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Projeto de Literatura Portuguesa

Introdução

“(…) Oito horas em ponto. Uma movimentação estranha no país. Uma deposição
pacífica, sem sangue. Aguardávamos com serenidade pela bandeirola vermelha. Haviam
passado dois dias e nada de grave acontecia, somente o mundo inteiro, expectante, a
olhar para o seu país. (...)”

Os Memoráveis, Lídia Jorge


ATO I
CENA 1

(Americanos dirigem-se a Ana Maria e fazem-lhe a proposta.)

MISS MACHADO – Está, portanto, a pedir-me que, depois destes anos todos, volte a
Portugal, para gravar um documentário sobre a revolução do 25 de Abril, na qual o meu
pai participou? Agora?

AMERICANO – Pode crer, Miss Machado, eu nunca encontrei um povo tão sensato como
aquele a que pertence. Um povo pobre, sem álgebra, sem letras. Não é só um
documentário! É a história de um povo que com cinquenta anos de ditadura às costas,
com o pé amarrado à terra, que um dia veio para a rua gritar pelo golpe do Estado que
não era Estado!
(Inspira, força o diafragma e articula a voz) – Corpo a corpo, cara a cara, com armas na
mão, mas como se não as tivessem! Insultam-se, batem-se, prendem-se e não se
matam. Eu vi, eu assisti. E é isto que preciso de contar, é esta a realidade que quero
deixar escrita antes que seja tarde. Compreende?

MISS MACHADO (Confusa, mas com ar interessado) – Sim, perfeitamente. Sr. (prolonga-
se à espera de uma apresentação por parte do americano)?

AMERICANO – Não está a entender! Eu falo do povo, mas o povo tem assinatura. O
Lourenço é um deles, está vivo. Está vivo, ele e o povo, o Carvalho também, morreu o
Antunes e o Salgueiro. Era uma pessoa impoluta, deixou-nos. Miss Machado (bate com
a mão direita na mesa mostrando a relevância do assunto), pessoas maravilhosas
morreram, um povo maravilhoso e ferido, uma cidade encantadora e…sabe, passei lá os
melhores anos da minha vida.
ATO II
CENA 1

(Ana Maria dirige-se ao seu primeiro entrevistado, Chefe Nunes, num restaurante no
qual este trabalha, apresenta-se e estrutura brevemente o assunto.)

MISS MACHADO – Sim, sou filha de um dos seus companheiros! Depois de tudo o que
lhe já expliquei, eu, já aqui em Portugal, fui até ao escritório do meu pai procurar por
alicerces para formular o documentário. E, entretanto, encontrei uma moldura lacada
com uma carrada de poeira em cima, uma fotografia do Memories. Eu conhecia-a desde
sempre, e julgava reproduzi-la com precisão, mas afinal guardara dela apenas uma
recordação imperfeita.

CHEFE NUNES – Então veio parar aqui como? É impossível lembrar-se de mim e,
sinceramente, dos restantes na fotografia de que fala…

MISS MACHADO – Bem, eu reparei que tinha fixado as manchas em vez dos rostos, nem
me lembrava muito bem da dinâmica do grupo, demorei a examinar o conjunto, mas
era perfeito. Eu conhecia a maior parte dos sublevados que ali se encontravam, sabia
que no verso da fotografia havia uma legenda escrita pela mão de Rosie Honoré, ainda
que não me lembrasse dos detalhes, mas sabia que incluía uma projeção desenhada dos
fotografados, os seus nomes, as suas alcunhas.
Digo-lhe que fiquei segura, não duvidei, eu iria servir-me daquele achado. Não só pela
fotografia em si ser de boa qualidade, mas também o desenho das figuras, a legenda,
tudo confirmava a virtualidade plástica daquele documento, de várias formas, raro.
Era a dimensão testemunhal de um momento acontecido, nas costas da história,
fenomenal. E então? Aceita?
(Horas depois, Chefe Nunes testemunha para o documentário, plano de luz centra-se
em si.)

MISS MACHADO – Relaxe, e quando quiser, o testemunho é seu!

CHEFE NUNES (esfrega as mãos e aquece a voz) – Posso começar por lhe dizer que nesse
dia eu quase tinha ido amanhecer na Baixa, à procura de umas roupas para um serviço.
Entrava e saía das lojas, ali na Rua Augusto. Entretanto, uma coluna militar, vinda de
baixo, em direção ao Rossio (ri-se suavemente e adquire uma postura de recordação) …
Epá nem consigo explicar! Foi um momento sem par. Eu estava eufórico, a hora deles
era a minha hora. Tropas a avançar entre lojas, esqueci-me de tudo, e lembro-me que
gritei – “LEVEM-ME A MIM, ARRANQUEM-ME A CABEÇA DO CORPO E FAÇAM DELA UMA
BALA”.

MISS MACHADO (sorri e coloca as mãos nos joelhos suportando o rosto.)

CHEFE NUNES – Andei atrás deles o resto da manhã, e toda a tarde até à noite, assisti à
descarga sobre a frontaria do Quartel do Carmo, vi a chaimite Bula levá-los, e ainda corri
atrás. Gritava de alegria, Lisboa era uma festa pegada, houve um momento em que dei
por mim em vários locais da cidade ao mesmo tempo. À distância, acho que o meu corpo
se multiplicava, ou então era ilusão dos meus sentidos. Aquele foi o dia mais feliz da
minha vida, juro, nem quando nasceu o meu filho.

CENA 2

(Ana Maria prepara-se para ouvir o seu segundo testemunho, Bronze.)

