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A atenção na prática deliberada em performance musical

Eduardo de Carvalho Torres

eduardotorres@ufrj.br

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Resumo: Neste artigo discuto o exercício da atenção enquanto elemento indispensável para a realização da prática deliberada, no âmbito da performance musical, demonstrando a função substancial desempenhada pela memória, bem como a influência da motivação nesse processo. É crescente, em pesquisas acadêmicas da área de música no Brasil, o interesse pelos temas aqui relacionados, possivelmente pelas claras contribuições que estes conhecimentos podem oferecer, sobretudo para o músico de performance. No entanto, durante o trabalho de revisão sobre a literatura relacionada às pesquisas acadêmicas das áreas de prática deliberada e performance musical verifiquei a necessidade de abordar a questão da atenção com maior profundidade. Neste artigo pretendo discutir as origens psicológico-cognitivas da atenção e sua relevância para o bom desempenho em prática deliberada, de modo a oferecer uma contribuição teórica para pesquisas neste campo. Para a realização deste trabalho, realizei uma revisão de literatura cotejando teorias da música, da psicologia, da educação e das ciências da mente, em geral, visando à fundamentação de uma teoria da atenção na prática deliberada em performance musical. Como resultado, apresento uma hipotética estrutura que fundamenta o papel da atenção na prática deliberada.

Palavras-Chave: Atenção na prática deliberada, Memória e Motivação na Performance musical, Prática deliberada.

The attention in deliberate practice in musical performance.

Abstract: In this article I discuss the exercise of attention as an indispensable element of deliberate practice, in the field of musical performance, demonstrating the strong function developed by memory, as well as the influence of motivation in this process. In the Brazilian academic research of music area, it is growing the interest by the topics pointed out here, possibly because of the clear contributions that this knowledge could offer, especially for perform musicians. However, during the work of revision about the related literature of deliberate practice and music performance academic research I verified the necessity to approach the question of attention deeply. In this paper, I intend to discuss the psychological-cognitive origins of attention and its relevance to good performance in deliberate practice, to offer a theoretical contribution to searchers in this field. To carry out this work, I realized a literature review, comparing theories of music, psychology, education and sciences of mind, in general, looking for substantiating of a theory of attention in deliberate practice in musical performance. As a result, I present a theoretical framework that justifies the role of attention in deliberate practice.

Keywords: Attention in deliberate practice, Memory and Motivation in Musical Performance, Deliberate practice.

Introdução O conceito de prática deliberada introduzido por Ericsson, Krampe e Tesch-Römer (1993), desde a sua assimilação vem adquirindo projeção em diversos domínios do

conhecimento. Particularmente no campo das pesquisas acadêmicas da área de música esse conceito tem sido objeto de análise presente em pesquisas estrangeiras (Ruthsatz et al, 2007; Krampe & Ericsson, 1996; Kenny & Gellrich, 2002) e nacionais (Alves & Freire, 2014; Galvão, 2006; Souza, 2014; Quintério & Gloeden, 2016; Santiago, 2006; Zorzal, 2015; e outros) dedicadas aos mais variados assuntos, como por exemplo para conhecimento e apreciação da assim chamada performance expert, no contexto da performance musical, e outros temas afins. Nota-se que os trabalhos que abordam a prática deliberada em particular invariavelmente têm assinalado que atenção e/ou concentração mental são fatores determinantes para a qualidade desta prática, sem se aprofundar, no entanto, no conhecimento científico relativo a estes temas, nem tampouco discutir os meios para sua obtenção. Em primeiro lugar, é necessário que se esclareça a distinção entre atenção e concentração mental. De acordo com Castle e Buckler (2009) a atenção pode ser dividida em “seletiva” e “dividida”. O primeiro caso estaria relacionado à “atenção focada”, ou em outras palavras, a concentração sobre determinado objeto. No segundo, quando “dividida” e desfocada ou desconcentrada, portanto, os autores entendem ser possível a um indivíduo atender a determinada demanda, ainda que desconcentrado. Partindo desse pressuposto, o presente estudo aborda o conceito de atenção, termo abrangente e difícil de delimitar, conforme Styles (2006), e o papel desta função cognitiva para o bom desempenho do indivíduo na prática deliberada. A atenção vem sendo estudada por especialistas ao menos desde o final do século XIX, tendo em William James (1890) um de seus pioneiros. Desde então, diversos autores buscaram definir este conceito grosso modo entendido como uma habilidade do indivíduo de selecionar, atender e/ou responder a determinados estímulos e ignorar, voluntariamente (ou não), outros (Styles, 2006; Broadbent, 1958; Pashler, 1998; Eysenck & Keane, 2010; Lima, 2005; Castle & Buckler, 2009) , bem como compreender suas estruturas, limitações e soluções para viabilizar seu melhor desempenho. Alguns pesquisadores têm discutido a íntima relação que a atenção guarda com o funcionamento da memória (Helene & Xavier, 2003; Cowan, 1997; Styles, 2005; Underwood, 1979), fato que ainda tem sido relativamente pouco debatido, muito embora a memória seja indiscutivelmente imprescindível para a realização de quaisquer funções cognitivas elementares, conforme ilustra Baddeley (1999) este afirma que a melhor forma de entender a importância da memória é imaginar como seria a vida sem memória. No âmbito das pesquisas acadêmicas de música, a memória, particularmente, tem sido estudada com um pouco mais de profundidade, ainda que não abordando a questão da atenção, por exemplo, em

