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Supremo Tribunal Federal Revista Trimestral de Jurisprudência Volume 196 – Número 1 Abril / Junho

Supremo Tribunal Federal

Revista Trimestral de

Jurisprudência

Volume 196 – Número 1 Abril / Junho de 2006 Páginas 1 a 360

Diretoria-Geral Sérgio José Américo Pedreira

Secretaria de Documentação Altair Maria Damiani Costa

Coordenadoria de Divulgação de Jurisprudência Nayse Hillesheim

Seção de Preparo de Publicações Neiva Maria de Moura Ludwig

Seção de Padronização e Revisão Kelly Patrícia Varjão de Moraes

Seção de Distribuição de Edições Rogéria Ventura de Carvalho Paes Ribeiro

Diagramação: Joyce Pereira

Capa: Patrícia Weiss Martins de Lima

Edição: Supremo Tribunal Federal

(Supremo Tribunal Federal — Biblioteca Ministro Victor Nunes Leal)

Revista Trimestral de Jurisprudência / Supremo Tribunal Federal, Coordenadoria de Divulgação de Jurisprudência. — ano 1, n. 1 (abr./jun. 1957) -. – Brasília: Imprensa Nacional, 1957-

Trimestral

A partir de 2002 até março de 2005, foi Editora Brasília Jurídica.

editada pela

ISSN 0035-0540

1. Direito - Jurisprudência - Brasil. I. Supremo Tribunal Federal (STF).

CDD 340.6

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STF/CDJU Anexo I, 2º andar Praça dos Três Poderes 70175-900 – Brasília-DF rtj@stf.gov.br Fone: (0xx61) 3217-3573

Publicação e Distribuição:

Editora Brasília Jurídica Ltda. SDS, Bl. “O”, Lojas 9, 13 e 17 Ed. Venâncio VI, 1º subsolo 70393-900 – Brasília-DF SAC: 0800-612020

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

Ministra ELLEN GRACIE Northfleet (14-12-2000), Presidente Ministro GILMAR Ferreira MENDES (20-6-2002), Vice-Presidente Ministro José Paulo SEPÚLVEDA PERTENCE (17-5-1989) Ministro José CELSO DE MELLO Filho (17-8-1989) Ministro MARCO AURÉLIO Mendes de Farias Mello (13-6-1990) Ministro Antonio CEZAR PELUSO (25-6-2003) Ministro CARLOS Augusto Ayres de Freitas BRITTO (25-6-2003) Ministro JOAQUIM Benedito BARBOSA Gomes (25-6-2003) Ministro EROS Roberto GRAU (30-6-2004) Ministro Enrique RICARDO LEWANDOWSKI (9-3-2006)

COMISSÃO DE REGIMENTO

Ministra ELLEN GRACIE Ministro GILMAR MENDES Ministro EROS GRAU Ministro CARLOS BRITTO – Suplente

COMISSÃO DE JURISPRUDÊNCIA

Ministro SEPÚLVEDA PERTENCE Ministro JOAQUIM BARBOSA

COMISSÃO DE DOCUMENTAÇÃO

Ministro CELSO DE MELLO Ministro MARCO AURÉLIO Ministro CARLOS BRITTO

COMISSÃO DE COORDENAÇÃO

Ministra ELLEN GRACIE Ministro CEZAR PELUSO

PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA

Doutor ANTONIO FERNANDO BARROS E SILVA DE SOUZA

COMPOSIÇÃO DAS TURMAS

PRIMEIRA TURMA

Ministro José Paulo SEPÚLVEDA PERTENCE, Presidente Ministro MARCO AURÉLIO Mendes de Farias Mello Ministro Antonio CEZAR PELUSO Ministro CARLOS Augusto Ayres de Freitas BRITTO Ministro Enrique RICARDO LEWANDOWSKI

SEGUNDA TURMA

Ministro José CELSO DE MELLO Filho, Presidente Ministra ELLEN GRACIE Northfleet Ministro GILMAR Ferreira MENDES Ministro EROS Roberto GRAU

SUMÁRIO

Pág.

ACÓRDÃOS 1 ÍNDICE ALFABÉTICO I ÍNDICE NUMÉRICO XXIII

ACÓRDÃOS

AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE 106 — RO

Relator: O Sr. Ministro Carlos Velloso

Relator para o acórdão: O Sr. Ministro Gilmar Mendes

Requerente: Governador do Estado de Rondônia — Requerida: Assembléia Legis- lativa do Estado de Rondônia

Ação direta de inconstitucionalidade. 2. Artigos 72, 73, 77 e 177 da Constituição do Estado de Rondônia, e 30 e 34 das Disposições Transitórias. 3. Alegação de afronta aos artigos 2º; 22, II; 25; 41; 54, II, d; 61, § 1º; 84, II; e 96, II, b, da Constituição Federal. 4. Criação e atribuições de Conselho de Governo em conformidade com a Constituição Federal. Inconstitucio- nalidade da inclusão do procurador-geral de Justiça e dos presidentes dos Tribunais de Justiça e de Contas na composição do Conselho de Governo. 5. Competência do Tribunal de Justiça para criar e disciplinar seus serviços auxiliares. 6. Inconstitucionalidade da estipulação de prazo para que o Tribunal de Justiça envie projeto de lei dispondo sobre maté- ria que lhe é privativa. 7. Invade a competência legislativa privativa da União preceito que subordina a declaração de utilidade pública, para fins de desapropriação, à prévia autorização legislativa. 8. Inconstitucionali- dade formal da norma que dispõe sobre regime jurídico de servidor pú- blico, matéria reservada à iniciativa do Presidente da República. 9. Ação parcialmente procedente.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em Sessão Plenária, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade, declarar o prejuízo do pedido formulado quanto ao

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artigo 30 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição do Estado de Rondônia. Por maioria, julgar parcialmente procedente a ação para declarar a incons- titucionalidade dos incisos III, IV e V do artigo 72.

Brasília, 10 de outubro de 2002 — Marco Aurélio, Presidente — Gilmar Mendes, Relator para o acórdão.

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Carlos Velloso: O Governador do Estado de Rondônia, com funda-

mento no art. 103, V, da Constituição Federal, propõe ação direta de inconstitucionali- dade dos artigos 72, 73, 77 e 177 da Constituição do Estado de Rondônia, bem como

dos artigos 30 e 34 das Disposições Transitórias da citada Constituição estadual. As normas impugnadas têm o seguinte teor:

Constituição do Estado de Rondônia:

“Art. 72. O Conselho de Governo é o órgão superior de consulta do Governador do Estado, sob a sua presidência, e dele participam:

I - o Vice-Governador do Estado;

II - o Presidente da Assembléia Legislativa;

III - o Presidente do Tribunal de Justiça;

IV - o Procurador-Geral de Justiça;

V - o Presidente do Tribunal de Contas;

VI - os Líderes da maioria e da minoria, na Assembléia Legislativa;

VII - seis cidadãos brasileiros natos, com mais de trinta e cinco anos de idade, de reputação ilibada, nomeados pelo Governador, sendo:

a) três de sua livre escolha;

b) três indicados pela Assembléia Legislativa.

Art. 73. Compete ao Conselho pronunciar-se sobre questões relevantes susci- tadas pelo Governo Estadual, incluída a estabilidade das instituições e problemas emergentes, de grave complexidade e implicações sociais. Parágrafo único. Lei regulará a organização e o funcionamento do Conselho de Governo.

) (

Art. 77. Lei de iniciativa do Poder Judiciário disciplinará as atribuições, direitos e deveres dos Escrivães Judiciais, Escrivães Judiciais Substitutos, Oficiais de Justiça, Avaliadores, Distribuidores, Contadores e Depositários, cuja admissão

se dará por concurso público de títulos e provas. Parágrafo único. O Tribunal de Justiça, dentro de cento e oitenta dias da promulgação desta Constituição, enviará projeto de lei nesse sentido.

) (

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5

Art. 177. O Estado e os Municípios só poderão declarar de utilidade pública e desapropriar bens imóveis mediante prévia autorização legislativa.”

Disposições Transitórias da Constituição do Estado de Rondônia:

“Art. 30. Os atuais Parlamentares Estaduais eleitos Vice-Prefeitos, se convo- cados a exercer a função de Prefeito, não perderão o mandato parlamentar.

) (

Art. 34. Os servidores e serventuários de que trata o art. 77 desta Constitui- ção, que na data da instalação da Assembléia Estadual Constituinte contavam com pelo menos dois anos contínuos de exercício e que não tenham sido admitidos na forma do art. 37, inciso II da Constituição Federal, serão considerados efetivos no cargo.” Sustenta o autor, em síntese, o seguinte:

a) o artigo 177 da Constituição estadual, que condiciona o início do processo

expropriatório à prévia autorização do Poder Legislativo, afronta o art. 22, II, da CF, dado que compete privativamente à União legislar acerca de desapropriação;

b) os artigos 72 e 73 da CE, que prevêem a criação de um Conselho de Governo,

afrontam os artigos 2º; 25; 61, § 1º; e 84, II, da CF, porquanto as atribuições definidas

constitucionalmente ao Conselho da República são inaplicáveis ao Conselho de Governo.

c) o artigo 77 da Constituição estadual e o artigo 34 das Disposições Transitórias

afrontam os artigos 2º, 25, 41 e 96, I, b, da Lei Maior, uma vez que ferem os princípios da separação de Poderes e da iniciativa de leis quando torna efetivos servidores e serven- tuários admitidos sem concurso público;

d) o art. 30 das Disposições Transitórias viola o artigo 54, II, d, da CF quando

prevê que os parlamentares estaduais, no exercício do cargo de Prefeito, não perdem seus

mandatos.

Solicitadas informações (fls. 29 e 32), o Presidente da Assembléia Legislativa do Estado de Rondônia prestou-as (fls. 36/42), sustentando, em síntese, o seguinte:

a) inexistência de ofensa ao art. 22, II, da CF, porquanto “a norma questionada

de inconstitucionalidade (art. 177 CE), em momento algum fere o dispositivo constitu- cional, sobre a competência privativa da União para legislar sobre desapropriação;

não está legislando concorrentemente com a norma federal, pois os Estados-Mem-

) (

bros podem legislar sobre questões específicas dentro de suas peculiaridades respei- tando a Legislação Federal” (fl. 38);

b) inocorrência de violação à Constituição em relação à “aplicabilidade também

de um Conselho de Governo a nível estadual (arts. 72 e 73 da CE), inovado como órgão opinativo e não deliberativo, como entidade de consulta do Senhor Governador do

Estado, com as mesmas atribuições dentro do contexto estadual, (

dispositivos constitucionais federais, quanto a sua organicidade e funcionalidade” (fl. 39).

) não divergindo dos

c) constitucionalidade do art. 77 da Constituição estadual e do art. 34 das Dispo- sições Transitórias, mormente porque “a Constituição Estadual não pode tomar como

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modelo obrigatório a ser servilmente copiado, cada dispositivo da Constituição Federal

) (

daquilo que é feito pela Constituição Federal, atendendo às peculiaridades de cada Estado, obedecendo apenas aos princípios da Constituição Federal, ela nem mesmo teria razão de existir” (fls. 40/41).

d) constitucionalidade do artigo 30 das Disposições Transitórias em face do disposto no art. 5º, § 3º, do ADCT.

O ilustre Subprocurador-Geral da República no exercício das funções de Advogado-Geral da União, Dr. Miguel Frauzino Pereira, às fls. 44/45, manifestou-se pela improcedência da ação.

O eminente Procurador-Geral da República, Prof. Geraldo Brindeiro, opinou pela

parcial procedência da presente ação direta para declarar a inconstitucionalidade dos

arts. 72, 73, 77, parágrafo único, e 177 da Constituição do Estado de Rondônia, bem como do art. 34 das Disposições Transitórias (fls. 46/52).

Instado a se manifestar (fls. 58 e 65), o Governador do Estado de Rondônia informou que todos os dispositivos aqui impugnados permanecem em vigor; pede, pois, o prosseguimento da presente ADI (fls. 68/69).

se a Constituição Estadual não pudesse organizar o Poder Público diferentemente

Autos conclusos em 14-5-2002.

É o relatório, do qual serão expedidas cópias aos excelentíssimos Senhores

Ministros.

VOTO

O Sr. Ministro Carlos Velloso (Relator): Examino as argüições de inconstituciona-

lidade.

I) Art. 177 da Constituição do Estado de Rondônia:

Desta forma deslindou a controvérsia, no ponto, o ilustre Procurador-Geral da República, Prof. Geraldo Brindeiro:

“(

)

5.

Assim dispõe o art. 177 da Constituição do Estado de Rondônia:

‘Art. 177 - O Estado e os Municípios só poderão declarar de utilidade pública e desapropriar bens imóveis mediante prévia autorização legislativa.’

6. A toda evidência, tal norma é contrária à regra de competência privativa da

União para legislar sobre desapropriação, prevista no art. 22, II, da Constituição Federal.

7. A desapropriação por utilidade pública encontra seu fundamento constitu-

cional no art. 5º, XXIV, ‘a lei estabelecerá o procedimento para desapropriação por necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social, mediante justa e prévia indenização em dinheiro, ressalvados os casos previstos nesta Constituição’.

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8. Quanto ao procedimento para desapropriação por utilidade pública, é tra-

tado no Decreto-lei n. 3.365/41, recepcionado pela vigente ordem constitucional, o qual, em seu art. 6º assevera que ‘a declaração de utilidade pública far-se-á por decreto do Presidente da República, Governador, Interventor ou Prefeito’. E, no seu art. 8º admite possa ser determinada pelo Poder Legislativo, cabendo, neste caso, ao Executivo a prática dos atos necessários à sua efetivação.

9. Assim, revela-se formalmente inconstitucional o mencionado art. 177 da

Constituição do Estado de Rondônia, porquanto não compete ao constituinte estadual dispor acerca de desapropriação, matéria de competência exclusiva da União, quanto mais, afim de subordinar a declaração de utilidade pública para fins de desapropriação à prévia autorização legislativa, de modo diverso ao previsto em norma federal, a qual, como visto, estabelece que aquela modalidade de desa- propriação possa fazer-se mediante decreto do Chefe do Poder Executivo local

sem necessidade de autorização do Poder Legislativo.

(

)”

(fls. 47/48).

Correto o parecer. A Constituição do Estado de Rondônia, art. 177, invadiu competência privativa da União, dado que a esta, segundo o art. 22, II, da Constituição Federal, compete legislar, privativamente, sobre desapropriação. No julgamento da ADI 969-MC/DF, Relator o Ministro Moreira Alves, o Supremo Tribunal Federal decidiu nesse sentido, vale dizer, no sentido da inconstitucionalidade de preceito da Lei Orgânica do Distrito Federal, que fez depender as desapropriações de prévia aprovação da Câmara Legislativa (RTJ 154/43).

Inconstitucional, portanto, o art. 177 da Constituição do Estado de Rondônia. II) Artigos 72 e 73 da Constituição do Estado de Rondônia. Assim o parecer do ilustre Procurador-Geral da República no ponto:

“(

)

10. Por sua vez, assim estabelecem os arts. 72 e 73 da Constituição do Estado de Rondônia:

‘Art. 72 – O Conselho de Governo é o órgão superior de consulta do Governador do Estado, sob a sua presidência, e dele participam:

I – O Vice-Governador do Estado;

II – O Presidente da Assembléia Legislativa;

III – O Presidente do Tribunal de Justiça;

IV – O Procurador-Geral de Justiça;

V – O Presidente do Tribunal de Contas;

VI – Os Líderes da Maioria e Minoria na Assembléia Legislativa;

VII – seis cidadãos brasileiros natos, com mais de trinta e cinco anos de idade, de reputação ilibada, nomeados pelo Governador, sendo:

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a) três de sua livre escolha;

b) três indicados pela Assembléia Legislativa.’

‘Art. 73 – Compete ao Conselho pronunciar-se sobre questões relevan- tes suscitadas pelo Governo Estadual, incluída a estabilidade das institui- ções e problemas emergentes, de grave complexidade e implicações sociais. Parágrafo único – Lei regulará a organização e o funcionamento do Conselho de Governo.’

11. Reside a questão em determinar se é válida a instituição, pelo constituinte

estadual, de um Conselho de Governo, à semelhança do Conselho da República,

de que tratam os arts. 89 e 90 da Constituição Federal.

12. A resposta é negativa, pois a iniciativa de leis acerca da criação de órgãos

da administração pública é privativa do Presidente da República, nos termos do preceituado no art. 61, § 1º, II, e, da Constituição Federal, assim como também é de

sua competência reservada, o exercício, com o auxílio dos Ministros de Estado, da direção superior da administração federal (art. 84, II, CF/88).

13. Ora, as normas de processo legislativo, inclusive as de iniciativa reservada

do Poder Executivo, são oponíveis ao constituinte do Estado-membro, que deve observar o modelo de tripartição de poderes delineado na Constituição da Repú- blica. Nesse sentido, copiosa a jurisprudência desse colendo Supremo Tribunal Federal, exemplificada na ementa a seguir transcrita:

‘Criação de Conselho, dotado de diversificada composição e represen- tatividade, destinado a orientar os órgãos de comunicação social do Estado, suas fundações e entidades sujeitas a seu controle (artigos 238 e 239 da Constituição do Rio Grande do Sul e Lei estadual n. 9.726-92). Cautelar deferida, ante a premência do prazo assinado para a instalação do Colegiado e a relevância da fundamentação jurídica do pedido, especial- mente quanto as teses concernentes a separação dos Poderes e a exclusi- vidade de iniciativa do Chefe do Executivo, bem como a competência privativa deste para exercer a direção superior e dispor sobre a organização e o funcio- namento da administração.’ (ADIMC n. 821/RS, Rel. Min. Octavio Gallotti, j. 5/2/93, DJ de 7/5/93)

14. Assim sendo, padecem de inconstitucionalidade formal os artigos em

referência, porque é vedado ao Poder Legislativo imiscuir-se na esfera de compe-

tência de outro Poder, como no caso, para dispor sobre a criação de um órgão de consulta do Governador do Estado.

(

)”

(fls. 48/50).

Correto o parecer também aqui.

A instituição, pelo constituinte estadual, do Conselho do Governo, violou o dis-

posto no art. 61, § 1º, II, e, que estabelece que são da iniciativa privativa do Presidente da República as leis que disponham sobre criação e extinção de Ministérios e órgãos da administração pública. Tem-se, no caso, norma de processo legislativo de observância obrigatória por parte do constituinte estadual.

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Quando do julgamento da ADI 821-MC/RS, Relator o Ministro Octavio Gallotti, decidiu o Supremo Tribunal Federal:

“Ementa: Criação de Conselho, dotado de diversificada composição e representatividade, destinado a orientar os órgãos de comunicação social do Estado, suas fundações e entidades sujeitas a seu controle (artigos 238 e 239 da Constitui- ção do Rio Grande do Sul e Lei estadual n. 9.726/92). Cautelar deferida, ante a premência do prazo assinado para a instalação do Colegiado e a relevância da fundamentação jurídica do pedido, especialmente quanto às teses concernentes à separação dos Poderes e à exclusividade de inicia- tiva do Chefe do Executivo, bem como a competência privativa deste para exercer a direção superior e dispor sobre a organização e o funcionamento da administra- ção.” (DJ de 7-5-93) No mesmo sentido: ADI 2.364-MC/AL, Relator o Ministro Celso de Mello, DJ de 14-12-2001; ADI 1.962/RO, Relator o Ministro Ilmar Galvão, DJ de 1º-2-2002; ADI 676/RJ, Relator o Ministro Carlos Velloso, RTJ 162/849. Reconheço a inconstitucionalidade dos artigos 72 e 73 da Constituição do Estado de Rondônia. III) Art. 77 e seu parágrafo único da Constituição do Estado de Rondônia. Assim o parecer do Chefe do Ministério Público Federal:

“( )

15. Quanto ao art. 77, e seu parágrafo único, da Constituição do Estado de

Rondônia, assim estão redigidos:

‘Art. 77 – Lei de iniciativa do Poder Judiciário disciplinará as atribui- ções, direitos e deveres dos Escrivães Judiciais, Escrivães Judiciais Substi- tutos, Oficiais de Justiça, Avaliadores, Distribuidores, Contadores e Depo- sitários, cuja admissão se dará por concurso público de títulos de provas. Parágrafo único – O Tribunal de Justiça, dentro de cento e oitenta dias da promulgação desta Constituição, enviará projeto de lei nesse sentido.’

16. O art. 77, ao determinar que lei de iniciativa do Poder Judiciário disci-

plinará as atribuições, direitos e deveres dos Escrivães, dos Oficiais de Justiça, Avaliadores, Distribuidores, Contadores e Depositários, não parece ofensiva à ordem constitucional uma vez que, nos termos do art. 96, II, b, da Constituição Federal, ‘compete aos Tribunais de Justiça a criação e a extinção de cargos e a remuneração dos seus serviços auxiliares e dos juízos que lhes forem vinculados’; assim como compete também privativamente aos Tribunais ‘organizar suas secre- tarias e serviços auxiliares e os dos juízos que lhes forem vinculados, velando pelo exercício da atividade correicional respectiva’, conforme preceitua o art. 96, I, b, da Constituição da República.

