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AATROPOS

40:Simulacros e Simu-
lação», escrito em 1981,
mantém-se como um dos o
mais inovadores livros de •<
Jean Baudrillard, soció- o
logo e filósofo francês de
<
...J
reputação internacional.
Nesta sua obra, e através
de exemplos dos novos
::,
:;
ui SIMULACROS
E SIMULAÇÃO
UJ
centros de espectáculos,
hipermercados, acidentes Cf)

nucleares e novas tecno- o


a:
logias, Baudrillard aborda (.)
a questão dos simulacros <
...J
e da simulação. Esta não :::,
seria já a de um território,
de um ser referencial, ou
de uma substâncJa, mas a
geração, através de mode-
:;
U) Jean OauOr1ll ar O
los, de um real sem origem
nem realidade.

RELÓGIO D' ÁCI.JA


Scan by J.H.
" Livrem-se d:is ve1h:is cntegori,1s do neg.1l1vo (n lei. o limite, :is
c,1str,1ções. 11 l,1lt,1, :i l,1cun.1) que por l.1nlo tempo o
pens.1mtnt o ocidtnlnl considtrou s.1gr.1d.1s, como form.1 dt JEAN BAUDRILLARD
poder e modo dt .1ctsso à r e.:ihdJdt . Pr t l1r.:im o que t posItIvo t
múltiplo, :i d1fertnç.1 à un1form1d.:ide. os fluxos às un1d.1dts, os
11gtncinmenlos móveis nos s1stem<1s."
- M1chel Fouc:iull'

SIMULACROS
E SIMULAÇÃO

ku.\ ~ylvio Rebelo, 15


IOOJ Lisboa -Telefone 8470775

e &liUons C..lilée, 1981


T(tu/o: Simulacros e Simul~o
T(tu/o origina/: Si.mulaC'l't':j et s.imulation
A,1.1tor; JH n Baudrillud
Tradwtor11: Maria Jo:io da c~ta Pe~ira
úrpr,: Femartdo Mateus
C Relógiod'Água, 1991
Extcu(io grdfiu: Rainho & Neva, ui.a./Santa Maria d.a Feir.11
Depósito leg• I n.9: 45675/91 ANTROPOS
Índice

A p recessão dos simulacros .. . 7


A história: um cenário retro .. 59
Holocausto .... 67
C hina Syndrom ..... 71
Apocalypse Now .. 77
O efeito Beaubourg, implosão e d issuasão ... 81
Hipermercado e hipcrmercadoria ...... 97
A implosão do sentido nos media .. 103
Publicidade absoluta, publicidade zero .... 113
Clone sto.-y .. 123
Hologr.tmas ... . 133
Crash .......... . 139
Simulação e ficção científica 151
Os animais, território e metamorfose ..... 159
O resto ..... 175
O cadáver em esp iral ... 183
O ú ltimo tango do valor .... 191
Sobre o niilismo .. 195
A precessão
dos simulacros

O simulacro nunca l o que oculta a wrditdt'


- t a ver,lade que oculta que não exisle.
O simulacro l vtrdtldeiro.

Se outrora pudemos tomar pela mais bela alegoria da


simulação a fábula de Borges em que os cartógrafos do
Império desenham um mapa tão detalhado que acaba por
cobrir exactamente o território (mas o declínio do Império
assiste ao lento esfarrapar deste mapa e à sua ruína, podendo
ainda locali7.ar-se alguns fragmentos nos desertos - beleza
metafísica desta abstracção arruinada, testemunha de um
orgulho à medida do Império e apodrecendo como uma
carcaça, regressa ndo à substância do solo, de certo modo
como o duplo acaba por confundir-se com o real ao enve-
lhecer) - esta fábu la está terminada para nós e tem apenas
o discreto encanto dos simulacros da segunda categoria m,

1. J. Baudrillard, L'ichangt: syml,oliqut ti la mor/, «L'ordre des simu•


lacres,., Paris, Gallimard, 1975.
Simulacros t Simulaçlo Jta,i Baudriltard

Hoje a abstraa;ão já não é a do mapa, do duplo, do 1


esta passagem a um espac;o cuja curvatura já não é a do
espelho ou do conceito. A simu1aç.1o já não é a simulação de real, nem a da verdade, a era da simulaç.lo inkia-se, pois,
um território, de um ser referencial, de uma substância. é a com um.a liquidação de todos os referenciais - pior: com a
geração pelos modelos de um real sem origem nem realidade: sua ressurreiç.'.\o artificial nos sistemas de signos, material
hiper-rcal. O território já não precede o mapa, nem lhe sobre- mais dúctil que o sentido, na medida em que se oferece a
vive. É agora o mapa que precede o território - precessão todos os s istemas de equivalência, a todas as oposições
dos simulacros - é ele que engendra o território cujos frag- binárias, a toda a álgebra combinatória. Já não se trata de
mentos apodrecem lentamente sobre a extcnSão"do mapa. E imitação, nem d e dobragem, nem mesmo de paródia. Trata-
o real, e não o mapa, cujos vestígios subsistem aqui e ali, nos -se de uma substituição no real dos signos do real, isto é, de
desertos que já não são os do Império, mas o nosso. O destrlo uma operação de dissuasão de todo o processo real pelo seu
do próprio real. duplo operatório, m.iquina sinalética mct-aestável, progra-
De facto, mesmo invertida, a fábula é inutilizável. Talvez mática, im pecável, que oferece todos os signos do real e lhes
subsista apenas a alegoria do Império. Pois é com o mesmo curto-circuita todas as peripécias. O real nunca mais terá
imperialismo que os simuladores actuais tentam fa1..er coinci- oportunidade de se produzir- tal éa função vital do modelo
dir o real, todo o real, com os seus modelos de simulaç.1o. num sistema de morte, ou an tes de ressurreição antecipada
Mas já não se trata de mapa nem de território. Algo desapare- que não deixa já qualquer hipótese ao próprio acontecimento
ceu: a diferença soberana. d e um para o outro, que constituía da morte. Hipcr-real, doravante ao abrigo do imaginário,
o encanto da abstraa;ao. Pois é na diferença que consiste a não deixando lugar senão à recorrência orbital dos modelos
poesia d o mapa e o encanto do território,a magia doronceito e à geração simulada das diferenças.
e o encanto do real. Este imaginário da representação, que
culmina e ao mesmo tempo se afunda no projl'Cto louco dos
cartógrafos, de uma coextensivid ade ideal do mapa e do ter-
ritório, desaparece na simulação- cuja operação é nuclear e A irreferência d ivina das imagens
genética e já não especular e discursiva. R toda a metafísica
que desaparece. Já não existe o espelho do ser e das aparên-
cias, do real e do seu conceito. Já não existe a,extensividade Dissimular é fingir não ter o que se tem. Simular é fingir
imaginária: é a miniaturização genética que é a dimens.'\o da ter o que não se tem. O primeiro refere-se a u ma presença, o
simulaç3o. O real é produzido a partir de células miniaturiza- segundo a uma ausência. Mas é mais complicado, pois simular
das, de matrizes ede memórias, de modelos de comando - e não é fingir: -Aquele que finge uma d oença pode simples-
pode ser reproduzido um número indefinido de vezes a partir mente meter-se na cama e fazer crer que está doente. Aquele
daí. Já não tem de ser racional, pois já não se compara com que simula uma doença determina em si próprio a lguns dos
nenhuma instânda, ideal ou negativa. É apenas operacional. respectivos sintomas.» (littré.) Logo fingir, ou dissimular,
Na verdade,já não é o real, pois já roC>está envolto em nenhum deixam intacto o prindpioda realidade: a diferença continua
imaginário. t um hiper-reaJ, produto de síntese irradiando a ser clara, está apenas disfarçada~enquanto que a simulação
modelos combinatórios num hiperespaço sem atmosfera. põe em causa a diferença do •verdadeiro,. e do «falso•, d o
10 Simulacros e Simulaç4o Jean &mdritlard II

«reah>e do ~imaginário». O s imulador está ou não doente, se Que pode fazer o exército com os simuladores? Tradi-
produz «verdadeiros» sintomas? Objectivamente não se pode cionalmente desmascara-os e pune-os, segundo um prinápio
tratá-lo nem como doente nem como não-doente. A psicologia claro de localização. Hoje o exército pode dar como incapaz
e a medicina detêm-se aí perante uma verdade da doença para o serviço militar um bom simulador como sendo exac-
que já não pode ser encontrada. Pois se qualquer sintoma tamente equivalente a um homossexual, a um cardíaco ou
pode ser «p roduzido» e já não pode ser aceite como um facto a um louco «verdadeiros». Até mesmo a psicologia militar
da natureza, então toda a doença pode ser considerada recua ·diante das clarezas cartesianas e hesita em fazer a
simulável e simulada e a medicina perde o seu sentido, uma distinção do falso e do verdadeiro, do sintoma «produzido»
vez que só sabe tratar doenças «verdadeiras» pelas suas e do sintoma a utêntico, «Se ele imita tão bem um louco é
causas objectivas. .porque o é.» E não deixa de ter razão: neste sentido todos o~
A psicossomática evolui de maneira incerta nos confins loucos simulam e esta indistinção é a pior das subversões. E
do princípio da doença. Quanto à psicanálise, ela d evolve o contra ela que a ra:,..ão clássica se armou com todas as suas
sintoma do domínio orgânico ao domínio inconsciente: este categorias. Mas é ela hoje em dia que de novo as ultrapassa
é de novo suposto ser «verdadeiro», mais verdadeiro que o e submerge o princípio de verdade.
outro - mas por que é que a simulação se detém às portas Para além da medicina e do exército, terrenos de eleição
do inconsciente? Por que é que o «trabalho» do inconsciente da simulação, a questão prende·se com a religião e com o
não há-de poder ser «produzido» do mesmo modo que simulacro da divindade: «Eu proibi a existência nos templos
qualquer sintoma da medicina clássica? Os sonhos já o são. de qualquer simulacro porque a divindade que anima a
Claro que o médico alienista faz crer que «para cada natureza não pode ser representada.» Na verdade pode sê-
forma de alienação mental existe uma ordem particular na -lo. Mas em que é que se toma quando se divulga em kones,
sucessão dos sintomas que o simulador ignora e cuja ausência quando se desmultiplica em simulacros? Continua a ser a
não poderia enganar o médico alienista». Isto (que data de instância suprema que simplesmente se encarna nas imagens,
1865) para salvar a todo o custo o princípio de uma verdade numa teologia visível? Ou será que se vola tiliza nos
e iludir a interrogação que a simulação coloca - ou seja, que simulacros que, só eles, ostentam o seu fausto e poder de
a verdade, a referência, a causa objectiva deixaram de existir. fascinação - com o apa rato visível dos ícones substituindo-
Ora que pode fazer a medicina com o que paira aquém e •se à Ideia pura e inteligível de Deus? Era disso justamente
além da doença, aquém e além da saúde, com a reiteração da que tinham receio os ~conoclastas, cuja querela milenária é
doença num discurso que não é nem verdadeiro nem falso? ainda hoje a nossa 0 >. E precisame nte porque estes apresen·
Que pode fazer o psicanalista com a reiteração do inconsciente tavam esta omnipotência dos simulacros, esta faculdade que
num discurso de simulação q ue nunca mais pode ser têm de apagar Deus da consciência dos homens e esta verdade
desmascarado, já que também não é falso ª >? que deixam entrever, destruidora, aniquiladora, de que no
fundo Deus nunca existiu, que nunca existiu nada senão o

2. E que não é susceptivel de resolução na transparência. É o enredar


destes doís discursos que toma a psicanálise interminável J . Cf. M. Pemlola, (c6m:s, Visions, Sim1dacm, pág. 39.
12 Simulacros e Simula,;.io Jean Baudn'llard 13

simulacro e mC'Smo que o próprio Deus nunca foi senão o como poder d ialéctico, mediac:ão visível e inteligível do Real.
seu próprio simulacro-daí vinha a sua raiva em destruir as Toda a fé e a boa fé ocidental se empenharam nesta aposta da
imagens. Se eles tivessem podido acreditar que estas apenas representação: que um signo possa remeter para a profun-
ocultavam ou disfarçavam a Ideia de Deus segundo Platão, didade do sentido, que um signo possa trocar-se por sentido
não haveria motivo para as destruir. Pode viver-se com a e que alguma coisa sirva de cauc:ão a esta troca - Deus,
ideia de uma verdade alterada. Mas o seu desespero meta- certamente. Mas e se o próprio Deus pode ser simulado, isto
físico provinha da ideia de que as imagens não escondiam é, reduzir-se aos signos que o provam? Então todo o sistema
absolutamente nada e de q ue, cm suma, não eram imagens perde a força da gravidade, ele próprio não é ma.is que um
mas de facto simulacros perfeitos, para sempre radiantes no gigantesco simulacro - não irreal, mas simulacro, isto é,
seu fascínio próprio. Ora é preciso conjurar a todo o custo nunca mais passível de ser trocado por real, mas trocando-se
esta morte do referendai divino. em si mesmo, num circuito ininterrupto cujas referência e
Vemos assim que os iconoclastas, acusados de desprezar circunferência se encontram em lado rienhum,
e negar as imagens, eram os que lhes davam o seu justo Assim é a simulação, naquilo em que se opõe à represen-
valor, ao contrário dos iconolatras, que nelas apenas viam tação. Esta parte do princípio de equivalência do signo e do
reflexos e se contentavam em venera r Deus em filigrana. real (mesmo se esta equivalência é utópica, é um axioma fun-
Mas podemos dizer, contrariamente, que os iconolatras foram damental). A simulação parte, ao contrário da utopia, do prin-
os espíritos mais modernos, mais aventureiros, uma vez que, cípio de equivalência, parte da negaçio radical do signo como
sob a luz de uma transparição de Deus no espelho das valor, parte do signo como reversão e aniquilamento de toda
imagens, representavam já a sua morte e a sua desaparição a referência. Enquanto que a representação tenta absorver a
na epifania das suas representações (das quais talvez sou• simulação interpretando--a como falsa representação, a simu-
bessem que já não representavam nada, que eram um jogo lação envolve todo o próprio edifício da representação como
puro, mas que era esse precisamente o g rande jogo-sabendo simulacro.
também que é perigoso desmascarar as imagens, já que elas Seriam estas as fases sucessivas da imagem:
dissimulam que não há nada por detrás delas. Assim farão
os Jesuítas, que fundarão a sua política sobre a desaparição - ela é o reflexo de uma realidade profunda
- ela mascara e deforma uma realidade profunda
virtual de Deus e a manipulação mundana e espectacular
das consciências - desvanecimento de Deus na epifania do - ela mascara a ausência de realidade profunda
poder - fim da transcendência que já não serve senão de - ela não tem relação com qualquer realidade: ela é o seu
alibi a uma estratégia completamente livre das influências e próprio simulacro puro.
dos signos. Por trás do barroco das imagens esconde•se a No primeiro caso, a imagem é uma boa aparência - a
eminência parda da política. representação é do domínio do sacramento. No segundo, é
Assim a questão terá sempre sido o poder assassino das uma má aparência - do domínio do malefício. No lerceiro,
imagens, assassinas do rea.1, assassinas do seu próprio modelo, finge ser uma aparência - é do domínio do sortilégio. No
como os ícones de Bizâncio o podiam ser da identidade quarto, já não é de todo do domínio da aparência, mas da
divina. A este poder assassino opõe-se o das representações simulação.
Sim1dacros ~ Simufaçdo Jean Baudriflard 15

A passagem dos signos que dissimulam a lguma coisa aos Para que a etnologia viva é preciso que o seu objecto
sígnos que dissimulam que não há nada, marca a viragem morra, o qual se vinga morrendo por ter sido «descoberto» e
decisiva. Os primeiros referem-se a uma teologia da verdade desafia com a sua morte a ciência que o quer apreender.
e do segredo (de que faz ainda parte a ideologia). Os segundos Não vive toda a ciência nesse plano inclinado paradoxal
inauguram a era dos simulacros e da simulação, onde já não a que a votam a evanescência do seu objecto na sua própria
existe Deus para reconhecer os seus, onde já não existe Juízo apreensão e a reversão impiedosa que sobre ela exerce esse
Final para separar o falso do verdadeiro, o real da sua res- objecto morto? Como Orfeu, ela volta-se sempre cedo de
surreição artificial, pois tudo está j,á antecipadamente morto mais e, como Eurídice, o seu objecto recai no Inferno.
e ressuscitado. Foi contra esse inferno do paradoxo que os etnólogos
Quando o real já não é o que-era, a nostalgia assume todo quiseram premunir-se ao voltarem a fechar o cordão de
o seu sentido. Sobrevalori7..ação dos mitos de origem e dos segurança da floresta virgem em redordosTasaday. Ninguém
signos de realídade. Sobrevalorização de verdade, de objec- mais ai tocará: o jazigo volta a fechar-se como uma mina. A
tividade e de autenticidade de segundo plano. Escalada do ciência perde com isso um capital precioso mas o objecto
verdadeiro, do vivído, ressurreição do figurativo onde o será salvo, perdido para ela, mas intacto na sua «virgindade».
objecto e a substância desapareceram. Produção desenfreada Não se trata de um sacrifício (a ciência nunca se sacrifica, é
de real e de referencial, paralela e superior ao desenfreamento sempre assassina), mas do sacrifício s imulado do seu objecto
da produção material: assim surge a simulação na fase que a fim de salvar o seu princípio de realidade. O Tasaday
nos interessa - uma estratégia de real, de neo-real e de congelado na sua essência natural vai servir-lhe de alibi
hiper-real, que faz por todo o lado a dobragem de uma perfeito, de caução eterna. Aqui começa uma antietnologia
estratégia d e dissuasão. que nunca mais acabará e da qual Jaulin, Castafieda, Clastres
constituem alguns testemunhos. Em todo o caso, a evolução
lógica de uma ciência é de se distanciar cada vez mais do seu
objecto até passar sem ele: a sua autonomia não pode ser
Ramsés ou a ressurreição cor-de-rosa mais fantástica, atinge a sua fonna pura. O índio assim
devolvido ao ghetto, no sepulcro d e vidro da floresta virgem,
·volta a ser o modelo de simulação de todos os índios possíveis
A etnologia roçou a morte paradoxal no dia de 1971 em de antes da etnologia. Esta dá-se assim ao luxo de se enc"rnar
que o Governo das Filipinas decidiu devolver ao seu primi- para lá de si própria, na realidade «bruta» destes índios
tivismo, fora do alcance dos colonos, dos turistas e dos etnó- inteiramente inventados por ela - selvagens que devem à
logos, as escassas dezenas de Tasaday, recentemente desco- etnologia o serem ainda selvagens: que reviravolta, que
bertos no fundo da selva onde tinham vivido durante oito triunfo para esta ciência que parecia votada a destruí-los!
séculos sem contacto com o resto da espécie. E isto por Claro que esses selvagens são póstumos: gelados, crioge-
iniciativa dos próprios antropólogos, que viram os ind ígenas ni7..ados, esterilizados, protegidos até à morte, tornaram-se
decompor-se imediatamente, ao seu contacto, como uma simulacros referenciais e a própria ciência se tomou simulação
múmia ao ar livre. pura. O mesmo em Creusot, no âmbito do museu «sem
16 Simulacros e Simulaç4o fea,1 Ba11driftard 17

fronteiras» onde se museificaram no local, como testemunhas senão morrer contaminada pela morte deste objecto que é o
«históricas» da sua época bairros operários inteiros, zonas seu espelho inverso. Aparentemente é ela que o domina mas
metalúrgicas vivas, uma cultura completa, homens, mulheres, é ele que a investe em profundidade, segundo uma reversão
crianças incluídos- gestos, linguagens, costumes incluídos, inconsciente, dando apenas respostas mortas e circulares a
fossilizados vivos como num instantâneo. O museu, em vez uma interrogação morta e circular.
de estar circunscrito como lugar geométrico, está agora em Nada muda quando a sociedade quebra o espelho da
toda a parte, como uma dimensão da vid a. Assim, a etnologia, .loucura (abole os asilos, dá a palavra aos loucos, etc.) nem
em vez de se circunscrever como uma ciência objectiva, vai quando a ciência parece quebrar o espelho da sua objectivi-
doravante, liberta do seu objecto, generalizar-se a todas as dade (abolir-se diante do seu objecto, como Castai\eda, etc.)
coisas vivas e tornar-se invisível, como uma quarta dimensão e inclinar·se perante as (<diferenças~. À forma do encarce-
p resente em toda a parte, a do simulacro. Somos todos Tasaday, ramento sucede a de um dispositivo inumerável, difractado,
índios que tornaram a ser o que eram, ou seja, tais como em desmultiplicado. À medida que a etnologia se afunda na sua
si próprios a etnologia os mudou - índios simulacros que instituição clássica, ela perSiste numa antietnologia cuja tarefa
proclamam enfim a verdade universal da etnologia. consiste em reinjectar por toda a parte diferença·fic<;ão, sei•
Todos passámos vivos para a luz espectral da etnologia, vagem-ficção, para esconder que é este mundo, o nosso, que
ou da antietnologia, que não é mais que a forma pura da voltou a tomar-se selvagem à sua maneira, isto é, devastado
etnologia triunfa l, sob o signo das diferenças mortas e da pela diferença e pela morte.'
ressurreição das diferenças. É, pois, de uma grande ingenui- E também assim, a pretexto de preservar o original, se
dade ir procurar a etnologia junto dos selvagens ou num proíbe o acesso de visitantes às grutas de Lascaux, mas que
qualquer Terceiro Mundo - ela está aqui, em toda a parte, se construiu a réplica exacta a quinhentos metros de distân-
nas metrópoles, nos Brancos, num mundo inteiramente recen- cia, para que todos possam vê-las (dá-se uma olhadela à
seado, analisado, depois ressuscitado artificialmente sob as gruta autêntica pelo postigo e depois visita-se o todo recons-
espécies do real, num mundo da simulação, da alucinação da truído). É possível que a própria recordação das grutas de
verdade, da chantagem com o real, do assassínio de toda a origem se desvane<;a no espírito das gerações futuras, mas
forma simbólica e da sua retrospecção histérica, histórica - desde já não há diferença~o desdobramento basta para as
assassínio que os selvagens, uoblesseoblige, foram os primeiros remeter para o domínio do artificial.
a pagar, mas que desde há muito se estendeu a todas as Assim, toda a ciência e a técnica se mobilizaram recente-
sociedades ocidentais. mente para salvar a múmia de Ramsés li, depois de a terem
Mas ao mesmo tempo a etnologia dá-nos a sua única e deixado apodrecer durarite algumas dezenas de anos no
última lição, o segredo que a mata (e que os selvagens fundo de um museu. O Ocidente foi tomado de pânico perante
conhecem bem melhor que ela}: a vingança do morto. a ideia de não poder salvar o que a ordem simbólica tinha
O encarceramento do objecto científico é igual ao dos sabido conservar durante quarenta séculos, mas longe do
loucos e dos mortos. E da mesma maneira que toda a socie- olhar e da luz. Ramsés não significa nada para nós, apenas a
dade está irremediavelmente contaminada por este espelho múmia é de um valor incalculável, pois é ela que garante que
da loucura que ela entregou a si própria, a ciência não pode a acumulação tem um sentido. É toda a nossa cultura linear
18 Simulacros t Sinm/aç4o Jean Baudri/lnrd 19

e acumulativa que se desmorona se não pudermos armazenar ordem da história, da ciência e do museu, a nossa, que já não
o passado à Juz do dia. Para isso é preciso fazer sair os faraós domina nada, que só sabe votar o que a procedeu à podridão
da sua tumba e as múmias do seu silêncio. Para isso é preciso e à morte e tentar em seguida ressuscitá-lo pela ciência.
exumá-las e prestar-lhes honras militares. Elas são simuJta- Violência irreparável para com todos os segredos, violência
neamente presa da ciência e dos vermes. Sóo segredo absoluto de uma civilização sem segredo, ódio de toda uma civilização
lhes assegurava este poder milenário-domínio da podridão contra as suas próprias bases.
que significava o domínio do ciclo total das trocas com a E tal como a etnologia, fingindo desligar-se do seu objecto
morte. Nós não sabemos senão colocar a nossa ciência ao para melhor se afirmar na sua forma pura, assim a desmu-
serviço da reparação da múmia, isto é, restaurar uma ordem seificação não é senão uma espiral a mais na artificialidade.
visível, enquanto que o embalsamento era um trabalho mítico Testemunha disso é o claustro de S. Miguel deCuxa, que vai
que pretendia imortalizar uma dimensão oculta. ser repatriado com grandes despesas pelos Cloysters de Nova
Precisamos de um passado visível, um contimmm visí- Iorque, para ser reinstalado no «seu local original». E todos
vel, um mito visível da origem, que nos tranquilize sobre os aplaudem esta restituição (como na i<operação experimental
nossos fins. É que no fundo nunca acreditámos nisso. Daí de reconquista dos passeios» dos Champs Elysées!). Ora se a
essa cena histórica da recepção da múmia no Aeroporto de exportação dos capitéis foi com efeito um acto arbitrário, se
Orly. Porque Ramsés era uma figura despótica e militar? os Cloysters de Nova Iorque são bem um mosaico artificial
Decerto. Mas sobretudo porque a nossa cultura sonha, por de todas as culturas (segundo uma lógica de centralização
detrás desse poder defunto que tenta anexar, com uma capitalista do valor), a reimportação para o local de origem,
ordem que não tenha nada que ver com ela, e sonha com isso essa é ainda mais artificial: é o simulacro total que se junta à
porque a exterminou exumando-a como o seu próprio pasS11do. «realidade» mediante uma circunvolução completa.
Estamos fascinados com Ramsés como os cristãos da O claustro tivera de ficar em Nova Iorque num ambiente
Renascença o estavam com os índios da América, esses seres simulado que pelo menos não enganava ninguém. Repatriá-
(humanos?) que nunca Unham conhecido a palavra de Cristo. -lo é apenas um subterfúgio adicional para fazer de conta
Houve assim, nos princípios da colonização, um momento que nada se passou e gozar a alucinação retrospectiva.
de estupor e deslumbramento perante a própria possibilidade Assim se gabam os Americanos de ter conseguido voltar a
de escapar à lei universal do Evangelho. Entãor das duas, igualar o número de índios existente antes da Conquista. Apa-
uma: ou se admitia que essa lei não era universal ou se exter- ga-se tudo e recomeça-se. Gabam-se mesmo de fazer melhor
minavam os índios para apagar as provas. De uma maneira e de ultrapassar o número original. Será a prova da superio-
geral contentaram-se com convertê-los ou mesmo sim- ridade da civilização: ela produzirá mais índios que os que
plesmente em descobri-los, o que bastaria para a sua exter- estes eram capazes de produzir. (Com uma irrisão siRistra,
minação lenta. esta superprodução é ainda ela uma forma de os destruir: é
Deste modo terá bastado exumar Ramsés para o extermi- que a cultura índia, como toda a cultura tribal, baseia-se na
nar ao museificar: é que as múmias não apodrecem com os limitação do grupo e na recusa de todo o crescimento «livre»,
vermes: elas morrem por transumarem de uma ordem lenta como se vê em lshi. Há aí, pois, na sua «promoção» demo-
do simbólico, senhora da podridão e da morte, para uma gráfica, mais um passo para a exterminação simbólica.
20 Simulacros e Simulnçilo Jean Baudrillard 21

Assim, vivemos por toda a parte num universo estra- multidão. Todos os valores são aí exaltados pela miniatura e
nhamente semelhante ao original - as coisas são aí dobradas pela banda desenhada. Embalsamados e pacificados. Donde
pelo seu próprio cenário. Mas este duplo não significa, como .a possibilidade (L. Marin fê-lo muito bem em Utopiques, jeux
na tradição, a iminência da sua morte - elas estão j.i expur- d'espaces) de uma ru,álise ideológica da Disneylândia: selecção
gadas da sua morte e melhor ainda que da sua vida: mais do american way of hfe , panegírico dos valores ame ricanos,
sorridentes, mais autênticas, na luz do seu modelo, como os transposição idealizada de uma realidade contraditória.
rostos dos funeral homes. · Decerto. Mas isto esconde uma outra coisa e esta trama
11ideológica» serve ela própria de cobertura a uma simulação
de terceira cnlegorin: a Disneylândia exist·e para esconder que
é o país «real», toda a América «real» que é a Disneylãndia
Hipe r-real e imaginário
(de certo modo como as prisões exis tem para eS<:onder que é
todo o social, na sua omnipresença banal, que é carceral). A
A Disneylândia é um modelo perfeito de todos os t ipos de Disneylândia é colocada como imaginário a fim de fazer crer
simulacros confundidos. É antes de mais um jogo d e ilusões que o resto é real, qua ndo toda Los Angeles e a Amé rica que
e de fantasmas: os Piratas, a Fro nteira, o Future World, etc. a rodeia já não são reais, mas do domínio do hiper-real e da
Su põe-seque este mundo imaginário constitui o êxito da ope- simulação. Já não se trata de uma representação falsa da rea-
ração. Mas o que atrai as multidões é sem dúvida muito mais lidade (a ideologia), trata-se de esconder que o real já não t
o microcosmos social, o gozo religioso, miniaturizado da Amé- o real e portanto de salvaguardar o prindpio de realidade.
rica real, dos seus constrangimentos e das suas alegrias. fEsta- O imaginário da Disneylândia não é verdadeiro nem falso,
ciona-se no exterior, faz-se a bicha no interior, é-se totalmente é uma máquina de dissuasão encenada para regenerar no
abandonado à saída. A única fantasmagoria neste mundo plano oposto a ficção do real. Daí a debilidade deste imaginá-
imaginário é a da te rnura e do calor inerente à multidão e a rio, a sua degenerescência infantil. O mundo quer-se infantil
de um número s uficiente e excessivo degadgets próprios para para faze r crer que os adultos estão no utra parte, no mundo
manter o efcit·o multitudinário. O contraste com a solidão <(real», e para esconder que a verdadeira infantilidade está
absoluta do parque de estacionamento- verdadeiro campo em toda a parte, é a dos próprios adultos que vêm aqui fingir
de concentração - é total. Ou antes: no interior todo um que são crianças para iludir a sua infantilidade real.
leque de gadgets magnetizam a multidão em dois fluxos De resto, a Disneylândia não é caso único. Enchanted
dirigidos- no exterior, solidão dirigida para um ún ico gadgel: Village, Magic Mountain, Marine World: Los Angeles está
o automóvel. Por uma extraordinária coincidência (mas isso cercada desta espécie de centrais imaginárias que alimentam
resulta sem dúvida do encantamento próprio a este universo) com o real, em energ"ia do real, uma cidade cujo mistério
este mundo infantil congelado foi concebido e realizado por consiste jus tamente em não ser mais que uma rede de
um homem, ele próprio hoje em dia criogenizado: Walt circulação incessante, irreal - cidade de uma extensão
Disney, que espera a ressurreição a 180 graus negativos. fabulosa, mas sem espaço, sem dimensões. Tal com o as
/ Na Disneylândia desenha-se, pois, por toda a parte, o perfil ccntraiseléctricas e atómicas, tal como os estúdios de cinema,
~ objectivo da América, até na morfologia dos indivíduos e da t..'Sta cidade, não sendo ela própria mais que um imenso
22 Simulacros e Sim1,laçtfo Jean Baudrilfard 23

cenário e um travetling perpétuo, tem necessidade deste velho O encantamento político


imaginário como de um sistema simpático, feíto de sinais de
infância e de fantasmas falsificados.
Oisneylândia um espaço de regeneração do imaginário Watergate. O mesmo cenário que na Oisneylãndia (efeito
como noutros sítios, e mesmo aqui, as fábricas de tratamento de imaginário escondendo que não há mais realidade além
de detritos. Por toda a parte, hoje em dia, é preciso recidar os como aquém dos limites do perímetro artificial): aqui efeito
detritos, os sonhos, os fantasmas; o imaginário histórico, de escândalo escondendo que não há qualquer diferença
feérico, lendá rio das crianças e dos adultos é um detrito, o entre os factos e a sua d enúncia (métodos idênticos por parte
primeiro grande resíduo tóxico de uma civilização hipcr• dos homens da C IA e dos jornalistas do Washirlgton Post). A
real. A Disneylãndia é o protótipo desta função nova no mesma operação, tendente a regenerar através do escândalo
plano mental. Mas do mesmo tipo são todos os instintos de um princípio moral e político, através do imaginário um
reciclagem sexual, psíquica, somática, que pululam na princípio de realidade em dissipação.
Califórnia. As pessoas já não se olham, mas existem institutos A denúncia doescãndalo ésempre uma homenagem que se
para isso. Já não se tocam, mas existe a contactoterapia. Já rende à lei. E Watergate conseguiu sobretudo impor a ideia
não andam, mas fazem jogging, etc. Poi- toda a parte se de que Watergate era um escândalo - nesse sentido foi uma
reciclam as faculdades perdidas, ou o corpo perdido, ou a operação de intoxicação prodigiosa. Uma boa dose de rein-
sociabilidade perdida, ou o gosto perdido pela comida, jecção d e moral política à escala mundial. Poder-se-ia dizer,
Reinventa-se a penúria, a ascese, a naturalidade selvagem como Bourdieu: «O que é próprio a toda a correlação de
desaparecida: nat11raf food, healtl, food, yoga~ Verifica-se, mas forças é dissimular-se enquanto tal e não assumir toda a sua
ao segundo nível, a ideia de Marshall Shalins, :;egund o o força senão porque se dissimula enquanto tal», entendendo-
qual é a economia de mercado, e de maneira nenhuma a -o assim: o capital, imoral e sem escnípulos, só pode exercer-
nah1reza, que segrega a penúria: aqui, nos confins sofisticados -se por detrás de uma superstrutura moral, e quem quer que
de uma economia de mercado triunfante, reinventa-se uma seja que regenere esta moralidade pública (pela indignação,
penúria/signo, uma penú ria/simulacro, um comportamento pela denúncia, etc.) trabalha espontaneamente pa ra a ordem
simulado de subdesenvolvido (inclusive na adopção das teses do capital. Foi esse o caso dos jornalistas do Washington Post.
marxistas) que, sob uma capa de ecologia, de crise energética Mas isto não seria ainda senão a fórmula da ideologia e,
ede crítica do capital, acrescenta uma última auréola esotérica quando Bourdieu a enuncia, subentende a <(correlação de .
ao triunfo de uma cultura exotérica. Contudo, ta lvez uma forças» como verdade da dominação capitalista e denuncia
catástrofe mental, uma imploslío e uma involu(ão mental !.$la mesma correlação de forças como escândalo - está,
sem precedentes espreitem um sistema deste género, cujos pois, na mesma posição determinista e moralista dos jorna-
sinais visíveis seriam essa obesidade estranha, ou a incrível listas do Wasl1ingto11 Post. Faz o mesmo trabalho de resgate
coabitação das teorias e das práticas mais bizarras, em e de relançamento de uma ordem moral, de urna ordem
resposta à improvável coligação de luxo, do céu e do dinhei.ro, de verdade em que se engendra a verdadeira violência sim-
à improvável materialização luxuosa da vida e às contradições bó1ica da ordem social, bem para além de todas as correla-
que é impossível encontrar. ções de forças que não são mais que a sua configuração
24 Simulacros I! Simulaçho Jean Btwdri/lnrd 25

movente e indiferente na consciência moral e política dos A negatividade em esp iral - Moebius
homens. Tudo o que o capital nos pede é que o recebamos
como tradicional ou que o combatamos em nome da mora-
lidade. Pois é a mesma coisa, o que pode ver-se sob 1mm 011/rn Watergate não foi, pois, senão uma armadilha armada
forma: outrora tentava-se dissimular um escândalo - hoje pelo sistema aos seus adversários - simulação de escân-
tenta-se esconder que ele não existe. Watergate não é um esc.i11- dalo com fins regeneradores. Isto é encarnado no lilme
dalo, é o que é preciso dizer a todo o custo, pois é o que todos · pelo personagem de «Deep Throot», de quem s.e disse ser
tentam esconder, mascarando esta dissimulação um apro- a eminência parda dos republicanos manipulando os
fundamento da moralidade, do pânico moral, à medida q ue jornalistas de esquerda para se ver livre de Nixon - por
nos aproximamos da en(cena)çâo primitiva d o capital: a sua que não? Todas as hipóteses são possíveis, mas esta é
crueldade instantânea, a su a ferocidade incompreensívt!l, a supérflua: a esquerda dá muito bem conta de si p ró pria e
sua imora lidade fu ndamental - é isso que é escandaloso, faz espontaneamente o trabalho da direita. Seria, de resto,
inaceitável para o sistema de equivalência moral e económica ingénuo ver nisso uma boa consciência amarga. E que
que constitui o axioma do pensamento de esquerda, desde a a direita foz tam~m ela espontaneamente o trabalho da
teoria das Luzes até ao comunismo. Imputa-se este pensa- esquerda. Todas as hipóteses de manipulação são reversí-
mento do contrato ao capital mas este está-se absolutamenl'e veis num torniquete sem fim. É que a manipulação é uma
nas tintas para ele - é uma empresa monstruosa, sem prin- causalidade flutuante onde positividade e negatividade se
cípios, um ponto, nada mais. É o pensamento «esclarecido» engendram e se recobrem, onde já não há activo nem pas-
que procura controlá-lo impondo-lhe regras. E toda a recri- sivo. É. pela paragem arbitrtfria desta causalidade rodopiante
minação que é considerada como pensamento revolucionário que pode ser salvo um princípio de realidade poHtica. É por
volta hoje a incriminar o capital por não respeitar as regras simulação de um campo perspcctivo restrito, convencional,
do jogo. uO poder é injusto, a sua justiça é uma justiça de em que as premissas e as consequências de um acto ou de
classe, o capital explora-nos, etc.)) - como se o ca pital um acontecimento são calculáveis, que pode manter-se uma
estivesse ligado por um contrato à sociedade que rege. É a verosimilhança política (e, claro, a análise «objectiva», a luta,
esquerda que estende ao capital o espelho da equivalência, etc.). Se se enquadra o ciclo completo de qualquer acto ou
esperando que ele vá virar-se contra este, agarrar-se a esta acontecimento num sistema onde a continuidade linear e a
fantasmagoria do contrato social e cumprir as suas obrigações polaridadedialéctica já não existem, num campo desequilibrado
para com toda a sociedade (ao mesmo tempo não há neces- pela simulação, toda a dissimulação se desvanece, todo o acto
sidade de revolução: basta que o capital se submeta à fórmula se abole no fim do ciclo, e todos tendo aproveitado e tendo-
tradicional da troca). O capital, esse, nunca esteve ligado por -se ventilado em todas as direcções.
contrato a esta sociedade que domina. É uma feitiçaria da Um dado atentado à bomba em Itália é obra dos extremis-
relação social, é um desafio à sociedade e deve ser-lhe dada uma tas de esquerda ou provocação de extrema-direita, ou encena-
resposta em conformidade. Não é um escândalo a denunciar .;ão centrista para desconsiderar todos os extremos terroristas
segundo a racionalidade moral ou económica, é um desafio e depreciar o seu poder vacilante, ou ainda cenário policial e
a aceitar segundo a regra simbólica. rhantagem à segurança pública? Tudo isto é verdadeiro ao
26 Simufncros e Simulaçllo Jean Baudrillard 27

mesmo tempo e a busca da prova e mesmo da objcclividade - que, de facto, o poder, o verdadeiro poder, já não existe
dos factos não pára esta vertigem da interpretação. É que e portanto não há qualquer risco de que alguém o tome
estamos numa lógica de simulação, que já nada tem a ver ou o retome;
com uma lógica d os factos e um a ordem das razOC>S. A - mais ainda: eu, Bcrlinguer, não tenho medo d e ver os
simulação caracteriza-se por uma precessão do modelo, de comunistas to mar o poder na Itália - o q ue pode parecer
todos os modelos sobre o mínimo facto - os modelos já evidente mas não tanto como isso já que
existem ant·es, a sua circulação, orbital como a da bomba, - isso pode q uerer dizer o contrário (não é preciso psi-
constitui o verdadeiro campo magnético do acontecimento. canálise para til O: tenho medo de ver os comunistas tomar
Os factos já não tê m trajectó ria p rópria, nascem na intersec- o poder (e existe m boas razões para isso, mesmo para um
ção dos modelos, um único facto pode ser engendrado por comunista).
todos os modelos ao mes mo tempo. Esta antecipação, esta Tudo isto é verdade simultaneamente. É o segn..--do de um
precessão, este curto-circuito, esta confusão do facto com o discurso que já não é somente a mbíguo, como o podem ser
seu modelo (acabam-se a falta de sentido, a pola ridade dia- os discursos políticos, mas que trnduz i'I impossibilidade de
léctica, a e!ectricidadc negativa, a implosão dos pólos anta• uma posição determinada de discurso. E esta lógica não é
gónicos), é sempre ela que dá lugar a todas as interpreta· nem de um partido nem de outro. Ela atravessa todos os
çõcs possíveis, mesmo as mais contraditó rias - todas discursos independenteme nte da sua vontade.
verdadeiras, no sentido em que a s ua verdade é a de se tro• Quem desenredará este imbróglio? O nó górdio podia ao
carem, à semelhança dos modelos dos quais procedem, num menos oortar•se. A fita de Moebius, essa, se a dividirmos;
ciclo generalizado. forma uma espiral suplementar sem que se~, resolvida a
Os comunistas atacam os socialis tas como se quisessem reversibilidade das superfícies (aqui a continuidade reverSÍ·
quebrar a união da esque rda. Dão crédito à ideia de que estas vel das hipóteses). Inferno da simulação, q ue já não é o da
resistências viriam de uma exigê ncia política mais radical. tortura mas da torção subtil, maléfica, impossível de captar,
De facto, é porque não querem o poder. Mas não o querem do sentido 1' 1 - onde mesmo os condenados de Burgos são
nesta conjuntura, desfavoráve.l para a esquerda em geral, ou ainda um prt>Sente dado por Franco à democracia ocidental,
desfavorável para eles no interior da União da Esquerda - que encontra assim a ocasião de regenerar o seu próprio
ou já não a querem por definição? Quando Berlinguer declara: huma nis mo vacilante e cujo protesto indignado, em contra•
((Não há que ter medo de ver os comunistas tomar o poder partida, consolida o regime de Franco, uninflo as m assas
na Itália», isto significa ao mesmo tempo: espanho las contra esta intervenção estrangeira? Onde está a
- que não há ~1ue ter medo porque os comunistas, se verdade e m tudo isto, quando tais cumplicidades se unem
chegarem ao poder, não mudarão nada ao seu m eca• admiravelme nte mesmo sem os seus autores o saberem?
nismo capitalista fundamental;
- que não existe qualquer risco d e eles alguma vez che•
garcm ao poder (pela razão de eles não o quererem);
4. Isto não re,sulla forçosamenl1,> num desC'Spcro do sentido, mas
- e m esmo se o alcançarem nunca farão mais que exer•
também numa improviS.1.c;ão de Sl'ntido, de não sentido, de vários s-entidos
cê•lo por procuração; simultâneos qu1,> se destroem.
28 Simulacros t Sim1'fação /ran Baudrillard 29

