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Pe João Colombo

Reflexão sobre o Evangelho Dominical - XXIV e Último Domingo depois de


Pentecostes - Parte I
24º e Último Domingo depois de Pentecostes

De: "Pensamentos sôbre os Evangelhos e sôbre as festas do Senhor e dos Santos" - Pe. João Colombo. Nihil obstat:
Pe. João Roalta Imprimatur: Mons. J. Lafayette

Título original: Pensieri sui Vangeli e sulle Feste del Signore e dei Santi" Milão, Itália.

Escrito entre 1927-1938. Primeira edição em 1939.

Evangelho: Mt. XXIV, 13-35.

1. A JUSTIÇA FINAL DE CRISTO

Três momentos podemos considerar na justiça final de Cristo, como a prediz o Evangelho.

Primeiramente, a crise suprema do mundo. As forças que regem a estrutura do universo dispersar-se-ão; os céus
enrolar-se-ão como tendas, o sol e a lua se escurecerão, as estrelas cairão como folhas de outono.

Depois a súbita aparição do Juíz. No céu vazio, Jesus e a sua cruz fulgurante. Aos revérberos dessa luz ultramundana,
toda alma tornar-se-á transparente mais do que o cristal batido pelo sol, de modo que todas as manchas da
consciência, mesmo as mais pequenas serão visibilíssimas.

O terceiro momento é a confusão da alma culpada. Muda porque sem desculpas, sozinha porque sem nenhum
protetor, ela chorará; e ao seu pranto fará coro o vasto soluçar das tribos dos pecadores.

A desilusão de um modo que desaparece.

O juízo exatíssimo do Juíz divino.

A confusão da alma sem desculpas e sem proteção.

São três pensamentos que valerá a pena meditar muito seriamente.

1- A desilusão de um mundo que desaparece.

“O céu e a terra passarão...”; desgraçados todos aqueles que colocaram no mundo o seu coração e o seu tesouro.

Servir-me-ei de alguns símiles de Santo Agostinho, adaptando-os um pouco.

a) Um arquiteto habilíssimo passou, um dia, por diante de uma suntuosa vivenda construída à margem de um riacho,
e disse ao proprietário: “Olha que ela esta para ruir; corroídos pela água, os alicerces agora estão cedendo.” O
inquilino meneou os ombros em face dele, à noite reuniu ainda os amigos para o costumeiro festim, e depois foi
para a cama, dormir tranquilamente. Estava no primeiro e profundo sono, quando a casa ruiu, esmagando-o debaixo
dela.

Pior para ele, direis, porque tinha sido avisado. Ora bem: também nós somos avisados. O construtor do mundo diz-
nos que este mundo há-de ruir, e que o rio do tempo, correndo sem parar corrói-lhe os fundamentos. E não somos
imensamente estultos se em vez de desentulharmos, de começarmos a pôr alhures as nossas esperanças, os nossos
desejos, os nossos bens, os colocamos e fixamos neste mundo, como se ele devesse durar sempre, como se
devêssemos ter nele uma morada perpétua?

Depois vem a morte, e tudo rui. Depois vem o fim do mundo, e tudo desaba. Que desilusão amaríssima!

b) Um camponês punha o trigo sobre a terra nua, num lugar úmido e sem ar. Veio um amigo, que conhecia bem a
natureza do trigo e da terra, e fez-lhe ver a sua ignorância, dizendo-lhe: “Que fizeste? pôr o trigo sobre a terra nua,
num lugar úmido? No inverno, quando as longas chuvas amolecem tudo, este grão apodrecerá, e o teu trabalho se
irá em fumo.”

O camponês perguntou: “ Que devo fazer?”

O amigo respondeu-lhe: “ Antes que as chuvas comecem,transporta-o para cima.”

O outro pensou um pouco, e , depois, parecendo-lhe muito grande esse trabalho, não o fez. Vieram as chuvas: ele foi
ver o trigo, e, em vez de trigo, viu um monte de matéria em fermentação.

Ah! - direis – nós não agiríamos assim! Dizeis bem, porque sois pessoas sensatas; mas sede-o em tudo, inclusive nas
coisas mais importantes. Sois prontos em escutar o conselho de um amigo no negócio do trigo; e porque haveis de
desprezar o conselho de Jesus, o amigo divino, acerca do negócio de vossa alma?

Ele conhece a natureza do vosso coração, que é feito para o céu; conhece a natureza da terra, que é feita para ser
corrompida e destruída, e vos avisa: “Transporta ao alto o teu coração, porque tudo o que esta sobre a terra
apodrecerá.”

Tendes receio de por sobre a terra nua um pouco de trigo, e, depois, sobre a terra nua deixareis apodrecer e destruir
o vosso coração? Colocai no alto, nos bens invisíveis e eternos, o vosso coração, para não serdes iludidos por este
mundo que desaparece.

c)Numa barca em que a água penetrava por todos os lados, um homem clamava por auxílio. Passou um navio, e do
alto lhe deixaram cair uma corda de salvamento. O náufrago, que apertava cupidamente a caixinha dos seus
tesouros, empenhava em agarrar a corda, mas não o conseguia, por ter as mãos impedidas. Do navio alguém lhe
gritava: “Larga o que seguras, toma o que eu te dou. Se não abandonares uma coisa, não pode receber a outra.”

Segurar juntamente caixinha e corda ele não podia; abandonar a caixinha ele não queria; de repente a barca ficou
cheia de água, e o homem afundou com a caixinha.

Nós, que vivemos neste mundo, estamos numa barca na qual penetra água por todos os lados e fatalmente vai a
pique. Nosso Senhor acorreu para nos salvar, e deixa cair até nós a corda da sua redenção; mas, para pegá-la, é
preciso desprendermos as nossas mãos e o nosso coração das coisas e dos prazeres sensuais e mundanos. A mão, se
segura um objeto , não pode segurar outro. Quem ama o mundo não pode amar a Deus: tem a mão empenhada. E
quanto, segurando cupidamente sobre o coração a sua avareza, ou seu orgulho, ou a sua paixão impura, irão a pique
com este mundo!

2- O juízo exatíssimo do Juíz.

Desaparecido o mundo e as suas irrisadas ilusões, não mais restará senão o bem e o mal espalhado em todos os dias
da nossa vida, do primeiro alvorecer da razão e da responsabilidade até o momento extremo da morte. Disto
seremos julgados.

a) Seremos julgados do mal:

-do mal que fizemos, com as obras, com as palavras, com as ações;

-do mal que fizemos os outros fazerem; e, aqui, pensem nisso os que, sem necessidade, fazem os outros trabalhar
em dia de festa, fazem os outros comer carne nos dias proibidos, impedem de qualquer modo os seus dependentes
de cumprir os seus deveres religiosos; pensem nisso também os que fazem blasfemar, os que, pela sua conduta,
fazem falar mal da religião, os que, com seu modo de vestir e de se comportar, induzem os que os veem a
pensamentos e desejos impuros; pensem nisso todos aqueles que tem dado escândalo;

-do mal que deixamos os outros fazerem, quando podíamos impedi-lo: portanto, o mal que muitos pais, com maior
vigilância, poderiam impedir em seus filhos; que os irmãos, com maior caridade, poderiam impedir em seus irmãos;
que tantos cristãos, com um pouco de ação católica, poderiam impedir em seu próximo; que eu, pobre padre e
pastor de almas, poderia impedir na minha paróquia se tivesse mais zelo. Senhor nosso e nosso Juíz Jesus, tende
misericórdia!
b) Seremos julgados também do bem:

- do bem que não fizemos e que podíamos fazer: por exemplo, do rosário ou terço que todos podem rezar toda noite
em família, e que não rezam; das Missas que se podiam ouvir, das esmolas que se podiam fazer, dos auxílios às boas
obras e ao próximo necessitado que se podiam prestar!

- Do bem que fizemos mal: todas as vezes que na igreja, durante os sagrados ritos, estivemos com os olhares
vagando sobre as pessoas, com a mente anuviada de pensamentos inúteis e quiçá pecaminosos; todas as vezes que
demos esmola ou trabalhamos para ser vistos, estimados, recompensados pelos homens;

- finalmente, do bem que fizemos bem: este é o ouro puro, só com o qual se pode comprar a vida eterna.

3- A confusão da alma culpada.

a) “Quid sum miser tunc dicturus?” Que poderá dizer, que desculpas poderá apresentar a alma culpada?

Talvez diga; “A tua lei,ó Senhor, era muito difícil, não se podia observá-la.” Não, ela não poderá dize-lo, do contrário
em torno de Cristo se levantaria para protestar uma turba infinita de homens, de mulheres, de jovens e de meninas.
Eles souberam praticá-la, e, praticando-a, sentiram que o jugo do Senhor é leve e suave.

Talvez ela diga: “A tua lei, ó Senhor, requeria muito tempo, e eu tinha afazeres, transações, negócios desde o
amanhecer até alta noite.” Não, não poderá dize-lo, do contrário em torno de Cristo se levantaria outra turba de
almas que trabalharam ainda mais do que ela, sem descurarem a salvação eterna; e,depois, a razão requeria que se
abandonasse mesmo algum negócio material, para não perder o único negócio necessário, que é o da alma.

Talvez ela diga: “Eu tinha pouca saúde, tinha muitas preocupações financeiras, a casa pequena, não tinha lugar para
outra caminha...” Não, não o dirá. Sentirá dentro de si que tudo isso eram desculpas para esconder o medo dos
sacrifícios, o amor das comodidades, o desejo de ter liberdade para gozar a vida; sentirá dentro de si que, se tivesse
amado o Senhor, teria achado a coragem e a força necessária para vencer todas as dificuldades.

b) “Quem patronus rogaturus?” A quem chamará ela em socorro?

Porventura o anjo da guarda? Não; a alma, nos dias da vida terrena, nunca lhe quis escutar o pranto silencioso; e
agora ele não pode, nem lhe quer ouvir a sua angústia desesperada.

Acaso algum santo protetor? Os santos, quem não os invoca quando vivo ignora-lhes os nomes quando morto.
Quem não os imita na mortificação nunca será companheiro deles na alegria.

Acaso acudirá Nossa Senhora? Não; essa é a mãe dos pecadores, mas não mãe dos condenados. Depois de
pronunciada a condenação por seu Divino Filho, ela se conforma com a justa sentença. E, se Nossa Senhora não vem,
ela que é mãe de misericórdia e de esperança, é sinal de que toda misericórdia e toda esperança morreu.

Conclusão.

No Horto das Oliveiras, quando Jesus foi ao encontro do bando que vinha para o prender, disse simplesmente: “Aqui
estou, sou eu!”

Eles recuaram, e caíram como desmaiados de susto.

Todavia, aqueles eram os dias da sua mansidão, os dias do cordeiro que emudece enquanto o tosquiam, que não
solta um balido enquanto o conduzem ao matadouro. Que será então no dia da sua justiça, no dia do leão que ruge e
agarra?

“Aqui estou, sou eu.”

Sou esse Jesus a quem blasfemaste, a quem beijaste como traidor, a quem ultrajaste com os escarros e as pancadas,
a quem puseste na cruz com os cravos dos teus pecados.

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Reflexão sobre o Evangelho Dominical - XXIV e Último Domingo depois de
Pentecostes - Parte Final
24º e Último Domingo depois de Pentecostes

De: "Pensamentos sôbre os Evangelhos e sôbre as festas do Senhor e dos Santos" - Pe. João Colombo. Nihil obstat:
Pe. João Roalta - Imprimatur: Mons. J. Lafayette

Título original: "Pensieri sui Vangeli e sulle Feste del Signore e dei Santi" Milão, Itália.
Escrito entre 1927-1938. Primeira edição em 1939.

Evangelho: Mt. XXIV, 13-35.

5- O sinal do Filho do homem.

Surgirão falsos profetas, e farão prodígios para enganar até mesmo os eleitos, se possível fosse. E dirão: “Eis que Ele
vem do deserto, eis que sai do interior da casa”. Não lhes deis ouvido, porque Jesus Cristo voltará imprevisto como o
relâmpago que sai do oriente para reluzir até o ocidente.

Então, precedido pelos toques das trombetas angélicas, aparecerá fulgurante e grandíssimo, no céu desfeito, o sinal
do Filho do homem: a Cruz. E, em baixo, batendo no peito, chorarão todas as tribos da terra.

Neste mundo há muita gente que não quer ver a Cruz, que tem medo do Crucificado; há gente que o odeia, que o
blasfema. Que experimentarão estes quando virem o Crucificado aparecer-lhes por sobre a cabeça, para julga-los?
Baterão no peito e chorarão.

Plangent omnes tribus terra. Melhor é então familiarizar-se com este sinal do Filho do homem, que será também o
sinal do nosso juízo. Portanto, aprendamos a amar na terra o Crucificado, aprendamos a olhar para Ele em todos os
momentos da nossa vida, mas especialmente na hora da tentação, na hora da tribulação, na hora da morte.

1- Na hora da tentação.

Morrera o rei dos Cimérios, e os seus três filhos estavam em litígio pela sucessão paterna. E, visto que havia ameaça
de aquilo acabar no sangue, interveio Ariófanes, o rei dos Trácios, para fazer de árbitro. Este assim compôs a
questão: mandou exumar o cadáver do pai, depois mandou-o atar a uma árvore. Finalmente, disse: “O reino é do
filho que, com o dardo, ferir o coração do pai morto”.

E começou o alvejar nefasto e crudelíssimo. O primeiro, com o dardo, transpassou-lhe a garganta. O segundo feriu-
lhe o peito, mas não tocou o coração. O terceiro empunhou o arco, colocou a seta, mas, quando levantou os olhos
para seu pai morto, a fim de mirar o alvo, com um ímpeto fulmíneo quebrou o arco e a flecha, gritando: “Não
posso!”

Então Ariófanes sentenciou: “A ti pertence o reino, porque a piedade te mostrou verdadeiro filho, e a virtude te
torna digno do mando”. (DIODORO SICULO, Livro II).

Essa árvore a que esta atado um Rei morto é a Cruz, o reino do Filho do homem do qual pende Cristo morto. Esses
três filhos são os homens que, com os seus pecados, investem contra o Deus morto pela salvação. Todo pecado é
uma flecha.

Oh! se nos momentos de tentação a imagem do Crucificado nos estivesse diante dos olhos! Oh! Se quando estamos
para sair de casa e ir ofender a Deus, ou quando torvos desejos nos arrastam no turbilhão, ou ainda, quando está
para nos escapar da boca uma blasfêmia, nós também, como o terceiro filho do rei dos Cimérios,levantássemos o
olhar para Jesus na cruz, e pesássemos que Coração nós alvejamos, certamente quebraríamos arco e flecha,
clamando também: “Não posso!”

Olhemos, pois, para o Crucificado, na tentação. Olha para o Crucificado, ó jovem, tu que não queres ir à congregação
nem te confessares; tu que te enfureces quando tua mãe te impele para a igreja: olha como Ele sofre!
Olha para o Crucificado, também tu, ó menina: é o teu Deus despojado e chagado em todo o corpo. Depois olha a
tua moda . Ele morreu para cancelar o pecado, e tu, o teu modo de vestir, vives para incitar ao pecado?

Aqueles que retém bens ou dinheiro de outrem, olhem também para Ele e se perguntem; ‘Por que é que Ele tem as
mãos abertas e perfuradas pelos cravos?’

Aqueles que no seu coração alimentam uma relação ilícita, ou uma paixão escura, ou um rancor oculto, olhem para
aquele Coração rasgado. Por que é que ele esta rasgado? Se, depois de olharmos para o Sinal do Filho do Homem,
ainda tivermos a coragem de pecar, então será mister dizer que temos o coração mais duro do que a montanha, e
mais inflamado do que o sol. Porque a montana o Calvário se fendeu, e o sol, naquela dolorosa sexta-feira, se
escureceu, diante da Cruz de Jesus.

2- Na hora da tribulação.

Neste mundo, cada dia é um espinho; cada homem tem uma pena; cada família é um calvário.

Ó irmão, olhai e olhai:

todos trazem a cruz neste mundo.

E é preciso carregá-la. Disse-o o Senhor: “Quem quiser vir após mim, ponha nas costas a sua cruz e me siga”. E às
vezes a cruz é pesada.

Em muitas famílias encontram-se casos verdadeiramente lamentáveis. A morte que, um por vez, leva os membros da
família mais fortes e mais promissores; a discórdia, que não deixa respirar um momento; a miséria, com o seu
aguilhão que perturba o sono; a calúnia, que traz a desonra sobre a família e sobre o nome; os filhos que, crescidos,
não dão consolação, mas desespero.

Vós que passais, vinde a Ele que fica.

Vós que sofreis, vinde a Ele que cura.

Vós que tremeis, vinde a Ele que sorri.

Diz-se: ‘Mas aquele tal não sofre; mas para aquela família o sol lhe raia em casa; lá se folga beatamente... Eu, ao
contrário...”

Antes de tudo, não é verdade que os outros estejam sem cruz; quando esta não se vê, é porque eles a carregam no
coração. E, depois, em vez de olharmos para os homens, sejamos mais cristãos, e olhemos para Cristo; e digamos:
“Ele, que era Deus, também sofreu; como posso pretender gozar, eu que sou pecador?”

Quanto mais a gente sofre, tanto mais se assemelha a Jesus. Nós mesmos o reconhecemos quando, encontrando
uma pessoa desprezada e angustiada, dizemos uma palavra que pode ser irreverente e pode ser sublíme se dita com
fé: “É um pobre Cristo!”

Uma noite em que S. Pedro de Verona não podia dormir por causa dos seus desgostos (ele era santo, e o tinham
como um desonesto), não podendo mais ele se lançou por terra diante de um Crucifixo e soluçou: “Jesus, tu bem
sabes que eu sou puro; e por que me deixas atormentar assim?”

Uma luz nova tremeu naquela cela, sentiu-se ali um perfume de flores inexistentes na terra; os lábios de Cristo
moveram-se e disseram: “Pedro, tu sabes que os homens eu não fiz senão bem; por que então eles me puseram na
cruz?” S. Pedro compreendeu e levou avante a sua cruz sem mais um gemido.

Eis ai, ó boa gente, o remédio para os vossos males: o crucifixo. Mas todos vós tendes em casa o vosso Crucifixo?
Seria uma vergonha ser cristão sem ter o sinal de Cristo. E vós, mães, quando vossas filhas casarem, ponde-lhes no
dote o Crucifixo, e que Ele seja grande, e que ele seja belo!

Com o Crucifixo diante dos olhos, elas saberão amar, compadecer, trabalhar. Saberão aceitar de Deus todos os filhos
que a Ele aprouver conceder-lhes, saberão educá-los bem.

3- Na hora da morte.
E, se alguém dissesse: “Eu não quero o Crucifixo”, pode fazê-lo. Como o fizeram quando o Sinal do Filho do homem
foi arrancado das escolas, dos tribunais, e até dos hospitais. Lembre-se, porém, de que repele, não as dores, mas o
conforto para as suportar.

Repilam também o Crucifixo: mas se lembrem de que está fixado um dia também para eles. Eles se sentirão mal,
meter-se-ão na cama sem saberem que dali não se levantarão mais.

Quando a morte, com a sua sombra longa estiver diante deles, em que poderão eles esperar? Não na sua família.
Não nos bens. Não no dinheiro. O mundo todo será como uma nau que toma o alto mar e os deixa nus na praia do
leito. Naqueles momentos só uma coisa adianta, uma só: o Crucifixo.

Mas, se eles não o quiseram, com que mãos o estreitarão, com que olhos o olharão?

Oh! depois da morte, quando do oriente ao ocidente aparecer o Sinal do Filho do homem, olhará para eles o
Crucificado; mas com olhos terríveis, e os amaldiçoará com o seu sangue, por eles jorrado inutilmente das suas
feridas abertas.

Mas que assim não seja.

Morria aos vinte anos, uma tuberculosa. Tinha medo de morrer, porque lhe parecia ter dissipado a sua breve vida,
sem nada ter feito. “Estou com as mãos vazias... - dizia ela – não quero morrer assim”. Em vão procuravam consolá-
la, acalmá-la, falar-lhe de Deus, que é bom, que as vezes se contenta mesmo com um simples desejo. A menina
escutava, mas depois, de vez em quando,se sacudia toda, gritando: “Minhas mãos como estão vazias!”

O sacerdote que a assistia pegou do Crucifixo e lhe pôs nas mãos. E disse: “Olha como agora tuas mãos estão
cheias!” Ela viu, sorriu, e suspirou: “Doce...” Depois fechou os olhos em paz, e para sempre.

Conclusão.

No meio do deserto o povo de Israel findava de um modo horrível. Para cima da terra, para fora dos bosques tinham
saído numerosíssimas serpentes de fogo: quem por elas era mordido, logo ardia em febre, e, em espasmos, morria.
Jovens na flor dos anos, meninas sonhando com a vida, adultos, todos chagados pelos répteis venenosos, cada dia
caíam urrando de dor. Todo o povo, horrorizado, começou a alçar gritos até ao céu: !Misericórdia!”

E Deus teve misericórdia ainda por aquela vez. Chamou Moisés e lhe disse: “Fazei uma serpente de bronze, e fixa-a
numa comprida haste de pau, e põe-na como sinal no meio da gente. Quem olhar para ela terá vida”.

Quando os pobres envenenados, que já sentiam nos ossos o frio da agonia, volviam as pupilas ofuscadas para o sinal
milagroso, logo sentiam palpitar-lhes novamente a vida no sangue entorpecido. (Núm., XXI, 9).

Também nós, ó cristãos, como os hebreus, estamos em caminho pelo deserto desta vida. Também nós, como aquele
povo, pecamos, e por isto somos atormentados. Atormentados pela morte, pelas tribulações e pelas tentações, que,
como serpentes de fogo, desembocam, de todas as partes, na nossa alma, para nos envenenar. E não teremos nós
um sinal de salvação?

Temo-lo: o Sinal do Filho do homem.

“Assim como Moisés levantou no deserto a serpente de bronze, - dizia Jesus- assim também é necessário que eu seja
levantado na cruz, a fim de que, todo aquele que crê em mim tenha a vida eterna e não pereça”. (João, III, 14-15).

Olhemos, pois, para o Crucifixo em todos os momentos da nossa vida: na hora da tentação, na hora da tribulação, na
hora da morte. E, quando, extinto o sol, escurecida a lua, caídas as estrelas, as duas travessas da cruz aparecerem do
oriente ao ocidente, nós não choraremos como todas as tribos da terra. Ou, melhor, choraremos, sim; mas serão
lágrimas de alegria irrefreável, porque estaremos para ouvir a palavra mais bela: “Vinde, ó benditos! Abro-vos o
reino de meu Pai”.

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Reflexão sobre o Evangelho Dominical - I Domingo do Advento - Parte 1 de 6
1º Domingo do Advento

De: "Pensamentos sôbre os Evangelhos e sôbre as festas do Senhor e dos Santos" - Pe. João Colombo. Nihil obstat:
Pe. João Roalta - Imprimatur: Mons. J. Lafayette

Título original: "Pensieri sui Vangeli e sulle Feste del Signore e dei Santi" Milão, Itália.

