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A Mente Renovada

'

Biblioteca Particula
Título do original em inglês:
The Renewed Mind
Copyright ©1974 by Bethany Fellowship, Inc.
Tradução de Myrian Talitha Lins
Quarta edição — 1980

Todos os direitos reservados pela


Editora Betânia S/C
Caixa Postal 10
30.000 Venda Nova, MG

É proibida a reprodução total ou parcial


sem permissão, por escrito, dos editores.

Composto e impresso nas oficinas da


Editora Betânia S/C
Rua Padre Pedro Pinto, 2435
Belo Horizonte (Venda Nova) MG

Printed in Brazil
^%

y índice
_^ Primeira parte — A mente renovada descansa
w
em Deus
S^ 1. As formas de santidade 10
^^^ 2. Os mistérios divinos 20
™ 3. O segredo da santificação 29

Segunda parte — A mente renovada enfrenta as


^9 dificuldades com a autoridade de Cristo
g^ 4. O antigo senhorio 38
5. O perdão unilateral 48

---jk Terceira parte — A mente renovada é paciente


6. As pequenas esperas da vida 56
•9 7. As promessas e seu processo de realização . 64
^^ 8. Perdão e libertação 72

S£ Quarta parte — A mente renovada aceita disciplina


__ ^ 9. Dificuldades — uma ferramenta divina . . . 82
""^ 10. "Na sucata, não, Senhor; no fogo!" 89

Quinta parte — A mente renovada ora com


P9 toda a confiança
J^ 11. O segredo da oração atendida 99
12. Orar em nome de Jesus 113

^ Nota biográfica sobre o autor 120


Prefácio
E não vos conformeis com este século,
mas transformai-vos pela renovação da
vossa mente. Rm 12.2.

A mente renovada enxerga a vida mais em termos


de parábolas do que de princípios. Naturalmente, os
princípios existem, e se acham presentes nela. Eles são
como o alicerce de uma construção, que se acha fora
de vista, mas dá base e firmeza ao edifício. Contudo,
aquilo de que a mente se apercebe, aquilo que se
constitui em seu princípio operacional, muitas vezes é
um quadro, uma narrativa, uma figura dramática. Já
vi transformações das mais notáveis ocorrerem na
vida de pessoas às quais uma ilustração vivida foi
apresentada com o fito de renovar seu modo de sentir
e agir.
Este livro contém uma série de ilustrações e pará-
bolas relacionadas com a vida cristã e nosso desenvol-
vimento espiritual. É meu desejo que elas ofereçam ao
leitor não apenas melhor compreensão dos princípios
bíblicos, mas também alguns meios pelos quais esses
princípios se transformem em realidades práticas
para sua vida. Pois o objetivo da mente renovada não
é simplesmente um conjunto de idéias novas, mas
uma vida mudada.
e^*

PRIMEIRA PARTE

A Mente Renovada
Descansa Totalmente
em Deus
CAPITULO UM

Construa as Formas e Deus


as Encherá
Já tentou superar um mau hábito? Geralmente
acontece assim: primeiro tomamos a deliberação de
abandoná-lo, depois aplicamos nossa força de vontade
até o máximo. Aí começamos a pensar que o proble-
ma está superado. Eis senão quando, de repente, ele
aparece de novo.
Já lhe passaram pela cabeça pensamentos e idéias
que, se fossem apregoados por um alto-falante, o
fariam corar de vergonha? Ninguém deseja tais pe*-
samentos, mas quanto mais lutamos contra eles. mais
fortes parecem tornar-se.
Já aconteceu de você pensar que começava a se
desenvolver na vida espiritual, quando subitamente se
vê numa situação que lhe provoca uma hostilidade
que nem sabia existir em seu coração? E então passa a
conjecturar se sua carreira espiritual por acaso nao
está regredindo.
Experiências assim contam com um denominador
comum: dão testemunho de que existe um profundo
hiato entre o que desejamos ser e o que devemos ser.
Poderíamos chamar isso de "a brecha da santidade".
Em Gaiatas 5.16, o apóstolo Paulo nos fornece
alguns conselhos práticos e diretos sobre essa brecha.
É uma mensagem que pode afastar a sensação de peso
que, por vezes, afeta nosso viver cristão, e instilar nde
novo sentimento de contentamento, de feliz expectaõ-

10
va. de gozo, e. acima de tudo, um novo sabor de
vitória. É uma palavra endereçada aqueles que estão
cansados de ser derrotados, e desejam passar para o
lado dos vencedores. É a seguinte:
"Andai no Espírito, e jamais satisfareis à concu-
piscência da carne."

O Mocinho e o Vilão que Há em Nós


Quando tomamos o helicóptero da interpretação,
e nos erguemos do solo para inspecionar o terreno
deste versículo, a primeira coisa que percebemos é que
há uma batalha sendo travada ali. É uma guerra entre
o "Espírito" e a "carne". É a mesma guerra que
sentimos explodir dentro de nós quando tentamos
superar um mau hábito e não conseguimos. Ê a luta
que enfrentamos quando nos sobrevêm pensamentos,
idéias e atitudes que nos parecem impossíveis de ser
controlados. Ê o conflito que sempre ocorre em nosso
interior quando nos sentimos chamados a realizar
certa tarefa, mas acabamos batendo em retirada,
perseguidos por dúvidas e temores. Em linguagem
corriqueira, diríamos que é a briga entre o mocinho e
o vilão que existem em nós.
Lutero fez o seguinte comentário acerca desse
texto: "Existem em vós dois pólos contrários, o Espíri-
to e a carne. Deus ateia em nosso corpo um conflito e
uma batalha, pois o Espírito milita contra a carne e
esta contra o Espírito. Não peço de vós senão que
sigais o Espírito, fazendo dele vosso líder e guia, e que
resistais ao outro guerreiro, a carne, pois isso é tudo
que podeis fazer."

Santificaçâo — um Empreendimento
em Cooperação com Deus
A última parte dessa declaração de Lutero aponta
uma verdade que é facilmente ignorada. Nessa bata-
lha travada entre a carne e o Espírito, é importante

11
que saibamos o que devemos fazer. Mas igualmente
importante é sabermos o que não podemos. Este
segundo fato é quase que universalmente ignorado.
Em Filipenses 2.12, lemos o seguinte: "Desenvol-
vei a vossa salvação com temor e tremor." Aqui se
menciona algo que temos a fazer. No versículo 13.
porém, temos isto: "Porque Deus é quem efetua em
vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa
vontade." Este já fala de atos que nós não podemos
fazer, pois são da alçada de Deus.
Nosso crescimento espiritual resulta de operação
conjunta entre nós e o Senhor. Qualquer tentativa
nossa de tomar a nosso cargo um trabalho que não
nos compete, é erro tão grave quanto o de negligenciar
nossa parte. E mais, uma das mais astutas artimanhas
do inimigo é justamente levar-nos a envolvermo-nos
com tais coisas, que estão completamente fora de
nossa possibilidade de realização. Desse modo, nós
nos desencorajamos tanto, que, por fim, não fazemos
nem o nosso dever, que está perfeitamente dentro de
nossa capacidade.
Vejamos qual é a nossa parte e qual a de Deus
nesse trabalho de cooperação. Examinemos mais duas
passagens bíblicas que nos fornecem maiores esclare-
cimentos a respeito desse assunto. Salmo 5E6-12:
"Eis que te comprazes na verdade no intimo, e no
recôndito me fazes conhecer a sabedoria. Purifica-me
com hissopo, e ficarei limpo; lava-me, e ficarei mais
alvo que a neve. Faze-me ouvir júbilo e alegria... Cria
em mim, ó Deus, um coração puro, e renova dentro
em mim um espírito inabalável. Não me repulses da
tua presença, nem me retires o teu Santo Espírito.
Restitui-me a alegria da tua salvação, e sustenta-me
com um espírito voluntário."
Nessa situação, quem é o agente, e quem sofre a
ação? Quem é que opera "a verdade no íntimo ... no
recôndito"? É Deus quem nos intrui. purifica, lava,
cria, renova e sustenta. Qualquer mudança que deva
ocorrer em nosso interior deverá ser operada por
Deus.

12
Vejamos agora Colossenses 3.12-14. "Revesti-vos,
pois. como eleitos de Deus. santos e amados, de ternos
afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de
mansidão, de longanimidade. Suportai-vos uns aos
outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha
motivo de queixa contra outrem. Assim como o
Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós;
acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o
vínculo da perfeição."
E neste trecho, quem é o agente? Quem é que se
reveste de misericórdia, bondade, mansidão e amor?
São os eleitos de Deus; é o crente. A tarefa de
revestir-se — um ato visível, exterior — é, portanto, de
responsabilidade do crente.
Aqui está. então, a distribuição de responsabilida-
des na obra da santificação. O crente se reveste de
Cristo — ato externo;' Deus opera a transformação do
coração — ato interno.

Construa as Formas e Deixe Deus


Colocar o Enchimento

Pensemos por instantes nas formas de madeira


que os construtores utilizam, e nas quais derramam a
massa de cimento para obter as vigas de concreto.
Essas armações nos dão o formato e a dimensão que a
viga terá. Depois que o concreto se consolida, as
tábuas de madeira são retiradas, ficando apenas o
cimento firme. Elas tiveram função temporária, ao
passo que o cimento é permanente.
Aquelas tábuas de madeira representam o papel
do crente na obra de santificação. Ele próprio não se
enche de paciência, bondade e amor. Ele simplesmen-
te monta as formas nas quais Deus derramará a sua
obra duradoura, a santidade.
Suponhamos que uma senhora tenha uma vizinha
que está sempre provando sua paciência. Ela luta
para se conter. Fecha bem a t a m p a do frasco onde
fervilham seus sentimentos. E mesmo assim está-se

13
sentindo culpada, pois não consegue conter a impa-
ciência.
"Tenho que ter paciência com ela", fica a repetir
consigo mesma, mas sem conseguir sucesso. Parece
totalmente incapaz de se modificar; e, na verdade, o é.
A impaciência é uma atitude do coração. Só Deus
pode mudar isso.
Então esta crente descobre a lição que estamos
considerando. Compreende que não precisa esforçar-
se para transformar sua impaciência em paciência.
Ela simplesmente tem que se revestir de paciência.
Tem que construir as formas de madeira com o
formato de paciência.
Ela se dirige à carpintaria do seu construtor
espiritual e apanha algumas tábuas. A primeira delas
chama-se atenção. Ela deverá dar atenção à vizinha
implicante e ouvir o que ela tem a dizer. Verificará
que a outra raramente a ouve. Mas isso não importa,
pois não deve esperar nenhuma reciprocidade ao seu
gesto; ela está apenas construindo uma forma de
madeira para Deus encher com seu concreto. E dar
atenção é parte do trabalho. "É ouvir o que ela tem a
dizer; procurar conhecê-la melhor, sem se preocupar
com a impaciência que lhe sobrevém quando a escuta.
E quando a armação estiver pronta, Deus derramará
nela a sua paciência, e a irritação que a outra provoca
será desalojada do mesmo modo que o concreto
desloca o ar, ao ser derramado na forma."
A segunda tábua utilizada na confecção da arma-
ção para paciência deve ser aoraçâo. Talvez ela nunca
tenha orado pela vizinha. É bom começar a implorar
as bênçãos de Deus para ela e sua família.
Outra tábua que caberá muito bem nessa forma é
um gesto de bondade. É certo que a vizinha nunca M
oferece para fazer nada para a crente; mas r,I:
importa. Essa tábua contribuirá para a preparação da
forma, e é nela que Deus pode colocar o enchimento.
Ela pode se oferecer para ficar com as crianças
quando a vizinha for às compras, ou, então, levar-lhe
um presentinho.

14
A última tábua, que fechara a forma, é a que está
ali no canto, meio empoeirada, e que se chama
palavras positivas. Ela não é a única pessoa das
redondezas afetada pela vizinha irritante. Em qual-
quer reunião social do bairro, ouvem-se comentários
queixosos a respeito dela — o modo como grita com o
marido, como cria os filhos, etc. Ê nesse momento que
ela deve fazer um comentário favorável, mencionando
uma qualidade verdadeira ou de uma atitude louvável
da outra.

A Função da Fé

Agora a forma já está quase pronta. Falta apenas


uma coisa — as tábuas não estão ligadas entre si. É
possível que tenhamos arranjado as tábuas certas,
mas se não as pregarmos umas às outras, a massa de
concreto escorrerá, e todo o trabalho que tivemos de
preparar as tábuas, dará em nada. Ospregos usados
nessa armação espiritual chamam-se ((|!)
Mas fé em quê? Fé em que a forma será utilizada.
Em nossa ilustração, ela é a certeza de que o pedTéiro
encarregado trará a massa e a derramará na armação
que preparamos.
Podemos imaginar uma situação em que um mar-
ceneiro faz formas o dia todo e o pedreiro nunca vem
com a massa. Entra dia sai dia, ele vai montando as
estruturas, mas a massa nunca é colocada nelas. Que
trabalheira desnecessária!
Também desnecessário é o esforço de quem se
reveste das armações de paciência, amor, bondade
sem crer que Deus vai enchê-las e executar a obra em
seu coração. Toda a obra da santificação repousa
sobre a fé, a certeza de que, se construirmos a forma,
Deus a encherá com cimento divino.
As formas de madeira que os construtores usam
muitas vezes são um pouco desgraciosas. Ê uma tábua
que é mais longa do que as outras, ou duas delas não
se encaixam bem, outra pode estar empenada ou

15
apresentar defeitos. O mesmo acontece às formai ét
santidade que confeccionamos. Elas servem apeaa*
para dar configuração à verdadeira substância: e
devemos dar a elas a melhor configuração possrxeL E
quando as preparamos para Deus, confiados cai «jae
ele as encherá, então ele pode utilizá-las. Na boca
certa, aquela feia armação exterior terá cumprido soa
missão e poderá ser removida. Só o concreto diria*
permanecerá. ^ A o
É a isso que Paulo se refere quando diz: "Jamais
satisfareis a concupiscência da carne." (Gl 5.16.) Ele
não afirma: "Não tereis desejos", mas, sim. nao
satisfareis. Em outras palavras: nâo sereis forçados a
permitir que os desejos tenham voz ativa.
A carne provoca em nós o desejo de investir contra
alguém que atravessa em nosso caminho. O verso nao
diz: "Você não deve sentir isso; tal atitude é horrh-d
para um crente." Não; ele diz: não satisfaçam esse
desejo; não deixem que as palavras ferinas escapem
de seus lábios. Não levantem o braço para agredir
Não levem avante o plano para ferir essa pessoa. Nãc
satisfaçam esse desejo."
Se confeccionarmos essas formas de autonegaçao
da carne, tendo fé de que Deus as encherá, o Senhor
tomará sobre si a tarefa de substituir os desejos da
carne pelo fruto do Espírito. É um trabalho de
cooperação, simples e abençoado. Nós realizamos ã
parte exterior, que é temporária; ele faz a obra
interior, que é permanente.
Depois de tudo pronto, o que fica é resultado do
trabalho divino. A santificação é realmente uma
ogeração da graça; todavia, nós temos participação
neía: nossa fé faz a montagem da armação que vai
receber a obra da graça de Deus, pois o Senhor não
derrama sua graça onde não haja a fé para apropria-
ção.
Esse é, portanto, o segredo da santificação: mon-
tar a configuração exterior da santidade, com a
confiança plena de que Deus colocará o enchimento.

16
A Importância da Sinceridade

Alguém pode levantar a questão: "Mas será que


tal atitude não é hipocrisia? Dizer uma palavra
amável sobre uma pessoa ou ter um gesto amigo para
com ela quando nosso sentimento deseja o diametral-
mente oposto, não seria isso falsidade?" Não; não é. O
hipócrita é aquele que finge ser algo que não é, mas
nós não estamo-nos enganando. Perante Deus, somos
absolutamente sinceros.
"Senhor, tu sabes que não tenho nem um pouco de
paciência com aquele homem, mas creio que depois
que preparar a forma tu colocarás nela paciência
verdadeiramente divina. Se não o fizeres, todo o meu
trabalho estará perdido. Pois a forma, por si só, não
fará brotar em meu coração nem ao menos uma gota
dessa virtude. Mas estou certo de que despositarás na
armação a verdadeira paciência. Tu operarás em mim
'o que é agradável' diante de ti. (Hb 13.21.)"
Essas formas que confeccionamos são_grepara.das
para o Senfyor. e não para os outros verem. Não é
hipocrisia dar tais demonstrações de amor como se
fossem sinceras, porque nós de fato desejamos que
sejam. Seria desonestidade, se déssemos a entender
perante o Senhor que essas formas de expressão se
constituem na verdadeira substância. Mas enquanto
reconhecermos e confessarmos que tais coisas apenas
expressam a nossa disposição de deixar Deus edificar
em nosso coração sua obra duradoura, não existe o
perigo da falsidade.
E que peso é retirado de nossos ombros quando
aprendemos essa lição tão simples! Não mais nos
achamos envolvidos na tarefa desesperada (e também
errada) de tentar fazer com que nosso coração se
curve à nossa vontade de fazer o que é certo.
"Tenha mais amor!" berramos para nós mesmos.
"Seja mais amável, entendeu? Mais bondoso! Não
quero ver mais nenhuma atitude hostil em você,
escutou bem?"
Tudo isso é posto de lado tranqüila, mas firme-

7
mente. Toda obra a ser efetuada no coração é total-
mente entregue a Deus. Nós simplesmente montamos
as formas de santidade e deixamos que nossa
interior seja moldada de acordo com a vontade do
Espírito de Deus. Pois o coração não pode submeter-
se à nossa vontade, e nunca o fará. Ele só pode ser
modificado pelo Espírito Santo de Deus.

Livres e Vitoriosos em Cristo

Em momento algum precisamos estar dominados


pelos nossos desejos e sentimentos. Nós não somos
governados por sentimentos e desejos, pois andamos
pela fé. Cremos que, à medida que ajustarmos a
configuração exterior de nossa vida à vontade de
Deus, da melhor maneira que pudermos, o Senhor
ajustará nossos desejos e sentimentos para que se
harmonizem com os de Cristo.
Não cabe a nós suprimir nem abafar os sentimen-
tos. Temos apenas que controlar sua expressão exte-
rior, ao submetê-los a Deus. Assim conseguimos olhar
para os desejos da carne com tranqüilidade de alma.
pois cremos que com a entrada do concreto divino, no
tempo devido, aquele desejo da carne será desalojado,
de uma vez por todas. Podemos levar um dia ou um
ano para construir essa ou aquela forma. Isto não tem
importância. "O Deus da paz vos santifique em
tudo... Fiel é o que vos chama, o qual também o fará.*"
(1 Ts 5.23, 24.)
Uma vez libertos do cativeiro dos sentimentos,
estamos preparados para realizar o plano de Deus
para nossa vida.
Certa revista feminina publicou um artigo intitula-
do: "Aprendi a Amar meu Marido", em que a autora
relata que caíra no erro de se casar ainda bem jovem
para escapar do lar conturbado. Aconteceu, porém.
que, passada a primeira impressão de novidade, ela se
viu amarrada a um homem a quem não amava.
Algum tempo depois, veio a conhecer a mensagem

18
acerca da santificação. e resolveu agir como se amasse
o marido. Dava-se ao trabalho de fazer seus pratos
prediletos, e a arrumar as coisas do jeito que mais lhe
agradava. Passou a dirigir-se a ele da maneira mais
afável possível.
Anos mais tarde, um de seus filhos deu um
testemunho eloqüente quanto ao sucesso de sua atitu-
de. Ele disse: "Mamãe, todos os nossos colegas dizem
que nós somos de muita sorte, pois a senhora e papai
se querem tanto." Ela confeccionara a forma do amor
e Deus depositara nela a substância real.
Deus tem um plano para a santificação de cada
crente. Ela preparou uma série de plantas com a
seqüência certa para cada um de nós. Se mantivermos
comunhão com ele, ele nos mostrará os planos da
forma que deseja que montemos. E à medida que
vamos fazendo essas armações de santidade que ele
nos revela, e gozarmos da experiência de vê-las rece-
ber o enchimento divino, o verso de Efésios 2.10 se
tornará realidade em nossa vida: "Pois somos feitura
dele. criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais
Deus de antemão preparou para que andássemos
nelas."

19
CAPITULO DOIS

Os Mistérios de Deus
Quando Jesus chegou à Galiléia dizendo que o
tempo estava cumprido e o reino de Deus estava
próximo, não apresentou nenhuma novidade àquele
povo. Estava falando de uma esperança que já se
achava profundamente arraigada no coração de cada
israelita. Seus escritos sagrados e suas tradições esta-
vam cheias de tais menções.
Essa esperança permeava as visões de Daniel.
Ezequiel e Zacarias; as profecias de Isaías e Jeremias.
Estava presente nos reinados de Davi e Salomão, que
foram um tipo da implantação do reino de Deus. Era
sensível na palavra do Senhor entregue no monte
Sinai: "Vós me sereis reino de sacerdotes e nação
santa" (Êx 19.6). Estava na bênção final que o velho
Jacó impetrou sobre a cabeça de Judá: "O cetro não
se arredará de Judá, nem o bastão de entre seu^ pés,"
(Gn 49.10.) Revelava-se na promessa feita a Abraão de
que possuiria aquela terra e seria grande nação (Gn
12.1, 2).
Através dos séculos focalizados no Velho Testa-
mento, a idéia do estabelecimento do reino de Deus na
terra fora gradualmente revelada e ampliada a cada
passo. Nos dias de Cristo, ela ardia, como chama, no
coração de cada filho de Israel — esperança de
livramento, de seu restabelecimento como nação —
uma esperança de glória.

20
A Promessa de um Reino

Jesus veio para cumprir a promessa do estabeleci-


mento de um reino. A primeira palavra dita a seu
respeito, depois de gerado, foi: "Deus, o Senhor.
lhe dará o trono de Davi. seu pai; ele reinará para
sempre sobre a casa de Jacó. e o seu reinado não terá
tini." (Lc 1.32. 33.)
A última pergunta que lhe foi feita na terra, pouco
antes de sua ascensão foi: "Senhor, será este o tempo
em que restaures o reino a Israel?" (At 1.6.)
Sua própria designação de Messias ou Cristo signi-
fica "ungido", que é qualificação real, lembrando os
reis do Velho Testamento que eram ungidos com óleo.
O "reino do Filho do seu a m o r " de que Paulo fala
em Colossenses 1.13 é o mesmo reino de Deus,
profetizado em todo o Antigo Testamento. A "espe-
rança da glória" mencionada no verso 27 é exatamen-
te a esperança do reino, que também aparece tanto
nos escritos do Velho como nos do Novo Testamento.

O Mistério do Reino

Esse reino traz em si um elemento de sigilo, um


"mistério", que não foi revelado às gerações antigas.
Somente com o advento de Cristo, sua morte, ressur-
reição e ascensão, foi que Deus revelou integralmente
esse aspecto misterioso de seu reino. É o seguinte:
"Cristo em vós, a esperança da glória" (Cl 1.27). A
essência do reino de Deus está contida em Cristo, e
Cristo em nós. Cristo — em nós — a glória pela qual
esperamos é o reino. O reino de Deus não está aqui
nem ali. disse Jesus. "O reino de Deus está dentro em
vós." (Lc 17.21.)
A Igreja tem revelado uma triste tendência para
sentimentalizar ou racionalizar esse profundo misté-
rio de nossa fé. A afirmativa de que o reino de Deus
está em nós tem sido interpretada como se indicasse
que o reino são os valores morais e espirituais que

21
Jesus ensinou e que acolhemos em nosso coraçào
através da instrução e pelos quais devemos nortear
nossa vida. Mas é precisamente isso que o reino não é
— caso contrário, não seria mistério "oculto dos
séculos e das gerações".
Os valores morais e espirituais do reino de Deus
nunca estiveram encobertos para as gerações passa-
das. Eles lhes foram explanados e até com riqueza de
detalhes. Os ensinos de Jesus provinham, em grande
parte, de citações, a respeito do reino, feitas no Velho
Testamento.
O mistério não era os valores morais que Jesus
ensinou. Antes, era a seguinte verdade (nunca predita
em profecia): o reino de Deus se resumiria na pessoa
de Cristo e ele seria misteriosamente outorgado ao
crente, pelo Espírito Santo.
Qual a grande carência de nosso viver diário, na fé
cristã? Por que temos sempre o desejo frustrado de
uma vida santa? Por que todos se queixam dessa falta
de poder? Não será por que estamos vivendo ao pé do
monte Sinai, tentando agradar a Deus por esforço
próprio, com nossas boas intenções, ao invés de nos
utilizarmos do poder de Cristo, que habita em nós?
Ainda não penetramos no mistério do reino.