Conjunção do sistema e da sua extrema alte rnativa como provar a etno logia pela d espossessão d o seu objecto - sem
das duas exl'remidades de u m espelho curvo, curvatura «vi- contar:
ciosa» de um espaço político doravante magnetizado, cir- - provar o teatro pelo antiteatro,
cularizado, reversibilidade da direita à esquerda, torção q ue - provar a arte pela antiarte,
é como o génio maligno da comutação, todo o sistema, o - provar a pedagogia pela antipedagogia,
infinito do capital tornou a dobrar-se sobre a sua própria - provar a psiquiatria pela antipsiquiatria, etc.
superfície: transfinito? E não se passa o mesmo com o desejo Tudo se metamorfoseia no seu termo inverso para
e o espaço libidinal? Conjunção do desejo e do valor; d o sobreviver na sua forma expurgada. Todos os poderes, todas
desejo e do capital. Conju nção do desejo e da lei, gozo última as instituições falam de s i próprios pela negativa, para tentar,
metamorfose da lei (por isso ela está tão generosamente na por simulação de morte, escapar à s ua agonia rea l. O poder
ordem do dia): só o capital goza, dizia Lyotard, antes de pode encarnM a sua própria morte para reencontrar um
pensar a partir de agora que n6s gozamos no capital. Ate rra- vislumbre de existência e de legitimidade. Foi o caso dos
d ora versatilida d e do desejo em Oeleuzc, viragem enigmá- presidentes americanos: os Kennedy morriam por terem ainda
tica pelo avesso, portadora do d esejo «revolucionário por si uma dimensão política. Os o utros, Johnson, N ixon, Ford,
próprio e como que involuntariamente; querend o o que ele não tiveram direito senão a atentados fantoches, a assassí-
quer», a q uerer a sua própria repressão e a investir em sis- nios simula dos. Mas faltava-lhes apesar de tudo essa aura de
temas paranóicos e fascistas? Torção maligna que remete ameaça artificial para esconder q ue não passavam de mane-
esta revolução do desejo pa ra a mesma ambiguidade funda- quins d e poder. O rei tin ha de morrer ou trora (o deus
mental q ue a outra, a revo lução histórica. também), residia aí o seu poder. Hoje esforça-se miseravel-
Todos os referenciais mistu ram os seus discursos numa mente por fingir morrer, a fim de p reservar a graça do poder.
comp u lsão circular, moebiana. Sexo e trabalho foram, não há Mas esta está perd ida.
muito tempo, termos ferozmen te opostos: hoje em dia Procurar sangue fresco na sua p rópria morte, relançar o
resolvem-se ambos no mesmo tipo de pretensão. Outrora o ciclo pelo espelho da crise, da negatividade e do antipoder:
discurso sobre a história adquiria a sua força no facto de se única solução-alibi de todo o poder, d e toda a instituição que
opor violentamente ao da natureza, o de desejo ao de poder tenta romper o círculo vicioso da sua irresponsabilidade e da
- hoje trocam os seus s ignificantes e os seus cenários. sua existência fundamental, do seu já-visto e do seu já-morto.
Seria demasiado demorado percorrer todo o espectro d a
negatividade operacio nal, de todos estes cenários de dis-
sua são que, como Watergate, tentam regenerar um princípio
moribundo pelo escândalo, o fantasma, o assassín io simu- A estratégia d o real
lados - espécie de tratamento hormonal pela negatividade
e pela crise. Trata-se sempre de provar o real pelo imaginário,
provar a verdade pelo escândalo , provar a lei pela transgres- Do m esmo tipo que a impossibilidade d e volt ar a
são, provar o trabalho pela g reve, provar o sistema pela crise t•ncontrar um nível absoluto do real é a impossibilidade d e
eo capital pela revolução, como noutros lugares (os Tasaday), ,•n(-cnar a ilusão. A ilusão ~í. não é possível porque o rea l já
30 Simulacros e Sinmlm;tfo fcmz Baudritlard 31

não é possível. É todo o problema político da paródin, da híper~ devo rar toda a tentativa de simulac;ão, reduzir tudo a real -
simulação ou simu}ação ofensiva, que se coloca. ,l ordem estabelecida é mesmo isso, bem antes da entrada em
Por exemplo: seria interessante ver se o aparelho repres- "ena das instituições e da justiça.
sivo não reagiria maís violentamente a um assalto • si mui.ido Há que ver nesta impossibilidade de isolar o processo dC'
que a um assalto real. É que este apenas desorganiza a ordem simulação o peso de uma ordem que não pode ver nem
das coisas, o direito de propriedade, enquanto que o outro t.'onceber senão o real, porque n ão pode funciona r em
atenta contra o próprio princípio de realidade. A transgres- · nenhuma outra parte. Uma simulação de delito, se for
são, a violência são menos graves porque apenas contestam averiguada, será ou punida mais levemente (porque_n~o te?'
a partilha do real. A s imulação é infinitamente mais perigosa, «consequências») ou punida como ofensa ao Mm1sténo
pois deixa sempre supor, para além do seu objecto, que a Público (por exemplo, se foi desencadeada u_m a or:ra~ão de
pr6pria ordem e a própria lei poderiam não ser mais que simufaçifo. polícia <(para nada») - mas mmcn como smwlaça~, já~ q~e
Mas a dificuldade está à altura do perigo. Como fingir justamente enquanto tal não é possível quillquer equ1valenc1a
um delito e prová-lo? Simule-se um roubo numa grande loja: com o real nem, logo, qualquer repressão. O desafio da
como convencer o serviço de segurança de q ue se trata de simulação é impcrdo.1vcl pelo poder. Como punir a simulação
um roubo simulado? N enhuma diferença ((obje<:tiva»: são os de virtude? Contudo, e nquanto tal, ela é tão grave como a
mesmos gestos, os mesmos signos que para um reubo real, simulação d e crime. A paródia faz equivalerem-se submis.s..i.o
ora os signos não pendem nem para um lado nem para o e transgressão e esse é o crime mais grave, j_á que nnuln a
outro. Para a ordem estabelecida são sempre do domínio do 1liferença em que se baseia n lei. A ordem estabelecida nada po~e
real. nmtra isso, pois a lei é um simulacro de segunda categona
Organize-se um falso assalto. Verifique-se bem a inocência t.•nquanto que a s imulação é de terceira cateS:ori:, p~ra a lém
das armas e faça-se o refém mais segu ro para que nenhuma do verd adeiro e do falso, para além das equ1valenc1as, para
vida humana fique em perigo (pois aí cai--se sob a alçada do ;1lém das distinç&--s racionais sobre as quais funcionam todo
direito penal). Exija-se um resgate e proceda-se de maneira o social e todo o poder. É pois aí, ,ia falta de real, que é preciso
que a operaçào tenha toda a repercussão possível - em fazer pontaria à ordem .
suma, imite-se o mais possível a ~werdade» a fim de t·estar a E por isso mesmo que esta escolhe sempre o rea~. Na
reacção do aparelho a um simulacro perfeito. Não será pos- dúvida, prefere sempre esta h ipótese (també~ no exército se
sível: a rede de signos artificiais vai-se imbricar inextrica- prefere tomar o s imulador por um verdadeuo louco). Mas
velmente com os elementos reais (um polícia vai realmente isto torna-se cada vez mais difícil, pois se é praticamente
disparar à vista; um cliente do banco vai desmaiar e morrer impossível isolar o processo de simulação, pela força ~e
de um ataque cardíaco; vai ser realmente pago o resgate inércia do real q ue nos rodeia, o inverso também é verdadeiro
fingido), em suma, ser-se-á devolvido imediatamente, sem o (e esta m esma reversibilidade faz parte do dispositivo de
querer, ao real, uma das funções do qual é precisamente simulação e de impotência do poder): a saber que é doravante
im~sfvel isolar o processo do real e pro~ar o rea~·-
É assim que todos os assaltos, desvios de av1ocs, e_tc., são
• Hold 11p. Em inglês no original. (N. da T.) ,1>;ora, de certo modo, assaltos de simulação, no sentido em
32 Simufacros e Simulaçilo bw1 Bt111drillard 33

que estão antecipadamente inscritos na decifração e na ouvir-se como último sloga11 do pode.r, pois num mundo
orquestração rituais dos media, antecipados na sua encenação irrcferencial, até a confusão do princípio de realidade e do
e nas suas consequências possíveis. Em suma, onde elL.-s principio de desejo é menos perigoS<'I que a hiper-realidade
funcionam como um conjunto de signos votados apenas à l'llntagiosa. Fica-se entre princípios e aí o poder tem sempre
s ua recorrência de signo e já não de todo ao seu fim (creal>l. r,1zào.
Mas isto não os torna inofensivos. Pelo contrário, é enquanto A hiper-realidade e a simulação, t..>ssas, são dissuasivas
acontecimentos hiper-reais, que já não têm exactamcntc 'tl1..• lodo o princípio ede todo o fim, viram contra o poder esta
conteúdo ou fins próprios, mas indefinidamente refractados 1..lissuasão que durante muilo tempo ele tão bem utilizou. É
uns pelos outros (tal como os acontecimentos ditos históricos: i1uc finalmente é o capital que se alimentou, no decurso da
greves, manifestações, crises, etc. C\J, é nisto que s.:;o incon- sua história, da desl.>struluração de todo o referencial, de
troláveis por uma ordem que só pode exercer-se sobre o real l odo o fim humano, que rompeu todas as distinções ideais
ou racional, sobre causas e fins, o rdem referencial que só do verdadeiro e do falso, do bem e do mal, para estabelecer
pode reinar sobre o referencial, poder determinado que só uma lei radical de equivalências e de trocas, a lei de bronze
pode reinar sobre um mundo determinado mas que nen hum do seu pcxter. Ele foi o primeiro a brincar à dissuasão, à
poder exerce sobre esta recorrência indefinida da simulação, ,1hstracção, à desconexão, à desterritorialização, e tc., e se foi
sobre esta nebulosa sem força de gravidade que já n..'io olx.-deô! t'lt• que fomentou a realidade, o princípio de re<1lidade, foi
às leis da gravitação do real, acabando o próprio poder por 1,1mbém ele o primeiro a tê-la liquidado no extermínio de
se desmantelar neste espaço e por se tomar numa simulação h,do o valor de uso, de toda a equivalência real, da produção
de poder (desligado dos seus fins e dos seus objectivos e t' drt riqueza, na própria sensação que nós temos da irrealidade
votado a efeitos de poder e de simulação de massas). d ,1:-- questões e da omnipotê ncia da manipulação. Ora é esta
A única arma do poder, a sua única estratégia contra esta nw:-ma lógica que hoje se radicaliza contra ele. E quando
deserção é a de reinjectar rea l e referencial em toda a parte, t1u1..•r combater esta espiral catastrófica segregando um último
é a de nos convencer da realidade do social, da gravidade da vislumbre de poder, não faz mais que multip licar-lhe os
economia e das finalidades da produção. Para i6SO usa, de Ni>,;nos e acelerar o jogo da simulação.
preferência, o discurso da crise mas também, por que não?, o Enquanto a ameaça histórica lhe vinha do real, o poder
do desejo. «Tomem os vossos desejos pela realidade!•, pode brincou à dissuasão e à simulação, desintegrando todas as
nmtradições à força de produção de signos equivalentes.
l lojc, quando a ameaça lhe vem da simulação (a de se vola-
5. A crise ei\Crgt'itíca, a encenaç."lo ecologista são elu próprias., no seu lilizar no jogo dos signos) o poder brinca ao real, brinca à
conjunto, um Jílnw d1• cutdstnifc, Jo mesmo es.tilu (e do mt>Smo valor) que nis1.•, brinca a refabricar questões artificiais, sociais, econó-
aquelM que fazem actualmente a glória de Hollywood.~ inótil interpretar 111k,1s, políticas. É para ele uma questão de vida ou de morte.
laboriosa menti'.! l'Sll'S filmes na sua relação com uma criw $0Cfol ,.objectiva,.,
ou mesmo com um fantasma o-:objt!ctivo.. da catástrofe.~ no outro S(>ntido
Mas é tarde de mais.
que se impõedizerqu1.1to próprio social q1,e, no discurso actual, se orga11iu, IJaí a histeria característica do nosso tempo: histeria da
segw1do um ce111frio de filme de rnldstrofe. (Cf. M. Makarius, l..,i stralé:;:k 1ft produção e da reprodução do real. A outra produção, a dos
lu calRslrophL, pág. 115.) v,1h,rl.:.s e das mercadorias, a dos bons velhos tempos da
34 Simulacros e Simulaçtfo /1'lln &wdrillnrd 35

economia política, desde há muito não tem sen tido próprio. livessem suprimido - o q ue é verdadeiro fantasmatica-
O que toda uma sociedade procura ao continuar a produzir
1 mente, se não de facto. Eles têm de resgatar esta tara e esta
e a reproduzir, é. ressuscitar o real que lhe escapa. Ê por isso cumplicidade pelo seu assassínio simulado. É que este não
que esta prod11çáo «material» i ltoje, ela pr6pria, hiper -real. Ela pode ser senão simulado. Os presidentes Johnson, Ford,
conserva todas as características d o discurso da produção foram ambos alvo de atentados falhados, dos quais pode
tradicional mas não é mais que a sua refracção desmul- pensar-se que foram, senão encenados, pelo menos perpe-
tiplicada (assim, os hiper-realistas fixam nu ma verosimilhança . Irados por simulação. Os Kennedy morriam porque encar-
alucinante um real de onde fugiu todo o sentido e todo o navam algo: o político, a substância política, enquanto que
charme, toda a profundidade e a energia da representação). os novos presidentes não são mais que a caricatura e a peli-
Assim, em toda a parte o hiper-realismoda simulação traduz· rnla fantoche dessa s ubstância política -curiosamente todos
-se pela alucinante semelhança do real consigo próprio. eles, Johnson, Nixon, Ford, têm esse rosto simiesco, os
Também o poder desde há muito que não produz senão macacos do poder.
os signos da sua semelhança. E de repente é- uma outra A morte nunca é um critério absoluto mas neste caso é
figura do poder que se manifesta: a de uma procura colectiva :,,1ignificativa: a era dos James Dean, Marylin Monroe ~ dos
dos signos do poder - união sagrada que se refaz em torno Kennedy, daquéles que morriam de facto justamente porque
do seu desapan.-cimento. Praticamente todos aderem a ela, tinham uma dimensão mítica que implica a morte (não por
no terror desta dissipação do político. E o jogo do poder romantismo, mas pelo princípio fundamental de reversão e
acaba por não ser mais que a obsessão crrtica do. ~~r - de troca) - essa era terminou. De agora em diante é a era do
obsessão da sua morte, obsessão da sua sobrev1venc1a, à ,1ssassínio por simulação, da estética generalizada da simu-
medida que vai desaparecendo. lação, do assassínio-alibi - ressurreição alegórica da morte
Quando tlver desaparecido por completo estaremos <1ue já não existe senão para sancionar a instituição do poder,
logicamente na alucinação total do poder - um~ o~ssâo o t1ual, sem isso, já não tem substância nem realidade autó-
tal como já se vai perfilando por toda a parte, expnmmdo ao noma.
mesmo tempo a compulsão de desfazer-se dele (já ningué~1
o quer, todos o querem impingir aos outros) e a nostalgia Estas encenações de assassínios presidenciais são revela-
pânica da s ua perda. Melancolia das sociedades sem poder: d nras porque assinalam o estatuto de toda a negatividade no
foi ela que já suscitou o fascismo, essa overdose de um ( >cidente: a oposição política, a «esquerda►►, o discurso
referencial forte numa sociedade que não consegue temünar político, etc. - simulacro--cinzel com o qual o poder tenta
o seu trabalho de luto. 11ucbrar o círculo vicioso da sua inexistência, da sua irrespon-
~abilidade fundamental, da sua «flutuação». O poder flutua
Com o esgotamento da esfera política, o ~residente torna- t'omo a moeda, como a linguagem, como as teorias. A critica
-se cada vez mais parecido com esse maneqaum de pader que é ,. a negatividade são as únicas que segregam ainda um
o chefe nas sociedades primitivas (dastres). f,rntasma de reaHdade do poder. Se se esgotarem por uma ou
Todos os presidentes ulteriores pagam e continuam a outra razão, o poder não terá outra solução senão ressuscitá-
pagar o assassínjo de Kennedy como se fossem eles que o •l,1s artificialmente, aluciná-las.
36 Simulacros e Simulat;ilo fean Baudrillard 37

É deste modo que as execuções espanholas servem ainda destituído, denunciado e liquidado. Ford já nem sequer tem
de estímulo a uma democracia liberal ocidental, a um sistema essa sorte: simulacro de um poder já morto, já não pode
de valores democrático agonizante. Sangue fresco, mas por ~enão acumular contra si próprio os signos da reversão pelo
quanto tempo? A degradação de todos os poderes prossegue assassínio - de facto, está imunizado pela sua impotência, o
irresistivelmente: não são tanto as «forças revolucionárias» t1ue o desespera.
que aceleram este processo (é mesmo muitas vezes o inverso), Ao contrário do rito primitivo, que prevê a morte oficial
é o próprio sistema que exerce sobre as suas próprias estru- • e sacrificial do rei (o rei ou o chefe nada são sem a promessa
turas essa violência anuladora de toda a substâucia e de toda do seu sacrifício), o imaginário político moderno vai cada vez
a finalidade. Não há que resistir a este processo procurando mais no sentido de retardar, de esconder durante o máximo
a frontar o sistema e destruí-lo, pois ele, que morre por ser de tempo possível a morte do chefe de Estado. Esta obsessão
desapossado da sua morte, não espera outra coisa de nós: acentuou-se a partir da era das revoluções e dos líderes caris-
que lha restituamos, que o ressuscitemos pela negativa. Fim máticos: Hitler, Franco, Mao, não tendo herdeiros «legítimos>>,
das praxes revolucionárias, fim da dialéctica. -Curiosamente filiação de poder, vêem-se forçados a sobreviver indefinida-
Nixon, que nem sequer foi considerndo digno de morrer mente a si própriOl, - o mito popular recusa-se a reconhecer
pelo mais ínfimo desequilibrado ocasional (e que os tlUe estão mortos. Já assim era com os faraós: era sempre
presidentes sejam assassinados pelos desequilibrados, o que uma única e mesma pessoa que os sucessivos faraós encar-
pode ser verdade, não muda nndn à história: a sanha de navam.
esquerda em detectar aí um complot de direita levanta um Tudo se passa como se Mao ou Franco já tivessem morrido
falso problema - a função de usar a morte, ou a profecia, várias vezes e sido substituídos pelos seus sósias. Do ponto
etc., contra o poder, sempre foi exercida, desde as sociedades de vista político isso não muda estritamente nada ao facto de
primitivas, por dementes, loucos ou neuróticos, que nem por tJUe um chefe de Estado seja o mesmo ou outro, sempre e
isso são menos portadores de uma função social tão funda- tJuando se pareçam. De todas as maneiras há muito que um
mental como a dos presidentes) foi ritualmente aniquilado d1efe de Estado - um qualquer - não é mais que o simula-
por Walergate. Watergate é ainda um dispositivo de assas- no de si próprio e que só isso lhe dd o poder e a qualidade parn
sínio ritual do poder (a instituição americana da Presidência :,:overnar. Ninguém d;uia o menor apoio, nem teria a menor
é, a esse título, bem mais apaixonante que as europeias: devoção por uma pessoa renl. É para o seu duplo, estando já
mantém à sua volta toda a violência e as vicissitudes dos Sol'mpre morto, que vai a fidelidade. Este mito não faz mais
poderes primitivos, dos rituais selvagens). Mas o impenc/1- l1ue traduzir a persistência, e ao mesmo tempo a decepção,
""mt • já não é o assassínio: passa pela constituição. Nixon, da exigência da morte sacrificial do rei.
apesar de tudo, conseguiu o objectivo com que sonha todo o
poder: ser levado suficientemente a sério, constituir para o Continuamos onde estávamos: nenhuma das nossas
grupo um perigo suficientemente mortal para ser um dia sociedades sabe levar a cabo o seu trabalho de luto do real,
do poder, do próprio social, que está implicado na mesma
perda. E é por uma recrudescência de tudo isto q ue tenta-
• AcuS<lçãO, denúncia. Em inglês no original. (N. da T.) mos escapar-lhe. Sem dúvida que isto acabará mesmo por dar o
38 Simulacros t Simulação /ea11 &wdri/fard 39

socialismo. Por uma torção inesperada e uma ironia q ue já que p<1ra o poder: o cenário de trabalho existe para escon-
não é a da his tória, é da morte do social q ue surg irá o der que a realidade de trabalho, a realidade da produção,
socialismo, corno é da morte de Deus que surgem as reli- desapareceram. E o real da greve também da mesma maneira,
giões. Chegada astuciosa, acontecimento perverso, reversão o qual já não é uma paragem de trabalho, mas o seu pólo
ininteligível à lógica da razão. Como o é o facto de o poder já alternativo na medição ritual do ano social. Tudo se passa
não existir, em suma, senão para esconder que não existe. como se cada um tivesse ,,ocupado», após declaração de
Simulação que pode durar indefinidamente pois, con tra- ·greve, o seu lugar e posto de trabalho e retomado a produ-
riamente ao "'verdadeiro)) poder que é, ou foi, uma estrutura, ção, como é de rigor numa ocupação ,,autogcrida», exacta•
urna estratégia, uma correlação de força, u m problema, este, mente nos mesmos termos que antes, mas declarando-se ao
não sendo mais que o objecto de uma procura social, e portanto mesmo tempo (e estando virtualmente) em estado d e greve
objecto da lei da oferta e da procura, já não está sujeito nem permanente.
à violêncía nem à morte. Completamente expurgado da Isto não é um sonho de ficção científica: trata-se, em toda
dimensão poUtica, o poder depende, como qualquer outra a parte, de uma dobragem do processo de trabalho. E de
mercadoria, da produção e do consumo de massas. Todo o uma dobragem do processo de greve - greve incorporada
brilho desapareceu, só se salvou a ficção de um universo como a obsolescência nos objectos, como a crise na produção.
político. Então já não há nem greve, nem trabalho, mas os d ois
O mesmo se passa com o trabalho. O brilho d a produção, a simultaneamente, isto é, h á outra coisa diferente; uma magia
violência das questões que com ela se prendem já não existe. de trab.1lho, uma aparência enganadora, um cenodrama da
Todos continuam a produzir, e cada vez mais, mas subtil- produção (para não dizer um melodrama), dramaturgia
mente o trabalho tornou-se noutra coisa: uma necessidade colectiva na cena vazia do social. Já não se trata da ideologia
(como o concebia idealmente Marx, mas de modo nenhum do traba lho - a ética tradicional que ocultaria o processo
no mesmo sentido), o objecto de uma «procura» social, como «real» de trabalho e o processo ,,objectivo» de exploração-
o tempo livre, ao qual é equivaJcnte no dispatching,. geral mas do cenário de trabalho.
da vida. Procura exactamente proporcional à perda de pro- A ideologia não corresponde senão a uma malversação
blemática no processo de trabalho <M. É a mesma peripécia da realidade pelos signos, a simulação corresponde a um
curto-circuito da realidade e à sua reduplicação pelos signos.
A finalidade da análise ideológica continua a ser restituir o
• Rapidez, pttssa. Em inglês, no original. (N. da T.) processo objectivo, é ~empre um falso problema querer
6. A esta flexão do investimento de trabalho corresponde urna baixa reinserir a verdade sob o simulacro.
paralela do Investimento d e consumo. Acabou o valor de uso ou o presdgio
do automóvel, acabou o discurso carinhoso que opunha claramente o
objecto de goro ao objectode trabalho. Um ou1.ro dis,cursa se lhe substitui por inversão dos pólos. O trabalho torna-se o ob;ecto de u ma necessidadt-,
e que é um discurso de trabalho sobre o objecto de consumo, com vista a o automóvel torna-st< o objeclo de um trabalho. Não há melhor prova de
um reinvesti mento activo, constrangedor, puritano fo~ menos gasolina, indiferenciação de todos os problemas. t pelo mesmo deslizar do «direito»
cuide da sua segurança, u ltrapassou a velocidade, etc.), ao qual as car.icte- de voto para «dever» eleitoral que se assinala o desinvestimento da esfera
rístkas dos automóveis fingem adapt,u-se. Encontrar um novo problema política.
40 Simulacros e Simulação /1'flt1 &udrillnrd 4l

É por isso q ue O poder, no fundo, está tão de acordo com arrepio de exactidão vertiginosa e falsificada, arrepio de dis•
os discursos ideológicos e os discursos sobre a ideologia; é tanciação e de ampliação ao mesmo tempo, de distorção de
que são discursos de verdade - sempre bons, mesmo e escala, de uma transparência excessiva.
sobretudo se forem revolucionários, para opor aos golpes Gozo de um excesso de sentido, quando a bana do signo
mortais da simulação. desce abaixo da linha de flutuação habitual do sentido: o
insignificante é exaltado pela filmagem. Aí se vê o que o real
· nunca foi (mas ((Como se você aí estivesse))), sem a distância
que faz o espaço pcrspectivo e a nossa vis.io em profundidade
O fim do panóptico (mas (<mais verdadeiro que ao natural»). Gozo da simulação
microscópica que faz o real passar para o hiper•real. (É um
pouco assim na pornografia também, cujo fascínio é mais
É ainda a esta ideologia do vivido, de exumação do real metafísico que sexual.)
na sua banalidade de base, na sua autenticidade rad ical que De resto, esta família era já hiper-real pela sua própria
se refere a experiência americana de TV-verdade tentada t!m escolha: família americana ideal típica, domicílio californiano,
1971 sobre a família Loud: sete meses de rodagem inin· três garagens, cinco filhos, estatuto social e profissional
tenupta, trezentas horas de filmagem directa, sem guião acomodado, ltousewife" decorativa, stn11di11~ uppcrmiddle"". De
nem cenário, a odisseia de uma família, os seus dramas, as certa maneira é esta perfeição estatística que a vota à morte.
suas alegrias, as suas peripécias, 11011 stop - resumindo, um Heroína ideal do amerirnn way of life-", ela é, como nos
documento histórico «bruto», e a «ma is bela proeza da sacrifícios antigos, escolhida para ser exaltada e morrer sob o
televis.:io, compar-ável, à escala da nossa quotidianidade, ao fogo do medium ,.,.... , moderno dt.>stino. É que o fogo do céu já
filme do desembarque na Lua•►• A coisa complica•se com o não cai sobre as cidades corrompidas; é a objectiva que vem
facto de esta família se ter desfeito durante a rodagem: a cortar a realidade vivida como um laser, para a aniquilar. «Os
crise explodiu, os Loud separaram-se, etc. Donde a insolúvel Loud: simplesmente umil família que aceitou entregar•se à
controvérsia: a TV é responsável? Que se teria passado St' a televisão e morrer às suas mãos>~, dirá o realizador. Trata·se,
TV não tivesse lá estado? pois~ com efeito, de um processo sacrificial, de um espectáculo
Mais in teressante é o fantasma de filmar os Loud como se sacrificial oferecido a vinte milhões de americanos. O dra ma
11 TV lá mio estivesse. O triunfo do realizador era d izer: «Eh.-s litúrgico de uma sociedade de massas.
viveram como se nós lá não estivéssemos.» Fórmula absurcfo, TV·verd ade. Termo admirável na sua anfibologia, trata·
paradoxal - nem verdadeira, nem falsa: utópica. O «como •se da verdade desta família ou da verdade da TV? De facto
se nós lá não l>stivéssemos» sendo equivalente ao «corno se
você lá estivesse». Foi esta utopia, este paradoxo, que fascinou
os vinte milhões de telespectadores, muito mais que o prazer
• Dona dt! cas.,. Em ingl~ no original. (N. da T.)
i<perverso» de viofar u ma intimidade. Não se trata de segredo 4
Nfvel social médio alto. Em inglk no orlglri;al. (N. da T.)
~

nem de perversão na experiência «verdade•►, mils de uma 4


....Modo de vida americano. Em inglês no original. (N. da T.)
espécie de arrepio do real, ou de uma estética do hiper•real, . . ... Ou c:anal de c:omunica<;-'O. (N. da T.)
42
Simulacros e Sim11laçdo Jean Ba11dritlard 43

é a TV que é a verdade dos Loud, é ela que é verdadeira, é ela toma impossível loct11izt1ruma instância do modelo, do poder,
que toma verdadeiro. Verdade que não éa verdade reflexiva do olhar, do próprio medillm, pois que vocés já estão sempre
do espelho nem a verdade perspcctiva do sistema panóptico do outro lado. Já não há sujeito, nem ponto focal, já não há
e ~o olhar, mas a verdade manipuladora, do teste que sonda centro nem periferia: pura flexão ou inflexão circular. Já não
e interroga, do laser que explora e que corta, das matrizes há violência nem vigilância: apenas a «informação», virulên-
que c?nservam as vossas sequências perfuradas, do código cia secreta, reacção cm cadeia, implosão lenta e simulacros
genético que manda nas vossas combinações, das células de espaços onde o deito de real ainda vem jogar.
que informam o vosso universo !;ensorial. Foi a essa verdade Assistimo~ ao fim do espaço perspectivo e panóptico (hi-
que a família Loud se submeteu pelo medium TV e, neste pótese moral ainda e solidária com todas as análises cláss_ic~s
sentido, trata-se de facto de uma aniquilação (mas tratar-se- sobre a essência <(Objectiva)) do poder) e portanto à propria
-á ainda de verdade?). aboliçàv do <'Spectacular. A televisão, por exemplo, no caso dos
Fim do sistema panóptico. O olho da TV já não é a fonte Loud, já não é um metliim1 espectacular. Já não estamos na
de um olha r absoluto e o ideal do controle já não é o da sociedade do espectáculo de que falavam os situadonistas,
transparência. Este s u põe ainda um espaço objectivo (o da nem no tipo de alienação e de repressão específicas que ela
Renascença) e a omnipotência de um olhar despótico. É ainda, implicava. O próprio medium já não é apreensível enquanto
se não um sistema de encerramento, pelo menos um sistema tal, e a confusão do medium e da mensagem (Mac Luhan) m
de quadriculação. Mais subtil, mas sempre em exterioridade,
joga ndo na oposição do ver e do ser visto, podendo mesmo 7. A confus."l.o mrdium/mcn.sagem ~ com certeza corrdativa do de?Sti•
o ponto focal do panóptico ser cego. nador e dl) destinatário, autenticando as.sim o desaparecimento de todas
Outra coisa se passa quando com os Loud: «Você já não as estruturas duais, polares, que faziam a organí7_.1.çAo discursiva da lingua•
está a ver TV, é a televisão que o vê a si (viver)» ou ainda: gem, de toda a articulaçAQdcterminada do sentido que remele parn a céle·
<(Você já não está a ouvir. Não entre cm Pânico, é Não ent re bre r,relha das funções de Jakobson. Dizer que o discurso "circula.. deve
ser tomado na sua acepç1io literal: quer di,-,er que já não vai de um ponto
em Pâ~co que o ouve a si» - viragem do dispositivo
para outr0 ponto, ma~ que percorre um ciclo que ~ngloba i,'.disti~l~men~e
panóphco de vigilância (vigiar e punir) para um sistema de as posições de emiSS('lr e de receptor, de agora em diante não 1dent1hcáve1s
dissuasão onde é abolida a distinção entre o passivo e o enquanto tais. A:icsim, já não existe instãncia de poder, instãncia emissora
activo. Já não há imperativo de submissão ao modelo ou ao - 0 poder é a lgo que circula e cuja fonte já não~ identifica, um ciclo em
olhar. «VOCÊS são o modelo!» «VOCÊS são a maioria!» Esta que 5-C trocam as posições de dominante e de domin~do num~ reversão
é a vertente de uma socialidade hiper-realista, em que o real sem fim que é também u fim do poder na sua dcfimção clássica. A clr•
cul;uização do poder, do saber, do.discurso, põe fim. a toda a localização
se confunde com o modeio, como na operação estatística, ou das ínstãncias e dos pólos. Na própna interpretação ps1c.tnalltica, o •poder•
com o mcdi1on, como na operação Loud. Este é o estádio do interpretador não lhe vem de qualque~ instlnda extemô, ?~S d.o
ulterior da relação social, o nosso, que já não é o da persuas..-'io próprio interpretado. Isto modifica tudo, pois aos detentores trad1oon,us
{a era clássica da propaganda, da ideologia, da publicidade, pode sempre perguntar-se de onde receberam o poder. Quem te fez duque?
etc.) mas o da dissuasão: i,VOCt5 são a informação, vocês O rei. Quem te foz rei? Deus. Só Deus já não responde. Mas à pergunta:
quem te fez psicanalista? O analísta pode muito bem respond~r: tu.
são o social, vocês são o acontecimento, isto é convosco, Assim se exprime, por uma simulação inversa, a passagem do •~nabsado»
vocês têm a palavra, etc.» Viragem do avesso pela qual se para o ..an;;ilisador", do passivo para o activo, que não faz: mais quedes-
44 Simulacros t Simu/açifo Jean 811111lrilford 45

é a primeira grande fórmula desta nova era. Já não existe efeitos - espectralizado, como as esculturas publicitárias a
medium no sentido literal: ele é doravante inapreensível, laser no espa<;o vazio do acontecimento filtrado pelo medi11m
difuso e difractado no real e ~'i nem sequer se pode dizer que - dissolução da televisão na vida, dissolução da vida na
este tenha sido, por isso, alterado. te levisão- solução química indiscernível: somos todos Louds
Uma tal ingerência, uma tal presem;;a virai, endémica, votados não à irrupção, à pressão, à violência e à chantagem
crónica, pânica do medium, sem que se lhe possam isolar os dos mt•dia e dos modelos, mas à sua indução, à s ua infiltra•
·ção, à sua viol&nciíl ilegível.
Mas é necessário cautela com a faceta negativa que o dis·
crev<-r o deito de wdcmoinho, de movimcntaç3odos pólos, decin:ularidadc curso impõe: não se trata nem de doença nem de afecção
onde o poder se perde, se dissolve, se resolve em manipul.içáo perfeita (;ti virai. Há que pensar antes nos media como se fossem, na órbita
não é do domínio da inst:incia directiva c do olhar, mas do domínio da
tactalidade e da comutação). E at~ também a circul.uidade do Estado/
externa, uma espécie de código genético que comanda a
/fam!lia, assegurada pela ílutuaçloca regulação metaestálica das margens mutação de real cm hiper-real, assim como o outro código, o
do social e do privado. (J. Donzelot, La Polict d<'$ familles.) microm()lccular, comanda a passagem de uma esfera, repre-
A p.irtir de agora ioma-5'? impossível fazer a fomosa pergunta: «De sentativa, do sentido, para a esfera genética, do sinal prog ra·
01\de fola?» - ..ne onde o sabe7" ..l)rc onde rt"CebE! o poder?» sem ouvir mado.
imt><tiatamt.>nle rt>sponder: «Mas é de v~s (f a partir d e vociês que eu É todo o modo tradicional de causalidade que está em
falo.. - subentende-se, s..-\o v ~ que falam, sJo vocf:s que sabem, são
você, o poder. Gigantesca cir<:unvolução, circunvolução da palavra, que
questão: modo perspectivo, determinista, modo i(activo»,
cquiv,1lc a t.una chantagem sem saída, a uma dissuasão sem apelo do crítico, modo analítico - distinção da causa e d o efeito, do
sujeito supooto falar, mas deixa sem resposta, já que às perguntas que faz activo e do passivo, do sujeito e do objecto, do fim e dos
lhe respondem inclut;welmente: mas você f a própria respo-sta ou: a sua meios. É sobre este modo que pode dizer-se: a televisão olha-
pt>rg:onta é j,S uma resposta, etc. - toda a soffstica <:Strangulatória da -nos, a televisão manipula-nos, a televisão informa-nos ... Em
captação da palavra, da confiss.ão forçada sob un,a capa de liberdade de
expressão, do ab.1timcnto do s u jeito sobre a s ua própria interrogação, da
tudo isto fica-se tributário da concepção analítica dos media,
precessão da resposta sobre a pergunta (Inda a violl1-ncia da interpretação a concepção de um agente exterior activo e eficaz, a concepção
está lá e é a autogestào consciente ou inconsciente da «palavra»). Este de uma informação «perspectiva» tendo como ponto d e fuga
simulacro de inversAo ou de ínvoluç.\o dos pólos, este subterfúgio genial o horizonte do real e do sentido.
que é o segredo de todo o discurso da manipulação e portanto, hoje cm Ora há que conceber a televisão segundo o modo ADN,
dia, em todos os domínios, o segredo de todo o novo poder, no apagamento como um efeito onde se desvanecem os pólos adversos
da cena do poder, na assunção de todas as palavras de que resultou esta
fantástica maioria silenciosa <Jue é a carackristiai do nosso tempo - tudo
da determinação, segundo uma contracção, uma retracção
isto rome(ou certamente na esfera política com o simulacro dcmowl.tico, nuclear do velho esquema polar que mantinha sempre uma
isto é, a substituição da instância de Deus pela inst.lncia do povo como distância mínima entre uma causa e um efeito, entre um
fonte do poder e do poder como em1111nçlo pelo poder como repr~ntncao. sujeito e um objecto: precisamente a distância d o sentido, o
Revolução anticoperniana: acabou a instância transcendente do Sol e da desvio, a diferença, o menor desvio possível (MDP!), irre-
fonte lt.1minosa do poder e do saber - tudo provém do povo e tudo a ele
retorna. é com esta magnííic-a reciclagem que com ~a a instalar-se, desde
dutível, sob pena de reabsorção num p rocesso aleatório e
o cenário do sufrágio de massas até aos fantasmas actuais das sondagens, indeterminado e do qual o discurso já nem sequer pode dar
o simulacro universal da manipulação. conta, já que é ele próprio uma categoria determinada.
Simulacros t Simuta(âo Jtan. Baudriftard

É este desvio que se dilui no processo do código gené- O orbital e o n uclear


tico, onde a indete rminação não é tanto a do acaso das molé-
culas como a da abolição pura e simples da relação. No
processo de comando molecular, que «vai» do nú cleo ADN A apoteose da simulação: o nuclear. Contudo, o equilí-
à <•substância)) que ele «informa» já não há encaminhamento brio do terror nunca é mais q ue a vertente espectacular de
de um efeito, de uma energia, de uma determinação, de uma um sistema de dissuasão que se insinuou do interior em todos
mensagem, '•Ordem, sinal, impulso, mensagem »: h.ldo isto .os interstícios da vida. O suspense nuclear não faz mais que
tenta dar-nos a coisa in leligível, mas por analogia, retrans- consolidar o sistema banalizado da dissuasão que está no
crevendo em termos de inscrição, de vector, de descodifica- coração do media, da violência sem consequências que reina
ção, uma dimensão da qual nada sabemos - já nem sequer em todo o mundo, do dispositivo aleatório de todas as
é uma «dimensão» ou talvez seja essa a quarta dimensão escolhas que nos são feitas. Os nossos mais insignificantes
(a qual se define, de resto, e m relatividade einsteiniana comportamentos são regulados por signos neutralizados,
pela absorção dos pólos distintos do espaço e do tempo/ indiferentes, equivalentes, signos de soma n ula, como o são
De facto, todo este processo não pode ser entendido por os que regula m a ((estratégia dos jogos» (rnas a verdadeira
nós senão sob forma negativa: já nada separa um pólo do equação está noutra parte e o desconhecido é justa mente esta
o utro, o inicial do terminal, há uma espécie de esmaga mento variável de simulação que constitui o arsenal atómico, ele
de um sobre o outro, de e ncaixamento fantástico, de afun- próprio uma forma hiper-real, um simulacro que nos domina
damento de um no outro dos dois pólos tradicionais: implo- a todos e reduz todos os acontecimentos i(ao solo», a não
são - absorção d o mod o radiante da causalidade, do modo serem mais que cenários efémeros, transformando a vida
referencial da determinação, com a sua electricidade posi- que nos é deixada em sobrevivência num problema sem
tiva e negativa - implosão do sen tido, É a( que a simulação problema - nem sequer numa idetra» q ue será descontada
começa. com a morte: numa «letra» antecipadamente desvalorizada,
. Por toda a parte, e m todo e qualquer domínio, político, Não éa ameaça directa de destruição atómica que pa ralisa
b1ológico, psicológico, mediático, o nde a distinção dos dois as nossas vidas, é a dissuasão que as le ucemiza, E esta dissua-
pólos já não pode ser mantida, entra-se na simulação e, são vem do facto de que mesmo o «clasll» " atómico real estd
portanto, na manipulação absoluta - não a passividade, excluído - excluído antecipadamente como a eventualidade
mas a indistinção do aclivo e do passivo. O ADN realiza esta do real num sistema de signos. Todos fingem crer na realidade
redução aleatória ao nível da substância viva, A televisão, no desta ameaça (isso compreende-se por parte dos milita res,
e:'emplo dos Loud, atinge também ela esse limite indefini- toda a seriedade do seu exercício está em jogo, bem como o
t1vo o nde estes, em relação à televisão, não são nem mais discurso da sua «estratégia»), mas justamente não existem
activos nem mais passivos que uma subs tância viva em problemas estraM-gicos a este nível, e toda a originalidade da
relação ao seu código molecular. Num caso como no outro, situação reside na improbabilidade da destruição.
uma única nebulosa indecifrável nos seus elementos simples,
indecifrável na verdade,
• Conflito. Em inglh no original. CN'. da T.)
48 Simulacros e Sim ulação /ta11 Baudrillar1I 49

