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Capítulo III – A constituição brasileira de 1988 e o processo de democratização no Brasil – A

institucionalização dos direitos e garantias fundamentais

a) O processo de democratização no Brasil e a Constituição brasileira de 1988

b) A Constituição brasileira de 1988 e a institucionalização dos direitos e garantais


fundamentais

c) Os princípios constitucionais a reger o Brasil nas relações internacionais

Segunda Parte – O sistema internacional de proteção dos direitos humanos

Capítulo V – Precedentes históricos do processo de internacionalização e universalização dos


direitos humanos

a) Primeiros precedentes do processo de internacionalização dos direitos humanos – o


Direito Humanitário, a Liga das Nações e a Organização Internacional do Trabalho

Polêmica quanto ao fundamento e natureza dos direitos humanos: são direitos naturais
e inatos ou direitos positivos, históricos ou que derivam de determinado sistema moral?

Flávia Piovesan defende a “historicidade dos direitos humanos”, “na medida em


que estes não são um dado, mas um construído, uma invenção humana, em
constante processo de construção e reconstrução”. (p. 187). No entanto, o maior
problema dos direitos humanos, como afirma a autora com esteio em Bobbio, não
é fundamentá-los, mas protege-los.

Vide: Hannah Arendt, As origens do totalitarismo

Celso Lafer, A reconstrução dos direitos humanos

Ignacy Sachs, Desenvolvimento, direitos humanos e cidadania, in Direitos humanos no


século XXI

Quais os precedentes históricos da moderna sistemática de proteção


internacional desses direitos?

Redefinição do âmbito e do conceito de soberania estatal.

Redefinição do status do indivíduo no cenário internacional, tornando-se


sujeito do Direito Internacional.

Direito Humanitário. Segundo Thomas Buergenthal, o Direito Humanitário


constitui o componente de direitos humanos da lei da guerra (the human
rights component of the law of war). “É o Direito que se aplica na hipótese
de guerra, no intuito de fixar limites à atuação do Estado e assegurar a
observância de direitos fundamentais. A proteção humanitária se destina,
em caso de guerra, a militares postos fora de combate (feridos, doentes,
náufragos, prisioneiros) e a populações civis. Ao se referir a situações de
extrema gravidade, o Direito Humanitário ou o Direito Internacional da
Guerra impõe a regulamentação jurídica do emprego da violência no
âmbito internacional.”

“Nesse sentido, o Direito Humanitário foi a primeira expressão de que, no


plano internacional, há limites à liberdade e à autonomia dos Estados, ainda
que na hipótese de conflito armado.”

Liga das Nações. “Criada após a Primeira Guerra Mundial, a Liga das Nações
tinha como finalidade promover a cooperação, paz e segurança
internacional, condenando agressões externas contra a integridade
territorial e a independência política dos seus membros. A Convenção da
Liga das Nações, de 1920, continha previsões genéricas relativas aos
direitos humanos, destacando-se as voltadas ao mandate system of the
League, ao sistema das minorias e aos parâmetros internacionais do direito
ao trabalho — pelo qual os Estados se comprometiam a assegurar
condições justas e dignas de trabalho para homens, mulheres e crianças.
Esses dispositivos representavam um limite à concepção de soberania
estatal absoluta, na medida em que a Convenção da Liga estabelecia
sanções econômicas e militares a serem impostas pela comunidade
internacional contra os Estados que violassem suas obrigações. Redefinia-
se, desse modo, a noção de soberania absoluta do Estado, que passava a
incorporar em seu conceito compromissos e obrigações de alcance
internacional no que diz respeito aos direitos humanos.”.

Organização Internacional do Trabalho (International Labour Office, agora


denominada International Labour Organization). Criada após a Primeira
Guerra Mundial, a Organização Internacional do Trabalho tinha por
finalidade promover padrões internacionais de condições de trabalho e
bem-estar. Sessenta anos após a sua criação, a Organização já contava com
mais de uma centena de Convenções internacionais promulgadas, às quais
Estados-partes passavam a aderir, comprometendo-se a assegurar um
padrão justo e digno nas condições de trabalho”.