A Parábola do Carro da Salvação

Um jovem de nome Pecador recebeu de seu Pai


um belo automóvel, vermelho vivo, chamado Salva-
ção. Era novinho em folha, e o coração do rapaz
se alegrou muitíssimo, principalmente por tratar-se de
um presente.
"Não fiz nada para merecer isso", pensava ele
exultante. "Meu Pai mo deu espontaneamente. Eu
nunca conseguiria ajuntar dinheiro suficiente para
comprar um carro desses, mesmo que trabalhasse
duramente, anos e anos a fio. Foi uma dádiva, pura e
simplesmente uma dádiva."
E se regozijava tanto com o carro novo que mudou

22
o próprio nome para combinar com o do veículo — de
Pecador, passou a se chamar Salvo.
Ele cuidava muito bem de seu automóvel, lavando-
o e limpando-o. diariamente. Tirou fotos dele e enviou
para vários parentes e amigos. E passava muito tempo
a contemplá-lo. mirando-o de todos os ângulos. Certa
vez até enfiou-se debaixo para examinar-lhe a exce-
lente estrutura. E em meio a tudo isso estava sempre
testificando, não se cansando de declarar: "Foi meu
Pai quem mo deu — foi dom gratuito."
Alguns dias depois, lá estava o moço na estrada,
empurrando o belo carro vermelho. Um senhor que o
viu aproximou-se, e, depois de apresentar-se como o
Sr. Ajudador. perguntou-lhe se poderia ser-lhe útil em
alguma coisa.
"Ah! Não, obrigado!" respondeu o moço arfando
ligeiramente. "Estou conseguindo me arrumar bem.
No começo, o pára-choque me cortava um pouco as
mãos, principalmente em ladeiras. Mas um mecânico
especializado — por sinal, ótimo sujeito — veio em
meu socorro e disse-me para colocar estes batentes de
espuma de borracha na parte inferior do pára-choque.
Agora posso empurrar muito tempo sem ao menos
calejar as mãos!"
O Sr. Ajudador concordou.
"É mesmo; a espuma de borracha realmente deve
ajudar bastante."
"Além disso", retrucou o outro com grande entu-
siasmo, "estou utilizando uma técnica nova, que,
segundo me dizem, está sendo usada, também, na
Inglaterra. É o seguinte: apóiam-se as costas no carro,
flexionam-se os joelhos e depois ergue-se o veículo a
um ângulo de 45 graus. Funciona maravilhosamente,
sendo ótimo para estradas lamacentas."
"É". assentiu o Sr. Ajudador, "funciona sim, pois
lhe proporciona uma força de alavanca maior."
"É isso mesmo. O efeito de alavanca resolve o
problema. E depois oferece a vantagem da variação.
Afinal, a gente se cansa de empurrar sempre do
mesmo jeito."

23
"Já andou bastante?" perguntou o Sr. Ajudador.
"Ah. já. Depois que o ganhei andei mais de 300
quilômetros", acrescentou muito orgulhoso.
"É um belíssimo carro", comentou o outro.
Os olhos do moço brilharam.
"Foi presente de meu Pai — um dom gratuito."
O homem abanou a cabeça em silêncio. Depois.
deu uma volta ao redor do auto. espiando para c
interior.
"Você deve se cansar muito, empurrando um
veículo desse tamanho."
"Sim. canso-me", confessou o jovem suspirando.
"Entretanto, é maravilhoso a gente se cansar por uma
causa assim, não é? Afinal, foi presente de meu Pai. O
mínimo que posso fazer é empurrá-lo."
A essa altura sua vibração inicial diminuíra consi-
deravelmente, mas ele ainda conseguiu dar um sorri-
so.
O Sr. Ajudador abriu a porta do lado direito do
carro vermelho e perguntou:
"Não quer entrar e assentar-se?*'
O moço retraiu-se indeciso, olhando rapidamente
para dentro do automóvel. Parecia-lhe certa presun-
ção alguém pensar em entrar no carro. Sabia perfei-
tamente que ele possuía interior, mas, com certeza, se
o utilizasse nunca chegaria a parte alguma. Contudo,
após alguns instantes de hesitação, começou a pensar
que talvez não fizesse mal se entrasse e se sentasse um
pouco. Ele já estava mesmo parado para descansar, e
aquilo não implicaria em nada, tampouco. Entrou e
sentou-se. meio empertigado, quase não se atrevendo
a relaxar contra o encosto do banco.
O Sr. Ajudador deu volta, abriu a porta do outro
lado, e entrou no carro, sentando-se ao volante. Ligou
a partida, e, daí a instantes, lá se iam os dois. a 80
quilômetros por hora.
O rapaz estava pasmado. Na verdade, o passeio
era bastante agradável e até emocionante, mas de
certo modo, parecia-lhe estar cometendo um erro. Ele
sabia que precisava possuir um carro vermelho, cha-

24
BS^ mado Salvação, para qpsegurar sua entrada nos por-
tões do lugar a que se destinava. Mas levá-lo até lá...
S^ Não era uma responsabilidade pessoal sua?

Salvação Pela Fé — Santificação Pela Fé


Essa parábola retrata as condições em que vive um
bom número de cristãos. No que tange à justificação,
i sua posição é perfeitamente correta — ela é dom
gratuito, concedido pela graça divina. Quanto à santi-
ficação. porém, deverá ser alcançada pelo esforço
próprio. Nós aprendemos que o Espírito Santo opera
tudo em nós: não obstante, no íntimo a nossa tendên-
cia é confiar mais naquilo que nós devemos fazer para
nos tornarmos santos, e no que nós devemos fazer em
prol do reino. Estamos empurrando o carro com
nossas próprias forças. A presença de Cristo em nós
não passa de conceito mental, um elemento, que,
também, chamamos de consciência, e que vai-nos
informando a hora de empurrar, a direção a tomar e a
velocidade que imprimiremos ao carro.
Todavia. Cristo não vive em nós para fazer o papel
da consciência, ficando sempre por perto para servir
de "'Manual de Instruções" e dizer-nos o que fazer e o
que não fazer a cada momento. Ele habita em nós
_ m o objetivo de realizar, ele mesmo, em nós e através
de nós, o beneplácito da vontade do Pai. A santificação
não consiste em realizar a vontade de Deus por nossos
próprios esforços, mas sim em liberar a vitalidade de
Cristo, que está em nós, e ela operará essa vontade.
E como se consegue isso? PelaMüEm Colossenses
2.0. o apóstolo Paulo diz o seguinte: "Ora, como
rrcebestes a Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele."
O poder de Deus manifestado em nosso favor (a
propiciação feita por Cristo) foi aplicado em nossa
vida só quando confiamos nele para salvação, colo-
cando em ação a fé; do mesmo modo, o poder do
Cristo que está em nós pode operar somente quando
exercitarmos a fé. E como somos salvos pela fé, assim
também somos santificados pela fé. E como a salvação

25
r
é uma obra realizada unicamente por Cristo, assim
também a santijicação é exclusivamente operação do
Senhor.
Que maravilha! Que libertação! Quando éramos
pecadores e nos achávamos sob condenação, fomos a
Cristo e lhe dissemos: "Senhor, confesso-te meus
pecados e minha total incapacidade de purificar a
mim mesmo do peso da culpa. Lava-me com teu
sangue, e reconcilia-me com o Pai." E ele o fez.
simplesmente porque paramos de tentar justificar a
nós mesmos, deixando que ele o fizesse. Ele nos
salvou. Agora, sendo filhos de Deus, reconciliados
com o Pai por meio do sangue de Jesus, nós podemos
ir a Cristo e lhe dizer: "Senhor, eu sou fraco: estou
longe de ser semelhante a ti; tenho grande necessida-
de de tua graça. Estou sempre pronto a criticar os
outros, mas sou tardio em reconhecer minhas próprias
faltas. Também estou desejoso de glórias humanas e
busco ansiosamente minha própria satisfação, mas
produz em mim a tua semelhança." Ele o fará. I
que deixarmos de tentar nos santificar. permitindo-
lhe realizar a santificação em nós, a sua vida. que
existe em nós, entrará em ação. A "esperança da
glória" se manifestará.

Obras —Não Para Deus mas Para Nós


Quando aprendemos essa verdade de que o pro-
fundo mistério da fé — isto é, que Cristo, a esperança
da glória, está em nosso coração, aguardando apenas
o nosso assentimento, dado pela fé, para que sua
vitalidade opere — passamos a enxergar a questão das
boas obras sob prisma inteiramente novo. Muitos
crêem que as boas obras são atos que praticamos para
Deus, em gratidão por nossa salvação. Agora, porém,
acabamos de compreender que cada ato desses é.
apenas, mais uma oportunidade que Deus nos conce-
de para liberarmos a vida de Cristo que há em nós.
As boas obras não são ações que realizamos para
Deus, mas algo que ele preparou, de antemão, para

26
nós (Ef 2.10). Elas funcionam como elemento catali-
zador. liberando a vitalidade do Senhor existente em
nós. a fim de que sejamos conformados à sua imagem.
O objetivo supremo de Deus no que concerne às obras
não é o que fazemos, mas o que nossa atuação nelas
faz a nosso favor. Uma boa obra só contribui para o
engrandecimento do reino se tornar-se um evento que
libere a vida de Cristo em nós. Se além disso ela
resultar em benefícios para outrem, isso terá sido uma
operação soberana de Deus, pela qual devemos louvá-
lo»ainda mais.
Algum tempo atrás decidimos construir uma ca-
pela para oração, em nossa igreja. De início surgiram
diversas idéias de como deveria ser e como seria
utilizada, algumas das quais frontalmente opostas às
outras. Mesmo numa situação simples como essa,
Deus criou maravilhosas oportunidades para a vida
de Cristo ser liberada em nosso meio, para nos ensinar
como Jesus pode operar perfeita harmonia de enten-
dimento e propósitos. No final, o mais importante
não foi o fato "de construirmos um prédio para o
Senhor, mas. antes, o de ele nos haver dado uma obra
para realizarmos, por meio da qual uma faceta do
caráter de Cristo se comunicou a nós, em sua edifica-
ção e utilização.
Qualquer boa obra é sempre uma porta para que
um aspecto do caráter de Cristo seja implantado em
nós. Mais que um gesto nosso de reciprocidade à
graça de Deus. ela é outra manifestação de sua graça
em nosso favor. Com o tempo, essas coisas que
fazemos: templos, capelas e outros prédios religiosos,
passarão. E quando nos apresentarmos perante o Pai,
ele não julgará nossas "obras", mas a nós, "de acordo
com nossas obras", procurando ver que parcela da
vida de Jesus foi formada em nós, enquanto andáva-
mos nessas obras que ele, de antemão, preparara para
nós (Ef 2.10).
Isto significa também que não podemos escolher as
coisas ao acaso e nos lançarmos ao trabalho munidos
apenas de boas intenções. As obras precisam ser as que

27
Deus preparou para nós. Ele prepara justamente as
que melhor se adaptam à nossa situação particular, am
nosso grau de amadurecimento, e ao nosso f d M
ministério — obras que por sua constituição fornece-
çam o máximo de oportunidade para a vitalidade de
Cristo ser liberada em nós.
Esse é o mistério que estava encoberto dos sécuk"
e das gerações, mas que agora foi revelado a nós. seus
santos, a fim de que paremos de ansiar pelo reino de
Deus, e de lutar para~conquistá-lo ou edificá-lo
é nosso.jÀ glória do reino se resume em Cristc
está em nós!
CAPITULO TRÊS

O Segredo da Santificação
Imaginemos que alguém escreva um livro de dez
capítulos a respeito do casamento, e que nos primeiros
nove capítulos discorra, com riqueza de detalhes,
sobre a cerimônia nupcial, e, então, no último, aborde
rapidamente questões como:
1. O ajustamento entre os cônjuges
2. O controle das finanças
3. A criação de filhos
4. Acertando as diferenças
5. O relacionamento com os sogros
6. Um planejamento para a educação escolar dos filhos
7. Como investir para a aposentadoria
8. Os problemas da idade madura
Qualquer pessoa que esteja casada há mais de um
ano sentirá logo que ele apresenta sério desequilíbrio.
Embora a cerimônia do casamento, em si, seja muito
importante, mais importante ainda é aprender a
conservar a harmonia do lar.
Essa mesma observação já foi feita com respeito à
vida cristã. Embora sejam necessários apenas 5% de
informação e energia espiritual para que nos tornemos
crentes, precisamos de 95% para vivermos a vida

29
cristã — isto é, para crescermos espiritualmente e
chegarmos a ser o tipo de cristãos que Deus deseja qar
sejamos. Entretanto, a Igreja cristã, principalmente a
ramo protestante, tem revelado o mesmo desequilíbrio
de nosso livro hipotético. Passamos 95% do tempo
falando de como obter a salvação.
Com base na morte de Cristo na cruz, Deus perdoa
nossos pecados, considera-nos justos, e nos concede a
vida eterna. A palavra que descreve tal processo é
justificação. É a cerimônia nupcial que nos une a
Jesus.
Estamos sempre discutindo, analisando e pregan-
do sobre essa grande e maravilhosa verdade (e de fato
ela é grande e maravilhosa). Sobre ela discorremos
em, pelo menos, nove dos nossos dez capítulos. De-
pois, então, no final, inserimos aquele capítulo que
afirma: "Vivamos, portanto, uma boa vida cristã.
para mostrar ao Senhor como lhe somos gratos pelo
dom da salvação e da vida eterna..."

Mais do que Gratidão

E é assim que a gratidão se torna a grande


motivação de nossa vida. Embora haja uma parcela de
verdade nisso, precisamos examinar essa questão mais
acuradamente, pois corremos o risco de nos envolver-
mos em um processo sutil de justificação pelas obras.
Se a vida cristã é uma "luta gerada pela gratidão"
como a define Kierkegaard, então é fácil cairmos no
erro de querer "pagar" nossa salvação — a presta-
ções! Salve-se agora, pague depois! Somos justificados
pela fé, agora, no ato, mas ficamos o resto da vida
retirando os cupons do carnet da gratidão, e colocan-
do-os no livro de pagamentos. A única diferença que
há entre nós e os fariseus é o conhecimento — mais
teórico que prático — da salvação. Nosso dia-a-dia é
muito pouco afetado por essa grande libertação de
que tanto falamos. Desse modo, estamos amarrados
às boas obras, tanto quanto o estão aqueles que fazem

30
caridade com o propósito de reunir méritos para
pagarem sua salvação já de uma vez.
A santificação tem sentido mais amplo — é mais
do que uma luta gerada pela gratidão. Ê uma vida que
começa na fé. mas não apenas isto; ela continua pela
fé. "Ora. como recebestes a Cristo Jesus, o Senhor
(isto é. pela fé), assim andai nele." (Cl 2.6.) Ê justa-
mente o fato de não prosseguirmos na fé que causa
tantos problemas no campo da santificação. "Tendo
começado no Espírito, estejais agora vos aperfeiçoan-
do na carne?" (Gl 3.3.)
Em nossas suposições acerca da santificação, fo-
mos além da verdade. "Depois que somos salvos",
pensamos, "é lógico que saberemos ter boa conduta
cristã." É o mesmo que supor que, tendo pronunciado
os votos matrimoniais no altar, logicamente os noivos
saberão o que fazer para ter um casamento feliz. As
estatísticas de divórcio e desquite atestam bem outra
coisa. Do mesmo modo, o grande número de pessoas
que depois de fazer sua decisão por Cristo — decisão
real. genuína — renega essa decisão, dá prova de uma
triste realidade de frustração e fracasso.

O que é Santificação e Como se Processa


Em 1 Tessalonicenses 5.12-22, o apóstolo Paulo
apresenta considerável lista de atributos da santifica-
ção.
1. Acatar os que nos presidem no Senhor.
2. Ser paciente com os que estão sob nossa autori-
dade.
3. Fazer o bem a todos, mesmo aos que não o me-
recem.
4. Regozijar sempre.
5. Orar sem cessar.
6. Dar graças em quaisquer circunstâncias.
7. Não desprezar as profecias.
8. Não apagar o Espírito.
9. Julgar todas as coisas.
10. Abster-se de toda forma de mal.

31
Não deve ser muito fácil recordar tudo isso. quan-
to mais observar!
A idéia mais popular acerca da santificação é a de
que ela regula nossa vida e conduta, diz o que se pode
e o que não se pode fazer. E o problema todo é o fato
de pararmos por aí. Nós começamos por apresentar a
definição — o que é santificação — e nunca passamos
ao ponto mais importante que é exatamente o modo
como se processa.
A maioria dos crentes possui certas noções do que
a vida cristã exige de nós. A aplicação do man-
damento que diz: "Amarás o teu próximo como a ti
mesmo", nos manteria ocupados por bastante tempo.
Mas a parte que realmente causa problemas é o como.
Como se consegue isso?
Mas o apóstolo Paulo não pára na definição. Ele
prossegue e nos revela uma das maiores verdades a
respeito da santificação. "O mesmo Deus da paz vos
santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo,
sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda
de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é o que vos chama,
o qual também o fará." (1 Ts 5.23. 24.)
Aí está — esse é o segredo da santificação: o Deus
da paz. ele mesmo nos santificará. Aquele que nos
chama para vivermos essa vida opera tal realidade em
nós.
Santificar não é apenas ordenança divina. Ela
também é promessa. Não é uma lista de deveres que o
Senhor nos apresenta. É uma promessa de que Deus.
pelo seu Espírito Santo, operará em nós todas essas
coisas. Portanto, não é apenas nossa vontade que está
envolvida no processo, mas nossa fé também, nossa
confiança.
Quando examinamos essa relação que o apóstolo
nos apresenta, é possível que nos vejamos vacilando
diante dos itens de número dois, ou três, ou talvez do
número sete ou do dez. Entretanto, a promessa de
Deus é: ele vos santificará em tudo. Ele é fiel e o fará.
Se nós, em nossa fraqueza, estivermos desejosos de

32
obedecer, ele. em sua fortaleza, cuidará para que
possamos fazê-lo.

O Segredo: Deus é Quem a Opera em Nós

Esse é o segredo glorioso da santificação. Os man-


damentos de Deus sâo acompanhados pela promessa
de que o mais ele fará. A vida cristã não se resume
apenas em rol de bem intencionadas práticas religio-
sas — é uma nova atitude do coração. De acordo com
a Bíblia, ela implica em morte e ressurreição.
Conta-se um fato interessante a respeito de Lute-
ro. Alguém bateu à sua porta, certo dia, e ele foi
atender. Ante a pergunta se o Dr. Martinho Lutero
residia ali. respondeu: "Não. Ele morreu. Quem mora
aqui. agora, é Cristo."
Que perspectivas! Que senso de amplitude tal
pensamento confere à nossa experiência cristã! Onde,
antes, nós nos firmávamos em nossos próprios dotes,
habilidades e recursos, agora, ao notarmos a boa obra
que Deus coloca diante de nós, passamos a contar
com os ilimitados recursos de Cristo.
"Senhor, não possuo nada para confortar essa
senhora que perdeu o parido, mas estou certo de que
tu possuis. Tu sabes do meu defeito de ficar pensando
nos erros passados. Não sei como fazer para me
libertar dele. Senhor, sinto que estás-me dando maior
interesse pelos judeus de minha comunidade. Peço-te
que abras as portas para que testemunhe no momento
certo, da maneira adequada."
Certo homem foi mais além. Ele orou assim: "E se
as coisas andarem mal, se eu errar o alvo, isso também
é com ele. Eu sou seu filho, um filho que fraquejou, e
a questão da minha santificação é tarefa dele."
E realmente, nós erramos o alvo muitas vezes em
nossa vida. E sempre que isto acontecer, podemos nos
voltar para ele e dizer-lhe: "Aqui estou, Senhor, seu
filho que fraquejou!" Isso não é petulância; é demons-
trar confiança total, que não dá lugar ao diabo, e é

33
crer que o Pai amoroso retirará esse defeito de se»
filho.
Olhemos novamente a lista de mandamentDK
seguir o bem, regozijar sempre, orar, dar graças em
tudo, não apagar o Espírito, julgar todas as coisas.
abster-se do mal. Agora ela já não nos parece tio
difícil, porque temos idéia diferente de como se chega
àquele ponto. A vitória não depende de nós nem das
nossas próprias energias. Depende apenas de Jesus.
que nos convoca a proceder assim. Ele é fiel e o farã.
Cristo não vive em nós a fim de nos dizer o que
"devemos fazer" com nossas próprias forças, mas
para transformar esse pesado e difícil dever em um
glorioso "assim será". Pelo poder de sua vida em nós.
assim será.
Certo homem teve que trabalhar na mesma seção
em que uma senhora era conhecida por suas maneiras
irritantes. Empregando toda a força de vontade de
que dispunha, ele se esforçou ao máximo para ser
paciente, para amá-la. compreendê-la e ser caridoso
para com ela; o máximo que conseguiu, porém, foi
uma cortesia mal disfarçada. Certo dia. achando-se
no fim da resistência, ele voltou-se para o Senhor e
orou: "Senhor, não consigo nem gostar dessa mulher.
Se queres que eu a ame, e-ntão precisarás criar isso em
mim." Daquele momento em diante, a situação mu-
dou. Seus pensamentos, palavras e atos eram permea-
dos de tal poder que a vida de sua colega foi afetada
de maneira notável. Até outras pessoas começaram
indagar: "Que será que houve com ela?"
Enquanto ele se esforçou, com as próprias ener-
gias e recursos próprios, falhou miseravelmente.
Quando, porém, se dispôs a enterrar sua capacidade
de produzir amor e paciência, a vida que possuía em
Cristo Jesus entrou em atividade.
Jesus disse: "Se o grão de trigo, caindo na terra,
não morrer, fica ele só; mas se morrer, produz muito
fruto." (Jo 12.24.) O segredo de uma vida cristã
produtiva não é fazer, é morrer — morrer para todo

34
tipo de esforço próprio, a fim de que a vida de Cristo
seja liberada em nós.
Aqui está, portanto, o segredo da santificação.
Realmente ele implica em gratidão, mas é mais do que
isso. Tal visão transforma a vida cristã em empolgante
aventura, e ela deixa de ser dever. Cada dia ao
despertarmo-nos. devemos dizer: "Senhor, que tens
para mim hoje?" Não digamos: "O que vou fazer para
o Senhor?" mas: "O que ele vai fazer comigo?"
0 Deus de toda a graça, meu coração
Irás de tal forma modelar
Até que sejas santificado em mim;
Até que os céus eu possa contemplar
Onde cante, em doces melodias:
Santo, santo, santo és Senhor!

