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Anais

VIII Congresso Brasileiro


de Psicologia do Desenvolvimento
Universidade de Brasília

Organizadores:
Maria Cláudia S. L. de Oliveira
Diva Maria Albuquerque Maciel
Jane Farias Chagas
Maristela Rossato
Mônica Neves Pereira
Patricia Maria Campos Ramos
Sylvia Regina Magalhães Senna De 12 a 15
de Novembro
de 2011
C749 Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento
(8. : 2011 : Brasília).
Anais do VIIII Congresso Brasileiro de Psicologia do De-
senvolvimento / Maria Cláudia Santos Lopes de Oliveira ...
[et al.], organizadores. – Brasília : Associação Brasileira de Psi-
cologia do Desenvolvimento, 2011.
1352 p. ; 21 cm.

ISSN 2177-1413

1. Psicologia do desenvolvimento – Congressos. I. Oliveira,


Maria Cláudia Santos Lopes de (org.).

CDU 159.922
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

Sumário

Apresentação ..................................................................................... 5

Comissões........................................................................................... 7

Estrutura do evento............................................................................ 8

Programação Científica....................................................................... 9

Sábado, 12/11 .................................................................................... 9

Domingo, 13/11.................................................................................. 9

Segunda-feira, 14/11 .......................................................................... 473

Terça-feira, 15/11 ............................................................................... 985

Índice por atividades .......................................................................... 1329

Índice Remissivo ................................................................................. 1333


VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

APRESENTAÇÃO

Prezados Participantes do
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento,

É com grande prazer que apresentamos os Anais do VIII CBPD, um evento da


Associação Brasileira de Psicologia do Desenvolvimento que neste ano tem por tema
A Psicologia do Desenvolvimento para a Transformação da América Latina.
O VIII CBPD traz à capital federal cerca de 600 participantes, entre pesquisa-
dores, profissionais, estudantes de graduação e pós-graduação de Psicologia e áre-
as afins, oriundos de quase todos os estados brasileiros e de países das Américas e
Europa. Este número constitui um recorde e dá testemunho da importância deste
evento, que se consolida no calendário científico da Psicologia brasileira.
São apresentados aqui aproximadamente 500 trabalhos, entre mesas redon-
das, simpósios, comunicações orais e pôsteres, relacionados a sete áreas temáticas.
Constituem eles relatos de pesquisas e abrangem uma pluralidade de contextos,
objetos e metodologias, em torno dos quais se tem construído a Psicologia do De-
senvolvimento. Mas, encontramos também relatos de experiência profissional, tra-
balhos que enfocam o estado da arte da pesquisa da área e ensaios críticos, os quais
expressam a diversidade de leituras do fenômeno do desenvolvimento humano na
linha do tempo, uma pluralidade de perspectivas que temos buscado preservar neste
Congresso!
Este ano, o CBPD apresenta outras novidades. Abraçamos a vocação de pro-
mover e qualificar a interlocução e as redes de colaboração acadêmica com nossos
colegas pesquisadores e profissionais de outros países da América Latina. Contamos
com a presença de congressistas e renomados conferencistas de diferentes países do
continente americano, com destaque para Colombia, Peru, Argentina, Cuba, Estados
Unidos, além da Alemanha. Deste modo, visamos contribuir para dar expressão à
riqueza do pensamento psicológico que se produz nos diferentes países desse conti-
nente, além de debater questões comuns a nossas realidades socioculturais de países
constituídos a partir de relações coloniais.
Desta forma, adotamos intencionalmente uma posição distinta da que marcou
a construção histórico-social da nação brasileira que, ao longo dos cinco séculos de

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

história manteve o olhar direcionado para a Europa e a América do Norte, e as costas


para o continente latinoamericano. Que essa realidade, que já vem se alterando, seja
positivamente afetada pelos debates ocorridos neste Congresso!
Aproveitamos a oportunidade para expressar nosso agradecimento à CAPES,
CNPq, Universidade de Brasília e a todos aqueles participantes, membros das Co-
missões, avaliadores ad hoc, parceiros e patrocinadores, sem os quais não teríamos
chegado até aqui.

Brasília, 15 de novembro de 2011.

Maria Cláudia S. L. de Oliveira


Presidente da ABPD
Comissão Organizadora do VIII CBPD

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

COMISSÕES Maria Helena Vilares Cordeiro


Maria Regina Maciel
Mário Sergio Vasconcellos
Maristela Rossato
Diretoria da ABPD Miriã Alves de Alcântara
Maria Cláudia Santos Lopes de Oliveira Mônica Neves-Pereira
Adeiaide Alves Dias Olga Maria Piazentin Rolim Rodrigues
Ana Paula Soares da Silva Patricia Alvarenga
Miriã Alves de Alcântara Rosalia Duarte
Zena Winona Eisenberg Rosangela Francischini
Ruben de Oliveira Nascimento
Comissão Científica Sávio Silveira de Queiroz
Silviane Bonaccorsi Barbato
Vera Maria Ramos de Vasconcellos
Tania Mara Sperb
(Coordenadora)
Vera Maria Ramos de Vasconcellos
Zena Winona Eisemberg
Avaliadores Ad Hoc
Adelaide Alves Dias Comissão Organizadora Local
Alba Cristiane Santanna
Alessandra Oliveira Machado Vieira Diva Maria Albuquerque Maciel
Alexsandra Zanetti Jane Farias Chagas Ferreira
Ana Cecília de Souza Bastos Maristela Rossato
Ana Paula Soares da Silva Mônica Neves-Pereira
Anamelia Lins e Silva Franco Sandra Ferraz Castilho Freire
Angela Donato Oliva Gabriela Souza de Melo Mieto
Angela Maria Uchoa de Abreu Branco Sylvia Magalhães Senna
Bernadete de L. Alexandre Mourão
Carolina Lampreia Comissão Executiva
Cecília Guarnieri Batista Ana Carolina Villares Barral Villas Boas
Cláudia Broetto Rossetti Ana Paula Carlucci
Débora de Hollanda Souza André de Carvalho Barreto
Diva Maria Albuquerque Maciel Francisco Rengifo Herrera
Elaine Pedereira Rabinovich Julia Escalda Mendonça
Eliane Maria Fleury Seidl Julio Cesar dos Santos
Elton Hiroshi Matsushima Manuela Smith
Gabriela Souza de Melo Mieto Marina Kohlsdorf
Ivalina Porto Mônica Rocancio Moreno
Jane Correa Patricia Cristina Campos Ramos
Jane Farias Chagas Ferreira Polllianna Galvão Soares
Julio Rique Neto Rute Morais Nogueira Bicalho
Leila Regina de O. d’ Paula Nunes Sueli de Souza Dias
Leila Sanches de Almeida
Tatiana Yokoy de Souza
Lucia Helena Cavasin Zabotto Pulino
Lucia Vaz de Campos Moreira
Secretaria Executiva
Maria Cláudia S. Lopes de Oliveira
Maria Helena Fávero Cláudia da C. Freire

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

ESTRUTURA DO EVENTO

Dia 12/11 - sábado Dia 14/11 - segunda-feira

17h-17h30 – Mesa de abertura 8h30-10h – Programação Científica


17h30-18h30 – Conferência de 10h-10h30 – Coffee Break
abertura 10h30-12h30 – Programação
18h30-19h30 – Apresentação Científica
musical 12h30-14h – ALMOÇO
19h30 – Coquetel 14-15h30 – Programação Científica
15h30-16h – Coffee Break
Dia 13/11 - domingo 16h-18h – Programação Científica
18h-20h – Programação Científica
8h30-10h – Programação Científica 19h30 – Lançamento de Livros
10h-10h30 – Coffee Break
10h30-12h30 – Programação Dia 15/11 - terça-feira
Científica
12h30-14h – ALMOÇO 8h30-10h – Programação Científica
14-15h30 – Programação Científica 10h-10h30 – Coffee Break
15h30-16h – Coffee Break 10h30-12h – Programação
16h-18h – Programação Científica Científica
18h-20h – Programação Científica 12h-14h - Programação Científica

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

DIA 12/11 - Sábado valorização da competição, e até mesmo


da agressão física e verbal como estratégia
de resolução de conflitos, minimizando-se
o sofrimento emocional do aluno humi-
CONFERÊNCIA lhado e discriminado pelos colegas. No
contexto escolar, a mídia noticia com fre-
“La Psicología del desarrollo en la actuali- qüência situações de bullying, onde crian-
dad. Una mira desde lo histórico cultural“, ças e adolescentes vivenciam incontáveis
proferida pelo prof. Dr. Guillermo Arias Be- constrangimentos como apelidos relacio-
aton, da Universidad de La Habana, Cuba. nados à sua aparência e agressões por
parte dos colegas. Observa-se que nesses
contextos de violência gratuita e repeti-
tiva muitas vezes a escola e os professo-
res não encontram alternativas para lidar
DIA 13/11 - Domingo com a situação, uma vez que o bullying é
um fenômeno complexo, sintoma de uma
sociedade onde valores sociais positivos
8h30-10h e a ética são colocados em segundo pla-
no. Dessa forma, é necessário destacar a
importância de se discutir sobre as emo-
CONFERÊNCIA ções, as raízes afetivas e motivacionais do
fenômeno bullying, e promoção da ética
e cooperação entre os alunos, articulando
“Bullying: Prevenção da Violência e Pro-
o tema com a realidade da escola, com as
moção da Cultura da Paz nas Escolas
características e conteúdos das próprias
Angela Uchoa Branco – UnB disciplinas e atividades pedagógicas e com
as interações sociais que se dão no âmbito
educacional. Nesta palestra, irei analisar
Diversos estudos voltados para a investi- e discutir estas questões, trazendo da-
gação de crenças e valores entre crianças, dos empíricos obtidos em pesquisa por
adolescentes e professores têm demons- mim coordenada sobre o tema, onde en-
trado que, na maioria dos contextos esco- trevistas e observações foram feitas com
lares, os professores orientam seus alunos professores e crianças do quinto ano de
a competirem entre si ou a serem individu- escolas públicas e particulares. Tendo em
alistas (e.g. Branco, 2003; Kohn, 1992; Pal- vista a relevância da escola nos processos
mieri, 2003). Essa orientação é geralmen- de socialização e desenvolvimento moral
te implícita nas variadas formas de mani- de crianças e adolescentes, e necessário
festação do “currículo oculto” associado a co-construção de uma Cultura de Paz.
à comunicação e à metacomunicação. O A Paz, porém, não é sinônimo de um es-
currículo oculto se expressa pela canali- tado estático de harmonia, caracterizado
zação, geralmente sutil, das crenças, valo- pela ausência de conflitos, mas sim deve
res e ações dos alunos em certa direção, ser entendida como um permanente pro-
e pode ocorrer, por exemplo, por meio da cesso (Jares, 2007) co-construtivo motiva-

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

do por valores de justiça, solidariedade e interações humanas saudáveis, éticas e


negociação de conflitos, onde sentimen- respeitosas, promovendo valores relativos
tos de empatia e compreensão mútua à justiça, dignidade humana e responsa-
permeiem os processos de comunicação bilidade social. Quanto mais cedo isto for
e as estratégias de ensino adotadas pe- feito, mais os alunos serão beneficiados
los professores. Para a paz ser promovida em seu desenvolvimento. Daí a necessi-
na escola, é necessário a re-significação dade de prevenção da violência na escola,
subjetiva da violência e da competição especialmente a prevenção do bullying,
por parte da cultura escolar como um por meio da promoção da educação para
todo, no sentido de se promover, diante a paz como eixo transversal presente em
de conflitos, a negociação cooperativa e todas as atividades exercidas no contexto
inteligente. Nosso trabalho em relação à escolar, das matérias estudadas às aulas
questão do bullying tem se inspirado par- de educação física, sempre passando pela
ticularmente na perspectiva sociocultural qualidade atenciosa, respeitosa porém fir-
construtivista (e.g. Branco, 2006; Madu- me dos educadores. Afinal, os alunos pre-
reira & Branco, 2005; Valsiner, 2007). Esta cisam conhecer e compreender o signifi-
abordagem teórica se apresenta bastante cado da convivência pacífica, da mediação
produtiva em abranger a complexidade construtiva de conflitos e da construção
do fenômeno bullying, e promover ações permanente de um contexto democráti-
efetivas em prol de uma cultura de paz co baseado na ética. O certo é que todos,
na escola. Internalizar desde a infância o professores e alunos, são sujeitos ativos
princípio de que o “outro merece ser tra- na transformação de sua própria realida-
tado como eu gostaria de sê-lo”, preve- de, e somente a partir de suas convicções
niria situações de violência e bullying na e motivações algo poderá ser transforma-
escola e, possivelmente, contribuiria para do. A programação e implementação de
a construção da paz em contextos sociais atividades cooperativas entre os profissio-
mais amplos, como a família, o ambien- nais que atuam na instituição educativa e
te de trabalho e outros. Entretanto, para nas salas de aula, bem como atividades
a construção do respeito mútuo e de um cooperativas incluindo as famílias, todas
ambiente de paz na escola, é essencial são relevantes para o sucesso de projetos
que haja o empenho político e local para integrados de prevenção do bullying e de
a formação dos professores, no sentido promoção de uma Cultura de Paz. Somen-
de prepará-los para prevenir o bullying e te com base em um trabalho conjunto de
saber atuar caso este ocorra no ambien- todos os profissionais envolvidos no con-
te escolar, de forma cooperativa e com o texto da escola, um trabalho de equipe no
trabalho conjunto de todos os participan- qual todos—inclusive funcionários como
tes da comunidade escolar. Não é mais porteiros, merendeiras etc—participem
possível desconsiderar a importância da ativamente, é que poderão ser gerados
promoção das interações sociais positivas processos de transformação da cultura
para o desenvolvimento global da criança escolar no sentido da inclusão de todos,
e do adolescente no âmbito das institui- e do trabalho efetivo em relação a promo-
ções educativas. Estas podem e devem ção da paz e da prevenção do bullying nas
atuar no campo da promoção concreta de escolas.

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

CO 01-LT01 relacionada ao desenvolvimento de todo


o primeiro ano de vida. É essa revisão
Emoção/Afetividade que será aqui apresentada. Para o levan-
tamento bibliográfico, realizou-se revisão
nacional e internacional sobre a temática
LT01-951 - REVISÃO BIBLIOGRÁFICA:
seguindo as etapas: 1ª) escolha das bases
A EMOÇÃO NO DESENVOLVIMENTO DO
de dados para pesquisa: uma base de da-
BEBÊ NO PRIMEIRO ANO VIDA
dos nacional (BVS-Psi) e uma internacional
Ludmilla Dell’Isola Pelegrini de Melo Ferreira (PsycINFO); 2ª) traçou-se critérios de in-
- USP/RP clusão (artigos, teses e dissertações; sem
melolud@yahoo.com.br restrição de data na base nacional e restri-
Kátia de Souza Amorim - USP/RP ção dos últimos cinco anos na internacio-
katiamorim@ffclrp.usp.br nal; idiomas inglês, português, espanhol e
Financiamento: FAPESP, CNPq francês; trabalhos com disponibilidade de
resumos) e exclusão (livros, capítulos de
A emoção é tema presente em diversas livro e resenhas; revistas exclusivamente
áreas do conhecimento, dentre eles, a da área médica); 3ª) pesquisa e definição
psicologia do desenvolvimento. Henri das terminologias indexadas (emoções,
Wallon se destaca pelos seus estudos so- desenvolvimento emocional, desenvolvi-
bre a emoção, tornando-se um referencial mento infantil (BVS-Psi e PsycINFO), esta-
para a investigação deste tema. Em sua dos emocionais e bebês (BVS-Psi), e early
teoria, a emoção é elemento central nos childhood development (PsycINFO); e 4ª)
primeiros meses de vida, a qual propicia- busca pelas palavras-chave (bebê, infant
ria a constituição do vínculo entre bebê e e emoção), e os cruzamentos entre elas e
ambiente social; representando, assim, o os descritores. Algumas palavras buscadas
primeiro plano de sociabilidade que con- - como emoções/emotions, bebê/infant,
tribuiria para promover a solidariedade desenvolvimento infantil/infant develop-
de comportamento e de atitudes entre ment - resultaram em expressivos núme-
o bebê e as pessoas no entorno. A par- ros de artigos; por outro lado, a partir dos
tir da leitura deste autor e de alguns de cruzamentos, houve queda considerável
seus estudiosos, no entanto, percebeu-se deste número. Considerando que o obje-
a exploração da emoção mais restrita ao tivo desta revisão foi analisar o que tem
plano teórico e aos primeiros meses de sido produzido sobre emoção especifica-
vida. Buscando aprofundamento dessa mente no desenvolvimento de bebês no
questão, traçou-se o objetivo de desen- primeiro ano de vida, a partir dos resu-
volver um estudo empírico para investigar mos e dos critérios de inclusão/exclusão,
a emoção ao longo do primeiro ano de optou-se por afunilar as buscas aos cruza-
vida, investigando suas manifestações em mentos, chegando-se a 249 trabalhos, 247
processo de transformação ao longo deste artigos e 2 teses. Ao analisar estes traba-
período. Para a realização deste trabalho, lhos, percebe-se a diversidade de estudos
um dos percursos foi verificar o que tem e, ao mesmo tempo, a escassez dos mes-
sido produzido na literatura, em termos mos relacionados à emoção no desenvol-
de estudos empíricos, acerca da emoção vimento de bebês, pois a maior parte dos

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

trabalhos é realizada somente com o pai de/em transformação da emoção no de-


ou com a mãe dos bebês, analisando os senvolvimento do bebê. Sendo assim, os
aspectos emocionais dos pais no proces- estudos encontrados na literatura ofere-
so da maternidade e paternidade. Ainda, cem material empírico para a discussão
encontram-se relatos clínicos enfocando da temática, e também apontam direções
alguma dificuldade ou patologia materna, para estudos prospectivos.
ou até mesmo a relação mãe-bebê de for-
ma teórica ou clínica, predominantemente Palavras-chave: Emoção, bebê,
a partir da psicanálise. No entanto, foram desenvolvimento, revisão bibliográfica.
encontrados trabalhos sobre o desenvol- Contato: Ludmilla Dell’Isola Pelegrini de Melo
vimento de bebês considerando a emoção Ferreira - melolud@yahoo.com.br
como um dos processos deste desenvolvi-
mento. Estes estudos podem ser divididos
entre teórico, revisão de literatura e em- LT01-1305 - RECONHECENDO EMOÇÕES:
píricos. Os primeiros apontam para a im- UM OLHAR DESENVOLVIMENTAL SOBRE
portância e necessidade de novos estudos O PAPEL DA MÚSICA NA ONTOGÊNESE
na área, principalmente longitudinais e da HUMANA
abordagem sociocultural e evolucionista. Nara Côrtes Andrade - UFBA,
Os segundos são estudos realizados com andrade_nara@yahoo.com.br
bebês entre 0 e 2 anos, principalmente
em laboratório, transversais, com vídeo- A emoção é intrínseca à experiência que
gravação ou observação e focando a díade temos com a música, sendo que diferentes
mãe-bebê. Estes trabalhos têm analisado afetos podem ser expressos através dela, a
e discutido as expressões faciais, voca- exemplo de serenidade, tristeza, angústia,
lizações, resposta ao meio e construção medo, entre outros. Apesar das reflexões
do repertório emocional, propondo, de sobre as relações entre música e emoção
uma forma geral, que as expressões fa- remontarem a pensadores como Platão,
ciais dos bebês estão intimamente e re- pesquisas científicas são recentes e vêm
lacionalmente conectadas ao contexto e apontando que “as respostas emocionais
aos estímulos que lhes são apresentados, para a música dentro de uma cultura apa-
mostrando sintonia e reciprocidade com o rentam ser altamente consistentes dentro
ambiente e também a variabilidade indi- da mesma e entre ouvintes, acurada, ra-
vidual das respostas emocionais. Compre- zoavelmente imediata e precisa” (Viellard
ende-se que estes trabalhos colaboram et al, 2008, p. 721). As emoções são fe-
para a visualização dos aspectos emocio- nômenos complexos e multidimensionais
nais e expressivos dos bebês ao longo do que compreendem desde fenômenos bio-
primeiro ano de vida, e contemplam o ca- lógicos a fenômenos subjetivos e sociais,
ráter biológico e social da emoção. Por ou- sendo, muitas vezes, acompanhada de
tro lado, a análise mostra algumas lacunas uma intensa reação fisiológica e psicológi-
entre esses estudos, como a ausência de ca. Defende-se que as emoções possuem
investigações longitudinais, realizadas no três funções principais: 1) Social - comu-
ambiente do bebê, que não seja em labo- nicar informações sobre estado de ânimo,
ratórios, e que acompanhem o processo além de prováveis comportamentos e in-

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

tenções; 2) Adaptativa - preparar fisiologi- formações relativas ao estado afetivo dos


camente o indivíduo para a ação, aumen- mesmos. A criança começa a desenvolver
tando suas chances de sobrevivência; Mo- a capacidade de percepção relativa às ex-
tivacional – facilitar os comportamentos pressões vocais e faciais no seu primeiro
motivados (Fernandez-Abascal et al, 2010; ano de vida (Flom et al, 2008), sendo que
Freitas-Magalhães e Castro, 2009). Segun- aos 4 meses de idade, os bebês podem
do Reeze (2006, p. 191), “as emoções são discriminar expressões bimodais (facial e
fenômenos expressivos e propositivos de vocal) de felicidade, tristeza e irritação e
curta duração, que envolvem estados de aos cinco meses diferenciam expressões
sentimento e ativação, e que nos auxiliam unimodais vocais de raiva, felicidade e
na adaptação às oportunidades e aos de- tristeza. As crianças prestam atenção pre-
safios que enfrentamos durante eventos ferencialmente a estímulos auditivos que
importantes da vida”. Pesquisas sobre expressem emoções. No caso da fala, por
emoções básicas expressas por músicas exemplo, as crianças atentam mais a falas
vêm apontando que as respostas emo- emotivas do que a falas neutras (Kitamu-
cionais podem ser bastante consistentes ra & Burnham, 1998; Singh, Morgan &
e coincidentes entre as diferentes idades Best, 2002). Em pesquisa realizada como
(Peretz, 2009). Muitos autores defendem bebês de seis meses de idade, encontrou-
que emoções como alegria, medo e triste- -se que as crianças apresentavam maior
za podem ser induzidas através da música, atenção sustentada a episódios de canto
sendo que estas estão presentes em diver- materno do que a episódios de fala ma-
sos espaços do nosso cotidiano, como, por terna (Nakata & Trehub, 2004). Estes auto-
exemplo, em trilhas sonoras de filmes, es- res salientam que a fala é um importante
pecialmente aqueles dirigidos às crianças. meio de transmitir emoções, entretanto,
Em termos ontogenéticos, as emoções possivelmente a música é uma maneira
dependem do amadurecimento de es- mais eficaz de fazê-lo, especialmente en-
truturas neurais que dêem sustentação a tre crianças em estágio pré-linguístico, as
seu funcionamento. Segundo Férnandez- quais podem as mensagens verbais em
-Abascal e cols. (2010), as emoções primá- sua forma, mas não em seu conteúdo.
rias, a exemplo da alegria, da surpresa, da Segundo Peretz e Sloboda (2005), estes
repugnância (nojo), da tristeza e do medo, achados sugerem que, possivelmente, a
se desenvolvem no início da vida, enquan- música pode ser considerada como mais
to as emoções secundárias ou sociais, tais poderosa que a fala no que diz respeito à
como ciúme, culpa, vergonha, precisam expressão de emoções. Flom et al (2008),
tanto do desenvolvimento de estrutu- em pesquisa realizada com crianças sau-
ras neurais quanto aspectos referentes a dáveis nascidas a termo e sem complica-
aprendizagem e socialização, tais como in- ções neonatais, observaram que crianças
ternalização de algumas normas sociais ou entre 5 e 7 meses foram capazes de dis-
desenvolvimento de identidade pessoal. criminar trechos felizes e tristes quando
Do ponto de vista adaptativo, é essencial habituados a trechos tristes e não quando
que o bebê compartilhe seus estados in- habituados a trechos alegres. Com 9 me-
ternos com seus parceiros sociais (Berga- ses, entretanto, as crianças discriminaram
masco, 1997) e seja capaz de processar in- todos os trechos musicais avaliados como

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

afetivamente diferentes. Kastern e Cro- ças muito pequenas, caracterizadas pelas


wder (1990), em estudos realizado com canções de ninar; socialização e interação
crianças entre 3 e 12 anos, apontam que, entre pares, a exemplo das brincadeiras
mesmo as crianças mais jovens, de 3 anos cantadas (Pinto & Lopes, 2009); entre ou-
de idade, mostram reconhecer a valência tras dimensões. Entretanto, como ressalta
afetiva da música de sua própria cultura - Baruch (2010), as pesquisas em psicologia
negativa, positiva - associando-a aos mo- da música com crianças são relativamen-
dos em que estas são compostas, modo te recentes, sendo ainda mais escassas
menor e maior, respectivamente. Segun- no Brasil. As diversas pesquisas que têm
do Cunningham & Sterling (1988), aos 4 sido realizadas acerca da à discriminação
anos as crianças já são capazes de reco- e ao reconhecimento de emoções em mú-
nhecer explicitamente emoção de alegria sica com diferentes faixas etárias apontam
expressa pela música. Entretanto, o estu- para uma compreensão de como este
do realizado por Dalla Bela e cols. (2001) fenômeno ocorre durante o desenvolvi-
encontrou que crianças de 3 e 4 anos não mento infantil. Entretanto, como pode-
apresentam ainda habilidade no reco- mos notar acima, é importante salientar
nhecimento de emoções alegres e tristes. que estas são, em sua maioria, recentes e
Estes autores destacam que questões me- pouco consensuais, sendo ainda escassas
todológicas, tais como a tarefa apresen- e apontando um campo de estudos em
tada de apontar para faces esquemáticas expansão.
representando as reações emocionais, po-
dem haver interferido no resultado, já que Palavras-chave: música, emoções,
esta pode requerer habilidades ainda pou- desenvolvimento humano.
co desenvolvidas nesta faixa etária. Sendo
que aos 5 anos as crianças são capazes de
reconhecer músicas alegres e tristes (Dalla LT01-1307 - O TESTE DO DESENHO DA
Bella & cols., 2001) e aos medo e ameaça FAMÍLIA COMO UMA REPRESENTAÇÃO
(Dolgin & Adelson, 1990; Terwogt & Van DOS MODELOS INTERNOS DE
Grinsven, citado por Vielard e cols., 2008). FUNCIONAMENTO
É importante salientar que estas pesqui- Débora Matos - UFPE
sas se referem a uma melhor acurácia no debkrm@gmail.com
reconhecimento de emoções alegres e Antônio Roazzi - UFPE
tristes, enquanto as emoções de medo e roazzi@gmail.com
raiva são muitas vezes confundidas entre Financiamento: CNPq
si. A música, historicamente, tem sido um
elemento recorrente em todas as culturas John Bowlby postulou que o comporta-
conhecidas (Schellenberg & cols., 2008) mento de apego no ser humano, assim
com a qual a criança convive, a exemplo como em várias outras espécies é de or-
das canções de ninar, brincadeiras canta- dem primária e instintiva, cuja função
das, etc. A mesma a dimensão emocional adaptativa seria a preservação da vida,
intrínseca à sua experiência é de imenso tendo em vista que o filhote sozinho
valor ao desenvolvimento, a exemplo da não tem a mínima chance de sobreviver.
regulação emocional que exerce em crian- Assim, a criança tem uma tendência na-

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

tural para buscar o contato e a proteção mudanças durante a vida, de acordo com
de um adulto, seja ele a mãe ou a figura outras experiências vividas pelo indivíduo.
de um outro cuidador. O tipo de cuida- O desenho tem sido usado há muito tem-
do oferecido pela mãe ou cuidador, ou po pela psicologia como forma de acessar
seja a figura de apego primária, oferece as representações do indivíduo acerca de
um protótipo de relacionamento sobre o si mesmo e do mundo que o cerca. Par-
qual a criança é capaz de construir suas tindo do mesmo pressuposto o desenho
expectativas diante de relacionamen- da família foi estudado por diversos au-
tos outros que surgem ao longo da vida. tores de forma a classificar características
Ainsworth (1978), em seu experimento no mesmo que tivessem correlação com
“Situação Estranha” observou três estilos os estilos de apego (Kaplan, May, 1986;
de apego, que se desenvolviam na crian- Fury, Carlson, Sroufe, 1997; Attili, Ruby,
ça conforme os critérios de sensibilidade 2000; Maddigan, Ladd, Golberg, 2003).
desta figura primária para responder aos Mais recentemente Roazzi, & cols., (2011)
sinais do bebê e a quantidade e a nature- também verificaram a possibilidade de
za da interação entre os mesmos. Assim, acessar as representações acerca das re-
crianças com estilo de apego seguro (B) lações afetivas por meio do desenho da
apresentam um bom equilíbrio entre au- família em crianças de educação infantil e
tonomia e proximidade, sendo capazes de ensino fundamental. Tal pesquisa, já rea-
utilizar a figura de referência como base lizada na Itália, está sendo trazida para o
segura. A qual é percebida pela criança Brasil por meio deste trabalho, tendo em
como positiva, sensível e sempre dispo- vista a necessidade de pesquisas com o
nível às suas requisições de ajuda. Nas tema, contextualizadas nesta realidade
crianças com apego evitante (A) há uma específica. Analisar a correlação entre as
ênfase na autonomia e independência, características do desenho da família e os
mostram-se indiferentes à figura de ape- Modelos Internos de Funcionamento, to-
go, a qual é percebida como impaciente, mando como base os estudos anteroires.
negativa e rígida. As crianças com apego Prover uma base para futura validação
ambivalente (C), por sua vez, apresentam do desenho como uma representação
excessiva ativação do sistema de apego, do apego por meio do uso de um instru-
buscando uma contínua confirmação da mento já conhecido. Avaliação de uma
presença e proteção da figura de apego. amostra composta por 25 alunos do 1º
É interessada, mas não consegue estabe- ano do Ensino Fundamental de uma es-
lecer rotinas sincronizadas, apresentando cola pública do Recife com relação aos
incoerências. Está convencida de não ser estilos de apego por meio de uma versão
amável, enquanto que o outro é percebi- modificada (Attili, 2001) do Separation An-
do como confiável e positivo. Os estilos de xiety Test, de Klagsbrun e Bowlby (1979).
apego discriminados por Ainsworth (op. Aplicação individual do teste do desenho
Cit.) sofreram uma evolução no sentido da família validado para classificação dos
de não serem mais vistos como formas es- estilos de apego por Fury e colaboradores
tanques de relacionamento. Os modelos (1997). A versão italiana do presente estu-
Internos de funcionamento (MIF), como do demonstrou que o desenho da família
agora são denominados, podem sofrer pode ser considerado um método válido

15
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

para assessar os estados atuais de apego A, C; ʤ2 (2)= 2.78 n.s.). Também desenha-
em crianças. Por meio de testes estatísti- ram mães com expressões faciais positivas
cos tradicionais, utilizando o SSA (Smallest (B>A, C; ʤ2 (2)= 8.2 p<0.05). Crianças evi-
Space Analysis - Bloombaum, 1970; Gutt- tantes desenharam com maior probabili-
man, 1965; Shye, 1985; or Similarity Struc- dade barreiras entre os representantes da
ture Analysis - Borg & Lingoes, 1987), mui- família (A > B, C; ʤ2 (2)= 8.7 p<0.05). Assim,
tas características do desenho mostraram temos fortes evidências que nos embasam
relação com as tipologias de apego. Dados no sentido de que os resultados do pre-
obtidos por meio de simultâneas inercor- sente estudo têm contribuições similares,
relações lançaram luz sobre as complexas porém respaldadas pela singularidade da
estruturas representacionais da criança cultura brasileira. De forma que se apre-
acerca de seus laços familiares. As seguin- sente como uma contribuição relevantes
tes variáveis dimensionais mostraram-se no aprofundamento da temática da Teoria
relevantes: Crianças coma pego ambiva- do Apego no país.
lente demonstraram maior probabilidade
de situar seu próprio desenho mais pró- Palavras-chave: desenho da família;
ximo do desenho da mãe que os segura- representação interna; teoria do apego.
mente apegados (os quais se desenhavam
a uma distância equilibrada da mesma:
C < B, A; ʤ2 (2)= .28 p<0.05), além disso LT01-1329 - WALLON E BOWLBY:
localizavam o desenho da família a uma AFETIVIDADE EM DISCUSSÃO
distância maior da borda inferior da folha
que as crianças seguras (C > B; ʤ2 (2)= 5.4 Fabíola Lira Gonçalves - UFPE
p<0,001), seus desenhos cobriam uma fmsgoncalves@ig.com.br
pequena área da folha em comparação Débora Matos - UFPE
comos desenhos das crianças com apego debkrm@gmail.com
seguro (C < B; ʤ2 (2)=2.81 p<0.05).As crian- Financiamento: CNPq
ças seguras se desenharam mais ao centro
da folha que as crianças de apego evitante O ponto de partida deste ensaio deu-se
(B<A; ʤ2 (2)=3.8 p<0.01). Variáveis catego- pela articulação entre teorias psicológicas
riais relevantes: Houve uma tendência por do desenvolvimento humano que tratam
parte das crianças inseguras , em compa- da afetividade. Neste sentido, propõe-se
ração às seguras, de desenharem figuras um diálogo entre as abordagens teóricas,
incompletas (B < A, C; ʤ2 (2)=3.41 p<0.05). a saber: a teoria psicogénetica de Wallon
No desenho de crianças ambivalentes ha- e a teoria do apego de Bowlby, já que es-
via ausência de chão em maior proporção tes autores defendem uma concepção in-
que no desenho das demais (C < A, B; ʤ2 tegrada do ser humano em seus aspectos
(2)= 10.9 p<0.05) e frequentemente suas cognitivos e afetivos. Historicamente, as
figuras estavam flutuando (C > B, A; ʤ2 teorias psicológicas têm gerado uma visão
(2)= 13.3 p<0.001). Crianças seguramen- dicotômica entre cognição e afetividade.
te apegadas mostraram maior probabili- A teoria psicogenética de Piaget (2007)
dade, embora não significativamente, de ressalta o aspecto cognitivo no desenvol-
desenhar figuras com braços abertos (B > vimento do indivíduo. Por outro lado, se

16
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

contempla na psicanálise a ênfase na sin- vas emoções que surgirão durante toda a
gularidade do sujeito, tendo a afetividade existência. Por essa via explicativa, o pres-
um papel central na constituição deste. suposto integrador entre os aspectos bio-
Na teoria walloniana as emoções e o afe- lógicos, cognitivos e afetivos funcionam de
to, tem papel fundamental na constituição modo sincrético, portanto indissociáveis.
da pessoa. A emoção teria primeiramente Wallon ressalta dois mecanismos regula-
a função biológica calcada na concepção dores do desenvolvimento psicogenético,
evolutiva de Darwin, tendo em vista que a a saber: alternância e preponderância,
espécie humana, em geral, tem um único estes se articulam num jogo interacional
filho por gestação, e um longo período de intenso entre os componentes biológicos
dependência deste em relação aos cuida- e sociais do psiquismo humano. À medida
dos do adulto para o seu desenvolvimento que as interações entre os indivíduos vão
pleno. A primeira manifestação de emo- ocorrendo, vão surgindo novas formas de
tividade na vida humana, conforme esta afetividade, por exemplo: o sentimento e
abordagem é o choro, que é concebido a paixão que podem se manifestar tanto
como a garantia de que as necessidades de modo verbal, pois há palavras que a
do bebê serão prontamente atendidas expressam, bem como gestos e atitudes
pela mãe. Daí tem-se uma emoção, car- motoras que podem expressá-las do mes-
regada de sua característica contagiosa mo modo, sem que haja uma hierarquia
e epidêmica, sendo à base da relação na forma escolhida pelo sujeito para ex-
eu-outro. Esta manifestação emotiva se pressar a afetividade. O que demarca a
constitui na relação entre os aspectos escolha da expressão afetiva é o contexto
biológico e social, pois o choro também interacional instaurado entre os sujeitos
é considerado por Wallon como uma ex- envolvidos no ato comunicacional. Para
pressão de linguagem, uma vez que a mãe Bowlby, o vínculo da criança à sua mãe é,
ouve o choro do bebê, é contagiada por também, um comportamento inicialmen-
sua reação emocional de desconforto e te de ordem primária e instintiva, cuja
reage atendendo às suas solicitações. Para função adaptativa seria a preservação da
Dantas (1992), na teoria walloniana, cuja vida. Assim a criança tem uma tendência
orientação filosófica é o materialismo dia- natural para buscar o contato e a proteção
lético, a emoção é simultaneamente bio- de um adulto, seja ele, a mãe ou a figura
lógica e social, circunscrita em um tempo de outro cuidador. Essa busca de contato,
historicamente situado, a premissa básica manifestada primeiramente pelo choro,
é da unicidade do sujeito nas dimensões provoca determinado tipo de reação na
que o integram. Desse modo, a emoção mãe, que a partir de então, se configura
humana, se constitui por meio das mani- como cuidadora. Constitui-se, assim, um
festações de linguagem verbais e não ver- estilo de relacionamento primário entre
bais que só acontecem em função da me- mãe e filho, ou cuidador e criança. O tipo
diação cultural e social entre sujeitos. As de cuidado concedido por este, oferece
etapas do desenvolvimento humano em um protótipo de relacionamento sobre o
Wallon não são estanques. O sujeito não qual a criança é capaz de construir, por
perde, ou substitui totalmente as emo- meio de generalização, suas expectativas
ções primárias, elas coexistirão com as no- diante de relacionamentos que surgem ao

17
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

longo de sua vida. Há, assim, duas condi- indissociável, afetando todas as esferas da
ções que contribuem na formação ou não vida do indivíduo. Assim as duas teorias
do apego a uma figura primária, ou ainda integram a base orgânica e contato com o
ao estilo de apego proveniente desta re- outro, com o social, os quais impulsionam
lação: a) a sensibilidade desta figura para o afeto e a cognição. Este homem comple-
responder aos sinais do bebê; b) a quan- to e total tem todos estes componentes
tidade e a natureza da interação entre os constantemente interagindo entre si. Ele
componentes do par. Conforme estas va- está, ao mesmo tempo, se adaptando ao
riáveis, três padrões básicos de apego po- meio, aprendendo o mundo ao seu redor,
dem se desenvolver (Ainsworth, 1978): a) significando o mesmo e se relacionando
Crianças com estilo de apego seguro apre- com o outro a partir de suas experiências.
sentam um bom equilíbrio entre autono- Todas estas atividades coexistem e se nu-
mia e proximidade, sendo capazes de uti- trem mutuamente.
lizar a figura de referência como base se-
gura, a qual é percebida pela criança como Palavras-chave: Afetividade, Psicogênese da
positiva, sensível e sempre disponível às Pessoa Completa, Teoria do Apego.
suas requisições de ajuda; b) Nas crian-
ças com apego evitante há uma ênfase na
autonomia e independência, mostram- LT01-1373 - O DESENVOLVIMENTO DO
-se indiferentes à figura de apego, a qual OLHAR NO BEBÊ E SUA RELAÇÃO COM
é percebida como impaciente, negativa e O DESENVOLVIMENTO POSTURAL:
rígida; e c) As crianças com apego ambiva- REFLEXÕES SOBRE RELAÇÃO, CULTURA E
lente, por sua vez, apresentam excessiva COMPLEMENTARIDADE
ativação do sistema de apego, buscando Natália Meireles Santos - FFCLRP/USP
uma contínua confirmação da presença e nmeireles@aluno.ffclrp.usp.br
proteção da figura de apego. É interessa- Kátia de Souza Amorim - FFCLRP/USP
da, mas não consegue estabelecer rotinas katiamorim@ffclrp.usp.br
sincronizadas, apresentando incoerên-
cias. Está convencida de não ser amável, O primeiro ano de vida é uma etapa de
enquanto que o outro é percebido como grandes transformações no desenvolvi-
confiável e positivo. Estes estilos de apego mento humano, em que inúmeras habili-
tornam-se relativamente estáveis entre o dades são adquiridas (Pio, 2007). Estudar
primeiro e o segundo ano de vida e se ma- o bebê é uma forma de aprender sobre
nifestam como uma “tendência geral” que quem somos e como somos constituídos
influencia as relações do sujeito consigo, (Bussab, Carvalho & Pedrosa, 2007). O
com o outro e com o meio. Estes estilos, bebê apresenta formas particularizadas de
porém, podem ser alterados a partir de interação, reveladas por episódios “mais
outras experiências significativas ao lon- fugazes, desordenados, pouco estrutura-
go da vida. Autonomia, autoconfiança, dos e pouco intencionais” (Anjos, Amorim,
confiança para explorar e conhecer, são Rossetti-Ferreira & Vasconcelos, 2004).
características intimamente relacionadas Apesar disso, o bebê apresenta formas de
a um apego seguro. Percebe-se uma rela- expressão significativa, (gestos, expres-
ção entre afetividade e cognição, de forma sões faciais, vocalizações, postura corpo-

18
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

ral) com indícios importantes de intenção, desenvolvimento postural, em dois bebês


desejos, incômodos, capazes de suscitar analisados em situação de interação em
reações no outro, quer seja um adulto ou dois contextos (ambiente domiciliar e cre-
outra criança. No processo, o bebê mostra- che). Para a condução do projeto, o mes-
-se ativo dentro de um sistema cultural mo foi submetido à avaliação do Comitê
ao utilizar-se de capacidades interativas de Ética em Pesquisa (CEP), da Faculdade
empregadas a partir de meios convencio- de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão
nais de comunicação direcionados ao ou- Preto (FFCLRP/USP), sendo aprovado, em
tro, como o sorriso e o olhar (Anjos et al., concordância com a Resolução n° 196/96.
2004). O olhar destaca-se como recurso A coleta e análise de dados estão sendo
comunicativo, indo além da visão, atingin- conduzidas fundamentalmente através da
do a esfera relacional e propiciando comu- perspectiva da Rede de Significações (Ros-
nicação (Belini & Fernandes, 2008). Nesse setti-Ferreira, Amorim, Silva & Carvalho,
sentido, Elmôr (2009) aponta o olhar como 2004). Estão sendo realizados dois estudos
uma ferramenta importante para estabe- de caso (Yin, 2005), com acompanhamen-
lecer comunicação entre seres humanos. to longitudinal. Entende-se que o estudo
Fogel e cols. (1999) acrescentam a postu- de caso propicia a observação em ambien-
ra como aspecto influente no desenvolvi- te natural, de forma a apreender a comple-
mento do olhar no bebê, destacando que, xidade em que os processos estão imersos;
nos primeiros meses de vida, o posiciona- e, de maneira a preservar as características
mento corporal do bebê ainda está muito significativas dos acontecimentos, dentro
subjugado ao manejo adulto. Os autores de seus contextos e relações (Freitas & Po-
ressaltam a importância de investigar o pa- zzebon, 1998). Criança em domicílio: Os
pel de fatores motores e sociais envolvidos sujeitos são um bebê (Marina), sua mãe
nessa associação da postura e do olhar. (Júlia) / o pai (Pedro) e a avó (Mirian). O
Amorim (2008) aponta como a mudança material empírico é do Banco de imagens
postural proporciona uma modificação do projeto Processos de (Trans)formação
significativa na percepção e participação da Comunicação e Linguagem, ao Longo
no ambiente por parte do bebê. Bebês do Primeiro Ano de Vida: Um Estudo de
que antes demonstravam certo isolamen- Caso (Rodrigues, 2008). Esse estudo acom-
to em relação às coisas ao redor passam a panhou o bebê, semanalmente, desde seu
ter maior atenção ao ambiente e a buscar nascimento, ao longo de todo seu primei-
ativamente a proximidade com outros. Os ro ano de vida, investigando o desenvol-
processos envolvidos na co-construção do vimento da comunicação e da linguagem
engatinhar estariam ligados à emergência durante esse período. Serão utilizadas ce-
de maior intencionalidade e autonomia no nas da criança a partir do quarto mês de
bebê. Mas, há a necessidade de estudos vida. Criança em creche: O sujeito pivô é
mais sistemáticos a essa questão. Traçou- Nisete, 5m e 6d ao ingresso na creche. Seu
-se assim, o objetivo do estudo. O objetivo estudo se fará a partir do banco de Ima-
tem sido investigar como se dá o processo gens do Projeto Integrado Processos de
de transformação do olhar como recurso Adaptação de Bebês à Creche (Rossetti-
expressivo no bebê; e como se dá a relação -Ferreira, 1994). Este projeto acompanhou
daquele com diferentes momentos de seu os processos de ingresso e frequência de

19
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

21 bebês, em uma creche universitária. gociação do olhar por parte da mãe que
Acredita-se que esses contextos permitam suscita reflexões sobre a inserção desse
evidenciar processos de desenvolvimento recurso em nossa cultura e como o bebê
significados de diferentes maneiras, pelas se apropria deste na interação, inclusive
particularidades de organização dos espa- quando não há pontos de encontro; nem
ços, bem como pelas práticas discursivas sempre Marina retribui o olhar à mãe, mas
do contexto e das pessoas no entorno e antes se volta para seu próprio corpo. Cha-
em interação. As gravações dos bebês es- ma ainda a atenção o contato e manejo
tão sendo vistas e algumas cenas, transcri- corporal do bebê realizado pela mãe em
tas. Nessas são buscadas particularidades uma relação também negociada. Marina
nos processos de olhar e da postura corpo- não é simplesmente subjugada às ações da
ral. As cenas são analisadas microgenetica- mãe , mas esta também reage à comunica-
mente (Goes, 2000), de modo a apreender ção do bebê (choro, movimento corporal,
mudanças ao longo do tempo, através de olhar), numa relação de complementarida-
recortes de episódios de diferentes mo- de (Seidl de Moura & Ribas, 1999).
mentos do desenvolvimento postural e do
olhar no bebê. A partir do mapeamento Palavras-chave: olhar, comunicação,
realizado, foi recortado um episódio inte- desenvolvimento postural
rativo no ambiente domiciliar: Júlia leva
Marina (quatro meses) para o quarto para
dar-lhe banho. Deita-a virada para cima LT01-1435 - A COMPREENSÃO
na cama. Marina começa a choramingar. INTERDISCIPLINAR DA RELAÇÃO
Júlia senta Marina na cama, segurando-a MÃO-BEBÊ: UMA APROXIMAÇÃO DE
de modo que ambas ficam frente a fren- WINNICOTT À NEUROCONCIÊNCIA DO
te (Júlia abaixa-se ao lado). Marina olha e DESENVOLVIMENTO
passa a mexer nos pés. Começa um movi- Célia Regina de Souza Cauduro - USP/SP
mento em que Júlia insistentemente tenta crcauduro@uol.com.br
chamar a atenção de Marina, utilizando-se Vera Silvia Raad Bussab - USP/SP
de vários recursos auditivos e táteis. Nem vsbussab@gmail.com
sempre Marina retribui com o olhar, mas
quando o faz ambas sorriem. Júlia levanta- Na teoria psicanalítica de Donald W. Win-
-se então e pega Marina no colo, e leva-a nicott ((1983; 1988 a, b, c, d; 1990; 1994;
para frente de um espelho, com ambas 1997; 1999 a, b, c, d, e) sobre a constitui-
voltadas para o mesmo. Enquanto isso, a ção do sujeito e nos trabalhos da Neuro-
pesquisadora passa por detrás com a câ- ciência do Desenvolvimento, existem afir-
mera, chegando a aparecer no espelho. O mações sobre a importância da qualidade
olhar de Marina volta-se para a imagem da experiência vincular nas primeiras eta-
da pesquisadora. Marina movimenta-se e pas da vida pós-natal. A correspondência
esforça-se para virar-se para trás. Quando entre estas duas teorias se organiza por
a mãe o percebe, vira seu próprio corpo, meio do conceito winnicottiano de expe-
tornando possível que Marina olhe direta- riência intersubjetiva: “o bebê no colo da
mente para a pesquisadora. No episódio, mãe, que precisa crescer, isto é, consti-
fica evidente a insistente e custosa ne- tuir uma base para continuar existindo e

20
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

integrar-se numa unidade” (Loparic, 2008, tas não verbais dos comportamentos do
p.145). Segundo Loparic (2008), “Winni- bebê, crucial para o estabelecimento de
cott introduziu um novo modelo ontoló- um vínculo seguro (Schachner, Shaver, &
gico do objeto de estudo da psicanálise, Mikulincer, 2005). A autoregulação emo-
centrado no conceito de tendência para cional é a habilidade para controlar esta-
a integração, para o relacionamento com dos internos ou respostas relacionadas
pessoas e coisas e para a parceria psicos- aos pensamentos, emoções, atenção e
somática“ (p.145). Esta afirmação de Lo- desempenho. Os mecanismos neurais que
paric (2008) é apoiada pelas pesquisas sustentam os processos regulatórios po-
neurocientíficas sobre o desenvolvimento dem ser os mesmos que fundamentam os
humano que afirmam que o corpo ma- processos cognitivos superiores. Existem
terno é a principal fonte de provisão das processos complexos pelos quais a emo-
informações ambientais, e funciona como ção relaciona-se à cognição e ao compor-
um regulador externo que organiza os tamento, que, conseqüentemente, inter-
sistemas neurológico, perceptual, emo- ferem no processo de desenvolvimento
cional e relacional pela sua presença físi- (Bell & Wolfe, 2004; Bell & Kirby, 2007).
ca e pelo seu comportamento interativo A autoregulação emocional desempenha
(Feldman, 1996; 1999; 2003; 2006; 2007). um papel central na socialização e no de-
A Neurociência do Desenvolvimento - As senvolvimento do comportamento moral,
conclusões dos estudos da neurociência depende do desenvolvimento do córtex
do desenvolvimento descrevem como as pré-frontal; está associada ao desenvolvi-
experiências vividas na interação entre a mento de diferentes estratégias de adap-
criança e o cuidador primário no período tação durante as etapas subseqüentes do
neonatal, podem alterar o processo de ciclo vital (Levesque, A., 2004; Lewis &
desenvolvimento do sistema nervoso. Os Stieben, 2004). As situações de negligên-
bebês, ao nascerem, apresentam consi- cia e maus tratos, eventos traumáticos
derável individualidade, são sensíveis aos que quando duradouros, representam
estados afetivos do outro e mobilizam res- risco ao desenvolvimento psiconeurobio-
postas em seu meio ambiente. Tal capaci- lógico infantil; estas situações podem es-
dade requer um grau significativo de inter tabelecer uma vulnerabilidade ao estresse
coordenação pré-funcional entre o cére- pós-traumático (PTSD), e uma predisposi-
bro e o corpo. Atualmente, existe grande ção à violência na idade adulta. Situações
evidência que a organização do cérebro de privação ou trauma que promovem
do neonato é altamente dependente da interrupções no processo de formação do
estimulação dos cuidadores, e que estas vínculo, causadas por fatores maternos
interações quando validadas por experi- (ex. depressão pós-parto) e/ou relaciona-
ências adequadas, constituem um regula- das ao bebê (doenças hereditárias, congê-
dor da epigênese social da mente infantil, nitas ou adquiridas), podem desorganizar
isto é, promovem as condições necessária a regulação psicobiológica e neuroquímica
para a autoregulação emocional. Estas ex- no desenvolvimento cerebral, conduzindo
periências adequadas são proporcionadas à neurogênese, sinaptogênese e diferen-
por um cuidador primário (mãe) sensível ciação neuroquímica anormais.Os dados
capaz de decodificar ou entender as pis- da pesquisa de Chelini et al., (2010) inclu-

21
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

ída no Projeto Ipê -Temático FAPESP no. sutis interações emocionais alteram os ní-
06/59192-2, que estuda possíveis efeitos veis da atividade cerebral e exercem um
da Depressão Pós-Parto (DPP) no desen- papel importante no estabelecimento e
volvimento numa população atendida manutenção dos circuitos do sistema lím-
pelo sistema público de saúde apontam bico (Ziabreva, I., Poeggel, P., Reinhild, S.,
que “ a resposta do cortisol a um estres- Braun, K., 2003; Wilkinson,2004; Cirulli,
sor leve foi maior em filhos de mães de- Berry, Alleva, 2003; Bradshaw, Schore,
primidas (análise de medidas repetidas; Brown, Poole, & Moss, 2005; Fonagy &
t = 2,44, 94df, p = 0,0166). Este resultado Target, 2005; Ovstscharoff e Braun, 2001;
indica que aos quatro meses após o parto Balbernie, R.(2001); Graham, et al.,1999;
o eixo HPA pode ter sido afetado pela DPP Schore, 2005). “A “mãe suficientemente
materna, já que filhos de mães deprimidas boa” tambem não existe sem os outros.
não mostraram a esperada supressão da Ela não existe sem um campo sociocul-
resposta do cortisol comumente observa- tural, que lhe dê possibilidades de exer-
da em torno de três meses”. Em concor- cer suas funções” (Safra, 2002).Coerente
dância com Ovstscharoff e Braun (2001), com afirmação de Fonseca, V.R.J.R.M. et
a interação diádica entre o recém-nascido al. (2010) - Projeto Ipê -Temático FAPESP
e a mãe funciona como um regulador do no. 06/59192-2, “A sensibilidade materna
desenvolvimento da homeostase inter- é influenciada por fatores sócio-cognitivos
na infantil. Interferem no funcionamento e afetivos”. As conclusões da pesquisa de
normal do eixo HPA (Hipotálamo-Pituitá- Defelipe, (2009) - Projeto Ipê -Temático
ria-Adrenal) resultando na alteração do FAPESP no. 06/59192-2: “A DPP1 parece
ritmo circadiano, elevando os níveis ba- capaz de perturbar os arranjos interativos
sais e reduzindo o volume cerebral. Os tornando-os menos consistentes. Porém,
efeitos podem ser de longo prazo, con- apesar desta possível limitação, por vezes,
duzindo a uma intensa resposta do eixo mães com DPP podem interagir adequa-
HPA a qualquer situação desafiadora, damente com seus bebês. Por fim, a DPP
atrofia hipocampal e prejuízos no desem- por não se tratar de um fenômeno capaz
penho cognitivo na vida adulta. Winnicott de incidir linearmente sobre a interação
e a Neurociência do Desenvolvimento: a mãe-bebê, e sobre o desenvolvimento
construção de uma hipótese interdiscipli- posterior, deve ser investigada em asso-
nar - A hipótese formulada a partir desta ciação com outros fatores psicossociais
aproximação é que a relação de mutuali- de risco.” Confirmam a compreensao de
dade entre o biológico, o emocional e o Aitken & Trevarthen (2001) que conside-
social (e não o emocional enquanto uma ram o vínculo como resultado de um con-
conseqüência linear da condição biológi- junto complexo de fatores individuais e
ca, ou o biológico como condição direta ambientais que interagem de uma forma
do emocional) apontada pela neurociên- não linear.
cia, no processo de desenvolvimento hu-
mano, é estabelecida por meio de uma Palavras-chave: Psicanálise, Neurogênese,
relação intersubjetiva fundada em uma Vínculo
maternagem que Winnicott (1988) cha-
mou de “mãe suficientemente boa”.Estas 1
DepressãoPós-Parto.

22
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

CO 10 - LT01 criança podem antecipar seu diagnóstico.


O presente estudo teve por objetivo inves-
Depressão Pós-parto tigar se os efeitos da DPP sobre a função
adrenal da criança podem ser detectados
no recém-nascido. Também foi avaliada a
LT01-901- DEPRESSÃO PÓS-PARTO:
relação entre a interação mãe/bebê e os
O IMPACTO SOBRE A RESPOSTA AO
níveis de cortisol. Hipotetizamos que: 1)
ESTRESSE DO BEBÊ É MODULADO PELO
recém-nascidos cujas mães desenvolverão
COMPORTAMENTO MATERNO
DPP apresentam concentrações de corti-
Marie-Odile Monier Chelini - IPUSP sol salivar mais altas do que aqueles cujas
marodiche@gmail.com mães não apresentarão DPP, 2) filhos de
Vera Regina J. R. M. Fonseca - IPUSP mães com DPP apresentam aos 4 meses
veraregina.fonseca@gmail.com de idade concentrações basais de cortisol
Vinicius Frayze David - IPUSP mais altas do que filhos de mães sem DPP,
viniciusfdavid@gmail.com 3) filhos de mães deprimidas apresentam
Emma Otta - IPUSP aos 4 meses reação endócrina ao estresse
emmaotta@usp.com mais acentuada do que filhos de mulheres
Financiamento: FAPESP sem DPP, e 4) há correlação negativa entre
concentrações de cortisol dos recém-nas-
A depressão pós-parto (DPP) afeta, mun- cidos e intensidade da interação positiva
dialmente, uma entre cada cinco partu- mãe/bebê. Metodologia: A amostra conti-
rientes (Miller, 2002; Nemeroff, 2008), nha 74 mães e filhos, participantes de um
comprometendo o desenvolvimento e estudo longitudinal sobre DPP. O cortisol
comportamento dos seus filhos (Essex dos bebês foi mensurado em amostras de
et al., 2002; Herrera et al., 2004; Pearls- saliva coletadas dois dias após o nascimen-
tein et al., 2009). Particularmente, uma to (alta) e 4 meses depois do parto, antes
relação significante entre depressão ma- e depois de um exame clínico. As mães fo-
ternal após o parto e disfunções do eixo ram classificadas quanto à DPP três meses
hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA) de após o parto, através da escala de depres-
seus filhos foi evidenciada, com níveis de são pós natal de Edimburgo (EPDS) (Cox
cortisol aumentados em bebês, crianças e et al., 1987), validada no Brasil (Santos et
adolescentes (Brennan et al., 2008; Kaplan al, 1999). Foram consideradas deprimidas
et al., 2008). Em geral, os sintomas da DPP mães que receberam escores superiores
ficam evidentes algumas semanas após o a 11. Interação mãe/bebê: Foram anali-
parto (Robertson et al., 2004). Entretanto, sados os 3 primeiros minutos da filma-
uma detecção antecipada dos seus efei- gem do primeiro encontro da mãe com o
tos sobre o bebê permitiria implantar-se bebê. Baseado na escala de Biringen, et al.
cuidados preventivos para limitar sua se- (2000), foi criada uma escala de 4 pontos
veridade. Uma reatividade psicológica e (0 ausência e 3 máximo) para seis catego-
adrenal aumentada ao estresse psicosso- rias de comportamento materno (vivacida-
cial durante a gestação foi associada a um de, falar espontâneo com o bebê e sobre
risco maior de DPP (Nierop et al., 2006), o bebê, sorrir, tocar o bebê e olhar para o
sugerindo que efeitos da DPP sobre a bebê) e quatro do bebê (vivacidade, exci-

23
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

tação, olhar e ser acalmado pelo contato (19.9 ± 3.3 nmol/L vs 9.3 ± 1.8 nmol/L), aos
com a mãe). Dados dos recém-nascidos 4 meses antes (8.2 ± 2.3 nmol/L vs 2.7 ±
foram obtidos dos prontuários. Análise es- 0.5 nmol/L) e depois do evento estressor
tatística: Utilizamos testes t e chi quadra- (11.1 ± 2.3 nmol/L vs 4.0 ± 0.6 nmol/L).
do entre os grupos com e sem DPP para Discussão: O nível de cortisol dos bebês
identificar possíveis variáveis de confusão. aos 4 meses é semelhante entre os grupos,
Depois, foi formulado e ajustado um mo- contradizendo alguns resultados (Brennan
delo linear misto (LMM), descrevendo a et al., 2008) mas consistente com Azar et
concentração do cortisol dos bebês como al. (2007). Diferentemente de Azar, não
função da condição da mãe (DPP) e do foram encontradas diferenças na variação
tempo (Demidenko, 2004). Foram então do cortisol frente ao estresse, entretanto,
testados efeitos possíveis de variáveis do observou-se maior variação interindividual
recém-nascido e dos escores de relação no grupo filhos de deprimidas, sugerindo
mãe/bebê sobre cada medida de cortisol. reação mais heterogênea ao estresse. A
O nível de significância adotado foi < 0,05. análise mostrou uma explicação possível,
Resultados: Foram consideradas deprimi- evidenciando correlação entre maior res-
das 16 mulheres (23,8%). Não houve dife- posta endócrina ao estresse e menores es-
renças da interação avaliada para mães e cores de interesse materno apenas no gru-
bebês entre grupos, nem para nenhuma po com DPP. A análise inferencial mostrou
variável de confusão. O LMM mostrou efei- também diferença entre os grupos nas
to do tempo no cortisol (F2/71 = 25.52, p < concentrações basais de cortisol. Os níveis
0.0001). Nos dois grupos, a concentração de cortisol estimados depois do controle
de cortisol era maior na alta que na linha de para efeito do interesse materno sugerem
base aos 4 meses e aumentou após o exa- que a qualidade da interação materna de-
me clínico. Não houve efeito da DPP nem pois do parto pode tamponar o efeito da
da interação DPP e tempo sobre os níveis depressão no eixo HPA dos bebês, mesmo
de cortisol. Verificou-se, contudo, um coe- apenas 2 dias após o nascimento, quando
ficiente de variação (CV) maior na resposta a DPP ainda não é detectável. Efeitos si-
endócrina de filhos de mães deprimidas milares foram reportados (Gunnar, 1998;
em resposta ao estressor (CV = 124.54) do Kaplan et al., 2008). Nossos resultados su-
que no outro grupo (CV = 75.47). O modelo gerem que intervenções visando melhorar
mostrou interação no tempo entre escore a qualidade dos cuidados maternos, suge-
de interesse materno e DPP apenas entre ridas em estudos prévios (Gunnar & Don-
filhos de mães deprimidas (F1/51 = 4.18, p = zella, 2002; Wachs et al., 2009) podem ser
0.046). Especialmente, foi evidenciada cor- implantadas desde os primeiros momen-
relação negativa entre escore do interesse tos de vida do bebê.
materno e variação do cortisol do bebê
após o evento estressor apenas no grupo Palavras-chave: Depressão pós-parto; cortisol;
com DPP (Pearson r = -0.904, p = 0.005). interação mãe-bebê.
Com o modelo, foi possível controlar as Contato: Departamento de Psicologia
concentrações de cortisol pelo interesse Experimental, Instituto de Psicologia,
materno, que então se mostraram maio- Universidade de São Paulo, São Paulo
res em filhos de mães deprimidas na alta marodiche@gmail.com

24
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

LT01-937 - RELAÇÃO ENTRE distinguir e preferir um agente cooperati-


DEPRESSÃO PÓS-PARTO MATERNA E vo a um não cooperativo (Hamlim, Wynn,
DESENVOLVIMENTO DA COOPERAÇÃO Bloom, 2007), o que é, em si mesmo, in-
EM CRIANÇAS dicativo da importância deste desenvolvi-
Laura Cristina Stobäus - IP/USP mento precoce. A cooperação entre pares
stobaus@usp.br, Capes parece emergir ao final do segundo ano,
Maria Lucia Seidl de Moura - UERJ através de jogos imitativos. No terceiro
mlseidl@gmail.com ano as crianças se tornam mais compre-
Vera Silvia Raad Bussab - IP/USP ensivas quanto às ações e desejos dos
vsbussab@usp.br outros, podendo entender quando estes
não foram alcançados (Brownell, Rama-
Financiamento: Capes, CNPq, FAPERJ e FAPESP ni, Zerwas, 2006), condição básica para a
potencial oferta de ajuda. As descobertas
Estudos em diferentes ambientes socio- que as crianças fazem a respeito das emo-
culturais têm mostrado uma incidência de ções e de estados mentais dos outros são
depressão pós-parto (DPP) em 10 a 20% centrais para o desenvolvimento de suas
das mulheres. Dentre as decorrências re- relações sociais e vão se aprimorando
levantes do quadro, tem havido um inte- através da experiência comunicativa nas
resse especial nos potenciais comprome- relações familiares (Dunn e Brophy, 2005).
timentos da interação mãe–bebê (Field, Em pesquisas anteriores do presente pro-
2010), no desenvolvimento cognitivo e jeto, microanálises mostraram diferen-
emocional da criança (Murray e Cooper, ças nesta experiência comunicativa: por
1997) que repercute, entre outras dimen- exemplo, arranjos interacionais mãe-bebê
sões, no desenvolvimento do comporta- (4 meses) apresentaram-se menos estru-
mento cooperativo da criança. Este tra- turados na presença de DPP (De Felipe,
balho é parte do Projeto longitudinal “De- 2009), bem como nos padrões gerais des-
pressão Pós-Parto como um fator de risco tas crianças que com 1 ano brincaram me-
para o desenvolvimento do bebê: estudo nos e ficaram mais ansiosas em situações
interdisciplinar dos fatores envolvidos na de separar-se da mãe (Vicente, 2009). O
gênese do quadro e em suas consequên- desenvolvimento da capacidade de “teo-
cias” (temático Fapesp nº 06/59192). Día- ria da mente” na criança está diretamente
des mãe-bebê, usuárias do sistema públi- relacionado a aspectos essenciais desta
co de saúde, têm sido acompanhadas des- experiência interacional, como o da aten-
de a gestação até o terceiro ano da crian- ção compartilhada e da linguagem. Ambas
ça, de modo a investigar fatores ligados à passam por etapas de aquisição e aprimo-
DPP e seus possíveis efeitos no desenvol- ramento (Baron-Cohen e Swettenham,
vimento infantil. A ontogênese da coope- 1997; Carpenter, Nagel e Tomasello, 1998)
ração envolve uma representação interna e propiciam à criança compartilhamento
das próprias intenções e objetivos, base e troca de experiências com as pessoas
para a inferência de que o outro também significativas da sua convivência, em es-
possui desejos e intenções semelhantes, pecial a mãe (Peterson, 2000). Dentre as
isto é uma “Teoria da Mente” (Tomasello, inúmeras influências maternas, ligadas
2009). Com um ano, a criança consegue ao desenvolvimento do apego e da regu-

25
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

lação emocional, pode-se destacar a que significativamente mais do que os me-


se inicia no “mamanhês”: as referências ninos (x²=6,04, p=0,02, 71% x 30%). Não
maternas ao classificar objetos presentes houve diferença na ajuda à mãe: a grande
no foco de atenção da criança favorecem maioria das crianças ajudou, independen-
a aquisição da linguagem e o entendimen- temente da DPP (80% das com DPP e 88%
to social (Ensor e Hughes, 2008). Eviden- sem DPP), e do sexo (83% dos meninos e
temente, importa o contexto significativo 86% das meninas). Discussão: Concluímos
da composição familiar: embora a mãe que a DPP materna influenciou algumas
em geral ocupe posição central, também das respostas cooperativas das crianças,
podem estar presentes outros adultos e especificamente quanto à pessoa desco-
outras crianças (Dunn e Brophy, 2005). O nhecida. Evidentemente, a mãe, além de
objetivo do presente estudo foi avaliar, conhecida, ocupa lugar central na cons-
através de tarefas de cooperação infantil, telação afetiva da criança e isto deve ser
se a DPP afeta o desenvolvimento do com- levado em conta na discussão. Ainda as-
portamento de cooperação de crianças, sim a familiaridade parece relevante neste
uma vez que esta condição pode afetar contraste de efeitos da DPP: a menor co-
as experiências interacionais e afetivas laboração com a pessoa estranha pode re-
da díade. MÉTODO. Participantes: Foram presentar dificuldade de estabelecimento
estudadas 50 crianças de três anos (16 inicial de relações no caso das crianças de
meninos, 36 meninas), distribuídas igual- mães com DPP. Também merece destaque
mente quanto a indicadores de depressão a interação com o sexo da criança: como
pós-parto de suas mães (DPP) aos 4 meses as meninas apresentaram mais propen-
pós parto (Escala de Depressão Pós-Parto são à ajuda do desconhecido do que os
de Edimburgo). Procedimento: Foi filma- meninos, precisa-se avaliar, cercando-se
do o desempenho da criança em tarefas de novos dados, se os meninos são mais
de cooperação: 1) ajudar a mãe, pessoa afetados neste aspecto pela DPP materna.
familiar, a guardar brinquedos, depois de Os resultados são compatíveis com a su-
uma sessão de brincadeira e 2) ajudar ex- posição de que a condição de DPP afeta
perimentador, desconhecido, a pegar ob- de modo complexo os processos subja-
jeto que ele deixa cair ao solo (adaptadas centes à interação social com pessoas não
de Warneken et col. 2007). Resultados: conhecidas e com a mãe. Conjugados com
Foram encontradas diferenças significa- resultados anteriores que mostravam al-
tivas (qui-quadrado) na ajuda ao experi- terações interacionais das díades com DPP
mentador na situação geral, agrupando (em DeFelipe, 2009 e Vicente, 2009, acima
ausência de ajuda no conjunto com a não apresentados), compõem um quadro de
ajuda na tarefa específica: crianças do gru- efeitos destas peculiaridades das experi-
po DPP, cooperaram menos que as demais ências comunicativas no desenvolvimento
(x²=6,52,p=0,02; 72%x36%). Embora não subsequente. Não indicam um prejuízo
tenha havido diferença significativa entre generalizado na capacidade de assumir a
os sexos nesta categoria, meninas tende- perspectiva mental do outro, uma vez que
ram a cooperar mais (x²=4,17, p=0,67; 56% a ajuda à mãe se processa da mesma ma-
x 26%). Na categoria específica de ajuda neira nos dois grupos. Mas mostram uma
ao experimentador, meninas cooperaram resistência à ajuda ao desconhecido, na