Contribuição dessas organizações. “Apresentado o breve perfil da


Organização Internacional do Trabalho, da Liga das Nações e do Direito
Humanitário, pode-se concluir que tais institutos, cada qual ao seu modo,
contribuíram para o processo de internacionalização dos direitos humanos.
Seja ao assegurar parâmetros globais mínimos para as condições de
trabalho no plano mundial, seja ao fixar como objetivos internacionais a
manutenção da paz e segurança internacional, seja ainda ao proteger
direitos fundamentais em situações de conflito armado, tais institutos se
assemelham na medida em que projetam o tema dos direitos humanos na
ordem internacional.”

“Vale dizer, o advento da Organização Internacional do Trabalho, da Liga


das Nações e do Direito Humanitário registra o fim de uma época em que o
Direito Internacional era, salvo raras exceções7, confinado a regular
relações entre Estados, no âmbito estritamente governamental. Por meio
desses institutos, não mais se visava proteger arranjos e concessões
recíprocas entre os Estados; visava-se, sim, o alcance de obrigações
internacionais a serem garantidas ou implementadas coletivamente, que,
por sua natureza, transcendiam os interesses exclusivos dos Estados
contratantes. Essas obrigações internacionais voltavam-se à salvaguarda
dos direitos do ser humano e não das prerrogativas dos Estados8. Tais
institutos rompem, assim, com o conceito tradicional que situava o Direito
Internacional apenas como a lei da comunidade internacional dos Estados e
que sustentava ser o Estado o único sujeito de Direito Internacional9.
Rompem ainda com a noção de soberania nacional absoluta, na medida em
que admitem intervenções no plano nacional, em prol da proteção dos
direitos humanos.”

b) A internacionalização dos direitos humanos – o pós-guerra

“(...) a verdadeira consolidação do Direito Internacional dos Direitos Humanos surge em


meados do Século XX, em decorrência da Segunda Guerra Mundial”.

Nas palavras de Thomas Buergenthal (International Human Rights, p. 17): “O


moderno Direito Internacional dos Direitos Humanos é um fenômeno do pós-
guerra. Seu desenvolvimento pode ser atribuído às monstruosas violações de
direitos humanos da era Hitler e à crença de que parte destas violações poderiam
ser prevenidas se um efetivo sistema de proteção internacional de direitos
humanos existisse”

Complementa Flavia Piovesan: “Apresentando o Estado como o grande violador


de direitos humanos, a Era Hitler foi marcada pela lógica da destruição e da
descartabilidade da pessoa humana, o que resultou no extermínio de onze
milhões de pessoas. O legado do nazismo foi condicionar a titularidade de
direitos, ou seja, a condição de sujeito de direitos, à pertinência a determinada
raça — a raça pura ariana. No dizer de Ignacy Sachs, o século XX foi marcado por
duas guerras mundiais e pelo horror absoluto do genocídio concebido como
projeto político e industrial.”

“No momento em que os seres humanos se tornam supérfluos e descartáveis, no


momento em que vige a lógica da destruição, em que cruelmente se abole o valor
da pessoa humana, torna-se necessária a reconstrução dos direitos humanos,
como paradigma ético capaz de restaurar a lógica do razoável. A barbárie do
totalitarismo significou a ruptura do paradigma dos direitos humanos, por meio
da negação do valor da pessoa humana como valor fonte do direito. Diante dessa
ruptura, emerge a necessidade de reconstruir os direitos humanos, como
referencial e paradigma ético que aproxime o direito da moral. Nesse cenário, o
maior direito passa a ser, adotando a terminologia de Hannah Arendt, o direito a
ter direitos, ou seja, o direito a ser sujeito de direitos”.
“Nesse contexto, desenha-se o esforço de reconstrução dos direitos humanos,
como paradigma e referencial ético a orientar a ordem internacional
contemporânea. Se a Segunda Guerra significou a ruptura com os direitos
humanos, o pós-guerra deveria significar sua reconstrução.”

