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LYGIA BOJUNGA

ANGÉLICA
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ANGÉLICA

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LyGIA BojuNGA

ANGÉLICA

Ilustrações de
Vilma Pasqualini

24a Edição
9ª Reimpressão

Rio de janeiro

2013
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Copyright 1975 © Lygia Bojunga

Todos os direitos reservados à


Editora CASA LyGIA BojuNGA LTDA.
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Projeto Gráfico: Lygia Bojunga


Ilustrações: Vilma Pasqualini
Assistente Editorial: Vera Abrantes
Revisão: josé Tedin
Programador Visual: Paulo Cesar Cabral

CIP - Brasil. Catalogação-na-fonte


Sindicato Nacional dos Editores de Livros, Rj.

Bojunga, Lygia,
B67c Angélica /Lygia Bojunga ; ilustrações Vilma Pasqualini. – 24.ed.
24.ed. – 9ª Reimpr. : Rio de janeiro : Casa Lygia Bojunga , 2013
160 p. : il. : 19 cm

ISBN 85-89020-06-1

1. Literatura infanto-juvenil. I. Pasqualini, Vilma. II. Título.

03-2788. CDD – 028.5


CDu – 087.5

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Capítulo I
o porco

Tinham dito:
– Coisa boa que é a vida!
Ele ainda era bem pequeno, não sabia direito
como é que se vivia, andava louco pra saber melhor;
pensou um bocado, acabou perguntando:
– Como é que a gente entra na vida, hem? Tem
porta pra bater? E batendo... eles abrem?
Responderam rindo:
– A vida não tem porta, não. A gente nasce no
céu e depois as cegonhas trazem a gente pra terra.
Ele nunca tinha visto uma cegonha, mas
mesmo assim achou a história mal contada e acabou
dizendo que não acreditava. Então deram outra
explicação:
– É o Papai Noel que traz a gente pra vida.

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Ele baixou os olhos: sabia muito bem que Papai
Noel era invenção. Foi então que falaram:
– Tem porta pra entrar, sim. Fica lá longe. –
Apontaram.
Ele olhou desconfiado pra lá.
– Se você for bonzinho, você bate na porta da
vida e eles abrem. Se você não for bonzinho, eles não
abrem.
Ele continuava olhando pra longe. olhando e
pensando: “puxa vida, estão me enganando de novo”.
Suspirou. Quando crescesse não ia deixar falarem com
ele daquele jeito; quando crescesse não ia deixar
ninguém rir das perguntas que ele fazia.
“E se eu fingir que estou acreditando no
que a gente grande me diz? E se eu fingir que lá longe
tem mesmo uma porta? E se eu for lá bater e
abrirem a vida pra mim? E se eu entrar?” Riu. “Aposto
que se eu entrar eles vão ficar com uma cara desse
tamanho.” Caminhou decidido até a porta. Bateu.
Abriram. Espiou a cara da vida e gostou.
Botou o nome dele dentro de um livro enorme que
guardava o nome de todo mundo que passava
por ali e entrou.

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Era assim que ele fazia com tudo que não
entendia: fingia que acreditava nas respostas que
inventavam pra ele e pronto. E pensava: “quando eu
crescer eu vou entender tudo; quando eu crescer eu não
vou precisar mais fingir”. Mas por enquanto ele ainda
era bem pequeno. E sozinho. Porque vida de porco é
assim mesmo: eles ficam logo sozinhos; separam toda a
família, uns pra serem comidos agora, outros depois.

Pois é isso, sim: ele era um porquinho. Escuro,


tinha um nó no rabo (nó cego ainda por cima), uns
olhos muito vivos que olhavam tudo sem parar e um
jeito de andar muito gozado porque era um jeito
gingado e apressado.* Saiu pela vida afora cada dia
descobrindo uma coisa nova: sol, fósforo, cor e gente,
estrela, avião, casa, máquina e barulho, carro passando.
Andou até onde a cidade acabava e lá descobriu flor e
floresta, silêncio e mais cor; e, de repente, descobriu

* Que pressa que ele tinha de crescer!

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um lago. Era de manhã muito cedo, todo mundo estava
dormindo, o lago também. um sono quieto, que não
deixava o lago mexer nenhum pedacinho dele. A água
então ficava valendo de espelho: o Porco se debruçou
na água e ficou no maior entusiasmo:
– oi! – berrou. E toca a se olhar. De frente, de
perfil, de tudo que era jeito. Piscou o olho, fez
careta, tentou tirar o nó do rabo, mas sentiu tanta
cócega que acabou desistindo (coisa que mais faz
cócega é querer desmanchar nó de nascença), arrancou
um capim do chão e enrolou no pescoço pra fingir de
gravata, deu uns passos gingados, acabou resolvendo:
– Puxa vida, você é legal, sabia? – E entrou na água pra
se abraçar. Só faltou morrer de contente: nunca tinha
pensado que água era tão bom. Ficou unha e carne com
o lago, não queria mais saber de sair dali, achava que
não ia descobrir nada melhor. Mas descobriu. Foi
assim: um dia ele ia andando e, de repente, ouviu:
“uuuuuuuuuuuuu”. Era um apito. Pesado. Abafado.
Ele já tinha ouvido uma porção de us, mas nenhum tão
bom quanto aquele. Seguiu atrás do apito, andou um
tempão, acabou chegando no porto: quem estava
fazendo u era um navio. Parou de olho arregalado

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vendo o mar, vendo o porto, vendo aquele navio tão
branco, tão grande, cheio de bandeirinhas diferentes,
fazendo um u tão forte.
– Pra onde é que ele vai? – perguntou ao pessoal
que trabalhava no cais, enchendo o navio de carga.
– Pra lá – e apontaram.
Ele olhou, mas só deu pra ver que lá era longe.
Tão longe que ele viu logo que nunca ia chegar lá.
Então ficou o resto da tarde por ali. Andou pela beira
do mar até uma prainha onde apanhou conchas.
Voltou pro porto e ficou vendo o movimento do cais,
vendo o navio que de noitinha foi s’embora, apitando
aquele u bonito e batendo as bandeirinhas no vento.
Aí pediu uma fotografia do porto. E eles deram. Tinha
uma porção de coisas na fotografia: o navio, o mar,
o pessoal trabalhando, o céu, e tinha ele – Porco –
olhando o porto.
Durante uma porção de dias ele voltou lá.
Depois foi descobrir coisa nova. Estava adorando a
vida; ria de tudo; pelo jeito, não tinha ninguém mais
feliz do que ele.
Mas um dia disseram que ele não podia ficar
à toa.

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– Não tô à toa, não: tô descobrindo as coisas –
ele falou.
– Não pode: tem que ir pra escola aprender a ler
e escrever.
E ele então foi.

Assim que entrou na classe foi logo dizendo oi!


pros colegas e olhando todo mundo com atenção pra
ver com quem é que ia enturmar.
Mas o pessoal olhou pra ele meio de lado,
responderam um oi sério e pequenininho, e no recreio
ninguém enturmou com ele. Nem nos outros recreios
que vieram depois.
uma tarde o professor avisou que ia ter reunião
de pais.
– Eu não tenho pai, não senhor – o Porco falou.
– Pode trazer sua mãe.
– Também não tenho, não senhor..
– Então um irmão mais velho.
– Mas eu não tenho irmão...
– Traz um amigo, pronto.

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– Não tenho.
uma turminha de macacos, que sentavam no
fim da sala (já sentavam ali de propósito pra fazer
bagunça), começou a rir. o Porco viu que estavam
rindo dele e ficou pra morrer. Pensou: “será que eles
não me topam porque eles têm família e eu não?”. E o
professor, então, com pena dele, resolveu contar
uma piada, pra todo mundo rir e esquecer o assunto.
Era uma piada de um papagaio que tinha a mania
de se fingir de polícia. o Porco achou a piada
engraçadíssima. Desatou a rir, não conseguia mais
parar, riu tanto que acabou fazendo xixi na carteira. o
colega do lado virou pra ele e disse:
– Porco! – E disse aquilo com força, com
raiva.
A turma de macacos lá no fim da sala desabou
numa gargalhada.
o Porco parou logo de rir e ficou olhando
assustado pro colega: era a primeira vez que diziam
o nome dele. E tinham dito de um jeito que parecia
até que o nome dele era nome feio. Sentiu o coração
batendo depressa no peito. A aula acabou e o coração
continuou batendo forte. o Porco saiu da escola e foi

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andando devagar, ouvindo a voz do colega repetir lá
dentro da cabeça dele: “Porco! Porco!”
os macacos passaram correndo. Gritaram:
– Porco! – e sumiram.
Por que que diziam o nome dele daquele jeito,
botando tanta força no por? Começou a sentir uma
coisa esquisita e ruim que ele nunca tinha sentido antes.
De repente viu o que que era: era medo.
o Porco não tinha casa. Quando estava quente
dormia na beira do lago; quando esfriava se embrulhava
num saco de estopa que tinha achado jogado fora e ia
procurar um monte de folhas secas ou um telhadinho
qualquer. Mas nessa tarde ele estava tão assustado que,
pela primeira vez, achou que precisava ter um canto. Só
dele. Pra poder fechar a porta bem fechada. Pra
ninguém entrar. Pra ninguém dizer pra ele: Porco!
Correu até a floresta, escolheu uma árvore bem
velha que tinha um tronco oco, resolveu que ali dentro
ia fazer uma casa. Arrancou cascas de outros troncos,
emendou bem emendadas, trabalhou a noite inteira, fez
com elas uma porta, pregou na árvore. Do outro lado
do tronco fez uma janela – tão pequenininha que ele só
podia espiar com um olho. já era dia claro quando fez

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a mudança: botou o saco de estopa dentro de casa.
Entrou no tronco e fechou a porta. Bem fechada.

E daí pra frente as coisas foram piorando. Tudo


que aparecia sujo na classe, diziam logo:
– Só pode ter sido o Porco.
E se uma coisa sumia, já falavam:
– É claro que foi o Porco.
Se viam ele sozinho estudando num canto, logo
chegava um pra dizer:
– Estudar pra que, Porco? Você vai ser sempre
porco, sua vida vai ser sempre uma porcaria.
E bastava a turminha de macacos ouvir aquilo
que um já perguntava:
– Vida de porco o que é?
E os outros começavam a gritar juntos:
– Porcaria, porcaria, porcaria!
o Porco então desistiu de estudar e saiu da
escola.
Naquele dia, quando passou pelo lago e se olhou,
não se achou mais legal, não brincou de fazer careta,
nem pensou em se abraçar. Ficou olhando a cara dele

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na água do jeito que a gente olha uma coisa que não
gosta; ficou olhando o nó cego que tinha no rabo e
achando que nunca – nunca mais – ia poder
desmanchar. Depois botou força na primeira sílaba e
disse:
– Porco! – e foi embora, compreendendo pelo
caminho afora que o maior azar da vida dele tinha sido
nascer porco. olhou a vida. já não achava mais nada
bom nem bonito. E então gritou pra tudo que via:
– Eu tenho culpa de ter nascido porco, tenho?
Ninguém deu bola.
– Fui eu que escolhi nascer porco, é?
Mas ninguém dava bola.
os olhos dele ardiam; assim que ele chegasse em
casa ia chorar até não poder mais. Apressou o passo:
tinham dito pra ele que homem só chorava trancado
sozinho, e ele (tão bobo, que acreditou) acreditou.
Bobo! Tanta coisa pra nascer: rei, príncipe, pavão,
carneirinho-branco-que-todo-mundo-gosta,
passarinho, dono de fábrica de automóveis. Podia até
ter nascido uma casa bonita, ou uma árvore que todo
ano dá flor (ou dá manga), tanta coisa pra nascer e ele
tinha nascido porco! Correu. Puxa, já não estava

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aguentando segurar tanta lágrima, tanta raiva, tanta
coisa pra nascer e ele nascendo porco!
já ia chegando em casa quando, de repente,
pensou: mas por que que a vida dele tinha que
ser sempre uma porcaria? Por quê?
Parou, tomou fôlego, sentou numa pedra. E se
ele desse um jeito? Foi esquecendo as lágrimas, a raiva,
mas que jeito?, esquecendo tudo que estava fazendo
ele tão infeliz. olhou pra frente, pra trás, pros lados:
ninguém. Ninguém pra ajudar ele a dar um jeito. Ficou
ali sentado. olhando o chão. Sozinho.
Mas não ficou muito tempo sozinho, não: duas
horas depois teve uma ideia. E antes que ela fugisse ele
agarrou ela bem agarrada e disse:
– Agora você fica aqui comigo, pronto.

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Capítulo II
o disfarce

o Porco então resolveu tocar a ideia pra frente


e começou a estudar sozinho o nome dele. Aprendeu as
cinco letras, o cheiro, o som, a cara, o jeito delas, e
depois aprendeu o t. Aos poucos foi fazendo uma
porção de combinações com as letras. Misturava elas
todas, separava, juntava outra vez certinho, juntava
fazendo um som diferente, depois experimentava outro
som, depois escondia o nome bem escondido no
meio de outros nomes pra ver se sabia achar, e quando
ficou com o nome decorado de tudo quanto é jeito
fez o seguinte: todo dia ia pra porta de casa e ficava
esperando uma noite bem preta chegar. uma
noite como ele queria: sem lua, sem estrela, só com
um monte de nuvem escura tapando o céu; uma noite
faltando luz e pegando todo mundo desprevenido,

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sem fósforo e sem lanterna. Ele queria tudo isso junto.
Pra ninguém poder ver nem um pedacinho do que ele
ia fazer.

uma noite assim tão cheia de falta de coisas


custou bastante pra chegar. Mas um dia veio. E como
ela sabia muito bem que o Porco queria segredo e
mistério, apareceu na maior moita, sem fazer barulho
nenhum.
– Escuta, não clareia, não – ele cochichou pra
noite. – Só me arranja um vaga-lume pra eu poder ver
o que eu quero achar, e fica assim tapando tudo até eu
acabar de fazer o que eu tô querendo fazer, tá?
A noite topou. Ele então saiu na ponta do pé.
um vaga-lume apareceu e foi voando atrás.

Foi o Porco sair que o coração dele desatou a


bater que nem louco.
– Quer fazer o favor de bater de um jeito mais legal?

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o coração não ligou.
– Para de bater com essa força, sim? Você ainda
acaba acordando alguém.
Mas não adiantava nada dizer aquilo pro coração:
o danado batia cada vez mais forte (porque coração
da gente é assim mesmo: é da gente, mas não liga a
mínima pro que a gente pede). Batia dizendo:
– Vão descobrir, vão descobrir, vão descobrir... –
E perguntava: – E se descobrem que você vai enganar
todo mundo?
– Ninguém vai descobrir coisa nenhuma.
– Mas se alguém te vê?
– Ninguém vai me ver, te garanto: a noite vai me
ajudar.
– Duvido: no meio do caminho ela vai clarear.
– Quer parar de falar?
– E se você não achar o que vai procurar?
– É claro que eu vou achar.
– Tô duvidando.
– Quer parar!
Mas pelo caminho afora o coração foi batendo
forte e duvidando. Até chegarem lá no livro que
guardava o nome de todo mundo que entrava na vida.

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E ficou batendo do mesmo jeito durante o tempo todo
que o vaga-lume iluminou e o Porco procurou o nome
dele. Só quando ouviu o Porco pensar: “Tá aqui,
achei!” é que o coração ficou quieto: queria ver o que
que ia acontecer.
Devagarinho, com um medo danado de errar,
o Porco pegou o nome dele e trocou o c por um t.
Estava ainda caprichando no tracinho do t quando o
coração deu um pinote tão grande que todo mundo se
assustou: o vaga-lume voou longe, a noite encolheu
três nuvens (e a lua aproveitou pra aparecer) e o Porco
saiu numa disparada daquelas. Correu como um
doido até entrar em casa, plá! fechar a porta e deixar
do lado de fora o medo que alguém fosse ver. Só
aí é que o coração começou a bater de novo de
um jeito legal.
o Porco então respirou sossegado: agora se
chamava PoRTo. Fechou os olhos. Começou a
se lembrar do mar, da água batendo no cais, dos
guindastes, dos navios. Foi se sentindo feliz. Agora o
nome dele tinha aquilo tudo: barulho de navio
apitando, de água batendo, cheiro de mar. Riu de
contente. o nome dele tinha tanta coisa gostosa, que

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agora, na certa, todo mundo ia chamar por ele. Estava
feliz que só vendo. o dia foi clareando, ele disse o
nome dele baixinho: – Porto. – Depois disse outra vez
pra se acostumar: – Porto. – E achou tão bom que
repetiu mais alto um pouco: – Porto.
Pegou o saco de estopa e resolveu fazer uma
roupa com ele. As mangas todinhas ele encheu de
flores; na frente cobriu com as conchinhas que tinha
trazido da praia; atrás, pegando toda a parte de trás,
desenhou um sol, um peixe, o rosto de uma menina que
ele tinha visto numa janela; e pintou também uma
música que ele gostava. Sobrou um pedaço de saco e
ele então fez um chapéu – grande, desfiado nas
pontas e, em cima, bem espetado, o retrato do porto.
Era uma roupa complicada, mas precisava ser assim
mesmo porque era pra ele se disfarçar: Porto não
queria que ninguém – mais ninguém – visse que ele era
um porco.
o sol já ia alto quando ele acabou o disfarce. Se
enfiou na roupa, botou o chapéu e saiu pra passear.

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Nunca ninguém tinha visto uma roupa assim.
Todo mundo chegava perto dele pra olhar,
pra admirar, pra comentar.
– Que roupa diferente! onde é que você
comprou?
– Eu que fiz.
– Ah é? E como é que você se chama?
– Porto.
– Porto?
– É: Porto.
– Que nome bacana.
– Está às ordens.
Quiseram copiar a roupa dele. Quiseram copiar
o nome também. Teve uma moça que começou a se
chamar Porta; e teve um moço que, na pressa de copiar,
se atrapalhou no t, acabou fazendo um c, ficou sendo
Porco.
Ninguém mais torceu o nariz pra ele: Porto
então começou vida nova.