Escrito entre 1927-1938. Primeira edição em 1939.

Lc. XXI, 25-33.

I. O JUÍZO UNIVERSAL

Para além dos séculos, Deus pôs um sinal ao qual todos os caminhos deverão chegar. Este sinal é a sua cruz, que
aparecerá, no fim do mundo, no céu vazio, e fulgurará terrivelmente sobre a cabeça de todos os homens reunidos de
todas as partes e prostrados sobre a terra nua. Será esse o dia mais tremendo. Dies irae dies illa!

Na manhã de 14 de setembro do ano 258, no Campo Sextio, molhado ainda do orvalho, era decapitado o bispo de
Cartago. Os inimigos de Cristo haviam-no prendido e trazido perante o procônsul Galério.

Galério: “És tu Tascio Cipriano?”

Cipriano: “ Sou eu mesmo”.

Galério: “Que Tascio Cipriano seja justiçado à espada”.

Cipriano: “Deo gratias”.

Mas, quando os soldados se prepararam para executar a sentença, quando os fiéis estenderam paninhos em torno
para recolher o seu sangue que seria derramado, o santo teve um frêmito e, cobrindo os olhos com as mãos, disse:
“Vae mihi cum ad judicium venero!” Foi um instante: depois estendeu a cabeça.

Se o pensamento do juízo de Deus fazia tremer os mártires, que será de nós? Que faremos nós e que diremos diante
do Juíz divino? Pensemos em que aquele será:

dia da grande manifestação,

dia da grande acusação.

1- Manifestação sem véus.

Representemo-nos a nossa alma perante aquele tribunal supremo, circundada pelos anjos e pelos homens: os justos
e os pecadores, os parentes e os conhecidos, os superiores e os inferiores, os amigos e os inimigos. Os olhos de
todos estão sobre nós. Sobre nós estão os olhos de Deus.

Entrementes se refará a história da nossa vida, desde os dias remotos e esquecidos da infância até o da nossa morte.
Então aparecerá todo o mal que encobertamos fizemos, e todo o bem que preguiçosamente não quisemos fazer.

a) Todo o mal que encobertamente fizemos.

Neste mundo nós acreditamos enganar os olhos do esposo, a vigilância dos pais, a boa fé talvez de um padre a quem
arrancamos a absolvição. Trabalho perdido: lá todos saberão de tudo.

Passávamos por amigo fiel, sincero, generoso: ao contrário, verão que eramos desleais, interesseiros sem
consciência.

Passávamos como sendo pessoa justa que se contenta com o que é seu: ao contrário, conhecer-se-ão as fraudes dos
nossos negócios, e todos poderão contar o dinheiro e as coisas extorquidas aos outros.

Passávamos como um homem íntegro e honesto; ao invés, aparecerão as nossas infâmias cometidas na sombra e no
segredo.
E não só o mal que fizemos fora de nós, mas também o mal que ficou dentro de nós, no recôndito da alma, será
manifestado.

Tantos desejos vergonhosos que nas horas de ócio enchiam nossa mente; tantos instintos de inveja e de rancor que
dissimulamos, mas que no entanto eram o motivo profundo das nossas malignas vingancinhas; tantos projetos de
pecados que só não executamos por ter faltado a ocasião: veremos estas iniquidades saltadas do nosso coração, sem
o sabermos, quase como uma emboscada. Ante a história secreta do nosso coração sentiremos horror de nós
mesmos.

Ao exame do mal que fizemos seguir-se-á o do bem que, podendo, não quisemos fazer.

b) Todo o bem que podíamos fazer e que preguiçosamente não quisemos fazer.

Neste mundo é fácil esconder por trás de um comodo pretexto a nossa preguiça no descuido do bem, e temos a
ilusão de justificar-nos, dizendo: “Não me compete”, ou então “Não o consigo, não tenho os meios”. Porém lá em
cima ser-nos-ão relembradas e lançadas em rosto todas as culposas omissões de que nossa vida é tecida.

Todas as ocasiões de dar a Deus uma glória que não demos; todas as almas que poderíamos ter salvado com a
oração, com o conselho, com a esmola, e que não salvamos; todas ao Santas Comunhões, Missas, prédicas que
descuidamos por preguiça; todos os dias perdidos, sacrificados aos mexericos e aos prazeres do mundo, sem um
pensamento que os consagrassem a Deus e os tornasse bons para a eternidade.

Manifestação total, pois: do mal feito ora e dentro de nós, e d0o bem não feito.

c) E será uma manifestação sem véus.

Na terra, quando fomos capaz de um delito que nos precipitou na infâmia e no desprezo, fugimos do nosso país,
abandonamos a pátria e procuramos um lugar, noutro continente, onde ninguém nos conheça, onde ninguém saiba
nem venha a saber, onde ainda nos seja possível respirar e redimir-nos. Mas, no dia do grande juízo, em que ignotas
regiões poderemos refugiar-nos, se todas foram destruídas? Em que povos estrangeiros, se todo homem poderá ler-
nos na fronte a chaga e o destino?

Na terra, o homem desonrado pode esconder-se, pode intrometer-se na multidão dos indiferentes, e esperar que
com o tempo se aplaque o rumor das suas maldades. Mas isto não será possível na hora do juízo universal: não mais
confusão, porém separação. Do alto, como um grande pastor, com o seu cajado ardente Cristo separará os cordeiros
dos bodes: os bons dos maus. E será uma separação cruel: o amigo do amigo, o irmão do irmão, o pai do filho, um
tomado e outro abandonado. E será uma separação ignominiosa, por que todos nos verão e nos desprezarão.

Um nobre romano de nome Pison foi obrigado a comparecer no senado revestido com a túnica infame de réu. Mas,
quando, assim coberto de opróbrio, se achou perante os senadores que dos seus assentos olhavam para ele, mesmo
antes de comparecerem os juízes no tribunal, mesmo antes de levantarem os acusadores os rostos, ele não pode
mais aguentar-se de vergonha. Resistiu um pouco, empalideceu como alguém que desmaia: porém, depois,
subtamente puxou de um estilete que por acaso trazia sobre as vestes, e matou-se (DIONE CASSIO).

Oh! Se na hora do juízo de Deus os réprobos possuíssem um estilete! Oh! Se ao menos pudessem morrer outra vez,
morreria todos de vergonha!

2. Dia da grande acusação.

a) A acusação do demônio.

Santo Agostinho assegura-nos que o primeiro a levantar-se contra nós será o demônio. Logo ele, que agora, com
toda lisonja e dolo, nos atira na lama. Dirá ele: “durante a vida esta alma observou os mandamentos, Senhor, não da
tua, mas da minha lei. Dá-me, pois, que ela me pertence”.

Nós ousaremos balbuciar: “Senhor, seguir o demônio era menos trabalhoso, dura demais é a tua lei”.

“Não é verdade, não é verdade! -Insultar-nos-á o demônio- Eu te fazia trabalhar mesmo no Domingo, enquanto a
suave lei de Deus te teria concedido o repouso, e tu trabalhavas para mim, sem te lamentares, eu te fazia beber
mesmo quando já não tinhas sede: e tu, por mim, bebias ainda, até te sentires mal, até te bestializares na
embriaguez. Eu te mandava dançar: e tu, cansado dos seis dias de trabalho dançavas no Domingo para me fazeres
rir. Eu te sugeria um encontro equívoco: e tu, para me escutares, deixavas a tua família e, embora fizesse frio,
embora chovesse, te aguentavas esperar debaixo da água ou da neve, por horas e horas aquela pessoa. Eu te
impunha esbanjares no vício o suor da tua semana: e tu, que tinhas medo de dar de esmola um ceitil, consumias nas
reuniões e nos prazeres o sustento de tua família. Nada leve o meu jugo: mas preferiste-o!”

b) A acusação do Anjo.

Depois surgirá o nosso Anjo. Sim, o Anjo da Guarda, a quem a Piedade Suprema nos confiará, também ele se tornará
acusador. “Meu Senhor -dirá ele- o meu dever de iluminá-lo, guardá-lo, regê-lo, governá-lo, cumpri-o. Mas em vão.
Em vão, ó Senhor, iluminei-lhe a mente com bons pensamentos, a alma com as boas palavras de sacerdotes e de
amigos, o caminho com o bom exemplo de companheiros. Em vão eu o guardava, pois por sua teimosa vontade ele
ia ter com as pessoas más e aos lugares perigosos. As tempestades de remorsos que eu lhe suscitava no coração, ele
não quis render-se.”

c) A acusação dos homens.

Terminada a acusação do anjo mal e do anjo bom, surgirão os homens para nos acusar, será a voz dos inocentes
escandalizados pelas nossas palavras, pelo nosso exemplo, pelos nossos incitamentos: “justiça de Deus -clamarão
eles- vinga as nossas almas”.

Será a voz dos cúmplices dos nossos pecados: “justiça de Deus -gritarão eles- com ele o mal, com ele o inferno”.

Será, ó pais, a voz dos vossos filhos que não guardastes, que não educastes, que quiçá escandalizastes. “Senhor -
dirão eles- em casa aprendi a não rezar, a blasfemar, a ofender-te!”

Será, talvez, ó pais, a voz débil dos filhos que não quisestes, ou que não abandonastes antes de nascerem: “Senhor -
gemerão eles- nós também tínhamos direito à vida e não a tivemos!”

d) Acusação sem escusa.

Que escusa acharemos para opor a semelhante acusação? Acaso a nossa ignorância? Culpa nossa se nos não
instruímos: todo Domingo havia pregação e doutrina. Acaso a nossa fraqueza? Mas todos os santos saltarão a dizer:
“Também nós éramos de carne e sangue como vós, e nos salvamos”. Então surgirá o Juiz e julgará.

Conclusão.

Quando Moisés acabou de explicar ao povo a Lei de Deus, concluiu assim: “Filhos de Israel! Eis que eu hoje ponho
diante de vós uma bênção e uma maldição: uma bênção se obedecerdes aos mandamentos de Deus, uma maldição
se deixardes a estrada boa pela má. Escolhei”. (Deut., XI, 16-28)

As mesmas palavras eu repito a vós, ó cristãos, depois de vos haver proposto o novíssimo do juízo.

“Eis que eu hoje ponho diante de vós uma bênção eterna e uma eterna maldição. Quereis ser benditos no reino do
céu para sempre? Ou quereis ser malditos no fogo do inferno para sempre? Escolhei”.

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Reflexão sobre o Evangelho Dominical - I Domingo do Advento - Parte 2 de 6


1º Domingo do Advento

De: "Pensamentos sôbre os Evangelhos e sôbre as festas do Senhor e dos Santos" - Pe. João Colombo. Nihil obstat:
Pe. João Roalta - Imprimatur: Mons. J. Lafayette

Título original: "Pensieri sui Vangeli e sulle Feste del Signore e dei Santi" Milão, Itália.
Escrito entre 1927-1938. Primeira edição em 1939.

Lc. XXI, 25-33.


2- O JUÍZO UNIVERSAL: DIA DA JUSTIÇA

Muitos, tendo visto que neste mundo os acontecimentos se desenrolam muitas vezes sem justiça, escandalizados
disserem que a Providência não existe.

No tempo dos antigos Gregos, o filósofo Aristóteles, com um senso de amargura profunda, escreveu que a justiça
deste mundo é uma teia de aranha que detém os mosquitos e deixa passar os pássaros.

No tempo dos Romanos, Bruto, defensor da liberdade republicana, quando em Filipes, viu os seus exércitos
desbaratados e a sua causa perdida, matou-se com sua própria mão, exclamando: “Virtude, tu não passas de um
nome!”

E quantas vezes, na história, se encontram pessoas culpadas de atrozes crimes, as quais com o fulgor do ouro
fizeram empalidecer as leis, e deslumbraram os juízes!

E mesmo pela nossa experiência quotidiana podemos concluir que neste mundo, os mais felizes nem sempre são os
melhores, e as desgraças nem sempre vem recair sobre os que as mereceram.

Contudo, a justiça finalmente virá.

“Observai a figueira, e, em geral, todas as plantas. Quando a casca – dizia Jesus – se torna mais tenra e úmida,
quando os gomos entumescidos deixam transparecer na ponta um olho verde, dizeis que já vem a primavera. Pois
bem, dar-vos-ei os sinais para conhecerdes a chegada da minha justiça.

Sinais na terra: irromperão guerras de povo contra povo, propagar-se-ão doenças contagiosas de cidade em cidade,
e longos incêndios arderão sobre toda a face do mundo. Tristes e mudos, os viventes de então consumir-se-ão pelo
medo e pela expetação.

Sinis no céu; o sol apagar-se-á rugindo como um ferro em brasa na água, a lua negará os seus pálidos raios, as
estrelas, como ébrias, sairão do seu caminho e precipitar-se-ão; toda potência do universo se abalará.

Então, sobre as nuvens, com poder e majestade, ver-se-á vir o Filho de Deus.”

E Ele revelará.

E falará.

E condenará.

1 – E revelará.

Quando na escuridão de um aposento penetra um repentino feixe de luz, num lance de olhos vê-se tudo o que há no
aposento: vê-se até o grão de pó sobre os móveis, e os corpúsculos que dançam no vazio. Assim será no aparecer do
Filho de Deus: toda a nossa consciência será invadida pela sua luz fulgurante. Nem um ângulo ficará na sombra, nem
uma página da nossa vida ficará obscura. Aquela será a hora da verdade.

Aquelas visitas frequentes, aqueles passeios, aqueles encontros que se acreditou encobrir sob o pretexto de uma
amizade inocente, ou de um justo passatempo, aparecerão então quais são, motivos de paixão impura.

Aquelas coisas que se levavam para casa sob pretexto de compensar-nos da injustiça paga ou daquilo que nos
haviam tirado, então aparecerão qual realmente são: um furto.

É fácil, neste mundo, perder a Missa com a desculpa de que falta tempo, descuidar da Doutrina cristã a pretexto dos
negócios, omitir as orações da noite por causa do cansaço;mas então todos saberão que não se achava tempo para
os deveres religiosos, mas achava-se tempo – e quanto! - para os divertimentos, para as palestras, para o jogo, para
os pecados.

É fácil, neste mundo, profanar pelo trabalho o dia festivo, e esconder o próprio pecado sob a aparência de uma
necessidade ou da urgência; mas a avareza sórdida que nos impele a este sacrilégio será desvendada naquele dia.

Tudo será desvendado: mas sobretudo os pecados conservados ocultos mesmo na Confissão, e arrastados dia a dia
com uma longa cadeia de sacrilégios.
Quem pode imaginar a confusão do réprobo, descoberto aos olhos de todos, aos olhos de Deus?

Efrém era diácono de Edessa, quando por uma pessoa impudica foi solicitado a ofender o Senhor. E depois de haver
tentado em vão todos os recursos para converter aquela alma infeliz, apegou-se a um estratagema.

“Esta bem – disse – ele finalmente – já que não queres aderir às minhas palavras persuasivas, condescenderei com
as tuas, contanto que me concedas escolher o lugar”.

“E onde?”.

“Na praça do mercado de Edessa”.

Porém ela recusou, horrorizada de vergonha.

“Estulta! - replicou o santo. - Se temes o olhar destes cidadãos, como poderás sustentar o olhar fulgurante de Cristo
juiz, quando com Ele te olharem os cidadãos de odos os séculos e de todas as cidades? Quando não um só, porém
todos os pecados da tua vida forem revelados?”

2- E falará.

Santa Catarina de Sena, uma noite em que orava de joelhos diante do Crucifixo, viu sair uma luz das chagas do
Senhor, e depois ouviu um gemido que a censurava por ter estado naquele dia distraída na meditação.

A santa começou a tremer de espanto, e um suor gélido regou-lhe os membros, e dos seus olhos caíram amaríssimas
lágrimas.

“Experimentei uma dor tal – manifestou ela depois – como não provarei jamais, nem mesmo se me envergonhassem
diante do rei do mundo. Eu preferiria caminhar por meses e meses sobre uma estrada tecida de espinhos, a tornar a
sentir a punção daquela censura”.

E, no entanto, o defeito dela era um pequeno defeito, e talvez não totalmente voluntário. Todavia Jesus lhe falava
por amor, querendo purificá-la de toda fraqueza e transportá-la a uma altíssima perfeição. Que aturdimento indizível
não deverá ser, pois, o dos réprobos quando no seu furor, Cristo os exprobrar pelos seus enormes pecados?
Loquetur ad eos in ira sua, et in furore suo conturbabit eos. (Ps., II, 5).

“Presta-me conta – dir-nos-á Ele – da vida que te dei. Onde esta o bem que fizeste em trinta, quarenta, cinquenta
anos? Quantas são as tuas Comunhões, mortificações, esmolas, boas obras?”

“Presta-me conta – dir-nos-á Ele – das minhas boas inspirações. Que fizeste daqueles pensamentos de bem que dia a
dia eu te enviava? Que fizeste daqueles remorsos com que eu te pungia o coração quando ouvias as prédicas,
quando te achavas na solidão? Enxotaste-os como moscas, sufocaste-os: agora mos pagarás”.

“Presta-me conta – dir-nos-á Ele – da tua família. Teus pais te educaram bem, te ensinaram a respeitar a minha lei e
o meu nome, mas tu por que esqueceste os ensinamentos deles? Teus filhos por que não cresceram bons? E como
podiam crescer tais, se não te preocupavas com eles, se os não castigavas quando eles fugiam da igreja, se os
escandalizavas com maus exemplos?”

Presta-me conta – dir-nos-á – dos sacerdotes que eu coloquei perto da tua alma. Eles te ensinavam, e tu não ias
ouvi-los. Pregavam, e tu fechavas os ouvidos. Censuravam-te em meu nome, e tu os odiaste”.

“Presta-me conta – dir-nos-á ele – dos meus sacramentos. Tinhas na alma o demônio, e não ias confessar-te:
desprezas-te o sacramento do perdão, e agora pretendes que eu te perdoe? Oh! Quantas vezes te esperei no
silêncio do Tabernáculo, e não vieste! Esperei-te na Páscoa, esperei-te nas Quarenta Horas, esperei-te no dia do
Perdão, esperei-te no dia de Finados . . . E não vieste?”.

“Ah! Presta-me conta do meu sangue. O sangue que eu derramei debaixo das oliveiras, o sangue da flagelação, o
sangue da coroação de espinhos, o sangue das minhas mãos e dos meus pés, o sangue do meu coração. Todo o
sangue foi inútil para ti”.

Quid sum miser tum dicturus? Míseros, confundidos, nus, sob o olhar pungente de todos os homens que existiram,
que existem, que existem e que existirão, quem de nós ousará responder alguma coisa?
3- E condenará.

Antes do alvorecer Santo Agostinho foi acordado por um gemer longo e por um soluçar dilacerante que lhe vinha da
rua.

Dois homens semi-nus, de barba e cabeleira sórdida e comprida, magros e famintos, tremiam convulsivamente
diante da porta do bispo. Entrementes, todo o povo de Hipona acorrera para os ver.

“Como vos chamais?’ perguntou Santo Agostinho.

“Paulo e Paládio”, responderam eles, sem cessarem de chorar e de tremer.

“Sossegai, nós vos socorreremos”.

“É impossível sossegarmos. Estamos vindo de Cesaréia da Capadócia, onde eramos sete irmãos e três irmãs.
Ofendemos nossa mãe viúva, e ela amaldiçoou-nos, e a sua maldição passou à nossa pele, à nossa carne, ao nosso
sangue, aos nossos ossos. E como estais vendo, faz-nos tremer noite e dia sem trégua . . . Santo de Deus, livra-nos da
maldição de nossa mãe, ou, se mais não puderes, faze-nos ao menos a graça de morrermos”.

Santo Agostinho orou por eles, e Deus livrou-os.

Refleti cristãos; se tanto pode naqueles filhos a maldição de uma mãe terrena, que não produzirá em nós a terrível,
irrevogável, final maldição de Deus, nosso pai, ofendido pelos nossos pecados? Ite, maledicti, in ignem æternum.

Agora não sabemos compreender o que importe a privação de Deus; apenas podemos fazer uma idéia bastante
remota e confusa.

Imaginai se nesta igreja faltasse o ar: os nossos olhos se entumesceriam, as faces tornar-se-nos-iam lívidas,
abriríamos a boca delirando, sufocaríamos. Um tormento que a isto se assemelha, porém, infinitamente maior,
experimentará a alma que, amaldiçoada, sente privar-se de Deus, que é a sua respiração.

Ter sempre sede, sem jamais beber; ter sempre fome sem jamais comer; tremer de frio sem uma chama, arder pelo
fogo sem uma aragem que nos refresque: assim a alma sem Deus.

Terríveis tormentos, mas esta triste recompensa o próprio pecador invoca-a sobre si, pecando. E, quando soar a
mobilização geral das consciências, quando sobre toda a terra atroar o grito tremendo; - Levantai-vos, ó mortos! -
então Deus não fará senão sancionar aquilo que cada um quis para si.

“Ó cristão! Com o pecado tu te degradaste a ti mesmo, seja feita a tua vontade, para sempre. Fiat voluntas tua, in
aeternum”.

“Ó cristão! Com o teu pecado expulsaste-me do teu coração. Eu ratifico: para sempre. In aeternum”.

“E agora vai-te, pois não te conheço mais: para sempre. In aeternum”.

Conclusão.

Um pequeno Rei declarara guerra a um grande Rei. Mas depois sentou-se, e começou a refletir: ‘Como posso nutrir
esperanças de vencê-lo, se conto apenas com dez mil soldados, quando o meu adversário conduz mais de vinte
milhões?” E, sabiamente, enquanto os exércitos ainda estavam longe, enviou uma embaixada pedindo
humildemente a paz e os pactos de submissão. Legationem mittens rogat ea quae pacis sunt. (Lc., XIV , 32).

Ora, o Evangelho deste primeiro domingo do Advento assegura-nos que Jesus Cristo, o grande Rei sobre cujo flanco
esta escrito o sinal do poder infinito, Rex Regum et Dominus dominantium. (apoc., XIX, 16), deve vir do céu a julgar a
terra. Que somos nós diante dEle? Acaso pretendemos resistir-lhe?

Obremos sabiamente como o pequeno rei da parábola: enquanto ainda está longe, enquanto ainda estamos em
tempo, peçamos-lhe os pactos de paz, e sujeitemo-nos a todos os seus doces mandamentos.

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Reflexão sobre o Evangelho Dominical - I Domingo do Advento - Parte 3 de 6
1º Domingo do Advento

De: "Pensamentos sôbre os Evangelhos e sôbre as festas do Senhor e dos Santos" - Pe. João Colombo. Nihil obstat:
Pe. João Roalta - Imprimatur: Mons. J. Lafayette

Título original: "Pensieri sui Vangeli e sulle Feste del Signore e dei Santi" Milão, Itália.
Escrito entre 1927-1938. Primeira edição em 1939.