26
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

condição DPP, especialmente no caso dos indivíduo, devido às influências que pode
meninos. De um modo geral, a constata- exercer em seu comportamento. Os pais
ção deste tipo de efeito da DPP no desen- são considerados como a fonte primária
volvimento da criança contribui para uma que o ser humano possui de contato com
compreensão mais ampla do processo. o mundo, e desempenham um papel im-
Além disso, a constatação destes efeitos portante no comportamento e desenvol-
ligados à inserção social da criança confe- vimento da criança e adolescente, como
re importância adicional à prevenção e à mediadores entre eles e a sociedade. Di-
intervenção. versos estudos ressaltam que a convivên-
cia das crianças com mães que apresen-
Palavras-chave: depressão pós-parto, tam transtornos psiquiátricos, incluindo a
cooperação infantil, interação mãe-bebê. depressão, configura-se como um fator de
Contato: Laura Cristina Stobäus risco para o desenvolvimento dos filhos.
e-mail: stobaus@usp.br Nesse sentido, este estudo busca correla-
cionar sintomas depressivos de mães com
problemas de comportamentos internali-
LT01-957 - CORRELAÇÃO ENTRE zantes e externalizantes de seus filhos. Os
SINTOMAS DEPRESSIVOS MATERNOS participantes do estudo foram 21 sujeitos,
E PROBLEMAS DE COMPORTAMENTOS sendo 42% do sexo feminino e 58% do
EM CRIANÇAS COM DESENVOLVIMENTO sexo masculino, com idade média de 8,90
TÍPICO anos (dp=0,91) entre 7 e 11 anos, que fre-
Ana Ribeiro Santana - UFRB/CCS quentam uma escola pública da cidade de
ana.ribeiro_22@hotmail.com Santo Antônio de Jesus-BA. Os instrumen-
Gustavo Marcelino Siquara - UFRB/CCS tos utilizados foram a Escala de Depressão
gustavosiqura@hotmail.com Beck e a Lista de Verificação Comporta-
Thiago da Silva Gusmão Cardoso - UFRB/CCS mental (Child Behavior Checklist – CBCL),
thiago_gusmao1@hotmail.com versão para pais. O Inventário de Depres-
Mariângela Santos de Jesus - UFRB/CCS são de Beck (IDB) é um instrumento de au-
mariangela.santos@msn.com torrelato constituído por 21 grupos de afir-
Patrícia Martins de Freitas - UFRB/CCS mações de múltipla escolha em que a pes-
pmfrei@yahoo.com.br soa deve responder qual a opção que esta
Financiamento: FAPESB e CNPq de acordo com o seu estado na naquela
determinada situação. Os itens estão rela-
A família é uma instituição primária, na cionados aos sintomas depressivos como
qual, o indivíduo tem contato com as pri- desesperança, irritabilidade, culpa além
meiras interações sociais. Esse sistema de sintomas físicos como fadiga, perda de
pode ser compreendido como grupo de peso e diminuição da libido. Já o CBCL é
pessoas que interagem a partir de vín- um questionário que avalia a competência
culos afetivos, consanguíneos, políticos social e problemas de comportamento em
e que estabelecem uma rede infinita de crianças e adolescentes em duas versões
comunicação e de mútua influência. A fa- uma de 1 ano e 6 meses até 5 anos e ou-
mília consolida-se como um importante tra de 6 a 18 anos, a partir de informações
nicho para o desenvolvimento global do fornecidas pelos pais. As escalas do CBCL

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

identificam problemas de comportamento quanto externalizante. Diante desse resul-


frequentemente encontrados na infância tado, juntamente com a literatura atual,
e na adolescência. As subescalas são clas- podemos concluir que os problemas de
sificadas como: Ansiedade/Depressão, Re- comportamentos representam déficits ou
traimento, Queixas Somáticas, Problemas excedentes comportamentais que prejudi-
socialização, Problemas Pensamento, Pro- cam o desenvolvimento cognitivo, físico e
blemas Atenção, Comportamento Que- psicossocial. Esses comportamentos atri-
bra-Regra, Comportamento Agressivo. Os bui nas crianças um sentimento de empo-
pais foram convidados para uma reunião brecimento na capacidade pessoal, e incu-
na qual foi apresentado o projeto. Após te o sentimento de incompetência pesso-
esclarecimentos os pais assinavam o Ter- al, que podem se apresentar na forma de
mo de Consentimento Livre e Esclarecido sentimentos de vergonha, dúvidas sobre
(TCLE) e responderam o CBCL e o BDI. Para si mesmas, baixa estima e distanciamento
análise de dados foi utilizado o programa das demandas da aprendizagem. Assim,
estatístico SPSS 18.0. Os dados foram ana- faz-se necessário que o processo desen-
lisados através da correlação de Pearson. volvimental seja bem sucedido para que
As correlações foram às seguintes entre o: as crianças tornem-se adultos saudáveis
BDI e Problemas de socialização (r= 0,507 e competentes para responder de modo
e p=0,04*); Problemas de Pensamento (r= satisfatório às demandas de seu ambiente
0,509 e p=0,04*); comportamento de que- emocional, social, familiar e profissional.
bra de regra ( r=0,483 e p=0,03*); compor-
tamento agressivo ( r=0,50 e p> 0,05); an- Palavras-chave: depressão; comportamento;
siedade e depressão ( r=0,477 e p=0,053); desenvolvimento.
retraimento (r=0,343 e p=0,177); queixa Contato: Ana Ribeiro Santana, Graduanda em
somática (r=0,232 e p=0,370); problemas Psicologia - ana.ribeiro_22@hotmail.com.
de atenção (r=0,370 e p=0,144). Pode-se
verificar nos resultados que houve uma
correlação moderada positiva entre o BDI, LT01-965 - O SUPORTE SOCIAL COMO
respondido pela mãe e as subescalas so- FATOR DE PREVENÇÃO DA DEPRESSÃO
bre os problemas de comportamentos do EM MÃES DE BEBÊS INTERNADOS EM
filho indicado pelo CBCL nos seguintes cri- UMA UTIN
térios: Problemas de socialização (r= 0,507 Claudia Moura de Sant'Anna C. Oliveira - UVV
e p=0,04*); Problemas de Pensamento claudiamoura@hotmail.com
(r= 0,509 e p=0,04*); comportamento Izabel Lima de Vasconcellos - UVV
de quebra de regra (r=0,483 e p=0,03*); iza_lv@hotmail.com
e comportamento agressivo ( r=0,50 e Luciana Bicalho Reis - UVV
p> 0,05). A proporção de significância foi luciana.reis@uvv.br
igual tanto para comportamentos interna- Marlucia de Souza Thompson - UVV
lizantes e externalizantes. Os resultados marluciathompson@hotmail.com
nos permitem confirmar a pressuposição
de que há correlação entre sinais de de- A internação de um filho, em geral, cons-
pressão materna e problemas de compor- titui-se numa situação geradora de estres-
tamento, tanto para o perfil internalizante se, acompanhada de alterações emocio-

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

nais e psicológicas para as mães, sendo no transcorrer da vida do indivíduo. Neste


que nem sempre esses sujeitos recebem sentido, Kessler, Price e Wortman (1985,
o apoio social adequado para lidar com ta- citados por Ribeiro, 1999), afirmam que
manha adversidade. A presença de mães o suporte social pode resguardar os indi-
que se encontram em um quadro depres- víduos em risco de possíveis inquietações
sivo se revela comum em Unidades de mentais. Segundo Dessen & Braz, (2000,
Tratamento Intensivo Neonatais (UTIN), citado por Baptista et al., 2006) o amparo
principalmente aquelas que não rece- familiar é o mais importante tipo de su-
bem suporte social adequado (Baptista, porte social para a manutenção da saúde
Batista & Torres, 2006). Mães com bebês mental e o enfrentamento de situações
internados em UTIN podem apresentar estressantes, além de favorecer a ade-
quadros de depressão e outros transtor- quação de comportamentos maternos em
nos, sendo a internação, possivelmente, relação aos filhos. Neste sentido, na situa-
um dos fatores que contribuem para tal ção de internação de um filho, o suporte
episódio. Como nos mostram Linhares et social pode mostrar-se como fator de pre-
al (2006), a prematuridade e a hospitali- venção e proteção da depressão materna.
zação do bebê podem ocasionar às mães Assim, a presente pesquisa propôs veri-
sentimentos conflitantes em relação ao ficar a relação entre depressão e ausên-
bebê real e o imaginado, além de culpa, cia de suporte social em mães de bebês
ansiedade, instabilidade emocional, baixo internados em uma UTIN de um hospital
senso de competência e dificuldade de infantil na região de Vila Velha-ES. OBJE-
contato físico com o bebê, angústia ao ir TIVOS: Delinear o perfil socioeconômico e
à UTIN, medo de apegar-se ao bebê ten- familiar de mães que participam do Grupo
do que encarar a perda devido ao possí- Psicoterapêutico de mães da UTIN; Anali-
vel óbito, luto antecipatório entre outros. sar a percepção que os sujeitos têm acer-
Ainda segundo as mesmas autoras, todos ca do suporte social que recebem (tanto
esses sentimentos podem ser indicativos informal quanto formal) durante o perío-
de estado de depressão. Sarason, Levine, do de internação dos seus filhos; Verificar
Bashan e Sarason (1983, citados por Ri- se a participação das mães no Grupo Psi-
beiro, 1999) definem Suporte Social como coterapêutico constitui-se para os sujeitos
apoio ou auxílio que uma pessoa recebe uma fonte de suporte social; Verificar qual
de outra em quem possa confiar, que a tipo de suporte social é o considerado
valorize e que demonstre que gosta dela. mais importante para as mães no momen-
No entanto, é necessário que o sujeito fa- to da hospitalização de seu filho e correla-
vorecido esteja disposto a ser ajudado e cionar se os sujeitos que têm melhor per-
que perceba o suporte como disponível. cepção do suporte social recebido são os
Existem diversos tipos de suporte social, que apresentam menos sentimentos ne-
dentre eles, o familiar, grupo de amigos, gativos indicativos de depressão durante o
o psicológico e o institucional. Coutinho et período de internação do bebê. MÉTODO.
al. (2000, citado por Baptista et al., 2006) Trata-se de uma pesquisa de caráter quali-
apontam que um apropriado suporte so- tativo e descritivo, realizada em uma UTIN
cial propicia ajuda em diversas ocasiões, de um Hospital Infantil no município de
maior domínio do ambiente e autonomia Vila Velha-ES. Integram a pesquisa mães

29
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

de bebês internados há pelo menos 15 nos Grupo Psicoterapêutico de mães da


dias e que participam do Grupo Psicote- UTIN permita a construção de estratégias
rapêutico de mães da UTIN. Na ocasião de de enfrentamento da situação de adoeci-
ingresso na pesquisa, as mães assinarão o mento e internação do filho.
Termo de Consentimento Livre e Esclare-
cido e responderão a uma Entrevista Indi- Palavras-chave: maternidade, depressão,
vidual Semiestruturada, gravada em áudio suporte social.
e posteriormente transcrita para análise.
Os relatos obtidos no grupo também in-
tegrarão os dados. Será utilizada ainda a LT01-974 - TECENDO FIOS: A VIVÊNCIA
Escala de Edimburgo – EPDS que é utiliza- MATERNA E O VÍNCULO ENTRE MÃE E
da para identificar sintomas de depressão BÊBE INTERNADO EM UMA UNIDADE DE
que se manifestam após o parto (Santos, TRATAMENTO INTENSIVO
1995, citado por Ruschi et al 2007). Outro Claudia Moura de Sant'Anna C. Oliveira - UVV
instrumento a ser utilizado será a Escala claudiamoura37@hotmail.com
de Satisfação com o Suporte Social – ESSS Izabel Lima de Vasconcellos - UVV -
(Ribeiro, 1999), que será adaptada ao con- iza_lv@hotmail.com
texto hospitalar. Esta Escala é constituída Luciana Bicalho Reis - UVV -
por 15 itens que se distribuem por quatro lucianabreis@hotmail.com
dimensões, satisfação com amigos (SA), Marlucia de Souza Thompson - UVV
intimidade (IN), satisfação com a família marluciathompson@hotmail.com
(SF) e atividades sociais (AS). Os sujeitos Paula Maria Tonon - UVV
terão assegurados sua identidade e sigi- paulinhamariat@gmail.com
lo das informações fornecidas, que serão
utilizadas somente para fins de produção A maternidade é um acontecimento de
científica e receberão apoio psicológico da muita importância para a mulher. Desde
equipe de pesquisadores. RESULTADOS cedo, ainda menina, nas brincadeiras e na
PARCIAIS. A coleta de dados foi iniciada relação com as mães, a maioria delas co-
como projeto piloto e espera-se verificar meça a “brincar” de ser mãe. Ninam suas
o quanto o suporte social contribui para bonecas, cuidam de sua alimentação, tro-
a prevenção da depressão. Nos dados cam sua fralda, a fim de se preparar para
coletados de forma preliminar, já se per- ter o próprio filho. Durante a vivência da
cebe que as mães entrevistadas relatam maternidade a mulher começa a idealizar
receber pouco suporte social (da família um filho conforme a sua própria imagem
e grupos sociais aos quais pertencem), e e semelhança, esperando o momento de
apresentam sinais indicativos de depres- apresentá-lo à sociedade. Desta forma,
são. Espera-se como benefício da pesqui- a emergência do parto prematuro não
sa uma melhor compreensão das relações está relacionada somente a antecipação
entre a vivência da maternidade na UTIN, do nascimento do bebê, mas também de
a prevalência de sintomas depressivos sua mãe, que despreparada para esse mo-
nestes sujeitos e a relação disso com uma mento, torna-se “prematuramente mãe”,
melhor ou pior rede de apoio social. Para necessitando reajustar-se a essa dura rea-
os sujeitos, espera-se que a participação lidade. Aquilo que muitas vezes foi temido

30
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

durante a gravidez torna-se real e ambos por um bom tempo o lugar onde mãe e fi-
estão agora vulneráveis, inseridos em um lho irão conviver no limiar entre a vida e a
ambiente desconhecido que irá separá- morte. A partir de agora, terão que “tecer
-los ainda muito cedo. O recém-nascido de fios”, criar laços, construir vínculos que po-
risco, também chamado de prematuro ou derão estar fortemente abalados a partir
bebê pré termo, é aquele que nasce com daquele momento. Neste sentido, a pre-
uma idade gestacional menor que 37 se- sente pesquisa tem por objetivo analisar
manas e em casos extremos os que nas- como se dá a qualidade da relação e vín-
cem com menos de 28 semanas de ges- culo entre mães e seus bebês pré-termos
tação. Alguns bebês prematuros podem que estão internados em uma Unidade de
nascer com complicações ou alterações Terapia Intensiva Neonatal (UTIN), ou seja,
orgânicas, além do baixo peso e respiração conhecer e analisar como a prematuridade
deficitária, necessitando assim de apare- e o ambiente artificial de cuidados iniciais
lhos especializados para a sobrevivência. ao recém-nascido podem trazer dificulda-
Pesquisas revelam que atualmente no des ao estabelecimento deste vínculo ini-
mundo 20 milhões de bebês nascem pre- cial da mãe com o bebê e que recursos e
maturamente, sendo que desses, um ter- estratégias são criados por estas mulheres
ço morre antes de completar um ano de para enfrentar tais adversidades. OBJETI-
idade (Romanoli & Moreira, 2008). A pre- VOS: (1) Identificar e analisar os sentimen-
maturidade traz em seu bojo significativas tos vivenciados pelas mães em relação
consequências emocionais que são marca- ao nascimento prematuro e à internação
das pela perda desse bebê imaginado du- de seus bebês na UTI neonatal; (2) Identi-
rante a gestação. A perda do bebê idealiza- ficar as estratégias de enfrentamento ado-
do, o berço que estará vazio, as roupas que tadas pelas mães em relação à situação de
a princípio não serão usadas, a cobrança hospitalização do bebê e na busca de cria-
da família e do meio social, podem colocar ção de vinculo afetivo com o filho; (3) Ve-
em risco uma relação (mãe-bebê) que ain- rificar que tipo de conhecimentos as mães
da se constrói. A internação de um bebê têm em relação à importância de se man-
em uma Unidade de Tratamento Intensivo ter um vínculo afetivo com o bebê, mesmo
Neonatal (UTIN) contribui para o afasta- que internado na UTI neonatal. MÉTODO:
mento entre a mãe e o bebê, interferindo Trata-se de uma pesquisa qualitativa e
significativamente na relação de vínculo e descritiva, realizada através de entrevistas
apego. A separação, que não poderia ser individuais, com roteiro semiestruturado
de outra forma, traz consigo sentimentos em uma Unidade de Terapia Intensiva Ne-
de culpa, incompetência e luto pelo bebê onatal (UTIN) do Hospital Dr. Alzir Bernadi-
idealizado, o que dificulta ainda mais o no Alves (HIMABA) no município Vila Ve-
estreitamento dos laços parentais (Raad, lha-ES. Fazem parte da pesquisa 10 mães
Cruz & Nascimento, 2006). Assim, pode de bebês prematuros e de baixo peso in-
ocorrer uma ruptura no processo de vincu- ternados na UTIN desde o nascimento e
lação já que muitas mães sentem-se rece- que participam do Grupo Psicoterapêutico
osas de tocar ou conversar com seu filho, de mães da UTIN. Após aceite do convite,
o que pode gerar stress psicológico para as mães serão esclarecidas quanto à sua
ambos (Schumacher, 2002). A UTIN será participação na pesquisa e assinarão o Ter-

31
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

mo de Consentimento Livre e Esclarecido LT01-1336 - ANÁLISE DE INDÍCIOS DE


atendendo-se às exigências do Conselho DEPRESSÃO PÓS-PARTO NAS MÃES
Nacional de Saúde. Em seguida, será re- QUE FREQUENTAM UM CENTRO DE
alizada a Entrevista Individual, seguindo- EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA PARA
-se ao roteiro pré-estabelecido. Também ATENDIMENTO PUERPERAL EM
serão colhidas as informações oriundas ENFERMAGEM
dos atendimentos psicológicos individu- Vanessa Cavalcanti de Torres - AEB
ais, bem como dos encontros do Grupo vanctorres@hotmail.com.
Psicoterapêutico das mães da UTIN. Tanto Aliny Valéria Bezerra Cavalcante - FAEB
as entrevistas individuais, quanto reuniões alinyvbc@hotmail.com
em grupo serão gravadas em áudio e seu Grasiela Nascimento da Conceição - FAEB
registro transcrito para posterior análi- grasy_nascimento@hotmail.com
se. Os prontuários dos bebês cujas mães
integram a pesquisa servirão para com- A depressão pós-parto (DPP) constitui fa-
plementar as informações fornecidas pe- tor agravante para dificuldade no período
las mães relativas aos dados de saúde do pós-parto, tendo sinais característicos tais
bebê, tais como idade gestacional e peso como: humor deprimido, falta de interes-
ao nascimento, complicações/alterações se pelas atividades diárias, desinteresse
presentes na ocasião do nascimento. RE- pelos cuidados maternos para com seu fi-
SULTADOS PARCIAIS. A coleta de dados já lho, medo de não ser uma boa mãe, choro
foi iniciada por meio de estudo piloto que fácil, entre outros, que podem ser iden-
pretende verificar a adequação do roteiro tificados para possível diagnóstico, atra-
de entrevista. Pelas entrevistas realizadas vés de uma consulta de qualidade onde
até o momento, observou-se que as mães o profissional deve estar atento a esses
passaram o período da gravidez idealizan- sinais para que seja realizado tratamen-
do um bebê perfeito, sem problemas ou to adequado, ou até mesmo a prevenção
qualquer alteração de saúde. Porém, o da instalação desta patologia. Durante o
nascimento prematuro e a internação na puerpério várias alterações ocorrem tanto
UTIN, constituem-se experiências emocio- na mulher como no recém-nascido, pois
nalmente difíceis. Quanto ao vínculo mãe- é um período que permite a troca de ca-
-bebê, observa-se que não houve entre rinho, de segurança para o bebê durante
as mães já entrevistadas dificuldades em os cuidados prestados pela mãe (Guedes-
constituí-lo e mantê-lo, porém o ambiente -Silva et. al., 2003). O puerpério deve ser
hospitalar e as práticas de assistência ao assim, um período prazeroso para a mu-
recém-nascido foram citados pelas mães lher, pois só dessa maneira ela conseguirá
como um dos principais fatores dificulta- transmitir afeto para o seu filho, contri-
dores na interação com seus bebês. buindo para desenvolvimento saudável
do seu bebê (Mattar et. al., 2007). Se a
Palavras-chave: Maternidade-prematuridade- mesma não apresenta condições emocio-
Unidade de Terapia Intensiva Neonatal nais para cuidar da criança, isto o afetará
Contato: Claudia Moura de Sant’Anna Carvalho diretamente, facilitando o desenvolvi-
de Oliveira - Centro Universitário Vila Velha - mento de patologias (Schwengber & Picci-
claudiamoura37@hotmail.com nini, 2003). Sendo assim, este estudo teve

32
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

como objetivo, identificar possíveis indí- t de student que apontou um intervalo de


cios de depressão pós-parto nas mães que 95% de confiança a média da amostra é
freqüentam o CEPAC (Centro de Pesquisa de 0,8; erro padrão de 0,07; mediana igual
e Atenção à Criança), no laboratório da a 1; desvio padrão igual a 0,4 e variância
FAEB (Faculdade de Enfermagem do Belo igual a 0,2. Os resultados apontaram que
Jardim) em Belo Jardim-PE. A atenção à (a) 32% da amostra apresentou indícios de
mulher no puerpério fica facilitada duran- depressão pós-parto suficientes para que
te a consulta quando do encaminhamen- fosse classificada no grupo de risco, (b) o
to de seus filhos para o CEPAC que é um número de mulheres que apresentou re-
Centro de Pesquisa e Atenção à Criança, sultado indicativo foi maior nas de deze-
pois no período em que essas mães levam nove anos, tendo estas como estado civil
seus filhos é o de maior incidência da DPP, respectivamente união estável que repre-
facilitando assim, o diagnóstico inicial des- sentou 32% da amostra, (c) quanto ao grau
sa doença. Portanto, mostra-se a impor- de escolaridade 18% tinha apenas ensino
tância da atenção não só à criança, mas, fundamental incompleto, observando-se
também à mãe que, muitas vezes, deixam desta forma que o número de mulheres
de atentar para a sua saúde, porém seu que possuem pouca escolaridade é sig-
estado físico e mental influenciará na saú- nificativo, estando inclusas neste percen-
de e bem estar de seu filho. Entendemos tual a maioria das mulheres com indícios
que o estado emocional da mãe alterado, de DPP. Diante desses dados, percebe-se
incidirá sobre a qualidade de vida de seu que o profissional de saúde deve estar
filho e como conseqüência, uma dificulda- habilitado para detectar precocemente
de em estabelecer laços afetivos ao longo os indícios de depressão pós-parto, tendo
da vida entre ambos. Nesse estudo foram sensibilidade para entender as mulheres
utilizados um questionário para os dados que apresentem os sinais preditivos nes-
pessoais e a Escala de depressão pós-par- ta fase, podendo intervir no tratamento
to de (EPDS). A EPDS é composta por 10 e encaminhamento para atendimento es-
itens e tem sido amplamente utilizado em pecializado. As consequencias da DPP não
todo o mundo, demonstrando ser um ins- são apenas para a mulher, mais também
trumento útil para detectar mulheres sob para a criança, podendo afetar, inclusive, a
risco de apresentar depressão pós-parto. relação conjugal, pois o comprometimen-
Idealizada por Cox Holder et al. em 1987, to do binômio mãe-filho, pode ser ocasio-
essa escala é de fácil aplicação e pode ser nado por mães menos afetuosas e mais
utilizada por profissionais de saúde de ausentes nas respostas às necessidades
diversas áreas. Quanto à população des- de seus filhos, prejudicando, dessa forma,
se estudo foi composta por 38 puérperas o cuidado com o mesmo.
quando as mesmas levaram seus filhos
para consulta de puericultura no CEPAC. Palavras-chave: Depressão pós-parto; mãe-
A análise utilizou um método estatístico filho; Puerpério.
para o tratamento dos dados, de acordo
com os critérios definidos pelo próprio ins-
trumento empregado para avaliação das
participantes, tendo como base o teste de

33
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

LT05-801 - RELACIONAMENTO no desenvolvimento da criança. O obje-


CONJUGAL, CLIMA AFETIVO DA FAMÍLIA tivo da presente pesquisa foi aprofundar
E DEPRESSÃO PÓS PARTO o entendimento das relações entre DPP,
Júlia Scarano de Mendonça - IPUSP avaliada aos 4 e 8 meses da criança, e con-
julia.m@itelefonica.com.br flito conjugal e familiar. Como associações
Vera Sílvia Raad Bussab - IPUSP significativas entre a ocorrência de DPP e
vsbussab@gmail.com a de Depressão Anterior independente da
José de Oliveira Siqueira - IPUSP gestação (DA) foram constatadas previa-
siqueira@usp.br mente (Silva, 2008), as relações entre DPP
Financiamento: FAPESP e conflito serão também analisadas à luz
da presença ou não de DA. Método. Cen-
Essa pesquisa está inserida no Projeto Te- to e treze famílias da classe média baixa,
mático FAPESP Depressão pós-parto (DPP) atendidas pelo Hospital Universitário da
como um fator de risco para o desenvol- USP e pelo SUS. Três entrevistas: na gesta-
vimento do bebê: estudo interdisciplinar ção, aos 4 e aos 8 meses da criança foram
dos fatores envolvidos na gênese do qua- realizadas para coletar informações sobre
dro e em suas conseqüências (Processo a família e a criança. Foram analisadas
06/59192-2). A DPP tem sido apontada questões sobre a relação conjugal, o clima
como um distúrbio emocional com po- familiar, a ocorrência de DA e a de DPP (Es-
tenciais implicações para a mãe e o bebê. cala de Depressão Pós-natal de Edinburgh
Chama a atenção a predominância dos - EDPE), de Cox, Holden e Sagovsky (1987),
estudos com foco exclusivo na mãe e na aplicada aos 4 meses da criança. O teste
criança, sendo o pai e outros membros da exato qui-quadrado de Pearson mostrou
família menos estudados. Recentemente, associações significativas entre conflito
estudos têm mostrado associações entre conjugal e DPP aos 4 (X²=23.108; p=0,000)
DPP e inadequações no funcionamento e aos 8 meses (X²=16.848; p=0,000), com
familiar (Burke, 2003; Johnson & Jacob, percepção materna de baixo nível de con-
1997). Cummings e Davies (1994) sugerem flito associada à ausência de DPP, e de
que além da DPP, o “distúrbio psicossocial alto nível de conflito associada à DPP. O
na família” associado à depressão deva tamanho estimado do efeito obtido por
ser considerado como fator de risco para meio do V de Cramer foi de .474 e .413,
o desenvolvimento da criança. A asso- respectivamente. Resultados análogos
ciação entre DPP e problemas na relação foram obtidos para o conflito familiar, in-
conjugal também tem sido apontada na dicando a percepção de baixo conflito na
literatura da área (Burke, 2003; Cummin- ausência de DPP e o aumento da percep-
gs & Davies, 1994; Silva & Piccinini, 2009) ção do conflito na presença de DPP, aos 4
bem como em análises prévias feitas no (X²= 10.389; p=0,006 e V de Cramer=.303)
presente projeto temático (Silva, 2008). e aos 8 meses ( X²=20.008; p=0,000 e V de
O conflito conjugal tem sido identificado Cramer =.423). Verificou-se associação sig-
como relevante para a qualidade da vida nificativa entre conflito conjugal e familiar,
familiar, para a compreensão das origens independentemente da DPP, aos 4 (X²=
da DPP e para prognósticos mais precisos 28.687, p=0,000) e aos 8 meses da crian-
sobre a influência do contexto familiar ça (X²= 76.689; p=0,000), com magnitudes

34
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

de efeito da ordem de .373 e .622, respec- tenha um impacto maior. Importa salien-
tivamente. Com o objetivo de discriminar tar que os conflitos familiares e conjugais
o efeito da DPP de possíveis efeitos de DA, mostraram-se significativamente associa-
os dados foram analisados separando-se dos à DPP, independentemente da DA,
os casos de DPP associados ou não à DA. o que apóia a compreensão de relações
Esta análise fortaleceu a idéia do efeito es- peculiares da DPP com o conflito. Contu-
pecífico da DPP, pois, na ausência de DA, do, pelo fato de as associações verificadas
houve associação significativa com conflito acima serem encontradas somente na au-
conjugal aos 4 (X²=12.213, p=0.007 e V de sência de DA, é possível que esta atue de
Cramer=.440) e aos 8 meses (X²=12.095, forma diferente na constituição da DPP,
p=0.011 e V de Cramer=.438); e com com outras associações entre as variáveis.
conflito familiar aos 8 meses (X²=12.813, Há outra interação complexa entre apoio
p=0.009 e V de Cramer=.451), no mesmo social (afetado por conflitos) e a DPP a ser
sentido dos resultados gerais. Na presen- considerada: as ligações entre baixo apoio
ça de depressão anterior, não houve as- e DPP sugerem causalidade, mas, ao mes-
sociações significativas em nenhum dos mo tempo, a própria DPP poderia evocar
momentos. As associações entre DPP e apoio social no cuidado com a criança.
conflito corroboram a idéia da importân- Evidentemente, deve-se considerar ainda
cia do contexto conjugal e familiar para uma possível bidirecionalidade de efeitos
a compreensão do quadro. Os valores da entre conflitos conjugais e familiares com
magnitude do efeito relativamente bai- a DPP, pois os conflitos podem propiciar o
xos, como frequentemente acontece nos desenvolvimento da DPP, e esta, por sua
dados da literatura, são compatíveis com vez, intensificar os conflitos. As relações
a interpretação de um fenômeno multide- entre DPP e aspectos gerais de harmonia
terminado: ao que tudo indica, um con- e apoio social têm se revelado importan-
junto de variáveis associa-se à DPP, sendo tes para a compreensão da origem e das
uma parcela destas representada pelo conseqüências da DPP e tem merecido
conflito conjugal e familiar. Considerada atenção especial no presente projeto,
a multideterminação, esta magnitude de tanto pelo interesse teórico quanto pelo
efeito passa a representar participação re- interesse em termos de prevenção e de
levante destes conflitos no quadro da DPP. políticas públicas.
A associação entre os conflitos conjugal e
familiar sugere dependência entre essas Palavras-chave: depressão pós-parto, relação
variáveis, conforme previsto. O maior va- conjugal, família
lor do quiquadrado aos 8 meses sugere Contato: julia.m@itelefonica.com.br
aumento da associação com o passar do
tempo. De forma similar, aos 4 meses, os
valores mais altos do qui-quadrado para a
associação entre a DPP e o conflito con-
jugal do que para o conflito familiar suge-
rem que nos primeiros meses após o parto
(coincidentemente com o pico da DPP aos
3 meses após o parto) o conflito conjugal

35
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

LT05-925 - ESTILO DE APEGO E DEPRES- gitudinalmente, desde a gestação até o 3º


SÃO PÓS-PARTO ano da criança. O estilo de apego da criança
Carla Cristine Vicente - UFRRJ foi avaliado através dos procedimentos da
carlavicent@gmail.com “Situação Estranha”, segundo protocolo de-
Vera Silvia Raad Bussab - USP senvolvido por Ainsworth, Blehar, Waters e
vsbussab@gmail.com Wall (1978) e Main e Solomon (1990). Uma
equipe de 04 pessoas treinadas participou
Financiamento: FAPESP
das filmagens, feitas quando os bebês fo-
O estilo de apego que a criança constrói, a ram completando 12 meses. Todas as día-
partir das diferentes interações das quais des foram recebidas pela pesquisadora e
participa, se refere a estratégias ontogené- instruídas para participar dos oito episó-
ticas de desenvolvimento social. O apego dios, (duração de 21 minutos), nos quais
se relaciona ao sentimento de segurança ocorria uma seqüência de interações entre
e proximidade do bebê em relação a suas o bebê, a mãe e uma pessoa desconhecida
figuras significativas, o que integrará o seu do bebê, envolvendo separações e reuniões
desenvolvimento global e construirá um mãe-bebê. Foram analisadas 85 díades, di-
modelo de funcionamento interno para vididas em dois grupos: experimental (com
seus relacionamentos futuros (Bolwby, indicativos de DPP) e controle (sem DPP)
1990). A Depressão Pós-Parto (DPP) é um (“Escala de Depressão Pós-Parto de Edim-
distúrbio com sérias implicações potenciais burgh - EDPE” (Cox, Holden, & Sagovsky,
para a mãe, por propiciar a emergência de 1987). A classificação do padrão de apego
sintomas como humor deprimido, labilida- (seguro; inseguro – evitante, ambivalente
de emocional, sentimentos de incompetên- ou desorganizado) foi feita conforme o pro-
cia para lidar com a criança, distúrbio do tocolo de Ainsworth e cols. (1978), que con-
sono, perda de prazer e ideação suicida, o sidera quatro dimensões: Procura de proxi-
que, por sua vez, pode acarretar prejuízos midade; Manutenção de contato; Evitação
para o bebê, associados a atrasos no desen- de proximidade, e Resistência ao contato e
volvimento físico e cognitivo (Patel, Souza conforto, avaliadas via atribuição de valores
& Rodrigues, 2003). Este estudo objetivou de 1 a 7 pontos, detalhadamente definidos.
avaliar estilos de apego em bebês de mães A classificação foi realizada às cegas, sepa-
com e sem indicativos de DPP, a fim de ava- radamente, por duas observadoras para o
liar se a construção do vínculo de apego era índice de DPP da mãe. A confiabilidade das
influenciada pela depressão materna, de observações medida pelo índice Kappa de
modo a aprofundar a compreensão sobre Cohen apontou concordância de 0,833, va-
o desenvolvimento afetivo e da sua impor- lor confiável para avaliações. Dadas as reco-
tância no desenvolvimento geral da criança. nhecidas ligações entre os estilos de apego
Este estudo esteve associado ao projeto e a regulação da segurança afetiva com
temático “Depressão pós-parto como fator autonomia, exploração e brincadeira, foi
de risco no desenvolvimento: estudo inter- desenvolvido um protocolo adicional de ob-
disciplinar dos fatores envolvidos na gênese servação, para avaliar padrões de explora-
do quadro e em suas conseqüências”, no ção do ambiente, de brincadeira e sinais de
qual mães e bebês atendidos pelo sistema ansiedade, como movimentos repetitivos,
público de saúde foram acompanhados lon- desconcerto emocional e cessação de ativi-

36
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

dade e de interação com a pessoa estranha, ambiente, de brincadeira e ansiedade nas


nas episódios de separação e retorno da crianças também apareceram prejudicados
mãe. Segundo os critérios do instrumento no grupo DPP. Nos episódios de separação
da Situação Estranha, predominou a classifi- da mãe, as crianças do grupo controle agi-
cação de apego seguro (82%), para o grupo ram com mais segurança, como se esperas-
como um todo (inseguros evitantes 11% e sem pelo retorno breve de suas mães. Na
resistentes 7%). O mesmo perfil de distri- comparação com os dados observacionais,
buição de estilos foi verificado no subgrupo a classificação de segurança dos bebês es-
com DPP, com predominância de apego se- teve diretamente associada à desenvoltura,
guro em 87% dos casos. Dos bebês (27) de iniciativa, manutenção e retornos à explo-
mães que tinham indicativos de DPP, ape- ração ambiental e dos brinquedos, quanto
nas 4 foram classificados como inseguros, às oportunidades de interação com a figura
contrariando as expectativas. Apesar de não materna. De acordo com a ênfase atual nos
se refletirem na classificação final do estilo comportamentos dos bebês no retorno da
de apego, verificaram-se relações entre DPP mãe (Waters e cols., 1995), como base para
e dimensões do protocolo da Situação Es- a compreensão da natureza do vínculo, o
tranha, por análise de regressão múltipla presente estudo indicou efeitos relevan-
(método stepwise), que indicou duas di- tes: bebês do grupo controle, mesmo após
mensões como preditivas da DPP materna: a angústia pela separação, demonstraram
mais comportamentos resistentes (B=1,76; apoiar-se mais na mãe como base segu-
t=2,66; sig= 0,01); menos busca de conta- ra para a exploração ambiental. Como os
to (B= -3,40; 7= 2,61; sig= 0,01). As análises bebês de mães com indicativo de DPP, de
do protocolo adicional mostraram peculia- modo geral, não retomaram as atividades
ridades significativas nas crianças do grupo após a separação da mãe, podemos presu-
DPP: menos deslocamento exploratório mir uma angústia maior ou falta de habili-
(x2(1)= 4,307 p=0,038), menos manipulação dade da mãe para restabelecer a confiança
de brinquedo (x2(1)= 5,434 p= 0,02), menos de seus bebês, o que é compreensível na
iniciativa na manipulação de brinquedos (X2 situação em que se encontram. O conjun-
(2)= 5,939, p=0,005), mais comportamen- to de resultados aponta a importância de
tos ansiosos nos dois episódios de separa- questões metodológicas, ligadas a um ce-
ção (X2 (1)= 4,400, p= 0,036; e x2(1)= 3,398 nário de complexidade de determinações,
p= 0,028), e menos retomada de exploração bem como à necessidade de consideração
nos retornos da mãe (x2(1)= 3,896 p= 0,040; de ajustamento dos instrumentos de avalia-
e x2(1)= 3,922 p= 0,038). Não houve predo- ção do apego. Reitera, também, efeitos da
minância de estilos de apego inseguros no DPP no desenvolvimento dos padrões liga-
grupo com DPP, conforme esperada pelos dos à vinculação afetiva e a relevância de
indicadores da literatura sobre o desenvol- estudos de acompanhamento para a com-
vimento de vinculação afetiva. Entretanto, preensão do quadro e para a promoção de
foram constatadas ligações significativas programas de intervenção.
da DPP com as dimensões de comporta-
mento resistente e de busca de contato, Palavras-chave: classificação de apego, depres-
compatíveis com aspectos de inseguran- são pós-parto, desenvolvimento social
ça neste grupo. Padrões de exploração do Contato: carlavicent@gmail.com

37
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

CO 07 - LT01 pode contribuir para melhorar a detecção


dessas patologias. Diversos estudos mos-
Envelhecimento traram que a Escala de Depressão Geriá-
trica (EDG) oferece medidas válidas e con-
fiáveis para diagnosticar a depressão em
LT01-905 - DETERMINANTES DO RISCO DE
idosos, sendo um dos instrumentos mais
DEPRESSÃO EM IDOSOS EM UMA EQUIPE
frequentemente utilizados. Os fatores li-
DA ESTRATÉGIA DE SAÚDE DA FAMÍLIA
gados à depressão precisam ser observa-
Cristiane Alves da Fonseca do Espírito Santo - dos de forma cuidadosa e criteriosa pelos
SMS/Goiânia profissionais da saúde, para que se possa
tinina3@gmail.com realizar a prevenção e o tratamento, a fim
Cristina Ferreira Lemos de Castro Carneiro - de evitar sofrimento ao idoso e dificulda-
S.M.S/Goiânia des para seus familiares ou cuidadores,
crislaralemos@gmail.com além de consequências negativas para a
Helizett Santos de Lima - UNB sua qualidade de vida. O presente estu-
helizettlima@yahoo.com.br do teve como objetivos estimar o risco de
Lorena Baía de Oliveira Alencar - SMS/Goiânia depressão em idosos na equipe 1 da Uni-
lorenabaia@hotmail.com dade de Atenção Básica de Saúde da Fa-
Olívia Cândida Pequeno - SMS/Goiânia mília (UABSF) Leste Universitário e avaliar
oliviacpequeno7@gmail.com os determinantes do risco de depressão
Sandro Rogério Rodrigues Batista - UFG em idosos. A pesquisa foi desenvolvida no
sandrorbatista@gmail.com município de Goiânia, Distrito Sanitário
Campinas-Centro, UABSF Leste Universi-
Os transtornos do humor são uma das tário. Foi realizado um estudo quantitati-
desordens psiquiátricas mais comuns em vo, transversal, com 92 idosos (com idade
idosos, sendo responsáveis pela perda de igual ou superior a 60 anos) de ambos
autonomia e pelo agravamento de qua- os sexos, no período de maio a junho de
dros patológicos preexistentes. Dentre 2010, que responderam a um questioná-
eles, a depressão é a mais frequente e rio sobre variáveis demográficas, socioe-
está associada ao maior risco de morbida- conômicas, comportamentais e de estado
de e de mortalidade, ao aumento na utili- de saúde, além da Escala de Depressão
zação dos serviços de saúde, à negligência Geriátrica (EDG-15). A análise dos dados
no autocuidado, à adesão reduzida aos utilizou o programa Excel® (Microsoft),
regimes terapêuticos e maior risco de sui- bem como para a elaboração de gráficos e
cídio. A presença de comorbidades e o uso tabelas. Com relação à análise estatística
de múltiplos medicamentos são habituais foram adotados o teste exato de Fisher e
na população idosa, fazendo com que, o teste estatístico de hipóteses Qui Qua-
tanto o diagnóstico quanto o tratamento drado. Segundo os resultados obtidos com
dos transtornos do humor se tornem mais a pontuação na Escala de Depressão Geri-
complexos. Diante da importância desses átrica, observou-se que 68,5% (n=63) dos
transtornos e da dificuldade diagnóstica, idosos apresentaram risco de depressão,
a avaliação sistemática dos indivíduos ido- pois alcançaram mais de 5 pontos no es-
sos com queixas de tristeza e/ou anedonia core utilizado. Verificou-se também que

38
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

na amostra de 92 idosos, houve predomi- da Família (ESF), a diagnosticar e propor


nância do sexo feminino, com 75 mulheres intervenções mais precoces e adequadas.
(81,5%). Quanto à idade, a maior frequên- É fundamental, portanto, que os profissio-
cia dos idosos estava na faixa etária entre nais de saúde tenham familiaridade com
60 e 79 anos (n=78) e que não houve di- as características desse agravo e estejam
ferenças significativas quanto à presença capacitados, preparados para investigar a
de depressão entre as faixas etárias estu- presença de sintomas depressivos e seus
dadas. Para o estado civil, a frequência de determinantes de risco. Nesse sentido, a
sintomatologia depressiva foi maior entre articulação da saúde mental com a aten-
os idosos casados (83%). Em relação à es- ção básica, principalmente através da ESF,
colaridade, a maioria dos idosos não tinha é essencial para diagnosticar e propor in-
escolaridade (n=36) sendo que 83% destes tervenções mais precoces e adequadas,
apresentaram frequência maior para risco valorizando a inserção familiar e social
de depressão. E ainda, que os idosos com deste indivíduo, através do trabalho mul-
curso superior apresentaram sintomatolo- tiprofissional, baseado na integralidade
gia depressiva, demonstrando que o fato das ações, colaborando para a melhora da
de ter cursado nível superior, demonstrou qualidade de vida do idoso.
não ser fator de proteção para sintomato-
logia depressiva. Em relação à renda fa- Palavras-chave: Saúde Mental, depressão,
miliar mensal, o risco para depressão foi população idosa.
maior entre os idosos com renda familiar Contato: Helizett Santos de Lima, Secretaria
de até um salário mínimo (84,6%) e idosos Municipal de Saúde de Goiânia e Universidade
que não possuíam aposentadoria (66,6%). de Brasília, helizettlima@yahoo.com.br
Em relação à internação, dentre os idosos
que estiveram internados (n=17), houve
risco de depressão alto (83,3%). Para aná- LT01-1206 - CORPO E ENVELHECIMENTO
lise estatística da variável relacionamento EM DEBATE NA UNIVERSIDADE ABERTA
familiar, as respostas foram dicotomizadas À TERCEIRA IDADE
nas categorias ótimo/bom (91,3%) e re- Vilma Valeria Dias Couto - UFTM
gular/ruim (8,7%). E finalmente pode-se vilmacouto@psicologia.uftm.edu.br
afirmar que dentre os participantes que Deise Coelho de Souza - UFTM
consideraram seu relacionamento fami- deisecsouza@hotmail.com
liar como ruim, a frequência do risco de Cecília Fernandes Carmona - UFTM
depressão foi de 87,5%. Há que se consi- ce.zen@hotmail.com
derar que o aumento da população idosa Ana Alice da Silva Pereira - UFTM
vem sendo observado em todo o mundo, ana_alicep@hotmail.com
mas o reconhecimento e o tratamento de
transtornos depressivos na população ido- A iniciativa de trazer os idosos para as uni-
sa, ainda permanecem como um desafio. versidades começou no Brasil em meados
Por isso, a identificação dos fatores de ris- da década de 70 e desde então vem sendo
co para depressão em idosos, associados implantada progressivamente em muitas
com sua incidência pode ajudar os profis- universidades (Cachioni & Neri, 2004). Na
sionais que atuam na Estratégia de Saúde Universidade Federal do Triângulo Minei-

39
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

ro, a Universidade Aberta à Terceira Idade objetivo neste trabalho é compreender os


(UATI) é um programa de extensão univer- significados atribuídos ao corpo na velhi-
sitária, interdisciplinar, que tem o objetivo ce, considerando as transformações que
de possibilitar aos idosos acesso a uni- acontecem no envelhecimento. Metodo-
versidade numa perspectiva de educação logia: O projeto contou com a participa-
continuada e visa o resgate da cidadania, ção de 15 idosas. Foram feitos quatro en-
a promoção da saúde e desenvolvimento contros com duração de duas horas cada.
do idoso. O objetivo da psicologia é pro- As atividades foram realizadas por meio
mover debates sobre o envelhecimento, de oficinas e dinâmicas de grupo cujo pro-
considerando os aspectos subjetivos des- pósito era refletir sobre o envelhecimento
te processo e suas implicações no desen- pela via do corpo. A metodologia envolve
volvimento do idoso. Na UATI, elegemos a participação ativa dos idosos na discus-
o corpo como um dos eixos de reflexão são, buscando incentivar a expressão de
do envelhecimento. O corpo passa por ideias e experiências de cada um. Para a
significativas transformações ao longo da apresentação da proposta, foi elaborado
vida e na velhice as perdas que atingem um vídeo contendo diferentes imagens de
seu funcionamento, anunciam a chegada corpos que favoreciam o reconhecimento
desta etapa da vida. Para muitos idosos, o de transformações corporais que advém
corpo é fonte de angústia e preocupação, com a idade e a influência cultural na va-
seja porque é foco de adoecimento ou de- lorização do corpo jovem. Após exposição
vido ao significado que assume na nossa do vídeo, os idosos eram solicitados a falar
cultura que valoriza a imagem do corpo das imagens. Nos encontros posteriores,
jovem. Sobre o corpo humano, o saber trabalhamos com oficinas que abrangiam
da biologia, ao compreendê-lo como uma momentos de realização de tarefas segui-
somatória de órgãos e funções, acaba con- dos de discussões. Na oficina “Espelho,
frontando a pessoa com uma ideia de um espelho meu” todos eram convidamos
corpo interior feito de pedaços sobre o a se mirarem no espelho. Buscamos tra-
qual ele nada sabe, pois sobre ele quem balhar a imagem do corpo e o estranha-
sabe é a medicina. A questão do corpo na mento que experimentamos diante da
psicanálise é abordada num outro regis- imagem do corpo refletida no espelho,
tro, trata-se de um corpo que é mediador especialmente diante da imagem que traz
que organiza a relação entre a psique e o as marcas e sinais da idade. Nesta oficina,
mundo externo e através do qual o sujeito discutimos ainda o conceito de imagem
é reconhecido e com o qual se identifica. corporal como a representação mental do
Na UATI a proposta é ampliar a ideia do nosso corpo. Na oficina “os sentidos do
idoso sobre seu próprio corpo para além corpo”, trabalhamos os sentidos básicos
um corpo físico, falamos de um corpo so- do corpo humano por meio de ativida-
bre o qual os afetos, os prazeres e sofri- des práticas envolvendo a visão e audição
mentos vão deixando marcas, construindo que confirmaram as restrições advindas
história, criando uma imagem corporal com os anos de vida, e também permitiu
que permite reconhecimento, apesar das discutir outras possibilidades de poten-
mudanças que o tempo ou as circunstân- cializar os sentidos, incluindo o resgate
cias impõem (Goldfarb, 1998). O nosso de lembranças relacionadas às sensações

40
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

já experimentadas em outros momentos táveis não são desejáveis:“claro que não


de vida. Para atingir o propósito deste estou melhor agora, as rugas começam a
trabalho de compreender os significados aparecer, esquece as coisas;é normal, mas
do corpo atribuídos pelos idosos da UATI, não ficamos como antes.”; “muda tudo, a
consideramos como material de análise as pele é a matéria que vai envelhecendo”;
falas que foram registradas durante a rea- “nada me agrada”. Destacamos também
lização das oficinas. Trabalhamos com re- algumas falas que marcaram a relevância
cortes de falas e as possibilidades de sen- dos cuidados dispensados ao corpo na
tidos que podem advir. Resultados: Com velhice que são importantes tanto para
base nas falas das idosas, percebemos que garantir saúde como também para favore-
o corpo possibilita diferentes formas de cer uma melhor imagem de si na velhice:
olhar o processo do envelhecimento. Para “é importante cuidar do corpo para ter
algumas idosas, este processo é um even- saúde”; “meu cabelo me agrada, quan-
to natural, decorrente do desenvolvimen- do corto arrumo, fico bem”; “nada como
to humano e as transformações do corpo uma tinta para os branquinhos”; “todo dia
é um evento inevitável, como assinalam acordo e passo batom.” Por fim, uma fala
as falas a seguir: “eu avalio as mudanças em especial aponta a estreita relação de
como consequências da vida, é natural, cuidado entre o corpo e espírito: “...à me-
como a morte é natural”; “envelhecemos dida que você cuida do corpo físico você
desde o dia que nascemos, todos vamos está cuidando do corpo espiritual. temos
envelhecer e morrer.” Outras relacionam que cuidar do corpo para que o espírito
as mudanças do corpo na velhice como esteja bem e temos que cuidar do espírito
aspecto facilitador ao aparecimento de para que o corpo esteja bem.” Considera-
problemas da ordem física, tais como ções Finais: Compreendemos que o corpo
exemplificam as seguintes falas “quan- é alvo de interesse e investimento não só
do fica mais velha engorda mais fácil”; pelo valor estético que assume na nossa
“o peso também pode prejudicar a saú- cultura, mas como importante via de saú-
de, podemos dar colesterol, pressão alta, de e envelhecimento saudável. Verifica-
prejudica tudo isso”; “a gordura deforma mos que é recorrente o discurso em torno
a gente”. Algumas falas apontaram para da responsabilidade do idoso no cuidado
uma imagem do corpo positiva diante dos ao corpo físico, especialmente para pre-
sinais de envelhecimento do corpo: “cada venir ou retardar a ocorrência de adoe-
ruguinha é uma experiência que a gente cimentos que podem advir com a idade.
tem”. Outra fala mostra a satisfação com Quanto à forma como o idoso vê e pensa
o corpo atual quando comparado com o seu corpo, a experiência possibilitou reco-
corpo de sua juventude, aspecto que fa- nhecer que as transformações do corpo
vorece a autoimagem: “quando olho no interferem negativamente na imagem que
espelho vejo uma pessoa que já foi mui- têm de si mesmo. Contudo, existem, igual-
to gorda, hoje é magra, sarada, gostosa. mente, aspectos positivos nessas transfor-
Hoje mudei muito, sei lidar com minhas mações que podem favorecer a imagem
dificuldades, depois dos 50 melhorou mui- de si, especialmente quando significados
to.” Entretanto, outras falas mostram que como sinal de experiência e maturidade.
as mudanças do corpo ainda que inevi- Este trabalho possibilitou compreender

41
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

que o corpo ainda que marcado pelos si- que ingressam em cursos de informática.
nais de envelhecimento e limitações pode Foi feita uma pesquisa quantitativa do tipo
continuar sendo alvo de investimentos su- correlacional, junto a 23 idosos que se
ficientemente significativos que possibili- matricularam em cursos de informática,
tam realizações e reconhecimento. utilizando-se uma escala de autoeficácia
geral e outra de autoeficácia de memória.
Palavras-chave: Envelhecimento. Corpo. UATI Os resultados indicam elevado escore de
Contato: Vilma Valéria Dias Couto - autoeficácia geral e um baixo escore da
Universidade Federal do Triângulo Mineiro autoeficácia de memória. Permitem su-
Departamento de Psicologia Clínica e por que a baixa crença desses idosos em
Sociedade relação ao próprio potencial cognitivo de
vilmacouto@psicologia.uftm.edu.br memória deve estar associada a estereóti-
pos negativos sobre a velhice, todavia, os
resultados da autoeficácia geral são indi-
LT01-1343 - INFLUÊNCIA DA cativos de condições favoráveis ao ajusta-
AUTOEFICÁCIA GERAL E DA MEMÓRIA mento desse público às novas condições
EM IDOSOS QUE BUSCAM CURSOS DE pessoais e contextuais. Com o aumento
INFORMÁTICA da expectativa de vida populacional am-
Laina Jacinto Couto - UNITAU pliam-se as possibilidades de um processo
laina_couto@hotmail.com de envelhecimento ativo e de uma vivên-
Fernanda Rabelo Prazeres cia da velhice como uma fase da vida de
fernandaballet@gmail.com autonomia, independência e qualidade de
Marluce Auxiliadora Borges Glaus Leão - UNITAU vida (Neri, 1995). Frente ao atual progres-
mgleao08@gmail.com so tecnológico, adultos maduros e idosos
buscam se ajustar às demandas da vida
As possibilidades de um processo de en- cotidiana por meio da educação continu-
velhecimento ativo e de uma vivência de ada. A procura por cursos de informática,
velhice com autonomia, independência para além de uma estratégia educativa de
e qualidade de vida tem conduzido ido- inclusão social do idoso, exige um equa-
sos a se ajustarem às demandas da vida cionamento entre seus potenciais e limi-
cotidiana, principalmente aquelas rela- tes biológicos e psicológicos, que por sua
cionadas ao progresso tecnológico atual, vez, pode gerar desequilíbrios em relação
como o domínio sobre conhecimentos de às capacidades do indivíduo para produzir
informática. O enfrentamento de situa- resultados. Fazer esse curso envolve uma
ções novas como essa exige um equacio- avaliação das habilidades sociais necessá-
namento entre seus potenciais e limites rias para o alcance dos resultados. O cons-
biológicos, psicológicos e sociais, mobili- tructo psicológico da autoeficácia tem sua
zando o senso de autoeficácia do idoso, origem na Teoria Social Cognitiva, a partir
ou seja, a crença que tem em relação às de uma visão do homem constituído pelos
suas capacidades para produzir resulta- sistemas sociais, e que por meio das trocas
dos. Este estudo teve como objetivo in- vão ocorrendo adaptações e mudanças no
vestigar a influência da autoeficácia geral comportamento, sendo essa relação de
e da autoeficácia de memória em idosos indivíduo com o meio, denominada reci-

42
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

procidade triádica (Bandura, 2008; Azzi de um projeto socioeducativo destinado a


e Polydoro, 2006). Pajares e Olaz (2008) esta população, em uma cidade do inte-
argumentam que a autoeficácia é consi- rior do Vale do Paraíba Paulista. Esta pes-
derada uma percepção que o indivíduo quisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da
tem sobre suas capacidades, operando Universidade de Taubaté, sob o nº 497/10.
como um dos determinantes que regulam Do total de 48 matriculados, participaram
a motivação, o afeto e a ação humana, so- 23. A coleta dos dados ocorreu nos dias
frendo mudanças de acordo com a dinâ- e horários dos cursos, utilizando-se um
mica de interações desse indivíduo com o questionário de características sociode-
ambiente. As crenças de autoeficácia são mográficas, uma Escala de Autoeficácia
formadas a partir de quatro fontes: expe- Geral (Ribeiro, 1995) e uma Escala de Au-
riência de domínio, experiência vicária, toeficácia de Memória - MAC-Q (Croock
persuasões sociais e estados somáticos, et al, 1992, Mattos et al., 2001), respondi-
determinando quanto de esforço a pessoa dos por eles mesmos, com supervisão da
dedicará em uma atividade e quanto per- pesquisadora. Os resultados estão sendo
severará quando confrontada com obstá- submetidos a provas estatísticas por meio
culos, ou seja, coloca em evidência seu da ferramenta computacional SPSS. Os re-
potencial de resiliência frente a situações sultados demonstram que nessa amostra
adversas. Para Neri (2006) o senso de au- 73,91% são mulheres e 26,8% homens;
toeficácia da pessoa idosa pode ser afeta- 40,5% apresentam experiência anterior
do pelas perdas biológicas das quais está com computador; sendo os principais in-
sujeita, influenciando seu autoconceito, dicadores de escolaridade – 21,7% Ensino
suas emoções e metas pessoais. A crença Superior Completo, 47,8% Médio Comple-
na plasticidade da memória determina a to. Os motivos para busca desses cursos
escolha de tarefas e desafios em idosos, foram: acompanhar o desenvolvimento
evidenciando uma relação recíproca en- tecnológico, estimular a mente, manter
tre o senso de autoeficácia em memória contato social e aumentar a disposição ou
e em sua plasticidade. Considerando es- ânimo de viver. Constatou-se nas escalas
ses pressupostos, entende-se que a busca um índice elevado de autoeficácia geral e
do idoso por cursos de informática pode um baixo escore da autoeficácia de me-
gerar múltiplos benefícios, como a experi- mória, permitindo confirmar os achados
ência de ampliação do contato social e da de Neri (2006) de que a presença de uma
estimulação cognitiva, favorecendo o con- crença negativa desses idosos em relação
trole pessoal sobre os domínios que estão ao próprio potencial cognitivo de memó-
preservados, bem como ajudar nas habi- ria, pode estar baseada em estereótipos
lidades cujo domínio esteja limitado. In- que associam velhice com incapacidade,
vestigar a influência da autoeficácia geral falta de domínio sobre o ambiente e pre-
e da autoeficácia de memória em idosos juízos de naturezas diversas. Todavia, ao
que ingressam em cursos de informática. buscarem esses cursos indicam um com-
Trata-se de uma pesquisa quantitativa, portamento resiliente, uma estratégia de
do tipo correlacional, abordando sujeitos enfrentamento dos obstáculos, corrobora-
com 60 ou mais anos, que se matricula- do pelos motivos que alegam. Serão ainda
ram em 2011 nos cursos de informática aplicadas provas estatísticas de correlação

43
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

entre os resultados dessas escalas, e delas surgimento de algumas doenças, muitas


com a variável gênero, escolaridade e ex- famílias optam pelo asilamento/institucio-
periência anterior com computador. Estes nalização de seus idosos, visando, normal-
resultados preliminares permitem pensar mente, garantir uma melhor assistência e
que a baixa crença de autoeficácia de me- qualidade de vida aos mesmos. Doenças
mória desses idosos não está associada a típicas da idade porém, não exclusivas da
perdas cognitivas advindas do envelheci- mesma, como o Alzheimer, trazem muito
mento biológico, visto apresentarem uma sofrimento para os familiares por não sa-
alta crença de autoeficácia geral, portan- berem lidar com a patologia que o idoso
to, indicativos de potencial para modificar possui. Além disso, os casos de comprome-
o modo como manejam suas vidas e essas timento cognitivo não são tão facilmente
crenças, facilitando assim o ajustamento identificados, deixando as pessoas no en-
deles às novas condições pessoais e con- torno do idoso confusas acerca de sua real
textuais. condição. Engelhardt, Laks, Rozenthal e
Marinho (1997) destacam que os quadros
Palavras-chave: Idosos; Autoeficácia; leves de comprometimento cognitivo são
Memória. freqüentes, passando muitas vezes des-
percebidos, e há uma necessidade de dis-
tinguir (o que muitas vezes é difícil) entre
LT01-1471 - ENVELHECIMENTO, manifestações iniciais de doença e modifi-
DESENVOLVIMENTO E cações associadas com o processo normal
INSTITUCIONALIZAÇÃO: A EXPERIÊNCIA de envelhecimento. As casas de repouso /
DE ESTÁGIO BÁSICO EM PSICOLOGIA asilos para idosos acabam sendo entendi-
Deyse Salatiel de Moura - UVV dos como boa ou única alternativa, já que,
deyse.salatiel@hotmail.com geralmente, acolhem e cuidam de idosos
Pâmella Vitória Moreno dos Santos Rigoni - UVV debilitados fisicamente e/ou psicologica-
pamellamoreno@yahoo.com.br mente. Por outro lado, a internação de
Tainá Barreto Silveira - UVV idosos em asilos ainda é vista com precon-
empresspyriel@hotmail.com ceito, sendo considerada prejudicial ao seu
Sabrine Mantuan dos Santos Coutinho - UVV desenvolvimento, sobretudo por levar ao
sabrine.coutinho@uvv.br isolamento, abandono e exclusão social.
De fato, alguns autores apontam que o
O envelhecimento consiste em um pro- processo de institucionalização é permea-
cesso dinâmico e progressivo, no qual se do por dificuldades relacionadas à adapta-
processam transformações diversas (mor- ção ao novo modelo, à perda de identida-
fológicas, fisiológicas, bioquímicas e psi- de e autonomia, o que pode acarretar pro-
cológicas) que produzem a perda gradual blemas físicos e emocionais, acelerando
da capacidade de adaptação do indivíduo e/ou acentuando a velocidade das perdas
ao meio ambiente, ocasionando maior funcionais dos idosos. Este trabalho con-
vulnerabilidade e maior incidência de pro- siste em relato da experiência de Estágio
cessos patológicos (Papaléo Netto, 1997) Básico em Psicologia vivenciada por alunos
Diante do quadro de comprometimento do curso de Psicologia do Centro Universi-
físico e cognitivo decorrente em geral, do tário Vila Velha em uma Casa de Repouso

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

para idosos situada em Vitória/ES. Trata-se tituição sofrem de Alzheimer, doença que
de instituição privada, que se dedica ao traz muitos prejuízos à memória. Entre as
atendimento ao idoso, oferecendo servi- várias atividades desenvolvidas ao longo
ços especializados, e para tanto conta com do estágio, pode-se citar: exibição de fi-
uma equipe composta por enfermeiras guras/imagens que trouxessem aos ido-
gerontólogas, técnicos de enfermagem, sos lembranças de momentos variados de
geriatra (acompanhamento mensal) e fi- suas vidas para compartilharem com o gru-
sioterapeuta (acompanhamento semanal). po; audição de músicas antigas, da época
O estágio, desenvolvido numa perspectiva da juventude e fase adulta dos participan-
psicossocial, teve início em Julho de 2010, tes, com a descrição do que lhes vinha à
e contava com uma carga horária prática memória; leitura de contos e sua repetição
semanal de 04 horas, cumpridas na casa pelo idoso para exercitar a memória; exe-
de repouso por um grupo de três estagi- cução de dinâmicas de grupo que oportu-
árias do quarto período do curso de Psi- nizassem conhecer um pouco mais da vida
cologia. Nessa época a instituição estava de cada idoso e favorecer a interação entre
atendendo, em média, 35 idosos, de ida- o grupo; realização de entrevistas semies-
des variadas. Num primeiro momento, foi truturadas sobre temas relacionados à
realizado estudo bibliográfico referente ao história de vida dos idosos; realização de
tema, e após esse período inicial, foi reali- trabalhos manuais, como a confecção/
zada a entrada no campo, que, inicialmen- ornamentação de um diário pessoal para
te, consistiu em observação participante, cada idoso, buscando o desenvolvimento
visando conhecer a dinâmica institucio- da criatividade e a possibilidade de ex-
nal, levantar as demandas da instituição, pressarem suas emoções e sentimentos
os temas de trabalho a serem explorados diários. Houve situações em que algumas
e o estabelecimento de vínculo com os atividades programadas acabaram não
idosos e funcionários. Posteriormente fo- sendo desenvolvidas em virtude do pouco
ram organizadas atividades que visavam interesse ou indisposição dos idosos. Na
potencializar a interação social do grupo instituição, os idosos eram divididos pela
de idosos que tinham condições físicas e enfermeira responsável para participar das
cognitivas de participar, bem como o es- atividades grupais, geralmente, de acordo
treitamento de vínculo – ressaltando que com o nível de comprometimento físico e
a necessidade de maior interação entre os cognitivo. Nem todos os idosos participa-
idosos foi a principal demanda identifica- vam sempre de todas as atividades, o que
da. Moura, Passos e Camargo (2005) res- variava de acordo com o estado de saúde
saltam que a comunicação é essencial para do idoso naquele dia e de sua disposição
a sobrevivência do homem, em especial para participar. Além de promover a inte-
para o idoso, garantindo a manutenção de ração social entre os idosos, o estágio tam-
suas relações sociais e evitando a carência bém trouxe a possibilidade de criação de
afetiva e emocional. Também foram de- um espaço para acolhimento das questões
senvolvidas atividades grupais que tive- individuais que não emergiam nas ativi-
ram como objetivo a reabilitação cognitiva dades grupais, assim como de um espaço
(exercícios para a memória, por exemplo), permanente de contato com a equipe e
já que muitos dos idosos residentes na ins- com os familiares (realização de encontros

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

periódicos com a equipe e de reuniões população principalmente em países de-


com os familiares). Mesmo reconhecendo senvolvidos. Estima-se que o Brasil, em
todas as dificuldades relacionadas ao pro- 2025, terá a sétima maior população de
cesso de institucionalização, inclusive as idosos no mundo com cerca de 32 milhões
mencionadas pelos próprios idosos (ficar de pessoas com 60 anos ou mais. O avanço
longe da própria casa e da família e ami- da idade faz com que surjam doenças típi-
gos; seguir uma rotina determinada por cas da população idosa como a depressão,
outros; conviver com pessoas desconhe- que, apesar de não ser uma doença exclu-
cidas, entre outras) crê-se que a mesma siva dessa faixa etária, tem sido aponta-
pode ser vivida de uma forma menos dolo- da como um problema de saúde pública
rosa ao se buscar a criação de um contexto e afeta pelo menos um em cada seis pa-
que favoreça as potencialidades do idoso e cientes idosos que recebem tratamento
seu desenvolvimento. É nesse sentido que na atenção básica de saúde, nos pacien-
o trabalho realizado buscou trazer suas tes depressivos há piora da saúde global,
contribuições, mostrando que a Psicologia aumento de custos com a saúde, aumento
tem muito a colaborar na intervenção com de transtornos cognitivos, e mortalidade
idosos institucionalizados. Como destacam relacionada ao suicídio e a doença física.
Neri, Yassuda e Cachioni (2005), a Psicolo- Por outro lado, estudos sobre os estilos
gia conta com “um conjunto de técnicas de o processo reflexivo da consciência
de diagnóstico, avaliação e intervenção têm sugerido que determinados estilos de
voltadas ao tratamento dos problemas pensamento parecem estar associados a
comportamentais e psicológicos que afe- um funcionamento psicológico mais nega-
tam o funcionamento e o bem-estar sub- tivo, colaborando principalmente para o
jetivo dos idosos” (p. 19), podendo, assim, surgimento da depressão e de outras psi-
oferecer importantes contribuições para a copatologias. Estudos constataram que in-
qualidade de vida de idosos, sobretudo os ternações psiquiátricas estão entre os dez
funcionalmente debilitados. principais motivos de internação em ido-
sos. A ruminação é caracterizada por um
Palavras-chave: institucionalização, idoso, tipo de pensamento repetitivo de caráter
desenvolvimento, Psicologia negativo que tende a exacerbar sintomas
depressivos e ansiogênicos. A reflexão é
um tipo de pensamento mais bem adapta-
LT02-950 - A RELAÇÃO ENTRE ESTILOS do à resolução de problemas e pode ame-
REFLEXIVOS E NARRATIVA EM IDOSAS nizar o impacto negativo da ruminação.
Petra Paim Ehrenbrink - UFES Acredita-se que pessoas do estilo reflexi-
petra@intervip.com.br vo compreendem suas vidas de maneira
M. Lima de Souza - UFES positiva e sentem-se mais felizes. Neste
limadesouza@gmail.com sentido, investigar os estilos reflexivos da
Laís Almeida Ambrósio - UFES população idosa pode colaborar para um
lais.ambrosio@gmail.com melhor entendimento dos processos psi-
copatológicos que acometem os indivídu-
A queda da taxa de mortalidade e natali- os dessa faixa etária. Identificar os estilos
dade colabora para o envelhecimento da reflexivos dos idosos e comparar com a