MISS MACHADO – Senhor coronel, falemos então daquele dia, o primeiro da liberdade.
Mesmo tendo estado ausente do teatro das operações, e mesmo tendo passado este
tempo todo, em seu entender, como descreve o que se passou naquele dia?
BRONZE (entrelaça as mãos e procura uma palavra na qual sente dificuldade em
pronunciar) – MI… MI… MILAGRE. Um obra de milagre, minha Senhora. Milagre, sim.
Sendo eu um agnóstico; até que gostaria de usar outro termo mais sereno, mas não
encontro. Milagre porquê? Pela coincidência no tempo de tantos factos inesperados.

MISS MACHADO (ajeita o cabelo e adota um ar duplamente interessado) – Como assim,


Coronel? Ao que se refere?

BRONZE – Olhai! Registem a minha opinião antes que seja tarde. Primeiro. Porque está
definitivamente apurado que, no teatro de operações, um alferes deveria atirar uma
bazucada contra o capitão que se encontrava na frente, diante da torre do seu carro de
combate, mas contra tudo o que era de prever, o alferes desobedeceu e não deu ordem
de abrir fogo. Segundo. Uma corveta fundeada no Tejo deveria disparar umas
bombardas (utiliza as mãos para exemplificar o tamanho de uma bombarda) sobre uma
praça, e contrariamente ao que deveria ter acontecido, todas as bocas de fogo se
mantiveram inertes. Terceiro. Toda uma brigada, instalada no Cristo Rei, estava o ponto
de afundar essa corveta que se encontrava na sua mira, e apesar da indefinição do
comando do navio, as armas que a vigiavam mantiveram-se caladas. Quarto. Um capitão
deu ordem para abrir fogo contra a fronteira de um quartel, e no momento o
companheiro que estava no interior do carro não disparou. Naquele preciso momento,
em que se poderia ter iniciado uma carnificina, o oficial não tinha os auscultadores nos
ouvidos. (Aumenta o tom de voz) Como interpretais isto? Quinto. O Chefe de Estado,
encurralado no quartel, mandou abrir fogo sobre a cidade, e o comandante da Guarda
que estava diante de si e que lhe era fiel, não cumpriu a ordem. NÃO SERÁ ISTO
EXTRAORDINÁRIO? E sexto. Quando, no interior do quartel, finalmente, alguém prestes
a soltar a palavra de ordem fatídica, umas crianças em fuga surgiram no corredor e essa
imagem evitou o cumprimento da ordem. Alguém pensou que, depois daquelas
crianças, iriam morrer milhares de outras como elas. Ali dentro só se ouviam sussurros,
até que se deu a capitulação. Eram gritos de alegria vindos do lado de fora. E depois um
sétimo milagre, e um oitavo e assim foi, de milagre em milagre até à vitória final.
MISS MACHADO (com brilho nos olhos e sorriso radiante) – Não tem noção do quão isso
é extraordinário, o que me acaba de contar.

BRONZE – Pode crer que tenho Ana Maria.

CENA 3

(Entra em cena a terceira testemunha, Tião Dolores, o fotógrafo da imagem que Ana
Maria encontrou.)

TIÃO – Jovens, naquela manhã, acordei estranho. Era demasiado cedo para me levantar,
demasiado tarde para dormir. Peguei na Leica e fui para a rua tomar café, pensei que o
melhor era pôr-me a andar pela Avenida da Liberdade abaixo, o mundo pareceu-me
cinzento. E assim andei, andei e andei na direção da Agfa onde havia encomendado
material umas semanas antes. Entrei e paguei os rolos e pensei que tudo nesta vida era
para nada. Mas quando deambulava pela Rua da Conceição, sem rumo, de repente vi
uma coluna militar a avançar em direção ao Rossio. Era tudo confuso, ou então eu não
queria acreditar no que estava a acontecer. Depois vi os tanques a invadir as lojas, e
confirmei o que se passava, fiquei tão fora de mim que até me esqueci da Leica. De
braços abertos, avancei para eles, esquecido até de que era um fotógrafo. Gritei tal
como toda gente estava a fazê-lo - PASSEM POR MIM, QUERO SER O VOSSO TAPETE.
Comecei a correr atrás, a oferecer o peito, a dizer que o meu pai tinha morrido na
frigideira de Cabo Verde, a contar a minha vida aos berros e, do nada, a sentir tudo.

MISS MACHADO (encantada) – Fenomenal, mas e a câmara?

TIÃO – Por mais estranho que possa parecer, só comecei a fotografar quando me senti
a caminhar no meio daquela multidão que gritava o mesmo que eu. Foi só aí, quando vi
alguns colegas meus a fotografar, que acordei. Ia-me dando um treco. Tinha perdido a
Rua Augusta, o Rossio, perdi a Rua do Carmo e a Garrett. A partir daí sim, fotografei os
cachos de pessoas penduradas em árvores, quando as pernadas já estavam tão cheias
que não havia mais ramos livres. E depois as janelas, a frontaria do Largo do Carmo, o
chão do Carmo, os passos de cada um, a saída da chaimite da Bula. Nessa noite, não me
deitei. Nos dias que se seguiram, não soube o que era uma cadeira. Lisboa tinha-se
transformado num lugar sem paredes. Mas não era só eu a sentir isto, até a Leica chiava
e disparava por ela mesma.

MISS MACHADO – É extraordinária a maneira de como se recorda, sabe?

TIÃO (ri-se) – As horas fundamentais, as primeiras, vivi-as de tal forma que as perdi. E
muitas vezes pergunto-me se serei mesmo um verdadeiro fotógrafo.
Não sou, não, juventude, se o fosse, o meu primeiro gesto quando os vi a subir a Rua
Augusta teria sido engatilhar a câmara, a chapa. (Radiante). Mas sou português e do
povo, isso tenho a certeza.

