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TÍTULO: COMUNIDADE QUILOMBOLA DO MARACUJÁ, CONCEIÇÃO DO

COITÉ-BA; O PAPEL DA MEMÓRIA NA REINVENÇÃO DA IDENTIDADE E


TERRITORIALIDADE NEGRA

ANA CLÁUDIA DO CARMO CEDRAZ1


Mestranda do PPGEAFIN-UNEB
claudiacedraz2009@hotmail.com

Resumo: No Brasil colônia, os quilombos, tidos como núcleos paralelos de poder, organização social e
produção de subsistência, foram considerados a expressão máxima de ruptura com o sistema
escravista. Os anos de escravidão refletiram e continuam a refletir de forma veemente na realidade
social e econômica da sociedade brasileira. Atualmente, após a determinação estatal de
reconhecimento da propriedade e titulação das terras aos remanescentes quilombolas, mais
precisamente em março de 2004, o governo, criou o Programa Brasil Quilombola. O presente artigo
tem como objetivo discorrer sobre as Comunidades “ditas” Quilombolas e o papel da memória na
reinvenção da identidade e territorialidade negra na Bahia, a partir da análise da Comunidade
Quilombola do Maracujá no município de Conceição do Coité- BA. Para este trabalho foram feitas
visitação in lócus, entrevista com os moradores da comunidade citada e revisão bibliográfica de
autores que discutem questões relacionadas a identidade e a memória destas comunidades. O
percurso escolhido para essa análise, levará em conta uma breve contextualização sobre como os
quilombos surgem na experiência brasileira, sua trajetória, experiências sociais e dinâmicas sócio-
organizativas presentes na contemporaneidade e a construção da identidade das comunidades
quilombolas na Bahia mais especificamente na Comunidade do Maracujá.

Palavras chaves: Quilombos; identidade; memória.

Abstract: In colony Brazil, quilombos, considered as parallel nuclei of power, social organization and
subsistence production, were considered the maximum expression of rupture with the slave system.
The years of slavery reflected and continue to reflect vehemently on the social and economic reality
of Brazilian society. Currently, following the state determination of land ownership and title to the
remaining quilombolas, more precisely in March 2004, the government created the Brazil Quilombola
Program. This article aims to discuss the so-called Quilombola Communities and the role of memory in
the reinvention of black identity and territoriality in Bahia, based on the analysis of the Quilombola
Maracujá Community in the municipality of Conceição do Coité-BA. For this work were made in locus
visitation, interview with the residents of the cited community and bibliographical review of authors
who discuss issues related to the identity and memory of these communities. The path chosen for this
analysis will take into account a brief contextualization of how quilombos emerge in the Brazilian
experience, their trajectory, social experiences and socio-organizational dynamics present in
contemporary times and the construction of the identity of quilombola communities in Bahia more
specifically in the Maracujá Community.

1
Graduada em Geografia, especialista em Gestão e Educação Ambiental, mestranda do Programa de Pós-
graduação em Estudos Africanos, Povos Indígenas e Culturas Negras (PPGEAFIN) - UNEB, campus I. Professora
da rede estadual da Bahia e da rede municipal de Valente.

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Keywords: Quilombos; identity; memory.

INTRODUÇÃO
No Brasil colônia, os quilombos, tidos como núcleos paralelos de poder, organização
social e produção de subsistência, foram considerados a expressão máxima de ruptura com o
sistema escravista. Os anos de escravidão refletiram e continuam a refletir de forma veemente
na realidade social e econômica da sociedade brasileira. “Os mais de trezentos anos de práticas
exploratórias colonialistas imbuíram na memória social brasileira traços e costumes próprios
de nossa identidade" (Souza, 2008).
Atualmente, as comunidades “ditas” quilombolas tentam ampliar e ressignificar o
conceito de quilombo, para os movimentos sociais é necessário levar em conta a diversidade de
grupos sociais que foram historicamente prejudicados pelo regime escravista que vitimou a
população negra que aqui chegou e os nascidos em nosso país. Para Almeida 2004,

em razão das mobilizações sociais, a expressão “terras tradicionalmente ocupadas”


vem ampliando seu significado e abrangendo todos os tipos de territorialidades
específicas e etnicamente construídas que expressam uma diversidade de formas de
existência coletiva dos diferentes grupos sociais em suas relações com os recursos
naturais. No entanto, esses dispositivos legais são marcados por dificuldades de
efetivação, já que rompem com a invisibilidade social que, historicamente,
caracterizou as formas de apropriação de uso comum e impelem para transformações
na estrutura agrária brasileira (Almeida, 2004).