35
A Mente Renovada
Enfrenta as Dificuldades
na Autoridade.
de Cristo

2
CAPITULO QUATRO

O Antigo Senhorio
Vamos imaginar que residimos num apartamento,
sob contrato e domínio de um senhorio que torna
terrivelmente amargurada a nossa vida. Cobra aluguel
exorbitante e, se atrasamos o pagamento, nos empres-
ta dinheiro a juros altíssimos, para aumentar ainda
mais nossa dívida com ele. Invade a morada a qual-
quer hora do dia ou da noite, convulsiona tudo, e
depois exige mais dinheiro, pela não manutenção do
local conforme o contrato. Nossa existência é atribu-
lada e infeliz.
Certo dia, aparece ali uma Pessoa, e nos comunica
o seguinte: "Agora eu sou o dono deste prédio.
Adquiri-o do antigo dono. Você pode viver aqui
quanto tempo desejar, totalmente de graça — o
aluguel já está todo pago. Eu vou morar com você
aqui no prédio; ocuparei o apartamento do adminis-
trador."
Que satisfação! Agora estamos salvos! Estamos
livres das penas impostas pelo antigo senhorio!
Mas o que acontece? Mal começamos a nos regozi-
jar pela recém-adquirida liberdade, quando ouvimos
batidas na porta. Abrimos, e ali está ele. o antigo
senhorio — mau, carrancudo e mais exigente do que
nunca. Veio buscar o aluguel, informa ele.
O que fazemos? Pagamos? Lógico que não. Da-
mos um passo a frente, e batemos-lhe no rosto? Não!
Ele é mais forte do que nós.

r
38
Tudo que temos a fazer é dizer-lhe: "Você terá
que resolver isso com o novo senhorio." Ele vai querer
berrar, ameaçar e talvez até chegue a nos adular. Só
temos que repetir: "Resolva com o novo senhorio!" E
se ele voltar com toda sorte de ameaças e argumenta-
ções, apresentando-nos papéis de cobrança, aparen-
temente corretos, nós só podemos dizer: "Resolva a
questão com o novo dono." Por fim, ele terá que fazer
o que dissemos. Ele sabe disso. Apenas tem esperançp
de poder nos enganar e intimidar, tentando inculcar
dúvidas em nós. procurando nos convencer de que o
novo senhorio não tomará a questão a si.
Isso é uma descrição da situação do crente. Cristo
nos liberta do poder do pecado e do diabo, é verdade.
Entretanto, podemos estar certos de uma coisa: o
antigo senhorio voltará a nos importunar. E qual é
nossa arma de defesa? Como impediremos que ele
vibre o chicote novamente contra nós? Mandando-o
tratar do assunto com o novo senhorio, dizendo-lhe
que se entenda com o Senhor Jesus.

Palavra de Testemunho

Descobri essa verdade, certo dia, quando aparava


a gTama do jardim. No mesmo instante, compreendi
as suas implicações: se Cristo me libertou, então eu
realmente estou livre! Não sou mais obrigado a acolher
toda e qualquer impressão negativa que me bata à
porta da mente. Não tenho que permitir a entrada
daquele senhorio que me invade a casa, querendo
assustar-me com antigas contas. Então, num ato
consciente, reivindiquei minha libertação em Cristo, e
passei a aguardar os resultados.
Foi como eu pensara. O antigo senhorio retornou,
batendo-me à porta. Veio-me em forma de pensamen-
to: "Quando se iniciarem as atividades do outono da
igreja, você não vai ter tempo para meditação e
Io. Vai ficar muito atarefado." Imediatamente
percebi que não se tratava de pensamento originaria-

39
mente meu. mas de uma dúvida que tentava se
infiltrar em minha mente, buscando aceitação de
minha parte, para depois pendurar uma espada sobre
minha cabeça. Era o antigo senhorio, querendo co-
brar uma conta velha que se chamava "Preocupação".
"Você vai ter que tratar disso com Jesus", disse-
lhe.
O inimigo passou a enumerar outros detalhes,
informando-me de como minha agenda iria ficar
cheia. Novamente eu lhe disse: "É verdade, mas
decida isso com Jesus, faz o favor." Não foi sem
relutância que ele me deixou. Sabia que eu tinha
razão. "Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade,
porque ele tem cuidado de vós." (f Pe 5.7.)
Sua ausência foi curta; minutos depois estava de
volta.
"Escute, quero conversar com você sobre aquelas
pessoas que estão espalhando boatos a seu respeito",
disse com um sorriso melífluo. Era a imagem da
solicitude. Mas notei que ele escondia atrás de si uma
grande conta denominada "Autopiedade".
"Entenda-se com Jesus", respondi.
"Aquelas pessoas vão lhe causar sérios proble-
mas", prosseguiu ele com voz ligeiramente apreensi-
va. Vi que tinha escondida atrás de si uma outra
conta. Chamava-se "Medo".
A resposta foi a mesma: "Resolva isso com Jesus!"
É desse modo que enfrento as tentações agora. Não
com força de vontade, nem de caráter. Também não
procuro tomar novas resoluções. Utilizo apenas uma
frase: "Entenda-se com Jesus."
O velho senhorio deve ter retornado umas duzen-
tas vezes, enquanto eu aparava a grama. Nunca
percebera antes como nossa mente pode se tornar
fértil campo de ação para Satanás. Mas desta vez eu
sabia que o que temos a fazer é negar-lhe acolhida (o
que também é o segredo da vitória). Cristo verdadeira-
mente já nos libertou. Quando esses pensamentos se
apresentam à nossa porta pedindo entrada, nós pode-
mos, calmamente, transferi-los para Jesus.

40
Não discuta com eles — isso constitui-se numa
permissão para que tomem pé. (Foi esse exatamente o
erro de Eva — entahular conversa com o tentador.)
Antes mesmo que a palestra possa ter chance de
prosseguir, diga. firme e contiadamente: "Resolva
isso com Jesus."

Quatro Sugestões Práticas


(Y) Não permitamos que nossas emoções nos ilu-
dam — As emoções são uma das armas mais perigo-
sas de que se utiliza o antigo senhorio. Quando ele nos
acena com as contas velhas, muitos dos antigos senti-
mentos que abrigávamos antes de Cristo nos libertar
— temores, dúvidas, culpa, desejo, preocupações, de-
sespero, etc. — são reativados e se fazem sentir de
maneira intensa. Não os temamos. Tudo o que temos
a fazer é ignorá-los. e dizer: "Resolva o caso com
Jesus." Talvez isso exija persistência, mas mais cedo
ou mais tarde, o tentador nos deixará. Terá que se
retirar. Nós clamamos pelo nome do Todo-Poderoso.
A libertação operada por Cristo é como extirpar
uma erva daninha, que é arrancada pelas raízes. Na
terra, ainda ficam as cavidades, no ponto do terreno
de onde as raízes foram retiradas. Essas cavidades não
são preenchidas imediatamente. O que faz o inimigo
então? Ele se serve disso para introduzir pensamentos
seus em nossa mente. Ele os coloca exatamente ali, no
vazio deixado pela raiz, justamente no lugar onde as
lembranças podem ser reativadas facilmente, onde as
emoções que acompanhavam o mal ainda estão expos-
tas e como que em carne viva. Uma vez reativadas as
recordações, os sentimentos se exaltam. Nesse instan-
te, nossa fé está diante de outra prova. Iremos confiar
na Palavra de Deus e suas promessas, a despeito de
nossos pensamentos e emoções?
Lembremo-nos de uma verdade simples: os senti-
mentos têm que se submeter à fé. O antigo senhorio
não ficará para sempre, e depois que ele se for, nossas
emoções se aplacarão.

41
2) Não desanimemos se a tentação se repetir ou
for freqüente. A insistência é outra das armas predile-
tas do antigo senhorio. É possível lhe resistirmos uma.
duas, três, quatro vezes, e depois nos cansarmos. Ele
nos convence de que ainda nos achamos sujeitos ao
seu domínio. Então, abrimos a porta e permitimos
que ele entre.
Se um pensamento nos ocorre cem vezes no mes-
mo dia, nas cem vezes devemos, tranqüila e firme-
mente, transferir o assunto para Jesus. Depois, regozi-
jemo-nos. Sim, regozijemo-nos, pois nosso antigo do-
minador não nos pode importunar uma só vez além
daquelas que Deus consentir.
No livro de Jó vemos exatamente isso. Antes de
Satanás começar qualquer ação contra Jó, primeiro
teve que conseguir permissão do Senhor. E Deus
concede que o antigo dono volte a nos incomodar, pois
é dessa forma que nossa fé é fortalecida. Cada vez que
encaminhamos o tentador a Jesus, nossa fé no Liber-
tador é fortalecida. Portanto, se ele nos bater ruido-
samente à porta, e vociferar, e retornar centenas de
vezes, milhares de vezes, regozijemo-nos, pois se a
cada embate nós o enviarmos a Jesus, nossa fé e
confiança no Salvador estarão sendo consolidadas.
® Não pensemos que essa atitude exige força de
vontade sobre-humana. Essa maneira de se obter
vitória em Jesus não se baseia absolutamente na força
de vontade, mas na $§ — {fé/ na realidade e na
autoridade de Cristo.
Vejamos mais uma vez nossa ilustração. Suponha-
mos que o antigo senhorio venha bater à porta no
momento em que os pais estejam fora, às compras.
Em casa acha-se apenas a filhinha de cinco anos.
Arrogante, ele reitera suas habituais ameaças e exi-
gências. A criança não possui capacidade alguma em
si mesma. Ela tem apenas cinco anos, mas está
instruída para enfrentá-lo; sabe qual é a verdadeira
situação.
Sem fazer uso de qualquer energia própria, mas
apelando unicamente para a autoridade de nosso

42
Senhor, ela lhe diz. com toda calma: "Você terá que
resolver a questão com o novo dono." E ela o faz sem
temores, sem gritos, sem lutas, sem "força de von-
tade", somente com fé e confiança numa autoridade
que é indiscutível. É o que possuímos em Cristo —
uma autoridade incontestável. "Toda autoridade me
foi dada no céu e na terra." (Mt 28.18.)
4 brvviemos ao máximo nossos contatos com o
inimigo. Demos-lhe a entender que temos coisas mais
importantes a fazer. Podemos, por exemplo, nos
dirigir a Jesus em adoração e louvor, cantando um
hino. Essa atitude também nos resguarda de perigo de
tornarmos a prática de transferir o caso para Jesus,
em espécie de regra, uma ação rotineira que seguimos
com certo sucesso, mas que realmente não nos edifica
em nosso relacionamento com o Senhor.
Imaginemos um exemplo de um homem que tem o
hábito de ceder à luxúria. Ele não pode sentar-se ao
balcão da lanchonete sem que lance à garçonete um
olhar lascivo. Nunca passa pela banca de revistas sem
que pare e corra os olhos em publicação de conteúdo
pornográfico. Mesmo em seu relacionamento com a
esposa é motivado mais pela luxúria do que pelo
amor.
Então ele se converte; recebe a vida de Jesus em
seu coração e aprende que não pode continuar agindo
daquele modo. Entretanto, desconhece a possibilida-
de de libertação em Cristo, e passa a aplicar a lei em
sua vida. Tenta "conter" o desejo da carne, usando
força de vontade e determinação. Algumas vezes ele
consegue, mas a verdade é que fracassa em muitas
ocasiões. Além disso, nas poucas vezes que obtém
vitória ele não está ligado a Cristo pelo amor. Ao
contrário, começa rebelar-se interiormente contra es-
sa vida tão penosa à qual o Senhor o chama, e passa a
condescender em permitir-se um pouco de luxúria,
vez por outra.
I r a dia. ele toma conhecimento dessa libertação, e
se apropria dela. Mais tarde, quando passa junto à

43
banca de jornais e vê uma revista pornográfica, ele
não luta contra a tentação. Não mais trinca os dentes
em determinação, e reage à investida inimiga, repetin-
do para si mesmo: "Não cederei ao desejo; não cederei
ao desejo: não cederei ao desejo." O mal a que
resistimos assim, torna-se ainda mais forte. "A força
do pecado é a lei." (1 Co 15.56.) Quanto mais ele
invoca a lei contra seu desejo, mais poderoso fica o
pecado. Ele já experimentou agir desta forma antes e
falhou.
A verdadeira libertação vem de rumo bem diferen-
te. Ao ver a revista, admite para si mesmo que se trata
de um caso de tentação. Imediatamente, ele se coloca
na posição de absoluta segurança em Cristo, através
de um ato consciente de adoração. Desvia os olhos da
fonte da tentação, e começa a louvar a Jesus. Pode ser
um hino entoado à meia voz ou em pensamento, mas
está adorando seu maravilhoso Libertador. Também
não o faz em espírito de temor, como se a luxúria
pudesse a qualquer momento arrombar a porta. (Ele
já a mandou para Cristo, e ela tem que ir.) Ele louva
ao Senhor com espírito confiante, sabendo que Jesus
já derrotou aquele desejo. E sua autoridade não pode
ser contestada.
No momento em que aquele homem identifica-se
com Jesus através do ato consciente de adoração, a
tentação recua. Não foi a lei quem o livrou. Ele
simplesmente submeteu tudo a Cristo, através da
prática do louvor.
Outra coisa que podemos fazer é pôr em prática
um plano de intercessão previamente preparado. Cer-
ta pessoa começou a ser assediada por pensamentos
blasfemos. Lutou contra eles com todas as forças, mas
sem resultado. Então descobriu outro modo de solu-
cionar o problema. Toda vez que as idéias lhe batiam
à porta, começava a orar por um primo que era
missionário na China. Não demorou muito e o antigo
senhorio parou de cobrar-lhe a conta das blasfêmias,
pois viu que cada vez que o fazia, apenas conseguia
ativar intercessão em favor da China.

44
Outra maneira de nos livrarmos de uma conversa
com o inimigo é entregarmo-nos a alguma tarefa de
rotina. Muitos de seus planos já foram frustrados por
boa dose de trabalho na horta, ou em pequenos
reparos caseiros.
É bom lembrarmos, a esta altura, que de fato o
antigo senhorio, às vezes, nos diz a verdade. Algumas
dessas contas estão realmente vencidas — preocupa-
ção, ódio. lascívia, preguiça — mas não é isso que
importa. O importante mesmo é que agora é Jesus
quem cuida delas. Elas devem ser levadas a ele para a
cobrança. Ele pagou nosso débido e nos libertou.

K Os Princípios Bíblicos
Esse modo de enfrentar o inimigo é baseado em
princípios bíblicos perfeitamente válidos.
1. "Porque o pecado não terá domínio sobre vós:
pois não estais debaixo da lei, e, sim. da graça." (Rm
0.14.)
Será que isso quer dizer que nossa vida se torna
desordenada e desregrada? "De modo nenhum!" diz
Paulo. Viver pela graça não significa agir de modo
contrário à lei. Significa que agora estamos sob novo
regime, na batalha contra o pecado.
Uma das principais responsabilidades do governo
de uma nação é evitar que seus cidadãos caiam sob o
domínio de país estrangeiro. Q u a n d o estamos sob o
regime da lei e o pecado monta um cerco de tantações
ao nosso redor, passamos a contra-atacá-lo com u m a
série de proibições: "Não farás isso", "Não farás
aquilo", e t c . que atiramos contra ele com toda nossa
torça. Todavia, logo nos cansamos. Como a resistência
do pecado é superior à nossa, ele acaba por nos
derrotar.
Q u a n d o Deus nos transfere do regime da lei para o
da gTaça. não precisamos da lei para nos defender
contra as investidas da tentação. Nosso regime atual
conta com armamentos mais sofisticados. Não mais
usamos as armas da lei. que exigem o emprego de

45
todas as nossas energias e de nossa força de vontade,
mas as da graça, que são acionadas por Cristo. Depois
que aprendemos a recorrer ao poder do Senhor, o
pecado não tem mais domínio sobre nós.

2. "E não vos conformeis com este século, mas


transformai-vos pela renovação da vossa mente. " (Rrr.
12.2.)
A mente que está conformada a este século conti-
nuamente paga tributos ao antigo senhorio. A mente
renovada deposita sua fé, esperança, confiança e
amor em Jesus. Ela leva "cativo todo pensamento à
obediência de Cristo*' (2 Co 10.5). Então, as palavras
mais constantes em nossa boca serão: "Transfira isso
para o Senhor" e "Glória seja a ti. Senhor!" E é levan-
do essa vida de fé que somos moldados à imagem de
nosso Salvador.
Portanto, se o antigo senhorio aparecer e nos
qualificar de terríveis pecadores, nós simplesmente
responderemos: "Diga isso a Jesus." Se mais tarde ele
retorna e procura reavivar velhos sentimentos de
ódio, amargura e desespero, novamente lhe diremos:
"Transfira para Jesus." Se sussurra ao nosso ouvido
que realizamos um trabalho maravilhoso, e começa a
incensar nosso ego. retrucamos com as mesmas pala-
vras: "Diga para Jesus."
E se ele se apresentar com o chicote da lei.
dizendo: "Tens que ser mais amável, mais paciente e
mais honesto", lembremo-nos de que Cristo é também
o fim da lei. Desta vez lhe responderemos: "Apresente
isso a Jesus. Qualquer boa obra que deva ser realizada
em mim, será feita através do Espírito Santo, e não da
lei." E em todos esses embates, nos voltaremos para
Jesus em louvor e adoração.

3. "Ora. como recebestes a Cristo Jesus, o Senhor.


assim andai nele." (Cl 2.6.)
A fé com que recebemos Jesus em nosso coração é
a mesma pela qual vivemos. Ele é todo-poderoso. Ele é
o "Alfa e o Omega, o princípio e o fim". Quando nos

46
levantamos de manhã, os cuidados do dia logo se
acumulam sobre nós. Transfiramo-los para Jesus.
Durante o dia. as tentações, frustrações e problemas
nos assaltam: tomemo-los, um por um, e entreguemo-
los ao Senhor. Assim, nossa luta espiritual se transfor-
ma num contínuo desfrutar da presença de Cristo. Ele
é nosso Libertador e, ao mesmo tempo, nossa fortale-
za de defesa.
Será que alguém tem dúvidas de que tal vida de fé
e vitórias seja possível? Está o leitor encontrando, em
si. uma ponta de dúvida que objeta: "Talvez seja
verdade, mas não é para mim"? Transfira essa dúvida
para Jesus e verá.

47
CAPÍTULO CINCO

O Perdão Unilateral
Pelo que sabemos através da Bíblia, ninguém
jamais chegou a Jesus e lhe pediu perdão. Fala-se
muito nesse assunto, porém, Jesus, que é a própria
origem dessa graça, nunca ouviu, de quem quer que
fosse, uma palavra assim: "Senhor, perdoa-me!" To-
davia, ele perdoou a muitos, e fê-lo de forma especial
— outorgou perdão unilateral.
Unilateral significa de um lado, de uma parte.
Portanto, o perdão unilateral existe apenas para uma
das partes; é o perdão concedido pelo ofendido sem in-
tervenção do ofensor. É perdão não solicitado pelo
ofensor, que às vezes nem sabe que precisa dele. A
parte ofendida toma a iniciativa do gesto, e indulta a
quem o ofendeu, sem esperar que o outro lhe peça
isso. ,
Certa vez, quatro judeus levaram a Jesus um
amigo paralítico. O Mestre fitou o enfermo, e, antes
que os outros dissessem qualquer palavra, ele excla-
mou: "Filho, estão perdoados os teus pecados" (Mt
9.2). O homem não fizera qualquer pedido nesse
sentido. Jesus o perdoou espontaneamente. Foi per-
dão unilateral.
De outra feita, o Senhor se encontrava em casa de
Simão, o fariseu, quando entrou ali uma mulher, que
tinha reputação de pecadora; aproximou-se dele. e
lavou-lhe os pés com lágrimas, passando a enxugá-los
com os cabelos. Jesus lhe disse: "Perdoados são os

48

teus pecados." Ela não pediu a Cristo perdão de seus
erros, mas Jesus lho concedeu. Nesse caso, também,
foi perdão unilateral.

Jesus Deu o Mesmo Poder à Igreja


Após a ressurreição, Jesus foi ao encontro de seus
discípulos, e lhes disse: "Assim como o Pai me enviou,
eu também vos envio. E, havendo dito isto, soprou
sobre eles. e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Se
de alguns perdoardes os pecados, são-lhes perdoados;
selhos retiverdes, são retidos" (Jo 20.21-23). A inicia-
tiva agora pertencia a eles também, mas também
seria perdão unilateral. E esse é o maior dom que
Cristo deixou à Igreja. Era seu intento que tal prática
fosse contínua. Quando o Corpo de Cristo a observa,
toma-se imbatível. Sempre que deixa de fazê-lo, a
Igreja é dividida, derrotada: um espetáculo vergonho-
so perante homens e anjos.
Todos conhecemos bem como os profetas encara-
vam o pecado. Eles sempe citavam pecados, específi-
cos, conclamando o povo ao arrependimento. Foi
assim que agiu o profeta Nata, quando foi falar com
Davi a respeito do adultério com Bate-Seba. Ele disse
ao rei: "Tu és o homem!" E o resultado foi que Davi
experimentou profundo arrependimento, que ficou
registrado no Salmo 51. "Pequei contra ti, contra ti
somente, e fiz o que é mal perante os teus olhos" (v. 4).
Esse modo de conscientização do pecado é conhe-
cido de todos nós, pois em certas ocasiões da vida
sofremos seu impacto. Ê uma situação que pode ser
gerada pela leitura da Bíblia, ou por um sermão
ouvido, uma publicação religiosa lida, um programa
de rádio, ou uma palavra sábia de amigo. Somos
levados ao arrependimento pela mensagem divina que
aponta diretamente para um pecado que cometemos.
Mas existe o outro lado da moeda, o perdão
unilateral, que procede espontaneamente da pessoa
que perdoa. O pecado não é apenas o mal que atrai
sobre nós a culpa do erro. Ele se manifesta, também,

49
como um poder. E há pessoas que se acham tão
subjugadas por ele, que não podem se apropriar do
perdão divino. É por isso que o perdão unilateral é tão
necessário à vida da Igreja.
O teólogo suíço, Karl Barth, afirmou que o pecado
só nos abrasa a consciência depois que é exposto à
ardente luz do perdão. Nós nos acostumamos a seguir
uma seqüência de passos para o perdão: 1) convicção
de pecados, 2) arrependimento e 3) perdão. Mas isso
pode ocorrer na ordem inversa: 1) perdão unilateral.
2) arrependimento e 3) purificação.
No livro de Efésios, Paulo nos diz o seguinte:
"Longe de vós toda a amargura, e cólera, e ira. e
gritaria, e blasfêmias, e bem assim toda a malícia.
Antes sede uns para com os outros benignos, compas-
sivos, perdoando-vos uns aos outros, como também
Deus em Cristo vos perdoou." (Ef 4.31, 32.) E como
foi que Deus nos perdoou em Cristo? "Mas Deus
prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de
ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecado-
res." (Rm 5.8.) O ato de perdão precedeu o arrepen-
dimento. O amor e o perdão divinos são como uma luz
que penetra nossas trevas e revela nossa carência.
O Velho Testamento contém um belíssimo tipo
dessa verdade. No dia da expiação, dois bodes eram
levados ao sacerdote; o primeiro seria sacrificado:
seria imolado e o sangue aspergido sobre o altar, como
expiação pelo pecado. Depois, concedido o perdão, o
sumo sacerdote impunha as mãos sobre o outro bode.
bode emissário, e confessava todos os pecados do povo
sobre a cabeça do animal. Isso feito, o bode era
conduzido ao deserto, levando em si todos os pecados.
já perdoados. A confissão tinha o efeito de afastar as
iniqüidades, e seguia-se ao perdão.
As igrejas onde se pratica o perdão unilateral,
tanto de uns para com outros membros, bem como
para seus perseguidores, tornaram-se invencíveis.
Essa vitória pelo perdão unilateral também foi
obtida pela conhecida serva de Deus, Corrie ten
Boom, que esteve aprisionada num campo de concen-

50
tração dos alemães, durante a Segunda Guerra. Dez
anos depois de tudo o que sofreu, ela se encontrou
frente a frente com uma ex-enfermeira do alojamento
onde ela e sua irmã Betsie haviam estado. A irmã
estivera muito doente, e sofrerá brutalidades daquela
.nulher. £ a própria Corrie quem nos conta: "No
momento em que a reconheci, o ódio penetrou em
meu coração. Eu pensara haver superado tal senti-
mento, mas agora, ao contemplar aquela pessoa, após
todos aqueles anos, senti grande amargura no cora-
ção. Envergonhada, confessei minha falta ao Senhor,
e orei: "Perdoa-me, Senhor Jesus, esse ódio. Ensina-
me amar meus inimigos."
E ela continua seu relato dizendo que orou pela
mulher, e. por fim, telefonou convidando-a para um
culto. E conclui: "Ela veio à reunião, e ficou o tempo
todo ouvindo atentamente, e fitando-me nos olhos.
Percebi que ela escutou com o coração. Após o
encerramento, abri a Bíblia e expus-lhe o plano da
salvação, complementando com o verso de 1 João 4.9:
"Nisto se manifestou o amor de Deus em nós, em haver
Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para
vivermos por meio dele.' E ela tomou a grande decisão
que causa regozijo até entre os anjos. E não apenas o
meu ódio se acabou, mas também pude levar a luz
para o seu coração em trevas, tornando-me um canal
para os rios de água viva."
O mundo nunca poderá derrotar a Igreja, nem o
poderão as potestades do inferno. O único mal que
pode prejudicá-la é sua própria relutância em conce-
der perdão. Ela tem que exercitar este dom, de que o
próprio Cristo deu exemplo.
Na morte de Estêvão, o primeiro mártir do cristia-
nismo, vemos que ele concedeu perdão unilateral aos
seus algozes. "Eis que vejo os céus abertos e o Filho do
homem em pé à destra de Deus... Senhor, não lhes
imputes este pecado." O livro de Hebreus nos informa
de que Jesus assentou-se à mão direita de Deus (1.3).
No entanto, quando Estêvão o viu, ele estava de pé.
David du Plessis explica o fato da seguinte maneira:

51
"Jesus se ergueu para honrar Estêvão e sua palavra de
perdão — perdão unilateral."
Imaginemos o Senhor, de pé, olhando pelas jane-
las do céu, e dizendo: "A quem é que meu servo está
perdoando? Preciso ver quem é esse homem e olhar
por ele." E o fez. Ele distinguiu o próprio chefe do
bando, Saulo de Tarso. Foi ao seu encontro na estrada
de Damasco e o salvou. Isso aconteceu por causa do
perdão, unilateral de Estêvão, que proporcionou a
Saulo um encontro com Cristo. E que encontro!
Quantas bênçãos resultaram dele! Esse poder Jesus
outorgou à Igreja.