ATO III
CENA 1

(Fora de cena, encontra-se Ana Maria a falar com um diretor.)

MISS MACHADO – Diretor, Umbela foi um dos oito assaltantes do Rádio Clube, na noite
de vinte e cinco, e sem o seu depoimento, parte da coerência do nosso projeto, assente
no esquema da fotografia do grupo, sofreria um rude golpe. A sua figura seria
imprescindível, quem o poderá substituir?

ATO IV
CENA 1

(De volta ao estúdio, Margarida Lota, colega de formatura de Ana Maria Machado entra
em cena para testemunhar por Umbela.)

MARGARIDA LOTA – Tínhamos passado os últimos dois dias de fevereiro de volta do


Batalhão de Caçadores 5, entretidos a reconstruir os seus movimentos. Demorámos
longamente a trocar impressões sobre as horas e os passos. Tinha sido ali. O Coronel
não mencionou nos seus número de milagres, o antigo Batalhão de Caçadores 5, testa-
de-ferro do antigo regime vigiado por todos os lados, numa hora noturna de sonolência,
havia deixado escapar para a rua a mosca revolucionária. Eu permanecia ali,
impressionada por determinadas revelações. Eu lamentava, sabe? Eles só tinham seis
granadas de bazuca para assaltarem aquele quartel e, naquele tempo, encontravam-se
de tal modo mal calçados e mal vestidos, que andavam por ali de mantas aos ombros
para combaterem o frio inesperado. Desramados! Desmuniciados! Tinham acreditado
na própria força e resistiram. E o facto de imaginar um exército esfarrapado a assaltar
as forças leais ao governo, mais aumentava a minha admiração.

MISS MACHADO (ri-se e olha nos olhos Margarida) – E os outros?

MARGARIDA LOTA – Pois sim! Tenho que ser justa, pois tão esfarrapados estavam os
assaltantes como os assaltados. Nesse tempo, ao que parece, todos o eram.

CENA 2

(Vem a testemunhar Salamidas, um dos corpos que emitiu o primeiro sinal de revolução,
de rotura.)

SALAMIDAS (entusiasmo; falando alto e de forma apressada) – Então foi assim. Éramos
cem. Saímos pela porta lateral, passámos por um tapume, encaminhámo-nos para a Rua
Garrett, Chiado acima, depois atingimos as duas igrejas, já seriam umas três horas da
madrugada, e no Largo Camões não havia vivalma. Não havia rumor, não haviam
estrondos, não havia sirenes, não havia polícia, e nós pensámos. Teremos mesmo nós
cem colocado a gravação no ar? Foi mesmo verdade, ou foi um sonho? A canção do
Zeca? O cante dele? Tanto silêncio, tamanha calma. Não teremos colocado a fita no ar?
A canção não terá passado? Ninguém neste país a terá escutado? Nenhum civil?
Nenhum militar?

MISS MACHADO – Como se sentiam com isso? Com essa espera?


SALAMIDAS – Os nossos cem corações batiam de medo debaixo daquelas cem camisas.
Foi assim, naquela madrugada, foi assim…

MISS MACHADO – Conte-me o que aconteceu horas depois? Quando reparou que os
tinham ouvido?

SALAMIDAS (utiliza as mãos para se expressar) – Há três horas que a emissão tinha ido
para o ar, há uma hora que andávamos pelas ruas, e ainda estávamos vivos. Ou então
mortos. Quando mais tarde acordei, ouvindo dizer que vinha a subir pela Rua do Carmo
acima uma coluna de tanques carregados de soldados, com a população da cidade
correndo atrás aos gritos de incitação, compreende o que eu senti (Caem-lhe lágrimas)?
A ressurreição veio ter comigo e vestiu a minha roupa, calçou os meus sapatos. A
ressurreição pequenina, individual que, mais tarde, fez rir a gente, tomou conta da
minha vida, no meio do meu quarto. Éramos livres de rir.

ATO V
CENA 1

(Margarida Lota vai à procura de Campeador para que ele desse o seu testemunho. Este
rejeita e ri-se porque pensa ser uma brincadeira.)

MARGARIDA LOTA (grita e agita as folhas para que o Campeador descesse do seu
cavalo, visse e acreditasse) – Precisamente, fale-nos dessa noite, por favor. Nós temos
connosco a cópia dos seus planos memoráveis, andamos sempre com essas folhas
debaixo do braço.

(Campeador desce e agarra nas folhas, encara Margarida e diz-lhe que sim).

CAMPEADOR – Sim! Sim! Eu quero falar!


ATO VI
CENA 1

(A substituir Charlie 8, entra em cena a sua mulher, de caráter regionalista. De volta ao


estúdio.)

MISS MACHADO – Gostava que invocasse o que dizia o seu marido quando ao momento
em que tinha percebido que a operação Fim de Regime iria ser um sucesso.

CHARLIE 8 – É preciso dizer as palavras certas sobre o que se passou para que o povo
possa salvar o que deve. O povo tem que saber que, se a mentira passar sobre nós, o
povo ficará mais frágil porque ficará sem o exemplo dos seus defensores, e um povo
sem defensores não passa de um rebanho de gado de lã branca abandonado à mercê
dos lobos.

MISS MACHADO – E o que nos pode dizer sobre a revolução? Sobre o dia?