E cresceu.

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Capítulo III
Porto sai pra procurar
trabalho e acaba encontrando uma
coisa bem diferente

Porto saiu de casa com uma fome danada:


arranjar comida ia ficando cada dia mais difícil.
Quando passou pelo lago, parou e ficou se
olhando de tudo quanto é jeito: andava procurando um
olhar bacana, com charminho. Lá pelas tantas
encontrou um que achou bom. Ensaiou uma porção
de vezes o tal olhar e depois foi embora.
Conforme a fome apertava, ele ia andando mais
depressa. Tinha que arranjar serviço pra fazer, ganhar
dinheiro, comer. Acabou correndo. Só parou quando
viu uma fila comprida à beça. Informaram que aquele
pessoal todo estava ali pra arrumar trabalho, ele ficou
desanimado, mas assim mesmo entrou na fila. Pra se

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distrair começou a examinar o sujeito que estava na
frente. Era um elefante.
Cada vez que a fila andava, o elefante suspirava.
uns suspiros muito aflitos que foram logo deixando
Porto meio nervoso. Quando a fila parava, o elefante
também parava de suspirar, mas em compensação
ficava balançando a tromba de um lado pra outro com
impaciência. No fim de uma hora Porto não resistiu
mais e cutucou o elefante:
– Ei!
o elefante se virou. Era velho. Tinha enrolado
e colado as orelhas que nem dois canudinhos: implicava
com orelha grande.
– Tudo legal? – Porto perguntou.
– Legal coisa nenhuma. Minhas patas incham
quando eu espero em fila. olha só o tamanho delas.
Enormes. – Suspirou aflito: – E eu implico tanto com
pata grande!...
Porto pegou o suspiro do elefante e jogou
longe.
– Não dá pra você parar de suspirar, não?
o elefante suspirou que não. Porto baixou
a voz:

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– Então suspira menor. olha, cada vez que você
dá um suspirão desses o pessoal da fila se encolhe de
frio com a ventania do suspiro.
o elefante também baixou a voz:
– Mas o meu suspiro já nasceu grande, o que que
eu posso fazer? Eu dou um azar danado: se tem coisa
que eu implico é com suspiro grande.
– Como é que você se chama?
– Canarinho. – Quis encolher o ombro, mas não
deu jeito, então encolheu a tromba. – Foi mamãe que
escolheu o nome: ela não queria filho elefante: ela
gostava era de passarinho. – Suspirou. – Eu queria tanto
me chamar diferente!
Porto sentiu uma vontade danada de contar pro
elefante a troca que ele tinha feito com o nome dele.
Chegou até a abrir a boca pra falar. Mas depois ficou
quieto: e se o elefante batesse com a língua nos dentes? e
se todo mundo ficasse sabendo? e se ele tivesse que voltar
a ser Porco? Se assustou só de pensar; e pra ver se o
susto ia embora começou a brincar de fazedor de nome,
inventando como é que o elefante ia se chamar: joão?
Sebastião? Manuelão? Mas viu o elefante com uma cara
tão desanimada que esqueceu o brinquedo e disse:

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– Acho Canarinho um nome muito bom.
– Bom pra passarinho, mas não pra um bicho
grande como eu. – Sacudiu a tromba com impaciência.
– Puxa, e se tem coisa que eu implico é com bicho
grande.
Porto apalpou a barriga:
– Você também tá com fome?
o elefante amarrou a cara e não respondeu. A fila
foi andando e Porto quieto, sentindo o buraco que a
fome ia cavando na barriga dele. Só depois de muito
tempo é que o elefante desabafou com voz zangada:
– uma fome deste tamanho! E eu implico
demais com fome grande.
– Você trabalha em quê?
– Vivo de biscate: pego um servicinho aqui, outro
ali. Quando aparece. Mas às vezes leva um tempão
sem aparecer. Que nem agora. Desde o Natal que não
aparece nada. Ando apertando o cinto que só você vendo.
Porto olhou o cinto que o elefante usava.
– Puxa, mas que cinto bacana! É de crocodilo?
o elefante empinou o peito: adorava aquele cinto;
mesmo vivendo apertadíssimo ele não vendia o cinto de
jeito nenhum.

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– É, sim: de um crocodilo que me devia dinheiro
e um dia me pagou com um pedaço do rabo.
– Dele?
– É. Eu aproveitei e fiz um cinto. olha, no Natal
a fivela estava aqui neste buraco. Agora está aqui: andou
tudo isso pra trás.
– E que serviço você pegou no Natal?
– Dei uma de Papai Noel.
– Ah, é? Foi bom?
– Bom, nada! Me meteram numa roupa
vermelha e branca, me enfiaram na cabeça um gorro
enfeitado de algodão, me botaram barba, bigode,
botas, quase morri de calor com aquilo tudo. E aí me
mandaram ficar em frente de uma loja dizendo
pra tudo quanto é criança que passava que eu é que
tinha escolhido os brinquedos daquela loja. Trabalhei a
semana toda e ganhei um dinheirinho legal. Mas
não foi fácil. A rua era cheia de lojas, e cada uma tinha
um cara fingindo de Papai Noel também. o dono
da minha loja mandava eu gritar bem alto pra
ninguém ouvir mais Papai Noel nenhum e só comprar
na loja dele. Mas os outros também gritavam que
só vendo pra ninguém me ouvir. Resultado:

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quando o Natal acabou eu estava rouco e um bocado
cansado.
– E agora? Que serviço você vai pedir?
– Pedir? Há muito tempo que eu não peço mais
nada. Toda semana eu entro na fila pra ver se eles me
oferecem alguma coisa. Quando chega a minha vez,
você vai ver só, o sujeito me olha e diz: pra elefante
velho não tem nada.
– Mas você não é tão velho assim.
– Sou, sim.
– Pois olha, não parece.
– É que eu pinto esses cabelinhos aqui. – olhou
pros lados pra ver se ninguém estava escutando. – E
estico as rugas e prendo elas com fita colante. olha:
isso tudo aqui tá colado. Quando eu boto fita nova
fica uma beleza. Mas há muito tempo que eu não
tenho dinheiro pra comprar fita. Essas aqui estão uma
porcaria, não grudam mais nada: toda hora cai
uma ruga.
Porto começou a quebrar a cabeça pra ver como
é que podia arrumar umas fitas novas pra Canarinho.
Depois pensou que o negócio não era arrumar fita, era
arrumar trabalho. E começou a pensar tanto naquilo,

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que esqueceu a fome, nem viu a fila andando, só
acordou do pensamento quando ouviu a voz do elefante
perguntando pro homem que distribuía trabalho:
– o senhor tem algum servicinho pra mim?
– Pra elefante velho não tem nada.
Canarinho baixou a cabeça e já ia indo embora
quando Porto puxou ele pelo cinto e cochichou às
carreiras:
– Semana que vem é Páscoa: dá uma de ovo:
finge de ovo gigante pra vender ovinho de chocolate.
Mais que depressa Canarinho virou pro homem e
engrossou a voz:
– Não tem nada como? A Páscoa tá chegando.
No Natal o senhor não me arranjou emprego de Papai
Noel pra anunciar brinquedo? Então? Agora pode
muito bem me arranjar emprego de ovo gigante pra
anunciar ovinho de chocolate.
o homem ficou logo animado, arregalou cada
olho assim:
– Mas que boa ideia! Com esse tamanhão todo
você vai dar um ovo genial, e aposto que vai vender cho-
colate à beça! já está empregado. Entra. Primeira porta.
Esquerda. Senta. Espera.

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Canarinho e Porto trocaram uma piscadela de
olho e um aperto de pata.
– Tchauzão – disse Porto.
– Tchauzinho – o elefante respondeu. – Se tem
coisa que eu implico é com um tchau grande. – E
sumiu.

o homem então se virou pro Porto.


– Nome?
– Porto.
– Retrato.
Porto tirou do chapéu a fotografia do porto e
mostrou um pontinho preto:
– Sou este aqui.
Enquanto o homem colava o retrato junto do
nome, Porto sentiu de novo o buraco que a fome cavava
na barriga dele.
– Você quer se empregar de quê? – o homem
perguntou.
– De médico.
– Cadê o diploma?

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– Que diploma?
– Diploma de estudo.
– Não tenho estudo, não senhor.
– Você tá brincando? Se você não tem diploma,
como é que você quer ser médico?
– Quem tá brincando é o senhor, ué: se eu não
pude ficar na escola, como é que eu vou ter diploma?
o homem se impacientou:
– Se não tem diploma não pode ser médico.
– Quero ser engenheiro, então.
– Cadê o diploma?
– Ai, ai, ai, ai, ai!
A fome cavava um buraco cada vez maior.
Porto viu que também não ia conseguir ser engenheiro.
Experimentou.
– E dentista? pode?
o homem foi ficando aborrecido:
– Precisa diploma de estudo!
– E artista?
– Não precisa.
– Então quero ser.
– Não pode: a gente aqui não dá trabalho pra artista.
– Por quê?

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– Hoje é quarta-feira. Essa pergunta só tem
resposta às terças, quintas e sábados. Tenho aqui um
trabalho de bombeiro. Quer?
– Querer eu quero, só que eu não sei ser bombeiro.
Mas eu sei servir muito bem: posso ser garçom?
– Muita gente querendo servir: não tem mais vaga.
A fome continuava cavando. Porto então viu que
se não arranjasse comida depressa o buraco engolia ele.
Quando o homem perguntou:
– Quer um emprego de anúncio?
Ele respondeu correndo:
– Não sei o que é, mas quero. Me dá. Depressa.
o homem então deu pra Porto duas tabuletas
presas por um arame e escrito assim em cada uma:

VENHA COMER NO RESTAURANTE FORMOSO


É LINDO, AGRADÁVEL, GOSTOSO
TEM TUDO QUE VOCÊ SONHA COMER
POR PREÇOS TÃO BAIXOS QUE É PRECISO VER

E disse:
– Agora você se enfia nessas tabuletas e sai por aí,
pra todo mundo ir lendo o anúncio.

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– E esse emprego paga bem?
– Almoço e jantar garantidos no Restaurante
Formoso e uns trocados no fim do mês.
Estava justinho na hora do almoço. Porto voou
para lá.

o Restaurante Formoso não era lindo coisa


nenhuma: era até bem feio; e Porto ficou logo sabendo
que eles cobravam caríssimo. Mandaram Porto comer
na cozinha junto com o faxineiro; ele achou a comida
ruim, mas, naquela pressa de tapar o buraco que a
fome tinha cavado, limpou o prato e pediu mais.
Disseram que um prato chegava, ele então disse
“paciência”, bebeu água pra tapar o resto do buraco,
se levantou, ajeitou as tabuletas e saiu. Com aquele jeito
gingado. Andando bem devagar. Pra todo mundo
poder ler com calma que o Restaurante Formoso era
lindo, agradável, gostoso, e tinha preços tão baixos
que só vendo.

37
Anda daqui, anda dali, Porto foi chegando perto
de um lugar onde uma porção de plantas e árvores
tinham se juntado pra fazer um mato. E de dentro
daquele mato saía o som de uma flauta tocando. Era
uma musiquinha tão boa que o coração de Porto quis
logo sair atrás.
Devagarinho, com todo o cuidado, Porto
começou a seguir o rastro da flauta. Se enfiou pelo
capim, rodeou uma árvore, pulou uma pedra, de
repente achou! E ficou logo intrigado; nunca tinha visto
aquele bicho que estava ali tocando flauta. Era fêmea:
isso ele sabia; e ela tocava de pé, se equilibrando
numa perna só.
Porto foi ouvindo, foi olhando, foi ficando
encantado – não sabia se com ela, se com a flauta, se
com as duas. Começou então a conversar com
o coração:
– Acha que ela é bonita?
– Não sei...
– Acha que ela é feia?
– Não sei...
– o que que você sabe?
– Que eu gosto do jeito dela.

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– Por quê?
– Ela sabe se equilibrar tão bem numa perna só!
– E que mais?
– Ah, sei lá, ela toca flauta com tanta certeza,
olha com tanta certeza, tem cara de tanta certeza.
– Se ela olhar pra cá, faz aquele olho de charme.
– o quê?
– olha pra ela daquele jeito bacana.
– Tá vendo? Você agora só pensa nessas bobagens.
– Bobagem por quê? Você mesmo não disse que
gosta do jeito dela?
– Gosto.
– Então?
– Tá bem, eu olho.
Mas quando chegou nesse ponto da conversa a
musiquinha acabou. Porto desatou a bater palmas
entusiasmado.
Quando a tocadora de flauta viu Porto
não se assustou nem nada. Foi logo fazendo um
agradecimento de corpo e dizendo: oi!
– oi! – E de repente ficou todo atrapalhado e
nem se lembrou de fazer charme nenhum. Mas disse:
– Você toca um bocado bem.

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Ela sorriu. Ele então tomou coragem e
perguntou:
– Escuta aqui uma coisa, que bicho que você é,
hem?
– Cegonha.
– E cegonha tem nome?
– Não sei se todas têm. Mas eu tenho. Me
chamo Angélica.

40
Capítulo IV
A cegonha

– onde é que você nasceu, hem, Angélica?


– Lá. Depois daquele mar.
– Puxa, que longe!
– Pois é.
– Lá é melhor que aqui?
– Sabe? Eu acho que nenhum país é melhor que
o outro: um é mais legal numa coisa, outro, noutra.
– Você tem família?
– Enorme: pai, mãe, avô e oito irmãos. Ficou
tudo morando lá. Mas estão sempre me escrevendo. E
eu pra eles. Era uma família formidável. Só tinha uma
coisa ruim que... – Parou de falar e ficou quieta
pensando.
– Coisa ruim?
– Hmm-hmm.

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– o que que era?
Angélica fingiu que não tinha escutado a pergunta
e contou outra coisa:
– No inverno fazia um frio daqueles lá na minha
terra. E então, quando chegava o outono, a gente
ia viajar. Voava pros países mais quentes e ficava por lá
até a primavera aparecer outra vez.
Porto suspirou: aquilo sim é que era vida: verão
aqui, inverno ali, família, asa pra voar... Quem sabe
um dias desses Angélica emprestava as asas e ele saía
voando, conhecendo o mundo todinho, arranjando
até uma família?
– Meus irmãos se chamam Lua, Luva, Luís, Lux,
Ludo, Lume, Lucas e Lutero.
– ué, e como é que você saiu Angélica?
– Mamãe disse que assim que eu nasci eles viram
logo que eu ia ser diferente: tinha cara de espírito
de porco.* Minha família era um bocado respeitada, a
gente levava um vidão! Mas quando eu cresci e

* Porto adorou aquela história de Angélica ser espírito de porco:


ficava parecendo que os dois eram parentes.

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descobri a mentira que o pessoal todo mentia, minha
vida ficou ruim que só vendo.
– Que mentira?
– Daí pra frente eu tinha que viver fingindo.
– Por quê?
– E se tem coisa que eu não topo é fingir.
Quando é pra brincar de faz de conta, eu gosto. Mas
quando é pra viver o tempo todo enganando os
outros e fingindo uma coisa que eu não sou, ah isso
eu não topo! De jeito nenhum.
Porto olhou pro chão: e se Angélica não topasse
aquela história dele fingir que não era porco? Ela
prosseguiu:
– Minha vida foi ficando tão ruim, tão ruim...
– Por quê?
– ...tão ruim que eu só pensava em deixar o
meu país e ir pra bem longe. Pensava nisso o dia todo,
e a noite inteira também. Às vezes, pra descansar um
pouquinho o pensamento, eu fazia umas poesias.
Xi!... E o coração de Porto já bateu meio
assustado: Angélica sabia música, sabia ler e escrever,
até poesia ela sabia fazer. E se ela achasse que ele
era burro?

43
– Mas o resto do tempo eu só pensava
em sumir. Até que um dia resolvi vir pro Brasil.
Você tá vendo este botão aqui? – e se abaixou pra
Porto ver o botão que ela tinha pregado no alto
da cabeça.
– Legal. Pra que que serve?
– Pra abotoar as ideias. Foi presente de
despedida da minha família. Meu avô disse que pra
gente viver sozinha precisa ter as ideias muito bem
abotoadas senão entra pelo cano.
Porto deu uma risada: tinha gostado do botão.
Ela continuou:
– Aí eu abotoei muito bem abotoada a ideia de
vir pra cá e vim.
– Você voou aquele mar todo?
– Mas no meio do caminho cansei. Se não
é um navio ir passando e eu pegar uma carona, não
chegava: as asas tinham pifado. E eu ainda viajei
uma porção de dias até chegar no porto.
Porto ficou feliz: Angélica chegando no porto
era que nem Angélica chegando nele.
– E foi só desembarcar pra ver que aqui também
mentiam a mentira que mentiam lá. E depois me

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disseram que não adiantava ir pra outro lugar porque
era tudo a mesma coisa.
– Tudo o quê?
Foi aí que ela gritou:
– Esqueci da hora! Tenho que tocar numa festa
de casamento a música que eu estava ensaiando. Tchau!
Porto ficou na maior aflição: então ela ia embora,
ia sumir assim de repente sem explicar direito tudo
que ele tinha perguntado, os dois não iam mais se ver?
Segurou Angélica pela asa:
– Espera! Eu não entendi a história da mentira,
do fingimento, da coisa ruim, eu quero saber uma
porção de coisas, eu quero saber se...
– Agora não posso contar mais nada, estou
atrasada, tchau!
– um momentinho só! Você tem sobrenome?
onde você mora? Quem é que casa hoje, hem?
Mas ela já tinha sumido. Porto ficou parado.
Quieto. um tempão. De repente tomou um susto: viu
que tinha abotoado a ideia de se apaixonar por
Angélica.