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

estrutura (forma e conteúdo) das narrati- vida”. Participantes com altos escores no
vas sobre suas próprias vidas. Estudo qua- estilo ruminativo produziram narrativas
litativo e exploratório com uma etapa de que focalizavam características pesso-
coleta de dados quantitativa. Participaram ais negativas como, por exemplo: “... Sou
do estudo onze idosas com idades entre uma pessoa muito insegura... A ansieda-
sessenta e dois e oitenta e três anos, que de, muitas vezes me impede de viver feliz
apresentaram condições de se expressar e fazer a felicidade dos outros.” Enquanto
verbalmente através da escrita. Para a ob- participantes com altos escores no estilo
tenção dos dados utilizamos o Questioná- reflexivo produziram narrativas com ca-
rio de Ruminação e Reflexão (QRR) e um racterísticas pessoais positivas como, por
protocolo de redação com o tema “Conte exemplo,” Gosto de ser quem eu sou por
sua história”. A aplicação do instrumento ter realizado minhas aspirações...” Esses
foi realizadas individualmente na casa da dados confirmam nossas hipóteses de que
participante. Inicialmente os dados foram pessoas com o estilo reflexivo compreen-
tratados estatisticamente (média e desvio dem sua vida de maneira mais positiva re-
padrão). A partir dos escores fornecidos latando sentirem-se mais felizes. Enquan-
pelo QRR foram definidos os pontos de to as de estilo ruminativo interpretam os
corte: Reflexivo alto= 42; Reflexivo mé- acontecimentos de forma mais negativa.
dio= 39; Reflexivo baixo= 36; Ruminativo Sete participantes apresentaram o estilo
alto= 43; Ruminativo médio= 36 Rumina- reflexivo ruminativo médio ou alto. O es-
tivo baixo= 29. Os idosos apresentaram tilo ruminativo por ter como característica
cinco estilos de reflexividade: 1. Rumina- um tipo de pensamento mais repetitivo,
tivo baixo+Reflexivo médio (duas partici- faz com que a pessoa rememore, e pense
pantes) ; 2. Ruminativo médio+Reflexivo mais freqüentemente em acontecimentos
baixo (duas participantes); 3. Ruminativo do passado. Isto pode estar relacionado
médio+Reflexivo alto (três participan- com o fato de cognitivamente idosos te-
tes); 4.Ruminativo médio+Reflexivo mé- rem uma diminuição na capacidade de
dio (três participantes); 5. Ruminativo armazenamento de informações e memó-
alto+Reflexivo alto (uma participante). rias recentes, aumentando, assim, o uso
As narrativas apresentaram os estilos de da memória de longo prazo é a mais uti-
gênero gramatical descritivo (predomi- lizada. Assim, acredita-se que os escores
nância de substantivos e adjetivos na nar- do estilo ruminativo na população idosa
rativa – ocorrência em cinco narrativas) tenha sido mais alto. A terceira idade, é
quanto dinâmico (predominância de ver- por muitas vezes, associada sociocultu-
bos e advérbios – cinco narrativas). Uma ralmente como um período de sabedoria,
narrativa não teve predominância de ne- formada por uma vida de experiências,
nhum dos dois estilos de gênero grama- esses indivíduos são vistos como pessoas
tical. Os temas abordados nas narrativas sábias pela sua capacidade de lembrar de
foram “breve relato sobre a história de fatos, fazerem análises éticas e morais, e
vida”, “características pessoais”, “família”, oferecerem soluções e alternativas para
“preocupação com os outros”, “religião” problemas cotidianos. Atividades estas,
e a “importância em manter-se ativa”. Na que exigem muita reflexão, análise e ru-
categoria “breve relato sobre história de minação de algumas idéias, colaborando

47
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

também para um possível desenvolvimen- ro, 2004). Optou-se, então, por trabalhar
to do estilo ruminativo de reflexividade. com as narrativas produzidas por adoles-
centes em interação, mediante a realiza-
Palavras-chave: Idosas; estilos reflexivos; ção de grupos focais em formato virtual,
narrativas. já que a internet vem sendo um dos con-
Contato: Petra Paim Ehrenbrink, UFES, textos de interação privilegiados pelos
petra@intervip.com.br adolescentes (Subrahmanyam, Green-
field, Kraut & Gross, 2001). Os chamados
grupos focais online síncronos são grupos
CO 16 - LT02 em que os participantes interagem via in-
ternet em tempo real (Walston & Lissitz,
Novas tecnologias 2000). Esbarrou-se, contudo, na ausência
de trabalhos científicos nesses moldes, na
área da psicologia. Diante disso, foi neces-
LT02-693 - GRUPOS FOCAIS ONLINE
sário basear-se em alguns procedimen-
SÍNCRONOS EM PESQUISA QUALITATIVA:
tos utilizados por outras áreas da ciência,
ASPECTOS COMUNICACIONAIS
selecionando aquilo que se aplicaria aos
Gabriela Sagebin Bordini - UFRGS objetivos da pesquisa em questão. Em re-
charlestonbordini@yahoo.com.br lação às entrevistas virtuais, por exemplo,
Tania Mara Sperb - UFRGS Nicolaci-da-Costa, Romão-Dias e Di Luccio
sperbt@terra.com.br (2009) sublinham que, comumente, as
Financiamento: CNPq conversas online apresentam rupturas.
Isso pode decorrer do intervalo que existe
O grupo focal é uma técnica de coleta de entre o envio de uma mensagem – que é
dados que vem sendo largamente utili- realizado somente quando o participante
zada em pesquisa desde os anos 80, so- terminou de redigi-la e optou por postá-
bretudo como técnica de investigação -la – e o recebimento da resposta relativa
qualitativa (Schneider, Kerwin, Frechtling à mensagem enviada. Dado que, também
& Vivari, 2002). Comumente, essa técnica nos grupos focais online síncronos, as par-
é usada em seu formato tradicional, isto ticipações de cada um dos membros iriam
é, presencialmente. Sua utilização é usu- aparecer na tela de acordo com a ordem
al principalmente entre os pesquisadores em que tivessem sido enviadas, e não se-
que têm interesse pela coleta de dados ria possível interromper a escrita de cada
por meio da interação grupal (De Antoni um, esperava-se que a comunicação nes-
et al., 2001). Este era o caso da pesquisa ses grupos ficasse fragmentada. Provavel-
aqui relatada, cujo objetivo era conhecer mente as discussões seriam descontínuas,
as concepções de adolescentes sobre o intercaladas com outras discussões ou
que é ser homem e o que é ser mulher na com outros assuntos. Por outro lado, Sch-
atualidade. Tinha-se como base, o pressu- neider et al. (2002) explicam que a alta ve-
posto de que os significados atribuídos ao locidade em que se dá a postagem dos co-
masculino e ao feminino são culturalmen- mentários escritos na comunicação virtual
te construídos e transmitidos socialmente permite que a discussão não pare apenas
através da interação (Diamond, 2002; Lou- porque um dos participantes está escre-

48
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

vendo sua mensagem. Por isso, os compo- te que os fizera apareciam na tela de cada
nentes de grupos focais online síncronos, membro, de acordo com a ordem em que
em comparação com aqueles dos grupos tinham sido postados. As interações nos
presenciais, fariam comentários mais cur- grupos focais online síncronos foram dis-
tos, emitindo pequenas frases simples- cutidas com base na literatura já existente
mente para expressar concordância com sobre o tema. A realização online dos gru-
opiniões já apresentadas, propiciando pos focais pareceu ter influenciado a pro-
uma discussão menos elaborada. Diante dução dos componentes. Confirmando os
disso, esperavam-se dificuldades quanto apontamentos de Schneider et al. (2002),
à profundidade das discussões nos grupos em geral, as participações foram curtas
focais online síncronos e em relação à ob- e os comentários, não muito elaborados
tenção de narrativas longas e individuais. e emitidos rapidamente. A comunicação
O presente trabalho visa colaborar com o entre o grupo mostrou depender da velo-
avanço da pesquisa qualitativa em psico- cidade na qual cada componente era ca-
logia no Brasil, por meio do relato e da dis- paz de escrever suas mensagens e acom-
cussão das especificidades comunicacio- panhar as dos outros. Isso tornou difícil a
nais encontradas nos grupos focais online manutenção de uma sequência de intera-
síncronos realizados.Participaram 41 ado- ções por parte do grupo, pois a comunica-
lescentes com idades entre os 14 e os 15 ção não ocorria de maneira linear. Assim,
anos, estudantes de uma escola estadual também se confirmou a hipótese baseada
e de uma escola particular de Porto Alegre em Nicolaci-da-Costa et al. (2009). A in-
(RS), selecionados por conveniência. Com dependência entre as participações dos
os adolescentes devidamente autorizados componentes dos grupos realizados não
pelos responsáveis, foram realizados 6 foi vantajosa à elaboração de narrativas
grupos focais online síncronos, através do longas ou detalhadas. Ocorreu com fre-
programa de bate-papo MSN, que possi- quência que, enquanto um participante
bilita conferências online. Todos os grupos escrevia uma mensagem mais longa ou
tiveram 7 participantes, exceto um que em resposta a alguma mensagem postada
contou com 6. Dois grupos foram compos- anteriormente, outros já escreviam men-
tos por adolescentes do sexo masculino, sagens relacionadas a outros assuntos. As
2 por adolescentes do sexo feminino, e 2 narrativas produzidas ao longo das discus-
eram mistos. Os grupos tiveram lugar na sões foram, na sua maioria, fragmentadas
sala de informática das escolas em que os e entrecortadas por assuntos diversos do
participantes estudavam e foram mode- tópico proposto. Portanto, a utilização
rados pela pesquisadora. Esta e todos os de grupos focais online síncronos não se-
adolescentes tinham um computador à ria aconselhável quando o pesquisador
sua disposição, conectado ao MSN. A dis- pretende obter as tradicionais narrativas
cussão era realizada por escrito e iniciava longas e sequenciadas. Este método seria
com a questão de abertura, proposta pela mais adequado às investigações que têm
moderadora: “Contem histórias que vocês como foco a interação entre os participan-
acham que mostram bem o que é ser ho- tes. A pesquisa realizada mostrou que gru-
mem ou o que é ser mulher hoje.”. Os co- po focal online síncrono não é uma mera
mentários e a identificação do participan- transposição do grupo focal presencial

49
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

para o ambiente virtual. Chamaram aten- educacional e as relações estabelecidas


ção as especificidades marcantes relativas entre os diversos componentes dos fluxos
à comunicação encontradas nessa técnica. nutridores dos processos de aprendiza-
Mais pesquisas são necessárias para que gem e as trocas materiais e informacionais
se conheçam essas particularidades e para provocam mudanças estruturais de cará-
que se possa esclarecer em que situações ter postural, atitudinal e valorativo. Estas
os grupos focais online síncronos são mais relações precisam ser mais congruentes
ou menos vantajosos, ou mesmo comple- com os princípios organizadores da vida,
mentares aos grupos focais tradicionais. com a natureza dinâmica da matéria e da
construção de conhecimento. Nesse senti-
Palavras-chave: Grupos Focais Online; do, o objetivo deste trabalho é descrever
Pesquisa Qualitativa; Internet. arquitetura de curso online com base no
Contato: Gabriela Sagebin Bordini (UFRGS) Modelo Bioecológico de Bronfenbrenner,
charlestonbordini@yahoo.com.br considerando os componentes: pessoa,
processo, contexto e tempo (Bronfenbren-
ner, 2005). A adoção desses pressupostos
LT02-958 - EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA traz implicações para o planejamento de
ONLINE E DESENVOLVIMENTO HUMANO: pesquisa, para o desenvolvimento de de-
INTERFACES E PERSPECTIVAS senhos de cursos a distancia ou modelos
Jane Farias Chagas - FTBB/UnB educacionais. Do ponto de vista da pesqui-
janefcha@gmail.com sa, ressignifica a relação entre pesquisador
e pesquisado, requer análise do espaço
Um dos desafios inerentes a crescente de- de vida em termos de atividades, papéis
manda por cursos a distância na modalida- e padrões de interação e a ampliação e
de online consiste em garantir a qualidade triangulação de estratégias para sondar o
de ensino por meio da incorporação de conteúdo do campo psicológico. No âmbi-
tecnologias de informação e comunicação, to educacional, os conhecimentos produ-
de novos processos espaço-temporais de zidos pela psicologia do desenvolvimento,
interações que efetivamente sejam sus- especialmente os vinculados às teorias
tentados por teorias de aprendizagem e sistêmicas, têm contribuído para uma
de desenvolvimento humano (Carvalho, ampla discussão dos sistemas de ensino,
Nevado & Menezes, 2005; Chagas, 2010). os métodos e teorias de aprendizagem e
Nessa direção, Moraes (2002) chama a promovido uma compreensão das particu-
atenção quanto à necessidade de que os laridades dos processos educativos em in-
desenhos educacionais e as novas práticas terseção com o desenvolvimento humano
pedagógicas reconheçam a natureza viva e com a aprendizagem (Polônia & Senna,
e transdisciplinar do processo de constru- 2005). Desta forma, assumir uma postura
ção de conhecimento, a interatividade dos ecossistêmica solicita repensar a relação
processos cognitivos e sejam capazes de professor-aluno, aluno-aluno, aluno-pro-
recuperar a inteireza humana, os valores cesso, entre outras, a partir da: (a) análise
multiculturais e o respeito às diferentes mais detalhada das atividades, papeis e
maneiras de pensar. Ainda segundo Mo- relações em que esses atores se envolvem
raes (2002), a organização e planejamento nos diversos ambientes ecológicos, (b) for-

50
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

mulação ou reformulação do planejamen- drões de interação entre as pessoas e que


to educacional a partir do mapeamento de fomenta uma gama variada de atividades
características individuais e ambientais. É desenvolvidas em mais de um ambiente
importante ressaltar que as mudanças pro- ao mesmo tempo. Essa simultaneidade
duzidas nas concepções e/ou atividades da pode gerar tanto efeitos positivos quanto
pessoa transferem-se para outros ambien- negativos. Entre os efeitos positivos cita-
tes e outros momentos de vida. Ou seja, -se o aumento da capacidade humana em
sugere considerar as triangulações inter- lidar com um volume crescente de dados
pessoais, a transição e validade ecológicas e como efeito negativo destaca-se o ace-
e as acomodações progressivas e mútuas leramento e sobrecarga de informações.
entre um ser humano ativo, criativo, dinâ- Essa estrutura e funcionalidade alteram
mico e em desenvolvimento e as proprie- as características dos processos distais e
dades mutantes dos ambientes imediatos proximais que afetam o desenvolvimento.
e distais (Chagas, 2008). Advém ainda, do Várias tensões interpessoais e psicológi-
emprego desses princípios, a necessida- cas podem surgir a partir das interações
de de utilizar diferentes instrumentos e promovidas em um ambiente online que
abordagem multimetodológica, currículos podem ser semelhantes ou não aquelas já
estruturados de acordo com as transições conhecidas no mundo não-virtual. Contu-
de desenvolvimento do indivíduo, o enten- do, torna-se relevante apontar que mesmo
dimento das mudanças no papel do aluno nos espaços de interação virtual, os parti-
e do professor ao longo do curso de vida, cipantes constroem um senso simbólico
os avanços tecnológicos e a práxis pedagó- de espaço e lugar. Este cenário desafia as
gica (Polônia & Senna, 2005). Para Stokols formas de organização educacional e os
(1999) diferentes contextos afetam de sistemas de crenças e valores dominantes
forma variada os processos de desenvol- (Stokols, 2005). Por outro lado, o envolvi-
vimento, o que leva também a resultados mento ativo em atividade molar constitui
divergentes. Isto significa que as condições indicador do grau e da natureza do de-
ambientais encontram-se mediadas por senvolvimento. Nesse sentido, a atividade
atributos pessoais, pelas disposições cir- molar pressupõe comportamento continu-
cunstanciais e pelo estágio de curso de vida ado que possui um momento (quantidade
dos indivíduos envolvidos em processos de de movimento, impulso) próprio e percep-
qualquer natureza, inclusive os educacio- tível como portador de significado e inten-
nais. Esses resultados podem ser temporá- ção pelos participantes do ambiente. Isto
rios, de curto ou longo prazo e exercem in- posto, as interações em um ambiente de
fluência direta ou indireta sobre os proces- aprendizagem online, devem ser plane-
sos de desenvolvimento, mesmo quando jados de forma a permitir o engajamento
as condições ambientais transcendem o em atividades significativas, intencional-
espaço geográfico. Sendo assim, a educa- mente elaboradas visando a construção de
ção a distância na modalidade online exi- conhecimentos e o compartilhamento de
ge tanto uma influência mútua ativa com experiências que promovam o desenvolvi-
os recursos tecnológicos e informacionais mento tanto intelectual, como afetivo e so-
como também com eventos, informações cial. Ancorados nesta perspectiva, a apren-
e pessoas. Dinâmica que requer novos pa- dizagem e o desenvolvimento constituem

51
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

processos mediados pela participação interligados favorecidos pela tecnologia.


da pessoa em padrões progressivamente A relação entre sociedade e tecnologia
mais complexos de atividades recíprocas, sempre existiu de diferentes maneiras na
permeada por sentimentos positivos de história da humanidade, causando impac-
mutualidade. Com isso, as propriedades tos no desenvolvimento humano. De uma
da pessoa e do ambiente, as estruturas e perspectiva sociocultural, as novas tecno-
funcionalidades dos cenários ambientais e logias da informação e da comunicação
dos processos que ocorrem dentro e entre são realizações atuais, exemplos contem-
os sistemas devem ser considerados como porâneos do processo de humanização
forma interdependente e analisados em que sempre se apoiou, em cada época, em
rede. Os conteúdos das atividades molares aparatos físicos (ferramentas) e culturais
possuem um alcance ampliado dependen- (símbolos, linguagem) para sua realiza-
do da quantidade de interações entre as ção (Wertsch, 1995; Briggs & Burke, 2004;
pessoas, símbolos e objetos presentes em Cook, 2005; Vigotski, 2007). Nos dias de
cada ambiente. A variedade, a qualidade hoje, a Cibercultura é um exemplo do que
e a quantidade de interações influenciam acima apontamos. Pretto, Riccio e Perei-
na durabilidade dos efeitos das aprendiza- ra (2009) comentam que a Cibercultura é
gens ao longo do curso de vida. uma categoria do momento histórico atu-
al, “que possibilita a associação do univer-
Palavras-chave: Educação a distância; so da cultura com o da comunicação e das
Desenvolvimento Humano; Modelo tecnologias, especialmente as digitais” (p.
Bioecológico; Arquitetura Educacional. 85-86). Para esses autores, “a marca prin-
Contato: Jane Farias Chagas, FTBB/UnB, cipal é a liberação do pólo de emissão na
janefcha@gmail.com comunicação, através da implantação das
redes tecnológicas que potencializam a
autoria e colaboração em rede” (Pretto,
LT02-1208 - ANÁLISE DA RELAÇÃO Riccio & Pereira, 2009, p. 85-86). Para es-
ENTRE LINGUAGEM, COGNIÇÃO E ses autores, a interatividade que as novas
INTERSUBJETIVIDADE NO CONTEXTO DA tecnologias abarcam, dinamiza a difusão
CIBERCULTURA COM BASE NA TEORIA de mensagens, diminui fronteiras e auxi-
DE VIGOTSKI lia na colaboração e atuação conjunta dos
Ruben de Oliveira Nascimento - UFU indivíduos, abrindo novas possibilidades
rubenufu@gmail.com de comunicação, interação, aprendizagem
e práticas sociais. A Cibercultura trata de
Nesse trabalho discutiremos, com base em processamento de informação, o que im-
literatura especializada, a noção de que a plica em processos cognitivos. Segundo
interação social na Cibercultura traz consi- Fonseca (2007), cognição é um “sistema
go uma carga psicológica importante em representacional com capacidade de sen-
nível de intersubjetividade, examinada a tir, integrar, pensar, comunicar e agir a
partir de contribuições da psicologia histó- partir de capacidades de processamento
rico-cultural de Vygotsky. Também analisa de informação” (Fonseca, 2007, p. 30-31).
esse tema a partir da relação entre lingua- Mas, Fischer (2009) assinala que “a língua
gem e processos cognitivos, como fatores dá voz à ação humana, de maneiras com-

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

plexas e sutis” (p. 219); e como cognição interação com pessoas, objetos, eventos,
implica num sistema representacional, valores, crenças e atitudes culturalmente
a linguagem acaba assumindo um papel desenvolvidas e historicamente constituí-
importante, se observamos o conteú- das (Vigotski, 2001, 2007; Vigotski & Luria,
do representacional, simbólico, de uma 2007). Para Vygotsky (2007) era impor-
produção cultural digital (Costa, 2008). tante “entender o papel comportamental
Fonseca (2007) explica que o desenvolvi- do signo em tudo aquilo que ele tem de
mento cognitivo não se dá somente pela característico” (p. 53). Vigotski (1991) afir-
autoregulação da estrutura, mas também ma que o signo tem um papel importante
pelo envolvimento do indivíduo em “sis- nos processos coletivos, interpsicológicos,
temas de mediatização interindividual sendo meios de comunicação e de influ-
que se co-constroem em contextos sócio- ência. Para Vygotsky (1991), “todo signo,
-históricos” (p. 36). A Cibercultura abarca si tomamos su origen real, es un medio
essa noção e implica situações de inter- de comunicación e podríamos decirlo más
subjetividade. A intersubjetividade tem ampliamente, un medio de conexión de
importante papel nas relações sociais face ciertas funciones psíquicas de carácter
a face (Berger & Luckmann, 2004). Mas, social.” (p. 78). De acordo com Vygotsky
como acima mostrado, na Cibercultura ela (1991a), a função de comunicação do
possui a mesma importância psicológica, signo endossa processos interpsicológi-
dado o caráter transcendente da lingua- cos, direciona a atenção, define papéis na
gem (que independe de tempo e de espa- comunicação e contribui para a internali-
ço), e suas relações cognitivas. No uso de zação do que foi socialmente significado.
computadores, por exemplo, as interfaces A intersubjetividade, na perspectiva vi-
permitem a mediatização tecnológica nas gotskiana, está imbricada nesses fatores.
interações, e ainda afetam nossas formas Wertsch (1995) comenta que a intersub-
de criar e comunicar. Segundo Johnson jetividade é um processo de comunicação
(2001), “os seres humanos pensam atra- humana que transcende o mundo privado
vés de palavras, conceitos, imagens, sons, dos participantes por meio da conduta
associações” (p. 17). O computador lida comunicativa (situações de fala). Wertsch
com representações e sinais, permitindo (1995) coloca que, na teoria vigotskiana,
formas de interação à distância (Johnson, esse é essencialmente um processo semi-
2001). Nas redes sociais, as interações ótico numa dada situação. Entendemos
também assumem um caráter intersub- que em interações sociais produzidas em
jetivo muito importante na medida em ambientes virtuais, tais premissas são
que os indivíduos podem organizar suas válidas, mas, queremos enfatizar suas
ações em rede, em espaços mais infor- possibilidades dialéticas. Nesse sentido,
mais (Marteleto, 2001). A psicologia histó- mencionamos Molón (2010) quando ex-
rico-cultural de Vygotsky traz importantes põem a perspectiva de Smolka e colabo-
contribuições para essas discussões; entre radores sobre intersubjetividade na teo-
elas a importância da mediação simbólica. ria de Vygotsky, ao colocarem ênfase na
Segundo Vygotsky, a mediação simbóli- relação dialética das dimensões intra e
ca tem origem social e assume destaque interpsicológica. Smolka e colaboradores
na formação psicológica e na relação/ comentam que “sendo a palavra e o sig-

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

no polissêmicos, a natureza e a gênese do LT02-1408 - AS RELAÇÕES ENTRE


processo de constituição do sujeito im- PROFESSOR-ALUNO NA EAD A PARTIR
plicam, necessariamente, o diferente e o DA CONSTRUÇÃO DE CONHECIMENTO
semelhante” (Molón, 2010, p. 58). Assim, E DESENVOLVIMENTO DAS FUNÇÕES
entendemos que intersubjetividade numa PSICOLÓGICAS
perspectiva vigotskiana, envolve uma Angélica de Fátima Piovesan - UNIT
concepção interativa e semiótica de sujei- angelicapiovesan@hotmail.com
to, constituída pelo outro via linguagem, Fabricia Borges - UNIT
como processos dialógicos, dialéticos e de fabricia.borges@gmail.com
significação, que não dicotomizam sujeito Salete Peixoto - UNIT
e social. Nesse sentido, a intersubjetivida- saletepeixotog@hotmail.com.br
de ajudaria a constituir socialmente sujei-
tos e saberes, em atividades simbólica e Neste trabalho iremos discutir as relações
cognitivamente formuladas. Segundo Fon- de interação entre professor-aluno na Edu-
seca (2007), a cognição “transformada na cação a Distância. Para isso, utilizaremos a
sua representação pela linguagem, dotou Psicologia Histórico-Cultural através de Vi-
o ser humano da capacidade de raciocí- gotski. Também, usaremos o conceito de
nio e de resolução de problemas” (p. 34). “Inteligência Coletiva” desenvolvido por
A Cibercultura é um ambiente onde essa Pierre Levy, filósofo da informação que es-
premissa ocorre, utilizando-se as ferra- tuda as interações entre internet e socie-
mentas que ela contém. Concluímos que a dade. Sabemos que a construção destes
intersubjetividade no contexto virtual, na conceitos e seus significados são distintos,
Cibercultura, pode diferir em alguns índi- construídos e estudados em épocas e con-
ces ou esquemas comunicacionais daque- textos diferentes, no entanto, acreditamos
les praticados face a face, porém mantém que podemos relacioná-los para entender
efeitos psicológicos semelhantes, porque a construção de conhecimento e o desen-
se vale do caráter transcendente da lin- volvimento das funções mentais supe-
guagem e de processos cognitivos em co- riores através do uso das tecnologias. Vi-
mum, conseguindo realizar a passagem do gotski desenvolveu sua teoria descreven-
privado para o coletivo, que é um aspec- do como o indivíduo se constrói como ser
to marcante da intersubjetividade. Essas humano a partir das relações sociais, en-
questões têm influência nos processos de tre o Eu-Outro e essas relações permitem
desenvolvimento psicológico e social dos que haja uma reconstrução interna (intra-
sujeitos no contexto tecnológico atual. O pessoal) de uma operação externa (inter-
importante é examinar criticamente como pessoal). Esse processo de internalização
as pessoas estão interagindo no ciberes- das formas culturais de comportamento
paço, que construção social/interpessoal se aplica à atenção voluntária, à memória
vem se formando e como têm sido obje- lógica e formação de conceitos com base
tivadas as percepções sociais dos sujeitos nas operações com os signos. No entanto,
nesse contexto. podemos dizer que as funções psicológi-
cas superiores se originam das relações
Palavras-chave: Cibercultura; sociais e que as atividades cognitivas não
Intersubjetividade; Vygotsky. se limitam ao uso de signos e instrumen-

54
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

tos. Os signos são representados pela lin- ais de aprendizagens (AVA). Consideramos
guagem oral e gestual, pela escrita, pelos que o uso de tecnologias possibilita o de-
números, não modificando o objeto das senvolvimento das funções psicológicas
operações psicológicas, mas dirigindo-se como também contribui para a formação
para o controle do próprio individuo. Já os da “Inteligência Coletiva”. Nosso objetivo
instrumentos sofrem mudanças humanas foi identificar e descrever os significados
sobre o objeto e são orientados externa- construídos nas narrativas de dois profes-
mente. As relações dialéticas entre as fun- sores da Educação a Distância em relação
ções psicológicas percepção, atenção e as às interações professor-aluno mediadas
operações sensório-motoras são afetadas pelo uso de tecnologias na EAD. Esse tra-
pelo uso de instrumentos quando rela- balho é um recorte de uma pesquisa re-
cionados à fala, auxiliando no desenvolvi- alizada com professores de EAD de uma
mento das funções psicológicas. A partir universidade privada de Aracaju, SE. As
do entendimento do desenvolvimento entrevistas narrativas e de histórias de
das funções psicológicas, vamos tratar do vida foram gravadas, transcritas e realiza-
uso das tecnologias no desenvolvimento das na própria instituição de ensino. Após
psicológico. Lévy (2007) criou o termo “In- as transcrições construímos o mapa de
teligência coletiva”, onde as inteligências significados para cada professor por meio
individuais são somadas e compartilhadas do qual identificamos e descrevemos os
por toda a sociedade a partir do surgimen- significados construídos a partir das en-
to das novas tecnologias possibilitando trevistas sobre as interações entre Pro-
trocas de conhecimento e aprendizagens fessor-aluno na Educação a Distância. Nas
coletivas. "Ela possibilita a partilha da me- entrevistas os professores nos contaram
mória, da percepção, da imaginação. Isso sobre as novas experiências obtidas nas
resulta na aprendizagem coletiva, troca de relações professor-aluno mediadas pelo
conhecimentos". Só existe “Inteligência uso de tecnologias. Para um deles não há
Coletiva” se houver cooperação compe- como falar da Educação a distância sem
titiva (relacionada às relações sociais) ou comparar com o ensino presencial por
competição cooperativa (relacionada à causa do contato físico, visual existente
liberdade). Fazendo uma relação entre os no presencial. Uma forma de esse contato
conceitos de Vigotski e de Levy utilizados ocorrer na EAD é a partir da maior dedi-
neste trabalho, podemos dizer o seguinte: cação do professor ao aluno, dando mais
o desenvolvimento das funções psicoló- atenção para que ele aprenda, identifican-
gicas superiores pode ocorrer a partir da do e re-significando formas de ser e agir
internalização de aprendizagens, da me- no processo dialógico com o aluno. Tam-
diação semiótica nas interações professor- bém foi narrado sobre o desenvolvimen-
-aluno e o uso de tecnologias interfere no to de relações de afetividades a partir do
processo de desenvolvimento da Zona de uso de emails, chats e fóruns, como nos
Desenvolvimento proximal (ZDP) mediado contou um dos professores que recebeu
pelo professor quando abordamos a EAD. emails de agradecimentos pelo aprendi-
O professor propicia a aquisição de novos zado. Para ele, é um reconhecimento que
conhecimentos ao aluno através de ativi- muitas vezes não acontece no ensino pre-
dades desenvolvidas nos ambientes virtu- sencial. Outro ponto refere-se a melhora

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

do desempenho profissional na educação A EAD é realizada por meio de tecnologia


presencial. Isso ocorre devido a maior da informação e da comunicação; com
dedicação prestada ao aluno e a necessi- os sujeitos separados temporal, espacial
dade de melhor planejamento das aulas e fisicamente; com destaque em proces-
na EAD. A consideração do Ambiente Vir- samento de informação, interatividade/
tual como um “ambiente frio” também é interação e produção escrita, entre ou-
central nas narrativas, por isso enfatizam tros (Moore e Kearsley, 2008; Dias e Leite,
maior dedicação ao aluno. Esses discursos 2010; Menezes, 2010). Como qualquer
permeiam o imaginário dos professores processo educacional a EAD tem relação
possibilitando transformação no modo de com fatores de desenvolvimento cogniti-
dedicar-se ao aluno como também, propi- vo, afetivo e social de seus sujeitos. Por
ciam maior interação e afetividade, que é isso, nosso objetivo com este estudo é
tema central abordado pelos professores apontar teoricamente que a Psicologia
na melhoria da relação professor-aluno. pode contribuir com a EAD também inves-
Diante destas narrativas percebemos tigando variáveis de desenvolvimento hu-
que a interação professor-aluno na EAD é mano dos sujeitos que ela atende, em seu
marcada pelo desenvolvimento de novas contexto educacional. Um caminho para
formas de relacionamentos tanto para o isso é analisar o perfil do estudante de
professor como para o aluno. EAD. De acordo com o Censo EAD 2009,
a idade dos alunos na EAD, “concentra-se
Palavras-chave: Interação Professor-aluno, na faixa etária de 25 a 39 anos, a maio-
Inteligência Coletiva, Educação a Distância. ria dos estudantes possui renda média de
Contato: Angelica de Fatima Piovesan, 1 a 10 salários, sendo que o grupo mais
Universidade Tiradentes, UNIT, Mestranda representativo (29%) recebe de 1 a 3 sa-
em Educação, bolsista PROSUP CAPES. lários mínimos mensais” (p. 23). Além dis-
Integrante do Grupo de Estudos GPECS. so, o Censo EAD 2009 aponta que “apesar
de um perfil diversificado, os estudantes
angelicapiovesan@hotmail.com
de EAD não são constituídos por uma
maioria de jovens recém-saídos do ensi-
no médio” (p. 23). Ferreira e Mendonça
LT01-859 - INTER-RELAÇÕES ENTRE
(2007) mostram que a maioria dos alunos
DESENVOLVIMENTO HUMANO
de EAD é de profissionais em atividade
E EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA NA
produtiva, casados, e que buscam a EAD
PERSPECTIVA DA APRENDIZAGEM
para aumentarem seus conhecimentos.
Ruben de Oliveira Nascimento - UFU Nesse sentido, “os cursos a distância são
rubenufu@gmail.com uma maneira que as pessoas encontram
de ficarem informadas e ainda assim dis-
A Educação a Distância (EAD) é uma mo- por de tempo para a família, visto que po-
dalidade educacional recente no Brasil, dem acessar os cursos até mesmo de suas
que vem crescendo bastante nos últimos residências” (Ferreira e Mendonça, 2007,
anos. Esse crescimento deve vir acompa- p. 7). O aluno de EAD também precisa “se
nhado de muita pesquisa e discussão so- empenhar em definir horários fixos de
bre seu processo ensino-aprendizagem. estudo em casa e/ou no trabalho para se

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

dedicar ao curso e ter disciplina para tal” comportamento e que variáveis contex-
(Behar, 2009, p. 26). Pela faixa etária dos tuais influenciam para que se perceba,
alunos, podemos situá-los na fase inicial em um dado momento, a consecução de
da vida adulta (Papalia e Olds, 2000). A algumas como sendo mais viáveis do que
definição de adulto somente pelo fator outras” (p. 162). Motivação é um compo-
idade é uma questão complexa, porque o nente pedagógico fundamental na EAD.
desenvolvimento depende de diversos fa- Paralelo a isso, a Andragogia (ensino de
tores físicos e psicológicos que variam de adultos) considera que os alunos adultos
indivíduo para indivíduo, e entre contex- apreciam ter certo controle e responsabi-
tos socioculturais (Rogoff, 2005; Feldman, lidade pessoal sobre o que está aconte-
Papalia e Olds, 2009). Mas, o fator idade cendo; preferem definir o que é relevante
ajuda a situar estatisticamente os alunos para suas necessidades; preferem tomar
de EAD num determinado momento do decisões sozinhas ou pelo menos serem
desenvolvimento, cujas características consultados; têm muita vivencia e gostam
gerais permitiriam pensar sobre as ou- de utilizá-la no aprendizado; preferem
tras variáveis do perfil. Assim, uma inter- adquirir informações ou conhecimen-
-relação entre EAD, desenvolvimento hu- to relevantes para resolver problemas
mano e aprendizagem, pode ser notada, no presente; geralmente tem motivação
especialmente se tratarmos a EAD como intrínseca para aprender (Moore e Ke-
meio para formação continuada ou atu- arsley, 2008, p. 173-174). Essas caracte-
alização profissional. Abordando forma- rísticas podem ter impacto no processo
ção continuada com alunos adultos, Al- de aprendizagem na EAD, que valoriza
varado Prada (1997) assinala que “o que muito a autonomia do estudante frente
caracteriza as pessoas adultas são suas ao seu programa de formação. Segun-
experiências, sua história de vida, seus do Moore e Kearsley (2008) autonomia
saberes” (p. 76). Papalia e Olds (2000) do aluno de EAD significa que o mesmo
comentam que o aluno adulto costuma deve tomar decisões a respeito de seu
empregar mais a experiência de vida, en- aprendizado, organizando os recursos dis-
riquecendo com isso sua aprendizagem. ponibilizados. Contudo, toda autonomia
Para o aluno adulto no contexto social é relativa. Assim o sistema também tem
atual, a aprendizagem formal continuada responsabilidades com essa autonomia,
“é uma maneira importante de desenvol- e compreender aspectos relacionados ao
vimento de seu potencial, bem como de desenvolvimento humano e à aprendiza-
acompanhar as mudanças no mundo do gem, contribui nesse sentido. Em termos
trabalho” (Papalia e Olds, 2000, p. 453). de psicologia da aprendizagem, Brans-
Assim, o aluno de EAD, adulto, trabalha- ford, Brown e Cocking (2007) mostram
dor, casado, tem prerrogativas pessoais e que conhecimentos, habilidades, crenças
sociais que podem representar boa parte e conceitos prévios influenciam o modo
de sua motivação para os estudos e o que como se percebe um ambiente educa-
espera deles. Segundo Tapia e Garcia- cional e a organização do conhecimento.
-Celay (1996), a motivação na aprendiza- Essas questões afetam as “capacidades de
gem envolve “que tipo de metas os alunos recordação, raciocínio, solução de proble-
perseguem, de que modo influem em seu mas e aquisição de novo conhecimento”

57
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

(Bransford, Brown e Cocking, 2007, p. 27), CO 31 - LT4


de modo que aprender é mudar. Carvalho
(1996) também mostra que desenvolver é
Cognição e Aprendizagem
mudar. O adulto continua seu processo de
desenvolvimento, aprendendo, vivendo LT04-723 - INVESTIGANDO O
mudanças e estabelecendo metas e possi- DESENVOLVIMENTO SOCIOCOGNITIVO
bilidades. A EAD deve assimilar essas dis- INFANTIL
cussões ao seu contexto educacional, mas Jaqueline Pereira Dias - USP
não para simplesmente adequar o aluno jaquepdias@gmail.com
ao seu processo pedagógico. Segundo Edna Maria Marturano - USP
Vigotski (2003) a educação não deve so- emmartur@fmrp.usp.br
mente comunicar hábitos e conhecimen-
tos, mas promover a “formação de vários Financiamento: CAPES
vínculos novos dentro de um sistema de
comportamento previamente forma- O desenvolvimento sociocognitivo com-
do” (Vigotski, 2003, p. 82). Para Vigotski preende o conhecimento sobre o mundo
(2003), “deve-se considerar como carac- social; o pensar sobre as pessoas, o que
terística da educação o momento de não- elas fazem ou deveriam fazer e como elas
-consolidação, de fluidez do crescimento se sentem. (Rodrigues & Tavares, 2009) De
e de mudanças originais no indivíduo” acordo com Bee (2003) tais conhecimen-
(p. 82). Assim, defendemos que na EAD tos envolvem processos e mecanismos da
deve-se promover uma “aprendizagem cognição social. A referida autora ressalta
que passa à frente do desenvolvimento que a compreensão da criança em relação
e o conduz” (Vigotski, 2001, p. 332). Essa a ela mesma, as pessoas e os seus rela-
perspectiva pode ajudar na discussão cionamentos sociais reflete ou baseia-se
dos modelos de formação em EAD. Neste em seu desenvolvimento cognitivo geral.
trabalho consideramos alguns aspectos Para tanto, aponta que a criança mais jo-
gerais da vida adulta que não esgotam a vem direciona-se sua atenção a caracte-
discussão colocada, porém, indicam que rísticas externas das situações, enquanto
o processo de aprendizagem na EAD tem, as crianças com mais idade buscam as
em especial, uma inter-relação com fa- causas (princípios internos); as crianças
tores do desenvolvimento humano a ser pequenas tiram conclusões por meio de
considerada pedagogicamente em seu suas observações, enquanto as crianças
contexto educacional. mais velhas já são capazes de realizar
inferências. Tais dimensões de mudança
Palavras-chave: Aprendizagem, caracterizam, também, um desenvolvi-
Desenvolvimento, Educação a Distância. mento natural da cognição social (Bee,
2003). Segundo Fenning, Bake e Juvonen
(2011) para se investigar a cognição social
teóricos da área recorrem ao modelo do
processamento da informação social, que
esclarece como as informações são pro-
cessadas e organizadas em uma situação

58
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

social. O modelo que tem evidenciado da história. Para a seleção das perguntas
mais resultados empíricos é o de Dodge mais pertinentes a investigação realizou-
e Crick (1994); por meio do modelo em -se uma análise textual e das ilustrações
questão é possível compreender como a do livro selecionado para o levantamento
informação social se processa. dos indicadores verbais e visuais de pistas
sociais, internas e externas, em cada pá-
Teglasi e Rothman (2001) aplicaram o gina. Com base nessa análise, as pergun-
modelo à exploração do conteúdo de his- tas para a sondagem sociocognitiva foram
tórias infantis, com base em seis passos organizadas em categorias de acordo com
mentais que se expressam nas seguintes os seis componentes propostos por Tegla-
questões: - o que está acontecendo? - o si e Rothman (2001). Sendo assim, tem-se
que os personagens estão pensando e 23 itens investigando o que está aconte-
sentindo? - quais são as intenções e me- cendo; 24 itens investigando o que os per-
tas dos personagens? - o que os persona- sonagens estão pensando e sentindo 12
gens alcançam com suas ações? - como os itens investigando as metas e intenções
personagens executam e monitoram seus dos personagens; 6 itens para o que os
comportamentos? - quais as lições apren- personagens alcançam com suas ações;
didas? No presente estudo, os seis passos 12 itens para como os personagens exe-
do processamento da informação social cutam e monitoram seus comportamen-
propostos por esses autores são empre- tos; e 3 itens para as lições aprendidas.
gados para avaliar o desenvolvimento Para a investigação propriamente dita,
sociocognitivo de crianças. Seu objetivo cada criança era retirada, individualmen-
é verificar se há diferenças desenvolvi- te, da sala de aula e participava da leitura-
mentais na qualidade das respostas de -dialogada da história com base no rotei-
crianças pré-escolares e escolares, ao se- ro de perguntas. A avaliação, com dura-
rem questionadas, com as seis perguntas ção média de 20 minutos, era gravada e
exploratórias, sobre uma história infantil posteriormente transcrita para a análise
rica em pistas sociais. Método – Sujeitos de dados. Após todas as avaliações trans-
- Participaram do estudo 49 crianças, 19 critas, realizou-se uma junção de todas as
crianças de 5-6 anos, pertencentes a uma respostas a cada item, tanto para crianças
escola de educação infantil e 30 crianças de 5-6 anos quanto para crianças de 8-9
de 8-9 anos, pertencentes a uma escola anos. As respostas foram organizadas em
de ensino fundamental. Ambas as esco- níveis de reflexão sócio-cognitiva estabe-
las são de rede pública e situam-se em lecidos por três juízes mediante consen-
uma cidade do interior de Minas Gerais. so. Resultados - Para o componente o que
Materiais e procedimentos - Para a inves- está acontecendo? Em que a investigação
tigação sociocognitiva selecionou-se um direciona-se para a codificação e interpre-
livro de história infantil, rico em pistas tação das pistas sociais, nota-se que as
sociais, pertencente à pesquisa de Rodri- crianças de 8-9 anos captam mais pistas
gues e cols. (2007). A fim de sistematizar se comparadas às crianças de 5-6 anos.
a investigação foi elaborado um roteiro de Estas últimas também são capazes de de-
aplicação, estruturado em 80 perguntas, codificar pistas e algumas delas apresen-
que visa explorar e discutir o conteúdo tam respostas ricas em detalhes, no en-

59
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

tanto as crianças de 8-9 anos destacam- corrobora a afirmação de Bee (2003) de


-se na qualidade da respostas. A referida que crianças pequenas se prendem a ob-
observação vai ao encontro das informa- servações e crianças mais velhas já estão
ções apontadas por Bee (2003) em que o aptas a realizarem inferências.
pensar na infância altera-se com o desen-
O roteiro de investigação se mostrou sen-
volvimento. Em relação ao componente
sível para a avaliação sociocognitiva. As
o que os personagens estão pensando e
crianças mostraram-se interessadas pela
sentindo? Nota-se que as crianças peque-
história e os resultados encontrados são
nas apresentam um vocabulário restrito
corroborados pela literatura do desenvol-
de nomeação de sentimentos. Além disso,
vimento infantil.
em algumas situações tais crianças fazem
referência a uma situação e não a um sen-
timento; já as crianças mais velhas, de um Palavras-chave: desenvolvimento
modo geral, são capazes de nomear senti- sociocognitivo; infância, história infantis.
mentos e discriminá-los coerentemente a
historia. Ao investigar metas e intenções,
terceiro componente, observa-se que as LT04-970 - GRUPOS DE CONVIVÊNCIA:
crianças mais velhas apresentam respos- RELAÇÃO ENTRE CONCEITOS
tas mais completas, no entanto as crian- COTIDIANOS E CIENTÍFICOS
ças pequenas são capazes de identificar Camila Lima Nascimento - UNICAMP
corretamente a meta/intenção presente camifono@fcm.unicamp.br
na cena. Ao se explorar a elaboração de Cecília Guarnieri Batista - UNICAMP
alternativas de resolução de problemas cecigb@fcm.unicamp.br
para o personagem, as crianças mais ve-
lhas apresentam soluções mais conse- O processo de desenvolvimento infantil,
quenciadas. Para a investigação de resul- mais especificamente, referente a crian-
tados alcançados, quarto componente, e ças com queixas de alterações no desen-
monitoramento e execução de compor- volvimento e/ou dificuldades escolares,
tamentos, quinto componente, muitas pode sofrer influências negativas, advin-
das crianças, incluindo ambas as idades, das dos efeitos das repetidas histórias de
compreendiam o que estava sendo ques- fracasso nas tarefas educacionais. Uma
tionado, porém as crianças mais velhas das possibilidades de redução desses
apresentaram respostas mais detalha- problemas é a participação da criança
das, apontando maior compreensão. Em em projetos de educação não formal, em
relação ao último componente, quais as grupos de convivência. Essa participação
lições aprendidas, observa-se que a maio- pode favorecer interações em que predo-
ria das crianças mais velhas foi capaz de minem momentos de aquisição e troca
compreender a história como um todo, de experiências entre os participantes,
extraindo lições pertinentes do livro. Já as permitindo a exploração de capacidades
crianças mais novas, geralmente, ficaram e o desenvolvimento de competências
presas aos acontecimentos da história, com diferentes propostas, como projetos
não sendo capazes de extrair as lições e voltados para a formação de conceitos.
transpô-las para a vida cotidiana. Tal fato Cavalcanti (2005) destaca a formação de

60
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

conceitos como sendo um processo cria- sobre formação de conceitos, realizado


tivo, que se orienta para a solução de pro- com crianças que apresentam dificulda-
blemas e que depende, fundamentalmen- des escolares em grupos de educação
te, da experiência, na qual a apropriação não formal, buscando identificar exem-
de significados depende do contexto, da plos de apropriação de conceitos científi-
atividade e da participação do indivíduo. cos, com base na análise da dinâmica das
Oliveira, Chaves e Alves (2006) afirmam interações entre adultos e crianças. Os
que a formação de conceitos depende de dados apresentados foram selecionados
um movimento coletivo, trazendo a im- do conjunto de filmagens das atividades
portância do contexto grupal, com flexibi- desenvolvidas em grupos de convivência,
lidade nas atividades propostas, baseada constituídos por crianças com queixas de
na percepção dos comportamentos e co- dificuldades escolares e, a maioria, com
nhecimentos trazidos pelos participantes. diagnósticos de alterações orgânicas no
Vygotsky diferencia os conceitos aprendi- desenvolvimento. Os encontros eram se-
dos nas interações cotidianas (cotidianos) manais, realizados em um serviço de saú-
daqueles adquiridos no contexto escolar de de uma universidade pública, com du-
(científicos) e os relaciona, afirmando que ração de 60 minutos, sendo coordenados
os cotidianos conferem sentido aos cientí- por uma equipe envolvendo docentes e
ficos, por terem significados emocionais e estudantes de pós-graduação. A atividade
pessoais (Van der Veer & Valsiner, 2001). dos grupos era fundamentada em propos-
Dessa forma, fundamenta as afirmações ta de educação não-formal, envolvendo o
segundo as quais a formação de concei- desenvolvimento de projetos temáticos
tos pode ser facilitada por um contexto de (Batista & Laplane, 2007). Participaram do
grupo em que adultos encorajem o esta- estudo quatro crianças com faixa etária
belecimento de relações entre vivências entre doze e catorze anos, matriculadas
do cotidiano e conhecimentos formais. em escolas regulares. O projeto foi apro-
Gerhardt (2010) destaca dois aspectos vado por Comitê de Ética, e os pais assi-
relacionados ao processo de formação de naram um Termo de Consentimento Livre
conceitos: o descolamento da realidade e Esclarecido. A coleta de dados consistiu
imediata e a articulação entre conceitos. na transcrição das sessões do estudo dos
Para a autora, o aprendizado consiste na Solos, que foi parte do projeto temático
formação de um espaço emergente, re- “Geografia do Brasil”, das quais foram re-
sultante do encontro dos processos in- cortados episódios significativos (Pedrosa
dividuais e ambientais em um momento & Carvalho, 2005). As sessões envolveram
único. O processo de aprendizado deve demonstrações práticas, aula teórica com
ser apresentado como uma realidade especialistas, estudo de campo, jogos de
a ser construída (envolvendo conceitos tabuleiro com tarefas relacionadas aos
científicos), baseada nas realidades já conteúdos apresentados, atividades de
conhecidas (conceito cotidianos), permi- leitura e escrita permeadas por diálogos,
tindo que ambas as realidades sejam per- incentivando os relatos das crianças par-
cebidas e conceptualizadas pelo sujeito ticipantes, cujos nomes apresentados são
em desenvolvimento. O objetivo do pre- fictícios. A análise consistiu no levanta-
sente trabalho é apresentar um estudo mento dos conhecimentos que as crian-

61
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

ças já tinham previamente e dos indica- tribuir para a articulação entre diferentes
dores de apropriação de conhecimentos eventos, todos relacionados aos “danos
pelas crianças, buscando problematizar a ao solo”, tendo o adulto atuado de forma
identificação de articulação de conceitos a propiciar essa busca de articulação. Os
e descolamento da realidade imediata, episódios analisados permitiram identifi-
na construção de conceitos cotidianos e car exemplos de apropriação de conceitos
científicos. Como parte dos resultados, científicos pelas crianças, muitas vezes,
um dos episódios do estudo é apresenta- enunciados de forma não canônica e rela-
do para exemplificar a análise realizada, o cionados a conceitos cotidianos. A partir
Episódio 3-3, em que o adulto apresenta dos estudos apresentados foram permi-
questões relacionadas a noções já apre- tidas reflexões acerca das competências
sentadas. e capacidades das crianças participan-
tes. Observou-se que a apropriação dos
Cecília (ad): O que estraga o solo?
conceitos nem sempre é completa, mas,
Evandro: Produtos químicos, matadores foram evidenciadas construções e apro-
de insetos artificiais. priações por parte das crianças, sendo
Camila explica o perigo dos pesticidas e que cada criança apresentou sua própria
agrotóxicos e continua as perguntas. maneira de demonstrar a apropriação de
um conceito. A participação dos adultos
Camila (ad): Por exemplo, quando chove mostrou-se importante, uma vez que as
muito e não tem planta em cima? O que crianças apoiaram-se, constantemente,
acontece com o solo? nas relações por eles apresentadas entre
Tamara: Entra dentro. (referindo-se ao as experiências cotidianas e os conceitos
deslocamento do solo) apresentados, durante o processo de ela-
boração de conceitos. Desta forma, os da-
Camila (ad): A professora mostrou uma dos indicaram capacidades e competên-
foto, vocês lembram? O que aconteceu cias nas crianças participantes, cada uma
com a estrada que estava em cima do a seu modo. Foi possível, assim, evitar a
solo? cristalização de incapacidades e queixas,
Tamara: Rachou. possibilitando mudanças significativas
nas formas de lidar com o aprendizado da
Celso: Rachou.
criança e contribuindo para o seu desen-
Nesse episódio, o adulto retoma uma per- volvimento.
gunta apresentada duas aulas antes (1).
Evandro responde com elementos não Palavras-chave: desenvolvimento humano,
apresentados em aula (2). O adulto ex- necessidades especiais, grupos de
pande a resposta e detalha mais a pergun- convivência
ta inicial (3). Tamara inicia a resposta (4) Contato: Cecília Guarnieri Batista, UNICAMP,
e o adulto concorda e completa, fazendo cecigb@fcm.unicamp.br
referência à aula expositiva (5). Então, Ta-
mara (6) e Celso (7) respondem, apropria-
damente. Considera-se que, no episódio,
as crianças participaram de forma a con-

62
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

LT04-1319 - INFLUÊNCIAS DO AMBIENTE Ambiental o campo da ciência psicológica


NA PERCEPÇÃO DE APRENDIZAGEM cujo foco de estudo é a influência do am-
NUMA SALA DE AULA DE IDIOMAS: biente na subjetividade e comportamento
BREVES CONSIDERAÇÕES A PARTIR DE humanos (Moser, 1998; Sager, Sperb, Roa-
UMA INVESTIGAÇÃO EM PSICOLOGIA zzi & Martins; 2003), compreende-se que
AMBIENTAL ela surge enquanto possibilidade de com-
Rodolfo Luís Leite Batista - UFSJ preensão da realidade de ensino-aprendi-
rodolfo_rllb@hotmail.com zagem nas salas de aula de LE. Compreen-
Aliene Cássia Carvalho Gonçalves - UFSJ dendo que cada ambiente pode oferecer
alienecassia@hotmail.com variados aspectos de influências ao com-
Tatiane Rose Oliveira de Mendonça - UFSJ portamento humano (iluminação, tempe-
tatianerose@yahoo.com.br ratura, ruídos, sensação de aglomeração e
Larissa Marinho Medeiros dos Santos - apinhamento, por exemplo), optou-se por
DPSIC/UFSJ investigar a percepção dos alunos sobre a
larissa@ufsj.edu.br influência do ambiente em sua aprendiza-
gem de uma língua estrangeira. Segundo
É apresentado o estudo de caso acerca da Tuan (1980), o estudo da percepção per-
influência causada pelo ambiente na per- mite compreender a ambiência, uma vez
cepção de aprendizagem de uma língua que elas envolvem características individu-
estrangeira – LE – entre os alunos de um ais – que variam conforme a idade, sexo,
projeto de extensão do Departamento de gênero e história de vida – e relacionadas
Letras, Artes e Cultura da Universidade Fe- à situação investigada. O processo de co-
deral de São João del-Rei (DELAC/UFSJ). Os leta de dados foi dividido em três grandes
trabalhos foram conduzidos pelos autores etapas: assinatura do Termo de Consen-
durante o primeiro semestre de 2011 e timento Livre e Esclarecido, uma série de
apontam novas possibilidades de compre- observações e aplicação de um questioná-
ensão acerca de uma sala de ensino de LE rio semiestruturado. As aulas observadas
a partir dos conhecimentos provenientes classificadas da seguinte maneira: a) aulas
da Psicologia Ambiental. Tal estudo objeti- expositivas e com carteiras dispostas em
vou investigar a influência do ambiente em fila (consideradas como de situação na-
uma sala de ensino de idiomas mediante tural e utilizadas como base para compa-
a realização de modificações acarretadas rações); b) aula com atividades realizadas
pelo uso de multimídias e modificações na em duplas; c) aula com utilização de mídia
disposição física da sala, principalmente, o auditiva na língua estrangeira; d) aula com
posicionamento do professor e a disposi- audição de música; e) aula com atividade
ção das cadeiras. Assim, buscou-se iden- realizada em círculo sem uso de multimí-
tificar a importância de diferentes meios dia; f) aula em semicírculo, e g) aula com
didáticos para aprendizagem de uma lín- uso de vídeos. As observações foram reali-
gua estrangeira na percepção dos próprios zadas com foco na participação dos alunos,
alunos. Foi realizada breve revisão de lite- sendo contabilizadas as interações entre
ratura que pudesse amparar as modifica- aluno-aluno, aluno-professor e professor-
ções realizadas e subsidiar teoricamente o -aluno com utilização da LE. Cada sessão
trabalho desenvolvido. Sendo a Psicologia durou noventa minutos, período de dura-

63
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

ção da aula. A aplicação do questionário tecnológicos na sala de idiomas, criando


se fez após a realização da série de oito a possibilidade da interação em situação
observações, sendo ele construído ten- real de comunicação (Tondelli et al., 2005).
do em vista que o ambiente é vivenciado Portanto, hoje o ensino-aprendizagem não
como campo unitário que se dá abaixo do é um evento que dá primazia à figura do
nível de consciência, isto é, nem sempre é professor ou dos livros do mestre (Miccoli,
experienciado de modo que o percebamos. 2010). No entanto, o uso de multimídias
O questionário foi composto de doze itens, ou modificações no ambiente da sala de
aos quais os voluntários deveriam pontuar aula não pode ser utilizado de modo arbi-
em uma escala crescente de um a doze, in- trário. Desta forma, Miccoli (2010) afirma
dicando as alterações que mais afetaram que para que o professor atue como facili-
seu processo de ensino-aprendizagem. tador no processo de aprendizagem é ne-
Ao serem retomadas as discussões acerca cessário que ele conheça seus alunos e os
do processo de ensino-aprendizagem de diferentes métodos para definir o melhor
LE, deve ser ressaltado que tal processo caminho a ser trilhado. O domínio da lín-
se constitui como uma relação dinâmica gua estrangeira se fará de modo gradual,
e dialógica, ou seja, um acontecimento passando por um processo de refinamento
inédito a cada instante, que se modifica até a obtenção da fluência ambicionada.
constantemente e é marcado pela intera- Ao final do trabalho empreendido, aponta-
ção de duas vias. Professores e alunos en- -se que, de maneira geral, os alunos consi-
tram em contato ao abordarem o conhe- deraram a audição de mídias na língua es-
cimento. Enquanto relação, o processo de trangeira e conversação como os aspectos
ensino-aprendizagem se revela como um mais influentes na aprendizagem; aspectos
processo de natureza complexa, marcado referentes ao ambiente físico não foram
pela afetividade e pela motivação, que mencionados como influências importan-
precisa ser compreendido uma vez que tes na sala de aula; mudanças na ocupação
repercute no desenvolvimento dos indiví- do espaço físico da sala não influenciaram
duos (Miccoli, 2010). Já quanto ao uso de na interação nas categorias consideradas.
multimídias nas salas de idiomas, Tondelli, Considera-se que a fim de otimizar o pro-
Francisco, Reis e Sousa (2005) afirmam cesso, cabe ao professor oferecer diferen-
que seu uso é recente. Desta forma, gra- tes oportunidades de aprendizagem aos
dativamente, a utilização de recursos didá- seus alunos. Portanto, é importante que
ticos que não a tríade lousa-livro-giz vem haja uma integração dos meios disponí-
sendo substituída: os exercícios orais de veis, com atividades que sejam do interes-
repetição foram abandonados em função se dos alunos e que se aliem às técnicas
de uma abordagem comunicativa, pautada pedagógicas, para a obtenção de um am-
pelo ensino de quatro habilidades – escu- biente propício ao ensino-aprendizagem.
ta, fala, leitura e escrita – e com foco na
interação entre professor e alunos na sala Palavras-chave: Psicologia Ambiental, Ensino
de aula através de trabalhos em duplas ou de Língua Estrangeira, Sala de aula.
em grupos e situações simuladas com uso Contato: Rodolfo Luís Leite Batista,
da LE. Esse avanço culminou com o uso do Universidade Federal de São João Del Rei,
computador e da internet como recursos rodolfo_rllb@hotmail.com

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

CO 35 - LT05 aponta para um crescente interesse nes-


ta linha de pesquisa, estando a maioria
Relações Familiares 1 dos trabalhos concentrados nos últimos
cinco anos. Tópicos como adoecimento,
infidelidade, parentalidade, migração, gê-
LT05-762 - CONJUGALIDADE E OS
nero, violência e relações de trabalho são
DESAFIOS DA CONTEMPORANEIDADE
os mais diretamente relacionados com
Camila Ferrari - UCSAL o grande tema. Neste trabalho, visou-se
milaferrari@terra.com.br analisar as relações conjugais, levando em
Cristiane Cavalcanti - UCSAL consideração domínios como satisfação,
cristiane.fisio.ssa@gmail.com investimento do casal na relação e proces-
Juliana Orrico - UCSAL sos adaptativos. Trata-se de um estudo de
juorrico@gmail.com natureza exploratória e multicêntrica, de
caráter qualitativo e quantitativo. Utilizou-
Encontrar alguém para compartilhar a -se um roteiro de pesquisa com itens acer-
vida e ter filhos parece ser uma busca in- ca do casamento e do significado de famí-
cessante, já que esta passagem configura- lia, no qual incluiu duas questões abertas
-se como um rito significativo em muitas (“o que é família pra você” e “quem faz
sociedades. Tal união é bastante cultivada parte da sua família”). Foi realizada em
em nossa cultura, seja pela profundidade Salvador-BA com uma população de 102
e intimidade proporcionadas, seja pela participantes. A população foi composta
companhia e autoafirmação advinda da basicamente pelo sexo feminino em 78%,
relação estabelecida com o parceiro. O ca- casada pela primeira vez (63,7%), com ida-
samento é considerado o mais forte prog- de entre 30-35 anos (36,3%), funcionárias
nóstico de felicidade e bem-estar pessoal. do setor privado (60%), com dois filhos
Por outro lado, o casal contemporâneo é (33,4%) e oriundas da classe média-alta.
confrontado por duas forças paradoxais - O conceito de família recebeu conotações
a individualidade e a conjugalidade - que positivas, associadas à base da pessoa
se tencionam constantemente. Encontrar (12%). Chama atenção a não valorização
o equilíbrio entre essas energias tem sido da relação entre família e sustento (0,7%),
um grande desafio dos cônjuges na atua- mas sim ao suporte incondicional (6,7%) e
lidade. A relevância em estudar conjuga- cuidado ʤ proteção (4%). A família extensa
lidade envolve o fato de que, em algum foi considerada pela maioria dos partici-
momento da vida, as pessoas irão experi- pantes como fazendo parte do seu sistema
mentar a convivência com o outro, apre- (41%), embora os agrupamentos mono-
sentando-se sob as mais variadas formas parentais e reconstituídos já aparecerem
possíveis de organização. Muitos estudos com relativa frequência na pesquisa. Em
sobre amor, casamento, família e divór- relação à conjugalidade, a amostra acredi-
cio, assinalam que a concepção do amor ta ser importante a estabilidade conjugal
romântico ainda ocupa o papel central no (93%), a gratificação pessoal dos cônjuges
imaginário amoroso das relações conju- na relação (90%) e a geração e educação
gais na cultura ocidental. O levantamento dos filhos (86,9%), na medida em que se
bibliográfico do tema da conjugalidade mostraram satisfeitos com suas relações

65
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

(89,4%). Ser casado legalmente foi va- dade, um aumento no número dos divór-
lorizado por 49,5%. A conjugalidade, na cios e de recasamentos, bem como o sur-
maioria da população entrevistada, possui gimento da não obrigatoriedade da coabi-
características contemporâneas, ou seja, tação como regra conjugal. Para estudos
homens e mulheres estão envolvidos com prospectivos, pode-se pensar em analisar
o desenvolvimento profissional, a satisfa- os resultados do questionário utilizado sob
ção afetiva na relação com o outro e, no égide do gênero, pois é fato que teríamos
geral, compartilham a preocupação com a definições e percepções diferentes da fa-
o bem-estar do mútuo. O espaço familiar mília e casamento.
é, por conta disso, propiciador de cresci-
mento para todos os envolvidos. Nessa Palavras-chave: conjugalidade, família, laços
pesquisa, observou-se que existe uma conjugais
preocupação com a satisfação do parceiro Contato: Cristiane Cavalcanti, UCSal/FTC,
e uma tentativa de conciliar individualida- cristiane.fisio.ssa@gmail.com
de com conjugalidade, apesar de ser uma
tarefa difícil nos dias atuais. O panorama
social contemporâneo apresenta múltiplas LT05-811 - GÊNERO E GERAÇÃO:
formas de conjugalidade e um crescente DESCONTINUIDADES NAS INFÂNCIAS
aumento de dissoluções conjugais, suce- EM FAMÍLIAS DE UMA COMUNIDADE
didas ou não de recasamentos, tornando- LITORÂNEA
-se cada vez mais importante o desenvol-
Angelina Nunes de Vasconcelos - UFPE
vimento de pesquisas que aprofundem a
vasconcelos.angelina@gmail.com
compreensão sobre as questões relacio-
Heliane de Almeida Lins Leitão - UFAL
nadas ao laço conjugal, pois atualmente o
helianeleitao@uol.com.br
casamento, não necessariamente envolve
Gabriel Fortes Cavalcanti de Macêdo - UFAL
um projeto de filiação e descendência.
fortes-gabriel@hotmail.com
Podem-se observar, da mesma forma,
múltiplas facetas do desejo de procriação, Financiamento: CNPq, FAPEAL
representadas seja pela busca de um filho
quando não existem possibilidades bioló- A família se apresenta como cenário privi-
gicas de concepção, seja por seu inverso, a legiado para a investigação dos processos
escolha voluntária por não ter filhos. Esse de constituição da subjetividade em sua
cenário de dissociação, aliado aos avanços indissociabilidade do contexto relacional
da medicina, permitiu, além de uma sexu- e sociocultural. O estudo de questões de
alidade sem procriação, seu reverso. Isso gênero no contexto familiar é de grande
ocorre graças à outra característica da con- importância, pois é na família que ocor-
jugalidade contemporânea, que diz respei- rem as primeiras experiências de relações
to à busca de satisfação dentro da relação de gênero e da transmissão intergera-
e a garantia do espaço para a individuali- cional de atribuições e papéis de gênero
dade, marcando bem a igualdade dos gê- na cultura. Além disto, é na família que
neros, e não mais o casamento como uma se estabelecem as relações afetivas pri-
condição natural. Pode-se observar, como márias, a partir das quais se constroem
efeito, uma explicitação da homossexuali- importantes processos de identificação

66
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

que formam o núcleo da identidade de e 11 anos. As famílias apresentaram nível


gênero. As transformações observadas na sócio-econômico baixo e, em sua maioria,
família contemporânea têm levado a uma eram nativas da comunidade. Os instru-
crescente necessidade de pesquisa acer- mentos utilizados foram: entrevistas se-
ca das relações familiares na atualidade, miestruturadas; histórias semiprojetivas;
considerando-se particularmente as mu- produção de “Retratos de família” através
danças no comportamento feminino e o da realização de fotografias e desenhos;
enfraquecimento dos valores tradicionais e estudo observacional nas casas de duas
e suas repercussões nos papéis e relações das famílias participantes e no espaço co-
de gênero. Entretanto, as mudanças ob- munitário. Foram observadas importantes
servadas na família não afetam todos os descontinuidades intergeracionais entre a
grupos sociais da mesma maneira, sendo infância vivida pelas crianças desta comu-
necessário investigar os diferentes con- nidade e aquela vivida por seus pais. As di-
textos comunitários em que ocorrem. A versas influências e informações apreendi-
organização familiar nas camadas popula- das pelas crianças na rua, na escola e atra-
res apresenta especificidades, tornando- vés da mídia, geram descontinuidades de
-se necessário compreender questões de gênero entre as gerações, principalmente
gênero neste contexto. Com freqüência por produzir novas expectativas de futu-
prevalece um modelo tradicional de famí- ro. A centralidade da escolaridade na vida
lia com uma rígida divisão de papéis entre destas crianças marca a principal diferença
homens e mulheres. O homem é conside- intergeracional na família e na comunida-
rado o detentor da autoridade, estando de. Em relação à nova geração, a oportu-
este poder sustentado principalmente no nidade da escolarização formal equipara
seu papel de principal provedor da família, as experiências de gênero, na medida em
o que lhe garante, ainda, uma privilegiada que são oferecidas igualmente a meninos
relação com o mundo social e do trabalho. e meninas. Em relação aos meninos, a
O presente trabalho apresenta uma dis- escolarização aponta para a aquisição de
cussão dos resultados obtidos numa pes- conhecimentos não acessíveis aos pais,
quisa sobre gênero com famílias nucleares o abandono de profissões tradicionais e
de uma comunidade litorânea do Nordes- novas possibilidades de inserção no mer-
te. A comunidade estudada caracteriza-se cado de trabalho. No caso das meninas, a
como sendo de baixa renda, localizada escolaridade cria a expectativa de prepa-
numa área litorânea de forte potencial tu- ração para o mercado de trabalho, priori-
rístico, sendo sua história recente marcada zando o desenvolvimento profissional e a
por grandes transformações ambientais e autonomia financeira, em detrimento do
culturais decorrentes da chegada do turis- casamento e da maternidade precoce vi-
mo de massa. O estudo buscou conhecer venciadas por suas mães. Além disto, com
a infância nestas famílias, focalizando os a proibição do trabalho infantil, as crianças
indicadores de transmissão intergeracio- já não acompanham seus pais na rotina do
nal de gênero. Os participantes do estudo trabalho adulto, enfraquecendo-se expec-
foram seis famílias de uma comunidade li- tativas de transmissão de saberes e habi-
torânea, constituídas por pai, mãe e, pelo lidades relacionadas a ocupações tradicio-
menos, duas crianças com idades entre 06 nais, tais como a pesca para os homens e o

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

artesanato para as mulheres. Estas experi- riência feminina, sendo esperado que as
ências promovem profundas modificações meninas estejam mais familiarizadas com
na vida familiar, causando estranhamento estas situações e apresentem um repertó-
nos adultos. As mães relatam que acompa- rio mais amplo de estratégias de soluções
nhavam suas mães nas atividades domés- aos dilemas fictícios apresentados. Expec-
ticas, assumindo-as como suas principais tativas diferenciadas de quais emoções
responsabilidades. Constatam, entretanto, são apropriadas para cada gênero podem,
que as meninas de hoje vivenciam roti- de fato, produzir diferentes níveis de acei-
nas diferentes daquelas vividas por elas, tação, enfrentamento e integração de de-
priorizando a experiência na escola e as terminadas experiências emocionais. Ob-
decorrentes expectativas com relação ao servamos que nestas famílias predominam
futuro. As falas das meninas corroboram papéis, funções e atitudes ligadas a um
esta realidade, revelando que a escola se modelo tradicional de organização fami-
constitui em importante ambiente de refe- liar, os quais são transmitidos através das
rência e pertencimento no seu cotidiano. conversas, das práticas disciplinares e da
Por outro lado, numa clara reprodução dos organização do ambiente doméstico e co-
estereótipos de gênero, observou-se que munitário. Como resultado, as crianças exi-
os meninos são mais “livres”, gozando de bem comportamentos consistentes com
maior permissão para explorar o espaço os estereótipos de gênero. Por outro lado,
da rua, enquanto as meninas sofrem res- constata-se a valorização da escolarização
trições, devendo permanecer no espaço das crianças que, gerando rupturas com a
da casa, geralmente cuidando das tarefas tradição, tende a igualar as experiências de
domésticas. Verifica-se aí a manutenção meninos e meninas quanto ao acesso a no-
da tradição e das desigualdades que carac- vos conhecimentos, experiências sociais e
terizam os espaços aos quais se vinculam expectativas para o futuro.
homens e mulheres adultos. Entretanto,
contrariando a expectativa de que mais Palavras-chave: família, gênero,
liberdade geraria maior autonomia dos intergeracionalidade
meninos, sugere-se sua maior dependên- Contato: Angelina Nunes de Vasconcelos,
cia emocional. Os homens, em suas res- UFPE, vasconcelos.angelina@gmail.com
postas às histórias semiprojetivas retratam
os filhos como menos autônomos do que
as filhas, recorrendo muito mais aos pais, LT05-820 - TEMPO DA CRIANÇA
principalmente à mãe, para a solução dos NO LITÍGIO PARENTAL NA JUSTIÇA:
problemas emocionais apresentados. Esta REFLEXÕES SISTÊMICAS
diferença se confirma nas respostas dos Marcia Regina Ribeiro dos Santos - TJDFT
próprios meninos às histórias em compa- marciarrsantos@gmail.com
ração com as das meninas. Uma possibi- Liana Fortunato Costa - UnB
lidade de compreensão dessa diferença lianaf@terra.com.br
estaria baseada numa concepção estere-
otipada destes pais de que sentimentos Trata-se do recorte de uma pesquisa qua-
de tristeza, medo, fracasso e culpa sejam litativa realizada em mestrado acadêmico
mais aceitáveis e “apropriados” à expe- cujos dados foram coletados em um Tribu-

