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Quatro mil anos de cultura,

através dos mitos e lendas da antiga China.

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Boston, MA 02116

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Nesta mitologia que agora se

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MITOLOGIA CHINESA

[MITOLOGIA PRIMITIVA)

-

MITOLOGIA CHINESA

[MITOLOGIA PRIMITIVA]

Quatro Mil Anos de História Através das Lendas e dos Mitos Chineses

LANDY

Título:

Mitologia Chinesa [Mitologia Primitiva], Quatro Mil Anos de História Através das Lendas e dos Mitos Chineses

Tradução:

Instituto de Línguas Estrangeiras de Pequim (República Popular da China)

Apresentação:

Antonio Daniel Abreu

© da presente edição:

Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda.

Capa:

Camila Mesquita

Editor:

Antonio Daniel Abreu

Produção Gráfica:

Kleber Kohn

LANDY

Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda.

Alameda Tietê, 17 - Tels. (0_11) 280-4776 / 881-4169

CEP 01417-020 - São Paulo, SP, Brasil

e-mail: landy@brazilwebtour.com.br

2000

ÍNDICE

Apresentação.

9

Pan Gu, o Criador do Universo .

11

Nü Wa, a Deusa que Criou a Humanidade e Remendou o Céu.

15

O Deus de Agricultura Provou Cem Ervas.

23

Suirenshi, o Inventor do Fogo.

31

Hou Ji, o Mestre Agrônomo.

37

A Vitória de Huangdi Sobre Chiyou.

45

Hou Yi, o Arqueiro que Derrotou Move Sóis.

55

Chang E, a Desterrada Beleza da Lua.

65

Yandi, o Deus do Sol.

79

Kua Fu, o Perseguidor do Sol.

91

Xing Tian, o Flerói Justiceiro.

93

Gun e Da Yu, os Deuses que Dominaram as Aguas da Terra.

/

97

Fu Xi, o Lendário Inventor dos Oito Trigramas.

115

Contos de Países Imaginários.

125

 

O

País dos Gigantes.

127

O

País dos Anões.

130

O

País dos Imortais

132

O

País dos Manetas

.

134

O

País dos Homens de Longos Braços

136

O

País dos Homens-Aves.

137

Demônios e Feras Bestiais.

139

As Ilhas dos Imortais.

142

O

Velho Tonto que Removeu as Montanhas.

149

A Deusa dos Bichos-da-Seda.

155

APRESENTAÇAO

Os mitos e lendas apresentados nesta pequena antologia, remontam a quatro mil anos atrás. Nesse tempo ainda não existia uma corrente filosófica pro¬ priamente dita, na China, pelo menos que tivesse uma forte consistência. Nesta mitologia que agora se pu¬ blica em português, os mitos apresentados foram se¬ lecionados a partir de relatos populares que chegaram até os nossos dias através da divulgação oral. A rique¬ za e a diversidade dos temas aqui apresentados, ilus¬ tra bem as múltiplas culturas que formam o imenso quadro cultural da China antiga e atual. A diversida¬ de desse quadro cultural é de tal importância que, só para o leitor ter uma pequena idéia, a China na atu¬ alidade é formada por mais de vinte etnias e cada uma delas possui uma longa história. A partir deste con¬ junto étnico, não é tarefa fácil falar da mitologia chi¬ nesa. De qualquer modo, os mitos e lendas coletados neste volume refletem uma boa parte dessa diversi¬ dade cultural mas não podemos afirmar que não haja outros mitos que possam ser apresentados como uma mitologia chinesa. Só para dar uma idéia mais exata da China, na antiguidade o país viveu sob grandes di¬ visões. A primeira dinastia que unificou todos os reinos da China foi a dos Shang (século XVIII a 1025 antes de Cristo). Depois dessa dinastia, o país conhe¬ ceu várias dinastias e viveu sob intensas divisões

étnicas. A dinastia mais importante, talvez a que marca o período de ouro do pensamento chinês, foi a Tang (618-907 da era cristã). Foi nessa dinastia que o país teve um avanço significativo e conheceu a reunificação dos diversos reinos. A literatura e as ar¬ tes tiveram um grande desenvolvimento e foi, ainda, durante essa dinastia que surgiu na China o Confu- cionismo e o Taoísmo. No aspecto religioso foi, tam¬ bém, sob a dinastia Tang que surgiu o budismo. Do Confucionismo os chineses herdaram o gosto pelo trabalho, a verdade e a lealdade. Do Taoísmo veio a simplicidade pelas diversas formas de vida, caracte¬ rizada, sobretudo, na poesia; do Budismo veio a pro¬ cura do caminho pela perfeição através de Buda, o Iluminado. Este conjunto de filosofias predominou até 1949 quando os Comunistas conquistaram o po¬ der a passaram a governar o país. Embora o marxis¬ mo nada tenha a ver com as tradições culturais da China antiga, os governantes chineses têm tentado preservar a identidade cultural do país. Os avanços anunciados pelo atual governo da China, indicam que o país está prestes a atingir a auto-suficiência na ali¬ mentação e em tantos outros setores. Tudo isso seria muito simples de explicar se não se tratasse da Chi¬ na, país que responde por mais de 20% da população mundial. Num país com mais de um bilhão e duzen¬ tos milhões de habitantes, a história fatalmente é muito rica e diversificada. Essa é a razão principal da publicação deste livro de Mitologia Chinesa. Num fu¬ turo próximo, é possível que surjam outras mitologias que podem ser relativas a outros períodos da cultura chinesa.

Antonio Daniel Abreu São Paulo, setembro de 2000.

PAN GU, O CRIADOR

DO

UNIVERSO

Há muitos e muitos anos atrás, antes do princí¬ pio do céu e da terra, o Universo constituía uma confusa massa negra que se assemelhava a um gran¬ de ovo dentro do qual se encontrava em crescimen¬ to e dormia a sono solto um gigantesco embrião chamado Pan Gu. Passados cerca de 18 mil anos, Pan Gu come¬ çou a acordar. Quando finalmente abriu os olhos e se pôs a olhar em volta, descobriu que tudo era tão negro que não conseguia distinguir nada. Isto o aborreceu muito, tanto que, acabando por ficar en¬ raivecido, abriu a palma da sua enorme mão e bran¬ dindo o seu possante braço desferiu um violento golpe na confusão negra que o rodeava. Craque! O ovo estalou com um colossal estron¬ do fragmentando-se a negritude que se encontrava estática e condensada nele desde há centenas de mi¬ lhares de anos. Na sucessão deste acontecimento os elementos que eram mais leves subiram lentamente para as alturas e dispersaram-se gradualmente aca¬ bando por se transformar no azul do céu, enquanto que os mais pesados e turvos desceram vagarosa¬ mente para as profundezas transformando-se na ter¬ ra. De pé, entre o céu e a terra, Pan Gu respirou

então profundamente, sentindo-se agora muito à von¬ tade e prazenteiro. O céu e a terra estavam finalmente separados, contudo, Pan Gu, tendo receio de que eles se vies¬ sem ajuntar de novo, resolveu sustentar o céu com os seus braços levantados calcando firmemente a terra com os seus pés. Entretanto, o corpo de Pan Gu crescia tão rapidamente que atingia em média três metros por dia, o céu e a terra distanciavam-se assim quotidianamente em cerca de três metros. Passados 18 mil anos o céu tinha atingido colossais alturas e a terra tinha-se tornado extremamente com¬ pacta. Entretanto, por mais estranho que possa pa¬ recer, Pan Gu tinha crescido descomunalmente. Mas afinal qual era agora a altura de Pan Gu? Dizia-se que tinha ultrapassado os 45 mil quilômetros. Ti¬ nha-se realmente transformado num extraordinário gigante que tocava o céu com a cabeça e tinha os pés firmemente assentes na terra. Fora justamente graças à força divina de Pan Gu que o céu e a terra tinham sido criados e era agora devido à sua interposição, que estes se mantinham separados, não havendo jamais o perigo de se virem a juntar de novo. Se bem que a original confusão negra se tivesse completamente desintegrado e não fosse mais do que uma memória do passado, Pan Gu tinha ficado tão exausto na sua grandiosa obra de criação que não tardou a morrer de cansaço. Após a criação do céu e da terra Pan Gu tinha imaginado poder vir a criar um brilhante e esplen¬ doroso mundo sobre o qual pairasse o sol e a lua, revestido por montanhas, rios e toda uma variedade de coisas, habitados pelos homens e demais seres

vivos. Infelizmente, devido à sua morte prematura, não pôde vir a tornar em realidade esse seu grandi¬ oso plano, mas antes de dar seu último suspiro, ain¬ da teve alento para metamorfosear partes do seu corpo moribundo.

O seu hálito transformou-se em brisa, nas nuvens

e nos nevoeiros do céu e a sua voz no estrondo dos trovões.

O seu olho esquerdo transformou-se no sol res¬

plandecente que ilumina a terra, o seu olho direito na lua brilhante, e os seus cabelos e bigodes na minada de estrelas do firmamento.

Os seus quatro membros e tronco transformaram-

se em cinco maciças montanhas — quatro perden¬ do-se nas extremidades de leste, oeste, sul e norte do planeta situado no centro do universo.

O seu sangue transformou-se em impetuosos rios

que passaram a sulcar a crosta terrestre e os seus

tendões em caminhos que intercomunicam todos os

pontos do globo. Os seus músculos transformaram-se em terras férteis, e os seus dentes, ossos e tutano, respectiva¬ mente em pérolas, jade e inesgotáveis recursos mi¬ nerais subterrâneos.

Os pêlos do seu corpo transformaram-se na rel¬

va e nas árvores que abundam disseminadas por todo

o mundo e o seu suor na chuva e na garoa que são

o alimento de todas as plantas. Em resumo, se bem que a criação do universo se devesse inteiramente aos esforços divinos e ao espírito de abnegação do gigante Pan Gu, a maravi¬ lhosa variedade, exuberante riqueza e íntima beleza deste mundo são produtos do seu corpo.

Conta-se ainda que a raça humana gerou-se a partir da sublimação da alma do grande gigante, o que significa serem todos os seres humanos descen¬ dentes de um antepassado comum: Pan Gu. Não é

por isso de estranhar que a humanidade, enquanto espírito do universo, tenha sido capaz de — graças

à sua superioridade — controlar tudo quanto existe

à superfície da terra, de arrasar montanhas, de mo¬

dificar o curso de rios e mesmo de transformar a Natureza de uma maneira mais benéfica, duradou¬ ra e propícia ao próspero futuro de todos os seres humanos.

NU WA, A DEUSA QUE CRIOU A HUMANIDADE

E REMENDOU

O CÉU

A lenda de Pan Gu, o criador do Universo, con¬ ta que após a morte de Pan Gu, o seu espírito deu origem à humanidade. Existe, no entanto, uma ou¬ tra lenda que relata ter sido Nü Wa, uma bondosa e gentil deusa, a criadora da humanidade, tendo tam¬ bém sido ela quem, trabalhando exaustivamente em desafio, remendou o céu que tinha sido destruído — contribuindo assim largamente para a sobrevivên¬ cia e felicidade da raça humana. Esta história pros¬ segue do seguinte modo:

Após a unção do Universo, a deusa Nü Wa ence¬ tou longas viagens por todas as partes mais recôndi¬ tas do firmamento e da terra. No majestoso céu, o sol, a lua e as estrelas competiam em esplendor; no pode¬ roso mundo, altas montanhas, longos rios, luxurian¬ te vegetação, viçosas árvores, alegres animais, canto¬

ras aves, irrequietos peixes, enfim

vigor e pujança. A deusa sentiu-se rejubilante com tudo quanto viu, todavia, sentiu ainda haver algo de insuficiente. Sim, era ainda necessário criar um ser que fosse mais inteligente que tudo e todos, capaz não só de trabalhar mas também de comandar

tudo, aparentava

e administrar o mundo. Por mais perfeito que fosse o

universo, por maior variedade de espécies vivas que tivesse o mundo, era finalmente essencial criar um

elo de ligação entre todas as coisas a ser conseguido através de raça humana. Dando asas à sua imagina¬ ção criadora, a deusa Níi Wa modelou à sua própria imagem uma série de figurinhas de aspecto humano, dando-lhes os dons do movimento e da fala. Satisfeita com a sua concepção, a deusa decidiu esmerar-se e prosseguir com o seu trabalho, e as¬ sim, passado pouco tempo, um grupo de figurinhas humanas de ambos os sexos surgiu na sua frente, cantando e pulando alegremente. A deusa deu às figurinhas o nome genérico de “homens”, que realmente veio a designar todo o ser vivo que normalmente se mantém e locomove numa posição ereta.1 Se bem que a deusa Nü Wa não pa¬ rasse de fazer mais e mais figurinhas numa tentati¬ va sobre-humana de populacionar o vasto território terrestre com homens dotados de poder de fala e de movimento, por mais esforços que fizesse a sua capacidade de fabrico seria sempre demasiadamen¬ te pequena em proporção à imensidão do planeta, vindo os homens a sentirem-se demasiadamente sós

e dispersos em sua superfície. Após ela ter traba¬

lhado afincadamente dias seguidos, o número de pessoas que se encontravam dispersas no mundo continuava bastante reduzido. Cansada, veio-lhe de repente à mente uma ótima idéia. Partindo um cani¬

ço de uma montanha, atou a uma das suas extremi¬ dades uma grande pedra. Segurando-a na extremi¬ dade do lado oposto, e depois colocando entre ela e

a pedra de permeio um monte de barro, a deusa

começou a rodar velozmente o caniço tal como se

fosse uma criança saltando a corda. Oh, inesperado milagre! Imediatamente os pedaços do barro que o caniço desprendia com a sua rotação se transforma¬ vam em energéticos homenzinhos, mal tocavam o solo. Tratava-se realmente de um método mais eco¬

nômico e eficaz! Incessantemente, uns após outros, milhares de homens foram assim produzidos, vin¬ do-se a dispersar pelos quatro cantos do mundo, adequadamente povoando a terra inteira. Depois, e para que a humanidade não se extinguisse, a deusa Nü Wa concebeu o regime de casamento entre ho¬ mens e mulheres — de modo que estes se pudes¬ sem amar mutuamente, estabelecerem famílias e procriarem-se.'Por isso os povos da antiguidade chamavam Nü Wa de a “casamenteira santa” ou de

“deusa do casamento”. Muitos anos se tinham passado depois da cria¬ ção da humanidade por Nü Wa quando se desenca¬ deou um enorme conflito no mundo: uma drástica guerra entre o deus das águas, Gonggong, e o deus do fogo, Zhurong. A luta entre os deuses foi tão calamitosa que o céu desabou e a terra entreabriu- se pondo os homens à beira do seu extermínio. Gonggong, deus das águas, para além de ter um temperamento inconstante e caprichoso, comporta¬ va-se tal como um déspota, aspirando em tomar-se

a

o

senhor absoluto de tudo quanto existia no mundo

e

vir a monopolizar o universo. Mas, no entanto,

Zhurong, o feroz e cruel deus do fogo, tinha igual¬

mente pretensões à hegemonia do universo. Estes

dois deuses eram por isso inimigos mortais, tal como

a água e o fogo são incompatíveis, e uma vez, não se sabe bem como, tendo-se encontrado ambos re¬ correram a uma luta armada.

Ora, o deus Gonggong tinha dois ministros que se chamavam respectivamente Xiangliu e Fuyou. Xiangliu era um ser feroz e ávido, com o corpo de serpente todo verde e nove cabeças de aparência humana. Fuyou era um incansável viajante que abu¬ sava incessantemente do seu poder onde quer que estivesse. O deus Gonggong tinha um filho que, tal como o pai, pretendia a hegemonia do poder e era conhecido por toda a espécie de crimes. Estes três personagens, sendo os fiéis cúmplices do deus das águas, imediatamente se aliaram às suas intenções quando este declarou guerra ao deus do fogo. Certo dia, Gonggong, acompanhado por Xian¬ gliu, Fuyou e pelo seu filho, decidiu ir numa gran¬ de jangada atacar Zhurong. Ao aproximarem-se da morada do deus do fogo levantaram uma enormè ventania e fustigaram enormes ondas a fim de os¬ tentarem o seu poderio e força. Zhurong, pouco estúpido e muito manhoso, ao ver a superioridade numérica do adversário, pretendeu não fazer frente ao ataque dos seus adversários e retirou-se da orla marítima indo para o interior incentivando o inimi¬ go a desembarcar. Quando o deus das águas e seus acompanhantes, caindo na armadilha do deus do fogo, desembarcaram em terra firme, Zhurong cus¬ piu-lhes labaredas ardentes envoltas em espesso fumo. O ministro Xiangliu teve uma morte instan¬ tânea. O outro ministro, Fuyou, ficou totalmente queimado, mas ainda conseguiu fugir. Querendo atenuar um pouco a dor insuportável que os seus fatais ferimentos lhe causavam, decidiu mergulhar no rio Huaihe, ali acabando por morrer. O filho do deus das águas, sendo o menos capacitado de todos, ao ver esta cena tremenda, ficou aterrorizado e

manteve-se imóvel; então, Zhurong brandiu o seu sabre e cortou-o ao meio. O deus das águas vendo- se perdido não teve outra saída senão recuar. O arrogante e orgulhoso Gonggong, confronta¬ do por tamanho revés não se pode conter e, enver¬ gonhado e raivoso, bateu a sua cabeça com toda a força contra a montanha Buzhou que não era mais do que um dos quatro pontos de apoio do céu. De fato, segundo uma antiquíssima lenda chinesa, o céu estava sustentado por quatro sustentáculos que im¬ pediam a sua deiTocada e permitiam aos terrestres viver tranqüilamente. Tal foi o golpe desferido pelo deus das águas contra a montanha Buzhou — que o sustentáculo celestial do noroeste, se desmoronou arrastando com a sua queda uma grande parte da calota celeste e abrindo um grande buraco no firmamento. Tamanho foi o abalo que a crosta ter¬ restre abriu inúmeras e profundas rachaduras e das suas entranhas jorraram águas, que se misturando com as dos rios, do mar e dos lagos inundaram o mundo transformando-o num oceano de rebeldes vagas. Nas montanhas as pedras entrechocaram-se produzindo faíscas que incendiaram as florestas e fazendo as feras e animais selvagens sair do seu meio ambiente para irem atacar os homens. Quão terrível foi esta cena! Tal como diz a lenda, o mundo de então devia ter-se tomado realmente num inferno. Como criadora da humanidade, a mãe bondosa

e gentil destruiu o universo. A fim de salvar os homens e para que os seus descendentes pudessem viver etemamente, resolveu, portanto, reparar ime¬ diatamente o céu danificado. Olhando à sua volta a deusa ponderou sobre

a melhor solução a adotar e, depois de alguns

momentos de reflexão, veio-lhe à mente uma idéia. Foi às montanhas onde apanhou cinco tipos de pe¬ dras de cores diferentes e fundindo-as preparou uma forte argamassa com a qual remendou o buraco celestial. Depois, queimou campos inteiros de jun¬ cos e com as cinzas destes fez diques contendo as¬ sim as inundações. Finalmente Nü Wa matou o “Dragão Negro” que desde há muito vinha pertur¬ bando a vida calma da população na planície da pro¬ víncia de Fíebei. Vendo isto e tomados de pânico, as outras feras e animais selvagens fugiram das re¬ giões habitadas pelos homens procurando refúgio em outras paragens, acabando assim a humanidade por se libertar desta calamidade. Se bem que o remendo feito por Nü Wa tivesse sido executado com extremo cuidado e perícia o céu manteve um ligeiro declínio para noroeste fa¬ zendo deslizar o sol, a lua e as estrelas na sua superfície. Também devido ao abalo, a terra descaiu minimamente para sudeste nunca conseguindo re¬ cuperar a sua configuração inicial, sendo esta a razão por que atualmente os rios correm todos nesta direção. Em vez de prejudicar a vida humana, esta mu¬ dança acidental afetou favoravelmente o movimen¬ to do sol e as posições da lua e das constelações no firmamento vindo assim os ciclos solares respecti¬ vamente em relação à lua e às constelações a divi¬ dir cada ano em quatro estações: primavera, verão, outono e inverno, e cada dia em dois períodos: noi¬ te e dia. Precisamente pelo fato de agora os rios correrem sem cessar para leste, e devido aos movi¬ mentos de rotação e translação do sol, as superfíci¬ es de ambos os hemisférios são igualmente irrigadas

obtendo-se maiores e mais abundantes colheitas. Em resumo, graças a esta transformação, a humanidade veio a formular uma nova vida, a terra tornando-se mais próspera e o mundo adquirindo mais e diver¬ sificados cambiantes. Cumprida a missão, a deusa Nü Wa deixou a terra, montada num dragão ascendente por entre as nuvens até os píncaros das alturas onde se encon¬ trou com o Imperador Celestial, e lhe contou pormenorizadamente tudo quanto tinha realizado no universo, nomeadamente, a criação da humanidade e a sua prodigiosa reparação do céu. Mas, contra¬ riamente ao que a deusa esperava, o Imperador Celestial mostrou-se contrariado pelas suas faça¬ nhas, pois pensava ele que uma vez existindo na terra uma humanidade representativa do espírito do universo, certamente esta iria gradualmente modi¬ ficar tudo quanto lhe tinha sido dado e criar tudo quanto mais desejasse e não houvesse no mundo até se considerar senhora absoluta do universo — vin¬ do então a contestar a necessidade de uma autori¬ dade divina suprema. No entanto, o Imperador Celestial, não queren¬ do deixar transparecer à deusa Nü Wa o que ia em seu pensamento, limitou-se lhe dizer friamente:

— Está bem! — retirando-se depois silencioso. Nunca se querendo vangloriar da sua contribui¬ ção para o futuro dos homens, Nü Wa não deixou, contudo, de se preocupar com a eterna felicidade daqueles que tinha criado. Por isso, todas as gera¬ ções vindouras lhe ficaram profundamente reconhe¬ cidas e guardaram a sua imagem no fundo dos seus corações, identificando-a como uma figura simbóli¬ ca e de extremoso maternalismo.

Nota

1. Os chineses designavam, através de caracteres, os mo¬ vimentos que se referiam à linguagem. Assim, para poderem exemplificar um homem, criavam um carácter que correspondesse a um homem em movimento.

O DEUS DE AGRICULTURA PROVOU CEM ERVAS

Na antigüidade remota a vida era extremamente dura. Para sobreviverem, os homens eram constan¬ temente obrigados a caçar animais, pássaros e fru¬ tos silvestres, desafiando íngremes montanhas, trans¬ pondo largos rios, suportando os frios rigorosos do inverno e os calores ardentes do verão, e correndo incalculáveis riscos, No entanto, nesses tempos não existiam doenças, razão pela qual ninguém adoecia. Qual então a razão por que a humanidade come¬ çou a sofrer de tantas e diversas pestes e todas as demais enfermidades que se têm vindo a arrastar até o dia de hoje? A resposta a esta pergunta advém da história que se segue:

Numa remota região do mundo estende-se a cor¬ dilheira Kunlun no seio da qual outrora se encon¬ trava o reino de Xi. Este era controlado por uma deusa, a Rainha-Mãe do Oeste, que habitava nos cumes da montanha de Jade, majestosamente situ¬ ada no centro dos seus territórios. Por uma das ver¬ tentes da montanha descia um riacho de águas transparentes que dava origem ao famoso lago de Jade.

Aí, o clima era sempre suave e agradável duran¬ te as quatro estações e a paisagem mantinha-se ver¬ de e atraente durante todo o curso do ano. Pelas encostas da montanha e pelas margens do lago cres¬ ciam múltiplas variedades de flores e uma imensidão de ervas fragrantes e aí viviam animais e aves de todas as espécies. Contava-se que uma panacéia se produzia neste lugar, tratava-se dos famosos pêsse¬ gos da imortalidade cujas árvores eram fertilizadas por fragmentos de jade vindos das montanhas com as enxurradas e regadas com as águas do lago de Jade. Somente uma vez, de três em três mil anos, as pessegueiras floresciam e davam frutos. Bastava que uma pessoa comesse um destes frutos para ter asse¬ gurada a vida eterna. Segundo a tradição, o deus Houyi foi pedir à panacéia à Rainha-Mãe do Oeste, desafiando todas as dificuldades e perigos. No excelso e etéreo cúmulo da montanha de Jade erguia-se o luxuoso palácio onde morava a Rainha- Mãe do Oeste. Esta tinha a seu serviço três impo¬ nentes aves de cabeça vermelha, olhos pretos e pe¬ nas verdes que se chamavam respectivamente Dali, Shaoli e Qingniao. Dali estava encarregado de coti¬ dianamente trazer suculentos frutos para a Rainha- Mãe do Oeste, Shaoli encarregava-se do abasteci¬ mento de água e Qingniao tinha o cargo de mensa¬ geiro. A Rainha-Mãe do Oeste tinha também a seu serviço uma outra ave de três pernas, olhos perspi¬ cazes e garras agudas, a qual sobrevoava dia e noite a sua residência guardando o lugar e patrulhando o horizonte. O Imperador Celestial tinha posto a cargo da Rainha-Mãe do Oeste a proteção dos preciosíssimos pêssegos-da-imortalidade e tinha-a encarregado de

manter hermeticamente cerrados os portões das três grutas da cordilheira Kunlun, onde estavam encer¬ rados uma multidão de bichos venenosos e animais pestíferos que, se postos em liberdade, poderiam alastrar-se por toda parte infestando a humanidade com as mais horríveis doenças. Os portões destas grutas estavam fechados com colossais batentes de pedra e, devido a terem-se sempre mantido cerra¬ dos, as suas frinchas e gonzos tinham-se coberto de um musgo verde e uma ferrugem pedrosa de uma grande espessura, gradualmente acumulados através de milhares e milhares de anos. Porém, um acidente imprevisto aconteceu! Um dia, quando a ave de três pernas voava pe¬ los céus aconteceu ouvir os gemidos miseráveis dos

bichos venenosos e dos animais pestíferos. Cheia de curiosidade tentou o interior através das fendas dos portões e ao ouvirem ruídos os prisioneiros suplica¬ ram-lhe insistentemente para ela os libertar. Ao que a guardiã lhes respondeu:

— Por ordem do Imperador Celestial vocês de¬

verão permanecer fechados dentro das grutas e de resto a chave está nas mãos da Rainha-Mãe do Oes¬

te. Além disso, vocês são declarados nocivos à pro¬ pagação da raça humana e eu tenho ordens estritas de não vos abrir os portões.

— Por favor, abra só uma pequena fresta para

nós sentirmos um pouco do ar fresco porque aqui estamos muito abafados. Ninguém duvida da sua grande bondade.

— Não, não vos posso abrir os portões, porque

sei que vocês se aproveitariam da mínima das oca¬ siões para fugirem donde estão — disse-lhes a ave

de três pernas.

— Fique descansada que isso não há de aconte¬ cer — retorquiram os bichos e os animais numa voz melancólica e dolorosa. — Garantimos não a com¬ prometer de modo algum se nos fizer um tão gran¬ de favor como o de nos deixar respirar uma lufada de ar fresco. Crédula e condoída, a ave de três pernas acredi¬ tou no que lhe diziam e voou ao palácio da Rainha- Mãe do Oeste para ir buscar a chave. A deusa estava dormindo e bastou à ave abrir cuidadosa e silenciosamente uma grande caixa de pedra para de lá tirar uma chave pesando umas boas dezenas de quilos. De volta à gruta, mal entreabriu

o portão que os bichos venenosos e animais pestífe¬ ros se precipitaram para sair. A ave quis então fechá-

lo novamente, mas já era tarde demais

por mais

que se esforçasse, todos os bichos e animais deban¬ daram rapidamente e dispersaram-se num abrir e fechar de olhos.

Ao ser informada do ocorrido a Rainha-Mãe do Oeste ficou tão espantada quão furiosa pelo que a ave de três pernas tinha feito. A deusa mandou ime¬ diatamente Qiongqi, Tenggen e mais outros ágeis dos seus ministros que tinham grande capacidade em voar para prender novamente todos os bichos e ani¬ mais, mas os seus esforços foram baldados porque estes já se tinham escondido não se sabendo onde. Desde então pestes e enfermidades começaram a contaminar a raça humana e a proliferar por toda parte. Felizmente que a ave de três pernas abriu apenas um só portão, caso contrário seria difícil imaginar a quantidade de doenças ainda mais horrí¬ veis que poderiam ter vindo a afligir os mortais!