Perdão Unilateral — o Segredo de


Recebermos o Perdão
O recebimento do perdão depende do perdão aos
outros. "Perdoai, e sereis perdoados" (Lc 6.37). Quan-
do perdoamos àqueles que nos ofendem. Deus nos
pode perdoar. "Se tendes alguma cousa contra al-
guém, perdoai, para que vosso Pai celestial vos perdoe
as vossas ofensas." (Mc 11.25.) Se não concedermos o
perdão unilateral àqueles que nos causam males,
estaremos atando as mãos de Deus. Ele não nos
poderá perdoar.
Não parece muito natural proceder dessa forma,
perdoando a pessoa que cometeu um erro e nele
permanece. A tendência do homem é exigir justiça.
Bem, se o ofensor vier a nós arrependido, então o
perdoaremos, e até nos sentiremos orgulhosos de
nossa grandeza de alma. Mas perdoar unilateralmen-
te, como fez Jesus, antes mesmo que seus inimigos
pensassem em pedir perdão, bem, isso já é outra coisa.
A escritora Mary Welch, com seu notável discerni-
mento a respeito das experiências do amor e do
perdão, conta em seu livro, The Golden Key (A chave
de ouro), a história de uma mulher que fora severa-
mente difamada por alguns membros da igreja, que
gozavam de enorme influência na comunidade. "Eles
haviam taxado de "mal" o bem que ela fazia. E

52
durante sete anos, ela não conseguiu nem orar, nem
ler a Bíblia. Odiava toda a comunidade pelo que lhe
haviam feito-for fim entregou-se à bebida."
Todo esse tempo, ela estava disposta a perdoá-los,
mas cometeu um grande erro. "Pensava", prossegue
Mary. "que o perdão só podia ser dado após a devida
confissão e pedido de desculpas por parte dos implica-
dos. E ficou aguardando, sofrendo e odiando, na
esperança de que pelo menos um daqueles irmãos
viesse confessar-lhe que havia confundido ou interpre-
tado mal as coisas, para depois perdoá-los e libertar-
se do pesado fardo de ódio e amargura que carregava.
Mas ninguém apareceu..."
Por fim. seguindo sábia orientação, ela tomou,
pela fé, a grande decisão de perdoar a todos. Primeiro,
desenhou um mapa do lugar e depois, em pensamen-
to, foi a todos os seus recantos, retirando a condena-
ção feita, substituindo-a por bênção e dando graças a
Deus por tudo que as pessoas haviam feito a seu favor
ou contra ela.
"Assim, ao libertar aqueles que havia aprisionado
no ódio. ela encontrou a própria liberdade; encontrou
a vida. ao permitir que Deus operasse na vida de cada
pessoa que. por sua condenação ela encarcerara, em
represália pela difamação. Pelo que sei, até hoje,
nenhuma delas a procurou para confessar o erro e se
desculpar. Também ela não disse a nenhum deles que
os perdoara, evitando, desse modo, um clima de
constrangimento. Mas toda a cidade a ama e lhe
consagTa profunda dedicação."
Não nos arvoremos em juizes de ninguém. Deus
não nos nomeou juizes uns dos outros, mas deu-nos o
dever de perdoar. "Se vós, porém, vos mordeis e
devorais uns aos outros, vede que não sejais mutua-
mente destruídos", diz Paulo aos gaiatas, no capítulo
3. verso 15 de sua carta.
Se examinarmos cada problema e cada cisão
havida na Igreja, através da História, veremos que a
causa foi sempre a obstinação em não perdoar. Por
outro lado, nos seguimentos da Igreja onde testemu-

53
nhamos a presença de poder espiritual, encontrare-
mos crentes que aprenderam a verdade acerca do
perdão que independe da atitude do o|gnsor. e que é
expressão unilateral do amor de Cristo.
Alguém pode pensar que tal ensino anule o concei-
to da responsabilidade pessoal de cada um. O que isso
realmente faz é abrir caminho para que Deus opere no
coração da pessoa. Quanto a nós, não sabemos se o
outro recebeu o perdão, se o aceitou e se apropriou
dele, prosseguindo depois em sua carreira cristã.
Nossa parte é simplesmente perdoar com toda libera-
lidade, sem esperar o pedido de desculpas.
Pense em alguém contra o qual você tem queixa.
Não considere agora se a pessoa merece ou não ser
perdoada. Pense em si mesmo como instrumento de
perdão, como se fosse um refletor de luz. projetando a
energia do perdão. Aqueles a quem perdoamos, em
nome de Jesus e na sua autoridade, estão perdoados.
A força do pecado que paira sobre sua cabeça será
desfeita como conseqüência desse nosso ato de fé.
desse indulto concedido em lugar da condenação,
dessa bênção que toma o lugar da maldição.
Isso não quer dizer absolutamente que os culpados
não precisem ser julgados. Precisam. Mas tal julga-
mento não pertence a nós, mas a Deus. O Senhor não
nos investiu com poderes de juiz, mas de perdoadores.
Ele colocou em nossas mãos poder maior que o da
fissão atômica — o poder do perdão unilateral. O
exercício de tal poder resulta em mudanças drásticas
que perduram por toda a eternidade.

54
Ef3

**** TERCEIRA PARTE

A Mente Renovada
é Paciente
CAPÍTULO SEIS

As Pequenas Esperas da Vida


Um pouco, e não mais me vereis; outra vez
um pouco, e ver-me-eis. (Jo 16.16.)
"O que será que ele quer dizer com esse "um
pouco' e não mais o veremos, e outra vez um pouco e
vê-lo-emos de novo?" indagavam os discípulos.
Após a crucificação de Jesus eles se viram mergu-
lhados em nuvem de temor e desespero. Reuniam-se a
portas fechadas, receando que o mal que sob:
ao Senhor se erguesse novamente e atacasse a eles que
haviam sido seus seguidores. E em meio a todo aquele
pavor, esqueceram-se da profecia de Cristo, de que no
terceiro dia ele ressuscitaria. Abatidos pela dor. não se
lembravam de que um pouco mais e eles o veriam
outra vez. Mas apesar de sua angústia, a verdade era
que Deus estava operando. Ele havia feito um plano e
era mister executá-lo. Havia um objetivo a ser alcan-
çado no lapso de tempo que decorria entre sua morte e
o momento em que o veriam de novo.

A Senha é: Deus Está Operando


Durante aquele doloroso período de espera. Deus
estava operando de modo maravilhoso. Derrotava os
principados e potestades que conservavam o homem
em prisão. Estava assentando as bases da salvação
que seria conhecida em todo o mundo. Era um
momento de espera, uma hora de dores, mas Deus
atuava.

56
Deus tinha um propósito para os discípulos naque-
la fase: desejava realizar uma obra em suas vidas.
Queria que eles se apropriassem da promessa feita por
Cristo de que os veria novamente, e vivessem pela fé,
embora não o vissem pessoalmente. Portanto, era
duplo o seu objetivo naquilo tudo: ele punha em ação
o plano, em sua própria esfera de atividades ao
mesmo tempo que a fé e a confiança dos discípulos
eram edificadas.
Todo cristão experimenta esses períodos de pausa
em sua vida. São ocasiões em que lhes parece que
Deus quase se afastou deles, e nas quais têm que
suster-se pela fé, até que o Senhor ressurja. O modo
como encararmos esses intervalos sombrios determi-
nará se a resultante será positiva ou negativa. Tudo
depende de nossa atitude: ou nós entendemos seu
significado, ou, apenas, nos sujeitamos às circunstân-
cias.
Jesus definiu muito bem o propósito divino para
tais períodos, quando disse: "O vosso coração se
alegrará, e a vossa alegria ninguém poderá tirar." O
objetivo de Deus ao conduzir-nos a uma experiência
dessas é gozarmos tal alegria.
A verdade-chave a ser lembrada nesses momentos
é: Deus não está parado; está atuando. Nenhuma
outra promessa, nenhuma outra verdade poderá rea-
nimar nosso coração, infundindo-lhe nova confiança,
como a certeza de que Deus está agindo.
De que é que precisamos, então, para sermos
vitoriosos nessas "esperas" da vida? Primeiramente,
precisamos de conhecimento básico. Precisamos saber
que o Senhor tem um plano, e que ele está agindo.
Existe realmente um propósito em cada transe por
que passamos.
Em segundo lugar, temos que confiar. Temos que
nos apegar a esse conhecimento básico e confiar
na Palavra de Deus. E por último precisamos perse-
verar. ficar firmes em nossa posição de confiança na
Palavra de Deus.

57
Conhecer a Palavra de Deus

Os discípulos haviam recebido informação acerca


da ressurreição do Senhor, mas não se apropriaram
dela. Sua fé estivera firmada no contato direto que
haviam mantido com Jesus. Embora a presença de
Jesus fosse uma realidade maravilhosa, a lembrança
dela não bastava para ajudá-los a transpor aquele
período de espera. Eles precisavam de conhecimento
específico da Palavra de Deus. Vimos acontecer o
mesmo cornos dois discípulos que iam a caminho de
Emaús, no entardecer do dia da ressurreição. Jesus
colocou-se ao lado deles, e perguntou-lhes: "Por que
vocês se mostram tão desanimados?" Responderam-
lhe que Jesus fora crucificado, e que esperavam fosse
ele quem havia de redimir a Israel. Então o Senhor
passou a explicar-lhes as Escrituras, demonstrando-
lhes, pela Palavra de Deus, como o sofrimento do
Messias era parte essencial do plano divino, e que por
ele Jesus entraria em sua glória. E enquanto o Mestre
lhes apresentava essas verdades e o conhecimento
penetrava em seu coração, sentiram seu interior arder
de forma estranha. O problema deles é que careciam
de informações específicas acerca do plano de Deus.
Quando passamos por um desses períodos de
provação ou tribulação, não podemos viver apenas das
lembranças de experiências passadas, por mais extra-
ordinárias que hajam sido. Temos que obter conheci-
mento detalhado acerca dos desígnios e propósitos
divinos, bem como de suas promessas.
Um missionário que trabalhava no Paquistão es-
creveu certa vez o seguinte: "As condições de vida
aqui são muito primitivas. É muito difícil para um
ocidental sobreviver neste clima, para se mencionar
apenas a questão da saúde." Disse ainda que se não
estivesse certo de que Deus o enviara para lá. não
suportaria viver ali. O mesmo pode se dar conosco. O
que torna nossas dificuldades toleráveis é justamente
o fato de sabermos com certeza que Deus nos colocou
em tal situação e está executando seu plano.

58
As Escrituras afirmam que a Palavra do Senhor é
qual semente, e as sementes sempre têm um período
de crescimento: é durante essa fase que precisamos
esperar com paciência até que a bênção prometida
por Deus e o plano divino para nossa vida atinjam
seu pleno desenvolvimento e maturação. Pois é intento
do Senhor que gozemos daquela alegria plena que
ninguém nos poderá tirar.
Pensemos nos discípulos de Jesus. Eles desfruta-
vam de esplêndida comunhão com o Senhor. Mas
Deus precisava elevar-lhes o nível de visão, para que
enxergassem não apenas aquela associação imediata
de que gozavam com o Senhor, mas a comunhão
eterna que ele desejava conhecessem, numa aliança
que perduraria por toda a eternidade. Foi assim que
lhes sobreveio esse "um pouco", durante o qual eles se
ajustaram ao ideal divino quanto ao futuro. Com
pesar, então, eles se desfizeram de uma visão fixada,
apenas, no presente.
Deus tem que operar o mesmo em cada um de nós,
e muitas vezes ele se vê forçado a lançar mão de um
compasso de espera, para nos libertar de uma percep-
ção estreita, e para desprender de nós os tentáculos do
presente que nos mantêm cativos.
Ele se utiliza desses períodos com a finalidade de
fazer com que desviemos nossos olhos do que nós
somos capazes de realizar, e os fixemos no que ele
pode e quer fazer. Nesses momentos, o Senhor frustra
nossos esforços pessoais, até que passemos a olhar
unicamente para ele. Deus nos deixa correr até exau-
rirmos nossas forças, para depois nos revelar seus
recursos ilimitados.
Quando estivermos na eternidade, poderemos
olhar para o passado e veremos que todo o período da
história humana não passou de um piscar de olhos.
Paulo diz em 2 Coríntios 4.17 que as momentâneas
aflições do tempo presente estão a preparar-nos um
"eterno peso de glória". Ê isto que está sendo realiza-
do nessas esperas de nossa vida — um eterno peso de
glória: algo que está além da imaginação. Somos

59
peregrinos nesta terra. Vivemos um período de prova-
ção, durante o qual Deus nos prepara para empreen-
dimentos maiores.
Se mentalmente reconhecermos esta verdade, e.
em seguida, deliberarmos crer nela de todo o coração,
nossa vida poderá tornar-se completamente diferente.
Prosseguiremos sempre, sem nos determos para pen-
sar se hoje ou amanhã Deus nos concederá esta ou
aquela bênção. Não mais viveremos de experiência em
experiência. Compreenderemos que existe um plano
superior de vida, e que dele fazem parte também essas
pequeninas esperas que nos acontecem.
Quando uma delas nos sobrevier, saberemos que
isso não significa que estamos longe de Deus. ou que
ele se esqueceu de nossa existência. Deus está interes-
sado em nós. Ele está operando. "Os que esperam no
Senhor renovam as suas forças, sobem com asas como
águias, correm e não se cansam, caminham e não se
fatigam." (Is 40.31.) Nós precisamos conhecer verda-
des como essas; precisamos saber que esses pequeni-
nos períodos de espera são parte integrante do plano
de Deus para sua Igreja, e parte específica de seu
plano para nossa vida.

Confiar na Palavra de Deus


Depois que obtemos esse conhecimento, então, o
ponto seguinte será nos firmarmos nele. com plena
confiança. Teremos que descansar nos planos de
Deus.
Foi exatamente assim que Jesus agiu quando se
encontrava perante Pilatos. "Como ovelha muda pe-
rante os seus tosquiadores. ele não abriu a sua boca.""
Ele não disse nada para se defender. Sofreu a humi-
lhação de ser pregado na cruz. porque sabia o que
havia por trás de tudo. Tinha conhecimentos especí-
ficos e concretos das Escrituras, sabendo perfeitamen-
te que tudo aquilo era parte do plano do Pai. Ele
confiava na Palavra de Deus. mesmo em meio à dor e
à degração que lhe eram infligidas.

60
hnagrnr só! O Senhor da criação crucificado por
iqueki que criara. O Filho imaculado recebendo
salive si todos os pecados cometidos por toda a
k— !••! iile — homens, mulheres e crianças. Mas ele
tmbàw. nafta consciência de que tudo fazia parte do
pboodkino. e foi por isso que conseguiu suportar em
inTntin Ele conseguiu atravessar aquele período de
espeta, suportando também o transe de ser aparente-
u e a t abandonado por Deus, o que o levou a clamar,
aa cruz: "Deus meu. Deus meu, por que me desam-
pataste?"
O urro de Apocalipse nos dá uma descrição do que
sucedeu quando esse plano — pueril na aparência —
• posto em ação. e o cordeiro conduzido ao mata-
douro.O rolo selado, que deveria dar início aos acon-
KLÚucHtos dos últimos tempos estava para ser aberto.
Procurava-se alguém para abri-lo, mas não se conse-
guia encontrar ninguém que fosse digno de fazê-lo.
Então o apóstolo João começou a chorar de tristeza
por não se encontrar pessoa alguma que pudesse abrir
hVro. Mas um anjo se aproximou dele, tocou-lhe no
ombro, e disse: "Não chores: eis que o Leão da tribo
de Judã. a Raiz de Davi. venceu para abrir o livro e os
seus sete selos.*' Ele estava falando de Cristo, o
Messias. João ergueu os olhos — e o que viu? Um
leão? Não. Viu um ser semelhante a um cordeiro que
íora imolado, mas que estava vivo. De repente ele
compreendeu tudo: o Leão é o Cordeiro! O poder
soberano de Deus estava atuando nquela hora de
aparente fraqueza enfrentada pelo Crucificado.
Jesus confiou na Palavra de Deus durante aquele
período de transição, e por causa dessa confiança,
Deus da morte tirou vida.

Perseverar na Confiança
Para superarmos bem esses períodos de nossa
vida. quando Deus está operando em nós, precisamos,
primeiramente, ter conhecimento da Palavra de Deus;

61
depois, temos que confiar nessa Palavra e por fim.
temos que perseverar.
Voltemos novamente ao livro de Apocalipse, onde
estão registradas algumas das terríveis calamidades
que assolarão a terra, nos últimos dias. Lemos ali:
"Aqui está a perseverança e a fidelidade dos santos""
(13.10). Será uma época em que precisaremos de nos
apegar à Palavra de Deus, mesmo nos momentos mais
difíceis.
Nas ocasiões em que Deus parece distante, ou
quando aparentemente ele não está operando, é
muito fácil nos afastarmos da Palavra, cairmos em
pecado ou nos desesperarmos!
José foi vendido, como escravo, por seus irmãos, e
levado para o Egito. Teria sido muito fácil para de
pensar: "Ninguém se importa comigo. Eu vou é gozar
os prazeres do mundo, e procurar me arranjar o
melhor que puder!" Mas nào o fez, e quando a mulher
de seu senhor tentou seduzi-lo, recusou-se a entregar-
se ao pecado. Era um desses intervalos sombrios que
sobrevinha a José, um desses momentos em que Deus
parece estar longe de nós. No entanto, ele perseverou
na fé, certo de que sua vida ainda se achava sob a
direção divina.
Quando nossa vida espiritual se encontra em maré
baixa, corremos grande risco de sermos tentados a
ceder ao pecado. Entretanto, se em momentos de
trevas nos apegarmos com firmeza ao Senhor, o
resultado é que nos desenvolveremos espiritualmente.
em proporção dez vezes maior do que nos períodos em
que gozarmos de comunhão com Deus em calma e
tranqüilidade. Qualquer um se sai bem em períodos
de bonança. "Se, entretanto, quando praticais o bem.
sois igualmente afligidos e o suportais com paciência,
isto é grato a Deus." (1 Pe 2.20.) Deus espera que
durante esses "um pouco'*, vivamos em harmonia
com sua vontade, embora nos faltem os sentimentos
agradáveis que facilitam as coisas.
Em tais momentos corremos o perigo de nos
entregarmos ao desespero, e pensarmos que Deus não

fO
aos ama. "Para que ir à igreja? Para que continuar
• c a momento devocional diário? Para que continuar
K S K trabalho do Senhor? Deus parece que não se
moamoda mais comigo..." Teremos a tentação de
fcar para o mundo e dizer: "Aquele vizinho nunca
dá a mínima importância a Deus; apesar disso não
•trema nem a metade dos problemas por que eu pas-
Esse tipo de pensamento vem ocorrendo aos cren-
tes desde que o homem começou a crer em Deus: "O
••pio prospera mas os justos são aniquilados." Nesses
casos, somos mais propensos a nos desesperar e a
pensar que nada vale a pena — "Deus não ouve o
•osso clamor".
Quando José foi lançado na prisão, teria sido mais
inwpli . para ele raciocinar desse modo, e se desespe-
rar. Todavia, permaneceu fiel a Deus. Continuou
realizando seu trabalho normalmente. Auxiliou os
companheiros de infortúnio e o Senhor usou justa-
f li aquele fato para operar seu livramento, e
elevá-lo a posição de grande destaque. Tudo fazia
pane do plano divino para a libertação do povo de
Israel. Durante esse "um pouco" da vida de José, em
que Deus parecia tê-lo desamparado, e seus próprios
irmãos o haviam banido, o Senhor estava atuando.
Eles visaram a causar-lhe mal, mas a intenção de
Deus era que tudo resultasse em grande bem.
Esses transes não são fáceis, nem são momentos
sobre os quais normalmente falamos aos outros, como
o fazemos acerca daqueles em que sentimos Deus
mais peno. Contudo, são tempos em que ele opera
maravilhosamente em nossa vida. São momentos em
qaeete está executando um plano que nos envolve e a
rodos que nos cercam. Naqueles dias, temos que reunir
toda a coragem de que dispomos e erguer o pendão
que diz: "Cuidado — Obras! Deus está operando!"