17. Entretanto, o parágrafo único do art. 77, ao estipular um prazo para que o

Tribunal de Justiça envie projeto de lei dispondo sobre matéria que lhe é privativa, parece invadir a seara de competência do Poder Judiciário, porquanto a avaliação quanto ao momento e conveniência para deflagrar o processo legislativo de sua iniciativa reservada é atividade discricionária daquele Poder.

(

)”

(fls. 50/51).

10

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Correto o entendimento do Ministério Público Federal. Realmente, a norma do art. 77 da Constituição de Rondônia apresenta-se compatível com o disposto no art. 96, II, b, da Constituição Federal.

Quanto ao parágrafo único do citado art. 77, o mesmo não pode ser dito. É que, ao fixar prazo para que o Tribunal de Justiça envie projeto de lei dispondo sobre a matéria que lhe é privativa, invade competência do Judiciário, dado que a este compete decidir

a respeito do “momento e conveniência para deflagrar o processo legislativo de sua iniciativa reservada”. Destarte, tenho como constitucional o art. 77 da Constituição de Rondônia e in- constitucional o parágrafo único do mesmo art. 77. IV) Artigos 30 e 34 das Disposições Transitórias da Constituição do Estado de Rondônia. Dispõe o art. 30:

“Art. 30. Os atuais Parlamentares Estaduais eleitos Vice-Prefeitos, se convo- cados a exercer a função de Prefeito, não perderão o mandato parlamentar.”

Não era inconstitucional, já que seguia a linha do § 3º do art. 5º do ADCT da CF/88.

A esta altura, entretanto, a ação está prejudicada. Quanto ao art. 34 das Disposições Transitórias da Constituição do Estado de Ron-

dônia, escreve o Ministério Público Federal:

“( )

18. Já o art. 34, das Disposições Transitórias da Constituição do Estado de

Rondônia, possui o seguinte teor:

‘Art. 34 – Os servidores e serventuários de que trata o art. 77 desta Constituição, que na data da instalação da Assembléia Estadual Constituinte contavam pelo menos dois anos contínuos de exercício e que não tenham sido admitidos na forma do artigo 37, II da Constituição Federal, serão con- siderados efetivos no cargo.’

19. A norma em tela, ademais de dispor acerca de matéria atinente a regime

jurídico de servidores públicos, como é a estabilidade e efetividade do servidor, cujo tratamento, na esfera federal é reservado à lei de iniciativa do Presidente da República, em obediência ao disposto no art. 61, § 1º, II, c, da Constituição Federal, contraria o disposto no art. 41 da Constituição da República, que confere estabili- dade e efetividade apenas aos servidores que ingressaram no serviço público através de concurso.

20. Não há falar de que norma acima transcrita apenas reiterou o disposto no

art. 19 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, pelo contrário, aquela disposição estadual concedeu efetividade a servidores que, sem terem ingressado no serviço público através de concurso, na data da instalação da Assembléia Esta- dual Constituinte, contavam pelo menos dois anos contínuos no exercício das mencionadas funções públicas, o que é diferente de estabilidade.

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21. O art. 19 do ADCT concedeu estabilidade aos servidores públicos civis da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, da administração direta, autárquica e das fundações públicas, em exercício há pelo menos cinco anos continuados, na data da promulgação da Constituição. E condicionou a sua efetivação, no seu § 1º, à realização de concurso público.

(

)”

(fl. 51).

Perfeito o entendimento.

Tem-se, no caso, inconstitucionalidade formal, já que atenta o art. 34 das Disposi- ções Transitórias da Constituição de Rondônia contra o disposto no art. 61, § 1º, II, c, da Constituição Federal. É que a norma impugnada diz respeito a regime jurídico de servi- dores públicos, matéria reservada à iniciativa do Presidente da República. O processo legislativo estadual não pode dispor de forma diferente.

O dispositivo da Constituição estadual viola, também, o estabelecido no art. 41 da

Constituição Federal, que confere estabilidade apenas a servidores que ingressaram no serviço público mediante concurso. Ademais, o art. 34 das Disposições Transitórias da Constituição de Rondônia contraria o art. 19 do ADCT da CF/88. V) Conclusão. De todo o exposto, julgo procedente, em parte, a ação, pelo que declaro a incons- titucionalidade do art. 177, dos arts. 72 e 73, do parágrafo único do art. 77 e do art. 34, todos da Constituição do Estado de Rondônia, este último das Disposições Transitórias. No que toca ao art. 77 da Constituição de Rondônia, tenho-o como constitucional, e, relativamente ao art. 30 das Disposições Transitórias da mesma Constituição, está a ação prejudicada, motivo por que dela não conheço no ponto.

VOTO

O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Sr. Presidente, encaminho a divergência no sentido

de declarar a inconstitucionalidade parcial quanto à inclusão do Procurador-Geral de

Justiça e do Presidente do Tribunal de Contas. No mais, mantenho o texto e acompanho

o eminente Ministro Relator.

VOTO

A Sra. Ministra Ellen Gracie: Com a vênia do eminente Ministro Relator, acompanho

a divergência parcial apenas para excluir esses três integrantes do Conselho.

VOTO

O Sr. Ministro Maurício Corrêa: Sr. Presidente, também acompanho a divergência

no ponto e o eminente Ministro Relator em tudo, menos nesta parte.

VOTO

O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Sr. Presidente, que mais não fosse, na esperança

de encontrar um dia algum espaço de autonomia dos Estados-Membros reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal, acompanho o eminente Ministro Gilmar Mendes.

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VOTO

O Sr. Ministro Marco Aurélio (Presidente): Peço vênia aos colegas para, no caso, manter íntegro o dispositivo. Não vejo, de um lado, incompatibilidade maior em se ter a participação nesse Conselho, como é o caso, do Presidente do Tribunal de Justiça, pois este, tal como o Presidente da Assembléia, preside um Poder, e o Conselho tem como objetivo funcionar em seu colegiado. Também não me impressiona a problemática relativa ao envolvimento do Presi- dente do Tribunal de Contas e do Procurador-Geral de Justiça. Há de se distinguir os campos relativos às atuações específicas daquele alusivo à atividade a ser desenvolvida pelo Conselho, que é a de simplesmente apoiar pronunciamento prévio de um órgão colegiado. Por outro lado, sem que a Corte se transforme em legislador positivo, mediante a supressão de alguns incisos, no que prevêem certas pessoas para formar o Conselho, não vislumbro como se possa alterar a composição do órgão.

EXTRATO DA ATA

ADI 106/RO — Relator: Ministro Carlos Velloso. Relator para o acórdão: Ministro Gilmar Mendes. Requerente: Governador do Estado de Rondônia (Advogado: Pedro Origa Neto). Requerida: Assembléia Legislativa do Estado de Rondônia. Decisão: O Tribunal, por unanimidade, declarou o prejuízo do pedido formulado quanto ao artigo 30 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constitui-

ção do Estado de Rondônia. Por maioria, julgou parcialmente procedente a ação para declarar a inconstitucionalidade dos incisos III, IV e V do artigo 72, vencidos, em parte,

o Ministro Relator, que declarava a inconstitucionalidade de todo o dispositivo, e o

Presidente, Ministro Marco Aurélio, que declarava a sua constitucionalidade; do parágra-

fo único do artigo 77; e do artigo 177, todos da Constituição do Estado de Rondônia; e,

também, a inconstitucionalidade do artigo 34 do Ato das Disposições Transitórias da Constituição do mesmo Estado. Relativamente ao artigo 73, o Tribunal, por maioria, declarou a sua constitucionalidade, vencido o Relator, e, por unanimidade, também declarou a constitucionalidade da cabeça do artigo 77, ambos da mesma Constituição estadual. Redigirá o acórdão o Ministro Gilmar Mendes. Ausentes, justificadamente, os Ministros Celso de Mello e Ilmar Galvão, e, neste julgamento, o Ministro Nelson Jobim.

Presidência do Ministro Marco Aurélio. Presentes à sessão os Ministros Moreira Alves, Sydney Sanches, Sepúlveda Pertence, Carlos Velloso, Maurício Corrêa, Nelson Jobim, Ellen Gracie e Gilmar Mendes. Procurador-Geral da República, Dr. Geraldo Brindeiro. Brasília, 10 de outubro de 2002 — Luiz Tomimatsu, Coordenador.

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AÇÃO CÍVEL ORIGINÁRIA 261 — SP

Relator: O Sr. Ministro Marco Aurélio Autora: União — Réu: Estado de São Paulo Prescrição Tributo. A prescrição incide com a passagem de cinco anos do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lan- çamento poderia ter sido efetuado — artigos 173 e 174 do Código Tributário Nacional.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribu- nal Federal, em Sessão Plenária, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade, decretar a extinção do processo, declarar a prescrição e condenar a União ao pagamento de honorários profissionais fixados em R$ 5.000,00 (cinco mil reais), tudo nos termos do voto do Relator. Brasília, 10 de novembro de 2004 — Nelson Jobim, Presidente — Marco Aurélio, Relator.

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Marco Aurélio: A Fazenda Nacional propôs execução contra o Estado de São Paulo, acostando certidão de dívida a revelar, como data da inscrição, o dia 27 de maio de 1976. O documento consigna o vencimento dos tributos — imposto de importação e imposto sobre produtos industrializados — em 16 de julho de 1969. À folha 6-verso, pronunciou-se a Procuradoria da República perante o Juízo Federal, aludindo à competência desta Corte. A declinação da competência deu-se em 20 de fevereiro de 1978 (folha 9). O processo foi distribuído ao Ministro Djaci Falcão, que, após a manifestação do Ministério Público Federal, determinou, em outubro de 1978, a citação do devedor (folhas 13 e 14). Aos autos veio a contestação de folhas 33 a 40, mediante a qual se argúi a prescri- ção da ação em face da passagem de cinco anos contados da inscrição da dívida — o vencimento do débito fiscal ocorrera em 16 de julho de 1969, havendo sido inscrita a dívida em 27 de maio de 1976. Do vencimento do débito até a causa interruptiva da prescrição — a ordem de citação (artigo 219, § 1º, do Código de Processo Civil) —, teriam transcorrido mais de nove anos. Em passo seguinte, argumenta-se com a incons- titucionalidade do acréscimo de 20% no débito fiscal, parcela que estaria reservada aos Procuradores da Fazenda. Alega-se que à Fazenda não assistiria o direito de aumentar o débito, conforme decidido por esta Corte no julgamento do Recurso Extraordinário n. 79.822, relatado, perante a Primeira Turma, pelo Ministro Aliomar Baleeiro. Aponta-se, em vista da inexistência de remuneração dos Procuradores da União, a ofensa ao inciso I do artigo 18 da Constituição Federal pretérita, ante a cobrança de taxa sem o serviço correspondente. Discorre-se, ainda, sobre a impossibilidade de se classificar tal acréscimo como taxa, tendo em conta a razão de ser dessa espécie de tributo. No mérito propriamente dito, articula-se com a imunidade estabelecida na Constituição da República — alínea a do inciso III do artigo 19 da Carta de 1969. Requer-se a improcedência do

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R.T.J. — 196

pedido formulado e a condenação da autora ao pagamento das despesas processuais, inclusive honorários advocatícios.

Em razões finais, a União informou não estar o imposto de importação sujeito à imunidade, já que esta apenas beneficia o patrimônio, a renda ou os serviços. O réu não teria provado o enquadramento da importação efetuada na isenção prevista no Decreto- Lei n. 37/66, regulamentado pelo Decreto n. 62.898, de 25 de junho de 1968.

O Estado trouxe aos autos o arrazoado de folhas 79 a 81, reafirmando a ocorrência

da prescrição e os termos da contestação apresentada.

À folha 88, o Ministro Maurício Corrêa despachou, instando a autora, União Federal,

a manifestar-se sobre a seqüência da ação. Sem qualquer pronunciamento, os autos segui-

ram à Procuradoria-Geral da República, que emitiu o parecer de folhas 95 a 97, assim

sintetizado:

Ação Cível Originária. Execução Fiscal promovida contra o Estado-Membro (sic). Dívida Ativa da União decorrente de IPI e imposto de importação. Alegada em matéria de defesa a prescrição da ação executiva fiscal. Ocorrência. Citação do devedor ocorrida após o exaurimento do lapso prescricional. Prescrição intercor- rente. Superveniência. Inércia da parte interessada. Parecer pela improcedência da ação. Estes autos vieram-me conclusos em conseqüência da substituição prevista no artigo 38, inciso I, do Regimento Interno da Corte. Recebendo-os em 12 de junho de 2003, neles lancei visto em 23 imediato (folha 99).

É o relatório.

O

VOTO

Sr. Ministro Marco Aurélio (Relator): Quanto à competência, tenho-a como

revelada pelo fato de a ação envolver a Fazenda Nacional e o Estado de São Paulo.

Da Prescrição

A certidão de dívida ativa de folha 5 noticia haver ocorrido a inscrição em 27 de

maio de 1976, vencendo o tributo em 16 de julho de 1969. Levando-se em conta a data do vencimento e a regra do inciso I do artigo 173 do Código Tributário Nacional —

segundo a qual o direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extingue-se após cinco anos contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lança- mento poderia ter sido efetuado —, tem-se que o termo inicial da prescrição, considerada

a cabeça do artigo 174 — a data da constituição definitiva do tributo —, verificou-se em

1970, ou seja, no exercício imediato àquele em que ocorrera o vencimento. Pois bem, a determinação de citação deu-se somente em 1978, ou seja, passados oito anos. Daí a prescrição haver incidido. Ainda que se abandone a regra especial do inciso I do artigo

174

do Código Tributário Nacional, adotando-se a retroação prevista no § 1º do artigo

219

do Código de Processo Civil, constata-se que a execução somente foi ajuizada em

julho de 1976 e, portanto, quando já transcorrido o qüinqüênio. Concluo pela prescrição e declaro extinto o processo, com o julgamento de mérito.

R.T.J. — 196

15

EXTRATO DA ATA

ACO 261/SP — Relator: Ministro Marco Aurélio. Autora: União (Advogado:

Advogado-Geral da União). Réu: Estado de São Paulo. Decisão: O Tribunal, por unanimidade, decretou a extinção do processo, declarou a prescrição e condenou a União ao pagamento de honorários profissionais fixados em R$ 5.000,00 (cinco mil reais), tudo nos termos do voto do Relator. Falou pelo réu o Dr. Marcos Ribeiro de Barros, Procurador do Estado. Ausente, justificadamente, a Ministra Ellen Gracie. Presidiu o julgamento o Ministro Nelson Jobim. Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda Pertence, Celso de Mello, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Gilmar Mendes, Cezar Peluso, Carlos Britto, Joaquim Barbosa e Eros Grau. Vice-Procurador-Geral da República, Dr. Antonio Fernando Barros e Silva de Souza. Brasília, 10 de novembro de 2004 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

AÇÃO CAUTELAR 349 — MT

Relator: O Sr. Ministro Carlos Britto Requerente: Associação dos Notários e Registradores do Estado de Mato Grosso – ANOREG/MT — Requeridos: Governador do Estado de Mato Grosso e Assembléia Legislativa do Estado de Mato Grosso Constitucional e Processual Civil. Processos objetivo e subjetivo. Exceções individuais de suspeição contra Desembargadores de Tribunal de Justiça perante o qual foi ajuizada representação de inconstitucionali- dade. Lei estadual n. 8.033/2003, também impugnada perante o Supremo Tribunal Federal, na ADI 3.151. Medida cautelar para suspender a eficá- cia da referida lei até o julgamento da representação ou das exceções. Nesta Suprema Corte, a ADI 3.151 tramita sob o impulso do art. 12 da Lei n. 9.868/99. Descabimento da medida cautelar porque as exceções de suspeição representam um instituto típico do processo subjetivo, que não se aplica às ações diretas de inconstitucionalidade, pela sua natureza objetiva. Ademais, a maioria dos Desembargadores repeliu a pecha que lhes endereçou a excipiente, mas as exceções ainda não foram julgadas. Sendo assim, a competência originária desta colenda Corte para apreciar a questão de direito material, alojada nos autos da cautelar, somente será estabelecida se — e quando — o Supremo Tribunal acolher as referidas exceções. Precedentes. Não-conhecimento do pedido cautelar.

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ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, por seu Tribunal Pleno, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por maioria de votos, não conhecer da ação cautelar, nos termos do voto do Relator, vencido o Ministro Marco Aurélio em relação à preliminar de conheci- mento. Brasília, 16 de fevereiro de 2005 — Nelson Jobim, Presidente — Carlos Ayres Britto, Relator.

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Carlos Ayres Britto: Trata-se de ação cautelar aparelhada com re- querimento de medida liminar, tendo por objeto suspender a eficácia da Lei estadual n. 8.033, de 17-12-2003, até que se dê o julgamento definitivo da Ação Direta de Incons- titucionalidade n. 29.473/2004, proposta perante o Tribunal de Justiça do Estado do Mato Grosso. Alternativamente, a autora pede que tal suspensão de eficácia permaneça até o julgamento do pedido de liminar na citada ação direta ou, em último caso, até a decisão que for proferida nas exceções de suspeição apresentadas nos autos da mesma ADI n. 29.473, que impugna dispositivos do referido ato normativo estadual.

2. Segundo a inicial, a mencionada Lei n. 8.033/2003 obriga os notários e registra-

dores de Mato Grosso a pagar ao FUNAJURIS (Fundo do Tribunal de Justiça daquele Estado) a quantia de R$0,10 (dez centavos) relativamente a cada selo de autenticidade confeccionado e distribuído pela Casa da Moeda do Brasil. Entretanto, esse valor teria de ser reduzido por força do Contrato n. 30/2004/TJ, celebrado entre aquele Tribunal e a Casa da Moeda.

3. De acordo com a requerente, esta medida cautelar se faz necessária em decorrên-

cia das suspeições opostas em face de todos os Desembargadores do Tribunal de Justiça local, para efeito do julgamento da citada ADI n. 29.473/2004, de modo que, agora, compete a esta excelsa Corte o exame das referidas exceções e, se acaso acolhidas, a apreciação da própria ação direta.

4. A seu turno, as exceções de suspeição têm como justificativa o fato de que os

Desembargadores daquele Tribunal encaminharam a esta Suprema Corte memoriais e pareceres jurídicos defendendo a higidez constitucional da mesma Lei n. 8.033/2003, a qual foi também impugnada por meio da ADI 3.151, de minha relatoria, ajuizada pela Anoreg/Brasil. Raciocina a excipiente que, assim procedendo, os exceptos demonstra- ram não possuir a isenção necessária para julgar a ação direta estadual, que versa o mesmo assunto.

5. Pelo despacho de fl. 302, o Ministro Nelson Jobim, Presidente desta Casa,

determinou a citação dos requeridos — Governador e Assembléia Legislativa do Estado de Mato Grosso —, deixando para depois o exame do pedido de liminar.

6. Quanto aos demandados, defenderam-se eles com alegação de inépcia da peti-

ção inicial, bem como de inocorrência dos pressupostos autorizadores do manejo da ação cautelar (fls. 450/457 e 462/476).

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7. Pois bem, os autos me foram redistribuídos, na condição de Relator da ADI

3.151, e deles abri imediata vista ao ilustrado Procurador-Geral da República, Prof. Cláudio Fonteles, que opinou pelo não-conhecimento da medida.

8. Já em data de 19-10-2004, a requerente fez juntar petição em que defende o

cabimento da exceção de suspeição nos processos de índole objetiva.

É o relatório.

VOTO

Sr. Ministro Carlos Ayres Britto (Relator): A título de voto, tenho como necessário

esclarecer que existem duas representações de inconstitucionalidade na esfera estadual sobre o assunto, hoje confiadas ao mesmo Relator, por dependência. Na primeira delas —

15.275/2004 —, o pedido de liminar foi indeferido (fls. 515/520). Após esse indeferimento

é que a acionante houve por bem ajuizar a presente medida nesta Suprema Corte. Porém,

aqui já existe, conforme visto, a ADI 3.151. Ação que tramita sob o impulso do art. 12 da

Lei n. 9.868/99; sem medida cautelar, portanto.

11. Feito este esclarecimento, deparo-me com duas razões, autônomas, para não

conhecer da presente ação. A primeira vincula-se aos termos em que formulado o pedido,

ou seja, medida cautelar em exceção de suspeição. Pois importante é anotar que se trata de exceções individuais, ainda não julgadas. E, de acordo com o último despacho, no Tribunal de Justiça, a maioria dos Desembargadores repeliu a pecha que lhes endereçou

a excipiente, mas os respectivos autos ainda não foram remetidos a esta colenda Corte,

para análise desse específico incidente. Portanto, a rigor, ainda não foi estabelecida a competência do Supremo Tribunal Federal para apreciar qualquer outra matéria ligada, direta ou indiretamente, à questão de fundo, como é o caso deste pedido de suspensão da eficácia da Lei estadual n. 8.033/2003. Tal competência somente será firmada se — e quando — esta Suprema Corte acolher as referidas exceções. Confira-se, a propósito, o acórdão proferido no MS 21.306, Relator Ministro Carlos Velloso, de cuja ementa realço

a seguinte passagem:

“No caso de ter sido oposta exceção de suspeição dos Juízes do Tribunal local, reconhecendo a maioria dos membros do Tribunal a suspeição, firma-se a competência do STF, na forma do art. 102, I, n, da Constituição. Todavia, se a exceção de suspeição é recusada, ao STF incumbe julgar, originariamente, a exce- ção de suspeição. Acolhendo o Supremo Tribunal a referida exceção de suspeição, então estará configurada a competência originária da Corte Suprema para julgar o mandado de segurança. Precedente da Corte: AO 146-3-AgR/RJ, Rel. Min. Pertence, 25-2-92.”