Lc. XXI, 25-33.

3- NO DIA DO JUIZO OS PAPÉIS SERÃO INVERTIDOS

Longe da sua pátria, sozinho numa triste gruta, entre as mais ásperas penitências do estudo, S. Jerônimo chorava o
tempo passado nas dissipações. Parecia-lhe haver ofendido por demais o Senhor, e que todas as asperezas que ele
infligia ao seu corpo não bastavam para aplacar a ira de Deus. Tinha medo do juízo que o Senhor devia fazer da sua
alma. E, de noite, quando ouvia o silvo do vento, parecia-lhe ouvir o som das trombetas angélicas que chamavam os
mortos ao vale de Josafat para a sentença final: então pulava do seu duro catre, prostava-se de joelhos, e, batendo-
se com os seixos da espelunca, invocava a misericórdia de Deus.

E era um santo.

Que devemos então dizer nós, que tantos pecados temos cometido? Que será, ó cristãos, da nossa alma quando nos
acharmos perante o tribunal de Deus?

Confessemo-lo com coração sincero: pensamos pouquíssimo nestas verdades. Elas nos parecem coisas tão
longínquas, que quase se perdem e se diluem na imensidade do tempo, como se nunca devessem suceder. Às vezes
temos a ilusão de que aos outros sim, porém a nós elas nunca sucederão.

E, no entanto, aquele dia virá.

No dia de hoje Jesus fala-nos muito claro. Depois de sinais grandiosos e espantosos que se desenvolverão no céu e
sobre a terra, Ele chegará fulgurante de poder e de majestade. E os papéis serão invertidos.

Então chorarão os que gozaram; ao contrário, os que na vida sofreram, os que semearam de lágrimas o seu caminho,
estes serão cumulados de gláudio imenso.

O pensamento do que acontecerá nesse último dia sirva também a nós, como serviu aos Santos, para nos fazer
passar bem o tempo da vida que ora vivemos.

1- Chorarão os que gozaram.

Quando, na guerra européia, os bolchevistas entraram na cidade de Sebastopol, enviaram à morte muitas pessoas
sem sequer um processo. Levavam os condenados para sobre os escolhos, atavam-lhes aos pés grandes pedras, e
depois os precipitavam no mar.

Assim foi justiçado um almirante. Mas, depois que ele foi lançado ao mar, eles se lembraram de que ele trazia
consigo documentos importantes. Foi dada ordem a um mergulhador para pescar o cadáver. De fato, ele desceu à
água; porém, mal tocara o fundo do mar, deu o sinal para ser içado.

Foi retirado louco de terror,pronunciando frases desconexas. Curado após alguns dias, narrou que, chegando ao
fundo do mar, se achara perante uma espantosa assembléia: todos os mortos lá estavam eretos, e pareciam vir-lhe
ao encontro para o ameaçarem com atroz vingança.

Era esse um fenômeno natural que, no momento, o mergulhador não soube explicar. Os cadáveres que já desde
alguns dias estavam nas águas, tornados leves pela decomposição, tendiam a subir ao alto, mas não o podiam, por
estarem firmados, nos pés, pelas pedras a que estavam amarrados.
Se a vista de alguns cadáveres que bamboleavam sob o impulso das correntes marinhas fez enlouquecer de espanto
um homem já habituado ao risco, pensai no que será quando todos os pecados se apresentarem à mente em toda a
sua fealdade, e envolverem a alma para esmagá-la e oprimi-lá sob o seu peso! Coisa bem diversa dos cadáveres
vistos pelo mergulhador! Aqueles furtos, aquelas desonestidades, aquele ódio, aquele escândalo que em vida eram
objeto de regozijo, tornar-se-ão motivo de horror, de angústia, de pranto.

Chorarão os que gozaram.

O escafandrista de Sebastopol pôde dar o sinal, e assim tiraram-no das águas; mas diante do tribunal de Deus não
haverá nenhum meio de salvação. As trombetas angélicas já terão assinalado o término de toda misericórdia.

Ó cristãos, se aqueles que gozam a vida no meio de pecados devem esperar por um tal fim, não vale a pena invejá-
los.

Ó cristãos, vale realmente a pena invejar os que gozam a vida no meio dos pecados?

2- Gozarão os que choraram.

Suponde que um filho, saído de casa para ir á guerra, seja feito prisioneiro em terra longínqua, estrangeira. Os seus,
especialmente sua mãe, nada mais souberam dele. Morto? Desaparecido? Ninguém pode dizer coisa alguma.

Termina a guerra, e ele quer voltar para casa, mas não pode: é-lhe absolutamente proibido. Quereria ao menos
escrever algumas linhas, dizer aos seus que está bem, que venham buscá-lo, que lhe façam saber se sua mãe ainda
está neste mundo: mas não lho permitem.

Ora, suponde que, um dia, esse soldado possa fugir, e, depois de viagens e esforços e fadigas sem número, uma
noite ele chegue finalmente à sua aldeia e, empurrando cautelosamente a porta da sua casinha rústica, ao frouxo
clarão da candeia, ele veja o rosto de sua mãe; dizei-me, poderíeis imaginar o delírio de alegria que se teria naquela
casa e naquela aldeia?

Contudo, é esta uma imagem pálida daquilo que sucederá para os bons no dia do juízo universal. Na vida, nós somos
soldados que combatem para conquistar a pátria celeste. Neste vale de exílio, quanto trabalho, quantos esforços,
quantas lutas para vencermos, para nos mantermos livres! Mal vencemos uma prova, outra mais dura começa.
Parece-nos já possuirmos o Paraíso, e eis que a tentação, uma borrasca ameaça arrebatar-no-lo. A vida é sempre
assim. Mas no dia do juízo tudo estará findo; a dor não passará de uma doce recordação. Começará a festa perene.

Se vivêssemos os nossos dias sob a luz que vem desse dia, como carregaríamos de bom grado a nossa cruz! Os
Santos compreendiam muito bem estas coisas.

S. Pedro Mártir, exorcista da Igreja de Roma nos primeiros tempos do cristianismo, quando foi lançado em prisão
pela fé, disse ao carcereiro estar pronto, em nome de Cristo, a livrar a filha dele do demônio de que estava possessa
havia vários anos. Surpreso ante tal proposta, o carcereiro perguntou-lhe por que não se servia da onipotência do
nome de Jesus para se livrar a si mesmo da prisão.

E ele: “Conheço muito bem as vantagens dos meus grilhões, e por motivo algum quereria libertar-me”.

Se pudermos levar um pouco de conforto a nossos irmãos, faça-mo-lo sempre de bom grado; porém, ao contrário,
as nossas cruzes, apreciemo-las como elas merecem, e, antes de pedirmos ao Senhor que no-las tire, peçamos-lhe,
nos dê força para carregá-las com resignação e amor. Tanto mais gozaremos quanto mais houvermos trabalhado,
sofrido, chorado por amor de Deus.

Conclusão.

Um rei idólatra, da Bulgária, deu ordem a S. Metódio para pintar no seu palácio a coisa mais terrível e espantosa que
ele soube-se. O bom religioso, recomendando-se a Deus para que o seu trabalho resultasse bem frutuoso para a
alma do rei, pôs-se a pintar o juízo universal. Completada a obra, avisou o rei que se dignasse de ir vê-la. Este,
avistando a terrível majestade de Deus no ato de amaldiçoar os condenados, foi presa de grande temor, e perguntou
o que era que significava aquele espetáculo espantoso. Então o santo explicou-lhe com tanta ousadia, que, cedendo
à graça divina, quis o rei idólatra receber o Batismo. Depois do que, quase todos, no seu reino, abraçaram a fé cristã.
Não um santo, porém o próprio Jesus Cristo fala a nós, no dia de hoje, sobre o juízo universal. De nos convertermos
da idolatria, talvez não tenhamos necessidade; mas há que avivar a fé na vida futura. Há que pedir ao Senhor que
nos faça desprezar as alegrias do mundo, e amar as nossas cruzes, que nos fazem ganhar as alegrias do céu.

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Reflexão sobre o Evangelho Dominical - I Domingo do Advento - Parte 4 de 6


1º Domingo do Advento

De: "Pensamentos sôbre os Evangelhos e sôbre as festas do Senhor e dos Santos" - Pe. João Colombo. Nihil obstat:
Pe. João Roalta - Imprimatur: Mons. J. Lafayette

Título original: "Pensieri sui Vangeli e sulle Feste del Signore e dei Santi" Milão, Itália.
Escrito entre 1927-1938. Primeira edição em 1939.

Lc. XXI, 25-33.

4- O JUÍZO, PARA OS ELEITOS, SERÁ UMA CONSOLAÇÃO.

Austera é a verdade do juízo universal.


Ainda soam ao nosso ouvido as palavras aterradoras que lemos, domingo passado, no Evangelho; na nossa mente
ainda repassam as tristes imagens de um mundo em chamas e de um firmamento desfeito.
Hoje, o Evangelho retorna ao mesmo assunto, porém não mais para nos oprimir de pavor, e sim para nos elevar a
uma grande esperança. O sol, a lua, as estrelas darão tristes sinais, e a consternação passará sobre os povos; o mar
rugirá, e os homens morrerão de medo na expectação do que sucederá. E virá de lá das nuvens, em poder e em
glória, o Filho do homem.
Quando sucederem estas coisas, vós – que sois bons – levantai a fronte, pois está próxima a vossa redenção. Levate
capita vestra: quoniam appropinquat redemptio vestra.
Jesus dirige-nos estas boas palavras justamente no I Domingo do Advento. Preparemo-nos para o Santo Natal, que é
a recordação da primeira vinda de Jesus ao mundo; preparemo-nos bem, e achar-nos-e- mos contentes na segunda
vinda de Jesus ao mundo, para o juízo universal.
O mundo se desfará. Porém nós não seremos do mundo, e olhá-lo-e-mos desmoronar-se, seguros, como se
desmoronasse a casa de outro; antes, como se desmoronasse a prisão onde tanto padecemos e choramos. Então
levantaremos com alegria a nossa cabeça para os céus, aguardando a redenção; virá trazer-no-la Jesus.
E Ele;
Redimir-nos-á do mundo.
Redimir-nos-á da morte.
Redimir-nos-á da dor.

1- Redimir-nos-á do mundo.
A Sagrada Escritura diz muitas vezes que Deus fez todas as coisas para os bons.
Contudo, se considerarmos somente a vida presente, os bons estão constrangidos neste mundo, como emigrados
numa terra estrangeira, onde são mal vistos pelos habitantes, mal tolerados pelas leis, perseguidos.
De fato, aos justos, o mundo não oferece senão seduções, perseguições, desprezo.

a) O juízo final livra os eleitos das seduções do mundo.


Muitas são as seduções que o mundo põe por obra para arruinar os bons: gravuras, modas, as conversas obscenas
nas ruas, nas praças, nos locais de trabalho; os maus exemplos dos escandalosos. E a nossa natureza, já corrompida
pelo pecado, nestas ocasiões quotidianas sente-se fraca, e treme. “Oh! Infeliz de mim! - exclamava por isso S. Paulo
– quem me livrará deste corpo de morte?” livrar-me-á Jesus Cristo, no dia do juízo, quando aparecer a cruz como
estandarte de vitória. Bem-aventurados, então, os que houverem vencido as seduções do mundo.

b) O juízo final livra os eleitos das perseguições do mundo.


Além disto,nesta vida os justos são condenados a viver como os iníquos, são confundidos com eles; são chamados
hipócritas mais do que eles; são perseguidos de mil modos. No dia do juízo os bons serão vingados: haverá a
separação, e ver-se-ão as perfídias e as injustiças dos maus.
Quando Deus mandou Josué tirar do meio do povo Acan, homem escandaloso, e faze-lo morrer, disse: “Levanta-te, e
santifica o povo”. Surge et sanctifica populum. (Jos., VII, 13).
Quando Judas saiu do cenáculo, para executar o seu detestável intento, Jesus sentiu-se aliviado de uma angústia
mortal, e exclamou: “Finalmente o Filho do homem é glorificado”. Nunc clarificatus est Filius hominis. (João, XIII, 31).
Esta santificação, esta glorificação será dada aos bons no dia final, quando os anjos separarem os justos dos injustos.

c) O juízo final livra os eleitos do escárnio do mundo.


Enfim , nesta vida as pessoas humildes são escarnecidas; as que suportam as ofensas são vis; as que não se dão aos
prazeres são chamadas tolas; e as que se consagram a Deus através da vida religiosa são chamadas loucas. Mas será
um momento de brusca admiração quando os mundanos virem essas pessoas num trono de glória.
“Ei-los lá – exclamarão eles com raiva – aqueles que nós considerávamos o refugo do mundo, aqueles que nós
ridicularizávamos; agora eles estão na luz e na alegria dos filhos de Deus. Nós os pensamos estúpidos, e os estúpidos
éramos nós”. Nos insensati! Vitam illorum aestimabamus insaniam. (Sap., V, 4).

2- Redimir-nos-á da morte.
Soberana única do mundo é a morte. Assalta-nos desde o primeiro dia de vida, e, lentamente como uma lima ou de
um golpe como uma lâmina, mata-nos.
É verdade: a nossa alma não desce para sob as pedras frias e a terra fértil do cemitério; sobe ao céu, se está em
graça;mas a alma é uma parte de nós, não é todo o nosso ser, e, por isto mesmo, no Paraíso ela ficará sempre
incompleta enquanto não tornar a juntar-se ao corpo. Pois bem: no juízo final seremos redimidos da morte.
Ressoarão as trombetas para a ressurreição, e onde quer que o nosso corpo esteja, ou em terra ou no mar ou
espalhado no vento como leve pó, ressurgirá. Cristo, que morreu para vencer a morte, redimir-nos-á da morte,
restituindo aos bons a sua própria carne, tornada luminosa, impassível, bela pela glória do Paraíso.
Aquele corpo que tanto padeceu para resistir ao demônio, é justo que seja premiado. Aqueles olhos que se
fecharam com violência diante das vaidades mundanas, dos livros, das figuras perigosas, é justo que tenham de se
reabrir para verem toda a glória de Deus. Aqueles ouvidos que se tornaram surdos a certas murmurações, a certas
palavras, ímpias contra a fé ou sórdidas contra a virtude, é justo que escutem a harmonia dos anjos e o coro
universal dos santos.
Aquela garganta e aquela língua que se haviam proibido o abuso no comer, no beber, no falar, justo é que entoem
um cântico eterno e beatíssimo.
E aqueles pobres joelhos que souberam como é duro o pavimento das igrejas, ou a madeira dos bancos, ou os
ladrilhos do próprio quarto junto ao leito, porque não hão de ter a sua parte de glória?
Vede então como não devem os bons temer o dia do juízo, mas esperá-lo como o camponês espera a primavera. E
acaso não é todo primaveril o prognóstico que o Senhor nos deu para reconhecermos o tempo do juízo final?
Olhai a figueira, antes todas as plantas: quando vedes os gomos umedecer-se de visco, entumescer-se, romper a
casca para porem ao sol um olho de tenríssimo verde, dizeis: está próxima a primavera. Pois bem: quando
começarem os sinais no sol e nas estrelas, alegrai-vos! Pois está às portas o reino de Deus”.
Como uma árvore que acorda do inverno, nós acordaremos da morte.
Com estes sentimentos morria, queimado vivo, o mártir S. Piônio. Enquanto as chamas, crepitando por debaixo,
ascendiam para lhe lamber os membros contraídos no espasmo atroz, enquanto a fogueira o envolvia numa
tormentosa bandeira de fogo, ele gritava: “Morro assim por gosto; para que todo o povo saiba que depois da morte
há a ressurreição da carne”. Depois a fumaça e o fogo atingiram-lhe a boca, e ele não falou mais.

3- Redimir-nos-á da dor.
A terra é um vale de lágrimas: a miséria, o trabalho, as ilusões, as desgraças, as doenças, a morte. . . Todos sofrem,
porém os bons mais do que todos, por haverem recusado as ilícitas consolações do mundo.
Mas assim não será sempre. Quando começarem os sinais do fim do mundo, vós, ó bons, levantai a fronte, porque
esta próxima a redenção da dor: e não mais sofrereis. Levate capita vestra: quoniam appropinquat redemptio vestra.
Não mais haverá choro; ou, se chorarmos, será de alegria. Toda tristeza será convertida em gáudio. Toda lágrima
será enxugada no rosto.
O Paraíso! Alguma vez já pensastes bem no Paraíso? Imaginai aquela imensa região de toda beleza, dos cantos e das
harmonias, de luz, de sorriso, de alegria: e nós lá estaremos. Lá, com o nosso corpo, nós em pessoa, e todos nos
amarão; porém, mais do que todos amar-nos-á Deus.
“Ó Senhor! Como é belo estarmos aqui. . .” (Mt, XVII, 4), exclamava S. Pedro no auge da alegria; e, no entanto, não
via o Paraíso. No Tabor não havia mais do que uma pálida revelação da infinita beleza do Senhor. Que será, então,
no Paraíso, quando virmos todo o Senhor? Quem sabe o que diremos?. . . Não diremos nada: amaremos. O que mais
importa é ai chegarmos.
Jônatas, contra a proibição do rei, em tempo de batalha provara um pouco de mel. Agora era condenado à morte. O
infeliz lamentava-se no desespero: “Desgraçado que fui1 Saboreei uma gota de mel, e eis que devo morrer. . .” Mais
desgraçados nós, se, por saborearmos a venenosa doçura do pecado, devêssemos perder para sempre a doçura
eterna do Paraíso.

Conclusão.
Levate capita vestra; quoniam appropinquat redemptio vestra.
Santa Catarina de Sena, ouvindo falar do juízo universal, enquanto todos tremiam ela sorria feliz.
“Por que?”, perguntaram-lhe.
“Porque penso que Aquele que virá julgar-me é esse Jesus a quem tanto amo, por quem sacrifiquei a minha
juventude e toda a minha vida”.
Amemos nesta vida Jesus Cristo, e o seu juízo não nos infundirá pavor.

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Reflexão sobre o Evangelho Dominical - I Domingo do Advento - Parte 5 de 6


1º Domingo do Advento

De: "Pensamentos sôbre os Evangelhos e sôbre as festas do Senhor e dos Santos" - Pe. João Colombo. Nihil obstat:
Pe. João Roalta - Imprimatur: Mons. J. Lafayette

Título original: "Pensieri sui Vangeli e sulle Feste del Signore e dei Santi" Milão, Itália.

Escrito entre 1927-1938. Primeira edição em 1939.

Lc. XXI, 25-33.

5- FUGI DA IRA DIVINA NO JUÍZO UNIVERSAL.

Os céus, como um toldo gasto pelo tempo,rasgar-se-ão, deixando cair as estrelas. Sobre a terra ouvir-se-á o
profundo rugido do mar que se entornará, e o estrondo das águas a se precipitarem. As turbas humanas,
amedrontadas, tremerão na expectação terrífica.

Então o Sinal do Filho do Homem aparecerá no céu: e todas as raças chorarão na terra.

Então o Filho do Homem virá sobre as nuvens do céu: e os anjos, com as trombetas, fá-las-ão soar sobre os
continentes da terra.

Como veremos Cristo naquele dia? Imagino-o conforme o pincel de Miguel Ângelo o pintou na parede da Capela
Sistina. A mâo direita levantada poderosamente para abater, e a esquerda dobrada para mostrar o rasgão do peito,
como a dizer: “Firo-vos por não haverdes correspondido ao meu coração!” Nada é terrível como a vingança de um
amor ultrajado; depois, se este amor é o de um Deus, a sua vingança só eterna pode ser: o inferno. Recordemos as
maldições de Jesus contra as cidades ingratas ao seu amor.

Milagres e pregações certamente não haviam faltado aos lugares em torno do lago de Genesaré, e especialmente a
Corozaim, a Betsaída, a Cafarnaum; e, no entanto daquela região, o Mestre virou-se para trás para, com a voz velada
de uma amargura profunda, maldizer: “Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaída! Se Tiro e Sidon, longínquas cidades da
Fenícia, tivessem podido ver uma parte minima dos prodígios que vós vistes, ter-se-iam convertido, e teriam feito
penitência dos seus pecados. Em verdade vos asseguro que no dia do juízo haverá misericórdia para estas, mas não
para vós. Haverá misericórdia para Sodoma incendiada pelo meu furor; mas para Cafarneum, onde debalde
prodigalizei o meu amor, não mais haverá misericórdia”. (Mt., XI, 20-24).

Semelhante aquelas cidades ingratas é também a nossa alma. Quantas finezas afetuosas não tem usado conosco o
Senhor! Desde o dia do nosso nascimento até hoje, é uma longa cadeia de preferências divinas, às quais talvez não
tenhamos correspondido. Ai de nós! No dia do juízo haverá misericórdia para tantos infelizes que não sabiam orar,
que não podiam escutar uma prédica, mas para nós não!. . . Ai de nós se não fugirmos à ira futura.

Os nossos anos já voam para o seu fim com a rapidez de uma roda; já a morte, furiosa, nos está às costas. Enquanto
ainda nos resta um pouco de tempo, corrijamo-nos; acendamos as nossas lâmpadas com o óleo da fé e das boas
obras; preparemo-nos para o advento do divino Juíz.

Ai de nós se não fugirmos da ira futura!

No dia do juízo final, duas coisas causarão o maior pavor: o aparecimento da Cruz, e o dAquele que nela foi
crucificado. E, se nesta vida nós não nos fizéssemos amigos da Cruz e do Crucificado, não seria um belo para
fugirmos à ira futura, e acharmos misericórdia naquele momento supremo?

Portanto, façamo-nos amigos da Cruz.

Façamo-nos amigos do Crucificado.

1- Amigos da Cruz.

Fazer-se cavaleiro de Carlos V não era coisa fácil, e para isso muitos haviam trabalhado inutilmente. Mas, no dia da
sua coroação,quis o imperador que qualquer corajoso pudesse conseguir aquela honra, contanto que se deixasse
percutir pela sua espada.

Era o dia 24 de fevereiro de 1530, em Bolonha: coroado com a coroa férrea, Carlos V saía de S. Petrônio, ao lado do
Papa Clemente VII, e com garbo montou num magnífico corsel; duas apinhadíssimas alas de povo abriam-se à sua
passagem. E eis que jovens destemidos, homens fortes, velhos senhores, vêm ao meio, inclinam a cabeça e dizem:
“Quero ser cavaleiro”. Percutindo-os com o punho da espada, Carlos V respondia: “Esto miles” (Sê soldado). Os
postulantes eram muitíssimos, e de toda parte ouvia-se clamar: “Sire, sire, a mim! A mim!”.

Finalmente o imperador sentiu faltarem-lhe as forças: “Não posso mais”, suspirou; mas o grito dos pedintes crescia a
cada passo: “A mim! A mim!”. Então ele pegou a espada e atirou-a sobre o povo, exclamando: “Amai a minha espada
e a minha guerra: faço-vos todos cavaleiros”. “Todos! Todos!” Um brado de alegria irrompeu por toda a cidade: cada
um queria beijar a espada imperial. À noite, Bolonha ardeu de fogo e ecoou de músicas triunfais.