Realmente uma das maiores desgraças que a humanidade sofreu foi ter sido posta à mercê de tais pestes e enfermidades. Ora nesses tempos havia um homem cognomi¬ nado de Deus da Agricultura. Ele não era apenas inteligente e laborioso como também se dedicava em servir, de todo o seu coração, os outros. Contava-se que tinha sido ele o grande inventor da agricultura. Na antigüidade remota os homens viviam principal¬ mente de caça mas com o passar do tempo a popu¬ lação procriou-se enquanto que o número dos ani¬ mais selvagens diminuiu proporcionalmente, de tal modo que, para sobreviverem, os homens não tive¬ ram outra alternativa senão alimentar-se de ervas- selvagens pouco comestíveis. Foi então que, de modo a assegurar a todos da sua povoação um mí¬ nimo de alimentos, o nosso homem começou a ar¬ rotear as terras em volta donde vivia e a cultivar cereais a título experimental. Graças aos sucessos desta sua experiência todos os demais lhe seguiram o exemplo cultivando também cereais. Daí em di¬ ante a vida da população ficou garantida em alimen¬ tos durante todas as estações. Por isso, o povo deu- lhe o nome de Deus da Agricultura. Ao ver que pestes e enfermidades constantemente afligiam os povos, o nosso Deus da Agricultura andava muito cabisbaixo. “Haverá maneira de re¬ solver este problema? Que poderei eu fazer para livrar a humanidade de tantos males? Tomara eu poder descobrir plantas medicinais capazes de cu¬ rar todas as doenças!”. Todavia, existindo no mundo uma tão grande va¬ riedade de plantas, como podia ele definir as carac¬ terísticas terapêuticas de cada uma e saber quais as

ervas específicas ao tratamento de cada doença? Ins¬ pirado pelo seu ideal de salvar a humanidade, deci¬ diu-se então a provar todas as espécies de plantas e assim, cotidianamente, o Deus da Agricultura pas¬ sou a calcorrear as montanhas examinando criterio¬ samente a sua flora e provando separada e minucio¬ samente o sabor de todas as plantas e ervas. Não tardou a reconhecer que cada planta se dis¬ tinguia pelo seu sabor característico, sendo umas doces, outras amargas, outras ainda picantes ou sal¬ gadas, ou mesmo acres; umas aquecendo o corpo, outras o esfriando; umas atuando como desinfetan¬ tes, outras como venenos. Diz-se que certo dia, no decurso das suas pesquisas, o Deus da Agricultura foi envenenado umas setenta vezes tendo sobrevi¬ vido ileso graças a só ter provado uma quantidade ínfima de cada planta venenosa, caso contrário, nunca haveria de ter conseguido voltar ao seu es¬ tado normal. Donde se pode bem imaginar o im¬ pressionante espírito de abnegação do Deus da Agricultura! Tendo sido informado dos esforços louváveis do nosso homem, o Imperador Celestial ficou de tal modo impressionado que lhe enviou um mensagei¬ ro com um chicote mágico denominado Chicote Ocre devido à sua cor terrosa. Daqui em diante bas¬ tava ao Deus da Agricultura atingir uma planta com o Chicote Ocre para que este imediatamente lhe transmitisse as suas qualidades medicinais. Assim, por exemplo, se após tocar numa planta o chicote ficasse vermelho, este indicaria que tal planta tinha propriedades caloríficas; se ficasse branco, signifi¬ cava que tal planta tinha capacidade de abaixar a temperatura; se este mantivesse a sua cor inicial,

ocre, demonstraria a ineficácia de tal planta no tra¬ tamento de qualquer doença e se este se tornasse negro, comprovaria que tal planta possuía caracte¬ rísticas extremamente venenosas. Tratava-se real¬ mente de um fácil e seguro instrumento! Tendo sido tanto a invenção do cultivo dos cere¬ ais como a descoberta das propriedades medicinais das plantas, acontecimentos de extrema importân¬ cia que se viriam a relacionar com o futuro bem- estar e sobrevivência da raça humana até o dia de hoje, os homens continuam a citar respeitadamente o nome do Deus da Agricultura.

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SUIRENSHI, O INVENTOR DO FOGO

Conforme se sabe os primitivos viviam sem fa¬ zer uso prático do fogo. Há quem diga que era ori¬ ginalmente controlado por um monstro de cabeça humana e corpó de dragão — o Deus do Trovão — que gostava de deambular pelo mundo nas épocas do verão e da primavera. Bastava o Deus do Tro¬ vão tocar numa árvore mais carunchosa com a sua cauda para que toda a floresta se incendiasse imedi¬ atamente provocando tamanhas labaredas que estas lambiam o céu, queimavam as demais árvores e er¬ vas, assustavam todas as pessoas e afugentavam os animais para longe. Nesses tempos o fogo era ainda considerado misterioso, mas já tido como muito útil à vida hu¬ mana. Os homens não tardaram a reconhecer que a carne assada era bem mais apetitosa que a carne crua, que as chamas tinham a capacidade de afu¬ gentar as trevas tornando a noite tão clara como o dia e que o lume abate o frio restaurando o calor propicio ao conforto físico. Mas, excetuando as raras vezes em que o Deus do Trovão concedia fogo à humanidade, aonde iria esta obtê-lo para satisfazer as suas necessidades?

Em boa verdade, um fogo permanente existia nos confins oeste do mundo, numa região onde nem o sol nem a lua alumiavam com seus raios, num reino que se chamava Suiming onde só havia uma única estação anual, onde tudo estava permanentemente verdejante, onde frios rigorosos não se faziam sen¬ tir e onde a noite era tão clara como o dia. Tais es¬ tranhos fenômenos eram devido à existência de uma árvore chamada Suimu cujo tronco era tão grosso que seriam precisas várias centenas de pessoas para o abraçar e cuja copa era tão frondosa que chegava

a cobrir dezenas de milhares de hectares de terras e, como das suas ramagens e tronco radiassem inces¬ santemente luz e calor, era também apelidada de

/

Arvore do Fogo. Todavia, tal reino era tão longínquo que todos quantos tinham partido à sua demanda tinham visto baldados os seus esforços. Contava-se que para che¬ gar lá era preciso transpor mil montanhas escarpa¬ das, atravessar dez mil rios impetuosos, percorrer trilhos escabrosos e vencer um sem-número de difi¬ culdades inesperadas. Muitos tinham já tentado che¬ gar lá mas todos tinham fracassado, uns despeda¬ çando-se das vertentes das altas montanhas, outros se afogando na rebeldia das águas dos profundos rios, outros, ainda, devorados pelas feras das flores¬ tas, os demais sucumbindo sob o sol escaldante ou transformados em gelo pelo frio rigoroso. A maio¬ ria, claro está, sendo fracos de espírito e de físico, desistiam logo a meio do caminho, aterrorizados pelos perigos cada vez maiores do trilho que des¬ vendavam. Em resumo, se bem que a luz e o fogo fossem desejáveis a “fonte” da sua existência mantinha-se

secreta e situava-se numa região tão recôndita que repetidamente desafiava e frustrava as maiores ca¬ pacidades e empenhos humanos. Ora, conta-se que numa comunidade primitiva vivia um certo jovem inteligente, possante e corajo¬ so, de alta estatura, perito no tiro-ao-arco, exímio em escalar montanhas, ótimo nadador e, acima de tudo, com o ardente desejo de dar o máximo de si próprio ao serviço da sua tribo. Um dia, tendo ouvido dizer que no remoto reino de Suiming existia a tal Arvore do Fogo, resolveu ir à sua demanda e apesar de ter sido alertado dos sofrimentos que outros tinham passado, nada o fez remover a sua prévia decisão. A idéia de ir buscar o fogo no reino de Suiming e de desvendar à humanidade o segredo da luz e do calor inspirava-o enormemente, e assim, um dia, armado com o seu arco e flechas, o jovem despe¬ diu-se dos seus conterrâneos partindo em direção a oeste. De fato, as dificuldades da viagem provaram ser incalculáveis. Sempre que as altas montanhas lhe impediam o avanço, ele escalava-as agarrando-se a vimes e a pedras, sempre que lagos e impetuosos rios se estendiam na sua frente ele atravessava-os em canoas improvisadas de ramos de árvores que abatia, sempre que tigres ferozes ou jibóias veneno¬ sas o atacavam em florestas ou se precipitavam fora de grutas ele lutava até vencê-los. Muitas vezes tom¬ bou, prostrado de fome, sede e cansaço, quando o ardente calor do verão lhe queimou a pele ou o vento frio do inverno lhe gelou os pés e as mãos. Mas a sua força de vontade, a sua firmeza e a sua convic¬ ção faziam-no sempre erguer-se de novo.

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O tempo passava rapidamente

o jovem já não

sabia quantos anos tinham passado nem quantos

quilômetros tinha percorrido; andava e continuava

a andar de tal modo que já há muito tinha deixado

para trás o Sol e a Lua. Ao seu redor, na sua frente, tudo se encontrava mergulhado numa negra penum¬ bra mas animado pela vontade de encontrar a Árvo¬ re do Fogo e de desvendar o mistério da sua luz ele persistia em caminhar avante no escuro. Ora, um dia, quando o jovem prosseguia tentan¬ do vencer as trevas que agora lhe pareciam ser de¬ finitivas, de súbito, deu-se conta de um distante e fraco clarão tal como se tratasse dos raios da aurora matinal. Conforme se foi aproximando do clarão assim a luz se ia tomando mais intensa fazendo-lhe crer que já estava perto daquele reino de Suiming que ele desde há muito esperava vir a encontrar. Radiante de alegria, desatou a correr com todas as suas energias para frente, na direção do clarão e então se deparou com uma árvore tão grande como nunca tinha visto outra igual sobre a terra. A Arvo¬ re do Fogo tinha umas gigantescas raízes torcidas, uma luxuriante e compacta ramagem que cobria dezenas de milhares de hectares de terra, e as suas folhas cintilavam como se fossem pérolas e pedras

preciosas iluminando até o horizonte e perdendo-se de vista. O jovem, radiante por ter sido o primeiro homem

/

/

a descobrir a misteriosa Arvore do Fogo que desde há gerações muitos mortais ansiavam atingir, apro¬ ximou-se com intuito de observar minuciosamente como eram gerados o fogo e a luz. Viu que pousadas na árvore estavam um número sem conta de aves cujos bicos duros e pontiagudos

produziam a cada bicada nos seus troncos e ramos, múltiplas e fascinantes faíscas. Vendo isto o inteli¬ gente jovem compreendeu imediatamente o método pelo qual poderia obter o fogo. Subindo à árvore arrancou vários ramos da sua copa e depois de os ter friccionado longamente uns contra os outros viu finalmente saltar um grupo de faíscas. Restava-lhe agora saber se seria possível produ¬ zir fogo com ramos de outras árvores, tal como ti- nha feito com a Arvore do Fogo. Entusiasmado pela sua idéia decidiu pô-la em prática, vindo o resulta¬ do a comprovar a hipótese — a única diferença es¬ tava na duração do tempo de fricção. Não se podendo conter de alegria o jovem re¬ gressou o mais depressa que pôde à sua comunida¬ de onde, imediatamente começou a ensinar o méto¬ do de fazer fogo a toda a população. Desde então foi possível a todos produzirem fogo sempre que quisessem, não mais sendo necessário esperar a mercê ocasional do Deus do Trovão. Com o advento do fogo os homens começaram a cozinhar os comestíveis que caçavam no inverno, quando jazia frio, sentavam-se ao redor de improvi¬ sadas lareiras, aquecendo-se deste modo. O fogo passou a iluminar as longas e escuras noites. Com archotes as pessoas defendiam-se do ataque das fe¬ ras. E num período mais tardio os homens concebe¬ ram forjar e aprenderam a fundir os minerais e a moldar armas e utensílios afiados e agudos. Hoje em dia poder-se-ia pensar que a obtenção do fogo se deu por um mero acaso, graças ao friccionamento dos ramos das árvores. Mas a verdade é que foi graças a este método simples e primitivo, que cus-

tou muitos sacrifícios, que a humanidade passou a uma fase decisiva no processo da civilização. Como testemunho e em agradecimento da árdua tarefa, os antigos deram ao jovem aventureiro o nome de Suirenshi, ou seja, Deus do Descobrimento do Fogo.

HOU JI, O MESTRE AGRÔNOMO

Era uma vez uma mulher chamada Jiang Yuan, cuja bondade e empenho no trabalho eram do co¬ nhecimento geral mas, tendo já feito 400 anos de idade, a pobre mulher passava os dias cabisbaixa e triste por não ter sequer um filho a que chamasse seu. Num ano, quando as andorinhas chegaram anun¬ ciando a primavera, ela foi, como já era costume, rezar ao templo do deus celestial, situado nos arre¬ dores da cidade, para que este lhe concedesse uma criança. Depois de ter depositado pia e respeitosa¬ mente as suas ofertas votivas, regressava a mulher à casa, quando viu uma grande andorinha que esvo¬ açava entre a folhagem dos bosques piando sem cessar levando atrás uma outra andorinha que imi¬ tava tudo o que a maior fazia. Tratava-se de uma andorinha-mãe que estava ensinando a sua cria a voar e a procurar insetos. O carinho da ave-mãe e a alegria do filhote suscitaram a inveja e a admiração de Jiang Yuan e fizeram-na de novo pensar que bom seria se também ela pudesse ter uma criança. Prosseguia assim caminhando concentrada em tais pensamentos quando, de súbito, se deu conta de uma pegada tão enorme que o dedo grande do pé por si só era tão longo como a altura de um homem.

E Jiang Yuan sentiu que algo de muito estranho se estava passando mas como a gigantesca pegada se encontrava exatamente no centro da estrada obstru¬ indo-lhe a passagem, ela decidiu pisar cuidadosa¬ mente no dedo grande a fim de prosseguir seu cami¬ nho, mas, mal tinha colocado o seu pé sobre a pega¬ da sentiu uma pujante força invadir-lhe o corpo. Ad¬ mirada com o sucedido, mais tarde Jiang Yuan con¬

tou o que se tinha passado aos aldeões seus conterr⬠neos. Em breve a notícia corria de boca em boca e veio a originar os mais diversos comentários.

— Uma pegada tão grande como um homem?

Isso nunca foi antes visto. Para se deparar com um fenômeno tão estranho como esse, certamente ofen¬ deu o deus celestial! — disseram-lhe uns.

— Péssimo agouro. Preparem-se para lhe acon¬

tecer uma grande desgraça! — disseram-lhe outros. Tais e muitas outras funestas opiniões fizeram a pobre mulher tão aterrorizada que esta não conse¬

guia mais manter-se calma e sossegada. Acontecia que numa aldeia vizinha vivia um

velho que os aldeões consideravam sábio por dar ensinamentos pertinentes a todos quantos se encon¬ travam numa situação embaraçosa. Jiang Yuan de¬ cidiu ir visitá-lo e o velho depois de ouvir o que ela lhe contou sobre a pegada felicitou-a, dizendo-lhe:

— A andorinha é um pássaro auspicioso que

anuncia a chegada da primavera. A visão da ando¬ rinha-mãe ensinando a andorinha-macho deve ser interpretada como um bom augúrio. O deus celestial não poderia castigar uma mulher tão bondosa como tu. A pegada não foi mais do que o sinal de um milagre. Estou seguro que daqui a pouco tempo irás dar à luz um anafado bebê.

e num abrir e fechar de olhos as

andorinhas voltaram a partir para o sul

tal como o velho tinha previsto, a mulher Jiang Yuan

teve um menino. A estranha notícia provocou opi¬ niões negativas entre a população local.

— O menino é um monstro! O parto foi fácil

demais, sem quaisquer dores nem sofrimentos — diziam uns.

O tempo foge

e certo dia,

— Essa criança será a origem da nossa desgra¬

ça! Devemos acabar com ele quanto mais cedo melhor — diziam outros. Assim, não obstante as súplicas de Jiang Yuan, um bando de homens entrou-lhe em casa e tirou- lhe, à força, a criança dos braços não prestando o mínimo das atenções à dor e tristeza que ela expe¬ rimentava como mãe. Sabendo que todas as noites um rebanho de ove¬ lhas e uma manada de bois passavam por uma es¬ treita vereda, os homens decidiram deixar a criança atravessada no carreiro pensando que o gado ao passar o espezinharia provocando-lhe a morte.

O Sol ia-se pondo. Os bois e as ovelhas que se tinham dispersado pelas colinas começaram a con¬ vergir para a vereda e em breve partiram correndo

ao longo do carreiro em direção ao curral mas eis senão quando os animais, ao depararem-se com o bebê deitado no chão, estacaram passo. O primeiro boi da manada mugiu e lambeu carinhosamente a face da criança partido depois cuidadosamente con¬ tornando-o, a primeira ovelha do rebanho fez a mesma coisa. Todos os animais seguiram o exem¬ plo dos seus líderes passando por ambos os lados do menino sem sequer lhe tocarem.

Impressionados com tal prodígio, mas não se resignando com o seu fracasso, os aldeões malévo¬ los decidiram que na madrugada seguinte abando¬ nariam o bebê no seio de uma floresta. Entretanto, tendo nevado abundantemente naquela mesma noi¬ te e a temperatura tendo baixado vigorosamente, no dia seguinte a floresta foi invadida por uma multi¬ dão de gente que ali foi cortar árvores à procura de lenha e madeira. Como já não fosse então conveni¬ ente ali abandonar um bebê, os vilões mudaram de planos decidindo antes ir deixar a criança no rio que agora se encontrava gelado. Um turbilhão de flocos de neve esvoaçava pelo ares. O rio encontrava-se coberto por uma espessa camada de gelo. Fazia-se sentir uma forte aragem frígida. Os homens abandonaram o menino sobre a superfície glacial do rio e partiram. De súbito, como que caídos do céu, apareceram uns pássaros que depois de sobrevoarem a criança pousaram ao seu redor cobrindo-a com suas asas abertas e revigoran¬ do-a com o calor dos seus corpos. O bebê, saindo da letargia gelada em que se encontrava, começou en¬ tão a chorar tão intensamente que em breve muitas pessoas se aperceberam do que lhe tinha acontecido. Ao ouvi-lo chorar daquele modo o coração de mãe de Jiang Yuan não pôde mais conter a sua tris¬ teza e a mulher, correndo todos os riscos, foi buscar o seu filho. Tendo-se malogrado todas as tentativas que tinham feito para matarem a criança os aldeões decidiram então desistir da sua idéia original e per¬ mitir a sua sobrevivência optando antes por despre- zá-lo completamente e, como o menino tinha sido abandonado várias vezes, puseram-lhe a alcunha de “rapaz abandonado”.

Graças aos cuidados extremosos da mãe a crian¬ ça tornou-se num belo e forte rapaz e tal como sua mãe o filho era um empenhado trabalhador. Como passatempo divertia-se a recolher sementes que se apressava em ir plantar, curioso em ver como de¬ pois cresciam, espigavam e amadureciam. Aconte¬ ceu que os grãos de milho que cultivou deram plan¬ tas maiores que as normais e todos quantos as vi¬ ram ficaram deslumbrados pelas espigas douradas. E como desde a antigüidade o nome genérico para os cereais fosse Ji, a mãe deu ao rapaz o nome de Elou Ji, ou seja: Mestre Agrônomo. Com o passar do tempo e já crescido, Hou Ji comprovou ser um homem dotado de grande inteligência e aplicação. Na sociedade de então, as populações ainda ig¬ norantes dos rudimentos agrícolas limitavam-se a caçar e a colher ervas selvagens e frutos silvestres de territórios determinados para saciarem a sua fome, migrando para outras regiões numa luta pela sobre¬ vivência caso a caça rareasse ou houvesse uma es¬ cassez de plantas comestíveis. Múltiplas vezes os homens enfrentavam longas jornadas numa busca desesperada por alimentos arriscando as suas vidas caso encontrassem qualquer fera ou vendo-se cons¬ trangidos a comer certas plantas menos aconselhᬠveis — por vezes mesmo venenosas. Consciente da instabilidade cotidiana da huma¬ nidade Hou Ji prometeu a si próprio fazer todos os esforços que estivessem ao seu alcance para modi¬ ficar tais condições de vida. Numa primavera, Hou Ji prendeu umas lascas de pedra e uns largos ossos bovinos a uns paus de ma¬ deira fabricando assim umas ferramentas primitivas com as quais ele arou uma boa porção de terreno ali

semeando grão que tinha especialmente escolhido das plantas silvestres. Depois, de tempos a tempos, Hou Ji regou as suas culturas com água de um rio que ali corria perto e assim, em breve, o seu terreno tornou-se num campo de verdejante esplendor. Co¬ tidianamente, sem falta, mesmo sob um vento frio, uma chuva torrencial ou um sol escaldante, nada pa¬ recia poder impedi-lo de trabalhar revezando-se su¬ cessivamente no forcado e na monda. Com a chegada do outono, as douradas espigas de milho miúdo brilhavam ao sol, grandes como cau¬ das de raposa nas terras cultivadas por Hou Ji. O sorgo vermelho, os feijões verdes e as melancias re¬ dondas estavam já maduros. O seu sorgo e os feijões eram muito mais gostosos que os selvagens; as suas melancias bem mais doces que as naturais. Todos os aldeões se encontravam maravilhados pelo êxito de Hou Ji e muitos eram obrigados a dizer-lhe:

— Temos vivido nestas paragens há várias gera¬ ções, mas nunca vimos nem provamos nada de tão impressionante como o que plantaste. Diz-nos como fizeste para que tal milagre viesse a acontecer? Mas Hou Ji limitava-se a levantar os seus braços e a responder com a maior das descontrações:

— O deus celestial deu-nos uma grande varie¬ dade de cereais selvagens comestíveis, mas não nos devemos esquecer que também nos deu uma cabe¬ ça para pensar, na posse destes dons podemos criar um número sem conta de milagres! Dos ouvintes presentes, uns ficaram convencidos com as palavras de Hou Ji, mas outros permaneceram duvidosos do que ele lhes dizia pensando antes que o deus celestial lhe tivesse dado boas sementes graças às quais ele tivesse podido obter abundantes colheitas.

Não obstante, a notícia de que Hou Ji tinha ob¬ tido boas colheitas rapidamente se propagava aos quatro ventos e como os cereais se relacionavam estreitamente com a sobrevivência da vida de todos, muitos vieram pedir ajuda a Hou Ji. Com todos quantos o abordavam ele foi bondo¬ so e modesto e de boa vontade explicou tudo quan¬ to tinha aprendido à custa própria, nomeadamente, como se escolhiam as sementes, qual era o melhor método de arar a terra, quando era tempo da semen¬ teira, como se mondava, e qual era a época da cei¬ fa. Entre os aldeões havia muitos que aceitavam as explicações de Hou Ji e quando seguiam o mesmo método, obtinham boas colheitas. A partir de então a raça humana empenhou-se em cultivar a terra produtivamente e em desenvolver téc¬ nicas agrícolas passando a pertencer ao passado o fato de se perseguirem os animais selvagens exaus¬ tivamente, dia e noite, pelas montanhas afora para os caçar e de se comerem plantas e frutos silvestres. Com o cultivo dos cereais a humanidade passou a poder levar uma existência mais sedentária, constru¬ indo habitações mais duradouras e sólidos armazéns para guardar cereais e vindo os movimentos migra¬ tórios por necessidade de sobrevivência a arear na superfície do planeta. Com o correr dos tempos in¬ formações sobre as importantes contribuições feitas por Hou Ji chegaram aos ouvidos do monarca Yao, este por respeito aos seus elevados préstimos deu-lhe um título nomeando-o de “Mestre Agrônomo”. No entanto, Hou Ji não deixou de trabalhar no seio do povo que amava, vindo progressivamente a aperfei¬ çoar novas técnicas agrícolas e a criar novos instru¬ mentos de cultivo chegando mesmo mais tarde a

conseguir, conjuntamente com seu filho Tai Xi e o seu sobrinho Chu Jun, vir a domesticar bois selva¬ gens, que conseqüentemente utilizou no cultivo das terras, diminuindo assim, consideravelmente, a inten¬ sidade do trabalho manual. Passaram-se cem, talvez mesmo duzentos anos ninguém sabia ao certo qual a idade de Hou Ji quan¬ do este faleceu, mas todos traziam reconhecidamente presente na memória suas notáveis contribuições, que tinham trazido tanta prosperidade à vida huma¬ na. A fim de lhe manifestarem sua gratidão, todos quantos o conheceram consideravam que sua últi¬ ma morada deveria situar-se num local pitoresco entre árvores e riachos, e ali passaram a correr em grupos a prestar-lhe homenagem tanto na primave¬ ra — quando na natureza desabrochavam as campi¬ nas em flor e nas terras irrompiam os rebentos verdejantes — como no outono —, quando termi¬ navam as colheitas e era o tempo da desfolhada. Em sinal do seu eterno respeito e saudade, homens e mulheres, velhos e crianças, ocorriam periodicamen¬ te ao túmulo de Hou Ji, cantando, dançando e colo¬ cando flores das mais belas, espigas das maiores e melancias das mais maduras.

A VITÓRIA DE HUANGDI SOBRE CHIYOU

Pode-se dizer que o berço da nação chinesa é a bacia do rio Amarelo. Irrigada por este rio e pelos seus numerosos afluentes, esta região sempre foi, desde tempos remotos, extremamente fértil. Para além de ambas as margens do rio estendem-se imen¬ sas planícies, quer cultivadas, quer pastagens verdejantes, quer cobertas por compactas florestas. Na antigüidade o clima era mais úmido que presen¬ temente e a região era habitada por uma enorme profusão de animais selvagens e de grande porte — entre os quais elefantes. Os primitivos que aí viveram caçavam, levavam o seu gado às pastagens e cultivavam os terrenos. Corajosos e inteligentes viviam felizes e prósperos. Ora, nesse tempo, o território chinês e os seus habi¬ tantes eram governados pelo imperador Huangdi, reconhecido hoje em dia como um dos fundadores da nação. Diz a lenda que era também um deus in¬ teligente e corajoso. Para além da sua residência celeste, Huangdi também tinha uma capital na terra situada nas mon¬ tanhas Kunlun, a oeste da China. Aqui existiam tam¬ bém magníficos palácios e esplendorosos jardins

suspensos; o imperador só comendo do melhor ar¬ roz possível e exclusivamente bebendo água do lago de Jade. Huangdi tinha, no entanto, uma fisionomia mui¬ to espantada, pois tinha quatro caras com as quais era capaz de olhar em todas as direções ao mesmo tem¬ po, podendo desta maneira supervisionar todo o mun¬ do constantemente e melhor ajudar os seus súditos. De costume Huangdi habitava quer em seu palᬠcio celestial ou em seu palácio ocidental, no entan¬ to, interessado pelo futuro do seu povo, descia com freqiiência à terra para o ajudar. Na antigüidade remota os barcos e demais veí¬ culos ainda não tinham sido inventados, assim era com grande dificuldade ou era mesmo impossível atravessarem-se os rios e os habitantes de duas margens opostas por um mesmo caudal não tinham praticamente quaisquer contatos com os outros. Como também não existiam quaisquer meios de transporte mecânicos as pessoas deslocavam-se a pé não podendo, por isso, percorrerem grandes distân¬ cias de uma só vez. Huangdi ensinou aos mortais a técnica de como escavar troncos de grandes árvores fazendo assim embarcações, também os ensinou a fazer veículos de duas rodas capazes de percorre¬ rem mais de uma centena de quilômetros por dia — os meios de transporte tornaram-se acessíveis a to¬ dos vindo assim a melhorar consideravelmente os meios de locomoção. Nesses tempos também não havia um sistema de codificar a passagem do tempo sabendo-se somen¬ te que após um período quente vinha um período frio e assim em sucessão — os homens nascendo, crescendo e morrendo sem nunca saberem as suas

respectivas idades. Huangdi transmitiu aos mortais um calendário sexagesimal no qual estavam incor¬ porados os anos segundo uma combinação dos 10 Troncos Celestes com as 12 Ramificações Terres¬ tres, dando origem a uma cronologia primitiva que se veio a tomar muito útil para a vida cotidiana do povo e para a programação das culturas agrícolas. Huangdi ordenou também aos seus vassalos Cang Jie e Ling Lun que criassem uma escrita à base de ideogramas e que compusessem uma escala musi¬ cal dividida em 12 notas. Em conjunto com Qi Bo, Huangdi escreveu o primeiro tratado de medicina chinesa chamado Huangdi Neijing (O Clássico do Organismo). Huangdi também ensinou aos homens os rudimentos da agricultura, estruturou-lhes o uso e a feitura dos utensílios caseiros. Em abono da verdade deve-se dizer que Huangdi governava o seu país de uma maneira bem mais benéfica que os outros anteriores imperadores da antigüidade que se intitulavam arrogantemente como descendentes do Imperador Celestial. No entanto, neste mundo existem dois tipos de pessoas: as boas e as más! Ora, num calmo ano o demônio celeste Chiyou fez uma particularmente maldosa incursão ao sul da China. Chiyou tinha uma cabeça humana com qua¬ tro olhos, seis braços e os pés transformados em cascos de boi. Sendo o demônio-chefe em total con¬ trole do sul da China, cometia crimes inimagináveis a seu bel-prazer, os seus 81 irmãos e os múltiplos súditos eram tão cruéis quanto ele. Chiyou tinha-se apoderado do seu lugar supremo graças a ardilosas cumplicidades, explorando os humanos e abusando tiranicamente do seu ascendente poder. Mais tarde,

a sua crescente ambição fê-lo ganancioso das terras do norte, vindo a atacar esta região e destruindo na sua passagem tudo e todos quantos encontrava pela frente: casas, lavradios, gado, homens, mulheres, idosos e crianças — nos lugares onde ele tinha pas¬ sado com os seus sequazes a erva nunca mais volta¬ va a crescer. Quando Huangdi se inteirou da recente situação decidiu que o temível Chiyou tinha de ser morto, pois esta seria a única maneira de o fazer parar de cometer mais atrocidades. Chiyou e os seus cúmplices ocupavam estrategi¬ camente a região de Zhuolu, a norte do rio Amare¬ lo, quando Huangdi, inopinadamente, caiu sobre este e sobre as suas tropas à cabeça de um poderoso exército. O imperador tinha sob as suas ordens um número de intrépidos generais tais como Zhao Ying — o jardineiro real — um deus extremamente co¬ rajoso que tinha uma cara humana, um corpo de ca¬ valo, uma pele de tigre e duas enormes asas que lhe saíam do dorso e lhe permitiam voar tal como uma ave; Li Zhu — o guardião da árvore dos frutos de jade — um deus intocável que tinha três cabeças que lhe davam o poder de escrutinizar o horizonte inm- terruptamente de dia e de noite dormindo alterna¬ damente com uma cabeça enquanto estava acorda¬ do com as outras duas; Chi Gou; Xiang Wang; Shen Tu; Yu Lei; Miao Long — o seu próprio filho —; e mesmo Shi Ju — o seu neto. Cada um destes deu¬ ses era detentor de um poder sobrenatural particu¬ lar e diferente, mas para poder lutar ainda mais efi¬ cazmente contra Chiyou e os seus cúmplices, Huangdi recorreu à ajuda extraordinária de um gran¬ de número de ursos, tigres e leões.