12. A segunda razão para o não-conhecimento desta medida deflui da constatação

de que ela, na verdade, é ancilar da mencionada ação direta de inconstitucionalidade e

utiliza as exceções de suspeição como ponte para alcançar esse objetivo mais elevado. Ou seja, um instituto do processo subjetivo a serviço de um processo objetivo.

13. Nesse contexto, bem oportunas me parecem as considerações do ínclito

Procurador-Geral da República, vocalizadas nos seguintes termos (fls. 699/700):

“Antes mesmo do exame do pedido de cautelar, V. Exa., em percuciente manifestação – fls. 693-695 –, antecipadamente abriu vista dos autos à Procura- doria-Geral da República.

O

18

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Nessa esteira, não se pode perder o foco do tema central, qual seja neste primeiro instante, o próprio cabimento da medida cautelar em análise.

Sob tal ótica, como premissa do raciocínio que se seguirá, fique, desde logo, assentada a natureza amplamente acessória do procedimento cautelar, sempre ten- dente a servir de suporte à causa principal, via de regra, de cognição exauriente. Assim, a viabilidade da ação cautelar está atrelada, umbilicalmente, à pertinência da demanda ordinária. No caso concreto, a presente cautelar pretende dar guarida às exceções de suspeição opostas junto ao Tribunal de Justiça do Mato Grosso. Acontece, contudo, que tais exceções se dão, ao arrepio de sua intrínseca natureza, no bojo de um processo de controle concentrado de constitucionalidade. Esse hábitat é completamente estranho aos incidentes típicos do processo civil ordinário. Não vicejam nesse campo, árido a expedientes desse jaez. Isso tem boa explicação na perspectiva ontológica do controle de constitucionalidade, na sua acepção abstrata, que resulta na dicção, sempre recorrente na doutrina e jurispru- dência, de que, apesar de ser exercido por meio de uma ação, não ostenta uma pretensão resistida, pelo que também se deflui não haver o revolvimento de inte- resses concretos, fáticos, e ainda, não existir partes em lide.

A justificação do controle abstrato de normas cinge-se a um processo de

fiscalização da supremacia da ordem constitucional, prática que, levada aos instru- mentos processuais aplicáveis à ação direta, dá-nos a notícia de que, como leciona Clèmerson Merlin Clève, “(…)a argüição de suspeição revela-se incabível no âmbito do processo objetivo de controle normativo abstrato de constituticionalidade”.

Em última análise, portanto, as exceções de suspeição são expedientes que, a toda evidência, não frutificarão. Sem respaldo também se mostra, na mesma medida, a pretensão cautelar ora deduzida, pois, como estabelecido acima, é acessória à ação de cognição exauriente a que presta suporte.

O pensamento que ora deduzo é exatamente o mesmo que desenvolvi na

manifestação ofertada na AO 991, da relatoria do Eminente Ministro Carlos Velloso. Tais considerações, note-se, foram encampadas naquela esfera, proferindo Sua Excelência despacho que refutou a competência do Supremo Tribunal Federal para examinar ação direta de inconstitucionalidade ajuizada junto ao Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul, ascendida à Corte por suposta suspeição e impedi- mento dos desembargadores, dando como ilegítimos tais obstáculos em face justa- mente da natureza específica do controle concreto de constitucionalidade – DJ de

24/10/2003.”

14. Merece acolhida esse bem lavrado parecer do Ministério Público Federal,

quando não bastasse o primeiro fundamento deste voto.

15. Ante o exposto, não conheço da presente ação cautelar e condeno a requerente

a

pagar aos requeridos honorários advocatícios, que fixo em 10% (dez por cento) sobre

o

valor da causa, tendo em vista que houve apresentação de defesa.

16. É como voto.

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19

VOTO

O Sr. Ministro Eros Grau: Senhor Presidente, em princípio vou acompanhar o

Ministro Relator, mas gostaria de indagar o seguinte: ainda que eu já possa pressupor qual será o resultado da suspeição, quando apreciada — porque já há um entendimento pacífico da Corte —, a verdade é que, pelo que entendi, foi recusada a suspeição, mas o processo ficou parado. É isso?

O

Sr. Ministro Carlos Ayres Britto (Relator): Ainda não veio.

O

Sr. Ministro Eros Grau: O prazo era de dez dias para que viesse.

O

Sr. Ministro Carlos Ayres Britto (Relator): Mas não chegou. Aliás, eles rejeita-

ram a suspeição; cada um a rejeitou. O fato é que o Pleno do Tribunal de Justiça ainda não remeteu os autos a esta Corte. É isso que interessa, não é?

O Sr. Ministro Eros Grau: Parece-me — estou levantando uma questão de ordem

agora — que, conforme o artigo 313 do Código de Processo Civil, em caso contrário, em

que não haja o reconhecimento, os autos deveriam ser enviados para cá. Vou acompanhar o voto do eminente Ministro Relator, mas vou sugerir que Sua Excelência tome uma providência com relação a essa afronta ao artigo 313 do CPC.

O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Ministro Relator, o pedido da ação

cautelar é que se conceda a suspensão liminar da lei ordinária, que seria outorgada dentro dos autos da ADI, aqui ou lá. Agora, está-se pedindo isso na ação cautelar em relação ao problema da suspeição.

O Sr. Ministro Marco Aurélio: Senhor Presidente, o objeto da cautelar é único, e ela

se mostra com eficácia substitutiva quanto a pedido que poderia ser veiculado no pró- prio processo subjetivo. Articula-se, a meu ver até com certa incongruência, a suspeição dos integrantes do Tribunal de Justiça quando lá foram ajuizadas, pelo próprio autor da cautelar, as ações diretas. Agora — eu ponderaria, e meu voto será nesse sentido —, creio que cumpre, no caso, declinar da competência para que o Tribunal de Justiça julgue a cautelar como entender de direito, até para declarar o autor carecedor da ação.

O

Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Esse pedido foi objeto da ação?

O

Sr. Ministro Gilmar Mendes: Nesse caso, existe uma ação dentro do Supremo

Tribunal Federal.

O

Sr. Ministro Marco Aurélio: Sim, mas não se pede; aí é outra coisa também.

O

Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Já decidimos, depois de uma longa discussão

sobre o cabimento da ADI estadual à luz de normas de reprodução — normas da Consti- tuição estadual, que reproduzem necessariamente normas da Constituição Federal (Rcl

383, Moreira Alves, RTJ 144/404). A maioria a entendeu cabível, contra o meu voto. Mas, depois, o Tribunal decidiu que a ADI federal — digamos assim —, proposta perante

o Supremo Tribunal, com base em parâmetro da Constituição Federal, suspende a

estadual, fundada em normas locais de reprodução compulsória (Rcl 425, Néri, DJ de

22-10-93, ADI-MC 2.361, 11-10-01, Maurício, DJ de 1º-8-2003).

O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Ministro Marco Aurélio, uma dúvida: o

pedido não é alternativo, porque todos eles pleiteiam um efeito suspensivo à lei ordinária.

O tempo do pedido é que se distingue para até o julgamento definitivo da ação direta do

20

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Mato Grosso — nós substituindo o Mato Grosso, claro —, ou até o julgamento do pedido da liminar na ADI do Mato Grosso, ou, ainda, até o julgamento da suspeição lá no Mato Grosso. Ou seja, em todas as hipóteses, o pedido que temos de decidir é o que se fez lá.

O Sr. Ministro Marco Aurélio: Se, por acaso, estiver havendo, quanto à apreciação

desta ou daquela matéria, usurpação da competência do Supremo Tribunal Federal, que se venha com a reclamação. Até dialogava com o Ministro Gilmar Mendes sobre estar- mos acionando o artigo 12 da Lei n. 9.868/99. Meu receio é que agora se venha com mais papéis, ou seja, com a formalização de ações, com a criação de outros processos para se alcançar a medida acauteladora, quando o mais fácil seria peticionar no próprio processo, em curso no Supremo Tribunal Federal ou onde estiver, já que a competência para a cautelar é definida pelo juízo competente para a ação principal.

O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Como já lembrado pelo Ministro Sepúlveda Pertence,

o entendimento hoje dominante no Tribunal é no sentido de que, havendo essas ações paralelas perante o Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal, ocorrerá a suspen- são do processo no âmbito estadual; logo, não haveria sequer objeto. Talvez fosse um julgamento da cautelar na ADI, no âmbito do Supremo Tribunal Federal.

O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Esta, não tem pedido de cautelar no Tribunal

de segundo grau.

Sr. Ministro Gilmar Mendes: Tem pedido de cautelar e foi convertida no artigo 12.

O

O

VOTO

Sr. Ministro Gilmar Mendes: Senhor Presidente, não conheço da ação.

O

Sr. Ministro Marco Aurélio: Senhor Presidente, declino da competência para o

Tribunal de Justiça.

O Sr. Ministro Marco Aurélio: Senhor Presidente, o Tribunal deu-se por competente.

Então, julgo o autor carecedor da ação proposta.

O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Então, Vossa Excelência não conhece

da ação.

EXTRATO DA ATA

AC 349/MT — Relator: Ministro Carlos Britto. Requerente: Associação dos Notários e Registradores do Estado de Mato Grosso – ANOREG/MT (Advogados:

Lafayette Garcia Novaes Sobrinho e outro). Requeridos: Governador do Estado de Mato Grosso (Advogado: PGE/MT – Alexandre Apolonio Callejas) e Assembléia Legislativa do Estado de Mato Grosso (Advogado: Alexandre de Sandro Nery Ferreira). Decisão: O Tribunal, por maioria, não conheceu da ação cautelar, nos termos do voto do Relator, vencido o Ministro Marco Aurélio em relação à preliminar de conheci- mento. Falou pela requerente o Dr. Lafayette Garcia Novaes Sobrinho. Presidiu o julga- mento o Ministro Nelson Jobim.

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Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda Pertence, Celso de Mello, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Gilmar Mendes, Cezar Peluso, Carlos Britto, Joaquim Barbosa e Eros Grau. Procurador-Geral da República, Dr. Cláudio Lemos Fonteles. Brasília, 16 de fevereiro de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

QUESTÃO DE ORDEM NA AÇÃO CÍVEL ORIGINÁRIA 555 — DF

Relator: O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence Autor: Distrito Federal — Ré: União

Supremo Tribunal Federal: competência originária (CF, art. 102,

I, f): ação proposta por uma unidade federada, o Distrito Federal, contra

a União, caso em que, à fixação da competência originária do Tribunal,

sempre bastou a qualidade das pessoas estatais envolvidas, entidades políticas componentes da Federação, não obstante a estatura menor da questão: precedentes.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em Sessão Plenária, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por maioria de votos, resolver a questão de ordem no sentido da compe- tência do Supremo Tribunal Federal, nos termos do voto do Relator. Brasília, 4 de agosto de 2005 — Nelson Jobim, Presidente — Sepúlveda Pertence, Relator.

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Cuida-se de ação proposta pelo Distrito Federal

contra a União, com o objetivo de obter o ressarcimento de remunerações e encargos sociais pagos pelo autor a servidora da Câmara Legislativa do Distrito Federal, no período em que esteve cedida ao Ministério dos Transportes, para o exercício de cargo em comissão.

O Ministério Público Federal — parecer do il. Subprocurador-Geral Wallace Bastos,

aprovado pelo então Procurador-Geral da República — opinou pelo não-seguimento da ação, por incompetência originária do Supremo Tribunal.

Extrato do parecer (fls. 194/195):

a jurisprudência pacífica dessa Colenda Corte está assentada no sentido

de que a hipótese de competência constitucional do STF, prevista na alínea f do inciso I do art. 102 da Carta da República está restrita a casos excepcionais, em que estejam em discussão os princípios informativos do pacto federativo, não incidindo, portanto, naquelas situações em que o objeto da demanda seja de cunho exclusiva- mente patrimonial, como ocorre na espécie dos autos.

“(

)

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É ver como ficou decidido pelo Plenário do Colendo Supremo Tribunal Federal, nos autos da Ação Cível Originária n. 359-8/SP, Relator Ministro Celso de Mello, em Sessão de 04.08.93, publicado no DJ de 11.03.94, nas linhas do acórdão cuja ementa é transcrita a seguir:

Ação de execução movida por sociedade de economia mista contro- lada pelo Estado de São Paulo contra o Estado do Maranhão – incompetên- cia do STF – Inteligência do art. 102, i, f, da constituição – inexistência de conflito federativo – pedido não conhecido.

O art. 102, I, f, da Constituição confere ao STF a posição eminente de Tribunal da Federação, atribuindo-lhe, nessa condição, o poder de dirimir as controvérsias que, irrompendo no seio do Estado Federal, oponham as unidades federadas umas às outras.

A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, na definição do alcance dessa regra de competência originária da Corte, tem enfatizado o seu caráter de absoluta excepcionalidade, restringindo a sua incidência às hipóteses de litígios cuja potencialidade ofensiva revele-se apta a vulnerar os valores que informam o princípio fundamental que rege, em nosso ordenamento jurídico, o pacto da Federação.

Ausente qualquer situação que introduza a instabilidade no equilíbrio federativo ou que ocasione a ruptura da harmonia que deve prevalecer nas relações entre as entidades integrantes do Estado Federal, deixa de incidir, ante a inocorrência dos seus pressupostos de atuação, a norma de competên- cia prevista no art. 102, I, f, da Constituição.

Causas de conteúdo estritamente patrimonial, fundadas em títulos exe- cutivos extrajudiciais, sem qualquer substrato político, não justificam se instaure a competência do Supremo Tribunal Federal prevista no art. 102, I, f, da Constituição, ainda que nelas figurem, como sujeitos da relação litigiosa, em pessoa estatal e um ente dotado de paraestatalidade.”

Nesse passo, uma vez reconhecida, na espécie, a ausência de conflito inerente à violação do pacto federativo, tem-se que essa Colenda Corte é absolutamente incompetente para processar e julgar a presente Ação Cível Originária, à conside- ração que não restou configurada a hipótese prevista pelo art. 102, I, f da Constitui- ção Federal.

Incidência da Lei n. 8.038/90, art. 38.

Tais as considerações, é o parecer pelo não seguimento da ação cível originária em comento.”

Em questão de ordem, submeto ao Tribunal a questão de sua competência originária para o processo.

É o relatório.

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23

VOTO

O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Relator): A jurisprudência invocada no parecer da Procuradoria-Geral é fruto do que já chamei de audaciosa redução teleológica na inteligência da alínea f do art. 102, III, da Constituição, de modo a adstringir a sua competência originária para causas cíveis em que entidades da Administração indireta federal, estadual ou distrital contendam entre si ou com entidade política da Federação diversa daquela a cuja estrutura se integrem àquelas nas quais, pelo objeto da ação ou a natureza da questão envolvida, se reconheça “conflito federativo”. Todos os precedentes que lastrearam dita orientação pretoriana são atinentes a processos em que partes uma ou mais entidades da Administração indireta: confiram-se tanto os casos em que — considerado o conteúdo da lide — se concluiu pela incompe- tência do Tribunal (v.g., sob a Constituição vigente: ACO 396-QO, 28-3-90, RTJ 132/ 109; ACO 417, 18-11-90, Pertence, RTJ 133/1059; ACO 359-QO, 4-8-93, Celso, RTJ 152/ 366; Pet 1.286-AgR, 28-5-97, Ilmar, DJ de 29-5-98; ACO 509-AgR, 3-6-97, Velloso, RTJ 179/32; ACO 573-QO, Ilmar, RTJ 172/354; ACO 519-QO, 2-9-99, Néri, DJ de 28-4-00), quanto aqueles outros nos quais — segundo o mesmo critério de ponderação das implica- ções federativas do conflito —, o Supremo se declarou competente (v.g., ACO 477-QO, 18- 10-95, Moreira, RTJ 162/437 — domínio de terras devolutas disputado entre autarquia federal e Estado-Membro; ACO 593-QO, 7-6-01, Néri, RTJ 182/420 — relativa a apro- veitamento de potencial hidráulico; ACO 515-QO, 4-9-02, Ellen, RTJ 183/8 — atinente a extensão da imunidade tributária recíproca à autarquia federal; ACO 730, 22-9-04, Joaquim, DJ de 1º-10-04 — MS contra o Banco Central, a respeito do poder de CPI estadual para requisitar quebra de sigilo bancário). Ao contrário, quando o conflito se trava entre duas entidades políticas da Federa- ção — União, Estado-membro e Distrito Federal —, o Tribunal tem invariavelmente reconhecido a sua competência originária, independentemente da maior ou menor relevância federativa do objeto ou das questões envolvidas na lide. Assim, na ACO 447-QO, para rejeitar a preliminar de incompetência suscitada pela PGR, o Tribunal, por votação unânime, acolheu o voto do Relator, em. Ministro Octavio Galloti, para assentar, conforme a ementa — DJ de 14-5-93 e JSTF, Lex 177/5:

“Competência originária do Supremo Tribunal, anteriormente recusada por não se caracterizar conflito federativo, em ação movida por empresa pública federal (EBTU), contra o Distrito Federal. Solução que não mais subsiste quando, liquidada a empresa, passa a União a figurar formalmente como ré na relação processual (art. 102, I, f, da Constituição), caso em que se impõe o reconhecimento da competência desta Corte.” No voto condutor, frisou o Ministro Gallotti:

“O temperamento instituído pelo Tribunal em relação aos entes da adminis- tração indireta, segundo a natureza da causa, não encontra lugar, em meu entender, quando se passe a tratar de ação em que sejam formalmente partes, num pólo, a União Federal e, no outro, algum Estado da Federação ou o Distrito Federal.

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R.T.J. — 196

Nessa última hipótese, que é a dos autos (Autor o Distrito Federal e Ré a própria União), julgo inarredável o reconhecimento da competência originária do Supremo Tribunal, nos termos do art. 102, I, f, da Constituição.”

Na mesma trilha, a decisão — novamente contra o parecer do Ministério Público Federal — do MS 22.042, 22-2-95, Relator o em. Ministro Moreira Alves, cujo voto partiu da existência de conflito entre o órgão do Estado-Membro — o Ministério Público do Estado de Roraima — e o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, acerca da competência para compor a lista tríplice de candidatos ao quinto do MP na composi- ção inicial do Tribunal de Justiça daquela unidade federada, então recém-criada (RTJ

164/122).

Recordo finalmente a ACO 391, quando se reconheceu firmada a competência origi- nária do Supremo Tribunal para conhecer de ação da imissão de posse proposta por socie- dade de economia mista estadual contra particular, dadas a intervenção do Estado em apoio da autora, de um lado, e, de outro, a oposição deduzida pela União, pretendendo-se titular do domínio do imóvel (ACO 391, 2-10-96, Rel. vencido Velloso, DJ de 4-4-97). Essa distinção da jurisprudência — que circunscreveu à esfera da Administração indireta a interpretação redutora da sua competência originária — se não se extrai da literalidade da alínea questionada, tem explicação histórica, bem recordada no parecer do il. Procurador da República Paulo Gonet Branco, do qual partiu meu voto no primeiro dos precedentes referidos (ACO 417-QO, RTJ 133/1059). Com efeito.

A competência originária do Supremo, no ponto, se manteve restrita “às causas e

conflitos entre a União e os Estados, ou entre estes uns com os outros”, na primeira Constituição da República (art. 59, I, c) até a Carta de 1967, que a estendeu às entidades das respectivas administrações indiretas: a partir de então é que — sempre limitada ao âmbito da inovação — surgiu a redução teleológica de sua literalidade na jurisprudên- cia do Tribunal, seja para adstringir-lhe o alcance às hipóteses em que “a causa envol- vesse entes localizados em unidades federadas diversas” (ACO 202, Xavier, RTJ 68/3), seja — critério que domina mais recentemente —, àquelas nas quais a lide, por seu

objeto ou pela relevância dos temas jurídicos suscitados, possa “pôr em risco o equilíbrio federativo”.

O caso, no entanto, é de ação proposta por uma unidade federada, o Distrito Federal,

contra a União, caso em que, repito, à fixação da competência originária do Tribunal sempre bastou a qualidade das pessoas estatais envolvidas, entidades políticas compo- nentes da Federação, não obstante a estatura menor da questão.

Esse o quadro, resolvo a questão de ordem no sentido de declarar a competência do Supremo Tribunal: é o meu voto.

O Sr. Ministro Marco Aurélio: Senhor Presidente, o pano de fundo é único: a

cessão de certa servidora e a controvérsia quanto à responsabilidade pelo pagamento dos vencimentos. Ante esse aspecto e considerado o voto que proferi há pouco em reclamação voltada não a obstaculizar a transposição do Rio São Francisco, mas a implementar trabalho de conservação ambiental, peço vênia ao Relator para concluir pela incompetência da Corte.

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VOTO

O Sr. Ministro Carlos Britto: Sr. Presidente, com a devida vênia do Ministro Relator, acompanho a divergência apontada pelo Ministro Marco Aurélio.