68
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

nal de Justiça. O estudo versou sobre as lúdico junto aos seus familiares durante o
significações do tempo entre as decisões período da entrevista. O espaço utilizado
em ações que envolvem litígio em Varas foi uma das salas do setor psicossocial que
de Família, na perspectiva dos vários par- estava equipada com os seguintes recur-
ticipantes envolvidos durante a execução sos: brinquedos, papéis, lápis coloridos,
do processo judicial: família, advogado, mesinha e cadeirinhas, dentre outros.
juiz de direito, promotor público e psicó- Depois que todos os componentes da fa-
logo – profissional do setor psicossocial da mília responderam às indagações formu-
Justiça. Tendo como objetivo discutir o sig- ladas, a pesquisadora se dirigiu à criança
nificado do tempo dado pela criança, foi e lhe fez perguntas que são apresentadas
selecionada uma dada família cujo proces- nos resultados. A primeira pergunta feita
so retornou para estudo psicossocial pela a criança foi se ela se lembrava a idade
segunda vez. O primeiro havia sido reali- que tinha quando o processo teve início.
zado há um ano. O processo era referente Ela respondeu que tinha seis ou sete anos.
à disputa de guarda da filha em comum, Foi perguntado como ela esperava que o
em que a mãe era a requerente e o pai, o processo terminasse e ela disse que não
requerido. Para a realização da pesquisa, sabia. E, tal como seus familiares, aguar-
obteve-se aprovação do Conselho de Ética dava a decisão judicial. A exemplo de sua
e todos os participantes tiveram acesso ao família materna, ela se queixou do tempo
Termo de Compromisso Livre e Esclareci- que passava com a mãe – fins de sema-
do-TCLE. Para identificar o significado do na quinzenais e quartas-feiras com per-
tempo para cada participante das decisões noite – considerando-o pouco. Por fim,
ao longo da tramitação processual, foram verbalizou o desejo de ficar mais tempo
realizadas entrevistas semiestruturadas com a mãe. Ela não fez referência ao pai
direcionadas a cada um dos membros par- nem aos familiares desse senhor durante
ticipantes da família envolvida. Além des- a realização da pesquisa. A despeito disso,
ses, realizou-se entrevista com o juiz que observou-se boa interação entre ela e o
encaminhou os autos para o setor psicos- núcleo familiar do pai. A análise e a dis-
social, com o promotor que se manifestou cussão tiveram como base as expressões
no decorrer do processo, com os advoga- da criança e o padrão interacional familiar
dos da requerente e do requerido e com o observado. Depreendeu-se que os pais e
psicólogo que efetuou o estudo no referi- os outros membros da família percebiam
do setor. Apesar de a criança participante o sofrimento da filha. Eles, no entanto,
(sexo feminino, nove anos de idade) estar não conseguiam evitar que a criança parti-
incluída durante a realização da entrevista cipasse dos desentendimentos existentes
com os componentes da família presentes e, para amenizar as tensões, delegavam
– pai, mãe, avó materna e companheira a ela o papel decisório. O litígio parental
do pai – não foi elaborada entrevista ex- envolveu delegacia de polícia e documen-
clusiva para ela. A criança tinha estabele- tos que buscavam comprovar a incompe-
cido vínculo de confiança com a psicóloga tência de um e de outro no exercício dos
e com a pesquisadora, demonstrando es- papéis materno e paterno. Lembranças
tar à vontade no ambiente oferecido para oriundas do convívio interrompido gera-
a realização da pesquisa. Ela teve espaço vam desconfianças e também contribuíam

69
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

para dificultar a livre prática das funções as relações existentes foram fundamen-
parentais. A partir das intervenções reali- tais para a sugestão da psicóloga do setor
zadas pela psicóloga do setor psicossocial psicossocial para subsidiar o processo de-
que acompanhou o estudo, a família pas- cisório do julgador. Entendeu-se que para
sou a aguardar a decisão do juiz, evitando a criança, o tempo mensurável, isto é, a
sobrecarregar emocionalmente a criança. quantidade de tempo que lhe era dispo-
Do ponto de vista sistêmico, depreendeu- nibilizada a passar com a mãe era consi-
-se que os conflitos que permeavam as derada reduzida, preferindo aumentá-la.
relações afetavam a todos, em especial a O desejo da mãe e da avó em acolhê-la
criança, por ainda depender emocional e por mais tempo no ambiente doméstico,
financeiramente de adultos responsáveis. poderia ser traduzido pela criança como
Os resultados mostraram que o tempo de espaço de segurança, proteção e afeto.
tramitação processual, três anos, era o A noção de sociedade, evidenciada pela
tempo que a criança lembrava, ao se re- criança, foi representada em sua fala
ferir à idade que tinha quando este teve quando mencionou que o juiz decidiria
início. Observou-se que, do mesmo modo sobre sua guarda.
que faziam seus familiares, ela passou
a transferir para o juiz a decisão de sua Palavras-chave: tempo, criança, Justiça
residência principal. A criança, ao fazer Contato: Marcia Regina Ribeiro dos Santos,
referência ao juiz como participante im- TJDFT, marciarrsantos@gmail.com
portante naquele momento de sua vida,
evidenciou que tinha noção de sociedade
e que dela fazia parte. Ademais, por ser LT05-945 - O CRACK E A FAMÍLIA: UM
leal ao afeto materno, a criança verba- ESTUDO SOBRE A DINÂMICA FAMILIAR
lizou o desejo de residir com ela. Parece DO USUÁRIO VICIADO
que no entendimento da criança, o sofri- Heron Flores Nogueira - UCB
mento da mãe e da avó diminuiria a partir heronfn@uol.com.br
dessa nova organização familiar. A criança Maria Alexina Ribeiro - UCB
demonstrou ter noção de tempo ao fazer alexina@solar.com.br
menção de sua idade quando do início do
processo judicial e de medida temporal ao A droga sempre existiu e é normatizada de
dizer que era pouco o tempo que passava acordo com compreensão legal de cada
com a mãe. Ela demonstrou também no- país, tornando a lícita e/ou ilícita. Pesqui-
ção de espaço, ao indicar o local em que sando a temática droga verifica-se que ela
gostaria de permanecer por mais tempo. e o seu consumo são assuntos historica-
A expressão da criança foi fundamental mente antigos na discussão política, social
para subsidiar o relatório da psicóloga que e cultural, além disso, sabe-se que a moti-
realizou o estudo. A profissional concluiu vação para o uso de drogas sofreu modifi-
pela sugestão da casa materna como resi- cações no decorrer do tempo, pois antiga-
dência principal, modificando a sugestão mente, as drogas eram utilizadas em situ-
fornecida no primeiro estudo psicossocial ações e ocasiões específicas e com grupos
realizado, que era a casa paterna. Depre- determinados. Autores como Ribeiro e
endeu-se que as expressões da criança e Laranjeira (2010) dizem que a característi-

70
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

ca comum das drogas com potencial para reira (2004), se propuseram a ampliar o
induzir adicção é o fato de terem a capa- olhar para a problemática das drogas no
cidade de alterar o comportamento ao ali- ambiente familiar buscando uma compre-
viarem sintomas desagradáveis como dor, ensão transgeracional dessa temática e
ansiedade, ou estresse ou, no pólo opos- automaticamente retirando o foco da re-
to, ao promoverem sensações de extremo lação linear descrita acima da tríade. Nes-
prazer e bem-estar. Com relação a estudos se sentido, objetivou-se com esta pesqui-
envolvendo o crack no Brasil não há dados sa compreender numa perspectiva trans-
precisos sobre quando e como essa droga geracional a dinâmica familiar de usuários
chegou ao país e tomando os dados epi- de crack. Os objetivos específicos deste
demiológicos feitos com a população em estudo foram: investigar como ocorriam
situação de rua, eles demonstram não as relações intrafamiliares entre membros
são apontados uso do crack até o ano de nos diferentes subsistemas; identificar
1989. O primeiro estudo sobre o consumo possíveis padrões de heranças transgera-
de crack no Brasil aconteceu em São Pau- cionais; descrever os principais aspectos
lo com um grupo de 25 usuários. O perfil da dinâmica e estrutura familiar como pa-
descrito pelos autores sobre esse grupo péis, fronteiras, limites, autoridade, afeti-
estudado: homens desempregados, com vidade; investigar o significado atribuído
menos de 30 anos de idade, baixa esco- pela família à droga; descrever a expecta-
laridade e poder aquisitivo, provenientes tiva dos membros sobre o futuro da vida
de famílias conflituosas. Os primeiros es- familiar. Participaram desta pesquisa três
tudos mostram que, de um grupo de 131 famílias, todas com um membro usuário
pacientes internados como dependentes de crack com pelo menos dois anos de uso
de crack, 18% morreram nos cinco anos da droga e em tratamento de internação
que sucederam a alta, sendo homicídio a numa clínica de reabilitação psicossocial
causa mais frequente. Tanto em São Paulo no Distrito Federal. Esta foi uma pesquisa
quanto em Belo Horizonte, onde foram fei- qualitativa na modalidade de Estudo de
tas pesquisas, o resultado apontou a mes- Caso e foi adotada como aporte teórico
ma relação intrínseca entre homicídios e a Teoria Sistêmica. Para coleta dos dados
crack, correlacionado ao tráfico de drogas. foram utilizados três instrumentos con-
De acordo com Penso et. al. (2004) nos úl- siderados por autores sistêmicos como
timos anos foram realizados estudos que fundamentais para a compreensão da di-
objetivavam compreender como as famí- nâmica familiar: entrevista semiestrutu-
lias de dependentes químicos se estrutu- rada do ciclo de vida familiar, construção
ram e como as relações se constituem. Es- do Genograma e colagem em família. O
tas autoras ressaltam que a compreensão contato inicial com os participantes se deu
era focada na tríade família - pai, mãe e o por meio de um convite verbal e pessoal
filho dependente de droga. O pai foi a figu- para a participação na pesquisa, obede-
ra vista como desatento e distante e a mãe cendo aos critérios de disponibilidade de
como super protetora e envolvida com a toda a família nuclear em participar da
vida do filho. No entanto, recentemente, pesquisa nas duas etapas. O contato ini-
estudiosos como Penso, Costa e Sudbrack cial possibilitou o agendamento dos dois
(2008), Trindade e Bucher (2008) e Fer- encontros que ocorreram separadamen-

71
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

te e tiveram uma duração média de uma zar os sentimentos gerados pelos conflitos
hora e meia cada. No primeiro encontro familiares; “Uma vida sem drogas”, ape-
os participantes responderam ao ques- sar de diversos estudos apresentarem a
tionário semiestruturado e construíram o devastação que o crack representa para a
Genograma familiar. No segundo encon- saúde do usuário e as dificuldades apre-
tro foi realizada uma colagem familiar. Os sentadas pelo adicto de manter-se abs-
dados foram coletados no próprio local tinente, as famílias preservam otimismo
de internação, sendo cada encontro gra- quando o assunto é o futuro, acreditam
vado em áudio e seu conteúdo transcrito que a droga deixará de fazer parte de sua
na íntegra. Para compreensão das respos- realidade ao mesmo tempo em que dele-
tas adotamos o enfoque da Epistemologia gam essa responsabilidade apenas para o
Qualitativa, numa postura de produção de usuário.
conhecimento construtivo-interpretativo.
Foram construídas Zonas de Sentido que Palavras-chave: crack, família, dinâmica
são categorias representadas aqui por me- familiar
táforas relacionadas ao conteúdo obtido Contato: Heron Flores Nogueira, UCB,
durante a coleta das informações. Como heronfn@uol.com.br
principais resultados apresentamos aqui
algumas categorizações: “O uso do crack:
uma herança familiar”. Onde é discutida LT05-1030 - MEU TEMPO, SEU TEMPO:
a transmissão geracional do uso do crack, REFLEXÕES SOBRE O RELACIONAMENTO
existente no sistema familiar como uma ENTRE AVÓS E NETOS A PARTIR DO
possibilidade de herdar os “valores” fami- DESENVOLVIMENTO DE UM PROGRAMA
liares; “Relações violentas: o carinho da INTERGERACIONAL NO CONTEXTO
família é a chibata”, apontada pelos par- ESCOLAR
ticipantes a violência aparece como uma Jacqueline F. C. Marangoni - GDF
das maneiras dos subsistemas se relacio- jac.marangoni@gmail.com
nar, é também interpretada como uma Maria Cláudia Santos Lopes de Oliveira - UnB
forma de comunicação e de transmissão claudia@unb.br
de “afetos”; “O filho-pai”, os filhos usu-
ários acabam assumindo o papel de pai A importância da família no desenvolvi-
da própria família, invertendo papéis, ao mento humano é inegável. Esta consiste
mesmo tempo, sendo “esposo” da própria no primeiro espaço de convivência e cons-
mãe, onde há ausência do genitor e super trução de significados do ser humano,
proteção da genitora. Essa dinâmica difi- promovendo a transmissão de valores e
culta o processo de desenvolvimento do práticas socioculturais por meio dos rela-
sistema familiar; “Crack: uma maldição ou cionamentos entre as gerações. Ao longo
uma salvação?”, uma visão contraditória é da história as famílias mudaram e na con-
encontrada quando as famílias atribuem temporaneidade, não se pode falar em um
um significado para a droga. Para uns ela é modelo familiar único, devido à flagrante
vista como uma maldição que acaba com heterogeneidade das configurações fa-
a harmonia e com a saúde, para outros ela miliares encontradas no cenário social.
é considerada uma salvação para ameni- Novos modelos familiares se apresentam,

72
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

motivados pelas transformações intensas busquem compreender as transferências


que perpassam as relações de gênero, as intergeracionais e as possibilidades de
atitudes e valores humanos. A crescente interações entre avós e netos nos dife-
inserção da mulher no mercado de traba- rentes contextos familiares. Como espaço
lho, a intensa circulação de informações encarregado da promoção de desenvolvi-
e inovações tecnológicas e o aumento da mento, a escola, nesse contexto, assume
expectativa de vida, as separações e no- o compromisso de formar cidadãos, pes-
vos casamentos modificam a organização soas comprometidas com a compreensão,
afetiva e social dos contextos familiares a crítica e a transformação da realidade
(Barros, 2006; Biasoli-Alves, 1997, 2000; sociocultural, na direção de trocas sociais
Dessen & Braz, 2005; Rocha-Coutinho, mais justas e equânimes (Milani, 2003).
2006). Temos assim na experiência de Entre as possíveis ações com as quais a
diferentes famílias as expressões das mu- escola deve estar comprometida, desta-
danças históricas e culturais que podem camos a construção de programas que
ou não gerar conflitos, mas demandam favoreçam a interação entre gerações. O
constantes negociações entre as gerações presente estudo parte de uma interven-
jovens e as mais velhas, que tendem a ção realizada em uma escola pública do
conviver por um período maior de tempo Distrito Federal (DF). Seu objetivo é iden-
(Oliveira, 2007; Rocha-Coutinho, 2006). tificar e analisar os sentidos construídos
Tataravós, bisavós, avós, netos e filhos por avós e netos em encontros interge-
interagem em diferentes espaços sociais, racionais delineados pela técnica do gru-
marcados por dimensões socioculturais po focal. A metodologia está baseada na
e históricas próprias. As relações que se epistemologia qualitativa e desenvolvida
estabelecem entre eles são atravessadas como um processo construtivo-interpre-
por um conjunto de significados e senti- tativo. Participaram do estudo, oito avós,
dos importantes para a contextualização e com idades que variaram de 50 a 69 anos.
entendimento da família transgeracional Entre os netos adolescentes, foram nove
ou multigeracional. Um aspecto relevan- participantes, com idades que variaram de
te é o processo de trocas intergeracionais 13 a 18 anos. Dois moravam com os seus
no contexto familiar, em decorrência das avós e eram criados por estes; os outros
dificuldades socioeconômicas de nosso relataram já terem vivido a experiência de
país. Os idosos, ainda considerados em coabitar com os avós, em algum momento
muitos discursos sociais como dependen- da infância. A análise dos dados foi realiza-
tes, começam a configurar-se como uma da por meio da Epistemologia Qualitativa
geração que oferece suporte afetivo e fi- proposta por González-Rey (1997). Para o
nanceiro para as gerações mais jovens. Os autor, pesquisador e pesquisados estabe-
avós emergem nesse cenário como perso- lecem uma relação dialógica e dinâmica
nagens centrais na vida de suas famílias, em que as informações são coconstruídas.
participando ativamente da educação dos A análise das informações permitiu iden-
netos e proporcionando apoio afetivo- tificar quatro “zonas de sentido”: 1) avós
-financeiro aos filhos (Dias, 2004; Dias & como cuidadores principais ou correspon-
Silva, 1999, 2001; Oliveira, 2007). Essa re- sáveis na educação dos netos - As narrati-
alidade complexa demanda estudos que vas ofertadas pelos participantes permiti-

73
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

ram reconhecer os avós como pessoas ati- às representações que uma geração atri-
vas no processo de desenvolvimento dos bui à outra, assim como influenciam os re-
netos e esteio emocional e financeiro da lacionamentos entre elas. Ficou evidente
família; 2) conflitos intergeracionais - Foi também que para entender as relações
possível perceber que o relacionamento intergeracionais é preciso atentar-se para
entre avós e netos se dá em um movimen- temas como a violência no contexto urba-
to dinâmico, marcado por atritos, con- no, a relação de codependência afetiva e
frontos e conflitos que tendem, em alguns financeira entre as gerações de no con-
momentos, a distanciá-los. Os netos apon- texto familiar, as dificuldades socioeconô-
taram as lacunas históricas que estabele- micas e educativas na relação avós-netos,
cem diferenças de gerações (“meu tempo, a negociação entre valores tradicionais e
seu tempo”) e a insistência dos avós em modernos, as representações sobre ve-
tratar de questões atuais a partir de valo- lhice e adolescência na perspectiva dos
res coerentes com a lógica sociomoral de envolvidos e aquelas presentes no imagi-
sua época como fatores que dificultam a nário social mais amplo. Por fim, o estudo
relação com os avós; 3) realidade sociocul- indica a necessidade de pesquisas sobre
tural contemporânea marcada pelo medo os relacionamentos intergeracionais, em
- O sentimento de medo foi sustentado especial, a relação avós-netos, no mundo
discursivamente por avós e também por contemporâneo e reitera a importância da
netos. O temor e a sensação de inseguran- escola como contexto para a realização de
ça atravessaram as narrativas coerente- programas de integração entre gerações.
mente com a cultura do medo que marca
a atualidade, de modo a alterar a vida dos Palavras-chave: relação avós-netos,
participantes, restringindo a convivência programas intergeracionais, escola
nos espaços sociais e tornando-se alvo Contato: Jacqueline Ferraz da Costa
recorrente das preocupações dos avós na Marangoni, GDF, jac.marangoni@gmail.com
educação de seus netos; 4) realidade so-
ciofamiliar dos avós marcada por dificul-
dades - A experiência em grupo suscitou CO 41 - LT07
uma série de recordações por parte dos
avós que remeteram às suas relações com Violência/Gênero
os seus próprios avós, na infância, assim
como trouxeram a experiência do começo
de suas vidas conjugais e do nascimento LT07-895 - VIOLÊNCIA E GÊNERO: O
de seus filhos e de seus netos. As narra- PODER DAS MULHERES NA REDE DO
tivas dos avós contextualizaram situações TRÁFICO DE DROGAS
e condições sociais, econômicas, históri- Dayane Martins José dos Santos - UFF
cas e culturais marcadas por dificuldades day_martinss@hotmail.com
e sofrimento que influenciam a relação Financiamento: FAPERJ
que estabelecem com seus netos. A aná-
lise das narrativas de avós e netos permite O presente trabalho tem por objetivo dis-
pensar que os valores da sociedade atual cutir as relações de poder estabelecidas
se mostram, intimamente, relacionados pelas internas em um presídio feminino.

74
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

A pesquisa é realizada com mulheres que do Rio de Janeiro. Essa instituição abrange
cumprem penas por envolvimento com o a maioria maciça de mulheres sentencia-
tráfico de drogas em um presídio na re- das pelo envolvimento com a atividade do
gião norte fluminense, no Rio de Janeiro. tráfico de drogas. Outros dados analisados
Na pesquisa, a literatura foucaultiana é to- na pesquisa foram coletados no Presídio
mada a fim de conceituar o poder nos dias Nelson Hungria, localizado no município
atuais e diferenciá-lo da concepção de po- do Rio de Janeiro. Esses dados fazem par-
der tanto do Estado absolutista quanto da te do grupo de pesquisa “Violência e Gê-
teoria marxista. Foucault (1979) vai dizer nero”, que iniciou suas atividades no ano
que o poder é disperso e é encontrado em de 2007. Os dados a serem analisados são
todas as relações e campos sociais. Tais re- as entrevistas abertas em profundidade
lações de poder assumem formas distintas realizadas com as internas do presídio ci-
nos contextos intra e extramuros em um tado acima. Todas as mulheres entrevista-
presídio. No encarceramento, por exem- das foram condenadas por tráfico de dro-
plo, o poder pode ser refletido no com- gas. A metodologia utilizada para analisar
portamento de algumas mulheres que se os dados é a Análise do Discurso Crítica
“transformam” em homens e assumem o (FAIRCLOUGH, 1992), que prima pela cen-
papel tradicional masculino numa relação tralidade das relações do poder evidencia-
homossexual. O poder é visto aqui como das pelos relatos das participantes. A aná-
atrelado ao gênero. Fora do encarcera- lise do discurso possibilita analisar as falas
mento, a menção ao poder é recorrente que atravessam a constituição subjetiva
quando analisamos as motivações expres- de tais mulheres, emergindo assim sua
sas por essas mulheres para o ingresso no contradição, submissão e os discursos que
tráfico de drogas. Tais mulheres almejam são produzidos pela própria instituição.
a obtenção de dinheiro a fim de satisfazer De início, podemos desmistificar a ideia
seus desejos de consumo de bens mate- de que tais mulheres se inserem nas ativi-
riais, fomentados pela mídia e pela própria dades do tráfico exclusivamente como um
sociedade, além de almejarem o poder de meio de sustentabilidade. A atualidade se
ser bandida, que é um poder reconheci- caracteriza pela produção de necessida-
do socialmente como um poder masculi- des que não se referem à sobrevivência
no. Nosso objetivo no presente trabalho biológica do corpo, mas, principalmente,
é discutir as relações de poder estabele- à sobrevivência num contexto social em
cidas pelas internas em contextos intra e que o consumo é altamente valorizado
extramuros de um presídio. Em um pri- e possibilita a inserção em espaços mais
meiro momento, abordaremos o contexto privilegiados. A ditadura de mercado é in-
extramuros prisional, analisando como as centivada cotidianamente, seja pelo meio
relações de poder influenciam na inserção midiático, seja pela própria sociedade,
dessas mulheres no tráfico de drogas. Pos- modificando e produzindo necessidades
teriormente, iremos problematizar a mes- pessoais. Os dados coletados nos mos-
ma questão em contexto prisional. O tra- traram que a maioria das mulheres entre-
balho de campo está sendo conduzido no vistadas inicia as atividades ilícitas com o
Presídio Feminino Carlos Tinoco da Fonse- propósito de obter dinheiro para gastar
ca, na região norte fluminense do estado com roupas, acessórios, carros, etc. Tendo

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

esses objetos de consumo, elas acabam LT05-1032 - O PAPEL DAS RELAÇÕES


por ganhar uma maior visibilidade e sta- AFETIVAS NA CONSTITUIÇÃO
tus perante à sociedade. Num segundo DA IDENTIDADE DE MULHERES
momento, ao analisarmos as relações de ENCARCERADAS
poder intramuros prisionais, notamos que Carolina Ferreira Barbosa - UFF/PURO
há uma continuidade desse status con- cfbarbosa@id.uff.br
quistado fora da prisão. As mulheres que
chegaram a ocupar cargos importantes O presente trabalho visa apresentar o
na hierarquia do tráfico, ao serem presas, papel das relações afetivas no processo
continuam a exercer e ocupar um certo constitutivo da identidade de mulheres
lugar de destaque na prisão, devido à sua encarceradas. Diversos autores, em con-
trajetória de vida alcançada nas atividades sonância com os estudos em Criminologia,
de drogas. Outra forma de poder nota- atentam para o fato de que a criminalida-
da nas entrevistas é atrelada ao gênero. de feminina é, em geral, desprezada ou
Destacamos aqui a relação homossexual explicada em virtude dos relacionamentos
presente nas instituições, que é bastante amorosos com parceiros envolvidos em
comum devido à dificuldade que se tem atividades criminosas (Barcinski, 2009a;
para conseguir autorização para a visi- Barcinski 2009b; Guedes, 2006; Souza,
ta íntima e ao abandono afetivo e sexual 2009; Zaluar, 1993). Uma atividade cri-
experimentado pela maior parte das mu- minosa de extrema violência e constante
lheres no encarceramento. Porém, o que risco de morte para aquele que exerce tal
nos instigou e gerou questionamentos é atividade é, em geral, relacionada aos ho-
que, em algumas dessas relações, havia mens. Eles são os “chefes” do negócio, os
uma “transformação” de uma das parcei- que são munidos de armas de fogo e que,
ras em “homem”. Essas mulheres traves- fortes e destemidos, assumem a frente
tidas se caracterizavam como homens, de combate (Zaluar, 1993). Por deman-
assumiam comportamento, vestimentas e dar uma série de características físicas e
codinomes masculinos. Para elas, o “virar psicológicas particulares, podemos dizer
homem” dentro da prisão possibilita uma que o mundo do crime faz parte do domí-
maior visibilidade dentro da instituição e nio masculino e, desse modo, a inserção
também um maior respeito das demais in- masculina em atividades transgressoras é
ternas. Por fim, os resultados obtidos na mais facilmente esperada. As mulheres,
atual pesquisa nos possibilitaram refletir e portanto, têm assumido um papel secun-
questionar sobre as relações de poder que dário no cenário do crime, vinculando-
perpassam a vida dos indivíduos, princi- -se em atividades menos violentas como
palmente em um contexto prisional. roubo a lojas e supermercados ou, no
caso específico do tráfico de drogas, por
Palavras-chave: gênero, poder, criminalidade, amor a um bandido ou pelo vício (Zaluar,
tráfico de drogas 1993). Assim, como a inserção feminina
Contato: Dayane Martins José dos Santos, em atividades criminosas é menos evi-
UFF, day_martinss@hotmail.com dente e como a figura feminina desperta
menos desconfiança neste meio, as mu-
lheres são tidas, tradicionalmente, como

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

coadjuvantes neste cenário e os homens, permanência das mulheres no tráfico de


como protagonistas. Para entendermos o drogas e o período de encarceramento. O
papel dos homens/parceiros na iniciação estudo se baseia em reflexões realizadas
criminosa de mulheres, podemos pensar a partir de entrevistas qualitativas, em
que as relações afetivas estão no centro profundidade, com cinco mulheres encar-
da constituição da identidade feminina, ceradas com histórico de envolvimento
tal como afirma Miller (1987). Assim, o no tráfico de drogas no Rio de Janeiro. A
envolvimento das mulheres em atividades partir da análise crítica de discurso (Fair-
criminosas estaria intimamente relaciona- clough, 2008), a análise versa sobre as
do à figura do homem como bandido e à tensões entre os discursos hegemônicos
proteção, por parte das mulheres, da re- e os discursos de resistência constitutivos
lação estabelecida com seus parceiros cri- da identidade das participantes. Portanto,
minosos e à proteção/criação dos filhos. A importa para a compreensão deste pro-
partir da ênfase no papel preponderante cesso a fluidez dos significados produzidos
do afeto na constituição da subjetividade pelo discurso no contexto sócio-histórico
feminina, podemos entender que as re- e cultural no qual as participantes estão
lações afetivas estabelecidas no contexto inseridas e o modo como deles se apro-
prisional feminino evidenciam sua impor- priam. As entrevistas evidenciam o papel
tância enquanto estratégia de sobrevivên- preponderante que as relações afetivas
cia emocional neste espaço e, consequen- têm na constituição da identidade das
temente, contribuem para a constituição mulheres, tanto no contexto intra muros,
da identidade destas mulheres. Assim, as como no extra muros. Os dados demons-
vinculações amistosas e amorosas entre tram que a vinculação amorosa dessas
as mulheres encarceradas, o “casamento” mulheres com traficantes contribui para a
que reproduz papéis hegemônicos de ma- inserção delas no tráfico de drogas, e esta
rido e mulher no cárcere, a homossexuali- participação, em relação à inserção mas-
dade e o fenômeno do “travestismo”, por culina em tal atividade, acontece de modo
exemplo, contribuem para o enfrentamen- muito particular. Após o encarceramento,
to do sofrimento advindo do abandono estereótipos afetivos passam a ser super-
familiar na condição de encarceramento. valorizados, como a idealização da figura
Não excluindo o protagonismo e a iniciati- materna e da maternidade em si. As re-
va pessoal das mulheres como motivado- lações amorosas entre as mulheres, que
res para um percurso criminoso feminino se estabelecem na prisão, são marcadas
(Barcinski, 2009a), o objetivo deste traba- pelos referenciais heterossexuais tradicio-
lho é investigar o lugar das relações afe- nalmente conhecidos, ou seja, há entre
tivas e as peculiaridades desse processo elas a exigência de uma figura masculina
num contexto intra e extra muros prisio- de atividade e uma feminina de passivida-
nal, bem como sua influência no percurso de. No caso das “sapatões” (mulheres que
de construção da identidade de mulheres se travestem de homens e adotam nomes
encarceradas. Em outras palavras, o foco masculinos), embora haja uma recusa ao
está na análise do papel dessas relações relacionamento afetivo com homens, es-
afetivas para a constituição da identida- sas mulheres acabam por se aproximar
de nesses dois contextos: a inserção e deles no modo como se comportam e

77
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

exercem um poder diferenciado sobre turavam as potencialidades políticas dos


as outras mulheres, poder este que está corpos, a fim de explorá-los como riqueza
atrelado à figura masculina. Diante do ex- econômica. Os saberes se articularam ao
posto, percebemos que a inserção de mu- Estado, produzindo modos de conceber a
lheres em atividades criminosas evidencia realidade, revestidos de veracidade. Essa
uma ruptura com os discursos hegemôni- articulação produziu efeitos significativos
cos sobre o tipo de comportamento pró- no modo de compreender os sujeitos,
prio do feminino, em especial no que se inserindo-os numa norma considerada
refere à capacidade de cometer crimes ti- ideal para experimentar a vida (Foucault,
dos como de dominância masculina, como 2009). O exercício da disciplina apropria-
a inserção no tráfico de drogas e o prota- va das forças sociais suas habilidades. O
gonismo dessas mulheres diante de seus objetivo principal era docilizar os corpos
atos – apesar de haver uma negociação aos dispositivos. O poder sobre a vida,
deste lugar com o da vitimização. Sendo através dos saberes, tinha como alvo criar
a prisão e a favela espaços marcados pela mecanismos reguladores que afetassem
violência, as mulheres encontram meios a população e os indivíduos, de maneira
para existir e até mesmo sobreviver nes- que se autorregulassem (Foucault, 2009).
ses contextos, na tentativa de conciliar As instituições, como família e prisão, as-
as marcas constitutivas que determinada sumiram funções pedagógicas. Na primei-
cultura convenciona como ser mulher e o ra, cabia ao homem disciplinar sua casa e,
envolvimento em atividades criminosas ti- na segunda, cabia ao Estado assumir esta
picamente masculinas. função, já que a família não conseguia
exercer com êxito seu processo de cons-
Palavras-chave: gênero, discurso, tituir-se como nuclear. Isso porque nem
criminalidade, relações afetivas, identidade todas as famílias conseguiram se organi-
Contato: Carolina Ferreira Barbosa, zar segundo os padrões de heterossexua-
cfbarbosa@id.uff.br / caroldoicm@gmail.com lidade e papéis bem delimitados dos seus
membros. As determinações de gênero
são produções de verdades construídas
LT07-1231 - CRIMINALIDADES E historicamente para a regulação dos cor-
MULHERES: OS DESAFIOS DO EXISTIR NA pos. Sobre isso Saffioti (2010) diz que “o
CONTEMPORANEIDADE Estado tem ratificado um ordenamento
Carolina Ferreira Barbosa - UFF/PURO social de gênero através de um conjunto
cfbarbosa@id.uff.br de leis que se pretendem objetivas e neu-
Milena Rezende de Moraes - UFF/PURO tras, porque parte da errônea premissa de
milena.psi@hotmail.com que a desigualdade de fato entre homens
e mulheres não existe na sociedade” (p.
A atualidade possui configurações sociais 445). Narvaz e Nardi (2007), a partir de
dos tempos anteriores, o que possibilita Foucault, dizem que não cabe “libertar”
dizer que hoje há fusão de valores mo- o indivíduo do Estado, mas dos indivíduos
dernos e contemporâneos convivendo na estarem liberados quanto às práticas indi-
sociedade. A Modernidade se caracteri- vidualizantes que as instituições estatais
zou pela criação de dispositivos que cap- promovem. Em seus estudos, Foucault

78
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

não atribuiu devida importância às lutas foram convidadas a contar suas histórias
das mulheres contra aos valores andro- de vida. O interesse maior foi em relação
cêntricos que historicamente pautavam às formas pelas quais elas (re) criavam
as relações humanas. Acreditamos que é suas histórias, considerando os lugares
estratégia estatal a segregação dos gru- que ocupavam nos seus grupos sociais
pos sociais, para despolitizá-los. Um olhar (intramuros e extramuros) e o lugar que
atencioso para as questões de gênero se esse grupo ocupava na sociedade global.
faz urgente para intervir nas práticas e As participantes foram avisadas do cará-
discursos que colocam as mulheres como ter voluntário de sua participação e pude-
“minorias sociais” ou minorias políticas. ram interromper a gravação ou mesmo a
Em relação à prisão, o que se tem visto é a entrevista em qualquer momento. Os da-
reclusão de certos grupos sociais despro- dos foram analisados a partir da Análise
vidos de riqueza econômica e que se per- Institucional do Discurso (Guirado, 2010).
cebem com pouca visibilidade e poder so- Considerando as participantes como “su-
cial (Ciarallo, 2009). O lugar ocupado pela jeitos institucionais” (Galvão e Serrano,
mulher criminosa é traçado nesse contex- 2007), buscamos compreender os lugares
to de estigmas socialmente construídos, que as mulheres ocupavam a partir de
associados à classe e, principalmente, ao regras socialmente construídas e o papel
gênero. As representações sociais acerca que as práticas institucionais possuíam na
do feminino constituem certos modos de construção da subjetividade. O sujeito é
se envolver afetivamente com o outro e objetivado por práticas institucionais, pois
com o trabalho. Essas representações são é regulado e normatizado a partir dos mo-
fortemente impulsionadas pelas práti- dos de funcionamento das instituições. O
cas prisionais, que acabam constituindo processo de subjetivação se refere à for-
formas de se existir pautadas no que se ma pela qual o sujeito apropria tais expe-
espera de uma mulher na sociedade em riências (Foucault, 2009). As entrevistas
geral. Este trabalho objetiva conhecer mostram que os lugares ocupados pelas
os lugares ocupados pelo feminino na mulheres criminosas são construídos a
prisão e fora da prisão no que se refere partir do conflito de conciliar os relacio-
aos contextos de trabalho e família, dian- namentos amorosos, familiares e o traba-
te da fusão de valores que caracterizam lho. Fora dos muros prisionais, os lugares
a contemporaneidade. Entendemos que ocupados não se restringem ao espaço
as relações nesses contextos são perme- privado do lar, mas são lugares marcados
adas por relações de poder e de tensão. A por estigmas sociais de gênero. Na prisão,
busca das mulheres por visibilidade e po- elas ocupam o lugar máximo de privação,
der é constante, sendo o protagonismo, a abandono, exclusão e humilhação social.
intencionalidade das ações das mulheres Sobre as perspectivas para a vida pós-
e a centralidade de gênero, norteadores -encarceramento, algumas mulheres não
de suas relações sociais (Barcinski, 2009). vêem possibilidade de construir seu lu-
No presente estudo foram entrevista- gar no mundo fora da ilegalidade. Outras
das cinco mulheres encarceradas em um cogitam a possibilidade de “sair da vida
presídio do Rio de Janeiro. As entrevistas do crime”, mesmo que isto signifique o
foram qualitativas, em que as mulheres exercício de menos poder social. Dentro

79
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

da prisão, alguns fenômenos conferem cluindo, os adotivos – e por laços de con-


mais poder como a homossexualidade, o sangüinidade entre irmãos. (DURHAM,
trabalho devido ao bom comportamento 1983; LÉVI-STRAUSS, 1986 apud ROMA-
e o tipo de crime cometido. Fora da pri- NELLI, 2003, p. 249). Nos dias atuais, é
são, “ser mulher de traficante”, estar en- inegável que as constituições familiares
volvida no tráfico de drogas e exercer a estão em crise. Um desequilíbrio que não
maternidade são posições de prestígio no pode ser considerado patológico, mas sim
grupo social das encarceradas. O papel da um rearranjo frente às novas proposições
instituição prisional é de promover ativi- e atuais condições históricas e sócio-eco-
dades em que a mulher esteja adequada nômicas (ROMANELLI, 2000). A conhecida
aos papéis domésticos. Dentre as ativi- família nuclear, composta por pai, mãe e
dades e medidas tomadas, encontramos filhos, deixa de ser o modelo comum e vi-
atividades de artesanato, dinâmicas feitas gente no arcabouço social para dar lugar
por religiosos que incentivam a afetivida- a instituições familiares de diversas cons-
de e impedimentos para visitas íntimas tituições e dinâmicas de funcionamento
com os parceiros, por exemplo. Por fim, (NEVES, 2006), como famílias constituídas
as mulheres entrevistadas, marginaliza- por marido, esposa e filhos; aquelas cons-
das economicamente, constroem seus lu- tituídas por uniões estáveis, onde o enlace
gares ora se colocando como vítimas, ora matrimonial jurídico não existe; famílias
como protagonistas das relações sociais, matrifocais chefiadas por mulheres, com-
buscando sempre maior exercício do po- postas por mães e filhos; famílias amplia-
der. Esse poder pode ser exercido de for- das agregando parentes do lado materno
ma explícita, pela violência ou de maneira e/ou paterno; famílias recompostas, as
implícita, camuflada, constrangida. quais um parceiro ou ambos já possui ou
possuem filhos de união anterior e tam-
Palavras-chave: criminalidade, mulheres, bém famílias compostas por casais homo-
lugares sociais afetivas. No âmbito das relações homoa-
Contato: Carolina Ferreira Barbosa, UFF, fetivas, de acordo com o senso comum, os
cfbarbosa@id.uff.br / caroldoicm@gmail.com casais formados por homens possuiriam
um grande número de parceiros e seriam
infiéis ou inconstantes, não raro com his-
LT07-1414 - VIOLÊNCIA E tórico de violência entre os parceiros. Já
DESENVOLVIMENTO SUBJETIVO EM nos casais do sexo feminino, por vários
RELAÇÃO HOMOAFETIVA FEMININA fatores, entre eles os fisiológicos, as mu-
Carlos Felipe de Freitas Rossi - UNICESP lheres supostamente baseariam suas re-
lações no afeto, respeito, cumplicidade
O conceito de família tem sido utilizado e instinto materno, sendo isentadas da
para dar referência à unidade de repro- violência relacional. Entretanto, em qual-
dução biológica e social, criada por laços quer relacionamento, hetero ou homoa-
consangüíneos ou de aliança, instituído fetivo, masculino ou feminino, existem ca-
pelo casamento e/ou pelas uniões con- sos de violência real, física e/ou simbólica
sensuais, por vínculo de descendência que constituem fatores que determinam
entre pais e filhos – biológicos ou não, in- o curso do desenvolvimento da subjetivi-

80
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

dade destes atores (ARIÉS, 1981). O obje- caberia àquela sustentá-la na união. Era
to deste trabalho é apresentar um estudo tratada como inferior e incapaz de prover
de caso sobre violência entre um casal suas próprias necessidades. Você é burra,
homoafetivo do sexo feminino. O fato das pobre, incompetente e incapaz de apren-
uniões estáveis entre pessoas do mesmo der qualquer coisa [...] ela tem 3 carros,
sexo ainda não serem plenamente reco- eu tinha que andar de ônibus porque ela
nhecidas, ainda que já legalizadas, pode não me deixava pegar nenhum. Era eu
fazer com que casais vivam à margem que dirigia sempre, mas só podia dirigir se
da sociedade e com que o preconceito e fosse pra sair com ela do lado (sic). A des-
a falta de informações de parcela da so- peito do cenário de violência, V não ten-
ciedade incitem estes membros a perma- tou estudar ou trabalhar por acreditar-se
necerem escondidos como casais, muitas incapaz para qualquer atividade exceto as
vezes, obturando violências. O caso em obrigações de casa. Os atos de violência a
foco é o de Vitória (V), residente de uma que era exposta apareceram como inibi-
capital brasileira, sexo feminino, 38 anos dores da construção de seu autoconceito
de idade, divorciada, desempregada, sem e tornar-se sujeito em desenvolvimento
filhos. Caçula de três irmãs, aos 18 anos constituía um desafio quase impossível
perdeu o pai e até seus 23 anos não pode e desnecessário, desvelando o quanto
casar-se, pois cuidava da mãe. Seis meses M subtraia qualidades e capacidades de
depois do falecimento da genitora, após V, mantendo uma relação de domina-
7 anos de namoro, casou-se com José (J), ção, de provedora e detentora da razão.
negro, 5 anos mais velho que ela, com O relacionamento ruiu. Com o término
quem viveu junto por 9 anos. Segundo da relação, V procurou ajuda psicológica.
seu relato, nunca precisou (não lhe foi Encontrava-se em estado de sofrimento
permitido) trabalhar, pois J era muito ciu- profundo, queixando-se de depressão,
mento e não me deixava sair de casa para falta de vontade de viver e sensação de
trabalhar ou estudar (sic). Ainda casada, culpa, além da preocupação do que os ou-
conheceu Maria (M), 63 anos, funcionária tros vão pensar de mim por ter terminado
pública aposentada, de alto poder aquisi- com ela (sic). Por ser constituída através
tivo, integrante de um círculo de amigas das relações sociais, a subjetividade é en-
homossexuais, todas com elevado poder tendida como uma realidade do ser hu-
sócio-econômico. M incitou V a separar- mano; como um sistema de significações
-se de J e, apesar da diferença de idade, e sentidos constituídos nas relações que
mantiveram um relacionamento estável o indivíduo estabelece em seus mais va-
durante 6 anos, morando na casa de M. riados estágios de desenvolvimento (REY,
V relatou que, durante o relacionamen- 1999). Qualquer forma de violência pode
to, M a tratava com desdém, utilizado modificar, interferir, inibir, prejudicar ou
expressões ofensivas e menosprezando até evitar o processo de desenvolvimen-
todo esforço de desenvolvimento pesso- to da subjetividade, que está inserida
al e/ou profissional: você é um resto de em um contexto histórico sócio-cultural
preto, não sabe fazer nada direito (sic). único; o sujeito se torna um ente datado,
À semelhança de J, M afirmava que V histórico. V busca a psicoterapia e inicia a
não precisava trabalhar ou estudar, pois ressignificação de ser e estar no mundo.

81
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

No processo, começa a compreender que LT01-853 - A CRIMINALIDADE


a construção subjetiva é um dado social COMO RECURSO PARA A SAÍDA DA
e que cada parceiro tem seu objetivo na INVISIBILIDADE FEMININA
trama relacional. A descoberta de seu Mariana Barcinski - PUC/RS
valor e papel social tem possibilitado o mariana.barcinski@pucrs.br
enfrentamento da posição autocrática e
final do outro. Paulatinamente, vem su- O ingresso de jovens de camadas mais
perando dificuldades, estigmas e infanti- pobres brasileiras na rede do tráfico de
lização a ela imputados. V terminou seu drogas como estratégia de fuga da invisi-
curso técnico, planeja cursar um curso su- bilidade social e da falta do sentimento de
perior e aguarda ser contratada por uma pertença que marcam suas vidas tem sido
empresa onde já estagia. A violência pode discutido na literatura (Cruz Neto, Moreira,
engendrar formas limitadoras do desen- & Sucena, 2001; Pereira, 2009). Excluídos
volvimento subjetivo e da constituição do de um sistema social que não reconhece
sujeito como pessoa. Quando velada, não sua existência no cotidiano ou em suas
deixa marcas visíveis no corpo da vítima, necessidades básicas de proteção, educa-
mas apresenta severas seqüelas no apa- ção e trabalho, esses jovens optariam por
relho psíquico, podendo agravar-se, des- atividades criminosas para se tornarem
cambar-se para somatização de sintomas visíveis. Causar medo nas pessoas, através
ou para o processo de violência física com da associação com facções criminosas e da
efeito em cascata. Por estarem “fora dos ostentação de armas ou tornar-se parte
padrões sociais”, muitos casos de violên- das estatísticas acerca da violência urbana
cia em casais homoafetivos não são no- são formas de adquirir visibilidade, mesmo
tificados, pela dificuldade de apresentar que carregada de conotações e sentimen-
provas da violência simbólica. Nas agres- tos negativos que, em última instância,
sões físicas, a vítima passa pelo constran- servem para aprofundar a realidade de
gimento exigido pela burocracia legal de exclusão social experimentada por esses
abertura de inquérito e buscas de provas jovens. Quando tratamos da participação
para as investigações. Mais um golpe de feminina no tráfico de drogas, a questão
violência é desferido contra a vítima, que da invisibilidade como motivadora de com-
poderá sentir-se envergonhada, exposta, portamentos criminosos ganha contornos
humilhada, quando almejava proteger-se peculiares. Como o tráfico é, indiscutivel-
através dos métodos legais. Submeter-se, mente, reconhecido como uma atividade
paradoxalmente, configura ato de prote- masculina, participar dele dá às mulheres
ção. Este estudo mostra que a violência e traficantes a possibilidade de se distinguir
a opressão, embora sirvam de elemento de outras mulheres. Elas se tornam visíveis
limitador do desenvolvimento, dialeti- (diferentes de outras) ao desempenharem
camente podem forjar sua superação e tarefas reconhecidas como masculinas. A
engendrar papel catalizador no desenvol- saída da invisibilidade, no caso das mulhe-
vimento, como no caso de V., realçando res envolvidas no tráfico, portanto, se dá
capacidades e potencialidades. primordialmente pela diferenciação, pela
afirmação de um poder antes exclusivo
dos homens e pelo reconhecimento exter-

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

no deste poder. O objetivo deste trabalho, violentos (Walker, 2003). Sob esta mesma
portanto, é compreender como mulheres perspectiva, Goetting (1988) sugere que a
traficantes definem a sua participação na falta de atenção em relação aos crimes fe-
rede do tráfico de drogas e de que forma mininos se deve, em grande parte, ao fato
a descrição desta participação – desde a de as expectativas sociais sobre os papéis
motivação para a entrada até os papéis de- desempenhados pelas mulheres legitima-
sempenhados na atividade – está permea- rem a posição das mesmas como vítimas,
da pela tentativa de saída da invisibilidade mas nunca como perpetradoras de vio-
que marca determinado grupo socialmen- lência. Além das características associadas
te marginalizado, especialmente as mu- ao feminino servirem teoricamente como
lheres que o compõem. O engajamento elementos protetivos à prática criminosa,
de mulheres em atividades criminosas, a socialização feminina, com sua ênfase no
notadamente no tráfico de drogas, é des- espaço privado como domínio privilegiado
crito de maneira geral na literatura como de atuação das mulheres, seria a origem
subordinado à participação dos homens da participação subalterna das mulheres
nessas mesmas atividades. Sem ignorar o em atividades ilícitas e da característica
fato de que parecem, de fato, ser os ho- não violenta dos crimes femininos. A invi-
mens os maiores motivadores para a en- sibilidade das mulheres nas teorias acerca
trada das mulheres na rede do tráfico de da criminalidade seria, então, justificada
drogas (Zaluar, 1993), a ênfase quase que pelo caráter atípico dos crimes por elas
exclusiva na criminalidade feminina como cometidos. Através da análise discursiva
decorrente de suas relações afetivas retira sistêmica (Falmagne, 2004) de entrevistas
o protagonismo e reforça a invisibilidade com duas mulheres com uma história pas-
feminina na prática de crimes violentos e sada de envolvimento no tráfico de drogas,
atividades ilícitas. Ao ignorar as especifici- o presente trabalho discute a forma como
dades dos crimes cometidos por mulheres, o envolvimento das participantes na ativi-
a própria literatura atesta ou reforça a in- dade representou uma estratégia de saída
visibilidade feminina no que se refere aos da invisibilidade que marca a existência
fenômenos sociais da violência e da trans- de mulheres nas favelas. Através do de-
gressão. A partir de uma perspectiva de sempenho de tarefas reconhecidamente
gênero podemos compreender que, para masculinas, como carregar armas, entrar
além da reduzida relevância social atribu- em confrontos armados com a polícia e
ída à criminalidade feminina, a ausência com facções criminosas rivais e gerenciar
de estudos sobre mulheres envolvidas em pontos de venda de drogas em suas co-
atividades criminosas se deve também ao munidades, tais mulheres marcaram uma
fato de a violência, da agressividade e da distância significativa em relação a outras
transgressão não estarem previstas nos mulheres ao seu redor. Tal diferenciação,
discursos acerca do feminino. As explica- e especialmente o reconhecimento social
ções tradicionais para a diferença entre do caráter atípico de suas atividades como
as taxas de criminalidade feminina e mas- traficantes, representou na história de vida
culina baseiam-se na imagem da mulher dessas duas mulheres a saída (mesmo que
como naturalmente dócil, passiva e menos temporária) da invisibilidade feminina na
suscetível à prática de comportamentos favela. Os dados analisados no presente

83
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

trabalho refletirão as especificidades da para a análise dos estudos sobre trabalho,


participação feminina no tráfico de drogas poder e gênero, sob a ótica da psicologia
e a forma como as mulheres traficantes do desenvolvimento? Primeiro ele revela
constroem esta participação primordial- e desvela as especificidades da atividade
mente em oposição a outras mulheres laboral e seus aspectos psicossociais: gru-
ao seu redor. As referências ao poder e pos, organizações e comunidades em situ-
ao status adquiridos como traficantes ga- ações do dia-a-dia, sem separar indivíduo
nham significado especial quando tratadas e coletividade, afeto e razão, processos
sob uma perspectiva de gênero, se enten- inconscientes e processos sociais. O seu
dermos a violência e a transgressão como enredo explicita duas questões centrais
prerrogativas masculinas. O discurso das para este trabalho: o tácito e o explícito
participantes, portanto, reflete o investi- nas relações de poder dentro de uma or-
mento das mesmas em constituírem as ganização, que Fávero (2010) discute como
suas identidades através da marcação de políticas organizacionais e que dizem res-
elementos que distinguem as suas traje- peito ao processo cotidiano por meio do
tórias (e o reconhecimento externo desta qual as abstrações sobre poder e organiza-
distinção) da história de outras mulheres, ção são vividas e ainda os processos mas-
em geral. carados destas políticas, nas quais estão
implicadas os processos gendrados e são
Palavras-chave: gênero, criminalidade, intimamente relacionadas à masculinida-
invisibilidade social. de competitiva que age nos meios de tra-
balho. Tais questões inspiraram o presente
trabalho que analisa artigos publicados em
LT01-980 – RELAÇÕES DE PODER E periódicos nacionais sobre as relações de
GÊNERO NO MUNDO DO TRABALHO: poder e gênero no mundo do trabalho.
APORTES TEÓRICO-CONCEITUAIS2 Consultamos as bases de dados do Scien-
Vânia Maria Lopes Venâncio - UnB tific Electronic Library Online (Scielo) e do
vmvenancio@gmail.com Periódicos Eletrônicos em Psicologia (PeP-
Maria Helena Fávero - UnB sic). Elegemos os seguintes critérios: (a) a
faveromh@unb.br articulação entre os descritores trabalho,
poder e gênero em todos os índices e em
O filme O Diabo veste Prada (2006), da pares; b) sem demarcação de período e de
obra de Lauren Weisberger (2003), explo- tempo e (c) autoria de pesquisador brasi-
ra o mundo do trabalho de uma revista de leiro. Encontramos 39 artigos, publicados
moda liderado por uma mulher autoritá- em 24 revistas, de 1998 a 2010, sendo 31
ria, ambiciosa e de uma ética singular no do Scielo e 8 do Pepsic. A pesquisa com-
trato das pessoas e dos negócios. Quais preendeu três démarches: identificação
aspectos deste filme podem contribuir pela internet, leitura e análise dos artigos.
Nesta última sistematizamos a análise em
2
Este estudo foi desenvolvido no âmbito da disciplina Psi-
tabelas, como proposto por Fávero e Souza
cologia do Desenvolvimento Adulto, do Programa de Pós- (2001), nas quais a primeira coluna forne-
-Graduação em Processo de Desenvolvimento Humano ce um contador relativo às referências; a
e Saúde, da Universidade de Brasília, sob a docência da
Profa. Dra. Maria Helena Fávero. segunda apresenta a referência completa

84
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

do estudo; a terceira, o país de origem do e desigualdade entre mulheres e homens,


estudo; a quarta identifica o referencial agravados quando entram os fatores de
teórico; a quinta identifica os objetivos classe social, etnia e raça; a práxis nas or-
do estudo; a sexta, o método e a sétima, ganizações e nas relações privadas e públi-
os principais resultados. Identificamos di- cas apresentam aspectos que corroboram
ferentes abordagens em diferentes áreas a tese da situação desigual da mulher nas
do conhecimento: da Psicologia, da Socio- esferas sociais, econômicas, políticas e fi-
logia, da Educação, da Administração e da losóficas; algumas categorias profissionais
Saúde. Entendemos que tal fato ressalta a foram ressaltadas com base nessa ques-
necessidade de uma visão multidisciplinar tão, como os profissionais da área de en-
na análise da complexa teia de significados fermagem; grupos sociais informais foram
que a articulação dos temas trabalho, po- sujeitos de vários estudos de casos como
der e gênero suscita, assim como revela a mulheres indígenas, mulheres em situação
necessidade de se intensificar a produção prisional e travestis. Temas particulares
científica sobre esta articulação, amplian- também foram evidenciados: as políticas
do o escopo de grupos sociais, incluindo públicas aparecem no questionamento do
diferentes categorias profissionais, consi- Programa Bolsa Escola, no aparato legal à
derando a Psicologia do Desenvolvimen- questão da violência doméstica, na revisão
to do Adulto, que, como ressalta Fávero dos programas de saúde coletiva e na ade-
(2007), “permaneceu muito tempo como quação da legislação trabalhista. Em suma,
um espaço vazio entre o desenvolvimento os resultados dessa pesquisa bibliográfica
do adolescente e o do idoso” (p.194). Nos- apresentam importantes questões para
sa análise bibliográfica evidenciou que: reflexão: 1. A necessidade de incremento
a produção científica nacional apresenta teórico-metodológico que fundamente os
publicações a partir de 1998 e se intensi- estudos para que se considerem efetiva-
fica a partir de 2007; em sua maioria, os mente os temas trabalho, gênero e poder,
artigos discutem a tríade trabalho-poder- tomados articuladamente; 2. Tal incre-
-gênero, articulando os três descritores, mento deve considerar o aporte da psico-
mas prevalecendo a relevância em um dos logia do desenvolvimento e em particular
temas, com o predomínio do tema traba- da psicologia da vida adulta, considerando
lho, seguido de gênero e em menor monta os temas em questão do ponto de vista do
a questão do poder; a complexidade do ciclo de vida; 3. Que se assuma o desafio
mundo do trabalho se revela e se desvela da Psicologia crítica e reflexiva na conside-
em relações de poder gendradas que con- ração do referido aporte, isto é, se consi-
tribuem para condições desiguais entre dere os chamados vieses culturais e políti-
trabalhadores e trabalhadoras, como nos cos não como um problema metodológico,
revela a análise de Anzorena (2008); traba- mas sim, por meio dos quais se considere
lho, poder e gênero também estão configu- as dinâmicas do gênero (Jill Morawiski,
rados de acordo com algumas abordagens 1997, 2005). Esta é a nossa pretensão em
de referência; nas abordagens que tratam futuros estudos.
da liderança e gestão, em sentido lato, as
condições materiais da produção apare- Palavras-chave: trabalho; poder; relações de
cem como justificadoras da discriminação gênero.

85
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

LT01-1190 - "OS MENINOS ESTÃO universitários, como nas concepções de


PRONTOS PARA A MATEMÁTICA"; professores e pais de alunos. Os dados
"OS MENINOS SÃO INTELIGENTES POR destes estudos foram confirmados em ou-
CAUSA DA GENÉTICA? O EMBATE ENTRE tro estudo desenvolvido em duas fases: 1/
AS ADOLESCENTES, OS ADOLESCENTES E entrevista com professores de matemáti-
OS PROFESSORES DE MATEMÁTICA.” ca que atuam do 6º ao 9º ano do Ensino
Francisca Zuita Alves Paiva - FAJESU/DF Fundamental, todos de uma mesma es-
zu.alves@gmail.com cola da Rede Particular de Ensino de uma
Maria Helena Fávero - UnB cidade satélite do DF. As entrevistas foram
faveromh@unb.br. semiestruturadas em 4 eixos – o desem-
penho de alunas e alunos em matemática;
Embora tenha havido nas últimas décadas as possíveis explicações para as possíveis
um aumento significativa no número de diferenças de desempenho; gênero e área
mulheres na Educação Básica e no Ensino do conhecimento. 2/ participaram 8 alu-
Superior, as pesquisa apontam que as mu- nos do sexo masculino, entre 14 e 15 anos
lheres superaram os homens em escolari- de idade, do 9º ano do Ensino Fundamen-
dade, estão em maior número nas áreas tal, todos de uma mesma escola da Rede
de humanas e biológicas e os homens es- Particular de Ensino de uma cidade satéli-
tão em maior número nas áreas de exa- te do DF, a quem propusemos a discussão:
tas. Evidencia-se ainda que esta tendência “na opinião de vocês quem se sai melhor
se mantém nos cursos de pós-graduação em matemática, os meninos ou as meni-
(Godinho, 2005; Ristoff, 2006; Chamom, nas?” A análise da discussão evidenciou
2005). Por isto mesmo, Fávero (2010 a) dados contraditórios com os das professo-
enfatiza uma das linhas de pesquisa sobre ras e professores. Segundo os estudantes:
a relação entre gênero e socialização, fo- as meninas são mais inteligentes na mate-
cando a diferença que persiste nos dados mática; elas são mais maduras; elas estu-
dos estudos nacionais e internacionais dam mais; aprendem com mais facilidade;
sobre a entrada de mulheres na área de a maioria dos meninos só quer “vadiar”;
ciências e de tecnologias em comparação os meninos têm ter alguém “empurran-
à entrada e permanência dos homens. Um do”, senão “a gente não aprende não”.
dos aspectos ressaltados por esta autora Para comprovar sua posição o grupo for-
diz respeito ao ensino de matemática e neceu dados: na sua classe de 35 alunos,
a natureza da mediação do conhecimen- 15 do sexo feminino e 20 do sexo masculi-
to na instituição escolar. Fávero (2010 b) no, 8 alunas se destacam em matemática
defende a tese segundo a qual, a institui- contra 2 alunos. O estudo apontou indícios
ção educacional mantém a ideologia do sobre o chamado “currículo oculto das es-
patriarcado na sua forma contemporânea, colas”, em referência aos valores sociais
por meio da mediação significados so- gendrados que permeiam as informações,
bre papéis de gênero em articulação aos os procedimentos e as próprias atividades
significados sobre as diferentes áreas do escolares e que se constituem em peças
conhecimento. Assim, Fávero & Salgado fundamentais da socialização. Ficou evi-
(2006; 2007) evidenciaram tal articula- denciado que os professores e professoras
ção tanto nas concepções de estudantes têm expectativas diferentes para meninos

86
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

e meninas e isso ainda permanece como as alunas discordaram dos professores;


um dado particularmente presente no acordaram que os alunos do sexo mascu-
caso do ensino da matemática (Paiva e Fá- lino não são melhores em matemática; ar-
vero, 2010). E as meninas o que será que gumentaram que a sociedade é machista e
pensam sobre estas expectativas? Para desqualificam a inteligência feminina. Ex:
responder a esta questão desenvolvemos “então eles querem dizer que os meninos
o presente estudo, que se focou nesta são inteligentes por causa da genética? A
questão por meio da discussão entre ado- inteligência dos meninos está no DNA?”.
lescentes do sexo feminino. Constituímos Os resultados da segunda discussão evi-
quatro grupos focais: dois de seis alunas denciaram que: as alunas acordaram que
de sexto ano cada (um de uma escola da os alunos não são bons em matemática
Rede de Ensino Público do DF e outro de porque eles só pensam em “curtir a vida
uma escola da Rede Particular de Ensino e deixam os estudos para depois; os me-
do DF); e dois grupos de seis alunas do 3º ninos só pensam em som”; alegaram que
ano do ensino médio cada (um de uma apesar disto, os homens ocupam melho-
escola da Rede de Ensino Público do DF e res posições no mercado de trabalho com
outro de uma escola da Rede Particular de melhores salários: “às vezes as mulheres
Ensino do DF). A todos os grupos foi pro- fazem o mesmo trabalho do homem, mas
posto para discussão duas frases obtidas recebem um salário menor”. Quanto as
de estudo anterior prescrito acima. A pri- suas escolhas profissionais evidenciou-se
meira foi obtida junto a professores e pro- a opção prioritária por áreas de humanas
fessoras de matemática da Rede Particu- tais como: Nutrição, Educação, Medicina,
lar de Ensino do DF: “As meninas vão bem Biologia, Arquitetura e outras. Podemos
em matemática porque se esforçam; os dizer que nossos dados apresentam uma
meninos estão prontos para o raciocínio questão particular que necessita de novos
matemático”. A segunda foi obtida junto estudos: apesar de partilharem a concep-
a estudantes do sexo feminino do 9º ano ção de que os alunos do sexo masculino
do Ensino Fundamental de uma escola da não são melhores em matemática, as ado-
Rede Particular de Ensino do DF: “As me- lescentes declaram opções profissionais
ninas são mais inteligentes em matemáti- por áreas tidas como próprias aos papéis
ca; elas são mais maduras; elas estudam femininos. Assim concluímos sobre a ne-
mais; os meninos só querem vadiar”. Cada cessidade, como outras autoras já salien-
frase foi apresentada separadamente, se- taram (Abramo, 2004; Anzorena, 2008;
guida do convite a sua discussão. Após o Arnot, 2006; Fávero, 2010 a; 2010 b). de
término da discussão da primeira frase foi se desenvolver pesquisas que fundamen-
apresentado a segunda e feito um novo tem ações para promover a mudança nas
convite a discussão. Ao término da discus- concepções sobre a relação entre gênero
são foi proposto as alunas que relatassem e capacidade intelectual e a relação entre
suas escolhas profissionais. As discussões gênero e escolha profissional.
nos grupos foram registradas em vídeo e
os atos da fala foram tomados como uni- Palavras-chave: gênero, ciência e matemática;
dades de análise. Quanto a primeira dis- concepções sobre a matemática; escolarização
cussão, os resultados evidenciaram que: e socialização gendradas.