No entanto, como Chiyou não estava minima¬ mente disposto a retroceder, cada encontro de tro¬ pas dava lugar a uma renhida contenda levantando tamanhas nuvens de poeira do solo, das planícies de Zhuolu que, dir-se-ia, o céu estava para desabar a qualquer momento. Após o rápido ataque dos batalhões de Huangdi, as tropas de Chiyou não tiveram outra alternativa senão retrocederem, foi então que o malvado demô¬ nio para quebrar o cerco que o rodeava, mais aos seus abriu a sua bocarra e, levantando a sua cabeça, cuspiu uma enorme e espessa bruma que num se¬ gundo cobriu toda a região, obscurecendo a terra e enegrecendo o céu de tal modo que as tropas de Huangdi se desorientaram totalmente. Mas Huangdi, sem se descontrolar, chamou ur¬ gentemente o seu súdito Feng Bo que controlava os ventos do universo e este, desenvolvendo ao máxi¬ mo os seus poderes, desencadeou uma enorme tem¬ pestade que durou três dias e três noites sem que, no entanto, esta fosse suficientemente forte para aniquilar a bruma previamente originada por Chiyou. O exército de Huangdi movia-se de um lado para o outro à procura do inimigo sem nunca o conseguir localizar, a situação tomava-se cada vez mais grave para as tropas imperiais. Huangdi decidiu então empregar ao máximo os seus conhecimentos astronômicos e sabendo que a constelação da Ursa Maior estava sempre orientada na mesma direção inventou um carro celeste capaz de indicar constantemente qual o caminho a seguir — um estranho mecanismo no qual uma figura de madeira com o braço levantado apontava inexora¬ velmente com o seu dedo indicador esticado na

direção do sul. Graças a este engenho os batalhões de Huangdi puderam encontrar os caminhos certos

a seguir e romper o cerco que, entretanto, o inimi¬ go lhes tinha feito. Chiyou começou então a entrar em pânico e

querendo contra-atacar as tropas de Huangdi com o máximo de rapidez e sem lhes deixar tomar alento enviou contra elas uma tropa de demônios das flo¬ restas e das montanhas comandados por Chi Mei eWang Liang. Chi Mei era um demônio de cara humana e corpo de animal, que soltava os mais horripilantes gritos, e Wang Liang era um anão de longas orelhas pontiagudas, olhos encarniçados, cabelos compridos e uma aterradora pele vermelha

e preta. Mas Huangdi, sabendo que eles não supor¬

tavam as vozes dos dragões, ordenou às suas tropas que soassem trompas que imitavam as vozes destes pondo assim ao largo a presença dos demônios. Como fazer, no entanto, para vencer definitiva¬ mente Chiyou? Então Huangdi teve a idéia de fazer um enorme tambor cujo toque incentivasse a moral dos seus homens. Sabendo que no Mar Oriente se erguia a montanha Liupo e que ali vivia a besta Kui — um ser que se assemelhava a um gigantesco boi sem chifres, de olhos luzidios tais como relâmpa¬ gos, com uma pele de cor macilenta, que se deslo¬ cava saltitando sobre o seu único casco e cujo raro grito parecia o estertor de um trovão — ordenou que este fosse morto e que com sua pele fosse feito um gigantesco tambor aproveitando-se dois de seus os¬ sos para duas enormes baquetas. Quando o tambor ficou acabado o seu ribombar fazia tremer a terra e sacudirem-se as montanhas, podendo o seu som ouvir-se a mais de 250 quilômetros de distância.

Assim, o combate reacendeu-se ferrenho; tocou- se o tambor e as montanhas tremeram, e as tropas de Huangdi lançaram-se ainda mais acérrimas so¬ bre o inimigo. Perante o ímpeto de tal ataque as tro¬ pas de Chiyou estacaram de receio não ousando mais avançar. Vendo-se na extrema necessidade de comandar

a cabeceira das suas tropas, Chiyou armou então as suas seis mãos com duas lanças, dois arcos e fle¬ chas, e duas espadas, e os seus dois pés com duas alabardas — tomando um aspecto tão temeroso que ninguém ousava aproximar-se dele. Como depois de nove assaltos consecutivos Huangdi ainda não o tinha conseguido derrotar, decidiu então chamar Ying Long para que este o viesse ajudar. Ying Long era um enorme animal que tinha a capacidade de poder vomitar água e arrastar com o simples abano da sua possante cauda milha¬ res de soldados do inimigo. Colocando-se frente às tropas de Chiyou, Ying Long abriu a sua enorme bocarra e descarregou tumultuosas vagas que fize¬ ram submergir os soldados do inimigo. Em contrapartida Chiyou, tendo o poder de invocar as forças da chuva e do vento, subiu às alturas e de¬ sencadeou uma chuva torrencial que se abateu so¬ bre o exército de Huangdi, fazendo com que os sol¬ dados deste se enterrassem no lodo e perdessem a capacidade de movimentos. Huangdi teve então de apelar para a presença de sua filha Nü Ba — deusa das secas — que vivia nos montes Xikunzi, para que

esta fizesse parar a chuva sem mais demorar. De fato, por onde quer que passasse Nü Ba irradiava um calor escaldante, desintegrando as nuvens e evaporando

a chuva. Por isso, costumeiramente a deusa estava

desterrada a viver nos montes Xikunzi e estava proi¬ bida de sair deste local livremente, mas desta vez, autorizada a utilizar os seus poderes sem restrições, pairou sobre as tropas de Chiyou e queimou com seus raios os homens do exército inimigo. Desori¬ entado por tal acontecimento, Chiyou retrocedeu apressadamente e aproveitando-se desta sua momen¬ tânea desorientação, Huangdi precipitou-se sobre ele e, com a rapidez de um relâmpago, cortou-lhe a cabeça com um só golpe. A luta concluiu-se assim com Huangdi saindo vitorioso. Ao morrer, o corpo de Chiyou desintegrou- se, não restando mais do que a sua cabeça, com a sua enorme bocarra aberta tal como a entrada de uma gruta. Ao ver tal imagem, Huangdi lembrou-se en¬ tão que Chiyou era também cognominado de Tao Tie, ou seja, de “sanguinário”. Após o fim de Chiyou os homens puderam vi¬ ver em paz e trabalhar de uma maneira mais edificante. Em memória desta vitória, Huangdi or¬ denou que se explorasse uma mina de cobre em Shoushan e que com o minério extraído se fabricas¬ se um enorme trípode com quatro metros de altura no qual se encontra narrada a história do combate contra Chiyou e onde se deixasse bem explícito que “o mal seria sempre castigado”. Em memória de tal acontecimento Huangdi compôs também um trecho musical dividido em dez partes: A Cólera do Tro¬ vão, O Pânico do Tigre, O Estertor do Kui, etc. Quanto a Nü Ba, depois da vitória do exército imperial, tomando gosto à sua liberdade temporᬠria, resolveu não mais seguir as ordens do seu pai e partiu em viagem por múltiplas regiões dando ori¬ gem a terríveis secas por onde passava e fazendo

definhar todas as árvores e culturas desses lugares. O subalterno Shu Jun acabou por informar Huangdi do que se passava, o qual, ao ouvir isto ficou tão colérico que ordenou que a sua filha fosse afastada para lugares ainda mais longínquos para além do rio Chishui, mas Nü Ba, tendo um caráter caprichoso, continuou fazendo eventuais incursões secando tudo na sua passagem e foi para lutar contra estes espo¬ rádicos e imprevisíveis acontecimentos que os ho¬ mens decidiram abrir canais de irrigação e criar tan¬ ques de reserva de águas. Vendo isto, Nü Ba sen¬ tiu-se diminuída das suas capacidades mágicas, co¬ meçou a enfadar-se dos seus passeios furtivos e, eventualmente,, veio a retirar-se para sempre.

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HOU YI, O ARQUEIRO QUE DERROTOU NOVE SÓIS

Conforme conta a lenda, durante o reinado do imperador Yao, dez Sóis apareceram no céu ao mesmo tempo originando gravíssimas secas. Que teria acontecido? Xibe, a Mãe-Sol, tinha dado à luz dez filhos. Moravam todos juntos no lago oriental Tanggu para além dos confins do mar e como não houvesse dia em que não nadassem e brincassem nas águas do lago, estas estavam sem¬ pre escaldantes durante todo o ano. No centro do lago crescia uma enorme árvore chamada Fusang, com mais de mil metros de altura e mil braçadas de circunferência e com dez ramos, aonde os dez Sóis iam sempre descansar. Mas os Sóis não passavam o tempo divertindo- se em vão, pois por ordem do Imperador Celestial, todos os dias um deles tinha de trabalhar, a fim de iluminar o mundo dos humanos. Ao que estava de guarda, competia-lhe levantar-se a oriente de ma¬ drugada, atravessar o largo céu e pôr-se a ocidente no crepúsculo, emitindo durante a sua passagem luz e calor ao mundo. Os dez irmãos revezavam-se constantemente nessa missão a cada dez dias. O mundo de então era maravilhoso! Tinha imponentes

montanhas, impetuosos rios, densas florestas, viço¬

sas e coloridas vegetação e flores, e terras férteis

Em resumo, para os

dez jovens Sóis a terra era bem mais divertida do que o lago oriental Tanggu. Todavia os Sóis tinham poucos ensejos para apre¬ ciarem juntos a esplendorosa paisagem terrestre, pois, por ordem do Imperador Celestial, cada qual podia somente descer à terra uma vez em cada dez dias. Os Sóis eram muito travessos e um dia conver¬ savam uns com os outros quando se puseram a las¬ timar.

— Este lago aborrece-me muito. Estou farto de

arroteadas a custo de suor

ficar aqui nove em cada dez dias. Já não posso

agüentar mais! — queixou-se um dos Sóis.

— desinteressante. O Imperador Celestial controla-nos

tão à risca que não chegamos a ter nenhuma liber¬ dade — acrescentou um outro.

— Eu, por mim, penso que o regulamento é jus¬

to porque o mundo humano não poderia suportar o nosso calor se todos aí fôssemos juntos — retorquiu um deles. Ouvindo esta opinião, o Sol que tinha falado

primeiro ficou muito zangado:

Estamos presos a este lugar

/

E

verdade!

— Justo?! Justo?! Acho que não é nada justo!

Deveríamos era poder divertirmo-nos a nosso bel-

prazer, pois de outro modo, contidos entre estas quatro paredes, todos os dias, a vida realmente per¬ de o sentido. A meu ver, a partir de amanhã, deve¬ ríamos ir todos juntos aonde bem quiséssemos.

— Sim, tem razão. Vamos! — ecoaram em unís¬ sono as vozes dos outros.

Assim, no dia seguinte e a despeito das proibi¬ ções do Imperador Celestial, os dez Sóis deixaram o lago Tanggu e foram despreocupadamente brin¬ car para os céus sobre o mundo humano. Quando um Sol aparecia no céu a terra era ilu¬ minada e aquecida de modo normal, mas com dez Sóis surgindo ao mesmo tempo a situação tornava- se totalmente diferente. Em breve o mundo apre¬ sentou um aspecto desolador, pois a partir de múl¬ tiplos e diferentes ângulos os Sóis derramaram a sua luz sobre a terra iluminando-a completamente e deixando-a sem nenhuma sombra. Devido à for¬ te incidência dos raios solares a temperatura subiu vertiginosamente, os rios secaram, a vegetação e flores murcharam, e as plantações ressecaram. Devido ao extremo calor os seres humanos respi¬ ravam ofegantes acabando por ter de se irem es¬ conder em grutas. Completamente alheios à extensão da calamida¬ de que desencadeavam na superfície do planeta, os Sóis vadiavam, brincavam e até se contentavam com as suas travessuras. O imperador Yao, que reinava então na China, era um homem de hábitos extremamente frugais. Habitava numa cabana, comia arroz não-refinado e bebia sopa com ervas silvestres. Tomando a peito os sofrimentos do seu povo decidiu ir suplicar aos Sóis que se afastassem imediatamente do mundo humano, caso contrário, a população não poderia sobreviver, mas não querendo saber do que ouviam, os Sóis continuaram a brincar sem terem a mínima das intenções de voltarem para o lago de Tanggu. O imperador terrestre não teve então outro remé¬ dio senão recorrer ao Imperador Celestial o qual,

ficando furioso ao saber que os Sóis tinham trans¬ gredido as suas instruções provocando enormes ca¬ lamidades no mundo, mandou chamar imediatamen¬ te o guerreiro Hou Yi e disse-lhe:

— Os filhos da mãe Xihe violaram a minha or¬

dem. Eles agem como irresponsáveis perturbando a vida normal dos habitantes do mundo. Quero que os castigues com este arco vermelho e estas dez fle¬ chas brancas que te dou. Assim, armado com o arco e as flechas e por encargo do Imperador Celestial, Hou Yi desceu ao mundo humano. Ao chegar à terra, Hou Yi ficou perplexo com os males que o povo passava sob o brilho dos dez

Sóis e, levantando os olhos, furioso, tirou o arco que levava ao ombro e preparou uma flecha que, enér¬ gica e certeiramente disparou contra eles. A flecha atravessou rapidamente os ares atingindo um dos Sóis em cheio. Ouviu-se então um estrondo celeste e o Sol, atingido pela flecha transformou-se numa bola em chamas despedaçando-se no solo. Espanta¬ dos, os outros nove tentaram fugir o mais depressa que puderam, mas Hou Yi com tiros rápidos e cer¬ teiros atingiu um após outro. Quando o guerreiro tirou a sua última seta, o imperador Yao deteve-o e disse-lhe:

— Pare! Não dispare mais! A luz solar é muito

proveitosa ao mundo humano. O problema que exis¬ tia é que dez Sóis era demasiado para as necessida¬ des de sobrevivência humana, mas agora, como já só resta um, o melhor é não disparar mais. Acenando positivamente com a cabeça, Hou Yi guardou então a sua arma. O último Sol estava pᬠlido de medo!

Com a morte dos nove Sóis a temperatura nor¬ mal restabeleceu-se sobre o mundo humano, gradu¬ almente a população saiu das grutas e recomeçou a cultivar os terrenos, a caçar e a reconstruir casas, levando alegremente a sua vida pacífica de outrora. Após ter liquidado os nove Sóis o herói Hou Yi preparava-se para voltar às alturas quando os habi¬ tantes da terra lhe pediram insistentemente e muito reconhecidos que passasse uns dias de folga junta¬ mente com eles e que, como na terra ainda existiam muitas outras calamidades, se fosse possível, o he¬ rói os ajudasse a eliminá-las. Hou Yi decidiu satisfazer-lhes o desejo. Com a destruição dos noves Sóis, e depois de o planeta se ter completamente recomposto da grande secura, Hebe, o demônio das águas, começou a in¬ tensificar as suas perniciosas atividades. Assumin¬ do a forma de um dragão branco cavalgando sobre uma torrente de água, o demônio viajava constante¬ mente por toda a parte provocando enormes inun¬ dações, nas regiões por onde passava a força da corrente arrastava homens e gado, destruindo casas e desenraizando plantações e árvores. Quando a notícia chegou aos ouvidos do imperador Yao, este ficou muito inquieto e foi imediatamente pedir aju¬ da ao herói Hou Yi, que generosamente lhe prome¬ teu fazer o melhor que pudesse. Assim, Hou Yi resolveu ir para a margem de um rio e esconder-se atrás de um grande salgueiro ficando à espera do aparecimento de Hebe, o de¬ mônio das águas. Não tardou muito para que visse nadando em sua direção um dragão branco acom¬ panhado por altas vagas e desencadeando uma en¬ chente que transbordava das margens do rio.

Foi então que Hou Yi disparou a última flecha que lhe restava e atingiu o olho esquerdo do dragão branco. Ouviu-se um grito estridente e o animal mergulhou para as profundezas. Ferido, o demônio das águas foi queixar-se ao Imperador Celestial:

— Eu vivo no rio e nunca fiz nenhum mal a Hou Yi, no entanto, ele feriu-me no olho. Peço-lhe que justiça seja feita e que se vingue deste crime por

mim, caso contrário, de que servem os princípios e

a lei? Mas o Imperador Celestial, estando a par do que se passava, criticou-o severamente:

— Sendo um demônio das águas, podias servir

o povo em vez de vacilares por toda parte e moles¬ tar o povo com tempestades e cheias?! O teu pro¬ cedimento mereceu bem o castigo que Hou Yi te

aplicou!

Não tendo razão para se justificar, Hebe, o de¬ mônio das águas, partiu sem dizer mais nada para o fundo do rio onde ele habitava sem mais coragem para criar futuras desordens no mundo humano. Rodeado de afeição e respeito Hou Yi continuou vivendo feliz na terra, sempre correndo riscos a bem da humanidade e perseguindo animais ferozes nas

florestas e montanhas. Nesse tempo, o mundo era infestado por vorazes feras selvagens que deambulavam e dizimavam os homens — isto, por¬ que a humanidade estava mal equipada para as po¬ der enfrentar. Hou Yi não parava de correr, trans¬ portando o seu arco e flechas às costas, exterminan¬ do animais selvagens e aves ferozes. Na planície central da China, Yayu era uma fera muito conhecida por sua bestialidade. Segundo se

dizia, tinha o corpanzil de um boi coberto de lon¬ gos pêlos vermelhos, uma cara humana, patas de cavalo e o seu rugido, dir-se-ia, o choro de uma criança: melancólico e chocante. Tinha uma enor¬ me força, galopava mais velozmente que todos os outros animais e ninguém escapava às suas vorazes mandíbulas. Por vezes, pela calada da noite, a fera irrompia no seio das tribos destruindo as casas e devorando as pessoas. Eram incontáveis as pessoas que ela tinha comido! Tomando em conta os interesses do povo, Hou Yi tomou a seu cargo destruir a fera Yayu. Assim, um dia e de acordo com as informações dadas pelos caçadores, o herói foi procurar a fera numa alta montanha. Chegando a um vale das re¬ dondezas deparou-se, repentinamente, com um mon¬ te de ossos humanos. Levantou então a cabeça e avistou ao longo a fera devorando uns homens no cimo de um penhasco. Furioso com o que via, o herói disparou uma flecha contra a fera acertando em cheio na cabeça do animal fazendo-o rolar pela montanha abaixo soltando roucos gemidos. A partir dessa altura os habitantes dessa região puderam vi¬ ver descansados! Numa fértil planície do sul da China habitava um animal monstruoso com dentes de três metros de comprimento e pontiagudos como formões. Os ho¬ mens deram-lhe a alcunha de “dentes-formão”. Quando as pessoas atravessavam os rios ou lagos onde ele habitava, por vezes o animal lançava-se de súbito sobre elas, levando-as para o fundo das águas onde as mastigava e depois as engolia. Dir-se-ia ser quase impossível vencê-lo porque para além dos seus enormes dentes aguçados, tinha um corpo revestido

de uma pele tão dura e tão espessa como uma cara¬ paça indestrutível contra todas e quaisquer facadas ou machadadas. Felizmente Hou Yi era um exímio arqueiro, porque um dia o “dentes-formão” lançou- se contra ele abrindo a sua enorme bocarra para o devorar e, se não fosse o herói ter acertado a gar¬ ganta do animal em cheio com uma flecha, ele teria terminado ali os seus dias. Segundo conta a lenda, no sul da China coma um rio chamado Xiongshui onde habitava um temí¬ vel monstro aquático chamado Jiuying que matava todos os incautos que se aproximavam das suas margens. O animal tinha nove cabeças e cuspia cons¬ tantemente fogo e água, sendo tão feroz que nin¬ guém se atrevia a querer derrotá-lo. Se por acaso alguém o ferisse ou lhe tentasse cortar uma das suas cabeças o monstro não morria, mas, pelo contrário, lançava-se com uma fúria redobrada sobre o seu inimigo. No entanto Hou Yi ao encontrá-lo dispa¬ rou nove flechas tão rápidas e certeiras que o atin¬ giram nas nove cabeças vindo o animal a morrer sem mesmo ter tempo para reagir. Pouco tempo após a morte do monstro Jiuying, nas margens do lago Dongting, não muito longe do rio Xingshui, surgiu uma jibóia gigante, de um enor¬ me comprimento e grossura, e com uma boca tão grande que era capaz de engolir um elefante por inteiro, só vomitando os ossos do paquiderme de¬ pois de o ter digerido durante três anos. Segundo se dizia, estes ossos regurgitados eram os melhores e mais eficazes medicamentos para curar todas as doenças dos órgãos internos. Era realmente um ser terrível que despovoava todos os locais por onde passava, pois deglutia todos quantos conseguisse

alcançar. Foi só após uma renhida luta que Hou Yi

a conseguiu matar, sendo que os ossos da jibóia

gigante transformaram-se numa montanha que veio

a se chamar de Baling. Depois de ter morto todas as feras do sul da China, Hou Yi voltou para o norte pela região leste. Estava ele atravessando a montanha Verde quando os seus habitantes lhe disseram que a região estava infestada por uma ave de rapina chamada Dafeng, a qual agredia as pessoas e perturbava a vida normal da população. Esta ave tinha um grande porte e quando em voo, a amplitude das asas chegava a cobrir metade do céu. O bater das suas asas desen¬ cadeava fortes tufões que chegavam a desenraizar milhares de árvores e a destruir centenas de casas; homens e gado eram freqüentemente vítimas da sua voracidade. Hou Yi compreendeu que a ave tinha um enorme poder e podia voar para muito longe com grande velocidade e que, com uma só seta, não se¬ ria possível matá-la, pois se ela fugisse ferida seria quase impossível liquidá-la mais tarde. Consciente de que tinha de acabar com a ave de uma só vez, depois de muito pensar, Hou Yi encontrou um meio:

primeiro, amarrou uma corda à haste da seta; de¬ pois, disparou uma flecha atingindo a ave em cheio e prendendo-a de modo a não a deixar fugir; e fi¬ nalmente, obrigando-a a pousar, decepou-a com a sua espada. O exemplo de Hou Yi passou a ser se¬ guido por todos quantos tencionavam apanhar ani¬ mais selvagens e aves possantes. Mais tarde Hou Yi foi para a aldeia de Sangcun onde matou o colossal javali Fengxi e o lobisomem Fenghu que se podia metamorfosear de felino para humano.

Assim, gradualmente, o herói Hou Yi após a sua inicial chegada e estabelecimento no mundo huma¬ no veio a ganhar méritos sem par por parte de todos os povos. Certamente que sob o excesso do calor dos dez Sóis escaldantes as pedras já se teriam fun¬ dido numa massa uniforme e todas as outras coisas à superfície da terra estariam derretidas, todo o pla¬ neta provavelmente estaria reduzido a cinzas se não fosse Hou Yi ter infalivelmeftte atingido os noves Sóis que agiam tão arbitrária e descuidadamente no céu. E que grandes ameaças seriam para a vida hu¬ mana se todos aqueles animais e aves malévolas não

fossem mortos pelo herói?!

Por isso, de geração

em geração, os povos continuam a recordar-se e a venerar o herói Hou Yi sempre com o maior respei¬ to e grande admiração.

CHANG E, A DESTERRADA BELEZA DA LUA

A 15 de cada mês do calendário lunar uma Lua límpida e brilhante paira sempre nas alturas celes¬ tes da noite transparente. Com uma beleza sentimen¬ tal e expressiva, ela contempla a terra com uma cara sorridente derramando os seus suaves e diáfanos fulgores sobre esta. Conforme conta a lenda, nessa Lua redonda e luminosa mora a deusa Chang E, a mulher do herói Hou Yi (que foi descrito na histó¬ ria anterior). Mas por que passa a deusa uma vida solitária na Lua? A resposta a essa pergunta encon¬ tra-se na seguinte e triste história. Por ordem do Imperador Celestial, Hou Yi tinha disparado nove setas contra os nove Sóis, castigado

o demônio das águas, aprisionado e morto um gran¬

de número de animais e aves selvagens. Assim, com

o benefício que ele trouxe aos seres humanos ga¬

nhou a estima e o respeito de todos. O herói que era um incansável viajante, percorreu inúmeras re¬ giões ajudando as populações e tendo sido sempre albergado pelo povo de todos os locais. Um dia, depois de uma longa caçada, Hou Yi atravessava, sedento, um riacho no caminho de re¬ gresso para casa quando se deparou com uma jovem

sorvendo a água da corrente com um bambu oco. Aproximou-se da jovem e perguntou-lhe se também podia utilizar o bambu para beber. Vendo as flechas brancas e o arco vermelho que Hou Yi levava às costas, esta se apercebeu de que o vigoroso e elegan¬ te homem devia ser o herói e, para lhe mostrar a sua gratidão pelos feitos operados por ele relativos ao bem-estar da humanidade, passou-lhe imediatamente o instrumento para que ele pudesse beber e colheu um ramo de flores para lhe oferecer em sinal de admiração. Em retribuição desta cortesia Hou Yi escolheu uma das mais preciosas peles da raposa prateada que tinha acabado de caçar e presenteou-a à jovem. Após encetarem conversa o herói veio a saber que a jovem se chamava Chang E, que os seus pais tinham sido vítimas dos animais selvagens da floresta e que vivia agora solitária vestindo uma blusa e uma saia branca em expressão do seu imen¬ so pesar pela morte de ambos. Condoído com o infeliz passado da jovem, Hou Yi tentou consolá-la o melhor que lhe foi possí¬ vel e estes sentimentos altruístas despertaram o amor da jovem pelo herói; pouco tempo depois eles casaram-se formando um par mutuamente dedicado e respeitador.

A partir de então, Hou Yi e Chang E tomaram-

se inseparáveis, viajando e caçando sempre na com¬ panhia um do outro, de tal modo unidos que o he¬ rói decidiu não fazer caso à ordem que recebera do Imperador Celestial para voltar ao céu.

