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GRAMSCI E A EMANCIPAÇÃO DO SUBALTERNO

de uma inserção importante do partido revolucionário entre o proleta-


nado agrícola e o campesinato, com a elevação cultural e incorporação
a suas fileiras de militantes oriundos dessas fraçôes sociais. Mas o mais

ó
importante, pelo menos em um momento inicial, era selar a aliança
com os intelectuais meridionais liberal-revolucionários, que percebiam
e reconheciam a importância nacional da classe operária e o papel que
poderia desempenhar na luta pela emancipação das massas campone-
A EDUCAÇÃO COMO
sãs do Sul. FORMA DE REPRODUÇÃO DA
Percebe-se então como a diaÍética entre o educando e o educador

na reflexão de Gramsci, resguardando sempre o trabalho como funda-


HEGEMONIA E O SEU AVESSO
mento da. socíabüidaáe emancipada do homem, ganha sempre novas
dimensões. Gramsci parte da escola do traballio^ na qual prevalece a
autoeducaçao, mas que possibilita um largo aprendizado a quem sepre-
tende educador, pois é aqui que se locallz-a a via para a emancipação do
trabaïho. De qualquer modo, essa via já é a revolução em ato.
Quando a revolução se vê derrotada, é preciso encontrar meios para
a educação da vanguarda operária/ particularmente no caso em que essa
Escola, mtelecfuais e domínio de classe
vanguarda se revestia de uma discutível concepção de processo revolu-
cionário. Nesse momento, a disposição em aprender com a experiência
^preocupação deGramsd com a cultura e com a escola existiu
dos bolcheviques foi muito pertmente.
nuito cedo, ainda na Sardeaha. Os estudos cívico, e a tradição
Uma vez forjada, ainda que de maneira muito embrionária, essa van-
aturai da sua região de origem ocuparam muito doten,po "áo^o
guarda, a díalética do educador e das massas, tendo em vista um pro-
=, ainda que a sua relação com a escola tenha sido mmto~con"
gresso intelectualj não só enriquece e organiza a classe operária, que
ffitos"difci1'posto ser estabastante Pobre e ^rógrad"a"suZ,n"dIo
produz os seus intelectuais. Bssa vanguarda/ esses intelectuais/ deve se
LáesenTOlmnento (ioseu gosto pdas dências °»t"r°ais~epdoÏZ"
capacitar para gerir o processo produtivo e para administrar o Estado
!hlartlsffial:Este escrito l'usca apenas mostw ^"ekm'entos"qZ
operário, mas tem também que se relacionar com aliados, sem o que
comprovam como o, tema, d, escola, da educação e da cultura for»,
não se compõe a frente única das classes subalternas na luta antifascísta-
á'ea^scrananentes "° desenvolnmento da teoria s°^l e políüca
e antícapitalista e não se cria uma no1ra cultura de organização do tra-
balho livre associado.
Quando seencaminhau para a universidade, em Turim, 1911.
Wú se dedicou ao estudo de Lingufatica e de PilosofiaTZoïoïe
^°lu.mmÏTUd militante' alK°"^°P""»la7opZ Z"epc
^iazdiïtade Benedetto croce e de ouh-° Pel° -ïaÍismo:pZ
)lulfoa atrÏ'doI'orc°Dta da suaPemlan^simpatia"c~om"o7tabau
^ com os explorados e submetidos. Assim/os problemjcen-
da sua reflexão sobre os tema, da cultura, da escola,'dos intelectuais

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GRAMSCI E A EMANCIPAÇÃO DO SUBALTERNO A EDUCAÇÃO COMO FORMA DE REPRODUÇÃO DA HEGEMONIA.

