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Camille Paglia, a mais antifeminista entre as feministas, aposta na revalorização do lado maternal

da mulher como chave para um reencontro afetivo entre os sexos.

Para a ensaísta, enquanto a mulher de qualidade maternal exerce poder sobre os homens ao ter
"pena de suas fraquezas", a mulher de perfil profissional exige deles, em casa, a perfeição do
mundo dos escritórios.

Em entrevista à Folha, Paglia se declara transexual, critica a produção da arte contemporânea e


diz que Madonna deve parar de competir com as mulheres mais jovens.

Leia abaixo a entrevista na íntegra.

Ilustração/André Toma

A crítica e ensaísta americana Camille Paglia em ilustração feita por André Toma

Folha - Você é feminista ou antifeminista?

Camille Paglia - Eu certamente sou uma feminista. 100%. Os motivos pelos quais eu discordo de
boa parte das feministas de hoje é que minha militância começou no início dos anos 60, antes da
reviravolta que o movimento teve no final daquela década.

Eu dei uma aula na semana passada na qual eu falava sobre o filme "Núpcias de Escândalo", com
Katharine Hepburn. A mãe da atriz era uma das líderes da campanha pelo sufrágio das mulheres,
e a própria atriz, antes da Segunda Guerra Mundial, estava participando das manifestações de
sufragistas. Eu estava obcecada também por Amelia Earhart, pioneira da aviação e uma dessas
mulheres emancipadas dos anos 20 e 30.

Eu admiro demais essa geração de mulheres. Porque elas não atacavam os homens, não
insultavam os homens e não apontavam os homens como fonte de todos os problemas das
mulheres. O que elas pediam era igualdade de condições no âmbito da carreira e da política e
queriam demonstrar que podiam obter as mesmas conquistas dos homens. Era como dizer:
somos como os homens, admiramos os homens, amamos os homens.

Hoje em dia, as feministas culpam os homens por tudo! Elas exigem que os homens mudem,
querem que eles pensem e ajam como mulheres, almejam que o protagonismo dos homens seja
reduzido. Esse é o terrível problema do feminismo contemporâneo, porque, em última instância,
isso está fazendo as mulheres retrocederem e as está enfraquecendo.

As mulheres de hoje não são tão fortes como as grandes mulheres dos anos 20 e 30. Então as
pessoas me chamam de antifeminista. Mas não: eu sou contrária à ideologia feminista do
presente, que é doente, indiscriminada e neurótica. E, mais do que tudo, não permite à mulher
ser feliz.

As mulheres precisam se responsabilizar por suas vidas e parar de culpar os homens por seus
problemas, que têm mais a ver com questões e estruturas sociais, e não são fruto de uma
conspiração masculina.

Fronteiras

Se os homens se parecessem mais com as mulheres, como você diz desejarem as feministas de
hoje, o que aconteceria?

As mulheres querem que os homens se comuniquem como elas. Mas, em toda a história da
humanidade, as mulheres viveram entre si e os homens viveram entre si. Eram dois mundos
separados. A mulheres cuidavam das crianças, da casa, da alimentação, e os homens caçavam e
faziam o trabalho pesado. Sei disso porque todos os meus quatro avós eram agricultores
italianos, e meus pais nasceram neste ambiente. Sou a primeira geração que cresceu fora dessa
estrutura.

O problema hoje é que as mulheres, educadas e ambiciosas, querem entrar no novo mundo
burguês do trabalho em escritórios, que são parte do legado da Revolução Industrial. Então
temos um novo mundo em que homens e mulheres trabalham lado a lado nos escritórios, em
que a divisão do trabalho entre homens e mulheres não existe. Portanto, ambos têm de mudar
suas personalidades para se encaixar nessa realidade porque ambos são uma unidade de
trabalho, são a mesma coisa.

É muito frustrante para os dois porque, neste ambiente neutro, em que as mulheres ganharam
muito poder, a sexualidade do homem ficou neutralizada. E essas mulheres querem se casar com
um homem com quem seja fácil se comunicar. E fora do ambiente de trabalho, qualquer homem
que se comporte como homem provoca reações negativas.

Eu vejo grande infelicidade entre mulheres profissionais porque elas querem que suas vidas
amorosas tenham a comunicação maravilhosa que elas têm com outras mulheres. A mulher
profissional casa com o homem profissional e espera que, ao chegar em casa de noite, ele se
comunique com ela como suas amigas ou seus amigos gays. E os homens heterossexuais jamais
serão capazes na arte da análise emocional. Não dá para cobrar perfeição dos homens, como se
estivéssemos no escritório.

Homem e mulher têm de convergir numa unidade de trabalho. Há uma terrível desconexão para
as mulheres entre suas vidas profissionais e amorosas. Para os homens não é tão difícil porque
eles encontram sexo mais facilmente. Eles não precisam casar com uma mulher para fazer sexo
com ela. Para mulheres, é um período terrível de infelicidade, porque elas têm muita dificuldade
em ajustar a mulher do trabalho, que tem poder e conquistas, com a mulher emocional, uma
arena na qual as habilidades exercidas no escritório não funcionam.

