo.

No Brasil, casos de corrupção foram registrados desde o

período da colonização e parecem ter se enraizado na cultura nacional ao longo dahistória. Raymundo Faoro (2000), na clássica obra Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro, já

havia alertado que o patrimonialismo predominou e predomina em nossa organização política desde a chegada da família real

portuguesa ao Brasil em 1808. Nosistemapatrimonialista, quem está no governo e foieleito pelo povo não enxerga a distinção

ou limite entre os recursos públicos e seus interesses pessoais.

Nesse sistema,tais recursos são consideradospeloslíderes como

propriedades pessoais e passam a ser utilizados conformeinteres- ses particulares, o que se evidencia em práticas políticas comuns

comoo clientelismo,o nepotismoe o favoritismo.

Além dessa explicação histórica cultural a respeito da corrup-

çãoinstalada em nosso país, a ciência política tem mostrado outras

causas que também contribuem para a manutenção da corrupção. É o casodo sistema proporcional, do financiamento de campanha

e da possibilidade de reeleição, que fazem parte da competição política vigente no país e constituem temas a serem debatidos em qualquer reforma política.

51

ti

O Estado na

teoria política

de Maquiavel

Conteúdos do capítulo:

* Maquiavel e seus métodos de análise paraa ciência política.

* Roteiro deleitura para o livro O príncipe.

* A ação dopríncipe: as boas leis, as boas armas e a arte de governar.

* O pensamento político de Maquiavel em Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio.

* Algumas lições de Maquiavel para os

dias atuais.

Apóso estudo deste capítulo, você será capaz de:

1. indicar por que Maquiavel é considerado um dos precurso-

res do estudo daciência política; 2. compreender algumas das contribuições de Maquiavel para o pensamento político contemporâneo;

Crédico: AndréMiller

21 Maquiavel: o precursor da ciência política

Cronologia”

 

*

1469 — Nicolau Maquiavel nasce em Florença, na Itália.

*

1494 — À Itália encontra-se politicamente fragmentada emcinco

 

grandes Estados: Nápoles, EstadosPapais, Florença, MilãoeVeneza.

 

*

1498 — Maquiavel ingressa na vida política e ocupa o cargo de

 

segundosecretário da Chancelaria da República de Florença.

56

*

1512 É demitido e acusado de conspirador contra a República e proibido de abandonarFlorença.

+

as12a513— Escreve o livro O príncipe.

e

1si3-1919 — Einaliza a obra Comentários sobre a primeira década de

 

Tito Lívio.

 

*

1527 — Maquiavel morre em Florença, naItália.

Oslivros O príncipe e Comentários sobre a primeira década de Tito

Lívio, escritos por Nicolau Maquiavel no século XVI, são conside- rados obras clássicas da ciência política portrês razões.

A primeira razãorefere-se ao fato de que

essas obras propõem formulações e tipolo- gias(regimes políticos), generalizações (con-

ceito de poder), teorias gerais (comporta- mento do governante) e leis relativas aos

fenômenospolíticos, apoiando-se na análise dosfatosreais.

A segunda razão concerne ao fato de

que, a partir dessas obras, o pensador ita-

liano passa a sercaracterizado como um dos precursores da ciência política. Isso se dá em virtude do distanciamento dos estudos

1Fontedas informações: Maquiavel, 1998.

políticos da matriz do direito público mostrado por Maquiavel nessas publicações. Os estudos anteriores ao filósofo tendiam a

conceber o Estado como umaentidadejurídica. Nessa abordagem,

o Estadoeracriado por intermédio de um ato jurídicoe criador do

direito positivo (leis). Na análise sobre o fenômeno político, encon-

tramos na obra O príncipe umainterpretação que foge do ponto de

vista institucional (matriz jurídica) e se volta para o ponto devista

comportamental, com ênfase no comportamento do governante. A terceira razão para considerarmos Maquiavel (bem como

Aristóteles) como precursor da ciência política é o uso que ele

faz de técnicas de pesquisa e a forma de análise adotada, amiúde

empregadas pela ciência política contemporânea. Essas técnicas são: coleta de dados, documentação histórica, observação direta e

pesquisa de campo. Tais características levam Bobbio, Matteucci

e Pasquino (2004, p. 164) a afirmar:

Emboraa constituição da Ciênciapolítica em ciência empírica como

empreendimento coletivo c cumulativo seja relativamente recente,

podem ser consideradas obras de Ciência política, ao menos em parte, e também nosentido limitadoe técnico da palavra, algumas obrasclássicas de Aristóteles, Maquiavel [

Naatualidade,a ciência política é caracterizada por uma maior

disponibilidade de dados sobre a análise da política, se comparada

com os estudos clássicos. O crescente número de dados disponíveis

57

atualmenteé resultado do avanço dos estudos políticos em diferentes temas: elites, opiniões de massa, comportamentodo eleitor, compor-

tamento parlamentar, dadoshistóricos?. Hoje, com a ampliação de

dadossobre esses e outros temas,é possível fazer uma comparação

entre regimes políticos peculiares de diversos países, lançando mão

dautilização de métodos históricos, descritivos e comparativos (con-

forme podemosidentificar nas obras de Maquiavel).

Para saber mais sobre o leque temático de estudospresente na ciência política, consulte o verbete ciência política no livro Dicionário de política, organizado por Bobbio, Matteucci e Pasquino(2004).

Passamos, então, nas seções que seguem, a analisar as obras

O principe e Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio, no que concerne aos fundamentos do Estado e às formas de governo examinadas por Maquiavel.

220 Estado absoluto em O príncipe

Considerada uma obra que indica o uso da força, da traição e da

58 dissimulação para conquistar e manter o poder, O príncipe é um

doslivros mais lidos e mais citados nos últimos tempos nos cur-

sos de Filosofia, História, Economia, Ciência Política e Relações

Internacionais. A seguir, sugerimos um roteiro paraa leitura dessa obra, que certamente o ajudará a compreender melhor as ideias

de Maquiavel.

2.21 Roteiropara leitura

Entre os temas que compóem livro O príncipeestá o da construção

do Estado como umainstância política caracterizada pela centra- lização de poder. Antes de iniciarmos a abordagem desse assunto, lembramos a você algo que foi indicado na introdução destelivro:

os pensadores políticos aqui comentados têm em comumo fato de legitimarem existência do Estado com basenadescrição que fazem dos traços naturais da natureza humana. Maquiavel, assim como Platãoe Aristóteles, que vimosanteriormente, também atribui em seus

escritos a ruína do governo aos vícios presentes na natureza humana.

Em Platão, a moléstia do Estadoreside nos vícios humanosape- titosos ou passionais que levam os governos à ruína. Em Aristóteles,

vimos que o homem é um sersocial e político, desde que viva em cooperação com seus semelhantes em torno dacidade, do Estado. Aristóteles chama atenção para o seguinte fato: mesmo que os homens vivessem em sociedade com seus semelhantes, ocorriam

certos desvios dos governos porqueoslíderes tendiam a atender aos interesses pessoais em detrimento do bem comum, E em Maquiavel,

como a natureza humanaé descrita? Para o pensadorpolítico Ao- rentino, o perfil do homem é constituído por umanatureza pérfida e não sociável, egoísta e individualista. No livro O príncipe, essa

descrição está presente no Capítulo XVII: “É que dos homens pode-se dizer geralmente o seguinte: que são ingratos, volúveis, dissimulados, esquivadores dos perigos, ambiciosos de ganho; que

)” (Maquiavel, 1998,

p- 108). Tal descrição é repetida por Maquiavel no Capítulo XVIII,

quandoo autor sugere que cabe ao príncipe, quando necessário, não manter a palavra dada, porque: “Se os homens fossem todos bons, esse preceito não seria bom, mas comosão pérfidos e não

mantêma sua palavra em relaçãoa ti, da mesma maneira nãotens

de mantê-la em relação a eles” (Maquiavel, 1998, p. 112).

enquantoos benefícias, são inteiramenteteus [

O homem,porser pérfido e interesseiro, terá o conflito como

umarealidade naturalna convivência com seus semelhantes.É nessa

descrição sobre a natureza humana que se assenta a justificativa

de Maquiavel para um Estado que governe pela coerção e que se

coloque como onipotente perante o homem comum. Chevallier

(1982, p. 36-37), ao analisar o pensamento de Maquiavel, afirma:

É o pensamento de um homem que,tendo tratado comos outros

homens,está desiludido; que sabe,aliás, distinguir perfeitamente

óbeieo nal,équedieprefesisiãobei, fiatquesecisafecháros

olhos ame que julga ser necettidade do Estado; ante é que julga

59

seremas sujeições da condição humana.

O príncipe, portador de habilidades distintas das observadas

nos homens comuns, tem à sua disposição para governaro uso da

virtit (qualidades pessoais) e o cargo de autoridade do Estado, o qual é criado com o objetivo de trazer a paz no lugar do conflito, substituindo a anarquia pela ordem social. Leia a seguir o que escreve Maquiavel:

É que em toda cidade se encontramestados deespírito diferentes

[nobres e povo], e isso advém de que o povo deseja nãoser dirigido

nemoprimidopelosgrandes, e os grandes querem dirigir e oprimir

o povo. Desses dois anelosdiferentes manifesta-se na cidade umdes-

So

tes três efeitos:

1998, p. 75)

principado,liberdade oulicenciosidade, (Maquiavel,

Esse preceito contra a liberdade e a anarquia que Maquiavel direciona para o governante no livro O príncipe contribuiu para a formação do Estado absoluto, ou principado, o qual, para o filó-

sofo, deveria governar para além dos limites jurídicos,religiosos e morais. Segundo Bobbio (1997b, p. 14), “o príncipe não é mais

somentelivre dos vínculosjurídicos, mas também além do bem e

do mal, querdizer, livre dos vínculos morais que delimitama ação

dos simples mortais[

É bomlembrar queos pensadores políticos reunidosneste livro escreveram didaticamente suas obras com o intuito de persuadir

seus leitores de que suas ideias eram corretas, e nos escritos de Maquiavel nãofoi diferente. Esse pensadorescreveu didaticamente O príncipe de modo a conduzir seu leitor por uma leitura linear, abordando entre o primeiro e o quarto capítulo a explicação sobre como o governante pode conquistar o poder. Entre o quinto e o

décimo quarto capítulo, Maquiavel descreve como o governante pode conservar o poder conquistado. Por fim, entre o décimo quinto e o vigésimo sexto capítulo, o autor se direciona ao prín-

cipe, indicando comoeste deve se comportar no poder. A partir do décimo quinto capítulo, Maquiavel sugerea utilização de estra- tégias, ações, manobras, manipulações e dissimulação, que são,

segundoele, realidades que sustentam o poder e fazem parte da política. Termostrabalhadospelo filósofo nos últimos capítulos são úteis para compreendermos os fenômenospolíticos e também

para identificarmos os modos como os homens agem para dominar seus semelhantes.