estavam presentes desde o início da sua formação intelectual e militante, complementaria os já existentes sindicato e partido, ou seja, as organi-
tendo sido mesmo o motivo da sua ação política e cultural. zações política e económica do proletariado. Nessa associação seriam
Gramsci alimentava forte aversão pelo catolicismo e principalmente discutidas questões filosóficas e de caráter moral, visando um questio-
pela escola jesuítica; pela disciplina imposta, pela hierarquia. De alguma namento dos costumes e valores arraigados. Entendia que essa proposta
maneira essa forma de organização do saber se reproduzia na universi- indicaria uma colocação para os intelectuais do partido e que, "reali-
dade estatal, para a qual em diversas ocasiões Gramsci endereçou o seu zando esse instituto de cultura, os socialistas dariam um golpe certeiro
desprezo e sua ironia, tanto que não concluiu o curso universitário, seja na mentalidade dogmática e mtolerante da educação católica e jesuí-
por essa razão, seja por dificuldades pessoais de finanças ou de saúde tica" (Gramsci/1973, v. l/p.142).
De fato; Gramsci constatava que aquela organização da cultura e da Percebe-se então que Gramsci, nos anos da guerra e do primeiro
escola apenas reproduzia a divisão social existente entre dominantes e impacto da Revolução Russa, entendia com clareza a necessidade de a
dominados/ sendo então imprescindível antes de tudo que os oprimi- classe operária se organizar e se educar de forma autónoma e antagônica
dos tornassem conhecimento da sua situação, assim como da igualdade frente ao Estado e ao capital. A escola existente reproduzia a ordem exis-
fundamental do género humano. E isso só seria possível por iniciativa tente, mas a própria burguesia não cumpria o papel de educador, dei-
própria, pela escola da vida, pela escola do trabalho, já que "é através da xando essa função para a burocracia estatal e para a Igreja (para os seus
crítica da civilização capitalista que se formou ou está se formando a intelectuais). Para Gramsci, considerando a sugestão de Sarei, os inte-
consciência unitária do proletariado, e crítica quer dizer cultura e não lectuais e os políticos seriam todos representantes da ordem do capital
evolução espontânea e naturalista" (Gramsci, 1973, v. l, p.70). Contra a e cuidavam da reprodução do seu domínio de classe. Todos esses temas,
escola que fazia da cultura um privilégio, Gramsci afirmava que que seriam depois desenvolvidos nos Cadernos do cárcere, já estavam,
portanto, no universo de preocupações de Gramsci.
Ao proletariado é necessária uma escola desinteressada. Uma escola

em que seja dada à criança a possibilidade áe formar-se, de fazer-se

homem. De adquirir aqueles critérios gerais que servem de desenvolvi- A escola do frabaiho e os novos intelectuais
mento do caráter. Uma escola humanista, em suma, como entendiam os

antigos e os mais recentes homens do Renascimento. Uma escola que não A experiência reaïmenÉe espetacular de autoeducação da classe ope-
hipoteque o futuro da criança e constrinja a sua vontade, a sua inteligência, rária, de autonomia e antagonismo, na qual intelectuais revolucioná-
a sua consciência em formação a mover-se por um trilho e estação prefi- rios como Gramsci se envolveram de forma orgânica, ocorreu com o
xada. (Gramsci, 1973, v. l,p.83) movimento dos conselhos de fábrica, nos anos 1919-1920. Dessa feita,
os intelectuais e os operários se educaram reciprocamente. O periódico
Gramsci lamentava o fracasso da experiência intentada em Turim L Ordine Nuovo, fundado por Gramsci e outros jovens intelectuais socia-
de Universidade Popular, por conta da sua concepção filantrópica, Üstas, se esforçou para dotar o movimento de cultura, de teoria e de dü-e-
mas pensava sempre ser essencial uma organização autónoma de cul- cão consciente, enquanto eles mesmos aprendiam da escola do trabalho.
tura popular, de autoeducaçao e progresso intelectual das massas. A ação poütica desse grupo se orientava pela concepção de que o
Assim, a proposta de uma Associação de Cultura, surgida sempre em processo de criação de uma nova ordem antagônica ao capital tem os
Turim, em fins de 1917, foi vista por Gramsci com muita simpatia. seus fundamentos no próprio processo produtivo do capital. A reorga-
Para ele, essa associação deveria ser claramente socialista e de classe e mzação do processo produtivo, a autogestão e o controle operários são

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A EDUCAÇÃO COMO FORMA DE REPRODUÇÃO DA HEGEMONIA.
GRAMSCI E A EMANCtPAÇÃO DO SUBALTERNO