Para os homens é frustrante porque, se o trabalho que eles fazem pode também ser feito por
uma mulher, no que consiste sua masculinidade, afinal? Se antes o homem tinha o trabalho
pesado, braçal, hoje, eles estão se perguntando quem são.

Como essa crise masculina se manifesta?

Tenho me preocupado muito com a epidemia do jihadismo no mundo, que é um chamado da


masculinidade e está atraindo jovens homens do mundo inteiro. É uma ideia de que ali,
finalmente, homens podem ser homens e ter aventuras como homens costumavam ter.
A ideologia do jihad emerge numa era de vácuo da masculinidade, graças ao sucesso do mundo
das carreiras. O Estado Islâmico, por exemplo, usa vídeos para projetar esse romance, esse
sonho de que os jovens podem abandonar suas casas, integrar a irmandade e se lançar numa
aventura masculina por meses, na qual correm risco de morte. Antes, havia muitas
oportunidades de aventuras para homens jovens. Hoje, suas vidas são como as de prisioneiros:
presos nos escritórios, sem oportunidade para ação física e aventura.

O sistema de carreiras ocidental se tornou tão elaborado e aprisionado, que está produzindo,
como no Império Romano, bandos de vândalos. É difícil para a classe média entender o fascínio
do risco e da morte, de fazer parte de uma irmandade.

Eu estou muito preocupada politicamente com a forma como as elites não sabem responder a
esse movimento. E parte disso é uma revolta dos homens e uma busca dos homens por sentido
para eles enquanto homens. O mundo ocidental se tornou tão materialista, e todos estão
pensando no próximo apartamento, próximo carro ou próximo emprego, que somos lentos para
entender e responder a esse tipo de fenômeno.

Como reverter o desencontro entre homens e mulheres hoje?

O feminismo cometeu um grande erro ao difamar a maternidade. Quando a segunda onda do


feminismo começou no final dos anos 60 e início dos anos 70 e foi piorada pelas ideias de Gloria
Steinem, que pregou a desvalorização da mulher como esposa e mãe, e a valorização da mulher
profissional como aquela que é realmente livre e admirável.

Betty Friedan (1921-2006), que eu admiro, começou a segunda onda do feminismo ao co-fundar
a Organização Nacional para as Mulheres, em 1967. Ela era casada e tinha filhos, e queria que o
feminismo fosse uma grande tenda que incluísse e acolhesse a todos. Mas Gloria Steinem era
parte de um grupo que só se casou no final da vida e não teve filhos, e havia um tom de insulto
ao tratar da maternidade.

Minha análise das relações sexuais, no livro "Personas Sexuais", é que a imagem da mãe é
extremamente poderosa e que é o motivo pelo qual conexões entre os sexos é instável. Toda
pessoa emerge do corpo feminino, do útero, e o feminismo cometeu um erro ao tentar apagar a
importância disso, tornando o nascimento um processo mecânico. A imagem mitológica da mãe
é muito poderosa para os homens no nível psicológico. Todo menino precisa se livrar da sua
mãe. E todo heterossexual que penetra uma mulher retorna ao útero.

Há uma ansiedade e um perigo no ato sexual entre homem e mulher. O homem se sente em
risco ao colocar seu pênis no que considera uma potencial armadilha. Por isso há e sempre
haverá uma ambivalência na relação sexual entre homens e mulheres. Ele deseja a mulher, ele
quer ser nutrido por ela, e quer se livrar dela ao mesmo tempo porque tem receio de ser preso
novamente no útero.

Muitos dos comportamentos machistas, arrogantes e estúpidos, são formas tortas de o homem
dizer que não está sob o poder da mulher, que não é mais um bebê. São parte do medo do
poder da mulher, do útero e da criação. Qualquer pessoa que tentar racionalizar isso, não irá
pelo caminho certo.

E é isso o que o feminismo está fazendo, na sua opinião?

Sim. O feminismo é muito racionalista. Está tentando consertar a mecanismos sociais, consertar
a sociedade, passando leis contra a discriminação e a favor de cotas para as mulheres. Eu
concordo que precisamos de igualdade de condições, mas isso não vai resolver os problemas
entre os sexos porque o que existe aí é uma consequência direta da biologia, que não tem sido
considerada.

Há todas essas pessoas com ideias estúpidas, que derivam de Michel Foucault (1926-1984),
negando a existência dos gêneros. Dizem que o gênero é algo imposto pela sociedade, que não
há base biológica para a ideia de gênero. Essas pessoas estão malucas? Elas não sabem que toda
e qualquer pessoa que está na face da Terra nasceu do corpo feminino?

As mulheres têm um poder tremendo sobre os homens. Se as feministas não querem esse
poder, e querem apenas ser iguais aos homens, ok. O que eu vejo como observadora e como
professora é que os homens são muito frágeis psicologicamente em relação às mulheres. E
quando as mulheres renunciam ao poder da maternidade, como aconteceu na segunda onda do
feminismo, elas perderam uma parte enorme de seu poder sobre os homens.
As mulheres que entenderam seu poder sobre os homens são mais felizes. As mulheres que
pedem que os homens mudem e se aproximem delas são mais nervosas, são brutais. Elas não
têm confiança no seu poder como mulheres.

