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o Pensamento Nacionalista na América Latina e a Reivindicação da Identidade Econômica

(1920-1940)

Eduardo Dcvés

Valdés

Introdução

Durante os anos 30, vai-se produzir um terceiro momento dentro do projeto de construçao de identidade que tem a ver com a reivindicação da economia latino-americana. O caráter identitário do pensamento latino-americano das primeiras décadas do século fo i mudando de sentido: em uma primeira etapa realizou-se mais como latinidade; em uma segunda, mais como mestiçofilia, indigenista ou afro-americana e, na terceira, mais como nacionalismo e antiimperialismo. Sem deixar de considerar que as três dimensões coexistem, pode-se dizer que a primeira é mais culrural, a segunda mais social e que a terceira dá ênfase ao econômico sem se desligar totalmente do social e do culrural. Neste nacionalismo

sem se desligar totalmente do social e do culrural. Neste nacionalismo Nota: Texto traduzido por Paulo

Nota: Texto traduzido por Paulo M. Garchc1.

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estudos hist6ricos e 1997 - 20

econômico fundem-se uma perspectiva de esquerda e uma de direita, denun­ ciando e rechaçando a intervenção das grandes potências. Isto se tornou mais agudo com o profundo impacto causado pela crise de 29-30. Desenvolveu-se bastante a idéia de defendera interesse nacional, questão que foi de utilidade para o surgimento do pensamento modernizador industrialista característico do período posterior. Tal processo, que aparece bastante nítido no tronco fundamental do que tem sido chamado "pensamento latino-americano", não é idêntico em todos os âmbitos específicos. Estudando o trabalho das pensadoras em torno do tema da mulher, ou estudando o tema estético das vanguardas, já não se vêem as mudanças com tanta nitidez. Apesar de que, as mudanças não ocorrem apenas no conteúdo dos textos. Aparecem também novos emissores de pensamento, sendo os mais inovadores entre eles, provavelmente, os engenheiros e técnicos que terminaram se constituindo em uma fone alternativa modernizadora. Durante esses anos, simultaneamente com um pensamento propositivo, seja no nível econômico, estético ou de gênero, irá aparecer outro, mais reflexivo, mais introspectivo, menos político. Este, irá perguntar por que somos os latino­ americanos: por nosso caráter. Aqui se encontra um dos focos de maior vitalidade e irradiação do pensamento latino-americano que, assumindo lima produção anterior à desses anos, se projeta em seus epígonos até a última década do século XX inclusive. Este afã por descobrir a maneira de ser, a psicologia, os traços característicos, irá motivar Samuel Ramos, Benjamim Subercaseaux, Gilberto Freyre, Octavio Paz, para citar apenas alguns dos mais notáveis. Este tipo de pensamento irá, por um lado, denunciar os defeitos dos latino-americanos, e com isso entrar em conflito com o nacionalismo identitário; por outro, irá depurar uma reflexão sobre o que somos, o que permitirá, mais tarde, repensar os projetos político-econômico-sociais.

1. O lIntiimpcl'ÍlIlismo percorre o continente

o antiimperialismo é um dos temas recorrentes do pensamento latino­ americano dos anos 30, e pode-se até mesmo afirmar com mais força que o antiimperialismo é a forma que assume o pensamento identitário desses anos, que se apresenta como defesa da economia continental, ou como nacionalismo econômico. Neste antiimperialismo irão confluir fatores provenientes de tradiçôes diversas, mas é imprescindível diferenciar o antiimperialismo propria­ mente dito de outros elementos que, contribuindo para o clima ideológico desses anos, não lhe pertencem. Tal é o caso do anti-saxonismo, do arielismo, do estatismo e da xenofobia. Em todo caso, enquanto clima de época, não se pode falar de uma idéia restrita, mas de um conjunto de elementos que configuram

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uma preocupação e um posicionamento em relação à presença econômica,ainda que não apenas econômica, dos grandes países e suas capitais no interior da América Latina. Esta linha de trabalho que tende a desvelar a penetração econômica por parte das grandes potências na América Latina e a transformação de nossas economias (e,interligadamente,nossa política e nossa cultura) de acordo com a racionalidade imperial, foi desenvolvida por diversos autores, ultrapassando as divergências ideológicas ou políticas. Em tal sentido,posições por outro lado tão opostas, como indigenismo e integralismo, coincidem, em fins dos anos 20 e durante os 30, no estudo, denúncia e crítica do imperialismó. E justamente o acordo por cima dessas outras divergências o que faz com que este seja um tema próprio desses anos.

No início dos anos 20, Federico Henríquez y Carvajal formulou, de maneira já bastante acabada,um projeto nacionalista. Encontram-se ali tanto os elementos explicativos de um fenômeno que se quer modificar, quanto um conjunto encadeado de tarefas que tendem a remediá-lo. De acordo com o que postula este autor dominicano, "o capitalismo criou uma classe onipotente: a plutocracia. Esta é causa e agente,na medida em que o imperialismo é efeito dessa causa", e "o dólar é o instrumento de infiltração do imperialismo multimi­ lionário" (Henriquez y Carvajal, 1960: 198). Ele pensa que "a penetração econômica é precursora, sempre, da penetração política" e que "a dependência, resultado fatal do predomínio de ambas, é contrária à independência e lesiva à soberania" (p. 197). Com relação a este problema,para superar essa penetração econômica e essa dependência, propõe, entre outras medidas, "o fomento dos pequenos assentamentos fundiários com absoluta preferência sobre o esta­ belecimento dos enormes latifún dios de exploração estrangeira" (p. 200-201). Assinala que,"ainda que se deva estimular a corrente migratória,deve-se fazê-lo em estrita submissão a 11m plano científico de colonização e com 11m fun exclusivamente nacionalista" (p. 201) e pela união política da América Central (p. 202). Vincula,contudo,estas medidas a um regime político. Avalia que se deve substituir "a fórmula do personalismo (ou do caudilhismo perturbador da ordem jurídica) por uma fórmula nacionalista. A fórmula nacionalista propende para a necessária concordância de regimes" (p. 200).

Já em 1922,José Vasconcelos queria que a América Latina estivesse,por sua unidade,em condições de enfrentar os Estados Unidos. Um pouco mais tarde sustentou que a situação do México era pior que a de uma colônia,vítima de uma dependência pedida, reconhecida e profunda (Vasconcelos, 1989: 59). Em seu "Programa de governo" de 1929,Vasconcelos destacava que não era exagero "falar de desastre quando,pouco a pouco,e principalmente por erros transcendentais de nossa política,todas as riquezas do país e as grandes empresas,ontem as minas,

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estudos históricos e 1 9 9 7 - 2 0 hoje as quedas d'água e, sempre,

hoje as quedas d'água e, sempre, as propriedades rurais, tudo passa às mãos estrangeiras"; que não era exagero falar de desastre "quando já não dispomos do manejo de nossa produção, nem do controle de nossa economia" (p. 58). Mariátegui, de um ponto de vista marxista, afumou, por essa mesma época, que "o regime econõmico e político que combatemos converteu-se, gradu­ almente, em uma força de colonização do país pelo capitalismo imperialista" e conclui que "não se pode ser efetivamente nacionalista e revolucionário sem se ser socialista" (Mariátegui, 1927: 13). Em 1927, ano particularmente importante e fecundo para o pensamento latino-americano, Froilán Turcios, jornalista e poeta hondurenho que editava a revista Anel, publicou o poema "Os dez aliados da política norte-americana" (citado por Lascaris Commeno, 1989) que, segundo ele, eram:

os tiranos que desejam perpetuar-se no poder,

república (

•

)

Ianques,

os que se desvelam para alcançar a presidência da fazendo concessões onerosas aos banqueiros e cidadãos

os que têm ânsia de enriquecer-se,

os fatalistas,

os jornalistas venais, que aceitam dádivas dos invasores,

os que desejam catequizar pelos pastores evangelistas,

os imitadores insensatos dos modernos costumes da sociedade norte-americana

os mestres e professores que não ensinam às crianças o

e que não inculcam o desprezo aos invasores

amor à pátria e à raça Ianques,·

os sacerdotes católicos que, possuídos de um feroz fana­ tismo, fecham os olhos.

