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Adélia Prado • Afonso X • Agostinho Neto • Albertino

Bragança • Alberto Estima de Oliveira • Alda Lara •

Helena Carvalhão Buescu é professora cate-


A mais ambiciosa Alexandre Herculano • Alfredo Troni • Almeida Faria
• Almeida Garrett • Aluísio Azevedo • Álvaro Velho •
drática de Literatura Comparada na Universidade das antologias em português Ana Luísa Amaral • Ângelo de Lima • Antero de Quen-
tal • António Cardoso • António Ferreira • António
de Lisboa. É professora ou investigadora visitante
de prestigiadas universidades na Europa, EUA e
reúne textos literários de todo Gomes Leal • António Jacinto • António José da Silva
• António Lobo Antunes • António Nobre • Armando
Brasil. Tem mais de uma centena de ensaios publi- o mundo em sete volumes Silva Carvalho • Arménio Vieira • Augusto dos Anjos
• Baltasar Lopes • Bernardo Carvalho • Bernardo San-
cados e é autora de dezenas de livros, sendo o mais tareno • Camilo Castelo Branco • Carlos Drummond
recente Experiência do Incomum e Boa Vizinhança. Luís de Camões, Fernando Pessoa, Mia Couto, Maria Tere- de Andrade • Carlos Oliveira • Carmo Neto • Castro
Alves • Cesário Verde • Clarice Lispector • Corsi-
Literatura Comparada e Literatura-Mundo (2013). sa Horta, José Eduardo Agualusa, Machado de Assis, Her- no Fortes • Daniel Filipe • David Mourão-Ferreira •
Foi fundadora e directora do Centro de Estudos berto Helder, Paulina Chiziane, Nelson Rodrigues, Eça de Dina Salústio • Dom Dinis • Eça de Queirós • Eduardo
Comparatistas (Universidade de Lisboa) e perten- White • Eugénio de Andrade • Fernanda Botelho • Fer-
Queirós, Clarice Lispector, José Luandino Vieira, Germano nanda Dias • Fernando Pessoa • Fernão Lopes • Fernão
ce ao conselho do Institute of World Literature. de Almeida e Sophia de Mello Breyner Andresen são ape- Mendes Pinto • Ferreira de Castro • Ferreira Gullar
É membro da Academia Europaea e membro cor- nas alguns dos mais de cem escritores representados na pri- • Fiama Hasse Pais Brandão • Florbela Espanca • Fran-
respondente da Academia das Ciências de Lisboa. cisco de Andrade • Francisco Manuel de Melo • Frei
meira parte da antologia Literatura-Mundo Comparada. Estes João Verba • Gaspar Frutuoso • Germano Almeida • Gil
Foi distinguida com o Prémio Ensaio APE/Portu- Vicente • Gomes Eanes de Zurara • Gonçalves Dias •
dois primeiros volumes, que constituem a parte «Mundos
gal Telecom. Graciliano Ramos • Gregório de Matos • Henrique de
em Português», fazem uma leitura ampla de grande parte da Senna Fernandes • Herberto Helder • Infante Dom Pe-
literatura escrita originalmente em português. dro • Irene Lisboa • Joaquim Dias Cordeiro da Matta •
Inocência Mata é doutora em Letras pela Univer- João Cabral de Melo Neto • João de Barros • João Dias
sidade de Lisboa e pós-doutora em Estudos Pós-co- • João Guimarães Rosa • João Maimona • João Ubaldo Ri-
«Esta antologia tem como objectivo oferecer ao leitor um beiro • João Vário • Jorge Amado • Jorge de Sena • Jorge
loniais pela Universidade de Califórnia; é professora Ferreira de Vasconcelos • José Craveirinha • José de
da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa conjunto significativo de textos escritos nas várias litera- Alencar • José de Almada Negreiros • José Eduardo
na área de Literaturas, Artes e Culturas e professora turas de língua portuguesa, em Angola, no Brasil, em Cabo Agualusa • José Gomes Ferreira • José Lopes • José Luan-
dino Vieira • José Luís Mendonça • José Luiz Tavares •
visitante de muitas universidades estrangeiras. Ac- Verde, na Guiné‑Bissau, em Goa, em Macau, em Moçambi- José Régio • José Rodrigues Miguéis • José Saramago •
tualmente, é professora na Universidade de Macau, que, em Portugal, em São Tomé e Príncipe e em Timor‑Les- Lídia Jorge • Lília Momplé • Lima Barreto • Luís Ber-
sendo vice-directora do Departamento de Portu- nardo Honwana • Luís Cardoso • Luís de Camões • Luís
te. Conjugando a interrogação activa do conceito de ‘Lite- Filipe Castro Mendes • Luís Fróis • Luís Kandjimbo •
guês, coordenadora do programa de doutoramento ratura‑Mundo Comparada’ com a reunião de literaturas dos Luiza Neto Jorge • Luiz Ruffato • Machado de Assis •
PhD in Literary and Intercultural Studies (Portuguese), países representados, a antologia explora, tanto na identifi- Manuel Alegre • Manuel Bandeira • Manuel Botelho
de Oliveira • Manuel Gusmão • Manuel João Ramos •
e directora do Centro de Investigação de Estudos cação do corpus como na sua organização, a articulação entre Manuel Laranjeira • Manuel Maria Barbosa du Bocage
Luso-Asiáticos (CIELA). É membro de associações a perspectiva comparatista que informa o projecto de que • Manuel Rui • Maria Isabel Barreno • Maria Judite de
científicas da sua especialidade, da Academia das Carvalho • Maria Velho da Costa • Maria Teresa Hor-
nasce e a dimensão produtiva e concreta do gesto antoló- ta • Mário Cesariny • Mário de Andrade • Mário de
Ciências de Lisboa, da Academia Angolana de Le- Sá‑Carneiro • Mário Dionísio • Marquesa de Alorna •
gico. O objectivo primeiro deste duplo esforço é oferecer
tras, e académica correspondente da Academia Ga- Mia Couto • Miguel Torga • Moacyr Scliar • Natália
lega da Língua Portuguesa. Pertence ao Conselho
ao leitor uma publicação que possa ser entendida como um Correia • Nélida Piñon • Nelson Rodrigues • Nicolau
Editorial e Científico de muitas revistas de especia- lugar de encontro.» Tolentino • Nito Mesquinho • Nuno Bragança • Nuno
Júdice • Odete Costa Semedo • Onésimo Teotónio Al-
lidade, nacionais e estrangeiras. Tem publicado na —Da Introdução meida • Oswald de Andrade • Padre António Vieira •
área de literaturas africanas, literaturas em portu- Paulina Chiziane • Pedro Tamen • Pero de Magalhães
Gândavo • Pêro Vaz de Caminha • Raúl Brandão • Rei-
guês e estudos pós-coloniais. naldo Ferreira • Rubem Fonseca • Ruy Belo • Ruy Duar-
te de Carvalho • Sophia de Mello Breyner Andresen
• Suleiman Cassamo • Teixeira de Pascoaes • Teolinda
Gersão • Vasco Mousinho de Quevedo • Vergílio Fer-
reira • Vimala Devi • Wenceslau de Moraes • Yao Feng

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literatura­‑ mundo comparada:
perspectivas em português

-i-
mundos em português
(volume i)

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literatura­‑ mundo c o mpar ada
p ersp ectiva s em po r t u g u ê s

coor dena çã o gera l: helena c ar val h ão b u e s c u

PARTE I

coordena çã o c ie n tífic a:
helena ca rva lhão b u e s c u
inocência mata

l i sb oa
tinta­‑ da­‑ china
MMXVII

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Apoios: Parceiros institucionais:

Este trabalho é financiado por fundos nacionais


através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia,
I.P., no âmbito do projeto UID/ELT/0509/2013

© 2017, Centro de Estudos Comparatistas Este volume reproduz


da Universidade de Lisboa os textos fixados nas edições
e Edições tinta­‑da­‑china, Lda. consultadas, e identificadas
Rua Francisco Ferrer, 6 A | 1500­‑461 Lisboa junto a cada texto.
21 726 90 28/29 | info@tintadachina.pt

www.tintadachina.pt

Título:
Literatura­‑Mundo Comparada: Perspectivas em português
I — Mundos em português (Volume 1)

Coordenação Geral:
Helena Carvalhão Buescu

Coordenação Científica de I — Mundos em português:


Helena Carvalhão Buescu e Inocência Mata

Coordenação Executiva de I — Mundos em português:


Ariadne Nunes, Flávia Ba, Francisco Carlos Marques,
Gonçalo Cordeiro, Miriam de Sousa, Patrícia Infante
da Câmara e Rafael Esteves Martins

Composição: Tinta­‑da­‑china
Capa: Tinta­‑da­‑china

1.ª edição: Dezembro de 2017

isbn 978­‑989­‑ 671­‑392-8


Depósito Legal n.º 436113/18

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COLABORADORES
(Parte I, vols. 1 e 2)

Coordenação Científica de Cristina Almeida Ribeiro


Mundos em português: Davi Arrigucci Júnior
Helena Carvalhão Buescu David Jackson
Inocência Mata Duarte Drummond Braga
Ellen W. Sapega
Coordenação Executiva de Enrique Rodrigues­‑Moura
Mundos em português: Everton V. Machado
Ariadne Nunes Fátima Morna
Flávia Ba Felipe Cammaert
Francisco Carlos Marques Fernanda Gil Costa
Gonçalo Cordeiro Fernando Cabral Martins
Miriam de Sousa Fernando Pinto do Amaral
Patrícia Infante da Câmara Francisco Noa
Rafael Esteves Martins Gian Luigi de Rosa
Gil dos Santos
Colaboradores de Inês Forjaz de Lacerda
Mundos em português: Isabel Almeida
Adauto Clemente Isabel Rocheta
Alcir Pécora Jane Tutikian
Alva Martínez Teixeiro Joana Castagna
Amândio Reis Joana Matos Frias
Ana Filipa Prata João Barrento
Ana Maria Martinho João Dionísio
Anna M. Klobucka João Hansen
António Apolinário Lourenço João Minhoto Marques
Antonio Carlos Secchin José Augusto Cardoso Bernardes
Arnaldo Saraiva José Manuel da Costa Esteves
Benjamin Abdlah Júnior Juva Batella
Bruno Henriques Kathrine H. Rosenfield
Camila Seixas e Sousa Laura Padilha
Carina Infante do Carmo Ligia Chiappini
Carlos Mendes de Sousa Lola Geraldes Xavier
Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco Luandino Vieira
Clara Rocha Lúcia Mucznik
Clara Rowland Luís Kandjimbo
Conceição Siopa Luiz Roncari