As mulheres que têm sucesso com os homens são aquelas que mantém uma certa qualidade
maternal e entendem as fraquezas dos homens. E têm pena deles por isso. Elas tratam homens
com humor e conseguem entender as necessidades dos homens e nutri-los de certa forma.

De que maneira o adiamento da maternidade das últimas gerações de mulheres é produto desse
tipo de pensamento da segunda onda do feminismo?

Gloria Steinem é responsável por isso. Ela e seus problemas psicológicos. Ela teve uma infância
terrível. Seu pai era negligente, abandonou a mãe, a mãe teve problemas psiquiátricos.

Steinem, então, mantinha aquele sorriso como se tivesse a resposta para tudo. E ela dizia: a
mulher pode ter tudo. E dizia também: uma mulher precisa de um homem tanto quando um
peixe de uma bicicleta. Mas em todas as festas que ela frequentava em Nova York ela tinha um
homem nos braços.

Ela pregava que a mulher cuidasse de sua carreira e deixasse a maternidade para mais tarde. Só
a completa ignorância da biologia permitiu isso, porque sabemos que a fertilidade feminina é
maior quanto mais nova ela é, e que a gravidez é mais segura antes dos 35 anos. E há gerações
inteiras de mulheres que foram convencidas de mentiras. O que eu digo é que a verdade sobre a
biologia precisa ser dita para as meninas cedo.

A mulher tem de escolher entre carreira e maternidade?

Sem dúvida. O mecanismo da educação-treinamento será sacrificado de alguma maneira para as


mulheres que escolherem ter filhos. Elas provavelmente podem alcançar sucesso profissional
mais tarde, mas tem um grande valor em ter filhos mais cedo.
Por exemplo, eu nasci quando meus pais tinham 21 anos. Não tínhamos grana, mas eles tinham
muita energia e eram otimistas. Catorze anos depois, minha irmã nasceu, e meus pais estavam
com 35 anos, eles tinham uma casa e uma vida estável, com emprego e tudo mais. Os pais que
eu tive foram completamente diferentes dos pais que minha irmã teve. Então minha irmã é
muito diferente de mim. Ela tem modos (risos).

Então, mulheres que acham que vão ter filhos aos 45 anos terão energia para correr atrás de
uma criança como os pais de 20 e tantos anos. Educação tem que se adaptar a essa realidade da
biologia.

As universidades têm que ser mais flexíveis na oferta de cursos para mulheres e de berçários nos
campi para que elas deixassem seus filhos por algum tempo. Deveria ser possível para uma
mulher jovem decidir ter filhos cedo e continuar a estudar meio período ou fazendo uma
disciplina por vez, levando mais tempo para se formar.

As universidades se beneficiariam muito pela presença de estudantes casados e com filhos.


Muitas das besteiras que são ditas sobre gênero seriam melhor debatidas se houvessem jovens
pais nas salas de aula.

Como essa flexibilidade para jovens mães poderia ser aplicada ao mundo do trabalho?

As empresas não existem para serem agentes de mudanças sociais. Elas existem para obter
lucro. Aquelas criadas por investidores progressistas, como muitas firmas na Califórnia,
disponibilizam berçários, mas é tudo muito caro. E mais: certos benefícios fazem com que
funcionários que não têm filhos reclamem.

Então, isso precisa ser visto com cuidado porque precisa haver igualdade entre os profissionais.
A verdade é que maternidade é uma escolha e você precisa aceitar que isso implica numa certa
troca.

Há muitas dificuldades na carreira no início, mas não depois. Minha geração de mulheres, cuja
maioria focava na carreira e nos salários, está quase se aposentando. De repente, a realidade vai
bater: no momento em que deixarem seus empregos, elas não terão nada e serão rapidamente
esquecidas. Poderão ter uma aposentadoria financeiramente confortável, mas é só. Enquanto as
classes mais populares terão as crianças já crescidas e os netos e os bisnetos. E isso traz um novo
sentido à vida.

Precisamos de um discurso melhor sobre o sentido da vida, que não é apenas algo materialista.

Você adotou um menino. Como se vê enquanto mãe?

Sempre deixei claro que eu sou sua parente, mas não sua mãe. Ele tem uma única mãe, que é
sua mãe biológica, que é minha ex-companheira, que vive aqui perto e nós temos uma ótima
relação centrada na criação dele. Eu estava lá no consultório médico quando ele foi concebido,
no hospital quando ele nasceu, tenho sido parte da sua vida desde sempre.

Todas as minhas observações sobre meninos e homens têm sido confirmadas na experiência de
ter um filho e de ter adentrado o mundo das mães. E vi com meus próprios olhos que as
mulheres comandam a vida das crianças, da casa e do mundo emocional da família. E o marido,
que antes era o número um, passa a ser mais um no sistema da mulher. A mulher cria toda a
rotina e o homem executa o que ela diz.

