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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

Flávia Tebaldi Henriques de Queiroz

A POESIA DE EXÍLIO DE JORGE DE SENA

Rio de Janeiro

2006

6

Flávia Tebaldi Henriques de Queiroz

A POESIA DE EXÍLIO DE JORGE DE SENA

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre.

Orientadora:

Conceição Santos.

Professora

Rio de Janeiro

2006

Doutora

Gilda

da

7

DEFESA DE MESTRADO

QUEIROZ, Flavia Tebaldi Henriques. A poesia de exílio de Jorge de Sena. Rio de Janeiro, 2006. Dissertação (Mestrado em Literatura Portuguesa) Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro,

2006.

BANCA EXAMINADORA

Orientadora: Professora Doutora Gilda da Conceição Santos - UFRJ

Professor Doutor Luís Edmundo Bouças Coutinho - UFRJ

Professora Doutora Ida Maria Santos Ferreira Alves - UFF

Defendida a tese:

Em:

/

/ 2006.

8

SINOPSE

Estudo da poesia de exílio de Jorge de Sena: objeto de documentação histórica e de registro do percurso individual do poeta. Inserção deste c or pus na literatura de exílio. O testemunho e a memória na formação de um particular ideário poético. Fatos determinantes na origem e constituição da poesia seniana.

9

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO

5

2 DA DIÁSPORA

11

2.1

As sociedades e a diáspora

12

2.1.1 Sociedade: identidade e unidade

13

2.1.2 O indivíduo e a diáspora

16

2.2

Falar da diáspora: literatura de exílio

19

2.2.1 História: testemunho e memória

20

2.2.2 Literatura de exílio

23

2.2.3 O caso português

26

3 DA POESIA DE EXÍLIO DE JORGE DE SENA

30

3.1 Tempo de Portugal

33

3.2 Tempo de Brasil

49

3.3 Tempo de Estados Unidos da América

61

4 CONCLUSÃO

74

5 BIBLIOGRAFIA

79

5.1 De Jorge de Sena

79

5.2 Outra

79

10

1 INTRODUÇÃO

História: testemunho e memória na poesia de exílio de Jorge de Sena.

Quando

nos

propusemos

a

analisar

a

produção

poética

deste

escritor

português em seu exílio – ou melhor, em seus exílios –, diversas foram as

questões que nos motivaram a fazê-lo e tantas outras as indagações que

surgiram ao longo da pesquisa. Desta forma, usamos como fios condutores da

mesma três palavras-chave que nos foram guiando pelo terreno movediço da

poesia: história, exílio e Jorge de Sena.

A princípio, pensemos sobre a figura do poeta. Seguindo as palavras de

Marina Tsietaieva,

Um emigrante do reino

dos Céus e do paraíso terrestre da natureza. O poeta (todos os

artistas, mas sobretudo o poeta) leva sempre a marca especial do

descontentamento, graças à qual mesmo na sua própria casa é

possível reconhecê-lo. É um emigrante da Intemporalidade no tempo,

todo o poeta é por essência um emigrante [

].

um exilado do seu céu. 1

À parte a retórica poética da autora, o artista carrega consigo, como

marca indelével, o descontentamento. Primeiro por ser condição primária para

o seu trabalho, do qual o questionamento é baliza. Indagar o que todos calam,

voltar-se para aquilo a que se costuma fechar os olhos: esse é o seu papel. E

todo

questionamento

busca

transgredir

valores

por

séculos

cultivados

e

incutidos na sociedade como modelares. Recordando que “todos os modelos

de

dominação,

de

submissão,

se

reduzem

finalmente,

ao

conceito

de

obediência” 2 , eis aí a semente para produzir um emigrante: ao entrar em

1 TSIETAIEVA, M. Lisboa: 1993. p.p. 63-64.

2 FOUCAULT, M. Rio de Janeiro: Graal, 1977; p. 83.

11

confronto direto com a comunidade da qual faz parte, potencializa-se o

transgressor.

Além de emigrante porque poeta, as palavras de Tsietaieva cabem a

Jorge de Sena por outros motivos, sobejamente conhecidos. Nascido no ano

de 1919, o escritor passa praticamente toda sua vida desconhecendo a

democracia em seu país. Subseqüente a um breve período presidencialista,

após a revolta que destituíra a Monarquia de Portugal, um golpe militar viria a

instaurar a Ditadura, abrindo caminho para o Estado Novo lusitano, o qual

perduraria por quase cinco décadas, tendo fim somente com a Revolução dos

Cravos.

E são as circunstâncias históricas a mola propulsora desse escritor, que

emerge nos anos 40, fruto do choque cultural-literário entre a Geração de

Presença e os Neo-Realistas e que, mesmo negando filiações a qualquer dos

grupos, traz em sua literatura a preocupação estética de trabalho com a

linguagem deixada pelos primeiros e, ao mesmo tempo, uma forte marca de

engajamento absorvida dos segundos.

Sabemos

hoje

que

“tudo

é

história”,

tanto

na

nossa

maneira

despretensiosa de narrar fatos cotidianos, quanto na grande e solene História,

como historia rerum gestarum.

Para Greimas, que desenvolveu sua teoria

semiótica baseando-se no princípio de que existe um esqueleto narrativo que

estrutura

todo

processo

mais

complexo

de

formulação

semiológica,

a

narratividade é [

]

o princípio organizador de todo discurso”. 3 Assim, seria

também ela a base fundacional do discurso poético.

Além disso, reportando-nos ao sentido de narrativa dado por Benjamin,

para quem

3 GREIMAS & COURTÉS. Bloomington, 1979.

12

ela sempre tem em si, às vezes de forma latente, uma dimensão

utilitária. Essa utilidade pode consistir seja num ensinamento moral, seja numa sugestão prática, seja num provérbio ou numa norma de

vida

[seu] narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria

experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas

narradas à experiência dos seus ouvintes. 4

vislumbramos na poesia seniana todas as características descritas pelo estudioso, de onde se conclui que ambos os gêneros se entrelaçam de forma harmônica na obra do escritor português.

E até que ponto este discurso é real? Esta já é outra história. Sabemos

que toda obra literária tem um suporte no real. São as mundividências pessoais

do autor que formarão o repertório necessário para sua produção. Cabe a nós,

leitores, decifrar os seus sinais. Mas é a nossa enciclopédia interior que

determinará quais sinais enxergar e como fazê-lo. Assim, uma obra literária

nunca se encerra em determinado nível interpretativo. Ela aceita sempre novos

olhares, novas associações, à medida que novas vivências se vão a ela

amalgamando. Tratando particularmente do nosso poeta, estas experiências

pessoais transcritas pelo artista são bem mais do que ponto de partida.

Constituem sua própria obra. Em Jorge de Sena, em vez de uma confusão

entre o real e o imaginário, observa-se uma fusão, na linguagem, entre ambos

os planos.

E se não são poucos os estudiosos a considerar redutora a análise de

uma obra literária sob o viés histórico-social, subtrair de uma obra de arte toda

sua contextualização é, de igual maneira, esvaziá-la de significados. Por este

motivo, deixamos que o escritor nos guie em nossa visita à sua poesia.

Seguimos seus passos, ou melhor, suas palavras. Prefácios, notas, entrevistas,

artigos de jornais. Sinais de uma mente complexa para compreender uma obra

4 BENJAMIN, W. São Paulo: 1986; p.p. 200, 201.

13

complexa, quer pelo seu trabalho de linguagem, ora refinado, ora simples e

direto, quer pela constante e sempre apaixonada representação do seu maior

drama: o exílio.

Então retornamos ao nosso ponto de partida: Tsietaieva e seu poeta

emigrante,

ou

melhor,

errante.

Porque

o

poeta

segue

sempre

numa

perseguição implacável, cujo objetivo maior é o regresso ao seu lugar de

origem, a qual Eduardo Lourenço assim assinala:

Errância: deriva sem fim, cotejando em permanência não só a possibilidade, mas até a necessidade de erro, condição indispensável do regresso a Ítaca, a terra natal da liberdade e da verdade, liberdade para buscar a verdade e verdade para preservar a liberdade. 5

Liberdade e verdade que, na vida de Sena, só foram encontradas nos

seus exílios. Múltiplos e eternos. Como homem, em desalinho com seu tempo;

como português, em desacordo com o salazarismo. Em Portugal, no Brasil ou

nos

Estados

Unidos,

foi

sempre

escritor

português,

ainda

que

cidadão

brasileiro e professor norte-americano. Era de Portugal e a Portugal escrevia;

e, sobretudo, era Portugal o que perseguia.

Falemos um pouco mais do exílio. Desde os tempos primordiais o exílio

está presente na vida do homem. O termo estrangeiro simboliza a própria

condição humana, uma vez que o Adão expulso do Paraíso viu-se eternamente

condenado ao exílio. Assim, todo filho de Adão é como um hóspede de

passagem, um estrangeiro onde quer que se encontre, inclusive em seu próprio

país.

Etimologicamente, a palavra exílio tem origem em exsilium, de exsul,

vocábulo que se ligaria, por sua vez, a solum. Em contrapartida, correntes

etimológicas atuais dão conta de que mais aceitável é a palavra provir do

14

radical el (ir). Comum a praticamente todas as acepções está o núcleo

semântico de “ausência de solo pátrio”.

Historicamente, o sentido de exílio tem se modificado ao longo dos

séculos. Entre os romanos, era um direito, uma atitude voluntária do cidadão a

fim de evitar incorrer em pena mais grave. Somente a partir de 63 a.C. o exílio

passa a ser incluído no direito penal, sendo considerado uma punição, a qual

adquire com o tempo contornos mais precisos, segundo a sua gravidade.

Grosso modo, pode ser caracterizado sob duas formas: a relegatio e a

deportatio. A primeira forma, mais branda, mantinha a cidadania e a posse dos

bens do exilado, enquanto a segunda implicava na perda de ambas.

Os séculos subseqüentes não apresentam significativas alterações no

quadro da classificação legal do termo. Só atualmente o exilado e o refugiado

têm sido objeto de normas precisas no âmbito jurídico internacional. Mas, o que

nos chama a atenção em nossos dias é a proximidade semântica com que são

tratados termos diversos, como exílio, expatriação e emigração. Por motivos

políticos ou econômicos, o peregrino de hoje carrega, em qualquer situação, o

valor semântico do “mal de ausência” que o fundamenta.