Gabriela Mistral foi igualmente sensível a esses problemas. Em 1928 assinalou que "virá a ser perversa política a entrega das riquezas de nossos povos

[ ] às influências estrangeiras que já se desnudam com absoluto impudor sobre nossos governantes" (Mistral, 1995: 128) e, referindo-se especificamente a San­ dino, que este fortalecerá a unidade latino-americana "porque a identificação já começa e, com a morte de Sandino, se fará de um só golpe permanecendo no bloco". Isto porque "o guerrilheiro é, em um só corpo, nosso Páez, nosso Morelos, nosso Artigas. A faina é igual; o transe o mesmo. Mr. Hoover nos fará viver, isto

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sim, uma sensação de unidade continental não experimentada nem em 1810, na guerra da independência, porque este herói não é local, mas rigorosamente racial"

(p. 239).

Na América Central, em particular na Costa Rica, o antiimperialismo, no dizer de Flora Eugenia Ovares, aparece em múltiplos ensaios que se afastam progressivamente das concepções arielistas e se encaminham para a indagação da origem e dos efeitos do expansionismo norte-americano. Dentro desta linha, assinala a mesma autora, se inclui boa parte do ensaísmo de Vicente Sáenz, desde

seus escritos iniciais como NorteamericanÍ2ación de Centro América (1925) e Callal de Nicaragua (1929), até as obras da maturidade, como Guián e historia contem­ poránea (1942) e Ce71tro América e7l pie (1944). Por seu lado, outro autor, Mario

Sancho, escreve Viajes y lecturas (1933), bem como vários trabalhos dispersos, publicados no Repertorio Americano. Carmen Lyra inaugura a narrativa antiim­ perialista do tema bananeiro com Bananos e hombres (1931) e publica uma série

de ensaios iotitulada Historias de la U,úted Fruit Company y sus rapacidades (1934).

Na Nicarágua, por esses anos, Sandino está propondo idéias similares quando assinala que os "homens dignos da América Latina devem imitar Bolívar, Hidalgo, San Martín e as crianças mexicanas que em 13 de setembro de 1849 caíram, crivadas de balas ianques, em Chapultepec e antes sucumbiram em defesa da pátria e da raça que aceitar umavida cheia de vergonha a que nos quer submeter o imperialismo ianque". Pelo final dos anos 20, no Equador, José Peralta, provavelmente o maior pensador da época, põe em relevo um novo tema, o da "sorte do Panamá e os perigos que espreitam seu próprio país". Isto o leva a escrever, em 1927, um libelo antiimperialista dos mais vigorosos entre todos os que são publicados no Equador

por esses anos, ao qual intitulou La esc/avitud de América Latina (Roig, 1982: 79).

No Brasil, assim como nos diversos países, foi-se desenvolvendo uma oposição aos Estados Unidos, que teve um de seus pontos mais altos em 1927, em reação à invasão norte-americana da Nicarágua. Afirmou-se, em conseqüência, que as nações ibero-americanas não deveriam permanecer impassíveis e chegou-se a propor uma política de solidariedade neolatina, depois de decretar a falência do pan-americanismo (Capelato, 1989: 37). O movimento dos "tenentes" assumiu uma postura crítica ante o imperialismo, e a discussão sobre o nacionalismo foi acrescentada quando este movimento se bifurcou, dando origem ao "integra­ lismo" direitista e ao "prestismo" de esquerda. Em ambos os casos o nacionalismo se fortaleceu e redundou na defesa do iotervencionismo do Estado (Capelato,

1989: 50-SI).

Em 1933, o colombiano Jorge Eliécer Gaitán postulou a necessidade de "um forte impulso nacionalista". Caracterizava "este nosso nacionalismo" como tendo um "conteúdo diverso daquele das grandes potências". Em tais "países

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estudos históricos e 1 9 9 7 - 2 0 326 fortes, econômica e demograficamente saturados,

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fortes, econômica e demograficamente saturados, a força nacionalista tem um sentido necessariamente centrífugo, conquistador dos demais povos fracos ainda não saturados". No caso latino-americano, "de nossos países débeis", ao contrário, "o nacionalismo é necessariamente defensivo", tem "orientação centrípeta", tendendo a expressar-se sob as fOllnas econômica e psicológica: "a primeira nos defende do abuso imperialista; a segunda, como sucede no México e na Argen­ tina, nos estimula à criação da cultura, da arte, a indústria colombiana" (Gaitan, 1979: 149-150). Na Argentina, o nacionalismo adquiriu um caráter fortemente antiim­ perialista, particularmente antibritânico. Os irmãos Irazusta, Rodolfo em espe­ cial, escreveram que "toda a legislação tende a favorecer o crescimento de capitais aplicados na especulação, ou que se estabelecem mantendo uma dependência estreita do estrangeiro que lhes permite lucros leoninos às custas da produção nacional ou, os homens de negócios são agentes desse capital que suborna legisladores e ministros cuja complacência lhes pemlite espoliar a população deste país" (citado por Buchrucker, 1987: 60). Raúl Scalabrini Ortiz não foi menos radical em suas colocações ao assinalar que "a Europa jamais buscou na América o estabelecimento de uma relação miaI. Foi hostil e cruel, com o autóctone primeiro, depois com o assimilado. A Europa a princípio só quis extrair ouro. Mais tarde, minério. Matéria prima e alimentos agora. Valeu-se antes da força e da compulsão. De habilidade e astúcia financeira se vale atualmente" (Scalabrini Ortiz, s. d. (a): li). De acordo com o que sustenta Scalabrini, o povo argentino foi assolado pelo "capitalismo estrangeiro, cada vez mais ávido", que o foi desalojando de seus redutos, "obrigando-o a trabalhos infrutíferos para si mesmo e, ainda mais, extenuantes e, mais ainda, pessimamente remunerados" (Scalabrini Ortiz, s. d. (b): 33). Sem chegar a elaborar uma teoria econômica acabada, Scalabrini firmou uma série de elementos que faz dele um dos principais teóricos do nacionalismo econômico. Seus estudos, que se centram na atividade inglesa na Argentina, têm por objetivo desmascarar a fOIUla como, em seu modo de ver, foi-se endividando um país em favor do outro, até a proximidade do limite de sua capacidade produtiva, de modo que "cedo ou tarde o credor absorve o devedor". Deste ponto de vista, a estratégia de crédito adotada pela Inglaterra tem por objetivo levar riqueza da Argentina, em vez de aportar-lhe riqueza. O empréstimo é a arma suprema da sujeição internacional (Scenna, 1972: 247). Nesta linha de trabalho, Scalabrini vai antecipando parte do que seria mais tarde a teoria da deterioração nos terlIlOS de troca aplicada pela CEPAL. Assinala que "dada a depreciação da moeda e dos preços, o criador de gado se vê encurralado por suas obrigações. Por um grama de ouro tolIlado emprestado na Inglaterra o criador de gado teria tido, em 1928, de entregar seis quilos de carne. Para saldar esse mesmo grama de ouro tomado em 1928, teria de entregar 23 quilos da melhor