Itália. Ao contrário do que observava na União Soviética, Gramsci


a base sobre a qual se eleva um novo Estado e uma nova cultura. Numa
garantia que essa reforma fascista em verdade realçava a tradicional dis-
situação revolucionária, e apenas nesta, o problema da educação do
tinção entre educação para o trabalho manual e educação para o traba-
educador pela classe que se prepara para assumir o poder pode se colo-
lho intelectual. As escolas técnicas endereçavam seus formandos para
car, pois nessa situação, mesmo com muitos limites, a classe gera seus
a fábrica e as escolas clássicas para o Estado, para a atividade política e
intelectuais e seus dü-igentes, que se somam aos intelectuais de forma-
administrativa^ reproduzüido a divisão social do trabalho. Na verdade,
cão que se postam ao lado dos explorados em revolta e contribuem
o escopo era já assimilar o americamsmo em versão discíplüiadora e
para a sua elevação cultural e para a emancipação do trabalho. O con-
impositiva. Gramsci também se deu conta de como os intelectuais ita-
selho operário évisto como o fundamento do novo Estado, pois orga-
lianas, segundo a região, tinham orientação diferente: no Sul a educa-
niza a produção e a cultura, assim como a gestão do espaço público^
cão era idealista, humanista, clássica, mas os trabalhadores manuais
também o controle de seus próprios intelectuais. Então, essa escola
não tinham acesso; no Norte predominava já a educação científica e
só é possível como elemento do Estado de transição para uma nova
positivista, mas jovens da pequena burguesia e setores de trabalhadores
ordem, como elemento de constituição e consolidação dos trabalha-
podiam frequentar as escolas técnicas.
dores livres associados.
A instauração do fascismo e o novo enquadramento do trabalho
Gramsci locaüzava o problema essencial da educação burguesa do
como se prospectava significaram a funda derrota do movmiento ope-
seu tempo na separação entre ensino para o trabalho manuale educa-
rário. A experiência ao biêmo vermelho" mostrou como a classe ope-
cão de cultura humanista e indicava como possibilidade de solução um
rária não fora ainda capaz de criar os seus próprios intelechiais, como
processo de aquisição do conhecimento que unificasse o conhecimento
sindicato e partido, como instiüiições contratuais próprias da democra-
e controle do mundo natural com a elevação cultural e moral possível
cia burguesa^ voltaram-se contra a classe, como a mesma classe operária
com a fúosoBa, as letras e as artes. A escola de cultura criada pelo grupo
não foi capaz de difundir o movimento dos conselhos para outras cida-
de UOràme Nuovo, em novembro de 1919, era portadora dessa concep-
dês e outras camadas sociais, mormente o campesmato.
cão de escola unitária, de escola integral.
A experiência russa de cultura proletám e de escola do trabalho inci-
diu nas elaborações de Gramsci, mas é muito provável que com mais
intensidade após a experiência decisiva do ano de 1923, o qual passou
O partido como produto da aufoeducaçâo

na Rússia/ como representante do Partido Comunista da Itália (PCI)


das massas

junto aos órgãos dirigentes da Internacional Comunista (IC). Ali pôde


constatar, seguindo a orientação de Lenin e dos bolcheviques, como a A situação^ no começo de 1921, exigia que a medida já tanto poster-
gada de cisão completa com o reformismo e a fundação de um partido
educação técnica e científica para o trabalho era inseparável da educa-
cão cultural mais geral. Lenin clamava pela necessidade de uma revo-
revolucionário fosse levada a cabo. A fundação do Partido Comunista

luçào cultural, sem a qual a Rússia não poderia enfrentar o seu atraso implicava a criação de um instrumento aglutinador da parte melhor,

material. Sem um crescimento cultural enorme e decisivo, qualquer


mais disciplinada e consciente da classe operária. O objetivo imediato
era fazer frente à ofensiva do capital em crise, mas, em perspectiva, deve-
projeto de desenvolvimento económico e social do novo Estado estaria
ria ser um mstrumento político decisivo para a emancipação do traba-
fadado ao fracasso.
Nesse mesmo ano o recém-empossado governo fascista, com o lho. Assím^ era fundamental que o partido desenvolvesse o papel de
educador das massas.
ministro Giovanni Gentile, fez aprovar uma reforma da educação na

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Era razoável, no entanto, duvidar que esse novo partido tivesse }á método, ensina a estudar, habitua a uma disciplina intelectual, mas não
o preparo suficiente para servir de educador se ele mesmo não fosse pode sulïstihiir o espírito de iniciativa no campo do saber" (Gramsci,
educado. A classe operária de Turim, que levara a frente à experiência 1978, p.59).
dos conselhos de fábrica, fora derrotada e os intelectuais que formara No período em que foi dirigente máximo do PCI e deputado,
enquanto vanguarda e que se juntaram ao grupo do VOrâine^ Nuovo Gramsci desenvolveu a sua concepção de partido como educador das
eram minoria no novo partido. Essencial, de início, era garantir a efe- massas em contraposição à orientação antes imprimida por Bordiga, o
tiva cisão com o reformismo e provavebnente por essa razão Gramsci qual entendia ser a organização política o cérebro da classe, que, for-
decidiu apoiar Amadeo Bordiga na direçao do novo partido que se for- mada por intelectuais revolucionários, se dedicaria a disciplinar, orga-
mava. Quando, porém, a pressão da IC em favor de uma aproximação nízar e transmitir a ciência marxista aos trabalhadores. Gramsci pensava

com o Partido Sociaüsta Itaüano (PSI); ou até mesmo pela fusão, cor- que o partido devesse surgir a partir da melhor parte da classe, aquela
réu o risco de se tornar uma intervenção aprovada por aqueles, como mais disciplina e intelectualizada e que se dedica a apanhar os impulsos
Angelo Tasca, que via com bons olhos a unificação das duas organiza- de espontânea rebeldia da classe a fim a de oferecer-Uie uma direção
coes, Gramsci, já em Moscou, decidiu por abrir batalha. Gramsci, con- estratégica rumo à emancipação, para o que é necessária uma educação