Eis, pois, o que se busca neste estudo: analisar a poesia do escritor

Jorge de Sena produzida no exílio e de temática de exílio. O que, dadas suas

características, a insere tanto num plano historiográfico quanto no rol da

canônica literatura de exílio, cuja tradição temática e estilística foi construída ao

longo dos séculos por Ovídio, Dante, Sá de Miranda, Camões, entre tantos

outros que nosso mundo produziu e continua a produzir.

Mas não é fácil apreender a genialidade desse escritor. Usando as

palavras de Margarida Braga Neves,

15

sobre Jorge de Sena [

a complexidade e vastidão da sua obra – ímpar na literatura portuguesa – não deixam de atemorizar, tornando-a de difícil abordagem, já que todas as aproximações pecarão necessariamente pelo reducionismo, inevitável quando se tenta a aproximação a uma personalidade enorme, e cuja incansável actividade se estendeu por domínios tão variados e heterogêneos, sem com isso perder aquela coesão e permanente recorrência interna que tão distintamente a caracterizam e tornam inconfundível. 6

ainda está quase tudo por dizer. A grandeza,

]

Conscientes de tamanha complexidade, nossa proposta é a de dar uma

particular contribuição à leitura de um grupo de poemas senianos, procurando

articular a todo o momento o vigor criativo do artista com a circunstancialidade

presente na obra, tendo em mente que a literatura resulta também de um

processo

social,

de

uma

inter-relação

homem-meio.

Desta

forma,

não

buscamos somente avaliar a função do exílio no processo de criação literária

do autor, isto é, indagar se e em que termos ele foi frutífero ao longo desse

processo, mas também considerar a função da literatura na assimilação do

exílio como forma de vida.

Este

trabalho

apresenta

dois

momentos

distintos:

primeiramente,

comentaremos a diáspora e sua relação com o sistema social; depois, uma

leitura dos mais emblemáticos poemas de exílio de Jorge de Sena.

Assim, no capítulo intitulado Da diáspora, procura-se mostrar a literatura

de exílio como resultado final do processo social de exclusão e de que modo a

poesia portuguesa se insere nessa tradição. Correlacionando-se ao capítulo

anterior, Da poesia de exílio de Jorge de Sena apresenta um corpus num

contexto histórico-social, visto que de um diário poético se trata, diretamente

vinculável ao momento em que se configura também como obra de arte.

6 NEVES, M. B. Lisboa: 1990; p. 313.

16

Em relação ao recorte feito, destacamos os textos que nos parecem

mais significativos, quer no que respeita à importância dos mesmos no

conjunto

da

obra

de

Sena,

quer

no

tocante

aos

conteúdos, por

vezes

virulentos, capazes de apontar a real gravidade deste drama humano que é a

diáspora.

O resultado aí está. Certamente aquém do que seria desejável. E mais

ainda quando se tem em conta o poeta Jorge de Sena. Mas, é nosso desejo,

que fique como contributo para a formulação de novos olhares sobre a obra

deste escritor e sobre a arte produzida num mundo de segregação e de

segregados, que é o nosso.

17

2 DA DIÁSPORA

Desde

o

início dos tempos o exílio

faz parte

da História e,

por

conseguinte, da literatura. Sem falar dos tempos genesíacos – onde a expulsão

do Paraíso emblematiza a separação ontológica primordial, o exílio mítico

arquetípico –, o Antigo Testamento relembra a luta do povo hebreu, desde

2000 a.C., pela posse de um território próprio, vendo-se obrigado, algumas

vezes, a abandoná-lo. É bem conhecida a Diáspora, quando, por volta do ano

70 d.C., durante o governo do Imperador Tito, a cidade de Jerusalém foi

destruída e os judeus partiram em fuga para outras regiões.

Da Idade Media à Contemporânea, o fenômeno repete-se ao longo dos

séculos, permeado pela violência com que guerras políticas ou religiosas

afastam o homem de sua região. Também sempre se falou e se escreveu

sobre a diáspora: Ovídio, Dante Alighieri, Tolstoi deixaram impressas suas

experiências de exílio.

No entanto, o Século XX foi, particularmente, o século dos desterrados.

Marcado por guerras, revoluções, totalitarismos e fundamentalismos, o último

século, mais do que qualquer outra época, produziu uma legião de exilados,

pessoas que constituíram sociedades à parte, com características sociais e

psicológicas bem delineadas. Da Primeira Guerra Mundial à Segunda; da

Revolução Russa à Guerra Civil Espanhola. Nazismo, fascismo, salazarismo,

franquismo, nutriram regimes de exceção que dominaram a Europa ocidental

durante a maior parte do século. Das guerrilhas que assinalaram o processo de

independência dos países africanos e asiáticos aos conflitos no Oriente Médio,

o mundo esteve em constante e abrupta mudança.

18

Neste capítulo, buscaremos analisar dois fatores fundamentais para o

estudo da poesia escrita durante o exílio de Jorge de Sena. São eles: a

sociedade e suas identidades culturais; e a diáspora como fenômeno sócio-

cultural.

Se a cultura nacional constitui uma das principais fontes de identidade

cultural, como se posiciona, diante da ruptura, o sujeito expatriado? E, na

relação da diáspora com a história, como ela é vista e contada pelo exilado? O

desterrado,

ao

assumir

características

também uma literatura própria?

sócio-culturais

2.1As sociedades e a diáspora

peculiares,

produz

Há muitos anos a questão da identidade vem sendo discutida pelas

Ciências

Humanas.

Devido

ao

seu

brusco

desenvolvimento

científico

e

tecnológico, o século XX tornou-se a era do esfacelamento das identidades

nacionais,

da

transformação

da

individualidade

em

individualismo,

do

hibridismo cultural provocado pelas constantes ondas migratórias.

Fruto de um mundo cada vez mais globalizado, mas com toda a sorte de

guerras e práticas fundamentalistas como as que caracterizaram o século

passado, esse hibridismo cultural tem forjado um novo tipo de arte: uma arte

feita por exilados, expatriados, foragidos de guerras

Gente que, distante de

sua cultura natal, tenta, pela arte, ao mesmo tempo manter vivos os laços

culturais que a caracterizam, e rechaçar os fatos que a levaram ao abandono

de sua terra originária.

Contudo, somente podemos afirmar tal atitude como característica de

um artista exilado se consideramos que o mesmo ainda se sente parte

19

integrante

daquela

comunidade

convencionalmente pátria.

Mas,

que

elementos

promovem

geográfica

a

essa

ligação

que

chamamos

tão

profunda

entre

indivíduo e lugar de origem? E como se processa internamente a ruptura entre

país e homem provocada pela diáspora?

2.1.1 Sociedade: identidade e unidade

O homem é um ser comunitário. Em parte porque, em sua evolução, a

partir do momento em que desenvolve o raciocínio, distanciando-se dos demais

primatas, apura suas emoções, criando uma complexa teia de relações sociais.

Por

outro

lado,

o

mesmo

desenvolvimento

o

leva

progressivamente

ao

sedentarismo, fazendo com que tenha necessidade de viver em comunidade

para que possa alimentar-se e defender-se de predadores com mais facilidade,

assegurando a manutenção de sua espécie.

Assim,

milênios

primitivas

evoluíssem

transcorreram

até

aquilo

que

até

que

as

corresponde

primeiras

ao

atual

comunidades

conceito

de

sociedade complexa que conhecemos e da qual fazemos parte. Contudo, para

Emilio Willems, a sociedade como “Conjunto de indivíduos de ambos os sexos

e de todas as idades, permanentemente associados e equipados de padrões

culturais comuns, próprios para garantir a continuidade de todos e a realização

de seus ideais7 apresenta traços definidores que podemos encontrar mesmo

nas tribos mais primitivas, tais como a língua materna, as características

similares das moradias, as peças dos artesãos, o comportamento diante dos

altares religiosos etc. Devemos ainda relacionar tal conceito ao de comunidade,

este último ligado a determinada área geográfica.

7 WILLEMS, Emilio. Paris: M. Rivière, 1961.

20

Inserido nesse macroconceito de sociedade, devemos ainda analisar a

definição de nação. Esta se afigura como uma comunidade simbólica, cujas

fronteiras ultrapassam os limites geográficos. Compõe-se de um conjunto de

histórias, mitos, símbolos, crenças, entre outros valores, compartilhado por um

determinado grupo de indivíduos e no qual este crê, reconhecendo-o como

parte integrante de sua personalidade nacional. Para Stuart Hall, “no mundo

moderno, as culturas nacionais em que nascemos se constituem em uma das

principais pontes de identidade cultural”. 8

Construída ao longo de gerações, essa identidade é um amálgama –

formado pela história do surgimento de tal gente, pelos povos primitivos, pelos

invasores, pelas glórias e pelo enaltecimento e adoção de determinadas

características como bravura e coragem, tomadas como atributos próprios

desse conjunto – que, como a história do nascimento e vida de cada familiar,

confere ao grupo identidade, sendo transmitido voluntariamente pelas várias

gerações.

A esse respeito, Roger Scruton acrescenta que:

A condição de homem exige que o indivíduo, embora exista e aja

como um ser autônomo, [se insira em uma comunidade] somente

porque ele pode primeiramente identificar a si mesmo como algo mais

amplo – como um membro de uma sociedade, grupo, classe, estado

ou nação, de algum arranjo ao qual ele pode até não dar um nome,

mas que ele reconhece instintivamente como seu lar. 9

Parece-nos óbvio que, uma vez que a identidade cultural é transmitida e

assimilada pelos elementos do grupo num movimento quase “automático”, a

idéia de que um elemento possa

ser banido do

seu meio deveria ser

completamente rechaçada. No entanto, essas identidades nacionais não estão

8 HALL, Stuart. Rio de Janeiro, DP&A, 2003, p.47.

9 SCRUTON, Roger. apud HALL, S. Rio de Janeiro, DP&A, 2003, p. 48.

21

livres do jogo do poder. Pelo contrário, a manipulação da identidade nacional é

o que vemos como principal estratégia política dos regimes nazi-fascistas, da

intransigência fundamentalista presente em praticamente todas as nações do

Oriente Médio, e, bem mais próximo da nossa realidade, do marketing eleitoral

dos candidatos a cargos públicos nas eleições de países democráticos. Assim,

sempre há possibilidade de que possam ocorrer embates ideológicos entre

grupos de indivíduos de uma mesma comunidade.