Este episódio da história bolonhesa serve-me para imprimir na vossa mente o conceito do sofrimento cristão. O
nosso Rei imortal, Jesus Cristo, passa pelas cidades deste mundo. Todo aquele que quer ser seu cavaleiro, todo
aquele que quer triunfar com Ele no dia final da sua vitória, deve deixar-se percutir pela sua espada: a cruz. Por
pouca dor Ele nos retribuirá uma alegria infinita; por breve guerra, conduzir-nos-á a uma vitória eterna.

1- Amai, pois, a sua cruz! E ama-lá-eis quando, com fé, com paciência, suportardes as tribulações que a cada dia da
vida encontrareis. Considerai como fêz Jesus Cristo, o Rei divino, e depois segui-o: factus oboediens usque ad
mortem, mortem autem crucis. (Fil., II, 8). E por que nos rebelarmos quando a Providência de Deus nos fere com a
sua espada nos haveres, na família, na saúde? Não sabemos que, se Deus nos toca, é para nos fazer seus cavaleiros
no Paraíso? E havemos de imprecar contra Ele?

2- Amai,pois, a sua guerra! Ela é guerra contra as seduções do mundo. Sempre e por todos os lados estamos
cercados de perigos espirituais: o mundo é todo uma malignidade.

Amai a sua guerra! Ela é guerra contra nós mesmos. Há em nós duas partes contrastantes: uma parte é animal e
terrena, a outra é espiritual e celeste; a primeira elevaños ao bem, a segunda abaixa-nos ao mal. É esta parte de nós
que devemos sufocar e renegar com as suas inclinações perversas, com os seus afetos venenosos.

Se tivermos amado a cruz e a guerra contra o mundo e contra nós mesmos, não sentiremos pavor ao aparecimento
do Sinal do Filho do Homem, no dia do juízo. “Eis a cruz!” clamarão os Anjos; outros chorarão, porém não nós, que
naquele momento a saudaremos com as palavras de Santo André Apóstolo: “Salve, ó cruz, longamente carregada!
Salve, ó cruz, com alegria esperada! Acolhe-me sob a sombra do teu braço direito, porque fui discípulo dAquele que
penduraram em ti!”

2- Amigos do Crucifixo.

Para nos tornarmos amigo do Crucificado não há caminho melhor do que nos fazermos amigo dos pobres, dos
doentes, de todos os que sofrem, de todos os que, de qualquer modo, estão crucificados na alma ou no corpo.

Na Turíngia não havia dor que Santa Isabel da Hungria não suavizasse, não havia necessidade que ela não socorresse,
não havia desventura que ela ignorasse. Acorria às choupanas dos doentes, assístia os moribundos, vestia os nus,
recolhia e instruía os órfãos. Nas grades do seu palácio, os pobres apinhavam-se cada dia, e nenhum se retirava sem
algum consolo.

Uma vez ela deixou entrar nos seus aposentos um doente asqueroso; antes, ela mesma com suas mãos finas e
cândidas começou a curar-lhe as chagas, a lavá-las, a beijá-las... Os servos, horrorizados, exclamaram: “Que estais
fazendo! Que estais fazendo!...” Porém Isabel, tranqüilíssima, respondeu: “Beijo as chagas de meu Senhor Jesus
Cristo: assim elas não mais me farão pavor no dia do juízo. É nesse dia que eu penso, e para ele, como posso. me
preparo.

Era verdadeiramente uma rainha sábia, da sabedoria do Evangelho. De fato, o Evangelho diz abertamente o valor e a
estima que será dada às boas obras no juízo universal. O grande Rei dirá aos que forem acolhidos à sua direita:
“Vinde, benditos de meu Pai, a tomar posse do reino que desde o princípio do mundo eu vos tinha preparado.
Achaste-me com fome e deste-me de comer; vistes-me nu e me vestistes; encontrastes-me peregrino na estrada e
me abrigastes; soubestes-me prisioneiro e me visitastes; e, se estive doente, assististes-me”. E os justos, admirados,
perguntar-lhe-ão: “Talvez te enganes, já que nunca achamos famintos, nem te vimos nu, e nem mesmo peregrino
pela estrada, e nem também prisioneiro nem doente...”. “Não, não! - responderá o Rei – não me engano: tudo
aquilo que fizeste a ao mais pequeno, ao mais esquecido entre os homens, a mim mesmo o fizestes”.

S. João Crisóstomo adverte-nos a não considerarmos como uma perda o bem que fazemos , mas sim como um
ganho; nós damos pão, e em troca receberemos o Paraíso; damos uma roupa , e em troca recebermos a veste
nupcial para entrarmos no banquete dos céus; concedemos hospedagem sob o nosso teto, e teremos toda a
eternidade; perdoamos pouco, e seremos perdoados em muito; enxugamos as lágrimas alheias e seremos alegrados
para sempre. Digo-vos que nem mesmo um copo de água pura oferecido por amor de Deus, será perdido! Antes vos
digo que no dia do juízo final nós não possuiremos senão aquilo que houvermos dado.

Conclusão.

S. Felipe Benizi, religioso da Ordem dos Servos de Maria Virgem, estava morrendo.

Além da doença, além da dor, havia dias em que o atormentava uma terrível visão. Parecia-lhe já se achar perante o
tribunal de Deus, e em torno dele surgiam os demônios a exprobrar-lhe os pecados de sua vida passada, mesmo os
mais remotos, mesmo os mais pequenos... ante essa vista, ante essas palavras, o agonizante abria os olhos
horrorizado, tremia, e não tinha mais ersperança. “Dai-me o meu livro! Dai-me o meu livro!” gritava ele com voz
apavorada.

Dos presentes, alguns correram a tomar um livro, outros outros; mas ele o recusava a todos, sem achar repouso.
Finalmente, um percebeu que os olhos do moribundo se haviam fixado num Crucifixo ali ao lado; tomou-o e
colocou-lhe entre as mãos gélidas e suadas.

Mal o teve, como um sedento ele o pôs sobre a boca para o beijar ansiosamente: beijou o lenho da cruz, beijou as
chagas d’Aquele que a ela estava suspenso. Seus olhos iluminaram-se como ao surgir de uma aurora interior; a sua
fronte expandiu-se numa doce serenidade; o seus lábios distenderam-se num dulcíssimo sorriso. E assim la se foi ele
ao encontro do juízo de Deus.

Amara a Cruz, amara o Crucifixo com todas as suas forças. Que haveria de temer.

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Reflexão sobre o Evangelho Dominical - I Domingo do Advento - Parte 6 de 6
1º Domingo do Advento

De: "Pensamentos sôbre os Evangelhos e sôbre as festas do Senhor e dos Santos" - Pe. João Colombo. Nihil obstat:
Pe. João Roalta - Imprimatur: Mons. J. Lafayette

Título original: "Pensieri sui Vangeli e sulle Feste del Signore e dei Santi" Milão, Itália.
Escrito entre 1927-1938. Primeira edição em 1939.

Lc. XXI, 25-33.

6- PREVINAMOS O JUÍZO DE DEUS.

No céu o sol, a lua e as estrelas empalidecerão; na terra, os homens tremerão na expectação. E eis que o Filho do
Homem virá sobre nuvens com poder e glória, a julgar os vivos e os mortos.

Com estas palavras cheias de mistério e de pavor, Jesus nos anuncia o juízo universal. Alguns, quiça
muitos,pensarão: “Quem sabe quantos milênios ainda deverão passar até que chegue o fim do mundo?” Contudo,
embora esteja longe o último dia de todo o gênero humano, porventura daí se segue que esse último dia esteja
longe também para cada um de nós? Em verdade, para cada um de nós o mundo acaba no dia da nossa morte;
então, para esse, o sol se apagará, e a lua findará de pratear os telhados, os hortos e os campos, e as estrelas
desaparecerão todas juntas na imensa treva que pesará sobre as suas pupilas extintas; então o divino Juiz virá julgar.

De nós, ninguém conhece o dia e a hora do seu juízo, e no entanto ele é inevitável, e não está longe. A verdadeira
sabedoria consiste em preveni-lo, praticando os três conselhos repetidos muitas vezes pelo Senhor.

Estai alerta, porque não sabeis quando virá.

Não julgueis, e não sereis julgados.

Fazei misericórdia, e achareis misericórdia.

1- Estai alerta.

No Evangelho, é uma sucessão incessante de advertências à vigilância, à preparação, na espera fiel de Cristo que
volta.

Será como um ladrão que chega de noite, quando ninguém o suspeita. Será como um laço que vos prende pelo
caminho quando menos pensais.

Será como um grito fulmíneo que estronda ao ouvido e rompe os sonhos lisonjeiros da vida longa, de ganhos, de
prazeres: “Estulto, esta noite morrerás”.

Será como um rei que de improviso aparece no meio do salão dos convidados, perscruta como a pupila severa, e
descobre aquele que esta sem veste nupcial. “Pegai-o, e lançai-o fora, nas trevas!”

será como o esposo que chega no meio da note, enquanto todos dormem, toma consigo quem tem a lâmpada
provida de óleo, e aos outros que batem para entrar responde: “Não vos conheço e não vos abro”.

Será como o proprietário que volta quando quer, e chama os seus súditos para prestarem conta dos talentos que,em
partindo, lhes confiara. Ai do servo iníquo que os não houver feito render!

Será, enfim, como um pai de família que partiu para uma viaem misteriosa, deixando sua casa e sua fazenda em
mãos dos servos, fixando a cada um a sua obra, e recomendando ao porteiro vigiar.

‘Diga-nos quando voltará”.

“Não posso dizê-lo. Talvez uma manhã ao canto do galo, ou talvez ao meio dia, enquanto se esta comendo. E quiça
uma noite, acordando, ouvireis o meu passo na estrada. O que digo a vós, digo-o a todos: vigiai!” (Mc., XIII, 33-37).
O patrão foi-se para longe.

Algum servo prudente e fiel começou logo a executar as ordens recebidas, preparando sem desperdício e
distribuindo com pontualidade, no momento oportuno, a comida aos familiares. Feliz o servo que, à sua chegada, o
patrão achar fazendo assim! Em verdade vos digo, ele o porá à testa de tudo quanto possuí.

Ao invés, algum outro servo indolente e mau, passado algum tempo disse consigo mesmo: “Meu patrão esta
demorando... quem sabe quando virá?... Talvez nem venha mais”. E começou a descuidar o seu trabalho, a litigar e a
espancar os companheiros de serviço, a comer e a beber com os bêbedos. Desgraçado do servo que o patrão achar
fazendo assim! Sobrevindo num dia em que não será esperado, numa hora que o servo não sabe, o patrão mandará
matá-lo, expulsá-lo-á para entre os hipócritas malignos; para lá onde haverá pranto e ranger de dentes. (Mt., XXIV,
45-51).

portanto, cristãos, toda a nossa vida neste mundo é uma espera, é um tempo de advento. Mas, especialmente, deve
ser uma espera fervorosa nesta parte do ano litúrgico que se chama justamente “Advento”.

Ninguém se engane, dizendo consigo: “O meu patrão esta demorando... quem sabe quando virá?... tenho tempo”.
Ninguém ouse ficar em pecado mortal: ponde-vos todos na graça de Deus; vivei sempre em graça de Deus.

“Estejam vossos flancos cingidos e vossas lâmpadas acesas: sede semelhantes aqueles que esperam o seu patrão...”.
(Lc., XII, 35-36).

2- Não julgueis.

Outro conselho do Juiz divino para prevenir nosso bem é o de nunca julgarmos o próximo. “Não julgueis, e não sereis
julgados”. Eis aqui alguns motivos que nos persuadirão melhor a pratica-lo.

a) Não devemos julgar, porque ninguém nos constituiu no encargo de juiz para com o nosso próximo. Todos estamos
no mesmo plano, todos somos irmãos; só um esta acima de nós, superior e juiz de todos: a seu tempo Ele virá.
Entrementes, ninguém usurpe esse oficio, que é seu só.

b) Não devemos julgar, porque cada próximo nosso é súdito e servo de Deus. Quer ele caia, quer fique em pé, isto é
lá com o seu patrão, e não conosco. (Rom., XIV, 4-10).

c) Não devemos julgar, porque somos incapazes de ser imparciais: no olho do próximo nos incomoda até a palha, e
no nosso suportamos até uma trave. “Quantos homens – escreve S. João Crisóstomo – caem neste defeito! Se veem
um padre que tem duas vestes, repreendem-no opondo-lhe a palavra do Senhor; e eles passam o dia trabalhando
por avareza, e fraudam. Se veem que come bem, acusam-no; e eles continuam a passar bem e a embriagar-se. Não
pensando que assim acumulam os pecados e preparam para si um juízo inescusável e duríssimo”. (Hom., XXIII, 2).

Cristãos, neste tempo do Advento, cada um de nós deve estar tão ocupado em se corrigir dos seus defeitos, graves e
numerosos, que não perceba os alheios. Não devemos achar nem gosto nem tempo para qualquer palavra de critica
ou de murmuração.

3- Fazei misericórdia.

Já desde agora nós sabemos exatamente como se desenrolará o juízo, e que palavras serão pronunciadas pelo Juiz.

Quando o Filho do Homem vier na sua glória com todos os seus anjos, então sentar-se-á no trono, e dirá aos que
estiverem à sua direita: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do reino que vos esteve preparado desde a criação
do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; fui estrangeiro e me
acolhestes; estive nu e me vestistes;doente, e me assististes; em prisão, e viestes visitar-me”.

E, admirados, os justos responderão: “Senhor, quando foi que te encontramos com fome e te demos de comer? Com
sede e te demos de beber?. . . Prisioneiro e te visitamos?”

e o rei lhes responderá; “Em verdade vos digo; todas as vezes que fizestes isso a qualquer um de vossos irmãos, a
mim o fizestes”.
À admiração dos maus o rei dará ainda a mesma resposta, porém invertida: “Em verdade vos digo: todas as vezes
que não fizestes isto a qualquer um de vossos irmãos, a mim o recusastes”. E estes irão para o castigo eterno. . .
(Mt., XXV, 31-46).

muitos que agora se julgam cristãos perfeitos porque observam exteriormente as praticas religiosas, porque
assistem às cerimônias oficiais, então ver-se-ão repelidos; e, ao contrário, muitos que agora fazem humildemente o
bem e se julgam pecadores, ouvirão então as palavras que lhe abrirão as portas da alegria: “Era eu, aquele órfão; era
eu aquele surdo-mudo, aquele idiota; era eu aquele velho do asilo; era eu aquele operário a quem dava trabalho
honesto e recompensa suficiente, era eu que chorava naquele leito de hospital lá no fundo do corredor; era eu
aquele prisioneiro na sua cela, quando tu o consolavas”.

Onde quer que há uma miséria, um sofrimento, uma humilhação, uma necessidade, ó cristãos, aí há oculto e
mascarado o nosso Juiz. Usemos de misericórdia com esses, e Ele nos fará misericórdia.

Conclusão.

Para concluir, ouvi como é sábio este outro conselho que esta no Evangelho de S. Mateus: “Enquanto ainda estas a
caminho, põe-te de acordo com o teu adversário. Do contrário, no instante em que chegares, ele te entregará aos
guardas e serás encarcerado”.

Enquanto ainda somos peregrinos neste mundo, ponhamo-nos, pois, em paz com o Senhor, a quem havemos
ofendido. Não esperemos para quando chegarmos à morte.

Corre tu, antes, a apresentar-te perante ele com o arrependimento, com a confissão. Corre a apresentar-te a Ele,
antes que ele te faça comparecer perante si. Previne para não seres prevenido.

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Reflexão sobre o Evangelho Dominical - II Domingo do Advento - Parte 1 de 6


2º Domingo do Advento

De: "Pensamentos sôbre os Evangelhos e sôbre as festas do Senhor e dos Santos" - Pe. João Colombo. Nihil obstat:
Pe. João Roalta - Imprimatur: Mons. J. Lafayette

Título original: "Pensieri sui Vangeli e sulle Feste del Signore e dei Santi" Milão, Itália.

Escrito entre 1927-1938. Primeira edição em 1939.

São Mateus. XI, 2-10.

1- O PRECURSOR

Estamos próximos do Santo Natal. E, por três domingos consecutivos – hoje, o vindouro e mais o outro – a Igreja, no
Evangelho, envia-nos S. João para nos dizer: “Preparai os corações, pois o Senhor está para vir”.

Mas quem é esse S. João Batista que vem censurar-nos pelos nossos pecados, e persuadir-nos a fazer maior bem?
Seria útil conhecê-lo um pouco. Escutai o trecho evangélico deste segundo Domingo do Advento, e da própria boca
de Cristo conhecereis quem é o Precursor.

Estamos nas prisões de Maqueronte, e nelas João está recluso. Todos sabem porque. E, até lá dentro, naquele lugar
de martírio e de injustiça, chega a fama dos milagres realizados por Jesus. O Precursor, cuja alma impetuosa ardia do
desejo de fazer conhecer ao mundo inteiro o verdadeiro Messias, enviou-lhe dois discípulos com esta mensagem:
“És tu o Salvador, ou devemos esperar outro?”

João bem sabia que era Ele; mas, ante aquela pergunta, Jesus seria forçado a manifestar-se, e então também toda
gente o reconheceria e o aclamaria.

O Divino Mestre acolheu com benevolência aquela mensagem, porque entreviu o amor com que a enviava, e, mal os
dois discípulos do Batista regressaram, Ele voltou-se para a multidão e disse:
“Quem fostes ver no deserto? Acaso uma cana agitada pelo vento?

“Quem, pois, fostes ver? Acaso um homem vestido na moda? Não; esta gente não se acha no deserto, e sim no
palácio dos reis.

“Então, quem fostes ver? Acaso um profeta? Sim, digo-vos; um profeta e mais do que um profeta. Ele é o Anjo,
predito por Malaquias, o qual caminhará adiante do Senhor”.

Poucas palavras, mas esculturais: ressalta delas, de um golpe, a grande figura de João Batista.

Por dentro, sem fraqueza: ele não é um caniço.

Por fora, sem molezas: não se vestia com luxo.

Por dentro e por fora, sem mancha de pecado: um anjo.

1- Não foi um caniço.

“Que fostes ver no deserto? Acaso um caniço agitado pelo vento?”

Aquela multidão que acorrera para escutar João devia conhecer muito bem essa planta, símbolo de fraqueza e de
volubilidade. Devia tê-la visto, nas margens palustres do Jordão, tremer no ar, e curvar-se até à terra ao vento: se o
vento soprava do Mar Morto, o caniço curvava-se para o mar de Genesaré; porém, mal o vento, mudando de
direção, soprava do mar de Genesaré, o caniço curvava-se para o Mar Morto.

Era, pois, João por acaso, uma cana agitada pelo vento? Não; era um carvalho que não se curva a nenhum vento.
Não como nós, que pela manhã fazemos um propósito e à noite o achamos transgredido; não como nós que, mesmo
se nos confessamos cem vezes, cem vezes somos os mesmos de antes; não como nós, que somos caniços que se
dobram a todo vento de tentação.

Um jovem monge era muito tentado. Uma vez, em que já não podia mais, correu a ter com Santo Isidoro, lançou-se
por terra diante dele, e soluçava:

“Padre, por que não me ajudais?”

O santo soergueu aquela alma transtornada pelo vendaval, e, tomando-a consigo, disse: “Queres que eu te ensine a
resistir?”

O jovem levantou os olhos cheios de lágrimas: “Foi para isto que eu vim”.

“Então eis o remédio; oração e mortificação”. O monge obedeceu, e todos os dias rezava e se mortificava: mas as
tentações não cessavam. Então ele voltou a Santo Isidoro, e novamente lhe pediu remédio.

“Como! Caíste em pecado?”

“Não, graças a Deus”.

“Que queres então?”

“Quereria ficar sem tentações”.

Experiente da vida, o velho santo sorriu, e respondeu-lhe: “Vê: eu tenho setenta anos, e nem sequer um dia pude
descansar; porém nunca me dobrei ao demônio, como um caniço, porque tenho rezado e me tenho mortificado. Vai,
e faze o mesmo”.

Este episódio explica-nos bem duas coisas: explica-nos por que razão S. João Batista nunca cedeu a qualquer
tentação, explica-nos por que razão, ao contrário, nós cedemos tão amiúde.

Próximo a todo homem há um demônio, inimigo de Deus e de nós, e o dia inteiro ele suscita pensamentos de ódio,
desejos de coisas alheias, imaginações impuras. Há, pois, na vida momentos em que a tentação é tão forte que
quase nos faz desesperar. São aqueles maus momentos que S. Francisco também experimentou quando, no inverno,
se lançou na neve; são aqueles maus momentos que S. Bento também experimentou quando se lançou em cheio nos
espinhos; são aqueles maus momentos que também experimentou Santa Catarina, quando exclamava: - Ó Senhor,
mas onde estás? – são aqueles maus momentos em que o vento da tentação procura quebrar-nos como um caniço.
Pois bem, recordemo-lo: sem oração e sem mortificação, é impossível resistir.

2- Não foi um efeminado.

“Que fostes ver no deserto? Acaso um homem luxuosamente vestido?”

O Precursor vivia na solidão havia muitos anos, sozinho, sem casa, sem tenda, sem servos, sem nada afora aquilo
que vestia. E vestia uma pele de camelo, cingida ao flanco por um cinturão de couro. Aparecia alto, ossudo,
queimado do sol.

A figura austera do Batista, e o louvor que Jesus fez do seu vestir, é uma forte censura para não poucos cristãos e
cristãs que alimentam a vaidade do vestir: querem-no de luxo, moderno, escandaloso. Em tais trajes ousam até
transpor o limiar da igreja, pôr-se diante dos puríssimos mármores do altar, diante do Crucificado nu e sangrento na
cruz, diante de Jesus que vive na miséria dos nossos sacrários.

O que causa mais dor é ver como até as crianças, inocentes e ignaras do mal, pelos próprios pais já são vestidas
pouco cristãmente. Esses pequenos que Jesus amava, que queria estreitados ao seu coração, crescem assim, mui
depressa, na escola do mau exemplo. Ó mães que vos comprazeis em profanar a inocência de vossos filhos, sabei
que o Senhor não pode abraçá-los desse modo; e, sem o abraço de Jesus, que há de ser de vossos filhos?

Bem sei as desculpas com que alguns procuram justificar-se, porém elas não podem ser acolhidas como boas.

a) Dizem eles: mas é a moda, é a moda que usa assim; nós vivemos no mundo, e temos de nos adaptar a ele.

Mostrarei a tolice desta desculpa com um exemplo: Dionisio de Siracusa era curto de vista e caminhava
cambaleando, e não raras vezes sucedia-lhe topar em alguma coisa, derrubar mesinhas e quebrar vasos.