Assim sendo, o decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003 regulamenta o


procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das
terras ocupadas por remanescentes das comunidades quilombolas de que trata o art. 68 do Ato
das Disposições Constitucionais Transitórias. No artigo 2º, consideram-se remanescentes das
comunidades dos quilombos, para os fins deste Decreto, os grupos étnico-raciais, segundo
critérios de auto atribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais
específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão
histórica sofrida.
Após intensa mobilização de alguns grupos sociais, os quilombos ganham um novo
significado e não se refere apenas a ocupação de áreas de insurreição, mas a comunidades de
segmentos negros que desenvolveram práticas de resistência coletiva, como a resistência
cultural.
Após a determinação estatal de reconhecimento da propriedade e titulação das terras
aos remanescentes quilombolas, mais precisamente em março de 2004, o governo, criou o

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Programa Brasil Quilombola – PBQ. 2
A criação deste programa fortaleceu a luta das
comunidades que há muito tempo luta pelo reconhecimento de seus territórios.
O percurso escolhido para essa análise, levou em conta uma breve contextualização
sobre como os quilombos surgem na experiência brasileira, sua trajetória, experiências sociais
e dinâmicas sócio organizativas presentes na contemporaneidade e a construção da identidade
das comunidades quilombolas na Bahia. Essa análise levou em conta também alguns dos
marcos regulatórios existentes sobre a questão, como o Decreto 4.887 de 2003, que regulamenta
os procedimentos necessários para a implementação do art. 68 do Ato das Disposições
Constitucionais Transitórias (ADCT), além da análise dos documentos de certificação da
Comunidade Quilombola do Maracujá, localizada no município de Conceição do Coité, Bahia,
bem como os discursos produzidos por seus sujeitos.
O objetivo deste trabalho foi analisar o papel da memória na reinvenção da identidade
e territorialidade negra na comunidade quilombola do Maracujá, Conceição do Coité-Ba e
avaliar como essa identidade é “des”construída no seio das comunidades “ditas” quilombolas.
Segundo Hall 2006, o sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade
unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias
identidades, algumas vezes contraditórias ou não resolvidas. Portanto, analisar a/as identidade/s
da comunidade quilombola do Maracujá é uma tarefa que exige do pesquisador um mergulho
no cotidiano desta comunidade.
O estudo da comunidade quilombola do Maracujá é de fundamental importância, por
fornecer uma visibilidade histórica ao município de Conceição do Coité- BA, como recorte
espacial de identidade e por ser uma das poucas do Território do Sisal e a primeira a ser
certificada pela Fundação Cultural Palmares.

Territórios quilombolas; do Brasil colônia a contemporaneidade.


No Brasil, a expressão quilombo, mocambo ou terra de pretos, foi utilizada no período
colonial para designar a junção de negros que fugiam de fazendas, escapando das capturas do
capitão do mato (REIS,1996). Assim, a palavra quilombo está diretamente relacionada a núcleo

2
O Programa Brasil Quilombola visa, dentre outras coisas, garantir o acesso à terra; promover saúde, educação,
habitação; facilitar o acesso dessas comunidades aos programas sociais do governo federal; preservação da cultura
quilombola; desenvolvimento econômico, social, etc. Os exemplos de políticas públicas desenvolvidas pelo PBQ,
são as certificações, as regularizações fundiárias e os programas Bolsa Família, Luz para Todos, Saúde da Família,
dentre outros.