Outra possibilidadede leitura para livro O príncipe não explora de maneira sequencial os capítulos do livro, como sugerimos há pouco. Caso você opte poressetipo leitura, perceberá que os dire-

cionamentos de Maquiavel para a “ação do príncipe” se assentam

emtrês aspectos: 1) boas leis; 2) boas

armas; e 3) a arte de governar.

É sobre esses pontos que trataremos seguir.

2.2.2 A ação do príncipe: as boasleis, as boas armase a arte de governar

De acordo com Maquiavel (1998, p. 87), podemos compreender que, para governar, o príncipe precisa lançar mão de boas k “um príncipe deve bem alicerçar o seu poderio; de outra maneira, arruinar-se-á sem remédio. Os principais alicerces de todos os

Estados, tanto os novos comoos antigos e os mistos, são as boas

leis e as boas armas”.

Entretanto,asleis não são suficientes para a eficiência das deci- sões do governante. Maquiavel (1998, p. 111) afirma: “Deveis pois saber que há duas maneiras de combater: uma, com a lei, outra, com a força. A primeira é própria do homem; a segunda, dos ani-

mais. Como, porém, a primeira muitas vezes não seja suficiente,

convém recorrer à segunda”, Para Maquiavel, as leis não são suficientes porque as decisões políticas não têm relação alguma com as normas jurídicas, nem

com a distinção entre legal e ilegal. Para ele, o príncipe no poder deve entender que cada decisão política tem relação principalmente

com a emergência e a oportunidade, as quais ditam a ação do

governante, e o que conta é a eficácia da ação, e não sua legalidade,

Temos, nessa ideia, a orientação de Maquiavel

de que, se necessário

6

for, o príncipe não precisa seguir as leis (Bobbio, 1997).

Portanto, se boas leis não bastam para a conservação do poder pe- lo governante, é também importante queeste tenha à sua disposição

boas armas para uso,as quais derivam da virtii pessoal do príncipe e

do estabelecimento de um exército próprio, comosugere a passagem

a seguir:

Algunspríncipes, a fim de manter com segurançao Estado, desar- maram osseus súditos; alguns outros mantiveram divididas as terras

submetidas; outros nutriram inimizadescontra si próprios; alguns

outros se dedicaram a ganhar a amizade dos quelhes eram suspeitos

no começo do seu governo; alguns construíram fortalezas; alguns

as demoliram e destruíram [

Ora,

jamais aconteceu que um prín-

62 cipe novo desarmasse os seussúdito: ; ao contrário, sempre que os encontrou desarmados, armou-os. É que, armando-os, tornasteus aqueles homens, tornasfiéis a ti os que te eram suspeitos; e os que

já te eram fiéis, féis se mantêm e, de súditos, fazem-se partidários

teus. [

]

Portanto, como eu disse, um príncipe novo, num princi-

pado recém-formado, sempreorganizouseu exército, e de exemplos

dissoestá cheia a história. (Maquiavel, 1998,p. 125126)

O termo exército presente na passagem anterior pode também

ser traduzido como “apoio popular”:

O queascendeao principado com o auxílio dos grandes mantém-se com dificuldade maior do que o que o faz com o auxílio do povo,

poisse vê rodeado de muitos que lhe parecem serseusiguais, e por

isso não pode nem comandá-los nem manobrá-los à sua vontade.

(Maquiavel, 1998, p. 75)

Além das boasleis e das boas armas ou exército, é preciso que

o príncipe possuaa arte de governar, que consiste em ter as virtit humanas, as quais, segundo Maquiavel, referem-se às qualidades

da energia, do vigor, da resolução, do talento, do valor bravio,

bem comoàs habilidades de adaptação que os governantes devem

manejar de acordo com as particularidades de cada momento. “E comoo fato de tomar-se príncipe um homem comum pressupõe valor ou boa sorte, parece que uma ou outra destas duas coisas

mitigam, em parte, muitasdasdificuldades. Todavia, aqueles que tiveram a boa sorte em grau menorqueo do valor mantiveram-se melhor nas posições conquistadas. (Maquiavel, 1998, p. 57). Nessa passagem, Maquiavel mostra seu talento de estrategista do poder

ao atribuir importância também à fortuna, ou sorte. O termo boa

sorte é usado porele em referência ao acaso ou à sorte emaproveitar

as oportunidades, o que muitas vezes explica o sucesso de determi-

nados governantes em conquistar o poder. Porém, para o pensador, a fortuna não é suficiente para o governante se manter no poder, pois a sorte podevirar o jogo a qualquer momentoe colocá-lo em

situações extremas. Segundo Bignotto (1991, p. 35), em Maquiavel:

“A fortunaé pensada, assim como umaforça de oposição aos nossos desejos, uma entidade exterior, que pode encarnar-se nas forças cegas da natureza, mas que não pode nos obrigar a abandonar nossos projetos de transformação do mundo”.

Quando príncipe carrega emsi a virtit, ele pode superar as dificuldades imprevisíveis e os obstáculos impostos pela fortuna, conformeo trechoa seguir sugere:

Nãoignoro que muitos homenstêmsido e são de opinião queas

coisas do mundosão de tal maneira dirigidas pela sorte e por Deus, que os homens não podem com sua prudência corrigi-las, e nem

mesmotêm recursospara fazê-lo; e que, porisso, julgarão que não

convémafadigar-se muitoem relaçãoàs coisas, mas deixar-secondu-

zir pela sorte. Essa opinião temsido maisaceita em nossos tempos.

] [

Não obstante, desde que o nosso livre arbítrio não se extinguiu,

julgo poderser verdade quea sorteseja árbitro da metade das nos- sas ações, mas que certamente nos deixe governar a outra metade

ou quase. [

]

Julgo melhor ser impetuoso que cauteloso, porque

63

a sorte é mulher,e é necessário, para dominá-la, bater-lhee feri-la. (Maquiavel, 1998, p. 143)

Ao enaltecer as qualidades pessoais de que o príncipe deve ser portador para se manter no poder, Maquiavel está sugerindo a

possibilidade de o homem ser sujeito da história, em vez de um ser contemplativo das forças extraterrenas e aguardara sorte que

o destino lhe reserva (Sadek, 1998).

Nasequência, com base na descrição que Maquiavel faz da

república romana nolivro Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio, veremos queele sugere a possibilidade de o príncipe virtuosointervir quando os Estados precisamenfrentar obstáculos

nas mudanças de forma de governo.

64 234s formas de governo segundo Maquiavel em Comentários sobre a primeira década

de Tito Lívio

Em 1519, Maquiavel escreve Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio, sugerindo queo principadoe a república são formas de governo complementares e servem para o governante organi- zar o Estado. Aqui, observamos que Maquiavel se distancia dos

pensadores políticos gregos que apresentamos no primeiro capí- tulo deste livro. Vimos que, de acordo com Platão, são quatro as formas de governo possíveis para organizar o Estadoe, conforme

Aristóteles, seis formas, sendo três boase três ruins. Para Maquiavel, há somente duas formas de governo possíveis: principado e repú- blica. O argumento de que o pensamento político do filósofo ita- liano remete aoprincipado e à república como formas de governos

complementares se sustenta com leitura do Capítulo XVIII:

Pois as instituições apropriadas a um povo corrompido são dife- rentes das que se ajustam ao que não o é; não convém a mesma

forma a matérias inteiramente diversas. [

]

a impossibilidade de

mantero governo republicano numacidadecorrompida, ou de ali

estabelecê-lo. De qualquer maneira, mais vale a monarquia do que

o estado popularparaassegurar que os indivíduoscuja insolência

as leis não podem reprimir sejam subjugados por uma autoridade real. (Maquiavel, 1994, p. 77)

Ao reduzir as formas de governo a apenas duas, Maquiavel

sinaliza umainovação em relação ao queaté então haviasido dito

pelos pensadores políticos desde os gregosclássicos.

Sobre algumas das especificidades dolivro Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio, destaca-se a cidade de Roma como mo-

delo de república livre, na qual, segundoo filósofo, desenvolveu-se

a forma de governo mista, em quea plebe e o senado gozavam da

mais perfeita liberdade (Bignotto, 1991). Aoler o texto de Maquiavel,

o leitor pode inferir que o autor é favorável à república como forma de governo ideal para organizar o Estado. Essa impressão é corro-

borada pelas palavras de Chevallier (1982, p. 42): “Republicano de

coração, Maquiavel imaginara, sem dúvida, a realização de uma

repúblicaitaliana, herdeira da república romanasegundo Tito Lívio,

pela liberdade cívica à antiga, animando um exército nacional”. Com a descrição da república romana no livro Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio, Maquiavel dá a certeza ao seu leitor de que vislumbrara a possibilidade de compreender os

obstáculos que os Estados enfrentam nas mudanças de forma de governo. A república tem comoessência ser um governoque preza pela liberdade de seus concidadãos, mas como seria possível che-

gara tal governo? Comoatingir a liberdade? No texto, Maquiavel sugere que os conflitos internos que ocorrem em umacidade devem

ser vistos como alicerces, ou matéria-prima, necessários para que a

liberdade possa germinar. Isso porque: “Umasociedade que não é

mais capaz de canalizar seus conflitos por seus mecanismoslegais,

65

não é mais uma sociedade livre” (Bignotto, 1991, p. 88).

Em um Estado corrompido pelas inúmeras disputas políticas

emtorno do governo,é mister organizá-lo por meio do principado comoforma de governo, pois essa forma é a solução para o estabe- lecimento da ordem. Para Maquiavel, “o legisladorsábio, animado

do desejo exclusivo de servir não os seus interesses pessoais, mas os do público: de trabalhar não emfavor dos próprios herdeiros,

maspara a pátria comum,não pouparáesforços para reter em suas

mãos todaa autoridade” (Maquiavel, 1994, p. 49).