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Manuel Muanza Pedro Ferré
Manuel Muariza Pedro Meira Monteiro
Margarida Gil dos Reis Piero Cecucci
Maria Alzira Seixo Roberto Vecchi
Maria Aparecida Ribeiro Rosa Goulart
Maria de Fátima Marinho Rosa Maria Martelo
Maria Graciete Silva Rosário Andorinha
Maria Helena Santana Sara Ramos Pinto
Maria João Brilhante Sílvia Renato Jorge
Marie-Reine de Sá Teresa Amado
Mário Lugarinho Teresa Mendes
Marisa C. Gaspar Thomas Earle
Marta Pacheco Pinto Ungulani Ba Ka Khosa
Marta Teixeira Anacleto Valeria Tocco
Mónica Simas Vanda Anastácio
Odete Costa Semedo Vânia Chaves
Patrícia Franco Vera Duarte
Patricio Ferrari Violante Magalhães
Paula Morão Vítor Aguiar e Silva

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PARTE I
MUNDOS EM PORTUG UÊ S
( VOLM E 1)

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ÍN DICE GERAL

Palavras Prévias 23
Introdução Geral 25
Introdução:: Mundos em português 31

(1)  CONFLITO E VIOLÊNCIA

AFONSO X, Rei de Castela e Leão


[Nom me posso pagar tanto], in A Lírica Galego­‑Portuguesa 39

José Eduardo AGUALUSA


«Carta a Madame de Jouarre — Olinda, Dezembro de 1876», in Nação Crioula
— A correspondência secreta de Fradique Mendes 41

Manuel ALEGRE
«Nambuangongo meu amor», in Praça da Canção 47

José de ALENCAR
«Terceira parte — Os Aimorés», in O Guarani 48

Castro ALVES
«O navio negreiro (tragédia no mar)», in Os Escravos 64

António Lobo ANTUNES


«Relato», in O Manual dos Inquisidores 72

Aluísio AZEVEDO
Excerto de «Capítulo I», in O Cortiço 82

Maria Isabel BARRENO, Maria Teresa HORTA e Maria Velho da COSTA


«Extractos do diário de D. Maria Ana, descendente directa de D. Mariana
sobrinha de D. Mariana Alcoforado, e nascida por volta de 1800», in Novas
Cartas Portuguesas 86

Camilo Castelo BRANCO


«Capítulo XIX», in Amor de Perdição 90

Luís de CAMÕES
«Canto III — Estâncias 118­‑137», in Os Lusíadas 95

António CARDOSO
«Pela calçada da Maria da Fonte», in Poemas de Circunstância 100

Paulina CHIZIANE
Ventos do Apocalipse 101

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João DIAS
«Godido (extra)», in Godido e Outros Contos 108

António FERREIRA
«Acto IV — Cena I», in Castro 111

Vergílio FERREIRA
«A galinha», in Contos 118

Rubem FONSECA
«Passeio noturno I» e «Passeio noturno II», in Feliz Ano Novo 124

Herberto HELDER
«Teorema», in Os Passos em Volta 130

Alexandre HERCULANO
«Conclusão», in Eurico, o Presbítero 133

António JACINTO
«Monangamba», in Poemas 137

Lídia JORGE
A Costa dos Murmúrios 139

Fernão LOPES
«Prólogo», in Crónica de D. João I — Primeira parte 147
«Capítulo XII», in Crónica de D. João I — Primeira parte 149

Gregório de MATOS
«Aos principais da Bahia chamados os Caramurus», in Crônica do Viver­
Baiano Seiscentista 152

Nito MESQUINHO
«Epitáfio», in O Parnaso Timorense 153

Lília MOMPLÉ
«Os mortos e os vivos», in Neighbours 154

Agostinho NETO
«Adeus à hora da largada», in A Sagrada Esperança 159

Carlos OLIVEIRA
«Descrição da guerra em Guernica», in Trabalho Poético 161

Graciliano RAMOS
«Baleia», in Vidas Secas 166

Nelson RODRIGUES
«Capítulo 23», in O Casamento 170

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Luiz RUFFATO
«Ratos», in Eles Eram Muitos Cavalos 173

Bernardo SANTARENO
«Acto I», in O Judeu 175

Moacyr SCLIAR
«Marrocos, 18 de Julho de 1972 a 15 de Setembro de 1972», in O Centauro
no Jardim 181

Jorge de SENA
«Parte segunda — Capítulo V», in Sinais de Fogo 187

(2)  MEMÓRIA E VIDA

Germano ALMEIDA
O Testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo 195

Marquesa de ALORNA
«Ao tempo», in Sonetos de Marquesa de Alorna 197

Ana Luísa AMARAL


«Um Pouco só de Goya: Carta a minha filha», in Inversos (Poesia 1990~2010) 198

Carlos Drummond de ANDRADE


«Poema de sete faces», in Alguma Poesia 200

Eugénio de ANDRADE
«Casa na chuva», in Ostinato Rigore: Escrita da terra e outros epitáfios 202

Francisco de ANDRADE
Cancioneiro Fernandes Tomás 203

Mário de ANDRADE
«O peru de Natal», in Contos Novos 204

Augusto dos ANJOS


«Psicologia de um vencido», in As Aves Que aqui Gorjeiam 209

António Lobo ANTUNES


«Retratos», in Quarto Livro de Crónicas 210

Manuel BANDEIRA
«Evocação do Recife», in Libertinagem 212

Lima BARRETO
«O homem que sabia javanês», in Novas Seletas — Lima Barreto 215

Ruy BELO
«Ácidos e óxidos», in Todos os Poemas I 223

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Fernanda BOTELHO
Xerazade e os Outros 226

Albertino BRAGANÇA
«Solidão», in Rosa do Riboque e Outros Contos 228

Camilo Castelo BRANCO


«O Cego de Landim — III», in Novelas do Minho 233

Luís de CAMÕES
«Canto VII —Estâncias 77­‑ 87», in Os Lusíadas 237
«Canção IX», in Rimas 240
[Erros meus, má fortuna, amor ardente], in Rimas 244

Luís CARDOSO
Crónica de Uma Travessia 245

Armando Silva CARVALHO


«Le Beau Séjour», in Lisboas 248

Maria Judite de CARVALHO


«George», in Seta Despedida 250

Mia COUTO
«Quarto Capítulo», in Terra Sonâmbula 256

Vimala DEVI
«Ocaso», in Monção 273

Almeida FARIA
«21 — Tiago», in A Paixão 276

Yao FENG
«Peixe salgado», in Palavras Cansadas da Gramática 279

Henrique de Senna FERNANDES


«Capítulo 3», in Amor e Dedinhos de Pés 280

José Gomes FERREIRA


«Café 1945­‑1946­‑1947­‑1948», in Poeta Militante II. Viagem do século xx em mim 286

Vergílio FERREIRA
«Capítulo XXXVII», in Para Sempre 288

Almeida GARRETT
«Solidão», in Flores sem Fruto 292

Teolinda GERSÃO
A Árvore das Palavras 295

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Alexandre HERCULANO
«Tristezas do desterro», in Poesias 299

Alda LARA
«Testamento», in Poemas 301

Ângelo de LIMA
«Pára­‑me de repente o pensamento», in Poesias Completas 303

Irene LISBOA
Solidão — Notas do punho de uma mulher 304

Baltasar LOPES
Chiquinho 309

Gregório de MATOS
«Soneto», in Crônica de Viver Baiano Seiscentista 317

José Rodrigues MIGUÉIS


Léah e Outras Histórias 318

António NOBRE
«Viagens na minha terra», in Só 322

Eça de QUEIRÓS
A Cidade e as Serras 327

Antero de QUENTAL
«Despondency», in Sonetos 331

Vasco Mousinho de QUEVEDO


«Soneto XXX», in Discurso sobre a Vida, e Morte, de Santa Isabel Rainha de
Portugal, & Outras Varias Rimas 332

José RÉGIO
«Cântico negro», in Poesia I 333

João Guimarães ROSA


«A terceira margem do rio», in Primeiras estórias 335

Miguel TORGA
Diários IX­‑XVI 340

Alfredo TRONI
Nga Mutúri 344

Cesário VERDE
«Carta 14», in Cânticos do Realismo e Outros Poemas 349

José Luandino VIEIRA


«A fronteira de asfalto», in A Cidade e a Infância 351

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(3)  HUMOR, SÁTIRA E IRONIA

Onésimo Teotónio ALMEIDA


«Acto III», in No Seio desse Amargo Mar 357

Jorge AMADO
A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Agua 364

António Lobo ANTUNES


As Naus 372

Manuel Maria Barbosa du BOCAGE


«O macaco declamando», in Obra Completa 377

Nuno BRAGANÇA
A Noite e o Riso 378

Camilo Castelo BRANCO


Coração, Cabeça e Estômago 382

Luís de CAMÕES
Auto dos Anfitriões 385

Suleiman CASSAMO
«Avó versus televisor», in Amor de Baobá 396

José CRAVEIRINHA
«Ninguém», in Karingana ua Karingana 398

Reinaldo FERREIRA
[Deixai os doidos governar entre comparsas!], in O Chão da Palavra/Poemas 399

Luís Bernardo HONWANA


«As mãos dos pretos», in Nós Matámos o Cão Tinhoso 400

Manuel LARANJEIRA
«Carta a Unamuno sobre a vocação suicida dos portugueses III», in Obras
de Manuel Laranjeira 403

Joaquim Dias Cordeiro da MATTA


«Libelo a Portugal», in Delírios 406

Francisco Manuel de MELO


O Fidalgo Aprendiz 407

José Luís MENDONÇA


«Subpoesia», in Quero Acordar a Alva 433

José de Almada NEGREIROS


O Manifesto Anti­‑Dantas e por extenso por José de Almada Negreiros poeta de
Orpheu futurista e tudo! 434

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Carmo NETO
Degravata 436

Nélida PIÑON
«I love my husband», in O Calor das Coisas e Outros Contos 438

Fernão Mendes PINTO


«Capítulos LIV e LV», in Peregrinação 444

Eça de QUEIRÓS
«Singularidades de uma Rapariga Loura», in Contos I 450

João Ubaldo RIBEIRO


«Capítulo I», in Viva o povo brasileiro 456

Manuel RUI
Quem Me Dera Ser Onda 466

Mário de SÁ­‑ CARNEIRO


«Fim», in Poemas Completos 471

Dina SALÚSTIO
A Louca de Serrano 472

José SARAMAGO
O Ano da Morte de Ricardo Reis 479

António José da SILVA [at.]


