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REVISTA

ECLESIASTICA . .
.

BRA,SILEIR.A
VOL. 5 MARÇO 1945 FASC. t"

SUMARI,O

So u s a, , , Mo ns. S i lya no de, . Caridade Fraterna J:ntte Sa-


: ce rdotes . . ., . . . , . . . . : . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . .. . . .

Zio n i, Pe. Vicente M., Metodologia. Aplicada à .Elabo-


ração de Trabalhµs · Cien tífi Fos . . . . . . . . . . . . .. . . . . 13
R o s si, ·Pe. ·Agnelo , O· Protestantismo 110 Mo mento A t ua l
Brasilei rp . . . .. . .. .
. . : . . •. . . . . . .
. . . . . . . . .. . . 26
B r a n d ã o, Pe. · 4scâ11io, S. Fr<1ncisco de Sales. . . . . . . . .
. 40
H a ana p p e .I; Pe. B. Gaspar, C. SS. R., A Glossolalia
·

110 Novo Testamento . . .... .". . . . . .. . . . . . . . . . . 5l


K os e r,Frei Constantino, O. F. M., As P ro p o siç õ es da
Encíclica "Mystici Corporis C h ris t i " . . ... .. . .. .. 67
R õ w e r, Frei Basílio, ó. F. M., Os Estudbs na· Provín-
cia da Imaculada Conceição do Bras il nos Séculos
XVU e XV.III . . . .. . . . . . .. . .. . . .. .. . . ... . . .. 96

EDITÔRA VOZES LTDA.� PETRÓPOLIS, ESTADO DO RIO


REVISTA ECLESIÁSTICA BRASILEIRA
Redator: Frei T h o m a z B o r g m e i e r, O. F. M.
Gerente: F. j. L. Vier.

"Revista Eclesiástica Brasileira", publicação trimestral para o Clero ca­


tólico, aparece em março, junho, setembro e dezembro. O preço da
assinatura anual é de Cr $ 50,oO para o B r asi l, e de 3 dól� res ameri­
.
canos para o estrangeiro. A Tevista será expedida sob r�g1stro postal
só mediante encomenda expressa. Tôda a correspondência relativa à .

Administração (como sejam pedidos de assinatura, pagamentos, recla­


mações) se dirija à "E d i t ôra Vozes Ltda.", Petrópolis, Estado do Rio.
Assuntos concementes à Redação (como colaborações, comunicações, etc.)
enviem-se ao redator: Convento dos Franciscanos, Petrópolis, R. j.
Os originais dos artigos, publicados ou não, não serão devolvidos.

SUMARIO (Continuação)

Co municações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . 1 OG
T r i n d· a d e, D. Henrique Golland, Ação Católica no Ser-
tão ( 109). P i r e s, Pe. Heliodoro, O Aleijadinho e os
-

Estudiosos na Inglaterra e na América do Norte (114).


Assuntos Pastorais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 119
C o s t a , J. Morais e, Da Residência Paroquial (119). -
Fr. A 1 e i x o, O. F. M., O Cânon 105, n. 2.º e os Conselheiros
(124). - Fr. A 1 e i xo, O. F. M., Quem é Administrador dos
Bens da Fábrica (133). - fr. A 1 e i x o, O. F. M., O Clérigo
e as Negociações Proibidas pelo Cânon 142 (137). - Pe­
quenos Casos Pasto rais (142).
Documentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 152
·
Atos da Santa Sé (152). - Sacra Romana Rota in Cansa
"Romana" Nnl litatis Matrimonii et Dispensationis Super Rato
(155). - Radiomensagem de Natal de S. S. Pio XII (171 ).
Alocução do Santo Padre ao Sagrado Colégio e à Pre­
latura Romana (180).
Pelas Revi. s tas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 183
Lo u r e
n ç o, joão de, A Missão da Igreja e o Pontificado
de Pio XII (183). - Creu s e n, S. j., A Margem da Hie­
rarquia? (195).
Crônica Eclesiástica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . 201
Necrol9gia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . 210
Apreciações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . 217
Bibliografia . . . . .
. . . . . . . . . . • . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 227

i: Revista Ecleslástl ea
Brasileira está registrada no D. I. p: E' seu Diretor
responsável perante esta repartição Frei João de ·Castro Abreu Magalhães, o. F. M.
Caridade Fraterna Entre Sacerdotes.
Psicologia de Suas Dissensões.
Por Mons. S i 1 v a n o d e S o u s a, Seminário de S. Francisco de Paula,
Pelotas, Rio Grande do Sul.

julgar é uma função n atural do entendimento . Mas julgar


.com acêrto as ações do nosso próximo é das mais difíceis ope­
rações da i nteligência humana. Para infirmar os nossos conceitos
nesta matéria há n umerosos fatôres de ordem física, sentimental,
p atológica e moral. Existe, porém, um meio certo para não er­
rarmos em nossos juízos a respeito do próximo : é pautá-los se­
gundo o critério infalível de N. S. jesus Cristo. Assim, quando,
·no assunto de que nos vamos ocupar, quisermos conhecer o ver­
dadeiro discípulo do S alvador, nada mais seguro do que ouvir
.a própria sentença evangélica expressa nestas p alavras do D ivino
·Mestre: "ln hoc cognoscent 0tnnes quod discipuli mei estis, si
.dilectionem habueri tis ad invicem." (Jo 12, 35.) Aí está o cará­
ter, a marca, o distintivo do verdadeiro sacerdote. Com efeito,
-estas palavras não se dirigem aos fiéis, mas aos apóstolos, e,
particularmente, a nós que somos os discípulos do Mestr�Não
são, de certo, os milagres, o zêlo ardente, o apostolado conquis­
tador, as obras ruidosas que distinguem os v..erdadeiros discípulos
de jesus Cristo; é sim a caridade fraterna que informa a nossa
.alma a respeito dos irmãos no sacerdócio. Por isso, S. Paulo,
na parte parenética de sua epístola aos Colossenses, põe como
.condição de p az entre os irmãos o exercício da caridade.

Os Bens Naturais da Fraternidade.

Depois de enumerar á s virtudes morais que são o fruto de


uma verdadeira vida cri stã e sacerdotal : a misericórdia, a benigni­
dade, a mansi dão, a hum ildade e a paciência, termina com esta
recomendação : "Acima de tudo tende caridade que é o vínculo
da perfeição, para que possa reinar a paz de Cristo nos vossos
corações, e nas vossas alm as. lnduite vos, sicut electi D ei, sancti
et dilecti víscera m isericordire, . benignitatem, humilitatem, mo­
desti am, patient fam; supportantes· invicem et clonantes vobis­
metipsis, si quis adversus aliquem habet querelam; sicut et Do�·
J
2 So u s a, Caridade Fraterna Entre Sacerdotes

minus donavit vobis, i t a et vos . Super omnia autem hrec carita­


tem h abete, quod est vincu lum perfectionis et pax Christi exsultet
i n cordibus vestris." ( Col 3, 1 2- 1 7 . )
·

O Apóstolo faz assim depender a paz e a concórdi a dêsse


espírito de caridade, sem o qual não é possível u n i ão entre o s
homens e muito meno s e n t r e o s s acerdotes . S e l evássemos em
conta somente os bens n aturais resu ltante s da paz e da concór­
dia, valeria a pena impo r-nos gran des sacrifícios para têrmos
di reito à col heita dos seus frutos consoladores.
Com efeito, dessas vi rtudes mestrns preconizadas pelas sa­
gradas letras saem o s l aços que prendem o s homens em boa
sociedade. E l as têm o dom divino de suavizar as rel a�·ões, de
amaciar as arestas dos temperamentos rudes, de derramar o óleo
misterioso que faz funcionar sem sobressalto, sem fricção áspera,
o complexo mecanismo da vida social.
D a í nasce a alegria da convivência, a confiança entre o s
confrades, uma sensação de bem-estar, quando s e comunicam
os sentimento s recíprocos, os i deais, os p roj etos e as emprêsas
em perspectiva. Quantos ideais repontam no esp írito de bons
sacerdotes e só se esclarecem, avultam e s e concretizam, quando
transfu n d i dos na alma do colega que o s discute com simpatia,
que lhes e m p resta o vigo r do seu encoraj amento e do seu con­
c u rso desin teressado ! . . .
Essas relações freqüentes, essa convivência assídua podem
constitu i r um cam po bendi to onde pouco a pouco vá vicej ando
a tenra e delicada pl anta de sentimentos nobres e e l evados, em
·
cuj o hastil venha desabrochar a flor da amizade, que i rmana
as almas e dei ta no cál ice dos desenganos humanos umas gotas
daquela essência distilada dos corações que têm o segrêdo de
acender auroras de esperanças nas t revas dos nossos desconsol os.
A amizade, sentimento nobre e raro entre o s homens, mesmo
entre sacerdotes, é a melhor bênção com que Deus gratifica
algumas vêzes, n este mundo, o s P adres sinceros, leais e desin­
teressados nas suas relações com o s colegas.
Os Bens Superiores de Ordem Hierárquica e Disciplinar.
E:sses valiosos bens da vida moral j ustificariam de nossa
parte todos o s s acrifícios para o s conseguirmos. H á, porém, ou­
tros ben s superiores de o rdem disciplinar e hierárquica que não-
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1, março 1945 3

poderão subs istir na comunidade eclesiástica, que é a diocese,


sem a prática da caridade nas rel ações sacerdotais.
A diocese é a cópi a em miniatura da I grej a U n iversal. jesus
Cristo veio a êste mundo para fazer a vontade do Pai e edificar
um templo à glória da Trindade SSma. de que E:le próprio é a
pedra angular. S. Pedro e os apóstolos são os fundamentos e
nós sacerdotes e fiéis somos as pedras vivas l i gadas pelo ci­
mento da caridade : " Fratres : j am non· estis hosp i tes et ádvenre ;
sed estis cives sanctorum et domestici Dei, superredificati super
fundamentum Apostolorum et Prophetarum, ipso summo angulari
l apide Christo jesu . " ( Ef 2, 1 9-20. ) E:ste cimento de origem di­
vina é uma criação do Espírito Santo, Espírito de amor e de
união, que o deposi tou em nossas almas pelo batismo e o desen­
volveu com a prática dos sacramentos, até que no-lo deu em
sua plenitude no dia de nossa ordenação. Esta caridade é o
próprio distintivo, a essência mesma da vida sacerdotal. Liga­
nos a Deus e ao nosso próximo que, no caso, em primeiro lugar,
é o nosso colega. Se o cimento l i ga as pedras vivas do templo
de Deus, deverá, com mais razão, ligar enke si os sacerdotes
que, na Diocese, formam as colunas sôbre que se apóia a au­
toridade episcopal no cumprimento de sua divina missão. Os sa­
cerdo tes multipl icam a sua voz, tornam numerosos os seus bra­
ços e o fazem presente em tôda a parte. Dão-lhe sem milagre
uma ubiqüidade perene em tôda a diocese.
Para essa obra de repercussão harmoniosa não só é indis­
pensável que os s acerdotes estej am unidos ao Bispo no exercício
de sua atividade apostólica, mas também é preciso que estejam
unidos entre si, para que não se desoriente o movimento partido
da sede epi scopal . A desunião do clero é o desmoronamento des­
sas colunas que sustentam o nome, o prestígio e a ação apos­
tólica do Bispo diocesano ; é a voz que não se amplia, m as se
contradiz ; são os braços que se repelem em vez de se auxilia­
rem . Dessa confu são so . f re a Igrej a humil hada em seu chefe
diocesano, desprestigiada no seu clero e escandal izada nos fiéis.
I nfeli zmente esta é a verdade : a santidade, a ciência, o zêlo do
Bispo, por maiores que sej am, não suprem a deficiência de um
clero que se morde em vez de edificar-se. E no fim de contas
é o Prelado que sofre, enquanto o Diabo sorri . Apostolado inu­
tilizado, disciplina quebrada e Cristo menos servido.
1*
4 So u s a, Caridade Fraterna Entre Sacerdotes

A Fraternidade e a Eucaristia.

Se considerarmos o lado sobrenatural dêste assunto, as ra­


zões para a prática da caridade sacerdotal não são menores. A
falta de caridade em nossas rel ações é uma falta de amor a
N . S. Jesus Cristo. O sinal certo de que vivemos a vida de
Cristo, de que O ama m o s, de que estamos em união com e.te,
última expansão de nossa vida sobrenatural, é a prática da ca­
ridade fraterna. "Nos scimus quoniam translati sumus de morte
ad vitam, quoniam diligimus fratres." Para que nos nossos co­
rações sacerdotais estivesse sempre acesa essa centelha de vida
que espancasse as trevas da morte, quis Nosso Senhor que o sa­
cerdote nascesse da Eucaristia e vivesse p ara a Eucaristia que
é sacramento da vida, porque é sacramento de caridade. "Qui
non diligit manet i n morte." ( 1 Jo 3, 14. )
jesus Cristo quer que a Eucaristia sej a em nós um modêlo
p er m anen t e e u m a pregação constante desta união de caridade
com nossos i r m ão s.
Tôda a Te ol o g i a eucarística está cheia desta verdade. O Es­
pírito Santo que pr es i de à vida de união com Deus, manifesta-se
na cari dade. " Fructus autem Spiritus est Charitas." ( G ál 5, 22 . )
E ' ta m b ém a cari dade, o amor por seus irmãos que superabunda
na P a ixão do Salvador. "ln hoc cognovimus charitatem Dei, q uo ­
niam i l l e animam suam p r o nobis po s u i t." ( 1 Jo 3, 6.) e.te
q u i s que a E u car i s t i a fôsse o perpétuo memorial dêste amor.
"Memo riam fecit m i rabi l ium s u o ru m misericors et m iserator Do­
minu s . Escam dedit timent ibus se. " ( SI 1 1 0, 5. ) Q u i s que os
seus sacerdotes fôssem os seus comensais d e todos o s dias . O ra,
seria impo l i dez indi gna do Divino Mestre, convidar a assentar-se
no seu divino banquete pessoas que não s e estimam. Entretanto,
f:le não só convida; vai mais adiante : preceitua que tomemos
parte neste banqu ete, que .presidamos a ê l e como a melho r l em­
b r ança q ue possamos ter de sua vida entre nós, de sua divina
pessoa. "Hoc facite in meam commemorationem." ( Lc 22, 19-20. )
Para simbo l i zar a união, a boa fraternidade dos convivas
representou-a nos e leme nt o s constitutivos do celestial festim: o
pão que é a união perfeita d os gr ão s de trigo unidos numa só
massa ; o vinho efeito das bagas de uva q u e desap ar e c em na s u a
forma primitiva para ressurgirem aglutinadas n a s moléculas do
líquido generoso que "alegra o coração do homem" . E' esta união,
esta caridade que Jesus Cristo quer que exista nas relações entre
Revi sta Eclesiástica Brasilei ra, vol. 5, fase. J, março J 945 5

sa cerdo tes, embora as torturas do moinho ou as humilhações


do laga r.
As espécies eucarísticas estão a nos dizer que o clero de
uma diocese deve viver de modo a formar um só corpo e tam­
bém uma só alma, como aquêles primeiros discípulos i rmanados
pel a palavra do Salvador. "Cor unum et anima una."
Sej a a nossa vida uma realização desta aspiração da litur­
gia eucarística : "Unitatis et pacis qure sub oblatis muneribus
mystice designantur." E' o verdadeiro ideal da união dos sacer­
dotes, união tão perfeita que pode unir o nosso coração com
o coração de nossos irmãos, segundo êste pensamento de S. Pau­
lo : "U nus panis, multi unum corpus sumus." ( 1 Cor 1 O, 1 7 . )
O egoísmo e o ódio s ã o frutos naturais da a l m a p�cadora.
Os próprios sacerdotes não poderão fugir às suas maléficas in­
fluências, se não aceitarem as benéficas influências da caridade
de Cristo. Entregues às nossas mesquinhas paixões, nós somos
como os pagãos do tempo d� S. Paulo : "Sine affectione" . O
específico contra êsse mal está todos os dias ao alcance de nos­
sas almas. E' a caridade fortificada e aperfeiçoada pela Eucaristia.
jesus Cristo vem neste sacramento sufocar os restos do ve­
lho homem porventura ainda p alpitantes em nós ; vem comover,
em favor de nossos contrários, as fibras do nosso coração. Fa­
zendo-nos viver mais perfeitamente sob o dom ínio de sua divina
graça, �le quer que passemos aos atos da vida celestial, o que
é própriamente a cari dade em exercício. Assim nos ensin a a li­
turgia ela S. Missa nesta aspi ração que tem o perfume da san­
tidade: "Oblatio nos, Domine, tuo nomini dicanda purificet, et
de die in diem ad crelestis vitre transferat actionem ." E' o pró­
prio jesus Cristo que opera esta divinização do nosso coração,
enquanto está corporalmente presente sob as espécies eucarísticas ;
e consumidas estas, �le nos deixa, com a sua graça, aquela vir­
tude que constitui o caráter próprio da sua vida, que é êste amor
imenso aos seus irmãos, pelo qual desej a unir intimamente entre
si todos os membros do seu Corpo Místico.
Infel izmente nós nos esquecemos desta consoladora e edifi­
cante verdade : A Eucaristia é propriamente o sacramento da
união. Sem nenhuma dúvida, esta comida, esta bebida eucarística
é a verdadei ra carne, é o verdadeiro sangue das veias de jesus,
é a mesma D ivina Vítima imolada na Cruz ; mas é também a
Santa Igreja em todos os seus membros predestinados, chama-
6 S o u s a, Caridade Fraterna Entre Sacerdotes

dos, j ustificados, glorificados ou ainda viajares, pois que a Igrej a


é imolada com jesus como uma só vítima num mesmo sacrifício,
segundo S. Agostinho no seu comentário ao Evangelho de S .
joão. E' êste mistério que está simbolizado n a mistura d a água
com o vinho que deve ser consagrado.
Os primeiros cristãos compreendiam melhor esta doutrina.
Por isso o fruto da sua perseverança na oração e na comunhão
era a verdadei ra união dos seus corações e de suas almas. "Erant
perseverantes in communicatione fractionis panis et orationibus."
(At 2, 42 . ) "Multitudinis autem credentium erant cor unum et
anima una." (At 4, 32. )
E', pois, uma conseqüência do ministério sacerdotal ter em
nossa alma e em nossas atitudes os sentimentos da caridade fra­
terna e os pôr em prática, para que a nossa vida sej a a tradução
fiel da vida de Cristo pela Eucaristia : " Ego sum panis vivus qui
de creio descendi. Qui manducat me et ipse vivet propter me."
(Jo 6, 58-59.)

A Maldição d e Deus Contra o s que Destroem a Caridade fraterna.

Contradizer êste espírito de união fraternal é incorrer na


maldição divina. O E�pírito Santo, no livro dos Prov érbios, amea­
ça com a perdição os detratores que destroem a caridade fra­
terna e proíbe que com êles se mantenham relações. "Cum de­
tractoribus non commiscearis, quoniam repente consurgit perditio
eorum." ( Prov 24, 2 1 -22 . ) Com efei to, o detrator é a peste da
human idade. "Abominatio hominis detractor." ( Prov 24, 7.) S.
Tiago chama o detrator do seu i rmão um inimigo da lei. "Nolite
detrahere alterutrum fratres. Qui detrahit fratri aut qui judicat
fratrem suum detrahit legi." (Jac. 4, 1 1. )
O s infratores da lei da caridade acham-se equiparados aos
gentios de que fala S. Paulo na epístola aos Romanos. São ho­
mens perversos, cheios de invej a, discórdias, dolo e astúci a ; são
murmuradores, inventores de maldades, homens sem pal avra, sem
caridade e sem piedade. Os que tais coisas fazem são dignos
de morte e não sómente os que as fazem , mas também os que
aplaudem aquêles que as cometem .
O Eclesiástico ( 5, 1 5 1 6 ) , fazendo a apologia do homem
-

sensato em suas palavras, acrescenta que a l íngua do imprudente


é: a sua própria ruína, e aconselha que cada homem fuja de pas-
Revista Eclesiástica Brasilei ra, vol. 5, fase. 1 , m a rç o 1945 7

sa r p o r m exeriqueiro para que não s ej a a sua l í n g u a u m l aço


e um motivo de confusão.
O Apó stolo n a primeira Epístola aos Coríntios proibe sen­
tar-se à mesa com os maldizentes, porq u e êles não possu irão o
reino de D e u s . " Si quis frater nominatus est m a l edicus, cum
ej u smodi nec cibum sumere. Neque maledici regnum D ei pos­
s i dcbu nt . " ( 1 Cor 5 , 1 1. )
O Mistério da lnlqüldade.
Acabamos de ver nas Escrituras, n a Liturgia e n a dou trina
teol ógica os grandes bens d a fraternidade sacerdotal e os gran­
des males da falta de cari dade entre os Padres.
Como se poderia exp l icar a animosidade de s acerdote con­
tra sacerdote, as claras man ifestações inami stosas, as suspeitas
inj u riosas transmitidas de bôca em bôca no recesso de certas
intimidades ? Como s e poderiam expl icar verdadeiras mentiras
cal u niosas contra o nome e a dignidade do sacerdote propala­
das por sacerdotes ? E ' o mistério d a iniqüidade.
Clero Religioso e Clero Diocesano.
Muitos homens de nossa classe, feridos pel a estranhe z a do
caso, tem procurado dar-lhe explicação, mas nem sempre escla­
recem as incongruências dêsses rebaixamentos morais. Uns jul­
gam q u e h á incompreensão entre s acerdotes religiosos e sacer­
dotes diocesanos. Nessa matéria posso dar o meu testemu n ho
pessoal, q u e n ão é ten dencioso. Ninguém mais n o caso de bem
se entender db que o sacerdote do cle ro diocesano e o do clero
rel i gioso. Ambos igualmente interessados na glóri a de D eus e
ela I g rej a, trabalham em campos diferentes, com diferentes mé­
todos, de modo que suas atividades nunca se encon trarão. U m
sacerdote religioso e um sacerdote secu l ar, que s ejam normais,
educados e homens de bem, são naturalmente bons a m i gos, p ron­
tos a se auxi l iarem mutuamente nas necessidades do ministério.
D e m im posso dizer que nunca encontrei gente melhor, e eu te­
nho 40 anos de experiência . . . Os indivíduos que se afastam
dêste conceito, não é p o rque sej am rel igiosos o u secul a res, é que
são homens sem caráter, deficitários morais, e isso não prej udica
a regra. P ortanto, a alegação não procede.
O Padre Estrangeiro.
Outros encontram a chave do mistério n a convivência do
clero estrangei ro com o nacional ou na convivência de sacerdotes
8 So u s a, Caridade Fraterna Entre Sacerdotes

oriundos de várias regiões do país. I sto é uma afirmação intei­


ramente destituída de verdade, num pais como o nosso, que está
de braços e coração abertos para receber todos os portadores
de atividades profícuas de qualquer parte que venham . E o sa­
cerdote estrangeiro que nos procura é, em regra geral, um amigo
da terra à qual vem oferecer-lhe generosamente o concurso do
seu apostolado. Um tal homem n ão pode ser elemento de desor­
dem e de inquietação. Muito menos p.o dem ser causa de mal-estar
numa diocese sacerdotes de outros Estados. Quem assim pen­
sasse ter-se-ia dem itido da condição de criatura inteligente e da­
ria uma triste prova de sua mesqu inhez de espírito.
Regionalismo e Brasilldade.
Neste nosso país, nas questões de caráter geral , não há
senão brasileiros. O regionalismo é sentimento de ordem privada,
e só interessa a cada indivíduo. E' o perfume das au ras do tor­
rão natal, a ressonância das velhas tradições, a imagem esbatida
dos antepassados redivivos em nosso esp írito pela saudade que
não morre. E' o carinho envolvente daquelas pessoas queridas,
parte de nossa alma que nos acena de longe, é um mundo in­
terior de pequeninos nadas que são tudo para nós e que só
in teressam a nós mesmos. Podem ali men tar a nossa fantasia,
dar vida aos nossos sentimentos e criar dentro de nós um am­
biente onde se movem imagens retrospectivas gratas ao nosso
coração . Nunca, porém, esta atitude i nterior prej u dicarf1 as nos-
·

sas relações soci ais.


N as questões de caráter obj etivo e real não há brasileiros
de ontem, nem brasileiros de 400 anos. Não há brasi leiros do
norte, nem brasileiros do sul, do cen tro ou do l i toral , das serras
ou das campanhas, das cidades ou elos sertões. O que há, é o
brasi l ei ro do Brasil (mico e indivisíve l . Dentro das suas fron­
tei ras estamos em nossa casa. Em cada trecho dêsse imenso ter­
ritório há o sangue e o suor dos homens do norte e dos homens
do sul . Aqui nesta terra que pisamos bateram-se, pela incorpo­
ração ao nosso patrimônio, nordestinos, baianos, fluminenses,
paulistas e mineiros na época agitada das guerras contra a Es­
panha. Ampliando as fronteiras para o no rte lá andamos de bra­
ços dados gaúchos e nordestinos na reconquista do território do
Acre. Por isso, nós aqui ou em qualquer outro Estado nos en­
tendemos maravilhosamente. Quando se notar uma quebra nesta
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1, março 1 945 9

harmonia, podemos desconfiar de que há por aí alguém a quem


falta o espírito de brasil idade. E' uma espécie nova de quinta­
colunismo sui generis. Demais, retire-se de mui tas de nossas ci­
dades o que fizeram o s rel igiosos, os P adres estrangei ros e os
de outros Estados, ou de outras regiões, e ficaria o deserto
em matéria d e apostolado.
Estas razões, portanto, não expl icam o mistério. O que ex­
pl ica a i nquietação, por vêzes reinante no clero, n ã o está no sa­
cerdócio que é divino ; está n o homem que o exerce. De um sa­
cerdote bem formado e normal, nunca partirá u m gesto, uma
atitude, u m a pal avra que possa perturbar a harmonia da classe.
Êle poderá errar, m as é esp í rito bastante reto para conhecer
o seu êrro e repará-lo.

A Verdadeira Causa do Mal.


O mal vem de que n o clero pode haver homens susceptíveis
de paixões i n confessáveis. E' o i nvej oso a quem a vi rtude, o va­
lor, a competência do colega podem fazer sombra. N este caso,
é preciso demolir êste colega incômodo . . . E se o confrade é um
tipo superior, em que n ão se pode comprovar u ma maldade real ,
recorre-se à imagi n ação e inventa-se. Vem a mentira q u e pri­
mei ramente era apenas uma suspeita; depois um raciocínio, "quod
vol u m u s facere credimus"; depois uma conversa meio escanda­
lizada, meio misteriosa nos ouvidos de alguém q u e se conquista
para a emprêsa i nfame. Cri a-se u m mártir, vítima do suposto al­
goz . E a história assim formada j á pode sair à rua e a difama­
ção vai estendendo u m l ençol de lama sôbre o nome e reputação
de um colega. Um belo dia o pobre sacerdote aparece na praça
pública despido de tôclas as suas belezas morais. Os colegas
j u stos reagem . Há confusão, su rgem os prós e os con tras e está
feita a desavença n a famí l ia levítica. Chega, porém, o dia ela
prestação ele contas. A vítima chama à ordem - com todo o
direito, o mentiroso, o caluniador. Faz-se a operação dolorosa. O
homem que faltou à verdade em desfavor ele um seu i rmão é, ge­
ralmen te, um débil ele caráter. Pode ser que diante da sua ví­
tima que reclama em seu favor os direitos da verdade, tenha as­
somos de pundonor. Mas a verdade o esmaga. Na confusão de
sua m iséria articula a l gumas i ncoerências que s ão a confissão
de suas culpas e cai sob o pêso d a própria maldade. E' um
cadáver moral . A tira-se-l he o véu da cari dade, cobrem-se-lhe o s
10 S o u s a, Caridade Fraterna Entre Sacerdotes

traços, prestam-se as homenagens a que tem direito todo o mor­


to. Mas por higiene moral foge-se ao seu contato e assim está
·feita a cisão no clero� N esta obra de desagregação entram como
fatôres preponderantes a falta de caráter, a mentira e a in­
sinceridade.
Nem sempre, porém, a personagem principal desta tragédia
decadente é o i nvej oso, êste tipo repulsivo de que fala Ovídio :
" N usquam recta acies, livent rubigine dentes, pectora felle viget,
Jingua est suffusa veneno, risus abest omnis, nisi quem fecere
dolores."
Mui tas vêzes o semeador de cizânia é o pretensioso sem mé-
1·itos, qu� não vê em tôrno de si senão a si mesmo. Não tolera
o colega que o ignora e que não é, de certo, bom instrumento
para os seus p l anos rastei ros . Então, por detrás dos bastidores,
o combate, não di retamente, mas por insinuações em que entra
muita malícia e nenhuma verdade. D i rige certas campanhas de
silêncio em tôrno dos colegas que não lhe agradam, organiza
gru pos de resistência subterrânea. Tem a vocação de andar de
rastro, porque nasceu sem asas para as alturas.
Outros são vítimas do próprio temperamento. Sofrem de
psicoses vizinhas da histeria, cuj a manifestação mais comum é
a mitomania, ou o amor ao mito. Servem-se da mentira como
função normal de suas relações na sociedade. J:: s tes Padres es­
quecem fàcilmente a dignidade do seu sacerdócio, e pelas con­
versas parece que têm a alma dessas sol teironas que, com a l í n­
gua, se compensam dos desastres sentimentais.
Há os psicastên icos. A psicastenia agu da é uma forma exa­
cerbada da neurastenia com reflexos sôbre a imagi nação que se
compraz em ver nas pessoas e nas coisas o que há de mais de­
primente. O psicastênico embebeda-se dêsses pensamentos amar­
gos e os vai distribu indo em suas rel ações, com autoridade de
sacerdote, respei tável sob outros pontos de vista. As suas afi r­
mações repercutem no meio dos colegas como u m princípio de­
sagregan te. �le não se deixa guiar pelos fatos. Segue a sua pró­
pria imaginação que é a louca da casa. Louca e enfêrma !
A esta classe j u ntam-se os fúteis e os inconscientes que, não
tendo noção exata da dignidade humana na própria pessoa, mal­
baratam a do p róximo, porque não se dá valor nos outros àquilo
.que em nós é de somenos importância.
Ainda temos que considerar o sacerdote fingido e o insin-
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase . . 1 , março 1945 11

cero que não despertam a confiança necessária à boa harmonia


dos membros da sociedade sacerdotal . O primei ro quando fala
parece ressumar virtude de cada uma de suas pal avras. Acolhedor,
sal amalequei ro, abundante em expressões da gíria protocolar de
certa sociedade, denuncia-se por si mesmo. Ninguém se deixe
enganar. Suas palavras não merecem crédito. �le é como essas
louras oxigenadas que se traem pela raiz dos cabelos.
O insincero é grave, de feição hierática, estudadamente pon­
derado nas palavras, contanto que êle sej a o primeiro servido.
Para isso não duvida cometer tôdas as pequeninas baixezas de
que se envergonharia um secular decente. �sse tipo de sacerdote
é sempre um elemento pernicioso no convívio dos colegas. Tal
sacerdote "poderá melhorar o seu procedimento, mas não os seus
fins. Anda, mas não sobe. Move-se num pl ano inferior, e ainda
mesmo que se movesse durante séculos não se elevaria acima
da atmosfera" dos seus baixos i nterêsses. E' o homem da linha
cu rva e das atitudes horizontais, porque lhe repugna a vertica­
lidade dos homens superiores. Prefere o raj ar das serpentes ao
vôo dos pássaros.
Deixo de mencionar os que se dão ao esporte de fazer es­
píri to à custa dos colegas, porque, para ser espirituoso, é preciso
ter tal ento. E não tem talento quem quer . . .
Esta caravana de maldosos e enfermos morais dignos das
"bolgias" elo VIII e do IX círcu los do I nferno de Dante, são
os únicos responsáveis pel a falta de amor fraterno, de cari dade,
de boa convivência entre sacerdotes.
Que o Santo Cura d'Ars defen da as nossas dioceses contra
êstes membros carcomidos que seriam para nós o maior castigo.
O Remédio.
Não basta, entretanto, diagnosticar o mal . E' necessário curá­
lo. A terapêutica, porém , não é fácil.
Quando a devastação destas enferm idades morais infelici­
tam uma diocese, só há um remédio a empregar-se : a virtude
dos bons e dos sãos que forma um dique salutar contra a in­
vasão do contágio pestilencial . Se a cura de tais enfermos é real­
mente um problema insolúvel, resta aos interessados, que somos
todos nós, o tratamento preven tivo de efeito quase infalível.
E' em nossos seminários e casas de formação religiosa que
se há de obstar ao aparecimento dêstes sacerdotes nocivos à boa
harmonia do clero nas dioceses.
12 So u s a, Caridade Fraterna Entre Sacerdotes

Uma cuidadosa formação do caráter e da personalidade nos


jovens candidatos ao sacerdócio, é já uma sólida garantia de
que, para, o futuro, o clero não terá em seu grêmio êsses ele­
mentos divergentes que p rej udicam a cl asse e lhe impõem os
maiores e os mais penosos sacrifícios.
Como sabemos, os nossos seminários nem sempre recebem
alunos dos setores sociais mais finamente educados. O contrário
é que é a regra geral. As vocações brotam misteriosamente em
todos os ambientes da vida cristã. Aos seminários compete afei­
çoar esta matéria prima, geralmente, de ótima qualidade. Os in­
capazes moral o u fisicamente, que fazem exceção a esta regra�
são, de in ício, afastados, ficando os bons, embora rudes e infor­
mes, que serão facetados e i nstruídos para a elevada vida social
entre os mais nobres e distintos homens da terra que devem ser
os sacerdotes.
A educabilidade é a p rimeira característica do homem e o·
fundamento das suas esperanças, segundo o pensamento do gran­
de escritor e educacionista americano, J. L . S p a 1 d i n g, Bispo
de Peoria. Por isso, pouco importa a origem social dos j ovens
que p rocuram os nossos seminários. O que importa é formá-los
bem, pois o que somos, nós o somos pel a educação. E a educa­
ção é em grande parte a formação do caráter.
Com efeito, a dignidade do homem é sinônimo de caráter,
a verdadei ra dignidade moral que distingue os homens de bem.
O caráter entra como fator benéfico em três quartas partes da
vida psíquica dq homem . Quando o sacerdote fracassa no seu
ministério, não é, às mais das vêzes, por falta de ciência, de
talento ou de zêl o ; é quase sempre por falta de caráter, porque
sem caráter não h á virtude que resista às seduções e às conve­
niências pessoais . E' pelo caráter que se ama o ideal da nossa
vida, que s e dá valor ao t rabalho, às p rovações e aos sofri mentos.
O homem de caráter é o homem do dever, da abnegação e do:
sacrifício ; é o homem que sabe elevar-se acima da mesquinhez
da vida mais do que inútil, deletéria, em que a intriga, a menti ra,
a maldade e os processos escusos formam a urdidura de algu­
mas almas, mesmo sacerdotais.
I ncutir em nossos futuros Padres êstes ideais da pedagogia
de Spalding, é afastar das fileiras do sacerdócio os falidos
morais que podem vir mais tarde l ançar respingos de lama no
belo conjunto de nosso clero nacional .
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1, março 1 945 13

Metodologia Aplicada
à Elaboração de Trabalhos Científicos.
Pelo Pe. V i e e n te M. Z i o n i,
Professor no Seminário Central do Ipiranga, São Paulo.

Não r aro, a elaboração de um trabalho científico ou d e vul­


aar i zação cientí fica, sej a n o campo dos conhecimentos teológicos
�eja no t e rreno d a fi losofia ou nos arrai ais das ciências experi­
mentai s, cruz a-se com uma infinidade de escolhos red u t íveis, qua­
se sempre, à u m a acen tuada deficiência de método .
Estas razões, portanto, a l iadas ao desej o s incero de servir
e ser 1.'tt i l a quem quer que sej a , para a glória de Deus Nosso
Senhor, leva ram-nos à composição destas h u m i l des anotações de
M etodologia cien tífica apl icada à el aboração de trabalhos in­
telectua is.
Estas notas inspiraram-se quase exclusivamente n a obra do
Revmo. Padre J o s é d e O u i b e r t S . J . , há anos professor desta
mesma discipl i n a na U n iversidade G regoriana de Roma : Breves
Adnotationes in Cursum Metlwdologice Generalis.
Aplicadas com c u idado, poderão servi r principal men te aos
nossos seminaristas.
A caridade do l e i tor, e o esfôrço do professor a o expl icar
êstes princípios de Metodologi a aos seus alunos cobrirão p l ena­
mente as l acunas e deficiências inevitávei s do presente artigo.
Introdução.

1. Metodologia.
Método designa o processo racional empregado n a pesquisa
e demonst ração de u m a Verdade, " a d consequendum f inem in­
ten tum . "
Metodologia, portanto, é a Ciênc i a d o M étodo q u e s e deve
emprega r para a conquista ela Verdade Filosófica, Religiosa, H is­
tórica, e Experi ment a l , ou C i ent ífica.
A M etodol ogia pode ser geral ou espec i al. Geral, q u a n do
aplicável à Ciência em geral e à el aboração de qualquer t rabalho
intelectual . Especial, quando pecu l i a r a u m a determ inada ciência
ou trabalho.
2 . Trabalhos Científico-Intelectuais.
D enom inam-se " trabalhos i n telectuais", em oposição aos tra­
balhos manuais ou meramente materiais, aquêles nos quais se
14 Z i o n i, Metodologia Aplicada

desenvolvem predominantemente as facu ldades espirituais do


homem.
f=:stes podem ser estritamente científicos, e de simples vul­
garização ou exposição científica.
1 ) Trabalhos científicos.
- São rigorosamente científicos os
trabalhos que manifestam imediato contato do autor com as fon­
tes documentárias ou com subsídios necessários à elaboração do
mesmo.
Os trabalhos científicos podem ser considerados sob dois
pontos de vista: dos seus elementos essenciais, e do seu aparato
ou acabamento científico.
Quanto aos seus el ementos essenciais, consideram-se cien­
tíficos os trabalhos nos quais o autor entra em contat0 direto
com as fontes e pessoalmente as submete a rigorosa crítica, de­
duzindo, em seguida, oportunas conclusões pessoais.
Quanto ao seu acabamen to científico, consideram-se tais,
únicamente, os trabalhos que, além do contato com as fontes, s ão
redigidos de acôrdo com as regras e princípios da Metodologia
Científica aplicada à elaboração dos mesmos.
2) Trabalhos de vulgarização científica. São trabalhos de
-

mera divulgação ou exposição científica todos aquêles que, em­


bora redigidos segu ndo os preceitos rigorosos da metodologia
geral ou especial, n ão revelam, contudo, um contato imediato ou
direto do seu autor com as fontes e documentos de que acim a
falamos.
3. Metodologia dos Trabalhos Científico�.

Além das noções fundamentais da Lógica, a el aboração de


um trabalho intelectual de cunho científico deve passar, neces­
sàriamente, pelas três fases segu intes :
fase inicial, de escolha do assun to e preparação científica
do materi al a estudar, mediante a formação do competente " Re­
pertório Bibl iográfico" ;
fase intermédia, de estudo cuidadoso e inteligente do material
col igido ;
fase final, de redação definitiva do trabalho.
Revista Eclesiástica Brasi l e i ra , vai. 5, fase. 1, março 1945 15

J. Fase Inicial.

§ t. Escolha do Assunto.
Na es col ha do assunto para o trabalho deve-se determinai·
be m o campo ou ramo da C iência, dentro do qual será fixado
0 te ma especial q u e s e tem em vista desenvolver.

4. Normas Teóricas, para a Escolha do Assunto.


Na determ inaç ão do tema do t rabal ho convém considerai·
sem pre :
a inclinação do autor, como principal elemento de êxito ;
a sua capacidade, ou apti dão para u m conveniente d esen­
vo l vimen to do tema escol h i do ;
a possibilidade externa d e atingir tal obj etivo, sob o ponto
de vista dos meios ou subsídios n ecessários a emprega r ;
a utilidade próxima o u remo ta do trabalho, visando sempre
o triunfo da I grej a, o b em das almas e a maior glória de D eu s ;
a oportunidade dos temas, sob o ponto de vista do tempo,.
l u gar e pessoas.
5. Normas Práticas.
P ráticamente, s i gam-se as segu i n tes orientações, na con­
fecção de um trabalho científico :
a ) j amais abalançar-se, por s i só, a u m trabal ho de exten­
são apreciável, antes de completados os próprios estu dos sôbre
o assunto ;
b ) recorrer, em geral, a um es p eci a l i sta n a matér i a para a
qual tem i nicialmente vol tadas as suas p ropensões naturais ;
c ) segu i r à risca a s u a orientação, m esmo qu ando n ão se
vê cl aramente a razão d e ser da mesm a ;
d ) tomar, para o trabalho, u m tema restrito e bem de­
term inado.
§ 2. Preparação do Material de Estudo.
6. Observação Geral.
Escol hido o tema do trabalho, é p reciso, antes de m a i s n ad a,
conhecer o estado da Ciência relativamente ao mesmo, sej a para
não repetir inutilmente trabalhos já feitos por outrem, s ej a para
evitar as i mp recisões científicas dos que, ignorando o estado
atual d a Ciência sôbre determi n ado ass u n to, apresentam, em
nome dela, concl usões e princíp ios q u e ela já n ão mais aceita
o u defend e .
16 Z i o n i, Metodologia Aplicada

Para i sto, faz-se m i ster situar o tem a do trabalho dentro do


q ua d ro geral das C i ências, e a segu i r fam iliarizar-se com êle,
medi ante a consulta - superficial, embora - de enciclopédias,
manuais, obras gerais ou monografias sôbre o tema escolhido
e a fins .
I s to p o d e ser feito de dois modos : material e formalmente.
Materialmente, compulsando as obras existentes sôbre o
tema proposto e congêneres, a fim de mel hor as conhecer e acos­
tmnar-se a manuseá-las com presteza.
Formalmente, lendo " per summa capita " , depois do referido
manuseio, tudo o que mais de perto possa i nteressar ao traba­
l ho, contentando-se, porém, no momento, de apenas assinal a r os
arti gos, cap ítulos, passagens ou mesmo os l ivros que mais pode­
rão serv i r e que depoi s poderão ser estudados mais demora­
damente.
7. Normas Prdticas.
P ràticamente,
a) c olija-se, n a medida das próprias possibil i dades, tudo o
que trata d i retamen te do tema escolhido ou l he possa re a l m ente
ser útil, m u ito embora mais tarde sej a preciso fazer um t r abalh o
de seleção ou de expurgo.
b ) evite-se perder tempo precioso. P a r a i s to, consultem-se,
primei ramen te, as obras q u e estiverem ao p róprio alcance, e só­
men te depois as demais.
Em ambos os casos, s iga-se a segui nte o rdem : l . º enciclo­
pédias; 2 .º manuais cien t í ficos ; 3.0 obras gerai s ; 4.0 monografias ;
5.º a rti g o s de r e v istas ; 6.0 a r t i g os de j o rnal e escritos esparsos.
c) tomem-se as indicações o u referências úteis ao t r abalho ,
o u pa ra ul teriores estudos, semp re em f.ichas de tamanho redu­
zido. Tenha-se o cui dado de reprod u z i r nas mesmas os dados
com p l eto s sôbre a obra, autor, data, lu g a r d a edição e página,
a fim de e v i t a r futuras e f a s ti d i o s a s voltas às m e s m a s, com enor­
me p e r d a de tempo.
d ) dar sempre gra!lde importância, n a confecção do elenco
b i b l iográfico, às O b ra s Fontes ou repe r t óri os de fontes, vulgar­
men te denominados "documentos" ou "documentários". E n tre es­
tas, a tít ul o de e x e m plo pod e-se citar a Patro log i a Gr e ga e La­
tina de Migne ( PO e PL respecti v amen te ) ; o Bul ário Pontifício ;
os Atos dos Concíl ios ; os A tos da Santa Sé; as Fontes do Di r eit o
Canôn ico, etc.
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1, março 1945 17

li. Fase Intermédia.


§ 1. Utilização do Material Bibliográfico.

C ol ig i do o Materia l B i b l iográfico necessário à elaboração do


trabalho, faz-se m i s ter estudá-lo cui d adosamen te, mediante uma
leitu ra atenta, acom panhada de uma intel igente e bem ordenada
confecção de apontamentos ou notas subsidiári as.
8 . Leitura dos Docum entos.

A lei t u ra dos docu men tos que fazem parte do elenco biblio­
gráfico deve ser fei ta com todo o c u i dado, a f i m de evitar qual­
quer d isperdício de tempo e simu ltâneamente, ele coisa alguma
q ue possa valer ao trabalho.
A -fina l idade desta lei tura será, portan to, perm i t i r a assmu­
Jação fácil daqu ilo que m a i s convém ao trabal ho, su bmetendo a
u ma crítica racional as passagen s escolhidas que fo rem passíveis
de crítica.
Para ser verdadeira m ente útil, esta l ei tura deve ser ordenada
e atenta ou atil•a.

Leitura ordenada. Para ser úti l, a leitura elos documen­


-

tos deve ser orden ada sej a sob o pon to de vista dos livros que
cons tituem o Material Bibl iográfico, sej a sob o ponto ele vista da
matéria nêles conti da.
1 ) quanto aos livros, observem-se as seguin tes regras : a)
ler primeiramente as obras m a i s recen tes e que mel hor tra tam
do assu n to, a fim de evi tar a i n u t i l idade de lei turas repetidas
sem provei to, sôbre u m a mesma coi sa ou f atos i dênticos ; b) pas­
sar, em segui da, às obras m a i s antigas, para veri fi car se ainda
h á algum a coisa ele u ti l i zável para o traba l ho ou pel o menos
ainda n ão consi derada pelos modernos ; c ) e m ambos os casos,
da r a cada livro a i m p ortância que m erece, relativamente ao tema
escolhi do. "Discam u s cursim legere ea q u re sunt m i n oris momen­
ti; attente e t i tera ta l ection e, si opu s est, qu re m a ioris valori s
sun t." 1
2) quanto à matéria dos livros, ten ha-se em men te o segu i n­
te princípio : A leitura sómente será boa e p rovei tosa qu a n do
feita, na m edi da do poss ível, em ordem lógica "juxta ordi nem
quo una qurestio ab alia penclet, i n cipien do ah i is qu re postea
supponencla sun t ." 2

1) D e O u i bert : Breves Adnotationes, pág. 36.


2) D e O u i b er t : id., ib.
18 Z i o n i, Metodologia Aplicada

Leitura ativa. - A leitura é ativa quando o leitor ana­


lisa e critica os argumentos, à medida que vai lendo, ou emite
j uízos pessoais sôbre o valor dos mesmos e sôbre as razões ex­
postas, a fim de melhor firmar na inteligência e na memória
aquilo que tiver maior importância para o trabalho.
Esta leitura supõe a confecção de notas que mais tarde po­
derão servir na redação definitiva do trabalho.
Para isso, guarde-se o presente princípio: "Plura potius ad­
notanda quam pauciora; melius enim est aliqua collegisse, postea
nori usurpanda, quam unum omisisse postea necessarium nec am­
plius inveniendum. Eo magis quod facile haud pauca prius, an­
tequam intimius qurestionem scrutaverimus, minoris momenti vi­
debuntur, qure postea magni facienda apparebunt." 3
9. Notas ou Apontamentos.
A utilidade da leitura supõe, outrossim, a confecção de apon­
tamentos ou notas bem redigidas e ordenadas. Notas apanhadas
e conservadas a esmo são notas perdidas.
A redação das mesmas visa a futura elaboração do trabalho.
Donde o esmêro na sua escolha ou qualidade, redação e clas­
sificação.
a) Qualidade das notas. - Os apontamentos coligidos no
curso da leitura devem ser :
adaptados diretamente à finalidade do trabalho : ( artigo para
jornal ou revista; aula; conferência ) ; bem especificadas ou limi­
tadas ao âmbito e questão visada no trabalho; de primeira mão
e, enqu anto possível, não repetidas.
b) Redação das notas. A redação das notas supõe três
-

questões que exporemos em ordem : onde recolher as notas col i­


gidas ; como redigi-l as; de que modo classificá-las.
1) Onde c o n s e r v a r os apontamentos. - Outrora era
mui geral o uso de cadernos. Dados, porém, seus manifestos incon­
venientes, utilizam-se, hoj e em dia, tanto as fôlhas soltas de diver­
sos tamanhos, como pequenos retângulos de papel-cartolina (fi­
chas) de diversas dimensões.
Nos países latino-americanos usam-se as medidas oficiais es­
tabelecidas pelo Instituto Bibliográfico Internacional de Bruxelas)
a saber :
1 2,50 cm X 77 ,50 ou 5 poleg. X 3 pol .

ª) D e G u ibert : id., ib.


Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1, março 1945 19

15,00 cm X 12,50 ou 6 poleg. X 4 pol .


20,00 cm X 15,00 ou 8 poleg. X 5 pol .
15,00 cm X 25,00 (papel de carta)
21,00 cm X 26,00 ( arquivo )
22,00 cm X 28,00 (protocolo)
Pràticamente,
a) as fichas pequenas (5 X 3) reservam-se para anotações
bibli ogr áfi cas, índices, vocábulos, concordâncias e breves textos
de tran scrições ;
b) as fichas médias (6X4) utilizam-se para a redação de
n otas orient adas diretamente para a pesquisa científica ;
c) as fichas grandes (8 X 5 ) empregam-se em notas e trans­
criç ões de textos regulares ;
d) as fichas maiores (papel de carta, arquivo ou protocolo)
servem para transcrições maiores e para a redação defini tiva do
trab alho.
2) Como r e d igi r as notas. - Na redação ou confecção
das notas tenham-se em vista os seguintes princípios:
a) escreva-se em cada ficha unicamente uma nota ou pen­
samento, de modo abreviado e perfeitamente inteligível e claro ;
b) cada ficha deve ter sempre seu respectivo título e sub­
título que lembrem a finalidade da anotação nela conservada ;
c) para isso, util ize-se quanto possível sõmente u m lado da
ficha ;
d) quando uma mesma nota serve a diversas partes distin­
tas do trabal ho, aconselha-se a fazer diversas cópias da mesma
ficha, rubricando-as com títulos diferentes, ou então fazer fichas
remissivas, constituídas�lmicamente de títulos novos com referên­
cias ao título da primeira ficha ;
e) Além de tudo isso, cada ficha deve ser quanto possível
completa, indicando-se nela o lugar de onde foi extraída a nota,
e empregando para essa indicação, têrmos claros e distintos, má­
xime quando se trata de transcrições ad verbum .
3) C 1 a s s i f i c a ç ã o das notas. - N ã o é possível indi­
car-se de modo geral um método perfeito e o bjetivo para a or­
denação e classificação das notas de leitura, porquanto o caráter
subjetivo do trabalho intelectual exige uma classificação aj ustada
perfeitamente à natureza e à capacidade intelectual de cada
escritor.
2•
20 Z i o n i, Metodo logia A plicada

Apenas enumeramos alguns dos principais métodos mais em


voga, a fim de que possa cada qual escolher aquêle que mais
l he aprouver :
método alfabético de títulos ;
distribuição cronológica o u lógica dos temas ;
método de distribuição mista ( lógica e alfabética ou alfa­
bético-lógica, v . gr., o " D icionário-catálogo" ou o índi ce alfa­
bético das grandes enciclopédias universais.
N o t a.
- E' útil e aconselhável conserva r em notas sepa­
radas as hipóteses, planos, soluções ou conclusões que vierem
à mente no curso do trabal ho.

Ili. Fase PinaL

§ 1. Introdução Geral.

1 0. Normas Gerais.
A redação definitiva elo trabalho pode-se fazer de diversos
modos, segundo as diferentes finalidades do mesmo. Donde as
várias espécies de trabalhos científicos, sej a quanto à forma, sej a
quanto ao tema desenvolvido :
a ) q u anto à f o r m a e publ icidade, os t rabalhos podem
ser :
Livros de estudo ou vulgariz ação ;
Artigos para Coleções, Enciclopédias, Revistas ou j ornais ;
Conferências e aulas i naugurai s ;
Recensões bibl iográficas o u apreciações e m geral ;
b) q u an to ao t e m a escolhido, serão :
estudos ou ensaios
bibliografias
biografias
monografias.
1 1 . Normas Especiais de Redação .
A redação de qualquer trabalho científico deve, o u t rossim,
revestir-se das segu i n tes características : seriedade, atenção, uti­
l idade e precisão.
Seriedade. O trabalho deve sempre traduz i r acentu ado cunhe
de seriedade i n telectual, que se oponha à leviandade de quem
sem nenhuma compostura e autoridade, versa sôbre assuntos que
desconhece ; ou critica, a esmo e sem base, tudo quanto escri­
tores de renome escreveram sôbre o tema em questão.
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1, março 1 945 21

Atenção. Além disso, um trabalho sério deve também refleti r


0 cu id ado do escritor em manusear e examinar as fontes e de­
mais sub sídios que serviram de base para o seu estudo.
Utilidade. A utilidade do trabalho deve ser relacio nada não
tan to com o proveito pessoal do escritor quanto com o bem in­
telectu al e moral dos leitores, aos quais se destina.
Precisão. O trabalho científico supõe, finalmente, muita or­
dem e precisão na exposição das i déias e argumentos, evitando
se m pre os têrmos ambíguos ou menos corretos.
§ 2. Redação Definitiva do Trabalho.
1 2. Observação Geral.
N a redação definitiva de um trabalho científico, máxime
quando de certa importância, convém atender esmeradamente aos
seguintes pontos, dos quais di remos uma palavra em particular :
introdução, corpo do trabalho, conclusão bibl iográfica, citações,
notas aos textos e índices finais.
1 3. Introdução.

N ão é recomendável começar "ex abrupto" o trabal ho, sem


uma palavra de explicação das razões que o motivaram e uma
introdução sumária e orientadora sôbre o assunto.
a) Prefácio. - O prefácio ou proêmio usa-se, geralmente,
nas obras de maior monta e contém, normalmente, a apresenta­
ção ao públ ico :
1 ) � os dados biográficos principais do autor ;
2 ) do fim proposto na el aboração do trabalho ;
3 ) das qualidades que devem ter os leitores aos quais o tra­
balho é destinado.
b) Introdução . I ndependentemente do prefácio, aconse­
-

lha-se, para qualquer trabalho, uma pequena i n trodução que sirva


para orientar os leitores sôbre o assunto versado no mesmo.
Por isso, a introdução deve limi tar-se unicamente à apresen­
tação do s dados obj etivos estritamente necessários para uma com­
preens ão fácil da obra. " Ponenda sunt in introductione qure ab
al i is accep ta in memoriam revocan da sunt et prre oculis ponenda
antequam in corpore l ibri aggred ianuir nostram propriam i nqui­
sitione m scienti ficam . . " 4 .

4) D e G u i ber t : pág. 79.


22 Z i o n i, Metodologia Aplicada

1 4. Corpo do Trabalho .
A redação do corpo do trabal ho deve ocupar as maiores
atenções do escritor, sej a quanto à ordem e disposição da ma­
téria, sej a quanto à apresentação dos argumentos, sej a quanto
. ao estilo .
.a) Ordem e disposição da matéria.
1 ) Clareza. - A nota predominante de uma boa expos1çao
·da matéri a é a clareza obj etiva, sem a qual o trabalho perde a
sua razão de ser, que é servir à intel igência dos nossos seme­
lhantes. Obtém-se :
evitando as repetições inúteis, proven ientes da disseminação
aqu i-ali, pelas várias partes do trabalho, das mesmas questões,
argumen tos e idéias ;
observando ordem e dependência lógica entre as várias par­
tes do estudo, muito embora a ordem defini tiva geral somente se
possa estabelecer no curso do trabalho ;
seguindo, pràticamente, como norma inicial o método se­
guinte : 1 .0 expor o estado d a questão a estudar ; 2.0 apresentar
sumàriamente as razões opostas à mesma ; 3.0 sumariar as sen­
tenças relacionadas com o assunto ; 4.0 expor os · principais ar­
gumentos em favor da tese escolhida ; 5.0 refutar as dificuldades
de maior importância, que porventura existirem contra a tese.
2) Divisão .
- Para a boa disposição da matéria, exige-se,
outrossim, uma bem pon derada divisã-0 das várias partes do tra­
balho, primei ramente em capítulos ou secções ; a seguir em artigos
( parágrafos ou al íneas ) e finalmente em núli1eros, sej a no texto,
sej a na margem. " Fiat clara divisio, secundum diversa� pa rtes
argumenti ; et singulis partibus prremi ttantu r tituli, ut lector fa­
cile sciat de quanam re hic e t nunc agitur."
Para que a divisão possa realmente ser t'ttil aos leitores
é necessário :
a) acompanhar gràficamente - pela mudança dos caracte­
res - as partes do trabalho ;
b ) conservar sempre rigoroso equ i l íbrio entre as várias par­
tes da obra ;
c) evitar o exagêro de uma intrincada e sufocadora divisão
e subdivisão de partes e subpartes.
b) Apresentação dos argumentos. - A apresentação dos ar­
gumentos e conclusões pessoais do autor deve ser sólidamente
documentada, si ncera e lógica .
._ .
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 23

So lidamente documentada, evitando referir coisa alguma gra­


t uita men te, s em as devidas provas, argumentos ou pelo menos
te ste m unhos de autoridade s ;
Lógica, r elatando sempre, em primeiro lugar os argumentos
e ra zões mais val iosas, cuidando de não as desvalorizar, mesclan­
do-as de menor autoridade ;
Sincera, ou sej a, apresentando as razões e argumentos sem­
pre tais como êles são, a saber, segundo o grau de certeza que
p ossu em : hipóteses, meras probabilidades longínquas, opiniões
bem fundadas , certezas, etc.
e) Estilo. Forma literária. -Sob o ponto de vista do es­
tilo e form a l iterária, os trabalhos científicos devem ser : equili­
bra dos, sempre muito simples, corretos e dotados de escrupulosa
propriedade de têrmos.
Equilibrados, evitando-se os excessos que tanto prej udicam
a cl areza, quer sej am excessos no emprêgo de figuras de lingua­
gem, quer na total ausência das mesmas.
Simples, claros ou incisivos, evi tando os j ogos de imaginação
tão próprios das obras estritamente literárias e de ficção.
Corretos e completos, tendo em vista os leitores que não fi­
zeram os estudos de pesquisas realizados pelo autor, e que por
isso mesmo necessitam de uma iniciação resumida e bem clara
sôbre o mesmo.
Próprios, máxime quanto ao significado das palavras e têr­
mos técnicos, evitando, quanto possível, os neologismos não ex­
plicados e o emprêgo de palavras antigas dotadas de novos e
i néditos significados.
1 5. Conclusão.
E' de grande vantagem concluir sempre os trabalhos científi­
cos de certa extensão, com um pequeno e primoroso resumo sej a
no fim de cada trabalho, sej a depois de cada capítulo.
Nestes resumos tenha-se o cuidado de salientar as p t incipais
conclusões. "Sic enim, qure antea dispersa et disceptationibus per­
m ixta erant, clarius apparebunt, inter se connecti poterunt." 6
Seria, entretanto, u m grave defeito de metodologia, valer-se
dos resumos e conclusões, para acrescentar ao trabalho artigos e
documentos que não pu deram ser exibidos no texto. Para isto
util izem-se os apêndices ou aditamentos no fim da obra.

5) D e Ouibert : pág. 87.


24 Zio n i, Metodologia Aplicada

§ 3. Complementos Necessários do Trabalho ClentiHco.


Além, e fora da redação própriamente dita, do labor cien­
tífico, faz-se mister completar o trabalho com a Bibliografia
usada, as Citações elucidativas e notas complementares, bem co­
mo os l ndices e Suplementos ou Apêndices.
este aparato complementar valoriza sobremodo o trabal ho
pessoal do autor, firmando-o no valor dos documen tos usados
e das autoridades invocadas.

1 6. Bibliografia.
A Bibl iografia, que aliás não se deve confundir com as ci­
tações, compreende todos os livros e documentos usados ou ape­
nas consul tados n a elaboração do trabalho. Con seguintemente
abrange :
1 ) o el enco das fontes usadas ( man uscri tos, impressos, mo­
numentos li terários, fatos col igidos, etc. , etc. ) .
2 ) o elenco bibl iográfico própri amente dito relacion ado di­
reta e estritamente à questão estudada, distinguindo-se, porém :
1 .0 as obras que diretamente se referem à questão, porque es­
pecializações sôbre a mesma, e que sempre devem ser di spostas
em ordem cronológica, e acompanhadas de uma ligeira apreciação
ou crítica ; 2 .0 as obras que apenas servi ram como elementos sub­
sidiários, e que devem ser dispostas sempre em ordem alfabética.
Em ambos os casos, o lugar mais aconselhável para as in­
dicações bibliográficas é o fim da obra.
Convém acrescentar, no princípio do trabal ho, também o ín­
dice das abreviações e siglas ou sinais convencionais usados no
correr do trabalho, e dispostos em ordem alfabética.
Note-se que êste índice nunca deve acompan har a Biblio­
grafia, para não se confu ndir com ela.
17. Citações.
As Citações podem ser de duas espécies : pequenas trans­
crições de textos, ou simples referências aos lugares de onde foi
ti rada uma idéia ou argumentação.
Num e noutro caso, as citações devem ser, quanto possível ,
completas e suscep tíveis de uma fácil verificação, indicando
sempre :
a) o titulo completo da obra, se possível no original ;
b) o capitulo, parágrafo, página e números marginais, se
existi rem ;
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 25>

c) a s i n d icações bibliográficas do volume, a saber : au tor,


ed ito r, luga r e tempo d a edição, etc.
Nas citações reiteradas evitem-se, o mais possível , as ex-­
pr ess ões aliás tão gen�ral izadas e tantas vêzes inúteis : "op. ci t . "
e "loc . cit . " . Substituam-se p o r u m número remissivo à t . n ci ­
t ação d e determinada obra.
O lu gar próprio das citações é, em geral , o fim de cada pá-­
gi na, num eran do-as tôdas com uma única nu m eração seguida,
pa ra to do o trabalho, i ndepen den temente dos diversos capítulos:
d a ob r a.
1 8 . Notas ao Texto.

Não raro, ao l ad o d e pequenas transcrições e citações, é


preciso acrescentar algumas notas elucidativas ao texto do tra­
balho. Nestes casos, as normas seguidas mais geralmente podem
compendiar-se no seguinte :
a ) as citações mais longas, transcrições de certa importân­
cia e pequenas di gressões costumam-se colocar n o fim de cada
página, ao l ado das citações, porém p recedidas pela indicação ::
"Nota'' ;
b ) as notas que ultrapassam meia pági n a colocam-se n o fim
de cada capítulo, ou n o fim de tôda a obra, limitando-se o autor
a fazer apenas u m a pequena referência remissiva no fim da_
página.
19. A pêndices e Suple m entos.

Assim como as notas de maior extensão, também os apêndi-­


ces in dependentes, bem como as transcrições de documentos im­
portan tes convém sej am feitos no fim do trabalho, porém i n de­
pendentemen te das Notas de que acim a falamos.
Q u anto a êstes apêndices e transcrições, é conven k:nte se­
gu ir o segu inte conselho :
" 1 ta textum tu u m scribe, ut sine no tis Iegi et i n telligi q ueat ;
nihil i n notis scribas quod textui contradicat vel etiam sit maioris
momenti ; not;;e non sunt catacumbre i n quibus repanas 01nnem
laborem prrevium a te confectum ( sed ea tantum ponenda qure­
Iegentibus utilia esse possu n t ) ; nec i n notis ponendum est quod
in textu oblitus es, nec eas conficias post completum opus tuum ;
( m áxime quanto aos apêndices) eas panas in ipso loco in quo
utiles s unt." 8

6 ) F o n e k, N. 82.
26 Z i o n i , Metodologia Aplicada

20. lndices.
" P rreponatur in pagin a separata index rerum, i . e., tituli par­
tium in quas divisum est opus."
A necessidade dos í ndices e a utilidade apreciável que tra­
zem aos leitores lhes m ereceu o título de "sinais de u rbanidade" .
" l ndices signum dicti sunt urbanitatis auctoris erga lectorem, et
bene facti, m u ltum augent utilitatem et i nfluxum libri ; unde mm­
quam ex toto omittendi ." 7
Os índices podem ser feitos de diversos modos, segundo a
í ndole do trabalho e do seu autor :
a ) í n dice geral, segundo a ordem dos capítulos ou divisão
natural do trabal ho ;
b ) índice alfabético de matéria, pessoas, lugares, palavras,
l ocuções ou fórmu las ;
c ) índices das citações, com i n dicação da origem das mes­
mas ( S . Escritura, Patrística, etc. ) .
Nos diversos índices convém i ndicar, p ràticamente : primei ro
as páginas e os n ú m eros marginais, bem como os capí tulos. Acon­
sel ha-se sej am feitos sempre pelo mesmo autor do trabalho.

7) D e O uibert : pág . 87.

O Protestantismo
no Momento Atual Brasileiro.
Pelo P a d re A g n e 1 o R o s s i ,
D o Secretariado Nacional d a Defesa d a F é e Vice-Di retor d as F a c u l d a des
Católicas Campinei ras, C a m p i n as, Estado de São Paulo.

P retendo fornecer ao leitor uma visão panorâmica e atual do


p rotestan tismo no B rasi l . Cingir-me-ei, por conseguinte, aos as­
pectos principais da questão. 1 Deixo de considerar também a ori­
gem do protestantismo em nossa Pátria, aliás uma história n ada
fouvável e honrosa para as sei tas do l ivre exame, em vista das
atitudes corsárias e dos processos dos primeiros conquistadores
do Brasil " ao Evangelho" .
1 ) Para um conhecimento das seitas no Brasil poderá servir o meu
Diretório Protestante no Brasil (Filial do S. N. D. F., Caixa postal 2890,
S. Paulo. Rua Quintino Bocaiuva, 1 9 1 , 3.0 andar) .
Revista Eclesiástica Brasileira, vol . 5, fase. 1 , março 1945 27

Por isso, passemos imediatamente em resenha o protestan­


ti sm o de hoj e.
Se o leitor tivesse diante dos olhos um mapa do Brasil, com
as se des das igrej as protestantes assinaladas : as de influência
l u tera na e alemã com um sinal azul e as outras, em geral de in­
fluência norte-americana, marcadas com tinta vermelha, veria logo
que a mancha azul tomaria os Estados sulinos - Rio G rande do
Sul, Santa Catarina e parte do Paraná - e divisaria as pintas
vermelhas, muitas delas, já no Rio Grande do Sul, umas tantas
em Santa Catarina, numerosas no Paraná, mais de mil em São
Paulo, concentradas no Distrito Federal, muito numerosas no Rio
de janei ro, E spí rito Santo, sul e centro de Minas, mas sempre
existentes em todos os Estados da Federação, principalmente mar­
geando o litoral e ao lado das estradas de ferro ou de rodagem.
I sso já forn ece uma primei ra divisão : protestantismo de ori­
gem alemã e protestantismo principalmente de procedência norte­
american a.
Ao todo, espalhadas pelo Brasil, são umas quatro mil igre­
jas, com um contingente de um milhão mais ou menos de pro­
testan tes.
Os de influência alemã são luteranos, em geral. Atingem uns
t rezent o s e tantos mil, pertencentes a Sínodos diferentes.
Sua situação, hoj e em dia, com a guerra contra o nazismo
{• particu la rmente del icada. Não por serem alemães ou ao menos
descendentes de alemães. Mas porque os Sínodos l uteranos ale­
mães tom aram franca e oficialmente a defesa e a d ifusão dos
prin cípios nazistas. Muito mou rej aram para expandi-los entre
nós, criando escol as e grupos de j uven tu de, a serviço da cruz
gamada.
Quem desej ar obter mais inform ações a respeito leia o livro
A 5." Coluna n o Brasil do Tte. Cel . A u r é 1 i o d a S i 1 v a P y,
Chefe de Polícia do R io G rande do Sul ( Ed itôra da Livraria do
Globo, Pôrto Alegre ) . Os depoimentos apresentados no impres­
sionante l ivro valem por um documentário negro da atitude po­
l í tica, tendenciosa e anti-patrió tica de pastôres luteranos, entre
nós.
Afinando pelo mesmo diapasão e confirmando P y, surgiu,
em Santa Catarina, o Dr. 1 v o d A q u i n o, Secretário da Edu­
'

cação, com o seu p recioso testemunho no livro : Nacionalização


28 Ross i, O Protesta ntismo no Momento Atual Brasileiro

do Ensino. Aspectos Políticos. (Edição da Imprensa Oficial do


Estado de S. Catarina. )
Do ponto de vista sectário, convém ressaltar que os lutera­
nos alemães não são proselitistas fanáticos, embora tenham ( ou
ao menos, antes da guerra, mantivessem ) escolas próprias para
educar seus filhos nos princípios luteranos, impedindo assim que
abandonem os cam inhos rel igiosos e tradicionais de seus pro­
genitores.
Esta ausência de prosel itismo dos luteranos alemães que,
além disso, se conservam respeitosos e até mesmo favorecem a
construção de igrej as católicas ou prestigiam suas festas públi­
cas, como quermesses, leilões, etc., deu ensej o a que se formasse,
nos Estados, onde predomina o luteranismo germânico, uma at­
mosfera de, não apenas condescendência, mas mesmo de acata­
mento e simpatia para com tais protestantes. Em muitos casos,
predomina o indiferentismo religioso prático.
Os outros luteranos, de influência iânqui, são bem diferentes.
Pro sel itistas, atacam ostensivamente a I grej a Católica como se
pode ler freqüentemente no "Mensageiro Luterano" .
Percorramos, agora, os principais núcleos protestantes que
receberam ou ainda recebem orientação de grupos congêneres
cios Estados U n i dos do Norte.
Teremos inicial mente mais de l 00 mil .presbiterianos, pres­
cindindo de suas subdivisões (cristãos presbiterianos, independen­
tes, conservadores, cristãos) . Tiveram, no comêço, seu foco de
i rradiação em Campinas ( S . Paulo) , onde funcionou a primeira
escola m ission ária da América Latina - o Colégio I n ternacional,
depois Seminário P resbiteriano e hoj e Facul dade de Teologia.
Dêsse estabeleci mento saíram grandes vultos do evangelismo
b rasileiro .
Do seio do presbiterianismo, mercê d a operosidade do Rev.
Miguel Rizzo Júnior, brotou o I n stitu to de Cultura Religiosa, de
feição interdenominacional, visando agrupar os intelectuais no
estudo e na prática dos princípios evangélicos não-sectários. O
I nstituto demonstra um esfôrço para transplantar para o protes­
tantismo os métodos e a técnica da Ação Católica. Mister se faz
reconhecer que o 1 . C . R . e sua revista " Fé e Vida" têm tido
boa aceitação em certas classes de intelectuais mas que, em as­
suntos religiosos, l aboram em ignorância supina. O 1 . C . R . está
agindo ativamente e vem se desenvolvendo rà p idamente, aumen-
Revista Eclesiástica Bras i l e i ra , v o l . 5, fase. 1 , m a rç o 1 945 29

t a n do o n úmero de seus associados, m an tendo uma secção de


pr op aga n d a das mais operosas pel a divul gação d e fôlh a5 volan­
tes , fo l h etos e de conferências radiofônicas. E' um a verda deira
" Ação Protest ante" em desafio permanente à nossa incipiente
Ação C atólica.
Vo l t a ndo, porém, às falanges presbiterianas n o temos que h á
do is a nos quase estou rou um c i s m a entre o presbiterianismo d o
N orte do Brasil e o do C e ntro, po r causa da consagração das
d i ac oni sas e do nome de " cristãos" p resbiterianos. O N orte es­
tava dis posto a rompe r co m o restante p resbiteria n i smo n acio­
nal , caso não fôsse revogada ou a o menos suspensa a decisão
do ú l timo Concílio Supremo ( assembléia máxima da I grej a ) , que
teve lugar em B otucatu, aceitando n o serviço divino as mulheres
( d iaconisa s ) . O s presb iterianos do S u l e d o Centro recuaram
e acederam . . . pedindo, em compensação, aos nortistas fôssem
mais compl acentes e condescendentes com a adição de " cristão"
ao têrmo histórico " presbiteriano" . Tudo s e resolveu, não, po­
rém, sem um p ro testo do prestigioso j o rnal " N o rte Evangél ico " .
Nos · setores d o presbiterianis m o independente as coisas n ã o
correram a s s i m p acatamente. A l i á s a respeito dos p resbiterianos
independentes escreveu recen temente " O jornal B atista" ( 24-2-
44, pág. 3 ) as seguintes expressões : "é o povo menos abençoado
de tôdas as denominações do B ras i l . Está cindido em três gru­
pos. E' a primeira denom i n ação evangélica a admitir o modernis­
mo no seu m i n i stério e sofrer as conseqüências. E' a mostra do
que resu lta q u a n do o s pri ncipais m i nistros de um p ovo degene­
raram em secos educadores m u n d a n i z ados e só dedicam ao seu
mi ni s tério o s resti nhos do seu tempo e energ i a . "
E' sabido q u e , em 1 903, o Rev. E d u a r d o C a r 1 o s P e -
r e i r a se desl i go u d a I grej a P resbi t er i a n a e fundou a I g rej a
Presb i t e r i a n a I ndep e n dente, porque vi a i ncompatibilidade ( e nes­
te par t i c u l a r ê l e s e colocou contra todos os outros protestantes)
entre a crença evangél i c a e o j uramen to maçônico. P resentemen­
te pastôres presbiterianos i n dependentes deixaram sua I grej a ale­
gando ter já caducado a tese de E duardo Carlo s Pere i r a .
Recentemente O t o n i e 1 M o t a, com a rgumentos f i lológi­
cos, veio trazer s u a contribuição para o grupo modern i s t a e l i ­
beral no p resbi teri anismo. O precl aro p rofessor defende a n ão­
ete rn i d ade das penas d o i nferno. Com outros, f u n dou a I grej a
30 R o s s i, O P rotestantismo no Momento Atual Brasileiro

Cristã de São Paulo. Como se vê, por esta simples re"ferência,


a novel I grej a é de caráter francamente racionalista.
Os batistas estão sentindo sua fôrça no meio protestan te.
Sempre se insurgiram, j amais perderam ocasião de vituperar a
Igrej a Catól ica no B rasi l . Basta abrir um número dos seus jor­
nais e percorrer seus artigos.
últimamente, confiados nas · 800 igrej as e cêrca de 80 mil
adeptos ( só na Convenção Batista Brasileira, sem contar os ba­
tistas independentes, os batistas teuto-brasileiros do R . G S . )
.

têm levantado a voz para reprovar práticas e doutrinas de outras


seitas protestantes, no Brasil , como, ainda há pouco, acenamos
tratando dos presbiterianos independentes e adiante menciona­
remos falando do anglicanismo.
Característica dos batistas é a atitude para com os Padres
apóstatas, pondo-os em evidência, glorificando-se de haver fica­
do com o que, na verdade, não merecia permanecer mais um ins­
tante na Igrej a Catól ica.
Os pentecostistas são, presentemente, os mais ardoro5os pro­
sel itistas. Em 1 932 eram 1 3 . 000 os " l íngua de fogo " , ao passo
que, em 1 943, suas fileiras já agrupavam 55 . 000 pentecostais .
O crescimen to é rápido. Os novos elementos são r.ecrutados, com
rel ativa facilidade, nas camadas obscuras, ínfimas e ignorantes
das outras sei tas p rotestantes ou do espiritismo.
O "jornal B atista" de 24 . 2 . 44, à pág. 3, estampou um qua­
dro demonstrativo do crescimento de algumas seitas no Brasil,
desde a publicação de The Republic of Brazil ( E . B r a g a - K.
O r u b b, com estatísticas de 1 93 1 ) até a divul gação do
Evangelical J-Jandbook of Latin America (com estatísticas de
1 938) , manifestando êstes dados :
Batistas . . . . . . 40 %
Congregacionalistas . 43 %
Luteranos Evangé l icos . . 1 6%
Metodistas . . . . . . . 47 %
I?entecostais . . . . . . . . 2 1 5%
Presbiterianos I ndependentes . 3%
A dventistas . . . . . . . . 70 %

E' notável o crescimento entre os pentecostistas.


Os pentecostais exigem, além do batismo de água, o do Es­
pírito Santo. Quem consegui r ser assim batizado, torna-se im­
pecável. Sei de um prêso, que cometeu as maiores imoralidades,
Revista Eclesiástica B rasileira, vol. 5, fase. 1 , m arço 1 945 31

e as atri bui blasfem amente ao Esp í r ito Santo, poi s qu e foi ba­
t i z ado no San to Esp írito.
As reu niões pen tecostistas, mescla de vozerio desconexo e
de pr omi scuid ade imoral, têm reclamado, não raramente, a in­
te rve nçã o pol icia l .
Os meto distas, como o nome indica e como seu atual B ispo
e é s a r D a c o r s o F i 1 h o está u rgindo, é uma seita bem or­
gan i za da e disciplinada. Algt� ns vêem no episcopado metodista
de Dac orso uma imitação da autoridade rom anista totali tária. O
ce rto é que César D acorso tem si do um excelente administrador,
m ere cendo assim ser reeleito ( pois o man dato episcopal é de
4 anos ap enas ) . Novamente volta à baila a questão : "um ou
t rês bis pos no Brasil ?" que, no último Concíl io, empol gou os
·

meios metod istas.


Os metodistas construí ram (freqüentemente com auxílios
vindos dos E E . U U . ) colégios esplêndidos como, por ex.,
G ranbery, Bennet, l sabel a Hendrix, Noroeste, Americano, Piraci­
cabano e outros no Rio G rande do Sul ( I nstituto Pôrto Alegre,
Centen á rio, U n i ão, I nstituto G inasial de Passo Fundo) .
G raças às manobras inteligentes do então pastor de Belo Ho­
rizonte, 1 s a í a s S u c a s a s, o metodismo apurou mais de 1 O
mil hões de cruzei ros com a venda de terreno, cedido outrora pelo
Govêrno Mineiro, na parte central da Capital Mineira, fronteiriço
à praça da J grej a de S. J osé dos Padres Redentoristas. Com êsse
dinheiro vão construi r um belíssimo templo em Belo Horizonte
e levar avante uma série de melhoramentos em tôda a Região,
particularmente a construção de residências pastorais.
Os metodistas têm sociedades bem organizadas. Estão cons­
t ru i n do os novos edifícios da Faculdade de Teologia, à margem
da Via Anchieta, a nova e maj estosa estrada São Paulo-Santos,
(· pretendem aí levantar a Cidade Metodista.

Os adventistas ou sabatistas têm seu quartel-general em San­


to André ( São Paulo ) , onde mantêm uma poderosa oficina tipo­
gráfica - a Casa Publicadora Brasileira - e o Colégio Ad­
ventista ( também Seminário) , numa bela, extensa e bem cuida­
da fazenda, com p rodução de gêneros e fabricação de doces, con­
servas, etc., não sómente para o consumo mas para a venda,
a fim de garantir a manutenção da obra sabatista.
As peculiaridades doutrinárias do sabatismo consistem na
gua rda escr upulosa do sábado e na crença da iminente vinda de
32
. R o s s i, O P rotestantismo no Momen to A tu a l B rasi l e i ro

J esus Cristo p ara j u lgar o mundo. E' essa expectativa que torn a
os adventistas fanáticos vendedo res ambulantes ( colportores ) da
palavra divina. E honra lhes sej a fei ta, são especialistas n a venda
avul sa de l i teratura e n a p ropagação de suas revistas, mormente
"Atal ai a" e " V i d a e S a úde" . Pudera ! Também êles têm u m cur­
:so especiali z ado, rigorosamente m i n ucioso, de colportagem . Por
.causa de sua lábia e dos seus arrazoados, vendem a bom preço
seus l ivros, ao contrário dos outros protestantes que distribuem
a l i teratura evangél ica p rosel itista a preço m ínimo, i n ferior ao
próprio custo.
O congregacionalismo, sob a forma de Congregação Cristã
·do B rasil, encontra-se m u i to espalhado no Estado de São Paulo,
-.on d e possui 273 salas e casas de oração . Conta tam bém em ou­
t ros E s ta dos com as segui n tes congregações : 50 no Paraná, 1 0
-em M i'nas, 8 n o R i o d e J aneiro, 2 em Mato G rosso, 2 n a Baía
-e 2 no D istrito Federal .
São congregações i n te i ramente autônomas, embora conser­
vem, e n t re si, relações de amizade, sendo federadas à Congre­
;gação Cristã do B rasil da R u a A n haia 6 1 3, São Paulo.
S u bstancialmente têm os mesmos princípios que os pentecos­
·tistas, ou Assembléia de Deus. Na Capital Pau l ista, pelo menos
.em certos bairros, são comumente conhecidos seus adeptos com
: a designação de " glórias" .

Os episcopalianos se local izam especi almente no Rio O ran­


·de do Sul e em algumas zonas j aponesas de São Paulo. Depois
·.de m u i to tem po, têm agora u m b i spo b rasil e i ro, o rev. A t a 1 í -
c i o P i t h a n , sufragâneo do bispo diocesano W i 1 1 i a 111
T h o 1 11 a s, n orte-americano, a autori dade m áxima episcopaliana
.no B rasi l .
O cresci mento da I grej a E piscopal B rasileira n ão é m u i to
- r á p i do, mas é constante.
Desta igrej a saiu, excomungado, o rev. S ·a 1 o m ã o F e r -

.r a z, a tual mente " B ispo d a Igreja Católica Livre no Brasil" , i n­


-teressaclo em plagiar as práticas e costumes cató l icos, desde a
i n dumentária episcopal até as últimas i n t ro duções d a V i a- S acra,
P rocissão de Corpus Chri sti, visitas dom iciliares de Nossa Se-
· nhora, etc.
N a i grej a de Salomão celebra-se m issa, conforme o rito l a ­
-tino, mas em vernáculo. I nfel izmente há com Salomão padres
apóstatas. Celibato é que não se impõe ao clero. D á-se u m cunho
Revista Eclesiást i c a Brasileira, vol. 5, fase. 1 , m a rço 1 945 .33

niti dam en te naci onalista à reli gião e assim muita gente o l h a com
si mpa tia a obra de S al o mão.
ú l tim am ente, ao f u n d ar m ai s u m a p aróqu i a catól ica-l ivre
na ap ital P a u l i sta, em V i l a Curaçã ( S . Miguel ) , for am distri­
C
bu í dos, n a regiã o, fol hetos nos quais s e afirmava u m a i dentidade
en tre a I grej a C atólica L ivre e a I grej a C atól ica Romana, em
seu s p ontos f u n damenta is, excetu a n do-se apenas o culto em la­
tim e o cel ibato obri gatório. A Filial do S . N. D. F . em S ã o
Pau l o es p a l ho u imedi atamente boletins desmascarando Salom ã o
Ferra z e s u a s e i t a menti ros a.
Os salvacionistas, m embros do E xército d a Salvação, p reten­
dem estar l evando avante u m a " g u erra-relâmpago" , ao m enos no
R io G rande do Sul. Neste ano do fundador ( centen ário d a con­
versão de W i 1 1 i a m B o o t h ; n asceu em 1 0 . 4 . 1 82 9 e foi um
rapaz leviano até o s 1 5 anos, q uando se converteu e s e trans­
formou imedi atamente em pregador do Evangelho ) , o fogo pela
con versão dos infiéis e p ecadores patrícios contagiou o s sol dados
salvacion istas de todo o País. Existe en tre êles um concurso para
v <.' r quem avança mais, q u em vende mais literatura, etc. O bo­
letim " B rado de G u erra" , profusamente espalhado pela e;; s o l d a­
das q u e imperti nentemente p enetram até mesmo a s s a l a s e l e gan­
tes de chít, n as grandes capitais, apresenta sempre as obras de
assis tênci a soci al prestada pelo Exército de S alvação . O mesmo
Or fan ato pode reaparecer 1 O vêze s p or ano no j ornalzinho salva­
cio n ista. E os leitores católicos f icam i mpressionados com a vul­
tosa assistênci a social e f i l antróp ica salvacionista e auxiliam êsse
t rabalho. Q u a n to s dos nossos nem s e l embram q u e temoc;; , o s ca­
tól i cos, possivelmente 1 00 o u 200 vêzes mais organizações que
as do Exérci to de Salvação mas . . . (a meu ver, infel izmente, até
ce r to ponto ) falamos 1 000 vêzes menos dessas obras do que o s
salvacionistas n o afã d e esp a l h ar e dar a conhecer as s u a s ati­
v i dades .
O Exército d e Salvação, entretanto, graças a u m a p ro p a­
gan d a obstinada, j á vai conseguindo i nf l u i r n a mentalidade do
nosso povo. Até há pouco provocava riso dos popul ares. Em nos­
sos di as, em m uitas cidades, desperta simpatia e admiração, como
p u d emos verificar pessoalmente e a través da imprensa leiga.
O s m ormões, p a ra não esquecer u m episódio pessoal , me
querem m u i to bem . Sempre que escrevi sôb re êles, m ovimentaram
céus e terra. C hoveram ameaças e, p ara tornar o caso mais in­
:-1
34 R o s s i, O P rotestantismo no Momento Atual B rasileiro

compreensível, não faltaram proibições ou ordens para que me


recol hesse ao silêncio. H á algum segrêdo em tudo isso.
Sempre reputei os mormões como hóspedes in desej áveis, por
muitos t í tulos especialíssimos. E' pena que o Brasil tenha acol hido
essa casta de gente. Mais doloroso, no entanto, é que certa so­
ciedade granfina tenha dado guarida a êsses jovens norte-ameri­
canos, portadores da mensagem da "vida alegre" , que tem re­
volucionado a cabeça de m u i ta moça b rasileira. Os afáveis mis­
sionários lecionam gratuitamente inglês às moças, para captar
sua amizade, para terem elementos em seus bailes, excursões, b a­
nhos promí scuos, festas semanais . . . porque sem muita moça
não se compreende a vida entre os mormões.
A guerra, com o cortej o de males, trouxe-nos ao menos êste
benefício. N ão vieram novos m issionários mormões ( porque o
Govêrno Norte-Americano não os reconhece como ministros em
igualdade de condições com os outros pastôres protestantes ) . D e
outra parte o s q u e serviram "nas missões" ( !) durante dois anos
podem regressar aos Estados Unidos porque já ficaram satisfa­
tóriamente quites com a religião para o resto da vida.
A série de enumerações já vai longa. Apontemos ainda algu­
mas das seitas restantes, as mais importantes.
O anglicanismo é p acato. Contenta-se com os inglêses resi­
dentes no B rasil e abstém-se de proselitismo. E' respeitoso. úl ti­
mamente, mais por motivo de ordem pol ítica, tem tido certas
aproximações com os Orientais Russos.
O papel do deão de Cantuária, na I ngl aterra, falando do
fracasso do cristianismo e p reconizando a difusão universal do
comunismo, como remédio (mico para os males p resentes, é uma
atitude que deveria ser repeli da, pron tamente, pela doutrina an­
glicana e pelos outros l íderes do movimento anglicano. I nfeliz­
mente não se vê isso. Apesar de estarmos tratando dum ramo
protestante muito apegado às normas tradicionais, é doloroso ve­
rificar como também aqui o cristianismo p rotestante foi cedendo
às injunções de ordem pol ítica, aos interêsses do momento.
Ao que sabemos pela leitura dos jornais evangélicos, sómente
o "Jornal Batista" l evantou sua voz e se insurgiu contra essa
propaganda comunista, l evada a efeito pelo angl icanismo, na pes­
soa de seus maiorais.
E' curioso notar o episódio que se verificou na sagração do
último Arcebispo de Cantuária, Chefe da I grej a Anglicana. No
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , m arço 1 945 35

co m êço de feve reiro do corrente ano a impre n s a divulgo u o fato


i n édit o n a histó ria do anglicanismo d e u m solene protesto feito por
ven era n do p relado de 70 anos, contra a el eição do Arcebispo D r .
F i s h e r, asseverando q u e e l a não t eve a ap rovação d o c é u , por­
q u a nto dec idi ram essa escolha apen as m otivos de caráter político e
nã o de feição religiosa, pois n e m a I grej a foi solicitada a dar
seu voto n a esco l h a do seu Chefe.
U ma pa lavrinha, agora, sôbre a Igreja Cristã Científica do
M a h a t m a P a t i a 1 a. :Bsse indivíduo é simplesmente o ex­
J oã o de Min as, escritor cruamente pornográfico, de t e ndências
com u nist as. joão d e Mi n as, um dia, l á pelas casas dos 40, re­
sol veu mudar de profissão e dedico u-se a estabelecer uma n ova
reli gião, baseada na B í b l i a Cristã Científica, um acervo d e coisas
rid íc ulas . Na nova religião que de i n ício tinha a Santa S é Cien­
tífica, em Santos, e posteriormente, s e transladou para o Triân­
gu l o Mineiro, presta-se homenagem, no altar de Deus, a Santo
Ant oninho Marmo " o pequeno Cristo n o Brasil" e, no altar d a
Pátr ia, a o C h e f e da N ação e à B a n deira N ac i o n a l .
No Triângulo M i n e i ro , o M a h a t m a procura v e n d e r m uitos l o ­
tes de terreno aos seus fiéis seguidores n a C i d a d e Milagrosa, onde
serão erguidos o s m o n u mentos d e fé e o n de brota a fonte dos
m i l agres. Notícia, a i n d a não confirmada por outra informação,
mas que l i em " O P u ri tano" afi rma, porém, que João d e Min as,
decepcionado talvez com sua experiência religiosa, volta n ova­
mente ao mundo das l etras, f u n dando u m a Academi a de I mor­
tais. Não obstante e s s a divulgação do j ornal presbiteriano, ainda
muito recentemente ( 30 . 1 . 1 945 ) o " D i ário da Noite" de S ã o
P a u l o publicou u m a reportagem sôbre a s atividades religiosas d o
Mahatma Patiala subord i n ad a ao título : " I n ti t u l a-se P apa do B ra­
sil e chama P i o X I I de " colega de R o m a" .
Mu itas outras s e itas poderiam s e r m encionadas m as n ã o tê m
importância maior, s e n ã o a d e demonstrar o s efeitos desastrosos
do l ivre exame entre nós. E , a propósito, sej a-me permitido re­
feri r algo sôbre os testemunhas de Jeová 2, a n tigamente denomi­
nados russelitas ou estudantes d a B íblia.
Temos aqui u m caso típico do absurdo a q u e l eva o l ivre
exame. Pois o s testemunhas d e J eová, apoiados na Bíblia, unica­
mente n a B íbl ia, s u s tentam serem tôdas as religiões i nvenções

2 ) Maior explanação do assunto foi p o r n ó s feita n a REB, setembro


de 1 94 1 , págs. 48 1 -489.
3*
36 R o s s i, O P rotesta ntismo no Momento Atu a l Brasileiro

de Satã para perverter os homens. Guerreiam não somente a I gre­


j a Católica ( para êles, a maior exploradora da humanidade ) mas
também as seitas protestantes.
As testemunhas de Jeová, em vários países, m ereceram con­
denações j u diciais, porque prej udiciais à tranqiiilidade pública.
Aqu i , no Brasil, mais de u m a vez se manifestou a pol ícia, des­
fazendo passeatas, reu niões, farej ando os depósitos de l ivros rus­
seli tas ( sempre bem ocultos, em diversos lugares. Não sei se é
coincidência, mas, parece-me, os testemunhas de J eová não gos­
tam de permanecer muito tempo na mesma sede) . Atualmente há
um processo contra os testemunhas de J eová, no Tribu n al de Se­
gurança N acional, porque se recusam saudar a bandeira n acion al
e prestar qualquer obediência às autoridades civi s .