45
Capítulo V
Porto luta pra provar que é homem

No outro dia Porto voltou ao mesmo lugar


pra ver se encontrava Angélica. Encontrou. E então
ela contou mais coisas. Contou que tocava flauta aqui
e ali pra ganhar um dinheirinho, mas que não gostava
muito daquele trabalho; disse que o sonho da vida dela
era trabalhar numa coisa que ela achasse bem bacana.
Porto contou que ele também não gostava de trabalhar
de anúncio, a única vantagem é que ele comia no
restaurante e – por falar nisso: Angélica não queria
jantar com ele? Ela quis.

Era a primeira vez que Porto convidava alguém


pra jantar: estava se sentindo importante à beça. E

46
emocionado. Porque era a primeira vez também que
saía com uma namorada.*
Assim que eles se sentaram, um garçom
chegou junto da mesa e acendeu uma vela. Porto
desanimou: puxa, mas que azar! justinho na noite que
ele convidava Angélica pra jantar faltava luz. Virou
pro garçom e disse:
– olha, eu conheço um eletricista. Você quer
que eu vá falar com ele pra ele vir consertar essa
pifação de luz?
o garçom fez cara de gente que pensa que é
importante:
– Não tá faltando luz, não. É que é chique
jantar com luz de vela.
Porto ficou muito admirado:
– Ah, é?
Na mesa do lado começaram a rir. Porto olhou
com o rabo do olho e levou um susto daqueles: eram
os macacos que estavam rindo. os tais macacos da

* Angélica ainda não sabia que era namorada de Porto, mas ele
já tinha certeza absoluta que era namorado dela.

47
escola. Aqueles que viviam fazendo pouco de Porto.
“Será que eles estão me reconhecendo?”, pensou.
E cochichou pra Angélica:
– Essa turma aí tá rindo porque eu não sabia que
luz de vela é chique. Se eles continuam fazendo pouco
de mim eu vou ter que brigar.
Angélica não ligou a mínima:
– Quem quiser fazer pouco da gente que faça:
problema deles.
– Mas você sabia?
– o quê?
– Que esse negócio de vela é chique?
– já tinha ouvido dizer, mas achei uma bobagem.
Porto ficou amolado com aquela história:
Angélica sabia, os macacos sabiam, todo mundo sabia
o negócio da vela, só ele é que não.
o garçom trouxe os cardápios, deu um pra
cada um e ficou esperando que eles lessem e
resolvessem o que que queriam comer. Porto se
apavorou: pronto! agora Angélica ia ver que ele não
sabia ler. olhou o cardápio, não entendeu nada, virou
ele de cabeça pra baixo pra ver se entendia melhor,
a coisa ainda piorou.

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os macacos desataram a rir outra vez. Com
o canto do olho Porto viu o mais velho virar o cardápio
igualzinho como ele tinha feito. Puxa, mas que raiva que
ele estava ficando daquela turma! Desviou o olhar dos
macacos e viu que Angélica estava olhando pra ele.
– Você não sabe ler, é?
Ele quis dizer que não, mas a resposta se
envergonhou toda e resolveu não sair.
– Você querendo, eu te ensino. – E continuou a
estudar o cardápio pra ver o que que ia comer.
Porto olhou pra ela feliz: puxa, ia ser legal
aprender a ler e escrever com a Angélica. E ela nem
tinha se importado dele ser burro. Que bacana!
– Então? Quer que eu ensine?
Quando ele foi dizer que sim, a resposta se
envergonhou outra vez e não saiu. E no lugar
dela apareceu uma resposta espevitada que foi logo
dizendo:
– Não precisa: eu até que vivo bem sem saber ler
nem escrever.
– Pois podia viver melhor se soubesse. – Virou
pro garçom e pediu: – Eu queria um cremezinho de
camarão.

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E Porto disse: eu também.

Enquanto comiam os camarões, Angélica contou


a história dela pra Porto – e dessa vez contou direito:
tintim por tintim. E enquanto comiam a sobremesa,
Porto contou a vida dele todinha pra Angélica; contou
até a história do disfarce e o problema do nó cego
que ele não conseguia desmanchar. E então esqueceu a
vela, os macacos e o cardápio. Quando o garçom
trouxe a conta, ele nem olhou; só disse assim:
– Eu trabalho no restaurante, tenho direito de
comer aqui.
o garçom achou a resposta esquisita e foi falar
com o dono da casa.
o dono do Restaurante Formoso tinha os
olhos arregalados, as sobrancelhas cabeludíssimas, e
era tão gordo que mal podia andar. Mas assim
mesmo andou até a mesa de Porto, botou as mãos
na cintura e perguntou:
– Você trabalha aqui no restaurante? (Quando
ele falava, os olhos ainda se arregalavam mais; e as

50
sobrancelhas disparavam pra baixo e pra cima com
tudo que ele dizia.)
Angélica foi logo ficando com vontade de rir da
cara do homem.
– Trabalho de anúncio, sim senhor. Saio
todo dia carregando aquelas tabuletas que dizem
que o Restaurante Formoso é lindo, agradável
e gostoso.
Pra quê! o dono tossiu, espirrou, fungou e
desabafou:
– Você trabalha de anúncio e acha que pode
trazer convidados e comer às minhas custas?
os macacos se cutucaram e piscaram um pro
outro. Todo mundo que estava no restaurante começou
a olhar. E como as sobrancelhas do dono cada vez iam
mais pra baixo e mais pra cima, Angélica não resistiu:
tapou a cara com o guardanapo e começou a rir.
Nervoso com aquilo tudo, Porto gaguejou:
– Mas eu tenho direito de comer aqui. o senhor
mesmo disse que...
– Você tem direito de comer lá na cozinha. junto
com o faxineiro e o lavador de pratos. Comida que
sobra dos fregueses. ou você tá pensando que é igual

51
aos meus fregueses e pode comer camarãozinho, e mais
sobremesa, e mais não sei o quê?! Você e mais essa...
essa... que bicho mesmo que ela é?
Porto ficou danado.
– Alto lá! Mais consideração com a senhorita.
– E quem é você pra me dizer alto lá? Sou
seu patrão, ouviu? Ninguém fala comigo desse jeito
duas vezes. Está despedido!
Angélica parou de rir, Porto achou que tinha que
bancar o homem e fingir que não estava ligando:
– Então pronto: estou despedido. E daí?
– Daí que você não vai embora sem me pagar o
jantar.
Só então é que Porto e Angélica olharam a conta.
Porto sabia ler número, tomou um susto daqueles:
– Puxa, mas o jantar custou muito mais do que eu
ganho no fim do mês!
– Meu restaurante é de luxo, o que que você está
pensando? E você não vai embora sem me pagar.
um dos macacos gritou entusiasmado:
– Agora é que eu quero ver!
E os outros começaram a rir.
Porto estava na maior aflição.

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53
– o senhor sabe muito bem que eu não tenho
esse dinheiro – disse baixinho, pra ver se os macacos
não ouviam.
Mas eles ouviram, e um falou:
– Não tem dinheiro e convida a namorada pra
jantar. – A gargalhada aumentou.
Foi quando Angélica acabou de fazer as contas
lá dentro do pensamento dela e viu que o dinheiro que
vinha economizando* dava certinho pra pagar a
conta.
– o que é isso, Porto? que bobagem! – disse com
um ar muito superior. – Então você esqueceu aquele
dinheiro que você me deu pra guardar? – Tirou de um
bolsinho que tinha na asa esquerda uma porção de
notas, botou em cima da mesa e disse bem alto, pra
todo mundo escutar: – os camarões estavam ruins,
o refresco também, a sobremesa pior ainda. E eu
acho o seguinte: se esse jantar custa muito mais do que
o senhor paga no fim do mês pro Porto é porque o
senhor é um ladrão. Vamos, Porto? – E foram saindo,

* um dia, quando calhasse, ela queria ir visitar a família.

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enquanto o dono contava o dinheiro pra ver se
estava certo. Porque ele era assim: desde que pagassem
o dinheiro que ele queria, podiam dizer à vontade
que ele era isso, que ele era aquilo, que ele era
até um ladrão.
Angélica saiu do restaurante feliz da vida:
– Sobrancelhudo cocoroca! Pensou que nós não
tínhamos dinheiro pra pagar, mas nós tínhamos. Bem
feito, bem feito, bem feito! – E ria.
Mas Porto estava trombudo. Lá pelas tantas
desabafou:
– Puxa, que vergonha.
– o quê?
– Você pagou a conta pra mim.
– ué: se você pagasse pra mim eu não ia achar
vergonha nenhuma.
– Ah, mas é diferente.
– Não sei por quê.
– Porque é, ué.
– Porque é ué não explica nada.
– Porque é o homem que tem sempre que
pagar: é por isso.
– Ih, Porto, essa ideia é tão antiguinha!

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– Foi sempre assim.
– Você agora tá parecendo o pessoal lá de casa:
quando eu dizia que a gente não podia continuar
mentindo pras crianças, eles falavam “foi sempre
assim”; eu respondia “mas tá errado: a gente tem que
mudar”, e eles então ficavam zangados comigo. Você
já reparou como tem gente à beça que não gosta que as
coisas mudem?
– Hmm.
– Por que será, hem?
– Hmm.
– Você já pensou nisso?
– Hmm.
– Mas que história é essa de hmm-hmm? você
tá doente? ficou com dor de dente, dor de ouvido?
Ele virou pra ela de repente e disse com força:
– Dor de vergonha, ouviu? ou tá pensando
que vergonha não dói?
– Mas, Porto, vergonha de quê? Se eu...
Ele estava embalado, não deixou ela falar:
– Você diz vergonha de quê?, mas aposto que
aí dentro da sua cabeça você tá me achando o fim da
picada porque eu não sabia que luz de vela é chique,

56
porque eu não sei ler, porque eu sou um porco
disfarçado de Porto, porque eu não tenho dinheiro
pra pagar um jantar. Mas você pensa que eu tô
ligando de você me achar o fim da picada, pensa? Ah!
não tô ligando, não tô ligando, não tô ligando a
mínima, ouviu?
– Homem que é homem paga o jantar da
namorada!
Pronto: eram os macacos outra vez. Passaram
correndo, rindo, assobiando, dizendo que homem
que é homem, etc. e tal.
E Porto, que quanto mais repetia que não
estava ligando mais sentia que era capaz de rebentar
de tanto que estava ligando, disparou atrás dos
macacos, ah, se ele pegasse um deles!, disparou pra
dentro da noite, deixou Angélica pra trás.
Mas os macacos já tinham sumido.
Era noite de lua cheia. uma lua tão clara, que
de tudo ela ia tirando uma sombra – de Porto, das
árvores, das pedras.
Cada barulhinho que Porto ouvia já achava
que era a voz de um macaco dizendo: homem que é
homem... E então se virava depressa. A sombra dele

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se virava também. Ele pensava que era a sombra de um
macaco e dava um safanão nela, passava uma rasteira
também. E de tanto querer que a sombra caísse, quem
acabava caindo era ele. Rolava no chão. Mas levantava
logo. Apareciam mais sombras. Ele achava que tinha
que brigar com cada uma. Caía e levantava. Caía e
levantava.
E lá se foi Porto, entrando cada vez mais dentro
da noite, brigando cada vez mais forte com as sombras
todas que apareciam em volta dele.
Brigou até cansar. Aí foi pra casa e dormiu.
Foi só dormir que sonhou. Pra contar a verdade,
não foi sonho; foi pesadelo: uma coruja piava que
ele não era homem e ele tinha que provar que era. E
então desatou a brigar com a coruja. Lutava com todo
o corpo, dava pontapés, acabou dando uma cabeçada
tão grande que acordou gemendo.*
Custou pra pegar no sono outra vez. E assim
que dormiu o elefante Canarinho apareceu e disse:
“Porto, você não é homem.” Não precisou mais nada:

* Até hoje ele tem um galo na testa por causa dessa cabeçada.

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já começou a briga de novo. Pontapés, cabeçadas,
safanões. Doíam tanto que ele acordava chorando.
Voltava a dormir. E aparecia Angélica, aparecia a lua,
aparecia o vento, aparecia todo mundo implicando
com ele: você não é homem! E ele tinha que brigar até
eles desdizerem tudo.
Afinal resolveu não dormir mais (com medo de
sonhar e ter que brigar mais). Foi pra janelinha e ficou
espiando lá fora. Espiando e pensando na vida, em
tudo que ele já tinha visto e aprendido. Lembrou das
coisas que Angélica tinha dito e acabou resolvendo:
“Se eu nasci homem, se eu tenho focinho de homem,
corpo de homem, pata de homem – por que que eu
tenho que ficar chateado se dizem que eu não sou
homem? que besteira!” Pensou naquilo um tempão.
Tanto tempo, que acabou até dormindo de novo.
E não é que sonhou outra vez? E logo com quem?
Isso mesmo: com os macacos. E de saída eles foram
dizendo que Porto não era homem. Mas dessa vez
Porto achou que ia ser a maior bobagem do mundo
brigar por causa daquilo. Riu: bobalhões! E quando viu
que os macacos ficavam sem graça e não diziam mais
nada, ainda riu muito mais. Se sacudiu de risada.

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Acabou até dando outra cabeçada. Mas não acordou,
não: cabeçada de riso é coisa leve; não deixa galo, não
dói, não dá nem pra gente acordar de um sonho.

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Capítulo V1
o passeio

Toque, toque, bateram na porta. Toque,


bateram outra vez. Porto acordou assustado e abriu.
Era Angélica.
– Pensei tanto em você esta noite – ela disse.
– E hoje de manhã, assim que acabei de escovar as
penas, já comecei a sentir saudades de você.
Porto ficou parado, o coração andando depressa,
o pensamento também: ele tinha ouvido certinho?
então o pouco caso da Angélica só existia mesmo
dentro da cabeça dele? olhou a vida. Estava um dia
bonito que só vendo. Ele então quis também dizer uma
coisa bem bonita pra Angélica, mas na hora a coisa
saiu assim:
– Pois é: tem gente que escova dente, tem gente
que escova pena.

61
Ela tirou do bolso um pacotinho e deu pra ele.
– Toma. Você disse que gostou daquela
música que eu toquei na flauta: eu então quero te dar
ela de presente.
Porto apanhou a música. Angélica suspirou:
– Bom, vou indo. Tchau.
– Espera! – E ele se virou pra dentro de casa,
procurando uma coisa qualquer. Então Angélica vinha,
dava música, dizia que estava com saudades e ia
embora sem levar uma flor, uma lembrancinha, nada?
Mas dentro de casa não tinha nada. Se apavorou.
– Espera! – pediu outra vez; de jeito nenhum ia
deixar Angélica ir embora de asas vazias. E então,
como não tinha mesmo nada pra tirar do bolso ou de
casa, Porto abotoou uma ideia às carreiras. Abotoou
bem abotoada, cobriu com um pedaço de casca de
árvore e estendeu o presente pra Angélica, assim como
quem estende um prato de doces. – Toma pra você.
– o que que é?
– uma ideia.
– Que ideia?
Porto sorriu encabulado:
– Vê, ué.

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Angélica riu e começou a tirar a casca bem
devagarinho (porque ela era assim: adorava surpresas,
e então queria sempre fazer render). Viu a pontinha da
ideia e o riso foi sumindo. jogou a casca longe, viu
a ideia inteira, arregalou os olhos.
Porto olhava pra ela sentindo no peito o coração
se encolher assustado: será que Angélica não ia
gostar do presente?
De repente ela berrou entusiasmada:
– Mas que ideia legal, Porto!
E o coração então saiu como quem sai
dançando.
– Gostou mesmo?
– Se eu gostei? Se eu gostei? – E Angélica ria,
batia asas, sapateava.
Depois cismou que gostava tanto da ideia que
ia guardar ela bem guardada pra ninguém mexer.
Encontrou ali perto uma caixa de sapato jogada fora.
Limpou ela bem limpa, desentortou a tampa, botou a
ideia dentro.
– Agora a gente tem que descobrir um
esconderijo pra ela.
Saíram procurando.

63
Foi lá perto do lugar onde tinham se encontrado
que resolveram esconder a ideia. Cavaram um buraco.
Enterraram a caixa. já iam jogando terra em cima
quando Porto perguntou:
– Não é melhor fazer um furinho na caixa pra
ideia poder respirar?
Fizeram. E marcaram o lugar do esconderijo
com um desenho no chão.

Depois, Porto e Angélica saíram passeando.


Andaram muito. Batendo papo, rindo, achando
legal as coisas que um contava pro outro.
Andaram muito mesmo. E pelo caminho afora
Angélica ia dando uma aulinha de ler daqui, outra
de escrever dali, uma de música depois. A toda hora
se espantava:
– Puxa, como você é inteligente, Porto! Como
você aprende tudo correndo.
Ele ficava vermelho até não poder mais. Tão
vermelho e tão contente! Parava no caminho e então
ensinava Angélica como é que num instante se fazia

64
uma fogueira usando só um palito de fósforo, como
é que se desenhava bonito,* como é que se cozinhava
uma porção de pratos. Ela então ensinava como é que
se cozinhava outros, andavam outra vez, ela ensinava
Porto a dançar. Pulavam de um assunto pra outro, e
num desses pulos ela perguntou:
– Você é meu namorado?
– Eu sou. E você é minha namorada?
– Tá parecendo.
Então combinaram que um dia iam se casar. E
depois, num outro pulo, combinaram que voltando do
passeio iam tratar da ideia que tinham guardado na
caixa de sapato.

* Ninguém tinha ensinado Porto a desenhar, mas a gente é assim


mesmo: tem coisas que a gente já nasce sabendo.