A dissuasão exclui a guerra - violência arcaica d os s is- de controle, por toda a parte o nde a noção de segurança se
temas e m expansão. A d issuasão, essa, é a violência neutra, torna todo-poderosa, por toda a parte onde a norma de
im.plosiva, dos sistemas metaestáveis ou em involução. Não segurança substitui o antigo arsenal de leis e de violência
existe já o objecto da dissuasão, nem adversário, ne m estra- (inclusive a guerra), é o sistema da dissuasão que a umenta,
tégia - é uma estrutura planetária d e aniquilamen to dos e à sua volta aumenta o deserto histó rico, social e político.
problemas. A g uerra atómica, como a de Tróia, não terá Uma involução gigantesca faz contrair todos os conflitos,
luga r. O risco de pulverização nuclear serve apenas de todas as finalidades, todos os confrontos à medida desta
p retexto, por meio da sofisticação das armas - mas t.'Sta chantagem q ue os interrompe a todos, os neutraliza, os con·
sofisticação ultrapassa de tal modo qualquer objectivo que gela. Nenhuma revolta, nenhuma história se podem já
ela própria é um sinto m<1 de nulidade - à instalação de um desencadear segundo a s ua própria lóg ica, pois correm o
s is tema u niversal d e segurança, de aferrolhamcnto e de risco do aniquilamento. Já nenhuma estratégia é possível e a
controle cujo efeito d issuasor não visa de modo algu m o escalada não é mais que um jogo pueril deixado aos milita-
conflito ató mico (este nunca esteve em cau sa, salvo com res. O problema político está morto, só restam os simulacros
certe7-" nos primeiros tempos da guerra fri,1, quando ainda de conflitos e de q uL--stões cuidadosame nte circunscritos.
se confundia o dispositivo nuclear com a guerra tradicional), A «aventu ra espacial» desempenhou exactamente o
mas si m a probabilidade muito mais vasta de todo o acontc• mesmo papel que a escalada nuclear. Por isso a pôde render
cime nto real, de tudo o que constiluisse um acontecimento tão facilmente nos anos 60 (Kennedy /Kruchtchev) ou desen-
no sistema geral e lhe quebrasse o equilíbrio. O equilíbrio do volvc["-se paralelame nte num modo de «coexistência pacífica».
terror é o terror do equilíbrio. Pois qual é a função última da corrida ao espaço, da conquista
A dissuasão não é uma estratégia, ela circula e troca·se da Lua, do lançamento dos satélites, senão a instituiçào de
e ntre os protagonistas nucleares muito exactamente como os um modo de gravitação universal, de satelização, cujo módulo
capitais internacionais nessa zona orbital d e espt.->culação lunar é o embrião perfeito: microcosmo programado, onde
monetária cujos fluxos bastam para contro lar todas as trocas nada pode sa deixado ao acaso? Trajectória, energia, cálculo,
mundiais. Assim, a moeda de destmição (sem refe rência de fisiologia, psicologia, ambiente - nada p<>de ser d eixado à
destruição real, como os capitais flutuantes não têm referente contingência, é o universo to tal da no rma - a lei aí já não
de produção real) que circula na ó rbita n udea r basta para existe, é a imanência operacional de todos os detalhes que
contro lar toda a violência e os conflitos potenciais do globo. faz a lei. Universo expurgado de toda a ameaça de sentido,
O que se trama à sombra deste dispositivo, sob o pretexto em estado de asscpsia e de ausência de gravidade - é esta
de uma ameaça «objectiva» máxima, e graças a esta espada própria perfeição q ue é fascinante. Po is a exaltação das mui·
nuclear de Dâmocles, é. o aperfeiçoamento do sistema máximo tidões não iil para o acontecimento do desemba rque na Lua
de controle jamais existente. E a satelização progressiva de ou a marcha de um home m no espaço (isto seria antes o fim
todo o planeta por este hipermodelo de segurança. de um sonho anterior) não, a sideração está de acordo com a
O mesmo é válido para as centrais nucleares pacíficas. A programação e a manipulação técnica. Com a maravilha
pacificação não estabelece diferenças en tre o civil e o militar: imanente do desenvolvimento programado. Fascinação pela
em toda a parte onde se elaboram dispositivos irreversíveis norma máxima e pelo domínio da probabilidade. Vertigem
50 Simulacros e Simulaçdo ft,m Baudrillard 51

do modelo que se junta com a da morte, mas sem perturbação •sistemas terrestres 9 ue são satelizados e perdem a sua auto-
nem pulsão. É que se a lei, com a sua aura de transgressão, a nomia. Todas as energias, todos os acontecimentos são
ordem, com a sua aura de violência, drenassem ainda um absorvidos por esta gravitação excêntrica, tudo se condensa
imaginário perverso, a nonna, essa, fixa, fascina, sidera e foz e implode na direcção do único micromodelo de controle (o
involuir todo o imaginário. Já não se alimentam fantasmas satélite orbital) como, inversamente, na outra dimensão, a
sobre a minúcia de um programa. Só a sua obseivância é biológica, tudo converge e implode sobre o micromod.elo
vertiginosa. A de um mundo sem falhas. molecular do código genético. Entre os dois, na assunção
O ra é o mesmo modelo de infalibilidade programática, simultânea dos dois códigos fundamentais da dissuasão,
de segurança e de d issuasão máximas que rege hoje em dia todo o princípio de sentido é absorvido, todo o desen-
a extensão do social. Também aqui mais nadn será deixado ao volvimento do real é impossível.
acaso, de resto é isso a socialização, que começou há séculos A simultaneidade de dois acontecimentos no mês de Julho
mas que entrou a partir de agora na fase acelerada, dirigindo- de 1975 ilustrava isto mesmo de uma maneira estrondosa: a
--se para um limite que se julgava explosivo (a revolução), reunião no espaço de dois supersatélites americano e sovié-
mas que para já se traduz num processo inverso, implosiw, tico, apoteose da coexistência pacífica - a supressão pelos
irreversível: dissuasão generalizada de todo o acaso, de todo chineses da escrita ideográfica e a sua adopção a pra7..0 d o
o acidente, de toda a transversalidade, de toda a finalidade, alfabeto romano. Este último significa a indiforcnciação
de toda a contradição, ruptura ou complexidade num<1 socie- «orbital» de um sistema d e signos abstracto e modelizado,
dade irradiada pela norma, votada à transparência sinalética na órbita do qual se vão reabsorver todas as formas, outrora
dos mecanismos de informação. De focto, os modelos espacial singulares, do estilo e da escrita. Satelização da língua: é a
e nuclear não têm fins próprios: nem a descoberta da Lua, maneira de os chineses entrarem no sistema de coexistencia
nem a superioridade militar e estratégica. A sua verdade é a pacífica, o q ual se inscreve no seu céu justamente ao mesmo
de serem os modelos de simulação, os vectores modelos de tempo pela junção dos dois satélites. Voo orbital dos dois
um sistema de controle planetário (do qual nem mesmo as ~randes, neutralização e homogeneização de todos os outros
poderosas vedetas deste cenário estão livres - todos estão no solo.
sateli?.ados) W. Contudo, apt.>sar desta dissuasão pela instância orbital -
Resistir à evidência: na satelização, aquele que está sateli- d>digo nuclear ou código molecular - os acontecimentos
z:ado não é aquele que julgamcn;. Pela inscrição orbital de um mntinuam no solo, as peripécias são mesmo cada vez mais,
objecto espacial, é o planeta Terra que se toma sa.télite, é o d,,do o processo mundial de contiguidade e de simulta-
princípio terrestre de realidade que se torna excêntrico, hipcr- 1widade da informação. Mas subtilmente perdem o sentido,
-reaJ e insignificante. Pela instanciação orbital de um sistcmn ni'lo são senão o efeito dúplex da simulação no apogeu. O
de controle como a coexistência pacífica, são todos os micro- nll'lhor exemplo não pode deixar de ser a guerra do Vietname,
I•' lJUe esta se encontrou na intersecção de uma questão
hi-.t6rica e *revolucionária>• máxima e da implementação
8. Paradoxo: todas as bombas são limpas: a sua única polui,;:ío é o i\1-sla instância dissuasiva. Que sentido teve esta guerra, e a
sistema de segurança e de controle que irradiam q11a11do mio explodtm. NtM evolução não terá sido a de consolidar o fim da história
52 Simulacros e Simulaçtlo Jean Baudrillard 53

no acontecimento histórico fulminante e decisivo da noss.:1. no fundo não é grave: esta já deu as suas provas, pode-se
época? ter confiança nela. É mesmo mais eficaz que o capitalismo
Por que motivo esta guerra tão dura, tào longa, tão feroz na liq uidação das estruturas pré-capita;listas «selvagens» e
se dissipou de um dia para o outro como por encanto? arcaicas.
Por que é que esta derrota americana (o maior revés da O mesmo cenário na guerra da Argélia.
história dos Estados Unidos) não teve qualq uer repercuss..1o O outro as~to desta guerra e de qualquer guerra a
interna na América? Se tivesse de facto significado o fracasso partir de agora: por detrás da violência armada, do antago-
da estratégia planetária dos Estados Unidos iería também nismo homicida dos advers..í.rios - que parece u ma questão
necessariamente de ter alterado o equilíbrio interno e o sis- de vida ou de morte, que se joga como tal (senão já não se
tema político americano. Nada disso aconteceu. poderia mandar as pessoas arriscar a pele neste hpo de
Outra coisa, pois, se passou. Esta guerra, no fundo, não coisas), por detrás deste simulacro de luta de morte e de
terá passado de u m episódio crucial da coexistência pacífica. disputa mundial impiedosr,, os dois adversários são funda-
A não intervenção da China, conseguida e concretizada ao mentalmente solidários contra uma outra coisa, inominada,
longo de muitos anos, a aprendizagem por parte da China nunca diti'I, mêls cujo rcsultildO objectivo da guerra, com a
de um modus vivendi mund ial, a passagem de uma estratégia mesma cumplicidade dos dois adverSários, é a líquidação
de revolução mundial para uma outra de pa rtilha das forças total das est·ruturas tribais, comunitárias, pré-capitalistas,
e dos impérios, a transição de uma alternativa radical para a todas as formas de troca, de líng·ua, de organização simbó-
alternância política num sis tema doravante regulado pelo licas; é isso que é preciso abolir, é o aniquil~mento d~ tud~
essencial (normalização das relações Pequim-Washington): isso o objectivo da guerra - e esta no seu 1men5<:> d 1spos1-
era isso a questão fulcral da guerra do Vietname e, neste tivo espectacular de morte, não é senão um med1um ~est.e
sentido, os Estados Unidos abandonaram o Vietname mas processo de racionalização terrorista do social - o amqm-
ganharam a guerra. lamento sobre o qual se vai poder instaurar a socialidade,
E a guerra chegou ao fim «espontaneamente», quando o sendo indiferente a sua obediência, comunista ou capitalista.
objectivo foi atingido. Por isso se desfez, se deslocou com tal Cumplicidade total ou divisão do trabalh ~ entre doís ~dv~r-
facilidade. 1

sários (que podem mesmo, para o conseguir, fazer sacnfi~1os


Esta mesm a depreciação é indecifrável no terreno. A enormes) corn o mesmo fim de aviltamento e de domestica-
guerra durou tanto que não foram liquidados os elementos ção das relações sociais.
irredutíveis a uma polítk.1 sã e a uma disciplina de poder; «Os vietnamitas do Norte foram aconselhados a prestar-
mesmo que se tratasse de um poder comunista. Quando por -se a um cenário de liquidação da presença americana no
fim a guerra passou para as mãos das tropas regulares do decurso do qual, claro, é pr~iso salvar a face.»
Norte e escapou às da guerrilha, então a guerra pôde parar: Este cenário foi o dos bombardeamentos extremamente
atingiu o seu objectivo. A questão é, pois, a de uma rendição duros sobre Hanói. O seu carácter insuportável não deve
poütica. Quando os vietnamitas provaram que já não eram esconder que não passavam de um simuJacro para ~rmitir
portadores de um a subversão imprevisível, então podia-se- aos vietnamitas simularem prestar-se a um compronusso e a
-lhes passar o testemunho. Que seja uma ordem com unista, Nixon fazer engolir aos americanos a retirada das suas tropas.
54 Simulacros t Sim1dação Jean Baudril/ard 55

Tudo estava decidido, nada estava objectivamente em jogo hemo-nos (os comunistas •~no poder» em Itália, a redescoberta
senão a verosimilhança da montagem final. póstuma, retro, dos goulags e dos dissidentes soviéticos, como
Que os moralistas da guerra, os defensores dos altos a redescoberta, quase contemporânea, por uma etnologia
valores guerreiros não fiquem demasiado desolados: a guerra moribu nda, da ((diferença» perdida dos selvagens) de que
não é menos atroz por ser apenas simulacro, sofre-se ainda estas coisas acontecem demasiado tarde, com uma história
na carne e os mortos e os antigos combatentes valem bem os de atraso, uma espiral de atraso, que esgotaram o seu sentido
outros. Esse objectivo continua a ser atingido, do mesmo com muita antecipação e vivem apenas de uma efervescência
modo que o da quadrículação d os territórios e de socialid ade artificial de signos, que todos estes acontecimentos se sucedem
disciplinar. O que já não existe é a adversidade dos adver- sem lógica, numa equivalência total das mais contraditórias,
sários, é a realidade d as causas antagonistas, é a seriedade numa indiferença profunda pelas suas consequências (mas é
ideológica da guerra. É também a realidade da vitória ou da que já nào têm mais: esgotam-se na sua promoção especta-
derrota, sendo a guerra um processo que triunfa bem para cular) - todo o filme da «achlalidade>) dá assim a impressão
além destas aparências. sinistra de kitsch, de retro e de pomo ao mesmo tempo - isto
De todas as maneiras, a pacificação (ou a dissuasão) que sem dúvida que todos o sabem e, no hmdo, ninguém o
hoje em d ia nos domina está. para além da guerra e da paz, é aceita. A realidade da simulação é insuportável - mais cruel
a equivalência, a todo o momento, da paz e da guerra. «A que o Théátre de la Cr11a11té de Artaud, que era ainda o ensaio
guerra é a paz),, dizia Orwcll. Também aí, os dois pólos de uma dramaturgia da vida, o último sobressalto de uma
diferenciais implodem um no outro ou reciclam-se um no idealidade do corpo, do sangue, da violência de um sistema
outro - simultaneidade dos contraditórios que é ao mesmo que já estava a ganhar, no sentido da reabsorção de todos os
tempo a paródia e o fim de toda a dialéctica. Assim se pode problemas sem um vestígio de sangue. Para nós os dados
passar completamente por cima da verdade de uma guerra: estão lançados. Toda a dramaturgia e mesmo toda a escrita
a saber que ela acabou muito antes de acabar, que se pôs fim real da crueldade desapareceu. A simulação é ama e senhora
à guerra, no auge mesmo da guerra, e que talvez ela nunca e já só temos direito à outra coisa, à reabilitação fontasmáhca,
tenha começado. Muitos outros acontecimentos (a crise periódica, de todos os referenciais perdidos. Todos se desen-
petrolífera, etc.) mmca começaram, nunca existiram, senão rolam ainda à nossa volta, na luz fria da dissuasão (inclusi-
como peripécias artificiajs - abstrnct, substituição• e arte- vamente Artaud, que tem direito, como todo o resto, ao seu
factos de história, de catástrofes e de crises destinadas a reviver, a uma existência segunda como referencial da cruel-
manter um investimento histórico sob hipnose. Todos os dade).
media e o cenário oficial da informação existem apenas pi'ra Por isso é que a proliferação nuclear já não é um risco de
manter a ilusão de uma acontecimentalidade, de uma reali- conflito ou de acidente atómico - salvo no intervalo em que
dade dos problemas, de uma obje<:tividade dos factos. Todos as «jovens)) potências pudessem ser tentadas a utilizá-las
os acontecimentos devem ser lidos ao contrário, ou aperce- para fins não dissuasivos, «reaisu (como fizeram os
americanos em Hiroshima - mas precisamente eles foram
os únicos a terem direito a este «valor de uso» da bomba;
• Ersatz. Em alemão no original. (N. da T.) 100.os os que a ela tiveram acesso a partir de agora serão
56 Smmlncros e Simul4(tfo fe,w Bnmtrillard 57

d issuadid05 de a usarem pelo pró prio facto de a possuírem. a partir de agorct neutralizadas, inutilizáveis, ininteligíveis,
A entrada para o, Uo elegantemente designado, clube at(>.. inexplosivas senão a possibilidade de uma explosão p~ra
mico apaga muito rapidamente (como a sindicalização para o interior, de uma implosão onde todas essas energias
o m undo operário) toda a veleid ade dí' inlervcnc;ão violenta, se aboliriam num processo catastrófico (no sentido literal,
A responsabilidade, o controle, a censura, a autochssuosão isto é, no sentido de uma reversão de todo o ciclo para um
crescem sempre mais depressa que as forças ou as armas ponto mínimo, d e uma reversAo das energias para um limiar
de que dis põe: esse é o segredo da ordem social. A~:,im, a · mínimo).
própria possibilidade de paralisar um país inteiro ao puxar
um manípulo, faz com que os técnicos da electricidade nunca
usem esta arma: é todo o mito da greve total e revolucionária
que se desmorona no próprio momento em que os meios
para isso estão dados - mas, ai! prtcisame11tc porque os meios
lhe são dados. Está nisso todo o processo de dis~uasão.
É, pois, perfeitamente provável ver um dia as potências
nucleares exportar centrais, armas e bombas atómicas para
todas as latitudes. Ao contro1e pela ameaça s ucederá a estra-
tégia bem mais eficaz da pacificação pela bomba e pela posse
da bomba. As «pequenas» poti}ncias, julgando comprar a
força de ataque autónoma, comprarão o vírus da dissuasão,
da sua própria dissuasão. O mesmo para as centrais atómicas
que já lhes ent·r egámos: outras tantas bombas de neut·rões
desactivando toda a virulência histórica, todo o risco de
explosão. Neste sentido, o nuclear inaugura em toda a parte
um processo acelerado de implosAo, congela tudo à sua volta,
absorve toda a energia viva.
O nuclear é ao mesmo tempo o ponto culminante da
energia dis ponível e a maximizac:;!\o dos sistemas de controle
de toda a energia. O aícrrolhamento e o controle crescem de
acordo (e sem dúvida ainda mais depressa) com as virtuali-
dades libertadoras. Foi a aporia das revoluções modemas. É
ainda o paradoxo absoluto do nuclear. As energias congelam-
-se no seu próprio fogo, dissuadem-se a si próprias. Já não
se vê de todo que projccto, que poder, que estratégia, que
assunto poderia existir por detrás desta claus ura, d esta
saturação gigantesca de um sistema pelas suas próprias forças
A história:
um cenário retro

Num período de história violenla e actual (digamos, entre


as duas guerras e a guerra fria), é o mito q ue invade o cinema
como conteúdo imaginário. É a idade de ouro das grandes
ressurreições despóticas e lendárias. O mito, expulso do rea l
pela violência da história, encontra reíúgio no cinema.
Hoje e m d ia é a própria história que invade o cinema
segundo o mesmo cenário - o problema expulso da nossa
vida por esta 1:.-spécic de neutralização gigantesca, que tem o
nome de coexistência pacífica à escala mundial, e monotonia
pacificada à escala quotidiana - esta história exorcizada por
uma sociedade de congelação lenta ou brutal, festeja a sua
ressurreição em força nos ecrãs, pelo mesmo processo q ue aí
fazia outrora reviver os m itos perdidos.
A história é o nosso referencial perdido, isto é, o nosso
mito, É a esse título que se faz a rendição dos mitos no ecrã.
A ilusão seria regozijarmo-nos com esta «tomada de cons-
ciência da história pelo cinema», como nos regozijámos com
a itentrada da política na universidade». É o mesmo mal-
-entendido, a mesma mistificação. A política que entra na
universidade é a que sai da história, é uma política retro,
esvaziada da sua substância e legalizada no seu exercício
superficial, zona de jogo e terreno de aventura, essa política
60 Simulacros ~ Simulaç.ão Jean &mdrillard 61

é como a sexualidade ou a formação permanente (ou como a mais precisamente, diz Freud, esse objecto não é um qualquer,
segurança social no seu tempo): liberalizaçào a título póstumo. é muitas vezes o ú ltimo objecto vislumbrado antes da des-
O grande acontecimento deste período, o grande trau ma- coberta traumatizante. Assim, a história fctichizada será de
tismo é esta agonia dos referenciais fortes, a agonia do real e preferência a imediatamente anterior à nossa era «irreferen+
do racional que abre as suas portas para uma era de simulação. cial». Donde a preponderância do fascismo e da guerra no
Enquanto tantas gerações e singularmente a ú ltima, vive- retro - coincidência, afinidade nada política, é ingénuo
ram na peugada da história, na pcrspectiva, eufórica ou concluir a partír da evocação fascista uma renovação actual
catast rófica, de uma revolução- hoje te m-se a impressão d e do fascismo (é justamente porque já não estamos nessa época,
que a história se retiro u, deixando a trás de si uma nebulosa porque estamos no utra, que é ainda menos divertida, é por
indiferente, alravess.,dn por fluxos (?), mas esvaziada das isso que o fascismo pode voltar a tornar+se fascinante na sua
s uas referências. É neste vazio que refluem os fantasmas d e crueldade filtrada, estilizada pelo retro) to.
uma história passada, a panóplia dos acontecimentos, das A histó ria faz assim a s ua entrada triunfal no cinema a
ideologias, das modas retro - não tanto porque as pt.>Ssoas título póstumo (o termo «histórico» teve a mesma sorte: um
acreditem ou depositem aí qualquer esperança, mas simples- momen to, um monumento, um congr<.'SSo, uma figura «his-
mente para ressuscitar o tempo em que pelo menos havia tóricos» são com isso mesmo designados como fósseis). A
história, pelo menos havia violência {m esmo que fosse sua reinjecçào não tem o valor de uma tomada de consciência,
fascista), em que pelo menos havia uma q uestão de vida ou mas de nostalgia d e um referencial perdido.
de morte. Tudo serve para escapar a este vazio, a esta leucemia Isto não significa que a história n unca t~nha aparecido no
da história e do político, a esta hemorragia dos valores - é cinema como te mpo forte, como processo actual, como
de acordo com esta penúria que todos os conteúdos sã.o
evocáveis na confusão, q ue toda a h istória anterior vem 1. O próprio f..lscis.mo, o mislériodo Sol:"U :ip.1n'Cinu:•nto l' da su,, l"nergia
ressuscitar a granel - já nenhuma ideia-força selecciona, colectiva, que nenhuma in1erprelação çon!K!guiu esgotar (nem a marxista
apenas a nostalgia acumula sem fim: a guerra, o fascismo, o com a sua manipulnç,lo pol,tica pelas classes dominantes, nem a reichiana
fausto da befle époque ou as lutas revolucionárias, tudo é com o seu fC('alcamc11to sexual das massas, ne1n a deleuziana com :i para-
equivalente e se mistura sem distinção na mesma exaltação nóia despótica) pode i1Hcrprctar-sc já como :;obrevaloti:1.ação "irracional»
dos referenciais míticos e polltioos, inten;"óifiç-ação louca do valo r col~ivo
sombria e fúnebre, no mesmo fascínio retro. Há, contudo, (o sangue, a r,1Çi', o povo, 1.'IC.), reinje,cção da mortl", de uma "estética poli·
um privilégio da época imediatamente passada {o fascismo, tica da morte", um moml.'nlo l.'lll ~1u1.· o processo de d~ncanlamcnto do
a guerra, o imediato pós-guerra - os inúmeros filmes cuja valor e dos valor1.-s cofoctivos, de s«ularizaçào r:u:ional e de unidimcn-
acção aí se situa, têm para nós um perfume mais próximo, sionalização de to,fa a vida, de operacionalização de toda a vida social e
mais perverso, mais denso, ma is perturbador). Pode-se expli- individual S<> fo7. j;\ sentir dur<1mentc no Oddenhi. Mais uma vc;,;, tudo
cá-lo evocando {hipótese talvez ela também retro) a teoria serve para escapar a C$la catS1;trofc do valor, a esta neutralização e pacifica·
\'iO da vida. O fascismo é uma rl"Sistência a isto, resistêndil profunda, irra·
freudiana do fetichismo. Este trauma (perda de referenciais) dona 1, demente, nilo interessa, não terfo atraído esta energia m.,ciça se não
é semelhante à descoberta da diferença dos sexos pela criança, fosse uma resistõ:ncia a qualquer coisa ainda pior. A sua crueldade, o seu
tão grave, tão profunda, tão irreversível: a fetichização de terror estão de acordo com t'Slt: outro terror que I u crmfus4o do real t do
um objecto surge para ocultar esta descoberta insuportável, rncional, que se tem aprofondado no Ocidente e é uma resposta a isso.
62 Simulacros t Simufaçtfo Jtan Baudrillard 63

insurreição e não como ressurreição. No «real» como no que sAo, para os que conhecemos, o que o andróide é para o
cinema, houve história mas já não há. A história que nos é homem: artefactos maravilhosos, sem falhas, simulacros
«entregue» hoje em dia (justamente porque nos foi tomada) geniais aos quais não falta senão o imaginário, e esta
não tem mais relação com um «real h istórico» que a neofi- alucinação própria que faz o cinema. A maior parte dos que
guraçâo em pintura com a figuração clássica do real. A neo- vemos hoje (os melhores) são já dessa categoria. 8arry Lyndo,r
figuração é uma im.10eação da semelhança, mas ao mesmo é o melhor exemplo: nunca se fez melho r, nunca se fará
tempo a prova flagrante do desaparecimento dos objt."Ctos na melhor em... em quê? Na evocação não, nem mesmo evocação,
sua própria representação: hiper-reaf. Os objectos têm aí, de é simulação. Todas as radiações tóxicas foram filtradas, todos
alguma maneira, o brilho de uma hipersemelhança (como a os ingredientes estão lá, rigomsamente doseados, nem um
história no cinema actual) que faz com que no fundo não se só erro.
assemelhem a nada senão à figura vazia da semelhança, à Prazer coo/•, frio, nem sequer estético no sentido rigoroso
forma vazia da representação. E uma q uestão de vida ou de do termo: prn:u~r funciona l, prazer equacional, praze r de
morte: esses objectos já não sào vivos nem mortais. É por isso maquinação. Basta pensarem Visconti (O l..eo11'lrdo, Senso, etc.,
que são tào exactos, tão minuciosos, tão condensados, no qu.e em certos as pectos fazem pensar em Barry Lymlm1) para
estado em que os teria captado uma perda brutal do real. captar a diferença, não só de estilo mas no acto cinemato-
Todos estes filmes históricos mas não só: Chinatown, Os 1'rês gráfico. Em Visconti há S('n tido, história, uma retórica sensual,
Dias do Condor, Barry Lyndon, 1900, Os Homens do Preside,lt'e, tempos mortos, um jogo apaixonado, não só nos conteúdos
etc., cuja própria perfeição é inquietante. Tem-se a imprcss.='10 históricos mas na cnccnac;:,lo. Nada disto cm Kubrick, que
de se estar perante remakes perfeitos, montagens extraordi- manobra o seu filme como um jogo de xadrez, que faz da
nárias que relevam mais de uma cultura combinató ria (ou história um cenário operacional. E isto não remete para a
mosaico no sentido macluhanesco), a grande máquina de velha oposição do espírito de fines.se e do espírito de geometria:
foto, quino, histório-sintese, etc., que de verdadeiros filmes. isto releva ainda do jogo e de uma questão de sentido. E isto
Entendamo-nos: a sua qualidade não está em causa. O pro- q uando entramos numa era de filmes que não terão pro-
blema é antes que nos deixam de certo modo totalmente priamente sentido, de grandes máquinas de síntese com
indiferentes. Tomemos l.ost Picture Show: é prt.'Ciso ser, como geometria variável.
eu, bastante d istraído para o ter visto como produção original Há já algo dis to nos tvestems de Leone? Talvez. Todos os
dos anos 50: um mu ito bom filme de costume$ e de ambiente registos deslizam neste sentido. Chinatown: é o polar redese-
numa pequena cidade americana, etc. Só uma ligeira suspeita: nhado a laser. Não é verdadeiramente uma questão de
era um pouco bom de mais, mais bem ajustado, melhor que perfeição: a perfei<:ão técnica pode fazer parle do sentido e,
os outros, sem as brava tas psicológicas, morais e sentimentais nesse caso, não é nem retro, nem hiper-realista, é um efeito
dos filmes da época. Confusão quando se descobre q ue é um da arte. Aqui é um efeito de modelo: é um dos valores
filme dos anos 70, perfeito retro, expurgado, inoxidável, tácticos de referência. Na a usência de sintaxe real do sentido,
restituição hiper-realista dos fil mes dos anos 50. Fala-se de
voltar a fazer filmes mudos, melhores, sem d úvida, ta mbém
eles que os da época. Ergue-se toda uma ge.ração de filmes • Desoonlr.tfdo. Em inglês no origirtal. (N. da T.)
64 Simu{ncros e Sinwlnçiio Jean Baudrillard 65

já não se têm senão os valores ttfcticos de um conjunto o nde, tica. A relação que se estabelece hoje em dia entre o cinema
por exemplo, a CJA como máquina mitológica de fazer tudo, e o real é uma relação inversa, negativa: resulta da perda de
Robert Redíord como star"' polivalente, as relaçOC:.s sociais especificidade de um e d e outro. Colagem a frio, pro-
como referência obrigatória à his tó ria, a virtuosidade técnica miscuidade roo{, bodas assexuadas de dois media frios que
como referência obrigatória no cinema se conjugam admiravel- evoluem em linha assimptótica um em d irecção ao outro: o
mente. cinema tentando abolir•se no absolu to do real, o real desde
O cinema e a sua lrajectória: do mais fantástico ou m ítico há muilo absorvido no hiper-real cinematográfico (ou tele-
ao realístico e à hiper-realística. visionado).
O cine ma nas suas tentativas actuais aproxima-se cada A história era um mito forte, talvez o último grande mito,
vez mais, e com cc1da vez mais perfeição, d o real absoluto, na a pardo inconsciente. Era um mito que subentendi.a a~ mesmo
sua banalidade, na s ua veracidade, na sua evidência n ua, no tempo a possibilidade de um encadeamento «objectivo» dos
seu abom..-cimento e, ao mesmo tempo, na sua prL-sunção, acontecimentos e das causas, e a possibilidade de um encadca•
na sua pretensão de ser o real, o imediato, o insignificado, o mento narrativo do d iscurso. A era da história, se se pode
que é a empresa mais louca (como a prctens.'\o do funciona- dizer é também a era do ro mance. É este carácter falml<JSQ, a
lismo de designer - dtsign - o mais alto g rau do objecto na energia mítica de um acontecimento ou de uma narraç~o,
s ua coincidência com a s ua função, com o seu valor de uso, que parece perder-se cada vez mais. Por detrás de u?'a 1.6g1ca
é uma empresa propriamente louca) nenhuma cultura jamais competente e demonstrativa, a obsessão de uma fidehdade
teve sobre os signos esta visão ingénua e pa ranóica, puritana histórica, de um resultado perfeito (como o do tempo rea l ou
e terrorista. da quotidianidade minuciosa de Jeann~ Hilmann la~a~do a
O terrorismo é sempre o do real. louça), esta fidelidade nega tiva e encarniçada à matenahdad.e
Simultaneamente a esta tentativa de coincidência absoluta do passado, de tal cena do passado ou do presente, à resti-
com o real, o cinema aproxima-se também de uma coinci- tuição de um simulacro absoluto do passado ou do presente,
dência absoluta consigo próprio - e isto não é contraditó• e que se s ubstituiu a qualq uer ?utro valor~ ~mos todos
rio: é mesmo a definição de hiper-real. Hipotipose e espc- cúmplices e isso é irreversível. E qu~ o p:Ópno cinema co~-
cularidade. O cinema plagia-se, recopia-se, refaz os seus tribuiu pa ra o dt..>Saparccimento da história e para o apareci•
clássicos, retroactiva os mitos originais, refaz o mudo mais mento do arquivo. A fotografia e o cinema contribu íra m lar-
perfeito que o mudo de origem, etc.: tudo isto ê lógico, o gamente para seculariza r a história, para a fixar na s~a forma
cinema está fasci,uuio co11sigo próprio como objecto perdido tal visível, «objechva», à custa dos mitos que a percornam.
como estt1 · (e nós) estamos fascinados pelo real como real em O cinema pode hoje colocar todo o seu talento, toda a s~a
dissipação. O cinema e o imaginá rio (romanesco, mítico, técnica ao serviço da reanimação daquilo que ele própno
irrealidade incluindo o uso delirante da sua própria técnica) contribuiu para liquidar. Apenas ressuscita fantasmas e aí se
tinham outrora uma relação viva, dialéctica, plena, dramá• perde ele próprio.

• Em inglês no original. (N. da T.>


Holocausto

O esquecimento da exterminação faz parte da extermi•


nação, pois o é também da memória, da história, do social,
etc. Esse esquecimento é tão essencial como o acontecimento,
d e qualquer modo impossível de encontrar para nós, inaces•
sível na sua verdade. Esse esquecimento é ainda demasiado
perigoso, é preciso apagá-lo por uma memória artificial (hoje
cm dia, por toda a parte, são as memórias artificiais que
apagam a memória dos homens, que a pagam os homens da
sua própria memória). Esta memória artificial será a reenre--
nação da exterminação - mas tarde, demasiado tarde para
poder fazer verdadeiras ondas e incomodar profundamente
í1lguma coisa e, sobretudo, sobretudo através de um medium
ele próprio frio, irradiando o esquecimento, a d issuasão e a
~xtenninação de uma maneira ainda mais sistemática, se é
possível, que os próprios campos de concentração. A tele-
visão. Verdadeira solução final para a historicidade de todo
o acontecimento. Fazem-se passar os judeus já não pelo forno
n ematório ou pela câmara de gás, mas pela banda sonora e
pt'la banda-imagem, pelo ecrã catódico e pelo m icroproces-
,..,dor. O esq uecimento, o aniquilamento alcança assim, por
fim, a sua dimensão estética - cumpre-se no re tro, aqui
unfim elevado à dimensão de massas.
68 Si,rw/acros e Simufaçtfo Jnm Bmutrirtard 69

A espécie de dimensão social histórica que restaria ainda lhes fará lançá-lo no esquecimento com uma espécie de boa
ao esquecimento sob a forma de culpabilidade, de latência consciência estética da catástrofe.
vergonhosa, de não dito, já nem mesmo existe, pois que a Para aquecer tudo isso, não foi demasiada toda a orques-
partir de agora «toda a gente sabe», toda a gente vibrou e tração política e pedagógica vinda de todo o lado para tentar
choramingou perante a exterminação - indício certo de que dar um sentido ao acontecimento (ao acontecimento tele-
- issoit nunca mais ocorrel"á. Mas o que assim com pouco visivo, desta vez). Chantagem e pânico à volta das conse-
esforço se exorciza, a troco de algumas lágrimas, não ocor- quências possíveis desta emiss.."io na imaginação das crianças
rerá de facto nunca mais porque desde sempre tem vindo, e dos outros. Todos os pedagogos e trabalhadores sociais
actualmente, a reproduzir-se e precisamente na própria mobilizados para filtrar a coisa, como se houvesse algum
forma em que se quer denunciar, no próprio maiium deste perigo de virulência nesta ressuscitação artificial! O perigo
pretenso exorcismo: a televisão. l':. o mesmo processo de era, bem pelo contrário, o inveTSO: do frio para o frio, a
esquecimento, de liquidação, de exterminação, a mesma inércia social dos sistemas frios, da televisão em particular.
liquidaç~o das memórias e da história, a mesma radiação Era, pois, preciso que todos se mobilizassem para voltar a
inversa, implosiva, a mesma absorção sem eco, o mesmo fazer social. social quente, dissuasão quente e, logo, comu-
buraco negro que Auschwitz. E querem-nos fazer crer que a nicação, a partir do monstro frio da exterminação. Faltam
televisão vai levantar a hipoteca de Auschwitz fazendo questões, investim~nto, história, palavras. Este é o problem.l
irradiar uma tomada de consciência colectiva, quando ela é a fundamental. O objectivo é, pois, o de produzir isso a todo o
sua perpetua~ão sob outras espécies, sob os auspícios, desta custo e esta emiss.-io servia esse fim. Captar o calor artificial
vez já não de um lugar de aniquilamento mas de um medium de um aront«imcnto morto para aquecer o corpo morto ào
de dâssuasão. social. Desde a adição de mais medium adicional para reforçar
O que ninguém quer compreender é que o Holocausto é, oefcito por fred-lx,ck-. sondagens imediatas vaticinando o efeito
em primeiro lugar (e exclusivamente) um aconteci mento tele- maciço da cmiss..'!io, o impacte colcctivo da mensagem -
visivo (regra fundamental de MacLuhan, que não há que enquanto que ilS sondagens apenas verificam, como é
esquecer), isto é, que se tenta aquecer um acontecimento evidente, o êxito televisual do próprio mediwtf. Mas o
histórico frio, trágico mas frio, o primeiro grande aconteci- problema desta confusão nunca deve ser suscitado.
mento dos sistemas frios, dos sistemas de arrefecimento, de A partir daí, seria preciso falar da luz fria da televisão,
dissuas,'!io e de exterminação que em seguida se vão desdobrar por que é que ela é inofensiva para a imaginação (incluindo
sob outras formas (inclusive a guerra fria, etc.) e dizendo a das crianças) pela razão de já não veicular nenhum imagi-
respeito a massas frias (os judeus, mais envolvidos pela sua nário e isto pela simples razão que nãot mais que uma imagem.
própria morte, e autogerindo, eventualmente, massas mais Opõ-la ao cinema dotado ainda (mas cada vez menos porque
revoltadas: dissuadidas até à morte, dissuadidas da sua cada vez mais contaminado pela televis.io) de um intenso
própria morte) de esquecer este acontecimento frio através imaginário - porque o cinema é uma imagem. Isto é, não
de um mtdfom frio, a televisão, e para as massas elas próprias apenas um ecrã e uma forma visual, mas um mito, uma coisa
frias, que terão aí ocasião de sentir apenas um calafrio táctil 1.1ue ainda tem a ver com o duplo, o fantasma, o espelho, o
e uma emoção póstuma, calafrio dissuasivo também ele, que sonho, etc. Nada disso existe na imagem ..televisAo-.., que
70 Simu(acros e Simulação

não sugere nada, que magnetiza, que não é, ela própria, mais China Syndrom
que um ecrã e nem mesmo isso: um terminal miniaturizado
que, de facto, se acha imediatamente na nossa cabeça - nós
é que somos o ecrã, e a televisão olha para nós - transistori-
za-lhe todos os neurónios e passa como uma fita magnêtica
- uma fíta, não uma imagem.

A questão fundamental está ao níve l da televisão e da


informação. Tal como a exterminação dos judeus desapare-
cia por detrás do acontecimento televisivo de Holoawsto -
tendo-se o 111edi11m frio da televisão s ubstituído ao sistema
frio d e exterminação que a través dela se julgava exorcizar-
também íl Síndrome da China é um belo exernplo da supre-
macia do ílCOntecimento nuclear que, esse, continua a ser
improvável e, de certa maneira, imaginário.
O filme mostra-o, d e resto (sem querer): não é uma
coincidência que faz com que a televisão esteja justamente
no local onde a acção se desenrola, é a intrusão da televisão
na central que faz como que surgir o incidente nuclear -
porque é como que a sua antt.>cipação e o seu modelo no
universo quotidiano: televisão do real e d o mundo real -
porque a televisão e a informação em geral são uma forma
de catástrofe no sentido formal e topológico de René Thom:
mudança qualitativa radical de um sistema completo. Ou
antes, televisão e nuclear são da mesma natureza: por detrás
dos conceitos •1quentes,1 e neguentrópiros de energia e de
informação, têm a mesma força de dissuasão dos sistemas
frios. A televisão é ela também um processo nuclear em
cadeia, mas implosivo: arrefece e neutraliza o selltido e a
72 Simulacros I! Sim11lação Jean Baudrilfard 73

energia dos acontecimentos. O mesmo se passa com o mesmo processo constituem muito exactamente aquilo a que
nuclear, por detrás de um presumível risco d e explosão, isto chamamos uma síndrome - que seja da China acrescenta•
é, de catástrofe quen te, esconde uma lenta catástrofe fria, a •lhe ainda um perfume poético e mental de quebra·cabeças
universalização d e um s istema de dissuasão. ou de suplício.
Ainda sobre o fim do filme, é a intrusão maciça da Obcecilnte conju nção da Sfndrome da Chi,ra e de Har•
imprensa e da televisão que prnvoc.:i o drama, o homicí- risburg. Mas será tudo isto involuntário? Sem discernir elos
dio do dirl.:.ctor técnico pelas Brigadas Especiais, drama mágicos entre o simulacro e o real, é claro que a Síndrome
substitutivo à catástrofe nuclear que não chegará a veri fi- não é estranha ao acidente .«real» de 1-tarrisburg, não segundo
car-se. uma lógica c.1usal, mas pelas rel.1ções de contágio e de
A homologia do nuclear e da televisão lê-se diR-ctameutc analogin silenciosa que ligam o real .1os modelos e aos
nas imngens: nada se parece mais com o núcleo de contrulé simulacros: à iml11çt10 do nuclear peh, télevisão no filme
e de telecomando da central que os estúdios da telcvis..io, e responde, com uma evid ência perturbadora, .1 indução pelo
as consolas nucleares confundem-se, no mt:.--smn imagin<frio, filme do .icidcnle nudcar de Harrisburg. Estranha precessão
com as dos estúdios de g ravação e d e difusáo. Ora tudo se de um filme sobre o real, a mais espantosa à qu;,I nos foi
passa entre estes dois pólos: do outro '"ntkleo», o do reactor, dado assistir: o real respondeu, ponto por JX)nto, ao simulacro,
em princípio o verdad eiro núcleo da questão, não saberemos inclusivamente no carácter s uspensi vo, inacabado, da
nada, esse é como o real, fugidio e ilegível, e no fundo sem catástrofe, o que é 1..-sscncial do ponto de visla da diss_u asâo:
importância no filme (quando tentam sugeri-lo, na catástrofe o real acomodou-se, à imagem do filme, para produzir uma
iminente, não resulta no pia.no im.1ginário: o drama dl.!Senrola- simurr,ç,in de cat,ístrofc.
-se nos ecrãs, e em mais nenhum lado). Daí a invt'rlt•r a nossa lógica e a ver na Sí11drome da China
o verdadeiro acmHLX'imento e cm liarrisburg o seu simulacro,
Harrisburg<11, Watergate e Network: é essa a trilog·ia dn Sf11- não vai mais q ue um passo que se deve dar alegremen!e· É
drome da China - trilogia inextricável em que já não se sabe pela mesma lógica que a realidade nuclear procede n ~ filme
qual é o efeito ou a sínd rome do outro: o argumento ideo- do efeito televisão e que Harrisburg proctc'Cle na «realidade»
lógico (efeito Watergate) não é mais qu.e o sintoma do do efeito de cinema Síndrome da China.
nuclear (efeito 1-farrisburg) ou do m odelo informático (efeito Mas este também não é o protótipo original de Harrisburg,
Network) - o real (Harrisburg) não é mais que o si.ntoma do um não é o simulacro de que o outro seria o real: não há
imaginário (Network e Síndrome da China) ou o inverso? senão simulacros e Harrisburg é uma espécie de simulação
Maravilhosa indistinção, constelação ideal da simulação. de segunda cntcgo ria. Há de facto algures uma reacção em
Maravilhoso título, pois, esse de Síndrome da China, pois a cadeia e talvez venha mos a morrer por sua causa, mas esta
reversibilidade dos sintomas e a sua convergência num reacção ,:•m cad<•ia 11unca é a do nuclear, é a dos simulacros .e da
simulação em que se afunda efectivamente toda a energia do
real, ~í não numíl cxplos.:~o nuclear es~tacular, mas numa
1. O addcn1c na central nuclear de Thrce Miles lsland, que ~ deu implosão secreta cconlínua e que toma ho,e talvez uma forma
pouco depois da estreia do filme. mais mortal que todas as explosões com que nos embalam.
74 Simulacros ~ Simulação Jean &mdrillard 75

É que a explosão é sempre uma promessa, é a nossa espe- jornalistas, que se reproduzisse nessa ocasião o acidente
r;1nça: veja-se como, no filme como em Harrisburg, toda a ligado ao olho mágico, à presen<;a provocadora dos media.
gente espera a explosão, que a destruição mostre o seu rosto Infelizmente nada aconteceu. E no entanto aconteceu! tão
e nos liberte deste pânico inominável, deste pânico de d issua- poderosa é a lógica dos s imulacros: uma semana depois, os
são que esta exerce sob a forma invisível d o nuclear. Que o s indicatos descobriam fissuras nas centrais. Milagre dos
«núcleo» do reactor revele por fim a sua calorosa potência d e contágios, milagre das reacções analógicas em cadeia!
destruição, que nos sossegue sobre a presença, mesmo catas- O essencial do filme não é, pois, de modo algum, o efeito
trófica, da energia e nos gratifiq ue com o seu espectdwlo. A Watergate na pessoa de Jane Fonda, de modo algum a tele-
infelicidade é que não existe espcctáculo do n uclear, da ener- visão reveladora dos vícios do nuclear, mas pelo contrário a
gia nuclear em si própria (Hiroshim.'1. acabou--se) e é por isso televisão como ó rbita gémea e reacção gémea em cadeia da
que ela é recusada - seria perfeita mente aceite se se prestasse do nuclear. De resto, mesmo no fim - e aí o filme é impiedoso
ao espectáculo como as formas de energia anteriores. Parusia para com o seu próprio argumento - quand o Jane Fonda
da catástrofe: a limento substancial da nossa libido messiân ica. faz eclodir a vl'rdadc cm d irecto (efeito Watergatc máximo),
Mas justamente isso já não aconll.'C1.mi. O que acontecerá a s ua imagem encontra-se justaposta àquela que lhe vai
já nunca mais será a explosão mas a implosão. Nunca mais a suceder sem apelo e apngá-la no ecrã: um flash publicitário
energia sob a forma espectacular e patética - todo o roman- qualquer. O efeito Network leva de longe a melhor sobre o
tismo da explos.-'lo, que tinha tanto encanto, que era ao mesmo efeito Watergate e expande-se m isteriosamente no efoito
tempo o encanto da revolução - mas a e nergia fria do Harrisburg, isto é, não no perigo nuclear, mas na simulação
simul.lcro e a sua d estilação em dOSl-s homeopáticas nos de catástrofe nuclear.
sistemas frios da informação.
Ora é a simulação que é eficaz, nunca o real. A simulação
Com que outra coisa sonham os media senão com ressus- de catástrofe nuclear é o meio estratégico desta empresa
citar o acontecimento pela sua s imples presença? Todos o genérica e universal de dissuasão: adestrar os povos na ideo-
deploram mas todos estão secretamente fascinados com essa logia e na disciplina da segurança absoluta - adestrá-los na
eventualidade. Essa é a lógica dos simulacros, já não é a metafísica da fissào e da fissura. Para isso é preciso que a
p redestinação divina, é a pn..-:-cess.io dos modelos, mas é fissura seja uma ficção. Uma catástrofe real atrasaria as coisas,
igualmente inexorável. E é por isso q ue os aconteci mentos constituiria u m acidente retrógrado, de tipo explosivo (sem
já não têm sentido: não é que sejam ins ignificantes em s i mudar nada ao curso das coisas: terá, por acaso, Hiroshima
próprios, é que foram p rf.>-eedidos pelo modelo, com o qual o retardado sensivelmente, dissuadido o processo universal
seu processo mais não faz que coincidir. Assim, teria sido de dissuasão?).
maravilhoso que o cenário da Síndrome da CJ,i,,a se repetisse No filme t;:1mbém a fusão real seria um mau argumento:
em Fes8enheim, aquando da visita oferecida pela EDF• aos cairia ao nível de um filme de catástrofe - fraco, por defi-
niç5o, pois remeteria as coisas para o seu acontecimento
puro. A Sfndrome da China, essa, retira a sua força da filtra-
• Electricité de francit. (N. da T.) gem da catástrofe, da destilação da obsessão nuclear a través
76 Simulacros e Simulação

das mediações hertzianas omnipresentes da informação. Apocalypse Now


Ensina (mais uma vez sem querer) que a catdslrofe nuclear não
existe, m'io é feita para existir, tão-pouco no real, tal como se
passa com o conflito atómico à beira da guerra fria . O equilí-
~rio do terror repousa no eterno suspense d o conflito a tómico.
Atomo e nuclear s..'\o feitos para serem disseminados com
fins dissuasivos, é preciso que a potência da catástrofe, em
vez de explodir estupidamente, seja disseminada em doses
homeopáhcas, moleculares, nos canais contínuos da informa-
ção. É aí que está a verdadeira contaminação: n u nca biológica
e radioactiva, mas uma desestruturação mental mediante
uma estratégia mental da catástrofe.
Se virmos bem, o filme introduz-nos nisso e, ao ir ainda
mais longe, dá-nos mesmo um ensinamento dia-metralrnentt' Coppola faz o seu filme como os americanos fizeram a
oposto ao de Watergate: se toda a estratégia hoje em dia é de guerra - neste sentido é o melhor testemunho possível -
terror mental e de dissuasão ligada ao suspense e à e terna com o mesmo exagero, o mesmo excesso de meios, a mesma
simu laç,.io de catástrofe, então a única maneira de remediar candu ra monstruosa ... e o mesmo êxito. A guerra como meio
este cenário seria faundo acontecer a catástrofe, produzindo de arruinar, como fantasia tecnológica e psicadélica, a guerra
ou reproduzindo a catástrofe real. Ao q ue a N atureza se como sucessão de efeitos especiais, a g uerra que se transfor-
entrega de tempos a tempos: nos seus momentos de inspi- mou em filme muito antes de ser rodada. A guerra abole-se
ração é Deus que, pelos seus cataclismos, desfaz o equilíbrio no teste tecnológico e para os americanos ela foi mesmo um
do terror em que os humanos estão encerrados. Mais perto primeiro momento: um banco de ensaio, um gigantesco ter-
de nós é a isso que se entrega também o terrorismo: a fazer reno para testar as suas armas, os seus métodos, o seu poder.
surgir a violência real, palpável, con tra a violência invisível Coppola faz isso mesmo: testar o poder de i11teroe11ção do
da seguran~a. É aí, de resto, que reside a sua ambig u idade. cinema, testar o impacte de um cinema que se tornou numa
máquina desmedida de efeitos especiais . Neste sentido o seu
filme é, ainda assim, de facto, o prolongamento da guerra
por outros meios, o remate desta guerra inacabada e a sua
apoteose. A guerra faz-se filme e o filme faz-se guerra, ambos
se juntam pt::la sua efusão comum na técnica.
A verdadeira guerra é feita por Coppola como por West-
moreland: sem contar com a ironia genial das florestas e das
aldeias filipinas queimadas com napalm para reconstituir o
inferno do Vietname do Sul: retoma-se tudo isso pelo cinema
e recomeça-se: a alegria molochiana da rodagem, a alegria
78 Simulacros e Simuln{ào Jenn Baudrillnrd 79

sacrificial de tantos milhões gastos, de um tal holocausto de mente), esta ganharam-na com toda a certeza. Apocalypse Now
meios, de tantas peripécias e a paranóia gritante que desde é uma vitória mundial. Poder cinematográfico igual e supe-
o príndpio concebeu este filme como um acon tecimento rior ao das máquinas industriais e militares, igual ou supe-
mundial, histórico, no qual, no espírito do seu criador, a rior ao do Pentágono e dos governos.
guerra do Vietname não tivesse sido o que é, não tivesse E ao mesmo tempo o filme não deixa de ter interesse:
existido, no fundo- e bem podemos acreditar nisso: a guerra esclarece retrospectivamente (nem sequer é retrospcctivo,
do Vietname <,em si mesma>) talvez de facto nunca tenha pois o filme é uma fase desta guerra sem desenlace) como
existido, é um sonho, um sonho barroco de napalm e de esta guerra estava já flipada, louca em termos políticos: os
trópico, um sonho psicotrópico onde não estava em causa americanos e os vietnamitas já se reconciliaram, imediata-
uma vitória ou uma política, mas a ostentação sacrificial, mente após o fim das hostiljdades os a mericanos ofereciam
destemida, de uma potência filmand o•se já a si p rópria no a sua ajuda económica, exactamente da mesma maneira que
seu desenvolvimento, não esperando talvez nada mais que aniquilaram a selva e as cidades, exactamente da mesma
a consagração de um superfilme, que remata o efeito de maneira que fazem hoje o seu filme. Não se terá compreen•
espectáculo de massas desta guerra. dido nada, nem da guerra nem do cinema (deste, pelo menos)
Nenhum distanciamento real, nenhum sen tido crítico, se não se percebeu esta indistinção que já não é a indistinção
nenhuma vontade de -«tomada de consciência» em relação à ideológica ou moral, do bem e do mal, mas a da reversibi-
guerra: e de uma certa maneira é a qualidade brutal deste lidade da destruição e da produção, da imanência de uma
filme não estar corrompido pela psicologia moral da guerra. coisa na sua própria revolução, do metabolismo orgânico de
Coppola bem pode ridicularizar o seu capitão de helicóptero todas as tecnologias, desde o tapete de bombas até à película
fazendero usar u m chapéu da cavalaria ligeira e fazendo•o filmica ...
destruir a aldeia vietnamita ao som da música d e Wagner -
não se trata aí de sinais críticos, distantes, é algo de imerso
na máquina, fazem parte do efeito es})(.-cial e ele próprio faz
cinema da mesma maneira,com a mesma megalomania retro,
com o mesmo furor insignificante, com o mesmo efeito
sobremultiplicado de fantoche. Mas ele desfecha.nos isso, aí
está, é assombroso e pode pensar·se: como é que tal horror
é possível (não o da guerra, mas o do filme)? Não há, con-
tudo, resposta, não há juízo possível, e podemos mesmo
rejubilar com este truque monstruoso (exactamente como
com Wagner) - mas pode, porém, assinalar-se uma ideiazi-
nha, que não é má, que não é um juiz.o de valor, mas que nos
diz que a guerra do Vietname e esse filme são talhados no
mesmo material, que nada os separa, que esse filme faz parte
da guerra - se os americanos perderam a outra (aparente•
O efeito Beaubourg
lmplosão e dissuasão