Direitos humanos como questão internacional. “Nasce ainda a certeza de que a


proteção dos direitos humanos não deve se reduzir ao âmbito reservado de um
Estado, porque revela tema de legítimo interesse internacional. Sob esse prisma, a
violação dos direitos humanos não pode ser concebida como questão doméstica
do Estado, e sim como problema de relevância internacional, como legítima
preocupação da comunidade internacional.”

“A necessidade de uma ação internacional mais eficaz para a proteção dos


direitos humanos impulsionou o processo de internacionalização desses direitos,
culminando na criação da sistemática normativa de proteção internacional, que
faz possível a responsabilização do Estado no domínio internacional quando as
instituições nacionais se mostram falhas ou omissas na tarefa de proteger os
direitos humanos.”

“O processo de internacionalização dos direitos humanos — que, por sua vez,


pressupõe a delimitação da soberania estatal — passa, assim, a ser uma
importante resposta na busca da reconstrução de um novo paradigma, diante do
repúdio internacional às atrocidades cometidas no holocausto.”

Richard Pierre Claude e Burns H. Weston1: “Entretanto, foi apenas após a Segunda Guerra
Mundial — com a ascensão e a decadência do Nazismo na Alemanha — que a doutrina da
soberania estatal foi dramaticamente alterada. A doutrina em defesa de uma soberania
ilimitada passou a ser crescentemente atacada, durante o século XX, em especial em face
das consequências da revelação dos horrores e das atrocidades cometidas pelos nazistas
contra os judeus durante a Segunda Guerra, o que fez com que muitos doutrinadores
concluíssem que a soberania estatal não é um princípio absoluto, mas deve estar sujeita a
certas limitações em prol dos direitos humanos. Os direitos humanos tornam-se uma
legítima preocupação internacional com o fim da Segunda Guerra Mundial, com a criação
das Nações Unidas, com a adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela
Assembleia Geral da ONU, em 1948 e, como consequência, passam a ocupar um espaço
central na agenda das instituições internacionais. No período do pós-guerra, os indivíduos
tornam-se foco de atenção internacional. A estrutura do contemporâneo Direito
Internacional dos Direitos Humanos começa a se consolidar. Não mais poder-se-ia afirmar,
no fim do século XX, que o Estado pode tratar de seus cidadãos da forma que quiser, não
sofrendo qualquer responsabilização na arena internacional. Não mais poder-se-ia afirmar
no plano internacional that king can do no wrong”

Relevância o Tribunal de Nuremberg para a internacionalização dos direitos


humanos. “Nesse contexto, o Tribunal de Nuremberg, em 1945-1946, significou
um poderoso impulso ao movimento de internacionalização dos direitos
humanos. Ao final da Segunda Guerra e após intensos debates sobre o modo pelo
qual se poderia responsabilizar os alemães pela guerra e pelos bárbaros abusos do
período, os aliados chegaram a um consenso, com o Acordo de Londres de 1945,

1
Human rights in the world community: issues and action.
pelo qual ficava convocado um Tribunal Militar Internacional para julgar os
criminosos de guerra.”

“A condenação criminal dos indivíduos que colaboraram para a ocorrência do


nazismo fundamentou-se, assim, na violação de costumes internacionais, ainda
que muita polêmica tenha surgido, com base na alegação da afronta ao princípio
da legalidade do direito penal, sob o argumento de que os atos punidos pelo
Tribunal de Nuremberg não eram considerados crimes no momento em que
foram cometidos.”

“O significado do Tribunal de Nuremberg para o processo de internacionalização


dos direitos humanos é duplo: não apenas consolida a ideia da necessária
limitação da soberania nacional como reconhece que os indivíduos têm direitos
protegidos pelo Direito Internacional22. Testemunha-se, desse modo, mudança
significativa nas relações interestatais, o que vem a sinalizar transformações na
compreensão dos direitos humanos, que, a partir daí, não mais poderiam ficar
confinados à exclusiva jurisdição doméstica23. São lançados, assim, os mais
decisivos passos para a internacionalização dos direitos humanos.” (P. 195).

c) A Carta das Nações Unidas de 1945

“Após a Segunda Guerra Mundial, relevantes fatores contribuíram para que se


fortalecesse o processo de internacionalização dos direitos humanos. Dentre eles, o
mais importante foi a maciça expansão de organizações internacionais com propósitos
de cooperação internacional.”