EXTRATO DA ATA

ACO 555-QO/DF — Relator: Ministro Sepúlveda Pertence. Autor: Distrito Federal (Advogada: PGDF – Maria Zuleika de Oliveira Rocha). Ré: União (Advogado: Advogado- Geral da União). Decisão: O Tribunal, por maioria, resolveu a questão de ordem no sentido da competência do Supremo Tribunal Federal, nos termos do voto do Relator, vencidos os Ministros Marco Aurélio e Carlos Britto. Ausentes, justificadamente, os Ministros Celso de Mello e Carlos Velloso. Presidiu o julgamento o Ministro Nelson Jobim. Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda Pertence, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Gilmar Mendes, Cezar Peluso, Carlos Britto, Joa- quim Barbosa e Eros Grau. Vice-Procurador-Geral da República, Dr. Roberto Monteiro Gurgel Santos. Brasília, 4 de agosto de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

QUESTÃO DE ORDEM NA AÇÃO CÍVEL ORIGINÁRIA 684 — MG

Relator: O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence Autores: Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais e outro — Réu: Estado de Minas Gerais — Litisconsorte Passivo: Fundação Educacional de Caratinga – FUNEC Supremo Tribunal Federal: competência: ação civil pública em que autarquia federal controverte com Estado-Membro sobre a competência federal ou estadual para credenciar e autorizar o funcionamento de curso de nível superior de entidade privada de ensino: litígio acerca de divisão constitucional de competência entre a União e Estado-Membro, que atrai a competência originária do STF (CF, art. 102, I, f ); precedente (ACO 593-QO, Néri da Silveira, DJ de 14-12-2001).

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribu- nal Federal, em Sessão Plenária, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por maioria de votos, decidir a questão de ordem no sentido da competên- cia originária do Supremo Tribunal Federal, nos termos do voto do Relator. Brasília, 4 de agosto de 2005 — Nelson Jobim, Presidente — Sepúlveda Pertence, Relator.

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RELATÓRIO

O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Cuida-se de ação civil pública ajuizada pelo

Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais — entidade autárquica federal, o Sindicato dos Médicos de Minas Gerais e a Associação Médica de Minas Gerais, com

pedido de tutela antecipada, no Juízo Federal de primeira instância daquela unidade da Federação, com o objetivo de obter a nulidade do Decreto 42.178, de 20 de dezembro de 2001, DOE de 21-12-2001, pelo qual o Governador do Estado de Minas Gerais credenciou

a

Faculdade de Medicina de Caratinga, mantida pela Fundação Educacional de Caratinga,

e

autorizou o funcionamento do respectivo Curso de Medicina.

Funda-se o pedido na ilegalidade e na inconstitucionalidade do decreto estadual, por afronta à Lei 9.394/96 (Lei de ‘Diretrizes e Bases da Educação Nacional’) e aos artigos 22, XXIV, e 24, IX — regras que determinam a competência privativa da União para estabelecer as diretrizes e bases da educação nacional e para legislar concorrente- mente sobre educação — bem como ao artigo 211, todos da Constituição Federal.

O Juiz Federal da 21ª Vara de Minas Gerais, invocando o artigo 102, I, f, da Consti-

tuição Federal, declinou da competência para o Supremo Tribunal Federal (fls. 621/626).

Extrato da decisão de primeiro grau:

No caso em pauta, em face da suspensão cautelar da eficácia do art. 58,

caput e seus parágrafos (com exceção do § 3º), da Lei 9.649/98, na decisão profe- rida na ADI 1.717/DF pelo Supremo Tribunal Federal, as entidades fiscalizadoras

de profissões, entre elas o Conselho Regional de Medicina, retornaram a condição

de autarquias federais, dotadas de personalidade jurídica de direito público, inte- grantes, portanto, da administração indireta. Consoante se percebe, são conflitantes os interesses da autarquia federal de fiscalização do exercício profissional (CRM) e o interesse do Estado-Membro que credenciou e autorizou o funcionamento do Curso de Medicina, a despeito de se tratar de instituição de ensino superior mantida pela iniciativa privada e, nestas condições, apto a desencadear um possível desequilíbrio no pacto federativo tendo em vista as normas encartadas na Lei Fundamental acerca da repartição de compe- tência entre a União, Estados e o Distrito Federal para a organização de seus siste- mas de ensino e ainda a competência privativa da União para legislar sobre diretri- zes e bases da educação nacional.

Não desconheço que a competência prevista no art. 102, I, f, da Constituição restringe-se, segundo iterativos julgados da Suprema Corte, às hipóteses de litígios cuja potencialidade ofensiva revele-se apta a ofender o pacto federativo. Conquanto reconheça que a autarquia em questão, tenha sede e estrutura regional de representação no território estadual respectivo, na hipótese dos autos, todavia o tema em questão (organização dos respectivos sistemas de ensino) poderá deflagrar um possível desequilíbrio no pacto federativo, tendo em vista o disposto

no art. 81 e 82 e respectivos parágrafos, ambos do Ato das Disposições Transitórias

do Estado de Minas Gerais nos quais – não é demasiado recordar – o Estado- Membro sustenta a sua competência para credenciar e autorizar o funcionamento do Curso de Medicina ao fundamento de que a Fundação mantenedora do estabeleci- mento educacional integra o Sistema Estadual de Ensino, a despeito de se tratar de instituição de ensino superior mantida pela iniciativa privada”.

“(

)

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27

Após invocar precedente do STF (ACO-QO 593, Néri da Silveira), no qual se deci- diu pela competência deste Tribunal para “julgar demanda que comprometa o equilí- brio federativo e ainda disponha a respeito de competências no âmbito federativo”, continua o magistrado:

“No caso sob apreciação, a competência da Suprema Corte para conhecer e julgar a questão se revela ainda mais evidente quando se verifica que os arts. 81 e 82, ambos do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição do Estado de Minas Gerais, estão sendo alvo de controle concentrado de constitucionalidade mediante a propositura da ADI 2.501-5, Rel. o Sr. Ministro Moreira Alves, tendo o Tribunal conhecido parcialmente da ação relativamente aos parágrafos primeiro e segundo do art. 81 e ao artigo 82, com exceção do parágrafo terceiro, mas nesta parte, indeferido a medida cautelar, para suspender- lhes a eficácia. Diante deste quadro, o pano de fundo da presente ação — notadamente a alegada impossibilidade de a instituição de ensino superior mantida pela iniciativa privada permanecer sob a supervisão pedagógica do Conselho Estadual de Educação (art. 82, parágrafo primeiro, inciso II, do Ato das Disposições Constitucionais Tran- sitórias da Constituição do Estado de Minas Gerais — continua pendente de apre- ciação pela Suprema Corte a recomendar o julgamento simultâneo e decisão uni- forme dos feitos”.

A Procuradoria-Geral da República, em parecer do eminente Procurador-Geral

Cláudio Fonteles, opina pela devolução dos autos ao Juízo de origem, competente, no seu entender, para a causa.

Lê-se no parecer (fls. 642/648):

“Manifestando-se acerca do alcance da norma prevista o artigo 102, inciso I, alínea f, da Constituição Federal, este Excelso Pretório “tem enfatizado o seu

caráter de absoluta excepcionalidade, restringindo a sua incidência às hipóteses

de litígios cuja potencialidade ofensiva revele-se apta a vulnerar os valores que

informam o princípio fundamental que rege, em nosso ordenamento jurídico, o pacto da Federação. Ausente qualquer situação que introduza a instabilidade no equilíbrio federativo ou que ocasione a ruptura da harmonia que deve prevalecer nas relações entre as entidades integrantes do Estado Federal, deixa de incidir, ante a inocorrência dos seus pressupostos de atuação, a norma de competência prevista no art. 102, I, f, da Constituição”. (STF – Tribunal Pleno – ACO 359 QO/SP. Ministro-Relator: Celso de Mello, D.J. de 11.03.1994, p. 4110).

) (

Depreende-se da análise dos autos que o âmago da discussão em apreço circunscreve-se a possível usurpação de competência da União para “autorizar, reconhecer, credenciar, supervisionar e avaliar, respectivamente, os cursos das ins- tituições de educação superior”, criadas e mantidas pela iniciativa privada, conso- ante preceituam os artigos 9º e 16, da Lei Federal n. 9394/96.

A despeito da regra jurídica supracitada, releva ressaltar que, eventual usurpação da competência da União, como no presente caso, não tem o condão de

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gerar instabilidade no equilíbrio do pacto federativo, como decidiu o Juízo a quo. Existe, no ordenamento jurídico pátrio, meio adequado para resolver pendências desta natureza – controle concentrado de constitucionalidade.

) (

Neste contexto, afigura-se relevante trazer à colação decisão proferida por este Excelso Pretório em caso análogo, cujo teor restou consignado nos seguintes termos:

Decisão: Cabe verificar, preliminarmente, se a presente causa inclui-se, ou não, na esfera de competência originária do Supremo Tribunal Federal, especialmente em face da decisão, proferida pelo magistrado de primeira instância, de que se subsume, a espécie ora em exame, à regra consubstanciada no art. 102, I, f, da Constituição da República (fls. 270/271). Impõe-se ter presente, neste ponto, considerada a norma inscrita no art. 102, I, f, da Constituição, que essa regra de competência confere, ao Supremo Tribunal Federal, a posição eminente de Tribunal da Federação, atribuindo, a esta Corte, em tal condição institucional, o poder de dirimir as controvérsias, que, ao irromperem no seio do Estado Federal, culminam, perigosamente, por antagonizar as unidades federadas. Essa magna função jurídico-insti- tucional da Suprema Corte impõe-lhe o gravíssimo dever de velar pela in- tangibilidade do vínculo federativo e de zelar pelo equilíbrio harmonioso das relações políticas entre as pessoas estatais que integram a Federação

É por tal razão que esse preceito constitucional somente

brasileira. (

incide naquelas controvérsias que possam provocar situações caracteriza- doras de conflito federativo (RTJ 132/109 - RTJ 132/120). O alcance dessa regra de competência originária do Supremo Tribunal Federal foi claramente exposto pelo eminente Ministro Sepúlveda Pertence, que, ao julgar a ACO

417/PA, destacou a ratio subjacente à norma constitucional em questão, assi-

) a jurisprudência da

Corte traduz uma audaciosa redução do alcance literal da alínea questionada da sua competência original: cuida-se, porém, de redução teleológica e siste- maticamente bem fundamentada, tão-manifesta, em causas como esta, se

mostra a ausência dos fatores determinantes da excepcional competência originária do STF para o deslinde jurisdicional dos conflitos federativos.” (RTJ 133/1059-1062, 1062 - grifei)

)

nalando-lhe o caráter de absoluta excepcionalidade: “(

) (

A partir dessa orientação, mostra-se inequívoco que o preceito cons- tante do art. 102, I, f, in fine, da Constituição revela-se inaplicável aos litígios, que, desvestidos de qualquer projeção de caráter institucional, em nada afe- tam as relações políticas entre as unidades federadas (RTJ 81/675, Rel. Min. Leitão de Abreu - RTJ 95/485, Rel. Min. Xavier de Albuquerque), tal como ocorre na espécie ora em exame. A diretriz jurisprudencial prevalecente no Supremo Tribunal Federal, firmada a partir da exegese da regra inscrita no art. 102, I, f, da Constituição, resultou de sucessivas decisões que não têm reconhecido, na mera instauração de processos judiciais, a possibilidade de ocorrência de conflito federativo, notadamente quando se tratar de causas promovidas (a) por sociedade de economia mista federal contra entidade da

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administração indireta de Estado-membro (RTJ 132/109, Rel. Min. Sydney Sanches - RTJ 132/120, Rel. Min. Sydney Sanches), ou (b) por sociedade de economia mista federal contra Estado-membro da Federação (RTJ 98/5, Rel. Min. Leitão de Abreu), ou (c) por sociedade de economia mista, instituída pelo Distrito Federal, contra Estado-membro (ACO 597-AgR/SC, Rel. Min. Celso de Mello), ou (d) por Estado-membro contra sociedade de economia mista federal (ACO 193/PE, Rel. Min. Djaci Falcão), ou (e) por autarquia federal contra Estado-membro (RTJ 133/1059, Rel. Min. Sepúlveda Pertence - ACO 482/RJ, Rel. Min. Carlos Velloso), ou (f) por empresa pública federal contra o Distrito Federal (ACO 428/DF, Rel. Min. Carlos Velloso), ou, ainda, (g) por Estado-membro contra autarquia federal (RTJ 62/563, Rel. Min. Bilac Pinto - ACO 450/PE, Rel. Min. Sepúlveda Pertence), mesmo porque - conso- ante tem sido sempre enfatizado - tais controvérsias não caracterizam, só por si, “conflito de interesses capaz de pôr em risco a harmonia federativa(ACO 537/MG, Rel. Min. Nelson Jobim - grifei). ( ) (STF – ACO 641/AC. Ministro-Relator: Celso de Mello. DJ 19.12.2002, p. 136, sem grifos no original). Na esteira de tal entendimento, infere-se que a controvérsia em apreço não é suficiente para atrair a competência desta Excelsa Corte para julgar o presente feito. A discussão travada nos autos da ação civil pública não tem o condão de colocar em risco a harmonia federativa, razão porque a presente ação cível originá- ria não deve ser conhecida.” Para que se decida sobre a competência, submeto o caso ao Plenário, em questão de ordem. É o relatório.

VOTO

O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Relator): Não têm pertinência à espécie os precedentes recordados no parecer da Procuradoria-Geral da República, nos quais o Tribunal se declarou incompetente. Assim, v.g., na ACO 417, Pertence, cuidava-se de mera ação de cobrança de contri- buições previdenciárias movida pelo Iapas contra Estado-Membro; na ACO 597, Celso, instituição financeira de economia mista questionava “a validade jurídica de opera- ções de índole financeira e de conteúdo negocial e obrigacional”. Para temas como esses, de cunho meramente patrimonial, é que entendo sustentável a “redução teleológica” a que procedeu o Tribunal na dicção literal do art. 102, I, f, da Constituição. Ao contrário, não há como negar que é desta Corte a competência originária para conhecer de causa em que pessoas jurídicas relacionadas naquele inciso litigam acerca da divisão constitucional de competência entre a União e os Estados-Membros. Nesse sentido, por exemplo, a afirmação da competência originária do Supremo na ACO 593, 7-6-01, Relator o em. Ministro Néri da Silveira, que dizia “com as compe- tências da União Federal e dos Estados, acerca do aproveitamento dos potenciais hidráu- licos e da realização de obras atingindo rios de curso interestadual e ainda a respeito

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da partição de competências, no âmbito federativo, sobre a proteção ambiental e os embaraços que Estados possam opor a obras atinentes à geração de energia elétrica”. Estou em que, igualmente, se impõe reconhecê-la na espécie, em que autarquia federal controverte com Estado-Membro sobre a competência federal ou estadual para credenciar e autorizar o funcionamento de curso de nível superior de entidade privada de ensino. Desnecessário demonstrar que, para o fim cogitado, não se reduz o risco de “conflito federativo” à iminência de guerra civil ou similar; basta cuidar-se de controvérsia jurídica relevante sobre a demarcação dos âmbitos materiais de competência dos entes que com- põem a Federação. Resolvo, pois, a questão de ordem no sentido de declarar a competência originária do Supremo Tribunal para o caso: é o meu voto.

O Sr. Ministro Marco Aurélio: Senhor Presidente, reafirmo o caráter excepcional da competência da Corte. Não deixo de reconhecer que o Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais

é uma autarquia corporativista. Todavia, esse fato — e estamos aqui diante de um conse-

lho regional e não de um conselho federal — não é suficiente para atrair a competência do Supremo, no que ajuizada, pelo citado Conselho, ação civil pública contra o Estado de Minas Gerais.

Por isso, peço vênia para subscrever o parecer da Procuradoria-Geral da República

e assentar a incompetência da Corte.

EXTRATO DA ATA

ACO 684-QO/MG — Relator: Ministro Sepúlveda Pertence. Autores: Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais e outro (Advogados: Paulo Neves de Carvalho e outro, Silmara Nogueira Vidal e outro). Réu: Estado de Minas Gerais (Advogado: PGE/ MG – Roney Luiz Torres Alves da Silva). Litisconsorte Passivo: Fundação Educacional de Caratinga – FUNEC (Advogado: Thales Rezende Coelho Alves). Decisão: O Tribunal, por maioria, decidiu a questão de ordem no sentido da competência originária do Supremo Tribunal Federal, nos termos do voto do Relator, vencidos os Ministros Marco Aurélio e Carlos Britto. Ausentes, justificadamente, os Ministros Celso de Mello e Carlos Velloso. Presidiu o julgamento o Ministro Nelson Jobim. Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda Pertence, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Gilmar Mendes, Cezar Peluso, Carlos Britto, Joa- quim Barbosa e Eros Grau. Vice-Procurador-Geral da República, Dr. Roberto Monteiro Gurgel Santos. Brasília, 4 de agosto de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

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AGRAVO REGIMENTAL NA AÇÃO CAUTELAR 700 — RO

Relator: O Sr. Ministro Carlos Britto Agravante: Marcos Antônio Donadon — Agravado: Ministério Público do Estado de Rondônia

Constitucional. Imunidade processual. CF, art. 53, § 3º, na redação da EC 35/2001. Deputado estadual. Mandatos sucessivos. Efeito suspensivo a recurso extraordinário. Liminar indeferida. Agravo regimental. O Supremo Tribunal Federal, em várias oportunidades, firmou o entendimento de que a Emenda Constitucional n. 35, publicada em 21-12- 2001, tem aplicabilidade imediata, por referir-se a imunidade processual, apta a alcançar as situações em curso. Referida emenda “suprimiu, para efeito de prosseguimento da persecutio criminis, a necessidade de licença parlamentar, distinguindo, ainda, entre delitos ocorridos antes e após a diplomação, para admitir, somente quanto a estes últimos, a possibilidade de suspensão do curso da ação penal” (Inq 1.637, Ministro Celso de Mello). Em face desta orientação, carece de plausibilidade jurídica, para o fim de atribuir-se efeito suspensivo a recurso extraordinário, a tese de que a norma inscrita no atual § 3º do art. 53 da Magna Carta se aplica tam- bém a crimes ocorridos após a diplomação de mandatos pretéritos. Agravo regimental desprovido.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, sob a Presidência do Ministro Sepúlveda Pertence, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, conhecer do agravo regimental na ação cautelar, mas lhe negar provimento, nos termos do voto do Relator. Brasília, 19 de abril de 2005 — Sepúlveda Pertence, Presidente — Carlos Ayres Britto, Relator.

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Carlos Ayres Britto: Trata-se de agravo regimental contra decisão que indeferiu o requerimento de liminar, feito em ação cautelar; esta ajuizada com o objetivo de imprimir efeito suspensivo ao RE 429.167, interposto pelo Deputado estadual rondoniano Marcos Antônio Donadon. 2. Começo por esclarecer que o referido parlamentar responde a uma ação penal no Tribunal de Justiça, por crimes contra a Administração Pública estadual, que ele teria praticado quando exercia o cargo de Presidente da Assembléia Legislativa do Estado de Rondônia. Crimes previstos nos artigos 288 e 312 do Código Penal (quadrilha ou bando e peculato).

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3. Ao oferecer a denúncia, em junho de 1999, o Procurador-Geral de Justiça solici-

tou autorização da mesma Assembléia para abertura do processo. Entretanto, com o advento da Emenda Constitucional 35/2001, que alterou a redação do art. 53 da Magna Carta, essa providência (licença da Assembléia) se tornou desnecessária e, em conseqüên-

cia, a denúncia foi recebida.

4. Ato contínuo, o processo foi suspenso, na forma do novel § 3º do art. 53 da Lex

Legum, conforme decisão da Casa Legislativa, acatada pela Relatora do feito. Inconfor- mado, agravou regimentalmente o Procurador-Geral, ao fundamento de que todos os supostos crimes foram cometidos antes da diplomação do réu, razão pela qual não poderia este se beneficiar da chamada imunidade formal ou processual.

5. Essa tese jurídica — acrescento eu — foi aceita pelo Tribunal de Justiça, dando

ensejo ao recurso extraordinário acima referido, cujos autos se encontravam na Procura- doria-Geral da República, à época em que proferi a decisão ora impugnada.

6. No recurso e nesta ação cautelar, o requerente — hoje cumprindo o terceiro

mandato — desenvolve o seguinte raciocínio, in verbis (fl. 06):

“ (

)

) crime ocorrido após

a diplomação (

de estar em curso, em mandato atual. Não há na letra da Carta Magna qualquer restrição quanto a crimes ocorridos após a diplomação de mandatos pretéritos.

haveria

O texto da Constituição Federal faz alusão apenas a “(

)”,

não especificando que a referida “(

)

diplomação (

)”

)” (

7. Dito isso, anoto que o peticionário, ao requerer efeito suspensivo ao citado

apelo extremo, tem em mira “a imediata suspensão dos efeitos do julgado impugnado, impedindo-se, por conseguinte, a tramitação do processo criminal contra o requerente, até deliberação definitiva desse Egrégio Supremo Tribunal Federal no Recurso Extraor- dinário”. Nada obstante, por entender ausente o requisito do fumus boni iuris, tive que indeferir a liminar.