O tempo passou-se veloz! E só ao fim de três

anos de Hou Yi estar no mundo é que chegou aos ouvidos de sua mulher a notícia de que o Impera¬ dor Celestial o tinha chamado de volta. Ela chorou

lágrimas de sangue ao saber que teria de se apartar de quem muito amava, o herói também não se po¬ dia conter. Quando o Imperador Celestial foi informado de que Hou Yi se tinha casado com uma mortal e esta¬ belecido uma família no mundo, e não estava que¬ rendo voltar mais para o céu, ficou furioso e demi¬

tiu-o das funções de que o tinha encarregado de um modo tão peremptório fazendo com que o herói não pudesse mais subir ao céu. Todavia, Hou Yi não se arrependeu do procedimento que lhe tinha mereci¬ do tal castigo do Imperador Celestial, pois ele acha¬ va a vida na terra mais feliz do que no céu porque, para além de ter uma linda e bondosa mulher, vivia entre as majestosas montanhas, os impetuosos rios, as viçosas árvores e os honestos homens. Mas os seres humanos têm uma vida limitada e, se bem que cheguem a viver 70 ou 80 anos, ou no máximo 100 anos, mais tarde ou mais cedo acabam por morrer! Um dia, Hou Yi disse a Chang E:

— Quando eu vivia no céu ouvi dizer que na cordilheira Kunlun, no longínquo oeste, a mãe-im¬ peratriz tem uma parceira que cura tudo — mesmo

a morte. Acho que o melhor será eu partir para es¬

sas regiões à procura de tal medicamento a fim de que o possamos tomar para que assim possamos viver etemamente! Ouvindo isto, Chang E ficou contentíssima. Pre¬

parou cuidadosamente a bagagem do marido e tudo o que era necessário para a sua viagem e disse-lhe in¬ sistentemente que prestasse bem atenção ao caminho

e que regressasse ao lar o mais cedo possível, logo

depois de ter obtido o medicamento. Era a primeira

vez após o seu casamento que se separavam um do outro e Chang E não podia deixar de sentir uma pro¬ funda dor e tristeza pela partida de Hou Yi somente se sentindo reconfortada ao pensar que, graças à pa- nacéia, eles iriam poder viver juntos eternamente e livrar-se assim para sempre da ameaça do deus da morte. Com a sua aljava repleta de flechas e o arco às costas, Hou Yi montou um veloz corcel e partiu galopando rumo ao oeste. A região onde morava a mãe-imperatriz no lon¬ gínquo oeste era de difícil acesso e para se chegar lá, era preciso atravessar-se inúmeras, altas e escar¬ padas montanhas, um grande número de florestas a perder de vista e desertos despovoados sem fim onde, por vezes, se levantavam furiosos vendavais. Mas para além disso, perto da montanha Kunlun encontravam-se duas barreiras que eram os obstᬠculos mais difíceis de serem transpostos, respecti- vamente: o rio das Aguas Afogadoras e a montanha das Chamas Ardentes. A água deste rio era tão leve e vaporosa que nem mesmo uma pena de pato con¬ seguia nela flutuar, tornando impossível a navega¬ ção. Quanto à montanha, encontrava-se constante¬ mente envolta por um mar de fogo que regurgitava altas labaredas, envoltas por um denso fumo, que atingiam dezenas de metros de altura e ameaçavam queimar todos quantos se aproximavam, tomando- se assim completamente inacessível. Depois de uma infindável cavalgada e após ter transposto montes e vales, no fim de uma longa e difícil viagem, Hou Yi acabou por chegar às margens do rio das Aguas afogadoras. Como haveria ele de fazer para atraves¬ sar esse imenso rio sendo-lhe impossível flutuar ou nadar em suas águas? De repente, ele lembrou-se

s

de uma vez ter visto numas serranias quando anda¬ va procurando uma árvore rara cuja madeira era dura como aço mas leve como uma pena. Ele tinha mes¬ mo apanhado umas ramagens e atirado-as para um lago próximo, as quais, como se fossem sustenta¬ das por qualquer gás, levitavam-se acima da super¬ fície da água em vez de flutuarem. Hou Yi pensou que se utilizasse a madeira desta árvore invulgar poderia certamente atravessar o rio e assim, inspi¬ rado por esta idéia, o herói montou de novo no seu corcel e cavalgou ao sul, na direção do local onde anteriormente tinha visto a tal árvore, e quando a encontrou cortou-lhe o tronco fazendo com este uma canoa. Quando regressou ao rio das Aguas Afoga- doras empurrou a embarcação sobre as águas e, tal como esperava, esta nem tocou a sua superfície. Impelida pela suave brisa, a canoa começou a des¬ lizar sobre a água rumo à margem oposta e, não obstante a grande largura do rio que contava cin- qüenta quilômetros, a embarcação transportou o herói mais o seu cavalo para a outra margem num abrir e fechar de olhos. Pouco depois de ter passado salvo e são o rio das Aguas Afogadoras, Hou Yi chegou aos arredores da montanha das Chamas Ardentes. Apesar de duas das suas labaredas lamberem as nuvens, o herói não teve medo porque sabia que estava bem preparado para enfrentá-las. Outrora, Hou Yi tinha morto a besta Xiongshui capaz de cuspir fogo e vomitar água ten¬ do guardado a pele do animal que era tão espessa que nem o fogo nem a água a podiam atravessar. O herói trazia-a sempre consigo onde quer que fosse, para, na eventualidade de precisar, poder utilizá-la contra quaisquer elementos, e agora não hesitou em

/

utilizá-la, fazendo com ela duas armaduras impreg¬ náveis: uma para si próprio e outra para o seu corcel. Depois de ter confeccionado os meios de defe¬ sa e de ambos estarem prontos, Hou Yi montou no seu cavalo esporeando-o e lançou-se que nem uma flecha no recinto escaldante da montanha das Cha¬ mas Ardentes. No seio do negro fumo e das cha¬ mas, o herói não tardou a sentir bastante dificulda¬ de em respirar, mas a sua montada era um corcel divino capaz de correr mil quilômetros por dia e tinha de transportá-lo num instante pela montanha das Chamas Ardentes — com centenas de quilôme¬ tros de comprimento. Após a perigosa travessia, Hou Yi apeou-se para verificar se o seu cavalo ti¬ nha saído ileso, observando que nada lhe tinha acontecido excetuando a cauda do seu cavalo que estava chamuscada. Dessa maneira, e devido à sua inteligência e coragem, Hou Yi conseguiu vencer as duas maiores dificuldades da sua viagem em busca do remédio da imortalidade acabando por, finalmente, chegar ao sopé da cordilheira Kunlun onde morava a mãe- imperatriz do oeste. A mãe-imperatriz do oeste morava nos píncaros da montanha de Jade Límpido, no centro da cordi¬ lheira Kunlun. Quando Hou Yi chegou às portas do palácio já o mensageiro imperial — a ave Qing Niao — tinha informado a imperatriz da sua chegada. Esta, sabendo que o visitante tinha anteriormente sido um deus, que depois de ter sido anunciado ao mundo para aniquilar os Sóis e os animais selva¬ gens em favor da população, se estabelecera ali es¬ palhando bondade, recebeu-o com muita cortesia e gentileza. Conhecendo também a finalidade da sua

vinda, a mãe-imperatriz do oeste, querendo satisfa¬ zer-lhe os seus ensejos com a maior das magnani¬ midades, ordenou à Ave de Três Pernas — guardiã da panacéia — que trouxesse no bico a preciosa cabaça com o miraculoso medicamento preparado à base dos pêssegos da árvore da Imortalidade, que só dava flores e frutos a cada três mil anos.

— Toma, isto é tudo o que me resta — disse a

imperatriz passando-lhe a cabaça. — Embora seja pouco é o suficiente para ambos. Se ingerir a meta¬

de cada um, vocês viverão etemamente, mas cuida¬ do, se um de vocês tomar tudo transformar-se-á num

ser divino e voará para o céu sem jamais poder voltar à terra.

/

— E para que ambos possamos viver para sem¬

pre juntos que eu resolvi vir cá buscar o elixir. A mim não me interessa voltar de novo a ser divino — disse o herói fazendo, em agradecimento da magnânima dádiva, uma profunda reverência. No momento da despedida de Hou Yi, a mãe-im- peratriz do oeste mandou a Ave de Três Pernas buscar uma porção da tenra e perfumada erva Yao, que cres¬ cia nas margens do Lago de Jade, entregando-a depois ao herói para que este a pudesse ofertar a Chang E. Tratava-se de uma erva tão preciosa quão misteriosa que, conforme se dizia, era originária da metamorfo¬ se de Yao Ji, uma das filhas do deus do Sol, Yandi. Yao Ji era uma bonita e delicada jovem. Aos 17 anos de idade tinha-se apaixonado por Zhi Songzi, um subordinado do deus da Agricultura. Ao princípio estavam ambos muito apaixonados um pelo outro, mas depois o rapaz partiu para o sul e, traindo o amor da sua companheira, nunca mais voltou. Esta, ansio¬ sa por o encontrar resolveu procurá-lo por toda parte

até que, chegada ao centro da cordilheira Kunlun, ao saber que o seu noivo tinha, entretanto, casado com uma deusa, ali morreu de dor e de tristeza. Segundo constava, Yao Ji, a bela e desventurada jovem, tinha-se então transformado na preciosa erva Yao que crescia nas margens do Lago de Jade. Em breve a erva tinha florescido espalhando-se rapida¬ mente e proliferado não só ao longo das margens do rio, mas também em todas as encostas da mon¬ tanha central. Dizia-se que, independentemente das estações do ano, ou de ser noite ou madrugada, as folhas desta erva estavam sempre cobertas de um fresquíssimo orvalho que não era senão as lágrimas inesgotáveis da desditosa jovem. A erva Yao tinha uma característica especial. Qualquer que fosse a mulher que cheirasse o seu perfume tornar-se-ia carinhosa de trato e extremamente bela de corpo e feições — e por isso lhe tinham também dado o nome de “erva encantadora”. Agora em posse do elixir da longevidade, Hou Yi retomou rapidamente o caminho de regresso. Já se tinham passado mais de seis meses que ele tinha deixado o lar. Ambos ficaram felicíssimos de esta¬ rem de novo juntos e Hou Yi contou a Chang E todas as peripécias da sua viagem, dando-lhe no fim, o medicamento. — Aqui está o elixir que eu adquiri depois de tantos esforços. A mãe-imperatriz do oeste disse que se ambos tomarmos cada um metade dele, po¬ deremos viver etemamente, mas, se uma pessoa o tomasse por inteiro subiria ao céu para nunca mais voltar. Por favor, guarde bem o medicamento, até escolhermos um dia auspicioso para ambos o tomarmos.

Rejubilante, Chang E recebeu o elixir da imor¬ talidade das mãos de Hou Yi e guardou-o cuidado-

samente. Em seguida, o herói entregou-lhe a erva Yao e disse-lhe:

— Isto é uma erva preciosa que a mãe-impera¬

triz do oeste mandou especialmente colher para te

oferecer.

Cheia de contentamento, Chang E admirou-a detalhadamente, exclamando depois de surpresa:

— Que extraordinária erva! Nunca vi nada de tão

belo! E ao mesmo tempo que falou, aproximou inad¬ vertidamente a erva do seu nariz inspirando o seu doce perfume. De fato, o cheiro da erva provou o seu efeito, porque ela imediatamente se tornou ain¬ da mais bela que nunca. Sendo um excelente arqueiro, a fama de Hou Yi tinha-se espalhado até os quatro cantos do mundo, tendo vindo muitos jovens procurá-lo, com intuito de aprenderem com ele a arte de que era mestre. O zeloso herói tinha lhes ensinado conscientemente os predicamentos do que sabia e como, de um bom professor saem sempre bons alunos, muitos dos alu¬ nos de Hou Yi vieram a tornar-se famosos arqueiros. Feng Meng, considerado o melhor de todos os discípulos de Hou Yi, era, no entanto, orgulhoso, invejoso e perverso, e todos os dias ansiava que o seu mestre morresse o mais cedo possível, pois co¬ biçava vir a ser considerado como o mais exímio arqueiro de todo o mundo. Contudo, ele sabia que o mestre tinha obtido da mãe-imperatriz do oeste um elixir da imortalidade, que tornava irrealizável o seu sonho e no seu cora¬ ção ardia constantemente o fogo da inveja. Um dia,

resolveu-se, portanto, a tecer uma intriga e aprovei- tando-se da ocasião do herói ter ido à caça, entrou furtivamente na sua casa e, apontando uma flecha ao peito de Chang E disse-lhe perversamente:

— Dá-me depressa o elixir da imortalidade! Depressa! Depressa! Depressa! Caso contrário, aca¬ bo-te com a vida de um só golpe! Surpreendida pelo inesperado acontecimento ela perguntou-lhe:

Mas você não é um amigo e discípulo de Hou

Yi? Por que

razão

— Desde há muito tempo já não o considero como meu mestre. Enquanto ele estiver vivo eu nunca poderei gozar da fama de ser o melhor do mundo e por isso odeio-o tanto e lhe desejo uma morte breve — disse Feng Meng rangendo os dentes. Chang E permaneceu calada e chorou de raiva. — Dá-me o elixir, depressa! — berrou o discí¬ pulo brandindo o ameaçador arco e flecha contra ela. Entretanto Chang E pensava que nunca poderia entregar a esta ignóbil criatura a panacéia que Hou Yi tinha adquirido após ter desafiado tantas dificul¬ dades e perigos. Vendo-se ameaçada tirou o medi¬ camento da sua algibeira, mas quando o patife es¬ tendeu a mão com a intenção de se apoderar da preciosa cabaça, ela meteu-a à boca e engoliu o seu conteúdo o mais rapidamente que lhe foi possível e

correu em direção à porta. Mal Chang E tinha passado o limiar da portada, começou a sentir-se tão leve que, dir-se-ia, diáfanas nuvens a impeliam para o céu. Gradualmente Chang E elevou-se airosamente para as alturas; mas para onde iria ela? Pensando que Hou Yi ficaria agora, para sempre, um prisioneiro do mundo e, repleta de

saudades dele resolveu-se a ficar na Lua por ser o local mais vizinho da terra. A sua chegada ao palᬠcio de Guanghan, na Lua, fez rebrilhar este planeta ainda mais suave e claramente. De regresso da caça, Hou Yi ficou tão triste ao saber do que tinha acontecido que, com a cabeça levantada e os olhos imóveis, não parava de fitar a longínqua Lua, pensando na sua amada que nunca mais poderia ver, enquanto que abundantes lágrimas lhe escorriam pelas faces sem cessar. Ao refletir sobre o ingrato e desprezível ato de Feng Meng, o herói sentiu-se invadido por um mis¬ to de indignação e raiva e, pegando no seu arco e flechas, saiu de casa à sua procura. Entretanto o ardiloso Feng Meng tinha-se escon¬ dido no bosque sobranceiro à casa do seu mestre e ali lhe preparava uma emboscada. Assim, quando Fiou Yi, ao sair da casa passou por aquelas para¬ gens, o malandro, que nem um fantasma, saiu do seu esconderijo e com um grosso cacete deu uma forte pancada na nuca do seu mestre, deixando-o prostrado e morto. O golpe tinha sido tão rápido que o herói nem teve tempo para se aperceber ou se defender do que lhe estava acontecendo. A morte de Hou Yi despertou o pesar, o pranto e a pena de todos os homens. Tratava-se realmente de uma tragédia! Quando os outros discípulos souberam do crime de Feng Meng, perseguiram-no, cercaram-no e pren¬ deram-no, depois amarraram-no a uma grande ár¬ vore e mataram-no, cada um atravessando-o com uma flecha. No fim de contas ele não veio a ser considerado o arqueiro de primeira classe que tan¬ to ansiava vir a ser, mas teve a triste sorte de um

conspirador, em abono da verdade, um homem com demasiada ambição nunca tem bom fim! Após a sua morte, em comemoração dos seus méritos indelegíveis em favor do povo, todas as famílias penduraram a sua imagem na sala princi¬ pal de suas casas e passaram a venerá-lo como um deus tutelar e a invocar o seu nome como modelo de virtude e altruísmo. Enquanto em vida, Hou Yi

tinha, efetivamente, eliminado múltiplos flagelos em benefício do povo e, após a sua morte, propagou-se

a idéia de que o seu espírito continuava a zelar pelo bem-estar e sobrevivência dos povos. Sempre que havia secas ou inundações, dizia-se que ele lutava contra o demônio das Aguas ou o fantasma da Seca, vindo a ser considerado como uma divindade pro¬ tetora dos interesses dos homens. Consoante a Chang E, ela continuou a habitar, tal como uma fada celestial, o luxuoso palácio de Guanghan, feito de jade e esmeraldas, mas afasta¬ da da terra e da companhia de Hou Yi, a sua eter¬ nidade tomou-se num mar de amargura, solidão e sofrimento. Juntamente com Chang E, no palácio lunar, morava o coelho de jade que para ali tinha sido expulso pelo Imperador Celestial, encontrando-se condenado a ser constantemente o pilar de um almofariz de plantas medicinais, em castigo de ter roubado uma erva divina. Havia uma terceira per¬ sonagem que também estaya_condenado a habitar a Lua para a perpetuidade. O seu nome era Wii Gang

e o Imperador Celestial tinha-o desterrado para este

lugar com a função de cortar o laurel lunar por ele ter cometido um grave erro de aprendizagem das artes imortais. O Imperador Celestial tinha-lhe pro-

metido que se ele conseguisse cortar a tal árvore poderia regressar à terra, mas o laurel lunar tinha as propriedades mágicas de cicatrizar qualquer golpe do machado de Wti Gang antes de ele o atingir de novo. Pobre Wü Gang! Dia após dia não parava de desferir o seu machado no laurel lunar, no entanto, sem conseguir sequer fazer-lhe uma beliscadura. Então, como seria possível ele vir a tomar realida¬ de a sua aspiração de deixar este local desolado? Como o coelho de jade e Wü Gang viviam na Lua expiando as suas culpas, certos historiadores tradicionais, posteriores, vieram a divulgar que Chang E também vivia ali devido a ter cometido o erro de ter tomado o elixir da imortalidade egoisti- camente, às escondidas. Este comum mal-entendi¬ do encontra-se explícito nos versos de Li Shangyin, um grande poeta da Dinastia Tang:

Chang E sente-se arrependida do roubo do elixir, E passa as noites só, no céu tão límpido como um mar azul.

Se bem que a poesia conte ser por causa do rou¬ bo do elixir da imortalidade que Chang E foi con¬ denada a ficar para a eternidade no palácio lunar, e ali a passar uma existência solitária, sabe-se que a realidade é bem outra, e a sina dos amores desdito¬ sos do herói Hou Yi e da bela Chang E continua a provocar a compaixão das gerações.

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YANDI, O DEUS DO SOL

A lenda do Hou

Yi,

o Arqueiro

que Derrotou

Nove Sóis diz que, por mandado do Imperador Ce¬ lestial, Hou Yi desceu do céu para o mundo terres¬ tre e destruiu nove dos dez Sóis, salvando a huma¬ nidade. Mas, e o que veio a acontecer ao último Sol? Em boa verdade depois da queda celestial dos seus nove irmãos, mortos pelas flechas certeiras de Hou Yi, o décimo Sol adotou um tímido e submis¬ so comportamento. Cada dia, de madrugada, levan¬ tava-se a oriente, depois, deslizava no vasto espaço aéreo e ao crepúsculo punha-se a ocidente — sem nenhuma negligência. Mas com o passar do tempo, ele começou a tomar-se cada vez mais preguiçoso e indolente, umas vezes absorto em divertimentos no lago Tanggu chegando ao céu muito atrasado, ou¬ tras vezes, escondendo-se entre a ramagem da árvo¬ re Fusang e passando dez ou quinze dias seguidos a dormir, deixando assim o mundo ficar completamen¬ te às escuras e não se distinguindo a noite do dia. Por falta de raios solares, as ervas, as flores, as ár¬ vores e as culturas começavam a murchar, a tempe¬ ratura descia vertiginosamente e o mundo tornava- se tão frio que ameaçava a sobrevivência da huma¬ nidade. Os homens, gado, aves, animais e todos os seres vivos permaneciam transidos de frio e quase

Se o Sol continuasse a agir dessa

maneira o mundo acabaria por ficar sem vegetação

e seres humanos. Ao ser inteirado desta grave situação, o Impera¬ dor Celestial mandou imediatamente um mensagei¬ ro chamado Yandi para o oriente com instruções de

acordar o Sol a tempo e de o supervisionar nos seus deveres quotidianos. Diariamente, Yandi seguia o Sol num carro divino puxado por seis dragões, con¬ trolando assim o seu percurso normal. Por Yandi ter

a seu cargo o controle exclusivo do Sol, vieram a

chamar-lhe o deus do Sol e deram-lhe igualmente o título de Soberano Oriental por ter passado a habi¬ tar nessas paragens. Envergando uma túnica preta, um longo traje branco e com um ramo de Ruo na Mão esquerda, o deus do Sol apresentava um aspecto iminente e po¬ deroso. A árvore Ruo crescia apenas no céu ociden¬ tal e era luminescente, e, Yandi servindo-se do ramo que constantemente empunhava à laia de uma chitada apressando com este o Sol e não o deixando negli¬ genciar-se no cumprimento dos seus deveres. O deus do Sol também utilizava o ramo para limpar o céu das nuvens negras e poeiras que eventualmente o cobris¬ sem e impedissem o Sol de brilhar na terra. Na sua mão direita o deus Sol segurava um gigantesco arco pronto a disparar uma pontiaguda flecha ao “lobo celestial”, Reza a tradição que, do mesmo modo que na terra, no céu também existiam nocivos animais selvagens, um dos quais o “lobo celestial” — conhe¬ cido pela sua ferocidade e especialmente voraz das estrelas do céu, mas que também não desdenhava atacar o Sol e a Lua quando a fome apertava. Yandi estava também encarregado de defender o Sol con¬ tra as investidas desta besta.

agonizantes

Para que o Sol se levantasse a tempo, de madru¬ gada, e não se atrasasse no seu trabalho, o Impera¬ dor Celestial mandou o galo de jade ficar num ramo da árvore Fusang, onde o Sol dormia à noite, de modo a que este o acordasse na hora marcada. Com as suas pernas luzidias e brilhantes, de bico e gar¬ ras douradas e uma vistosa crista vermelha, ele can¬ tava harmoniosamente o seu cacarejo ouvindo-se num raio de mais de mil quilômetros. O galo de jade era muito cauteloso. De madrugada era sempre o primeiro a acordar e esticava o seu pescoço para cantar o mais fortemente possível, e mal ele se pu¬ nha a cantar os galos de todo o mundo ecoavam sucessivamente os seus cacarejos. Assim, era impos¬ sível ao Sol não se levantar na hora e deixar para mais tarde o cumprimento da sua tarefa diária. No seu carro divino puxado por seis dragões, Yandi fazia o Sol deixar o lago Tanggu para começar a sua travessia celeste quotidiana até que chegado à mon¬ tanha Yanzi, a ocidente, o Sol se retirava pausada¬ mente. Atrás desta montanha situava-se o imenso lago Mengshui onde o Sol se banhava sistematica¬ mente dissipando a sua fadiga no fim de cada dia de trabalho. Depois de se banhar, o Sol mergulhava no reservatório Yuyuan, um abismo sem fundo que se ligava ao lago Tanggu, a oriente, Levado pela corrente impetuosa que existia entre ambos os tan¬ ques, o Sol regressava rapidamente ao lago Tanggu donde subia à árvore Fusang para ali dormir cômo¬ da e calmamente até o próximo canto do galo. Os humanos respeitavam o Sol e Yandi, e estavam- lhes profundamente gratos porque devido ao contínuo empenho de ambos, eles podiam gozar do benefício da luz e do calor benfazejos e o mundo tornava-se, progressivamente, cada vez mais fértil e belo.

Ora, estava um dia o deus Sol como de costume conduzindo o seu luxuoso carro através do céu quan¬ do, de repente, os seis dragões da sua equipagem, sentindo-se sequiosos, decidiram estacar a sua cor¬ rida. Na sua frente estendia-se o rio Vermelho cujas águas serpenteando ao longo do vale eram tão trans¬ parentes e claras que se podia ver o seu fundo. Mas por que se chamava a este de rio Vermelho? Porque tinha a sua origem na montanha das Flores de Pes¬ segueiros e ao longo das suas margens existiam inú¬ meras destas árvores — tanto nas vertentes como nos vales —, na primavera as suas flores tingiam-se de uma cor vermelha. Para matar a sede dos dra¬ gões, Yandi decidiu então ali levar os animais de modo a que estes se pudessem refrescar. Eis, senão, quando lhe chegou aos ouvidos a melodia de uns gorgolejos e retintins provenientes de uma rocha da montanha. Os sons eram suaves e maravilhosos, mas também, de uma tristeza e me¬ lancolia contidas. Dir-se-ia o doce salpicar das águas de uma fonte contra umas pedras. Olhando na dire¬ ção donde provinha o som, Yandi deparou-se com uma bonita jovem sentada junto a uma fonte e to¬ cando um instrumento musical de cordas. Ela chamava-se Ting Wo e era a filha da deusa das Aguas do rio Vermelho. Há anos que vivia solitária na montanha sem companhia tendo como seu único consolo o instrumento que tocava, afastando, deste modo, para longe de si a solidão dos tristes dias. Murmurante e lamuriosa a melodia do instrumento, sincopada pelo som da água da fonte, soava como que proveniente de uma grande lonjura. Todos quantos por ali passaram e ouviram este estranho som chamaram este local de Fonte Melancólica.

Ora, ouvindo o som desta suave música, o deus do Sol decidiu aproximar-se, pé ante pé, acabando por se recostar numa grande pedra ouvindo maravi¬ lhado e atenciosamente. A jovem, que não tinha

dado conta da chegada de Yandi, continuou absorta

a tocar o seu instrumento. A sua música era tão

emotiva que até as ervas das margens do rio e as flores dos pessegueiros pareciam querer alquebrar- se em pranto. Quando a jovem, por fim acabou de tocar, Yandi exclamou sem se poder conter:

— Oh, como era belo! Fez-me constranger o

coração!

Ao ver o jovem alto e elegante, de pé, do seu

lado, a jovem involuntariamente corou de vergonha

e fez menção de se ir embora. — A sua música transmitia uma extrema sensi¬ bilidade e era de uma requintada harmonia, mas por que era tão melancólica? — perguntou-lhe Yandi com um misto de simpatia e compaixão. A jovem Ting Wo, envergonhada pela súbita aparição deste desconhecido e sobretudo sentindo- se interrogada por um tão belo rapaz, limitou-se a sorrir apologeticamente, baixando a sua cabeça.

— Mas veja, não acha que a paisagem da pri¬

mavera é maravilhosa? A terra está repleta de vida

e vitalidade, nos ramos das árvores os pássaros can¬ tam a viva voz, os peixes divertem-se chapinhando livremente nas águas, banhados pelos soalheiros raios solares da primavera os trabalhadores diligen¬ tes ocupam-se das sementeiras, pela brisa primave¬

ril as ervas e árvores

alegre!

Por favor, toque uma peça

— implorou-lhe o deus do Sol cheio de

otimismo e soltando umas gargalhadas.

Yandi tinha um aspecto sempre alegre e franco temperamento. Estas palavras impressionaram tão favoravelmente a jovem que sentiu como que um clarão de alento penetrar-lhe até o fundo do cora¬

ção, e então, erguendo a cabeça e olhando o Yandi viu-se apoderada por uma estranha alegria e afei¬ ção; todavia, sendo demasiado acanhada para reve¬ lar o que lhe ia pelo espírito a jovem baixou de novo a cabeça e recomeçou tangendo as cordas do instru¬ mento emitindo sons bem diferentes dos anteriores, desta vez repletos de doce suavidade e de contida esperança. Mas, infelizmente, o deus do Sol tendo a impor¬ tante tarefa de controlar o percurso do Sol a seu cargo não pôde permanecer por muito tempo e teve de se limitar a sorrir jovialmente à jovem acenan¬ do-lhe um adeus apressado e retomando sem mais demora o seu caminho. Durante todo o resto do dia, ao longo de todo o seu percurso, os sons do instrumento da jovem con¬ tinuaram a soar-lhe aos ouvidos, a linda imagem de Ting Wo pairando constantemente frente aos seus olhos. Em boa verdade, o deus do Sol começava a dar-se conta que estava apaixonado pela graça e beleza da jovem. Desde então, todas as vezes que o deus do Sol passava pelo rio Vermelho fazia ali uma paragem com o pretexto de beber água ou de descansar sen¬ do, no entanto, a sua verdadeira intenção conversar um pouco com Ting Wo ou ouvi-la tocar o seu ins¬

trumento musical

cava muito contente com a presença de Yandi. As suas melodias já não soavam agora melancolicamen¬

te, mas sim alegres, trauteantes e empolgadas.

não havia dúvida de que ela fi¬

Desta maneira ambos os jovens passaram a des¬ frutar de um mútuo amor, acabando por se virem a casar e a viverem em completa harmonia e afeição. Ao casal nasceram um filho e duas filhas que se vieram a chamar respectivamente de Yan Ju, Yao Ji e Nü Wa. Não existe nenhuma lenda relativa aos feitos de Yan Ju, mas os destinos das duas filhas ficaram para a posteridade nos contos Chang E, a

Desterrada Beleza da Lua e Jing Wei, a Vingadora do Mar

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JING WEI, A VINGADORA DO MAR

Nü Wa, a filha mais jovem de Yandi — deus do Sol — era uma menina ingênua, alegre e bonita. Todos os dias ela ia brincar na praia porque o dou¬ rado da areia com suas conchas coloridas e o azul do mar, com as suas tumultuosas ondas a atraíam irresistivelmente. Um dia, quando se preparava para sair, a mãe avisou-a que uma grande tempestade se estava a desencadear e que seria melhor que ela ficasse em casa mas a menina, que também era caprichosa, não querendo dar ouvidos aos conselhos da mãe deci¬ diu ir à mesma. Depois de ter recolhido ao longo da praia con¬ chas de variadas cores empoleirou-se num pináculo sobranceiro ao mar contemplando a espuma branca das vagas que se quebravam contra as rochas e as gaivotas voando do azul do oceano. “Que lindo é o mar! O pai tem razão em se vir aqui banhar todos os dias”, pensava para consigo própria a menina imersa nos seus pensamentos e sem se dar conta que uma grande tempestade se aproximava.