87
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

DIA 13/11 - Domingo taram um projeto de intervenção a ser


implantado nos seus locais de atuação, a
partir das demandas percebidas no seu
10h30-12h cotidiano. A capacitação foi realizada com
base em aulas expositivas dialogadas, tra-
balhos em grupos e discussão de filmes.
MR LT06 - Mesa Redonda Além disso, contou com a realização de
um pré-teste, avaliação de cada módulo
Convidada (Direitos Humanos, Violência e Mediação
de Conflitos) e um pós-teste, ao final dos
três módulos da capacitação. Os trabalhos
MR LT06-973 - DESCRIÇÃO E AVALIAÇÃO que serão apresentados dizem respeito
DE UMA CAPACITAÇÃO PARA aos dados quantitativos do pré-teste e aos
PROFISSIONAIS DA REDE DE PROTEÇÃO dados qualitativos obtidos nos diários de
À INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA NO campo da equipe que participou da pri-
INTERIOR DO RS meira edição do Pronex. A mesa será com-
Normanda Araujo de Morais - UFRGS posta de três trabalhos. O primeiro deles
normandaaraujo@gmail.com buscará descrever a capacitação que foi
realizada (organização dos temas, crono-
O objetivo desta Mesa Redonda é descre- grama, caracterização dos participantes),
ver e avaliar o processo de implantação assim como apresentar os primeiros da-
de uma tecnologia social, proposta pelo dos qualitativos que resultaram da mes-
Programa de Apoio a Núcleos de Excelên- ma (impressões da equipe sobre o envol-
cia – PRONEX, realizado em um município vimento dos participantes, temas centrais,
do noroeste do RS. Trata-se de um pro- fragilidades identificadas na rede, etc). O
jeto de pesquisa multicêntrica, realizada segundo trabalho buscará descrever os
com a parceria de 10 Universidades, que índices de esgotamento profissional e de
tem como objetivo implementar e avaliar bem-estar no trabalho, apontados pelos
uma proposta de capacitação de profis- participantes no momento do pré-teste.
sionais das áreas da saúde, da educação Por fim, o terceiro trabalho buscará apre-
e da rede de proteção de crianças e ado- sentar, também com base em dados quan-
lescentes nas seguintes temáticas: direi- titativos do pré-teste, os principais valores
tos humanos, violência e mediação de que têm embasado a prática desses pro-
conflitos. O processo de capacitação teve fissionais, bem como a sua percepção so-
a duração de 30 horas e trabalhou os se- bre como se sentem desde que começa-
guintes temas: direitos das crianças e de ram a trabalhar com essa população. Os
adolescentes, mulheres e minorias étni- dados aqui avaliados dizem respeito aos
cas e sociais; maus-tratos contra crianças; 30 participantes que responderam ao pré-
consequências psicológicas da violência; -teste, sendo a maioria do sexo feminino
fatores de risco e de proteção; resiliência; (n=28; 93,3%) e com média de idade de 38
comportamento infrator; uso de drogas anos (DP=10,93). A apresentação do con-
na adolescência e mediação de conflitos. junto de trabalhos permite estabelecer os
Além disso, ao final, os participantes mon- pontos centrais dessa primeira edição do

88
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

PRONEX, quais sejam: a relevância de pro- ao longo dos módulos de trabalho. Este
postas de capacitações como essa, espe- trabalho busca descrever dados iniciais,
cialmente, para trabalhadores do interior referentes a uma proposta de intervenção
do estado, para quem o acesso a cursos e junto a uma amostra de 30 profissionais da
capacitações é mais limitado; a relevância rede de proteção às crianças e adolescen-
das estratégias de avaliação do impacto tes vítimas de violência da Região Noroes-
e do processo da tecnologia proposta; e, te do RS. Especificamente, busca-se com
por fim, o importante papel multiplicador esse trabalho: descrever a capacitação
que estratégias desse tipo podem ter, ao realizada nessa primeira etapa do PRONEX
criarem um espaço nos quais os profis- e apresentar dados qualitativos acerca do
sionais da rede local podem se encontrar, processo de avaliação da mesma. A inter-
discutir temas relevantes ao seu cotidiano venção foi planejada a partir de três mó-
e identificar estratégias que venham a for- dulos, os quais contemplam os temas dos
talecer a rede. direitos de crianças e adolescentes, mulhe-
res e minorias étnicas e sociais (6 horas);
maus-tratos contra crianças, consequên-
DESCREVENDO A CAPACITAÇÃO PARA cias da violência, fatores de risco e de pro-
PROFISSIONAIS DA REDE DE PROTEÇÃO teção, resiliência, comportamento infrator
À INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA NO e uso de drogas na adolescência (16 ho-
INTERIOR DO RS ras); bem como mediação de conflitos (4
Jeane Lessinger Borges - SETREM horas). Além disso, um turno de trabalho
jeanepsico@yahoo.com.br (4 horas) foi dedicado à montagem de um
Normanda Araujo de Morais - UFRGS projeto de intervenção pelos participan-
normandaaraujo@gmail.com tes, a partir das demandas percebidas no
seu cotidiano. A intervenção totalizou 30
Trata-se de um recorte de um projeto de horas, e buscou-se avaliar a efetividade
pesquisa multicêntrica, sobre a efetividade desta através de um levantamento pré e
de uma tecnologia social junto a 1.200 pro- pós-teste. Além disso, foram adotados di-
fissionais da rede de proteção no estado ários de campo para o registro de dados
do Rio Grande do Sul (RS), realizado atra- qualitativos, os quais foram elaborados
vés do Programa de Apoio a Núcleos de Ex- pela equipe de psicólogas palestrantes e
celência (PRONEX). O objetivo da pesquisa bolsistas de iniciação científica. Os partici-
mais ampla é o de capacitar profissionais pantes são, predominantemente, do sexo
das áreas da saúde, da educação e da rede feminino (93,3%), sendo que 40% têm en-
de proteção de crianças e adolescentes sino superior completo e 46,7% têm pós-
para a identificação de indicadores de vio- -graduação. A idade média da amostra era
lência, futuros encaminhamentos e acesso de 38 anos (DP=10,93). Os participantes
à rede de atendimento, bem como avaliar desta amostra incluem profissionais da
o impacto e o processo da capacitação. Psicologia (30%), do Serviço Social (23,3%),
Visa-se que, ao final da intervenção, os da Enfermagem (26,7%) e da Educação
participantes possam instrumentalizar-se (15,3%), representantes de cinco muni-
e serem multiplicadores dos conhecimen- cípios da referida região. A renda mensal
tos adquiridos e da vivência desenvolvida variava de R$ 600,00 a 5.000,00 (M = R$

89
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

2.004,90 reais). O principal vínculo de tra- e o fortalecimento do trabalho em rede.


balho foi celetista e concursado (ambos Verificou-se que tais projetos abordaram
com 26,7%; n = 8), seguido de estatutário tanto intervenções primárias quanto ter-
(13,3%; n = 7). O tempo médio de trabalho ciárias junto às crianças e suas famílias, a
na ocupação atual variava entre 1 mês e 30 partir de um viés interdisciplinar. Nesse
anos (M = 7,3 anos) e o tempo médio de sentido, de um modo geral, os resultados
atuação profissional com o fenômeno da encontrados nesta etapa inicial do PRO-
violência contra criança era de 4 anos (DP= NEX contemplam os objetivos da proposta
4,0). Em relação aos dados qualitativos, os mais ampla desta pesquisa. O recorte pro-
resultados preliminares desta intervenção posto neste trabalho problematiza o traba-
apontam: (a) a satisfação dos participan- lho que vem sendo desenvolvido na rede
tes com os temas abordados, sobretudo, de proteção à criança vítima de violência,
com temáticas como resiliência e Psicolo- apontando suas lacunas e possibilidades,
gia Positiva, vistos pela primeira vez pela num grupo de profissionais do interior do
maioria deles; (b) a grande participação e RS. Os resultados encontrados podem ofe-
motivação dos presentes no processo de recer subsídios para políticas públicas no
capacitação; (c) a oportunidade criada na atendimento a crianças e suas famílias ex-
capacitação da rede local de proteção ser postas a situações de violência. Além dis-
avaliada e discutida, inclusive, apontando so, aponta-se a necessidade de uma maior
suas fragilidades. Dessa forma, ficou visível articulação entre os serviços da rede de
a falta de uma rede de proteção articulada, proteção, em prol de uma maior integrali-
ou seja, observou-se a existência de vários dade das ações e de um atendimento mais
serviços da rede de proteção na cidade, humanizado.
porém, com atuações individualizadas;
(d) predomínio de encaminhamentos da Palavras-chave: rede de proteção, criança e
rede para os serviços de assistência so- adolescente, capacitação.
cial especializados (por exemplo, CREASs),
como sendo o serviço de referência para
as situações de violência contra a criança; NÍVEIS DE BEM-ESTAR E SÍNDROME
(e) a alta rotatividade dos profissionais nos DE BURNOUT EM PROFISSIONAIS
serviços da rede, sendo que os participan- DA REDE DE PROTEÇÃO A CRIANÇA E
tes demonstraram perceber a perda do ADOLESCENTE DO INTERIOR DO RIO
vínculo do usuário com a equipe e com o GRANDE DO SUL
profissional como sendo uma dificuldade Juliana das Neves Nóbrega - UFRGS
no trabalho cotidiano em seus serviços de julli.nobrega@gmail.com
origem; e (f) a necessidade de formação Clarissa Pinto Pizarro de Freitas - UFRGS
permanente para os profissionais que atu- clappdf@gmail.com
am na rede de proteção. Os dados aponta- Normanda Araujo de Morais - UFRGS
ram, ainda, que a capacitação possibilitou normandaaraujo@gmail.com
um momento para a elaboração de proje- Bruno Figueiredo Damásio - UFRGS
tos de intervenção sobre diferentes temas, brunofd.psi@gmail.com
envolvendo infância e adolescência em Silvia Helena Koller - UFRGS
situação de vulnerabilidade psicossocial silvia.koller@gmail.com

90
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

Este trabalho é um recorte do projeto bem-estar e síndrome de burnout em pro-


“Avaliação de uma tecnologia social apli- fissionais da rede de proteção à criança e
cada para a capacitação de profissionais ao adolescente, de cinco municípios do
da área da educação, saúde e da rede de interior do Rio Grande do Sul. Participaram
proteção a crianças e adolescentes sobre 30 profissionais, dos quais 28 mulheres e
direitos humanos, violência e mediação de dois homens. A média de idade foi de 38
conflitos”, o qual foi direcionado aos pro- anos (DP= 10,9). A maioria era de religião
fissionais da rede de proteção à criança e católica (n=24; 80%), possuía nível superior
ao adolescente, do estado do Rio Grande (n=14; 46,7%) ou algum tipo de pós-gradu-
do Sul. Discutir-se-ão dados referentes à ação (n=12; 40%). A área predominante de
primeira etapa da capacitação, com profis- formação foi a Psicologia (n=9; 30%), segui-
sionais de cinco municípios da região no- da pelo Serviço Social (n=8; 26,7%) e pela
roeste do Rio Grande do Sul. A satisfação Enfermagem (n=5; 16,7%), e a renda men-
que as pessoas têm com o seu trabalho sal variou de R$ 600,00 a 5.000,00 (M = R$
pode ser explicada, em parte, pelos seus 2.004,90 reais). Quanto ao vínculo de tra-
níveis de bem-estar no trabalho, sendo balho, os principais foram celetistas e con-
tal indicador uma importante ferramenta cursados (ambos os grupos com 26,7%; n =
para avaliar o desempenho ocupacional 8), seguido de estatutários (13,3%; n = 7).
e o comprometimento organizacional. O O tempo médio de trabalho na ocupação
bem-estar é um construto amplo, o qual atual variou de 1 mês a 30 anos (M = 7,3
tem sido associado à felicidade, satisfação, anos). Os instrumentos utilizados foram a
afetos positivos e avaliação subjetiva de Escala de Bem-estar Afetivo no Trabalho
qualidade de vida. Quando vinculado ao e Maslach Burnout Inventory (MBI). A pri-
trabalho, o bem-estar torna-se útil à me- meira avalia os níveis de bem-estar no tra-
dida que expõe a não equivalência entre balho, por meio da subescala de afetos po-
a satisfação e insatisfação, demonstrando sitivos e da subescala de afetos negativos; o
que uma não está diretamente vinculada à MBI investiga os níveis de burnout através
outra. Associado à insatisfação no ambien- das três escalas: exaustão emocional, des-
te ocupacional, identifica-se o burnout, ou personalização e realização profissional.
síndrome do esgotamento profissional. Os dados foram analisados por meio de es-
Essa se caracteriza, entre outras coisas, tatísticas descritivas e da correlação de Pe-
pela predominância de sintomas emocio- arson. Os valores do alpha de cronbach (α)
nais disfóricos; de sintomas psicológicos e da Escala de Bem-estar Afetivo no Trabalho
comportamentais, em detrimento de sin- na subescala de afetos positivos foi α=0.86
tomas físicos; e diminuição gradativa no e na subescala de afetos negativos foi α =
rendimento ocupacional. Apesar de não 0.86. Os valores do α do MBI para o fator
haver consenso na definição de burnout, exaustão emocional foi α = 0.79, para o fa-
existe uma significativa concordância em tor despersonalização α = 0,25 e para baixa
relação às dimensões que a constituem. realização pessoal no trabalho α = 0,72 in-
São elas: exaustão emocional, desperso- dicando, em geral, uma consistência inter-
nalização e baixa realização pessoal no na significativa. Os resultados encontrados
trabalho. Considerando o exposto, o ob- na Escala de Bem-estar Afetivo no Trabalho
jetivo desse estudo foi analisar o nível de indicaram que os profissionais apresentam

91
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

uma relação positiva com o trabalho. Isso PERCEPÇÃO SOBRE VALORES


pode ser notado na média ponderada da QUE INFLUENCIAM A PRÁTICA DE
subescala de afetos positivos M = 4,43 (DP PROFISSIONAIS DA REDE DE PROTEÇÃO
= 0,41); complementando essa percepção, A CRIANÇAS E ADOLESCENTES DO
a média ponderada da subescala de afetos INTERIOR DO RS
negativos foi de 2,50 (DP = 0,88). No MBI, Normanda Araujo de Morais - UFRGS
a média ponderada para o nível de exaus- normandaaraujo@gmail.com
tão emocional foi de 2,08 (DP = 0,48), para Juliana das Neves Nóbrega - UFRGS
despersonalização foi de 1,53 (DP = 0,43) julli.nobrega@gmail.com
e de baixa realização profissional foi de Clarissa Pinto Pizarro de Freitas - UFRGS
1,79 (DP = 0,41). Os achados indicam que clappdf@gmail.com
os profissionais apresentam baixos níveis Bruno Figueiredo Damásio - UFRGS
de burnout. As análises de correlação de brunofd@gmail.com
Pearson indicaram que as dimensões afe- Silvia Helena Koller - UFRGS
to negativo da Escala de Bem-estar Afetivo silvia.koller@gmail.com
no Trabalho está positivamente relaciona-
da às dimensões de exaustão emocional Este trabalho tem como objetivo avaliar os
(r=0,71; p=0,001) e baixa realização no principais valores que embasam a prática
trabalho (r=0,54; p=0,002) do MBI. Com de profissionais da rede de atendimento a
relação ao afeto positivo da Escala de crianças e adolescentes do interior do Rio
Bem-estar Afetivo no Trabalho, observou- Grande do Sul, assim como as percepções
-se que o mesmo está negativamente re- destes profissionais, sobre como têm se
lacionado às dimensões de exaustão emo- sentido desde que começaram a trabalhar
cional (r=-0,53; p=0,003) e baixa realização com essa população. Esses profissionais
(r=-0,59; p=0,001) no trabalho do MBI. No (n=30) participaram da Capacitação pro-
que se refere à dimensão de despersonali- movida pelas Universidades Federal do
zação do MBI, essa não está significativa- Rio Grande do Sul (UFRGS) e pela Facul-
mente relacionada com a Escala de Bem- dade Três de Maio (SETREM) acerca das
-estar Afetivo no Trabalho. As correlações temáticas de direitos humanos, violência
demonstraram que os dois instrumentos e mediação de conflitos, com duração de
foram adequados para acessar os aspectos 30 horas. No início das atividades, os pro-
constituintes da relação dos profissionais fissionais responderam a um questionário
com o próprio trabalho. Neste sentido, de pré-teste, no qual constavam questões
pode-se inferir que os profissionais que se de caracterização sociodemográfica, além
disponibilizaram a participar da primeira de escalas específicas, sobre esgotamento
etapa da capacitação apresentavam re- profissional, bem-estar no trabalho, valo-
lações positivas com o trabalho por eles res que fomentam suas práticas e percep-
desenvolvido, aspecto corroborado pelos ções de como se sentem desde que come-
índices da Escala de Bem-estar Afetivo no çaram a trabalhar com crianças e adoles-
Trabalho e pelo MBI. centes. Os resultados destas duas últimas
escalas foram analisados para o presente
Palavras-chave: burnout, bem-estar, rede trabalho. Na escala de valores (seis itens;
proteção alpha = 0,70), o participante deveria apon-

92
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

tar um valor entre 1 a 5 para avaliar a fre- sociodemográficas (idade, escolaridade,


quência (nunca a sempre) com que valo- tempo médio de trabalho na ocupação
res familiares, religiosos, institucionais, atual, tempo de trabalho com direitos da
do Estatuto da Criança e do Adolescente criança e renda mensal) mostraram as
(ECA), formação técnica e experiência pro- seguintes correlações: valores familiares
fissional influenciam a sua prática. Na es- e idade (r = 0,39; p < 0,05); valores fami-
cala de percepção sobre como se sentem liares e tempo de trabalho (r = 0,45; p <
desde que começaram a trabalhar com 0,05); valores religiosos e idade (r = 0,36;
crianças e adolescentes (13 itens; alpha p < 0,05); valores religiosos e tempo de
= 0,89), o participante deveria destacar trabalho (r = 0,46; p < 0,05); valores reli-
numa escala de 1 a 5 (discordo totalmente giosos e tempo de trabalho com direitos
a concordo totalmente) o quanto se sente da criança e do adolescente (r = 0,51; p <
mais otimista, cansado, feliz, preparado, 0,01); influência da legislação do ECA com
pessimista e outros, desde que vem tra- escolaridade (r = 0,43; p < 0,05) e da le-
balhando nessa área. A amostra foi pre- gislação do ECA com a renda mensal (r =
dominantemente do sexo feminino (n=28; 0,37; p < 0,05). Ou seja, os valores fami-
93,3%) e tinha, em média, 38 anos de ida- liares e religiosos tenderam a ser aponta-
de (DP = 10,93). A maioria declarou-se ca- dos por profissionais mais velhos e com
tólica (n=24; 80%) e possuía nível superior mais tempo de trabalho; os valores reli-
(n=14; 46,7%) ou algum tipo de pós-gra- giosos também foram mais mencionados
duação (n=12; 40%). A área predominan- pelo grupo de profissionais que trabalha
te de formação foi Psicologia (n=9; 30%), há mais tempo com direitos da criança;
seguida por Serviço Social (n=8; 26,7%) e e, por fim, os valores do ECA foram mais
Enfermagem (n=5; 16,7%) e a renda men- mencionados pelo grupo de profissionais
sal variou de R$ 600,00 a 5.000,00 (M = com maior escolaridade e renda. Quando
R$ 2.004,90 reais). O principal vínculo de convidados a avaliarem como se sentiam
trabalho foi celetista e concursado (ambos desde que começaram a trabalhar com
com 26,7%; n = 8), seguido de estatutário crianças e adolescentes, os participantes
(13,3%; n = 7). O tempo médio de trabalho ressaltaram que: (a) começaram a buscar
na ocupação atual variou entre 1 mês e conhecimentos que julgavam necessários
30 anos (M = 7,3 anos). Já o tempo médio (M = 4,52; DP = 0,50); (b) estavam certos
do trabalho com direitos da criança e do que queriam continuar trabalhando na
adolescente foi inferior (M = 4 anos; va- área (M = 4,45; DP = 0,63); (c) sentiram
riando de 1 mês a 21 anos). Entre os par- que agregaram conhecimentos que jul-
ticipantes, a experiência profissional (M = gavam necessários à atuação (M = 4,38;
4,66; DP = 0,55) foi apontada como o item DP = 0,56); (d) desenvolveram uma visão
que mais influencia a prática, seguida pe- menos preconceituosa da população (M =
los demais valores: formação técnica (M = 4,21; DP = 0,92); e (e) uma visão menos
4,50; DP = 0,78), valores institucionais (M idealizada desta (M = 4,14; DP = 0,59). Os
= 4,17; DP = 0,87), valores familiares (M itens que obtiveram as menores médias
= 4,00; DP = 1,2) e valores religiosos (M = foram aqueles que expressavam uma vi-
2,87; DP = 1,33). Análises de correlação são negativa, dentre eles: sentir-se mais
envolvendo esses valores e características pessimista (M = 2,10; DP = 0,90), sentir-se

93
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

mais cansado (M = 2,21; DP = 0,98) e sen- ta por Ana Luiza Bustamante Smolka, uma
tir-se mais frustrado (M = 2,28; DP = 1,03). das pesquisadoras vygotskianas do Brasil
Análises de correlação dos itens dessa de maior proeminência, com destaque
escala com variáveis sociodemográficas nos cenários nacional e internacional; pelo
mostraram apenas uma correlação po- professor Bernd Fichtner, da Universidade
sitiva, a saber: o tempo de trabalho com de Siegen na Alemanha, que repensa a
direitos da criança esteve correlacionado teoria de Vygotsky no contexto da produ-
com o item “sentir-se mais otimista quan- ção das ciências humanas; pela professora
to ao sucesso do trabalho” (r = 0,48; p < Marta Sforni, pesquisadora ativa na área,
0,05). Em síntese, os resultados sugerem com enfoque na Teoria da Atividade; e,
a importância da experiência profissional por fim, Zoia Prestes, tradutora das obras
na prática cotidiana dos participantes. de Vygotsky que levanta questionamentos
Inclusive, eles ressaltam a busca pelo co- atuais acerca da interpretação da teoria
nhecimento na área como um passo que vygotskiana no Brasil.
deram desde que começaram a trabalhar
com a temática de direitos da criança e do
adolescente. Há, ainda, por parte dos par- VYGOTSKY NA CONTEMPORANEIDADE:
ticipantes, uma visão positiva da sua práti- CONTRIBUIÇÕES, INSPIRAÇÕES E
ca, a qual é relacionada a sentimentos de PROVOCAÇÕES
felicidade e realização. Ambos os aspectos Ana Luiza Bustamante Smolka - UNICAMP
(busca de conhecimento técnico, senti-
mento de felicidade e realização) ficaram L. S. Vygotsky nos deixou uma obra ex-
visíveis nos depoimentos e na forma como tensa, densa e inacabada, repleta de in-
se mostraram engajados na capacitação. tuições fecundas. Ao mesmo tempo em
que nos inspira e nos fornece as bases
Palavras-chave: profissionais, rede de de uma consistente sustentação teórico-
proteção, infância e adolescência -metodológica, a obra se abre a múltiplas
Contato: Normanda Araujo de Morais, UFRGS, interpretações. Vygotsky privilegiou em
normandaaraujo@gmail.com seus estudos o desenvolvimento cultural
da criança, chamando a atenção para a
história do desenvolvimento cultural do
MR LT02 - Mesa Redonda ser humano. Apontando insistentemente
Convidada para a importância de se considerar a his-
tória – das funções mentais superiores, da
atividade humana, do desenvolvimento
MR LT02-1503 - VIGOTSKI NA do gesto de apontar, dos signos, da lingua-
ATUALIDADE, UMA DISCUSSÃO gem, da consciência -, ele argumentava
TEÓRICO-METODOLÓGICA sobre a constituição social da personalida-
de individual forjada numa história de re-
A mesa redonda tem por objetivo reunir lações sociais. Vygotsky dizia que a histó-
especialistas em Vygotsky que trazem uma ria do desenvolvimento cultural nos leva,
perspectiva atual na leitura dos textos e de cheio, aos problemas da educação.
na prática de pesquisa. A mesa é compos- Suas preocupações se orientavam, assim,

94
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

para os modos de ensinar, para os modos a Vygotsky, em interlocução com outros


de estudar as relações de ensino, e para autores contemporâneos. Tomando como
os resultados ou efeitos dessas relações. foco e lugar de análise as enunciações
Em sua perspectiva do desenvolvimento dos professores em reuniões de estudo, a
humano, a educação e o ensino, como o proposta é refletir sobre as possibilidades
trabalho do homem sobre o homem, ad- de (investigação do) desenvolvimento dos
quiriam fundamental relevância. Buscan- sujeitos e de desenvolvimento da própria
do compreender como a criança se apro- da atividade de ensinar, considerando as
pria da cultura, ou como o coletivo cria as con(tra)dições da contemporaneidade.
funções mentais superiores na criança, ele
defendia a tese da participação do outro
e dos instrumentos técnicos e semióticos A ABORDAGEM DE VYGOTSKY COMO
como constitutivos da emergência de no- PROVOCAÇÃO PARA AS CIÊNCIAS
vas formas de atividade humana no curso HUMANAS
da história. Perseguindo essas questões Bernd Fichtner - Universidade de Siegen/
no campo da Psicologia e da Educação, Alemanha
Vygotsky não se cansou de levantar e dis-
cutir a questão do método. Interessado na Nos últimos vinte anos vivenciamos o co-
emergência e no engendramento de no- lapso e a dissolução de três fronteiras im-
vas formas de atividade, ele desenvolveu o portantes: 1. a fronteira entre o homem e
que chamou de método instrumental, his- o animal foi definitivamente desconstruí-
tórico genético, ou de dupla estimulação, da pelos resultados da pesquisa sobre os
no estudo das relações desenvolvimento/ primatas; 2. a fronteira entre organismo e
aprendizagem/ pensamento/linguagem / maquina foi aniquilada pelas pesquisas da
experiência/consciência. Nos últimos anos neuro-informática e nanotecnologia; 3. a
de sua vida, chegou a afirmar que “a aná- fronteira entre o físico e o não físico desa-
lise semiótica é o único método adequa- pareceu. Com o desaparecimento destas
do para estudar a estrutura do sistema fronteiras todos os velhos dualismos, com
e o conteúdo da consciência” (Vygotsky, os quais estávamos compreendendo a re-
1996:188). Sua obra plural e “em aberto” alidade, perderam a sua credibilidade, es-
repercute e se desdobra hoje em uma di- pecialmente aqueles fundamentos das
versidade de tendências. São muitos os distinções dicotômicas: matéria/espírito,
aspectos que demandam aprofundamen- corpo/mente, indivíduo/sociedade. Neste
to. Participando das atuais discussões e contexto, a abordagem histórico-cultural
visando a incitar o debate, trago para essa de Vygotsky é uma provocação irritante
apresentação fragmentos do material em- formulando perguntas inúmeras. Quando
pírico referente a um projeto de pesquisa nós hoje estamos examinando e analisan-
em andamento que assume o referencial do as obras de Vygotsky podemos dizer
em questão e que tem como objetivo a que ele também nos examina de perto.
melhoria do ensino público. A intenção Nós mesmos somos o objeto de pesquisa
aqui é problematizar e explorar o poten- quando queremos compreender um autor
cial teórico, conceitual e analítico de al- do passado. Nessas tentativas de compre-
guns pressupostos e construtos atribuídos ender o pensamento de Vygotsky constru-

95
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

ímos sempre conhecimento novo sobre o ”Nenhum vôo é permitido, exceto aquele
nosso presente quer dizer a nossa com- que obedece às regras do que é requerido
preensão da psicologia de desenvolvimen- para a construção de novos enunciados”.
to torna-se quase mais transparente nas Uma polícia discursiva (ou, uma polícia
suas estruturas, seus contornos, suas das ciências disciplinares) está pronta
fronteiras e, sobretudo nos seus aspectos para voltar ao já firmado, ao já previsto,
problemáticos. As ciências humanas se es- ao já estatuído, ainda que estivesse lá por
forçam – com maior ou menor êxito – para ser dito. E há que fazer isso com rigor.” Sa-
conseguir aproximações cada vez mais bemos realmente o que é o desenvolvi-
precisas à realidade pesquisada. Com essa mento de uma criança, de um adolescente
lógica as ciências humanas acreditam que – ou mais geral o que é uma criança, o que
essa realidade na sua essência já é enten- é um adolescente? Nas Arte e Filosofia en-
dida e compreendida. Assim a psicologia contramos que o conhecimento não tem
de desenvolvimento pode-se afirmar o nem uma acumulação linear nem uma
que é desenvolvimento psíquico. A psico- hierarquização desse conhecimento. Alei-
logia de desenvolvimento define também jadinho não é mais avançado do que Ve-
o que é uma criança ou o que é um adoles- lásquez e Cézanne não é mais avançado
cente. As crianças são pesquisadas há do que Aleijadinho. Espinosa não é mais
mais de cem anos. Encontramos uma acu- avançado do que Descartes. Nem Hegel
mulação impressionante de conhecimen- que Descartes. A filosofia e a arte estão
to cientifico. Nessa lógica com certeza sa- indicando que esta ideia de uma “aproxi-
bemos hoje mais sobre crianças do que se mação a realidade” é uma ilusão. Mas, o
sabia na época de Vygotsky. Porém, en- que arte e filosofia realmente têm em co-
contramos aspectos sobre este tema que mum? Na lógica de uma obra de arte ou
ainda não são plenamente compreendi- de um conceito fundamental de filosofia
dos. Como exemplo podemos questionar se encontra “a Perspectiva do Novo/o
o pouco que realmente se sabe sobre os Ponto de Vista do Novo”. Isso significa ver
adolescentes e suas ligações com as novas e olhar um fenômeno, uma realidade
tecnologias de informação e comunica- como se os olhássemos pela primeira vez.
ção, a mudança atual de valores morais e No olhar da filosofia e no olhar da arte, a
éticos destes adolescentes, etc. Na pers- realidade nunca é já totalmente compre-
pectiva linear da lógica da pesquisa cienti- endida. Ao contrário, ela é indeterminada,
fica como aproximação cada vez mais pre- aberta. Nesse sentido uma obra de arte e
cisa à realidade todos os problemas apa- um conceito fundamental de filosofia são
recem resolvíveis. Uma conseqüência dis- sempre pressupostos e tematizam uma
so: a importância dos métodos e da meto- relação formal com a realidade. A relação
dologia (metodologia: a avaliação e a com essa realidade ou com esse fenôme-
análise do sistema dos métodos a respeito no é precisamente e absolutamente de-
da sua “objetividade”, de sua “reliabilida- terminada pela forma enquanto, que a
de” e sua “validade”). Wanderley Geraldi realidade, o fenômeno fica aberto e inde-
(2005) critica esta direção e orientação, terminado. O formal, a representação
mais ou menos técnica, para os métodos e possibilita aqui a escolha de uma perspec-
para a metodologia com estas palavras: tiva: conceitos teóricos e obras de arte

96
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

como modelos de um diálogo com a reali- acaba por introduzir e apontar caminhos
dade mediando uma relação. “A Perspecti- para todas as ciências humanas. Gostaria
va do Novo/o Ponto de Vista do Novo” de mostrar como nas obras de Vygotsky a
exige aceitar o metafórico no processo de lógica geral de arte e de filosofia atua con-
olhar e de ver, o que significa ver algo cretamente nas disciplinas humanas, so-
como algo (isso é isto). A metáfora não re- bretudo na psicologia do desenvolvimen-
flete semelhanças; não apresenta algo to. No centro da metodologia vigotskiana
que seja comum entre objetos, como fe- encontra-se o “Método Histórico” ou tam-
nômenos e processos; algo que está já bém o assim chamado “Método Genéti-
pronto, disponível e preestabelecido. A co” ou “Método Histórico” pelo qual
metáfora cria e constrói fundamentalmen- Vygotsky tematiza o seu pressuposto fun-
te relações. Metáforas são como crianças: damental: entender cada fenômeno vivo
impressionam o seu ambiente de uma exige entendê-lo no seu início e também
maneira específica. Elas portam o novo, o no processo do seu desenvolvimento. A
não previsto. Representam enfoques de este método está incorporado o famoso
relevâncias junto com uma orientação lema de Hegel: "O inteiro é sempre o resul-
para o futuro. Como uma criança é uma tado compreendido junto com o processo
promessa de vida, vida que não é preesta- de seu desenvolvimento". Este lema foi as-
belecida em seus passos. Metáforas não sumido por Vygotsky como um principio
têm só uma função constitutiva na forma- universal metodológico. Este problema
ção cítrica de nossa experiência, mas tam- principal do desenvolvimento foi analisa-
bém para as mudanças, transformações e do e pesquisado através de três perspecti-
reestruturações delas. As fronteiras e limi- vas metodológicas: (1) A abordagem de
tes de uma área preestabelecida de expe- Vygotsky apresenta uma perspectiva mo-
riências podem ser destruídos, quebrados nística, quer dizer, toda separação entre
e alargados. Uma relação estandardizada indivíduo e sociedade, corpo e mente, en-
e automatizada pode ser assim rompida. tre cognição e emoção, entre físico e espí-
Muitas obras de Vygotsky se caracterizam rito, entre ações exteriores e ações inte-
pela confrontação e ruptura com o esta- riores foram rigorosamente negadas. (2) A
belecido, com o sistema estereotipado, abordagem de Vygotsky apresenta uma
fechado e fixado. O seu trânsito por e o perspectiva holística, que se opõe a qual-
interesse pela Arte e Filosofia lhe propor- quer reducionismo, ou seja, processos
cionaram condições de ter uma visão mais complexos não se podem reduzir a pro-
ampla das questões psicológicas, incorpo- cessos elementares. Por exemplo, um pro-
rando contribuições dessas outras áreas cesso psíquico não se pode explicar redu-
de conhecimento. Encontra-se na aborda- zindo-o a processos físicos ou químicos.
gem de Vygotsky uma enorme riqueza e Segundo Vygotsky se deve encontrar ou
diversidade de temas, passando pela neu- construir unidades de análise que permi-
ropsicologia, pela linguagem, pela educa- tam considerar os processos complexos.
ção, nomeadamente quando enfrenta (3) A abordagem histórico-cultural apre-
problemas de deficiências, pelas questões senta uma perspectiva interdisciplinar ou
semióticas do cinema, aliando questões multidisciplinar. A base desta perspectiva
teóricas e metodológicas, de modo que são sempre problemas sociais ou proble-

97
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

mas práticos. Um problema social sempre gado à fundamentação lógico-psicológica


tem aspectos diferentes: individuais, psí- da estruturação das disciplinas escolares.
quicos, culturais materiais etc. Os próprios Isto é, o conteúdo e os meios didáticos
especialistas em interdisciplinaridade não por meio dos quais o conteúdo é ensina-
se encontram nos estudiosos ou nos pes- do determinam o tipo de consciência e de
quisadores, mas nos práticos, que devem pensamento que se formam nos estudan-
resolver problemas práticos sempre multi- tes. Assim, a organização do ensino não é
dimensionais. Na palestra vou tentar de um assunto exclusivamente didático, mas
concretizar esses aspectos ao respeito da está relacionado também ao potencial de
conceitualização de “desenvolvimento” desenvolvimento psíquico dos estudan-
na abordagem de Vygotsky. tes. Nesse sentido, as respostas aos dois
questionamentos, expostos acima, podem
oferecer conhecimentos importantes para
PESQUISA SOBRE ENSINO, a Didática e para a Psicologia. Mas para se
APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO: chegar a tais respostas é necessário en-
CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DA contrar procedimentos de pesquisa que
ATIVIDADE permitam identificar se uma forma de
Marta Sueli de Faria Sforni - UFSC organização do ensino tem o potencial de
promover o desenvolvimento dos estu-
As discussões acerca do papel da esco- dantes. A necessidade de analisar como
larização sobre o desenvolvimento psí- têm sido ensinados conceitos científicos
quico desencadeadas pela abordagem na escola, bem como de identificar condi-
Vigotskiana ressaltaram o valor da edu- ções teórico-metodológicas para a organi-
cação escolar na constituição dos su- zação do ensino em que a aprendizagem
jeitos. Porém, quando Vygotsky fala de conceitual contribua para a promoção do
ensino, não se refere a qualquer ensino, desenvolvimento psíquico (Sforni, 2004),
mas àquele que se “adianta ao desenvol- tem nos acompanhado desde a pesquisa
vimento”, ao “bom ensino”, a uma “cor- de doutorado. Atualmente, as pesquisas
reta organização da aprendizagem” ou, que temos realizado conjuntamente com
ainda, ao “aprendizado adequadamente os membros do Grupo de Pesquisa Ensino,
organizado” (VYGOTSKY, 2001). Ou seja, Aprendizagem e Conteúdo Escolar - UEM,
não basta ao indivíduo freqüentar esco- e com os membros do GEPAPe-USP – Gru-
las, não lhe basta ter acesso a conceitos po de Estudos e Pesquisas sobre Atividade
científicos para que seus processos inter- Pedagógica, têm como objetivo “Investi-
nos de desenvolvimento sejam acionados. gar princípios teórico-metodológicos da
Tal fato suscita dois possíveis problemas atividade pedagógica, tendo como funda-
de investigação: O que qualifica um bom mento a Teoria Histórico-Cultural”. Além
ensino ou uma correta organização da dos estudos de Vygotsky, contamos tam-
aprendizagem? Em que sentido a organi- bém com os subsídios da Teoria da Ativi-
zação do ensino pode influenciar qualitati- dade de Leontiev (1983, 2004). Como pro-
vamente o processo de desenvolvimento? cedimento metodológico para coleta de
Davidov (1992) considera que o ensino dados, temos organizado “experimentos
que impulsiona o desenvolvimento está li- didáticos” ou “experimentos formativos”

98
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

que permitem acompanhar o processo que a operação se constitui na ação auto-


de aprendizagem dos sujeitos, quando matizada, Leontiev oferece pistas para se
inseridos em uma situação de ensino or- pensar uma orientação metodológica para
ganizada de acordo com alguns princípios o ensino de conceitos. Mesmo que mui-
teórico-metodológicos que consideramos tos conhecimentos sejam já operacionais
favoráveis ao desenvolvimento dos estu- ou automatizados na cultura, para que
dantes, sendo que, esses modos de orga- eles sejam desenvolvidos no sujeito como
nização do ensino também são objetos de operações conscientes é preciso que elas
investigação. Alguns conceitos desenvolvi- se formem primeiramente como ações
dos por Leontiev (2004) são orientadores (Leontiev, 2004). É preciso que um dado
de nossas ações, dentre eles os conceitos conteúdo seja objeto direto da atenção,
de objetivação e apropriação do conheci- da percepção, do raciocínio do sujeito
mento. Na compreensão dos conhecimen- para que passe a compor o conteúdo e o
tos científicos como instrumentos psico- modo de ele operar com os fenômenos da
lógicos, nos quais estão objetivados pro- realidade, ou seja, para que, de fato, seja
cessos mentais já alcançados pelo gênero apropriado como instrumento simbólico
humano, encontramos valiosos indícios pelo sujeito. Por quais meios investigar o
que podem orientar a tomada de decisões impacto do ensino sobre aprendizagem
na organização do ensino. Apropriar-se de e desenvolvimento dos sujeitos, já que
um conceito, nessa perspectiva, significa esses são processos tão subjetivos? Se
tomar posse desses processos mentais, o aprender é mais do que recitar definições,
que implica colocar em movimento esses implica “fazer uso” dos conceitos na rea-
processos à medida que interagimos com lização de ações e operações mentais, é
o conhecimento. Daí a relação entre en- preciso buscar elementos externos que
sino, aprendizagem e desenvolvimento, explicitem os processos psicológicos en-
destacada por Vygotsky. Nesse sentido, é volvidos em determinadas atividades do
preciso que os conceitos – objetos de en- sujeito, já que essas atividades podem
sino – estejam inseridos em uma ativida- revelar a forma pela qual o sujeito opera
de na qual sua função como instrumento com os conceitos. Assim, em nossas pes-
seja explícita. Pensar a aprendizagem de quisas temos tomado como objeto de
conceitos nessa perspectiva implica reco- análise a própria atividade do sujeito com
nhecer que a sua apropriação não se re- objetos e fenômenos. Observamos se ele
sume à definição e memorização, como realiza a atividade por meio de um pen-
normalmente ocorre no contexto escolar. samento categorial, em nível teórico, ou
Também os conceitos de ação e operação, se depende de representações sensoriais,
apresentados por Leontiev (2004), têm limitando-se ao pensamento empírico, o
nos permitido algumas inferências signifi- que significa diferentes níveis de desen-
cativas. Esse autor explica que a assimila- volvimento. Considerar a atividade como
ção do conhecimento implica a formação objeto de análise “significa a possibilidade
de ações mentais. Ao afirmar que no pro- de se analisar um elemento observável e,
cesso de aprendizagem motora ou intelec- por meio dele, desvelar a forma e o con-
tual, o sujeito passa da ação à operação teúdo da subjetividade” (Sforni & Galuch,
com o objeto do conhecimento, sendo 2009, p. 127). Partindo do princípio de que

99
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

há unidade entre linguagem, pensamento tva (Psicologia da Arte), escrito em 1925 e


e ação, tomamos como fontes de análise a publicado somente em 1965; Pedagogui-
linguagem e a ação, como meios que nos tcheskaia psirrologuia (Psicologia Pedagó-
permitem inferir, mesmo que parcialmen- gica) de 1926, e Michlenie e retch (tradu-
te, o pensamento conceitual promovido zido no Brasil como Pensamento e lingua-
pelo ensino. Cabe destacar que tais proce- gem ou Construção do pensamento e da
dimentos investigativos constituem-se em linguagem), de 1934; e uma série de livros
um caminho em construção, marcado por didáticos para o ensino à distância (por
dúvidas e algumas limitações, mas que correspondência), tais como Pedologia da
tem apresentado resultados promissores, idade escolar (Pedologuia chkolnogo vo-
o que nos estimula a continuar caminhan- zrasta), de 1928, Pedologia da juventude
do, apesar das incertezas. (Pedologuia iunochevskogo vozrasta), de
1929, e Pedologia do adolescente (Pedo-
loguia podrostka), escrito entre 1930 e
L. S. VYGOTSKY: A FORÇA E A 1931. Alguns capítulos deste último livro
ATUALIDADE DE SUA OBRA didático foram republicados no volume 4
Zoia Prestes - UniCEUB de Obras reunidas (Sobranie sotchineni).
Os livros publicados, principalmente após
Lev Semionovitch Vygotsky foi um pensa- a morte de Vigotski, reúnem artigos, tex-
dor soviético e seu nome é bem conheci- tos e estenografias de aulas proferidas ou
do hoje no Brasil, principalmente entre os discursos em eventos científicos. O levan-
que se dedicam aos estudos nas áreas da tamento mais completo e sistematizado
pedagogia e psicologia. A trajetória acadê- até o momento está apresentado em ane-
mica no Brasil das obras de Vygotsky, seus xo à biografia escrita por Guita Vigodskaia,
colaboradores e alunos teve início no fim filha de Vygotsky, e Tamara Lifanova
dos anos 70. Seus estudos estão presentes (1996) que relaciona 274 títulos. Embora
no mundo inteiro, editados e publicados Daniil Borissovitch Elkonin, contempo-
nas mais diferentes línguas, tais como in- râneo, aluno e colaborador de Vygotsky,
glês, francês, italiano, espanhol, alemão, relacione cerca de 180 trabalhos (Elkonin,
japonês, português, húngaro e dinamar- 1984). Essa divergência nas informações a
quês. Se fizermos hoje uma rápida busca respeito de sua produção teórica mostra
nas publicações das obras de Vygotsky não apenas o interesse que ainda desper-
na Rússia, por exemplo, veremos que, na ta sua obra em seu país, mas também é
última década, seus três principais livros uma divergência que está prestes a ser
foram relançados por diferentes edito- reduzida a zero com a publicação da obra
ras, assim como foram reeditados artigos completa. Um dos motivos da divergên-
publicados apenas nos anos 30, antes de cia é que na lista de Guita estão indica-
serem proibidos, em coletâneas que estão dos até mesmo artigos e textos que ainda
surgindo novamente nas prateleiras das permanecem na forma de manuscritos e
livrarias da Rússia. Quando se analisa a estão guardados nos arquivos da família
extensa produção escrita de Lev Semiono- que, atualmente, prepara o lançamento
vitch Vygotsky, nota-se que foram poucos de dois volumes das obras completas que
os livros que escreveu: Psirrologuia iskuss- deverão conter 16 volumes, cada um com

100
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

uma média de 400 páginas. Além de proi- Mais recentemente, em 2001, no Brasil,
bidas na URSS por quase 20 anos, as obras foi publicada pela mesma Martins Fontes
de L.S. Vygotsky nem sempre tiveram um a versão completa de Michlenie e retch,
destino digno. Ao analisarmos detalha- sob o título A construção do pensamento
damente o percurso de algumas de suas e da linguagem, traduzida diretamente do
publicações, pode-se afirmar, sem medo, russo por Paulo Bezerra. Na ficha técnica
que foram muitas as adulterações, os cor- do livro não está indicada a edição russa
tes, as censuras que sofreram ao longo da da qual foi traduzida para o português,
história, tanto em sua pátria como fora mas, ao comparar com a edição russa in-
dela. Desde a publicação de seus primei- tegral de 2001, pode-se afirmar que é o
ros livros nos Estados Unidos e de tradu- texto completo, pois contém todos os tre-
ções para o português a partir das versões chos suprimidos na edição soviética reta-
norte-americanas, já se passaram mais de lhada de 1956 (González, 2007, p. CXXXI).
30 anos. Sem dúvida, essas primeiras ini- Mas parece que não foi somente a obra
ciativas de trazer para o Brasil os estudos de Vygotsky que sofreu adulteração. Sua
de um dos mais importantes pensadores vida também é cercada de mistérios e fa-
soviéticos do século XX merecem reco- tos pouco esclarecidos. As divergências
nhecimento. No entanto, atualmente, a entre as interpretações de fatos importan-
própria Rússia reconhece que muitos tex- tes de sua vida permanecem ainda como
tos do autor, para que fossem publicados um campo bastante nebuloso na história
ainda no fim dos anos 50, foram cortados da psicologia soviética. Se forem feitas
e alterados pelos editores (Zaverchneva, comparações entre textos biográficos pu-
2009, 2010). É desconcertante descobrir, blicados na União Soviética (por exemplo,
por exemplo, que o livro Michlenie i retch Levitin, 1990), na Argentina (por exemplo,
(traduzido como Pensamento e lingua- Blanck, 1984) e nos Estados Unidos (por
gem) teve alguns parágrafos cortados e exemplo, Kozulin, 1990) é possível detec-
que, somente em 1996 (González, 2007, tar discrepâncias acerca de fatos impor-
p. CXXXIV), foi publicada a primeira edição tantes da vida e obra do autor. Assim, o
do texto original que se encontra microfil- estudioso de Vygotsky vê-se diante de in-
mado na biblioteca da Universidade Esta- formações, por vezes, até contraditórias e
tal de Moscou. Mais perturbador ainda é a melhor alternativa na busca de um qua-
o fato de que, no Brasil, uma mesma edi- dro mais coerente da vida e obra do autor
tora publica duas versões (Vygotsky, 1987 é a realização de exames comparativos
e 2001) dessa obra de Vygotsky como se das diferentes biografias disponíveis. Atu-
fossem livros diferentes. Na verdade, até almente, além das biografias citadas, há a
são, já que uma delas, a edição resumida, escrita por sua filha, em colaboração com
não pertence de fato à pena do pensador, T. M. Lifanova e encontra-se publicada em
mas sim aos seus editores que a adultera- russo e em inglês (1996, 1999 a, b, c), esta
ram, atribuindo a autoria a Vygotsky. Essa última não totalmente na íntegra (faltam
edição apareceu em 1987 pela editora fotos e fac-símiles de alguns documentos).
Martins Fontes traduzida do inglês por Je- A outra biografia é de autoria de Iaroche-
fferson Luiz Camargo, a partir da edição do vski (2007) e foi publicada somente em
Instituto Tecnológico de Massachusetts. russo. Além disso, em 2011, foi publicada

101
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

na Rússia mais uma biografia do pensa- andressagonzalez62@gmail.com


dor Misl i sudba psirrologa Vigotskigo (O Juliane Rosa - UnB
pensamento e o destino do psicólogo Vi- jullyll@hotmail.com
gotski), de autoria de Igor Reif. Diante des- João Luís X. M. de Negreiros - UnB
se quadro, não resta dúvida de que há em jlnegreiros@gmail.com
todo o mundo um grande interesse pelas Brisa Oliveira - UnB
ideias e pela vida de Vygotsky. brisa-oliveira@hotmail.com

De acordo com a perspectiva do life-span,


MR LT01 - Mesa Redonda o envelhecimento humano é um processo
Convidada multidimensional e multidirecional que
engloba um delicado equilíbrio entre limi-
tações (perdas) e vantagens (ganhos). Con-
MR LT01-1508 - O ENVELHECIMENTO sonante com essa visão, o envelhecimento
BEM SUCEDIDO E A APOSENTADORIA: e a velhice constituem experiências hete-
A PRÁTICAS DE HOMENS IDOSOS rogêneas e, como tal, devem ser aborda-
E DIFERENTES PROGRAMAS DE dos em sua complexidade e diversidade. A
PREPARARO PARA A APOSENTADORIA passagem para aposentadoria, é uma fase
difícil e nem sempre enfrentada de forma
Samia Abreu - UnB
positiva por alguns trabalhadores. Os Pro-
abreu.samia@gmail.com gramas de Preparação para Aposentadoria
Lilian Maria Borges Gonzalez - UCB surgem como medida preventiva para me-
limaborgesg@gmail.com lhorar a qualidade de vida das pessoas que
Cristineide Leandro França - UnB se encontram nessa fase e necessitam de
cristineide@unb.br ajuda para atravessá-la de forma saudável.
Sheila Giardini Murta - UnB O envelhecimento bem sucedido e a apo-
murta@cultura.com.br sentadoria serão apresentados em suas
Eliane Seidl - UnB manifestações frente a um estudo sobre
seidl@unb.br a concepção e práticas de homens idosos
Isolda Gunther - UnB (estudo 1), a implantação de um programa
isolda.gunther@gmail.com de preparação para aposentadoria (estudo
Juliana Seidl - UnB 2) e avaliação de um intervenção preventi-
juliana.seidl@gmail.com va breve no planejamento da aposentado-
Ana Carolina da Conceição ria (estudo 3). O presente estudo buscou
anakarou@gmail.com investigar as percepções de treze homens
Marina Pedralho - UnB com idades entre 62 e 78 anos, todos ca-
pedralho3@gmail.com sados, aposentados e portadores de dife-
Nadielle Lira - UnB rentes doenças crônicas, recrutados em
nadiellelira@gmail.com um centro de convivência para idosos, os
Rochely Karen Moreira Carvalhedo - UCB quais foram entrevistados individualmente
rochellykaren@hotmail.com acerca de suas concepções de envelheci-
Andressa Gonzáles Azevedo Pinheiro Soares mento bem sucedido e das práticas adota-
Macedo - UnB das na busca de uma velhice saudável. As

102
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

respostas obtidas foram submetidas à aná- da Instituição. Criação de identidade visual


lise de conteúdo de Bardin. Os relatos dos e cartilha para os participantes - Consistiu
participantes foram agrupados em fatores na elaboração de todo o material gráfico,
físicos e psicossociais. Dentre os fatores fí- design da cartilha, convites e cartazes de
sicos mencionados, foi possível identificar divulgação. Sensibilização e Divulgação -
duas subcategorias, que apresentavam em Foram realizadas visitas aos sindicatos e à
comum o fato de enfatizarem as necessi- diretoria de saúde da universidade. Infor-
dades ou limitações orgânicas da pessoa mações sobre o programa foram disponibi-
idosa, a saber: busca de serviços médicos e lizadas no site da UnB e convites entregues
uso da medicação e reconhecimento e res- individualmente. Formação dos grupos e
peito às limitações físicas. Os fatores psi- conteúdo da intervenção - Foram forma-
cossociais, por sua vez, foram organizados dos dois grupos, 13 servidores concluíram
em oito subcategorias: manutenção de a intervenção. O programa contou com
hábitos saudáveis; ausência de hábitos no- intervenções estruturadas em 8 módulos
civos à saúde; manutenção de atividades informativos e módulos vivenciais em um
de trabalho ou recreativas; esquiva ou ma- formato psicoeducativo, com duração de
nejo de situações estressantes; satisfação três horas semanais, totalizando 24 horas
em viver; manutenção de bom relaciona- de programa. A partir da análise dos da-
mento familiar; prática de ações solidárias dos, foram encontradas seis dimensões de
e controle das finanças. Os participantes maior investimento pelos participantes,
relataram manter em seus cotidianos prá- a saber: Aposentadoria, Finanças, Laços
ticas preventivas e promotoras da saúde, Afetivos e Sociais, Ocupação, Autoconhe-
as quais foram organizadas tomando por cimento e Saúde. Os temas citados pelos
parâmetro três eixos temáticos: busca e participantes, relacionados à categoria
utilização dos serviços de saúde, hábitos Aposentadoria, foram: a tomada de cons-
saudáveis e vida ativa. A promoção do en- ciência em relação à aposentadoria e o
velhecimento saudável e a prevenção de planejamento de questões legais relativas
incapacidades devem assumir um papel à mesma. Na categoria Finanças, os parti-
central nas pesquisas e cuidados no cam- cipantes indicaram a realização de ativida-
po da saúde dos idosos, considerando que des com fins lucrativos e o cuidado com as
podem assegurar um uso mais eficiente finanças, como a quitação de dívidas ban-
dos serviços de saúde e melhorar a quali- cárias. Quanto à categoria Laços Afetivos e
dade de vida destas pessoas, ajudando-as Sociais, foi mencionado o cultivo de ami-
a permanecerem independentes e produ- zades, laços familiares e da relação com o
tivas. O objetivo do estudo é descrever as parceiro. Além disso, investimento na ativi-
etapas de implantação do Programa de dade profissional, cumprimento de obriga-
Preparação para Aposentadoria adotado ções, lazer e responsabilidades com bens
pela Universidade de Brasília, chamado materiais foram temas que apareceram na
Viva Mais!. O modelo seguiu as seguintes categoria Ocupação. Por fim, na categoria
etapas: Avaliação de necessidades - Inclui Autoconhecimento, foram apontados os
a revisão da literatura, elaboração do ro- seguintes temas: lidar com mudanças e re-
teiro de entrevistas individuais e dos gru- flexão sobre seus comportamentos. Pode-
pos focais com trabalhadores aposentados -se observar que os objetivos do programa

103
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

vêm sendo alcançados o que justifica a sua dos recursos significativos para enfrentar
continuidade e propõe uma agenda de as vulnerabilidades originadas nessa fase
pesquisa para adaptação de procedimen- de transição. Sugere-se que esse modelo
tos, novas formas de avaliação e aprimora- breve de intervenção seja investigado em
mento desse modelo preventivo. Esse es- um número maior de sujeitos e em outros
tudo teve como objetivo testar e aprimorar ambientes organizacionais.
os procedimentos e estratégias de uma in-
tervenção breve no planejamento da apo- Palavras-chave: envelhecimento bem
sentadoria. Utilizou-se para esse fim uma sucedido, programa de preparação para
oficina breve com técnicas psicoeducativas aposentadoria, intervenção preventiva breve.
pré-estabelecidas. Participaram da pesqui-
sa 09 trabalhadores, com a idade entre 22
e 63 anos, sendo 03 homens e 06 mulhe- MR LT01 - Mesa Redonda
res. Para coleta dos dados foram utilizados
os seguintes instrumentos: Questionário Convidada
Sociodemográfico para trabalhadores em
situação de pré-aposentadoria e a Escala
de Estágio de Mudança em Comportamen- MR LT01-717 - “AS MELHORES COISAS
to de Saúde. A intervenção ocorreu em DO MUNDO” COMO ESTÍMULO
sessão única, em grupo, com aproximada- EVOCATIVO AOS DESAFIOS DA
mente 180 minutos de duração. Consistiu JUVENTUDE NA UNIVERSIDADE
na utilização de estratégias psicoeduca- Francisco Silva Cavalcante Junior - UFC
tivas e teve como base o modelo “FRA- fscavalcantejunior@gmail.com
MES” (Feedback, Responsability, Advice,
Menu de Option, Empathy, Self-eficacy). Utilizando-nos do filme “As melhores coi-
Para tratamento dos dados, utilizou-se a sas do mundo” (BODANSKY, 2010) como
técnica de análise conteúdo de Bardin. O estímulo evocativo, os trabalhos propos-
tratamento dos dados permitiu identificar tos por esta Mesa Redonda apresenta um
que os preditores de uma aposentado- conjunto de autores que se debruçam so-
ria promissora envolvem sentimentos de bre suas experiências docentes em cursos
persistência, iniciativa, suporte familiar, de graduação para refletir sobre os desa-
busca de uma nova carreira e continuar os fios da juventude com a qual convivem em
estudos. Como fatores de risco destacam- suas aulas. Uma análise das condições de
-se as doenças, solidão, diminuição nas valia introjetadas por jovens universitários
relações sociais, pouco dinheiro, condi- que os impedem de seguirem um cami-
ções de trabalho inapropriadas, ausência nho de desenvolvimento autônomo de
de políticas públicas para esse segmento suas trajetórias de vida é o primeiro tema
populacional e falta de apoio da família e abordado. Inovações metodológicas apli-
amigos. A segunda categoria investiga o cadas na disciplina de Psicologia da ado-
que a intervenção breve possibilitou aos lescência, vida adulta e velhice permitem
participantes descobrir, pensar e sentir que professora e estudantes estudem, de
sobre a transição para a aposentadoria. forma autobiográfica, as condições valora-
A terceira categoria abrange a descrição tivas que os impedem de navegarem em

104
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

fluxo vital pleno pelos estágios da vida. Na do sujeito como pessoa. E, desde muito
sequência, o professor visa compreender pequenina, a criança percebe que espe-
fenômenos das expressões e linguagens ram algo dela. Ao mesmo tempo em que
adolescentes que são expressas no cibe- começa a sentir a necessidade de consi-
respaço, a partir da exibição do filme “As deração positiva de seus pais e de outras
melhores coisas do mundo”, em sala de pessoas significativas. Passa a perceber o
aula, abordando o crescente uso dos ser- comportamento de aprovação ou repro-
viços das novas tecnologias por jovens vação daqueles que aprecia e a necessi-
universitários, assim como os variados dade de aceitação é tão importante que
“novos” fenômenos que se desdobram passa a guiar seu comportamento a partir
a partir desse espaço virtual que passa a dessas experiências. Isso sugere que a ex-
ser amplamente utilizado e propagado. periência poderá não mais estar seguindo
Narrativas adolescentes em redes sociais um fluxo natural de aperfeiçoamento de
são registradas e analisadas neste estudo. nosso organismo, mas caminhando em
Por fim, o desafio da tríade da neurose direção ao valimento do amor de nossos
coletiva que se apresenta na juventude pais e aceitação da sociedade. Essas ex-
atual, ao matar, se matar ou se drogar, pectativas, essas condições para ser aceito
é ampliado, quando a morte passa a ser e amado é o que chamamos de condições
apresentada por adultos jovens na univer- de valia. É uma valoração do amor a ser
sidade como a única liberdade encontra- recebido. E todos nós trazemos condições
da, tema também evocado e densamente de valia assinaladas em nossas vidas, que
trabalhado no filme “As melhores coisas foram passadas por pais, professores, ins-
do mundo”. Orientados por uma perspec- tituições, sociedade e por tudo que impõe
tiva da Abordagem Centrada na Pessoa algo a partir de um apreço condicional,
cuja aprendizagem significativa emerge da que leva a pessoa mudar o curso de nos-
experiência, os professores universitários sas escolhas para podermos ser aceitos ou
aqui reunidos compartilham transforma- amados e que frustra a nossa força moti-
ções que se constroem em suas práticas vadora em direção ao crescimento. Deno-
docentes, de forma espontânea, com uma minei essas condições de rodinhas da bici-
capacidade transformadora de mobiliza- cleta emocional. Neste momento, preten-
ção de todos os envolvidos no processo de do lançar mão dessa metáfora que venho
ensino e aprendizagem do adulto jovem desenvolvendo a partir de uma pesquisa
no contexto da universidade brasileira. realizada com uma jovem em final de ado-
lescência, que buscava irromper com as
condições de valia impostas pelo meio e
PEDALANDO NAS TRILHAS DA VIDA que disparava uma luta pelo seu próprio
Terezinha Teixeira Joca - UNIFOR crescimento, tomando como abordagem,
terezinhajoca@unifor.br para o estudo, a etnográfica centrada
na pessoa, proposta por Harry Wolcott
Desde a concepção, o bebê carrega uma (1999). Ampliei esse estudo através de mi-
bagagem impregnada de expectativas de nhas observações e das impressões apre-
seus pais. Dessa forma, a família e o meio sentadas pelas pessoas ao lerem o texto,
exercem forte influência na constituição utilizado em sala de aula para jovens uni-

105
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

versitários, que imprimem suas reações, melhores coisas do mundo” (Bodanzky,


seus sentidos dados após o contato com 2010) e encantei-me com as reações emo-
essas rodinhas, que os remetem à infân- cionadas e as experiências trazidas pelos
cia e à adolescência. Aprofundado minha estudantes da evocação que essas duas
percepção sobre as condições de valia, obras geraram. Assim como os estudan-
percebi que, durante o percurso de vida, o tes, passei a visitar as fases de desenvolvi-
sujeito não se torna isento das condições mento e, como propõe Amstrong (2011),
impostas pelo meio, pois poderá sobrevi- fizemos uma navegação pelos estágios da
ver uma ou outra que tropeçará no desejo vida, enveredamos pela “Odisseia do de-
de ser amado e aceito. Essa situação de senvolvimento humano” e resolvi desbra-
condicionalidade poderá levar a pessoa à var esses novos caminhos, pedalando nas
incongruência e, consequentemente, ao trilhas da Vida, cujas descobertas serão
desenvolvimento de patologias. Dilatando compartilhadas nesta comunicação.
o olhar, quando é conseguido retirar as
rodinhas da bicicleta emocional segue-se Palavras-chave: condições de valia,
adiante e passa a fazer uso de algo mais desenvolvimento humano, fluxo vital.
sofisticado, as marchas da bike. Esse novo
recurso representa as formas que se pos-
sui para reagir aos problemas, modo como LINGUAGENS ADOLESCENTES NO
se percebe que não pode direcionar todas CIBERESPAÇO: VIDAS PÚBLICAS E
as culpas dos problemas ao meio e aos PRIVADAS
outros, passa-se a tomar consciência das Márcio Silva Gondim - FANOR
próprias incapacidades e competências. mgondim@fanor.edu.br
Descobre-se e reconhece o seu valor in-
terno. Lembrando que a adolescência não Este estudo visa compreender fenômenos
é só balada, diversão, papos livres e aven- das expressões e linguagens adolescen-
tura e que os problemas surgem como ter- tes que são expressas no ciberespaço, a
renos diversos, enlameados, pedregosos, partir da exibição do filme “As melhores
asfaltados, arenosos, que só se consegue coisas do mundo” (Bodansky, 2010), em
sair se souber fazer uso da marcha ade- sala de aula do Ensino Superior. Trata-se
quada. Lembro, também, que as rodinhas de um tema relevante e atual, tendo em
da bicicleta emocional não estão presen- vista o crescente uso dos serviços das no-
tes apenas na infância. Andar com rodi- vas tecnologias, assim como os variados
nhas pode representar o sentir-se amado, “novos” fenômenos que se desdobram a
amada. Um amor atarraxado à sua condi- partir desse espaço virtual que passa a ser
ção de crescimento, um amor atrelado ao amplamente utilizado e propagado. Além
pequeno espaço seguro, que não conse- disso, enfatiza-se que as narrativas adoles-
gue vislumbrar novos caminhos a serem centes precisam ser registradas (Oliveira,
conquistados. Com a minha chegada à 2006). Optou-se pela delimitação na ado-
disciplina Psicologia da adolescência, vida lescência, por ser o público representado
adulta e velhice, apresentei o texto “Das no filme e pela possibilidade de debater
Rodinhas da bicicleta as marchas de mi- temas atuais relacionados à juventude
nha bike” logo após a exibição do filme “As brasileira. O filme foi exibido em três sa-

106
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

las de aulas, cada uma com uma média de gem do filme remeteu os estudantes (em
quarenta estudantes, que foram convida- sala de aula) a lembranças, pensamentos
dos a escreverem as reações ao filme por e sentimentos (Cavalcante Jr, 2001) acerca
meio de textos-sentidos (Cavalcante Jr, da escrita de si. Pode-se, então, conside-
2001). O filme citado apresenta cenas que rar que as histórias de vidas são carrega-
demonstram situações específicas dos das de particularidades e modos singula-
usos do ciberespaço: um blog em que um res de perceber a existência. Sendo assim,
jovem registra escritos acerca de si e uma podemos verificar momentos em que as
jovem que sofre agressividades e precon- histórias de vidas permitem às pessoas
ceitos por ter imagens íntimas expostas fazerem um processo retrospectivo: olhar
na Internet. “As melhores coisas do mun- a um caminho percorrido, para aconte-
do” foi apresentado a estudantes do En- cimentos, situações, atividades, pessoas
sino Superior da cidade de Fortaleza (CE). significativas que encontraram, destacan-
Destacaram-se, como pontos de reflexão, do que tudo o que é dito é importante,
neste estudo: 1) Manifestação da escrita no sentido de descobrir a riqueza interior
de si – pensamentos e emoções; 2) Ma- da experiência. Entende-se, assim, que se
nifestações da linguagem do preconceito, deve somar novas ferramentas estético-
intolerância e agressividade. Em ambas as -crítico-culturais no exercício pessoal e
manifestações, com características e refle- engajado de tornamo-nos sujeitos em-
xões peculiares, observam-se em comum poderados (Olinda, 2010). Recordações
a exposição da vida privada por meio das evocadas pelas pessoas mostram-se como
novas tecnologias (especificamente blo- ricos materiais para que os sujeitos enten-
gs). Tendo em vista que os serviços tecno- dam o que são (presente), porque são o
lógicos são utilizados de modo crescente, que são (passado) e para onde querem
nota-se também que a interioridade e as direcionar as vidas (futuro). Dessa forma,
vidas íntimas ganham espaço e repercu- os estudantes envolveram-se em uma
tem entre os adolescentes, de modo veloz atitude de reflexividade crítica acerca do
e ágil, propagando informações privadas mundo que nos rodeia, também escreven-
de modo amplo: tanto reflexões diárias do sobre si (Brandao, 2008). Ocorreu uma
acerca da vida e morte, como informações interação propiciada por um grupo reflexi-
da vida íntima e sexual que ganham noto- vo em sala de aula, no qual se contou, ou-
riedade pública na comunidade escolar. viu-se e representou-se imageticamente,
A possibilidade de uma hipervisibilidade conduzindo a aprendizagens biográficas.
(intencional ou não) parece haver em am- Desse modo, verificou-se a relevância de
bos os casos. Também é pertinente pensar compartilhar experiências autobiográfi-
acerca das motivações acerca das histórias cas, proporcionando reflexões e relações
dos outros (a espetacularização da vida em que as pessoas descobrirão nelas a ca-
pública, assim como um modo de anun- pacidade de utilizarem essas relações para
ciar publicamente uma importante deci- crescerem e se transformarem. Conforme
são pessoal). No primeiro ponto discutido, Delory-Momberger (2006), a história de
“1) Manifestação da escrita de si – pensa- vida é a ficção verdadeira do sujeito: é a
mentos e emoções”, percebeu-se que as história que o narrador tem como verda-
experiências de escrita do jovem persona- deira, e ele se constrói como sujeito no

107
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

ato de sua enunciação. O sujeito é objeto teriza-se como uma violência psíquica na
incessante de sua própria construção. Ve- qual se destacam atitudes intimidadoras
rifica-se que o ato de registrar por escrito conscientes com caráter de ridicularizar.
as experiências e percepções, inscreve-se Nesse caso, discutiu-se o quanto pode ser
na dinâmica do projeto de si e concretiza extremamente negativo a publicação de
uma forma particular dele, compreenden- si no ciberespaço. Neste estudo, perce-
do a vida contada como uma construção bemos um movimento que Josso (2004,
de si, sempre aberta e sempre a refazer. p. 171) denomina de uma “estranheza do
Nessa primeira discussão, percebeu-se a outro” e “estranheza de si”, ou seja, diante
publicação de si como algo transformador de relatos de experiências de vida, somos
e útil aos sujeitos. No segundo ponto tra- levados a reflexões acerca de nós mesmos.
balhado, “2) Manifestações da linguagem A partir das descrições das cenas do “As
do preconceito, intolerância e agressivi- melhores coisas do mundo”, compreen-
dade”, verificou-se a relevância de sen- de-se outras situações semelhantes que
sibilizar criativamente os estudantes em ocorrem na vida cotidiana, possibilitando
relação às questões psíquicas relaciona- assim uma significativa reflexão acerca
das ao bullying, fenômeno conhecido vul- desse tema. Espera-se, assim, promover
garmente como assédio moral e físico em reflexões nas quais o saber psicológico
ambientes escolares, que vem crescendo possa contribuir ao entendimento desses
em vários ambientes; desde o doméstico, fenômenos.
empresas , escolas, universidades , peni-
tenciárias, forças armadas e mais recen- Palavras-chave: sala de aula, psicoeducação,
temente nos meios virtuais (ciberespaço), filme brasileiro.
onde a intolerância, discriminação e as
minorias são alvos de ataque a indivíduos
reconhecidos como mais frágeis. O filme QUANDO A MORTE É A ÚNICA
retrata exatamente o “cyber bullying”, LIBERDADE NA JUVENTUDE: “NINGUÉM
quando uma jovem é submetida a vários ESCUTA A MINHA DOR”
constrangimentos públicos. O bullying Francisco Silva Cavalcante Junior - UFC
é um problema social que deixa fissu- fscavalcantejunior@gmail.com
ras, muitas vezes, irreversíveis no sujeito André Feitosa de Sousa - FANOR
(Antunes, 2008; Bandeira, 2010; Zaine, asousa3@fanor.edu.br
2010). Tratando-se de uma pesquisa-ação
qualitativa, convidaram-se os estudantes A tríade da neurose coletiva que se agrava
do Ensino Superior pro que expressarem nos dias atuais é um problema que ocupa
reações ao filme (Cavalcante Jr, 2001), os estudos da Psicologia Humanista há
emergindo as seguintes discussões: a) longo tempo. Em uma trilogia de ações
pensar sobre o assunto, não refletido an- que findam a vida ou subtraem os anos
teriormente; b) atenção para a gravidade de existência, o ser humano mata, se
do problema social; c) mobilizar-se com as mata ou se droga (Frankl, 2010). De todos
situações vividas pela jovem personagem. os tipos de morte, o suicídio é analisado
Considerou-se, no filme, que o (cyber) como o problema mais alarmante da vida
bullying sofrido pela adolescente carac- (Hillman, 2009). Entretanto, em nenhuma

108
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

população do mundo, a aceitação da dizendo ter desistido da vida, que não


morte é recebida de forma natural quando aguentava mais...”. Analisamos, portanto,
acontece na juventude (Armstrong, o papel do professor de Psicologia do
2011). No caso do suicídio, torna-se ainda Desenvolvimento no contexto de uma
mais desafiadora a sua compreensão. juventude que sofre e pede ajuda ao
Abordando as várias facetas da juventude professor “da área”, muitas vezes o
no Brasil, a temática do suicídio também único profissional psicólogo no âmbito
está presente no filme “As melhores dos cursos de licenciatura para os quais
coisas do mundo” (Bodansky, 2010). Nele, esta disciplina é obrigatória. Por outro
acompanhamos o sofrimento do jovem lado, desenvolvemos a proposta de
Pedro (interpretado por Fiuk) para quem o que a abordagem da morte e do morrer
blog é o principal veículo de expressão de em cursos de graduação torne-se uma
suas emoções: “Ninguém escuta a minha temática transversal que não fique
dor... Podem te arrancar os braços, as restrito à disciplina de Psicologia. O
pernas... mas sem a alma, você é apenas conhecimento de teorias sobre a morte e
uma caixa de ovos boiando por aí... O meu o morrer, em suas orientações teóricas e
desejo comanda o meu destino e a morte suas variações culturais, pode representar
é a única liberdade”. O presente trabalho um conhecimento importante para ser
objetiva promover uma reflexão, no desenvolvido por profissionais com
âmbito da Psicologia do Desenvolvimento, diferentes formações. No caso em estudo,
sobre a morte como a única liberdade precedido por um episódio de suicídio
encontrada na juventude e será ilustrado consumado de uma outra estudante na
com um estudo de caso de uma jovem mesma instituição, a preparação de texto
universitária, acompanhada em uma de informativo sobre a morte e o morrer
nossas disciplinas na Universidade, cuja permitiu aos professores de diferentes
vida foi colocada em risco em tentativas disciplinas, a abordagem do tema em
recorrentes de consumar a sua morte. suas salas de aula, com foco na vida como
Utilizando-se de e-mail escreveu-nos: dádiva da morte; a compreensão do fato
“professor me ajuda a morrer”. Em uma de que refletir sobre a morte pode ser um
de suas contas em redes sociais, postou importante estímulo para a descoberta do
durante dias seguidos narrativas de significado de viver de forma consciente
seu sofrimento, o que gerou uma onde (Armstrong, 2011) dos adolescentes e
de sucessivos e-mails que nos foram adultos jovens que estão na universidade.
enviados por seus colegas de turma com Os episódios inesperados narrados nesta
compartilhamento de preocupações comunicação tiveram o potencial de
e pedido de ajuda: “Eu estou muito promover importantes aprendizagens e
preocupada, tenho medo que ela consiga mudanças no corpo docente e discente:
enfim o que quer. Por favor, professor, o interesse pelo estudo dos temas
tenta fazer alguma coisa.” Um outro dizia: integrantes do ensino da Psicologia
“Estou a lhe enviar este e-mail pelo motivo do Desenvolvimento foi despertado;
do sr. ser da área e sabe como lhe dar docentes e discentes passaram a escutar
com pessoas como ela. Recentemente ela mais atentamente as dores de seus alunos
tem colocado... mensagens depressivas, e colegas, e um programa de tutoria para

109
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

os estudantes de graduação foi priorizado. abrange o debate teórico e possibilidades


Por fim, renovamos o potencial de uma de intervenção partindo das contribuições
aprendizagem que emerge da experiência, de duas importantes abordagens, a Psica-
conforme difundiu amplamente Carl nálise e a Centrada na Pessoa. Abrangem
Rogers (1983: 22) na Abordagem Centrada também atividades de extensão universi-
na Pessoa: “Aprender, e especialmente tária realizadas, que enfocaram, no caso
aprender com a experiência, tem sido um dos trabalhos de base psicanalítica, so-
elemento fundamental que faz com que a bretudo as situações advindas de relações
vida valha a pena”. familiares disfuncionais que favorecem o
recrudescimento da agressividade e a ma-
Palavras-chave: juventude, ciclos de vida, nifestação da violência, e que culminam
suicídio. em problemáticas no campo da saúde e
da escola, dificultando o desenvolvimento
saudável da criança, do adolescente e do
MR LT01 - Mesa Redonda adulto. Os diferentes enfoques trazem em
comum a importância da clínica, que não
Convidada se coloca à parte das questões sociais que
envolvem o desenvolvimento humano,
mas permite direcionamentos que visem
MR LT01-1304 - A ÉTICA DO CUIDADO
ao cuidado às famílias, à subjetividade de
NO PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO
seus membros e às relações interpessoais
HUMANO: COMPREENDENDO AS
que ocorrem em seu seio. Assim, esses
RELAÇÕES FAMILIARES
direcionamentos não se orientam por ati-
Maria Regina Basílio Teodoro Dos Santos - tudes de avaliação, julgamento e medidas
UNIUBE de correção, mas sustentam modos de
Vilma Valeria Dias Couto cuidar que garantem a autonomia e a in-
Conceição Aparecida Serralha dependência das famílias.