8. Pois bem, irresignado, o combativo parlamentar assestou o presente agravo

regimental. Neste, repisou os fundamentos da inicial, acrescidos de lições doutrinárias e do argumento de que a eventual suspensão do processo não prejudicará a persecutio criminis ao término do mandato, pois suspensa também estará a prescrição, na forma do art. 53, § 5º, da Carta de Outubro.

10. O perigo da demora persiste, segundo o agravante, pois ele foi intimado para

comparecer à audiência de sumário de culpa, designada para o dia 27-4-2005. Observa

ele, ademais, que o processo penal está sendo conduzido, na origem, com inusitada celeridade.

11. Por fim, como tenho por acertado o ponto de vista constante da decisão atacada,

submeto-a ao exame desta egrégia Turma, juntamente com o agravo regimental.

É o relatório.

R.T.J. — 196

33

VOTO

O Sr. Ministro Carlos Ayres Britto (Relator): Atesto, inicialmente, que a decisão agravada foi proferida em 30-3-2005, quando a urgência do pedido se media pela imi- nência do interrogatório do requerente, marcado para o dia seguinte. Como o interroga- tório já foi realizado, a inquietação do agravante volta-se para a audiência destinada à oitiva das testemunhas de acusação, designada para o dia 27-4-2005.

14. Feito esse esclarecimento, transcrevo a parte nuclear da decisão agravada, in

verbis (fl. 107):

“11. Resta a aparência do bom direito, a ser extraída da dicção do art. 53, § 3º, da Carta de Outubro, que tem o seguinte teor:

“Art. 53 ( ) § 3º Recebida a denúncia contra Senador ou Deputado, por crime ocor- rido após a diplomação, o Supremo Tribunal Federal dará ciência à Casa respectiva, que, por iniciativa de partido político nela representado e pelo voto da maioria de seus membros, poderá, até a decisão final, sustar o anda- mento da ação.”

12. Ora, não me cabe fazer nenhum prejulgamento de mérito, neste passo.

Mas a primeira leitura que se faz do texto acima transcrito traz a idéia de que a diplomação, no caso, é aquela que deu origem ao mandato atual do parlamentar, numa relação de causa e conseqüência. Mandatos anteriores resultaram de

diplomações que já exauriram seus efeitos. Assim, fica difícil, à primeira vista, projetar a imunidade processual de uma investidura para outra, transitando-se no tempo sem respeitar os marcos fixados por duas manifestações distintas da vontade popular. Afinal, um mandato não é continuação do outro.

13. Por isso é que a tese do recorrente merece maior reflexão, a ser feita

oportunamente nos autos do recurso extraordinário, se ultrapassada a fase do

conhecimento.

14. Não é caso, portanto, de liminar. É caso, sim, de dar-se vista ao Ministério

Público Federal, seja porque lá se encontram os autos principais, seja porque o requerido, aqui, é o Ministério Público Estadual.”

15. Devo informar aos eminentes Pares que, neste ínterim, a douta Procuradoria-

Geral da República exarou parecer sobre a matéria, manifestando-se “pelo conhecimento em parte do recurso e, nesta, pelo seu improvimento”.

16. Em face deste quadro, seria mais prático realizar, primeiramente, o exame do

apelo extremo, que poderia implicar o prejuízo deste agravo e, por extensão, da própria cautelar, por perda de objeto. Mas o julgamento daquele recurso depende de pauta e de

outras formalidades que certamente não se cumprirão até o dia 27-4-2005. Então, para não frustrar a expectativa da parte, trago a decisão combatida à elevada apreciação da Turma. E desde já confirmo o meu entendimento de que não se faz presente um dos requisitos necessários ao deferimento da cautelar, qual seja, o fumus boni iuris.

34

R.T.J. — 196

17. Bem ao contrário, os precedentes desta Casa de Justiça consagram tese jurídica

em colisão com a defendida pela parte acionante. Refiro-me aos julgamentos que tinham como objeto a EC 35/2001, todos no sentido da aplicabilidade imediata das novas regras, pelo seu cunho processual.

18. Neste passo, cabe citar, entre outras, a decisão proferida pelo Relator do Inquérito

1.637, Ministro Celso de Melo, da qual extraio o seguinte trecho (que passo a acolher no

seu exclusivo aspecto de Direito Processual):

“Torna-se relevante observar, neste ponto — considerado o princípio da incidência imediata das normas constitucionais (Pontes de Miranda, Comentários à Constituição de 1967 com a Emenda n. 1 de 1969, tomo VI/385 e 392, 2ª ed./2ª tir., 1974, RT) —, que estas, salvo disposição em sentido contrário, alcançam, desde logo, situações em curso (RTJ 143/306-307, Rel. Min. Celso de Mello), o que legitima a pronta aplicabilidade da EC n. 35/2001, inclusive no que se refere à desnecessidade da solicitação, por parte do Supremo Tribunal Federal, de prévia licença, ainda que se cuide de fatos delituosos ocorridos anteriormente à promul- gação da referida emenda constitucional, pois, conforme tem salientado a jurispru- dência desta Suprema Corte, a aplicação de qualquer nova regra de direito consti- tucional positivo rege-se pelo postulado da imediatidade eficacial.”

19. Disse, mais, Sua Excelência, em passagem que se identifica com o presente

caso, in verbis:

“A EC n. 35/2001, ao introduzir modificações no art. 53 da Carta da República, suprimiu, para efeito de prosseguimento da persecutio criminis, a necessidade de licença parlamentar, distinguindo, ainda, entre delitos ocorridos antes e após a diplomação, para admitir, somente quanto a estes últimos, a possibilidade de sus- pensão do curso da ação penal (CF, art. 53, §§ 3º a 5º).”

20. Pelo exposto, voto pelo desprovimento do agravo regimental.

EXTRATO DA ATA

AC 700-AgR/RO — Relator: Ministro Carlos Britto. Agravante: Marcos Antônio Donadon (Advogados: Bruno Rodrigues e outro). Agravado: Ministério Público do Estado de Rondônia. Decisão: A Turma conheceu do agravo regimental na ação cautelar, mas lhe negou provimento, nos termos do voto do Relator. Unânime. Não participou deste julgamento o Ministro Marco Aurélio. Ausente, justificadamente, o Ministro Eros Grau. Presidência do Ministro Sepúlveda Pertence. Presentes à sessão os Ministros Marco Aurélio, Cezar Peluso e Carlos Britto. Ausente, justificadamente, o Ministro Eros Grau. Subprocurador-Geral da República, Dr. Eitel Santiago de Brito Pereira. Brasília, 19 de abril de 2005 — Ricardo Dias Duarte, Coordenador.

R.T.J. — 196

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EXTENSÃO NA EXTRADIÇÃO 900 — CONFEDERAÇÃO HELVÉTICA

Relator: O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence

Requerente: Governo da Suíça — Extraditando: Thomas Remmele Extradição: extensão: deferimento em parte.

1. Deferimento com relação aos crimes de fraude comercial (Código

Penal suíço, art. 146), falsificação de documentos (Código Penal suíço, art. 251) e falsificação de documento de identidade (Código Penal suíço,

art. 252), que atendem aos requisitos da dúplice tipicidade.

2. Indeferimento quanto aos delitos de desfalque, sob a modalidade

de apropriação de bem originário de contrato de leasing (Código Penal suíço, art. 138, I), consumo sem pagar (Código Penal suíço, art. 149) e infração grave contra as leis de trânsito por excesso de velocidade (Código de Trânsito suíço, art. 90), que não encontram adequação típica no direito brasileiro.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em Sessão Plenária, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, conceder o pedido de extensão na extradição, restrita aos crimes de fraude comercial, falsificação de documentos e de falsificação de documentos de identidade, tudo nos termos do Relator. Brasília, 31 de agosto de 2005 — Nelson Jobim, Presidente — Sepúlveda Pertence, Relator.

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Em setembro de 2003, o Governo da Suíça, fundado em ordem de prisão preventiva emitida pelo Juizado de Instrução Criminal, Seção III, de Bern-Mittelland, datada de 19-8-2003, requereu a extradição de Thomas Remmele para responder pelos crimes de desfalque (Código Penal suíço, artigo 138, cifra I), fraude comercial (Código Penal suíço, art. 146, parágrafos 1, 2 e 3), falsificação de documentos (Código Penal suíço, art. 251), falsificação de documento de identidade (Código Penal suíço, art. 252) e infração contra as leis de trânsito por excesso de veloci- dade (art. 27, parágrafo 1, e art. 90, cifra 2 SVG). O pedido de extradição, julgado em 31-3-2004, foi deferido em parte, apenas no tocante aos delitos de fraude comercial (art. 146 do Código Penal suíço), falsificação de documentos (art. 251 do Código Penal suíço) e falsificação de documento de identidade (art. 252 do Código Penal suíço). Quanto às demais acusações — a de desfalque (art. 138, I, do Código Penal suíço) e a de infração contra as leis de trânsito (artigo 90 do Código de Trânsito suíço) — a extradição foi indeferida por falta de tipicidade penal no direito brasileiro.

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Esta a ementa do acórdão (fl. 116):

Extradição: requisito da dúplice tipicidade: atipicidade, no Brasil, de fatos incriminados na legislação penal suíça.

1. Leasing: atipicidade penal, no Brasil, da não devolução do objeto do

leasing, na hipótese do inadimplemento do arrendatário.

2. Crimes de trânsito: atipicidade, no Brasil, do excesso de velocidade,

incriminado na Suíça.”

A extradição — conforme informação do Ministério da Justiça (fls. 127/129) —

veio finalmente a efetivar-se em 18-5-2004. Em 29-3-2005, o Sr. Ministro da Justiça encaminhou ao Tribunal pedido do Governo da Suíça, de extensão da extradição já deferida, para que se autorize responda Thomas Remmele pelos delitos de fraude comercial (Código Penal suíço, art. 146, pará- grafos 1 e 2) e falsificação de documentos de identidade (Código Penal suíço, art. 252), cometidos entre dezembro de 2000 e março de 2001; desfalque (Código Penal suíço, art. 138, cifra 1), cometido a partir de 20 de outubro de 1998; consumo sem pagar (Código Penal, art. 149), cometido do dia 1º ao dia 5 de outubro de 2000, e infração grave contra as leis de trânsito (artigo 27, parágrafo 1, e art. 90, cifra 2 SVG), cometida no dia 9 de setembro de 1999.

O pedido de extensão está acompanhado de documentação nos idiomas alemão e

português, constituída de mandado de captura suplementar, de 28 de janeiro de 2005, emanado da Juíza de Instrução Criminal 4 de Bern-Mittelland, Suíça, que contém resumo

da exposição dos fatos e transcrições dos dispositivos do Código Penal suíço e da Lei de trânsito aplicáveis (fls. 138/141), bem como de declaração de Thomas Remmele perante

o mencionado Juizado de Instrução Criminal, de que está de acordo “explicitamente e

por livre vontadecom o procedimento criminal pelos crimes que enumera, que não foram objeto do julgamento do pedido de extradição de 31-3-2004 (fls. 142/143), entre os quais estão os referidos no presente pedido de extensão.

Atento à jurisprudência assente do Tribunal que exige, para que tenha curso o processo de extensão, que o extraditando seja interrogado a respeito dos fatos que o motivam, para esse fim determinei a notificação do Governo da Suíça, que, por sua

embaixada no Brasil, encaminhou, por intermédio do Ministério das Relações Exteriores,

o interrogatório de Thomas Remmele (documento no original em alemão, acompanhado de tradução), no qual se lê (fls. 174/175)). “Tendo sido citado por carta escrita, comparece:

Remmele Thomas, nascido a 31.12.1969 em Berna, natural de Belp BE, filho de Walter Erwin e Maria Margrit Aebischer, empregado, casado com De Faria Kely Cristina, Hardstr. 57, 5432, Neuenhof Verbal:

O representante do réu, advogado Dr. Iur. Patrick Stach, foi informado sobre a data (da audiência), mas renuncia a estar presente. Remmele Thomas deposita como réu:

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Tomo conhecimento, que hoje vou ser interrogado novamente a pedido do Brasil acerca dos factos contidos no mandado de prisão posterior do 28.01.2005 e estou pronto a dar informações.

Confirmo todos os depoimentos dados perante os tribunais de instrução cri- minal, particularmente aqueles feitos no dia 7 de outubro 2004 por ocasião do interrogatório pormenorizado feito pela juíza de instrução.

Tomo conhecimento que tenho direito de chamar um advogado no Brasil para o procedimento de extradição.

Com respeito a cifra 1, mandado de prisão posterior de 28.01.2005, fraude comercial, respectivamente tentativa de fraude comercial, assim como falsifica- ção de documentos em prejuízo da GE Capital Bank: o que você diz sobre isso?

Confirmo os factos, como são contidos no mandado de prisão posterior e admito ter cometido aqueles delitos.

Com respeito a cifra 2 mandado de prisão posterior do 28.01.2005, desfalque de um automóvel: o que você diz sobre isso?

Os factos como estão descritos no mandado de prisão posterior, estão correctos. Comecei o leasing em Julho 1995. Vendi o automóvel em vez de o devolver à firma de leasing. Eu sei que não devia ter feito isso.

Com respeito a cifra 3 mandado de prisãoposterior do 28.01.2005, consumo sem pagar para a desvantagem do Hotel Steghof, Luzern: o que você diz sobre isso?

É verdade que não paguei as contas do hotel na importância de CHF 650.00.

Com respeito a cifra 4 mandado de prisão posterior do 28.01.2005, infracção grave contra as leis de trânsito: o que você diz sobre isso?

É verdade que guiei o automóvel com velocidade excessiva. Reconheço os

factos como foram descritos no mandado de prisão posterior.

Estou de acordo que eu seja perseguido judicialmente por causa destes delitos e remeto-me à minha declaração do 07.10.2004 respeitante a este assunto.

Tomo conhecimento de que as infracções contra a lei de loteria e de AHV mencionadas na declaração do 07.10.2004 não são mais prosseguidas pelas auto- ridades suíças por causa do começo da prescrição.”

A Defensoria Pública da União, em defesa do extraditando, manifestou-se favora-

velmente à extensão (fls. 182/183).

O Ministério Público Federal — parecer do il. Procurador-Geral da República

Antonio Fernando de Souza — opinou pelo deferimento, em parte, do pedido (fls.

188/194).

É o relatório.

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VOTO

O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Relator): Colho do parecer do em. Procurador-

Geral da República:

Ab initio, cumpre apontar que a jurisprudência do e. STF admite a extensão da extradição de modo a abranger fatos anteriores ao pedido extradicional deferido. Vale citar:

Despacho: “Decisão. Pedido de extensão de extradição - Interrogatório. 1. O Governo da Itália formaliza pedido de extensão da Extradição 716-5, deferida parcialmente em 18 de novembro de 1997 (folha 146 a 163) e

executada no dia 16 de agosto de 2000 (folha 540), com a entrega do extra- ditando Clemente Ferrara às autoridades policiais daquele País. 2. A Corte, em entendimento reiterado - Questão de Ordem na Extradição n. 444, Questão de Ordem na Extradição n. 462 e Extradição 840 - sobre o que versa o artigo 91, inciso I, da Lei 6.815/80, estabeleceu que o Estado requerente de extradi- ção já concedida pode solicitar a extensão para a persecução penal pela prática de delito diverso do que motivou o primeiro pedido desde que tenha

)” ( Ext.

716 – extensão. Rel. Min. Marco Aurélio. DJ de 06/06/2005). Se não bastasse, a hipótese é objeto do Tratado de Extradição firmado entre

o Brasil e a Suíça, previsto no seu artigo V:

“Art. V A pessoa extraditada não poderá ser processada nem punida por qual- quer delito perpetrado antes da extradição e diverso do que motivou o pedido, salvo se o Estado requerido houver consentido em processos ulteriores ( Desta forma, o Ministério Público Federal opina pelo processamento do pleito. Ultrapassada tal preliminar, verifica-se, da análise deste processo, que o Estado requerente dispõe da competência jurisdicional para processar e julgar os delitos imputados a Thomas Remmele, que é nacional Suíço (fls. 138) e naquele país teria cometido os ilícitos penais de que é acusado, conforme informações constante a fls. 138/143 (art. 78, inc. I, da Lei n. 6.815/80). Vislumbra-se, também, presentes nos autos todos os documentos necessários ao pedido formal de extradição elencados no art. 80 do Estatuto do Estrangeiro, traduzidos para o português, de modo a permitir ao e. Supremo Tribunal Federal o exame seguro da legalidade da pretensão extradicional. Quanto ao requisito da dupla tipicidade (art. 77, inc. II, do Estatuto do Es- trangeiro) há de se salientar que:

sido praticado em momento anterior ao deferimento do pleito (

São imputados ao nacional suíço, em síntese, os seguintes fatos:

a) No dia 27 de 03 de 2001 o Banco GE Capital Bank Brugg denun- ciou Dennler Tobias e Rosser Patrick por causa de fraude. As investigações revelaram que Remmele Thomas tinha atuado com estes nomes e que tinha submetido para o Banco GE Capital Bank Brugg 26 pedidos de financiamento

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para fregueses fictícios para o financiamento de compras de automóveis. Em anexo, tinha mandado cópias de documentos de motorista falsificados e contratos de compra falsificados. O montante de crédito e a provisão de comerciante, ele mandava creditar para contas estabelecidas em nome falso (fls. 138/139). Consta a fls. 143 que os referidos fatos foram praticados entre dezembro de 2000 a março de 2001.

b) Em 20/10/1998 Thomas Remmele não devolveu o automóvel da

marca BMW 325, Coupé à instituição financeira GE Capital Bank que havia sido objeto de contrato de leasing (fls. 142). Consta a fls. 139 que o contrato foi cancelado pelo fato do extraditando ter parado de pagar as mensalidades a partir de agosto de 1998. Em processo civil ele foi condenado à devolver o automóvel para a firma de leasing. Em vez de obedecer esta ordem, vendeu o automóvel para terceiros.

c) Entre 01/10/2000 a 05/10/2000, Thomas Remmele pernoitou no

Hotel Steghof em Luzerna sem pagar a fatura de FR. 650.00 antes da sua partida (fls. 139).

d) No dia 9/09/1999, Remmele Thomas andou na auto-estrada de

Oberbuchsiten com uma velocidade de 186 km/h, apesar do permitido ser 120 km/h (fls. 139). Os fatos narrados na letra a correspondem, segundo a legislação penal suíça, nos termos desta extradição, aos delitos de Fraude Comercial (art. 146 do Código Penal Suíço), falsificação de documentos (art. 251 do Código Penal Suíço) e falsi- ficação de documento de identidade (art. 252 do Código Penal Suíço), a seguir narrados:

“Fraude comercial

Art. 146.

1. Quem intencionalmente a si ou a terceiros por meios ilícitos com fins

de enriquecimento, levar alguém astuciosamente por meios de opressão, manobras, a realizar ou ajudar a atos enganosos e astuciosos dissimulados sendo assim a vítima levada a uma conduta prejudicial de fatos ilícitos, pelo qual causa prejuízos de enriquecimento a si e a terceiros será unido com reclusão até cinco anos ou prisão.

2. atuando o autor com fins comerciais, será punido com reclusão até

dez anos ou prisão não inferior a três meses.

3. Fraude cometida e cuja vítima seja parente ou familiar, só será pro-

cessado depois de requerido. Falsificação de documentos Art. 251. Quem intencionalmente, causar danos ilícitos sobre os bens ou direitos de terceiros, com fins de tirar partido, falsifique ou com documento falsificado a assinatura verdadeira ou de terceiros com fins de emitir um documento

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R.T.J. — 196

falso, ou autenticar ou deixar autenticar um fato falso, um documento desta espécie seja utilizado com fins fraudulentos será punido com reclusão até cinco anos ou prisão.

2. Em casos especiais e de menos gravidade poderá ser reconhecida

com prisão ou multa. Falsificação de documento de identidade Art. 252. Quem, com a intenção em facilitar o progresso de si mesmo, ou de um outro, falsificar ou alterar documento de identidade, atestados, confirma- ções, utiliza um tal documento para enganar, abusar documentos verídicos mas não destinados a ele próprio para enganar é punido com prisão ou multa.

Perante a legislação penal brasileira, os acontecimentos descritos na letra a retro como de Fraude Comercial (art. 146 do Código Penal Suíço) consubstan- ciados em 26 pedidos de financiamentos para fregueses fictícios junto à institui- ção financeira para compra de automóveis (fls. 138/139) – encontram adequação típica penal perante a legislação pátria ao crime de estelionato (art. 171 do CPB). Já a utilização de documentos de motorista falsos (fls. 139) caracteriza, nos moldes da lei Suíça, os delito de falsificação de documentos (art. 251 do Código Penal Suíço) e falsificação de documento de identidade (art. 252 do Código Penal Suíço). Esse fato, por sua vez, corresponde ao delito de falsificação de documento público (art. 297 do Código Penal Brasileiro).

O fato narrado na letra b retro descrita - apropriação de bem originário de

contrato de leasing - que caracteriza o delito de desfalque (art. 138 cifra 1 do Código Penal Suíço), a seguir transcrito, não possui adequação na legislação penal pátria.