seis quilos de carne. Para saldar esse mesmo grama de ouro tomado em 1928, teria de

o Pcnsamcnto Nacion{/lista na América Latina

carne em 1932. O desequilíbrio equivalia, portanto, a uma quadruplicação das dívidas" (Scalabrini Ortiz, s. d. (b): 29). Com respeito ao tema da indústria, outro dos temas decisivos dos anos posteriores, diz Scalabrini: "O Banco Nacional foi, desde o primeiro momento, um inimigo das indústrias e do comércio locais" (citado por Scena, 1972: 262). Desta reflexão propõe que "os meios de comunicação e os meios de troca formem um sistema genuinamente nacional" pois, "se os meios de comunicação e os meios de troca estão influenciados por vontades alh e ias à vontade nacional, essa coletividade será um anemedo de nação" (citado por Scena, 1972: 257). José Luis Romero assinalou que princípios análogos eram defendidos pelo agrupamento radical FORJA; desde 1936, pela Escuela de Esrudios Argentinos presidida por Adolfo H. Holmberg, que editou a revista Servir (Romero, 1983: 186), e particu­ larmente pelo senador Lisandro de la Torre (p. 187). No caso boliviano, foi observado que o indigenismo apareceu no pen­ samento daquele país ao mesmo tempo que o nacionalismo e o socialismo. Em reação contra o modernismo, que se percebia como tendo buscado para a arte inspirações alheias à realidade boliviana, o indigenismo apareceu como expressão de sinceridade intelecrual e artística, como uma necessidade de aproximar-se das modalidades da vida nacional e dos temas próprios do país. O nacionalismo, por seu lado, aspirando a dar autonomia à nacionalidade e torná-Ia independente de todo tipo de servidão, teria que voltar-se naruralmente para o índio, buscando ali os elementos de diferenciação e de caracterização culrural para o país (Fran­ covich, 1956: 86). A presença do tema do imperialismo vai-se tornando forre o suficiente para levar o conceito a transcender o campo econômico-político. Percebemos isto no texto de Guillermo Francovich Los ídolos de Bacoll, de 1938. Ali se chega a dizer que "é evidente a grande facilidade com que nós, os sul-americanos, nos rendemos aos ídolos europeus que, conquistando os homens a partir de seu interior, perperuam simbolismos intelecruais que implicam, quase sempre, im­ perialismos econômicos ou políticos" (citado por Gómez Martínez, 1985 : 295). Va sconcelos teoriza sobre o nacionalismo, sendo um dos poucos que a ele se referem de maneira explícita. Diferencia o "nosso nacionalismo" de outros dois: daquele que é instrumento de exclusões raciais e de imperialismo político­ econõmico e daquele de tipo localista, como o de que padece a Espanha subdi­ vidida. O nosso nacionalismo deve ser latino-americano pois, "se há de aprofun­ dar as diferenças que separam o argentino do chileno, o mexicano do colombiano, reneguemos desde agora semelhante tipo de nacionalismo". Ao contrário, um nacionalismo continental "nos converte em herdeiros do ideal ecumênico espa­ nhol, que só entre nós poderá cumprir-se" (Vasconcelos, 1937: 88).

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estudos históricos e 1 9 9 7 - 2 0 "Erijamos em dogma", nos diz, "a

"Erijamos em dogma", nos diz, "a unidade racial dos hispanos; às vezes o dogma consolida uma verdade ainda latente. Cuidemos para que, ao crescer assim nosso patriotismo, também se enriqueça com a colaboração das raças que nos ajudaram a civilizar este continente. O não estar fechado, mas aberto, distingue nosso nacionalismo e lhe dá o direito de vencer. Somente será legítimo um nacionalismo tão generoso e vivo que para os estranhos seja libertação, e para nós um crescimento" (Vasconcelos, 1937: 89). Deste modo, faz-se fortemente ético o nacionalismo de Vasconcelos. Vasconcelos convoca ainda para a extinção dos partidos conservadores e liberais, a fim de que tenhamos "um só, grande, partido nacionalista". Dentro de tal partido, comum a todos os ibero-americanos, terão que se definir as tendências de objetivo econômico, sem dúvida inadiáveis, e as reorientações da ordem espirirual Cp. 1 19). Neste sentido, o "nacionalismo renovado" é um bolivarismo que ganhou identidade desde que Alamán "lhe deu conteúdo econômico, as alfândegas, e conteúdo racial-religioso com a culrura espanhola como base" Cp.

35-36).

2. Dois autores importantes

Provavelmente, conrudo, o texto mais importante e explícito a este respeito éEla/ltiimperialismoyelAPRA de Victor Raúl de Haya de la Torre, escrito em 1928, mas publicado em 1935. Na nota preliminar que faz no momento da publicação, o autor sustenta que nossos povos devem se emancipar do imperia­ lismo, qualquer que seja sua bandeira, e que é necessário criar a resistência antiimperialista indo-americana e organizá-Ia politicamente para garantir nossa independência e assegurar nosso progresso. Esta a missão histórica destes vinte povos irmãos CHaya de la Torre, 1935: 21). Assinala mais adiante que o APRA é um partido antiimperialista, com o sentido da nossa realidade social e que visa a agrupar todas as classes ameaçadas pelo imperialismo (p. 48), posto que nossa primeira tarefa política é defender nossa soberania C P . 74). Haya de la Torre coloca um conjunto de questões em relação ao grande tema que vai contribuindo para siruar o problema do imperialismo tal como ele o concebe. Denuncia as doutrinas políticas indo-americanas que "são quase todas de repetição européia, com exceção de um ou outro aliado de independência e realismo" Cp. 110). Insiste nessa precariedade, ou falta de solidez, dizendo que à direita e à esquerda acharemos a mesma falta de espírito criador e vícios muito semelhantes de inadaptação e utópico estrangeirismo. Essa expressão de "colo­ nialismo mental" acarretou um duplo extremismo: o dos representantes das classes dominantes - imperialista, reacionário e fascista - e o dos que, dizendo-se representantes das classes dominadas, adotam uma linguagem revolucionária

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russa que ninguém entende. A estes vícios pretende antepor-se o APRA com sua teoria do Estado antiimperialista (p. 111). A Revolução mexicana é outra das questões que lhe permitem colocar o tema do imperialismo/antiimperialismo. A Revolução mexicana é um experiên­ cia indo-americana que mostra caminhos e revela critérios. Particularmente importante é o tema do Estado antiimperialista, teoria que, de acordo com a postura de Haya de la Torre, se estrutura a partir da experiência mexicana. Isto mostra que a revolução antifeudal e antiimperialista triunfante não pode, tam­ pouco, utilizar o velho aparato do Estado para fazê-lo servir a seus propósitos (p. 116). Deve transformar-se em Estado de defesa que oponha ao sistema capitalista, que determina o imperialismo, um novo sistema de economia cientificamente planejada e um mecanismo como o de um estado de guerra, em que o uso da liberdade econômica deve ser limitado para que não seja exercido em benefício do imperialismo (p. 117). O tema é, então, a nova organização econômica: "organização científica de um sistema cooperativo nacionalizado e adoção de uma estrutura política de democracia funcional baseada na categoria de trabalho" (p. 120). Isto é particu­ larmente importante, pois Haya quer destacar com ênfase que um movimento antiimperialista não supõe uma ação regressiva na ordem econômica, ou um mero espírito lírico movido por um ideal gasoso de liberdade nacional. A luta antiim­ perialista implica a consecução da liberdade como alavanca do progresso (p.