" Consolação " , revista da Sociedade Tôrre de Vigia e dos


Tratados B íblicos, órgão dos testemunhas de J eová, refere cons­
tantemen te medidas policiais repressivas às atividades dos teste­
mu nhas, como sucedeu ttltimamente em São Paulo e no Rio
G rande do S u l .
Poucos rel ativamente s ã o os testemu n has d e J eové\ m as s u a
ousadia é imensa. Poderia denom iná-los d e p rotestantes anárqui­
cos. Seus l ivros são germes de rebel ião. Vendem-nos baratíssimos.
Aos que não podem comprá-los, dão de p resente. Essas obras
são impressas nos Estados U n i dos, em diversas l ínguas, inclusive
em português . Nas circunstâncias atuais, de dificuldade de trans­
porte, mu itos dêsses l ivros têm vindo de avião. Pagam por êles
uma taxa fabulosa de porte e, no entanto, êsses volumes, esme­
radamente encadernados e i l u strados a côres, continuam a ser
vendidos pela importância de 5 cruzeiros apen as. Quem puder
enten der, entenda !
N ão quero me demorar n a consideração elas ou tras ativi da­
des protestan tes, como imprensa, rádio, ensino em seus diversos
graus, assistência, beneficência, associ ações, sociedades, sem i n á­
rios, trabalho entre os índios, m issões em Portugal e n a Bolí­
via, etc. , etc.
Mas posso afiançar meus lei tores que os protestantes têm
trabalhado i n tensamente. 3 Seu trabalho, por exem plo, no setor de

3 ) j á tive ocasião de escrever que êstes momentos que precedem a


organização def i n itiva da Ação Católica no território nacional são mo­
mentos decisivos para o protestantismo. Ou êle aproveita êste resto de
tempo de grande facilidaqe e de ignorâ n c i a religiosa do povo p a r a fazer
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1945 37

i rr adi aç ões radi ofônicas é de pasmar e, quem sabe, ap ós a guer ra,


s erá a mo dali dade de proseli tismo evangélico q u e toma rá maior
i n cr em ento . N este ponto, em d iversas cidades e com iniciativas
dif er ent es, êles nos estão l evando di anteira e boa vontagem . N em
s em p re, é verda de, os programas radiofônicos satisfazem o c o ­
m u m dos ouvintes mas j á existem o u tras i rradiações bem redi­
gid as e apre senta das.
Nad a também falo das escolas dominicais. Os leitores i nte­
ress ados poderão enco ntrar i nformações nossas a respeito n a
R E B de setemb ro d e 1 943, à s págs. 625-62 7 . P refiro, portanto,
da r um a i nformação a respeito das Sociedades Bíblicas q u e in­
te n sif ica ram a distribuição d a B íblia, N ovo Testamento e porções.
U niram-se, em 1 942 , as duas Sociedades B í blicas maiores existen­
tes no B rasil : a Sociedade B íblica B r i tânica e E strangeira e a
So cie dade B í b l i c a Americana, passando a constituir u m a nova
org an ização, denominada " S ociedades B í blicas U n i das" que, ago­
ra ap ós a vend a do magnífico edifício, à Av. E rasmo B raga, 1 2,
n a Espl anada ( R i o ) , provi sóriamente se aloj a ram n a R u a São José,
70- 1 0 andar, à espera de u m a nova e monumental sede.
Grande campanha de divulgação d a B íbl i a vem sendo le­
vada a efeito entre as tropas e a fôrça expedicionári a . Para isso
d i s põe m de um estoque de 1 25 . 000 exemplares da Bíblia, segun­
do informação do " Expositor Cristão" de 26 . 1 O . 44, pág. 2. Tam­
bém fo i constituída, em 1 943 ( " O P u ritano" 1 0 . 5 . 43, pág. 2 ) u m a
Com i s são, pres i d i d a pelo bispo metodista D acorso, p a r a efetuar
uma tradução melhor d a B í b l i a em vernáculo, fazendo a revisão
da tradução de João Ferrei ra de Almeida. Por sua vez, a Casa
Publ icadora Batista do Rio imprimiu o Novo Testamento e ou­
tras porções para distribu i r aos soldados p atrícios.

s u a s conquistas, estabelecer e alargar s e u s tentácu l os, ou então, se perder


êste período de i n ação dos cató l i cos, o dia de amanhã, a hora da Ação
Católica, não será favorável à sanha proselitista. O protestantismo muitas
vêzes tem avançado, digamo-lo sem rebuço, por incúria nossa. julgamos,
por vêzes, que colocando Deus no céu do B rasil o Cruzeiro do Sul as­
sumiu o compromisso de defender nossa fé, ainda mesmo quando conser­
vamos os braços i n dol entemente cruzados. Mas hoj e os católicos
brasilei ros estão despertando e os p rotestantes estão compreendendo
que seus dias de campo aberto estão contados. Dai intensificarem seus
esforços e procurarem i nsuflar desconfiança sôbre a Ação Católica. A s
tes ! emunhas de Jeová não se pej am de dizer q u e a Ação Católica é a
maior i nvenção diabólica do religionismo para prender os homens a
Roma - a besta do Apocalipse.
38 R o s s i , O Protestantismo no Momento Atual Brasileiro

P ara não me alongar demasiado, deixo propositadamente de


considerar outras atividades afins ao protestantismo, como a Cru­
z ada Nacional de Educação, em crescente prestígio. Mas não me
privo do prazer de saudar os esforços da Federação Mariana
Masculina de Pernambuco esclarecendo pormenores sôbre a obra
do Sr. O u s t a v o A r m b r u s t.
E para finalizar êste pequeno estudo, para melhor atender
ao tema proposto, enumero alguns dos planos e trabalhos mais
característicos e atuais do protestantismo entre nós :
1 ) esfôrço de maior aproximação, entendimento e colabora­
ção com entidades norte-americanas (embora muitas seitas não
escondam seu desapontamento ao verem nas publicações bélicas
da I nglaterra e Estados Unidos, profusamente distribuídas no
B rasi l, uma ênfase das atividades católicas naqueles países e
mormente entre os soldados ) ;
2 ) preocupação de fundar escolas superiores. Assim no Con­
gresso dos Educadores, em 1 944, ventilou-se a necessidade pre­
mente de uma boa Facul dade de Filosofia, Ciências e Letras
protestan te. Os cristãos presbiterianos j á votaram, no início de
1 945, pela o rganização da Universidade Rural Presbi teriana. Os
presbiterianos independentes, os metodistas, os batistas falam de
suas respectivas universidades ;
3 ) apoio ao I n stituto de Cultura Religiosa ( nos mol des
da técnica da Ação Catól ica) e à Cruzada Nacional de E ducação ;
4 ) esfôrço da Confederação Evangélica Brasileira para des­
truir a interpretação do Ministro M a r c o n d e s F i 1 h o na es­
tupenda " E xposição de Motivos", j ustificando a entronização e a
conservação dos símbolos religiosos nos edifícios e repartições
públ icas ;
5 ) intensificação da p ropaganda pelo rádio, do evan gelismo
e de assistência às fôrças expedicionárias ;
6 ) trabalho subterrâneo de alguns l íderes, de colaboração
com outras fôrças hostis à I grej a Católica, em prol da "n aciona­
lização da I grej a Catól ica" , isto é, uma I grej a desligada de R'lma,
mais ou menos nos moldes da organização de Salomão Fe;raz.
Após esta resenha, na qual traçamos somente algumas lihnas
mestras das atividades sectárias no Brasil, se me fôssem solici­
tadas as medidas mais u rgentes e eficientes para opor à propa­
ganda protestante, proporia, sem entrar em j ustificativas e por­
menores, principalmente estas :
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 39

t ) ap oio oficial e decisivo ao Secretariado N acional de D e­


fe sa da Fé, estabelecendo sedes filiais nas Dioceses do Brasi l .
o s . N . D . F. promove a Cruzada de Orações e S acrifícios pel a
co n vers ão do s infiéis, estuda os erros religiosos e os métodos,
p l an os de difusão dos inimigos da I g rej a no B rasil, i nform a ndo
a H ie ra rquia, o Clero e os fiéis ;
2 ) a organização da Ação Católica tão temida pelos
prote stant es - como o mais poderoso inimigo qu e se lhes possa
opo r aqui no B rasil 4 ;
3) promover u m movimento latino-americano de união de
esforços, trabalhos contra o protestantismo, como uma frente
única da mental idade católica latino-americana para erguer sua
voz, fazendo-a ecoar nos E stados U nidos da América do Norte
e mostrando que seremos "bons vizinhos" sómente q uando res­
peitarem nosso patrimônio secular de catolicismo e q u e a infil­
tração de missionários p rotestantes estrangeiros será considerada
como ofensiva à nossa dign i dade ;
4 ) estabelecer intercâmbio com os Estados U nidos por in­
term édio dos católicos, já numerosos e influen tes naquela nação
american a.
N aturalmente sómente acenei meios que se me afiguram de
i m portância capital . Traçar e orientar as medidas práticas e ou­
tros pormenores, assim como j u l gar da oportunidade dêstes re­
cursos compete à H i erarquia Eclesiástica, à qual não faltam nem
os fulgores da i n teligência, nem a experiência e a discrição, nem
a assistência de D eus, que é muito mais important � .
Como o Santo Padre tem reiteradamente u rgido uma solu­
ção para o caso protestante no B rasil, porque realmente essa
q uestão assume aspectos impressionantes e porque a Divina P ro­
vi dência nos colocou também de atalaia no Secretariado N acional
de Defesa da Fé, esperamos que esta nossa modesta colaboração
sirva, a quantos ainda ·n ão tiveram uma visão panorâmica das
seitas n o Brasi l, para os estimular nos combates em defesa da
causa de Cristo Rei e de sua Santa I grej a .

• ) Na Colômbia, p o r ex., a Ação Católica f o i especialmente i n dustriada


acêrca das atividades protestantes no País e sôbre os recursos de defesa
da fé contra os sectários. Na D íocese de Campinas, neste ano de 1 945,
por determinação do Exmo. Sr. B ispo D iocesano, D. Paulo de Tarso Cam­
pos, o assunto dos círculos de estudos para os militantes versará sôbre
P rotestantismo, Espiritismo e Maçonaria.
40 B r a n d ã o, S. Francisco de Sales

S. Francisco de Sales.
Pelo Pe. A s c â n i o B r a n d ã o, Capelão do I nstituto das Pequenas
Missionárias de Maria Imaculada, São josé dos Campos, S. P.

A Verdadeira Devoção.
O obj etivo de S. Francisco de Sales era u n ificar, sintetizar a
vida espiritual num grande princípio : o amor de Deus. Aliás
não era u ma novidade. A Teologia sempre via n a caridade a es­
sência da perfeição : Diliges Dominum Deum tu um ex foto corde
tuo et proximum tuum sicut teipsum.
P ara o santo Dou tor, amar a D eus é a um tempo comêço,
meio e fim do p rogresso espiritual . "Tudo é para o amor, no
amor e pelo amor n a Santa I grej a. " "Tout est à l' amour, en
l'amour, .pour l'amour en la Sainte Eglise."
O amor encerra tôdas as virtudes. Nenhum m estre da vida
espiritual in terpretou melhor aquêle gen ial Ama e t fac quod vis
de S. Agostinho. A êste amor, caridade, chama ê l e devoção .
Quando fala e escreve sôbre a devoção, entende o amor. Não é
o sentimento puro o u o sentimentalismo, não é o conj unto de
práticas piedosas, nem de pen i tências e obras extraordinárias.
E' o dever cumprido humilde, fiel, silenciosa e simplesmente ; é
a vontade sempre unida à vontade santíssima de D eus, e u m a
grande caridade f raterna . C o m o simpl ificou a v i d a espiritual 1
"Alguns ascetas, escreve M. P o u r r a t 1 , concebiam a per­
feição de u m modo algo formalista e a consi deravam apenas um
conj unto de práticas de penitênci a . As tentações da vanglória
assal tavam não raro os monges. Macário de Alexandria não po­
dia ouvir falar em u m a austeridade sem p raticá-la imediatamente ."
Os atos de virtude rwn numerantur sed ponderantur, dizia
S . Francisco de Sales, e combatia n a s u a di reção espiritual esta
mul tiplicidade de atos e devoções e penitências catalogadas, nu­
meradas, sistematizadas, sem alma, sem amor e observadas rigi­
damente sem a uni dade do princípio que penetra e inspira tu do,
a caridade, evitando esta inútil j u staposição de devoções minu­
ciosas e esquisi tas, não raro com detrimento grave dos deveres
de estado.
No século XVI u m deplorável esp írito formalista i nvadiu a
piedade cristã. S . Teresa, S . I nácio de Loiol a e, sobretu do, m a i s

1 ) L a Spiritualité Chrétienne.
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 41

ta rd e S . F ran cisco d e Sales, sustentaram a posição firme e equi­


li br a da da verdadeira devoção, colocando-a entre os excess os por
d efi ciê ncia da Reforma e por formalismo e minuciosidades dos
fa lso s devoto s.
O mestre incomparável , e poderíamos chamá-lo, o doutor da
ve rd ad eira devoção foi sem dúvida o Doutor melifluo. A pieda de
c l á ss ica que ensinou é como qµe a expressão mais pura e eq uili­
b rad a da autên tica espiritualidade cristã.
S . F rancisco de S ales estava bem compenetrado do axioma
la t i n o : non multa sed multum . Foi sempre o adversário da pie­
dade ritual, meticulosa, m inuciosa, e que n a aritmética sobre­
feita pela vontade. A alma, para êle, não será uma cisterna que
natu ral só quer conhecer a soma e se esquece da multiplicação
se deve encher, mas fonte que há de correr, uma fôrça motora.
N ada de um certo "cap i talismo esp i ritual" acumulador de devo­
ções e seden to de indulgências sem se p reocupar com a perfeição
das o bras, o cumprimento do dever de estado e a caridade fratern a.
Num dos seus sermões critica finamente os que j ul gam "uma
pessoa santa porque recita ela grande número de terços e ouve
m u i tas missas." 2 " D evemos aplicar-nos, escreve, n ão em duplicar
nossos desej os ou exercícios mas na perfeição com a qual os fa­
zemos, procu rando ganhar mais com um só ato bem feito do
que com cem outros segundo nossa propensão e afeição . " 3
Houve em séculos passados, e até hoj e existe o p reconceito
de que a verdadeir a p iedade, i s t o é, a perfeição é reservada aos
claustros . O e o r g e s O o y a u no belo estudo Histoire religieuse,
do tomo sexto da Histoire de la Nation Française, dizia com ra­
zão : "Logo após a I dade Média, que na pena de S. Bern ardo pa­
recia i dentificar às vêzes a vida monástica com a salvação eter­
na, e logo após a R eforma protestante acusadora da I grej a dos
excessos de formalismo d evoto, viriam os pontos d a verdadeira
dou t r i n a bem precisados e esclarecidos. S. I n ácio com a fun­
dação da Companhia de jesus veio provar que a vida religiosa
podia se regular por outras normas que não as das rígidas
ordens monásticas. F rancisco de Sales veio provar que a per­
foição pode e deve existir em alto grau no mundo em meio das
agitações do século. me não fê z - como diz B runetiere impró­
pri amente -, uma acomodação da piedade, da religião, ao mun-

2 ) S ermons, 22 setem b ro 1 6 1 9, Oeuvres T. IX.


3 ) Vrais Entretiens, T. VI .
42 B r a n d ã o, �. F rancisco de Sales

do, com receio de que o mundo aban donasse a ambas. Tal cál­
culo pol í ti co nunca o teve o Santo D o utor. A devoção que êle
concebe e ensina, por si mesma se adapta ao mundo e faz o
mundo se adaptar a ela suavemente. A cruz é a mesma. A aus­
teridade cristã j amais fôra afrouxada o u atenuada nos métodos
da ascese salesi ana. O que ela exige é a formação i n terior, a ca­
ridade que tudo regu le e o rdene, e a fidelidade absoluta ao de­
ver de estado. Não pode ser devoto quem não é, repete êle sem­
pre . . . labourieux au devoir de sa charge."
Humanista Devoto.

O santo Doutor, mestre da vida espirHual, foi também um


expoente na cultura e um dos mais finos e delicados beletristas
de seu tempo. Desmen tiu o velho e rançoso p reconceito que
R e n a n adotou ao procl amar a antinomia entre o catolicismo e a
cultu ra intelectual, e contrariou os rigores da gente de Port-Royal
que só falava hipocri tamente em libido sciendi, vivendi, et sen­
tiendi, vendo na curiosi dade e no amor à cultura um " germe se­
creto de imorali dade." Tanto mais se admira hoj e S. Francisco
de Sales quando se considera a época em que viveu, e o mundo
de preconceitos e rigorismos j ansenistas e a estreiteza in telectual
de certos mestres da espirituali dade do seu tempo.
"A ciência, diz êle, não é con trária em si, ao i nvés é muito
íi til à devoção, e se andam j u ntas aj u dam-se admiràvelmen te,
embo ra aconteça que pela nossa miséria, a ciência às vêzes im­
peça o nascimento da devoção, pois a ciência incha 4 e ensober­
bece e o orgulho que é contrário à virtude é a ruína total da
devoção. Certamente a ciência elevada dos Ciprianos, Agostinhos,
H i l á rios, Crisós tomos, Basílios, O regórios, Boaventu ras e Tomás,
não só i l ustrou como ape rfeiçoou mui tíssimo sua devoção. E tam­
bém, reci p rocamente sua devoção não só aumentou, como tam­
bém aperfei çoou a ciência de todos êles." 6
S . Francisco de Sales foi o delicado e fino hu manista até
hoj e admirado por quantos lhe estudam as obras, não só obras
primas de espiritualidade como de cultura l i terária e human ís­
tica. N ão só precon iza o estudo, mas o canon iza de certo modo
quando nêle vê algo de provei toso para a glória de Deus e o
bem das almas. H e n r i B r e m o n d vê em S . Francisco de
4 ) 1 Cor 8, 1 .
6 ) Traité de l'Amour de Dieu, Livre VI, Cap. IV.
Revista Eclesiástica B rasileira, vol. 5, fase. 1, março 1 945 43

S a les o modêlo perfeito e admi rável do humanista apaixo nado


do sab er e o cl assifica o "humanista devoto" , isto é, a quêle que
na ex pres são do santo Doutor - "n' etudie plu s que po u r servi r
le p ro chain et sa propre âme selon l ' i n tention d ivine." G
O coração do apóstolo de Genebra e do conquistador espiri­
t u al de Ch abl ais, viu que só a virtude não lhe bastava para com­
b ate r a he resi a. Para exercer uma influência decisiva era m ister
0 pr est ígio d a ciência no meio em que h avia de l u tar pela glória

de J esus Cristo . Tudo o l evava a un i r a cultura à piedade : -


se u tem peram ento de estudioso e de humanista, o tempo e país
e m que vivi a. E sem isto que teri a feito naquela Genebra orgu­

l h osa da sua cultura e no Chablais onde a controvérsia exigia


boa t êmpera de polemista e d e homem de ciência para o com­
ba te à h eresi a ?
O Bispo de Genebra, doutor em l etras, humanista e piedoso,
príncipe da I g rej a e príncipe de sangue, real izou a mais bela e
perfeita aliança entre a ciência e a santidade. Formou u m clero
nesta escol a . Foi apóstolo, e exempl o de virtude e de cultura.
A mais completa biografia do nosso S anto, incontestàvel mente a
de H a m o n L e t o u r n e a u, nos traz esta bela página, uma
exo rtação do Santo aos seus Padres : "Aquêles Pad res, dizia,
que p rocuram ocupações que os impedem de estudar, asseme­
l ham-se aos que não fornecem ao estôm ago alimento sól ido para
só tomarem com idas l eves e i n capazes de os sustentarem . Eu vos
digo uma verdade : a i gnorân cia nos P a d res deve ser coisa m ais
temi da que o pecado, porque por ela não perde o Padre só a si,
m as deson ra e avil t a o sacerdócio. Eu vos conj u ro, meus irm ãos,
en tregai-vos seriamente aos estudos. A ciênci a n u m P adre é o
"oitavo s acramento d a hierarqu i a eclesiástica" e as m aiores des­
graças da I grej a nos vieram porq ue a arca da ciênci a s e achou
cm outras mãos, porque saiu das mãos dos l evitas. S e Genebra
têz tantos males e tão terríveis devastações entre nós, é porque
ficamos ociosos e nos contentamos com o recitar nosso B revi ário
sem nos preocuparmos em sermos mais sábios e ilustrados. Apro­
vei taram a nossa negl i gência, e enquanto dormimos, o homem ini­
m i go pôs fogo na casa e estaríamos perdi dos se a D ivina Bon­
dade não tivesse suscitado os Padres da Companhia de Jesus,
êstes grandes espíritos, êstes homens extraordinários, de uma co-

6) Trai té de l'Amour de Dieu, C. XVI .


B r a n d ã o, S. Francisco de Sales

ragem infatigável , um zêJo i ntrépido e uma doutrina profunda,


que não só l evam vida santa e exemplar m as manuseiam l ivros
em contínuos estudos. Meus i rmãos, j á que a D ivina P rovidência
sem olhar para a minha i n dignidade nos fêz vosso Bispo, eu
vos conj uro, estudai, estudai tudo que fôr bom, a fim de que,
sendo doutos e de vida boa, sej ais irrepreensíveis e andeis sem­
pre preparados para responder aos que vos i nterrogarem em
questões d e fé."
O méto do de estudos recomendado pelo Santo aos P adres
era o seguinte : primeiro, apegar-se aos princípios da sã dou­
trina teológica, principalm ente no estudo de S. Tomás de Aquino
e de S . Boaventu ra ; não se deter em sutilezas de escolas que
só servem para discussões sem p roveito ; ter sempre nos estudos
u m fim sobrenatu ral ; e gostava de citar as palavras de S. B er­
n ardo : " S u n t qui scire vol un t ut sciant et turpis curiositas est,
ut sciantur et vanitas est, u t scientiam vendant, et qm.e stus tur­
p i s est, u t re dificent et charitas est, u t re dificen tur et p ru den tia
est."
S . Francisco de Sales, mestre da teologia e cul tor das boas
l etras, príncipe também da i n telectualidade do seu tempo, huma­
nista notável , foi com tôda a sua grande autoridade de sábio e
de santo u m dos mais a r dorosos apóstolos e modelos d a cultura
eclesiástica.
Amigo da ciência, o foi também d a arte e sobretudo da arte
l i terária. N a d a de pedan tismos ou preciosismos in(1 teis em seu
estilo. P u reza d e l ingu agem que o torna um mestre e u m clás­
s ico da l íngua, cl areza, brilho, m u i t a graça e delicadeza no di­
zer. A l i teratura francesa o consagra entre os expoen tes das boas
letras. Fugiu aos exageros de mau gôsto dos l i teratos do seu
tempo e d e todo artificialismo que era a doença l i terária d a épo­
ca, no dizer de F . S t r o w s k y 7 , doença com dois sintomas :
a i m portâ n c i a exagerada dada ao trabalho da arte pela arte, e a
i nvej a e orgulho chegados ao grau mais requin tado. O estilo
suavíssimo, diáfano, vivo, a t raente e belo d e S . Francisco de S a­
les é talvez a expressão m a i s pura das boas l etras francesas da­
quela época. A beleza artística e a beleza l i terária o atraíram, e
êle as cul tivou como bom e fino humanista, como que batizando
e exorcizando a arte pagã da Renascença. N ão amal diçoou a

7 ) Pascal et son Temps, Tom. 1.


Revi s t a Eclesiástica Brasi leira, v o l . 5, fase. 1 , m a rç o 1 945 45

na tu reza como Calvino e não a quis adora r também como os pa­


g ãos da Ren ascença. P rocurou servir-se del a para elevar-se ao
Cri ador e permaneceu em equi l ibrada posição entre os dois ex­
t re m os. L onge de abandonar ou desprezar a l i teratura e a arte,
a ascese s alesi ana faz del as parte i n tegrante da verdadei ra cu l ­

tur a do espírito .
A Oração Mental e a Liturgia.

S . Francisco de Sales foi o mestre e o vulgarizador da me­


ditação. Antes dêle, o uso da oração mental era restrito aos mon­
ges e às comunidades religiosas. Como a S. I n ácio, também a
s . F r ancisco podemos chamar pai e mestre da meditação. A ora­
çã o ment al com forma e método não remonta além do século
XV I . O Cardeal M e r c i e r no seu l ivro A m es seminaristes não
es co nde a surprêsa que lhe causou o não ter achado o uso da
medi tação nas mais antigas regras monásticas. Até S . I n ácio, a
oração mental permaneceu sem forma definida e muito restrita.
O Autor dos " Exercícios Espi rituais" deu-lhe métodos variados.
S. Francisco ele Sales fêz uma síntese genial dos métodos ina­
cianos, simpl ificou a meditação e tornou-a acessível a tôda gen­
te. Vulgarizou-a. E' o mérito do grande Doutor.
Ao aparecer a " I ntrodução à vida devota", houve quem cen­
su rasse ao Bispo de Genebra por querer adiantar muito nas vias
de perfeição à sua Fi lotéia a ponto de a fazer meditar como os
monges. O " dom da oração mental" era como que o privilégio de
almas escolh idas. N ão convi n h a divulgá-lo . S . Francisco de S a­
les faz da medi tação o pivot da sua pedagogia espiritual, e no
"Tratado do Amor de D eus", como n a " I ntrodução à vida de­
vota" se torna um dos i n i ciadores, um dos criadores, poderíamos
d i zer, da o ração m ental .
O desej o da perfeição é o comêço da perfeição, mas se não
se medita torna-se um desej o estéril. Dizia êle a S . Chantal :
"Tende, minha fil ha, u m desej o de perfeição bem f i rme, constante
e bom . . . mas, para isto é m i ster regá-lo m u i tas vêzes com a
água da medi tação . " Meditar para êle é . . . mâc/zer, ruminer, digé­
rir, mastigar, ruminar, dige r i r tôdas as i déias que nos podem
i n s p i r a r o amor de Deus. Não está aí uma definição p rática da
medita ção ?
N o tempo de S . Francisco de Sales surgiu a questão, hoj e
reno va da, sôb re a o ração l i t ú rgica e a oração mental . E ' i nte-
46 B r a n d ã o, S.. Francisco de Sales

ressante notar como os erros do Litu rgicismo condenados na En­


cíclica "Mystici Corporis Clzristi", são já tão velhos e já exis­
tiam latentes naquela época. A oração diÍusa da I dade Média
que consistia numa espécie de recitação devota e meditada dos
textos l i tú rgicos do Ofício D ivino, pareci a se opor à meditação
i n aciana e salesiana que exigia um tempo à parte, hora m arcada
no dia ou em vários dias para refletir, ruminar, e despertar afe­
tos e resoluções em tôrno de uma determinada idéia, de um tex­
to ou verdade eterna.
O Santo D outor j amais contestou o valor, a virtude santi­
f icante da Liturgia e ninguém talvez tenha dela falado com mais
entusiasmo e piedade no seu tempo. Todavia, contra l i tu rgistas
exagerados sustentava esta verdade, fruto de uma experiência pes­
soal e da direção das almas : A oração litú rgica, pela fragi l i dade
humana, muitas vêzes degenera em mecânica recitação de fór­
mulas. O Oficio D ivino, por exemplo, pela rapi dez e a seqüên­
cia não permite ao que o reci ta, parar, deter-se em considerações
onde o texto o comove . O ra, com o tempo o assueta vilescunt,
vai se mecanizando a recitação das fórmulas tão belas e tocan­
tes da p rece litúrgica. E' mister, pois, um exercício complemen­
tar, não que substitua, mas que aj u de, favoreça, alimente a pie­
dade l itúrgica. Precisamos meditar, para entrarmos naquele es­
tado de atenção que nos torne aptos para penetrar os belos pen­
samentos dos textos litúrgicos. Cheio de entusiasmo pela Liturgia,
exclamava o Santo muita vez ante a beleza de alguns textos do
Oficio D ivino ou da Missa : " Eis aí que belos assuntos para a
medi tação ! "
Notem bem : assuntos para a m editação e não a p rópria me­
d itação ! A meditação é um exercício à parte metodizado pelo
Santo Doutor. Meditação para bem viver a Liturgia. Meditação
para i ncrementar a vida l i tú rgica ; para não se mecanizar a Li­
tu rgia. Não é a solução do intrincado p roblema que nos apre­
senta o Liturgicismo de agora?
Diretor de Almas.
Assunto para volumes e sem dúvida o aspecto mais inte­
ressante e característico da obra de S . Francisco de Sales : a di­
reção espiritual . Foi o grande e o i ncomparável diretor de almas,
um daqueles raríssimos que só se encontram não um entre mil,
m as entre dez mil. Ninguém hoj e pode dispensar um estudo dos
Revista Eclesiástica B rasilei ra, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 47

m ét odos do Santo Doutor e dos seus admirávei s escritos, se qui­


ser an dar bem segu ro na ars artiu m : regimen animaru m . N ão é
pos sí vel , nos mol des de um artigo, apreciar, nem mesmo sob os
se us as pectos gerais, a obra do grande mestre. Basta dizer que,
a té h oj e , dezenas de autores não esgotaram o ass u nto.
S . Francisco de Sales é o mestre clássico e o mais perfeito
m o dêlo para os diretores espirituais de todos os tempos. O que
r ea l m ente nos impressiona ao percorrermos as suas cartas deli­
cadas e admiráveis, é o gênio do teólogo seguro, o tato fino
daquela mão de veludo ao tocar nas almas, a sagacidade, a fi­
n u ra do psicólogo, do homem que conheceu profundamente os
segredos mais íntimos do coração humano. I ri a perder-me aqu i
cm cita ções interminávei s. Rogo ao benévolo leitor sacerdote, leia,
reida as cartas e os escritos espirituais do Doutor melífluo. To­
más de Aquino forma o teólogo ; Afonso de Ligório, o moralista
se g ur o ; Francisco de Sales, o D i retor espiritual . A lei tura dos
esc rit os do nosso Santo vale por mil tratados . E' a grande es­
cola de mestres da espirituali dade. E' o di retor a um tempo mui­
to humano e concil i ador, suave e del icado, firme, enérgico, for­
mador de almas de boa têmpera. Nada daquele despotismo, da­
quele total itarismo espiritual com que o di retor, sem respeitar a
sacratíssima liberdade das almas, impõe o seu modo de ver ou
normas preestabelecidas de direção, sem consultar nem as difi­
culdades e repugnâncias dos seus d irigidos, procurando substi­
tuir o Espírito Santo, tornando-se oracular e exigindo uma obe­
diência cega muitas vêzes, onde bastava o conselho e um pouco
ele tato e del i cadeza. Oh ! como S . Francisco de Sales condena
certos d i retores o raculares e despóticos !
E' mister respeitar a l iberdade das almas, l evá-l as pelos ca­
m in hos por que as conduz o Espírito S anto e n ão pelos que que­
rem certos D iretores, substituindo-se ao mesmo Espíri to Santo,
contrariando a obra da graça e p rej udicando ou inutilizando as
mais belas almas destinadas à santidade e que, no entanto, per­
manecem estagnadas numa desoladora mediocridade. S . Francis­
co de Sales quer que o diretor preste atenção ao trabalho da
germinação m isteriosa da graça que se processa no fundo das
almas. O papel do diretor é o de vigiar, proteger, assistir à obra
da graça nas almas. N ão pode o diretor colocar-se no l ugar do
Espírito Santo. E' m ister não raro adaptar-se ao temperamento
dos di rigidos. Escreve com muita graça e beleza o nosso
48 B ra n d ã o , S . Francisco de Sales

S a n to : " D ieu com m e n d a en la création aux p l a n tes de porter


leurs fruits chacun e s e l o n son genre ; a i n s i c om m a n de-t-i l
aux chrétiens, q u i s o n t l e s p l a n tes vivan tes de s o n Eglise, qu' i ls
p rodui sen t des fruits de dévotion, u n chacun s e l o n s a q u a lité et
vocatio n . " ( I n trod. eh. I I I . ) S e todos o s D iretores compreendes­
sem bem e p usessem em prática regra tão segura e prudente !
O problema d a d i reção salesi a n a é constr u i r o santo, o cris­
tão sôb r e o homem, resp e i t a n d o o que h á d e humano e n a t u ral
e m cada um. Aperfeiçoar a n atureza e n ão destruí-l a . E screve :
" N ou s n ' avon s pas e ntrep r i s d e n o u s rendre s i n o n gens de b i en,
gens de devotion, hommes pieux, femmes pieuses . . . Que s ' i l
p l a i t a D i e u de n o u s é l éver j usqu' à ces perfections angéliques,
n o u s serons aussi d e bons A n ge s . . . E t arrive q u elquefoi s que
ceu x qui pensent être des a n ges n e sont p a s seulemcnt bons
h o m m e s . " Cada um c u l tive seu j ardim, s u a a l m a . N ad a de i l u­
sões e fantas i a s . C a d a a l m a s e santifique com seu temperamen­
to, em sua vocação, n o lugar e nas c i rcunstâncias , em que D eus
a coloco u . E ' o equ i l í b r i o , é a morte das i l u sões perigosas e de­
sastradas, é o resp e ito à obra d a graça e d a n a tu re za .
S o b muitos aspectos s e p ode estu d a r S . Francisco d e Sales
como D i retor de almas. B asta-nos aqu i , porém, l embrar estas
duas características i n confundíveis da s u a di reção : Respeito à
obra d a graça n a s a l m a s e o senso de adaptação ao tempera­
m e n to dos di rigidos.
A Devoção e o Mundo.

O doce e a d m i rável S . F r a n cisco d e S a l es foi u m S a n to m u i­


to humano, b o m e f i n íssimo psicólogo, u m renovador dos méto­
dos de ascética, e homem de u m equil íbrio m aravil hoso e m tô­
das a s suas p a l avras e atitudes. Podemos segui-l o na vida espi­
ritual como seguro mestre e gui a . Sem p e rcebermos, aceitamos,
na sua esco l a , a cruz d e j es u s Cristo, com tôda a dureza e aus­
teri d a de sangrenta do Calvário. Foi i n comparável d i retor e s p i ri­
tual . V iveu n o m u n do , conheceu e dirigiu a l m a s de tôdas a s c l as­
ses e condições socia i s, e nas m a i s variadas c i rcunstâncias da
vida.
A m o d a é de todos o s tempos. A etern a caprichosa e t i râni­
c a senhora s e rvi d a e obedecida n o m u n do i n te i ro por m i lh õe s de
escravos . P o i s nos dia s de S. Francisco de S a l e s a soberana
Revista Eclesiástica Brasi leira, vol. 5, fase. 1 , març o 1 945 49

re in a va t riunf ante. E o S anto, mestre e d i retor de alma s, d a flor


da so ci ed ade, Bispo e pastor de Genebra, centro de cultura e
el egâ nci a, n aturalmente se via a cada i n stante e m face_ do pro­
bl em a da m oda. Como conci l i a r a moda e a m o ral crisfã ? Pode­
se an dar n a moda ? Que deve fazer a mulher n o mundo obrigada
a vi ver em sociedade e seguir os costumes do tem p o ? E i s aí p ro­
blem as que exigem sempre uma solução e orientação seguras de
u m di retor esp i r i tual.
s . Fr ancisco d e Sales gostava do asseio e do cuidado em
vest i r-se d ecentemente, con denando os dois excessos : a suj eira
e a s up erflu idade vaidosa. "Andai sempre bem limpos, escreve
êle, nada de m al arranj ado e suj o em vós, p oi s seria uma falta
de co nsid eração para com as pessoas com quem tratais ." E ain­
da na " I ntrodução à vida devota" escreve à Filotéi a : " S ej a a
vossa roupa sempre m u ito l i mp a e não perm i tais nela nenhuma
m a ncha ou suj eira. A l impeza exterior representa, de certo modo,
:i l i mpeza i nterior do coração." O S anto queria, pois, asseio,

dec ência, u m a veste conforme o tempo e a condição soci al d e


cada u m , porém nad a de l uxo, superflui dade e excessos de vai­
dade. N ão fazia questão de que suas d irigidas acompanhassem
a moda, contanto que se vestissem decen temente e fôssem re­
catadas e modestas. O bom gôsto, a el egânci a de conveniência
social necessários a quem vive n o m u n do, o Santo j amais os
con d enava . To d avia, era i ntransigente quanto à modéstia e à
pu rez a de i n tenção. D esej ava que cada um se vestisse conforme
a su a posição e condição soci a l . Nem querer p a recer mais rico,
nem querer se depreciar e p a recer m a l no seu meio soci a l .
Ti nha u m a i ron i a f i n a ao escrever sôbre os m o dos rid ículos
de seu tempo . "As m u l heres de h oj e, - escreve êle -, trazem
enorm es cabel eiras sôl tas e empoadas e na cabeça colocam uma
ferradura como os animais trazem ferraduras nos casco s . " Era
a moda de uns grampos de ferradura n o alto do penteado. "An­
d a m as moças cheias de penachos e de enormes ramos de flores,
e n e m sei que· mais. Estão cobertas de grampos e alfinêtes . "
S e con dena e ridiculariza os exageros, os gastos supérfluos
cm vestidos e j ói as caríssimas, não hesita em aconsel har que s e
vista b e m c a d a u m conforme a sua posição e meio social que
freq üenta. "A m u l her casada, escreve, pode e deve se enfeitar
para agradar a seu m a ri do, quando êle gosta disso. E' permiti-
4
50 B r a n d ã o, S. Francisco de Sales

do também adornar as filhas, deixá-las bem bonitas para ar­


ranj arem um bom casamento. As viúvas também, se p retende 111
casar novamente, podem se adornar, contanto que sej am dis­
cretas e não pareçam l evi anas." O principal é que não se fira
a modéstia cristã e a i n tenção de quem se adorna sej a pura. U ma
senhora tinha escrúpulo de arranj ar a cabeleira e empoá-la se­
gundo a moda : " D i ga-lhe que pode arranj ar a cabeleira tôda e
empoá-la sem escrúpulo, contanto que sej a bem reta a sua in­
tenção . " e1e rep reende docemente a Madame Charmosy porque
não vestia seu filho convenientemente e de acôrdo com o meio
social em que vivi a : "Minha filha, é p reciso vesti r m eu sobrinho
de acôrdo com o meio em que está, senão o moço se sentirá mal
e vai se expor à zombaria dos companheiros. Não há remédio,
minha cara filha, é preciso segu i r as leis do mundo, pois se a
gente está no mundo há de segui-lo em tudo que não fôr con­
trário à lei de Deus."
Eis a doutri n a equil ibrada, muito humana e segu ra do Santo
Doutor sôbre as modas. S erve para todos os tempos. São prin­
cípios que hoj e podemos e devemos aplicar. H aj a pu reza de in­
tenção, conveniência social, critério e bom senso ; evi te-se o su­
pérfluo e exagêro ridículo, e, acima de tudo, evite-se o pecado
e o escândalo e . . . que mal p odem fazer as modas ? Ainda hoj e
qualquer pároco o u d i retor de almas encontra n a escola sale­
siana u m a solução clara para o problema da moda.
E por aqui fico, meu caro leitor. E ao encerrar estas no­
tas, só vos rogari a, meu veneráveis colegas, se qui serdes con he­
cer e penetrar bem os segredos da ars artium, a do regimen
animarum, estudai muito S. Francisco de Sales. E' o clássico
mestre d a esp i ritualidade genuinamente cristã.
Hev ista Eclesiástica Brasi leira, vol. 5, fase. 1 , m a rço 1 945 51

A Glossolalia n o Novo Testamento .


Pelo Pe. B. G a s p a r H a a n a p p e 1 , C. SS. R.,
I grej a de S. Afonso, Rio de janeiro.

D ific i l m ente h averá n a Escritura Sagrada l ivro em que tão


ni ti dam ente se evi dencie com quanto d i reito é chamado o Espírito
S an to Digitas Paternce. Dexterce, como o l ivro dos Atos cios
Apóstolos, obra primoro s a e m agistral da pena ele S. Lucas. As­
sim como o modelador com a mão constrói a i m agem de barro,
mas com o dedo nela traça as linhas mais finas, retoca as do­
bras, os vincos, e as feições, a expressão do rosto, assim se atri­
bui nas Escritu ras a Deus Pai a obra da O n ipotênci a, a criação
do u n iverso, o " trabalho das mãos" ; ao Espírito Santo , porém,
a santificação, o aperfeiçoamento da obra nas almas, o trabalho
mais fino dos dedos. 1 Produtos de empolgante fo rmosu ra encon­
tramos precisamente no l ivro dos Atos dos Apóstolos, pelo que
o Pe. M e s c h 1 e r, S. J . , deu-lhe o título característico de Evan­
gelium Spiritus Sancti. 2 Entre êsses produtos misteriosos do Di­
gitus Paternce Dexterce merece pecul i a r atenção a obra do divi­
no Burilador, que com o nome d e C/zarismata ocupava n a I grej a
i ncipiente lugar de destaque. U m dos carismas mais n otáveis e
in teressantes foi, sem dúvida, o dom das l ínguas o u glossolalia,
de que trataremos no presente artigo .

1.
A n tes d e entrarmos n o assunto, vej amos o que é carisma em
gera l . Foi nos dias dos Reis de J u d á que D eus desenrolou di an­
te dos ol hos ele seu p rofeta Joel a visão d o Reino Messiânico e
lhe inspiro u esta p a l avra : " Effundam spiritum meum super om­
nem carnem : et prophetab u n t filii vestri et filire vestrre ; senes
vestri som n i a somniabunt et i uvenes vestri visiones videbun t . " 3
Que êsse vaticínio tenh a-se reali z ado l i teralmen te, é S . Pedro
quem o atesta, q u a n do n a hora d a pro m u l gação d a I grej a, n a
testa gloriosa de Pentecostes, aplica a si e a s e u s condiscípulos

1 ) Cf. I s 50, 2 ; SI 8, 7 ; 1 8, 2 ; 36, 24 ; 43, 3 ; 88, 26 ; 1 0 1 , 26 ; At 7,


50, 8, 1 9, 3 1 , 1 8 ; Lc 1 1 , 20 (e Mt 1 2, 28 ) .
• 2 ) Die Gabe des heiligen Pfingstfestes, pág. 93. Cf. Spiritus Sancti
mfl�1x11s in Ecclesire diffusionem in Actibus Apostolorum (G a 1 d o s, S.
J., m " Verbum Domini'', 1 92 1 , pág. 1 36, 1 80) ; M a r m i o n, Cristo, Vida
da Alma, 1 920, pág. 328-330.
3) Joel 2, 28.
4*
52 H a a n a p p e l, A O lossolalia no Novo Testamento

os dizeres de Joel. 4 E foi o próprio Cristo quem prometeu êsses


dons mil agrosos ao entregar a seus Apóstolos as cartas creden­
ciais : " E u n tes autem prredicate . . . , infirmos curate, mortuos sus­
cita te, leprosos mundate, dremones eicite." 5 E isso foi abonado
pela sua afirmação divina feita imediatamente antes da Ascen­
são : " S igna au tem eos qui crediderint, hrec sequen tur : in nomine
m eo dremonia eicien t : linguis loquentur novis : serpentes tollent :
et si mortiferum qui d biberint, non eis nocebit : super regros ma­
nus imponent et bene habebunt." 6 E o Espírito S anto n ão deixou
de distribuir copiosamente à I grej a os seus carismas, conforme
a palavra com que Marcos encerra o seu Evangelho : " I lli autem
p rofecti prredicaverun t ubique . . . sequ entibus signis" 7 ; palavra
essa que foi confirmada pelos fatos registrados nos demais es­
cri tos do N ovo Testamento, nas obras dos Santos Padres e nos
anais da I grej a inteira. D i zemos : d a Igrej a intei ra, pois embora
nos sécu los subseqiientes paulati namente escasseiem os exem­
plos e os testemunhos, n u nca os carismas faltaram por completo.
Tampouco j amais cessará o E sp í rito S anto de h abitar n a Santa
I grej a e de se manifestar para a utili dade del a. U m a vez que a
nota característica da santidade, j untamente com a gra ç a e as vir­
tu des, requer também mil agres, sempre hão de êstes acompanhar
a h i stóri a da I grej a . No princípio houve p ara i sso maior neces­
sidade do que em épocas posteriores, porque a fé tinha de ser
espal hada com certa rapidez e ao mesmo tempo circundada dos
mais ternos cuidados 8 ; mas sempre, através dos sécu los, êsse
sinal exterior da santidade tem sido sali entado nas biografias dos
Santos e pôsto em relêvo nos p rocessos de cano n ização .
Mas, que é propriamente u m carisma ? A pal avra grega clzá­
risma i ndica, em sentido mais amplo, qualquer d ádiva p roveniente
de simpatia ou afeto ; aplicada à economia d a salvação, usa-se
muitas vêzes nessa significação ; assim se expl i ca que no Novo
Testamento al gumas vêzes é sinônimo de grafia actualis e, em
particul ar, de graça sacramental e de graça de estado. E m sen­
tido mais estrito, porém, e mais técnico, em que o consi deramos
aqui , o carisma é i dêntico à grafia gratis data ( tomada em opo-

4 ) At 2, 1 6-2 1 .
5 ) Mt 1 0, 7-8.
6 ) Me 1 6, 1 7- 1 8.
7 ) Me 1 6, 20.
ª ) Cf. S. Oregor. PP. Horn. 29 in Evang. ; o ff . d iv. 8 A u g. et plura,
Ieet. I X .
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 53

s iç ão à gratia gratum faciens) , de modo que, segundo S . Tomás,


p o d er íam os definir o carisma : um dom sobrenatural concedido
gr at uit am ente, que não torna j usto ou mais j usto o homem, mas
0 cap ac ita a realizar ações extraordinárias em p roveito alheio.

D o m sob renatural, pois provém direta, excl usiva e gratuitamente


do E spír ito Santo, o que S . Paulo mui nitidamente ensina na
cl ás sica perícope dos carismas ( 1 Cor 1 2- 1 4) : " H re c autem omnia
op er atu r unu s atque idem Spiritus, dividens singulis prout vult." 9
o c arism a, porém, distingue-se, em absoluto, da graça santifi­
10,
ca nt e. P ode, pois, ser outorgado per se também a um pecador
se bem que pareça condizer melhor com a santidade e veracidade
de Deus conceder algum donum a seus amigos. Tanto mais, por­
qu e cada carisma sempre tende p ara a utilidade de outrem e,
cm esp ecial, a utilidade do Corpo Místico de Cristo, como
S.
Pa ulo afirma expressamente : " U n icuique autem datur manifestatio
1
Sp iritu s ad utilitatem" 1 e mais determinadame nte : "in re difica­
ti one m corporis Christi ." 1 2 Confira-se ainda 1 Cor 1 2, 1 2-30 ;
Rom 1 2, 4-8.
Entre os m(1l tiplos carismas referidos no N ovo Testamento
- podemos enumerar pelo menos uns catorze 13 - o mais no­
tável parece ser o Dom das Línguas, ou Glossolalia. Talvez j á
nos tenha escapado o suspiro : Oxal á m e fôsse concedido o dom
elas línguas ! Quantos missionários já houve que j ulgavam poder
sol tar mais livremente as rédeas ao seu zêlo pel as almas, se l hes
fôsse dado o dom da glossolalia ! Contudo, pense-se o que quiser,
sôbre as prerrogativas que acompanharam os Apóstolos em suas
jornadas aos países mais remotos a fim de · p ropagarem o Reino
de Cristo ; sej a o que fôr que nos relate a história ou a lenda
sôbre algu ns Santos evangel i zadores, como S . Francisco Xa­
vier u ; o certo é que êste fenômeno extraordinário n ão é idêntico
ao dom das l ínguas ou glossolalia, tal como o conhecemos pela
Escritura Sagrada. Pois, como abaixo se evi denciará mais abun-

9) 1 Cor 1 2, 1 1 ; cf. também Sab 7, 22-23, 27.


1 0 ) Os exegetas costumam alegar aqui os dois exemplos de Balaão
(Nm 22-24) e de Caifás (Jo 1 1 , 49-52) .
1 1 ) 1 Cor 1 2, 7.
1 2 ) Ef 4, 1_2.
1 3 ) Cf. H a g e n, Lexicon Biblicum, i. v. "Charismata" ( L. F o n e k) ;
e P r a t, Thé ologie de St. Paul, ed. 9, I, p. 1 50-1 57 e p. 498-503.

1 4 ) " lllico variarum gentium difficillimis et variis linguis divinitus
instr uct us apparuit ." (Off. div. 3 Dec., lect. V. )
54 H a a n a p p e 1, A Glosso l a l i a no Novo Testamento

dan t emente, esta glossolalia em caso algum significa falar aos


homens .
O m u i to discutido carism a da glossol a l i a escriturística, sôbre
o qual encontramos na l .ª epístola aos Coríntios ( 1 Cor 1 4) os
dados m ai s interessantes, p o d e ser d efinido assim : o dom das
li nguas consiste no falar em conexão racional linguas nunca
aprendidas, em estado de o ração extática. D i z emos :
1 . falar.
- Pois, comumente o hagiógrafo emprega a pala­
vra laléin, "loqui" ( V u l g. ) , lógon didónai "sermonem dare" 1 5, o
q u e, sem restrição o u sem epíteto, sempre significa : falar clara,
i n te l i g ível , articuladamente.
2 . em conexão racional. - Aqui i m pugnamos sobretudo os
racio n a l i stas e alguns católicos, que asseveram consistir a glos­
solali a : ou num certo balbuciar d e sons, ou então, quando m u i to,
em externar pal avras sôltas, i ncoerentes, sem nexo. A p r i meira
_
o p i n i ão propriamente n ã o p recisa ser refutada : pois, não se com­
preende que s ej a n ecessária u m a operação sobrenatural do Es­
p í rito Santo p a ra alguém "em edificação da I grej a" (ut ecclesia
c.e dificationem accipiat 1 6 } prod u z i r sons, acentos inarticu l a dos sem
significado algum. I gualmente a segunda o p i n i ão - pal avras
sôltas, sem conexão lógica - dificilmente pode s e r sustentada,
segundo se d epreende das expressões : " p sallere spiri t u " , "bene­
dicere s p i r i tu " , " gratias agere" , "sermonem dare" 1 7 ; todos êsses
d i zeres denotam uso l ivre, desi m p e d i do e completo da l íngua es­
tranha como se fôra a própria. Além disso, não se vê q u e tarefa,
sempre de ordem carismática, caberia ainda ao lnterpres ? 1 8 Tra ­
d u z i r palavras s e m n e x o certamente não p o d e r á servi r d e edifi­
cação à com u n i d ade, nem tampouco constitu i r oferta a D eus de
u m " rationabi l e obsequ i u m . " t !l
3 . E m segu i d a dissemos n a defin ição : "em estado de ora­
ção extática" o u , ao m enos, con soante a e x p ressão de P r a t
( o . c., e d . 9, I , p . 1 53 ) : " avec u n enthusiasme voisin à l ' exalta­
tion." Tampouco aqui, pelo que n o s p a rece, o s d i zeres de S.
Paulo admi tem hesitações nem obj eções. Pois fala expressamente
1 6 ) 1 Cor 1 4, 9.
1 6 ) 1 Cor 1 4, 5 .
17 ) 1 Cor 1 4, passim.
18 ) U m dos catorze ca rismas é a itzterpretatio sermonum ( 1 Cor 1 2,
1 0) de que trataremos mais adiante.
1 9 ) Rom 1 2, 1 ; introdução de S. Paulo às suas admoestações aos
romanos acêrca de sua vida c ristã, também no terreno dos carismas.
Re vista Eclesiástica B rasi leira, vo l . 5, fase. 1 , março 1 945 55

de " ora re spi ritu" 20, "psallere spiritu" 21, "spiritu loqui my ste­
ria" 22 ( a p alavra "mistérios" significa neste tópico : cois as ocul­
tas, inco mpreensí vei s ) : a alma ora a Deus em arroubament o ex­
tá tico, ao p asso que o Espírito Santo se assenhoreia das facu lda­
des m en tais . "Nam si orem (proséukômai) l ingua, spi ritus meus
o ra t (to pnéuma mou proséuclzetai), mens autem (lzó de nous)
mca sine fructu est" 23 : a parte superior da alma ilumi nada e in­
cen tivada pelo próprio Espírito Santo (to pnéuma) descansa em
Deus, enquanto a inteligência (lzo nous), o intelecto n atural, não
entende o significado e alcance das palavras. Razão por que o
obj eto da glossolalia nunca é a pregação do Evangelho ou ex­
pl icação das verdades cristãs ; não se encontra no Novo Testa­
mento um lugar onde u m carismático em l íngua estranha se dirij a
a homens. 24 Pelo contrário, sempre o obj eto do pneumaticón ( ca­
risma) é : oração a Deus, louvor de Deus ; daí a contínua repe­
tição nas epístolas de S. Paulo, das expressões : "orare" , "psal­
lere" , "benedicere" , "gratias agere" , e, como se fôsse para cortar
de vez tôdas as futu ras obj eções, êle diz simplesmente : "Qui lo­
quitur lingua, non lzominibus loquitur, sed Deo . " 26

E nesta altura traz nova luz a dificuldade característica que


S. Paulo propõe em forma de obj eção : "Creterum si benedixeris
spiritu : qui supplet locum idiotre, quomodo dicet Amen super tuam
benedictionem ? quoniam quid dicas, nescit." 2 6 "Como responderá
com o habitual Amém (tà amên) à tua ação de graças quem
estiver ocupando o banco dos simples fiéis ?" 27
Esta ú l tima palavra alude ligei ramente à necessidade do do­
n u m interpretationis, carisma distinto dos demais, pelo qual o
pneumá tico, ou entendia a l íngua do glossólalo ou, se possuía
êle próprio o dom das l ínguas, podia interpretar a si mesmo o
que dizia, tanto em próprio provei to, como em proveito al heio .
Poi s, como é que os idiotas, isto é, os simples fiéis, ti rarão pro­
veito ou edificação daquelas orações estranhas e extáticas ?
Nemo enim audit 28, ninguém os entende. "Si venero ad
vos l inguis loquens, quid vobis prodero ?" reza a ob-

2º) 1 Cor 1 4, 1 5. 21 ) Ibidem. 22


) 1 Cor 1 4, 2.
2 3 ) 1 Cor 1 4, 1 4.
2 4 ) O que se deve pensar do m i l ag re de Pentecostes, vide infra, l i .
2 5 ) 1 Cor 1 4, 2. 26) 1 Cor 1 4, 1 6.
27) ldiôtês é, na opinião mais provável, quem nem pertence à ordem
hie rát i ca, nem aos pneumáticos ou carismáticos.
2 8 ) 1 Cor 1 4, 2.
56 H a a n a p p e 1, A Glossolalia no Novo Testamento

j eção sagaz de S. Paulo. E para escl arecer mais, acrescent a


a comparação com o vago, indeterminado dedilhar duma harp a
e com os toques abruptos dum clarim . Por aquêle, nenhuma
melodia harmoniosa se produz, e por êstes nenhum guerreiro se
aprestará à guerra ; eritis enim in aera loquentes. 29 Agora, sim,
compreendemos o proceder vigoroso e resoluto de S . Paulo con­
tra os coríntios, que na sua vaidade queriam sobrepuj ar uns aos
outros com o dom da glossolalia, exteriormente mais deslumbran­
te, em detrimento da utilidade comum. E não sem indignação
ressoa a sua admoestação : "Fratres, nolite pueri e/fiei sensibus !" ª º
E com tôda a ênfase insiste em que o glossól alo reze a D eu s e
implore o dom d a interpretação : "oret ut interpretur" 3 1 ; " a d redi­
ficationem ecclesire qurerite u t abundetis." 32 Se obter também
êste carisma, não ficará aquém do "profeta" 3 3 : "Maior est
qui prophetat quam qui loquitur l inguis : nisi forte interpre­
tetur, ut ecclesia redificationem accipiat." 34 Pormenorizando com
rigor, o prático Pastor de almas, em p roveito desta Liturgie du
Saint Esprit 3 5, dita suas p rescrições que são quatro : " S ive l ingua
quis loquitur, 1 ) secundum duos aut u t multum tres, et 2) per
partes ( i . é, cada um por sua vez ) et 3) unus interpretetu r. 4)
S i autem non fuerit interpres, taceat i n ecclesia, sibi au tem loquatur
et Deo." "Omnia autem honeste et secundum o rdinem fiant." 3 6
Diante dêstes pormenores compreendemos melhor qu�l o mo­
tivo por que S. Paulo, no entremeio dos capítulos 1 2 e 1 4 que
exclusivamen te tratam dos carismas, passa de chôfre a falar da
Caridade ; pois é virtude divina que j unto com a graça habita na
alma qual penhor de glóri a, inclzoatio glorice : "Charitas nunquam
excidit : . . . sive lingure cessabunt, sive . . . N u nc au tem cognosco
ex parte, tunc autem cognoscam sicut et cogn itus sum" 37 ; ao
passo que o carisma por si mesmo não traz à alma, pelo menos
29) 1 Cor 1 4, 6-9. ªº) 1 Cor 1 4, 20.
81 ) 1 Cor 1 4, 1 3. 3 2 ) 1 Cor 1 4, 1 2.
33 ) O carisma da Proph etia consistia principalmente em estimu lar à
virtude e ao estudo da fé. ( 1 Cor 1 4, 3 1 e passim . )
34 ) 1 Cor 1 4, 5.
36 ) Denominação tfpica que devemos a D u c h e s n e (Origine du
culte chrétien, pág. 47 ) , que assim distingue a segunda metade das sole­
nidades dos primeiros cristãos, da primeira parte, a liturgie dtt Christ,
i. é, o ágape ou f ractio panis, o santo sacrifício da Missa em sua Litur­
gia ainda extremamente sóbria e primitiva, naquelas tardinhas pacificas em
que mais do que nunca os primitivos rebanhos de Cristo se mostravam
cor unrtm et anima una. (At 4, 32. )
3 6 ) 1 Cor 1 4, 27 . 28 . 40 . 3 7 ) 1 Cor 1 3, 8 . 1 2.
Revista Eclesiástica Brasi leira, vol. 5, fase. 1 , ma rço 1 945 57

não tra z primà riamente, a santidade ou seu aumento, che gando


até a oc asio nar discórdias e ciúmes. Sim, aos cristãos ainda im­
pe rf eitos de Corinto é que devemos êste insuperável e arrebatador
ca pí tulo t 3 sôbre a Caridade divina com o seu real séquito de
virtudes e de tôda a perfeição cristã, trecho que T o u s s a i n t
denomina : "un hymne, un chant, u n cri d' enthousiasme ; j amais
voi z hu maine n'a trouv é de pareils accents por célébrer ce qu'il
y a de pl us divin ici-bas." Assim se expl ica o exórdio, que do
cont rário seria obscuro : "Si linguis hominum Ioquar et angelo­
"
ru m : ainda que eu tivesse o carisma de poder falar as línguas
de todos os homens e até mesmo dos Anjos (hipérbole que con­
diz muito bem com o ardor e estilo de S. Paulo) , mas se não
tiver o amor, "factus sum velut res sonans aut cymbalum tinniens."
Naturalmente se apresenta aqu i a questão : não será o do­
n um /inguarunz de todo inútil, sem efeito, a não ser em depen­
dência do clzarisma interprefationis ? A priori já deve ser negativa
a resposta à esta obj eção. A glossolalia certamente figura muitas
vêzes como carisma à parte, e o Espírito Santo, "divi dens singulis
prou t vult", de form a alguma efetua algo de defeituoso, algo que
não tenha proveito. Podemos distinguir a utilidade da glossol al i a
sob dois aspectos : como s e manifesta aos infideles e aos fideles.
Para os primeiros, gentios e j udeus e parcialmente também para
os catecúmenos, ela é "in signum'', diz S . Paulo. 38 E' ímã e pos­
sui a fôrça i nvulgar de chamar-lhes a atenção e excitar a ad­
miração : " l n stuporem" (eis ekplêxin) , diz S . Crisóstomo. Se é que
feiticei ros com suas astúcias diabólicas chegaram a arremedar
ou macaquear tais fenômenos, n u nca conseguiram copiar a ope­
ração milagrosa de Deus. E', pois, a glossol alia m aravilhosamente
apta para dispô-los a escutarem a p regação da fé. Quanto aos
fideles, porém, quanto aos batizados, portanto membros já do
Corpo Místico de Cristo, em cuj o benefício se dão primàriamente
todos os carismas, para êles êste dom das l í nguas é "signum ma­
nifestativum" da inabitação do Espírito Santo na I grej a. Esta
inabitação do Espírito Santo, revelando-se de maneira tão mila­
grosa, torna-se para os fiéis fonte de consolação e alento. Que
doç ura e xperimentar êles ao contemplarem aquela unidade ma­
ravilhosa que j esus Cristo veio trazer de novo ao mundo e res­
tabelecer, pela sua Igrej a universal, católica ! Tôda a descendên-

38) 1 Cor 1 4, 22.


58 H a a n a p p e 1, A G l os so l a l i a no Novo Testamento

eia de Adão, descentra l i z a d a pel a c onfusão de línguas e m Babel,


reencon tra-se e m Cristo q u e com b raço rob u s to derru bou o m u ro
el a divisão e fecit utraque l lll U m . 39 P o r C r i sto e e m C ri s to t u do
s e u n ificou, todos s e tornaram u m a " pessoa moral" ·1 0 , real i dade
sub l i m e que S. P a u lo, o a r a u to i n f l a m ado do Corpo M í s tico de
C risto, n ão pode cessar de a n u n c i ar, de encom i a r e de relembra r
sempre d e novo, dou t r i n a n d o : p o r Cristo " accessum h ab e m u s ln
u n o Spiritu a d Patrem . " u P o i s bem, u m s ímbolo palpável desta
ve rdade vêem o s f i é i s diàriamente n o charis m a glossolalice, com
o qual s e l a n çam pontes sôbre o s abismos q u e separam a s na­
çõe s . A a l g u n s s e concede d e modo m i l agroso o d o m das l ín g uas
que con st itu i a distinção dos povos, a o r i gem de todo mal-enten­
dido, d i s p e rsã o , divisão . . . E o p róprio pneumático aufere do
c a ri s m a esta vantagem : " semetipsum redificat." 4 2 O que signifi­
c a certamente u m a espécie de u nção o u devoção s e n s íve l , ou en­
tão num gr a u mais e l evado de fortaleza na fé.
4 . F i n almente, para n ã o sermos i n compl etos, temos de acres­
cen t a r que em a nossa definição, sob o conceito de línguas n unca
apren didas se devem enten d e r : l ínguas realmente existentes ou
idiomas, d i al etos reco n h ecidos como l ín g u a s à p arte, de outras
n ações ou tribos. Se S. Marcos f a l a em glôssai kainái ·1 3 : " l i n guis
loquentur nov i s " , essa expressão m u i p rovàvel m en te tem q u e ser
i n terpretada em s e n t i do rel ativo. Logo, " l í ng u a s novas" quer di­
z e r : l í n guas a i n d a desco n hecidas p a r a o c a r i s m á tico ; não em
sentido absol u to , como s e e s s a l ín g u a até então não existisse. O
fato de a S . Escritura se refer i r conti n u a m ente a linguce n o p l u­
r a l , de se enco n t rarem têrmos como barbaras, interpretari e se­
m e l h a n tes, p rova, a nosso ver, q 1 1 e é d e s t i t u í d a d e todo ·fu nda­
mento a o p i n i ã o de alguns exegetas -11 q u e dizem tra tar-se aqui
duma só " l í n g u a q u a s e-p ri m i tiva " , uma l íngua vi rgem , p r i mor­
d i a l , como é m e n c i o n a d a e m G n 1 1 , 1 ( B abel ) .

3 11 ) Ef 2, 1 4.
·I O ) Cf. P r a t, o . e . , e d . 9, 1 , pág. 330, nota 2, relativamente a Gál
3, 28.
4 1 ) Ef 2, 1 8. Cf. a i n d a : Gál 3, 28 ; Col 3, 1 1 ; 1 Cor 1 0, 1 7 ; Ef 4,
4 ss. 1 5 ss.
4 2 ) 1 Cor 1 4, 4.
43) Me 1 6, 1 7.
H ) B i s p i n g, V a n S t e e n k i s t e .
Revi sta Eclesiástica B rasi leira, vol. 5, fase. 1, março 1 945 59

1I.
Exa minemos agora, à l u z do que foi dito, alguns fatos par­
tic u l ar es relatados em outros l ivros do Novo Testame nto, fora
das epístolas paulinas.
Deix ando de lado os tópicos em que se refere o hagiógr afo
a os cari smas em geral, verificamos que apenas em três perícopes
se fa z r eferência nominal ao fato histórico e específico do donu m
li ngu aru m . Acham-se elas nos Atos dos Apóstolos : 2, 4- 1 3 ; 1 0, 44-
46 ; e 1 9, 6 . Submetamos primeiro a ligeiro exame os tópicos
co nti dos nos capítulos 10 e 19, para depois analisarmos a sublime
pe ríc ope de Pentecostes no capítulo 2.
Os hagiógrafos comunicam às vêzes os m i lagres mais des­
lum bra ntes com as pal avras mais simples. E' o que se verifica
aqui. Nos capítulos 10 e 1 9 o mil agre da glossolalia é mencio­
na do com apen as duas palavras : "loquentes lingu is" ( 10, 46 ) e
" loqueb antur l inguis" ( 1 9, 6) . A conclusão que se impõe é que
se trata aqui dum fato que os leitores imediatos de Lucas com­
pre e n d iam sem úl terior comentário ; que o sucedido se dava re­
p e ti d a s vêzes e lhes era bem conhecido por experiência, sendo­
lhes também conhecido pelas epístol as que recebiam do Apóstolo
dos gentios. 4 5
No cap. 1 O, o autor sagrado refere como Pedro, sendo mi­
lagrosamente cham ado pelo Espí rito Santo ao apostolado dos
gentios, na cidade de Cesaréia, se encontra com as primícias,
Cornélio e os amigos clêste, e cheio de entusiasmo lhes fala de
Jesus de Nazaré. "Adhuc loquente Petro verba hrec, eecidit Spi­
ritus super omnes qui audiebant verbum . Et obstupuerunt ex cir­
cumcisione fideles qui venerant cum Petro, quia et in nationes
gratia Spiritus Sancti effusa est. Audiebant enim i llos loquentes
l i nguis et magn ificantes Deum. " ( Vv. 44-46. ) E o cap. 19 ensi­
na-nos como Paulo em Éfeso batiza no nome do Senhor jesus
a doze discípulos, que tinham recebido o batismo de joão, mas
n a d a sabi am da existência cio Espírito Santo, e lhes impõe as
mãos. " E t cum imposuisset i l l is manus Paulus, venit Spiritus
Sanctus super eos, et loquebantur linguis et prophetabant." ( 1 9 ,

4 5 ) Pois S. Lucas, amigo fiel, companheiro e alma-gêmea de S. Pau­


lo, editou a sua obra aproximadamente no ano de 60, logo em plena era
da evangelização, uns poucos anos depois de ser escrita a t epistola
.•

aos Coríntios ; assim como o seu Evangelho, também os Atos destinaram­


se principalmente aos étnico-cristãos.
60 H a a n a p p e 1, A G lossol alia no Novo Testamento

1 -7 . ) Em ambos os tópicos Lucas emprega o têrmo j á m encio­


nado : laléin glôssais, "loqui linguis", têrmo que encontramos cons-·
tantemente em S. Paulo. Nada mais natural do que interpretarmos
o fenômeno como carism a i n tei ramente i dêntico ao das epístolas de
S . Paulo. Tanto ma i s que é frisada outra vez inequivocamente sua
origem pu ramente sobren atural : "cecidit", "venit Spiritus Sanctus",
" audiebant enim" ; e no cap. 1 0 se acrescenta i m edi atamente : "et
m agnificantes D eum" , expressão que novamente faz entrever o
objeto da glossolal i a : louvar e encomiar a Deus, rezar a D eus,.
o que está p erfeitamente de acôrdo com as locuções de S . Paulo :·
"orare" , "psallere" , "benedicere" , " gratias agere" ; ao passo que
no cap . 1 9 o fato da glossol alia simultâneamente é citado com:
outro carisma, o da p rofecia, p recisamente como em 1 Cor 1 4�
Mais intricada se torna a questão na tercei ra perícope (2,.
4- 1 3 ) , que se refere aos acontecimentos do dia de Pentecostes e·
onde são enumeradas as testem unhas dos povos cuj as l ínguas
s e falam. Por aí se vê o êrro d a exegese popul ar. D e fato, o lei­
tor i r refletido, passando desta perícope ao trecho seguinte ( 1 4-
3 6 ) , apesar da separação e disti nção tão n ítidas entre essas duas
cenas, pode enganar-se redondamente n a j usta interpretação de
uma e outra. Mui tos catequistas e p regadores ensinam que os
discípulos n a manhã de Pentecostes discorreram perante a mul­
tidão, enquanto os ouvin tes, cada um no seu idio ma, os compreen­
deram ; ou então, que S. Pedro teria feito seu discurso em tôdas
as línguas ao m esmo tempo . No entanto, n ão é exata, a meu ver,
esta opinião corrente que em numerosas cátedras e púlpitos con­
quistou foros de veracidade. Pelo contrário, apoiando-nos no tex­
to e contexto, é forçoso consignar aqui um caso concreto e ni­
tidamente del ineado de genu ína glossolalia, como a descrevemos
na primeira parte dêste artigo .
Leiamos, porém, antes de m a i s n a d a tôda esta perícope de
rara beleza, com cal m a e sem p reconceitos, j untamente com o
princípio da subseqüente descrição, tal como no-la oferece o cá­
l amo castiço do "médico caríssimo" 4 6 :
1 . " Et cum complerentu r dies Pentecostes, erant omnes pariter in
eodem loco : 2. Et factus est repente de creio sonus, tamquam advenientis
spiritus vehementis, et replevit totam domum ubi erant sedentes. 3. Et
apparuerunt illis dispertitre lingure tamquam ignis, seditque · supra sin­
gulos eorum. 4. Et repleti sunt omnes Spiritu Sancto, et cceperunt loqui
variis li ngu is, prout Spiritus sanctus dabat eloqui i llis. 5. Erant autem

4 8 ) Col 4, 1 4.
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 61

l
í n t e ru sa lem habitantes udrei, viri religiosi ex omni natione qure sub
ca! IO est. 6. Fact � autem hac. voce, .
convenit !11 u ltitudo, et mente confusa
t qu oni am aud 1 ebat u nusqu i sque hngua s u a 1 l los !aquentes. 7. Stupebant
es
au tem onmes et mirabantur dicentes : " N onne ecce omnes isti qui loq uun­
tu r G ali lrei sunt, 8. Et quomodo nos audivimus u nusquisque I i n guam
no � tra m, i n q u a nati sumus? 9 . Parth i, et Medi, et JElamitre, et qui h a­
bit ant Meso potamiam, l udream, et Cappadociam, Pontum, ·et Asiam, 1 0.
P h rygiam et Pamph i l iam, JEgyptum, et pa rtes Libyre, qure est circ a
Cyre nen, e t adveme R o m a n i , 1 1 . l udrei quoque, et proselyti, Cretes et A ra­
bes : aud ivimus eos !aquentes nostris linguis magn a l i a Dei." 1 2. Stupe­
ba nt aute m omnes, et m i rabantur ad i n v icem, dicentes : "Quidnam vult
!to e es se?" 1 3. Alii autem irridentes dicebant : "Quia musto pleni sunt isti."
Começa, em seguida, outra cena com êstes dizeres :
1 4. Stans autem Petrus c u m undecim, levavit vocem suam et locutus
cst eis : " Viri l u drei et qui h abitatis I erusalem u n iversi . . . "
Demonstraremos, primeiro, que aqu i se trata do verdadeiro
carisma da glossolalia de que fala S. Paulo ; em seguida, compen­
diando as circunstâncias do ocorrido, procuraremos reconstru i r o
m i l agre de Pentecostes.
P r i m e i r o a r g u m e n t o : O sen tido óbvio do texto
obriga-nos a recon hecer que aqui temos todos os requisitos da
g l ossolal i a .
a ) A terminologia d e S . Lucas demonstra tratar-se d e fenô­
meno idêntico ao que relata S . Paulo. No verso 4.0 se lê : êrxanto
/aléin hetérais glôssais, "coeperunt loqui variis ( seri a melhor "al­
teris" ) linguis." Héteros significa : o outro dos dois, correspon­
dendo ao têrmo l atino alter; logo o sentido é : começaram a falar,
cada um, outra l íngua, idioma diferente do seu próprio. A ori­
gem, outra vez, é sobrenatu ral : "prout Spiritus sanctus dabat
eloqui i l l is" : o Espírito Santo inspirou-os a cada u m em parti­
cular. Como errônea, portanto, tem que ser estigmatizada a opi­
n ião dos que explicam esta perícope como se os discípul os, quer
todos j untos, quer cada um por si, fal assem uma só l í ngua ( " a
l íngua primi tiva" no parecer d e B e l s e r 4 7 ) , enquanto o s ou­
vi ntes os entendiam cada um em seu próprio dialeto. Suposto
que o próprio falar fôsse m i l agroso, o que nesta hipótese nem
seri a preciso, então p resenci aríamos aqui d ois mil agres : ao lado
dum Spraclz w under (milagre no falar) , ainda um Horwunder (mi­
!agre no ouvi r ) , como se exprimem os exegetas alemães ·1 8 ; po -

4 7 ) "Vielleicht die U rsprache." (Die Apostelgesclzichte, i . h. v. ) Re­


fer e-se o conceituado escriturista à língua que estêve em voga entre to­
dos os ho mens até a confusão das línguas em Babel, conforme On 1 1 , 1 :
" E rat autem terra labii u n i u s et sermon u m eoru n dem. "
48) Seg undo ê l e s o elemento milagroso consistiria em que o Espírito
62 H a a n a p p e 1, A O lossolalia no N ovo Testamento

rém, de tal Horw 1rnder nem de longe se faz m enção ; não diz o
hagiógrafo : "prout dabat a u cl i re m u l titudini" o u "viris ex om ni
n a t i o n e " , mas só : prout dabat eloqui illis, e nada m a i s . Prout é
têrmo d istributivo . Conseqüentemente, êste lz etérais glôssais, " al­
teris l i n guis'', l igado a katlzôs, " prout" , não a d m i te o u tra solu­
ção do caso. Tampouco o Honv under s e pode apoiar no verso 8 :
"audivimus u n usquisque linguam nostram", pois n o grego não
está o acusativo, mas o dativo ; akouô, "audire'' , p o rém, rege
também no grego vulgar (lwinê) sempre o genitivo o u acusati­
vo, nunca o dativo . Aqui, por consegµ inte, devemos mentalmente
ligar ao dativo ( = abl ativo no l a t i m ) o verbo laléin, que n o con­
texto , v . 4, 6, 1 1 e especia l m ente imediatamente antes, n o v . 7,
e em S . Paulo em tôda parte, s e constrói com o dativo = ablativo
instrumenti. D e m a n e i r a que a tradução m a i s l i teral e exata seria
esta : " E t quomodo n o s audimus unusquisque ( i l l o s ) língua nostra
( l oqui ) , i n q u a nati s u m u s . "
b ) O obj eto aqu i também é : l o u v o r de D eu s : " l oquen tes
magna/ia Dei." ( V ers. 11.) Tà m egalêia é a expressão habi tual
para designar obras grandiosas, sublimes, m aravi l hosas ·1 9 e
magalfinô é : " magnificare" , fazer grande, engrandecer, sublimar.
I gualmente a p a l avra elo qui sugere esta idéia : pois apofthéngesthai
denota : " graviter et magnifice loqui . " D a í o têrm o técnico
apoftlzégmata para designa r respostas oraculares. A l i ás, nada
mais natural aqui do que o s discípulos abundantemente reple tos
do E s p í ri to S a n to, e l ev a rem i ncontinenti o coração e a a l m a Aque­
le que de modo tão m i lagroso veio nêles habitar. E i s p o r que,
imedi atamente após a descid a das l ínguas de fogo, j á no próprio
cenáculo, se põem a f a l a r, a i n d a a ntes q u e o povo de j erusal ém
se tivesse aglomerado n a praça, como os versos 4 até 6 inclu­
sive i n dicam claramente. Pois, quem quisesse comprovar o con­
trário, deveria acusar a S. Lucas, sempre modêlo acabado de l in­
guagem e estil o esmerado, de surpreendente falta de clareza. Pri­
mei ramente narra : "factus est repente de creio sonus . . . et re­
p leti sunt . . . et creperunt loqui" ; tudo isso se deu em poucos
instantes. Mas, antes que a mul tidão - introduzida pelo verso

Santo operava, influenciava nos movimentos oscilatórios das ondas aéreas,


modificando as vibrações do som, sej a a meio-caminho, sej a na membrana
do tímpano do ouvinte ou atrás dela. Logo, em todo caso o milagre se
real izaria excl usivamente fora dos órgãos vocais do carismático.
49) Motivo por que alguns códices querem ler em Lc 1 , 49 : "fec it
mihi magna qui potens est", não megála, mas megaléia.
Rev ista Eclesiástica B r a s i l ei ra , vol. 5, fase. 1 , março 1 945 63

5 - por cau sa do ruído espantoso se di rigisse ao l u gar donde


p r ov i n ha o ru ído, já tinha começado o glôssolaléin, já estavam
os A pó stolos e d iscípulos em êxtase, falando l í ngu as e louvando
a Deu s . Nem seque r tiveram ocasi ão de se dirigir a quem quer
que fô sse, a não ser a D eus, o I nvisível . Logo, encontra mos tam­
bém aqui o mesmo obj etivo : o ração a Deus, louvor, ação de gra­
c a s, encômio de D eus. Assim se exp l ica que du rante o mil agre
de Pen tecostes não se falou nem uma só palavra à multidão 50 ;
n i n g uém discurs o u ou pregou . I sso se verifica tão-somen te no
verso 1 4, onde Lucas descreve cena intei ramente diferente, a sa­
ber a pregação de S . Pedro com suas conseqüências sal utares,
a conversão de 3.000 pessoas. Ei s por que, tanto em S. Paulo
como nos Atos, debalde p rocuraremos lugar onde se citem as
pal avras do glossólalo na o ratio recta ou o bliqua. Que no dis­
cu rso ele Pedro, referido i n tegralmente (vv. 1 4-36 ) , tenha havi­
do outro milagre exceto a súbita coragem e a i ntrepidez do Após­
tolo, intrepidez essa que se não explica de modo natural, é coisa
que carece de argumento. Miracula autenz n o n s u n t m ultiplicanda
sine ration e, afirma todo teólogo. E ' desnecessário supor aqu i
algum mil agre no falar ou no ouvir (Sprac/zw under ou 1-f o r w u rz ­
der) : gratis infertur, gratis negatur.
c) Encontramos aqui também os mesmos efeitos. Em S. Pau­
lo vimos quão diferentes são as conseqüências da glossol alia para
os fiéis e infiéis. Pois bem, em S . Lucas vemos ilustrado, pela
real idade dos fatos, o pensamento do Apóstolo. A argumen tação
de S. Paulo 5 1 fêz-nos ver quanta consol ação derramava nos co­
r a ções de todos a inabi tação do Esp í r i to Santo tão man ifesta
pelo carisma e quanta edificação exterior e ilumi nação i n terior
e l a p ro duzia nos fiéis. E agora é S . Lucas que, depois de des­
crever o grande assombro e a su rprêsa geral stupebant au­ -

tem o m n es et nziraban tur, assim êle diz duas vêzes 52 , se põe -

a narrar como o fato de estarem os 1 20 sobremaneira repletos


elo Espírito Santo incitava os espectadores a refletir : " Quidnam
vult hoc esse ?" 5 3 ; e como êsse dom ínio visível das l í n guas co-

50 ) Cla ro é que aqui não é i ntenção nossa excl u i rmos fórmulas pre­
catóri as que se comparam a um falar-a-homens, como vemos tantas vêzes
nos sal mos, p. ex., Laudate Dominttm, omnes gentes. (SI 1 1 6. )
51 ) Vide supra.
• �2)
Vide supra. A segunda vez n ão lemos : Kai etháumadson, mas
d1€p orou n : "hresitabant, i ncerti hrerebant", cf. jo 1 3, 22.
53) V. 12.
64 H a a n a p p e 1, A G losso l a l i a no Novo Testamento

meçava a preparar os seus corações a aceitarem humildemente


as verdades que pouco depois iam ser procl amadas por Pedr o :
" . . . compuncti sunt corde." ( V . 37 . ) " E t appositre (quer dize r,
aos 1 20 que no cenáculo tinham estado reuni dos unanimiter in
oration e, 1 , 1 4 - 1 5 ) sunt in die illa animre circiter tria millia."
(V. 4 1 . ) Desta sorte verificamos na realidade dos fatos que o
dom das l ínguas deveras é in signum 6 4 , sêlo da verdade, o qua l
pode dispor à sua aceitação. Além disso, S. Paulo tinha também
lembrado aos coríntios que a glossolalia seria para os infiéis, os
maus, ensej o de cal únia e escárnio : "Nonne dicent quod ins a­
nitis ?" 65 ; e aqui se levanta o brado zombeteiro dos maliciosos :
"Musto pleni sunt isti 1 " 6 6
S e g u n d o a r g u m e n t o : o parecer dos Padres apostó­
licos está de acôrdo com esta interpretação. Aquêles que vivia m
no tempo do pleno florescimento dos carismas, viam no milagre
de Pentecostes a mesma operação do Espírito Santo que se dava
no glôssolaléin das suas reuniões quase diárias. F o n c k, o fa­
moso escriturista, não hesita em chamar mesmo de unânime a
veneranda opinião dêsses antigos Padres .
T e r c e i r o a r g u m e n t o : a autoridade de eminentes
exegetas pleiteia em favor desta tese. Citemos apenas dois nomes
omni exception e maiores : B e e 1 e n e K n a b e n b a u e r.
Após esta argumentação vem a propósito darmos um ligeiro
esbôço da cena que se real izou n a célebre manhã de Pentecostes,
tal qual se deve ter dado conforme esta documentação exegética.
Logo que o Esp írito Santo, santificando abundantemente 6 7 os
discípulos e fortalecendo-os de modo mil agroso, descera sob a
aparênci a de uma só torrente de fogo celestial 68 - símbolo de
unidade -, da qual se desprenderam tantas chamas quantos dis­
cípulos havia, isto é, 1 20 6 9 , cada um começou incontinenti a lou­
var a Deus j ubi losamente, quase em êxtase, um em egípcio, outro
em persa, mais outro em cóptico, etc., etc., cada um numa l íngua
diferente da sua própria : "hetérais glôssais", alteris - não va-

64 ) 1 Cor 1 4, 22.
6 6 ) J Cor 1 4, 23.
6 6 ) V. 1 3.
5 7 ) V. 4 : Repleti.
58 ) é o que denota a palavra " dispertitre", diameridsómenai, "quasi ex
u n o (dia-) sese distribuentes."
6 9 ) Cf. Commtznicantes, i n festo et Octav. Pentec. : "innumeris li n·
guis apparuit."
Revista Eclesiástica Brasi leira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 65

riis - l inguis. J ubilosos deixaram a sa la e s e dirigi ram para fora.