Parecia incrível, contudo, naquela corte, para agradar ao tirano, todos os cortesãos apertavam as pálpebras fazendo
de ceguetas, e andavam tenteando, investindo contra cadeiras e mesas, e as vezes rolando pelas escadas. (O fato é
narrado por Plutarco).

O mundo não só é um tirano de vista curta, mas é cego de ambos os olhos; e os que seguem a sua moda são mais
cegos e mais estúpidos do que ele, e uma vez ou outra acabam rolando pelas escadas para ir ter no inferno.

b) Mas eu nunca tive intenção má seguindo as modas.

Desculpa por demais ingênua para ser válida.

Não quero discuti-la: lembrai-vos porém, de que, se não tendes idéias más, as fazeis vir aos outros.

Há na História Sagrada uma frase expressiva.

Um rei terrível, com cento e vinte mil infantes e vinte dois mil cavalos, sitiou a cidade de Betúlia: fez mesmo desviar
o único rio que lhe dava água, e atormentou-a com a sede. Chorando lágrimas desesperadas, os sitiados prostravam-
se na terra nua, invocando socorro do Céu.

Então surgiu uma viúva; vestiu os vestidos preciosos de quando era esposa feliz, ornou-se com colares de ouro e
com jóias, e depois, sozinha, transpôs a porta e saiu da cidade sitiada, rumo ao inimigo em armas. Viram-na os
soldados e conduziram-na ao general Holofernes. Viu-a, contudo, Holofernes e não a matou, porque sandália ejus
rapuerunt eum. Bastaram duas sandálias para fazerem perder a cabeça aquele terrível guerreiro; e ele perdeu-a
deveras, porquanto, naquela noite, cortou-lha Judite. (Judit.,X).

Mas de quantas outras pessoas, caídas em baixo, poder-se-ia repetir; dandalia ejus rapuerunt eum. (Judit., XVI,11).

c) Então – dirão alguns – devemos realmente vestir-nos com pele de camelo, à moda de S. João?

Não é isto o que eu digo. Digo-vos somente a palavra do Apóstolo: “Nolite conformari huic saeculo”. (Rom., XII,2).
Não queirais seguir a moda escandalosa deste mundo.

3- Foi um anjo.
“Que fostes ver no deserto? Acaso um profeta? Sim, digo-vos, um profeta, e mais do que um profeta. Um anjo que
anuncia o Senhor”.

Pode-se louvar mais um homem? Nunca ninguém foi assim exaltado pelos lábios de Cristo.

No Evangelho, porém, (Jo., X, 40) há uma referência a S. João talvez pouco meditada.

Passado o Jordão, Jesus chegou onde o Batista costumava batizar. Os caniços trêmulos na margem, o deserto que
aparecia numa extensão amarelada e uniforme, a água pura do rio impetuoso evocaram ao Messias aquela pessoa
tão cara a Ele, e que um rei adúltero trucidara.

Comovido, e como que para se repousar naquela melancólica lembrança, Jesus passou ali. Et mansit illic. Todos
compreenderam que o Mestre pensava em João Batista, mas não compreendiam como Ele pudesse amar tanto um
homem que não tinha feito sequer um milagre.

Antes, muitos ousaram dizer-lhe: “Aliás, João Batista não fez milagres. Joannes quidem nullum signum fecit”. (Jo.,
41).

E Jesus não respondeu. Mas é tão fácil compreender a razão por que João não fez milagres! Foi para que
pudéssemos imitá-lo na sua santidade. Por isto nestes domingos do Advento, a Igreja no-lo propõe como modelo.

Venham, pois, os avarentos mirar a sua cobiça num que recusou todos os bens terrenos.

Venham os soberbos mirar a sua arrogância num que pregava: “È necessário que eu seja desprezado e que Ele,
Cristo, seja honrado pelos homens”.

Venham os desonestos mirar a sua alma enlameada num que vivei virgem a vida toda. Venham os gulosos mirar a
sua voracidade num que não se alimentava senão de ervas e de mel silvestre.

E deste confronto deduzam um propósito de vida nova.

Conclusão.

Quando os Hebreus, arrancados da sua terra, foram confinados na Pérsia, alguns tementes a Deus tomaram o fogo
sagrado do altar e esconderam-no num vale onde havia um poço fundo, sem água. E dentro dele depositaram-no em
segurança, de tal forma que por todos foi ignorado aquele lugar.

Mas, quando, findos os anos de escravidão, eles voltaram a pátria, logo procuraram o fogo sacrifical. Foram ao vale,
destamparam o poço fundo, mas ali o fogo se apagara, e eles não acharam mais do que água estagnada.

Então Neemias mandou que tirassem daquela água e pusessem-na sobre o altar, sobre a lenha, e se esperasse pelo
nascer do sol. Apenas por trás das densas nuvens refulgiu o primeiro raio de sol, um grande fogo acendeu-se sobre o
altar, e todos ficaram maravilhados. (II Mac.,I, 19-22).

Também nós hoje, confrontando a nossa alma com a de S. João Batista, achamos que no fundo do nosso coração
não há mais o fogo do amor de Deus, porém a água estagnada da nossa tibieza, ou, pior, há a água lodosa dos
pecados e das paixões.

Cristãos! Tomemos, chorando, este nosso coração cheio de misérias, e ponhamo-lo sobre o altar; apenas o Menino
Jesus, sol das almas, no Natal que esta próximo, raiar sobre o mundo, vê-lo-á, compadecer-se-á dele, e tornará a
acender aquele fogo que, com os nossos pecados, nós extinguimos.

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Reflexão sobre o Evangelho Dominical - II Domingo do Advento - Parte 2 de 6


2º Domingo do Advento

De: "Pensamentos sôbre os Evangelhos e sôbre as festas do Senhor e dos Santos" - Pe. João Colombo. Nihil obstat:
Pe. João Roalta - Imprimatur: Mons. J. Lafayette
Título original: "Pensieri sui Vangeli e sulle Feste del Signore e dei Santi" Milão, Itália.

Escrito entre 1927-1938. Primeira edição em 1939.

São Mateus. XI, 2-10.

2- FORTALEZA

No Evangelho deste domingo, Jesus tece os mais belos louvores à fortaleza de S. João Batista; “Que fostes ver no
deserto? Que foi contemplares ao longo das margens do Jordão? Não era, não, um caniço agitado pelo vento! Não
era um homem molemente vestido”.

Quando Jesus falava, devia ter na mente os espessos canaviais que se formam ao longo das águas e que, batidos
pelo sopro dos ventos, vergam ora para um lado, ora para outro.

Hoje o Batista, que não se deixou dobrar nem pela prepotência de um tirano coroado, nem pelas sensualidades da
carne, deve ensinar-nos a sermos fortes contra o respeito humano, fortes contra as paixões.

1- Fortes contra o respeito humano.

Frederico II, imperador da Prússia, costumava ter no seu palácio e à sua própria mesa muitos homens insignes pela
ciência ou pelas artes. Singular e extravagante como era, quis ele, um dia de sexta-feira, convidar a jantar um
príncipe romano, católico, para lhe tentar a fé e por à prova a sua coragem religiosa. O imperador não era católico.

Mas as iguarias eram feitas com carne, e o príncipe romano, tranqüilo e desembaraçado, deixava-as passar,
contentando-se com enganar a fome apenas com alguns pedacinhos de pão.

O imperador observava sem falar; mas, depois, entre brincalhão e sério disse: “Por que não comeis? Acaso não vos
agrada a cozinha da Alemanha?”

“Não, Majestade, a vossa cozinha é excelente para os outros dias da semana, mas hoje, para um católico, é má. A
Igreja proíbe comer carne na sexta-feira”.

Ante essa nobre e franca resposta, Frederico replicou: “Admiro-vos: prestastes uma grande homenagem à vossa
religião! Agora passai a sala vizinha, onde estão preparadas comidas de magro. Também eu irei fazer-vos a honra
que mereceis”.

Aquele príncipe de Roma não era um caniço agitado pelo vento. Era um homem de caráter. E tanto mais quando se
achava a mesa do Imperador, entre tantas personalidades ilustres que não pensavam como ele.

Assim deveriam ser todos os cristãos. Se estivermos convencionados de que a nossa religião é a única verdadeira, de
que Deus existe, de que Jesus Cristo é a única salvação, e de que fora d’Ele e da sua Igreja não há senão ruína eterna.
Devemos nos sentir capazes de manifestar estas idéias mesmo exteriormente. Mas infelizmente ainda há cristãos de
meias medidas, os quais não querem renunciar à sua fé, mas, ao mesmo tempo, não tem a coragem das suas
convicções. São escravos de um sentimento vil que os dobra como caniços sob o vento. Tal sentimento chama-se
respeito humano: um belo nome, mas pessimamente aplicado. Primeiramente é preciso respeitar a Deus,
primeiramente é preciso respeitar a própria fé, e depois tenha-se também consideração com nossos irmãos.

Tende isto em mente quando, entre pessoas que falam mal, que vestem mal, que ofendem abertamente as leis de
Deus, sentirdes medo de agir diversamente delas.

Aliás, freqüentemente sucede o que ocorreu ao príncipe católico à mesa de Frederico II. Aqueles mesmos que
gracejam ou fazem as admirações, são os primeiros a admirar e a estimar os bons que têm a coragem das suas
idéias. Às vezes, uma fé sincera e franca vale a conquista de almas para as quais os fatos valem bastante mais do que
as palavras.

Recordemos, além disto, aquilo que Jesus afirmava aos seus discípulos e a todos aqueles que o seguiam: “Diante do
meu Pai que está nos céus, eu também me envergonharei de quem se houver envergonhado de mim diante dos
homens”. (Mt. X, 33)
2- Fortes contra as paixões.

Antes de começar a fundar as grandes obras de caridade, S. Vicente de Paulo era pároco de uma pequena aldeia na
França. A fama de sua santidade difundira-se pelas terras vizinhas, e, para ouvir as suas prédicas, para confessar-se
com ele, acorriam até mesmo alguns que havia tempo não estavam em ordem com o Senhor.

Havia um conde famoso pelos muitos duelos que havia sustentado. Todas as vezes que era ofendido, mesmo
levemente, ele desafiava o seu adversário para combater com a espada, e era sempre tão afortunado, que já se não
contavam as suas vítimas. Uma vez, porém, ouvindo uma prédica de S. Vicente, ele foi tocado pela graça de Deus e
converteu-se. Vendeu as suas terras, e, com o preço obtido, fundou mosteiros e consolou os pobres. Era preciso que
S. Vicente o moderasse, tanta era a generosidade com que ele se dera ao Senhor. Mas restava-lhe ainda a espada
que tantas vezes lhe servira para ofender o senhor, e ele não sabia decidir-se a separar-se dela. Aquela espada
mantinha sempre aceso nele um pouco de afeto a sua vida passada; e, como aos primeiros fervores haviam sucedido
momentos de frieza, se ele continuasse a conservar aquela arma talvez voltasse a vida de antes. Mas, um dia,
possuído da vergonha de tal fraqueza, ele para o seu cavalo, desce, traz a espada e quebra-a em mil pedaços contra
uma rocha, e, tornando a montar, exclama: “Agora, finalmente, sou livre”.

Comparáveis a espada daquele conde são as paixões que cada um de nós traz consigo desde o nascimento. Alguns
são inclinados à soberba, à vanglória, à arrogância. Outros, por sua vez, amam as coisas terrenas, tem o coração ´por
demais apegado ao dinheiro, aos negócios. Outros, ainda, sentem a ânsia de gozar, e quereriam sempre e só
satisfazer os seus maus instintos.

Ter as paixões não é um mal: é apenas sinal de ser homem. Porém elas podem tornar-se espadas cortantes,
instrumentos de pecado, quando não são sujeitadas à lei de Deus. Se, com a firmeza de uma vontade resoluta, não
colhermos as rédeas aos nossos pensamentos, aos nossos instintos, às nossas inclinações, tornamo-nos caniços
agitados pelo vento, e, após um período breve de fervor e de bondade, logo nos dobramos para uma vida
desregrada.

Não são os frágeis caniços, e sim as árvores robustas, que sabem resistir ao sopro ruinoso do vento; os caniços
findam na corrupção da lama.

Para evitar este péssimo fim, é preciso seriamente despedaçar aquelas espadas. Um golpe só não basta. A vitória
sobre as nossas paixões não é tão fácil e tão pronta como pode ser o quebrar a espada do duelo. É preciso resistir
sempre e todo dia, toda hora que passa devemos dar dois golpes decisivos, persuadidos de que só a morte as
quebrará para sempre.

Porém, quanto mais avançamos nesta luta espiritual, tanto mais nos tornamos fortes, e a graça de Deus, que se une
à nossa vontade, dá à alma cristã uma doce segurança de viver no amor do Senhor.

Conclusão.

“Feliz o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, e põe a sua complacência na lei do Senhor. Ele é
como uma árvore que é plantada ao longo de correntes de águas, a qual dará fruto a seu tempo, e tudo que ela faz
resulta bem”. (Salmo I).

Os maus, ao contrário, são como caniços que o vento, passando, abaixa; antes, são como uma nuvem de pó que o
vento levanta e dispersa. Impii tanquam pulvis quem projicit ventus.

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JESUS CRISTO REI.


2º Domingo do Advento

Pensamentos sobre os Evangelhos

e sobre as festas do Senhor e dos Santos.


Pe. João Colombo.

Imprimatur: Mons. J. Lafayette

Escrito entre 1927-1938.

Primeira edição em 1939.

I - O PRECURSOR

São Mateus. 11, 2-10.

Estamos próximos do Santo Natal. E, por três domingos consecutivos – hoje, o vindouro e mais o outro – a Igreja, no
Evangelho, envia-nos S. João para nos dizer: “Preparai os corações, pois o Senhor está para vir”.

Mas quem é esse S. João Batista que vem censurar-nos pelos nossos pecados, e persuadir-nos a fazer maior
bem? Seria útil conhecê-lo um pouco. Escutai o trecho evangélico deste segundo Domingo do Advento, e da própria
boca de Cristo conhecereis quem é o Precursor.

Estamos nas prisões de Maqueronte, e nelas João está recluso. Todos sabem por quê. E, até lá dentro, naquele lugar
de martírio e de injustiça, chega a fama dos milagres realizados por Jesus. O Precursor, cuja alma impetuosa ardia do
desejo de fazer conhecer ao mundo inteiro o verdadeiro Messias, enviou-lhe dois discípulos com esta
mensagem: “És tu o Salvador, ou devemos esperar outro?”

João bem sabia que era ELE; mas, ante aquela pergunta, Jesus seria forçado a manifestar-se, e então também toda
gente o reconheceria e o aclamaria.

O Divino Mestre acolheu com benevolência aquela mensagem, porque entreviu o amor com que a enviava, e mal os
dois discípulos do Batista regressaram, Ele voltou-se para a multidão e disse:

“Quem fostes ver no deserto? Acaso uma cana agitada pelo vento?

“Quem, pois, fostes ver? Acaso um homem vestido na moda? Não; esta gente não se acha no deserto, e sim no
palácio dos reis.

“Então, quem fostes ver? Acaso um profeta? Sim, digo-vos; um profeta e mais do que um profeta. Ele é o Anjo,
predito por Malaquias, o qual caminhará adiante do Senhor”.

Poucas palavras, mas esculturais: ressalta delas, de um golpe, a grande figura de João Batista.

Por dentro, sem fraqueza: ele não é um caniço.

Por fora, sem molezas: não se vestia com luxo.

Por dentro e por fora, sem mancha de pecado: um anjo.

1- Não foi um caniço.

“Que fostes ver no deserto? Acaso um caniço agitado pelo vento?”

Aquela multidão que acorrera para escutar João devia conhecer muito bem essa planta, símbolo de fraqueza e de
volubilidade. Devia tê-la visto, nas margens palustres do Jordão, tremer no ar, e curvar-se até à terra ao vento: se o
vento soprava do Mar Morto, o caniço curvava-se para o mar de Genesaré; porém, mal o vento, mudando de
direção, soprava do mar de Genesaré, o caniço curvava-se para o Mar Morto.

Era, pois, João por acaso, uma cana agitada pelo vento? Não; era um carvalho que não se curva a nenhum
vento. Não como nós, que pela manhã fazemos um propósito e à noite o achamos transgredido; não como nós que,
mesmo se nos confessamos cem vezes, cem vezes somos os mesmos de antes; não como nós, que somos caniços
que se dobram a todo vento de tentação.

Um jovem monge era muito tentado. Uma vez, em que já não podia mais, correu a ter com Santo Isidoro, lançou-se
por terra diante dele, e soluçava:
“Padre, por que não me ajudais?”

O santo soergueu aquela alma transtornada pelo vendaval, e, tomando-a consigo, disse: “Queres que eu te ensine a
resistir?”

O jovem levantou os olhos cheios de lágrimas: “Foi para isto que eu vim”.

“Então eis o remédio; oração e mortificação”. O monge obedeceu, e todos os dias rezava e se mortificava: mas as
tentações não cessavam. Então ele voltou a Santo Isidoro, e novamente lhe pediu remédio.

“Como! Caíste em pecado?”

“Não, graças a Deus”.

“Que queres então?”

“Quereria ficar sem tentações”.

Experiente da vida, o velho santo sorriu, e respondeu-lhe: “Vê: eu tenho setenta anos, e nem sequer um dia pude
descansar; porém nunca me dobrei ao demônio, como um caniço, porque tenho rezado e me tenho mortificado.
Vai, e faze o mesmo”.

Este episódio explica-nos bem duas coisas: explica-nos por que razão S. João Batista nunca cedeu a qualquer
tentação, explica-nos por que razão, ao contrário, nós cedemos tão amiúde.

Próximo a todo homem há um demônio, inimigo de Deus e de nós, e o dia inteiro ele suscita pensamentos de
ódio, desejos de coisas alheias, imaginações impuras. Há, pois, na vida momentos em que a tentação é tão forte
que quase nos faz desesperar. São aqueles maus momentos que S. Francisco também experimentou quando, no
inverno, se lançou na neve; são aqueles maus momentos que S. Bento também experimentou quando se lançou em
cheio nos espinhos; são aqueles maus momentos que também experimentou Santa Catarina, quando exclamava: - Ó
Senhor, mas onde estás? – são aqueles maus momentos em que o vento da tentação procura quebrar-nos como um
caniço. Pois bem, recordemo-lo: sem oração e sem mortificação, é impossível resistir.

2- Não foi um efeminado.

“Que fostes ver no deserto? Acaso um homem luxuosamente vestido?”

O Precursor vivia na solidão havia muitos anos, sozinho, sem casa, sem tenda, sem servos, sem nada afora aquilo
que vestia. E vestia uma pele de camelo, cingida ao flanco por um cinturão de couro. Aparecia alto, ossudo,
queimado do sol.

A figura austera do Batista, e o louvor que Jesus fez do seu vestir, é uma forte censura para não poucos cristãos e
cristãs que alimentam a vaidade do vestir: querem-no de luxo, moderno, escandaloso. Em tais trajes ousam até
transpor o limiar da igreja, pôr-se diante dos puríssimos mármores do altar, diante do Crucificado nu e sangrento
na cruz, diante de Jesus que vive na miséria dos nossos sacrários.

O que causa mais dor é ver como até as crianças, inocentes e ignaras do mal, pelos próprios pais já são vestidas
pouco cristãmente. Esses pequenos que Jesus amava, que queria estreitados ao seu coração, crescem assim, mui
depressa, na escola do mau exemplo. Ó mães que vos comprazeis em profanar a inocência de vossos filhos, sabei
que o Senhor não pode abraçá-los desse modo; e, sem o abraço de Jesus, que há de ser de vossos filhos?

Bem sei as desculpas com que alguns procuram justificar-se, porém elas não podem ser acolhidas como boas.

a) Dizem eles: mas é a moda, é a moda que usa assim; nós vivemos no mundo, e temos de nos adaptar a ele.

Mostrarei a tolice desta desculpa com um exemplo: Dionísio de Siracusa era curto de vista e caminhava
cambaleando, e não raras vezes sucedia-lhe topar em alguma coisa, derrubar mesinhas e quebrar vasos.

Parecia incrível, contudo, naquela corte, para agradar ao tirano, todos os cortesãos apertavam as pálpebras fazendo
de ceguetas, e andavam tenteando, investindo contra cadeiras e mesas, e às vezes rolando pelas escadas. (O fato é
narrado por Plutarco).
O mundo não só é um tirano de vista curta, mas é cego de ambos os olhos; e os que seguem a sua moda são mais
cegos e mais estúpidos do que ele, e uma vez ou outra acabam rolando pelas escadas para ir ter no inferno.

b) Mas eu nunca tive intenção má seguindo as modas.

Desculpa por demais ingênua para ser válida.

Não quero discuti-la: lembrai-vos porém, de que, se não tendes idéias más, as fazeis vir aos outros.

Há na História Sagrada uma frase expressiva.

Um rei terrível, com cento e vinte mil infantes e vinte dois mil cavalos, sitiou a cidade de Betúlia: fez mesmo desviar
o único rio que lhe dava água, e atormentou-a com a sede. Chorando lágrimas desesperadas, os sitiados prostravam-
se na terra nua, invocando socorro do Céu.

Então surgiu uma viúva; vestiu os vestidos preciosos de quando era esposa feliz, ornou-se com colares de ouro e
com jóias, e depois, sozinha, transpôs a porta e saiu da cidade sitiada, rumo ao inimigo em armas. Viram-na os
soldados e conduziram-na ao general Holofernes. Viu-a, contudo, Holofernes e não a matou, porque sandália ejus
rapuerunt eum. Bastaram duas sandálias para fazerem perder a cabeça aquele terrível guerreiro; e ele perdeu-a
deveras, porquanto, naquela noite, cortou-lha Judite. (Judit. 10).

Mas de quantas outras pessoas, caídas em baixo, poder-se-ia repetir; dandalia ejus rapuerunt eum. (Judit. 16,11).

c) Então – dirão alguns – devemos realmente vestir-nos com pele de camelo, à moda de S. João?

Não é isto o que eu digo. Digo-vos somente a palavra do Apóstolo: “Nolite conformari huic saeculo”. (Rom. 12, 2).
Não queirais seguir a moda escandalosa deste mundo.

3- Foi um anjo.

“Que fostes ver no deserto? Acaso um profeta? Sim, digo-vos, um profeta, e mais do que um profeta. Um anjo que
anuncia o Senhor”.

Pode-se louvar mais um homem? Nunca ninguém foi assim exaltado pelos lábios de Cristo. No Evangelho, porém,
(Jo. 10, 40) há uma referência a S. João talvez pouco meditada.

Passado o Jordão, Jesus chegou onde o Batista costumava batizar. Os caniços trêmulos na margem, o deserto que
aparecia numa extensão amarelada e uniforme, a água pura do rio impetuoso evocaram ao Messias aquela pessoa
tão cara a Ele, e que um rei adúltero trucidara.

