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TRANSFERÊNCIA: ESTUDO DOS PERÍODOS DE

TÉRMINO E PÓS-TÉRMINO

Yeda Alcide Saigh*

RESUMO

Estudo sobre questões da transferência no período do término da relação


analítica e sobre o destino da transferência no pós-término, com considerações sobre
o analista imerso numa complexa rede de significações, tanto do término, ainda em
situação de análise, como no pós-término, além do espaço-tempo estritamente
analítico. Durante a construção do término, impõe-se a separação do analista, mesmo
que resultem resíduos transferenciais, que serão ou elaborados pelo próprio analisando,
através de sua auto-análise, ou por ele deslocados para um outro analista. No pós-
término, embora o acompanhamento pós-analítico seja um modo de desintoxicar a
transferência, cabe ao analista não permitir que o acompanhamento ‘contamine’ a
necessária elaboração do luto.

Palavras-chave: Psicanálise. Transferência. Término. Pós-término.

Em meu mestrado (Saigh, 2002), estudei as


dificuldades do término da relação psicanalítica e
a situação complexa que antecede, nas análises,
o fim dos contatos entre analista e analisando. Em
meu doutoramento (Saigh, 2006), estudei o pós-
término. Tanto num como no outro estudo, várias
vezes tangenciei questões que me parecem rele-
vantes para os objetivos deste encontro, que visa
a discutir a questão do “...analista imerso numa
complexa rede de significações para além do seu
espaço estritamente profissional, assim como nos
*
Mestre em Psicologia Clínica pela PUC- efeitos inconscientes de sua presença e realidade
SP. Doutora em Psicologia Clínica pela psíquica na sessão analítica”, como se lê no
USP. Psicanalista. Membro efetivo da convite para esta reunião.1
SBPSP.
1
Alinho, então, a seguir, algumas reflexões
Trabalho apresentado no Congresso
“Pessoa e Presença do Analista”, reali- que, espero, contribuam para que todos aprofun-
zado pela Fepal, em Santiago, Chile, em demos esta discussão, considerando, mais atenta-
setembro de 2008. mente, o problema da dissolução da neurose de

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transferência; um pouco, ainda no térmi- de regressão. A volta desses sintomas


no e, mais, no pós-término. representa uma tentativa de preservar
Em meu trabalho de mestrado, havia tais fantasias infantis onipotentes. Cria-
enfatizado que a dissolução da neurose de se um campo propício por excelência
transferência constituía um dos critérios para se elaborar esse aspecto da neurose
para se pôr fim a uma análise. No início de de transferência, relativo a mais antiga
um processo analítico, é esperado que o fase do desenvolvimento libidinal – ansi-
paciente faça transferência com o analis- edade de separação.
ta, positiva e negativa. O paciente projeta Farrell (1974) cita trabalhos de
no analista todos os seus conflitos, sofri- Anna Freud e Stone, datados de 1954, que
mentos, expectativas; idealiza-o, por ele identificariam os seguintes fatores como
se apaixona, dele sente ódio, o despreza – impeditivos de uma resolução satisfatória
enfim, transfere para o analista toda uma da neurose de transferência:
gama de sentimentos. Só assim o pacien-
te pode se ver e se conhecer melhor. O ...o excessivo narcisismo que leva a
analista vira pai, mãe, marido, ocupa to- uma incapacidade para elaborar e resolver
das as posições familiares daquele paci- a neurose de transferência; a freqüência
ente, além de desempenhar funções psí- de reações de pânico ante a ameaça de
separações do analista em personalidades
quicas que o paciente precisa delegar ao
“limítrofes”; a dificuldade para estabele-
analista. Isso é o que chamamos de neu- cer uma adequada neurose de transferên-
rose de transferência. cia em pacientes com insuficiente amor ao
Uma das primeiras questões que objeto, causada por falhas básicas no
despertou a atenção dos analistas idealis- desenvolvimento emocional precoce
tas foi saber se, de fato, na prática real, se (Farrell, 1974, p. 318).
alcança, em algum momento, algo que se
poderia considerar uma completa resolu- O término da análise, ao mesmo
ção da neurose de transferência. Se, de tempo em que desencadeia vivências de
fato, a neurose de transferência efetiva- ansiedade, medo e depressão, promove
mente se desenvolveu, é com relutância e também alívio, alegria e anseio por novas
pesar que o paciente abandona seu objeto experiências, para as quais agora estão
amado: o analista, que ele antes carregara disponíveis o dinheiro, o tempo e a dispo-
com tanta emoção. Só na fase terminal da sição psíquica. Este é um fator que favo-
relação psicanalítica, quando a realidade rece a superação dos aspectos traumáti-
da separação do analista se impõe, as cos da separação e colabora para a disso-
fantasias mais profundamente reprimi- lução da neurose de transferência.
das, características da onipotência infan- Goldberg e Marcus (1985) menci-
til do paciente, conseguem chegar à trans- onam um comentário de Hans Sachs
ferência, pelos bem conhecidos sintomas (1942), contemporâneo de Freud, segun-