O conjunto de trabalhos apresentados


nesta mesa redonda propõe discutir o de- A ÉTICA DO CUIDADO: PLATAFORMA
senvolvimento humano como corolário do E VIA DE POSSIBILIDADE DO
cuidado propiciado pelo ambiente fami- DESENVOLVIMENTO HUMANO3
liar, bem como pelos espaços educacionais Conceição Aparecida Serralha – UFTM
que complementam este cuidado. Discute serralhac@psicologia.uftm.edu.br
a importância dos papéis parentais e as re-
lações que se estabelecem dentro da famí- MEC/SESu/DIFES – PROEXT 2010
lia, independentemente da configuração
que esta apresenta. Atenta para a questão Em se tratando de bebês e crianças pe-
ética do cuidado, que deve estar presente quenas, uma rede de cuidados, que se
não só em um contexto natural de cuida-
do, mas também em toda e qualquer in-
3
tervenção político-social, educacional e Agradeço à FAPEMIG o apoio para a apresentação deste
trabalho no VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do
profissional de apoio à família. A proposta Desenvolvimento

110
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

caracteriza por articulações que diversi- condição de poder desejar, e é a essa sa-
ficam, integram e ampliam os cuidados tisfação que podemos relacionar uma éti-
oferecidos, tem se expandido abarcando ca, uma vez que a dependência do ser hu-
a mãe e a relação mãe-bebê, bem como a mano de outro ser humano para a satisfa-
relação educador-criança. Contudo, essa ção de suas necessidades é um fato. Isso
rede ordinariamente tão necessária, me- implica uma responsabilidade de atender
rece cuidados ela própria, pois, em alguns ao que o bebê necessita de uma maneira
casos pode alterar-se rapidamente, asse- que favoreça o desenvolvimento de suas
melhando-se mais a outro tipo de rede tendências herdadas, que lhe possibilite a
(de pesca) com uma característica apri- sua pessoalidade. Este estudo pretende,
sionadora, imobilizadora e sufocante, do portanto, discutir a natureza e a qualida-
que a um apoio efetivo que leve em conta de do cuidado ao indivíduo, as caracte-
as reais necessidades dos envolvidos. A rísticas do ambiente cuidador, a relação
ideia de que se pode ter um método, uma deste com a cultura em que se insere e
técnica, ou um saber mais certo e perfeito da qual sofre influências, que são impor-
que outros tende a se implantar com incrí- tantes para o desenvolvimento de suas
vel facilidade. Isso nos faz pensar sobre a tendências herdadas ou geneticamen-
questão ética envolvida nos cuidados que te determinadas. Tem por base a teoria
são oferecidos, pois chama a nossa aten- do amadurecimento de D. W. Winnicott,
ção sobre os equívocos gerados a partir bem como experiências em atividades de
de determinados saberes. A psicanálise, extensão realizadas com profissionais da
em suas várias escolas ou abordagens, educação infantil e familiares de crian-
discute a questão ética relacionada à na- ças na primeira e segunda infância, que
turalização das necessidades humanas e apresentavam alto grau de agressividade.
a proposição de cuidados universalizada e Para tanto, foram realizadas leituras de
utópica, que retira a dimensão subjetiva textos winnicottianos e outros autores,
daqueles que recebem e fornecem cuida- bem como observações dos ambientes
dos. De acordo com Motta (2011), “a éti- da criança, encontros com educadores e
ca do cuidado,” [pensada pela psicanálise, cuidadores, que possibilitaram diálogos
...] é a do cuidado enquanto experiência importantes para a troca de conhecimen-
essencialmente humana, se tiver por di- tos, dúvidas e angústias próprias ao edu-
reção a localização subjetiva”, “não se re- car/cuidar. Sem um reconhecimento das
fere a nenhum código [...] se refere ao su- questões inconscientes envolvidas no cui-
jeito, enquanto sujeito do desejo incons- dado, uma ênfase em instruções técnicas
ciente (p. 149)”. Winnicott (1989/1994), para este é cada vez mais realizada, ob-
entretanto, considerou-se “a figura de jetivando o atendimento às necessidades
proa do movimento no sentido de um da criança para um desenvolvimento inte-
reconhecimento da satisfação da neces- gral saudável. As atividades de extensão
sidade como mais inicial e fundamental realizadas permitiram ver que, se por um
que a realização de desejos” (p. 357), sem lado, a partir do momento que essa no-
deixar de considerar o bebê necessitado ção de cuidado é difundida, mais e mais
como uma pessoa. É essa satisfação que pessoas reconhecem o seu valor e se em-
irá possibilitar ao ser humano chegar à penham em oferecer cuidados adequa-

111
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

dos aos bebês e crianças pequenas, como sempre esses ambientes serão possíveis.
também apoio às mães e às famílias; por Correlatamente, podemos entender a im-
outro lado, vê-se crescer a construção de portância de várias políticas públicas, que,
projetos de “escolas de pais”, “educação apesar de não serem ideais, podem aten-
em saúde”, “orientações aos pais”, que der minimamente às necessidades das
passam a exigir condutas adequadas por crianças e de suas famílias, o que é essen-
parte das mães e dos pais, sem considerar cial, mas o que não quer dizer conseguir
seus contextos de vida e seus padrões de que elas alcancem um amadurecimento
defesas individuais. Além disso, a “mãe psicossomático. Para esse alcance, é ne-
suficientemente boa”, pensada por Win- cessária a presença de alguém que esteja
nicott (1988/1990), perde sua condição física e emocionalmente bem, “vivo”, ca-
de adequação às necessidades de seu paz de ver e ouvir este bebê, ou criança,
próprio bebê e se torna uma mãe pa- como uma pessoa que tem necessidades
dronizada, repleta de instruções a serem próprias e preferências, podendo atendê-
seguidas, ignorando individualidades e -las; e não é raro o fato de que esse al-
subjetividades. Esse tipo de vivência, em guém não seja a própria mãe, até porque
graus variados, pode ser frequentemen- a esta pode estar faltando o apoio e a
te encontrada. Crianças rotineiramente sustentação emocional necessários a um
estimuladas e obrigadas a dar conta do cuidador. O cuidado essencial não pode
que não conseguem entender ou que não ser automático ou mecânico e, como bem
conseguem dar um único sentido sequer, disse Winnicott (1988/1990), desde que
fomentando a criação de novos diagnós- seja um cuidado propiciado por um am-
ticos psiquiátricos, que abarquem sua biente humanamente envolvido, pode até
desorganização. Os pais e os educado- ter falhas. O ambiente pré-escolar espe-
res, enquanto crianças que, muitas vezes, cialmente pode complementar bem esse
cresceram sob esse tipo pressão, se vêm papel. Contudo, compreender as ques-
agora pressionados a cuidar/educar, sem tões das relações primárias da criança,
uma base da qual possam se sentir segu- que afetam o seu desenvolvimento e de-
ramente apoiados. As reações de negati- sempenho escolar, não retira a importân-
vidade não são incomuns, e os cuidados cia de se pensar sobre as multidetermina-
que poderiam ser naturalmente intuídos ções dos problemas encontrados tanto no
a partir de uma sustentação emocional cotidiano familiar quanto escolar, ou seja,
adequada, não são realizados por recusa, sobre as características macrossociais e
negligência ou indiferença. E então, os culturais também na constituição desses
profissionais responsáveis pela “educação problemas, para que mudanças sejam
em saúde”, ou “pela educação continua- promovidas.
da”, não entendem, e se perguntam por
que os pais e os educadores não realizam Palavras-chave: ética do cuidado;
as orientações dadas e aprendidas. Por agressividade; ambiente.
mais que tenhamos consciência da im-
portância de ambientes suficientemente
bons para o amadurecimento emocional
de nossas crianças, sabemos que nem

112
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

A IMPORTÂNCIA DAS a apreciação desta. A consideração positi-


RELAÇÕES FAMILIARES PARA O va incondicional sugere um cuidado não-
DESENVOLVIMENTO -possessivo, como forma de apreciação
Maria Regina Basílio Teodoro dos Santos – do outro como uma pessoa individualiza-
UNIUBE da, a quem é permitido ter os seus pró-
reginabasilio@terra.com.br prios sentimentos e experiências. Con-
gruência, por sua vez, pode ser entendida
A concepção e existência do outro origi- como atitude de integrar-se, vivenciando
na-se numa díade e conclui-se numa trí- plenamente os sentimentos que fluem na
ade ou grupo maior. A organização dessa pessoa no momento. A pessoa está con-
vivência e de sua dinâmica, observados os gruente quando está livre e é profunda-
papéis de cada membro, indubitavelmen- mente ela mesma. Por isso, ser congruen-
te, favorece a manutenção da homeosta- te significa ser real e genuíno. São estas
se familiar. atitudes que permitem o crescimento e a
atualização das potencialidades criativas e
Em se tratando de abordagem, a Centra- positivas dos indivíduos em qualquer for-
da na Pessoa prima pelas relações inter- ma de relação interpessoal. Isto nos ajuda
pessoais. A mesma parte do pressupos- a compreender a amplitude do campo de
to de que em todo indivíduo existe uma aplicação da Psicologia através da referida
disposição à atualização, uma tendência abordagem, incluindo as áreas da psico-
inerente ao organismo para o crescimen- terapia, educação, resolução de conflitos,
to, desenvolvimento e atualização de suas relações familiares, grupos de encontro,
potencialidades numa direção positiva e grupos de crescimento e grandes grupos
construtiva. Esta tendência promovida de comunidade. Segundo Rogers (2009),
em uma relação interpessoal é cercada como conseqüência de uma psicoterapia
por atitudes de empatia, consideração centrada no cliente, os clientes modifi-
positiva incondicional e congruência. Por cam sua vida familiar, da seguinte manei-
empatia entende-se que é a atitude de ra: expressam melhor seus sentimentos
tentar se colocar no lugar da outra pessoa – retiram a máscara que usavam; as rela-
e tentar "ver com os olhos dela". É com- ções podem ser vividas numa base real –
preender a pessoa a partir de seu quadro o cliente descobre que pode-se viver uma
de referência; neste sentido, na situação relação com base nos sentimentos reais,
familiar, consideram-se todos os aspec- podendo exprimir sentimentos de ver-
tos que constituem a pessoa como idade, gonha, de angústia e de aborrecimento
estrutura em todos os sentidos, persona- e que a relação sobrevive a isso, em vez
lidade e outros. Para isto, é preciso dei- de fundar numa aparência defensiva; me-
xar de lado nossas próprias perspectivas lhora a comunicação nos dois sentidos:
e valores para poder penetrar no mundo compreendem a fundo as idéias e os sen-
do outro sem julgamentos. Por conside- timentos de outra pessoa e é compreen-
ração positiva incondicional, entende-se dido por ela, isso é uma das experiências
que é a atitude de aceitar cada aspecto mais humana, rara e compensadora; e,
da experiência da uma pessoa e não co- finalmente, desejar que o outro seja inde-
locar condições para a aceitação ou para pendente – os clientes tendem a permitir

113
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

que cada membro da família tenha seus “à medida que eu aceito melhor ser eu
próprios sentimentos e seja uma pessoa mesmo, descubro que me encontro mais
independente. Em se tratando, especifi- preparado para permitir ao outro ser ele
camente das relações familiares, pode- próprio, com tudo o que isso implica. Isso
mos dizer que a família é um contexto significa que o círculo familiar tende a
único e dinâmico para o desenvolvimento encaminhar-se no sentido de se tornar
do ser humano. Portanto, para se falar em um complexo de pessoas independentes
desenvolvimento é necessário compreen- e únicas, com valores e objetivos indivi-
der o indivíduo nesse contexto. A família dualizados, mas unidas por verdadeiros
é algo singular e complexo, especialmen- sentimentos – positivos e negativos – que
te se for considerado a forma como as existem entre elas, e pela satisfação do
relações acontecem nesse conjunto. Po- laço da compreensão recíproca de, pelo
deríamos dizer: famílias – meio ambien- menos, uma parte do mundo particular
te/cultura - problemas/conflitos - possibi- de cada um dos outros. É desse modo
lidades de soluções. A condição familiar, que as pessoas descobrem maior satisfa-
por mais complexa que seja, nos remete ção nas relações familiares, o que facilita,
ao sentimento de pertencer a um grupo, em cada membro da família, o processo
nos tirando da solidão, que, segundo Ca- de descobrir-se e de vir a ser ele mesmo.”
mon (1993), “na maioria das vezes, é di- (Rogers, 2009). No que se refere às rela-
retamente associada com desespero, so- ções familiares é fundamental discutir so-
frimento e com o suicídio.” Segundo este bre contexto histórico, social e econômico
autor, é como se, suportar a questão de em que as pessoas estão inseridas, enfim,
ser só, fosse dicifil ou desesperador para a analisar a diversidade cultural existente.
maioria das pessoas. Camon, ainda com- Pois as alianças e os conflitos existentes
pleta que a solidão distancia quando se nas relações familiares, influenciam, sig-
mantem um relacionamento estreito ou nificativamente, no comportamento e
íntimo com uma pessoa que se ama, com desenvolvimento das pessoas, especial-
a qual se tem proximiadade e afinidade. mente, crianças e adolescentes. Assim,
E a conclusão inevitável a que se chega pode-se dizer que a família, enquanto um
é “cada um é um”, porém, como parte espaço em que se pode desenvolver uma
de um grupo ou de uma família (Camon, comunicação aberta entre os membros e
1993). De acordo com Rogers (2009), ve- eles podem expressar seus desejos e pre-
rifica-se que um indivíduo pode encontrar ocupações, favorece sobremaneira a coe-
satisfação em exprimir atitudes emocio- são do próprio grupo familiar.
nais fortes no contexto em que surge, no
caso, no contexto familiar. Dessa forma, Palavras-chave: Família. Conflito.
para este autor, a pessoa descobre que Compreensão.
é melhor viver em condição mais real do
que numa relação dissimulada, exprimin-
do mais livremente, renunciando atitudes
defensivas e ouvindo o outro. Compreen-
dem, assim, o que a outra pessoa sente e
porque é que sente. Salienta, ainda que,

114
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

A RESPONSABILIDADE DOS PAIS NA compreensão da influência dos pais na


PROBLEMÁTICA DA AGRESSIVIDADE DOS questão emocional próprias à adolescên-
ADOLESCENTES cia. Consideramos também a influencia da
Vilma Valeria Dias Couto - UFTM dimensão da cultura nas características da
vilmacouto@psicologia.uftm.edu br família contemporânea que dificulta a su-
peração da experiência da adolescência e
MEC/SESu/DIFES – PROEXT 2010
contribui para o aumento da agressivida-
de e violência dos adolescentes. Em torno
Na atualidade uma das problemáticas que
da família de um adolescente dito agres-
perpassa a adolescência diz respeito à re-
sivo normalmente circulam discursos que
corrência das manifestações de agressivi-
culpabilizam os pais pelas dificuldades dos
dade e violência. As estatísticas revelam o
filhos. É freqüente ouvirmos falas que re-
impacto da violência na população adoles-
metem para uma lógica de compreensão
cente. Estudos mostram que a violência é
das perturbações dos adolescentes como
um dos fatores determinantes nos índices
decorrente de famílias desestruturadas,
de mortalidade na adolescência e apon-
pais ausentes, negligentes ou permissivos
tam os jovens como os seus autores (Mi-
demais. Somando a este entendimento
nayo, 1990; Adorno, Lima & Bordini, 1999;
generalizante e culpabilizante, encon-
Waiselfisz, 1998). Essa situação exige dos
tramos estudos (Rutter, 1961, citado por
profissionais diferentes possibilidades de
Marcelli & Branconnier, 2007) que asso-
compreensão e enfrentamento que os le-
ciam as dificuldades dos adolescentes aos
vam a propor intervenções nos contextos
indicadores de patologia familiar de divór-
clínico, social, educacional e familiar. Com
cio, separação dos pais, doença mental e
base num projeto de extensão universitá-
alcoolismo parental.
ria que sustenta intervenções junto a ado-
lescentes de uma instituição socioeduca- Buscando avançar na discussão, recorre-
cional, propomos discutir a influência dos mos a Marcelli (2007) que distingue três
pais na agressividade dos adolescentes. perspectivas de análise da influência da
Uma das etapas do projeto propõe o de- família nos conflitos da adolescência. A
bate de temáticas ligadas à agressividade primeira compreende os conflitos entre
na adolescência. De um modo geral, veri- pais e adolescentes como conseqüên-
ficamos que o entendimento da agressivi- cia do processo de adolescência e desse
dade e violência do jovem é associado a modo é o adolescente que entra num em-
problemas familiares, especialmente dos bate com os pais, se opondo a eles para
pais. Essa constatação justifica a discussão marcar sua autonomia. Nesta perspecti-
da implicação dos pais na problemática da va, a revolta e hostilidade do adolescen-
agressividade do adolescente. Ainda que te dirigida aos pais é um mecanismo de
as intervenções sejam realizadas direta- encontrar-se a si mesmo e constitui uma
mente com os adolescentes, reconhece- pressão necessária para superar os laços
mos que este trabalho deve visar também de dependência com os pais. Ainda que
os pais na medida em que eles, de algu- o adolescente deprecie seus pais, ele não
ma forma, estão implicados nos conflitos deseja destruí-los como modelos para sua
que favorecem a agressividade. Neste vida adulta. Por outro lado, numa segun-
trabalho, apresentamos algumas vias de da perspectiva, alguns autores julgam que

115
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

as condutas problemas dos adolescentes ram o arranjo da família contemporânea,


resultam em grande parte de atitudes sustentam o enfraquecimento das figuras
patológicas dos pais que se vêem amea- parentais. Mayer (1997, citado por Saviet-
çados pelas tentativas de independência to, 2006), por exemplo, vai apontar a am-
do filho adolescente. Trata-se de pais frá- bigüidade do lugar ocupado por homens
geis que não suportam os esforços de se- e mulheres como pais na atualidade. Ele
paração do adolescente. Por último, uma considera que a família atual está em cri-
terceira perspectiva, agrega autores que se, e remete essa situação à falta de esta-
consideram que os conflitos entre os ado- bilidade e à incerteza que estão em jogo
lescentes e seus pais testemunham tanto no desempenho dos papéis dos membros
dificuldade do adolescente de assumir da família. Para Levisky (2001), a confusão
seu crescimento e sua autonomia como de papéis na família atual é fruto da au-
dificuldade dos pais de superarem o que sência de hierarquia dos seus membros,
é chamado de crise parental. Nesta pers- que gera uma indiferenciação entre pais e
pectiva, os conflitos do adolescente não filhos. Para ele, a falta de clareza dos pa-
são vistos simplesmente como resultado péis promove uma desorganização interna
da adolescência, mas testemunham tan- e externa que é capaz de gerar um senti-
to as dificuldades dos adolescentes como mento de insegurança no adolescente que
dos pais. Apesar destes três pontos de vis- neste momento, precisa ter ao seu lado
tas não serem excludentes, acreditamos um adulto para confrontá-lo em suas rein-
que é possível reconhecer um entre eles vidicações e ajudá-lo a pensar e a se de-
que parece mais pertinente a cada ado- senvolver. Este breve exame da influencia
lescente e sua família. Compreendemos dos pais na problemática da agressividade
que os adolescentes precisam desafiar os dos adolescentes mostra que na clínica,
pais, hostilizar sua autoridade já que este não só o adolescente deve ser olhado e
desafio é fundamental para o desenvolvi- escutado, mas também a própria família.
mento de sua autonomia. Os pais devem Hoje a avaliação do ambiente familiar de
suportar as provocações e os desafios de um adolescente em dificuldade deve fazer
uma forma ativa, por meio de uma postu- parte da abordagem dos profissionais. En-
ra coerente e firme. Mas como os pais de tretanto, não se trata de tomar os pais em
hoje acompanham o adolescente em sua consideração para culpabilizá-los, mas de
crise? Será que eles estão sendo capazes reconhecer a responsabilidade dos mes-
de reconhecer as reivindicações dos seus mos no processo de subjetivação do ado-
filhos adolescentes? Em acréscimo à dis- lescente. Nesta perspectiva, destacamos
cussão da agressividade dos adolescen- a proposta de intervenção clínica que en-
tes, consideramos que o funcionamento volve um trabalho de apoio narcísico pa-
da família também é influenciado pelo rental (Marty, 2006). Trata-se de uma pro-
contexto social. Estudos mostram que as posta de tratamento da agressividade que
características da família contemporânea passa pela tomada de consciência, por
dificultam a superação do processo da parte dos pais, do papel que devem exer-
adolescência. Vários autores (Roudinesco, cer na constituição do self, em particular
2003; Figueira, 1987), analisando a trans- no momento da adolescência. Os resulta-
formações socioculturais que influencia- dos do projeto de extensão apontam que

116
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

apesar das resistências é possível maior insistido, então, em expor a ideologia do


implicação dos pais na problemática dos patriarcado contemporâneo - que funda-
filhos adolescentes desde que se sintam menta, por meio da tese da naturaliza-
apoiados e não culpados pela instituição ção, as ideologias da masculinidade e da
e profissionais. feminilidade - para sustentar a necessi-
dade de reflexão sobre as práticas sociais
Palavras-chave: Adolescência. Agressividade. e institucionais vigentes e sobre nossas
Família. próprias práticas profissionais e pessoais
em relação ao gênero, que sustentam em
última análise, um processo gendrado
MR LT01 - Mesa Redonda de socialização que mantém a ideia das
chamadas escolhas profissionais adequa-
Convidada das segundo o gênero. Temos insistido
também que este processo gendrado de
socialização mantém padrões gendrados
MR LT01-785 - A CONSTRUÇÃO de emoção que mediam as aquisições
DA ESCOLHA PROFISSIONAL NO individuais. Assim, as crenças gendradas
CURSO DA VIDA: UM LOCUS DE sobre a emoção podem atuar na interpre-
INTERLOCUÇÃO ENTRE A PSICOLOGIA tação dos indivíduos sobre suas próprias
DO DESENVOLVIMENTO E A PSICOLOGIA experiências emocionais vividas em de-
DO GÊNERO. terminadas circunstâncias. Considerando
Maria Helena Fávero - UnB o exposto, esta mesa redonda discutirá,
faveromh@unb.br através de relatos de pesquisas as seguin-
Financiamento: CNPq tes questões particulares: (a) o acesso às
diferentes áreas do conhecimento segun-
Nossas pesquisas têm focado o desen- do o gênero e suas implicações na escolha
volvimento psicológico e a Psicologia profissional; (b) a desigualdade da parti-
do Conhecimento e elas nos ensinaram cipação de homens e mulheres nas áreas
que as áreas de conhecimento mantêm de ciências e tecnologia; (c) o ensino e a
representações sociais próprias e parti- aprendizagem da matemática como um
culares e que essas se articulam com os filtro crítico na manutenção desta desi-
significados dos papéis de gênero. Há gualdade; (d) o acesso ao conhecimento
duas décadas nossos dados já evidencia- sobre o gênero e a tomada de consciên-
vam que em uma situação de resolução cia da sua relação com a própria subjeti-
de problemas o desempenho dos alunos vidade; (e) a implicação da consideração
e das alunas variava se as informações do gênero na pesquisa desenvolvimental.
para a realização da atividade eram da- Em suma, por meio do aporte e da arti-
das por um homem ou por uma mulher. culação entre a Psicologia do Desenvolvi-
Temos desenvolvido uma linha de pes- mento, a Psicologia do Conhecimento e a
quisa para nos dedicarmos ao estudo Psicologia do Gênero esta mesa redonda
da Psicologia do Gênero tendo em vista abordará ambos: as interações particula-
uma maior compreensão dos processos res de gênero na construção e na media-
psicológicos desenvolvimentais. Temos ção do conhecimento científico e que tais

117
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

interações particulares dizem respeito à filiamos aos significados do feminino e do


igualdade de gênero, educação e cidada- masculino (Fávero, 2010a). Temos assumi-
nia democrática inclusiva. do dois desafios. O mais óbvio é evidenciar
a manutenção da ideia de que homens e
Palavras-chave: Socialização de papéis de mulheres constituem duas categorias dife-
gênero; Escolha profissional, Cidadania. rentes de indivíduos; o mais sutil diz res-
peito às noções de objetivo e de subjetivo,
culturalmente e historicamente associa-
ESCOLHA PROFISSIONAL E GÊNERO: dos a essas duas categorias: a objetivida-
UMA RELAÇÀO QUE DEMANDA UMA de, associada à razão, à masculinidade e ao
PSICOLOGIA REFLEXIVA E CRÍTICA. mundo público; a subjetividade, associada
Maria Helena Fávero - UnB à afetividade, à feminilidade e ao mundo
faveromh@unb.br privado. Por exemplo, em um estudo so-
Financiamento: CNPq bre as representações de gênero com es-
tudantes universitários, professores e pais
O consenso nas publicações sobre episte- de alunos obtivemos, frente à questão “Na
mologia, filosofia e história da psicologia sua vida escolar, entre professores e pro-
critica a ideia de se considerar os chamados fessoras, qual ou quais lhe marcaram mais,
vieses culturais e políticos como um pro- eles ou elas? Por quê?” duas proposições-
blema metodológico e defende o interesse -chave: as professoras são mais afetivas;
nos vieses sociais e históricos do conhe- os professores são mais competentes. No
cimento científico (Janice Haaken, 1988; geral, as professoras foram relacionadas às
Ronald Mather, 2000; Jill Morawiski, 2005; áreas sociais e humanas e os professores
Jan Smedslund 2009; Kenneth J. Gergen, às áreas exatas (Fávero & Salgado, 2006).
2010). Neste consenso, a perspectiva femi- Em outro estudo, a análise dos atos da
nista tem insistido na constituição de uma fala produzidas em grupos focais (Fávero,
psicologia reflexiva e crítica que considere 2007 b) de professores indicaram 5 temas
as dinâmicas do gênero (Jill Morawiski, predominantes: 1º – gênero e exercício do
1997; 2005). Assumindo esta perspectiva magistério nas séries iniciais – evidencian-
temos defendido a tese da interação dia- do duas proposições: a sociedade espera
lética entre o ser humano e a sociocultura que a mulher alfabetize; a instituição esco-
para evidenciar a importância do gênero lar concorda; 2º – a competência masculi-
nessa interação, tanto nas construções na no magistério – foco na racionalidade,
pessoais como nas socioculturais (Fávero, autoridade e controle, segundo a premissa
2010 a; 2010 b). Assim, temos procurado de que a figura masculina impõe respeito;
fundamentar a articulação entre desenvol- 3º – magistério e maternagem – sensibili-
vimento, conhecimento e gênero, defen- dade, natureza e cuidado fundamentaram
dendo que o plano do funcionamento in- a premissa de que a relação entre magis-
terno não é dado: ele é construído (Fávero, tério, mulher e maternagem é natural; 4º
2007 a). É nessa perspectiva que entende- – habilidades femininas – separação entre
mos a socialização: uma construção gen- áreas de conhecimento e gênero: a mulher
drada cujo ponto central reside no modo apresenta, naturalmente, mais habilidades
como entendemos a emoção e como a linguísticas, artísticas e manuais; 5º – o

118
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

homem como chefe de família e provedor nas se esforçam para aprender, mas “não
–os sujeitos defendem melhores salários, têm o raciocínio matemático desenvolvi-
não pelo magistério em si, mas por serem do”. Levando tais premissas para a discus-
homens e provedores (Fávero & Salgado, são com alunos da 9ª série, entre 14 e 15
2007). Estes dados confirmam a análise anos, obtivemos concepções distintas: “as
de Abramo (2004) e Anzorena (2008). Ou meninas são mais inteligentes na mate-
seja, um sistema de diferenças como o gê- mática”; “elas são mais maduras”; “elas
nero, torna-se um princípio organizador estudam mais”; “aprendem com mais fa-
das relações sociais: como os homens e cilidade”; “a maioria dos meninos só quer
mulheres mantêm intensa interação, seja ‘vadiar’” (Alves & Fávero, 2010). Por outro
no contexto privado, como nos contextos lado, nossas pesquisas de intervenção com
públicos, o gênero difere de outras formas estudantes com dificuldade em matemáti-
de desigualdade; esta interação constrói ca (Fávero, 2007 c) apontam como Dweck
experiências que confirmam, ou poten- (2007) que, ver a competência em mate-
cialmente determinam as crenças sobre mática como um dom fixo e “natural”, leva
as diferenças e desigualdades de gênero os estudantes a questionarem sua própria
(Ridgeway e Smith-Lovin, 1999; Ridgeway capacidade e perderem a motivação quan-
e Correl, 2004). Portanto, defendemos que do encontram dificuldades; ver a compe-
a escolha profissional é uma construção tência como um processo de desenvolvi-
vinculada a uma socialização gendrada. mento leva-os, diante de dificuldades, a
Estas questões nos permitem focar duas procurar procedimentos ativos e efetivos.
questões particulares: 1. A desigualdade Nossos estudos têm nos permitido ampliar
da participação de homens e mulheres nas esta discussão para a questão mais ampla
áreas de ciências e tecnologia; 2. O ensi- da relação entre conhecimento e cidada-
no e a aprendizagem da matemática como nia e de trazer à pauta de discussão, “no
um filtro crítico na manutenção desta de- contexto das diferentes áreas do conheci-
sigualdade, já que está no centro das cren- mento científico, a relação entre ensino, fi-
ças parentais sobre as escolhas ocupacio- losofia e cidadania, com o intuito de tornar
nais tidas como “apropriadas” aos papéis explícita a possibilidade efetiva de conside-
de gênero (Watt e Eccles, 2008). Igualmen- rar a responsabilidade humana e cidadã e
te, os professores e professoras têm ex- pleitear que a instituição escolar assuma,
pectativas diferentes para alunos e alunas por princípio, educar o cidadão e prover
particularmente no caso da matemática e educação para a cidadania” (Fávero, 2009,
isto se inicia muito cedo na escolarização p.16). Por isto mesmo concluímos, parti-
(Mosconi, 2001). Comprovamos isto em lhando os aspectos consensuais dos es-
um estudo sobre as concepções de profes- tudos da linha de pesquisa que focamos
sores e professoras de matemática: para as aqui: 1. Pleitear uma educação que funda-
professoras, as alunas têm bom desempe- mente, por meio de sua prática, uma rela-
nho em matemática porque se esforçam; ção entre igualdade de gênero, pedagogia
os alunos estão prontos para o raciocínio e cidadania (Arnot, 2006; Enslin e Tjiattas,
matemático; para os professores, as alu- 2006); 2. Conquistar justiça social, tanto no
nas tendem naturalmente para as áreas nível doméstico como no nível global (Ho-
humanas e os alunos para as exatas; as alu- well, 2007); 3. Sustentar a tese segundo

119
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

a qual a afirmação dos direitos humanos ofreciendo así, subsidios para la Psicología
universais caminha junto com a decisão de cognitiva y educativa (ver Watson & Mor-
desafiar a distinção entre público e privado ritz, 2001). Presentamos los resultados de
(Kaplan, 2001). estudios en lo que hemos propuesto tare-
as sobre el contenido de dos conjuntos de
Palavras-chave: psicologia critica; socialização cajas de fósforo de diferente marca (X e
gendrada e escolha profissional; cidadania. Y), que involucra en su solución la media
aritmética, la mediana y la moda, a estu-
diantes de ambos sexo, de quinta y octava
LA RESOLUCIÓN DE PROBLEMAS: serie de enseñanza fundamental, de una
INDICIOS ACERCA DE EL PROCESO DE escuela de Brasilia, DF (150 estudiantes) y
CONSTRUCCIÓN DE LA ESCOGENCIA DE de dos escuelas de Popayán, Colombia (85
UNA PROFESIÓN estudiantes). En cada una de las 3 tareas
Yilton Riascos Forero - UNICAUCA/COLÔMBIA se buscaba que los estudiantes determi-
yirifo@gmail.com naran la marca de fósforos que, segundo
Maria Helena Fávero - UnB/DF los datos presentados tendrían más con-
fáveromh@unb.br. tenido en sus cajas: “Las empresas X e Y,
fabrican fósforos que venden en cajitas.
La literatura nacional e internacional en- Todas las cajas presentan una etiqueta que
fatiza la importancia de la relación entre indica 40 fósforos de contenido. Se sabe,
género, ciencia y matemática y la relación por observación y conteo que algunas ca-
entre desarrollo psicológico, conocimiento jas no siempre tienen el mismo número
y género (Fávero, 2010 a). Se trata de una de fósforos. Algunas veces ellas presentan
cuestión de punta que compara la igual- más o menos cantidad de fósforos; otras
dad en el acceso al conocimiento entre los veces, presentan efectivamente la canti-
géneros; sobre todo las áreas de ciencia dad indicada (40)”.Se evidenció diversos
y tecnología y su relación con las creen- comportamientos en el desarrollo de es-
cias culturales sobre género. Defendemos trategia para la resolución, encontrando
como Fávero (2010 b) que las instituciones que las estrategias de mayor complejidad
educativas, lugar donde tales creencias las desarrollaron los estudiantes brasile-
están en juego, deben ser consideradas a ros. De las estrategias identificadas, se en-
través de la articulación entre a psicología contró con más frecuencia la de sumar los
del desarrollo, la psicología del género y la valores; pocos estudiantes utilizan divisi-
psicología del conocimiento. La resolución ón y tablas de frecuencias.Se identificó un
de problemas se presta para esto porque comportamiento diferente entre las alum-
evidencia las interacciones entre regula- nas de 5ª serie y las de 8ª serie, contrario
ciones cognitivas y regulaciones sociales y al de los estudiantes hombres respecto al
expone el papel de la mediación semiótica número de tareas no resueltas. En el caso
en el desarrollo psicológico (Riascos & Fá- de los alumnos brasileiros, todos los de
vero, 2010). En particular, la resolución de sexo femenino de la 5ª serie procuraron
problemas estadísticos evalúa la lectura, desarrollar una estrategia para resolver
análisis e inferencia sobre la distribución el problema, mientras que el 18,42% de
de los datos y los conceptos estadísticos, los de sexo masculino no lo hicieron; este

120
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

dato se invierte en la 8ª serie: 27,91% de O GÊNERO DA MATEMÁTICA NA


los de sexo femenino no desarrollan una FORMAÇÃO PSICOPEDAGÓGICA: O
estrategia de resolución, para 10% de los DESAFIO DA PESQUISA NA DOCÊNCIA
de sexo masculino que no lo hicieron. Este Regina da Silva Pina Neves - SBEM
dato no fue observado en los estudiantes reginapina@gmail.com
colombianos, sin embargo se observó el Maria Helena Fávero - UnB
uso de estrategias más simples por los alu- faveromh@unb.br
mnos de sexo femenino. Las conclusiones
corroboran las evidencias de otros estu- Da última década do século passado para
dios (Berger, 2004; Fávero e Soares, 2002; cá, houve uma ampliação significativa do
Gonzalez-Pienda & Coll., 2006; Fernandes número de mulheres na Educação Básica
& Healy, 2007; Fávero, 2009; Fávero & Pina e no Ensino Superior (Godinho, 2005; Ris-
Neves, 2009; Muniz, 2009) y apuntan a las toff, 2006): as mulheres superaram os ho-
dificultades de los alumnos brasileiros y mens em escolaridade; estão em maior
colombianos en la utilización de instru- número nas áreas de humanas e biológi-
mentos matemáticos en la solución de los cas; os homens estão em maior número
problemas propuestos; la interacción par- nas áreas de exatas e, isto permanece nos
ticular del medio escolar con la lógica del cursos de pós-graduação (Chamom, 2005;
sistema numérico decimal y su notación y INEP, 2011). Fávero (2010) discute essas
una práctica de enseñanza que se viabiliza diferenças argumentando que é necessá-
a través de reglas no efectivas en la media- rio compreender a natureza das relações
ción de este sistema lógico y su utilización que crianças, adolescentes, jovens e adul-
como instrumento para la construcción tos têm construído com as diferentes áre-
de nuevos instrumentos de pensamien- as de conhecimento e como tais relações
to, como analizado por Fávero & Soares têm influenciado a escolha profissional.
(2002); la importancia de la enseñanza de Assim, Fávero (2010) defende uma linha
la estadística en currículo de matemática de pesquisa particular, focada na investi-
de enseñanza fundamental; la importan- gação da escolha “profissional de postos
cia de considerar la articulación entre el relacionados à ciência, matemática e tec-
género y la enseñanza y el aprendizaje de nologia; sobre a permanência da mulher
las diferentes áreas del conocimiento de nas carreiras tecnológicas e sua relação
modo que se pueda asegurar la paridad com os fatores emocionais; a relação en-
entre los géneros en lo que respecta a las tre gênero e tempo dedicado ao trabalho
profesiones relacionadas con la ciencia, (p.188).” Dentro dessa linha de pesquisa,
la tecnología, las ingenierías, como pro- temos desenvolvido estudos focados par-
puesto por Fávero, 2010 a ; el papel de la ticularmente na formação de pedagogas e
psicología en esta cuestión, que se refiere psicólogas, estudantes de pós-graduação
a la escogencia de una carrera profesional em psicopedagogia de uma universidade
y, en última instancia, respecto a la cons- pública. Temos perseguido o duplo desa-
trucción de la ciudadanía. fio de, primeiro, definir um procedimento
didático para abordar o estudo do desen-
Palabras-clave: resolución de problemas, volvimento de competências conceituais
desarrollo cognitivo, género. em matemática como uma disciplina do

121
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

curso em questão, considerando-se que de uma abordagem qualitativa segundo


ele deve responder à necessidade de dis- os quais existe um viés cultural relaciona-
cutir as questões pertinentes à Educação do com gênero no desenvolvimento dos
Matemática e, ao mesmo, mediar o co- currículos de matemática (isto é, exem-
nhecimento matemático. Segundo, tal si- plos mais relacionados com o universo
tuação didática deve se constituir em um simbólico de meninos, a partir sexto ano,
lócus de pesquisa. Assim, num primeiro por exemplo) e com a própria prática di-
estudo, apresentamos a 26 pedagogas dática, como diferentes tipos de pergun-
e 6 psicólogas, estudantes do já referido tas e incentivos para meninos e meni-
curso, duas tarefas: a resolução de uma nas (Walden e Walkerdine, 1985; Freire,
situação-problema e a análise dos regis- 2002; Andrade et al, 2003; Souza, 2008).
tros de sete alunos produzidos na resolu- Insistindo na perspectiva de que a docên-
ção de três situações-problema. Os resul- cia universitária pode e deve ser um lócus
tados evidenciaram que, no geral, as par- de pesquisa, recentemente desenvolve-
ticipantes descreviam o erro sem levantar mos um terceiro estudo junto aos atuais
hipóteses, atribuindo-o ao aluno e apre- estudantes do curso já mencionado, com
sentavam um discurso construtivista, in- o intuito de refinar nosso procedimento
compatível com suas respostas e dúvidas didático com os seguintes objetivos: 1/
conceituais (Fávero & Pina Neves, 2009). compreender como avaliam a relação
No segundo estudo colocamos em expe- que estabeleceram com a matemática,
rimentação um procedimento didático seu ensino e aprendizagem ao longo da
focado na relação entre resolução de pro- sua escolarização; 2/ analisar o seu de-
blemas, didática e história da matemáti- sempenho sobre a conceituação mate-
ca, visando capacitá-los a intervir como mática relacionada a tópicos curriculares
psicopedagogos na mediação do conhe- presente na Educação Básica, 3/ compre-
cimento matemático na prática clínica e ender como a crença sobre sua própria
institucional. Evidenciou-se que a maio- competência impacta sua futura prática
ria associava a matemática ao medo, ao profissional de psicopedagogo. Participa-
fracasso e à dificuldade. O procedimento ram 23 mulheres, entre 23 e 48 anos, pro-
didático que desenvolvemos desarticulou venientes dos cursos de fonoaudiologia,
tal associação e desenvolveu: a compe- psicologia e pedagogia. Tendo em vista os
tência para analisar a notação de alunos e objetivos anunciados, lhes propusemos
colegas segundo o campo conceitual nos uma atividade em quatro etapas: 1ª / res-
quais as resoluções se inseriam; a com- ponderam perguntas que identificavam
preensão da mediação e da notação na idade, formação, local de trabalho, ativi-
conceituação matemática; a tomada de dade desenvolvida, atuação profissional;
consciência sobre a importância do currí- 2ª / completaram as duas frases: “Na mi-
culo de matemática e das práticas de ava- nha vida escolar a matemática...”; “ Os
liação; a prática da pesquisa na formação professores de matemática na minha vida
inicial e continuada de professores. Nos- escolar...”, 3ª / resolveram uma situação-
sos dados corroboraram os estudos que -problema sobre conceitos algébricos e
têm investigado a relação entre gênero e geométricos, extraída do Programa Inter-
aprendizagem de matemática por meio nacional de Avaliação de Alunos (PISA) e,

122
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

4ª / descreveram seus sentimentos du- medo, angustia e dúvidas sobre a própria


rante a 3ª etapa. Os dados foram analisa- competência diante da tarefa. Por fim,
dos considerando-se a filiação entre com- assumem a importância de desenvolver
petências e dificuldades Fávero (2001, competências sobre o conhecimento ma-
2005b), e a natureza da tarefa proposta. temático para a sua futura prática profis-
Os dados da 1ª etapa evidenciaram atu- sional em psicopedagogia. Tais resultados
ações, como psicóloga, docente dos anos reforçam a necessidade de procedimento
iniciais, orientadora educacional e coor- didático que articule resolução de proble-
denadora educacional, todas envolvendo mas, didática e história da matemática
trabalho com crianças e adolescentes em para o desenvolvimento de competências
situação de risco, necessidades especiais matemáticas fundamentais para a prática
e situação de dificuldade de aprendiza- profissional em psicopedagogia.
gem, na maioria relacionada à matemá-
tica. Os dados da 2ª etapa evidenciaram: Palavras-chave: conhecimento matemático,
a consideração da matemática como im- gênero, pesquisa didática.
portante área de conhecimento para a
inserção dos sujeitos na sociedade atual;
relatos de experiências escolares positi- MR LT04 - Mesa Redonda
vas com a matemática nos anos iniciais
do Ensino Fundamental; relatos de que Convidada
tais experiências mudam de natureza e
passam a ser negativas na medida em
que avançam na escolaridade, atingin- MR LT04-1232 - CONTRIBUIÇÕES DA
do níveis de desinteresse, dificuldade e PSICOLOGIA ESCOLAR À PROMOÇÃO DO
aversão no ensino médio; relatos sobre a DESENVOLVIMENTO HUMANO ADULTO
diferença na mediação do conhecimento Cynthia Bisinoto - UnB
matemático por parte de seus professo- cynthia@unb.br
res e professoras a depender do nível de
ensino, sendo mais acolhedores nos anos Baseando-se em uma perspectiva crítica,
iniciais, menos acolhedores nos anos fi- positiva e progressista da Educação, as
nais do ensino fundamental e no ensino práticas profissionais, de pesquisa e de
médio, assumindo métodos mais investi- produção de conhecimento em Psicologia
gativos, nos anos iniciais e mais formais Escolar vêm se disseminando para diver-
nos demais níveis, influindo seus próprios sos espaços educativos nos quais a atua-
modos de ver e aprender matemática. Os ção e mediação da área se comprometem
dados da 3ª etapa – resolução de proble- com os processos de aprendizagem e de
ma – evidenciaram dificuldades na análi- desenvolvimento (Araujo, 2003; Guzzo,
se de padrões geométricos, na interpre- 1996, 2001; Martínez, 2003). Se, histori-
tação algébrica e na resolver da equação, camente, o trabalho da Psicologia Escolar
evidenciando a não compreensão de fór- se consolidou no contexto da escola da
mulas matemática e o significado de seus educação básica, outros espaços de de-
termos. Os dados da 4ª etapa eviden- senvolvimento humano, também respon-
ciam relatos associados a sentimento de sáveis por promover processos educacio-

123
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

nais de diferentes naturezas, vêm sendo Leontiev (s.d./2004) seus maiores expo-
reconhecidos como campos legítimos de entes, concebe o homem como um ser
inserção do psicólogo escolar (Marinho- ativo, social e histórico, e assume que
-Araujo, 2009; Oliveira & Marinho-Araujo, ele se constitui a partir das interações
2009; Soares & Marinho-Araujo, 2010). sociais que são mediadoras da constru-
Alguns destes contextos são as creches, ção de suas características, sentimentos,
orfanatos, abrigos, asilos, organizações pensamentos, crenças, conhecimentos e
não governamentais, cursinhos pré-ves- concepções, enfim, da sua subjetividade.
tibular, Instituições de Educação Superior, Essa perspectiva incita-nos a pensar sobre
entre outros. Nesses diferentes espaços os espaços contemporâneos do trabalho
tem sido recorrente a preocupação e educativo como lócus para a elaboração
compromisso, sobretudo dos psicólogos de processos formativos e de mediação
escolares, com as múltiplas possibilidades de competências que busquem favorecer
de mediação em prol do desenvolvimento o desenvolvimento, tanto individual quan-
humano, particularmente o desenvolvi- to coletivo, sob uma perspectiva sistêmi-
mento humano adulto, o qual é um tema ca, dinâmica e relacional (Araujo, 2003;
lacunar na Psicologia de forma geral (Fá- Marinho-Araujo & Almeida, 2005). Nessa
vero & Machado, 2003; Marinho-Araujo, perspectiva, a mesa redonda aqui propos-
2009). Por conseguinte, têm crescido as ta apresenta relatos e pesquisas que dis-
discussões em torno das competências cutem contribuições da Psicologia Escolar
dos profissionais que atuam na educa- ao desenvolvimento humano adulto em
ção, cujo trabalho deve comprometer-se diferentes espaços educativos e almeja
com o desenvolvimento e aprendizagem suscitar reflexões sobre os desdobramen-
(Marinho-Araujo & Almeida, 2005; Soa- tos das ações interventivas do psicólogo
res & Marinho-Araujo, 2010). Com base escolar junto aos profissionais desses con-
em ações contextualizadas e ampliadas a textos. Assim, o primeiro trabalho apre-
outros atores e instâncias institucionais, senta e discute uma proposta de atuação
a Psicologia Escolar tem investido no de- para os Serviços de Psicologia Escolar na
senvolvimento humano adulto por meio Educação Superior. O segundo, apresenta
de ações que visem à formação de com- experiências de intervenção do psicólogo
petências profissionais dos agentes da escolar em espaços de trabalho cotidiano
educação, sejam os próprios psicólogos e de formação continuada. Na sequência,
escolares ou outros atores (coordenado- serão abordadas possibilidades de media-
res, professores, pais e alunos) envolvidos ção da Psicologia Escolar junto a educa-
no processo educativo. Como campo de dores sociais em organização não gover-
reflexão teórica, os pressupostos concei- namental, visando o desenvolvimento de
tuais e metodológicos que orientam a competências profissionais.
prática dos psicólogos escolares têm se
alicerçado, especialmente, nas proposi-
ções da abordagem histórico-cultural do
desenvolvimento humano. Essa aborda-
gem, que tem em Vygotsky (s.d./1999,
s.d./2003, s.d./2009), Luria (s.d./2008) e

124
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

PROPOSTA DE ATUAÇÃO PARA A cação Superior é qualitativamente distinta


PSICOLOGIA ESCOLAR NA EDUCAÇÃO daquela que transcorre em outros contex-
SUPERIOR tos. O conhecimento científico, artístico
Cynthia Bisinoto - UnB e cultural intencionalmente contemplado
cynthia@unb.br nos planejamentos de ensino, as informa-
ções divididas, os saberes apropriados, as
Um dos contextos emergentes de atuação posturas éticas e ideológicas partilhadas,
e pesquisa em Psicologia Escolar é a Edu- bem como as vivências pessoais e as rela-
cação Superior, a qual tem como finalidade ções intersubjetivas que se fomentam no
formar sujeitos para a vida em sociedade. contexto educativo são mediadoras do pro-
Para além do foco na competência profis- cesso de aprendizagem e, por conseguinte,
sional, que é uma das dimensões do de- do desenvolvimento humano que tem nela
senvolvimento dos sujeitos, a formação em sua base (Oliveira, 2011). Por essa razão, a
nível superior deve incidir na preparação Educação Superior como contexto no qual
de pessoas capazes de enfrentar de forma transcorrem múltiplos e complexos proces-
ética e socialmente comprometida os de- sos de aprendizagem tem papel primordial
safios extremamente contraditórios, am- na mediação das funções psicológicas su-
bíguos e complexos que são característicos periores dos sujeitos adultos que frequen-
da sociedade contemporânea. Mais do que tam esse espaço, seja como estudantes ou
habilitar sujeitos a exercerem com compe- como profissionais (Marinho-Araujo, 2009;
tência e sucesso sua atividade profissional, Oliveira & Marinho-Araujo, no prelo). En-
a Educação Superior tem como finalidade tretanto, em virtude das inúmeras e com-
formar cidadãos conscientes do seu poder plexas transformações características da
transformador no combate à exclusão, in- sociedade contemporânea, as Instituições
justiças, desigualdade, enfim, questões re- de Educação Superior (IES) têm se confron-
levantes na área social, econômica, política tado com desafios e dilemas relacionados
e cultural de uma nação (Dias Sobrinho, ao seu papel frente às demandas do merca-
2004, 2005; Goergen, 2008; Marinho-Arau- do; à expansão quantitativa das instituições
jo, 2009; Morosini, 2005, 2006; Ristoff, e dos cursos; à efetividade dos programas
1999, 2008; Severino, 2000, 2002; Sguissar- de apoio ao acesso e permanência; à ade-
di, 2006, 2008). Nesse sentido, a Educação quação dos objetivos pedagógicos e institu-
Superior é um dos espaços sociais privile- cionais à realidade dos estudantes; à qua-
giados e fecundos à promoção do proces- lificação do corpo docente; à necessidade
so de desenvolvimento humano adulto de inovações curriculares e pedagógicas;
justamente pelo fato de que as diferentes entre outros. Para enfrentar de forma mais
aprendizagens ali propiciadas são propulso- eficiente estes desafios, as IES têm desen-
ras do desenvolvimento. Por meio da rela- volvido algumas estratégias como a criação
ção com os vários objetos de conhecimento de Serviços de Psicologia voltados ao apoio
científico, a crítica, a reflexão e o exercício ao estudante, ao sucesso acadêmico, à in-
político da participação social, além das serção profissional, entre outros objetivos.
relações interpessoais que se constrói en- Se, por um lado, nos países europeus e
tre os sujeitos adultos e jovens adultos, a norte-americanos estes serviços estão em
natureza da mediação que ocorre na Edu- funcionamento há muitos anos, por outro,

125
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

no Brasil, a produção científica relativa à a um desenvolvimento saudável e pleno


atuação da Psicologia Escolar no Sistema em suas potencialidades, é extremamente
de Educação Superior e a presença dos psi- pertinente haver uma variedade de ativi-
cólogos escolares nas IES são consideradas dades que tenham como meta a promoção
restritas e recentes (Bariani, Buin, Barros desses processos. Relativamente à propos-
& Escher, 2004; Oliveira, Cantalice, Joly & ta de criação e estruturação dos Serviços de
Santos, 2006; Serpa & Santos, 2001). Dessa Psicologia, ela se ancora na perspectiva his-
maneira, a Psicologia Escolar tem um gran- tórico-cultural do desenvolvimento psico-
de desafio que é o de ampliar suas pers- lógico humano (Leontiev, s.d./2004; Luria,
pectivas de atuação por meio de práticas s.d./2008; Vygotsky, s.d./1999, s.d./2003,
diferenciadas em um contexto ainda pou- s.d./2009) e na abordagem preventiva e
co explorado pela área. Com o intuito de institucional de atuação em Psicologia Es-
conhecer o trabalho realizado nestes Ser- colar (Araujo, 2003; Marinho-Araujo & Al-
viços, desenvolveu-se um estudo com ob- meida, 2005). Se, por um lado, pretende-
jetivo de investigar a atuação da Psicologia -se, com este modelo de atuação, propor
Escolar em IES do Brasil e, em especial, do algumas linhas de intervenção para os psi-
Distrito Federal. Nesta apresentação, pre- cólogos que trabalham nestas instituições,
tende-se, portanto, discutir alguns dos re- por outro, aspira-se que ele venha figurar
sultados relativos à atuação dos psicólogos como detonador de um movimento de re-
escolares na Educação Superior brasileira flexão, estudo, investigação e problemati-
e, na sequência, apresentar uma proposta zação acerca das possibilidades de atuação
de criação e estruturação para os Serviços da Psicologia Escolar na Educação Superior.
de Psicologia na Educação Superior. No que A proposta de atuação se organiza em seis
tange aos resultados da pesquisa, nota-se eixos: (a) a fundamentação teórica que a
que os Serviços de Psicologia distribuídos sustenta, baseada na abordagem histórico-
nas IES brasileiras não são privilégio de um -cultural do desenvolvimento humano; (b)
tipo de instituição; ao contrário, eles se fa- os objetivos que se entende pertinentes
zem presentes tanto nas universidades com aos serviços desse tipo; (c) o público alvo
perfil acadêmico quanto nas faculdades para o qual podem ser dirigidas as interven-
com perfil mais profissionalizante; em rela- ções; (d) a descrição dos recursos humanos
ção à natureza administrativa das IES com que podem compor os serviços, destacan-
serviços, são as instituições privadas as que do as características do perfil dos psicólo-
mais os têm. O foco principal da ação dos gos escolares, o número de profissionais e
psicólogos nestes serviços são os estudan- o vínculo de trabalho com a IES; (e) alguns
tes, fundamentalmente os de graduação, elementos importantes sobre o funcio-
todavia, apesar do objetivo principal estar namento e organização do serviço; e, por
centrado neste segmento da comunidade fim, (f) possíveis atividades que podem ser
acadêmica, alguns Serviços já estendem desenvolvidas pelos profissionais, as quais
suas ações para outros públicos da insti- estão organizadas em três dimensões inter-
tuição, ampliando seu foco de intervenção. dependentes.
Considerando que são muitos e diversifi-
cados os espaços de aprendizagem, bem Palavras-chave: Psicologia Escolar, Educação
como são múltiplos os caminhos que levam Superior, Serviços de Psicologia.

126
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

PSICOLOGIA ESCOLAR: Le Boterf, 2003; Wittorski, 1998; Zarifian,


RESSIGNIFICANDO METODOLOGIAS 1993), esta apresentação tem, dentre seus
PARA ATENDER ÀS NOVAS DEMANDAS objetivos, compartilhar experiências de
DA ATUAÇÃO trabalho cotidiano e de formação continu-
Rejane Barbosa - SEEDF/FA, ada para profissionais da educação, mais
rejmariab@bol.com.br especificamente voltada para professores
e psicólogos que atuam no contexto da
O estudo acerca do desenvolvimento escola. O psicólogo escolar é um dos pro-
adulto vem se configurando como um fissionais que deve contribuir com a ressig-
importante e necessário campo de pes- nificação e oxigenação dos espaços subje-
quisa, haja vista os avanços tecnológicos tivos presentes no contexto educacional.
e a atual configuração sociocultural, que Pode atuar por meio da promoção de es-
demandam o exercício de novas capaci- paços coletivos e individuais de reflexão,
dades intelectuais, sociais e afetivas. Em no qual compareçam assuntos relaciona-
uma perspectiva histórico-cultural, pode- dos à prática profissional, reconhecimento
-se dizer que o ser humano desenvolve-se dos desafios e avanços presentes no con-
ao longo de todo seu curso de vida, uma texto escolar, das potencialidades do gru-
vez que é capaz de manter e aperfeiçoar po, discussão das concepções de desen-
as interações com seus pares, com instru- volvimento e aprendizagem presentes no
mentos e com o ambiente por meio das grupo escolar, entre outros. O contexto de
mais diferentes linguagens e signos cultu- ensino atual solicita um profissional que,
rais presentes no seu cotidiano (Vygostky, mediante o desenvolvimento de novas
s.d./2007). Neste contexto, a Psicologia habilidades de compreensão da escola em
Escolar constitui-se como área de conhe- sua conjuntura social, cultural, política e
cimento que contribui fundamentalmen- econômica, seja capaz de planejar estraté-
te para que a escola possa atingir seus gias de favorecimento ao desenvolvimento
objetivos enquanto espaço de promoção dos profissionais que ali atuam (Almeida,
das diversas aprendizagens, do desenvol- 2001, 2002; Araujo, 2003; Barbosa & Ma-
vimento humano e da cidadania. Não so- rinho-Araujo, 2010; Campos & Jucá, 2003;
mente para os estudantes, mas principal- Campos, Lopes, Onofre, Alexandre & Silva,
mente para os profissionais que ali atuam. 2005; Cruces, 2003; Guzzo, 2001, 2005;
Dessa, forma torna-se relevante pesquisar Guzzo & Weschsler, 1993; Marinho-Araujo
e apresentar possibilidades de formação & Almeida, 2003, 2005; Neves, 2007; Sou-
continuada que favoreçam o desenvolvi- za, 2004, 2007; Vectore & Maimoni, 2007).
mento de habilidades e recursos pessoais, A título de ilustração, serão apresentadas
interpessoais, profissionais, cognitivos, éti- três experiências intervenção do psicólogo
cos, entre outros que corroborem à forma- escolar em espaços de trabalho cotidiano
ção de competências do psicólogo e dos e de formação continuada desenvolvidas
demais atores da escola (Barbosa, 2008). entre os anos de 2009 e 2010. O primeiro
Com base na abordagem histórico-cultu- focaliza o trabalho desenvolvido no âm-
ral (Leontiev, s.d./2001; Luria, s.d./1990; bito da Secretaria de Estado de Educação
Vygotsky, s.d./ 2000, s.d./2007) e na abor- do Distrito Federal (SEEDF) com o grupo
dagem por competências (Kuenzer, 2002; de psicólogos escolares, o qual se refere a

127
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

reelaboração do documento norteador da vimento adulto, as quais vêm sendo utili-


atuação em Psicologia Escolar no DF, deno- zadas, nos últimos cinco anos de trabalho
minado Orientação Pedagógica do Serviço em Psicologia Escolar, na esfera da SEEDF,
Especializado de Apoio à Aprendizagem de modo a cooperar com a ressignificação
(OP/SEAA). O modelo inovador do traba- da atuação psicológica no contexto esco-
lho realizado proporcionou a todos os par- lar, numa perspectiva preventiva, para
ticipantes a discussão acerca das concep- além da remediação/tratamento das difi-
ções institucionais que balizam a atuação culdades de aprendizagem apresentadas
e a construção coletiva das ações que hoje pelos estudantes. Igualmente, abre novas
estão presentes no cotidiano de muitos possibilidades de compreensão das quei-
psicólogos escolares do Distrito Federal xas escolares em um contexto muito mais
(Marinho-Araujo, Neves, Pena-Moreira & complexo e permeado por possibilidades
Barbosa, no prelo). O segundo apresenta a de desenvolvimento subjetivo de todos e
dinâmica de atuação do psicólogo escolar por oportunidades de promoção do suces-
que compõe as equipes multidisciplinares so escolar e social.
de apoio à aprendizagem da SEDF, imple-
mentada em uma cidade do Distrito Fe- Palavras-chave: desenvolvimento humano
deral proposta a partir da pesquisa desen- adulto, atuação institucional, desenvolvimento
volvida por Barbosa (2008). O modelo de de competências.
trabalho foi organizado em três dimensões
denominadas: (a) intraequipe; (b). intere-
quipes e (c) extraequipe, cujo objetivo ge- ATUAÇÃO DA PSICOLOGIA ESCOLAR
ral foi viabilizar para os próprios psicólogos EM ONG: CONTRIBUIÇÕES PARA O
e para os demais membros da comunidade DESENVOLVIMENTO DE COMPETÊNCIAS
escolar – pedagogos, gestores, professo- DE EDUCADORES SOCIAIS
res, alunos, pais, entre outros – o desen- Pollianna Soares - UnB
volvimento de habilidades e recursos que polliannagalvao@yahoo.com.br
subsidiem ações competentes e promoto-
ras do sucesso escolar. O terceiro e último Nas últimas décadas, a Psicologia Escolar
exemplo refere-se à atuação do psicólogo tem revisto seus fundamentos epistemoló-
escolar no programa de acompanhamento gicos para o estabelecimento de novas di-
ao aluno com altas habilidades, também retrizes de atuação profissional e produção
da SEDF, que pautada pelas mesmas bases de conhecimento nos contextos de educa-
epistemológicas e teóricas vem ratifican- ção formal e não formal (Campos & Jucá,
do este tipo de intervenção relacional e 2003; Cruces, 2003, 2005; Marinho-Arau-
institucional já utilizada nas experiências jo, 2007, 2009; Marinho-Araujo & Almei-
anteriores como uma possibilidade de am- da, 2005; Oliveira & Marinho-Araujo, 2009;
pliação e ressignificação do trabalho do Soares & Marinho-Araujo, 2010; Souza,
psicólogo escolar com vistas à promoção 2006, 2010). O redirecionamento de sua
do desenvolvimento humano adulto no práxis, que amplia seu escopo de atuação
contexto escolar. Portanto, a apresenta- para distintos contextos educacionais, tem
ção do tema aqui exposto contribui com ocorrido em meio a diversas mudanças no
estratégias para a promoção do desenvol- campo político da educação no Brasil, ins-

128
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

tigando a Psicologia Escolar a comparecer no desenvolvimento e consolidação da


com um posicionamento crítico e levan- identidade profissional do educador social.
tando novas questões sobre a realidade Tradicionalmente, se reconhece a Psicolo-
educacional do país. Nesse cenário, as gia Escolar como uma das áreas científicas
organizações não governamentais (ONGs) que contribuem para a discussão da for-
de natureza educacional vêm ganhando mação do professor da educação formal
atenção da Psicologia Escolar por promo- (Facci, 2009). Nesse novo panorama social,
verem atividades educativas não formais, há de se pensar sobre as possibilidades de
visando o desenvolvimento humano (Soa- mediação dos psicólogos escolares junto
res, 2008; Soares & Marinho-Araujo, 2010; ao educador social nos contextos de edu-
Souza, 2009). As ONGs educativas surgem cação não formal, que visem à transfor-
no cenário brasileiro, especialmente entre mação da realidade social. Dessa forma,
as décadas de 70 e 80, vinculadas a movi- considera-se que a Psicologia Escolar deve
mentos sociais que visam ao incentivo de estar voltada para a mediação do desen-
ações direcionadas à garantia dos direitos volvimento humano adulto, por meio da
civis relacionados à educação básica públi- promoção de intervenção e mediação psi-
ca. A inauguração desses espaços tem de- cológica que objetive contribuir para a for-
mandado profissionais da educação com mação das competências necessárias ao
um perfil específico à natureza e filosofia exercício pedagógico crítico e politicamen-
institucionais, vinculado fortemente ao te comprometido com a transformação
compromisso com a transformação social social (Barbosa, 2008; Guzzo, 2003, 2005).
(Gohn, 2009, 2010). A esses profissionais, Para isso, é importante compreender o per-
Romans, Petrus e Trilla (2003) têm deno- fil necessário do educador social no recen-
minado de educadores sociais, os quais te cenário educativo brasileiro (Caro & Gu-
proveem mediação pedagógica distinta zzo, 2003; Gohn, 2009). Entendendo que a
dos contextos formais de educação. Surgi- constituição das competências do trabalho
do em meio às emergências da sociedade esteja ligada diretamente à subjetividade
civil, o educador social ainda se encontra humana e ao desenvolvimento psicológico
com um perfil profissional pouco definido, dos sujeitos (Araujo, 2003), considera-se o
principalmente em virtude da falta de for- trabalhador como um sistema complexo e
mação adequada, tanto inicial como conti- em contínua evolução nas esferas sociais,
nuada, para o exercício competente de sua cujo processo de formação profissional
atuação. Conforme Caro e Guzzo (2004), está relacionado à constituição histórica
“muitas vezes, observam-se inadequações do seu processo de subjetivação. Assim,
de educadores sociais bem intencionados, ao se considerar o desafio da construção
pela falta de formação, de apoio e até de do perfil profissional do educador social,
uma orientação por parte de profissionais percebe-se a relevância em compreender
das diversas áreas de desenvolvimento” o caráter político, social, econômico e cul-
(p. 16). Diante desse desafio, entende- tural intrínseco aos problemas sociais que
-se que a área da Psicologia Escolar pode emergem na sociedade e que se presentifi-
trazer contribuições às ONGs educativas cam na constituição da subjetividade des-
e, entre as suas possibilidades de atuação, se sujeito trabalhador em especial. Nessa
destaca-se urgência de ações que auxiliem direção, defende-se que a perspectiva his-

129
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

tórico-cultural do desenvolvimento (Leon- psicólogo escolar deve privilegiar o acom-


tiev, s.d./2001; Luria, s.d./1990; Vygotsky, panhamento das práticas pedagógicas no
s.d./2000, s.d./2007), em articulação à próprio contexto educativo, lócus privile-
abordagem por competências (Le Boterf, giado para o desenvolvimento de proces-
2003; Wittorski, 1998; Zarifian, 1993), são sos de formação contínua dos educadores
aportes teórico-metodológicos relevantes sociais. A formação continuada em serviço
à formulação de estratégias de desenvol- se constitui como estratégia bastante útil
vimento adulto. Em virtude do campo de para o desenvolvimento de competências
atuação do educador social estar relacio- que promovam reflexões e processos de
nado a compromisso e militância em favor conscientização contínuos na práxis pro-
dos setores sociais mais desfavorecidos, fissional (Guzzo, 2005; Marinho-Araujo &
sua postura deve estar para além do cará- Almeida, 2005). Tal conscientização, me-
ter pedagógico, assumindo, também, po- diada pelo psicólogo escolar, poderá evi-
sições de cunho político e ideológico (Ro- denciar, criticar e denunciar concepções
mans, Petrus & Trilla, 2003). O comprome- deterministas de desenvolvimento huma-
timento dos profissionais envolvidos nes- no; práticas domesticadoras e autoritárias
se setor reflete uma atuação em prol da de ensino e de aprendizagem; processos
transformação social, o que se torna fator de exclusão, marginalização e discrimina-
imprescindível para a conscientização de ção camuflados em processos avaliativos
sua responsabilidade como agente do de- ou em procedimentos pedagógicos pouco
senvolvimento e emancipação social dos críticos e autônomos em sua intencionali-
sujeitos (Caro & Guzzo, 2004). É com essa dade (Guzzo, 2003, 2005; Marinho-Araujo
conscientização que o Psicólogo Escolar & Almeida, 2005).
deve estar comprometido quando sua in-
tervenção direciona-se ao desenvolvimen- Palavras-chave: psicologia escolar, desenvolvi-
to adulto. Assim, a atuação em Psicologia mento de competências, educador social.
Escolar nesse contexto deverá vincular-se
ao desenvolvimento de competências de
educadores sociais, considerando a cons- MR LT04 - Mesa Redonda
tituição histórica e social das ONGs que
requerem, em suas atividades institucio- Convidada
nais, a expressão de recursos subjetivos e
objetivos de seus profissionais, manifestos
por meio de habilidades, conhecimentos, MR LT04-1399 - ESCOLA INCLUSIVA,
saberes e capacidades que compõe o perfil ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS E
pessoal e profissional do ser educador. A FOSSILIZAÇÃO DE APRENDIZAGEM
trajetória de vida pessoal e profissional do Tânia Maria de Freitas Rossi - UNICESP
educador e a própria história social dos es- taniamrossi@gmail.com
paços educacionais configuram a subjeti- Financiamento: FAP-DF
vidade social que constituem a identidade
dessa categoria (Araujo, 2003; Marinho- Esta mesa redonda discute a escola inclu-
-Araujo & Almeida, 2005). Defende-se, siva, focalizando quatro temas interrela-
nessa apresentação, que a atuação do cionados: O primeiro, Sobre o conceito