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de escravos fugitivos que procuravam abrigo em locais de difícil acesso para neles construírem
padrões africanos de organização social. Para Fiabani,

As fugas alimentaram o fenômeno quilombola durante todo o período escravista. O


excesso de trabalho, os castigos e maus-tratos, e o trabalho excedente, forçava os
trabalhadores escravizados ao abandono do eito, fugindo para as matas em
desesperada defesa da própria existência biológica (FIABANI, 2005).

No período colonial, as fugas e as rebeliões eram constantes, pois era o jeito que os
africanos escravizados encontravam para se rebelarem contra o sistema escravocrata. Para
Fiabani (2005) “não se tem notícias exatas das primeiras formações de quilombos, mas há
registros de quilombos desde o período colonial, prosseguindo ao longo do tempo”. Destacamos
assim, que o processo de formação dos quilombos e a luta dos negros e negras por uma vida
mais justa sempre fizeram parte da história deste país. Ao longo dos séculos, o aparecimento
das comunidades quilombolas atravessou o tempo e resistiu às condições que os senhores de
escravos os impuseram.

Desde a promulgação da Lei de Terras, a Lei 601 de 1850, que os africanos e seus
descendentes são excluídos da condição de brasileiros e situados na condição de “libertos”, ao
mesmo tempo em que institui a propriedade sobre a terra por meio da compra, como única
condição para obtê-la. Até então, os negros atingidos por todos os tipos de racismo sofreram
diversas pressões, sendo muitas vezes, expulsos das terras nas quais construíram seus modos
de criar, fazer e viver, ainda que a terra tenha sido comprada ou herdada e que se tenham
documentos que comprovem esse procedimento legal. Como afirma Leite (2003), “decorre daí
que, para eles, o simples fato de apropriação do espaço para viver passou a significar um ato de
luta, de guerra”.

É importante ressaltar a importância do território como condição essencial para a


construção da identidade coletiva das comunidades quilombolas, pois é aí que se desenvolvem
as relações cotidianas, as vivencias e os registros do passado e do presente. Para o geógrafo
Rafael dos Anjos,

O território é uma condição essencial porque define o grupo humano que o ocupa e
justifica sua localização em determinado espaço”. Portanto, a terra, o terreiro, não
significam apenas uma dimensão física, “mas antes de tudo é um espaço comum,
ancestral, de todos que têm o registro da história, da experiência pessoal e coletiva do
seu povo, enfim, uma instância do trabalho concreto e das vivencias do passado e do
presente” (ANJOS, 2006).

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Atualmente existe um longo debate acerca dos termos quilombos ou comunidades
quilombolas. Para a antropóloga Ilka B. Leite, “a ressemantização do termo quilombo veio a
traduzir os princípios de igualdade e cidadania negados aos afrodescendentes”. Portanto, o
quilombo passava a ser interpretado “como direito à terra, enquanto suporte de residência e
sustentabilidade, há muito almejadas, nas diversas unidades de agregação das famílias e núcleos
populacionais compostos majoritariamente, mas não exclusivamente de afrodescendentes” (Cf.
NUER, 2006). Segundo Fiabani,

Optou-se, portanto, pela ressignificação do termo quilombo. Para melhor


entendimento da questão, optamos por chamar todas as comunidades rurais negras
atuais de “quilombos contemporâneos”, o que permite diferenciá-las das comunidades
“remanescentes de quilombo”, originadas efetivamente em antigos “quilombos”.
Assim, preservamos a rica história de resistência dos trabalhadores escravizados que
construíram o “quilombo histórico” (FIABANI, 2005).

O conceito de Comunidades Quilombolas a qual queremos discutir no presente


trabalho refere-se as comunidades formadas predominantemente por negros e que ocupam
terras na área rural. Estas comunidades, foram reconhecidas segundo o decreto nº 4.887, de 20
de novembro de 2003 que tem como critério para o reconhecimento a auto atribuição de sua
população como remanescentes de quilombos. São muitas, as possíveis origens das chamadas
comunidades quilombolas. Para Gusmão,

A territorialização dos espaços negros envolve muitas origens possíveis das chamadas
Terras de Preto, permitindo mediante elas, a representação que se tem e que se faz da
realidade de grupo e da realidade da terra. Muitas terras foram doadas por antigos
senhores a escravos fiéis; outras resultam de terras doadas a santos, Terras de Santo,
nas quais negros libertos se estabeleceram, muitos agrupamentos, comunidades, vilas,
bairros, como hoje são chamados resultam da ocupação das áreas devolutas logo após
a Abolição ou foram terras compradas por antigos escravos que aí constituíram
famílias e organizaram um modo de vida camponês. (GUSMÃO, 1996).