63
CAPITULO SETE

As Promessas e Seu Processo


de Realização
Se quisermos ser sinceros com nós mesmos, tere-
mos que reconhecer que ainda não nos apropriamos
da maioria das promessas contidas na Bíblia. Em
Romanos 6.14, Paulo declara o seguinte: "Porque o
pecado não terá domínio sobre vós." No entanto, o
que nós os cristãos verificamos na prática é que o
pecado, muitas vezes, nos prende em seus tentáculos.
Em Romanos 8.9, lemos: "Vós, porém, não estais na
carne, mas no Espírito." Contudo, muitas vezes temos
que confessar que não estamos no Espírito. Estamos
apegados às tendências da carne. Somos chamados de
"santos irmãos" (Hb 3.1); todavia, quando analisa-
mos nossa vida — bem como muitas vidas menciona-
das na história da Igreja — vemos que ela está
maculada pelo pecado. Que deve o crente fazer em
face de tal frustração? Temos a promessa, mas dela
vemos tão pouco se concretizar!
Em Hebreus 3.1-6, encontramos resposta simples
para essa questão. "Por isso, santos irmãos, que
participais da vocação celestial, considerai atenta-
mente o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confis-
são, Jesus, o qual é fiel àquele que o constituiu, como
também o era Moisés em toda a casa de Deus... a qual
casa somos nós, se guardarmos firme até ao fim a
ousadia e a exultação da esperança."
Qual é então a solução? Considerai Jesus. Temos
que nos voltar para Cristo, aquele que iniciou a

64
dessa casa. (Ver 1 Pedro 2.5.) Cristo é a
Desejo agora, com toda reverência, levantar
Será que ele é capaz de terminar o que
i? Será Jesus capaz de concluir a construção
i? A resposta é: sim. Ele está completando a
Está perfeitamente em dia com o serviço.
isto é mesmo verdade, se ele vai mesmo
i a construção de sua casa, por que então
(que é a casa) muitas vezes tem sido
por incertezas, dúvidas e frustrações? A
cansa de tais males é o fato de que, embora
abraçado as promessas de Deus pela fé e
[atendimento, a verdade é que não conhecemos
»pelo qual ele opera a concretização delas. A
i faz somente apresentar-nos as promessas,
e também os detalhes do processo, pelo qual
das se realizam.
Quando eu tinha quatro ou cinco anos, costumava
sentar no colo de meu pai. e pedir-lhe que lesse para
mim as estórias em quadrinhos publicadas no jornal.
Ovando de não podia fazê-lo, eu procurava meu
velho e o importunava até que lesse para

"Estou aflito para você entrar para a escola", dizia


d e . com um suspiro. "Assim poderá ler o jornal, você

Aquilo se tornou meu grande sonho: entrar para a


escola a fim de ler as historinhas, eu mesmo.
Chegou finalmente o grande dia, o primeiro dia
ca que iria à escola. As cinco e meia da manhã eu já
estava pronto, arrumado, sentado nos degraus da
escada à frente da casa. Por fim chegou o momento, lá
fui eu para o gTupo. Naturalmente, naquele primeiro
dia. tudo que houve foram atos rotineiros: determina-
ção das carteiras de cada um, apresentação das
dasses e dos professores, etc. Logo que soou a sineta
de encerramento, saí correndo de volta, enveredei pela
sala a dentro, abri rapidamente o jornal, e joguei-me
brucos no chão para lê-lo. Foi aí que desandei a
chorar. Não conseguia ler nada!

65
Meu pensamento estivera tão fixo na idéia da
promessa, que eu não enxergara o processo pelo qual
ela se concretizaria. Era bem verdade o que meu
irmão dissera, que quando eu entrasse para a escola
poderia ler as estorietas, mas haveria um processo, um
período de tempo necessário para que a idéia se
concretizasse.

O Tempo Determinado por Deus


Os planos de Deus sempre requerem certo proces-
so, que desenrola num certo período de tempo — é o
tempo determinado por Deus. A Bíblia explica esse
tempo da maneira seguinte: "Para com o Senhor, um
dia é como mil anos, e mil anos como um dia" (2 Pe
3.8). Isto significa que, para Deus, o tempo é relativo.
Pode ser mais curto ou mais longo do que o nosso,
depedendo dos intentos dele. Para ele, o tempo é como
uma gominha de borracha que pode ser esticada ou
diminuída.
Quando falamos de processo, precisamos reconhe-
cer que o fator tempo é sempre determinado por
Deus, nunca por nós. E se nós não contemplamos
Cristo o bastante para receber dele uma idéia do
tempo de duração, quanto a determinada situação,
isto pode provocar em nós grande sentimento de
frustração.
Deus pode estender o tempo, como o fez. por
exemplo com respeito ao estabelecimento de seu
reino. Qualquer pessoa que tivesse uma fração do
poder divino poderia estabelecer um governo de âmbi-
to mundial em questão de anos. Em nossos dias.
temos visto homens e nações quase atingirem um
ponto de domínio universal em pouco tempo. Mas
Deus está trabalhando na edificação de seu reino há
quase dois mil anos, e ainda não o estabeleceu.
Contudo, se formos atentar para a palavra de 2 Pedro,
veremos que na realidade transcorreram apenas dois
dias.
Por outro lado, ele pode também comprimir o

66
m. Normalmente, a produção do vinho tem o
•R processo: a chuva cai sobre o vinhedo, depois
•a sobre até o fruto como seiva, e depois então, da
é leme o vinho. Mas. certa ocasião, Jesus transfor-
a água cm vinho instantaneamente, reduzindo
te o processo. Em geral, se uma
are. é obrigada a ficar de cama, e após
>de repouso e tratamento, a febre passa-
o foi assim com a sogra de Pedro. Ela
sova doente e quando Jesus a tomou pela mão, ela
fkoa imediatamente liberta da enfermidade. Deus
•ode comprimir o tempo ou esticá-lo.

Os Materiais que Deus Usa


Deus está construindo um edifício. É um prédio de
pedras vivas (1 Pe 2.5). Nós somos as pedras. Quais
s passos necessários para se erguer uma casa?
Primeiramente, temos que conseguir o material neces-
sário. Isso simboliza o trabalho que a Igreja realiza,
o os que ainda não são cristãos, que ainda
a mensagem. Isso é evangelismo: obter
Nessa fase do processo, toda atenção é
•a o indivíduo. Fala-se da minha salvação;
r Salvador Jesus surge no limiar da minha
consciência. Esse período é de grande gozo para as
"pedras". Pois é a ocasião em que o homem descobre
propósito de sua existência, e sua vida toma novo
— Cristo se torna o centro de tudo.

O Preparo do Material
Mas o processo não termina aí; foi apenas o
caneco. Agora chega o momento de dar forma ade-
quada ao material e talvez seja preciso colocá-lo à
parte, aguardando que a construção, propriamente
lata. seja iniciada. A tal período, chamamos de santi-
firarão ou crescimento cristão.
Esse estágio talvez seja um pouco desinteressante,
e «ralmente é mais desagradável, pois é nele que os

67
entalhadores começam a trabalhar as pedras, aparan-
do as arestas, a fim de se encaixarem bem no lugar que
lhes cabe no edifício. Quando o Espírito Santo começa
a nos aparar, acertando uma borda áspera aqui.
arredondando um ângulo muito agudo ali. nem sem-
pre tal operação nos agrada.
Depois de pronta, ele coloca a pedra a um canto.
onde ela fica aguardando sua vez, pois acha-se em
andamento uma fase da construção que não lhe diz
respeito. Sei que todos estão bem familiarizados com
um lote onde se ergue uma construção. No começo.
vemos pilhas de tábuas, de um lado, um monte de
brita no outro, mas tudo está parado. E esta é a pane
mais difícil de toda a operação. É nesse ponto que
muitos crentes desistem. Rolam para longe do local da
construção, descem por um barranco qualquer e se
perdem — tudo porque não conseguem suportar o
tédio da espera.
Esse estágio de "ser empilhado" e o subseqüente
intervalo de espera, é parte do crescimento cristão.
Nele não há ação, e nós não conseguimos entender por
quê. "Onde estão a alegria e os momentos de íntima
comunhão com Deus de que desfrutávamos antes?"
Apesar das dúvidas, a verdade é que Deus está tão
perto de nós como antes; ainda estamos enquadrados
em seus propósitos. Só que o processo de construção
passou para uma nova fase — a da espera.
Pensemos numa árvore podada recentemente. Ela
parece vazia e sem vida. Entrou num período de
aparente letargia. Mas o que realmente está aconte-
cendo nesse tempo de inação? O que virá depois dele?
Vida nova! Nova frutificação!
Aqui na Califórnia, podamos os bicos-de-papaga»
após o Natal. A árvore fica feia, galhos decepados
e desfolhada. É possível que, às vezes, nos sintamos
como um desses galhos — vazios e desbastados.
Parece que a nossa vida cristã perdeu o vigor. Porém.
isso não corresponde à realidade. A obra de Deus está
em andamento.

68
Consideremos Jesus
A Bíblia nos exorta a que olhemos para Jesus. Não
devemos nos fixar naquele toco de galho com que
nossa vida se assemelha agora. Deixemos disso. Olhe-
mos apenas para o Senhor. Fixemos os olhos em Jesus
até que ele nos dê uma visão global de seu plano de
construção: até que ele imprima, em nossa mente, a
convicção e a certeza de que vai terminar a obra no
prazo marcado.
É bom examinar cuidadosamente nossa vida, vez
por outra, pois é possível que tenhamos rolado para
fora do terreno. É conveniente verificar se ainda
estamos em comunhão com os crentes, se ainda
observamos nossos momentos de oração. Se essas
coisas estiverem em ordem, se realmente estivermos
buscando a Deus. e. a despeito disso, nos sentirmos
longe dele. então façamos o que a Bíblia nos ordena
— Considerai Jesus! Podemos estar certos de que ele
vai concluir a obra iniciada. Ele começou a executar
seu plano. Se olharmos somente para Jesus, ele colo-
cará em nosso coração a certeza de que está operando
e realizando sua obra de construção.
Quando nos aproximamos demais de um prédio
em construção, às vezes é difícil ter uma boa perspec-
tiva do todo. Certo artista está fazendo uma escultura
em pedra na encosta de um monte, nos Estados Uni-
c>»>. Depois de terminada, será a maior do mundo. Há
vinte anos ele trabalha nela. Está retratando a figura
do lendário chefe indígena americano Crazy Horse. As
ferramentas de que se utiliza nesse trabalho gigantes-
co, que homem nenhum ainda tentara, são: uma
escavadeira e cargas de dinamite. Com elas, está
removendo toda uma face da montanha: centenas de
toneladas de pedra. Quando nos aproximamos do
local, e ficamos a observá-lo manejar a escavadeira,
tudo que vemos é um corte na rocha e um homem
transportando montes de pedra. Ele próprio, daquele
ponto, não consegue ter uma idéia precisa de como a
obra ficará depois de pronta, mas o plano está bem

W
delineado em sua mente. Ele sabe exatamente de onde
é que tem que retirar os blocos de pedra. Quando.
porém, nos afastamos um pouco, conseguimos ver.
embora indistintamente, os contornos gerais da obra
de arte em que ele está transformando aquela monta-
nha de granito.
Quando contemplamos nossa experiência muito
de perto, muitas vezes temos uma visão distorcida do
que será o projeto depois de finalizado. É por isso que
a Bíblia nos instrui a considerarmos Jesus. Temos que
manter comunhão com ele para que possamos ver as
coisas sob perspectiva celestial, que é a de quem
contempla do alto. No livro de Efésios. encontramos a
planta do projeto, a Igreja. Reconheçamos que somos
apenas uma pedrinha nela, e' que Deus vai concluir
seu trabalho e o fará dentro do prazo certo.
Esta é uma das verdades mais animadoras da
Palavra de Deus. Devemos nos lembrar dela nos mo-
mentos em que nada parece acontecer, ou tudo parece
ir de encontro à nossa fé; nas ocasiões em que indagam
de nós: "Em que você crê? Em quem deposita espe-
rança? Como pode provar a realidade de sua crença?"'
E a resposta quase sempre é: "Não tenho nada para
provar minha fé!" Tudo que podemos fazer é olhar
para Jesus, até que a esperança se torne realidade
dentro de nosso coração.
Alguém pode nos interpelar. "Mas você ainda crê
no cristianismo? Já se passaram dois mil anos e Cristo
ainda não voltou." É verdade. Já se passaram dois mil
anos. mas Deus não está atrasado; está perfeitamente
no horário. Ele não está parado; está edificando seu
reino. Como o salmista, podemos rir dos reis e das
nações que fazem seus planos, pois sabemos que Deus
está edificando seu reino.
Todos sabemos perfeitamente que. quando o ali-
cerce é lançado num local, o prédio será erguido ali.
E, pela fé na Palavra de Deus, ficamos sabendo que
foram lançados os fundamentos de um edifício que
não será erguido por mãos humanas, uma casa eterna,
nos céus, a nova Jerusalém. Presentemente. Deus a

70
sã construindo- Ek nos designou para sermos pe-
, desse edifício. Portanto, não desanimemos
sobrevierem períodos de inatividade. Não
lote. Não permitamos que o intervalo
ke calma e de tédio nos derrote, pois Deus
i * emito sua obra.
É comam haver atrasos e outras dificuldades em
ma construção. Tais coisas nos causam frustração.
D trabalho em andamento no terreno nos
r confuso, desorganizado. Mas a verdade é que a
prossegue. Os operários comparecem ao traba-
>pontualmente, e. por fim, o prédio fica pronto. O
• chegou ao final. A promessa inicial foi cabal-
nprida. Está na hora de aqueles que perseve-
o fim receberem sua parte nas honras da

71
V

CAPITULO OITO

Perdão e Libertação
"Senhor, pequei! Pequei novamente!" Quantas e
quantas vezes temos tido que repetir essas palavras!
Quantas vezes temos tido que nos voltar para Deus.
apresentando-lhe o mesmo pecado, a mesma fraque-
za, a mesma falha habitual. Confessamos e recebemos
o perdão, mas, por uma razão qualquer, não somos
libertados. Não nos modificamos. Não somos transfor-
mados, renovados. Sabemos por intuição que, na vida
cristã, deve ocorrer certo desenvolvimento. Queremos
fazer progresso em nosso crescimento na direção de
Cristo. Mas, infelizmente, é tão comum não conse-
guirmos aquilo que desejamos obter, e por que nos
esforçamos tanto. Por quê? A questão se resume
apenas numa coisa: não fazemos distinção entre
perdão e libertação. Poucos são os crentes que reco-
nhecem tal diferença.
Em Isaías 51.5, o Senhor faz a seguinte declara-
ção: "Perto está a minha justiça,* vem saindo a
minha salvação." Mas ela ainda não chegou.' Vamos
comparar o perdão do Senhor a um foguete que ele
lançaria dos céus, até nós. O perdão é concedido a
partir do momento exato do lançamento do foguete,
mas a libertação só ocorre depois que o foguete chega

*N. do T.: a versão utilizada pelo autor diz: "Minha libertação


se aproxima rapidamente, vem saindo a minha salvação."

72
O que acontece com muitos de nós é que os
ficam suspensos no ar em algum ponto da
O perdão foi concedido, mas a libertação
atingiu o alvo.
indo todo testemunhou, pela TV, a viagem da
Apoio 11 à Lua. Ficamos como que ligados a ela,
iastame do lançamento até o momento dra-
áo pouso no oceano. Creio que todos nos
grandemente frustrados se a fase final da
resgaste da cápsula espacial, não houvesse
diz. Teria sido até trágico. O Salmo 51 descreve
semelhante, a do perdão e libertação, desde o
o feito por Deus até sua chegada ao coração

A Convicção Vem dos Céus

A primeira fase da operação consta do seguinte:


Deus envia um impulso à terra, e o Espírito nos
«•«cace de pecado. O Salmo 51 foi escrito por Davi
após haver cometido adultério com Bate-Seba, e
perpetrado a morte do marido dela. O profeta Nata
foi procurá-lo. e narrou-lhe a história de um homem
«pjc possuía uma única ovelha de que gostava muito.
Tal era sua afeição pelo animalzinho, que o criava
d m i u de casa. como se fora um de seus próprios
filhos. O vizinho desse homem, rico proprietário, que
pnwnía muitos rebanhos de ovelhas e vacas, recebeu,
certo dia. a visita de um amigo. Desejando entreter o
amãgo. preparou um banquete, mas em vez de tomar
•m cordeiro do próprio redil, foi à casa do outro, e
t o n a a única ovelha que ele possuía. Que se deveria
fazer a um homem desses? "Tal homem deve ser
morto", foi a pronta resposta de Davi. Ele percebeu
imediatamente a injustiça cometida. Ao que Nata
-.--.. ^ T-es o homem." Você tem muitas esposas
e riquezas, mas tomou a mulher daquele que possuía
• w c m t uma. e a quem amava muito. Você é o

73
Aqui está o impulso que vem dos céus a nós. E o
Espírito o usa para nos convencer de erro, revelando-
nos os pontos de nossa vida que não agradam a Deus.
É possível que consideremos muitos pontos relativa-
mente inofensivos, mas o Senhor encara o pecado
mais seriamente do que nós. E por que ele age assim?
Por que nos ama. Ele sabe que sem santificação
ninguém verá o Senhor. Sabe que o arrependimento e
o perdão são a chave que nos abre o reino dos
céus. e que além dessas não há outras.
É preciso que nos dirijamos ao Senhor e oremos:
"Senhor, revela o meu pecado!" Devemos nos expor à
luz divina, — e não fugir e esconder — mas desejar
que tudo que há em nós fique à vista. "Senhor, quero
saber que partes de minha vida não estão te agradan-
do." Depois, teremos de nos preparar para receber a
resposta. Isso significa ficar com os ouvidos atentos
para nossos irmãos, pois, muitas vezes, eles enxergam
nosso pecado melhor do que nós.
Davi estava cego para seu erro por não querer
encará-lo. Mas Nata o viu claramente. Nós todos
somos assim, por natureza. Precisamos pedir ao Se-
nhor em oração: "Absolve-me das (faltas) que me são
ocultas" (SI 19.12). E se for o caso de eu estar
precisando de uma sacudidela mais forte para que
veja meus erros, envia-me um Nata.
Que bom seria se mantivéssemos nossos ouvidos
abertos para os que nos cercam — para o marido,
para a esposa e até para os filhos, e os filhos para os
pais — a fim de que fôssemos purificados de tudo que
desgosta ao Senhor, tudo que impede que sejamos
como ele deseja. No Salmo 90. encontramos a seguinte
declaração: "Diante de ti puseste as nossas iniqüida-
des. e sob a luz do teu rosto os nossos pecados
ocultos." Deus vê tudo. Ele vê nosso coração, e é por
essa razão que envia o Espírito Santo para nos
convencer de pecado, para nos levar a dar contas dos
erros que há em nossa vida.

74
A Confissão é Lançada da Terra
O segando estágio dessa missão é a resposta que
vrâaaaos aos céus — a confissão de nossos pecados e
pedido de perdão. £ preciso que aceitemos a ação
sen toque tem que encontrar eco em nós. Ê
le significa confessar os pecados, — isto ê,
• com o imparcial julgamento de Deus.
• d o o pecado de Davi foi revelado, sua reação
foi dizer: "Pequei contra o Senhor!" Ele lançou aos
CÓBS a resposta.
O que resulta de enviarmos a confissão para
Deus? O resultado é o perdão — perdão imediato. Em
Laças 1ÍL9--14. Jesus narra a história de dois homens
foram ao templo orar. Um deles era publicano,
i desprezado pela sociedade, segregado da con-
da elite. O outro era fariseu, homem que
a quintessência da moralidade e pertencia à
• camada social. Os dois homens oraram, cada
qaal à sua maneira. O primeiro suplicou misericórdia
de Deus. Fez chegar aos céus aquela reação positiva
ao toque divino. "Senhor, tem misericórdia de mim,
pecador!" O comentário de Cristo a respeito foi o
seennte: "...este desceu justificado para sua casa".
Assim que ele terminou a oração, o perdão foi conce-
dido. Deus deu o perdão para o publicano imediata-
•sente. do mesmo modo que os astronautas, quando
estavam na Lua. puderam transmitir sua voz, sendo
ouvidos na terra, no mesmo instante.

A Libertação é Lançada dos Céus


Na maioria das vezes, nós paramos nesse ponto.
"Fui perdoado. Quando chegar ao céu, então, serei
perfeito, serei liberto das coisas que hoje estão-me
derrotando." Mas é justamente aqui que precisamos
ligados ao Senhor, para que a missão
i bom termo. Temos que declarar com toda a
dia: "Senhor, não vou abandonar esta missão; eu
a acompanharei de perto, até o resgate final. Não vou

75
contentar-me apenas com o perdão, pois tu prometes-
te purificar-me de toda a injustiça."
O versículo de 1 João 1.9 diz o seguinte: "Se
confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para
nos perdoar os pecados..." Mas ele não pára aí.
Continua: "...e nos purificar de toda injustiça." Isso é
libertação.
Portanto, já houve a ação que partiu dos céus.
para nos convencer do pecado; houve depois a reação
positiva de nossa parte, pedindo perdão. A seguir,
com base nesse pedido, Deus lança o foguete da
libertação.

A Fé é o Combustível que Aciona o Foguete

Deus opera nossa libertação e purificação através


da fé. "...o qual nos livrou e livrará de tão grande
morte, em quem temos esperado que ainda continua-
rá a livrar-nos..." (2 Co 1.10). Temos que crer. e agir
crendo no que Deus já realizou, e que, portanto, deve
acontecer. O foguete da libertação que Deus lança dos
céus é impulsionado pela fé, e muitas libertações ou
respostas de oração estão apenas como que suspensas
no ar. Acabou-se o combustível delas. Faltou o exercí-
cio da fé para trazê-las à terra.
Vejamos como Abraão é apresentado no capítulo 4
de Romanos. Deus lançou um foguete na direção dele
— a promessa de que teria um filho. A promessa levou
muito tempo para se concretizar. A jornada do fogue-
te foi longa e demorada. Mas a Bíblia afirma que ele
"não duvidou da promessa de Deus, por incredulida-
de; mas, pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus".
Ele abasteceu bem seu foguete, com fé, dando glória a
Deus, convicto de que o Senhor faria o que prometera.
Foi por isso que a fé lhe foi imputada como justiça.
Ele sabia com certeza que o foguete lançado chegaria
ao destino.
Eu creio que muitos devem ter se sentido meio
inseguros quando chegou o momento de os astronau-
ias da Apoüo 11 deixarem o solo lunar, mas poucos
eraut os que duvidavam, realmente, de seu regresso,
o a s u u u ç a . Nós acreditamos; aguardamos; confia-
finwrw a observá-los. E... eles voltaram.

A Fé Supera os Empecilhos Satânicos

A fé é batalha. Satanás coloca empecilhos na


mjttòria do foguete, os meteoritos espirituais, que
n por objetivo destruir nosso foguete, antes que ele
aõaja seu destino.
> capítulo dez do livro de Daniel mostra-nos o
proárta. em Babilônia, confessando seus pecados e os
»poro. Ao fazer isso, ele estava enviando aos céus
aquela resposta positiva. Mas passaram-se vinte e um
dias ames que o foguete chegasse à terra. E quando
fiuakneme chegou, o anjo que o trouxe declarou o
seguinte: "Desde o primeiro dia... foram ouvidas as
tuas palavras." O foguete fora lançado imediatamente
após o pedido, "mas o príncipe do reino da Pérsia me
icsisúu por vinte e um dias". O foguete da resposta à
oração estava sofrendo oposição espiritual na marcha
para seu destino. Mas o profeta perseverara na fé, e o
arcanjo Miguel foi enviado para abrir o caminho, que
fora barrado pelo príncipe da Pérsia, isto é, da
potcstade espiritual maligna que dominava aquela
área. Foi só depois disso que o foguete pôde prosse-
guir. A fé é batalha.

£ Deus Quem Escolhe o Lugar da Aterrissagem


A fé está sempre pronta para receber o foguete,
qualquer que seja o lugar designado por Deus para a
.-- -. cem, É possível que. muitas vezes, fiquemos
sem a resposta, simplesmente porque estamos aguar-
j sua descida na área de pouso número 2,
quando Deus determinou que ela desça na área
aúuuero 10. O Salmo 51 faz menção de diversas áreas,
que são as várias maneiras pelas quais o Senhor nos

~7
liberta do poder do pecado. "No recôndito me fazes
conhecer a sabedoria" é uma delas. Pode ser que
tenhamos sabedoria somente "na cabeça"; mas se a
tivermos no "recôndito" de nosso ser, então podere-
mos enxergar a realidade de nossa situação: "Ah!
Agora estou em sintonia com Deus. Tudo já está
devidamente acertado com ele." "Lava-me" e "purifi-
ca-me" também são outras áreas de pouso. Efésios
5.26 nos diz que Jesus nos purifica pela lavagem da
Palavra. É outro modo como a libertação de Deus nos
alcança.
Em outro ponto de pouso, encontramos o seguinte:
"Cria em mim, ó Deus, um coração puro." Um
coração puro tem novos interesses e é dedicado a uma
nova causa. Passa a apreciar outros valores e a
companhia de outro tipo de pessoas.
Um pastor presbiteriano da Pennsylvania, de
nome Jim Brown, deu, certa vez, o seguinte testemu-
nho: "O que mais me irritava era as pessoas se
dirigirem a mim e indagarem: "Você é salvo?" Agora
eu sei por que aquilo me enfurecia: eu não era salvo."
E continua: "Eu era cristão socialista; nunca diria
que era cristão genuíno. No dia em que foi lançada a
pedra fundamental do edifício da ONU em Nova
York, pensei que o milênio estivesse às portas. Mais
tarde, Deus me salvou, e agora as pessoas que mais
me agradam são o povo do Senhor." Esse homem
recebeu um coração novo; fez novas amizades; tem
novos interesses. Deus o libertou das amarras que o
prendiam ao passado.

