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20 dicas para dominar as modernas práticas pedagógicas

Muitos professores têm dificuldade de passar o discurso pedagógico do


papel para a prática. Não é para menos. Por isso, preparamos esta
reportagem, repleta de dicas preciosas para professores generalistas e de
todas as disciplinas. Elas foram desenvolvidas pelos avaliadores do Prêmio
Victor Civita Professor Nota 10 e por vários especialistas na área da
educação com base na leitura e na avaliação dos milhares de trabalhos
inscritos nos últimos cinco anos no prêmio. Além das novas práticas -
contextualização, interdisciplinaridade, avaliação... -, você vai encontrar
sugestões para obter maior rendimento dos alunos. Boa leitura!

1. Plano de trabalho: conhecer a turma para saber o que e como


fazer

Uma turma é sempre diferente da outra. Você sabe disso. E sabe também
que, ao iniciar o trabalho com um novo grupo, é fundamental conhecê-lo
bem. Só assim podem-se definir com clareza as melhores estratégias e os
métodos e materiais a serem usados. É disso que trata o plano de trabalho.
Baseado na proposta pedagógica da escola, ele deve também ser norteado
pelo planejamento específico de cada série ou ciclo que varia de uma escola
para outra. "O plano de trabalho trata das especificidades e demandas de
cada turma", explica Maria Luisa Merino Xavier, professora da Faculdade de
Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É importante,
portanto, conversar com os professores da série anterior; descobrir se há
alunos na turma com necessidades especiais; se existem, por exemplo,
crianças de diversas culturas, etnias ou religiões; e pesquisar o histórico
escolar de cada um. Entrevistas com os pais ou responsáveis também são
úteis para saber com quem a criança mora, o que faz nas horas de lazer, se
tem algum problema de saúde, de que brinquedos gosta e em que outras
escolas estudou e como foram essas experiências. "É bom descobrir o que
os pais pensam, o que esperam da escola e o que desejam para seus
filhos", afirma Maria Luisa. Em sala, é hora de observar quem desenha bem,
tem facilidade ou não para leitura, gosta de falar ou é mais tímido. Com
tantas informações em mãos, você poderá elaborar estratégias adequadas
para todo o grupo considerando as características de cada um. "O plano de
trabalho não pode estar pronto nos primeiros dias de aula porque exige
contato prévio com alunos e pais", afirma a professora. Além disso, é
preciso levar em conta o seguinte: mesmo que você planeje suas aulas de
acordo com os conteúdos a ser abordados, sempre haverá, ao longo do ano,
a necessidade de mudar os rumos. Um dos motivos é atender às
necessidades momentâneas dos alunos. De que adianta, por exemplo,
seguir o roteiro sem abordar temas que todos vêem na TV, como as
catástrofes naturais ocorridas ultimamente? "As aulas consistem em uma
seleção pertinente para o momento, pois os conteúdos não se esgotam", diz
Maria Luisa.

2.Avaliação: acompanhar o aluno para traçar o melhor caminho

A avaliação sempre deve estar a serviço do aluno. Isso significa que ela não
tem como objetivo determinar as notas a ser enviadas à secretaria, mas
acompanhar o caminho que o aluno faz, descobrir suas dificuldades e
necessidades e alterar os rumos, se preciso. Ela é constante e pode ser feita
durante trabalhos em grupo, jogos e brincadeiras. Só que o olhar do
professor, nesses momentos coletivos, deve ser sempre para cada
estudante. "Assim se observam os interesses e os avanços de todos na
turma", revela Jussara Hoffmann, consultora em educação, de Porto Alegre.
Ao pensar em avaliação, você pode lançar mão de atividades interativas em
que existam o diálogo, a troca entre os alunos, a participação e a
cooperação. Também é importante ter conversas individuais com os alunos,
olhar o caderno e as produções, perguntar o que aprenderam e do que
gostaram. O questionamento constante dá aos estudantes a oportunidade
de aprofundar as suas respostas. Para que você aproveite tudo isso, o
registro diário é fundamental. "A observação só se torna um instrumento
válido quando é registrada. As anotações mostram em que as crianças se
desenvolveram e em que elas ainda precisam avançar", afirma Jussara.
Você pode ainda avaliar a produção de texto individual, as manifestações
dos alunos sobre diversos assuntos ou sobre um mesmo tema, em vários
momentos e as atividades menores, individuais e freqüentes, corrigidas
imediatamente. É preciso garantir que o aluno possa expressar seu
conhecimento de muitas maneiras (em músicas, textos, pinturas, fotos).
Tudo isso contribui para a aprendizagem. O processo é semelhante a um
percurso e seu papel não é esperar os alunos no final. Você acompanha a
turma, ajudando a ultrapassar os obstáculos do caminho.