Atualmente, com 736 comunidades certificadas pela Fundação Cultural Palmares, a


Bahia está no topo do ranking dos estados brasileiros com localidades reconhecidas como de
descendentes de quilombolas.

Segundo o site da Fundação Cultural Palmares em algumas regiões do país, as


comunidades quilombolas, mesmo aquelas já certificadas, são conhecidas e se autodefinem de
outras maneiras: como terras de preto, terras de santo, comunidade negra rural ou, ainda, pelo
nome da própria comunidade. De todo modo, temos que comunidade remanescente de
quilombo é um conceito político-jurídico que tenta dar conta de uma realidade extremamente
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complexa e diversa, que implica na valorização de nossa memória e no reconhecimento da
dívida histórica e presente que o Estado brasileiro tem com a população negra.
A situação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas na Bahia e no território de
Identidade do sisal apresenta-se diversa em relação a situação fundiária. Muitas comunidades
receberam nas últimas décadas a certificação da Fundação Palmares, no entanto a maioria destas
comunidades não conseguiram superar a situação de pobreza que assola a maioria das
comunidades negras do país.

O Papel da Memória na Reinvenção da Identidade e Territorialidade Quilombola

As comunidades quilombolas contemporâneas são o resultado da luta de movimentos


sociais negros e refere-se as comunidades formadas predominantemente por negros e foram
reconhecidas segundo o decreto nº 4.8873. São muitas, as possíveis origens das chamadas
comunidades quilombolas e não estão necessariamente relacionadas a fuga de escravos, como
os quilombos do Brasil colonial.

Assim, o processo de formação do território quilombola constitui-se muitas vezes, na


luta para continuar a existir, na reinvenção de uma identidade política portadora de direitos que
é informada por uma memória ancestral. A memória, neste sentido, tem grande importância,
visto que em geral se tratam de comunidades iletradas, de forte tradição oral e que encontram
na reinvenção de suas identidades uma oportunidade de reconstrução historiográfica. Para Le
Goff (1990, p 535)

A memória coletiva e a sua forma científica, a história, aplicam-se a dois tipos de


materiais: os documentos e os monumentos. De fato, o que sobrevive não é o conjunto
daquilo que existiu no passado, mas uma escolha efetuada quer pelas forças que
operam no desenvolvimento temporal do mundo e da humanidade, quer pelos que se
dedicam à ciência do passado e do tempo que passa, os historiadores. Estes materiais
da memória podem apresentar-se sob duas formas principais: os monumentos, herança
do passado, e os documentos, escolha do historiador. ( LE GOFF, 1990. p. 535)

A discussão encetada por Le Goff nos permite entender que a memória coletiva
possibilita o entendimento da história uma vez que nem todas as comunidades quilombolas tem
documentos escritos, para facilitar o trabalho do historiador, desta forma outras fontes devem
ser consideradas. “O monumento tem como características o ligar-se ao poder de perpetuação,

3
Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003, regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento,
delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos de
que trata o art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.
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voluntária ou involuntária, das sociedades históricas (é um legado à memória coletiva) e o
reenviar a testemunhos que só numa parcela mínima são testemunhos escritos” (LE GOFF,
1990 p. 536). A memória neste sentido é o fio condutor que nos leva à instituição de um
território e à invenção de uma identidade, a de quilombola.
As territorialidades são instituídas por sujeitos históricos em situações socialmente
determinadas. Os territórios quilombolas existem por que em um determinado momento um
grupo se posicionou aproveitando um conjunto de forças políticas favoráveis e instituiu um
direito que fez multiplicar os sujeitos sociais e as disputas territoriais.
Territorializar-se significa ter poder e autonomia para estabelecer determinado modo
de vida em um espaço, dando continuidade à reprodução material e simbólica deste modo de
vida.
Portanto, esta pesquisa parte dos relatos orais, ou seja, da memória, da população
quilombola, para entender as relações existentes entre memória, território e identidade
quilombola, na manutenção dos direitos destas populações. Além da memória, este trabalho
também contou com análise dos documentos de certificação e reconhecimento da Comunidade
Quilombola do Maracujá em Conceição do Coité e coleta de dados nas Organizações Não
Governamentais e nos órgãos oficiais.