Umavez estabelecida a ordem,pela qual o povo não está mais

corrompido e se mostra virtuoso, o governante esclarecido poderá

substituir o principado pelo estado popular, que é a república. “E nenhum espírito esclarecido reprovará quem se tenha valido de

umaação extraordinária para instituir umreino ou umarepública”

66 (Maquiavel, 1994, p. 49).

24Algumas lições de Maquiavel para os dias

atuais

Oslivros O príncipe e Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio nos oferecem uma abordagem sobre a construção do Estado moderno caracterizado como umainstituição política centraliza- dora do poder. Outro tema merecedor de destaque nosescritos de

Maquiavel e recuperado pela ciência política contemporânea é a ênfase queele dá ao Estado como objeto de estudo. Em seusescri- tos, esse pensador focaliza o Estado e as lutas internas pelo poder

para melhor compreendera política e sua lógica. Em Maquiavel, a centralização de poderpor parte do Estado decorre da necessidade natural em conterosvícios desagregadores do todosocial que o homem carrega em sua natureza humana. Você

deve lembrar que, para Maquiavel, o homem é perverso, egoísta,

individualista, e esses vícios justificam a coerção e a onipotência

do Estado. Ou seja, os homens entregues a si mesmos

tendema se

dizimar. Para evitar queo homem se autodestrua, são necessárias as

leis impostas pelo Estado,as quais permitam fazer a contenção dos vícios e da animosidade natural da natureza humana. À segurança

interna do Estado e a ordem pública exigem que o governante

centralize o poder em suas mãos sob o respaldo da tradição de

pensamento indicada como Razão de Estado. Segundo Bobbio,

Matteucci e Pasquino (2004, p. 1067): “O ponto departida se situa nolimiar da Idade Moderna e é constituído pelas instituições

geniais e inspiradoras de Maquiavel, com quem começa a emergir, em seus contornos mais gerais, o conceito de Razão de Estado[

Uma definição simples dessa tradição é queela se fundamenta na ideia de que a segurança do Estado é prioridade pública e os gover- nantes têm livre-arbítrio para não seguiras leis jurídicas, morais e

políticas, quando for necessário, para manter a segurança interna e

externa do Estado. Outro tema atual em Maquiavel é o combate que ele faz à

moralidade universal, quando indica, no livro O príncipe, que o governante pode agir segundo uma moral diferente da dos indiví-

duos comuns (Bobbio, 1997b). Nesse caso, o líder nãoestá obrigado a agir com base em valores morais e éticos para conseguir seus

objetivos e se manter no poder. Maquiavel ressaltou,já no século

XVI, o problemaque passaríamosa presenciar na relação entre o agir político e os valores morais (Chevallier, 1982). A situação política da Itália — que se encontrava devastada no século XVI por conflitos e dividida em diferentes Estados na época

em que Maquiavel escreveu livro O príncipe — apresentava-se como um contexto promissor para o surgimento de governantes virtuosos.

67

Considerando,pois, todasas coisasqueatrás disse, e perguntando- -mese nosdias de hoje, na Itália, os tempos seriam propícios a que um príncipe novo fosse honrado e haveria matéria que desse oportunidade a um homem prudentee virtuosode nela introduzir formade governo que conferisse honrariasa ele e beneficiasse a todos [italianos], parece-me que tantas coisas concorremparao êxito de um príncipe novo, que não se vê tempo quefosse mais oportuno

para tal. (Maquiavel, 1998, p.147)

Tal cenário político conflituoso proporcionaria, então, que os

governantesitalianos tivessem plenas possibilidades de restabelecer

o poder além do beme do mal,se necessário fosse (Chevalier, 1982,

p. 19). A separação entre o agir político, de um lado, e os valores morais, de outro é compreensível em Maquiavel quando passamos

a aceitar que tal separação é justa desde que a ação política des-

tituída de valor moral tenha como objetivo final o bem de todos.

Síntese
68

Vimos, neste capítulo, que os escritos de Nicolau Maquiavel no

século XVI são considerados obras clássicas de ciência política,

porque propõem formulações e tipologias (regimes políticos),

generalizações (conceito de poder), teorias gerais (comporta-

mento do governante) e leis relativas aos fenômenos políticos, apoiando-se na análise dos fatos reais. Maquiavel, como Platão

e Aristóteles, também atribui a ruína do governoaos vícios pre-

sentes na natureza do homem, o qual, por ser pérfido e interes- seiro, acaba por vivenciar o conflito como umarealidade natural

na convivência com seus semelhantes. É sobre essa ideia acerca

da natureza humana que se assenta a justificativa para que o Estado governe fazendo uso da coerção. Esse preceito abordado

por Maquiavel no livro O príncipe contribuiu para a formação do Estadoabsoluto, em queo líder governa para além doslimites jurídicos, religiosos e morais.

Observamos também que os direcionamentos de Maquiavel

para a “ação do príncipe” se fundamentam em três requisitos: 1) as boas leis; 2) as boas armas; e 3) a arte de governar, sendo que esta

última consiste em ter as virtii humanas. Maquiavel representa a virtit humana pelas qualidades da energia, do vigor, da resolução, do talento, do valor bravio, além das habilidades de adaptação que

os governantes devem manejar conformeas particularidades de cada momento.

“Também ressaltamos que leitor, ao ler Comentáriossobrea pri- meira década de Tito Lívio, pode ter a impressão de que Maquiavel é favorável à república como forma de governoideal para organizar o Estado, em virtude dos inúmeroselogios que faz à república romana. Finalizamos o capítulo dando ênfase ao fato de que as obras O príncipe e Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio

abordam construção do Estado moderno como umainstituição

política centralizadora do poder, a qual decorre da necessidade natural em conteros vícios que o homem carrega em sua natureza humanae que são desagregadores do todosocial.

Pararefletir

Textos de Maquiavel — O príncipe Leia a passagem seguir, extraída dolivro O príncipe, e observe a análise de Maquiavel sobre as formas possíveis para se chegar ao poder nos Estados e a indicação de que ele entende que o gover- nante deve chegar ao poder por causa de suas qualidades pessoais.

Capítulo VI

Dosprincipados novos quesão conquistados mercêdearmaspróprias e valor

Aqueles que, porseu valor, à semelhança destes, se tomam príncipes,

conquistam o principado com dificuldade, mas com facilidade o mantêm. Asdificuldades que

encontram no conquistar o principado nascem em parte das novasinstituições e dos novos costumes que se veem forçados a

introduzir para organizar o seu governo e prover a sua segurança.

Deve-se considerar que, não há coisa maisdifícil de fazer, de êxito

mais duvidoso e mais perigosa de conduzir, do que levar a cabo a introdução de novasinstituições legais, pois o reformador encontra inimigos em todos aqueles que dasinstituições antigas se beneficia-

todos osque das novas se beneficiariam.

vam e tíbios defensores em

69

Tal tibieza deve-se em parte ao temor dos adversários, que têm

as leis a seu favor, e em parte à incredulidade dos homens,que não

acreditam eficientes as coisas novas senão depois de vê-las subme- tidas a firme experiência. Daí que toda vez em que os adversários têm oportunidade de atacar, o façam apaixonadamente, enquanto

os outros defendem frouxamente o príncipe, fazendo periclitar a

sua segurança. É portanto necessário, para que bem se exponhaesta parte, veri- ficar se tais inovadores se sustentam mercê de suas próprias forças

70 ou se dependem deoutros, isto é, se para realizar sua obra preci- sam rogar, ou se podem agir pela força. No primeiro caso, acabam

sempre mal e não chegam coisa alguma; mas quando dependem

apenas de si próprios e podem agir pela força, então raras vezes

deixam de alcançarêxito. Daío fato de todosos profetas armados

terem vencidoe de os desarmadosse terem arruinado.É que,além

do que já se disse, a natureza dos povos é vária; e se é fácil persuadi-

“Jos emrelação a alguma coisa,é difícil mantê-los nessa persuasão, razão por que é necessário estar preparado para, quandoeles não maisacreditarem, fazê-los acreditarpela força.

» Ciro, Teseu e Rômulo não teriam podidofazer obede-

cer por longo tempoa suas constituiçõesse estivessem desarmados,

Moi:

como em nosso tempo aconteceua frei Girolamo Savonerola, que

viu perder-se o seu trabalho reformador quandoo povo passou a

não lhe acreditar não tendo ele meios de manter confiantes os que haviamacreditado nem de fazer com que acreditassem os incrédu- los. Esses inovadores encontramgrandes dificuldades na sua ação, e todosos perigos ameaçam seu caminho,só podendo superá-los

o seu valor, Vencidos, porém,esses obstáculos e começandoeles a

ser queridos, depois de aniquiladosos que nutriam inveja de suas qualidades, tornam-se poderosos, seguros, honrados e felizes.

Observe na passagem a seguir que, para Maquiavel, o gover- nante terá menores dificuldades de se manter no poderse for por-

tador de virtudes pessoais (energia, vigor, resolução,talento, valor bravio e habilidades de adaptação).

Capítulo VII Dosprincipados novos quese conquistam mercê das armase boa sorte

alheias

Os homens comunsquesó favorecidospela sorte se tornam príncipes com poucotrabalho chegam a tal, mas têm muito para manter-se, Nãoencontram dificuldade alguma no encaminhar-se para essa situação, pois que para ela vão num voo; nascem as dificuldades todas quando já estão estabelecidos. Esses homens são aqueles aos quaiso Estado é outorgado ou por dinheiro ou por mercê do quem

o outorga, como a muitos aconteceu na Grécia, nascidades da Jônia

e do Helesponto, nas quais houve príncipes feitos por Dario para que

mantivessem sua segurança e glória. Assim se deu também com os

que eram feitos imperadores, os quais, de homens comuns, subiam

ao trono mercê da corrupção dos soldados.

Tais homens se mantêm no poder simplesmente pela vontade e pela sortefavorável de quem lhes outorgou o Estado,as quais são duas coisas grandemente volúveis e instáveis; e não sabem e não podem mantersua posição. Não sabem porque, se não são homensde grande

habilidadee valor, não é razoável que, havendolevado semprevida

privada,saibamcomandar; nãopodem porquenão possuem tropas que lhes sejam devoradase fis. E os Estadosque surgem de súbito,

como todas asoutras coisas da natureza que nascem se desenvolvem. rapidamente, não podem ter raízes e proporçõesbastantes; de modo que a primeira borrasca os destrói, a não ser que esses homens que

se tomaram príncipes, comose

disse, tão repentinamente, tenham

valorsuficiente para dispor-se a, sem demora, conservar o que a boa

sorte lhes concedeu e quelogo estabeleçam fundações idênticas às

que lançaram outros antes de se tornarem príncipes.