Obras do Fradinho da Mão Furada 484

Nicolau TOLENTINO
«A Guerra», in Memoriais e Sátiras 489

Jorge Ferreira de VASCONCELOS


«Acto III — Cena 1», in Comedia Eufrosina 498

Gil VICENTE
«Cena I», in Auto da Barca do Inferno 505

Arménio VIEIRA
«O Escriba explica a Ramósis quem são os unicórnios e bicórnios»,
in O Eleito do Sol 516

Padre António VIEIRA


«Sermão de S. António aos peixes», in Sermões do Padre António Vieira 521

(4)  POESIA SOBRE POESIA

Oswald de ANDRADE
«Manifesto antropófago», in A Utopia Antropofágica 531

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Sophia de Mello Breyner ANDRESEN
«Para Arpad Szènes», in O Nome das Coisas 536

Machado de ASSIS
«Um homem célebre», in Um Homem Célebre — Antologia de contos 537

Manuel Maria Barbosa du BOCAGE


«Camões, grande Camões, quão semelhante», in Opera Omnia 545

Fiama Hasse Pais BRANDÃO


«Quando eu vir vaguear por dentro da casa», in Obra Breve 546

Luís de CAMÕES
«Canto I — Estâncias 1­‑ 83», in Os Lusíadas 548
«Canção X», in Rimas 553

Ruy Duarte de CARVALHO


«Aprendizagem do dizer festivo», in Hábito da Terra 560

Mário CESARINY
«Louvor e simplificação de Álvaro de Campos», in Nobilíssima Visão 564

Natália CORREIA
«No túmulo de Florbela», in Poesia Completa 570

Maria Velho da COSTA


Missa in Albis 571

Dom DINIS, Rei de Portugal


«Proençaes soem mui bem trobar», in A Lírica Galego­‑Portuguesa 575

Mário DIONÍSIO
[Só tintas claras Delicadas], in Poesia Incompleta 576

Florbela ESPANCA
«Ser Poeta», in Obras Completas de Florbela Espanca — Poesia: 1918­‑1930 578

Daniel FILIPE
«Pequena ode marítima», in Pátria, Lugar de Exílio 579

Almeida GARRETT
«Canto décimo», in Camões de Almeida Garrett 580

Ferreira GULLAR
«Traduzir­‑se», in Toda Poesia 585

Manuel GUSMÃO
«Canção por que (não) morres», in Migrações de Fogo 587

Herberto HELDER
[tão fortes eram que sobreviveram à língua morta], in A Morte sem Mestre 589

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Luiza Neto JORGE
«A Magnólia», in Poesia 1960­‑1989 590

Nuno JÚDICE
«Arte poética com melancolia», in Teoria Geral do Sentimento 591

Clarice LISPECTOR
A Hora da Estrela 592

David MOURÃO-FERREIRA
«Teia», in Obra Poética 600

João Cabral de Melo NETO


«A educação pela pedra», in A educação pela Pedra 601

Alberto Estima de OLIVEIRA


[mirante: janela exposta], in O Rosto 602

Teixeira de PASCOAES
«Poema 1 — Senhora da Noite. Verbo Escuro», in Obras Completas
de Teixeira de Pascoaes 603

Infante Dom PEDRO e Frei João VERBA


«Parte VI, capítulo IX», in Livro da Vertuosa Benfeitoria 611

Fernando PESSOA
«Autopsicografia», in Poesias 614

Adélia PRADO
«Com licença poética», in Bagagem 615

Odete Costa SEMEDO


«Em que língua escrever», in Entre o Ser e o Amar 616

Pedro TAMEN
«7», in O Aparelho Circulatório 618

José Luiz TAVARES


«Limiar», in Paraíso Apagado por Um Trovão 619

Cesário VERDE
«Num bairro moderno», in Cânticos do Realismo e Outros Poemas 620

(5)  VIAGENS E (DES)CONHECIMENTO DO OUTRO

ANÓNIMO
«Nau Catrineta», in O Romanceiro Português e Brasileiro: Índice Temático
e Bibliográfico 627

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João de BARROS
«Década I, Livro VIII», in Décadas da Ásia 630

Raúl BRANDÃO
«O corvo», in As Ilhas Desconhecidas. Notas e paisagens 634

Bernardo Gomes de BRITO (org.)


«Relação da mui notável perda do Galeão Grande S. João», in História
Trágico­‑marítima 637

Pêro Vaz de CAMINHA


A carta de Pêro Vaz de Caminha ao Rei D. Manuel I 640

Luís de CAMÕES
«Canto VIII — Estâncias 6­‑11», in Os Lusíadas 646

Bernardo CARVALHO
Mongólia 648

Ruy Duarte de CARVALHO


«Namibe», in Vou lá Visitar Pastores 650

Ferreira de CASTRO
«Capítulo IV», in A Selva 658

Fernanda DIAS
«Rua de Jorge Álvares», in Horas de papel (Poemas para Macau) 662

Gonçalves DIAS
«Canção do exílio», in As Aves Que aqui Gorjeiam 663

Corsino FORTES
«Emigrante», in A Cabeça Calva de Deus 664

Luís FRÓIS
«Prólogo», in História de Japam 667

Gaspar FRUTUOSO
«Capítulo IV — Da história mais verdadeira e particular como o inglês
Machim achou a ilha da Madeira», in Saudades da Terra — Livro Segundo 671

Pero de Magalhães GÂNDAVO


«Das aves que há nesta província», in A Primeira História do Brasil —
História da Província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil 675

Almeida GARRETT
Viagens na Minha Terra 679

Luís KANDJIMBO
«Lisboa», in Antologia da Nova Poesia Angolana (1985­‑2000) 683

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António Gomes LEAL
«As aldeias», in Claridades do Sul 684

José LOPES
«Nas margens do Lucala», in 50 Poetas Africanos 685

João MAIMONA
«As fontes e as cidades os rios e os países», in Memória de Sombra 687

Luís Filipe Castro MENDES


«Os Ghats», in Lendas da Índia 688

Wenceslau de MORAES
O Culto do Chá 689

António NOBRE
«Lusitânia no Bairro Latino», in Só 694

Manuel Botelho de OLIVEIRA


«À ilha de Maré termo desta cidade da Bahia Silva», in Poesia Barroca 704

Fernando PESSOA
«Ulisses», in A Mensagem 713

Manuel João RAMOS


«O exótico sou eu», in Histórias Etíopes 714

José SARAMAGO
Memorial do Convento 717

Miguel TORGA
Diários XIII­‑XVI 724

João VÁRIO
Excerto de «Exemplo próprio — Canto terceiro», in Exemplos 726

Álvaro VELHO
Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama (1497­‑1499) 729

Eduardo WHITE
«Viagens e (des)conhecimento do outro», in Janela para Oriente 731

Gomes Eanes de ZURARA


«Capítulo LXXXIX — Do grande pranto que os mouros faziam sobre
a perdição da sua cidade», in Crónica da Tomada de Ceuta 732

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PALAVRAS PRÉ VIAS

Quero, na qualidade de coordenadora geral deste projecto, deixar uma pa‑


lavra pessoal de reconhecimento, apreço e admiração a todos os membros
da equipa organizadora. Os seus membros variaram de acordo com os ob‑
jectivos de cada um dos subgrupos adiante mencionados. A dedicação, o en‑
tusiasmo, a colaboração generosa de todos foram, nos vários anos ao longo
dos quais este projecto decorreu, uma das mais compensadoras experiências
académicas que pessoalmente tive, bem como a confirmação de que a Uni‑
versidade tem muito a fazer, quando conta com pessoas que acreditam nos
seus projectos e na possibilidade de os partilhar com uma comunidade que,
aqui, é tanto científica como, mais latamente, a de todos quantos lêem em
português. A Literatura­‑Mundo em português sob uma perspectiva compa‑
ratista é uma área que esta antologia aborda e de que mostra apenas uma
pequena parte.

Helena Carvalhão Buescu


Centro de Estudos Comparatistas
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

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INTRODUÇÃO G E RAL

Este conjunto de antologias corresponde a um projecto desenvolvido no


Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa, relativo ao
campo de estudos da Literatura­‑Mundo (World Literature, Weltliteratur),
a que por razões científicas chamamos Literatura­‑Mundo Comparada. A vi‑
são que aqui se propõe para esse campo é, pois, uma visão comparatista, sem
a qual não nos parece que a Literatura­‑Mundo possa realmente existir. É o
enfoque comparatista que permite a leitura destes textos, de variadíssimas
proveniências mundiais (geográficas e históricas), simultaneamente como
objectos singulares (cada texto em si mesmo considerado) e como objectos
em diálogo e por essa razão entre si comparáveis, dando assim conta da pers‑
pectiva diferenciada, nas suas diversas semelhanças, paralelos e contrastes,
que a Literatura­‑Mundo Comparada tem de saber reconhecer e sustentar.
Diga­‑se desde já que este conjunto de antologias exprime o ponto de
vista de uma equipa organizadora historicamente situada em Portugal, e são
por isso as categorias estéticas e histórico­‑sociais mais operativas no con‑
texto português, a partir do qual este projecto foi concebido e realizado, que
aqui se encontram plasmadas. É nossa convicção que este tipo de antologias
dá a ler não apenas o objecto por si constituído (os textos seleccionados),
mas também o ponto de vista de quem constitui o objecto — neste caso,
uma equipa de professores de literatura da FLUL e do seu CEC, que olha
para o mundo, no início do século xxi, a partir de um ângulo de visão que é
o seu. É interessante, por exemplo, considerar que uma semelhante antolo‑
gia, se realizada dentro de um século, ou a partir de um outro lugar de visão,
daria certamente resultados muito diferentes. A consciência desta situação
fez parte integrante de todos quantos colaboraram nesta antologia, sendo
aliás, do nosso ponto de vista, a confirmação de uma riqueza epistemoló‑
gica. Trata­‑se, por isso, de uma leitura historicamente e comparativamente
situada no quadro das literaturas do mundo.
Tal leitura deverá também deixar ler aquilo que ocupa principalmen‑
te o olhar comparatista: as tensões entre local, regional e mundial, por um