Na contramão do discurso que nega os gêneros, há o debate sobre os transgêneros. De que


maneira o feminismo pode incluir essas pessoas?

Vou dizer algo controverso, mas real: eu me identifico como transgênero. Quando era mais nova,
esse termo não existia. Mas estava muito claro que eu era muito inibida em relação ao meu
gênero biológico desde sempre. Eu demonstrava isso, ainda criança, no Halloween. Eu sempre
escolhia um personagem masculino. Fui um soldado romano, fui Napoleão, fui Hamlet... E
nenhuma menina se fantasiava assim. Eu me sentia alienada em ser uma menina.

Eu estou muito preocupada com essa tendência cirúrgica para mudança do corpo. Isso está por
toda parte nos EUA. Dizem que a criança nasceu no corpo errado e já começam com hormônios
até chegar à intervenção cirúrgica. Se essa ideia estivesse no ar quando eu era jovem, eu teria
me tornado obcecada com isso. Eu teria sido convencida de que essa seria a resposta para todos
os meus problemas com a sociedade contemporânea e sua rigidez sexual. E eu teria cometido
um engano terrível.

Por quê?

Transformar o corpo cirurgicamente é uma ilusão. Há um número muito pequeno de pessoas


realmente intersexuais. É uma anormalidade congênita. A maioria dos casos não é assim. Intervir
no corpo, removendo o pênis ou os seios, é uma ilusão porque todas as células do seu corpo
permanecem sendo o que elas sempre foram. Simplesmente não é verdade que você mudou de
gênero.

Eu acredito que é preciso respeitar o desejo das pessoas de transformar seus corpos, seja por
motivos cosméticos, médicos ou de gênero. Cada um tem poder sobre o próprio corpo e eu sou
uma libertária neste sentido. Por outro lado, ninguém vai me convencer de que a Chaz Bono, a
filha transgênero da atriz Cher, é um homem. Ele precisa tomar uma injeção de hormônios todos
os dias para ser o que é, um transgênero, nunca um homem. Cada célula daquele corpo é uma
célula feminina.

As pessoas que olham para esse debate e pensam que estamos caminhando para um futuro
progressista estão enganadas. Nós vivemos em um período em que os gêneros são fluidos e
ninguém se identifica com os papeis de cada um dos gêneros no passado. Mas a ideia de que
isso é um sintoma de saúde social está errada. É o caos.

Estamos numa fase tardia da cultura, como ocorreu com outras civilizações, em que as
definições dos sexos começam a se borrar e a se dissolver e surgem todos os tipos de androginia
e de brincadeiras com trocas de papéis entre feminino e masculino. Eu adoro tudo isso, mas
acho que não pode ser confundido com um sintoma de saúde e de progresso. Sinto muito. É um
sintoma de declínio histórico da nossa cultura. E deveríamos nos preocupar porque isso indica
ansiedade e algo errado.

Eu não noto, a propósito, nenhum avanço no campo das artes. Ninguém está em um período
especialmente fértil. Pelo contrário, todos estão obcecados consigo próprios. O ego se tornou
um trabalho artístico. As pessoas têm dez conceitos diferentes sobre o que elas são. Acho que a
obsessão com gênero e com orientação sexual se tornou uma doença.
Eu sou ateia, mas acredito no poder da religião e de sua visão do universo. Vivemos essa
transição da perspectiva religiosa para essa horrível perspectiva centrada no indivíduo, com o
apoio da mídia. Isso não são os anos 60, quando se pregou o poder do indivíduo contra a
autoridade, mas a destruição dessa ideia cósmica do lugar de cada um no universo. E isso tudo
convergiu para a obsessão por gênero e orientação sexual. Isso virou uma loucura. É o novo
narcisismo.

Há formas menos obsessivas de olhar para essas questões?

Eu apoio a união civil, mas nunca apoiei o casamento gay, por exemplo. Não acho que o governo
deve se envolver em casamento, um termo circunscrito à Igreja. Perante a lei, deve haver
igualdade de gêneros e orientações sexuais. Mas deve haver mais respeito por religião. Se você
quer se casar, vá a uma igreja que aceite casá-lo. Mas a insistência de que o governo deve
intervir neste sentido é muito juvenil.

As pessoas têm de assumir responsabilidade por sua identidade e estar preparadas para
desaprovação e rejeição. Os liberais ofereceram a arte como substituto para religião, mas não
vejo nenhuma criatividade relevante, mas um mundo de trivialidades. As pessoas hoje estão
neste sonho, alucinando ao pensar que o mundo ocidental é eterno. Todos os grandes impérios
caíram. Não somos diferentes.

Qual é a consequência do narcisismo nas artes?

Não vejo nada tão profundo sendo produzido hoje se compararmos àquilo produzido em
culturas mais repressivas. Tennessee Williams, que eu admiro muito, era um artista gay quando
isso não era fashion, e produziu trabalhos incríveis como "Um Bonde Chamado Desejo" e "Gata
em Teto de Zinco Quente". Quem é o grande escritor gay neste mundo tão permissivo? Parece
que a repressão é um estímulo para a arte (risos).