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Capítulo V1I
A ideia

que Porto deu pra Angélica era assim:

“Você não disse que queria trabalhar numa coisa


que você achasse bacana?
Você não disse que um dia queria contar tua história
pra mais gente ouvir?
Então? Mistura as duas coisas, Angélica!
Pega tudo que você me contou no restaurante,
faz um teatrinho com a tua história
e sai mostrando por aí.
Pronto: fim da ideia.”

Angélica e Porto então começaram a trabalhar


na peça de teatro. Todos os dias se encontravam e
ficavam discutindo horas a fio como é que ia ser uma

66
cena, como é que ia ser outra. Assim que chegavam
a uma conclusão iam passando pro papel as falas que
inventavam pros personagens.
Porto já tinha aprendido a escrever, mas
continuava gostando mais de desenhar, e então ia
desenhando no chão tudo que inventava. Desenhou
um cenário que era a frente da casa da Angélica, com
porta, janela, flor nascendo no jardim, avião passando
no céu.
– Ei, Angélica, eu vou arrumar um lençol
bem grande pra desenhar esse cenário. Aí a gente
pendura o lençol que nem cortina de chuveiro
de gente que tem chuveiro. Quando a cortina abrir
é pra mostrar que a gente tá entrando dentro de casa.
Depois desenhou um sol de papelão, com olho,
boca, orelha e nariz. Desenhou os irmãos da Angélica
e, sem saber por que, desenhou os oito em fila.
Foi aí que teve a ideia de fazer um “trenzinho de
irmãos”.
– o que que você acha dessa bossa, Angélica?
– Gostei.
Começaram então a imaginar como é que ia ser
o trem. Conforme iam imaginando, Angélica ia

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escrevendo. Quando o trem ficou pronto, corrigiram,
riscaram, escreveram de novo, corrigiram outra vez, até
acharem que estava bom.
Foram fazendo assim com todas as cenas da
peça. E aos pouquinhos, muito aos pouquinhos, a ideia
(que quando Angélica guardou na caixa de sapato só
tinha nove linhas) foi crescendo que nem bolo no forno;
cada dia que passava crescia mais um pouco.
Às vezes eles empacavam numa cena. Quebravam
a cabeça, mas não adiantava: a cena não saía certa de
jeito nenhum.
– Puxa, que coisa! – reclamava Porto – eu penso,
eu desenho, eu escrevo, mas não consigo explicar o que
eu quero dizer.
Angélica também ficava numa aflição danada:
– Por que que quando a gente pensa as coisas
elas são tão fáceis, e na hora de escrever elas ficam tão
difíceis?
Era uma luta pra desempacar as cenas. Mas
acabavam saindo.
umas saíam direito. outras, tortas. Foi por isso
que os dois resolveram botar na peça um explicador.
Pra ver se ele explicava direito tudo aquilo que saía

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torto. E depois fizeram o explicador com mania de,
volta e meia, dar uns toques de corneta.
Passou um bocado de tempo até a peça ficar
pronta, mas, no dia que ficou, Porto e Angélica quase
estouraram de contentes: eles não sabiam que era tão
bom fazer uma coisa difícil e ir até o fim sem
desanimar.
Angélica queria que a peça se chamasse “A
Verdade da Cegonha”, mas Porto achou que
“Angélica” era muito melhor, e a peça acabou se
chamando mesmo “Angélica”. Tinha treze
personagens: o Explicador, o Vô, o Pai, a Mãe, a
Angélica e os oito irmãos. E era assim:

69
Capítulo V111
Angélica

PRIMEIRO ATO

EXPLICADOR: Totorotototó!! Senhoras, senhores, crianças,


bichos de toda espécie, distinto público:
boa tarde! Hoje vamos apresentar uma
peça chamada “Angélica”. A peça tem dois
atos, o primeiro com noventa centímetros
e o segundo com um metro e dez.
Como aí fora a gente sempre apresenta as
pessoas que nunca se viram, nós achamos
que aqui no palco a gente tinha que fazer
a mesma coisa. Então vamos começar.
Quem está entrando é a Angélica. Oi,
Angélica! Tudo bem? Olha, eu queria te
apresentar o público. Taí.

70
ANGÉLICA: Muito prazer. Pode não parecer, mas eu
sou uma cegonha. E tem mais: uma
cegonha com pai, mãe, avô e uma porção
de irmãos. Esse que vem aí é meu avô.
VÔ: Boa tarde. É um prazer conhecer vocês
todos.
ANGÉLICA: Quantos anos você tem, Vô?
VÔ: Uma porção. Não vou dizer quantos senão
vocês vão me achar muito velho.
ANGÉLICA: Quantas horas você dorme por dia, Vô?
VÔ: Uma porção. Não vou dizer quantas senão
vocês vão me achar muito dorminhoco.
ANGÉLICA: Quantos lanches você faz por dia, Vô?
VÔ: Poucos.
ANGÉLICA: Vô...
VÔ: Muito poucos.
ANGÉLICA: Fala a verdade, Vô...
VÔ: Uma porção. Não vou dizer quantos senão
vocês vão me achar muito guloso. Por
falar nisso... tá na hora de fazer um
lanchezinho. Tchau.
ANGÉLICA: Esses que acabaram de chegar são papai
e mamãe.

71
PAI: Muito prazer.
MÃE: Muito mesmo!
PAI: Eu sou um chefe de família feliz.
MÃE: Tão feliz!
PAI: Meus filhos me respeitam, meus vizinhos
me respeitam, todo mundo me respeita.
MÃE: Eu também!
PAI: O quê?
MÃE: Te respeito.
PAI: Ah, pois faz muito bem. Se tem uma coisa
que eu adoro é respeito, e se tem outra
coisa que eu detesto é falta de respeito.
MÃE: Eu também.
PAI: Aliás, nós somos a família mais respeitada
deste lugar.
MÃE: Somos tão respeitados!
PAI: Bom, já nos apresentamos, agora podemos
ir embora.
MÃE: Então vamos.
ANGÉLICA: E esse trenzinho que vem aí são meus oito
irmãos.
OS IRMÃOS: Uuuuuuuuuuu!... Tchoque-tchoque,
tchoque-tchoque, tchoque-tchoque...

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EXPLICADOR: Desde pequenininhos que eles têm mania
de andar assim: aonde vai um, vão todos.
ANGÉLICA: Ei pessoal! Vocês querem fazer o favor
de parar e se apresentar?
OS IRMÃOS: Me chamo Lutero. Oi!
E eu Luís. Oi!
Meu nome é Luva. Oi!
E o meu Lucas. Oi!
Eu sou a Lua. Alô!
E eu sou o Lume. Olá!
Eu sou o Ludo. Oi, oi!
E eu o Lux. Boa tarde, querido público.
LUTERO: Uuuuuuuuuuu!.
OS IRMÃOS: Tchoque-tchoque, tchoque-tchoque,
tchoque-TCHAU!!
ANGÉLICA: E como, às vezes, as peças não explicam
tudo que a gente quer saber, nós achamos
que era melhor ter um explicador. Taí.
Qualquer coisa que vocês quiserem saber
é só perguntar pra ele. E agora eu vou
representar. Até já.
EXPLICADOR: Como é de dia, eu vou aproveitar um
prego que eu tô vendo ali pra pendurar o

73
sol. Eu também tenho uma lua guardada
aqui no bolso. Vamos ver se uma hora
dessas fica de noite pra ela poder aparecer.
Aqui atrás é a casa da Angélica no tempo
em que a Angélica ainda não tinha nascido
mas já estava pra nascer. Deixa eu abrir o
pano. Pronto. Vocês podem achar esquisito
que a casa só tem dentro esse ovo, mas
casa de cegonha é assim mesmo: bem vazia
e... ué, Lux, o que que você tá fazendo
escondido aí atrás?
LUX: É que agora mesmo a mamãe vai chegar pra
chocar o ovo, e como ela tem aquela mania
de não perder tempo, sempre
que tá chocando tá tricotando.
EXPLICADOR: E daí?
LUX: É tão gozado! Ela não para de tricotar
uma manta que tá sempre do mesmo
tamanho: eu fico aqui escondido, e tudo
que ela vai tricotando de um lado eu vou
puxando o fio e destricotando do outro.
Gozado mesmo.
EXPLICADOR: Você não toma jeito, não?

74
LUX: Eu tô pensando em hoje acabar com a
manta de vez. Ih, aí vem a família toda.
EXPLICADOR: Então deixa eu ficar aqui neste canto
pra não atrapalhar ninguém.
MÃE: Cadê a escadinha?
PAI: Os meninos já estão trazendo.
VÔ: Nunca vi um ovo tão grande.
MÃE: Nem eu. Não dá pra chocar sem escada
de jeito nenhum.
LUTERO: Pronto, mamãe. Pode subir.
MÃE: Obrigada. Me alcança o meu tricô,
Luva. Ai, ai! Não vejo o dia de acabar
essa manta.
LUA: Mãe, quando é que a gente vai ganhar
outro irmãozinho?
MÃE: Está pra nascer a qualquer momento.
LUÍS: E como é que ele vai se chamar?
PAI: Se for macho, Lúcio, se for fêmea, Luneta:
gosto desses nomes.
MÃE: Eu também gosto tanto! Que coisa
esquisita, não sei como é que pode: eu tri-
coto, tricoto, tricoto e a manta está sempre
do mesmo tamanho.

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VÔ: Meu relógio bateu quatro horas.
Tá na hora de fazer um lanchezinho.
LUVA: Eu gosto tanto do relógio do Vô:
toda hora ele bate hora de comer.
PAI: O único relógio certo é o da torre. E
ele não bateu quatro horas.
VÔ: Bateu sim, que eu ouvi.
MÃE: Pois eu ouvi bater duas. E duas horas
é hora da sesta. Vamos dormir.
PAI: Não bateu nem quatro nem duas.
MÃE: O que é que bateu então?
PAI: Não bateu nada.
TODOS: Ah!...
MÃE: Bom, se ele não bateu nada de novo,
o jeito é continuar fazendo o que a gente
já estava fazendo antes.
RELÓGIO: Blemblemblembom-tontim blemblem.
TODOS: Agora bateu!
LUA: Mas que batida enrolada! Não entendi nada.
VÔ: Quatro horas! Hora do lanche! O que que
a gente vai comer?
PAI: Bateu foi três horas. E três horas é hora
de quem-disse-o-quê.

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VÔ: Bateu quatro.
MÃE: Eu acho que bateu duas.
PAI: Bateu três.
LUME: Ah, assim não dá pé! Relooooooooógio!
quer fazer o favor de bater outra vez
bem explicado pra gente poder resolver esse
caso?
RELÓGIO: Blem... blem... blem.
PAI: Tão vendo? Eu sou o chefe da casa e
sei o que digo: três horas: hora de
quem-disse-o-quê. Que ótimo, eu adoro
essa hora! Muito bem, muito bem,
vamos ver: quem é que disse o quê?
LUTERO: Hoje a professora disse na classe que
ninguém pode matar cegonha porque são
as cegonhas que trazem os bebês pro
mundo.
PAI: Tão vendo como nós somos respeitados?
TODOS: Que bom!
PAI: Quem mais disse o quê?
LUVA: Encontrei um garoto na rua e ele pediu
pra eu dar um jeito dele ganhar um irmão:
tá cansado de ser filho único.

77
PAI: Tão vendo como nós somos
importantes?
TODOS: Que bom!
LUA: E o que que você disse pro garoto?
LUVA: Disse que ia dar um jeito, sim.
LUA: Que jeito?
LUVA: Ah, isso eu não sei.
PAI: E nem precisa saber, minha filha. Nessas
horas basta a gente dizer que vai dar
um jeito e pronto: não precisa mais nada.
MÃE: Ué, agora a manta está andando pra trás:
eu vou tricotando e ela vai ficando menor.
PAI: Quem mais disse o quê?
LUME: Na hora do recreio a filha da Dona Ema
disse que é mentira: que a gente não
traz bebê nenhum pro mundo.
TODOS: Psiu!!!
PAI: Fala baixo, menino!
VÔ: E o que que você disse?
LUME: Eu dei tanta bicada nela que ela acabou
dizendo pra todo mundo que eram as ce-
gonhas que traziam os bebês, sim.
TODOS: Ah, bom!!!

78
MÃE: Como é que pode? A manta está ficando
cada vez menor.
PAI: Alguém mais disse mais alguma coisa
de nós pra nós contra nós?
LUCAS: Disse, sim. Quando a gente ia passando
na casa da Dona Avestruz, ela mandou
perguntar se podia pagar com uma
bandeira o favor que estava nos devendo.
PAI: Com uma bandeira?
MÃE: Eu acho bandeira uma coisa tão bonita!
LUDO: É sim, pai, uma bandeira com o desenho
da gente carregando um bebê no bico. Ela
disse que esse desenho é muito conhecido
e muito bonito. Ela falou que primeiro
tinha pensado bordar uma almofada com
esse desenho, mas depois lembrou que se
fosse almofada todo mundo ia sentar na
gente. Aí ela achou que era melhor bordar
o desenho numa bandeira, e aí a gente
bota a bandeira na frente da nossa casa e
aí todo mundo que passa e vê que a gente
já tem até bandeira passa a respeitar
a gente ainda mais.

79
PAI: Mas que ideia bonita! E eu que
sempre achei que a Dona Avestruz não
tinha nenhuma ideia lá dentro da
cabeça dela.
MÃE: Eu também pensei que... ué: a manta
acabou...
RELÓGIO: Blem... blem.
LUÍS: Duas horas: chegou a hora da sesta.
VÔ: Engraçado, o tempo está andando
pra trás.
MÃE: Que nem a manta. Xi!... Será que o tempo
também vai acabar que nem a manta?
TODOS: Será?
PAI: Que barulho esquisito é esse que eu
tô ouvindo?
VÔ: Esquisitíssimo.
LUA: Tô com medo, mamãe.
LUDO: Eu também: o barulho tá ficando
cada vez mais esquisito.
PAI: Tá aumentando... tá aumentando...
LUTERO: Será barulho de tempo acabando?
TODOS: Será?
VÔ: Tempo acabando?...

80
MÃE: ...ou começando?
LUX: O ovo tá rebentando! O ovo tá rebentando!
O ovo tá...
ANGÉLICA: Nasci!!!
PAI: Você pode anunciar que nasceu, berrando
mais baixo, minha filha.
ANGÉLICA: Nasci.
TODOS: Viva! Viva! Um abraço! Coisa bacana que
é nascer! Outro abraço! Viva!
MÃE: É fêmea! Vai se chamar Luneta.
PAI: Vamos ensinar Luneta a andar?
OS IRMÃOS: Vamos!
PAI: Vem cá, Luneta, vem abraçar o papai.
VÔ: Como ela é esperta: saiu direitinho de
dentro do ovo.
PAI: Não, não, Luneta, vem por aqui. Olha,
eu vou riscar uma linha com este giz. Você
só vai andar na linha que eu riscar, viu?
Pronto. Vem.
VÔ: Não é por aí não, Luneta! Não é nada
disso, menina!
LUTERO: Xi, ela não andou na linha!
OS IRMÃOS: Não andou, papai.

81
MÃE: Que pena. Mas não há de ser nada:
o resto ela vai fazer certinho. Vamos
ensinar Luneta a falar?
OS IRMÃOS: Vamos.
MÃE: Diz papai.
ANGÉLICA: Mamãe.
MÃE: Não: eu tô dizendo pra dizer papai.
ANGÉLICA: Mamãe.
LUTERO: Xi, ela é espírito de porco, papai!
LUX: Ela anda diferente da gente.
LUÍS: Ela ri diferente.
LUA: O jeito dela é todo diferente.
MÃE: Então é melhor ela não ter nome
começando com lu.
PAI: É. Vamos pensar outro nome pra ela.
VÔ: Mas um nome de muito boa qualidade,
porque ela vai ter que usar pra vida
inteira.
PAI: Então vamos começar a andar de um
lado pra outro.
EXPLICADOR: Eles estão andando assim porque
disseram que quando a gente anda de
um lado pra outro pensa muito melhor.

82
RELÓGIO: Blem... blem... blem.
MÃE: Três horas outra vez! Tá na hora
de resolver o nome.
VÔ: Fila! Fila! Os maiores na frente e
os menores atrás. Assim. Cada um que
passar pela recém-nascida vai dando
um nome pra ela.
PAI: Rosa Maria.
VÔ: Azul Celeste.
MÃE: Antuérpia.
LUTERO: Angélica.
LUA: Violeta.
LUVA: Esponja.
LUDO: Claraboia.
LUME: Chuva de Prata.
LUCAS: Sol Poente.
LUX: Dó-ré-mi.
LUÍS: Fá.
ANGÉLICA: Eu quero Angélica.
PAI: Então pronto: pra vida inteira você vai
ser Angélica.
RELÓGIO: Blemblem doze vezes: estou com preguiça
de bater tudo.

83
VÔ: Meio-dia! Que bom, tá na hora do almoço!
Vamos! Vamos todos!
EXPLICADOR: Ei, Lutero, aproveita pra levar o ovo
embora. Obrigado. O tempo foi passando,
passando, passou. Angélica aprendeu a
andar e a voar bem que só vendo; aprendeu
a pensar, a ler e a escrever. E durante esse
tempo que passou a bandeira da Dona
Avestruz ficou pronta. Todo dia o Vô e a
Angélica saíam marchando com a bandeira
e cantando uma marchinha que a família
tinha feito. Olha: aí vêm eles.
VÔ e

ANGÉLICA: Marcha, cegonha,


Aprende essa lição:
A nossa bandeira
Não é brincadeira,
É uma grande curtição.
ANGÉLICA: Vô, que coisa mais legal a gente ser
cegonha, não é?
VÔ: Legalíssima.
ANGÉLICA: Trazer tudo quanto é bebê pro mundo – já
pensou?