A esse respeito, surge a questão da diversidade econômica, religiosa,

étnica e de origem dentro de uma dada nação. E a tendência, pelo acesso

cada vez maior ao conhecimento, pelo intercâmbio cultural promovido pelos

meios

de

comunicação

e

pela

facilidade

de

locomoção

por

todos

os

continentes, é que essa pluralidade ideológica seja cada vez maior e mais

flagrante. Se Adolf Hitler pregava a expulsão de seu território de todos os não-

arianos, bem antes, a mistura de povos já se havia dado em terras germânicas.

Não há nação que não tenha passado, durante seu processo de formação, por

invasões e possessões, gerando, dessa forma, um grupo miscigenado em suas

características atuais. Assim, é papel da cultura nacional unificar aqueles

diferentes

grupos

numa

identidade

comum

que

os

represente

como

pertencentes a uma mesma “família nacional”. 10

Para

Renan,

três

elementos

constituem

o

“princípio

espiritual”

da

unidade nacional: “a posse em comum de um rico legado de memórias, o

desejo de viver em conjunto e a vontade de perpetuar a herança que se

recebeu.” 11

Depreendemos,

a

partir

daí,

que,

apesar

de

eventuais

dissonâncias, não importando quão diversos seus membros possam ser, a

10 op.cit. p.58

11 RENAN, Ernest. Apud, HALL, S. op.cit, p. 58.

22

convivência entre os grupos só pode ser viável uma vez que seus elementos

compartilhem das mesmas idiossincrasias culturais. Assim, cada comunidade

só é classificada como tal uma vez que há uma identidade cultural que a

produziu e que a mantém viva e unida através da idéia de que também as

diferenças são parte formadora daquela cultura nacional.

Resumidamente,

dessa

forma

se

tecem

as

relações

sociais

de

indivíduos de uma mesma comunidade e aquelas nas quais se constroem os

laços que ligam o homem ao seu território.

2.1.2 O indivíduo e a diáspora

Após

a

apresentação

dos

conceitos

de

comunidade,

sociedade

e

identidade cultural, abordaremos uma outra face da formação social da nação:

a da relação do homem com sua comunidade e com o sistema social que a

representa politicamente.

Se

o

homem

somente

é

parte

de

uma

sociedade

uma

vez

que

compartilha de uma mesma identidade cultural, que será transmitida de forma

“automática” pelos seus demais membros, o que nos leva a acreditar que tais

informações são absorvidas passivamente, sem contestação? Na verdade, o

homem está em constante debate entre o mito e a realidade, entre a História e

o fato real, entre a crença forjada no mais remoto passado e o seu presente. E

é inerente ao ser humano a necessidade de agregação a uma comunidade. É

necessário que se sinta aceito pelos demais membros do grupo e, isso

somente se torna possível aproximando-se dos demais. Assim, o sentimento

de compartilhar de um “sagrado nacional”, conforme definiu Émile Durkheim 12 ,

nasce daqueles mesmos fatos cuja veracidade é questionada.

12 apud RODRIGUES, José Albertino.São Paulo: Ática, 2000.

23

Além da identidade cultural comum a uma mesma sociedade, o grupo

não poderia se manter coeso ao longo de séculos e séculos

sem que

existissem outros elementos selantes, um sistema social que o regulasse.

Assim, este caracteriza-se por um conjunto de indivíduos que interagem, por

meio de normas e significados culturais compartilhados. Poderíamos, a partir

daí, subdividi-lo em três componentes: o território geográfico em que a

comunidade está fixada, os sistemas político-administrativo-judiciários que a

regulam e a sua identidade cultural. Desta forma, o homem, para participar

integralmente

de

sua

nação,

deve

estar

em

harmonia

com

todos

os

componentes do sistema social do qual faz parte.

 

A

subdivisão

do

sistema

social

delineada

acima

aproxima-se

da

estrutura social concebida por Marx na sua teoria do Materialismo Histórico 13 .

Para o filósofo, o esqueleto de toda sociedade é constituído por instâncias

articuladas entre si. Seriam elas a infra-estrutura, ou base econômica, e a

superestrutura, que compreende a instância jurídico-político-ideológica. Ao

mesmo

tempo

que

mutuamente.

possuem

autonomia,

interagem,

O

Althusser,

nível

jurídico-administrativo,

representado

pelo

compreende

[

]

o

aparelho

especializado

influenciando-se

Estado,

segundo

cuja

existência

e

necessidade reconhecemos pelas exigências da prática jurídica, a saber, a

política e as prisões, mas também o exército, que intervém diretamente como

força repressiva de apoio em última instância [

]

e, acima deste conjunto, o

Chefe de Estado, o Governo e a Administração.” 14

13 MARX, Karl. São Paulo: Centauro, 2000.

14 ALTHUSSER, Louis. São Paulo: Graal, s/d; pp. 62, 63.

24

Numa

sociedade

caracterizada

por

grupos

heterogêneos,

para

a

manutenção do poder do Estado faz-se necessário que este mantenha sob

controle as suas diferentes classes. A manipulação ideológica é, então, a forma

mais eficaz de se alcançar tais objetivos.

Ocorre que, sendo a sociedade formada por grupos distintos, estes

tendem a entrar em conflito, quer pela posse do poder do Estado, quer por

estarem em desacordo com as regras vigentes na esfera político-administrativa

do sistema social. Este embate é visto cotidianamente, na formação dos

sindicatos, nas lutas de classes, nas diversas filosofias político-partidárias, e,

em última instância, na escolha do Chefe de Estado. Uma vez que, no entanto,

a mudança do controle do poder político é obstruída, não ideologicamente, mas

por meio de repressão, tende a haver uma radicalização desse conflito, que

passa a ser observado, não mais entre classes, mas entre o grupo social e o

aparelho de Estado. Este, como poder constituído, passa a conter o confronto,

não só através da imposição ideológica, mas usando de poder coibitivo,

apresentado sob a forma legal ou através das Forças Armadas.

É exatamente nesse ponto crítico da relação entre o homem e o sistema

social do qual compartilha que pode surgir a ruptura que causará a diáspora. O

individuo não se desvincula de seu grupo e tampouco este deixa de reconhecê-

lo como membro constituinte. Ocorre que, na sociedade moderna, atrelada ao

conceito de comunidade simbólica, formada por uma identidade nacional, tão

necessária como um solo à nação – haja vista o caso do povo judeu –, faz-se

mister a determinação de leis sociais e regras políticas que rejam o coletivo.

Dessa forma, ao se sentir em desarmonia com ao menos uma parte do tripé

que sustenta a nação, o indivíduo sente-se deliberadamente excluído. Ao

25

desafiar o Estado, visando a reorganizar o sistema ao qual pertence, de modo

a voltar a participar do mesmo, o Estado o exclui juridicamente. A isto

chamamos exílio.

Assim, para Said, “O exílio é uma fratura incurável entre o ser humano e

um lugar natal, entre o eu e seu verdadeiro lar: sua tristeza essencial jamais

poderá ser superada [

]

As realizações do exílio são permanentemente

minadas pela perda de algo deixado para trás para sempre”. 15

O exílio está diretamente atrelado ao nacionalismo, pois que este só

ocorre quando o indivíduo se sente culturalmente pertencente a um povo, a

uma nação que não seja a que o abriga. Dessa forma, o nacionalismo, uma vez

que permanece como parte integrante do exilado, rechaça sua condição,

interagindo

como

caracterizará

o

opostos

homem

que

em

dependem

um

desterro:

um

do

outro.

exacerbado

Essa

dicotomia

sentimento

de

nacionalidade, necessário para a manutenção interior dos vínculos com a terra

natal

e,

contraditoriamente,

a

tentativa

de

impossibilidade de vivê-los integralmente.

negação

dos

mesmos

pela

Essa oposição será também a mais forte característica da literatura

produzida por uma legião de errantes através dos séculos. Uma literatura

marcada

pelo

historicidade.

saudosismo

e

pela

denúncia,

2.2 Falar da diáspora: literatura e exílio

pelo

sentimento

e

pela

Jorge de Sena, poeta que terá parte de sua obra comentada adiante,

definia sua poesia como “um processo testemunhal”. 16 Testemunhar seria

15 SAID, Edward. São Paulo: Companhia das Letras, 2003; p.46.

16 SENA, Jorge de.Lisboa: Edições 70, 1961, pp. 11, 12.

26

observar o mundo ao seu redor, para, a partir daí, remodelá-lo e reconstruí-lo

no discurso poético.

Partindo da estreita relação entre História, testemunho e memória,

propomo-nos a analisar a literatura de exílio, e, especificamente, a poesia, sob

o ponto de vista histórico. Então, nos questionamos até que ponto a poesia de

exílio pode ser considerada um texto histórico, ou, pelo menos, em que sentido

ela oferece subsídios sólidos de pesquisa histórica.

Mas os fios que tecem a poesia são muitos. Se os poetas inserem em

suas

obras

elementos

de

evidência

histórica,

nelas

imprimem

também

sentimentos que reconhecemos comuns à poesia lírica, particularmente à

chamada “poesia de exílio”.

Especialmente em Portugal, a poesia de exílio faz-se presente ao longo

de toda a sua existência, desde a lírica medieval galego-portuguesa até o

século XX. E, se na remota Idade Média a saudade já era representada pelas

cantigas de amigo, como que antecipando românticas e heróicas histórias de

bravura rumo a novas e desconhecidas terras, a poesia produzida na errância

dos poetas de nosso tempo consiste numa forma de resistência política à

ditadura que dominou o país por quase meio século.

Se o “mal de ausência” continua sendo um tema e condição quase

determinante do processo de criação literária portuguesa, é preciso averiguar.

De nossa parte, optamos pela tentativa de aqui manter vivo, pela História e

pela poesia, um dos períodos mais sombrios de Portugal.

2.2.1 História: testemunho e memória

27

Uma obra literária traz sempre em seu bojo, ainda que não seja esse

seu principal objetivo, uma gama de elementos históricos, os quais vão desde o

vernáculo, passando por descrições de indumentária, mobiliário, costumes, até

notas

sobre

arquitetura

e

urbanismo,

economia

etc,

que

são

sempre

importantes fontes documentais.

 
 

a

literatura

de

exílio

tem

como

uma

de

suas

mais

fortes

características a historicidade, uma vez que tem como “objetivo” exprimir

sentimentos e fatos ocorridos durante um processo de expatriação, em geral

decorrentes de repressão política. E é na poesia, gênero literário onde, ao

menos

teoricamente,

se

condensa

uma

maior

carga

emotiva,

que

essa

representação

de

uma

realidade

específica

indissociável

de

tremenda

afetividade se dá com mais força.