O Pouso — Uma Vida Transformada


Qual é a conclusão que tiramos de tudo isso?
Quando nos apegamos a Deus com perseverança e
dizemos: "Não deixarei de orar, nem de crer, en-
quanto não chegar a resposta; enquanto não for
liberto das coisas que me estão derrotando... então
ensinarei aos transgressores os teus caminhos. Então

78
Iminha palavra de testemunho terá sabor da verdade,
pois será firmada na Verdade." O que faz as pessoas
darem atenção ao que dizemos é a certeza de uma
vida transformada.
E como é que essa transformação tem lugar? O
foguete chega a nós, e traz Cristo à nossa vida. É ele
quem transforma tudo. É a pessoa dele que devemos
pedir na oração. "Senhor, não vou cessar de orar e
crer enquanto Jesus não vier e mudar esta situação
qnçjte desagrada, e qüê~já confessei diante de ti.
Enquanto essa faceta de minha vida não se modificar,
vou perseyerar na fé e confiar em ti. Mesmo que tenha
de esperar, e orar durante muito tempo, e por mais
árdua que seja a batalha, ficarei firme na fé."
É Jesus quem opera a transformação de nossa
vida. Foi somente depois que ele entrou na morada de
Zaqueu que este pôde dizer: "Senhor, se roubei de
alguém, vou restituir quadruplicado." O que causou
tal mudança? A entrada de Jesus em sua casa. Ele é o
foguete que Deus envia para nossa libertação.
Nào sosseguemos enquanto o foguete não chegar.
Não nos comentemos com menos do que a libertação
plena. Deus sabe quanto tempo levará todo o proces-
so- Ele conhece as barreiras que precisam ser supera-
das, mas promete, em sua Palavra, que nos purificará
de toda injustiça, e nos tornará novas criaturas por
de um revestimento interior do Espírito Santo,

79
A Mente Renovada
Aceita Disciplina
CAPITULO NOVE

Dificuldades — Uma Ferramenta


Divina
Qual é a diferença básica entre a vida de quem é
cristão genuíno e a de quem não é? O segundo vive
independentemente de Cristo. O cristão é ligado ao
Senhor em cada aspecto de sua existência. Todo o
processo de desenvolvimento espiritual do cristão se
resume apenas numa coisa: aprender a recorrer a
Cristo em toda e qualquer circunstância.
Deus usa vários recursos para nos levar a nos
tornarmos dependentes de Jesus Cristo. Alguns deles
são: instrução, pregação e exemplo. Entretanto, é
possível que esses nos conduzam apenas ao terreno da
teoria ou da potencialidade. Na maioria dos casos, o
ensino em si não é suficiente para nos convencer,
seriamente, de que precisamos depender inteiramente
de Cristo em toda e qualquer circunstância da vida.
Bem no fundo, existem, escondidos e fora do alcance
de nossa vontade consciente, focos de resistência que
pregam rebelião contra o Senhor. Este ou aquele
aspecto de nossa vida pode ser dirigido por nós
mesmos, declaram eles. O Espírito Santo deseja alcan
çar os recônditos de nossa personalidade e ensinar-
nos, não apenas teoria e meras palavras, mas a
realidade prática de subordinarmos a Cristo cada
faceta de nossa personalidade.
Para atingir esse objetivo, ele se utiliza de um
agente especial denominado dificuldades. É a ferra-
menta que Deus designou para sondar as profundezas
de nosso coração. E ela tem função dupla, pois possui
gume afiado e ponta aguçada, para fazer incisões. O

82
gunut tem a finalidade de revelar nossas fraquezas. A
ponta aguda inscreve sobre o coração o desenho da
força drrina. As dificuldades expõem nossas fraquezas
para que busquemos a energia que vem do Senhor. É
isso que a ferramenta das dificuldades, manipulada
pelo Espírito Santo, realiza em nós.

O Gume Cortante das Dificuldades


Em primeiro lugar, o Espírito Santo usa as dificul-
dades para revelar nossos pontos fracos. Vamos classi-
ficar essas fraquezas em duas categorias: a) as cir-
curnstanciais. isto é. as coisas de que dependemos e
que estão fora de nós; b) as debilidades de caráter, as
fraquezas interiores.
As Fraquezas Circunstanciais
O gume das dificuldades revela nossas fraquezas
circunstanciais. A situação econômica, por exemplo,
pode exercer enorme influência sobre nossa vida. A
Bíblia ilustra essa verdade na parábola do rico insen-

todos somos passíveis de sofrer perdas finan-


ceiras grandes, dessas que ocorrem inesperadamente,
sem qualquer aviso. A inflação, por exemplo, pode
dilapidar nossa poupança em pouco tempo. É em tais
ocasiões que descobrimos o que os bens materiais
representam para nós. O Espírito Santo pode lançar
não de um revés econômico para expor aos nossos
[nos esses elementos que fazem parte de nossa
existência, e que não estão subordinados a Jesus.
Esses contratempos — que podem ir de um engar-
"ifamento do tráfego a uma guerra mundial — têm a
•nabdade de demonstrar a debilidade de nossa estru-
tura social. Uma situação aparentemente estável pode
.•uir da noite para o dia. Deus permite que isso
aconteça. Permite que o fio cortante das dificuldades
áccepe nossa excessiva dependência das circunstân-

83
Nos pensamos ter uma posição firme com respeito
ao nosso relacionamento com os semelhantes, mas
Deus corta isso também, utilizando a lâmina afiada
dos problemas. O próprio Senhor Jesus passou por
situação dessas. Ele entrou triunfalmente em Jerusa-
lém, certo dia, hoje chamado: Domingo de Ramos. A
multidão o aclamava dizendo: "Hosana ao Filho de
Davi!" Cinco dias depois, o entusiasmo popular arre-
fecera bastante. Assim Deus o punha à prova. Se Jesus
estivesse dependendo do apoio dó povo, teria ficado
completamente frustrado. A primeira coisa que as
dificuldades revelam é o quanto somos impotentes e
necessitados.

As Fraquezas de Nosso Caráter


Deus deseja que descubramos também os pontos
fracos de nosso caráter. Nós temos a tendência de
confiar demasiadamente em nossa habilidade para
nos safarmos de situações difíceis.
Jesus advertiu seus discípulos, certa vez, de que
haveria um esfriamento da fé. Ao ouvir isso, Pedro
retrucou: "Eu, não. Senhor. Talvez os outros se
esfriem e se afastem, mas não este Pedro. Mesmo que
todos o abandonem, eu nunca o deixarei." Jesus
abanou a cabeça, e disse: "Ah! Pedro, Satanás deseja
possuí-lo. Você está-se arriscando muito. Deus não
tem outra alternativa, senão usar a lâmina das dificul-
dades, para revelar essa fraqueza, sua pretensa cora-
gem."
O Espírito Santo colocou Pedro no cadinho das
dificuldades — na "peneira de Satanás". Ali ele
descobriu que, na realidade, não tinha coragem de
cerrar fileiras ao lado de Cristo. Jesus conhecia o
verdadeiro caráter de Pedro, mas foi preciso que o
apóstolo se visse diante das dificuldades para que
tomasse conhecimento de suas fraquezas. É essa a
finalidade dos problemas. Eles nos dão ciência de
fatos que Deus conhece há muito tempo.
Na questão do relacionamento com os outros,
precisamos aprender a não acreditar demais nos

s4
pontos fortes de nossa personalidade. Já aconteceu de
> nànor ficar frustrado ou mesmo chocado ao desco-
brir, eai sL um traço que não conhecia, como assomo
«nwméen-ritabilidade, ou ressentimento, desses que
aparecem em nós. ao primeiro embate das dificulda-
des? Então você exclama: "Nâo sabia que tinha tal
aefioao!" Mas Deus sabia e foi por isso que ele tomou
a •cetnri daquele contratempo e o lancetou, para que
a fama fiasse revelada e assim você pudesse reconhecer
a aecessidade que tem de poder superior.
O grande teólogo e filósofo dinamarquês, Süren
Kierkegaard. que viveu no século XIX, narrou um
acontecimento que marcou toda a sua existência.
lanbecia um homem que aparentemente estava em
pmfhiiil,i comunhão com Deus. Ocorreu, porém, que
offlhmho daquele senhor faleceu, e Kierkegaard viu o
homem, revoltado, de pé ao lado do túmulo da
criança, estendendo para o céu o punho cerrado, e
damando: - 'É assim que me tratas, depois de tudo
qnefiz para ti?" Naquele instante, toda a fraqueza de
caráter do homem ficou exposta. Seu relacionamento
com Deus não se baseava em perfeito amor e confian-
ça, mas num senso de dever, na observância de alguns
HgnliiiH mu na esperança de recompensa. Isso não
reflete mentalidade de filho, mas de escravo. O gume
das dificuldades revelara sua fraqueza.
Talvez o leitor esteja passando por graves proble-
mas atualmente. Qual é a reação que Deus espera de
ias quando nos encontramos perdidos no mar das
-'. -. •-.-' Elas nos retalham, abrindo, em nós,
ama brecha para que descortinemos nosso interior.
•asso redor, tudo se desmorona; nosso interior
.está em ruínas. Que vamos fazer? É agora que entra
em função a outra faceta dos infortúnios.

.4 Ponta Aguçada das Dificuldades


Agora, que parte de nossa vida está exposta e em
carne viva. Deus começa a gravar nela uma figura, e a
calnrar ali uma promessa, a de nos conceder poder e

85
recursos divinos. Consideremos, neste ponto, duas
questões. Qual é o resultado imediato da ação dos
problemas colocados pelo Espírito Santo em nossa
vida? Eles causam aprimoramento ou ressentimento?
Nós clamamos por libertação, ou procuramos apren-
der a lição?
As Dificuldades Podem nos Tornar Amargurados
As palavras aprimoramento e ressentimento são
ligeiramente semelhantes na grafia — ambas termi-
nam com o sufixo mento. Mas o ego é quem irá
determinar qual das duas irá prevalecer em nós.
quando acossados pelos problemas. Ele é a chave de
tudo. Se no momento em que algum infortúnio nos
sobrevier, dermos proeminência ao ego, então nos
tornaremos amargurados e desgostosos. Se, ao expe-
rimentarmos o sofrimento, começarmos a nos "espo-
jar" na autopiedade, a amargura nos dominará.
Não nos enganemos a respeito dos infortúnios.
Não há neles nenhum poder mágico. Moralmente, eles
são neutros. Para algumas pessoas, eles têm o efeito
de torná-las amarguradas, agastadas contra a vida e
contra os semelhantes. Tudo depende do modo como
cada um reage diante do sofrimento. Se dermos lugar
ao ego, aos nossos sentimentos, então as dificuldades
só poderão nos deixar amargurados. O mesmo aconte-
ce se buscarmos nos livrar delas através de nossos
próprios recursos, e procurarmos reunir todas as
nossas forças para encontrarmos uma solução. O
resultado é que ficamos convencidos de que precisa-
mos erguer defesas ainda mais altas contra os infortú-
nios.
As Dificuldades Podem nos Aperfeiçoar
Entretanto, se em meio aos problemas, voltarmos
nossa atenção para o Senhor, em vez de olharmos
para nosso ego, eles poderão nos aperfeiçoar. Foi o
que aconteceu com o apóstolo Paulo. Em 2 Coríntios
11.19-12.10. ele enumera várias dificuldades que teve
de enfrentar. Mas ele aceitou todas como vindo

86
a%imai mi das mãos de Deus. Durante a provação,
saa B M C estava voltada para o Senhor.
"tio dia da minha angústia clamo a ti. Sobreveio-
sac problema, porém estou esperando em ti,
Seanar.~ Eu olho para a cruz e indago: "Senhor, qual
éa falha de meu caráter que exigiu esse corretivo, essa
' O que há em minha vida, em minha
aanaaca nas circunstâncias, que faz com que eu
precise de tratamento enérgico d e t u a parte?" Uma
sondagem assim, honesta e profunda, pode resultar
cm arrependimento, que terá como conseqüência
renovação de vida.
Mas nos não paramos na cruz. Olhamos também
pata os céus abertos, e dizemos: "Senhor, quais são os
recursos teus de que desejas utilizar para solucionar
essa questão? Qual o aspecto do caráter de Cristo que
será formado em mim agora? Que parcela de amor,
compreensão e paciência vai recarregar meu espírito
n energia superior às minhas energias?"
Quando olhamos para Deus, os céus se abrem
para nós. O Senhor passa a nos mostrar como pode-
•« utilizar os recursos celestiais para preencher o
ou superar a fraqueza revelados em nossa vida.
Deus nunca expõe nossas falhas com o fito de nos
envergonhar, ou para que nos sintamos desamparados
e temerosos. Ele apenas quer nos ensinar uma lição.
Sen propósito nisso é nos dizer: "Nunca foi minha
intenção que você vivesse independente de mim. Eu o
criei para ser dependente. Se você não estiver confian-
do em meu poder, deve estar confiando em um deus
falso." A criatura humana foi criada para viver em
•atai dependência de Deus. Sempre que o Senhor nos
revela nossas debilidades, ele o faz para nos trazer de
oha à Rocha, para que possamos edificar nossa casa
eterna sobre o fundamento certo.

Libertação ou Aperfeiçoamento
.-_"". Espirito Santo aplica o bisturi das
aatií alil nles à nossa vida, o que fazemos? Buscamos

8-
uma solução fácil, ou procuramos tirar algum provei-
to delas? Se nós, contínua e sistematicamente, nos
recusarmos a encarar os problemas de frente, estare-
mos anulando os propósitos divinos. Ele já "abriu"
nosso coração, expôs nossa falha, mas em vez de nos
aproveitarmos disso, ajuntamos os pedaços e escapuli-
mos pela tangente, fugindo à situação. E de tudo que
houve resta apenas a lembrança de uma experiência
dolorosa que resultou em nada.
A tendência do ser humano é agir assim. Logo que
nos sobrevém um problema, clamamos: "Senhor,
livra-me desta dificuldade! 0 Deus, o que vou fazer
para solucionar isto?" Se nos dispusermos a ouvir a
resposta do Senhor, perceberemos que ele está dizen-
do: "Não quero que se livre dessa situação. Pelo
contrário, desejo que passe por ela. O objetivo desse
problema não é que se liberte, mas que se aperfeiçoe.
Meu intuito é que, ao vivê-la, se torne semelhante a
Jesus."
Cada obstáculo que encontramos em nossa cami-
nhada deve ser motivo para indagarmos: "O que há
em mim que deve ser retirado? Qual o aspecto do
caráter de Cristo que deverá ocupar a vaga deixada, e
comunicar-me força e poder do alto?" Quando exami-
namos a situação por esse prisma, imediatamente
reconhecemos a ação da insondável sabedoria de Deus
no planejamento de todos os fatos que ocorrem conos-
co. Eles têm o objetivo de formar em nós uma faceta
do caráter de Cristo, expor uma fraqueza para que o
Senhor a substitua por uma qualidade forte de Jesus.
O Espírito Santo é o artífice que está-nos moldan-
do à semelhança de Cristo. Para isso ele emprega
muitos métodos e vários instrumentos. As dificulda-
des são um deles, instrumento verdadeiramente valio-
so. Quando olharmos para a estrutura de nossa vida. e
virmos os problemas bem à nossa frente, lembremo-
nos de que Deus os envia com propósito definido:
revelar nossas fraquezas, para que aprendamos a nos
apropriarmos da força que há em Cristo.

88
CAPITULO DEZ

**Na Sucata, Não, Senhor;


No Fogo!"
Afthur Godfrey. comentarista de TV nos Estados
Laidos. conta como costumava observar um ferreiro,
••%<» seu. no local de trabalho. Aquele homem
•ornava as peças de metal uma a uma e as examinava
detidamente. Algumas ele lançava numa pilha ao
lado. para trabalhar nelas posteriormente. Outras,
porán. mal pegava, atirava no monte de sucata.
Certo dia. Godfrey lhe perguntou: "Por que você
joga algumas delas na sucata e outras coloca de

Ao que o outro respondeu: "Eu noto que alguns


pedaços de ferro podem ser utilizados, se passarem
pelo fogo. Eles possuem uma qualidade que possibili-
ta levá-los ao fogo e trabalhar com eles. Saem refina-
los e aperfeiçoados. Mas outros são inúteis. Não
portarão o calor, por isso tenho que atirá-los no
mame de ferro velho."
Aquela lição ficou profundamente gravada no
coração de Godfrey. Ela se tornou marcante para
outras experiências suas. Ele descobriu que muitas
dificuldades que tinha de enfrentar constituíam-se
ms elementos que o provavam e o testavam para fazer
deie uma pessoa melhor. Godfrey tomou-a como seu
de vida. e sempre que se defrontava com um
Nona. dizia: "No monte de sucata, não, Senhor;
•ofogo!"

89
Que situação poderia ser mais trágica para nós do
que sermos postos de lado e declarados inúteis para a
obra do Senhor? É tão melhor suportarmos a chama
da provação, se no fim saímos refinados e purificados,
portanto, preparados para sermos utilizados por
Deus, e de forma mais ampla que anteriormente. Isso
representa uma grande verdade espiritual: a lei da
provação, a lei do fogo que nos apresta para o serviço
do Senhor.
Um verdadeiro cientista não se assentaria num
canto de seu laboratório, e começaria a queixar-se das
leis da natureza, nem procuraria ignorá-las. Ele as
estuda e faz as experiências em harmonia com elas. A
equipe de técnicos que mandou o homem à Lua nunca
teria conseguido realizar tal façanha, se não tivesse
observado algumas leis da Física e da Química, cujo
conhecimento lhes possibilitara obter seu intento. Eles
tiveram que estudá-las e segui-las à risca. As leis que
regem nossa vida espiritual são tão válidas e essenciais
como as da Física e da Química, e têm o mesmo
caráter universal.
Os pedreiros e construtores sabem que os tijolos
que vão empregar em sua obra devem ser temperados
no forno. Assim também. Deus sabe que. para poder
construir sua casa espiritual, tem que submeter ao
fogo as pedras vivas, que somos nós.
Jesus fala desse processo de refinamento pelo fogo
em Lucas 12.49-52, onde emprega três figuras: fogo.
batismo e divisão. "Eu vim para lançar fogo sobre a
terra e bem quisera que já estivesse a arder. Tenho,
porém, um batismo com o qual hei de ser batizado: e
quanto me angustio até que o mesmo se realize.
Supondes que vim para dar paz à terra? Não, eu vo-lo
afirmo, antes, divisão. Porque daqui em diante esta-
rão cinco divididos numa casa; três contra dois. e dois
contra três."
Fogo
O fogo na Bíblia tem três funções. Primeiramente,
ele executa juízo. O profeta Jeremias diz no capítulo

90
D que a palavra do Senhor sairá e julgará o
c se arrependa, "para que o meu furor
fogo. e arda, e não haja quem o apague,
a malícia das vossas obras".
fogo simboliza a ira santa de Deus que desce
hnwurns e executa julgamento entre eles. Esse
de mensagem tornou-se impopular em nossos
o gostamos de ouvir falar de um juiz severo.
to. o Deus que a Bíblia nos apresenta é
E Deus de amor, mas também de juízo. Ele
o pecado, e por isso se volta para nós com o fogo

Em segundo lugar, o fogo purifica. Em Zacarias


U.9. o Senhor diz o seguinte: "Farei passar a terceira
pane pelo fogo. e a purificarei, como se purifica a
p i s a , e a provarei, como se prova o ouro." E em
Malaquias 3.2, 3, lemos: "Porque ele é como o fogo do
U I I Í I I J e como a potassa dos lavandeiros. Assentar-se-
á como derretedor e purificador de prata; purificará
s filhos de Levi. e os refinará como ouro e como
prata." Sabemos qual é a ação do fogo no processo de
refmacão de metais. O calor traz à tona a escória, a
qual é então retirada, e o metal aparece puro. É isso
que o julgamento divino faz — remove nossas impure-
zas, e nos torna vaso que Deus pode usar.
E por fim o fogo também transforma. Esse símbo-
o é apresentado no livro de Levítico. O holocausto é
posto sobre o altar e queimado. O que acontece? Ele
se transforma em fumaça, que se evola como aroma
agradável perante o Senhor. O que antes era carne
possa a ser fumaça. Esse ato nos fala da transforma-
ção de vida. O fogo opera todas essas coisas.
Quando Jesus fez a declaração: "Eu vim para
lascar fogo sobre a terra e bem quisera que já
estivesse a arder", ele estava contemplando o futuro, e
estava-se encaminhando para a cruz. O Senhor ansia-
va pelo início desse processo de purificação e transfor-
pois era necessário à consumação plena de sua
cm nós.
E hoje ele ainda aguarda o total cumprimento
dessa palavra. Onde será que ela terá início? Não será
"lá fora", no mundo. A obra de purificação e trans-
formação deve começar pela casa de Deus. As escórias
do mundo entristecem o Senhor, mas as impurezas da
Igreja o afligem muito mais.
A Igreja deveria ser aquela fonte de pureza que
ajudaria limpar o mundo. Contudo, se a fonte estiver
poluída, teremos que crer que o plano de Deus e o seu
reino estão em más condições. É por isso que o Senhor
declarou: "Porque a ocasião de começar o juízo pela
casa de Deus é chegada" (1 Pe 4.17).
Era o que Jesus pretendia quando entrou no
templo de Jerusalém e o purificou, expulsando os
cambistas. Por que teria agido assim? Por que se
aquela casa não era justa, se não operava em sinceri-
dade e integridade, que se podia esperar dos que
estavam no mundo? Enquanto não ocorrer o juízo na
Igreja, não podemos esperar juízo sobre o mundo.
Os cristãos, às vezes, sentem um prazer quase que
doentio de falar sobre o castigo que Deus vai enviar ao
mundo. São como Tiago e João, que queriam punir a
aldeia samaritana que não recebeu bem a Jesus. Eles
disseram: "Senhor, será que nós podemos pedir fogo
dos céus, como fez Elias, e destruí-los?" Ao que Jesus
retrucou: "Vocês não sabem de que tipo de espírito
são. Não sabem que, antes disso, vocês precisam
passar pelo fogo. Vocês mesmos devem receber o
julgamento."
Será que podemos falar, à semelhança de Cristo:
"Bem quisera que o fogo de Deus já estivesse a arder
em minha vida; que o fogo do juízo, da purificação e
da transformação já estivessem queimando em mim"?
Enquanto isso não acontece, nossa vida não produzirá
nada valioso e duradouro.
Quando jovem, o apóstolo Paulo era membro da
mais alta corte judaica, o Sinédrio. Por causa de seu
zelo pela tradição de seus pais, ele excedera a todos os
de sua idade. Um dia, porém, encontrou-se com
Cristo. Tudo que era e possuía foi submetido ao fogo
do julgamento, da purificação e da transformação. As

92
i a " » " - foram retiradas, e ele pôde declarar: "Sim,
deveras considero tudo como perda, por causa da
saMamdade do conhecimento de Cristo Jesus" (Fp

Sabemos de cristãos em cuja vida o fogo de Deus


• aceado. Receberam novo conhecimento do poder
dará» e da realidade do Senhor, o que não foi bem
aceso por alguns de seus familiares, amigos e colegas.
lado o seu relacionamento teve de ser testado pelo
fogo purificador. Será que em circunstâncias seme-
fcawlT*» o leitor poderia dizer: "Na sucata, não,
Senhor: no fogo!"? E se implicar em mudança do meu
círculo de amizades? Talvez tenha que enfrentar
repreensões, ou o desprezo de alguns dos qxie me são
mais chegados. É possível que eu tenha que passar por
mn processo de refinamento assim, antes que esteja
apto para ser usado por Deus.
Os montes de sucata espiritual estão cheios de
ridas que não suportaram sofrer desaprovação de
gente que zombava ou desdenhava de sua fé. "Não
serve para uso do Senhor" — que etiqueta mais triste
para se colocar numa vida!
Será que estaríamos prontos a tomar essa posi-
ção em relação à nossa igreja? "No monte de su-
cata, não. Senhor: no fogo." Será que aceitaríamos
» fato de nossa igreja deixar de ser aquele lugar
agradável e respeitado? Será que suportaremos passar
peto fogo das reprovações e das críticas, a fim de
chegarmos ao ponto de obediência total, ao Senhor,
em quaisquer circunstâncias? Somente a igreja prova-
da no fogo se prestará para o uso de Deus.