Como afirma Henkin: “O Direito Internacional pode ser classificado como o


195/782 Direito anterior à Segunda Guerra Mundial e o Direito posterior a ela. Em
1945, a vitória dos Aliados introduziu uma nova ordem com importantes
transformações no Direito Internacional, simbolizadas pela Carta das Nações
Unidas e pelas suas Organizações”

“A criação das Nações Unidas, com suas agências especializadas, demarca o surgimento
de uma nova ordem internacional, que instaura um novo modelo de conduta nas
relações internacionais, com preocupações que incluem a manutenção da paz e
segurança internacional, o desenvolvimento de relações amistosas entre os Estados, a
adoção da cooperação internacional no plano econômico, social e cultural, a adoção de
um padrão internacional de saúde, a proteção ao meio ambiente, a criação de uma nova
ordem econômica internacional e a proteção internacional dos direitos humanos.”

“Para a consecução desses objetivos, as Nações Unidas foram organizadas em diversos


órgãos. Os principais órgãos das Nações Unidas são a Assembleia Geral, o Conselho de
Segurança, a Corte Internacional de Justiça, o Conselho Econômico e Social, o Conselho
de Tutela e o Secretariado, nos termos do art. 7º da Carta da ONU”

Assembleia Geral. “Compete à Assembleia Geral discutir e fazer recomendações


relativamente a qualquer matéria objeto da Carta. Todos os membros das Nações
Unidas são membros da Assembleia Geral, com direito a um voto (arts. 9º e 18).
As decisões em questões importantes são tomadas pelo voto da maioria de dois
terços dos membros presentes e votantes. Questões importantes incluem aquelas
enumeradas no art. 18 (2) e outras, a depender do voto da maioria dos membros
presentes e votantes (art. 18 (3))”.

Conselho de Segurança. “Quanto ao Conselho de Segurança, é o órgão da ONU


com a “principal responsabilidade na manutenção da paz e segurança
internacionais” (art. 24). É composto por cinco membros permanentes e dez não
permanentes. Os membros permanentes são China, França, Reino Unido, Estados
Unidos e, desde 1992, Rússia, que sucedeu a URSS27. Os não permanentes são
eleitos pela Assembleia Geral para mandato de dois anos, considerando a
contribuição dos membros para os propósitos das Nações Unidas e a distribuição
geográfica equitativa (art. 23 (1)). Cada membro do Conselho de Segurança tem
direito a um voto. As deliberações do Conselho em questões processuais são
tomadas pelo voto afirmativo de nove membros. Em relação às questões
materiais, as deliberações também são tomadas pelo voto afirmativo de nove
membros, incluindo, todavia, os votos afirmativos de todos os cinco membros
permanentes (art. 27 (3)). Dessa previsão é que decorre o poder de veto dos
membros permanentes”.

Corte Internacional de Justiça. “A Corte Internacional de Justiça, nos termos do


art. 92 da Carta, é o principal órgão judicial das Nações Unidas, composto por
quinze juízes. Seu funcionamento é disciplinado pelo Estatuto da Corte, que foi
anexado à Carta. Dispõe a Corte de competência contenciosa28 e consultiva29.
Contudo, somente os Estados são partes em questões perante ela (art. 34 do
Estatuto).”

Secretariado. “Por sua vez, o Secretariado é chefiado pelo Secretário-Geral31,


que é o principal funcionário administrativo da ONU, indicado para mandato de
cinco anos pela Assembleia Geral, a partir de recomendação do Conselho de
Segurança (art. 97).”