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26 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

lado; as relações entre língua(s) e diversidade intra e extralinguística, por


outro; a convicção de que as fronteiras nacionais não esgotam (antes pelo
contrário) a possibilidade de ler textos literários entre si muito diferentes;
e a consciência de quem se vai cada vez mais apercebendo, à medida que o
trabalho avança, de quantas zonas de silêncio, e mesmo de silenciamento,
têm restringido a possibilidade de ler, em português, textos maiores de ou‑
tras línguas, literaturas e culturas, em especial os mais afastados geográfica e
historicamente. Foi esta consciência que norteou o entusiasmo de todos os
elementos desta equipa na sua tentativa sistemática, não apenas de revisitar
de forma regular traduções já existentes em português de textos de outras
literaturas, mas sobretudo de encontrar colaboradores que, a maior parte
das vezes ad hoc e de forma generosa, se prestassem a verter textos nunca
até agora passíveis de ser lidos em português, mormente em tradução di‑
recta (por exemplo, excertos da saga islandesa, textos em bengali, ou contos
de autores chineses contemporâneos). Talvez estas apresentações permitam
aos leitores continuar a procurar, a ler, quem sabe a traduzir para português
ainda outras obras, de forma a tornar mais dialogante a leitura que pode‑
mos fazer dos textos que já conhecemos na área da literatura portuguesa, ao
cruzá­‑los com outros e assim permitir encontros desconhecidos e muitas
vezes surpreendentes. Contámos com mais de uma centena de colaborado‑
res, cujos nomes são indicados na respectiva lista, a quem gostaríamos de
deixar, desde já, o nosso profundo reconhecimento.
É por este conjunto de razões que a nossa antologia, em vários volumes,
apresenta uma organização diferenciada, de acordo com as três grandes
partes em que se subdivide. A primeira parte reúne as literaturas escritas
originalmente em português, ou seja, a literatura portuguesa (desde a Idade
Média até ao presente), a literatura brasileira, as cinco literaturas africanas
de língua portuguesa e as outras com origem em diversos pontos do planeta,
como Goa, Macau ou Timor­‑Leste. O gesto de a todas reunir representa
uma afirmação simbólica de alcance simultaneamente estético e político:
o passado colonial pode e deve ser reconhecido como história que atravessa
todos os corpos nacionais, na sua espessura cultural e simbólica, a fim de
que a realidade pós­‑colonial possa ser encarada, tanto nos países que são ex­
‑colónias como na antiga potência colonizadora, na projecção do futuro das
relações entre essas comunidades e o mundo.
Assim, a literatura portuguesa é integrada na primeira parte desta an‑
tologia, e nela ocupa um lugar que, reconhecendo a sua mais extensa densi‑
dade histórica no quadro das literaturas em português, com todas as outras
literaturas dialoga de forma privilegiada, não como parcelas de um hipoté‑

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introdução geral 27

tico «feudo», porém na perspectiva de um colectivo que não se esboroa face


às diferentes singularidades. A organização deste subgrupo é, como se verá,
temática. As razões para tal ficarão claras da diversidade de leituras que esta
estrutura permite e potencia, e serão mencionadas na breve introdução es‑
pecífica que antecede cada um dos subgrupos. Assinalemos entretanto a ex‑
cepção que Os Lusíadas de Luís de Camões constituem, no âmbito de todo o
projecto e, por isso, no âmbito deste primeiro subgrupo. Apenas desta obra
encontramos excertos em todas as secções temáticas que constituem esta
primeira parte da antologia. Reconhecemos com este diferente tratamento
a convicção, consensual entre todos os membros da equipa, de que existe
um ponto nodal na literatura­‑mundo comparada, escrita em português, que
reenvia, de uma forma ou de outra, a este texto matricial da literatura por‑
tuguesa — que se torna, assim, texto matricial também da literatura­‑mundo
escrita em português. Aqui está, por exemplo, a forma como a perspectiva
situada deste projecto permite uma aproximação, por um lado, criteriosa e,
por outro, reveladora da posição que qualquer antologia perpetua e constrói.
A segunda parte é constituída pelas literaturas da Europa, lugar geopolí‑
tico e histórico em que Portugal se situa e com o qual, por essa razão, dialoga
de forma também histórica e simbolicamente. Dentro deste segundo grupo,
são de notar as heterogeneidades de leitura e de conhecimento das dife‑
rentes literaturas que aqui são representadas: a realidade textual de áreas
mais distantes (do ponto a partir do qual esta antologia é concebida), como
por exemplo a Roménia ou a Islândia, não tem paralelo, por exemplo, com
a do território que conhecemos pelo nome de Espanha. Tivemos sempre
em mente tais heterogeneidades, bem como a preocupação de, na medida
do possível, as corrigir ou pelo menos matizar. Embora estejamos conscien‑
tes de que nem sempre foi possível encontrar soluções para garantir uma
presença mais significativa em particular das literaturas europeias menos
conhecidas, porque menos representadas, em português, fizemos um esfor‑
ço real para não nos limitarmos ao já anteriormente traduzido, de forma
a que esta antologia pudesse também corresponder a um incremento da
leitura literária de tradições cujo conhecimento só pode, afinal, enriquecer
aquelas com que já pudemos contactar. Nesta segunda parte considerámos
também como consensual a organização temática, fazendo dialogar textos
das mais diferentes tradições europeias, antigas e modernas. Também os te‑
mas escolhidos são análogos aos da primeira parte acima mencionada, com
a excepção de uma das categorias («Língua e Variação») que, no quadro das
literaturas europeias, não nos pareceu ter semelhante pertinência à que re‑
conhecemos na primeira parte.

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28 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Finalmente, a terceira e última parte abrange as tradições literárias


mundiais que não são recobertas pelos volumes anteriores — mas que, en‑
tretanto, permitem à literatura escrita em português «olhar para o mundo»
(«pelo Tejo vai­‑se para o mundo», como reconhecia o caeiriano Fernando
Pessoa): tudo aquilo que está fora quer do quadro «escrito em português»
quer do quadro «europeu» é aqui equacionado. O escopo histórico é tam‑
bém ele gradualmente maior, da primeira parte acima mencionada (desde
a Idade Média) à segunda parte (a civilização greco­‑latina) e à terceira (as
civilizações pré­‑clássicas). Por esta razão, pela diversidade estruturalmente
mais densa que caracteriza as várias tradições e culturas aqui aproximadas,
e ainda pela consciência de que elas exigem uma capacidade mais sistema‑
tizada de enquadrar a sua profundidade e até a sua divergência histórica,
optámos nesta terceira parte por combinar relação temática e ordenação
cronológica. Assim, a organização dos tomos desta parte é de ordem pre‑
dominantemente histórica, visível não apenas na ordenação das grandes
secções que os organizam mas, também, no conjunto de outros materiais
(linhas temporais, mapas) que figuram como complemento para uma leitura
mais informada dos respectivos textos literários. Ainda pela mesma razão,
as notas críticas que existem em todas as partes que constituem a antologia,
e que pretendem tornar possível uma leitura historicamente mais situada,
mas também cruzada, dos textos antologiados, são na sua maioria substan‑
cialmente mais extensas nesta terceira parte, de forma a permitir uma lei‑
tura mais integrada das «zonas de silêncio ou silenciamento» que o projecto
tentou tornar visíveis.
Por um lado, todos os tomos das três partes referidas, ao optarem por,
de uma forma ou de outra, apresentar categorias temáticas como modo de
integração textual, propõem na verdade uma articulação comparatista entre
os textos que as compõem, e um consequente diálogo entre eles — melhor
diríamos, diferentes formas de diálogo, que contam com a participação in‑
terpretativa do leitor para serem activadas. Por outro lado, a opção por pe‑
ríodos latos, na Parte III da antologia, é subsumida pela lógica inclusiva do
gesto antológico. Certamente, qualquer inclusão é também uma exclusão.
Mas isso não deve impedir­‑nos de conhecer, na medida do possível, aquilo
que podemos almejar a conhecer. Nada é pior do que o fechamento ao que
nos é exterior, seja qual for o pretexto usado para o justificar. Aquilo que
cada leitor fará com esta antologia abre possibilidades imensas e aliás im‑
possíveis de prever: foi isso que também dirigiu o nosso entusiasmo. Vemos
as leituras possíveis como construtivas e múltiplas, concebendo a estrutura
da antologia como uma estrutura de cruzamento comparatista, uma produ‑

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introdução geral 29

ção de questionamentos vários a partir do conjunto proposto, que seriam


impossíveis a partir dos textos isolados. Não ignorámos que os riscos de
cruzamentos imprevistos podem dar azo ao choque entre tempos históri‑
cos diferenciados (e variados até no mesmo tempo, haja em vista as várias
Idades Médias). Parece­‑nos isto, entretanto, uma vantagem de leitura que
quisemos arriscar.

Para terminar, alguns brevíssimos critérios fundamentais na apresentação


dos textos: 1) foi definido como terminus ad quem para a nossa escolha o ano
de 2000, não tendo sido considerado para esta antologia nenhum autor que
tenha começado a publicar apenas depois dessa data; 2) a estrutura dos vo‑
lumes é obtida a partir do corpo de textos e de categorias que os constituem
(Partes I e II), ou da articulação entre os grandes períodos históricos e as ca‑
tegorias temáticas (Parte III); 3) foram actualizadas as grafias, em particular
de textos medievais (por exemplo, o de Fernão Lopes, que generosamente
a nossa colaboradora Teresa Amado se prestou a trabalhar); 4) foram aceites
textos traduzidos a quatro mãos, nomeadamente aquelas traduções produ‑
zidas no âmbito dos vários leitorados de Português espalhados pelo mundo
inteiro (pelo que estamos muito reconhecidos em particular ao Camões —
Instituto da Cooperação e da Língua); 5) sempre que possível, foram utili‑
zadas traduções directas, depois de cuidadoso escrutínio, nomeadamente
em casos em que existiam várias traduções; as raras traduções indirectas pu‑
blicadas vão sempre indicadas como tal no próprio texto; 6) foram também
integradas experiências de tradução poética (como no caso de Herberto
Helder); 7) finalmente, cada parte apresenta, no final, breves notas críticas
relativas ao autor e/ou aos textos publicados, de modo a permitir um melhor
enquadramento das obras e dos respectivos excertos escolhidos.