“Desfalque Art. 138. Quem se apropria de alguma coisa móvel estranha que lhe foi confiada, para ilegalmente enriquecer a si próprio ou a outro, quem ilegalmente usa bens que lhe foram confiados para sua própria vantagem ou a vantagem de algum outro será punido com reclusão até cinco anos ou prisão. O desfalque para o prejuízo de familiares ou parentes só é perseguido por procuração”. No direito penal brasileiro a falta de devolução pelo arrendatário do objeto inerente ao contrato de leasing não caracteriza o delito de apropriação indébita (art. 168 do Código Penal Brasileiro). Ad argumentandum, vale citar:

“RHC. Apropriação indébita. Leasing. Ação Penal. Trancamento.

1.

(

).

2. A execução do inadimplemento do leasing deve ser feita sobre o

patrimônio do devedor e não por via de ação penal por apropriação indébita.

O entendimento pretoriano, a propósito da característica básica do leasing é

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41

ser predominantemente uma operação financeira, onde a posse é deferida com o pagamento das prestações. O bem, neste caso, é entregue não para guarda, mas em decorrência do financiamento.

Difere a hipótese da alienação fiduciária porque nela, ao contrário do leasing, o legislador, como exagerada garantia do credor, incluiu a figura do depositário”.

3. Ordem concedida” (HC 17794/SP. Rel. Min. Fernando Gonçalves.

DJ de 18/02/2002).

O fato de o extraditando ter pernoitado no Hotel Steghof em Luzerna sem

pagar a fatura de FR. 650.00 antes da sua partida (fls. 139) é atípico nos moldes da legislação brasileira. Isto porque, segundo o art. 176 do CP a ação típica, descrita na segunda parte de tal dispositivo, exige a conduta de alguém se alojar em hotel

(pensão, pensionato, motel, albergue ou qualquer tipo de habitação que aceite hóspede) sem dispor de recurso para efetuar o pagamento. O que não foi eviden- ciado in casu.

A fraude dessa espécie de crime está consubstanciada no fato de o agente,

com seu comportamento, induzir a erro outra pessoa, apresentando-se como tendo condições de efetuar o pagamento devido e usufruir da referida benesse.

Não ocorre crime, portanto, quando o consumidor dispõe de numerário sufi- ciente para o pagamento, mas se recusa fazê-lo por qualquer razão. Segundo os ensinamentos do saudoso professor Mirabete A falta de recursos deve estar evi- denciada, não podendo ser meramente presumida pela prática do comportamento do agente em esquivar-se ao pagamento(MIRABETE, Julio Fabbrini. Código penal interpretado. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2005. p. 1648).

O crime de infração contra as leis de trânsito (artigo 90 do Código de Trânsito

Suíço) a seguir descrito, cometido, em tese, pelo ora extraditando por haver, “ no

dia 9/09/1999, dirigido na auto-estrada de Oberbuchsiten com uma velocidade de 186 km/h, apesar do permitido ser 120 km/h (fls. 139)” também não encontra adequação típica penal nos moldes do direito pátrio. “Art. 90 SVG Infrações das regras de trânsito

1. Quem infringe as regras de trânsito desta lei ou dos regulamentos de

execução do conselho federal é punido com prisão ou multa.

2. Quem por causa de uma infração seria das regras de trânsito causa um

perigo sério para a segurança dos outros ou que é condizente à um tal perigo é punido com detenção ou multa”. Tendo em vista que o crime de fraude comercial (art. 146 do Código Penal Suíço) ocorreu no período de dezembro de 2000 a março de 2001 (fls. 143) e que a pena imposta a tal delito é de no máximo de 5 anos de reclusão (fls. 07) tem-se que não ocorreu o advento do prazo prescricional, já que o artigo 70 do Código Penal Suíço em vigor até 30/09/2002 prevê o lapso temporal de 10 anos. Prazo esse aumentado para 15 anos após 1º/10/2002 (fls. 07).

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Perante a legislação brasileira, tem-se que o crime de estelionato, cuja pena máxima é de 5 anos de reclusão e multa prescreve em 12 anos (art. 109, inc.III do CPB). Neste caso, não há que se falar no advento da prescrição.

O crime de falsificação de documentos (art. 251 do Código Penal Suíço) é

apenado com reclusão de até 5 anos ou prisão (fls. 07) e o de falsificação de documento de identidade (art. 252 do Código Penal Suíço) é apenado com prisão ou multa (fls. 08). O primeiro crime, igualmente ao delito de fraude comercial (art. 146 do Código Penal Suíço), prescreve em 10 anos (fls.07 – art. 70 do Código penal Suíço em vigor até 30/09/2002. Prazo aumentado para 15 anos após 1º/10/ 2002). O segundo, prescreve em 5 anos (fls. 07). Considerando que os fatos caracterizadores, em tese, de tais delitos ocorreram no período de dezembro de 2000 a março de 2001 (fls. 143) , não há que se falar no advento da prescrição.

O mesmo se pode dizer em relação ao crime correspondente de falsificação de

documento público (art. 297 do Código Penal), cuja pena máxima é de 6 anos e a prescrição somente se dá em doze anos (art. 109, inc. III, do CPB). Conclui-se, portanto, que o pedido de extensão à extradição deve ser julgado parcialmente procedente, sendo apenas concedido em relação aos crimes de Fraude Comercial (art. 146 do Código Penal Suíço), falsificação de documentos (art. 251 do Código Penal Suíço) e falsificação de documento de identidade (art. 252 do Código Penal Suíço). Ante o exposto, opina o Ministério Público Federal pela parcial procedência do pedido de extensão.” O parecer do Ministério Público Federal é irretocável, seja quanto à admissibilidade da extensão, seja no tocante aos requisitos positivos e negativos da extradição, em relação a cada uma das imputações objeto do pedido: acolho-o integralmente como razão de decidir e, nos seus termos, defiro parcialmente a extensão do objeto da extradi- ção: é o meu voto.

EXTRATO DA ATA

Ext 900 – Extensão/Confederação Helvética. Relator: Ministro Sepúlveda Pertence. Requerente: Governo da Suíça (Advogados: J. J. Safe Carneiro e Tereza Safe Carneiro e outra). Extraditando: Thomas Remmele (Advogado: DPU – Sérgio Alexandre Menezes Habib). Decisão: O Tribunal, por unanimidade, concedeu o pedido de extensão na extradi- ção, restrita aos crimes de fraude comercial, falsificação de documentos e de falsificação de documento de identidade, tudo nos termos do voto do Relator. Ausente, justificada- mente, o Ministro Gilmar Mendes. Presidiu o julgamento o Ministro Nelson Jobim. Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda Pertence, Celso de Mello, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Cezar Peluso, Carlos Britto, Joaquim Barbosa e Eros Grau. Procurador-Geral da República, Dr. Anto- nio Fernando Barros e Silva de Souza. Brasília, 31 de agosto de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

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EXTRADIÇÃO 915 — ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

Relator: O Sr. Ministro Gilmar Mendes Requerente: Governo dos Estados Unidos da América — Extraditando: Ronald Peter Eichberg Leeds Extradição. 2. Tratado de Extradição entre o Brasil e os Estados Unidos da América. 3. Processamento do pedido de acordo com a Lei n. 6.815, de 19 de agosto de 1980. 4. Atendimento dos requisitos formais. 5. Configuração da dupla tipicidade, na lei norte-americana e na brasileira, quanto aos crimes de fraude postal e fraude telegráfica. 6. Inocorrência de prescrição. 7. Regime jurídico do processo de extradição no Direito brasileiro. Descabida a análise quanto à autoria e à materialidade dos crimes. Precedentes. 8. Extradição deferida parcialmente.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em Sessão Plenária, sob a presidência do Ministro Nelson Jobim, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, deferir, em parte, a extradição, nos termos do voto do Relator. Brasília, 8 de setembro de 2005 — Nelson Jobim, Presidente — Gilmar Mendes, Relator.

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Trata-se de pedido de extradição formulado pelo

Governo dos Estados Unidos da América, por via diplomática, com base no Tratado de Extradição firmado pelos dois países em 13 de janeiro de 1961 e promulgado pelo Decreto n. 55.750, de 11 de fevereiro de 1965, do nacional norte-americano Ronald Peter Eichberg Leeds, encaminhado na forma do Aviso n. 354/MJ, de 4 de fevereiro de 2004, do Ministro da Justiça (fl. 02).

O Procurador-Geral da República, Dr. Claudio Fonteles, assim relata a controvérsia

(fls. 189-192):

“O Governo dos Estados Unidos da América formaliza e remete os documentos justificativos - fls. 12 a 118 - do pedido de extradição de seu nacional Ronald Peter Eichberg Leeds, tendo por fundamento os artigos 82 da Lei 6.815/80, e VIII do Tratado de Extradição firmado entre o Brasil e o Governo Americano - Decreto n.

55.750/65.

2. A prisão preventiva do extraditando foi efetivada no dia 19 de novembro

de 2003 (fls. 35), encontrando-se atualmente recolhido nas dependências do presí-

dio ‘Adriano Marrey’, em Guarulhos , Estado de São Paulo (fls. 145).

3. O nacional norte-americano foi pronunciado (anexo b - fls. 87/100) por um

Grande Júri pelos seguintes delitos:

44

R.T.J. — 196

a) - Conspiração para Cometer Fraude Postal e Fraude Telegráfica -

entre jan/1998 e dez/1999, o ora extraditando Ronald P. E. Leeds, Don W. Slater e Daniel Patton, conspiraram, confederaram e concordaram entre si e com outras pessoas para cometer crimes contra os Estados Unidos, em violação ao Título 18, Seção 371, do Código dos Estados Unidos (fls. 88);

b)- 8 acusações de Fraude Postal - entre jan/1998 e dez/99, o extradi- tando e os acima nominados intencional e propositadamente arquitetaram um esquema de artifício para fraudar, por intermédio de correspondência postal, representações e promessas falsas e fraudulentas, sabendo todos falsos, a fim de obter dinheiro ou propriedades por meio de pretextos, em violação ao Título 18, Seção 1341 e 2, do Código dos Estados Unidos (fls. 89);

c) - 14 acusações de Fraude Telegráfica - entre jan/1998 e dez/99, o

extraditando e os acima nominados intencional e propositadamente arqui- tetaram um esquema de artifício para fraudar, por intermédio de linha telefônica ou telegráfica, representações e promessas falsas e fraudulentas, com o conhecimento de serem todos falsos, visando obter dinheiro ou propriedades, em violação ao Título 18, Seção 1343 e 2 do Código dos Estados Unidos (fls.

90/91);

d)

- Transporte em Comércio Interestadual de Valores Mobiliários

Roubados - entre jan/88 e dez/99, o extraditando, Don W. Slater e Daniel Patton, intencional e propositadamente arquitetaram um esquema artificioso para fraudar e obter dinheiro ou propriedade por meio de pretextos, represen- tações e promessa falsa e fraudulentas, com conhecimento de que os ditos pretextos, representações eram falsos e fraudulentos na ocasião em que foram feitos, em violação ao Título 18, Seção 2314 e 2. do Código dos Estados Unidos. (fls. 97/98). 4. Às fls. 84/5 - anexo ‘a’ - localizam-se os dispositivos penais estrangeiros, relativos aos crimes imputados ao extraditando:

‘Título 18 do Código dos Estados Unidos,

§ 371. Conspiração para cometer um delito ou fraudar os Estados

Unidos. Se duas ou mais pessoas conspirarem seja para cometer qualquer delito contra os Estados Unidos, seja para fraudar os Estados Unidos ou qualquer órgão do mesmo, de qualquer forma ou com qualquer propósito, e uma ou mais dentre estas pessoas realizam qualquer ato para afetar o objeto da cons- piração, cada uma delas será multada segundo este título ou encarcerada por até 5 anos ou ambos.

Título 18 do Código dos Estados Unidos,

§ 1341. Fraude e trapaças

Aquele que, tendo arquitetado ou com intenção de arquitetar qualquer esquema ou artifício para fraudar, seja para obter dinheiro ou propriedade por meio de pretextos, representações ou promessas falsas ou fraudulentas, seja para vender, dispor, emprestar, trocar, alterar, dar, distribuir, suprir ou fornecer ou adquirir para uso ilegal qualquer moeda, obrigação, valor mobiliário ou

R.T.J. — 196

45

outro artigo falsificado ou espúrio, qualquer coisa que represente, seja sugerida ou apresentada como sendo tal artigo falsificado ou espúrio, com o propósito de executar tal esquema ou artifício ou atentar fazê-lo, colocar em qualquer agência do correio ou receptor autorizado de material postal, qual- quer material ou coisa que seja para ser enviada ou entregue pelo Serviço Postal (dos EUA) ou depositar ou fizer com que seja depositado qualquer material ou coisa que seja para ser enviada ou entregue por qualquer serviço comercial de transporte interestadual, ou pegar ou receber dos mesmos, qual- quer deste material ou coisa, ou propositadamente fizer com que seja entre- gue por correio ou tal transportadora de acordo com o endereço do mesmo, ou no local em que é direcionado a ser entregue pela pessoa a quem é ende- reçado tal material ou coisa, será multado segundo este título ou encarcerado por no máximo 20 anos ou ambos. Se a violação afetar uma instituição finan- ceira, tal pessoa será multada em até US$ 1.000.000,00 ou encarcerada por no máximo 30 anos ou ambos. Título 18 do Código dos Estados Unidos,

§ 1343. Fraude por Telégrafo, Rádio ou Televisão

Aquele que, tendo arquitetado ou com a intenção de arquitetar qual- quer esquema ou artifício para fraudar ou para obter dinheiro ou propriedade por meio de pretextos, representações ou promessas falsas ou fraudulentas transmite ou faz com que seja transmitido por meio de comunicação de telé- grafo, rádio ou televisão, em comércio exterior ou interestadual, qualquer escrita, sinais, indicação, fotos, ou sons com o propósito de executar tal esquema ou artifício será multado segundo este título ou encarcerado por no máximo 20 anos ou ambos. Se a violação afetar uma instituição financeira, tal pessoa será multada em no máximo US$1.000.000,00 e encarcerados por até 30 anos ou ambos. Título 18 do Código dos Estados Unidos,

§ 2314. Transporte de bens valores mobiliários, dinheiro roubados,

selos fiscais do estado fraudulentos ou artigos usados em falsificação

Aquele que, tendo arquitetado ou com a intenção de arquitetar

qualquer esquema ou artifício para fraudar ou para obter dinheiro ou proprie-

dade por meio de pretextos, representações ou promessas falsas ou frau- dulentas transporta ou faz com que seja transportado, ou induz qualquer pessoa ou pessoas a viajarem ou a serem transportadas em comércio exterior, ou interestadual com o propósito na execução ou ocultamento de um esque-

ma ou artifício para fraudar aquela pessoa ou pessoas de dinheiro ou propri-

tal pessoa será

multada segundo este título ou encarcerada por no máximo 10 anos ou am- bos.’ 5. À fls. 79/82, o Procurador Adjunto dos Estados Unidos, John Luke Walker, em ‘Declaração juramentada em apoio ao pedido de Extradição’, resume os fatos constante do processo, concluindo por ‘atestar que as provas indicam que o extra- ditando é culpado dos delitos pelos quais se busca a extradição.’ (fls. 82).

) (

edade com um valor igual ou superior a US$ 5.000,00;

46

R.T.J. — 196

6. Encontra-se a fls. 102 - anexo ‘c’ -, o mandado de prisão, expedido em 15

de novembro de 2002, pelo Juiz do Distrito do Oeste e Louisiana, C. Michael Hill.

7. Consta, a fls. 104/116, declaração juramentada do Agente Especial do FBI,

Troy J. Chenevert, sobre os fatos apurados.

8. Acostado a fls. 164/166, o termo de interrogatório do extraditando, no

qual, em síntese, alega:

Que, já foi processado em Londres no ano de 1998 por tentativa de

fraude. Que, mencionado delito é bem similar a este que o extraditando está

sendo processado atualmente. Que, em Londres, foi absolvido com as descul-

pas da Coroa. Que é contra sua extradição. (

Brasil porque acredita que aqui é um território neutro (

extraditado porque possui documentos aqui no Brasil que provam a sua inocência. Esclarece, ainda, que tais documentos encontram-se em Brasília

Que, deseja permanecer no

). Que não quer ser

‘(

)

)

em poder da Polícia Federal. Que, os fatos narrados na extradição, não são

Prossegue narrando sua versão dos fatos, afirma que quem

verdadeiros (

praticou o delito do qual está sendo acusado foi o Sr. Helmut. (fls. 165/6).

)’.

9. A defesa prévia a cargo do advogado constituído encontra-se a fls. 172/

176. Sustenta a defesa a inocência do extraditando que poderá ser provada pelos objetos apreendidos e que estão agora sob a guarda da Polícia Federal. Afirma que foi o súdito americano julgado pelo mesmo delito perante a Justiça Inglesa, sendo

lá absolvido, não podendo, desta forma, ser julgado pelo mesmo delito por mais de

uma vez. Requer sejam trazidos aos autos as provas sob a guarda da Polícia Federal,

e

ainda o envio pelo Governo Inglês das cópias do processo penal movido contra

o

extraditando.”

O

ilustre representante do Ministério Público Federal opina pelo deferimento par-

cial do pedido de extradição.

É o relatório.

O

VOTO

Sr. Ministro Gilmar Mendes (Relator): Quanto aos aspectos formais da extradi-

ção, assim se manifesta a Procuradoria-Geral da República (fl. 193):

“10. O pedido extradicional está instruído com os documentos a que se refere

o art. IX, 2 do Tratado de Extradição entre o Brasil e os Estados Unidos, devida- mente autenticados e traduzidos para a língua portuguesa, acompanhado dos ori- ginais em inglês (fls. 12/117).

11. Da análise do presente pleito, verifica-se que o Estado requerente dispõe

da competência jurisdicional, para processar e julgar esses delitos imputados ao

extraditando, que é nacional norte-americano, e naquele país teria cometido os ilícitos penais de que é acusado (art. 78, inc. I, da Lei n . 6.815/80).

12. O pedido vem instruído com a decisão de recebimento de denúncia -

indictment - (fls. 87/100) e o mandado de captura de 15.11.2002 (fls. 102) e os demais documentos exigidos pela Lei n. 6.815/80 e pelo Tratado de Extradição

R.T.J. — 196

47

celebrados entre os dois países, havendo indicações seguras sobre o local, data, natureza e circunstâncias dos fatos delituosos, bem como com cópia dos textos legais pertinentes (fls. 12/118) de modo a permitir ao Supremo Tribunal Federal o exame seguro da legalidade da pretensão extradicional.” Na espécie, também não parece haver dúvida no tocante ao requisito da dupla tipicidade, pelo menos quanto aos crimes igualmente tipificados no ordenamento jurí- dico brasileiro. A propósito, anota a manifestação da Procuradoria-Geral da República (fls. 193-195):

“13. Está satisfeita a exigência de dupla tipicidade, consoante o Direito do Estado requerente e o brasileiro, ao menos no que diz respeito aos delitos de fraude postal e fraude telegráfica (estelionato no Brasil).

14. Como visto, no item 3, retro, o extraditando e seus dois comparsas enga-

naram terceiros inocentes com astúcia, nas transações efetivadas, de forma a obter o dinheiro deles, alegando que o dinheiro investido geraria lucros exorbitantes, a

fim de convencê-los a investir cada vez mais.

15. O fato de se tratar de fraude telegráfica e postal não descaracteriza o

estelionato, pois, o que é importante considerar aqui é que o tipo penal estrangeiro

(Título 18 Seção 1341 e 1343) contém todas as elementares do delito do estelionato (art. 171 do CP). Neste ponto vale transcrever trecho do parecer do il. colega, Edson Oliveira de Almeida, na Extradição n. 761:

‘Não, pois, há como acolher a alegação de que se trata de crime falimentar. Na verdade, o extraditando e seus dois comparsas, operando em- presas de fachada, praticaram uma série de estelionatos continuados, lesando vários comerciantes, induzidos em erro pelo golpe aplicado. E, muito embora

a peculiaridade da lei norte-americana, o estelionato também deve ser tido

como caracterizado. O fato de se tratar de fraud by wire (fraude por fio,

rádio ou televisão) não tem, no caso, o relevo sustentado pela defesa. O

recurso da telecomunicação interestadual não é, no caso, elementar do tipo,

e sim mero instrumento de comunicação do meio ardiloso e fraudulento do

qual os acusados lançaram mão para induzir os fornecedores em erro, cau- sando-lhes prejuízo patrimonial. A telecomunicação, cabe repetir, não é elementar do tipo, figurando aí apenas como critério para fixação da competência da Justiça Federal norte-americana. O que é importante consi- derar é que, independentemente da forma com que os acusados se comunica- ram com os lesados, o tipo penal estrangeiro (Título 18, Seção 1343 do U.S.C.) contém todas as elementares do delito de estelionato.’ (Ext 761/EU, DJ 12.05.00 p. 00020).

) (

18. Contudo quanto aos crimes imputados ao extraditando de conspiração

para a fraude e de transporte de valores ilicitamente obtidos, não há, conforme entendimento adotado na Ext. 761, correspondência típica na legislação pátria.