Ent ret anto o r u í d o veemente que, semelhante ao rugido ou s i lvo
ele b orr asca furiosa, passou por cima da c i d ade, tinha a lvoroça­
do tô da a p opul ação hierosol imita. Entre parênteses obser va S .
Luc as (verso 5 : " E rant autem . . . " ) que muitos j udeus d a diás­
po ra, po r motivo s religiosos, tinham escolhido o seu dom i c í lio
6 0 Pode estranhar-se aqui
n esta sede cent ra l elo mundo israel í tico.
qu e o au t o r p asse em silêncio completo o s estrangei ros, o s Fest­
pi/ger ( r omei ro s ) que, segundo a s fontes f i dedignas da an tigui­
dade, p elos dias de Pentecostes, costumavam aos m i l h ares visítar
a Ci da d e Santa. Certamente d ivers o s dentre êles devem ler acor­

ri do tam bém por entre as aglomerações. Porém, talvez S . Lucas


te nha em vista assentar duma vez para sempre nas suas crônicas
" ecl esiá sticas", que a primitiva "comuni dade" cristã se recrutava
excl usiva mente ou q u ase 6 1 exclusivamente dentre o povo que S .
Pedro apostrofa d i retamente (v. 1 4) : " V ós, j udeus, e habitantes
todos de Jerusalém" , o povo que se converte do seu deicídio : " in ­
tere mistis" (v. 23 ) , " quem v os crucifixistis" (v. 36) .
Ora, não é difícil imaginar que nesse al arme geral cada qual
procu rasse seus conterrâneos o u seus colegas da s i n agoga e as­
sim, em bandos, entre gritos desabafasse seus sentimentos de es­
panto com vivacidade o rienta l . Ao aglomerarem-se diante d a
casa, o Espí rito S anto, q u e operava visivelmente e p o r assim dizer
brincava com o s discípulos e a s m u l t idões (.pro ut dabat . . . ) , re­
gulou tudo de tal forma que cada grupo entrasse em contato
com um discípulo q u e falava o i dioma próprio dêsse grupo . D aí
o assombro : " P o rventura não é êste galileu ! Como é então que

60 ) Cf. A . M e r t e n s, S . SS. R., A Hierarquia tzo Primeiro Século


do Crist ian ismo, pág. 3 : " Pois, j á n aquele primeiro Pentecostes, n a pri­
mordial manifestação d a Igrej a ao mundo houve um acréscimo de umas
t rês mil pessoas que . entraram nel a ; e como? Aceitando o Batismo, o
caráte r distintivo de membro da coletividade c ristã. ( At 2, 4 1 . ) Dêsse d i a
e m diante êstes fiéis s ã o como que desmembrados d a sinagoga j udaica ; se
antes c o nf o rm e a sua nacionalidade tinham pertencido às di/e rentes sina­
gogas de jerusalém (At 2, 8-1 2) , desde êste d i a são um com os 1 20 fiéis
(At 1 , 1 5) e tornam-se adeptos devotados (Proskarterountes) d a dou­
tri n a dos A póstolos e d a comunidade cristã (tê koinônitl) , do ágape
euc arís tico e das orações comuns. (At 2, 42. ) "
61 ) "A dvenre ( epidêmountes) Romani" subentende, segundo o parecer
de muitos , romeiros de fora. Outros o i n terpretam como uma espécie de
qua si-d omi ciliu m .
5
66 H a a n a p p e 1, A Glossolalia no Novo Testamento

o ouvimos celebrar em nosso dialeto as obras grandiosas de


Deu s ? ! " Prõpriamente nem há necessidade imperiosa de supor ta is
agrupamentos de povo, de tribo ou de sinagoga n acional . Sen do
tão grande o número de carismáticos (cento-e-vinte) , era inevi­
tável perceberem-se muitas línguas distintas, tanto mais porque
os ouvintes eram de bom número de n acionalidades diferentes :
S . Lucas enumera umas quinze. O significado dêste milagre in­
teiramente singular, a saber, que todos os povos são chama dos
a uma (mica coletividade no Espirito Santo - e isso j á no pró­
prio dia da promulgação da I grej a - de certo não lhes era evi­
dente ; mas o fato mil agroso era inegável .
I gnoramos quanto tempo durou o milagre. Mas, num dado
momento, sob a inspiração do Espirito Santo, interrompe S . Pe­
dro o seu desafôgo extático, coloca-se num estrado ou banco ou
escada qualquer e, na plena convicção da sua dignidade de Che­
fe dos Apóstolos, põe-se a discursar solenemente ao povo e a
tôda Jerusalém ; defende o que sucedeu, contra a crítica amarga
"Musto pleni sunt isti" ; procl ama a I grej a e promulga o Evange­
l h o . N atu ralmente faz o seu discurso inaugural numa só l íngu a :
" N e pouvant parler q u ' u n e l angue à l a fois, i l e s t naturel qu'il
parlât l a sienne" 6 2 ; e visto que quase todos os ouvintes eram
katoikountes 63, cidadãos de Jerusalém que, por conseguinte, de
certo, conheciam suficientemente a l íngua do país, tanto por causa
do seu domicílio, como por causa do culto e do meio, a mul tidão
o enten deu sem mais nenhum milagre. De semelhante milagre,
porém, que em caso algum seria o carisma da glossolalia, m as no
máximo uma espécie de florwunder, m i lagre de ouvido, não fala
o hagiógrafo com uma só pal avra.

H) P r a t, ed. 1 53. Segundo outros foi feita a oração em


9, 1 , p á g .
grego, Hngua que na Palestina e r a entendida e falada por muitos.
IS) V . 5 .
R evista Eclesiástica Brasileira, vo i. 5, fase. 1 , ma rço 1 945 67

As Proposições da Encíclica
"Mystici Corporis Christi".
Por Prei C o n s t a n t i n o K o s e r , O . F. M., Lente de Teologia,
Convento dos Franciscanos, Petrópolis.

Em anterior artigo desta Revista 1, ensaiamos respo nder à


qu e stã o do valor teológico da Encf clica de Pio X I I sôbre o Corp o
M í s tic o de Cristo ; no presente estudo, desenvolvendo o nosso pen­
sa m e n to , vamos ocupar-nos com as proposições enunciadas nessa
mesm a Encíclica. O documento pontifício não teria utilidade,
e suas definições não poderiam exercer a influência a que se des­
t i n a m , se não fôsse possível estabelecer uma espécie de sílabo de
proposições . A emprêsa é bem mais difícil e arriscada, que a de
examinar o valor teológico do documento. Prefirirfamos aguardar
declarações pontifícias a estribar-nos sôbre nosso próprio j ulga­
mento. A falta do material de elaboração da Encíclica, dos esque­
m a s provisórios, das formulações sucessivas - compromete e di­
ficulta sobremaneira a tentativa. Todavia, não podem os teólogos
eximir-se de a fazer. Nos tra tados de apologética ou teologia
fundamental, nos tratados dogmáticos "De Ecclesia" n ã o podem
ignorar os ensinamentos de Pio X I I , e por outra não podem apro­
veitá-los devi damente, se não tiverem feito primeiro êste trabalho
ele penosa análise formal . Não h avendo, porém, nos estreitos li­
m i tes de um curso teológico, o lazer necessário para investigação
desta espécie, pensamos que nossas anotações possam ser de uti­
l idade a al guém . Seremos gratos a todos, que com seu saber e
s u a experiência nos venham corrigir e melhorar as opi niões. A
própria natureza da investigação é tal, que não pode ser feita
c o m perfeição por uma só pessoa, e requer a caridosa coope­
ração de todos.
Su pomos o primeiro artigo conhecido. 2 As i nvesti gações do
presente dependem intei ramente do grau de certeza atingido na
anál ise do valor teológico da Encíclica. Quer parecer-nos que
a t i n g i m os o grau de certeza moral .
U ma vez que o s critérios de discernimento das proposições
depe nde m do tipo l i terário da Encíclica, êste deve ser examinado
prim eiro. E m segu ida é preciso examinar se Pio X I I só quis

1) Cfr. REB, 1 944, fase. 3, pág. 608-6 1 8.


l) Cfr. lc.
68 K o s e r, As Proposições da Encíclica "Mystici Corporis Chris ti"

p ropor definitôria mente as conden ações, ou ainda p roposiçõ es p o ­


s i tivas. Feito isto, poderemos tentar formar o s i l abo d as p ro ­
posições, aj u ntando a cada u m a a qual ificação o u censu ra teo­
lógica que l he convém .
a) O Tipo Literário da Encicllca.
As encíclicas, como podem versar sôbre os mais variados as­
suntos, podem também estar vasadas nos mais d iversos mol de s.
S c h e e b e n 3 divi de-as, sob o aspecto formal, em duas cl ass e s :
umas m a i s p a renéticas, e outras mais sóbrias em recursos es ti­
l ísticos, vazadas e m mol des r i gorosamente j u rídicos de const itu i­
ções dogmá ticas. Em encícl i cas êste ú l timo modo geral mente es ta­
rá con dicionado com alguma brandura p a renética. E s t a distinção
é importantíssima para a interp retação. N u m a encícl ica vaza da
nos moldes de consti tuição dogmática, será n ecessário exami nar
m ais detidamente as d iversas al íneas, para descobri r tôdas as
p roposições e con denações. N u m a encíclica parenética, geral men­
te será suficiente aten der ao título, e m q u e estarão i n d icadas as
p roposições o u condenações. O restante do documento deverá ser
considerado apl icação pastoral, exposição de m o tivos, a rgumen­
tação, etc. Pode, é verdade, estar escondida também aí uma pro ­
posição definida, mas deverá apresentar-se então revestida das
condições do "ex cathedra", e isto no con texto imediato. N uma
encíclica, vazada e m m o l des de constitu ição dogmática, o s argu­
mentos, se existi rem, serão menos vastos, a j ulgar pelo postulado
dos Padres do Concílio do Vaticano : pediram restrição dos ar­
gumentos, para não parecer a I grej a um mestre-esco l a e m dis­
cussão com seus discípulos. Ao Magistério d a I grej a cabe falar
com autoridade, e aos fiéis cabe subordina r-se à palavra divina­
mente garantida em s u a veracidade. 4
A q u e tipo l i terário pertencerá a encíclica " Mystici C o rporis
Christi " ? D evemos distingui-la em três partes : a primeira po­
deria recebe r o sobreescrito de " exposição de motivos e da in­
tenção de difi n i r" . Vai talvez até às palavras : "Meditantibus no­
b i s h u i u s doctrinre ca p u t . . . " 5 Desta a l í ne a às palavras : " Post-

ª) Han dbucfz der Katfzolisclz en Dogmatik, Fribu rgo na B r isg ó v i a, edi­


ção de 1 933, vol . 1, pág. 228-229, n . º 509.
4) Coll. Lac. V I I, c o l . 85b.
6) R E B , 1 943, fase. 4, pág. 1 029, alfne a 5. Citaremos sempre esta edi­
ção da Encíclica, a mais acessível aos l e i to res da R E B . A�lotamos a se-
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 69

qua ,

m V en erabi l e s F a t res . . . " . 6 v a i o co rpo da e n c í cl i c a , q u e

é- d o u tri n a l . N e s t a a l m e a d a p a g . 1 050 c o m e ç a a p a r te p arené­


té ao f i m . 7 N e s t e e n s a i o i n teressa-nos sobre t u do a p a r­
t ic a . Vai a
Pio X I I an tepõe e po s põ e a e s t a p a r t e a s frases
te do u t ri n a l .
de q u e n o s servi m o s p a r a o exame do v a l o r teológico d a e n c í cl i ­

ca . s O qu e
foi d i to s ô b re ê s t e tem a , v a l e só d e s t a segu n d a p a rte.
o " e x c a th edra" v a i da p á g . 1 029, a l í n e a 5, à p á g . 1 050, a l ín ea
2 i n cl u sive .
Percebe-se a o p r i m e i ro relance d e olhos, q u e e s t a segu n d a
pa rte é u m tecido comp acto de d o u t r i n a s , dedu z i d a s u m a s d a s o u ­
t ras e m form u l ações concisas, c l a r a s e i n cisivas. O s a rgumentos
escri t u rísticos, p a t r f sticos e teológicos s ã o m u i to breves. D e vez
em quando, como q u e p e r d i d a s em m e i o d u m a ob r a s i stemática,
repontam exclam ações p arenéticas, conselhos e a p l i cações práti­
cas . 9 Com p a r a n do-se esta parte doutrinal da encíclica de Pio
X I I com a " S at i s cogn i t u m " de Leão XIII, que versa assunto
q u ase i dên t i co, p e rcebe-se n o documen to L e o n i n o m u i to m a i o r
� m p l i dão d e a r g u m e n t o s . Leão X I I I q u i s p ers u a d i r 10, P i o X I I ,
po ré m, q u e r redu z i r o o r b e catól i co à "obediência da fé." 11
Com p a ra n do-se a i n d a e s t a p a r t e d o u t r i n a l d a e n c í c l i c a com
as constituições dogm á t i ca s p o r exem p l o do C o n c í l i o do V aticano,
nota-se q u e e s t a s s ã o m u i to m a i s p arcas em a r g u m e n t o s e a n o ­
tações. A própri a form u l ação p rovi s ó r i a dos esquemas sôbre a
I g r ej a 1 2 n ã o c o n t a n e m d e l o n ge t ã o g r a n d e n úm e ro d e c i tações .
Estas foram postas fora d a s con s t i t u i ções e d e s e u s esqu emas,
nas "Adnotationes" 1 3 , o n d e s e encon t r a m a m p l as exposições d e
motivos, argumentações e e x p l icações dos s e n t i dos d a s fórm u l as
e p a l avras emprega d a s .
D estas co m p a rações dedu z-se q u e a p a r t e dou t r i n a l d a en­
c í c l i c a "Mystici Corporis C h r i s t i " , sob o aspecto form a l , medeia
entre con s t i t u i ç ã o dogmática e encíclica parenética. S e n do assim,

gui nte abreviação : REB, seguida do número da página, e após u m a vír­


gula o n ú mero da alínea. P. ex., a passagem presente : REB 1 029, 5.
6 ) REB 1 050, 3. 7 ) REB 1 056.
8) Cfr. REB 1 9 44, fase. 3, pág. 608-6 1 8.
9 ) Cfr. p. ex. R E B 1 032, 5 ; 1 037, 2, etc .
10 ) enixe petimus, ut Nobis v i m persuaden d i i mpertire benigne
" • • •

vel i t . . " ( Cf r. a transcrição feita por D i e e k m a n n , De Ecclesia, l i ,


.

Fri burgo, 1 9 25 , p ág. 259. )


)
1 1 R EB 1 029, 4 ; cfr. Rom 1 , 5.
)
1 2 Coll. Lac. V I I , col. 567-578.
1 3) lc. col. 578-64 1 .
70 K o s e r, As Proposições da Encfclica "Mystici Corporis Christi"

a s eleção das proposições torn a-se mais difícil e mais i ncerta e m


s eus res u l tados. Os critérios são excessivamente vagos. N ão se
pode aplicar o método de reduzir a proposições as constitu ições
dogmáticas, nem se pode tratar a encíclica segundo o métod o
das preferencialmente parenéticas. Façamos a tentativa de nos
equilibrar entre êstes doi s métodos.
C u mpre ainda notar que em constituições dogmáticas os P a­
pas não precisam manifestar a intenção de def i n i r, diretame nte
ao pé das proposições ou conden ações respectivas. A intenção deve
ser manifestada, mas vale então para todo o documento, na me­
dida indicada. E' o que fêz Pio X I I na presente encícl ica. De­
clarou no princípio sua in tenção de definir 1 4 , e m arcou nitida­
mente o ponto onde term ina a p arte dogmática. 16 Para eviden­
ciar, portanto, que uma proposição ou condenação está real mente
proposta " ex cathedra", na p resente encícl ica, não se devem pro­
curar no contexto imedi ato as condições do " ex cathedra" . O
contexto imediato deverá fornecer apenas os el ementos neces­
sários para discernir se a f rase em questão é p roposta ou con­
denada realmente, ou se é exposição pastoral, argumento, -"obiter
dictum", etc. Não se repetirão, portanto, j un to às proposições,
os argumen tos do "ex cathed ra" . A disposição da encíclica é tal,
que isto, além de não ser necessário, ainda é impossível. N isto
ela se parece in teiramente com uma constituição dogmática.

b) . Pio XII só Condena Erros, ou Também Propõe Doutrinas?


E' a ques tão dos " capitula doctri n re" . A estrutura de quase­
con stitu ição dogmática ela encíclica dificultaria a decisão, e ver­
nos-í amos em gra ndes embaraços, se o próprio Pontifice não des­
se a resposta. D isse : "Quibus om nibus coram D eo mature per­
pensis . . . u t . . . mul tiplicibus errori bus in hanc rem penitus clau­
datur aditus, Nos pastoral is Nostri off icii pa rtes duximus u niverso
christi ano gregi per Encyclicas has Litteras do ctrinam proponere
de mystico j esu C hristi C orpore . . . " . 1 6 O Papa, pois, d i z cl ara­
mente que o s "capitula doctrinre" serão o pri ncipal, o primordial;..
mente i n tencionado. As con denações de erros serão a conseqüên ­
cia, o resultado intencionado com a definição de doutrin.i posi ti­
v a . Não se pode, por isto, limitar o "ex cathedra" às condenações,

é preciso i nvestigar ainda quais as proposições positivas impos-

t-4) Cfr. REB 1 029, 4. t õ ) Cfr. REB 1 050, 3.


1 8 ) REB 1 029, 4.
Rev ista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , ma rço 1 945 71

ta s def in itõ riamente aos fiéis. Também n isto a encí clica se parece
a co n sti tuição dogmática, com seus " capi tula doct rinre " e seus
"c an on es damnationis e rrorum " . D iscern i r, porém, nos "capi t u l a
d oc trin re" proposições definidas e argumentos, expl icaçõe s, " ob i ­
te r di eta", considerações não definidas, será bem difíci l . Uma
pr op os ição n egativa· é mais fácil de verificar em seu alcanc e e na
questão da p roposição definitória. Mas assemelha-se à tangen te
que toca a esfera n u m ú nico ponto. P o r m ai s q u e se m u l ti p l i quem
as proposições n egativas, nunca s e chegará a exau r i r p o s i t iva­
mente o complexo de doutrina. A p roposição negativa é. rica em
determinação, pobre em conteúdo. As p roposições positivas, com
menor trabalho e menos m u l tiplicação de frases, dão m u i to maior
riqueza positiva. Em paga são m u i to menos determinadas em seu
alcance, desbordando-se para todos o s l ados em margens de i n ­
certezas, entrozando-se m u ltiformemente com a rgumentos e ex­
posições não definidas, sem apresentar arestas claras e p recisas.
São deficiências i n evitáveis do pensamento de sêres contingentes.
e) . A s Propo sições e Condenações Contidas na Eocíctlca.

Com os critérios expostos, arrisquemos a viagem de explo­


ração ao vasto e complexo continente ela encícl ica d e Pio X I I .
Além de reduzi-la a sílabo, faremos ainda a tentativa d e responder
com cada proposição ao quesito, s e já houve o u não pronuncia­
mento definitório an terior. Evidentemente isto não significa dar
a " história de dogma" senão apenas um l igeiro apanh ado da
medida de "proposição" imediatamente anterior à encíclica.
H á duas possibilidades de disposição : pode-se reuni r num a
parte as proposições positivas, e em outra as negativas ; e pode-se
s eg u i r simplesmente a dis p osição da Encf clica. t:: s te segundo ca­
minho n ó s o p referimos. A exposição separada d e proposições e
condenações haveria de a rrancar os tópicos do seu contexto, difi­
cultando desta forma a evidenciação do fato de se tratar duma
proposição. Seguiremos, pois, si m p l e s m en t e o t e x t o da Encícl ica ,
examinando frase por f rase, se nela não se oculta preciosa de­
finiç ão.
A primeira al ínea da p arte doutrinal 1 7 é i ntrodu tór i a . São
considerações que levam até ao assu n to por meio duma descrição
sumária da eco n o m i a da Criação e Redenção. N ão se pode, n e s ta

17) REB 1 029, 5 - 1 030, l.


72 K o s e r, As Proposições da Encíclica "Mystici Corporis Christi"

a l í n e a , procu rar proposições defi n i d a s . As frases a q u i postas s ão


como q u e as prem i s s a s do q u e segue, n ã o definições n ovas. 1 8
1 ) "Verax Christi Ecclesia - quce saneia, catholica, aposto­
lica, Romana Ecclesia est - Mysticum /esu Christi Corpus est." 1 9
E ' a p r i m e i r a propos i ç ã o , e a i n d a a p r i n c i p a l d e todo o documen­
t o . I s t o s e evi denci a já p e l o t í t u l o d a E n c í cl i c a : " L i t t e r re E n cy­
clicre Pii P a pre X I I d e Mys t i c o j es u Christi Corpore . . . ". 2 0 E'
este o a s s u n to sôbre o qual o P ap a p re t e n d e f a l a r aos f i é i s por
i n term édio d o s s e u s p astôres o r d i n á r io s . 2 1 Mais adiante a f i rma
o P o n t í f ice, q u e q u e r tratar "satis e n u cl eate" desta dou t r i n a . 2 2
N a a l í n e a em q u e m a n ifesta s u a i n tenção de f a l a r " e x c a t h edra"
a i n d a uma vez d i z e x p l i c i t a m e n t e que f a l a r á sôbre êste a s s u n to :
" . . . doctrinam proponere de mystico j esu C h r i s t i Corpore . . . " . 2ª
D i sto t u do s e i nfere que, s e houver uma proposição d ef i n i d a nesta
E n c í c l i c a - e sendo ela "ex cathedra" h avê-las-á - d eve ser
e s t a . No próprio contexto i m e d i ato l e m o s estas pal avras q u e m a­
n i f e s t a m c l a r a m e n te a i n tenção de p ropor defi n i tõ r i a m e n te : " l am­
vero ad d ef i n i en d a m describendamque h a n c veracem C h r i s t i Ec­
clesiam . . . n i h i l n ob i l i u s , n i h i l p r re s t a n t i u s, n i h i l d e n i q u e d i v i n i u s
inven i t u r s e n t e n t i ai l l a , q u a eadem n u n cup a t u r " mysticum j esu
C h r i s t i Corpu s " . . . " . 2 4 A p a l av r a " de f i n i e n d a m " não está em pre­
gada em s e n t i d o teológi co técnico, m as no f i l o s ófico d e enume­
r ação dos elementos essenci a i s . A i n tenção do P o n t í f i c e é propor
os e l e m e n to s con s t i t u i n t e s d a I grej a d e Cristo, o s " gr a d u s meta­
physi c i " . I sto s e d e p r e e n d e também das e xp ressões com que en­
ca rece a fórm u l a : " . . . nihil nobilius, nihil p r re s t a n t i u s , n i h i l . . .
i nven i t u r div i n i u s . . . " . A m e l h o r descrição e defin ição d u m ob­
j eto, sem dúvida, é sempre a i n dicação dos s e u s e l e m e n to s es­
senci a i s em e n u m eração comp l e t a e perfei t a . A o s e l e m e n to s cons­
t i t u i n t e s , aj u n t a P i o X I I os e l e m e n t o s n ecessários p a r a a i denti­
ficação d o " defi n i tu m " : e s t a def i n i ç ã o essencial cabe à I grej a
S a n t a , Catól ica, A p o s t ó l i c a , R o m a n a .
Con t rove r t i a-se s ô b r e o v a l o r d a fórm u l a "Co rpo M ístico de
C r i s to " , n ã o a d m i t i n do todos s e r a definição esse n c i a l da I gre-

1 8 ) Q uiséramos, de ante-mão, explicar e fixar o sentido dêste inevi­


tável "novo" . Pensamos em evolução dogmática subjetiva (de penetraçã o,
compreensão, explicitação, proposição, definição da revelação ) , não e m
evol ução dogmática obj etiva, que é heresia.
1 9 ) REB 1 030, 2 . 22 ) REB 1 029, 3.
2 0 ) REB 1 027. 23) REB 1 029, 4.
21 ) RE B 1 027, 2 . 24 ) REB 1 030, 2.
Revista Eclesiástica Brasi l e i r a , vol . 5, fase . 1 , m a rço 1 945 73

j a. 2 õ O P apa B on ifácio V I I I , na bula dogmática " U nam sa nctam"


de sig na a I grej a como "Corpo M ístico de Cristo " . N ão se trata,
p or ém, duma proposição "ex cathedra", antes dum argumen to para
a te se central da bula, a u n i d ade d a I grej a e conseqi.icn te ex­
ten são católica dos poderes pontifícios. 2 6 N o Concíl i o do Vati­
ca n o, como p rovam as anotações dos teólogos 27, estava p revista
a pr op osição solene desta fómm l a no mesmo sentido em que Pio

X I I a propõe agora : def i nição essencial da I grej a. Não chegando


0 Concílio a ultimar seus trabalhos, e ficando sem definição o
esquema " D e Ecclesia " , continuou discu tível e foi discutido d e
fat o o valor desta fórmula. Pio X I I põe têrmo às controvérsias nes­
te p onto.
Diz tratar-se duma proposição "qure qui dem . . . ex iis effl ui t
ac veluti efflorescit, qure et in S acris Litteris et i n S anctorum Pa­
t r u m scri ptis crebro proponuntur ." 2 8 O " effluit ac veluti efflo­
resci t" significa " revel ação impl ícita" ou " revel ação indireta" ?
Estamos diante duma p roposição definida como verdade direta­
mente revelada, ou como conclusão teológica? A fórm u l a "Corpo
de Cristo" sem dúvida pertence à revel ação di reta, pois s e en­
contra tal qual na Escritura e Tradição, para design a r a I grej a
de Cristo. 2 0 P i o X I I cita numerosas passagens da Escritura e
Tradição, ao desdobrar esta verdade. 30 O têrmo " m ístico " , po­
rém , não s e encontra nem n a Escritura, nem n a Tradição mais
a ntiga como designativo d a I g rej a, j u nto à fórm ula "Co rpo de
Cristo". Ao que parece foi aplicado à I grej a a primeira vez por
Ratramno Corbiense, n o sécu lo IX. 31 Assim é certo que a fórm u l a
"A I grej a é o C o r p o M ístico de Cristo " , em seu conj u n to não f o i
revelada explicitamente, mas é uma conclusão teológica. Para
determ i n a r o sentido do têrmo " m í stico" Pio X I I não lança m ão
de passagens da Escritura ou Tradição, mas de razões e consi­
derações teológico-racionais, da "analogia f i dei" . 8 2 Poderia pa­
recer, por isto, tratar-se duma conclusão teológica própriamente
2 6 ) Cf r exemplos em P e n i d o, O Corpo Mlstico, Comentário da En-
.

c íclica "Mysti c i Corporis Christ i ' ' , Pet rópolis, 1 944, pág. 1 46.
2 6 ) Cfr. Denz. 468.
2 7 ) Co l l Lac. V I I , col. 578s, anotação 2.
.

2 8 ) R EB 1 030, 2.
29 ) Cfr ., para i n dicar u m a só passagem, 1 Cor 1 2, 27.
3 0 ) R E B 1 030- 1 042.
3 1 ) O t t, Fidelis, Der Kirclzenbegriff bei Richard von Mediavilla,
" Fr anz iskanisc he Studien " , 1 938, 3 4 1 .
3 2 ) R E B 1 042, 2-4.
74 Kose r, As Proposições da Encíclica "Mystici Corporis Christi"

d i ta , p o r t a n to d u m ponto revel ado s ó i n d i retamente, e n e s te ca so


a proposição solen e e peremptória p o r p a r t e do P a p a fa ri a dê l e
u m a tese " d e f i de ecc l e s i a st ica" , u m dogm a em se n t i do l a to . To ­
davi a , con s i deran do-se b e m o que diz Pio XII,
p e rcebe-se q u e
o têrmo " m í stico" n ão p a s s a de nome para as n u m eros a s rev e­
l ações de traços específicos do Corpo de C r i sto q u e é a I g rej a .
Os dado s revel ados expl í c i t a e i m plici tamente sôbre a d i s t in ç ão
dêste corp o dos dem a i s , resumem-se neste têrmo : " m í s t i co " . Se
a s s i m fôr , esta p ri m e i r a p r o p o s i ç ã o é revel ação i m p l í c i t a , e a de­
f i n ição d e Pio X I I faz d e l a uma tese " de f i de divino-cathol i ca " ,
u m d o g m a p ro p r i a m e n te d i to . l':: ste ú l t i m o a l v i t re n o s p a rec e m a i s
acert a d o .
As a n o tações ao esquema " D e Eccl esia" do C o n c í l i o do V a­
t i cano dão como d ef i n ições p r evi s t a s em depen d ê n c i a desta p r i ­
m e i r a , q u e t a m b é m es tava p roj e t a d a , a i n d a as segu i n tes : Crist o ,
o Fi l ho de D e u s fei to H o mem , é a u t o r da I grej a ; o m e i o de agre­
gação à I grej a é o b a t i s m o ; a v i d a sobren atural d a I grej a é trans­
m i t i d a aos membros pelo s sacramentos e pelas v i rtudes t eologai s ,
q u e efetivam e ap erfeiçoam a i n s e rção no Corpo de C r i s t o ; p ro­
j etava-se também def i n i r o s e n t i d o exato do têrmo " m í s t i co " . 33

Para a e l ab o ração d a p resente E n c í c l i c a n ã o s e h ã o de ter ne­


gl i ge n c i a d o o s t r ab a l hos feitos para o Concí l i o , e podemos por
i sto s u p o r que Pio X I I tivesse t i do a i n tenção d e propor agora
" ex cathedra" todos ês tes p o n t o s . Embora as al í n e a s segui ntes
se pareçam com a rg u m e n to s e exposições e x p l i cativas, exami­
n a n do-se m a i s d e t i d a m e n t e , vê-se que u l trapassam a função de
a rg u m e n t o s e contém p ro p o s i ções que de nada serv i r i a m para
p rovar a tese p r i n c i p a l . 34 Sendo a E n c í c l i c a u m a exposição sis­
tem á tica d a d o u t r i n a do Corpo Místico de C r i s t o e de nossa u n ião
com C r i sto, e não s i m plesmente a defi n i ção de d u a s teses com
êste con teúdo aõ, c resce m u i to a p robabi l i dade de as proposições,
abr a n g i d a s por estas p r i n c i p a i s, serem o u tras tan tas teses defi­
nidas.A certeza do "ex cathed ra" , porém, é já menor d o que p a ra
as duas teses principais, das quais vimos a primeira.

3 3 ) Coll . Lac. lc.


34 ) Para i nterpretar co rretamente estas proposições, é preciso não
esquecer que Pio X I I quer limitar-se quase exclusivamente à Igrej a mili­
tante. Cfr. REB 1 027, 2.
35) REB 1 029, 4.
Revista Eclesiástica B rasileira, vol. 5, fase. 1 , maFço 1 945 75

2) "Ecclesia est Corpus" .


3) "Quodsi corpus est Ecclesia, unum quiddam indivisum
sit o p orte i."
4 ) "Nec solummodo unum quiddam et indivisum esse debet.
se d aliq uid etiam concretum ac perspicibile. " 36 Que as palavras
do Papa não são simples argumento da tese principal, vê-se cla­
ra m en te p elo con texto . Poder-se-ia duvi dar talvez da primeira f r a ­

s e : " Eccl esi am esse corpus srepe S acra Eloquia prredicant . . . " .
Logo a segu nda, porém , é manifestamente mais que argumen to,
:\ j u l ga r pela própria formul ação : " Quodsi corpus est Eccle­
s i a . " . Nem se diga, que esta afirmação da uni dade e indivi­
. .

sibili dade, bem como da visibilidade da I grej a não deve ser con­
s i d e r a d a como tese própria, por estar contida na primeira pro­
posição . A definição "Corpo Místico de Cristo" é analogia, e seu
s e n t i d o precisa de u l terior determinação, para a qual o Magistério
E c l es i á s tico é a única instância competente. Pio X I I define por
i s to, que o " tertium comparationis" j ustifica a dedução da uni­
dade, indivisibilidade e visibil i dade. A analogia, por si mesma,
po d e ria ser restringida a sentido meramente espiritual. N ão há
n e n hu m a necessi dade lógica que obrigue à dedução da visibi li­
dade, da un idade e unicidade ( indivisibilidade) . Pio XII nos diz
que e s ta restrição seria excessiva.
Como argumento para a unidade e indivisibi l idade ou un ici­
dade cita o Papa uma passagem de S . Paulo 37, com o que nos
d i z ser esta proposição uma tese "de fide divino-catho{ica" . Para
a visibilidade na Encíclica serve-se apenas de deduções teológi­
cas. N ão se pode entrever se são conclusões teológicas propria­
mente ditas, ou em sentido l ato, pelo que será difícil dt:cidir só
pela Encíclica se é tese " de fide divino-catholica" ou só "veritas
catholica" . Sabemos, todavia, que a visibi lidade está implici ta­
mente contida nas teses que nos falam da fundação da I grej a
com constituição monárquico-j erárquica, da instituição dos sa­
cramentos como sinais visíveis, eficazes na produção da graça,
e t c . Trata-se, pois, ao menos de revelação impl ícita, nã.:> de in­
direta. Pelo que também esta tese é "de fide divino-catholica",
dogma própriamente dito.
l:: s te grupo de dogmas não é de todo novo em sua propo­
sição . Que a I grej a de Cristo é u m Corpo no sentido de organis-

3º) R EB 1 030, 3.
37) Rom 1 2, 5.
76 K ose r, As P r o p o s iç õ es da Enclclica "Mystici Corporis Christi'�

mo, já foi proposto solenemente no segu ndo Concí lio de O range,.


ao explicar e definir-se esta mesma doutrina à mão da analogia
da videira : " D e palmitibus vitis." 38 Foi ainda proposta sole ne­
mente pelo Concílio de F l o rença aos Armênios, na doutrina sôbre­
o efeito do Batismo. 39 O Concílio de Trento disse da Eucaristia,.
ser " symbolum unius i l l ius corporis, cuius ipse ( Christus) caput
exsi stit." • 0
Muito mais numerosas, e mais claras são as definições da
u n i dade e indivisibi l i dade da I grej a . Trata-se dum dogma p ró­
priamente d ito, consignado e p roposto jâ no S ímbolo Apostóli­
co . 4 1 Forma ainda a parte fundamental da B u l a " U nam sanctam' ..
de Bonifácio V I I I . 4 2 N a definição dogmática sôbre a I grej a, le­
vada a efeito pelo Concí l io do Vaticano, se proclama o mesmo
dogma. 43 Estava ainda preparada uma definição expl ícita desta
doutrina, para obstar a todos os latitudinari smos, indiferentismo s ,.
tolerâncias e compromissos malsãos. 4 4 Se tivesse sido dada, não
teria sido de!�nição nova, mas repetição da dou trina proposta j á
no S ímbolo dos Apóstolos. A in divisão não é verdade diferente
da unidade, mas apenas u m dos seus elementos essenciais. D efine­
se a unidade do ser como "indivisum in se et divisum a quolibet
a l i o . " Também a p roposição número três, pois, não é nova.
A visibilidade da I grej a foi solenemente definida pelo Con­
cílio do Vaticano. Definiu-se que Cristo fundou a I grej a como
sociedade entre homens e a muniu de sinais, que a tornassem
vi sível para todos os homens. 4 5 S. Pedro e seus sucessores le­
gítimos s ão designados como " totius Ecclesire visibile caput." 46
I sto, com os fu ndamentos da Escri tura e Tradição dos quais esta
tese di spõe em abu ndância, basta para fazer dela um dogma for­
m a l , tese "de fide divi no-catholica" .
Assim estas três proposições : "A I grej a é um corpo ; é una
e i n divisa ; é visível " , em si não são definições novas. O que nos
pa rece novo, é a concatenação dêstes dogmas com a analogia

38 ) Denz. 1 97. Esta defi n i ção d e concilio particu l a r foi confirmada por
Bon i fácio l i , e proposta à fé d a I g rej a u n ive rsa l . ( Cfr. De nz 200a 200 b . )
. -

SO ) Denz. 696.
4 0 ) Denz. 875.
4 1 ) Denz. 6 .
4 2 ) C f r . Denz. 468-469.
4 3 ) Denz. 1 82 1 .
H ) Schema de Ecclesia, caput 5, Co l l . L a c . , col. 569 ; e Cânon 5,.
lc. c o l . 577.
4 6 ) Denz. 1 793. 4 G) Denz. 1 823.'
Revista Eclesiástica B rasilei ra, vol . 5, fase. 1 , ma rço 1 945 77

do Cor p o : " A I grej a é una por ser corpo ; é visível por ser cor­
p o" : "Quodsi corpus est Ecclesia, unum quiddam et indivisum
s it op orte t . . . Nec solummodo . . . sed al iqu id etiam conc retum
a c per spicibile . . " . 47 Com isto Pio X I I define clara e solene­
.

mente o alcance da analogia do corpo sob êstes aspectos. Que


Pio XII de fato considera estas três proposições como "de fide
divino-catholica", e como tais as propõe, vê-se ainda pela con­
den ação aposta imediatamente para a negação :
5) "Ecclesia non potest attingi, neque videri; est "p11e111na­
tic um" aliquid, quo multce Clzristianorum communitates, licet fide
ab se invicem seiunctce, inter se tamen lzaud adspectabili nexu
coniunguntur." 48 E' esta a primeira condenação contida na En­
cíclica. Pio X I I estigmatiza a proposição como "a divina veri­
tate aberrant, qui Ecclesiam ita effingunt . . . " "A divina veritate
aberrare" nada mais é que labutar em heresia. A censura teológica
desta proposição, pois, é "hreresis" . Não se trata, como vimos,
duma proposição nova, mas é certo também que nunca se pro­
pôs esta verdade de fé tão clara e categoricamente.
6 ) "ln Ecclesia singula membra non sibi unice vivunt, sed
aliis quoque opitulantur, atque omnia sibi invicem adiutricem ope­
ram prcestant, cum ad mutuam consolationem, tum ad ampliarem
usque cedificationem totius Corporis." 4 9 Pio X I I propõe esta tese
como conseqüência da anterior, autorizando assim a extensão da
analogia de "corpo" ainda a êste ponto : "At corpus multitudi­
nem quoque membrorum exigit, qure ita inter se connectantur, ut
mutuo sibi auxilio veniant, etc." . E' o dogma da Comunhão dos
Santos, de fácil dedução das epístolas paulinas. Pio X I I o deduz
por meio de conclusões teológicas, pelo que na Encícl ica formal­
mente só o apresenta como "veritas catholica". Trata-se ainda
aqui duma proposição, e não dum argumento, explicação ou
simples "obiter dictum" , pois esta frase está coordenada direta­
mente com a alínea anterior, sendo colocada pelo "At prreterea"
na mesma al tura. Não é, porém, proposição nova, pois .1 Comu­
nhão dos Santos é dogma formalmente proposto à fé universal
dos fiéis, desde que existe o S ímbolo Apostól ico : "Credo . . .
sanctoru m communionem ." 50
7) "Ecclesia recta consentaneaque coalescit partium tempe­
ratione coagmentationeque, ac diversis est sibique invicem con-

47) REB 1 030, 3. 49) REB 1 030, 4.


4 8 ) Ibidem. 6 0 ) Denz. 6.
78 K o s e r, As Proposições da Encicl ica "Mystici Corporis Christi"

gru e n t ibus membris instructa." 5 1 E sta proposição é aprese ntad a


como prova da principal . 52 Por isto poderia ser considerada com o
simples argumento. Todavia, está na mesma linha que as pro ­
posições precedentes 6 8 , tendo a seu favor as mesmas razões de
estai· definida. Pio XI I a fundamenta, além disto, com uma cit a­
ção da epistola aos Romanos 54, propondo-a, pois, como "de fide
divi no-catholica'.' . Acresce que sôbre ela funda outras conclus ões
e proposições. Parece-nos, por isto, poderem ser tomadas as pa ­
lavras : "ita Ecclesia ea maxime de causa Corpus dicenda es t,
quod . . " 55 como expressão da concatenação sistemática em q ue
.

o P apa propõe as suas definições. Estamos aqui diante du ma


dificuldade de discernir o definido do não-definido. E m qualquer
hi pótese, po rém, trata-se dum dogma formal, embora não se pos­
sa deduzir isto da presente Enciclica. Foi definido já no Concilio
el e Tren to. 5 6 Aí está p roposta a doutrina sôbre a j erarquia, e
com isto não só impl ícita, mas expllcitamente a desigualdade
dos membro s da I grej a. 5 7 Pio X I I , porém, formulou a proposição
dum modo mais universal, e nisto há novidade.
8) "Ecclesice Corporis structura solis lz ierarclzice gradibus
absolvitur."
9 ) "Ecclesice Corporis s tructura unice "clzarismaticis" con­
stai . " 5 8 Estas duas afirmações são censuradas pelo Papa com
" m inime reputandum est" . Esta condenação é conseqüência lógica
elas proposições anteriores, pois aí já está insinuado, que há
membros que fazem parte da j erarquia, e outros que não fazem
parte da j ernrquia, pertencendo, porém, uns e outros à I grej a e
perfazendo em seu conj unto a I grej a "organicam, ut aiun t." 5 9
P i o XI I diz ser " i nadmissível " afirmar que a estrutura do Corpo
d a I grej a conste só dos membro s da j erarquia, ou só dos caris­
máticos. O " minime reputandum est" , se excl ui defin itivamente
estas proposições do rol das teses admissíveis entre catól icos,
não permi te, todavia, uma identificação da censura teológica. A
e � posição posi tiva da doutrina, porém, que segue l ogo ao pé, e
que invoca como argumentos a instituição divi na e a Tradição,
mostra que o "minime reputandum", neste con tex to, equivale a
il ) R EB 1 030, 5 - 1 03 1 , 1 .
ii ) Cfr. proposição n. º 1 .
&« ) Cfr. proposições nos. 4 e 6.
U) Rom 1 2, 4. 67) Denz. Q69.
H) REB 1 030, 5. 68 ) R E B 1 03 1 , 2.
i�) Denz. 956a-968. &9) I bidem.
Rev ista Eclesiást i ca Brasileira, vol. 5, fase . 1 , m a rço 1 945 w

" h re r esi s" . As proposições positivas que seguem, porém , não se


rest rin gem a ser a contraditória destas proposições condena das.
M ui to p elo contrário, ultrapassam consideràvelmente esta função.
A prop osição, ou melhor condenação número oito não nos
co ns ta ter sido j amais censurada. Na forma em qu e está , va l e
0 m esmo d a proposição número nove. Parecidas com esta t ese

fal sa, nã o, porém, idênticas são as heresias que afirmam constar


a Ig rej a só de " santos" ou de "predestinados". Tais afirma ções
0
foram condenadas repetidas vêzes. 6 As duas condenações for­
m ul adas por Pio X I I nos parecem novas.
t O) "Qui sacra potestate in Ecclesire Corpore fruuntur, pri­
maria ac principalia membra exsistunt."
t t ) "Attamen et qui evangelica consilia amplexi, vel opero­
sam inter lzomines, vel umbratilem ln si/enfio vitam agunt, vel
11trumque instituto suo efficere conantur, partem capiunt in huius
sacri corporis ministeriis."
1 2 ) "Partem in /zoe et capiunt qui, licet in sceculo vivant,
actu osa tamen voluntate misericordice operibus se dedant, sive
ani mis, sive corporibus iuvandis."
1 3 ) "Denique partem in hoc et capiunt, qui casto sint con­
nubio coniugati . . . ac vel ii possunt . . . ad sanctitatis culmen
ascendere. " 61 Estão estas quatro proposições subordinadas à qua­
l ificação : "Omnino utique re t i n e n dum est." A primeira é provada
com a indicação da essência das funções da j erarquia eclesiástica,
p rovindas de instituição divina. As três outras com recurso ao
que costumam dizer os Santos Padres, afirmando Pio X I I que
o dizem "iure meritoque" . A esp ecificação da última tese para
os div er so s estados, Pio X I I a declara especialmente oportuna
n a s p resentes contingênci as. Se diz "omnino retinendum est" , con­
si derando-se que a E n c íc lica é "ex cat h edra" , estas proposições,
que não se reduzem a simples argumento, muito menos a "obi ter
dictum " , devem ser consideradas ao menos como conclusões teo­
lógicas inteiramente legítimas, se não forem "de fide catholica" .
Po der-s e -i a talvez tentar excluí-las desta lista, argumentando tra­
tar-se de simples explicações da tese superio r , mais vasta. Para
qu e , porém, pôs Pio X I I então os têrmos c ategóri c os : " M i n i me

'º) Denz 627 ; 629 ; 1 5 1 5, por exemplo.


U ) REB 1 03 1 , 2. Estas proposições estão cont i d as na Enclclica mais
ou menos com estas mesmas palavras. A formu lação em separado, po rém,
obrig ou-nos a mudar uma ou outra palavra.
80 K 0 s e r, As P roposições da E nciclica "Myst ici Corporis Christ i"

r epu tan dum est - omnino retinendum est" ? Quer-nos pare ce r


q u e estas p roposições, tanto condenatórias como afirmativas, n ã o
pode m ser deduz i d as por simples operação lógica da doutrina �ôb re
a di versidade dos membros da I grej a . Colocamo-las aqu i como a o
menos p rovàvelmente definidas e por conseguinte como provàve l ­
m ente " d e f i de catholica" o u mesmo "de f i de divino-cathol ica" .
No esquema do Vaticano não estavam p revistas p roposições sô­
bre êstes pontos. 6 3 S ão devidas ao desenvolvimento dos estu do s
eclesiológicos nos ú l timos decênios. São claríssimas luzes para
a comp reensão sempre melhor da estrutura do corpo místico
orgânico de Cristo. O s d iversos graus de i nsersão, i n d icados nas
proposiç ões, são outros tan tos elementos estruturais-orgânico s do
Corpo Místico de C risto, os membros da j erarq u i a os principais,
os religiosos os médios, os leigos os ínfimos, mas elemen tos estru­
turais também êles.
Não nos consta tenha sido dada, antes desta data, uma de­
finição solene destas teses. O Tridenti no, defi n indo n u merosos
pontos relativos ao s acramento da O rdem, dá fundamen tos bem
seguros e abre os cam i n hos para a p roposição número 1 0. N ão
a propõe, porém, pois não fala d a relação da j erarqui a com o

Corpo Místico. 6 3 I gualmente nova nos parece a p roposição nú­


mero 1 1 . O Magistério eclesiástico j á enfrentou, repetidas vêzes,
os que negaram a l iceidade e santi dade do estado religioso . 8 4
N ão nos consta, porém, tenha havido j á uma definição formal
5ôbre a posição dos religiosos no C orpo Místico. Quanto às p ro­
posições n ú meros 1 2 e 1 3, houve j á numerosas manifestações do
Magistério para salvaguardar a l iceidade do estado matrimonial
e do uso do matrimônio. A I grej a sempre se opôs .com decisão
às doutrinas que excl u íam os casados do Corpo M ístico ( como
por exemplo os montanistas, os maniqueus, os cátaros e o u tros ) .
Em particular o Magistério j á ensinou solenemente que o m atri­
mônio não impede ascender a al tos graus de santidade . 6 5 , Nun­
ca, porém, ao que nos conste, se fêz uma definição tão exp l ícita,
nem especificação tão pormenoriz ada destas verdades. Além de

ºª) Cfr. Coll. Lac. V I I , col. 505s ; 567s ; 578s.


6 3 ) De n z . 956a-968.
64 ) Cfr. Denz. 458s ; 609-604 ; 6 1 4s ; 624s ; 680; 1 3 1 0s ; 1 580- 1 590 ;
1 692 ; 1 752s.
&5) Cfr. Denz. 36 ; 88a ; 1 44 ; . 24 1 ; 367 ; 402 ; 406 ; 424 ; 430 ;
-4 65 ; 590 ; 537 1 ; 702 ; 969s ; 97 1 ; l � ; 1 763 ; 1 853 ; 2051 ; 2 22 5 1 , 2237.
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase .. 1 , ma rço 1 945 . 81

. m u i t os po ntos de doutrina j á anteriormente propostos, p ois e s ­


ta � t rê s pr oposições contém novidade inconteste.
1 4) "Sacramenta sunt media, quibus membra · Corporis
C hrist i my stici quasi per non intermissos gratiarum gradus, ab in­
c un ab ulis ad extremum usque halitum sustentantur."
1 5 ) "Sacramenta sunt media, quibus socialibus totius Cor­
po ris necessitatibus uberrime providetur."
1 6 ) "Per lustralis aquce lavacrum non modo qui sunt mor­
tali h uic vitce nati, ex peccati morte renascuntur et Ecclesice co nsti­
tu un tur membra, sed spirituali etiam charactere insigniti capaces
apli que fiunt ad cetera suscipienda numera sacra."
1 7 ) "Confirmationis vero clzrismate novum robur inditur, ut
Ecclesiam Matrem et quam ·ab ea acceperitzt fidem, strenue tuean­
tur ac defendant."
1 8 ) "Per prenitentice sacramentum Ecclesice membris, in
peccatum lapsis, salutaris prcebetur medicina, non solum ut ip­
sorum saluti consulatur, sed ut ab aliis etiam mystici Corporis
membris contagionis periculum removeatur, immo potius virtutis
iisdem prcestetur incitamentum atque exemplum."
1 9 ) "Per euclzaristice sacramentam fideles uno eodemque
epulo enutriuntur ac roborantur, atque inter se et cum divino
totius Corporis Capite ineffabili ac divino copulantur vinculo.''
20) "Postremo lzominibus ad mortem oblanguescentibus
prcesto est pia Mater Ecclesia, quce per sacram infirmorum unctio­
nem, si non semper morta/is lzu ius cor.paris sanitatem, ita volente
Deo, impertit, supernam tamen sauciatis animis medicinam prcestat,
ut novos cives novosque sibi datos prcestites ccelo tmnsmittat, di-
11ina bonitate omne per cevum fruituros."
2 1 ) "Matrimonio, quo coniuges sibi invicem sunt ministri
gratice, externo Christiance consortionis providetur ordinatoque in­
cremento ; et quod maius est, rectce etiam religiosceque sobolis
educationi, sine qua mysticum eiusmodi Corpus gravissimum i11
discrimen vocaretur."
22 ) "Sacro Ordine ii Deo mancipantur ac consecra11t11r, qui
Euclzaristicam Hostiam immolent, qui fidelium gregem A 11gelorum
Pane et doctrince pabulo enutriant, qui divinis eum prceceptis con­
siliisque dirigant, qui ceteris denique supernis muneribus c o n ­
firment." 6 6

& 6 ) REB 1 03 1 , 3 - 1 032, 1 .


6
82 K os e r, As Proposições da Enclclica "Mystici Corporis Cbristi"

Estas p roposições tôdas, sob o aspecto formal, estã o nas


m es ma s con dições de difrcil di scern imento de seu caráter pe­
rem p tório, que as anteriores. Têm a seu favo r, porém, o es qu e­
ma do V aticano, que previ a a defi nição de teses semelhantes n,
s e m contudo pormenorizar. A intenção do Concí l i o era de defi.
n i r como " de fide d ivino-cathol ica" as respectivas teses . Será que
não s e p o d e ria m considerar estas belíssimas proposições com o a
definição pormenor i z ada do que estava esboçado há mais de se­
tenta anos ? Sej a como fôr, as teses m erecem o m a i s subido acato
por parte dos teólogos, sol icitando suas atenções e seus estudos.
Pi o X I I , n es tas a l í n eas da Encíclica, faz um a aferição p rofu n­
d í s s i m a da dou trina dos sacramentos à do Corpo M f stico de C ris­
to. A novidade das pro p osiç õe s con siste n i sto mesmo : em mos­
trar a f u nção dos sacramentos em ge ral , e de cada qual em par­
Corpo Místico de Cristo. O T ride n ti n o , nas def i n i çõe s
t i c u l ar, no
sôbre os sacramentos, não deixou de os def i n i r em rel ação ao
Corpo M ís t i co , p oi s só nesta r e l ação é qu e têm sen ti do, de acô r ­
do com a finali dade que C risto l hes deu . Todavia, não era in­
tenção dos Padres Concil iares definir êste ponto. Se nas formu­
l ações de Trento se encontram proposições que nos f a la m da
relação dos sacramentos do Corpo Místico, trata-se de "obiter
dieta" . N ão podiam os P adres deixar de se ref e r i r a isto, por
causa da concatenação necessária dos temas. Pio X I I , porém, na
Enciclica do Corpo Místico, desdobra expl icitamente, e propõe
categô ricamen te, ao que parece, êste ponto de doutrina. As pro­
posições podem fàcilmente ser fundamen tadas com os m ais evi­
den tes argumentos escri t u r í sticos, patrísticos e teológicos, e as­
sim, mesmo que não tenham sido defin idas por êste documento
do Magistério, n ão d e i x a m ele ser "de fide divina" ao menos
simplesmen te. Sua el aboração é u m passo considerável da fides
qurerens intellectum na doutrina dos sacramentos.
23) "ln Ecclesire membris reapse ii soli annumerandi sunt:
a) qui regenerationis lavacrum receperunt veramque f idem profi­
tentur; b) neque a Corporis compage semet ipsos misere se.para­
rwzt; e) vel ob gravíssima admissa a legitima auctoritate seiuncti
sunt." 6 8 Pio X I I se apóia para esta p roposição num a passagem
6 7 ) Cfr. Col l . Lac. V I I , col. 567 cd ; 578d : "Tria porro sunt, qure iuxt a
sacra rum litterarum doctrinam circa hoc mysticum corpus generatim de­
c l a r a n t u r " , e dêstes três pontos o segundo se refere ao batismo. As res­
ta ntes proposições da Encíclica não tem paralelas no esquema.
6 8 ) REB 1 032, 3.
Revista Eclesi ástica Brasileira, voJ. 5, fase. 1 , março 1 945 83

da ep istola primeira aos Coríntios. 89 Em seguida especif ica as


t r ês p artes da tese : necessidade do batismo para o ingress o na
I g r ej a de Cristo ·e unidade na profissão da verdadeira fé ; uni ­
ci dade da I grej a, da qual separam certos pecados graves e a
e xcom un hão. A segunda e terceira afirmação também são p ro­
va d as com passagens da Escritura. 70 Trata-se duma propos ição
cate górica , irredutível às anteriores. j ul gamos dever conside rá-la
pro n un ciamento "ex cathedra" . Estando comprovada com argu­
m e nt os da revelação, trata-se dum dogma formal, tese "de fide
d iv in o-cat holica" . O esquema do V aticano previa a seguinte for­
m u la ção para esta mesm a doutrina : "Ad hanc vero mystici cor­
por is unionem efficiendam, Christus Dominus sacru m regenera­
ti oni s et renovationis i nstituit lavacrum, quo filii hominum tot no­
minibus inter se divisi, maxime vero peccatis delapsi, ab omni
c u lparum sorde mundati membra essent ad invicem, suoque divino
Capiti fide, spe, et caritate coniuncti, uno eius spiritu omnes vi­
vificarentur, ac crelestium gratiarum et charismatum dona cumu­
late reciperent." 7 1 Pio X I I ampliou o conteúdo da definiç ão com
ulteriores e specificações. A diferença de disposição da Enciclica
e do Esquema do V aticano motivou também uma formulação
muito diversa.
Esta proposiç ão se refere à questão dos membros do "Cor­
po da I grej a." 72 Para ser membro do Corpo da I grej a, assim
decl ara o Papa, são necessárias três coisas : 1 ) ser batizado e
professar a fé verdadeira ; 2 ) não se ter separado do Corpo Mís­
tico por pecados graves ; 3) n ão ter sido excomungado . Só as
pessoas que satisfizerem estas três condições, são membros do
Corpo da I grej a em tôda a plenitude dos efeitos. Esta tese até
ao presente foi qualificada com o " commu i s et certa, si abstra­
hatur a quibusdam qurestionibus subtilioribus." 73 Pode p arecer
estranha esta qu alificação teológica, mas é o que dizem realmente
os teólogos e o que se pode deduzir das declarações do Magis­
tério Eclesiástico até esta data. A doutrina, formulada por Pio
X I I nesta propos1çao, contém numerosos pontos, sôbre os
quais desde séculos se discute entre os teólogos, h aven do fartas

69 ) 1 Cor 1 2, 1 3.
7 0 ) Ef 4, 5 ; Mt 1 8, 1 7.
71 ) Coll. Lac. V I I , col. 567d.
7 2 ) D istingue-se o " Corpo da Igrej a" da "Alma da I grej a" e o "Co r­
po Místico de Cristo" da "Alma do Corpo Místico".
7 3 ) M o r s, Th eologia Fundamen talis, 11, Petrópolis, 1 944, 201 .
6•
84 K o s _e r, As P roposições da E n c í c l i c a "Mysti c i Corporis Ch r ist i "

ince,r tez as e dificul dades. A neces 8 i dadc do B atismo natu ra l m e n te


todos a adm itiam, como con dição " s i n e q u a non" , para o i n g re s s o
n o Corpo da I g rej a, pois isto j á fôra definido. 74 A Tradiçã o se m.
pre foi u n â n i m e e m afi rmar esta necessidade como " n eces si t a s
medii absoluta." 75 · Não fal tam def i nições sôbre a necessida d e da
fé 7 8, sôbre os efeitos do pecado mo rtal quanto aos vínculo s d o
Corpo M ístico e o respectivo membro 7 7 , sôbre o s efeito s da ex­
comunhão quanto a êstes mesmos ví nculos. 7 8 Mas u m a defi nição
como esta d e P i o X I I n ã o nos consta tenha sido feita j a ma is.
O Papa, em p roposições q u e seguem ao pé desta, ainda defin e
o utros pontos. Não entra, porém, em pormenores senão quanto à
segunda p arte, deixando i n determ i n ado o assunto quan to à e x ­
comunhão. Seria u m estudo m u i to interessante verificar até que
ponto Pio X I I , com estas defi n ições, resolve as antigas dificul da­
des da dou t ri n a dos m e m b ros do Corp o da I g rej a.
24) "Neque existimandu m est Ecclesire Corpus, idcirco quod
Christi nomin e insign iatur, /zoe etiam terrenre peregrinationis tem.,.
pore ex nz em bris tantunznzodo sanctitate prrestantibus constare,
11 el ex solo eoru nz ccetu exsistere, qui a Deo sint ad sempiternam
felicitatem prredestinati. " 79 E' repetição das antigas defi n ições
contra tôda espécie de câtaros e predestinacianistas . 8 0 As defi­
nições antigas estavam geralmente conti das em docum en tos, em
que se censu ravam p roposições em bloco, e p o r isto não são su­
ficientemente claras. P i o X I I , com esta p roposição, provada pe­
l as Escrit u ras 8 1 , põe bem claras estas doutrinas. Esta p roposi­
ção deve ser considerada como dogma formal, tese " d e fidc
divino-cathol ica" . N ão é dogma novo, mas form u l ação mais p re­
cisa e mais n í tida.
25) "Non o m n e adm issum, etsi gra v e sc e/us, eiusmodi est,
ui . . . suapte natura h o m inem ab Ecclesire Corpore separet."

74) Cfr. D e n z . 348 ; 482 ; 696 ; 7 1 2 ; 796 ; 799 ; 861 ; 870 ; 895 ; 1 470 ;
20'12.
7 5 ) Cfr. a do u t r i n a dos SS. P P . sôbre os catecúmenos.
7 6 ) C f r . as de f i n ições do C o n c í l i o do Vaticano.
77) Cfr. D e n z . 324 ; 805-808 ; 833 ; 837 ; 862 ; 1 393.
7 8 ) O efeito da excomu n hão está def i n ido com a defin ição da j u ris­
dição eclesiást i c a como verdadei ramente j u d i c i a l e coactiva, i nte r n a e ex­
tern amente. Cfr. D e n z . 4 1 1 ; 499 s ; 763 ; 764.
7 9 ) R E B 1 032, 4.
8 0 ) Cfr. D e n z . 473 ; 627 ; 629 ; 63 1 s ; 647 ; 838 ; 1 358 ; 1 4 1 3 ; 1 422s ;
1 5 1 5.
81 ) Mt 9, 1 1 ; Me 2, 1 6 ; Lc 1 5, 2.
Revista Eclesiástica Brasileira, vo l . 5, fase. 1 , m a rço 1 945 85

26 ) · "Sch isma, v el haresis, v el apostasia hom i nem ab Ec ­


re separan t . , ,
c le s i ce cor po
27 ) "A b iis non omnis vita recedit, qui licet caritate m d i­
. namq u e gratiam peccando amiserint, atque adeo supern i pro­
,;
mer i t i ia m non capaces e vaserint, fidem tam en clzristiananz que
sp em ret in ent ac calesti fuce collustrati, intinz is Spiritus Sancti
suas ionibus impulsionibus que ad salutarem instigantur timorem ,
e t ad. p recandum sulque lapsus prenitendum divinitus excitan ­
82
tur. " E stas três proposições são conclusão dos n úmeros 23 e
24. E stão p ropostas por P i o X I I do mesmo modo categórico que
a s ant eriores, n ão são argumentos, nem "obi ter dictu m " , nem
ai nda parenese, como a alínea seg u i n te. 8 3 Não são, porém, p ro­
posições novas, pois já foram defi n i das solenemente n o Conc í l i o
de Tr ento 8 4 , se b e m que P i o X I I as p roponh a em formul ação m a i s
cl ara e p recisa, e c o m m a i or n ú mero de pormenores. E' difícil
deci di r se estas p roposições são revel ação implícita o u conclusão
te oló gica. D evem, em todo o caso, ser qualificadas ao menos
com o "veritates d e fide cathol ica " , dogmas em sentido l ato.
Nestes dogmas Pio X I I nos a presen ta l u m i n os a dou trina sô­
bre a questão dos membros do Corpo da I grej a . O vínculo fun­
damental do Corp o M í stico, para os mem bro s da I grej a Mili­
tan t e , é a fé, e enquanto perm anecer in tato, ainda restam l i ames
entre o respectivo membro e o Corpo Místico, por m a i s numero­
sos que sej am os pecados. O E s p í r i to de Deus, com Sua graça,
há de solicitar i n i n terruptamente a conversão dêstes membros
mortos, mas a i n d a l i gados ao Corpo. O Papa admoesta com pa­
lavras repassadas d a mais veemente caridade, recebam todos com
o amor de j es u s C risto êstes pobres i r m ãos doentes, e procu rem
fazê-los voltar atrás em seus péssimos cam i n hos. 8 5
Pio X I I passa em segu i d a a reafirmar s u a i n tenção : não
quer simplesmente p ropor uma tese, mas verdadeiro corpo de
dou trinas. A té aqui expôs "ita constitu tam esse Ecclesiam, u t cor­
pori adsimulari queat . " No segui n te quer "enucl eate accu rateque
exp l a ( nare) qu ibus ele causis eadem n o n qualecumque corpus, sed
j esu Christi Corpu s prredicanda s i t . " 8 6 Estas palavras são pre­
ciosa i n d i cação para quem p rocu ra fazer a análise formal d a
Encíclica, e m a rcam o rumo para a i n terpretação das segu intes
pági nas. A proposição principal desta pa rte da Encíclica é :

s 2 ) RE B 1 032, 4. ª ª ) R EB 1 032, 5. 84 ) Denz. 808 ; 838 . .


8 6 ) R E B 1 032, 4-5. 86 ) RE B 1 033, 1 .
86 K 0 8 e r As P roposições da
,
Encíclica " M ystici C o r po r is Chr i sti"

28 ) "E c clesia /e su Clzristi Corpus prcedicanda est. " 31 Não

pode h av er a m ínima d ú vida de que Pio X I I , suposto que a En­


c íclica sej a " ex. cathedra", propõe solenemente e formalment e es ta
dout rin a. I sto se deduz não só da forma de a propor, e p el a
indi cação qu e faz de sua intenção, mas ainda pelo a mplo des ­
dobram e n to que l he dâ nas páginas seguintes, com ricos e c a t e­
góricos arg u mentos. A esta p roposição subordina longa sér ie de
88
prop osições impo rtan tíssimas. De tudo se deduz tratar-s � re al­
mente dum dogma formal, tese " de fide divino-catholica" . Al i ás
est a p r opo siçã o não é senão a parte central da primeira e p rin ­
c ipal íssima p roposição de tôda a Encíclica. N ão se trata duma
pro posição nova, mas duma repetição de dogma proposto j á n a
an tiguida de. 8 9
29 ) "Divinus Redemptor mystici Ecclesice templi cedi/i catio­
nem tu m i nc lzoavit, cum concionan do sua tradidit prcecepta."
3 0 ) "DilJillUS Redemptor mystici Ecclesice templi cedifica t io­
nem tum co nsumm avit, cum clarificatus e Cruce pependit."
3 1 ) "Divinus Redemptor ( mysticum Ecclesice templunz) tum
d e ni q ue m a nifestavit promulgav it q ue, cum adspectabili modo Pa­
raclitum Spiritu m in discipulos misit." 9° Com estas p roposições
Pio X I I frisa u m dos motivos de Cristo ser a Cabeça da I grej a :
por ter sido se u Fundador. Até a o presente controvertiam o s teó­
l o g os sôbre a d ata da fundação da I grej a, opinando m u i tos que
o d ia de Pe n tecostes devia ser tomado como tal. Esta opinião
infiltrou-se tanto na mente dos pregadores e fiéis, que passou a
ser ouvida com freqüência assustadora. E' afirmada categórica­
mente sem em bargo da reserva dos teólogos. Em vista disto o
modo categóri co de Pio X l l propor estas t rês teses, convenc e
t ratar-se efetivamente duma proposição formal " ex cathedra" . I sto
se vê à saciedade ainda pelo empenho de fu ndamentar principal­
mente a pr oposição número 30, a mais importante das três. O
P a p a cita n um erosas passagens das Escritu ras, se refere aos "haud
interru pta s a n cto rum Patrum testi mon ia", declara "quam vene­
r andam doct ri n am qui religiose perscrutatus fuerit, haud difficul­
ter rationes, qui bus eadem innititu r, cernere poterit", refere-se à
ant iquíssi m a analogia d e a I grej a ter n ascido do lado de Cristo
m o r to s ô bre a Cruz, como Eva tinha sido feita do l ado do Adão

U ) I bidem. 88) R E B 1 03 2 , 3 - 1 042, 1 .


19) C f r . as anotações da p ro po s i ç ão N.º t .
90 ) REB 1 033, 2 .
Revis ta Eclesiástica B rasilei ra, vol. 5, fase. 1 , m a rço 1 945 87

araíso. 9 1 O Pontífice não se conte nta c om i n ­


a dorm e ci do no P
c
d i a r g en êricamente as r azões das teses, mas as aduz , com abu n ­
dância ú ni ca nesta E n cíclica, particularmen te p ara o númer o 30 .

S ão e m res umo as seguintes : com a morte de Crist o na C r u z


te r mi no u a Lei Antiga ; foi sancionada a Lei de Cristo p ara t o do
0 o r b e ; n a C ru z Cristo exerce plenissimamente a funç ão de Ca­
b eç a do Cor po Místico ; pela Cruz aumenta i n defi n i damen te o te ­
so u r o de méri tos e graças, que, gloriosamente reinante no céu ,
de rra ma sôb re todos os seu s membros mortais ; p e l a m o rte n a
C ruz rem oveu o óbice d a s graças divinas ; n a árvore da Cruz con­
qui st ou Su a I g rej a ; pelo sangue derramado n a Cruz, derra mou
tam bé m profusamente as comu nicações do divino Es p írito Santo ;
co m isto fêz da I grej a u m instrumento Seu de comunicação de
gr a ç as até à consum ação dos séculos ; da morte de C risto p roma­
n am t odos os d i reitos, poderes e efeitos d a missão j u r ídica da
I grej a. 9 2
Tan to empenho e m provar e evidenciar, manifesta o empe­
nho do P ap a por esta verdade. Os argumentos fei tos pa ra as três
teses mostram que, p ropostas "ex cathedra" , as três são dogmas
form ais, teses "de fide divino-cathol ica" .
Estas proposições significam um desenvolvimento considerável
sôbre o que estava previsto n o Concílio do Vaticano. Aí só se
tencionava defin i r de modo geral , que Cri sto é realmente o fun­
dador da I grej a, frisando-se sobretudo tê-la Cristo i nstitu ído como
socie d ade, e sociedade visível. 9 3 Vê-se que a i n tenção do Vaticano
era principalmente a condenação dos erros do tempo, enquanto
Pio X I 1 dá uma definição positiva e teológica do conteúdo da
revelação sôbre êstes pontos. O Concíli o do Vaticano visava prin­
cipalmente o racionalismo evolucionista, para o qual Cristo n ão
tivera i n tenção d e fundar I g rej a, tendo esta nascido espontânea­
me n te das con dições históricas em q u e foi colocada p ela sucessão
dos acontecimentos impossíveis de serem previstos. o-t. P io XI 1
também tenciona ferir o raciona l ismo. N ão especifica, poré m, se
o quer ferir sob êste po n to d e vista. iH; A formu l ação expl ícita da

dou t r i n a e m três teses, i ndicando comêço, consumação d a funda­


ção da I grej a e ainda a data de su a p romul gação, faz c re r que

91) C f r . Denz. 480.


82) REB 1 033, 3 - 1 035, 1.
&a ) Col l . Lac. Col 568a-d.
H) lc. cot 570d-584d. 9'1 ) REB 1 029, 2.
88 K 0 s e r, As Proposições da Encíclica "Mystici Corporis Chr isti "

Pio X I I pretende mais que tudo dirimir as controvérsias · re s p ec ti­


vas da teologia, e não obstar ao racionalismo, que pouc o s e in ­
teressa pelos diversos tópicos i n dicados tão expllcitame nte n as
proposições. Deduz-se isto ainda do modo extenso e porme n o ri ­
zado com que Pio X I I desenvolve os argumentos para a se g u nda
parte, a consumação na Cruz. 96
De algum modo desconsertante é a proposição núme ro 29.
Pio X I I ensina, que o comêço da fundação da I grej a co i nc i de
com o comêço da atividade pública de Cristo. Ora, a Sa g r a da
Escritura e Tradição são un ânimes em apreci ar m u itíssimo a a ti­
vi dade d.e Cristo em sua vida oculta, e de frisar sua operosi da de
em p rol da I grej a, desde o instante da Conceição maravil hos a n o
seio da V i rgem Mãe. S . Paulo diz explicitamente que, neste mes­
mo primitivíssimo i nstante, Cristo-Homem começou a sua missão
de sacerdote da Nova Aliança, oferecendo ao Pai o .sacrifício per­
feito. 9 7 Estamos diante dum ponto, em que experimentamos uma
crise de nossa suposição de a Encíclica ser "ex cathedra", e não
podemos eximir-nos de exam inar cuidadosamente o p roblema.
Será que Pio X I I de fato nega a atividade exerci da por Cristo•
H omem como Cabeça da I grej a an tes do comêço da vida pública?
A importância e autoridade suprema da proposição do Papa exi­
ge máxima atenção no exame desta dificuldade, principalmente
porque a i n terpretação que à primei ra vista se insinua. parece
uma antinomia de Sagrada Escritura e Tradição.
Confessamos cândidamente que a in terpretação desta p�ssa­
gem defronta-se com dificuldades muito sérias. Primeiramente, . o
contexto da proposição é demasiado breve, conciso e pouco de­
senvolvido. Mal permite uma conclusão segu ra sôbre o senti do
da defin ição com rel ação à dificuldade para a qual acabamos de
apontar. Todavia, quer-nos parecer que, tomando em consideração
a base escrituristica e patrística do valor da atividade de Cristo
e m sua vida ocu lta, como atividade de fundação da I grej a, é pre­

ciso dar às pal avras da Encíclica uma in terpretação diversa do


sen tido que parece óbvio. As razões contra as primei ras aparên­
cias desta proposição nú mero 29 são tão fortes e sérias, que
mesmo as mais . leves i n dicações do contexto atingem p roporções
suficientes, para tal i n terpretação. Pio X I I , nesta passagem da
Encí c l ica, cita Leão X I I I : " Ecclesi a, qure iam concepta, ex l atere

9 6 ) REB 1 033, 4 -. 1 035, 3.


97 ) Cfr. Heb 1 0, 5-9.
Rev is ta Eclesiástica Brasi leira, vol. 5, fase. 1 , m a rço 1 945 89

dami, velut i n Cruce dormien tis, orta erat, sese in


. so se cu ndi A
:� c e m ho mi num insigni modo primitus dedit die celebe rrim a Pen­
8 A expressão de Leão X I I I é vaga - "qure iam con­
t e c o s tes " 9
.

c ep ta era t" -
e não faria nenhuma dificuldade. Pio X I I , porém,
3 re s t r in ge
com têrmos claros e exclusivos : " . : . cum conci onan­
do s u a tr adi dit p rrecepta . . . " . l:: s te con texto i mediat o da propo­
siç ã o, p ois, não oferece nenhum apoio a uma i n terpretaç ão di­
ve rsa da q ue se impõe à primeira vista.
Pio X I I , porém , ao explicar a proposição da consumação da
I g r ej a p ela Pai xão e Morte de Cristo, diz : " . . . atque e Crucis
vi rt ute Serv ator noster, etsi iam in utero Virginis Caput totius
humanre familice constitu tus, i psum Capitis munus in Ecclesia sua
plenissime exercet." 99 A " gratia capitis" , pois, segundo o mesmo
Pontífice, data do instante da Conceição de Cristo no seio da
Virgem Mãe. E porque Cristo-Homem desde o primeiro instante
de s u a vida p ossui pleno uso de suas faculdades de i n teligência
e von tade, podia desde êste primeiro i nstante " ipsum Capitis mu­
nus exercere", conquanto n a vida pública e n a paixão e morte
o viesse a exercer mais plenamente. Pelo fato de ser " Caput" des­
de o instante da Conceição, podia, pois, segu ndo Pio X I I , começar
a atividade em prol dos seus membros, a atividade de funda­
ção da I grej a.
A possibil idáde só, porém, n ão é motivo bastante para inter­
pretar restritivamente uma parte duma proposição, e i n terpretar
sem restrição a outra . Pio X I I nos auxilia neste embaraço, acres­
centando à possibilidade a i nda a declaração do fato. Pouco depois
da frase que acabamos ele citar, ao fal ar da assemelhação exis­
tente entre Cabeça e Membros do Corpo Místico, o Papa se refere
explicitamente à · vida oculta de Cristo, fala da função de modêlo
perfeito para todos os homens. D i z ainda ser um dos motivos da
própria encarnação a assemel hação dos homens a Deus : "At si,
Verbum "semetipsum exinanivit formam servi accipiens" 1 00 , hoc
e a quoque de causa egit, ut suos secundum carnem fratres con­
sortes faceret divinre n aturre." 1 0 1
N ão estamos, porém, limitados a i ndicações tão parcas. Pio
X I I nos fal a bem explicitamente da atividade fundadora de Cris­
to du rante o · pe r íodo de sua vida oculta ·: " Eiusmodi vero aman­
tissinza cognitio, qi.ta divinus Redemptor a primo lncarnatio nis suce

98 ) RE B 1 032, 2. 99 ) REB 1 034, 1 . i oo) F i l i p 2, 7.


.

1 0 1 ) Cfr. 2 Ped 1 , 4 ; REB 1 038, 3. ·


90 K o s e r, As Proposições da Encfclica "Mystici Corporis Christ i "

momento nos p rosecutus est, studiosam quamlibet humanre me ntis


vim exsuperat ; quandoquidem per beatam i l iam visionem, qua
vixdum in Deiparre sinu exce.ptus fruebatur, omnia mystici Cor po­
ris membra continenter perpetuoque sibi prresentia habet, suo qu e
complectitur salutifero amore . . . ln prresepibus, in Cruce, i n sem­
pi terna Patris gloria omnia Ecclesire membra Christus sibi con­
specta sibique coniuncta habet longe clarius, longeque am ant ius ,
quam m ater filium suum i n gremio positum, quam quilibet se met­
ipsum cognosci t ac diligit." 1 0 2
Cumpre notar antes de tudo esta expre�são : "complecti tur
salutifero amore. " Como pode Cristo amar realmente seus mem­
bros místicos, desde o primei ro instante de sua conceição, sem
inclui-los desde êste primeiro instante, salvlficamente, no sacri­
fício valiosíssimo que começa a oferecer a Deus " i ngrediens m u n ­
dum" ? 1 03 Se o amor de Cristo, fundado sôbre esta ma ravil hosa
ciência, começa a ser salutífero desde o instante da conceição,
é porque desde então começou a edificar a sua I grej a, merecendo
as graças que a constituem in teriormente.
Na parte pastoral da Encíclica, afinal, lemos ainda esta f ra­
se : " Porro nulla assignari potest hora, qua Redemptor noster, ab
incarnatione sua cum primum Ecclesire f undamentum pos_uit, usque
ad mortalis vitre exitum et fulgentibus sanctitudinis sum exem­
plis, et concionando, et col loquendo, convocando, constituen do­
que, ad Ecclesiam aut formandam, aut confirman dam, a d fatiga­
tionem usque, licet Dei Filhas, non laboraverit . " 1 0 4 Pio X I I escre­
ve esta frase, para ensinar a todos os fiéis que o amor à I grej a
não deve ser só amplo como o de Cristo, mas também " actuo­
sus" . 108 Portanto, decl ara que o amor de Cristo pela I grej a foi
atuoso desde o primeiro instante da Conceição, sem que se possa
i ndicar uma hora, em que Cristo tivesse cessado desta atividade
destinada à formação ou confirmação da I grej a .
Estas pal avras d e P i o X I I - assim nos parece - são sufi­
cientes para afirmar que a proposição número 2 9 não tem o
sentido absoluto e excl usivo que aparen ta. Se o tivesse, Pio X I I ,
d e poi s d e definir categóricamente q u e a atividade d e fundação do
Corpo Mfstico começou com o instante da vida públ ica de Cristo,
êle mesmo haveria de incidir répetidas vêzes na "heresia" de
decl arar que j á ha v ia começado antes1 no instante da conceição.

Mlll ) REB 1 046, 4. 104 ) REB 1 052, 4.


l&3) � 1 0, 5-9. i ..a ) Ibidem.
Revist a Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 91

el tal supos ição, só resta dec l a rar que os tê r m os


s en d o i rr a zoáv
usados pelo Pon tífice nesta p roposição devem ser to m ado s n u m
se n t i do a firm ativo, positivo, e não excl usivo.
Qu e sen tido terá então esta tese ? Não escondem os noss a es­
t ranh ez a de estarem n a Enciclica o s têrmos que a í estão, nem
u m c e r to m al-estar que sentimos ao i n terpretarmos afirmativa m en ­
t e tê rm os exclusivos . Mas o con texto da Encíclica o j u stifi ca, a
Sa g r ad a Escri t u r a e a Tradição o recl amam. S ubmetemo-nos, an­
t eci pa dam ente, a qualquer decl aração pontifícia que venha e scla­
re ce r a questão. j u lgamos, porém, razoável a segu i n te i n terpre­
t a çã o : Pio XII n esta proposição se refere à fundação da Igreja
em s uas instituições v isíveis : jerarquia, sacramentos, doutrina . E '
0 qu e se deduz da a l ínea e m q u e explica como C risto começou
a fu n d ação da I grej a ao i n iciar a vida pública : p regando, esco ­
l h e n d o os ap óstolos, enviando-os, fazendo-os doutôres e j erarcas,
t ran smissores de graça para todos os povos, instruindo os após­
tolos, instituindo o primado, o s sacramentos, de modo pecu l i a r
0 batismo e a Eucaristi a c o m a Missa. 10 6 Tudo i s to são elem e n ­
t o s da I grej a visíve l , m as essencialmente vincul ados c o m a i n v i ­
sível . Antes de sua v i d a públ ica, Cristo não tinha exercido n e ­
nh u m a destas ativi dades, pertencentes evi dentemente à Fu ndação
da I g rej a em sua compl e ição perfeita. Po de-se, por i sto, d a r à
proposição de P i o X I I esta i n terpretação restri tiva, que lhe t i ra
i nteiramente o sabor exclusivo, sem feri r, em n ada, o contexto .
Menos p rovável nos p arece restringir a proposição ao sentido
do comêço de u m a ativi dade de f u n d ação m a i s i n tensa. A pri­
meira i n terpretação é melhor, porque admite o sentido re al de
todos os têrmos da p roposição. E' esta primeira i n terpretação
ain d a melhor que uma terce i ra possibi l i dade : restr i n g i r a p ropo­
sição à agre m i ação social dos homens na I grej a pelos sacram en­
tos . N ão resta dúvida que durante a vida ocu l ta Cristo n ão i n ­
seriu membros n a I grej a p o r m e i o d o s sacramentos, e q u e f ê z isto
a primeira vez em sua v i da pública. Também esta i n te r p retação
ê possível, mas p referimos a primeira, po rque restr i n ge menos, e
parece-nos devermos entender a proposição no sentido mais l ato
possível , dentro dos li mites permitidos pela " analogia fidei" e pe l·o
próprio contexto da Encíclica. A I g r e j a visivel é de fato um
"templum mysticu m " , u m a m isteriosa e sobrenatural o rgan ização ,
e a fu n dação dêste secto r important íssimo e essenci a l d a fgre-

1�) REB 1 033, 3.


92 K 0 s e r, As Proposições da Encíclica "Mystici Corporis Christi"

j a 1 01, em sua concreção visível, começou de fato com a vida


pú blica. Antes dêste i nstante, Cristo havia trabalhado muitíssimo,
rest ringi ra-se, porém, mais ao aspecto invisível da I grej a, embora
�le me smo j á f�sse a Cabeça visível dêste Corpo Místico. E ' o
que pen samos sôbre esta proposição n úmero 29, "salvo meliore
j u d icio" .
O caráter d e constituição dogmática d a parte central d a En­
cíclica dá alguma probabili dade de esta página 108 n ão ter a sim­
ples função de argumentos. Com efeito, contém afirmações que,
embora sej am real mente argumentos a favor da tese principal 109,
u l t rapassam evi dentemente esta função, para esclarecerem pontos
de vista, para aprofundarem doutri n a e p roporem verdades sôbre
diversas dificul dades existentes na proposição principal . S e não
ousamos afi rmar com certeza que tôdas estas teses são propostas
formalmente - mui tas delas são dogmas já, outras teses nunca
con testadas em teologia - o modo de estarem formuladas e apre­
sentadas, nos inclinam a contá-las como outros tantos n füne ros
na l i sta das p roposições . Serão n o mín imo fort i ssimas luzes para
os teólogos n a · tarefa de desenvolver sistemàticamente o tratado
" De Ecclesia" . J ui gamos poder fazer, no sentido destas conside­
rações, as segui n tes formulações :
32 ) "Redemptoris morte, Legi Veteri abolitre, Novum Testa­
mentum successit; tunc Lex Clzrist, una cum suis mysteriis, legi­
bus, institutis, ac sacris ritibus pro universo terrarum orbe sancita
est fesu Christi sanguine." u o Com esta proposição Pio X I I marca
exatamente o i nstante em que começou a ser obrigatória para
o universo a lei do N ovo Testamen to, terminanüo a do Antigo
para o povo eleito. Não nos consta haj a uma definição do Ma­
gistério Eclesiástico sôbre esta doutrina an tes desta Encícl ica.
Pio X I I parece propô-la como "de fide divi no-catholica" , a j ulgar
pelos m t'.t l tiplos ar.g umentos escriturísticos e patrísticos qu e lhe
aj u n ta - abun dância aliás i nsólita nesta E ncíclica.
33) " E Crucis virtute Servator nost�r, etsi iam ln utero Vir­
ginis Caput totius humanre familice constitutus, ipsum Capitis mu­·

nas ln Ecclesia sua plenissime exercei." 1 11 Parece-nos que o M a ­


gistério Eclesi ástico nunca propôs sol enemen te esta doutrina. Tr;_i­
ta-se, pois, de proposição nova, em que se escl arece qual a obra

. 1 1>1 ) Cfr. REB 1 030, 3. no ) RE B 1 033 , 5.


io s ) REB 1 033- 1 034. 1 1 1 ) RE B 1 034 , 1 .
109) N.º 30.
. Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 93

em que Cristo exerce de modo supremo seus poderes primaciais


da. "gratia capitis" .
34) "Per Crucem in immensum nobis auxit thesaurum illum
gratiarum, quas gloriosus regnans in · creio, membris suis mortali­
bus nulla intermissione elargitur." 1 1 2 N ão nos consta tenha sido
·

j amais proposta solenemente esta doutrin a do aumento imenso- dos


méritos de Cristo na Cru z . Foi proposto mui tas vêzes que a
morte de Cristo na Cruz é a satisfação plena pelos pecados do
mundo. 1 1 3 I sto sem dúvida significa aumento dos méritos de Cris­
to, não é, porém, a proposição de Pio X I I .
3 5 ) "Per sanguinem in Cruce profusum id effecit, u t divinre
irce remoto obice, omnia ccelestia dona imprimisque spiritualia
Novi et .IEterni Testamenti munera e fontibus Servatoris in saltt­
tem hominum, maximeque fidelium, effluere possent." 1 1 4 Tôdas as
graças recebidas, portanto, são devidas aos méritos conqu istados
na Cruz e à remoção do óbice, que impedia corressem estas gra­
ças para a santificação dos homens. Esta proposição não passa
ele nova formul ação das antiquíssimas definições da Redenção
pela morte ele Cristo na Cru z . m Pio X I I , com a nova form u l a­
ção, estende o sentido a tôdas as graças recebidas pelos homens,
não só às da Redenção. A tese é doutrina antiqu íssima e comu­
nissima na I grej a, não nos consta, porém, tenha sido definida
alguma vez nesta forma. O Tridentino, no decreto da .i u stifica­
ção, d i z repetidas vêzes � ue a j ustificação tôda, com todo o sé­
quito de graças, vem da C ru z . 1 1 6 N ão deu, porém, u m a defini­
ção explícita numa formulação em separado. O conj unto do de­
c reto dogmático Tridentino contém realmente todos os pormeno­
res desta proposição número 35, bem como ainda do n úmero
34. N ão se pode, por isto, falar dum dogma novo, mas apenas
duma formul ação nova de verdades já definidas.
36) "ln arbore Crucis sibi suam acquisivit Ecclesiam, hoc
est omnia mystici sui Corporis membra, quippe quce per B aptis ­
matis lavacrum mystico lzuic Corpori non .coagmentarentur, nisi ex
salutifera virtute Crucis, in qua quidem iam plenissime Christi di­
tionis facta essent." 1 1 7 Esta proposição, quanto ao conteúdo, já foi

1 1 2 ) REB 1 034, 1.
1 1 3 ) Cfr. Denz. 1 22ss ; 1 60as ; 286 ; 3 1 9 ; 323 ; 344 ; 46 1 etc.
1 1 4 ) REB 1 034, 1.
1 1 6 ) Cfr. Denz. ibidem.
1 1 6 ) Cfr. Denz. 792a-843, especialmente 799. 117 ) REB 1 034, 1.
94 K os e r, As Proposições da Encfclica "Mystici Corporis Christi..

118
definida no Tridentino. N o V ienense, na Constitu ição "De Sum­
ma Tri n itate e t fide cathol ica" lemos estas palavras : " . . . sed
etiam emi sso iam spiritu perforari l ancea sustinuit latus suum , ut
exinde profluentibus undi s aqure et sanguinis, formaretu r unica et
immaculata ac vi rgo sancta mater Eccl esia, con iux Christi, sicut
de latere primi hom i n i s soporati Eva sibi i n coniugium est for­
1
mata . . . " 11 9 Pio X I I relembra esta tradicional analogi a. 20 A de­
f i n ição do V ienense, sôbre êste ponto, se i dentifica mais ou me­
nos com a de Pio X I I . Esta p roposição é nova quanto à f or..,
m u l ação, conqu anto os elementos possam ser col igidos das defi­
nições feitas no V i enense e Tri den tino.
37 ) "Ecclesia morte Christi in Cruce uberrima ilia Spiritus
121
communicatione dilata est, qua divinitus illustratur. " N ão nos
consta tenha sido feita j amais proposição igual pelo Magistério .
Pio X I I , como i u ndamen tos desta verdade, aponta para a Tra­
dição. Parece, pois, tratar-se duma tese "de fide divino-cathol ica" ,
especificação do dogma da consum ação da I grej a com a morte
122
de Cristo n a Cruz.
38) "Pretiosce suce mortis hora Ecclesiam suam uberioribus
Paracliti muneribus dilatam v oluit, ut ln divinis Redemptionis
fructibus impertiendis validum evad_e ret incarnai� Verbi instru­
1 8
m entum, numquanz u tique defuturum . " 2 Para esta proposição
Pio X I I não aponta para f u n d amentos n a Revelação. Apresenta-a
como conclusão da proposição anterior : " S icut igitur . . . " Não
nos con sta tenha o Magi stério Eclesi ástico em data an terior ap re­
sen tado p roposição semel hante. Pio X I I a propõe i n serida numa
argumentação para outra tese. N ão é, porém, nem argumento,
n em "o biter dictu m " , nem ainda mera expli cação, m as verdadei ra­
m e n te u m a tese i rredu tível à superior. Nesta p roposição se i ndica
a f i n a l i dade da comu n i cação do divino Espí rito S a n to, enquanto
na superio r se f i x a a data em q u e se fêz. Pelo modo de Pio X I I
a p ropor, parece t ratar-se duma con cl usão teológica " ex a n a logia
f i dei " . Assim é difícil decidi r se é resu l t ado da combin ação de
dados revel ados, revelação i m p l ícita, e portan to dogm a prõpria­
m e n te dito, tese "de f i de
divino-catholica" ; ou se é con clusão teo­
l óg ica propriamente dita, com u m a prem issa n ã o revelada, reve-

11 8 ) Denz. 799. 1 2 1 ) REB 1 034, 2.