CHARLIE 8 (pensativa) – Pois estou aqui a pensar que o momento mais importante,
aquele que mais esperanças me deu de que a revolução tinha pernas para andar, foi
aquele que se seguiu à passagem do poder a um general que usava um caco de vidro no
olho direito. Esse general, durante toda a noite de vinte e cinco e durante toda a manhã
também, tinha ficado imóvel, a fingir-se de morto, enfiado em casa, à espera do
desenlace, para ver para onde caíam as cartas.
Duas horas depois de termos passado a comando, ainda nem nos tinha visto o rosto, e
logo ali começou a inaugurar o período de desmame revolucionário.

MISS MACHADO – E o seu marido?

CHARLIE 8 – Naquela manhã, lá na Ribeira das Naus, o meu marido percebeu que estava
em marcha uma grande vitória quando um dos seus tenente avançou em direção ao
adversário, pela Rua do Arsenal fora. Como todos os outros, ele levava um lenço branco
mas mãos. O brigadeiro recebeu-o à bofetada, mandou abrir fogo sobre esse tenente,
mas o coronel não o fez. Assim, olhos nos olhos. Este coronel e tenente. Aí, o meu
marido pensou que estavam salvos, porque a verdade é que estavam cinco mil efetivos
dispersos no terreno, mas unidos pela amizade. O meu marido era assim. Ele
considerava que a amizade era a melhor ração de combate que se poderia levar para o
campo de batalha (sorrindo). O meu marido ficou em frente do carro blindado, a olhar
para o visor, sem se desviar um milímetro que fosse.

MISS MACHADO – Sabe, o seu marido é um grande homem! E como ele, um dia, todos
serão lembrados. Mesmo nós, que nada de especial fazemos nesta vida. A história nem
sempre é um pesadelo, por vezes também é um sonho agradável. E sejamos práticos!
Para que servem as vidas se não for para isso? Tenho a certeza absoluta de que no futuro
ninguém será esquecido. Obrigada.

(Todos batem palmas, cumprimentando-se uns aos outros.)

Silêncio é morte
E tu, se te calas
Morres, e nós também
E se falas
Morres, e nós também
Então diz e morre. E nós também.

Fim.

Maria João, Lara, Hugo, 10LH3


A liberdade ansiada
A partir de "Os memoráveis" de Lídia Jorge

Ato I
Cena I

(América, oito horas da manhã, atualidade)

Americano: Miss Machado, em tantos anos da minha vida nunca encontrei um povo
como o seu. Pobre, analfabeto e com cinquenta anos de ditadura nas costas. Mas de
repente, um golpe de Estado! Com armas na mão, mas não se mataram. Eu estive lá e
esta é a realidade que é preciso contar antes que seja tarde.
Eu falo do povo, mas o povo tem assinatura. O Lourenço, o Carvalho, os falecidos
Antunes e Salgueiro, que nos deixaram tão cedo.
Miss Machado, no seu país passei os melhores anos da minha vida e tanta gente, foi
cumprida ali a minha missão mais importante.

Cena II

(Miss Machado encontra uma fotografia de seu pai e os seus companheiros da


revolução. Está curiosa, entusiasmada, à procura de pormenores)

Miss Machado: (sobe ao escadote de Jacob; vira o retrato, encontra uma legenda) 21
de agosto de 1975. (entusiasmada). Lembro-me tão bem destas caras e das boas
memórias no Memories.

Ato II
Cena I
Miss Machado: É óbvio que constava na fotografia do Memories... E sabemos que
esteve lá, no dia D. O que tem para nos dizer?

Chefe Nunes: (esfrega as mãos) Mal tinha amanhecido e dirigi-me à Rua Augusta para
comprar algumas roupas. Pensei que estava a ver uma coluna militar em direção ao
Rossio. Quando os vi passar soube logo o que se passava. Esqueci-me de tudo e gritei
"Levem-me a mim, pessoal, arranquem-me a cabeça do corpo e façam dela uma bala".
Andei atrás deles o dia todo. Lisboa parecia minúscula e nem dei por ter andado, estava
tão feliz.
Agora, passados estes anos, senti que o meu corpo se multiplicava. (nostalgia) Foi o dia
mais feliz da minha vida.

Cena II

Miss Machado: Senhor Coronel, falemos do primeiro dia da Liberdade. Como o


classifica?

(Bronze procura a palavra certa para iniciar o seu discurso; pensa durante alguns
segundos, gesticulando com as mãos)

Bronze: (instintivo) Milagre! Sendo eu um agnóstico, gostaria de usar outro termo, mas
não consigo. Registem o que vos digo antes que seja tarde.

(Miss Machado pega no seu bloco de notas)

Bronze: Estava definido que, durante as operações, um alferes devia atirar contra o
capitão diante da torre do seu carro de combate. Mas, o contrário aconteceu, nenhuma
boca de fogo tinha disparado. Ainda assim, um capitão ordenou que se abrisse fogo a
um quartel e o soldado não o fez. Em seguida, Marcello mandou abrir fogo sobre a
cidade e o guarda, que lhe era fiel, não o cumpriu. (Devoção, orgulho e entusiasmo) E
assim foi, de milagre em milagre até à vitória final.
Cena III

Tião Dolores: Meninos, nesse dia acordei estranho. Era muito cedo para me levantar,
mas demasiado tarde para dormir. Da noite anterior tinha-me restado apenas um rolo
de película. Fui em direção à Agfa e, ao olhar as montras, não acontecia nada. Foi quando
fui para a rua da Conceição que vi uma coluna militar ir em direção ao Rossio. Quando
os vi passar e confirmei o que se passava, fiquei em êxtase, tanto que me esqueci da
Leica! Fiquei sem cabeça e gritei:
"Passem por cima de mim, eu quero ser vosso tapete". Não usei a máquina, mas corri
de peito aberto atrás deles.