O efeito Bcaubou rg, a máqu ina Beaubourg, a coisn


Beaubourg - como dar-lhe um nome? Enigma desta carcaça
de fluxos e de signos, de redes e de circuitos - última ve lei-
dade de trnduzir uma estrutura que jfi não tem nome, a
estrutura das relaçôes sociais entregues à ventilação super-
ficial (animação, autogc.-stão, informação, media) e a uma
implosfü> irrcverslvd cm profundidade. Monumento aos
jogos de simulação de massas, o centro funciona como um
incinerador que absorve toda a energia cultural devora ndo-
-a - de certo modo como o monólito negro de 2001: con-
vecção louc;,. de todos os conteúdos que aí vieram mate-
rializar-se, absorver-Sf! e aniquilar-se.
Tudo à volta do bairro não é m ais que UJ'Jl verniz -
limpeza da fachada, desinfecção, design snob e higié nico -
mas sobretudo mentalmente: é uma máquina de produzir
vazio. De certo mod o corno as centrais nucleares: o verdadeiro
perigo q ue dns constitue m não é a insegurnnça, a poluição,
,l explosão, mas o sistema de segurança máximo q ue irradia
,1 sua volta, um verniz dt!' controle e de dissuasão que se
,-stcnde, a pouco e pouco, a todo o território, verniz tknico,
t'Cológico, económico, geopolítico. Que importa o nuclear se
,1 central é uma matriz onde se elabora um modelo de segu·
BZ Simulacros t' Simulação Jean Ba1111rillard 83

rança absoluta, que vai generalizar-se a todo o ca mpo social e contradição que é a d a coisa Beaubourg: um exterior móvel,
que é profundamente um modelo de dissuasão (é o mesmo comutanté, coo/ e moderno - um interior crispado sobre os
que nos rege mundialmente sob o signo da coexistência velhos valores.
pacífica e da simulação de perigo atómico). Este e-spaço d e dissuasão, articulado sobre a ideologia de
O mesmo modelo, guardando as devidas proporções, se visibilidade, de transparência, de polivalência, de consenso e
elabora no Centro: fissão cultural, dissuasão política. de contacto, é virtualmente hoje em dia o das relações sociais.
Dito isto, a circulação dos fluidos é desigual. Vcntilaçilo, Todo o discurso soda! está aí presente e neste plano, como
arreíe<:imcnto, redes elé<:tricas - os fluidos «tradicionais» no do tratamento da cultura, Beaubourg é, em total contra-
circulam aí muito bem. Já a circulação do fluido hurnc1no é dição com vs seus objectivos explícitos, um monumento genial
menos bem assegurada (solução arcairn das escadas rolantL'S da nos,:;a
.. 1mKlcrnidade. É bom pensar que a ideia não veio ao
nos cilindros de plástico, deveríamos ser aspirados, propul• espíritn d e um qualquer revolucionário mas s im ao dos
sados, sei lá, mas uma mobilidad e que esteja à altura desta lógicos da ordem cst"bdecida, destituídos de qualquer espí-
teatra1ídade barroca dos fluidos que constitui a originalidade rito crítico e, logo, mais próximos da verdade, capazes, na
dc1 carcaça). Quanto ao material de obras, de objcctos, de sua obstinação, de pôr em funcionamento uma máquina no
livros e ao espaço in terior dito «polívalente», já nada circu la fundo incontrolável, que lhes escapa no seu próprio êxito, e
de todo. Quanto mais nos e nterramos em direcção ao ink- que é o reflexo mais exacto, até nas suas contrad ições, do
rior, menos circula. É o oposto de Roissy, onde de um centro estado de coisas actual.
rutu rista com design «espacial» irradiando para <isatélites)),
etc. se chega, muito terrenamente a ... aviões tradicionais. C laro que todos os conteúdos culturais de Beaubourg
Mas a incoerência é a mesma. (Que se passa com o dinheiro, são anacrónicos porque a este invólucro arquitectónico só
esse outro fluido, que se passa com o seu modo de circulaçilo, poderia ter correspcmdido o vazio interior. A impressão
de emulsão, de recaída em Beaubourg?) geral é de que tudo aqui está em coma profundo, q ue tudo
A mesma contradição se verifica até nos comportamentos se quer animação e não é mais que reanimação e que está
do pessoal destinado ao espaço «polivalente» e sem espaço bem assim, pois a cu ltura morreu, o que Beaubourg des-
privado de trabalho. De pé e em movimento, as pessoas creve admiravelmente, mas de maneira vergonhosa, quando
afectam um comportamento coof", mais subtil, muito design, se deveria ter ac~ite triu nfalmente esta morte e ter erigido
adaptado à «estrutura» de um espaço «moderno». Sentados um monumento ou um antimonu mento equivalente à
no seu canto, que nem sequer é verdadeiramente isso, um inanidade fálica da Torre Eiffel no seu tempo. Monumento à
canto, esgotam-se segregando uma solidão artificial, a refazer desconexão total, à hiper-realid ade e à implosão da cultura
a sua «bolha». Bela táctica de dissuasão aí também: s..'io con- - feita ho.)C em dia para nós como um efeito de circuitos
denados a empregar toda a sua energia nesta defensiva indi- transistorizados, sempre espreitados por um curto-circuito
vidual. Cu.riosamentc, voltamos a encontrar, assim, a mesma gigantesco.
Beaubourg é já uma compressão à César - figura de
uma tal cultu ra que é esmagada pelo seu próprio peso -
• Em inglês no original. (N. da T.) como os móveis automóveis congelados de repente dentro
84 Sim1ifncros e Sinmfação Jean Btmdrillnrd 85

de um sólido geométrico. Tal como as carripanas de César bonetos, da refinação, do cracking • da partição de moléculas
saídas sem beliscadura de um acidente ideal, já não exterior, culturais e da s ua re(Ombinação cm produtos de síntese.
mas interno à estrutura metálica e mecânica e que teri.i; feito Isto, Beaubourg-Museu quer escondê-lo mas Beaubourg-
uma grande quantidade de ferro-velho cúbico em que o caos ·carcaça proclama-o. E é o que constitui p rofundamente a
de tubos, alavancas, carroc:;aria, metal e carne humana no bele1.a da carcaça e o fracasso dos espaços interiores. De
interior é talhado à medida geométrica do mais pequeno todas as maneiras, a própria ideologia da «prOOução cultu-
espaço possível - assim a cultura d e Beaubourg eslá fractu- ral» é a antítese de toda a cultura, como a de visibilidade e
rada, torcida, cortada e prensada nos seus mais pt..>qucnos de espaço polivalente: a cultura é um lugar de segredo, de
elementos simples - feixe de transmissões e mct;ibolismo sedução, de iniciação, de uma troca simbólica restrita e alta-
defunto, congelado como um mecanóidc de ficção científica. mente ritualizada. Nada a fazer. Tanto pior para as massas,
Méls em vez de partir e de comprimir aqui toda a cultura tanto pior para Beaubourg.
nesta carcaça que de todas as maneiras tem o ar de uma com-
press."i.o, em vez disso expõe-se César. Expõe-se Oubuffot e a Mas que haveria, pois, que pôr em Beaubourg?
oontracultura, cuja simulação inversa ~TVI! J~ referencial à Nada. O vazio tlue signifkasse o desaparecimento de
cultura defunta. Nesla carcaça que poderi<1 ler servido de toda a cultura do sentido e do sentimento estético. Mas isto
mausoléu à operacionalidade inútil dos signos, reexpõem-se é aindil demasiado romântico e dilacerante, esse vazio teria
as máquinas efémeras e autodestruidoras de Tinguely sob o ainda o valor de uma obra de arte de anticultura.
s igno da eternidade da cultura. Assim se neutraliza lodo o Talvez um rodopio de luzes estroboscópicas e giroscó-
conjunto: Tinguely é embalsamado na instituição do museu, picas, estriando o espaço do qual a multidão teria fornecido
Beaubourg é abatido sobre os seus pretensos conteúdos o elemento móvel de base?
artísticos. De facto Beaubourg ilus tra bem o facto de que uma cate-
Felizmente todo este simulacro de valores culturais é goria de simulacros não se sustenta senão com o a libi da
aniquilado com antecedência pela arquitectura exteriorm. É categoria anterior. Aqui, uma carcaça toda de fluxos e cone-
que esta, com as suas redes de tubos e o seu ar de edifício de xões de superfície dá a si própria como conteúdo uma cultura
exposições ou de feira universal, com a sua fragilidade (cal- tradicional d a p rofundidade. Uma categoria de simulacros
culada?) dissuasiva de toda a mcnlalidade ou monumentali- anteriores (a do sentido) fornece a substância vazia de uma
dade tradicional, proclama abertamente que o nosso tempo categoria ulterior que, essa, já nem conhece a distinção entre
nunca mais será o da duração, que a nossa temporalidade é o signifirnnte e o significado, nem entre o continente e o
a do ciclo acelerado e da reciclagem, do circuito e do trânsito conteúdo.
dos fluidos. A nossa única cultura no fundo é a dos hidrocar- A pergunta: «Que se deveria pôr em Beaubourg?» é, pois,
absurda. Não se lhe pode responder porque a distinção tópica

1. Ainda outra coisa aniquila o prôjccto cultural de Beaubourg: as


próprias massas que aí aflue m para o go:,..ar (voltaremos a este ponto mais '" Pl'ocesso de transformação de petróleo em derivad05 por mt-io de
adianle). calor e pressâQ. Em inglês no original. (N. da T. ►
86 Simulacros e Sim11/açtf(I fean 8a11drillt1rd 87

entre o interior e o exterior já não deveria ser colocada. É aí para elevar as massas a esta nova ordem semiúrgica que elas
que reside a nossa verdade, verdade de Moebius - utopia são aqui chilmadils - sob o pretexto oposto de aculturá-las
irrealizável, sem dúvida, mas à qual Beaubourg não deixa de ao sentido e à profundidade.
dar razão, na medida em que qualquer dos seus conteúdos é Há, pois, l1ue partir deste axioma: Beaubourg é um monu-
um contra-senso e está antecipadamente aniquilado pelo con- mento dt' difõs11as<lo rnlt11ral. Sob um cenário de museu que só
tinente. serve par.i s..,lv.lr a ficção humanista de cultura, é um verda·
No entanto - no entanto... se d evesse haver alguma deiro trabalho de morte da cultura que aí se faz e é a um
coisa em Beaubourg - deveria ser labirinto, uma biblioteca verdadl"'in.) trabalho de luto cuhural aquele a que as massas
combinatória infinita, uma redistribuição aleatória dos desti- são alegremente chamadas.
nos pelo jogo ou pelas lotarias - em res umo, o universo de E el.:\s precipitam-se para lá. É essa a s uprema ironia de
Borges - ou ainda as Ruínas circulares: encadeamento des- Beaubourg: as massas precipitam-se para lá não porque
multiplicado de indivíduos sonhados uns pelos outros (não salivem por css..1 cultura de que estariam privadas desde há
uma Oisneylãndia de sonho, um laboratório de ficção prática). séculos, mas porque têm pela primeira vez a o portunidade
Uma experimentação de todos os processos diferentes da de pilrticipar maciçnmentc nesse imenso trabalho de luto de
representação: difracçâo, implosão, desmultiplicação, enca- uma cultura que, no fundo, sempre detestaram.
deamentos e desencadeamentos aleatórios - de certo modo O mal-entendido é, pois, total quando se denuncia
como no Exploratorium de São Francisco ou nos romances Beaubourg como uma mistificação cultural de massas. As
de Philip Oick - em resumo, uma cultura da simulação e da massas, essas, prL-cipitam-se para lá para gozar essa morte,
fascinação, e não sempre a da produção e d o sentido: eis o essa d ecepção, essa proslituição operacional de um.l cultu ra
que poderia ser proposto que não fosse uma miserável anti- por fim verdadeiramente liquidada, incluindo toda a con•
cu ltura. Será possível? Não de maneira tão evidente. Mas tracultura que não é senão a sua apotL:>osc. As ma~1.s afluem
essa cultura faz-se noutro sítio, em toda a parte, em lado a Beaubourg como afluem aos locais de catástrofe, com o
nenhum. A partir de hoje a única verdadeira prática cultural, mesmo impulso irre:-istível. Melhor: elas Slio a catástrofe de
a das massas, a nossa (já não há diferença) é uma prática Beaubourg. O seu número, a sua obstinação, o seu fascínio, o
manipulatória, aleatória, labiríntica de signos e que já não seu prurido de ver ludo, de manipular tudo é um compor-
faz sentido. tamento objeclivamente mortal e catastrófico para qualquer
empreendimento. Não só o seu peso põe e m perigo o edifício
Contudo, de uma outra maneira, não é verdade que cm como a sua adL•sc"io, a sua curiosidade aniquila os próprios
Beaubourg haja incoerência entre o continente e o conteúdo. conteúdos desta cultura de animação. Este ruslt"' já não tem
É verdade se se der algum crédito ao projecto cultural oficial. qualquer medida comum com o que se propw,ha como objec·
Mas é exactamente o oposto que se faz. Beaubourg não é tivo cultural, é mesmo a sua negação radical, no seu excesso
mais que um imenso trabalho de transmutação dessa famosa e no seu próprio êxito. S.."i.o, pois, as massas que fazem o
cultura tradicional do sentido para a categoria aleatória dos
signos, para uma categoria de sim ulacros (a terceira) perfei-
tamente homogénea à dos fluxos e dos tubos da fachada. E é ~ Arremetida. Em inglês no original. (N. da T.)
88 Simulncros e Sin111fnçtfo Jean Baudrillard 89

papel de agente catastrófico nesta estrutura de catástrofe, ~fo homogéneo. Imenso movimento de vaivém semelhantl! ao
as prd1,rias massas que põem fim .1 cultura de massas. dos commuters • dos arredores, absorvidos e repelidos a horas
Circulando no espaço da transparência, s..1.o, decerto, con- fixas pelo seu local de trabalho. E é mesmo de um trabalho
vertidas em fluxo mas ao mesmo tempo, pela s ua opacidadt• que aqui se trata - trabalho de teste, de sondagem, de inter-
e inércia, põem fim a este espaço «polivalen te 1•. São convi- rogação dirigida: as pessoas vêm seleccionar aqui objectos-
dadas a participar, a simular, a brincar com os modelos - -respostas a todas as perguntas que podem fazer, ou antes,
faz.em ainda melhor: participam e manipulam tão bem qut.• vêm l'll'S l"ÓJJrios em resposta à pergunta funcional e dirigida
apagam todo o sentido que se quer dar cl operaç~o e põem que os objectos constituem. Mais que uma cadeià de trabalho
em perigo a té a infra-estrutura do edifício. Como sempr!! trata-se, pois, de uma disciplina programática, cujas limitações
acontece uma espécie de paródia, de- hipcrsimulação em se a pagaram por detrás de um verniz de to lerância. Muito
respos ta à simulação cultural, transforma as massas, q u e nã(> além das ins tituiÇÕL'S tradicionais do capital, do hipermercado
deveriam ser mais que o cl1cptel * da cultura, no C)(t~utor que ou Bcaubourg i<hipcrmcrcado da cultura» está já o modelo
mala esta cultura, da qual Beaubourg era a enrnrnação ver- de toda a forma futura de socializnção controlada: retotali-
gonhosa. zação num es paço-tempo homogéneo de todas as funções
Há que aplaudir este êxito da dissuasão cultural. Todos dispersas, do corpó e d a vida social (trabalho, tempos livres,
os antiartistas, esq uerdistas e detractorcs de cultura nunca media, cultura), re transcrição de todos os fluxos contraditórios
tiveram, nem de longe, a eficácia dissuasiva deste monu- em termos de circuitos integrados. Esp."lço-tempo de toda
mental buraco negro q ue é Beau bourg. É uma o peração uma simu lação operacional da vida social.
verdadeiramente revolucionária, justamente porque é invo- Par,1 isso (> preciso que a massa dos consumidores seja
luntária, louca e incontrolada, enquanto as tentativas sensatas equivalente ou homóloga da massa dos produtos. Ê o con-
de acabar com a cultura não fizeram mais, como se sabe, que fronto e a fusão destas duas massas q ue se operam no hiper·
ressuscitá-la. mercado do m esmo modo que em Beaubourg ~ que fa z deste
algo de muito d iferente dos locais tradicionais da cultura
Em rigor, o único conteúdo de Beaubourg &10 as próprias (museus, monumentos, galerias, bibliotecas, casas da cultura,
massas, que o edifício trata como um conversor, como uma etc.). Aqui claborn-:,e il massa crítica para além .da qual a
câmara escura ou, em termos de itlput-outp11t, exactamente mercadoria se torna hip~rmercadoria, e a cultura h1percultura
como uma refinaria trata um produto petrolífero ou um - isto é, já não ligada a trocas distintas ou a necessidades
fluxo d e matéria bruta. determinadas, mas a uma espécie de universo sinalético to·
Nunca foi tào claro que o conteúdo - aq ui a cultura, tal, ou de circuito integrado percorrido de um lado ao outro
no utro sítio a informação ou a mercad oria - é apenas o por um impulso, trânsito inces5', ntc de escolhas, de lei~uras,
suporte fantasma da operação do próprio medi um, cuja função de referências, de marcas, de descodificação. Aqui os ob,ectos.
é sempre indu.zir massas, produzir um fluxo humano e mental

~ Os que vivem nos nrredores das cidades. Em inglk no original.


• O gado dado a criar em arrendamento. (N. da T.) (N. da T.)
90 Sinrnlacros e Sim,ilaçdo Jean Ba11drillard 91

culturais, com o noutros sítios os objectos de consumo, não multidJo, o M com primido) pela sua pr6prif1 circulação acc-
têm outro fim que o de nos manterem em estado de massa lt radn.
integrada, de fluxo transistoriz.:1do, de molécula magnetizada.
É isso o que se vem aprender num hipermercado: a hiper- Mas se os stocks de objectos indu:,;em o armazenamento
-realidade da mercadoria - é isso que se vem aprender a dos homens, a violência latente no stock de objectos induz a
8et'lubourg: a hiper-realidade da cultura. violência oposta das pessoas.
Já começa com o museu tradicional este corte, este Qualquer stock é violento e existe uma violência em
reagrupamento, esta interferência de todas as culturas, esta qualquer mass., de pessoas também, pelo facto de q ue ela
estetização incondicional q ue faz a hiper-rcalidíldc d.i cultum, implode-vinlêncin própria à gravitação, à sua densificação
mas o museu é ainda uma memória. Nunca como aqui a cul- em torno do seu próprio foco de inércia. A massa é foco de
tura tinh;i perdido a sua memória em favor do c1nnazena- inércia e daí foco d e umil violência completamente nova,
mento e da redistribuição funcional. E is to traduz um facto inéxplicávcl e diferente da vio lência explosiva.
mais geral: é que por todo o mundo «civiliwdo» a construção M.-.ss.., crítica, massa implos iva. Pa ra além dos 30000, a
de stocks d e objcctos cond uziu a u m processo complementar estru tura de Beaubourg corre o ris<.--o de <(Vergar». Que a
dos stocks de pessoas, à flla, à espera, ao engarrafamento, à massa atraída pela L'Strutura se torne numa variável des-
concentração, ao cam po. É isto a «produção de massas», não truid orn da própria estruturn - se isto tiver sido da vontade
no sentido de uma produtiva mélciça ou em benefício das dos que a conceberam (mas como esperá-lo?), Sé eles pro-
massas, mas a produção dn5 J1105$11S. As massas como produto gramarnm assim a possibilidade de acabar de unrn só vez
final de toda a socialidade e pondo fim definitivo à sociali- com a ilrquitt.-ctura e a cultura - então Bcaubourg constitui
dade, pois estas massas que nos querem fazer crer serem o o objccto mais audacioso e o fu,ppening "" mais bem sucedido
social, são pelo contrário o lugar de implosão do social. As do século.
11lf1f.Slls silo a i:sfera cada vez mais densa onde vem implodir todo o Façam vt'Q(flr Bi:aubourg! Nova palavra de ordem revolu-
soóal e oudc uêm devorar-se num processo de simulaçiio cionária. Inútil incendiar, inútil contestar. Força! É a melhor
ininterrupto. maneira deo destruir. O êxito de Bcaubourgjá não é mistério:
Daí o espelho côncavo: é ao ver as massas no interior que as pessoas vão lá para isso, precipitam-se para este edifício,
as massas S€'rão tentadas a afluir. Método típico de marketing : cuja fragilidade respira já a Céltástrofe-, rom o único objt..>etivo
toda a ideologia da transparência adquire aqui o seu sentido. de o fazer vergar.
Ou ainda: é ao encerrar um modelo ideal reduzido que se Decerto que obedecem ao imperativo de di&,uasão: dá-
espera uma gravitação acelerada, uma aglutinação au tomática -se-lhes um objt..-'Clo para consumir, uma cultura para devo-
de cultura como uma aglomeração automática das mass.,s. O rar, um edifício para manipular. Mas ao mesmo tempo visam
mesmo processo: operação nuclear de reacção em cadeia, ou expressa mente, e sem o saberem, esse aniquilamento. A cor-
operação especular de magia branca. rida precipitada é o único acto que a massa pode produzir
Beaubourg é, assim, pela prímeira vez à escala da cultura
o que é o hipermercado: o operndor circular perfeito, a
demonstração de qualquer coisa (a mercadoria, a cultur", a • En, inglês oo original. (N. da T.)
92 Sim11lacros e Simulação Jean &wdrillard 93

enquanto tal - massa projécti} que desafia o edifício da As pessoas vêm tocar, olham como se estivessem a tocar,
cultura de massa, que riposta com o seu peso, isto é, pelo seu o seu o lhar é apenas um aspecto da manipulação táctil. Trata-
aspecto mais destituído de sentido, mais estúpid o, menos ·se de facto de um universo táctil, já não visual ou d e discurso
cultural, ao desafio de culturalidade que lhe é lançado por e as pessoas ..-stão directamente implicadas num processo:
Beaubourg. Ao desafio da aculturação maciça a uma cultura manipular/ser manipulado, arejar /ser arejado, circular /fazer
esterili7.ada, a massa responde por uma irrupção destruidora, circular, que já não é do domínio da representação, nem da
que se prolonga numa manipulação brutal. À dissuas."io distânci.l nem da reflexão. Qualquer coisa que tem a ver com
mental a massa responde por uma dissuasão física dirccta. É o pânico e com um mundo pânico.
o seu próprio desafio. A sua astúcia, que consis te em respon-
der nos mesmos termos em que é solicitada, mas para além Pânico ao relardador sem móbil exlerno. É a violência
disso, em responder à simulação em que a encerram, com interna a um conjunto saturado. A implosão.
um processo social entusiasta que lhe ultrapassa os objectivos Beaubourg não pode sequer arder, ludo está previsto. O
e desempenha o papel de hipersimulação destrnitlom w_ incêndio, a explosão, a destruição _j,í. não são a alternativa
imaginária a este tipo de edifício. ê a implos."'10 a f«:>rma ?e
As pessoas têm vontade de tomar tudo, pilhar tudo, comer abolição do mundo (<quaternário», cibemétiro e combmató n o.
tudo, manipular tudo. Ver, decifrar, aprender não as afecta. A subvcrs.io, a destruição violenta é o que responde a um
O único afecto maciço é o da manipulação. Os organizado• modo de produção. A um universo de redes, de combinatória
res (e os artistas e os intelectuais) estão assustad os com esta e de fluxos r~pondcm 11 reve rsão e a ímpios.cio.
veleidade incontrolável, pois nunca esperam senão a apren• O mt:.."Srnu se passa com as instituiçõe8, o Estado, o poder,
dizagem das massas ao espectáculo da cultura. Nunca esperam etc. O sonho de ver tudo isto explodir à força de contradições
esse fascínio activo, destruidor, resposta brutal e original ao não é, justamente, mais que m1: sonho. O que s~ ve~ifi~a "?
dom de uma cultura incompreensível, atracção que te m todas realidade é que as instituições 1mplodem por s1 propnas, a
a s características de um arrombamento e violação de um força de ramificações, de {L>ed-txick, de circuitos de controle
santuário. sobrcdescnvolvidos. O ,H.,dt•r imptode, é o seu modo actual de
Beaubourg poderia ou deveria ter desaparecido no dia dL-&>pan-cimento.
..
a seguir à inauguração, desmontado ou raptado pela mui• Vcrifica· se o mesmo com a cidade. Incêndios, guerra,
tidào, o que teria constituído a única resposta possível ao peste, revoluções, margina lidade crimin~l,. catást:otes: toda
desafio absurdo de transparência e de democracia da cultura a problemática da anticidade, da negallv1dade mterna ou
- levando cada q ual um pedaço fetiche desta cultura, ela extenrn à cidade, a 1.1ualquer coisa de arcaico em relaçào ao
própria fetichizada. seu verdadeiro modo de aniquilamento.
O próprio cenário da cidade subterrânea- ver...:;o chinesa
de enterro das t.>Slruturas - é ingénuo. A cidade já não se
2. Em relac;llo a esta massa crítica e à sua radical compreensão de repete segundo um esquema de reprodução ainda depend~nte
6.:-aubourg, como foi irrisória a manifestac;3odosestudantes de Vincennes do esquema da repr~ntação. (É assim que se restaura amda
na noit(! da inauguraç.lo! depois da Segunda Guerra Mundial). A cidade já não ressus·
94 Simufncros e Sinmfnçâo Jean 8n11dril/nrd 95

cita, mesmo em profundidade - refaz-se a partir de uma Esta violência é-nos ininteligível porque todo o nosso
espécie de código genético que permite repeti-la um número imaginário está centrado na lógica dos sistemas em expan-
indefinido de vezes a partir da memória cibernética acumu- são. É indecifrável porque indeterminada. Talvez nem
lada. Acabou até a utopia de Borges, do mapa coextensivo dependa já do esquema da indeterminação. É que os mode-
ao território e a todo o reduplicador: hoje o simulacro ~í não los aleatórios que tomaram o lugar dos modelos de deter-
passa pelo duplo e pela reduplicação mas pela miniaturi~ção minac::ão e de causalidade clássicos não s.1.o fundamen-
genética. Fim da representação e da implos.'io, também aí, de talmente diferentes. Traduzem a passagem de sistemas de
todo o espaço numa memória infinitesimal, que nada esquece expansão definidos para sistemas de produção e de expan-
e que não é de ninguém. Simulação de uma categoria irre- são em todas as direcções- em estrela, ou em rizoma, tanto
versível, imanente, cada vez mais densa, potencialmente faz - todas as filosofias de desconexão das energias, de
saturnda e que nuncfl mais conhecerá a exploMo libertadora. irradiação déis intensidades e da moleculi7.ação do desejo
Nósérnmos uma cultura da violência libertadora(a raciona- vão no mt.>smo sentido, no sentido de uma saturação até ao
lidade). Quer seja a do capital, da libertação das forças produ- intersticial e ao infinito das redes. A diferença do molar para
tivas, da extensão irreversível do campo dél razão e do campo o molecular é apen~,s uma modul.:ição, talvez a l1ltima, no
do valor, do espaço adquirido e colonizado até ao universal processo energêtico fundamental dos sistemas em expansão.
- quer seja a da revolução, que antecipa nas formas futiiras
do social e da energia do social - o esquema é o mesmo: o Seria diferente se pass.1ssemos de uma fase m ilenária de
de uma esfera em expansão, por fases lentas ou violentas, o libertação e de dt.-sconcxão das energias parn uma fase de
de uma energia libertadora - o imaginário da irradiac;:ão. implos..'\o, após uma espl>eic de radiaç5o máxima (rever os
A violência que a acompanha é aquela que dá à luz um conceitos de perda e de dispêndio de Bataille neste sentido
mundo mais vasto: é a da produção. Essa violência é dialéc- e o mito solar de uma radiac;ão inesgotável sobre a qual
tica, energética, catârtica. É aquela que aprendemos a analisar basela a sua antropologia sumpluária: é o último mito
e que nos é familiar: aquela que trac::a os caminhos do social explosivo e radiante da nossa filosofia, último fogo de arti-
e que leva à saturac;:ão de todo o campo do social. É uma fício de uma economia geral no fundo, mas islo }''l mio tem
violência dt•terminnda, a nalítica, libertador,1. sentido para nós), para uma fase de nwrsão tio socinf -
Uma outra violência completamente diferente que não reversão gigantesca de um campo, uma vez atingido o ponto
sabemos analisnr aparece hoje, porque escapa ao (.-'Squema de saturac;:ão. Os sistemas estelares também não deixam
tradicional da violência explosiva: violência implosif!(l que de existir, uma vez dissipada a sua energia de rad iação:
resulta já não da extensão de um sistema mas da sua satura- implodiria segundo um processo, num primeiro momento
c;:ão e da sua retracção, como acontece com os sistemas físicos lento e depois acelerando progressivamente - contraem-se
estelares. Violência consecutiva a uma densificação desme- com uma aura fabulosa e tornam-se sistemas involutivos,
didít do social, ao estado de um sistema de hiper-regulação, que absorvem todas as e nergias que os rodeiam até se t'or-
de uma rede (de saber, de informac::Ao, de poder) sobrecarre- narem buracos negros onde o mundo, no sentido em que o
gada, e de um controle hipertrópico que cerca todas as vias entendemos, corno radiação e potencia] indefinido de ener-
intersticiais. gia, se anula.
96

Talvez as grandes metrópoles - com certeza elas, ~e é


que esta hipótese tem algum sentido - se tenham tornado
Hiperm ercado
locais de eleição de implosão neste sentido, de .tbsorção e de e hipermercadoria
reabsorção do próprio social cuja idade de ouro, contt!mpo-
rânea do duplo conceito de capital e de revo lução, está sem
dúvida ultrapassada. O social involui lent<1mcntc, ou brutal-
mente, num campo de inércia que já envolve a política. (A
energia oposta?) Deve evitar-se tomar a implosão por um pro-
cesso negativo, inerte, regressivo, como a língua no-lo impôe
ao exaltar os termos opostos de evolução, de revolução. A
implosão é um processo l."Specífico de consequências inc,11-
culáveis. O Maio de 68 foi sem dúvida o primeiro episódio
implosivo, isto é, contrariamente à sua reescrita c m termos
de prosopopeia revolucionária, uma primeira reacção violenta Numa área de trinta quilómetros em redor, as setas vão-
à saturação do social, uma retracção, um desafio à ht.-gcmm1ia -nos espicaçando em direcção a estes grandes centros de
do social, de resto em contradição com a id(.'ologia d os pró- triagem que são os hipermercados, em direcção a este
prios participantes, que pensavam ir mais longe no domínio hiperespaço da mercadoria onde se elabora, sob muitos
do social - assim é o imaginário que continun a dominar- aspectos, uma nova socialidade. Há que ver como centraliza
-nos - e, de resto, uma boa parte dos acontecimentos de 68 e redistribui toda uma região e uma população, como con-
podem ter dependido ainda desta dinâmica revolucionária e centra e racionaliza horários, percursos, práticas - criando
de uma violênci<1 explosiva, um<1 outra coisa começou aí ,10 um imenso movimento de vaivém perfeitamente semelhante
mesmo tempo: a involução lenta do social, sobre um ponto ao dos commuters dos arredores, absorvidos e repelidos a
determinado e a implosão consecutiva e súbita do poder, horas fixas pelo seu loc,1l de trabalho.
sem um breve lapso de tempo, mas que desde então nunca Profundamente, trata-se aqui de um outro tipo de traba-
mais cessou - é mesmo isso que continua em profundidade, lho, de um trabalho de aculturação, de confronto, de exame,
a implosão, a do social, a das instituições, a do poder - e de código e de veredicto social: as pessoas vêm encontrar aí
de modo nenhum uma qualquer dinâmica revolucioná ria e scleccionar objectos - respostas a todas as perguntas que
impossível de encontrar. Pelo contrário, a própria revolução, podem fazer-se; ou antes, vêm elas próprias em resposta à
a ideia de revolução, implode ela também e esta implosão pergunta funcional e dirigida que os objectos constituem. Os
tem consequências mais sérias que a própria revolução. objectos já não são mercadorias; já nem sequer são exacta-
Claro que desde 68 o social, como o deserto, aumenta - mente signos cujos sentido e mensagem decifrássemos e dos
participação, gestão, autogestão generalizada, etc. - mas ao quais nos apoderássemos; são testes, são eles que nos inter-
mesmo tempo aproxima -se em múltiplos pontos, em m,1ior rogam e nós somos intimados a responder-lhes e a resposta
número que em 68, do seu desafectamento e da sua revers.'io está incluída na pergunta. Todas as mensagens dos media
total. Sismo lento, perceptível à razão histórica. funcionam de maneira semelhante: nem informação nem
98 Sim11l11cr0:- l' Simulação Jean &11drillard 99

comunicação, mas referendo, teste perpétuo, resposta circulc1r, das actividades. O hipermercado parece-se com uma grande
verificação do código. fábrica de montagem, de tal maneira que, em vez de esta-
Não existe relevo, perspectiva, linha de fuga ond~ o olhar rem ligados à cadeia de trabalho por uma limitação racio-
corra o risco de perder-se, mas um ecrã total onde osç,c1rtazt"S nal contínua, os agentes (ou os pacientes), móveis e descen-
publicitários e os próprios produtos, na sua exposição inin- trados, dão a impressão de passarem de um ponto a outro
terrupta, jogam como signos equivalentes e suc,·ssivos. 1-fá da cadeia segundo circuitos aleatórios, contrariamente às
empregadosapenasocupadosem rda1.er a parte da fn.•ntc da práticas de trabalho. Mas trata-se mesmo assim, de facto, de
cena, a exposiçào Ja mercadoria à superfície, onde o levanta- uma cad,úa, d~ uma disciplina programática, cu~1s interdi-
mento por parte dos consumidores pôde criar algum buraco. ções se .1pagaram por detrás de um verniz de tolerância, de
O sel{-Sl!rvice co ntribui ainda mais para esta ausênc:ia de pro- facilidade e de hiper·realidade. O hipermercado é já, para
fundidad e: um mesmo espaço homogéneo, ~m mt."l.1i.1çJo, além da fábrica e das instituiçõc-s tradicionais do capital, o
reúne os homens e as coisas, o espaço da manipul<1çfü• dirccta. modelo de toda a fonna futura de socialização controlada:
Mas quc1l deles manipula o outro? retotalização num espaço-tempo homogéneo de todas as
Até mesmo a represslio se integra como signo neste uni- funções d ispersas do corpo e da vida social (trabalho, tempos
verso de simulação. A repressão tornada di~uasão é apenas livres, alimentação, higiene, transportes, media, cultura);
mais um signo no universo da persuas.'lo. Os circuitos de retranscrição de todos os fluxos contraditórios em termos de
televisão anti-roubo fazem também eles próprios parte do circuitos integrados; espaço-tempo d e toda uma simulação
cenário de simulacros. Uma vigilância perfeita sob todos os operacional da vida social, de toda uma estrutura de lmbitat
pontos de vista exigiria um dispositivo de controle mais e de tráfego.
pesado e mais sofisticado que a própria loja. Não seria ren- Modelo de antecipação dirigida, o hipermercado (sobre-
tável. É, portanto, uma alusão à repressão, um «fazer sinal» tudo nos Estados Unidos) preexiste à aglomeraçào; é ele que
que lá está instalado; este sinal pode então coexistir com provoca a aglomeração enquanto que o mercado tradicional
todos os outros, e até com o imperativo oposto, por exemplo estava no coração de uma cidade, local onde a cidade e o
expresso nos enormes cartazes que nos convidam a descon- campo vinham conviver em conjunto. O hipermercado é a
trair-nos e a escolher com toda a serenidade. Estes cartazes, expressão de todo um modo de vida do qual desapareceram
de facto, espreitam-nos e vigiam-nos tão bem ou tão pouco não apenas o campo mas também a cidade, para dar lugar
quanto a l'elcvisão «policiah•. Esta olha-nos, nós olhamo-nos à «aglomeração>} - :wni,,g • u rbana funcional inteiramente
nela, misturados com os outros; é o espelho sem o rcspcctivo sinalizada, da qual é o equivalente, o micromodelo no plano
aço da actividade consumidora, jogo de desdobramento e do consumo. Mas o seu papel ultrapassa de longe o «con-
redobramento que fecha este mundo sobre si próprio. sumo» e os objectos já não têm aí realidade específica: o que
O hipermercado é inseparável das auto-estradas que o é preponderante é a sua dísposição social, circular, especta-
recamam de estrelas e o alimentam, dos parques de esta~ cular, futuro modelo das relações sociais.
cionamento com as suas camadas de automóveis, do ter-
minal de computador - mais longe ainda, em círculos
concêntricos - de toda a cidade como ecrà funcional total • Rcparli<;ão em zonas. Em inglês no original. (N. da T.)
100 Simulacros ~ Sim,ilnção Jetm &mdrillard 101

A forma <<hipermercadon pode a ssim ajud ar a compreen- meração de síntese que já nada tem a ver com uma cidade.
der o que se passa com o fim da modernidade. As grandes Satélites negativos da cidade que traduzem o fim da cidade,
cidad es víram nascer, no espaço de aproximadamente um até da cidade moderna, como espaço determinado, q ua lita-
século (1850-1950), uma geração de grandes armazéns c<mo- tivo, como síntese original de uma sociedade.
dernos>• {muitos tinham, de uma maneira ou de ou tra, este Poder-se-ia julgar que esta implantação corresponde a
nome), mas esta modernização fundamental, ligada à dos urna r(lcionaliznção das diversas funções. Mas de facto, a
transportes, não abalou a estrutura u rbana. As cidades con- partir do momento em que uma func;ão se h iperespecializou
tinuaram a ser cidades, enquanto as cidad es novas estão a ponto de poder ser projectada com todas as partes no
satelizadas pelo hipermercado ou pelo shopping center .., terreno «chnvcs na mão», perde a sua finalidade própria e
servidos por uma rede programada de trânsito, deixando torna-se numa outra coisa completamente diferente: núcleo
de ser cidades para se tomarem aglomerações. Apareceu polifuncional, conjuntos de «caixas negras» de input-output
uma nova morfogénese, que depende do tipo cibernético múltip lo., locn l de e leição da convecção e da desestruturac;ão.
(isto é, reproduzindo ao nível do território, do 1,abitat, do Estas fábric<1s e estas universidades já não são fábricas nem
trânsito, os cenários de comando molecular q ue são os do universidade;, e os hipermercados já não têm nada de mer-
códígo genético), e cuja forma é nuclear e satelítica. O hiper- cados. Estra11hos objectos novos dos quab: <l centrill nuclear
mercado como núcleo. A cidade, mesmo moderna, já não o é sem dúvida o moddo absoluto e de onde irradiam uma
absorve. É e]e q ue estabelece uma órbita sobre a qual se espécie de ncutrali:,..ação do território, um poder de dissuasão
move a aglomerac;ão. Serve de implante aos novos agregados, que, por detrás da função aparente destes objeclos, consti-
como o fazem também por vezes a universidade ou aind a a h.tem sem dúvid.1 c1 su.1 função profunda: a hiper-realidade
fábrica - já não a fábrica do sl-culo XIX nem a fábrica des- dos núcleos funcionais que já não o &iode todo. Estes novos
centralizada q ue, sem quebrar a órbita da cidade, se insta la objt..>-ctos s.."i.o os pólos da simulação em torno dos quais se
nos arredores, mas a fábrica de montagem, automatizada, de elabora, contrnriamente às antigas estações, fábricas ou redes
comando electrónico, isto é, correspondendo a uma func;ão e de transporte tradicionais, outr a coisa diferente de uma
a um processo de trabalho total mente desterritorializados. «modernidade»: uma hiper-realidade, uma simultaneidade
Com esta fábrica, como com o hipermercado o u a nova uni- de todas as funções, sem passado, sem futuro, uma opera-
versidade, já não nos confrontamos com funções (comér- cionalidade em todas as direcções. E, sem dúvida também,
cio, trabalho, saber, tempos livres) que se autonomizam e crises ou novas catástrofes: o Maio de 68 com~a em Nanterre
se deslocam (o que caracteriza ainda o desd obramento e não na Sorbonnc, isto é, num Joca l onde, pela primeira vez
«moderno» da cidade), mas com um modelo de desintegração em França, a hiperfuncionalização <cfora de portas» de um
das funções, de indeterminm:;ão das funções e de desintegrac;ào lugar de saber equivale a uma desterritorialização, à desa-
da própria cidade, que é transplantado p ara fora d a cidade e feição, à perda de função e de finalidade deste saber num
tratado como modelo hiper-real., como n úcleo de uma aglo- conjunto neofuncional programado . Ai nasceu uma nova
violência, original, em resposta à. satelização orbital de um
modelo (a saber, a cultura) cujo referencial está perd ido.
• Em inglês no or ig in3l. (N. d3 T.)
Implosão d o sentido
nos media