Grosso modo, podemos definir História como uma série de fatos

enumerados

cronologicamente,

gerando

uns

aos

outros.

Contudo,

uma

pesquisa etimológica nos leva a paragens muito mais remotas.

Goff ,

Segundo Le

A palavra ‘história’ (em todas as línguas românicas e em inglês) vem

do grego antigo historie, em dialeto jônico. Esta forma deriva da raiz indo-européia wid-, weid-, ‘ver’ – daí o sânscrito vettas ‘testemunha’

e o grego histor ‘testemunha’ no sentido de ‘aquele que tudo vê’.

Essa visão como fonte essencial do conhecimento leva-nos à idéia que histor ‘aquele que vê’ é também aquele que sabe: historein em grego antigo é ‘procurar saber’, ‘informar-se’. 17

Esta associação de idéias entre história e testemunho reporta-nos a uma

reflexão

acerca

do

sentido

amplo

que

a

História

pode

alcançar

e

dos

“elementos”

formadores

do

fazer

histórico.

Se

o

testemunho

está

tão

intimamente ligado à historia, também sua prática vai além da documentação

28

de fatos ocorridos. Assim, baseado no que diz Paul Veyne: “a história é quer

uma série de acontecimentos, quer a narração desta série de acontecimentos

[ ]

Um conto, uma narração, mas um conto de acontecimentos verdadeiros”, 18

narrar o que se testemunha, o que se vê, o que se sabe, é também, produzir

história.

Com base neste pensamento, interrogamo-nos até que ponto podemos

considerar um texto literário, ou uma narrativa histórica, ou uma poesia de

exílio, como fonte histórica. Quais são as diferenças fundamentais entre um

texto histórico-científico e um texto literário capazes de demarcar os limites

entre um gênero e outro?

De início, pensaremos no primeiro como apresentando a objetividade e

a, tanto quanto possível, imparcialidade como condições sine qua non para sua

existência como tal. Deve deter-se à sua base de documentação e procurar

isentar-se por completo de quaisquer manipulações, quer conscientes, quer

inconscientes, tendo como norma, a verdade.

Todavia, não

devemos

nos

esquecer

que

durante

o

processo

de

produção, o historiador recebe interferências externas, como testemunhos

individuais,

fontes

coletivas,

indicadores

diretos

e

correlatos.

Assim,

a

imparcialidade do escritor esbarra na vulnerabilidade dos documentos que

toma

como

base.

Além

disso,

o

fazer

histórico

é

também

capacidade

imaginativa, uma vez que o historiador tem como oficio dar vida a fatos

deixados

no

passado.

Faz-se

necessário,

num

primeiro

momento,

sua

interpretação dos documentos para reproduzi-los em sua narração, conferindo–

lhes a credibilidade necessária.

29

Eis porque a linguagem assume particular papel no texto histórico-

científico. Roland Barthes desenvolveu com maestria a questão:

A narração dos acontecimentos passados, submetida vulgarmente,

na nossa cultura, desde os Gregos, à sanção da ‘ciência’ histórica,

justificada por princípios de exposição ‘racional’, diferirá esta narração

realmente, por algum traço específico, por uma indubitável

pertinência, da narração imaginária, tal como a podemos encontrar na

epopéia, o romance ou drama? 19

E conclui que, aquilo que diferencia a história objetiva da literária é, na

verdade, a linguagem,

que cada uma

desenvolve. Ou

seja, em

termos

lingüísticos, na primeira, o real não passa de um significado não-formulado. É o

que chamou o lingüista de efeito do real 20 . Assim, o discurso histórico não

segue, necessariamente, o real, apenas o representa.

Dessa forma, não se pode contestar que uma obra literária possa

funcionar também como um documento histórico.

Se

a história tem

como ponto de

partida o testemunho, que é o

conhecimento dos fatos, o caminho que a leva até as bibliotecas passa antes

pela memória. Se a pesquisa e a produção textual garantem coerência ao

ocorrido

e

impedem

que

caia

no

esquecimento,

a

ação

mnemônica

fundamental é caracterizada pela função narrativa. Com isso, a memória

assume junto à sociedade, papel de interlocutora. É através dela que os

episódios são transmitidos aos demais membros da comunidade ao longo dos

tempos, mantendo-se vivos e, assim, produzindo a História.

Sendo assim, podemos chamar de memória à ação intelectual sobre o

que foi vivido, numa relação constante entre o presente e o passado. Por esse

motivo, aceita interpretações particulares, formando não “o que se vê”, mas o

19 BARTHES, Roland. São Paulo, Cultrix, 1978.

20 Idem. Lisboa: Edições 70, 1988.

30

“como se vê” dos fatos. Uma vez que autoriza manipulações ideológicas, ainda

que inconscientes, pode tornar-se arma na disputa pelo poder, cabendo à

História – e, por conseguinte, à Literatura – não somente interpretar a opinião

coletiva, mas saber separar realidade e mitologia, verdade e ficção.

2.2.2 Literatura de exílio

Se História e Literatura estão tão intimamente relacionadas, o que dizer

de um gênero marcado pelo testemunho e pela memória: a literatura de exílio?

Contraditoriamente o exílio tem propiciado à literatura um elenco extremamente

rico de escritores e obras dedicadas a retratar a ruptura forçada das raízes, o

sentimento de não-pertencer, a busca incessante e urgente da reconstituição

de vidas rompidas. Sentimentos, enfim, do desterrado.

Em todos os tempos, desde Adão

e

Eva

expulsos do Édem por

desobediência, passando por Noé, e ainda Abraão, Moisés e seu povo, e

Jesus, o tema do exílio mostra-se sempre presente na história e no imaginário

humano. Todavia, se em todas as narrativas o exílio carrega o sentido de

ruptura, rejeição e renúncia, este não pode ser considerado uma via de mão

única. É, sobretudo, alternativa, reconstrução, recomeço.

Assim, a fuga de Adão e Eva daria início à raça humana, bem como o

êxodo de Moisés teria fim na sua Terra Prometida e Maomé, ao abandonar

Meca e seguir até Medina, fundaria o Estado Islâmico.

Na mitologia grega, o exílio toma a forma da vida de Io, bela filha do rio

Inacho, que se torna alvo da cupidez de Júpiter, o qual, de tão apaixonado,

esconde-a em uma nuvem transformando-a ainda em uma vaca, a fim de que

sua mulher, Juno, não a descobrisse. Contudo, a astuta Juno não se deixa

31

enganar. Incitada pela afronta sofrida, exige de Júpiter o animal como presente.

Ele então cede aos apelos da mulher, perdendo a amante, que se torna

prisioneira da deusa até ser libertada por Mercúrio. Já livre, Io torna-se

novamente

vítima

da

fúria

de

Juno,

que

a

persegue.

Atordoada,

foge,

perambulando incessantemente por diversas paragens, até fixar-se às margens

do Nilo, onde morre.

Apesar da condição de perda terminal que é o exílio, a cultura e o

conhecimento humano têm-se enriquecido imensuralvelmente às custas desse

grupo de homens. Se Dante Alighieri, exilado de Florença, não tivesse ousado

escrever a Divina Comédia em dialeto próprio e não em Latim, o Fiorentino

certamente não se teria popularizado a ponto de se tornar, muitos séculos mais

tarde, o italiano, idioma unificador de territórios culturalmente tão diversos.

Que esta jamais foi a intenção de Dante, todos sabemos, mas foi o exílio

a força motriz para uma tão ousada quebra de protocolo. Como todo exilado, o

poeta foi decididamente e propositadamente desagradável, escolhendo a

língua mãe, elo derradeiro com a terra natal, para escrever sua peregrinação

aos lugares infectos ou perfeitos da alma humana – Inferno, Purgatório e

Paraíso – e também pra eleger quem encontraria em cada um deles.

Da mesma forma, sem o seu banimento de Roma, Ovídio não nos teria

deixado seus poemas de exílio, elegias que se tornaram modelo de canto da

diáspora. E assim, tantas outras obras. Ulisses, o de Homero e o de Joyce.

Luis de Camões, o poeta do mundo em desconcerto. Eis alguns dos muitos

exemplos possíveis.

No entanto, não devemos minimizar a importância ou brutalidade do

exílio. Para Said,

32

A literatura sobre o exílio objetiva uma angústia e uma condição que a maioria das pessoas raramente experimenta, em primeira mão; mas pensar que o exílio é benéfico para essa literatura é banalizar suas mutilações as perdas que inflinge aos que sofrem, a mudez com que responde a qualquer tentativa de compreendê-lo como “bom para nós”. 21

E é talvez por não o vivenciarmos “em primeira mão” que o tema nos

atraia tanto. Porque nós, leitores, vemos o exílio como uma dor de outrem, que

nos faz repensar a sociedade e a história.

Pois numa literatura produzida sobre tais condições, as matérias-primas

primordiais não são outras que o testemunho e a memória dos acontecimentos

experimentados. Dessa forma, produzem uma história, ao mesmo tempo

particular e coletiva. Mas o que faz do exílio uma condição tão propensa à

produção literária e, particularmente, à poesia?

A princípio, a sua própria condição faz do exilado um ser divido entre

dois tempos, dois lugares, duas realidades. Banido de seu locus amoenus, e,

muitas vezes, em um país estranho, o exilado encontra verdadeiro refúgio

somente na sua língua. Simultaneamente vítima e testemunha, o escritor em

desterro tem na poesia terreno fértil para a sua produção poética, que é

também

forma

de

exorcismo.

Neste

processo,

o

exílio

não

é

tema

fundamental, mas motivação, e, ao mesmo tempo, resultado da escrita. Assim,

a poesia de exílio liga duas realidades: surge e vive entre o aqui e o ali, o

passado e o presente, a nostalgia e a esperança.

Nesse

contexto,

entremeados

pelo

real

vivido

e

pelo

sentimento

experimentado, testemunho e memória confundem-se e se fundem num todo

33

que podemos compreender como a história contada em primeira pessoa, pelo

narrador-personagem, que, em momento algum, se isenta diante dos fatos.

Assim, como o escritor exilado é um ser de fronteira, a sua poesia traz

em sua constituição a dualidade, produzida pela função referencial expressa

nos fatos reais que apresenta, e, por outro lado, a poética, expressa pelos

sentimentos de quem a produz.