3. Contextualização: ela vai muito além da relação com o cotidiano

Existe uma certa confusão sobre o significado do termo contextualizar. A


primeira definição é a de que se trata de trazer o assunto para o cotidiano
dos alunos. É também, mas não só isso. Muitos conceitos e conteúdos são
contextualizados na própria disciplina. "Isso significa colocar o objeto de
estudo dentro de um universo em que ele faça sentido", afirma Ruy Berger,
consultor em educação, de Brasília. Imagine que você está dando uma aula
sobre divisão celular. Os estudantes precisam saber o que é DNA para
poder entender o processo. Portanto, o DNA passa a ser um objeto de
estudo que faz sentido nesse conteúdo, que é a divisão das células. Esse é
um exemplo de contextualização que não está necessariamente ligado à
vida das crianças (o que não impede que o professor diga que o DNA faz
com que elas se pareçam com os seus pais, por exemplo). Entendido isso,
evitam-se situações forçadas, em que o professor se sente na obrigação de
relacionar todo e qualquer conteúdo à vida dos alunos. Algumas vezes,
aquilo que ele não consegue contextualizar acaba até sendo excluído do
currículo o que prejudica, e muito, a aprendizagem da turma.

4. Objetivo: só depois que ele é definido, vêm o conteúdo e a


metodologia

Os objetivos que o professor deseja alcançar devem sempre preceder sua


ação. O ideal é estabelecer primeiro um objetivo e, depois, um caminho
para alcançá-lo o que inclui definir o conteúdo e a metodologia. "É preciso
ficar atento para ver se a escola não está fazendo o contrário: definindo o
caminho, que é passar um conteúdo preestabelecido, para depois pensar
nos objetivos", alerta Danilo Gandin, especialista em planejamento da
educação, de Porto Alegre. Segundo ele, muitas vezes os professores ficam
presos à obrigação de trabalhar o currículo preestabelecido e, ao mesmo
tempo, à necessidade de fixar objetivos, mesmo que eles não façam
sentido. "Aparecem situações estranhas: enquanto o objetivo é desenvolver
a consciência crítica, o conteúdo a ser passado é a crase", afirma.
Obviamente o que domina a cena é a crase, que o professor pensa que tem
de ensinar. O objetivo aparece apenas porque alguém disse que ele deveria
estar lá. Para Gandin, é preciso pensar no que vai ser feito e para quê. Dois
exemplos de objetivos que norteiam um trabalho: 1) realizar um estudo
sobre a escravidão para aumentar a solidariedade e compreender mais
profundamente o significado da liberdade; e 2) estudar a variação dos
preços em dois supermercados para iniciar a compreensão do processo
econômico no país. Esses objetivos, é bom lembrar, devem sempre estar
alinhados com a proposta pedagógica da escola. Os conteúdos e a
metodologia, portanto, são o caminho a ser trilhado com base no que se
estabeleceu como meta.

5. Conhecimento prévio e interesse dos alunos: quem descobre é


você

Os conteúdos abordados em sala de aula devem, basicamente, contribuir


para a formação de cidadãos conscientes, informados e capazes de
melhorar a sociedade. Por isso, é muito comum os professores tentarem
montar suas aulas tendo como centro do trabalho o interesse dos alunos.
Dessa maneira, eles teriam mais elementos para refletir sobre o meio em
que vivem e sobre o que os cerca. Essa prática, porém, nem sempre
garante bons resultados. "Ocorre até o contrário. Ao dar importância
somente ao que os estudantes já conhecem, muitas vezes os professores
acabam caindo na superficialidade, presos a interesses imediatos", alerta
Danilo Gandin. Segundo ele, como conseqüência, surge um currículo ditado
pelas circunstâncias, que destaca acontecimentos pontuais e não um roteiro
de trabalho construído com base na relação entre a proposta pedagógica e
a realidade. "Essa questão só se resolve quando a equipe de cada escola
define os grandes horizontes políticos e pedagógicos de seu trabalho e,
confrontando esses grandes ideais com a realidade e com a prática,
descobre as necessidades de seus alunos", conclui.