Batismo
"Tenho, porém, um batismo com o qual hei de ser
batizado: e quanto me angustio até que o mesmo se
realize." O batismo, na Bíblia, é sempre figura de
•arte e ressurreição. No Novo Testamento há menção
de quatro tipos de batismo.
Primeiro, há o batismo nas águas, quando somos

93
separados de Satanás, do pecado e da morte. Essas
três realidades são como que "afogadas" nas águas
batismais (ver 1 Coríntios 10.1, 2), e nós nos erguemos
para uma vida nova com Deus.
Há também o batismo com o Espírito Santo. Nele
morrem nossa força e capacidade próprias, e o Senhor
passa a ser nossa fonte de poder. Aqui também obser-
va-se morte e ressurreição.
O terceiro tipo de batismo é o do fogo, em que
muitas velharias de nossa vida são destruídas para
que a nova existência em Cristo se desenvolva.
E, finalmente, em Lucas 12.50, Jesus fala de um
batismo de sofrimento e morte, que também podería-
mos denominar "batismo de sangue". "Tenho, po-
rém, um batismo com o qual hei de ser batizado",
declarou o Senhor e, ao fazê-lo, seus olhos estavam
voltados para a cruz. Esse batismo representa a morte
de nossa produtividade. Depois que somos submeti-
dos a ele, não produzimos mais nada de nós mesmos.
Jesus disse: "Se o grão de trigo, caindo na terra, não
morrer, fica ele só; mas se morrer, produz muito
fruto." Morte e ressurreição. E foi contemplando o
batismo de sofrimento, esse ato de dar tudo para
servir os outros e sofrer por eles, que Jesus disse: "E
quanto me angustio até que o mesmo se realize."
Enquanto não passarmos pelo batismo de sofri-
mento e morte, nossa capacidade de produção será
muito limitada. Enquanto nossa vida não for crucifi-
cada, não haverá fruto. Isso não faz sentido para nós e
nosso raciocínio, mas é o método de Deus. Será que
podemos exclamar como Jesus: "Como eu me angus-
tio até que minha vida seja apagada, a fim de que a
energia divina comece a desenvolver-se em mim e a
alcançar os outros, por meu intermédio"?
Estaremos dispostos a morrer para os privilégios,
conforto, interesses pessoais, a fim de que nossos
semelhantes possam obter vida eterna? O apóstolo
Paulo diz o seguinte em 2 Coríntios 4.12: "De modo
que em nós opera a morte; mas em vós. a vida."
Quando renunciamos cabalmente nossos próprios in-

94
ases c privilégios, tal ato se constitui no ponto de
para que a vida eterna brote em outra pessoa.
> gl —li líder do reavivamento gales de 1905 e
Ecaa Robens. foi designado por Deus para ser o
frâBÕpal porta-voz do Senhor, naquele evento. Quan-
dr compreendeu isso. saiu de casa e dirigiu-se para
•pn.onde passou a noite toda, em prantos. Sabia
• chamado significava sentença de morte. Sabia
qnc dai em diante seus privilégios seriam sacrificados.
Sm rida teria que ser submetida a Deus, por causa do
. • --- z~: Mas que vitalidade espiritual resultou
daqoeiedespertamento— vitalidade ainda hoje senti-
da na Igreja. E tudo por que um homem se dispôs a
HMtfau o batismo de morte.
Muitos anos depois, indagaram a Evan Roberts:
""Será que nós ainda veremos outro avivamento como
o galés.'" E ele respondeu com uma pergunta: "Quem
está disposto a pagar o preço?"
Foi o que Cristo quis dizer quando afirmou: "Se
. - -uer •• ir após mim. a si mesmo se negue, dia a
dia tome a sua cruz e siga-me." Significa seguir seu
esemplo de renúncia a todos os privilégios, ao empre-
go do tempo, aos prazeres mesquinhos, a fim de que
w u c m possa receber vida eterna.
Enquanto cada igreja cristã não se submeter a esse
npode morte, a vida verdadeira não brotará dela. Se
s membros de uma congregação ou grupo cristão,
por menor que seja, estiverem dispostos a morrer para
seus privilégios, esse grupo poderá abalar o mundo. Se
cada crente que o compõe disser: "Meu tempo não me
pertence, nem meu dinheiro, nem meus privilégios,
•em minha família; estou nas mãos de Deus, do
mesmo modo como Jesus estava, quando tomou a
o w . " Essa célula cristã convulsionará o mundo.

Divisão
E por último, Jesus fala também de divisão. Ele
« r : "Supondes que vim para dar paz à terra? Não,
o afirmo, antes, divisão." A divisão é um dos

95
princípios básicos que regem o relacionamento de
Deus com os homens. Ele separa com o fito de usar as
pessoas. Essa proposição também é penosa. O Senhor
afastou Abraão do convívio de seus familiares que
residiam em Ur dos Caldeus, dizendo: "Sai da tua
terra, da tua parentela e da casa de teu pai, e vai para
a terra que te mostrarei; e de ti farei uma grande
nação." Ele distinguiu Israel separando-o das outras
nações, e ordenou-lhe: "Seja um povo à parte. Não se
misture com os pagãos que estão à sua volta; seja povo
santo, separado para servir meus interesses."
Hoje, ele diz o mesmo à Igreja cristã: "Vocês são
um povo peculiar. Mantenham-se incontaminados do
mundo. Sejam um povo separado." Isto significa
expurgo. Significa submeter-se ao fogo da purifica-
ção, à chama que causará separação. Implica ser
tachado de diferente e até mesmo de estranho. Se não
estivermos dispostos a ser diferentes, não seremos de
utilidade alguma para Deus.
"Na sucata, não, Senhor; no fogo! Prefiro o fogo
que opera divisão e me coloca em posição a que so-
mente tu tens acesso, do que a companhia do mundo,
a simpatia de todos, a popularidade, pois assim seria
uma pessoa a cujo tempo, opiniões e idéias, qualquer
um tem acesso, mas sem serventia para ti."
O que resulta da divisão? Quando a divisão ocorre
por causa de Jesus, ela nos conserva junto dele. Só
podemos nos manter perto de Cristo, se nos desligar-
mos de influências ímpias e alheias a ele. Não caiamos
no erro de pensar que somos fortes e imbatíveis. e que
podemos nos associar ao mundo, sem restrições, e
ainda permanecer unidos a Jesus.
Não quero dizer que teremos de nos afastar deste
mundo, mas sim que nunca nos tornamos parte
integrante dele, parte do seu sistema de vida, modo de
pensar, de agir e de crer. Significa também que
teremos de passar boa parte de nosso tempo na
companhia de outros crentes, porque não podemos
viver isolados de nossos irmãos.
Alguém já exemplificou essa verdade mencionan-

do
g*
crias-. Um crente sai de férias e se afasta
: do convívio dos irmãos. Durante um
pouca ou nenhuma influência cristã.
? No fim desse prazo, quando regressa
•BL está refeito fisicamente, mas, espiritualmente,
" - -; :."-- :~z: Ele pode ter estado entre amigos,
a o s seu espírito está vazio, pois o princípio da
•f H*u é uma lei básica: precisamos ser fortaleci-
m UBS pdos outros para depois sairmos a propagar
BB fé. Se não pudermos nos reunir como um corpo,
a fun de sermos fortalecidos e edificados, nossa fé se
cBJraqnecerá.
Jesus nunca disse que a vida dos discípulos ia ser
fiel. Pelo contrário, ele nos advertiu de que sofrería-
• o s perseguições; enfrentaríamos o fogo, o batismo
do sofrimento, e a separação. Mas também disse:
'.:""--" ~ :m ânimo. Eu venci o mundo."
Esse bom ânimo é comum a todos os cristãos; são
BBI grupo de pessoas que estão sendo preparadas para
. :.-.; :e Cristo e para o reino que ele vai estabelecer
BS terra. Ele não pode edificar seu reino com os
leiugos do monte de sucata. Irá utilizar apenas as
«idas e os grupos cristãos que já passaram pelo fogo.
Depois que as escórias e impurezas subirem à tona e
forem retiradas, ele tomará essas vidas provadas pelo
sofrimento e pelo juízo divino, e, com elas, edificará
seu reino.
"No monte de sucata, não, Senhor; no fogo!"

5 97
a
QUINTA PARTE

A Mente Renovada
Ora com Toda
a Confiança
CAPITULO ONZE

O Segredo da Oração Atendida


Qual é a porcentagem de nossas orações que é
respondida? Um por cento? Dois? Cinco? Dez?
Algumas pessoas afirmam que Deus sempre res-
ponde às nossas orações, mas que às vezes a resposta é
sim, às vezes é não, e por vezes é espere. Isto não deixa
de ser verdade. E quando a resposta é não ou espere.
temos que aprender a ser pacientes e submissos.
Para a maioria dos crentes, porém, a oração
respondida é a que recebe resposta afirmativa. Esta é
a idéia mais comum, e é a que a Bíblia normalmente
enfatiza. "Porque quantas são as suas promessas
tantas têm nele o sim." (2 Co 1.20.)
Quando Jesus disse aos discípulos que orassem
com perseverança, queria dizer que orassem até con-
seguir resposta afirmativa. Quando o apóstolo Paulo
instou com as igrejas de Filipos, Éfeso e Colossos a
que pedissem ao Senhor que concedesse ao apóstolo
ousadia na pregação do evangelho, esperava que
buscassem resposta afirmativa. E é isso que queremos
dizer quando declaramos: "Deus atendeu minha ora-
ção." Mas, quantas vezes podemos dizer isto? Quan-
tas respostas afirmativas recebemos?
Nunca o suficiente! São muito poucas as vezes em
que nos achamos naquela posição de poder espiritual
que nos permite saber, com certeza, que nossas
petições serão atendidas. Não são muitas as ocasiões
em que vemos obstáculos intransponíveis ruírem d.ian-

100
»paáer iaiuiiel de Deus. São raras as vezes em
c s a n a o s o pedido de alguém, perante o
c cana o sentimento de absoluta confiança de
saprida aquela carência — e, então, a
-.— - __.:> são as oportunidades em que é
:-;-"-- "- - - --_ unidade com outros na oração,
B H B O S olhos da fé enxergam a resposta, antes
•Ksanc qae da chegue.
t n u verdade básica que transforma o não e
perr em sim. Se estivermos dispostos a aprender
asa «crdade e depois pô-la em prática, testemunhare-
aas sensível aumento na porcentagem de respostas
f i a i i «s para nossas orações.
Nao se trata de uma solução fácil — os métodos de
D e » raramente o são. Entretanto, se assemelha bem
a as atalho na vida cristã. Naturalmente, não existem
s para o cristão; todavia existem desvios lama-
•os e perigosos, que podem ser evitados. Quando
Bananos de um desses desvios, é como se tivéssemos
Btrado um atalho; poupamo-nos de tropeços e
aaatncnnpos. o processo de acertar por tentativa, que
•sane tanto nosso tempo e energias.
liwlideremos cinco pontos-chave para termos a
• " t * " atendida.

1. Pensar Como Deus Pensa


Moitas de nossas preces negam fogo ainda na
plataforma de lançamento, porque iniciamos tudo
COB nosso pensamento, em vez de fazê-lo pelo de
Jau. Uma situação se nos apresenta e imediatamente
•s a seguramos com as garras do raciocínio humano.
Quando Jesus anunciou aos discípulos que preci-
sara ir para Jerusalém a fim de sofrer e morrer, Pedro
repreendeu-o. dizendo: "De modo nenhum, Senhor!
o não acontecerá." Mas o Senhor respondeu: "Para
trás de mim. Satanás. Você está servindo de pedra de
•apeço. pois não pensa como Deus, mas como ho-
wm." lEste é o significado literal do texto grego de
Mancas 16.23.) Não basta pensar acerca de um proble-

101
ma que exige nossa oração; temos que pensar nele do
modo como Deus pensaria.
O pensamento de Deus não se focalizava no
sofrimento que Jesus enfrentaria em Jerusalém, nem
na rejeição e humilhação por que passaria; nem na
cruz, nem no túmulo. O pensamento divino achava-se
concentrado muito além disso — estava na ressurrei-
ção, na ascensão triunfante, no derramamento do
Espírito, na gloriosa volta de Cristo e no seu reinado
sobre a terra.
A reação de Pedro — aliás tipicamente humana —
era reação de visão estreita. Ele enxergava apenas o
problema imediato, e não procurou ver como aquela
questão se encaixava no plano geral de Deus. Ele se
atirou a ela. cercando-a com uma barricada de idéias
próprias, todas recrutadas em seu raciocínio.
"Porque os meus pensamentos não são os vossos
pensamentos ... porque, assim como os céus são mais
altos do que a terra, assim são ... os meus pensamen-
tos mais altos do que os vossos pensamentos." (Is 55.8.
9.).Para que possamos pensar como Deus^temos que
estar_greparados para ultrapassar os limites do pensa-
mento humano. Não significa que nos tornamos tolos
ou insensatos, mas que submetemos nosso modo de
pensar à sabedoria mais elevada que a nossa. Em vez
de olharmos a situação do nosso ponto-de-vista, que
enxerga apenas o imediatismo, passamos a contem-
plá-la à maneira de Deus.
Isso, também, não quer dizer que a vejamos e
entendamos perfeitamente, como o Senhor. Na verda-
de, quando começamos a pensar como Deus pensa,
geralmente não conseguimos enxergar o plano divino
com inteireza. Temos, apenas, um pensamento que
nos conduz em certa direção. O importante é que seja
pensamento de Deus, e que nós o sigamos. E à medida
que o fizermos, o Senhor nos revelará outros pensa-
mentos.
Mas como se chega a isso? Aqui está o ponto
crítico. Como passamos a ter os pensamentos de Deus.
a fim de que nossas orações sejam respondidas?

102
nuraimente. que Deus nos deu um con-
raiitnrs que rege suas revelações: a Bíblia,
fica as Escrituras às circunstâncias espe-
ssa rida diária? Estamos cientes, por
q i e o Senhor deseja que a Igreja chegue
Ia fé e do pleno conhecimento do Filho de
cita Taronilidade, à medida da estatura da
Cristo." (Ef 4.13.) Mas, como aplicare-
• nossa igreja, na época atual?
• pastor batista, do sul da Inglaterra, sentiu
Ifaas desejava que sua congregação interrompes -
idades normais durante um mês, a fim de
a face do Senhor em oração e saber qual a
dele para a igreja. O ministro reconheceu,
. que tal idéia, embora perfeitamente corre-
rítual. podia muito bem ser apenas fruto de
atente. Então pediu a Deus que confirmasse a
dacão. se ela. realmente, se originara nele.
VMKO tempo depois, um dos diáconos o procurou
Ssse: "Pastor, há tempos um pensamento vem-me
emendo e não consigo livrar-me dele; por isso
ri falar-lhe. Talvez seja meio estranho, mas trata-
» seguinte: sinto que devemos parar todas as
idades da igreja por um mês, mais ou menos, e
ficarmos esperando em Deus. Como eu disse, é uma
idéia maluca, mas..."
A primeira vez que os pensamentos de Deus nos
•ocorrem, muitos deles nos parecem impossíveis ou
.----.:.- N ssa tendência natural é rejeitá-los, como
sucedeu com Pedro. Mas se aguardarmos em Deus,
•nntendo-nos atentos à sua orientação, ele nos dará a
tfírmação. Uma das maneiras como ele o faz, é
enviando a mesma idéia a mais duas ou três pessoas.
Os pensamentos de Deus raramente dizem respei-
c». apenas, a nós. Geralmente, o Senhor pensa em nós
relação aos outros; principalmente, com relação
outros crentes. Por isso, se o leitor crê que Deus
i-üie enviando um pensamento, conserve os olhos
i abertos e ouvidos atentos para descobrir se ele es-
dizendo o mesmo a outrem. Esse é um dos modos

103
mais certos de ele nos dar confirmação de sua palavra.
E também é um passo gigantesco em direção à oração
respondida. Jesus disse: "Se dois dentre vós, sobre a
terra, concordarem a respeito de qualquer cousa que
porventura pedirem, ser-lhes-á concedida por meu Pai
que está nos céus." (Mt 18.19.) Não se trata aqui de
harmonia entre nós, de pensamentos nossos, mas de
pensamentos de Deus.

2. Ter os Sentimentos de Deus


A peça musical 1776 tem uma cena na qual um
comunicado de George Washington é lido no Con-
gresso Continental. Nele, Washington descreve a si-
tuação desesperadora da causa da libertação america-
na e o desânimo que dominava as tropas, concluindo
com as palavras: "Não há ninguém aí? Será que
ninguém se importa com isso?" E o resto da peça
focaliza as tentativas daqueles homens para se desem-
baraçarem de seus mesquinhos interesses pessoais, e
poderem se unir, de corpo e alma, em prol dos
interesses da independência dos Estados Unidos.
Qualquer causa para ser vitoriosa tem que contar
com o apoio emocional de todos.
Todos os dias, o gigante Golias exibia-se empavo-
nado diante dos exércitos de Israel, desafiando, com
insultos e zombarias. os soldados a pelejarem com ele.
Os homens de Israel tremiam. Ninguém se atrevia a
aceitar o desafio!
Quando, porém, Davi o escutou, sentiu o coração
arder dentro de si! Sentiu a dor do ridículo que estava
sendo lançado sobre os exércitos do Senhor. Ele se
inflamou de cólera e zelo pela honra de Deus. "Davi.
porém, disse ao filisteu: Tu vens contra mim com
espada, e com lança, e com escudo; eu. porém, vou
contra ti em nome do Senhor dos Exércitos, o Deus
dos exércitos de Israel, a quem tens afrontado. Hoje
mesmo o Senhor te entregará na minha mão." (1 Sm
17.45. 46.)
O coração de Davi estava dominado pelos mesmos

104
»iwtMos que havia no de Deus. Em seu interior,
• existia espaço para aquele temor insano que
panfcsara os soldados israelitas.
Nossas orações carecem de poder porque estão
s e imobilizadas por nossas emoções. Elas
p refletem os sentimentos divinos.
Será que alguém se espanta ante a idéia de que
•. -mimemos? A Bíblia deixa isso bem
dam. Deus é benigno e misericordioso. Ele se entriste-
ÍSC aflige pelo seu povo. Deus se ira; ele odeia o
• n a d o e a iniqüidade.
Além disso, homens e anjos podem partilhar dos
sentimentos divinos. Jesus chorou sobre Jerusalém. Os
anjos se regozijam quando um pecador se arrepende.
Quando Neemias ouviu falar da desolação em que se
encontrava a cidade santa, ele se assentou e chorou
durante vários dias.
Deus não leva muito a sério os que não participam
de suas emoções. "Este povo honra-me com os lábios,
nas o seu coração está longe de mim" (Mt 15.8). Se
quisermos que nossas orações sejam respondidas,
precisamos ter os pensamentos de Deus e sentir as
coisas como ele as sente.
Quando mencionamos pensamentos divinos, dis-
.- - __r e muito importante verificarmos a veraci-
dade das revelações que recebemos, comparando-as
com as de outros crentes. Muitas vezes. Deus confir-
ma um pensamento que ele nos concede, enviando a
mesma idéia a outra pessoa. O mesmo acontece, e
com mais freqüência, com relação aos sentimentos.
Sào será sozinhos que aprenderemos a ter os senti-
mentos de Deus.
As emoções, por sua própria natureza, constituem
•ma experiência que tendemos a transmitir aos ou-
tros. Se temos uma emoção forte, é difícil conservá-la
pata nós somente. Ainda que tentemos abafá-la,
aqueles que nos são mais chegados a percebem. "Hei,
• OK houve que você está amolado hoje? Você está
» diferente." Ou então: "Parece que você viu 'o
passarinho verde'. O que aconteceu?" Sempre que

105
sentimos alguma coisa, nossa tendência é comunicar
aquilo aos outros.
Por outro lado, quando outros têm sentimentos
fortes, nós somos contagiados por eles. Já aconteceu
ao leitor contagiar-se com mau humor de outra
pessoa? Já lhe aconteceu começar o dia alegre e
confiante, mas depois encontrar-se com um desses
indivíduos negativistas, e o dia mudar completamente
de feição? Ou então, estamo-nos arrastando penosa-
mente dia a fora, quando, de repente, uma criança
alegre entra ali, exalando felicidade por todos os
poros, e imediatamente nos sentimos reanimados?
As emoções são contagiantes. É por isso que o
escritor aos hebreus nos aconselha a não negligenciar-
mos a comunhão dos irmãos, onde podemos nos
estimular mutuamente ao amor e às boas obras, e
podemos nos encorajar uns aos outros. (Hb 10.24, 25.)
Quando nos mantemos isolados, ou então quando
temos comunhão apenas com pessoas não convertidas,
tendemos a expressar mais as nossas próprias emo-
ções. Mesmo quando nos reunimos com outros cris-
tãos, muitas vezes, nós simplesmente externamos nos-
sos sentimentos. Precisamos estar atentos aos senti-
mentos de Deus. para que possamos expressá-los, já
que as emoções que externamos contagiam outros.
Alto dignitário da Igreja Anglicana declarou que a
mais promissora esperança de paz para a Irlanda do
Norte eram os grupos carismáticos de oração, de
caráter interdenominacional, que uniam católicos e
protestantes. Três moças protestantes entraram certa
vez num bairro católico de Belfast. para participar de
uma dessas reuniões de oração.
"Será que vocês não compreendem que poderiam
ter sido mortas?" perguntaram-lhes alguns católicos.
"Nós estudamos essa possibilidade cuidadosamen-
te", responderam. "Mas estamos preparadas para
perder a vida, em favor de vocês."
Elas poderiam ter deixado seu coração contagiar-
se pela amargura e desconfiança que as cercavam.