Miss Machado: Mas captou as mais belas fotografias! O que nos tem a dizer sobre elas?

Tião Dolores: Só comecei a fotografar quando comecei a caminhar no meio da multidão.


Perdi a Rua Augusta, o Rossio, o Carmo e a Rua Garrett. Só depois comecei a disparar.
Pessoas, tantas, penduradas nas árvores que nem lá cabiam, cachos à janela, a frontaria
do Carmo e a famosa chaimite. Não me deitei nem me sentei. Lisboa não tinha
fronteiras, estava em vários lugares ao mesmo tempo e não dei por caminhar. A minha
câmara fotografava o que eu não via. Só quando revelei as fotos notei o quanto ela
trabalhou por mim.
Não sou o verdadeiro fotógrafo, juventude. Se fosse, a primeira coisa que faria era
fotografar a Rua Augusta.

Cena IV

Miss Machado: (aparte) Na madrugada de 25, Umbela foi um dos assaltantes do Rádio
Clube. Sem o seu depoimento, o nosso projeto não seria o que é. Ninguém o pode
substituir.
Umbela: Foi durante o fim-de-semana, fomos ao local e passámos muito tempo a
recolher informações sobre as horas e os passos, isto no Batalhão de Caçadores 5. O
governo tinha-o cercado por todos os lados, mas deixaram escapar o objeto
revolucionário.

Margarida Lota: (impressionada e admirada) Vocês só tinham 6 granada, morriam de


frio e, ainda assim, acreditaram na força da resistência. É fantástico imaginar um
exército com este poder.

Cena V

Margarida Lota: Pode-nos falar desse noite? Temos a cópia dos seus planos, nunca nos
esquecemos deles (agita as cópias e desdobra-as, mostrando-as).

Salamidas: Então foi assim (suspira de nostalgia). Éramos cem a sair pela porta lateral e
após passarmos por um tapume encaminhámo-nos pelo Chiado acima, já às três horas
da madrugada. No largo Camões, nem uma alma viva. Sem os rumores, estrondos,
sirenes ou polícia, começámos a achar que não tínhamos colocado a gravação no ar.
Será que tínhamos sonhado com o som dos passos pelo país fora e com a voz da canção
do Zeca? Teria sido uma fantasia das nossas cabeças? Ninguém deste país teria escutado
a canção?
Assim, quando caminhávamos, afastados e com medo por uma hora, pensei que já
estaríamos mortos ou sendo torturados. Por surpresa minha, ouvi dizer que vinha uma
coluna de soldados acompanhados pela população. Aí compreendem o que eu senti?
(Entusiasmo e orgulho) Parecia que tinha encontrado a ressurreição, que, finalmente,
me deixou rir livremente!

Cena VI

Miss Machado: O que dizia o seu marido quando percebeu que a operação do fim do
Regime iria ser um sucesso?
Charlie 8: As pessoas têm de saber que se houver mentiras o povo ficará fragilizado e
sem o exemplo dos que lutavam por ele. Nós, sem os defensores, seríamos um rebanho
abandonado à mercê dos lobos. Mas vocês são jovens demais para entendê-lo (tristeza).

Miss Machado: Faremos o possível...

Charlie 8: Estou a recordar o momento mais importante, o mais esperançoso e o que


me deu vontade de continuar. Foi aquele a seguir à tomada de posse de um general que
tinha um caco de vidro no olho direito. Um general que não saiu à rua quando tomámos
o comando e começou a inaugurar o período de desmame revolucionário.

Miss Machado: Sei que nos pode contar mais do que apenas um facto histórico.

Charlie 8: Vou repetir apenas o que sei. O meu marido sabia que a vitória estava por vir
quando, na Rua Augusta, um dos tenentes avançou sobre o adversário. Levava um lenço
branco como os outros. Eram dez horas da manhã. O meu marido achava que
todos estavam salvos porque estavam unidos pela amizade. Desde o Ultramar que
acreditava que a amizade era a melhor arma de combate. (Perde-se em pensamentos)
Voltemos ao embate. Coronel contra tenente e um conflito de interesses.

Cena VIII

Miss Machado: Por escassas vezes, a história não é apenas um pesadelo e sim um sonho
agradável, onde vale a pena uma pessoa acordar e tentar guardar essa imagem. Assim,
mantemo-nos num estado de alerta, de forma a prolongar esse momento. Qualquer
pessoa, mesmo os que não fizeram nada de especial na vida, serão recordados para
sempre. No futuro ninguém será esquecido.

Ana Francisca, Carolina e Francisca Simões, 10LH3


A partir de “Os Memoráveis”
Lídia Jorge

Personagens:
• Ana Maria Machado (Miss Machado)
• Margarida Lota
• Americanos
• Chefe Nunes
• Tião Dolores
• Bronze
• Umbella
• Salamidas
• Charlie 8

Ato I
Cena 1

(América, oito horas em ponto)

Americanos: Ao longo de toda a minha vida nunca vi um povo tão pobre, sensato, sem
letras e que sobreviveu a 50 anos de ditadura. Quando aconteceu o Golpe de Estado,
apesar de toda a guerra, não aconteceu nenhuma morte. Temos de contar ao mundo o
que sucedeu. O Lourenço e o Carvalho ainda estão vivos, infelizmente o Antunes e o
Salgueiro faleceram, eram pessoas fantásticas, um povo maravilhoso, uma cidade
encantadora. Os anos que passei lá foram os melhores.

Ato II
Cena 1
(Miss Machado está em Portugal, a mesma está sentada no último degrau do escadote
de Jacob)
Miss Machado: Eu conhecia quase todos os amigos do meu pai. A fotografia foi tirada
no Memories pelo Tião Dolores. O importante não é a moldura, mas a história por detrás
dela.