Fonte: Maquiavel, 1998,p.61

Para Maquiavel, o governante terá menores dificuldades de se manter no podersetiver ao seu lado o apoio do povo,e não dos ricos. Leia a passagem a seguir e observe os argumentos dele sobre esse assunto.

Capítulo IX

Doprincipado civil

Tratando, porém, de outro caso, o docidadão privado que, não por meio de crimes ou de outras intoleráveis violências, mas com o favor

dosseus concidadãos, ascende ao principadode suapátria (o qual se pode chamarprincipadocivil, e para chegara ele não é necessário

ter-se inteiramente merecimento ou boa sorte, mas antes astúcia afortunada), direi queessa ascensão se faz ou com o favor do povo

ou com dos grandes. É que em todacidade se encontram estados de espírito diferentes,e isso advém de que o povo deseja não ser

dirigido nem oprimidopelos grandes, e os grandes querem dirigir

e oprimir o povo. Desses dois anelos diferentes manifesta-se na

cidade um destes trêsefeitos: principado, liberdade ou licenciosidade.

principado resulta da ação do povo oudos grandes, de acordo

com a oportunidade que se oferece a um ou aos outros. É que,

percebendo os grandes que não podem resistir à pressão do povo,

começam a suscitar prestígio na pessoa de um deles e o fazem príncipe, a fim de poderem, à sua sombra,satisfazer seus apetites.

O povo, porseu lado, vendo que não pode resistir aos grandes, suscita prestígio na pessoa de alguém e o faz príncipe, a fim de se defender com sua autoridade. O que ascendeao principado com

o auxílio dos grandes mantém-se com dificuldade maior do que o

que o faz com o auxílio do povo, pois se vê rodeadode muitos que

lhe parecem ser seusiguais, e porisso não pode nem comandá-los

nem manobrá-losà sua vontade.

Fonte: Maquiavel, 1998,p. 75-76.

Questõespara revisão

1. Leia o excerto a seguir:

Resta ver agora como deve comportar-se um príncipe com os

súditos ou com os amigos. [ Mas sendo minhaintençãoescrever

]

coisa útil, destinadaa quem porela se interessar, pareceu-me mais

conveniente ir diretamente à efetiva verdade do que comprazer-me

em imaginá-la. Muita gente imaginou repúblicas e principados que jamais foram vistos ou decuja real existência jamais se teve

notícia. E é tão diferente o comose vive do comose deveriaviver,

[.). (Maquiavel, 1998, p. 101)

A famosa expressão veritã effettuale (efetiva verdade) con-

tida na passagem transcrita é uma das características mar-

cantes do pensamento político de Maquiavel. Com base

no exposto, podemosafirmar:

1 Para Maquiavel, as ações políticas do governante não

devem ser julgadas com base em valores morais porque,

segundoele, se olharmosparaa história,

notamos que a

ação do governante orientada pela bondade se mostrou, em alguns momentos, catastrófica para o sucesso do bom governo. 7, De acordo com a obra O príncipe, a ação do gover- nante deve levar em conta que toda cidade está divi-

dida em dois desejos opostos: o desejo do povode ser bem guiadoe a falta de vontade dos grandes em serem heróis do povo.

uv. Maquiavel, no livro O príncipe, chamaa atenção para o

fato de quea vitória do mais forte é um fato concreto na história humana.O triunfo da força do governante para formar o bom governo,segundoele,é fruto das boasleis, do bom exército e da arte de governar.

73

qo/

1v.

À arte de governar determina, por exemplo, que o gover- nante deve se comportar de acordo com as aparên-

cias, porqueelas têm grande peso em suaação política quando pretende promover algumas transformações no Estado.

v.

Nicolau Maquiavel foi diferente dos teólogos medievais

e de seus contemporâneos porque partiu da experiência real para fundamentar seu pensamento político.

74

São corretas as afirmações:

a. 1, Ie.

b. IIVev.

e. TN, IV ev.

d. LI IVev.

e. ev.

Com base naleitura da citação presente naatividade ante-

rior, observamos que umadas preocupações de Maquiavel nolivro O príncipe é analisar a ação política do governante. Tendoisso em conta,assinale a afirmativa correta:

a. Maquiavel se preocupa em analisar a ação política con- siderando tão somente as qualidades morais do príncipe

que determinam a ordem objetiva do Estado.

b. O sentido da ação política, segundo Maquiavel, tem

por fundamentooriginário a ordem divina, que dará ao governantea estabilidade necessária para seu governo.

c. Nareflexão política de Maquiavel, o fim que deve orien-

tar as ações políticas de um príncipe é a ordem e a manu- tenção do poder.

d. Para Maquiavel, a busca da ordem e da harmonia, em

face do desequilíbrio e do caos,só se realiza com a con-

quista dajustiça e do bem comum.

qo/

e. A análise de Maquiavel, com base na ideia de que os

valores espirituais são superiores aos valores políticos, repudia o emprego da força coercitiva do Estado, consi- derando-oilegítimo.

Em1513, Nicolau Maquiavel escreve o livro O príncipe, que funciona como verdadeiro divisor de águas porque provoca inúmeras rupturas com o século XVI ao oferecer elementos

fundamentais para a compreensão do poder político e da

ação política. Com base no exposto, podemos afirmar:

1.

Para Maquiavel, as formas assumidas pelo Estado são

a monarquia,a aristocracia e a tirania. Assim, propõe

uma ruptura com tipologia clássica aristotélica dasseis formas de governo.

m

O livro O príncipetraz comoquestão central o funciona-

mento concreto do Estado absolutista e tem comoobjeto

de estudo as orientações sobre como o governante deve proceder para conquistar e se manter no poder.

m . Maquiavel se preocupa em analisar a ação política con-

siderando tão somente as qualidades morais do príncipe que determinam a ordem objetiva do Estado.

1v.

Àoescrever o livro O príncipe com o foco de análise no

Estado, Maquiavel se coloca como um dosprecursores

da ciência política.

75

v.

No livro O príncipe, é possível identificarmos que,

segundo Maquiavel, a manutenção do poder por parte do governante é maisdifícil do que a conquista do poder. São corretas as afirmações:

a. 1 Ie.

bI,IVev.

c. II, IVeV.

d.LHLIVev.

e WevV.

4.

Naleitura sobre algumas passagens que compóem oslivros O príncipe e Comentários sobre aprimeira década de Tito Lívio,

é

refletimos sobre algumas das contribuições de Maquiavel para o pensamentopolítico contemporâneo. Tendo isso em

conta, podemosafirmar:

76

1

O poder é tema de estudo no livro O príncipe, em que Maquiavel descreve alguns passos para o governante con- quistar e manter o poder a partir da “sorte”e desuas vir-

tudes pessoais.

1.

Para Maquiavel, a dificuldade maior para o governante está em chegar ao poder, pelofato de que, para conquistá- “lo, depende da “sorte” e de suas virtudes pessoais.

11.

Para a conquista do poder,o governante conta com a “sorte”

e comsuasvirtudes pessoais, e a dificuldade maior está na conservação do poder, sendo que o governante deve contar exclusivamente com suasvirtudes pessoais paratal.

1v.

Para Maquiavel, para se manter no poder, o governante

deve comandar suas ações levando em contaos vícios

humanos aos quais os homens estão suscetíveis.

São corretas as afirmações:

a. He IV.

b. 1 Ie IV.

IL,IM e IV.

d. 1 le lV.

e. Hell.

5. Leia a passagem a seguir dolivro O príncipe, de Maquiavel

(1998, p. 101):

Falta aindaconsiderar como um príncipe deve conduzir-se com os

súditos e os aliados. Como sei que muitos já escreveram sobre o assunto, temo queestas palavras possam parecer presunçosas, por

discreparem, especialmente neste ponto, das opiniões de outras

pessoas. Mas como minhaintençãoé escrever o que tenhautili dade para quem estiver interessado, pareceu-me mais apropriado

abordara verdadeefetiva das coisas, e não a imaginação. Muitos

já conceberamrepúblicas e monarquias jamais vistas e que nunca

existiram na realidade; de fato, a maneira como vivemosé tão

diferentedaquelacomo deveríamosviverquequemdesprezaoque se faz pelo que deveria ser feito aprenderá a provocar suaprópria

ruína, e não a defender-se. Quemquiser praticar sempre a bon- dade em tudoo que faz, está condenadoa penar,entre tantos que

não são bons. É necessário, portanto, que o príncipe que deseja

manter-se aprenda a agir sembondade, faculdade que usará ou

não, emcadacaso, conformeseja necessário.

Com Maquiavel, começa a surgir a ciência política como atualmente a entendemos. Na passagem transcrita, o leitor pode identificar algumas das características inovadoras do pensamento político de Maquiavel e que o colocam como

um dos precursores daciência política. Tendo isso em conta, e com base notrecho citado, disserte sobre algumas das lições de Maquiavel para o pensamento político contemporâneo.

6. Em Maquiavel, encontramos a ideia de que a centralização de poder por parte do Estado é uma forma de governo necessária para garantir a ordem do todo social. Explique alguns dos argumentos usados pelo filósofo italiano para

convencero leitor sobre a necessidade da centralização de poder por parte do Estado.

Questõespara reflexão

77

1. Olivro O príncipe (1513) é considerado uma obraclássica de ciência política. Comente por quê.

da natureza humana. Explique como Maquiavel descreve a natureza humana.

3. Comente por que, para Maquiavel, as leis não são suficientes paraa eficiência das decisões do governante.

4. Vimos que, para Platão, são quatro as formas de governo possíveis para organizar o Estado e, conforme Aristóteles,

são seis, sendo três boas e três ruins. Comente quais são as

formas possíveis para se governar de acordo com Maquiavel.

Para saber mais

Leia o livro Maquiavelrepublicano, escrito por Newton Bignotto, que oferece uma interpretação do pensamento de Maquiavel baseada no

conceito de liberdade.