Comovido, e como que para se repousar naquela melancólica lembrança, Jesus passou ali. Et mansit illic. Todos
compreenderam que o Mestre pensava em João Batista, mas não compreendiam como Ele pudesse amar tanto um
homem que não tinha feito sequer um milagre.
Antes, muitos ousaram dizer-lhe: “Aliás, João Batista não fez milagres. Joannes quidem nullum signum fecit”. (Jo.
41).

E Jesus não respondeu. Mas é tão fácil compreender a razão por que João não fez milagres! Foi para que
pudéssemos imitá-lo na sua santidade. Por isto nestes domingos do Advento, a Igreja no-lo propõe como modelo.
Venham, pois, os avarentos mirar a sua cobiça num que recusou todos os bens terrenos. Venham os soberbos
mirar a sua arrogância num que pregava: “È necessário que eu seja desprezado e que Ele, Cristo, seja honrado
pelos homens”. Venham os desonestos mirar a sua alma enlameada num que viveu virgem a vida toda. Venham
os gulosos mirar a sua voracidade num que não se alimentava senão de ervas e de mel silvestre.

E deste confronto deduzam um propósito de vida nova.

Conclusão.

Quando os Hebreus, arrancados da sua terra, foram confinados na Pérsia, alguns tementes a Deus tomaram o fogo
sagrado do altar e esconderam-no num vale onde havia um poço fundo, sem água. E dentro dele depositaram-no
em segurança, de tal forma que por todos foi ignorado aquele lugar.
Mas, quando, findos os anos de escravidão, eles voltaram a pátria, logo procuraram o fogo sacrifical. Foram ao vale,
destamparam o poço fundo, mas ali o fogo se apagara, e eles não acharam mais do que água estagnada.

Então Neemias mandou que tirassem daquela água e pusessem-na sobre o altar, sobre a lenha, e se esperasse
pelo nascer do sol. Apenas por trás das densas nuvens refulgiu o primeiro raio de sol, um grande fogo acendeu-se
sobre o altar, e todos ficaram maravilhados. (II Mac. 1, 19-22).

Também nós hoje, confrontando a nossa alma com a de S. João Batista, achamos que no fundo do nosso coração não
há mais o fogo do amor de Deus, porém a água estagnada da nossa tibieza, ou, pior, há a água lodosa dos pecados e
das paixões.

Cristãos! Tomemos, chorando, este nosso coração cheio de misérias, e ponhamo-lo sobre o altar; apenas o Menino
Jesus, sol das almas, no Natal que está próximo, raiar sobre o mundo, vê-lo-á, compadecer-se-á dele, e tornará a
acender aquele fogo que, com os nossos pecados, nós extinguimos.

2- FORTALEZA

No Evangelho, do 2º domingo do advento, Jesus tece os mais belos louvores à fortaleza de S. João Batista; “Que
fostes ver no deserto? Que foi contemplares ao longo das margens do Jordão? Não era, não, um caniço agitado
pelo vento! Não era um homem molemente vestido”.

Quando Jesus falava, devia ter na mente os espessos canaviais que se formam ao longo das águas e que, batidos
pelo sopro dos ventos, vergam ora para um lado, ora para outro.

Hoje o Batista, que não se deixou dobrar nem pela prepotência de um tirano coroado, nem pelas sensualidades da
carne, deve ensinar-nos a sermos fortes contra o respeito humano, fortes contra as paixões.

1- Fortes contra o respeito humano.

Frederico II, imperador da Prússia, costumava ter no seu palácio e à sua própria mesa muitos homens insignes pela
ciência ou pelas artes. Singular e extravagante como era, quis ele, um dia de sexta-feira, convidar a jantar um
príncipe romano, católico, para lhe tentar a fé e por à prova a sua coragem religiosa. O imperador não era católico.

Mas as iguarias eram feitas com carne, e o príncipe romano, tranqüilo e desembaraçado, deixava-as passar,
contentando-se com enganar a fome apenas com alguns pedacinhos de pão.

O imperador observava sem falar; mas, depois, entre brincalhão e sério disse: “Por que não comeis? Acaso não vos
agrada a cozinha da Alemanha?”

“Não, Majestade, a vossa cozinha é excelente para os outros dias da semana, mas hoje, para um católico, é má. A
Igreja proíbe comer carne na sexta-feira”.

Ante essa nobre e franca resposta, Frederico replicou: “Admiro-vos: prestastes uma grande homenagem à vossa
religião! Agora passai a sala vizinha, onde estão preparadas comidas de magro. Também eu irei fazer-vos a honra
que mereceis”.

Aquele príncipe de Roma não era um caniço agitado pelo vento. Era um homem de caráter. E tanto mais quando se
achava a mesa do Imperador, entre tantas personalidades ilustres que não pensavam como ele.

Assim deveriam ser todos os cristãos. Se estivermos convencionados de que a nossa religião é a única verdadeira,
de que Deus existe, de que Jesus Cristo é a única salvação, e de que fora d’Ele e da sua Igreja não há senão ruína
eterna. Devemos nos sentir capazes de manifestar estas idéias mesmo exteriormente. Mas infelizmente ainda há
cristãos de meias medidas, os quais não querem renunciar à sua fé, mas, ao mesmo tempo, não tem a coragem das
suas convicções. São escravos de um sentimento vil que os dobra como caniços sob o vento. Tal sentimento chama-
se respeito humano: um belo nome, mas pessimamente aplicado. Primeiramente é preciso respeitar a Deus,
primeiramente é preciso respeitar a própria fé, e depois tenha-se também consideração com nossos irmãos.

Tende isto em mente quando, entre pessoas que falam mal, que vestem mal, que ofendem abertamente as leis de
Deus, sentirdes medo de agir diversamente delas.
Aliás, freqüentemente sucede o que ocorreu ao príncipe católico à mesa de Frederico II. Aqueles mesmos que
gracejam ou fazem as admirações, são os primeiros a admirar e a estimar os bons que têm a coragem das suas
idéias. Às vezes, uma fé sincera e franca vale a conquista de almas para as quais os fatos valem bastante mais do
que as palavras.

Recordemos, além disto, aquilo que Jesus afirmava aos seus discípulos e a todos aqueles que o seguiam: “Diante do
meu Pai que está nos céus, eu também me envergonharei de quem se houver envergonhado de mim diante dos
homens”. (Mt. 10, 33)

2- Fortes contra as paixões.

Antes de começar a fundar as grandes obras de caridade, S. Vicente de Paulo era pároco de uma pequena aldeia na
França. A fama de sua santidade difundira-se pelas terras vizinhas, e, para ouvir as suas prédicas, para confessar-se
com ele, acorriam até mesmo alguns que havia tempo não estavam em ordem com o Senhor.

Havia um conde famoso pelos muitos duelos que havia sustentado. Todas as vezes que era ofendido, mesmo
levemente, ele desafiava o seu adversário para combater com a espada, e era sempre tão afortunado, que já se não
contavam as suas vítimas. Uma vez, porém, ouvindo uma prédica de S. Vicente, ele foi tocado pela graça de Deus e
converteu-se. Vendeu as suas terras, e, com o preço obtido, fundou mosteiros e consolou os pobres. Era preciso
que S. Vicente o moderasse, tanta era a generosidade com que ele se dera ao Senhor. Mas restava-lhe ainda a
espada que tantas vezes lhe servira para ofender o senhor, e ele não sabia decidir-se a separar-se dela.

Aquela espada mantinha sempre aceso nele um pouco de afeto a sua vida passada; e, como aos primeiros fervores
haviam sucedido momentos de frieza, se ele continuasse a conservar aquela arma talvez voltasse a vida de antes.
Mas, um dia, possuído da vergonha de tal fraqueza, ele para o seu cavalo, desce, traz a espada e quebra-a em mil
pedaços contra uma rocha, e, tornando a montar, exclama: “Agora, finalmente, sou livre”.

Comparáveis a espada daquele conde são as paixões que cada um de nós traz consigo desde o nascimento. Alguns
são inclinados à soberba, à vanglória, à arrogância. Outros, por sua vez, amam as coisas terrenas, tem o coração por
demais apegado ao dinheiro, aos negócios. Outros, ainda, sentem a ânsia de gozar, e quereriam sempre e só
satisfazer os seus maus instintos.

Ter as paixões não é um mal: é apenas sinal de ser homem. Porém elas podem tornar-se espadas cortantes,
instrumentos de pecado, quando não são sujeitadas à lei de Deus. Se, com a firmeza de uma vontade resoluta, não
colhermos as rédeas aos nossos pensamentos, aos nossos instintos, às nossas inclinações, tornamo-nos caniços
agitados pelo vento, e, após um período breve de fervor e de bondade, logo nos dobramos para uma vida
desregrada.

Não são os frágeis caniços, e sim as árvores robustas, que sabem resistir ao sopro ruinoso do vento; os caniços
findam na corrupção da lama.

Para evitar este péssimo fim, é preciso seriamente despedaçar aquelas espadas. Um golpe só não basta. A vitória
sobre as nossas paixões não é tão fácil e tão pronta como pode ser o quebrar a espada do duelo. É preciso resistir
sempre e todo dia, toda hora que passa devemos dar dois golpes decisivos, persuadidos de que só a morte as
quebrará para sempre.

Porém, quanto mais avançamos nesta luta espiritual, tanto mais nos tornamos fortes, e a graça de Deus, que se
une à nossa vontade, dá à alma cristã uma doce segurança de viver no amor do Senhor.

Conclusão.

“Feliz o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, e põe a sua complacência na lei do Senhor. Ele é
como uma árvore que é plantada ao longo de correntes de águas, a qual dará fruto a seu tempo, e tudo que ela
faz resulta bem”. (Salmo I).

Os maus, ao contrário, são como caniços que o vento, passando, abaixa; antes, são como uma nuvem de pó que o
vento levanta e dispersa. Impii tanquam pulvis quem projicit ventus.
http://www.derradeirasgracas.com/3.%20V%C3%A1rios%20Assuntos/O%20JUIZO%20UNIVERSAL/O%20Juizo%20U
niversal%20II%20.htm

JESUS CRISTO REI.


1º Domingo do Advento

Pensamentos sobre os Evangelhos

e sobre as festas do Senhor e dos Santos.

Pe. João Colombo.

Imprimatur: Mons. J. Lafayette

Escrito entre 1927-1938.

Primeira edição em 1939.

I. O JUÍZO UNIVERSAL

Lc. 21, 25-33.

Para além dos séculos, Deus pôs um sinal ao qual todos os caminhos deverão chegar. Este sinal é a sua cruz, que
aparecerá, no fim do mundo, no céu vazio, e fulgurará terrivelmente sobre a cabeça de todos os homens reunidos
de todas as partes e prostrados sobre a terra nua. Será esse o dia mais tremendo. Dies irae dies illa!

Na manhã de 14 de setembro do ano 258, no Campo Sextio, molhado ainda do orvalho, era decapitado o bispo de
Cartago. Os inimigos de Cristo haviam-no prendido e trazido perante o procônsul Galério.

Galério: “És tu Tascio Cipriano?”

Cipriano: “ Sou eu mesmo”.

Galério: “Que Tascio Cipriano seja justiçado à espada”.

Cipriano: “Deo gratias”.

Mas, quando os soldados se prepararam para executar a sentença, quando os fiéis estenderam paninhos em torno
para recolher o seu sangue que seria derramado, o santo teve um frêmito e, cobrindo os olhos com as mãos,
disse: “Vae mihi cum ad judicium venero!” Foi um instante: depois estendeu a cabeça.

Se o pensamento do juízo de Deus fazia tremer os mártires, que será de nós? Que faremos nós e que diremos
diante do Juiz divino? Pensemos em que aquele será:

Dia da grande manifestação,

Dia da grande acusação.

1- Manifestação sem véus.

Representemo-nos a nossa alma perante aquele tribunal supremo, circundada pelos anjos e pelos homens: os justos
e os pecadores, os parentes e os conhecidos, os superiores e os inferiores, os amigos e os inimigos. Os olhos de
todos estão sobre nós. Sobre nós estão os olhos de Deus.

Entrementes se refará a história da nossa vida, desde os dias remotos e esquecidos da infância até o da nossa
morte. Então aparecerá todo o mal que encobertamos fizemos, e todo o bem que preguiçosamente não quisemos
fazer.

a) Todo o mal que encobertamente fizemos.

Neste mundo nós acreditamos enganar os olhos do esposo, a vigilância dos pais, a boa fé talvez de um padre a quem
arrancamos a absolvição. Trabalho perdido: lá todos saberão de tudo.
Passávamos por amigo fiel, sincero, generoso: ao contrário, verão que éramos desleais, interesseiros sem
consciência.

Passávamos como sendo pessoa justa que se contenta com o que é seu: ao contrário, conhecer-se-ão as fraudes
dos nossos negócios, e todos poderão contar o dinheiro e as coisas extorquidas aos outros.

Passávamos como um homem íntegro e honesto; ao invés, aparecerão as nossas infâmias cometidas na sombra e
no segredo.

E não só o mal que fizemos fora de nós, mas também o mal que ficou dentro de nós, no recôndito da alma, será
manifestado.

Tantos desejos vergonhosos que nas horas de ócio enchiam nossa mente; tantos instintos de inveja e de rancor que
dissimulamos, mas que no entanto eram o motivo profundo das nossas malignas vingancinhas; tantos projetos de
pecados que só não executamos por ter faltado a ocasião: veremos estas iniqüidades saltadas do nosso coração, sem
o sabermos, quase como uma emboscada. Ante a história secreta do nosso coração sentiremos horror de nós
mesmos.

Ao exame do mal que fizemos seguir-se-á o do bem que, podendo, não quisemos fazer.

b) Todo o bem que podíamos fazer e que preguiçosamente não quisemos fazer.

Neste mundo é fácil esconder por trás de um cômodo pretexto a nossa preguiça no descuido do bem, e temos a
ilusão de justificar-nos, dizendo: “Não me compete”, ou então “Não o consigo, não tenho os meios”. Porém lá em
cima ser-nos-ão relembradas e lançadas em rosto todas as culposas omissões de que nossa vida é tecida.

Todas as ocasiões de dar a Deus uma glória que não demos; todas as almas que poderíamos ter salvado com a
oração, com o conselho, com a esmola, e que não salvamos; todas ao Santas Comunhões, Missas, prédicas que
descuidamos por preguiça; todos os dias perdidos, sacrificados aos mexericos e aos prazeres do mundo, sem um
pensamento que os consagrassem a Deus e os tornasse bons para a eternidade.

Manifestação total, pois: do mal feito ora e dentro de nós, e do bem não feito.

c) E será uma manifestação sem véus.

Na terra, quando fomos capaz de um delito que nos precipitou na infâmia e no desprezo, fugimos do nosso país,
abandonamos a pátria e procuramos um lugar, noutro continente, onde ninguém nos conheça, onde ninguém saiba
nem venha a saber, onde ainda nos seja possível respirar e redimir-nos. Mas, no dia do grande juízo, em que ignotas
regiões poderemos refugiar-nos, se todas foram destruídas? Em que povos estrangeiros, se todo homem poderá ler-
nos na fronte a chaga e o destino?

Na terra, o homem desonrado pode esconder-se, pode intrometer-se na multidão dos indiferentes, e esperar que
com o tempo se aplaque o rumor das suas maldades. Mas isto não será possível na hora do juízo universal: não mais
confusão, porém separação. Do alto, como um grande pastor, com o seu cajado ardente Cristo separará os
cordeiros dos bodes: os bons dos maus. E será uma separação cruel: o amigo do amigo, o irmão do irmão, o pai do
filho, um tomado e outro abandonado. E será uma separação ignominiosa, por que todos nos verão e nos
desprezarão.

Um nobre romano de nome Pison foi obrigado a comparecer no senado revestido com a túnica infame de réu. Mas,
quando, assim coberto de opróbrio, se achou perante os senadores que dos seus assentos olhavam para ele, mesmo
antes de comparecerem os juízes no tribunal, mesmo antes de levantarem os acusadores os rostos, ele não pode
mais aguentar-se de vergonha. Resistiu um pouco, empalideceu como alguém que desmaia: porém, depois,
subitamente puxou de um estilete que por acaso trazia sobre as vestes, e matou-se (DIONE CASSIO).

Oh! Se na hora do juízo de Deus os réprobos possuíssem um estilete! Oh! Se ao menos pudessem morrer outra vez,
morreria todos de vergonha!

2. Dia da grande acusação.


a) A acusação do demônio.

Santo Agostinho assegura-nos que o primeiro a levantar-se contra nós será o demônio. Logo ele, que agora, com
toda lisonja e dolo, nos atira na lama. Dirá ele: “durante a vida esta alma observou os mandamentos, Senhor, não
da tua, mas da minha lei. Dá-me, pois, que ela me pertence”.

Nós ousaremos balbuciar: “Senhor, seguir o demônio era menos trabalhoso, dura demais é a tua lei”.

“Não é verdade, não é verdade! - Insultar-nos-á o demônio - Eu te fazia trabalhar mesmo no Domingo, enquanto a
suave lei de Deus te teria concedido o repouso, e tu trabalhavas para mim, sem te lamentares, eu te fazia beber
mesmo quando já não tinhas sede: e tu, por mim, bebias ainda, até te sentires mal, até te bestializares na
embriaguez. Eu te mandava dançar: e tu, cansado dos seis dias de trabalho dançavas no Domingo para me fazeres
rir. Eu te sugeria um encontro equívoco: e tu, para me escutares, deixavas a tua família e, embora fizesse frio,
embora chovesse, te agüentavas esperar debaixo da água ou da neve, por horas e horas aquela pessoa. Eu te
impunha esbanjares no vício o suor da tua semana: e tu, que tinhas medo de dar de esmola um ceitil, consumias nas
reuniões e nos prazeres o sustento de tua família. Nada leve o meu jugo: mas preferiste-o!”

b) A acusação do Anjo.

Depois surgirá o nosso Anjo. Sim, o Anjo da Guarda, a quem a Piedade Suprema nos confiará, também ele se tornará
acusador. “Meu Senhor - dirá ele - o meu dever de iluminá-lo, guardá-lo, regê-lo, governá-lo, cumpri-o. Mas em
vão. Em vão, ó Senhor, iluminei-lhe a mente com bons pensamentos, a alma com as boas palavras de sacerdotes e
de amigos, o caminho com o bom exemplo de companheiros. Em vão eu o guardava, pois por sua teimosa vontade
ele ia ter com as pessoas más e aos lugares perigosos. As tempestades de remorsos que eu lhe suscitava no coração,
ele não quis render-se.”

c) A acusação dos homens.

Terminada a acusação do anjo mal e do anjo bom, surgirão os homens para nos acusar, será a voz dos inocentes
escandalizados pelas nossas palavras, pelo nosso exemplo, pelos nossos incitamentos: “justiça de Deus - clamarão
eles - vinga as nossas almas”.

Será a voz dos cúmplices dos nossos pecados: “justiça de Deus - gritarão eles - com ele o mal, com ele o inferno”.

Será, ó pais, a voz dos vossos filhos que não guardastes, que não educastes, que quiçá escandalizastes. “Senhor -
dirão eles - em casa aprendi a não rezar, a blasfemar, a ofender-te!”

Será, talvez, ó pais, a voz débil dos filhos que não quisestes, ou que não abandonastes antes de nascerem: “Senhor -
gemerão eles - nós também tínhamos direito à vida e não a tivemos!”

d) Acusação sem escusa.

Que escusa acharemos para opor a semelhante acusação? Acaso a nossa ignorância? Culpa nossa se nos não
instruímos: todo Domingo havia pregação e doutrina. Acaso a nossa fraqueza? Mas todos os santos saltarão a
dizer: “Também nós éramos de carne e sangue como vós, e nos salvamos”. Então surgirá o Juiz e julgará.

Conclusão.

Quando Moisés acabou de explicar ao povo a Lei de Deus, concluiu assim: “Filhos de Israel! Eis que eu hoje ponho
diante de vós uma bênção e uma maldição: uma bênção se obedecerdes aos mandamentos de Deus, uma
maldição se deixardes a estrada boa pela má. Escolhei”. (Deut., 11, 16-28)

As mesmas palavras eu repito a vós, ó cristãos, depois de vos haver proposto o novíssimo do juízo.

“Eis que eu hoje ponho diante de vós uma bênção eterna e uma eterna maldição. Quereis ser benditos no reino do
céu para sempre? Ou quereis ser malditos no fogo do inferno para sempre? Escolhei”.

2. O DIA DA JUSTIÇA

Muitos, tendo visto que neste mundo os acontecimentos se desenrolam muitas vezes sem justiça, escandalizados
disserem que a Providência não existe.
No tempo dos antigos Gregos, o filósofo Aristóteles, com um senso de amargura profunda, escreveu que a justiça
deste mundo é uma teia de aranha que detém os mosquitos e deixa passar os pássaros. No tempo dos Romanos,
Bruto, defensor da liberdade republicana, quando em Filipes, viu os seus exércitos desbaratados e a sua causa
perdida, matou-se com sua própria mão, exclamando: “Virtude, tu não passas de um nome!”

E quantas vezes, na história, se encontram pessoas culpadas de atrozes crimes, as quais com o fulgor do ouro
fizeram empalidecer as leis, e deslumbraram os juízes!

E mesmo pela nossa experiência quotidiana podemos concluir que neste mundo, os mais felizes nem sempre são os
melhores, e as desgraças nem sempre vem recair sobre os que as mereceram.

Contudo, a justiça finalmente virá.

“Observai a figueira, e, em geral, todas as plantas. Quando a casca – dizia Jesus – se torna mais tenra e úmida,
quando os gomos entumescidos deixam transparecer na ponta um olho verde, dizeis que já vem a primavera. Pois
bem, dar-vos-ei os sinais para conhecerdes a chegada da minha justiça.

Sinais na terra: irromperão guerras de povo contra povo, propagar-se-ão doenças contagiosas de cidade em
cidade, e longos incêndios arderão sobre toda a face do mundo. Tristes e mudos, os viventes de então consumir-se-
ão pelo medo e pela expetação.

Sinais no céu: o sol apagar-se-á rugindo como um ferro em brasa na água, a lua negará os seus pálidos raios, as
estrelas, como ébrias, sairão do seu caminho e precipitar-se-ão; toda potência do universo se abalará. Então,
sobre as nuvens, com poder e majestade, ver-se-á vir o Filho de Deus.”

E Ele revelará.

E falará.

E condenará.

1 – E revelará.

Quando na escuridão de um aposento penetra um repentino feixe de luz, num lance de olhos vê-se tudo o que há no
aposento: vê-se até o grão de pó sobre os móveis, e os corpúsculos que dançam no vazio. Assim será no aparecer do
Filho de Deus: toda a nossa consciência será invadida pela sua luz fulgurante. Nem um ângulo ficará na sombra,
nem uma página da nossa vida ficará obscura. Aquela será a hora da verdade.