11 9 ) Denz. 480. 1 2 2 ) Cfr. n . º 29.
120) REB 1 033, 4. 1 2 s ) REB 1 034, 2.
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , m a rço 1 945 95

lação i n d i reta, e por c o n segu i n te dogm a em senti do l ato, tese


" de fide cathol ica" .
39) "/uridica, quam vocant, Ecclesice mlssio, ac docendi,
gubernandi sacramentaque administrandi postestas, idcirco ad
cedi/icandum Christi Corpus supernam vim habent atque vigorem,
quod Christus jesus e Cruce pendens Ecclesice suce divinorum
munerum /ontem aperuit, quibus et fallentem numquam doctrinam
homines docere posset, et eos, per divinitus illuminatos Pastores
salutariter regere, ac ccelestium gratiarum imbre perfundere ." i u
N esta proposição P i o X I I pormenoriza os efeitos da Cruz, com
relação à feição j ur í dica d a I grej a e aos três poderes de ensinar,
govern a r e santificar. Talvez pudesse ser contada como uma só
proposição com o n ú m ero 3 5 . Todav i a , a especificação d u m a dou­
t r i n a não se reduz simplesmente à tese gera l , porque o co n teúdo
do conceito particular é m a i s rico" q u e o do u n iversal . Poder-se-i a,
po.rém , dedu z i r esta proposição das defi n ições do Tridenti n o sôbre
a j ustificação e os sacramentos, e da Constitu ição do V aticano
sôbre o P r i m ado de S. Pedro. O que nestas defin ições dos dois
grandes Con c í l i o s era i m p l í c i to , P i o X I I ago r a o p ropõe explici­
tamente. N es te sentido estamos d i an t e duma p roposição n ova .
Pio X I I dá a tôdas estas p roposições 1 2 5 a designação de
1 2 11
" C rucis mysteria" ,
o que no con texto parece significar serem
o u tros tantos d o gmas de f é . O Papa i n d i ca p ara quase tôdas
elas fartos argumen tos d a revel ação . N ão seria de todo i nopor­
t u n o def i n i r êste grupo de teses, vistas as afirm ações m u i tas vêzes
penosamente duvidosas que nos ú l ti m o s anos s e f i z eram sôbre
as relações da I grej a à C r u z . 1 27 Tudo isto vem con f i r m a r a opi­
n i ã o de q u e estas frases são real m e n te outras tantas proposições,
128
e não simples argu m e n tos e exp l i cações da tese p r i n ci p a l .
S i gn i fi cam real mente u m " pl u s " consi derável . Sem estas propo­
sições n ã o se compreende o alcance verdadei ro do n ú mero 30,
n e m poderá ser devidamente ap roveitado para fert i l i z a r a teologi a .
Tôdas estas p roposi ções, em todo o caso, m e recem a m a i s atenta
consi deração dos teólogos.
40) "Quam autem sanguine suo condidit Ecclesiam, eam
Pentecostes die peculiari v irtute, ccelitus delapsa, roboravit ." 1 2 9

1 2 4 ) I bidem. 12 5 ) N .ºs 30 ; 32-39.


1 26 ) REB 1 034, 3 .
1 27 ) Cfr. p. e x . V o n i e r, O Mistério d a Igreja, R i o , 1 94 1 , passim.
1 2 8 ) N . º 30. 1 2 0 ) REB 1 034, 4.
96 K o s e r, As P roposições el a Encíclica "Mystici Corporis Christi"

Esta proposição não se identifica simplesmente com a do número


3 t , em que se enu nci a o fato de no dia de Pentecos tes ter sido
promulgada a I grej a. S ignifica muito mais : Pentecostes para a
I grej a, se n ão é d i a de fundação, é, porém, a data em que rece­
beu um acréscimo de fôrças divi nas. Pio X I I , expl icando a p ro­
posição, compara Pentecostes com a vinda do Espírito Santo sô­
bre Cristo no dia elo Batismo, frisando que tanto uma çomo a
outra vinda se deu no i n ício ela j ornada de pregação, uma vez
ele Cristo, outra vez cios Seus Apóstolos. 1 30 j u l gamos ser j usti­
f icável a i nclusão também desta frase no número das p roposições
formais da Encíclica, ao menos com o grau de p robabilidade.
Sua certeza teológica, a j ulgar pel as passagens escriturísticas a
que Pio X I I se refere, é ao menos " de fide divina" e " proxima
definitioni" . Não n os consta tenha sido feita j amais uma p ropo-
sição formal sôbre êste assunto.
( Conti n u a . )

1 ao ) REB 1 034, 4 - 1 035, 1 .

Os Estudos na Província Franciscana da lma·


culada Conceição do Brasil nos Séculos XVII
e XVIII.
P o r Frei B a s í1io R õ w e r , O. F . M . , Convento de S . Antônio,
Rio de j a n e i ro.

1 . C ronológicamente, compete à Ordem f ranciscana a prima­


z i a no labor evangélico no vasto Brasil, descoberto por Cabral em
1 500. Embora tenham sido dela o s primeiros mártires, que em
1 505 sucumbi ram diante d o al tar da capela de S ão Francisco em
Pôrto Seguro, e tenha sido especialmente lisonj eiro o fru to da
catequese dos Franciscanos espanhóis entre os Carijós, na região
de São Francisco do Sul, por volta de 1 538, os missioná rios, to­
davia, que em diversas épocas apareceram no l i toral, desde Per­
n ambuco até Santa Catarina, eram apenas " luzes errantes", no
dizer do cronista da O rdem Frei An tônio de Santa Maria J a­
boatão. Tornaram-se " estrêlas f ixas" com o estabelecimento de­
finitivo dos Franciscanos em Olinda, três lustros antes de findar
o século, isto é, em t 585.
Revista Eclesiástica Brasi leira, vol. 5, fase. 1, março 1 945 97

No a n o de 1 596, havendo já candidatos à Ordem do próprio


país e talvez alguns de Portugal, abri ram-se os primeiro s estu­
dos no mesmo Conveqto de Olinda e continuara m a funcionar
conforme a afluência de pretendentes do Brasil e do rei no. Tudo
é de ler n o citado cronista.
Ràpidamente espalhou-se a O rdem do Norte ao Sul com a
fun dação de Conventos. Todos êles foram unidos, em 1 647, em
Custódia independente da Província de Portugal e em 1 657, o
Papa Alexandre V I I decretou a ereção da Custódia em Provínci a
a u tônoma.
Neste tempo existiam nas partes do Sul oito Conven tos : Vi­
tória ( 1 59 1 ) , Rio de J aneiro ( 1 608) , São Paulo ( 1 639 ) , Santos
( 1 639) , Macacu ( 1 649 ) , Penha de V i tória ( 1 650 ) , Angra dos
Reis ( 1 650) , l tanhaém ( 1 654) . �stes Conventos alcançaram , em
1 659, a sua ereção em Custódia e depois de acrescidos mais dois
em São Sebastião ( 1 65.8) e Taubaté ( 1 674 ) , o Papa criou, em
1 675, a P rovíncia da I m aculada Conceição, com o Convento cen­
tral no Rio de J anei ro, sendo executado o Breve em dezembro de
1 67 7 .
E' d o s estudos e d e su a organ ização nesta Província q u e nos
ocuparemos neste artigo. Colhemos as respectivas notícias de
preferência nos l ivros m anuscritos do Tombo Geral da antiga
P rovíncia, nos Estatutos Municipais aprovados nos Capítulos
Provinciais de 1 7 1 0 e 1 3 e impressos em 1 7 1 7, e em outros pa­
péis avulsos do arqu ivo conservado no Convento de Santo An­
tônio. Advertimos, porém, que em substância os ditos Estatutos
vigoravam também anteriormente, conforme expressamente se de­
clara no Prólogo. 1
2 . Até ao ano de 1 650, os Rel igiosos franciscanos sacerdo­
tes, espalhados pelos Conven tos de todo o Brasil e que anterior­
mente não tinham fei to os estudos no reino, recebiam a sua for­
mação filosofo-teológica em Olinda e, depois que começou a in­
vasão holandesa, na Baía. No dito ano, o novo Custódio Frei
Sebastião do Espírito Santo, prevendo o futuro próspero dos
Conventos do Sul e, quem sabe, a sua p róxima i n dependência da
circunscrição do Norte, abriu Estudos no Convento de Santo An­
tônio do Rio de J aneiro. Tratava-se de um curso de Filosofia e
de Teologia. O de Filosofia, que então era geralmente chamado

1 ) O único exemp lar existente dos Estatutos Municipais é um livro de


fôlhas sôltas, tôdas carcomidas pelo cupim e por isso de difícil leitura.
7
98 R o w e r, Os Estudos na Província Franciscana nos Séc. XV I I e XV I I I

de Art es, ou também d e Ciências N aturais, abrangia Lógica, F í­


sic a, Met afísica, Ética e Matemática. O de Teologia dividia-se
em Teolo gia especulativa, que estudava os dogmas da fé, e Teo­
l ogi a m oral, que essencialmente era l ição de casos. Para lentes
nom eou o Custódio a Frei Manuel de Cristo ( Fi losofia) e a Frei
G reg ório de São J u lião. 2
D epois da ereção da Província ( 1 677 ) , houve os mesmos
Estudos no Convento de São Paulo, mas com interrupção 3, e os
do Rio de J aneiro funcionaram temporàriamente, de 1 7 1 9 a 42,
n o Convento da I lh a do Bom J esus, situada na Guanabara.
3 . A i nstituição de lentes competia à Mesa de Definição. O
pretendente ou o escol hido para ler Filosof i a tinha de prestar
exame sôbre a sua i doneidade e, sendo aprovado, assu m i a a obri­
gação de ler Filosofia três anos contínuos e em segui da três
anos de Teologia. Era esta a lei geral , que, porém, sof r i a exce­
ções, de modo que o mesmo lente, por via de regra, acompa­
n h ava os alunos através de tôda a Filosofia e Teologia. N ão se
co n h e c i a o sistem a de cursos combinados. H avendo, porém, ainda
o u t r o l e n te d e Teo l o gi a , o que acabava de l e r F i l o so f i a t i n h a
preferência para as au l as de Prima. O l e n t e ditava a sua l ição
du rante m e i a h o ra e d e p o i s entrava n a expl icação. Todos os me­
ses e r a ad s t ri t o a defender conclusões n a classe. Mas no fim de
cada disci p lin a q u e as Artes abrangiam, o ato devia realizar-se
em públ ico e d ur a n te todo o dia. "E o q u e não defender conclu­
sões nesta forma - d i z e m os Estatutos - não será admitido
a l e r Teo l o g i a , nem logrará a preeminência de l en t e . "

D o m e s m o m o d o , i s t o é, p e l o Definitório e com p révio exa­


me eram i n st i t u í d o s o s l e n tes de Teo l o g i a , mas vaga n do o ofí­
c i o , o P rovi n c i a l sup r i a . Não se admitia c o m o l e n te de Teologia
a quem n ã o tivesse l i d o F i l o s o f i a três anos ou n ão tivesse s i do
a o m e n o s passa n ic e m e s t re das reparações , com satisfação e
a p rovaç ão dos l e n t e s .
N as s u a s p r el e ç õ e s dev i am os
lentes, tanto de Filosofia como
de Teologia, dar "a doutrina d o nosso sutilíssimo Escoto, e a se­
g u i r ão sempre conforme a i n t e r p r et a çã o v u lgar d os escotistas,
defendendo as suas o p i n iões com tôda a compostura e modéstia
r e l i g i o s a , e decl a r a n d o o melhor que l hes fôr possível o seu sen-

2) j aboatão, Orbe seráfico, 1, vol. 1, 341 .


ª ) Frei Basílio Rower ,
O. F. M., Pdgi11as de História franciscana no
Brasil ( 1 94 1 ) , 1 1 3.
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1, março 1 945 99

tido, como sempre se usou em a nossa san ta Religião" , isto é,


na Ordem franciscana .
N o desempenho de seu o f í c i o , estavam o s l entes i sentos do
ofício divin o no côro, n ã o , porém, das vésperas e matinas de
primeira classe. Acabando a leitura, os l en tes de Teologia goza­
vam d e certos privilégios conforme o s anos de serviço. O s d e
Fi losofi a tinham regal i as sómente s e , em l u gar de ensinar Teo­
logia, a P rovíncia por falta de Religioso idôneo, os ocupava em
o u tra leitoria. Medida de equidade.
Ocorreram acima as palavras " reparações" e " passantes" .
Que vêm a s e r ? Trata-se das repetições que o s estudantes fa­
ziam nas tardes d e três dias d a semana, desde as Ave-Marias
até à s oito horas. Assistia-lhes u m mestre com o nome de " pas­
sante " , a quem incumbe - rezam os Estatutos - "escrever a
p os ti l a da classe, para que assim possam explicar melhor a dou­
t r i n a aos colegiais e impugná-la com argumen tos, e serão o b r i ­
g a d o s a ass i s t i r alternativamente à s reparações como mestres que
s ã o delas . " Não h á negar que ê s s e s i stema das rep a r ações sob
a d i reção de u m mes t r e q u e não era o pró p r i o lente, contr i b u í a
extra o r d i n à r i amente p a ra prod u z i r u m a sól i da i n s t ru ç ã o . P o r êste
m o tivo, se e m a l g u m o u t ro ponto as leis que r e g u l a v a m os Estu­
d os n ã o tivessem s i do observadas sempre com rigor, n o toca n te
aos p a s s a n t e s de F i losofia e de Teo l o gi a , encontramo-los com
m u i ta freq ü ê n c i a n o s Registos cios R e l i giosos até ao d ecl ínio da
P rovíncia.
4 . Passemos ago ra para o s e s t uda n te s e s e u s estudo s . P a ra
a P ro ví n c i a a d m i t i r u m j ove m ao estado clerica l , e x i g i a-se a i d a­
de de p e l o m e n o s 1 6 anos. N ão h avendo na O rdem e s t u do ele­
mentar, nem tampouco o que chamamos h oj e es c o l a a p o st ó l i c a
ou sem i n á r i o p a r a os e s t u dos secu n d á r i o s , o c a n d i d a to devia ter
p re p a ro nas " Letras H u m a n a s " , espec i a l mentt:, como
�m f l c i e n t e
é óbv i o , na l í n gu a latina ou g r a m á t i ca , como se dizia. E x i gi a-s e
q u e " e n t end es s e gramatical m e n te q u al q u e r l i ç ã o do breviário,
epístola e evangelh o do missal . " Desde 1 723 n ã o se d i s p e nsava
a certidão dos professôres régios, cuj a s a u l a s tivesse freqüentado
an teriormente.
Uma vez a dm i t i d o , f a z i a o candi dato o t i rocínio ou novi­
ciado e m al g u m dos Conventos destinados para isto. Mas tam­
bém durante todo o ano de noviciado e pelo espaço d e uma hora
. .
cada d i a o s noviços deviam " reger gramática u n s aos o utros e
7*
1 00 R õ w e r , O s Estudos na P rovíncia Franciscana nos Séc. XV I I e XV I I I

construi r a s lições dos Ofícios divinos." O f i m dêste exercício


era amaestrarem-se no trato da l íngua, não sómente l itúrgica mas
também científica.
Acabado o ano de noviciado, os neo-professos chamavam-se
coristas. H avia entre êles duas classes o u categorias, simples co­
ristas e coristas colegiais. Por que esta distinção ? Expliquemo­
nos. E' sabido que no Brasil eram muito raras as vocações para
o humilde estado de Religioso Leigo, a própria Metrópole achava
que eram i n ll teis. Por êste motivo não havia remédio senão apro­
veitar os j ovens coristas para o serviço da casa. Tinham, pois
os simples coristas o encargo de comparecer às H o ras canônicas
no côro e fora dista ocupar-se como serventes. Também os co­
ristas colegiais, se não passavam pelos exames ou se e ra m no­
tóriamente desidiosos nos estudos, eram "l ançados fora do estu­
do" e reduz i dos a simples coristas.
Outro motivo para dilatar os estudos de Filosofia aos coris­
tas era a concepção da vida religiosa p roveniente da reforma al­
cantarina. Quer isto dizer que a reforma de S . Pedro de Alcân­
tara, i ntroduzida em algumas partes da O rdem franciscana, -

e a Prov í ncia da Conceição do B rasil era alcantarina -, visava


antes de tu do elevar o Religioso à p erfeição cristã pelo exercício
d a oração e a prática da humildade e d a penitência. Da vida
ativa só cogitava em segundo lugar. Os Franciscanos cio B rasil
. nunca aplicaram estas tendências com rigor, como demonstra a
História da Província. Contudo, elas manifestaram-se e uma das
conseqüências foi o adiamento dos estudos aos coristas.
À vista dos motivos expostos, não admira encontr armos nas
Rel ações dos P rovinciais simples coristas em quase todos os Con­
ventos, mesmo n aqueles em que não havia nem noviciado, nem
estudos superiores.
5 . Ao que parece, não se cogitava mesmo no princípio de,
além dos exercícios no noviciado, f avorecer a cultura científica
dos simples coristas. Mas êste estado de coisas mudou em 1 727
em virtude de uma o rdem do Pe. Geral, mandando que, n a o r­
ganização dos estudos, as P rovíncias erigissem também u m se­
minário de gramática, isto é, de l atinidade. Em obediência a esta
ordem, o D efinitório designou para o dito fim o Convento de
Macacu, na Baixada Fluminense, achando que uma só casa era
suficiente. Construiu-se, portanto, neste Convento uma nova de­
pendência nos fundos ( ainda hoj e bem cognoscível nas ruínas)
Revista Eclesiástica B rasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1945 101

e p ara l á foram 1 2 coristas, q u e todos o s anos deviam ser subs­


t i t u í do s por outros doze. 4
O enérgico V isitador D . Frei A n tôn i o G u adalupe, B i spo do
R i o de janeiro, visitando a P rovíncia n o s anos de 1 738 e 39,
insistiu de novo no mesmo assunto . O Provincial Frei Lucas exe­
cu tou suas ordens com relação ao Convento de Cabo-Fric em se­
tembro de 1 739, l embrando não sómente o grande em penho d o
V i s i t ador, mas também a s u a determi n ação de ficarem o s coris­
tas isentos de todo o serviço braçal q u e lhes tomasse o tempo
de estudo.
N o p rovim e n to da visita que o mencionado P relado deixou
exarado no l ivro do Tom b o do C o nvento de Cabo- Frio, diz ex­
p ressamente que assim se devia cumpi r "como se pra tica em to­
dos o s mais C onventos onde se estabeleceram os di tos estudo s . "
D o n d e resu l t a que desde e n t ã o o s simp les cori stas estudavam ge­
ralmente Gram ática e tudo o mais que naquele temp o · se enten­
d i a por êste ramo de ciência. 6
A o abr i r-se o curso de G ramática n o C o nvento de Macacu
ficara estabelecido também q ue o s seus l e n tes, cuj os discípulos
tivess�m " l u cro n o seu ensin o " , fôssem contemplados com algu­
m a mercê, de acôrdo com o s Estatutos de Salamanca. 6
6. Perguntará o leitor s e o s frades n ã o estudavam outra l ín­
gua senão o latim . Respondemos que certamente se ensinava o
grego e o hebraico n o tempo em que funcionava n o Convento de
Santo Antônio do R i o u m a espécie de U niversidade, desde 1 776
até. 1 805 m a i s o u m enos. Sôbre o tempo anterior nada podemos
adiantar. Mas em l u gar ela l í n gu a clássica de H o m ero estudava-se
o " grego da terra'' , que era a l í n gu a dos í ndios, o tupi. O s Reli­
giosos deviam estudá-l a p ar a s e con servarem fiéis ao lema fran­
c i scano de serem tudo para todos. Foram-no n a verdade. A do­
cumentação, embora escassa, é eloqüente. P ara o s últimos decê­
i1i o s do século XV I I atesta o Adm i n istrador eclesiástico que em
tôda a diocese do R i o de j aneiro, quer dizer, desde o E s p í r i to
Santo até S ã o Paulo, an davam o s Franciscanos " p regando e dou­
trinando ao gentio d e uma e o u t ra nação com n�uito aproveita­
mento d e su as almas . " 7 Não se pode p regar e doutrin a r sem co-

� ) Tom b o G eral da Pro vín cia, 1 , 205 v. 206.


5) Tom bo do Con v ento de Ca bo-Frio, 2 1 .
G ) Tom b o G eral, 1 , 206.
� ) Tom b o G . 1, 86.
1 02 R o w e r, Os Estudos na Província Franciscana nos Séc. X V I I e XVI I I

nhecer a l íngua. O P rovincial, por sua vez, informa o Oovêrno


que na C a pitani a do Rio de J aneiro e nas demais do Sul os seus
Re l i giosos pregavam m issões não em u ma só língua, m as em
tôdas, conforme as n e c e ss i dades dos povos, · e que neste t rabal ho
se ocu p avam m ais " l í ngua s " do que tinham tôdas as outras O r­
den_s j un tas. 8 E não estão a í também a con f i rm á - l o as Aldeias
d e índios que estiveram a cargo dos Franciscanos desde f i ns do
sécu lo X V I I e durante todo o século XV I I I ?
Não era, entretanto, somen te o " grego da terra" que s e es­
tudava ; mas outrossim o " g rego d ' Afr i ca" . T i n h a-se o cuidado de
manter sempre no Rio de Janeiro, pôrto mais f r e q ü e nt ad o no co­
m érc i o dos negros, alguns Religiosos que soubessem a l íngua dês­
tes infelizes para socorrê-los e spi r i tualm e n t e .
A não ser com relação ao Hos p íc i o de Campos n o fim do
século XVI I I 9 e aos Conventos da Penha e V i tória no p r i n c í p io cio
sécul o X I X 1 0 , não consta qual a i n tervenção ela P rovíncia no i n ­
t u i t o de facu ltar e fomentar o estudo ela l í ngu a geral. Parece, pois,
que os Religiosos ap r e ndia m - n a p o r i n i c i ativa p ró p r ia e esta cir­
cunstância, como também o fato ele terem sido os " l ínguas" tão
numerosos, consti tui bel o atestado do zêlo que re i n av a en�re os
Re l i g i osos .
7 . J á é t e mp o de dizer sôbre a s e g u n d a c a tegor ia de cléri­
gos, os coristas colegiais. Co m pe tia ao Capítulo P r ov inc ial ou à
.Con gregação I n termédia " m eter" os j ov e n s coristas no estudo,
conforme havia necessidade ele sacerdotes, p regadores e confesso­
res, mas fixar o seu número exato ficava à discrição do P relado
Maior com seu Def i n i tório . Antes, porém , ti rava-se em segrêdo in­
fo r m a çã o de vila et morib11s e não se admitia senão quem fôsse
"
d i g no e capaz de ( m ais tarde ) subi r ao pú l p ito, por i dade, l i m ­
peza, v i r tu d e e suficiência de l atinidade." Previa-se também o
caso ele s ó m e n t e sacerdotes entrarem n o estudo de Artes e Teo­
lo g ia e neste caso só se admitiam "coristas m u i to av a n t aj a do s na
gramática e com ha bil i d a d e conhecida ele seu a p rov ei ta m e n to. "
O s coristas acei tos no estudo div i dia m - s e em dois gru pos que
se revezavam tôdas as semanas. O g ru po que ia às matinas, à
meia noite, e stu d ava até às 9 horas ela noite e, depoi s das mati­
na s , até à s 3 horas da madru gada. Os do segundo grupo qu e não

8) Tom bo G. 1 , 89 v.
9 ) Tombo G. I I I , 1 45.
1 0 ) Tombo G. I I I , 1 57.
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 1 03

iam às matinas estudavam até às 1 0 horas da n o i te e das 3 da


madrugada até às 5 da manhã.
Os colegiais, portanto, tinham de contentar-se com cinco horas
de sono durante a noite. O fato, porém, de serem consideradas
de silêncio rigoroso as duas horas depois do meio dia, autoriza
a supor que faziam então a sua sesta .
As classes realizavam-se por via de regra das 7 às 9 y2 da
manhã e das 2 às 4Y2 da tarde e, a não ser a assistência à Mis s a
0 11 alguma Missa aj u dada nessa hora, não eram os colegiais obri­
gados a coisa nenhuma que pudesse impedir "o exercício das le­
tras" . Nos domingos, porém, e nos dias de primei ra e segunda
classe iam a tôdas as horas do Ofício, como também sempre às
Missas cantadas e à Benedita, que era a Missa em honra de N .
Senhora nas sextas-feiras.
As l ições de Teologia Moral davam-se nas tardes.
Em três d i as da semana, nas têrças, quintas e sábçi.dos, l i ­
nham lugar as reparações, de q u e acima falamos.
Concluía-se o ano letivo com os exames, presididos por dois
Letrados da P rovíncia. Quem não desse conta suficiente do que
se lhe ensinou não passava para a Teologia, mas era " l ançado
fora do estudo"·. Se, porém, o colegial, a j u ízo dos examinadores
e de seu mestre não estudou por desídia ou quisesse abandonar
os estudos culposamente, seria castigado e, não se emendando,
seria reduzido às penitências de noviço e não promovido às ordens
senão dois anos depois do tempo determinado pela lei. Ao t ra­
t a r - s e , porém, de um sacerdote j á confessor ou de um s acerdote
jovem, as penas seriam privação do Ofício e disciplinas.
Quanto à formação religiosa, dependiam os cori stas d e u m
mestre até se o rdenarem sacerdotes. Todavia, tendo algum sete
anos depois da vestição, era l ivre ao P rovincial eximi-lo, contanto
que fôsse "bem p rocedido" . Velava o mestre sôbre a conser.v ação
e incremento do esp írito religioso, estando sempre p resente a to­
dos os atos de piedade. I nculcava-se aos coristas que S . Francis­
co os consideraria "filhos bastardos" se não tivessem sobretudo
o espírito de oração e devoção.

Exigia-se o máximo respeito aos lentes. Quem n isto faltasse


ou quem contendesse com outro, seria castigado. Mas se a falta
fôsse grave, seria imediatamente expulso do estudo. A mesma
pena de expulsão teria a quem o P rovincial nas suas visitas achas­
se inquieto e m c as a ou fora dela.
1 04 Rõ w e r, Os Estudos n a P rovíncia Franciscana nos Séc. XV I I e XV I I I

Para preservar o colegial d e distrações não n ecessárias não


se lhe permitia, em tempo d e cl asse, falar a pessoa a l guma, e ao
por tei ro era vedado l evar à cl asse u m hóspede, a não ser um l e­
t rado ou pessoa de m u i to respei to . Nos primei ros c i n co anos per­
m i ti a-se aos cori stas i rem à cidade somente para visitar os pais
ou parentes em pri meiro grau , quando mortalmente doentes. Nos
dias santos, porém , e nos de sueto, concedia-se recreio n a h o r t a
ou no âmbito da c ê r c a e me smo a saída à cid ade, indo a dois
ou três e acompanhados pel o mest re ou outro Reli gioso grave .
8 . R i goro sa era a ordem, o u , como mais tarde se d i z i a, a lei
escolástica. N ão fal tavam, porém, os dias de descan s o . H av i a fé­
rias de 8 de dezembro a 2 de feverei ro e do D o m i n go de Ramos
até à Pascoela. Além d i sso, tôdas as quartas-fei ras eram d i as de
sueto, que se suprimia somente h avendo dois dias santos na
sem a n a .
Quando, n os a n o s de 1 73 8 e 3 9 , D . Frei Antônio Guadalupe
visitou a P rov íncia, deixou entre as suas ordenações também
uma " Lei escolástica " , para ser observada no futuro. E sta lei só
pouco modificav a a ordem observada anteriormente, trazendo,
contudo, alguma mitigação . O s pontos principais são êstes : Eximia
os colegiais da recitação das matinas à meia noite, transferindo-a
para as 9 horas da n o i te ; m a s obrigava, tanto col egiais como
passantes, a recitarem n o côro tôdas as Horas canônicas ; man­
dava todos se levantarem às 4 horas da manhã no verão e às 5
no i nverno ; abreviava em m e i a hora as cl asses e esta t u í a q u e
nos t r ê s dias da sem ana que não e r a m das reparações, o próprio
P rel ado ou um substituto fi zesse a conferência de Moral depois
da ceia. D. An tôn i o co n servou tôdas as férias e d i as de sueto ,
mas ordenou que nas férias houvesse u m a banca de madrugada,
11
menos nas festas de primeira cl asse.
9 . Muito apreciadas e, sem dúvida, próprias para csti m u l a1·
o estudo eram as conclusões que deviam real i z ar-se n o correr do
ano l etivo, ou n a classe, ou em públ ico com a assi stência de pes­
soas secu l a res i l ustradas. A êste respeito estabel eciam os Estatu­
tos, consagrando a t radição : "Todos os meses terão conclus ões
n a classe uma vez , e para que os colegi ai s se apl iquem e h aj a
e n t re êles em u l ação n o aproveitamento das letras , vendo que hão
de ap arecer diante dos Rel i g iosos e mais l etrados de fora, per-

1 1 ) Tombo G. I I , 5 1 .
Revista Eclesiástica B rasileira, v o l . 5, fase. 1 , março 1 945 1 05

m i timos que em cada ciência se possam faz er umas concl usões


públicas, sem fausto algum e sem aparato notado ; mas de tal
modo que resplandeça em tudo a perfeição e com postura do nosso
estado. Encarregamos m u ito ao I rmão G uardião faça quanto pos­
s ível fôr, por assistir à s di tas concl usões, assim para que v e j a
o que cada u m dos estudantes aproveita, como para atalhar as
demasiadas porfias, que de ordinário há, e fazer sinal quando
lhe parecer péJ.ra que se acabe."
O V is i tador, em 1 739, por su a vez, mandou que cada mês
houvesse algumas conclusões na classe da tarde, e outras públ icas
em cada ciênci a ; que na Lógica, porém, houvesse sempre duas
públ icas ; .n a Teologia a l gumas no ano de cada u m dos lentes.
Perm i t i u até que os colegi ais, aos quais nem nas férias era l ícito
deixar a I lha do Bom J esus, fôssem à C i dade para defender tese.
O s dias dêsses atos eram dias de festa e ao G u ardião reco­
mendava-se que concorress� com "moderado e decente fausto " , tal­
vez com u m sueto mais pro l ongado, com melhor p itança e, quem
sabe, com doce na sobremesa.
O estudante trazia a sua conclusão ou defesa de tese bem
escri ta ; mas não se permitia enfeitar as fôlhas com pinturas e
a rtifícios.
N o Convento de Santo Antônio do Rio reali z avam-se ês tes
atos públicos na grande sal a que nós chamamos da portaria e
o s antigos de Capítulo, mas que n a verdade era a aula maxnn a,
cuj as pintu ras, i nscrições e quadros a óleo ainda hoj e l embram
o seu destino.
A assistência era seleta. Compareciam freqüentemen te o B is­
po, representantes do clero secular e regular, letrados e doutos
da terra, a mocidade estudiosa e posteriormente também algumas
vêzcs o vice-rei . Nas discussões dava-se a palavra a quem a so­
l ic i tasse.
Não queremos p rivar o leitor do p razer de saber de u m fato
altamente hon roso para um j ovem estudante, ocorrido num dês­
ses certames entre 1 793 e 96. Tratava-se da defesa de uma tese
filosófica e q uatro Religiosos colegiais tomaram o lugar dos defen­
sores. Depois de longo debate, um notável Padre de fora pediu
a palavra e, em ren hida controvérsia, tomou a peito confu ndir os
j ovens . Acudiu o lente ; m as, sendo doente do peito, no fervo r da
luta começou a deitar sangue pela bôca e foi preciso levá-lo à
enfermaria. A vitória estava, pois, indecisa. Levantou-se então ou-
1 06 R õ w e r, Os Estudos na P rovín c i a Francisc a n a nos Séc. X V I I e X V l f l

t r o j ovem Rel igioso, pediu l i cença p a ra sustentar a tese e travou-se


ele novo a l uta. Ao Padre o p ositor reuni ram-se mais dois e a
discussão prolongou-se sem que o estu dante perdesse u m palmo
d e terreno. O s assi stentes aplaudiram com entusiasmo o talen toso
f rade e o B i spo, D. C astelo B ranco, convidou o P rovi ncial a que
desse por concl u ído o curso para aquêle Religioso e lhe passou,
êle mesmo, paten te ele " Reitor de Filosof i a" . Quem e ra êsse i n ­
teligente corista? Chamava-se Frei Antônio do Monte Alverne,
n ascido em Cuiabá, P rovíncia de Mato G rosso, cm 1 77 1 . Fêz a
p rofissão n a O rdem n a i dade de 22 anos, em 1 793, e faleceu, de­
pois ele u m a vi agem à E u ropa, e m 1 798, sem chegar ao sacer­
dócio. 1 �
Mas o desfecho n ão foi sempre tão brilhante. G u ardou a tra­
d ição o caso segu i n te. N u m a dessas disputas que versava sôbre
a infalibili dade do Papa, h oj e dogma decl arado, mas naquele tem­
po l ivre às con t rovérsias, u m lente argumentou con tra a in f a l i b i ­
l i dade. Foi um escândalo, pois i a contra a convicção geral . O
resultado ? O vi ce-rei mandou p rendê-lo aí mesmo na aula, e con­
duzi-l o ao cárcere cio C onvento .
1 O. Depois de acabados os estudos d e A rtes e Filosofia e
aprovados em novos exames, os Colegiais eram orden ados sacer­
dotes. Esta regra, porém, sofria exceções. S e n o Registo dos Re­
l i giosos encontramos m u itos nomes elos que foram orden ados ele
acôrdo com os Estatutos, havia outros que se torn aram sacerdotes
com menos anos de estudo. D o célebre santo Religioso Frei An­
tônio de Sant' Ana G alvão consta até que foi p romovido ao pres­
biterato no R i o de J ane i ro u m ano apenas depois da p rofissão,
isto é, em 1 762, e q u e só depois cu rsou Filosofi a e Teologia em
São Paulo. i :: O caso n ão é ú n ico e assim se explica o fato, j á
mencionado, de haver entre os colegi ais também sacerdotes, mes­
m o pregado res.
N ão se acabava, com a recepção cio presbi terato depois de
seis anos de estudo superior, a formação i ntegral do sacerdote
f ranciscano . O utros dois anos decorriam, por via ele regra. n a f re­
q i.ientação das lições de Teologia Moral antes de receber, mediante
novo exame, o diploma de pregador. E ainda êstes, os "prega­
dores modernos" compareciam às mesmas aulas para serem i n sti-

12 ) Frei D i ogo de F reitas, Elenco biográfico, n ít m . 448. - A. M a ce do ,


Um passeio pelo Rio de janeiro, t. 1 , 274.
13) Reflisto dos Religiosos brasilienses, 4 1 .
Revista Eclesiástica Brasileira, \'OI. 5, fase. 1 , março 1 945 1 07

t u í dos confessores de secu l a res. H av i a também neste particu l a r


exceções e a j u risdição p a r a as co nfissões d o s R e l i giosos da O r­
dem, o P rovincial a dava à sua discrição.
1 1 . P a ra q u e os Reli giosos sacerdotes formados, lemes e co­
legiais pu dessem aprof u n d ar-se m a i s nos estudos ou para s e es­
peci a l i z a re m , t i n h a m a sua disposição a grande bibl i o teca, q u e
rivalizava c o m as m e l hores da cidade. D esde 1 7 1 0 era l e i que cada
G u a rdião n o ano e meio de seu govêrn o colocasse seis vol u m es
na b i b l ioteca sob pen a de privação de voz ativa e passiva por
três anos 1 1, o q u e foi i n c u l cado de n ovo no C ap í t u l o de 1 76 1 . 15

Recomendava-se a aquisição de l ivros de Moral, Exposito r es, P ré­


d ica, F i l osof i a , Teol ogia e para os Conventos de E studo ( R io de
J a neiro e São P a u l o ) de Cl ássicos. E x i g i a-se igual m e n te SQb pe­
nas severas a con servação dos l ivros.
Apesar do desfalque que sofreu a b i b l i oteca em tempos anor­
mais por subtrações i ndébitas e est ragos pelo cupim e u m i dade,
a i n d a h oj e i mp ress iona o visitante pelo grande n ú mero de volu­
m e s conservados, enormes e pesados. P reciosas são as muitas edi­
ções da Sagrada Escritura e com entários d a mesm a ; as obras cios
S a n tos P a d res gregos e l a t i n os e de escri tores ecl esiástico s ; os
B o l a n d i stas, etc. N a o p i n i ã o dos entendidos é riquíssim a, p rópria
·

para uma U n ivers idade .


1 2 . Os estudos superiores no Co nvento de Santo Antôn i o cio
R io de J a n e i ro tom aram um su rto deve ras extraord i n á r i o nos (1 1 -
timos decê n i o s do século X V I I I . D u as ci rcunstâncias contribu í ram
para i sto, a expu lsão dos PP. d a Companhia de J esus, com q u e
o B r a s i l f i cou privado dêsses excelentes m estres, e as ten dências
d a época, chamada do " E sclarecimento" . As a u l a s para a forma­
ção i n telectual dos Rel igiosos tran sfo r m a ram-se em u m a espécie de
U niversi d ade e c o m isto adq u i riram os Franciscanos u m c e r t o mo­
nopól i o n o ensino das C i ê n cias S u periores, n o R i o de Janeiro. O
leitor verá q u e não estamos exagerando. A U n ivers idade l ogrou
ser aprovada por Alvará régio de t1 de j u n ho de 1 776 e os seus
Estatutos acham-se n o I n stituto H istó rico G eográfico B rasi l e i ro ,
porque l h e foram oferecidos, em 1 866, por J o sé de Saldanha d a
16
Gama Filho.
N e s s e A t e n e u de E s t u d o s Superiores h a v i a t re ze cadeiras e
ensin ava-se H i stória eclesiástica, H eb raico, Retórica, G rego, Filo-

H ) Estatutos Municipais, pág. 1 58. 1 5 ) Tombo G. I I , 1 97 v.


l G ) Revista do lnstit11to Histórico Geográfico Brasileiro, 1 866, l i , 363 .
1 08 R õ w e r, Os Estudos na P rov í n c i a Francisc a n a nos Séc. XVI I e XV I U

sofi a, Teologia dogmática, Teologia moral , e Exegética, oito ma-·


térias ensinadas por treze mestres . 1 7
N ão eram, portanto, sõmente os frades que cu rsavam as au­
l a s do Convento. Freqüentavam-nas homens que ao depois en­
gran deceram a Pátria por sua ilustração, freqüentavam-nas os alu­
nos do Seminário de S . josé, que se dirigiam ao Convento reves­
tidos de suas batinas. Quanto ao clero secular que no Convento­
( e também no de São Paulo) se formou, pôde o Provincial dizer
à Regência em 1 835 que era "difícil encontrar um eclesiástico.
n as P rovíncias dêste I m pério, mormente n aquelas em que existem
Conventos f ranciscanos, que não l hes devesse a i nstru ção conve-·
niente ao seu estado . " 1 8
Tanta era a preferência que a mocidade estudiosa dava às.
sábias preleções dos Franciscanos, que, no dizer de Moreir a de
Azevedo, eram os mais autorizados e doutos mestres, que as au­
las régias ficavam desertas, o que provocou a representação quei­
xosa dos p rofessôres das H u m an i dades perante Sua Majestade,.
com data de 1 5 de j aneiro de 1 7 8 7 . 1 9
Até quando fu ncionaram êstes cursos universitários ? Certa­
mente até 1 805, poi s foi nomeado neste ano mestre d a l í ngua he­
braica o próprio Provincial Frei Joaquim das Santas V i rgens Sa­
lazar. Sôbre os anos posteriores, com gra n de pesa r nosso, não·
encontramos mais notícias.
O resultado benéfico dos Estudos no Convento de Santo An­
tôn io fêz-se sentir bem para dentro do século X I X . A í estão êsses.
corifeus de ciências filosóficas e teo lógicas que brilharam nas ca­
deiras dos Seminários do Rio e de São Paulo, Frei joão Capis­
trano de S . Bento, Frei Antônio de Santa ú rs u l a Rodoval ho, • Frei
Marcel ino de Santa Matil des, Frei I nácio de Santa j ustina, Frei
Francisco do Monte Alverne, e outros. Ainda em 1 835, t rês Reli­
giosos de Santo Antônio ocupavam proficientemente três cadeiras.
no Seminário de São j osé do Rio de j aneiro. 2 0
Além disso, os Franciscanos dirigiam aulas de Fi losofia, ge­
ralmen te a pedido das Câmaras, em V i tória , Taubaté e h u .

1 7 ) Livro d o Centenário, 7 e 8.
1 8 ) Tombo G. I V , 20 v.
1 9 ) Rev. lnst. Hist. Geogr. Br. 1 902, 1, 2 1 6.
20 ) Frei B asf l i o Rõwer, O. F. M., O Convento de Santo A ntônio, 2.•
ed. 1 87, ss.
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 1 09

CO M U N ICAÇÕ ES
Ação Católica no Sertão.
Sob êste título, S. Exc i a . Revma. D. Frei H e n rique G o l l a n d Tri ndade
acaba de publicar opo rtuníssi ma Carta Pasto ral, de que transcrevemos a
segunda pa rte :
E j á chegamos ao illtimo ponto desta nossa ráp ida e i ncompleta visão
de 3 anos de episcopado, p onto que fornece rá o assunto p ropriamente d i to
desta nossa mo destíssi ma c a rta pastoral : a fel i z i n stal ação, em n o ssa cara
d i ocese, da p rovi dencial e oportuna Ação Católi ca, inspi ração fel icíssima
do grande P ap a Pio X I , p reparada pelos seus a n tecesso res e continuada,
com a mesm a visão l arga e profunda, p e l o seu sucesso r o S a n to Padre
P i o X I I , glori osamente re i n a n te - Ação Católica, que não q uer o utra coisa
senão vol tar, de todos os modos possíveis, à s fonte s p u ras do catolic ismo,
que se enco ntram, doutri n à r i amente, nos evangelhos e cartas apostól icas,
e, pràticamente, n a p r i m i tiva vida d a I g reja, onde tudo coopera, com um
entusiasmo s i n c e ro e uma caridade sem sep arações, p a ra a dil atação do
Rein o de C risto, cujos salutare s i n f l uxos se começaram a perceber, cla ra­
m ente, 1J1as a l m as, n a s fam i l i as, na socie dade, quer j udaica, quer pagã,
daqueles tempos heróicos.
Oportunidade. - A m u i tos, talvez, p a recerá que a A. C. vem m u ito
tarde à nossa diocese. O utros, talvez, e j á o ouvimos, d i rão que a A. C.
é prem atura, ·nestes sertões. N ã o condenamos ·n em uma, nem o utra o p i n ião,
pois que cada uma tem a sua p a rcela d e razão. Sim, é tarde, pois não
é de hoj e q u e os Soberanos Pontífices i n sistem em sua p ronta di fusão,
por tôda p a rte, sem mesmo excetuarem as te rras de m issão. E' cedo, pois
quem c o n hece a ignorância re l i giosa de n o sso povo, a deficiência deso l a­
dora do clero, bem compreen d e que, em tais c i rc u nstânci as, a A. C. a i n d a
n ão é fruto p e rfeitamente maduro, p ara se colhêr e sabo rea r.
O Fato. - Sej a como fôr, depois de quase 3 anos de anseio e de p re­
.p a ração remota, e dep o i s de 3 meses de p rep a ração próxima, n a g rande e
sign ificativa festa de S. Pedro, d i a do Papa., 24 diocesanos (senhoras, ho­
mens, moças e rapazes) p restaram, e m nossa i g rej a cated ral do Senhor
d o Bonfim, o compromisso legal, recebendo das mãos de seu bispo, como­
vido e agradecido, o distintivo
·
que deve esp a l h a r luz e esperança p o r
tôda pa rte.
O Nosso Papel. - Estava l a n çada, em terra bonfinense, a p reciosa
sementi n h a da A. C. B rasi l e i ra. Não nos il udíamos, p o rém ; era uma se­
mentinh a apenas, que devia ser cercada de todo o c a rinho, para se desen­
volver, c rescer, multip l icar-se . En tregamos a N. S. êste trabalho, pois, sem
i!:le, n a d a se consegue, reservando p a ra nós o papel d e seu primeiro au­
x i l i a r, ·não visando a h o n ra que dai nos vem, e, sim, as fadigas e decep ções
que não hão de f a l ta r, e que desej a ríamos tôdas p ara nós.
Cooperação. - Entretanto, não podemos, n em queremos t raba l h a r
sozin ho, neste ap ostolado a n t igo-moderno do l a ica to ; s e r i a j á .p ecar p e l a
b a s e . E uma p rova desta -nossa asserção é e s t a h u m i l d e carta que vos
escrevemos, ded icados cooperadores e fil hos ca ríssimos, com o fim de me­
d i tarmos j u ntos sôbre a s responsabili dades e as o b rigações, que a A. C.
impõe a todos n ós, c l é rigos e leigos, sem deixarmos de meditar também
1 10 Comunicações

sôbre as graças extraordinárias que dai decorrem, graças que se chamarão


paz, caridade, consôlo, a transbordar de nossa alma, para a alma de nosso
próximo, quer individuo, quer coletividade, tornando-nos, assim, verda­
deiros elevadores de uma sociedade em decadência. Saibamos comp reen­
der, para que saibamos querer.
In tenção Paterna. - Antes de tudo, lembremo-nos de que o Santo
Padre Pio X I dando, não sem uma inspiração divina, a · definição clara
do que seja A. C., não q uis, de modo algum, suscitar as célebres con tro­
vérsias antigas das escolas, que não pouco escandalizaram os séculos e
nenhum ou pouco ·resultado prático consegui ram, senão muita q uebra de
humildade, de caridade e, portanto, do genuíno espírito de jesus Cristo. O
Santo Padre quis justamente união, não separação. Quis form a r fileiras
cerradas de batalhadores pacíficos, não turmas de polemistas belicosos.
Quis, sem dúvida, opor às células do mal que separam e desunem, por tô­
da parte, células do bem, da verdade, da virtude, que, formando um or­
ganismo perfeito em jesus Cristo, fôssem de molde a tudo e a todos n ele
absorver, sem aniqui l a r ; a e1e submeter, sem aviltar ; e fazer que por
�le vivam, sem perderem a sua personalidade. A A. C. não deveria ser,
apenas, uma discip l i n a a mais, para os seminários, colégios católicos, cír­
culos de estudos e salas de conferências, ou um assunto a mais, para pre­
gações e para a imprensa. Se a i está em seu lugar, como matéria de estudo
e de divulgação, é para que dai saia transfo rmada em prática, para as
fábricas, repartições, quartéis e academias, para os campos e para os la­
res, onde vai real i zar a sua m i ssão, espal hando o bom odor de Cristo e
para �te lucrando as almas e as instituições.
Movimento de União. - Não vamos, pois, colaboradores e filhos, in­
t roduzir, em n ossa pacífica diocese, um pomo de discórdia. Pelo contrário,
gu iados pelos evangelhos e pela doutrina dos apóstolos, iluminados pelos
exemplos dos primeiros séculos e pelos ensinamentos seguros dos Sobe­
ranos Pontífices, temos certeza de que a A. C. será, para nós, mais um
princípio firme de união, de harmonia, e, como o nome mesmo o diz, de
verdadeira ação benéfica, cm seu mais p rofundo sentido de catol icidade.
Com humil dade e espírito de fé, recebamos o mandamento do Sumo Pon­
tífice, e sem nos perdermos cm considerações sutis e distinções filosóficas,
que tão pouco dispõem as almas p a ra a luta, entremos logo no assunto
prático, cheios de devotamento, com a vontade sincera de rea l izarmos as
i n tenções paternas.
O q u e é A. C. - Pio X I , de santa memória, por uma inspi ração di­
vina o diz claramente : "é a participação dos leigos 1zo apostolado hierár­
quico da Igreja" , com o fim "de defender os princípios religiosos e morais,
pelo desen volvimento de uma sã e b en éfica ação social, sob a direçüo da
jerarquia eclesiástica, acima e fora de todo partido político, a fim de
instaurar a vitla católica na famllia e na sociedade" . - O apostolado da
A. C. procura, pois, despertar em leigos bem intencionados ( homens ou
senhoras, moças ou rapazes e, até crianças) o desejo verdadei ro de serem
úteis à Igrej a, trabal hando, sob a di reção dos bispos e de seus assisten tes
eclesiásti cos, de todos os modos, pelas suas múltiplas e grandes intenções,
que se resumem, em última análise, em dilatar o reino de j esus Cristo,
nesta terra.
Espirita de Pé.
- Não há dúvida que, para chegarmos a êste resul­
tado, necessário é despertar nos católicos um profundo espirito de fé,
que os faça viver '1las realidades sobrenaturais que os cercam, conside­
rando a glória de Deus, como o objetivo mais digno de seus esforços ; a
Revista Eclesiástica B rasi leira, vol. 5 , fase. 1, março J 945 1 1 1

sa lvaç ã o e santif icação das almas imortais como trabalho mais i mpo rtan te
- o que exige uma visão perfeita e completa da v i da, não esfacela da mas
brotan do de sua origem e d i r igindo-se a seu fim, i sto é, em relaçã o · í � tima
com Deus e a eterni dade.
Es tudo e Oração. - Para despertarmos êste espírito de fé, e para 0
conservarmos e desenvo lve rmos, é necessário o estudo religios o e a vida
de oração. Teremos o cuidado e a d i ligência perseverante, amados f i l h os
d e estudarmos e ensinarmos o catecismo, os evangel hos e epístolas, a l i �
tu r g i a da m issa e dos sacramentos, a história da I g rej a, os docu mentos
pont ifí c i o s este estudo não só fo rnecerá matéria p a ra n ossa o ração, co­
.

mo também será a melhor p reparação para a n ossa vida de o ração e 0


a mbiente p róprio, p a ra que ela se desenvolva e atinj a graus bem el e v ados,
aos quais Deus N . S. q u e r conduzir as almas p u ras, h u m ildes e apostólicas.
- este estudo e êste ensino, em círculos l i m itados e perante auditórios
especiais, por exemplo, nas reun iões das dive rsas associações, o u nas de­
voções à tarde, etc . , serão feitas de tal modo, simples e p rático, q u e, ins­
truindo , despe rtem verdadei ras vocações para o apostolado. Lembramos
o ensinamento do Santo Padre, que são estas associações - o rdens ter­
ceiras, apostolado da oração, congregações marian as, confe rências vicen­
tin as, etc.
- que devem fornecer os melhores membros da A. C. - É, por­
tanto , de importância capital a d i reção destas entidades religiosas : obser­
vância dos estatutos, formação, p iedade. Comp reen de-se, então, o alcance
dos retiros esp i rituais, feitos, sempre, quanto possível, para pequenas tur­
mas. E mais do que isto, se compreenderá a n ecessi dade da comunhão fre­
qüente, fonte insubstituível do verdadei ro zêlo.
Vocação Especial. - Então, é certo, começarão a surgir as vocações
verdadeiras para a A. C. Pois, se bem q u e todo o cristão, p o r fôrça do
seu batismo e da sua con f i rmação, e p o r fôrça da s u a com u n hão euca­
rística, para não ser infiel à sua fé, deve, de qualquer modo, trabalhar pela
glória de D eus e pelo bem das almas ( bom exemplo, o ração, conselhos, es­
molas, etc. ) , contudo, ao apostolado o rganizado dos leigos nem todos po­
dem pertencer. Várias razões, de o rdem material ou esp i ritual, q u e não
dispensam a n inguém de viver o seu batismo e a sua ativa comunhão dos
santos, disp ensam o leigo de participa r do apostolado da A. C. N inguém
pode obrigar um cristão, que cumpre as suas obrigações, a que tome par­
te em ·não sei quantas reuniões e círculos, e que, sem viver do altar, viva
quase para o altar ou q ue, ao menos, prej udique os seus legítimos in­
terêsses terrenos, pelos quais deve, também, zel a r, em consciência.
Fileiras Escolhidas. - Sej amos sinceros e vivamos n a real i dade. A
A. C. há de ser um batalhão escolhido, n o qual, se devemos olhar o nú­
mero com i n te rêsse, não deve ser de tal forma, que do n ú mero esperemos
a salvação. Se a A. C. rem o n ta aos tempos apostó l icos, é nos tempos apos­
tólicos, tempo-padrão, que vemos o grupinho fiel das almas a rdentes, q ue,
separadas das multidões, p el a sua vida l i t ú rgica, em contato com a vida
divina, seguiam o s apóstol o s e discípulos e lhes eram a u x i l i a res preciosos,
para distrib u í rem o pão aos p o b res, a doutrina aos ignorantes, e, até mes­
mo, o corpo de C risto aos encarcerados, e predisporem a todos para a
graça da fé e do amor. - P essoalmente, contou-nos o Sr. Cardeal Leme,
de tão saudosa memória, ao voltar de Roma, o que lhe dissera Pio X I :
"Alegre-se, Eminên cia, se, em cada paróquia, en con trar 4 o u 5 lzom ens, u m
punhado de católicos decididos, que queiram ajudar, de verdade, a missão
da Igreja. " - Meus prezados cooperadores e filhos, esta sincera pa lavra
pate rn a, através dos lábios também paternos do grande Ca rdeal, ·nos co-
1 12 Comunicações

1 oca n a rea l i d a de e nos an i m a ao trabalho. N ã o se trata, portanto, d e so­


n h a r com g·randes o rganizações ou grandes aglomerações, principalmente
a q u i em n osso sertão, onde tudo será diffcil e penoso por m u i to s anos
ainda. Trata-se, pois, de recrutar, em c a d a p a ró q u i a, 3, 5 homens e outras
tantas senhoras, moças e rapazes, que desejem, seriamente, serv i r mais de
perto a Nosso Senhor e à sua I g rej a, e, com interêsse, zelar pelos seus
i n te rêsses. N atu ralmente, êsse número há de c rescer, ainda que devagar.
M a s não se vej a nesse c rescimento ou decrescimento n umérico, o índice
dos nossos esforços e rea l i zações.
Formação. - Começa, e n tão, o período de formação e de i n strução
carinhosa, profunda, q u a n to possível, pe rseve rante. E ' o noviciado d a A. C.
- Ensinemos a êste grupo escolhido o catecismo d e u m modo novo, mos­
tremos-lhe as belezas d a l i tu rgia, examinando com êle os ·nossos p a ra­
mentos e cerimônias, a n ossa matriz e capelas, leiamos com êle os evan ge­
l hos e dema i s l ivros do n ovo testamento, as encfclicas dos papas, as pas­
torais dos b i spos. Chamemos-l he a aten ção para êste ou aquêle l ivro o u
a rtigo. Tudo, n a t u ralmente, d e acôrdo com a c apacidade d o meio em que
se tra b a l h a . - Depois, rezemos com o nosso grupinho privil egiado. De
vez em quando, h aj a u m a santa m issa só para êle, t alvez d i alogando-a
o u recitando-a. Que se vej a nela o centro e a fôrça de nossa vid a . Reze­
mos com êle, o nosso têrço, meditando os seus mistérios ; percorramos
a nossa v i a-sacra. Ensinemos-lhe a fazer oração d a manhã e d a noite. I n­
sistamos sôbre o exame de consciênc i a . Sendo possível q u e se faça o re­
t i ro a n u a l . Ret i ro que poderá ser substituído ou aj udado por êstes dias
o u meio-dias de recolhimento, com práticas ou leituras especiais e o rações,
que tão bons frutos produzem por tôda p a rte, q u ando bem d i rigidos.
O Primeiro Resultado. - Que resul tado extraord i n á ri o já produz a
A. C. só p e l a formação séria de seus membros, a inda q u e, por q ualquer
motivo, não p udessem exercer o aposto l ado : são c ristãos completos, c o nhe­
cem a doutri n a da I g rej a , que é de Cristo, vivem a vida d a graça. Ter n a
pa róq u i a o u na d iocese, um só cristão a mais, q u e sej a u m receptáculo
a u têntico d a vida divina, a concha de S. Berna rdo, que transborde e sta vi­
da, é de tanta importância, que só n o céu saberemos agradecer a Deus.
Assim é que estamos dando valor ao sangue e à doutri n a d e Cristo.
Compromisso e Mandato. - Com a u torização do bispo d iocesano, êste
grupinho assim formado p restará o seu comprom isso de fé e de hon ra,
e receberá, do prel ado, o seu mandato, q u e o vem colocar em um plano
superior, fazen do-o pa rticipante do aposto lado hierárquico d a I grej a . Se o
bispo sozinho j á conseg u i a alguma coisa, se o pároco sozinho j á conse­
g u i a alguma coisa também, que não poderão conseguir êles agora, cada
u m em sua esfera, já não sozinhos, m a s cercados por esta falange esco­
lhida e prepa rada, que será o p rolongamento de s u a voz, de seu braço, de
seu coração !
Apostolado Múltiplo. - S i m , porque a A. C. é apostolado compreen­
dido e exercido nas intenções de Cristo, sob a orientação da I grej a , e q ue
poderá .revestir-se das m a i s variadas formas : catequese, santificação das
famílias, c u i d ado dos agonizantes, assistênc i a aos pobres e doentes, cris­
tian ização dos operários e d a mocidade, observância do d i a do Senhor,
campanhas da comunhão pascal, difusão d a boa imprensa, m a n u tenção do
culto (onde e quando faltar o sacerdote ) , p rimeiras comun hões de adul­
tos, cuidado dos p a ramentos, etc., etc. I sso t u do conforme as necessidades
locais e a s aptidões dos membros d a A. C., que já exercerão o seu apos­
tolado, pelo bom exemplo n a s igrej as (sta. missa, freqüência dos sacra-
Revista Eclesiástica Brasi lei ra, vol. 5, fase. 1, ma rço 1 945 1 13

mentos) , nas p rocissões, em casa, ·n as ruas, nas fábricas, no trabalho, nas


festas, n o campo, em viagem, etc., etc., o que brotará tão n aturalmente
da alma sadiamente cristã, isto é, que conhece a doutrina da Igrej a e vive
a sua vida, como b rota a flor, que será fruta saborosa e nutritiva, da planta
de boa raiz em terra fértil.
Realidade. - Meus queri dos cooperadores e filhos, eis o que poderá
ser, eis o que deverá ser, eis o que será a A. C., em o nosso bendito se r­
tão, se bispo, sacerdotes e leigos, obedientes à voz do Santo Padre, 0
Papa, nos transformarmos em um só coração e uma só alma, p rocurando
senti r e desej a r e fazer o que sentiu, desejou e fêz o Divino Mestre, 0
Senhor Jesus.
Universalidade.- Se a A. C. não deve ou não pode ser por todos
exercida, ela deve e .p ode ter com todos contato salvador e santificador,
mostrando, afinal, a todos, gregos e romanos, cristãos e j udeus, ateus e
materialistas, que a Igrej a tem uma só missão, qual a de realizar o man­
dato de Cristo, isto é, ensinar como se vive no tempo, para se viver na
etern idade. Então se contribuirá, verdadei ramente, p a ra que se desfaça
essa mentalidade inj usta, ridícula e acanhada de considerar a Igreja como
fôrça política ou astúcia diplomática ou arsenal de ciência ou emprêsa de
festas ou exibição de cerimônias ou pátria de superstições e sentimentalis­
mos ou coisas piores.
Voltando às Catacumbas. - Realmente, foi inspiração do alto que
fêz Pio XI, de santa memória, cri a r a A. C., n a forma que nós a pos­
suímos hoje, isto é, pondo os leigos bem i n tencionados em contato ínti­
mo com a hierarquia, revivendo os tempos heróicos das catacumbas, em
que o .papa ou o bispo, celebrando os divinos mistérios, ou le.ndo as lições
das escrituras, ou cantando os salmos, ou administrando os sacramentos,
sempre estavam rodeados pelos leigos que sabiam aprovei tar momentos
tão p reciosos e que, depois, com seus pastôres e min istros iam distribuir
aos famintos as colheitas maravilhosas da doutrina, d a graça e do amor,
que no serviço de Deus haviam recolhido. - Eis por que o mesmo Sobe­
rano Pontífice, de tão saudosa recordação, disse que ninguém, hoj e, pode
ser medíocre, que devemos reviver o espírito das catacumbas, que era um
espírito de íntima união e caridade, de sacrifício e de verdadeiro entusias­
mo por Jesus Cristo.
A Situação de Hoje. - Não há dúvida, que a situação hodiema da
humanidade é tão horrível e o seu futuro se n os mostra tão tenebroso,
não sabendo o que será o após-guerra, que todo indivíduo ou coletividade
que se p reza, deve dar o máximo do seu esfôrço, para que os problemas
gravíssimos se resolvam em vista da felicidade de todos. Ora, quando mui­
tos homens, mesmo sem fé ou não catól icos, olham para a Igrej a, como
para a i nstituição, vencedora dos séculos, que poderá dizer, na incerteza
geral, uma palavra decisiva, qual será a nossa atitude, nós que temos fé
e que, portanto, cremos na p romessa de Jesus Cristo, de estar com a sua
Igrej a, até à consumação dos séculos? Envergonhemo-nos, pois, de per­
dermos tempo fora do caminho, quem sabe cheios de susceptibilidade con­
tra A ou B, deixando o trabalho por traças do amor p róprio, ou brincan­
do com o nosso dever tão sério, a contemplar fitas e estatísticas, ou, pior
ainda, a contemplar a nós mesmos, nossas pequenas vaidades ou comodi­
dades ou i n terêsses terrenos, quando o nosso grande esfôrço deveria se r
despertar em 11ós e nos outros, e aprofundar o verdadei ro espírito de je­
sus Cristo - espírito largo e sublime de caridade, de humildade, de j ustiça
e de sacrifício. Nesta hora de sofrimento un iversal, lembremo-nos em nos -

8
1 14 Comunicações

sa pequenez, para que fiquemos tranquilos perante nossas responsabili­

<lades, que "muito dá quem dá tudo o que pode", ainda que possa dar
muito pouco.
D. Fr. H e n r i q u e G o l l a n <I T ·r i n d a d e, O. F. M.
B ispo de Bonfim.

O Aleijadinho e os Estudiosos na Inglaterra


e na América do Norte.

Está no conhecimento de m u i tos que a figura e a arte do Aleijadinho


continuam a encontrar admi radores e estudiosos além das fronteiras de
nossa pátria. Os leitores terão p razer em conhecer o sen timento de várias
figuras de renome na cultura do Velho e do N ovo Mundo diante dêste
v·u lto aureolado que enche um dos capitulos movimentados da história da
arte neste trecho americano.
Do S r. Dr. Rodrigo M. F. de And rade, d i retor do Serviço do Patrimô­
n i o H i stórico e Artfstico N acional, acabo de receber a oferta gentil do nú­
mero da publicação inglêsa The Architectural Review de março de 1 944
(The Avenue, 45, Cham, S urrey) ; vários capitulos foram consagrados aos
aspectos da a rte n o panorama brasileiro : B razilian Landscapes ; The
Backgrou nd, por j . de Sousa Leão ( 1 1 colu nas) ; The B razilian Style, por
Sacheverell ; Modern B u i l d i ngs ; Offices ; Coastal Boat Station ; Seaplane
Station ; Exhibition ; Snade-Bite Laboratory ; Min i stry ; The A rchitects and
the modem scen e ; e finalmente o s t rechos sôbre o tema Schools. Gravuras
fi nas, delicadas, expressivas acompanham o texto primorosamente impresso.
No primei ro artigo, o Sr. j. B. de Sousa Leão evoca o passado b rasi­
leiro e p i nta o cenário do país. Estamos diante do trabalho de um mes­
t re que sabe escrever com elegância uina p releção sôbre geografia e his­
tória do B rasil.
O segundo estu do dêste n í1 m e ro da revista i nglêsa foi elaborado por
5 a c h e v e r e 1 1 S i t w e 1 1, que é considerado o m a i o r dos estudiosos
do estilo barroco no mundo i nglês. Que pensa o erudito britânico a respei­
to do nosso Aleijadinho? No artigo i n te ressan tíssimo de S i twell The Bra­
zilian Style, onde tudo é feliz, os aspectos da arte a través de nossa histó­
ria são analisados com ·a gudeza e magistralmente expostos em quatro pá­
ginas de três colunas, entremeadas de grav u ras nítidas ( p u dera não ! Se
estas gravuras são feitas na I n gl aterra . . . ) Deparam-se ·na página 66 as
g ravuras das igrejas de S . F rancisco de Assis de O u ro Preto de Bom je­
sus de Matozin hos, e de S. F rancisco de Assis de São joão dei Rei, tem­
plos onde o Aleijadinho deixou a m a rca de seu talento excepcional. Uma
gravura colorida rep resentando a cidade de O u ro P reto e outra reprodu­
zindo um chafariz adornam a página seguinte.
No trecho final do estudo foram colocadas gravuras de Debret e a re­
produção do p rofeta jerem ias, escultura do Aleijadinho, no adro da igre­
ja de Congonhas. Lêem-se ao lado da estampa os dize res : On e o/ lhe ter­
race statues by the Cripple at the Churclz o/ Bom jesus de Matozinhos, o/
great strength and b eauty.
Do Aleijadinho escreve Sitwell : " . . . the attraction o/ Ouro Preto
are the sculptures o/ Antonio Fran cisco Lisboa, kno wn as O A leijadinho,
"the little cripple", lhe son of a Portuguese fa"ther and a mulatto mother.
His late date ( 1 730- 1 8 1 4) compares with that o/ Master Valen tim in Rio,
and shows how recent was this last stirring o/ the Baroque spirit. O Alei-
Revista Eclesiástica Brasi leira, vol. 5, fase. 1, março 1 945 ( 1 .5

jadinho was a leper, and lhe frightfui ravages of the disease which may
have been leprosy in combination with other maladies as w ell, so mu tilated
him that ln his last years he had to be carried to his w ork under a wide
sombrero and a flowing cape, so that none could see his features. He had
lost his hands and fingers, and the chisel and mallet had to be strapped on
to his stumps. "

Abramos um parêntese : Sitwell acredita e escreve que na e n fermida­


de o Aleijadinho perdeu os dedos e as mãos. Peço vênia para lembrar que
aqui no B rasil são n umerosos os que não acreditam, nem podem acreditar
que Antônio Francisco Lisboa tivesse perdido mãos e dedos com a doença.
O estudo cu idadoso das obras que levou a cabo, o exame dos primores
que esculpi u levam muitos a esta convicção. Eu não creio que A11tôn io Lis­
boa tenha perdido mãos e dedos ; penso que a lep ra n ão os mutilou e
estavam êles inteiros na morte do escultor. De quanto pesquisei e estudei
fica-me a convicção de que êle teve insensibilizada a parte inferior das
pernas, perdeu os dedos dos pés e andou de joelhos por muitos anos ; nas
mãos os dedos, nos tempos derradeiros, ficaram amo rtecidos. E' bem pos­
sível que algumas ou várias vêzes tivessem amarrado aos punhos do en­
fêrmo algum instrumento de trabalho ; um dos efeitos da lepra de Hansen
e Looft é a i nsensibilidade nas extremidades.

Continuemos : He worked ali day, and 1vas carried home after nightfall .

His sculptures ln wood and stone are to be found in other to w11s of lhe
slates of Minas Gerais ln Congonhas, Mariana, S. joão dei Rei, but chiefly,
in Ouro Preto.
Outra observação ; há engano em Sitwell ; não nos consta que Antôn io
Lisboa tenha trabal hado em Mariana ; o pai do artista é que ali estêve tra­
balhando. (0 Aleijadinho trabalhou em Sabará, como todos sabem. ),
Prossegue o pesquisador britânico : lhe soft soap-storze of lhe district
whiclz /zardens considerably after it /zas been quarried was lzis favourite
material . . . tlze sculptures of tlze O A leijadinlzo are ln flze grever - greener
soap-stone. São obra do Aleijadinho as fachadas das duas igrej as francis­
canas a de Ouro Preto e a de S. João dei R.ei , conti nua Sitwel l. Depara­
se nas duas desenho um tanto semel hante ; em cada lado uma tôrre re­
donda ; o frontispício é de estuque entr e p ilastras de pedra, porém a por­
tada e as decorações esculpidas são das mãos do Aleijadinho. Em S. Fran­
cisco lhe doorway is of wonderfull elegan ce, like an elabora/e mirror frame.
Sôbre a porta existe grande medalhão esculturado.
N a outra igrej a (a de S. F rancisco em S. João dei Rei) o f rontispício
(doonvay) é mais elegante ; a mão do escultor trabalhou no remate acima
da cornij a.
N o interior d e S. F rancisco (de Ouro P reto ) o Lavabo ( tlze font) é
da lavra do Aleijadinho e p rovàvelmente o mais form oso e o mais elegante
de seus trabalhos ( lh e most beautiful and elegant of ali his works.) O es­
tudioso inglês descreve em poucas linhas o Lavabo.
Sitwell atribui ao Aleijadinho o Lavabo da igrej a do Carmo. Peço
vênia para l embrar ao distinto publicista inglês que não é tese pacifica a
atribuição do Lavabo do Carmo ao Aleijadinho ; os que estudam mais de
perto esta escultura opinam que n a execução do Lavabo do Carmo há in­
dícios do trabal ho de mais de uma pessoa.
Sitwell condensa em 14 linhas (pág. 67) as referências ao terraço de
Congonhas. A frontaria daquele santuário foi mesmo executada pelo Alei­
j adinho? Quanto às capelas dos Passos de Congonhas entende o publ icista
que foram modeladas pelas de B raga e Lamêgo.
8*
1 16 Comu nicações

Rende, logo após, homenagem cálida a Manuel da Costa Ataíde, pintor


que mais de uma vez trabalho u ao -l ado do Aleijadinho. Dêste Ataide afir­
ma Sitwell : who does not compare unfavourable witlz the bavarian and
Austrian Baroque paitzters. Nas pinturas do mestre colonial mineiro "as
volutas e colunas são mais inte ressantes do que as figuras" : (Ataide is
a master o/ painted ornament, but not quite a painter. )
Tenho grande pena de não continuar com o leitor a excursão através
das páginas felizes do reputado publicista britân ico nestes vergéis da arte.
Mas nosso amigo Sr. M a r q u e s d o s S a n t o s está escrevendo uma
Monografia sôbre a História da Arte no Brasil para a Un iversidade de
Stanford, e êle daqui a pouco abrirá a nossos ol hos paisagens l indas dian­
te dêste panorama.
Passemos à América do Norte. Os estudiosos de arte no B rasil en­
contram de quando em quando o nome de R o b e r t S m i t h. E' um
grande amigo de nossa terra e creio chegará o dia em que o govêrno
brasileiro colocará o nome do sábio Americano na lista dos beneméritos.
Será êle o maior con hecedor da história da arte colonial brasileira ·n a Amé­
rica do Norte? Parece que sim.
Publ icaram•se recentemente em Nova York dois volumes sob o título
Th e new world guides to the /atin americatz republics sponsered by tlze
of/ice o/ the U. S. Coordinator o/ ltzter-Anzerican Affalrs ( Duell, Sloan
And Pearce, New York, 1 39 págs. no segundo volume.) Neste tomo de­
param-se as variadas informações que um manual desta categoria pode
oferecer ao viaj ante ou ao leitor curioso ; esta parte da obra destina-se
a Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolfvia, Chile, Argentina, Paraguai,
U ruguai, e Brasil. Que acervo de vulto nas indicações dêste roteiro ! Quan­
tas pessoas nêle trabalharam ! Quanto esfôrço, quanta fadiga se dispen­
deu nesta tarefa ! O pesquisador Robert Smith escreveu para cada um dês­
tes países sul-americanos um capítulo resumindo-lhe a história da arte.
Pergunto a mim mesmo como deve ser opu lento e bem organizado o fichá­
.r io dêste trabalhador valente hoje venerado como um dos mais autori­
zados e acatados histori adores da arte sul-americana.
Dr. Robert Smith, receba dos estudiosos da arte no Brasil cál idas fe­
licitações. Posso fazê-lo sem credenciais por isto mesmo que sou entre êles
o mais i nsignificante e obscuro. Há quantos anos Robert Smith vai acumu­
l ando leituras, estudos, pesquisas, anotações para que nos possa oferecer
êstes p resentes principescos em estudos de tamanho descortino e tão vas­
ta erudição.
Na i ntrodução do Guia deixou Robert Smith uma monografia Latin
American Art, em que leio êstes dizeres : Antônio Francisco Lisboa called
Aleijadinho overshado wed ali his con temporaries . . . Typical o/ his work
is the church o/ San Francisco at Ouro Preto, whose elaborate doorway
he carved wiclz delicate grace that he reveals himself there, as ln a series
o/ other brilliant works, to be on e o/ tlze greatest Latin A nzerican Artists.
( V. cap. Latin Am erican Art, pag. 21 de The New Wo rld Guides. )
Não estranhemos que Dr. Robert Smith escreva êste panegírico de­
pois de ter estudado, como abal izado mestre e conhecedor perfeito, a arte
colonial sul-americana. Possui o publ icista todos os elementos, todos os
dados para medir uma figura da envergadura de Antônio Lisboa. E quan­
do proclama solenemente que o Aleijadinho é uma das mais altas figuras
da arte americana, êle o faz pesando e sentindo a responsab il idade de seu
nome, de sua ciência e de seu prestígio. Quanto j úbilo nos traz .o testemu­
nho dêste sábio tão amigo de nossa terra !
Revista Eclesiástica Brasi leira, vol. 5, fase. 1, março 1 945 t 17

O resumo da h istória da arte na vida brasileira, ensaio de Robert


Smith, constitui sfntese fel i z ; começa n a igreja de Iguarassu, Pern ambuco,
1 535, a qual still preserves lhe basic tines para term i n ar nos quadros de
P ortinari e nas esculturas de B receret ( 1 2 pági nas.) Demos a palavra ao
exposito r :
During lhe 18 cen tury Minas Gerais produced two scutptors who have
become lh e best known of ali colonial craftsme11 . Both w ere mulatoes. Tlze
first, Mestre Valentim da Fonseca (died 1813) , a/ter l1rief training in Eu r­
ope, lzad a brilliant career in Rio de janeiro. Tlze otlzer seu/pior of Minas
was that famous Antonio Francisco Lisboa ( 1 730- 1 8 1 4) son of the arclzitect
Man oel Francisco L isb oa and tlze Negress Isab el, lvho because maimed
hands and f eet w as called Aleijadinho. Tlze fact that he worked in spite
of fhis handicap, together wit/1, spectacular c/zaracter of the lVork attribut­
ed to him, have made A leijadi11/w's name syn<mymous w itlz colonial arl
in Minas G erais.
Com louvabilissimo escn'1 pulo assinala o autor as datas em que foram
executadas as escu ltu ras de Antôn io Francisco L isboa em Sabará, na igrej a
franciscana de Ouro Preto, e em Congonhas. Verificamos logo que Robe rt
Smith acompanha atentamente as publ icações do SPHAN, e outros estudos,
artigos, l ivros e ensaios que focal izam o glorioso artista colon ial.
Citemos aqui a observação feliz do exposito r : with a minimum of
training h e performed great feats of teclznique in wood-carving and in tlze
colored soap-ston e of tfle regio11 . Pintando a fisionomia da escultura orna­
mental do Aleijadinho, adverte o publ icista que, n o estilo do mestre colo­
nial, caprious archifectural f orms are embellished witlz every decoralive
conceit, blown up, deflafed, bored in to, stuffed ouf wifh miniature garlands,
rosettes, sflells, and e very other rococo attribute.
O Dr. Robert Smith atribui ao Aleijadinho o frontispício da igrej a do
Carmo de São joão dei Rei observando que as portadas das três igrej as :
São Francisco de Ouro Preto, São Francisco de São joão dei Rei, e Carmo
desta mesma c idade - are so closely related, in subject, design, and
workmanship que hão de ser atribuídas a um só autor. Estou esperando,
desde 1 942, um estudo do D r. L ú e i o C o s t a, estudioso a quem dirigi
um apêlo n o meu modesto ensaio a respeito de Antônio Lisboa ; desej o
muito que êle n o s apresen te as concl usões a que chegou na observação
atenta das portadas das igrej as mineiras. Suponho que J o s é M a r i a ·n o
F i 1 h o também atribui ao Aleij adinho a portada do Carmo de São joão
dei Re i . N o que concerne a algumas esculturas reconhece Robert Smith
que não possuímos documentos que p rovem a autoria de Antônio F. Lisboa
(although not ali of them can b e connected wiffl him tlzrouglz documents. )
Alegro-me verificando que o escritor norte-americano extern a o mes­
mo modo de sen t i r que apresentei aos leitores do jomal do Comércio há
alguns meses : Congonhas l embra o santu ário de B raga . . . (fh e Portu­
guese model was repeated. )
O autorizado h isto riador de a rte silencia sôbre a estátua de Daniel.
Suponho que o respeitado publicista não teve ensej o de demorar a aten­
ção em alguma boa gravura da estátua dêste p rofeta que o Aleijadinho
deixou n o adro do santuário de Congon has. Esta escultura força a admi­
ração de todos quantos têm estudado a arte colonial brasi lei ra, de quantos
1 18 Comun icações

puderam passar em Congonhas, ou demorar os olhos em alguma repro­


dução nítida da mesma obra.
A impressão de josé Mariano Filho, e também a de Rodrigo M. F. de
Andrade é que esta escultura é uma das jóias de mais alto valor no con­
j unto dos trabalhos do Aleijadinho, e saiu tôda inteira das mãos do glo­
rioso a rtista mineiro.
Creio que o Serviço do Patrimônio H istórico e Artístico N acional
(SPHAN) tomou a gravura desta estátua para o "Ex Libris" de sua b iblio­
teca do Ministério da Educação do Rio de janeiro. Isto vale como uma das
consagrações expressivas que a obra escultural do Aleij adinho tem alcan­
çado dos poderes oficiais no Brasil.
Já não me resta espaço para trazer ao leitor informação de duas mo­
nografias em língua espanhola descrevendo a obra do artista b rasileiro.
Eu possuo o exemplar de uma, e a bibl ioteca do SPHAN possui outro.
Encontra-se em nossas livrarias album opulento capri chosamente ela­
borado, com gravuras magníficas, a respeito da história da arquitetura b ra­
sileira ; intitula-se : Brazil Builds. E' publ icação bil ingue, inglês e portu­
guês ; o título em português é "Construção B rasileira", arquitetura moderna
e antiga, 1 652- 1 942, por Philip Goodwin, e G. E. Kidder Smith ("The Mu­
seum of Modern Art", New York, 1 943. ) Colabora ram nesta obra Linco l n
Kirstein, Robert Smith, Leon Kochnitsky, Mon roe Wheler, Alice Carson,
Bernard Rudofsky, Geo rge Bailey, E. Macknight Kauffer e Elizabeth
B. Mock. Entre os nomes de fotógrafos que auxi l i a ram, encontro os de
dois conhecidos meus, Marcel Gautherot e Eric Hesse ; foi êste último quem
forneceu as fotografias para meu l ivro O Aleijadinho, gigante da arte no
Brasil (que se esgotou em 15 meses e para o qual procuro um editor.)
Eric Hesse, que trabalha para o SPHAN, é profissional de grandíssimo
merecimento.
No l ivro Brazil Builds, sob o título Edifícios antigos deparam-se gra­
vuras de 1 0 ediflcios do Rio, 2 do Rio Grande do Sul, 1 0 de Mi·nas, 6 do Es­
pírito Santo, 8 da Baía, 1 da Paraíba, 1 0 de Pernambuco e 3 do Pará. São
consignadas 39 gravuras de ediflcios modernos. No p refácio vêm lem­
brados, como auxi liares e colaboradores, 1 8 arquitetos brasileiros ou re­
sidentes no Brasil e vários nomes de relêvo cultural. Também os nomes de
Nelson Rockfel ler, Wallace Harrison, e Berent Friele, da Coordenação dos
Negócios Inte r-americanos, estão citados com aprêço.
N a luxuosa coletânea, são apresentadas rep roduções n ftidas de velhos
templos coloniais com explicativas val iosíssimas.
Na galeria da H istória B rasileira qual é esta figura magnífica que en­
contra admirado res e desperta aplausos calorosos nos pafses de lfngua
inglêsa, e através do continente americano? H á muito b rasileiro de cultura
para o qual o Aleijadinho é um desconhecido.
Pe. H e 1 i o d o r o P i r e s ( Rio de jane iro)
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1, março 1 945 1 19

ASSU NTOS PASTORA IS


D a Residência Paroquial.
Entre os deveres do pároco enumerados no cânon 465 do Código do
D i reito Canônico avulta o d a residência, de que vamos ocupar-nos no pre­
sente artigo.
Com o nome de residência entendem os canonistas a moradia, por
modo h abitu al, n a casa a êsse fim destinada dentro dos limites da pa­
róq uia.
Não é n ova na I grej a esta disposição canônica. Pode até dizer-se
que, qu ando pelos séculos V e VI os B ispos i nstituíram as paróquias ru­
rais, para que os fiéis tivessem uma assistência espiritual mais perfeita,
e que não podia ser assaz garantida pela resi dência dos sacerdotes na
cidade episcopal, como até então se fazia, para logo foram deputados ou­
tros tantos p resbíteros a fim de v iverem no meio das almas que toma­
vam à sua cura. 1
Constituído o Corpo do D i reito Canônico, encontra-se bem fi rmada
a doutrina da residência paroquial obrigatória em vários capltu los, tais
como o V I I I e X das Decretais de G regó rio IX, l ivro 3 .º, títu l o 4.º, em
que o Papa Celestino I I I e I nocêncio I I I i nculcam expressamente a obri­
g ação e a sancionam com a pen a da p rivação do ofício.
Não é menos expresso o Concilio Tridentino, na sessão XXI l l , de­
creto de ref. cap. 1. Depois de falar da obrigação dos Bispos, diz dêste
modo o Concíli o : "Eadem omnino Sacrosancta Synodus declarai et decemit
de curatis inferioribus et aliis quibuscumque qui obtin en t l1eneficium ali­
quod ec,clesiasticum hab entes curam anima rum . . . ".

Desde que o pároco t o m a posse do s e u ofício paroquial, começa en­


tão a obrigação de residir. 2 Embora tenha sido nomeado há mais tempo
e a paróquia estej a privada de sacerdote próprio, como no d i reito antigo
também se lhe chamava, só então, desde o momento da posse, começa
a correr a obrigação, pois só após aquêle ato obtém os d i reitos a que,
cor relativamente, êste dever está anexo.