Tomaremos para este estudo o conceito de identidade cultural na pós modernidade,


usado por Stuart Hall. Para ele, “o sujeito pós-moderno concebe a pessoa como um ser sem
uma identidade estável”. Na medida em que as sociedades e suas estruturas são transmutadas
pela revolução social que vivemos, as identidades também mudam e se adaptam, no processo
de busca por coerência e unidade do indivíduo quando em dissonância cognitiva com a
sociedade. Não existe um ‘eu’ coerente, de tal modo que nossas identificações estão sendo
continuamente deslocadas. Segundo Hall, (2006.P.24)

a conceptualização do sujeito moderno mudou em três pontos estratégicos durante a


modernidade. Essas mudanças sublinham a afirmação básica de que as
conceptualizações do sujeito mudam e, portanto, têm uma história. Uma vez que o
sujeito moderno emergiu num momento particular (seu “nascimento”) e tem uma
história, segue-se que ele também pode mudar e, de fato, sob certas circunstâncias,
podemos mesmo contemplar sua “morte”( HALL, 2006.p.24)

Para compreendermos como ocorre a construção da identidade na comunidade


quilombola do Maracujá em Conceição do Coité bem como a construção da identidade das
comunidades quilombolas na Bahia foi relevante analisar os aspectos de nossas identidades que
surgem de nosso “pertencimento” as culturas étnicas, raciais, linguísticas, religiosas e, acima
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de tudo, nacionais. Para isso, o papel da memória tem uma grande importância para a construção
deste artigo.

A comunidade quilombola do Maracujá: Territorialidade, Memória e Identidade


A comunidade quilombola do Maracujá em Conceição do Coité, município localizado
no território de identidade do sisal a 217 km de Salvador-BA, recebeu seu certificado de
reconhecimento no dia 04 de junho de 2014, junto com o Governo Federal e o Ministério da
Cultura diante a responsabilidade da Fundação Cultural Palmares, reconhecida como
comunidade quilombola.

A certificação da comunidade é resultado da luta de movimentos sociais que buscavam


o reconhecimento e os benefícios assegurados as comunidades “ditas” quilombolas, como
melhorias nas áreas de moradia, saúde e educação, programas como; Minha Casa Minha Vida
Rural, o Luz para Todos, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar
(Pronaf) e o Programa de Bolsa Permanência.

A construção do território quilombola ocorre da interação entre o presente e o passado. O


espaço é organizado socialmente, com formas e funções definidas historicamente, pois está diretamente
ligada a relação de moradia do homem no lugar e que o mesmo está sempre se reorganizando através
das mudanças que ocorrem num determinado espaço. Para Milton Santos “as relações se dão através de
funções e formas, correlacionando com a questão do tempo passado, presente e as transformações que
podem ocorrer na dinâmica no espaço” (SANTOS 1978.).

A comunidade do Maracujá reflete uma realidade de luta que é problematizada desde o


passado, no contexto presente está diretamente ligado à vivência dos moradores que residem no local,
envolvendo as questões sociais, culturais e políticas. Santos traz uma abordagem no conceito de espaço
na qual retrata:

O espaço deve ser considerado como uma totalidade, a exemplo da própria sociedade
que lhe dá vida (...) o espaço deve ser considerado como um conjunto de funções e
formas que se apresentam por processos do passado e do presente (...) o espaço se
define como um conjunto de formas representativas de relações sociais do passado e
do presente e por uma estrutura representada por relações sociais que se manifestam
através de processos e funções (SANTOS, 1978, p. 122)

Segundo entrevistas feitas com algumas pessoas da comunidade e principalmente com


um dos casais mais antigos que residem na localidade, dona Edite conhecida como Merquida e
Senhor Rafael, a comunidade recebeu este nome devido à grande quantidade de maracujás,
conhecidas como “maracujás de boi” que havia no local.
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Ao serem questionados sobre as principais atividades econômicas desenvolvidas na
comunidade, os moradores pontuaram que a maior parte das pessoas sobrevivem da agricultura
familiar, a cultura do sisal e a criação de animais de pequeno porte.