Nota editorial: De modo a aplicar um critério uniforme e coerente para


referir o nome de cada autor nos respectivos textos antologiados, e ainda
que haja casos em que o nome de determinados autores é mais reconhecível
de outra forma, estabeleceu-se como norma usar apenas o último apelido
como referência (com excepção dos apelidos compostos e do nome artístico
Al Berto). Nas notas críticas finais, a ordenação é feita pelo primeiro nome
de cada autor.

A equipa,
Centro de Estudos Comparatistas
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

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INTRODUÇÃO :
Mund o s em p o r t u g u ê s

Primeira das três partes que compõem o projecto Literatura­‑Mundo Com‑


parada: Perspectivas em Português, esta antologia tem como objectivo ofe‑
recer ao leitor um conjunto significativo de textos escritos nas várias litera‑
turas de língua portuguesa, em Angola, no Brasil, em Cabo Verde, na Guiné­
‑Bissau, em Goa, em Macau, em Moçambique, em Portugal, em São Tomé e
Príncipe e em Timor­‑Leste. Conjugando a interrogação activa do conceito
de «Literatura­‑Mundo Comparada» com a reunião de literaturas dos países
representados, a antologia explora, tanto na identificação do corpus como na
sua organização, a articulação entre a perspectiva comparatista que informa
o projecto de que nasce e a dimensão produtiva e concreta do gesto antoló‑
gico. A escolha deste volume para iniciar a série Literatura­‑Mundo Compa‑
rada não é, a priori, óbvia, se pensarmos que estamos perante uma antologia
que encontra numa língua comum e nas suas variações o seu eixo de selec‑
ção e organização; mas é justamente porque permite questionar o que se
entende por «mesma língua», e porque admite a persistência, no quadro só
aparentemente homogéneo de uma língua, de algumas tensões fundadoras
do Comparatismo, que a antologia propõe uma leitura da dimensão plural
dos textos que coloca em diálogo e da articulação «mundial» dos problemas
que a sua reunião suscita. É assim da articulação produtiva da unidade e da
diversidade que se faz este livro.
O objectivo primeiro deste duplo esforço — a afirmação teórica de um
entendimento «mundial» e plural das literaturas em português e a proposta
concreta de uma articulação, no corpo da antologia, entre textos e literatu‑
ras diferentes — é oferecer ao leitor uma publicação que possa ser entendi‑
da como um lugar de encontro. E a primeira consequência do que foi dito é
que a organização da antologia não reflecte nem uma estruturação por país,
nem uma organização cronológica de base. Efectivamente, a sua leitura per‑
mite a construção de diálogos entre os textos individuais que a compõem
fora das delimitações tradicionalmente atribuídas às literaturas nacionais,
porém, sem nunca omitir a sua historicidade. Optou­‑se, no entanto, por

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32 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

razões de ordem científica, por não incluir autores cuja obra começou a ser
publicada depois do ano 2000. É, assim, no espaço da antologia, enquanto
plataforma de cruzamentos, que estes textos se encontram, enquadrados
pelas dez categorias que propomos e que reflectem já um momento prévio
de leitura, por parte da equipa, de possíveis afinidades e mútuas iluminações
entre os diferentes textos seleccionados.
As dez categorias escolhidas — 1) Conflito e Violência; 2) Memó‑
ria e Vida; 3) Humor, Sátira e Ironia; 4) Poesia sobre Poesia; 5) Viagens e
(Des)Conhecimento do Outro; 6) Amor e Experiência; 7) História e Iden‑
tidade; 8) Cartografias da Tradição; 9) Literatura e Condição Humana; 10)
Língua e Variação — organizam o corpus da antologia, que foi constituído
pela equipa a partir de uma consulta alargada a mais de 60 colaboradores,
especialistas das literaturas convocadas, permitindo­‑nos ao mesmo tempo
assumir o gesto antológico (de acordo com o que já foi dito na Introdução
Geral) e enquadrar as escolhas propostas no diálogo com especialistas das
áreas em causa. Correspondem a secções temáticas amplas, permitindo,
por um lado, uma variedade significativa nos textos que as compõem, e por
outro uma porosidade constante entre categorias que, embora não sobre‑
poníveis, se intersectam e complementam de forma produtiva. Esta estru‑
tura dinâmica activa, ao mesmo tempo, uma leitura cruzada dos textos por
nós reunidos em cada categoria e o diálogo entre os diferentes conjuntos
que compõem o volume. A porosidade que quisemos incutir na antologia —
e a variedade dos seus efeitos de leitura sobre conjuntos aparentemente ho‑
mogéneos — é acrescida pelo facto de que, em muitos casos, textos de um
mesmo autor são distribuídos e organizados por categorias distintas, am‑
pliando as linhas de fuga dos diálogos possíveis a partir de uma mesma obra:
enquanto grelha ampla de leitura, as categorias estruturam o volume, mais
uma vez, a partir da sua diversidade interna.
Por outro lado, a diversidade não é apenas interna: o leitor desta sé‑
rie de antologias reconhecerá na segunda parte (O Mundo Lido: Europa)
uma grelha de categorias quase coincidente com a que aqui se descreveu.
Pretendemos deste modo ampliar à escala do projecto as possibilidades
de cruzamento, e a iluminação recíproca dos diferentes grupos que com‑
põem esta leitura da Literatura­‑Mundo Comparada em português. Procu‑
rámos também reforçar a especificidade de cada volume, e é nesse sentido
que a proposta de partilha de categorias entre as duas primeiras antologias
é apenas parcial: a categoria «Língua e Variação», determinante numa an‑
tologia que escolhe a língua como eixo problematizador, é própria apenas
deste volume.

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introdução: mundos em português 33

É também própria apenas deste volume a atribuição a um texto — Os


Lusíadas — de um estatuto transversal articulador: presente em todas as
categorias da presente antologia, o texto de Camões ocupa aqui um lugar
estrutural que nos parece reflectir a sua posição fundadora numa visão das
literaturas em português enquanto literatura­‑mundo.
Completa a antologia a extensa secção das notas críticas, organiza‑
das por autor, para a qual foi fundamental, mais uma vez, o contributo dos
colaboradores do volume, que elaboraram os seus textos a partir de uma
proposta­‑base aberta a variações e nos permitiram generosamente reforçar
a pluralidade de vozes e perspectivas destas antologias.

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As antologias, como as enciclopédias, estiveram entre as minhas primeiras
paixões de leitor, desde quando era rapaz, e — como todas as paixões, para
mim nunca arquiváveis — continuam a estar. Naquelas páginas encontrava
as coisas, os rostos, as vozes, os sentimentos, as cores, as histórias do mundo
e parecia­‑me que o seu autor era a própria realidade, o coro de quem a vive,
a constrói, a sofre ou a ama. Não sabia que compor uma antologia podia ser
uma criação literária e intelectual não menos original e pessoal do que um
romance ou um ensaio; ignorava, por exemplo que Americana, a antologia de
Vittorini, fora mais importante, para a cultura italiana, do que muitos textos
de ficção. Também na escola apreciei as antologias — algumas até por serem
más, banais e atamancadas — que me abriram mundos e me fizeram com‑
preender a importância cultural, crítica e fantástica desse verdadeiro géne‑
ro literário, que pode contribuir fortemente para a formação dum indivíduo,
duma geração e portanto da sociedade em que aquela vive e actua.

Claudio Magris. «A antologia esquecida», in Alfabetos,


trad. Antonio Sabler. 2013. Lisboa: Quetzal. 384.

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( 1)
C ONFL IT O E V I O L ÊN C I A

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AFONSO X, Rei de Castela e Leão. [Nom me posso pagar tanto], in
A Lírica Galego­‑Portuguesa. 1983. Lisboa: Comunicação. 193­‑194.

Nom me posso pagar tanto


do canto
das aves nem de seu som,
nem d’amor nem d’ambiçom
nem d’armas — ca ei espanto,
por quanto
mui perigo[o]sas som
— come dum bom galeom,
que mi alongue muit’aginha
d’este demo da campinha,
u os alacrães som;
ca dentro no coraçom
senti deles a espinha!

E juro par Deus lo Santo


que manto
nom tragerei nem granhom,
nem terrei d’amor razom
nem d’armas, por que quebranto
e chanto
vem d’elas toda sazom;
mais tragerei um dormom,
e irei pela marinha
vendend’azeit’e farinha;
e fugirei do poçom
do alacram, ca eu nom
lhi sei outra meezinha.

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40 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Nem de lançar a tavolado


pagado
nom sõo, se Deus m’ampar,
aqui, nem de bafordar;
e andar de noute armado,
sem grado
o faço, e a roldar;
ca mais me pago do mar
que de seer cavaleiro;
ca eu foi ja marinheiro
e quero­‑m’oimais guardar
do alacram, e tornar
ao que me foi primeiro.

E direi­‑vos um recado:
pecado
nunca me pod’enganar
que me faça ja falar
em armas, ca nom m’é dado
(doado
m’é de as eu razõar,
pois­‑las nom ei a provar);
ante quer’andar sinlheiro
e ir come mercadeiro
alg a terra buscar,
u me nom possam culpar
alacram negro nem veiro.