84
VÔ: Pois é.
ANGÉLICA: Eu acho tão bacana esse negócio da
nossa família viver pra baixo e pra cima
indo buscar os bebês que estão guardados
no céu. E essa história então de trazer
eles no bico embrulhadinhos numa fralda
eu acho o máximo – não acha, não?
VÔ: Vamos marchar mais um pouco?
ANGÉLICA: Não é à toa que os outros bichos
todos têm inveja da gente. Nenhum
carrega bebê. Só nós. Que legal, hem,
Vô?
VÔ: Marcha, cegonha,
Aprende essa lição...
ANGÉLICA: Vô, quando é que eu vou começar
a carregar bebê?
VÔ: A nossa bandeira...
ANGÉLICA: Vô, não fica mudando de assunto.
VÔ: Não é brincadeira...
ANGÉLICA: Vô, escuta, Vô, eu já tô ficando grande:
quando é que eu vou começar a carregar
bebê também, hem?
VÔ: É uma grande curtição!

85
ANGÉLICA: Vô! Ei, Vô, não some, não. Ei! Pronto:
sumiu.
OS IRMÃOS: Uuuuuuuuuuu! Tchoque-bobalhona,
tchoque-bobalhona, tchoque-bobalhona...
ANGÉLICA: Que novo barulho de trem é esse?
LUCAS: Que bobalhona que a Angélica é!
OS IRMÃOS: Qua qua qua qua qua!
ANGÉLICA: Bobalhona por quê?
LUDO: Querendo saber quando é que vai começar
a carregar bebê!
OS IRMÃOS: Qua qua qua qua qua!
ANGÉLICA: E o que que tem eu querer saber?
LUTERO: Essa história de dizer que os bebês estão
guardados no céu e que são as cegonhas
que trazem eles pro mundo é uma
mentira, Angélica.
ANGÉLICA: Mentira?
LUA: Lugar de guardar bebê é barriga de mãe,
sua boba.
ANGÉLICA: É onde?
LUTERO: Barriga de mãe é que nem um jardim.
LUX: Explica melhor, Lutero: ela não tá
entendendo.

86
LUTERO: Quando uma pessoa tem um jardim e quer
ver uma flor nascer, bota uma semente na
terra, não bota? A semente cresce lá dentro
da terra, depois vira flor. Quando um casal
quer ver um filho nascer, o homem bota
uma semente na mulher. A semente vai
crescendo lá dentro da mãe. Que nem num
jardim. Só que em vez de virar flor, vira bebê.
ANGÉLICA: É mesmo?
OS IRMÃOS: É.
ANGÉLICA: Que coisa mais bem feita!
LUTERO: Pois é.
ANGÉLICA: Mas barriga de mãe é um lugar tão legal
pra guardar criança; por que que bolaram
então essa história das cegonhas?
LUÍS: Sei lá! Parece que acharam mais bacana.
LUTERO: O que interessa é que a bolação pegou.
OS IRMÃOS: Que-bom-que-pegou!
LUTERO: Todo mundo nos respeita à beça por
causa dessa bolação.
OS IRMÃOS: Tchoque-tchoque-que-bom, tchoque-
tchoque-que-bom, tchoque-tchoque-que...
ANGÉLICA: Mas é mentira!!!

87
OS IRMÃOS: Claro.
ANGÉLICA: Mas, se a gente sabe que é mentira, como
é que a gente vive espalhando essa ideia?
Como é que a gente tem até bandeira
bordada com cegonha carregando bebê?
LUTERO: Porque é por causa dessa mentira que a
gente vive bem, que a gente ganha presente,
que todo mundo nos respeita, que...
ANGÉLICA: Mas se a gente sabe que é mentira, a gente
não pode passar a mentira pros outros!
A gente tem que parar e dizer: é mentira!
essa ideia não vale!
LUTERO: Ah, pera lá, Angélica, e como é que a
gente fica?
ANGÉLICA: E como é que ficam as crianças todas
quando um dia descobrem a verdade?
Ficam que nem eu tô agora: com uma raiva
danada. A coisa que mete mais raiva é a
gente ver que foi enganada! E agora vocês
querem que eu saia daqui e vá enganar os
outros que nem eu fui enganada? Não topo!
Não topo! Não mesmo! Puxa vida, tô com
tanta raiva que até me engasguei. Não to-po!

88
LUA: Xi, ela foi embora tão engasgada que é
capaz de nunca mais desengasgar.
LUX: Será?
LUVA: E se a Angélica continuar não topando,
como é que a gente fica?
LUX: Já pensou?
LUÍS: Será que ela vai arranjar um jeito de viver
sem enganar ninguém?
LUX: Mas que jeito que pode ser?
EXPLICADOR: Tá na hora de fechar o pano. Com licença.
Mas ninguém precisa ficar afobado porque
tudo isso que os irmãos da Angélica tão
querendo saber, e a gente também, todo
mundo vai ficar sabendo no segundo ato
dessa maravilhosa peça.* Mas antes vamos
ter um intervalo pra quem quiser comer,
beber ou fazer qualquer coisinha.
Totorotototó!! Atenção: in-ter-va-lo.

* Angélica não queria de jeito nenhum usar a palavra


maravilhosa: achava que era falta de modéstia. Mas Porto
cismou porque cismou que eles tinham que fazer propaganda
da peça, e a maravilhosa acabou ficando.

89
SEGUNDO ATO

EXPLICADOR: Tudo legal? Então deixa eu abrir o pano


porque a família tá aí esperando pra
continuar a história.
MÃE: Agora a Angélica está sempre assim.
Desde o dia em que soube a verdade.
Não brinca mais, não ri mais, sempre
pensando...
LUVA: Ela fica aí junto da janela desse jeito e pen-
sa com tanta força que a gente pode falar à
vontade e ela nem escuta. Olha só.
VÔ: Nunca mais ela quis marchar
comigo.
PAI: Isso vai passar.

90
MÃE: Todo dia você diz que vai passar e nunca
passa.
PAI: Vai passar: sou o chefe da casa: sei muito
bem o que eu falo.
MÃE: Acho melhor a gente suspirar: faz bem.
TODOS: Ai, ai!
LUA: Outro dia a Angélica também deu um
suspiro, que eu vi.
LUVA: Deu pra quem?
LUA: Ah, isso eu não sei.
LUÍS: Mas espirrar ela nunca mais espirrou.
LUTERO: Nem tossiu nem falou.
LUDO: Será que ela hoje vai mesmo falar?
MÃE: Ela prometeu que às quatro e meia em
ponto ia ter uma conversa com a gente.
LUME: O tempo tá custando tanto a passar.
LUX: Papai, quatro e meia fica do lado de lá
ou do lado de cá?
PAI: Do lado de lá.
LUX: Então por que que a gente não vai pra lá
pra chegar mais depressa nas quatro e meia?
VÔ: É mesmo, boa ideia. Vamos todos pro
lado de lá.

91
RELÓGIO: Blem... blem... blem... blem... bl.
LUX: Tá vendo? Minha ideia funcionou.
ANGÉLICA: Quatro e meia! Tá na hora de falar. Atxim.
Ai, ai. Atxim. Ai, ai. Atxim. Ai...
LUA: Como é, Angélica? Você vai falar ou vai
ficar aí espirrando e suspirando?
ANGÉLICA: Vou falar. Um, dois, três e já: bom, eu
queria dizer que eu pensei tudo quanto
podia pensar e acabei achando que essa
história da gente saber que uma coisa é
mentira e ficar empurrando essa mentira
pros outros é uma coisa que não dá pé
mesmo.
PAI: Não dá pé pra quem?
ANGÉLICA: Pra ninguém. Nem pra quem mente nem
pra quem é enganado. Então eu queria
combinar o seguinte: amanhã de manhã
bem cedo a gente começa a espalhar a
verdade.
MÃE: Que verdade?
ANGÉLICA: A verdade das cegonhas: que a gente não
tem nada que ver com o nascimento dos
bebês.

92
A FAMÍLIA: Hmm!!!
ANGÉLICA: A gente não vai mais ter que fingir uma
coisa que não é... já pensou que legal?
A FAMÍLIA: Hmm!!!
PAI: Reunião de família! Depressa! Vamos nos
abraçar e formar a roda.
ANGÉLICA: Eu também quero entrar na roda.
PAI: Não pode.
ANGÉLICA: Deixa eu entrar aqui, Lutero. Abre aqui pra
mim, Lua. Vô, então deixa eu entrar aqui
junto de você. Eu quero escutar o que
vocês tão falando. Deixa eu entrar. Se eu
não entrar eu não vou entender nada do
que vocês tão dizendo.
LUX: Ai, Angélica! Não puxa a minha asa desse
jeito.
ANGÉLICA: Deixa eu entrar, Lux, deixa eu entrar.
Entrei!
PAI: Atenção: desmanchar a roda. A reunião
acabou. Vou discursar.
MÃE: Que bom: eu gosto tanto de discurso!
PAI: A família se reuniu, discutiu, e ficou
resolvido o seguinte: ninguém vai espalhar

93
verdade nenhuma. Todo mundo nos
respeita por causa da nossa mentira. E se
tem coisa que eu adoro é respeito.
OS OUTROS: Eu também!
PAI: Se toda a vida a gente viveu mentindo desse
jeito, pra que mudar?
OS OUTROS: Pra quê?
PAI: Nossa família não vai mudar e daqui não
vai sair nenhuma verdade. Sou o chefe
da casa: falei, tá falado.
OS OUTROS: Muito bem! Bis! Bis!
PAI: Nossa família não vai mudar e daqui não
vai sair nenhuma verdade. Sou o chefe
da casa: falei, tá falado.
ANGÉLICA: Mas, papai, se eu continuar fingindo
uma coisa que eu não sou, eu vou ser tão
infeliz.
PAI: Bobagem.
ANGÉLICA: Mas, mamãe, eu não aguento dizer que eu
vou dar um jeito (que eu não sei que jeito
é) pra todo mundo que me pede um bebê.
MÃE: Se você espalhar a verdade, você vai fazer
de mim a mãe mais infeliz do mundo.

94
ANGÉLICA: Mas, Vô, você mesmo disse que viver
mentindo é tão ruim. Fica do meu lado,
pensa igual a mim.
VÔ: Ah, minha filha, me desculpa, eu menti
sempre: agora tô velho pra mudar. Mas não
fica triste porque eu vou lá dentro
preparar um lanchezinho bem gostoso
pra você. Até já.
PAI: Já disse o que pensava, posso ir m’embora.
MÃE: Eu vou com você.
LUME: Olha, Angélica, se você contar a verdade
pra alguém, eu te dou cada bicada que você
vai ver só.
LUCAS: E eu nunca mais falo com você, viu?
LUÍS: Nem eu.
LUA: Não conta, Angélica!
LUX: A gente tá pedindo por favor, sim?
LUDO: Puxa, minha irmã, você é mesmo espírito
de porco, hem?
LUX: Não fica chateada, não, Angélica. Olha: se
a gente mente sempre a mesma mentira,
ela acaba ficando com cara de verdade.
ANGÉLICA: Pois eu não acredito.

95
LUTERO: Uuuuuuuuuuu! Tá na hora de formar
o trem.
LUME: Sabe, Angélica? Se você entrar no nosso
trem, você acaba pensando do jeito que a
gente pensa.
ANGÉLICA: Mas eu não quero pensar do jeito que
vocês pensam: eu acho que tá errado.
LUX: Vem, Angélica. Você fica sendo o vagão
número nove e engata aqui atrás de mim.
Vai ser legal. Vem.
OS OUTROS: Vem, Angélica!
ANGÉLICA: Não!
LUTERO: Uuuuuuuuuuu! O trem já vai sair, Angéli-
ca. Vem!
ANGÉLICA: Eu não sei viver fingindo: não vou.
OS IRMÃOS: Tchoque-tchoque, tchoque-tchoque,
tchoque-TCHAU!
EXPLICADOR: Foi nessa hora que a Angélica viu que tinha
se enrolado toda: se continuasse fingindo,
ia viver infeliz; se espalhasse a verdade, ia
fazer a família infeliz – e isso ela também
não queria de jeito nenhum. Coitada da
Angélica. Daí pra frente não sossegou mais:

96
vivia pela casa toda procurando uma
solução. Olha só como ela procura. Mas
não encontrou nada. O tempo passou, ela
cresceu, continuou tendo que fingir, foi
ficando cada vez mais triste, vivia
pensando. Mas um dia o Lux resolveu ir
mostrar um livro pra ela.
LUX: Angélica, eu li um livro tão bacana!
Tá aqui, ó... Conta a vida de uma porção
de bichos. Fala na gente também e diz
que o mundo tem uns países que não têm
cegonha. Aí eu pensei: taí, a Angélica devia
ir morar num país assim. Se nesses lugares
ninguém conhece cegonha, ninguém vai
te encomendar bebê nem dizer que é você
que traz as crianças, e aí você não precisa
mais fingir nem ficar triste.
ANGÉLICA: E você pensa que eu já não pensei nisso,
Lux?
LUX: Já, é?
ANGÉLICA: Outro dia mesmo eu disse que ia pra
um desses países, mas aí o papai disse
que não.

97
LUX: Por quê? Você agora é uma cegonha
grande, pode voar pra onde quiser.
ANGÉLICA: Pois é, mas papai disse que não, a mamãe
começou a chorar, o Vô pediu pra eu
ficar e eu acabei prometendo que não ia.
Ah, Lux, eu sou tão infeliz! Eu queria
nunca ter nascido.
LUX: Queria mesmo, Angélica?
ANGÉLICA: Queria.
LUX: Então por que que a gente não faz o
tempo voltar pra trás?
ANGÉLICA: Será que dá pé?
LUX: Dá, sim. Você vai ficar outra vez
pequenininha, cada vez mais
pequenininha, até acabar outra vez
dentro do ovo. Quer?
ANGÉLICA: Quero.
LUX: Então eu vou lá pedir pro tempo voltar
pra trás.
ANGÉLICA: Pera aí, Lux, vem cá! Isso não pode ser
assim, não. Se o tempo anda pra trás, nós
todos vamos acabar dentro do ovo outra
vez: papai, mamãe, você, o Vô...

98
LUX: Que nada, Angélica. O tempo não é um
só pra todos, não. Cada um tem um tempo
diferente.
ANGÉLICA: Ah, é?
LUX: Claro. Eu agora vou tratar de descobrir
o teu tempo.
ANGÉLICA: Você não sabe onde é que ele mora?
LUX: Não, mas vou descobrir. Vou falar com
ele, explicar o teu caso e pedir pra ele dar
uma marcha a ré. Tchau!
EXPLICADOR: E Angélica ficou esperando pra ver
o que que acontecia. Esperou, esperou,
depois começou a se encolher de frio.
ANGÉLICA: Explicador, me explica uma coisa:
que tempo é hoje?
EXPLICADOR: Fim da primavera; já vamos entrar
no verão.
ANGÉLICA: Mas então como é que eu tô com tanto
frio e achando tudo com cara de inverno?
EXPLICADOR: É que o Lux já falou com o teu tempo
e ele tá andando pra trás.
ANGÉLICA: Ah! Então é por isso que eu tô
diminuindo de tamanho.

99
EXPLICADOR: Fica quietinha num canto, Angélica: daqui
a pouco você não vai poder mais andar.
Isso mesmo. Aí. Quietinha.
LUX: Angélica! Angélica, olha aqui o ovo onde
você nasceu. Achei que era melhor trazer
ele de volta pra você desnascer. Vou deixar
aqui juntinho de você, viu? Achei o teu
tempo um bocado simpático. Sabe que a
gente ficou amigo e que eu...
EXPLICADOR: Psiu! Não fala tanto, Lux: gente que tá
diminuindo de tamanho precisa sossego.
LUX: Então tá bem. Mas eu vou ficar escondido
aqui atrás do ovo pra ver o desnascimento.
EXPLICADOR: E Angélica foi diminuindo cada vez
mais. Chamaram uma porção de médicos,
nenhum deu jeito naquela diminuição, a
coisa foi piorando, e quando a família viu
que não tinha mesmo jeito se apavorou
e começou a chorar. Olha: aí vem todo
mundo de cara inchada de chorar.
PAI: Minha filhota, fala com o papai, diz
o que que você tá sentindo.
ANGÉLICA: Pa-pai. Ma-mãe.

100
MÃE: Agora ela só sabe falar isso e mais nada.
VÔ: Você gostava tanto de marchar comigo,
Angélica. Vem. Vamos marchar um
bocadinho, minha filha. Lembra da nossa
música? Marcha, cegonha...
LUA: Ela agora só sabe engatinhar, Vô.
MÃE: Ah, que tristeza!
LUX: Vô...
VÔ: Ui, que susto que você me deu, Lux!
Mania que você tem de viver se escondendo
atrás do ovo.
LUX: Vô, vem cá, me explica uma coisa: por que
que quando a Angélica vivia infeliz dizendo
que não queria ter nascido ninguém ligava,
e agora que cada hora ela tá chegando
mais perto de não ter nascido todo mundo
vive chorando? Por que, hem?
VÔ: Como é que você sabe que cada hora ela tá
chegando mais perto de não ter nascido?
LUX: Porque fui eu que falei com o tempo dela,
ué. Passei uma cantada nele que você
não imagina. Ele então topou e resolveu
andar pra trás. Daqui a pouco a Angélica

101
vai entrar no ovo e desnascer. Bom, não é,
Vô? Ela vai ficar contente à beça.
VÔ: Mas então você... você... Foi o Lux! O
culpado de tudo isso foi o Lux! Ah,
menino levado! Foi ele que fez o tempo
da Angélica andar pra trás. E agora a
Angélica vai desnascer.
OS IRMÃOS: Xi!...
PAI: Ah, menino impossível! O que que eu
vou fazer com você agora?
LUX: Isso eu não sei. O que eu sei é que eu
não sou o culpado, não. Quem tem
culpa de tudo são vocês, que faziam a
Angélica tão infeliz que ela só queria não
ter nascido.
A FAMÍLIA: Nós?!
LUX: Vocês, sim! Primeiro ela queria contar a
verdade e vocês não deixaram. Depois ela
queria se mudar pra um lugar sem cegonha
pra poder viver sem fingir, mas vocês
também não toparam. Aí ela não quis mais
ter nascido. Ninguém ligou. E então eu
resolvi ajudar a Angélica, pronto.