BIGNOTTO, N. Maquiavel republicano. São Paulo: Loyola, 1991.

Leia o primeiro capítulo do livro As grandes obras políticas: de Maquiavel a nossosdias, de Jean-Jacques Chevallier, e observe que o autor des-

taca queno livro O príncipe o pensamento de Maquiavelestá a serviço

do absolutismo.

CHEVALLIER, ]-]. As grandes obras políticas: de Maquiavel a nossos

dias. 3. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1982.

Estudo de caso

Maquiavel, nolivro O príncipe, adota o método realista para a aná- lise do Estado, pois propõe o estudo da sociedade pela análise da verdade efetiva dosfatos políticos. Esse mesmo método de análise também é usado por vários estudiosos da ciência política em suas

análises sobre os mais diversos fenômenos políticos. Um exemplo

é Norberto Bobbio (1986), intelectual que adota uma perspectiva realista em suas análises políticas. Segundoele, para termos uma

melhor compreensão dosfatos políticos, é mais útil estudarmos

a efetiva realidade do que imaginá-la. Essa posição investigativa

impede que Bobbio fale do futuro da democracia e, em vezdisso,

favorece queinterprete realidade efetiva, deixando delado coisas imaginadas. Nolivro O futuro da democracia: uma defesa das regras dojogo (Bobbio, 1986), o autoro faz levantando somenteas dificul-

dadesinternas do regime democrático, que, apesar de tudo, segundo

Bobbio, não degenerou em um regime autocrático. Permanecem no Estado democrático o pluripartidarismo,o sufrágio universal e o direito de liberdade, preservadospela tolerância,pela não violência e pela irmandade.

A democracia, segundo Bobbio (1986), é determinada por um

conjunto de regras, as quais estabelecem quem está autorizado a

tomar decisõescoletivas e quais procedimentos serão utilizados

nessaescolha.As palavras-chave desse conceito de democracia são

conjunto de regras, procedimento e escolha. Por conjunto de regras

devemosentender“regra da maioria”. Comoprocedimentos, deve- mosconsiderar aqueles determinados pela maioria. E,finalmente, a

escolhapressupõe queos indivíduos tenham condiçõesiguais para es-

colher e tenham asseguradosseusdireitos fundamentais(de liber-

dade, opinião, expressão, reunião, associação, entre outros). Ou seja, os indivíduos devem ser protegidos pela esfera jurídica que o Estadoliberal oferece. Entretanto, caso o Estado não

garanta às minorias o exercício de seus direitos fundamentais,

Bobbio (1986) adverte queo regime democrático podese dege-

nerar em um regime da “tirania da maioria”, em quesão levados

em conta somente osinteresses da maioria nas decisões públicas. Para Bobbio (1986), osideais democráticos procuram preservar sempre a maioria ativa; porém,existe um abismo profundoentre o que, a princípio,se deseja democraticamentee o quedefato ocorre.

A primeirapromessaquenãofoicumpridapeloregimedemocrático

79

diz respeito à distribuição de poder. O ideal seria um Estado sem

8o

corpo intermediário, havendo uma unidade nasociedade, mas a

“matéria bruta” que se efetiva é umasociedade dividida em organi-

zações, associaçõese sindicatos, os quais defendem diversos inte-

resses individuais. A segunda promessa refere-se à representação com mandatolivre; ocorre que a “matéria bruta” é constituída pelo mandato misto (imperativo e livre). A terceira promessa a extinção do poderoligárquico; o quese efetiva é a competiçãoentreaselites pelo voto popular. A quarta promessa é a extensão da democracia

políticaatéademocraciasocial;o quevemoséo inverso, resultando

na diminuição do espaço político. A quinta promessa a transpa-

rência que o regime democrático propõe por meio daeliminação do

poderinvisível; no entanto, existem ainda muitos poderesinvisíveis, os quais estão presentes nosatos e deliberações processadas pelos

Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário sem o conhecimento e

o consentimento da população. À sexta promessa não cumprida

pelo regime democrático refere-se à educação para um aumento da prática política; o que defato acontece é a apatia política.

Quais são as justificativas que levaram osideais do regime demo-

crático a não se concretizarem? Segundo Bobbio (1986), tais ideais

não foram atingidos em virtude de obstáculos queestavam latentes

e se agravaram a partir das transformações ocorridas na sociedade

civil. São três os obstáculos: o primeiro se refere ao aumento de

problemas técnicos na sociedade civil, pois o crescimento desta

gerou a necessidade de um aumento de competência técnica, como

a existência de órgãos ministeriais, os quais desviam asdecisões do

cidadãoe as deixam a cargo daclasse técnica. O segundo obstáculo

é o aumento doaparato burocrático. Finalmente, o último obstáculo

é a ingovernabilidade provenienteda alta demanda de problemas a

serem resolvidospelo regime.

PELA

O Estado no modelo

contratualista

Conteúdosdo capítulo:

* Algumas características da teoria contratualista.

* O papel do Estado nos pensamentos políticos de Hobbes, Locke e Rousseau.

* Lições de Hobbes, Locke e Rousseau para o pensamento político.

Após o estudo deste capítulo, você será capaz de:

1. identificar o contratualismo como um modelo sobrea ori- gem do Estado;

2. apontar algumas características do pensamento de Hobbes

que o definem como um defensor do Estadoabsolutista;

3. compreender os argumentos de Hobbes para legitimar o

Estado;

4. especificar algunsaspectos do pensamento político de Locke

que o colocam como um dosprecursores do Estadoliberal; $. indicar alguns traços do pensamento político de Rousseau

referentes à defesa da participação dos cidadãos nas deci- sões coletivas;

6. diferenciar as propostas de Hobbes, Locke e Rousseau

quanto à reforma do Estado.

31 Algumas categorias no contratualismo

Nateoria política, o modelo contratualista é uma dasalternativas que podemosusar para entender a origem e o fundamento do

Estado.

Você deve lembrar, conforme mencionamos anteriormente, que entre os modelos alternativos ao contratualismo estão o modelo da sociedade natural ou familiar e o modelo da origem violenta!.

No modelo dasociedade

natural, como observamos ao refletirmos

84 sobre o pensamento político de Aristóteles, a origem e a justifica- tiva para a existência do Estado estão relacionadas à união entre

agregados familiares, os quais, ao se juntarem às outras famílias, formam o povoadoe, posteriormente, a cidade. O Estado surge,

então, para garantir a proteção e a sobrevivência dos membros que

formam a cidade. Entre os pensadores que adotamesse modelo

de explicação estão Aristóteles, Tomás de Aquino, Jean Bodin e

Marsílio de Pádua. Outro modeloalternativo é caracterizado pela

ênfase na violência como razão para a origem do Estado. Os teóri-

cos desse modelo defendem que o Estado é uma organização que funciona como um instrumento de podere de violência a serviço de uma minoria dominante sobre a maioria. O Estadoassim descrito

representa o domínio da classe vencedora sobre a classe vencida.

Entre os pensadores desse modelo encontramos Karl Marx, Ludwig

Gumplowicz e Franz Oppenheimer. Neste capítulo, analisaremos o modelo contratualista, com des- taque paratrês pensadores: Thomas Hobbes(1588-1679), John Locke

(1632-1704) e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Esses pensadores

sustentavamque o Estado como podercentral deveria colocar-se comoa organização maisperfeita possível. Cada um deles, comseus

projetos políticos, influenciou de algum modoas revoluções que

1 Parasaber mais sobre esse assunto,leia o primeiro capítulo dolivro Elementos de teoria geral do

Estado, de Dalmo Dallari (2011),

ocorreram nos séculos XVII e XVIII: a Revolução Gloriosa (1688),

a Revolução Norte-Americana (1776) e a Revolução Francesa(1789).

O jusnaturalismo, primeiro ponto que merece destaque no

modelo contratualista, foi elaborado por pensadores políticos que viveram entre os séculos XVII e XVIII e que tinham em seus

escritos o objetivo de propor uma teoria racional para legitimar a necessidade da existência do Estado. Dessateoria racional deriva uma teoria geral do homem e da sociedade. Como em Platão, Aristóteles e Maquiavel, osteóricos do contratualismo também se

mostram favoráveis à legitimação do poder do Estado tomando comobase a descrição que fazem da teoria geral do homem e da

sociedade sem o poder atuante do Estado. A teoria racional do Estado que os pensadores políticos contra- tualistas elaboramparte de dois momentossobre a existência do homem, denominadosporeles estado de natureza estadocivil ou

político (Bobbio, 1991). Encontramos o ponto de partida da existên- cia do homem parajustificar a necessidadeda existência do Estado noestado de natureza, que é um estado não político ou apolítico

no qual o homem tem comoobjetivo a autopreservação. Noestado de natureza, o Estado como podercentral nãoexiste, e os homens estão entregues ao próprio livre-arbítrio para agirem em prol de sua conservação. Vivem individualmente, como não cooperados,e desfrutam de plenaliberdade para agir e pensar, e gozam de uma

condição de igualdade em relação aos demais homens. Você poderá observar, nas páginas a seguir, que os pensadores

contratualistas que tomam como ponto de partida um estado de natureza pacífico e social tendem a considerá-lo como umestado imperfeito e inseguro, do qual o indivíduoretira motivospara fazer

um contrato com os demais homens com o objetivo de fundar o

estadocivil ou político.

Nessa história hipotética e racional sobre a origem do Estado construída pelos pensadores contratualistas, a passagem doestado

de natureza parao estadocivil ocorrea partir do momento em que

8

os homens decidem sair por vontade própria do estado de natureza. Osmotivos que levam os homens a aderir ao estadocivil e ficar sob

a proteção do Estadosãodistintos em cada pensadorcontratualista, conformeindicaremosa seguir, mas é comumentreeles a ideia de

que a transição do estado de natureza para o estado civil se faz a partir do estabelecimento de um contrato ou pacto social fruto de um consenso entre os indivíduos.

Segundo Fiuza e Costa (2007, p. 47),

O termo Pacto Social éaexpressão criadapor Grócio (Hugo Van

86 Groot,1583/1645, holandêsque escreveu: Do direito de guerra e paz).

Dizia ele que para ser possível a vida em sociedade, só havia um

caminho: um pacto, um pacto social, significando uma combinação,

um acordo para viverem sociedade.