Cena 2

(Chefe Nunes esfrega as mãos e começa o seu discurso)

Chefe Nunes: Vamos começar a contar a história antes que eu desista. Eu estava na Rua
Augusta quando a coluna militar ia em direção ao Rossio. Quando a tropa avançou para
as lojas, eu pedi para me arrancarem a cabeça e usá-la como bala. Andei atrás deles a
manhã, tarde e noite naquele dia, vi a descarga sobre a frontaria do Quartel do Carmo.
Todos, inclusive eu, gritávamos alegres. Lisboa era uma festa pegada. Aquele foi o
melhor dia da minha vida.

Cena 3

Miss Machado: Falemos do primeiro dia de liberdade. Como é que classifica o que
aconteceu naquele dia?
Bronze: Foi um milagre. Porquê? Pela coincidência no tempo de tantos factos
inesperados. Anote o que eu digo antes que não consiga. A história mudou, pois, um
Alferes que deveria atirar uma bazuca não o fez, as bocas-de-fogo mantiveram-se
inertes, um capitão deu a ordem para abrir fogo, mas o fiel comandante não obedeceu,
alguém estava quase a dar a ordem, quando algumas crianças apareceram e impediram
tudo. Algum tempo depois, só ouvimos gritos de alegria, foi assim de milagre em
milagre.

Cena 4
Tião Dolores: Naquela manhã acordei estranho, fui tomar café com a minha leica ao
ombro e pensei que seria mais um dia normal, mal sabia eu que estava enganado. Estava
eu na Rua Conceição quando vi uma coluna militar avançar em direção ao Rossio. Com
a pressa, quase me ia esquecendo da minha leica, mas lá estava ela à minha
espera…comecei a tirar fotos, mas não fui rápido o suficiente, pois perdi a Rua Augusta,
o Rossio, a Rua do Carmo e a Rua Garrett. Fotografei os cachos de pessoas penduradas
nas árvores, cachos de janelas. Nessa noite, não dormi. Serei eu um verdadeiro
fotógrafo? Não, não sou, se fosse o meu primeiro gesto teria sido engatilhar a câmara.

Cena 5

(Umbella foi um dos assaltantes do Rádio Clube, na noite de vinte e cinco)

Umbella: Fomos ao local, não demorámos a trocar impressões sobre as horas e os


passos. O antigo Batalhão de Caçadores 5, testa de ferro do antigo regime, havia deixado
escapar para a rua a mosca revolucionária, numa hora de sonolência.

Margarida Lota: Estou impressionada com todas estas revelações. Mesmo vocês
estando mal calçados, mal vestidos, desarmados, desmuniciados, acreditaram na vossa
própria força e venceram.

Cena 6

Salamidas: Éramos cem, fomos em direção à Rua Garrett; no largo Camões não havia
ninguém. Não havia polícia, sirenes ou estrondos, teríamos nós posto a gravação no ar?
Teria sido um sonho? Provavelmente teria sido uma fantasia, nós cem não pusemos a
fita no ar, nenhuma árvore se movimentava. No final, 3 horas depois, a emissão foi para
o ar, mas a real pergunta era porquê é que nós não estávamos a ser levados para os
curros de António Maria Cardoso, onde a tortura nos esperava? Mais tarde, acordei e
uma coluna de tanques subia a Rua do Carmo, a população dava gritos de incitação.
Agora erámos livres para rir.
Cena 7

Margarida Lota: Fale-nos daquela noite, temos aqui a cópia dos seus planos
memoráveis.
Aqui estão!

(Margarida Lota grita para o campeador)

Cena 8

Miss Machado: Poderia dizer-nos quais foram as suas palavras quando se deu conta de
que a operação Fim do Regime iria ser um sucesso?
Charlie 8: O povo tinha que saber que se a mentira passasse por nós, eles ficariam sem
o exemplo dos seus defensores, pois sem eles, o povo não passa de um rebanho de gado
à mercê dos lobos.
O momento mais importante que me deu esperanças sobre o seguimento da revolução,
foi a passagem do poder a um general que usava um caco de vidro no olho direito.
Durante o dia 25, ele ficou em casa a fingir-se de morto, à espera do desenlace; duas
horas depois de termos passado o comando, começou a inauguração do período do
desmame revolucionário.

(Era de manhã, estavam na Ribeira das Naus, dez horas em ponto)

Charlie 8: Vi que estava em marcha uma grande vitória, o Coronel e o Tenente deram
um passo e ficaram frente a frente. Pensei que estávamos salvos, pois achava que a
amizade era a melhor ração de combate.
Fiquei frente a frente com o carro blindado do alferes, e não desviei o olhar um
milímetro que fosse.
Ato III
Cena 1

Miss Machado: Não importa o que fizemos durante a nossa vida, de qualquer maneira,
por mal ou por bem, alguém irá sempre lembrar-se de nós. No futuro, ninguém será
esquecido.
Alexandra; Inês; Beatriz, 10LH3
Silêncio é morte!
A partir de “Os Memoráveis” de Lídia Jorge

Personagens:
− Ana Maria Machado (Miss Machado);
− Americanos;
− Chefe Nunes;
− Bronze;
− Tião;
− Umbela;
− Salamidas;
− Margarida Lota;
− António Machado;
− Rosie Honoré.

ATO I
(Miss Machado está na América. São oito horas em ponto. Esta dialoga com os
americanos sobre a movimentação revolucionária que estava a ter origem no seu país,
Portugal. Estes aguardavam com serenidade. Todos queriam colocar a ilustre bandeira
do povo lusitano no seu devido lugar. Todavia, já haviam passado dois dias e nada de
grave tinha acontecido.)