6. Trabalho Interdisciplinar: as matérias se unem e os alunos


aprendem

A interdisciplinaridade ocorre quando, ao tratar de um assunto dentro de


uma disciplina, você lança mão dos conhecimentos de outra. Ao estudar a
velocidade e as condições de multiplicação de um vírus, por exemplo, é
possível falar de uma epidemia ocorrida no passado devido às precárias
condições de saúde e higiene e à pobreza do local. Daí, é possível até
explorar, em outros momentos, os aspectos políticos e econômicos que
geraram tamanha pobreza. A interdisciplinaridade é, portanto, a articulação
que existe entre as disciplinas para que o conhecimento do aluno seja
global, e não fragmentado. É muito comum a idéia de que, ao utilizar um
tema gerador, se garante a interdisciplinaridade. "Ela não se resume em
escolher um tema e abordá-lo segundo a visão de duas ou mais disciplinas",
afirma Ruy Berger. Ao estudar a questão dos índios, por exemplo, o
professor de História fala sobre a colonização do Brasil, o de Língua
Portuguesa trabalha as lendas indígenas e o de Matemática acaba propondo
um problema sobre o índio: isso não garante a relação entre as disciplinas.
O tema gerador pode ser um ponto de partida, mas não o centro do estudo
e nem se alongar muito, para os alunos não se cansarem. Ao planejar,
portanto, é importante levantar quais são as possibilidades de trabalhar de
forma interdisciplinar ao longo do ano. Essas oportunidades podem ser
criadas com base nas pesquisas dos alunos e do próprio professor ou em
parceria com os colegas de outras disciplinas.

7. Seqüência didática: uma série de aulas que desafia e ensina os


alunos

A seqüência didática é um conjunto de aulas planejadas para ensinar um


determinado conteúdo sem ter um produto final. Sua duração varia de dias
a semanas e você pode elaborar várias seqüências ao longo do ano, de
acordo com o planejado ou com a necessidade dos alunos detectada pelo
caminho. É possível, inclusive, aplicar essa modalidade ao mesmo tempo
em disciplinas diferentes. "O princípio da seqüência didática é dar ao aluno
desafios cada vez maiores para que ele se desenvolva", afirma Regina
Scarpa, coordenadora pedagógica do Centro de Educação e Documentação
para Ação Comunitária (Cedac) e do Instituto Avisa Lá, em São Paulo. Por
exemplo: você quer que seus alunos aprendam o uso do "r" e do "rr".
Primeiro observa o que eles já sabem a respeito e depois elabora uma série
de aulas com várias atividades, jogos, questionamentos e muita reflexão,
aumentando gradativamente a complexidade dos desafios propostos. Com
esse tipo de abordagem, os alunos vão, aos poucos, percebendo que não
existem palavras que começam com "rr" ou que não se usa "rr" após o "s",
por exemplo. A seqüência didática é indicada, ainda, quando se quer
trabalhar o universo de um determinado autor. "Além de ler suas obras, as
crianças verão nessas aulas o que o autor escreve, que livros já publicou e
qual o seu estilo", diz Regina. Se a idéia é trabalhar as diferentes versões
da história do Pinóquio, outra seqüência pode ser estabelecida: leitura feita
pelo professor do original e de uma segunda versão, leitura e reescrita em
grupos de trechos de outras versões e a exibição de um filme sobre o
personagem. Trabalhando dessa forma, os conteúdos se distribuem de
maneira intencional e mais consistente.