Esta mo~ num universo em que existe cada vez mais infor-
mação e cndn vez menos sentid o.
Três hipóteses:

- ou a inform,1ção produz sentido (factor neguentrópico),


mas não consegue compensar a perda brutal de signifi-
cado ~m todos os domínios. Bem se podem reinjectar,
à força de mtdia, mensagens, conteúdos; a perda, adis-
sipação do sentido é mais rápida que a sua reinjecçào.
Neste caso é p reciso fazer apelo a uma produtividade
de base, para s ubstitu ir os media defeituosos. É toda a
id<.•ülogia da liberdade de palavra, dos media desmulti-
plicados c m intlmeras células individuais de emissão e
até dos anti-media (rádios piratas, etc.).
- Ou a informação não tem nada a ver com o significado.
É outra coisa, um modelo operncional de outro tipo,
exterior ao sentido e à circulação do sentido propria-
mente dito. É a hipótese de Shannon: de uma esfera de
informação puramente instrumental, medium técnico
que n5o implicil qualquer finalidade de sentido e, por•
tanto, que não pode ser sequer implicada num juízo de
valor. Espécie de código, como o pode ser o código
104 Simulacros e Sinwlnç,ro Jtan B,.'1111frillnrrl 105

genético: é o que é, funciona assim. O sentido é outra A informação devora os seus próprios conteúdos. CÀ'vor;_1
coisa que de certo modo vem depois, como com Monod a comunicação e o social. E isto por dois motivos.
e m Le 1-lasa.rd et ln Nécessité ... Neste caso não haveria 1. Em vez de fazer comunicar, esgota-se na encenaçiiti
pura e simplesmente, relação significativa entre ~ do com,mimçiio. Em vez de produzir sentido, esgota-se na
inflação da informaç3o e a deflação do sentido. encenação d o sentido. Gigantesco processo de simulação
- Ou entã~, pelo contrário, existe correlação rigorosa e que é bem nosso con ht.-cido. A entrevista não directiva, a
n~sána entre-os dois, na medida em qut? a informaçi\o palavra, os telefones de auditores, a participação diversificada,
é d1rectamente destruidora ou neutralizadora do sen- a chantagem i't palavra. «Isto diz-vos respeito, vocC-s são o
tido e do significado. A perda do sentido está dirccta- acontix imcnto, etc.» A informm;:io é cada vez mais invad ida
m ente ligada à acção dissolvente, dissuasiva, d a infor- por ~ ta t.-spécit· de conteúdo fantasma, de transplantação
mação, dos mcdin e d os mnss media. homeopática, de sonho acordado da comunicação. Disposição
circular o nde se encena o desejo da sala, antiteatro da comu-
Esta é a hipótese mais interessante mas vai contra as nicação que, como se sabe, nunca é mais que a reciclagem em
acepçôes recebidas. Em toda a parte a socialização mL>de-sc negativo d a instituição tradicional, o circuito integrado do
pela exposição às m ensagens mediáticas. Está des~ia lizado, negativo. Imensas energias são gastas pa ra manter este
ou ~ virtualmente associai, aquele que está subexposto aos simu lacro, para evitar a dissimulação brutal que nos con-
med,a._Em toda a parte é suposto que a informação produ7, frontaria com a evidente realidade de uma perda radic.:11 do
urna circulação acelerada do sentido, umél mah;-valia de sen- sentido.
tido homólogo à ma is-valia económica q ue provém da rotação É inútil intcrrngarmo-nos se é a perda da comunicação
acelerada do capital. A informação é d ada como criadora de que induz esta sobrevalorização no simulacro ou se é o
com unicação, e apesar do desperdício ser enorme, um con- simulacro que está primeiro, com fins dissuasivos, os de
senso geral p retende q ue existe, contudo, no total, um excesso curto-circuitar antecipada mente toda a possibilidade de
de sentido, que se redistribui em todos os interstícios do comunicação (precessão do modelo que põe fim ao real). ~
social - assim com o u m consenso p retende que a produção inútil interrogarmo-nos sobre q ual é o primeiro termo, não
material, apesar dos seus disfuncionamentos e das suas há, é um processo circular- o da s imulação, o do hiper-real.
irraciona lidades, resulta ainda assim num aumento de riqueza Hiper-rcalidade da comunicação e do sentido. Mais real que
e de finalid ade social. Somos todos cúmplices deste mito. É o real, é assim que se a nula o real.
o al~a. ~ o ómega da nossa modernidade, sem o qual a Assim, tanto a comunicação como o social funcionam em
c red1b1bdade da nossa o rganização socia l se afundaria. Ora o circuito fochado, como um logro - ao qual se liga a fon:;a de
facto é que ela se afunda, e por este mesmo motivo. Pois onde um mito. A crent;a, a fé na informação agarra-se a esta prova
pensamos que a informação produz sentido, é o oposto que tautológica que o sistema dá de s i próprio ao redobrar nos
se verifica. signos uma realidade impossível de encontrar.
Mas pode pensar-se que esta crença é tão ambígua como
a que se ligava aos mitos nas sociedades arcaicas. Crê-se mas
• O Acaso e a Necessidade. mio se crê. Não nos fazemos a pergunta. «Eu sei, mas mesmo
107
106 Simu(acros e Simuln(tfo Jerin Baudrillard

assim ...» Uma espécie de simulaçào oposta responde nas não é mais que a extensão macroscópica da implosãu t/1., ~ ·11
massas, em cada um de nós, a esta simulação de sentido e de tido ao nível microscópico do signo. Isto deve ser anahs,1~!0
~municação em que o s istema nos encerra. À tautologia do a partir da fórmula de MacLuhan metlium is m~ge•. cup~
sistema responde-se pela ambivalê.ncia, à dissuasão respondt..'- consequências t..>Stamos longe de ter esgotad_o. .
-~e pelo ~esaf~tamento ou por uma crença sempre enigmá- o seu sentido é de q ue todos os conteudos d~ sent1~t•
tica. O mito existe mas há que evitar acreditar q ue as pessoas s.-'\n absorvidos na única forma dominante do medmm. Sü o
crêem nele: é essa a armadilha do pensamento crítico, que só medium constitui acontecimento- e isto qu1'1isquer que se~1m
pode exerrer-se partindo de um p ressuposto de ingenuidade os conteúdos, conformados ou s ubversivos. Trata-se de um
e de estupidez das massas. sério problema para toda a contra-informação, rádios pir?-
2. Por detrás desta encenação exacerbada da comunica- tas, anti-media, etc. Mas há coisas mais graves e que o própno
ção, os mass mcdin, a informação em fvrcing • proSSt"guem u ma MacLuhan não pôs de lado. É que para além desta neutra-
deses truturação do real. lização de todos os conteúdos poder-se-ia esperar ainda
Assim, a informação dissolve o sentido e dissolve o social modelar o 111ccli11111 na s ua forma, e para transformar o real
numa espécie de nebulosa votada, não de todo a um aumento utilizando o impacte do medillm co~o forina. U ma vez
de inovação mas, muito pelo contrário, à entropia total 11 \. a nulados todos os conteúdos, talvez amda haía um valor de
Assim, os ,rlL'dia são produtores não da socialiwção mas uso revoludo nário, subversivo do «medi11m» e11qtumto tal. Ora
do seu contrário, da implos.io do social nas mass..,s. E isto - e é a í que conduz ao seu limite extremo a fórmula de
Mac Luhan - não há apenas implosão da mensagem t~o
mcdi11m, há no próprio movimento implosão do própno
• Em ingl~ no original. (N. d a T.) medium no real, implosào tio «medium» e do _rer:it, n u ma es~-
\. Só aqui falámos da infom,aç:'io no rq;isto social da cvmunica1,.lo. cíe d e nebulosa hiper-real onde até a dehmção e a acçao
Mas seria apaixonante li:v.u a hipótese até à troria cibeniétka da informação
distinta do 111edi11t11 }<'\ não são assinaláveis. . . _
Tam~m aí, a tese íundamental pretende qu;,• e:;ta é sinónim,, dl• nCf;ucn-
tropi:i, de resistência à .:-ntropi:i, dt' ;iumento de sentido e de org:ini1~1çlo.
O acto d e pôr em causa o estatuto tradicional nao se
Mas <:c1nviria formular a hi pótt'St? Opo$ta: INFORMAÇÃO ,., ENTROPIA. fica pelos próprios medin, características da modernidade. A
Por t'Xemplo, n i11fr1rm.1ção uu 11 ~/Jf'r q11t' 1/Qdt ttr-S<' ,lt 11111 :,istt>m1t 1111 dr fórmula de MacLuhan Mediwn is message, que é a fórmula-
um aamtecimmto é jd nma forma Ili:' 11e11tntlizaçdo t' de 1•11/ropia d~-slt' sist,•ma -chave da era da simulação (o medimn é a mensagem - o
(a C"Stender às dêndas ~m geral e às ciênciali- humanas em pMticulM). A emissor ~ o rl.>eeptor - circularidade de todos os pólos -
infrJrma(jl11 ()mie SI.' refl«te llfl Jl'.l' u11de :se.· difr111tlt 11111 nco11trcim,•11111 é ;a m1111
fr,r11111 d1•gmdm111 1lr!$te aco11teciltreul1l. Não há que h('$ilM cm :lr\;'l]i$ar n~tl'
fim do espaço panóptico e perspectivo - e_sse é o alfa e 0
sentido a intt.'rvenç,fo dos medin no M aio de 68. A extensão Jada à ,1a;Jo ómega da nos.~ modernidade) esta 1~esma formula dev~ se~
estudantil f)\'rm)liu a greve ~era! mas c-st.:, foi ptttis.1mentc um.1 c<1ix11 considerada no limite em que, d epois de todos os conteud<._,s
preta de neutralização da virul~n('ia origina,! J o movimento. A su;, própri.l e as mensagens se terem volatili7..ado no medi um, ser o p~pn~•
amplificação foi um;'l nrmadilha mortal e n/io uma extensAo positiv;t. Há medÍlttll que se volatiliza enquanto taL No fundo é ainda .1
que deS('('lnfia r d.1 universaliz.,ção das lutas por mt>io da informa,ão. 1-l.\
que desconfiar d3S c,,mp.,nhas de solidariedade com tudo, desta soli•
d;i.rie<fade electró nica e"º mt.-smo tempo m unda,1a. Toda a t>Stratégia dt>
universalização da s diferenç.'ls é utn.\ estr;ttégia entrópica do sistema. • Em inglês no original. (N. da T.)
108 Simulacros e Simulação Jean &wdrillard 109

mensagem que dá ao medimn as suas cartas de apresentação, Mas há que ver que o l'ermo de catástrofe não tem t.-ste
é ela que dá ao medium o seu estatuto diferente, determinado, sentido «catastrófico» de fim e de aniquilamento senão na
de intermediário da comunicação. Sem mensagem, também visão linear de acumulação, de finalidade produtiva que o
o medi11m cai na indiferença característica de todos os nossos sistema nos impõe. O próprio termo não significa etímologi-
grandes sistemas de juízo e de valor. Um único modelo, cu~-i camente senão a curvatura, o enrolamento para baixo de um
eficácia é im<•diata, gera simultaneamente a mensagem, o ciclo que conduz ao que se pode chamar um «horizonte de
mcdi11111 e o «real~. acontecímento1>, a um horizonte d o sentido inultrapassável:
Numa palavrn, Mcdium is message não significa apenas o para além disso já não acontece mais nada que tenha sentido
fim da mensagem mas também o fim do medimn. Já não M para ,i6s - mas basta sair deste ultimato do sentido para que
media no sentido literal do termo (refiro-me sobretudo aos a própria catástrofe apare<;a apenas como prazo último e
media clcctrónicos de massas) - isto é, instância mediadora niilista, tal como funciona no nosso imaginário actual.
de uma realidade para uma outra, de um estado do real para Para além do sentido, há o fascínio, que resulta da neu-
outro. Nem nos conteúdos nem na forma. Éesse o ~ignificado tralização e da implosão d o sentido. Para além do horizonte
rigoroso da imploslio. Absorç3o dos pólos um no outro, do social há as massas, que resultam da neutralização e da
curto-circuito entre os pólos de todo o sistema d iferencial dt! implosão do social. _
sentido, esmagamento dos termos e das oposições distintas, O essencial hoje em dia é avaliar este duplo desafio -
entre as quais a do mediwn e do real - impossibilidade, desafio ao sentido pelas massas e pelo seu silêncio (qu~ não
portnnto, de toda a mediação, de toda a intervenção diaJéctica é de modo algum uma resistência passiva) - desafio ao
entre os dois ou de um para o ou tro. Circularidade de todos sentido vindo dos media e do seu fascínio. Tendo em conta
os efeitos media. Impossibilidade de um sentido, no sentido tal situação, todas as tentativas marginais, alterna tivas, para
literal de um vcctor unilater;il que conduz de um pólo a ressuscitar sentido são secundárias.
outro. Há que considerar até .io fim <..>Sta situação crítica mas Evidentemente que há um paradoxo nesta inextricável
original: é a única que nos resta. É inútil sonhar com uma conjunção das massas e dos media: são os me~ia que neu-
revolução pela forma, já que mediwn e real são a partir de tralizam o sentido e que produzem a massa «mfonne» (ou
agora uma única nebulosa indecifrável na sua verdade. informada), ou é a massa que resiste vitoriosamente aos
Esta constatação de implosão dos conteúdos, de absorção media, ao desviar ou a absorver, sem lhes responder, t~as
do sentido, de evanescência do próprio medium, de reabsorção as mensagens que estes produzem? O utrora, em «Reqme~
de toda a dialéctica da comunicação numa circularidade pour les Media» eu tinha analisad? (e con_denado) os m~d1a
total do modelo, de implosão do social nas massas, pode como a instituição de um modelo 1rrevers1vel de comumca-
parecer catastrófica e desesperada, Mas só o é, de facto, aos ção sem resposta. Mas hoje? Esta ausência de resposta pode
olhos do ide;;1lismo que domina toda a nossa visão da ser entendida, já não de todo como a estratégia do poder,
informação. Vivemos todos de um idealismo furioso do mas como uma contra-estratégia, das próprias massas contra
sentido e da c:omunicação, de um idealismo da comunicação o poder. E agora? .
pelo sentido e, nesta perspectiva, é a catástrofe do sentido que Os mass media estão ao lado do poder na manipulação
nos espreita. das massas ou estão ao lado das massas na liquidação do
110 Simulacros e Simulação Jean Br111drill11rd m

sentido, na violê ncia exercida contra o sentido e o fascínio? resistência-sujeito é hoje em dia unilat'c ralmente valorizada e
São os media que induzem as massas ao fascínio, ou são as tida por positiva - do mesmo modo que na esfera política
massas que desviam os media para o espcctacular? Mog,1- só as práticas de libertação, de e ma ncipação, de expressão,
discio-Stammheim: os medía assumem-se como veículo da d e constituição como sujeito político, as que são tidas por
condenação moral do terrorismo e da exploração do medo válidas e subversivas. lsso significa q ue se ignora o impacte
com fins políticos, mas simultaneamente, na mais complctíl igu.tl, e sem dúvida mu ito superior, de todas as práticas
ambiguidade, difundem o fascínio brutO dºo acto terrorista , objecto, de renúncia à posição de sujeito e de sentido -
são eles próprios te rroristas, na medida em que caminha m exactmnente ns p rá ticas de massa - que enterramos sob o
para o fascínio (eterno dilema moral, ver Umbcrto Eco: como termo depreciativo de alienação e de passividade. As práti-
não falar d o terrorismo, como encontrar um bom 11so dos uu•dia cas libertaJoras respondem a uma das vertentes do sistema,
- ele não existe). Os media carregam consigo o sentido e o ao ultimato constante que nos é dirigido de nos constituir-
contra-sentido, manipulam e m todos os sentidos ao mesmo mos e m. puro objeçto, mas não respondem à outra sua exi-
te mpo, nada pode controlar este processo, veiculam a simu- gênci:1, a de nos constituirmos em su jeitos, de nos libertar-
lação interna aosü,te ma e a simulação destruidora do sistema, mos, de nos exprimirmos a todo o custo, de vo.t ar, de pro-
segundo uma Wgica absolutamente mocbiana e circular - e duzir, de dL>eidir, de falar, de participar, de foze r o jogo -
está bem assim. Não há a lternativa, não há resolução lógica. chant.igem e ultimato t5o grave como o outro, mais grave,
Apenas uma exacerbação lógica e uma resolução catas trófica. sem dúvida, hoje crn d ia . A um sistema cujo a rgumento é .d e
Com um correclivo . Estamos em face deste sis tema numa opn..>ss.i.o e de rcpress..:'i o, a resistência estratégicri é d e rciv m-
s ituação dupla e insolúvel «double bind»"" - exactame nte dicaç5o libertadora do sujeito. Mas isto reflecte wbrctudo a
como as c rianças perante as exigências do universo adulto. fase anterior do sistema e, se ainda nos con frontamos com
São simultaneamente intimidados a constituir-se como sujei- ela, já não é o terreno t..'Stratégico: o argumento actual. do
tos au tónomos, responsáveis, livres e conscientes, e a consti- sistema é de maximalizaçiio da palavra, de produção máxima
tuir-se como objedos submissos, inertes, obedientes, confor- d e sentido. A resistência estratégica, pois, é de r1...>cusa d e
mes. A criança resiste cm todos os planos, e a uma exigência sentido e de recusa da palavra - ou da s imulação hipercon-
~ontrad itória responde tmnbém com uma estratégia dupla. formista aos próprios mecanismos do sistema, que é uma
A exigência de ser obj1.. -"Cto opõe todas as práticas d a desobe- forma d e recusa e de não aceitação. É o que fazem as massas:
diência, da revolta, da C!ftan cipação, em suma, toda u ma reme te m para o sistema a sua p rópria lógica reduplicando-a,
reivindicaç.io d e sujeito. A e xigência de ser s ujeito opõe, de d evolvem, como um 1...--spelho, o sentido sem o absorver. Esta
maneira igualmente obstinada e eficaz, uma resistência de estratégia (se é que ainda se pode falar de estratégia) leva a
objecto, isto é, exactamente o oposto: infantilis mo, hipercon- melhor hoje em dia, põrque é essa fase do sistema que levou
formismo, dependên cia total, passividade, idiotia. Nenhuma a melhor.
das suas estratégias tem mais valor objectivo que a o utra. A Enganar-se de estra tégia é grave. Todos os movimentos
que só se jogam sobre a lfüertação, a emancipação, a ressur-
reição de um sujeito da história, do grupo, da palavra sob re
• lmpas.se. Em inglês no original. (N. da T.) u ma tomada de consciência e até sobre uma «tomada de
112 Simulacros e Sim11/aç60

i~consdéncia» dos sujeitos e das massas não vêem que e les


vao n_o mesi:no sentido q ue o sistema, cujo imperativo é hoje Publicidade absolul"
e m d ia precisa men te de sobreprodução e de regeneração do publicidade zero
sentido e da palavra.

O q ut! ~st;nnos íl viver é ;a t1bsorçào de todos os modos de


cxp resScio virtuilis no da publicidade. Todas as formas cultu-
ra is originais, todas as linguagens determinadas absorvem-se
ne5te porque não tem profundidade, é instantâneo e instan ta-
neamenlt! estiuecido. Triunfo d a forma su perficial, mínimo
denominador co mum de todos os significados, grau zero d o
sentido, triunfo da entropia sobre todos os tropos possíveis,
Fonna mais baixada energia do s igno. Esta forma inarticulad a,
instantânea,scm passado, sem futuro, sem metamorfose possí-
vel, prt.-cisame ntc pur ser a última, tem poder sobre todas as
outras. Todas as formas actuais de actividadc te ndem para a
publicidade, e na sua maior parte esgotam-se aí. Não forço-
samente na publicidade nominal, a que se produz como tal
- mas a fármn publicitária, a de um modo operacional sim-
plificado, vagamente sedutor, vagamente consensual (todas
as modalidades t..->Stào aí confundidas, mas de um modo ate-
nuado). Mais geralmente a forma publicitária é aquela em
que todos os conteúdos singulares se an u lam no próprio
momento em que podem transcrever-se uns nos outros,
enquanto que o que caracteriza os e nunciados «pesados»,
formas articuladas de sen tido (ou de estilo) é não poderem
trnduzir-se uns nos outros, tal como as regras de um jogo.
114 Simulacros e Simufaçdo Jean Baudrillard 115

Esta longa marcha para uma tradutibilidade e, Jugo, uma zir: werben, wcrben"' - solicitação do social p resente em toda
combinatória total, que é a da transparêttâa superficial de todas a parte nas paredes, nas vozes quentes eexangues das locuto-
as coisas, da sua publicidade absoluta (e da qual, mais uma vez, ras, nos graves e agudos da banda sonora e nas tonalidades
a publícidade profissional é apenas uma forma epis6dica), múltiplas da banda, imagem que corre em Ioda a parte sob
pode decifrar-se nas per:ipédas da propaganda. os nossos olhos. Solicitude presente em toda a parte, socia-
Publicidade e propaganda adquirem toda a sua dimensão lidade absoluta finalmente realizada na publicidade absoluta
a partir da Revolução de Outu bro e da crise mundial de 29. - isto é, totalmente dissolvida também ela, sociaHdade vestí-
Ambas são linguagens de massa, saídas da produção de gio alucinado cm todas as paredes sob a forma simplificada
massa de ideias ou de mercadorias, e os seus registos, ao de uma procura de social imediatamente satisfeita pelo eco
princípio separados, tendem a aproximar-se progressiva- publicitário. O social como cenário de que somos o público
mente. A propaganda faz-se marketing e merc.handizi,1K"' de enlouquecido.
ideias-força, de homens políticos e de partidos com a sua Assim, a forma publicitária impôs-se e desenvolveu-se à
«imagem de marca», A propaganda aproxima-se da publici- custa de todas as outras linguagens, como retórica cada vez
dade como do modelo veicular da única grande e verdadeira mais neutra, equivalente, sem afectos, como «nebulosa assin-
ideia-força desta sociedade concorrencial: a mercadoria e a táctican, diria Yves Stourdzé, que nos envolve de todas as
marca. Esta convergência define a sociedade, a nossa, onde partes (e que elimina ao mesmo tempo o problema tão con•
já não há diferença entre o económico e o político, porque troverso da «crença» e da eficácia: não propõe significados a
nelas reina a mesma linguagem de uma ponta à outra, de inv1..>stir, oferece uma equivalência simplificada de todos os
uma sociedade onde a economia política, em sentido literal, signos outrora distintos, e dissuade-os por esta mesma equi-
está enfim plenamente realizada, isto é, dissolvida como valência}. Isto define os limites do seu poder actual e as con-
instância especifica (como modo histórico de contradição dições do seu desaparecimento, pois a publicidade já não é
social), resolvida, absorvida numa língua sem contradições, hoje uma questão, é ao mesmo tempo «entrada nos costumes»
como o sonho, porque percorrida por intensidades simples- e saída desta dramaturgia social e moral que representava
mente superficiais. ainda há vinte anos atrás.
Passou-se um estádio quando a própria linguagem do Não é que as pessoas já não acreditem nela ou a tenham
social, depois da política, se confundiu com esta solicita- aceitado como rotina. É que, se ela fascinava por este poder
ção fascinante de uma linguagem enfraquecida, quando o de simplificação de todas as linguagens, este poder é-lhe
social se faz publicidade, fazendo-se plebiscitar e tentando hoje subtraído por um outro tipo de linguagem ainda mais
impor a sua imagem de marca. De destino histórico, o pró- :,implificado e, logo, mais operacional: as linguagens infor-
prio social caiu nas fileiras de uma «empresa colectiva» máticas. O modelo de sequência, de banda sonora e de banda-
que assegura a sua publicidade em todas as direcções. Veja- •imagem que a publicidade nos oferece, a par com os outros
-se a mais-valia de social que cada publicidade tenta prod.u-

• Seguido da preposição «fur» significa «fazer a propaganda de... Em


• Em inglês no original. (N. da T.) ilemão no original. (N. da T.)
116 Simulacros e Simutaçdo Jean. &wdriffard J/7

grandes media, o modelo de perequaçâo combinatória de todos publicidade tornou -se a sua própria mercadoria. Confundt-..
os discursos que ela propõe, este continuum ainda retórico de -se consigo própria (e o erotismo com que ridiculamenk• st·
sons, d e signos, de sinais, de slogans q ue ela domina como veste não é milis que o indicador auto-erótico de um sistcm,1
ambiente total, está largamente ultrapassado, justame nte na que não faz senão designar-se a si próprio- donde o absurd1•
sua função de estimulo, pela banda magnética, pelocontim111111 de ver nele uma «alienação» do corpo da mulher).
electrónico que está a perfilar-se no horizonte d este fi m d ~ Enqwmto medimn transformado na sua própria mensagem
século. O microprocesso, a digitalidade, as linguagens ciber- (o qlle foz com que ha;a a partir de agora uma procura de
néticas vão muito mais lo nge no mesmo sentido da simpli- publicidade por s i própria e que, por isso, a questão de se
ficação absoluta dos processos do que a publicid?ide fazia ao i,acrt.'Ciitar» ou não nela j.i nem sequer se ponha), a publicidade
seu humilde nível, ainda imaginário e espectacular. E é porque está totalment'c cm uníssono com o social, cuja exigência
estes sistemas vão mais longe, que polarizam hoje o fascínio histórica se encontra absorvida pela pura e simples procura
outrora concedido à publicidad e. É a in!orm<1ção, no :,entido do social: procura de funcionamento d o social como de uma
informático do termo, q ue porá fim, que já põe fim, ao reino empresa, como de um conjunto de serviços, como de um
d a publicidade. É isto que assusta e é isto q ue apaixona. A modo de vida o u de sobrevivência (é preciso salvar o social
,,paixão» publicitária deslocou-se para os computadores e como é preciso preservar a natureza: o social é ó nosso nicho)
para a miniaturização informática da vida quotidiana. - enquanto o utrora era uma espécie de revolução no seu
A ilustração antecipado ra desta transformação era o próprio projccto. Is to está perdido e bem: o social perdeu
papoula de K. Ph. Dick, este implante pub licitário trans is- justamente este poder de ilusão, caiu no registo da oferta e
torizado, espécie d e ven tosa emissora, de parasita e lcctró- da procura, com o o trabalho passou de força antagonista do
nico que se fixa ao corpo e de q u e este tem muita dificuldade capital ao simples estatuto do e mprego, isto é, de um bem
em lib~rtar-se. Mas o papoula é ainda uma forma interme- (eventualmente raro) e d e um serviço como os outros. Vai,
diá ria: é já uma espécie de pró tese incorporada, mas recita pois, poder fazer-se publicidade p a ra o trabalho, a alegria de
ainda mensagens publicitárias. Um híbrido, pois, mas prefi- encontrar um trabalho, como vai poder fazer-se publicidade
guração d as redes ps icotrópicas e informáticas de pilotagem para o social. E a verdadeira publicidade está hoje no design
automática d os indivíduos, ao lado do q ua l o «condiciona- do social, na exaltação do social sob todas as suas formas, no
mento» publicitário parece u ma d eliciosa peripécia. apelo insistente, obstinado a um social cuja necessidade se faz
rudemente sentir.
O aspecto actualmente mais interessante d a publicidade As danças folclóricas no metro, as inúmeras campanhas
é o seu desaparecimento, a sua diluição como forma. ~pecí- para a segura nça, o slogan «amanhã traba lho» acompanhado
fica, ou como medíum, muito simp lesmente . Já não é (a lguma pelo sorriso antes reservado aos tempos livres e a sequência
vez o foi?) um meio de comunicação ou de informação. Ou publicitária para a eleiçã o para os Prud-1-lommes •: «Não deixo
então foi tomada por essa loucura específica dos sistemas que ninguém escolha por mim» -slogan ubuesco e que soava
sob redesenvolvid os d e se plebiscitar a cada instante, e logo
de se parodiar a si próprio. Se num dado momento a merca-
doria era a sua p rópria publicidade (não havia o utra), hoje a • Conselho el€<'tivo que julga as pendêndas profissionais. (N. da TJ
Jean Baudrillard /19
118 Simlllacros e Simulação

tão espectaculannente falso, de uma liberdade irrisória, a de É que ainda fica o fascínio. Basta ver Las Vegas, a l'id,1dt·
fa1..er acto de social na sua própria recusa. Não é por acaso publicitária absoluta (a dos anos cinquenta, a dos anos lu11l·t•s
que a publicidade, depois de ter veiculado durante muito da publicidade, e que guardou esse encanto, hoje em dia lk
tempo um ultimato implícito de tipo económico, dizendo e alguma m;meira retro, pois a publicidade está secrc-tamcnh-
repetindo no fundo incansavelmente: «Compro, consumo, condenada pela lógica programática que criará cidades bem
gozo», repete hoje sob todas as formas: «Voto, participo, diferent·es). Quando se vê Las Vegas surgir toda ela do deserto
estou p resente, isto diz-me respeito» - espelho de uma pela radiação publicitária ao cai.r da noite, e regressar ao
zomba ria paradoxal, espelho da indiferença de todo o signi- deserto quando o dia nasce, vê-se que a publicidade não é o
ficado público. que alegra ou decora as paredes, ela é o que apaga as paredes,
Pânico inverso: sabe-se que o social pode dissolver-se na apaga as ruas, as fachadas e toda a arquitectura, apaga todo
reacção de pânico, reacção em cadeia incontrolável. Mas o suporte e toda a profundidade, e que é esta liquidação, esta
pode dissolver-se também na reacção inversa, reacção cm reabsorção de tudo à superfície (pouco importam os signos
cadeia de inércia, cada micro-universo saturado, auto-regu- que aí circulam) que nos mergulha nesta euforia estupefacta,
lado, informatizado, isolado na sua pilotagem automática. A hipcr-real, que já não trocaríamos por nenhuma outra coisa,
publicidade é a sua prefiguração: primeiro esboço de uma e que é a forma vazia e sem apelo da sedução.
trama ininterrupta de signos, como a banda de tele-escritu-
rários - cada um isolado na sua inércia. Forma anunciadora A linguagem deixa•se então ttrraslar_pelo seu duplo e junta
de um universo saturado. Desafeiçoado, mas saturado. o melhor ao pior por uma fantasia de ractonalidttde cu.ja f6rmu.la
Insensibilizado mas pronto a desabar. É num universo como é: "'Todos devem acreditar nisso.,, Tal la me,1sagem do que nos
este que adquire força aquilo a que Virilio chama a estética concentra.
do desaparecimento. Que comecem a aparecer objectos J.-l.. lkxrrn:s, Le Ckslrucleur d'Jnte11sitts
fractais, formas fractais, zonas de fractura consecutivas à
saturação, e portanto a um processo de rejeição maciça, de
reacção d e exteriorização em que se liberta de um recalca- A publicidade, pois, tal como a informação: destruidora
mento afectivo., ou de estupor de uma SO('iedade puramente de intensidades, acelerador de inércia. Veja-se como todos os
transparente para si própria. Como os signos na publicidade, artifícios do sentido e do não sentido aí estão repetidos com
desmultiplicamo---nos, fazemo-nos transparentes ou inúme- lassidão, como todos os procedimentos, todos os d ispositivos
ros, fazemo-nos diáfanos ou rizoma para escapar ao ponto da linguagem da comunicação (a função de contacto: estão a
de inércia - pomo-nos em órbita, sintonizamo-nos, sateli- ouvir-me? Estão a ver-me? Vai falar! - a função referencial,
zamo-nos, arquivamo-nos - as pistas entrecruzam-se: há a a própria função poética, a ilusão, a ironia, o jogo de palavras,
banda sonora, a banda-imagem, como na vida há a banda- o inconsciente) como tudo isso é encenado exactamente como
-trabalho, a banda-tempos livres, a banda-transporte, etc., o o sexo na pornografia, isto é, sem acreditar nisso, com a
todo envolvido pela ba.n da-publicidade. Por toda a parte mesma cansada obscenidade. É por isso que é doravante
há três ou quatro pistas, e cada qual está no cruzamento. inútil analisar a publicidade como linguagem, pois é umi'I
Saturação superficial e fascínio. outra coisa completamente diferente que tem lugar: umn
120 Simulacros e Sim11laçt10 Jenn B<mdril/ard 121

dobragem da língua (e das imagens também), à qual não dadeiro centro comercial ou conjunto arquitectónico, assim
respondem nem linguística ne m semiologia, já que trabalham como Beaubourg também não é, no fundo, um centro cultu-
sobre a operação verdadeira do sentido, sem pressentir de rnl: estes estranhos objectos, estes superxndgets de:monstrnm
modo algum esta exorbitação carica tural de todas as funções simplesmente que a nossa monumentalidade social se tornou
da linguagem, esta abertura sobre um imenso campo de publicitária. E é algo como o Forum que melhor ilustra o q ue
irrisão dos signos, «consumidos» por assim dizer na sua sc- tornou a publicidade, o que se tomou o domínio público.
irrisão, /Mra a sua irrisão e o espectáculo co)e(tivo do seu A merc;:idoria enterra-se, como as informações nos arqui-
jogo sem problema - como a pornografia é ficção hipertro- vos, como os arquivos nos bunkers, como os foguetões nos
fiada de sexo consumido na sua irrisão, para a s ua irrisão, silos atómicos.
espcctáculo colectivo da inanidade do sexo na sua assunção Fim da mercadoria feliz e exposta, a partir de agora ela
barroca (foi o barroco que inventou esta irrisão triunfal do foge do sol, e d e repente é como o homem que perdeu a sua
estuque, fixando o desmaio do religioso no orgasmo das sombra. Assim, o Forum des Halles parece-se bastante a um
estátuas). f1meral liome • - luxo fúnebre de uma mercadoria enterrada,
Onde está a idade de ouro do projecto publicité"\rio? A transparente a um sol negro. Sarcófago da mercadoria.
exaltação de um objecto por uma imagem, a exaltação da Tudo aí é sepulcral, mármores brancos, negros, salmão.
compra e do consumo pela despesa publicitária sumptuária? 81111ker-<'SCrf,iio, desse negro rico e s,rob e mate, espaço mine-
Fosse qual fosse a subserviência da publicidade à gestão do ral mulergro1md"..... Ausência total de fluidos, já nem sequer
capita) (este as~o da questão, o do impacte social e econó~ há um gad~cl líquido como o manto de água de Parly 2, que
miro da publicidade, está sempre por resolver e é no fundo ao me nos enganava a vista - aqui já nem há sequer um
insolúvel), ela foi sempre mais que uma função subjugada, subterfúgio divertido, só o luto pretensioso e encenado. (A
foi um espelho estendido ao universo da economia política e única ideia d ivertida do conjunto é justamente o humano e a
da mercadoria, foi por um momento o seu imaginário sua sombra que cami nham em trompe-l'oeil" .. sobre um
glorioso, o de um mundp desfeito, mas e m expansão. Mas o pavimento vertical de betão: gigantesca tela de um belo tom
universo da mercadoria já não é este: é um mundo S.-'lturado cinzento ao ar livre, servindo de moldura ao t rompe-l'oeil, esta
e em involução. De repente, perdeu o seu imaginário triunfal parede t.'Stá viva sem o ter querido, e m contraste com o
e, do estádio do espelho, passou de alguma maneira ao jazigo de família da alta costura e do pronto a vestir que o
trabalho de luto. Forum constitui. Esta sombra é be)a porque é uma alusão
Já não há cena da mercadoria: não há mais que a sua contrastada ao mundo inferior que perdeu a sua sombra.)
forma obscena e vazia. E a publicidade é a ilustração d(."Sla Tudo o que poderia desejar-se, uma vez abeTtO ao público
fonna saturada e vazia. este espaço sagrado, e por receio de que a poluição, como
É por isso que ela já não tem território. As s uas formas
identificáveis já não são significativas. O Forum des Halles, • Em inglês no original. (N. da T.)
por exemplo, é um gigantesco conjunto publicitário ~ uma º Em inglês no original. (N. da T.)
operação de publicitude. Não é a pubhcidade de ninguém, ••• Pintura que dá a impressão da realid.ide; neste ~ ntido, aparência
de nc-nhuma firma, também não tem o estatuto de um ver- enganosa. (N. da T.).
l22 Simulacros t Simulação

nas grutas d e lascaux, o deteriore irremediavelmente (pen- Clone story


semos na massa que brota do RER), é que fosse imediatamente
interdito à circulação e que fosse coberto por uma mortalha
definitiva para manter intacto este testemunho de uma civi-
lização arrivista, após ter passado do estádio do apogeu para
o estádio do hipogeu, da mercadoria. Há aqui um fresco que
descreve o longo caminho percorrido desde o homem de
Tautavel, passando por Marx e Einstei n para chegar a Doro-
thée Bis ... Por que não salvar este fresco da decomposição?
Mais tarde os espeleólogos redescobri-lo--ão, ao mesmo tempo
que uma cultura que tinha decidido enterrar-se para escapar
definitivamente à sua sombra, enterrar as suas seduções e os
seus artifícios como se os votasse já a um outro mundo.
De todas as próteses que marcam a história do corpo, o
d u plo é sem dúvida a mais antiga. Mas o d u plo não é jus-
tameute uma prótese: é uma figura imaginária que, como a
alma, a sombra, a imagem no espelho persegue o sujeito
como o seu outro, q ue faz com que seja ao mesmo tempo ele
próprio e nunca se pareça consigo, q ue o persegue como
uma morte subtil e sempre conjurada. Contudo, nem sempre
é assim: quando o duplo se materializa, quando se torna
visível, significa uma morte iminente.
Isto equivale a dizer que o poder e a rique7..a imaginária do
duplo, aquela onde se joga a estranheza e ao mesmo tempo
a intimidade do sujeito consigo próprio (11eimlich/unheimlich) ",
res,idem na sua imateria lidade, no facto de ele ser e permane-
cer u m fantasma. Todos podem sonhar e devem ter sonhado
toda a sua vida com uma duplicação ou uma multiplicação
perfeila do seu ser, mas isto não tem senão a força do sonh o
e destrói-se q uando se quer forçar o sonho no real O mesmo