Aquelas visitas freqüentes, aqueles passeios, aqueles encontros que se acreditou encobrir sob o pretexto de uma
amizade inocente, ou de um justo passatempo, aparecerão então quais são, motivos de paixão impura. Aquelas
coisas que se levavam para casa sob pretexto de compensar-nos da injustiça paga ou daquilo que nos haviam tirado,
então aparecerão qual realmente são: um furto.

É fácil, neste mundo, perder a Missa com a desculpa de que falta tempo, descuidar da Doutrina cristã a pretexto
dos negócios, omitir as orações da noite por causa do cansaço; mas então todos saberão que não se achava tempo
para os deveres religiosos, mas achava-se tempo – e quanto! - para os divertimentos, para as palestras, para o jogo,
para os pecados.

É fácil, neste mundo, profanar pelo trabalho o dia festivo, e esconder o próprio pecado sob a aparência de uma
necessidade ou da urgência; mas a avareza sórdida que nos impele a este sacrilégio será desvendada naquele dia.

Tudo será desvendado: mas sobretudo os pecados conservados ocultos mesmo na Confissão, e arrastados dia a dia
com uma longa cadeia de sacrilégios.

Quem pode imaginar a confusão do réprobo, descoberto aos olhos de todos, aos olhos de Deus?

Efrém era diácono de Edessa, quando por uma pessoa impudica foi solicitado a ofender o Senhor. E depois de haver
tentado em vão todos os recursos para converter aquela alma infeliz, apegou-se a um estratagema.

“Esta bem – disse – ele finalmente – já que não queres aderir às minhas palavras persuasivas, condescenderei com
as tuas, contanto que me concedas escolher o lugar”.
“E onde?”.

“Na praça do mercado de Edessa”.

Porém ela recusou, horrorizada de vergonha.

“Estulta! - replicou o santo. - Se temes o olhar destes cidadãos, como poderás sustentar o olhar fulgurante de
Cristo juiz, quando com Ele te olharem os cidadãos de todos os séculos e de todas as cidades? Quando não um só,
porém todos os pecados da tua vida forem revelados?”

2- E falará.

Santa Catarina de Sena, uma noite em que orava de joelhos diante do Crucifixo, viu sair uma luz das chagas do
Senhor, e depois ouviu um gemido que a censurava por ter estado naquele dia distraída na meditação.

A santa começou a tremer de espanto, e um suor gélido regou-lhe os membros, e dos seus olhos caíram amaríssimas
lágrimas.

“Experimentei uma dor tal – manifestou ela depois – como não provarei jamais, nem mesmo se me
envergonhassem diante do rei do mundo. Eu preferiria caminhar por meses e meses sobre uma estrada tecida de
espinhos, a tornar a sentir a punção daquela censura”.

E, no entanto, o defeito dela era um pequeno defeito, e talvez não totalmente voluntário. Todavia Jesus lhe falava
por amor, querendo purificá-la de toda fraqueza e transportá-la a uma altíssima perfeição. Que aturdimento
indizível não deverá ser, pois, o dos réprobos quando no seu furor, Cristo os exprobrar pelos seus enormes
pecados? Loquetur ad eos in ira sua, et in furore suo conturbabit eos. (Ps., II, 5).

“Presta-me conta – dir-nos-á Ele – da vida que te dei. Onde está o bem que fizeste em trinta, quarenta, cinqüenta
anos? Quantas são as tuas Comunhões, mortificações, esmolas, boas obras?”

“Presta-me conta – dir-nos-á Ele – das minhas boas inspirações. Que fizeste daqueles pensamentos de bem que dia
a dia eu te enviava? Que fizeste daqueles remorsos com que eu te pungia o coração quando ouvias as prédicas,
quando te achavas na solidão? Enxotaste-os como moscas, sufocaste-os: agora mos pagarás”.

“Presta-me conta – dir-nos-á Ele – da tua família. Teus pais te educaram bem, te ensinaram a respeitar a minha lei
e o meu nome, mas tu por que esqueceste os ensinamentos deles? Teus filhos por que não cresceram bons? E como
podiam crescer tais, se não te preocupavas com eles, se os não castigavas quando eles fugiam da igreja, se os
escandalizavas com maus exemplos?”

Presta-me conta – dir-nos-á – dos sacerdotes que eu coloquei perto da tua alma. Eles te ensinavam, e tu não ias
ouvi-los. Pregavam, e tu fechavas os ouvidos. Censuravam-te em meu nome, e tu os odiaste”.

“Presta-me conta – dir-nos-á ele – dos meus sacramentos. Tinhas na alma o demônio, e não ias confessar-te:
desprezas-te o sacramento do perdão, e agora pretendes que eu te perdoe? Oh! Quantas vezes te esperei no
silêncio do Tabernáculo, e não vieste! Esperei-te na Páscoa, esperei-te nas Quarenta Horas, esperei-te no dia do
Perdão, esperei-te no dia de Finados . . . E não vieste?”.

“Ah! Presta-me conta do meu sangue. O sangue que eu derramei debaixo das oliveiras, o sangue da flagelação, o
sangue da coroação de espinhos, o sangue das minhas mãos e dos meus pés, o sangue do meu coração. Todo o
sangue foi inútil para ti”.

Quid sum miser tum dicturus? Míseros, confundidos, nus, sob o olhar pungente de todos os homens que existiram,
que existem, que existem e que existirão, quem de nós ousará responder alguma coisa?

3- E condenará.

Antes do alvorecer Santo Agostinho foi acordado por um gemer longo e por um soluçar dilacerante que lhe vinha da
rua.

Dois homens semi-nus, de barba e cabeleira sórdida e comprida, magros e famintos, tremiam convulsivamente
diante da porta do bispo. Entrementes, todo o povo de Hipona acorrera para os ver.
“Como vos chamais?’ perguntou Santo Agostinho.

“Paulo e Paládio”, responderam eles, sem cessarem de chorar e de tremer.

“Sossegai, nós vos socorreremos”.

“É impossível sossegarmos. Estamos vindo de Cesaréia da Capadócia, onde éramos sete irmãos e três irmãs.
Ofendemos nossa mãe viúva, e ela amaldiçoou-nos, e a sua maldição passou à nossa pele, à nossa carne, ao nosso
sangue, aos nossos ossos. E como estais vendo, faz-nos tremer noite e dia sem trégua... Santo de Deus, livra-nos da
maldição de nossa mãe, ou, se mais não puderes, faze-nos ao menos a graça de morrermos”.

Santo Agostinho orou por eles, e Deus livrou-os.

Refleti cristãos; se tanto pode naqueles filhos a maldição de uma mãe terrena, que não produzirá em nós a terrível,
irrevogável, final maldição de Deus, nosso pai, ofendido pelos nossos pecados? Ite, maledicti, in ignem æternum.

Agora não sabemos compreender o que importe a privação de Deus; apenas podemos fazer uma idéia bastante
remota e confusa.

Imaginai se nesta igreja faltasse o ar: os nossos olhos se entumesceriam, as faces tornar-se-nos-iam lívidas,
abriríamos a boca delirando, sufocaríamos. Um tormento que a isto se assemelha, porém, infinitamente maior,
experimentará a alma que, amaldiçoada, sente privar-se de Deus, que é a sua respiração.
Ter sempre sede, sem jamais beber; ter sempre fome sem jamais comer; tremer de frio sem uma chama, arder pelo
fogo sem uma aragem que nos refresque: assim a alma sem Deus.

Terríveis tormentos, mas esta triste recompensa o próprio pecador invoca-a sobre si, pecando. E, quando soar a
mobilização geral das consciências, quando sobre toda a terra atroar o grito tremendo; - Levantai-vos, ó mortos! -
então Deus não fará senão sancionar aquilo que cada um quis para si.

“Ó cristão! Com o pecado tu te degradaste a ti mesmo, seja feita a tua vontade, para sempre. Fiat voluntas tua, in
aeternum”.

“Ó cristão! Com o teu pecado expulsaste-me do teu coração. Eu ratifico: para sempre. In aeternum”.

“E agora vai-te, pois não te conheço mais: para sempre. In aeternum”.

Conclusão.

Um pequeno Rei declarara guerra a um grande Rei. Mas depois sentou-se, e começou a refletir: “Como posso nutrir
esperanças de vencê-lo, se conto apenas com dez mil soldados, quando o meu adversário conduz mais de vinte
milhões?” E, sabiamente, enquanto os exércitos ainda estavam longe, enviou uma embaixada pedindo
humildemente a paz e os pactos de submissão. Legationem mittens rogat ea quae pacis sunt. (Lc. 14, 32).

Ora, o Evangelho deste primeiro domingo do Advento assegura-nos que Jesus Cristo, o grande Rei sobre cujo flanco
esta escrito o sinal do poder infinito, Rex Regum et Dominus dominantium. (apoc., XIX, 16), deve vir do céu a julgar a
terra. Que somos nós diante dEle? Acaso pretendemos resistir-lhe?

Obremos sabiamente como o pequeno rei da parábola: enquanto ainda está longe, enquanto ainda estamos em
tempo, peçamos-lhe os pactos de paz, e sujeitemo-nos a todos os seus doces mandamentos.

3. NO DIA DO JUÍZO OS PAPÉIS SERÃO INVERTIDOS.

Lc. 21, 25-33.

Longe da sua pátria, sozinho numa triste gruta, entre as mais ásperas penitências do estudo, S. Jerônimo chorava
o tempo passado nas dissipações. Parecia-lhe haver ofendido por demais o Senhor, e que todas as asperezas que
ele infligia ao seu corpo não bastavam para aplacar a ira de Deus. Tinha medo do juízo que o Senhor devia fazer
da sua alma. E, de noite, quando ouvia o silvo do vento, parecia-lhe ouvir o som das trombetas angélicas que
chamavam os mortos ao vale de Josafat para a sentença final: então pulava do seu duro catre, prostava-se de
joelhos, e, batendo-se com os seixos da espelunca, invocava a misericórdia de Deus.

E era um santo.

Que devemos então dizer nós, que tantos pecados temos cometido? Que será, ó cristãos, da nossa alma quando
nos acharmos perante o tribunal de Deus?

Confessemo-lo com coração sincero: pensamos pouquíssimo nestas verdades. Elas nos parecem coisas tão
longínquas, que quase se perdem e se diluem na imensidade do tempo, como se nunca devessem suceder. Às vezes
temos a ilusão de que aos outros sim, porém a nós elas nunca sucederão.

E, no entanto, aquele dia virá.

No dia de hoje Jesus fala-nos muito claro. Depois de sinais grandiosos e espantosos que se desenvolverão no céu e
sobre a terra, Ele chegará fulgurante de poder e de majestade. E os papéis serão invertidos.

Então chorarão os que gozaram; ao contrário, os que na vida sofreram, os que semearam de lágrimas o seu
caminho, estes serão cumulados de gláudio imenso.

O pensamento do que acontecerá nesse último dia sirva também a nós, como serviu aos Santos, para nos fazer
passar bem o tempo da vida que ora vivemos.

1- Chorarão os que gozaram.

Quando, na guerra européia, os bolchevistas entraram na cidade de Sebastopol, enviaram à morte muitas pessoas
sem sequer um processo. Levavam os condenados para sobre os escolhos, atavam-lhes aos pés grandes pedras, e
depois os precipitavam no mar.

Assim foi justiçado um almirante. Mas, depois que ele foi lançado ao mar, eles se lembraram de que ele trazia
consigo documentos importantes. Foi dada ordem a um mergulhador para pescar o cadáver. De fato, ele desceu à
água; porém, mal tocara o fundo do mar, deu o sinal para ser içado.

Foi retirado louco de terror, pronunciando frases desconexas. Curado após alguns dias, narrou que, chegando ao
fundo do mar, se achara perante uma espantosa assembléia: todos os mortos lá estavam eretos, e pareciam vir-lhe
ao encontro para o ameaçarem com atroz vingança.

Era esse um fenômeno natural que, no momento, o mergulhador não soube explicar. Os cadáveres que já desde
alguns dias estavam nas águas, tornados leves pela decomposição, tendiam a subir ao alto, mas não o podiam, por
estarem firmados, nos pés, pelas pedras a que estavam amarrados.

Se a vista de alguns cadáveres que bamboleavam sob o impulso das correntes marinhas fez enlouquecer de espanto
um homem já habituado ao risco, pensai no que será quando todos os pecados se apresentarem à mente em toda
a sua fealdade, e envolverem a alma para esmagá-la e oprimi-la sob o seu peso! Coisa bem diversa dos cadáveres
vistos pelo mergulhador! Aqueles furtos, aquelas desonestidades, aquele ódio, aquele escândalo que em vida eram
objeto de regozijo, tornar-se-ão motivo de horror, de angústia, de pranto.

Chorarão os que gozaram.

O escafandrista de Sebastopol pôde dar o sinal, e assim tiraram-no das águas; mas diante do tribunal de Deus não
haverá nenhum meio de salvação. As trombetas angélicas já terão assinalado o término de toda misericórdia.

Ó cristãos, se aqueles que gozam a vida no meio de pecados devem esperar por um tal fim, não vale a pena invejá-
los.

Ó cristãos, vale realmente a pena invejar os que gozam a vida no meio dos pecados?

2- Gozarão os que choraram.

Suponde que um filho, saído de casa para ir á guerra, seja feito prisioneiro em terra longínqua, estrangeira. Os seus,
especialmente sua mãe, nada mais souberam dele. Morto? Desaparecido? Ninguém pode dizer coisa alguma.
Termina a guerra, e ele quer voltar para casa, mas não pode: é-lhe absolutamente proibido. Quereria ao menos
escrever algumas linhas, dizer aos seus que está bem, que venham buscá-lo, que lhe façam saber se sua mãe ainda
está neste mundo: mas não lho permitem.

Ora, suponde que, um dia, esse soldado possa fugir, e, depois de viagens e esforços e fadigas sem número, uma
noite ele chegue finalmente à sua aldeia e, empurrando cautelosamente a porta da sua casinha rústica, ao frouxo
clarão da candeia, ele veja o rosto de sua mãe; dizei-me, poderíeis imaginar o delírio de alegria que se teria naquela
casa e naquela aldeia?

Contudo, é esta uma imagem pálida daquilo que sucederá para os bons no dia do juízo universal. Na vida, nós
somos soldados que combatem para conquistar a pátria celeste. Neste vale de exílio, quanto trabalho, quantos
esforços, quantas lutas para vencermos, para nos mantermos livres! Mal vencemos uma prova, outra mais dura
começa. Parece-nos já possuirmos o Paraíso, e eis que a tentação, uma borrasca ameaça arrebatar-no-lo. A vida é
sempre assim. Mas no dia do juízo tudo estará findo; a dor não passará de uma doce recordação. Começará a festa
perene.

Se vivêssemos os nossos dias sob a luz que vem desse dia, como carregaríamos de bom grado a nossa cruz! Os
Santos compreendiam muito bem estas coisas.

S. Pedro Mártir, exorcista da Igreja de Roma nos primeiros tempos do cristianismo, quando foi lançado em prisão
pela fé, disse ao carcereiro estar pronto, em nome de Cristo, a livrar a filha dele do demônio de que estava possessa
havia vários anos. Surpreso ante tal proposta, o carcereiro perguntou-lhe por que não se servia da onipotência do
nome de Jesus para se livrar a si mesmo da prisão.

E ele: “Conheço muito bem as vantagens dos meus grilhões, e por motivo algum quereria libertar-me”.

Se pudermos levar um pouco de conforto a nossos irmãos, faça-mo-lo sempre de bom grado; porém, ao contrário,
as nossas cruzes, apreciemo-las como elas merecem, e, antes de pedirmos ao Senhor que no-las tire, peçamos-lhe,
nos dê força para carregá-las com resignação e amor. Tanto mais gozaremos quanto mais houvermos trabalhado,
sofrido, chorado por amor de Deus.

Conclusão.

Um rei idólatra, da Bulgária, deu ordem a S. Metódio para pintar no seu palácio a coisa mais terrível e espantosa que
ele soube-se. O bom religioso, recomendando-se a Deus para que o seu trabalho resultasse bem frutuoso para a
alma do rei, pôs-se a pintar o juízo universal. Completada a obra, avisou o rei que se dignasse de ir vê-la.

Este, avistando a terrível majestade de Deus no ato de amaldiçoar os condenados, foi presa de grande temor, e
perguntou o que era que significava aquele espetáculo espantoso. Então o santo explicou-lhe com tanta ousadia,
que, cedendo à graça divina, quis o rei idólatra receber o Batismo. Depois do que, quase todos, no seu reino,
abraçaram a fé cristã.

Não um santo, porém o próprio Jesus Cristo fala a nós, no dia de hoje, sobre o juízo universal. De nos convertermos
da idolatria, talvez não tenhamos necessidade; mas há que avivar a fé na vida futura. Há que pedir ao Senhor que
nos faça desprezar as alegrias do mundo, e amar as nossas cruzes, que nos fazem ganhar as alegrias do céu.

4. O JUÍZO, PARA OS ELEITOS, SERÁ UMA CONSOLAÇÃO.

Lc. 21, 25-33.

Austera é a verdade do juízo universal.

Ainda soam ao nosso ouvido as palavras aterradoras que lemos, domingo passado, no Evangelho; na nossa mente
ainda repassam as tristes imagens de um mundo em chamas e de um firmamento desfeito.

Hoje, o Evangelho retorna ao mesmo assunto, porém não mais para nos oprimir de pavor, e sim para nos elevar a
uma grande esperança. O sol, a lua, as estrelas darão tristes sinais, e a consternação passará sobre os povos; o mar
rugirá, e os homens morrerão de medo na expectação do que sucederá. E virá de lá das nuvens, em poder e em
glória, o Filho do homem. Quando sucederem estas coisas, vós – que sois bons – levantai a fronte, pois está
próxima a vossa redenção. Levate capita vestra: quoniam appropinquat redemptio vestra.

Jesus dirige-nos estas boas palavras justamente no I Domingo do Advento. Preparemo-nos para o Santo Natal, que
é a recordação da primeira vinda de Jesus ao mundo; preparemo-nos bem, e achar-nos-emos contentes na
segunda vinda de Jesus ao mundo, para o juízo universal.

O mundo se desfará. Porém nós não seremos do mundo, e olhá-lo-emos desmoronar-se, seguros, como se
desmoronasse a casa de outro; antes, como se desmoronasse a prisão onde tanto padecemos e choramos. Então
levantaremos com alegria a nossa cabeça para os céus, aguardando a redenção; virá trazer-no-la Jesus.

E Ele;

Redimir-nos-á do mundo.

Redimir-nos-á da morte.

Redimir-nos-á da dor.

1- Redimir-nos-á do mundo.

A Sagrada Escritura diz muitas vezes que Deus fez todas as coisas para os bons.

Contudo, se considerarmos somente a vida presente, os bons estão constrangidos neste mundo, como emigrados
numa terra estrangeira, onde são mal vistos pelos habitantes, mal tolerados pelas leis, perseguidos.

De fato, aos justos, o mundo não oferece senão seduções, perseguições, desprezo.

a) O juízo final livra os eleitos das seduções do mundo.

Muitas são as seduções que o mundo põe por obra para arruinar os bons: gravuras, modas, as conversas obscenas
nas ruas, nas praças, nos locais de trabalho; os maus exemplos dos escandalosos. E a nossa natureza, já
corrompida pelo pecado, nestas ocasiões quotidianas sente-se fraca, e treme. “Oh! Infeliz de mim! - exclamava por
isso S. Paulo – quem me livrará deste corpo de morte?” livrar-me-á Jesus Cristo, no dia do juízo, quando aparecer a
cruz como estandarte de vitória. Bem-aventurados, então, os que houverem vencido as seduções do mundo.

b) O juízo final livra os eleitos das perseguições do mundo.

Além disto, nesta vida os justos são condenados a viver como os iníquos, são confundidos com eles; são chamados
hipócritas mais do que eles; são perseguidos de mil modos. No dia do juízo os bons serão vingados: haverá a
separação, e ver-se-ão as perfídias e as injustiças dos maus.

Quando Deus mandou Josué tirar do meio do povo Acan, homem escandaloso, e faze-lo morrer, disse: “Levanta-te,
e santifica o povo”. Surge et sanctifica populum. (Jos., 7, 13).

Quando Judas saiu do cenáculo, para executar o seu detestável intento, Jesus sentiu-se aliviado de uma angústia
mortal, e exclamou: “Finalmente o Filho do homem é glorificado”. Nunc clarificatus est Filius hominis. (João, 13, 31).

Esta santificação, esta glorificação será dada aos bons no dia final, quando os anjos separarem os justos dos injustos.

c) O juízo final livra os eleitos do escárnio do mundo.

Enfim, nesta vida as pessoas humildes são escarnecidas; as que suportam as ofensas são vis; as que não se dão aos
prazeres são chamadas tolas; e as que se consagram a Deus através da vida religiosa são chamadas loucas. Mas será
um momento de brusca admiração quando os mundanos virem essas pessoas num trono de glória.

“Ei-los lá – exclamarão eles com raiva – aqueles que nós considerávamos o refugo do mundo, aqueles que nós
ridicularizávamos; agora eles estão na luz e na alegria dos filhos de Deus. Nós os pensamos estúpidos, e os estúpidos
éramos nós”. Nos insensati! Vitam illorum aestimabamus insaniam. (Sap., V, 4).

2- Redimir-nos-á da morte.
Soberana única do mundo é a morte. Assalta-nos desde o primeiro dia de vida, e, lentamente como uma lima ou de
um golpe como uma lâmina, mata-nos.

É verdade: a nossa alma não desce para sob as pedras frias e a terra fértil do cemitério; sobe ao céu, se está em
graça;mas a alma é uma parte de nós, não é todo o nosso ser, e, por isto mesmo, no Paraíso ela ficará sempre
incompleta enquanto não tornar a juntar-se ao corpo. Pois bem: no juízo final seremos redimidos da morte.
Ressoarão as trombetas para a ressurreição, e onde quer que o nosso corpo esteja, ou em terra ou no mar ou
espalhado no vento como leve pó, ressurgirá. Cristo, que morreu para vencer a morte, redimir-nos-á da morte,
restituindo aos bons a sua própria carne, tornada luminosa, impassível, bela pela glória do Paraíso.

Aquele corpo que tanto padeceu para resistir ao demônio, é justo que seja premiado. Aqueles olhos que se
fecharam com violência diante das vaidades mundanas, dos livros, das figuras perigosas, é justo que tenham de se
reabrir para verem toda a glória de Deus. Aqueles ouvidos que se tornaram surdos a certas murmurações, a certas
palavras, ímpias contra a fé ou sórdidas contra a virtude, é justo que escutem a harmonia dos anjos e o coro
universal dos santos.

Aquela garganta e aquela língua que se haviam proibido o abuso no comer, no beber, no falar, justo é que entoem
um cântico eterno e beatíssimo.

E aqueles pobres joelhos que souberam como é duro o pavimento das igrejas, ou a madeira dos bancos, ou os
ladrilhos do próprio quarto junto ao leito, porque não hão de ter a sua parte de glória?