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josé eduardo agualusa 41

José Eduardo AGUALUSA. «Carta a Madame de Jouarre — Olinda,


Dezembro de 1876», in Nação Crioula — A correspondência secreta de Fradique
Mendes. 1997. Lisboa: Dom Quixote. 67­‑ 75.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Querida madrinha,

O crepúsculo surpreendeu­‑me enquanto preparava esta carta, sentado a


uma mesa de pedra, nos jardins de um belíssimo palacete colonial (proprie‑
dade de Arcénio de Carpo) onde nos encontramos instalados. As tardes aqui
morrem bruscamente, violentamente, num largo incêndio que depressa se
desfaz em cinza e em melancolia. Mas, ao contrário do que acontece na Áfri‑
ca Ocidental, ao contrário daquilo que eu sempre espero que aconteça, o
sol não mergulha no mar — a água escurece, torna­‑se quase negra, a noite
parece emergir do chão.
Presumo que tenha recebido a carta que lhe enviei de Novo Redondo,
e assim já sabe porque me encontro aqui. Sentado nesta mesa vejo a cidade,
as casas pintadas de cores loucas, os palacetes coloniais, as igrejas barrocas
e as palmeiras altas, ondular pelos morros em direcção ao abismo. Novo Re‑
dondo fica do outro lado dessa vasta escuridão, a vinte e cinco dias de barco,
três mil e quinhentas milhas, quase no mesmo paralelo em que o fidalgo por‑
tuguês Duarte Coelho Pereira mandou erguer Olinda há três séculos atrás.
A última noite em Novo Redondo foi de festa, um espectáculo bizar‑
ro, promovido por Horácio Benvindo em nossa homenagem, e que se pro‑
longou até ao entardecer do dia seguinte, quando a coberto da escuridão o
Nação Crioula levantou âncora e se fez ao largo. Eu já tinha decidido partir
levando Ana Olímpia, mesmo no estado incerto em que ela se encontrava,
porque me parecia preferível arriscar a travessia, sabendo que em Pernam‑
buco poderia fazê­‑la tratar pelos melhores clínicos, do que deixá­‑la naquele
fim­‑de­‑mundo entregue à inspiração duvidosa de uma feiticeira loira. Po‑
rém, assim que se ouviu o estrondo dos primeiros foguetes, a minha amiga
despertou surpresa, como se estivesse regressando de uma outra vida, e pou‑
co depois erguia­‑se da cama para espreitar lá fora a euforia do povo.
Horácio Benvindo mandara colocar uma grande mesa no largo da Igre‑
ja, com travessas de carne assada (pacaça, porco do mato e aves diversas),

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manuel alegre 47

Manuel ALEGRE. «Nambuangongo meu amor», in Praça da Canção. [1965]


1999. Lisboa: Dom Quixote. 125­‑126.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Em Nambuangongo tu não viste nada


não viste nada nesse dia longo longo
e a cabeça cortada
e a flor bombardeada
não tu não viste nada em Nambuangongo.

Falavas de Hiroxima tu que nunca viste


em cada homem um morto que não morre.
Sim nós sabemos Hiroxima é triste
mas ouve em Nambuangongo existe
em cada homem um rio que não corre.

Em Nambuangongo o tempo cabe num minuto


em Nambuangongo a gente lembra a gente esquece
em Nambuangongo olhei a morte e fiquei nu. Tu
não sabes mas eu digo­‑te: dói muito.
Em Nambuangongo há gente que apodrece.

Em Nambuangongo a gente pensa que não volta


cada carta é um adeus em cada carta se morre
cada carta é um silêncio e uma revolta.
Em Lisboa na mesma isto é a vida corre.
E em Nambuangongo a gente pensa que não volta.

É justo que me fales de Hiroxima.


Porém tu nada sabes deste tempo longo longo
tempo exactamente em cima
do nosso tempo. Ai tempo onde a palavra vida rima
com a palavra morte em Nambuangongo.

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48 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

José de ALENCAR. «Terceira parte — Os Aimorés», in O Guarani. [1857]


1973. Lisboa: Círculo de Leitores. 241­‑260.

V — DEUS DISPÕE

O braço de Loredano estendeu­‑se sobre o leito, porém a mão que se adian‑


tava e ia tocar o corpo de Cecília estacou no meio do movimento, e subita‑
mente impelida foi bater de encontro à parede.
Uma seta, que não se podia saber de onde vinha, atravessara o espaço
com a rapidez de um raio, e antes que se ouvisse o sibilo forte e agudo pre‑
gara a mão do italiano ao muro do aposento.
O aventureiro vacilou e abateu­‑se por detrás da cama; era tempo, por‑
que uma segunda seta, despedida com a mesma força e a mesma rapidez,
cravava­‑se no lugar onde há pouco se projetava a sombra de sua cabeça.
Passou­‑se então, em redor da inocente menina adormecida na isenção
de sua alma pura, uma cena horrível, porém silenciosa.
Loredano, nos transes da dor por que passava, compreendera o que su‑
cedia; tinha adivinhado naquela seta que o ferira a mão de Peri; e sem ver,
sentia o índio aproximar­‑se terrível de ódio, de vingança, de cólera e deses‑
pero pela ofensa que acabava de sofrer sua senhora.
Então o réprobo teve medo; erguendo­ ‑se sobre os joelhos arran‑
cou convulsivamente com os dentes a seta que pregava sua mão à parede,
e precipitou­‑se para o jardim, cego, louco e delirante.
Nesse mesmo instante, dois segundos talvez depois que a última flecha
caíra no aposento, a folhagem do óleo que ficava fronteiro à janela de Cecí‑
lia agitou­‑se e um vulto embalançando­‑se sobre o abismo, suspenso por um
frágil galho da árvore, veio cair sobre o peitoril.
Aí agarrando­‑se à ombreira saltou dentro do aposento com uma agili‑
dade extraordinária; a luz dando em cheio sobre ele desenhou o seu corpo
flexível e as suas formas esbeltas.
Era Peri.
O índio avançou­‑se para o leito, e vendo sua senhora salva respirou;
com efeito a menina, a meio despertada pelo rumor da fugida de Loredano,
voltara­‑se do outro lado e continuara o sono forte e reparador como é sem‑
pre o sono da juventude e da inocência.

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josé de alencar 49

Peri quis seguir o italiano e matá­‑lo, como já tinha feito aos seus dois
cúmplices; mas resolveu não deixar a menina exposta a um novo insulto,
como o que acabava de sofrer, e tratou antes de velar sobre sua segurança e
sossego.
O primeiro cuidado do índio foi apagar a vela, depois fechando os olhos
aproximou­‑se do leito e com uma delicadeza extrema puxou a colcha de da‑
masco azul até ao colo da menina.
Parecia­‑lhe uma profanação que seus olhos admirassem as graças e os en‑
cantos que o pudor de Cecília trazia sempre vendados; pensava que o homem
que uma vez tivesse visto tanta beleza, nunca mais devia ver a luz do dia.
Depois desse primeiro desvelo, o índio restabeleceu a ordem no apo‑
sento; deitou a roupa na cômoda, fechou a gelosia e as abas da janela, lavou
as nódoas de sangue que ficaram impressas na parede e no soalho; e tudo isto
com tanta solicitude, tão sutilmente, que não perturbou o sono da menina.
Quando acabou o seu trabalho, aproximou­‑se de novo do leito, e à luz
frouxa da lamparina contemplou as feições mimosas e encantadoras de Cecília.
Estava tão alegre, tão satisfeito de ter chegado a tempo de salvá­‑la de
uma ofensa e talvez de um crime; era tão feliz de vê­‑la tranqüila e risonha
sem ter sofrido o menor susto, o mais leve abalo, que sentiu a necessidade
de exprimir­‑lhe por algum modo a sua ventura.
Nisto seus olhos abaixando­‑se descobriram sobre o tapete da cama dois
pantufos mimosos forrados de cetim e tão pequeninos que pareciam feitos
para os pés de uma criança; ajoelhou e beijou­‑os com respeito, como se fo‑
ram relíquia sagrada.
Eram então perto de quatro horas; pouco tardava para amanhecer; as
estrelas já iam se apagando a uma e uma; e a noite começava a perder o silên‑
cio profundo da natureza quando dorme.
O índio fechou por fora a porta do quarto que dava para o jardim, e me‑
tendo a chave na cintura, sentou­‑se na soleira como cão fiel que guarda a
casa de seu senhor, resolvido a não deixar ninguém aproximar­‑se.
Aí refletiu sobre o que acabava de passar; e acusava­‑se a si mesmo de
ter deixado o italiano penetrar no aposento de sua senhora: Peri porém
caluniava­‑se, porque só a Providência podia ter feito nessa noite mais do
que ele; porque tudo quanto era possível à inteligência, à coragem, à sagaci‑
dade e à força do homem, o índio havia realizado.
Depois da partida de Loredano e da conversa que teve com Álvaro, cer‑
to de que sua senhora já não corria perigo, e de que os dois cúmplices do ita‑
liano iam ser expulsos como ele, o índio não pensando mais senão no ataque
dos Aimorés, partiu imediatamente.

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50 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

O seu pensamento era ver se descobria pelas vizinhanças do Paquequer


indícios da passagem de alguma tribo da grande raça Guarani a que ele per‑
tencia; seria um amigo e um aliado para D. Antônio de Mariz.
O ódio inveterado que havia entre as tribos da grande raça e a nação
degenerada dos Aimorés, justificava a esperança de Peri; mas infelizmente,
tendo percorrido todo o dia a floresta, não encontrou o menor vestígio do
que procurava.
O fidalgo estava pois reduzido às suas próprias forças: mas embora fos‑
sem estas pequenas, o índio não desanimou; tinha consciência de si; e sabia
que na última extremidade a sua dedicação por Cecília lhe inspiraria meios
de salvar a ela e a tudo que ela amava.
Voltou à casa já noite fechada; foi ter com Álvaro; perguntou­‑lhe o que
era feito dos dois aventureiros; o cavalheiro disse­‑lhe que D. Antônio de
Mariz recusara crer na acusação.
De fato, o fidalgo leal, habituado ao respeito e à fidelidade de seus ho‑
mens, não admitia que se concebesse uma suspeita sem provas; entretanto
como a palavra de Peri tinha para ele toda a valia, ficara de ouvir de sua boca
a narração do que presenciara, para conhecer o peso que devia dar a seme‑
lhante acusação.
Peri retirou­‑se inquieto e arrependido de não ter persistido no seu pri‑
meiro projeto; enquanto esses dois homens que ele supunha já expulsos es‑
tivessem ali, sabia que um perigo pairava sobre a casa.
Assim resolveu não dormir; tomou o seu arco e sentou­‑se na porta de
sua cabana; apesar de possuir a clavina que lhe dera D. Antônio, o arco era a
arma favorita de Peri; não demandava tempo para carregar; não fazia o me‑
nor estrépito; lançava quase instantaneamente dois, três tiros: e a sua flecha
era tão terrível e tão certeira como a bala.
Passado muito tempo o índio ouviu cantar uma coruja do lado da esca‑
da; esse canto causou­‑lhe estranheza por duas razões: a primeira, porque era
mais sonoro do que é o cacarejar daquela ave agoureira; a segunda porque
em vez de partir do cimo de uma árvore saía do chão.
Esta reflexão o fez levantar; desconfiou da coruja que tinha hábitos
diferentes de suas companheiras; quis conhecer a razão desta singulari‑
dade.
Viu do outro lado da esplanada três vultos que atravessavam ligeiramen‑
te; isto aumentou a sua desconfiança; os homens de vigia eram ordinaria‑
mente dois e não três.
Seguiu­‑os de longe; mas quando chegou ao pátio, não viu senão um dos
homens que entrava na alpendrada; os outros tinham desaparecido.