• Em alen,ão no original. Ambos os ad;cctivos podc:m ter vârias Ira•


duções possíveis mas julgamos qut> as mais adequadas ao sentido em que
Baudrillard as emp rega são as seguintes: «Heimlich» significa intimo,
familiar; «Unht>imlich,. significa inquietante. (N. da T.)
124 Simulacros e Simu.laçifc Jean Baudritltm1 125

se passa com a cena (primitiva) da sedução: ela só é ope- de morte - o que nega a sexualidade e quer a niq uilá-la, a
rante ao ser fantasiada, relembrada, ao não ser nunca real. sexualidade que é portadora de vida, isto é, de uma forma
Era próprio da nossa época querer exorcizar este fantas míl crítica e mortal de reprodução?) e que os levaria ao mesmo
como todos os outros, isto é, realizá-lo, materializá-lo em tempo metafisicamente a negar toda a alteridade, toda a
carne e osso e, por um contra-senso total, mudar o jogo d o alteração do Mesmo para não visar jã senão a perpetuação
duplo com uma troca subtil da morte com o Outro n.fl eter- de uma identidade, uma transparência di'I inscrição genética
nidade do Mesmo. já nem sequer vol,1da às peripécias do engendramento?
Os clones. A clonagem. O e nxerto humano até ao infinito, Deixemos a pulsão de mo rte. Trata-se da fantasia de se
cada célula de u m organismo indiv idualizado que pode tornar engendrar a si próprio? Não, pois esta passa sempre pelas
a ser a matriz de um indivíduo autêntico. Nos Estados Unidos figuras da mãe e do pai, figuras parentais se:ruadas que o
uma criança te ria ~ilscido h~ alguns meses como um gerânio. sujeito pode sonhar apagar ao substituir-se a elas, mas sem
Por e nxerto. A pnmcua cr1a nça-c/011e (descendência de um nega r de modo algum a es trutura simbólica da procriação:
indi~íduo pel~ multiplicação vegetativa). O primeiro ser ser filho de si próprio, é ainda ser o filho de illguém. Enquanto
nascido a parhr d e uma só célula d e um só indivíduo, o seu que a clonagem abole radicalmente a Mãe, mas do mesmo
«pai>), genitor único do q ual seria a réplica exacta, o gémeo modo o Pai, a completa união dos seus genes, a imbricação
perfeito, o duplo m. das suas diferenças, mas sobretudo o acto dual q ue é o
Sonho de uma gemelidade eterna que se su bstitui à pro- e ngend ramento. O cloneur não se engendra: ele brota de cada
criação sexuada que, essa, está ligada à morte. Sonho celular um dos seus segmentos. Pode especular-se sobre a riqueza
de ci~sip~ridade, a forma mais pura do parentesco, já que destas ramificações vegetais que resolvem, com efeito, toda a
pcrnute Íl~almente P?ssar sem o outro e ir do mesmo para o sexuabdade edipiana em benefício de um sexo «não humano»,
mesmo (amda é preciso passar pelo útero de uma mulher e de um sexo por contiguidade e desmultiplicação imediata -
por um óvulo ao qual tenha sido retirado o núcleo, mas o mas acontece que já não se trata d a fantasia de se engendrar
suporte é efémero e de todas as maneiras anónimo: uma a si próprio. O Pai e a Mãe desapareceram, não em benef~•
prót~e fêmea ~ eria substituí-lo). Utopia mo nocelula r que, cio de u ma liberdade aleató ria do sujeito, mas uma matriz
pela via da gen~hca, dá acesso aos seres complexos, ao destino clramada código. Já não há mãe, ~i não há pai: uma ~atriz. E é
dos protozoários. ela, a ma triz do código genético, que «gera» a partir de agora
Não seria uma puls<'l.o de morte que levaria os seres a té ao infinito segundo um modo oper.lcional expurgado de
sexuadas a reg redir para uma forma de reprodução a nterior toda a sexualidade aleatória.
à se~uação (~ão é, de resto, esta forma cissípara, esta repro- Também já não há sujeito, porque a reduplicação iden-
duçao .e prohforação par pu ra contiguid ad e que é para nós, titária põe fim à s u.l divis.:'fo. O estádio do espelho é a bolido
no mais profundo do nosso imaginário, a morte e a puls.:'io na clonagem, ou antes é de alguma forma parodiado de uma
maneira monstruosa. A clonagem também não conserva nada,
pela mesma ra zão, do sonho imemorial e narcisista de
1. Ver O. Rorvik, À son imagt: ta copie d'un homme, Paris Grasset projecção do sujeito no seu alter ego ideal, pois esta projecção
1978. ' ' passa ainda por uma imagem: a imagem, no espelho, onde o
126 Simulacros e Simulação Jean &udriltar-d 127

sujeito se aliena para se reencontrar, ou a imagem sedutora poder ser segmentado em células adicionais, de ser uma con-
e mortal onde o sujeito se vê para aí morrer. Não há nada figuração indivisível, de que a sua sexualidade é testemunha
disto na clonagem. Já não há medi11m, já não há imagem - do (paradoxo: a clonagem vai fabricar até à perpetuidade scrL':'-
mesmo modo que um objecto industrial não é o espelho do sexuados, porque semelhantes ao seu modelo, enquanto que
objccto idêntico que lhe sucede na série. Um nunca é a mira- o sexo, por esse mesmo motivo, se torna uma função inútil
gem, ideal ou mortal, do outro, só podem adicionar-se, e se - mas justamente o sexo não é uma furn;ão, é o que faz com
só podem adicionar-se é porque não foram engendrados que um corpo seja um corpo, é o que excede todas as partes,
sexualmente e não conhecem a morte. todas as funções diversas desse corpo). O sexo (ou a morte:
Se nem sequer se trata de gemelidade, pois há nos Gemini neste sentido é a mesma coisa) é o q ue excede toda a infor-
ou Gémeos uma propriedade específica, e um fascínio par- mação que pode ser reunida sobre um corpo. O ra, toda esta
ticular, e sagrado, do Dois, o que logo à partida é dois, e informação está reunida onde? Na fórmula genética. É por
nunca foi um. Enquanto que a clonagem consagra a reiteração isso que esta tem forçosamente que abrir uma via de repro-
do mesmo: 1 + 1 + 1 + 1, etc. dução autónoma, indepcndent·e da sexualidade e da morte.
Nem criança, nem gémeo, nem o reflexo narcisista, o já a ciência bio-fisio-anatómica, pela sua dissecação em
clone é a materialização do duplo por via genética, isto é, a órgãos e em funções, dá início ao processo de decomposição
abolição de toda a alteridade e de todo o imaginário. A qual analítica do corpo, e a genética micromolecular não é mais
se confunde com a economia da sexualidade. Apoteose deli- que a sua conSt'(Juência lógica, mas a um nível de abstrc1cção
rante de uma tecnologia produtora. e de simulação bem superior, o nível nuclear da célula de
Um segmento não precisa de mediação imaginária para comando, o nível directo do código genético, em torno do
se reproduzir, da mesma maneira que o verme,.: cada seg- qual se organiza toda esta fantasmagoria. .
mento do verme •• reproduz-se directamente como verme Na visão funcional e mecanicista cada órgão não é amda
inteiro, da mesma maneira que cada célula do POC ..... ame- mais que uma prótese parcial e diferenciada: já simulação,
ricano pode dar um novo P[X;. Da mesma maneira que cada mas 1<tradicional». Na visão cibernética e informática é o
fragmento do holograma completo: a informação permanece mais pequeno elemento indiferenciado, é cada célula de um
inteira, talvez com u ma definição menor cm cada um dos corpo que se toma uma prótese i<embrionária» deste corpo.
fragmentos dispersos do holograma. É a fórmula genética inscrita em cada célula que se torna a
É assim que se põe fim à totaUdade. Se toda a informação verdadeira prótese moderna de todos os corpos. Se a p rótese
se volta a encontrar em cada uma d as suas partes o conjunto é vulgarmente um engenho q ue supre um ó rgão deficiente,
perde o seu sentido. É lambém o fim do corpo, dessa singu- ou o prolongamento instrumental de um corpo, então a
laridade chamada corpo, cujo segredo é jus tamente o de não molécula ADN, que encerra toda a informação relativa a
um corpo, é a prótese por excelência, a que vai permitir pro-
longar indefinidamente este corpo por si pr6prio - não sendo
• Ver dt /erre, no texto. O seu significado figur.'.ldO ~ t11te ubjectc. ele próprio mais que a série indefinida das suas próteses.
.. Ver, no te,c:to. Prótese cibernética infinitamente mais subtil e mais arti-
... Président-Directcur Général. (N. da T.) ficial ainda que todas as próteses mecânicas. Pois o código
128 Sim11lacros e Si»mlaçào Jean Bnudrillard 129

genético não é «natural»: como qualquer parte abstracta de que o original já nem sequer tem lugar, porque as coisas s."10
um todo e autonomizada se torna prótese artificia l que altera à partida concebidas em função da sua reprodução ilimitadn,
este todo substituindo-se-lhe (pro-lhésis: é o sentido etimo- O que nos acontece já não só ao nível das mensagens mas
lógico), pode dizer-se q ue o código genético, o nde o todo d e ao nívd dos indivíduos com a clonagem. De facto é o q ue
um ser pretende condensar-se porque toda a «informação» acontec~ ao corpo q uando já não é ele próprio concebido
deste ser estaria aí e ncerrada (reside aí a incrível violência da senào como mensagem, como stock de informação e de mensa-
simulação genética) é um engenho, uma prótese operacional, gens, como substância informática. Nada se opõe en tão à sua
uma m,:1tri1, abs tracta, da q u al vão poder p roceder, nem reprodutibilidade serial nos mesmos termos que emprega Ben-
se<1uer já por reprodução, mas por pura e sim ples recondiu;ào, jamin para os objectos industriais e as imagens mass-med.iá-
seres idê nticos adstritos aos mesmos comand os. ticas. Existe precessão da reprcxlução, precessão do modelo
«O mt•u pntrú11ónio genético foi fixado de 1mm vez por todas genético sobre todos os corpos possíveis. É a irrupção da tec-
qunmfo 11111 certo t.'Spermntozóide enconl rou um certo óv11fu. Este nologia que com anda esta inversão, de uma tecnologia que
JX1tri111J11io comporia a receita de lodos os processos bioquímicos ~enjamin descrcvi<1 já nas suas últimas consequências, como
que me realizaram e que garantem v meu f1wcio11ame11to. Uma medium total, mas ainda na era industrial -gigantesca prótese
cópia dt'Sta receita estd i11scrita em cada uma das deuuas de mi/J1i'ies que comandava a geração de objec:tos e de imagens idênticas,
de células que lwjc me constituem. Cada uma delas sabe como que já nada podia diferenciar uma da outra - e sem conceber
f11bricar-111e; anfl>s de ser uma célula do meu fígado 011 do mc11 ainda o aprofund amento contemporâneo d essa tecnologia
s1111gue é uma célula de mim. É, pois, teoricamc11 tt• possíwl fabri- que torna possível a gerac;ão de seres idênticos, sem que nunca
a,r um indivíduo idêntico á mim á partir de uma delas.» (Profes- se possa fazer o retorno a um ser original. As próteses da e ra
sor A. Jacquard.) industrial são ainda externas, exotécnicas, as que conh ecemos
A clonagem é, pois, o último estádio da história da mcxfo- ramificaram-se e interiorizaram-se: esotécnicas. Estamos n a era
lização d o corpo, o estádio em que , reduz ido à sua fórmula das k•cnologias moles, software genético e mental.
abstracta e genética, o ind ivíd uo está votado à desmul- Enq uanto que as próteses da velha idade de ou ro indus-
tiplicação serial Seria necessário retomar aqui o que Walter trial e ram mecânicas, ainda faziam o retorno sob re o corpo
Benjamin dizia sob re a obra de arte na era da s ua reprodu ti- para lhes modificar a imagem - elas próprias, reversivel-
bilidade técnica. O que se perde na obra serialmente repro~ mente, eram metabolizadas no imaginário, e este metabolismo
<luzida éa sua aura, essa qualidade sing ular do aqui e agora, tecnológico fazia também parte d a imagem do corpo. Mas
a sua forma esté tica (ela já perdeu anteriormente, na sua quand o se atinge um ponto de não retomo (dead-line) na simu-
qualid ade estética, a sua forma ritual) e adquire, segundo lação, isto é, quando a prótese se ap rofunda, se interioriza, se
Benjamin, no seu destino inelutável d e reprodução, uma infiltra no coração anónimo e m icromolecular do corpo,
forma polí'lica. O que se perdeu é o o rig inal, que só uma quando se impõe ao próprio corpo como modelo «original)),
história, ela própria nostálgica e retrospectiva, pode queimando todos os circuitos simbólicos ulteriores, n ão sendo
reconstituir como «autêntica ». A forma mais avançada, a todo o corpo possível mais que a s ua repetição imutável,
mais moderna deste desenro lar e que ele descrevia no cinema, então é o fim do corpo, da s ua h istória e das suas peripécias.
na foto grafia e nos mass media contemporâneos é a forma em O indivíd u o não é mais que uma metástase cancerosa da sua
130 Simulacros e Simulm;do Jean Btmdriflard 1.11

fórmula de base. Serão os indivíduos saídos da clonagern do no bronzeamento por intervenção na fórmula gL'tH'lii·,1
indivíduo X outra coisa que uma metástase cancerosa - (estádio incomparavelmente mais avançado, mas prl11t•~,·
proliferação de uma mesma célula, tal como o podemos ver ainda assim: simplesmente ela é definitivamente integr;1d.i,
no cancro? Existe uma relação estr e ita entre a ideia directora já nem passa pela superfície, nem pelos orifícios do corpo),
do código genético e a pato logia do cancro: o código designa passa-se por corpos diferentes. A prótese tradicional, (!Ul'
o mais pequeno elemento simples, a fórmula mínima à qual serve para refazer um órgão defeítuoso, não muda nada ao
pode reduzir-se o individuo inteiro e de tal modo que não modelo geral do corpo. As transplantações de órgãos são
pode senão reproduzir-se idên tico a si próprio. O cancro ainda desta categoria. Mas que dizer da modelização mental
designa a proliferação al'é ao infinito de uma célula de base pelos psicotrópicos e as drogas? É a cena do corpo que assim
sem consideração das leis orgânicas do conjunto. O mesmo é modificada. O corpo psirotrópico é um corpo modelizado
se paSSil com a clonagem: já nada se opõe à recondução do «do interior», sem passar já pelo espaço perspectivo da
Mesmo, à proliferação desenfreada de uma só matriz. Outrora representação, do espelho e do discurso. Corpo silencioso,
a reprodução sexuada ainda se opunha; hoje pode enfim mental, já molecu lar (e já não especular), corpo metabolizado
isolar-se a matriz genética da identidade, e vão poder elimi- directamente, sem intermédio do acto ou do olhar, corpo
nar-se todas as peripécias diferenciais que faziam o encanto imanente, sem alteridade, sem encenação, sem transcendên-
aleatório dos indivíduos. cia, corpo votado aos metabolismos implosivos dos fluxos
Se todas as células são inicialmente concebidas como cerebrais, endócrinos, corpo sensorial, mas não sensível,
receptácuJo de uma mesma fórmula genética, que outra coisa porque ligado aos seus únicos tenninais internos, e não sobre
serão - não somente todos os indivíduos idênticos, mas objectos de percepção (por isso é que se pode encerrá-lo
todas as células de um mesmo indivíduo - senão a extensão numa sensorialidade (<branca», nula, basta desligá-lo das suas
cancerosa desta fórmula de base? A metástase começada próprias extremidades sensoriais, sem tocar no mundo que o
com os objectos industriais acaba na organização celular. É rodeia), corpo já homogéneo, neste estádio de plasticidade
inútil perguntarmo-nos se o cancro é uma doença da era táctil, de maleabilidade mental, d e psicotropismo em todas
capitalista. É, com efeito, a doença que comanda toda a pato- as direcções, já próximo da manipulação nuclear e genética,
logia contemporânea, porque é a própria forma da virulência isto é, da perda absoluta da imagem, corpos sem representa-
do código: redundância exacerbada dos mesmos sinais, ção possível, nem para os outros nem para si próprios, corpos
redundância exacerbada das mesmas células. enucleados do seu ser e do seu sentido por transfiguração
A cena do corpo muda ao longo de uma «progressão» numa fórmula genética ou por enfeudamento bioquímico:.
tecnológica irreversível: do bronzeamento pelo sol, que ponto de não retorno, apoteose de uma tecnologia que se
corresponde já a um uso artificial do meio natural, isto é, a tornou ela própria intersticial e molecular.
fazer deste uma prótese do corpo (tornando-se ele próprio
corpo simulado, mas onde está a verdade do corpo?) - ao
NOTA
bronzeamento doméstico pela lâmpada de iodo (ainda uma
boa velha técnica mecânica) - ao bronzeamento pela pílula Hd que ter em conta que a proliferação canceroso é também uma
e as hormonas (prótese química e ingerida) - e para acabar desobeditncia silenciosa às imposições do c6digo genético. O cancro, ~·
132 Simulacros e Simulação

está na l6gica de uma visão molecular injornuflica dos seres vioos, t


também a sua t xcrescb1cia morntruosa e a sua nega<;lfo, porque conduz
Hologramas
à de$infonnaç4o total e à desagregaçdo. Patologia (,lrroolucio,ufrin,. de
desprendimento orgdnico, diria Richard Pinhns, i11: Fictions («Notes
syt1optiqmts à propos d'un mal mystérieux»). Detfrio entrópico dos
organismos, resistente a 11eguentropia dos sistemas informacio11ais. (É a
mesma conjuntura que a das massas em face das formações sociais
estruturadas: as massas são elas tamblm metdstases cancerosas para além
de toda a organicidade socilll.)
A ambiguidade i a mesma para a clonagem: é ao mesmo tempo o
triunfo de 11,na hip6test directora, a do c6digo e da informaçdo genética,
e uma distorção u cbztriaJ que lhe destrói a coerência. É, aliás, provdvel
(mas isto fica para uma história futura} que mesmo o «gémeo clónico»
n11nca será idi nlicoaoseu genitor, nunca será o mesmo, J,Or mais nifoseja
porque haverd outro a11tes. Nunca suá «tal como em si pr6prio o código É a fantasia de captar a realidade ao vivo que continua
gen8ico o terd mudado». Milhares de interferbtcias farão dele, apesar de - desde Narciso debruçado sobre a sua fonte. Surpreender
tudo, um ser diferente, que tertf exactamente os olhos azuis do pai, o que o real a fim de o imobilizar, suspender o real no mesmo
nlfo t novo. E a experimentação cl611ica terd lido pelo menos a v,mtagem
de demo11strar a impossibilidade mdical de dominar 11111 processo pelo momento que o seu duplo. Debruça mo-nos sobre o holograma
simples dom(nio da i11forn1açdo e tio código. como Oéus sobre a sua criatura: só Deus tem esse poder de
passar através das paredes, através dos seres, e de se reencon-
trar imaterialmente para além deles. Sonhamos passar através
de nós próprios e reencontrarmo-nos para além de nós
próprios: no dia em que o nosso duplo holográfico estiver lá
no espaço, eventualmente mexendo-se e falando, teremos
realizado este milagre. Claro que já não será um sonho, logo
o seu encanto ter-se-á perdido.
O estúdio de televisão transforma-nos em personagens
holográficas: tem-se a impressão de ser materializado no
espaço pela luz dos projectores, como personagens translú-
cidas que a massa atravessa (a massa dos milhões de teles-
pectadores) exactamente como a vossa mão real atravessa o
holograma irreal sem resistência - mas não sem consequên-
cia: passar-se para o holograma tornou-a, também a ela, irreal.
A alucinação é total e verdadeiramente fascinante quando
o holograma é projectado para a frente da placa, de tal mod11
que nada vos separa dele (senão o efeito continua a ser foh 1
134 Simulacros e SimulnçlW Jean &wdrillard f.l'i

gráfico ou cinematográfico). É também a característica do o lado do duplo. Se o universo é, segundo Mach, aquilo d,·
trompe l'oeil, por contraste com a pintura: em vez de um que não há duplo, de que não há equivalente no espt•lho,
campo de fuga para o olho, estamos numa profundidade então estamos já, com o holograma, virtualmente num outro
inverti~a, que nos transforma a nós próprios em ponto de universo; que não é mais que o equivalente em espelho dcsh•
fuga ... E preciso que o relevo nos salte à vista como no caso universo. Mas qual é este universo?
do vagão de eléctrico e do jogo de xadrez. Dito isto, resta O holograma, aquele com que já todos sonhámos (ma!'-
saber que tipo de objectos ou de formas serão «hologénicos)), estes não são mais que pobres imitações imperfeitas) dá-nos
pois o holograma tem tão pouco a vocação de produzir a emoção, a vertigem de passar para o outro lado do nosso
cinema tridimensional como o cinema tinha a de prlKluzir próprio corpo, para o lado do duplo, clone luminoso ou
teatro ou a fotografia de retomar os conteúdos da pintura. gémeo morto que nunca nasceu em vez de nós e que olha
No holograma é a aura imaginária do duplo que é, como por nós por antecipação.
na história dos clones, perseguida sem piedade. A semelhança
é um sonho e deve continuar a sê•lo, para que possa existir a O holograma, imagem perfeita e fim do imaginário. Ou
ilusão mínima e uma cena do imaginário. Nunca se deve antes, já não é de todo uma imagem - o verdadeiro medium
passar para o lado do real, para o lado da exacta semelhança é o laser, luz concentrada, quinta-essenciada, que já não é
do mundo consigo próprio, do sujeito consigo próprio. Pois uma luz visível ou reflexiva, mas uma luz abstracta e de
então a imagem desaparece. Nunca se deve passar para o simulação. Laser /escalpe lo. Cirurgia luminosa cuja operação
lado do duplo, pois então a relação dual desaparece, e com é aqui a do duplo: é-se operado ao duplo como se seria ope-
ela toda a sedução: Ora, com o holograma, como com o clone, rado a um tumor. Ele, que se escondia no fundo de nós (do
é a tentação inversa, e o fascínio inverso, do fim da ilusão, nosso corpo, do nosso inconsciente?) e cuja forma secreta
da cena, do segredo, por projecçào materializada de toda a alimentava preci5,1mente o nosso imaginário, com a condição
informação disponível sobre o sujeito, por transparência de permanecer secreta, é extraído por laser, {: sintetizado e
materializada. materializado à nossa frente, tal como nos é possível passar
Depois da fantasia de ver-se (o espelho, a foto) vem a de através e para além dele. Momento histórico: o holograma
poder dar a volta a si próprio, enfim e sobretud o a de se faz parte, a partir de agora, desse «conforto inconsciente»
atravessar, de passar através do seu próprio corpo espectral que é o nosso destino, dessa felicidade a partir de agora
- e qualquer objecto holografado é em primeiro lugar o votada ao simulacro mental e à magia ambiental dos efeitos
ectoplasma luminoso do próprio corpo. Mas isto é de alguma especiais. (O social, a fantasmagoria social, já não é ela própria
maneira o fim da estética e o triu.nfo do medimn, exactamente mais q ue um efeito especial, obtido pelo design dos feixes de
como na estereofonia que, nos seus confins sofisticados, põe participação convergentes no vácuo para a imagem espt.~tral
exactamente fim ao encanto e à inteligência da música. da felicidade colectiva.)
O holograma não tem precisamente a inteligência do
!rompe l'oeil, que é a da sedução, de proceder sempre, segundo Tridimensionalidade do simulacro - por que é que o
a regra das aparências, por ilusão e elipse da presença. Ele simulacro a três dimensões estaria mais próximo do real que
espalha-se, pelo contrário, no fascínio, que é o de passar para o simulacro a duas dimensões? Ele pretende-se como tal,
136 Simulacros e Simulação Jean BaudriUard 1.17

mas o seu efeito, paradoxal, é, inversamente, o de nos tornar passa do outro lado da verdade, não no que seria íalsc.•, UMS
sensível a quarta dimensão como verdade oculta, dimensão no que é mais verdadeiro que o verdadeiro, mais renl lllll'
secreta de todas as coisas, que assume de repente a força da real? Certamente efeitos insólitos e sacrílegos bem mais
evidência. Quanto mais nos aproximamos da perfeição do destruidores para a ordem da verdade que a sua pura nc~a-
simulacro (e isto é verdade para os objectos, mas igua lmente ção. Poder silencioso e homicida da potencialização do ver-
para as figuras de arte o u para os modelos de relações sociais dadeiro, da potencialização do real. Talvez fosse por isso que
o u psicológicas) mais a paret"c à evidência (ou antes ao génio os gémeos eram deificados, e sacrificados, cm mais de uma
maligno da incredulidade que nos habita, ainda mais maligno cultura selvagem: a hipe:rsemelhança equivalia a ·um assassí-
que o génio maligno da simulação) por que é que todas as nio do original, e, portanto, a um puro não-sentido. Qualquer
coisas escapam à representação, escapam ao seu próprio classificação ou significado, qualquer modalidade de sentido
duplo e à s ua semelhança. Em resumo, não existe real: a ter- pode ser assim destruída por simp les elevação lógica à
ceira dimensão não é mais que o imaginário de um mundo a potência X - levada ao limite, é como se uma verdade
duas dimensões... Escalada na produção de um rea l cada vez quéllquer engolist>e o seu próprio critério de verdade como
mais real por ad ição de dimensões sucessivas. Mas exaltação se i,cngolc a certidão de nascimento» e perdesse todo o seu
por conscqu~ncia do movimento inverso: só é verdadeiro, só sentido: assim o peso da terra, ou do universo, pode ser
é verdadeiramente sedutor o que joga com uma dimensão a eventualmente calculado em termos exactos, mas parece
menos. imediatamente absurdo, porque já não tem referência, já não
De qualquer modo, esta corrida ao real e à alucinação tem espelho onde venha reflectir-se esta totalização, que
realista não tem saída pois, quando um objecto é cxactame1\l'c equivale muito bem às de todas as dimensões do real no seu
semelhante a outro., m1o o é exnctamerite, é-o 1m1 pouco mais. duplo hiper-real, ou à de toda a informação sobre um indiví-
Nunca há semelhança, como não há cxactidão. O que é exacto duo no seu duplo genético (clone), o torna imediatamente
é ~í demasiado exacto, só é exacto o que se aproxima da verdade patafísico. O próprio universo, tomado globalmente, é aquilo
sem o pretender. É um pouco da mesma categoria paradoxal de que não há representação possível, de que não há com-
que a fórmula que diz que quando duas bolas de bilhar plemento em espelho possível, de que não há equivalência
rolam uma em direcção à outra a primeira toca a outra antes em sentido (é tão absurdo dar-lhe um sentido, um peso de
da segunda, ou então: uma toca a outra antes de ser tocada. sentido, como dar-lhe um peso simplesmente). O sentido, a
O que indica que nem sequer existe simultaneidade possível verdade, o real só podem aparecer localmente, no horizonte
na ordem do tempo e, da mesma maneira, não existe restrito, são objcctos parciais de espelho e de equivalência.
semelhança possível na ordem das figu ras. Nada se parece e Toda a reduplicação, toda a generalização, toda a passagem
a reprodução holográfica, como toda a veleidade de síntese até ao limite, toda a extensão holográfica (veleidade de dar
ou de ressurreição exact"a do real (isto é válido mesmo para exaustivamente cont.'.'I do universo) fá-los surgir na sua irrisão.
a experimentação científica), já não é real, é já lriper-renl. Não Vistos sob este ângulo, mesmo as ciências exactas se
tem, pois, nunca valor de reprodução (de verdade), mas aproximam perigosamente da pata física. Pois elas t~m algu-
sempre já de simulação. Não exacta, mas de uma verdade res a ver com o holograma e com a veleidade objectivista de
ultrapassada, isto é, já do outro lado da verdade. Que se desconstrução e de reconstrução exacta do mundo, nos seus
138 Simulncros e Simulação

pormenores, baseada numa fé: tenaz e ingénua num pacto de Crash


semelhança das coisas consigo próprias. O real, o objecto
real é suposto ser igual a si pró prio, é s uposto parecer-se
como um rosto a si próprio no espelho - e esta semelhança
virtual é com efeito a única definição do real - e todas as
tentativas, entre as quais a holográfica, que se apoiam nela,
não pode m deixar d e e rrar o seu objecto, porque não têm
em conta a sua scmbra (e é por isso precisamente q ue não se
parece consigo próprio), essa face escondida onde o objccto
se a.funda, do seu segredo. Ela salta literalmente sobre a sua
sombra, e mergulha, para aí se perder ela própria, na trans-
parêncía.

Na perspc.>etiva clássica (mesmo cibernética), a tecnologia


é um prolongamento do corpo. É a soíistica~ão funcion al de
um organismo humano, que lhe permite igualar-se à natureza
e invt.'Stir contra ela triunfalmente. De Marx a Macluhan, a
mesma visão instrumen talista das máquinas e da linguagem:
são intermediários, prolongamentos, media-mediadort.-'S de
uma natureza idealmente destinada a tornar-se o corpo orgâ-
nico do homem. Nesta perspectiva «racional», o próprio corpo
é apenas um medi11m.
Inversamente, na vcrs.i.o barroca e apocalíptica de Crasli m,
a técnica é desconstrução mortal do corpo - já não medium
funcional, mas e xte ns.:;o de morte - desmembramento e
fragmentação, não na ilusão pejorativa de uma unidade
perdida do sujeito (que é ainda o horizonte da psicanálise),
mas na visão explosiva de um corpo entregue às ~<feridas
simbólicas», de um corpo confundido com a tecnolog ia na
sua dimensão de violação e de violência, na cirurgia selvagem
e contínua que ela exerce: incisões, exc.is&.-"S, escarificações,
caracteres do corpo, cuja chaga e gozo «sexuais» não são

1. J. G. Ballard, CrasJr, Paris, Calmann-Lévy, 1974.


140 Sim11Iacros t Silrmlaçâo Jean &udril/ard 141

senão um caso particular (e a servidão maquinal no trabalho, nossa), todo o corpo se toma signo para se oferecer:, lrrn.·,1
a caricatura pacificada) - um corpo sem órgãos nem gozo dos signos do corpo. Corpo e técnica difractando um .1tr,1v~··~
de órgão, inteiramente submetido à marca, ao corte, à cicah"iz da outra os seus signos enlouquecidos. Abstracção 1.:arn,11 t'
técn ica - sob o signo resplandecente de uma sexualidade design.
sem referencial e sem limites. Não existe afecto por detrás de tudo isto, não cxistt•
psicologia, nem fluxo, nem desejo, nem libido, nem puh:.i<,
A :ma morte e n sua mutilação metamorfoseavam-se por de morte. A morte ~ tá natu ralmente implicada numa explo-
obra e xraça de uma tecnologia fragmentada numa celebração ração sem lim ite da violência possível feita ao corpo, mas
de cada um dos seus membros e das perspectivas do seu rost(>, isto nunca é, como no sadismo ou no masoquismo, um objec-
dd grão da s11a pele e das suas atit11des... Cada um dos espec- tivo expresso e perverso da violência, uma distorção de sen-
tadon.-s no teatro da colisão levaria a imagem de uma violen tn tido e de sexo (em relação a quê?). Não existe inconscíente
tra11sfig11mçiio desta mulher, de uma rede de fe ridas onde a sua recakado (afectos ou representações), senão numa segunda
saualidade e a ciência dura do autom6vel se entrelaçariam. No leitura que reinjectaria, ainda aí, sentido forçado, no modelo
se14 próprio carro, cada um flfJlicaria as suas fantasias sobre as psicanalítico. O não-sentido, a selvajaria desta mistura do
chagas da vedeta; cada um acariciaria as suas tenras muc:osas e corpo e da técnica está imanente:, é reversão imediata de uma
as suas carnes ertcteis, enquanto adaptariam para conduzir na outra, e disto resulta uma sexualidade sem antecedentes
uma misceMnea de atitudes estilizadas. Cada um pousaria os - espécie de vertigem potencial lígada à 11,scrição pura de
seus lábios sobre ns fendas ensanguentadas, 1... / apertaria as signos nulos deste corpo. Ritual simbólico de incisões e de
pálpebras contra os tendões desfeitos do i11dicador, esfregaria o marcas, como nos graffiti do metro de Nova Iorque.
fio da sua verga nas paredes herniadas da vagina. O acidente da O utro ponto comum: em Crnsl, não se trata de signos
t.'Slrada finhn fi11almen.te tornado poss(vel a re11níão tão esperada acidentais que apenas pertenceriam às margens do sistema.
da vedeta e do pliblico. (Pág. 215.) O Acidente já n.ci.o é esse bricolage intersticial que é ainda no
acidente da estrada - bricolage residual da pulsão de morte
A técnica nunca é captada senão no acidente (de automó- para as novas classes de tempos livres. O carro não é o
vel), isto é, na violência feita a si própria e na violência feita apênd ice de um universo doméstico imóvel, já não há
ao corpo. É a mesma: todo o choque, todo o encontrão, todo universo privado e doméstico, existem apenas as figuras
o impacte, toda a metalurgia do acidente se lê numa semiurgia incessantes da ci rculação, e o Acidente está cm toda a parte,
do corpo - não uma anatomia ou uma fisiologia, mas uma figura elementar, irreversível, banalidade da anomalia da
semiurgia de contusões, de cicatrizes, de mutila<:ões, de morte. Já não está à margem, está no coração. Já não é a
feridas que são outros tantos sexos novos abertos no corpo. excepção de uma racionalidade triunfal, tomou-se a Regra,
Assim se opõe à compilação do corpo como força de trabalho devorou a Regra. Já nem sequer é a «parte maldita», a q ue
na ordem da produ<:ão a dispersão do corpo como anagrama é concedida ao destino pelo próprio sistema, e incluída no
na ordem da mutilação. Acabaram as «zonas erógenas»: tudo seu cálculo geral. Tudo está invertido. E o Acidente que d;\
se toma buraco para se oferecer à descarga reflexa. Mas forma à vida, é ele, insensato, que é o sexo da vida. E o
sobretudo (como na tortura iniciática primitiva, que nào é a automóvel, a esfera magnética do automóvel, que acaba por
142 Simulacros e Simulação Jean Baudrillar,I ,.u

investir o universo inteiro com os seus túneis, as suas auto- por eixos de direcção, por pôra-brisas (durante a t'jcn,:110L.
--estradas, os seus toboggans, os seus permutadores, do seu Fotos de vergas mutiladas, de vulvas entalhadas e de tcstí,·11/os
habitáculo móvel como protótipo universa l, é apenas a sua esmagados desfila,1do sob os meus oll,os no clarão da luz au,1
imensa metáfora. do 11éo11 ... Vários destes documentos eram completados I'º'
Já não há disfunc:;ão possível num universo do acidente uma reprodução em grande pla,10 do elemento mecânico 1111
- logo, também já não há perversão. O Acidente, como a ornamental que tinha causado a ferida . A fotografia de 1111111
morte, já não pertence à categoria do neurótico, do recai• verga rasgada em dois era acom1Jt1111inda por um separador
cado, do resíduo ou da transgressão, é iniciador de uma represe,itando ""' travão de mão. Por cima de um grande plano
nova maneira de gozo «não perverson (contra o próprio de v11IM esma:~ada via-se a imagem de um centro de volante
autor, que fala em introdução de uma nova lógica perversa, decorado com o emblema do construtor. Estes encontros de
é preciso resistir à tentação moral de ler Crash como perver• sexos desfeitos e de secções de caixa 011 de painéis de bordo
são), de uma organização estratég ica da vida a partir da formavam perturbadores m6d11los, as ,midades monetárias de
morte. Morte, feridas, mutilações, já não são metáfor<1s da uma circulação nova da dor e do desejo. (Pág. 155.)
castração, exactamente o contrário- nem sequer o contrário.
Só é perversa a metáfora fetichista, a sedução por modelo, Cada marca, cada traço, cada cicatriz deixada ~bre o
por interposto fetiche, ou pelo medium da li nguagem. Aqui, corpo é como uma invaginação artificial, tal como as esca-
a morte e o sexo S<'io lidos no próprio corpo, sem fantasia, rifica~ dos selvagens, as quais são sempre uma resposta
sem metáfora, sem frase - ao contrário da Máquina d'A veemente à ausência de corpo. Só o corpo ferido simbolica-
Col6nia Penitenciária, onde o corpo, nas suas chagas, não é mente existe - para si e para os outros-o «desejo» ••sexual»
ainda mais que suporte de uma inscrição textual. Também nunca é senão esta possibilidade que os corpos têm de mis-
uma, a máquina de Kafka, é aind a puritana, repressiva, «má- turar e de trocar os seus signos. Ora, os poucos orifícios
quina significante» diria Deleuze, enquanto que a tecnologia naturais aos quais se tem o costume de ligar o sexo e as
de Craslt é réSplandecentc, sedutora, ou baça e inocente. actividades sexuais não são nada ao lado de todas as feridas
Sedutora porque destituída de sentido, e simples espelho possíveis, de todos os orifícios artificiais (mas porquê «arti-
dos corpos desfeitos. E o corpo de Vaughan é por sua vez ficiaisn?), de todas as brechas por onde o corpo se reversibiliza
espelho dos cromados torcidos, dos pára--choques amolgados, e, como ceTtos espaços topológicos, já não conhece nem inte-
das chapas manchadas d e esperma. Corpo e tecnologia rior nem exterior. O sexo tal como nós o concebemos não é
misturados, seduzidos, inextricáveis. senão uma definição ínfima e especializada de todas as
práticas simbólicas e sacrificiais às q uais o corpo pode abrir-
Vnughan virou em direcção a uma área de estação de serviço -se, já. não pela natureza, mas pelo artifício, pelo simulacro,
cujo reclamo a néon projectou um breve clarão escarlate sobre pelo acidente. O sexo é apenas a rarefacção de uma pui.S<'io
essas fotos de emaranl1ados de feri.das assustadoras: seios de chamada desejo sobre wnas preparadas antecipadamente.
adolescentes deformados pelo painel de bordo, ablações parciais Ele foi largamente ultrapassado pelo leque de feridas sim-
de seio... mamilos seccionados pela sigla de um construtor bólicas, que é de certo modo a anagramatização do sexo em
ornamenta,ido um quadro de bordo, feridas genitais causadas toda a extensão do corpo - mas então justamente já não é o
144 Simulacros e Sim11laçifo /em, Ba11drilltmi ,.,...
sexo, é outra coisa, o sexo, esse, não é mais que a inscrição de Aqui, todos os termos eróticos são técnicos. N,1d.1 ,1,.
um significante privilegiado e de algumas marcas secundárias cu, de piça, de cona, mas: o ânus, o rec:to, a vulva, a v,-,.,~.i.
- nada comparado com a troca d e todos os signos e ferid as o coito, etc. Nada de calão, isto é, nada de intimid.id,••,
de que o corpo é capaz. Os selvagens sabiam usar para este da violência sexual, mas uma língua funcional: ,ult·
fim todo o corpo, com a tatuagem, o suplício, a iniciação - quação do cromado e das mucosas como de uma for111,1
a sexualidade era apenas uma das metáforas possí\•eis da ., outra. O mesmo para a coincidência da morte e d1,
troca simbólica, nem a mais s ignificativa, nem a mais p resti- sexo: são mais envolvidos ambos numa espécie de supt.·r-
giada - como se tomou para nós na sua referência realista e -d,•t:is11 técnico q ue articulados segundo o gozo. Dl'
obsessional, à força de acepção orgânica e funcional (inclu- resto, não se trata de gozo, mas de descarga pura e s imples.
sivamente no gozo). E o coito e o esperma que atravessam o livro não têm
mais valor sensual que a filigrana das feridas tem sentido
Enq1mnto rolávamos pela primeira vez a 11115 40 km/lwra, violento, mL-smo mctaiórico. São apenas assinaturas - na
Vaugilan retirou os dedos dos orifícios da rapariga e, girando ccn11 final, X rubrica com o seu esperma os destroços de
sobre as ancas, penetro11-i1. As luzes dos carros que seguiam carros.
pelo toboggan brilhavam d nossa. frente. No retrovi~r e~t O gozo (perverso ou não) sempre foi mediatizado por
contirmava a ver Vaughan ea rapnr,ga. Os seus corpos, tlrm11- um aparelho técnico, por uma mecânica, de objectos reais
nados pelos projectores do carro que nos seguia, reflectiam-se mas mais fn., 1uentcmente de fantasias - implica sempre
sobre a mala preta do Lincoln e nos diversos cromados do uma manipulação intermediária de cenas ou degndgets. Aqui,
interior. A imagem do seio esquerdo da rapariga, com o mamilo o gozo não é senão orgasmo, isto é, confundido sobre o
erecto, ondulava sobre o cinzeiro. Segmentos tleformados das mesmo comprimento de ondas com a violência do a parelho
coxas de Vauglum compunham com o ventre da sua parceira técnico, e homogeneizado apenas pela técnica, e esta resumida
uma wriosa figura anatómica sobre o espellto retrovisor. num só objeclo: o automóvel.
Vaughan instalou a rapariga escarranchada ao seu colo, e de
novo a sua verga a penetrou. O seu acto sexual reflectia-se Estávamos presos ,mm enorme wgarrafamento. O
n1m1 triplico sobre os marcadores luminosos do contador ~e cruzamento da auto-estrada e da Westem Avenue até tl
velocidade, do relógio e do contador de voltas ... O carro 5eR"'ª rnmpa ascendente do toboggan, todas as vias estlluam obs-
a 80 km/hora o declive do toboggan. Vauglum arqueava os trutdns com veículos. Os pdra-brisns reflectiam os clarões
ri,1s e expunha o corpo da rapariga ao brilho das luzes atrás de incertos do Sol que descia para nlém dos bairros n oeste de
116s. Os seios pontiagudos luziam na gaiola de vidro e de Lomlres. Os semáforos acendiam-se 110 ar da noite como
cromados do carro que ganhava vilocidade. As violentas fogos numa imensa pl,mície de corpos celulósicos. Vmlglum
convulsões pélvicas de Vauglzan coincidiam com os flashes tinha pnssndo 11111 braço pela porta e tamborilava impa-
luminosos das 16mpadas ancoradas de cem em cem metros ua cie11tt'111c11tc no painel. A alta muralha de 11111 autocarro de
beira da estrada ... A sua verga mergulhava na vagina, as suas dois andnr<.'S à 1wssn direita dnva-nos a impressão de uma
mãos afastavam as nádegas e revelavam o 6nus à claridade que falésia de rostos. Os passageiros que 110s olliavam por detrá~
enchia o l,abitdculo. (Pdg. 164J dos vidros evocavam os nlinllamentos de mortos de 11111
146 Simulflcros e Simulaçilo /ean &mdritlard '/47

colombarium "'. Toda a incrível energia do século XX, s11ficiente perverso. A película cinematográfica (como a música tran~is·
JXlra nos catapultar em órbita à volta de mn astro mais clemente, torizada nos automóveis e nos apartamentos) faz parte d,1
cmisumia-se para manter este êxtase. universal. (Pág. 173.) película universal, hiper-real, metalizada e corporal, da cir·
À minha volta, a todo o comprimento da Western AVt•m,r, culação e dos seus fluxos. A foto não é mais um medium que
em todos os corredores do toboggan, o imenso e11garrafame11to a técnica ou o corpo - todos são simultâneos, num universo
provocado pelo acidenteeste,idia-se até perder de vista. E eu, de onde a antecipação do acontecimento coincide com a sua
pé no coração desse ciclone gelado, se11tia-me completamenh' reprodução, e até com a sua produção «real», Também já não
sereno, como se por fim me tivessem aliviado de todas as min1ws há profundidade do tempo - tal como o passado, o futuro
obsessões relativamente n estes vefcu los que proliferam sem deixa, por sua vez, de existir. De facto, foi o olho da câma ra
fim . (l'dg. 178.) que se substituiu ao tempo, assim como a toda e qualquer
profundidade, a do afccto, do espaço, da linguagem. Ele não
Contudo, cm Crash, uma o u tra dimensão é insepará vel é outra dimensão, significa simplesmente que este universo
das outras, confu ndidas, da tecnologia e do sexo (reunidas não tem segn.-<lvs.
num trabalho d e morte que nunca é um traó.alho de luto):
é a da fotografia e do cinema. A superfície brilhante e satu· O manequim eslava bem seguro por um calço, inclinado
rada da circulação e do acidente não tem profundidade, mas para trás, com o queixo erguido pelo afl11xo de ar. As suas mãos
reduplica-se sempre na objectiva da câmara de Vcm ghan. Ele estaoom ligadas aos comandos do engenho como as de um
armazena e entesoura como fichas sinaléticas as fotos de kamikaze, o seu torso estava coberto de aparelhos de medida.
acidentes. A repetição geral do acontecimento crucial que Em frente, tão impass(veis como ele, os quatro manequins - a
fomenta (a sua morte automóvel e a morte simultânea da famt1ia - esperavam dentro do carro. Os seus rostos estavam
vedeta num choque com Elisabeth Taylor, choque meticulo• pintados com signos esotéricos.
sarnente simulado e aperfeiçoado d urante meses) faz.se por Um eslalido de chicote surpreendeu os ,iossos ouvidos: os
ocasião de uma filmagem cinematográfica. fü;tji> universo cabos de medida desenrolavnm•se, palinavam na erva ao lado
não seria nada sem este desprendimento hiper-realista. Só dos carris, Numa explosão metálica, a moto bateu contra a
a reduplicação, só o desdobramento do medimn visual no parte da frente do carro. Os dois engenhos foram disparados
segundo grau pode operar a fusão da tecnologi~, do sexo e para a primeira fila dos espectadores petrificados. Moto e piloto
da morte. Mas de facto, a foto não é aqui um medw.m, nem da VQflram sobre a capota esbofeleando o pára•brisas, depois foram
ordem da representação. Não se trata de uma abstracção dançar sobre o teclo, massa negra estilhaçada. O carro recuou
oesuplementar» da imagem, nem de uma compulsão espec- três melros sobre o taipal, terminando a corrida alravessado
tacular, e a posiçlo de Vaughan nunca é a do ooyeur ou do sobre os cnrris. A capota, o pára•brisas e o tedo tinham ficado
metidos para dentro. No interior, os membros da famflia tinham
sido atirados em corzfusiio uns sobre os outros. O torso seccionado
~ Dcturpaçao da palavra latina colwnbarium, que d('Signa túmulos da mulher jorraVi'I do pára•brisas estilhaçado... Os tapetes de
colectivos para pessoas modestas e que eram constituídos por amplos estilhaços de vidro em volta do carro estavam constelados de
quartos. (N. da 'f.) aparas de fibra de vidro arrancadas ao rosto e aos ombros do
148 Simulacros I! Sim11laç1Io /e(m Bmulrillard /:19

manequim, como neve prateada ou confetti macabros. Hélene este mundo cromá tico e metálico intenso, mas vazio de :-:l·n-
tomou-me o braço, como se faz para ajudar uma critmça a sualidade, hipert&nico sem finalidade - é bom ou nmu?
vencer um bloqueio mental. «Podemos rever tudo sobre o sis- Nunca o saberemos ao certo. Ele é simplesmente fascinantt•,
tema Ampex. Eles vão voltar a passar o acidente ao retarda- sem q u e este fasdnio implique um juízo de valor. Reside aí
dor.• (Pág. 145./ o milagre d e Crnslr. Em parte alguma aflora esse olhar moral,
o julgamento crítico que ainda faz parte da funcionalidade
Em Crnsli tudo é hipcrfuncional, porque a circulação e o do vdho mundo. Crash é hipercrítico (aí também contra o
acide nte, a técnica e a mo rte, o sexo e a simulação s.io com o seu autor que, na introdução, fala de «função premonitória,
uma só grande máquina síncrona. É o mesmo universo que de pôr•se de sobreaviso contra esse mundo brutal com darões
o hipermercado, onde a mercadoria se toma «hipcrmcrcado- gritantes que nos solicita d e forma cada vez mais imperativa
ria», isto é, sempre já tomada ela também, e todo o ambiente à_margc':1 da paisagem tecnológica»). Poucos livros, poucos
com ela, nas figuras incessantes da circulação. Mas ao mesmo filmes atmgem esta resolução de toda a finalidade ou nega-
tempo, o funcionalismo de Crnsh devora a sua própria racio- tividade crítica, este esplendor baço da banalidade ou da
nalidade , porque já não conhece a disfunção. É um funcio- violência. Naslwilte, Laranja Mecd11ica.
nalismo radical, que atinge os seus limites paradoxais e os Depois de Burges, mas noutro registo, Crash é o primeiro
queima. Volta a ser de repente um objecto indefinível, logo grande romance do universo da simulação, aquele com que
apaixonante. Nem bom nem mau: ambivalentc. Como a morte todos teremos d e nos haver a partir de agora - universo
ou a moda, ele volta a ser de repente um objecto de través, assimbólico mas que, por uma espécie de voltar do avesso
enqmmto que o bom velho funcionalismo, mesmo centro• da sua substância maS.<,•mediatizada (néon, betão, carro,
verso, já não o é de todo - is to é, uma via que conduz mais me-cânica erótica), aparece como se fosse percorrido por uma
depressa que o grande c.:1 minho, ou conduzindo aonde o intens.""I força iniciática.
grande caminho não conduz ou, melhor aind a, e para paro-
diar Littré num modo patafísico, «uma via q u e não conduz a A 1iltima amlmli1ncia t1ft1stou•~ com um uivo de sirenas.
parte alguma, mas que leva aí mais depressa que as outras». As peSS{){ls voltaram para os seus carros. Uma adolescente em
É isso que distingue Cras!J de toda a ficção científica ou jeans 11ltrapasso1H1os. O rapaz que a acompanhava tiuha pas-
quase, que ainda gira, a maior parte do lempo, à volta do sado um braço à volta da sua ciritura e acariciava•ll1e o seio
velho par função/disfunção, o projecta no futuro segundo as dirt:ito, l'S/regando as falanges contra o mamilo. Os dois subiram
mesmas linhas de força e as mesmas finalidades que as d o para 11111 cabriolf cuja caixa pintada de amarelo estava coberta
universo normal. A ficção ultrapassa aí a realidade (ou o de autocolantes ... Um intenso aroma de sexualidade flutuava
110 ar. Éramos os membros de uma espécie de congregação
inverso), mas segundo a mesma regra do jogo. Em Crasli já
não existe ficção nem realidade, é a hiper·realidade que abole saindo do santuário depois de ter ouvido wn sermão que nos
as duas. Já nem mesmo há regressão crítica possível. Estl? convidava a entregaN10S, amigos e desconhecidos, a uma vasta
mundo mutante e comutante de simulação e de morte, este celebração sexual. Rolámos na noite para recriannos com os
mundo violentamente sexuado, mas sem desejo, cheio de parceiros mais inesperados o mistério da e11caristia sangrenta à
corpos violados e violentos, mas como que neutralizados, qual acabáramos de assistir. (J>ág. 179.)
Simul.ll'n•s
e ficção científi,·.1