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do o qual, por mais completa que possa (1963), em seu artigo The Meaning of
ser, a análise faz pouco mais que arranhar the analyst after analysis – A contribu-
a superfície de um continente. Acredito tion to the theory of therapeutic re-
que esse continente continuará a ser arra- sults, nos dá a seguinte contribuição:
nhado, mesmo depois de terminada a
análise. Na minha experiência, de um Depois da análise, o paciente retém
processo analítico sempre resultam resí- uma importante e complicada representa-
duos transferenciais, que ou serão elabo- ção intrapsíquica do analista. Essa repre-
rados pelo próprio analisando, através de sentação do analista é conectada não ape-
nas com resíduos transferenciais, mas tam-
sua auto-análise, ou serão por ele deslo-
bém, de um modo muito importante, com a
cados para um outro analista, caso o porção resolvida da neurose de transfe-
analisando inicie uma outra experiência rência. Essa idéia, contudo, pareceu então
de análise. Creio também que a decisão importante não apenas por conta dos fe-
de pôr término à análise, tomada de co- nômenos discutidos, mas também em rela-
mum acordo pelos dois integrantes da ção à questão da natureza do tratamento
dupla, estimula inevitavelmente uma in- analítico. Neste relatório, é principalmente
tensificação das manifestações da cha- considerada a idéia do pós-analítico e a da
mada neurose de transferência. representação intrapsíquica do analista
Embora antes de pôr fim a uma (Pfeffer, 1963, pp. 230-231).
análise o analista deva considerar a capa-
cidade do analisando para elaborar os Esta idéia nos parece indicar que
resíduos transferenciais, de modo que a apenas uma porção da neurose de trans-
neurose de transferência resulte dissolvi- ferência resulta dissolvida e enfatiza a
da, todos sabemos que grande parte des- importância da realização de estudos de
sa dissolução acaba de se efetivar duran- acompanhamento do período pós-térmi-
te o período do pós-término. no.
Em todos os autores que consultei, Uma das conclusões a que
e na minha própria experiência pessoal, Kantrowitz, Katz e Paolitto (1990) chegam
observei que a dissolução completa da em seu artigo Follow-up psychoanaly-
neurose de transferência não é jamais sis five to ten years after termination: I.
alcançada. Segundo Balkoura (1974), em Stability of change é que um resultado
seu trabalho The fate of the transfer- analítico bem-sucedido pode ser definido
ence neurosis after analysis scientific como o estabelecimento e a resolução
proceedings, citando Pfeffer, existem parcial da neurose de transferência com
aspectos de realidade do analista, assim o concomitante benefício terapêutico.
como do analista de transferência, que Conway (1999), em seu artigo
não podem ser considerados neurose de When all is said… A phenomenological
transferência. A respeito disso, Pfeffer enquiry into post termination ex-