2.2.3 O caso português

Falar da Literatura Portuguesa de exílio é, ao mesmo tempo, falar do

surgimento e da formação do Estado e do povo português. Porque essa

história ao mesmo tempo brilhante e insólita de uma pequena faixa de terra

comprimida

entre

o

oceano

e

todo

o

resto

da

Península

Ibérica

será

condicionante para o surgimento de um povo em eterno estado de exílio.

Não obstante suas algo “desfavoráveis” condições geográficas, Portugal

foi

a

primeira

nação

politicamente

independente

da

Europa,

e

foram

exatamente essas mesmas condições adversas que fizeram dela um território à

parte. Desde muito cedo unificado, o povo português sempre se percebeu

muito mais como individualidade do que como parte de um continente, não

tendo, assim, compartilhado das transformações políticas e sociais pelas quais

o resto da Europa passou. Primeiro envolvido com a Reconquista e mais tarde

com a Expansão Marítima, Portugal desde seu nascimento foi um exilado em si

mesmo. 22

Mas foi, decididamente, a era dos Descobrimentos que inaugurou junto

ao povo português o estatuto mitológico de povo exilado. Em degredo ou em

22 LOURENÇO, Eduardo. Lisboa: Gradiva, 1999.

34

busca de riquezas nas novas terras conquistadas além-mar, a partir dessa

época a nação lusitana formou uma imensa massa errante por Ásia, África e

América.

Esta singularidade histórica fez com que a diáspora se tornasse

tema, mais do que recorrente, fundamental, no inventário da tradição literária

portuguesa.

Já na lírica medieval galego-portuguesa a coita de amor tinha como

origem o mal de ausência. Assim, como bem observa Carlos A. André, “A

mulher, sujeito lírico das cantigas de amigo, evocava com dor e saudade o seu

amado, que dela se apartava em serviço do rei e da honra”. 23

Mas foi particularmente nos séculos XV e XVI, ápice da era da expansão

marítimo-territorial portuguesa, e, por conseguinte, da colonização dos sítios

sob seu domínio, que o país viu dispersar-se uma multidão errante. No seu

lastro, a poesia quinhentista, principalmente finissecular, sob a forma do

Maneirismo, soube bem exprimir a angústia do abandono da casa portuguesa.

Desse período, para não citar outros nomes, fiquemos com o maior: Luís de

Camões.

Nos séculos XVII e XVIII, continua sendo um tema vigoroso entre os

escritores lusitanos. E, mais tarde, é marca indelével de tal “preferência” a

abordagem da questão pelos dois maiores nomes do Romantismo português.

Assim, são motivadas pela ausência as lágrimas de Joaninha em Viagens na

minha

terra, 24 de Almeida

Garrett.

Também

em

Alexandre

Herculano, a

diáspora marca as vidas das personagens Eurico e Pelágio. 25

23 ANDRÉ, C. A. Coimbra: Minerva, 1992, p. 439.

24 GARRETT, Almeida. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.

25 HERCULANO, Alexandre. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.

35

Já no Portugal Realista do século XIX, Cesário Verde, 26 ao buscar na

cidade um inexistente bucolismo idílico, não é também um homem em

desconcerto com seu meio, um “exilado interior”? E Eça de Queirós, ao retratar

a vida de Gonçalo Mendes Ramires 27 , metáfora do povo português, preso a

um passado glorioso, e que busca em África a retomada do prestígio de

outrora, não retrata também um pouco da história da diáspora lusitana?

Da mesma forma, é como um desterro que Camilo Pessanha traduz a

existência, o que se lê, por exemplo, em “Roteiro de vida”: longe das pedras

más do meu desterro/ [

]/que

eu, desde a partida, não sei onde vou. 28 E

Fernando Pessoa, pela voz de Álvaro de Campos, dirá que a minha pátria é

onde não estou. 29

Também Miguel Torga assumiu em poesia seu destino errante: e cá vou

como um peregrino. E assim como ele, Eugénio Andrade, que entrevia “sobre

a luz do Tejo as últimas barcas/ sobre as barcas uma luz de desterro”; Adolfo

Casais Monteiro, um “exilado definitivo” 30 e Sophia de Mello Breyner Andresen:

Quando a pátria que temos não a temos/ Perdida por silêncio e por renúncia/

Até a voz do mar se torna exílio/ E a luz que nos rodeia é como grades. 31

Num

rápido

sobrevôo

pela

ficção

portuguesa

contemporânea

encontramos novos olhares sobre um antigo tema. Destacamos primeiramente

Lídia Jorge, que, ao dar voz à personagem Evita, de A costa dos murmúrios 32 ,

exilada na Moçambique em guerra colonial, refaz o percurso do degredo de

séculos anteriores. Se em Jangada de Pedra, 33 José Saramago nos faz

26 VERDE, Cesário. Porto Alegre: L&PM, 2003.

27 QUEIRÓS, Eça. São Paulo: Click Editora, s/d.

28 PESSANHA, Camilo. São Paulo: Princípio, 1989.

29 PESSOA, Fernando. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

30 LEONE, Carlos. Lisboa: IN/CM, 2004.

31 ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Lisboa: Moraes, 1975.

32 JORGE, Lídia. Lisboa: Dom Quixote, 2000.

33 SARAMAGO, José. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

36

deparar metaforicamente com um exílio sócio-econômico, em O ano da morte

de Ricardo Reis, 34 aborda a outra face da expatriação: o retorno à terra natal, a

não-adequação ao novo espaço físico, o sentimento de não-pertencer. O

mesmo faz Lobo Antunes em As Naus, 35 .

Buscar em toda a Literatura Portuguesa poetas que cantaram, de

alguma forma, o “mal de ausência”, é, de certo, enveredar-se por um caminho

árduo, longo e denso, uma vez que o exílio toma formas diversas, aceita

diferentes acepções. Procuramos aqui demonstrar, através de alguns dos

principais

nomes

dessa

literatura,

quão

rica

é

tal

matéria,

recebendo

abordagens tão diversificadas pelos séculos que se seguiram. Se a história de

Portugal influiu decisivamente para a instituição da saudade 36 como elemento

quase mitológico, formador da personalidade de um povo, ligando-se, desta

forma, ao canto de exílio, a mesma saudade, marca indelével do lirismo

português, estará sempre na sua poesia, a cada dia reinventada pelo engenho

e arte dos seus escritores.

34 Idem. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

35 ANTUNES, António Lobo. Lisboa: Dom Quixote, 2000.

36 Op.cit, 93.

37

3 A POESIA DE EXÍLIO DE JORGE DE SENA

Nascido em 1919, Jorge de Sena faz seus primeiros poemas ainda na

adolescência, quando o nome de maior destaque na literatura portuguesa

começa a ser o de Fernando Pessoa. O cenário literário português vivido por

Sena no início de sua carreira poética é marcado pela disputa da hegemonia

cultural entre a geração de Presença , com a qual ainda dialogara o próprio

Pessoa, e o Neo-realismo, cuja plataforma, grosso modo, pregava uma

literatura

a

serviço

de

ideologia

político-social

que,

seguindo

correntes

européias, se opunha àquela preconizada por Salazar. Tal disputa levou ao

surgimento, em 1940, dos Cadernos de Poesia que, com o lema “A poesia é só

uma”, visava a suplantar a divisão assim instaurada no campo estético.

Nesse contexto, Sena, que virá a dirigir os mesmos Cadernos de Poesia,

tenta promover em sua obra a união de propostas poéticas: reagindo contra o

esteticismo dominante na Presença, aceita uma poesia comprometida histórica

e

socialmente,

realismo.

mas

sem

aceitar

a

filiação

partidário-ideológica

do

Neo-

Assim, a formulação da poética seniana deve ser compreendida a partir

deste contexto literário, no momento histórico português dos anos 30-40, época

em que o autor publica suas primeiras obras em verso.

Este momento, na seqüência do golpe militar de 1926, é marcado pela

instauração

do

Estado

Novo

em

Portugal,

em

1933,

com

o

sucessivo

agravamento da situação política pela Guerra Civil Espanhola e pela Segunda

Guerra Mundial. Face ao enrijecimento do controle do Estado Novo, que se

dava através de forte censura, o exercício de uma literatura engajada, mas à

38

sorrelfa, emergiu como uma atividade de substituição à atividade política

declarada.

Dessa forma, toda a poesia de Jorge de Sena é norteada por pontos

cruciais que encontram referentes na sua própria vida: dos questionamentos do

jovem poeta Jorge (vide Sinais de Fogo) ao seu forte posicionamento político

anti-salazarista, com a conseqüente privação dos seus direitos civis na sua

fase madura – o que talvez encontre paralelo numa crítica literária que não o

reconhecia conforme seu desejo.

Todos esses fatores fizeram de Jorge de Sena um homem de múltiplos

exílios: isolado intelectual e politicamente, uma peregrinatio ad loca infecta foi

toda a sua vida. Contudo, se já se sabia um deslocado mesmo em seu país, foi

com sua partida para o Brasil, em 1959, após participação em um fracassado

golpe anti-salazarista, que se confirmaria de fato a sua diáspora. Em 1965, no

entanto, o poeta vê-se obrigado a partir para os Estados Unidos, onde viveria o

mais longo e derradeiro exílio.

Nesse

contexto,

o

testemunho

poético

torna-se

uma

espécie

de

transcrição recriada acerca de suas impressões sobre o mundo, assumindo-a,

segundo o prefácio de "Poesia I", como "forma de comunicação".

A respeito do testemunho poético, é quase impossível não citar o autor

nesse conhecido paratexto:

O testemunho é, na sua expectação, na sua discrição, na sua vigilância, a mais alta forma de transformação do mundo, porque nele, com ele, e através dele, que é antes de mais linguagem, se processa a remodelação dos esquemas feitos, das idéias aceites, dos hábitos sociais convencionalmente aferidos. 37

39

Ou seja, o testemunho, a partir do momento em que promove a

conscientização do homem, torna-o capaz de modificar a sociedade e os seus

princípios. Dessa maneira, a poesia torna-se o fio condutor do processo de

transformação.

O ensaísta Jorge Fazenda Lourenço, especialista na obra de Sena,

ressalta: "a questão da apreensão da realidade afigura-se, pois, nuclear para o

entendimento da poética [seniana]".Daí que a sua poesia tenha uma forte

carga autobiográfica e temporal. 38

Nesse contexto, o tempo assume papel

importante,

pois

será

a

garantia

de

uma

autenticidade

na

poesia

[

imprescindível à busca de uma verdade39 .