102
LUA: Olha, papai, a Angélica já tá com uma
perna dentro do ovo.
OS IRMÃOS: Xi!...
MÃE: Não quero ver, não quero ver.
LUVA: Não deixa ela entrar no ovo, papai.
PAI: Mas o que que eu posso fazer?
VÔ: Só o tempo da Angélica é que pode
fazer alguma coisa. Vai lá falar com ele,
Lux. Diz pra ele andar pra frente
outra vez.
LUX: Mas aí vocês vão continuar fazendo a
Angélica infeliz, e aí ela vai continuar
querendo não ter nascido: não vai
adiantar nada.
MÃE: Eu prometo que eu não faço ela infeliz.
LUÍS: Olha, papai, a Angélica já tá com duas
pernas e uma asa dentro do ovo.
OS IRMÃOS: Xi!...
LUME: Puxa ela pra fora, papai.
PAI: Sai de dentro desse ovo, Angélica!
LUME: Puxa com mais força, papai.
VÔ: Vai lá falar com o tempo da Angélica, Lux.
Anda!

103
LUX: Primeiro todo mundo tem que
prometer que vai ajudar a Angélica.
MÃE: Eu já prometi.
VÔ: Eu prometo, eu prometo.
OS IRMÃOS: Eu também prometo.
LUA: Xi, papai, a Angélica enfiou a outra asa
dentro do ovo.
MÃE: Anda, Lux, corre, voa!
LUX: Mas falta o papai prometer.
PAI: Sai daí de dentro do ovo, Angélica. Sai!
OS IRMÃOS: Promete, papai.
PAI: O quê?
MÃE: Promete ajudar a Angélica a ser feliz.
PAI: Prometo, prometo, mas me ajuda aqui. Eu
sozinho não aguento puxar.
LUX: Lá vou eu: bzzzzzzzzzzzzz...
LUME: Papai, papai, ela vai desnascer agorinha mesmo.
OS IRMÃOS: Xi!...
PAI: Me ajuda aqui. Vamos fazer força juntos.
Vô, me puxa pra trás.
VÔ: Fila! Todos em fila. Os maiores na frente,
os menores atrás. Um vai puxando a
cintura do outro. Assim. Isso.

104
105
PAI: Agora. Força. Mais força.
OS IRMÃOS: Ai. Ui. Hmm. Ôooooo.
PAI: Pra fazer força não é preciso gemer desse
jeito. Força outra vez.
LUA: Se a Angélica sair de dentro do ovo de
repente, a gente vai levar o maior tombo
do mundo.
TODOS: Ah!!!
LUA: Não disse?!
LUX: Pronto. Falei com... ué: o que que vocês
todos estão fazendo aí no chão?
LUA: Olha, mamãe, a Angélica tá crescendo
outra vez, tá ficando igualzinha como ela
era antes.
MÃE: Que maravilha!
LUX: Como é gozado crescer assim depressa
que nem balão.
ANGÉLICA: Oi!
A FAMÍLIA: Viva! A Angélica nasceu de novo. Oi,
Angélica! Um abraço, minha filha. Viva!
Viva!
LUX: Pessoal, fica quieto que o papai quer falar
com a Angélica.

106
PAI: Escuta, Angélica, se você quer viajar, se
você quer experimentar viver num lugar que
não tem cegonha... você pode, viu?
MÃE: Claro, minha filha, o importante é você
ser feliz.
OS IRMÃOS: Muito bem. Bis! Bis! Bis!
MÃE: Claro, minha filha, o importante é você
ser feliz.
ANGÉLICA: Ah, que bom! então eu vou.
VÔ: E pra onde você vai?
ANGÉLICA: Pro Brasil.
MÃE: Mas é tão longe, você vai ter que voar
tanto até chegar lá, eu vou ficar tão
preocupada com...
LUX: Olha o que você prometeu, hem, mamãe?
MÃE: O quê? Ah, é mesmo! Que bom que você
vai pro Brasil, minha filha. Dizem que lá é
tão bonito. Você manda umas fotografias?
ANGÉLICA: Mando, sim, mamãe. Quando é que eu
posso ir?
PAI: Agora mesmo se você quiser.
ANGÉLICA: Ah, tá bem, então eu vou lá me
despedir do meu quarto e já vou. Até já.

107
MÃE: O que que nós vamos dar pra ela de
presente de despedida?
VÔ: Por que que a gente não dá o botão?
PAI: Isso mesmo, boa ideia. Você tem o botão
aí guardado com você, Lutero?
LUTERO: Tá aqui.
MÃE: A caixinha tá amassada: não fica bem dar
um presente assim com defeito.
LUX: Mas a Angélica não vai precisar da
caixinha, só do botão...
MÃE: Então está bem. Dá pra ela, Vô.
ANGÉLICA: O meu quarto disse que vai estar sempre
arrumado esperando a minha visita.
Não vou levar mala pra não carregar peso:
o voo é comprido. Um abraço, mamãe.
Outro, papai. Tchau, Vô. Tchau pra vocês
todos. Assim que eu chegar mando
notícias. Tudo de bom pra vocês.
LUX: Dá logo o presente dela, Vô.
VÔ: Você está vendo este botão, Angélica?
Era do meu avô. Ele deu pra minha
mãe, minha mãe me deu, e eu dei pro
meu filho.

108
PAI: Mas nenhum de nós chegou a usar.
Então eu dei pro Lutero, que é o filho
mais velho da casa.
LUTERO: Mas eu também não vou usar.
ANGÉLICA: Botão bacana! Pra que que serve?
VÔ: Pra abotoar as ideias. Abotoa muito
bem abotoado.
ANGÉLICA: Que legal! Então a gente usa na cabeça,
não é?
VÔ: É. Posso pregar?
ANGÉLICA: Pode.
MÃE: Luís, esconde aquela lágrima que eu
deixei cair ali. Bota no bolso pra ninguém
ver, meu filho.
VÔ: Pronto. Você vai viver sozinha,
Angélica: não pode andar com as ideias
desabotoadas senão a sua vida vai ser
muito difícil.
ANGÉLICA: Ih, mas que botão gostoso da gente
alisar. Por que que vocês nunca quiseram
usar?
VÔ: É que... bom, Angélica, quer dizer... é a tal
história: pra gente abotoar as ideias bem

109
abotoadas a gente tem que ter coragem
e deixar de fingir o que não é.
ANGÉLICA: Hmm... E vocês vão continuar fingindo
que trazem bebês?
VÔ: Nós... bem... nós... vamos, sim.
ANGÉLICA: Mas, por quê?
VÔ: Ah, minha filha, é mais fácil: a gente não
precisa mudar.
PAI: Mudar dá muito trabalho.
MÃE: E precisa tanta coragem!
ANGÉLICA: Sei... Bom, muito obrigada pelo botão.
Adorei. Eu adoro vocês todos, vou sentir
um bocado de saudades. Quando chegar
um tempo de férias eu venho aqui. Tchau.
MÃE: Pronto: bateu asas e voou.
LUX: Vamos ficar dando tchau: ela tá olhando
pra trás.
LUTERO: Pega a bandeira ali, Vô. Dá adeus com a
bandeira também.
VÔ: Vamos dar adeus lá na praia?
OS IRMÃOS: Vamos! Vamos!
PAI: Mas sem algazarra. Em ordem. Em fila.
Cantando e marchando.

110
A FAMÍLIA: Marcha, cegonha,
Aprende essa lição:
A nossa bandeira
Não é brincadeira,
É uma grande curtição.
EXPLICADOR: E assim, com Angélica indo embora pra
viver a vida que ela achava que devia viver,
chegamos ao fim desta peça bastante
agradável.* Totororototó! Uma boa vida
pra vocês todos. Tchau.

* Porto queria botar “peça sensacional”, mas dessa vez Angélica


bateu pé: disse que era propaganda demais, e o “bastante
agradável” (que Porto achava o fim da picada) acabou ficando.

111
Capítulo IX
Os atores

– Bom, agora faltam os atores.


Angélica e Porto então combinaram o seguinte:
ela arranjava os irmãos, e ele, os pais e o avô. Saiu
cada um pra um lado. Foi quando ia dobrando uma
esquina que Porto esbarrou em Canarinho.
– Meu velho! – gritou. E os dois se abraçaram.
O elefante tinha emagrecido um bocado, e o tal cinto
de rabo de crocodilo, que ele adorava e que todo
mundo achava bacana, balançava no corpo, todo
frouxo. – Então, Canarinho, tudo legal?
– Legal coisa nenhuma. Você lembra o tal
emprego de ovo que eu arranjei?
– Sei.
– Pois quando a Páscoa acabou me pagaram em
chocolate, tá bem? Eu reclamei, é claro. Eles só

112
disseram: ou chocolate ou nada. Topei. Se não
topasse morria de fome. Desatei a comer chocolate de
manhã, de tarde e de noite, e acabei com uma crise
de fígado. Uma crise deste tamanho! – Balançou a
tromba desanimado. – Eu tenho horror de crises
grandes; podia ter sido uma crise pequena, não é?
Porto sentiu uma pena danada do elefante.
– E agora, Canarinho?
– Não sei. Não sei mesmo. Quis comprar fita
colante pra grudar minhas rugas: pagava em chocolate.
Não quiseram. Sem ruga presa fiquei parecendo ainda
mais velho e agora ninguém me dá emprego.
Estava bem velho, sim, e Porto viu logo que ele
podia fazer muito bem o papel de avô da Angélica.
– Escuta, Canarinho, você quer dar uma de ator?
– Como é que é?
– Quer trabalhar numa peça de teatro chamada
“Angélica”?
– Paga?
– Paga, ué. A gente vai cobrar entrada e dividir
o lucro com todo mundo que trabalhar na peça.
Canarinho meio que fechou os olhos desconfiado:
– Mas paga em dinheiro ou chocolate?

113
– Dinheiro.
– Então tá.
– Nós tamos precisando de mais atores. Você
não tem nenhum amigo que quer trabalhar?
Canarinho pensou um pouco, depois suspirou:
– De uns tempos pra cá eu dei pra perder meus
amigos todos. Não sei onde é que eles se metem:
procuro, procuro e não acho nenhum.
– E os conhecidos? você também perdeu?
Canarinho pensou com mais força e acabou se
lembrando de um:
– Tem o crocodilo do cinto.
– Será que ele topa?
– Ah, na certa: ele vive apertado à beça.
– Vamos lá falar com ele!
Foram.

O nome do crocodilo era Jurisprudêncio. Ele não


gostava do nome e então só usava a primeira letra.
Jota Crocodilo era um sujeito que não era nem
muito moço nem muito velho. Tinha chegado ali no rio

114
há muito tempo, num mês de fevereiro um bocado
quente. Foi logo tomando um bom banho, gostando
daquelas águas, resolvendo que aquele lugar era dele,
e pronto, e acabou-se. Chamou o lugar de Rio de
Fevereiro, fincou no chão uma placa dizendo
PROPRIEDADE PARTICULAR, não deixava ninguém
passar ali, e quando alguém reclamava ele só dizia:
– Já disse que esse pedaço do mundo é meu,
pronto, acabou-se!
E se continuavam reclamando ele armava um
barulho daqueles. Era grande, com um rabo enorme,
ganhava tudo que é briga.
O crocodilo tinha uma mulher que falava
tão pouco que nunca chegou a dizer como é que se
chamava. E então todo mundo chamava ela de
Mulher-do-Jota. Quando ela ficava nervosa, dava
pra espirrar. Mas bastava dar um espirro que o
crocodilo já brigava com ela (ele cismava com os
espirros). O casal tinha três filhos, que por causa das
brigas do pai casaram bem cedinho e foram logo
tratando de se mudar dali.
Com aquela história de viver brigando, ninguém
mais queria dar emprego pro Jota. Então, quando as

115
coisas ficavam muito apertadas, com a comida faltando
dentro de casa e a mulher espirrando bem depressa pra
ter tempo de espirrar bastante, o crocodilo
não tinha outro jeito: vendia um pedaço do rabo. Isso
foi indo, foi indo, até que um dia o rabo acabou.
Daí pra frente o Jota começou a perder tudo
que é briga e agora só brigava com a mulher. Ou então
quando chamavam ele de crocodilo-sem-rabo. Aí,
pronto: perdia o controle, se zangava, armava logo uma
briga, acabava apanhando que só vendo.

Quando Porto e Canarinho chegaram ao


Rio de Fevereiro, o Jota olhou a barriga do elefante e
amarrou a cara. Era sempre assim: ficava pra morrer
cada vez que via um pedaço dele virado cinto.
Nem respondeu ao cumprimento dos dois, e quando
ouviu a mulher pedir pras visitas se sentarem foi
logo berrando:
– Não precisa, não precisa! Se alguém tem
alguma coisa pra dizer que diga depressa, de pé e
depois vá s’embora!

116
Porto ficou chateado com o jeito do crocodilo,
mas depois pensou: “quem sabe ele tem esse jeito porque a
vida dele é difícil?”; viu que o corpo do Jota acabava de
repente, sem rabo nenhum pra botar um ponto final;
pensou: “puxa, se a gente nasceu com rabo deve ser
ruim à beça ficar sem ele”; sentiu pena do crocodilo
e aí a chateação foi embora e ele convidou o Jota pra
trabalhar no teatro. Contou a peça como é que era, e a
toda hora o crocodilo interrompia pra perguntar:
– Você tá mesmo me oferecendo emprego? e de
artista ainda por cima? não é engano, não? – E
quando viu que era aquilo mesmo, que não tinha
engano nenhum, ficou tão feliz com a ideia, que
esqueceu rabo, zanga, tudo: – Topo! Nem precisa
contar mais nada: topo, sim! Ora se topo! Me dá um
abraço, Porto. Você também, Canarinho: um abraço. –
E abraçava os dois, abraçava a mulher, se abraçava.
Porto gostou da ideia e se abraçou também.
Depois abraçou Canarinho, e Canarinho abraçou o Jota,
e o Jota abraçou a mulher, e a mulher se abraçou, e de
repente os quatro não paravam mais de se abraçar
e de achar uma graça danada naquela história. Até que
Porto virou pra Mulher-do-Jota e disse:

117
– Eu também queria que a senhora trabalhasse
na peça pra fazer o papel de mãe da Angélica.
Pronto: foi só dizer aquilo que o Jota parou logo
de se abraçar e amarrou uma cara que só vendo.
– A senhora quer? – Porto perguntou.
A Mulher-do-Jota estava vibrando:
– Ah, que bom, que maravilha, quero sim! Eu
adoro teatro! – E quando acabou de dizer aquilo ficou
com vergonha de ter falado tanto e resolveu que era
melhor rir e não dizer mais nada. Mas, como a fala
queria sair, esbarrou no riso que vinha entrando, e a
Mulher-do-Jota se engasgou toda. Porto e Canarinho
deram umas palmadinhas nas costas dela pra ver
se o engasgo passava. O crocodilo não gostou:
– Deixa que eu bato: a mulher é minha. – E
bateu com tanta força, que o engasgo se apavorou e
ficou quieto.
Porto então disse que os ensaios começavam no
dia seguinte, acertou o lugar e a hora, e já ia embora
quando o Jota avisou:
– Mas eu vou sozinho: minha mulher fica em casa.
– Ah, Jota! – disse a mulher toda triste. Quis
dizer muito mais, mas as palavras trancaram na

118
garganta e só quem conseguiu sair foi uma lágrima
pequenininha.
– Ah, o quê? Lugar de mulher é dentro de
casa cuidando dos filhos, pronto, acabou-se! Não é,
Canarinho?
– Bom...
Porto se meteu na conversa:
– Mas os filhos de vocês já casaram e
mudaram...
– Então, cuidando das panelas, pronto,
acabou-se. Não é, Canarinho?
– Bom...
O Jota foi ficando zangado, já querendo armar
briga:
– Bom o quê? É ou não é?
Sem saber o que dizer, Canarinho começou a
balançar a tromba. Estava numa dúvida enorme (logo
ele que tinha horror de dúvida grande).
– É ou não é?
– Não sei, Jota... Não sei.
– Pois se você não sabe é porque é burro.
Canarinho se aborreceu:
– Ah, pera lá: também não precisa me ofender.

119
Com o rabo do olho, Porto via as lágrimas que
a Mulher-do-Jota ia pingando no chão. Ficou nervoso
e se meteu outra vez na conversa:
– Quer saber de uma coisa, Jota? Você não está
sendo legal.
– Não te perguntei nada: tô falando com o
Canarinho.
– Mas a questão é que eu não aguento ficar
vendo você dizer essas bobagens.
– Bobagem? Você tá dizendo que eu tô dizendo
bobagem?
– Tô.
– Repete, repete!
– Tá dizendo bobagem, sim senhor: essa
história de você poder ir trabalhar na peça e sua
mulher, que tá louca pra trabalhar também,
ter que ficar trancada dentro de casa cuidando de
panela o dia todo é uma história um bocado
furada.
Pra quê! O crocodilo ficou uma fera:
– A mulher é minha, a casa é minha e as pane-
las são minhas: você não tem nada que se meter nisso,
ouviu?