Três categorias de simulacros:


- simulacros naturais, naturalistas, baseados na imagem,
na imitação e no fingimento, harmoniosos, o ptimistas e que
visam a n.>$tituição ou a instituição ideal de uma natureza à
imagem de Deus,
- s imu lacros prod utivos, produtivis tas, baseados na
energia, na força, na sua materialização pela máquina e em
todo o sistema da produção - objectivo prometia no de uma
mundialização e de urna expansão contínua, d e uma liber-
tação de energia inde finida (o desejo faz parte das utopias
relativas a esta calf..-goria d e simulacros),
- s imulacros de simulação, basead os na informação, no
modelo, no jogo cibernético - operacionalidade total, hiper-
-realidade, objectivo de controle to tal.
À primeira categoria corresponde o imagíná rio da ulOJ'ill.
À segunda a ficção cienl(fica propriamente d ita. À terceira ou--
responde- haverá ainda um imaginário que responda a t-sl,1
categoria? A resposta provável é que o bom velho imagin,í1·i1,
da ficção científica morreu e que a lg u ma outra coisa , ~t.í .,
surgir (e não só no romanesco, trun~m na teoria). Um n u •s1m,
destino de ílutuação e de indete rminação põe fim .) 1in ;,,1,
científica - mas ta mbém à teoria, como géneros espt·,·íl i1-.,·.
152 Si11111!11cros e Siw11lação Jean BnudrUlard 153

Não há real, não há imaginário senão a uma certa distân- operação tia gestão e da própria operaçdo do real: jtf 111in l11í
cia. Que acontece quando esta distância, inclusive a distância ficção.
entre o real e o imaginário, tende a abolir-se, a reabsorver-se A realidade poderia ultrapassar a ficção: seria o sinal m.iis
cm benefício exclusivo do modelo? Ora, de uma categoria de seguro de uma sobrevalorização possível do imaginário. Mas
simulacros a outra, a tendência é: bem a de uma reabsor<;âo o rea.l não poderia ultrapassar o modelo, do qual é apenas o
desta distância, deste desvio que dá lugar a uma projcc<;ão alibi.
ideal ou crítica: O imaginário era o alibi do real, num mundo dominado
- ela é máxima na utopia, onde se desenha uma csícra pelo princípio de realidade. Hoje em dia, é o real que se torna
transcendente, um universo radicalmente diferente (o sonho alibi do modelo, num universo regido pelo princípio de
romântico é ainda a sua fom1a individualizada, onde a tmns- simulação. E é paradoxalmente o real que se tornou a nossa
cendência se desenha em profundidade, até às estruturas verdadeira utopia - mas uma utopia que já não é da ordem
inconscientes, mas de qualquer modo a descolagem do do possível, aquela com que já não pode senão sonhar-se,
mundo real é máxima, é a ilha da utopia oposta ao conti- como um objecto perdido.
nentt! do real); Talvez que a ficção científica da era cibernética e hiper-
- ela reduz-se de maneira considerável na ficção cientí- ·real não possa senão esgotar-se na ressurreiç:lo «artificial»
fica: esta, o mais das vezes, não é senão uma projec(ão de mundos «históricos)>, tentar reconstituir in vitro, até aos
desmedida, mas não qualitativamente diferente, d o mundú mínimos detalhes, as peripécias de um mundo anterior, os
real da produção. Prolongamentos mecânicos ou energéti- acontecimentos, as personagens, as ideologias acabadas,
cos, as velocidades ou as potências passam à potência 11, mas esvaziadas do seu sentido, do seu processo original, mas
os esquemas e os cenários são os mesmos da mecânica, da a lucinantes de verdade retrospectiva. Assim acontece em
metalurgia, etc. I-lipóstase projectiva do robot. (No universo Simulacrcs de Ph. Dick, a Guerra da Secessão. Gigantc.-'SCO
limitado da era pré-industrial, a utopia optmha um universo holograma a três dimensões, onde a ficção nunca mais será
alternativo ideal. Ao universo potencialmente infinito d,1 um espelho estendid o ao futuro, mas realucinação deses-
produção,a ficção científica acrescenta a multiplicação das suas perada do passado.
próprias possibilidades); Já não podemos imaginar o utro u niverso: a graça da
- ela reabsorve-se totalmente na era implosiva dos transcendência foi-nos, também aí, tirada. A ficção científica
modelos. Os modelos já não constituem uma transcendên- clássica foi a de um universo em expansão, que encontrava
cia ou uma projecção, já não constituem um imaginário as suas vias nos relatos de exploração espacial, cúmplices
relativamente ao real, são eles próprios antecipação do das formas mais terrestres de exploração e de colonização
real, e não dão, pois, lugar a nenhum tipo de antecipação dos séculos XIX e XX. Não há aí relação de causa a efeito: não
íicdonal - são imanentes, e não criam, pois, nenhuma espé- é porque o espaço terrestre está hoje virtualmente codificado,
cie de transcendência imaginária. O campo aberto é o da cartografado, recenseado, saturado, se fechou de algum modo
simulação no sentido cibernético, isto é, o da manipulação ao mundi~lizar-~ - um mercado universal, não somente
em todos os sentidos destes modelos (cenários, realização das mercadorias, mas dos valores, dos signos, dos modelos,
de situações simuladas, e tc.) mas então nada distingue esta que já não dá lugar ao imaginário - não é exactament'e por
154 Sim11lacros ~ Simulação Jean Ba11drillard J,',.'i

isso que o universo exploratório {técnico, mental, cósmico) do vivido, de reinventar o real como ficção, precis.'lmt.'nk
da ficção científica deixou também ele de funcionar. Mas os porq ue ele desapareceu da nossa vida. Alucinação do rt.'nl,
dois estão estreitamente ligados, e são duas vertentes de um do vivido, do quotidiano, mas reconstituído, por vezes nté
mesmo processo geral de implosão que sucede ao gigantesco aos detalhes de uma inquietante estranheza, reconstituída
processo de explosão e de expansão característico dos séculos como reserva animal ou vegetal, dada a ver com uma precisão
passados. Quando um sistema atinge os seus próprios limites transparente, mas contudo sem substância, antecipadamente
e se ~atura, produz-se uma reversão- tem lugar outra coisa, desrealizada, hiper-rcali1..ada.
também no imaginário. A ficção científica já não seria, neste sentido, um roma-
At~ aqui tivemos sempre uma reserva de imaginário - nesco em expanSc:io com toda a liberdade e a «ingenuidade»
ora o coeficiente de realidade é proporcional à reserva de que lhe dava o encanto da descoberta, antes evoluindo implo-
imaginário que lhe dá o seu peso específico. Isto é verdadeiro sivamente, à semelha nça da nossa concepção actual do uni-
para a exploração geográfica e espacial também: quando já verso, procurando revitalizar, reactualizar, rcquotidianizar
não há território virgem, e logo d isponível para o imaginá- fragmentos de simulação, fragmentos dessa simulação uni-
rio, q11n11do o mapn cobre tod" o Jerritdrio, q1.mlq11er coisa como o versal em que se tomou, para nós, o mundo dito iireal».
princ(pio de realidade desaparece. A conquista do espaço cons-
titui neste sentido um limiar irreversível para a perda do Onde estão as obras que responderiam desde já a esta
referencial terrestre. Há hemorragia da realidade como invers..'\o, a esta reversão de situação? Visivelmente os roman•
coerênci;i interna de um universo limitado q ua ndo os limites ces de K. Philip Dick «gravitam», se se pode dizer (mas já
deste recuam para o infinito. A conquista do espa(O, que não se pode dizê-lo tanto assim, pois precisamente este novo
veio depois da do planeta, equivale a desrealizar o espaço universo é «antigravitacional» ou, se ainda g ravita, é à volta
humano, ou a revertê-lo para um hiper-real de simulação. do buraco do real, à volta do buraco do imaginário), neste novo
Testem un ha disto são esses dois quartos/cozinha/duche espaço. Não se tem ai em vista um cosmos alternativo, um
erguido sobre órbita, à potência espacial, poder-se-ia dizer, folclore ou um exotismo cósmico nem proezas galácticas -
com o último módulo lunar. A própria quotidiancidadc do está-se, à partida, numa simulação total, sem origem, ima-
habitat terrestre elevada ao posto de valor cósmico, hiposta- nente, sem passado, sem futuro, uma flutuação de todas as
siado no espaço - a satelização do real na transcendência do coordenadas (mentais, de tempo, de espaço, de signos) -
espaço - é o fim da metafísica, é o fim da fantasia, é o fim não se trata de um universo duplo, ou mesmo de um universo
da ficção científica, é a era da hiper-realidade que começa. possível - nem potisível, nem impossível, nem real, nem
A partir daí, alguma coisa deve mudar: a projecção, a irreal: hiper-rea{ - é um universo de simulação, o que é uma
extrapolação, essa espécie de desmedida pantográfica que coisa completament~ diferente. E isto não porqu(! Dick fale
constituía o encanto da ficção científica são impossíveis. Já expressamente de simulacros (a ficção científica sempre o
não é possível partir do real e fabricar o irreal, o imaginário fez, mas jogava com o duplo, com a dobragem ou o
a partir dos dados do real. O processo será antes o inverso: desdobramento artificial o u imaginário, enquanto que aqui 1 1
será o de criar situações descentradas, modelos de simulação duplo desapareceu,já não há d u plo, está-se já sempre noutn1
e de arranjar maneira de lhes dar as cores do real, do banal, mundo, que já não é outro, sem espelho nem projecçi\o 1wm
156 Simulacros t Simulaçifo Jeau Baudrillard l!i7

utopia que possa rcílccti-lo - a simulação é intransponível, e em todos os postos do processo de trabalho lradidon,ll,
inultrapassável, baça, sem exterioridade - nós já nem sequer mas que não produ:..:em nnrln, cuja actividade total se CSAOl,1
passaremos «para o ou tro lad o do espelho», isto era ainda a no jogo de mandos, de concorrência, de escritas, de con1.:,bi-
id ade de ouro da transcend ência. lidade, de uma fábrica para a outra, no interior de uma V.l:-õl,1
rede? Toda a produção material duplicada no vácuo (uma
Um exemplo talvez ainda mais convincente seria o de destas fábricas-simulacros chegou mesmo «realmente» a abrir
Ballard e da sua evolução. Desde os primeiros romances falência, desempn.: iando uma segunda vez os seus próprios
muito «fantasmagóricos», poéticos, oníricos, confusos, até desempregados). E isto a simulação: não que estas fábricas
Craslz, que é sem dúvida (mais que /GH ou L'fle de Béto11) o sejam a fingir, mas precisa.mente que sejam reais, hiper-reais,
modelo actual desta ficção científica que já não o é. Crasl, é o e que de repente remetam toda a «verdadeira» produção, a
nosso mu ndo, nada aí é «inventado»: tudo é aí hiperfundonal, das f,-\bricas «sérias», para a mesma hiper-re.llidade. O que
a circulação e o acid ente, a técnica e a morte, o sexo e a objec- aqui é fascinant·e , não é a oposição fábricas verdadeiras/
tiva fotográfica, tudo aí é como uma grande máquina síncrona, /fábricas a fingir, mas pelo contrário a indistinção das duas,
simulada, isto é, aceleração dos nossos p róprios modelos, de o facto de que tvdo o resto da prod ução não tem mais refe-
todos os modelos que nos rodeiam, misturados e hipempe- rência nem finalidade profunda além deste «simulacro» de
racionalizados no vazio. O que distingue Crash de quase toda empresa. É esta indiferença hiper-realista que constitui a
a ficção científica, que na maior parte das vezes ainda gira à verdadeira qua lidade «ficção científica» deste episódio. E
volta do velho par (mecânico e mecanicista) função/ disfun- vê-se que não{! preciso inventá-lo: ele está aí, surgido de um
ção, é que projccta no futuro segundo as mesmas Unhas de m undo sem segredos, sem profundidade.
força e as mesmas finalidades que são as do universo «nor-
mal». A ficção pode aí ultrapassar a realidade (ou o inverso: O mais difícil é sem dúvida hoje em dia, no universo
é mais subtil), mas segund o a mesma regra do jogo. Em complexo da ficção científica, distinguir o que ainda obedece
Cmsh, já não há ficção nem realid ade, é a hiper-realidade que (e é uma g-rande parte} ao imaginário da segunda categoria,
abole ambos. Í! essa, se é que ela exisl'e, a nossa ficção científieo;'l da categoria produtiva/ projectiva, e o que releva já desta
contemporânea. Jack Barron ou t' f.ternitf, certas passagens de indistinção do imaginário, desta flutuação própria da terceira
Tous h Znt1úbar. categoria da simulação. Assim, pode estabelecer-se cla ra-
mente a diferença entre as máquinas robot mecânicas, carac-
De facto, a ficção científica neste sentido já não está em terísticas da segunda categoria, e as máquinas cibernéticas,
lado nenhum e está em toda a parte, na circulação dos computador, etc., que relevam, na sua axiomática, da terceira
modelos, aqui e agora, na própria axiomática da simulação categoria. Mas uma categoria pode muito bem contagiar a
ambiente. Ela pode surgir no estado bruto, por simples inércia outra, e o computador pode muito bem funcionar como uma
deste mundo operacional. Que autor de ficção científica teria supermáquina mecânica, um super-robot, máquina de
«imaginado» (mas precisamente isto já não se «imagina») sobrcpotência, expoente do génio produtivo dos simulacros
essa «realidade;i das fábricas-simulacros oeste-alemãs, fábri- de segunda categoria: ele não funciona aí como processo de
cas que reempregam os desempregados em todas as funções simulação, e testemunha aind a reflexos de um universo
158 Sinrnlacros e Simuln\do

finalizado (inclusive a ambivalência e a revolta, como o com- Os Animais


putador de 2001 ou Shalmanezcr em Tous à Zanzibar).
Entre o operático (o estatuto teat ra l, de maq u inaria teatral
e fantástica, a «grande ópera)1 da técnica) que corresponde à Território
primeira categoria, o operatório (o estatuto industrial, pro- e metamorfoses
dutívo, efectua do r de potência e de energia) que corresponde
à segunda categoria, e o opemcionaf (o estatuto cibernético,
aleatório, flutuante da «metatécnica») que corresponde à
terceira categoria, todas as interfer~ncias podem ainda
produzir-se hoje ao nível da ficção científica. Mas só a últ ima
categoria pode ainda verdadeiramente interessar-nos.

Que queriam os carrascos da Inquisição? A confissão do


Mal, do princípio do Mal. Era preciso fazer os acusados dizer
que apenas eram cu lpados por acidente, pela incidência do
princípio do Mal na ordem divina. Assim, a confissão restituía
uma rnusalidade tr.inquiliz.adora, e o s uplício, a extem\inação
do mal pelo suplício, não era senão a coroação triunfal (nem
sádica nem expiatória) d o facto de ter produzido o Mat como
causa. Assim também, quando usamos e abusamos dos
animais nos laboratórios, nos foguetões, com essa fe rocidade
experimental, em nome da ciência, que confissão procuramos
extorqu ir-lhes sob o escalpélo e os eléctrodos?
Justamente a confiss..io de um princípio de objectividade
d e q ue a ciência nunca está segura, de que desespera secreta-
mente. É preciso fazer os animais d izer que eles não o são,
que " bestialidade, a selvajaria, com o que ehis implicam de
ininteligibilidadc,dcc.'slranhe7.a radical para a razão, não existe,
mas que pelo contrário os comportamentos mais bestiais,
mais singulares, maisanormaisseresolvem na ciência, em meca-
nismos íisiológicos, em ligações cerebrais, etc. É preciso matar
a bestialidade nos animais e o seu princípio de incerteza.
A experimentação não é, pois, um meio para um fim, é
um desafio e um suplícioactw,is. A experimentação não funda
160 Simulacros e Simulação Je11n Btwdrillard 161

uma inteligibilidade, ela extorqu e uma confissão de ciência A histeria dos frangos atinge o conjunto do grupo, tcn:-..:\0
como se extorquia outrora uma profissão de fé. Confissão de 1<psíquica» colectiva que pode atingir um limiar crítico: toJos
que os desvios aparentes, da doença, da loucura, da bestiali- os animais se põem a. voar e a gritar em todos os sentidos.
dade não s.io senão uma falha provisória na transparência Uma vez a crise terminada, é a derrocada, terror geral, os
da causalidade. Esta prova, como outrora a da razão divina, animais refugiam-se nos cantos, mudos e como que parali-
precisa ser refeita continuamente e em toda a parte - nt..'StL' sados. Ao primeiro choque, a crise recomeça. Isto pode durar
sentido somos todos animais, e a nimais de laboratório, que várias semanas. Tentou-se dar-lhes tranquilizantes...
são continuamente testados para se lhes cxtorquir comJX)rla- O canibalismo dos porcos. Os a nimais ferem-se a si
mentos reflexos, que são o utras tantas confissões d e racionn- próprios. Os vitelos põem-se a lamber tudo o que os rodeia,
lidade em ú ltima instância. Em toda a parte a bestialicfodc por vezes até à morte.
deve ceder o passo à animalidade reflexa, exorciwndo uma <(Há que constatar de facto que os animaisdecriaçào sofrem
ordem do indecifrável, do selvagem, d a qual prt:ocisamcntc psiq11icamente... Torna-se necessária uma zoopsiquiatria... O
os animais, pelo seu silêncio, continuam para nós a ser a psiquismo de frustração representa um obstáculo ao desen•
encarnação. volvimento normal.»
Os animais precederam-nos, pois, na via da exterminação Escuridão, luz vermelha, gadgets, tranqui1izantes, nada
liberal. Todos os aspectos do tratamento moderno dos animais resulta. Existe nas aves uma hierarquia de acesso à comida,
descrevem as peripécias da manipulação humana, da experi- o pick order•. Nestas condições de sobrepopulação, as últimas
mentação ao forciug"' industrial na criação. na ordem não chegam seque r a alimentar•se. Quis-se então
romper o pick order e democratizar o acesso à comida mediante
outro sistema de repartição. Fracasso: a d estruição desta
Rcu11idos em congresso cm Ly o11, 11s tieterimtrios ordem simbólica leva à confusão total nas aves e a uma insta-
preoc111X1ram-se com as docr1ças e pert11rbaçõcs psfquicas q11r St' bilidade crónica. Belo exemplo de absurdo: conhecem-se os
drsenvolvem nn cria\àOir1d11sl ria/ de aTJimais domt!sticos. estragos análogos que a boa vontade democrática pôde fazer
(Scíe11ce e/ Avcnir, Julho d !:! 73)
nas sociedades tribais.
Os animais somatizam! ExtTaordinária descoberta! Can-
cros, úlceras gástricas, enfartes do miocárdio nos ratos, nos
Os coelhos desenvolvem uma ansiedade mórbida, tor- porcos, nos frangos!
nam-se coprófagos e estéreis. O coelho, parece, é de nascença Em conclusão, diz o autor, parece que de facto o único
um «inquieto», um «inadaptado». Maior sensibilidade às remédio é o espaço - «um pouco mais de espaço, e muitas
infecções, ao parasitismo. Os anticorpos perdem a sua eficácia, das perturbações observadas desapareceriamn. De todas as
as fêmeas tornam-se estéreis. Espontaneamente, se se pode maneiras, <(o destino destes animais tornar-se-ia menos
dizer, a mortalidade aumenta.

• A ordem hierárquica segundo a qual as aves em grupo debicam a


• Em inglê-s no original. (N. da T.) comida. Em inglês no original. (N. da T.)
162 Simulacros e Simulação Jean Baudrillard /6.1

miserável». Está, pois, satisfeito com este congresso: «As Descobre-se, assim, com ingenuidade, como um campo
preocupações actuais relativamente ao destino dos animais cienUfico novo e inexplorado, o psiquismo do animal, quando
de criação vêem aliar-se, uma vez mais, a moral e o sentido este se revela inadaptado à morte que se lhe prepara. Rt.--dcs-
de um interesse bem compreendido.» «Não se pode fazer cobre-se igualmente a psicologia, a sociologia, a sexualidade
tudo com a natureza.» Como as perturbações se tornaram dos prisioneiros quando se toma impossível encarcerá-los pura
suficientemente graves para prejudicar a rentabilidade da e simplesmentem. Descobre-se que o prisioneiro tem neces-
empresa, esta baixa de rendimento pode conduzir os criadores sidade de liberdade, de sexualidade, de «normalidade» para
a dar aos animais condições de vida mais nor mais. «Para ter suportar a prisão, do mesmo mexto que os animais industriais
uma criação sã, seria necessário, a partir de agora, tratar lêm necessidade de uma certa «qualidade de vida» para mor-
também do equilíbrio mental dos animais.» E o a utor e ntrevê rer dentro das normas. E nada disto é contraditório. Também
o tempo em que se mandarão os animais, como os homens, o operário tem necessidade de responsabilidade, de autoges-
para o campo, para restaurar este equiHbrio mental. tão para melhor responder ao imperativo de produção. Textos
Nu nca se disse tão bem como o ,,humanismo», a «normali 4
os homens têm necessidade de um psiquismo para estarem
dade», a «qualidade de vida» não eram mais que uma peripé- adaptados. Não existe outra razão para o aparecimento do
cia da rentabilidade. Existe um evidente paralelo entre estes psiquismo, consciente ou inconsciente. E a sua idade de
animais doentes de mais-valia e o homem da concentração ouro, que ainda dura, terá coincidido com a impossibilidade
industrial, da organiwção científica do trabalho e das fábricas de uma socialização racional em textos os domínios. Nunca
com cadeia de montagem. Também aí os ({criadores» capi- teria havido ciências humanas nem psicanálise se tivesse
talistas foram levados a uma revisão dilacerante do modo de sido milagrosamente possível reduzir o homem a comporta-
explorac;ão, inovando e reinventando a «qualidade do traba- mentos «racionais». Texta a descoberta do psicológico, cuja
lho», o «enriquecimento das tarefasn, descobrindo as ciências complexidade pode expandir-se até ao infinito, vem apenas
«humanas» e a dimensão «psicossociológica» da fábrica. Só a da impossibilidade de explorar até à morte (os operários), de
morte sem apelo toma o exemplo dos animais ainda mais encarcerar até à morte (os detidos), de engordar até à morte
fascinante que o dos homens na cadeia de montagem. (os animais), segundo a estrita lei das equivalências:
Contra a organização industrial da morte, os animais não - tanto de energia calórica e de tempo= tanto de força de
têm outro recurso, outro desafio possível senão o suicídio. trabalho
Todas as anomalias descrit.:'lssão suicidárias. Estas resistências
são um fracasso da razão industrial (baixa de rendimento),
mas sobretudo sente-se que chocam com os especialistas na 1. Assim, no Texas, quatrocentos homens e cem mulheres experimen•
sua raz.i\o lógica. Na lógica dos comportamentos reflexos e tam a penitenciârla mais branda do mundo. Em Julho último nasreu af
do animal-máq uina, na lógica racional, estas anomalias s.io uma criança e houve apenas três evasões em dois .mos. Os homens e as
inqualificáveis. Vai-se, pois, conceder aos animais um psi- mulheres tomam juntos a§ suas refeições e encontram-se para s.essõe-s de
psicologia de grupo. Cada prisioneiro possui a única chave do seu quarto
quismo irracional e desequilibrado, votado à terapia liberal e ind ividual. Alguns casais conseguem i§Olar-se 1,os quartos vazios. Até
humanista, sem que o objectivo final tenha alguma vez ho;e trinta e cinco pri§ioneiros fugiram mas na sua maioria voltaram por
mudado: a morte. si próprios.
164 Simulacros e Simul,u;4o Jemr Baudrillnrd l(i.'i

- tal delito = tal castigo equivalente enquanto deus, o sacriíício do homem só vem depois, sq;11ndl1
- tanto de comida = peso óptimo e morte industrial. uma ordem degradada. Os homensqualificam•se por íili,h,',il,
Tudo isto é travado e então nascem o psiquismo, o mental, ao animal: os Bororos «são» araras. Isto não é da ordem prl•-
a neurOS@, o psicossocial, etc., de modo algum para quebrar · lógica ou psicanalítica - nem da ordem mental de classifi-
esta equação delirante, mas para restituir o princípio das cação, a que Lévi-Strauss reduziu a eíigie animal (ainda que
equivalências que tinha sido comprometido. seja já fabuloso que os animais lenham podido servir de
Animais de carga tiveram de trabalhar para o homem. /ínR1m, também isso fazia parte da sua divindade) - não,
Animais de intimação são intimidados a responder a o inter- isso significa que Bororos e araras fazem parte de um ciclo, e
rogatório da ciência. Animais de consumo tornaram-se carne que a figura do ciclo exclui toda a partição de espécies, todas
industrial. Animais de somatização são obrigados a falar as oposiçõt.-s distintivas segundo as quais vivemos. A oposição
hoje a língua «psi», a responder pelo seu psiquismo e pelos estrutural é diabólica, divide e afronta identidades distintas:
malefícios do seu inconsciente. Aconteceu-lhes tudo do que tal é a partição do humano, que rejeita os animais para o inu-
a nós nos acontece. O nosso destino nunca esteve separado mano - este ciclo, esse, é simb6lico: abole as posições num
do deles, e is to {: uma esp&-ie de amarga vingança sobre a encadeamento reversível - neste sentido, os Bororos «são,.
Razão Humana, que foi usada para edificar o privilégio abso- araras, que é o mesmo sentido em que o Canaca diz que os
luto do Humano sobre o Bestial. mortos se passeiam entre os vivos. (Será que Oeleuze tem em
Os animais não passaram, de resto, ao estatuto de inu- vista uma coisa .assim no seu devir-animal e quando diz:
manidade senão no decurso dos progressos da razão e do «Seja m a Pantera Cor-de-Rosa!»?)
humanismo. Lógica paralela à do racismo. Não existe «reino» Se~, como for, os animais sempre tiveram, até nós, uma
animal objectivo senão desde que existe o homem. Seria nobreza divina ou sacrificial de que todas as mitologias dão
demasiado demorado refazer a genealogia dos seus esta- conta. Mesmo a morte na caça é ainda uma relação simbólica,
tutos rcspectivos, mas o abismo que hoje os separa, aquele contrariamente à dissecação experimental. Mesmo a domesti-
que permite que se enviem os animais em nosso lugar para cação é ainda uma relação simbólica, contrariamente à criação
os universos aterrorizadores do espaço e dos laboratórios, industrial. Basta ver o <.,statuto dos animais na sociedade cam-
aquele que permite liquidar as espécies ao mesmo tempo ponesa. E não deveria confundir-se o estatuto da domestica-
que se arquivam como espécimens nas reservas africanas ou ção, que supõe uma terra, um clã, um sistema de parentesco
no inferno dos zoos - pois não há mais lugar para eles na de que os animais fazem parte, com o estatuto do animal de
nossa cultura que para os mortos - o todo revestido por interior-única espécicdeanimaisquenosresta fora das reser-
uma sentimentalidade racista (as focas bebés, Brigitte Bar- vas e dos locais de criação - cães, gatos, pássaros, hamsters,
dot), este abismo que os separa é posterior à domesticação, todos empalhados no afecto do seu dono. A trajectória que
como o verdadeiro racismo é posterior à escravatura. os animais seguiram, desde o sacrifício divino até ao cemitério
Outrora, os animais tiveram um carácter mais sagrado, para cães com música ambiente, desde o desafio sagrado até
mais divino que os homens. Não há sequer reino «humano» à sentimentalidade ecológica, diz bastante sobre a vulgariza-
nos primitivos, e d urante muito tempo a ordem animal é a ção do próprio estatuto do homem - o que mais uma vez
ordem de referência. Só o animal é digno de ser sacrificado, descreve uma reciprocidade imprevista entre ambos.
166 Simulacros e Sinudaçtfo Jean Ba11dril/ord 1,,7

A nossa sentimen;alidad e relativamente aos animais é o dade espcctacular: a do King-Kong, a~rancado à sun :-,i.•lv.1 •·
sinal particularmente seguro do desprezo que lhes votamos. transformadú em vt..xlcta de nmsic-hall. De repente, o t'l•11.u-i11
É proporcional a este desprezo. É à medida da sua relegação cultural é invertido. Outrora, o herói cultural a niquil.1 v,1 11
para a irresponsabilidade, para o inumano, q u e o animal se animal, o drngão, o monstro - e do sangue derram,ldo
torna digno do ritual humano de afecto e de protecção, como nasciam plantas, home ns, a cultura; hoje é o anima l King
a criança à medida da sua relegação para um estatuto de -Ko ng que vem sacudir as metrópoles industriais, que w m
inocência e d e infantilidade. A sentimentalidade não é mais libertar-nos da nossa cultura, morta por se ter e xpurgado dt•
que a forma infinitamente degradada da bestüi lidade. Comi- toda a monstruosidade real e por ter rompido o pacto com
seração racista, com is to ridicularizamos os a nimais até se ela (que se exprimia no filmt! pela dádiva primitiva d,t
tornarem eles próprios sentim.entais. m11ll11.~r). A st..->dução profunda do filme vem desta inversão de
Os que outro ra sacrificavam os animais não os tomavam sentido: toda a inumanidade passou para o lado dos homens,
por animais. E mesmo a Idade Média que os conden.wa e os toda a humanidade passuu para o lado da bestialidade cativa,
castigava 11as formas estava com isto bem mais perto deles e da seduç5o rt..>sJX'Cliva da mulher e do animal, sed ução
que nós, a quem esta prática caUS.:"l horro r. Eles considerav;1m- mons truosa de uma ordem pela o utra, o humano e o bestial.
-nos culpados: era fazer-lhes uma honra. Nós temo-los na Ko ng morre por ter rentado, pela sedução, com.esta possibili-
conta de nada, é sobre esta base que somos «humanos►, com dade de mctamorfo~ de um reino no outro, com esta promis-
eles. Ji' não os sacrificamos, já não os castigamos, eorgulhamo- ~uidade incestuosa, c mlxna nunca realizada, senão de um
-nos disso, mas é si mplesme nte porque os domesticámos, modo simbólico e ritual, entre os animais e os homens.
pior: porque fizemos deles um mundo radalmcnte inferior, No fundo, a linha que os animais seguiram não é diferente
mais digno da nossa justiça, justamente do nosso afecto e da da loucura e da infância, do sexo ou da negritude. Lógica
da caridade social, mais d igno do castigo e da mo rte, mas da exclusfü.J, da rL-clus.io, da discriminação e, necessariamente,
também da experimentação e da extenninação, com o carne cm troca, lógica da reversão, violê ncia reversível que faz com
de talho. que toda a sociedade acabe por alinha r pelos axiomas da lou-
É a reabsorção de toda a violência em relação a eles que cura, díl infância, da sexualidade e das raças inferiores (expur-
constitui hoje em dia a monstruosidade dos animais. À vio- gadas, é preciso dizê-lo, da interrogação radical que faziam
lência do sacrifício, que é a da «intimidade►► (Bataille), s ucedeu pesar a partir do próprio coração da sua e xclusão). A conver-
a violê ncia sentimental o u experimental, que é a da distância. gência do processo de civili7Jl;1ção é deslumbrante. Os animais,
A monstruosidade mudou de sentido. A mons truosidade como os mortos, e como tantos outros, seguirnm este processo
o riginária dos animais, objecto de terror e de fascínio, mas ini nte rrupto de anexação por exterminação, q ue consiste em
nunca negativa, sempre ambivalente, objecto de troca também liqu idar e dt:!pois em fazer falar as espécies dt.>Saparecidas,
e de metáfora, no sacrifício, na mitologia, no bestiário herál- em fazê-las confessar o seu desaparecimento. Fazer falar os
dico e até nos nossos sonhos e fantasmas - essa monstruo- animais, com o se fez falar os loucos, as crianças, o sexo
sidade, rica de todas ns ameaças e de todas as metamorfoses, (Foucault). Isto é tanto ma.is alucinan te para os animais, cujo
a que se resolve secretamente na cultura viva dos homens e princípio de incerteza que fazem pesar sobre o homem, dL~d,·
que é uma fom1a da aliança, trocámo-la por uma mons trnosi- a ruptura da sua aliança com ele, reside no facto de niio fnlunw.
168 $ímlllacros e Símufoçào /mn Bawlrif/ard

Ao desafio da loucura respondeu-se historicamente pela hipótese nem os selvagens, e no fundo n.io sabemos nada deles, m,1s
do inconsciente. O Inconsciente~ o dispositivo logístico que o essencial é que a Razão tenha salvo a face, e que tudo
permite pensar a loucura (e mais geralmente toda a formação escape ao silêncio.
estranha e anómala) num sistema de sentido alargado ao Os animais, esses não falam. Num universo de palavrn
não-sentido e que dará o seu lugar aos terrores do insensato, crescente, de constrangimento à confissào e à palavra, só el1.>s
a partir de agora inteligíveis sob as espécies de um certo dis- permanecem mudos e, por este facto, parecem recuar para
curso: psiquismo, puls.i.o, recalcamento, etc. Foram os loucos longe de nós, para trás do horizonte da verdade. Mas é isso
que nos forçaram a admitir a hipótese do inconsciente, mas que faz com que sejamos íntimos deles. Não é o problema
fomos nós, em troca, que '1Í os aprisionámos. Pois se, num ecológico da sua sobrevivência que é importante. É ainda e
primeiro tempo, o inconsciente parece voltar-se contra íl razão sempre o do seu silêncio. Num mundo em vias de não fazer
e levar até e la uma subvers.io radical, se parece ainda carre- mais nada além de falar, num mundo preso à hegemonic1. dos
gado do potencial de ruptu ra da loucura, volta-se mais tard(! signos e do discurso, o seu silêncio pesa cada vez mais sobre
contra ela, pois é o que permite anexá-la a uma raz..i.o mais a nossa organi7..ação do sentido.
universal que a razão clássica. Claro, faz~mo-los falar, e de todas as mancirns, umas
Foi encontrada a grelha pela qual podem recolher-se as mais inocentes que as outras. Eles folaram o discurso moral
mensagens dos loucos, o utrora mudos e q ue hoje todos escu- do homem na fábula. Suportaram o discurso estrutural na
tam, m ensagens outrora absurdas e indecifráveis. As crianças teoria do totem ismo. Fornecem todos os dias a sua mensagem
falam, já não são esses seres simultaneamente estranhos e ~objL:><:tiva), - anatómica, fisiológica, genética - nos labora-
insignificantes para o universo adulto - as crianças signifi- tórios. Serviram alternadamente de metáfora para as virtu-
cam, tornaram-se significantes-não por uma qualquer «liber- des e os vícios, de modelo e nergético e ecológico, d e modelo
tação» da sua palavra, mas porque a razão adulta se muniu mecânico e formal na biónica, de registo fantasmático para o
dos meios mais subtis para conjurar a ameaça do seu silêncio. inconsciente e, em data mais recente, de modelo de dcsterri-
Os primitivos também são escutados, são solicitados, s.io torialização absoluta do desejo no «devir animal» de Deleuze
ouvidos, já não são animais, Lévi-Straus.s disse que as suas (paradoxal: tomar o animal como modelo de desterritoria-
estruturas mentais eram as mesmas que as nossas, a psica~ lização quando ele é, por excelência, o ser do território).
nálise ligou-os ao Édipo e à libido - todos os nossos códigos Em tudo isso, metáfora, cobaia, modelo, alegoria (sem
funcionaram bem, e eles responderam-lhes. Tinham sido esquecer o seu «valor de uso» alimentar), QS animais ma ntêm
enterrados sob o silêncio, são enterrados sob a palavra, pala- um discurso de rigor. Não falam verdadeiramente em lado
vra «diferente,>, decerto, mas sob a palavra de ordem da nenhum, porque não fornecem senão as respostas que se
«diferença», como outT()ra sob a da unidade da Razão, não lhes pedem. É a sua maneira própria de remeter o humano
nos enganemos sobre isso, é a mesma ordem que avança. para os seus códigos circulares, detrás dos quais o seu silêncio
Imperialismo da razão, neo~imperialismo da diferença. nos analisa.
O essencial ~ que nada escape ao império do sentido, à Nunca se esçapa à reversão que se segue a qualquer
partilha do sentido. Claro que, por detrás de tudo isto, nada exclus."io. Recusar a ra7.ão aos loucos conduz, mais cedo ou
nos fala, nem os loucos, nem os mortos, nem as criam;as, mais tarde, ao desmantelament'o das bases desta razão - de
170 Simulacros e Sim11laç,1o Jean Bnmirillard 171

alguma maneira os loucos vingam-se. Rccus."lr aos animais o morfose, de todas as metamorfoses possíve is. Nada dt.· rn,iis
inconsciente, o recalcamento, o simbólico {confundido com a errante, de mais nó mada em aparência que os animais t.',
linguagem), é, mais tarde o u mais cedo, podemos esperá-lo, porém, a sua lei é a do territótioc21• Mas é preciso a fastar todos
numa espécie de desprendimenlo u lterio r ao da loucura e do os contra-sensos sobre esta noçào de território. Não é de
inconsciente, voltar a pôr e m causa a validade destes concei- modo nenhum a relaçáo a largada d e um suje ito ou de um
tos, tal como e les nos regem hoje c m dia, e nos distingue m .
Pois se outrora o privilégio do homem era baseado no mono-
pólio da consciência, hoje é-o no monopólio do inconsciente. 2. A crr;lnci.l do:;: .ll\ill\ilis é um mito, e a reprcsentaç3o aclual, errtitica
Todos S<,bem que os animais não têm inconsciente. Sem e núm,1Ja, J o lnronscicntt' t.' do desejo, t1 da mesma ordem. Os a nimais
nunc.i. v,1s11car.1m, nunca foram d 1.-stcrril(1ri,11i,-..1dos. Toda uma fantasma-
dúvida que sonham, mas isto é uma conjuntura d e ordem
Koria li~rtuforn :-1..' dt.~nh;i cm oposição aos conMr.,n~imcn tos da socie-
bio-eléctrica, e falta-lhes a linguagem, que é a única a dar um
dade mU1.krna, uma rcpr~nlaç.\o da na1u re:-~1 e dM m1imais romo sel-
sentido ao sonho, ao inscrcvt>-lo na ordem simbólica. Podemos vajaria, liberdadt! dl' "saciar tod;'IS ;'IS suas n1.'Ct.'$idades->, hoje de «realizar
fantasiar sobre eles, projectar sob re eles as nossas fantasiíls e todos os seus d1.~ju~.. - pois o rousSc::,iunismo 1m,x !em o 1omou a forma
crer partilhar esta encenação. Mas isto é-n os cónuxfo - de da indctcrmin.1ç;\u da pul::.ào, Ja crr.lti<:ia dl, Ôt.~ jo e Ju nom,1dismo da
facto os animais não nos Stio inte ligíveis ne m sob o regime infin!tudc - mas é a m esma mf..;tica d;i::- forças soltas, não oxHflcadas,
da consciência nem sob o do inconscient<:. Não se tr.,ta, pois, ~m outra íina!idadc lJlh! a sua própri;, l•nipç/lo.
O ra a nal ure7.a livre, ,,irgl·m, sem Jimitt.· nt.·m território, o nde cada um
de os forçar a isso, mas justamente, pelo contrário, de ver em deambu la à su11 v ontade, nunca existiu, a não i.er no im.iginário da ordem
tjlW é que eh-s põem em causa 1tsta m1.-s1rm hipótese cio i11cot11-Cie11tc, t.iom in,u1tl', d a q u,11 é o espelho t.-quivale nte. N\,:,; f'fOjcctam()S comoselva-
e a que outra hiJJófc.-se 110:- forç.am. Tal é o sentido, ou o não )<1ria id.:-al (n.iturcz.i, d<'SE!jo, imímalidadc, ri,:oma ... ) o próprio c-:;qucma de
sentido, do seu s ilêncio. di.'Stl-rr:itorializac,lo que I;' o do "istem,1 «onômict• e do c,1pitaL A liberdade
Foi assim o silê ncio d os loucos, que nos forçou a aceitar a n,i.o t.'St.i l'm lado nl.'nhum a não ser no capila1, foi ele que a produziu, foi
ele que a aprofundou. Má, pois, um.1 c,mcta com:laçãu c111re a legislação
hipótese do inconsciente - esta é a r(.>sistência dos ,mimais, so('ial do valor (urb.rna, il\duslrin l, rcprcs.•,f ra,ctc.)e a selv,1~1ria imag inária
q ue nos força a mudar dt! hipótese. Pois se eles nos s.1 o I!' q ue lhe t1 t)~ta: elas i.'SUo ambas ..dl':-lt•rritnrialbi:adas», e são à imagem
continuarão a ser ininteligíveis, a verdade é que v ivemos, uma da o utra. De r~to, a radk,1lid,1d c Jn ,,Jest..io", n~-st> nas tcorfos actuais,
de alguma maneira, e m i..ntdigência com e les. E se vivemos ctt.'S('(' à mcdidi'I da .ibstrao.:çãoch•ili1:aJa, J c modo algum como ant;'lgonlsta.

assim, não é d ecerto sob o signo de uma ecologia geral o u mi'IS i'lbsolut,,ml!nlc ~undo o mt.•Ml'IO movimen to, o de uma mesma
forma c,1 da v(•z mais dt.'SC'Odificada, mais dt.~ e11lrada, mais "'livre-•, q ue
numa espécie d e nicho planetário, que não é mais que a
t'nvolvt! ao m csm11 tempo o noss.., real e o nosso imagin.íriu. A nature-i;a,
dimensão alargada da cave rna de Platão, as fantasias dos a liberdade, o dt.~~•. etc., nâo l'Xprinwm Sl>tJ.UCr um sonho in verso do
anima is e dos elementos naturais v iriam conviver com a c,lpital, traduzem dircctamcnte os progrt"SSO!> ou as devastações d esta
sombra dos homens salvos da economia política - não, a cultura, antecipam nw~rnu !>Obre cl,1, pois sonhan1 com d esterritorializac;.!io
nossa inteligência profunda com os animais, mesmo em vias total onde o sistc rn,1 só im põe dt!Sterritorializaçilo relativa: a c1dgênda de
de desaparecimen to, é colocada sob o sig no conjugado, «liberdade» nunca é mais do que a de ir mais longe q u e o sistema, mas no
mesmo sentido.
inverso na aparência, d a metamorfose e do território, Nem os animilis nem 0$SClvagcns ron hccem a ,.,,a tu reza,. no sentido
Nada parece mais fixo na perpetuação da espécie qu e os que lhe damos, s6 conheçem trrritorios, limitados, marcados, q u e são
animais e, contudo, eles são para nós a imagem da meta- espaços de reciprocidade intraosponivcis.
172 Sim. /acros e Simulação Jerm Blwdriflard 17:l

grupo com o seu espaço próprio, espécie de direito de pro- gações são aí absolutas, a reversibilidade total, mas nin~lu;m
priedade privada orgân ica do indivíduo, do dâ ou da espécie conhece a morte porque tudo aí se metamo rfoseia. Nt·m
- tal é a fantasia da psicologi.i e da sociologia ahugada a sujeito, nem morte, nem inconsciente, nem recalcamenh1, ~í
toda a ecologia - nem esta espécie de função vital, de bolha que nada pára o encadeamento das formas.
ambiental aonde vem resumi r-se todo o sistema das necessi- Os animais não têm inconsciente, porque lêm um terri-
dades ºl. Um território tam bém não é um espaço, com o que tório . Os homens não têm um inconsciente senão desde que
este termo implica para nós de liberdade e de apropriação. já não têm território. O território e as metamorfoses foram-
Nem instinto, nem necessidade, nem estrutura (nem que -lhes tiradas ao mesmo tempo - o inconsciente é a estrutura
fosse «cultural» e «comportamental)>), a noção de território individ ual d e luto onde se volta a representar, sem cessar e
opõe-se também, de alguma maneira, à de inconsciente. O sem esperança, esta perda - os animais são a sua nostalgia.
inconsciente é uma estrutura {(enterrada,>, recalcada, e inde- A pergunta que eles nos colocam seria, pois, esta: não vive-
finidamente ramificada. O território é aberto e circunscrito. remos nós desde já para além dos efeitos de linearidade e de
O i nconsciente é o lugar da repetição indefinida do recalca- acumulação da razão, para a lém dos efeitos de consciência e
mento e das fantasias do sujeito. O territó rio é o lugar de um de inconsciente, sobre este modo bruto, simbólico, de ddo e
ciclo finito do parentesco e das trocas - sem sujeito, mas de reversão indefinida sobre um espaço finito? E para além
sem cxcepçâo: ciclo animal e vegetal, ciclo dos bens e das do esquema ideal que é o da nossa cultura, de Ioda a cultura
riquezas, ciclo do parentesco e da espécie, ciclo das mulheres talvez, o da acumulação de energia, e da sua libertação final,
e do ritual - nele não há sujeito e aí tudo se troca, As obri- não sonharemos mais com implosão que com explosão., com
metamorfose mais que com energia, com obrigação e com
desafio ritual mais que com liberdade, com ciclo territorial
mais q ue com ... Mas os animais não perguntam. Calam-se.
3. Assim, Hl'.nri Laborit recusa a interpretação do lcrritbrioem krmos
dt> instinto ou de propriccfade privada: .,Nunca se pós cm evidência, no
hipot.ilamoou noutrosíti-0, um grupo celular ou vias nervosas diforcnci.idai,;
relacionadas com a noç11o de território... Não parece existir centro do ter-
ritório... NAo tem utilidade apelar a um instinto parliculM>o - mas é para
o remeter melhor para uma funcionalidade dai. nect>Ssidades alargada aos
comporMm<'l'ltOS cultur,,is, que é a vulgata hoje ..-m dia comum a toda a
economia, p;iwlogia, sociologia, etc.: ..O território toma-se, assim, o l'l>pa<O
n~rio à realização do acto gratificante, o espaço vital ... A bolha, o
território representam, assim, o pedaço de espaço em contacto imediato
com o organismo, aquele no qual "abre" as s uas trocas termodinâmicas
para manter a sua própria estrutura ... Com a interdependência crescente
dos indivíduos human()S;, oom a promiscuidade que caracteriza as grandes
cidades modernas, a bolha individual encolheu-sede forma considerável .....
ConcepçAo espacial, funcional, homeocstática. Como se o problema de um
grupo ou de um homem, ati mesmo de um animal, fosse o equilibrio da
su;i, bolha e a homeostase das su.is troci'ls, internas e externas~
O resto

Quando se retira t11do, nada fiCTI.