Um vendaval quente e úmido começou por ro¬

çar a superfície das águas para, em seguida, dar lugar

a uma borrasca acompanhada por chuvas torrenci¬

ais que se abateram sobre toda a terra. A fúria redo¬

brada do vento fustigou as ondas que se transfor¬ maram em vagalhões despedaçando-se sobre as margens como montículos. Nü Wa não conseguin¬ do fugir a tempo foi levada pelas ondas para os confins do mar. A mãe de Nü Wa tinha, entretanto, corrido para

a praia desafiando a chuva torrencial e o vendaval.

O vento soprava com tanto ímpeto que lhe era qua¬ se impossível ter os pés assentos no chão e a chuva

caía sobre o seu rosto com tanta densidade que lhe era quase impossível manter os olhos abertos. Ape¬ sar de tudo, ela gritou a todos os pulmões:

— Nü

Wa! Nü

Wa!

Mas para além das vozes do vento, da chuva e das ondas não obteve qualquer outra resposta. Pouco depois a tempestade passou e o mar quedou-se calmo e tranqüilo, todavia, Nü Wa tinha desaparecido. Sentada desconsolada na praia com profusas lᬠgrimas escorrendo-lhe pelas suas pálidas faces, a

mãe olhava absorta para longe, com uma enorme mágoa partindo-lhe o coração. Coitada da menina Nü Wa, nunca imaginou que

o mar de que gostava tanto se pudesse mostrar tão

cruel a ponto de lhe devorar a sua jovem vida. Após a sua morte, o seu espírito queixoso e feri¬ do converteu-se em Jing Wei — uma ave com uma cabeça de plumas multicores, um bico branco e umas garras vermelhas, e que fez o seu ninho na montanha

Fajiuá, a ocidente. A partir dessa altura a ave sentiu um grande ódio contra aquele mar que lhe tinha ar¬ rebatado a sua prévia existência de criança e jurou vingar-se decidindo acabar com ele. Querendo tomar em realidade a sua decisão, a ave incessantemente voava para longe, de onde tra¬ zia no seu bico galhos secos e pedras que depois descarregava sobre o imenso mar azul. Assim se sucederam dias, meses e anos e o pássaro trabalhan¬ do ininterruptamente. Que impressionante e admi¬ rável era a sua grandiosa aspiração e magnífica sua força de vontade! Diz a lenda que a ave Jing Wei e o pássaro Petrel acasalaram-se e procriaram descendentes. Os filhos herdaram o nome do pai — Petrel, enquanto as ilhas continuaram com o nome da mãe — Jing Wei. Os filhos herdaram o caráter firme e indomável do pai, voando corajosos e livremente por entre as nuvens negras sobre o mar ondulante sempre que uma tem¬ pestade se anuncia. Ainda hoje os seus descenden¬ tes emitem gritos de combate e de vingança. As fi¬ lhas continuaram o trabalho da mãe indo buscar pedras e galhos secos para tentar encher o mar; esta consistente labuta tem vindo a ser transmitida de

geração em geração. Os antigos chamaram a Jing Wei a Ave Inocente ou a Ave Perseverante assim manifestando a sua simpatia e admiração pela sua tenacidade.

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KUA FU, O PERSEGUIDOR DO SOL

Na antigüidade remota Kua Fu era celebrado pela sua extraordinária força; um gigante herculano, an¬ dava tão depressa que, dir-se-ia, ser capaz de voar. Talvez quej outrora, o movimento do Sol fosse mais rápido do que presentemente porque os homens sentiam que bastava pegarem no trabalho para logo anoitecer. Como naqueles tempos não existiam nem velas nem eletricidade, era extremamente penoso para os mortais suportarem as longas e frias horas de escuridão. Todos estavam descontentes com o Sol por este aparecer tão infreqüentemente. Assim, um dia, em nome de todos os habitantes, Kua Fu foi enviado ao Sol para lhe exprimir a indignação de todos os povos:

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— Ei! O Sol preguiçoso! Quantas horas dormes tu? Levantas-te sempre muito tarde e deitas-te de¬ masiadamente cedo. Francamente não tens nenhum sentido de responsabilidade no trabalho! Mas o Sol, arrogantemente, não ligou ao que Kua Fu lhe dizia e continuou rolando para o oeste o mais depressa que podia. Furioso, Kua Fu pegou num cacete e correu atrás dele.

Tal como uma bola flamejante o Sol rolava sem parar para o oeste e Kua Fu correu velozmente ao seu alcance transpondo vales e montanhas. Légua após légua o gigante ia-se aproximando gradualmen¬

te do Sol mas, quanto mais se acercava deste, mais calor sentia até que por fim estava já todo molhado

e o suor escorria-lhe abundantemente pelo corpo. A

fim de se refrescar rasgou o seu casaco expondo o seu peito escuro-vermelho. Desafiando o calor ago¬ ra ardente o gigante continuava a sua corrida em

direção ao Sol mas chegou a uma altura que tinha tanta sede que pensou que ia morrer. Sentia a lín¬ gua queimada e, faltava já pouco para alcançar o Sol, quando, realmente, não podendo mais suportar

a sede que o atacava teve de parar e refrescar-se nas águas do rio Amarelo. Depois de um golo, engoliu

toda a água do rio

ver a água do rio Weishui secando-o também por completo. Como o gigante ainda continuasse sequi¬ oso resolveu ir beber a água dos lagos do norte mas, esgotado, acabou por morrer a meio do caminho, o bastão que levava consigo transformou-se numa flo¬ resta viçosa e densa. Todos os anos, as árvores des¬ sa floresta ficam carregadas de fruta com que os homens matam a sede e as sombras das suas copas defendem os transeuntes do Sol escaldante. O zelo¬ so e persistente Kua Fu morreu por ter dedicado a sua vida ao benefício do povo e mesmo nos seus últimos momentos não se esqueceu de deixar uma contribuição duradoura para a melhoria das condi¬ ções da vida humana, convertendo o seu bastão numa floresta a serviço das gerações futuras. As suas intenções são muito louváveis!

mas ainda tendo sede foi sor¬

XING TIAN, O HERÓI JUSTICEIRO

Era uma vez, um herói chamado Xing Tian, cuja

fama andava de boca em boca entre todas as popu¬ lações. Empunhando um machado na mão esquerda

e um escudo na mão direita, ele corria por todo o

mundo atacando os poderosos na defesa dos fracos

e necessitados. Era um homem corajoso e justiceiro

vindo gradualmente a ganhar o respeito e o apoio de todos os habitantes. O universo era então controlado por um gênio celestial egoísta e preguiçoso que levava uma vida de prazeres incontroláveis sem se preocupar minima¬ mente com a vida do povo. Acontecia que, freqüen- tes vezes, ele não mandava chover durante meses seguidos e as árvores e plantas murchavam de seca; outras vezes, resolvia mandar chover a cântaros, meses sem fim, provocando enchentes que submer¬ giam e arrastavam árvores e casas. A vida da popu¬ lação de então era uma miséria e ninguém tinha quaisquer garantias de um previsível futuro. Um dia, muito indignado com o que estava acon¬ tecendo, Xing Tian foi ter com o gênio e disse-lhe:

— Tu realmente és um gênio malfazejo! O povo sofre muito sob o teu domínio. Se não queres fazer por bem por que não dás o teu lugar a quem de vontade?

O cruel gênio que, claro não tinha quaisquer in¬

tenções de renunciar ao seu domínio, dando-lhe um riso amarelo respondeu-lhe:

— Faço aquilo que me aprouver. O melhor é não te meteres nos negócios alheios, caso contrário, faço- te saber quem sou eu!

A arbitrariedade e a arrogância do gênio provo¬

cou a cólera do herói justiceiro que reagiu instanta¬ neamente brandindo o seu machado, querendo-lhe cortar a cabeça. Assim começou uma luta renhida, a peleja desenrolando-se da terra para o céu e vice- versa, até que ambos estabeleceram um campo de

batalha que se estendeu desde o mar do Oriente até as montanhas de Kunlun. Após inúmeros assaltos o resultado continuava inconclusivo, na renhida luta os golpes de ambos sacudindo as estrelas até estas quase caírem e levantando maciças nuvens de poeira que eclipsaram o brilho do Sol e a claridade da Lua. Encontravam-se ambos um dia em rija peleja quando, de repente, aos berros do gênio celestial, afluiu de todas as direções um grupo de fantasmas

e monstros. Uns tinham caras de cão e corpos hu¬

manos enquanto outros tinham caras humanas e corpos de leão. De armas em punho, eles cercaram completamente o herói que redobrou os seus esfor¬ ços numa tentativa de romper o cerco, não o conse¬ guindo devido à superioridade esmagadora do ini¬

migo até que, por descuido, deu uma margem ao gênio celestial que, aproveitando a ocasião, lhe cor¬ tou a cabeça com um golpe de espada. No entanto,

o corajoso Xing Tian em vez de tombar prostrado

continuou lutando brandindo o seu machado e o seu

escudo, usando os seus mamilos como olhos e o seu umbigo como boca.

Vendo isto, o gênio celestial ficou apavorado e fugiu apressadamente rumo a oeste, contudo, o he¬ rói precipitou-se ao seu alcance perseguindo-o de perto até que, ao chegarem ao sopé das montanhas de Kunlun, Xing Tian morreu de cansaço. A luta não fez o gênio celestial perder a supre¬ macia sobre todo o universo mas veio a dar-lhe uma outra visão mais esclarecida das suas funções e a partir dessa altura não mais teve coragem de proceder a seu bel-prazer desdenhando o futuro dos humanos. Assim, Xing Tian não tinha morrido desneces¬ sariamente, tendo ficado gravados na mente das gerações vindouras a sua nobre atitude a serviço do povo, o seu espirito de abnegação em defesa dos interesses de todos e, sobretudo, o seu heroísmo intrépido e indomável em prol dos fracos e dos oprimidos. A leitura da lenda sobre o herói inspi¬ rou a Tao Qian — um dos grandes poetas de anti- güidade — as seguintes linhas:

De machado e escudo na mão, Xing Tian lutou contra o gênio celestial corrompido. Morreu corporalmente, Mas o seu espírito ficará eternamente.

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GUN E DA YU, OS DEUSES QUE DOMINARAM AS ÁGUAS DA TERRA

Segundo uma lenda, no tempo pré-histórico da China houve uma enorme inundação que teve pro¬ porções calamitosas para os seres humanos e cau¬ sou inimagináveis desastres. A terra converteu-se então num imenso oceano, todas as plantações fica¬ ram submersas, muitas casas destruídas e os huma¬ nos — ajudando os anciões e levando aos braços as crianças — tendo-se refugiado nas montanhas ou simplesmente procurando socorro no topo das árvo¬ res. Como não puderam suportar os constantes so¬ frimentos do vento e da chuva e, particularmente, não encontraram quaisquer alimentos, muitos aca¬ baram por morrer de fome ou de frio. Os mais afor¬ tunados encontraram abrigos nas grandes monta¬ nhas, em grutas ou improvisaram pobres cabanas de ramos e folhagens só encontrando para comer cas¬ cas de árvores e legumes selvagens. Como muitos animais ferozes e venenosas serpentes também fu¬ giram ao flagelo indo para as partes mais altas des¬ tas montanhas, ameaçando assim ainda mais a vida dos seres humanos, é impossível dizer-se quantas pessoas morreram realmente de fome, de frio ou da ferocidade dos animais.

Em completo desânimo, os seres humanos não encontraram outro remédio senão pedirem clemên¬ cia ao Imperador Celestial e implorar-lhe que con¬ trolasse as águas e os salvasse desta vida de misé¬ ria; contudo, o soberano, entretido com as suas dis¬ trações e prazeres no Palácio Celestial, não queria prestar atenção aos sofrimentos dos seres humanos, aos olhos dele estes não eram mais do que formi¬ gas, boas para nada. Mas o Imperador Celestial tinha um neto cha¬ mado Gun que, tendo tomado a peito os sofrimen¬ tos dos homens, decidiu interceder ao avô por eles. Se bem que fosse um deus e um neto do Impe¬ rador Celestial, contudo, não lhe foi fácil uma en¬ trevista com o soberano. Na realidade, ele já tinha porfiadas vezes feito este pedido de audiência, con¬ tudo, ou tinha sido informado à última hora que o avô estava muito ocupado e não tinha tempo para o receber ou a sua entrada aos apartamentos reais ti¬ nha sempre sido vigorosamente impedida pelos guar¬ das. O Imperador Celestial era realmente um arro¬ gante egoísta desprovido de quaisquer sentimentos, mesmo para com os seus próprios descendentes. Um dia, extremamente preocupado com a situa¬ ção insuportável dos humanos, Gun irrompeu pela porta do Palácio Celeste dizendo que tinha assuntos urgentes a relatar ao soberano não deixando aos guardas outra alternativa senão levá-lo imediatamen¬ te à presença real. O Imperador Celestial estava degustando diver¬ sas frutas preciosas enquanto seguia enlevado os graciosos movimentos de um grupo de fadas que dançavam ao som de uma música suave. Ao aper- ceber-se da súbita aparição do neto sem reparo à sua

dignidade protocolar o Imperador Celestial ficou zangado e perguntou-lhe friamente:

— Qual assunto é o teu para ser assim tão urgente?

— Caro avô, as águas já inundaram toda a su¬

perfície do mundo dos humanos e os sobreviventes estão sofrendo grandes padecimentos: doenças,

fome, privações, violências

Imploro-lhe que tomemos medidas urgentes para dominar as águas salvando a vida dos humanos da miséria por que passam! — respondeu Gun.

— Não pode ser! — disse furioso o Imperador

Celestial. — Os seres humanos têm vindo a come¬ ter cada vez mais crimes e devem ser castigados com estas calamidades; além disso, não tenho tempo suficiente para tratar de assuntos de menor impor¬ tância como esses. Espero, portanto, que, de agora em diante, não me incomodes mais! Assim, Gun foi obrigado a retirar-se silenciosa¬

mente da presença do soberano com o coração ain¬ da mais dilacerado pelos sofrimentos dos seres hu¬ manos. Sem conseguir se conter, andava de um lado para o outro pensando: “Custe o que custar, devo salvar a humanidade dos limites da destruição to¬ tal!”. Mas que podia ele fazer se todos os poderes máximos do universo estavam nas mãos de seu avô? As águas continuavam subindo engolindo cam¬

até mesmo acabando por sub¬

pos, casas, colinas

mergir as mais altas árvores. No caso das águas não virem a ser rapidamente dominadas, todas as terras e seres humanos estariam a ponto de desaparecer para sempre. O horror da cena das águas turbinadas alas¬ trando-se pelos quatro cantos do globo e os gritos desesperados das pessoas partiam o coração de Gun mas ele, apesar da sua bondade e retidão, encontrava-

Desgraçados deles!

se impotente perante tal e miserável situação. Agora, o único fenômeno que poderia vir a dominar as inun¬ dações era um diminuto mas extremamente pesado bloco de solo amarelo mágico chamado Terra Prolífe¬ ra. Este objeto, mediante umas palavras mágicas, ti¬ nha a propriedade de, num abrir e fechar de olhos, alastrar o seu volume para vários quilômetros, deze¬ nas de quilômetros ou mesmo centenas de milhares de quilômetros — podendo assim controlar as inunda¬ ções e redescobrindo a superfície da terra.

A Terra Prolífera estava no entanto guardada

num lugar secreto sendo extremamente difícil a sua

obtenção. Ora, certo dia, ao passar esvoaçando um passa- rolo frente a Gun, ele deteve-o e perguntou-lhe:

— Olá, caro amigo! Sabes por acaso que a hu¬

manidade está sofrendo enormes calamidades?

— Sim, já sei. Se as águas continuarem a correr

impetuosamente, a raça humana será brevemente

exterminada — respondeu o passarolo.

— Esvoaçando tu freqüentemente pelo Palácio

Celeste e com a tua penetrante visão, saber-me-ias por acaso dizer qual o local dum tesouro mágico que procuro?

— De que se trata?

— Da Terra Prolífera que está sob o controle do

meu avô, o Imperador Celestial. Para dominar as

águas da terra é indispensável consegui-la. Sabes onde se encontra esse objeto mágico?

— Não tenho bem a certeza — disse o passarolo

— mas acho que deve encontrar-se algures no Palᬠcio Posterior pois ouvi dizer que todos os tesouros do Imperador Celestial estão ali guardados em inú¬ meros cofres de jade.

— Faz-me um grande favor, vai lá e verifica se porventura a Terra Prolifera se encontra lá de verdade.

O passarolo concordou acenando a cabeça e par¬

tiu mas como anoitecia e as portas celestes já se encontrassem fechadas ele teve de, magicamente, piscar os seus olhos batendo ao mesmo tempo ambas as suas largas asas para conseguir entrar no

pátio, pousando assim no exterior do parapeito duma das janelas do Palácio Posterior. Escrutinizan- do o seu interior o passarolo deparou-se com uma imensidão de cofres de jade arrumados metodica¬ mente em filas e gravados em caracteres dourados:

o Elixir de Imortalidade, a Bengala de Mil Anos, a

Cordoalha para Subir ao Céu

demais, numa esquina: a Terra Prolifera. Contentís¬ simo com o seu achado o passarolo revoou imedia¬ tamente para fora do palácio indo ter com Gun,

contou-lhe o que tinha visto.

O problema era agora como obter a Terra Prolí¬

e entre todos os

fera pois que, esta sendo tão pesada, nem Gun nem

o passarolo tinham forças para a remover. Gun

quedou-se pensativo durante alguns instantes e de¬ pois, a passos largos, dirigiu-se ao Rio Celeste (Via Láctea) indo pedir ajuda à gigantesca tartaruga imor¬

tal — o único ser capaz de transportar tamanho peso. Ali chegado Gun encontrou a tartaruga fazendo um passeio pela margem do rio e contou-lhe o que pre¬ tendia dela. Após ter ouvido com atenção as suas palavras, a tartaruga concordou esticando o pesco¬ ço e prontificou-se a roubar a Terra Prolífera com o fim de salvar a humanidade. Guiada pelo passarolo, a tartaruga imortal diri¬ giu-se ao Palácio Posterior onde, depois de abrir um

buraco na parede, rastejou no interior em direção ao cofre da Terra Prolifera. Tendo-se apoderado do bloco meteu-o às costas e levou-o a Gun, chegando banhada de suor e sufocada de cansaço. Ao ver a Terra Prolífera, Gun ficou extremamente

contente e pediu à tartaruga um último favor, que transportasse o objeto do céu para a terra, colocan¬ do-o numa posição desejada.

— Cresce! — entoou então Gun como se tives¬ se recitado uma oração encantada.

E, no mesmo instante, a Terra Prolífera come¬ çou a crescer expulsando as águas em todas as dire¬ ções e fazendo reemergir a crosta terrestre. Assim, a humanidade foi salva e os sobreviven¬ tes puderam regressar das montanhas às suas terras natais. Cheios de alegria e esperança os homens recomeçaram a lavrar os terrenos, a semeá-los e a

a partir de então os humanos têm

vindo a levar uma vida feliz sobre a terra e contri¬

construir casas

buído para lhe dar uma fisionomia cada vez mais próspera. Não tardou no entanto que a notícia do roubo da Terra Prolífera chegasse aos ouvidos do Imperador

Celestial que, colérico, chamou Gun e interpelou-o num tom severo:

— Que audácia foi essa! O roubo da Terra Pro¬

lífera foi uma ação de traição aos meus desejos! Advogando ajusta causa da sua ação Gun cora¬ josamente protestou ao avô dizendo-lhe num tom enérgico:

— As grandes inundações provocaram no mun¬

do tamanhas fomes e sofrimentos que deram origem a generalizados queixumes e blasfêmias por parte da humanidade contra vós! Creio não ter sido in-

justo tomar medidas para salvar os seres humanos dos limites da morte. — O melhor é calares-te imediatamente! Sabes bem que não te deves atrever a falar-me num tom de tal descortesia! — replicou-lhe ainda mais furio¬ so o Imperador Celestial ordenando a um dos seus subordinados chamado Zhu Rong que matasse ime¬ diatamente Gun ao pé da montanha de Yushan, si¬ tuada no pólo norte da terra. Depois da execução de Gun, o Imperador Celes¬ tial recuperou também a Terra Prolifera e reapare¬ ceram de novo maciças inundações por toda parte tendo sido o resultado de todos os trabalhos efetua¬ dos pelos seres humanos outra vez destruídos pelas águas. Embora Gun tivesse sido morto, o seu ardente e justo coração continuava batendo e o seu cadáver continuava intacto, permanecendo três anos conse¬ cutivos sem apodrecer. Ao ser informado do que se passava a este respeito, o Imperador Celestial assus¬ tado e preocupado pela eventual ressuscitação de Gun mandou um dos seus generais escortinhar o ventre do cadáver mas, ao chegar ao local para exe¬ cutar a ordem recebida viu, de repente, o ventre de Gun abrir-se por si só diante dos seus olhos e o coração dele transformar-se na pessoa do seu filho a quem chamaram de Da Yu — logo depois o cadᬠver de Gun afundou-se nas profundas águas do rio Yuyuan convertendo-se num peixe-dragão. Tal como o pai, Da Yu mostrou ser também um deus bondoso e honesto e ainda mais inteligente e valente do que Gun. Para continuar a missão do pai, ele decidiu levar a bom termo a causa da salvação do seres humanos.

Revoltado contra os ditames do Imperador Ce¬ lestial, Da Yu resolveu não ir ao céu pedir a ajuda do soberano e, resolveu antes, com sua inteligência e poderes sobrenaturais, organizar pessoalmente os seres humanos a dominarem as águas. Da Yu sabia que os culpados das inundações eram os gênios das montanhas e os demônios das águas e que as suas ações criminosas eram realiza¬ das sob as ordens de Gong Gong — o deus supre¬ mo das águas — e que se quisesse dominar radical¬ mente as águas tinha que, em primeiro lugar, elimi¬ nar todos esses malvados. Da Yu fez então convocar na montanha de Maoshan, situada à beira do mar do Leste, uma região geral destinada a elaborar um plano de expedição contra Gong Gong. Todos os deuses participantes nesta reunião estavam de acordo com a supressão do malvado demônio e assim Po Yi — deus dos pássaros, Wu Muyou — deus das árvores, Tong Lu — deus do firmamento, Geng Chen — deus do tempo, uns quantos dragões celestes e outras tantas criaturas fan¬ tásticas ficaram incumbidas de realizar tarefas respec¬ tivas na grande expedição contra Gong Gong. Depois de analisarem a situação geral das águas aperceberam-se que a zona da montanha Tongpo, nas planícies centrais, era o lugar atingido mais grave¬ mente pelas inundações. Como este lugar estivesse sob o domínio de Wu Zhiqi — deus dos rios Huaihe e Wohe, este se valia dos seus poderes mágicos para provocar constantes ondas e ventos, atuando a seu bel-prazer e sem consideração pelos humanos. Da Yu, que já tinha previamente passado por esta zona três vezes, tinha ficado com o conhecimento dessa enorme escala das inundações.

Seguindo as ordens de Da Yu, Tong Lu e Wu Muyou foram os primeiros a enfrentar Wu Zhiqi mas nem com os seus esforços associados o consegui¬ ram vencer. Wu Zhiqi era um deus extremamente cruel e astuto e tinha uma fisionomia que aparenta¬ va a de um macaco: nariz achatado e dentes serra¬ dos e, com o seu corpo preto e a sua cabeça branca de testa alta e olhos reluzentes podia esticar o seu pescoço até o comprimento de cem metros. A sua força era tão grande que podia enfrentar nove ele¬ fantes ao mesmo tempo e como tinha poderes de aparecer e de desaparecer com grande agilidade sobre e sob a superfície das águas,era quase impos¬ sível de ser capturado. Depois das tentativas fracas¬ sadas dos primeiros dois deuses, Da Yu mandou Geng Chen combatê-lo. Desta vez, se bem que Wu Zhiqi fosse extremamente ardiloso, não conseguiu escapar aos poderes de Geng Chen — deus do tem¬ po — e foi finalmente capturado. Por ordem de Da Yu, Wu Zhiqi viu o seu pescoço acorrentado por uma grilheta de ferro e o seu nariz perfurado por um anel de ouro vindo depois a ser preso sob o peso esma¬ gador da montanha da Tartaruga, adjacente a um dos afluentes inferiores do rio Huaihe, desde então nunca mais veio a provocar catástrofes. Após ter liquidado Wu Zhiqi, Da Yu começou a organizar o ataque contra Gong Gong — deus das águas — que se encontrava na região de Kongshan, a leste da China. Para evitar que Gong Gong se lhes escapasse, caso este viesse a saber da captura secre¬ ta de Wu Zhiqi, Da Yu convocou então outra reu¬ nião cimeira em Maoshan para projetar um novo plano de combate de modo a organizar um cerco definitivo que aniquilasse de uma vez por todas o

maldoso demônio mas, devido à chegada tardia do deus do vento, Da Yu perdeu a ocasião oportuna para o ataque e Gong Gong, que entretanto tinha simul¬ taneamente recebido as notícias sobre a captura do deus dos rios Huaihe e Wohe e sobre as ações unificadas dos deuses numa expedição contra ele, aproveitou a oportunidade para se precaver e retali¬ ar provocando, colérico e temeroso, uma grande inundação na zona de Kongshan. Quando o deus do vento finalmente chegou à montanha Maoshan, foi sumariamente executado por ordem de Da Yu devi¬ do a ser o culpado da perda da planejada batalha contra Gong Gong. Tempos depois, para honrar os méritos de Da Yu, os seres humanos mudaram o nome da montanha Maoshan para Huiji que signifi¬ ca “lugar de reunião onde se deliberam projetos”. Depois da captura de Wu Zhiqi e da fuga de Gong Gong, a tarefa principal após terem sido do¬ minadas as águas, viria a ser a drenagem das águas para o mar, de modo a descobrir-se de novo a su¬ perfície da terra tornando propicia à humanidade uma vida em paz. Mas como para pôr em prática tal e glorioso objetivo era necessário, em primeiro lugar, conhecer-se minuciosamente a topografia do mundo, então, Da Yu ordenou a Da Zhang e Jian Hai — dois grandes generais celestes — que me¬ dissem criteriosamente o planeta. Da Zhang percor¬ reu a terra dos seus extremos leste a oeste calcu¬ lando a largura desta ser de 100.016.750 quilôme¬ tros. Jian Hai, por sua vez, caminhou do pólo nor¬ te ao sul chegando à conclusão que o comprimen¬ to da terra era da mesma cifra que a sua largura. Além disso ambos informaram Da Yu com descri¬ ções concordantes: a terra era constituída por rios

impetuosos, lagos de sinuosos perfis, altas monta¬ nhas e numerosos e terríveis abismos. Efetivamen¬ te, não seria fácil controlarem-se definitivamente as águas de tão extenso território com uma topografia tão diversificada mas tal como um ditado chinês que diz: “perseverança no trabalho pode remover quaisquer obstáculos”, também Da Yu não ficou in¬ timidado perante tais dificuldades e persistiu em salvar a humanidade da miséria. De fato, ele tinha já dedicado todos os seus esforços ao trabalho de dominar as águas: atravessando rios, subindo mon¬ tanhas, cruzando nove continentes, visitando dez

Durante essas incursões já

Da Yu tinha desafiado mil aventuras, inspecionado múltiplos lugares despovoados e, logicamente, vis¬ to muitas coisas extraordinárias e ouvido inúmeras histórias interessantes (ver no presente livro Con¬

mil países longínquos

tos de Países Imaginários).