131-132).

O problema da coexistência de tempos históricos diversos, pois na Indo-América sobrevivem os três estados que Engels tomou da divisão de Morgan: selvageria, barbárie e civilização, é outra questão que Haya de la Torre destaca (p. 151). E isto, não apenas em um sentido estritamente cultural, mas também economicamente, pois "dois tipos de economia, duas velocidades, duas intensidades econômicas atuam na vida social indo-americana: aquele que faz parte dos grandes capitalismos, sujeito a um ritmo mais intenso, cuja origem e comando nos é estranho, e o que constitui nosso tempo mais lento e incipiente de desenvolvimento nacional, em consonância com nossa própria linha tradi­ cional de evolução". Isto funciona como tese e antítese que supõem uma "síntese de equilíbrio e liberdade dentro de um plano de nova economia indo-americana, não afastada da evolução econômico-social mundial, mas capaz de deter para sempre a sujeição e a opressão do imperialismo" (p. 163). Alguns anos depois, de uma fOlma diferente, menos direta, ou mais elaborada, outro autor dedicou um extraordinário livro ao tema do imperialismo. Fernando Ortiz, que se ocupou de antropologia criminal, direito penal, sociolo­

gia, etnografia e folclore, publicou em 1940 Contrapumeo

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azlÍcar (Confronto cubano entre o tabaco e o açúcar). Nesta obra, a história

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estudos históricos e 1 9 9 7 - 2 0 cubana, desde a conquista, é considerada

cubana, desde a conquista, é considerada como uma permanente dialética entre o tabaco e o açúcar: ambos dão origem a tensões econômicas e sociais. Segundo Ortiz, as surpreendentes diferenças entre as produções de ambos se refletem na história do povo cubano, desde sua formação étnica até sua organização social, suas peripécias políticas e suas relações internacionais. O tabaco e o açúcar são sistemas viscerais da história de Cuba (Ortiz, 1940: 3). Porque "o tabaco é coisa masculina. Suas folhas são cobertas de pelos, aveludadas, como trabalhadas e obscurecidas ao sol, e sua cor é a da sujeira" (p. 11). "Mas, se o tabaco é varão, o açúcar é feminino. As folhas de suas canas são imberbes e, mesmo quando tostadas ao sol, são sempre claras; todo o processo açucareiro é um contínuo adereço e asseio para limpar o açúcar e alcançar-lhe a alvura. O açúcar sempre foi mais guloseima de mulheres que apetência de homens" (p. 13). Será por isto que "o tabaco é atrevido como uma blasfêmia; o açúcar humilde como uma oração. Devia fumar tabaco o libertino Don Juan, e chupar alfenins a doce monja Dona Inés" (p. 14). O contraste entre ambos reflete uma história marcada pela imigração de brancos e o trato de negros, liberdade e escravidão, artesanato e peonagem, mãos

e braços, homens e máquinas. Do mesmo modo, o tabaco é da cidade e o açúcar

é do campo, o tabaco se abre a todo o mundo pelo mercado, e para o açúcar um único mercado é o mundo. Mais ainda: cubanidade e estrangeirice, soberania e colonialismo, coroa altiva e saco humilde. O açúcar é calma, submissão e modéstia, enquanto o fumo do tabaco espalhou pelo Velho Mundo o hábito de um novo espírito: meditador, critico e rebelde. "O tabaco busca a arte que o açúcar evita" (p. 37). Em 1820 chega a Cuba a máquina a vapor e se inicia uma revolução industrial. A máquina a vapor tudo muda no engenho e triunfa totalmente no processo fabril do açúcar. As tarefas manuais praticamente desaparecem do processo fabril. O maquinismo foi ali de tanta transcendência que provocou a transformação integral da estrutura industrial, territorial, jurídica, política e social da economia açucareira de Cuba. Basta dizer que os principais fenômenos característicos da presente indústria açucareira cubana, como ocorre igualmente, em maior ou menor grau, nas outras Antilhas e como acontece, em parte, em outras indústrias análogas, são as seguintes: maquinismo, latifundismo, colonismo, corporativismo e imperialismo (p. 42-43). Deste modo, Ortiz empalma um dos mais importantes tópicos do pen­ samento da época, ainda que o trate de maneira específica e pessoal. Sustenta que "Cuba não será verdadeiramente independente se não se libertar dessa retorcida serpente da economia colonial" que se "enrosca na palma de nosso escudo republicano, convertendo-a em um símbolo do dólar estrangeiro".

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Mas Ortiz, como antropólogo, quer entender esses processos de uma maneira mais profunda e elabora, com este inruito, um conceito que lhe permita fazê-lo: aparece assim a "transculruração". Segundo ele, a verdadeira história de Cuba é a história de suas intricadíssimas transculturações. Haya de la Torre e Ortiz, em obras muito diferentes por seu estilo, colocam ao menos dois problemas comuns: por um lado, a penetração econômica e, por outro, as peculiaridades da produção peruana ou cubana e, por extensão, de todo o continente. Estes mesmos fenômenos serão postos em relevo por uma escola bastante oposta, em termos p olíticos, aos dois autores resenhados: o nacionalismo católico e integralista. E de se notar, apesar disso, cQmo, à margem de tal diferença, existe um consenso nos dois pontos fundamentais postos em relevo.

3. Nacionalismo, conservadorismo e integralismo

o arielismo se fez carne na intelecrualidade latino-americana e, já em 1910-1915, toda a juvenrude universitária que se interessava pelo destino de seus países e do continente conhecia a obra de Rodó. Anel é provavelmente a obra mais lida pela juvenrude universitária na América Latina em todos os tempos, em termos relativos, obviamente. Este fato produziu variadas interpretações da herança de Rodó, reali­ zadas por pessoas diferentes em contextos distintos. Elas podem ser sintetizadas em dois grupos: as indigenistas e as nacionalistas. As primeiras se fizeram mais sociais e econômicas; nas segundas houve variedade maior - houve um naciona­ lismo de talhe hispanista, que acenruou elementos religiosos ou teológicos abrindo-se mais tarde ao econômico e social, aproximando-se do fascismo; houve outro, particularmente na América Central, que destacava mais o anti-norte­ americano; outro ainda, de caráter leigo, mais esquerdista, que destacou sobre­ rudo a penetração do capital estrangeiro. Estas diversas formas de nacionalismo foram identificadas de maneira muito distinta, particulauuente a primeira, a hispanista, que suscitou mais produção científica em tomo dela e mais polêmica. Foi catalogada como hispa­ nismo (Buchrucker, 1987), conservadorismo (Cristi y Ruiz, s. d.), neo-romanti­ cismo (Tur, 1987), iberismo (Carvalho, 1991). Conforme os países, existiram movimentos políticos culturais próximos deste pensamento: integralistas no Brasil, crisleros no México, nacionalistas na Argentina ou Chile. E um pensamento com raízes claramente católicas, de inspiração francesa, em Charles Maurras ou Marice Barres, e espanhola, em Donoso Cortés ou Vásquez de Mella, que, continuando um certo arielismo, vai se transformar em latinismo espirirual, onde o identitário se extrema em anti modernidade. Diz

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estudos históricos e 1 9 9 7 - 2 0 Carlos M. Tur que "a intelectualidade