A história dos moradores do Maracujá imprime uma realidade que é vista em diversos
contextos na Bahia. A população é predominantemente negra, de baixo poder aquisitivo, baixo
índice de escolaridade e que precisa dos programas do governo federal para auxiliar no sustento
das famílias.

Quando questionados sobre o reconhecimento da comunidade como quilombola,


alguns moradores consideram o fato como algo muito importante para a afirmação da
identidade desta comunidade, acreditam que desta forma os moradores podem se unir para lutar
por melhores condições de vida e pela manutenção de suas práticas culturais. Alegam ainda que
após o reconhecimento, os moradores tiveram mais acesso aos programas do Governo Federal.
Uma pequena parcela dos moradores considera que o reconhecimento é só manobra política e
que de nada contribui no cotidiano das pessoas.

Com relação as manifestações culturais presentes na comunidade, os moradores


relataram que o samba de roda4 era a festa mais comum entre eles, e que os mais velhos se
divertiam muito nos sambas. Afirmaram ainda que os jovens da comunidade não se interessam
mais com estas manifestações culturais e por conta disso os grupos de samba de roda estão
ficando cada vez menores. Ao rememorar algum acontecimento em grupo, “podemos
reconstruir um conjunto de lembranças de maneira a reconhecê-lo porque eles concordam no
essencial, apesar de certas divergências” (Halbwachs, 1990, p.29).
A maior parte dos moradores se declararam católicos e ao serem questionados a respeito
das religiões de terreiro5, os moradores logo tentaram descartar esta possibilidade afirmando
que esta prática não era mais manifestada na comunidade. Contudo, uma das moradoras que
pediu para não ser identificada nos mostrou o oratório da sua mãe, onde ficou evidente o
sincretismo religioso. Neste pequeno espaço é possível registrar a presença de santos católicos

4
O samba de roda é uma forma de preservação da cultura dos negros africanos escravizados no Brasil. A influência
portuguesa fica por conta da introdução da viola e do pandeiro. Acompanhado por atabaques, ganzá, reco-reco,
viola e violão, o solista entoa cantigas, seguido em coro pelo grupo a dançar. Ligado ao culto de orixás e caboclos,
à capoeira e às comidas à base de dendê, o samba de roda teve início por volta de 1860.
5
São os chamados Templos afro-brasileiros, os Terreiros, Roças, Sítios, Casas de Candomblé, Batuque e Tendas
ou Centros de Umbanda e outros nomes utilizados pela maioria das religiões afro-brasileiras.

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e entidades das religiões de terreiros no verdadeiro ato de fé sincrética que é uma característica
marcante do povo brasileiro.

Analisando as falas e o comportamento dos moradores frente aos questionamentos


sobre as religiões de terreiro podemos perceber que muitos rituais ainda são praticados no
cotidiano da comunidade, no entanto este assunto causa um certo desconforto nos entrevistados.
Este desconforto talvez seja reflexo do preconceito que é dirigido aos praticantes das religiões
afro-brasileiras e que foi reforçado com a chegada dos pentecostais6 no interior da Bahia.

Ao relembrar como era o dia a dia da comunidade, o trabalho, as comemorações e os


festejos religiosos, os moradores buscam através da memória coletiva ressignificar tais
acontecimentos na tentativa de fortalecer os laços entre os seus ancestrais e as gerações mais
novas da comunidade. Cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva.
A cada instante refazemos nossas lembranças, a todo tempo inserimos novos elementos, nos
deslocamos espacialmente, conhecemos novas pessoas. Para Halbwachs,

A memória (entendida neste sentido) não tem alcance sobre os estados passados e não
nô-los restitui em sua realidade de outrora senão em razão de que ela não os confunde
entre si, nem com outros mais antigos ou mais recentes, isto é, ela toma seu ponto de
apoio nas diferenças. ( HALBWACHS, 1990, p.96).