130
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

de fossilização analisa o uso do termo pelas professoras contribuem para o de-


fossilização na Psicologia e na Linguística, senvolvimento dos conceitos nos dois gru-
um conceito não monolítico dada a falta pos, mas suscitam melhor compreensão
de uniformidade entre objetos de estudo. da (1) internalização dos conceitos pelas
O uso abarca (1) construtos complexos crianças, a ponto de tornar-se automa-
vinculados falhas, desvios e estabilização tizados, (fossilizados); (2) dos processos
de funcionamento cognitivo resistente que asseguram a continuidade do desen-
à alterações; (2) causas individuais, não volvimento. O terceiro tema, O processo
generalizáveis, subjetivas, com conota- de inclusão em salas regulares: pontos
ção histórica e cultural e, (3) efeitos da críticos, possibilidades pedagógicas e de-
aprendizagem hebbiana nas construções safios na formação de professores, discute
lingüísticas em um nível não-ótimo de o modelo educativo tendo como referên-
proficiência em relação à língua mater- cia a concepção de inclusão nas escolas,
na, de caráter dinâmico. Na Psicologia, a se valorizam e atendem à diversidade hu-
fossilização é estudada como sucessão de mana/cultural. Sustenta que, atualmente,
estágios necessários ao desenvolvimento há reconhecimento das diferenças, não
e formação de hábitos histórico-culturais, como incapacidades, e que o objetivo é
urgindo se retomem a abordagem genéti- ensinar a todos dado que aprender é con-
ca do fenômeno, transcendam sua iden- dição inerente aos seres humanos. Com-
tificação e focalizem a dinâmica de seu preende a realidade educacional como
desenvolvimento. Sugere a investigação multifacetada e as propostas pedagógicas
dos processos de mediação semiótica e de devem refletir a ação educativa, embasa-
internalização do conhecimento, ou seja, da na autonomia, na construção coletiva
do ensinar e do aprender, base da fossili- do conhecimento e nas potencialidades
zação. O segundo, Estratégias pedagógicas a serem estimuladas no processo de en-
para o ensino-aprendizagem de conceitos sino e de aprendizagem. O quarto tema,
científicos em uma escola inclusiva inves- Atendimento especializado aos alunos
tiga estratégias pedagógicas de quatro inclusos em salas regulares, mostra que o
professoras na construção de conceitos atendimento educacional especializado às
científicos em quatro turmas de crianças pessoas com deficiência deve realizar-se,
com desenvolvimento típico e deficiência preferencialmente, na rede regular de en-
intelectual. Analisou-se atividades realiza- sino, com estabelecimentos profissionais
das na introdução de um novo conceito e especializados próprios ao atendimento
sua apropriação pelas crianças, baseado do aluno e professores capacitados à real
nos pressupostos vygotskianos. Foram re- integração, nas classes comuns. Entretan-
alizadas entrevistas semiestruturadas com to, o quadro atual afigura-se outro: fal-
as professoras e filmadas interações entre tam material específico para atender aos
estas e as crianças, especialmente aquelas alunos e profissionais especializados para
com desenvolvimento atípico, retratando atender à criança especial. Lembra que o
três momentos: apresentação, desenvol- papel a ser assumido pelos profissionais
vimento e conclusão na constituição de educacionais especializados seria o de ca-
um conceito novo. Os resultados indicam talisar demandadas e coordenar ativida-
que as estratégias e recursos utilizados des coletivas que fomentem os processos

131
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

de discussão, reflexão e resolução coletiva que foram erroneamente identificadas


e colaborativa dos problemas educativos. com formas equivalentes dessa segunda
língua, para elas transferidas, tornando-se
fossilizadas. Em 1961, Nemser (citado por
SOBRE O CONCEITO DE FOSSILIZAÇÃO Percegona, 2005) sustentou que, na aqui-
Tânia Maria de Freitas Rossi - UNICESP sição de língua não-nativa, o sujeito cria
taniamrossi@gmail.com um sistema intermediário (interlíngua) no
qual a língua em estudo não é exatamente
Vigotski (1997), ao estudar o desenvolvi- como a língua “oficial” e tampouco como
mento das funções psicológicas, deparou- a nativa. A fossilização compreenderia to-
-se com processos que, ao longo do tem- dos os estágios de competência lingüística
po, tornaram-se rígidos/mecanizados, não nativa, considerados permanente-
sem que sua aparência externa sofresse mente adquiridos. Selinker (1972; 1993),
modificação, enquanto que sua aparência descreveu o fenômeno afirmando que são
interna era modificada e esmaecida. Em itens, regras e subsistemas lingüísticos
analogia à paleontologia, os denominou que os falantes de uma língua nativa parti-
“processos fossilizados”. A fossilização re- cular tendem a manter em sua interlíngua
fere-se ao automatismo e à mecanização em relação a uma outra língua em estudo,
de comportamentos e é o final de uma li- não importando a idade do aprendiz, ou
nha que une o presente ao passado, os es- a quantidade de explicações que recebeu
tágios superiores do desenvolvimento aos sobre esta. Nakuma (1998) examinou os
estágios primários (Vigotski, 2003). O ter- pressupostos implícitos na definição de
mo fossilização, de uso freqüente na Lin- fossilização e concluiu que algum conhe-
guística, possui definições e entendimen- cimento desviado foi instaurado como pa-
tos distintos, apresentação de argumentos drão cognitivo e, nesse caso, estaria rela-
teóricos e dados empíricos para descrição cionado ao sucesso ou fracasso do sujeito
e explicação do fenômeno e conceituação ao adquirir certas regras de uma segunda
que seguem a mesma diversidade. Assim, língua. As formas fossilizadas seriam o re-
o objetivo deste estudo é analisar alguns sultado da esquiva, do desejo intencional
desses usos correntes. A Linguística con- de não adquirir uma dada forma porque
grega grande parte das investigações e acredita que ela já esteja disponível em
focaliza processos de automatização de sua bagagem cognitiva. Crer que a fossi-
comportamentos e seu uso não delibera- lização manifesta-se apenas através de
do em situações de aprendizagem de uma formas desviadas fornece uma conotação
segunda língua, com uso contínuo de for- pejorativa, como se formas não desviadas
mas desviadas da forma correta da língua não fossem fossilizáveis. A fossilização sur-
em estudo. Todavia, há mais tentativas de ge da percepção individual do aprendiz da
descrição que de explicação do fenômeno. segunda língua a respeito das equivalên-
A noção de fossilização inicia-se em 1953, cias entre esta e a língua materna, cujo
quando Weinreich (1953) demonstrou resultado pode ser positivo ou negativo.
a existência da transferência gramatical Selinker e Lakshmanan (1993) demons-
permanente nas formas da língua nativa tram, posteriormente, que a estagnação
de um aprendiz de uma língua não-nativa na fossilização deve ser considerado ape-

132
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

nas a estabilização do processo de apren- potenciação de longo prazo (PLP), resul-


dizagem em um patamar, focalizando tando na descoberta de um caso típico de
algumas áreas localizadas. O estudante plasticidade sináptica entre um neurônio
apresenta um desenvolvimento contínuo pré e um neurônio pós-sináptico, tal como
em algumas áreas da segunda língua e, ao proposto por Hebb. (Lent, 2001). Se a PLP
mesmo tempo, uma relativa estabilização for adequada e possuir significado para o
de erros em outras (Percegona, 2005). A sujeito, ocorrerão a aquisição e a manu-
falta de uniformidade quanto ao processo tenção das habilidades cognitivas dese-
de fossilização na Linguística mostra que jáveis. Se a ativação for inapropriada, o
não se está diante de um conceito mono- ajuste sináptico hebbiano tenderá a forta-
lítico. Há construtos complexos vinculados lecer as tendências existentes, impedindo
a manifestações de falhas, desvios e a o progresso na aquisição do efeito deseja-
estabilização de um funcionamento cog- do. No caso da aprendizagem de uma se-
nitivo resistente às alterações. Há o deli- gunda língua, se o sujeito não perceber as
neamento de possíveis causas individuais, diferenças entre as formas da língua ma-
não generalizáveis, nas quais cada sujeito terna e da nova língua a ser aprendida, os
percebe a realidade de forma idiossin- padrões do sistema da sua língua materna
crática, o que institui uma conotação his- continuarão sendo fortalecidos indevida-
tórica, cultural e, ainda, subjetiva. Há a mente, ou seja, haverá uma fossilização
concepção da fossilização não como esta- de determinadas formas da interlíngua.
bilização permanente da interlíngua, mas Na Psicologia, dentre os raros autores que
como efeitos da aprendizagem hebbiana se debruçam sobre o fenômeno e adotam
nas construções lingüísticas em um nível a acepção vigotskiana, estão Gallimore e
não-ótimo de proficiência e complexidade Tharp (2002) que afirmam ser a fossili-
em relação à língua materna, o que lhe as- zação o conhecimento interiorizado, no
segura caráter dinâmico e não estável. De qual o sujeito passa a resolver situações-
fato, interessantes contribuições da neu- -problema sem precisar de ajuda assistida.
rociência e de simulações computacio- Eles definiram quatro estágios genéticos
nais têm sido desenvolvidas sobre como situando-os na zona de desenvolvimento
se realiza a aprendizagem na micro e na proximal (ZDP). O sujeito gradualmente
macroestrutura cerebral e faz lembrar da necessita de menos assistência para exe-
hipótese de uma estrutura latente de lin- cutar uma atividade, aumentando sua
guagem, de caráter biológico de Weinsrei- capacidade de autoregulação e o compor-
ch (1967). Bliss e Lomo (citados por Lent, tamento assistido torna-se não assistido
2001) realizaram uma estimulação elétrica e autorregulado. O estágio I refere-se às
repetitiva nas fibras colaterais de Schaffer, atividades que o sujeito pode operar com
situadas no hipocampo e registraram a auxilio de pessoas mais capacitadas para
atividade resultante nas células piramidais que, mais tarde, ele aja com independên-
da região responsável pela consolidação cia. No estágio II, ele realiza tarefas sem
da memória (Cornos de Amon – regiões assistência externa e ainda que sob influ-
CA). Eles constataram significativo aumen- ência do modo de funcionamento de outra
to no potencial pós-sináptico excitatório pessoa e sem autodireção. No próximo es-
na célula piramidal após a estimulação de tágio, a assistência e a autoassistência não

133
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

são necessárias, pois há interiorização e Analisar a dinâmica do processo de ensi-


automatização do conhecimento, ou seja, no e aprendizagem que ocorre nas escolas
fossilização. No último estágio há a desau- torna-se, pois, fundamental, uma vez que
tomatização do funcionamento anterior é nesse espaço que o desenvolvimento
(desfossilização), com a retomada de uma psicológico da criança pode alcançar níveis
nova ZDP. No limite, as contribuições de de aprimoramento de determinadas fun-
Gallimore e Tharp (2001) são aproxima- ções e estabelecer mudanças dos vínculos
ções que descrevem o comportamento e das relações interfuncionais tal como in-
fossilizado por meio da sucessão de está- dicadas por Luria e Yudovich (1985). O de-
gios necessários ao desenvolvimento, com senvolvimento de cada função psicológica
formação de hábitos histórico-culturais. particular, por sua vez, depende dessa mu-
Carece sobremaneira, retomar a aborda- dança, como no caso do desenvolvimen-
gem genética do fenômeno, transcender to de conceitos. Na aprendizagem de um
sua identificação e buscar a dinâmica de conceito, as funções psicológicas superio-
seu desenvolvimento. O conceito de fos- res que pressupõem o uso das ferramentas
silização é ainda uma grande lacuna e na intelectuais, são ativadas pela interação
psicologia reclama que se focalize e in- social, especialmente, sob a orientação ou
vestigue os processos envolvidos com a a supervisão de pessoas mais experientes.
mediação semiótica e a internalização de Por isso, no tocante ao desenvolvimento
um dado conteúdo, em outros termos, do de conceitos, as propostas pedagógicas
ensinar e do aprender. devem levar em conta a adequação do ma-
terial ao nível real e potencial dos sujeitos
Palavras-chave: fossilização, aprendizagem. aprendizes, considerando a diversidade
da aprendizagem e os ritmos diferencia-
dos de cada um. Nesse sentido, o estudo
ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS PARA O ora apresentado buscou analisar as estra-
ENSINO-APRENDIZAGEM DE CONCEITOS tégias pedagógicas adotadas por quatro
CIENTÍFICOS EM UMA ESCOLA professoras, para o ensino-aprendizagem
INCLUSIVA de conceitos científicos em quatro turmas
Divaneide Lira Lima Paixão - UCB formadas com crianças que apresentam
divaneide@ucb.br desenvolvimento típico e crianças com de-
ficiência intelectual (DI). Foram realizadas
As atividades humanas são construídas, filmagens das professoras e seus alunos,
segundo Vygotsky (1984), ao longo da vida buscando identificar e analisar as ativida-
e são resultado de aprendizagens media- des realizadas com vistas à introdução de
das na e pela cultura, o que imprime às um novo conceito e sua apropriação pelas
relações sociais e à atividade psicológi- crianças, tendo como base os conceitos
ca traços comuns que transcendem suas propostos por Vygotsky (1984), no que diz
qualidades particulares. No seio dessa respeito à Zona de Desenvolvimento Proxi-
discussão, o processo de escolarização mal. Nas filmagens em vídeo foram privi-
surge como uma significativa experiência legiadas as interações entre as professoras
que abre possibilidade de aprendizagem e, e as crianças, especialmente aquelas com
consequentemente, de desenvolvimento. DI, retratando três momentos distintos da

134
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

constituição do conceito científico: apre- mento de crianças com DI, Vygotsky (2002)
sentação, desenvolvimento e conclusão. analisa que elas apresentam certa dificul-
Foi realizada, também, com cada profes- dade em constituir o pensamento abstra-
sora uma entrevista semiestruturada para to, e que se o conteúdo e as situações de
investigar aspectos da ação pedagógica aprendizagem não forem mediadas, isso
no decurso da apresentação de um con- fica mais difícil. Nesta direção é que a esco-
teúdo novo. Os dados apontam que entre la e professores devem assumir a iniciativa
as estratégias utilizadas pelas professoras e a intervenção no processo de aprendiza-
para introduzir um novo conceito científi- do de forma competente e consciente, na
co estão: contextualização do conteúdo e medida em que os esforços devem se focar
vivências por meio de dinâmicas variadas; para estágios de desenvolvimentos ainda
o processo de aplicar, avaliar, fortalecer e não alcançados. O trabalho educativo deve
reavaliar os conteúdos programados; o uso fomentar novos conhecimentos, habilida-
da leitura pausada do material seleciona- des e competências, reconhecendo o nível
do. Quanto aos recursos acionados, são real de desenvolvimento do aluno. Os pro-
identificados: material concreto, música, cedimentos utilizados pelas professoras e
figura/imagem, poemas, material do tipo o modo como elas os justificam corrobo-
impresso e cartazes. As professoras elabo- ram a perspectiva teórica histórico-cultural
ram materiais diversificados para permitir ao passo que elas buscam introduzir um
e imprimir diferentes modos de abordar conceito paulatinamente, ressaltando sua
o assunto, evidenciando considerar o pro- construção social. Das quatro professoras,
cesso como diferenciado para cada um de três salientaram empregar estratégias di-
seus estudantes, o que possibilita a todas versificadas para atender especificamente
as crianças com ou sem DI a construção as crianças com DI. Ao serem planejadas
de conhecimentos e de modos de funcio- estas atividades levam em consideração
namento para lidar com o desenvolvimen- a necessidade e o direito de adaptação
to dos conceitos. Alternam momentos curricular e isso pressupõe o emprego de
de atendimento individual ao aluno com situações de aprendizagem em pequenos
aprendizagem colaborativa, buscam em- grupos ou duplas, considerando os níveis
pregar atividades lúdicas e de fixação de de aprendizagem e as dificuldades apre-
conteúdos, de forma a motivar os estu- sentadas, frente a um dado conteúdo. As
dantes e levá-los a perceber a vinculação professoras relatam fragilidades variadas
entre certos elementos estruturantes do no decorrer do processo, especialmente
conceito. São promovidas condições para com relação à aprendizagem das crianças
o desenvolvimento de competências e in- com DI, como manter a concentração, tra-
ternalização dos conceitos científicos, por balhar a memória e otimizar o tempo de
intermédio de jogos, reálias, que, para elas a realização das atividades; a não fixação
contribuem para promover as funções psi- dos conceitos e informações; a não com-
cológicas superiores como memória téc- preensão e acompanhamento das ativi-
nica, criatividade, raciocínio, comparação, dades, como acontece com o restante da
discriminação e generalização de idéias, turma. Tal posição corrobora os achados
além do pensamento abstrato. Ao discu- de Bogoyavlensky e Menchisnskaya (1991)
tir o processo de construção do conheci- que sustentam não existir uma relação

135
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

direta entre a construção de noções e de- uma necessidade educativa especial e,


senvolvimento cognitivo e, portanto, nem possibilitar o seu acompanhamento edu-
toda aprendizagem escolar possibilita ao cacional, em uma sala regular, com cole-
aluno o desenvolvimento das funções gas que tenham desenvolvimento típico.
mentais superiores. De fato e também Ele projeta também, os anseios da socie-
para Vygotsky (1995), as pessoas com dade em constatar que todas as pessoas
DI apresentam um desenvolvimento das são capazes de aprender, independente
funções psíquicas superiores com ritmo de suas dificuldades e limitações. Estas
diferenciado, em relação às crianças com condições ressaltam o potencial do ser
desenvolvimento típico, e um dos maiores humano, superando as deficiências físi-
entraves no desenvolvimento de conceitos cas, intelectuais, emocionais, comporta-
para aquele grupo está justamente no pro- mentais, sendo reconhecidamente imple-
cesso de generalização e abstração, que mentado, por um processo pedagógico de
não depende somente do caráter da gravi- qualidade. Este solidamente construído,
dade da deficiência, mas também da reali- sobre bases teóricas e metodológicas e,
dade social na qual ele se desenvolve e dos intrinsecamente, vinculado às ações, às
recursos mediacionais que lhe são apre- estratégias, aos materiais e aos espaços
sentados. As análises até aqui engendra- pedagógicos promotores do desenvol-
das apontam que as estratégias e recursos vimento e aprendizagem. Schwartzman
utilizados pelas professoras participantes (1997 apud Siqueira, 2008) ressalta que a
deste estudo contribuem para o desenvol- legislação brasileira assegura a inclusão e,
vimento dos conceitos científicos nos dois sobretudo, demanda que o sistema edu-
grupos de crianças e suscitam uma melhor cacional, aceite a pessoa com necessida-
compreensão acerca da (1) internalização des educacionais especiais, em classes re-
dos conceitos pelas crianças, a ponto de gulares ou comuns. Paradoxalmente, ele
tornar-se automatizado, isto é, fossilizado; reflete que, se as escolas regularmente,
(2) do processo que assegura a continuida- não têm conseguido, com sucesso, pro-
de do desenvolvimento. mover os alunos denominados ‘normais’,
como estender então este atendimento
Palavras-chave: deficiência intelectual, educacional aos que apresentam neces-
aprendizagem de conceitos científicos, sidades educativas especiais? Enfatiza a
estratégias pedagógicas. responsabilidade do sistema educacional,
na medida em que, este não prepara os
professores do ensino regular para aten-
O PROCESSO DE INCLUSÃO EM SALAS der e trabalhar pedagogicamente com
REGULARES: PONTOS CRÍTICOS, alunos identificados com necessidades
POSSIBILIDADES PEDAGÓGICAS educativas especiais. Sem este preparo
E DESAFIOS NA FORMAÇÃO DE acadêmico, didático e metodológico fica
PROFESSORES precário, mesmo com a experiência e boa
Ana da Costa Polonia - SEEDF/UnB vontade do professor, adotar a premissa
da inclusão. Sem dúvida, a formação ini-
O processo de inclusão, não se restringe a cial, experiência profissional, o domínio
oportunidade de matricular a criança com da estratégias de ensino e das proposta

136
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

didáticas, aliadas à formação profissional sua atuação em sala de aula, refletindo


se em constituem pilares para estabele- mudanças no planejamento, na avaliação
cer uma aprendizagem de qualidade que e na reelaboração das atividades. Fáve-
se estende a todos os alunos, sobretudo, ro, Pantoja e Mantoan (2004) reforçam
aos que demandam constantemente um que para ensinar a turma toda, é preciso
atendimento diferenciado. Como subli- programar atividades abertas e diversifi-
nhado por Vygotsky (1984), o bom ensino cadas, porque estas englobam distintos
é aquele que se adianta ao desenvolvi- níveis de compreensão, conhecimento e
mento, isso implica que, o professor deve até mesmo de desenvolvimento dos alu-
estar ciente e adote abordagens pedagó- nos, sem privilegiar ou persistir na noção,
gicas diferenciadas que possam incidir so- de que alguns sabem mais e outros me-
bre a zona de desenvolvimento potencial nos. Subjacente a esta formação, está a
do aluno, fazendo que, posteriormente, condição de oferta contínua, diversificada
ele adquira a autonomia ao empregar e democrática de cursos ou capacitações
aquele conhecimento. No entanto, condi- para atingir o quantitativo de profissionais
ções como o número de alunos por turma da educação, não apenas os professores,
e o apoio das equipes multidisciplinares que atuam em escolas regulares. Deve-se
e psicopedagógicas, são aspectos que ainda, associar, o espaço de apoio e su-
devem ser avaliados, quando se discute pervisão psicopedagógica que existe nas
o ensino de qualidade e a inclusão es- escolas, resgatando o compartilhamento,
colar. Considerando as condições educa- a discussão e a reflexão, por meio de lei-
cionais brasileiras, Mazotta (2005) indica turas e estudos de temas ligados ao pro-
que são poucos os municípios, cidades e cesso ensino-aprendizagem, estimulando
estados que contam com um sistema de a elaboração de materiais pedagógicos
ensino estruturado, nos aspectos físicos, e uma adequação curricular que aten-
materiais, humanos e políticos, de forma da as condições peculiares dos alunos e
a responder as demandas e a contemplar que permita a superação progressiva de
as condições peculiares do aluno com ne- suas dificuldades. É consenso entre os
cessidades educativas especiais. Sublinha pesquisadores que, a formação docente
que a educação de qualidade perpassa é um dos alicerces do sistema educacio-
pelo equacionamento das políticas edu- nal, enfatizado o investimento constante,
cacionais, voltadas ao atendimento des- na formação continuada, considerando
tes recursos e à formação dos profissio- seus reflexos, na melhoria do ensino e as
nais da escola, não se restringindo à ação repercussões em sala de aula. Enfocan-
pedagógica do professor. Consonante à do temas ou conteúdos que emergem
proposição de uma abordagem educacio- das necessidades e das situações prove-
nal diferenciada, se enfatiza a necessida- nientes do contexto escolar, resgatando
de de cursos de formação continuada, es- a vivência pedagógica como condição im-
pecificamente, aqueles que enfoquem es- prescindível à construção de conhecimen-
tratégias pedagógicas e práticas, métodos to e às transformações geradas nas prá-
e didáticas que atendam as necessidades ticas educativas. Complementando esta
dos alunos inclusos. E que substancial- discussão, Garcia e Yáñez (1997, apud
mente, possam apoiar os professores, em Oliveira, 2009) resgatam que os profes-

137
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

sores são profissionais imersos em uma ATENDIMENTO ESPECIALIZADO


organização e, por esta condição, devem AOS ALUNOS INCLUSOS EM SALAS
ser assegurados espaços direcionados ao REGULARES
desenvolvimento de seus próprios pro- Teresa Cristina Siqueira Cerqueira - UnB
cessos de aprendizagem, que de sobre-
maneira, interferem em seu planejamen- A Constituição da República Federativa
to e na dinâmica de suas aulas. Enfim, o do Brasil de 1988 assegura, em seu Artigo
modelo educativo tendo como referencia 208, “o atendimento educacional especia-
à concepção de inclusão, está sedimenta- lizado aos portadores de deficiência, pre-
do nos estabelecimentos de ensino que, ferencialmente, na rede regular de ensino”
prioritariamente, valorizam as diferenças (Oliveira, 2009). Indicando que os sistemas
e se preocupam em trabalhar a diversida- de ensino devem ter em seus estabeleci-
de humana e cultural. Reconhecendo as mentos profissionais especializados para
diferenças, não como incapacidades ou o atendimento do aluno com necessida-
limitações, e objetivam ensinar todos os des educativas especiais, e ainda, profes-
alunos porque o aprender é condição ine- sores capacitados para assegurar a real
rente dos seres humanos. Em geral, rom- integração, nas classes comuns. Ele deve
pem as barreiras entre as disciplinas cur- ser disponibilizado em todos os níveis de
riculares, constroem uma rede de conhe- ensino, notadamente, pelas características
cimentos, evitando a concepção de currí- presentes na escola regular, na medida
culo, sob ótica conteudista, valorizando a em que se constitui em ambiente propí-
integração entre os saberes, tendo como cio para garantir e estimular a convivên-
referência a transversalidade (Gallo, 1999 cia entre os alunos, independente, de sua
apud Montoan, 2006). Nesta perspecti- condição, especialmente, quando se pre-
va, a realidade educacional é compreen- tende romper com rótulos e preconceitos.
dida como múltipla e multifacetada e as Sabe-se que o processo de interação social
propostas pedagógicas, refletem a ação é um fator que atua positivamente no de-
educativa, embasada na autonomia, na senvolvimento global dos sujeitos com ou
construção coletiva do conhecimento e sem deficiências (Montoan, 2006). Uma
nas potencialidades que são constante- preocupação emerge em relação aos re-
mente estimuladas pelo processo ensino- cursos humanos e psicopedagógicos, eles
-aprendizagem. Estas diretrizes edificam devem estar intimamente, associados às
ambientes polissêmicos, estimulando te- estratégias e aos materiais didáticos, es-
mas que partam da realidade do aluno, tando disponíveis no contexto escolar, de
considerando sua identidade sociocultu- forma a atender as demandas dos atores:
ral, estabelecendo espaços criativos e di- professores, familiares, alunos e outros
ferenciados para aprender. profissionais da educação. Principalmente,
quando se vislumbra e se assegura o pro-
Palavras-chave: formação de professores; cesso de inclusão, o considerando como
inclusão; processos pedagógicos. fonte permanente de desenvolvimento e
aprendizagem humana, tendo como eixo a
diversidade cultural. Retomando a função
e o atendimento especializado nos espa-

138
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

ços escolares, Alves et al (2006) destaca incluindo o Distrito Federal, englobando


que as salas de recursos multifuncionais 4.564 municípios brasileiros - 82% do to-
são espaços na escola, centrados no aten- tal.4 Outro profissional presente na escola
dimento educacional especializado, obje- e que pode integrar esta rede de apoio psi-
tivando atender os alunos com necessida- copedagógico é o orientador educacional.
des educativas especiais, com o emprego Atualizando as suas funções, Placco (1994,
de estratégias diferenciadas de ensino, de apud Oliveira, 2009) enfatiza que o papel
forma potencializar a aprendizagem e o deste profissional sofreu transformações,
fazer pedagógico. Visa então, favorecer e não sendo mais a porta de ‘entrada de alu-
desenvolver a construção de conhecimen- nos problemas’. Sobretudo, emerge como
tos e, concomitantemente, propiciar que um dos educadores da escola, envolvidos
todos os estudantes possam ativamente em uma ação escolar coletiva, estabele-
participar do currículo da escola, e desen- cendo processos voltados ao desenvolvi-
volver habilidades e competências impres- mento de uma atividade pedagógica de
cindíveis à qualidade do ensino. Nele se qualidade, significativa e inserida no pro-
encontram materiais didáticos, pedagógi- jeto político pedagógico da escola. Assim,
cos, equipamentos e recursos outros, além ele pode atender o grupo de professores
dos profissionais com formação e qualifi- e as demandas particulares de cada um,
cação para o atendimento às pessoas com ainda promover discussões e grupos de
necessidades educacionais especiais, es- estudo, além de buscar outros profissio-
tendendo, quando necessário, orientações nais que possam dar apoio profissional, de
aos professores da sala de aula. A perspec- acordo com as necessidades do grupo de
tiva assegurada neste ambiente, é que o professores. Quanto aos profissionais que
professor responsável considere as dife- compõe o quadro de especialistas, focados
rentes áreas do conhecimento, os estágio no apoio educacional, se pode identificar, o
de desenvolvimento cognitivo dos alunos, supervisor escolar, o orientador educacio-
seu nível de escolaridade, potenciais e difi- nal e o coordenador pedagógico, Oliveira
culdades, aliados aos recursos específicos (2009) retoma que na atualidade a função
para sua aprendizagem, de maneira a pos- deste grupo converge para a qualidade da
sibilitar atividades de complementação e ação pedagógica: oferecer assessoramen-
suplementação curricular. Assim, os alunos to ao docente, adotando uma perspectiva
podem ser atendidos individualmente ou colaborativa de trabalho, fortalecendo as
em pequenos grupos, conforme necessi- bases de uma atividade educacional de
dade e programação especial, em horários cunho coletivo, voltadas ao fazer pedagó-
diferenciados e opostos, de suas aulas, em gico crítico e reflexivo, aliando a compe-
sala regular. Configura-se como um espa- tência à experiência, como fundamentos
ço para atender, com qualidade, os alunos do processo ensino-aprendizagem. Esta ar-
com deficiência, transtornos globais do de- ticulação possibilita trocas de experiência,
senvolvimento e aqueles identificados com
altas habilidades que fazem parte das tur-
mas de ensino regular De 2005 a 2009, fo- 4
Implantação de salas de recursos multifuncionais, disponí-
ram disponibilizadas 15.551 salas de recur- vel em http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_
content&view=article&id=12295&Itemid=595, acessado
sos multifuncionais para todos os estado, em 21/11/2011, às 1:15.

139
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

conhecimentos e rede de apoio entre os o número reduzido de profissionais, retra-


profissionais da escola. Sobre a constitui- tam as dificuldades de sua implantação. In-
ção da equipe psicopedagógica e seu pa- clusive as políticas educacionais, por vezes,
pel no espaço escolar, Muller et al (2010) negligenciam o investimento nas equipes
aponta entre os seus objetivos: promoção de atendimento especializado, sobrecarre-
da melhoria da qualidade do processo gando o professor, o deixando isolado e se
de ensino e de aprendizagem, adotando sentindo responsável pelo processo peda-
uma perspectiva institucional, centrada na gógico de inclusão.
abordagem preventiva e interventiva, com
vistas ao aprimoramento e contextualiza- Palavras-chave: equipes de apoio à
ção das atividades profissionais, dos distin- aprendizagem, educando com necessidades
tos atores que fazem parte das instituições educativas especiais, sala de aula, sala de
educacionais. Visa então, fomentar e in- recurso, equipes multiprofissionais.
crementar a qualidade educacional, retra-
tada no desenvolvimento e aprendizagem
efetiva dos alunos, fundamentada na cul- SP LT03 - Simpósio
tura de sucesso escolar. Ela é atualmente,
composta por um profissional formado em
pedagogia e outro em psicologia, sendo SP LT03-1244 - AÇÕES EDUCATIVAS
rebatizada, como Equipes Especializadas E O DESENVOLVIMENTO MORAL DA
de Apoio à Aprendizagem. Apesar do reco- SOCIEDADE
nhecimento e da legislação que assegura Vannuzia Leal Andrade Peres - PUC-Goiás/
este apoio educacional especializado, em UnB
grande parte das escolas, falta material vannuzia@terra.com.br
específico para atender os alunos, pro- Rafael de Almeida Mota - PUC-Goiás
fissionais especializados, como intérpre- rafael.almeida@live.co.za
tes de Libras para atender a criança com Cândido Martins do Santos Neto - PUC-Goiás
necessidade educativa especial, Ainda, o cmsnpsi@gmail.com
coordenador pedagógico e o orientador Luciane Aparecida Muniz Mols - PUC-Goiás
educacional, e entre outros profissionais luciane_muniz_@hotmail.com
especializados que estariam catalisando as Roberta Alves Dionisio - PUC-Goiás
demandadas e coordenando atividades co- roberti.alves@hotmail.com
letivas, que fomentassem os processos de Marina Magalhães David - PUC-Goiás
discussão, reflexão e proposição, visando à marinadavidpsi@hotmail.com
resolução coletiva e colaborativa dos pro-
blemas educativos. Mazotta (2005) ressal- Com base nos resultados de pesquisa
ta que este atendimento é restrito e, não qualitativa sobre a “Expressão Moral do
atingem uma boa parte dos municípios, ci- Goianiense”, realizada em quatro semes-
dades e estados. E a precariedade engloba tres consecutivos por alunos do Curso de
desde o espaço físico destinado a sala de Psicologia da Pontifícia Universidade Cató-
recurso ou destinada ao atendimento por lica de Goiás, foram desenvolvidas ações
parte das equipes atuarem. Além disso, os educativas com adolescentes, adultos e
materiais didáticos, os recursos humanos e idosos na perspectiva da psicologia histó-

140
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

rico-cultural da subjetividade de Gonzá- tes de torcidas organizadas, para que elas


lez Rey. Com o objetivo de criar espaços pudessem através de si mesmas, de sua
sociais de desenvolvimento moral, essas subjetividade e de sua capacidade de aná-
ações consistiram na construção de diá- lise compreender quais atitudes necessita-
logos e reflexões sobre a invisibilidade do vam ser metamorfoseadas para que a rela-
outro, a despersonalização do sujeito e a ção homem – sociedade estivesse pautada
produção da violência nas relações, den- na Moral, abortando assim atitudes que
tre outras categorias construídas no pro- são contrárias ao viver social harmônico,
cesso da pesquisa. Para isso foram utiliza- como a violência exacerbada, que se vê tão
dos cartazes, panfletos, vídeos e jogos de vinculada a estes meios que supostamente
ação envolvendo todos os participantes deveriam propiciar formas de lazer límpi-
que foram escolhidos aleatoriamente e do, mas que na realidade só reafirmam a
deram seu consentimento livre e esclare- posição de Sujeitado de seus participantes.
cido ao serem convidados nos diferentes Foi realizada uma ação educativa, de cará-
espaços da cidade, dentre eles um clube ter qualitativo (González Rey, 2005) em
de futebol e duas escolas, uma de ensino um clube de time local, quando teve-se a
fundamental e outra de ensino médio. O priori uma perspectiva de construção de
envolvimento ativo dos participantes no conhecimento, com integrantes da torcida
diálogo e reflexão sobre as categorias e e estudantes de psicologia refletindo sobre
sobre os temas delas decorrentes, pos- este “indivíduo torcedor” e como o grupo
sibilitaram a construção do indicador de o posiciona frente à agressividade, rivalida-
sentido de que é premente a realização de de, revanchismo e incapacidade de discer-
ações educativas que desafiem e compro- nimento que o precipita à uma agressão
metam os sujeitos com práticas sociais, cega em decorrência de desdobramentos
atividades e relações que privilegiem o futebolísticos. Mostrou-se visível como em
desenvolvimento moral da sociedade. organizações populares, grupos de massa,
no caso, as torcidas organizadas, o proces-
so de morte do Sujeito. Ele se torna exau-
A MORAL NO ESTÁDIO DE FUTEBOL – A rido de sua própria voz, sua capacidade de
ESSENCIA DO FUTEBOL NAS TORCIDAS decisão não está mais pautada em si, mas
ORGANIZADAS no grupo, abdicando-se deste modo da
sua subjetividade e agindo de acordo com
A partir de um estudo realizado por quatro a direção acenada pelo grupo, o que torna
semestres na matéria “Psicologia do De- visível a compreensão do por que da vio-
senvolvimento III”, que visava compreen- lência estar tão latente nestes meios, ten-
der a expressão moral do Goianiense em do em vista que as amarras impossibilitam
vários espaços sociais, sendo um deles o a autonomia e tornando-os sujeitados,
estádio de futebol, teve-se direcionamen- fazendo com o que seu corpo grite a todo
to à segunda parte deste projeto, que an- instante para ser retomada a posse de ser
siava práticas de modelos educativos para Sujeito de si mesmo.
possibilitar a reflexão, consciência e envol-
vimento cognitivo-emocional das pessoas Palavras-chave: subjetividade, sujeito, torcidas
vinculadas aos times, no caso, participan- organizadas

141
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

EDUCAÇÃO MORAL DE JOVENS presente em todas as ramificações sociais


NA ESCOLA – SERIA A ESCOLA UM dos meios de ensino, possibilitando assim
DELIMITADOR CRIATIVO E SOCIAL? a mudança nesta concepção de como se
dá o ensino, o aprendizado e as relações
Tal trabalho surgiu da necessidade de se dentro do ambiente escolar, para formar
compreender como o sujeito moral, isto sujeitos morais.
é, aquele que se orienta a partir da moral
constitutiva de sua personalidade (Gon- Palavras-chave: escola, educação moral,
zález Rey, 1989) emerge de relações de subjetividade
extrema complexidade, muitas vezes rís-
pidas e que camuflam com discursos do-
ces o marasmo, a estagnação e práticas ESCOLA E EDUCAÇÃO MORAL:
deletérias que muitas vezes dão formas MUDANÇA OU MANUTENÇÃO DO
as silhuetas das Escolas. Como podemos STATUS QUO?
discorrer sobre sujeitados sociais e sobre
a incapacidade reflexiva de um grande Com base na psicologia histórico-cultural
número de pessoas, se em nosso modelo da subjetividade de González Rey foi reali-
de educação vigente, as escolas, um dos zada ação educativa em uma escola, com o
primeiros passos das crianças à um meio objetivo de criar um espaço de expressão
social além de sua família, só impõem ain- autentica dos alunos, no tocante as suas
da mais o desligamento do homem de si relações cotidianas com os professores.
mesmo, de suas sensações, sentimentos, Participaram da ação educativa, alunos
manifestações, destituindo-o daquilo que do sexto ano do ensino fundamental de
o torna único, a sua subjetividade? A pro- uma escola estadual. Motivados por car-
posta de nosso trabalho de ação educativa tazes ilustrativos de situações de opressão
era desafiar pais e professores a levarem e violência, os alunos foram desafiados a
em conta a necessidade de expressão da expressarem suas idéias e emoções pro-
duzidas no espaço da sala de aula, com
criança, de tornar-se sujeito e se envolver
relação à escola e aos professores. Nesta
de forma ativa com o mundo que a cir-
atividade lúdica os alunos expressaram,
cunda, para romper com uma relação de
por meio da arte, emoções produzidas nas
obrigatoriedade, automatizada e, assim,
práticas delimitadoras de suas relações no
abandonar o patamar de sujeitada e tor-
âmbito escolar, tais como: insatisfação,
nar-se sujeito de seu próprio aprendizado.
raiva, desmotivação, desconsideração.
Tendo como direção teórica a perspectiva Deste modo, pôde-se perceber sua neces-
histórico-cultural da subjetividade de Fer- sidade de participar ativamente da vida
nando Gonzalez Rey, tivemos a oportuni- da escola, necessidade esta que se mostra
dade de construir junto aos pais e profis- escassa numa realidade escolar que busca
sionais da educação a representação de a homogeneização. Se para Edgar Morin
uma escola onde o sujeito não fosse ne- (2003), a moral é “a constituição do ou-
gado a todo instante, mas sim enxergado tro em mim”, como podemos pensar em
e valorizado. O abordar dessa escola tão Moral em um espaço onde a figura de au-
pouco humanizada exigiu a reflexão sobre toridade desconsidera os anseios dos alu-
este fatídico da educação que se mostra nos? Portanto, existe constituição deste

142
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

outro moral em mim? Ele é simplesmen- apenas ser uma obrigação. Impor leis e pu-
te ignorado? O profissional da educação, nições para pessoas que não respeitam a
ao tornar-se o detentor da verdade, não faixa pode ser uma medida imediata, mas
dificultaria o desenvolvimento do aluno não a solução quando para o desenvolvi-
enquanto sujeito? Na perspectiva de Gon- mento humano, o que significa não apenas
zález Rey (2006) o desenvolvimento do obedecer às fiscalizações, mas respeitar os
sujeito somente é possível pela aprendiza- direitos do outro.
gem, o que implica em envolvimento do
aluno no processo de educação e, portan- Palavras-chave: desenvolvimento moral,
to, na mudança deste status quo. subjetividade, faixa de pedestres.

Palavras-chave: escola, moral,


desenvolvimento A MORAL DO GOIANIENSE NAS
AGÊNCIAS BANCÁRIAS

A MORAL DO GOIANIENSE NA FAIXA DE No primeiro semestre de 2011, na Ponti-


PEDESTRES fícia Universidade Católica de Goiás (PUC-
-Goiás), com base no conceito de Gon-
A partir de pesquisa sobre a expressão mo- zález Rey de que a moral é um elemento
ral do goianiense, na disciplina de Psicolo- da personalidade que orienta o sujeito
gia do Desenvolvimento do curso de Psico- nas suas relações e práticas sociais, foi
logia da Pontifícia Universidade Católica de realizada uma ação educativa visando
Goiás, foi realizada uma ação educativa no o desenvolvimento moral de usuários e
trânsito, na perspectiva da teoria histórico- funcionários de duas agências bancárias
-cultural da subjetividade, com o intuito de da cidade de Goiânia, uma de um bairro
mobilizar as pessoas para refletirem e pro- periférico e outra de um bairro nobre. É
duzirem uma subjetividade sobre a impor- importante enfatizar que as gerências
tância de respeitarem a faixa de pedestres. de ambas as agências foram devidamen-
Para isso foram utilizados panfletos, a par- te esclarecidas sobre o intuito da ação e
tir dos quais as pessoas eram abordadas permitiram que fosse realizada desde que
e convidadas a participarem da ação. Ob- a identidade da instituição fosse preser-
servou-se que a grande maioria dos par- vada. A ação consistiu na distribuição de
ticipantes mostrou interesse e motivação panfleto contendo, como disparador para
para a discussão sobre o tema, bem como reflexão e discussão, a seguinte pergunta:
preocupação com a educação de motoris- “Como está sua moral dentro da agência
tas e pedestres para se respeitarem mutu- bancária? As reflexões e discussões sobre
amente. Sobre a questão, ainda há muito a moral, tanto com os usuários quanto
que fazer, as pessoas precisam se cons- com os funcionários de ambas as agên-
cientizar que respeitar a faixa de pedestres cias, trouxeram aos estudantes a oportu-
é um problema do âmbito da moral. Essa nidade de entrarem em contato com uma
noção de respeito precisa ser desenvolvida realidade complexa, em que cada pessoa
por cada pessoa, fazer parte de sua orien- pensa e age diferentemente da outra, ou
tação moral (González Rey, 1989) e não seja, existe aquela que está indiferente,

143
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

aquela que ironiza sobre a problemática inserem-se como experiências de aprendi-


da moral e aquela que está atenta à ela, se zagem (Gonçalves & cols. 2008; Rodrigues
interage com os estudantes e se mobiliza & Oliveira, 2009). Neste contexto, as estra-
para ajudar a mudar a realidade. Entretan- tégias preventivas e promotoras de saúde
to, o fato de pessoas terem dado atenção vêm ganhando cada vez mais destaque
à ação é um importante indicador de que (Borges & Marturano, 2009; Rodrigues,
o tema pode e precisa ser retomado em Dias & Freitas, 2010). Matinez (1996) as-
outras oportunidades. Uma vez registra- segura que a escola é um espaço poten-
do em vídeo, com a permissão dos par- cial para se prevenir problemas e promo-
ticipantes, o processo da ação educativa ver saúde. Um recurso promotor de saúde
permitiu aos estudantes produzirem um são as histórias infantis (Borges & Martu-
pequeno documentário que deverá, en- rano, 2009; Kalyva & Agaliotis, 2009; Ro-
tão, servir a outras ações educativas que drigues, 2009; Teglasi e Rothman, 2001).
serão realizadas por outros estudantes em Rodrigues e Oliveira (2009) salientam que
futuro próximo. o relato e a leitura de histórias favorecem
a ampliação da realidade da criança, a
Palavras-chave: agências bancárias, escuta e observação dos outros em uma
desenvolvimento e moral. perspectiva de aprendizagem e conscien-
tização de que as outras pessoas também
possuem sentimentos, pensamentos, mo-
CO 24 - LT4 tivos e desejos e que cada ação tem uma
consequência nos diversos contextos que
Literatura e Brincar vivenciam. Teglasi e Rothman (2001), uti-
lizando a literatura infantil, elaboraram
um programa para promover o desenvol-
LT04-722 - LIVROS DE HISTÓRIAS: UM vimento sociocognitivo de crianças agres-
RECURSO PROMOTOR DE SAÚDE NA sivas, com base nos seis componentes do
EDUCAÇÃO INFANTIL modelo de processamento da informação
Jaqueline Pereira Dias - USP social proposto por Dodge e Crick (1994).
jaquepdias@gmail.com Como resultados obtiveram redução de
Edna Maria Marturano - USP comportamentos externalizantes em alu-
emmartur@fmrp.usp.br nos de 4º e 5º ano. Tendo como apoio
Financiamento: CAPES teórico o mesmo modelo, o presente es-
tudo teve por objetivo promover habili-
A permanência na educação infantil acon- dades sociocognitivas, por meio da leitura
tece em uma fase crucial para o desen- de livros de histórias infantis, em alunos
volvimento social, escolar e emocional da da educação infantil. Esperava-se que,
criança. O Referencial Curricular Nacional com o desenvolvimento do pensar socio-
para a Educação Infantil (1998) ressalta cognitivo propiciado pela intervenção, as
que é função social da escola capacitar a crianças melhorassem suas habilidades
criança para sua inserção na sociedade; sociais e seu comportamento nas relações
para isso a formação pessoal e social e a com os companheiros. Método – Sujeitos
aquisição do conhecimento de mundo - Participaram do estudo até o momento

144
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

25 crianças de 5-6 anos, matriculadas no dos junto aos professores, antes e depois
Pré III de uma escola de educação infantil da intervenção, de modo a aferir os seus
filantrópica, no interior de São Paulo. Ma- efeitos. Para avaliar as habilidades sociais
teriais e procedimentos - Para implemen- das crianças, foi utilizado o Questionário
tar a intervenção, foram selecionados 25 de Respostas Socialmente Habilidosas -
livros ilustrados de histórias infantis, ricos QRSH-RP (Bolsoni-Silva, Marturano & Lou-
em pistas sociais, com base na pesquisa reiro, 2009), composto por 24 itens agru-
de Rodrigues e cols. (2007). A intervenção pados em três fatores - Sociabilidade e
foi conduzida durante três meses, em 25 Expressividade Emocional, Iniciativa Social
sessões, com cerca de 50 minutos cada, e Busca de Suporte. Para avaliar proble-
em grupos com até 9 crianças. Em cada mas de comportamento, empregou-se o
sessão, a interventora lia um livro de his- Questionário de Capacidades e Dificulda-
tória interativamente, visando explorar e des – SDQ (Fleitlich, Cortázar & Goodman,
discutir o seu conteúdo com as crianças, 2000), composto por 25 itens em cinco
de acordo com o modelo de seis compo- escalas: sintomas emocionais, problemas
nentes do processamento da informação de conduta, hiperatividade, problemas
social. Na exploração do primeiro compo- de relacionamento e comportamentos
nente - o que está acontecendo? - as crian- pró-sociais. Um procedimento de avalia-
ças observam e interpretam as pistas so- ção sócio-cognitiva também foi utilizado,
ciais. No segundo - o que os personagens porém seus resultados ainda não estão
estão pensando e sentindo? - as crianças disponíveis. Os resultados das avaliações
são incentivadas a observar o “mundo pré- e pós-intervenção foram comparados
interno” dos personagens por meio das por meio do teste de Wilcoxon. Resulta-
ilustrações e leitura. No terceiro compo- dos e discussão - Os resultados apontaram
nente - quais são as intenções e metas incrementos significativos (p < 0,05) da
dos personagens? - relacionam-se os sen- pré para a pós-avaliação nos escores to-
timentos e pensamentos, já identificados, tais de dois fatores do QRSH-PR. No fator
com os objetivos e as metas. No quarto sociabilidade e expressividade emocional,
- o que os personagens alcançam com com 14 itens, aumentaram os escores nos
suas ações? - Discute-se com as crianças itens comunica-se positivamente, cumpri-
a relação entre os objetivos e metas dos menta, expressa carinhos, expressa dese-
personagens e os resultados alcançados. jos, expressa frustração e desagrado de
No quinto - como os personagens execu- forma adequada, faz elogios e tem rela-
tam e monitoram seus comportamentos? ções positivas. No fator iniciativa social (6
- as ações dos personagens são avaliadas itens), houve incremento nos itens toma
levando em consideração as consequên- a palavra, participa de temas de discus-
cias do comportamento. O sexto e último são, negocia. Os itens usualmente está de
componente - quais as lições aprendidas? bom humor e toma iniciativas mostraram
- abre para a criança a oportunidade de tendência a aumento (p < 0,10). No SDQ,
estabelecer relações entre as experiências houve melhora da pré para a pós-avalia-
vivenciadas pelos personagens da história ção nas escalas relativas a problemas de
e aquelas vividas por ela própria em seu relacionamento e comportamentos pró-
dia a dia. Dois instrumentos foram aplica- -sociais. Os resultados demonstraram

145
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

uma redução de problemas de relaciona- Os projetos sociais são hoje uma realida-
mento e aumento nas taxas de compor- de muito comum à sociedade brasileira.
tamentos pró-sociais. Não tendo havido São iniciativas individuais ou coletivas
mudança nos indicadores de busca de que visam a proporcionar a melhoria da
suporte (QRSH-PR), sintomas emocionais, qualidade de vida de pessoas e comuni-
hiperatividade e problemas de conduta dades. A sociedade se mobiliza, por meio
(SDQ), pode-se supor que os resultados de contribuições voluntárias, organizando
refletem a especificidade do programa e desenvolvendo projetos e ações sociais
para promover comportamentos social- para transformar determinada realidade
mente habilidosos e reduzir problemas de para o bem comum. A arte e a música,
relacionamento. A evolução encontrada mais especificamente, representam a ma-
nos referidos resultados denota que com nifestação cultural de um povo e contri-
o programa de leitura de histórias infantis buem para qualificar a vida das pessoas,
as crianças se tornam mais colaboradoras, na medida em que, através da arte, o ser
empáticas, atenciosas e, provavelmente, humano manifesta sua cultura e, correla-
mais capazes de analisar as consequên- tivamente, suas emoções, ou seja, aquilo
cias de cada comportamento (Rodrigues, que compartilha socialmente e seu mun-
2009; Rodrigues & Oliveira, 2009), o que do subjetivo. Sendo assim, elas se tornam
pode contribuir para a melhora da con- uma importante ferramenta para que os
vivência na escola (Borges & Marturano, projetos sociais atinjam seus objetivos.
2009). Conclusão - Programas promotores Os resultados de pesquisas anteriores
de habilidades infantis são de grande va- (Kebach, 2003; 2008) evidenciam que a
lia para favorecer o relacionamento inter- educação musical nos espaços informais
pessoal; a literatura infantil vem se mos- demonstra ser algo bastante produtivo
trando benéfica dentro desta proposta. em termos de musicalização e de trocas
Por meio dos livros de história as crianças sociais, o que motivou a realização da
esclarecem de modo interativo, contex- pesquisa atual. Diante disso, o objetivo
tualizado e reflexivo o processamento da desta pesquisa é investigar no âmbito de
informação social tornando-se cada vez projetos sociais no Vale do Paranhana/RS,
mais ajustadas ao meio social. como ocorrem as práticas musicais para
compreender de que modo estes espaços
Palavras-chave: desenvolvimento podem contribuir para a construção mu-
sociocognitivo, livros de histórias infantis, sical, para a inclusão e resgate da cultura
educação infantil local dos sujeitos envolvidos neste proces-
so. Através da pesquisa, poder-se-á mape-
ar a Educação Musical informal na região
LT04-744 - A MUSICALIZAÇÃO NO de estudo e sua repercussão na sociedade
CONTEXTO DOS PROJETOS SOCIAIS DO local, legitimando-se este espaço. Pre-
VALE DO PARANHANA/RS tende-se também contribuir para que os
Alexandre Herzog - FACCAT atuantes nos projetos sociais aprimorem
alexandre.herzog@hotmail.com seu trabalho e pensar na implantação da
Patrícia Fernanda Carmem Kebach - FACCAT educação musical, obrigatória nas escolas
patriciakebach@yahoo.com.br a partir de 2011, em função da lei 11.769

146
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

publicada no Diário Oficial da União em nesses projetos através do ensino de ins-


agosto de 2008, de modo mais qualifica- trumentos musicais e por meio da realiza-
do e significativo. A metodologia utilizada ção de corais, que permitem a construção
visa compreender o fenômeno em suas do cantar dos participantes e a sensibili-
dimensões individual e social. Os sujeitos zação musical. Nos projetos mapeados
investigados serão os professores (ou ou- até o presente momento, de modo geral,
tros proponentes) e participantes do pro- objetiva-se trabalhar com a prevenção
cesso de musicalização no contexto dos antidrogas, a promoção de saúde, melho-
projetos sociais. Utilizar-se-á a técnica de rar a qualidade de vida dos participantes,
observação coletiva e entrevistas individu- promover a socialização de crianças e sua
ais. Essas entrevistas serão realizadas com permanência na escola, profissionalizar o
base na técnica de aplicação do Método jovem e mantê-lo longe do trabalho sem
Clínico Piagetiano (Delval, 2002), a fim de condições, além de reunir a comunidade
compreender, através da livre conversa- e fomentar o gosto pela espiritualidade e
ção com os agentes do processo, de que cultura local. Caracterizam-se como inicia-
modo ocorrem a produção musical e as tivas movidas por diversos tipos de pro-
interações sociais nos espaços investiga- ponentes, desde igrejas, moradores dos
dos. O método clínico se traduz pelo pro- municípios, secretarias de educação e de
cedimento de coleta de dados através da assistência social até escolas e programas
observação das ações e livre conversação federais. Esta pesquisa está em fase de co-
sobre determinada temática, para seguir leta de dados e poderá contribuir para a
o pensamento da pessoa entrevistada. No construção de conhecimento acerca dos
caso desta pesquisa, os dados referentes projetos sociais e as práticas de educação
às ações musicais dos sujeitos serão regis- musical desenvolvidas na região do vale
trados através de filmagens e as entrevis- do Paranhana. Os projetos já mapeados
tas gravadas e transcritas, para posterior revelam a relação entre a música e a qua-
análise. A eleição da observação das ações lidade de vida e, também, a intenção de
musicais e dos sujeitos entrevistados será promover uma educação musical qualifi-
feita através de entrevista com um propo- cada. Na etapa em que os pesquisadores
nente de atividade musical e um partici- analisarão com mais profundidade os pro-
pante destas atividades de cada uma das jetos eleitos em cada cidade do Vale do
seis cidades do Vale do Paranhana: Taqua- Paranhana, ter-se-á como objetivos os se-
ra, Parobé, Três Coroas, Riozinho, Igreji- guintes: analisar como as pessoas que tra-
nha e Rolante. Serão mapeados espaços balham com musicalização nestes espaços
diversificados de projetos sociais, o que compreendem seu papel e o dos educan-
se caracteriza como pré-requisito para a dos para compreender a fundo os proces-
eleição de determinados projetos, ou seja, sos de ensino e aprendizagem musical;
em cada cidade, será eleito um espaço di- verificar as relações interpessoais estabe-
ferente para ser mapeado. Até o presente lecidas nos projetos para compreender o
momento, a pesquisa permitiu verificar a que une as pessoas em torno das ações de
existência de 25 projetos sociais ocorren- educação musical; investigar a função, na-
do nas cidades do Vale do Paranhana. A tureza e impacto que a Educação Musical
educação musical tem sido trabalhada causa nas localidades dos projetos sociais

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

onde é desenvolvida para compreender crianças. A idéia de educação infantil – en-


como os grupos em situação de vulnera- tendida como aquela que se orienta para
bilidade e risco social podem vislumbrar o desenvolvimento de crianças de zero a
novas perspectivas de estruturação social, seis anos de idade (Brasil, 1998) – está as-
a partir da interação nos cenários de mu- sociada, culturalmente, às dimensões do
sicalização nestes projetos. “cuidar” e do “educar”, visando garantir
a não-fragmentação das experiências de
Palavras-chave: educação informal, projetos ensino-aprendizagem à criança pequena
sociais, musicalização (Angotti, 2000; Machado, 2000; Oliveira,
1999). Porém, muitas vezes, tais contextos
LT04-810 - JOGOS COOPERATIVOS E se encontram à mercê de concepções te-
A PROMOÇÃO DA COOPERAÇÃO NA óricas e práticas não adequadas para ex-
EDUCAÇÃO INFANTIL pressar, em sua plenitude, o caráter edu-
Marilícia Witzler Antunes Palmieri - UEL cativo, pedagógico e formativo, implicado
marilicia@uel.br nas diversas experiências vivenciadas pela
Valéria Queiroz Furtado - UEL criança (Machado, 2000). Dentre as diretri-
valeriauel@uel.br zes apontadas pelo Referencial Curricular
Nacional para a Educação Infantil (Brasil,
Em muitas das práticas educativas no âm- 1998) para o desenvolvimento do trabalho
bito da educação infantil, desvelam-se com crianças de quatro a seis anos está à
diferentes procedimentos contemplando promoção de interações que favoreçam a
alternativas educativas e pedagógicas di- troca de idéias, oportunidade de expres-
versificadas. Estas permitem o trânsito de são, de contato com outras vivências e a
uma ampla gama de valores, conceitos, construção conjunta de conhecimentos e
regras, orientações, idéias e concepções, habilidades sociais, sublinhando a coope-
configurando relações motivacionais alta- ração como o principal tipo de interação a
mente complexas e que implicam no de- ser estimulado e promovido. Nessa pers-
senvolvimento de diferentes padrões de pectiva a proposta pedagógica dos jogos
interação social. O eixo central do estudo cooperativos (Correia, 2006, 2007; Brotto,
recai sobre a necessária superação de va- 2000; Salvador e Trotte, 2000; Soler, 2003)
lores atrelados as práticas sócio-culturais apresenta-se como um recurso educativo
competitivas e individualistas das relações promissor para a modificação de práticas,
humanas que se estabeleceu em nossa conceitos e valores competitivos e indi-
sociedade, as quais têm sido enfatizadas vidualistas comumente encontrados na
no exercício do cotidiano escolar (Branco, escola, a qual enaltece o resultado e não
2003, 2006; Crockenberg & Bryant, 1979; o processo, ao valorizar a vitória como
Johnson & Johnson, 1989; Palmieri, 2003; prêmio do sucesso individual (Correia,
Salomão, 2001). Isto porque, dependen- 2006; Salvador & Trotte, 2001). Chama-
do das ações pedagógicas do professor, -se de “cooperativos” jogos que alteram
é ele quem define as normas e as regras, a estrutura dos jogos tradicionais de suas
como também lidera e domina de forma características de exclusão, agressividade,
quase absoluta o espaço comunicativo das seletividade e exacerbação presentes em
atividades a serem desenvolvidas pelas jogos competitivos, para uma estrutura de

148
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

jogos que sejam basicamente pautados na tuição, visando analisar, em nível microge-
cooperação, no envolvimento e na diver- nético, como três educadoras promovem
são (Brotto, 2002). São jogos que aceitam ou inibem a cooperação entre seus alunos
as diversidades e as limitações dos partici- (4 a 6 anos), utilizando como recurso pe-
pantes promovem o exercício da confian- dagógico os jogos cooperativos. O estudo
ça pessoal e interpessoal, cumplicidade, inclui: 1) Registro das atividades diárias re-
solidariedade, respeito mútuo (Correia, alizadas com as crianças (protocolo espe-
2006), uma vez que ganhar e perder são cífico); 2) Entrevistas (inicial e final) com as
apenas referências para um contínuo educadoras (roteiro semiestruturado); 3)
aperfeiçoamento de todos, vislumbrando Planejamento dos jogos para orientar as
um verdadeiro exercício educativo para a professoras a reconstruírem e adaptarem
paz (Brotto, 2002). Neste sentido, o me- jogos a uma concepção não competitiva
lhor momento para introduzir os jogos co- ou cooperativa (categorização de Orlik,
operativos para o exercício da cultura da 1989, apud Correia, 2007); 4) Registro em
cooperação é a educação infantil, consi- vídeo de atividades de jogos cooperativos
derando que a criança ainda foi pouco ex- estruturados pelas educadoras. Como re-
posta a experiências de competição (Soler, sultado parcial, os registros das atividades
2003). Acreditamos que as possibilidades diárias têm revelado um grande volume
e os limites dessa proposta no contexto da de “atividades livres” sendo promovidas
educação infantil contribuirão à análise do às crianças fora da sala de aula, onde pre-
complexo processo construtivo de sociali- domina as instruções das educadoras sem,
zação entre professores e alunos inseridos contudo, considerarem o interesse das
em espaços educacionais que tem por crianças pelas brincadeiras. Quando se
base um contexto heterogêneo e dinâmi- trata de atividades sendo estruturadas no
co, ancorado em diferentes aspectos rela- contexto da sala de aula, as educadoras se
tivos à interdependência humana, aí con- orientam pelo objetivo de obter a atenção
vivendo, em princípio, orientações múlti- das crianças na realização de tarefas indivi-
plas e diversificadas. O presente trabalho duais ou em grupo, com a atenção orienta-
é fruto de estudo anterior sobre o tema lu- da para a professora, desestimulando-as a
dicidade e formação de educadores infan- interagirem entre si. Tais atividades, geral-
tis realizado em um Centro de Educação mente, se reduzem às educadoras contan-
Infantil do município de Londrina-PR. Uma do uma estória para as crianças, repetidas
oficina de Jogos Cooperativos foi promo- vezes por um período determinado e, na
vida a quinze educadoras, as quais reco- seqüência, as instruem para a produção
nheceram a necessária promoção de ati- individual de trabalhinhos (pintura, dese-
vidades verdadeiramente cooperativas na nho, recorte, colagem). Neste caso, não se
educação infantil, e, ao mesmo tempo, re- observa preocupação das professoras com
velaram desconhecer como este tipo de vi- atividades estruturadas para as crianças
vência pode ser promovido nas atividades interagirem cooperativamente que façam
lúdicas que desenvolvem com as crianças com que aprendam novos conceitos e
no dia-a-dia da instituição. Dentro deste experimentem algo novo no contexto da
contexto se insere o presente estudo (em sala de aula. Questiona-se o pouco espaço
fase inicial), desenvolvido na mesma insti- para a criação de um ambiente propício a

149
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

negociações professoras-crianças, o que mente, o desenvolvimento da imaginação


levaria a um posicionamento mais demo- e da criatividade de seus alunos. Definimos
crático na sala de aula. Problematiza-se o os seguintes objetivos específicos: identifi-
caráter educativo das atividades propostas car concepções de leitura, literatura infan-
e o tipo de interação estimulado e promo- til, imaginário e criatividade presentes no
vido no âmbito da instituição. Acredita- ideário das professoras participantes deste
mos que a prática dos Jogos Cooperativos estudo; analisar estratégias pedagógicas
nesse contexto educacional propiciará às utilizadas pelas professoras para realizar
crianças a participação em atividades lúdi- uma leitura prazerosa; descrever os proje-
cas que incentivam a cooperação, visando tos de literatura infantil desenvolvidos na
o alcance de objetivos comuns, adquirin- escola, destacando o desenvolvimento da
do também progressiva autonomia e in- imaginação e criatividade de seus alunos;
dependência para coordenar suas ações identificar os programas da escola para
com a de outros. As educadoras poderão capacitação de professores no que diz res-
explorar as configurações motivacionais peito ao trabalho com projetos literários;
facilitadoras de modalidades construti- identificar as possibilidades de aplicação
vas de interdependência social, o que nos das estratégias pedagógicas desenvolvidas
propiciará analisar os diferentes tipos de no campo da literatura nessa escola, em
inter-relações que ocorrem no conjunto instituições da rede pública do DF. Para que
dos fatores que se apresentam típicos des- tais objetivos fossem alcançados, organiza-
se contexto. mos o referencial teórico que fundamenta
todo o estudo com os trabalhos de Alencar
Palavras-chave: Jogos Cooperativos; (2003); Coelho (2000); Garcez (2008); Ma-
Cooperação; Educação Infantil. chado (2002); Martinez (1997); Vygotsky
(2009); Zilbermam (2005). A metodologia
escolhida para o desenvolvimento da pes-
LT04-1412 - A LITERATURA INFANTIL NO quisa foi a de cunho qualitativo, utilizando
DESENVOLVIMENTO DA IMAGINAÇÃO instrumentos de coleta de dados como a
E CRIATIVIDADE DE ALUNOS DE 2 A 5 observação participante em três turmas da
ANOS DE IDADE educação infantil e a entrevista semiestru-
Priscila Martins do Nascimento da Silva - UnB turada com as respectivas professoras. Os
Norma Lucia Neris de Queiroz - UnB resultados deste estudo revelam que a prá-
normaluciaq@yahoo.com.br tica da literatura realizada pelas professo-
ras da escola investigada, mesmo que em
O presente trabalho caracteriza-se com um alguns momentos precise de maior emba-
estudo de pesquisa, cujo título é A literatu- samento teórico e capacitação profissional
ra infantil no desenvolvimento da imagina- no que diz respeito a intenções pedagógi-
ção e criatividade de alunos de 2 a 5 anos cas pautadas numa prática mais rica em
de idade. Foi estabelecido como objetivo possibilidades de criação e imaginação, faz
geral, analisar a prática pedagógica de um com que a literatura chegue a seus alunos
grupo de professoras da educação infantil de maneira que favorece e possibilita a
de uma escola particular do Distrito Fede- vivência de sua verdadeira essência, sem
ral em relação à literatura infantil, especial- cobranças, ou seja, viver a literatura pela

150
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

própria literatura. Refletindo sobre os re- de terem idéias e hipóteses originais so-
sultados, é possível dizer que para realizar bre aquilo que buscam desvendar” (Rc-
uma prática pedagógica pautada na lite- nei,1998, p.21) Compreender, conhecer e
ratura, mais especificamente na literatura reconhecer a forma particular das crian-
infantil, é preciso ir além dos fantoches e ças serem e estarem no mundo é um dos
dramatizações e sim viver a leitura da pala- grandes desafios da educação infantil. A
vra com encantamento e prazer. escola é uma instituição social privilegiada
e responsável por promover este encon-
Palavras-chave: Literatura infantil; Educação tro com as mais diversas áreas do conhe-
infantil; Criatividade; Imaginação. cimento, dentre elas, a da cultura corporal
de movimento pela qual a Educação Física
é diretamente responsável. Cultura corpo-
LT04-1422 - O CIRCO: UMA PROPOSTA ral são todas as manifestações corporais
DE AÇÃO INCLUSIVA EM EDUCAÇÃO humanas que são geradas na dinâmica
FÍSICA PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA. cultural, são conhecimentos historicamen-
Vivianne Flávia Cardoso - UnB/UAB te acumulados e socialmente transmitidos
vfcardoso@gmail.com (PCN EF, 1992, 1998). Segundo o PCN EF
Juliana Eugênia Caixeta - UnB (1992, p. 27) “É preciso que o aluno en-
eugenia45@hotmail.com tenda que o homem não nasceu pulando,
saltando, arremessando, balançando, jo-
Nesse trabalho, discutimos a inclusão de gando etc. Todas essas atividades corpo-
alunos deficientes nas aulas de educação rais foram construídas em determinadas
física, entendendo que a escola deixa de épocas históricas, como respostas a deter-
ser uma instituição social com forte apelo minados estímulos, desafios ou necessida-
seletivo e passa a ser o lugar em que as des humanas”. Assim, o aluno deficiente
potencialidades devem ser vistas, as difi- deve ser atendido em suas necessidades e
culdades superadas e os resultados apro- desafiado em suas potencialidades como
veitados em prol de uma sociedade me- todas as outras crianças, pois o objetivo
lhor. O processo de aprendizagem aciona das aulas de educação física é a inclusão
vários processos de desenvolvimento do aluno na cultura corporal de movimen-
que sem este estímulo poderiam não vir to por meio da participação e reflexão, de
a acontecer (Vygotsky, 1994). Quando fa- um conjunto de vivencias que contribuam
lamos de inclusão de pessoas deficientes, para seu desenvolvimento global. Descre-
o que temos que fazer é descobrir como ver e analisar o processo de inclusão de
promover zonas de desenvolvimento alunos deficientes nas aulas de Educação
proximal que estimulem estas crianças Física na educação infantil que foram re-
a adquirir e formar o pensamento abs- alizadas em uma escola pública de Vitória
trato. Sabemos que a mediação do mais durante os meses agosto a novembro de
experiente impulsiona o desenvolvimento 2010. Nesse trabalho, realizamos a união
do menos experiente. “No processo de da abordagem qualitativa de pesquisa
construção do conhecimento, as crianças com a pesquisa-ação em um estudo de
se utilizam das mais diferentes linguagens caso. Participaram do estudo 25 crianças
e exercem a capacidade que possuem na faixa etária de 4 anos, incluindo uma

151
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

criança com Síndrome de Down, uma es- se balançar no balanço de pneu. Quanto
tagiária, a professora de Educação Física, a relações mediadas, trabalhamos, além
a professora regente da turma 4A e a pes- da cooperação, soluções de problemas e
quisadora, que também atuou como me- a tomada de decisões, pois assim nossos
diadora das atividades. Como técnicas e alunos poderiam acessar seu repertório
materiais para coleta de dados foram utili- motor, além de ressignificar movimentos
zados observações e composição de diário culturalmente construídos e historica-
de campo, filmagens, fotografias. Como mente acumulados. De acordo com Melo
procedimento foi adotado a implantação (2010, p. 29), “na perspectiva em que o
do planejamento da proposta pedagógica contexto da ação assume papel central
Circo em que cada dia havia uma atividade no processo de desenvolvimento motor, o
diferente. Na medida em que as atividades sujeito é considerado ator do seu próprio
eram avaliadas, o planejamento inicial so- desenvolvimento”. Dentro da temática do
fria ajustes. O tema circo foi escolhido por Circo, realizamos intervenções variadas na
apresentar um universo lúdico muito rico turma, de forma que João tivesse oportu-
para a criança, porque permite o trabalho nidade de ser atendido em suas necessi-
com músicas, com personagens, como: o dades individuais, vindas principalmente
palhaço e o mágico e com diferentes ex- da hipotonia, uma das características da
pressões corporais, como: malabarismo, Síndrome de Down. Esta experiência mos-
acrobacias (como cambalhotas), equili- trou que a Educação Física contribui para
brismo, trapézio, corda bamba, dentre ou- a construção de uma escola inclusiva à
tros. A intervenção foi planejada visando medida que integra saberes e fazeres di-
vivenciar com as crianças práticas corpo- ferentes dentro de um mesmo contexto,
rais atreladas à temática do circo de forma quando tece reflexões sobre os significa-
lúdica e prazerosa. Durante a intervenção dos e sentidos que as ações corporais têm
foi possível observar que todas as crianças dentro da escola e na vida dos indivíduos
participaram ativamente, inclusive João, envolvidos. Acreditamos que intervenções
portador da síndrome da Down. Todos os como as apresentadas nesse estudo evi-
alunos demonstraram parceria e coopera- denciam o papel da educação física como
ção. O processo de mediação professor/ promotora do desenvolvimento integral
aluno foi muito importante para promo- das crianças, integrando o desenvolvimen-
ver um ambiente inclusivo, pois à medida to cognitivo, afetivo e motor. Percebemos
que pensávamos um processo de aprendi- que a intervenção na educação física pode
zagem que incluísse todas as crianças bus- ir além dos “muros” da quadra e integrar
camos também uma prática voltada para ações da escola como um todo. Adultos e
competências dos sujeitos e que contri- crianças, crianças e crianças vivenciaram
buísse para superar as limitações impos- e evidenciaram, neste estudo, as possibi-
tas pela deficiência. Quanto à mediação lidades que se abrem no trabalho coletivo,
aluno/aluno: das relações espontâneas, contextualizado à cultura infantil e, tam-
citamos a cooperação, esta acontecia toda bém, à cultura corporal de movimento.
vez que um colega ajudava o outro a re-
alizar determinada atividade, como: virar Palavras-chave: Inclusão Escolar, Educação
cambalhota, alcançar o trapézio, subir e Física, Cultura Corporal.