8. Temas transversais: o pano de fundo do trabalho da escola

Temas transversais não são disciplinas, apenas permeiam todas elas. Se a


escola decide abordar ética de maneira transversal, não pode estipular uma
aula sobre o assunto uma vez por semana e esquecer dela no restante dos
dias. "Esses temas precisam estar presentes em todas as disciplinas, o
tempo todo, como pano de fundo do trabalho da escola", orienta Josca
Baroukh, selecionadora do Prêmio Victor Civita. Segundo Josca, ao abordar
os temas transversais, o professor leva os alunos a refletir para que eles
tenham condições de construir conceitos, em vez de apenas coletar
informações a respeito. "Caso contrário, é possível que os estudantes
organizem uma coleta seletiva no bairro ou arrecadem alimentos para um
asilo sem pensar no porquê de fazer aquilo", afirma. Se a escola propõe à
garotada, por exemplo, mobilizar a população e a prefeitura da cidade para
fazer um poço artesiano em benefício de uma comunidade que vive na seca,
é preciso, antes da ação, uma reflexão profunda. O que é a seca? Que
problemas ela traz? Um poço é a melhor solução para o momento? Há
outras formas de contribuir? E, principalmente, por que devemos contribuir?
Para Josca, não é apenas o conteúdo escolar que dá gancho a esse tipo de
trabalho. "Uma notícia de jornal e até um conflito em sala de aula podem
ser mote para reflexão. É um trabalho contínuo, que nem sempre depende
do planejamento das aulas."

9. Tempo didático: para não errar na dose, é preciso ter objetivos


claros
Muitas vezes é difícil definir quanto tempo será gasto para desenvolver um
tema, uma atividade ou um projeto. Para não errar na medida, é
fundamental ter em mente três pontos: o que você quer ensinar, como cada
um de seus alunos aprende e como você irá acompanhar e avaliar o
trabalho da garotada. "Se o tempo previsto der errado, é porque pelo
menos um desses três itens não foi observado", afirma Regina Scarpa. Na
prática, isso significa que você deve estabelecer, primeiramente, os
objetivos e os conteúdos (seja para uma aula ou para um projeto mais
longo). Depois, pensar nas atividades a ser desenvolvidas, baseando-se na
maneira como seus alunos aprendem. Então, considerar que é preciso
tempo para avaliar, constantemente, a produção da garotada e, dessa
forma, saber se será necessário estender a abordagem de um ou outro
conteúdo, sobre o qual as crianças apresentaram dificuldades. "É possível
prever o tempo de um projeto, apesar dessas variações no meio do
caminho", diz Regina. Por isso, é importante planejar o encerramento com
certa antecedência em relação ao fim do bimestre ou do semestre. Se
algum aluno não aprender, haverá uma folga. "Não faz sentido o professor
fazer a revisão dos textos ou ilustrar um trabalho no lugar dos alunos
porque o tempo acabou e é hora de concluir o projeto", diz Regina.

10. Inclusão: a escola leva o aluno com deficiência a avançar

Receber uma criança com deficiência não deve ser motivo de angústia.
Cada vez mais a inclusão escolar tem sido discutida no meio educacional, e
os professores hoje conseguem encontrar, em parceria com os pais, a
coordenação da escola e os especialistas nas deficiências, caminhos seguros
para trabalhar. "A escola serve para ampliar os conhecimentos dos
estudantes. Por isso, o primeiro passo é procurar saber o que o aluno com
deficiência já sabe e quais são as possibilidades que ele tem de aumentar
esses conhecimentos", ressalta Maria Teresa Eglér Mantoan, da
Universidade Estadual de Campinas. Procure descobrir como tem sido a
experiência da criança, pesquisando seu histórico escolar e trocando
informações com os pais e os professores das séries anteriores. Se ela
estiver recebendo atendimento educacional especializado no contraturno em
alguma instituição, é importante conversar com os especialistas ao longo de
todo o ano para acompanhar seu desenvolvimento. Isso pode ajudar muito
a planejar as aulas, definir estratégias e escolher os melhores materiais o
que é bom não só para o aluno com deficiência mas para a turma toda. Se
sua escola já oferece esse atendimento, a parceria com o professor
especialista se dará de maneira ainda mais efetiva, pois o contato é diário.
No caso de haver uma criança cega, esse profissional pode, por exemplo,
ajudar você a elaborar materiais concretos para ensinar um conteúdo de
Matemática (como figuras geométricas feitas em relevo, com tinta plástica
ou sementes coladas no papel). "O professor deve receber essa criança
como ele recebe todas as outras. Ela é, acima de tudo, um aprendiz",
afirma Maria Teresa.