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perience, chama a atenção para o fato de o tempo terá passado (...) Pode-se con-
que o próprio Freud mudou sua posição siderar o pós-análise como a convales-
entre 1916 e 1937. No trabalho de 1916, cença das neuroses de transferência
afirmava de forma otimista que ao final de (…) Para o analisado, o central e nuclear
do processo pós-analítico é terminar de
uma análise bem-sucedida a transferên-
aceitar que só tem a si mesmo, e continu-
cia estava permanentemente resolvida. ar a busca pelo autoconhecimento, du-
Mas, em ensaio posterior, de 1937, Aná- rante uma luta demorada que avança
lise terminável e interminável (Freud, para o futuro, num espaço próprio, que
1937/1975), relativizou tal afirmação: a já é diferente do espaço do analista. O
resolução da transferência e a eficácia da analista deve permanecer no ‘seu’ lugar
análise ainda estão claramente associa- no mundo, exercendo sua função com
das, porém a resolução da transferência outros, enquanto o analisado tem de
já não é mais o parâmetro de uma “cura” assumi-la, reflexivamente, uma vez al-
completa. cançada a autonomia (Guiard, 1979, p.
195).
A mesma autora cita Etchegoyen
(1987) que, em seu livro sobre técnica
Vários autores escreveram e se
analítica, parece ao mesmo tempo apoiar
preocuparam com a transferência duran-
e refutar a possibilidade de resolver com-
te o pós-término, assunto que parece ser
pletamente a transferência durante a aná-
dos que mais chama a atenção dos psica-
lise. Ele escreve que a transferência para
o analista é resolvida durante a análise,
nalistas, como questão ainda tão instigan-
embora o destino do analista na mente do te, hoje, como nos dias de Freud, para
paciente (não é, então, o destino da trans- todos os especialistas.
ferência?) precisa de algum tempo pós- O problema, de fato, já está expos-
analítico para ser definido, de tal modo to em Freud, pelo menos quanto aos seus
que o destino de um bom analista [na limites essenciais e intransponíveis, des-
mente do paciente] seria um luto nostálgi- de o brilhante Análise terminável e in-
co, a ausência do analista, que a longo terminável, de 1937: “Os pacientes não
prazo se transformaria numa recordação. podem, eles próprios, trazer todos os seus
Concordo com Guiard (1979) que, conflitos para a transferência, nem tam-
em seu artigo Aportes al conocimiento pouco está o analista capacitado a invo-
del proceso post-analitico, na minha car todos os possíveis conflitos instintuais
opinião um dos melhores que li, diz: deles, a partir da situação transferencial”
(Freud, 1937/1975, p. 265).
…ao finalizar o mesmo processo, am- Hal Hurn, em 1973, um dos auto-
bos são diferentes do que eram no come- res contemporâneos, que reflete sobre o
ço, e não apenas pelo que se tenha passa- destino da transferência após o término,
do ali, entre os dois, mas também porque diz:

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…o que resta da transferência e da novamente”. E também pode persistir a