],

Passaremos então a examinar como a questão do exílio, através da

poesia, se afigura na obra seniana, procurando nela identificar questões

nucleares encontradas na literatura de exílio, dentre as quais destaca-se a

temporalidade, a oscilação entre a afirmação e a negação da pátria madrasta,

o sentimento de morte espiritual. Além disso, veremos que essa colidente

relação entre Sena e Portugal se intensifica ao longo dos anos de exílio.

Como já foi dito anteriormente, as obras de Jorge de Sena são

marcadas pelas circunstâncias. De todas, a que melhor expressa o exílio – ou

melhor, exílios – do escritor é Peregrinatio ao loca infecta, publicada em 1969.

A obra divide-se em quatro grupos de poemas, relacionados às fases de sua

peregrinação: Portugal (1950-59); Brasil (1959-65); Estados Unidos da América

(1965-69) e Notas de um Regresso à Europa (1968-1969); estas duas últimas

da fase de “exílio americano” do poeta.

38 LOURENÇO, J.F. Paris: Centre Culturel Caloustre Gulbenkian, 1998, p. 31.

39 LOURENÇO, J.F. Paris: Centre Culturel Caloustre Gulbenkian, 1998, p. 36.

40

Nesse contexto, a obra, referida pelo poeta como “esparso diário de

uma ‘peregrinatio’” 40 torna-se capital à compreensão da estruturação poética

seniana

através

da

sobreposição

da

vivência

poética

e

da

biográfica,

testemunhal. A respeito da mesma, diz o autor:

esse período de 1959-69 foi e tem sido, principalmente e

sobretudo, o dos meus “exílios” americanos (do Sul e do Norte), com

[ ]

tudo o que de difícil e de complexo uma tal situação implica, pela

confrontação com diversas culturas (ainda que, ironicamente, elas

nos sejam familiares) que, para quem não vive nelas em caráter

evidentemente provisório, colocam agudamente dolorosos problemas

de identidade, e nos levam a meditar diversamente sobre quem

somos.

Por tudo isto foi que dei a esta colectânea o nome de

Peregrinatio ad loca infecta, já que os poemas representam

momentâneas descidas críticas do poeta ao seio da sua visão de

mundo. Tendo eu partido de Portugal para o Brasil, onde fiquei, em

Agosto de 1959, e do Brasil para os Estados Unidos da América do

Norte, em Outubro de 1965, para só regressar à Europa em Setembro

de 1968, e a Portugal por escassos dois meses, desde as vésperas

do Natal a meados de Fevereiro de 1969, a coincidência dos

presentes poemas com aquele período de “peregrinações”, é

Mas, por certo, nestes dez anos, eu não visitei

praticamente total. [

apenas – como sempre fiz – “loca infecta” da alma; vivi, fosse onde

fosse, no lugar infecto que é o nosso mundo de hoje. 41

]

Por esse motivo, elegemos Peregrinatio ad loca infecta como coluna

vertebral de nosso estudo, permeando os três tempos de exílio do escritor. Ao

seu redor, circulam poemas de praticamente todas as demais obras do poeta,

seguindo, prioritariamente, o critério cronológico.

40 SENA, J.Lisboa: Ed. 70, 1978, p 19.

41 SENA, J. Lisboa: Edições 70, 1978, pp. 20, 21.

41

3.1 Tempo de Portugal

Que fatos, que datas, que sentimentos nos dariam condições de

determinar um poema como marco inicial de uma vivência de exílio? Para

Jorge

de

Sena,

toda

a

circunstancialidade dela será [

poesia

é

circunstancial;

e

a

]

de certo modo, um diário poético

específica

42 . Assim,

são as circunstâncias, os acontecimentos, que nos guiarão neste estudo da

poesia de Jorge de Sena.

Como disse José-Augusto França, em uma recensão dos três primeiros

livros de poesia de Jorge de Sena, trata-se de “Uma obra que me surge sem

evolução, porque o autor não teve nunca adolescência para abandonar, e um

estado adulto parece ter sido sempre, e tristemente, o seu43 . E com razão. A

maturidade literária chegou cedo para Jorge de Sena. E com ela, a descoberta

da

“visão

profunda”

do

mundo.

Contudo,

o

que

procuramos

sugerir

é

exatamente essa tomada de consciência como o ponto matricial do que

viremos a chamar aqui exílio. Para tanto, partimos do romance “Sinais de fogo”,

em

cuja

narrativa

o

jovem

protagonista

Jorge

(com

fortes

marcas

autobiográficas) recorda as experiências de um jovem Jorge de Sena que se

defronta com o surgimento da poesia.

Se nem todos escrevem, porque escrevia eu? [

ridículo, um pouco infantil, idiota, já que eu nunca pensara em mim

como poeta. [

Poeta, pra mim, como para minha família, e para

meus amigos, era uma pessoa algo caricata, segregada da

normalidade da vida. 44 (SENA, 1988,)

]comecei a sentir-me

]

A partir deste trecho, torna-se claro que a proscrição do poeta do que

considera a “normalidade da vida”, a princípio, não advém de motivos políticos,

42 Ibidem, p. 20.

43 Idem apud FRANÇA, José-Augusto. Tetracórnio ,fev. 1955.

44 Idem. Lisboa: Edições 70, 1979; p. 484. Grifos nossos.

42

e sim, do seu desajuste diante dos valores sociais tidos como referência à

época, os quais tenta, com algum sucesso seguir: serve à Marinha de Guerra

por dois anos, como cadete, e depois laureia-se Engenheiro, profissão que

exerce até sua partida para o Brasil, em 1959. Nesse tempo, cultivava em

paralelo a atividade intelectual.

La Cathédrale Engloutie, de Debussy, publicado em Arte de Música, de

1968, poema narrativo e autobiográfico, mostra os efeitos da audição-revelação

deste prelúdio na vida do menino que, de um simples homem parvo, sofre uma

profunda metamorfose, cedendo lugar ao poeta inquieto.

Creio que nunca perdoarei o que me fez esta música. Eu nada sabia de poesia, de literatura e o piano

era, para mim, sem distinção entre a Viúva Alegre e Mozart,

o grande futuro paralelo a tudo o que eu seria

para satisfação de meus parentes todos . Mesmo a Música, eles achavam-na demais, imprópria de um rapaz que era pretendido igual a todos eles: alto ou baixo funcionário [público,

civil ou militar. Eu lia muito, é certo. Lera

o

Ponson du Terrail, o campos Júnior, o Verne e Salgari,

e

o Eça e o Pascoaes. E lera também

nuns caderninhos que me eram permitidos porque aperfeiçoavam o [francês

e a Livraria Larousse editava para crianças mais novas do que eu era,

a história da catedral de Ys submersa nas águas. Um dia, no rádio Pilot da minha Avó, ouvi uma série de acordes aquáticos, que os pedais faziam pensativos, mas cujas dissonâncias eram a imagem tremulante daquelas fendas tênues que na vida, na minha e na dos outros, ou havia ou faltavam. Foi como se as águas se me abrissem para ouvir os sinos, os cânticos, e o eco das abóbodas, e ver as altas torres sobre que as ondas glaucas se espumavam tranqüilas. Nas naves povoadas de limos e de anêmonas, vi que perpassavam almas penadas como as do Marão e que eu temia em todos os estalidos e cantos escuros da casa.

O início do poema vem ao encontro do trecho extraído do romance,

apresentando o dilema vivido pelo escritor entre a arte, considerada “o grande

futuro paralelo” e a carreira pretendida pela família. Embora escrito em 1964, já

durante o exílio do intelectual no Brasil, interessa-nos demonstrar o processo

de transformação pelo qual passou o poeta em seu amadurecimento. No

43

poema, os acordes de Debussy levam o jovem à lenda da cidade de Ys, que,

tomada pela força das águas, é completamente submersa, mantendo, contudo,

audível o som dos sinos da catedral. Da mesma forma, mas em sentido

inverso, a música “aquática”, reveladora do oculto, agora vinda do rádio, faz

desse momento o marco zero na vida do poeta Jorge de Sena, decretando o

fim, da inocência e da ignorância, que faz emergir o novo mundo – nada

límpido, turvo – que revelará, em sua escrita.

Ante um caderno, tentei dizer tudo isso. Mas

só a música que comprei e estudei ao piano mo ensinou mas sem palavras. Escrevi. Como o vaso da China, pomposo e com dragões em relevo, que havia na sala,

e

que uma criada ao espanejar partiu,

e

dele saíram lixo e papéis velhos lá caídos,

as fissuras da vida abriram-se-me para sempre, ainda que o sentido de muitas eu só entendesse mais tarde.

[ ]

Forte simbolismo é o do vaso que se quebra, deixando cair tudo o que,

de sujo e desconhecido, armazenara dentro dele. Este objeto, que em diversas

culturas representa um tesouro, como o Graal, nas novelas medievais, ao ser

quebrado tem também aniquilado pelo desprezo o tesouro que ele representa.

Contudo, por encerrar dentro de si o elixir da vida, ao deixá-lo escapar, revela-o

ao mundo. E, no poema, o elixir da vida é a verdade, desvendada no momento

da audição.

É desta imprecisão que eu tenho ódio:

nunca mais pude ser eu mesmo – esse homem parvo que, nascido do jovem tiranizado e triste, viveria tranqüilamente arreliado até a morte.

Passei a ser esta soma teimosa do que não existe:

exigência, anseio, dúvida e gosto de impor aos outros a visão profunda, não a visão que eles fingem, mas a visão que recusam:

[ ]

Os acordes perpassam cristalinos sob um fundo surdo que docemente ecoa. Música literata e fascinante, nojenta do que por ela em mim se fez poesia, esta desgraça impotente de actuar no mundo

44

e

que só sabe negar-se e constranger-me a ser

o

que luta no vácuo de si mesmo e dos outros.

Ó catedral de sons e água! Ó música sombria e luminosa! Ó vácua solidão tranquila! Ó agonia doce e calculada! Ah como havia em ti, tão só prelúdio, tamanho alvorecer, por sob ou sobre as águas, de negros sóis e brancos céus noturnos? Eu hei-de perdoar-te? Eu hei-de ouvir-te ainda? Mais uma vez te ouço, ou tu, perdão, me escutas?