19. Na linha seguida no julgamento acima referido a conspiração poderia, em

tese, corresponder no Brasil, ao de quadrilha, mas este exige participação de mais

de três pessoas. Sucede que no caso em estudo há apenas a participação de três pessoas.

48

R.T.J. — 196

20. Com referência ao delito do Título 18, Seção 2.314, do Código dos

Estados Unidos - transporte de valores ilicitamente obtidos -, observa-se que tam- bém não há no direito brasileiro correspondência como crime autônomo, pois, no Brasil é considerado transporte do próprio proveito do crime de estelionato e neste absorvido, consoante dispõe ementa proferida na Extradição n. 761:

Ementa: Extradição. Dupla tipicidade prescrição. Crimes de fraude (estelionato), de operação financeira ilegal (remessa ilegal de divisa), de transporte de valores ilicitamente obtidos e de conspiração (quadrilha). Estando preenchidos todos os requisitos legais e não ocorrendo qualquer das hipóteses previstas no art. 75 da Lei n. 6.815, de 19.08.1980, modificada pela Lei n 6.964, de 09.12.1981, defere-se a Extradição, quanto aos delitos de fraude (estelionato, no Brasil) e de operação financeira ilegal (aqui, remessa ilegal de divisas). Não, porém, quanto aos crimes de transporte de valores ilicitamente obtidos e de conspiração, pois o primeiro, no Brasil, é conside- rado transporte do próprio proveito do crime de estelionato e neste absorvi- do. E o outro, o de conspiração, poderia, no Brasil, ser assemelhado ao de quadrilha, se dela houvessem participado mais de três pessoas (art. 288 do Código Penal), o que, no caso, não ocorreu. Inocorrência de prescrição, seja pelo Direito norte-americano, seja pelo brasileiro. Deferimento parcial do pedido de Extradição, nos termos do voto do Relator. Decisão unânime.’ (Ext 761/EU, Rel Min. Sydney Sanches, DJ. 12.05.00, p. 00020).”

No que se refere à prescrição, registra-se que as causas pelas quais o extraditando está sendo acusado, no tocante às imputações com correspondência no Direito Penal brasileiro, prescrevem em 12 anos. Considerando que os atos delituosos datam de 2001, não há falar em ocorrência de lapso prescricional segundo o Direito brasileiro e o Direito americano. Sobre este ponto, anotou a Procuradoria-Geral da República (fl. 194):

“16. E no que se refere a essas imputações, não ocorreu, ainda a prescrição da pretensão punitiva, seja em face da legislação norte-americana (U.S.C Título 18 § 3282), seja pela brasileira, que prevê, para o crime do art. 171 do Código Penal a prescrição em 12 anos (inc. III, art. 109, do CPB).

17. Pela legislação norte-americana, a prescrição só ocorre se a ação penal

não é instaurada ou não há o recebimento da denúncia dentro de cinco anos após

o fato delituoso (fls. 72). Uma vez proferida o indictment, cessa o curso da prescri-

ção. No caso, os fatos ocorreram entre janeiro de 1998 e dezembro de 1999 e a decisão de recebimento da denúncia foi proferida em 15 de dezembro de 2003 (fls. 82), dentro, portanto, do prazo de cinco anos, previsto no referido Título 18, Seção 3282 do Código dos Estados Unidos, lembrando que, em face da revelia do extra- ditando, o processo permanece suspenso.”

No que se refere à alegada inocência do extraditando, o parecer, com base em precedente desta Corte, anota (fls. 195-196):

“21. Quanto à inocência alegada pelo extraditando vale lembrar que ‘o sistema de contenciosidade limitada, que caracteriza o regime jurídico da extradição passiva no direito positivo brasileiro, não permite qualquer indagação probatória

pertinente ao ilícito criminal, cuja persecução no exterior justificou o ajuizamento

e da demanda extradicional perante o Supremo Tribunal Federal’. (Ext 545-6, Rel. Acórdão Min. Celso de Mello, DJ 13-2-98).

R.T.J. — 196

49

22. Ademais, conforme narra o Procurador Adjunto dos Estados Unidos, a

pronúncia acusou um esquema de fraude postal e telegráfica, bem como o transporte de valores mobiliários roubados, que era realizado em conexão com o esquema de

fraude postal e telegráfica. O extraditando juntamente com Don W. Slater e Daniel Patton obtiveram dinheiro de terceiros inocentes, alegando ser garantido que o dinheiro investido geraria lucros exorbitantes num prazo muito curto.

23. O Agente Especial do FBI demonstrou em detalhes em sua declaração

juramentada que Ledds, juntamente com os dois outros co-réus fraudaram numerosos investidores vítimas em milhões de dólares, convencendo os investidores que poderiam investir em ‘debêntures’ e ‘notas bancárias de primeira linha’ na Europa que gerariam retornos exorbitantes em um prazo muito curto. As ‘debêntures’ e ‘notas bancárias de primeira linha’ nas quais Leeds, Slater e Patton diziam que os investidores estavam investindo não existiam. Eles nunca investiam o dinheiro na maneira em que prometiam. Quando os investidores suspeitavam que os investi- mentos eram uma fraude, Leeds, juntamente com os dois outros co-réus, diziam que tinha havido vários problemas em recuperar o dinheiro, enquanto que, ao mesmo tempo, tentavam convencer os investidores a investir mais dinheiro.”

Ajusta-se perfeitamente à hipótese o que se decidiu no julgamento da Ext 830-EUA, Ellen Gracie, DJ de 27-6-03, no que interessa:

3. A negativa quanto à prática dos crimes não configura matéria de

defesa na seara extradicional, por se tratar de tema ligado ao mérito das acusações, o que não se coaduna com o sistema de contenciosidade limitada que caracteriza o regime jurídico do processo de extradição no direito brasileiro. Precedente.” Após afirmar que as demais alegações e diligências requeridas nos itens 8 e 9 do seu parecer devem ser apresentadas à Justiça norte-americana, o Procurador-Geral da República concluiu pelo deferimento parcial do pedido de extradição. São diversos os precedentes no sentido de que a esta Corte somente cabe o exame dos pressupostos e das condições da extradição; não há, portanto, manifestação sobre o mérito do pedido, sobre a justiça ou a injustiça da condenação ou do processo no Estado requerente, v.g. Ext 853/Paraguai, Maurício Corrêa, DJ de 5-9-03; Ext 768/República do Peru, Ilmar Galvão, DJ de 16-6-00; Ext 773/República Federal da Alemanha, Octavio Gallotti, DJ de 28-4-00; e Ext 669/EUA, Celso de Mello, DJ de 29-3-96, dentre outros. Dessa forma, presentes os requisitos legitimadores, o meu voto é no sentido de deferir parcialmente o pedido de extradição.

“(

)

EXTRATO DA ATA

Ext 915/Estados Unidos da América — Relator: Ministro Gilmar Mendes. Reque- rente: Governo dos Estados Unidos da América. Extraditando: Ronald Peter Eichberg Leeds (Advogados: Moacir Anttonio Miguel e outra). Decisão: O Tribunal, por unanimidade, deferiu, em parte, a extradição, nos termos do voto do Relator. Ausentes, justificadamente, os Ministros Celso de Mello e Eros Grau. Presidiu o julgamento o Ministro Nelson Jobim.

50

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Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda Pertence, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Gilmar Mendes, Cezar Peluso, Carlos Britto e Joaquim Barbosa. Vice-Procurador-Geral da República, Dr. Roberto Monteiro Gurgel Santos. Brasilia, 8 de setembro de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

EXTRADIÇÃO 916 — REPÚBLICA ARGENTINA

Relator: O Sr. Ministro Carlos Britto Requerente: Governo da República Argentina — Extraditando: Antenor Danilo de Oliveira Batista ou Gringo Extradição. Acusação de crime de homicídio em ocasião de roubo. Comprovação de que o extraditando é brasileiro. Pedido prejudicado. Aplicação do aforismo do aut dedere aut judicare. Estando impossibilitado de atender ao pedido de cooperação inter- nacional, deve o Brasil, nesses casos, assumir a obrigação de proceder contra o extraditando de modo a evitar a impunidade do nacional que delinqüiu alhures. Extradição indeferida.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribu- nal Federal, por seu Tribunal Pleno, sob a Presidência da Ministra Ellen Gracie, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, indeferir a extradição, nos termos do voto do Relator. Brasília, 19 de maio de 2005 — Ellen Gracie, Presidente — Carlos Ayres Britto, Relator.

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Carlos Ayres Britto: Cuida-se de pedido de extradição feito pelo Estado da Argentina, em desfavor do Antenor Danilo de Oliveira Batista. Pedido que se fundamenta em processo penal por crime de “homicídio em ocasião de roubo” e que se baseia no Tratado de Extradição firmado com o Brasil em 15 de novembro de 1961.

2. Pois bem, na forma dos artigos 76 e 82 da Lei n. 6.815/80, deferi o pedido de

prisão cautelar e determinei a expedição de mandado de captura, a ser cumprido pelo

Departamento de Polícia Federal (fl. 39).

3. De sua parte, o Ministro da Justiça, por meio do Aviso n. 3.464, informou que o

extraditando é brasileiro e atualmente cumpre pena de dez anos e seis meses no Presídio

de Santo Cristo, Estado do Rio Grande do Sul, por crime de roubo e extorsão (fl. 54).

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51

4. Diante da contradição entre as informações extraídas da Nota Verbal (fl. 2), a

qual se refere a nacional argentino, e do ofício ministerial que aponta ser o extraditando nacional brasileiro, solicitei informações ao Cartório de Registro Civil de Porto Lucena/RS, bem como a manifestação do Estado-requerente (fl. 61), quedando silente este último.

5. Prossigo no relato da quaestio juris que se contém nesta causa para anotar que,

recebidas as certidões de fls. 71 e 75, encaminhadas pelo Cartório de Porto Lucena, dando conta de que o extraditando é brasileiro, remeti os autos à douta Procuradoria- Geral da República para manifestação. Opinando o Parquet, então, pela prejudicialidade do pedido extradicional, em razão da nacionalidade brasileira do extraditando. Mais:

com o fito de evitar a impunidade quanto ao crime cometido na Argentina, pugnou o órgão ministerial público pela aplicação do artigo 88 do Código de Processo Penal brasileiro.

É o relatório.

VOTO

O

Sr. Ministro Carlos Ayres Britto (Relator): Feito o relatório, passo ao voto.

Conforme visto, o pedido de extradição de Antenor Danilo de Oliveira Batista

não comporta deferimento.

9. Em verdade, da análise das certidões de fls. 71 e 75, verifica-se que o extraditando

nasceu no Estado do Rio Grande do Sul e é filho de Florentino José Batista e Adelina Paz de Oliveira, ambos brasileiros.

10. Sob este visual das coisas, é preciso lembrar que o Brasil proíbe a extradição de

brasileiros, de forma terminante e solene, não só na lei ordinária como também no texto constitucional. E o faz nos termos seguintes:

8.

“Art. 5 º ( )

LI - nenhum brasileiro será extraditado, salvo o naturalizado, em caso de crime comum, praticado antes da naturalização, ou de comprovado envolvimento em tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, na forma da lei;”

11. Noutra vertente, estando impossibilitado de atender ao pedido de cooperação

internacional, deve o Brasil, nesses casos, assumir a obrigação de proceder contra o extraditando de modo a evitar a impunidade do nacional que delinqüiu alhures. Trata-se, portanto, da efetivação do princípio universal do aut dedere aut judicare, segundo o

qual o Estado-requerido deve assumir a posição de guardião do interesse internacional comum.

12. Nessa contextura, ante a inviabilidade do pedido extradicional, voto pelo seu

indeferimento. Voto, ainda, pela remessa de cópia dos autos para o douto Juízo da Comarca de Santo Cristo, de modo que o brasileiro se exponha a processo criminal, nos termos do artigo 88 do Código de Processo Penal brasileiro.

52

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EXTRATO DA ATA

Ext 916/República Argentina. Relator: Ministro Carlos Britto. Requerente: Go- verno da República Argentina. Extraditando: Antenor Danilo de Oliveira Batista ou Gringo. Decisão: O Tribunal, por unanimidade, indeferiu a extradição, nos termos do voto do Relator. Ausentes, justificadamente, os Ministros Nelson Jobim (Presidente), Celso de Mello e Gilmar Mendes. Presidiu o julgamento a Ministra Ellen Gracie (Vice-Presi- dente). Presidência da Ministra Ellen Gracie (Vice-Presidente). Presentes à sessão os Mi- nistros Sepúlveda Pertence, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Cezar Peluso, Carlos Britto, Joaquim Barbosa e Eros Grau. Vice-Procurador-Geral da República, Dr. Antonio Fernando Barros e Silva de Souza. Brasília, 19 de maio de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

EXTRADIÇÃO 923 — REPÚBLICA ITALIANA

Relator: O Sr. Ministro Carlos Velloso Requerente: Governo da Itália — Extraditando: Fabio Franco

Constitucional. Penal. Extradição: Itália. Delitos: tráfico de entorpe- centes, detenção de armas, receptação, formação de quadrilha finalizada ao tráfico de substâncias entorpecentes. Homicídio e tentativa de homicídio. I - Pedido de extradição instruído com os documentos exigidos pela lei brasileira, Lei 6.815/80, art. 80, e pelo Tratado de Extradição Brasil— Itália. II - Fatos delituosos tipificados como crime na lei penal italiana e na lei brasileira.

III - Inocorrência de prescrição, seja pela lei italiana, seja pela lei

penal brasileira.

IV - Extradição deferida.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribu- nal Federal, em Sessão Plenária, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade, deferir o pedido de extradição, nos termos do voto do Relator. Ausente, justificadamente, o Ministro Carlos Britto. Brasília, 31 de março de 2005 — Nelson Jobim, Presidente — Carlos Velloso, Relator.

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53

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Carlos Velloso: O Sr. Ministro de Estado da Justiça encaminhou a

esta Corte, nos termos do art. 84 da Lei 6.815/80, alterada pela Lei 6.964/81, e do Tratado de Extradição existente entre o Brasil e a Itália, os documentos justificadores e formalizadores do pedido de extradição formulado pelo Governo da República Italiana contra o nacional italiano Fábio Franco, que teve contra si expedidas três ordens de prisão pelo Juiz de investigações preliminares junto ao Tribunal de Lecce, pelos crimes de tráfico ilícito de substâncias entorpecentes, detenção de armas, receptação, formação de quadrilha de cunho mafioso, formação de quadrilha finalizada ao tráfico ilícito de substâncias entorpecentes, homicídio premeditado grave, tentativa de homicídio pre- meditado grave e porte ilegal de armas em lugar público.

Nos autos da PPE 462 (fl. 13 do apenso), decretei a prisão preventiva do extraditando, que foi efetivada em 3-2-2004 (fl. 26 do apenso).

À fl. 217, em atenção a requerimento formulado pela Interpol, autorizei a transfe-

rência do extraditando para o Presídio de Segurança Máxima de Presidente Bernardes,

tendo em conta a notícia de possível tentativa de resgate armado do extraditando.

Ao ser interrogado, às fls. 573-585, o extraditando negou o seu envolvimento nos fatos ilícitos e declarou ter interesse em retornar à Itália para se defender das acusações. Na defesa de fls. 573/585, o extraditando, preliminarmente, sustenta que a sua custódia no Presídio de Segurança Máxima de Presidente Bernardes/SP, além de não estar devidamente fundamentada, não observou o disposto na Lei 10.792/2003, que regula o regime disciplinar diferenciado a que está sujeito. No mérito, concorda com o pedido de extradição, desde que lhe sejam garantidas, em caso de condenação, a não- aplicação de pena de morte ou de prisão perpétua e a exclusão do crime de “associação mafiosa”, por não encontrar correspondente no direito brasileiro.

O Ministério Público Federal, às fls. 606-611, pelo parecer do eminente Procura-

dor-Geral, Professor Cláudio Fonteles, opina no sentido do deferimento do pedido de extradição.

É o relatório.

VOTO

Sr. Ministro Carlos Velloso (Relator): A República Italiana pede a extradição —

extradição instrutória — do nacional italiano Fabio Franco, contra quem foram expedidos mandados de prisão, entre 2001 e 2003, pelo Juiz de Investigações Preliminares do Tribunal de Lecce, pelos crimes de tráfico ilícito de substâncias entorpecentes, detenção de armas, receptação, formação de quadrilha de cunho mafioso, formação de quadrilha finalizada ao tráfico ilícito de substâncias entorpecentes, homicídio premeditado grave e tentativa de homicídio grave premeditado (fls. 4-188). A Nota Verbal n. 61, à fl. 4, dá notícia da expedição de três mandados de prisão pelo Juiz do Tribunal de Lecce, pelos delitos mencionados.

Oficiando nos autos, às fls. 606-611, pronunciou-se o Procurador-Geral da Repú- blica, Professor Cláudio Fonteles, pelo deferimento do pedido de extradição. Destaco do seu parecer:

O

54

R.T.J. — 196

“(

)

6.

Com efeito, o pedido do governo italiano reúne condições para ser deferido.

7.

Preliminarmente, observe-se que foi respeitado o prazo de 40 (quarenta)

dias entre a comunicação da prisão preventiva e o requerimento formal de extradi- ção, previsto no artigo XIII, item 4, do Tratado de Extradição celebrado entre o Brasil e a Itália. A embaixada do país requerente foi formalmente cientificada da efetivação da prisão preventiva para fins de extradição no dia 10.02.2004 (fl. 37 da PPE n. 462, em apenso). O pleito de extradição, a seu turno, foi formulado no dia 10 de março de 2004 (fl. 4), portanto, rigorosamente dentro do prazo previsto no tratado específico. 8. Ademais, é inegável que o estado requerente dispõe de competência jurisdicional para processar e julgar os delitos imputados ao extraditando, que é nacional italiano e naquele país teria cometido os ilícitos penais de que é acusado.

9. O pedido vem instruído com os decretos de prisão e os demais documentos

exigidos pela Lei n. 6.815/80 e pelo Tratado de Extradição celebrado entre os dois

países, havendo indicações seguras sobre o local, data, natureza e circunstâncias dos fatos delituosos, com cópia dos textos legais pertinentes, todos traduzidos para o português, de modo a permitir ao Supremo Tribunal Federal o exame seguro da legalidade da pretensão extradicional (fls. 4-188).

10. Passemos a análise do contido em cada uma das ordens de prisão

expedidas pela justiça italiana.

11. Em 22 de novembro de 2001, o Juiz de investigações preliminares junto ao Tribunal de Lecce ordenou a prisão do ora extraditando pelos crimes de tráfico ilícito de substâncias entorpecentes (arts. 81 e 110 do CP Italiano, art. 73, § 1º e 80 do DPR n. 309/90), detenção de armas (art. 2 da Lei n. 895/67) e receptação (art. 648 do CP Italiano), por fatos ocorridos em novembro de 2001 (processo n. 9875/ 01 RGIP, fls. 14-17). Os fatos tidos por criminosos estão devidamente descritos. Há dupla tipicidade. O crime punido pelo art. 73, § 1º e 80 do DPR n. 309/90, qual seja, ‘tráfico ilícito de substâncias entorpecentes’, encontra correspondente no tipo penal brasileiro previsto no art. 12 da Lei n. 6368/76. O crime de ‘detenção de armas’ tipificado pelo art. 2 da Lei n. 895/67, no ano de 2001, encontrava corres- pondência no art. 10 da Lei n. 9437/97 e, atualmente, está previsto no art. 10 da Lei n. 10826/2003. Por fim, a ‘receptação’, que trata o art. 648 do CP Italiano, corresponde ao delito tipificado no art. 180 do CP. Em virtude dos fatos criminosos terem sido cometidos recentemente, não se verifica a ocorrência de prescrição de nenhum dos crimes antes mencionados, seja em face da legislação italiana, seja da brasileira.

12. Em 10 de abril de 2003, o Juiz de investigações preliminares junto ao

Tribunal de Lecce determinou a prisão do extraditando pelos crimes formação de quadrilha de cunho mafioso, formação de quadrilha finalizada ao tráfico ilícito de substâncias entorpecentes e tráfico ilícito das mesmas substâncias, por fatos ocor- ridos até março de 2003 (processo n. 2577/2003, fls. 47-72). Os fatos tidos por criminosos estão devidamente descritos. Há dupla tipicidade. O crime punido pelo art. 416 bis, e parágrafos, do Código Penal Italiano, qual seja, ‘associação armada de tipo mafioso’, encontra correspondente no tipo genérico da lei brasileira (crime

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de quadrilha ou bando - CP, art. 288, parágrafo único). O tipo insculpido no art. 74 do DPR n. 309/90 ‘formação de quadrilha finalizada ao tráfico ilícito de substân- cias entorpecentes’, corresponde ao crime previsto no art. 14 da Lei n. 6368/76. Por último, o crime punido pelo art. 73 do DPR n. 309/90, qual seja, ‘tráfico ilícito de substâncias entorpecentes’, encontra correspondente no tipo penal brasileiro pre- visto no art. 12 da Lei n. 6368/76. Em virtude dos fatos criminosos terem sido cometidos recentemente, não se verifica a ocorrência de prescrição de nenhum dos crimes antes mencionados, seja em face da legislação italiana, seja da brasileira.