neurose de transferência, depois da aná- transferência da idealização, que às ve-
lise, mesmo que seja a análise mais ideal- zes respinga do analista para a psicanáli-
mente bem-sucedida? Que aspectos do(a) se. Essas idealizações muitas vezes ocul-
analista, suas interpretações e tudo mais tam formações reativas, que irrompem e
que acontece numa análise continuam,
operam destrutivamente contra a análise.
depois, a ser representados psiquicamen-
te? Qual é a natureza e a função desses
Tenho observado que pessoas que
remanescentes, nos ganhos analíticos e tiveram uma primeira experiência malsu-
terapêuticos? Será que os conflitos inter- cedida de análise, ainda que de pouca
nalizados da transferência e suas resolu- duração, desenvolvem uma espécie de
ções tornam-se elementos centrais nas transferência de tal modo negativa que
mudanças estruturais a que visamos? estendem tal transferência do analista
Mais particularmente, será que a repre- para a psicanálise como um todo. O depo-
sentação psíquica do analista e as inter- imento de vários pacientes a esse respeito
pretações continuarão para sempre a de- revela um tal desalento que é como se
sempenhar um papel vital na manutenção ficasse para sempre comprometida a pos-
dessas resoluções? (Hurn, 1973, p. 181). sibilidade de qualquer outra experiência
vir a ser tentada no futuro. Para Martin
No mesmo texto, em que acompa- Bergmann, em 1988:
nha em vários autores as modificações
pelas quais passou o conceito, Hurn in- Os dois conceitos, neurose de transfe-
corpora também outras lições de Freud, rência e a resolução da transferência, conti-
trazidas por Buxbaum. Para essa autora, nuam a ser conceitos complementares. Se
Freud em várias ocasiões chamou a aten- os psicanalistas podem encorajar uma
ção para um aspecto da relação entre neurose de transferência, mas são impo-
paciente e analista, que se manifesta fre- tentes para resolver a transferência que
qüentemente depois do término, e que eles mesmos criaram, eles podem bem es-
tar na posição do aprendiz de feiticeiro,
teria permitido que se estabelecessem
que pode desencadear um processo que é
relações de amizade. incapaz de levar a termo (Bergmann, 1988,
Em The technique of terminating p. 146).
analysis, de 1950, Buxbaum explicita-
mente considera que o contato social pós- Creio que esse fator – criar ou
analítico entre paciente e analista poderia, estimular o incremento da neurose de
realmente, promover a resolução mais transferência – pode variar, dependendo
completa da transferência neurótica. do maior ou menor grau de onipotência ou
Quanto à “transferência negati- de narcisismo do analista. Analistas que
va”, ela pode persistir na forma de uma têm estas questões insatisfatoriamente
aversão, “de nunca mais ver o analista elaboradas, na minha observação, têm

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mais dificuldade de se tornarem mais ração da neurose de transferência, o que


humanos ante aos seus analisandos. não garante, de qualquer forma, que res-
Analisandos que têm um sentido tos transferenciais não venham sobrar.
de identidade precariamente desenvolvi- Ainda sobre a imagem intrapsíqui-
do podem precisar, num primeiro momen- ca do psicanalista depois do término da
to, de uma referência ou um modelo análise, Bergmann nos diz que todo fim de
identificatório, que encontram no analis- análise é um corte radical, não importan-
ta. Caberá ao analista suportar esse perí- do o tempo que dure a fase do término. O
odo, contendo sua angústia e desconforto paciente tem de se conformar em não ter
em frente a tal situação, para poder com mais aquele analista e ser capaz de trans-
isso favorecer que pouco a pouco o ana- formar aquela relação num “relaciona-
lisando se diferencie e se discrimine, vi- mento intrapsíquico”.
vendo seu processo de individuação. O autor também indaga até que
Ocorreu-me a esse propósito um episódio ponto o analista que assume característi-
que vivi na minha clínica. cas parentais na transferência de um
Um dia, ao descer para chamar paciente, cujos objetos primários fracas-
uma analisanda, deparei-me com uma saram no desempenho de suas funções,
espécie de duplo meu. Ela havia cortado pode propiciar àquele paciente a evolu-
o cabelo exatamente como eu e vestia ção de uma situação regredida e de de-
uma roupa muito semelhante ao tipo de pendência infantil para uma situação de
roupa que costumo usar quando trabalho. autonomia e de relacionamentos simé-
De início assustei-me, mas essa observa- tricos mais satisfatórios. Bergmann
ção me levou a ficar mais atenta para o chama a atenção para o fato de que
que estava em jogo naquela necessidade este analista tende a se tornar o primei-
de me ‘copiar’. Nas sessões seguintes, ro objeto confiável com que tal paciente
observei que a mesma necessidade mani- pode contar.
festava-se também na forma de se ex- Do meu ponto de vista, cabe ao
pressar verbalmente. analista permitir-se assumir tal posição
Nos institutos de psicanálise, al- numa determinada fase do processo e
gum tempo atrás, podia-se quase adivi- encorajar o paciente em seus primeiros
nhar com quem determinado candidato passos rumo à autonomia. Quanto à ques-
analisava-se pela maneira como se com- tão da resolução da análise de transferên-
portava, falava, expunha suas idéias e seu cia, Bergmann dá uma contribuição origi-
trabalho clínico. Evidentemente, analistas nal: “O que temos de ter em vista não é
que possuam uma personalidade muito resolver a neurose de transferência, mas
carismática podem favorecer o surgi- garantir que ela forme uma estrutura
mento de “duplos”. Cabe a tais analistas, interior produtiva na vida do ex-analisan-
na vigência da análise, favorecer a elabo- do”.