11. Matemática: interação entre os conteúdos é essencial

O melhor caminho para garantir o aprendizado da turma é relacionar os


conteúdos matemáticos e mostrar como eles se complementam. Isso é o
que dá significado ao estudo. Geralmente, os tópicos aparecem de forma
fragmentada, como se não tivessem nenhuma ligação entre si. Na prática, é
como ensinar multiplicação com o objetivo de fazer o aluno calcular mais
rapidamente e de cabeça, sem fazer nenhuma relação com situações em
que a operação é necessária. "O professor deve organizar os temas de
forma que possam ser vistos como uma rede de significados", aponta Maria
Sueli Cardoso, selecionadora do Prêmio Victor Civita. Por exemplo: em vez
de pedir à turma apenas para calcular quanto é 2 x 4, é possível pedir para
desenhar em um papel quadriculado duas colunas com quatro linhas. Assim
todos perceberão que 2 x 4 é igual a 8 quadradinhos. Esse resultado
significa também a área de um retângulo (com 2 unidades de altura e 4 de
comprimento). Nesse tipo de atividade, estão relacionados multiplicação,
figura geométrica e perímetro. "É sempre interessante que o aluno
compreenda que um mesmo assunto pode ser estudado sob vários
aspectos", diz Sueli.

12. Língua Portuguesa (1ªa 4ª): mais importância para a oralidade

Atividades de leitura e escrita aparecem muito nas primeiras séries do


Ensino Fundamental. Mas e a oralidade, onde fica? Para Eliane Mingues,
selecionadora do Prêmio Victor Civita, é importante criar situações em que
as crianças utilizem as três práticas. Elas podem elaborar uma coletânea de
contos ou poemas; um livro de receitas; ou o encarte de um CD com as
canções preferidas da turma. Para fazer a coletânea de poemas, por
exemplo, a garotada tem que ler, selecionar, recitar e escrever as poesias.
Essas situações ensinam a leitura e a escrita e também a oralidade, o que
será útil para a vida dentro e fora da escola. "Alunos que não vivem
situações de fala formal em sala de aula podem demorar mais para
construir esse conhecimento", afirma. Surge, assim, a dificuldade em se
expressar, elaborar apresentações e criar argumentos sobre o que pensam.
O mesmo vale para a dificuldade em anotar, pesquisar e resumir. "Quando
as crianças já estão alfabetizadas, pode-se focar em atividades que dão
mais autonomia em relação à leitura e à escrita, como a entrevista", sugere
Eliane. A atividade proporciona uma situação comunicativa em que os
alunos precisam escrever um texto de gênero específico para leitores reais
e que será publicado no mural ou boletim da escola.

13. Língua Portuguesa (5ªa 8ª): gramática como uma ferramenta

É importante não separar o estudo das regras da língua da leitura e


produção escrita. "A reflexão sobre os mecanismos da língua produz um
aprendizado mais consistente quando é feita misturada ao ler e escrever",
afirma o selecionador do Prêmio Victor Civita Ricardo Barreto. Para envolver
a garotada no ensino da gramática, um bom caminho é associá-la a
situações concretas. Transformar um texto formal em coloquial,
comparando as palavras e as estruturas que foram alteradas, é um bom
exercício. Escrever uma reclamação a uma autoridade e, em seguida, contar
o fato a um amigo, também por carta, é outra

opção. "A idéia é levar o aluno a perceber as possibilidades da língua sem


ter de decorar regras", diz Barreto. Ele destaca mais uma estratégia: fazer
os estudantes pesquisarem as diferenças entre textos de diversos gêneros,
como o de divulgação científica, a crônica e a notícia. Durante a leitura, eles
acabarão comparando os elementos gramaticais utilizados em cada um.
"Por fim, o professor pode solicitar ao aluno que escreva sobre o que
aprendeu. Essa prática também estimula a reflexão sobre a língua."