A invenção de identidades político-cultural é recorrente, ela acontece sempre que


determinado grupo põe-se em movimento para reivindicar o que lhe é essencial. No caso das
comunidades quilombolas, o território. O território foi considerado antes de tudo, um espaço de
referência para a construção da identidade quilombola, pois é físico-material, é político, é
econômico e é também simbólico. Para Gonçalves, (2003, p. 379)

A construção de uma identidade coletiva é possível não só devido às condições sociais


de vida semelhantes, mas também por serem percebidas como interessantes e, por
isso, é uma construção e não uma inevitabilidade histórica ou natural. E, mais, na
afirmação dessa identidade coletiva há uma luta intensa por afirmar os „modos de
percepção legítima‟ da (di)visão social, da (di)visão do espaço, da (di)visão do tempo
da divisão da natureza ( GONÇALVES, 2003, p. 379).

Assim, a memória foi essencial para esta pesquisa, pois as lembranças e as


experiências individuais e coletivas transmitidas e partilhadas oralmente pelos moradores da

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O pentecostalismo é um movimento de renovação de dentro do cristianismo que dá ênfase especial numa
experiência direta e pessoal de Deus através do Batismo no Espírito Santo. O termo pentecostal é derivado de
Pentecostes, um termo grego que descreve a festa judaica das semanas. Para os cristãos, este evento comemora a
descida do Espírito Santo sobre os seguidores de Jesus Cristo. Exemplos de igrejas pentecostais; Igreja Assembleia
de Deus, Igreja Metodista Wesleyana, Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja Evangélica O Brasil Para Cristo,
Igreja Pentecostal Deus é Amor, Congregação Cristã do Brasil.
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Comunidade do Maracujá devem ser entendidas como documentos históricos de igual valor aos
documentos escritos, pois possibilitam outras versões sobre nossa história, que especificamente
no caso das populações negras foram sempre associadas a escravidão. Quando narrada pelos
protagonistas da história ou por seus descendentes a narrativa ganha um outro significado e
contribui para a desconstrução de estereotipias e representações criadas em torno da população
afro-brasileira.

Considerações finais
No Brasil colônia, os quilombos foram construídos como unidade de resistência ao
regime escravista e está diretamente relacionada a núcleo de escravos fugitivos que procuravam
abrigo em locais de difícil acesso para neles construírem padrões africanos de organização
social. Na atualidade, as comunidades quilombolas constituem um legado material e imaterial
de resistência com os quais os quilombolas desenvolvem e reproduzem modos de vida
característicos num determinado lugar.
O presente artigo levou em consideração para este estudo a determinação estatal de
reconhecimento da propriedade e titulação das terras aos remanescentes quilombolas, segundo
o decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003 que tem como critério para o reconhecimento a
auto atribuição de sua população como remanescentes de quilombos.
Desta forma, este trabalho analisou o papel da memória na construção da identidade
quilombola na comunidade do Maracujá em Conceição do Coité, Bahia, por meio de relatos e
depoimentos dos moradores que usaram a memória coletiva para narrar e construir uma parte
da história do seu povo. Para Halbwachs, “fazemos apelo aos testemunhos para fortalecer ou
debilitar, mas também para completar, o que sabemos de um evento do qual já estamos
informados de alguma forma, embora muitas circunstâncias nos permaneçam obscuras ”
(HALBWACHS,1990, p.25).
Conhecer as definições políticas e jurídicas pelas quais passou a comunidade, as lutas
sociais para ampliar e ressignificar as definições impostas e as conquistas sociais e econômicas
que esta comunidade alcançou ao longo dos anos é um passo importante para fortalecer ainda
mais essa comunidade que tem uma história de luta, de resistência e acima de tudo um legado
cultural que precisa ser registrado para não cair no esquecimento.

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