A ênfase que o modelo contratualista dá ao pacto comosendo

a origem do Estado leva Bobbio (1991, p. 2) a afirmaro seguinte

sobre o modelo contratualista: “a imagem de um Estado quenasce do consensorecíproco de indivíduos singulares, originariamente

livres e iguais, é uma pura construção dointelecto”, Ao lermososescritos dos pensadores políticos intitulados con- tratualistas, observamosalgumas características peculiares a cada um em suas teorias sobre o Estado. Ora o estado de natureza é

pacíficoe social, ora é conflituosoe antissocial. Alguns pensadores contratualistas sugerem que o contrato é feito em favor da coleti- vidade; outros afirmam ser feito em favor de um terceiro queirá

governara sociedade. Outro temaque sofre variação na teoria do contratualismotrata da natureza do poder político que descende do contrato social. O poder político que decorre do contrato e em favor de um terceiro ou em favor de todosé absoluto ou limitado,

podeser distribuído, podeser revogável? Enfim, é sobre isso que

refletiremosa seguir.

3.2Hobbes e o Leviatã

Cronologia?

* 1588—Thomas Hobbes nasce em 5 de abril, em Malmesbury;Inglaterra.

* 1629 — Publica a tradução da História da guerra do Peloponeso, de Tucídides.

* 1640 Escreve Elementos da lei naturale política. Muda-se para a

França em razão dosconflitos políticos que presencia na Inglaterra.

* 1642 — Publica Sobre o cidadão, concomitantemente ao início da

guerra civil na Inglaterra.

* 1651 — Publica Leviatã ou matéria, formae poder de um Estado ecle-

siástico e civil.

* 1652 — Volta à Inglaterra.

* 1654 Publica Sobreo corpo.

* 1658 — Publica Sobre o homem.

* 1668 — Traduz Ilíada e Odisseia.

+ 1679 — Hobbes morre em 4 de dezembro, em Hardwick Hall, na

Inglaterra.

“Thomas Hobbesjamais se ocupou dasatividades políticas, não fez parte de partidos nem atuou como conselheiro de governantes. Foi um intelectual que entrou em contato

com filósofos e cientistas desua época e acabou sendo perseguido em mea- dos do século XVII porser defensor da monarquia. A falta de unidade do Estado e o declínio da autoridade

política que a Inglaterra presencia no

decorrer do século XVII se colocam

comoa grande questão que orienta

2 Fonte das informações: Hobbes, 1983.

87

Hobbes em seus escritos. Em torno dessa preocupação, o autor defende que a unidade do Estado é mais importante do que a

liberdade do indivíduo, ao afirmar quea liberdade leva o homem

ao estado de natureza anárquico. O que o filósofo inglês entende por estado de natureza anárquico se aproximadas guerrascivis; para ele, trata-se do pior de todos os males, e o homem não pode per-

manecer nesse estado. Chevallier (1982, p. 68), estudioso do pen-

samento político,ao analisar a perspectiva de Hobbes,enfatiza que “Em suma, trata-se de seguirmos um rigoroso desenvolvimento 88 dialético que nos conduz, dos homens naturais ao homem artificial, ao Estado-Leviatá”. Como o homem pode sair do estado de natureza? Segundo

Hobbes, o homem sairá desse estado desde que legitime o poder

do Estado-Leviatá. É o que abordaremosa seguir.

3.21 Estado de natureza e estado de guerra em Hobbes

Noestado de natureza encontramos os argumentos para a efe-

tivação do contrato social que levará, em Hobbes, à criação do Estado-Leviatá. No Capítulo XIII do Leviatá estão os principais

argumentos para que o homem saia desse estado e passe para a sociedade civil ou política. Os argumentos hobbesianos se susten- tam em algumas condições objetivas e subjetivas que o homem desfruta no estado de natureza para conseguir sua autopreservação.

Como condições objetivas, devemos entender aquelas situações que independem da vontade do homem. Uma dessas condições apontadas por Hobbes é a igualdade que os homens experimentam

entre eles no estado de natureza, como indica o trecho a seguir:

“[Da] igualdade quanto à capacidade deriva a igualdade quanto à esperança de atingirmos nossos fins. Portanto, se dois homens desejam a mesmacoisa, ao mesmo tempo, que é impossível ela ser

Napassagem citada, além da menção de Hobbes à igualdade,

também chamaa atenção outra condição objetiva que o homem

vivencia no estado de natureza, que é a escassez de bens, revelando que não há bens necessários em quantidadesuficiente para todos.

Essasituação descrita por Hobbesjá denta que no estágio inicial em que o homemestá inserido há o nascedouro de um permanente

estado de desconfiançarecíproca. Bobbio (1991, p. 34) sintetiza bem

essasituação descrita pelo estado de natureza hobbesiano:

as condições objetivas bastariam por si sós para explicar a infelici-

dade do estado de natureza: a igualdade de fato unidaà escassez

dos recursose ao direito sobretudose destina porsi só a gerar um

estado de impiedosa concorrência que ameaça converter-se conti- nuamente em luta violenta.

A possibilidade da autopreservação do homem no estado de natureza é reduzida ainda mais por Hobbes, no decorrer do Capítulo XIII, quando acrescenta que o homem é dominado por paixõese vícios, os quais o levam à insociabilidade.

os homens não tiram prazer algum da companhia uns dos outros (e sim, pelo contrário, um enorme desprazer), quando não existe um poder capaz de manter a todos em respeito. Porque cada um

pretende que seu companheirolheatribua o mesmovalor queele

se atribui a si próprio e, napresençade todos os sinais de desprezo

ou de subestimação, naturalmente se esforça, na medida em que tal se atreva [ ]. (Hobbes, 1983, p. 75)

Hobbesdestaca, entreosvícios da natureza humana,a vangló-

ria. O vício humano, comovimos anteriormente ao examinarmos

os pensadores políticos gregos, manifesta-se quando os homens sentem a necessidade de buscar a superioridade em relação aos seus pares. Comentamos, no primeiro capítulo deste livro, que os

vícios apetitosos e passionais dos homens são a razão da degene-

ração do Estado. Em Hobbes,identificamos a mesma abordagem

presente em Platão e Aristóteles: a de que os vícios e as paixões

dos homens os levarão, inevitavelmente, a viver em eterno con-

fito, em estado de guerra.

Com isto se torna manifesto que, durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum capaz de os manter a todos

em respeito, eles se encontram naquela condição a que se chama

guerra; e uma guerra que é de todos os homens contra todos os homens. Pois a guerra não consiste apenasna batalha, ou no ato

de lutar, mas naquele lapso de tempo durante o qual a vontade de

travar batalha é suficientemente conhecida. (Hobbes, 1983, p.75)

A simples ameaça de guerrajá é suficiente para o homem pre- senciar o estado de guerra hobbesiano como aquele estágio em que não há um poder comum para manter os homens em respeito mútuo. Essasituação é bem sintetizada por Chevallier (1982, p. 69-

70, grifo do original), quando trata do pensamento hobbesiano:

Uma guerra assim impede qualquer indústria, agricultura, nave-

gação, conforto, ciência, literatura, sociedade, e, o pior de tudo, é aquele temorcontínuo e o contínuoperigo de morte violenta. A vida

é “solitária, pobre, grosseira, animalizada e breve”. Em tal guerra, nadaé injusto, nem o podeser: “onde não há poder comum, não há

lei; onde não há lei, não há injustiça. Na guerra, aforça e a astúcia

são as duas virtudes cardeais”.

Parasair doestado de natureza, o homem deve, segundo Hobbes,

consultara própria razão,a qual o orienta a seguir os meios adequa-

dos para chegaraos fins pretendidos. Para a teoria contratualista,

o fim maiora ser atingido pelo homem é a autopreservação. Desse

modo,ele racionalmente entenderá que deve procurar a paz para

conservar sua vida:

é um preceito ou regra geral da razão, que todo homem deve esfor-

çar-se pela paz, na medida em que tenhaesperança de consegui-la, e caso nãoa consiga podeprocurare usartodasas ajudase vantagens

da guerra. À primeiraparte desta regra encerra a lei primeira e fun-

damental de natureza, isto é, procurar a paz, e segui-la. A segunda

encerra a suma do direito de natureza, isto é, por todos os meios

que pudermos defendermo-nos a nós mesmos. (Hobbes, 1983, p. 78)

Hobbessugere quea lei da natureza é a condição primordial para o homemsair do estado de guerra e conseguir a paz. A lei da natu-

reza destaca que a melhor forma para o homem sair do estado de naturezaé fazer um acordo com os demais homens para instituírem o Estado.Poresse argumento defendido por Hobbes,o Estado-Leviatá

nasce como uma criação do próprio homem para corrigir seus própriosdefeitos de natureza humana. Sãoos vícios e as paixões hu-

manas em combinação com liberdade, a igualdadee a escassez de

bensque fazem os homens agirem sem respeito mútuoentre eles.

O pensador inglês prossegue enfatizando que o contrato entre os homens tem a função de removera falta de um poder comum, a

qualse coloca comoa causa principal para a manutençãodo estado

de guerra.

Aúnica maneira de instituir um tal poder comum, capaz de defendê-

-los das invasões dos estrangeirose das injúrias uns dos outros,

garantido-lhes assim uma segurançasuficiente para que, mediante

seu próprio labore graças aos frutosdaterra, possam alimentar-se e

viver satisfeitos, é conferir todaa suaforça e poder a um homem, ou

a umaassembleia de homens[

um homem ou a umaassembleia de homens comorepresentante de

O que equivale a dizer: designar

].

suas pessoas[

]

todos submetendo assim suas vontades à vontade

do representante, e suas decisõesa sua decisão. (Hobbes,1983, p. 105)

91

Para cumprir sua função — dartotais garantias à vida do homem -—, o Estado-Leviatá deve ser um poderirrevogável, indi- visível e absoluto. É indivisível porque deve estar nas mãos de uma única pessoa, detentora de um mandato irrevogável sem

limites de tempo, e é um poder absoluto porque essa pessoa pode exercê-lo sem limites.