O que você acha dos protestos topless, como a Marcha das Vadias e as ações do grupo Femen?
Eu adoro qualquer performance de rua, qualquer provocação pública, sejam manifestações ou
brincadeiras. Adoro a ideia de pequenos grupos desafiando os poderes constituídos. Sempre
participei de muitas delas até que fui disciplinada na universidade porque me colocaram em
condicional por um semestre de tanto que eu aprontava.

No entanto, essas meninas são totalmente incoerentes ideologicamente. Femen não faz o menor
sentido, é algo fabricado que não tem nenhum sentido político. Uma mulher bonita, com belos
seios e palavras desenhadas pelo corpo deveria estar apoiando a indústria do sexo, a
prostituição e a pornografia, e não protestando contra a indústria do sexo. É ridículo e
demonstra o nível de insanidade do feminismo radical atual.

Como você vai expor seu corpo para protestar contra a indústria do sexo se o que você está
fazendo é gerar excitação sexual? É maluco. Eu mostrei para meus alunos o vídeo em que uma
maluca do Femen agarrou o menino Jesus no presépio do Vaticano e a polícia a agarrou e ela
ficou gritando (risos). Achei tudo muito divertido, mas fiquei com pena dos fiéis que estavam lá
porque aquilo é profanação para eles.

A Marcha das Vadias é outra incoerência das meninas burguesas e universitárias de hoje. Fui
uma das feministas que levantou a bandeira pró-sexo nos anos 90, mas essas manifestações
estão equivocadas. Madonna expunha seu corpo ao mesmo tempo em que assumia a
responsabilidade de se defender. Você tem o direito de se vestir como Madonna nas ruas às 3h
da manhã e faz parte do comportamento da mulher liberada fazer isso. Só que essa mulher tem
que saber se defender.

Se você vai provocar e usar roupas para demonstrar que está disponível sexualmente, porque é
isso o que você está fazendo. Está dizendo: sou uma mulher que gosta de sexo e estou pronta
para receber ofertas. Mesmo que as mulheres demandem o controle masculino, sempre vai
haver um psicótico ou um criminoso que será impossível controlar. Não dá pra pedir para a
sociedade a proteger o tempo todo. Se você é uma mulher livre, você tem que aceitar que, toda
vez que se vestir de modo convidativo, está enviando uma mensagem e tem de se defender se
for necessário.

E é claro que ninguém tem o direito de fazer nada com você, mas só uma idiota acha que vai
para as ruas de vestimentas provocativas sem correr o risco de ser atacada, culpando o Estado
por isso.
Uma pesquisa no Brasil apontou que 25% dos brasileiros concordam que uma mulher vestida de
forma provocativa merecia ser atacada.

Ninguém merece ser atacada. Isso está totalmente errado. Ninguém tem o direito de colocar as
mãos no seu corpo sem permissão. O que essas pessoas devem estar dizendo é que a
vestimenta comunica uma mensagem e indica um nível de disponibilidade sexual.

Eu também acredito que roupas comunicam algo sobre você naquele momento. Roupas são
uma linguagem. As mulheres não entendem como os homens as enxergam com determinadas
roupas. Elas acham que estão se vestindo para elas mesmas, mas precisam saber que há um
perigo em se vestir de certas formas.

Eu adoro exibição sexual, mas precisam saber que estão comunicando para uma certa audiência.
E não necessariamente se pode culpar os homens por entenderem uma mensagem que, talvez
inconscientemente, as mulheres estão enviando. Por isso chamo o meu feminismo de safo
("street smart").

Por que você foi tão crítica ao ensaio fotográfico recente em que Madonna aparece com os seios
à mostra?

Madonna é uma das figuras mais importantes da cultura pop e da cultura contemporânea. Ela
mudou o mundo com sua atitude. Até hoje seus vídeos antigos são grandes obras de arte. Ela
tornou possível para as mulheres assumirem o comando de suas sexualidades. Ela nunca foi uma
vítima. Ela sempre controlou a transação entre homem e mulher. Ela era extremamente sexy,
mas estava no controle da situação.

Mas acho que esse ensaio ficou feio, acho que ela está se repetindo. Nós já vimos seu corpo no
auge da forma e era magnífico. O que ela está fazendo agora? Por que expor o corpo na sua
idade em fotografias horrorosas? Sinto muito, mas foi uma desgraça artística. Madonna não
deveria estar competindo com mulheres jovens, cujos corpos são belos. Marlene Dietrich, que é
um modelo para Madonna, nunca fez isso.
Você acha que mulheres mais maduras não devem mostrar o corpo?

Se você o mostra de um modo belo e sexy, ok. Mas aquelas fotos da Madonna eram revoltantes.
Era embaraçoso. Hediondo. Ela parecia uma prostituta decadente que não sabe que está na
sarjeta.