106
e
~A '- terna ler cedido ao medo e às incertezas, mas
feriram deixar que Deus enchesse seus corações
«emoções que se acham no dele — a tristeza da
ração causada pelo ódio e pela amargura, e o
por aqueles que não eram da facção "delas",
s«me. no entanto, eram filhos de Deus. E quando
y . e r s externaram tais sentimentos, contagia-
outros. Os católicos abriram o coração para
•ear o mesmo sentimento; as muralhas do precon-
© começaram ruir.
> segundo ponto-chave para nossas orações
mn respondidas — ter os mesmos sentimentos de


^ 3. Desejar a Concretização dos Desígnios de Deus

5 £ possível partilharmos dos pensamentos e senti-


t n i o s divinos, mas ainda assim nos postarmos de
Io. como meros observadores. Aqui, então, entra o
|A fator da dedicação pessoal. Aqui os pensamentos e
sentimentos de Deus se tornam de nosso próprio
^ :ateresse. Não somente saberemos o que ele sabe e
^ sentiremos em harmonia com ele, mas também
, querer o que ele quer. "Prefiro estar à porta da
do meu Deus, a permanecer nas tendas da
rversidade.-' (SI 84.10.) Davi renunciaria de bom
p a d o todas as honrarias terrenas, em troca da mais
humilde posição na casa de Deus, tão intenso era seu
desejo de comungar com o Senhor. Notemos que ele
apresenta o contraste entre a vida nas tendas da
perversidade e a existência na casa de Deus. Nosso
anseio pelo cumprimento dos desígnios divinos au-
menta à medida que abandonamos nosso desejo de
ver outros planos realizados. Para desejarmos a con-
cretização dos propósitos do Senhor, devemos estar
dispostos ao sacrifício de qualquer coisa que se inter-
- " - :-.:re eles e nós.
luitas de nossas orações não são respondidas
tentamos servir e obedecer a Deus, sem real-
desejar a realização de seus planos. Estamos

107
cônscios de nosso dever para com o Senhor, e por isso
lhe dedicamos alguma coisa do que temos, ou traba-
lhamos um pouco para ele, mas, na verdade, não nos
importamos muito com os frutos desse esforço. Desde
que tenhamos cumprido nossa obrigação, voltamo-
nos de corpo e alma para aquilo que realmente
desejamos, — a realização de nossos planos — viver
nossa vida como desejamos.
É preciso que fiquemos tão profundamente envol-
vidos com os interesses de Deus, que se eles falharem
nós falhamos com eles. Precisamos estar atentos às
indicações de Deus sobre coisas que ele deseja que
renunciemos a fim de que possa atear, em nosso
interior, a chama do interesse por sua causa. "Venha
o teu reino!" deve se tornar mais que uma frase
decorada e repetida maquinalmente. Ela deve trans-
formar-se no anseio de nossa vida.
O fundador da missão Youth With a Missiori*
(YWAM), Loren Cunningham**, relata que, no iní-
cio do trabalho. Deus lhe falou de um ministério que
parecia impossível de ser empreendido financeira-
mente. Mas quando verificou que aquela era realmen-
te a vontade de Deus, e não a sua, e passou a ter os
mesmos sentimentos do Senhor com respeito à obra,
teve dificuldade em abandonar a idéia. Então, orou ao
Senhor, perguntando:
"Senhor, o que queres que façamos?"
"Que dêem tudo", foi a resposta do Senhor; "que
fiquem sem nada."
Depois que deram tudo o que possuíam, começa-
ram a ansiar pela execução dos planos do Senhor, de
todo o coração e alma. E foi aí que Deus principiou a
responder suas orações de modo prodigioso.
Precisamos desejar a concretização dos planos
divinos, se quisermos nossas orações respondidas. E

* No Brasil, essa missão é denominada Jovens com Uma Missão


(JOCUM).
** O autor deve a Loren Cunningham a estrutura deste capítulo.

108
a realização dos planos de Deus, tererj de
qualquer coisa que interfira neles, xe
terceiro ponto-chave para obter-se respos-
desejar a concretização dos desígnios de

4. Falar as Palavras de Deus


Rosar, sentir e desejar são para nós, essencial-
• K . expressões mudas, embora impliquem em
rdadeira submissão. Chega, porém, o momento
temos que proferir palavras. Temos que ma-
• a palavra de Deus em determinada situação.
«s que expor nossa fé a correr o risco.
Deus pensou em criar o mundo; depois, desejou
zê-lo. mas o mundo só veio a existir assim que ele

Jesus tencionou ressuscitar a Lázaro, antes mesmo


. . • ; ; ; : a Betânia, onde este se achava. A beira do
fâmulo, sentiu emoção divina quando chorou, e disse:
D Filho nada pode fazer de si mesmo, senão somente
aquilo que vir fazer o Pai." (Jo 5.19.) Ele sabia que era
da vontade de Deus que Lázaro voltasse à vida, e
também desejou que tal se realizasse. Mas o morto só
deixou o sepulcro depois que Cristo clamou: "Lázaro,
sai para fora!" A palavra falada contém energia
rmficante que coloca em ação o plano de Deus.
Por que tantas orações ficam sem resposta? Por
que nossas petições vão em torrentes, e as respostas
oltam em gotas? É porque falamos nossas palavras, e
não as de Deus.
-as palavras podem expressar, quando muito,
anseio ou esperança. As de Deus manifestam a inten-
ção, que ele apoia integralmente. "Porque, assim
como descem a chuva e a neve dos céus, e para lá não
tomam, sem que primeiro reguem a terra... para dar
semente ao semeador e pão ao que come, assim será a
palavra que sair da minha boca; não voltará para mim
vazia, mas fará o que me apraz, e prosperará naquilo-;
para que a designei." (Is 55.10, 11.) Se quisermos que

109
nossas orações sejam atendidas, teremos que aprender
a expressar as idéias divinas, e não as nossas, até que
ao orarmos nossas palavras sejam eco das que Deus
proferiu nos céus. Jesus declarou: "Nada faço por
mim mesmo; mas falo como o Pai me ensinou." (Jo
8.28.) Era essa a razão de suas petições terem tanta
força. Ele falava as palavras de Deus.
Naturalmente, expressar as idéias de Deus está
intimamente ligado com o fato de partilhar dos seus
pensamentos. Mas ter identidade de pensamentos
com o Senhor é algo que pode acontecer apenas em
nosso interior, em completo silêncio. Nosso desejo de
que os desígnios de Deus se realizem pode ficar
somente conosco. Quando, porém, nos expressamos
nos mesmos termos de Deus, então, nossa posição se
torna conhecida.
Esse passo apresenta dois perigos semelhantes,
mas opostos. De um lado existe o perigo de estarmos
expressando um desejo ou ideal apenas nosso. De
outro lado, é possível que nos calemos totalmente,
temendo cair no primeiro caso. Qual a solução para o
impasse?
O apóstolo Paulo ensinou o seguinte: "Tratando-
se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros
julguem." (1 Co 14.29.) O que o profeta está falando
pode ser proveniente de Deus, segundo o seu enten-
dimento. Mas pode acontecer também que ele não
tenha recebido toda a mensagem divina, ou não a
tenha compreendido perfeitamente. Por isso, suas
palavras precisam ser julgadas pelos outros. Se nós
desejamos aprender a entregar a mensagem de Deus.
temos que estar dispostos a submeter nossas orações e
quaisquer outros pronunciamentos a outros irmãos,
para julgamento e correção.
Isso pode implicar numa mudança radical de
nossa atitude para com a oração. Se alguém fizer uma
declaração falsa ou infundada durante uma discus-
são, é passível de receber uma reprimenda. Entretan-
to, se ele o faz em oração, aquilo é engolido por todos
em silêncio total e solene. Não é empresa fácil dizer as
É — w de Deus. No entanto, temos a pretensão de
- s expressá-las sem o auxílio de
. sem instrução e sem correção. Se desejamos
palavras de Deus temos que nos dispor a
ma "escola da oração", na acepção mais literal
L Fbis é pelo auxílio dos irmãos em Cristo
•prendemos a reconhecer a mensagem divina.
K catão nossa linguagem não se constituirá,
uvanurate. de palavras, mas será verdadeira libera-
ção de poder.
Aqui está. portanto, o quarto ponto-chave a res-
da oração respondida — falar as palavras de
Dam

5. Executar as Obras de Deus


Depois que passamos a ter os pensamentos de
Ocas e a expressá-los verbalmente, o mais provável é
: tenhamos esbarrado numa situação crítica. E é
lamente nesse ponto que deixamos de receber a
osta da oração. Percebemos que a situação é de
Bênção impossível, e entramos em pânico. Logo pen-
""Cometi algum engano. Está tudo errado!" A
tristeza é que. nesta altura, a oração está praticamen-
te atendida. Tudo de que precisamos agora é fazer o
ame está ao nosso alcance, e deixar o impossível com o
Senhor.
A parte que nos é possível realizar pode ser algum
sacrifício ou entrega que teremos que fazer. Não é o
suficiente para resolver a questão, mas é tudo que
podemos fazer.
Essa verdade é exemplificada na história do meni-
o que tinha um lanche de cinco pães e dois peixes.
Tudo o que ele poderia fazer era confiá-lo a Jesus; e
isto era também tudo de que Deus precisava para
realizar o milagre. "Realizar as obras de Deus"
significa fazer tudo que está ao nosso alcance e confiar
que Deus fará o resto.
Este é o quinto ponto-chave para o sucesso na
oração — realizar as obras de Deus.

111
Ter os pensamentos de Deus...
Ter os sentimentos de Deus...
Desejar a concretização dos desígnios de Deus...
Falar as palavras de Deus...
Executar as obras de Deus.
Qual a conclusão de tudo isso? Jesus resumiu tudo
no seguinte: "O Filho nada pode fazer de si mesmo,
senão somente aquilo que vir fazer o Pai; porque tudo
o que este fizer, o Filho também semelhantemente o
faz." (Jo 5.19.)
O segredo para obter-se resposta da oração é
procurar saber o que Deus está fazendo, e fazer a
mesma coisa.
CAPÍTULO DOZE

Orar em Nome de Jesus


Lm dos pontos mais importantes no assunto da
oração é o uso da frase: "Em nome de Jesus". A esse
grupo de quatro palavras está associada uma das mais
otáreis promessas das Escrituras — a resposta da

Contudo existe um problema — muitas pessoas


repetem essa fórmula no final de cada petição, e
•esmo assim não são atendidas. Por quê?
A razão disso é que temos uma idéia errônea do
seu real significado e implicações, e, acima de tudo,
dms conseqüências, para nós, do seu uso.
Uma ilustração nos ajudará a entendê-la melhor.
Durante um de meus períodos de férias da faculdade,
. ;-;'. país como representante de uma compa-
uhia que vendia sementes. Antes de partirmos para a
primeira viagem de vendas, a empresa nos deu um
curso intensivo de duas semanas sobre técnica de
vendas.
Numa das aulas o instrutor fez uma observação
que nos pareceu estranha: "Lembrem-se de que vocês
estão vendendo sementes, e não goma de mascar ou
balas."
nos entreolhamos meio intrigados com o que
de dissera. Era claro que estaríamos vendendo semen-
tes; sabíamos disso muito bem. Fora para isto que
, haviam contratado. O que quereria ele dizer com
tal advertência?

113
Por fim ele explicou que anteriormente alguns de
seus vendedores costumavam carregar consigo outro
tipo de mercadoria a fim de aumentar sua renda.
Após anotarem o pedido de sementes, apresentavam
ao freguês goma de mascar e bala. Logicamente, as
despesas de viagem corriam por conta da companhia
de sementes.
"Mas o ponto que realmente importa", continuou
ele, "é que não queremos nosso nome — e com ele
nosso prestígio — associado a outro produto que não
seja o nosso. Se vocês nos representam e vendem
artigo que não é nosso ao comerciante, ele fatalmente
irá ligar nosso nome ao tal produto. Nós estamos
dispostos a garantir a qualidade das sementes que
vendemos, mas não a de outros produtos."
Nenhum de nós levantou a mínima dúvida quanto
à justiça do que o homem dissera. Estava perfeita-
mente correto. A empresa que nos admite como
funcionário tem todo o direito de exigir nossa dedica-
ção e esforço integrais, durante o expediente. Qual-
quer um que se coloque a serviço de alguém, terá que
pôr de lado suas atividades particulares quando esti-
ver no emprego. Paulo declarou o seguinte: "Nenhum
soldado se embaraça com os negócios desta vida." As
atividades e objetivos do empregador passam a ser de
nosso interesse pessoal. Tudo o que fizermos, será
como representantes de nosso patrão. Não nos apre-
sentamos em nosso nome, mas no da empresa.
É esse tipo de raciocínio que precisamos ter para
compreender bem o que significa orar em nome de
Jesus. Quando oramos, estamos a representá-lo e os
seus interesses. Ele tem um grande plano para a
redenção da humanidade, e deseja que nós o apresen-
temos ao Pai, em oração, a fim de obtermos os meios e
recursos necessários à realização do trabalho.
Jesus nos usa para executar o plano de intercessão
em determinado território. Portanto, orar em nome de
Jesus significa que ele nos emprega para trabalhar na
realização de seu ministério de oração.
Para representarmos bem qualquer pessoa, temos

114
•macê-Ia bem. Saber quais são seus planos e o
spera de nós. Temos que parar de pensar e
e acordo com nosso próprio ponto-de-vista, e
i pensar e agir de acordo com o dele. Se
obter as promessas bíblicas que dizem
oração que é feita "em nome de Jesus",
B que começar a encarar a questão da oração do
pnHo-de-vtsta do Senhor.

Descobrir Seus Propósitos


n João 16.23. 24 Jesus diz o seguinte a seus
nscipulos: "Naquele dia nada me perguntareis... se
pedirdes alguma cousa ao Pai, ele vo-la concederá em
•o nome. Até agora nada tendes pedido em meu
me.-." Referia-se ao dia em que voltaria a vê-los,
*s a ressurreição, e falava do relacionamento entre
e k s e o Senhor redivivo. E a verdade que ele apresenta
aqui pode ser aplicada também aos cristãos de hoje,
* quais, pela fé. mantém um relacionamento de
comunhão com o Cristo vivo.
Em João 14.14. Jesus afirma explicitamente: "Se
me pedirdes alguma cousa em meu nome, eu o farei."
O que ele está querendo nos ensinar é que nosso
modo de orar deve sofrer uma mudança radical,
quanto ao ponto-de-vista, ou seja, que até o momento
temos orado em nosso próprio nome. Nós temos
pedido as bênçãos que nós queremos, as coisas que
são de nosso único interesse, e temos apresentado
petições a Deus em nosso próprio nome.
Quando, porém, eu voltar, orarão em meu nome.
Seu primeiro impulso não será mais: "Senhor, aben-
çoa-me' Senhor, faça isso! Senhor, faça aquilo!" Não.
Açora vocês deverão indagar: "Senhor, qual é teu
bjetivo neste caso? Que petições queres que eu

Em vez de apresentarmos nossos pedidos ao Se-


• v . procuraremos descobrir quais as suas intenções
Efetivos em relação a certos fatos, para que possa-
m colocar nossa vontade em harmonia com a dele.

115
Entendemos, agora, por que a aplicação dessas
verdades implicará em mudanças drásticas para mui-
tas pessoas? Trata-se de pôr de lado nossos interesses
e propósitos, e conhecer os intentos de Cristo. É como
aconteceu conosco em casa de um amigo que tem um
garotinho de dois anos. Certa tarde fomos visitá-los.
Na mesinha de centro havia uma doceira com algu-
mas balas que o pequeno apreciava muito. A mãe
disse ao menino que pegasse uma para mim. Ele
apanhou o doce com a ponta dos dedos e veio em
minha direção, segurando-o bem diante dos olhos.
Mas. no caminho, foi como se a guloseima tivesse sido
atraída como que por um ímã para sua boquinha, e
antes que algo chegasse a mim, já a havia engolido.
Aquele doce era algo que pertencia a ele. O garoto
ainda não estava preparado para aceitar a idéia de
que outros poderiam comê-lo também.
Infelizmente, muitos livros acerca da oração aju-
dam a estimular em nós a idéia de que o objetivo
primordial da oração é satisfazer às nossas necessida-
des. Entretanto, a verdade é que a oração feita em
nome de Jesus, é um meio de alcançarmos os objetivos
de Jesus. É por isso que o Pai Nosso inicia com a
petição de que o nome de Deus seja glorificado, e seu
reino venha, e sua vontade seja feita.
George McCausland conta que experimentou
grande liberdade na intercessão depois que passou a
orar tendo sempre em mente a intenção de Deus
relativa à questão em foco. Conta que se acostumara a
orar. mais ou menos, nos seguintes termos: "Senhor,
abençoa este homem (por quem eu me preocupo).
Senhor, atende a esta necessidade (minha). Senhor,
vem aqui; Senhor, vá ali." Então ele mudou tudo.
passando a orar assim: "Senhor, o que eu posso fazer
para ajudar a realização de teus desígnios na vida
dessa pessoa ou nesta dificuldade, ou nessa situação?"
A transformação foi quase imediata. Ele sentiu gran-
de poder e autoridade nas orações. Não mais se
achava como representante de interesses próprios,
diante de Deus; agora, apresentava ao Pai os de Jesus.

116
*
Era mm embaixador de Cristo, e. por conseguinte,
•B Mcresses de Jesus eram os seus.
Se quisermos orar "em nome de Jesus" temos de
os internos de Cristo, para apresentá-los a

Conhecer o Produto
~y vendedor que não conhece bem o produto com
que trabalha, nunca alcançará altos índices de venda.
se Jesus está-nos tomando a seu serviço, para o
ministério da oração, precisamos saber o que a oração
faz. quais as vantagens que oferece.
Lembremo-nos, primeiramente, de quem é o clien-
t e — Deus' Quando nos dirigimos a ele, em oração (a
oração é de Jesus, somos, apenas, intermediários de
seus interesses em determinado território), temos que
"convencer" o Pai do valor dessa petição, para que
ele conceda aquilo que a oração pede, assim como o
negues entrega certo valor em dinheiro, ao vendedor,
ao constatar que o produto lhe interessa.
Jesus nos apresenta o Pai — nas Escrituras —
como sendo um comprador que deseja ser convencido.
Ek conta duas parábolas, que se encontram no
Evangelho de Lucas, onde ensina que devemos persis-
tir em oração até vencermos a resistência que Deus
porventura tenha formado contra "conversa de vende-
L. 11.5-8 e 18.1-8).
Lutero orou, certa vez, a favor de seu amigo
Melanchton. que se achava enfermo. Mais tarde ele
contou: "Chamei Deus a um canto, e relembrei-lhe de
iodas as promessas concernentes à oração, e disse-lhe
qne simplesmente não poderia continuar crendo nele
se não curasse Filipe."
Isso é o que se pode chamar de argumentação
"pesada". Não a aconselho aos principiantes, mas
mente ele tinha razão. Lutero sabia que lidava
• um produto forte. Sabia que Deus não somente
se deleita em ouvir nossas orações, mas precisa delas.

117
Ele determinou que todo o seu reino seja regido por
elas.
As orações de Jesus são tão necessárias à movi-
mentação do reino de Deus, como o combustível para
o vôo dos jatos. Quando um vendedor da Shell, por
exemplo, visita um gerente de compras de uma com-
panhia de aviação, sabe perfeitamente que a compa-
nhia depende, grandemente, de seu artigo para ope-
rar. E nós levamos enorme vantagem sobre o represen-
tante da Shell. Ele é obrigado a competir com seus
colegas de mais dez ou doze empresas de petróleo.
Mas com Deus não há concorrências: ele tem uma
predileção toda especial para com as orações de Jesus.
Ele sabe que elas são as únicas que têm poder e
autoridade suficientes para a edificação de seu reino.
O que pensaria o leitor se alguém lhe oferecesse
uma mercadoria que valesse Cr$1.000,00, pelo preço
de Cr$378,00? Naturalmente acharia que ela devia
estar defeituosa, ou então que se tratava de uma
imitação barata do verdadeiro produto. Jesus deseja
que recebamos o valor exato de suas orações. Quando
oramos em nome dele, podemos nos atrever a esperar
resultados grandiosos, pois as orações dele devem
produzir excelentes resultados. Ele disse aos discí-
pulos que esperava continuassem realizando as mes-
mas obras que ele, e recebendo as mesmas respostas
de oração que ele obtinha.
Se nossas orações não estão sendo atendidas, será
bom darmos uma olhada na mercadoria com que
estamos trabalhando. Será que se trata do verdadeiro
produto de Cristo? Ou será que estamos entrando
com nossas balinhas e gomas de mascar?
Na prática, isso significa que antes de apresentar-
mos uma petição ao Pai, temos que fazer algumas
perguntas e esperar as respostas. "Senhor Jesus, qual
é teu plano com relação a essa questão? Qual é teu
pedido em favor dessa pessoa?" E quando nos si-
lenciamos interiormente para ouvi-lo, ele nos diz qual
é o pedido que deseja que façamos ao Pai naquele mo-
mento.

118
i
E quando o Pai ouve a oração e vê a marca
registrada do Filho, ficará tão ansioso para fechar o
negócio que até nos surpreenderemos.

Descobrir o Plano Dele Para Nossa Vida


Jesus tem um plano específico para a vida de cada
una das pessoas que emprega no ramo de negócios da
ri» 3:
Quando fazia curso de treinamento de vendas
nra a companhia a que me referi, um de seus
I principais vendedores nos deu uma aula especial,
certa tarde. Depois fomos informados de que ele
estava encarregado dos contatos com as lojas Wool-
worth*. '"Não queremos que nenhum de vocês, calou-
ros ansiosos, vá a qualquer dessas lojas' , disseram-
nos. "As vendas para elas são feitas no escritório
central, para toda a cadeia."
Orar em nome de Jesus significa trabalhar apenas
no território que ele nos atribui. Agnes Sanford
denomina isso de "meu fardo". Jesus nos dá as
petições — para o nosso fardo pessoal — que estejam
mais de acordo com nosso desenvolvimento espiritual
e nossa experiência na vida cristã. Isso é coerente com
a personalidade dele, pois cuida de nós e nos incen-
riva.
Depois que nos consagramos à realização de seus
propósitos e procuramos conhecer seu "produto" (isto
é. passamos a conhecer o poder da oração) começa-
nos também a sentir seu interesse pessoal por nós e
pelo nosso crescimento na esfera da oração, exata-
nente como o empregador está interessado em ver
seus vendedores aprenderem o serviço e realizarem as
«Ihoir 1, vendas.
Certa vez tive o privilégio de visitar a Sra. Sarah
nington. Essa irmã é membro da congregação que
_-. _ :. Missão da Rua Azuza. na Califórnia, onde
-A
T.: L ma grande cadeia de lojas, nos E.U.A.

119
se originou o avivamento pentecostal de 1906. Ela é a
única sobrevivente do grupo que presenciou o desper-
tamento.
Enquanto conversávamos, ela se referiu várias
vezes à "bênção nova, sobre a qual estou fazendo
algumas perguntas ao Senhor". Não nos disse do que
se tratava, mas ficamos com a impressão de que era
um negócio bem definido entre ela e Deus. Era como
se tivesse recebido nova área de trabalho, e estivesse
procurando familiarizar-se bem com ela. Contava,
então, mais de noventa anos, mas seu vigor espiritual
não arrefecera. Durante a visita, ela recebeu dois ou
três telefonemas, todos relacionados com algum as-
pecto do reino de Deus.
Neste ramo de trabalho não existe desemprego,
nem aposentadoria. Quando Jesus nos admite em seu
quadro de funcionários, é para toda a vida. Na
verdade, é para a eternidade.

NOTA BIOGRÁFICA SOBRE O AUTOR

Larry Christenson é autor do livro A Família do


Cristão, obra que já se tornou tão popular, que se
encontra na lista dos best-sellers religiosos dos Esta-
dos Unidos, há mais de dois anos. Sua tiragem já
atingiu a cifra de 500.000 exemplares, no idioma
inglês. Além disso, já foi traduzido para nove línguas.
O Rev. Christenson graduou-se, com distinção,
pela Universidade de St. Olaf, da cidade de St. Paul,
Minnesota. Formou-se em Divindades pelo Seminário
Teológico Luther. da mesma cidade.
Desde 1960 exerce o pastorado da Igreja Luterana
Trinity, de San Pedro, Califórnia. Entretanto, sua
mensagem já ultrapassou as fronteiras geográficas de
sua área ministerial; tem realizado conferências tanto
em outras partes dos Estados Unidos como na Europa.

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i