Carlos M. Tur que "a intelectualidade neo-romântica foi, no México, decidida­ mente opositora das políticas progressistas da Revolução. Na Argentina, por seu lado, constituíram, entre 1930 e 1943, um segmento menor do poder conservador restaurado e fraudulento, enquanto no Peru impregnaram totalmente a cultura oficial" (Tur, 1987: 128). O mesmo Tur caracteriza esta escola pela "revalorização evocativa dos séculos coloniais como 'nossa idade média'; reivindicação nostál­ gica da conquista espanhola e da evangelização católica; implacável análise condenatória dos partidos liberais do século XIX e das repúblicas oligárquicas posteriores; contundente rechaço às idéias da burguesia moderna, em especial às expressões ideológicas autônomas das classes sociais subordinadas. ConfolUle o tipo de produção cultural, explícita ou implicitamente, o projeto proposto de sociedade realça a santidade e o heroísmo, mostrando perfis antiindividualistas, hierárquicos e corporativos. Estas afirmações se combinam com uma concepção romântica e conservadora da nacionalidade, a apologia da autoridade forte e das 'necessárias' diferenças sociais" (p. 127). Com relação ao caso argentino, José Luis Romero assinalou que "o nacionalismo reconhecia várias raízes ideológicas: o velho autoritarismo alemão, infUtrado no exército através da formação prussiana que primava entre os oficiais; a tradição nacionalista de Maurrice Barres, Charles Maurras, León Daudet e Charles Benoist; o fascismo corporativista de Benito Mussolini; a tradição aristocratizante espanhola. Tudo isso conformava um emaranhado de idéias que, se a princípio pode ter parecido heterogêneo, adquiriu unidade ao longo do tempo" (Romero, 1983: 161). Houve alguns tópicos "nacionalistas" que foram sendo percebidos na Argentina dos anos 20, mas, no dizer de Buchrucker, "o desmoronamento econômico [da crise de 29-30], apareceu em todos os escritos importantes dos revolucionários de setembro [refere-se ao golpe de estado do general Uriburu] e se converteu no catalisador do processo gerador da ideologia nacionalista". Com tudo isto, no que diz respeito ao liberalismo político e cultural, esta parte do velho consenso já estava descreditada para muitos argenti­ nos de 1928 (Romero, 1983: 40). Leopoldo Lugones foi um dos precursores do nacionalismo hispanista na Argentina. Pertencente à geração anterior e originalmente fazendo parte do arielismo, socialista ou anarquista, diz-se dele que: "a guerra européia, a revolução russa, os dias de janeiro [a semana trágica de janeiro de 1919], tudo contribuiu como fato visível e imediato na nova formação mental" (Buchrucker, 1987: 36). Lugones, com uma fOtUlação originalmente evolucionista e darwinista e não pertencente ao âmbito cultural católico, como viriam a ser os nacionalistas mais jovens, afillnou em La Patria Puerte, no contexto de uma conceituação social, que o darwinismo constituía o fundamento último destes pontos de vista. A propriedade define o direito pela vitória

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o Pensamento Nacionalista na América Latina

Para perceber da conexão entre a colocação identitária de 1900 e o nacionalismo hispanista, é interessante conhecer o texto de Carlos Ibarguren, que afirmou que a "geração do pós-guerra repudia o intelectualismo que dominou pelo final do século XIX e que agora é substituído pelo impulso vital. Há uma exaltação dos sentimentos religiosos e patrióticos.

Uma onda espiritualista impregnada de neomisticismo aparece e ecoa na juventude. Todas as construções racionalistas, positivistas, cientificistas, são rechaçadas para dar lugar à concepção bergsoniana de exaltar uma intuição da

vida que deve ser mais vivida que representada, mais atuada que pensada [

] A

ânsia de potência pregada por Nietzsche, que dizer, a energia· que nos leva a estender nossa vida no universo, dominando todas as forças e seres que impedem tal expansão, tal vontade impregna a juventude do pós-guerra" (citado por Buchrucker, 1987: 123-124). Ibarguren utiliza uma série de expressões que vão marcando o sinal característico de seu pensamento e, sobretudo, da sensibilidade que anima este movimento. Expressões corno "a hora do domínio da força", "ideal pujante de ação e energia que começou a incendiar as almas", "arrebatamento combativo", "substituição do intelectualismo pelo impulso vital", "ideais superiores à utili­ dade", "mística nacionalista" e "ânsia de potência que impulsiona a juventude do pós-guerra", vão sinalizando um caminho que tem por norte superar o ideal alberdiano da segunda metade do século XIX que, na realidade, segundo ele, não é "ideal", pois a doutrina de Alberdi "opôs ao ideal nacional fundado no sentido heróico da vida e da pátria, o conceito materialista e burguês do bem estar econômico corno suprema finalidade de urna nação formada por elementos cosmopolitas" (Ibarguren, 1934: 153). Afirma que urna coisa é uma coletividade unida por interesses materiais, outra urna nação, e a "nação é sobretudo um espírito" (p. 149). E interessante corno os tópicos da geração de 1910 aparecem palpáveis, e contudo, se introduz um elemento que sublima esses postulados: a presença de Nietzsche e seu "desejo de potência", que objetiva "dominar todas as forças e seres que impedem a expansão". Esta mosofia, ligada com uma sensibilidade exacer­ bada pela guerra e pela revolução russa, vai gerar um pensamento nacionalista agressIvo.

Curiosamente, tal nacionalismo agressivo vai combinar-se com o tomismo, que se converteu, nas declarações, na mosofia oficial do nacionalismo conservador. "A maioria dos ideólogos do nacionalismo restaurador - Meinvielle, Casares, Escurra Medrano, L1ambias, Villagra - sustenta Cristian Buchrucker, considerava que o realismo tomista havia sempre fOlmado o núcleo intelectual da tradição nacional" (Buchrucker, 1987: 124). A mosofia tomista aproximou mais o nacionalismo do tradicionalismo, assentando-se a idéia de América, deste

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estudos históricos e 1 9 9 7 - 2 0 334 modo, principalmente, no colonial, e