O mergulho deste poeta rumo ao conhecimento é comparável ao vôo de

Ícaro em direção à liberdade. Dédalo, seu pai, preso no labirinto que ele próprio

construíra para o rei Minos, de Creta, ao olhar para o céu, espaço da liberdade

possível, teve a inspiração de confeccionar dois pares de asas de cera. Com o

engenho, ele e seu filho alçaram vôo e logo se afastaram da armadilha que ele

mesmo criara, podendo, com isso, observá-la do alto. Antes da partida, Dédalo

aconselhou Ícaro a voar sem se aproximar demais da morada dos deuses,

tampouco sem tocar nas águas, reino de Netuno. Porém, desobediente e

deslumbrado com o vôo, ele avizinha-se do sol, derretendo, assim, suas asas,

e morrendo, ao se chocar com o oceano. Cada uma das asas formou uma ilha,

dando origem ao arquipélago das Icáricas. Assim como sucedeu à personagem

mitológica, a busca da liberdade suprema – o conhecimento –, o mergulho nas

profundezas do interior humano, a ultrapassagem dos limites médios do saber,

fizeram do poeta uma ilha em pessoa.

A vontade “de impor aos outros a visão profunda” do mundo levou Sena

a todos os exílios que o homem pode percorrer. O interior sempre esteve muito

além do geográfico.

Poeta alheio a convenções e imposições, tanto políticas

quanto literárias, o escritor logo se torna um excluído em sua própria pátria.

Mais do que os países por onde passaria, o primeiro e eterno porto seguro

será, então, a escrita, conforme já acenava nos versos finais de “Os trabalhos e

45

os dias”, do ano de 1942: “e falo da verdade, essa iguaria rara: / este papel,

esta mesa, eu apreendendo o que escrevo”.

Após

a

Segunda

Guerra

Mundial,

quando

os

principais

líderes

totalitaristas europeus se vêem derrotados, a relação entre os intelectuais

portugueses e seu governo rígido, emblematizado na figura de Oliveira Salazar,

torna-se paulatinamente mais conflituosa. Nessas circunstâncias, a poesia

passa a ter papel relevante na luta política pela restituição da democracia. De

1947, é o poema “Os paraísos Artificiais”, no qual o escritor desconstrói a

imagem de seu país, contrariando as descrições nacionais-edênicas como a

“Canção do exílio”, de Gonçalves Dias:

Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossas flores têm mais vida, Nossas vidas mais amores.

Tomando como parâmetro o poema que o brasileiro escrevera em 1843,

no seu “exílio” em Portugal, o de Sena apresenta um contraponto à paisagem

evocada acima. Se o desejo de retorno à terra-mãe e o sentimento de não-

pertencer fazem com que o escritor exilado veja sua pátria como paraíso, Sena

faz a mesma associação, mas usa da ironia, claramente demonstrada através

do adjetivo “artificial”. Assim, todos os elementos naturais presentes no poema

de Gonçalves Dias são substituídos, na obra de Sena, por correlatos de

invenção humana. Além destas, outras marcas “subversivas” evidentes no

texto são a omissão do topônimo, Portugal, e as seguidas negações – meio

46

encontrado pelo poeta para denunciar a forte censura que o impedia de

assumir uma posição política declarada.

Na minha terra, não há terra, há ruas; mesmo as colinas são de prédios altos com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores. As flores , tão escassas, dos jardins mudam ao mês,

e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as [árvores.

O cântico das aves - não há cânticos,

Mas só canários de 3 o andar e papagaios de 5 o .

E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros, que são todos na Pérsia ou na China, ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.

A vida na minha terra é que é inefável.

Inefável é o que não pode ser dito.

Se,

a

partir

do

título

do

poema,

fica

clara

a

associação

à

obra

baudelairiana, a caracterização de um Portugal doente tem, como parâmetro, o

próprio olhar do escritor francês sobre o país:

Cette vie est um hôpital où chaque malade est possédé du desire de

changer de lit. Celui-ci voudrait soufrir en face du poêle, et celui-ci

qu’il guérirait à côté de la fenêtre.[

Dis-moi, mon âme, pauvre âme refroidie, que penserais-tu d’habiter

Lisbonne? Il doit y faire chaud, et tu t’y ragaillardirais comme un

lézard. Cette ville est au bord de l’eau; on dit que’elle est bâtie en

marbre, et que le peuple y a une telle haine du végétal, qu’il arranche

tous les arbres. Voilà un paysage selon ton goût; un paysage fait avec

la lumière et le minéral, et le liquide pour les réfléchir! 45

]

No entanto, deve-se salientar que, no outro lado do diálogo está toda

uma

literatura

ultra-romântica

lusitana,

de

cunho

nacionalista,

posta

em

45 BAUDELAIRE, Charles. Paris: Cluny, s/d; p. 94. “Esta vida é um hospital, e cada doente é possuído pelo desejo de mudar de cama. Aquele ali gostaria de sofrer encarando um fogão, e aquele lá crê que guerreia ao lado da janela. [ .] Diga, minha alma, pobre alma resfriada, o que você acha de morar em Lisboa? Lá deve ser quente, e você se esparramaria como um lagarto. Essa cidade fica perto da água, dizem que foi construída em mármore, e que as pessoas de lá odeiam tanto o vegetal que arrancam todas as árvores. Eis aí uma paisagem a teu gosto; uma paisagem feita de luz e mineral e líquido para refleti-los!”

47

circulação como artimanha salazarista, exaltando valores clicherizados de

Portugal, como “A Portugal”, de Tomás Ribeiro:

Jardim da Europa à beira-mar plantado De loiros e de acácias olorosas; De fontes e de arroios serpeado, Rasgado por torrentes alterosas; Onde num cerro erguido e requeimado Se casam em festões, jasmins e rosas; Balsa virente de eternal magia, Onde as aves gorgeiam noite e dia.

Dessa forma, torna-se muito mais nítida a leitura anti-fascista contida no

poema, não somente no que respeita à denúncia da situação político-social de

seu país, mas também na ironia com que trata a propaganda oficial deste

regime. 46 Se, no poema anterior, as acusações são feitas de forma velada, por

meio de associações, dois anos mais tarde, em 1949, “Ode à mentira” já

apresenta ao leitor sem meias-palavras toda a sorte de desmandos cometidos

pelo governo salazarista para se manter no poder, deixando bem claro a quem

se dirige. E vai além, enumerando as atrocidades feitas em nome de Portugal.

Crueldades, prisões, perseguições, injustiças, como sereis cruéis, como sereis injustas? Quem torturais, quem perseguis, quem esmagais vilmente em ferros que inventais, apenas sendo vosso gemeria as dores que ansiosamente ao vosso medo lembram e ao vosso coração cardíaco constrangem.

Muitas

vezes

alvo

da

crítica

literária

portuguesa,

quer

pela

sua

independência a nomenclaturas estético-literárias, quer pela sua assumida

posição política anti-salazarista, Sena oscilou entre o uso de uma linguagem

literária mais rebuscada, e, em outro pólo, a clareza, a rispidez, a virulência

com que abordava determinados temas, como no poema acima. A respeito do

uso de uma linguagem mais direta o intelectual disse:

48

Quase toda a gente, mesmo dos melhores, vive na aflição e na

inibição de não dizer nada claramente, de não mencionar nada

concretamente, de não estabelecer conexões racionais e lógicas com

experiência alguma – o que nada tem a ver com a liberdade de

imaginação ou com a experimentação lingüística, e é apenas

resultado de décadas de meias palavras cifradas. Também por isso

foi que se criou a ideia de que a poesia é coisa delicada e para

delicados, em que parece mal e é mau escrever duramente e

directamente

47

Ainda do mesmo ano, “Ode à incompreensão” apresenta pela primeira

vez a profunda tristeza de um Jorge de Sena humanista que não consegue ver

concretizado o objetivo maior de seu trabalho poético – a transformação social.

Assim,

dividido

incompreensão

irrevogável.

entre

a

consciência

“da

da

sociedade,

o

exílio

(sua)

visão

interior

tão

lúcida”

e

a

parece-lhe

destino

De todas estas palavras não ficará, bem sei, um eco para depois da morte que as disse vagarosamente pela minha boca. Tudo quanto sonhei,quanto pensei, sofri, ou nem sonhei, ou nem pensei ou apenas sofri de não ter sofrido tanto como aterradamente esperara – nenhum eco haverá de outras canções não ditas, guardadas nos corações alheios, ecoando abscônditas ao sopro do poeta.

Não por mim. Por tudo que, para ecoar-se, não encontrou eco. Por tudo o que, para ecoar, ficou silencioso, imóvel – – isso me dói como de ausência à música não tocada, não ouvida, o ritmo suspenso, eminente, destinado, isso me dói dolorosamente, amargamente, na distância do saber tão claro, da visão tão lúcida, que para longe afasta o compassado ardor das vibrações do sangue pelos corpos próximos.

[ ]

Tão longe, meu amor, tão longe, quem de tão longe alguma vez regressa?!

E quem, ó minha imagem, foi contigo?

47 SENA, Jorge de. Lisboa: Edições 70, 1978, p.p. 113. 114.

49

(De mim a ti, de ti a mim, quem de tão longe alguma vez regressa?)

Incompreendido, o poeta sempre se sentiu. Muito mais, segundo alguns,

do que realmente foi. Num país em que se publicavam os “diletantes”, os

passivos, os que, para se fazerem publicar, calavam ou repudiavam a aviltante

situação política portuguesa, Sena, com suas palavras ásperas e sempre

francas, não teria outro destino, por tudo o que de transgressor representava,

senão

a

indiferença.