É falso.
A equação do tudo e do nada, a subtracção d o resto, é
falsa de uma ponta à outra .
Não é que não haja resto. Mas este nunca te m realidade
autónoma, nem lugar próprio: é aquilo q ue a partição, a cir-
cunscrição, a exclusão designa ... que outra coisa? É a sub-
tracção do resto que se funda e toma força de rei'llidade ...
que outra coisa?
O estranho é que não há jus tamente termo oposto na
oposição binária: pode dizer--se a direita/ a esquerda, o pró-
prio/o outro, a maioria/a minoria, o louco/o normal, etc.-
mas o resto/ ?. Nada do outro lado da barra. «A soma e o
restei,, a adição e o resto, a operação e o resto - não são
oposições distintivas.
E contudo, o que está do outro lado do resto existe, é
mesmo o termo marcado, o tempo forte, o elemento pri-
vilegiado nesta oposição estranhamente dissimétrica, nesta
estrutura que não é uma estrutura. Mas este termo marcado
não tem nome. É anónimo, é instável e sem definição. Positivo,
mas só o negativo lhe dá força de realidade. Em rigor, não
poderia ser definido senão como o resto do resto.
176 Simulacros e Simulaç4o Jean Btmdrilfard 177

O resto remete assim muito mais para uma partição dara seu lugar numa socíalidade alargad a. É sobre este resto 11ul·
de dois termos localizados, para uma estrutura giratória e a máquina socia l se relança e encontra uma nova energia.
reversível, estrutura de reversão sempre iminente, em q ue Mas que é que acontece quando tudo é apagado, quando
não se sabe mmca qual é o resto do oulro. Em nenh uma outra tudo é socialiwdo ? Então a máquina pára, a dinâmica inver•
estrutura se pode operar esta reversão, o u esta derrocada: o te-se, cé todo nsistema social q ue se torna resíduo. À medida
masculino não é o femini no do femínino, o normal não é o lJUe o social, na sua progres5<'ío, elimina todos os resíduos,
louco do louco, a direita não é a esquerda da esqu erda, etc. torna-se de próprio rL.-sid ual. Ao designar como «Société»
Talvez só no espelho a perg unta possa ser colocada: quem, as ci'ltegorias rcsidu.iis, o s«ial designa-se a si.próprio como
do real o u da imagem, é o reflexo do outro? Neste sentido resto.
pode folar•se do resto com o de um espelho, ou do espelho A impossibilidade de d eterminar o que é o resto do outro
do resto. É que, em ambos os casos, a linha d e demarcação caracteriza ,, fase de simulação e de agonia dos sistemas dis-
estrutural, a linha de parti.lha d o sentido, tornou-se flutuante, tintivos, fase em que tudo se torna resto e residual. Inversa-
é que o sentido (mais Literalmente: a possibilidade de ir de mente, o dcsapan.-cimento da barra fatídica e estrutural que
um ponto ao outro segundo um vector d eterminado pela isolava o resto do? ? ? e que permite, a pa rtir de agora, a cada
posição rl.-spectiva d os termos) já não existe. Já não há posi- termo s..-r o resto do outro, caracteriza u ma fase de reversi-
ção respectiva - desvanecendo-se o real para dar lugar a bilidade onde, virtualrot!nle, já não Juf resto. As suas propo-
uma ima gem mais real que o real, e inversamente - des- sições .são «vt!rdrtdciras>> simultaneamente e não se excluem.
vanecendo-se o resto d o lugar atribuído para ressurgir d o São elas próprias reversíveis.
avesso, naquilo de que era o resto, etc.
O mesmo se passa com o social. Quem dirá se o resto d o O utro aspecto tão insólito quanto a ausência de termo
social é o resíduo não socializado, ou se não é o próprio oposto: o resto d;\ vontade de rir. Qualquer discussão sobre
social que é o resto, o detrito g igantesco... de que outra coisa? este tema desencrideia os mesmos jogos de linguagem, a
De um processo de que se tivesse d esaparecido completa- mesma ambiguidade e a mesma obscenidade que as dis-
mente e se: não tivesse sequer outro nome que o de social, cussões sobre o sexo ou a morte. Sexo e morte são os dois
não seria mesmo assim senão o resto. O resíduo pode ser à g ra ndes temas reconhecidos pela s ua capacidade de desen-
dimensão total do real. Quando um s isk•ma absorveu tudo, cadear a ambivalénda e o riso. Mas o resto é o terceiro, e
quand o se adicionou tudo, quando_ não resta nada, a soma ta lvez o único, os outros dois juntam-se-lhe como à própria
toda reverte para o resto e torna-se res to. figurn da reversibilidade. Pois, po r que nos rimos? Só nos
Ver a rubrica «Société» do Monde, onde, paradoxalmente, rimos da reversibilidade das coisas, e o sexo e a morte sã.o
só aparecem os imigrantes, os delinquentes, as ~~lheres, figuras eminentemente revcrsíveis. É porque a questão é
etc. - tudo o que não foi socializado, casos «sociais» a ná- sempre reversível entre o masculino e o feminino, entre a
logos aos casos patológicos. Bolsas a reabsorver, ~gmcn- vida e a morte, que nos rimos do sexo e da morte. Por
tos que o ,:,social» isola à medida que se alarga. Designados maioria de raz.:i.o o fazemos d o resto, que nem sequer conhece
com o «residuais» no horizonte do social, passam, por isso tem,o oposto, que percorre sozinho todo o ciclo, e corre
mesmo, sob a sua jurisdiçào e estão destinados a encontrar o infinitamente a trás da sua própria barreira, a trás d o seu
178 Simulacros e Simulação /tmi Bcwdrillurd 179

próprio duplo, como Peter Schlemihl atrás da sua sombra m? à luz de todos os restos, em todos os domínios, do ni'io•dito,
O resto é obsceno, porque é reversível e se troca em si mesmo. do feminino, do louco, do marginal, do excremento e do
É obsceno e faz rir, como só faz rir, rir profundamente, a detrito em arte, etc. Mas isto é a inda apenas uma espécie dl•
indistinção do masculino e do feminino, a ind istinção da invi'rsão da estrutura, de regresso do recalcado como tempo
vida e da morte. forte, de regresso do resto como acréscimo de sentido, como
excedente (mas o excedente não é formalmente diferente do
O resto to rnou·se hoje o vocábulo forte. É sobre o resl(l resto, e o problema da delapidação do excedente em Bataillc
que se baseia uma inteligibilidade nova. Fim de uma certa não é diferente do da r-eabsorc;ão dos restos numa economia
lógica das oposições dis tintivas, onde o vocábulo fraco jogava política do cálculo e da penúria: só as filosófias são diferen-
como vocábulo residual. Tudo se inverte hoje em dia. A tes), de uma sobrevalorização de sentido a partir do resto.
própria psicanálise é a primeira grande teori7..ação dos resí- Segredo de todas as «libertações», que jogam sobre as ener-
duos (lapsos, son hos, etc.). Já não é uma economia política gias escondidas do outro lado da barreira.
da produção qu e nos dirige, mas uma economia política da Ora nós estamos perante uma situação muito mais ori-
reprodução, da reciclagem - ecologia e poluição - uma ginal: não a da inversão pura e simples e da promoção dos
economia política do resto. Toda a n ormalidade se revê hoje restos, mas a de um e nfeudamento de toda a estrutura e de
toda a oposição que faz com que nem sequer haja resta, pelo
facto de este estar em toda a pa rte e, ao procurar-se sem se
1. A alusão a Pclrr Sc.l1/cmi/11, L'Hommc qui li pcrdu wn Ombre, não é encontrar, se anular enquanto tal.
acidental. Pois a sombra, como a ima~m no espelho (no f stud1mtt de Praga), Não é quando se retira tudo que n ão resta nada, mas
é por exrelência um rei.lo, algo que pode ..:caiu do corpo, assim coi_ n o os quando as coisa s se revertem sem cessar e a própria adição já
cabelos, os excrementos ou os detritos de unh.,s aos quais estão assimiladas não faz sentido.
em toda a magía arcaica. Mas s3o também, sabcmo•lo, ..:metáforas ., da
alma, da respiração, do Ser, da ~nda, do que dá um prufu.ndosentid(l
ao sujeito. Sem imagt>m ou sem :.ombra. o corpõ toma•sc um nada trans- O nascimento é residual se não for retomado simboli-
parente, jll 1160 l tlt próprio 11ada m~is qur resto. É a substãn~ia di{ifana que camente pela iniciação.
fica, uma ve1. que a sombra se vai. Já não há realidade: fm a sombra que A morte é residual se não for resolvida no luto, na festa
levou consigo toda a realidade (o mesmo se pass.a em O Esludanttde Praga, colectiva do luto.
a imagem quebrada com o 1..~pclho i_m plica a morte imediata do herói - O valor é residual se não for reabsorvido e volatilizado
sequência clássica dos contos fantástico:. - ver também A sombra de Hans
Christi;m Anderstn). Assim, o corpn pode ser apenas o detrito e.lo M!u
no ciclo das trocas.
próprio resíduo, r1..-c.ilda da sua própria recaída. Só a ordem dita real A sexualidade é residual quando se torna produção de
permite privilegiar u corpo como referência. Mas nada na ordem simbólica relações sexuais.
permite fazer uma aposta sobre a prioridade de um ou dooutro(do corpo O próprio social é residual quando se torna produção de
ou da sombra). E testa reversão da sombra sobre o corpo, est.i recalda do «relações sociais».
es§('ndal, no limite do essencial, sob o golpe do insignificante, essa derrota
Todo o real é residual,
i.flressante do sentido pcr,rntc o que dele resta, quer sejam os detritos de
unhas ou o objecto «alfnea a).,, que constitui o encanto. a beleza e a e tudo o que é residual está destinado a repetir-se indefi-
inquietante estranheza destas histórias. nidamente no fantasmal.
Simulacros e Sim11laçt10 fron Bai,drillnrd 181
180

Toda a acumulação não f senão resto, e acumulação de quando o último indígena tiver sido analisado (pdo último
resto, no sentido em que é ruptura da aliança, e compensa no e tnólogo), quando a última mercadoria tiver sido produz.itln
infinito linear da produção, da energia e do valor o que se pela última t,forc.;a de trabaJho» que reste, qua ndo a ú ltima
cumpria anteriormente no ciclo da aliança. Ora, o que percorre fantasia tiver sido elucidada pelo último analista, qua ndo
um ciclo cumpre-se totalmente, enquanto que na dimensão tudo tiver sido libcrtíldoc consumido i(com a última energia",
do infinito tudo o que está abaixo da bar ra do infinito, abaixo então dílr-nos-cmos conta de q ue cstíl gigantesca espiral dc1
da barra da eternidade (esse stock de tempo que é tam bém energia e da produção, do recalcamento e do inco nsciente,
ele, como q ualquer stock, ruptura de aliança), tu do isso não é graças ao qual se conseguiu e ncerrar tudo numa equação
mais que resto. cntrópic,11. e cntastrófica, que tudo isto é, com efeito, apenas
A acumulação não é mais que resto, e o recalcamento não uma metafísica do resto, e esta se rá resolvida de repente em
é mais que a sua forma inversa e simétrica. É sobre o stock de todos os seus efeitos.
afectos e de representações recalcadas que se baseia a nossa
nova aliança.
Mas quando ludo é recalcado já nada o é. Não estamos
longe desse ponto absoluto d o recalcamento em que os
próprios stocks se d esfazem, em q ue os stocks de fantasmas
se desmoronam. Todo o imaginário do stock, da energia e de
tudo o que dela resta, vem-nos do recalcamento. Quando
este atinge um ponto de saturação crítica em que a sua
evidência cai por terra, então as energias já não têm d e ser
libertadas, gastas, economizadas, produzid as: é o próprio
conceito de energia que se volatilizará por si próprio.
Hoje em dia faz-se do resto, das energias que nos restam,
da restituição e d a conservação dos restos, o problema cru-
cial da humanidade. É uma questão insolúvel enquanto tal.
Toda a nova energia libertada ou gasta deixará um novo
resto. Todo o desejo, toda a energia libidinal produzirá um
novo recalcamento. Qual é a admiração, já q ue a própria
ene rgia apenas se concebe no movimento que a arma zena e
a liberta, que a recalca e a <<produz)), isto é, na figura do resto
e do seu duplo?
É preciso levar ao consumo insensato da e nergia para Lhe
exterminar o conceito. É preciso chegar ao recalcamento
máximo para lhe exterminar o conceito. Q uando o último
litro de energia tiver sido consumido (pelo último ecologista),
O cad áver
em espiral

A Universidade é deliqucsccnte: não funcional no plano


social do mercado e do emprego, sem s ubstância cultural
nem finalidade de saber.
Pilra falar com rigor, j.:1 nem sequer há poder: também ele
é dcliqut.."SCCntc. Daí a impossibilidade do regresso das chamas
de 68: regresso do questionamento do saber contra o próprio
poder- contradição explosiva do saber e do poder (ou reve-
lação do seu conluio, o que vai dar ao mesmo) na Universi-
dade e, de repente, por contágio simbólico (mais que político)
em toda a ordem institucional e social. Porquê os sociólogos?
marcou t.."Sta viragem: o impasse do saber, a vertigem do não
saber (isto é, ao mesmo tempo o absurdo e a impossibilidade
de acumular valor na ordem do saber) volta-se mesmo como
uma arma absolu ta contra o próprio poder, para o des•
mantelar segundo o mesmo cenário vertiginoso de desis-
tência. É isto o efeito de Maio de 68. É impossível, hoje em
dia, quando o próprio poder, depois do saber, desandou, se
tornou impossível de captar. Ele próprio está despojado.
Numil instituição a partir de agora flutuante, sem conteúdo
de saber, sem estrutura de poder (senão uma feudalidade
arcaica que gera um simulacro de máquina cujo destino lhe
escapa e cuja sobrevivência é superficial como a das casernas
184 Simulacros e Simulação /enn Bm1dri/fard /1!.5

e dos teatros), a irrupção ofensiva é impossível. Não tem servem pnra nada: por que motivo se recusaria a d,l-los, d1..•
mais sentido que o que precipita o apodrecimento, acen- resto o poder está pronto a dá-los a toda a gente - a política
tuando o lado paródico, simulacro, dos jogos de saber e de provocadora serve apenas para cristalizar as energias sobre
poder agonizantes. uma questão fictícia (selecção, trabalho, diplomas, etc.), sobn.•
A greve faz exactamente o inverso. Regenera o ideal de um referencial já morto e apodrecido.
uma universidade possível, a ficção de um acesso de todos à Ao apodrecer, a Universidade ainda pode fazer bastante
cultura (impossivel d e encontrar e que ~ não tem sen tido), mal (o apodrecimento é um dispositivo simbólico - não
substitui-se ao funcionamento da universid'ade como a su,1 p<1lítico, mas simbólico, logo para nós subversivo). Mas para
alternativa crítica, como a sua terapêutica. Sonha ainda com isso seria preciso partir deste mesmo apodrecimento, e não
uma substância e uma democracia do saber . De resto, cm sonhar 1..·om ressurreição. Seria preciso transformar este
toda a parte hoje em dia, a esquerda desempenha este papel: apodrecimento em processo violento, em morte violenta,
é a justiça de esquerda que reinsufla uma ideia de justiça, uma pela irrisão, o desafio, por uma simulação multiplicada que
exigência de lógica e de moral social n um apa relho podre, ofereceria o ritua l de morte da universidade como modelo
que se desfaz, que perde toda a consciência da sua legitimi- de apodrecimento a toda a sociedade, modelo contagioso de
dade e renuncia quase por si a funcionar. É a esquerda que desafectamento de toda uma estrutura social, onde a morte
segrega e reproduz desesperadamente poder, pois o quer, e faria finalmente os seus estragos, que a greve tenta deses-
logo crê nele e ressuscita-o onde o poder lhe põe fim. Como peradamente conjurar, cm conspiração com o sistema, e não
o sistema põe fimr um por um, a todos os axiomas, a todas as conseguindo mais que mudá-la numa morte lenta, ao retar-
suas instituições, e realiza, um por um, todos os ob;ectivos dador, q ue já nem sequer é o lugar possível de uma subver-
da esquerda histórica e revolucionária, esta vêRse impelida são, de uma reversão ofensiva.
a ressuscitar todas as engrenagens do capital para poder É o que o Maio de 68 tinha conseguido. Num momento
investir contra elas um dia: da propriedade privada à pequena menos avançado do processo de liquefacção da u.niversi-
empresa, do exército à grandeza nacional, da moral puritana dade e da cultura, os estudantes, longe de quererem salvar
à cultura pequeno-burguesa, da justiça à universidade - é os móveis (ressuscitar o objecto perdido, num modo ideal),
preciso conservar tudo o que está a desaparecer, o que o tinham retorquido ao lançar ao poder o desafio de uma
próprio sistema, na sua atrocidade certamente, mas também morte total, imediata, d a instituição, o desafio de uma des-
no seu impulso irreversível, liquidou. territorialização bem mais intensa ainda que a proveniente
Donde a inversão paradoxal mas necessária de todos os do sistema, e intimando o poder a responder a esta deriva
termos de análise política. total da instituição de saber, a esta inexigência tota1 de
ilcumular num dado sítio, a esta morte pretendida no limite
O poder (ou o que ocupa o seu lugar) já não acredita na - não a crise da universidade, isso não é um desafio, pelo
Universidade. No fundo sabe que ela não é mais que uma contrário, é o jogo do sistema, mas a morte da Universidade
zona de alojamento e de vigilância para todo um grupo - a isto o poder não pôde responder, senão pelo retorno da
etário não tendo, pois,. senão de seleccionar - encontrará a sua própria dissolução (por um instante talvez, mas nós
sua élite noutro sítio, ou de outra maneira. Os diplomas não vimo-lo).
186 Simutacros e Simula{ifO Jean Baudrillard txl

As barricadas do 10 de Maio pareciam defensivas e cénio. Por não sei CJUC efeito de Mocbius, também ,1 prúpri,1
defender um territ6rio: o Bairro latino, velha boutique. Mas repr~ntação se voltou sobre si mesma, e todo o univt•rso
não é verd ade: por d etrás desta aparência, é a universidade lógico do político se d.issolve ao mesmo tempo, dando l11~,1r
morta, a cultura morta cujo desafio lançavam ao poder, e a a um universo transfinito da simulação, onde à partida
sua própria morte even tual, ao mesmo tempo - trans- ninguém já é representado ou representativo do que quer
formação em sncrifí'cio imediato, o que não era mais que a que seja, onde tudo o que se acumula se desacumula ao
própria operação do sistema a longo prazo: liquidação da mesmo tempo, onde mesmo o fantasma axial, directivu e
cultura e do saber. Eles não estavam lá para salvar a Sorbonne protector do poder desapareceu. Universo para nós ainda
mas para brandir o cadáver na cara dos outros, como os incompreensível, irrt.--conhedvel, de uma curva maléfica à
negros de Watts e de Detroit brandiam as ruínas dos seus q ual as nossas ClK>rdenadas mentais ortogonais e levadas ao
bairros, a que eles próprios tinham la nçado fogo. infinito linear d<'I crítica e da história resistem violentamente.
Que é que se pode brandir hoje em dia? Já nem sequer Ü, contudo, aí que há que lutar, se é que mesmo isso faz
as ruínas do saber, da cultura - as próprias ruínas estão sentido. Somos simuladores, somos simulacros (não no
defu11tas. Nós sabemo-lo, durante sete anos fizemos o trabalho sentido clássico de «aparêncin»), espelhos côncavos irradia-
de luto de Nanterre. 68 está morto, repetível somente como dos peJo social, irradiação sem fonte luminosa, poder sem
fantasia de luto. O que seria o seu equivalente em violência origem, sem distância, e é neste universo táctico do simu-
simbólica (isto é, para além do político) seria a mesma lacro que vai ser prl.-'Ci~ lutar - sem esperança, a esperança
operação que tem feito percutir o não saber, o apodrecimento é um valor fraco, mas no desa.fio e no fascínio. Pois não há
do saber contra o poder - voltai- a encontra r essa energia que recusar o fascínio intenso que emana desta liquefac<;ão
fabulosa já não de modo algum ao mesmo nível, mas na de todas as instâncias, de tocios os eixos do valor, de toda a
espiral superior: fazer percutir o não poder, o ap(?drecimento axiologia, incluindo a políl'ica. Este espectáculo, que é ao
do poder contra - contra o quê, exactamente? É af que está mesmo tempo o da agonia e do apogeu do capital, ultrapassa
o problema. Talvez seja insolúvel. O poder perde-se, o poder em muito o da mer-cadoria descrita pelos situacionistas. Este
perdeu-se. Já não existem à nossa volta mais do que espect.:iculo é a nossa força essencial. Já não estamos numa
manequins de poder, mas a ilusão maquinal do poder rege correlação de forças incerta ou vitoriosa, mas política, relati-
ainda a ordem social, detrás da qual cresce o terror ausente, vamente ao capital, esse é o fantasma da rcvolu<;ão. Estamos
iJegível, do controle, terror de um código definitivo, do qual numa rela<;ão de de,a.fio, de sedu<;ão e de morte relativa-
todos nós somos ínfimos terminais. mente a t'Ste universo que já não o é, pois que, precisamente,
toda a axialidade lhe escapa. O desafio que o capital, no seu
Atacar a representação também já não faz muito sentido. delírio, nos lan<;a - liquidando sem vergonha a lei do lucro,
Sentimos de facto que textos os conflitos estudantis (como a mais-valia, as finalidades produtivas, as estruturas de poder
de maneira mais ampla, ao nível da sociedade global) em e voltando a encontrar no termo do seu processo a imorali-
torno da representa<;ão, da delegação de poder, já não são, dade profunda (mas também a sedução) dos rituais primitivos
pela mesma razão, mais que peripécias fantasma is que ainda de destruição, esse desafio, é preciso aceitá-lo numa sobre-
chegam, contudo, para nosso desespero, para ocupar o pros- valorização insensata. O capital é irrcsponstivel, irreversível.,
188 Simulacros e Simulação Jean Bnudrillard 189

inelutável como o valor. Por si só é capaz de oferecer um ciência imaginária, só uma pataffsica dos simulacros po.J,: f,,zt•r-
espcctáculo fantástico da sua decomposição-só paira ainda -nos sair da estrntêgia de simulação do sistema e do impt1s~•
sobre o deserto das estruturas clássicas do capital o fantasma de morte em que nos encerra.
do valor, como o fantasma da religião paira sobre um mundo
desde há muito dessacra lizado, como o fantasma do saber Mai o de 1976.
paira sobre a universidade. Cabe-nos a nós voltarmos a ser
os nómadas deste deserto, mas desligados da ilusão maquinal
do valor. Viveremos neste mundo, que tem para nós toda a
inquietante estranheza do deserto e d o simulacro, com toda
a veracidade dos fantasmas vivos, dos animais errantes e
simuladores que o capital, que a morte do capital fez de nós
- pois o deserto das cidades é igual ao deserto das areias, a
selvil dos signos é igual à das florestas, a vertigem dos simu-
lacros é igual à da natureza - só subsiste a sedução verti.-
ginosa de um sistema agonizante, onde o trabalho enterra
o trabalho, onde o valor enterra o valor - deixando um
espaço virgem, assombrado, sem trilhos, contínuo como o
queria Bataille, onde só o vento levanta a areia, onde só o
vento vela pela areia.
Que se passa com tudo isto na ordem política? Muito
pouco.
Mas devemos lutar também contra o fascínio profundo
que exerce sobre nós a agonia do capital, contra a encenação
pelo capital da sua própria agonia, da qual somos os ago-
nizantes reais. Deixar-lhe a iniciativa da sua própria morte é
deixar-lhe todos os privilégios da revolução. Cercados pelo
simulacro do valor e pelo fantasma do capital e do poder,
estamos bem mais desarmados e impotentes que cercados
pela lei do valore da mercadoria, já que o sistema se mostrou
capaz de integrar a sua própria morte, e que a responsabi-
lidade respectiva nos é retirada e, logo, o problema da nossa
própria vida. Esta astúcia suprema d o sistema, a do simu-
lacro da sua morte, através do qual nos mantém em vida
tendo liquidado por absorçào toda a negatividade possível,
só pode ser impedida por uma astúcia superior. Desafio ou
O último tango
do valo r

Or1dt: 11nda 1-std 110 seu IHgar la llt'$0rdem


011de 110 l11~ar ,,retendido ,:Ao M 11ada, I n ordem
BRF..OtT

O pânico dos rcspons{,vcis da Universidade perante a


ideiri de que se vão distribuir diplomas sem contrapartida
de trabalho «real», sem equivalência de saber. Est·e pânico
não é o da subve rsão política, é o de ver o valor dissociar-se
dos seus conteúdos e funcionar sozinho, segundo a sua forma
pró pria. Os valores universitários (os diplomas, etc.) vão
proliforar e continuar ri circular, um pouco como os capitais
flutuantes ou os eurod61ares, vão rodopiar sem critério de
referência, completamente desvalori7.ados a té ao fimite, mas
não tem importância: a sua simples circulação basta para
criar um horizonte social do valor, e a obsessão do valor
fantasma será ainda maior, mesmo q uando o seu referencial
(o seu valor de uso, o seu valor de troca, a «força de trabalho>~
universitária que ela abarca) se perde. Terror do valor sem
equivalência.
Esta situação não é aparentemente nova. É-o para aqueles
que pensam ainda que se elabora na universidade um pro-
191 Simulacros e Sim11lat;do /ea11 Baudrillard ·193

cesso real de trabalho, e que investem aí a sua vivência, a sua diplomas a tc><b a gente. Subversão? De maneira nenhuma.
neurose, a sua razão de ser. A troca de signos (de saber, de Uma vez mais, éramos os promotores da forma avançada, da
cultura) na Universidade, entre «docentes» e «discentes» já forma pura do valor: diplomas sem trabalho. O sistema não
não é, desde há um certo tempo, mais que um conluio acom- q ue r mais, mas quer isso- valores operacionais no vácuo -
panhado da amargura da indiferença (a indiferença dos signos e fomos nós que o inaugurámos, na ilusão inversa.
que arrasta consigo a desafeição das relações sociais e huma- A angústia estudantil ao ver que são concedidos diplomas
nas), um simulacro acompanhado de um psicodrama (o de sem trabalho é igual e complementar à dos docentes. É mais
uma procura vergonhosa de calor, de prt.">Senc;a, de troca secreta e mc1is insidiosa que a angústia tradicional de fracassar
edipiana, de incesto pedagógico que procu ra s ubstituir-se à ou de obter d iplomas sem valor. O seguro contra todos os
troca ~rdida de trabal ho e de saber). Neste sentido, a Uni- riscos do diploma, que esvazia de conteúdo as peripécias do
versidade continua a ser o lugar de uma iniciação dt~t'=-l't'- saber e da selecção, é difícil de suportar. E ainda se complica
rada li forma vazia do valor, e os que aí vivem desde há alguns mais, quer com uma prestação-alibi, simulacro de trabalho
anos conhecem esse trabalho estranho, o vcrdc1deiro dcsc.."S- trocado contra um simulacro de diploma,. quer com urna
pero do não trabalho, do não sabér. Pois a~ ger<1ções actuais forma de agressão (o docente intimado a dar o UV, ou tratado
sonham ainda com ler, aprender, rivalizar, mas o coraçifo como distribuidor automático) ou de rancor, para que pelo
já não está aí - em bloco, a men talidade cultural ascética menos passe ainda alguma coisa de uma relação «real». Mas
afundou corpo e bens. Ê por isso que a greve já não significa nadc1 disso resulta. Mesmo as cenas d omésticas entre docen-
nada m. tes e estudantes, que constituem hoje em d ia uma boa parte
É por isso também que fomos apanhados na armr1dilha, das suas trocas, não são mais que a recordação, e como que
nos embos<.'ámos a nós próprios, depois de 68, ao d ar os a nostalgia de urna violência ou de uma cumplicidade que
outrora os opunha ou os reunia em torno de uma questão de
saber ou de uma questão política.
1. De resto il greve actual assuml' naturalmente 06 m e,sm(.)S a~pcct~
É triste e assustador sermos abandonados pela «dura lei
que o lmbalho: o mesmo511~11e11sc, a mesma au~ncia de gravidadt>, a mesma do valor», a «lei de bronze». É por isso que ainda há d ias
ausência de objectivos, a mt.>sma alergia à decisão, o nwsmo rodopiM cm propícios para os métodos fascistas e autoritários, pois estes
circulo de instância, o mf'Smo luto da cncrgi,1, ., m..:sma circulari(fade ressuscitam algo da violência q ue é necess.iria para viver -
índ,.-finida na gr1tve hoje como no trab.1\ho 011tc1n , a mesma situaç.'I" na sofrida ou infligida, pouco importa. A violência do ritual, a
rontrn-instih1içào que na instituição: o cont;igio aumenta, o fl"Cho ~ tá
violência do trabalho, a violência do saber, a violência do
fechado - depois disto vai ~r pre<:iSõ de$<:t)mprimir noutro sitio. Ou
antes não: 1omar este mesmo imp.1ssccomo situação de base, fazer voltar sangue, a violência do poder e do político, é boa. É claro, é
a indttisão e a a usência de objecli vu cm .i,ituaç3o ofensiva, em t.>Slratégla. luminoso, as correlações de força, as contradições, a explo-
Procurando a todo o custo subtrair-se a e:;ta situaçi'\o mortal, a est,, anorexia ração, a repressão! Isso faz-nos falta, hoje em dia, e a sua
mental universitária, os~studantcs não fazem mais que reinsuflar energia necessidade faz-se sentir. É todo um jogo, por exemplo, na
a uma instituição em coma profundo, é a sobrevivência forçada, é a medi- Universidade ainda (mas toda a esfera política se articula da
cina do d~spero, que se pratica hoje nas instituições como nos indivfduos,
e que é em todil " parte o s igno da mesma incapacidade de enfrentar a
mesma maneira) que o reinvestimento do seu poder pelo
morte. .,É preciso empurr,u o que se está a afundar•, dizia Nietzsche. docente através da 1<palavra livre», a autogestão do grupo e
194 Simulacros e Simulação

outras tretas modernas. Ninguém é parvo. Simplesmente, Sobre o niilismo


para escapar à derepc;ão profunda, à catástrofe que arrasta a
perda dos papéis, dos estatutos, das responsabilidades e a
demagogia incrível a que aí se dá largas, é preciso recriar no
prof nem que seja um manequim de poder e de saber, nem
que seja uma parcela d e legitimidade vinda da ultra-esquerda
- caso contrário a situação é intolerável para todos. f: sobre
este compromisso - figuração artificial do docente, cumpli-
cidade equívoca do estudante, é sobre este cená rio fantasma
de pedagogia q ue as coisas continuam, e podem desta vez
durar indefinidamente. Po is há um fim para o valor e para
o trabalho e não o há para o simulacro do valor e do traba-
lho. O universo da simulação é transreal e lransfínito: já
nenhuma prova de realidade lhe virá pÔT fim - só o afun- O niilismo já não tem as cores escuras, wagnerianas,
damento total e o deslizar de terreno, que continua a ser a spenglerianas, fuliginosas, do fim do século: Já não procede
nossa mais louca esperança. de uma Weltanschauung • da decadência nem de uma radi-
calidade metafísica nascida da morte de Deus e de todas as
Maio de 1977. consequências que dal há a retirar. O niilismo é hoje em dia
o da transpar~ncia, e é de alguma maneira mais radical, mais
crucial que nas formas anteriores e históricas, pois esta trans-
parência, esta flutuação é indissoluvelmente a do sistema, e
a de toda a teoria que pretende ainda analisá-la. Quando
Deus morreu ainda havia Nietzsche para o dizer - grande
niilista perante o Eterno e o cadáver do Eterno. Mas perante
a transparência simulada de todas as coisas, perante o simu-
lacro de realização materialista ou idealista do mundo na
hiper-realidade (Deus não morreu, tomou-se hiper-rcat), já
não há Deus teórico e crítico para reconhecer os seus.
O universo, e todos nós, entrámos vivos na simulação, na
esfera maléfica, nem sequer maléfica, indiferente, da dissua-
são: o niilismo, de maneira insólita, realizou-se inteiramente
já não na destruição, mas na simulação e na dissuasão. De

• Concepção do mundo. Em alemão no original. (N. da T.)


196 Simulacros e Simulaç4o fean Baudrillard 197

fantasma a ctivo, violento, de mito e de cena que ele era, que se agarrava ao sentido) é urna paixão niilista por exce-
historicamente também, passou para o funcionamento tra ns- lência, é a paixão própria ao modo de desaparecimento.
parente, falsamente transparente, das coisas. Que resta, pois, Estamos fascinados por todas as formas de desaparecimento,
de niilismo possível em teoria? Que nova cena pode abrir-se, do nosso desaparecimento. Melancólicos e fascinados, tal é a
onde pudesse voltar-se a jogar o nada e a morte como desnfio, nossa situação geral numa e ra de transparência involuntária.
como questão?
Estamos numa posição nova, e sem dúvida insolúvel, Eu sou niilista.
relativamente às formas anteriores do niilismo: Constato, aceito, assumo o imenso processo de destruição
O romantismo é a sua primeira grande aparição: corres- das aparências (e da sedução das aparências) em benefício
ponde, juntamente com a Revolução das Luzes, à destruição do sentido (a representação, a hjstória, a crítica, etc.) que é o
da ordem das aparências. facto capital do século XIX. A verdadeira revolução do século
Surrealismo dadaísmo, o absurdo, o niilismo político, são XIX, da modernidade, é a destruição radical das aparências,
a sua segunda grande manifestação, que corresponde à des- o desencantamento do mundo e o seu abandono à violência
truição da ordem do sentido. da interpretação e da história.
O primeiro é ainda uma forma estética de n ifüsmo (dan- Constato, aceito, assumo, analiso a segunda revolU(;ão, a
dismo), o segundo uma forma política, histórica e metafísica do século XX, a da pós-modernidade, que é o imenso pro-
(terrorismo). cesso de destruição do sentido, igual à destruição ante-
Estas duas formas já só nos dizem respeito em parte, ou rior das aparências. O que pelo sentido mata, pelo sentido
não nos diz.em respeito de todo. O niilismo da transparência morre.
já não é nem estético, nem político, já não ~ai beber, n~m à A cena dialéctica, a cena crítica estão vazias. Já não há
exterminação das aparências, nem à do sentido dos ulhmos cena. E não há terapia do sentido ou terapia pelo sentido: a
fogos, ou dos últimos matizes de ~m apocal_ipse. Já nã~ há própria terapia faz parte do processo generalizado de indi-
apocalipse (só o terrorismo aleatório tenta amda reflecti-lo, ferenciação.
mas justamente já não é político, e já só tem um modo d_e A própria cena da análise tomou-se incerta, aleatóri~: as
aparição que é ao mesmo tempo um modo de desapareci- teorias flutuam (de facto, o niilismo é impossfvel, polS é
mento: os media - ora os media não são uma cena onde se ainda uma teoria desesperada mas determinada, um imagi-
representa qualquer coisa - é uma banda, uma pista, um nário do fim, uma Weltanschauung da catástrofe)rn.
cartão perfurado de que já nem somos espectadores: recep- A própria análise talvez seja o elemento d ecisivo do
tores). Acabou o apocalipse, hoje em dia é a precessão do imenso processo de congelação do sentido. O acréscimo de
neutro das formas do neutro e da indiferença, Deixo à
consid~ração se poderá haver um romantismo, uma estética
do neutro. Não creio - tudo o que resta é o fascínio pelas J. Hã culturas que só têm imagin4rioda sua origem e nãotlm nenhum
formas desérticas e indiferentes, através da própria operação imaginário do seu fim. Há culturas que estão obcecadas por ambos... Dois
do sistema que nos anula. Ora o fascínio (em oposição à outros casos são passiveis... Apenas ter imaginário do seu próprio fim (a
nossa cultura, niilista). Já nlo ter qualquer imaginário, nem da origem
sedução que se agarrava às aparências, e à razão dialéctica nem do fim (a que está por vir, aleatória).
198 Simulacros e Simulação Jean Ba11drillard 799

sentido que as teorias trazem, a sua competição ao nível do Verschwindens •. Transpolítica é a esfera electiva do modo de
sentido é absolutamente secundário tendo em conta a sua desaparecimento (do real, do sen tido, da cena, da história,
coligação na o peração glaciar e quaternária de d issecação e do social, do indivíduo). Em rigor, já não é tanto niilismo: no
de tra nsparência. É preciso estar consciente de que, seja q ual desaparecimento, na forma desértica, aleatória e indiferente,
for a maneira como a análise proceda, ela procede no sentido já nem sequer há o pathos, o patético do niilismo - esta energia
da congelação do sen tido, ajuda à precessão dos simulacros mít ica que constitui ainda a força do niilismo, radicalidade,
e das formas indiferentes. O deserto aumenta. recusa mítica, antecipação d ramática. Já nem sequer é desen-
Implosão do sentido nos media. Implosão do social na cantamento, com a tonalidade ela própria encantada, sedutora
massa. Crescimento infinito da massa em função da aceleração e nostálgica do desencantamento. É apenas desaparecimento.
do sistema. Impasse energético. Ponto de inércia. Encontram-se já vestígios desta radicalidade do modo de
Destino de inércia de um mundo saturado. Os fenómenos desaparecimento em Adorno e Benjamin, paralela mente a
de inércia aceleram-se (se assim nos podemos exprimir). As um exercício nostálgico da dialéctica. Pois há uma nostalgia
formas paradas proliferam, e o crescimento imobiliza-se na da dialéctica, e sem dúvida que a dialéctica mais subtil é à
excrescência. Esse é também o segredo da hipertelia, do q ue partida nostálgica. Mas mais profundamente, há em Benjamin
vai mais longe que o seu próprio fim. Seria o nosso modo e Adorno uma outra tonalidade, a tonalidade de uma melan-
próprio de destruição das finalidades: ir mais longe, dema- colia agarrada ao próprio sistema - essa incurável e para
siado longe no mesmo sentido - destruição do sentido por além de toda a dialéctica. É esta mela ncolia dos sistemas que
simulação, hipersimulação, hipcrtelia. Negar o seu próprio está hojé na mó de cima a través das formas ironicamente
fim por hiperfinalidade (o crustáceo, as estátuas da ilha d a transparentes que nos rodeiam. É ela que se torna a nossa
Páscoa) - não será também o segredo obsceno do cancro'? paixão fundamental.
Vingança da excrescência sobre o crescimento, vingança da Já não é o spleen ou o vazio de alma do fim do século. Tão-
velocidade na inércia. -pouco é o nlilismo, que tem em vista normalizar tudo pela
Também as massas são apanhadas neste gigantesco pro- destruição, a paixão do ressentimento. Não, a melancolia é a
cesso excrescente, devorador, que aniquila todo o crescimento tonalidade fundamental dos sistemas funcionais, dos sistemas
e todo o excesso de sentido. Elas são esse circuito curto- actuais de simulação, de programação e de informação. A
-circuitado por uma finalidade monstruosa. melancolia é a qualidade inerente ao modo de desapareci-
É este ponto de inércia q ue é hoje em dia fascinante, mento do sentido, ao modo de volatilização do sentido nos
apaixonante, e o q ue se passa nos arredores deste ponto de sistemas operacionais. E nós somos todos melancólicos.
inércia (acabou, JX>iS, o discreto encanto da dialéctica). Se ser A melancolia é essa desafeição brutal que é a dos siste•
niilista é privilegiar este ponto de inércia e a análise desta mas saturados. Quando se desfaz a esperança de equilibrar
irreversibilidade dos sistemas até um ponto de não retorno, o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, e mesmo de confrontar
então eu sou niilista. alguns valores da mesma categoria, e a esperança mais geral
Se ser niilista é estar obcecado pelo modo de desapa-
recimento, e já não pelo modo de produção, então sou
njilista. Desaparecimento, ocultamento, implosão, Fúria des • Füria do desaparecimento. Em alem.1,o no origiMI. (N. da T.).
200 Simulacros e Sit1mlaçdo Jet1t1 Ba1,dril/ard 201

de uma correlação de forças e de uma questão. Em toda a anulam-se pda indiferença, é aí que o terrorismo é cúm plice
parte, sempre, o sis tema é demasiado forte: hegemónico. involuntário do conjunto do sistema: não politicamente, m.is
Contra esta hegemonia do sistema podem exaltar-se as na forma acelerada da indiferença q ue contribui para impor.
astúcias do desejo, fazer a micrologia revolucionária do quo ti• A morte já não te m cena, nem fantasmática nem política,
diana, exaltar a deriva molecular ou mesmo fazer a apologia onde representar-se, onde jogar-se, cerimonial ou violenta. E
da culinária. Isto não resolve a imperiosa necessidade de isto é a vitória d o outro niilismo, do outro terrorismo, o do
fazer fracassar o sistema na claridade plena. sistema.
Isso, só o terrorismo o faz. Já não há cena, já nem sequer há a ilusão mínima que fa:,,
Ele é o vestígio de reversão que apaga o resto, como um com que os acontecimentos possam adquirir força de reali-
só sorriso irónico apaga todo um discurso, como um só dade- já não há cena nem solidariedade mental ou política:
lampejo de recusa no escravo apaga todo o poder e o gozo do que nos importa o Chile, o Biafra, os boat ,1eople, Bolonh.i o u
amo. a Polónia? Tudo isso vem aniquilar-se no ecrã da televisão.
Quando mais hegemónico é um sistema, taoto mais a Estamos na era dos acontecimentos sem consequências (e
imaginação é atingida pelo seu menor revés. O desafio, das teorias sem consequências).
mesmo infinitesimal, é a imagem de uma falha em cadeia. Só fá não há esperança para o sentido. E sem dúvida q ue
esta reversibilidade sem medida comum constitui um acon- está bem assim: o senti do é mortal. Mas aquilo sobre o que
tecimento hoje em dia, na cena niilista e desafectada do polí- ele impôs o seu reino efémero, aquilo que ele pensou liquidar
tico. Só ela mobiliza o imaginário. para impor o reino das Lu zes, as aparências, essas, S!"ío
Se ser niilista é levar, até ao limite insuportável dos sis- imortais, invulneráveis ao próprio niilismo do sentido ou d o
temas hegemónicos, este vestígio de irrisão e de violência, não sentido.
este desafio ao qual o sistema é intimado a responder pela É aí que começa a sedução.
sua própria morte, então eu sou terrorista e niilista em teoria,
como outros o são pelas armas. A violência teórica, não a
verdade, é o único recurso que nos resta.
Mas há aí uma utopia. Pois bem poderia ser-se niilista se
ainda houvesse uma radicalidade - como poderia muito
bem ser-se terrorista se a morte, inclusive a do terrorista,
tivesse ainda um sentido.
Mas é aí que as coisas se tomam insolúveis. Pois a este
niilismo activo da radicalidade, o sistema opõe o seu, o
niilismo da neutralização. O sistema é também ele niilista,
no sentido em que tem o poder para reverter tudo, inclusi-
vamente o que ele nega, na indiferença.
Neste sistema, a própria morte brilha pela sua ausência.
Estação de Bolonha, Oktoberfest de Munique: os mortos