trabalhos como os de Snyder (2001), Gerber (2012) ou Chaffin, Logan & Begosh (2012), dentre outros. Nas seções seguintes, primeiramente esclarecerei as questões referentes à prática deliberada. Então, discutirei as origens da atenção e sua relevância para o bom desempenho em prática deliberada. No terceiro e último tópico, destaco a importância da motivação para a obtenção e a manutenção da atenção, além das consequentes influências sobre todo o processo.

Prática deliberada Definida por Ericsson, Krampe e Tesch-Römer (1993), esta prática foi inicialmente caracterizada por um conjunto de atividades práticas orientadas através do intermédio de alguém um professor, treinador, orientador cuja finalidade é aperfeiçoar o desempenho de habilidades específicas. Os autores afirmam ainda que esta atividade “requer esforço e não é inerentemente agradável” e que “os indivíduos são motivados a praticar, porque a prática melhora a performance”(p. 368), revelando, portanto, a importância da motivação para o estudo deliberado e, consequentemente, para a performance musical. Em relação ao uso do termo performance, é definida por Goldberg (1979/2006) como uma forma de manifestação artística caracterizada pela realização em ação”, quando o performer se apropria de quaisquer recursos artísticos e suportes, numa relação direta com o público. Assumindo-se esta compreensão, notória para o músico, entende-se que a música, por sua natureza, é uma arte de performance. Quanto à qualificação desta realização, alega-se haver um padrão de performance caracterizado pela excelência, denominada performance expert. Por definição, a expertise refere-se a um desempenho superior consistente sobre um conjunto específico de tarefas representativas para um domínio” (Ericsson & Lehman, 1996, p. 277). Alguns exemplos de pesquisas da área de música (ou relacionados a ela) que têm abordado a expertise musical com interesse podem ser conhecidos nos trabalhos de Krampe e Ericsson (1996), onde os autores investigam a prática deliberada na manutenção de habilidades cognitivo-motoras em pianistas experts e em pianistas amadores; em Santiago (2006), discute-se a integração entre prática deliberada e o aprendizado informal da música; em Galvão (2006), que trata das consequências da atividade musical para o desenvolvimento cognitivo e emocional das pessoas, também em Alves e Freire (2014), interessados em discutir a performance expert de clarinetistas, e ainda em Zorzal (2015), que propõe uma reflexão sobre a prática musical e os

aspectos práticos da preparação da performance musical, enfocando a autonomia do estudante de instrumentodentre outros trabalhos. O cerne do presente trabalho encontra-se na frase sustentada pelo consagrado trabalho de Ericsson e colegas (1993, p. 370): “é necessário manter total atenção durante o período da prática deliberada”1, argumento presente também nos trabalhos de Souza (2014), Alves e Freire (2014) e Galvão (2006). O que chama atenção para a centralidade do tema da atenção na prática deliberada é, conforme observei inicialmente, a singularidade do trabalho seminal de Ericsson e colegas, referência e denominador comum nos trabalhos que abordam, com algum destaque, a prática deliberada. Isso revela a consistência dessa concepção, mas que, no entanto, não aborda de forma mais substancial as origens e a manutenção da atenção, como também, as formas como este recurso cognitivo pode ser viabilizado.

Implicações no funcionamento da atenção: Memória Não é novidade que a literatura dedicada aos temas de atenção e memória tenha buscado, de algum modo, enfatizar a relação de causalidade entre estas duas funções cognitivas humanas. Ainda que o volume de conhecimento produzido sobre esses temas seja relativamente pequeno (Helene & Xavier, 2003), é possível encontrar obras inteiras dedicadas ao tema, como em Cowan (1997), Styles (2005) e Underwood (1979). Mas a grande porção encontra-se em forma de capítulos ou seções de livros e artigos, tal como em Pashler (1998), Cohen (2014), Eysenck e Keane (2010), Fougnie (2008), Bjork e Bjork (1996), e outros. No campo da música, pesquisas que envolvam atenção, memória e prática deliberada, por exemplo, ou quaisquer outras temáticas que envolvam as funções cognitivas destacadas neste trabalho, no entanto, ainda carecem de maior aprofundamento. Helene e Xavier (2003), em um trabalho que busca aproximar atenção de memória, observaram que “diversos fenômenos atencionais parecem ser manifestações diretas do funcionamento dos sistemas de memória(p.13). Estes autores notaram que o acumulo de registros de experiências passadas da vida de um indivíduo, possibilitam que seu sistema de memórias faça “previsões probabilísticas sobre o ambiente” e que essa capacidade de antecipar e “selecionar as informações que serão processadas, consequentemente desenvolvem uma intencionalidade (p. 12). Em outras palavras, os autores consideram que graças a esta capacidade de prever resultados com base em experiências passadas, o sistema nervoso humano é capaz de promover ações que conduzam uma determinada ação a um