Mesmo

repudiado,

manteve-se

fiel

aos

ideais

de

transformação profunda do mundo, através da poesia que buscava no grupo

literário a que aderiu, os Cadernos de Poesia:

Se a expressão poética é (ou resulta de) um compromisso – e

sublinhe-se de uma vez para sempre que esse compromisso se não

–, evidente se torna que a poesia

só existe como relação: a relação que relata e a relação que relaciona

entre si duas entidades. Portanto, quem se subordina à Poesia (com

maiúscula) na intenção de esquivar-se a outras subordinações (a

Deus, ao Mundo, ao próprio Homem), trai-se a si próprio, à

consciência sensível que do mundo poderia ter, e à Poesia – a

relação – que mais do que tudo julga ambicionar. E igualmente se trai

a si próprio, à sua consciência sensível do mundo, e à relação que

pretende criar, quem subordine esta última não àquilo que pensa e

sente, mas ao que entende dever ser tal relação, tal expressão

é preciso deixar que as mãos do homem e o

poética, tal poesia. [

olhar do poeta transformem o mundo à sua imagem e semelhança. O

poeta não contempla – o poeta cria. Defende o que é atacado, e

destina a captar o “inexprimível”

]

ataca o que é defendido. Não age como ser especial, diferente dos

outros homens, que os não há esses outros seres; mas como um

homem destinado a nele se definir a humanidade: um ser capaz de

ter todo o passado íntegro no presente e capaz de transformar o

presente integralmente em futuro. 48 [grifos nossos]

50

De acordo com Gilda Santos, na obra seniana “o tempo, quer na sua

dimensão

pessoal/biográfica,

que

na

sua

dimensão

cultural/histórica

desempenha função nuclear”. 49 E, se pensarmos no que disse o escritor: “Não

creio que, nos tempo de hoje, se possa honestamente fazer ficção e outra

coisa [senão autobiografia] se se quer falar do mundo em que vivemos

50

,

suas

obras

são

a

todo

momento

metamorfoseada em literatura.

evidências

dessa

autobiografia

Nesse ponto, “As evidências”, 51 é uma obra particular dentre a produção

do escritor. Primeiro pela sua forma: um poema com 21 sonetos, os quais, à

primeira vista, não apresentam entre si uma “unidade” temática. Segundo, pelo

próprio processo de criação: JS estava há quase um ano sem escrever poesia,

quando, como num processo catártico, foram-lhe surgindo, no período de dez

semanas, os sonetos que compõem o livro. Ao se imaginar tal processo de

criação, é como o Camões seniano de “Super Flumina Babylonis” que o vemos:

tremendo todo, mas com a mão muito firme, começou a escrever [

escrevendo pela noite adiante52 .

E catártica é também a própria obra. Sob o título inicial

]

E ficou

de “Novo

Gênesis”, visível nos manuscritos, o poema é dividido em duas “fases”. Na

primeira, que vai dos sonetos I ao VII, lemos, de imediato, “ao desconcerto

humanamente aberto/ entendo e sinto

”(v.

1-2), e, ao fim desse primeiro

soneto “meu desconcerto é o desconcerto fora” (v. 13). No segundo soneto:

Desta vergonha de existir ouvindo amordaçado as vãs palavras belas, por repetidas quanto mais traindo tornadas vácuas da beleza delas;

[ ]

49 SANTOS, Gilda. Rio de Janeiro:1996, p. 160.

50 SENA, J. Lisboa: Ed. 70, 1982, p. 70.

51 Idem. Lisboa: Ed 70, 1961.

52 Idem. Lisboa: Ed. 70, 1989, p. 166.

51

Calai-vos, ímpios, que jurais por mim!

Eis o processo de denúncia que leva a cabo: evocando o camoniano

desconcerto do mundo, o poeta vê-se também em desconcerto, por se sentir

forçado a assistir e a ouvir “amordaçado” pela censura os desmandos do poder

de seu país.

No último verso do sétimo soneto, está a senha para a mudança, com a

qual encerra não somente o soneto, mas a fase de obscurantismo, que é

delineada neste primeiro grupo de sonetos.

Ímpio de ti, se juras e não ousas que teus vivos desejos se ergam tais como em ti próprio aguarda uma outra vida.

Refletindo sobre a relação entre o título inicial da obra e a totalidade do

poema, associando-a ao episódio bíblico da criação do mundo, uma das

possíveis interpretações é a de renascimento, recriação do mundo, tanto do

mundo particular do poeta, quanto uma subversiva sugestão de reorganização

social portuguesa, iniciada, como na criação divina, pelo verbo. E o ponto de

fusão entre o caos inicial e a transcendência é o soneto seguinte:

Amo-te muito, meu amor, e tanto que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda depois de ter-te, meu amor. Não finda com o próprio amor o amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto

sofro a traição dos que, viscosos, prendem, por uma paz da guerra a que se vendem, a pura liberdade do meu canto

[ ]

Que encanto é o teu? Deitado a tua beira, Sei que se rasga, eterno, o véu da graça.

Erotizada, a terra assume instância feminina. Assim, a terra-mulher

portuguesa, cabeça da Europa, como a descreveu Fernando Pessoa, fertilizada

pelo amor do homem, renova-se, transformando-se na terra desejada, imagem

52

intensamente presente no imaginário popular e recorrente na história da

formação dos povos e na literatura: a Terra Prometida, que, para Dante, é um

dos pólos do espírito, assim como a Canaã para os hebreus, Ítaca para Ulisses

e a Jerusalém celeste para os cristãos.

As evidências expostas por essa nova gênese logo deram motivo para a

apreensão da obra pela PIDE, sob acusação de subversiva e pornográfica,

conforme declaração do autor:

O livrinho ficou impresso nos primeiros dias de janeiro de

1955, foi logo apreendido pela PIDE (

mês depois após repetidas visitas à Censura (

subversivo, pornográfico, segundo me repetia sistematicamente, com

e só pôde ser distribuído um

O livro era, além de

)

)

um sorriso ameno e algum sarcasmo nos olhos (

subdiretor que era um major ou tenente-coronel. Eu contestava que o

suponho que o

)

livro, ora essa, não era nem uma coisa nem outra, e ele, dando-me

palminhas no joelho mais próximo, dizia: – Ora, ora

nós sabemos.

Ao fim de um mês destas periódicas sessões, o livro foi libertado, e,

para dizer a pura verdade evidente, era realmente subversivo e, se

não propriamente pornográfico, sem dúvida que respeitavelmente

obsceno. 53

De 1952, “Epígrafe para a arte de furtar”, é o primeiro poema do livro

Fidelidade, do ano de 1958, último publicado antes da partida de JS para o

Brasil. Como o nome sugere, tem como matriz a obra do barroco lusitano Arte

de Furtar, ou Arte de furtar, Espelho de enganos, Theatro de verdades,

Mostrador

de

horas

minguadas,

Gazua

geral

dos

reynos

de

Portugal, 54

publicada em “Amsterdam, na officina Elvizeriana, 1652”, dedicada a D. João

IV “para que a emende” e “composta pelo Padre Antonio Vieyra Zelozo da

Pátria” 55 . O livro, um depoimento literário de cunho panfletário, editado com

intuito de denunciar práticas sociais do tempo de D. João IV, propõe-se a

53 SENA, J. Lisboa: Edições 70, 1988, p. 19.

54 Arte de furtar. Lisboa: Estampa, 1978.

55 Ver SANTOS, G. Rio de Janeiro:FL, 1993.

53

desmascarar os vários tipos de “furtos” então em uso. Assim, o poema auto-

intitulado epígrafe da obra supracitada não teria outro mote senão a denúncia.

Epígrafe e não posfácio, quer pelo seu caráter conciso, resumido, quer pelo

caráter de precedência essencial sobre aquilo de que trata a obra seiscentista:

Roubam-me Deus, outros o Diabo

– quem cantarei?

roubam-me a Pátria;

e a Humanidade

outros me roubam

– quem cantarei?

sempre há quem me roube quem eu deseje;

e de mim mesmo

todos me roubam

– quem cantarei?

roubam-me a voz quando me calo, ou o silêncio mesmo se falo

– aqui del-rei!

No plano formal, observa-se o uso de recursos estéticos próprios da

literatura barroca atualizados pelo autor. Estão entre eles a angústia humana,

decorrente da enumeração dos objetos de furto e o paulatino prolongamento

das

estrofes,

como

que

aumentando,

assim,

a

agonia

do

narrador.

Discursivamente, o conflito entre o eu, indicado pelos pronomes me e mim, e

os outros, alargados pelos verbos na 3ª pessoa do plural que criam sujeitos

indeterminados, aponta para a posição passiva do eu-lírico ante os fatos.

Também o refrão, “quem cantarei?”, repetido no fim das três primeiras estrofes,

enfatiza a problemática nuclear do poema e prepara o desesperado pedido de

socorro final.

A máquina política passou a gerar, ao longo dos anos, um ambiente

cada vez mais opressor, de maneira que foi se tornando insustentável a vida

54

naquele espaço. O poema “Quem a tem” é, nesse momento, mensageiro do

desejo de liberdade política de todo um país.

Não hei de morrer sem saber qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser

desta terra em que nasci. Embora ao mundo pertença

e sempre a verdade vença,

qual será ser livre aqui, não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,

é quase um crime viver.

Mas, embora escondam tudo

e me queiram cego e mudo,

não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade.

Na segunda estrofe, o poeta depara-se em conflito entre a entrega

incondicional

à

pátria

e

a

sua

negação,

sentimento

próprio

do

exilado,

deslocado da sociedade de que faz parte. Dessa forma, o sintomático verso

“embora ao mundo pertença”, indicia não somente uma alusão à sua condição

de escritor, tal como a entende, mas, principalmente, a previsão de um exílio

quase inevitável. De fato, apenas três anos após haver escrito esse poema,

parte para o Brasil.

No trecho seguinte, o escritor explicita a sua posição política face à

opressão do regime fascista português. Novamente o tema ‘censura’ vem à

tona nos versos “embora me escondam tudo/ e me queiram cego e mudo”.

Todavia, o autor encerra o poema mesclando o terror da ditadura à esperança

de “não morrer sem saber / qual a cor da liberdade”. A quase-utopia de ver a

bandeira portuguesa novamente representando um país democrático leva-nos

à idéia desenvolvida por Ernest Bloch 56 : o “princípio esperança”, que existe não

56 BLOCH. Paris: Galimard, 1976, 1982, 1989. 3 volumes.

55

em

uma

dimensão

onírica,

mas

como

energia

potencializadora

da

transformação social, tão presente na poesia seniana.

 
 

Jorge

de

Sena

manteve-se

conflituosamente

entre

dois

pólos:

a

clarividência e a quase-utopia. Buscava incansavelmente “impor aos outros a

visão profunda” através de uma extremada consciência de mundo e de ética

em tudo que escreveu. Apesar de nessa missão nem sempre encontrar eco,

persistiu fiel aos valores que defendia. O embate entre a “pouca humanidade

neste mundo/ quando não acredito em outro, e só outro queria que/ este

mesmo fosse.” 57 gerou uma poesia na qual, o angustiado olhar do presente

transforma-se em expectativa do tempo vindouro.

“Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya” é exemplo de

poema em que transitam juntos o desencanto com o mundo e a esperança na

transformação profunda de seu formato social. De julho de 1959, último poema

escrito antes da partida para o Brasil, pode ser visto como uma análise final no

encerramento de um ciclo, na qual o poeta aponta o mundo desejado através