14. Língua Estrangeira: as palavras precisam de contexto

Ninguém esquece sua língua materna quando aprende uma língua


estrangeira. O que acontece é bem o contrário: quanto mais o aluno utiliza
o conhecimento que adquiriu em sua vivência e sobre o próprio idioma,
melhor entende uma segunda língua. Por exemplo: certa vez uma empresa
lançou uma campanha publicitária com o slogan Put a tiger in your tank.
"Para entender a mensagem, não basta saber o significado de cada palavra.
É preciso conhecer uma série de elementos prévios", afirma a selecionadora
do Prêmio Victor Civita Celina Bruniera. "Ajuda, por exemplo, conhecer as
características do texto publicitário e saber que o tigre representa força e
agilidade e que é o símbolo de uma distribuidora de combustível." Outro
exemplo: lendo a palavra engaged isolada, o aluno terá mais dificuldade de
entender seu sentido do que se vê-la na fechadura da porta de um banheiro
público. "Se disserem a ele que, ao girar a fechadura, a palavra desaparece
e, em seu lugar, surge vacant, será mais fácil concluir que vacant significa
vago e engaged ocupado." Celina ressalta, no entanto, que, ao tentar tornar
o ensino interessante, muitos professores se esquecem dos gêneros
textuais e abusam de atividades lúdicas sem contextualização. Disso
surgem palavras cruzadas e joguinhos que só ajudam a decorar palavras.
15. História: de olho no presente para transformar o futuro

Estudar história local com a turma é uma prática muito comum e pode ser
uma experiência importante e enriquecedora desde que o resultado não se
torne uma mera coletânea de curiosidades, hábitos e causos sobre o lugar e
seus moradores. Por isso, ao pensar nos conteúdos que serão abordados
durante o ano, é preciso levar em conta as respostas para algumas
perguntas que você deve fazer a si mesmo: posso com isso contribuir para
transformar minha região? Em que esse assunto ajudará meu aluno em sua
vida diária e no seu processo de formação como cidadão? Como fazer com
que ele tenha uma aprendizagem significativa? "Em cada contexto social,
político e geográfico as respostas são diferentes. Portanto, só o professor
tem reais condições de respondê-las e de formular as melhores propostas
didáticas", diz o selecionador do Prêmio Victor Civita Daniel Helene. "O
importante é levar os alunos a enxergar a realidade com um olhar crítico."
No norte do Maranhão, por exemplo, algumas empresas usam mão-de-obra
infantil. Por que não estudar a história local para compreender essa
problemática? Em alguns municípios de Rondônia, na fronteira com a
Bolívia, muitos estudantes discriminam os colegas vindos do país vizinho.
Estudar a formação dessas cidades é um caminho para combater o
preconceito. Ações como essas, baseadas em problemas que exigem
solução imediata, tornam o ensino de História dinâmico.

16. Geografia: ela não está só nos mapas mas também no cotidiano

Para que essa disciplina faça sentido desde a Educação Infantil, uma boa
seqüência de conteúdos é fundamental. Caso contrário, conceitos como
ordem, hierarquia e proporção — importantes para a área — não serão
assimilados pelas crianças. Segundo Sueli Furlan, selecionadora do Prêmio
Victor Civita, as primeiras noções de Geografia são adquiridas ainda na pré-
escola. Para que a criança aprenda cartografia, por exemplo, deve-se partir
do conhecimento prévio que cada uma delas possui. "Para calcular uma
distância, os alunos podem usar objetos de diferentes tamanhos, passadas,
o palmo ou um barbante", exemplifica. Dessa forma, ao chegar à 1ª série,
eles já adquiriram conhecimento sobre espacialidade e hierarquia. Daí em
diante, brincadeiras e jogos ajudam. No futebol, conhecer as posições dos
jogadores faz a turma assimilar noções de perto, longe, ao lado, fora,
dentro e lateral direita e esquerda. De 5ª a 8ª série, é hora de usar os
mapas como fonte de informação para o estudo do mundo em que vivemos.
Os alunos devem estudar como se produz a cartografia, quais são suas
fontes de informação e qual o papel das cores, dos números e dos símbolos
nos mapas.

17. Educação Infantil: o segredo é a autoconfiança do professor


Ouve-se muito que o professor de creche e de pré-escola não pode ser
autoritário e que deve se basear no interesse da turma. Mas o verdadeiro
responsável pela definição dos temas e das atividades a ser desenvolvidas é
ele mesmo. Deixar a cargo dos alunos essa escolha não é sinônimo de
liberdade nem demonstra uma postura pedagógica avançada. "O professor
precisa conhecer o modo como as crianças aprendem e como se
desenvolvem e levar isso em conta na hora de planejar cada aula", afirma a
selecionadora do Prêmio Victor Civita Regina Gomes Sodré. Segundo ela,
deve-se compartilhar com as crianças algumas etapas do trabalho — pois
isso também ensina a estudar e a planejar —, mas sem deixar que elas
tomem todas as decisões. Na construção de uma maquete, por exemplo,
vale uma conversa com os alunos sobre o material a ser utilizado e sobre o
que será representado, além de fazer com eles um cronograma, que será
utilizado ao longo do trabalho. Esta é a melhor maneira de envolver as
crianças e garantir o interesse pela aula: escolher temas adequados à faixa
etária, que sejam relevantes do ponto de vista cultural, estejam
relacionados ao local em que a escola está inserida e sejam propostos de
forma instigante.