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modo, principalmente, no colonial, e constituindo-se a lenda cor de rosa que pretende rebater a tradição historiográfica liberal, que havia construído lima lenda negra sobre o passado ibérico. Os nacionalistas, que ao atuar como histo­ riadores são "revisionistas", reivindicam o passado colonial como aquele que constitui e caracteriza o que é mais próprio do americano, processo que vai até metade do século XIX, quando se impõe o liberal, o positivista, o racionalista, o saxônico, traindo-se essa antiga tradição. Nesta linha, a figura de Don Juan Manuel de Rosas é a expressão máxima de uma Argentina tradicional, de raiz ibérica, católica, libertária, defensora do território, afirmada na ttna. O naciona­ lismo é revisionismo historiográfico, conservadorismo político, tradicionalismo da sensibilidade e dos costumes. O identitário se veste de tradicionalismo. No Brasil este nacionalismo se desenvolve de fOfma simultânea, anterior inclusive ao que se denominou integralismo ou iberismo. Uma das mais impor­ tantes figuras desta linha é J. Oliveira Vianna, que em 1919 escreveu Populações meridionais, livro que, segundo José Murilo de Carvalho, influencia quase todas as principais obras de sociologia política publicadas posteriormente no Brasil (Carvalho, 1991: 83). Segundo o mesmo Murilo de Carvalho, "vários pontos centrais do pensamento de Oliveira Vianna enraizavam-se na tradição brasileira e não estrangeira. Ele mesmo reconhecia sua dívida com alguns de seus prede­ cessores, particularmente com Alberto Torres e Sílvio Romero. Mas creio que deita raizes intelectuais numa família intelectual que antecede de muito Sílvio Romero e que tem longa descendência. Falo de uma linha de pensamento que começa com Paulino José Soares de Souza, o visconde de Uruguai, passa por Sílvio Romero e Alberto Torres, prossegue com Oliveira Vianna e vai pelo menos até Guerreiro Ramos" (p. 85). A proposta do iberismo é, por um lado, a negação de alguns aspectos centrais do mundo moderno: "da sociedade utilitária indi­ vidualista, da política contratualista, do mercado como ordenador das relações econômicas"; por outro lado, é "um ideal de sociedade fundada na cooperação, na incorporação, no predomínio do interesse coletivo sobre o individual, na regulação das forças sociais em função de um objetivo comunitário" (p. 89). Esta posição mais teórica se hannonizava em Oliveira Vianna com sua inspiração na ruralidade e, sobretudo, na região de Minas Gerais. "A alma mineira seria, segundo ele, feita do 'bom metal antigo, o metal da nossa antiga simplicidade patriarcal'" (p. 92). Oliveira Vianna se coloca a partir da busca do específico, e não das leis gerais. Opõe-se a Spencer, a Darwin, a Ratzel, a Haeckel e inclusive, de certa fonDa, a Sílvio Romero, a Fausto Cardoso e a todos os comtianos brasileiros. De acordo com o que ele mesmo assinala, o caminho mais sábio seria tomar nosso povo como ponto de partida e estudar a gênese e as leis de sua própria evolução, com o fim, ao menos, de "conhecermos a nós mesmos" (Vianna, 1923: 29).

o Pcnsamrmto Nacionalista na América Latina

Durante os anos 30 se consolidava a obra de Plínio Salgado, mais extremo,mais católico, mais conservador que Oliveira Vianna. Seguindo Ricardo Benzaquem de Araújo nos parágrafos que se seguem, pode-se afumar que Plínio Salgado concebia o mundo como uma luta entre materialistas e espiritualistas e que o Brasil de sua época se encontrava dominado pelos primeiros. A concepção materialista da vida que imperava no Brasil se fazia presente através de uma burguesia urbana composta de empresários, banqueiros e intelectuais, assim como, também, por uma elite agrária que tem na figura do caudilho rural (o "coronel") seu principal representante. A burguesia se instalou nas cidades, particularmente nas do litoral, através de cujos portos estabeleceu comércio com o imperialismo, com o capital internacional, ao qual esteve sempre subordinada. Este setor, completamente dissociado de sua pátria, não hesitou jamais em comprometer os interesses nacionais na medida em que fazê-lo pudesse aumentar seus benefícios. Os caudilhos agrários, por seu lado, vão dominar inteiramente o campo, fazendo coro com o controle burguês das cidades. Deste modo, para Salgado, o Brasil deixa de ser uma nação, para transfOIUlar-se em um negócio de amigos. Estes amigos são a expressão do ateísmo e do materialismo. Por outro lado, coexiste um substrato espiritualista que vive, principal­ mente, no interior do país. Trata-se particularmente do "caboclo", gente simples, pobre e honesta em cujo coração o "sentimento de nacionalidade" bate com muito mais vigor. O espiritualismo dos indios tupis vai se fortalecer com o espiritua­ lismo cristão trazido pelos jesuitas e com os rituais africanos. Por outro lado, as dificuldades colocadas pela colonização foram tão grandes que produziram uma acentuação do aspecto espiritual nos diversos grupos (Araújo, 1988: 53). Gerou-se uma igualdade, uma "democracia bárbara", selvagem, democracia racial. O cruzamento das três raças aprofunda e expande nosso caráter nacional espiritualista, na media em que propicia o surgimento de uma raça peculiar, tipicamente brasileira, o "caboclo" (p. 54). Segundo Salgado, o Brasil só foi realmente brasileiro e nacionalista durante a colônia, pois esteve esquecido e separado, de fato, de Portugal. O Brasil viveu uma vida espontânea, bárbara e selvagem. Uma vez sobrevinda a inde­ pendência e o contato mais freqüente com as naçoes da Europa, começou-se a copiar, operação que não se deixaria mais de praticar, durante toda a monarquia e os quarenta anos de república (citado por Araújo, 1988: 58). Os brasileiros se estrangeiraram, totalmente seduzidos pelo materialismo e pelas idéias liberais vindas da Europa (citado por Araújo, 1988: 58). Deu-se início, deste modo, à vida de empréstimos e entrou-se na maiori­ dade já agrilhoados pelos agiotas. O imperialismo inglês, através da burguesia nacional, trouxe o materialismo aos caudilhos. "Os caudilhos e nossa burguesia urbana, 'sócios menores', 'cães de guarda' dos interesses imperialistas, criavam

e nossa burguesia urbana, 'sócios menores', 'cães de guarda' dos interesses imperialistas, criavam 335

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estudos históricos e 1997 - 20 uma civilização que nada tinha a ver com os valores

uma civilização que nada tinha a ver com os valores que haviam definido a 'alma brasileira'. Uma civilização inteiramente baseada na imitação de padrões europeus, copiavam os padrões econômicos com o capitalismo, os padrôes políti­ cos, com o parlamentarismo no império e o federalismo na república, e os padrões culturais com o culto às línguas e aos autores estrangeiros. Nossos letrados conheciam o grego e o latim, a história da língua e os clássicos, de Sófocles a Racine, mas ignoravam completamente a realidade nacional" (Salgado, 1936: 59). Isto posto, este conjunto de elementos negativos se acumulam, se agre­ gam em um círculo vicioso para Salgado. A grande escravidão do capitalismo internacional, a situação deprimente frente ao estrangeiro, o cosmopolitismo que nos "amesquinha", as lutas internas que ensangüentam o país, a propaganda comunista que desprestigia a bandeira, os esforços separatistas que debilitam a nação, a miséria em que vivem as populações sertanejas, o comodismo burguês, entre outros fatores, vão levando, ao fim de tantas tormentas e desesperanças a "essa coisa que os povos adquirem com suor, com sangue, com tragédia: o dom da palavra". O Brasil alcançou esta capacidade, chegou a ter voz, uma voz que se expressa em uma revolução que é "movimento de cultura e espírito" (p. 45-46). O movimento integralista vai promover a defesa dos princípios espiri­ tuais, como a igualdade, a justiça e a piedade (p. 62). "Produzir-se-á uma revolução espiritual. A vitória final da concepção espiritualista da existência acarretará a fundação de uma quarta civilização, inteiramente distinta das três anteriores. A humanidade integralista, caracterizada pela idéia de síntese" (p. 63). O nacionalismo de Plínio Salgado deve ser compreendido em um con­ texto mais amplo, no qual a defesa dos interesses da nação brasileira, fundada em laços de sangue (o caboclo), se hallIlonizava perfeitamente com a construção de uma ordem universal. No Brasil, a especificidade que marcava nossa via em direção à quarta civilização era dada pelo fato de que permanecia latente, enraizado no sangue do povo, todo um substrato espiritualista e democrático que vinha dos tempos coloniais (p. 64). Porém, esta alma estava adOImecida e necessitava de um movimento revolucionário que viesse despertá-Ia, para que a compaixão e a fraternidade passassem a reinar no país. Trata-se de uma restauração do conjunto de princípios que havia comandado o país durante todo o período colonial. Identificando o nacional com o popular, e dando a este o sentido de uma totalidade homogênea, Plinio Salgado vai atribuir grande valor às sociedades organizadas na forma de nação. A quarta civilização representa um verdadeiro recomeço da história, com a vitória total e definitiva da concepção espiritualista da existência (p. 65).