tra Bordiga, aceitou a poUtica de frente única sugerida pela IC, mas fez científica e cultural autónoma.
uma nova interpretação, que mantinha forte o tema da cisão frente ao Namedida em que a classe educa o partido e o partido educa a classe
reforaúsmo socialista, opondo-se então a Tasca. Era agora necessário num processo organizativo e cultural de grande monta, a classe se faz

forjar um grupo político que fizesse dessa posição a do partido todo. partido e se prepara para se fazer Estado. Os elementos de mediação
Tratava-se então de educar o partido educador. nesse processo encontram-se na fórmula política da frente única, na

Em Viena, por meio de cartas, Gramsd agregou um grupo inicial e aliança com o campesinato e na questão da criação de um novo grupo
amadureceu a proposta educativa a ser realizada por meio de publica- intelectual e político que enfrente a organização cultural da ordem bur-
coes diferenciadas: L'0rdme Nuovo, como revista, contribuiria na for- guesa. O princípio pedagógico emancipatório é então fundado no tra-
mação de quadros capacitados teoricamente, o JornalL/Uníía difundma balho, é poÜtico-cultural e profundamente dialético. A escola não pode
a orientação política do partido, centrada na frente única e na aliança então ser tão desinteressada como antes Gramsci chegou a pensar.

operário-camponesa, e uma revista de Crítica Proktária, preocupada


com a crítica cultural e a luta ideológica. Esse conjunto de publicações
seria ainda completado com um anuário voltado à classe operária, com Os intelectuais orgânicos da burguesia
textos explicativos.
Chiando Gramsci voltou à Itália, em maio de 1924, já como depu- Nos Cadernos do cárcere, mesmo mantendo a forma não sistemati"

tado e principal dirigente do PCI, na medida das dificuldades buscou zada que já era marca do seu pensamento, Gramsci retomou e redis-

colocar em prática esse plano educativo, que encontrou num curso de cutiu toda a problemática sobre a cultura, a educação e os intelectuais.
formação política por correspondência o complemento decisivo. De Pode-se dizer que essa problemática perpassa toda a obra carcerária
qualquer maneira, Gramsci nunca perdeu de vista que a educação pre- de Gramsci.

cede a escola e que a escola presencial é fundamental. Mas a mais impor- A escolarização é um produto da revolução burguesa. A hegemonia
tante iniciativa é sempre a da autoeducação, o autodidatismo, depois de burguesa para ser forte e implantada no conjunto da vida social exige a
que "a escola acelera a formação, é o sistema Taylor da educação, dá u? áifusao da escola e a expansão da vida intelectual. Mas a escola laica e

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rnbÏlca é produto de certa forma de revolução burguesa aquela jaco- económica. Então se pode dizer, sempre com Gramsci, que a escola, a

bina. Em locais, como a Itália, onde a revolução burguesa assumiu a pedagogia, é política e cultura ao mesmo tempo.

forma de revolução passiva, a escola também teve que conyiïer com Na verdade, a escola é apenas um aparato especializado na educação,

a~orgamzação escolar religiosa e com a gestâoburocrátlca^s^ema na formação de intelectuais, mas esse papel pedagógico de reprodução

escolaTeisso teve implicações na escolarização das camadas subalternas da dominação e da hegemonia é cumprido por uma série de mstihii-
coes, que compõem o aparato cultural de hegemonia. Em diversas pás-
e na liegemonia burguesa. ^ _ _ _,^
Gramsd reconhece a fançao progressiva da escola e a importân- sagens dos Cadernos são elencadas algumas dessas instituições, que

cia cbgrupo social dos intelectuais, os principais responsáveis pela incluem, além da escola, também bibliotecas, clubes, sindicatos, Igreja,,
jornais, livros, revistas, livrarias, teatro, museus, pmacotecas, zoológico,
hegemonia;
Exército, arquítetura, nomenclatura das ruas etc., tudo o que tem mipli-

O enorme desenvolvimento tornado pela atividade e peb organiza- cação na organização da cultura e, enfim, na conformação da produção

cão escolar (em sentido amplo) nas sociedades saídas do mundo medieval e dos processos e do gerenciamento do trabalho.

mdica a importância assumida no mundo moderno pelas categorias e fm^ Isso significa - como já havia sugerido Sorel ~ que há toda uma