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Transferência: estudo dos períodos de término e pós-termino

Em 1991, Pellanda assinalou que, formação analítica, o autor verificou que


seus respectivos analistas didatas conti-
...em mais de vinte anos de prática nuavam representados psiquicamente
clínica de psicanálise, chama a minha aten- como objetos de projeção de pessoas
ção o fato de que certas pessoas parecem significativas do passado desses ex-paci-
não mais necessitar de auxílio, enquanto entes. Pfeffer também observou que a
outras retornam freqüentemente a trata-
representação do analista didata tendia a
mento. Parece que estas dependem da
presença factual do analista para susten- ser projetada no analista responsável pe-
tar suas maturidades (p. 1). los estudos de acompanhamento.
De importante também, nessa re-
Este último grupo de pacientes re- flexão, é que, embora a compulsão à
ferido por Pellanda são aqueles que reuni, repetição não seja eliminada, o autor ob-
na minha tese de doutoramento (no pre- serva diferenças importantes no que é
lo), no terceiro modelo de pós-término. repetido:
Minha experiência clínica neste aspecto
coincide com a de Pellanda. A pessoa neurótica repete os conflitos
Para Pfeffer, em outro artigo inte- do passado, enquanto o paciente satisfa-
ressante, mais recente, de 1993, também toriamente analisado, em novas situações
que exigem domínio, repete brevemente e
sobre o destino da transferência depois de
com fraca intensidade os conflitos do pas-
concluída a análise e, mais diretamente,
sado, mas agora organizados em torno do
sobre o destino do analista como objeto,
analista. Além disso, como se demonstra
as conclusões a que se pode chegar, a pela rápida recuperação do paciente no
partir da observação, são que: estudo do acompanhamento, o paciente
satisfatoriamente analisado repete na vida
…depois da análise, a experiência da as soluções dos mesmos conflitos, tam-
análise, incluindo a neurose de transferên- bém organizados em torno do analista. Por
cia e a resolução dela, continua a ser men- essas vias, depois da análise, o analista é,
talmente representada e lembrada, e é re- simultaneamente, em parte um novo obje-
petida no estudo de acompanhamento, to e em parte um objeto antigo (Pfeffer,
assim como na vida. As lembranças des- 1993, p. 336).
sas experiências analíticas são organiza-
das em torno da pessoa do analista e
desempenham papel importante no pro- A ressalva que eu faria a esses
cesso de lidar com as situações da vida de estudos seria a seguinte: como discrimi-
modos menos neuróticos e mais adaptati- nar entre pessoas satisfatoriamente ana-
vos (Pfeffer, 1993, p. 324). lisadas e pessoas neuróticas? Talvez es-
teja implícita nesse tipo de estudo uma
Nos estudos de acompanhamento, idéia de cura da qual não partilho e que
realizados com profissionais que tiveram implica algum limite muito bem demarca-