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4. Nacionalismo e revisionismo

Sucessivas mudanças ideológicas, ainda que todas contrárias, no essen­ cial, às posturas positivistas, civilizadoras e liberais do fim do século XIX, vão confluindo em uma releitura da história nacional. Confluindo, e ao mesmo tempo necessitando dela. Assim, o arielismo, em pequena medida, e sobretudo o socialismo, a mestiçofilia, indigenista ou afro, e o nacionalismo se constituem relendo a história do continente e as dos países. Um primeiro elemento que se relaciona com isto é a idéia de termos vivido alienados da realidade, em enganos e ilusões, de havermos realizado lima falsa leitura da realidade e da história. Diz, por exemplo, Olveira Vianna que "há um século estamos sendo como os que fumam ópio. Há um século estamos vivendo em sonhos e ficções, em meio a povos práticos e objetivos. Há um século estamos praticando a política do devaneio e da ilusão" (Vianna, 1923: XXIII). A conclusão, algo macabra, do autor de Populações meridionais é que "os povos que praticam o culto consciente e sistemático da própria ilusão estão condenados a perecer" (p. XXII). Em tal sentido, as ilusões políticas do liberalismo foram reforçadas por uma visão da história que as reforça e consagra. Para Oliveira Vianna a colônia foi muito mais realista e mais profunda, ali se logrou a configu­ ração do Brasil real. Por isto se deve revisar esta versão historiográfica ilusória que mantem o engano. Um segundo elemento é a recuperação da grande história, uma história que não nasce em 1 492, e menos ainda no começo do século XIX, mas que remonta a séculos e milênios. Por isto, por exemplo, para uma posição indi­ genista, a historiografia do século XIX deveria também ser revisada, pois iniciava praticamente todas as histórias nacionais com a chegada dos europeus ou, pior, com a independência, lançando o passado indígena à pré-história, ou melhor, à não-história. O boliviano Federico Avila, que propõe para seu pais a necessidade de uma ideologia pr6pria, adaptada a seu ambiente e a seus costumes, destaca que "mal se inicia a busca de tal 'ideologia própria', se descobre a necessidade de avaliar primeiramente o passado boliviano. Mas este, com um notório desprezo pela realidade, mesmo no pouco que havia sido estudado, se havia 'criado' de acordo com as necessidades político-sociais do momento" (citado por G6mez Martinez, 1988: 200) e em conseqüência, era urgente, para Avila, promover a "revisão integral de nosso passado", pois "os próprios historiadores acreditaram sepultar o passado imediato, ao escrever que nossa história começa com a guerra de independência. Porque o mais é a etapa da escravidão, e esta 'não tem história'. Assim, limitaram o tempo de nossa vida histórica" (citado por Gómez Martinez,

1988: 201).

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Um terceiro elemento, especialmente na Argenúna, é a revisão da histo­ riografia que condenava os caudilhos da primeira metade do século XIX. A releitura do passado permitiu ligar caudilhismo com classes populares e com luta por autonomia nacional. A grande figura, neste sentido, fora Juan Manuel de Rosas, mas não ele apenas, também Facundo Quiroga e outros. Igualmente, no Uruguai, havia-se desterrado Artigas e, no Chile, Diego Portales. Estes persona­ gens apareciam agora como realistas em política, mais próximos da culmra nacional e, por isto, ao menos em alguns aspectos, mais próximos do popular, defensores do nacional frente aos embates das grandes potências, entre outros traços.

5. Teoria t/o nacionalismo e do contincntalismo

a) 7raços ccmnuns

O nacionalismo, como outros tantos momentos ou figuras da história das idéias na América Latina, fo i mais um clima intelecmal que uma tendência, ou escola de pensamento. O nacionalismo, ou o continentalismo, foi-se impondo como um contexto dentro do qual de desenvolviam outras idéias. Deste modo, por cima das posições mais de esquerda ou de direita, mais leigas ou católicas, mais moderadas ou extremas, foi-se coincidindo em determi­ nados postulados nacionalistas, tais como:

- insistência no próprio contra o invasor, sobremdo o anglo-saxão, o germânico ou o russo. O próprio, segundo cada caso, é o indígena autóctone e/ou a tradição ibérica e/ou o campesino;

- a crítica ao modelo político liberal, algumas vezes no campo político e, quase sempre, no econômico;

- a crítica ao liberalismo (como livre-carnbismo), o afã protecionista, o forte sentimento antiimperialista;

- a necessidade de planificar ou organizar, de amar coordenadamente, outorgando um papel mais ou menos explícito ao Estado na defesa do próprio: economia, autonomia, culmra, etc.;

- o antiintervencionismo: a idéia de que a nação e/ou o continente e/ou a cultura e/ou a raça, e/ou a economia (dependendo da ênfase) estão em perigo devido aos esforços avassaladores de um inimigo externo;

- a necessidade de reescrever a história nacional ou

continental.

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o Pensamento Nacionalista na América Latina

Para o caso do nacionalismo conservador argentino, Crisúan Buchrucker assinalou como traços importantes: a crítica ao sufrágio; à democracia, como elemento não próprio do nacional-hispânico, além de levar ao continuísmo por ser um procedimento próprio do século XIX; aos costumes anúcatólicos e, por isto, incompatíveis com o argentino (Buchrucker, 1987: 134-136). Pois bem, estas idéias, que podem ser igualmente válidas para o integra­ lismo brasileiro, para o conservadorismo chileno, ou para o hispanismo peruano, mais que nacionalistas são, simplesmente, mesquinhamente conservadoras.

b) Teorização

.

Este nacionalismo ou, antes, continentalismo, se constituiu teori­ camente recorrendo a um conjunto de elementos, alguns emanados do seio do pensamento latino-americano, como o arielismo e o indigenismo, e outros trazidos de fora: a teoria leninista do imperialismo, o conservantismo francês, as idéias do espaço vital de Ratzel, a decadência do Ocidente de Spengler. Constitui-se deste modo um corpo teórico de ideário nitidamente iden­ titário cuja função principal é a defesa e reivindicação do próprio, como economia principalmente, mas, ainda além, como maneira de ser: no cultural, no político e, inclusive, no geo-étnico. Pensou-se o nacionalismo como reivindicação do ameri­ cano, latino-americano, frente a um mundo velho, ou imperialista que, apoiado em valores falsos ou caducos, cederia lugar a um novo, em que se expressariam as diferenças, as novas culturas, aquelas que haviam sido subordinadas. Por outro lado, houve uma série de idéias filosóficas que contribuíram para este movimento, ou que foram recuperadas para a afirmação de um nacio­ nalismo, ou latino-americanismo. Certas filosofias européias, assinalou Leopoldo Zea seguindo Samuel Ramos, iriam fornecer o instrumental que justificaria a preocupação com uma filosofia do nacional. "Serão importantes, neste senúdo, o pensamento e a obra do filósofo espanhol José Ortega y Gasset, que difundiu na América espanhola correntes da filosofia que iriam dar as bases teóricas para o nacionalismo filosófico. O perspectivismo e o vitalismo filosóficos, derivados dessas correntes filosóficas européias, iriam justificar as orientações que os latino-americanos já vinham dando a seu pensamento" (Zea, 1976: 438-439). Assim, a historicidade da filosofia a que se referia Ortega y Gasset, permitia imaginar uma filosofia latino-americana conseqüente com uma maneira particu­ lar, bem como conseqüente com um desenvolvimento histórico também peculia r. Keyserling, por seu lado, ao ligar o ser humano à terra, motivou um telurismo que também permitia lançar uma literatura, uma arte e um pensamento con­ seqüentes. Em alguns autores, como José Oliveira Vianna ou Plínio Salgado, fun­ dem-se nacionalismo e iberismo. Richard Morse, e Luís Werneck Vianna

