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Cientistas cultivaram uma forma de vida

misteriosa que pode revelar as origens da vida


complexa
Por Natasha Romanzoti, em 11.09.2019

Um estudo liderado pela Agência Japonesa para Ciência e Tecnologia da Terra


Marinha (JAMSTEC), em colaboração com outras instituições do Japão, conseguiu
cultivar e estudar uma nova forma de vida em laboratório que pode ser a chave para
entendermos como surgiram as células eucariontes, que deram origem à vida
complexa do planeta.

 Toda a vida complexa na Terra veio desta mutação aleatória

Os domínios da vida
A vida complexa é feita de células eucariontes – isto inclui plantas, fungos, animais
e seres humanos. Além do domínio taxonômico Eukariota, temos também
o Prokaryota, formado por células procariontes, que engloba, por exemplo, as
bactérias.

A principal diferença entre células eucariontes e procariontes é que estas últimas não
têm estruturas como núcleo e outras organelas ligadas à membrana.

Existem outros domínios que não possuem células com estruturas complexas, como
as arqueias, morfologicamente semelhantes às bactérias, mas suficientemente
distintas genética e bioquimicamente destas e dos eucariotas para serem isoladas no
seu próprio grupo, o Archea.

A árvore da vida estava bem bonita assim, dividida entre estes três domínios, até
cientistas japoneses descobrirem os Lokiarchaeota em 2006.

 Esta descoberta pode empurrar a evolução da vida complexa 400 milhões de


anos para trás

Lokiarchaeota
Os Lokiarchaeota foram nomeados assim por conta do local onde foram
descobertos: o campo hidrotermal conhecido como “Castelo de Loki”, com cinco
fontes hidrotermais, situado entre a Groelândia e a Noruega a uma profundidade de
2.352 metros.

Os organismos pareciam pertencer ao domínio Archaea, mas tinham características


genômicas semelhantes aos Eukaryota.

Depois de cultivar as amostras por cinco anos em laboratório, dentro de um biorreator


de metano que imitava as condições das fontes hidrotermais, os pesquisadores
finalmente viram os organismos começarem a se multiplicar.

Em seguida, fizeram análises de RNA e passaram a isolar e dividir a população para


ver como ela se desenvolvia.

 Finalmente podemos ter descoberto de onde veio a vida complexa

Simbiose
Enquanto populações de bactérias costumam levar apenas meia hora para dobrar de
tamanho, os Lokiarchaeota levaram 20 dias. Em média, demoravam três meses para
atingir seu crescimento ideal. Combinações diferentes de nutrientes não pareciam
trazer resultados melhores.

Depois de 12 anos estudando o organismo, nomeado Prometheoarchaeum


syntrophicum, os cientistas perceberam que eles apenas cresciam na presença de um
ou dois outros micróbios, a arqueia Methanogenium e a bactéria Halodesulfovibrio.

Quando Prometheoarchaeum quebra aminoácidos em alimento, produz hidrogênio


que os outros organismos consomem. Sem eles para fazer isso, todo o hidrogênio em
volta do Prometheoarchaeum atrapalha seu crescimento. Ou seja, este organismo
gosta de viver em uma relação simbiótica.

 Encontrado o gene que possibilitou a existência de vida complexa na Terra


Um passo dado, muitos outros à frente
Nos últimos anos, mais organismos semelhantes a arqueias, porém próximos dos
eucariotas, têm sido descobertos por cientistas,
como Thorarchaeota, Odinarchaeota e Heimdallarchaeota. Estes são conhecidos
coletivamente como “Asgard”.

Uma das teorias dos pesquisadores é de que estes organismos semelhantes a arqueias,
como Asgard ou Lokiarchaeota, são a origem da vida eucariota, talvez após ter
engolido uma bactéria ou qualquer outra coisa do tipo.

Quando os Lokiarchaeota foram examinados sob um microscópio, os cientistas


japoneses concluíram que eles possuíam formatos estranhos para arqueias, como
tentáculos longos nos quais seus micróbios “parceiros” ficavam.

Uma hipótese é que, conforme o nível de oxigênio aumentou na Terra, esse


organismo dispensou os micróbios comedores de hidrogênio e partiu para uma nova
relação simbiótica com bactérias que consumiam oxigênio, aumentando suas chances
de sobrevivência e abrindo caminho para a vida complexa eucariota.

Claro, os cientistas ainda precisam de muito mais estudos para poder afirmar isso.
Para início de conversa, o Prometheoarchaeum pode ser bem diferente das arqueias
que realmente viviam bilhões de anos atrás. Mas este é um primeiro passo
interessante na compreensão de como a vida complexa pode ter evoluído.

Um artigo sobre a pesquisa ainda está sendo analisado para publicação, mas já está
disponível para leitura (em inglês) no servidor bioRxiv. [ScienceAlert]