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josé de alencar 51

Peri procurou­‑os por toda a parte e não os viu; estavam ocultos pelo
pilar que se elevava na ponta do rochedo, e não lhe era possível descobri­‑los.
Supondo que tivessem também entrado no alpendre, o índio agachou­
‑se e penetrou no interior; de repente a sua mão tocou uma lâmina fria que
conheceu imediatamente ser a folha de um punhal.
— És tu, Rui? — perguntou uma voz sumida.
Peri emudeceu; mas de chofre aquele nome de Rui lembrou­‑lhe Loredano
e o seu projeto; percebeu que se tramava alguma coisa: e tomou um partido.
— Sim! — respondeu com a voz quase imperceptível. — Já é hora?
— Não.
— Todos dormem.
Enquanto trocavam estas duas perguntas, a mão de Peri correndo pela
lâmina de aço tinha conhecido que outra mão segurava o cabo do punhal.
O índio saiu do alpendre e dirigiu­‑se ao quarto de Aires Gomes; a porta
estava fechada, e junto dela tinham colocado um grande montão de palha.
Tudo isto denunciava um plano prestes a realizar­‑se; Peri compreendia,
e tinha medo de já não ser tempo para destruir a obra dos inimigos.
Que fazia aquele homem deitado que fingia dormir, e que tinha o pu‑
nhal desembainhado na mão como se estivesse pronto a ferir? Que signi‑
ficava aquela pergunta da hora e aquele aviso de que todos dormiam? Que
queria dizer a palha encostada à porta do escudeiro?
Não restava dúvida; havia ali homens que esperavam um sinal para ma‑
tarem seus companheiros adormecidos, e deitarem fogo à casa; tudo estava
perdido se o plano não fosse imediatamente destruído.
Cumpria acordar os que dormiam, preveni­‑los do perigo que corriam,
ou ao menos prepará­‑los para se defenderem e escaparem de uma morte
certa e inevitável.
O índio agarrou convulsivamente a cabeça com as duas mãos como se
quisesse arrancar à força de seu espírito agitado e em desordem um pensa‑
mento salvador. Seu largo peito dilatou­‑se; uma idéia feliz luzira de repente
na confusão de tantos pensamentos desencontrados que fermentavam no
cérebro, e reanimara sua coragem e força.
Era uma idéia original.
Peri lembrara­‑se que o alpendre estava cheio de grandes talhas e vasos
enormes contendo água potável, vinhos fermentados, licores selvagens, de
que os aventureiros faziam sempre uma ampla provisão.
Correu de novo ao saguão, e encontrando a primeira talha tirou a tor‑
neira; o líquido começou a derramar­‑se pelo chão; ia passar à segunda quan‑
do a voz, que já lhe tinha falado, soou de novo, baixa mas ameaçadora.

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52 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

— Quem vai lá?


Peri compreendeu que a sua idéia ia ficar sem efeito, e talvez não servis‑
se senão de apressar o que ele queria evitar.
Não hesitou pois; e quando o aventureiro que falava erguia­‑se, sentiu
duas tenazes vivas que caíam sobre o seu pescoço e o estrangulavam como
uma golilha de ferro, antes que pudesse soltar um grito.
O índio deitou o corpo hirto sobre o chão sem fazer o menor rumor,
e consumou a sua obra; todas as talhas do alpendre esvaziaram­‑se a pouco e
pouco e inundavam o chão.
Dentro de um segundo a frialdade acordaria todos os homens adorme‑
cidos, e os obrigaria a sair do alpendre; era o que Peri esperava.
Livre do maior perigo, o índio rodeou a casa para ver se tudo estava em
sossego; e teve então ocasião de notar que por todo o edifício tinham dis‑
posto feixes de palha para atear um incêndio.
Peri inutilizando estes preparativos, chegou ao canto da casa que ficava
defronte de sua cabana; parecia procurar alguém. Aí ouviu a respiração ofe‑
gante de um homem cosido com a parede junto do jardim de Cecília.
O índio tirou a sua faca; a noite estava tão escura que era impossível
descobrir a menor sombra, o menor vulto entre as trevas.
Mas ele conheceu Rui Soeiro.
Peri tinha o ouvido sutil e delicado, e o faro do selvagem que dispensa a
vista; o som da respiração servia­‑lhe de alvo; escutou um momento, ergueu o
braço, e a faca enterrando­‑se na boca da vítima cortou­‑lhe a garganta.
Nem um gemido escapou da massa inerte que se estorceu um momento
e quedou de encontro ao muro.
Peri apanhou o arco que encostara à parede, e voltando­‑se para lançar
um olhar sobre o quarto de Cecília, estremeceu.
Acabava de ver pela soleira da porta o reflexo vivo de uma luz; e logo
depois sobre a folhagem do óleo um clarão que indicava estar a janela
aberta.
Ergueu os braços com um desespero e uma angústia inexprimível; esta‑
va a dois passos de sua senhora e entretanto um muro e uma porta o separa‑
vam dela, que talvez àquela hora corria um perigo iminente.
Que ia fazer? Precipitar­ ‑se de encontro a essa porta, quebrá­ ‑la,
espedaçá­‑la? Mas podia aquela luz não significar coisa alguma, e a janela ter
sido aberta por Cecília.
Este último pensamento tranqüilizou­‑o, tanto mais quando nada reve‑
lava a existência de um perigo, quando tudo estava em sossego no jardim e
no quarto da menina.

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josé de alencar 53

Lançou­‑se para a cabana, e segurando­‑se às folhas da palmeira galgou o


ramo do óleo, e aproximou­‑se para ver por que sua senhora estava acordada
àquela hora.
O espetáculo que se apresentou diante de seus olhos fez correr­‑lhe um
calafrio pelo corpo; a gelosia aberta deixou­‑lhe ver a menina adormecida, e o
italiano que tendo aberto a porta do jardim dirigia­‑se ao leito.
Um grito de desespero e de agonia ia romper­‑lhe do seio; mas o índio
mordendo os lábios com força, reprimiu a voz, que se escapou apenas num
som rouco e plangente. Então prendendo­‑se à árvore com as pernas, o índio
estendeu­‑se ao longo do galho e esticou a corda do arco.
O coração batia­‑lhe violentamente; e por um momento o seu braço tre‑
meu só com a idéia de que a sua flecha tinha de passar perto de Cecília.
Quando porém a mão do italiano se adiantou e ia tocar o corpo da me‑
nina, não pensou, não viu mais nada senão esses dedos prestes a mancharem
com o seu contato o corpo de sua senhora, não se lembrou senão dessa hor‑
rível profanação.
A flecha partiu rápida, pronta e veloz como o seu pensamento; a mão do
italiano estava pregada ao muro.
Foi só então que Peri refletiu que teria sido mais acertado ferir essa mão
na fonte da vida que a animava; fulminar o corpo a que pertencia esse braço;
a segunda seta partiu sobre a primeira, e o italiano teria deixado de existir se
a dor não o obrigara a curvar­‑se.

VI — REVOLTA

Quando Peri acabou de refletir sobre o que passara, ergueu­‑se, abriu de


novo a porta, fechou­‑a por dentro e seguiu pelo corredor que ia do quarto
de Cecília ao interior da casa.
Estava tranqüilo sobre o futuro; sabia que Bento Simões e Rui Soeiro
não o incomodariam mais, que o italiano não lhe podia escapar, e que àque‑
la hora todos os aventureiros deviam estar acordados; mas julgou prudente
prevenir D. Antônio de Mariz do que ocorria.
A esse tempo Loredano já tinha chegado à alpendrada, onde o esperava
uma nova e terrível surpresa, uma última decepção.
Largando­‑se do quarto de Cecília, sua intenção era ganhar o fundo da
casa, pronunciar a senha convencionada, e senhor do campo voltar com seus
cúmplices, raptar a menina, e vingar­‑se de Peri.
Mal sabia porém que o índio tinha destruído toda a sua maquinação;

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54 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

chegando ao pátio viu o alpendre iluminado por fachos, e todos os aventu‑


reiros de pé cercando um objeto que não pôde distinguir.
Aproximou­‑se e descobriu o corpo de seu cúmplice Bento Simões, que
jazia no chão alagado do pavimento: o aventureiro tinha os olhos saltados
das órbitas, a língua saída da boca, o pescoço cheio de contusões; todos os
sinais enfim de uma estrangulação violenta.
De lívido que estava o italiano tornou­‑se verde; procurou com os olhos
a Rui Soeiro e não o viu; decididamente o castigo da Providência caía sobre
as suas cabeças; conheceu que estava irremediavelmente perdido, e que só a
audácia e o desespero o podiam salvar.
A extremidade em que se achava inspirou­‑lhe uma idéia digna dele: ia
tirar partido para seus fins daquele mesmo fato que parecia destruí­‑los; ia
fazer do castigo uma arma de vingança.
Os aventureiros espantados sem compreenderem o que viam, olhavam­
‑se e murmuravam em voz baixa fazendo suposições sobre a morte do seu
companheiro. Uns, despertados de sobressalto pela água que corria das ta‑
lhas, outros que não dormiam, apenas admirados, se haviam erguido, e no
meio de um coro de imprecações e blasfêmias acenderam fachos para ver a
causa daquela inundação.
Foi então que descobriram o corpo de Bento Simões e ficaram ainda
mais surpreendidos: os cúmplices, temendo que aquilo não fosse um come‑
ço de punição, os outros indignados pelo assassinato de seu companheiro.
Loredano percebeu o que passava no espírito dos aventureiros:
— Não sabeis o que significa isto? — disse ele.
— Oh! não! Explicai­‑nos! — exclamaram os aventureiros.
— Isto significa — continuou o italiano — que há nesta casa uma víbo‑
ra, uma serpente que nós alimentamos no nosso seio, e que nos morderá a
todos com o seu dente envenenado.
— Como?... Que quereis dizer?... Falai!...
— Olhai — disse o frade apontando para o cadáver e mostrando a sua
mão ferida —, eis a primeira vítima, e a segunda que escapou por um mila‑
gre; a terceira... Quem sabe o que é feito de Rui Soeiro?
— É verdade!... Onde está Rui? — disse Martim Vaz.
— Talvez morto também?
— Depois dele virá outro e outro até que sejamos exterminados um por
um; até que todos os cristãos tenham sido sacrificados.
— Mas por quem?... Dizei o nome do vil assassino. É preciso um exem‑
plo! O nome!...
— E não adivinhais? — respondeu o italiano. — Não adivinhais? Quem