CENA 1

Americanos: Miss Machado, tenho que admitir que, ao longo do meu percurso, nunca
encontrara um povo tão sensato como aquele a que você pertence. Um povo pobre,
com cinquenta anos de ditadura sobre as costas e que fez surgir um golpe de Estado que
foi de encontro aos interesses mútuos dos portugueses. É esta realidade que preciso de
contar antes que seja tarde, percebe?
Falo de um povo, mas este tem assinatura. O Lourenço e o Carvalho que fizeram a sua
própria assinatura, assim como o Antunes e o Salgueiro, que por destino da vida
acabaram por falecer. Pessoas maravilhosas que morreram, um povo maravilhoso, uma
cidade encantadora; passei lá os melhores anos da minha vida e a minha missão foi
cumprida ali.

ATO II
(Miss Machado, já em Portugal, encontra-se no escritório do seu pai, António Machado,
em busca de informação suplementar para o seu artigo. Nos meios dos pertences do
pai, encontra a velha fotografia tirada por Tião Dolores no restaurante Memories, onde
estavam presentes o seu pai, a sua mãe, Rosie Honroé, o Chefe Nunes, o Bronze, Tião
Dolores, Umbela, Salamidas e o campeador).

CENA 1
Miss Machado: Conheci a maior parte dos revolucionários que ali se encontravam.
Assim como sabia que, no verso da fotografia, havia uma legenda escrita pela mão da
minha mãe, Rosie Honroé, ainda que não me lembrasse dos detalhes. Lembro-me que
incluía uma projeção desenhada dos fotografados e fazia uso de petits noms para os
identificar. Já não havia dúvida, ir-me-ei servir da fotografia do Memories, estava segura
de que tinha feito o meu achado.

ATO III
(Miss Machado desloca-se para o restaurante Memories com o intuito de entrevistar a
primeira testemunha, o Chefe Nunes.)

CENA 1
Chefe Nunes (esfregou as mãos): Poderei dizer-lhe que nesse dia eu quase tinha ido
amanhecer na Baixa, pois estava à procura de umas roupas para recompensar o serviço
faltado. Vagueava pela Rua Augusta, até que noticiei algo esplêndido. A tropa avançava
entre lojas e logo percebi o que se estava a passar. No momento seguinte, esqueci-me
de tudo e apenas pude gritar: Levem-me a mim, pessoal, arranquem-me a cabeça do
corpo e façam dela uma bala...! O meu corpo encontrava-se numa euforia tremenda e
creio que os meus gritos de alegria se faziam ouvir por toda Lisboa. Enfim, aquele foi o
dia mais feliz da minha vida.

CENA 2

Miss Machado: Falemos então, Senhor Coronel, daquele dia, o primeiro da liberdade.
Mesmo tendo estado ausente do teatro das operações, e mesmo após estes anos todos,
no seu entender, como classifica o senhor o que se passou naquele dia?

(Bronze começou a procurar uma palavra. Estava relutante, mas notava-se que já a tinha
encontrado.)

Bronze: Milagre. Classifico-o como obra de um milagre.


(repetiu o Oficial, enfrentando com coragem o plano que se apertava sobre o seu rosto).
Milagre, sim. Gostaria de encontrar outro termo mais sereno, mas não encontro. Deve-
-se estar a questionar o porquê de um milagre, e a resposta é simplesmente pela
sucessão de acontecimentos inesperados.
Primeiro. No teatro das operações, um alferes deveria atirar uma bazucada contra o
capitão que se encontrava em frente, mas contra tudo o que era de prever, o alferes
desobedeceu e não deu ordem de abrir fogo. Segundo. Uma corveta fundeada no Tejo
deveria disparar bombardas sobre uma praça e, contrariamente ao que se tinha
proposto, todas as bocas de fogo se mantiveram fechadas. Terceiro. Tinha-se instalado
uma brigada, no Cristo Rei, estava a ponto de afundar essa corveta que se encontrava
na sua mira. Apesar do indefinido comando do navio, as armas mantiveram-se inertes.
Quarto. O Chefe de Estado, que se encontrava encurralado no hotel, mandou abrir fogo
sobre a cidade e o comandante da Guarda que estava diante do Chefe de Estado, era-
lhe fiel, no entanto, não cumpriu a ordem. Quinto. Já no interior do Quartel, quando se
pensava que a morte seria inevitável, gritos de alegria fizeram-se ouvir, assim como os
sucessivos milagres até à vitória final.
CENA 3

Tião: Tinha acordado estranho naquela manhã. Encontrava-me com uma vontade
enorme de fotografar os cenários mais grandiosos de Lisboa, mas nada parecia merecer
a minha atenção. Pus-me a andar pela Avenida da Liberdade, o mundo encontrava-se
sem cores, num profundo sofrimento. Mas quando divagava pela Rua da Conceição, sem
rumo, vi surgir uma coluna militar, a avançar na direção do Rossio, e nesse momento,
parei. Quando os vi a avançar por entre as lojas, fiquei tão fora de mim que me esqueci
da minha Leica. Corri atrás deles, a contar a minha vida aos berros, que o meu pai tinha
morrido na frigideira de Cabo Verde, e em momento algum usei a minha Leica, sentindo
a adrenalina daquele instante no meu peito.
Quando vi os meus colegas a fotografar, apercebi-me que não tinha registado aquele
acontecimento. Estava a ficar desesperado. Queria recordar-me daquele momento, do
mais pequeno detalhe que pudesse mostrar. Nessa noite, não me deitei. Sentia-me vivo,
no êxtase da minha vida. Lisboa tinha-se transformado num lugar sem paredes e dei
por mim em vários locais ao mesmo tempo. Eu já não tinha controlo sobre mim mesmo.
A Leica disparava por ela mesmo, trabalhava por mim. Pergunto-me se serei um
verdadeiro fotógrafo, pois se o fosse não hesitaria em registar aquele momento único.