1 ) A maioria dos autores considera a obrigação da residência como lnt rodu -


7.ida por d i reito d ivino. Efetivamente, sendo uma d a s funções principais do pas­
tor apascentar as suas ovelhas, ressalta Imedi atamente a n ecessidad e d e a s co­
nhecer e, conseqüentemente, o d ever Imperioso d e viver habitualmente entre
ela�. Alegam os autores que d efendem a opinião da obrigação da lei da. resi­
dência d e d i re i to eclesiástico que a Santa Sé, por vêzes, tem d i spensado dela, o
que não poderia fazer se tal obri gação fôsse d ivina. Parece poder responder-se
que o ato da Santa Sé, nestes casos, não é uma d i spensa propriamente d ita, senão
uma d eclaração da cessação do d i reito d i vino, como acontece nas outras obrlga­
<:ões que se apoiam na vontad e humana, .por exemplo, os votos, o juramento e
o matrimônio rato não consumado. (Cfr. F e r r a r 1 s, Blbl lotheca, v. Resldentla,
Residere.) Poderia acrescentar-se que a Santa Sé só d i spensa quando cessa o
d i reito divino, Isto é, quando outro sacerdote Idôneo pode prestar às almas os so­
corros esplrltuala que o pároco ausente lhes não presta e, então. devol ve-se a
essoutro sacerd ote a obrigação paroquial de residir, conservando, no entanto, as
honrns de pároco àquele sacerdote que recebeu a paróqu i a cm titulo, nl!.o ob.�­
tante não ·resid ir. Defende-se, pois, sem forçar a i nterpretação do d i reito, a obri ­
gação d ivina da residência paroquial. O Conc111o Trldentino, no entanto, abstcY�­
se d e definir êste d ireito divino, enquanto não fêz dêle cânon d e fé.
::!) Por ato d e posse entende-se aquêle momento tisico em ciuc o sacerd ote
se apresent a aos fiéis como o seu respectivo pároco. Em mui tos casos, a posse
mais simples consiste na l e i tura d a sua carta de encomend ação. Importante t:ste
ato, sem d(Jvlda, pois com êle principia o uso vál ido e l icito d a jurisd ição no
Sacramento d a Penitência, d a faculdade d e ass i stir aos matrlmônios e de d is­
pensar nos cae05 previ!!tos p elos cânones 1044, 104õ e 1245.
120 Assuntos pastorais

Exceções.
As obrigações do pároco são pessoais. Quer isto dizer que não se
dispensa da obrigação de assisti r aos fiéis pelo fato de lhe have r sido
dado vigário coadj utor ou cooperador. s
Primeira exceção : Licença do Ordinário. O Ordinário do lugar
-

pode permitir que o pároco habite fora da residência paroquia l, se ho uver


causa j usta e com essa concessão não haj a detrimento para as almas.
Cânon 465, § 1 .
Entendem alguns autores que só pode ser permitida a habitação fora
da casa destinada à residência do pároco, mas dentro dos limites da pa­
róqu ia. Outros, com mais probabilidade, porque o cânon citado, ao empre­
gar o advérbio alibi não faz qualquer distinção, são de opinião que pode
permitir-se a habitação mesmo fora da paróquia, contanto que sej a tão
perto que possa observa r-se a cláusula restritiva da necessária assistência
aos fiéis que lhe estão confiados. ( Cfr. C a p p e 1 1 o, o. c. 1 1 . 9 525, 2.)
Todavia para que esta permissão se obtenha perpetuamente, isto é, a
respeito de todo e qualquer sacerdote a quem venha a ser confiado o encargo
pastoral daquela paróquia, será necessário recorrer à Santa Sé. ( Cfr.
C a p p e 1 1 o, o. c. 1. c. ) Nem admira, porquanto tal concessão equivale­
ria à dispensa da lei geral e o Ordinário, em circunstâncias normais, não
pode dispensar dela. ( Cânon 8 1 . )
U m caso f reqüente e m que h á lugar para a licença é o d e não haver
casa de residência na paróquia e o pároco, dali natural, passa a vive r em
casa da sua família. Outro caso é o de não haver casa de residência e
o pároco, oriundo de uma paróquia limítrofe, ali vive com os seus. Mais
freqüente ainda é o caso de o pároco reger duas ou mais paróquias igual­
mente unidas e então, como é evidente, só pode residir numa delas. 4
Segunda exceção : Exercícios espirituais. De harmonia com o dis­
-

posto no cânon 1 26, todos os sacerdotes seculares e, portanto, os páro­


cos também, devem, ao menos de três em três anos, fazer os exercícios
espi rituais. Basta o espaço de três anos para o cumprimento da lei, mas
vê-se bem qual o espírito da- Santa Igrej a no uso do advérbio saltem e
na disposição do cânon 595, § 1 a respeito dos religiosos.
Há pá rocos que, por devoção muito louvável, querem assisti r a êles
em cada ano. Durante os cinco ou seis dias de ausência para os fazerem,
não observam a lei da residência e, todavia, não precisam de qualquer
licença, nem êsses cinco ou seis dias são subtraídos aos dois meses de
férias de que vamos ocupar-nos imediatamente, sa lva sempre a obrigação
de deixarem quem os su bstitu a. ( Cfr. cânon 465, § 3.) 5

. 3) Multas das funções pa roquiais podem se1· d esempenhadas por aquêles vi gá­
.
rios e é porque o pároco não basta sozi nho, ou mesmo porque não pode, que o
vigário lhe é d ado. No entretanto os autores são unO.ni mes em afirmai· que o
pároco não pode recusar-se a m i n i strar pessoalmente aos fiéis quando êles re­
q u i s i tarem n omeadamente os seus serviços. Cfr. e a p p e 1 1 o, Summa Juris Cano­
n l c l , vol. I , n.0 68 ; V e r m e e r s c h, Theologla Mora! is, tomo I l i , n,o 181, ed . 3.•
4 ) :tl:ste caso suced e normalmente nesta Diocese d e Lamego e, certamente, na
maioria das d ioceses d e Portugal. No d i reito antigo quem t i vesse duas paróquins
u n i d a s pod eria resid i r na m a i s d i gna e, se não soubesse qual das d uas o er:o.,
d everia res i d i r na m a i s populosa. Cfr. F e r r a 1· 1 s, o. c. v. Parochus, art. 2.0•
n n . 7-9. No d i re i t o mod e1·no, e m tais c i rcuns tâncias, o 01·d inárlo d i rá em qual
das d uas o p á r o c o deverá fixar a sua residência.
õ) Após a celebração d o Co nclllo Plenário Português é i m p osta aos s acerdo­
t es recém-01·denados a ass i stência aos e xerc!clos espirituais d urante o s três .p1·i­
melros anos do seu sacerdócio. cfr. cân. 3. Muitos dlHes são nomeados .párocos
l ogo d epoi s da orden ação e, por i sso, estão nas condições expostas a respeito
d esta 2.• exceção.
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 121

Terceira exceção : A s férias paroquiais. Cada pároco tem, todos os


anos, o direito a dois meses de férias que pode passar onde quise r e '
portanto, fora da paróquia. G
O Legislador reconheceu-l he expressamente êsse direito mas subordi­
nou-o a determinadas condições.
Condições.
Prim eira condição : Causa legítima. - Tôdas as causas alegadas re­
duzem-se fàcilmente a qualquer das cinco segui ntes : visita aos parentes,
uma peregri nação piedosa, exercício do sagrado m i n i stério noutras terras,
repouso, cui dado da sat'1de. ( Cfr. V e r m e e r s c h - C r e u s e n, o. e I.
cit.) Como se trata de favor concedido pelo Legislador, admite interpre­
tação ampla e, por isso, qualquer causa honesta pode ser ao mesmo tempo
j usta e legítima. Deve acrescentar-se que o j u i z da causa é o Ordinário
e não o próprio pároco. Está em poder do Superior ampliar, se achar que
os dois meses não bastam, o tempo concedido por d i reito, bem como res­
tri ngir, se o achar conveniente, como aconteceria, por exemplo, em tem­
po de epidemia.
O pároco pode utilizar as férias como preferi r : contínua ou inter­
ruptamente. Se quiser uti lizar aquêles dois meses contínuos, nenhuma di­
ficuldade existe quanto à maneira de os contar. Aplica-se então o prin­
cipio do cànon 34, § 1. Escolhendo os meses de agôsto e setembro, deverá
regressar n o dia 1 de outubro, visto os meses se contarem então como
constam do calendário. Querendo gozá-las i nterruptamente, contará a se­
mana de sete dias e terá por u m mês cada espaço de trinta d i as de 24
horas, contadas de momento a momento. ( Cfr. cânon 34, § 2.) 7
Segunda condição : Licença do Ordinário. - Sempre é necessária esta
licença e, como tem de ser escrita, não vale presum i-la, nos casos nor­
mais, quando oportunamente se pensou em utilizar tal ou tal tempo se,
é claro, a ausência fôr superior a uma semana. Não se poderá, pois, ar­
gumentar dêste ou de idêntico modo : o Sr. B ispo j á nos outros anos me
concedeu a l icença em igual caso, visto poder haver c i rcu nstâncias igno­
radas do pároco em virtude das quais êle tivesse de lha negar. Além dis­
so, como entre nós ainda se não chegou à organ ização de u m b ilhete
de identidade para efeitos eclesiásticos, esta licença pode m u ito bem ser­
vir de celebrei nos casos em que o direito manda apresentá-lo, como
acontece n o cânon 804, §§ 1 e 2.
Terceira condição : Deixar quem o su bstitua. - Obrigação é esta tão
grave que, ainda que sej a por breve ausência, tem de ser considerada
e atendida. São múltiplos os deveres do pároco e as necessidades dos
fiéis ; mesmo quando aquêle precisa das suas férias, e j u sto é que as te­
nha, a alma das suas ovelhas não admite férias, mormente quando há
6) Recorde-se que, s e as f é r i a s d e v erem passar-se em e st à n c f a s termais. à
b e i ra - m a r ou em quai sq u er estânci a s de repouso, a l i cença que se requer tem de
ob e:lecer às n o rma s d a c l r cu ! :.: r ela S. e. d o C o n c i l i o de 1 de julho de 1926 e q u e
p o d e l e r - s e no Apênd i c e às A t a s d o Concilio P l enário P o rt u gu ê s .
7) Embora a l e i d a resi d ê n c i a obrigue sub grav l , a t en t a a s u a f i n a l i d a d e e a
rnnção que a acompanha, i:.d m i t e . contudo, pa r vi d a d e de m a t é r i a , por form a que
ni.o se conta como transgressão o espaço de poucas h o r a s por dia passadaii fora
da paróquia, principalmente quand o se não fnz r e p e t i d a m e n te. Cfr. V e r -
m e e r s c h - C r e u s e n, Epitomc J u rls Can o n l ci , tomo I, n . o 552, 1 . 0 , 5.• e d i ção ;
C a p p e 1 1 o, o. e 1. c i t . n . o 527, 9. Outro tanto se não poderá d izer daquele que
freqüentemente sai a pregar, mesmo q u e seja p1.1.ra o t1 t r a s paró q u i a s y i z i nhus e ,
a f or t i ori , p a r a par ó q u ia.'! d i stantes. A q ué l e s d i a s d evem ser tomad os e m conta
qu:mdo se trata d e ver se a l gum pároco terá j á preench i d o o s s e us dois meses
d e férias <.> s e sempre o fêz com l icença devida, q u a nd o a a us ê n c i a fôr superior
a u m a semana, como a d i an t e se d i rá .
1 22 Assuntos pastorais

doentes na paróquia, e pode h avê-los de u m momento para o outrn. O


pastor, pois, ao pensar na sua ausência, pensará, por igual forma, em
pedir a licença de sair da paróqui a e em propor ao Superior o nome
do seu substituto para êle o aprovar. N ão é ao Prelado que pertence o
dever de tomar estas providências, mas sim ao pároco. E' bem clara
a disposição do cânon 465, § 4: "paroclms debet . . . substitutum sui . . .
relinquere. s
Acontece, no entanto, por vêzes, o pároco ter de se ausentar inespe­
radamente e sem ter pensado nisso. Um telegrama que lhe anuncia a mor­
te de um parente, uma doença repentina, uma operação de urgência. Se
assim fôr, o Código previu esta necessidade e deu-lhe pronto remédio. Saia
então o pároco e deixe o seu substituto. Antes de sair, ou j á do lugar
onde se encontra, escreva ao Superior indicando-lhe a causa da i nespe­
rada ausência e o nome do vigário que fica no seu lugar. Isto no caso de
prever uma ausência que vá além de uma semana. O Ordinário do lugar
aprovará o sacerdote suplente e comunicará ao pároco ausente < J U , o que
é preferível para evitar dúvidas e delongas, ao substituto, as faculdades
que êle poderá exercer. Mesmo que o não comunique, o substituto terá
então por di reito j u risdição para confessar e faculdade para assistir aos
matrimônios, como resolveu a Com. do Código na s u a resposta ele 20 de
maio de t.923 ad IV. Dada a necessidade i mprevista de uma ausencia que
se afigura como devendo durar menos de uma semana, o pároco a nada
mais é obrigado do que a prover à assistência religiosa dos seus paro­
qui anos. ( Cfr. cân. 4 65 , § 6 . )
Tõda e qualquer ausência que não estej a dentro d a s normas estabele­
cidas no cân. 465 é tida como ilegítima e, como tal, sujeita às penas se­
guintes para o fõro externo, independentemente do pecado para o fõro
i nterno. O pecado pode ser grave ou leve conforme a quantidade da a u ­
sência ilegítima, como j á foi dito n a nota 7 .• dês te a rtigo.

Penas contra os transgressores.


De duas penas fala o Código no cânon 238 1 : a privação dos frutos na
proporção da ausência ilegítima e a privação do próprio oficio. A 1 . • é
lata sente11tice e, segu ndo a própria noção daquela expressão e a opinião
de qu ase todos os autores, não precisa de qualquer declaração para obri­
gar. A 2.• pena é cumulativa com a t .• , mas se o pároco infrator rei nte­
grar a residência, esta pena não terá aplicação. Tê-la-á, no entanto, se
rein ê idir, pois o Ordinário l_he comunicará no momento do regresso à re­
sidência a privação ipso facto incurrenda, no caso de reincidência.
Da 2.ª pena nada é preciso dizer, porquanto na sua aplicação intervém
o Ordi nário, ou sozinho, ou êle e dois examinadores sinodais o u pró-si no-
8) Não é o c i oso frisar aqui que é ao pároco e não ao Prelado que Incumbe
êste dever, porquanto j á encontrei al guém que assim pensasse e q u e , não obs­
tante aquela cla reza, ainda. ficou agarrado à su a opi nião descab ida. Pode o pá.-
1·oco s e rv ir-se do m i n i stério de outro colega. no mdnus pastoral e , nesse caso,
na d a mais é preci s o d o que que a aprovação, vi sto ter já. aquêle pároco jurisd i ­
ção pa1·a o u v i r confissões e m tõda a d i ocese, Introduz i d a p o r costume I memori a l ,
tornado agora d i reito escrito pelo C o n c U l o P l e n á r i o Português. P o d e também u t l ­
l lzar-l!e d o m i n istério d e mn simples sacerdote que não tenha j urlscllção o rd l nári:i.
nem delegad a . e e n t ão a ap ro v a çã o d o Ord i nário contém n concessão d e j u ris­
d i ção para ouv i r connssões, po i s é s ab i d o que o -pároco lhe não pode conferir tal
jurisd ição. (Cfr. resposta d a Com. d o Cód igo d e 16 d e outubro d e 1919. ) Quanto
à Bl!Sistêncle a matri mônios determinados, o vlgãr l o substituto de que s e trata no
cânone 465, § 1, tem u necessária faculdade, s e o O rd in ário, após a ap1·ovo.ç!í.o.
lhe não pôs qualquer restrição. ( Cfr. resp. ela Com. d o Códi go, d e :?O ele mal-0
de 1923, nc\ I I . )
Revista Eclesiástica Brasileira, vol . 5, fase. 1 , m a rço 1 945 1 23

dais. (Cfr. cânones 2 1 68-2 1 75 . ) Resta, porém, dizer algu mas palavras
da t .•
Restituição dos frntos do benefício . - Que os · frutos do benefício
são recebidos em razão do ofício é regra j u rídica de há m uito consagrada.
Ora, não tendo o pároco satisfeito a uma das condições em que recebeu
o ofício, e uma das principais, segue-se logicamente a privação dêsses
fru tos. E é tão geral e tão rigorosa a s u a restituição que, no caso mesmo
de não ser n otória a violação d a lei d a residência, o pároco não pode
fica r com êles.
A dificul dade maior está em i nterpreta r a expressão pro rata illegi­
timre absentire. Contados todos os réditos proven ientes do dote de bene­
fício, a que se chama a côn gru a p a roqu i a l , sej a ela constituída por uma
ou outra espécie de bens descritos nos cânones 1 4 1 0 e 1 4 1 5, o pároco
deve repor os p roventos proporcionais à ilegítima ausência. Distribuídos,
pois, os rendimentos a n u a i s por cada dia e multiplicado o quociente pelo
número de dias de ausência, fàcilmente se obterá a q u antidade dos frutos
a restituir. "

Geral mente é ao Ordinário que os frutos restituídos se devem en­


tregar e êste, por sua vez, os apl icará a uma igrej a , a u m lugar pio
ou aos pobres. São de parecer alguns autores que se devem dar à igrej a
do pároco i legitimamente ausente ou a qualquer obra de piedade ali exis­
tente. E' certo que poderá o Ordinário preferi-las, mas a expressão alicui
ecclesire do cânon 238 1 , § 1 , parece deixar o objeto d a p referência ao
critério do P relado. i o
Dificuldades.
P a r a que sej a suficientemente escla recida a doutrina j u rídica dêste
cânon discipli n a r da Igrej a, nada mais j u lgo necessário do que responder
a duas dificuldades.

Primeira dificuldade. - Os proventos do benefício são tão insignifi­


cantes que o pároco tem de obter fora dêle e, portanto, faltando à lei
da residência, o necessário para garantir a s u a honesta sustentação. -
Resposta. Pode o pároco ped i r ao O rd i ná rio q u e lhe permita essa acumu­
lação, mesmo habitual, que p rej udica a lei da residência ; pode pedir-lhe
que aceite a resignação d o ofício e, se êle a aceitar, está realmente livre
da obrigação. Enquanto, porém, não obtiver aquela l icença ou a aceitação
desta resignação, por forma alguma está dispensado de residir. Cfr. F e r -
r a r i s, Bibliotlz eca, v. Parochus, n .º 5.

9) E mbora ausente, o pároco recitou o o f i c i o d iv i n o p e l a s a l m M confiadas a


sua guarda e teve de dar a devida remuneração ao vigár i o substituto. Em ta.l
caso, poderá reter a parte d os frutos correspond entes a essas duas obrlgac;õe3
cumprid as. Mu i t o s autores são dessa opi nião, como V e r m e e r s e h - C r e u s e n.
ob. cit. tomo 2.0, n.0 585. Pensa êste autor que pod erá dêste modo o pároco fazer
aua a têrça parte dos frutos d o b eneficio. Demais, sendo, na maioria. dos casos.
pouco abundantes os frutos <l o b e neficio, a restituição a pouco se reduzirá. Quan­
d o houver <lúvlclas a êsse respeito, o confesso!' no fôro interno ou qualquer pes­
soa perita no externo, ajudarão o pároco a resolver a d ificuldad e e m cada caso
e, parece-me. d evend o emb ora a p l i ca r a l e i com r i gor, devem, ao mesmo tempo,
pôr d e parte escrúpulos exagerad os.
10) Dizendo no texto que é geral mente ao Superior que os bens devem s e i·
rest ituldos, não tenho i ntenção de exclu i r algum caso, antes o suponho, em que
o pároco possa fazer por g l mesmo essa aplicação. Seria o caso em que, por
d esconhec i d a do O rd i nário a ausência, o pároco t i vesse de se informar e apresen­
tar-se corno transgressor ao e ntregar os bens. ( Cfr. V e r m e e r s e h - C r e u s e n ,
o. c i t . , n .0 õ85. ) Pode a t é haver alguma c i rcunstância e m que, em r az ã o d a p o ­
bre:;;a d o pá1·oco, ês t e p o s s a desobrigar-se d e restituir, fazendo reverter a si pró­
prJo, como poh1·e, os frutos que d e v i a dar como culpado. Cfr. P a 1 m 1 e r I, citado
por V e r m e e r i< c h na sua Theologla Mora l l s , a respeito d o. omissão d o oficio
d i vino. Do pecad o, como é e v i d e nte, não poderá o faltoso escusar-se.
1 24 Assuntos pastornis

Segunda dificllldade. - A paróquia é tão pequena, o número dos ha­


bitantes tão reduzido, o movimento paroqui a l tão pouco que, ao menos
nestes casos, o pároco que rege uma destas paróquias pode fàcilmente
dispensar-se de residir nela. - Resposta. Nem mesmo assim. Sej a grande
ou pequeno o número de almas, não pode o pároco prever quando algum·
dêsses poucos tenha de morrer ou quando tenha de ser necessário o seu
sagrado min istério. Há, além disso, outras obrigações que êle tem de
cumprir, como por exemplo a administração dos sacramentos tôdas as.
vêzes que os fiéis lhos pedirem racionalmente, tem de cuidar da ins­
trução das crianças e dos adultos e outras ocupações espirituais a que,
estando ausente, não pode suficientemente satisfazer. Cfr. F e r r a r i s,
v . c. n.º 6, em que assim resolve a dificuldade apoiado em muitos e
célebres autores, mesmo quando a paróquia não tivesse mais de 3 ou
4 habitantes.
Conclllsão. - Sendo a salvação das almas a lei suprema que deve
regu lar tôda a atividade do pároco dentro da paróquia, fazendo-se tudo
para salvar a todos, na espernnça de ver as almas que salvou pelo seu
santo ministério a constituir a sua coroa imortal no dia das contas, o pároco
cumpridor desta disposição disciplinar terá encontrado maneira de dizer
como o Apóstolo : "combati o bom combate . . . resta-me esperar agora
a coroa da j ustiça das mãos do J usto Juiz." ( Lllm etz, Lisboa, j unho 1 944,
págs. �50-357 . ) J . M o r a i s e C o s t a.

O Cân on t 05 , n. 2.º e os Conselheiros.

Reza o n. 2.0 do cânon 1 05 : "Si requi ritur consensus vel consilium


non unius tantum vel alterius personre, sed plurium sinml, ere personre
legitime convocentur, salvo prrescripto can. 1 62, § 4, et mentem suam
man ifestent ; Superior autem pro sua prudentia ac negotiorum gravitate
potest eas adigere ad j usj u randum de secreto servando prrestandum. '"
Pelo presente estudo pretendemos chamar a atenção dos n ossos lei­
tores sôbre o cânon que acabamos de citar e que é, como os interessados
sabem perfeitamente, de importância positiva para os Capítulos Catedrais,
o Capítu lo diocesano dos admin istradores e sobretudo o regime e ' admi­
nistração das várias Religiões, com respeito às quais prescreve o cânon
5 1 6, § l : "Supremus religionis aut monasticre Congregat ionis Moderator>
Superior provincialis et localis saltem formatre domus habeant suos con­
siliarios, quorum consens11111 aut consili11m exquiran t ad tzormam co11stit11-
fio1111m et sacrorum canomwz .''
Muito j á tem sido escrito sôbre o referido cânon. Mas infelizmente
os Autores não são unân imes na sua interpretação, razão por que trazemos
o caso às páginas da REB, não tanto para decidir a questão, senão para
despertar o i ntcrêsse científico dos nossos leitores.
Daremos primei rn, em tradução portuguêsa, a opinião ou interpreta­
ção de quantos autores estão à nossa disposição.

A In terpretação de Vários Autores.


c o r o n a t a, interpretando o n. 2.0 do cân. 1 05, escreve (ltzst. J. e.
1, 1 939, pág. 1 89 ) : "Quando, pois, se requer o consentimento ou conselho
não apenas de uma ou outra pessoa, mas de várias simultâneamente, es­
sas devem ser ouvidas legitima e colegialmente, de sorte que o Superior
agiria itz vàlidamente, se as ouvir separadamente ou buscar em particular
Revista Eclesiást ica B rasileira, vol . 5, fase. 1 , março 1 945 1 25

-0 consentimento del as, a não ser que haj a prova em contrário." E para
esta cláusula final cita como exemplo o cân. 302, q u e assim reza : "Consti­
t u ant ( V icarii et P rrefecti Apostolici) Consi l i u m ex h;"ibus saltem antiquiori­
bus et prudentioribus mission ariis, quoru m sententiam, saltem per episto­
'/am, .audiant in gravioribus et difficilioribus negotiis."
C h e 1 o d i (De Personis, n . 92, 1 02) : "Quando várias pessoas devem
ser ouvidas, o seu conselho ou consentimento constitui u m ato colegial.
Ora, os atos colegiais devem ser feitos colegialmente (c. 1 05, n. 2.º ) . Por
con segu i nte, não se satisfaz à razão da lei e nem mesmo à sua letra,
qu ando o Superio r pede a opinião dos seus conselhei ros separadamente,
embora talvez desta maneira mais fàcilmente se obtenh a u m sufrágio u nâ­
nime. Pois, manifestamente e x i ge o d i reito (c. 1 05, n . 2.º) que tais negó­
cios sej am discutidos em comum deliberação, du rante a q u a l cada u m
possa, natu ralmente c o m a j usta reverência devida ao Superior, com f é
e sinceridade expor a s u a opinião . . . "

V e r m e e r s c h - C r e u s e n ( Ep ito m e j. C. 1 , 1 97, pág. 1 53 ) : "A lém


disso o que se deve notar bem, tôdas as vêzes que se requer o consenti­
mento ou conselho não apenas de uma ou outra pessoa, mas ele várias si­
multân eamente, deve ser instituída a comum deliberação ; e isto, como
opina O j e t t i , para o valor do ato. Não basta, portanto, i n terrogar os
consel heiros sepa radamente, a não ser que isto se conceda expressamente,
como o cân. 302 o permite aos V i gários e P refeitos A postólicos ; êles
devem manifestar o seu parecer e m comum deli beração, onde todos pos­
sam receber l uzes das sentenças e razões dos outros. Por isso todos devem
ser convocados. O defeito da convocação, entretanto, não obsta, se os
preteridos tenham estado presentes (e. 1 05, n . 2.º, 1 62, § 4 ) . Nesta co­
mum deliberação, em que todos devem manifestar o seu parecer com
aquela reverência, fé e sinceridade que convém ao ato, pa rece ter valor,
n o que diz respeito à votação, o que define o cân. 1 0 1 , § 1 . Portanto,
caso não sej a estabel ecido o contrário, assiste ao p residente o direito de
dirimir a paridade dos votos após o tercei ro esc rutínio. "
W e r n z - V i d a 1 (Jus Can. 1 1 , n . 33) : "Tôdas as vêzes que o di­
reito impõe ao Superior o dever de obter o consentimento ou conselho
não apenas de uma ou outra pessoa, mas de várias simultâ neamente, não
é suficiente pedir aos conselhei ros separadamente o consentimento ou pa­
recer ; mas é preciso que sej am convocados legitimamente e que em co­
mum deliberação sej am i nformados sôbre a questão a ser disputada, e, se
fôr necessário, sej am adstri ngidos por j u ramento a conservar segrêdo ,
em seguida dêem o seu sufrágio ou manifestem a sua opinião, de maneira
que o Superior possa haurir n ovas luzes das razões e motivos dos seus
conselhei ros. Caso não tenham sido legitimamente convocados todos os
que deviam ser chamados, esta omissão não afeta o valor do ato, contanto
que todl)S de fato tenham estado p resentes à comum deli beração. Não
se satisfaz, porém, ao preceito do presente cânon, se o Superior ped i r
o sufrágio ou parecer d o s consu ltores u m a um, f o r a da comu m delibe­
ração. Nesta comum deliberação, já que os conselheiros são tomados evi­
dentemente à maneira dum corpo moral ou colégio, observar-se-á o que
o c â n . 1 0 1 , § 1 determina acêrca do n t'1 mero de sufrágios requerido e
acêrca do direito do Superior ou presidente de dirimir a paridade de
votos."
E i c h m a n n (Lehrbuch des Kirchenreclztes, pág. 84-85) : "O Capítu­
lo, o Congresso ·ou Conselho devem ser convocados para a comum deli­
beração o u resolução (exceto o caso do c. 302) . O consenso ou conselho
1 26 Assu ntos pastorais

pedidos em particular sem a legítima reunião não servem para a vali­


dade do ato (c. 1 05, n. 2, 1 0 1 , § 1 , n. 1 ) ."
C o c c h i ( Comnze11tarium, 1, pág. 37) : "Quando se requer o consen­
t i mento ou conselho . . . de várias pessoas simultâneamente . . . o Superior
deve solicitar o consentimento o u parecer dos conselheiros presentes e
reu nidos com o Superior, a não ser que as constituições, o costume ott
indultos aconselhem o contrário ."
M a r o t o (lnst. ]. C. n . 472) : " Quando se deve buscar o consenti­
mento ou conselho de várias pessoas simultâneamente, as quais constituem
um corpo moral ou que estão constituídas à maneira dum corpo moral,
como, por exemplo, o Capitulo Catedral, o Conselho d iocesano dos ad­
ministradores, o Conselho tanto maior como menor dos Superiores r eli­
giosos, etc., então essas pessoas devem ser legitimamente convocadas,
a não ser que já tenham estado presentes à reu n i ão ou assembléia ou

enfim de outra maneira tenham podido manifestar o seu c<msentimento ou


parecer. Do r110 do como fala o cânon neste lugar, deve-se concl u i r, sem
dúvida, que em geral o consentimento ou p arecer cios respecticos conse­
l hei ros deve ser proferido em comum reu n ião com o Superior. Contudo
não parecem, por isso, ser excluídos casos em que, segu ndo os estatutos
particulares ou costumes legitimamente prescritos ou enfim e princi palmente
em virtude de indu ltos pecu liares, sej a lícito alguns dos conselhei ros au­
sentes, ou todos êles, mandarem o seu sufrágio ou voto ao Superi o r. As
pessoas legitimamente congregadas o u convidadas devem ser interrogadas
pelo Superior de maneira que possam legítima e l ivremente manifestar
o seu parecer ; quer dizer o ralmente ou por escrito, abertamente d i ante
elos outros o u por sufrágios secretos, segu ndo a ordem preestabelec ida ;
e isto segundo os diversos casos e regras ou analogias do dir�ito. N B .
No esquema preparativo do Código, d e 1 9 1 2, l i a-se : "Actus viribus caret
nisi ece personre legitime fuerint convocatre et mentem suam man ifesta­
verint per secreta suffragi a . " f:ste texto foi omitido à i nstância dos Srs.
Bispos."
L a r r a o n a ( Com. pro Religiosis, 1 928, pág. 422) : "Quando se exi­
ge o consenti mento ou parecer dos consultores simultâneamente, êsses se­
gundo as normas do cân. 1 05, n . 2.º devem ser legitimamente convocados,
e xceto o caso de j á estarem p resentes. Pois, o defeito d a convocação com
relação a a l guém ou alguns de forma alguma afeta o valor do ato, se
os que não foram convocados j á estiverem p resentes ( c . 1 05, n . 2, 1 62,
§ 4 ) . A falta do ato colegial, isto é, da preceituada reu n i ã o dos consul­
to res, conquanto se tenha os votos dos demais, por regra geral do direito
comum, não se pode dizer que prej udique a validade do ato. E' q ue o câ­
n o n 1 05, n. 2 não contém nenhuma cláusu la i r ritante geral ; nem vale o
argumento baseado na alegação do cân. 1 62, § 4. J':: s te cfmon é apenas
cit ado aqui para excetuar a necessidade da convocação no caso em que
os convocandos j á estej am p resentes. Pela ci tação dêste cânon (c. 1 62, §
4) não é tocada, de forma algu ma, a questão da necessidade da congrega­
ção. A letra do atual Código não só não contém nenhuma cláusula i rr i­
tante, mas a existente no esquema preparatóri o foi supressa de propósito
(cfr. supra M a r o t o ) . D izemos, por regra geral, porque há alguns ne­
gócios os quais por sua natu reza j u rídica ou por determinação expressa
do direito, sej a u niversal sej a particular, exigem pa ra a sua validade um
ato colegial, como, por exemplo, as eleições, os j u lgamentos propriamente
ditos, etc. Mesmo quando se exige o ato colegial, não. é proibido pelo
direito c om u m que, quem gozar do direito de sufrágio e estiver legitima-
Revista Eclesiástica B rasi leira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 1 27

mente ausente, mande o seu voto por escrito ou o transmita por um pro­
cu rador. Isto será i nterdito somente nas eleições canônicas estritamente di­
tas e "nisi lege peculiari aliud caveatur" (e. 1 63 ) . O que se deve esten­
der também aos casos que requerem votação secreta."
O o y e n e e h e ( Com. pro Religiosis, 1 922, pág. 329 sq. ) : "Quando 0
di reito, tanto comum como também particular, de alguma Religião exige
para o tratamento e definição dos negócios o sufrágio ou parecer dos as­
sistentes ou conselhei ros, deve o Superior convocá-los todos e todos ou­
vir. Pois declara o cân. 1 05, n . 2.º : "Si requ i ratu r consensus vel consilium
non u n i us tantum vel alterius personre, sed plurium simul, ere personre
legitime convocentur, salvo prrescripto can. 1 62, § 4, et mentem suam ma­
n i festent . . . " Isto, aliás, é mu ito natu ral ; pois, se o Superior, para poder
agi r, necessita dos sufrágios de seus conselhei ros que fazem parte dum
corpo moral ou grêmio, tem a obri gação de convocar to dos os membros
daqu ele corpo moral e não lhe assiste o d i reito de chamar arbitràriamente
estas ou aquelas pessoas, preterindo out ras. Mas todo o .f Olégio, assim
como está j u ridicamente constituído, é q u e deve ser convocado e reunido.
O cânon citado não deixa ma rgem para dúvidas.
"Mas além disso pode-se perguntar : O Superior, que certamente agi­
ria ilicitamente não convocando todos os conselh e i ros qu ando segundo as
no rmas do di reito deve pedir a sentença do Conselho, agiria também in­
vàl idamente? A primeira vista o cân. 1 05 parece querê-lo i nsinuar, dizendo :
" Cum ius statuerit Superiorem ad agendum indigere consensu vel consi lio
aliquaru m personarum : l .º s i consensus exigatur, Superior contra earundem
votum invalide agit : si consi l i u m tantum per verba de co11silio consultorum
vel audito Capitulo, paro clzo, etc. satis est ad valide agendum ut Superior
i l ias personas audiat." Logo não satisfaz às condições n ecessárias para
agir vàlidamente o Superior que não ouve as pessoas que devem ser con­
suitadas. Ora, sendo necessário o consentimento o u parecer não de uma
o u outra pessoa, mas de várias simu ltâneamente - o que se verifica
quando se torna m ister o sufrágio dum Conselho ou Capítulo - todos
elevem ser convocados e ouvi dos, como ficou dito acima. Logo, ainda que
uma só pessoa fôsse p reterida, agiria invàlidamente o Superior.

" Entretanto, que tal conclusão não está em conformidade com a i n­


tenção da lei, não há quem não vej a tomando em consideração o que o
próprio direito prescreve com relação à eleição que é o ato máximo e mais
típico de qualquer agremi ação eclesiástica. Ora, neste gravissimo negócio
que é a eleição, se u m dos eleitores tenha sido preterido e, por isso, es­
tado ausente, "electio nilzilominus valet", embora deva ser anulada pelo
competente Superior à i nstância do eleitor preterido, depois de provada
a p reterição e ausênci a do mesmo. (C. 1 63, § 2.) Por isso não devemos
j u lgar que nos demais negócios colegiais que, em comparação com a elei­
ção, são sem dúvida j u ridicamente muito menos importantes, a preterição
de u m ou outro dos membros " ipso j u re" torne nulos e inválidos êsses
negócios. Poderá certamente o p reterido recorrer ao Superio r competente,
mas neste i nterim o fato é válido.
" Enfim o que dizer, se o Superior, devendo ouvir todo o Conselho
ou Capítulo, negligenciar a maior parte ou pelo menós mais que a têrça
parte dos conselheiros? N este caso, a meu ver, o Superior agiria i nvàli­
damente, tanto por causa das palavras do presente cânon que considerà­
velmente restringem o arbítrio do Superior, como também em vista da
lei paralela do cãn. 1 62 sôbre as eleições, onde se lê no parágrafo terceiro :
1 28 Assuntos pastorais

"Quod si p l u res quam te rtia pars c lectoru m neglecti fuerint, electio est
i pso i u re n u l l a . "
Conclusões.
Exigindo, pois, o d i reito o consentimento ou conselho de várias pes­
soas simu ltâneamente, essas pessoas devem ser legitimamente convocadas
e manifestar e m comum deliberação o seu parecer, de maneira que o Su­
perior, segu ndo a opinião u nâ n i me ele todos os autores, agiria ilicitamente,
se em c i rcunstâncias ordinárias negligenci asse esta lei eclesiástica. N B .
Não é mister convocação especial, quando a reunião do Conselho se rea­
liza periodicam ente em dias marcados de cada mês o u ano ; pois, neste
caso, tal determin ação faz as vêzes ela convocação especi a l (cfr.
O o y e n e c h e, Com . pro Religiosis, 1 922, pág. 33 1 ) .
Quanto à invalidade, porém, d o ato h á d ivergência entre os Autores.
C o r o n a t a , C h e 1 o d i , E i c h m a 1 1 n e outros defe ndem a i nvali dade
cio ato se os sufrágios o u votos não tiverem sido dados em comu m de­
l iberação ; w· e r n z - V i d a 1 diz apenas "não é suficiente, se o Superior
pedir o consentimento o u conselho dos conselhei ros separadamente" ;
V e r m e e r s c h - C r e u s e n declara : "segundo O j e t t i requer-se a
comum deliberação para o valor do ato" ; C o c c h i fala de exceções,
isto é , "a não ser que as constitui ções, costu mes e indu ltos aconselhem
o contrário" ; da mesma maneira também se exprime mais ou menos M a -
r o t o, admitindo exceções da regra gera l .

L a r r a o n a, porém, o p i n a p e l a validade do a t o , dizendo que " p o r


regra g e r a l do d i reito c o m u m não se p o d e afirmar que por f a l t a d a p re­
ceituada reunião dos conselheiros a validade do ato sej a p rej u dicada, ex­
ceto os casos (como, por ex. a eleição, j u lgamento própriamente dito, etc. ) ,
q u e por s u a natureza j u rídica o u por dete rminação expressa d a lei recla­
mem para o valor um ato colegial. E isto êle afirma e prova pelo fato
de o cânon em questão não conter nenhuma lei irritante e também porque
a cláusu l a e x istente n o esquema preparatório ao Código foi de p ropósito

su pressa.
G o y e n e c h e é do mesmo parecer, apoiando a sua o p i n i ão sôbre
o fato de que também nas eleições, ato tipicamente colegial, a preterição
de u m ou outro membro q u e dev ia ser convocado, não a n u l a " ipso i ure"
a eleição. Mas invàl idamcnte agiria o Superior, segu ndo Goyeneche, caso
dei xasse de convocar mais do q u e a têrça parte dos conselheiros.
A sentença dêstes últi mos autores parece estar sólidamente fundada,
de maneira que não hesitamos cm nos declarar solidários com ela. Abs­
traindo, pois, da eleição, cios negócios j u d iciais em sentido estrito e tam­
bém lato (v. g. dim issio ) , das nomeações para algum ofício, sobretudo
quando fazem as vêzes de verdadeiras elei ções, como são aquelas que de
per si competem aos Capítu los, m as são feitas pelo Conselho, ficando vago
algum ofício du rante o tempo de seu regime ; abstraindo, digo, dêstes ca­
sos e ele outros para os quais o d i reito, sej a u n iversal sej a particular,
prescreve " a d vali ditatem" a cong regação dos respectivos conselhei ros, não
nos pa rece agir i nvàli damente o Superior se pedir o consentimento ou
conselho das pessoas convocadas a cada u m a em particu lar. I l ícito, sim,
seria tal procedimento em geral ; entretanto, em caso u rgente ou em c i r­
cunstâ ncias extraordi nárias, não sendo possível reu n i r os conselhei ros sem
i ncômodo g rave, desaparecerá também, segu ndo nossa opini ão, a i l iceida­
de, como sói acontecer em outros casos da legislação positiva.
Aconselhamos, porém, a todos que consultem d i l i gentemente a sua
própria legislação particular. Pois as constitu ições e n o rmas particulares
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 1 29

costumam determinar, às vêzes com bastante cuidado, os casos em que


deve ser feita a reunião dos conselhei ros. L a r r a o n a, por ex., escreve
( Com. pro Rei. 1 928, pág. 423) das constituições da Congregação dos
Cordimarianos : "Actus collegialis, id est Consilii coadunatio, tunc tantum
requiritur quando in iure commu ni vel in iure nostro (n. 1 70) presse
signatu r." E continua, dizendo : "N. 1 70. Casus in quibus actus collegialis
requiritur sunt sequentes :
§ 1. l n Capitu lis generalibus omnibus, in provincialibus negotiorum
( Capitula provincialia ad nominandos delegatos ad Capitulum generale
ex concessione in Constitutionibus contenta n. 66, p. l re possu nt fieri per
schedulas) et i n lo calibus. ln utrisque illis prohibentur votum absentis
scriptum et procuratoris personalis deputatio.
§ l i . 1 .0 ln designationibus Consultorum et Officialium generalium ex­
tra Capitu lum.
2.º ln designationibus Superiorum Maiorum eorumque Consultorum
et Officialium.

3.º l n designatione Superiorum localium, Consultorum et Ministri ;
Consilium tamen plenum non requ iritur nisi in triennali periodica mune­
rum renovatione.
4.º l n designatione Superiorum localium extra periodum triennalem.
6.0 ln designatione Magistri novitiorum et Prrefecti scholasticorum.
§ I l i . ln admissione ad primam et ultimam professionem et ad ordines
subdiaconatus et presbyteratus.
§ IV. ln dimissionibus professorum tam a votis temporariis (cc. 647-
648) quam a votis perpetuis, sive ipsre sint dimissiones ordinarire (e. 649,
sqq ) , sive a iure incursre (e. 646, § 2 ) .
§ V . l n pcenarum a c privationum graviorum iniu nctione."
Nem tôdas as legislações particulares, das Religiões antigas sobretu­
do, costumam ter uma especificação assim clara dos casos em que a pres­
crita congregação dos conselhei ros é de absoluta necessidade. Mas tôdas
elas costu mam determinar acuradamente, em concreto ou por cláusulas
gerais (como sej a : "in negotiis gravibus vel gravioribus" ) , os casos para
os quais se torna necessária a intervenção do Conselho no ato do regime,
como também costumam indicar quando o voto dos conselheiros é apenas
consultivo e quando deve ser deliberativo. Por esta razão é que prescreve
o cân. 5 1 6 : "consensum aut consi lium (consi liarioru m ) exquirant ad nor­
mam constitutiomzm et sacrorum canomzm."
Evidentemente, por mais cuidadosas que fôssem tais enumerações,
sempre seriam i ncompletas, porque é impossfvel prever todos os casos.
Mas também esta dificuldade foi tomada em consideração pelas legislações
particulares. As constituições da Ordem dos Frades Menores dizem, por
exemplo, a êsse respeito que, além das causas que devem ser decididas
com o consenso dos Definidores, "omnia quoque nego tia graviora ad bo­
num tam spirituale quam temporale totius Provincire vel singulorum con­
ventuum, prresertim novitiatus et studiorum spectantia, a Ministro provin­
ciali proponantur et commun i consilio determinentur", compreendendo as­
sim na expressão "negotia graviora" os casos que não podem ser pre­
vistos.
Estas palavras " a Ministro provinciali proponuntur" nos lembra uma
questão j á ventilada n a revista Periodica ( 1 927, pág. ( 6 1 ) sq ) , isto é :
se compete exclusivamente aos respectivos Superiores propor os assuntos
a serem deliberados pelo Conselho, ou se também os Conselhei ros podem,
contra a vontade do Superior, levar ao Conselho outros negócios a serem
9
1 30 Assuntos pastorais

t ratados em comum deliberação. - Para satisfazer a legitima curiosidade


dos nossos leitores a respeito desta questão, achamos suficiente transcre­
ver aqu i a resposta que a Periodica ( loc. cit. ) deu a esta q uestão : " So­
lutio istiu s qurestionis, qure general i o r esse possit de omni collegio, sapi­
tulo, cons i l io, a b hac altera pendet : Estne P rreses, Caput, vel Superior
subordinatus collegio, a n potius loco eminentiore positus. Si enim col le­
gium habet supremam potestatem, potest, seclusa peculiari dispositione
aucto ritatis extranere et potioris, agere negotia qure a Prreside nec propo­
sita nec admissa sunt.
"Quare, Codex canonicus c . 288, accurate distinguens inter Consil i u m
plenarium, c u i p rreest Legatus S. Pontificis, et pro vinciale cui prreest Me­
tropolitanus; de solo P rovinci a l i stat u i t ordinem deliberationem esse deter­
minandum a p rreside, habito P atrum consensu. Sic usus habet ut genera­
l i a Capitul a Ordinum seu religionum recentiorum, a d negoti a p roposita alia
adde re possint. Capitu l a enim ista supremam potestatem habent.
" Contra.. si non est supra Prresidem, de istis solis rebus deliberare
potest collegium qure eius examini propositre sint.
"Hoc sancit c. 226 de Concilio cecumenico : " Propositis a R. Pontifice
qurestionibus P atres possunt alias a ddere, a Conci l i i tamen p rreside antea
pro batas."
"Non a liter, quando Episcopus ut talis capitulo Cathedralis ecclesire
assistit, tunc ipse negot i a p roponit, vota exqu irit et iuxta ea conclu d it.
( Cfr. D e H e r d t, Praxis capitularis, pág. 430, iv. )
" l d de capitulo abbatiali habet M o 1 i t o r, Religiosi iuris capita se­
lecta n . 484 : " 1 .º Capitulum mon achoru m ex se nullam actionem inchoare
nec materiam deliberationum determinare potest" ; Abbas enim est m a i o r
( i bidem n . 4 8 1 ) .
"jam vero, Consi lium non est supra P rovincialem cui assistit ; - Con­
sultorum munus, e can. 5 1 6, § 1 , in hoc est ut respondeant Superioribus
q u i secundum Constitutiones et sacros canones eorum consensum aut con­
silium exquiru nt.
" l gitur quamam et quo ordine delib eranda sint solus Superior definit.
"Addas nusquam in Codice apparere quo pacto procedendum foret, si
Consi liarii vellent materiam quandam Superiori invito obtrudere tractan­
dam. Quis colligeret vota, quis pronunciaret decisionem? Neque sermo f i t
de huj usmodi casu ubi a g i t u r de suffragiis sive · consultivis sive deliberati­
vis. Casus 11 0 11 pr<evidetur, q u i a casus esse non potest." - A esta res­
posta clara e completa nada temos que acresce ntar.

Casos Particttlares.
"Cum suo Consí l i o " . - Tanto o Código como também as normas par­
ticulares das várias Religiões, em muitos casos determi nam expressamente,
se o voto dos conselheiros é deliberativo o u apenas consu ltivo.
Outras vêzes o Código emprega a fórmula um tanto obscura "cum
suo Consilio" ( n as Constitu ições ocorre "cum suo Definitorio" ) , como p o r
exemplo n o s cânones segu intes : 494, § 2, 5 1 0, 549, 646, § 2, 650, § 1 ,
655, § 1 , 1 395, § 3.
L a r r a o n a ( Com. pro Religiosis, 1 928, pág. 426 ) , concedendo em­
bora que tal fórmula não signifique necessàriamente o voto deliberativo,
acrescenta entretanto que o exame atencioso dos cânones citados nos en­
s i n a que, de fato, o Legislador em quase todos ê les emprega a fórmu l a
"cum suo Consilio" no sentido do voto deliberativo. - V e r m e e r s c h -
C r e u s e n escreve (Epitome, 1 , n. 1 97, pág. 1 53) : " l ste modus dicendi
Revista Eclesiástica B rasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 131

quadant e nus ambiguus est ; aliud tamen est quidpiam tribuere ipsi Consi­
lio, aliud quidpiam committere Superiori cum suo Consilio. Quare, per se,
cum potestas Superioris favorabilis sit, existimamus tunc sufficere ut, au­
dito Consilio vel Capitulo, agat. jam tunc enim agit cum Consilio seu Ca­
pitulo." Da mesma opinião é F a n f a n i, escrevendo (De Jure Religioso­
mm, n. 67 ) :" . . . cum potestas in Superiore aliquid favorabile sit, ea libera
in agenClo relinquenda est, nisi expresse ligetur." Podemos, pois, concluir
que a fórmula "cum suo Consilio", "cum suo Definitorio" , pode ser en­
tendida do voto consultivo, caso não conste o contrário "ex rerum natura
vel contextu" . Sempre, porém, que o direito exige o consentimento dos
conselhei ros, o voto dêles é deliberativo, e o Superior age i nvàlidamente,
procedendo contra o voto dos conselheiros.

Os Conselheiros não Comparecem.


U m outro caso particular, que merece ser considerado expressamente,
é o seguinte : O que se vai fazer, quando um ou outro do19' conselheiros
legitimamente convocados não comparecem à reunião do Conselho, ou por­
que não podem comparecer ou porque não querem? Poderá então o Su­
perior com os conselheiros presentes proceder a tratar e resolver os negó­
cios? - Abstraindo por ora d" direito particular, segu ndo o direito co­
mum o devemos afirmar. Do contrário terlamos uma situação intolerável :
cada qual dos conselheiros poderia então a rbitràriamente perturbar a ce­
lebração do Conselho e i mpedir a execução do di reito. Por isso declara
também exp ressamente o Código com relação às eleições : " Convocatione
legitime secuta, ius eligendi pertinet ad eos qui prresentes die in con­
vocatione statuto", etc., etc. (c. 1 63 ) . Ora, " a fortiori" deve isto valer em
outros negócios de somenos importância. Uma outra razão é esta : os con­
selheiros seriam mais poderosos fora do Conselho do que quando presen­
tes ; pois presentes ao Conselho devem ceder à parte maior e fora do mes­
mo poderia um único conselheiro i mpedir a ação de todos os demais. O
que é u m absu rdo.
Além disso, o direito comum não prescreve um número determinado
de conselheiros para a celebração do Consel ho, exceto o caso seguinte :
"ad sententiam dimissionis ferendam competens est supremus religionis vel
monasticre Congregationis moderator cum suo Consilio seu Capitulo, quod
quatuor saltem religiosis constet : si qui deficiant eorum loco totidem reli­
giosos eligat p rreses de consensu aliorum qui cum ipso tribunal collegiale
constituant" (c. 655, § 1 ). Nos demais casos, pois, poderia o Superior se­
gundo o direito comum, quando precisar da sentença dos seus conselhei­
ros que foram legitimamente convocados, mas não comparecem, pedir o
parecer dos que estão presentes, procedendo segundo o conselho ou con­
sentimento dos mesmos. Em rigor da lei bastava até que sõmente um dos
conselhei ros ten h a comparecido à reunião. Verdade é que uma pessoa mo­
ral só pode ser constituída de três pessoas flsicas, mas uma vez legitima­
mente constituída, se os outros membros faltarem, "dummodo vel unum
ex personre moralis collegialis membris supersit, ius onmium i n illud re­
cidit" (c. 1 02, § 2) .
O o y e n e c h e ( Com. pro Rei. lo922, pág. 332 - donde tiramos os
presentes argumentos) escreve : "O cânon que acabamos de citar fala prõ­
priamente da exist€ncia duma pessoa mora l ; de fato, p orém, os Conselhos
Geral, Provincial e local das Religiões não constituem propriamente pes­
soas morais (c. 1 00, § 1 ) . Mas o princípio do cânon citado aplica-se com
igual razão à ação de tôdas as agremiações."
9*
1 32 Assuntos pastorais

Caso, porém, nenhum dos conselheiros comparecesse à reum ao , o Su­


perior sozinho não poderia proceder a resolver os negócios, para os quais
é nece ssária a intervenção dos conselhei ros, j á que o Superior não per­
tence ao corpo dos conselheiros, mas está acima dêles ; poderá .entretan­
to, por sanções penais, obrigar os relutantes a comparecerem. A êsse res­
peito determinam as Constituições Gerais da Ordem dos Frades Menores,
com relação à celebração do capítulo provincial, n. 480 : "Qui vocales,
sine legitimo impedimento a Definitorio probato, non accesserint ad Ca­
pitulum, per sex annos voce activa careant. Neque propterea Capitulum
suspendatur vel differatur, sed, dummodo maior pars vocalium advenerit,
statuta die celebretur."
O que acabamos de dizer, constitui "summum ius", o que fàcilmente
poderá degenerar em "summa iniu ria" . Por êste motivo as legislações par­
ticulares ou costumes legltimos determinam muitas vêzes o número dos
conselheiros necessário para a celebração do Conselho e para dar as neces­
sárias decispes. As Constituições da Ordem dos Frades Menores determi­
nam, por exemplo, n. 499 : "Ad validitatem tam electionum quam decisio­
num et sententiarum pro quibus consensus ·Definitorii requiritur, necesse
est ut Congressui, prreter Prresidem, quatuor saltem vocales vel iudices ad­
sint . . . " Portanto, segundo estas nossas Constituições, tanto para as elei­
ções como também para as decisões e sentenças que exigem o consenti­
m ento do Definitório, devem, além do Presidente estar presentes ao menos
4 conselheiros. As Constituições "Pii Instituti Fratrum H ospitalium ab
Imm. Conceptione" prescrevem a presença de 3 membros : "Le decisioni
dei Consiglio sono valide quando vi siano intervenuti almeno tre membri."
"Tutti pero devono essere invitati", n. 337. As normas " lnstituti sacer­
dotum a Sacro Cuore di B etharram" prescrevem a presença de 4 conse­
lheiros e para as eleições o Conselho pleno. ( Cfr. Com. pro Rei. toe. cit.)
Continua o n. 499 das Constituições Gerais da Ordem dos Frades
Menores, dizendo : "Absentibus igitur aliquibus Definitorii membris (todos
naturalmente devem ser convidados, n. 498) , ad complendum numerum qui­
narium substitui debet Secretarius provincire et alii ex dignioribus P atri­
bus, prout necessitas postulaverit, de consensu P atrum Definitorii", tocan­
do com estas palavras a questão ventilada entre os Autores, se os mem­
bros por qualquer motivo ausentes podem ou devem ser supridos por ou­
tros. Esta controvérsia interessa quase somente aquêles Institutos, em cuj a
legislação particu lar nada se prescreve concernente à suplência dos con­
selheiros ausentes.
Para a dimissão de algum religioso, o direito comum prescreve o nú­
mero quinário de juízes ; para os demais casos cada qual deve consultar
a sua legislação particular. Se nela nada se prescreve a êsse respeito,
G o y e n e c h e ( Com. pro Rei. 1 922, pág. 334) é da opinião que neste
caso os ausentes não devem, e nem mesmo podem ser supridos por ou­
tros. O mesmo afirmam também P e j s k a : Jus Canonicum Religiosorum,
pág. 232, n. 3; S c h a e f e r : De Religiosis, pág. 1 88, 8; B a s t i e n :
Direttorio canonico, n. 475. (V ide apud Com. pro Rei. 1 930, pág. 356. )
Concluindo, escreve G o y e n e c h e ( Com. pro Religiosis, 1 922, pág.
333 sq. e 1 930, pág. 356) : "Uti vides, ius satis !tis legibus providit casui
quo aliquis consiliarius nequeat vel nolit Consilio assistere, quin opus sit
i l lum supplendi. Quando enim ius suffectos absentes voluit expressit. Si
ergo ad aliqua negotia Constitutiones Consi lium plenum requirant, quin de
sufficiendis absentibus verbum dicant, res ita disponat Superior ut omnes
consiliarii convocati possint commode Consilio adesse, imo, si opus fuerit,
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 1 33

cogat ut adsistant, sed si nihilominus aliquis defecerit, Consilium valebit,


quia iure plenum erit. - Quamvis ex generalibus iuris principiis videantur
non posse suppleri consiliarios absentes, si hoc . a iure ipso non concedatu r ;
nihilominus censeo posse suppleri absentes, licet hoc expresse non dicant
Constitutiones, quando hre exigunt Consilium plenum sensu quo exigebant
Normre (S. C. EE. et RR., an. 1 905) , etiamsi ad alios casus ibi non com­
prehensos extendant prrescriptum. Ratio est quia Normre ita plenum prrescri­
bebant Consilium pro electionibus ut, si aliqua ex consiliariis deficeret,
suf ficeretu r necessario. Ergo si Constitutiones doctrinam Normarum habent,
licet expresse de supplendis consiliariis nihil dicant, planum est hoc quo­
que intelligendum prrescriptum."
Por conseguinte, quando a legislação particular prescreve algo sôbre
a suplência dos conselheiros ausentes, deve-se observar tal prescrito. Não
havendo prescrição a êsse respeito, podem-se supri r os ausentes, caso tal
legislação particular tenha por base a doutrina das Normre; no caso con-
trário, não podem nem devem ser supridos. •
Frei A 1 e i x o, O. F. M. (Petrópolis. )

Quem é o Administrador dos Bens d a Fábrica ?


"Sou vigário de uma paróquia regu lar, "pleno iure" unida com a co­
munidade religiosa, mas cuj a igrej a continua secular. Tomando posse co­
mo Superior da casa e como vigário da paróquia, recebo do meu prede­
cessor no superiorado, não vigário da freguesia, j u ntamente com os livros
da casa religiosa também o l ivro da fábrica da igrej a matriz, a fim de
eu assiná-lo e passá-lo para as mãos do ecônomo da casa religiosa se­
gundo o mandato do Custódio provincial. Ora, desej ava saber se o Cus­
tódio provincial pode, " inconsu lto episcopo", escolher um ecônomo para
administrar os bens da fábrica. Pois, a meu ver, quem representa perante
o Ordinário a paróquia e é responsável por ela, é somente o vigário,
apresentado pela autoridade religiosa competente. Ao cargo do pároco
está tôda a administração espi ritual da paróqu ia, a cura de almas pela
administração dos santos sacramentos, pregações, etc. ; acho que também
o mesmo pároco deve ser quem administra os bens da fábrica, segundo

as normas, naturalmente, do direito canônico e segundo as disposições


dos Srs. Bispos do Brasi l, salva disposição em contrário, do Ordinário
do lugar. E isso parece-me muito natural ; pois, perante o Bispo diocesa­
no é somente o pároco o responsável pela paróqu ia e por tudo que com
ela se relaciona. Exposta assim a questão, desej ava saber :
1 .º Podia eu receber o l ivro da fábrica por outra pessoa que não
fôsse o vigário, meu predecessor?
2.º O Custódio provincial tem o direito de nomear outro administra­
dor para os bens da fábrica, sem consu ltar o Ordinário do lugar?
3.º Devo consultar o Sr. Bispo diocesano sôbre o caso acima expos­
to, ou posso contentar-me com as disposições do Custódio provincial, de­
sinteressando-me inteiramente da administração dos bens da fábrica? -
Aguardo uma resposta na REB ; não é por interêsse próprio mas para
esclarecimento de algumas idéias que não estão bem claramente expos­
tas em outros estudos da REB." (N. N.)
1 34 Assuntos pastorais

Duas Notas Preliminares.


Em primeiro lugar convém lembrar aqui brevemente que a administra­
ção dos bens eclesiásticos não se refere apenas à aquisição e alienação
dos mesmos mas compreende todos os atos que s ão necessários ou úteis

p a r a a con ervação e melhoramento dos bens j á adquiridos, como tam­
bém os atos que se referem à legítima percepção, conservação, melhora­
mento e, sobretudo, à a p l icação dos frutos e rendimentos dos mesmos
bens eclesiásticos.
Em segundo l u g a r convém repetir b revemente q uando, segundo os
canonistas, u m a i g rej a paroqui al é religiosa e q uan do é secular. D izem
.
Maroto, Vermeersch-Creusen, Nebreda, Acta Ord. Mm. 1 938, Schaefer a
i g rej a p a roquial é religiosa : o u quando pertence aos Religiosos, ou quando
êstes têm o uso perpétuo, o u quando de outro modo estável está sob o
govêrno e administração dos Religiosos. N o entanto, Pe. D e 1 g a d o,
O. F. M., em seu livro "De relationi bus i nter parochum religiosum et eius
superiores r;: gu lares" ( Edição Vozes, 1 943, pág. 1 0 1 ) , escreve q u e n ão
pode admitir esta opinião dos autores c i tados sem fazer u m a distinção.
Eis a opinião de Delgado : "Ut aliqua ecclesia proprio sensu ecclesia reli­
giosa vel religiosoru m dici possit, nobis videtur req u i r i quod i psa alicui
Religioni plene sit addicta vi alicuius tituli acquisitivi a u t translativi domi­
nii. H i c titulus potest esse originarius vel derivatus, sed quolibet modo h i c
t i t u l u s existat, n o b i s videtur i l l u m semper requ iri, nec sufficereL simplex
usus qui, q u a libet demum ratione sit, semper est i u s in re aliena ; usus
autem si cum alia circumstan t i a sit coniunctus p otest etiam u t titulus
translativus dom i n i i consi derari, sed n o n ratione usus ipsius, seu ratione
a lterius c i rcumstantire. Hoc sensu proprio ecclesia potest esse religiosa vel
a d rel i giosos pertinere his prresertim modis : a ) a prima s u a origine . . .
per redificationem . . . per f u n d ationem . . . b ) per prrescriptionem ; c ) per
unionem seu transformationem . . . d ) per donationem . . . "
Dadas essas notas p re l i m i n a res, devemos agora brevemente repeti r
o q u e j á f o i exposto n a R E B sôbre as várias espécies de bens eclesiásti­
cos que se distinguem em paróquias administradas por comunidades re­
l igiosas.
1 ) Bens do Benefício Paroquial.
São aquêles bens que fazem p arte do beneficio paroquial considerado
como pessoa moral eclesiástica, e dos quais fala, por exemplo, o cânon
1 4 1 0. Os frutos beneficiais passam a pertencer ao beneficiário ( c . 1 473)
e, se a p a róqu i a está unida com u m a pessoa moral, pertencerão a esta
mesma pessoa moral ( o u à S. S é ) ( c . 1 425) . A administração dêstes bens
beneficiais cabe a quem de d i reito administra os bens d a casa rel igiosa.
A razão é porque os bens beneficiais n o caso ac rescem aos bens d a co­
munidade religiosa. Sàmente n o caso em que a paróquia não estiver u n i d a
( " pleno v e l semipleno i u re" ) c o m a comu n idade religiosa, m a s apenas aos
Religiosos "simpliciter concredita", então é preciso examin a r o convênio
feito entre a Cúria diocesan a e comunidade reli giosa, para se saber a
quem toca a admin istração dos bens beneficiais. Geralmente em tais ca­
sos, os Srs. B ispos concedem aos Religiosos não só a administração dos
bens beneficiais, mas também a propriedade de todos os frutos do be­
nefício.
2 ) Bens da Paróquia como tal.
Os bens da paróqu i a como tal são distintos tanto dos beneficiais
como também dos bens da i g rej a paroquial, e são bens adquiridos em f a-
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 1 35

vor e utilidade da paróquia e para a paróquia, isto é, revertem em bem


e utilidade dos paroquianos.
A pessoa moral que exerce o domínio sôbre êstes bens, o proprietá­
rio dêles, não é a igrej a paroquial, nem o benefício paroquial concebido
como pessoa moral, nem o distrito territorial considerado como pessoa
moral, mas é a paróquia como tal considerada como pessoa moral, cons­
tando de certa massa de bens temporais destinados ao bem e utilidade
dos paroqu ianos. Da paróquia como tal considerada como pessoa moral
falam, por exemplo, os cc. 1 208, § 1, 1 209, § 1 , 1 356, 533, 1 1 8 1 , 470, §
4, etc.
Bens pertencentes à paróqui a como tal são certamente (assim Pe.
D elgado, O. F. M., em "Cátedra", Revista Ecl. Aequatoriensis, an. 1, t.
1 , pág. 2 1 ) . os bens de que fala o cânon 1 500. Além disso os bens doa­
dos a titulo definitivo em favor das escolas paroquiais, os bens destinados
à cura dos enfermos e pobres da paróquia, ou dados em favor de lugares
pios unidos à paróqu ia, bens dados para promover a Ação Católica, para
sustentar os periódicos da paróquia, etc. . . . Também fundos:"tegados pios
e fundações podem fazer parte dêstes bens que pertencem à paróquia co­
mo tal, contanto que tenham sido dados especialmente para êste fim, quer
dizer à paróqui a como tal (e não em favor da igrej a paroquial) porque
nesta suposição devemos aplicar-lhes o cânon 533, § 1 , isto é, devem ser
considerados como dados "intuitu paroecire" . - NB. Dêstes bens que
acabamos de descrever devem ser distinguidos outros que, no sentido es­
trito da palavra, não acrescem à massa dos bens da paróquia como tal,
mas que são dados ao pároco fiducialmente para êle os despender segun­
do a intenção e vontade dos doadores, como sejam : esmolas para os po­
b res da paróqu ia ou para outras obras de caridade, mas sem passarem
a pertencer ao domínio da paróqu ia e constituirem bens estáveis. �sses
bens assim dados ao vigário fiducialmente não requerem administração,
no sentido próprio da palavra.
O administrador dêstes bens da paróquia como tal é, em todos os ca­
sos, o pároco religioso (e. 630, § 4 ) . Deve, porém, dar contas de sua ad­
ministração ao Ordinário do lugar, cuj o consentimento também se torna
necessário para a colocação dos mesmos bens.
Os Superiores religiosos, por sua vez, exercem sôbre a administração
dêstes bens, feita pelo pároco religioso, seu si.'t dito, o direito de vigilân­
cia : quer dizer, êles têm o direito de ver e examinar o livro das entradas
e: despesas, podem exigir do súdito que a administração sej a feita orde­
nada e prudentemente, etc. ; entretanto não podem arrogar-se o direito da
distribuição parcial ou total dêstes bens, nem determinar de que maneira
devem ser empregados. Tudo isto é da exclusiva alçada do pároco reli­
gioso. Se aos Superiores não agradar a administração do pároco religioso,
seu súdito, podem removê-lo da paróqu ia, mas a administração não lhe
podem ti rar enquanto fôr pároco. Esta vigilância sôbre a administração
do pároco religioso compete também aos Superiores religiosos, quando a
paróquia permanecer secular. Isto se deduz claramente do cânon 630 que
diz expressamente : "qui parreciam regit sive titulo parochi sive titulo vi­
carii." Ora, uma paróquia secu lar um religioso só pode governar sob o
titulo de pároco. De ambos pois vale o que ficou dito acêrca da vigilân­
cia dos Superiores.
3) Bens da Igreja Paroquial.
Tais são os bens destinados à construção, conservação, renovação e
ornamentação da igrej a ; também os bens destinaçlos à celebração do culto
1 36 Assuntos pastorais

divino na igrej a e os bens temporais, móveis e imóveis ( alfaias, sinos,


etc. ) , que pertencem ao patrimônio do templo sagrado. Em uma palavra,
todos os bens materiais que a igrej a paroquial, concebida como pessoa
moral, por qualquer título legitimo adquire. Dêstes bens falam, por exemplo,
os cc. 630, § 4, 1 1 82, § t , 1 1 84, 1 1 86, 1 297, 1 475, § 2, 1 300, 1 536, §
1 , etc.
A pessoa moral não colegi al, proprietária dêstes bens aqui mencio­
nados, é a igrej a paroqu ial, ou, como se diz, "fabrica ecclesire". O que
se não deve confundir com o " Consilium fabricre" , que é o grêmio dos
fabriqueiros, grêmio administrativo dos bens da igrej a, mas que não cons­
titui pessoa moral na Igrej a.
Agora, quanto à administração dos bens da igrej a paroquial, ou, co­
mo diz mui corretamente o consulente, "bens da fábrica da igr:eja" , é mis­
ter distinguir entre igrej a paroquial religiosa e secular.
Quando uma igrej a paroquial é religiosa, o administrador dos bens
da fábrica d11 , igrej a é o Superior religioso designado pelas Constituições
das respectivas Ordens ou Congregações (cc. 532, 630, § 4, 609, 4 1 5) .
S e a igrej a paroquial, porém, continua sendo secular, a administra­
ção dos bens da fábrica da igrej a compete di retamente ao Ordinário do
lugar, como declara expressamente o cânon 630, § 4, pela cláusula final
"secus ad toei Ordinarium".
Ora , decretaram os nossos Exmos. Srs. B ispos reunidos no Concilio
Plenário no decreto n.º 322 o seguinte : "§ 1 . Ad prrescriptum canonis
l 1 82, sub Ordinarii toei vigilantia, ad parochum pertinet una cum Consilio
fabricce administratio bonorum, qure destinata sunt reparandre decoran­
dreque ecclesire ac divino cultui exercendo." Salvo engano nosso, foram
com esta declaração, de uma vez para sempre, também os párocos reli­
giosos numa igrej a secular delegados para administrar os ditos bens da
fábrica da igrej a, porque os Ordinários do lugar, aos quais pelo cânon
compete diretamente tal administração, a podem confiar a quem quiserem.
Entretanto, os párocos religiosos delegados assim para administrar os
bens da fábrica da igrej a secular, devem ter licença do seu respectivo
Superior religioso. A razão é porque esta administração não faz parte
das funções paroquiais com respeito às quais o cân. 630, § 4 deu aos
religiosos dispensa do voto da pobreza. Precisam, pois, para êste caso
licença especial, para que possam administrar tais bens não obstante o
seu voto de pobreza. Mas também neste caso compete aos Superiores
religiosos o di reito de vigilância, como ficou dito acima, sôbre a adminis­
tração feita pelo religioso seu súdito.

4) Bens da Comunidade Religiosa.


Bens da comu nidade religiosa que adquire também o pároco religioso
em virtude de seu ministério como recompensa por seus trabalhos, ou que
são dados em favor da Religião ou a êle pessoalmente enquanto religioso,
como sejam : espórtulas das Missas celebradas, rendimentos do pé do al­
tar, frutos resultantes da dote anexa ao benefício, etc., êsses bens passam
a pertencer à Ordem (província, convento) ou a S. Sé, se a Ordem é in­
capaz de possu ir bens materiais. - E, quando como já explicamos acima,
a paróquia está unida com a comuni dade (sive pleno sive semipleno iure) ,
os bens do beneficio paroqu ial e os bens da comun idade religiosa formam
uma só pessoa moral E por isso o administrador dos bens assim u nidos
é o Superior da casa ou o ecôpomo segundo as respectivas Constituições.
A dúvida do consulente estava bem fundada por ser muito comum.
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1, março 1 945 1 37
Pois assim escreve um autor anônimo em A ct. Ord. Min. 1 938: " Observan­
dum est normas can. 630, § 4, quoad administrationem bonoru m ad eccle­
siam spectantíum non semper et ubique in praxim deductam esse, et post
Codicem in multis locis continuat parochus ipse religiosus administrare
dieta bona, qure de iure administrare deberet Superior religiosus, respecti­
ve (como em nosso caso) Ordinarius loci. Aliquando Ordinarius non per­
mittit ut. bona ecclesire srecularis, qure est in usu tantum et non in domínio
communitatis religiosre, administrentur a Superiore religioso, sed exigit ut
administrentur a parocho religioso ipso. Nos tamen hic proponi mus ea
qure iuris sunt et qure de iure fieri deberent, non de praxi alicubi vigente."

Resposta Final.
O próprio consulente declara na exposição do caso que êle é vigário
numa paróquia religiosa, mas que a igrej a matriz continua sendo sewlar.
Neste caso, como temos visto e como o declara expressamente o cân.
630, § 4, a admin istração dos bens da fábrica de tal igrej � cabe di reta­
mente ao Ordinário do lugar. De di reito, pois, não é o pároco o adminis­
trador dêstes bens, como pensa errôneamente o consulente, mas o Ordiná­
rio do lugar. Entretanto, segundo a nossa opinião acima externada, os nos­
sos Exmos. Srs. Bispos, pelo decreto 322 do Cone. Plen., confiaram para
sempre a administração de tais bens ao pároco, também religioso se é vi­
gário numa igrej a secular. Caso nos enganemos neste particular, compete
ao Ordinário do lugar, por ser o administrador nomeado pelo Código, de
confiar a referida administração a um substituto, porque dificilmente o
próprio Ordinário do lugar vai se encarregar da administração dêstes
bens. Em vista do que foi dito, achamos desnecessário dar uma resposta
às demais perguntas especificadas que se explicam por si mesmas.
Frei A 1 e i x o, O. F. M. (Petrópolis. )

O Clérigo e as Negociações Proibidas Pelo Cânon 1 42.


"Tendo apreciado a maneira sensata com que V. Revma. expõe os
casos por meio da REB, desej ava que, se lhe fôsse possível, desse a solu­
ção de um caso que me foi proposto. O caso é o seguinte : Um sacerdote
possui uma chácara de 20 alqueires de terra. Na chácara estão plantadas
árvores frutíferas ( 1 0.000 pés de laranj as, 2.000 de abacates, 800 pés de
fruta do conde e mais outras árvores fru tíferas) . J:: s te sacerdote tem
duas fam ílias que lhe cuidam do pomar e às quais paga o justo salá­
rio ; o que quer dizer que êle mesmo administra a chácara. Por ocasião
da colheita chama compradores que lá mesmo lhe compram tôda a fruta.
Quesito 1 : Estará êste sacerdote violando o cânon 1 42? Quesito l i : Pode
o sacerdote adquirir terras em seu nome e vender o fruto dessas terras
no mercado a vendedo res para o público? Quesito I l i : Pode o sacerdote
secular receber e administrar bens que recebe por herança? Mu ito grato
o servo em j. Cristo, N. N."
O cânon 1 42, cuj a reta interpretação interessa o consulente, reza as­
sim : "Prohibentur clerici per se vel per al ios negotiationem aut mercatu ram
exercere sive in propriam sive in aliorum utilitatem."
As razões desta proibição já foram enumeradas pelo Papa Clemente
X I I I em sua Epistola "Cum primum" com as seguintes palavras : " . . . quo­
niam avaritia, habendique cupiditas malorum omnium radix a Spiritu Sancto
appellatur, nil mirum, si clericos . . . in atrociora crimina non abripiat, . . .
1 38 Assu n tos pastorais

proprireque vocationis muneribus obeundis socordes reddat, . . . mundanis


addicat curis et occupationibus, qu ibus abrenuntiare se publice addixerunt
(in susceptione primre tonsu rre ) , . . . Hinc etiam litigiosi necessario fiunt . . .
H inc se ad abiecta qurelibet officia et ministeria, . . . demittere non eru­
bescu nt. Quo fit u t laicorum plerique, non ipsos dumtaxat . . . sed srepe
etiam un iversum Ecclesiasticoru m ccetum contemnant ; quin et amaro aver­
soque animo sint erga illud hominum genus, quoru m . . . contentiones . . .
sustinere coacti sunt, a quibus prrerepta sibi videru nt honesta media, per
qure sustentationi consulere potu issent."
O cânon 1 42 vem referindo qu ase as mesmas palavras da legislação
antiga ; e por isso, segundo as normas do cân. 6, n. 2.º, "ex veteris i u ris
auctoritate atque e x receptis apud probatos auctores i nterpretationibus,
est restimandus."
Noções Gerais.
Negociar, em sentido muito l ato, assim dizemos com C h e 1 o d i (De
Personis, n . r-22 ) e em oposição talvez a outros autores, significa o h ábito
de compra e v enda ,· não sendo, pois, j á negoci ação, quando um clérigo
a fizer u m a vez ou outra. O cânon diz expressamente "exercere negoti a­
tionem", o que evidentemente só se refere a um hábito, a uma pluralidade
d e atos. Por esta razão talvez opine também S. Afonso (t. l i , n. 83 1 , pág.
262 ) que não é pecado mortal, se o clérigo negociar duas ou três vêzes em
matéria não grave, ou uma vez em m atér i a grave, quer dizer em coisa de
grande valor.
As palavras "mercatura" e "negotiatio" na vida prática são muitas
vêzes empregadas promíscuamente. A sua diferenciação j u rídica, po rém,
é a segu i n te :
"Mercatura" ou mercâ n c i a é a negociação em sentido estrito, a nego­
c i ação lucrativa ( q urestuosa, qure fit lucri causa ) , e que consiste em a l­
guém comprar coisas com a i ntenção de as vender mais caro, sem terem
sido antes melhoradas. Quatro são, pois, as condições necessárias : 1 ) "ut
res ematur" ; 2 ) "cum animo eam vendendi" ; 3 ) "ut vendat u r immutata
ve l mutata per al ios" ; 4) "ut carius vendatur". Faltando uma destas q u a­
tro condi ções, já não temos negociação no sentido estrito, a mercâ ncia.
A "n egotiatio" ou negoc iação, os Autores dividem em : negociação
industrial, negociação econ ômica, negociação política e cdmbio.
Chamam de negociação industrial em sentido estrito : comprar coisas
com a i n tenção de as vender mais caro, depois ele terem sido tra nsforma­
das ou melhoradas por operários contratados para êsse fim. E' ainda ne­
gociação industrial, mas em sentido l ato, quando a coisa ven dida fôr mu­
dada por si mesma, ou pela i ndústria e arte do próprio clérigo, ou enfim
por meio de operários, mas tratan do-se de coisas não compradas e sim
pertencentes ao mesmo clérigo.
Chamam de negociação econômica a pru dente administração dos pró­
prios bens, como a exerce u m bom pai de família.
Dizem negociação política, se é feita sem lucro pessoal para o bem
público da aldeia, paróqu ia, colégio, etc.
Câmbio sign ifica negociar com dinhe i ro.

Qual a Negociação Proibida aos Clérigos ?


E' proibida a o s clérigos, p e l o cânon 1 42, exercerem a negociação em
sentido estrito, isto é, a negociação lucrativa, a mercância. Pois é esta
a negociação no sentido canônico : "al iquid emere ut i mmutat um carius
Revista Eclesiástica Brasilei ra, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 1 39

vendas" (D ' A n n i b a 1 e ) . Faltando uma das quatro condições acima ex­


plicadas, já não se trata desta negociação proibida. .
E' proibida, outrossim, aos clérigos a negociação industrial em sentido
estrito : comprar coisas com a intenção de as vender mais caro depois de
terem sido mudadas por operários contratados para êste fim. Estas duas
espécies de negociações, os clérigos estão proibidos de exercer não por
si mesmos, mas também mediante outros, como sej am sócios ou simples
empregados. NB. V e r m e e r s e h - C r e u s e n adverte, com relação à
negociação industrial, que não podem ser taxados de operários os alunos
que são instru ldos por clérigos ou religiosos nos vários oflcios, ainda que
paguem aos alunos-operários um módico salário. · Por isso os artefatos,
feitos pelos alunos-operários, podem ser vendidos. esse lucro então é com­
parável ao lucro de outros colégios ou escolas, podendo ser considerado
como justa renda do magistério.
Quanto à negociação politica, convém distinguir. De per si a negocia­
ção polftica que, como acima ficou dito, é feita sem lucrQi,Pessoal para
o bem público, é proibida aos clérigos e religiosos, por não ser compatl­
vel com as demais obrigações do seu estado. Entretanto há exceções ; é
licita aos clérigos, quando uma causa urgente de piedade e caridade o
aconselhar. Assim declarou a S. Congr. do Concilio aos 1 4 de maio de
1 825 : "Possunt autem clerici pro ecclesia, orphanis, viduis, pupillis, pau­
peribus administratorum munere non tantum licite, sed etiam laudabiliter
fungi, atque interdum negotiationem exercere." (Cfr. P r u e m m e r, Ma­
nuale /. C., n. 7 1 , pág. 98. ) Mas para que os clérigos em tais circunstân­
cias e casos possam agir com segurança, devem antes obter a licença do
Sr. Bispo, a qual não é propriamente uma dispensa e sim tem fôrça de
uma sentença declaratória.
V e r m e e r s c h - C r e u s e n escreve ainda com relação a esta ne­
gociação política que deve-se tomar em consideração de que modo e para
que fim é feita, declarando que, se o fim não é propriamente o lucro e
nem al heio ao estado clerical, não parece ser proibida. Por esta razão,
diz êle, não devem ser taxados de exercerem um negócio lucrativo (nego­
titiatio qurestuosa) os clérigos que vendem aos escolares os livros e de­
mais utensílios ; nem os que em l ugares de peregrinações vendem aos fiéis
obj etos de piedade : imagens, estátuas, terços, etc. O lucro módico que
com isto percebem, é uma justa compensação pelo trabalho, pelas despesas
do transporte, etc.
Em complemento acrescentamos o caso seguinte, resolvido pelo Pe.
V e r m e e r s c h na Perio dica, 1 933, pág. 2 1 0 : " Licetne Rectori sodalitii
lucru m rationabile percipere ex venditis insign ibus sodalicii, qure ipse
magna copi a a fabricatore coemerit ; idque eo fine ut ex obtento lucro
opera sodalicii promoveat : li bellos pios edendo, compensando expensas bo­
norum tempora l i u m sodalicii, solvendo stipendia pro missis in suffragium
vel bonum sodalium viventium vel defunctorum? - Resp. ld ipsi licere
arbitramur, maxime si aliquis Episcopi assensus accesserit. Etenim :
a) l n curanda insignium confectione, in iis magna copia coemendis,
operam personalem adhibuit, in aliquod periculum init : qure digna sunt
mercede quam, sub form a lucri, percipiet.
b) Prreterea mos est ut coemens res magna copia, mi nore pretio eas
sibi comparet quam quod alter, pro singulis corporibus, solvere deberet.
Lucrum istud censetu r coemens sibi servare posse. Emptione ista supplevit
incommodum quod singuli ferre deberent, si pro se qu isque mercatorem
adeundem haberent.
1 40 Assu ntos pastorais

c) Accedit quoque usus, u t dixi mus in Theol. mor. 1 1 1 , 2 1 , 4: "ln re­


rum autem pretio, tum honesta laboris . remunerat! º• tum fenus pec � nlre
insu mptre tum pericu l u m quoddam damm computari possunt. - lta f1t ut

usus sati generalis i nva luerit apud clericos et religiosos vendendi cum ali­
quo lucro obiecta devotionalia , ad ingressum ecclesire exposita. Lucro isto,
labor, periculu m damni e rebus non venditis, fenus pecunire qua emptre
sunt compensatur."
Non decet tamen ut propri u m negotiantiu m lucrum percipiatur, ne ho-
nestiore prretextu palliata n eg otiatio qurestuosa exerceatur.
Addimus id maxime licer e, si Episcopus rei assentiatur, expresse vel
tacite. Negotiati o e n i m ista valde similis est sic d i ctre negotiationi politi­
cre, qua res emuntu r pro bono communitatis vel exercitus. jam vero vigi­
lantia Episcopi honestati modi et moderation i lucri cavebit."
Não é proibido aos clérigos :
t ) Exercer a negociaçcío econômica. Esta não só não lhes é proibida,
mas até lhe�l' é imposta como uma obri gação. A êsse respeito esc reve
P r u e m m e r ( Manuale ]. C., n. 7 1 , pág . 98) : "Negotiatio reconomica
clericis et religiosis lic ita est. Unde ex. gr. clerici vel conventus religiosi
agricultu ram vel vineas possidentes l icite possu nt ( etiam ope famulorum
srecu lari u m ) fructus colere, bestias nutrire, etc . , i l laque postea bono pretio
vendere. Ratio est, q u i a talis modus agendi non negotiatio proprie dieta,
sed potius admin istratio licita, immo prrecepta, rei domesticre aut bono­
rum ecclesi asticoru m. - Attamen negotia et pacta semper transigenda
sunt cum decore status clericalis vel religiosi, non more srecularium et j u­
dreoru m, et imprimis vitanda est species avaritire vel n i m i a competitio atque
remulatio cum mercatoribus laicis." Além dessa regra geral, vamos dar
alguns casos particu lares. E' lícito aos clérigos :
2) Vender os frutos de seus campos, embora melhorados e mu dados
por operários contratados para êste fim ; por exemplo, vender o vinho
feito de uvas da própria vinha mediante operários. ( V i de supra as 4
condições. )
3 ) Exercer uma arte consentânea ao seu estado e vender os a rte­
factos, podendo para isto comprar a matéria prima. ( V i d e as 4 condições. )
4) Comprar a n i mais, gado, etc., e refazê-los em seus campos para
vendê-los depois. V ender as crias, o leite, a lã, etc. - Com respeito a ês­
tes pon tos escreve D ' A n n i b a 1 e ( I l i, 1 55, nota 5 et 9 ) : "Quamobrem
licet mustum emere u t v i n u m factum, oves u t postea sagi n atas vendas, et
saginatas sive ex fuis pascu is sive ex fructibus emptis. Licet vendere ex
panno vel ligno emptis confectum a te vestimentum aut vas. Licet emere
prredia, ut fod inas in eis existentes exerceas, i nstitu as, etiam ope aliorum"
( S . Alf. n . 835 ) . - Quanto ao último ponto dizem os autores que, se o
clérigo comprar terrenos onde possam existi r tais m i n as de ferro, de ou­
t ros metais, etc. , para as explorar por grande número de operários, poderá
isto fàcilmente ser considerado como uma espéci e de negociação i n deco­
rosa, que não convém aos clérigos, sendo por êste motivo proibida. ( C i r­
ca fodinas cfr. Periodica, 1 926, pág. 1 50 ; c aso particular, na terra das
missões. )
5 ) Comprar certos obj etos para uso próprio, e depois vendê-los, pôsto
que o preço sej a au mentado. E isto não somente em se tratando de coisas
supérfluas, como também porque se-lhe oferece boa ocasião de ven der
estas coisas com lucro, ainda que tenha já a i ntenção de comprar depois
para si coisas semelhantes por u m preço mais barato. A razão, em todos
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 141

êstes casos, é porque o clérigo não compra estas coisas com a intenção
inicial de as vender depois. (S. Alf. n. 836. )
6) Comprar certos gêneros por um preço barato em tempo de far­
tura para vendê-los em tempo de escassez, pelo mesmo preço, aos amigos,
parentes e pobres ; ou também vendê-los mais caro, contanto que o ex­
cesso no preço sirva para compensar as despesas de transporte, conserva­
ção, etc. , pois neste caso não se pode falar em negociação lucrativa.
7) Vender pelo preço corrente o bjetos recebidos de presente ou por
um preço módico em atenção à própria pessoa.
8) Segundo a opinião comum dos autores, não é proibida aos clérigos
a negociação propriamente dita, quando essa se torna necessária para o
sustento do próprio clérigo e o dos seus ; devendo-se isto entender mais
provàvelmente do sustento necessário em relação à condição social do seu
estado. (S. Af. n. 837.) Mas para êstes casos deve o c lérigo ter licença
do Ordinário.
NB. Se um clérigo ficar, por herança, proprietário de4Jt1 ma casa de
comércio de que não possa desembaraçar-se logo sem grave prej u ízo, po­
derá temporàriamente conti nuar a exercer tal negócio mediante outras
pessoas mas com a devida licença do Ordinário, que determinará o prazo
de tempo. A êste ponto acrescenta G é n i e o t ( Th. Mor. n. 39) : "Attamen
ob consuetudinem videtur l icere ut, si clericus una cum fratribus succedat
in negotia paren t11m, ea per alias gerere pergat." (D' Annibale, 1 1 1 , n . 1 56,
nota 1 2. )
9) Nesta altura convém tratar da questão, s e aos clérigos é licito ou
não comprar "ações" e "obrigações" das sociedades industriais e co­
merciais.
"Obrigações" são títu los de capital emprestado a uma sociedade e pe­
los quais o possuidor adquire o direito a certos j u ros segu ndo uma tabela
fixa, até que o capital emprestado lhe sej a restituldo. Os possuidores de
"obrigações" são credores de tais sociedades e chamam-se obrigacionistas.
"Ações" são títulos representativos de capital emprestado a uma so­
ciedade, pelos quais o possuidor vem a fazer parte de companhia ou so­
ciedade comercial ou industrial, com direito a um emolumento variável
("dividendo" ) , conforme o lucro, verificado no balanço. Os possu idores de
tais "ações" são sócios (mas não necessàri amente administradores) de tal
sociedade e chamam-se acionistas.
Ora, segu ndo a opinião comum dos Autores, é lícito aos clérigos co­
locar o seu dinheiro em "obrigações" de qualquer sociedade honesta, con­
tanto que se trate de dinheiro próprio.
Relativamente às "ações" há controvérsia entre os Autores sôbre se
é l ícito comprar "ações" de tôdas as sociedades, porque várias exercem
negoci ações proibidas aos clérigos. Podemos dizer o seguinte : Todos
afi rmam ser l icito aos clérigos comprarem "ações" de sociedades estrita­
mente industriais. A divergência entre os Autores se refere, portanto, so­
mente às sociedades com erciais. Enqu anto nos consta, a S. Sé até agora
não deu nenhuma decla ração que definisse esta questão. Nos esquemas
preparatórios, o cânon 1 42 tinha um § 2, do teor segui nte : "Licet tamen
clericis obligationes vel actiones societatum i ndustrialium vel commercia­
lium aut arcarum publicre util itati inservientium emere, dummodo ere socie­
tates nullum habeant propositum finem illicitum vel quomodoli bet suspectum
neque clerici i isdem actionibus aut obligationibus negotiationem exerccant."
(Cfr. M a r o t o, Inst. ]. C. n. 572, pág. 657.) Como êste pa rágrafo foi
1 42 Assuntos pastorais

propositadamente omitido na edição oficial do Código, em virtude de an­


teriores decisões da S. Sé podemos dizer o seguinte :
E' licito aos clérigos comprarem "ações" de sociedades,
a ) quando se trata de sociedades com fim honesto ;
b ) quando os clérigos não tomam parte na gerência de tal sociedade
como presidente, secretário, tesoureiro, etc., a não ser que tenham obtido
a devida licença segundo as normas do cânon 1 39 ;
c ) quando compram "ações" com dinheiro próprio e não com dinheiro
que tomaram emprestado, porque neste caso haveria negociação lucrativa ;
d) quando compram tais " ações" sem a i ntenção de as vender mais
caro n a bôlsa, à maneira de outros negociantes de comércio. Podem, en­
tretanto, também os clérigos, - se inicialmente não tiveram a intenção
de as vender mais tarde -, vendê-las em ocasião favorável, servatis de
iure servandis, para as colocar em outros títulos igualmente frutíferos e
segu ros. Cfr. Resp. S. C. I nq. 1 5 apr. 1 885 : " I uxta exposita et attentis
peculiaribus � mporum circumstantiis personas ecclesiasticas non esse in­
quietandas, s1 emeri nt aut emant actio11es seu titulas mensre nu mmularire,
dummodo paratre sint stare mandatis S. Sedis et se abstineant a qualibet
negotiatione dictarum actionum seu titulorum et prresertim ab omni con­
tractu, qui speciem habeat, ut vulgo dicitur, dei giuochi di borsa", etc.
(V ide apud W e r n z - V i d a 1, Jus Can . I I , n. 1 28, nota 42. )

Resposta à Consulta.

Resposta à Consulta. - Dadas estas explicações, podemos agora


responder aos três pontos da consulta.
A d / u m . : " Estará êste sacerdote violando o cãn. 1 42?" - Resp. Não.
O sacerdote no caso não exerce nenhum comércio ilícito aos clérigos,
procede apenas como um bom pai de família, exercendo com tino e pru­
dência a negociação econômica, que aos clérigos é licita ou até precei­
tuada. A única condição é que o sacerdote não se dedique demais a estas
negociações com prej uízo dos seus deveres de estado, e que não dê es­
cândalo pelo modo pouco clerical, com que administra a sua chácara e
vende os seus frutos.
Ad 2um . : "Pode o sacerdote adquirir terras em seu nome e vender o
fruto dessas terras no mercado a revendedores para o público?" - Resp.
Provisu m in l .º
·

Ad 3um . : "Pode o sacerdote secular receber e administrar bens que


recebe por herança?" - N. No caso de se tratar de uma casa de n egó­
cio no próprio sentido da palavra, pode o clérigo somente temporàriamente
e com a l icença do Bispo exercer tal negociação por i ntermédio de outras
pessoas, se não puder logo vender a casa sem grave prej u ízo. Em se tra­
tando de outros bens, o clérigo naturalmente os poderá administrar.
Frei A 1 e i x o, O. F. M. ( Petrópolis. )

Pequenos Casos Pastorais.