Madonna é uma estrela global e não deveria se expor assim. Se você quer seduzir, há outras
formas de transmitir isso. Jeanne Moreau é sexy na idade dela sem mostrar nada, e Catherine
Deneuve, apesar de ter ganhado peso, continua sexy. Não é digno de uma mulher de tantas
conquistas se mostrar assim.

As mulheres têm que superar o envelhecimento. Não dá para dizer que o corpo de uma mulher
de idade é tão bonito como o de uma jovem mulher. Não é! Os hormônios não permitem, a pele
fica fina, desidratada, etc. Temos de parar de tentar glamurizar a beleza da mulher madura.

O que precisamos é deixar as mulheres jovens dominarem o mundo da beleza e buscar novos
papéis para as mulheres mais velhas. Aquelas que são mães ganham poder à medida que a
idade avança e encontram novas colocações para si. Precisamos aprender a mudar para o
próximo estágio da vida. O que precisamos é criar uma persona para as mulheres na cultura de
hoje, e isso tem a ver com desapegar de algo. Senão, elas só têm a perder. Como não há como
congelar o processo de envelhecimento, quanto mais as mulheres lutarem contra ele, mais
infelizes serão.

ENTREVISTA - 14/08/2012 09h00 TAMANHO DO TEXTO A- | A+

Stanislas Dehaene : "A neurociência deve ir para a sala de aula"

O cientista condena o construtivismo como método de alfabetização e diz como os estudos com
cérebro podem ajudar disléxicos a ler

FLÁVIA YURI

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Uma das tarefas comuns da ciência é desvendar a complexidade por trás de atividades
aparentemente simples. O matemático e neurocientista francês Stanislas Dehaene dedica-se a
decifrar as mudanças cerebrais causadas pelo ato de ler. Para ele, a leitura moldou o cérebro
humano e preparou-o para assimilar habilidades impossíveis de ser aprendidas por iletrados. Em
seu livro Os neurônios da leitura (Editora Penso, R$ 71), ele afirma que o conhecimento do
impacto da leitura no cérebro pode melhorar métodos de alfabetização para crianças e dá
exemplos de como esse conhecimento tem auxiliado pessoas com dislexia. E mais: Dehaene diz
que a pedagogia do construtivismo, altamente disseminada no Brasil, pode ser ineficaz para o
ensino da leitura.

NEURÔNIOS EM ATIVIDADE

O neurocientista Stanislas Dehaene em congresso na França. Há 20 anos, ele estuda o impacto


dos números e das letras no cérebro (Foto: divulgação)

ÉPOCA – O que suas pesquisas sobre o impacto da leitura no cérebro revelaram?

Stanislas Dehaene – Constatamos que nosso cérebro aprendeu a ler a partir de uma reciclagem
dos neurônios. Isso quer dizer que neurônios usados na leitura antes eram empregados em
outro tipo de tarefa. Nosso cérebro de primata não teve tempo de amadurecer para aprender a
ler. A leitura só foi possível porque conseguimos adaptar os símbolos a formas já conhecidas há
milhares de anos. Diferentemente do que disse John Locke, nossa cabeça não é uma página em
branco pronta para aprender qualquer tipo de coisa. Esse é um exemplo de como a cultura se
adaptou às possibilidades de nossa mente. Concluímos que a leitura despertou em nosso
cérebro a capacidade de perceber diferenças sutis e aumentou nossa capacidade de memorizar
informações. É interessante observar que o cérebro mobiliza a mesma área para a leitura de
qualquer idioma. O processamento da leitura do chinês ou do hebraico, da direita para a
esquerda, acontece na mesma região que decodifica o inglês, o francês e o português.

ÉPOCA – O senhor disse que a leitura usou uma parte do cérebro antes destinada a outras
funções. Que funções eram essas e o que aconteceu com elas?

Dehaene – Antes de aprendermos a ler, usávamos essa parte do cérebro para reconhecer formas
de objetos e de rostos. Se você escanear o cérebro de pessoas que não leem e comparar com as
alfabetizadas, a identificação de rostos para as iletradas mobiliza uma parte maior do cérebro
que a mesma função nas alfabetizadas. Existe certa competição de competências na mesma
região do cérebro. É como se ele tivesse de abrir espaço para a leitura.

ÉPOCA – Isso quer dizer, nesse exemplo, que o cérebro letrado passou a usar um número menor
de neurônios para a mesma função? Isso tem impacto na qualidade da função?
Dehaene – Não temos provas científicas de que ocorra perda de competência. Um mesmo
neurônio pode ter um número desconhecido de sinapses, de acordo com o estímulo do
ambiente. Mas essa é uma suposição lógica. Afinal, temos de dividir um mesmo número de
neurônios em várias atividades. Nosso grupo de pesquisas na Amazônia mostrou que o cérebro
de pessoas que não leem tem habilidades relacionadas à noção espacial e de matemática muito
avançadas. Não temos dados científicos que provem que eles sejam melhores nessas tarefas
porque não leem. Mas essa é uma possibilidade.

ÉPOCA – De que forma suas descobertas podem auxiliar no processo de educação?