ATO IV
(Na noite de 25 de Abril, Umbela tinha sido um dos oito assaltantes do Rádio Clube e
sem o seu depoimento, parte da coerência do projecto de Miss Machado, assente no
esquema da fotografia do grupo, sofreria um rude golpe. Ninguém o poderia substituir
pois este era imprescindível.)

CENA 1

Miss Machado: Pensando em Umbela, tínhamos passado os últimos dois dias de


fevereiro entretidos a reconstituir os movimentos do Batalhão de Caçadores 5, ao longo
das ruas de Lisboa, na noite memorável. Era fim-de-semana, fomos ao local e aí
demorámo-nos longamente a trocar impressões sobre as horas e os passos. Havia sido
ali! O antigo batalhão de Caçadores 5, testa-de-ferro do antigo regime, vigiado por todos
os lados, numa hora nocturna de sonolência, havia deixado escapar para a rua a mosca
revolucionária.

(Margarida Lota permanecia no local, impressionada por determinadas revelações.


Lamenta.)

Margarida Lota: Havia que ser justo, pois tão esfarrapados estavam os assaltantes
quanto os assaltados. Nesse tempo, ao que parece, todos eram esfarrapados.

ATO V
CENA 1
(Margarida Lota grita, agitando as cópias, desdobrando-as para que o cavalheiro visse e
acreditasse.)

Margarida Lota: Justamente, fale-nos dessa noite, por favor. Nós temos presente
connosco a cópia dos seus memoráveis. Aqui estão eles.

Salamidas: Éramos cem. Tínhamos saído pela porta lateral, em direção à Rua Garrett. Já
seriam por volta das três da madrugada quando chegámos ao Largo de Camões, onde o
silêncio predominava. Começámos a duvidar da efetividade do nosso plano e, no meio
da calmaria, fez-se ouvir os passos daqueles que viriam a ser os revolucionários.
Possivelmente isto seria apenas uma ilusão provocada pelas nossas mentes. Nenhum de
nós teria colocado a fita no ar, assim como os portugueses não tinham tomado
conhecimento da canção. Pelo menos, pensávamos nós. O ambiente encontrava-se
numa morbidez total. E caminhando por diferentes direções os nossos cem corações
exaltavam o medo por debaixo das cem camisas. E foi nesse estado de espírito que
passei aquela madrugada.
Já passavam três horas do momento em que a gravação tinha sido emitida e há quase
uma hora que andávamos pelas ruas. Permanecemos vivos, ou, melhor dizendo,
“torturados” por um sono sem fim, pois, de contrário, já estaríamos a ser levados para
os curros de António Maria Cardoso. Momentos depois, acordei ouvindo dizer que vinha
a subir pela Rua do Carmo uma coluna de tanques carregados de soldados, seguida de
gritos e excitação da população da cidade. A ressurreição veio ter comigo e tomou conta
da minha vida.

CENA 2

Miss Machado: Gostaria que recorresse ao que dizia o seu marido quanto ao momento
em que se tinha apercebido de que a operação “Fim do regime” iria ser um sucesso.

Charlie 8: É preciso dizer as palavras certas sobre o que se passou para que o povo possa
salvar o que deve. O povo tem de saber que, se a mentira passar por nós, o povo ficará
mais frágil porque ficará sem o exemplo dos seus defensores, e um povo sem defensores
não passa de um rebanho de gado abandonado à mercê dos lobos.
Pois eu estou aqui a pensar que o momento que mais esperanças me deu de que a
revolução tinha pernas para andar, foi o que se seguiu à passagem do poder a um
general que durante toda a noite e manhã do dia 25, tinha ficado imóvel, a fingir-se de
morto, trancado em casa à espera do desenlace.”
Vou então repetir o que sei. Lá na Ribeira das Naus, naquela manhã, o meu marido
percebeu que estava em marcha uma grande vitória quando um dos seus tenentes
avançou pela Rua do Arsenal fora, em direção ao adversário. Levando um lenço branco
nas mãos como todos os outros, o brigadeiro recebeu-o à bofetada e mandou abrir fogo
sobre esse tenente, mas o coronel que deveria ter aberto fogo não o fez, sob pretexto
de que não podia abater um tenente que tanto estimava. De forma que, olhos nos olhos,
entre coronel e tenente, às dez horas em ponto, o meu marido pensou que estávamos
salvos, pois havia cinco mil efetivos dispersos no terreno, mas unidos pela amizade. Ele
sempre foi assim, sempre considerou que a amizade era a melhor ração de combate que
se poderia levar para o campo de batalha.
Nem sempre a história é um pesadelo. Olhe que, por vezes, embora escassas, a história
também é um sonho agradável e tão apaziguante.
ATO VI

CENA 1

Miss Machado: Um dia, todos serão lembrados, mesmo aqueles que não fazem nada de
especial nesta vida. Para que servem as vidas se não para isso? Tenho a certeza absoluta
de que no futuro ninguém irá ser esquecido. Há-de haver um lugar onde seja possível
lembrarmo-nos de tudo e de todos.

(Silêncio é morte e tu, se te calas morres, e nós também e se falas então diz e morre. E
nós também.)
Catarina e Mafalda, 10LH3