No processo de dominar as águas, em múltiplas ocasiões Da Yu tinha obtido numerosas e dedicadas ajudas de vários deuses. Um dia, encontrava-se ele inspecionando a configuração de um terreno no monte da Porta-do-Dragão, onde Fu Xi vivia, quan¬ do este último veio ao seu encontro e o presenteou com o Plano dos Oito Trigramas no qual estavam representados, respectivamente, o Céu, a Terra, a
/ Agua, o Fogo, a Montanha, o Trovão, o Vento e o Fago — o qual demonstrou vir a ser um precioso instrumento no domínio das águas. Outro dia, en- contrava-se Da Yu inspecionando as correntes do rio Amarelo quando lhe apareceu entre as ondas, subitamente, Feng Yi — deus das águas —, um ser de rosto humano e corpo de peixe, e lhe ofereceu um Mapa dos Rios. Como este mapa indicasse

detalhadamente a orientação e a força das correntes de todos os rios situados nas planícies centrais da China e estivesse correto de acordo com as suas próprias e prévias investigações Da Yu, sentindo-se ainda mais confiante e seguro para dominar as águas, decidiu iniciar a execução de gigantescas obras hidráulicas e, pegando numa picareta e numa canastra, começou orientando milhares e milhares de pessoas escavando lagos, construindo diques, transportando terras, arrasando montanhas e nive¬ lando abismos. A tartaruga imortal reapareceu para colaborar no progresso das obras podendo duma vez só transportar uma colina inteira ou preenchendo um profundo abismo. O dragão Ying — um sobre¬ natural gigante de força hercúlea — também veio oferecer os seus préstimos para a construção das obras prestando com sua cauda, mais dura que o aço, consideráveis contribuições escavando e dra¬ gando vários rios por dia. De todas as obras projetadas a mais difícil e perigosa de executar era a supressão do monte da Porta-do-Dragão. Este monte, cobrindo uma área de várias centenas de quilômetros quadrados, estava situado no curso médio do rio Amarelo impedindo a franca passagem das suas águas que aqui se trans¬ formavam numa corrente impetuosa por serem co¬ agidas a atravessarem um desfiladeiro muito estrei¬ to e alcantilado. Assim, cada vez que ocorriam gran¬ des chuvas o rio transbordava causando inundações enormes e calamidades nos terrenos do curso inte¬ rior do rio. Sem temer quaisquer dificuldades ou hesitar minimamente perante os perigos, Da Yu participou pessoalmente junto aos demais trabalhadores no

processo das obras do monte da Porta-do-Dragão,

quer sob o Sol escaldante do verão que fazia ferver

a superfície das pedras e encharcar de suor os cor¬

pos das gentes, quer sob o vento glacial do inverno

que fazia gelar até à medula dos ossos. Através das quatro estações, nem o vento, nem

a geada, nem a chuva, nem a neve e nem mesmo

animais ferozes ou os mais venenosos insetos vie¬ ram a impedir o árduo avanço da obra. No dia da sua conclusão todos, homens e mu¬ lheres, idosos e crianças gritaram orgulhosamente de alegria e rodearam Da Yu com tanta vivacidade que os seus clamores repercutiram-se nas alturas e fize¬ ram o Palácio Celeste tremer de tal maneira assus¬ tando o Imperador Celestial que jamais tinha ima¬ ginado os seres humanos capazes de tanta energia e

euforia. Desde então a Porta-do-Dragão tornou-se num lugar misterioso pois que, segundo uma lenda, na primavera de todos os anos, todas as carpas do rio Amarelo acordavam para aí se reunirem, a de reali¬ zarem uma competição extraordinária: as que conse¬ guissem transpor tal obstáculo convertiam-se em dragões e as que falhassem em ser bem sucedidas eram compelidas a morrer impedidas pelos choques das águas contra as rochas — apesar disso não havia uma só carpa que desdenhasse provar a sua fortuna. A mulher de Da Yu, por ser proveniente da montanha Tushan, no sul da China, era mais conhe¬ cida pela jovem de Tushan. Após se ter casado com ela, Da Yu só tinha permanecido em casa quatro dias devido a ter partido com a intenção de domi¬ nar as águas da terra. Posteriormente, quando a sua mulher deu à luz um filho, este foi chamado de Qi

— que significa “pôr-se a caminho” — conforme o nome que Da Yu tinha escolhido para o seu pri¬ mogênito antes de se ausentar do lar em memória desse dia de despedida e de empreendimento. Após a partida do marido e durante a sua pro¬ longada ausência a jovem de Tushan, sempre reple¬ ta de saudades dele, freqüentes vezes subia a uma colina perto da sua casa carregando no colo o filho de ambos pensando que se Da Yu porventura regres¬ sasse, a reunião familiar seria assim imediata. De modo a melhor poder exprimir nesse momento to¬ dos os seus sentimentos a quem amava, ela tinha escrito uma composição intitulada A Canção de Saudade, que começava do seguinte modo:

Que prolongado foi o tempo de espera!

E quando ela cantava, os sentimentos que expri¬ mia eram o que lhe ia no mais fundo do coração sendo a melodia de um arrebatador encanto — tal¬ vez por isso os seus versos foram sendo, tradicio¬ nalmente, considerados como a primeira poesia de amor do sul da China. Um dia, como de costume, estava ela de pé no cimo da colina carregando nos braços o seu filho e presenciando o horizonte, quando enxergou um homem que se vinha aproximando de longe em sua direção. Mesmo quando ele já estava perto dela, a jovem de Tushan continuava sem poder reconhecer tal homem magro e de tez queimada pelo Sol, com

as mãos e os pés cobertos de grossos calos, e vesti¬

do de roupas remendadas

acabou por o reconhecer: era de fato o seu marido! Ó, Da Yu tinha finalmente regressado e o fulgor dos

até que finalmente, ela

seus olhos refletiam do mesmo modo a sua inteli¬ gência e a sua tenacidade de outrora. A jovem de Tushan ficou muito contente pelo regresso do seu marido mas ao ver o lastimável as¬ pecto que este apresentava, imediatamente um cons¬ trangimento íntimo apoderou-se dela e implorou a Da Yu que repousasse sem mais demora.

— Desculpe-me mas de momento não posso sa¬

tisfazer o seu pedido — disse-lhe este — pois ainda

não consegui dominar as águas e milhares e milha¬ res de seres humanos continuam ainda ameaçados pelas terríveis inundações. Agora, o mais urgente a fazer é salvar todos os seres humanos do perigo que lhes ameaça a vida!

— Mas então não poderias permanecer em casa

por um ou dois dias só? — retorquiu a jovem de

Tushan.

— Só o tempo necessário para que eu recompo¬

nha o teu vestimento e te arranje um novo par de sandálias de palha.

— O meu tempo é precioso! Bem sei que tens

vindo a passar muitas dificuldades por motivo da minha tão longa ausência — disse-lhe Da Yu num tom apologético — mas eu não posso descansar antes de ter dominado as águas. Mal tinha acabado de proferir tais palavras Da Yu tomou o seu filho dos braços da mulher e bei¬ jou-o carinhosamente; depois, em breves termos, consolou a mulher o melhor que pôde e pôs-se a caminho sem mesmo volver a cabeça. De tato, Da Yu nunca mais voltou a casa duran¬ te todo o processo das obras da Porta-do-Dragão se bem que viesse a passar por mais de três vezes frente à sua porta.

Passaram-se um, dois, três

tantos anos, Da Yu

tinha caminhado de sul a norte, do lugar do nascer do

Sol ao poente desafiando o vento, a chuva e as mais diversas intempéries e dificuldades, mobilizando, organizando e dirigindo o povo no progresso constru¬ tivo dos imensos empreendimentos hidráulicos. Durante treze anos consecutivos os seres huma¬ nos escavaram lagos, nivelaram abismos, dragaram

gradual mente as águas começaram a correr

para os mares de acordo com o desejo de todos. As largas extensões das férteis planícies voltaram a fi¬ car expostas e os refugiados das grutas puderam regressar às suas terras natais para aí reconstruírem casas, cultivarem sementeiras, criarem gados, pas¬

tarem ovelhas

Assim, e sob a direção de Da Yu, os seres hu¬ manos dominaram as águas mediante os seus pró¬ prios esforços sem pedirem a intervenção do Impe¬ rador Celestial nem utilizarem a Terra Prolífera. Isto

veio a fazer crescer o prestígio de Da Yu simultane¬ amente constituindo um motivo de orgulho genera¬ lizado de toda a humanidade. Tomando em consi¬ deração as suas façanhas e os seus méritos o povo deu unanimemente a Da Yu toda a sua confiança e apoio, elegendo-o como o sucessor de Da Shun — o soberano da China de então que, devido à sua avançada idade e débil saúde, em breve viria a res¬ cindir do seu trono em favor do herói. Segundo certas lendas antigas, Da Yu foi o pri¬ meiro imperador da dinastia Xia (Século XXI — Século XVI a.n.e.). Depois de subir ao trono esco¬ lheu Po Yi e Gao Tao para ajudá-lo no governo do seu país, em todo o território veio a reinar a ordem e a prosperidade. Da Yu continuou a interessar-se

rios

era o início de uma nova vida!

pelo bem-estar do seu povo, freqüentemente inspe¬ cionava todas as regiões do seu país. Assim que soubesse que uma influência de gêneros ou matéri¬ as existia numa região, Da Yu ordenava imediata¬ mente que produtos adequados fossem transporta¬ dos dos lugares mais prósperos para os mais neces¬ sitados atendendo deste modo a que todas as popu¬ lações pudessem gozar o mais permanentemente possível de uma vida feliz e pacífica. Além disso, ele ensinou também ao seu povo o método de plan¬ tar árvores e de semear arroz nos terrenos alagadiços. Durante todos os anos, no seu governo, as nove prefeituras do seu país contribuíram periodicamen¬ te com uma certa quantidade de produtos locais à capital, não sendo estas dádivas para satisfazer os interesses próprios de Da Yu mas sim para motivar um maior intercâmbio de produtos e acesso dos mesmos a um maior número de habitantes. Entre os soberanos da antigüidade remota da China, Da Yu é considerado como um talentoso e dedicado monarca que grandes contribuições fez em prol do seu povo. Ainda hoje se mantém popular- um ditado que diz: “Que não é inferior a Da Yu!” — pertinente para elogiar a contribuição de perso¬ nagens de grandes méritos a serviço do povo.

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FU XI, O LENDÁRIO INVENTOR DOS OITO TRIGRAMAS

Antigamente havia um Estado chamado Hua Xu Shi situado ao Noroeste da China sulcado por um largo e sinuoso rio, chamado pelos habitantes que viviam nas suas margens de rio do Trovão. Mas por que lhe chamavam eles rio do Trovão? Segundo conta a lenda, a nascente deste rio era o lago do Trovão — um grande lago onde vivia o deus do Trovão, um ser inconstante que passava de uma enorme alegria para uma fúria completa. Assim, também o rio mudava de caráter de acordo com os caprichos do deus, às vezes correndo tranqüilo com a superfície das suas águas mansa tal como um es¬ pelho brilhante onde se refletiam as várias paisagens de ambas as margens e, outras vezes, convertendo- se subitamente num avassalador caudal, destruindo casas, alagando plantações e arrastando tudo em seu redor — os rugidos da sua impetuosa corrente fazi¬ am um barulho ensurdecedor e a terra tremia. En¬

tão, o povo dessas paragens compreendia que o deus

do Trovão estava em cólera. Assim, o rio do Trovão continuava provocando calamidades ano após ano, sem que ninguém soubes¬ se o que fazer e sem ninguém que se atrevesse a pedir

uma audiência ao deus do Trovão implorando-lhe que partisse do lago do Trovão de volta para o Céu. Ora na margem do rio do Trovão vivia um casal de anciãos com uma única filha chamada Hua Xu. Ela era uma jovem tão inteligente e bonita como corajosa e bondosa mas, como todas demais filhas únicas, acostumada a fazer sempre as suas próprias vontades. Um dia, o deus do Trovão ficando mais furioso que nunca provocou uma terrível inundação. O ca¬ sal de anciãos disse suspirando:

— Oh, mas quando irão terminar estas calami¬

dades?! As inundações voltaram a arrasar nossas casas re¬

cém construídas e a engolir todos os nossos gados.

/

— E preciso que alguém vá ao lago do Trovão

protestar contra este maldoso deus! — disse Hua Xu

indignada.

— Mas, minha filha — retorquiu o casal abanan¬

do desconsoladamente as suas cabeças — o deus do Trovão é um tirano e o melhor é não nos atrevermos

a irritá-lo!

— Como todos os outros deuses celestes o deus

do Trovão deveria igualmente viver no Céu. Por que está ele na Terra provocando calamidades aos seres humanos?! Vou é discutir com ele! — declarou a filha decididamente.

— Não sejas teimosa, minha filha! Já se passaram

muitos anos, mas até à data ninguém jamais se atre¬

— replicaram-

lhe os pais, tentando persuadi-la. A jovem permaneceu silenciosa mas, pelos seus lábios apertados e o enérgico olhar fixo, os pais pude¬ ram adivinhar que ela já tinha tomado a sua decisão.

veu a ir ao lago do Trovão. E, tu, tu

Assim, poucos dias depois, Hua Xu deixou a sua aldeia e os pais e começou a caminhar pela margem acima do rio do Trovão em direção à sua nascente. No caminho colheu frutos selvagens com que miti¬ gou a sua fome e matou a sua sede bebendo água do rio sempre caminhando, caminhando sem parar. Ao fim de vários dias apareceu-lhe subitamente pela frente um imenso lago de profundas águas negras — era o lago do Trovão. A jovem debruçou-se ob¬ servando as temíveis águas quando, de repente, irrompeu de entre ondas altas e impetuosas um monstro de rosto humano e corpo de dragão. As¬ sustada, Hua Xu recuou uns passos e escondeu-se detrás duma grande árvore mas inadvertidamente pisou numa grande pegada e sentiu-se transfixa numa posição imóvel. — Como te atreves a vir à minha divina residên¬ cia! — falou o monstro numa voz de trovão. E, sem mesmo esperar uma resposta da jovem, o deus Trovão saltou fora das águas para a margem do lago e, apanhando a jovem, levou-a nos braços para o seu palácio no fundo do lago. Embora amplo e grandioso, o palácio do deus do Trovão era despojado de mobílias. Num trípode estava pendurado um grande tambor e ao lado des¬ te estava reclinada uma gigantesca baqueta, sendo estes os instrumentos com que o deus provocava trovões. Quando, frequentemente, \iajava voando para o Céu tocava o seu tambor, ouvindo-se em si¬ multâneo o ribombar dos trovões na Terra. Por ve¬ zes, quando ficava bêbado, também tocava este tam¬ bor no seu palácio dando então lugar a impetuosas ondas tanto no lago como no rio o que causava gra¬ ves calamidades.

— Como te atreves a vir à minha divina residên¬ cia?! — repetiu o deus a sua pergunta.

— Vim aqui para discutir contigo! — respondeu-

lhe a jovem num tom tranqüilo. — Tanto o Impera¬ dor Celestial como os deuses do Vento, dos Relâm¬ pagos e todos os demais vivem sempre no Céu.

Gostaria que me explicasses por que é que tu insis¬ tes em estabelecer a tua residência aqui na Terra?

porque me apetece! — replicou

confuso o deus do Trovão num ar arrogante.

— Mas, sabes porventura que tens vindo a cau¬

sar desastres consideráveis aos habitantes que mo¬ ram nas margens do rio do Trovão — retorquia a jovem mostrando-lhe a sua indignação. Perante as palavras argumentativas de Hua Xu, o deus do Trovão, apesar da sua crueldade e violên¬ cia, não conseguiu encontrar nenhuma réplica ime¬ diata, admirando antes a coragem da jovem e sen¬ tindo-se ficar arrastado, apaixonadamente, pela sua

— Porque

presença.

— Então está bem! Em breve partirei de novo

para o Céu; no entanto, ponho uma condição: que¬ ro que aceites ser minha esposa. De qualquer ma¬ neira, já não tens quaisquer possibilidades de regres¬ sar à tua terra natal — disse-lhe o deus do Trovão a

meia voz. Admirada, a jovem quedou-se pensativa com um ar hesitante e o deus do Trovão aproveitou para acrescentar num tom suave:

— Fica tranqüila que daqui para diante tratar-te- ei como mereces. Ao ver que o deus do Trovão tinha aceitado cumprir o que ela lhe pedia, Hua Xu decidiu ca-

sar-se com ele; este, a partir de então, passou a tratá-la sempre com a maior das bondades e des¬ velos e, contendo-se de soar o tambor desnecessa¬ riamente, o lago e o rio, passaram a ter uma sere¬ na tranqüilidade. Um ano depois Hua Xu deu à luz um filho e o deus do Trovão preparava-se para, definitivamen¬ te, regressar ao Céu conforme tinha prometido, acompanhado pela mulher e pelo filho. Mas, Hua Xu, pensando na sua próxima partida, começou a ter fortes saudades da sua terra natal e dos pais. Decidiu que, como ela mesma nunca mais haveria de ter possibilidades de regressar ao mundo, pelo menos o seu filho deveria crescer no Estado de Hua Xu Shi. Assim, um dia, aproveitando um momento em que o deus do Trovão se tinha ausentado, a jovem colocou a criança dentro duma grande cabaça, co¬ locando depois esta no rio e deixando-a ser levada pela corrente. Aconteceu que nesse dia, o pai da jovem se en¬ contrava pescando no mesmo rio e, com o passar do tempo, fitando as águas que corriam mansas, o ancião sentindo-se saudoso da filha, começou a cho¬ rar copiosamente quando reparou que, arrastada pelas forças das águas, se aproximava dele uma grande cabaça. Estranhando as suas dimensões, o ancião retirou-a do rio e levou-a para casa onde se decidiu a encetá-la mais a sua mulher. Mas assim que o casal a talhou saiu de dentro desta uma rosa¬ da e anafada criança envergando uma camisa bor¬ dada de flores. — Que milagre! — gritaram os dois em unísso- no. — E a camisa da nossa filha!

Seguidamente, examinaram detalhadamente os traços da criança que com a sua larga testa, a sua alva pele e as suas bem pronunciadas sobrancelhas escuras, era extremamente semelhante à sua filha. Não havia nenhuma dúvida de que o imberbe era o seu próprio neto! Este inesperado acontecimento veio dar uma grande paz-de-alma aos anciãos que tinham ficado com o coração dilacerado, primeiro com o afasta¬ mento da sua única filha e depois com a ausência de notícias. O inesperado acontecimento propagou- se de boca em boca e, tendo vindo muitas pessoas felicitá-los e para recordarem o auspicioso apareci¬ mento do neto, os avós deram-lhe nome de Fu Xi, significando que tinha sido oriundo de uma cabaça. Fu Xi, filho do deus do Trovão e da jovem Hua Xu, cresceu rapidamente e em breve se distinguiu, consideravelmente, das demais pessoas pela sua al¬ tura gigantesca, inteligência e bravura, mas o mais extraordinário era que Fu Xi tinha o poder de subir ao Céu pela “escada celeste”. Segundo uma lenda dos tempos mais remotos, a Terra e o Céu estavam ligados por uma gigantesca árvore chamada Jian Mu que, colocada no centro da Terra, era como uma “escada” natural. Esta árvore, ao contrário de todas as outras, não produzia som¬ bra sob os raios do Sol e, ao longo do seu tronco, caíam milhares de lianas bíparas em forma de cor¬ das que constituíam a “escada celeste”, por onde os deuses desciam do Céu à Terra e vice-versa. No entanto, os seres humanos não tinham a habilidade de subir ao Céu por esta “escada”. Fu Xi, sendo filho de um deus, podia subir e descer facilmente por ela.

Fu Xi amava muito a pátria onde tinha crescido e o seu povo, com quem tinha convivido desde cri¬ ança. Graças à sua inteligência sobrenatural ele ti¬ nha contribuído, de inúmeras maneiras, para o seu progresso tal como: ter inventado um habilidoso método de fazer redes de pesca inspirado pelas tei¬ as das aranhas, ter introduzido a preparação dos ali¬ mentos a quente refutando uma dieta crudívora — os seus companheiros chamando-o, respeitosamen¬ te, de Bao Xi, que significa “o melhor cozinheiro” — etc. A maior das suas contribuições foi no en¬ tanto a criação dos Oito Trigramas que representam os oito estados da natureza:

EE (Qian), ô céu; EE (Kun), a terra; FE (Kang),

a água; EE (Li), o fogo; EE (Gen), a montanha; EE (Zhen), o trovão; EE (Xun), o vento; EE (Dui),

o lago. Fu Xi explicou aos seres humanos a essên¬

cia de todos os aspectos universais contidos nos Oito Trigramas e as inter-relações entre estes. Se os hu¬ manos aprendessem a dominar as características,

relações e conversões entre os aspectos universais implícitos nos Oito Trigramas e controlassem as suas respectivas funções, estes poderiam, tal como os deuses, evitar muitos dos prejuízos causados pelas calamidades naturais e utilizar corretamente todas as coisas ao serviço do progresso e harmonia de todos. Segundo uma lenda, no processo de dominar as águas, Da Yu tinha antevisto uma grande e escura gruta no monte da Porta-do-Dragão e querendo co¬ nhecer detalhadamente o seu interior tinha entrado nela empunhando um archote quando, de repente, das suas profundezas lhe surgiram dois grandes ur¬ sos. Um deles agarrava na sua boca uma pérola re¬ luzente que iluminava o interior da gruta tal como

se fosse pleno dia enquanto o outro acenava com a cabeça em direção ao exterior dando a entender a Da Yu que os seguisse. Depois de caminharem cer¬ ca de 10 li Da Yu chegou à frente dum palácio e, no momento em que ele estava surpreso por tal apa¬ rição, os dois ursos transformaram-se em dois guar¬ das envergando uniformes pretos pondo-se de sen¬ tinela. No centro do salão principal do palácio esta¬ va sentado um deus com face humana e corpo de dragão que Da Yu imediatamente reconheceu não ser outro senão Fu Xi, o filho do deus do Trovão e da jovem Hua Xu. Da Yu saudou-o então respeito¬ samente e pediu-lhe que ele lhe desse o seu parecer sobre a melhor maneira de dominar as águas ao que Fu Xi, ficando muito honrado por tal intercessão, lhe deu uma placa de jade na qual se encontrava gravado o plano de Oito Trigramas. — Para se dominar as águas — disse-lhe Fu Xi — é preciso conhecer-se bem a topografia das mon¬ tanhas e dos rios assim como os níveis das águas e dos terrenos. Não basta arrasarem-se montanhas deixando livre a passagem das correntes, escavarem- se terras para se drenarem as águas ao mar ou cons¬ truírem-se diques e pontes; é preciso conhecer-se as suas respectivas e intrínsecas características. Só atra¬ vés do conhecimento destas e pondo em prática os seus princípios básicos, segundo o que está prescri¬ to na placa de jade e de acordo com as indicações do plano de Oito Trigramas, as águas serão domi¬ nadas e a humanidade será salva da sua miséria. Assim, graças aos Oito Trigramas, Da Yu conse¬ guiu definir as topografias das montanhas, dos ter¬ renos e dos rios e dominar radicalmente as águas.

Segundo uma outra lenda, muitos anos depois, na época da Dinastia Yin, quando o soberano des¬ pótico Zhou ocupava o trono, um seu ministro cha¬ mado Ji Chang (posteriormente eleito rei com o nome de Zhou Wen Wang) apresentou-lhe, respei¬ toso, um construtivo criticismo a propósito da tira¬ nia das suas ações, tendo por isto sido preso pelo monarca e encarcerado em Youli. Aproveitando o tempo solitário desses dias angustiados o ex-minis¬ tro dedicou-se ao estudo dos Oito Trigramas e, com¬ binando as suas próprias experiências com os pre¬ ceitos dos 8 princípios, veio a estabelecer uma série de ensinamentos ainda mais profundos. Ao anotar estes ensinamentos em anexo ao plano dos Oito Trigramas compilou assim O Zhouyi (Livro sobre as Mudanças) fazendo com que os futuros estudio¬ sos compreendessem melhor as diversas mudanças da natureza e da sociedade. Tomando em consideração as grandes contribui¬ ções de Fu Xi em relação ao bem-estar futuro da humanidade o Imperador Celestial nomeou-o rei do Estado de Hua Xu Shi. Graças às suas capacidades sobrenaturais, ao seu enorme talento e às impres¬ cindíveis ajudas dos seus valiosos ministros, o go¬ verno de Fu Xi trouxe grande prosperidade ao país. Ju Mang, o seu ministro da agricultura, era um ser de rosto humano e coipo de ave, extremamente com¬ petente e altamente respeitado pelo povo. Todos os anos, no princípio da primavera, ele voava pelos quatro cantos do globo, medindo as terras a serem cultivadas e mobilizando pessoas para as lavrar e semear — tendo por isso ficado conhecido como o deus da primavera.

Conforme os anais históricos o Estado de Hua Xu Shi era nessa altura um pais tal como o paraíso na Terra, todos os seus habitantes sendo conhece¬ dores de astronomia e sendo capazes de predizer as mudanças climatéricas conhecendo também as pro¬ priedades das montanhas, dos rios, dos terrenos e das plantas, e obtendo, infalivelmente, ótimas co¬ lheitas todos os anos. As pessoas viviam, também, até uma adiantada idade, muitos anciãos tendo mais de 100 ou 200 anos. Neste paraíso terrestre as águas não afogavam os mortais, nem o fogo os queima¬ va, nem as brumas e as nuvens lhes toldavam a vis¬ ta, nem os trovões lhes prejudicavam os ouvidos; podendo estes, inclusive, atravessar as montanhas e os rios com a mesma facilidade com que se deslo¬ cavam nas planícies. Graças ao entendimento total do plano dos Oito Trigramas de Fu Xi os habitan¬ tes do Estado de Hua Xu Shi conseguiram possuir capacidades sobrenaturais e assim levarem uma vida ideal. Mesmo nos tempos atuais aqueles que se de¬ dicam ao estudo dos Oito Trigramas têm vindo a afirmar que muitos dos conhecimentos adquiridos através destes podem inspirar as pessoas a conhe¬ cer melhor e dominar mais seguramente as leis da natureza.

CONTOS DE PAÍSES IMAGINÁRIOS

Em Gun E e Da Yu, os Deuses que Dominaram

s

as Aguas da Terra foram narrados os méritos de Da Yu no processo de controlar as águas, as suas aven¬ turas nas suas inspeções, as coisas extraordinárias que tinha visto e os seus deslumbrantes encontros com estrangeiros durante as suas viagens. Após ter dominado as águas, Da Yu contou todos estes rela¬ tos aos seus ministros e mandou o seu secretário, Bo Yi, anotá-los. Diz a tradição que o relato destes encontros constitui os dados originais do Shan Hai Jing (Livro dos Montes e Mares) — os seguintes contos, de Países Imaginários, são alguns dentre eles.

O PAÍS DOS GIGANTES

Um dia, encontrava-se Da Yu à procura de um lugar para a drenagem das águas quando chegou a uma grande ilha chamada Bogushan, situada a leste do Mar Bohai, perto do lugar do nascer do Sol e da Lua. Depois de âtracar o seu barco, Da Yu anteviu ao longe uma colina, mas depois de caminhar mais de uma dezena li na sua direção, pôde ver que a colina não era mais do que um enorme edifício de cor pardacenta. Sobre o portão de entrada estava colocada uma tabuleta onde estava escrito: Palácio dos Gigantes. No centro do salão principal estava um gigante com os seus dois grandes braços aber¬ tos pronunciando um discurso, em volta deste en¬ contravam-se outros cinco ou seis gigantes de có¬ coras. De há muito que Da Yu já tinha ouvido falar de um país de gigantes chamado Long Bo, a leste do Mar Bohai, cujos habitantes eram descendentes dum dragão, chegando eles a atingir cerca de trinta e tantos metros de altura e sendo o seu prazo de crescimento trinta e seis anos. A nascença, já os imberbes tinham fartos cabelos brancos e a sua al¬ tura ultrapassava a dos homens normais. Na realidade, o Palácio dos Gigantes não era mais do que um enorme salão de assembléia onde os gigan¬ tes se reuniam para discutirem assuntos pertinentes

ao seu país. A vozearia dos gigantes era tão forte que, dir-se-ia, ser o ribombar de grandes tambores e, não podendo suportar tal barulho, Da Yu afastou-se do edifício voltando à orla do mar. A pouca distância da praia, Da Yu avistou um gi¬ gante que estava pescando num barco minúsculo para ele mas que, de fato, era tão grande como um navio militar. Havia ainda outros que estavam pescando de pé dentro da água, as maciças ondas do mar encape¬ lado chegava-lhes somente às suas cinturas. De re¬ pente, dois gigantes gritaram de alegria e arremessa¬ ram um peixe à praia que não era nada menos do que uma baleia! No entanto, a baleia seria só suficiente para a refeição de uns poucos gigantes. O que estava acontecendo mantinha Da Yu to¬ talmente absorto quando, de súbito, ouviu um gran¬ de ruído de passos rebentar-se nas suas costas. Vi¬ rou-se e vendo que um gigante estava caminhando em direção a ele e se preparava para, inadvertida¬ mente, precipitar o seu pé — tão grande como uma pequena embarcação — sobre a sua cabeça, Da Yu gritou a toda força:

— Ei, toma atenção!