Validade das Eleições. -Numa certa diocese, uma Ordem Terceira


tinha faculdade de escolher o comissário por meio de eleição. Eis que
tendo vagado êste cargo, reu niram-se para eleição do novo comissário
quarenta eleitores, e, no primeiro escrutínio, ficou eleito com trinta e cin­
co votos o Padre Torru b iano. Mas houve uma i rregularidade, porque de­
ram votos dois eleitores que eram réus do crime de duelo. - N a me s ma
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diocese, uma certa corporação tinha d i reito especial de escolher por elei­
ção o pároco do l ugar, onde estava estabelecida. Tendo falecido o páro­
co, reu n i ram-se os eleitores, e foi escolhido, observadas as normas j u rí­
dicas, o Padre Zigu. Mas dias antes os eleitores an daram dizendo qual 0
candi dato de cada um, de sorte que o povo já esperava a escolha do
Padre Zigu . - Teriam sido vàli damente eleitos êstes dois sacerdotes, con­
forme as normas do Cód i go ?
Resolução . - Eleição eclesiástica, n o sentido lato, significa qualquer
designação legitima de u m a pessoa para u m oficio eclesiástico. No sen­
tido estrito é a escolha canônica de uma pessoa idônea para um oficio
vacante, por meio de pessoas que têm direito de dar votos. Diz-se escolha,
porque o eleito depois deve receber a provisão da autoridade competente
e não a obtém só pela eleição, salvo determi nação em contrário. Três
são as formas de eleição aceitas pelo Código : por escrutínio, por com­
promisso e por quase inspi ração. O primeiro modo consiste em que as
pessoas competentes dêem votos, e se torna eleito o que 4'\lJ tém n ú mero
legal de votos. Dá-se o segundo modo quando as pessoas, a quem as­
siste o d i reito de eleger, entregam seus direitos u n â n i memente a certos
varões idôneos, que, em nome dos eleitores, fazem a escolha da pessoa
para o benefício. O terceiro modo se dá, quando os eleitores, sem prévia
combin ação, sem nenhuma contradição, como que i nspi rados, unâni me­
mente concordam em admitir tal pessoa determi nada. Bste (1 ltimo modo
de eleger, só é aceito pelo Código n a eleição do Romano Pontífice ; dos
outros dois modos, o primeiro é o mais usado. O costume de fazer elei­
ção data dos primeiros tempos da I grej a, entrando antigamente, muitas
vêzes, os simples fiéis em eleições. Bste costume passou por várias modifi­
cações, e foi, pouco a pouco, restringido. Pelo direito comum, a eleição
mais i mportante é a do Sumo Pontífice, cujas normas se acham n a cons­
tituição Vacan te Sede de Pio X; existe ainda a eleição do vigário capitular
e a do ecônomo, sede vacante, a dos abades e superiores de ordens e de
congrega Ç ões, quer de homens, quer de mulheres. Relativamente à no­
meação de Bispos, cônegos, capelães, etc., não se prescreve eleição ; em
vários lugares porém existe em virtude de d i reito particular.
P assemos a examinar as determin ações do Código, que possam ter
aplicação ao caso presente em matéria de eleição. Podem dar votos os
membros de corporações a quem assiste o direito de eleição, com exceção
das pessoas a quem o Código tira êste direito. Estas são : a ) as pessoas
incapazes de ato humano, como as inteiramente patetas, malucas, etc. ; b)
as impú beres ; e) as i nfames ou l i gadas por censu ra, mas só depois da
sentença declaratória ou condenatória ; d ) as que se alistaram em seita
herética ou cismática ou que pitblicamente lhes aderiram ; e ) as que re­
ceberam a pena de privação de voz ativa, quer por sentença do j uiz, quer
por determinação do direito comum ou particular (cfr. Código, e. 1 67 § l ) .

Se alguma pessoa excetuada votar assim mesmo, o voto fica nulo,


mas a eleição é váli da, se houver n ú mero suficiente, ti rados os nu los.
Fica porém nula se dentemente fôr admitido u m excomungado, depois
de sentença declaratóri a ou condenatória (c. 1 67 § 2) . Para o exercício
do direito de votar exige o Código que os eleitores estej am p resentes,
no lugar próprio para a eleição, não sendo aceito, salvo algum privilégio,
voto mandado por carta ou procurador. Admite-se como válido o voto de
um que, n a própria casa d a eleição, detido por enfermidade não pode
assistir à sessão ; neste caso, dois escrutinadores vão tomar a cédula e a
aj untam com as demais. Exige o Cód igo que sej am convocados para a
1 44 Assuntos pastorais

eleição todos os qu e têm d i reito d e vota r ; se houver omissão n a con­


vocação de m a i s de u m têrço dos eleitores, a eleição se torna n u l a . Se
houver o missão d a convocação de um o u outro, vale a eleição, mas o não
convocado, n o espaço de t rês d i as a datar d a notícia recebida de se ter
realizada a eleição, pode impugná-la e obter a s u a a n u l ação. O defeito
da omissão da convocação pode ser sanado c aso os não convocados com­
pareçam (c. 1 62 § 4) .
P a ra o valor do voto exige o Código as seguintes condições : a ) deve
ser l ivre excluldo o mêdo grave o u o dolo, que force o eleitor a escolher
uma o u várias pessoas determin adas ; b) deve ser secreto, por isto não se
admite votação de viva voz ; c ) deve ser bem determinada a pessoa es­
colhida, não sendo válido o voto q u a ndo o nome escrito na cédul a é am­
'bíguo ; d ) não deve o voto ser alternado, mas deve só versar em determi­
nada pesso a ; e) deve sempre o voto ser para outro, porque votar em
si supõe detestável presunção.
Não h�ndo determi n ação especial, o Código concede o prazo d e
três meses a d a t a r d a vacância do ofício para q u e se faça a eleição ;
passado êste prazo sem que esta tenha sido feita, o Superior pode con­
feri r o ofício vacante de um modo l ivre, isto é , i n dependente d a eleição.
Notemos porém que o Código diz tempo útil ; esta expressão significa que
se o atraso d a eleição é devido a graves i mpedimentos, por exemplo : re­
vol uções pollticas, etc . , terminado o prazo ainda assiste aos eleitores o
d i reito de realizar a eleição.
P rescreve também o Código que para a eleição se empreguem a o me­
nos dois escrutinadores, tomados do corpo dos eleitores, mas não existe
forma determ i n ad a para a s u a escolha ; pode se segui r qualquer praxe, mas
é necessário que prestem j u ramento de cumprir o seu ofício e de guardar
segrêdo. E' ofício dos escrutin adores receber as cédulas, contar, examin á­
las e apura r a eleição, deven do logo ser q ueimadas as cédulas. Rece­
bidas as cédu las, a primeira coisa a fazer é examinar se o seu n ú m e ro
corresponde ao nú mero de eleitores. C aso o n ú mero de cédulas exceda
. o dos eleitores presentes, o escrutínio é nulo e por isto deve ser reite­
rado. Verificada esta prescrição é preciso examinar quem obteve n úmero
.de votos para q u e possa ser considerado e leito. No primeiro escrutínio,
considera-se e leito o q u e o btém nú mero maior absoluto de votos ; o mesmo
se diga do segu ndo, caso n o primeiro não se tenha obtido u m t a l n úmero.
No terceiro escru tínio já basta u m n úmero maior relativo, e se h o uver em­
pate, o presidente pode dirimir, caso o queira ; se não quiser, fica eleito
o mais antigo e m ordem, e m profissão religiosa o u e m idade. Por exem­
plo : se há doze e leitores, fica eleito em primeiro escru t l n i o quem o btiver
sete votos ao menos ; se ninguém obtiver êste n í1mero, faz-se u m a seg u n d a
tentativa ; se a i n d a f ô r inútil, n a terceira tentativa, suponhamos que u m
.obteve cinco votos, ou tro q u atro, outro três. Está e leito o q u e obteve c i n­
co, isto é, vigora a maioria relativa. H avendo empate resolve-se do modo
acima declarado. Esta medida, q uanto ao terceiro escrutínio, é para que
se evitem gran des demoras nas eleições.
Há u m c aso em que, embora as eleições tenham sido feitas conforme
as normas traçadas, a provisão dada ao eleito fica inteiramente n u l a ; é o
caso em que tenha havido simo n i a (c. 729 ) . N a eleição do Santo P adre,
sempre foi condenada a simonia. Mas quem estabeleceu que ficaria n u l a t a l
eleição foi o P a p a J ú l i o 1 1 ; mas c o m o explicam os canonistas, dever-se- i a
entender de u m a simonia p ú b l ica. Conforme porém a constituição em vi-
. gor, para a eleição do Santo P a d re, simonia não a n u l a a e leição. Esta
Revista Eclesiástica Brasi leira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 1 45

medid a foi tomada para que se evitem questões gravíssimas e dúvidas


acêrca do Romano Pontífice.
Para responder ao caso do primeiro eleito, é preciso saber se ao me­
nos algum dos duelantes tinha sido declarado excomungado pela autori­
dade legítima e se foi admitido à eleição, havendo conhecimento dêste
fato. No caso afi rmativo a eleição de Torrubiano ficou nula. Se tinha
sido declarada a sentença de excomu nhão, mas foram admitidos à eleição
por ignorância, a eleição não ficou nula, mas só i nválidos os votos. Não
ficou nula, porque tirados êstes dois votos inválidos, Torru biano ainda
teria número de votos absolutamente maior, isto é, mais da metade. Se
não houve sentença declaratória, nenhu ma irregu laridade teria havido na
elei ção.
A respeito de Zigu, não há dúvida alguma a respeito do valor, pelo
motivo apontado. A obri gação do segrêdo para o valor, existi? só por
ocasião da eleição ; se antes os eleitores contam ao povo os seus respectivos
candidatos, a eleição não perde o valor. ( Cfr. Oietti, Comm. i !ptod. lib. sec.
p. 79. Wernz-Vidal, lus can. T. l i , n. 254. ) No entanto, a manifestação an­
tecipada dos candidatos pode ser ato de imprudência, e por direito par­
ticular, às vêzes é proibida debaixo de penas canônicas. - (Boi. Ecl.,
S. Paulo, maio 1 943. ) Mons. P r o c ó p i o d e M a g a l h ã e s.
Bandeiras ou Estandartes? - "As associações religiosas desta cidade
adotaram últimamente o sistema das "bandei ras'' , abandonando os es­
tandartes. Numa Festa realizada nestes dias, com a presença de tôdas as
associações, um Padre quis afastar o estandarte da Ordem I l i das se­
nhoras, no que não consenti. Venho apresentar à " Revista Eclesiástica" os
segu intes quesitos : 1 . Há uma determinação de autoridade competente
que manda substituir os estandartes por bandeiras? 2. N o caso afirmativo,
a Ordem I I I pode adotar também bandeira? Peço à REB uma orienta­
ção." - (P. L.)
Como primeiro fruto das nossas pesquisas através de livros e revis­
tas, podemos assinalar que a questão até agora quase n ão foi estudada
pelos canonistas e moralistas ou outros escritores eclesiásticos. Somente
em V e r m e e r s e h - C r e u s e n (Epitome, 1 1 , n. 49 1 ) encontramos a se­
gui nte nota : "De vexillis optimam habes lucubrationem qure, nondum vi­
gente Codice, vulgata est in " Revue d'organisation et de défense religieu­
se", 1 9 1 3, 590. Cfr. "Ami du Clergé", 1 4 aout 1 9 1 3. " Que sirva esta nota
aos leitores que têm a fel icidade de possui r as revistas mencion adas.
Devemos contentar-nos em basear a nossa resposta sôbre a única de­
termi nação da autoridade eclesiástica que encontramos, a única determi­
nação, digo, que diretamente se refere ao assunto em questão, e que
é a seguinte : "Prreferatur Crux, et, ubi viget consuetudo, v exillum sacris
imaginibus i nsignitum, n o n tamen factum militari seu triangulari forma."
( Rit. Rom. tit. IX, e. 1 . n. 5-D . 1 538, 1 . )
Os pouquíssimos autores que tratam do assunto, geralmente conten­
tam-se em trazer êste texto do Ritual Romano, parafraseando-o com algu­
mas explicações e notas históricas. Assim, por exemplo, B r a u n, S. ].,
flandbuc/z der Param entik, pág. 27 1 ; H a r t m a n n, Repertorium Rituum,
1 1 , pág. 693 ; B u e h b e r g e r, Lexicon fuer T/zeologie wul Kirch e, tom.
I l i, pág. 939 ; C o p p i n - S t i m a r t, Sacrre Liturg. Comp., n. 741 ; Frei
B a s í 1 i o R o w e r, O. F. M., Dicionário Litúrgico ("Vozes de Petrópolis",
1 9 28 ) ; Kirchenlexikon, de W e t z e r e W e 1 t e s, 1 886.
B u e h b e r g e r, "Lexikon fuer Theologie und Kirche" traz um artigo
10
1 46 Assuntos pastorais

de J. B r a u n que escreve por exemplo : "O vexilo (vexillum, signu m )


eclesiástico ( religioso) , segu ndo uso antiquíssimo, deve t e r a forma d e
cruz, i s t o é, deve constar de uma haste principal, encimada por u ma cruz,
e u m pouco abaixo desta cruz u m a verga horizontal em que está p rêso
o pano. Bandeiras para agitar (Schwenk-Fahnen ) e estandartes ( d a ca­
valaria) não são bandeiras eclesiásticas. Rit. Rom. I X. 1 , 5."
O " K i rchenlexikon" de Wetzer und Weltes distingue bandeiras de
I grej a e bandeiras de guerra ou simplesmente bandeiras profanas, não
religiosas d a maneira seguinte : "Bandeiras da Igreja ( em nossa língua
"estandartes" ) são aquelas já acima descritas em forma de cruz, nas quais
o pano, ornado de imagens de Santos o u emblemas religiosos, está prêso
n u m a verga horizontal ; e que, segundo a descrição de Eusébio, parece ser
uma i mitação do "Lábaro" de Constantino que, em sua forma essencial,
era igual aos nossos assi m chamados estanda rtes. Bandeiras de guerra
ou simplesmente profanas, civis são aquelas em que o pano está p rêso
d iretamente� a parte superior de u m a haste, tendo sido i ntroduzido êste
costume, co mo afirmam Mueller e Mothes ( A rchaeol. Woerterbuch s. v.
Fahne) , no ano de 820 pelo I mperador Leão de Bizâncio." Depois continua,
dizendo : " O Rit. Rom. prescreve a forma antiga, isto é, o vexilo q u e
t e m a f o r m a de cruz'', quer dizer : os nossos estandartes. " N a A lemanha,
porém, conservou-se o costume de certas associ ações, ao lado dos estandar­
tes, adotarem também nas procissões as bandeiras introduzidas pelo I m­
perador Leão, isto é, bandeiras com o pano p rêso na parte superior d e
u m a haste. í:: s te costume observou-se n ã o s ó n a s associações q u e , como
a . I rmandade de São Sebastião, mostram em certo sentido um caráter guer­
reiro, mas até nas Congregações Marianas. A o rigem dêste costume data
talvez daquele tempo em que as associ ações religiosas t inham ao mesmo
tempo certa i mportância na vida civil, e as associações profanas e civis
um caráter religioso. Pode ser também que desta maneira q uisessem ex­
primir mais evidentemente que eram membros da I grej a m i l itante."
Explicação dos têrmos. - Para que n i nguém entenda mal as nossas
conclusões, precisamos avisar que não é unânime e u n ívoco o emprêgo
das palavras " bandeira" e "estandarte" entre os autores e n as d iversas
l ínguas.
O têrmo "estandarte" , salvo engano, vem da palavra i nglêsa "standard"
que significa " bandeira m i l itar dos corpos de cavalaria." O "Dicionário
I l ustrado" de J a ime de Ségu ier traz uma estampa desta bandeira m i l itar
dos corpos de cava laria ; está prêsa na parte superior de uma haste e tem
a forma triangular.

Outros dicionários da língua po rtuguêsa dão às palavras " bandeira" e


"estandarte" as seguintes i nterpretações : "Bandeira : Pedaço de pano de
uma ou mais côres, e às vêzes com legendas e emblemas pintados, prêso
na parte superior de uma haste, de modo que possa desenrolar-se e flutuar,
servindo de distintivo de u m a n ação, corporação o u partido, o u para fazer
sinais ; estanda rte ; pavilhão.
- Estandarte : I nsígn ia o u bandeira de algumas
corporações e comun idades religiosas o u confrarias, n a qual está rep resen­
tada a i magem de Cristo o u da V i rgem, o u a do Santo d a sua i nvocação."
Qual é agora o vexilo apro vado pela uso e prescrito pela Igreja ? -

Como ficou dito acima, o Rit. Rom. determina, em virtude d u m decreto


da S. Congregação dos Ritos (D. 1 538, 1 ) : " Prreferatur Crux, et, ubi
viget consuetudo, vexillunz sacris imaginibus insignitum, non tamen f actum
militari seu triangulari forma." Todos os autores acima mencionados con­
cordam em afirmar que os n ossos estandartes são o vexilo religioso apro-
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 1 47

vado pelo uso e pela autoridade eclesiástica, e, como Oti mamente, 0 des­
creve Frei B a s i 1 i o R õ w e r em seu "Dicionário Lihhgico" : "Estandarte
Religioso (vexillum, fano) - pano quadrado ou quadrilongo de uma ou
mais côres, às vêzes ricamente bordado ou pi ntado com legendas, emble­
mas ou imagens de Santos, inteiro ou recortado na orla inferior, armado
numa v erga horizon tal, que, p rêsa na vara, forma uma cru z . - Representa
o estandarte a Cristo em seu triunfo ou os Santos na glória. (NB. Cristo
ressuscitado e triu nfador é sempre representado com tal estandarte na
mão . ) Por isso são levados nos p réstitos religiosos solenes e são empre­
gados também para enfeitar os altares, sendo colocados ao lado, e as
igrej as . . . " N B . Quando se benze o vexilo, a bênção cai sôbre a cruz pela
qual é encimada a haste principal e sôbre a imagem do Santo ; o pano
não é bento.
Concluscío . - Escreve o consulente : "Adotaram aqui ultimamente o
sistema das bandeiras, abandonando os estandartes." Para dizer a ver­
dade, a nós parece pouco conforme com o uso e espírito cj,'? lgrej a êste
afastamento dos estandartes, para i ntroduzir o sistema das bandei ras. Por
isso duvidamos seriamente que a Santa Igrej a i rá aprovar êste novo cos­
tume, novo, pelo menos, em muitas partes do orbe católico.
Frei A 1 e i x o, O. F. M.
Batismo sob Condição. - Há muito desejava fazer a seguinte consul­
ta à REB : Sempre duvidei do Batismo administrado em casa. Por aqu i o
povo tem receio, graças a Deus, de deixar as crianças sem o Batismo ;
por isto, havendo qualquer perigo, batizam em casa. Mas a maioria não
batiza direito. Quase sempre é a fórmula que é truncada. Quanto à ma­
téria, não sei . . . Pergunto : l .º Deve-se batizar sempre sob condição tais
crianças batizadas em casa por pessoa leiga? Tanquerey diz "generatim"
deve-se batizar sob condição. Qual é a extensão dêste "generatim"? 2.º E'
necessário dizer sempre "si non es baptizatus . "? -
. .

Que os fiéis, conhecendo a necessidade p remente do batismo, não


queiram deixar morrer as crianças sem êste sacramento, mas em qualquer
perigo êles mesmos o administrem, não é só louvável, mas até expressa­
mente previsto e recomendado pela legislação eclesiástica. Reza, por exem­
plo, o cânon 742, § 1 : "Baptismus non solemnis, de quo in can. 759, § 1 ,
potest a quo vis ministrari, servata debita materia, forma et intentione."
O cânon segu inte, como também o decreto 1 68, § 2 do Concílio P lená­
rio, admoestam os sacerdotes, sobretudo os párocos, que ensinem aos fiéis
o método de batizar vàlidamente segu ndo a instrução publicada no Apên­
dice do Cone. Plen. (Appendix XXl l I ) . O mesmo decreto, como também
« antiga Pastoral Coletiva, i mpõem aos párocos o dever de designar nos
lugares remotos u m leigo bem i nstruído que possa administrar o batismo
a crianças e adu ltos não batizados em perigo de morte (a Pastoral Co­
letiva dizia até "em qualquer perigo e doença, ainda que leve". ) Em 1 788
a S. Congregação de P rop. da Fé louvou o procedimento de certos mis­
sionários que nas regiões das missões designavam catequistas ou outras
pessoas leigas prudentes para que batizassem tôdas as crianças de famílias
cristãs, ainda que não estivessem doentes e em perigo de morte. Tudo isto
nos mostra que o nosso povo procede em conformidade com o espírito da
Santa I grej a, quando assim batiza as crianças em perigo de morte, ainda
que o perigo não sej a grave. Tôda cautela é pouca neste ponto. De outro
lado, os párocos e pregadores deveriam talvez com mais i nsistência reco­
mendar a êste mesmo povo o parágrafo 1 .º do decreto 1 68 : "Parochi et
10*
1 48 Assuntos pastorais

concionatores ad normam canonis 737, frequenter fideles commoneant,


Baptismum esse Sacramentorum ianuam ac f u n damentum, omnibus i n re vel
saltem i n voto necessa rium ad salutem, eiusque collationem 11 0 11 esse ultra
decem dies diff erendam . " Porque muitas famílias, por motivos 1 ealmente
'fÍlteis, ainda adiam a admin istração dêste sacramento tão necessário.
Para q u e o batismo sej a válido, deve ser administrado, como diz o
cânon c itado, "servata debita materia, forma et i ntentione." E com razão
opina o consulente q u e os lei gos erram muitas vêzes e sobretudo n a p ro­
nu nciação da fórmula, não se sabendo depois, se o b atismo foi vàl i damente
administrado o u não. Por isso desej a saber se é necessário batiz<:r sempre
sob condição estas crianças e qual o sentido d a p a l avra " generatim" em­
pregado por Tanquerey. - Resp. Os n ossos Exmos. Srs. B i spos, reunidos
n o Cone. P l e n . , já deram uma resposta mu ito clara a esta pergunta, pelo
decreto 1 69 : " § 1 S i i nfans, u rgente n ecessitate, a laico fuerit baptizatus,
parochu s de Baptismi validitate d i l i genter i n q u i rat, e u n dem laicum p rreser­
tim interropns, q u o modo Baptismum m i nistraverit. § 2 l n dubio B aptis­
mum s u b conditione renovet ; si vero n u l l u m adsit de validitate dubium, c re­
remonias i n ecclesia vel i n publico o ratorio, licet fonte baptismali carente,
q u amprimum suppleat." P ortanto, sempre que não se consegue certeza
moral sôbre a validade do batismo, deve-se batizar tais c r i anças sob con­
dição. E , por ser raras vêzes que o P adre consegue tal certeza moral,
diz Tanquerey " generatim" deve-se batizar sob condição.
Em segu ndo l u g a r desej a saber o consulente, se é necessário em tais
casos p rofer i r sempre as palavras "si non es baptizatus" . - Resp. D eve-se
p ronunciar por palavras a condição naqueles sacramentos para os q u a is
as rubricas prescrevem a condição pronunciada ; o que se verifica n o
batismo, cuj a fórmu l a condicional é segu ndo as ru bricas : "si non es
baptizatus . . . " ; e na extrema-unção, onde a rubrica reza : " S i vivis, per
istam sanctam Unctionem . . . " N a t u ralmente, se o m i n istro n ã o p ·o n u n c i a r
a c o n d i ç ã o por palavras, o sacramento por isso não fica i n v á l i d o . Nos
demais sacramentos, quando admin istrados sob condição, basta a condição
mental . O o b a t e outros a u to res j u lgam até ser suficiente a condição
virtual e implícita, como a tem o min istro que p retende administrar os
sacramentos segundo a intenção d e Cristo o u d a Santa I grej a.
Pe. H. B o r g e s .
O Confessor e a Obrigação de Interrogar. - Um sacerdote e con­
fessor sabe, pelo convívio social, q u e alguém tem sérios e graves defeitos ;
mas quando essa pessoa se vai confessar, não declara isso. O P a d re é
obrigado a perguntar por aquêles defeitos graves dos q u a i s o penitente
se não acusa? (N. N.) - Essa dificuldade, p revista pelos moral istas e
elucidada no tratado sôbre o sacramento da Penitênci a, geralmente vem
explicada n o capítulo de o bligation e interrogandi pamitentes. N o 1 d i n
( I l i , De Sacram . ) fala desta dificu ldade em o n . 388, dando ao caso a
segu inte solução :
"Em geral, duvidando o confessor da sinceridade do pen itente e m
acusar os pecados, v a l e o princípio d o s moralistas : pamitenti credendum est
tam pro se quam contra s e loquenti. A razão é porque na con fissão o pe­
n itente é réu e testemunha, acusador e advogado n u m a e mesma pesso a ;
além disso p resu me-se ser o pen itente si ncero, caso não se p rove o con­
trário. Por conseguinte, o confessor poderá sempre absolver o pen itente,
conqu anto n ão saiba com certeza que se confessa sacrilegamente. Em es­
pécie se podem distingu i r as segui ntes h i póteses :
Revista Eclesiástica Brasilei ra, vol. 5, fase. 1, março 1 945 1 49

I .º Sabendo o confessor com certeza de que algum penitente cometeu


um pecado ( grave ) que não acusa e que, prudentemente i n terrogado nega
te r cometido, antes de tudo pondere bem o confessor, se não é admissível
u m a das segu intes hipóteses : o u o penitente ignora que aqu i l o sej a pecado,.
o u o esqu eceu completamente, o u já o acusou em outra confissão, ou tem
j usta causa d e omitir na presente confissão aquêle pecado. Ora, sempre
que se possa supor uma destas hipóteses, o penitente deve ser absolvido,
sej a donde quer que o confessor tenha a notici a do pecado ; pois : prenilenti
aedendrwz est.
2. 0 Se n a d a daquilo se possa supor, o penitente deve ser tratado se­
gundo a diversidade da fonte, donde o confessor hauriu o. seu conhecimento :
a ) Se teve con hecimento do pecado fora ela confissão pela n a rração
de outras pessoas, o penitente deve ser diligentemente examinad o sôbre
tal pecado ; mas negando tê-lo cometido, deve ser absolvido. Pois o confes­
sor deve antes acreditar ao penitente do que a o utras pessoas q ue se
podem ter engan ado. S. A f o n s o, contudo, o p i n a que, se é� oralmente
certo d e q u e os outros não se engan aram, também possa � er negada a
absolvição n o caso.
b ) Se o confessor teve con hecimento do pecado fora da confisscio por
própria experiência, porque viu, por ex., com os próprios olhos o penitente
cometer o pecado, deve convencê- l o do pecado. Se, não obstante, o peni­
tente conti n u a a negar afoitamente, não pode ser absolvi do como sendo
i ndisposto.
c) S e o P a d re teve notícia do pecado pela confissão do ct't mplice, só
pode fazer-lhe pergu ntas generalizadas, que faria a qualquer penitente em
semel hantes condições, a fim de n ã o se expor ao perigo de violar o sigilo
da Confissão. Se, contudo, o penitente não se declara réu de tal pecado,
deve-se-lhe d a r a absolvição, ao menos condicionalmente, contanto que o
penitente de resto estej a disposto. Omitir em tais casos a absolvição, sem
nada dizer ao pen itente, seria dissimulação ; avisá-lo da n ão-absolvição n ã o
p o d e s e r fe Íto s e m violar o sigilo, o u p e l o menos s e m se expor a t a l
perigo. P o r conseg u i n te, deverá o confessor e m t a i s casos proceder como
se não tivesse ouvido a confissão do c t'1 mplice." Pe. P . M o n t e i r o.
Indulgências e Comutação das Obras Pias. - Ao cânon 935 do Có­
digo ele Di reito Canônico muitos sacerdotes não dão a importà ncia que
merece. N o entanto, também êste cânon rec l a m a a atenção amorosa dos
m i n istros do Senhor, se aliás querem ser dispensadores zelosos e fiéis
dos mistéi"ios e graças d e Deus. Reza o mencionado cânon : "Pia opera
ad lucrandas i n d u lgentias i n i u nctas, confessarii possunt in a l i a commutare
pro iis q u i , legitimo detenti impedimento, eadem prrestare nequeant." E'
pois ao con fessor q u e compete comutar em o utras as obras pias prescritas
para ganhar as i n d ulgênci as. E os autores têm como certo que esta co­
mutação não precisa ser feita n o tribunal da penitência, na confissã o" ; basta
que o sacerdote tenha j u risdição para ouvir confissões e que "hic et nunc"
possa válida e licitamente ouvir a confissão d a pessoa, em cuj o favor
prete n d e fazer tal comutação. (V e r m e e r s c h, C a p p e 1 1 o, M e r -

k e 1 b a c h, A n 1 e r . . . )
As obras pias q u e . o sacerdote con fessor pode comutar são as assim
chamadas condições ordinárias, como sej a m : confissão, comu nhão, preces,
j ej u m , visita d a igrej a, contanto que esta estej a situada n o lugar ond�
a pessoa está morando. Pois não é p rovável que o Legislador, com o
p resente cânon, quisesse dar aos sacerdotes confessores a faculdade de
1 50 Assuntos pastorais

comutar em outras obras pias a romaria aos lugares santos de Roma


e da Palestina. Do contrário o sacerdote, pela comutação, poderia torna r
acessfveis a o s fiéis as indulgências de tôdas as igrej as do mundo i nteiro.
Dizem os autores comumente que o confessor não pode comutar
aquelas obras pias que su bstancialm ente atingem o o bjeto ou causa da
i n dulgência (sendo às vêzes bastante diffcil determi n a r o que faz parte
da substância da indulgência ) , como, por exemplo, a i ntenção, estado de
graça, uso de um crucifixo para rezar a via sacra, exerdcios espirituais
por causa dos quais a i ndulgência é concedida . . .
A comutação, está claro, só poderá ser feita em favor de pessoas le­
gitimamente impedidas para praticar a obra p i a prescrita pela lei. Além
disso é mais provável que o Legislador aqui só se queira referir a um
i mpedimento i ndividu al, ocasi onal, como doença, ocupação necessária, de
maneira que o confessor n ão pode, por ex., por comutação facultar às
monj as enclausuradas a i ndulgência de Porciúncula n a sua igrej a (cfr.
A n 1 e r, C'iBtes Pastoralis, pág. 2 1 7 ) . Se, certa i ndulgência, além das pre­
ces, exige qualquer ato corporal (p. ex. genuflexão ) de q ue são incapazes
os mutilados, êstes podem lucrar a indulgência rezando só as preces pres­
critas, por u m a concessão especial de Bento XV (22 out. 1 9 1 7. ) Não pre­
cisam, pois, de nenhuma dispensa a êsse respeito. - Convém mencionar
também aqui o indu lto para a América Latina (cfr. Cone. Plen. Bras., pg.
1 1 4, n ota 1 . ) : "Vi indulti per litteras apostolicas P i i PP. XII diei 30 apri­
lis 1 939, ad decennium concessi, christifideles A mericre Latinre, si loca
inhabitent ubi prorsus i mpossibile vel admodum difficile sit a d confessarium
accedere, lucrari possunt indu lgentias et iubi lrea, qure Confessionem, Com­
munionem ac ieiunium requiru n t, dummodo servato ieiunio, sint corde sal­
tem contriti cum firmo proposito peccata quamprimum poterunt confitendi."
A aplicação do favor concedido pelo Legislador no cânon 935 torna­
se prática sobretudo em comu n i d ades religiosas, em colégios e hospitais.
Nestes institutos é que o confessor poderá agir por própria i n iciativa, en­
quanto que com os demais fiéis quase só terá ocasião de aplicar o favor
do nosso cânon, quando êles o pedirem.
Em que obras deve ser feita a comutação? ju lgamos que isto fica ao
critério do confessor. Eu, por mim, não teria escr(1pu los de comutar, em
favor de quem está gravemente doente e a quem tudo é grave i ncômodo,
os 6 Pater, Ave et Gloria da i ndu lgência "toties quoties" numa só j a­
culatória. Frei A 1 e i x o, O. F. M.
Sexta- Feira Santa sem Missa dos Pré-Santificados. - E' permitido
n a manhã da Sexta-Feira Santa, fazer apenas as cerimônias d a adoração
da Cruz até a desnu dação dos altares, omitindo a Missa dos Pré-Santifi­
cados? - Resposta : A i n d a que a Pastoral Coletiva de 1 9 1 5 não continue
em vigor qual Código legislativo, dar-nos-á ela a resposta para a dificul­
dade acima. Em o número 53 1 e vários subseqüentes encontram-se as se­
guintes prescrições com relação à celebração da Seman a Santa, p rescri­
ções essas que não constituem somente para nós normas da alto valor d ire­
tivo, mas até costumes legitimamente introduzi dos e que não foram ab-ro­
gados por nenhuma lei positiva. Vej amos : "Procu rem os Revdos. Párocos
lembrar aos fiéis que a Missa não é mais do que uma perpetuação do Sa­
crifício da Cruz ; e, para que o compreendam melhor, mostrem-lhes as rela­
ções íntimas do Sacriffcio da Missa e do Sacrifício do Calvário, e empre­
guem tôda diligência para fazer todos os anos, em suas matrizes com a
solenidade e decôro convenientes, os atos da Semana Santa. Nas p�róquias
Revista Eclesiástica B rasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 151

rurais o u subu rbanas, e m que não fôr posslvel encontrar Sacerdotes ou


min istros necessários para as cerimônias e atos d a Semana Santa (si tres
aut qtzatuor Clericos tantunz habeant, C. P. A. L., n . 436) , procu rem os
Párocos celebrá-los, observando o cerimoni a l ou Memoriale Rituum de
Bento X I I I , com a pompa, solenidade e decôro possíveis. Nas igrej as em
que se não fizerem os atos d a Semana Santa, convém que se exponha n a
Sexta-Feira Santa a c r u z à adoração d o s fiéis, que se faça alguma prática
piedosa, como os exercícios d a V i a-Sacra, etc., além do Sermão da Paixão,
que não deverá faltar em dia tão solene." Eis o que o Episcopado Brasi­
leiro, em tempos passados, ach o u conveniente estabelecer para a Sexta-Feira
Santa, quando os atos litúrgicos não possam ser celebrados segu ndo as
normas eclesiásticas : aconselharam fazer então a A doração. da Cruz, rezar
a V i a-Sacra com o povo, e sobretudo fazer o Sermão d a Paixão.
Pe. H. B o r g e s.

Missa Cantada. - Consulta : E' necessário i n dulto para se cantar


missa sem min istros ( m issa cantada por u m só Padre?) lsso.1'Je.turalmente,
nos lugares onde não há cópia de sacerdotes. - Resposta : Não é neces­
sário indu lto algum para isto. Basta consultar o Missal ou qualquer Ma­
nual de Liturgia para resolver esta dúvida. Pois a missa, quanto à soleni­
dade, se distingue em : missa cantada, solene e privada. a ) Missa cantada
(Missa cantata, cum cantu ) no sentido l itúrgico é "a que o celebrante
canta sem diácono e subdiácono", chamada também " m issa de deão ou
guardião." E' l icito celebrar esta missa cantada sempre e n ã o só quando
há falta de ministros sacros. Para se empregar i ncenso nesta missa é pre­
ciso ter indu lto, a não ser que o costume centenário ou legitimamente
prescrito autorize o seu uso. b) Missa solene é a mesma m issa cantada
com m i nistros sacros e canto do celebrante. c ) Missa privada é a missa
sem canto do celebrante. ( Cfr. R e u s, Curso de Liturgia, ed. 2.•, 1 944,
n . 550. ) Pe. H. B o r g e s.

Bênção Papal. - Desejava saber se é necessário recitar os Padre­


nossos na Bênção Papal. O ritual recentemente publicado não faz disso
menção. - Se j u ntamente com a Bênção Papal é concedida, como quase
sempre sucede, indulgência plenária, essa indulgência exige a observâ ncia
das condições de costume: Confissão, Comunhão e o ração segundo a i n­
tenção do Sumo Pontlfice. Por isso, embora o ritual recentemente publicado
expressamente não mencione essa o ração segundo a i ntenção do Sumo
Pontífice, deve ser recitada. Pe. P. M o n t e i r o.

Sábado Santo e as Profecias. - Pergunto, se nas paróquias pobres


e sem P adres o u Clérigos que ajudem nas cerimônias, podem ser suprimi­
das as profecias n o Sábado Santo, antes da bênção d a Pia batismal ? -

Resposta : "Non licet Sabbato Sancto missam cantatam vel lectam celebra­
re, quin eidem ignis et cerei benedictio prremittatur, neque prophetire ante
Missam omitti possunt." (S. R. C., 12 Aprilis 1 755 ; cf. REB, 1 942, p. 462.)
Pe. H. B.
1 52 Documentação

D O C U M E N TAÇÃO
Atos da Santa Sé.
Purlffcatlo et Ablutlo Calicls Sola Aqua. - Decretum S. Congregatio­
nis Rituum. P l u res locorum Ordinarii Sanctissimo Domino N ostro Pio
Papae XII exposuere sacerdotes suarum dioecesium, o b ingravescentes i n
d ies bel l i causa d ifficultates, etiam vini penuriam p ro sacrosancto Missae
sacrificio passu ros esse ; ideoque Eum supplicibus verbis o raverunt, u t vini
p a rsimoniae meliori q u o fieri p ossit modo consulere d ignaretur. San ctitas
p o rro Sua, in audientia infrascripto Card i n a l i Sacrae Rituum Congregatio­
'
nis Praefecto concessa, die 1 2 Maii 1 944, attentis hodiernis peculiaribus
rerum adiu�tis, i isque perdu rantibus, benigne indulget, ut p urificationes
e t ablutiones calicis, quae i n Missa, i u xta rubricas, cum vino primum ac
postea simul cum aqua peragendae sunt, sol a aqua fieri possint i i s i n locis
ubi, iuxta prudens Ordinarii iudicium, vini angustiae hodie habeantur, vel
i n posterum p raevideantur. Contrariis q u ibuslibet n o n obstantibus. D i e 1 2
Maii 1 944. C. Card. Salo tti, Ep. P raen ., P raefectus. A . Carinci, Secretarius.
- (AAS, 20 Maii 1 944, p . 1 54 . )
Prohibltlo Operum. - Decretum S. S. Congregationis S. Officii. Decreto
26 Martii l 924 huius Sup remae Sacrae Congregationis S. Officii opera et
scripta omnia Ernesti B uonaiuti damn ata fueru n t ; q u i n ihilominus p e rstitit
in operibus edendis, etiam fundamenta fidei christianae evertere n itenti­
bus, quorum aliqua iam a S. Officio .proscripta sun t ; n uperrime autem opus
omn i n o imp robandum e d i di t, c u i titulus "Storia dei Cristianesimo". I taque
Emi ac Revmi Patres Cardinales Sup rem ae Sacrae Congregationis Sancti
Officii, rebus fidei a c morum tutandis p raepositi, i n p l enario conventu fe­
riae I V, diei 1 7 Maii 1 944, praehabito RR. D D . Consultoru m voto, damna­
verunt atque in l n d i cem l i b rorum prohibito rum inserenda mandaru nt opera
et scripta omnia a h Ernesto B u o n aiuti p ó st decretum supradictum usque
ad eundem diem 1 7 Mai i 1 944 edita. Et sequenti feria V, die 18 e iusdem
mensis et anni, Ssmus D. N. Pius divina P rovi dentia Papa X I I , in solita
audientia Excmo ac Revmo D. Adsessori S. Offici i impertita, relatam Sibi
Emorum Patrum resol utionem adp robavit, confirm avit et .p ub l i c i iuris fieri
i ussit. Datum Romae, ex Aedibus S. Officii, die 1 7 Iunii 1 944. loatznes Pepe,
Supr. S. Congr. Sancti Offi c i i N otarius. - ( A AS, 26 I u n i i 1 944, p. 1 76.)

Systema Mfllenarisml Mltlgatl Tuto Doceri n o n Potest. - D ecretum


S . S. Congregationis S. Officii. Postrem is h isce temporibus non semel ab
hac Sup rema S. Congregatione S . Officii q u aesitum est, quid sentiendum
d e systemate Millenarismi mitigati, docentis scilicet Christum Dominum
ante finale iudicium, sive praevia sive n o n p raevia pl ur i um iustorum resur­
rectione, visibiliter i n hanc terram regnandi causa esse venturum. Re i g i­
tur exam i n i subie cta i n conventu plenario feriae I V , diei 1 9 l ul i i 1 944, Emi
ac Revmi Domini Cardinales, rebus fidei et morum tutandis p raepositi, p rae­
habito RR. Consultorum voto, respondendum decreverunt, systema Mille­
narismi mitigati luto doceri n on posse. Et sequenti feria V, die 20 e iusdem
mensis et anni, Ssmus D . N. P i u s divina P rovidentia Papa X I I , in sol i ta
audientia Excmo ac Revmo D. Adsessori S. Officii impertita, bane Emorum
Patrum responsionem approbavit, confirmavit ac publici i uris fieri i ussit.
Revista Eclesiástic a Brasilei ra, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 1 53

Da tum Romae, ex Aedibus S. Officii, die 2 1 lulii 1 944. /. Pepe Supre mae
S. Congr. S. Offici i Notarius. - (AAS, 28 lulii 1 944, p. 2 1 2. )
·

'

S ac ra Congregatio de Religlosls. - Decretum . Quo efficacius atque


fru ctuosi � s . Sacra Congregatio N � gotiis Reli giosorum Sodaliu m prae po sita
m unere s1b1 per can. 25 1 concred1to perfung1_ valeat, Sanctissi mus Dom inus
Noster Pius Divina Providentia Papa X I I, in Audienti a diei 24 lanu arii
1 944 infrascripto Secretario concessa, adprobare dignatus est, auc torit ate
apos tolica, erectionem atque constitutionem in sinu eiusdem S. Cong rega­
tionis, specialis Coetus seu Commissionis virorum idoneorum, quae omnes
qua estiones ac negotia quavis ratione ad adsp irantium et novitioru m iunior­
umque sodal ium, cuiuslibet rel igionis ac societatis, in commune vive ntiu m
sine v otis, religiosam et clericalem educationem atque in litteris scientii sque
et ministeriis institutionem spectantia p ertractet. Constitutae Commi ssioni
in cumbent praese rtim munera quae sequuntu r : a ) definiendi et del ine andi
cri teria cardinal i a et peculiares notas, q u ibus educatio ac institutio religio­
so rum duci i ugiter debet ; b ) vigilandi circa ordinationes a �uperio ribus
et Capitulis in rebus ad educationem et instructionem pertinentibu s latas ;
necnon inspiciendi et recognoscendi relationes a Superioribus vel ab Aposto­
licis Visitatoribus quoad hoc exhibitas. Commissio autem ad sessiones or­
dinarias vel extraordinarias, plenarias vel partia les, p routi negotiorum agen­
dorum n atura ac momentum ferre videantur, convocabitur. Sessiones ha­
bebuntur p raeside ac moderante Sacrae Congregationis Secretario. Discus­
siones ac decisiones in acta opportune refe rentur. Omnia ilia q uae a Com­
missione tractanda sunt quaeve singuloru m Comm issarioru m vel Peritorum
studio ac examin i erunt subiicienda col ligere, ordi nare .et conven ienter prae­
parare Officialium erit Sacrae Congregation is, quorum etiam erit acta et
documenta ad Commissionem pertinentia in Arch ivo asservare, decisiones
sub ductu et auctoritate Praesidis exsecutioni mandare aliaque ad rem
spectantia ad p raxim deducere et expedire. Contrariis quibusl ibet, etiam
specia l i mentio ne dignis, min ime obstantibus. Datum Romae, ex Aedibus
Sacrae Congregationis, die, mense et anno ut supra. Fr. L . H. Pasetto, Se­
cretarius. P. Arcadius Larraona C. M. F., Subsecretarius. - (AAS, 28 l u l i i
1 944, p p . 2 1 3-2 1 4. )
Declaratio S . Congregationis Rltuum de Benedictione Apo stol ic a. -
Quum Pontificale Romanum p raescribat ritum et formulam Benediction is
Apostolicae, una cum plenaria indulgentia, pop u l o impertiendae post Mis­
sarum sol lemnia a Patriarchis, Primatibus, Archiepiscopis et Episcopis, du­
bium exortum est an ipsi Eminentissimi Patres Cardinales, quoties ipsis
contigerit i liam impertiri, uti debeant praefato ri tu et formul a sive in U rbe
sive extra U rbem. Et Sacra Ri tu um Congrega tio p roposito dubio respon­
dendum censui t : "Extra U rbem : affirmative. l n U rbe vero casus haberi
nequit, cum ob Summi Pontificis p raesentiam facultas impertiendi Benc­
dictionem Apostolicam nemini tribuatur." Facta autem Sanctissimo Domino
Nastro Pió' Papae X I I horum relatione ab infrascripto Cardinali S. R. C.
Praefecto, Sanctitas Sua declarationem huius Sacrae Congregationis appro­
bavit. Contra riis non obstantibus quibuscumque. Die 23 lunii 1 944. C. Card.
Salo tti, Ep. Praen ., P raefectus. A . Carinci, Secretarius. - ( A A S , 28 l u l i i
1 944, p. 22 1 . )

Prex laculatoria lndulgentlls Ditatur. - Decretum S. Paenitentiariae


Apostolicae. Ssmus D. N. Pius div. Prov. Pp. X I I , in Audientia infra scripto
Cardinali Paenitentiario Maiori di e 20 mensis maii vertentis anni concessa,
1 54 Documentação

votis l ibenter obsecundans p l u rium sacerdotum, benigne l a rgiri dignatus


est I n d ulgentias quae sequuntur : 1 . partialem quingen torum dierum l u­
c randam a christifidelibus omnibus, qui, in adversis huius vitae rebus fi­
dentem an imum ad Deum erigentes, dominica verba "Fiat voluntas tua ! "
p i a mente a c saltem corde contrito recitaverint; 2 . plenariam, suetis con­
ditionibus, ab ipsis acqu i rendam, si quotidie pe r i ntegrum mensem eamdem
recitationem devote persolverint. P raesenti i n perpetuum valituro absque
ulla Apostol icarum Litterarum i n forma brevi expeditione. Contrariis q u i­
buslibet minime obstantibus. Datum Romae, ex aedibus S. Paen itentiariae
Ap., die 1 0 Iulii 1 944. N. Card. Canali, Paenitentiarius Maior. S. L uzio,
Regens. - (AAS, 28 I u l i i 1 944, p . 222 . )
Clrca S acramentalem Absolutlonem O enerall Modo Plurlbus lmpertlen­
dam. - Sacra Paen itentiaria Apostolica. I n structio. Ut dubia et difficulta­
tes removeantur in interp retan d a et exsequenda facultate impertiendi in
q u i b usdam � rum adiunctis absolutionem sacramentalem generali formula
seu commum absolutione, sine praevia peccatorum confessione a singu l i s
Christifidelibus peracta, S a c r a Paen itentiaria opportunum d u c i t haec q u a e
sequuntur declarare atque edicere : 1 . Sace rdotes, l i cet ad confessiones sa­
c ramentales excipiendas adprobati non sint, facultate fruuntur absolve n d i
general i modo a t q u e u n a simul : a ) Milites imminenti aut commisso proelio,
p rout i n mortis periculo constitutos, q uando, sive p rae m i litum multitudine
sive prae temporis angustia, singuli audiri nequeunt. Si tamen rerum
adiuncta ei usmodi sint, u t vel moraliter impossibile, vel admodum difficile
videatur milites absolvere imminenti aut comm isso p roelio, tunc l icet eos
absolvere statim ac necessarium iudicabitur ( cfr. Responsum huius S. Paen.
Ap., 1 0 Dec. 1 940 ; A . A . S., 1 940, p . 57 1 . ) b ) Cives e t mil ites instante mor­
tis p ericulo, durantibus hostilibus i n cursionibus. - I I . Praeter casus i n
q u i b u s agi tur de mortis periculo, non l icet sacramentaliter absolvere p l u­
res una simul, aut singulos dimidiate tantum confessos, ratione tantum
magni con cursus paen itentium, qualis verbi gratia potest contingere i n die
magnae alicuius festivitatis aut indulgentiae (cfr. Prop. 59 ex damnatis ab
I n nocentio X I die 2 Martii 1 679) : l i cet ve ro si accedat alia gravis omnino
et u rgens neces sitas, gravitati p raecepti divi n i integritatis confessionis p ro­
portiona ta, verbi gratia si p aen itentes - secus n u l l a sua culpa - diu gra­
tia sacramentali et sacra Communione carere cogantur. Decernere autem
s i militum aut captivorum aut civium turma i n tali n ecessitate inveniatur,
tocorum Ordinariis reservatur, ad q uos p raevie recurrere tenentur Sacerdo­
tes, quo ties id possi b i le sit, u t licite eiusmo di absol utionem impertiant. -
I I I . Absolutiones sacramentales pluribus u n a simul a Sacerdotibus a rbitrio
suo impertitae, extra casus de quibus i n ·n. I , vel non obtenta p raevia O r­
dinarii licentia, l icet h i c adiri potuerit, iuxta d ieta i n n. I I , utpote abusus
habendae sunt. - I V . Antequam S acerdotes sacramenta lem absol utionem
impertiant, quantum rerum adiuncta permittant, de his quae sequuntur
Christifideles commonere debent : a) Necessarium scilicet esse ut se q uisque
paeniteat admissomm suorum et a peccatis abstinere p roponat. - Convenit
etiam S ace rdotes opportune monere paenitentes, ut contrition i s actum ex­
terno aliqu o modo ostendant, si possibile sit, verbi gratia suum percutien­
do pec tus. b ) Atque omnino necesse esse ut, qui absol utionem turmatim
acceperint, i n primo deinceps suscipiendo Paen itentiae Sacramento, gravia
singula peccata sua rite confiteantur, quae non antea confessi fuerint. -

V. Sacerdotes ape rte fideles doceant eos gravite r p rohiberi, ne, quamvis
sibi consc i i sint culpae mo rta l i s, nondum in confessione recte accusatae
Revista Eclesiástica Brasi leira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 1 55

et remissae, et obligatio integre leth alia peccata confiten d i u rgeat ex Jege


sive divina sive ecclesiastica, de industria declinent huic obligationi sa­
tisf acere, occasionem exspectantes, qua absolutio turmatim detu r. - V I .
Meminerint vera locorum Ordinarii ut d e hisce normis. gravlssi moque offi­
cio tunc Sacerdotes commonefaciant cum iisdem facultatis usum permittant
- i n peculiaribus rerum adiunctis - sacramentalem absolutionem gene­
rali formula una simul impertiendi. - V I I . Si tempus suppetat, haec abso­
lutio sueta atque integra formula in plurali numero impertienda est ; secus
vera haec brevior formula adhiberi potest : "Ego vos absolvo ab omnibus
censuris et peccatis in nomine Patris et Filii et Spi ritus Sancti." Facta
a utem de p raemissis relàtione Ssmo D. N. Pio d iv. Prov. Pp. X I I ab in­
frascripto Cardinali Paen itentiario Maiore, in Audientia diei 1 8 mensis
currentis, idem Ssmus Dominus I n structionem Sacrae Paenitentiariae be­
nigne adprobavit, confirmavit et publici iuris fieri mandavit. Datum Romae,
e Sacra Paen itentiaria Apostolica, die 25 Martii 1 944. N. Card. Canali,
Paenitentiarius Maior. S. Luzia, Regens. - (AAS, 20 M.,W 1 944, pp.
1 55- 1 56.)

Sacra Romana Rota in Causa "Romana" Nullitatis Matrimonii


et Dispensationis Super Rato.
ln Nomine Domini. Pio Pp. XII feliciter regnante, Pontificatus Domina­
tionis Suae anno quinto, die 22 lanuarii 1944, RR. PP. DD. Arcturus Wynen,
Ponens, Gulielmus Heard et Alb ertus Canestri, Auditores de turno, in causa
Romana, N u l l i tatis m atrimon i i et Dispensationis super rato, in ter dominum
Titum, actorem, repraesentatum per legitimum procuratorem dnum Guliel­
mum Felici, advocatum, et dnam Luciam, con ventam, intervenien te et
disceptan te in causa Rev. D. Aegidio Dei Corpo, Substituto Defensoris vin­
culi, lzanc tulerunt in secunqa instan tia senten tiam definitivam.
l . - Titus, artifex technicus apud dfium Livium medicum dentium,
cum decimum septimum aetatis annum agebat cognovit Luciam, puellam
22 anno rum, quae i n taberna paterna erat lactaria. Mutuo amare incensi,
duo iuvenes sponsal i a inter se inierunt atque per annum cum dimidio ho­
nestas foverunt relationes, at deinceps Titus Luciam ad inhonesta induxit.
Pluribus aliis mensibus post, Lucia passa est sangu inis vomitum atque me­
dicum adire debuit. Qui statim decla ravit statum p uellae esse gravem et
insanabilem. " I I p rofessore disse che la ragazza era spacciata e a me con­
sigliô di astenermi anche dai baciarl a'', deposu i t Titus in iudicio. Puellae
pater autem, quamvis intel lexisset celebrationem matrimoni i ob declaratum
mortiferum morbum filiae non amplius exspectari p osse, tamen Tito con­
silium dedit non statim abrumpere relationes (ne sei . afflictae adderetur
afflictio) , sed eas paulatim laxare. Titus vera, prae magno suo amore erga
puellam, null atenus destitit ab amato riis relationibus cum Lucia, neque sta­
tim neque paulatim, potius eas continuavit sicuti antea ; immo non erubuit
abuti aliquoties puella aegrota.
Quodam autem die Lucia Tito aperuit se esse gravidam ex eo, atque
postulavit ut b revi m atrimonium contraheretur. Nolens in matrimonium
d ucere puellam tabidam, vir nuptias ineundas denegavit, et ut evitaret m i­
nas a puell a eiusque propinquis pronuntiatas et consequentias p ravi sui
modi agendi, fugit Mediolanum, deinde Genuam. Verum admonitus a sua
matre ut rediret et matrimonium celebraret, vir Romam reve rsus die 1 9
Septembris 1 93 1 in ecclesia p a roeciali N. N . matrimon ium reapse contraxit
1 56 Documentação

cum Lucia. Cohabitatio vero coniugum nunquam instituta est. Decenn io


p ost, i dest d i e 6 Octobris 1 94 1 , vir apud Tribunal Vicariatus U rb i s matri­
mon ium suum accusavit n u l litatis tum ex c apite vis et metus tum ex capite
simula ti conse nsus. ln fine e i u s l ibelli legitu r : " l i sottoscritto, dato che
egli sposo l a signorina Lucia sotto i l timore i r ritante canonicamente i l ma­
trimonio, si ritiene abile a d accusarlo benche lo abbia contratto con l'espres­
so p roposito d i non consumarlo." Libello acceptato e t causa instructa, die
1 0 Decembris 1 942 prodiit sententia, q u a declara tum est : "Non constare
de matrimon i i n u l l i tate ex cap i te p raetensi metus, constare vero ex v i r i
simul atione." Appellatione a d N . S. Auditorium inter.posita, et consueto
dubio concordato, PP. de turno, ad causam definiendam congregati, d i e 1 1
Decembris 1 943 declaraverunt : " D i lata, e t interea acta compleantur."
Patres nempe opportunum censuerunt expetere a Sanctissimo facul­
tatem cognoscendi, p raeterq u a m d e matrimo n i i n u l l i tate, etiam de incon­
summatione matrimo n i i a p a rtibus e t testibus asserta. Postquam igitur acto­
ris patronus novum exhibuit l ibellum et Defensor vinculi suum votum fa­
vorabile de � implorata est facultas i u d i candi etiam de inconsummatione
matrimon i i, quam facultatem Summus Pontifex d i e 14 l a n u a r i i 1 944, in
Audientia Decano S. Rotae concessa, l a rgiri dignatus est. Q u a re primo
dubio i a m concordato additum est, servatis servan d is, alterum dubium, ita­
q u e hod i e respondendum est ad " bi n a d u b i a :
1 . A n constei de matrimonii n ullitate, ln casu ; et quatenus negative :
1 1 . A n consilium praestandum sit Satz ctissimo pro disp e1Zsatio1z e super
matrimonio rato et non consummato, in casu.
1. De capite vis et metus. 2. ln iure. - Qui metu sibi i n c usso ad con­
trahend u m matrimonium a d i g i t u r, aut metum communem aut metum reve­
rentialem patitu r. Quodsi metus i l l atus est a u t simpliciter gravis aut reve­
ren tialis q ualificatus atque insuper aliis praeditus est q u a l i tatibus in can.
1 087, § 1 , e n u m e ratis, matrimon i u m iuxta cit. can. d i r i m i t u r ex cap i te vis
et metus, dummodo coacte contrahens verum eliciat consensum matrimo­
n ialem. S i n autem metum patiens non vere, sed simulate in matri monium
contrahendum consentit, matrimo n i u m contractum i a m non est d i i u d ican­
dum ex metu, sive i s p o t u i sset per se d i rimere matrimonium, sive - e t a
fortiori - metus careat u n a vel p l u ribus q u a l itatibus a can. 1 087 enumera­
tis ; n u l l i tas matrimo n i i potius derivanda est ex simu latio n e consensus, se­
cundum can. 1 086, § 2 , vel etiam can. 1 092, 2.º. P rofecto idem consensus
eodem tempo re n e q u i t esse verus e t fictus. E q u idem metus p rovocare potest
simulationem consensus ; verum tunc metus non iam p er se stat di rimendo
matrimonium, sed est solummodo causa simulati c o1Zsensus. Notandum ta­
men, p r i n c i p i u m a i u risp rudentia statutum, videlicet metum esse posse aptam
causam simulandi, recte intelligendum esse. Qui ob certum quendam me­
tum sibi incussum statu i t fi cte contrahere, elicit eodem tempore duos actus
real iter inter se d istinctos, sei. voluntatis actum externe con tralz endi et
i n tentionem in terne simulandi. l n e i usmodi autem casu metus p e r se est
sol ummodo causa con tralzendi dum causa simulandi est alia, v. g. aversio
adversus celebrationem c u i usvis matrimon i i vel adversus certam quandam
m u l i e re m c u m q u a quis contrahere debet, vel omnimoda repugnantia amit­
tendi libertatem p e rson a l em et sese ligandi per totam vitam. Q u a re logice
Joquendo metus i n tali casu non est n i s i causa remota et indirecta, quae
simulationi consensus ansam p raebet, atque causa proxima e t directa simu­
l ationis est a l i a ; cum tamen q u i consensum simulare statu it, vix unquam
"
s i b i conscius sit se duplicem voluntatis actum rea liter ab i nvicem distinctum
ponere, sed simpl iciter sibi proponat consensum simulare, n o n omnino inepte
Revista Eclesiástica B rasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 1 57

dicitur eum a metu ad simulandum adductum esse seu causam simul atio­
nis fu isse metum.
3. ln facto. - Pacificum est Titum, actorem, ob gravem sponsae Lu­
ciae morbum qui a medico declaratus e rat insana bilis, non amp l i us vo-
1 u isse eam ducere uxorem, neque p ostquam p uellam reddidit praegn antem
eumque ad evitandas nuptias aufugisse Mediolanum. Actor ad rem ltae �
de posuit : " Dopo circa due a n n i dalla n ostra conoscenza, tratt enendomi
un giorno con lei alia "Casina delle Rose", m i accorsi cite ebbe uno sbocco
di sa ngue. Fu p ortata dai p rof. A., ed io stesso assistei alia visita. l i p ro­
fess o re disse che la ragazza era spacciata e a me consiglio di astenermi
an clte dai baciarla. Dopo tale sentenza, suo padre e sua sorella mi con­
sigliarono d i non rompere subito le relazioni, ma d i radarle a poco a poco.
D'altra p a rte anch'io, sen tendo d i volerle bene, non ebbi il coraggio d i ve­
n i re a u n a rottura. Elia si mise in cura p resso il p rof. M. e miglioro molt is­
simo. 1 rapporti intimi in q uesto periodo avvennero tre o quattro volte. Nel
1 930 ella rimase incinta e me ne diede notizia i nsistendo "i?e rclte io l a
sposassi. l o rimasi atterrito ai pensiero di dover sposare u n a d o n n a amma­
l ata e di mettere ai mondo figli amm alati . . . Pensai percio di eclissarmi
e infatti, con qual clte aiuto finanziario datomi dai signor Livio, p resso cui
tavoravo, me ne andai a Milano." Cum haec a m u l ie re conventa confirmata
atque a testibus p robata sint, n ullum exsistit dubium de motivo, ob quod
vir recusavit n uptias i n i re cum sua sponsa graviter aegrota.
4. - Pariter ex depositionibus p artium et testium certo constat Lu­
ciam e iusque p ropinquos tum contra Titum p raesentem tum contra absen­
tem coram dilo Livio minas mortis pronuntiavisse, atque puellae soro rem
eti am viri m atrem, insciam tam culpae quam fugae filii, post p rofectum
Titi i n i u ri i s affecisse. At m i nae mortis, quae p raecipue a conventae sorore
Aemilia iactatae sunt, non erant verae commin ationes, sed potius verba
in aestu i rae p rolata. U t i d ostendatur, sufficit audire Luciae sororem
Aemil iam, quae ad rem haec retut it : " l o era la persona piit energica deli a
famigl i a e tenevo molto a quel la sorella p iit p iccola tanto che le volevo
bene come a una figlia . . . Non nego che, nell 'escandescenza, mi uscirono
anche p a role di m i n accia e cite dissi ai Tito che lo avrei ammazzato se non
avesse fatto i1 suo dovere. N atu ralmente - sincere fatetur testis - lo
dissi i n atto d i rabbia, senza quasi pensare a que! che dicevo e senza aver
in animo di attuare l a min accia : cio sarebbe stato fisicamente impossibile,
perclte egl i e un uomo ed e molto piit grosso di me. l o non credo cite egl i
abbi a potuto aver paura di me ; tanto e vero - recte conclu d i t - cite non
s'indusse affatto a sposare, anzi per evitare il matrimonio se ne fuggl
a Milano."
5. - Profecto tales minae a viro vix considerabantur uti serio p ronun­
tiatae, a quibus sibi grave malum imminere rati onabil iter p utabat ; potius
fugam capessendo vir ostendit se facile molestis instantiis p uellae ei usque
p ropinquorum se subtrahere potu isse, et quo facilius periculum hypotlteti­
cum m i n a ru m i n sua p raesentia p rolatarum effugere potu it, eo minus ti­
mere debuit m inas in sua absentia p rol atas, de quibus tantum per litteras
d fii Livii certio r factus est. Quare iam excl udendum est viro gravem m c­
tum commurzem incussum fuisse, a quo ut se liberaret, v i r coactus fuisset
cligere matrimoni um .
6. - Neque qualificatus metus reveren tialis in casu admittendus est.
Actoris mater de suo influxu, quem i n filium exercuit ut eum ad contrahen­
dum m atrimonium in duceret, ait ltaec : " U n giorno ( Lucia et Aem ilia so ro­
res) mi affrontarono mentre uscivo dalla chiesa di Gesít e Maria e m i
1 58 Documentação

fecero una gran scenata sulla pubblica via. l o risposi ! o ro che avevo già
richiesto i documenti e che d a p a rte m i a ero pronta a fare il possibile
perchê i l matrimonio si facesse p resto. l n fatti, n o n per l e m i nacce ascol tate,
m a per il dovere di coscienza che p rofondamente sentivo, non sapendo
scrivere, detta i una lettera alia mia amica L. B . : i n questa lettera d icevo
a mio figlio che l o avrei disconosciuto se non fosse subito ritorn ato a fare
i l suo d overe, cioê a sposare quella ragazza che egli aveva disono rato . . .
Dopo la m i a lettera venn e subito." Mater igitur filio i n mentem revocavit
suam obligationem d u cend i sponsam a se defloratam et p raegnantem red­
d itam, e i q u e aperuit se eum f i l i u m abdicaturam esse si officium suum adim­
plere nol let.
7. - Ipse actor de influxu suae matris haec deposu it : "Conosciuto i l
m i o i n d i rizzo, ai tempo i n c u i m i trovavo a Genova, anche lei (sei . m ater)
m i scrisse : n o n m i parlo degl i i n sulti che le rivolgevano i parenti d i Lu­
cia m a m i fece p resente dei dovere che avevo d i ripara re all'onore della
ragazza, e 4ia pensare ai figlio che stava per nascere." Quae autem acci­
derint postquam Romam reversus est, vir sic exposu i t : " l o non dicevo d i
no, m a cercavo d i rimandare sperando d i pote r esimermi dai matrimonio.
N o n t rov a i pero alcun rifugio o alcun consiglio perchê mia m a d re par­
teggiava completamente p e r l a Lucia. M i d iceva che il m i o era stato u n agi­
re da m ascalzone, e che era giusto che i o dovessi riparare a l l ' o n o re della
ragazza. Aggiu nse che n o n mi avrebbe riconosciuto p i u per figlio se m i
fossi rifiutato." Quamvis autem mater semel vel bis filio aperuerit s e e u m
non amplius uti f i l i u m considerat u ram esse si puellam d ucturus n o n esset,
tamen probatum non est f i l i u m m atrimonium i deo contraxisse, q u i a secus
timuisset incu rrere in magnam d i uturnamque indign ationem matris. Potius
appa ret virum cessisse matris instanti is, quae ipsi obligationem contrahendi
ante oculos ponebat, eique morem gessisse.
8. - Sane, n u l l u s testis confi rmavit m atrem i n stitisse sub i l l i s verbi s
aut f i l i u m cessisse o b dictum t i m o rem ; n e q u e u l l o m o d o probatum e s t ma­
t rem adhibuisse media vexantia aut simpliciter i n iusta ut f i l i u m a d con­
trahendum permoveret. Potius testes u nice loquuntur de obligatione
conscientiae filio a m atre i n mentem revocata. Matrem a d i uvit Rev. P . N a r­
cissus, q u i de suo i nterventu haec retuli t : " Di ssi i n fatti qualche parola
alia madre d i Tito e q uesta riuscl a far torna re a Roma i l figl io. Ebbi anche
dei colloqui con quest'ultimo (sei. post eius ·reditu m ) e cercai d i fargli
comprendere l e sue responsab i l i tà, spiegandogl i anche che non era poi
ragionevole aver tanto spavento, p o ichê anche a ltre donne avevano sposato
in simili condizioni e le cose erano andate bene." H i sce et matris mon itis
Titus serio non restitit, sed - l icet aegre - m atri m o n i u m contrahen d u m
acceptavi t. D e m o d o autem, quo sese p romptum declaravit ad id, n o s docet
dna T . R., quae i n eadem domo ac m ater Titi habitabat. "Quel che m i
consta - i ta haec testis - e che egl i era molto devoto d i sua madre e l a
sentiva molto ; percio finl c o l d i rl e : "Mamma, tu vuoi che m i sposi? Ebbe­
n e, obbediro, m a ognuno rimarrà nella propria casa." Manifestum p roinde
est actorem passum n o n esse reverentialem metum qualificatum .
U. De slmulatione consensus matrlmonlalls. 9. l n iure. - Cum asserta
simulatio consensus m atrimonialis in casu a rcte connexa sit cum finibus
matrimonii, cumque Summus Pontifex gloriose regnans die 3 Octobris 1 94 1 ,
i naugurans novum annum i uridicum S. Rotae, d e finibus matrimoni i q uae­
dam dixerit q u ibus Audito res i nvitare videbatur ad hoc .p unctum melius
perscrutandum et acc uratius pertractandum, praestat e xponere quae
sequuntur.
Revista Eclesiástic a B rasi leira, vol. 5, fase. 1 , março 1 94 5 1 59
Ex variis S � mmorum Pontificum <; onstitutio n i b us et Litteris Ency cli­
.
c1s, ex commum Theologoru m, Canomstaru m, Moralistaru m doctrin a ex
e xplicitis I u ri s Canonici verbis constat p l u res esse m atrimo n i i fines q u � ru m
a l i us est p rimarius, alius secundarius. Can. 1 0 1 3, § 1 , a d rem hae � statui t :
"M atri m o n i i finis primarius est p rocreatio atque e ducati o p rol i s ; secun­
darius mutuum adiutorium e t remedium concupiscentiae ." V erbum "f inis"
i n fontibus a llegatis sumitur sensu te ê: hnico et significat bonum in quod
obtinendum tenditur, sive ex i n dole naturae sive ex i ntention e delibe rate
agentis. Nota d i stinctio inter "finem operis" e t "finem opera ntis" ( q u i
possunt esse unus vel p l u res) a d h i b e n d a e s t etiam i n matrimo n io. " F i n is
o peris" i n matrimonio est i ll u d bonum i n q u o d obtinendum matrimo n i u m
t e n d i t e x n a t u r a s u a , q u a m D e u s Creator i n stituto matrimoni i indidit. Si­
q uidem m atrim o n i u m "suapte n atura d ivinitus est i nstitutum" et "ab ipso
auctore naturae Deo atque e i u sdem n aturae restitutore Christo Domino le­
gibus est commun itum, confirmatum, eleva tum", i deo "ex Deo sunt ipsa
matrimoni i i nstitutio, fines, leges, bona" ( L i tt. Encycl. Ca�� connub ii,
A . A . S., vol. X X I I , pp. 54 1 e t 542. ) Porro "finis operantis" est i l l u d bo­
num, i n quod obtinendum tendit contrahentium voluntas. Per se p atet
finem operan tis cum fin e operis coincidere posse ; immo Pius XI f. m. con­
trahentes expresse monet ut "eos fines in m atrimonio q u aerant p ropter
quos i l l u d est a Deo constitutum" ( loc. cit., pag. 586) ; et Catechismus
Romanus, u b i agit d e causis q u i b u s homines a d matrimon i u m contrahen­
dum i mpellantu r, primo loco pon i t u n u m ex finibus ope ris, dicendo : " P rima
igitur est haec ipsa d iversi sexus n aturae instinctu expetita societas, mutui
auxil i i spe conc i l i ata, u t alter alterius ope adiutus vitae i ncommoda faci­
.J ius ferre, e t senectutis imbecillitatem sustentare queat" (pars II, cap.
V I I I , q . 1 3. ) At non semper isti duo fines coincidunt. Ete n i m accidere
potest u t finis aperantis sit amnino extra vel praeter finem operis, s i v . g.
cantrahens tamqu a m finem primarium matrimon i i sibi constituit acq u i re re
divitias vel effugere malum secus sibi imminens. F i n is aperantis p o test esse
etiam cantrarius f i n i aperis, id quad accidit quoties q u i i n i t matrimonium,
intendit bonum seu finem, q u i uni vel amnibus finibus operis, idest matri­
man i i , repugnat. Sed de fine operis iam seorsum agendum est.
1 0.
- Matrimon ium, consideratum uti opus e t i nstitutum naturae, est
societas natural is, una et i n divisa, specifice distincta a qual ibet alia homi­
n u m associatione. Quare "finem aperis" habere debet n aturalem, u n u m
e t i n d ivisum, sp e cifice p roprium et a quolibet alio f i n e distinctum. Siquidcm
finis, teste Angel ico, e st causa formalis, qua plurium unio peragitur atque
specificatur talis qualis est. Unde p rovenit, quod ubi plures unius e iusdem­
q u e societatis assignantur "fines aperis", ex i i s unus d e beat esse prinz us
et principalis, ratianem causae formalis habens, in quo a l i i fines conti­
neantur vel a d quem a l i i accedant ut ipse faci l ius, securius, plenius obti­
neri q u eat. Necesse igitur est u t inter matrimo n i i fines determi n atus sit
ardo, secundum quem fini principali, qui n aturam specificam m atrimon i i
determinat, a l i i fines operis subordinentur.
1 1.
- A. De matrimonii fine primaria. Matrimon i i "finis operis" pri­
mus et p rincipalis, unus et i n divisus, atque m atrimon i i n aturam unice spe­
cificans, est procreatio et educatio prolis. Haec autem considerari potest
a) aclive, b) passive, e ) sub utroque respectu. "Active" cansiderata respicit
activitatem caniugum, seu coni u ges quatenus prolem generant e d ucantque ;
"passive " i n tellecta respicit pralem inquantum generatur e t educat u r ; "sub
utraque respectu" sumpta coniuges et prolem simul complectitur. Fines ve­
ra secundarii, q u i d icuntur a rdinati ad finem p rimarium, possunt spectare
1 60 Docu mentação

.· potius unam quam alteram rationem, sei. vel activam vel passivam, sed
, poss unt etiam aequali modo utramque rationem respicere.
1 2. - a) H aec matrimon ii ordinatio ad finem primarium obiectiva,
quae in eius natura recondita est, si consideratur in ordine exsecution is,
i:: o nsistit in eo quod con iunctio matrimon ialis (sive haec consideretur "in
.f ieri" sive "in facto sese" ) ex natura sua continet et afferre valeat ea omnia
, quae ex parte activitatis humanae requiruntur et sufficiunt, ut prolis gene­
_.ratio et educa tio (modo naturae humanae convenienti eaque digno) obti- ·
neri possit. Etenim coniugio, ex ipsa sua natura, inest haec ad dictum finem
destinatio, aptitudo, suf/icien tia quia omnes, qui matrimonium contrahunt
,

vel in eo vivunt, uniuntur et inter se iunguntur mutuo iure exclusivo et


perpetuo ad ponendos actus per se aptos ad prolis generationem. Posito
' t
au em hoc iure, attenta simul impulsione vehementi appetitus sexualis ad
exercendam facultatem generativam, attento denique quod huic appetitui
cedere hominibus non liceat nisi intra sacra matrimonii septa : profecto in
. matrimoni.-issecutioni finis .p rocreationis et educationis prolis sufficienter
..et cfficaciter provisum est.
1 3. - Et haec naturalis ad finem primarium destinatio, aptitudo et
: .sufficientia habetur in onmi valido matrimonio (etiam sterilium et sen um)
eique adeo essentialis est, u t sine ea nul lum coni ugium oriri aut permanere
queat. Nullum enim matrimonium contrahi, nullum coniugium permanere
potest, nisi in coniugibus fundetur vel remaneat ius illud radicale in cor-
.
pus compartis relate ad actus generativos ; si deest vel corruit hoc ius ra­
clicale, matrimonium constitui n equit, vel, si iam constitutum, una cum iure
radicali corruit (id quod fit per dispensationem super matrimonio rato et
. n on consummato.) ·
1 4. - b) Non minus quam ipsum matrimonium, actus quoque con­
. iugalis dicto fini primario subordinatur et devincitur, et quidem eo gradu,
.. u t exercitium huius actus tunc solum permittatur, si et quamdiu in eo ve­
rificatur et servatur essentialis sub fine primario matrimonii subordinatio .
. .Servatur vero eo, quod coniuges, actum coni ugalem natura l i modo peragen­
tes, ea omnia afferre valeant quae ex pa rte activitatis humanae ad prolis
generationem requ iruntur et suffici unt (cfr. sent. Rotai. diei 25 Aprilis 1 94 1 ,
·'
coram Wynen, i n qua fuse agitur de hac subordinatione actus coniugalis
ct de elementis in copula essentialiter requisitis ad hoc ut copula dici
, _g ueat _per se apta ad prolis generationem.)
1 5. - Haec sub fine primario subordinatio, quae actui coniugali natu­
. r.al iter peracto inest ex eius na tu rali structura, servatur et ve rificatur etiam
in copula sterilium alio rumque qui, ob causas actui extrinsecas, natura l i
. matrimonii usu prolem generare nequeunt. A d rem sunt haec verba Pii XI
f. m. in Litt. Encycl. Casti connubii : "Neque contra naturae ordinem agere
ii dic;en.di sunt con iuges, qui i u re suo recta et naturali ratione utuntur,
:etsi ob naturales sive temporis sive quorumdam defectuum causas nova
· inde vita oriri non possit." Neque desunt honesti fines et motiva, cur in
tal ibus condicion ibus con iuges suo iure utantu r ; pergit nempe Pontifex, di­
cendo : "Habentur enim tam in ipso matrimonio quam in coniugalis i u ris
usu etiam secundarii fines, u t sunt mutuum adiutorium mutuusque foven dus
amor et concupiscentiae sedatio, quos intendere coniuges minime vetantur,
d ummodo salva semper sit intrínseca illius actus natura ideoque eius ad pri­
marium finem debita ordinatio" (A. A . S., vol . XXI I , pag. 56 1 . )
1 6. - 'Actum coniugalem subordinatum esse fini primario matrimonii
"inculcat etiam Summus Pontifex gloriose regnans in Sua Allocutione ad
S. Rotam s�pra commemorata ; nam reprobat scribendi et iudicandi modum
Revista Eclesiástica · Brasileira, vol. 5, fase. 1, março 1 945 1 61

eorum qui actum coni ugalem aut o m n i n o solvunt aut ultra debitam men­
suram abducunt a matrimon i i fine primario, a d quem idem actus secundum
totam suam structuram ordinatur. l n talem errorem incidere d icen d i sunt
praeter alios etiam illi qui sustinent ad essentiam actus matrimonialis suf­
fice re, quod hic actus secundum suam externam speciem naturali modo
.peragi possit, etiamsi in eo peragendo deficiat unum ex elementis, quae ex
parte ipsius activitatis coni ugalis omnino necessaria sunt et quorum de­
fectus antecedens et insanabilis iuxta constantem i urisprude ntiam S. Rotae
(cfr. sententiam supra allegatam) hominem reddit ad matrimonium impo­
ten tem, si sei . in eo deest facultas seu potentia effundendi in actu con iugal i
verum semen i dest in testiculis elaboratum, etsi careat spermatozois. Ve rba
Pii X I I sunt haec : "Due estremi . . . sono da fuggirsi : da una parte, il ne­
gare p raticamente o il deprimere eccessivamente il fine secondario dei m a­
trimonio e dell ' atto deli a generazione ; dall'altra, lo sciogl iere o il separare
o ltre misura l'atto coni ugale dai fine primario, ai quale secondo tutta la
sua intri nseca struttura e p rimieramente e i n modo principa!:l> ordinato"
(A. A. S., vol. X X X I I I , pag. 423.)
1 7. - B. De matrimonii fine secundaria. Finis secundarius matrimo n i i
in citato canone 1 0 1 3 assignatur duplex, videlicet "mutuum adi utorium"
et "remedium concupiscentiae", qui fines sunt "fines operis", non tantum­
modo "fines operantis".
1 8. - a) De al tero fine secundario, de " remedio concupiscen tiae" et
de eius ad finem p rimarium relatione, pauca dicenda sunt.
Facile i n telligitur hunc finem ex n atura sua subordinari fini primario
generationis. N am concupiscentia sedatur itz matrimonio e t per matrimo­
nium l icito facultatis generativae usu, qui fini p rimario matrimon i i desti­
natur, proportionatu r ac subordinatur modo in antecedentibus d icto. Eo ipso
autem etiam "sedatio concupi scentiae", quae in actibus coniugalibus exer­
cendis habetur, simul cum ipsis fini p rimario matrimoni i subordinata est.
1 9.
- b) Alius finis secundarius est "mutuam adiutorium", quod sat
varias coniugum mutuas p raestatfones seu officia comprehendit, v. g. c�ha­
bitationem, communionem mensae, usum bonorum materialium, victus acqui­
sitionem et administrationem, auxilium magis personale i n variis vitae con­
dicionibus, in exigentiis psychicis et somaticis, in usu n aturalium faculta­
tum atque etiam in exercitio virtutum supernatural ium ( cfr. Litt. Encycl.
Leonis X I I I Arcan um, n. 8 et 1 4, apud Codicis 1. C. Fon tes, vol. I I I,
pag. 1 56 et 1 6 1 , atque Litt. Encycl. P i i X I Casti connubii, A. A. S., vol.
X X I I , p . 548 s. )
20.
- Recentissimis his nostris temporibus auctores qu idam, de fini­
bus matrimo n i i disserentes, hoc "mutuum adi utorium" alio modo explicant,
inquantum sei . "esse .p erson ale" con i ugum auxi lium et complementum acci­
pit, atque contendunt, non secundarium sed p rimarium finem matrimon i i
esse · hanc "person ae" con i ugum evolutiorz em atque perfectionem, quam ta­
men non omnes eodem, sed a l i i sub alio respectu considerant atque urgent.
Hi novatores in re matrimoniali a vera certaque doctri n a recedunt, quin so­
l ida et p robata argumenta p ro suis opinionibus afferre valeant. Sepositis
igitur hisce doctrinis quorundam auctorum recentio rum, iam ordo et de­
pen denti a inte r finem primarium et finem secundarium matrimonii exami­
nanda sunt, omisso "remedio concupiscentiae", quod supra iam paucis ver­
bis absolvimu s.
2 1 . - C. De relatione matrimonii finis secundarii ad finem primariam.
Mutuum adiutor·ium et totius vitae consortium inter duas personas diversi
sexus etiam extra matrimoniam haberi potest, sive per modum soli u s facti,
li
1 62 Documentação

uti inte r fratrem et sororem una viventes, sive vi explicitae conventionis


de mutuo adiutorio sibi invicem praestando. ldeo mutuum adiutorium vi­
taeque commun io, inquantum dicuntur et sunt matrimonii propria eiusque
secundarius finis operis, considera ri debent secundum p roprietatem quan­
dam specialem, qua dist.inguuntur a qualibet alia communione vitae, cum
mutuo adiutorio coni uncta. Distinguuntur autem in terna sua relatione ad
finem primarium, quo fine coniunctio coniugalis a qual ibet alia homin um
associatione discernitur.
22. - a) Haec fiais secundarii ad primarium relatio i nvenitur primo
fa origine huius finis et i n origine correspondentis iuris ad mutuum adiu­
torium. Quod ita demonstrari potest : Immediatum et essentiale contractus
matrimonialis obiectum est exclusivum et perpetuum ius in corpus compartis
in ordine ad actus per se aptos ad prolis generationem (can. 1 08 1 , § 2.)
Ex hoc i u re tamquam naturale consequens et complementum provenit ius
ad ea omnia sine quibus iuri generandae - et consequenter etiam edu­
candae � rolis satisfieri nequit modo qui dignitatem naturae humanae
decet. I amvero iuri generandae educandaeque prolis dicto modo satisfieri
nequit, n isi ad hoc ius principale accedat ius ad mutuum adiutorium, quod
includat ius ad vitae consortium seu ius ad cohabitationem, ad communio­
nem mensae et thori, atque ad auxilium in omnibus vitae indigentiis. No­
tetur tamen heic non agi de ipso adiutorio de facto praestito, sed de iure
ad mutuum adiutorium ; nam sicut obiectum principale contractus matri­
monialis non est "proles", sed "ius" ad generandam prolem, ita obiectum
secundarium non est ipsum "mutuum adiutorium", sed "ius" ad illud.
23. - Ex dictis sequ itur, ius ad consortium vitae mutuumque auxi­
Jium non oriri in contrahentibus ·n isi ex primario i u re generandae prolis.
Sequitur etiam, iniri non posse contractum matrimoni alem qui sit de mu­
tuo adiutorio et simul praescindat a tradendo et acceptando i u re i n corp u s ;
t a l i s enim contractus ( n u l l o tradito i u r e in corpus) nonnisi extra matri­
monium, a duabus personis diversi sexus iniri potest. Contractus matri­
monialis taliter atten tatus esset nullus nullumque conderet ius matrimo­
niale in contrahentibus, neque principale neque secundarium. E contrario
omnis consensus matrimon ialis de tradendo et acceptando i u re in corpus
eo ipso in contrahentibus exsu rgere facit ius ad vitae communionem mu­
tuumque auxilium.
24. - Cum vero istud ius secundarium non ingrediatur ,j us p rincipale
tamquam eius pars constitutiva, neque cum eo iungatur tamquam eius p rae­
requisita conditio sine qua non, valide iniri potest contractus matri mo­
nialis de iure principali, explicite denegato i u re secundaria. De cohabita­
tione in specie, quae est unum ex p raecipuis bon is cum fine secundario
cohaerentibus, eiusque exclusione in contrahendo apud Wernz-Vidal haec
·l eguntur : "Coni uges, cum debito coniugali regulariter et convenienter sa­
tisfacere non possint sine cohabitatione, ex fundamentali illo i ure et officio
vitae maritalis etiam obstricti sunt i u re one roso, ut non tantum i n eadem
domo communi utantur habitatione, sed etiam communi mensa et thoro,
n isi i n casibus a iure exceptis. Quae assídua cohabitatio et communio thor.i
et mensae pertinent ad i ntegritatem individuae vitae, non ad essentiam
vitae coniugalis, ideoque interdum in casu particulari ex causa proportio­
n ata abesse possunt, velut in matrimonio conscientiae, et obligatio iustitiae
ad ipsas quamdam l atitudinem admittit" (/us can., vol. V, n. 600. ) Et
Oasparri ad rem docet : "Plures censent esse contra substantiam matrimo­
n i i conditionem de ·n on cohabitando i n perpetuum ; sed si ius matr.i mo­
niale utrique parti sartum tectumque sit, non putamus bane doctrinam veram
Revista Eclesiástica B rasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 1 63

esse, quia communio habitationis, tori et mensae non p e rtinent ad substan­


tia m matrim onii ; et revera nonnunquam matrimonium conscientiae cum hac
ta cita vel expressa conditione permittitur" ( De matr., ed. 1 932, n . 905. )
25.
- Haec valent etiam de casu, quo contrahentes, ren untian tes fini
se cun dario cohabitationis totique mutuo adiutorio cum ea coniuncto, simul
stat uunt .n on uti i u re i n corp u s tradito et acceptato. "Sicut non est con­
tra di ctio accipere ius i am i n ipsa acceptatione impeditum quoad usum, ut
eve nit quando duo voto castitatis l i gati contrahunt matrimon i um, ita n o n
est c ontrad i ctio tradere ius quoad u s u m impeditum ex consensu alteriu s
pa rtis i n tale impedimentum" (Wernz-Vidal, n . 52 1 , nota 46. ) Ratio autem
interna, ob quam hoc admitti debeat, est haec : "Coniuges non obligantur
ad copulam nisi i n quantum altera pars p etat, quae iuri p etend i renuntiare
potest se obligando ad non petendum, nec obligantur coniuges ad positivam
prolis generationem, modo eam positive non impediant aut p rolem enecent"
( i dem auctor, n. 52 1 . ) Quod De Smet ita exprimit : " N i h i l impedit quomi­
nus, ex u n a p a rte, ad i nvicem p raestetu r consensus matrimon lá11Ts, ac pie­
n um d ominium tranferatur i n mutuum corpus, et q uod, e x a l i a p a rte,
distin cto actu inte r se conven iant et voveant n uptu rie n tes non uti i u re ac­
cepto, ac castitatem servare. N o n excluditur ius utendi, sed i u ris exercitium ·

dumtaxat" (De spons. et matr., ed . 3, n . 1 56, nota 2. )


Quamvis haec, iuxta probatos auctores, de pacto inter nupturientes
inito uti sententia communis acceptanda sint, tamen auctores in diversas
abeunt sententias si i u ris exercitium omittendum consensui alligatur tam­
quam conditio sine qua non. Quidquid sit de merito huius controversiae,
matrimonium contractum declari nequit n u l l u m i n tali casu, quoniam sei.
quaestio i u ris non est certa ( cfr. de hac quaestione Cappel lo, De matr.,
ed. 3, n. 635 s. ; Wern z-Vidal, 1 . e., n. 52 1 , n ota 46 ; De Smet, 1 . e., n. 1 56,
nota 2 . ) At n o n obstantibus expositis, dicendum est : sicuti in certis cir­
cumstantiis firma e t definitiva voluntas non adimplendi indiciam esse potest
defectus vol u n tatis contrahendi et se obligandi (qui defectus utique ali unde
adhuc mel i u s demonstrandus est) , ita etiam seria et definitiva voluntas non
concedendi ullo modo aut unquam i u s ad vitae consortium ac ceterum mu­
tuum adiutorium, indiciam plus minusve certum esse potest defuisse i n con­
trahente intentionem tradendi comparti ius principale in proprium corpus,
l icet ex hoc uno indicio mmquam certitudo moralis oriri p o ssit de defectu
vol untatis contrahendi et sese obligandi.
26. - Ex adductis concludendum est quod seq u itur. Sicuti ius ad con­
sortium vitae ac un iversum mutuum adiutorium i n sua origine est intrin­
secus dependens a iare .p rincip a l i ad actus generativos, non a utem vice­
versa ; e t sicuti i n te r iura matrimonialia exsistit determinatus ordo, et de­
terminata dependentia : ita etiam fines m atrimoni ales, in quos i l i a iura o r­
dinantur et .p ropter quos a n atura conceduntur, ratione originis certo ordi­
ne componuntur atque inter se connectuntur. Constituto fine principali et
p rimario, Auctor n aturae matr-imonio tamquam instituto n atu·r ae constituit
tinem secundarium, complementa rium, ut ei in e t ex eodem instituto, quod
matrimonium vocatu r, satisfieri debeat apteque valeat.
27. - Corollarii modo addatur notam Modestini definitionem vel potius
descriptionem m atrimo n i i : " N uptiae sunt coniunctio maris et foeminae et
con sortiu m omnis vitae, div-ini e t humani i u ri s communicatio '-' ( Dig., lib.
XX X I I I , II, De rita naptiarum, l i b . 1 , Regul arum) enumerare u n a simul ele­
menta e t essentialiter constitutiva et n aturaliter consequentia, quin ap­
pare a t, quinam inter ea sit ordo et q u aenam dependentia. l deo ex hac ce­
-lebri matrimonii descriptione n o nn isi c aute et distinguendo inquisitio in fi-
11*
1 64 Documentação

nes matrimonii p rocedere potest. Etenim, prout supra iam dictum est,
sicuti in matrimonio contrahendo "ius in corpus" et "ius ad adiutorium"
non sunt aeque pr.incipalia seu coordinata, sed se habent ut obiectum prin­
cipale seu superordinatum et obiectum secundarium seu subordin atum, ita
etiam fines, iuribus correspon dentes, non sunt aeque principales vel coor­
dinati, sed unus est principal is, alter secundar.ius et subordinatus.
28. - b ) Descriptus ordo dependentiae et subordinationis non solum
i nvenitur in origine iuris secundar.i i, quod assecutioni finis secundarii desti­
natur et per quod haec assecutio per se in tuto collocatur, sed idem o rdo
_patefit etiam in coniugio, "in facto esse" considerato.
Omn-is quidem homo, quippe qui ex natura sua est "ens sociale", in­
diget aliorum auxilio ; quod auxilium invenit eo quod est membrum tum
:Societatis humanae i n genere, tum determinatae societatis civilis et domesti­
cae in specie. ln hoc omnibus commune adiutorium intrat etiam auxil.i um
et complementum, quod unus sexus (etiam absque ullo affectu et activita­
te carnal �accipit ex indole alterius sexus ; constat enim societas humana
ex viris et femin is, in invicem influxum exercentibus. At hoc adiutorium
commune non potest constituere finem operis matrimon i i ; u t hunc consti-
1uat, ulterius determinari debet aliquo elemento specifico, ex quo appareat,
cur "mutuum adiutorium" a Creatore inditum sit matrimonio tamquam fi­
nis operis. Hoc elementum specificum iterum est et debet esse refatio ad
fin em primarium et ad ius principale. Coniuges nempe ex ipsa natura ma­
trimonii fini primaria huius i nstituti ideo devincti sunt, quia per matrimo­
n i u m acquisierunt ius et destinationem evadendi " auctores novae vitae",
procreando et educando prolem, etsi de facto non evadant.
U t vero huic specificae destinationi debite satisfacere valeant, indi­
gent multiplici mutuo adiutorio, et quidem non tantum respectu activitatis
generativae proprie dictae, sed etiam respectu finis primarii in sensu com­
pleto, idest tam active quam passive sumpti. Etenim evadere "auctores
n ovae vitae" natura vult eos qui, onusti multiplicibus natu rae et vitae exi­
gentiis, simul dignitate humana o rnati sunt ; et quia tales sunt, natura ad
ius principale accedere facit multiplex adiutorium et totius vitae commu­
n ionem. Haec mutui adiutorii matrimonialis nota specifica, quae manat ex
ipsa i nterna structu ra matrimonii, habetur etiam in matrimoni o in quo
coniuges nolunt vel non possunt ad effectivam generationem transi re. Si­ ·

quidem non dependet a voluntate humana neque tollitur aliquo impedimen­


to externo id quod in natura "operis" seu coniugii reconditum est per
ipsum Creatorem.
29. - Cum insuper hoc specificum mutuum adiutorium matrimoniale,
cum ipsa institutione matrimonii datum, directe comprehendat solummodo
aptitudinem et destinationem ad quodlibet requisitum auxilium, i n tuto
positam per concessionem iu ris proprie dicti ad tale adiutorium, non autem
ipsum actuale auxilium ; cumque ex altera parte ad valide contrahendum
non necessario requ i ratur traditio huius iuris ad dictum adiutorium ( cfr.
supra n . 24) : facile patet verum m atrimonium exsistere posse, quin coniuges
revera fruantur hoc subsidio quod natura coniugio dare intendit. Patet in­
super, curnam actual is usus mutui auxilii non sit ex natura rei restrictus
ad servitium i u ris primarii. Mutuum adiutorium matrimoniale a natura potius
datum est ad iuvandas ipsas p ersonas coniugum, quatenus isti destinati
sunt ad id ut evadere possint, non quocumque sed apto debitoque modo,
"auctores novae vitae", per quos, debito auxilio ita mun itos, deinde i uvatur
ipsa activitas generativa. S i n empe personae generantes quoad indigentias
et .ne cessitates vitae (quae e x prole generanda adhuc augentur) tum quoad
Revista Eclesiástica B rasileira, vol. 5, fase. 1 , ma rço 1 945 1 65

se tum quoad prolem i n tuto sint positae, activitati quoque generativae


per se bene consulitur. Unde patet, omne mutuum adiutorium, quod ex
matrimonio absque damno finis primarii manat, contineri intra l imites finis
se cun darii, et, personas coniugum i uvando fovendoque, habere a d finem
pri ma rium specificam aptitudin em, destinationem, subordination em (non
ob sta n te quadam re lativa i ndependentia quae iuxta expo sita fini secun­
da ria inest. )
30. - Quae hucusque d ieta sunt de fine secundaria matrimo n ii " i n
fa cto esse" considerat i , breviter sic comprehendi possunt :
1 .º Desti natio et correspondens ius ad mutuum adiutorium i n sunt ma­
tri monio ex sua natura et ex voluntate Creatoris, et constituunt eius se­
cundarium finem operis. ldeo a vera et perfecta communione coniugali
nunquam abesse possun t neque unquam frustra exsistunt quousque ipsum
m atrimonium una cum suo fine primaria et iure principa l i exsistit.
2.0 Mutuum adiutorium, consideratum uti finis secundarius matrimo n i i
" i n facto esse", d i c i t respectu fi n is primari i f i n e m dependente !Il , subordi­
natum, quia p ropter finem primarium a Creatore coniugio indrrft s est. At
est elementum ab extra accedens et non-constitutivum tantummodo ratione
finis primarii, non autem respectu ipsius matrimonii, quasi esset finis extra­
matrimonialis; est e n i m finis "intra-matrimonialis", l i cet non eodem gradu
ac finis primarius.
3.º Aptitudo et ius ad mutuum adiutorium non restringuntur ad activi­
tatem generativam neque primaria hanc ipsam respiciunt, sed potius per­
sonas generantes, quatenus istae propter matrimonium in itum destinatae
sunt a d hoc ut possint esse auctores novae vitae.
4.° Finis secundarius habet quandam independentiam, eatenus vide­
l icet quaten us in personis coniugum -verificari et ad effectum perduci potest
iis quoque in casibus, in quibus assecutio finis primarii impeditur, sive ad
tempus sive in perpetuum. Cuius ratio est, q uod mutuum adiutorium (pariter
ius ad .i l l u d ) non constituit p artem essentialem i u ris et finis primarii. Est
potius extra essentiam i uris et finis primarii, quamvis sit aliquod eius na­
tura/e consequens et verum ac proprie d i ctum ius matrimoniale.
5.º Qui mutuum adiutorium matrimoniale, latissime intellectum, solvit
ab eius intrí nseca subordinatione sub fine primaria, non sol um offendit rei
veritatem et i n tentionem ipsiu s Creato ris, sed necessario etiam viam parat
funestis consequentiis.
3 1 . ln facto. - Antequam Titus e fuga sua Romam reversus erat, Lu­
cia, sciens quod vir recusabat n uptias ob timorem n e ab ipsa inficeretur,
matri Titi declaravit se contentam esse celebratione matrimon i i et renun­
tiare cohabitatio n i et usui matrimo n i i . "Ancor prima che egli giungesse -
ait viri mate r - io telefonai a Lucia esortandola a prega re il Signore perche
accomodasse tutto ed avverasse que! matrimonio i n santa pace ; m a lei mi
rispose d u ramente, d i cendomi che non voleva sentire ne sapere nulla, che
vol eva il matrimonio solo come riparazione dei suo onore , e poi ognuno
dei due sarebbe potuto rimanere in casa p ropria." Et post reditum viri
puel l a idem dix it, sicuti testatur diia Si lvia, dicen s : "Ricardo che q uesta
diceva : "Mi deve sposare ad ogni costo, e non m'importa se poi m i lascia
a casa mia e lui se n e sta per conto suo." I dem testatur diia T. R.
Hoc modo ipsa puella removit imped imentum, ob quod Titus eam non
ampl ius ducere volebat. Siqu idem vir "e molto salutista, tanto e vero che
appena si rese conto della gravità delle cose, non sol o si astenne da ogni
ulteriore rapporto, ma si fece fare l'analisi degli sputi" (diius Silvi us, herus
et benefactor viri.)
1 66 Documentação

32. - Eiusdem opinionis ac Lucia erat eius soror Aemilia, quae ex


colloqu i o cum matre viri ante huius reditum habito haec retul it : " Le dissi
p u re che m i contentavo che il giovane avesse sposato m i a sorella per l'onore
d i lei e per i l figlio che doveva n ascere, e non m'inte ressava se poi me la
lasci ava in casa. Dissi q uesto sperando che ! ' opera dei tempo e l a n ascita
dei bambino avrebbero condotto il T i to a compiere i doveri maritali."
Audito igitur p roposito puellae eiusque sororis, v i r i n contrahendum
matrimon ium c o n sensit, ex sua quoque parte declarans se post n uptias n o n
cohabitaturum esse cum uxore. " Poco dopo - prosequitur conventae soror
Aemi l i a in sua depositione - i l Tito torno a d i re che avrebbe sposato, ma
avrebbe lasciato l a sposa a casa sua : q uesto dichiaro in casa m i a i n pre­
senza di tutti i famigliari." l d confirmavit alte ra conventae soror nomine
Mara, aien s : " D i fatti poco dopo i l Tito ritorno e d isse a mia sorella che
l'-avrebbe sposata, ma che i l !oro sarebbe stato u n m atrimonio per modo
d i d i re, giacche egli saTebbe rimasto a casa sua, e l a sposa a casa mia."
·

P arite r plures alii testes.