çóesmtelectuais=comoseprocurouaprofundaredilatara"mtelectualidade' camada de intelectuais que se ocupam da reprodução do mundo social

de cada indivíduo, também se procurou mulüplícar as especializações e afi- adequado à acumulação do capital. Essa camada intelectual se expressa

ná-las. Isso resulta das instituições escolares de graus diversos, até os orgams- como representação política e cultural do domínio de classe da burgue-

mos para a promoção da chamada "alta cultum", em cada campo da dênda sia. De tal modo fica impossível cindir pedagogia de política, dado ser,

e da técnica (a escola ç o instrumento para elaborar os intelectuais de vários ambas;, partes constihitivas da hegemonia, ao modo de supraestmtura

graus).Acomplexidade da fançaointelectudnos diversos Estados podeser da sociedade civil, cujo fundamento, é bom lembrar, encontra-se no

medida objetivamente pela quantidade de escolas especializadas e pela sua processo produtivo do capital ampliado.

hierarquização; quanto mais extensa é a "área" e quanto m^s numerosos os Mas o capital se utiliza de intelectuais surgidos das entranhas da

"graus" "verticais", tanto mais complexo é o mundo cultural a civüidade, de época feudal, a começar dos clérigos, mas que depois se desenvolve-

um detemünado Estado. (Gramsd, 197Sb, t.3 Q,12, §l,p.l517) ram e se multiplicaram como artistas, professores, filósofos, üteratoSj
cientistas e outros. Mas "como essas várias categorias de intelectuais

Assim, a escolarização promovida pela época burguesa em muito tradicionais sentem com espírito de corpo' a sua mintermpta contmui-

contrib^uparacombaterofokloreeasuperstiçãoetambémparadifo^ dade histórica e a sua qualificação^ assim se colocam como autónomos

dir a noção de trabalho vinculada ao controle das forças da ^turezap^r e independentes do grupo social dominante, [...]" (ibidem, p.l51S).

meio da ciência. Mas certo é que a escola, no seu conjunto, está vou Colocando-se acima dos interesses dos grupos sociais antagônicos,

para a reprodução das relações sociais, para a reProduçao.da,divlsao na verdade, esses intelectuais contribuem muito para a reprodução da

Social dotoWho que gera as classes sociais antagônicas. Dito de outra ordem;, para a sua nafcuralização. Acabam assim se submetendo aos inte-
ïectuais orgânicos. Diz Gramsci:
maneira, a escola contribui para a divisão entre trabalho manual et
ÍÏio intelectual, entre os simples e os cultos, entre subalterno e dirigente,
entre dominado e dominante. A escola então é um elemento impor^ Cada grupo soda!, nascendo sobre o terreno originário de uma fün-

tante na'constituição do conformismo social, da hegemonia de urna cão essencial no mundo da produção económica, cria junto; organica-

classe sobre outra ou, para sermos expUcitos, da dommaçao política mente, uma ou mais camadas de intelectuais que Uie dão homogeneidade e

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consciência da própria função, não só no campo económico, mas também do género humano. A resposta estava sugerida pela necessidade de
naquele social e político, (ibidem, p.1513) uma reforma moral e inteíectuaÍ de grande alcance. Decerto que essa
reforma teria o seu fundamento na reordenação radical das forças pro-
O intelectual orgânico do capital é antes de tudo o empresário capi- dutivas do trabalho, posto que a nova hegemonia, aquela fundada no
talista/ mas são necessários outros especialistas, como o economista, o trabalho em processo de emancipação, teria que ter a sua materiaüdade
admüüsteador, o engenheiro, o urbanista, o novo jurista, o jornalista etc. forjada a partir do processo produtivo^ mas só se completaria com o
Percebe-se então como, partindo do processo produtivo do capital, a progresso intelectual de massas e a diíusao da filosofia da práxis como
necessidade de organização de certa sociabilidade exige a escolarização novo senso comum.

e a formação de intelectuais organicamente vinculados. Mas Para pensar a reforma intelectual e moral com esse contorno,
Gramsci se utilizada como metáfora das noções de Renascimento e de
a relação entre os intelectuais e o mundo da produção não é imediata, como Reforma, eventos histórico-concretos dos albores do mundo burguês.

acontece para os grupos sociais fundamentais, mas é "mediada", em diver' O Renascimento foi um evento de grande padrão cultural e artístico,
sós graus, por todo o tecido social, pelo complexo das superesü-uturas; do mas não foi capaz de criar uma cultura popular ou mesmo de respaldar
qualexatamente os intelectuais são "funcionários". (ibidem, p.1518) a criação de um Estado unitário italiano. Isso por terem-se mantidos os