120
– Mas, Jota, esse negócio de mulher não poder
trabalhar já era.
– Pra mim continua sendo, pronto, acabou-se!
– E tem mais: se ela trabalha, vocês ganham
duas vezes em vez de uma: a vida de vocês melhora.
Pensa nisso, cara.
– Não penso.
– E tem mais, hem? Eu acho que você devia
pedir desculpa de ter chamado o Canarinho de burro.
– Não peço.
– E tem mais...
Mas aí o Jota berrou:
– Chega! Não quero saber de mais nada! –
Agarrou a mulher e foi sumindo com ela pra dentro
d’água.
Porto e Canarinho ficaram parados, um olhando
pra cara do outro.
– Sujeito malcriado – resmungou o elefante. –
Só serve mesmo pra cinto.
Mas, de repente, Porto resolveu se zangar:
– Ah, isso não vai ficar assim. – Chegou na beira
do rio e gritou: – E tem mais, Jota: papel de pai e mãe
da Angélica não pode separar: ou você começa a

121
trabalhar amanhã junto com a sua mulher ou então não
tem mais trabalho pra você. – Fez cara de Jota
Crocodilo e disse: – Pronto, acabou-se! – Piscou pra
Canarinho, Canarinho piscou de volta, e os dois foram
embora.

Napoleão Gonçalves era um sapo que vivia


achando. Se perguntavam uma opinião, ele pensava um
pouco, depois dizia: “eu acho isso”, “eu acho aquilo”,
não gostava de não achar nada. E com aquela mania
de viver achando, uma das coisas que ele achou é que
ele achava que pra ser feliz a gente precisa trabalhar
nas coisas que a gente gosta.
Teve um ano que ofereceram um monte de
dinheiro pra ele anunciar pasta de dente na televisão.
Ele não gostava de anunciar nem gostava daquela pasta
de dente: não topou o trabalho. Mas a mulher de
Napoleão Gonçalves, que se chamava Mimi-das-perucas
e que vivia no cabeleireiro penteando as perucas e
comprando roupa e comprando perfume e querendo
comprar o dia inteiro e sempre infeliz

122
e sempre dizendo que a vizinha dela tinha mais coisas
que ela e sempre querendo mais dinheiro pra comprar
mais, tanto falou, tanto reclamou, tanto brigou com
Napoleão Gonçalves, que ele acabou na televisão
anunciando pasta de dente e se sentindo infeliz à beça.
Mimi gastou o dinheiro todo no cabeleireiro.
Outro ano ofereceram um ordenado um
bocado alto pro Napoleão Gonçalves ser gerente de
uma fábrica de camundongos enlatados. Ele disse que
não gostava de comida em lata e não foi. Mas
Mimi-das-perucas chorou, brigou, disse que queria
mais perucas, disse que era uma infeliz porque só tinha
dez pares de sapatos e a vizinha tinha quinze, criou
tanto caso, que Napoleão Gonçalves acabou indo.
E enquanto ele dava duro o dia inteirinho na fábrica,
Mimi-das-perucas comprava, comprava, só parava
de comprar pra ir ao cabeleireiro. Até que um dia
Mimi-das-perucas ficou tanto tempo debaixo daquele
secador que os cabeleireiros usam, que secou a peruca,
a cabeça, Mimi toda secou, morreu.
Como não tinha ninguém com quem deixar os
sete filhos pequenos, Napoleão Gonçalves começou a
trabalhar em casa; como gostava muito de mexer

123
com madeira, resolveu ser marceneiro; e como era
louco por teatro comprou uns livros pra estudar
de noite. Ganhava pouco dinheiro, mas vivia feliz que
só vendo e curtindo cada dia até não poder mais.
Adorava os garotos; vivia batendo papo com eles e
brincando horas a fio de começar a achar: o que que
vocês acham disso? o que que vocês acham daquilo? E
uma das coisas que os garotos logo acharam é que eles
achavam que o pai era o máximo.

Quando Angélica chegou na casa de Napoleão


Gonçalves encontrou o sapo serrando madeira pra
fazer um armário e as crianças brincando de abrir
estrada na serragem que ia tapando o chão.
– Oi, Napoleão! você lembra de mim?
Foi tocando flauta numa festa que Angélica
conheceu Napoleão Gonçalves e Mimi-das-perucas.
Falaram de música, o sapo contou que tocava
trombone, Angélica disse que estava querendo formar
uma banda, Napoleão adorou a ideia, disse que queria
fazer parte. Mas Mimi-das-perucas viu logo que

124
aquela banda não ia dar muito dinheiro, e então falou
tanto, criou tanto caso, que Napoleão Gonçalves
acabou desistindo.
– Puxa, se me lembro! Você vai bem, Angélica?
Há quanto tempo, hem? Olha, esses são os meus
garotos.
Angélica e os sapinhos enturmaram num instante,
e os sete começaram a contar tudo que achavam e
faziam. O maior, chamado Repolho, era o mais
falador de todos, e o menor, o Rabanete, tinha mania
de engolir tudo que podia (e que não podia) ser
engolido. Quatro deles, o Pimentão, o Pepino, o Nabo
e o Jiló, já estavam achando bem que só vendo. Só
um, o Poró, é que achava que achar era muito difícil:
pensava, pensava, acabava sempre dizendo “não sei”.
Só quando os garotos acabaram de perguntar e
contar tudo que queriam é que Napoleão entrou na
conversa:
– Conta, Angélica: que que há de novo?
– De novo é que a gente tá fazendo um teatro e
eu vim convidar você pra trabalhar.
– Não brinca!
– No duro.

125
– A gente quem?
– Eu e o Porto.
– Quem é o Porto?
Angélica viu que tinha coisa à beça pra contar.
Bebeu água, se firmou bem numa perna só e começou
do princípio: a vida que ela levava lá no país onde
nasceu, a chegada no Brasil, o encontro com Porto, a
ideia que ele deu pra ela, e depois contou a peça
toda como é que era.
Napoleão Gonçalves estava na maior animação:
– E que papel que eu faço?
– Meu irmão.
– Qual deles?
– Pois aí é que está, Napoleão: a gente tá
pensando em mudar a peça e só botar um irmão em
vez de oito.
– Ah!! – disse a família Gonçalves todinha
(e Rabanete aproveitou a abertura do Ah!! pra engolir
uma mosca que ia passando), um bocado desapontada
com a ideia.
– E por quê? – perguntou Jiló.
– Pra diminuir os atores. A gente vai dividir o
lucro da peça com todo mundo que trabalhar; se

126
trabalha muita gente, fica muito pouquinho pra
cada um.
– Ah, mas isso é uma pena! – disse Napoleão
Gonçalves.
– E como é que o trenzinho vai funcionar só com
um ator?
– Pois é: o trem vai ter que acabar.
– Ah!! – E os Gonçalves ainda ficaram mais
desapontados.
Foi mais ou menos nessa hora que Repolho achou
que trabalhar no teatro devia ser uma grande curtição.
Pela cara dos irmãos viu que eles estavam achando a
mesma coisa. Virou pra Angélica e disse:
– Escuta aqui, eu tô achando o seguinte: em vez
do papai ir trabalhar no teatro e ficar preocupado
porque a gente tá sozinho aqui em casa, ele leva a gente
junto com ele lá pra sua peça. Você deixa?
– Claro que deixo, Repolho.
– Tá. Obrigado. Mas, olha, tem uma coisa: o
papai tá sempre dizendo que favor com favor se paga.
Então nós vamos pagar assim: em vez da gente ficar lá
no teatro parado-que-nem-bobo-sem-fazer-nada,
a gente fica fazendo de graça o papel dos seus irmãos.

127
E, se é de graça, você não precisa diminuir irmão ne-
nhum. Tá?
Mas antes da Angélica responder, Pimentão já
foi dizendo:
– Eu acho a ideia muito legal. Só que tem que
eu acho que deve ser meio chato trabalhar de graça.
Nabo achou a mesma coisa. Jiló achou que não.
Rabanete ainda não sabia achar, e o Poró pensou e
disse:
– Não sei o que que eu vou achar.
Mas Pepino achou o seguinte:
– Pois eu acho que se a gente é pequenininho,
ganha uma coisa pequenininha e pronto.
Angélica riu, gostou do palpite. Disse que era
só Napoleão Gonçalves topar que ficava valendo a
ideia de Pepino. E quando Napoleão topou, os
sapinhos saíram pulando pela casa, fazendo uma farra
que só vendo.

128
Capítulo X
Os ensaios

Quando no dia seguinte Porto e Angélica


chegaram no teatro que tinham arranjado pra ensaiar,
já encontraram o elefante esperando na porta.
– Você chegou cedo, Canarinho.
– Tô com pressa de ganhar dinheiro.
– Mas a gente só vai ganhar no dia da
representação.
– Eu sei, e é por isso que eu quero começar de
uma vez: pra gente chegar logo lá.
– Por mim ninguém vai esperar! – foi avisando
de longe Napoleão Gonçalves. Vinha com a filharada
toda, cada um mais alegre do que o outro.
Repolho botou logo o olho no cinto de
Canarinho:
– Puxa, mas que cinto bacana!

129
E Rabanete já ficou louco pra engolir a fivela.
O elefante fez uma festinha no cinto:
– Está às ordens. Mas só pra olhar: sem esse
cinto eu não sou elefante.
Angélica apresentou todo mundo e não perdeu
tempo: começou a distribuir os papéis. Canarinho fazia o
Vô; Porto, o Explicador; Napoleão Gonçalves, o Lux,
que dos irmãos era o papel mais difícil de fazer;
Repolho fazia o Lutero, e os outros filhos do sapo
faziam o Lume, o Ludo, o Luís, o Lucas, a Lua e a Luva.
– O Jota Crocodilo tá demorando – disse
Canarinho.
Angélica e Porto se olharam. Eles tinham quase
certeza que o crocodilo não ia aparecer: Jota devia
ter ficado furioso com aquela história do Porto dizer
“ou sua mulher também trabalha ou você nem
precisa aparecer lá nos ensaios”.
– Então o jeito é começar sem eles – resolveu
Porto. – Vamos pro palco.
Angélica ia ajudando o pessoal a decorar as
falas e Porto ia fazendo as marcações, quer dizer, ia
mostrando onde é que cada um tinha que ficar na hora
de dizer isso ou aquilo.

130
O ensaio já ia adiantado quando Canarinho
cutucou Porto: tinha visto a cara do crocodilo
aparecendo atrás de uma cadeira do teatro. O ensaio
parou.
– Ei, Jota! – gritou Porto. – O que que você tá
fazendo escondido aí?
O crocodilo então resolveu aparecer. Trombudo
que só vendo. Caminhando mais de um metro na
frente da mulher. Parou no meio do palco e, sem
cumprimentar ninguém, resmungou mal-humorado:
– Só vim e só deixei minha mulher vir porque a
situação de dinheiro lá em casa está apertadérrima.
Pimentão olhou pra ele muito espantado e falou:
– Ih, papai, olha só, o crocodilo tá sem rabo. Será
que ele esqueceu em casa?
Pronto: o Jota já se zangou:
– Se alguém falar outra vez que eu não tenho rabo
eu brigo. Brigo mesmo, ouviram bem?
A Mulher-do-Jota deu dois espirros e já ia dando
o terceiro quando ele berrou:
– Quer fazer o favor de parar de espirrar!
Ela espirrou.
– Quer fazer o favor de parar!!

131
Ela ficou tão aflita com aqueles maus modos
do marido na frente do pessoal todo, que espirrou
mais três vezes. Porque o que acontecia era o seguinte:
quanto mais o Jota embirrava com os espirros da
mulher, mais os espirros da mulher embirravam
com o Jota; e então, cada vez que o Jota dizia para, o
espirro não parava: só pra implicar. A coitada da
Mulher-do-Jota não tinha a menor culpa nessa
história toda.
– Pela última vez: para!
Mais que depressa Porto apresentou Angélica
e a família de Napoleão Gonçalves pra ver se todo
mundo esquecia os tais espirros. Esqueceram. Porto
então anunciou:
– E agora vamos trabalhar. Daqui pra frente a
gente não pode mais perder tempo com nada.

Se encontravam todos os dias e ensaiavam o dia


todo.
Napoleão Gonçalves e a Mulher-do-Jota,
fazendo o Lux e a Mãe, eram os atores mais

132
engraçados. A cena que ela vai tricotando e ele vai
puxando o fio escondido, eles faziam de um jeito tão
gozado que a turma tinha que parar de ensaiar de tanto
que ria. Até o Jota acabou esquecendo o mau humor e
soltando umas gargalhadas crocodilescas que ainda
faziam o pessoal rir mais. Outra cena que ficou ótima
foi a cena do fim, quando Angélica vai entrando no
ovo e a família puxa ela pra trás: o tombo que todos
levam quando o tempo começa a andar pra frente
outra vez era um tombo bem-feitíssimo.
Cada vez que Repolho apitava uuuuuu e
o “trenzinho dos irmãos” entrava em cena, Porto e
Angélica vibravam: Napoleão Gonçalves e os filhos
tinham ensaiado tanto aquele tchoque-tchoque do
trem que o resultado era uma delícia. Mas um
dia Rabanete berrou:
– Achei!
Todo mundo bateu palmas: era a primeira vez
que Rabanete achava. Ele fez uma cara muito
importante e disse:
– Eu acho que a gente devia bolar ainda mais
bossa pro trem.
– Então bola, ué – foi logo dizendo o pai.

133
E Rabanete bolou. Inventou umas curvas pro
trem fazer no caminho; inventou também um jeito de se
juntarem e se afastarem que ficava até parecendo que
o trenzinho era uma sanfona. Aí, Napoleão Gonçalves,
que também gostava muito de bolar, inventou um
movimento de pata pros oito fazerem juntos, que era
certinho um movimento de rodas. E com essa história
de inventa daqui, inventa dali, a Mulher-do-Jota se
entusiasmou toda e resolveu:
– Eu também quero bolar!
O Jota então fechou a cara: já tinha deixado a
mulher trabalhar; mas bolar ele não ia deixar; de jeito
nenhum!
– Quem bola é o marido: deixa que eu bolo –
resmungou. E começou a bolar o que é que ia bolar.
Mas dessa vez a Mulher-do-Jota não se
conformou e foi inventando uma porção de coisas lá
dentro da cabeça dela. Inventou uma roupa pra
usar na peça que era da gente morrer de rir, inventou
um jeito engraçadíssimo de ficar numa perna só
(que nem as cegonhas ficam) balançando o corpo de
um lado pra outro como se fosse cair a qualquer
momento, inventou um cacoete de dar umas

134
sacudidelas de cabeça quando menos se esperava;
e depois começou a ensaiar as bolações. A turma foi
vendo, foi rindo, e quando o Jota percebeu já
estavam todos batendo palmas pras invenções da
mulher dele.
A moda de inventar pegou. Todo dia inventavam
coisas novas pra botar na peça. Porto arranjou pro
Explicador uma corneta velhíssima que tocava numa
rouquidão daquelas. Quis consertar. Não deu jeito.
Então escreveu assim na corneta: estou rouca porque
me gripei.
E teve um dia que, de repente, Porto parou
de ensaiar e sem mais nem menos começou a
desmanchar a roupa que ele sempre usava. Tirou o
chapéu, arrancou as flores, as conchinhas, depois
foi arrancando os desenhos todos um por um e
jogando aquilo tudo fora. Os filhos de Napoleão
Gonçalves arregalaram cada olho assim. E começaram
logo a achar:
– Acho que o Porto tá inventando um jeito de
porco pro Explicador.
– Eu acho que ele tá inventando um jeito de
porco pra ele mesmo.

135
– Pois eu acho que ele era um porco que
tinha bolado um jeito de não ser porco e agora tá
virando porco de novo.
– Eu acho que isso que ele tá fazendo se chama
desbolação.
– Pois eu acho que ele é porco e que ele é Porto,
pronto.
– Eu tô achando que daqui a pouco eu vou achar
uma coisa legal à beça – disse Rabanete. – E você,
Poró? O que que você acha?
Poró pensou e pensou, como era difícil achar!
– Não sei – respondeu.
Porto suspirou satisfeito: o disfarce que ele
tinha inventado quando era pequeno estava todo jogado
fora. Ele sabia muito bem que vida de porco é um
bocado difícil, mas de repente tinha dado um estalo de
coragem dentro dele e ele tinha resolvido fazer que
nem Angélica: parar de fingir uma coisa que ele não
era. Só no nome é que ele não mexeu: achou que podia
ser um porco chamado Porto. O ensaio continuou e
Canarinho resolveu:
– Vou fazer um relógio grandão de papelão.
Cada vez que eu falar que tá na hora de alguma coisa

136
eu vou tirar o relógio de dentro da roupa. – E já
começou a se divertir com a cara que o relógio ia ter.
Canarinho estava gostando tanto daquele trabalho, que
já tinha até esquecido a história de grudar rugas:
começou a se sentir tão moço!...
Cada dia que passava caprichavam mais um
pouco pra peça sair boa. E com aquela mania de bolar
iam curtindo cada vez mais os ensaios. A coisa toda foi
indo, tão boa, tão gostosa, que no fim de uma semana,
quando acabava o ensaio, eles iam embora cantando
a musiquinha da peça;

Marcha, cegonha,
Aprende essa lição:
O nosso teatro
Não é brincadeira,
É uma grande curtição.

Até o Jota acabou adorando o trabalho, e


depois de muito quebrar a cabeça inventou o seguinte:
– O pai da Angélica vive falando em respeito,
não é? Então eu resolvi que cada vez que ele falar
nisso, em vez de dizer respeito com um r só, ele vai

137
dizer com cinco. Assim: rrrrrespeito. Ideia genial,
não é?
Pela cara do pessoal, ninguém achou a ideia
muito genial. Mas mesmo assim o respeito do pai da
Angélica virou um respeito de cinco erres.