3.2.2 Algumaslições de Hobbes para os dias atuais

Osargumentos que Hobbes desenvolve no livro Leviatã para jus-

tificar o Estado o caracterizam como um pensador conservador

(Bobbio, 1991). Entre os excessos deliberdade e autoridade, o filó-

sofo inglês elege a manutenção da autoridade como sendo mais viável para a autopreservação do homem. Perceba quea síntese

do argumento conservador hobbesiano é que a sociedade só pode sustentar-se na oposição — representada pela “desigualdade” hie-

rárquica soberana — entre autoridade e súdito, isto é, quem manda

92 versus quem obedece. Aodefender um governo absoluto, Hobbes se mostra avesso à teoria constitucionalista, que defendea criação de limites jurídicos

a fim de evitar o abuso do poder por parte do governante (Bobbio, 1991). Esse posicionamento é atualmente assumido por aqueles que entendem queo Estado deveagir de acordo com as normas exempli- ficadas na Constituição Nacional. Hobbes também é conservador

ao defender que o governante goza de um poderirrevogável e que não podeser rescindido ou anulado, contrapondo-se, assim, aos defensoresdateoria do mandato,os quais alegam que o poder do governante deve ser temporário e regido por mandatos, para que,

assim, não se incorra em abuso de poder.

Além disso,a irrevogabilidade do poder do governo proposta por Hobbesse apresenta como umagarantia contraa revolução da

sociedade diante deseu soberano. Por fim, a defesa de Hobbes

poder indivisível, o qual deve pertencer a um homem, ou a uma assembleia, que terá totais poderes para autorizaratos e decisões, posiciona o filósofo como um pensador contrário à separação de

poderes ou ao governo misto, como defendido por Montesquieu

em suacélebre obra O espírito dasleis, escrita em 1748. A tese cen-

tral de Montesquieu (1996) sobre essa separação sustenta que a

melhor formade evitar o abuso de poder por parte do governante é fragmentare distribuirtal poderentrediferentes pessoas,as quais

ao

passarão a comandar os diferentes órgãos que formam o Estado e

deverão fiscalizar-se mutuamente.

Em resumo,prezado leitor, podemos entender que Hobbes

defende a irrevogabilidadee a indi bilidade do poder do gover- nante, que terá, consequentemente, um poder sem limites. Hobbes é um defensor de um Estado absolutista paradisciplinaras paixões e os vícios humanoscausadores do conflito e da discórdia, motivos da ruína da sociedade.

33Locke e o tratado do governocivil

Cronologia”

* 1632 — John Locke nasce em 29 de agosto, em Wrington, na Inglaterra.

* 1642 Acompanha inícioda guerra civil naInglaterra.

* 1675 — Torna-se secretário do Conselhode Plantações e Comércio.

* 1683 — Muda-se para a Holanda.

* 1689 Retorna Inglaterra e publica os dois tratados sobre o governo

civil.

* 1690 — Publica Ensaio sobre o entendimento humano.

* 1704 — Locke morre em 28 de outubro em Harbor, na Inglaterra.

93

Ospensadores John Lockee Jean-Jacques Rousseau fizeram parte,

entre os séculos XVI e XVIII, de um movimento de intelectuais

conhecido como constitucionalismo. Especificamente sobre esse

movimento, o filósofo político Bobbio (1997b, p. 24) afirma:

O estado moderno,liberal e democrático, surgiu da reação contra

o estado absoluto [

].

Na tradição do pensamento político inglês,

que ofereceu a maiorcontribuição para a solução deste problema,

3Fontedas informações: Locke, 1983.

dá-se o nomeespecífico de constitucionalismo ao conjunto de movi- mentos que lutam contra o abuso do poderestatal.

O constitucionalismo designa um conjunto deescritos de inte-

lectuais que lutaram contra o abuso do poder do Estado,os quais

concebiam a constituição como um conjunto de preceitos que

proclamava e assegurava os direitos dos indivíduos ante as ações do Estado. A grande questão para o constitucionalismo é que,se

o governantefor detentor de um poder absoluto, como vimos em

Hobbes e Maquiavel, poderá abusar do poder contra o povo. Como

94 é possível, então, impedir o abuso de poder? Para os constitucio- nalistas, a resposta é: limitando-o.

O posicionamento político de Locke, como você verá a seguir,

indica que a melhor forma de limitar esse poder é ter garantias de

que o Estado não violará os direitos natu-

rais dos indivíduos, mas, ao contrário, irá

reconhecê-los e garanti-los integralmente.

Chevallier (1982, p. 101), ao analisar o pen- samento de Locke,afirma:“A obra de Locke desfere no absolutismo os primeiros golpes

]. Tais gol-

sérios, se não os mais furiosos[

pes começam a abalar o edifício absolutista, abrindo extensas fissuras, que serão amplia- das pelos demolidores do século seguinte”.

Naobra Segundo tratado sobre o governo, escrita em 1690,o autorfaz a defesa política de um Estado nos moldesliberais, em que o poder deste é limitado

de acordo com direitos naturais invioláveis dos indivíduos (Locke,

1983). Essadefesa política de Lockeinfluenciouas revoluçõesliberais

de independência norte-americana(1776), a Revolução Francesa

Para saber mais sobre o constitucionalismo,leia o primeiro capítulo do livro Direito e Estado no

pensamento de Emanuel Kant, de Norberto Bobbio

(1997b).

(1789) e a Revolução Gloriosa inglesa (1688), que culminou com a

vitória do parlamento inglês sobre a monarquia absolutista inglesa.

3:31 Estado de natureza estado de guerra em Locke

Conforme mencionadono início deste capítulo, encontramos no

estado de natureza o ponto de partida da teoria contratualista para explicar a origem do Estado e justificar a necessidade de sua existência na sociedade. Trata-se de um Estado não político, ou

apolítico. Estudioso do pensamento político de John Locke, Ives Michaud (1986, p. 37) afirma que, para o filósofo inglês, “o estado de natureza não é umaorigem histórica, mas a razão do governo civil, a explicação da formaqueele toma. Nãoé surpreendente que

se descubra afinal que o governocivil é a forma institucionalizada doestado de natureza”. É noestado de natureza que encontramos os argumentos de

Locke paraa efetivação do contrato social, os quais também con- duzem à criação do governocivil e à justificativa para a existência do Estado nos moldesliberais. Para Locke, no estado de natureza, o homem desfruta daliber-

dade, da igualdade, das posses e da razão para sua autopreservação,

de modo que:

Para compreendercorretamente o poderpolítico e depreendê-lo de

sua origem,devemos considerar em queestado todos os homens se

95

acham naturalmente, sendo este um estado de perfeita liberdade para ordenar-lhes as ações e regular-lhes as posses e aspessoas tal

como acharem conveniente, noslimites da lei da natureza. [

] Um

estado também de igualdade, onde recíproco qualquer poder e

jurisdição, nenhum tendo mais do queo outro [

por Weffort,1998, p. 72)

). (Locke,citado

Analisando os pormenores do trecho citado, chamamos sua

atenção para a liberdade de que o homem desfruta no estado de

naturezae que consiste na possibilidade de ele agir e dispor de sua pessoa da formaque entendaser necessária para sua autopreserva-

ção. Entretanto, essa liberdade deve ser orientada de acordo com

oslimites da lei da natureza. Conforme o argumento de Locke, o

homem desfruta da igualdade, que se define comoa situação em

que todos os homens são dotados das mesmas faculdades e capa- cidadesintelectuaise físicas para atingir seus objetivos pessoais.

Além da liberdade e da igualdade, no estado de natureza, o

homem também dispõe de suas posses, entendidas comoo direito 96 que ele tem sobre algumacoisa, a qual não lhe pode ser tirada sem seu consentimento. E, por fim, no estado de natureza, o indivíduo

é orientadoa executarsuas ações segundoa lei da natureza,a qual

designa que não se deve prejudicar a vida, a liberdade e as posses do outro. Contudo, é o homem, no uso deseu livre-arbítrio, que

decide se executa ou nãoa lei da natureza.

Quando os homens vivem juntos conformea razão, sem um ser

superior comum naTerra que possua autoridade para julgar entre eles, verifica-se propriamenteo estado de natureza. Todavia, a força, ou o desígnio declarado deforça contra a pessoa de outrem, quando não existe qualquer superior comum sobre a Terra a quem apelar,

constitui o estado de guerra [

].

A falta de um juiz comum com

autoridade coloca todos os homens em um estado de natureza; a

força sem o direito sobre a pessoa de um homem provoca um estado

de guerra. (Locke,citado por Weffort, 1998, p. 72)

Deacordo com essacitação, merece destaque que, para Locke,

diferentemente do que vimos em Hobbes, nãoé a falta de um juiz que coloca os homens em estado de guerra, mas a violação sem

direito e pela força contra a propriedade alheia. Em outros termos, de acordo com o argumento de Locke,a ori- gem doestado de guerra é a não aplicação dalei da natureza, que tem como função proteger as posses dos homens no estado de

natureza. Você podeestar se perguntando agora: mas por que os

homens infringiriama lei da natureza? Locke (1983) explica que tal comportamento ocorre em virtude da falta de razão de certos homens que ignoram a lei natural, mas também em decorrência

da distribuição desigual das posses no interior da sociedade, o que introduz a penúria e a pobreza entre os homens. Essasituaçãorepre- sentaa violação da propriedade como umarealidade bem possível. Portanto, com base no que examinamosaté aqui, podemos deduzir que o estado de natureza como um momento pré-social

e pré-político consiste em umestágio em que o homemvive em

relativa paz e harmonia.

nisto temosaclaradiferençaentreoestadode naturezaeoestado

de guerra que, muito embora algunstenham confundido,estão tão

distantes um do outro como um estado de paz, boa vontade,a:

tência mútuae preservaçãoestá de um estado de inimizade, malícia,

violência e destruição mútua. (Locke, 1983, p. 41)

No entanto, noestado de natureza, o homem também presencia alguns inconvenientes, como a não execução dalei da natureza e

a violação de propriedade, os quais poderão levá-lo a umestado de guerra.

Evitaresseestado de guerra — no qual não há apelo senão para o céu,

e noqual qualquer divergência, por menor que seja, é capaz de ir dar [o estado de guerra], se não houverautoridadeque decidaentre os contendores — é a razão decisiva para que homens se reúnam em

sociedade deixando o estado de natureza[

]. (Locke, 1983, p. 42)

Ri

Como resolver esse o problemado estado de guerra? É o que veremosa seguir.