Perplexo, o gigante inclinou-se à procura da ori¬ gem da voz que lhe tinha soado tão fraca como o zumbido de um mosquito. Na sua terra natal, Da Yu

era considerado como um homem alto e forte, mas

no país dos gigantes a sua estatura não ia para além do calcanhar de um gigante.

— Mas donde vens tu? — perguntou o gigante

a Da Yu num tom surpreso, contudo, suave. — De muito longe — respondeu-lhe Da Yu apon¬ tando em direção do oeste. — Vim aqui ter a fim de procurar um lugar ideal para drenar as inundações.

O prosseguimento da conversa entre ambos aca¬ bou por atrair a atenção dos outros gigantes que rodearam Da Yu, uns sentando-se na areia e outros, simplesmente, de cócoras, pondo-se em breve todos a discutirem sobre os meios de se dominarem as águas. Assim, eles disseram-lhe que no mar, a pou¬ ca distância de Bogushan, havia um lugar chamado Gui Xu que era na realidade um vale sem fundo e que este vale, provavelmente, seria o local ideal para vir a ser o vazadouro das inundações — bastaria somente que as inundações fossem canalizadas ao rio Amarelo que então drenaria as suas águas no imenso mar. Mas as desembocaduras do rio Amarelo estão há muito entupidas! — retorquiu Da Yu. — Será pre¬ ciso dedicar colossais esforços antes que nós, os humanos, consigamos dragar o seu sedimento. — Mas nós podemos ajudar nesse aspecto — responderam em uníssono os gigantes. Assim, pouco tempo depois, guiados por Da Yu, alguns dos gigantes foram ao delta do rio Amarelo e de pé. no meio da água do rio, com os seus possantes braços e grandes mãos, come¬ çaram a dragar o sedimento lançando-o ao mar. Bastaram poucos instantes apenas para que as águas do rio começassem a correr impetuosamen¬ te para o mar. Da Yu, tendo ficado rejubilante, apresentou-lhes os seus agradecimentos em nome de todos os povos. Porém, ele não se atreveu a convidá-los a visitar o seu país natal, preocupado de que os gigantes pudessem incautamente vir a pisar casas ou pessoas, destruindo-as ou matando- as, durante a sua estada.

O PAIS DOS ANOES

Ainda mais longínquo que o Mar do Sul, havia um país chamado Jiao Jiao onde viviam apenas anões. Um dia, fatigado após uma longa viagem, Da Yu deitou-se numa praia desse país aí adormecen¬ do. Ao despertar sentiu-se invadido por umas cóce¬ gas insuportáveis, como se muitos e minúsculos insetos estivessem subindo sobre o seu corpo. De¬ pois de observá-los de maneira minuciosa, Da Yu descobriu que estes não eram mais do que peque¬ nos anões com duas ou três polegadas de altura, que subiam aos seus ombros tal como se fossem alpi¬ nistas. Excetuando a sua altura, os anões tinham a mesma fisionomia que a dos homens normais e ves¬ tiam o mesmo estilo de indumentária. Repleto de curiosidade, Da Yu continuou obser¬ vando-os sem mexer o seu corpo. Equipe após equi¬ pe, os anões estavam, agora, subindo ativamente pelos seus braços e pernas, uns mesmo a cavalo e outros, conduzindo matilhas de cães. No entanto, os cavalos eram do tamanho de pequenas rãs, enquanto os cães de caça não maiores do que grilos. A fren¬ te de todos, um valente correu para a ponta do na¬ riz de Da Yu empunhando uma bandeira nas mãos. Seguindo o porta-bandeira, um pequeno exército marchava a passos ritmados, seguindo palavras de comando, mas a voz era tão fraca, que Da Yu não conseguiu entender nada. Quando o pioneiro che¬ gou à ponta do seu nariz e tentou introduzir o es¬ tandarte dentro de uma das suas narinas, Da Yu sentiu tamanhas cócegas que teve de levantar-se e dar um enorme espirro provocando assim um

V

enorme desastre, fazendo com que todos os anões caíssem rebolando conjuntamente com seus cavalos e cães de caça. Somente nesse momento, Da Yu veio a aperce¬ ber-se que estava no país dos anões. Segundo a sua memória, era ele ainda criança quando, tinha pela primeira vez, ouvido um conto sobre este país: os seus habitantes eram inteligentes e sabiam fabricar diversos instrumentos e, na época do imperador Yao, as autoridades deste país tinham enviado alguns dos seus habitantes presentear o soberano com uma fle¬ cha “sem plumagem estabilizadora” — o imperador Yao elogiou-os largamente por tal e maravilhosa invenção. Segundo reza uma lenda, os inimigos mais cru¬ éis dos anões, eram os grous brancos. Todos os anos, na época da colheita, esses grous convergiam, vo¬ ando de outras ilhas, para o país dos anões, comen- do-lhes as plantações e, inclusive, bicando-os impiedosamente. Para debelar tal calamidade, o imperador Yao mandou uns anões a um país cha¬ mado Da Qin, pedir a ajuda dos seus habitantes, que eram uns gigantes com cerca de 30 metros de altu¬ ra. Graças à proteção efetiva prestada por estes gi¬ gantes, os grous brancos nunca mais se atreveram a vir molestar os anões, levando estes, então, uma vida de paz e tranqüilidade. Segundo outros mitos relativos à história dos Países Imaginários, existiam ainda alguns outros países de anões, sendo o Estado de Gu Guo — situ¬ ado ainda mais para além do Mar do Oeste — um deles. Os seus habitantes tinham a altura, em mé¬ dia, de umas seis ou sete polegadas, sendo muito cultos e civilizados. Sabiam ler e escrever, eram

extremamente corteses e hospitaleiros e, seguindo os preceitos cerimoniais da antiga China, também eles se ajoelhavam, respeitosamente, perante o rei ou os idosos, quando recebidos por estes. E para além disso, os habitantes deste país possuíam ain¬ da, capacidades sobrenaturais, tais como: desloca¬ vam-se com a velocidade do vento e viviam até cerca de 300 anos, sendo o cisne, o único animal capaz de os matar. Os cisnes destas paragens eram aves grandes e ferozes que tinham prazer em picar e engolir os anões mas, mesmo depois de serem en¬ golidos, por vezes, ainda continuavam sobreviven¬ do no estômago destes animais. Segundo uma len¬ da, uma vez, após um caçador ter morto um destes cisnes, ouviu gritos provenientes das suas entranhas. Cheio de curiosidade, o caçador abriu a ave ao meio e, subitamente, de dentro dela, saltaram muitos anões. Por isso, as pessoas também costumavam apelidar esses anões de “homens-cisnes”.

O PAÍS DOS IMORTAIS

No decurso das suas viagens marítimas, Da Yu teve a oportunidade de visitar uns países onde vivi¬ am os imortais. Segundo uma lenda, para além do Mar do Nor¬ te, havia uma ilha chamada Wu Ji (sem descenden¬ tes), os seus habitantes eram imortais e sem descen¬ dentes. Eles moravam em grutas, nas montanhas da ilha e comiam exclusivamente um tipo de peixe, desconhecido presentemente, que se chamava

“peixe voante”, Como os habitantes deste país eram assexuados, logicamente, não se casavam nem constituíam famílias. Após terem vivido um certo número de anos, os habitantes “morriam” tempora¬ riamente e, embora fosse prática comum, os seus cadáveres eram enterrados mas os seus corações continuavam a bater e os seus corpos não apodreci¬ am. Depois de um período de gestação, de cerca de 120 anos, os “mortos” ressuscitavam e continuavam vivendo e assim iam vivendo e “morrendo” altema- tivamente; a população mantinha-se constante e o país era extremamente próspero. Para além do Mar do Sul, havia uma outra ilha semelhante à primeira, chamada de A Xing, por todos os seus habitantes terem o mesmo sobrenome de A. A cor da sua pele era preta, e, fisicamente, eram bem constituídos, cheios de vigor e de juven¬ tude, e com o dom de poderem viver etemamente, por se alimentarem exclusivamente de frutos das árvores imortais e se refrescarem nas águas da Fon¬ te Vermelha. Graças às árvores imortais e à Fonte Vermelha, os animais que viviam neste país eram, igualmente, imortais, existiam morcegos com mais de mil anos, sapos com dez mil e muitos outros. Para além do Mar do Oeste, existiam, ainda, dois países dos imortais: o primeiro chamado de Huangdi e o segundo chamado dos Brancos. O Estado de Huangdi, estava situado, adjacen¬ te, à Montanha de Qingshan, sendo a fisionomia dos seus habitantes muito estranha, pois tinham cabe¬ ças humanas e corpos de jibóias. Segundo uma len¬ da, numa guerra que tinha outrora entre Huangdi e Chiyou, o povo deste país tinha ajudado os de Huangdi a vencerem o demônio de Chiyou ganhan-

do assim méritos militares. Após a vitória, os habi¬ tantes de Huangdi construíram um outeiro ao qual chamaram de Outeiro de Huangdi, significando des¬ te modo que ambos os povos deste país e de Huangdi, tinham saído igualmente vitoriosos sobre os de Chiyou. Os seus habitantes podiam, pelo me¬ nos, viver até 800 anos, sendo muitos os homens que contavam mais de dois mil anos de idade. Os habitantes do Estado dos Brancos tinham os seus ca¬ belos e peles tão brancos como a neve e possuíam também uma prolongada longevidade. Segando uma lenda, neste país vivia um gênero de animais sobre¬ naturais que se chamavam, Cheng Huang e tinham o corpo coberto de pêlos dourados, uma longa e grossa cauda, fisionomia de raposa, dois chifres sobre o dorso e eram capazes de correr tão depres¬ sa como o vento, sendo, portanto, também apelida¬ dos de Fei Huang (Amarelos Velozes). Se alguém montasse um deles por só uma vez que fosse, já poderia viver, pelo menos, por mais dois mil anos. A origem do provérbio chinês que diz: “Que alcance a tua boa sorte com a velocidade de um Fei Huang” provém do conto acima mencionado.

O PAÍS DOS MANETAS

No pólo Oeste da Terra havia um país de mane¬ tas. Todos os seus habitantes eram manetas, sendo, no entanto, o único braço que possuíam, extrema¬ mente longo. Quando se punham de pé, o braço chegava-lhes aos calcanhares. Outra das suas parti-

cularidades era terem três olhos, cada qual com um

respectivo uso diferente: o esquerdo, para ver coi¬ sas de dia; o direito, para distinguir coisas de noite;

e o do centro — tal como um telescópio — para

observar com nitidez objetos muito distanciados. Com estes três olhos, podiam descansar por turnos. Os habitantes deste país tinham capacidades de tra¬ balharem imnterruptamente, dia e noite. Eram todos dotados de grande habilidade e inte¬ ligência e, embora fossem manetas, tinham inven¬

tado e fabricado muitos armamentos maravilhosos:

catapultas, capazes de abaterem mesmo as aves mais velozes, e arcos e flechas extraordinários, que atin¬ giam os animais mais ardilosos — as suas refeições eram sempre constituídas por diversas e saborosas carnes. A carruagem voante era um dos mecanismos mais maravilhosos que tinham inventado. Nos anais da história da China não se encontra registrada a estrutura desta carruagem mas, conforme narra uma lenda, ela foi feita seguindo a imitação da Ave das Duas Cabeças e do Cavalo da Boa Sorte. O pássa¬ ro tinha plumas vermelhas e amarelas e voava ba¬ tendo as suas duas amplas asas com movimentos ca¬ denciados, a cauda, mais parecendo um leque gi¬ gantesco, e as suas duas cabeças — uma na parte anterior, e outra, na posterior — permitindo-lhe perscrutar os céus em todas as direções ao mesmo tempo. O corcel era um puro-sangue com o dorso listrado de branco, crinas vermelhas, olhos brilhan¬ tes como ouro, capaz de saltar tão alto quanto as nuvens, e correr à velocidade de um relâmpago. De acordo com ambos os aspectos destes dois animais,

e, recorrendo a estruturas de madeira, a plumas e a

outros materiais, os habitantes deste país consegui¬ ram fabricar muitos veículos semelhantes à carrua¬ gem voante, ficando capacitados a locomoverem-se com igual facilidade, tanto sobre a terra, como en¬ tre as nuvens e brumas e ultrapassavam obstáculos tais como rios e montanhas. Durante a sua estada no país dos manetas, Da Yu foi convidado a visitar, na carruagem voante, todas as paragens do pólo Oeste, sendo, depois, transportado de regresso às Planícies Centrais da China num abrir e fechar de olhos, apesar de a dis¬ tância percorrida ter sido de centenas de milhares

de li.

O PAIS DOS HOMENS DE LONGOS BRAÇOS

Ao sul do país dos manetas havia um outro país:

o dos homens de longos braços. A estatura dos seus habitantes era, mais ou menos, a mesma que a dos humanos, no entanto, os seus braços tinham cerca de dez metros de comprimento. Quando, não saben¬ do como e onde haveriam de colocar os seus bra¬ ços, eles reclinavam-se nos mais altos troncos das árvores deixando-os pendurados por entre as rama¬ gens, tal como os orangotangos. Quando queriam comer, os seus braços permi¬ tiam-lhes apanhar as frutas das árvores mais altas e, quando queriam pescar, sentavam-se na orla ma¬ rítima e estendiam os seus longos braços sobre as ondas, apanhando, agilmente, uma quantidade de

peixes e camarões, suficientes para lhes matar a fome. No entanto, como quando pretendiam pescar maiores peixes, tinham de se fazer ao largo e en¬ frentar o mar alto, costumavam pedir a ajuda dos habitantes dum outro país vizinho: o país dos ho¬ mens das pernas compridas. O corpo dos habitantes deste país era, mais ou menos, o mesmo que o dos humanos, contudo, as suas pernas eram muito compridas e finas, asseme- lhando-se a um grande compasso. Quando, portan¬ to, os homens de longos braços queriam pescar gran¬ des peixes no mar alto, iam, freqüentemente, ao país vizinho pedir cooperação e, empoleirando-se aos ombros dos homens de pernas compridas, penetra¬ vam, conjuntamente, no mar alto pondo, assim, em pleno funcionamento, sincronizado, as suas respec¬ tivas capacidades de pesca. Isto vem demonstrar o talento e a inteligência dos povos de ambos os paí¬ ses que, não só sabiam aproveitar ao máximo as suas próprias vantagens, como, também desenvolveram métodos de se compensarem mutuamente.

O PAIS DOS HOMENS-AVES

No Sudeste da China havia uma região fronteira

ao Mar do Sul, coberta de montanhas sulcadas por inúmeros vales de pujantes florestas, onde vivia um número sem-fim de raras e atraentes aves. Dentre todas, a fênix era a mais rara e maravilhosa, com a sua longa cauda de plumas multicores e um trinar mais agradável que todos os instrumentos musicais.

Tradicionalmente, a fênix era um símbolo de santi¬ ficação e pureza, pois, comia somente bambu, be¬ bia apenas água da fonte cristalina e não pousava em nenhum outro lugar a não ser na estercúlia. Era realmente uma ave mágica excepcionalmente vis¬ lumbrada! Desde os tempos mais remotos que os homens tinham considerado a sua aparição e ima¬ gem como símbolo de boa sorte e pacífica harmo¬ nia. No entanto, este país abundava em fênix que voavam por toda parte juntamente com os outros pássaros, também lindos e preciosos. Existia aqui exclusivamente uma espécie de pássaros que, por só terem uma asa e um olho, só podiam voar em pa¬ res, os quais eram chamados “aves acasaladas” e tidos como símbolo do amor eterno e da perfeita união. Um dia, cansado por uma longa marcha, Da Yu ao sentar-se debaixo duma árvore para repousar, ouviu uma voz sussurrante entre a densa ramagem e, levantando a cabeça, apercebeu-se de um par de jovens conversando enlevadamente. Como a folha¬ gem era muito compacta os jovens não se tinham apercebido da chegada de Da Yu e este, aproveitan¬ do-se da ocasião e querendo perguntar-lhes a confi¬ guração da terra e a direção do caminho que devia prosseguir, dirigiu-lhes umas palavras de saudação, mas os dois jovens, sentados nas ramas altas, em vez de descerem pelo tronco da árvore como seria normal, subiram ainda mais e, esvoaçando em re¬ dor da árvore, aterraram lentamente na sua frente. Foi só nesse momento que Da Yu descobriu que cada um deles tinha um par de asas. Em verdade, eles dois eram habitantes do país dos homens-aves. Todos os habitantes desta região

tinham asas e podiam escolher entre andar ou voar a qualquer momento, estando também munidos com uma boca em forma de bico e eram ovíparos. Os homens-aves viviam de pesca e costumavam voar em largos bandos sobre o mar, sendo tão ágeis como gaivotas e bastando-lhes pouco tempo apenas para pescarem muitos peixes. Graças às suas bocas em bico, podiam facilmente apanhar e transportar os peixes para a praia onde, depois sentados, em redor duma fogueira, comiam alegremente as suas saborosas presas. Os homens-aves gostavam também de dançar e quando chegava a primavera e as flores desabrocha¬ vam, reuniam-se num soberbo lugar da floresta onde dançavam e cantavam celebrando, assim, o começo do novo ano estival. As fênix nunca deixavam de vir e assistir a estas festas, o seu magnífico trinar era maravilhoso, mais que qualquer música concebível. Homens e mulheres, velhos e novos, todos dança¬ vam, e quando as celebrações chegavam ao apogeu, as fênix, por vezes, comparticipavam abrindo as suas largas caudas multicolores, batendo o ritmo a com¬ passo. Era então um espetáculo maravilhoso!

DEMÔNIOS E FERAS BESTIAIS

Durante uma prolongada viagem, Da Yu visitou nove continentes e atravessou quatro mares, no en¬ tanto, nem todos os lugares por onde passou eram acolhedores: na realidade, algumas destas regiões eram habitadas por demônios hostis e feras bestiais.

Na extremidade do Mar do Sul, havia uma re¬ gião toda em chamas, habitada por demônios de cara humana e corpos peludos, monstruosos, que das suas bocas gigantescas lançavam constantemente labare¬ das e fumo, atacando, assim, os animais, as aves e mesmo os humanos. Na costa do Mar do Sul havia, ainda, um pais de homens-crocodilos tendo os seus habitantes uma cabeça humana, a bocarra dos crocodilos, o corpo coberto de densos pêlos pretos e, mais estranho ain¬ da, dois gigantescos pés virados para trás. Se en¬ contrassem alguém, primeiro lançavam uma terrível gargalhada para depois saltarem sobre o desgraça¬ do engolindo-o por completo. Estes demônios vagabundeavam pelas florestas levando com eles flautas de bambu que tocavam produzindo uma melodia dolente. Entre os países imaginários havia uns mais ina¬ cessíveis que outros, tais como: o dos homens zaro¬ lhos — cujos habitantes só tinham um olho locali¬ zado verticalmente no centro do rosto; o dos homens dos peitos furados; o dos homens com três cabeças — cujos habitantes podiam olhar em três direções ao mesmo tempo e pronunciar simultaneamente três vozes diferentes. No que se refere às feras bestiais, os países ima¬ ginários possuíam numerosos e diversos gêneros, das quais só citaremos aqui algumas. Havia umas chamadas Qiong Qi, semelhantes aos tigres, mas com duas asas gigantescas. Eram tão gananciosas quanto cruéis e quando conseguiam capturar um ser humano começavam a roê-lo pela cabeça a acabavam nos pés, engolindo mesmo to¬ dos os seus ossos e cabelos.

Havia um gênero de raposas com nove caudas aparentemente esbeltas e encantadoras, de focinho pontiagudo, pêlos dourados e espessas caudas, mas que, na realidade eram extremamente manhosas, podendo-se metamorfosear em terríveis criaturas, transformando-se, por vezes, em figuras de lindas jovens que atraíam os homens devorando-os depois. Nas florestas das montanhas do Norte da China havia um gênero de borboletas vermelhas, do tama¬ nho de elefantes, que sobreviviam sugando o san¬ gue de outros animais. Uma outra fera bestial era um gênero de abelha venenosa de cor preta que, quando esvoaçava, emi¬ tia um zumbido que se transmitia a vários quilôme¬ tros de distância, sendo a sua picada muito doloro¬ sa e o veneno dela, mortal. Em certas regiões meridionais vivia à beira dos lagos um animal extremamente venenoso chamado Yu, que tinha apenas três polegadas de comprimen¬ to mas uma carapaça tão dura como uma tartaruga. Era um ser extraordinariamente sinistro e cruel que habitualmente se escondia nos lugares sombrios esperando a passagem de uma presa fácil. Se alguém passasse pelas vicinalidades donde estava embosca¬ do, o animal abria a sua boca lançando um jato venenoso quer sobre a pessoa, ou no seu reflexo, na água, causando-lhe assim uma morte violenta. No entanto, graças à existência dum país adjacente a esta região, cujos habitantes eram bons caçadores, apre¬ ciavam comer a carne dos Yu conjuntamente com legumes, estes animais estavam em vias de extinção e os humanos estavam menos ameaçados. Segundo umas lendas antigas, depois de domi¬ nar as águas, os povos de todo o mundo passaram a

respeitar Da Yu como o salvador da humanidade, elegendo-o como o seu soberano. Para se precaver da latente ameaça dos demônios hostis e das feras bestiais aos seres humanos, Da Yu ordenou que to¬ dos os lugares onde se produzia objetos de ferro e bronze tinham que entregar uma determinada quan¬ tia das suas matérias-primas para com estas se fun¬ direm nove tripodes gigantescos nos quais, basean¬ do-se nas experiências e recordações de todas as suas viagens, ele fez cinzelar todas as figuras de demô¬ nios e feras bestiais assim como as suas regiões de origem de modo a ajudar a humanidade a precaver- se melhor contra estes.

AS ILHAS DOS IMORTAIS

Antigamente, os mares eram tão impetuosos, que as suas altíssimas ondas podiam alcançar o Céu e tão vastos, que milhares e milhares de rios desemboca¬ vam neles dia e noite — até mesmo as águas do Rio Celeste (Via Láctea) corriam para eles. No entanto, os mares nunca transbordaram. Por que é que os mares eram então assim? Uma lenda conta que a dezenas de milhares de //, a leste do Mar Bohai, havia um grande vale submerso chamado Gui Xu — que significa o “lugar de retorno das águas” —, na realidade tratava-se de um vale sem fim. Na vasta superfície marítima do “lugar de retor¬ no das águas” havia cinco ilhas flutuantes de alcan¬ tiladas e majestosas montanhas: Daiyu, Yuanjiao, Fanghu, Yingzhou e Penglai. Para chegar aos pínca¬ ros de qualquer uma destas montanhas era preciso

seguir serpentuosos caminhos — o menor dos quais tinha mais de trinta mil li —, que desembocavam em amplos planaltos — cada um com cerca de nove mil li de periferia. As cinco ilhas estavam alinhadas no mar, distanciadas umas das outras de setenta mil li, na lonjura, frações dos seus altos picos aparecendo entre nuvens auspiciosas e, nos tempos mais claros, podia-se mesmo ver os perfis dos seus magníficos pavilhões e palácios. As ilhas eram conhecidas pelas cinco Ilhas dos Imortais, por nas suas cinco montanhas se situarem as residências dos imortais, constituídas por paláci¬ os e pavilhões de ouro e jade. Nas encostas das suas montanhas cresciam numerosas flores e raras árvo¬ res de fruto e todos os animais e aves que aqui ha¬ bitavam, eram tão brancos como a neve. Uma árvo¬ re, em particular, produzia pérolas e uns frutos muito brilhantes, em forma de cristais, a ingestão de um só dos quais transformava qualquer ser humano num imortal. Todos os habitantes destas ilhas eram imor¬ tais e descendentes do Imperador Celestial possuin¬ do os dons, quer de ascenderam às nuvens, ou de vagarem de ilha para ilha, conforme quisessem. Embora a altitude de cada uma das montanhas fosse colossal, estas cinco ilhas eram flutuantes e deslocavam-se perpetuamente para o Oeste, como se fossem gigantescos navios, o que causava grande preocupação aos seus imortais habitantes, pois se continuassem na sua inexorável progressão, seriam arrastadas até o pólo Oeste, o qual, segundo uma lenda, era um lugar extremamente frio e sombrio onde nunca tinha aparecido nem o Sol nem a Lua, sendo a sua única fonte de luz, uma tênue claridade proveniente de uma vela segura na boca dum animal

chamado de “dragão da vela”. Numa palavra, o pólo Oeste era um lugar avassalador! Um dia, os imortais das cinco ilhas decidiram subir ao Céu para relatarem conjuntamente as suas preocupações ao Imperador Celestial. Depois de os ouvir, o Soberano enviou um dos seus ministros, o deus dos mares chamado Yu Jiang, resolver o pro¬ blema. Yu Jiang mandou então que 15 gigantescas tartarugas carregassem, às costas, essas cinco ilhas para a eternidade, no entanto, para lhes aliviar o cansaço, o deus dividiu-as em três turnos alternan¬ do-os cada 60.000 anos. Claro que a missão de car¬ regarem às suas costas as ilhas era um trabalho ex¬ tremamente duro, mas as 15 tartarugas não tinham outra alternativa senão obedecerem às ordens de Yu Jiang e, assim, passaram a suportar as montanhas esticando as suas cabeças à tona das ondas e não se atrevendo a deslocarem-se minimamente. A partir de então as cinco ilhas, originalmente flutuantes, permaneceram estáticas desafiando as furiosas on¬

das, as impetuosas correntes e os freqiientes tufões

e os seus imortais habitantes vivendo dias tranqüb los sem mais nenhuma preocupação. Contudo, tal como os seres humanos, os imor¬

tais também vieram a encontrar alguns percalços imprevistos. A uma distância de 46.000 li da costa do Mar do Leste havia uma montanha chamada Bogushan ao pé da qual, havia um pais de gigantes chamado, o Estado dos Dragões. Todos os seus ha¬ bitantes eram tão altos que quase alcançavam o Céu

e alimentavam-se principalmente de grandes peixes

e tartarugas-gigantes marítimas. Ora, certo dia, alguns dos gigantes, tendo ido à pesca nas costas do Mar do Leste, subitamente aper-

ceberam-se que algumas tartarugas gigantescas apa¬ reciam e desapareciam por entre as altas ondas marí¬ timas esticando as suas cabeças fixamente. Basta¬ vam-lhes dar alguns passos para atravessarem as águas duma longa distância lançando então as linhas com as iscas para as águas onde trabalhavam as tarta¬ rugas. As tartarugas, que não tinham comido nada durante várias dezenas de milhares de anos, ao verem alimento esticavam imediatamente os seus pescoços e tragavam as iscas. Então, aos gigantes do Estado dos Dragões bastou-lhes puxarem as linhas para as apa¬ nharem e depois de comerem as carnes secaram ainda os seus ossos fazendo-os em lascas e utilizaram as suas carapuças como tetos de tendas abrigando-se assim melhor contra o vento e a chuva. Logo após a morte das seis tartarugas, duas das cinco ilhas, as Dayu e Yuanjiao, perdendo o seu suporte, recomeça¬ ram a flutuar imediatamente em direção ao pólo Oes¬ te. Os imortais destas duas ilhas apercebendo-se do que estava acontecendo, emigraram apressadamente para as outras que ainda se mantinham imóveis não tardando que, pouco tempo depois, ambas as ilhas Dayu e Yuanjiao fossem arrastadas pelas impetuosas correntes e pelos incontáveis tufões para o pólo Oeste vindo-se a afundar nas profundezas marítimas. O que aconteceu provocou tamanha cólera ao Imperador Celestial que, para castigar os gigantes do Estado dos Dragões e valendo-se dos seus pode¬ res sobrenaturais, ele reduziu não só a extensão deste pais como a estatura dos seus habitantes. Mesmo assim, diz-se que eles continuaram com uma altura de cerca de dez metros, a qual, se bem que fosse ainda considerável, pelo menos os impedia de pes¬ carem à linha quaisquer outras tartarugas-gigantes.