Conselho de Tutela. “A competência do Conselho de Tutela atém-se a fomentar o


processo de descolonização e de autodeterminação dos povos, a fim de que
territórios tutelados pudessem alcançar, por meio de desenvolvimento
progressivo, governo próprio. Exerceu um papel vital, que, atualmente, encontra-
se esvaziado.”

Conselho Econômico e Social. “Por fim, quanto ao Conselho Econômico e Social,


composto por cinquenta e quatro membros, tem competência para promover a
cooperação em questões econômicas, sociais e culturais, incluindo os direitos
humanos (art. 62). Cabe ao Conselho Econômico e Social fazer recomendações
destinadas a promover o respeito e a observância dos direitos humanos, bem
como elaborar projetos de convenções a serem submetidos à Assembleia Geral.
Nos termos do art. 68, poderá o Conselho Econômico e Social criar comissões que
forem necessárias ao desempenho de suas funções.”
Fim da Comissão de Direitos Humanos e criação do Conselho de Direitos
Humanos.

“A Carta das Nações Unidas de 1945 consolida, assim, o movimento de


internacionalização dos direitos humanos, a partir do consenso de Estados que elevam a
promoção desses direitos a propósito e finalidade das Nações Unidas.”

“Embora a Carta das Nações Unidas seja enfática em determinar a importância de


defender, promover e respeitar os direitos humanos e as liberdades fundamentais —
como demonstram os dispositivos destacados —, ela não define o conteúdo dessas
expressões, deixando-as em aberto. Daí o desafio de desvendar o alcance e significado
da expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais”, não definida pela Carta.
Três anos após o advento da Carta das Nações Unidas, a Declaração Universal dos
Direitos Humanos, de 1948, veio a definir com precisão o elenco dos “direitos humanos
e liberdades fundamentais” a que faziam menção os arts. 1º (3), 13, 55, 56 e 62 da
Carta38. É como se a Declaração, ao fixar um código comum e universal dos direitos
humanos, viesse a concretizar a obrigação legal relativa à promoção desses direitos —
obrigação esta constante da Carta das Nações Unidas.”

“Contudo, ainda que a Carta da ONU tenha adotado linguagem vaga e imprecisa no que
se refere aos “direitos humanos e liberdades fundamentais”, os dispositivos, já aludidos,
pertinentes à promoção desses direitos implicaram importantes consequências”.

Na visão de Thomas Buergenthal: “A Carta das Nações Unidas ‘internacionalizou’ os direitos


humanos. Ao aderir à Carta, que é um tratado multilateral, os Estados-partes reconhecem que os
‘direitos humanos’, a que ela faz menção, são objeto de legítima preocupação internacional e, nesta
medida, não mais de sua exclusiva jurisdição doméstica. No sentido de definir o significado de
‘direitos humanos e liberdades fundamentais’ e esclarecer e codificar as obrigações impostas pelos
arts. 55 e 56 da Carta, um vasto universo de normas jurídicas foi elaborado. Este esforço é
simbolizado na adoção da International Bill of Human Rights e em inúmeros outros instrumentos de
direitos humanos que existem hoje. A Organização tem, ao longo dos anos, conseguido tornar claro
o escopo da obrigação dos Estados-membros em promover os direitos humanos, expandindo estes e
criando instituições, com base na Carta da ONU, designadas a assegurar o cumprimento desses
direitos pelos Estados. A ONU tem buscado assegurar o cumprimento dessas obrigações mediante
resoluções que exigem dos Estados que cessem com as violações a esses direitos, especialmente,
quando configurar ‘um consistente padrão de graves violações’ (consistente pattern of gross
violations), fortalecendo a Comissão de Direitos Humanos da ONU e seus órgãos subsidiários para
que estabeleçam procedimentos para apreciar as denúncias de violações”.