1 Tradução de: “Is necessary to maintain full attention during the entire period of deliberate practice”.

resultado pretendido e possibilitem ao indivíduo direcionar sua atenção, selecionando as informações que serão processadas. Essa posição representa um pensamento revolucionário e fundamental para o estudo deliberado, pois admite a possibilidade de prever a atenção, tal como observá-la de forma consciente (meta-atenção 2 ). Helene e Xavier defendem que “processos controlados” ou “processos voluntários de direcionamento da atenção” (p. 16), em oposição a processos automatizados de captação atencional, por serem processos conscientes são utilizados em casos excepcionais de tarefas complexas, que envolvem planejamento e demandam tempo para sua execução por grau de complexidade e/ou desafio. Por fim, sugerem que através de um processo de automatização de tarefas complexas, como os desafios impostos à prática deliberada fazendo um paralelo , poderiam aliviar a carga atencional, melhorando a qualidade do desempenho da atividade proposta, e, por conseguinte, da performance.

O papel da motivação A motivação caracteriza-se como um elemento psicológico que proporciona ao indivíduo energia para realizar determinada ação (Reeve, 2006; Ryan & Deci, 2000). Araújo

(2015) considera a motivação “fundamental para quem vivencia a experiência musical e (

elemento que garante a qualidade do envolvimento no processo” e, ainda, que “o que nos leva

sejam de ordem

subjetiva ou objetiva” (p. 45). Alves e Freire (2014) defendem que é a motivação o elemento que garante o foco atencional durante a prática deliberada, sem a qual seria improvável a realização e a sustentação desta atividade. Para esses autores, “a prática requer muita concentração, e a manutenção do foco no estudo é uma atividade considerada como não prazerosa, por isso a motivação é elemento fundamental para manter o foco e sustentar os esforços que a prática musical exige a longo prazo” (p. 79) — argumento corroborado por outros autores (Ericsson et al., 1993; Feltovich, Prietula & Ericsson, 2006; Gomes, 2008). De acordo com Csikszentmihaly (1997), quanto mais distante as afinidades motivacionais e emotivas de uma pessoa para com uma situação ou objeto, mais difícil é a capacidade de concentrar a atenção do indivíduo. Ao contrário, quando alguém gosta da atividade que desempenha e é motivada para superar suas dificuldades, mais fluentemente a concentração ocorre. Para esse autor, controlar a atenção significa “controlar a experiência”; “a informação atinge a consciência somente quando atendemos a ela” e o “estresse que

a agir (

) o

)

são motivos gerados no contexto da nossa vida cotidiana, (

)

2 Sobre meta-atenção, ver Loper, A. & Hallahan, D. (1982). Meta-attention: The development pf awareness of the attentional process. The journal of general psychology, 106, p. 27-33.

experimentamos depende mais do quão bem controlamos nossa atenção, do que o que

acontece conosco” (p. 128). Csikszentmihaly consagrou-se por ter desenvolvido uma teoria

motivacional denominada “Teoria do fluxo”, segundo a qual, quando sob condições onde as

habilidades do indivíduo e os desafios impostos a este se encontram em equilíbrio, o

indivíduo atingiria um “estado de fluxo”, quando então seria possível experimentar um

intenso estado de prazer e concentração. Ele sustenta que o fluxo é uma fonte de energia

psíquica que foca a atenção e motiva a ação” (p. 140).

Considerações finais

A prática deliberada é caracterizada pela composição de vários fatores, dentre os quais

se atribui à atenção uma importante função nesse processo, de acordo com os argumentos

evidenciados neste trabalho. É natural, portanto, que se conclua que o estudo deliberado é um

processo significativo para a construção da performance musical, e indispensável quando se

trata da performance expert.

Uma revisão de literatura em torno dos conceitos acima discutidos possibilita-nos

estruturar a fundamentação do papel da atenção na prática deliberada da seguinte forma: a

prática deliberada envolve o exercício da atenção de forma decisiva; é inconcebível entender

prática deliberada sem atenção; o processo atencional, por sua vez, está condicionado pelo da

memória, que em maior ou menor proporção determina o grau de direcionamento da atenção e

o desenvolvimento de intencionalidades na seleção de informações; a atenção, no entanto, é

apoiada pela motivação, processo que garante a manutenção e a continuidade do exercício da

ação a qual o indivíduo é submetido, revelando o complexo ciclo de ação direta da motivação

sobre a atenção, esta, sobre a prática deliberada, e, consequentemente, sobre a performance.

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