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Yeda Alcide Saigh

do entre o que é normal e o que é REFERÊNCIAS


patológico. O que me motivou a desen-
volver uma pesquisa de caráter emi- Balkoura, A. (1974). The fate of the
nentemente qualitativo (que desenvolvi transference neurosis after analysis
em meu doutoramento sobre o pós- scientific proceedings: Workshop
término) foi o fato de que numa pesqui- report. Journal of the American
sa quantitativa não se atenta para as Psychoanalytic Association, 22,
peculiaridades de cada indivíduo inte- 895-903.
grante do grupo X ou do grupo Y.
Penso que a psicanálise debruça-se – e Bergmann, M. S. (1988). On fate of the
cada vez mais deve se debruçar – intrapsychic image of the psycho-
sobre a investigação do que é próprio e analyst after termination of the analy-
específico de cada indivíduo singular- sis. Psychoanalytic Study of the
mente concebido. Child, 43, 137-154.
Pode-se propor, então, que o
acompanhamento pós-analítico seja con- Bion, W. R. (1992). Conversando com
siderado como um modo de desintoxi- Bion: Quatro discussões com W.
car a transferência. Mas esses ganhos R. Bion: Em Nova York e em São
têm um preço. O acompanhamento pós- Paulo. Rio de Janeiro: Imago. (Tra-
balho original publicado em 1978 e
analítico pode veicular uma mensagem
1980.)
implícita para o analisando de que o
analista continuará a ‘atendê-lo’ depois
Buxbaum, E. (1950). The technique of
de o trabalho estar completo; com isto,
terminating analysis. The Interna-
podem surgir dúvidas, no paciente, seja
tional Journal of Psychoanalysis,
sobre a nova situação ‘sem analista’,
31, 184-190.
seja sobre a psicanálise, ou sobre am-
bos. Além disso, a privacidade e a
Conway, P. S. (1999). When all is said: A
chance de o paciente elaborar sozinho
phenomenological enquiry into post-
o luto também podem sofrer alguma termination experience. Interna-
interferência. A principal desvantagem tional Journal of Psychoanalysis,
é a possibilidade de atuação da transfe- 80, 563-574.
rência e da contratransferência. A es-
trutura da técnica psicanalítica, como Etchegoyen, H. (1987). Das etapas da
hoje a conhecemos, está projetada para análise 2. In H. Etchegoyen, Funda-
minimizar essa atuação, e nós usamos a mentos da técnica psicanalítica
interpretação como veículo primário (pp. 372-377). Porto Alegre: Artes
para o ganho terapêutico. Médicas.

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Trabalho apresentado no 13º Con-

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Yeda Alcide Saigh

SUMMARY

Transference: study of the periods of termination and after-termination of


psychoanalysis

Study on issues of transfer during the periods of termination and after-termination


of psychoanalysis and on the destination of the transfer in the after-termination, with
considerations on the analyst immersed in a complex network of meanings, both during
termination, still in situation of analysis, as in the after-termination, after the closure of
the strictly analytical space-time. During the construction of the termination, there is a
necessary separation from the analyst, even if there are remnants resulting from
transference which will be elaborated by the patient him/herself, through his/her self-
analysis, or the patient will carry the remnants forward to another analyst. In the after-
termination, although the after-termination follow-up is a way to ‘clean up’ the transfer-
ence, the analyst is supposed to prevent the necessary elaboration of mourning from
being ‘contaminate’ by the follow-up.

Keywords: Psychoanalysis. Transfer. Termination. After-termination.

RESUMEN

Transferencia: estudio de los periodos del termino y pos-termino

Estudio sobre el tema de la transferencia en el período de la terminación de la


relación analítica y sobre el en la fase post-analítica, con consideraciones sobre el
analista inmerso en una compleja red de significaciones, tanto en la época de la
terminación, cuando aún se está en proceso de análisis, como en el post-análisis,
además del espacio – tiempo estrictamente analítico. Durante la construcción de la
terminación, se impone la separación del analista, aunque resulten restos transferenciales
que, o serán elaborados por el propio analizado mediante su autoanálisis, o él los pasará
a otro analista. En el post-análisis, aunque el seguimiento sea un modo de desintoxicar
la transferencia, le corresponde al analista no permitir que el seguimiento ‘contamine’
la necesaria elaboración del duelo.

Palabras-clave: Psicoanálisis. Transferencia. Terminación. Post-análisis.

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Transferência: estudo dos períodos de término e pós-termino

Yeda Alcide Saigh


R. Alemanha, 659
01448-010 São Paulo, SP
Fone: (11) 3083-5795
E-mail: ysaigh@uol.com.br

Recebido em: 13/11/2008


Aceito em: 09/12/2008

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