Conselho de Direitos Humanos (p.202)

d) A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948

“A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adotada em 10 de dezembro de 1948,


pela aprovação de 48 Estados, com 8 abstenções2. A inexistência de qualquer
questionamento ou reserva feita pelos Estados aos princípios da Declaração, bem como

2
“Os oito Estados que se abstiveram foram: Bielo-rússia, Checoslováquia, Polônia, Arábia Saudita,
Ucrânia, URSS, África do Sul e Iugoslávia. Observe-se que em Helsinki, em 1975, no Ato Final da
Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa, os Estados comunistas da Europa aderiram
expressamente à Declaração Universal.”
de qualquer voto contrário às suas disposições, confere à Declaração Universal o
significado de um código e plataforma comum de ação. A Declaração consolida a
afirmação de uma ética universal46 ao consagrar um consenso sobre valores de cunho
universal a serem seguidos pelos Estados.”

A Declaração Universal de 1948 objetiva delinear uma ordem pública mundial fundada
no respeito à dignidade humana, ao consagrar valores básicos universais. Desde seu
preâmbulo, é afirmada a dignidade inerente a toda pessoa humana, titular de direitos
iguais e inalienáveis.

“Vale dizer, para a Declaração Universal a condição de pessoa é o requisito único e


exclusivo para a titularidade de direitos. A universalidade dos direitos humanos traduz a
absoluta ruptura com o legado nazista, que condicionava a titularidade de direitos à
pertinência à determinada raça (raça pura ariana). A dignidade humana como
fundamento dos direitos humano e valor intrínseco à condição humana é concepção
que, posteriormente viria a ser incorporada por todos os tratados e declarações d
direitos humanos, que passaram a integrar o chamado Direito Internacional dos Direitos
Humanos.”

“Além da universalidade dos direitos humanos, a Declaração d 1948 ainda introduz a


indivisibilidade desses direitos, ao ineditamente conjugar o catálogo dos direitos civis e
políticos com o dos direitos econômicos sociais e culturais. De fato, concebida como a
interpretação autorizada dos arts. 1º (3) e 55 da Carta da ONU, no sentido de aclarar,
definir e decifrar a expressão “direitos humanos e liberdades fundamentais” a
Declaração de 1948 estabelece duas categorias de direitos: os direitos civis e políticos e
os direitos econômicos, sociais e culturais Combina, assim, o discurso liberal e o discurso
social da cidadania, conjugand o valor da liberdade com o valor da igualdade.”

p.207

“Essa breve digressão histórica tem o sentido de demonstrar quão dicotômica se


apresentava a linguagem dos direitos: de um lado, direitos civis e políticos; do outro,
direitos sociais, econômicos e culturais.”

“Considerando esse contexto, a Declaração de 1948 introduz extraordinária inovação ao


conter uma linguagem de direitos até então inédita. Combinando o discurso liberal da
cidadania com o discurso social, a Declaração passa a elencar tanto direitos civis e
políticos (arts. 3º a 21) como direitos sociais, econômicos e culturais (arts. 22 a 28)52.
Duas são as inovações introduzidas pela Declaração: a) parificar, em igualdade de
importância, os direitos civis e políticos e os direitos econômicos, sociais e culturais; e b)
afirmar a inter-relação, indivisibilidade e interdependência de tais direitos.”

“Ao conjugar o valor da liberdade com o da igualdade, a Declaração introduz a


concepção contemporânea de direitos humanos, pela qual esses direitos passam a ser
concebidos como uma unidade interdependente e indivisível. Assim, partindo do critério
metodológico que classifica os direitos humanos em gerações53, compartilha-se do
entendimento de que uma geração de direitos não substitui a outra, mas com ela
interage. Isto é, afasta-se a equivocada visão da sucessão “geracional” de direitos, na
medida em que se acolhe a ideia da expansão, cumulação e fortalecimento dos direitos
humanos, todos essencialmente complementares e em constante dinâmica de
interação. Logo, apresentando os direitos humanos uma unidade indivisível, revela-se
esvaziado o direito à liberdade quando não assegurado o direito à igualdade; por sua
vez, esvaziado, revela-se o direito à igualdade quando não assegurada a liberdade.”