152
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

LT04-1423 - A CONSTRUÇÃO DO tural. É construído porque os significados


SI MESMO E DO OUTRO NAS compartilhados nas interações tornam-se
BRINCADEIRAS DE FAZ-DE-CONTA constitutivos do sujeito e é construtor,
Sônia Regina dos Santos Teixeira - UFPA porque os significados compartilhados
soniaregina.st@uol.com.br são resignificados, recriados pelo sujeito.
Na brincadeira de faz-de-conta é possível
Os princípios teóricos e metodológicos perceber essa co-construção. A criança é
adotados neste estudo tiveram como construída pelos significados partilhados
pressupostos o referencial da psicologia no seu grupo cultural, uma vez que a ma-
histórico cultural e foram utilizados para téria da situação imaginária origina-se das
compreender como determinadas experi- experiências diretamente vividas ou pre-
ências inquietantes vivenciadas por crian- senciadas pela criança. Ao mesmo tempo,
ças ribeirinhas, durante brincadeiras de é construtora, na medida em que recom-
faz-de-conta contribuíram para o processo bina os significados e cria situações ficcio-
de constituição cultural das mesmas. Para nais que são virtuais, não correspondendo
Vygotsky (1984), o indivíduo, ao nascer, a cópias literais dos significados partilha-
ainda não é verdadeiramente humano. dos. Para Simão (2004), o ser humano
Somente passa a sê-lo quando, a partir constrói o si mesmo e a cultura, por inter-
da interação com outros sujeitos, inter- médio do constante diálogo entre o “mim
naliza os significados compartilhados no mesmo” e o “outro”, principalmente, a
seu contexto sociocultural. Para o autor, partir de vivências que ferem as expecta-
em cada fase do processo de constituição tivas do “mim mesmo” e o instigam cog-
cultural do sujeito há uma atividade que nitivo e afetivamente – as “experiências
contribui de forma fundamental para a inquietantes”. A autora questiona a rele-
construção do psiquismo humano. Na fase vância de estudos que buscam o acúmu-
por ele denominada pré-escolar, de três a lo exaustivo e seletivo dos dados visando
seis anos, a brincadeira de faz-de-conta é descrever a ‘interação em si’, ‘o mais obje-
a principal atividade a contribuir para esse tivamente possível’. Para ela, ao examinar
processo. Assim, investigar como as crian- as falas das interações, o pesquisador, ao
ças brincam, como interagem e os signi- invés de procurar os diálogos marcados
ficados construídos durante as brincadei- pelos consensos entre os sujeitos, deve
ras, pode ajudar na compreensão do pro- tomar como objeto de suas análises as fa-
cesso de constituição cultural dos sujeitos. las que expressem ‘momentos de tensão’,
Considerando que, atualmente, muitas investigando para onde elas orientam os
crianças nessa faixa etária participam de interlocutores, na negociação para a dis-
programas de educação infantil, as turmas tensão e reconstrução do conhecimento
de educação infantil constituem-se lócus sobre o conteúdo da conversa, mas, so-
importantes para a investigação dessa ati- bretudo, na reconstrução concomitante e
vidade e, consequentemente, do processo interdependente do conhecimento sobre
de constituição cultural das crianças, que relações eu-eu e eu-outro. Nesse sentido,
delas participam. Valsiner (1997) afirma foi realizado o presente estudo para veri-
que o indivíduo, exerce um papel dialé- ficar as experiências inquietantes viven-
tico no seu processo de constituição cul- ciadas pelas crianças, durante as brinca-

153
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

deiras de faz-de-conta e como as mesmas instante (Simão, 2002, 2004). O estudo re-
contribuem para o processo de constitui- velou momentos de tensão presentes nos
ção cultural das crianças que participavam diálogos entre as crianças, que as exigiam
das interações. O estudo faz parte de uma reconstruções afetivas e cognitivas cons-
pesquisa maior realizada durante o ano de tantes. É evidente na análise, que embo-
2005 e teve como participantes dez meni- ra tenha sobressaído o investimento das
nos e seis meninas, com idade entre qua- crianças na negociação de conflitos para
tro e cinco anos e a professora da classe garantir o processo interativo do brincar,
de uma escola localizada na Ilha do Com- longe de ser um ambiente harmônico,
bu, no município de Belém, Pará. O pro- este era um espaço marcado por tensões,
cedimento de coleta constou de gravações desencontros e disputas. Verificou-se res-
em vídeo das brincadeiras que ocorreram significações de princípios de classificação
no cotidiano da classe. As informações fo- dos sujeitos, presentes no contexto socio-
ram coletadas quinzenalmente, perfazen- cultural das crianças, tais como: mais ou
do um total de 16 registros. Os episódios menos competente; mais velho e mais
de faz-de-conta foram transcritos e exami- novo; adulto e criança; homem e mulher
nados do ponto de vista microgenético, de e feio e bonito. Tais ressignificações esta-
acordo com a forma concebida pela psico- vam na origem de diversas experiências
logia histórico cultural. A análise centrou- inquietantes. Na análise ficou evidente
-se na dinâmica do processo de constru- que o processo de constituição cultural
ção de significados pelas crianças. Ficou ocorre da diferenciação de elementos ini-
evidente na análise dos episódios que as cialmente indiferenciados. Tal diferencia-
experiências inquietantes vividas pelas ção só é possível, por intermédio do dis-
crianças, durante as brincadeiras, contri- tanciamento psicológico crescente, pos-
buíam para a tomada de consciência da sibilidade que as crianças encontram no
diferenciação entre o si mesmo e o outro. faz-de-conta, que as exige uma maior des-
Isso pode ser observado pelo uso frequen- centralização do si mesmo e uma menor
te dos pronomes pessoais e possessivos e contextualização. No faz-de-conta, na me-
pela diversidade de formas de ocupação dida em que a criança discorda da outra,
do lugar do outro da cultura, durante a ela instaura um distanciamento entre o si
representação de diversos papeis sociais. mesmo e o outro. Isto a possibilita tomar
Tais achados confirmam a proposição de consciência cada vez mais abrangente de
Góes (2000), de que a brincadeira de faz- seus contextos, de si mesma, dos outros
-de-conta é um excelente campo para e de suas relações com eles e a participar,
investigar os indícios da construção do si de formas cada vez mais diferenciadas do
mesmo e do outro, pelo fato, da criança, processo de construção da sua subjetivi-
nessa atividade, manejar, constantemen- dade e da sua cultura.
te, imagens de si e dos outros da cultura.
A análise mostrou também como as crian- Palavras-chave: Brincadeira de Faz-de-Conta;
ças estavam constantemente significando Educação Infantil; Crianças Ribeirinhas.
e ressignificando a sua relação com os par-
ceiros, figuras cognitivo-afetivas a quem
alimentavam expectativas diversas a todo

154
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

CO 27 - LT4 tratando de crianças autistas, apresentar


das mais diversas formas e de diferentes
Inclusão 2 maneiras os objetos da cultura ao aluno,
para que este encontre um lugar no mun-
do ou que nele possa advir como sujeito.
LT04-798 - INCLUSÃO ESCOLAR DE
A educação terapêutica (Kupfer, 2001) é
ALUNOS AUTISTAS: CONCEPÇÕES DE
um conjunto de práticas interdisciplinares
PROFESSORES DE ESCOLAS PÚBLICAS DO
que visa à retomada do desenvolvimen-
DISTRITO FEDERAL
to global do sujeito ou a reestruturação
Mara Rubia Rodrigues Martins - SEEDF psíquica interrompida pelo surgimento
mararubiarm@gmail.com do autismo. Na pesquisa, foi utilizada a
Sandra Francesca Conte de Almeida - UCB abordagem qualitativa de tipo etnográ-
sandraf@pos.ucb.br fico, adotando-se como instrumento de
coleta e construção de dados a entrevista
As indagações acerca da possibilidade de semiestruturada. Os resultados indicaram
inclusão escolar de pessoas com autismo congruência e semelhança de concepções
habitam o imaginário dos envolvidos no e práticas pedagógicas entre os profes-
processo educativo e lançam um debate sores entrevistados. Observou-se que a
sobre as condições que vão além da ga- maioria dos sujeitos entrevistados, vinte
rantia dada por lei (acessibilidade) à esco- e um, era favorável à inclusão escolar de
laridade em salas comuns. Assim, é neces- alunos com autismo, embora tivessem re-
sário que a escola e os professores se pre- latado o mal- estar que sentiam frente ao
parem para incluí-las. O presente trabalho aluno autista, cuja “diferença” os remetia
investigou as concepções de 23 professo- ao exercício constante da impotência, da
res regentes de escolas públicas acerca incapacidade, da angústia, marcas signifi-
da inclusão escolar de alunos autistas no cantes da castração. Apesar da formação
ensino regular. A fundamentação teórica acadêmica de nível superior, esta não os
que embasou o estudo é a psicanalítica, autorizava, de “per si”, a implicar-se sub-
enfatizando a compreensão do autismo, jetivamente no trabalho realizado com es-
na perspectiva freudo-lacaniana, o concei- ses alunos. Cabe ressaltar que as concep-
to de educação terapêutica e as relações ções dos professores sobre o processo de
entre psicanálise e educação. A grande inclusão escolar, bem como sua compre-
descoberta da psicanálise, a constituição ensão acerca do autismo, permitiam que
do sujeito no campo do Outro, ensina que se perpetuasse a ideia de que os autistas
a pessoa se torna sujeito pelo desejo e vivem em um mundo à parte, isolados da
que o sujeito só pode se constituir como realidade e que, por tais motivos, as práti-
sujeito desejante se o Outro o desejou, cas inclusivas se restringiam a ações edu-
antes. Para que o sujeito se constitua não cativas de pouco impacto na subjetividade
basta apenas que seja cuidado, é preciso e no comportamento desses sujeitos. Os
também que seja desejado e que o Outro dados relativos aos fatores que facilitavam
responda à sua demanda. Cabe ao profes- ou dificultavam a inclusão de autistas no
sor, na função de suplência do outro, mas ensino regular se expressaram sob a for-
de um outro barrado, sobretudo em se ma de uma aparente contradição. Foram

155
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

apontados como fatores facilitadores: a volvidos no processo de inclusão escolar


informação/conhecimento, a formação é de fundamental importância, pois dar
específica, a presença de um professor voz a esses que são os protagonistas da
auxiliar, em sala de aula, e o envolvimento educação inclusiva, juntamente com os
da família; como fatores que dificultavam alunos, significa apostar no professor e
a inclusão, apareceram esses mesmos as- criar condições para que a educação te-
pectos, mas em situação de falta, de ca- rapêutica aconteça. Os resultados deste
rência ou de ausência. Quanto às práticas estudo confirmaram, ainda, a complexida-
pedagógicas diárias, foi possível observar de do processo de inclusão de autistas no
que a grande maioria, dezenove dos vin- ensino regular e apontaram para a neces-
te e três professores, realizava algum tipo sidade de se dar continuidade a outros es-
de adaptação curricular, quer seja nas tudos e pesquisas que levem em conside-
atividades propostas, no atendimento ou ração essa temática, sobretudo a função
nas avaliações dos alunos autistas, o que da escola e do professor no processo de
nos permitiu inferir que os professores reestruturação psíquica de crianças com
se preocupavam em oferecer atividades graves problemas de desenvolvimento.
pedagógicas que levavam em considera-
ção as peculiaridades e limitações de seus Palavras-chave: Inclusão escolar; autismo;
alunos autistas e as suas próprias. O papel psicanálise.
do educador, nas vicissitudes da constitui-
ção do sujeito, é o de fornecer aos alunos
autistas inscrições primordiais, conteúdos LT04-933 - O BRINCAR EM CRIANÇAS
ideativos, objetos da cultura, a partir de COM DEFICIÊNCIA VISUAL
diversas linguagens, instituindo o simbóli- Letícia Coelho Ruiz - UNICAMP
co em torno do real, diferenciando-se da letsruiz@yahoo.com.br
educação formal, ocupando o lugar de Ou- Cecília Guarnieri Batista - UNICAMP
tro barrado, transmitindo, além de conhe- cecigb@gmail.com
cimentos, valores, ideais e um saber exis-
tencial. A educação terapêutica, prática Muitos trabalhos discutem questões so-
interdisciplinar que visa à reestruturação bre o desenvolvimento de crianças com
psíquica da criança com transtorno global deficiência visual, por meio de compara-
do desenvolvimento, foi sugerida como ções com aspectos do desenvolvimento
proposta de atendimento educacional aos de crianças videntes. Nesses estudos, as
alunos autistas inclusos no ensino regular, dificuldades e os déficits são salientados,
assim como a criação de um espaço de por tomarem por base a relação normal/
interlocução e de escuta dos professores, deficiente. Warren (1994) sugeriu uma
de modo que estes pudessem ressignificar “abordagem diferencial”, que se caracte-
suas angústias e rever suas certezas, des- riza por buscar compreender as variações
construir saberes e aprender a conviver no desenvolvimento entre indivíduos com
com a impossibilidade de uma educação deficiência visual, considerando importan-
ideal, apostando no saber e no desejo de tes os casos de indivíduos que se destacam
que, pelo ato educativo, um aluno-sujeito pelo desenvolvimento de habilidades dife-
possa advir. A escuta dos educadores en- renciadas. A detecção de uma habilidade,

156
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

mesmo que em um único participante, já ogravações e análise qualitativa e micro-


é indicação de que a deficiência não impe- genética de episódios, segundo Carvalho
de a sua aquisição. Sugere, portanto, que e Pedrosa (2005) e Góes (2000). O estudo
a pesquisa seja voltada para perguntas so- abrangeu sete crianças de 4 a 8 anos, or-
bre os fatores que levaram essas pessoas ganizadas em dois grupos: (a) no Grupo 1
a adquirir tais habilidades. Um contexto participaram três crianças, duas com baixa
em que podem ser observados aspectos visão e uma cega; (b) no Grupo 2 participa-
do desenvolvimento infantil é durante ram duas crianças com baixa visão e duas
o brincar. Vygotsky (1988) discute sobre com alterações visuais e dificuldades es-
a relação entre o brincar e as funções colares. As filmagens foram feitas de abril
mentais superiores, afirmando que, ao a junho de 2010. Foram videogravadas 8
partir do brinquedo, com destaque para sessões, com cada um dos grupos. As ob-
o brincar de faz de conta, a criança torna- servações foram realizadas em situações
-se capaz de compreender o real e atuar que propiciaram contatos com brinquedos
de maneiras distintas e mais elaboradas, em momentos de interação. Foram prepa-
em relação às que costuma apresentar em rados conjuntos de brinquedos variados,
seu convívio social. A atividade lúdica con- com atenção às necessidades referentes
fere liberdade à criança, por meio destas à deficiência visual (brinquedos coloridos,
ações simbólicas, e lhe permite ultrapas- sonoros, etc). O pesquisador era o coor-
sar os limites determinados por seu nível denador das sessões. Foram analisados
atual de desenvolvimento. Hueara, Souza, episódios relevantes de faz de conta, em
Batista, Melgaço e Tavares (2006) eviden- relação aos seguintes aspectos: modos de
ciaram as competências apresentadas por brincar entre as crianças, modos de ma-
crianças cegas e com baixa visão, durante nuseio de objetos e formas de atuação do
atividades relativamente livres de explora- adulto, de acordo com as categorias cria-
ção de brinquedos. A brincadeira relativa- das para a análise. Os pais das crianças es-
mente livre, encorajada, mas não dirigida tudadas foram entrevistados no que se re-
por adultos, levou à constituição de um fere às formas de brincar dessas crianças.
ambiente muito propício ao desenvolvi- Foi elaborado um sistema de categorias,
mento do faz-de-conta. Na conclusão do abrangendo os seguintes aspectos: For-
estudo, destacaram-se diversos exemplos mas de Interação (adulto- criança e crian-
de capacidades apresentadas por estas ça-criança) e Uso de Objetos. Foi, também,
crianças, na criação de cenas, represen- focada a questão das dificuldades específi-
tação de papéis, estabelecimento de re- cas de crianças com problemas visuais du-
gras, que nem sempre eram evidentes em rante a brincadeira. Dois exemplos de aná-
outros contextos, especialmente, os de lise são apresentados. Na sessão “O lobo e
avaliação formal. Na mesma direção, foi o porquinho” (Grupo 1), no que se refere
proposto um estudo envolvendo crianças à Interação criança- criança, observou-se
com deficiência visual e/ou alterações vi- que o grupo manteve na maior parte do
suais, a maioria com outras alterações no tempo, Ação conjunta. Quanto ao Uso de
desenvolvimento. Procurou-se identificar Objetos, as crianças elaboraram uma Cena
habilidades e competências das crianças, de faz de conta análoga à história dos três
a partir da análise de transcrições de vide- porquinhos, com alguns elementos novos,

157
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

como a aparição de um policial, a prisão, ção da criança cega (ex: permitir o contato
o lobo chegando de carro. Na Interação com os brinquedos utilizados pelos ou-
adulto-criança, observou-se que o adulto tros). Quanto às crianças com baixa visão,
apresentou Sugestão para integração das o adulto orientou à exploração de objetos
atividades e, depois que foi observada na (ex: pistas para aproximação, exploração
Atividade conjunta das crianças, passou tátil e comparação entre objetos). Os re-
a apresentar Comentários e Avaliações sultados trazem subsídios para a interven-
Positivas. Na sessão “Mãe, pai e filho” ção educacional, com um modelo voltado
(Grupo 2), quanto à Interação criança- para a facilitação das aquisições das crian-
-criança,observou-se predomínio de Ação ças; apontam, também, para aspectos es-
conjunta. No que se refere ao Uso de ob- pecíficos, relativos a possíveis obstáculos
jetos, as crianças criaram uma Cena de faz para participação na brincadeira de faz de
de conta entre quatro crianças, de “fazer conta por parte de crianças cegas e com
comidinhas”, com papéis de pai, mãe e baixa visão mais severa; descrevem, ain-
filhos, cada um assumindo um papel com- da, soluções propostas pelo pesquisador,
binado entre eles. E quanto à Interação de forma a propiciar brincadeiras em ní-
adulto-criança, a atuação foi semelhante veis crescentes de elaboração e de supe-
à da sessão já descrita. No final da sessão ração dos obstáculos identificados.
surgiu a necessidade, explicitada pelas
crianças, de registro escrito da brincadeira Palavras-chave: brincar, deficiência visual,
para poderem dar continuidade à mesma Educação Especial
na sessão seguinte. Também foi observa- Contato: Letícia Coelho Ruiz, CEPRE/FCM-
do que, nessa sessão, uma das crianças UNICAMP, letsruiz@yahoo.com.br
pegou algumas caixas de alimento e leu
os registros das caixas. É interessante
destacar esses aspectos, pois, indicaram LT04-986 - A CONDIÇÃO
a compreensão da função da escrita, sen- UNDERACHIEVEMENT NO FENÔMENO
do que a maior queixa de aprendizagem ALTAS HABILIDADE/SUPERDOTAÇÃO:
desses alunos estava relacionada à leitura DESDOBRAMENTOS EMPÍRICOS
e escrita. A análise das sessões permitiu Fernanda do Carmo Gonçalves - UnB
identificar estratégias das crianças para a fernandajfmg@yahoo.com.br
exploração dos objetos e elaboração de Vanessa Terezinha Alves Tentes - SEDF
faz de conta. Foi possível identificar alguns psivan@terra.com.br
obstáculos na interação com a criança Denise de Souza Fleith - UnB
cega e alguns exemplos em que a inter- fleith@unb.br
venção do adulto pôde promover melhor
interação entre as crianças. No grupo com Conceber o indivíduo superdotado, en-
a criança cega, o adulto descreveu a locali- xergar o seu potencial e ao mesmo tempo
zação dos brinquedos, aproximou objetos reconhecer suas limitações é um exercício
e deu pistas verbais de direcionamento desafiador, presente nos estudos sobre
para que a criança realizasse deslocamen- a condição de baixa performance acadê-
tos. O adulto também orientou as outras mica ou underachievement (McCoach &
crianças para que facilitassem a participa- Siegle, 2003; Montgomery, 2009; Neihart,

158
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

2002; Ourofino, 2005, 2007; Ourofino & tem cerca de dois milhões de estudantes
Fleith, 2005; Reis & McCoach, 2002). A superdotados e a prevalência de undera-
baixa performance acadêmica em indiví- chievers pode chegar a 50% dos alunos
duos superdotados refere-se, portanto, a identificados no contexto educacional.
uma condição concomitante a de super- Mais recentemente, o Davidson Institute
dotação, que interfere no desenvolvimen- for Talent Development (2009) divulgou
to do indivíduo, em consequência da dis- que a população de superdotados abran-
crepância entre o potencial previamente ge 2.392.300 indivíduos, ou seja, 5% dos
revelado e a performance atual exibida. estudantes norte-americanos. Desse total,
A condição antagônica vivenciada pelo mais da metade é considerada underachie-
superdotado o coloca em situação de ris- ver. Esses dados reforçam a preocupação
co, de vulnerabilidade social e emocional, dos estudiosos da área de superdotação e
acentuando ainda mais suas necessida- confirmam a prevalência de underachie-
des educacionais especiais. As Diretrizes vers em vários países, conforme verificado
Nacionais para a Educação Especial na em estudos conduzidos na Espanha por
Educação Básica reconhece o aluno su- Olivarez (2004), na Áustria por Schober
perdotado, como aquele que apresenta (2004), na Alemanha por Sparfeldt (2006)
“grande facilidade de aprendizagem que e mais recentemente por Doeschot-Bults
o leve a dominar rapidamente conceitos, e Hoogeveen (2010), na Turquia por Bas-
procedimentos e atitudes” (Ministério da lanti e McCoach (2006), em Hong Kong
Educação, 2001, Art. 5°, III). A Política Na- por Phillipson (2007), na República Tche-
cional da Educação Especial, no que tange ca por Dvorakova (2008) e Holesovska
às altas habilidades/superdotação, define (2010), na França por Villatte e Leonardis
o superdotado como aquele que demons- (2010) e na Inglaterra por Montgomery
tra “potencial elevado em qualquer uma (2009), além da extensa produção verifi-
das seguintes áreas, isoladas ou combi- cada nos Estados Unidos da América e no
nadas: intelectual, acadêmica, liderança, Canadá. No Brasil, os estudos sobre de-
psicomotricidade e artes, além de apre- sempenho escolar abarcam os alunos de
sentar grande criatividade, envolvimento modo geral (Pinheiro-Cavalcanti, 2009; Li-
na aprendizagem e a realização de tarefas bório, 2009). No que tange especificamen-
em áreas de seu interesse” (Ministério te à performance acadêmica de indivíduos
da Educação, 2008, p.15). Superdotação superdotados, não foram encontrados es-
e insucesso escolar não se complemen- tudos brasileiros que investigassem esse
tam mutuamente, pois se encontram em fenômeno. No entanto, chamam atenção
extremos opostos no espectro do ensino. os dados oficiais apresentados no Censo
No entanto, apesar da dissonância cogni- Escolar 2010 demonstrando que no país
tiva que essa condição suscita, a realidade existem 53.791.142 estudantes matricu-
mostra que muitos superdotados exibem lados na Educação Básica, sendo que des-
baixo rendimento escolar. Ao longo dos te total, 398.155 são alunos da educação
últimos trinta anos a preocupação com especial, 5.186 alunos são considerados
superdotados underachievers tem ganha- superdotados e, entre estes, apenas 465
do força e espaço de investigação. Para estão matriculados no Distrito Federal
Heacox (1991), nos Estados Unidos exis- (Ministério da Educação, 2010). Diante

159
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

deste quadro, se fortalece a concepção dêmica de Alunos Superdotados, análise


de que muitos alunos superdotados são documental e questionário demográfico.
invisíveis ao sistema e certamente dentre Para o estudo comparativo foi realizada a
estes estão muitos underachievers. Ainda análise de variância multivariada (MANO-
mais complexa é a situação daqueles que VA). Os resultados indicaram prevalência
mesmo identificados como superdotados de alunos superdotados underachievers
apresentam uma produtividade aquém de entre superdotados na razão de 2:1. As
seu potencial, revelando uma desconexão variáveis descritivas que mais se destaca-
entre capacidade, habilidade e o desem- ram na autopercepção desse grupo foram,
penho acadêmico real e, por esse motivo, em sua maioria, coincidentes. Os alunos
acabam, de alguma forma, excluídos do superdotados em comparação aos unde-
processo educacional e os dados oficiais rachievers obtiveram desempenho signifi-
sequer os mencionam. (Ourofino & Fleith, cativamente superior nas medidas de in-
2005). O objetivo deste estudo foi iden- teligência, criatividade total e criatividade
tificar a prevalência de superdotados un- verbal, autoconceito (na dimensão condu-
derachievers entre superdotados de um ta comportamental e autoestima global),
atendimento educacional, descrever as desempenho escolar total e na dimensão
habilidades, as preferências, os interesses, escrita. Por outro lado, os underachievers
os aspectos motivacionais, as característi- se destacaram nas medidas de motivação
cas pessoais, as relações interpessoais e extrínseca, quando comparados aos su-
acadêmicas e os estilos de aprendizagem perdotados. Com relação ao gênero, os re-
de alunos superdotados e superdotados sultados sinalizaram diferenças significati-
underachievers. Investigar ainda possíveis vas a favor do gênero masculino quanto à
diferenças entre os alunos desses grupos, inteligência. Da mesma forma, as alunas
dos gêneros masculino e feminino, em obtiveram resultados superiores, quando
relação à inteligência, criatividade, mo- comparadas aos alunos, nas medidas de
tivação para aprender, autoconceito, de- criatividade verbal, motivação intrínseca
sempenho escolar e atitudes parentais. para aprender, autoconceito na dimensão
Participaram do estudo 96 alunos, sendo autoestima global e desempenho escolar
53 superdotados e 43 superdotados unde- na dimensão escrita. Interações significa-
rachievers. Utilizou-se um delineamento tivas entre grupo e gênero foram observa-
descritivo-comparativo e uma combina- das em relação à inteligência e autocon-
ção de instrumentos para acessar as variá- ceito nas dimensões competência escolar,
veis investigadas. Foram empregados tes- aceitação social e autoestima global. As
tes psicométricos de inteligência não ver- alunas superdotadas underachievers ob-
bal, de pensamento criativo verbal e figu- tiveram resultados inferiores em todas as
rativo e de desempenho acadêmico, bem medidas quando verificados os efeitos da
como aplicadas escalas de características interação grupo e gênero. Quanto às vari-
pessoais, acadêmicas e motivacionais, áveis relacionadas à família, não existem
estilos de aprendizagem, autoconceito e diferenças significativas no que tange às
atitudes parentais. A análise baseou-se atitudes parentais adotadas na educação
também nos dados colimados no Proto- de superdotados e superdotados undera-
colo de Investigação da Performance Aca- chievers. Alunos underachievers são invi-

160
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

síveis ao sistema de ensino e estão de, al- ciais posteriores. Nessa perspectiva, o
gum modo, excluídos dos processos edu- autismo é caracterizado por prejuízos bio-
cacionais. É imperativo que a sociedade se lógicos primários acarretando déficits nas
mobilize para criar alternativas alinhadas interações sociais. Esta pesquisa aborda o
com o movimento de educação inclusiva, transtorno autista que abrange um espec-
a fim de reverter essa realidade paradoxal. tro heterogêneo de quadros comporta-
mentais envolvendo desvios no desenvol-
Palavras-chave: Educação, Superdotação, vimento desde os primeiros anos de vida
Underachievement nas áreas de interação social, comunica-
Contato: Fernanda do Carmo Gonçalves, UnB, ção e imaginação. Inúmeras pesquisas são
fernandajfmg@yahoo.com.br realizadas e muitos aspectos permanecem
inconcludentes, sobretudo em relação à
etiologia, as possibilidades terapêuticas e
LT04-1036 - INCLUSÃO DE CRIANÇAS inserção em escolas regulares. A inclusão
AUTISTAS: UM ESTUDO SOBRE escolar dessas crianças é questionada por
CONCEPÇÕES E INTERAÇÕES NO alguns educadores devido aos prejuízos
CONTEXTO ESCOLAR inerentes às características da síndrome,
Emellyne Lima de Medeiros Dias Lemos - mas este trabalho se apóia em estudos
UFPB que admitem que embora seja uma prá-
emellyne@gmail.com tica difícil, é também realizável e possível,
Nádia Maria Ribeiro Salomão - UFPB considerando os benefícios das vivências
nmrs@uol.com.br escolares tanto em termos de interações
Financiamento: CNPq sociais quanto do desenvolvimento de
habilidades cognitivas nas crianças do
A interação social é de grande relevância espectro. A falta de clareza quando aos
no processo de desenvolvimento infantil benefícios da inclusão escolar dessas
entendendo que o sujeito, inserido em crianças traz implicações às concepções
um contexto histórico-social, é um ser sobre os indivíduos autistas. Nesse senti-
ativo em suas interações desde a mais do, destaca-se a importância de conhecer
tenra idade. Nesse processo destaca-se as concepções de pais e educadores visto
a importância do ambiente interpessoal que tais idéias apresentam implicações
para a aquisição de habilidades comu- nas práticas e nas interações estabeleci-
nicativas ressaltando a convivência com das com a criança. Dada à importância da
outras crianças, assim como o suporte do interação social e a influência dos contex-
adulto, uma vez que, sensível às necessi- tos situacionais e interacionais o presente
dades conversacionais da criança é capaz estudo tem como objetivos principais ana-
de adequar seu comportamento comu- lisar as interações sociais entre as crianças
nicativo às capacidades desta última. O com espectro autista e as demais crianças
presente estudo adota uma perspectiva nos contextos de escolas regulares con-
desenvolvimentista que concebe o desen- siderando a mediação das professoras,
volvimento típico a partir da articulação assim como, analisar as concepções dos
entre capacidades biológicas iniciais para pais e professores acerca da criança e do
o engajamento social e as interações so- processo de inclusão escolar com ela rea-

161
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

lizado. Participaram deste estudo crianças mo, alguns abordando que as dificuldades
e professoras de duas escolas regulares na interação social diferiam de preferên-
particulares da cidade de João Pessoa - cia ao isolamento; satisfação com o pro-
PB; sendo analisadas duas turmas de uma cesso de inclusão escolar realizado com
escola e três de outra, totalizando cinco seus filhos e reconhecimento da impor-
professoras, como também cinco crianças tância do papel da família nesse processo.
com diagnóstico do espectro autista, com Outro aspecto foi que embora atribuíssem
idades variando entre 3 e 5 anos, de classe expectativas mais voltadas à socialização,
sócio-econômica média e seus respectivos a maioria enfatizou as diferentes habili-
pais. Para a coleta dos dados, foram uti- dades adquiridas pelos seus filhos após a
lizadas entrevistas semiestruturadas com entrada na escola. Quanto às professoras
os pais e professoras registradas através a maioria demonstrou estar reformulando
de um mini-gravador, como também, fo- suas concepções a partir das experiên-
ram realizadas duas filmagens em cada cias estabelecidas com estas crianças no
turma contemplando 20 minutos em cada cotidiano escolar, adotando concepções
uma das situações de pátio e sala de aula, que embora abordem as dificuldades das
dos quais foram transcritos e analisados crianças, partem de aspectos positivos
10 minutos. Com o objetivo de caracte- que envolvem as possibilidades e os re-
rizar as crianças deste estudo também sultados dos esforços dispensados com o
foi utilizada a escala de avaliação CARS trabalho de inclusão. No que diz respeito
(Childhood Autism Rating Scale). Quanto às interações estabelecidas no contexto
à análise dos dados, as entrevistas foram escolar foram observadas categorias de
transcritas e analisadas a partir da técnica comportamentos verbais e não verbais
de análise de conteúdo, as filmagens fo- em três áreas: comportamentos da crian-
ram transcritas e foram analisadas através ça com espectro autista, comportamentos
de categorias pós-formuladas tendo em da professora e comportamentos das de-
vista a bidirecionalidade nas interações mais crianças. Na primeira área emergi-
estabelecidas nos contextos escolares de ram as seguintes categorias e subcatego-
pátio e sala de aula, assim como, a parti- rias: Olhar, sendo este dirigido a pessoas,
cipação dos membros em termos de fre- ações ou objetos; Iniciativa, sendo esta
quência e duração do comportamento. Os dirigida a pessoas, ações ou a objetos;
resultados apresentados neste trabalho Resposta adequada; Interação passiva;
contemplam parte dos resultados da pes- Imitação; Demonstração de afeto; Sorriso;
quisa de dissertação de mestrado. Em re- Esquiva e Isolamento. Já na segunda área
lação à análise das verbalizações dos pais foram observadas as categorias: Mostrar;
das crianças com espectro autista, embo- Gesticular; Apoio físico; Modelo; Demons-
ra considerando apenas 5 participantes tração de afeto; Diretivos, sendo estes de
alguns aspectos foram encontrados, quais atenção, de instrução e de controle de
sejam: percepção dos filhos como crianças comportamento; Informação e Feedback.
carinhosas e afetuosas, atribuindo a difi- Por último, sobre os comportamentos das
culdade em comunicar-se como sendo a demais crianças emergiram as categorias:
principal característica de criança autista; Olhar; Iniciativa; Esquiva e Demonstração
relatos de dificuldades em definir autis- de afeto. Nos contextos de pátio foram

162
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

enfatizadas as brincadeiras sendo elas em “A lógica da inclusão na rede municipal de


conjunto ou isoladas. Resultados parciais ensino de amparo – estratégias de apoio
indicam a importância da mediação das para a construção da educação inclusi-
professoras, uma vez que as crianças au- va”. O objetivo é contribuir com a prática
tistas do presente estudo demonstraram e a compreensão de algumas das razões
se comportar, nos diferentes contextos, pelas quais é tão difícil saber como lidar
mais frequentemente em resposta a pro- e o que fazer quando temos alunos cujas
fessora ou a situação do que por imitação. características nos evidenciam a necessi-
Pretende-se com este estudo subsidiar dade de trabalhar com as diferenças nos
orientações a pais e profissionais princi- mais variados contextos do cotidiano de
palmente no que se refere à inclusão es- uma educação que se propõe a ser inclu-
colar de crianças autistas, tendo em vista siva. O Programa de Educação Inclusiva,
que as concepções podem influenciar os intitulado “A educação tem muitas faces -
comportamentos dos adultos, como tam- educando e aprendendo na diversidade”,
bém, os comportamentos dessas crianças tem como proposta o apoio aos profes-
podem ser influenciados considerando os sores, no qual consiste no levantamento
contextos interativos, a mediação do adul- de informações sobre o atendimento de
to e, sobretudo, as particularidades de diferentes casos nas escolas, buscando
cada criança. categorizar e caracterizá-los para o conhe-
cimento da realidade e encaminhamentos
Palavras-chave: Espectro autista, Concepções, pedagógicos e clínicos, encontros com
Inclusão profissionais da educação e saúde para
Contato: Emellyne Lima de Medeiros Dias discussão de dificuldades e indicações das
Lemos, UFPB, emellyne@gmail.com intervenções realizadas, levantamento de
propostas, orientações, encaminhamen-
LT04-1197 - A EDUCAÇÃO INCLUSIVA tos e registros. Segundo Sassaki (1998),
E O TRABALHO DAS ASSESSORIAS na escola inclusiva há colaboração e apoio
ESPECIALIZADAS mútuo entre professores, terapeutas e
Simone Cassiani - PM-Amparo consultores para se oferecer orientação
simonecassiani@uol.com.br na própria sala de aula em vez de retirar
Alessandra Rodrigues de Almeida - PM-Amparo alunos do horário de aula para desenvol-
Marisol Regina Pavani de Oliveira - PM-Amparo ver terapias no ambiente escolar, o que
seria muito inadequado, uma vez que a
A Rede Municipal de Ensino de Amparo escola não se confunde com a clínica, e o
vem desenvolvendo um trabalho em prol papel de cada profissional deve ser respei-
de uma educação inclusiva e de qualida- tado. O trabalho clínico deve ser realizado
de visando beneficiar a TODOS. Reconhe- fora do espaço escolar, com profissionais
cendo que a Constituição Federal de 1988 da saúde. Atualmente a Secretaria vem
garante a todos o direito à educação e o crescentemente investindo em formas de
acesso à escola (Art. 1º; 3º; 205; 206 e instrumentalizar os profissionais que atu-
208) e atendendo a esses princípios cons- am nas unidades escolares na perspectiva
titucionais, a Secretaria Municipal de Am- de qualificar o atendimento educacional e
paro, elaborou um documento intitulado, desenvolver uma prática de Educação In-

163
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

clusiva voltada a participação democrática do no processo de ensino e aprendiza-


de todos. Além de todo trabalho desen- gem de seus alunos de maneira integral
volvido pela SME, composto no documen- e inclusiva; b) os alunos são assistidos em
to do Programa, vimos nesse texto enfa- suas necessidades, tendo a possibilidade
tizar uma ação que tem sido de grande e oportunidade de desenvolver todas as
valia ao desenvolvimento dos alunos e à suas habilidades, de participar de todo
prática pedagógica dos professores, que é processo educativo da escola, sendo visto
o trabalho realizado pelas assessorias con- como seres com potencial para aprender;
tratadas pela SME para garantir o apoio e c) os pais estão mais conscientes e infor-
as orientações às unidades escolares e mados sobre as ações da rede e se sentin-
diretamente aos professores que aten- do participantes do processo escolar, va-
dem alunos com as diversas deficiências. lorizados e comprometidos com seu filho
A fim de desenvolver o reconhecimento e com todos da escola; d) a equipe escolar
e a valorização das diferenças humanas que está mais informada e comprometida
em todas as instâncias, minimizando os com todos da escola, não somente com
preconceitos e buscando garantir a imple- os alunos com necessidades educacio-
mentação de práticas inclusivas mais ade- nais especiais. Enfim, TODOS aprendem a
quadas, a qualificação e aprimoramento conviver e a serem pessoas melhores com
do atendimento educacional a todos os nossas diferenças. Em síntese, a inclusão
alunos, considerando suas diferenças, ca- escolar e em todos os âmbitos só ocorrerá
pacidades e ou limitações, e a competên- se TODOS alinharmos nosso leme em dire-
cia de todos os profissionais das escolas, ção ao acolhimento, compromisso com o
a Secretaria Municipal de Educação, dan- próximo, acreditando em sua capacidade,
do continuidade as ações do Programa “A competência e possibilidades, adotando
Educação tem muitas faces – Educando posturas e atitudes que não dê brechas
e aprendendo na diversidade”, vem in- para o surgimento de barreiras, conser-
vestindo desde 2006, na contratação de vadorismo, resistências e ou ações pre-
assessorias especializadas e consultorias conceituosas e ou excludentes que levam
para o desenvolvimento desse trabalho: ao impedimento da Inclusão. Precisamos
Assessoria em Gestão Inclusiva, LIBRAS e rever nossos papéis como cidadãos e as-
Comunicação Suplementar e Alternativa sumir nossa identidade em benefício do
(CSA); Assessoria em Fisioterapia, Psicolo- que acreditamos, numa sociedade mais
gia e Terapia Ocupacional, desempenhan- justa e Inclusiva para TODOS. A Secreta-
do atuação com todos os alunos matricu- ria Municipal de Educação está investindo
lados nas salas regulares e na orientação em ações que beneficiam não somente as
do trabalho do Atendimento Educacional pessoas do âmbito escolar, mas realizan-
Especializado da rede municipal de en- do ações interdisciplinares que envolvem
sino. Foram observados resultados que e sensibilizam toda a comunidade escolar
beneficiaram: a) os professores, que se e a sociedade, ou seja, TODOS nós, sem
sentem mais seguros, esclarecidos, in- exceção.
formados e valorizados, em sua prática e
qualificado para atuar com todos os alu- Palavras-chave: educação inclusiva,
nos com condições de trabalho, pensan- assessorias, saúde.

164
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

LT04-1352 - CONTRIBUIÇÕES DA PRÁTICA se o professor na condição de sujeito mais


DOCENTE PARA A INCLUSÃO DO ALUNO experimentado e no exercício de um pa-
COM NECESSIDADE EDUCACIONAL pel historicamente comprometido com
ESPECIAL EM TURMA REGULAR mudanças sociais, tem sustentado em sua
Noélia Martins dos Anjos - Unb prática ações que consolidam os pressu-
noeliamartins@ig.com.br postos da educação inclusiva, indo além
de garantias como a socialização e intera-
O trabalho pedagógico concretizado por ção, promovendo antes, a aprendizagem
uma de suas vertentes, o trabalho docen- escolar. Ao passo que a pesquisa se lançou
te, apresenta natureza dinâmica que deve pela elucidação dessa primeira proposta,
reunir teoria e prática como ferramenta moveram também essa investigação os se-
a ser utilizada, dentre outras coisas, no guintes objetivos específicos: conhecer as
desenvolvimento de habilidades sociais. concepções de ensino e de aprendizagem
Nesse sentido, e tendo o professor no es- que norteiam as práticas educacionais
paço escolar posição de sujeito mais ex- dos professores participantes; quais me-
periente e, portanto, mediador de novos didas são tomadas pelo docente no que
conhecimentos, o trabalho docente pode se refere à continuidade de sua formação
vir a ser uma das formas mais eficazes de inicial; quais relações estabelecidas en-
inclusão de alunos com deficiência no en- tre discurso e prática e finalmente como
sino regular. Ao desenvolver meu trabalho são compreendidas pelos professores as
como Pedagoga no Serviço Especializado contribuições de seu trabalho no que se
de Apoio à Aprendizagem - SEAA em uma refere ao desenvolvimento da aprendiza-
escola pública do Distrito Federal, observo gem escolar. Como pressupostos teóricos,
que os professores regentes que atuam no a pesquisa pautou-se nos trabalhos de:
ensino regular e que têm em suas classes Resende (2006), Pimenta (2006) e Dessen
alunos com necessidades educacionais es- e Polônia (2007) para abordagens acerca
peciais – ANEEs, diagnosticadas como de- do trabalho pedagógico e saberes da do-
ficiência apresentam dificuldade em com- cência. Sobre as concepções de ensino e
preender a inclusão deste aluno no ensino aprendizagem compreenderão os estudos
regular por meio do trabalho docente. A de Freire (1997), Tunes, Tacca e Mitjáns
partir dessa observação e para melhor Martinez (2006), Kassar (2006) e Vygotsky
compreensão dessa realidade, busquei (2003). Por fim, as considerações referen-
resposta à seguinte problemática: como as tes ao trabalho docente e educação inclu-
concepções de ensino e aprendizagem que siva apresentam embasamento nas avalia-
nutrem os educadores, bem como as prá- ções de Mantoan (2007), como também
ticas docentes aplicadas em sala de aula na legislação brasileira referente ao tema.
contribuem, ou não, com a inclusão dos A metodologia de pesquisa baseou-se nos
alunos com necessidades educacionais es- pressupostos da abordagem qualitativa,
peciais no ensino regular? Por isso, como cuja coleta de dados foi realizada por meio
objetivo geral de pesquisa, pretendi en- dos instrumentos de observação, questio-
tender de que forma o trabalho pedagógi- nário e entrevista semiestruturada aplica-
co docente pode tornar efetiva a inclusão dos junto aos professores de uma escola
de ANEEs no ensino regular, considerando pública dos anos iniciais do Ensino Funda-

165
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

mental do Distrito Federal. O tratamento cias no processo de oferta e procura do


dos dados se deu de acordo os procedi- atendimento especializado, visto que a
mentos próprios do método qualitativo, própria rotina escolar e as incumbências
utilizando de análise interpretativa dos profissionais de cada função envolvida
resultados com vistas à produção de refle- podem ter tido influência significativa no
xão e contribuições para a prática docente afastamento observado entre as profes-
no lócus pesquisado. Dentre os resultados soras regentes e àquelas encarregadas
obtidos pela pesquisa a partir dos objeti- pelo apoio a ser oferecido. Finalmente, a
vos elencados, foi possível perceber que a última proposição a que se lançou esse
passagem do ANEE pela escola e o traba- trabalho foi a apuração de contribuições
lho dos profissionais envolvidos, colabora- do trabalho docente para a aprendizagem
ram para que, de alguma forma, esse alu- escolar. Conforme já sinalizado pela aná-
no experimentasse crescimento em algum lise da principal assertiva levantada pela
aspecto de seu desenvolvimento: tanto pesquisa, não se pode deixar de observar
na socialização, na convivência com seus diversos aportes ao processo de desenvol-
pares ou até mesmo vencendo expectati- vimento do ANEE, efetuados por meio do
vas negativas que são feitas a seu respei- trabalho docente. Porém, muito ainda há
to. Entretanto, verificou-se que dentre as que ser feito para que essas contribuições
concepções de ensino e de aprendizagem contemplem de forma integral a aprendi-
que embasam o trabalho docente, ainda zagem escolar que ainda encontra-se em
permanecem arraigadas na prática dos situação de desvantagem quando com-
professores pesquisados os pressupostos paradas a outras contribuições, que nem
de uma educação voltada para os resulta- sempre perpassam o fazer tipicamente
dos obtidos a partir da aprendizagem de docente e sua função precípua de promo-
conteúdos escolares sem fins específicos, ção dos aspectos que favoreçam a relação
não sendo abertamente defendidas medi- de ensino e de aprendizagem. Dessa for-
das de promoção de aprendizagem esco- ma, o que se pode arrematar de todo esse
lar que resultem na inclusão do ANEE no trabalho é a expectativa de que o investi-
universo dos saberes formais. Outro tópi- mento na formação inicial e contínua do
co proposto pela pesquisa foi a condução professor será o diferencial para que este
do processo de formação continuada e se pense e repense sua ação, não se confor-
esta contemplaria os pressupostos neces- mando com um saber, que ainda válido
sários ao trabalho com o ANEE. Observou- ao seu tempo, encontra-se ultrapassado
-se insuficiência na formação ao longo da e insuficiente para as demandas da edu-
carreira e na condição profissional que cação atual. Considera-se ainda que, para
vincula as professoras ao exercício do seu muitos, a aprendizagem escolar pode não
trabalho, tendo em vista dificuldades im- ser o principal objetivo de quem enfrenta
postas pelo sistema de ensino na seleção tantas adversidades provindas da condi-
dos profissionais para oferta de formação ção imposta pela deficiência, entretanto,
continuada e no processo de escolha de é esse o trabalho que deve ser desenvolvi-
turmas com ANEE que não tem sido con- do por professores e professoras, até para
duzido de forma criteriosa. Também, foi que não se sustente mais uma forma de
possível observar imprecisões e divergên- perpetuação da exclusão.

166
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

Palavras-chave: trabalho pedagógico, O ato de matar-se expressa, então, além


aprendizagem escolar, inclusão da impossibilidade de contenção do trau-
Contato: Noélia Martins dos Anjos, mático via representação simbólica, a
Universidade de Brasília, única via de descarga possível para uma
noeliamartins@ig.com.br demanda de trabalho para o qual o indi-
víduo não encontra recursos de media-
ção. Assim sendo, muitos desses atos se
CO 38 - LT06 apoiam na insuficiência de recursos men-
tais, na incapacidade de dar figurabilida-
Vulnerabilidades/risco de à dor psíquica. Com isso, deflagram-se
os fatores de risco psicossociais, de de-
senvolvimento, e os quadros psicopato-
LT06-866 - PROCURANDO A MORTE: O lógicos relacionados. Entre os primeiros
ZULLIGER NA AVALIAÇÃO DE PACIENTES destacam-se: nível socioeconômico e de
COM TENTATIVAS DE SUICÍDIO escolaridade baixos; dinâmica familiar
Silvana Alba Scortegagna - UPF/RS disfuncional, traumas e perdas pessoais;
silvanalba@upf.br baixa autoestima, falta de controle da
Luana Gasparetto Fontanella - FHST, Erechim/RS impulsividade e da agressividade, humor
luluzinhagf@erechim.com.br lábil, precários recursos para o enfrenta-
mento de problemas, tentativas prévias
O suicídio está entre as 10 principais cau- e antecedentes na história familiar. Entre
sas de morte, no mundo, e entre as três as perturbações mentais mais evidentes
primeiras quando se considera a faixa estão os transtornos borderline, a es-
etária entre 15 e 35 anos. No Brasil, a quizofrenia, a dependência química e os
incidência tem aumentado, especialmen- quadros depressivos. Essas organizações
te, entre adolescentes e adultos jovens. permitem perceber que os atos suicidas
O Estado do Rio Grande do Sul registra podem ter motivações totalmente diver-
o maior coeficiente de suicídio no país sas, e que têm relação com rupturas em
- 9,88 casos/100.000 habitantes - com diferentes períodos do desenvolvimen-
maiores coeficientes de mortalidade en- to afetivo-emocional. Considerando ser
tre a população idosa (com mais de 70 esse um problema de saúde pública e a
anos de idade); porém, nos últimos anos, escassez de estudos com esses pacien-
há elevação nas faixas mais jovens, en- tes que, frequentemente, encontram-se
tre 20 e 59 anos. A tentativa de suicídio nas emergências dos hospitais e, em sua
pode ser considerada como uma reação maioria, sobrevivem às tentativas de seus
frente à ação do traumático que, pela atos lesivos, há necessidade de se verifi-
força do irrepresentável, leva o indivíduo car a validade de instrumentos eficientes
ao ato de tentar dar fim à própria vida. e rápidos de avaliação psicológica, para
Algumas dessas situações são resultan- que possam auxiliar na compreensão
tes de contextos nos quais o sujeito se vê da estrutura e da dinâmica psíquica dos
acometido por um excesso, mostrando- mesmos. Com esse propósito, o presente
-se incapaz de processar e metabolizar a estudo buscou investigar as característi-
tensão (trauma/excesso) psiquicamente. cas de personalidade de pacientes com

167
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

várias tentativas de suicídio, os fatores de tem três filhos: duas meninas, uma de 14
risco relacionados e a validade do Zulliger e outra de 27 anos de idade e um meni-
nesse contexto. Foram participantes duas no, de 18 anos. A baixa hospitalar deu-se
mulheres, de 41 e 47 anos de idade, di- pelo consumo de 18 comprimidos de dia-
vorciadas, uma auxiliar de serviços gerais zepam, sua quarta tentativa de suicídio,
e outra de indústria, com ensino funda- sendo uma anterior ao tentar atirar-se
mental e médio, respectivamente. Utili- do quarto andar de um prédio. O início
zaram-se como critérios de inclusão: (a) desses episódios foi relacionado com o
tentativas de suicídio anteriores; (b) hos- excesso de trabalho, quando também co-
pitalização em decorrência da tentativa meçou a apresentar sintomas psicóticos.
de suicídio, por um período de no mínimo Dados da família de origem revelaram a
três dias; (c) não fazer uso de medicações presença de irmãos usuários de drogas,
que pudessem interferir na fidedignidade sendo um deles morto por overdose, e
dos achados. Como instrumentos utiliza- de morte por suicídio nos dois avôs, tanto
ram-se a entrevista clínica semiestrutura por parte de pai quanto de mãe. O Caso
e o teste Zulliger no Sistema Compreensi- “B” pensa em se matar porque não tem
vo ZSC. Os dados foram analisados quanti outra opção; além de querer morrer quer
e qualitativamente, trazendo elementos matar seus filhos. A análise comparativa
sobre a leitura da realidade, defesas psi- dos protocolos de entrevista permitiu ve-
cológicas, autopercepção, percepção in- rificar que ambas as pacientes apresen-
terpessoal e história de vida. A entrevista taram cinco tentativas de suicídio cada
semiestruturada revelou que o Caso “A”, uma, sobretudo pela ingestão de medi-
de 41 anos, é divorciada, mas vive, atual- camentos; possuíam, em seu desenvol-
mente, com um companheiro; é mãe de vimento, histórico familiar disfuncional
um menino de 15 anos e de uma menina e de perdas traumáticas; foram diagnos-
de 25 anos. A baixa hospitalar deu-se pela ticadas com transtorno de personalida-
intoxicação por ingestão de 20 comprimi- de borderline e participam de grupos de
dos de carbamazepina e de amitriptilina, atendimento psicoterápico individual em
sendo sua terceira tentativa de suicídio ambulatório de saúde mental. A inter-
por consumo de medicamentos. As duas pretação dos protocolos do ZSC, por sua
tentativas anteriores foram: uma aos 20 vez, possibilitou confirmar a história do
anos de idade, por ingerir veneno, oca- desenvolvimento pessoal por meio dos
sião em que começou a sentir vontade de dados de personalidade e a identificar
se matar e, a outra, quando tentou cortar prejuízos na apreensão da realidade, de si
os pulsos por sua perícia ter sido negada. mesmo, do outro e nas interações sociais,
O início desses episódios foi relacionado por meio de atribuições de aspectos sub-
com a morte de seus dois irmãos, que fo- jetivos, distorcidos e falhos. Os dois casos
ram assassinados com tiro na cabeça. O apresentaram dificuldades de controle
Caso “A” pensa em se matar porque acre- emocional, impulsividade, instabilidade
dita que irá para um lugar melhor, mas, nos relacionamentos e isolamento. Esses
ao mesmo tempo em que quer morrer, resultados podem ser úteis para ampliar
quer melhorar para cuidar de seu neto. a compreensão de pacientes com tenta-
O Caso “B”, de 47 anos, é divorciada e tivas de suicídio, para predizer as possi-

168
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

bilidades de novas ocorrências e, ainda, brenner, 1996), a Psicologia Positiva e o


para direcionar programas de tratamen- conceito de Resiliência (Paludo & Koller,
tos mais eficientes e adequados. Além 2006, 2007; Yunes, 2006). Nesse senti-
disso, conclui-se que o ZSC pode ser útil do, os pressupostos teóricos subjacentes
em contextos de avaliação clinica e hospi- possibilitam uma melhor compreensão
talar, respeitando-se as limitações de seu do desenvolvimento humano, sobretudo,
emprego. no que se refere a crianças e adolescen-
tes expostos a situações de vulnerabilida-
Palavras-chave: teste Zulliger, tentativa de de psicossocial, uma vez que possibilitam
suicídio, fatores de risco investigar os efeitos dos fatores de risco e
Contato: Silvana Alba Scortegagna, UPF/RS, de proteção no desenvolvimento infanto-
silvanalba@upf.br -juvenil. A Teoria Bioecológica do Desen-
volvimento Humano enfatiza a necessi-
dade de uma melhor compreensão das
LT06-873 - ADOLESCÊNCIA, características do contexto, da pessoa,
VULNERABILIDADE E RESILIÊNCIA: dos processos envolvidos e do tempo no
AVALIAÇÃO DE FATORES DE PROTEÇÃO desenvolvimento humano. A Psicologia
EM UMA AMOSTRA DE ADOLESCENTES Positiva é uma nova sub-área, dentro da
NO INTERIOR DO RIO GRANDE DO SUL Psicologia, que busca investigar os aspec-
Jeane Lessinger Borges - SETREM tos positivos do desenvolvimento do ser
www.setrem.com.br ou humano, fortalecendo as potencialidades
jeanepsico@yahoo.com.br e a saúde do sujeito em desenvolvimen-
Sara Eduarda Pires - SETREM to (Assis, Pesce, & Avanci, 2006; Yunes,
www.setrem.com.br ou 2006). Um constructo teórico importante
saraeduardapires@yahoo.com.br da Psicologia Positiva se refere ao de resi-
liência, que pode ser compreendido como
Este trabalho apresenta os resultados de a capacidade do indivíduo de superar as
uma pesquisa sobre a presença de fatores situações de adversidades. Atualmente¸
de proteção, associados a variáveis indivi- a resiliência vem sendo considerada não
duais e do contexto familiar e escolar, em como um evento isolado e de caráter indi-
uma amostra de adolescentes em situa- vidualizado, mas, sim, como um processo
ção de vulnerabilidade psicossocial. Este dinâmico e abrangente incluindo, além da
estudo foi realizado ao longo do primeiro pessoa, o contexto familiar (Yunes, 2003).
semestre de 2011, durante a etapa inicial Nesse sentido, uma maior compreensão
da prática de estágio curricular da se- da presença de fatores de proteção no
gunda autora, sob orientação da primei- contexto familiar e escolar, bem como de
ra autora, junto a adolescentes que fre- características individuais - por exemplo,
quentavam uma escola pública de tempo autoestima e satisfação de vida - na me-
integral, localizada num município da Re- diação do impacto dos fatores de risco
gião Noroeste, no interior do Rio Grande presentes no desenvolvimento de adoles-
do Sul. Os aspectos teóricos norteadores centes, se tornou o foco de atenção desta
deste estudo são a Teoria Bioecológica pesquisa. A interação entre risco e prote-
do Desenvolvimento Humano (Bronfen- ção necessita ser melhor investigada, a

169
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

fim de se compreender como estes inter- maioria, pelo modelo nuclear (65%), em-
ferem na resiliência de adolescentes. Para bora 17,5% vivessem numa família mono-
tanto, foram entrevistados 40 adolescen- parental, chefiada pela figura da mãe. O
tes (52,5% meninos e 47,5% meninas), relacionamento com os pais foi avaliado
com idades entre 11 a 17 anos (M=12,97; de forma positiva (70,7%), sendo que mo-
DP=1,10), residentes na área urbana e nitoramento (63,4%), afeto (56,1%) e es-
periférica de um município gaúcho ca- tabelecimento de regras (61%) foram ava-
racterizado, eminentemente, pela agri- liados pelos adolescentes como aspectos
cultura familiar. Os adolescentes foram importantes na relação pais-filhos. Os
convidados a participarem da pesquisa, relacionamentos com amigos e professo-
tendo sido autorizados por seus pais, que res também foi avaliado de forma positi-
assinaram o Termo de Consentimento Li- va (78,0% e 56,1%, respectivamente). Em
vre e Esclarecido. Foi aplicado um Ques- relação às estratégias de enfrentamento
tionário com 16 questões estruturadas, utilizadas pelos adolescentes frente às
sobre variáveis individuais e do contexto situações adversas, os itens “continuar
familiar e escolar, que pudessem estar tentando resolver o problema” (75,6%),
associadas à resiliência. Este questionário “acreditar em si mesmo frente às dificul-
foi elaborado a partir dos dados de Assis dades que a vida lhe apresenta” (48,8%)
et al. (2006) e aplicado de forma coletiva. e “pedir ajuda a alguém” (46,3%) foram
Os dados foram tabulados e analisados no os mais citados pelos adolescentes en-
programa SPSS versão 13.0. Foram reali- trevistados. Nesse sentido, os resultados
zadas análises estatísticas descritivas e de apontam que, apesar da presença de fa-
frequência simples, bem como cálculo de tores de risco ao desenvolvimento destes
correlação de Spearman. Os resultados adolescentes, sobretudo pela exposição
apontaram que a trajetória de vida des- a eventos estressores, os participantes
tes adolescentes foi caracterizada pela apresentaram boa autoestima e elevada
exposição a eventos estressores (56,1%), satisfação de vida. Observou-se, ainda,
incluindo separação dos pais, morte de um predomínio de estratégias de enfren-
um ente querido, uso de drogas por um tamento adaptativas por parte dos ado-
familiar e violência doméstica. Os parti- lescentes frente a situações adversas. A
cipantes relataram vivenciar algum sofri- presença de fatores de proteção na famí-
mento psíquico frente a estas diferentes lia e no contexto comunitário (grupo de
situações adversas (41,5%). No entanto, pares e escola) pode ser considerada uma
estes adolescentes se percebiam como variável importante para o processo de
tendo uma autoestima alta (58,5%) e uma resiliência. Conclui-se que uma maior in-
elevada satisfação de vida (82,9%), além vestigação da interação de características
de terem planos para o futuro (82,9%). individuais e do contexto de desenvolvi-
Foi encontrada uma correlação positiva mento do adolescente podem dar subsí-
entre alta autoestima e monitoramento dios para os estudos sobre resiliência em
parental (r=.50; p<0,01), bem como entre jovens, na tentativa de potencializar os
satisfação de vida e relacionamento com aspectos saudáveis destes indivíduos e de
os pais (r=.64; p<0,01). A família destes sua capacidade de superação das dificul-
adolescentes caracterizava-se, em sua dades e adversidades da vida.

170
VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

Palavras-chave: infância, vulnerabilidade, do sexo feminino e tinham, em média,


resiliência 15,53 anos (SD = 1,12). Foram utilizados
Contato: Jeane Lessinger Borges, Faculdade os seguintes instrumentos: (a) Inventá-
Três de Maio/SETREM, rio de Eventos Estressores (para avaliar
jeanepsico@yahoo.com.br os fatores de risco), (b) Mapa dos Cinco
Campos (para avaliar a rede de apoio –
número de contatos e fator de proximi-
LT06-898 - REDE DE APOIO, EVENTOS dade) e (c) um bloco de instrumentos que
ESTRESSORES E AJUSTAMENTO NA compôs o Índice Geral de Ajustamento
VIDA DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES (Checklist de Sintomas Físicos, Escala so-
EM SITUAÇÃO DE VULNERABILIDADE bre o Uso de Drogas, Escore de Risco para
SOCIAL Comportamento Suicida, Índice Geral de
Normanda Araujo de Morais - UFRGS Comportamento Sexual de Risco e a Es-
normandaaraujo@gmail.com cala de Afeto Positivo e Negativo). Houve
Marcela Raffaelli - UIUC diferença estatisticamente significativa
mraffael@illinois.edu entre os grupos, sendo que o de base-rua
Silvia Helena Koller - UFRGS (G1) apresentou maior média de eventos
silvia.koller@gmail.com estressores e valores de impacto e pior in-
dicador geral de mau ajustamento, com-
Este trabalho tem como objetivo: (a) parado ao grupo de base-familiar (G2). A
descrever e comparar dois grupos de comparação das médias entre os grupos
adolescentes em situação de vulnerabi- também mostrou diferença estatistica-
lidade social - um grupo em situação de mente significativa na variável “rede de
rua e um grupo que vive com sua família apoio”. G1 apresentou maior número de
- quanto ao número e impacto dos even- contatos no campo “instituição”; maior
tos estressores, à sua rede de apoio social fator de proximidade total e no campo
e afetiva, e ao indicador geral de ajusta- “amigos/vizinhos e parentes”, quando
mento; e (b) verificar se as características comparado a G2. Uma ANOVA fatorial do
da rede de apoio (tamanho e qualidade) tipo 2 (alto vs. baixo nível de proximida-
moderaram o efeito do número e impac- de familiar) x 2 (alto vs. baixo número de
to dos eventos estressores sobre o índi- eventos estressores), em que o nível de
ce geral de ajustamento. Trata-se de um ajustamento representou a variável de-
estudo transversal, que foi realizado com pendente, revelou efeitos principais sig-
98 crianças/adolescentes, em dois gru- nificativos tanto para a proximidade fami-
pos: aqueles que vivem em situação de liar quanto para os eventos estressores.
rua (n=32; 32,7%) e os que moram com Foi encontrado um efeito de interação
suas famílias e frequentam uma institui- significativo entre estas duas variáveis.
ção para jovens em situação de vulnera- A descrição gráfica dessa interação mos-
bilidade social (n=66; 67,3%). No grupo trou que houve moderação da proximi-
de base-rua (G1), a maioria (n=27; 84,4%) dade familiar, no nível de ajustamento de
era do sexo masculino, com idade média indivíduos que vivenciavam alto nível de
de 14,69 anos (SD = 1,85). Já no grupo eventos estressores. Ou seja, na presença
com base-familiar (G2), 38 (57,6%) eram de um alto nível de proximidade familiar,

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

o impacto de eventos estressores sobre o de que programas e políticas públicas


ajustamento foi menor do que quando o com foco no indivíduo tendem ao fracas-
nível de proximidade familiar era baixo. so, assim como intervenções pontuais,
Os resultados do presente estudo corro- compensatórias e assistencialistas. Tão
boram, empiricamente, a importância da importante quanto o suprimento de con-
“proximidade” familiar como um fator de dições materiais e econômicas às famílias
proteção na vida de adolescentes que vi- é a existência de programas sociais que
vem em situação de vulnerabilidade so- visem um acompanhamento mais siste-
cial. Mais especificamente, sobre a vida mático destas. Embora a miserabilidade
daqueles/as que estão submetidos a um econômica seja considerada um dos fato-
maior número de eventos estressores. res que mais contribuem para a fragilida-
Nenhum estudo que testava a associação de dos vínculos familiares, isso não signi-
entre rede de apoio e ajustamento, a par- fica dizer que o problema será resolvido,
tir do Mapa dos Cinco Campos, foi identi- quando as famílias receberem apenas o
ficado até então. Quase sempre, as pes- apoio financeiro necessário. Ao contrário,
quisas que utilizam esse instrumento o as propostas assistencialistas vigentes,
fazem para descrever as características da até então, apenas reforçam a percepção
rede de apoio dos participantes. A utiliza- dessas famílias como incapazes e desqua-
ção deste instrumento com adolescentes lificadas para o cuidado de seus filhos.
em situação de vulnerabilidade social (na Urge uma nova concepção de família, a
rua ou na família) mostrou-se apropria- qual esteja baseada não apenas nas suas
do, pela riqueza de dados produzidos e vulnerabilidades e fragilidades, mas, que
pelo aspecto lúdico e terapêutico que sua as reconheça, também, em suas próprias
aplicação possibilita. Durante a aplicação potencialidades e recursos, e que atue
do Mapa, foi frequente a expressão de fortalecendo-as.
sentimentos e relatos de vida que, talvez,
demorassem mais tempo para serem ex- Palavras-chave: rede de apoio, família,
pressos, caso apenas a entrevista tivesse vulnerabilidade social
sido utilizada. À luz desses resultados, Contato: Normanda Araujo de Morais, UFRGS,
confirma-se a necessidade de progra- normandaaraujo@gmail.com
mas e políticas sociais que tenham a fa-
mília como foco de atenção e interesse.
A retomada da família como referência
das políticas públicas é justificada como
a estratégia mais adequada (ao lado das
intervenções sociais tradicionais – saúde,
educação, habitação, renda, etc.) para o
desenvolvimento de programas sociais
efetivos de enfrentamento das diversas
situações que implicam em vulnerabilida-
de social (tais como, pobreza, violência,
situação de rua etc.). Além disso, o foco
na família está relacionado com a visão

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VIII Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento

LT06-1015 - DESENVOLVIMENTO EM de atenção à criança e ao adolescente


RISCO: RELATO DE INTERVENÇÃO em situação de risco se deparam com
PSICOLÓGICA JUNTO A CRANÇAS E mais desafios na busca de melhorar as
ADOLESCENTES EM SITUAÇÃO DE precárias condições de vida em que estas
RISCO. UMA EXPERIÊNCIA DE EXTENSÃO se encontram vivendo, muitas vezes, em
UNIVERSITÁRIA um cotidiano de situações extremas de
Emily Souza Gaião - UEPB exclusão social, no qual os direitos asse-
emilygaiao@gmail.com gurados no Estatuto da Criança e do Ado-
Luciano Edgley dos Santos - UEPB lescente não são respeitados (ECA