intelectuais atados à nobreza e à instituição edesial. Ou seja, o Renas-


Gramsci sugere que os intelectuais orgânicos do capital encontram- cimento não foi capaz de ultrapassar o mundo feudal. Por outro lado, a
-se, em primeiro lugar, na sociedade civil, 'ou seja, no conjunto dos Reforma luterana e calvmista criou uma cultura popular que contribuiu
organismos vulgarmente ditos privados", e depois na "sociedade polí- para a formação de Estados nacionais e do próprio capitalismo, ainda
tica ou Estado", e cuidam do consenso e da dominação (ibidem). Com que tenha demorado muito para criar uma alta cultura, tal como foi
isso, há uma ampliação enorme do conceito de intelectual: os organiza- enfim a filosofia clássica alemã de Kant a Hegel.
dores de um clube esportivo, os militantes de um partido político e o A derrota do projeto de Maquiavel de fazer das massas camponesas
conjunto da administração pública são, nessa leitura, entendidos como as protagonistas históricas no processo de unificação da Itália contri-
intelectuais. Resulta disso que a contradição inerente ao capital, que buiu fortemente para delimitar o Renascünento como fenómeno das
nucleia o movimento dialético da sociedade civiÍ, se reproduz em todas camadas sociais dominantes, apartado do povo. Maquiavel foi um jaco-
as instâncias da sociabilidade e do domínio político de classe, confor- bino antes do tempo, mas faltou-lhe o respaldo de uma massa popu-
mando assim o bloco histórico capitalista e o Estado burguês. lar composta ao modo de vontade coletiva nacional-popular. A efetiva

reforma moral e mtelectual que deu origem ao mundo burguês foi o Ilu-
mmismo materializado na Revolução Francesa e vinculado à filosofia
O programa da reforma mora! e Ínfelecfua! clássica alemã. Assim, só na virada do século XVIII ao século XDC é que
a equação que originou o mundo burguês se configurou de modo pleno.
Constatada a força da hegemonia burguesa, a sua capacidade de Nas palavras de Gramsci:
reprodução, por meio da educação que produzia o conformismo
social, mas também produzia uma massa de intelectuais orgânicos a A reforma luterana e o calvinismo criaram uma cultura popular, e
ordem, Gramsci se perguntava sobre como transformar o mundo dos só em períodos sucessivos uma cultura superior; os reformadores italia-
homens, como vislumbrar a emancipação humana e alcançar a unidade nos foram estéreis de grandes sucessos históricos. A filosofia moderna

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GRAMSCi E A EMANCIPAÇÃO DO SUBALTERNO

um elemento complexo de sociedade no qual já tenha início a concretização


contínua o Renascimento e a Reforma na sua fase superior, mas com os
de uma vontade coletiva reconhecida e afirmada parcialmente na ação. Esse
métodos do Renascimento, sem a incubaçao popular da Reforma, a qual
organismo está já dado pdo desenvolvimento histórico e é o partido político,
criou as bases sólidas do Estado moderno nas nações protestantes, (ibidem,
aprimeira célula na qual se reassumem os germens de uma vontade coletiva
t.í,Q,4,§3,p.423)
que tendem a serem universais e totais, (ibidem, t.3, QJ3, §1, p.1558)

Essa reflexão sugere o perfil que deveria definir a reforma moral e


Gramsci parte de alguns pressupostos essenciais para a realização
intelectual voltada para a formação humana onnilateral que envolveria
da reforma morai e mtelectual que concretize o homem emancipado: a
todo o género humano. Um Renascimento capaz de criar um homem
espécie humana é fundamentahnente una e, portanto, todos são a um só
completo, sugerido naimagem de LeonardodaVmci,somado^umfiló^
tempo trabalhador e intelectual. A divisão social do trabalho e a divisão
sofotal qual a Reforma gerou ao modo da filosofia clássica alemã, que
entre dirigentes e dirigidos é um fenómeno histórico (e assim a própria
em Hegel encontrou o seu apogeu. Isso tudo consagrado por grande
política enquanto prática de dominação); que pode e deve ser supe-
base de massa, tal como nos albores da ïleforma.
rado. O problema, no entanto^ do ponto de vista histórico e político, é
A aiosofia da práxis criticou e superou esse conjunto social e cultu-
de grandíssima dimensão^ pois se trata de enfrentar e superar a alta cul-
ra/ que deu vida ao mundo burguês e a sua hegemonia. Deveria ser, pM-
fura burguesa e, paralelamente, promover um imenso progresso intelec-
tanto, a Blosofia da práxis o instrumento fundamental para a realização
tual de massas. Seguindo o raciocínio de Rosa Luxemburg e de Sorel,
da reforma moral e intelectual que superaria a hegemonia burguesa e o
Gramsci tenta explicar a derrota da revolução socialista e sugere que
capitalismo, o cindido mundo dos homens. A fílosofm da praxis é fflo-
sofia que se faz política, mas que também se faz pedagogia e daí econo-
o marxismo unha duas tarefas: combater as ideologias modernas na suas
mia^Uma reforma moral e intelectual com essas proporções demanda
formas mais refinadas e esdarecer as massas populares^ cuja cultura era
uma ação contínua, política e pedagógica, na totaüdade da vida social.
medieval. Essa segunda tarefa que era fundamental, absorveu todas as for-
A questão de fundo se coloca, enfim, na relação entre intelectuais e
cãs, não só quantitativamente, mas qualitativamente"; por razões "didá-
massas. O Renascimento italiano não foi capaz de alcançar as massas, a
ticas o marxismo se confundiu com uma forma de cultura um pouco
Reforma protestante alcançou as massas, mas só gerou uma alta cultura
superior à mentalidade popular, mas inadequada para combater as outras
muito tempo depois, que então, porém, apareceu dissociada da cultura
ideologias das classes cultas, enquanto o marxismo originário era exata-
popular. 0-vínculo entre intelectuais e massas se expressou somente no
mente a superação da mais alta manifestação cultural do seu tempo, a filo-
^cobinismo francês, no momento mais radical da revolução burgue^
sofia clássica alemã, (ibidem, tl, Q,l, $3, p.422-3)
Agora, porém, tratava-se de realizar uma reforma moral eintelectual