3.3.2 O Estado como um poder executor da lei da natureza

98

Em Locke, a passagem do estado de natureza parao estado civil ou político se faz a partir do estabelecimento de um contrato, pelo qual os homens aderem aolivre-arbítrio em favor da formação da sociedade política, que será composta de um corpo político compreendendo o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. Esse

corpo político tem como função garantir o cumprimento da lei

da natureza, preservando, assim, as posses de todos os membros

que aderiram ao contrato.

E poressa maneira a comunidade consegue, pormeio de um poder

julgador,estabelecer quecastigo cabeàsvárias transgressões quando

cometidas entre os membros dessa sociedade — que é o poder de

faser leis — bem como postal 6 poder de castigár qualquer dano

praticado contra qualquer dos membros por alguém que não per- tence a ela — que é o poder de guerra e de paz —, tudoisso para a

preservação da propriedade de todos os membros dessa sociedade

]. [

(Locke, citado por Weffort, 1998, p. 76)

Vale lembrar que o poder político do Estado que surge a partir do contrato proposto por Locke é “limitado”, e não absoluto como em Hobbes ou Maquiavel. O poder supremo é o Legislativo, que concentra em si osrepresentantes escolhidos pela comunidade pela

formaeletiva. Quanto ao governo do Executivo, Locke(citado por

Weffort, 1998, p. 83) assevera que “Nenhum governopode terdireito

à obediência de um povo que não a consentiu livremente [

] os

homens sob qualquer governo [absoluto] não estarão no estado de homenslivres, mas serão escravosdiretos sob a força da guerra”, O governante do Executivo exerce um poder subordinado ao Legislativo, o qual deve acompanhar permanentemente a execução dasleis elaboradas.

3.3.3

Algumaslições de Locke para os dias atuais

O pensamento político de Locke sobre a origem a justificativa

do Estado recebe várias interpretações na teoria política e na filo- sofia política contemporânea (Michaud, 1986). Umainterpretação bem recorrente no ambiente acadêmico é a de que em Locke os argumentos sobre a formação da sociedade civil são interpretados como favoráveis à necessidade de regulamentação do regime de

propriedade privada pelo Estado.

Outra interpretação sobre o pensamento de Locke na teoria

política contemporânea é conhecida comoint

ualismo posses-

sivo. Sob esse ponto de vista, o argumento do filósofo é interpre- tado como uma teoria sobre a ascensão da sociedade burguesa de

acumulação. Pela formação da sociedadecivil, o indivíduo se tor-

na formalmente proprietário de si mesmo e de suas capacidades.

As posses e o dinheiro comopropriedade privada passam a ser ga-

rantidos e protegidos pelo Estado; assim, a acumulação é formal

e legalmente possível, mesmo que aumente a desigualdade econô-

mica entre os homens.

Osargumentos de Locke em favor de um Estado que limite ao mínimosuas ações sobre a sociedadecivil podem ser encontra- dos nas teorias do globalismo e do liberalismo. De acordo com

Nogueira e Messari (2005), na perspectiva das relações internacio-

nais, no globalismo o Estado é um mero mantenedor da ordem

civil e garante, sem interferir, que as relações de trocas econômicas

se desenvolvaminternamente, alcançando o nível externo. Ao bus-

carem responder como tornaro sistemainternacional menos con-

flituoso e mais cooperativo, o globalismoe liberalismo sugerem

que a economia assegura um ambiente mundial pacífico, pois a

troca econômica estimula a tolerância e a comunicação entre os Estados em áreas de interesse. Paralelamente às ações econômicas

internacionais, é necessária também, de acordo com o globalismo

99

o: André Múller

e o liberalismo, a criação de instituições internacionais que esta-

beleçam as bases jurídicas para trazer a estabilidade e a paz ao

sistema internacional.

34 Rousseau: do Discurso sobre a origem da desigualdade a O contrato social

Cronologia”
100

* 1712 Jean-Jaques Rousseau nasce em Genebra, na Suíça.

* 17280 Inicia a escrita de Narciso ou o amante de si mesmo.

* 1742 Torna-se secretário da Família Dupin, em Paris.

* 1745 — Terminade escrevera ópera As musas galantes.

* 1750 Escreve Discurso sobre as ciências e as artes.

* 1755 — Publica Discurso sobre a origem da desigualdade.

* 1762 Publica o livro O contrato social,

+ 1778- Rousseau morre em de julho, em Ermenonville, na França.

Jean-Jacques Rousseau compõe o conjunto de pensadores que durante os séculos XVIII e XIX defenderam a constituição como

instrumentopara limitar o poder do Estado nos moldes do absolutismo.Ateoria política

de Rousseau, como em Locke e Hobbes, também é devota do modelo contratualista para fundamentara origem do Estado e da

sociedade política.

Rousseau propõe que o exercício do

poder soberanoesteja nas mãos do povo ou

da vontade geral. Segundo Chevallier (1982,

p. 162), essas características o diferenciam de

5 Fontedas informações: Nascimento,1998.

Hobbese Locke porque “Rousseau é assim levado a umadistinção

radical que, do ponto devista em quea apresenta, é inteiramente

sua, a distinção entre soberano e o governo”, Como vimosante-

riormente, para Hobbes, o poder soberano da sociedade civil per-

tence ao governante (um homem ou uma assembleia) e, para John

Locke,está nas mãos do parlamento. Noentanto, para Rousseau a

vontade geral “é a expressão global dosinteresses e dos sentimentos

da sociedade e do cidadão” (Bobbio, 1997b, p. 23).

Outra característica do pensamento político de Rousseau e que merece destaque é seu empenho em conjugara liberdade do cidadão com o Estado, de modo que o cidadão só é considerado livre se viver em sociedadecivil. Essa preocupação não está pre-

sente em Hobbes nem em Locke, No pensamento hobbesiano, o homem perde a liberdade ao aderir à sociedade civil, mas ganha

em troca a segurança e a proteção. Já para o filósofo inglês, ao aderir à sociedade civil, o homem não perde a liberdade, a qual é

intocável pelo Estado. Entende-se, portanto, que ele não precisa aderir à sociedade civil para ter a liberdade, uma vez que esta já lhe pertence. Mas em Rousseau o argumento é outro, pois, confor-

me Chevallier (1982, p. 164, grifo do autor) em sua análise do livro O contrato social,

a liberdade e a igualdade, cuja existência no estado de natureza é

tradicionalmente afirmada, Rousseau pretende reencontrá-las no

estado de sociedade, mas transformadas, tendo sofrido umaespé-

cie de modificação química, “desnaturadas”[

ordem inteiramente nova e de uma ordem necessariamente justa

pelo contrato”,

] “cria

o de uma

101

Essascaracterísticas do pensamento político de Rousseau podem ser encontradas em duas de suas principais obras políticas e que

devem ser lidas de modo complementar: Discurso sobre a origem

da desigualdade, de 1755, e O contrato social, de 1762. Enquanto na primeira obra Rousseau descreve umahistória hipotética da humanidadee da legitimação da desigualdadesocial, na segunda,

escrita posteriormente, o autor argumenta sobrea possibilidade de

perca

se fazer umpactolegítimo entre os homens, em que cada um

a liberdade natural, que gera a desigualdade, recebendo em troca

liberdadecivil. É sobreisso que trataremos na próximaseção.

3.4.1 Estado de natureza e estado de guerra em Rousseau

Noprimeiro capítulo de O contrato social, Rousseau expõe que o homem nasce livre, mas se encontra por toda parte aprisionado.

Para que você compreendaessa afirmação, destacamos um trecho

102 do livro Discurso sobre a origem da desigualdade, em que o pensa-

dor suíço apresenta a descrição do estado de natureza como um

momento apolítico ou pré-estatal. Rousseau defende, como os demais contratualistas, que o objetivo da existência do homem no estado de natureza é a autopreservação.

O primeiro sentimento do homem foi o de suaexistência; seupri-

meiro cuidado, o de suaconservação. Os frutos da terra lhe forne-

ciam todosos recursos necessários; o instinto levou-osa utilizá-los.

[

]

Mas logo se apresentaram asdificuldades, foi preciso aprender

a vencê-las: altura das árvores que o impedia de alcançar seus ftutos, a concorrência dos animais que deles também se alimenta-

vam,a ferocidadedaqueles quelheameaçavam própriavida, tudo o obrigou a aplicar-se aos exercícios do corpo; foi preciso ser ágil,

rápido nacorrida, vigoroso no combate. (Rousseau, 2015, p. 201)

Para facilitar a autopreservação, os homens dispóem da capaci- dade de inventar instrumentos que se tornam úteis na medida em

que se faz preciso dominar a natureza e explorá-la. O homemretira da natureza osfrutos necessários para a sua conservação.

À medida que o gênero humanose expandiu, as dificuldadesse

multiplicaram com os homens. Asdiferenças dos solos, dos climas,

das estações, forçaram-nosa incluí-la em suas maneiras de viver.

Osanos estéreis, os invernoslongose rudes,os verõesardentes, que tudo consomem,exigiam deles uma nova habilidade, Ao longo do

mar e dosrios inventaram linha e o anzole se tornaram pescadores

e comedores de peixes. (Rousseau, 2015,p. 202)

Nesse estágio inicial do estado de natureza, o homem vive soli- tário, errante pelos campos, mas, segundo Rousseau,ao desenvolver suas habilidades do corpo doespírito, passa a adquirir sentimentos

que dão razão para formar famílias, tribos e hordas.

Osprimeiros progressosdo coração resultaram de umasituação nova que reunia numa habitação comum os maridos e as mulheres, os

pais e os filhos. O hábito de viver junto deu origem aos mais doces

sentimentos conhecidos pelos homens: o amorconjugal e o amor

paterno. Cada família se tornou umapequena sociedade ainda mais

unida. [

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Através de uma vida mais suave, osdois sexos começa-

ram a perder alguma coisa desua ferocidade e de seu vigor. Mas

se cada um isoladamente se tornou menos apto para combater os

animais selvagens, em compensação ficou mais fácil se reunirem para, em comum,resistirem a eles. (Rousseau, 2015, p. 204)

Acrescentamosque, no estágio inicial do estado de natureza,

o homem dispunha de propriedades, terras para plantar o neces-

sário para a sua conservação, havendoárea suficiente para todos. Asterras não eram demarcadas nem privadas. Esse estágio inicial do estado de natureza descrito por Rousseau começa a mudara partir do momento em que a propriedade, que

antes era de todos os homens, passaa ser privada e deixa de ter comoorigem a pura e simples força do trabalho humano.