A partir de então, no Mar Bohai restaram só três ilhas de imortais: Fanghu, Yingzhou e Penglai. No período dos Reinos Combatentes (475-221 a.n.e.) os monarcas dos reinos de Qi e Yan vieram a saber da

existência destas três ilhas dos imortais e de nestas se encontrar o elixir de imortalidade. Querendo go¬ zar eternamente das glórias e riquezas que tinham acumulado, estes dois reis ordenaram aos seus sú¬ ditos que fabricassem várias centenas de grandes embarcações e que partissem em demanda destas ilhas com o fim de obter o elixir de imortalidade. Contudo, pouco tempo após a partida da expedição, uma grande tempestade de gigantescas e furiosas ondas fez com que todos os barcos se afundassem, só poucos homens conseguiram escapar da tragédia. Segundo os relatos dos sobreviventes, após vários dias de navegação todos tinham efetivamente con¬ seguido vislumbrar as três ilhas dos imortais pairan¬ do entre densas nuvens brancas e flutuando alinha¬ das nos confins do mar mas, quando os barcos se aproximaram delas, as três ilhas tinham misteriosa

e subitamente desaparecido. E tinha sido quando os

barcos persistiram em continuar na direção das ilhas desaparecidas, que uma tempestade furiosa se aba¬

teu bruscamente impedindo o avanço das embarca¬ ções e fazendo-as capotar no seio das altas ondas. Ninguém podia confirmar se esses relatos eram ver¬

dadeiros ou não, mas a verdade é que nenhum dos reis que tentaram obter o elixir de imortalidade veio

a alcançar o seu objetivo e, naturalmente, acabaram por morrer uns após os outros. Segundo a lenda, o imperador Qin Shi Huang —

o primeiro imperador da Dinastia Qin — em plena

satisfação pela sua unificação da China (221 a.n.e.)

também sonhava em ser um imortal. Sob os auspí¬ cios dos seus ministros e demais subordinados, ele viajou, pessoalmente, para a montanha Huiji orga¬ nizando neste local uma enorme oficina, onde algu¬ mas dezenas de milhares de trabalhadores vieram a fabricar cerca de mil embarcações; após a sua con¬ clusão, o monarca obrigou um número considerᬠvel dos seus homens a navegar em direção às ilhas dos imortais em busca do elixir da imortalidade. No entanto, este seu colossal empreendimento também não logrou obter bons resultados e, inclusivamente, nenhum dos seus enviados regressou à terra natal. Por ironia do destino o imperador Qin Shi Huang veio a morrer no caminho do regresso da montanha Huiji à sua capital. Durante a Dinastia Han, no reinado de Wu Di (156-87 a.n.e.), um ocultista chamado Li Shaojun contou um dia ao imperador que, encontrando-se uma vez viajando numa rota marítima, tinha travado conhecimento com um imortal chamado An Qi Shen que estava comendo uma jujuba, tão grande como uma melancia, sendo o suco desta fruta realmente o elixir mágico das montanhas do além-mar. Impressi¬ onado pelas palavras do ocultista, o imperador Wu Di ordenou que um exército de homens fabricasse embarcações, enviando depois um grande número dos seus subordinados nestas à procura do elixir da imortalidade. Contudo passaram-se meses e anos e até à sua morte o imperador esperou sem receber quaisquer notícias da expedição marítima. Desde então até agora, o conto sobre as Ilhas dos Imortais permanece tal como uma lenda sem que ninguém pudesse confirmar a existência de tais ilhas!

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O VELHO TONTO QUE REMOVEU AS MONTANHAS

Antigamente, havia um ancião a quem chama¬ vam de Tonto das Montanhas do Norte e que vivia em Jizhou, na China. Mas por que o chamavam de “Tonto”? Será que era mesmo tonto? Não! De fato, sob múltiplos aspectos, ele era um bom mestre: um experiente cultivador, caçador, marceneiro, carpin¬ teiro, pedreiro, etc. Então, era por ser estúpido? Longe disso, antes pelo contrário, ele era um ho¬ mem hábil e inteligente na liderança de qualquer assunto. O que aconteceu foi o seguinte: exatamen¬ te porque era um homem bondoso e honesto, inca¬ paz de fazer armadilhas, que jamais pensava em cambalachos, e estava sempre pronto para executar quaisquer tarefas, árduas e difíceis, aos olhos dos homens de recursos mais ardilosos ele era um “ton¬ to” e, por isso mesmo, estes lhe deram o apelido de Velho Tonto. O Velho Tonto, de quase noventa anos de ida¬ de e com uma família feliz, composta de nume¬

ainda não reconhecia a sua

velhice e continuava trabalhando

aos seus filhos e netos. Um dia, alguns vizinhos

rosos filhos e netos,

na terra junto

aconselharam-no:

/

— O Velho Tonto, já estás tão idoso; devias dei¬ xar que os teus filhos e netos trabalhassem por ti! Será que não queres gozar da felicidade no resto da tua vida?! — Agradeço-vos a vossa simpatia, mas não a posso aceitar pois ainda gozo de uma boa saúde e, enquanto não for para o outro mundo será um gran¬ de prazer para mim continuar a trabalhar durante o resto dos meus dias — disse-lhes sorrindo o Velho Tonto. — Se não trabalho, perco o apetite e aborre¬ ce-me ficar em casa sentado de braços cruzados. E o ancião continuava trabalhando

mas, aos olhos dos outros homens ele era mais tonto ainda. Com o constante aumento da família do Velho Tonto, era necessário lavrarem-se mais terras de ano para ano. A lavragem de terras numa zona monta¬ nhosa não é um trabalho fácil, sendo preciso remo¬ ver pedras, transvazar terras, escavar canais de dre¬ nagem, etc. O velho tinha a capacidade de organi¬ zar as tarefas de toda a sua família enquanto conti¬ nuava trabalhando de sol a sol, desafiando o vento e a chuva, e educava assim os seus dizendo-lhes que deviam trabalhar zelosamente sem temer as dificul¬

dades nem se abonarem a preguiças. Para conseguir terra mais fértil de cultivo para os seus campos, ele chegava a trazê-la de lugares a várias dezenas de li de distância. Aos olhos dos outros homens ele tor- nava-se, de dia para dia, cada vez mais tonto. Frente à casa do Velho Tonto, havia duas mon¬ tanhas, Taihang e Wangwu, que tinham cerca de uns setecentos li de periferia e dez mil ren (o ren é uma medida de comprimento da China antiga equivalen¬ do aproximadamente a 2,5 metros) de altitude. Como a sua casa estava situada, sobranceira, às montanhas,

cada vez que ele e os seus vizinhos tinham de ir a qualquer lado, era-lhes obrigatório contorná-las e com o passar dos anos isto lhes vinha causando cada vez maiores transtornos. Um dia, o ancião decidiu reunir toda a sua família para discutir este assunto:

— Estas duas montanhas impedem-nos uma fá¬

cil passagem. De há muito que eu já tinha prometi¬

do a mim mesmo de as remover desta zona. Embo¬ ra eu não seja mais do que uma vela ao sabor do vento, ainda possuo uma boa saúde. Para que as nossas futuras gerações possam levar uma vida fe¬

liz, devemos tomar a decisão de remover de uma vez por todas, estas montanhas e, depois, até pode¬ ríamos abrir uma estrada em direção a Sul de

Henan

acordo? Todos estavam de acordo. Só a mulher do Velho Tonto disse com uma certa preocupação:

até a margem do rio Hanshui. Estão de

/

— O, meu velho! Eu estou igualmente de acor¬

do, mas estou preocupada pela tua idade. Temo que já não tenha suficiente tempo para remover nem mesmo uma colina como a Kuifu, longe de pensar que poderás vir a remover as montanhas Taihang e

Wangwu! E de qualquer maneira, para onde pensam vocês transvazar toda a terra e os pedregulhos? Os filhos e netos responderam imediatamente em coro antecipando-se ao avô:

— O avô é velho mas nós somos jovens. Quan¬

to à terra e aos pedregulhos, bastará deitarmos tudo ao Mar Bohai! E assim ficou resolvido, o Velho Tonto com os seus filhos e netos, dirigiu-se às montanhas ali es¬ cavando terras, removendo pedras e acarretando-as em cestos ou carrinhos até o Mar Bohai. Todos os

aldeões das vizinhanças, ou mesmo de lugares mais afastados, estimulados por este empreendimento, vieram juntar-se à equipe familiar ajudando-os, mesmo as viúvas e as crianças também queriam participar desta gigantesca obra. Uma viúva chama¬ da Jing, tinha um filho que começava a dar os seus

primeiros passos e até estes vieram juntar-se ao gros¬ so dos trabalhadores servindo-lhes água e comida. A obra era árdua e majestosa! A distância entre as montanhas e o Mar Bohai era considerável e cada transporte levava vários meses; no entanto, o Velho Tonto, os seus filhos e os seus netos continuaram trabalhando ininterruptamente sem se desanimarem. Vendo-os nesta constante labuta um outro velho, a quem chamavam de Velho Sábio, desatou-se um dia a rir e disse-lhes:

— Que tolice! Então não vês que velho e cansado

como te encontras não vais nem sequer conseguir re¬

mover uma fração de uma montanha como pensas tu poder remover duas tão grandes montanhas?! Ao que o Velho Tonto lhe respondeu exalando um suspiro:

— Ah! Todos te chamam de Velho Sábio, porém,

a meu ver, és menos perspicaz que uma viúva ou uma criança! Quando eu morrer ficarão os meus filhos e netos, e assim se sucederão infindavelmente as ge¬ rações. Quanto a estas montanhas, são muito altas mas já não podem crescer e a cada golpe de picareta tornar-se-ão cada vez mais pequenas. Por que razão, pois, não haveremos de acabar por arrasá-las? Então o Velho Sábio, não sabendo o que dizer, foi-se embora com ar de envergonhado e o Velho Tonto, os seus filhos e os seus netos continuaram, inabaláveis, a escavar as montanhas dia após dia.

Esta noticia chegou aos ouvidos do deus que governava estas duas montanhas, o qual, temendo perder os seus domínios territoriais, informou do que estava acontecendo o Imperador Celestial. Este, comovido pela tenacidade do Velho Tonto enviou então dois hércules celestes à Terra — os filhos de Kua E — instruindo-os que carregassem às costas as duas montanhas colocando uma delas em Shuodong e a outra em Yongnan. A partir de então, em Jizhou, não houve mais montanhas que impe¬ dissem a passagem.

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*

1

A DEUSA DOS BICHOS-DA-SEDA

A plantação de amoreiras e a criação de bichos- da-seda, eram duas importantes atividades associa¬ das, das mais lucrativas da China antiga. Mas poucos sabem, a propósito, da origem de ambas. Um conto popular relata-nos a história dos seus princípios. Era uma vez uma família constituída somente pelo pai e pela filha, esta sendo uma inteligente e bonita jovem. Um dia, o pai ausentou-se para tratar de um assunto num lugar longínquo, tendo deixado em casa a sua filha, acompanhada pelo seu cavalo branco, um vigoroso corcel que podia galopar qui¬ nhentos quilômetros sem parar, rápido como o ven¬ to e, ainda mais estranho, podia compreender a fala humana — sendo por isso chamado por todos de “cavalo prodigioso”. No momento da sua partida, o pai aconselhou a sua filha a tomar conta do cavalo com todos os cui¬ dados possíveis, dizendo-lhe que em breve estaria de regresso a casa e pondo-se depois a caminho. Após a partida do seu pai, a jovem levava uma vida solitária e ao aperceber-se que o silêncio que a ro¬ deava era insuportável, começou a falar com o ca¬ valo. Embora o animal não lhe soubesse responder,

mostrava-lhe sempre compreensão e ternura, quer acenando a sua cabeça ou agitando a sua cauda. Passaram-se dias e dias, meses e meses, sem o seu pai regressar a casa e, gradualmente, cheia de saudades pelo seu progenitor, a jovem começou a ficar extremamente inquieta. Seria possível ter-lhe acontecido um acidente no caminho de regresso?”, pensava constantemente inquieta a jovem. Certo dia, a jovem disse ao cavalo, meio a sério meio a brincar:

— O, cavalo! Será que realmente me compreendes? Se pudesses ir à procura do meu pai e encontrá- lo, garanto-te que me casaria contigo! Mal tinha acabado de falar, o cavalo saiu do es¬ tábulo galopando rápido como o vento e, em breve, desapareceu envolto pela poeira da sua corrida. Em verdade o pai encontrava-se igualmente sau¬ doso da sua filha e estava extremamente preocupa¬ do por não poder voltar ao lar, por estar gravemente doente. Ora um dia, subitamente, viu o seu cavalo aparecer-lhe pela frente. Alegremente e surpreendi¬ do, o homem montou-o imediatamente e o corcel levou-o de regresso a casa. Ao verem-se de novo ambos juntos, pai e filha, ficaram extremamente satisfeitos. Para recompensar o cavalo, o homem esmerou-se nos cuidados que lhe prestava e em dar-lhe as melhores forragens mas, contrariamente às previsões do homem, o cavalo mostrava-se indiferente às atenções e comidas es¬ peciais, o mais estranho era que, cada vez em que a sua filha entrava ou saía do estábulo, o animal sal¬ tava e relinchava, respectivamente, de alegria ou de tristeza. Arreliado e surpreendido com isto, o pai perguntou à filha se alguma coisa de especial tinha

acontecido durante a sua ausência, ao que a filha, com um ar envergonhado, lhe repetiu as palavras faladas que tinha dito ao cavalo. Então, o homem

tendo ficado por uns instantes pensativo, disse-lhe

mansamente:

— Escuta bem! Seja como for não deves falar a mais ninguém sobre este assunto. Se alguém viesse

a saber que eu estaria disposto a casar a minha filha com um cavalo, seria uma grande vergonha. Peço- te, portanto, que a partir de hoje não saias do teu quarto nem te aproximes do cavalo. No dia seguinte, o pai foi ao estábulo e matou o cavalo com umas flechas e, esfolando-o, pendurou

a pele do eqüideo numa árvore no pátio da casa. Tempos depois divertia-se a jovem com algumas

suas companheiras no pátio, quando, ao ver a pele do animal, ficou muito preocupada e murmurou para consigo própria, baixando a cabeça: “Sou eu

a culpada pela morte do cavalo!”. Ia aproximando-

se da pele para acariciá-la quando, inesperadamen¬ te, a pele arrojou-se sobre ela e, envolvendo-a por completo, levantou voo como se fosse fustigada por uma rabanada de vento. Assustadas com o sucedi¬ do, as outras jovens correram a informar o homem

do que tinha acontecido, mas quando este chegou ao pátio já a filha, mais a pele do cavalo, tinham desaparecido. A pele do cavalo que, de fato, tinha proprieda¬ des mágicas, voou diretamente para uma região despovoada situada no Sudoeste da China, chama¬ da Dazhong, coberta por amoreiras. Quando o cor¬ cel mágico pousou com a jovem, na vasta floresta de amoreiras, já a jovem tinha sido transformada num bicho-da-seda com cabeça de cavalo. A partir

de então, ela passou a alimentar-se exclusivamente por folhas de amoreiras, mais tarde veio a tomar-se

a senhora desta floresta e foi nomeada Deusa dos Bichos-da-Seda pelo Imperador Celestial.

No entanto, nunca veio a apartar do seu coração uma pena indizível pensando, dia e noite, na sua terra natal, no seu pai e nas suas companheiras enquanto segregava, sem cessar, largos fios de seda numa ten¬ tativa de acalmar os seus tristes sentimentos — a região onde ela vivia veio a ser apelidada de “terra da seda segregada”. Segundo uma lenda, na prima¬ vera de todos os anos, podia-se ver nesta região uma linda jovem ajoelhada entre os ramos das amoreiras segregando longos e brilhantes fios brancos a quem chamavam de Deusa dos Bichos-da-Seda. Mas como aparecia ela por vezes com uma fi¬ gura da jovem se já se tinha transformado num bi- cho-da-seda? Por ter sido nomeada de Deusa, po¬ dendo-se, portanto, transformar naquilo que quises¬ se! Com o passar dos tempos a Deusa dos Bichos- da-Seda procriou muitos descendentes, de corpos brancos e caracteres dóceis como meninas — as quais passaram a comer folhas de amoreiras e a segregar fios de seda. Segundo os anais da História da China, o bicho- da-seda foi criado por Lei Zu, a mulher de Huangdi. Quando o Huangdi saiu vitorioso da expedição con¬ tra o Chiyou, nas planícies centrais da China, a sua mulher teceu-lhe com os fios de seda um magnífico traje real. Na realidade, ela era igualmente uma deusa que tinha visitado a “terra da seda segregada”

e foi ela quem veio a ensinar os humanos a domi¬

narem a técnica de criar bichos-da-seda e tecerem

magníficos tecidos com este material.

De acordo com várias lendas, os habitantes de certas regiões da China ainda continuam apelidan¬ do o bicho-da-seda de “moça com cabeça de cava¬ lo” — o que vem corroborar a veracidade deste conto.

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O BOIEIRO E A TECEDEIRA

Segundo uma lenda, o Imperador Celestial tinha sete formosas e inteligentes filhas, das quais, a mais jovem era a mais bonita, a mais bondosa e a mais aplicada e cujo principal talento era ser uma exímia tecedeira. Chamavam-na, portanto, de “jovem tecedeira”. Dia após dia ela encontrava-se permanentemen¬ te debruçada sobre o seu tear compondo brocados celestes de multicoloridos cambiantes. Graças ao seu constante zelo, diariamente, quer fosse madrugada ou crepúsculo, no céu podia-se ver brilhar os raios policromáticos dos seus brocados celestes. No ve¬ rão e no outono, a jovem tecedeira compunha tam¬ bém no azul do céu, nuvens de diversas e magnífi¬ cas configurações mágicas. Dia e noite ela não pa¬ rava de tecer os mais diversos e floridos brocados celestiais, de abordo com os aspectos das diferentes estações e pode-se dizer, que se não fosse a persis¬ tência da dedicada tecedeira, o firmamento seria uma grande monotonia. No entanto, devido a nunca sair da sua residên¬ cia celestial a jovem tecedeira sentia-se invadida por uma estranha solidão. Certa vez, ao relancear o mundo dos seres humanos, ela sentiu-se atraída pela

beleza da Terra e pela vida feliz que os homens le¬ vavam cultivando entre montanhas verdes e águas azuis. Assim, um dia fatigada pelos seus trabalhos celestes, a tecedeira convidou as suas outras seis irmãs para a acompanharem a descer à Terra, onde se poderiam banhar na correnteza de um rio de límpidas águas. Ora, perto do rio escolhido pelas jovens, morava um rapaz que vivia com seu irmão mais velho e a sua cunhada. Quando ele era ainda um imberbe ambos os seus pais tinham adoecido e morrido, vin¬ do ele, desde criança a, diligentemente, levar de sol a sol o seu boi a pastar nas encostas das montanhas sobranceiras ao rio. Todos os habitantes da sua al¬ deia apelidaram-no por isso de “boieiro”. Aos 20 anos de idade ainda não se tinha casado, sendo o seu boi, o seu único companheiro, tanto das suas árduas jornadas como nós momentos de solidão e fadiga. O jovem e o boi eram inseparáveis e quan¬ do o rapaz estava deprimido, sussurrava as suas mágoas aos ouvidos do boi, somente este podia, verdadeiramente, compreender os seus sentimentos, assim também só o boieiro era capaz de perceber o significado do mugir do boi. Em realidade, eles já eram companheiros íntimos de tão longa data, que não podiam viver um sem o outro. Um dia, aconteceu que depois de lavrar uma porção da terra, o rapaz conduziu o boi à borda do rio para lhe matar a sede. O tempo estava soalheiro e as claras águas do rio refletiam as nuvens de mil cambiantes. Chegado às margens do rio, o boieiro deparou-se com umas graciosas jovens mergulhadas nas águas, divertindo-se alegremente e chapinhan¬ do entre cristalinas gargalhadas. Todas elas eram

muito formosas, mas o rapaz achou a mais jovem, ser a mais encantadora dentre todas, com o rosto de delicadas proporções, o seu permanente sorriso doce e cordial, os seus olhos brilhantes, claros e bondo¬ sos, e os seus cabelos sedosos e bem adornados com uma flor de lótus. O boieiro ficou imediatamente seduzido pela beleza da tecedeira e quedou-se ab¬ sorto em românticos pensamentos. O boi perceben¬ do o segredo que palpitava o coração do seu dono disse-lhe:

s

— O rapaz! Vai depressa e recolhe a roupa dela

que está ao pé daquele salgueiro. Não te preocupes que ela virá a ser a tua esposa. O boieiro avançou alguns passos mas, envergo¬ nhado, parou e voltou-se com um ar hesitante. Que tonto! Vai lá; depressa; não hesites! Vocês os dois serão um casal ideal! Então, sem mais demoras o rapaz correu para o local onde a tecedeira deixara as suas vestes e, apa¬ nhando-as apressadamente, regressou imediatamente para o lado do boi. Mais tarde, ao perceberem que alguém tinha roubado as vestes da irmã mais jovem, as outras seis jovens vestiram o mais depressa que puderam as suas roupas e levantaram rapidamente

voo para o Céu, abandonando ali a tecedeira. Esta, então, mergulhada na água, não sabendo o que fa¬ zer e muito preocupada por ter sido desertada pelas suas irmãs pôs-se a chorar.

— Por favor, devolvam-me a minha roupa! —

suplicou a tecedeira.

— Claro que vou devolver mas

queria pedir-

— respondeu-lhe o boieiro ao

lhe a sua mão

mesmo tempo em que saía a descoberto e olhava-a

apaixonadamente.

Embora contristada pela ação desajeitada do ra¬ paz, a tecedeira ficou extremamente comovida pela sinceridade das suas palavras e pelos seus ternos olhares. Ela era de fato uma fada mas, de há muito já, tinha vindo a contrariar as restrições rigorosas ela¬ boradas pelo Imperador Celestial que a coagiam a le¬ var uma vida solitária e enfadonha no Céu, suspiran¬ do por poder partilhar da feliz existência das jovens da Terra. Assim, ao ouvir a proposta de casamento que lhe era feita, a jovem humildemente decidiu aceitá-la acenando positivamente com a cabeça. Desde então, o boieiro e a tecedeira tornaram-se num casal inseparável levando uma vida extrema¬ mente feliz e, enquanto que ele lavrava os terrenos, ela tecia maravilhosos bordados. A tecedeira apro¬ veitava também todas as possíveis ocasiões para en¬ sinar a técnica de tecelagem celestial às suas mortais companheiras da aldeia e a muitas outras povoações vizinhas, vindo todas elas a tecer magníficos panos

e brocados — progressivamente a técnica da tecela¬

gem veio a ser divulgada por todo o mundo. O tempo passou-se célere e alguns anos depois,

o boieiro e a tecedeira tinham um filho e uma filha.

Entretanto, o Imperador Celestial veio a saber que sem o seu consentimento a tecedeira tinha descido do Céu à Terra, aí se tendo estabelecido. Colérico, enviou-lhe vários mensageiros — coagindo-a a re¬ gressar ao Céu e acusando-a de ter violado as re¬ gras celestes. Diante da autoridade suprema do Im¬ perador Celestial, a tecedeira não teve outro remé¬ dio senão aceitar uma separação com o marido e os filhos e, com o coração despedaçado, voltou para o Céu. No momento da sua partida, entre os gritos e choros dos filhos, o boieiro sem mais hesitar colo-

cou ambas as crianças em duas cestas carregando- as numa pértica de bambu aos ombros e começou a correr em direção do Céu, em perseguição da tecedeira, e estava prestes a alcançá-la, não fosse a mãe da tecedeira e mulher do Imperador Celestial ter intervindo, impedindo um reencontro entre a fi¬ lha, o genro e os netos. Ao interpor a sua mão entre o jovem casal, com um gesto brusco, a mulher do Imperador Celestial criou um grande rio celeste (Via Láctea) de águas profundas e impetuosas ondas obrigando assim a tecedeira — numa margem do caudal — e o boieiro e os filhos — na outra — a levarem existências para sempre separados. Constrangido por tal separação, o boieiro não mais se quis afastar da margem do rio celeste e a tecedeira desinteressou-se totalmente em continuar a tecer o brocado celeste. Perante tal dedicação mútua, o Imperador Celestial viu-se no dever de lhes dar uma concessão, não insistindo em os recriminar das suas faltas e permitindo-lhes um breve encon¬ tro anual. Reza a tradição que, desde então, no dia 7 de julho, do calendário lunar de cada ano, todas as pegas misericordiosas constroem uma ponte pro¬ visória sobre o rio celeste fazendo com que o boiei¬ ro mais os seus filhos se encontrem temporariamente com a tecedeira. Por isso, segundo diz uma lenda, na madrugada deste dia cai sempre uma chuva mi¬ úda que são as lágrimas de despedida da tecedeira ao se apartar dos seus familiares apertando a mão do marido e abraçando os filhos. A idéia da tristeza da sua separação, antigamen¬ te comovia o povo e atraía uma simpatia profunda e, na noite de 7 de julho do calendário lunar de cada ano, muitas pessoas costumam ficar sem dormir para

melhor observarem as duas grandes estrelas brilhan¬ tes nos dois lados do rio celeste — o boieiro e a tecedeira — e esperando o encontro deste casal. De ambos os lados da estrela do boieiro ainda outras duas pequenas estrelas também se vêem brilhar no firmamento que, segundo se diz, são o seu filho e a sua filha. Estas duas pequenas estrelas, porque são extremamente brilhantes e trêmulas, são considera¬ das como se fossem as duas ingênuas crianças pis¬ cando os seus olhos chorosos e esperando ansiosa¬ mente o feliz encontro com a sua mãe. Em comemoração deste dia, os habitantes de certas regiões da China ainda continuam com um costume de oferecer, nos seus pátios, frutas e flores à tecedeira celeste testemunhando-lhe assim reco¬ nhecimento pelo seu temporário regresso do Céu à Terra com o intuito de ensinar e propagar a técnica de tecelagem aos seres humanos e, simultaneamen¬ te, manifestando-lhe um sincero desejo de que nun¬ ca se esqueça da Terra, continuando a dotar as jo¬ vens de todos os tempos com um par de mãos hᬠbeis para o desempenho de tal arte. A este costume chama-se o “Pedido ao Céu das Habilidades”. Além destes costumes, havia também muitas moças traquinas que, escondendo-se sob as parrei¬ ras, esperavam ansiosa e silenciosamente piscando os seus olhos, o encontro deste casal sempre sepa¬ rado, pois, segundo umas remotas lendas, no silên¬ cio da alta noite do dia 7 de julho, podiam-se ouvir os murmúrios amorosos do casal no seu único en¬ contro anual.

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a dos Shang (Séculos XVIII a 1025 an¬ tes de Cristo). Depois dessa dinastia, que marca o surgimento do país seguiram-se uma série de outras. A mais importante, talvez a que marca o período de ouro do pensamento chinês, foi a dinastia Tang (618-907 da era cristã). Foi nessa dinas¬ tia que o país teve um avanço significati¬ vo e conheceu a reunificação dos diver¬ sos reinos. A literatura e as artes tiveram um grande desenvolvimento e foi, ainda, durante essa dinastia que surgiram na China o Confucionismo e o Taoísmo. No aspecto religioso foi, também, sob a di¬ nastia Tang que surgiu o budismo. Do Con- fucionísmo os chineses herdaram o gosto peio trabalho, a verdade e a lealdade. Do Taoísmo veio a simplicidade pelas diver¬ sas formas de vida, caracterizada sobre¬ tudo, na poesia; do Budismo veio a pro¬ cura do caminho pela perfeição através de Buda, o Iluminado.

I ftQuando a China despertar,

o mundo acordará e estremecerá”. Com esta máxima, assim se referiu

Napoleão à China. Responsável por mais de vinte por cento da população mundial, a China é um país de encantos e misté¬ rios. Anteriores a qualquer escola filosó¬ fica, os mitos e lendas apresentados nes¬ te volume dão-nos a conhecer o país em¬ brionário da China atual.