Vede então como não devem os bons temer o dia do juízo, mas esperá-lo como o camponês espera a primavera. E
acaso não é todo primaveril o prognóstico que o Senhor nos deu para reconhecermos o tempo do juízo final?

Olhai a figueira, antes todas as plantas: quando vedes os gomos umedecer-se de visco, entumescer-se, romper a
casca para porem ao sol um olho de tenríssimo verde, dizeis: está próxima a primavera. Pois bem: quando
começarem os sinais no sol e nas estrelas, alegrai-vos! Pois está às portas o reino de Deus”.

Como uma árvore que acorda do inverno, nós acordaremos da morte.


Com estes sentimentos morria, queimado vivo, o mártir S. Piônio. Enquanto as chamas, crepitando por debaixo,
ascendiam para lhe lamber os membros contraídos no espasmo atroz, enquanto a fogueira o envolvia numa
tormentosa bandeira de fogo, ele gritava: “Morro assim por gosto; para que todo o povo saiba que depois da morte
há a ressurreição da carne”. Depois a fumaça e o fogo atingiram-lhe a boca, e ele não falou mais.

3- Redimir-nos-á da dor.

A terra é um vale de lágrimas: a miséria, o trabalho, as ilusões, as desgraças, as doenças, a morte... Todos sofrem,
porém os bons mais do que todos, por haverem recusado as ilícitas consolações do mundo.

Mas assim não será sempre. Quando começarem os sinais do fim do mundo, vós, ó bons, levantai a fronte, porque
esta próxima a redenção da dor: e não mais sofrereis. Levate capita vestra: quoniam appropinquat redemptio vestra.

Não mais haverá choro; ou, se chorarmos, será de alegria. Toda tristeza será convertida em gáudio. Toda lágrima
será enxugada no rosto.

O Paraíso! Alguma vez já pensastes bem no Paraíso? Imaginai aquela imensa região de toda beleza, dos cantos e
das harmonias, de luz, de sorriso, de alegria: e nós lá estaremos. Lá, com o nosso corpo, nós em pessoa, e todos
nos amarão; porém, mais do que todos amar-nos-á Deus.

“Ó Senhor! Como é belo estarmos aqui... .” (Mt, 17, 4), exclamava S. Pedro no auge da alegria; e, no entanto, não
via o Paraíso. No Tabor não havia mais do que uma pálida revelação da infinita beleza do Senhor. Que será, então,
no Paraíso, quando virmos todo o Senhor? Quem sabe o que diremos?... Não diremos nada: amaremos. O que mais
importa é ai chegarmos.

Jônatas, contra a proibição do rei, em tempo de batalha provara um pouco de mel. Agora era condenado à morte. O
infeliz lamentava-se no desespero: “Desgraçado que fui Saboreei uma gota de mel, e eis que devo morrer...” Mais
desgraçados nós, se, por saborearmos a venenosa doçura do pecado, devêssemos perder para sempre a doçura
eterna do Paraíso.
Conclusão.

Levate capita vestra; quoniam appropinquat redemptio vestra.

Santa Catarina de Sena, ouvindo falar do juízo universal, enquanto todos tremiam ela sorria feliz.

“Por que?”, perguntaram-lhe.

“Porque penso que Aquele que virá julgar-me é esse Jesus a quem tanto amo, por quem sacrifiquei a minha
juventude e toda a minha vida”.

Amemos nesta vida Jesus Cristo, e o seu juízo não nos infundirá pavor.

5- FUGI DA IRA DIVINA NO JUÍZO UNIVERSAL.

Lc. 21, 25-33.

Os céus, como um toldo gasto pelo tempo, rasgar-se-ão, deixando cair as estrelas. Sobre a terra ouvir-se-á o
profundo rugido do mar que se entornará, e o estrondo das águas a se precipitarem. As turbas humanas,
amedrontadas, tremerão na expectação terrífica.

Então o Sinal do Filho do Homem aparecerá no céu: e todas as raças chorarão na terra. Então o Filho do Homem
virá sobre as nuvens do céu: e os anjos, com as trombetas, fá-las-ão soar sobre os continentes da terra.

Como veremos Cristo naquele dia? Imagino-o conforme o pincel de Miguel Ângelo o pintou na parede da Capela
Sistina. A mão direita levantada poderosamente para abater, e a esquerda dobrada para mostrar o rasgão do peito,
como a dizer: “Firo-vos por não haverdes correspondido ao meu coração!” Nada é terrível como a vingança de um
amor ultrajado; depois, se este amor é o de um Deus, a sua vingança só eterna pode ser: o inferno. Recordemos as
maldições de Jesus contra as cidades ingratas ao seu amor.

Milagres e pregações certamente não haviam faltado aos lugares em torno do lago de Genesaré, e especialmente
a Corozaim, a Betsaída, a Cafarnaum; e, no entanto daquela região, o Mestre virou-se para trás para, com a voz
velada de uma amargura profunda, maldizer: “Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaída! Se Tiro e Sidon, longínquas
cidades da Fenícia, tivessem podido ver uma parte mínima dos prodígios que vós vistes, ter-se-iam convertido, e
teriam feito penitência dos seus pecados. Em verdade vos asseguro que no dia do juízo haverá misericórdia para
estas, mas não para vós. Haverá misericórdia para Sodoma incendiada pelo meu furor; mas para Cafarnaum, onde
debalde prodigalizei o meu amor, não mais haverá misericórdia”. (Mt. 11, 20-24).

Semelhante aquelas cidades ingratas é também a nossa alma. Quantas finezas afetuosas não tem usado conosco o
Senhor! Desde o dia do nosso nascimento até hoje, é uma longa cadeia de preferências divinas, às quais talvez não
tenhamos correspondido. Ai de nós! No dia do juízo haverá misericórdia para tantos infelizes que não sabiam orar,
que não podiam escutar uma prédica, mas para nós não!... Ai de nós se não fugirmos à ira futura.

Os nossos anos já voam para o seu fim com a rapidez de uma roda; já a morte, furiosa, nos está às costas. Enquanto
ainda nos resta um pouco de tempo, corrijamo-nos; acendamos as nossas lâmpadas com o óleo da fé e das boas
obras; preparemo-nos para o advento do divino Juiz.

Ai de nós se não fugirmos da ira futura!

No dia do juízo final, duas coisas causarão o maior pavor: o aparecimento da Cruz, e o dAquele que nela foi
crucificado. E, se nesta vida nós não nos fizéssemos amigos da Cruz e do Crucificado, não seria um belo para
fugirmos à ira futura, e acharmos misericórdia naquele momento supremo?

Portanto, façamo-nos amigos da Cruz.

Façamo-nos amigos do Crucificado.

1. Amigos da Cruz.
Fazer-se cavaleiro de Carlos V não era coisa fácil, e para isso muitos haviam trabalhado inutilmente. Mas, no dia da
sua coroação, quis o imperador que qualquer corajoso pudesse conseguir aquela honra, contanto que se deixasse
percutir pela sua espada.

Era o dia 24 de fevereiro de 1530, em Bolonha: coroado com a coroa férrea, Carlos V saía de S. Petrônio, ao lado do
Papa Clemente VII, e com garbo montou num magnífico corsel; duas apinhadíssimas alas de povo abriam-se à sua
passagem. E eis que jovens destemidos, homens fortes, velhos senhores, vêm ao meio, inclinam a cabeça e dizem:
“Quero ser cavaleiro”. Percutindo-os com o punho da espada, Carlos V respondia: “Esto miles” (Sê soldado). Os
postulantes eram muitíssimos, e de toda parte ouvia-se clamar: “Sire, sire, a mim! A mim!”.

Finalmente o imperador sentiu faltarem-lhe as forças: “Não posso mais”, suspirou; mas o grito dos pedintes crescia a
cada passo: “A mim! A mim!”. Então ele pegou a espada e atirou-a sobre o povo, exclamando: “Amai a minha espada
e a minha guerra: faço-vos todos cavaleiros”. “Todos! Todos!” Um brado de alegria irrompeu por toda a cidade: cada
um queria beijar a espada imperial. À noite, Bolonha ardeu de fogo e ecoou de músicas triunfais.

Este episódio da história bolonhesa serve-me para imprimir na vossa mente o conceito do sofrimento cristão. O
nosso Rei imortal, Jesus Cristo, passa pelas cidades deste mundo. Todo aquele que quer ser seu cavaleiro, todo
aquele que quer triunfar com Ele no dia final da sua vitória, deve deixar-se percutir pela sua espada: a Cruz. Por
pouca dor Ele nos retribuirá uma alegria infinita; por breve guerra, conduzir-nos-á a uma vitória eterna.

1- Amai, pois, a sua cruz! E ama-lá-eis quando, com fé, com paciência, suportardes as tribulações que a cada dia da
vida encontrareis. Considerai como fêz Jesus Cristo, o Rei divino, e depois segui-o: factus oboediens usque ad
mortem, mortem autem crucis. (Fil., II, 8). E por que nos rebelarmos quando a Providência de Deus nos fere com a
sua espada nos haveres, na família, na saúde? Não sabemos que, se Deus nos toca, é para nos fazer seus cavaleiros
no Paraíso? E havemos de imprecar contra Ele?

2- Amai, pois, a sua guerra! Ela é guerra contra as seduções do mundo. Sempre e por todos os lados estamos
cercados de perigos espirituais: o mundo é todo uma malignidade.

Amai a sua guerra! Ela é guerra contra nós mesmos. Há em nós duas partes contrastantes: uma parte é animal e
terrena, a outra é espiritual e celeste; a primeira eleva-nos ao bem, a segunda abaixa-nos ao mal. É esta parte de nós
que devemos sufocar e renegar com as suas inclinações perversas, com os seus afetos venenosos.

Se tivermos amado a cruz e a guerra contra o mundo e contra nós mesmos, não sentiremos pavor ao
aparecimento do Sinal do Filho do Homem, no dia do juízo. “Eis a cruz!” clamarão os Anjos; outros chorarão,
porém não nós, que naquele momento a saudaremos com as palavras de Santo André Apóstolo: “Salve, ó cruz,
longamente carregada! Salve, ó cruz, com alegria esperada! Acolhe-me sob a sombra do teu braço direito, porque
fui discípulo dAquele que penduraram em ti!”

2- Amigos do Crucifixo.

Para nos tornarmos amigo do Crucificado não há caminho melhor do que nos fazermos amigo dos pobres, dos
doentes, de todos os que sofrem, de todos os que, de qualquer modo, estão crucificados na alma ou no corpo.

Na Turíngia não havia dor que Santa Isabel da Hungria não suavizasse, não havia necessidade que ela não
socorresse, não havia desventura que ela ignorasse. Acorria às choupanas dos doentes, assistia os moribundos,
vestia os nus, recolhia e instruía os órfãos. Nas grades do seu palácio, os pobres apinhavam-se cada dia, e nenhum
se retirava sem algum consolo.

Uma vez ela deixou entrar nos seus aposentos um doente asqueroso; antes, ela mesma com suas mãos finas e
cândidas começou a curar-lhe as chagas, a lavá-las, a beijá-las... Os servos, horrorizados, exclamaram: “Que estais
fazendo! Que estais fazendo!...” Porém Isabel, tranqüilíssima, respondeu: “Beijo as chagas de meu Senhor Jesus
Cristo: assim elas não mais me farão pavor no dia do juízo. É nesse dia que eu penso, e para Ele, como posso me
preparo.

Era verdadeiramente uma rainha sábia, da sabedoria do Evangelho. De fato, o Evangelho diz abertamente o valor e a
estima que será dada às boas obras no juízo universal. O grande Rei dirá aos que forem acolhidos à sua
direita: “Vinde, benditos de meu Pai, a tomar posse do reino que desde o princípio do mundo eu vos tinha
preparado. Achaste-me com fome e deste-me de comer; vistes-me nu e me vestistes; encontrastes-me peregrino
na estrada e me abrigastes; soubestes-me prisioneiro e me visitastes; e, se estive doente, assististes-me”. E os
justos, admirados, perguntar-lhe-ão: “Talvez te enganes, já que nunca achamos famintos, nem te vimos nu, e nem
mesmo peregrino pela estrada, e nem também prisioneiro nem doente...”. “Não, não! - responderá o Rei – não me
engano: tudo aquilo que fizeste a ao mais pequeno, ao mais esquecido entre os homens, a mim mesmo o
fizestes”.

S. João Crisóstomo adverte-nos a não considerarmos como uma perda o bem que fazemos, mas sim como um
ganho; nós damos pão, e em troca receberemos o Paraíso; damos uma roupa , e em troca recebermos a veste
nupcial para entrarmos no banquete dos céus; concedemos hospedagem sob o nosso teto, e teremos toda a
eternidade; perdoamos pouco, e seremos perdoados em muito; enxugamos as lágrimas alheias e seremos alegrados
para sempre. Digo-vos que nem mesmo um copo de água pura oferecido por amor de Deus, será perdido! Antes vos
digo que no dia do juízo final nós não possuiremos senão aquilo que houvermos dado.

Conclusão.

S. Felipe Benizi, religioso da Ordem dos Servos de Maria Virgem, estava morrendo.

Além da doença, além da dor, havia dias em que o atormentava uma terrível visão. Parecia-lhe já se achar
perante o tribunal de Deus, e em torno dele surgiam os demônios a exprobrar-lhe os pecados de sua vida passada,
mesmo os mais remotos, mesmo os mais pequenos... ante essa vista, ante essas palavras, o agonizante abria os
olhos horrorizado, tremia, e não tinha mais esperança. “Dai-me o meu livro! Dai-me o meu livro!” gritava ele com
voz apavorada.

Dos presentes, alguns correram a tomar um livro, outros, outros; mas ele o recusava a todos, sem achar repouso.
Finalmente, um percebeu que os olhos do moribundo se haviam fixado num Crucifixo ali ao lado; tomou-o e
colocou-lhe entre as mãos gélidas e suadas.

Mal o teve, como um sedento ele o pôs sobre a boca para o beijar ansiosamente: beijou o lenho da cruz, beijou as
chagas d’Aquele que a ela estava suspenso. Seus olhos iluminaram-se como ao surgir de uma aurora interior; a
sua fronte expandiu-se numa doce serenidade; o seus lábios distenderam-se num dulcíssimo sorriso. E assim la se
foi ele ao encontro do juízo de Deus.

Amara a Cruz, amara o Crucifixo com todas as suas forças. Que haveria de temer.

6- PREVINAMOS O JUÍZO DE DEUS.

Lc. XXI, 25-33.

No céu o sol, a lua e as estrelas empalidecerão; na terra, os homens tremerão na expectação. E eis que o Filho do
Homem virá sobre nuvens com poder e glória, a julgar os vivos e os mortos.

Com estas palavras cheias de mistério e de pavor, Jesus nos anuncia o juízo universal. Alguns, quiçá muitos,
pensarão: “Quem sabe quantos milênios ainda deverão passar até que chegue o fim do mundo?” Contudo, embora
esteja longe o último dia de todo o gênero humano, porventura daí se segue que esse último dia esteja longe
também para cada um de nós? Em verdade, para cada um de nós o mundo acaba no dia da nossa morte; então,
para esse, o sol se apagará, e a lua findará de pratear os telhados, os hortos e os campos, e as estrelas
desaparecerão todas juntas na imensa treva que pesará sobre as suas pupilas extintas; então o divino Juiz virá
julgar.

De nós, ninguém conhece o dia e a hora do seu juízo, e no entanto ele é inevitável, e não está longe. A verdadeira
sabedoria consiste em preveni-lo, praticando os três conselhos repetidos muitas vezes pelo Senhor.

Estai alerta, porque não sabeis quando virá.

Não julgueis, e não sereis julgados.

Fazei misericórdia, e achareis misericórdia.


1- Estai alerta.

No Evangelho, é uma sucessão incessante de advertências à vigilância, à preparação, na espera fiel de Cristo que
volta.

Será como um ladrão que chega de noite, quando ninguém o suspeita. Será como um laço que vos prende pelo
caminho quando menos pensais. Será como um grito fulmíneo que estronda ao ouvido e rompe os sonhos lisonjeiros
da vida longa, de ganhos, de prazeres: “Estulto, esta noite morrerás”. Será como um rei que de improviso aparece
no meio do salão dos convidados, perscruta como a pupila severa, e descobre aquele que esta sem veste nupcial.
“Pegai-o, e lançai-o fora, nas trevas!”

Será como o esposo que chega no meio da note, enquanto todos dormem, toma consigo quem tem a lâmpada
provida de óleo, e aos outros que batem para entrar responde: “Não vos conheço e não vos abro”. Será como o
proprietário que volta quando quer, e chama os seus súditos para prestarem conta dos talentos que,em partindo,
lhes confiara. Ai do servo iníquo que os não houver feito render! Será, enfim, como um pai de família que partiu para
uma viagem misteriosa, deixando sua casa e sua fazenda em mãos dos servos, fixando a cada um a sua obra, e
recomendando ao porteiro vigiar.

“Diga-nos quando voltará”. “Não posso dizê-lo. Talvez uma manhã ao canto do galo, ou talvez ao meio dia,
enquanto se esta comendo. E quiçá uma noite, acordando, ouvireis o meu passo na estrada. O que digo a vós,
digo-o a todos: vigiai!” (Mc. 13, 33-37).

O patrão foi-se para longe.

Algum servo prudente e fiel começou logo a executar as ordens recebidas, preparando sem desperdício e
distribuindo com pontualidade, no momento oportuno, a comida aos familiares. Feliz o servo que, à sua chegada, o
patrão achar fazendo assim! Em verdade vos digo, ele o porá à testa de tudo quanto possuí.

Ao invés, algum outro servo indolente e mau, passado algum tempo disse consigo mesmo: “Meu patrão esta
demorando... quem sabe quando virá?... Talvez nem venha mais”. E começou a descuidar o seu trabalho, a litigar e
a espancar os companheiros de serviço, a comer e a beber com os bêbedos. Desgraçado do servo que o patrão
achar fazendo assim! Sobrevindo num dia em que não será esperado, numa hora que o servo não sabe, o patrão
mandará matá-lo, expulsá-lo-á para entre os hipócritas malignos; para lá onde haverá pranto e ranger de
dentes. (Mt. 24, 45-51).

Portanto, cristãos, toda a nossa vida neste mundo é uma espera, é um tempo de advento. Mas, especialmente, deve
ser uma espera fervorosa nesta parte do ano litúrgico que se chama justamente “Advento”.

Ninguém se engane, dizendo consigo: “O meu patrão esta demorando... quem sabe quando virá?... tenho
tempo”. Ninguém ouse ficar em pecado mortal: ponde-vos todos na graça de Deus; vivei sempre em graça de Deus.

“Estejam vossos flancos cingidos e vossas lâmpadas acesas: sede semelhantes aqueles que esperam o seu
patrão...”. (Lc. 12, 35-36).

2- Não julgueis.

Outro conselho do Juiz divino para prevenir nosso bem é o de nunca julgarmos o próximo. “Não julgueis, e não
sereis julgados”. Eis aqui alguns motivos que nos persuadirão melhor a praticá-lo.

a) Não devemos julgar, porque ninguém nos constituiu no encargo de juiz para com o nosso próximo. Todos estamos
no mesmo plano, todos somos irmãos; só um esta acima de nós, superior e juiz de todos: a seu tempo Ele virá.
Entrementes, ninguém usurpe esse oficio que é seu só.

b) Não devemos julgar, porque cada próximo nosso é súdito e servo de Deus. Quer ele caia, quer fique em pé, isto é
lá com o seu patrão, e não conosco. (Rom. 14, 4-10).

c) Não devemos julgar, porque somos incapazes de ser imparciais: no olho do próximo nos incomoda até a palha, e
no nosso suportamos até uma trave. “Quantos homens – escreve S. João Crisóstomo – caem neste defeito! Se vêem
um padre que tem duas vestes, repreendem-no opondo-lhe a palavra do Senhor; e eles passam o dia trabalhando
por avareza, e fraudam. Se vêem que come bem, acusam-no; e eles continuam a passar bem e a embriagar-se.
Não pensando que assim acumulam os pecados e preparam para si um juízo inescusável e duríssimo”. (Hom. 23,
2).

Cristãos, neste tempo do Advento, cada um de nós deve estar tão ocupado em se corrigir dos seus defeitos, graves
e numerosos, que não perceba os alheios. Não devemos achar nem gosto nem tempo para qualquer palavra de
critica ou de murmuração.

3- Fazei misericórdia.

Já desde agora nós sabemos exatamente como se desenrolará o juízo, e que palavras serão pronunciadas pelo Juiz.

Quando o Filho do Homem vier na sua glória com todos os seus anjos, então sentar-se-á no trono, e dirá aos que
estiverem à sua direita: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do reino que vos esteve preparado desde a
criação do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; fui estrangeiro e me
acolhestes; estive nu e me vestistes; doente, e me assististes; em prisão, e viestes visitar-me”.

E, admirados, os justos responderão: “Senhor, quando foi que te encontramos com fome e te demos de comer?
Com sede e te demos de beber?... Prisioneiro e te visitamos?” E o rei lhes responderá; “Em verdade vos digo; todas
as vezes que fizestes isso a qualquer um de vossos irmãos, a mim o fizestes”.

À admiração dos maus o rei dará ainda a mesma resposta, porém invertida: “Em verdade vos digo: todas as vezes
que não fizestes isto a qualquer um de vossos irmãos, a mim o recusastes”. E estes irão para o castigo eterno...
(Mt., 25, 31-46).

Muitos que agora se julgam cristãos perfeitos porque observam exteriormente as práticas religiosas, porque
assistem às cerimônias oficiais, então ver-se-ão repelidos; e, ao contrário, muitos que agora fazem humildemente o
bem e se julgam pecadores, ouvirão então as palavras que lhe abrirão as portas da alegria: “Era eu, aquele órfão;
era eu aquele surdo-mudo, aquele idiota; era eu aquele velho do asilo; era eu aquele operário a quem dava
trabalho honesto e recompensa suficiente, era eu que chorava naquele leito de hospital lá no fundo do corredor;
era eu aquele prisioneiro na sua cela, quando tu o consolavas”.

Onde quer que há uma miséria, um sofrimento, uma humilhação, uma necessidade, ó cristãos, aí há oculto e
mascarado o nosso Juiz. Usemos de misericórdia com esses, e Ele nos fará misericórdia.

Conclusão.

Para concluir, ouvi como é sábio este outro conselho que esta no Evangelho de S. Mateus: “Enquanto ainda estas a
caminho, põe-te de acordo com o teu adversário. Do contrário, no instante em que chegares, ele te entregará aos
guardas e serás encarcerado”.
Enquanto ainda somos peregrinos neste mundo, ponhamo-nos, pois, em paz com o Senhor, a quem havemos
ofendido. Não esperemos para quando chegarmos à morte.

Corre tu, antes, a apresentar-te perante ele com o arrependimento, com a confissão. Corre a apresentar-te a Ele,
antes que ele te faça comparecer perante si. Previne para não seres prevenido.

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