“Vale dizer, sem a efetividade dos direitos econômicos, sociais e culturais, os direitos
civis e políticos se reduzem a meras categorias formais, enquanto, sem a realização dos
direitos civis e políticos, ou seja, sem a efetividade da liberdade entendida em seu mais
amplo sentido, os direitos econômicos, sociais e culturais carecem de verdadeira
significação.”

“Não há mais como cogitar da liberdade divorciada da justiça social, como também
infrutífero pensar na justiça social divorciada da liberdade. Em suma, todos os direitos
humanos constituem um complexo integral, único e indivisível, no qual os diferentes
direitos estão necessariamente inter-relacionados e são interdependentes entre si.”

“Como estabeleceu a Resolução n. 32/130 da Assembleia Geral das Nações Unidas:


“Todos os direitos humanos, qualquer que seja o tipo a que pertencem, se inter-
relacionam necessariamente entre si, e são indivisíveis e interdependentes”55. Essa
concepção foi reiterada na Declaração de Direitos Humanos de Viena de 1993, que
afirma, em seu § 5º, que os direitos humanos são universais, indivisíveis,
interdependentes e inter-relacionados.”

Valor jurídico da Declaração Universal de 1948. “A Declaração Universal não é um


tratado. Foi adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas sob a forma de resolução,
que, por sua vez, não apresenta força de lei57. O propósito da Declaração, como
proclama seu preâmbulo, é promover o reconhecimento universal dos direitos humanos
e das liberdades fundamentais a que faz menção a Carta da ONU, particularmente nos
arts. 1º (3) e 55.”

“Por isso, como já aludido, a Declaração Universal tem sido concebida como a
interpretação autorizada da expressão “direitos humanos”, constante da Carta das
Nações Unidas, apresentando, por esse motivo, força jurídica vinculante. Os Estados
membros das Nações Unidas têm, assim, a obrigação de promover o respeito e a
observância universal dos direitos proclamados pela Declaração.”

“Há, contudo, aqueles que defendem que a Declaração teria força jurídica vinculante
por integrar o direito costumeiro internacional e/ou os princípios gerais de direito,
apresentando, assim, força jurídica vinculante. Para essa corrente, três são as
argumentações centrais: a) a incorporação das previsões da Declaração atinentes aos
direitos humanos pelas Constituições nacionais; b) as frequentes referências feitas por
resoluções das Nações Unidas à obrigação legal de todos os Estados de observar a
Declaração Universal; e c) decisões proferidas pelas Cortes nacionais que se referem à
Declaração Universal como fonte de direito.”
Posição de Flávia Piovesan: “Para esse estudo, a Declaração Universal de 1948,
ainda que não assuma a forma de tratado internacional, apresenta força jurídica
obrigatória e vinculante, na medida em que constitui a interpretação autorizada
da expressão “direitos humanos” constante dos arts. 1º (3) e 55 da Carta das
Nações Unidas. Ressalte-se que, à luz da Carta, os Estados assumem o
compromisso de assegurar o respeito universal e efetivo aos direitos humanos.”

“Ademais, a natureza jurídica vinculante da Declaração Universal é reforçada pelo


fato de — na qualidade de um dos mais influentes instrumentos jurídicos e
políticos do século XX — ter-se transformado, ao longo dos mais de cinquenta
anos de sua adoção, em direito costumeiro internacional e princípio geral do
Direito Internacional.”

“Com efeito, a Declaração se impõe como um código de atuação e de conduta


para os Estados integrantes da comunidade internacional. Seu principal
significado é consagrar o reconhecimento universal dos direitos humanos pelos
Estados, consolidando um parâmetro internacional para a proteção desses
direitos. A Declaração ainda exerce impacto nas ordens jurídicas nacionais, na
medida em que os direitos nela previstos têm sido incorporados por Constituições
nacionais e, por vezes, servem como fonte para decisões judiciais nacionais63.
Internacionalmente, a Declaração tem estimulado a elaboração de instrumentos
voltados à proteção dos direitos humanos e tem sido referência para a adoção de
resoluções no âmbito das Nações Unidas. (...)”

e) Universalismo e relativismo cultural

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