que superasse o mundo burguês, para o que era necessário agir política
Assim, não fora possível realizar um Renascimento e uma Reforma
e pedagogicamente. A reforma moral e intelectual em ato sena o pnn-
ao mesmo tempo. Num primeiro momento o fato a ser reconhecido era
cipe moderno, um organismo totalmnte que aprende da açao espontà-

nea das massas, mas as educa e organiza ao mesmo tempo, oferecendo


que, difundido entre setores populares/ havia um marxismo vulgar; que
mal superava o senso comum - tal como a Reforma nas suas origens -,
uma direção consciente. O partido revolucionário é aquele que forja e
e havia o marxismo dos intelectuais e dirigentes, por sua vez submetido
organiza os intelectuais gestados pela luta operária e que na sua açao
a várias intrusões advindas da alta culh-ira burguesa,, tais como eram o
política e pedagógica desenvolve a reforma moral e intelectual. Assim,
neokantismo e o positivismo.
o príncipe moderno deve ser

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GRAMSCI E A EMANCIPAÇÃO DO SUBALTERNO

e a escola clássica para a formação dos intelectuais das classes dirigentes.


Na verdade, para Gramsd o florescimento cultural de massa ocorre-
A reforma fascista da escola preservou a organização da escola voltada
ria somente quando o moderno príncipe tivesse se alargado tanto que
para a reprodução da força de trabalho destinada ao capital e para a for-
tivesse antecipado uma nova hegemonia e assumisse o poder. O Estado
mação dos intelechiais das classes dominantes. Assim, a escola preserva
operário, que é um Estado de transição, seria expressão de um novo
o seu papel de instituição reprodutora da hegemonia burguesa. Foram
bloco histórico, conduzido pela liegemonia do trabalho e que criaria
muitas as críticas feitas por Gramsci a esse padrão escolar.
uma nova cultura, uma nova organização da cultura e o progresso inte-
Mas, a menos que a escola seja inteiramente autónoma frente ao
lectual de massas, envolto pela fílosofm da práxis e tendo por objetivo
Estado e ao capital, não pode escapar ao seu papel de reprodução
a criação do homem onnilateral e plenamente emancipado. A supera-
da hegemonia burguesa. Ou então que a escola seja uma instituição
cão da divisão social do trabalho e de toda hierarquia seria a condição
pública de um novo Estado voltado contra o capital e a divisão social
mesma para se alcançar o Estado ético político. Por Estado ético polí-
do trabalho. Gramsci se pergunta: "Pode ocorrer uma reforma cultural,
tico deve se entender o comunismo, a forma da sociabilidade humana
ou seja, a elevação civil das camadas deprimidas da sociedade, sem uma
na qual predomina a ética e a pura administração das coisas, na qual não
precedente reforma económica e uma mutação nas posições sociais e
há mais Estado político como. expressão da sociabilidade composta por
no mundo económico?" (ibidem, t.3j Ç^l3, §1, p.l56l).
dominantes e dominados.
Quando Gramsci propõe um esquema de escola unitária ou de
escola integral, na verdade trata-se de um esboço de organização escolar