18. Educação Física: o programa vai além do conteúdo esportivo

Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), as aulas de Educação


Física devem trazer discussões sobre assuntos como ética, cidadania,
respeito às diferenças e cooperação. O cuidado constante com essas
questões é essencial e se aplica até mesmo durante um campeonato de
futebol. Sempre os escolhidos para formar os times são os mais hábeis e
competitivos. Ficam para trás aqueles que, por algum motivo, têm
dificuldade para jogar. "Cabe ao professor discutir o problema claramente e
perguntar por que foi escolhido este e não aquele aluno", afirma Paulo
Henrique Nilo Monteiro, selecionador do Prêmio Victor Civita. "Essas
respostas vão permitir a ele trabalhar a questão das diferenças, que não se
restringem às habilidades físicas, mas que são também socioeconômicas e
culturais." Discussões desse tipo podem fazer parte da vivência diária dos
alunos. "Não adianta apenas falar sobre as diferenças e continuar propondo
somente atividades clássicas, como os jogos esportivos", afirma Monteiro.
Para ele, uma boa alternativa é trabalhar com os chamados jogos
cooperativos, em que são valorizados elementos como aceitação,
envolvimento, colaboração e diversão. "Joga-se com o outro e não contra o
outro. Para alcançar os objetivos é preciso esforço e dedicação."

19. Ciências: sem a dúvida, a turma não avança no conhecimento


"A dúvida é, por excelência, o motor da ciência", afirma Maria Terezinha
Figueiredo, selecionadora do Prêmio Victor Civita. "O questionamento deve
fazer parte da aula do início ao fim." Em classe, enquanto os assuntos são
trabalhados, você pode estimular os alunos a fazer também suas perguntas.
Ao estudar a fotossíntese acompanhando a germinação de alguns feijões,
por exemplo, experimente questionar a turma: o que tem dentro da
semente? Por que comemos feijão? "Quando o professor estimula o aluno a
elaborar perguntas, está instigando sua capacidade de enxergar o feijão de
um jeito diferente do que é apresentado ali", afirma. A dúvida leva a criança
a uma ação investigativa sobre o problema, aproximando-a do
conhecimento. "Sem reflexão e investigação, a ciência não progride. Como
pesquisar se não há algo a descobrir?", indaga Maria Terezinha. Ao se
questionar, a criança verá que há inúmeras coisas que a ciência ainda não
desvendou. "O professor precisa mostrar que muitos conceitos hoje aceitos
são passíveis de mudança, pois a ciência é dinâmica."

20. Artes: uma disciplina que também se ensina e se aprende

As aulas de Artes não dependem do talento ou da sensibilidade dos alunos.


A disciplina funciona como qualquer outra: existe um conteúdo, que pode
ser ensinado — e aprendido por todos. Segundo a consultora Zá Marisa
Szpigel, de São Paulo, um bom caminho é mesclar a visão tradicional do
ensino da matéria (em que o estudante baseia seu trabalho em modelos já
prontos) com a menos convencional (em que o professor valoriza a
espontaneidade da criança para criar). Com base nessa interação, o
professor propõe modelos e também cria situações para que o aluno utilize
as próprias idéias para transformar as referências que possui. Ele pode, por
exemplo, apresentar uma pintura famosa como referência. Ao pintar, a
criança não deve, no entanto, fazer uma cópia fiel ou dominar as mesmas
técnicas que o artista. O que vale é a criatividade. O aluno define quais
materiais usar, se prefere trabalhar sozinho ou em grupo e quanto tempo
necessita para as tarefas. Essas oficinas dão ao professor a chance de
apresentar os conteúdos e ao mesmo tempo explorar as capacidades dos
alunos sem cobrar deles uma produção artística primorosa. Todos têm a
mesma oportunidade de criar, a seu modo, sem ser comparados. "Ao
propor ao aluno desenhar uma paisagem, não se deve dizer de que modo
ele fará isso ou que tom de verde usará na grama", recomenda Zá.

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