Dehaene – Verificamos, por meio de várias experiências, que o método mais eficaz de
alfabetização é o que cha-mamos fônico. Ele parte do ensino das letras e da correspondência
fonética de cada uma delas. Nossos estudos mostraram que a criança alfabetizada por esse
método aprende a ler de forma mais rápida e eficiente. Os métodos de ensino que seguem o
conceito de educação global, por outro lado, mostraram-se ineficazes. (No método global, a
criança deve, primeiro, aprender o significado da palavra e, numa próxima etapa, os símbolos
que a compõem.)

Jogos simples de leitura, de rimas e de troca de sons podem ajudar crianças com dislexia a ler

ÉPOCA – No Brasil, o construtivismo, que segue as premissas do método global para a


alfabetização, é amplamente disseminado. Por que os sistemas que seguem o método global são
ineficazes?

Dehaene – Verificamos em pesquisa com pessoas de diferentes idiomas que o aprendizado da


linguagem se dá a partir da identificação da letra e do som correspondente. No português, a
criança aprende primeiro a combinação de consoantes e vogais. A próxima etapa é entender a
combinação entre duas consoantes e uma vogal, como o “vra” de palavra. Essa composição de
formas, do menor para o maior, é feita no lado esquerdo do cérebro. Quando se usam
metodologias para a alfabetização que seguem o método global, no qual a criança primeiro
aprende o sentido da palavra, sem necessariamente conhecer os símbolos, o lado direito é
ativado. Mas a deco-dificação dos símbolos terá de chegar ao lado esquerdo para que a leitura
seja concluída. É um processo mais demorado, que segue na via contrária ao funcionamento do
cérebro. Num certo sentido, podemos dizer que esse método ensina o lado errado primeiro. As
crianças que aprendem a ler processando primeiro o lado esquerdo do cérebro estabelecem
relações imediatas entre letras e seus sons, leem com mais facilidade e entendem mais
rapidamente o significado do que estão lendo. Crianças com dislexia que começam a treinar o
lado esquerdo do cérebro têm muito mais chances de superar a dificuldade no aprendizado da
leitura.

ÉPOCA – É possível quantificar esse atraso de leitura que o senhor menciona?


Dehaene – Quanto mais próxima for a correspondência da letra com o som, mais fácil para um
indivíduo automatizar a ação de ler. Português e italiano são idiomas muito transparentes, pois
cada letra corresponde a um som. Inglês e francês são línguas em que a correspondência de
sons pode variar bastante. Pesquisas mostram que, ao ter aulas regulares, todos os dias, na
escola, a criança leva dois anos a mais para dominar o inglês que para dominar o italiano.

ÉPOCA – É possível identificar diferenças no cérebro de quem consegue ler palavras e frases,
mas tem dificuldade na interpretação de textos (no Brasil, eles são conhecidos como analfabetos
funcionais) em relação a alguém que lê e interpreta o conteúdo com fluência?

Dehaene – Não identificamos isso em pesquisa de imagens. Mas a dificuldade que algumas
pessoas têm de interpre-tar o que leem ocorre basicamente porque elas ainda não
automatizaram a decodificação das palavras. Decodificar pede esforço para quem não tem essa
função bem desenvolvida. Isso mobiliza completamente a atenção e os es-forços de quem está
lendo, a ponto de não conseguir se concentrar na mensagem. A solução para melhorar a in-
terpretação de texto é automatizar a leitura. Por isso, é importante que crianças pequenas leiam
de forma regular até que isso se torne uma rotina. As crianças começam a interpretar textos com
eficiência depois que a leitura se torna um processo automatizado.

ÉPOCA – Aprender a ler partituras tem o mesmo efeito para o cérebro que ler palavras?

Dehaene – As áreas do cérebro usadas para ler letras não são exatamente as mesmas usadas
para decodificar mú-sica. Não há muitos estudos sobre a parte cerebral usada no aprendizado de
música. Mas há diversas pesquisas sobre o efeito da música na vida das crianças. Crianças que
aprendem música desenvolvem habilidades escolares avançadas, especialmente no domínio da
leitura. Elas têm mais facilidade para se concentrar. Aprender música aumenta os níveis de
inteligência (Q.I.). Aprender música é uma forma excelente de desenvolver o cérebro, espe-
cialmente o de crianças.

ÉPOCA – Pessoas com dislexia leem de forma diferente ou apenas mais devagar?

Dehaene – Pessoas com dislexia tendem a ter problemas com a conexão entre letra e som. É
muito difícil para elas entender essa ligação. Em parte, porque não podem distinguir muito bem
as diferenças dos sons da língua. Elas têm problemas com fonologia. Não com o som de letras
como a, b, c e d. Mas com o som da linguagem, como dã, bã e pã. Há diferentes tipos de dislexia.
Há pessoas que têm dificuldade em enxergar as letras em determinados lugares da palavra ou
em visualizar símbolos específicos. O que os disléxicos têm em comum é a dificuldade em criar o
mapa dos símbolos e dos sons.

ÉPOCA – Sua pesquisa pode ajudá-los de alguma forma?