13. Em 3 de novembro de 2003, o Juiz de investigações preliminares junto ao

Tribunal de Lecce ordenou a prisão do ora extraditando pelos crimes de homicídio premeditado grave, tentativa de homicídio grave premeditado e porte ilegal de armas em lugar público, fatos ocorridos em ocorridos em 24.08.2001, 31.08.2002 e 28.12.2002 (processo n. 2577/2003, fls. 117-159). Os fatos tidos por criminosos estão devidamente descritos. Há dupla tipicidade. O crime punido pelo art. 575, do Código Penal Italiano, qual seja, ‘homicídio’, inclusive nas formas qualificadas (art. 577 do CP Italiano) equivale ao tipo de mesmo nome do CP brasileiro (art. 121). Por fim, o crime de ‘detenção de armas’ tipificado pelo art. 2 da Lei n. 895/67, nos anos de 2001 e 2002, encontrava correspondência no art. 10 da Lei n. 9.437/97 e, atualmente, está previsto no art. 10 da Lei n. 10.826/2003. Em virtude dos fatos criminosos terem sido cometidos recentemente, não se verifica a ocorrência de prescrição de nenhum dos crimes antes mencionados, seja em face da legislação italiana, seja da brasileira.

14. O pedido atende, assim, os requisitos legais para sua concessão, em con-

sonância com a jurisprudência desse Excelso Supremo Tribunal Federal:

Extradição. Governo da Itália. Prática do crime de associação armada de tipo mafioso, previsto no art. 416-bis do Código Penal italiano.

Sendo o ilícito penal também punido pela legislação brasileira, inexistindo no Brasil processo crime relativo ao mesmo fato e não se verifi- cando a prescrição pelos ordenamentos jurídicos brasileiro e italiano, não há óbice legal ao deferimento do pedido. Extradição deferida.’ (Ext-782/IT, Relator, Min. Ilmar Galvão, DJ 13- 10-00, p. 9) Extradição. Crimes de formação de quadrilha de cunho mafioso, roubo, extorsão, de porte e de detenção ilegal de arma. Pedido que tem, por um dos fundamentos, conduta que, à época, era definida no Brasil como contravenção, só posteriormente criminalizada.

1. O crime específico de associação armada do tipo mafioso, previsto

na lei italiana, tem o seu correspondente genérico na lei brasileira, de quadrilha ou bando (CP, art. 288). Atendido, também, o postulado da dupla tipicidade com relação aos crimes de roubo e extorsão.

2. Crimes de detenção e de porte ilegal de arma. O art. 77, II da Lei de

Estrangeiros proíbe a extradição quando o fato não é considerado crime no Brasil ou no Estado requerente, tornando-a inviável, portanto, por conduta

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tipificada como contravenção. À época dos fatos - 1989 - a lei italiana previa os crimes de detenção e de porte ilegal de arma, enquanto que no Brasil apenas o porte ilegal de arma era previsto como contravenção. À época do pedido de prisão preventiva para extradição e do pedido de extradição, já vigia no Brasil a Lei n. 9.437, de 20.02.97, cujo art. 10 tipificou como crimes as condutas de detenção e de porte ilegal de arma, porém, sujeitos ao período de vacacio legis de seis meses, prorrogável (art. 20). Conflito de leis no tempo em face da exigência de dupla tipicidade (art. 77, II da Lei de Estran- geiros). Se a conduta não era considerada crime no Brasil, ao tempo da práti- ca do ato, a extradição não pode ser deferida por este fundamento, porque é subjacente ao disposto no citado art. 77, II, a idéia de que só é permitida a extradição quando for possível, hipoteticamente, o processo criminal em ambos os países (requerente e requerido). No Brasil é inviável tal processo porque é axiomático no nosso direito que não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal, e, também, porque a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu (art. 5º, XXXIX e XL da Constitui- ção). Ainda que assim não fosse, a extradição também não poderia ser conce- dida por ter transcorrido o prazo prescricional, segundo a lei brasileira, visto que é vedada a extradição quando estiver extinta a punibilidade pela prescri- ção segundo a lei brasileira ou a do Estado requerente (art. 77, VI, da mesma Lei).

3. Declarada a legalidade e julgado procedente, em parte, o pedido de

extradição, ressalvando-se que o extraditando não poderá responder processo pelo crime de detenção e de porte ilegal de arma.’ (Ext-716/IT, Relator Min. Mauricio Correa, DJ 20-02-98, p. 14).

Constitucional – Penal – Extradição – Prisão decretada pela Justiça estrangeira – Elementos informativos – Lei 6.815, de 19.08.1980, art. 80 – Extraditando casado com brasileira – Filho brasileiro – Acusação formulada contra o extraditando – Indagações preliminares – Atos delituosos praticados em território brasileiro e italiano – Concurso de jurisdições – Associação de tipo mafioso – Cód. Penal italiano, art. 416, bis – Cód. Penal brasileiro, art. 288, crime de quadrilha ou bando

1. Mandado de prisão expedido pela Justiça italiana. Satisfeita a exi-

gência do art. 80 da Lei n. 6.815/1980, na redação da Lei n. 6.964/1981, não cabe a Justiça Brasileira o exame dos elementos informativos em que se baseou o Tribunal estrangeiro para formalizar a acusação e decretar a prisão do extraditando. 2. O fato de o extraditando ser casado com brasileira e com esta ter filho, nascido no Brasil, não afasta a extradição. Súmula 421-STF. 3. Não é causa impeditiva da extradição o fato de a acusação formulada contra o extraditando estar na fase de indagações preliminares. 4. Concurso de juris- dições penais: atos delituosos praticados em território brasileiro e italiano:

prevalece a jurisdição penal italiana, dado que não existe, no Brasil, procedi- mento penal-persecutório contra o extraditando. Precedentes do STF. 5. Cor- respondência de tipificação: associação de tipo mafioso, Cód. Penal italiano,

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art. 416, bis. Crime de quadrilha ou bando, art. 288 do CP. 6. Atendimento das exigências do art. 80 da Lei n. 6.815/1980.’ (Ext-638/IT, Rel. Min. Carlos Velloso, DJU 15.09.1995, p. 29506)

15. Ante o exposto, opina o Ministério Público Federal pela concessão do pedido de extradição formulado pelo Governo da Itália, em desfavor do seu nacional Fabio Franco.

(

Correto o parecer do Ministério Público Federal.

A formalização do pedido de extradição se fez no prazo de 40 (quarenta) dias

previsto no art. XIII, item 4, do Tratado de Extradição celebrado entre o Brasil e a Itália.

).”

(Fls. 607-611)

Com efeito.

A embaixada da Itália foi formalmente comunicada da prisão do extraditando no

dia 10-2-2004 (fl. 37 da PPE 462, em apenso). O pedido de extradição foi formalizado em 10-3-2004, no prazo, portanto, previsto no Tratado.

Os delitos imputados ao extraditando encontram tipificação no Direito Penal posi- tivo brasileiro, como bem demonstrado no parecer do Ministério Público Federal.

Os delitos teriam ocorrido em novembro de 2001 (fls. 14-17) e até março de 2003 (fls. 47-72). Não há falar, portanto, em prescrição, seja pela lei italiana, seja pela lei brasileira.

O pedido está instruído com os decretos de prisão e com os demais documentos

exigidos pela Lei 6.815/80, art. 80, e pelo Tratado de Extradição Brasil—Itália.

Do exposto, acolho o parecer do Ministério Público Federal e defiro o pedido de extradição.

EXTRATO DA ATA

Ext 923/República Italiana — Relator: Ministro Carlos Velloso. Requerente: Governo da Itália. Extraditando: Fabio Franco (Advogados: Antonio Benedito Barbosa e outros).

Decisão: O Tribunal, por unanimidade, deferiu o pedido de extradição, nos termos do voto do Relator. Ausente, justificadamente, o Ministro Carlos Britto. Presidiu o julgamento o Ministro Nelson Jobim. Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda Pertence, Celso de Mello, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Gilmar Mendes, Cezar Peluso, Joaquim Barbosa e Eros Grau. Vice-Procurador-Geral da República, Dr. Antonio Fernando Barros e Silva de Souza.

Brasília, 31 de março de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

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QUESTÃO DE ORDEM NA AÇÃO CAUTELAR 929 — RJ

Relator: O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence Requerente: Expresso Real Rio Ltda. — Requerido: Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro

1. Medida cautelar em recurso extraordinário: competência do Su-

premo Tribunal Federal para o julgamento de medidas cautelares de RE, quando nela se oponha o recorrente à aplicação do art. 542, § 3º, do Código de Processo Civil: incidência do disposto no parágrafo único do art. 800 do Código de Processo Civil (“interposto o recurso, a medida cautelar será requerida diretamente ao tribunal”): hipótese de medida cautelar que visa a afastar óbice ao processamento do recurso na instância a qua, diversa do problema do início da jurisdição cautelar do Supremo para conceder efeito suspensivo ao RE: precedente (Pet. 2.222, 1ª T., 9-12-03, Pertence, DJ de 12-3-04).

2. Recurso extraordinário: temperamentos impostos à incidência

do art. 542, § 3º, do Código de Processo Civil, entre outras hipóteses, na de antecipação de tutela que possa tornar ineficaz o eventual provimento dos recursos extraordinário ou especial.

3. Medida cautelar: deferimento: caso que — dados os termos da

antecipação de tutela, em particular, a injunção à autarquia de licitar de imediato as linhas objeto da permissão questionada — é daqueles que efetivamente não admitem a retenção do recurso extraordinário.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribunal Federal, em Sessão Plenária, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, resolvendo questão de ordem, deferir a medida cautelar para determinar o processamento do recurso extraordinário, a fim de que o admita, ou não, a presidência do Tribunal a quo, como entender de direito, nos termos do voto do Relator.

Brasília, 6 de setembro de 2005 — Sepúlveda Pertence, Presidente e Relator.

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Em ação civil pública proposta pelo Ministério Público contra o Departamento de Transportes Rodoviários do Estado do Rio de Janeiro e a requerente — cujo pedido principal é a declaração de nulidade dos atos que prorro- garam a permissão para explorar linhas de transporte coletivo intermunicipal (apenso 1, fl. 63) —, o juízo de primeiro grau deferiu antecipação da tutela nos termos seguintes (apenso 1, fls. 92/96):

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Da Tutela de Urgência Pretendida e do Despacho Liminar Positivo Inicialmente, desnecessário se torna a oitiva prévia do Poder Público já que o Detro prestou informações às fls. 68/69, dos autos 2003.001.101973-0, que abragem a ora permissionária 2ª Ré. Pretende o Ministério Público a antecipação dos efeitos da tutela final, nos termos pormenorizadamente elencados no item III, número 1 e respectivos desdo- bramentos, conforme disposto às fls. 28/29 de sua inicial. Nas alíneas 1.1 e 1.2 do sobremencionado item, requer o autor primeiramente, decisão judicial que obrigue o Detro-RJ à observância das Leis 8666/93 e 8987/95, abstendo-se de delegar linhas regulares, serviços complementares, linhas requisi- tadas e linhas especiais do serviço público de transporte coletivo intermunicipal de passageiros por ônibus sem prévio procedimento licitatório e; em segundo lugar, requer que o primeiro réu seja obrigado a suspender imediatamente as delegações de serviço público de transportes de passageiros por ônibus que não foram precedidas de licitação e que ainda não entraram em operação. Nas quatro alíneas subseqüentes (1.3, 1.4, 1.5, e 1.6) do item em referência, pugna pelo implemento de providências destinadas à deflagração do procedimento licitatório para as 1.087 linhas intermunicipais de ônibus do Estado, inclusive com a cominação de multa pela inobservância do preceito, o que se coadunava com os termos em que originariamente havia sido proposta a demanda. Finalmente, nos números 2, 3, 4, 5 e 6 do item III, desvela-se o pedido com suas especificações e demais consectários. Inicialmente, verifica esta magistrada que a pretensão antecipatória deduzida nas alíneas 1.1 e 1.2 do item III, nada mas são do que exortações ao cumprimento, pelo Detro-RJ, do princípio da obrigatoriedade de licitação prévia para delegação de serviços públicos, consagrada constitucionalmente e na legislação regulamen- tadora correlata, tanto que tais pretensões já foram acolhidas conforme decisão de fls. 58, dos autos n. 2003.001.101973-0. No que concerne às alíneas 1.3 e 1.6 do item III da exordial em exame observa-se que estando o litisconsórcio limitado à empresa Expresso Real Rio Ltda e ao Detro, em razão dos documentos acostados às fls. 32/74, entende esta Magistrada estar presente a fumaça do bom direito, pois o contrato de adesão de fls. 61/68, celebrado entre a Expresso Real Rio Ltda e o Detro-RJ, tendo por objeto a prorro- gação de permissão de serviço pelo prazo de 15 anos, firmado em 19/05/1998, afronta a Lei 8.666/93 e 8.987/95, diplomas especificadamente voltados ao esta- belecimento de normas gerais sobre concessões e permissões de serviços públicos, com aplicação a todos os entes federativos. Logo, apesar da plena vigência da Lei 8.666/93 em consonância do art. 175, caput, da Constituição da República, foi celebrado em adesão sem licitação prévia, em 1998, com prorrogação de permissão de serviço pelo prazo de 15 anos, sem permitir ao responsável pelo serviço o exercício de seu juízo discricionário sobre a oportunidade e a conveniência de prorrogar as permissões e/ou autorização em vigor, violando-se o princípio da

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moralidade administrativa. Saliente-se que em representação por inconstituciona- lidade n. 2002.007.00137, proposta pelo Exmo Sr. Procurador Geral de Justiça perante o Órgão Especial do Egrégio Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro foi concedida liminar pelo Eminente Des. Marlan Marinho para suspender, até deci- são final, os efeitos da expressão “mantidas automaticamente, pelo prazo legal de 15 anos, prorrogável uma única vez, as atuais permissões e autorizações decorrentes das disposições legais contidas no Decreto-lei 276 de 22 de julho de 1975, cuja disciplina foi outorgada à autarquia criada pela Lei n. 1211, de 06 de novembro de 1987”, constante do artigo 6º; b) da expressão “da concessão” contida no artigo 32; c) do § 2º do artigo 45, todos da Lei Estadual n. 2831/97 do Estado do Rio de Janeiro. Há aparente violação dos artigos 7º e 77, caput, e do inciso XXV, da Constituição estadual e dos artigos 2º, 37 e 175 da Constituição Federal, vale dizer; os princípios da moralidade administrativa ( Depreende-se do contrato de adesão n. 002/98 que apesar do mesmo em sua cláusula 1ª declarar que o objeto do presente será também regido pela Lei 8.666/93, manteve o Detro/RJ, automaticamente, por mais 15 anos, de acordo com cláusula 11ª, a prorrogação da permissão do serviço de transporte, que ainda pode ser pror- rogável pelo mesmo período desde que a permissionária esteja executando os serviços de forma satisfatória, em total afronta com os princípios da moralidade, da legalidade e demais princípios que devem reger o atuar da Administração Pública, além de vulnerar o espírito dos artigos 40, caput e parágrafo único e 42, § 2º, da Lei Federal n. 8.987/95. O periculum in mora restou também demonstrado eis que a ausência de lici- tação, dentre outros gravames, causa grave prejuízo ao erário já que os valores que deveriam ser arrecadados pelo Estado quando da adjudicação da linha à empresa vencedora operada em licitação deixam de ingressar nos cofres públicos, sem falar que os usuários dos serviços suportam o pagamento de tarifa e condições questionáveis de prestação de serviço, pois a ausência de licitação impede a sele- ção da empresa que atenda ao interesse público. No que se refere ao perigo de dano inverso, na hipótese dos autos este não se vislumbra, haja vista que o serviço continuará sendo prestado, não sendo a popu- lação prejudicada, bem como não há direito subjetivo para o eventual vencedor do certame à adjudicação do contrato, sendo que continuam mantidas as demais cláusulas do contrato de adesão ora impugnado, no que se refere a ora permissionária, estando suspensa a cláusula de vigência do mesmo e de transferência. Nesse passo, não há risco de dano inverso para a atual permissionária que continuará a empreender o transporte de passageiros, nos termos das cláusulas avençadas, podendo ainda vir a comprovar a liceidade da avença que a habilita a tal mister. Desse passo, defiro a liminar, para determinar:

1 - Que se abstenha o Detro de delegar linhas regulares, serviços complemen- tares, linhas requisitadas e linhas especiais do serviço público de transporte cole- tivo intermunicipal de passageiros por ônibus, sem que realize prévia licitação, a partir da intimação da presente decisão;

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2 - Suspendo, imediatamente, os efeitos das cláusulas 11ª e 12ª, do contrato

de adesão n. 002/98, por violar o art. 175, caput, da atual carta política e as Leis 8.666/93 e 8987/95, mantendo-se os demais termos de fls. 61 à 67, em razão da necessidade da continuidade da prestação de serviço, determinando que o Detro inicie o procedimento licitatório destinado à escolha dos novos delegatários do serviço público de transporte coletivo no prazo de 180 dias, com a publicação dos editais;

3 - Determino que o Detro deposite em cartório, no prazo de 120 (cento e

vinte) dias, minuta dos editais de licitação das linhas delegadas a 2ª Ré, descritas

às fls. 43, já que a Lei Federal não faz qualquer distinção entre linhas comple-

mentares, linhas regulares e especial. Impende observar que nos editais suso mencionados deverá constar que as linhas licitadas encontram-se sub judice, cientificando-se, destarte, os eventuais interessados em participar do certame;

4 - Que o Detro apresente a classificação final das propostas oferecidas no certame licitatório no prazo de trinta dias após concluída a licitação;

5 - Fixo multa de R$20.000,00 caso seja descumprida a liminar, na forma do art. 11, da Lei 7.347/1985;

6 - Tendo em vista a gravidade dos fatos narrados na inicial, que indicam

afronta ao princípio da moralidade administrativa e prejuízo ao erário, extraiam-se peças ao Procurador Geral de Justiça e para a Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania para que seja instaurado inquérito com a finalidade de se apurar conduta do Sr. Luiz Armando de Mattos, Presidente do Detro à época da assinatura do contrato de adesão, conforme fl. 68, bem como eventual improbidade administra- tiva pelos agentes públicos que diretamente participaram da celebração do contrato

de adesão, bem como a conduta dos representantes legais da sociedade permissio- nária;

7 - Citem-se os réus. Forneça o autor cópias da inicial para instrução do mandado respectivo. Intime-se.

8 - Traslade-se para os presentes autos cópia das informações prestadas pelo detro às fls. 68/69, dos autos 2003.001.101973-0.”

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro negou provimento ao agravo da empresa

requerente, mantendo a antecipação da tutela (apenso 4, fl. 833).

Interposto recurso extraordinário, por pretendida violação dos arts. 93, IX; 37, XXI, e 175 da Constituição, cuja retenção, no entanto, se determinou no Tribunal a quo, com base no art. 542, § 3º, do Código de Processo Civil. Donde, a “ação cautelar” proposta com vistas a que se determine o processamento do RE, dado que a persistência da tutela antecipada poderá gerar à requerente danos de impossível ou difícil reparação.

É o relatório.

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VOTO

O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Relator): Decidiu esta Turma (Pet 2.222, 9-12-03,

Pertence, DJ de 12-3-04):

“1. Medida cautelar em recurso extraordinário: competência do Supremo Tribunal Federal para o julgamento de medidas cautelares de RE, quando nela se oponha o recorrente à aplicação do art. 542, § 3º, do Código de Processo Civil:

incidência do disposto no parágrafo único do art. 800 do Código de Processo Civil (“interposto o recurso, a medida cautelar será requerida diretamente ao tribunal”):

hipótese de medida cautelar que visa a afastar óbice ao processamento do recurso na instância a qua, diversa do problema do início da jurisdição cautelar do Supremo para conceder efeito suspensivo ao RE. 2. Medida cautelar: indeferimento: ausência de fumus boni juris: caso de recurso extraordinário contra decisão concessiva de tutela antecipada em ação civil pública, não cabível, por não se tratar de decisão definitiva: Código de Pro- cesso Civil, art. 273, § 4º.” Doutrina e jurisprudência, invocadas com pertinência na petição, têm imposto temperamentos à incidência do art. 542, § 3º, do Código de Processo Civil, entre outras hipóteses, na de antecipação de tutela que possa tornar ineficaz o eventual provimento dos recursos extraordinário ou especial. Valiosas, a respeito, as observações do Dr. Cândido Dinamarco, invocadas na petição:

a preponderar sem abrandamento a norma agora trazida pelo Código de

Processo Civil, toda pretensão e toda resistência às tutelas jurisdicionais de urgên- cia ficará confinada aos graus ordinários de jurisdição, sem possibilidade de acesso ao Supremo Tribunal Federal ou ao Superior Tribunal de Justiça.

Sendo negada pelo Tribunal local uma tutela cautelar ou alguma antecipa- ção de tutela (art. 273), os males do tempo inimigo, de que falava Carnelutti terão campo livre para progredir e dificilmente chegará o momento em que os tribunais de superposição pudessem ditar corretivos – porque o estado de retenção só cessará quando o mérito já tiver sido julgado ou o processo extinto, situações em que as medidas de urgência terão perdido a oportunidade. Havendo sido concedida a tutela de urgência pelo tribunal local, a parte atingida amargará os seus efeitos, também até quando