33. � pse acto r concordat cum dictis testium, n am fassus est : "Mi
decisi percio a fare il matrimonio, ma dissi chiaramente a Lucia che lo
facevo per riparare il suo onore, ma non avrei mai vissuto con lei. Lei
accetto rendendosi perfettamente conto che io non avrei adempito nessuno
d e i doveri coniugal i . . . Accedetti all'altare con la p recisa i n tenzione di ·non
sta b i l i re la c onviven za." Concinit mulier conventa, quae dicit : " l n fatti, dopo
c i rc a q u attro mesi d i insistenze, Tito ritorno e m i d isse che per far finire
tutte quelle storie mi sposava, pero non avrebbe mai fatto vita comune con
me", addens se hoc acceptasse.
34.
- Quod autem sponsi ante n uptias de communi consensu statue­
r u n t, id post n uptias exsecutioni mandarunt, quoniam v i r nunquam instituit
cohabitationem. H o c omnes testes una cum p artibus concorditer declara­
verunt. Ex h isce depositionibus sufficit adducere quae sequuntur. "Non
fecero i l viaggio d i nozze. I d u e sposi con l a madre dello sposo si recarono
que! giorno a Rocca di Papa, ove stava a villeggiare una sorell astra di
Tito. A sera ritornarono e ognuno dei due sposi ritorno nella p ropria c asa
secondo il convenuto" (dfia A. B.) " Dopo il matrimonio i due sposi ed
alcuni parenti fecero u n g i ro a Rocca di Papa. Rividi i l Tito quella se ra
stessa e lo accompagnai a casa sua i n via N. N . Egl i mi disse che era
d'accordo con sua moglie che ogn u n o sarebbe rimasto a casa sua" ( d fi u s
P . 0 . ) " F u rono mantenute le intese intervenute fra i due p r i m a dei matri­
monio, e .percio ognuno dei due coniugi, que! giorno stesso (sei. die n uptia­
Tum) se ne ritorno a l i a p rop r i a casa. Questa condizione d i cose e p e rdu­
rata invariata fino a i p resente" ( d fi u s S i lvius.) I nvanum autem Luciae so­
ror tentavit inducere virum ad cohabitandum et ad alias obligationes m a­
trimoniales adimplen das, id quod ipsa soro r retu l i t h isce verb i s : "Talvolta
ho i ncontrato il Tito con altre donne e l'ho redarguito . L'ho esortato con
te buone e con te cattive ad u n i rsi con l a moglie, ma egli ha sempre rifi uta­
to, ora portando il p retesto del l a malattia, ora dichiarando che non e
adatto a fare il padre di famiglia perche vuole vívere libero, rientra re
tardi l a notte." Equidem morbus m u l ieris non adeo g ravis apparuit sicuti
.primus medicus .p rofessor A. censuerat, n am praeter exspectationem mor­
bus decursu temporis levior factus est, etsi periculum inficiendi alios vix
evanu i sse dici possit. Quidquid sit, v i r, qui "e molto salutista", n u nq uam
1'ecessi t a s u a repugnantia cohabitandi cum sua uxore.
35. - l amvero ante omnia dicendum est Titum i n contrahendo non
exclusisse ipsum finem p rimarium matrimonii seu procreationem et e d u-
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 1 67

c ati onem prolis quoad ipsum ius in corpus compartis relate ad act us ge­
ne rativos. Titus utique non libenter duxit puellam graviter aegrotam , nam
ad co ntrahendum inductus est partim instantiis puellae eiusque prop inquo­
r um atque certo metu inde orto, partim precibus piae suae matris atque
desiderio consulendi honori mulieris et bon o prolis nàsciturae. At ex actis
deduci nequit eum ob haec motiva positivo voluntatis actu exclusisse ipsum
ius radicale ad actus vere coniugales. Ex viri modo loquendi et agendi
sequitur potius contrarium.
Ex modo loquendi. lpse v. g. in iudicio declaravit : "Lei accetto (sei. :
che non avrei mai vissuto con lei) rendendosi perfettamente conto che io
non avrei adempito nessuno dei doveri con iugali" : ergo vir exclusit tan­
tummodo adimplementum obligationum matrimon ialium, non autem ipsas
obligationes. Pari ter dná Silvia : "Tito mi ha sempre detto di non aver mai
usato dei diritti maritali .p erche sempre vivamente preoccupato di cont rarre
la malattia della sposa" : quare vir haec iura in contrahendo non exclusit,
sed tantum abstinuit usu horum iurium, neque ullo modo vir sibi co nscius
erat se nullum ius in corpus uxoris habere aut nulla obligation�:�eneri. Sic
autem non loquitur qui scit se in contrahendo positive denegasse quodpiam
ius, et nullam obligationem suscepisse.
Ex modo agendi. Si revera consensum matrimonialem simulasset, vir
- spectatis particularibus circumstantiis causae - id certo al iquando
manifestasset, sive ante nuptias sive decursu decennii post nuptias elapsi.
At vir nullum testem inducere potuit, cui assertam simulationem consensus
matrimonialis clare aperuisset. ln libello autem, quo matrimonium suum
accusavit null itatis, vir ipse commemorat "l'espresso proposito di non con­
sumarlo", atque in iudicio iterum ac saepius, confirmantibus omnibus fere
testibus, ait tantum se cum puella transegisse et conven isse, quod coha­
bitatio coniugum post nuptias non institueretur. I dem loquitur quidem etiam
de "pacto", hac de re cum puella inito. Sed indifferens est in casu, utrum
agatur de vero oneroso pacto bilaterali, an de mera transactione amicabili,
inter virum timentem infectionem et puellam desiderantem matrimonium
conclusa.
36. - Etenim sola excl usio finis secundarii matrimonii et correspon­
dentis iuris non invalidat matrimonium. ld in specie de cohabitatione, quae
solum ad integritatem non ad essentiam matrimonii pertinet, quaeque est
unum ex praecipuis bonis cum fine secundario matrimon ii cohaerentibus,
a probatis auctoribus uti certum docetur (n. 25.) Immo, etiamsi in casu
ageretur de vera conditione sine qua non, a viro consensui apposita (dato,
null atenus concesso) , matrimonium non posset declarari nullum (ibid.)
Neque aliter iudicandum est ex circumstantia, quod in casu contrahentes,
simul cum cohabitatione, excluserint etiam usum matrimonii. Sicut enim
"non est contradictio accipere ius iam in ipsa acceptatione impeditum quoad
usum, ut evenit quando duo voto castitatis l igati contrahunt matrimonium,
ita non est contradictio tradere ius quoad usum impeditum ex consensu
alteriu s partis in tale impedimentum". Etenim "coniuges non obligantur
ad copulam nisi inquantum altera pars petat, quae iuri petendi renuntiare
potest se obligando ad non petendum, nec obligantur coni uges ad positi­
vam p rol is generationem, modo eam positive non impediant" (n. 25. ) lam­
ve ro Luc ia, ut superaret Titi timorem infectionis, sua sponte renuntiavit
iu re petendi debitum, quam renuntiationem vir acceptavit.
37. - Si igitur, prouti in casu, neque partes neque testes quidquam de
excl usione ipsius iuris ad actus coniugales revelaverint, et si omnino de­
sint indicia ex quibus exclusio ipsius finis primarii matrimonii et corre-
1 68 Documentação

spondentis iuris principalis deduci po·s sit, declarari nequit virum in con­
trahendo positive denegasse tradere comparti rel ativum i us m atrimon iale,
p raesertim cum vir, exceptis cohabitatione et usu matrimonii, semper se
gesserit tamquam maritus. Ceterum non defuit total iter "mutuum adiuto­
rium" inter con iuges, praecipue quoad bonum materiale et spirituale filii.
" I due sposi pero - ait Rev. P. N arcissus - si vedevano, come appren­
devo dai toro familiari, ed erano i n buoni rapporti fra toro . . . N acque i l
bambino concepito p r i m a d e i matrimonio e ricordo c h e si fece festa in casa
dell a sposa. lo vi p resi parte, anzi mi pare che battezzai i l bambino, ma
posso assicurare che il padre era p resente. Questi ha sempre pensato ai
mantenimento dei figliolo." At vir graviter rep rehendendus est, quod "se­
dationem concupiscentiae", quae est unus ex finibus secundariis matrimo­
n i i, non in tra sed extra matrimon ium quaesivit.
38.
- Neque dicatur actorem eiusque testes esse imperitos iuris ideo­
que adhibere non potuisse verba i uridica. Ab imperitis iuris utique ex­
spectari non possun t expressiones i u ridicae, sed si i idem ín iudicio p rae­
ter cohabi t'lt ionem excl usam n i h i l p rorsus deposuerun t in praeiudicium va­
.J iditatis consensus a viro praestiti, si vir n u nquam suis p ropinquis et amicis
dixit, quod sese non consideraverit l igatum vinculo matrimon iali, et si
demum post decennium a n uptiis mulier a quodam sacerdote audivit coha­
bitationem exclusam secumtraxisse n u l l i tatem consensus, et si viri mate r
Summum Pontificem directe adiit Ei exponendo casum s u i f i l i i : tunc non
remanet aliud n isi perpendere uti caput n u l litatis i l i am cohabitationem iam
ante n uptias exclusam e t post n uptias n u nquam institutam. Verum supra
iam dictum est, ex hoc u n i co facto n u l l i tatem matrimo n i i deduci non posse.
Proinde supervacaneum est inquirere de causa assertae simulation is, seu
de metu.
39. - l deo Patres de turno declaraverunt omnia suade re virum, sacer­
dote N a rcisso monitore e t p i a matre hortante ut tum Luciae tum proli
nasciturae ex obli gatione conscientiae consuleret, verum consensum el icere
volu isse et reapse elicu isse, quin eum positivo vol untatis actu essentialiter
vitiaverit. Quare iam videndum, a n constet saltem de ill c onsummation e h uius
matrimollii et de i u sta causa dispensandi.
Ili. De inconsummation e matrimonii. 40. ln iure. - Matrimonium ratum
et non consummatum a Summo Pontifice ex iusta causa d issolvi potest,
"utraque parte rogante vel alterutra, etsi alte r a sit i nvita" ( can . 1 1 1 9 ) ,
dummodo p raeterquam d e i usta causa omnino constet d e facto inco n sum­
rnationis. Soluto matrimonio, i dest exstincto i u re radicali i n corpus com­
partis, ipso facto corruit omne matrimoniale ius ad mutuum adiutorium.
Verum hoc intell igendum est de solo titulo "iuris matrimonialis", n o n de
quol ibet alio titulo, sive caritatis sive i ustitiae. Accidere sane potest ut
post sol utionem vinculi matrimonialis p ristinae comparti et pro l i ante
n uptias p rocreatae a l iquod adiutorium praestandum sit, et ut ad hoc gra­
vis, immo gravissima habeatur obligatio. Sed neque obl igatio neque adiu­
to rium in tal i casu est "matrimoniale", quamvis fo rte respectivus titulus
adsit, saltem ex pa rte, propter pristinum matrimon ium. U nde intel ligitur,
c u rnam S. Sedes h i n c iode, concessa gratia sol utionis vinculi, explicitum
det monitum, ut alteri parti i ndigenti et p ro l i ante n uptias generatae q uan­
tum fieri possit consulatur ; immo, curnam aliquando petitam gratiam so­
Jutionis matrimon ii deneget, q u i a orator recusat parti, a qua recedere vult,
debito modo succurre re.
41 .
- Quamvis aute m exstinctum "matrimoniale ius ad adiutorium"
non exstinguat eo ipso alios titulos auxilii exigendi, tamen ipsum hoc
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 94 5 1 69

secund arium ius ex sese nequit esse ratio, ob quam perduratio vincu li
exi gatur, si pro solutione vinculi adsit causa propo rtionate gravis. Tale
quid ex igere aequivalet tentamini inve rtendi ordinem ab ipsa natura consti­
tu tum atque innititur falso fundamento. Subordinatum enim et dep endens
ius nunq uam potest, ratione sui, superare vel impedire ius princi pale ex
quo m anat. Solum si causae, ad obtinendam dispensatio nem super rato
adductae, sint insufficientes, non tantum ius principale, sed etiam iura
subordinata obstant concessioni imploratae gratiae, quoniam ex sese et ex
ti tulo iustitiae exigunt ut vinculum permaneat. Sunt enim vera iura ma­
tr imonial ia, ab Auctore naturae coniugibus data, matrimonio intrínseca�
non tantum ab extrínseco ad illud accedentia.
42. ln facto.
- Uterque coniux in iudicio declaravit matrimo n ium nun­
qua m consummatum fuisse. Vir ad rem haec exposuit : "II dom icilio c oniu­
gale non fu mai instaurato. Andai una vol ta in casa sua per il batte simo
dei bambino e un 'altra volta, quando aveva sei anni, perchê era molto
ammalato. Ci siamo veduti diverse altre volte per la strada o . ai ne gozio
per parlare dei bambino e per l'assegno mensi le che io le p a·�o. Le ho
anche cu rato i denti (sei. in cubículo sui heri, apud quem Ti tus laborat
uti artifex technicus. ) Ma i rappo rti di marito e mogl ie non vi sono mai
stati e il matrimonio non e stato consumato." Et mulier ait : "Egl i (die sei.
nuptiarum) mi riaccompagno a casa, ma non volle sal i re. Non ci vedemmo
piu fino alia nascita dei bambino, e comunicammo soltanto per telefono.
Egl i prese p arte ai battesimo dei bambino e alia piccol a festicciol a di fa­
miglia, insieme ai suoi parenti. Sia in questa circonstan za che in molte
altre i miei e suoi parenti insistettero perchê si instau rasse la convivenza,
ma egli non ne vol le sapere . . . Solo un'altra volta egli venne in casa mia
per una malattia dei bambino. Noi c'incontriamo rare volte e sempre in
strada per trattare di cose riguardanti i l bambino." Equidem mulier oblita
est commemorare se etiam in cubículo (vulgo : gabinctto) mediei dentium,
apud quem Titus occupatus est uti "odontotecn ico", vidisse suum maritum
et cum eo Jocutam esse, sed per se patet hisce occasionibus matrimon ium
non potuisse consummari.
43.
- l u ratae depositiones con iugum confirmantur a testibus, p rimum
indirecte, inquantum testantur de religiositate et veracitate coni ugum, lice t
v i r quoad mores reprehendendus sit; dein de directe, n a m omnes fere testes
credibilitatis sunt etiam testes de scientia, inquantum tempore non suspecto
a coni ugibus de inconsummatione matrimon i i audiverunt, p rout seq uitur
ex testimoniis quae sequuntur. "Qua lche volta intesi occasionalmente da
Tito che i l matrimonio non era stato consumato, perchê il giovane aveva
paura dei contagio" ( Rev. P. Narcissus. ) "Sono convinto, per le contin ue
confidenze ricevute da Tito, che i l matrimonio 11on sia stato consuma to . . .
Non vi e stata mai convivenza. 1 due con iugi si vedono qualche volta per
parlare dei loro bambino" (diius Silvius.) "Per quel che ho sempre sen­
tito fa casa dei Tito, i due sposi . . . 11on hanno piu avuto rapporti di ma­
rito e mogl ie. Ritengo percià che il matrimonio non sia stato co11sumato"
(diia A. B.) "A11che in segu ito potei constatare che egli 11 on conviveva con
la moglie, ed egli ebbe occasio11e di dirmi di non avere mai avuto con lei
rapporti di marito e mogl ie dopo i l matrimonio" (diius A. F.) "li Tito mi
ha sempre detto di non aver mai usato dei diritti maritali perchê sempre
viv amente preoccupato . di contrarre la malattia della sposa. Percio son per­
suasa che il matrimonio non sia stato consumato" (diia Silvia. ) At non
solum vir, sed mulier quoque semper declaravit matrimonium suum man­
sisse inconsummatum. "! due sposi si vedo110 qualche volta ; ma so, per
1 70 Documentação

confidenze conti n ue ricevute dalla mia sorella, che non hanno consumato
il matrimonio" (Luciae soror Aemilia.) "1 d u e sposi hanno continuato a
vedersi per trattare del l e loro cose e s'incontrano specialmente ai gabinetto
dentistico dei dott. Silvio ove mio figlio ê impiegato. Ma rapporti intimi
non sono piU avve nuti, come m i consta per confidenze dell'uno e dell'altro"
( o rato ris mater. ) "Mi consta per averlo continuamente app reso da Tito
che i d u e sposi non hanno mai convissuto e non hanno mai consumato i l
matrimonio. U n giorno trovai L u c i a presso la madre d i T ito, e d a n c h e lei,
i n conversazione, ammise di non aver piU avuto rapporti col marito dopo
la celebrazione di quel matrimonio. T u tto quello c ite io ho detto ê di pub­
blico domin io tra i parenti e i conoscenti delle due parti" (dominus 1 . C.)
44. - Quamvis a rgumentum physicum i n causa p raesenti desit, tamen
argumentum morale ex expositis apparet tam firmum esse, ut moral ite r
certum sit con iuges matrimonium suum n unquam consumavisse. Constat
autem etiam de causa in consummationis matrimonii. I dem nempe motivum,
quod viru� per plures menses deterruit a n uptiis ineundis, sei. timor in­
fectionis, eum detinuit etiam a matrimonio consummando. Constat denique
d e iustis causis dispensandi. Nam dissociatio animorum coniugum hodie
tanta est, ut uterque coniux reconciliationem reiiciat ; instauratio vitae
coniugalis iam sperari nequit ; vir denique est i n p roximo periculo i ncon­
tinentiae, et mulier liberari vult a viro, dicens se n uptam esse et maritum
habere videri, at de facto non habere. l deo Patres de turno declaraverunt
consulendum esse Sanctissimo u t implo ratam dispensationem concedere
dignetur. V i r vero ab Ordinario monendus est, n e censeat se dissolutione
sui matrimon i i l iberatum e sse eo ipso etiam ab obligatione p rovidendi
sustentationi et educationi f i l i i ante n uptias conoepti et post n uptias nati ;
agitur nempe de obl igatione quae independenter a matrimon i o exsistit
atque perdurat.
45. - Quibus omnibus in i u re et in facto perpensis, Nos infrascripti
Auditores de turno, pro tribunali sedentes et so l u m Deum prae oculis ha­
bentes, Christi nomine invocato, decernimus et defin itive sententiamus : Non
constare de matrimonii n ullitate, at consilium praestandum esse Sanctissi­
·
m o pro disp ensatione super matrimon io rato et non corzsummato, in casu,
seu ad dubia proposita respondemus : Negative, ad primum ,· affirmative,
ad alterum, monito viro u i etiam in posterum pro videat sal11ti materiali et
spirituali filii ante rzuptias geniti.
Committimus proinde Excmo Nostro Decano, ut Ssmo consilium p rae­
stet pro dispensatione super matrimoni o rato et n o n consummato, in casu.
Obtentae autem d i spensationis rescriptum actis causae inseratur et pa rti­
bus n otificet u r.
Romae, in Sede Tribunalis S. R. Rotae, die 22 lanuarii 1 944. Arcturus
Wynen, Pon ens. Gulielmus Heard. Albertus Canestri.
E x Cancellaria, die 9 Februarii 1 944. l oannes Pinna, Notarius.
Ex Audentia Ssmi diei 1 1 Februarii 1 944, Sanctitas Sua, audita in­
fr:ascripti relatione, petitam dispensationem super matrimonio rato et non
consummato i n casu ben igne concedere d ignata est, ea tamen lege u t vir
etiam i n posterum provideat saluti tum materiali tum spirituali filii ante
nuptias gen iti. l ulius Grazioli, D ecan us. - (AAS, 26 l u n i i 1 944, pp. 1 79-200.)
Revista Eclesiástica B rasileira, vol . 5, fase. 1 , março 1 945 171

Radiomensagem de Natal do S. Padre Pio XII .


Dam os a s eguir o texto I ntegral da magnifica alocução pronunciad a p el o san to
Pad re Pio XI I 11!\ v l g l l l a de Natal d e 1944. Seguimos a tradução pub l i cada pelo
''L egioná rio" (S. Pau lo, 18-2-45) e fei ta d i retamente do texto do "Osse1·v atore Ro­
ma no" d e 25 d e d ezembro d e 1944. São d o mesmo j ornal as d i visões, t!tulos e sub-
tltulos com que publ icamos o I mportante documento.

O Sexto Natal de Guerra. -"Benignitas et humanitas apparuit Salva­


toris nostri Dei" . i E' já pela sexta vez, desde o início desta guerra horrí­
vel , que a Santa Liturgia do N atal saúda, com essas palavras inspir adoras
de paz serena, a vinda a nós de Deus Salvador. O p résépio humilde e es­
quáli do de Belém faz convergir em si, com atração indizível, o pensa­
mento de todos os crentes.
Ao fundo dos corações e n tenebrecidos, aflitos e abatidos, desce, i nva­
dindo-os todos, uma grande torrente de luz e alegria. As frontes inclinadas
se levantam serenas, p o rque o N atal é a festa d a dignidade humana, a
festa do "comércio admirável , pelo qual o Criador do gênero .humano, to­
mando um corp o vivo, se dignou n ascer d a Virgem, e com sli ã"vinda nos
deu sua divindade". 2
Mas espontâneamente nosso olhar se desvia do luminoso Men i n o do
presép i o para o mundo que n o s cerca, e o doloroso suspiro do Evangelista
São joão aflora aos n ossos lábio s : "Lux in tenebris lucet et tenebrae eam
non comprehenderun t a : A luz resp l a n dece n a s t revas, e as trevas não a
receberam."
E infelizmente também desta sexta vez a a u ro r a do Natal su rge sôb re
os campos de batalha cada vez mais extensos, sôbre os cemitérios em que
se acumulam cada vez mais numerosos o s despoj o s das vítimas, sôbre as
terras desertas, onde raras tôrres vacilantes i n dicam em sua silenciosa tris­
teza as ruínas de cidades o u trora f l o rescentes e prósperas, e onde os si­
nos caídos ou roubados já não despertam os habitantes com seu alegre
côro d e N atal. São o utros tantos testemunhos mudos, que acusam essa
mancha na h i stó ria desta humanidad e que, voluntáriamente cega di ante da
claridade Daquele que é - o esp l e n d o r e l u z d o Padre, vol untàriamente afas­
tada de Cristo, resvalou e c a i u n a ruína e n a abdicação da própr i a digni­
dade. Até a pequena lâmpada se extingu i u em m u itos templos maj estosos,
em muitas c apelas mo destas, onde j unto do tabernáculo havia participado
das vigílias do divino Hóspede sôbre o m u n do adormecido. Que desolação 1
Que contraste ! N ã o haverá po rtanto m a i s esperança para a humanidade?
Aurora de E sperança. - Bendito seja o Senho r l Dos lúgubres gemidos
da dor, do seio mesmo da angústia d i l acerante dos i n d ivíduos e países op ri­
midos, surge uma a u rora de espe rança. Numa plêiade semp re crescente de
espíritos nobres, su rge um pensamento, uma vontade cada vez mais clara
e firme : faze r desta guerra mundi al, dêste catacl isma u n ive rsal, o ponto de
partida de uma era nova, para a renovação profunda e reconstrução total
do mundo. De tal forma, enquanto os exércitos continuam a afanar-se em
l utas mortífe ras, com meios d e combate cada vez mais cruéis, o s homens
de govêrno, o s representantes responsáveis das n ações, se reúnem em co­
lóquios e conferências, com o fito de determinar os dire i tos e deveres fun­
damentais sôbre que se deverá reconstru i r uma comun idade dos Estados,
e de traçar o caminho para um futuro melhor, mais seguro e mais digno
da humanidade.

1) Epistola d e S. Pau l o a T i t o , ca p . 3, vers. 4.


2) Antitona 1.a das Primeiras Vésperas da Circuncisão do Senhor.
3) Evangelho de São João, capitulo l, vers. 5.
1 72 Documentação

Estranha antitese esta coincidência de uma guerra cuj a aspereza tende


a chegar ao paroxismo e do notável p rogresso das asp i rações e dos propó­
sitos por um entendimento em beneficio de uma p a z sólida e duradoura !
Pode-se indubitàvelmente discutir o valo r, aplicabilidade, eficácia desta ou
daquel a p roposta ; pode-se deixar em suspenso o j uízo sôbre elas ; mas é
sempre verdade que o movimento se delineia.
O Problema da Democracia. - Ademais, - e é talvez êste o ponto
mais importante - sob o fulgor sinistro da guerra que os envolve, no
a rdor escaldante da fornalha em que se encontram, os povos como que
despertaram de um longo torpor. Tomaram diante d o Estado e dos gover­
nantes uma nova atitude interrogativa, crítica, desconfiada. Ensinados por
uma experiência amarga, opõem-se com maior violência aos monopól ios
de um poder ditatorial, indevassável e intangível, e requerem um sistema
d e govêrno mais compatível com a dignidade e l iberdade dos ci dadãos.
Estas multidões, irrequietas, revolvidas pela guerra até nas mais p ro­
fundas cafW1.das, estão hoje domin adas pela persuasão (a principio talvez
vaga e co mu sa, mas já agora incoercive l ) de que, se não tivesse faltado
a possibilidade d e sindicar e corrigir a atividade dos poderes públicos, o
mundo não teria sido arrastado n a voragem desastrosa da guerra ; e que
a fim de evitar para o futuro a repetição de semelhante catástrofe, faz-se
mister p roporcionar ao mesmo povo garantias eficazes.
Em tal disposição de ân imos, seria talvez para maravilhar-nos, se a
tendência democrática domina os povos e obtém largamente o sufrágio e
o consenso daqueles que aspiram a colaborar mais eficazmente nos des­
tinos dos indivíduos e da sociedade?
Basta-nos recordar que, segundo os ensinamentos da I grej a, "não é
p roibido preferi r governos mitigados de forma popular, salva porém a
doutri n a católica acêrca da origem e uso do poder públ ico", e que "a
I grej a não reprova nenhuma das diversas formas de govêrno, desde que
sej am aptas a p roporcionar o bem esta r dos cidadãos" . 4
Se, portanto, nesta solenidade que comemora a um tempo a benign i­
dade do Verbo encarnado e a dign idade do homem (dignidade entendida
não só sob o aspecto pessoal, mas também na vida internacional ) , Nós
dirigimos a N ossa atenção ao p roblema da democracia, para examinar as
normas por que deve ser regulada a fim de poder chamar-se uma verda­
deira e sã democracia, condizente às circunstâncias da hora atual - isto
indica claramente que o cuidado e solicitude da Igrej a se volta não tanto
para a sua estrutura e organização exterior (as quais dependem das aspi­
rações .p róprias a cada povo ) quanto para o homem como tal que, longe
de se r o obj eto e u m elemento passivo da vida social, é ao contrário, e deve
ser e permanecê-lo, o seu sujeito, o fundamento e o fim.
Suposto que a democracia, entendida num sen tido l ato, admite várias
formas, e pode verificar-se tanto nas monarquias como nas repúblicas, duas
questões ainda se apresentam ao nosso exame :
1 .0) Que caracteres devem distinguir os homens que vivem na demo­
cracia e sob regime democrático ? 2.0) que caracteres devem possuir os
homens que n a democracia têm o poder p úbl ico nas mãos?
1. Qualidades Próprias dos Cidadãos que Vivem em Regime Demo­
crático. - Externar a própria opinião sôbre os deveres e sacrifícios que
lhe são impostos e não ser obrigado a obedecer sem ter sido ouvido, eis
os dois direitos do cidadão, que n a democracia, como o p róprio nome o
4) Lcilo XIII, Eaclcllca "Libertas", de 20 de junho de 1888, fim.
Revista Eclesiástica B rasi leira, vol . 5, fase. 1 , março 1 945 1 73

indic a, e ncontram a sua expressão. Da soli dez, da ha rmonia dos bons


fru tos dêste contato entre os cidadãos e o govêrno do Estado, � e p ode re­
conh ecer se uma democracia é verdadeiramente sã e equilibrada, e qual
sej a a sua fôrça de vida e crescimento. E pelo que diz à exten são e natu­
reza dos sacrifícios exigidos de todos os cidadãos : em nossos dias em
que a atividade do Estado é tão vasta e decisiva, a forma democrática de
govêrno parece a muitos como um postul ado natural imposto pela própria
razão. Quando porém se reclama "mais democracia e melhor democracia",
tal exigência nada mais pode sign ificar que colocar o cidadão em condições
cada vez melhores de ter a p rópria opinião pessoal, e de exprimi-la e fazê-la
valer de um modo adequado ao bem comum.
Povo e "Massa". - Daqui deriva uma primeira conclusão necessária,
com a sua conseqüência prática. O Estado não contém em si, e não reúne
mecânicamente, em dado território, uma aglomeração amorfa de indivíduos.
:Ele é e deve ser realmente a unidade orgânica e organizadora(J'Jle um ver­
dadei ro povo.
Povo e multidão amorfa ou, como se costuma dize r, "massa", são dois
conceitos diversos. O povo vive e move-se por vida própri a ; a massa é de
si inerte, e não pode mover-se senão por um agente externo. O povo vive
da plenitude da vida dos homens que o compõem, cada um dos quais -
no próprio lugar e do p róprio modo - é uma pessoa consciente das pró­
prias responsabilidades e das próprias convicções. A massa pelo contrário
espera uma influência externa, é um brinquedo fácil nas mãos de quem
quer que j ogue com seus instintos o u impressões, pronta a seguir, vez por
vez, hoje esta amanhã aquel a bandeira. Da exuberância de vida de um
verdadei ro p ovo, a vida se difunde abundante e rica no Estado e em to­
dos os seus órgãos, infundindo nêles, com vigor incessantemente renovado,
a consciência da própria responsabil idade e o verdadei ro sentido do bem
comum. O Estado .p ode servir-se da fôrça elementar da massa, habilmen­
te manobrada e usada : nas mãos ambiciosas de um só o u d e diversos arti­
ficialmente ·a grupados por tendências egoístas, o p róprio Estado pode, com
o apoio da massa, reduzida a não ser mais que uma simples máquina,
impor o seu arbítrio à parte melhor do verdade i ro povo ; o interêsse comum
fica então gravemente e por longo tempo golpeado, e a ferida é bem fre­
qüentemente de cura diflcil.
Dai desponta clara outra conclusão : a massa - qual acabamos de
definir - é a principal inimiga da verdadeira democracia, e do seu ideal
d e l iberdade e de igualdade.
Num povo d igno de tal nome, o cidadão sente em si mesmo a consciên­
cia da sua personalidade, dos seus deveres e dos seus direitos, da p rópria
liberdade conj ugada com o respeito da dignidade e liberdade alheia. Num
povo digno de tal nome, tôdas ·as desigualdades que não sej am arbitrá­
rias mas derivadas da mesma natu reza das coisas, desigualdades de cul­
tura, posses, posição social (sem p rej uízo, bem entendido, da justiça e
da caridade) não são de modo algum obstáculo à existência e ao p redo­
mínio de um autêntico espírito de comunidade e frate rnidade. Pelo con­
trário, longe de lesar de algum modo a igualdade civil, lhe conferem o seu
legitimo significado : isto é, que defronte ao Estado cada qual tem o di­
reito de viver hon radamente a p rópria vida pessoal, no lugar e nas con­
dições em que os desígnios e disposições da Divina Providência o ti­
ver colocado.
Em contraste com êste quadro do ideal democrático de liberdade e
igual dade num povo governado por mãos honestas e providentes, que es-
1 74 Documentação

petáculo o ferece um Estado democrático entregue a o capricho d a massa !


A l i b e rdade, e n q u a n to dever moral da pessoa, se transforma n u m a pre­
tensão tirâ n ica de dar desafôgo l ivre aos impulsos e apetites humanos, em
detrimento dos outros. A igualdade degenera em n ivelamento mecân i co,
n u m a u n iformidade monocroma : sentimento de verdadeira honra, atividade
pessoal, respe ito da tradição, dignidade, mim a pal avra tudo o que d á à
vida o seu valor, pouco a pouco defin h a e desapa rece. E sobrevivem ape­
n a s : d e u m a p a rte, as vítimas i l u didas pela fascinação aparente de demo­
cracia, i n gênuamente confundida com o genuíno espírito democrático e
com a l i b e rdade e igualdade ; e doutra p arte, os aproveitadores m a i s ou
menos n u me rosos, que souberam, p o r meio da fôrça do d i n heiro o u d a
o rganização, assegurar para s i sôbre os o utros uma condição p rivilegiada
e o mesmo po der.
li. Qualidades Próprias dos Governantes nas Democracias. - O Estado
democrátii6). sej a m o n á rqu ico o u republicano, deve como qualquer o utra
forma de govêrno estar investido do poder de mandar, com uma autoridade
verdadeira e efetiva. A mesma o rdem suprema dos sêres e dos fins - que
mostra o homem como .pessoa autônoma, quer dizer como sujeito de deve­
res e d i reitos i nvioláveis - raiz e têrmo de sua vida social, abraça tam­
bém o Estado como sociedade n ecessária, revestida da autoridade, sem a
qual n ã o poderia existir n e m viver. E se os homens, p revalece n do-se d a
liberdade pessoal, n e gassem t ô d a dependência de uma autoridade superior
dotada do d i reito d e coação, abalariam com isso o fundamento da p rópria
dignidade e l iberdade, o u sej a aquela o rdem sup rema dos sêres e suas
finali dades.
Estabelecidos sôbre e sta mesma base, a pessoa, o Estado e o poder
público ( com seus respectivos di reitos) estão intimamente ligados e cone­
xos, de tal modo que j u n tamente sobrevivem ou perecem.
E já que esta o rdem suprema, sob a luz da sã razão e .particularmente
da fé cristã, não pode ter o u tra o rigem que u m Deus pessoal, n osso Cria­
d o r, resulta que a dignidade do homem é a dignidade da i magem de Deus,
a dignidade d o Estado é a d i g n idade da comu n i dade m o ral estabelecida
po r Deus, a dignidade da a u toridade polftica é a dignidad e de sua p artici­
pação da autoridade de Deus.
N e n h u m a forma d e Estado poderá deixar de levar em conta esta co­
nexão íntima e i n dissolúvel ; e a democracia menos que qualquer outra.
P ortan to, se q u em tem n as mãos o poder público n ã o a vê, o u mais ou
menos dela descuida, abala p e l a base a própria autoridade. I gualmente,
se n ã o tiver em suficiente conta esta relação, e n ã o v i r no seu cargo a mis­
são de real izar a ordem estabelecida p o r Deus, n ascerá o p e rigo de que
o egoísmo do d omínio o u dos i n te rêsses p revaleça sôbre as e x i gências
essenciais d a m o ral polftica e social, e que as aparências mentirosas de
uma democracia de p u ra forma sirvam não raro de máscara a quanto
realmente existe de menos democrático.
Somente a compreensão clara dos fins designados p o r Deus a tôda
sociedade humana, compreensão unida ao sentimento profundo dos deveres
subl imes da o b ra social, pode colocar aquêles a quem foi confiado o poder,
em condições de cumprir as p róprias o brigações de o rdem legislativa, j u d i­
ciária ou executiva, com aquel a consciência da p rópria responsabilidade,
com aquela objetividade, imparcialidade, lealdade, generosidade, i n c orrupti­
bilidade, sem as quais u m govêrno democrático d ificilmente conseguiria
conquistar o respeito, a con f i ança e a adesão d a melhor p arte do povo.
Revista Eclesiástic a Brasileira , vol. 5 , fase. 1 , março 1 94 5 1 75
O sentimento p rofundo dos p rincípios de uma o rdem polític a e socia l
sã e c onforme às normas do direito e da justiça, é de particular impo rtâ n­
cia naqueles que, em qualquer forma de regime democrático, têm como
representantes do p ovo, total ou parcialmente, o poder legislativ o. E poi s
que o centro de gravidade de uma democracia normalme nte const ituída
reside naquela representação pop u l a r donde as corrente s políticas se irra­
di am p ara todos os campos da vida pública (tanto para o bem quanto
para o mal ) , a questão da elevação moral, da idoneidade p rática, da capa­
cidade intelectual dos deputados ao parl amento, é p ara todos os povo s
de regime democrático uma questão de vida ou de morte, de p rosp eri da­
de ou decadência, de saneamento ou perpétuo mal-estar.
Para desenvolver uma ação fecunda, para con ciliar a e stima e con­
f iança, todo e qualquer corpo legislativo deve - como o atestam expe­
riên cias inegáveis - recolher em seu seio uma plêiade de homens, espi ri­
tualmente eminentes e de caráter firme, que sej am considerados como re­
presentantes de todo o povo, e não já como mandatários de t� turba a
cuj os particulares interêsses, infelizmente, não raro se sacrificam as verda­
dei ras necessidades e exigências do bem comum. Uma plêiade de homens ,
que não se limite a alguma p rofissão ou condição, mas que sej a a imagem
da multiplicidade da vida de todo o p ovo. Uma plêiade de homens de só­
lida convi cção cristã, de j u ízo j usto e seguro, de senso p rático e equânime,
coerente consigo mesmo em tôdas as circunstâncias ; homens de doutrina
clara e sã, d e propósitos sólidos e retilln eos, homens sobretudo capazes
(em virtude da autoridade que emana de sua consciência p u ra, e la rga­
mente se i rradia em tôrno dêles) de ser guias e chefes, especialmente nos
tempos em que as necessidades prementes sup e r-excitam a impressiona­
bilidade do p ovo e o tornam fácil de ser transviado e perder-se ; homens
que, nos p eríodos de transição, geralmente trabalhados e dil acerados pelas
paixões, pelas divergências das opiniões e pelas oposições de p rogramas,
se sintam duplamente no dever de fazer circular nas veias febrici tantes
do povo e do Estado o antidoto esp iritual das visões claras, da bon dade
solícita, da j ustiça ·i gualmente favorável a todos e a inclinação da vontade
para a união e a concórdia nacional num esp írito de sincera fraternidade.
Os povos cuj o temperamento esp i ritual e moral está bastante são e
fecundo, acham em si mesmos e podem dar ao mundo os p regoei ros e os
instrumentos da democracia, que vivem naquelas disposições e sabem real­
mente traduzi-las em ato. Onde p o rém faltam tais homens, outros vêm
ocupar-lhes o l ugar para fazer da atividade polltica a arena de suas am­
bições, uma corrida aos ganhos p róprios e de sua casta ou sua classe, ao
passo que a caça aos interêsses particul ares faz perder de vista, e l ança
mesmo em perigo, o verdadeiro bem comum.
O Absolutismo Estatal. ·- Uma sã democracia, fundada sôbre os prin­
cipias i mutáveis da lei n atural e das verdades revel adas, será resol uta­
mente contrária àquela corrupção que atribui à legislação do Estado um
poder sem f reios nem limites, e que faz também do regime democrático,
não obstante as aparências contrárias mas menti rosas, um p u ro e simples
sistema de absolutismo.
O absolutismo do Estado (que não se deve confundir, enquanto tal,
com a monarquia absoluta, da qual aqui não se trata) consiste, com efei­
to, n o p rincípio errôneo de que a autoridade do Estado é ilimitada e que
dia nte dela - ainda quando dá l ivre curso a suas miras despóticas, ultra­
passando os l imites do bem e do mal - não se admite apêlo algum a
uma lei superior e moralmente obrigatória.
1 76 Documentação

U m h omem possuído de idéias retas acêrca do Estado e da autoridade


-e poder de que se acha revestido enquanto guarda da o rdem social, não
pensará j amais em ofender a maj estade da lei positiva n o âmbito de sua
competênc i a n atural. Mas e sta maj estade do d i reito positivo humano só
será i n apel ável quando se conformar - o u pelo menos não se opuser -
à ordem sup rem a estabelecida pelo Criador, e posta em nova l u z pela re­
velação do Evan gelho. E l a n ã o pode subsist i r sen ão enquanto respeitar
o fundamento sôbre que se apó i a a pessoa humana, n ã o menos q u e o
Estado e o poder p (tblico. E ' êste o critério fundamental de tôda forma
sadia de govêrno, inclusive a democraci a ; critério com que deve ser j ul­
gado o valo r moral de tôda lei p a rticular.
I l i . Natureza e Condições de U m a Organização Eficaz Para a Paz. -
A união do gin ero humano e a sociedade dos po vos. - Nós quisemos, d i­
letos filhos e fil has, colhêr a ocasião da festa do N atal para indicar o s
caminho w o r q u e u m a democracia q u e co rresponda à dignidade humana
possa, em h a rmonia com a lei natural e com os desfgn ios de Deus m a n i­
festados n a reve lação, chegar ·a resultados benéficos. Com efeito, Nós sen­
timos a suprema importâ n c i a dêste problema p a ra o progresso pacífico
- da fam f l i a human a ; mas ao mesmo tempo somos conscientes das p ro-
fundas exigências que esta forma de govêrno impõe à m aturidade moral
de cada cidadão ; maturidade moral q ue em vão se pode r i a esper a r atin­
gir plenamente e com segu rança, se a luz da gruta de Belém não il umi­
nasse o cam i n h o escuro p o r que os povos transitam de um presente tem­
pestuoso para um futuro que almej am mais sereno.
Até que p o n to, p o rém, os representantes e os pioneiros da democracia
.serão p ossuídos, em suas deliberações, da convicção de que a o rdem
. suprema dos sêres e dos fins, por Nós repetidas vêzes lembrada, inclui
a i n da, como e xigência moral e coroa do desenvolvimento social, a u n ião
. do gênero human o e da famflia dos povos? Do recon hecimento dêste p rin­
cípio depende o futuro da paz. Nenhuma reforma mundial, nenhuma ga­
rantia de paz pode abstrair dêle sem debilitar-se e renegar a si mesma.
Se p o rém essa mesma exigência moral encontrasse sua realização numa
sociedade dos p ovos, que soubesse evitar o s defeitos estruturais e as falhas
das soluções que p recederam, então a m aj estade daquela o rdem regul a­
ria e domina ria igua lmente as deliberações desta sociedade e a aplica­
ção dos seus meios de sanção.
Pelo mesmo motivo se comp reende como a autoridade de tal socie-
dade dos povos deverá se r verdadeira e efetiva sôbre os Estados-membros,
de forma porém que cada qual conserve igual d i reito à sua relativa sobe­
rania. Sómente assim o esp í rito de uma democracia sadia poderá penetrar
também n o vasto e escabroso campo da política externa.
Contra a Guerra de Agressão Como Soluçã o das Controvérsias Interna·
clonais. - Um dever, de resto, obriga a to dos, um dever que não adm ite
nenhuma demora, nenhuma p ro tel ação, nenhuma hesitação, nenhuma ter­
giversação : o de fazer todo o possível para proscrever e b a n i r de u m a vez
para sempre a guerra de agressão como solução legítima das controvérsias
internacionais e como i nstrumento de aspi rações nacionais. Vimos n o pas­
sado empreenderem-se m uitas tentativas com êste fim. Tôdas fali ram. E
falirão tôdas, sempre, enquanto a parte mais sadia do gênero humano não
tiver vontade firme, santamente obstin ada, como u m a obrigação de cons­
ciência, de cump r i r a m i ssão que os tempos passados haviam i niciado com
. insuficiente seriedade e resolução.
Se j amais u m a geração deveu sentir no fundo da consciência o grito
Revista Eclesiástic a B rasi leira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 1 77

de "Guerra à guerra !", é c�rtamente a presente. Caminhan d o atrav és de


um oce ano de sangue e lágrimas, como talvez os tempo s passados jama is
co nheceram, el.a viveu suas indescritíveis atrocidades tão inten samen te que
a lembrança de tantos horrores deverá ficar impressa na memória 'e no
mais profundo dalma como a imagem de um inferno, à qual quem quer
que nutra no co ração sentimentos de humanidade, não poderá ter desejo
mais ardente que o de fechar-lhe as portas para sempre.
formação de um órgão Comum Para a Manutenção da Paz. - As re­
soluções das Comissões Internacionais, até agora trazidas a públic o au­
torizam-nos a concl uir que um ponto essencial de qualquer futuro re'aj us­
tamento mundial seria a criação de um órgão para a manutenção da paz ·
órgão investido por consenso de todos de autoridade suprema, e cujo ofici �
deveria ser também o de sufocar no nascedouro qualquer ameaça de agres­
são isolada ou coletiva. Ninguém poderia saudar esta evolução com maior
alegria do que quem há já muito tempo tem defend ido o princípio de que
a teoria da guerra como meio apto e proporcion ado a resol•At' os con­

flitos internacionais já é passada. A esta colaboração comum a real izar­


se com uma seriedade de intenções antes desconhecida, ninguém poderia
augurar pleno e fel iz êxito com maior ardor do que quem se dedicou cons­
cienciosamente por conduzir a mental idade cristã e religiosa a reprova r
a gue rra modern a com seus monstruosos meios de luta.
Monstruosos meios de luta ! Sem dúvida o progresso das invenções
humanas, que devia assi nalar a verificação de um maior bem-estar para
tôda a humani dade, foi pelo contrário dirigido à destruição de tudo o que
os séculos haviam edificado. Mas precisamente por isto se tornou sempre
mais evidente a imoralidade da guerra de agressão. E se agora, ao reco­
nhecimento desta imoralidade, se acrescentar a ameaça de uma intervenção
jurídica das Nações e de um castigo infligido ao agressor pela sociedade
dos Estados, de modo que a guerra se sinta sempre proscrita, sempre
vigiada por uma ação preventiva - então a humanidade, saindo da noite
escura em que estêve por tanto tempo submersa, poderá saudar a aurora
de uma nova e melhor era da sua história.
Sua Organização Exclua Tôda Imposição Injusta. - Com uma condi­
ção, porém : que a organ ização da paz (cuj as mútuas garantias e onde fôr
necessário as sanções econômicas e até a intervenção armada, deveriam
dar-lhe vigor e estabil idade) não consagre definitivamente injustiça algu­
ma, não comporte alguma lesão de algum direito em detrimento de algum
povo (pertença êle ao grupo dos vencedores, dos vencidos ou dos neutros) ,
não perpetue alguma imposição ou gravame, que só poderá permitir-se
temporàriamente, como reparação aos danos da guerra.
Que alguns povos, a cujos governos - ou talvez também em parte ao
próp rio povo - se atribui' a responsabilidade da guerra, tenham que su­
portar por algum tempo os rigores das p rovidências de segurança, até que
os vínculos de confiança violentamente despedaçados sej am pouco a pou­
co renovados, é coisa que apesar de dura é outro tanto difícil de evitar-se.
Apesar disso, êstes mesmos povos deverão ter também êles a bem fun­
dada esperança (na medida de sua cooperação efetiva e leal aos esfo r­
ços para a futura restauração) de poder ser, j unto com os outros Esta­
dos e com a mesma consideração e os mesmos direitos, associados à gran­
de comunidade das nações. Recusar-lhe esta esperança, seria o oposto de
uma sabedoria previdente, seria assumir a grave responsabilidade de atra­
vancar o caminho para uma libertação geral de tôdas as desastrosas con­
.seqüências materiais, morais, polfticas do gigantesco cataclisma que aba-
12
1 78 Documentação

!ou até o mais profundo a pobre família humana, mas que ao mesm o
tempo lhe indicou o caminho para novas metas.
Austeras Lições da Dor - Nós não queremos ren unciar à confiança
.

que os povos - que passaram todos pela escola da dor - tenham sabi­
do aprender as lições austeras. E nesta esperança Nos sentimos conforta­
dos com as palavras de homens que têm p rovado mais os sofrimentos da
guerra e têm achado acentos generosos para exprimir, j untamente com
a afirmação das próprias exigências de segurança contra qualquer agres­
são futura, o seu respeito pelos direitos vitais dos outros povos, e a sua
aversão contra tôda usurpação dos mesmos direitos. Seria vão esperar que
esta sábia .p osição, ditada pela experiência da história e por um alto senso
polftico, sej a - enquanto os ânimos ainda se encontram incandescen tes
- comumente aceita pela opinião pública, ou mesmo apenas pela maioria.
O ódio, a incapacidade de se compreenderem mutuamente, fêz surgir
entre os povos que se vêm combatendo uma nuvem demasiado densa
para que se possa esperar ter j á chegado a hora em que um facho de luz
desponte• iluminar o trágico panorama dos dois lados da escura mu ra­
lha. Mas de uma coisa sabemos : chegará o momento (e talvez antes
que se pense) em que uns e o utros recon hecerão como, tudo bem consi­
derado, não há senão um caminho para sair da maranha em que a luta
e o ódio envolveram o mundo, e que é a volta a uma solidariedade há
muito esquecida, solidariedade não restringida a êstes ou aquêles povos,
mas universal, fundada na íntima conexão de sua sorte e sôbre os direitos
que igualmente lhes compete.
A punição dos Delitos. - Ninguém certam ente pensa em desarmar
a j ustiça em relação àqueles que se valeram da guerra para cometer ver­
dadeiros e provados del itos de direito comum, aos quais as supostas ne­
cessidades militares poderiam no máximo oferecer um pretexto, mas nun­
ca uma j ustificação. Mas se alguém presumisse j ulgar e punir, não j á os
indivíduos singul armente, mas comunidades inteiras coletivamente, quem
poderia deixar de ver em tal procedimento uma violação das normas que
presidem a qualquer j ulgamento humano?
IV. A Igreja Defensora da Verdadeira Dignidade e Liberdade Humana.
- Num tempo em que os povos -se acham frente a deveres que não en­
contraram talvez nunca, em curva alguma da história, êles sentem ferver
me seu coração atormentado o desejo impaciente e como que in ato de to­
mar as rédeas do p róprio destino, com maior auton omia que no passado,
esperando que assim lhes será mais fáci l defender-se contra as irrupções
periódicas do esp írito de violência, que como uma torrente de lava incan­
descente a nada poupa de quanto lhes é caro e sagrado.
Graças a Deus, podem-se crer passados os tempos em que a apelação
aos princípios morais e evangélicos p a ra a vid� dos Estados e dos povos,
era desdenhosamente excluída como irreal. Os acontecimentos dêstes anos
de guerra se encarregaram de refutar, do modo mais cruel que se teria
podido imaginar, os propagandistas de semelhantes doutrinas. O desdém
por êles ostentado contra aquêle pretendido irrealismo, mudou-se numa
espantosa real idade : brutalidade, iniqüidade, destruição, aniquilamento.
Se o futuro pertencer à democracia, uma parte essencial de sua reali­
zação deverá pertencer à religião de Cristo e à Igrej a, mensageira da pa­
lavra do Redentor e continuadora da sua missão salvadora. Ela de fato
ensina e defende as verdades, comunica as fôrças sobrenaturais da graça
para realizar a ordem dos sêres e dos fins estabelecida por Deus e que
é o fundamento último e a norma diretiva de tôda democracia.
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. I, m a rço 1 945 1 79

Co m a sua mesma existên cia a I grej a se ergue de fre nte ao mu ndo


qu al faro l esplendoroso a recordar constantem e nte esta o rdem divina. À
sua h istória reflete claramente sua m i ssão p rovide ncia).. As lut as que
co nstra ngida pelo abuso d a fôrça, deveu sustentar pela defesa da J iber�
da de recebida de Deus, foram ao mesmo tempo l utas pela verda deira li­
be rda de do h o mem.
A I grej a tem a missão de anunciar ao mundo, ansioso p o r melhore s
e mais perfeitas formas de democracia, a mensagem mais alta e mais
ne ces sária que possa haver : a dignidade do homem, a vocação à filiação
di vina. E ' o grito poderoso que ressoa, do p resépio d e Belém até os e x­
tremos confins da terra, aos ouvidos dos homens, num tempo em que esta
di gnidade é mais dolorosamente rebaixada.
O m istério do Santo N atal proclama esta inviolável dignidade humana
co m um vigor e com uma autoridade i n apelável, que t ranscende infinita­
m ente aquel a a que poderiam chegar tôdas as possíveis declarações dos
di reitos do homem. N atal, a grande festa do Filho de Deus apé.�1!l:: i do em
ca rne, a festa em que o céu se inclina para a terra com u m a inefável g ra­
ça e benevolência, é também o dia em que a cristandade e a humanidade,
diante do p resépio, na contemplação da "benign itas et humanitas Salva­
toris n ostri Dei", se tornam mais intimamente consciente s da estre i ta união
que Deus estabeleceu entre êles. O berço do Salvador do mundo, d o Res­
ta urado r da dignidade humana em tôda a sua plenitude, é ponto indicado
da aliança de todos o s homens d e boa vontade. Ao pobre mundo d i l ace­
rado pelas discórdias, · dividido pelos egoísmos, envenenado pelos ódios,
será ali concedida a luz e restituído o amor, e será dado encaminhar-se
em cordial harmonia para o escopo comum, a fim de achar finalmente,
na paz de Cristo, a cura de suas feridas.
V. Cruzada d e Caridade. - Não q ueremos c o n cluir esta Nossa Mensa­
gem de N atal sem dirigir u ma palavra comovida a todos aquêles - Esta­
dos, Governos, B i spos, povos - que nestes tempos de inenarráveis desas­
tres Nos têm p restado valioso auxílio em atender ao grito de d o r que
Nos chega de tôdas as partes do m u n do, e em dar Nossa mão socorredora
a inúmeros diletos fil hos e filhas que as vicissitudes da guerra reduzi ram

·à extrema pobreza e miséria.


E em primeiro l u gar é j usto reco rdar a vasta obra de assistência de­
senvolvida, não obstante as extrao rdinárias dificu ldades de transpo rtes,
pelos Estados U n idos da América, e, no que diz respeito particul armente
à Itália, pelo Exmo. Representante pessoal, j u nto a Nós, do P residente
daque l a U nião.
Nem men o r l o uv o r e reconhecimento N os é grato expressar à gene­
rosidade do C hefe de Estado, do Oovêrno e do p ovo espanhol, do Oovêrno
I rlandês, da A rgenti n a, d a Austrália, d a Bolfvia, do B rasil, d o Canadá,
do Chile, da I tália, da Lituânia, do Peru, da Polônia, d a Rumânia, d a Es­
lováquia, da Suíça, da H ungria, do U ruguai, que porfiaram em nobres
sentimentos de frater.nidade e caridade, c uj o eco não h á d e ressoar em vão
pelo m u ndo .
Enquanto os homens de boa vontade se esforçam p o r l a n ç a r u m a pon­
te esp i ritual de união entre os povos, esta obra de bem, pura e desin­
teressada, assume um aspecto e u m valor de singular importância.
E quan do - como todos auguramos - as dissonâncias do ódio e da
discórd i a que dominam a hora p resente não forem mais que uma triste
rec ordação, amadurecerão com abundânci a ainda mais larga os frutos des-
1 2*
l 80 Documentação

' ta vitória do am0r magnânimo e operante sõbre.: 0; veneno: ãa. egoísmo


..e das i nimizades.
A q uantos fêm participado nesta Cruzada de carid'a:de,. sfrv-a de estí­
mulo e recompensa a Nossa Bênção Apostólica e O · pensamento• d� que na
. festa do amor se teva·n tará por êles ao céu, de inumeráveis coi;a.çtles angus­
-tiados mas não .esquecidos, a o ração de reconhecimento : "Retribuere digna­
: re, .'Domine, · omnibus n o b is b ona facientibus propt"er no.m:en tuum, vitam
, aéternam!" ·. Dignai-vos, Senhor, retribuir com a vida eterna a todos aquê­
'. les que nos fazem o bem pelo vosso n ome !

·Alocu.ção .do Santo Padre ao Sagrado Colégio e à Prelatura


Romana.
•C omo d�stu me , a 24 de dezembro 'lll t lmo, o Santo Pad re concedeu uma audlên­
.-cla espeC'l"lrl · ao . Sagrado Colégio Card l n al lclo e à Prelatura Romana. As felicitações
receb idas nesta · ocasião, Pi o XII respondeu com a seguinte alocução que transcre­
,:e m os d o "Lcgl onârlo" ( S. Paulo, 25-II-45) e cuj a tradução foi feita sObre o t e xto
,

original publicado no "Osservatore Romano" (26-XII-4!1.)

Gr.a"fiiliio Paterna.
- Mais ainda que o costume tradicional, foi o nobre
:.impulso de vossos corações que, nesta vigilia do Santo Natal e ao aproxi­
mar-se do .ano n ovo, vos conduziu, Veneráveis I rmãos e diletos filhos, à
Casa .do Pai Comum dos fiéis. Vós, que durante o ano que chega a seu
ocaso, Nos houvestes assistido com vossos sábios conselhos e com vossa
iassfdua -colaboração, quisestes agora oferecer-Nos o dom de vossas fer­
vorosas orações e dos vossos votos expressos com tão deferente bondade,
oeom tanto frescor, e tão claros acentos, pelo vosso emi nente intérprete,
.o venerando Senhor Cardeal Decano do Sagrado Colégio ; quisestes d izer

:a quem leva sôbre os frágeis ombros, em tempos tão diffceis, o pêso do

Supremo Min istério Apostólico, que no cumprimento de um oficio cada


dia mais vasto e espinhoso, �le pode sempre contar com o concurso de
tôdas as vossas fôrças consagradas ao serviço de causa tão augusta.
A tanta vossa devoção e fidelidade, a tanto zêlo operoso por vós
exercido nos encargos a vós designados n a m i l ícia de Cristo - de quEI
outro modo poderia corresponder o Nosso coração p aterno, senão com
um vivo sentimento de satisfação e gratidão para convosco, e sobretudo de
humilde reconhecimento ao Pai das l u zes, que fêz descer com profusão
nas vossas almas o Espfrito de Seu Filho, Sumo e Eterno Sacerdote?
Múltiplas Dificuldades Ocasionadas P e la Guerra. - Quanto mais a
guerra se prolonga, tanto mais, i nfel izmente, as graves e m ú l tiplas difi­
culdades por ela criadas impedem de p rover, conforme as melhores tra­
dições do passado e a expectativa dos povos que formam a un iversalidade
d a I grej a, a não p oucas vacâncias que dolorosamente se verificaram n a
Cúria Romana e fora dela. E não menos i n tensamente Nos afligem os
obstáculos que tornam mais difícil ou, para m u itos l ugares, absolutamente
impossível a vinda dos Bispos à Cidade Eterna, para venerarem o Sepulcro
d e Pedro e visitarem o seu indigno Sucesso r ; visita que é o símbolo e
sustentáculo poderoso da un ião de todos os membros da I grej a com sua
Cabeça visfvel. Nós esp e ramos ansiosamente o dia em que, l ivre o cami­
n h o de todos os Países para Roma, possamos aqui saudar os N ossos Ve­
neráveis I rmãos e conversar com êles sôbre as necessidades, j amais con he­
cidas no grau em que se acham hoje, e os formidáveis p roblemas p a ra
cuj a solução, depois da guerra, em tôdas as p artes do mundo e especial­
mente nos territórios de missão, a I grej a deverá emprestar sua mão solicita.
Revista E �lesiâstica Brasileira, vol. 5, fase. 1, ma rço · rg4 5 1 8 1'


V sões _d o Ano que Termina. Não apenas ? ºs anais da Urbe, mas
� �
-

n o mais fntt mo da alma e to o o p ovo romano, ficou esculp ida co mo que


.
por um buril de aço, a história do ano que agora se avizinha de seu fim;.
Ano de angústias prementes e de graves perigos, . desde cujo; inicio a•
trágica sorte tocada a outras cidades reduzidas a um montão de rulna s
e de cinzas, pairava como ameaça iminente sõbre estas col inas sagra das
de que brotaram para a human idade e a cristandade benefíc ios impe reciv eis;
Ano de p roteção generosa e palpável, durante o qual o anjo exte rmi­
n ador que já brandia sua esp ada, passou poupando aos horrores da de-·
vastação o solo santificado pelo sangue do Príncipe dos Apóstolo s e de·
tan tos márti res.
Ano de ta ntas ansiedades para os vossos corações, inquietos não só·
pelos perigos exteriores da guerra, mas sobretudo pela so rte, segurança e
liberdade desta Sé Apostólica no cxercfcio impertu rbável de todos aquêles ·
direitos e deveres que, acima dos conflitos terrenos, são inerentes à sua
m issão un iversal para o bem das almas.
Com ânimo reconhecido e comovido para com o Senhor mi S"gicordio ­
so, nós vemos imergir no oceano da etern idade êste ano tão cheio de fa­
digas e afãs, de dores e consolações, de p rovas e graças interiores. E com
uma confiança que os perigos passados tornaram ainda mais sólida, os nos­
sos olhares se voltam para o "Magni consi l i i An gelus" que nos foi dado·
na gruta de Belém, e sob a sua benéfica direção, sem timidez pusilân ime,
afrontemos o trabalho e as p rovações que Nos reserva o futuro desta hu­
manidade atribulada.
Transformações Exteriores e Espirituais da Humanidade. Podemos
-

todos persuadir-nos, Veneráveis I rmãos e diletos fil hos, de que ao sai r da


guerra a humanidade não só encontrará condições de vida profun damente
mudadas, mas sobretudo espiritualmente mostrará uma feição bem di­
versa da anterior ao conflito.
As cartas geográficas que assinalam os l imites dos Estados não se­
rão as (m icas a mudar de aspecto.
Também os homens, especialmente os homens : nas investigações das
inteligênci as, no silencioso segrêdo dos corações, nas aspirações e nos
julgamentos, nas apreciações e nos afetos, muitas transformações já se
produzi ram cujas repercussões exteriores não se farão esperar por mui­
to tempo.
As almas de uma grande parte dos homens estão perturbadas por
uma agitação i rrequieta, que não · encontra talvez similar em nenhuma das
mais graves crises da história. Agitação na qual o bem e o mal se acham
estran hamente mesclados, para criar e para destruir, para ordenar e para
subverter. A tal agitação se alia em muitos uma aversão quase instintiva
contra todo o passado, um frenesi de novidade, que mu itas vêzes não dei­
xa de ter fundamento em seu objeto nem nobreza nos seus motivos, mas
que falha freqüentemente na clareza e precisão do fim e -n o discernimento
para a escolha dos me ios, ao mesmo tempo que, com imprudente e ap ressa­
do otimismo, se espera da novidade mais do que ela p ossa dar.
Quem quer que sej a pt!rito em interpretar os sinais do tempo presen­
te, em ler no fundo dos corações dos homens, em segu ir com olhar tran­
qüilo e j ufzo imparcial a curva sintomática desta febre, sabe muito bem
q ue junto com a inquietação que invadiu a alma das multidões por causa
da guerra e dos acontecimentos concomitantes, penetrou no mundo um
cla mor de renovação que tende e arrasta, de uma ou de outra forma, para
sua realização efetiva.
1 82 Docu mentação

Seguirá esta realização o cu rso de uma evolução gradual e ordenada,


o u pelo contrário i rromperá violentamente, fazendo voar pelos ares as
pontes entre o passado e o futuro : l ançar-se-á impetuosa como uma tor­
·rente por cima das barreiras, levando de roldão os diques da j ustiça e da
moralidade? Depois do sangüinolento flagelo da guerra mundial, deverá
ainda a humanidade sofrer a p unção venéfica da guerra civi l ?
Caridade Misericordiosa d a Igreja. - No mesmo centro da humani­
dade que, através de tão trágico presente, se encaminha para um futuro
incerto, ergue-se vigilante e protetora a Civitas supra montem posita, a
Igrej a de Cristo.
As ondas do mar, furiosamente encapeladas, vêm quebrar-se aos pés
de seus muro s ; mas no interior, o Saneia Sanctorum da sua fé e da sua
esperança permanece inquebrantável.
N a tormenta das vicissitudes ter·renas e não obstante as faltas e fra­
quezas que possam ofuscá-la superficialmente, ela tem a segurança de .per­
manecer�tperturbàvelmente fiel à sua missão até o fim dos tempos.
;Fortalecida por certeza tão consoladora, que não se funda sôbre a ha­
bilidade humana mas sôbre os auxílios da Onipotência D ivina, a Espôsa
de Cristo pode e deve, em meio à presente agitação, inclinar-se com uma
ternu ra muito mais profunda e íntima, com uma dedicação muito mais
generosa, para a imensa multidão de seus filhos desventurados, angustia­
dos, perplexos, e com tanta freqüência, infelizmente, transviados e perdidos.
Em nossos dias, quando se tornaram legião as vítimas do êrro, ino­
centes ou culpadas; quando cresceu espantosamente o número daqueles
que pelo sofrimento, pela m iséria, opressão, inj ustiça, abandono espiri­
tual e mau exemplo perderam o caminho certo, uma luminosa mensagem
resplandece aos ol hos da Igrej a, dos seus ministros e de todos os seus
filhos chamados ao apostol ado da palavra e da ação. An imada pela gene­
rosidade do amor salvífico de Deus, ela repele a orgulhosa estreiteza, a
vaidosa justiça do farisaísmo em seu iso lamento desdenhoso e soberbo,
lembrando-se da palavra do Redentor : Notz veni vocare justos sed
peccatores. 1
A Defesa da Verdade. - Um limite, no entanto, uma barreira moral
se levanta diante desta caridade misericordiosa, uma barreira que a mes­
ma caridade não tem direito de transpor : a Verdade.
Num tempo em que mais pungente e mais doloroso que ·n unca se ve­
rifica o lamento : Desiit fidelitas inter filios Jz ominum 2 ;
num tempo em que os erros, largamente difundidos com uma violên­
cia ora manifesta ora mal dissimulada, se esforçam por conquistar a di­
reção da opinião pública e os postos de mando ;
'll U m tempo em que as palavras liberdade, independência e democra­
cia não são para algumas aspirações e tendências de espirita nada mais
que um meio para iludir a vigilância daqueles cuj a fidelidade não se pres­
taria j amais, conscientemente, a abandonar ou colocar em perigo a heran­
ça recebida de todo o passado cristão ;
num tempo em que mais hàbilmente que nunca o inimigo de Cristo e
de sua Igrej a p rocura, consoante a expressão do Apóstolo das Gentes, re­
vestir-se de Anj o de luz s ;
·n um tempo como êste, a Igrej a e o Pastor Supremo responsável pela
herança do Senhor, têm mais que nunca o dever de proclamar a Verdade,
1) Não vim chamar os justos mas os pecadores. (Lc 5, 32. )
2) Desapareceu a fidel idade de entre os filhos dos homens. ( S I 11, 2. )
3) 2 Cor 1 1 , 14.
Revista Eclesiást ica B rasi leira, vol . 5, fase. l , ma rço 1 94 5 1 83

de defendê-l a contra as i nsfdi �s dos erros dominantes, sem resp eito hu­
m ano e sem fraquezas ; de abrir o s olhos aos homens de bo a von tade e
assin aladamente dos fiéis, sôbre os perigos de algumas .c orren tes mod e rn s · �
de aguçar a perspicác i a de seus j uízos, para discernir imediat amente 0�
erros que revestem uma aparência de verdade, a fim de que os p ovos n ão
t enham que experimentar, demasiado tarde e à própria custa, a amar ga
ad moestação do Profeta : Arastis impietatem, iniquitatem messuistis, come­
distis f rugem mendacii. 4
Mensagem de Natal. -Solfcitos por cumprir êste grave dever, N ós,
como nos anos passados, também na presente solenidade natalícia dirigi­
remos, ainda hoj e, uma Mensagem aos fiéis de tôda a terra, mu itos dos
quais, separados m aterialmente por causa do conflito mundial, desta Sé
de Pedro, têm duplamente a n ecessidade de sentir-se un idos, como mem­
bros igualmente verdadeiros e igualmente amados, à grande familia da
Igrej a ; e alegrar-se-ão se N ossa palavra chegar portadora de �mor e de
bem, ainda àqueles que não estão unidos a Nós pelo santo vínc11To da fé.
Entrementes, tudo o que o Nosso coração encer·ra de afeto, benevo­
lência e gratidão por vós, Nós o depomos, Veneráveis I rmãos e diletos
fil hos, aos pés do berço Daquele que se abaixou na humildade da carne
para tornar os que crêem N êle participantes de suas inesgotáveis rique­
zas e de sua imperscrutável dignidade, suplicando-Lhe vos faça saborear
abundantemente, a todos e a cada um na esfera dos próprios deveres, as
alegrias intimas e a consolação desta filiação divina. Com tal augúrio Nós
damos de coração a vós e a todos aquêles que desej ais incluir em vossas
orações e nos vossos votos de N atal, como penhor das mais e leitas gra­
ças do Príncipe da Paz, a Nossa Bênção Apostólica.