Dehaene – Antes não era óbvio que a maioria dos disléxicos tinha problemas com os sons da
linguagem. Agora que sabemos disso, começamos a trabalhar com jogos de reabilitação com
ótimos resultados. É possível ajudar as crianças com dislexia com jogos de leitura, de rimas ou
brincadeiras de mudar sílabas. Pode-se brincar de trocar o som de “bra” de Brasil por “dra” ou
“pra”. Vimos que brincadeiras orais fáceis têm facilitado o aprendizado.

ÉPOCA – Que resultados esse tipo de exercício já produziu?

Dehaene – Constatamos com exames de imagem que partes do cérebro não usadas em pessoas
com dislexia passam a ser exercitadas com esse tipo de atividade. Isso as ajuda a perceber os
sons da linguagem, o que é muito importante para o aprendizado da leitura. Para surtir
resultados, é importante aplicar esses jogos todos os dias, de forma intensiva.

ÉPOCA – Se o cérebro dos disléxicos é organizado de forma diferente, isso sugere que eles
possam ter outras habilidades que alguém sem a dislexia não tem?

Dehaene – Essa é uma questão interessante. Assim como há a possibilidade de perdermos


algumas habilidades quando aprendemos a ler, existe a possibilidade de o cérebro disléxico ter
facilidade com algumas áreas. Ainda faltam pesquisas para podermos constatar isso. Mas
estudos sugerem que o senso de simetria do disléxico pode ser mais desenvolvido, e isso ajuda
em matemática. Sabemos que há muitos disléxicos que podem ser bons em matemática.
Estudos sugerem que eles podem enxergar padrões sofisticados com mais facilidade.

ÉPOCA – Pode haver gênios em matemática que não sabem ler?

Dehaene – Isso é algo muito, muito raro. Pode haver pessoas iletradas muito boas em cálculos.
Mas elas não serão gênios em matemática sem ler. Para avançar em matemática, a pessoa
precisa entender diferenças sutis num nível muito sofisticado. É justamente a percepção dessas
diferenças sutis que a leitura ativa no cérebro. Ler é uma habilidade extraordinária que pode
transformar o cérebro e prepará-lo para outros níveis de aprendizado. Não dá para ir muito
longe sem leitura.

Uma pessoa que não entende que a razão das coisas não está nas coisas mesmas, jamais
entenderá nada da vida com clareza. Pode ser inteligente, mas não tem a dimensão moral nem
de seus atos nem dos atos dos outros. E por incrível que pareça, essas pessoas são justamente as
que mais alcançam posições de poder e status na vida, pois ela agem de acordo com o que
querem e não com aquilo que é justo. Isso não tem unicamente a ver com o ladrão que rouba na
rua ou com o político rico que faz suas redes de influência. Isso tem a ver com todo ser humano,
em diferentes níveis de negação do bem para se alcançar aquilo que se QUER. Todo mundo faz
isso e é exatamente nisso que consiste o pecado (o homem acima da razão dada por Deus, ou
seja, da sua vontade, sumo bem).

A razão de ser da vida terrena só pode transcendê-la. Se não existir o conceito de justiça que
transcenda esta existência, você sequer pode falar em justiça, muito menos em injustiça (já que
para saber o que é injustiça, é necessário ter noção antes do que se trata a justiça). Para que
haja a noção de ausência, uma noção de unidade em absoluto que não conhecemos (plenitude)
na terra tem que existir, caso contrário não podemos ter sequer noção do que são coisas que
todo ser humano experimenta: amor, prazer, glória, honra, poder etc. Isso significa também que,
se não há uma unidade absoluta que seja a razão da existência do cosmos, não há diferença
alguma entre Padre Pio de Pietrelcina e Hitler. Se a condição metafísica é ignorada (já que é a
própria realidade), tudo que se tem é o arbítrio dos homens, ou seja, padre Pio era bom se você
quiser achar que ele era bom, assim como o que Hitler fez foi mau para quem quiser considerar
que seus atos contra judeus foram maus. A objetividade do bem reside não na vontade humana,
mas no além da matéria, numa lei universal óbvia, independente de culturas. O cristianismo
NÃO é uma instituição religiosa. O cristianismo é a própria realidade. Quem quiser conhecer a
realidade, tem que aceitar Cristo, pois a unidade transcendente é Ele mesmo. E não se aceita
Cristo do "seu jeito", mas com a verdade, que pode lhe desagradar. Qualquer pessoa relativista
tem de ser deixada de lado em sua obstinação por ser um pequeno deus "dono de suas regras"
(soa familiar?). Se você quiser fazer o que Deus pede, vai ter que parar de jogar pérolas aos
porcos e parar de se achar puro. Todos pecam, a diferença entre os pecadores é uma só: aceitar
ou negar que peca. E percebam que ha uma inversão proporcional: quanto mais aceitamos que
somos imperfeitos, tanto mais perfeitos aos olhos de Deus nos tornamos, pois deixamos de
tentar ser Deus. A história humana é a história da queda. Todo obstinado político que só vê
LADOS e lutas, perdeu sua sanidade, mesmo que parcialmente.