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estudos históricos • 1997 - 20 seguindo seus passos, definiram o iberismo, com suas conotações organicistas

seguindo seus passos, definiram o iberismo, com suas conotações organicistas e comunitárias, como uma mentalidade política oposta à matriz do individualismo anglo-saxão. A opção ibérica enfatizaria um ideal de justiça e vontade geral como instrUmento político de constrUção de identidade e de emancipação, enquanto, simultaneamente, apresentaria o processo modernizador como ameaça à identi­ dade básica (Vianna, L. w., 1991: 146-147). O iberismo como oposição ao saxottismo se constituiu em herança do arielismo (espiritualista, antipragmático) e do conservadorismo (antimodernista, antiurbano, antitecnológico). Reivindi­ cou, em conseqüência, o identitário, mas identificando-o prioritariamente com o campesino arcaico, com o tradicional aristocrático, com o católico europeu, muito mais que com o indígena americano. O iberismo se identifica parcialmente com um certo misticismo ou espiritualismo que atribui à nação um conteúdo que transcende em muito o contratualismo, assemelhando-a a uma comunidade com sentimentos e ideais comuns. Embora este iberismo seja tradicionalismo para autores franceses ou alemães, nada ibéricos, vários deles reivindicaram idéias similares. O argentino Ibarguren é particulrumente enfático neste ponto, ao contrapor à "concepção materialista de pátria que predominou no mundo político e financeiro" de antes da Primeira Guerra Mundial "a concepção idea­ lista", na qual "a pátria, mais que um corpo, é uma alma que persegue os ideais de 11m povo". Conclui que, conseqüentemente, "este renascimento espiritual do patriotismo é o renascimento do idealismo coincidente" (Ibarguren, 1934: 33). Por esta via, não apenas se irá rechaçar o liberalismo e o tecnológico por serem questões artificiais, mas, e mais forte ainda, por serem sinais de uma decadência da qual é preciso escapar para voltar à origem pura e profunda.

c) Modelos econômicos

,

E em consonância com o clima intelectual que acabamos de descrever que se procura pensar a economia do continente: por um lado, sua defesa, que é a defesa do próprio frente à invasão e à dominação que pretende exercer o imperialismo saxônico e/ou tecnológico e/ou decadente; por outro, a busca de modelos econômicos coerentes com uma história e cultura peculiares. Em outras palavras, o modelo econômico predominante nos países, aquele em que o impe­ rialismo quer imiscuir-se, e quer modificar em seu benefício, foi questionado, sendo propostas várias alternativas. Tais alternativas vieram de uma matriz socialista pensada à maneira soviética; vieram igualmente de outras vertentes do socialismo, assim como houve quem quisesse afirtnar o tecnológico como solução para uma economia feudal. Tais alternativas, porém, não foram as únicas. Mais interessante, deste nosso ponto de vista, são aquelas que pretendem afirmar-se a partir de uma análise da realidade latino-americana. Exemplo disto é o que tentou o indigenismo (Devés Valdés, 1997), procurando articular os postulados socia-

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o Pellsamento Naciollalista na América Latina

listas como uma leitura da economia incaica. Outro exemplo é a proposta de uma alternativa de pequena propriedade (refolllla agrária) para as grandes pro­ priedades que se iam estabelecendo com formas de trabalho e propriedade norte-americanas. Um terceiro exemplo é a reivindicação de relações humanas baseadas, não no estritamente comercial e contratual, mas em laços mais afetivos, vindo, sobretudo, do tradicionalismo que se opunha à democracia (ou a certa democracia) e à economia monetarista. Um quarto exemplo é a redefrnição do papel do Estado em sociedades ou economias diferentes (e antagônicas) das dos países fortes, lugares onde o Estado deveria assumir um papel defensor, coorde­ nador ou impulsionador de determinados aspectos do processo econômico.

d) Projeções

O nacionalismo, ou o continentalismo, elaborou uma série de reflexões teóricas e propostas de política econômica, social e cultural conseqüentes. Algu­ mas dessas reflexões irão sustentar as visões da CEPAL, do industrialismo e das teorias de desenvolvimento das décadas posteriores, ainda que se mude o pólo de gravitação do identitário para o modernizador. Uma questão chave que caracterizou o nacionalismo que floresceu nas décadas de 30 e 40 é que ele não chegou a se constituir em teoria do desen­ volvimento. Elaborou uma série de categorias, ou contribuiu para sua elaboração, que apontavam nesta direção, mas não alcançou tal status. Foi mais uma proposta de defesa que de construção econômica. Pode-se assinalar, inclusive, que o nacionalismo foi mais construtivo no campo cultural que no econômico. Aí sim, representou uma alternativa, gerou uma criatividade importante associando-se ao indigenismo e ao afro-americanismo. Outro aspecto em que o nacionalismo contribuiu para constituição do futuro, especialmente o de raiz católica, foi a medida em que articulou o que é cristão com os problemas sócio-econômicos. Deu início, deste modo, ao social­ cristianismo que, inicialmente inspirado em idéias como a crise da sociedade contemporânea, como a necessidade de restaurar os valores, a caridade com os pobres etc., foi-se direcionando, especialmente no Chile e, logo, na Venezuela e outros países, para as teorias do desenvolvimento. Isto foi possível quando seu doutrinarismo ideologizado se modificou ao impregnar-se com fatores mais técnicos e pragmáticos oriundos das teorias econômicas e sociais, especialmente do cepalismo. Este mesmo cepalismo acolheu, inclusive sem se aperceber disso, uma série de idéias em torno do industrialismo, ou da deterioração nos telmos de troca, que foram elaboradas em um contexto do pensamento nacionalista-conti­ nentalista. Idéias de Scalabrini, Ortíz, de Vasconcelos, ou dos illuãos Irazusta, vão nesta direção. O mexicano, pouco depois da crise econômica mundial,

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estudos históricos e 1997 - 20 assinalou, em meados da década de 3 0 , q

assinalou, em meados da década de 30, que "o decoro está hoje em não pagar [as dívidas com países como a Inglaterral. Pois pagar sem condições equivale a embarcar em um navio que naufraga e é ignorar deliberadamente a má partida que nos estão fazendo jogar os credores. Não baixou a qualidade do nosso trigo, nem do açúcar, nem do algodão, mas, contudo, nossos bons e leais produtos nos são pagos com uma moeda arbitrária e desleal" (Vasconcelos, 1937: 200-201). O grupo conduzido pelos irmãos l!:azusta, por seu lado, pleiteava em 1942, entre outras coisas, "o fomento às indústrias necessárias à nossa autonomia econômica, principalmente as indispensáveis à defesa nacional e as que utilizem matéria prima do país" (citado por Buchrucker, 1987: 158). Quando essas medidas, e outras, passam a ser ' fundamentadas mais no crescimento econômico que na defesa da autonomia etc., elas podem sustentar e constituir-se em uma teoria do desenvolvimento.

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