4) Vós lavrastes a i mpiedade, ceifastes a iniqüidade, comestes o fruto da men­


tira. (Os 10, 18. )

P E LAS R EV ISTAS
A Missão da Igreja e o Pontificado de Pio XII.
lll e rece perpetuado nas páginas desta Revista o brilhante artigo que J o ã o d e
L o u r e n ç o pub l i cou no "Jornal do Comércio" (Rio. 30-VI-44) e no qual exalta
a figura luminosa d o atual Pontlfice gloriosamente reinante, e a m issão do Papad o.

t. Bispo de Roma e Bispo Universal. O Papa é o supremo pastor da


-

Igrej a . Exercita a função pastoral, normalmente, pelo ensino e pelo go­


vêrno. Pelo ensino difunde o Papa o conhecimento da verdade. Ao ordenar
que os apóstolos percorressem o mundo, ensinando as nações, Nosso Se­
nhor tornou-os mestres da doutrina e testemun hadores da verdade. O
apostolado impede o naufrágio das almas em meio das p rocelas da vida.
A Pedro assegurou jesus Cristo a infalibilidade do Pontífice Romano :
" Roguei por ti para que a tua fé n ão desfaleça ; e tu, convertido, confirma
na fé os teus i rmãos."
1 84 Pelas revistas

Entre a bonança e a tempestade, vitoriosamente, sulca a barca de


Pedro os mares do tempo. Sobrevive a I grej a aos maiores perigos. Assis­
te à ·r ufna das heresias. Testemunha o colapso de todos os fastlgios. Re­
fulge, ainda mais triunfante, no século de Inocêncio I l i e de São Lufs.
Borrascas indescritlveis tentam desarvorá-l a à época da Reforma e da Re­
volução. Todavia, conforme luminosamente assinala um dos grandes pre­
l ados, a I grej a, pela voz dos pontífices, ao transbordamento dos erros opõe
resistências inexpugnáveis, coraj osos j u l gamentos condenatórios, uma dou­
trina eterna, um ensinamento p reciso e cristalino. Sôbre as blasfêmias dos
massacres, semelhante à pureza da luz através da cerração, continua a
verdade a flamej a r na mão impertu rbável dos sucessores de São Pedro,
em Roma etern a ; na igrej a de Roma, igrej a como tôdas as outras, mas
também "princeps et caput", "ecclesia principalis, unde unitas sacerdotalis
exorta est" ; igrej a m atriz, onde a unidade sacerdotal é exalçada, confor­
me o conceito de São Cipriano.
N a Q&ii n ição do Concflio do Vaticano, o Papa exerce os encargos de
sua missão com sobera n a independência e plena j u risdição episcopal. Ao
Vigário de Cristo os pastôres de todos os ritos e hierarquias estão ligados
pelo dever de subordinação hierárquica, de verdadeira obediência tanto no
que diz respeito aos artigos de fé e aos costumes, quanto no que interessa
à disciplina e ao govêrno da I grej a no mundo inteiro, a fim de que,
mantida a unidade de comunhão pelo Pontlfice Romano, a Igrej a de Cristo
sej a um só rebanho e um só p astor, afirmando-se na plenitude da auto ri­
dade o poder de ordem, o magistério doutrinal e a j u risdição soberana. Age
o pastor, o doutor, o j uiz, o legislador.
Há, n as chaves simbólicas de São Pedro, a clavis doctritzae e a clavis
jurisdictionis. O Papa é o chefe visível de tôda a Igrej a militante, o paí
e o doutor dos fiéis, segundo a defin ição dos concíl ios ; o verdadeiro Vi­
gário de Cristo, seu substituto n a terra. A verdade chegou a Roma dos
.p ontifices pela revel ação dos apóstolos. Conservá-la, transmiti-la, explicá-la,
eis a fu nção dou trinal da Santa Sé. Que encargo extraordinário é atribuído
ao homem : conti nuar o ensin amento de jesus Cristo na face da terra !
O magistério da Igrej a transl uz nos documentos que refletem a co­
municação da palavra ponti fical ao mundo inteiro. Temos de crer na pala­
vra do Soberano Pontíf ice ; cump re-nos, sobretudo, obedecer-l he. A obe­
diência do Evangelho une o fiel efetivamente ao Cristo. E' a renúncia que
atrai Aquêle que resiste aos soberbos e dispensa a sua graça aos humil des.
Não há obediência cristã sem eficácia. A não segu i rmos a rota de Pedro,
que atitude nos restaria, senão repetir a própria invocação do Prfnci.pe dos
Apóstolos? "Senhor, a quem nos dirigirmos, então, se só tu possuis as pa­
lavras ela vida eterna." Os que têm o espírito católico beijam sempre a mão
terna e amorosa Daquele que repele o torpor e dissipa i l usões repassadas
de angústia. Bendigamos, pois, a Deus que suscita em cada época o ho­
mem capaz de transmitir os p receitos da vida ete rna e as ordens salvado­
·ras à medida das ci rcunstâncias da h istória.
Desde o século X I I I , conferem os soberanos pontffices, em Roma, ple­
nos poderes ao vicarius in spiritualibus. Até 1 558, êsse vigário era um sim­
.pies prelado, passando à eminência de cardeal no pontificado de Pauto I V.
Assim, a administração da diocese de Roma foi confiada a um Cardeal­
Vigário, cujos col aboradores são nomeados pelo Papa, desde 1 7 1 7. Pio X
reorganizou o vigariado de Roma em 1 5 de janeiro de 1 9 1 2. Não cessam
as atribuições do Vigário Geral do Papa durante a vacância da sede apos­
tólica. A catedral do Pontffice, Bispo de Roma, é São joão de Latrão. No
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 1 85

frontispício do templo domina a seguinte legenda : Sacrosancta latera­


n ensis ecclesia, omnium urbis et orbis mater et caput; a sacro ssanta igre­
ja lateranense, mãe e cabeça de tôdas as igrej as de Roma e do mundo .
Nos têrmos do Concílio de Florença, d a Catedral de Latrão exerce 0 Papa
o p leno poder de regência e de govêrno da Igrej a un iversal - plenam
po testatem regendi et gubernandi universalem Ecclesiam.
A catedral pontifícia constitui, portanto, o centro do mundo católico.
Dali se irradia o pensamento da I grej a. Ergue-se ali a cátedra de São
Pedro. Ali os papas se investem da missão de sucessores do Príncip e dos
Apóstolos e de vigários de jesus Cristo. Ali reluz história milenar.
Vários séculos antes da era cristã, o domínio refe rido perten cia à
gr ande fam i l i a dos Lateran i . Confiscado por Nero, o Imperador Constan­
tino, depois da paz da Igrej a, em 3 1 3, o doou aos Papas Melquía des e Sil­
ve stre, para su rgi r da obscuridade das catacumbas a basilica destin ada
à sede do pontificado romano. Ach a-se a catedral sob o patrocínio de São
joão Batista e de São joão Evangelista. Assediaram-na, através�s tem­
pos, invasões, pil hagens, tremores de terra, incêndios. Latrão sobrevive, po­
rém, ao furor das ruínas. A sua restau ração remonta ao período da Re­
nascença. Tirando à vel h a basilica o antigo tom medieva l, veio a a rte bar­
roca en riquecê- l a de esplendores magn íficos. Inocêncio X I I e Clemente XI
imprimiram a São joão de Latrão o seu aspecto atual. Consagrou-a Bento
X I I I , solenemente, em 28 el e abril de 1 726. Clemente X I I fêz constru i r a fa­
chada principal, com a "l oggia" famosa, de onde Pio X I I abençoou pela
primeira vez o mundo em 3 de março de 1 939.
As conclusões canônicas acêrca do primado pontifício resumem o s
ensinamentos do Concílio d o Vaticano. Sucessor de S ã o Pedro, possui o
Papa não só a p rimazia de honra mas pleno e soberano poder de j u ris­
dição sôbre a Igrej a. Ordinário e imediato, o seu poder se estende a tôdas
as igrej as em geral, bem como a cada uma delas em particul a r ; a todos os
pastôres e fiéis, a todo pasto r e a todo fiel, de per si. J!sse poder se re­
veste da fôrça de uma autoridade que não depende do arbítrio do homem.
Não se pode apel ar de decisão da Santa Sé. Por ninguém ela é j u l gada :
prima sedes a nemin e judicatur. Sempre é possível, po rém, apelar para o
Papa. Tem plen itude o poder pontifício. Estende-se aos indivíduos e às co­
letividades, como aos concílios ecumên icos. Verdadei ramente ep iscopal, ul­
trapassa as simples funções de inspeção, de di reção e de vigilância. E' si­
multâneamen te legislativo, j u diciário, coercitivo e executivo.
O Papa é o Bispo de Roma e o Bispo un iversal . Nenhuma restrição
humana circunscreve o exercício de sua sup rema autoridade. Dizem os ca­
nonistas que, n o espírito de moderação e de doçura do Evangel ho, en­
contra o Papa as inspi rações do seu dever. Segundo Joseph de Maistre,
constitui o Soberano Pontífice a base n ecessária, única e excl usiva do cris­
tianismo. Pertencem-lhe as p romessas e o cetro da un idade indestrutível
da Igrej a. Tôda I grej a não católica representa uma insur�eição contra a
unidade romana. Dive rgem os dissidentes no reconhecimento de vários ar­
tigos de fé. A infalibil idade do Papa é o dogm a da sobrevivência do cris­
tian ismo. Daí o domínio da unidade de um lado ; do outro, o domínio do
ó dio à unidade. Só a un idade romana é fecu nda porque nasce da Igrej a fiel
ao seu espôso.
2. O PerHI e a Tarefa do Santo Padre. - Ao legar a Pio Xll a tarefa
de govern a r o mundo catól ico, definiu Pio XI a imensidad e dos deveres
que pesam sôbre o seu sucessor, mediante as seguintes palavras que bal­
buciara no transe da morte para a vida : "Ainda temos tanto que faze r ! "
1 86 Pelas revistas

Lembra-nos a sentença outro conceito de Pio XI acêrca do cardeal Pacell i,


quando Secretário de Estado. Em 1 928, ao receber os cardeais alem ães,
excla mava o Papa das Missões : "Ah l se o mundo soubesse o que é Pa­
celli para nós." Pacelli fôra chamado por Pio X I , certo dia, o Orador de
Pentecostes. "
Ao Papa Missionário sucedeu o Papa Místico, o Papa de Mãos Pos­
tas, o Papa Angél ico. Ascendendo ao pontificado em meio de um mundo
perdido no turbilhão do materialismo, adotou Pio X I I uma divisa que re­
sume tôda a sua missão de Vigário de Cristo : Opus fustitiae Pax. Na fala
ao Colégio Cardinalício, a propósito da escolha iminente do nome que de­
veria substituir o Pontífice desaparecido, declarou o dignatário investido
de tão singular incumbência : "Cumpre que aquêle que elegerdes tenha a
i nvencível fôrça do espirito que os pontifices-mártires consagraram com
o seu sangue ; seja dotado de celestial sabedoria, abalando e destruindo
com o U parecer os erros latentes. Sobressaia pela fortaleza apostólica ;
·sej a inexpugnável n a resistência aos ataques dirigidos contra o nome cató­
l ico. E' de primeira e suma importância que êle brilhe pelo exemplo de
uma vida Integra e santa, que êle .possa atrair sôbre si a admi ração e a
veneração de todos."
A eleição consumou-se no dia 2 de março de 1 939, um dia após o ini­
cio do cônclave, em circunstâncias realmente raras na história da suces­
são de São Pedro. Alguns episódios especialmente assinalam o passado da
figura que Deus colocou à frente de sua Igrej a, numa fase de árdua con­
j untura mundial. Ei-los, sem ordem cronológica. Fil ippo Pacelli, pai do
Pontífice, predissera : "Se o meu filho Eugên io se fizer padre, terminará
seguramente cardeal ; talvez mesmo Papa." Em 4 de março de 1 876, cele­
brou-se o seu batismo com os nomes de Eugênio, Maria, Oiuseppe, Gio­
vanni. Após a cerimônia, tomando a criança nos braços, exclamou o cele­
brante : " Decorridos sessenta e três anos a partir de hoje, a cristandade en­
toará cânticos a São Pedro, prosternando-se diante desta criança." Certo
dia, ouvindo falar sôbre a vida dos missionários, em países distantes, de
súbito, o pequeno Eugênio, com grandes olhos abertos, exclamou em ímpe­
to de entusiasmo : "Eu também quero ser mártir mas sem os pregos." Sem­
pre que êle se ausentava de casa por maior tempo, a genitora costumava
dizer : "Não tenho de que me inqu ietar. Sem dúvida, Eugênio está aos pés
ela Madona della Strada." Ao seu retômo, indagava maternalmente do
filho : "Eugênio, que fazes tu na capela durante êsse tempo todo?" E êle
respondia : "Mas, mamãe, eu rezo e digo tudo a Nossa Senhora." Pelas
noites a dentro prolongavam-se os seus estudos, dando motivo às seguin­
tes observações das irmãs : "Mamãe, Eugênio estuda demais." E, volven­
do-se para o i rmão, acrescentavam : "Tu queres, então, ser Papa ? ! "
U ivava e m Munich, através das ruas d a cidade, o tumulto comunis­
ta, numa hora sombria da história un iversal ; talvez tão ameaçadora quanto
à fase por que passa o universo, na ânsia de inquirir acêrca dos rumos
do seu destino. Penetraram os sublevados ·n o palácio da nunciatura. Tudo
fazia temer pela incolumidade do núncio. Su rge Pacelli. Desce a escada com
aquêle perfil tão seu, com a sua figura que lembra, no conceito de um
-0bservador, o perfil de um santo de vitral : rosto pálido, austeridade ascé­
t ica, corpo extremamente magro, olhos negros e profundos, mãos de sin­
gular finura, po rte senhoril, gestos decisivos. Reluz nêle uma bondade
-comparável apenas à energia que a emoldura. Parou com o olhar sôbre
os amotinados e êles abandonaram, automàticamente, o palácio da nun­
<:iatura. Na Universidade Gregoriana, argumentava com tamanho vigor o
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 1 87

aluno p redestinado, no intui to de convencer o colega Frederico Tedeschini ·


na s u a expressão havia tanta fôrça sugestiva que uma voz exclamou ;
"B ravo s ! Se assim continu ais, u m dos dois terminará por ser Papa." N a
cerimônia d a o rden ação, declarou uma velh a serva da casa d o s Pacelli ter
visto em sonh o a tríp l i ce coroa na cabeça do n ovo sacerdote. jubilosamen­
te, d i r igindo-se a uma dama d a casa, afirmou : "Senho ra, eu vos digo que
termi n areis p o r ver D . Eugênio P apa."
E' u m a t a refa árdua e comovente discorrer sôbre a personalidade de
Pio X I I . Lembra um dos seus biógrafos que a vida do Cardeal Pacelli de­
correu em m i ssões sucessivas, m u itas das quais em várias partes do mun­
do. Acentua ainda que, na o rientação de Pio XI, teve p recedência a obra
das m issões e que o Cardeal Pacel l i trabal h o u como verdadeiro missio­
nário. E stêve na I tália, na Suiça, na Alemanha, na I n glaterra, na França,
n a Argentina, na América d o N o rte, na H ungria e no B rasil. No primeiro
ano do seu pontificado, consagrou 1 2 bisp os, todos missionários : 2 africa­
nos, u m chinês, u m indiano e 8 p relados de n acionalidades diver!?s .
H á em Pio X I I u m a formação vasta, ao mesmo tempo humanista e
religiosa. O silêncio rege tôda a s u a existência. Não há homem que se do­
mine mais do q u e Eugênio Pace l l i . Extremamente calado, possui a nobreza
e o equilibrio clássico. De vida religiosa objetiva, faz do trabalho um
culto. E m u l a m a sua amen idade e a sua humildade. Não o satisfazem dis­
posições medíocres. Pede coisas defin itivas. Contemporiza, sem o sacrifício
de p r i n cípi o s fundamentais. Feito p a ra guiar consciências, imensamente bon­
doso, é simultâne amente o homem da autoridade. Como padre e como se­
cretário de Estado, costumava d a r tudo aos pobres. O p róprio nome de­
fine a s u a p redestinação : pax "caeli" .
Tem a s i l hueta rígi da ; p á l i d a a fisionomia. Sujeita o espírito e o cor­
po a u m d o m í n i o férreo. D i z a h i stória que Pio V m e receu o cognome
de Papa d e Ferro. P i o X I I algu m a coisa evoca daquela grande figura que,
apoiando as m ã o s sôbre a cru z pen dente do peito, desafiava sozinho a
audácia d a esp a d a brutal e cruel, no p órtico do Convento dos Domin icanos
de A l ba, na Itália, em g rave etapa do século XVI. Em Eugên io Pacelli
i m p ressiona u m tom de m aj estade incontestável, colorida pela sabedoria e
p e l a se renidade do j ul gamento, nimbada p o r u m a doçura rara e profunda,
em meio da a u réol a de u m a p iedade n atural. Segundo outro depoimento,
essa piedade constitu i o segrêdo da calma daquela n atureza que se desen­
volve e aperfe i ç o a em a m b iente m a i s divino do que humano.
Feito cardeal e m 16 de dezembro de 1 929, adotou a legenda : Lux ve­
ritas, regina caritas, f inis aetern itas. Ao deixar a n u n ciatura de Berlim,
decla ro u voltar p a ra p erto do t ú m u l o de Pedro, sob a cúpula de Miguel
Angelo, p erto do Pedro vivo do Vaticano. Estar j u nto de Pedro, assina­
la, como u m a lição ao m u n do, corresp o n de a esta r perto de Cristo. Es­
tarei p erto de Pedro , diz o novo Cardeal, não p a ra receber hon ras, po rém,
para p a rticipa r mais intimamente de sua cruz, de seu sofrimento, por amor
das almas. T o d o s n ós podemos permanecer aos pés de Pedro pelos vin­
culos da obediência.
Definindo a dignidade cardinalícia, referiu Eugên io Pacelli que o seu
sentido m a i s profundo, e ssencial, não consiste em receber honras e gló­
rias exterio res. S i gn ifica, sobretudo, p a rticipação mais intima nas lutas e
fadigas, n a s responsabilidades e n a cruz, no .t rabalho e nas amarguras do
Santo Padre. Com o titulo presbiterial de São joão e de São Paulo, no
Consistório de 1 6 de dezembro de 1 929, impunha-lhe Pio XI a p ú rpura car­
dinalícia. Lembremos q u e São joão e São Paulo, os dois mártires que tro-
1 88 Pelas revistas

caram o fastígio da côrte pel a decapitação, eram de extrema piedade, de


caridade e benignidade infinitas no trato com os deserdados.
Ei-lo, depois, Secretário de Estado, no cume da hierarquia das ati­
vidades administrativas do Vaticano, cuj as bases foram lançadas por Gre­
gório 1, na fronteira do século VI com o século V I I . A origem do secre­
tariado de Estado remonta ao século XV. Na Idade Média, o Papa não
precisava de mediadores diplomáticos. A Santa Sé ordenava ; não discutia.
Desde 1 667, há quase três séculos, quando se realizou a eleição de Cle­
mente X I , antes secretário de Estado de Alexandre V I I , não ascendera à
curul romana um cardeal-secretário de Estado. Também desde I nocêncio
X I I I , de cuj a família saíram 16 pontífices, nenhum filho de Roma havia
recebido a dignidade da tiara das três coroas. Duzentos e dezoito anos
marcam o intervalo entre o pontificado de I nocêncio X I I I e Pio X I I . Ambos
exerceram a nunciatura apostólica : um, em Lucern a ; o outro, em Munich
e em Berlim. Chamado a benzer as armas e os soldados de seu país, após
i rromp id éJW primeira conflagração mundial, replica indignado Pio X :
"Isso não se fará j amais. Eu abençõo a paz. Eu não abençôo a guerra."
No seu leito de morte, foram palavras suas : "Eu quero sofrer, eu quero
morrer pelos homens que se encontram nos campos de batalha." Tam­
bém Pio X I I , quando núncio em Munich, à época daquele episódio da suble­
vação comun ista, pondo as mãos sôbre a cruz, tal como Pio X, indagava :
"Não sou o servidor da paz?" E acrescentava : "Minha mão não é cha­
mada senão para abençoar, para nada mais do que abençoa r."
"Pax caeli!" A divisa de Pio X I I resume os obj etivos do seu pontifi­
cado : a obra da j ustiça é a paz. Não sabemos até onde se assemelha o
seu roteiro com o destino que cercou o nome de Pio I X, chamado o Papa
Doloroso, embora outros o cognominem o Papa Belicoso. Pio I X, porém,
é substancialmente o Papa da I maculada Conceição. Em 10 de fevereiro de
1 939, quando repercutiu no mundo a notícia do desaparecimento de Pio
XI, teve o arcebispo de Paris, o Cardeal Verdier, uma exclamação a que
os fatos imprimem hoje, amplamente, um sentido profético. A I grej a, disse
o prelado desaparecido, caminha para tempos tão agitados que o sucessor
de Pio XI deve ser um herói ou um Santo. Alguma coisa me diz, na inti­
m idade do coração, que em Pio X I I , mais do que a alma de um herói, im­
pera a p u reza de um santo.
Austero e silencioso, Pio X I I é o Pontífice que testemunha a eternidade
da missão da Igrej a em marcha multissecular, entre as consol ações divinas
e as torturas do mundo, para repetir a frase de Santo Agostinho. A sua
infatigabilidade física e a sua tenacidade inaudita ; o seu heroísmo silen­
cioso e a sua bondade insondável ; a sua sabedoria profunda e a sua têm­
pera de ferro, blindado no domínio de si mesmo, tudo isso afirma uma
existência cotidianamente devotada à vocação sacerdotal. já se disse que
a Igrej a reza ; que não costuma confabular e fantasiar. O pontificado de
Pio X I I é uma oração ininterrupta. O seu anêlo é a paz, a paz das cons­
ciências tranqiiilas, na amizade de Deus ; a paz das familias unidas e har­
monizadas pelo amor do Cristo ; a paz dos povos mediante a ajuda frater­
nal, pela colaboração amistosa, pelos entendimentos cordiais, com a pro­
teção da Divina Providência ; a paz, o maior anseio dos corações, confor­
me sentenciou, em momento de intranqüilidade geral, o Cardeal Pacelli,
quando núncio em Berlim.
3. Os Doze Papas com o Nome de Pio. - Proj etemos um olhar re­
trospectivo sõbre a missão da Igrej a no pontificado dos papas que, em
número igual ao do primitivo Colégio Apostólico, adotaram o nome de
Revista Ecl ésiástica Brasi leira, vol. 5, fase. t, março 1945 t 89

Pio. O primeiro foi mártir em meados do segundo século. Era pai de Sant a
.Prudência e de Santa Praxedes. Combateu as heresias de Valentino. Aco­
l heu os hereges da seita de Cerinto. Criou 12 bispos, 1 8 presbíte ros e
·
2 1 diáconos.
Só depois de doze séculos su rgi u Pio l i , a quem se deve a ca noniza­
ção de Santa Catari na de Sena. Eleito Papa, almejou unir os cristão s, para
combater o islamismo. Morreu preparando uma cruzada. Recebe u a cabeça
do Apóstolo Santo André, trazida do Peloponeso. Mandou guardar pro­
fundo e perp étuo silêncio a propósito do tema das discussões entre fran­
cisca·n os e dominicanos sôbre o sangue de Cristo derramado du rante a
Paixão. N.o comêço do século XVI, três anos depois do descobrimento do
Brasil, principiou o pontificado de 26 dias de Pio I I I .
Ainda n o século XVI, ascendeu Pio IV à cátedra d e Pedro, marcando
a época da convocação do Concílio de Trento e da reforma do Colégio
Cardinalício. Proibiu e anulou todo o comentário e inter1p retaçã9-.61 cêrca do
Concilio. Tornou obrigatórios os seus atos e decretos, a part f r de 1 .º de
j unho de 1 564. Instituiu uma congregação de cardeais para cumprimento
dos cânones de Trento. Fundou a ordem militar de Santo Estêvão. Restau­
rou a ordem dos Cavalheiros de São Lázaro. Aj udou Filipe li na luta con­
tra os turcos. Fêz edificar o Convento dos Ca rtuchos nas Termas de Dio­
cleciano. Mandou construir uma rua que terminava na magnífica Porta
Pia, através da qual passaram, em ímpeto de vandalismo, as fôrças que
sitiaram a Cidade Eterna. Levantou palácios e praças. Abriu ruas e portas
sob a orientação de Miguel Angelo. Fundou a imprensa do Vaticano. Insti­
tuiu, com o nome de Casa Pia, um recolhimento destinado a receber mu­
lheres infelizes, no seu retôrno ao caminho da verdade.
Pouco depois da segunda metade do século XVI, govern a a Igrej a
Pio V, j á aos 1 4 anos com o hábito de São Domingos ; p rofesso r de teo­
logia durante 1 6 anos. esse pontífice assistiu com os seus conselhos a Ma­
ria Stuart na luta contra Isabel da Inglaterra. Obrigou os bispos ao aca­
tamento das leis de residência, segundo o Concílio de Trento. Estabeleceu
a confraria da Doutrina Cristã, para ensino do catecismo às crianças.
Foi um período de pu ngentes lutas religiosas e sociais na Europa, dian­
te de cuj a calam idade Pio V instituiu a oração das 40 horas, com indul­
gência plenária aos que se confessassem, comungassem e erguessem preces
pela paz. Renovou o Papa dom in icano as leis canônicas. Aprovou o esta­
tu to do povo romano, el aborado por j u risconsul tos. Declarou Santo Tomás
de Aquino quinto doutor da Igrej a latina. Pacificou a Córsega. Lançou a
bula de excomunhão contra Isabel, Rainha da Inglaterra. Corrigiu o Bre­
viário Romano, o Missal e o Oficio da Vi rgem. Publicou o Catecismo Ro­
mano, o Breviário e o lndex. Foi beatificado por Gregório XV e canoni­
zado em 4 de agôsto de 1 7 1 2. E' o í1ltimo Papa canonizado. Aguarda ago­
ra a alma católica a santificação de Pio X, o Papa da Eucaristia das
crianças.
Doutor aos 17 anos, ascende Pio VI ao trono ·p ontifício mais de dois
séculos depois, inaugurando o período cruento e glo rioso dos Papas que
govern aram a Igrej a desde o início da fase da metamorfose democrática.
ele mesmo viu explodir a revol ução que transferiu a soberan ia do Rei para
o povo ; do povo para os legisladores incrédulos. Em 1 79 1 condenava
Pio VI a constituição civil do clero. Consistiu o seu primeiro ato em abri r
o j ubileu do Ano Santo. Colocou a pedra para a constru ção da sacristia
da Igrej a de São Pedro. Modificou a admin istração do patrimônio eclesiás­
tico, visando aliviar a sorte dos pobres. Enviou um vigário apostól ico a
1 90 Pelas revistas

Baltimore, com plenos podere s p a r a Cuba. Não permitiu que a bandeira


d a República Francesa flutu asse nos Estados Pontiflcios. Enfrentou todos
os grandes perigos conseqüente s à revolução. Sofreu o cativei ro, retom an­
do os seus restos m o rtais a Rom a em 1 7 de feverei ro de 1 802.
Nesse p e ríodo l úgubre principiou a rei n a r Pio V I I ; doce, piedoso, hu­
milde mas enérgico. Pio V I I substitui u Pio VI sob o i mpério de c i rcunstân­
c i a s compa ráveis às que levaram ao túmulo Pio X I , motivando o pontifica­
do de Pio X I I . Dera-se a ocupação de Roma pelo exército n apoleôn ico, em
1 808. Em 1 809 teve i n ício o cativei ro do Papa, restituldo à liberdade ape­
nas em 1 8 1 4, ap ós o col apso do conqu istador. Dizem q u e o general fran­
cês incumbido de aprision a r Pio V I I e o seu secretário, o Cardeal Pacca,
beijou as mãos do Pontffice no momento em que o seu gesto não pu­
desse ser testemu n h ado pelas tropas. Ao mesmo N apoleão, b astante pode­
roso para depor o Pontífice, enviava Pio V I I , decorridos doze meses, um
sacerdote pedido pelo imperador deportado em Santa H elen a .
Pio r� I rein ou p o r menos de dois a n o s . Quinze dias a p ó s o in ício do
seu pontificado, consumava-se a emancipação dos católicos inglêses. Foi seu
primeiro ato reconstruir o templo de São Pedro. Autorizou o Concílio de
Baltimore. V i u a Colômbi a adotar como religião de Estado o catolicismo.
Conta-se que, ao sair d a urna o nome do sucessor de Pio V I I I , daque­
le que deveria chamar-se Pio IX, u m a pomba esvoaçou no recinto do con­
clave ; contornou a cabeça do cardeal que seria dentro em pouco eleito -
o C a rdeal Mastai, êle mesmo escru t i n a d o r do conclave, cuj a emoção crescia
à medida em que a contagem dos votos lhe assegu rava a maioria. Pio IX
possibil itou aos j udeus p a rticiparem das festas de sua eleição, num gesto
semelhante ao que tivera Pio I I I , q u a n do os j u deus foram chamados, n a
cerimônia d a coroação, a apresentar u m fac-simile d a s táboas d a lei, fa­
to em desuso devido à má impressão da com u n i d ade católica. Conseguiu
colocar sob a p roteção d a Santa Sé o s cristãos d a Turq u i a . Viveu Roma
pontifícia, n o comêço dêsse reinado, momento s de p rofund a inquietação.
Pio I X é o Pontlfice do dogma da I m aculada, como Pio V I I é o Papa
que, em agradecimento pela sua l ibertação do exllio, deu forma nova às
festividades de Nossa Senhora das D o res, celebradas desde a Idade M édia.
Quem sabe se antes de decorridos cem anos, a partir d a p roclamação do
dogma de 1 854, não exultará a alma católica, sob o pontificado d e Pio X I I ,
c o m o dogma de Nossa Sen hora, medianeira de todos os favores do céu?
E ' de Pio IX a encíclica Cum San eia Mater. Pontlfice d a canonização dos
márti res do j ap ão, d a enciclica sôbre a s atribulações d a I grej a n a Rússia
e na I tália, d a p roclamação de São josé como p atria rc a d a I grej a Ca­
tólica, Pio I X ainda personifica o período h i stórico d a defin ição d a infali­
bilidade papal, n o célebre Concílio do Vaticano.
No mesmo ano em que foram suspensos os trabalhos do Concilio do
Vaticano, i r rompera a invasão dos Estados Pontifícios pelas fôrças d a I tá­
l i a . Recusando as garantias dos vencedores, Pio IX manteve-se voluntària­
mente e m clausura, p ro longada até ao Tratado de L atrão. Foi, contrastan­
temente, u m período de pruridos anticlericais n a Itália, na Suíça, n à Ale­
manha, mas de floração dos episcop a dos ! P i o I X criou 1 3 bispos e a rce­
b ispos, na J.n glaterra ; 36 sedes episcopais e 9 vigariados apostól icos, nos
Estados U n i dos. Estabeleceu a hierarq u i a eclesiástica na Holanda. I ncli­
nou-se comp lacentemen te para o apostolado das almas no continente ame­
ricano. E ' o Papa m agnifico · d a encíclica Quan ta Cura, p u blicada em 1 864
e cuj a divulgação foi p roibida na França.
Revista Eclesiásti ca · Brasileira , vol. 5, fase. 1 , ma rço 1 945 191
A seguir, e i s o p atriarca d e Veneza, o seráfico Pio X o Papa da co­

nm nhão diária, o apóstolo da Eucaristia das crianças, o P ntif ice que a Sé
Apos �ólica .ex � lçará . à dignidade . dos altares. E' o Papa da . instru ção d a
do utrm a crista mediante o catecismo graduado ; d a reforma d o B reviário ·
da fundação do I n stituto Bíblico ; da criação de uma Congre gação Esp ecia Í
de Cardeais com a i ncumbência de codificar o direito canônico. Fund ador
da Associação I nternacional para o P rogresso Científico ; d a revisão da Vul­
ga ta ; criador de internunciatu ras na Argentina e no Chile. Papa da be­
n ign idade, da mansidão, da doçura, da santidade, da modéstia, não con­
sen tindo que lhe beij assem a sandália de apóstolo. E ' o Papa dos dias que
·
p recederam a grande catástrofe de 1 9 1 4.
Em 1 922, sobe à curu l pontifícia Pio X I , personificação absoluta d a
ausência do mêdo, filho de um tecelão do norte da Itál ia. N ú ncio em Var­
sóvia, à época do ataque dos bolchevistas, manteve-se a l i impertu rbá­
vel, ao p asso que desaparecia todo o corpo dip lomático. Consumado o con­
cl ave, o Pontífice eleito , rompendo a voluntária reclusão de me !q.. s éculo,
aparece na "loggia" da Igrej a de São Pedro, para l ançar a bênç ã o apostó­
lica à terra i nteira. Pio X I restabelece a plenitude do poder da Igrej a, com
o Tratado de Latrão. Clama pela j ustiça social, reatualizando a exo rtação
de Leão X I I I . Enfrenta a monstruosa onda do paganismo que tantas vêzes
p rocura destruir os fundamentos cristãos da sociedade. Foi o Papa de sua
época, semelhante a Pio X I I , pastor próprio para os dias cruéis que esta­
mos vivendo, pastor cuj o nome simboliza o imenso desejo de paz !
N a primeira encíclica, Ubi Arcano Dei, aludira Pio XI à paz cristã no
reino de Cristo. Noutra encíclica, lniquis A/flictisque, trata da situação re­
ligiosa no México. Instituiu a festa de Cristo-Rei . I n augurou a Exposição
Vaticana das Missões. Em matéria d e educação, defendeu os direitos da
famflia e da I grej a contra o monopól io do Estado. Criou 78 missões : 1 0
n a t ndia, 2 3 n a China, 5 n o j apão, 2 3 n a Africa, 9 n a América, 6 n a Ocea­
nia e duas na E u ropa. Consagrou 6 bispos chineses e 1 0 bispos j aponeses.
Realizou o Congresso Eucarístico de Buenos Aires, propo rcionando ao No­
vo Mundo o p rivilégio de conhecer aquêle que deveria substituí-lo com o
nome de P i o X I I . Estabeleceu em Roma um colégio russo sob o patrocínio
de Santa Teresa de jesus.
Eis o esbôço da atuação dos papas que adotaram o mesmo nome n a
história da I grej a, desde o Santo P i o 1 , em meados d o século I I . O reinado
de Pio XII abrange cinco anos decorridos quase integralmente sob as an­
gústias da guerra ; desta guerra cruenta, incompreensível e inj ustificável,
novamente desencadeada sôbre a face da terra atôn ita e dolorida, calami­
dade que o Pontífice p ressagiara em visão tétrica. Se tôdas as criaturas
sofrem os horrores da conflagração atual ; se os corações estão vivendo já
um l u stro de intranqüilidade e de desespêro, que dizer dos reflexos da tra­
gédia, t'mica n a história universal, sôbre o coração amoroso daquele que
jesus Cristo colocou em hora tão pungente, n a cátedra de São Pedro? E'
inútil procurar atrair o sucessor do Príncipe dos Apóstolos a atitudes es­
tranhas aos mandamentos divinos de sua missão d e fraternidade, de paz
e de amor. Não dissera Eugênio Pacel li, no exercício da nunciatura, que
as suas mãos haviam nascido exclusivamente para estender sôbre os ho­
mens as bênçãos da paz? Não repetira êle, por outras palavras, o que afir­
mara Pio X, quando exércitos preparados para o fratricídio tiveram a e s­
tultfcie de aspirar a sua benedição?
4. A Obra da Justiça é a Paz. - A Igreja de Cristo recebeu o seu ba­
tismo de sangue n a solidão do Calvário. Não precisa do fastígio do mundo.
1 92 P e l a s revistas

Nas m issas que repetem, e m todo o o rbe, tantas vêzes i n d i ferente, o sa­
crifício da imolação do Redentor, p ede a cristan d a d e que Deus vele pela
.sua I g rej a s a n ta, pelo s e u P o ntífice, a fim de q u e sobrepairem aos des­
varios d a inj ustiça d a s c r i a t u ras. Só um sentido p ro f u n d amen te h u mano,
exclusivamente h u m a n o d a vida não compreende a m i ssão d a I g rej a no
momento d a esco l h a do sucessor de Pedro.
H á também uma l ei de g r avitação n o m u n do moral. Para q u e possa­
mos entendê-l a , impõe-se distin g u i r entre o divin o e o h u m a n o. O que é
d ivin o não pode ser i n tegralmente comp reend ido segundo os processos co­
m u n s d a razão h u m a n a . N a esfera m aterial d a vida, gravitar significa ten­
der p a ra baixo. N o domín i o moral, gravitar corresp o n d e a s u b i r até que
· O espírito, desprendendo-se de su a s l igações com a terra, a d q u i r a a pere­
n idade dos sêres etemos. A I g rej a é o centro de gravitação do m undo.
Atente-se para o sentido dessas duas coincidên cias : morre Pio X pou­
co d�1l.2,,i s de i rromp i d a a primeira conflagração m u n d i a l e desap a re ce
Pio X lfi o e x ó rdio do ano trágico d a segunda confl a g ração. Sôbre a face
da terra, a tordoad a e i n quieta, começara a soprar a tragédia, com a f ú ria
dos ven d avais. Pio XI vi u decorrer o seu p o n tificado n um ambiente de q u a­
se c a l a m i d a d e e sp i r i t u a l . Altas expressões do pensamento contemporâneo
i n q u i r i a m se n ã o n o s estávamos avi z i n h a n do do fim d a civilização 1 Aí e stá
d ef i n i d a a imensa responsabilidade q u e p esou sôbre os ombros d e Pio X I ,
e m f a c e d a q u a l só u m a c o i s a se mostrou maior : a sabedoria do Pontí­
f i ce, t antas vêzes p a i rando sôbre um oceano de ·l ágrimas.
A esco l h a d e P i o X I I foi i n sp i ra d a p e l a n e cessidade de contrapor ao
·m u n d o e m desvario uma alma p u rificada p e l a ascese. Com os tesou ro s de
.su a m isericórdia, d e su a j usti ç a , de s u a onipotência, reserva Deus g r a n des
coisas a o m u n do pelo i n f l u xo d a p rece e do sofrimento do P a p a Angélico.
Não é possível p reve r o sentido que terão os fatos no domínio do f u t u ro.
Mas Deus faz a o homem revel ações sôbre o porvir. E x a l çado à cátedra
,pontifícia o C a rdeal Pacelli, com o nome de Pio X I I , significa i sso que
Deus p romete a o m u n do g r a n de s coisas. Com o s e u sacrifício, com a s l á­
grimas q u e tantas vêzes b a n h a ra m o seu rosto sublime, Pio X I comoveu
a m a j estade d i v i n a e Deus fêz do C a rdeal P acel l i o g u i a do reba n h o u n i­
·versal 1 A P rovidência p romete grandes acontecimentos ao mundo 1
N a s u a p ri m e i ra encíclica, f a l o u P i o X I I a o coração e à i n teligência
,dos homens, e m pleno p rólogo d a seg u n d a guerra. A alma do S a n to P a d re
verte a m a r g u ra inexprimfvel ao sentir q u e o seu pontificado coincide com
o insucesso do esfôrço d a I grej a, p a r a evit a r a confl a gração. Adverte o
Pontífice q u e a P rovi d ê n c i a n ã o a b e n ç o a a c o n q u ista dos impérios q u e se
n ão baseiam n a j u stiça. Lembra q u e o Estado pode e x i g i r os b e n s e o san­
•gu e dos homens ; a s u a a l m a n u n c a .
Certo estadista d e u m a n ação p rotestante, n a i m i n ê n c i a do rompimen­
to d a guerra, a f i r m o u não ser p ossível n utrir esp e r a n ças de congraçamen­
to u n iversal sem o t r a b a l ho, sem o esfôrço, sem a colaboração do V a t i c a n o .
.o conceito é verdadeiro n a s u a essê n c i a . C a rece, todavi a, de p recisão.
A f i r m a r que o mundo n ão pode t e r p a z, sem a cooperação do V aticano,
· p ressupõe o p ropósito d e p romover o a m b i e n te necessário à eficácia dessa
cooperação.
A h istór i a do atual p o n t ificado já está marcada p o r sinais i n de l éveis.
Pio X I I subiu à cátedra de São Pedro em circunstân c i a s decisivas p a r a
. a v i d a d a I grej a . Desde e n t ã o vem o m undo sofrendo a ng ú stia s insondá­

veis. Legado pontifício ao C o n g resso E u c arístico de B u d apest, êle mesmo


dissera que a tragédia sopr a d a pelo ódio estava dando origem a um m u n-
Re,·ist � Eclesiástica Brasi leira, vol. 5, fase. 1, ma rço 1 945 1 93

do, cuj as a gruras ul trapassariam tudo quanto conhe cêramos no p assado


como obra de destruição, de ruínas espirituais e de crises morais. Consu �
m ou-se a palavra profética. O mundo fala na paz, promete a paz, assenta
a paz ; contudo, não temos paz, confo rme frisaram os bispos brasileiros
no Primeiro Concílio N acional.
N a mensagem pontifícia de 3 de março de 1 939, um dia após a sua
ele ição, convidara Pio X I I as nações a que se aquecessem na lareira da paz
su blime dom divino, superior a qualquer outro sentimento, no cristalin �
conceito de Pio X I . As criaturas generosas não podem deixar de aspirar
a paz, fruto da caridade e da j ustiça. Acreditamos na paz porque Deus
existe. Renegamos do coração essa filosofia segundo a qual Deus morreu
porque teve pie dade dos homens ! A paz se nutre de confiança e de espe­
rança. Só os que perderam a noção providencial da vida, deixa m de espe­
rar. O sentido supremo do pontificado de Pio X I I consiste na restituição
da paz ao mundo ; não da paz, confo rme o mundo compreende, porém,
da pax caeli. Como esperar do Santo Padre atitudes que redund!lfil.m, . em
última análise, na afirmação de preferências politicas em face dos partidos
que separam os home.ns, quando êles se deveriam unir em tôrno da fel ici­
dade da pátria?
A Igreja permanece absolutamente distinta do Estado, quanto aos seus
fins e quanto aos meios de apostolado. A Igrej a não opõe o espi ritual ao
temporal ; distingue-os. Em meio de agruras infinitas, coube a Pio IX de­
finir como verdade de fé, em 1 872, a existência de duas ordens de coisas,
de dois pode res diversos : de um lado, um poder natural, incumbido de
promover a tranqüilidade da sociedade humana e os interêsses seculare s ;
d e outro lado, um poder sobrenatural, d e instituição divina, um poder que
governa a Cidade de Deus, a Igrej a de Cristo, visando à paz e à saúde
eterna das almas.
Em 1 926, dirigindo-se aos bispos mexicanos, avisava-os Pio XI de
que se deviam abster, absolutamente, de tôda adesão às facções politi­
cas, para que aos adversários da fé catól ica não se permitisse a opo rtu­
nidade de confundir a religião com um partido. Falando Pio X ao clero
po rtuguês, em 1 905, e Pio XI, em 1 923, ao clero i taliano, usavam ambos
os Pontífices a mesma l inguagem definidora da superposição do poder es­
piritual às infl uências malfazej as dos homens, quando os obceca a paixão
politica. Declarou ainda Pio X que a Igrej a deixa semp re às nações o ar­
bítrio de escolherem o govêrno que porventura considerem vantajoso à j us­
tiça dos seus próprios interêsses. Insistia na afirmativa de que correspon­
de a um êrro e a um perigo enfeudar, por princípio, o catol icismo a uma
forma de govêmo.
Quando parece que o Santo Padre exercita atividades politicas, colima
a sua intervenção, exclusivamente, a defesa da Cidade de Deus, sempre
que a politica ambiciona assaltar os domínios da religião, atreve-se a inter­
feri r na essência da vida espiritual, procurando suprimir a l iberdade de
crença, macular a santidade da família, corromper o ambiente das esco­
las, restaurar costumes pagãos. Vigoravam êsses costumes na Grécia an­
tiga, habituada a confundir os deuses e os homens na vida comum, tornan­
do o homem deus, atribuindo ao homem a ação de um deus, o direito de
ser adorado como se fôsse um deus, da mesma maneira que se comprazia
em imaginar que os deuses agissem como se homens fôssem. Para repri­
mir a reincidênci a em semelhante monstruosidade, influi o Papa no des­
tin o politico dos povos, pois todo o ato humano que redunde num caso de
13
1 94 Pelas revistas

consciência, fica implicitamente compreendido na esfera da doutrina e do


j ulgamento da Igrej a.
Pertence a um publicista britânico o conceito de que a contribuição
do cristian ismo, para o patrimônio politico dos povos, consiste primeira­
mente numa doutrina humana de igualdade baseada na paternid ade de
Deus ; numa igualdade sui-generis que não nega as difer� nças n at ura is
existentes entre as criaturas. esse principio igualitário encontra a sua ex­
pressão institucion al na Igrej a, sociedade cuj a concepção diverge daqu ela
que domina na apreciação dos valores segundo o critério da mentalidade
leiga. A existência de dois poderes - um divino e outro humano - consti­
tui eficaz preventivo contra a radicação dos governos total itários, visto
como implica na declaração peremptória de que o homem está suj eito a
duas legalidades. O cristianismo ensina que a função do govêrno visa e x­
cl usivamente servi r ao bem público. Assim, a mais alta missão do Estado
consiste no exercício do govêrno sob a égide do aperfeiçoamento moral
d :: :; a�utos civis.
E' incontestável a autoridade de Pio XII para esperar do mundo ca­
tólico fiel obediência à sua palavra de supremo legislador da Igrej a. Quem
baseou a conduta da vida na obediência, pode servir de exemplo aos seus
semel hantes. Circunstâncias especiais imp rimem sentido ímpar ao nosso
amor pelo Santo Padre. Pio X I I é o único Papa que, embora antes da in­
vestidura pontiffcia, palmilhou terras brasileiras, para lançar à Pátria que­
rida, do alto de uma de suas montanhas verdej antes, estendendo a mão
sôbre a imensidade, a bênção que há de tutelar o nosso destino de ·nação,
quando êle disse : "Clzristus Brasiliam suam ab omni mato defendat."
Nascido para o mundo com a celebração do primeiro sacrificio, con­
sumado em terras brasileiras na hora do descobrimento da Pátria, cate­
quizado e incorporado pelos jesu ítas à comun idade dos povos catól icos :
continuamente p rotegido e civil izado pela Igrej a, durante mais de quatro
séculos, que falta ao B rasil para ajoelhar-se, em contrição profunda, aos
pés do trono de São Pedro, numa filial fidel idade ao providencialismo da
sua origem católica, à sua devoção à Vi rgem Imacul ada, Mãe dos b rasilei­
ros, sua maternal defensora sob a triplice e glo riosa invocação de Nossa
Senhora da Conceição, de Nossa Senhora Aparecida, de Nossa Senhora do
Brasi l ? ! ao gracioso amparo da Vi rgem, Mãe de Deus e Mãe dos homens,
se acha confiada esta Pátria, tão bela, tão grande e tão nossa, tão lumi­
nosa e tão humana, profu ndamente cristã pelos seus abundantes sentimen­
tos de amor, de igualdade e de fratern idade, para que, privilegiadamente
n ascida como a Terra de Santa Cruz, ela venha a ser a maior, a mais
rica, a mais povo ada, a mais p acifica, a mais espiritual das n ações cató­
licas do globo. Repitamos filialmente, todos os dias, na intimidade dos
nossos co rações, a prece que a Santa Madre Igrej a Católica Apostólica
Romana ·n ão cessa de dirigir a Deus pela .p reservação do seu Pontífice :
Deus, Pastor e Guia de todos os fiéis, olhai favoràvelmente para o Vosso
servo Pio X I I , por Vós colocado à frente da Vossa Igrej a. Concedei-lhe,
nós vo-lo rogamos, a graça de edificar a Vossa Igrej a pelas suas palavras
e pelo seu exemplo a fim de que t;:.le alcance ·um dia a vida eterna -c om

o rebanho que l he foi confiado. Deus conceda ao Papa Pio XII a paz que
êle suplica para o mundo, a paz .p ela plenitude do ·r eino de Cristo nos in­
divíduos, nas familias, na -comunidade das nações, em tômo de Roma e ter­
na, fecundada pelo sangue dos mártires, inviolável e intemerata, ecclesia
principalis, unde unitas sacerdotalis exorta est!
Revista Eclesiástica B rasi leira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 1 95

A Margem da Hierarquia?
o I nsi gne escritor e professor de Direito Canônico, Pe. :r. u
ere sen s :r
qu e · jui�
publ ico u em 1929 o seguinte artigo na "Brotérla" ( vol. 8, pll.gs. 170-179) ,
gamos de lnterêsse para os nossos leitores.

"Devem-se advertir os fiéis que, onde sej a cômodamente possível fre­


qü entem as suas igrejas p a roquiais e n elas assistam aos ofícios divi os e �
ouçam a palavra de Deus."
Muitos e ponderosos motivos j ustificam esta p rescrição do Código
(cân. 67. ) Quando se tornou impossível aos bispos atingir com o exe rcf­
cio imediato do m i n istério pastoral todos os seus diocesanos, veio a insti­
·
tuição das p a róqu ias p rover às necessidades esp i rituais dos fiéis. Ficam
êles assim por meio de tal instituição com o se u p astor, com o seu "próprio
padre", com o sacerdote que "tem cuidado d a sua alma". Com efeito, o
pároco tem, p o r ofício, obrigação de acudi r constantemente aos paroquia­
nos com todos os socorros do ministério sacerdotal. E' êle quem l h�dMi.­
n istra o b atismo ; foi dura n te m u ito tempo êle só quem os ouvia de con­
fissão, pelo menos no tempo pascal ; a êle, primeiro que a -n enhum o utro,
incumbe o dever de lhes repartir o pão eucarístico e o d a palavra de Deus ;
diante dêle o u dum delegado se u devem os católicos contrair m atrimônio ;
quando se encontram em perigo de morte é reservado ao pároco o doce
encargo de l hes dar o viático e a extrema-unção, p a r a remissão completa
de suas faltas e pecados e alívio do corpo enfraquecido pela doença ; ao
pároco pertence ainda o dever d e l hes encomendar a alma e de o s acom­
panhar à derradeira morada. E ' até mesmo direito seu exclusivo êste m i­
nistério, a .não ser que os fiéis tenham escolhido outra igrej a para fu­
nerais ou sepultura.
O fato d e ter a Santa Sé conservado d u rante séculos estas e outras
p rerrogativas está indican do serem elas uma espécie de conseqiiência da
missão particular d a cura de almas. E com efeito tanto as freguesias -co­
·
mo o ofício de p á roco foram instituídos para o bem espiritual dos fiéis.
estes dependem do pároco por ter êle sido encarregado pelo bispo do c u i­
dado de suas almas ; além d isso é p o r elas responsável diante do p rela­
do diocesano.
Mas ainda mesmo in dependentemente dos m i n istérios espi rituais que
obrigam os católicos a recorrer ao seu pároco, é n atu ral e conveniente que
a sua vida cristã se manifeste e desenvolva, ao menos em p arte, no am­
biente paroquial. Tendo o pá roco de oferecer, nos domingos e dias festivos,
pelos seus paroquianos, o santo sacrifício, é n atural que êles, salvo i m­
pedimento ou escusa legitima, se congreguem em tôrno do altar. Se con­
sagra a sua vida ao bem espiritual dos fiéis, é j u sto que o auxiliem não só
com a esmola materi al, mas também com o dom do seu tempo e o concurso
dos seus p réstimos. Será p o r acaso compreensível q u e lhes assista o di­
reito e mesmo a obrigação de reclamarem o seu ministério nas ocasiões
m ais solenes d a vida e que não se importem com êle quando não precisam
dos seus serviços?
A estas razões de freqüentar a igrej a paroquial e de sustentar as
obras da p aróquia acresce o motivo de edificação mútua. E êsse motivo
é tanto mais ponde roso, quanto é maior a i nfluência dos p a roquianos em
virtude do seu talento, fortuna e posição social. Pois a sua p resen ça aos
atos do culto e a sua p articipação nas obras de zêlo da paróquia são
certamente para os seus irmãos menos dotados um exemplo, um confôrto
e um e stímulo. Muitas vêzes até o m i n istério do pároco não teria eficácia

1 3*
1 96 P e l as revistas

com alg u n s dos seus p a roquianos, sem o concurso ativo d e leigos i nstrui­
dos e influentes.
Outro s motivos p ara favo recer a "vida paroqu ial" se poderiam acres­
centar a in da, quer de caráter rel igioso quer de o rdem pu ramente adminis­
trativa. 1 E só há razão para n o s alegrarmos ao ver que, ao lado do rej u­
venescimento cristão, se i n tensifica o " m ovimento paroquial" c ada d i a mais
vasto e mais fervoroso.
Mas os a licerces s ô b re que se deve edifica r hão de ser somente da
verdade. P o r i sso convém n ão j ustificar o u promover a volta a u m a vida
paroq u i a l mais i n tensa com motivos que são de todo o u e m parte falsos.
Sobretudo devem a rredar-se das teorias acêrca da v i d a paroqu i a l e rros de
índole histórica, teológica, e p ri ncipalmente dogmática.
E' p reciso pois chamar i nsistentemente atenção para fórm u l as, talvez
susceptiveis d e sentido exato, m a s cujo contexto habitual d e nu n c i a confu­
são e até mesmo falsidade das idéias sôbre a natureza da paróquia e da
viii'a J'lto q u i a l . E' bom l embrar que e ntre tantas "proposições condena­
das" pelos P apas, m u itas o foram porque, e m b o ra n ão estivessem m ancha­
das de heresia o u de ê r ro, e ra m pelo menos " e scandalosas" , dada a sua
generalização e a r rôjo. E ' mais u rgente ainda combate r fórmulas q ue não
só n ão exprimem cl aramente idéia al g u m a verdadeira, mas até por causa
dos seus e rros podem chegar a se r uma heresia.
Tal o fim destas págin as. T e n do em v i sta imicamente a verdade e não
a confusão das pessoas, não citaremos nomes d e escritores n e m títulos
de l ivros o u revistas. N ão se trata de polêmica, m a s d e discussão. São
coisas diversas. 2
P a r a atrair o s fiéis aos ofícios paroquiais, e para os agrupar n os m i-

1) Para as prescl'lções ou I n s t i t u ições ecloslâstlcas não 6 p l'e c l s o a l l'ga1· ª ' " " I""' r a ­
zõ e s d e ordem i1nedíatam e n t c sobrenatural ou rel igiosa .
2) Pa1·a exe1n2>los, tomamos de cllversas revistas ou periódicos algumas frases que
mostrarão melhor o alcance e u t il idade d a s cons iderações feitas neste a r t igo. Repare o
leitor sobretudo para o contexto dalgumas e veJa se oxa.gero. mos.
1. " . • t ra i s socló têa sph·ltuelles h161·arch lquemenl u n l flêos o.uxquollos tout c a t hol l ·
.
q u e dolt apparlonl r : L' Jl:gl lso roma lne, s o n d locêse, s o. parolsso . En c616b rant pendant ce
mole l 'annlversalre de l e u r d6dlcace, renouvelons notre pl6t6 flllale e nvers ces trais fa­
mtlles i·el lglouses e t ceux que des noces mys tlques en ont falt les Pê1·es : l e Souve·
raln Pon t l fe, notre Evêque, notre c u ré . "
Notem-se a s aproximações q u e I nduzem o l e i tor a concl u i r q u e h á. semel hança e até
Igualdade, onde só existo uma 1mra analogia. Pois na real idade há. g1·0.nde d i fe rença
entre a necessidade d o u m catól ico pertencer à lgl'eJ a romana o a do l>ertoncei· a. paró­
q u i a . Pelo q ue respeita às bodas mlstlcas, conv6m observar que são m u l t o d i ferentes
as d e u m 116.roco a movlvel do. suo. pa1·6qula, e as que fazem do Papa o chefe d o. Igrej a ,
e do bl s1>0 o 11astor do. sua d iocese.
2. "Vlvre d e l o. grll.ce, être d u Roya ume, c'est s'unlr dane la chr6tlent6 au tou r
du Pape, dane le d locêse a u t o u r dos Evêques, dane los po.rolsses autour du cur6. Telle
est l a bell o ordonnanco de la h lérarchle, p a r laquelle s 'o1>êre l a R6dem1>tlon . . . "
" C 'es t dane à la parolsse qu'U /au t ê t re lneor1>or6 comme lo frult est soud6 au ra·
m e a u q u l lo porte. So.ns doute, l a s u i t e d e s tem)ls a permls et m ê m e exlg6 pour cer·
talnes man l festatlons de vle la m u l t l1>l lcatlon des soul'Ces de gl'llce en dohol's d e 1 ' 6gl ise
po.rolsslo.le. li fo.ut remarqu ei· q u e se1dc celle-cl a conserv6 les fonte baptl smaux, q u l
naus f on t nattl'e à l a v l e dlvlne, qu e soule e l l o a g a r d ê l ' e n t l êret6 de l a J u l' i s d l c t lon s u r
I c e fldêles. Mal h c ul'eusement l e s f aclllté s o.ccm·dées ont engendr6 l a d l s1>erslon e t n au s
av on e vu no.ttl'o des amvres multlples q u l n'611rouvêrent plus l e sou c l de v lvre à l 'ombre
du clocho1· ·de l a pa1·olsso e t s'oruanís<l rcnt en m arga de la MérarcMe." (0 gl'ifo 6 nosso . )
Note-se d e passagem que o. s é não tem fonte b a t i s m a l , quando n ã o é paróqu i a . Jl:ste
fato tornará. a Igreja do p r i meiro pastor da d iocese Inferior à s Igrej a s p a l'oqu l a l s ? - Um
cri stão que tem vã.rios domicilias ou quase-dom i c i l i as 1>ertence a vâl'ias PO.l'óqu l a s ; e a tó,
como sucede e m grande mlmero de casos, pode não pertencer à freguesia e m que foi ba ­
tizo.do. Donde s e vê que esta s i tua ção compl icaria clum modo slngulal' a suo. v i d a crlstll,
s e s e u rgisse multo a Iden t i ficação d o. vida ci·lstã. e d a vida pa roqu i a l . Mas Isto são
pa1·tlcularldades d e pouca mon t a . O que l mpol'ta ó a te oria, contida no texto c i tado,
o que forma o obj eto do presente a r t i go.
3. "C e t organlsme ( u n comlt6 d'actlon parolesl a l o ) vlent d ' ê h·o c1·é6 e n vue de
pl'omouvo l r l ' ldée l l turglque d a n e l c amvres p a rolsslales, l a po.rolsse 6tant pl'O.tlquement
l ' Egl l s e . "
E' supérfluo faz er comentârlos a êste texto.
Revista E c l esiá�tica B rasileira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 1 97

nisté rios d e piedade ou caridade que pe rtencem exd usivame nte à p a róqu ia
não falta quem oponha êsses m i n istérios e atos de cul to aos atos l itúrg ico �
ou n ão e às obras que se desenvolvem "à ma rgem da j erarqu ia". A con­
cepção " eclesiástica" expressa nesta frase que é talvez só i nfel i z e inex ata
e nvolve antes d e mais nada uma g rave i n j ú r i a para a Santa Sé ; além d isso ''
é i n tei ramente e r rônea ; p o r último, pode d a r o r i gem, p o r dedução l ó gica
'
a u m a p roposição herética. Bastaria u m a só nota destas p a r a a conde n a r.
A margem da jerarquia. S e tais p a l avras têm sentido, devem design a r
obras, agrupamentos ou i ndivíduos q ue, existi n do m u ito embora n a I gre­
j a, saem, sob o ponto de vista religioso 3 , do q u adro da j e rarq u i a ou nem
sequer l h e estão subordin ados.
N o primei ro caso se r i am pelo m e n os uma monstruosidade, uma ex­
c rescênc i a viciosa d o c o rpo eclesiástico. N o segundo estariam sepa rados
da I g rej a a que j ulgam permanecer u n idos. Na prime i ra hipótese só po­
deriam receber uma vida religiosa enfraquecida e m utilada ; n a segunda
n ão poderiam p a rticip a r dos frutos d a redenção. " " :i- -
Ora, se n i n guém ousa decl a r a r o u pensar que os I n stitutos religiosos,
mesmo o s i sentos, estão fora da I g rej a, não deixa de haver q uem a f i rm e
encontrar-se a sua atividade e a o rg a n i zação d o s seus m i n i stérios " à m a r­
gem d a j e r a rquia". 4 P o r i sso os fiéis q u e a êles recor ressem estariam pelo
menos e m c am i n hos anormais d a salvação : seriam vítimas dum " i ndividua­
l ismo" esse n c i a l m ente contrário ao p l a n o redentor e à organ ização da I g rej a.
Esta concepção, d i zíamos, e n volve p r i m e i ramente uma i n j t't ria grave
à S a n ta Sé. H á m u itos séculos, concede a I grej a a sua p roteção à vida re­
l igiosa em tôdas as suas formas, e particularmente às o rdens religiosas,
cujos m i n i stérios e o b ras estão o rganizados com aprovação explicita e
m uitas vêzes repetida do Supremo P asto r.
Na recente Cod i ficação d a discip l i n a eclesiástica e d a organ ização
j e rá rq u i c a da I grej a, o s Sumos Pontífices con firmaram a isenção total ou
parcial d e certas p essoas, obras e i n stitui ç ões.
E ' a S a n ta S é quem concede aos superiore s dos I n stitutos de cléri­
gos isentos j u risdição ordinária sôbre todos os seus fam i l i a res e até sôbre
aquêles que por motivo de hospedagem p assam por suas casas (cân. 5 1 4 . )
Dai o exercício d e certos di reitos p a roquia is, c o m o p o r exemplo a admi­
n istração dos t'tltimos sacramentos. E ' a Santa Sé quem m a n tém aos su­
periore s regul a res a autoridade exclusiva sôbre a s O rdens Tercei ras, as
confrarias cio S a n tíssi mo Rosário e as C o n g regações Marian as, ap rovan­
do com b u l a s solen íssi mas estas obras, embora não estabel ecidas em i g re­
j as paroquiais. E ' também a Santa Sé q u em ordena q u e à admissão d e re­
l ig i osos n u m a diocese a n d e anexo o d i re i t o de exercer os m i n i stérios p ró­
p rios d o seu I nstituto, o que trará q u ase sempre consigo, suposta a a u to­
rização do Ordinário, a e reção d u m a capela p ú b l i c a ou d u m a i grej a n a s
c a s a s de sace rdotes re l i giosos. Af irm ar portanto q u e a vida c r i stã só se co­
m u n i c a normalmente por m e i o da j e rarquia paroquial e que os m i n istérios
extra-p a ro q u i a i s se devem considera r à margem da j erarq u ia é p re tender
que a Santa Sé favorece h á séculos e m a n tém atualmente certos fatôres
de pern i c ioso i n d ividualismo e i n stituições m u i to p rejudiciais para a vi­
d a c r i stã.
A f rase à margem · da jerarq uia exp rime também uma idéia falsa. Por­
q u e "po r i n stituição d i v i n a, a sagrada j era rq u i a , q u an to à o rdem, con sta
3) Poi s nlio s e trata d o obra s ou a s ru1>amen toe flnancoh·os, poU t l cos, etc.
4) Referimo-nos aqu i aos rel l s l oeos, porque são êlee q u a s e oe l°i n l c o s ,· lsados nca t a e
t eo r i a s tend enciosa s . Q u a n d o ee trata d a açlio catól ica, à s v ê z e s colocam também à ma l"­
gcm da Jcra 1·c111ia os superiores d e colég i os e os reitores doe s o m l n â r l os d i oc es a nos.
1 98 Pelas revistas

de bispos, p resbíteros e m in i stros ; quanto à j u risdição, do pontificado su­


premo e do episcopado que lhe está subord i n ado ; m a s, por i n stituição da
Igrej a, ac resce ram-l h e ainda o utros graus" (cân. 1 08, § 3 . )
Como se vê, os graus d a jerarquia d a ordem, n ã o s ã o o Papa, o s bis­
pos e os p á rocos, m a s s i m os bispos, os p resbíteros e os m i n istros, - diá­
conos, subdiáconos e m i n i stros i n feriores. Por consegu i nte os cônegos das
colegiadas, os capelães dos conventos e h o sp itais, os d iretores de semi­
nári o s, os sacerdotes religiosos, isentos o u não, estão todos, n o mesmo g rau
e pelo m esmo título que os padres aditos ao serviço da p a róquia, n a "je­
·r a rqu i a d a ordem". O sacerdócio de uns é o prolongamento do sacerdócio
d o bispo, exatamente como o sacerdócio dos outros ; o seu exercício leg í­
·t imo em n e n h u m dêles se pode considerar "à m a rgem da j erarq u i a " .
P e l o q u e respeita à jerarquia de jurisdição, e s t a só tem, de d i reito
divino, dois grau s : o pontificado supremo e o episcopado subordinado. De
direito eclesiástico existem m a is alguns : patriarcas, metropolitas, vigários
g:�.;.;&Jllll;tc . Os párocos não constituem p ropriamente u m grau da j erarquia
de j u risdição, pois não têm, por ofício, j u risdição no fôro externo. 5 Gozam
de poder adm i n i strativo e doméstico, e, p a ra certos casos estritamente de­
terminados, possuem, p o r delegação ou ofício, poder de j u risdição. Sob êste
aspecto, os p á rocos participam menos a i n d a que os Superiores m a i o res nos
I nstitutos de clérigos isentos, da "j erarquia de j urisdição" ou " o rgan iza­
ção dos graus do poder".
Portanto onde é q u e foram descobri r que "só a paróquia guarda a
i n tegridade da j u risdição sôbre os fiéis?" Não foi decerto n o Código nem
n o s tratados De Ecclesia.
A p a ró q u i a é um grau da organização administrativa da I g rej a, o q ue
n ão é exatamente a mesma coisa q u e jerarquia de jurisdição. A distinção
não teria grande importância, nem valeria a pena formulá-la a, se não hou­
vesse quem se aproveitasse desta inexatidão para amesq u i n h a r o u exaltar
pessoas e obras determinadas.
A concepção errônea que alguns formam a respeito d a j erarq u i a deixa­
se bem entrever pel a j u staposição -repetida e m u i to m a l i n te rpretada das
três palavras : I grej a, diocese, paróquia.
Parece que atribuem a mesma o rigem e a mesma necessidade à s insti­
t uições e agrnpamentos designados pelas palavras : I g reja, diocese,
pa róquia. 7
O ra, conquanto a I g rej a sej a n ecessária p o r instituição de Cristo, é
apenas situação normal q u e cada u m dos fiéis l h e estej a u n ido .p o r m e i o de
u m agrupamento pessoal ou territorial, sujeito à j u risdição de um bispo
determ i n ado. Centenas de m i l ha res de fiéis, pertencentes a um território
em formação, a u m a P refeitura ou Vicariato apostólico, não vivem nesta
forma de dep e n dência, pois estão subordinados diretamente à Santa Sé, da
qual é vigário o Ordinário d a m issão.
N a I g rej a criaram os Sumos Pontífices h á m u itos séculos d iversos agru­
pamentos que não estão suj eitos à j u risdição episcopal, q u a nto a uma pa rte
importante da vida cristã, e dependem i m ediatamente da Santa Sé : sob
êste aspecto são extra-diocesanos.
Contudo o episcopado é de direito divino, e exige como conseqüência
a d ivisão d a I g rej a em dioceses. A instituição das p a róquias com o múnus

5) Consul to·so um manual de Dlr. can. no titulo de paroc110. C fr. De Meestor, Jurl.s
can. 418 .
com11 . , I , n . º 4 4 6 ; II, n . º
. 6) O cód i go serve-se por vêzes da expressão j"rlsdfotio paroeclali8 ( c fr. can. 1 038. )
7) Vej a m os textos citados atrás, no. nota.
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1 , m a rço 1 9 45 1 99

de · p á roco é de direito puramente eclesiástico, e· du rante m u itos séculos


nenhum catól ico pertenceu a p a róquia alguma.
H oj e mesmo, dentro das dioceses, constitui a Santa Sé agrupamentos
ex tra-paroquiais e autoriza os bisp o s a formarem outros.
O seminário diocesan o está, por direito, isento do poder do pároco ;
salvo disposição e special da Santa Sé é o reitor do seminário o u o seu de­
legado quem exerce sôbre todos o s moradores d a casa o ofício de pároco,
exceto em assuntos m atrimon iais (cân. 1 368.) este direito estende-se aos
funera i s dos p rofessôres, dos a l u n o s e criados que morrem no semi n á rio ;
e, segu n do alguns autores, até mesmo às pessoas que de passagem ali se
hospedassem e l á morressem ( cfr. cân. 1 222. ) Todavia o seminário não
é uma paróquia, nem mesmo pessoal.
O Ordinário de cada diocese pode, p o r causa j usta e grave, subtra i r
a o m i n i stério do pároco (parochi cura) comunidades religiosas e casas
pias que de d i reito comum não são isentas (cân. 464, § 2 ) : por esta forma
são n úcleos extra-paroquiais. 1 .;.,,_._

Causa j u sta e grave é evidentemente o bem das almas, que resul t a


m a i o r reg u l a ridade dos ofícios d ivinos e administração dos sacramentos,
o u de direção esp i ritual mais imediata e continuada, coisas que o pároco
nem sempre pode presta r. Em poucas p a lavras, as causas indicadas são
as mesmas, por que se instituí ram a s freguesias. E é natural que tais mo­
tivos subsistam enquanto existir a I grej a.
Donde se vê que se pode pertencer à famí l i a d iocesana, sem fazer parte
da fam i l i a paroquial, assim como se pode ser da Igrej a sem ser de nen hu­
ma diocese.
Quer se considere a jerarq u i a como o rgani zação j u risdicional, q u e r
c o m o o rgani zação administrativa da I grej a, é sempre f a l s o apresentar
como ú n ic a e exclusiva gradação, legítima e sobretudo necessári a : Igreja,
diocese, paróquia. Embora o s territórios das m issões venham a ser mais
tarde d ivididos em d ioceses e freguesias, nêles h averá sempre os agrupa­
mentos extra-paroquiais mencionados acima, pois o bem das almas e a boa
administração assim o exigem, como exigem também a o rganização em
paróquias.
Para uma i n stituição rel igiosa o u obra se considerar à margem da
jerarquia é m ister que sej a o rganizada independentemente d a autoridade
pontifícia o u d a episcepal. O r a os ofícios divinos, a admin istração dos sa­
cramentos, os m i n i stérios próprios das casas religiosas, dos seminários,
dos hospícios e hosp i tais, i sentos do poder do pároco, são todos o rga n i­
zados, exercidos e mantidos, c0m a aprovação do bispo, o u do Sumo Pon­
tífice, e mais freqüentemente ainda dum e doutro. Estarão p o r acaso à mar­
gem da jerarquia ? Portanto, sendo tôdas estas formas inferio res da j e ra r­ - ·-

quia de mero direito eclesiástico, são tôdas igualmente legitimas.


Mas demos um p asso mais. A expressão à margem da jerarquia, a p l i­
cada às obras e m i nistérios não paroquiais é susceptivel de significação
h erética e infel izmente tem-se feito de l a u m uso tal, que d á origem a con­
clusões indubitàvelmente s u speitas de heresia.
" O pontífice romano . . . goza de poder supremo e total de j u risdição
sôbre a I g rej a u n iversal . . . este poder é verdadei ramente episcopal, ordi­
nário e imediato, tanto s6bre t6das e cada uma das igrejas, como sôbre
todos e cada llm dos pastnres e fiéis . . " Estas palavras do cân. 2 1 8 repe­
.

tem a doutrina definida no Concílio do Vaticano, sess. IV, cap. I l i, De vi


et ration e primatus Romani Pontificis.
200 Pelas revistas

Seria pois heresia afirmar que, para estar unido a N osso Senhor Je­
sus Cristo e participar dos frutos d a Redenção, é de absol uta necessidade
passa r por i ntermédio dum bispo, e, com maioria de razão, por i ntermédio
dum membro da j erarq u i a de d i reito p u ramente eclesiástico. Deve também
ter-se p o r he rética a afi rmação de que fiéis, m i n istérios, o bras, e exerci­
do do m ú n u s sacerdotal, estão à margem da jerarquia, no sentido de fora
da jerarquia, quando se encontram total ou parcialmente sob a autoridade
imediata do Sumo Pontífice.
N ão será porventura n atural que se tome em sentido desfavorável a ex­
pressão à margem da jerarquia, quando vemos que a aduzem precisamente
para desvirtuar certas obras, certos m i n istérios, o gênero da v i d a e as
práticas de devoção s dalguns fiéis e de determ inados sacerdotes?
Por maior que sej a a boa-vontade, não é possível i n terpreta r ortodoxa­
mente proposições em que a união com o pároco é equiparada à união com
o Sumo Pontífice, como elemen to essencial da vida da graça o u da parti­
clifiíçl'i'fl9'1o Reino. Pois não se evita o perigo de entender m u i to inexata­
mente a asserção de que os fiéis estão u n idos por meio do pároco ao bispo,
pelo bispo ao Papa e por êste a jesus Cristo. Não chega rão mesmo a con­
siderar como exp ressões equ ivalentes as duas frases "vida cristã" e "vida
paroqu i a l ? "
Dadas as exp l ic ações p recedentes, comp reen der-se-á porventura c o m n i­
tidez o significado das p a l avras à margem da jerarquia, aplicadas às obras
ou aos agrupamentos extra-p a roq uiais? Pois, nunca é demais repeti-to, só
se deve considerar à margem da jerarquia o que se faz i n dependentemente
dela ou contra a sua a u toridade.
O cristão que assiste a u m a reunião da O rdem Terce i ra numa igrej a
franciscana ou da Confraria do Santíssimo Rosário n u m a igrej a dom i n i­
cana, não está mais à m argem da j e rarquia do que os fiéis reun idos n a
capela dum hospital, cuj o capelão desempenha c a rgos e d i reitos curia is, ou
do que os sem i n aristas q u e entoam Vésperas n a igrej a do sem i n á ri o . Qual­
quer que sej a a igrej a ou capela em que a pal avra divina é p regada aos
fiéis, o sermão n u n ca se deve considerar à margem da jerarquia, se o pre­
gador está sujeito ao Sumo Pontífice, e, no caso de o ter, ao seu O rdi­
nário d iocesano.
Para não i n d u z i r em êrro os leito res e os ouvintes importa dar às
palavras o sentido que têm. Quando se fala ou escreve p a ra leigos, mes­
mo i l ustrados, é dum modo espec i a l necessário usar de linguagem teolo­
gicamente exata. Uma causa boa não l u c ra nada em ser defendida com
maus argumentos. Para combater o individualismo prático, deve ter-se mui­
to cui dado em n ã o ensin a r teorias, total o u parcialmente falsas, e cuja
expressão pode interp retar-se em sentido herético. A renovação d a vida pa­
roq u i a l , na medida em que é factível e desej ável, deve basear-se no fe­
cundo princípio de S. Paulo : " veritatem facientes in caritate, crescamus
in illo per om n i a qui est caput Ch ristus". (Ef 4, 1 5. )

S ) E s t a s l i nhas não visam n l ouvar o u j u s t i f i c a r tódas a s form a s d o de\'oção. Não


obs tant o n l g u 1 n a s prá t i c a s piedosas J>Qden1 ser menos louv(ivete1 se1n c on t ud o 1nere­
cerem o epltoto d e i n d i v i d u a l ismo a n t i - c a tól ico.
Revista Eclesiástica Brasi leira, vol. 5, fase. 1 , março 1 945 20 1

CRÔNICA ECLE SIÁSTICA


DO B R A S I L.

O Sacristão em face da Legislação Social.


A I rmandade de Nossa Senhora do Rosário consultou o Min isté rio
do Trabalho sôbre se o sacristão que percebe salário mensal dos seus
cofres é considerado empregado em face da l egislação social. Ouvido
sôbre a matéria em aprêço o consultor j u rídico, Sr. Oscar Saraiva, de
acôrdo com o parecer do P rocu rador do Departamento Estadual cio
Trabalho assim se pronunciou em parecer que teve a aprovação do
Ministro :
" D ispõe sôbre a espécie o artigo 2.º, parágrafo 1 .0, da Con.i"'118i$io
das Leis do Trabalho, com a segu i nte redação : "Considera-se emprega­
dor a emprêsa, individual ou coletiva, que, assumindo os riscos de ativi­
dade econômica, admite, assalaria e d irige a prestação pessoal de servi­
ço." Equiparam-se ao empregador, para os efeitos exclusivos da relação
de emprêgo, os p rofissionais liberais, as instituições de beneficência, as
associações recreativas ou ou tras i nstitu ições sem fins lucrativos, que ad­
mitirem trabalhadores como empregados." Assi m, sendo de parecer de que
os servidores administrativos leigos das irmandades ou confrarias reli­
giosas sej am considerados empregados, para todos os efeitos da apl icação
da legislação do trabalho, opino no sentido de que se responda à con­
sulente nos têrmos do parecer emitido pelo Procurador do D epartamento
Estadual do Trabalho, que coloca a questão em seus devidos têrmos :
- 1 . Ao secularizar o d i reito c ivil, a legisl ação brasi leira não destruiu a
estrutura das corporações religiosas. Tôdas as constituições republicanas
tem assegu rado a nacionais e estrangei ros residentes n o pais a liberdade
de se agremiarem para fins religiosos, e viverem coletivamente segundo
o seu credo e sua disciplina. - l i . A I grej a Católica, corporificada na
Santa Sé, está, segundo o di reito pátrio, compreendida na classe das
pessoas j u rídicas de direito público externo. Suas dioceses e paróqu ias,
porém, como tal não são consideradas, e, se na sistemática de d i reito
eclesiástico têm personali dade j u rídica, n a esfera do D i reito Civil Bra­
sileiro, que é essencia lmente leigo, não revestem êsse ca racterístico, por­
que, não formando sociedade, não podem, conseqüentemente, adqu i r i r per­
sonalidade j u rídica. - I l i . As ordens monásticas, as con gregações re li­
giosas, as confrarias, e as irmandades, uma vez satisfeitas as exigências
da lei civil, - i nscrição dos seus estatutos ou comprom issos no registro
público, - são consideradas pessoas j u rídicas de di reito privado (a rt.
1 6, n . 1 do Código Civil ) . - IV. As ordens monásticas e congregações
rel i giosas é livre a adoção de regras por que se ' há de governar a co­
munidade. E, frente ao art. 1 1 5 do Código Civil, é lícita a adoção de tô­
das e quaisquer cláusulas cuj a existência a lei expressamente não veda.
Assim, nessa ordem de i déias, atri buindo a lei às i nstituições religiosas
o caráter de sociedades de fins ideais ou não econômicos, é de se ad­
mitir e reconhecer a possibilidade do compromisso de pobreza, como con­
dição da qualidade de sócio ou congregado. São, pois, a meu ver, per­
feitamente subsistentes e válidas as cláusulas pelas quais os religiosos
livremente se obrigam, à entrada na comun idade, a abdicarem de todos
202 Crônica eclesiástica

os bens terrestres, mesmo porque, referindo-se elas diretamente ao exercí­


cio do culto, solidamente assegurado pelos dispositivos- constitucionais
citados, escapam, por isso mesmo, da órbita da ação do di reito do tra­
balho. - V. Assim, é óbvio que a legislação de trabalho não tem qual­
quer ingerência, direta ou indireta, imediata ou mediata, em tudo quanto
se refira ao exercício do culto por qualquer de suas manifestações, sej a
na expressão de sua pecu liar organização, sej a na sua própria exteriori­
zação. - VI. Ao lado, porém, do exercício do culto propriamente dito,
as irmandades e confrarias religiosas, apesar de serem associações de
fins i deais, mantém patrimônio e serviços que não se referem direta­
mente a êle. Para a execução dêsses serviços e administração do patri­
mônio, é óbvio que devem as i rmandades confiá-lo a pessoas que tanto
podem ser do seu quadro de congregados, como a êle alheias. N a primeira
hipótese, uma vez que os votos assumidos à entrada da con gregação
religiosa têm plena valia, quer me parecer que não se aplica a legisla­
ç lé?"ci� balho aos executores de tais serviços. Ocorrendo, porém, a hi­
pótese contrária, ou sej a, da execução dêsses serviços, por pessoas estra­
n has ao quadro da i rmandade ou da confraria religiosa, tem plena e am­
pla aplicação a legislação de proteção ao trabalho e previdência social ,
a o s seus executores. - V I I . N a hipótese dos autos trata-se de sacristão,
contratado pela irmandade, e que desta percebe um ordenado mensal de
Cr $300,00. O sacristão, além das funções de auxiliar do culto divino, ou­
tras exerce, que nada têm de comum com as pl"imeiras. Assim, é que
incumbe normalmente ao sacristão a guarda, conservação e limpeza da
I grej a, é êle quem contrata os ofícios religiosos e zela pelo bom anda­
mento dos serviços administrativos do Templo. Tais serviços êle os faz
sob a orientação e subordinação de seus superiores hierárquicos. Ora, se
normalmente são essas as funções do sacristão, quer me parecer que deve
ser êle considerado como trabalhador na verdadeira acepção do têrmo,
estan do, por conseguinte, amparado pela legislação de proteção ao tra­
balho. Isto, porém, com a ressalva decorrente das proposições retro enun­
ciadas, ou sej a, sempre que não faça parte da confraria ou irmandade
religiosa, a cujos votos, por válidos, estaria sempre sujeito. -V I I I . Ante
o exposto quer me parecer que à consu lente se devem responder afirma­
tivamente os itens formu l ados, esclarecendo que o I nstituto para o qual
deve contribu i r é o d e Aposentadoria e Pensões dos Comerciários, ex-vi
do artigo 2.0 do decreto-lei n. 5.493, de 9 de abri l de 1 940. - Evaristo
de Morais Filho, assistente técnico."
O parecer do procurador do Departamento Estadual do Trabalho,
transcrito pelo assistente técnico, responde devidamente à questão for­
mulada, e subscrevendo-o data venia, p ropomos que se responda na sua
conformidade. Assim, é que, se n ão se pode enquadrar nos preceitos traba­
lhistas o exercício de atividades que decorrem de voto religioso ou que
se traduzem na prática de atos de culto, i nspiradas u nicamente pelo pro­
pósito religioso, . o mesmo já não sucede com a prestação habitual e re­
munerada de serviços, realizada com o intu ito de ganho e como meio. ex­
clusivo de subsistência. Nesse último caso, tem inteiro cabimento o pre­
ceito do § 1 º do art. 2.º da Consol idação das Leis do Trabalho : "Equi­
.

param-se ao empregador, para os efeitos exclusivos da relação de em­


prêgo, os profissionais l iberais, as instituições de beneficência, as asso­
ciações recreativas ou outras instituições sem fins lucrativos, que admiti­
rem trabalhadores como empregados." Atentas, pois, as circunstâncias
em que é exposta a consulta, opinamos que se transmita à consulente
Revista Eclesiástica B rasileira, vol . 5, fase. 1 , março 1 945 203

resposta nos têrmos do referido parecer do procurador do Departamento


Estadual do Trabalho."

Impostos Sôbre Propriedades da Igreja.

O P residente da República aprovou a exposição de motivos do Ministro


da justiça relativa ao processo de isenção de impostos pleiteada pela
Congregação dos Padres Passionistas, sediada no convento do A lto Ca­
bral, em Curitiba, no Paraná. O referido processo foi apreciado pela
Comissão de Estudos dos Negócios Estaduais, tendo sido esta a exposi­
ção de motivos do Ministro :
O relator do assu nto na Comissão de Estudos dos Negócios Esta­
duais ( CENE) , depois de examinar a situação da propriedade das igre­
j as em face da lei tributária, assim conclui seu parecer :
" Não se nos afigura razoável que o patrimônio das igrej as, estando
isento de impostos em quase todo o B rasil, não o estej a em r.JJ5i�io
-
Verdade é que o direito de conceder isenção cabe ao poder qu e decreta
o imposto. Mas não é menos certo que o P residente da República, hoj e
responsável, em fütima análise, pela administração pública em todo o ter­
ritório nacional, está armado de prerrogativas que permitem a sua inter­
venção em casos como êste. Nada impede que S. Excia., se acer t ado lhe
parecer, recomende à municipal idade que modifique a sua lei, declarando
l ivre de i mpostos a propriedade das igrej as, desde que aplicada aos fins
eclesi ásticos, ou que determine tão-somente sej a atendido pela P refeitu ra
o pedido d a reclamante. E ' de ponderar, todavia, que das importâncias
em que está sendo lançada a requerente, não podem ser dispensadas
aquelas acaso referentes a contribuições de melhoria, legitimamente clas­
sificáveis na rubrica, pois ao aviso unânime dos teóricos dessa espécie
tributária, pela su a n atu reza especial, não comporta lesões. P roponho
ainda que, sem p rej uízo do andamento da questão principal, se diligencie
no sentido de ser apurado o g rave fato apontado pelo assistente j u rídico
Dr. Temlstocles Vilaça, de estar em vigor no município de Curitiba uma
lei tributária, promulgada em 1 943, e desconhecida da Comissão de Es­
tudos dos Negócios Estadu ais."
A CENE aprovou o parecer supra, com o que estou de acõrdo. V.
Excia., todavia, dignar-se-á d e cidir como j u lgar mais acertado."

O Centenário de D. Vital na Paraiba.


Foram bem significativas as solenidades realizadas n a P a raíba em co­
memoração do primei ro centenário do nascimento de D. Frei Vital Maria
Gonçalves de Oliveira. Em tôdas as paróquias da arquidiocese, celebraram­
se festas reli g iosas, durante três di as, sendo que, em joão Pessoa, houve
comemorações cívicas e religiosas, com a presidência de honra do Inter­
ventor Federal, D r. Rui Carneiro, e do A rcebispo Metropolitano, D. Moisés
Coelho. No I nstituto H istó rico e Geográfico, no auditório da Rádio Difu­
sora P a raibana, nos estabelecimentos de educação, em várias escolas pú­
blicas, foram pronunci adas conferências por oradores escolh idos e prele­
ções pelos professôres, pondo em relêvo a ação apostólica, o denodo, os
sofrimentos e a grande vitória do imortal B ispo de Olinda. No P alácio
d o Carmo, residência arquiepiscopal, realizaram-se as grandes conferên­
cias, estando p resentes as principais autoridades civis, milita res e eclesiás­
ticas. Em Pedras de Fogo, Estado da P a raíba, no mesmo lugar em que
foi a casa natalícia de D. Vital, foi inaugu rado u m monu mento comemo­
rativo do centenário, erigido por conta do Cônego Matias Freire. O mo-
204 Crônica eclesiástica

numento consta de uma colu n a de dois metros de altura, com pedestal de


trinta e cinco centímetros e base d e metro e meio, tudo em concreto de
cimento. Uma bela placa de bronze está chumbada na elegante coluna,
contendo os segu intes dizeres : "Aqui n asceu o Bispo de Olinda D. F rei
Vital de Ol iveira, a 27 de novembro de 1 844. Ad perpétuam rei memó­
riam. 27 novembro 1 944. C. M. F." O ato da in augu ração dêsse pequeno
monumento foi muito solene. Estiveram p resentes representantes do A r­
cebispo da Paraíba, do Bispo de Nazaré, do I nterve ntor Rui Carneiro,
dos Padres Capuchi n hos do Recife, do Prefeito de ltambé, das associações
c u l t u rais e Cabido Metropolitano da Paraíba, além de cêrca de mil pes­
soas de Pedras de Fogo e També, de Recife, João Pessoa e mun icípios
vizinhos de Pa raíba e Pern ambuco. O Sr. Arcebispo D . Moisés e nviou
uma carta c i rcular a todos os vigários, capelães e demais sacerdotes, re­
comendando que "a Paraíba, em cuj o seio nasceu o insigne príncipe da
I grej a, p reste a D. Vital as mais si nceras e carin hosas homenagens." A
vfTP'-d(Pillte n erando antístite foi ouvida, em todos os recantos parai banos.
A a rqu i d iocese em pêso testemunhou ao Atanásio brasileiro o seu culto
de admi ração, sem esquecer o nome de D. Antôn io de Macedo Costa, o
grande companheiro de D. Vital nas refregas, nos sofrimentos, nas penas
do cárcere, no completo t r i u n fo da causa pela liberdade da Santa I grej a,
perseguida pelos excessos do Regalismo maçonizado e agonizante. A Pa­
raíba, pode-se d izer, estêve à altura de seus deveres para com a me­
mória de um extraordinário brasi leiro, de uma das mais fulgentes e fortes
figuras do glorioso episcopado d a Terra de Santa Cruz. Nas oficinas da
I mprensa Oficial do Estado vai ser preparada uma artística "maquette" ,
contendo os discursos e demais documentos rel ativos ao centenário de D .
V i t a l n a Paraíba. - (Cônego Matias Freire, João Pessoa, Paraíba . )

lnstttuto d e Serviço Social e m São Paulo.


A fundação do I nstituto de Serviço Social, verificada em março de
1 940, desde quando vem funcionando, corresponde às necessi dades cada vez
mais acentuadas das obras assistenciais e ao desenvolvimento sempre c res­
cente que o Serviço Social está tomando entre nós. O I nstituto é oficial­
mente católico e destinado a alu nos catól icos. V isa, portanto, uma fi nali­
dade de apostolado, qual sej a a formação de óti mos técnicos de serviço
social que também sej am ótimos catól icos, j á pela sua vida exemplar, j á
pela perfeita assi m i lação da doutrina da I grej a. A liás, d a d a a própria na­
t u reza do assunto, não é possive l u m perfeito serviço sem a correspondente
formação religiosa profunda e séri a . Como se sabe, a maior pa rte das
obras, quer de beneficência, quer de serviço social, é católica. Isto não é
de estra n h a r, visto como a prática da caridade é da essência mesma d a
vida católica. Ora, quando se procura reaj ustar u m a pessoa ou grupo
soci a l às condições normais de existência, faz-se obra de caridade.
Os assistentes soci ais diplomados pelo I nstituto, dest i n a m-se, pois,
especialmente às obras católicas. Estas poderiam ter eficiência ainda
maior se con tassem com a orientação ou a colaboração de assistentes,
não só com uma capacid ade técnica comprovada, como também de sólidos
princípios religiosos, que possam inspirar tôda confiança a essas o bras.
E' j ustamente o que pretende fazer o I nstituto de Serviço Social. Por ou­
tro lado, proporcionando o I nstituto uma formação técnica mais especia­
li zada no campo do serviço social para trabalhadores, tornará seus diplo­
mandos aptos de maneira espec i a l a atividade j unto a institu ições de tra­
balhadores. Embora apresentem os assistentes sociais masc u l i nos ou femi-
Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 5, fase. 1, ma rço 1 945 205

ni nos um grande n úmero ele atividades e funções comu ns, têm, entre tanto
certos aspectos ou campos de trabalho mais i ndica dos ou peculi ares a un �
e outr ? s. São m �1 itas as situaçõ es, por ci rcu nstâ ncias d o meio, do age nte
. . serviço,
assistente social - o u do propno
. .
em que e. mdicada a ação do
assistente social mascu lino, como em a lguns cargos de direção de servi­
ços, administração técnica de estabelecimentos de educaçã o e reed ucação
penitenciárias e institutos de reforma de menores ; cargos de ação ind ivid ua i
i mediata, como os de c omissá rios e mon itores de educação e dis cipli na .
assistentes soci ais j unto a associações profissionais, mútuas, sin dicatos '
j unto a obras de indústria, como em cargos de fiscais do trabal ho e ou �
tros. Da mesma forma, outros campos de atividade dão p referência a as­
sistentes sociais femi ninos. Em resu mo, principalmente na parte relativa
a o serviço social de trabalhadores, é reclamada a ação de agentes espe­
ciatizados, e êsse campo comportaria um quadro numeroso de assiste ntes
sociais. Na orientação das atividades das assoc iações profissiona is, ou 110
exercício de suas funções j unto a emprêsas industriais e comer�'\1R+,•€:.�
são os intermediários indispensáveis nas relações entre o capital e o t ra­
balho. Aos j ovens que já completaram os 1 8 anos e o curso s ecundári o,
ou têm preparo equ ivalente, o I nstituto proporciona uma solução valiosa
para os projetos de estudos a segu ir, pressuposta, é óbvio, a vocação re­
querida para o trabalho social, que poderá bem estar por se despertar,
desenvolver, educar, no íntimo dos candidatos. Um curso i ntensivo inicial,
constante do I .º mês de aulas ( março ) , destina-se exatamente a esclarecer
êsse requisito, selecionando os candidatos, por u m critério o quanto pos­
sível objetivo, quanto à capacidade e à inclinação. O Instituto tem i nspe­
ção estadual permanente.

Pe. joão Gualberto do Amaral.

Entre os brasileiros i lustres, i nscritos recentemente no Livro do Mé­


rito, encontra-se o Padre Dr. j oão G ualberto do Amara l . O il ustre sacer­
dote n asceu em Minas, n a vila de Guapé, tendo feito seus estudos ecle­
siásticos em Mariana, onde se ordenou. Depois cu rsou a U n iversidade
Gregoriana de Roma, e aí se doutoro u em D i reito Canôn ico. Sua ativi­
dade i ntelectual foi desenvolvida principalmente em São Paulo t no Rio.
Em São Paulo, foi o ídolo da mocidade acadêmica, a qual acorria para
ouvir, embevecida, a palavra daquele sacerdote ainda j ovem, mas j á um
sábio completo em vários ramos de conhecimentos h u m a nos. Uma ci rcuns­
tância extraordinária i r i a exalçar o nome dêsse j ovem Padre ao apogeu do
renome intelectual. Eurico Ferri, o grande criminologista italiano e formi­
dável orador, chegado a São Paulo, fazia conferências em que atacava
a religião, com argumentos científicos. A mocidade católica das Acade­
mias foi buscar na sua cela do Seminário o P adre humi lde e sábio, para
u m revide à altura. Pronunciou então joão Gu alberto três conferências
notabi líssimas, i ntitu ladas : "Uma lição a Ferri", " I ncoerências de Ferri " ,
"A I grej a e a m u lher, segu ndo Ferri " . O cu rioso título da primeira, as­
sim se explica : Ferri, sábio criminologista, tinha vindo para falar sôbre
sua ciência, e saiu fora dela, atacando a religião. O Padre joão Gual­
berto falou l a rgo tempo rebatendo os a rgumentos científicos de Ferri, sem
sair do terreno da ciência e sem fazer qualquer referência à religião. Eis
a lição que um obscuro Padre brasileiro dava a u m sábio de renome u n i­
versal . Nessas conferências joão Gualberto demonstrava estar ao par da
ú ltima palavra d a ciência, em antropologia, em biologia, e em direito.
Tendo ido para o Rio, ali realizou vá rias séries de Conferências, no C í r-
206 Crônica eclesiástica

culo Católico, em sociedades cientificas, na Catedral Metropolitana, c onfe­


rências assistidas por professôres e estudantes das escolas superiores, e
onde culminaram a palavra i nflamada d o incomparável orador, a sua ciên­
cia enciclopédica, e o seu arrebatado p atriotismo, pois tôdas as &uas o ra­
ções se incendiavam de u ma brasilidade que não estava só nas imagens
oratórias, mas lhe vinha do coração de brasi leiro. Ouvindo-o, Rui Barbosa
se manifestou deslumbrado pela p a l avra e pelo vulto dos conhecimentos
científicos d e joão Gualberto. N o magistério silencioso d o Colégio Assun­
çã o, a q u i , aprenderam com êle gerações e gerações de mães brasileiras.
H oj e voluntàriamente retirado em Petrópolis, como capelão do Carmelo,
passa suas h o ras n a oração e n o estudo o grande sábio e modelar sacer­
dote, g ló ri a da I grej a e g l ó r i a do B r a s i l .

Prelado Americano em Visita ao Brasil.


, O Brasil recebeu recentemente a visita de D. josé H . Schlarman, Bis­
p1Fi:f� oria ( U . S . A . ) e P residente da Conferênc i a Católica da Vida
Agrícola. S u a E x c i a . v i aj o u em c o m p a n h i a de Mons. L u i g i L i g ut t i , Secre­
tário dessa e n t i d a d e e de Mons. Joseph Morrison, C u r a d a Catedral de
Ch icago. Os i l ustres prelados realizaram uma v i agem pela A m é r ic a do
Sul, tendo v i s itado os paises da costa do Pacífico, a A rgen t i n a e o U ru­
g u a i . N o B r asi l estiveram em Pô rto Alegre, São P a u l o , Campinas, Rio
de j a n e i ro e Petrópolis, a com p an han do-os o Sr. Frederick H a l l , d o Escri­
tório do Coordenador dos Assu ntos I nt e r-Americanos n o Rio de j aneiro.
N a palestra q u e manteve e m C a m p i n a s com o Sr. Bispo D i ocesano, D .
j o s é Schlarman expôs o programa d a Conferência Cató l i c a d a V i d a A grí­
cola, que nos Estados U n i dos está empenhada em p romove i· u m a obra
educ ativa e de propaga n d a , tendente a, dentro dos l i m i tes da I grej a,
adaptar os p r i n c í p i o s d a f i losof i a c a t ó l i c a à v i d a agrícola, aos costumes
e ao modo de viver próp r i o s d o agricu ltor. Os fins p r i n c i p a i s da enti dade
são q u atro : ajudar os agricu ltores cató l i cos pobres ; presta r todo o apoio
aos a g r i c u ltores católicos, p a r a q u e se f i x e m nos campos ; t r a b a l h a r para
q u e se e m p r e g u e o m a i o r n ú mero possível d e católi cos n o c u l t ivo da ter­
ra ; trabalhar p e l a conversão ao c