Escola e Estado de transição para um possível período de transição que viesse a suceder o fascismo.
A escola unitária ou de cultura geral deve preparar os jovens para a vida
social e por isso deve ser efetivamente pública, com despesas a cargo
Elemento essencialpara areforma moral e intelectual, ou seja, para a
do Estado, incluindo vasta infraestrutura. Nos anos iniciais de estudo
revolução socialista, era a difasão da filosofia dapráxis como nova visão
deveriam ser adquiridas "as primeiras noções do Estado e da sociedade,
de mundo que superasse as excrescências religiosas e também a visão
como elementos primordiais de uma nova concepção de mundo contra
ideológica das ciências desenvolvidas em favor da acumulação do capi-
as noções dadas pêlos diversos ambientes sociais tradicionais, ou seja,
tal. Ainda que a educação preceda e envolva a escola, a instituição peda-
das concepções que podem ser chamadas de folclóricas" (ibidem, t.3,
gógica, no'Estado de transição, deve ocupar uma posição de enorme
QJ2,§l,p.l535).
destaque, na medida em que está vinculada também com o problema
No desenrolar da escola unitária os valores da autodisciplma intelec-
dos intelectuais e da organização da nova cultura, ou seja, da construção
tual e da autonomia moral seriam desenvolvidos num ambiente de vida
e consolidação da hegemonia operária.
coÍetiva e ativa. O fundamental é que
Nas suas reflexões, Gramsci considera várias experiências pedagógi-
cãs que se desenvolviam em diversos países europeus, como a Alema-
o advento da escola unitária significa o início de novas relações entre tra-
nha ou a Inglaterra, mas o efetivo contraponto é feito entre a organiïaçao
baiïio intelectual e trabalho industrial não só na escola, mas em toda a vida
escolar da Itália e a experiência soviética, sem deixar de lado o amerí-
social. O princípio unitário se reflefirá por isso em todos os organismos
canismo, que se destaca exatamente por produzir mtelectuais vincula-
de cultura, transformando-os e dando-lhes um novo conteúdo, (ibidem,
dos à notável base industrial dos Estados Unidos. A experiência italiana
p.1538)
tradicional dedicava a escola elementar para os futuros teabalhadores
manuais, a escola média para a formação técnica da pequena burguesia

148 149
GRAMSCi E A EMANCfPAÇÀO 00 SU6AITERNO

Para Gramsci a unificação das organizações culturais existentes


na Itália semria para integrar o trabalho académico com a vida cole-
tiva, ao mundo da produção e do trabalho. Ora, o princípio grams- 7
GRAMSCI E O
dano de que todos os homens são trabalhadores e todos os homens
são também intelectuais indica o horizonte da emancipação humana,
do desenvolvimento da personalidade na superação da separação entre TRABALHO COMO
ü-abaUio manual e intelectual. A conquista plena das forças materiais
pelo homem coletivo exige essa superação. FUNDAMENTO
Esse processo longo de superação da cisão entre trabalhador inte-
lectual e trabalhador manual deve ocorrer a partir já da escola,, mas se
DA HEGEMONIA
desdobrar no processo produtivo e na organização do trabalho. A auto-
disciplina intelectual, a autonomia morais a atívidade criativa devem
facilitar a organização da produção em moldes científícos e sob con-
trole operário. Ttabaïho e cultura se complementam na escola e se tor-

nam uma só.


A escola e a vida social tendem a se confundir na criação de uma
nova sociabilidade humana, emancipada^ na qual se difunde a filoso-
Hegemonia e sociedade cfvíi: conceitos difusos
fia da práxis como novo senso comum. Desse modo é que a hegemo-

nia operária se constrói e poderá assimilar o americanismo, não mais


Acategoriadahegemoniaéuma das chaves de entradano compro
como forma de exploração capitalista, mas como um equihbrio que
umverso queGramsci constrói nos seus Caderno, do circere, ainda gue
"poderá tornar-se interior se for proposto pelo próprio trabalhador e
não seja a única. Na verdade/ a preocupação maior com essa categoria
não imposto de fora, proposto por uma nova forma de sociedade, com
só se mostrou mai. acesa no, anos 1970, quando se antecipava a estraté-
meios apropriados e originais" (ibidem, t3.0^2,2, §U,p.2l66).
gia eurocomunísta" de disputa do Estado por meio da democracia bur-
guesa e se preparava a chamada edição crítica dos Cadernos do cárcere.
^ Na mesma ocasião, muito se discutiu sobre o conceito de sociedade

acarceráriadorevolucionáriosardo, problema quenão


ser dissociado do anterior e até por i,,o é condA.rado ^~^e ^
"ativa.AleÍturaqueveioapreponderareacriar certo senso comumfoi
proposta por Norberto Bobbio, ainda nos anos 1960, que via a socie-'
;cml emGramsci/ como elemento das supraestmturas" (BobÍuo,
1969,p.75-100).1 A — ^^^

' lTaçm dLNOAerto B°bl"° n° ">c°ntro cientlflc° °r8^° T* latoto


r é um marco decisivo nesse debate.

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