Um dia a peça ficou pronta. Eles então


prepararam umas faixas e uns cartazes e saíram pela
cidade anunciando o espetáculo.
Porto, que já tinha prática de anunciar,
ia na frente chamando a atenção de todos com toques
da corneta gripada e gritos de “Venham todos,
venham ver!”. Angélica ia segurando a bandeira que
eles tinham feito pra peça. Napoleão Gonçalves e
os sete filhos iam andando um junto do outro,
carregando uma faixa que dizia:

138
139
Depois vinha Canarinho segurando com a
tromba um cartaz com o nome ANGÉLICA escrito de
tudo quanto é jeito e feitio.
E por último o crocodilo e a mulher. Ele levava
um cartaz assim:

Pra ninguém perceber a falta do rabo, o Jota se


tapou com umas folhagens e ficou parecendo um bicho
misteriosíssimo.
A Mulher-do-Jota ia segurando um guarda-chu-
va torto, onde estava escrito: “QUEM É ANGÉLICA?
QUEM É? QUEM É?” e uma porção de pontos de
interrogação desenhados. Ela estava tão feliz com o
trabalho e com a vida nova, que naquele dia, quando
saiu de casa, deixou os espirros todos dentro da gaveta:
não se lembrou de apanhar nenhum.

140
Capítulo XI
A representação

Eram quatro horas quando a peça começou;


o teatro estava lotado.
Na hora que Porto entrou no palco
fazendo o papel de Explicador e disse aquela
primeira frase: “Senhoras, senhores, crianças,
bichos de toda espécie: boa tarde!”, ele nem podia
falar direito de tão cansado. Também, coitado,
desde cedo não parava, preparando as coisas que
eles iam usar em cena, vendo as entradas,
ajudando Angélica e os outros atores a dar
os últimos retoques nas roupas, acudindo
Canarinho que estava tão nervoso que teve uma
disparada de coração. E na última hora, quando o
espetáculo já ia começar, Porto ainda teve que
ir correndo na farmácia levar Rabanete:

141
ele tinha engolido o botão que abotoava as ideias.*
– Hoje vamos apresentar uma peça chamada
“Angélica”. A peça tem dois atos, o primeiro com
noventa centímetros e o segundo com um metro e dez.
Como na vida a gente sempre apresenta...
Mas, conforme os atores foram se apresentando,
Porto foi se acalmando, o coração sossegou, e de
repente ele começou a curtir a peça que nem curtia
os ensaios.
Canarinho é que continuava nervoso. Logo
depois de se apresentar, em vez de sair pelo lado, saiu
pela frente: não viu os degraus que separavam o
palco da plateia, se estatelou no chão e não conseguia
se levantar sozinho de jeito nenhum. A peça então
teve que parar. Os atores foram ajudar o elefante, e aí
ele saiu certinho e a peça continuou. O público
foi muito legal porque fingiu que nem tinha visto. Só
um pessoalzinho sentado lá na última fila é que
desatou a rir.

* Desengoliu. E o botão voltou pra dentro da caixinha.

142
O Jota esqueceu de botar os cinco erres no
respeito. E a voz saía tão baixinha que volta e meia
pediam da plateia: “fala mais alto, sim?”. Aí ele
começava a gritar que nem louco e o público não tinha
outro remédio senão pedir: “fala mais baixo, sim?”.
O sol caiu duas vezes no chão (o prego era
curto).
Rabanete engoliu uma fala.
Na hora de nascer, Angélica pulou pra fora do
ovo com tanta força, que um pedaço do ovo de papelão
voou longe e foi cair na cabeça de uma senhora sentada
na primeira fila. Mas ela nem ligou. Nem ela nem
ninguém que estava por perto. Só o tal pessoalzinho
sentado na última fila é que começou a vaiar.
Porto olhou pro fundo do teatro e tomou um
susto: o pessoal que estava ali perturbando eram os
macacos. Os tais. Aqueles da escola e do restaurante.
Pois eram eles mesmos. Rindo à beça de tudo que saía
errado. E numa torcida daquelas pra sair uma coisa
ainda mais errada.
E saiu. Foi pouco depois da Angélica nascer,
justinho naquela hora que a família toda faz uma fila
pra cada um ir dando um nome pra ela.

143
Canarinho pisou numa ponta da roupa do
Jota (nem viu, é claro). Quando o Jota foi andar,
brrrrr!, a roupa, que era de papel fininho desenhado
com penas de cegonha, rasgou toda de alto a
baixo.
Uma menina da segunda fila arregalou o olho
e disse:
– Olha só, mamãe, o crocodilo não tem
rabo.
Não foi preciso mais nada: os macacos
resolveram que estava na hora de perturbar ainda
mais. Pularam pra frente do palco e começaram a
gritar:
– Crocodilo sem rabo, crocodilo sem rabo,
crocodilo sem rabo...
Pra quê! O Jota perdeu a cabeça. Esqueceu
peça, público, tudo, pulou pra fora do palco, se
atracou com os macacos. A mulher dele ficou
apavorada. Saiu atrás pedindo:
– Para, Jota! Não é hora de brigar! Larga esses
macacos!
Angélica, Porto, Napoleão e os sapinhos
correram pra apartar a briga.

144
Só Canarinho ficou no palco: estava nervoso
demais pra fazer qualquer coisa (e se tinha coisa que
Canarinho implicava era com nervosismo grande).
Foi um custo pra acalmar o Jota e acabar com a
briga. Mas conseguiram.
Os macacos voltaram pro lugar deles e os atores
arrastaram o crocodilo de volta pro palco. O público
foi formidável: fingiu que nem tinha visto nada. Mas aí
o Jota disse que não representava mais, e pronto, e
acabou-se. No princípio todo mundo pensou até que
era brincadeira. Mas ele falou:
– Não vou ficar aqui de roupa rasgada,
com o público todinho vendo que eu não tenho rabo.
– Amarrou a cara, fincou o pé no chão e pronto. Aí
o público perdeu a paciência. Começaram as
reclamações:
– A gente pagou entrada!
– Se o crocodilo cisma de não representar mais,
como é que vai ser?
– A gente quer ver a peça até o fim!
Os atores cochichavam pro Jota que ele estava
fazendo um papelão.
– Toma jeito – pediam.

145
Mas ele não tomava. E dizia:
– Quero uma roupa nova.
Não adiantava explicar que não era hora de
roupa nova; não adiantava falar, zangar, pedir juízo ao
crocodilo; não adiantava o público reclamar: o Jota
não ouvia nem se mexia, e ninguém mais sabia o que
que ia fazer.
De repente, Canarinho teve uma ideia. Uma ideia
que deixou ele um bocado triste. Mas mesmo assim
ele tocou a idéia pra frente: tirou o cinto da barriga,
olhou pra ele, fez uma festinha na fivela e deu pro
crocodilo:
– Toma o meu cinto de presente, Jota. Pendura
ele no lugar do rabo. Fica sendo um rabo fininho
mas muito melhor do que rabo nenhum. E tem outra
vantagem: é de você mesmo: não é pele emprestada de
ninguém.
Antes que o Jota tivesse tempo de pensar no
oferecimento, a mulher dele tirou agulha e linha de um
bolsinho e costurou o cinto no lugar do rabo.
Pimentão falou:
– Dá uma rabanada pra ver se o rabo tá bom.
O crocodilo deu.

146
– Que tal? – perguntou a Mulher-do-Jota
baixinho. – Está gostando?
– Melhor que nada – respondeu ele ainda
trombudo. Deu outra rabanada, outra e mais
outra. Gostou de voltar a ter rabo: deu mais outra.
Desamarrou a cara e falou: – Então tá bem, eu
represento outra vez.
Angélica, Porto e a Mulher-do-Jota ficaram tão
aliviados que acabaram até rindo. Pra contar a
verdade, o teatro inteiro também riu porque o Jota
estava engraçadíssimo com aquele rabo.
E Canarinho, vendo todo mundo contente
outra vez, esqueceu a tristeza; esqueceu que agora
ninguém mais ia olhar pra ele e dizer “que cinto
bacana!” e a representação então continuou.
Mas, fora isso, o primeiro ato correu que foi
uma beleza.
Durante o intervalo os atores ficaram pensando
nos macacos, na briga e nas outras coisas que não
tinham saído direito. E pela cara e o jeito de cada um
a gente via direitinho que eles estavam resolvendo lá
dentro da cabeça deles que daí pra frente eles iam
fazer a maior força do mundo pra não errar mais nada.

147
Ia ser tão bom dar pro público uma representação
cem por cento!
Devem ter resolvido aquilo muito bem
resolvido porque os macacos ficaram o segundo ato
inteiro esperando um erro. Um só. Mas não saiu
nenhum. Nem um bem pequenininho. O público
adorou! Não parava mais de bater palmas. E tinha até
gente pedindo bis quando se ouviu um grito lá no
fundo da plateia:
– Angélica!
Angélica ficou toda arrepiada: era a voz do Lux.
Mas do Lux de verdade. Do irmão dela que tinha
ficado lá no país onde ela morava.
Lux veio voando pela plateia, Angélica desceu
correndo do palco, e foi só os dois se encontrarem que
não paravam mais de se abraçar.
– Como é que você veio parar aqui, Lux?
– Estou em viagem de lua de mel pela América
do Sul. Resolvemos aproveitar e vir te visitar aqui no
Brasil.
– Quando é que você chegou?
– Hoje de manhã. Perguntei por você em toda
parte. Acabei sabendo que você estava aqui. Entramos

148
pra ver a peça e tomei um susto daqueles quando
vi que era a sua história; sua e minha; e do Vô
e da Mãe, e de todo mundo lá de casa. Achei tão
gozado me ver na peça! – E aí apresentou a mulher
dele, que era uma cegonha muito engraçadinha
chamada Bem-me-quer.
Todos os atores rodearam Lux e Bem-me-quer.
Napoleão Gonçalves ficou logo querendo saber se Lux
achava que ele tinha representado Lux direito.
Mas Angélica fazia tanta pergunta que ele não
podia nem responder:
– E papai? e mamãe? e o meu quarto? e a lua
que nasce em frente da janela da sala? e a bandeira da
Dona Avestruz?
Lux contou que depois que Angélica foi
embora ele começou a pensar. Passava o dia todo
pensando e acabou também achando que não dava
mais pra viver daquele jeito. E explicou que não era só
ele não: a Luva e o Luís também estavam mudando.
Com Bem-me-quer é que nunca tinha tido problema:
ela sempre achou que a gente não pode viver querendo
ser uma coisa que a gente não é. Conversa vai,
conversa vem, Lux perguntou:

149
– Por que que nós não vamos jantar todos
juntos pra comemorar a estreia da peça?
Os atores ficaram parados, sem saber o que
responder: naquele aperto que eles viviam sempre,
todos tinham umas contas atrasadas que precisavam
botar em dia com o dinheiro do teatro.
Mas quando Bem-me-quer disse:
– É a gente que está convidando, e então...
Eles todos saíram correndo, nem esperaram ela
acabar de falar.
Serviram um prato impressionantíssimo lá no
restaurante onde eles foram jantar: era um prato com
uma porção de andares. No térreo, vinham as saladas
todas (e era cada folha deste tamanho!). No primeiro
andar, peixinhos, camarõezinhos e mais picadinho de
insetos. No segundo andar vinham as carnes e uma
coisa diferente que parecia farofa, mas que não era
farofa, e que cada um achou que era uma coisa, e que
ficou todo mundo sem saber o que que era. Foi nesse
andar que, pela primeira vez, Canarinho percebeu o nó
que Porto tinha no rabo. Ficou logo preocupado.
Falou baixinho (porque não queria chamar a atenção
de ninguém para aquele nó):

150
– Coisa difícil que deve ser a gente viver com
um nó no rabo. Ou na perna. Ou na tromba. Ou
nas ideias. Ou em qualquer lugar. Por que que você
não tira ele fora, hem, Porto?
Porto também não queria que os outros
ficassem prestando atenção no nó, e então respondeu
cochichado e apressado:
– Não sai: é cego.
– Cegueira grande?
– Enorme.
Pronto: Canarinho já perdeu o apetite: se
tinha coisa que ele implicava era com cegueira grande.
Viu logo que se o nó continuasse ali ele não conseguia
mais comer.
– Mas você já experimentou tirar ele fora?
– Antigamente eu vivia experimentando. Nunca
dava certo. Então desisti.
– Experimenta outra vez.
– Agora?
– É. Tá todo mundo comendo: ninguém vai
perceber.
– Mas faz cócega.
– Muita?

151
– Pra mim é a coisa que mais faz cócega na vida.
– Muito melhor sentir cócega do que viver
com um pedaço da gente entalado num nó que não
desata.
– Bom... isso é verdade...
Porto ficou pensando naquilo e de repente
sentiu uma curiosidade danada: quem sabe ele
experimentava outra vez? Quem sabe o nó desatava?
Começou a dar umas voltinhas com o rabo pra ver se o
nó tomava jeito e ia desmanchando. Cada voltinha
fazia mais cócega que a outra: Porto foi ficando com
uma vontade louca de rir. Mas não queria que ninguém
visse o que ele estava fazendo, e então fechou a boca,
os olhos e o nariz pro riso não poder sair de jeito
nenhum.
No terceiro andar, Lux e Bem-me-quer
resolveram que iam levar a “Angélica” pra ser
representada lá na terra deles. Angélica vibrou:
– Tá vendo só que legal, Porto?
Mas Porto nem pôde responder porque estava
quase rebentando de tanta vontade de rir.
Angélica prometeu que assim que acabasse o
antar ela ia desenterrar a caixa de sapato pra pegar a

152
ideia da peça e dar pra Lux e Bem-me-quer. Depois
resolveu que era melhor eles levarem a ideia com
caixa e tudo.
No quarto andar, o Jota viu um espelho
lá no fundo do restaurante e não resistiu: largou o
jantar e foi pra frente do espelho se admirar. Estava
tão feliz de ter se juntado outra vez com um
pedaço dele!
Quando chegou no quinto andar, Porto se
sacudia tanto com as cócegas, que Canarinho
não aguentou mais: começou também a prender o
riso. Foi nessa hora que Napoleão Gonçalves levantou
e fez cara de discurso. Todo mundo parou de comer
(até Rabanete) e olhou pra ele. O sapo passou o
guardanapo pela boca e falou:
– O Lux está dizendo que eu preciso fazer
um discurso, os garotos também, ficam todos
falando que um jantar desses precisa discurso, eu
não gosto de discurso, mas como eu já fiz a cara do
discurso, o jeito agora é fazer o corpo e as pernas.
Meu discurso tem seis linhas, começa com uma linha
curta, tem quatro mais ou menos e a última
curtíssima:

153
Angélica e Porto
Nós todos queremos dizer pra vocês
que a nossa vida melhorou muito
depois que a gente se conheceu
e começou a trabalhar junto.
Fim.

– Que bom! – gritou Angélica. – A minha vida


também tá tão legal!
Porto quis dizer que a vida dele também
estava ótima, mas viu que era só dizer um a que o riso
estourava. Então enfiou a cara debaixo da toalha.
Canarinho também. O resto do pessoal achou aquele
jeito dos dois muito esquisito, mas pensaram que
eles estavam comovidos e resolveram deixar pra lá.
E aí a Mulher-do-Jota se levantou e disse:
– Eu também queria falar uma coisinha. É uma
coisinha pequena mas muito importante pra mim.
O Jota largou o espelho e marchou pra mesa:
já tinha deixado a mulher trabalhar, já tinha deixado
a mulher bolar: discursar ele não ia deixar; de jeito
nenhum:
– Quem fala sou eu!

154
– Um momentinho, Jota. Um momentinho
só. Deixa eu acabar o que eu estava falando. É o
seguinte: eu queria dizer pra vocês que eu tenho um
nome. Um nome que também começa por jota.
Que coincidência, não é? Pois é: eu me chamo Jandira.
E queria pedir a todos os presentes pra não me
chamarem mais de Mulher-do-Jota. Daqui pra frente
todo mundo me chama de Jandira, está bem? –
Suspirou. Aliviada e satisfeita. – Pronto, era só isso.
– Sentou.
Foi ela acabar de falar que Porto berrou:
– O nó desmanchooooooooou!
E aí pronto: o riso todo que tinha juntado
dentro de Porto e de Canarinho saiu junto com o
berro, e os dois não fizeram mais mistério da risada:
riam como nunca tinham rido na vida, riam fazendo
um escândalo que só vendo, riam tanto que nem dava
pra explicar pros outros o que que tinha acontecido.

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156
157
OBRAS DA AUTORA

Os colegas - 1972
Angélica - 1975
A bolsa amarela - 1976
A casa da madrinha - 1978
Corda bamba - 1979
O sofá estampado - 1980
Tchau - 1984
O meu amigo pintor - 1987
Nós três - 1987
Livro - um encontro - 1988
Fazendo Ana Paz - 1991
Paisagem - 1992
6 vezes Lucas - 1995
O abraço - 1995
Feito à mão - 1996
A cama - 1999
O Rio e eu - 1999
Retratos de Carolina - 2002
Aula de inglês - 2006
Sapato de salto - 2006
Dos vinte 1 - 2007
Querida - 2009

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Este livro foi composto na tipologia Centaur, no corpo 13,5.
A capa em papel Cartão Supremo 250 g
e miolo em papel Pólen Bold 90 g.
Impresso na Armazém das Letras Gráfica e Editora Ltda.

159
Quando você não quer mais ser
o que você é – dá pra mudar de pele?
Quando você não se conforma com o jeito que
a sua família vive – dá pra mudar o jeito?
E quando você não arranja
emprego – dá pra inventar um?
Se você tem que vender um pedaço de você mesmo
pra sobreviver – dá pra ficar de bom humor?
E se você fica velho e sozinho no
mundo – dá pra dar a volta por cima?

Os personagens que levantam estas dúvidas


(e outras mais) se encontram aqui neste livro.
Juntos, criam uma peça de teatro chamada
ANGÉLICA.

A criatividade faz de cada um deles um ser mais feliz.

ISBN 85 - 89020 - 06 - 1