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josé de alencar 55

nesta casa pode desejar a morte dos brancos, e a destruição da nossa reli‑
gião? Quem senão o herege, o gentio, o selvagem traidor e infame?
— Peri?... — exclamaram os aventureiros.
— Sim, esse índio que conta assassinar­‑nos a todos para saciar a sua vin‑
gança!
— Não há­‑de ser assim como dizeis, eu vos juro, Loredano! — exclamou
Vasco Afonso.
— Bofé! — gritou outro. — Deixai isto por minha conta. Não vos dê
cuidado!
— E não passa desta noite. O corpo de Bento Simões pede justiça.
— E justiça será feita.
— Neste mesmo instante.
— Sim, agora mesmo. Eia! Segui­‑me.
Loredano ouvia estas exclamações rápidas que denunciavam como a
exacerbação ia lavrando com intensidade; quando porém os aventureiros
quiseram lançar­‑se em procura do índio, ele os conteve com um gesto.
Não lhe convinha isto; a morte de Peri era coisa acidental para ele; o seu
fim principal era outro, e esperava consegui­‑lo facilmente.
— O que ides fazer? — perguntou imperativamente aos seus compa‑
nheiros. Os aventureiros ficaram pasmados com semelhante pergunta.
— Ides matá­‑lo?...
— Mas decerto!
— E não sabeis que não podereis fazê­‑lo? Que ele é protegido, amado,
estimado por aqueles que pouco se importam se morremos ou vivemos?
— Seja embora protegido, quando é criminoso...
— Como vos iludis! Quem o julgará criminoso? Vós? Pois bem; outros
julgarão inocente e o defenderão; e não tereis remédio senão curvar a cabeça
e calar­‑vos.
— Oh! isso é demais!
— Julgais que somos alimárias que se podem matar impunemente? —
retrucou Martim Vaz.
— Sois piores que alimárias; sois escravos!
— Por São Brás, tendes razão, Loredano.
— Vereis morrer vossos companheiros assassinados infamemente,
e não podereis vingá­‑los; e sereis obrigados a tragar até as vossas queixas,
porque o assassino é sagrado! Sim, não o podereis tocar, repito.
— Pois bem; eu vo­‑lo mostrarei!
— E eu! — gritou toda a banda.
— Qual é vossa tenção? — perguntou o italiano.

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— A nossa tenção é pedirmos a D. Antônio de Mariz que nos entregue


o assassino de Bento.
— Justo! E se ele recusar, estamos desligados do nosso juramento e fare‑
mos justiça pelas nossas mãos.
— Procedeis como homens de brio e pundonor; liguemo­‑nos todos e
vereis que obteremos reparação; mas para isto é preciso firmeza e vontade.
Não percamos tempo. Quem de vós se incumbe de ir como parlamentário
a D. Antônio?
Um aventureiro dos mais audazes e turbulentos da banda ofereceu­‑se;
chamava­‑se João Feio.
— Serei eu!
— Sabeis o que lhe deveis dizer?
— Oh! ficai descansado. Ouvirá boas.
— Ides já?
— Neste instante.
Uma voz calma, sonora e de grave entonação, uma voz que fez estreme‑
cer todos os aventureiros, soou na entrada do alpendre:
— Não é preciso irdes, pois que vim. Aqui me tendes.
D. Antônio de Mariz, calmo e impassível, adiantou­‑se até o meio do
grupo, e cruzando os braços sobre o peito, volveu lentamente pelos aventu‑
reiros o seu olhar severo.
O fidalgo não tinha uma só arma; e entretanto o aspecto de sua fisio‑
nomia venerável, a firmeza de sua voz e altivez de seu gesto nobre bastaram
para fazer curvar a cabeça de todos esses homens que ameaçavam.
Advertido por Peri dos acontecimentos que tinham tido lugar naquela
noite, D. Antônio de Mariz ia sair, quando apareceram Álvaro e Aires Go‑
mes.
O escudeiro, que depois de sua conversa com mestre Nunes tinha ador‑
mecido, fora despertado de repente pelas imprecações e gritos que soltavam
os aventureiros quando a água começou a invadir as esteiras em que estavam
deitados.
Admirado desse rumor extraordinário, Aires bateu o fuzil, acendeu a
vela, e dirigiu­‑se para a porta para conhecer o que perturbava o seu sono:
a porta, como sabemos, estava fechada e sem chave.
O escudeiro esfregou os olhos para certificar­‑se do que via, e acordando
Nunes, perguntou­‑lhe quem tomara aquela medida de precaução; seu amigo
ignorava como ele.
Nesse momento ouvia­‑se a voz do italiano que excitava os aventureiros
à revolta; Aires Gomes percebeu então do que se tratava.

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josé de alencar 57

Agarrou mestre Nunes, encostou­‑o à parede como se fosse uma escada,


e sem dizer palavra trepou do catre sobre seus ombros, e levantando as te‑
lhas com a cabeça enfiou por entre as ripas dos caibros.
Apenas ganhou o telhado, o escudeiro pensou no que devia fazer; e as‑
sentou que o verdadeiro era dar parte a Álvaro e ao fidalgo, a quem cabia
tomar as providências que o acaso pedia.
D. Antônio de Mariz sem se perturbar ouviu a narração do escudeiro,
como tinha ouvido a do índio.
— Bem, meus amigos! Sei o que me cumpre fazer. Nada de rumor; não
perturbemos o sossego da casa; estou certo que isto passará. Esperai­‑me aqui.
— Não posso deixar que vos arrisqueis só —, disse Álvaro dando um
passo para segui­‑lo.
— Ficai: vós e estes dois amigos dedicados velareis sobre minha mulher,
Cecília e Isabel. Nas circunstâncias em que nos achamos, assim é preciso.
— Consenti ao menos que um de nós vos acompanhe.
— Não, basta a minha presença; enquanto que aqui todo o vosso valor e
fidelidade não bastam para o tesouro que confio à vossa guarda.
O fidalgo tomou o seu chapéu, e poucos momentos depois aparecia im‑
previstamente no meio dos aventureiros, que trêmulos, cabisbaixos, corri‑
dos de vergonha, não ousavam proferir uma palavra.
— Aqui me tendes! — repetiu o cavalheiro. — Dizei o que quereis de
D. Antônio de Mariz, e dizei­‑o claro e breve. Se for de justiça, sereis satisfei‑
tos; se for uma falta, tereis a punição que merecerdes.
Nem um dos aventureiros ousou levantar os olhos; todos emudeceram.
— Calais­‑vos?... Passa­‑se então aqui alguma coisa que não vos atreveis a
revelar? Acaso ver­‑me­‑ei obrigado a castigar severamente um primeiro exem‑
plo de revolta e desobediência? Falai! Quero saber o nome dos culpados!
O mesmo silêncio respondeu às palavras firmes e graves do velho fidalgo.
Loredano hesitava desde o princípio desta cena; não tinha a coragem
necessária para apresentar­‑se em face de D. Antônio; mas também sentia
que, se ele deixasse as coisas marcharem pela maneira por que iam, estava
infalivelmente perdido.
Adiantou­‑se:
— Não há aqui culpados, Sr. D. Antônio de Mariz — disse o italiano
animando­‑se progressivamente —, há homens que são tratados como cães;
que são sacrificados a um capricho vosso, e que estão resolvidos a reivindi‑
carem os seus foros de homens e de cristãos!
— Sim! — gritaram os aventureiros reanimando­‑se. — Queremos que
se respeite a nossa vida!

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58 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

— Não somos escravos!


— Obedecemos, mas não nos cativamos!
— Valemos mais que um herege!
— Temos arriscado a nossa existência para defender­‑vos!
D. Antônio ouviu impassível todas estas exclamações que iam subindo
gradualmente ao tom da ameaça.
— Silêncio, vilões! Esqueceis que D. Antônio de Mariz ainda tem bas‑
tante força para arrancar a língua que o pretendesse insultar? Miseráveis,
que lembrais o dever como um benefício! Arriscastes a vossa vida para
defender­‑me?... E qual era a vossa obrigação, homens que vendeis o vosso
braço e sangue ao que melhor paga? Sim! Sois menos que escravos, menos
que cães, menos que feras! Sois traidores infames e refeces!... Mereceis mais
do que a morte; mereceis o desprezo.
Os aventureiros, cuja raiva fermentava surdamente, não se contiveram
mais; das palavras de ameaça passaram ao gesto.
— Amigos! — gritou Loredano aproveitando habilmente o ensejo. —
Deixareis que vos insultem atrozmente, que vos cuspam o desprezo na cara?
E por que motivo!...
— Não! Nunca! — vociferaram os aventureiros furiosos.
Desembainhando as adagas estreitaram o círculo ao redor de D. Antô‑
nio de Mariz, era uma confusão de gritos, injúrias, ameaças, que corriam por
todas as bocas, enquanto os braços suspensos hesitavam ainda em lançar o
golpe.
D. Antônio de Mariz, sereno, majestoso, calmo, olhava todas essas fi‑
sionomias decompostas com um sorriso de escárnio; e sempre altivo e so‑
branceiro, parecia sob os punhais que o ameaçavam, não a vítima que ia ser
imolada, mas o senhor que mandava.

VII — OS SELVAGENS

Os aventureiros com o punhal erguido ameaçavam; mas não se animavam a


romper o estreito círculo que os separava de D. Antônio de Mariz.
O respeito, essa força moral tão poderosa, dominava ainda a alma da‑
queles homens cegos pela cólera e pela exaltação; todos esperavam que o
primeiro ferisse; e nenhum tinha a coragem de ser o primeiro.
Loredano conheceu que era necessário um exemplo; o desespero de sua
posição, as paixões ardentes que tumultuavam em seu coração, deram­‑lhe o
delírio que supre o valor nas circunstâncias extremas.

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josé de alencar 59

O aventureiro apertou convulsivamente o cabo de sua faca, e fechando


os olhos e dando um passo às cegas, ergueu a mão para desfechar o golpe.
O fidalgo com um gesto nobre afastou o seio do gibão, e descobriu o
peito; nem um tremor imperceptível agitou os músculos de seu rosto; sua
fronte alta conservou a mesma serenidade; o seu olhar límpido e brilhante
não se turvou.
Tal era a influência magnética que exercia essa coragem nobre e altiva,
que o braço do italiano tremeu, e a ponta do ferro tocando a véstia do fidal‑
go paralisou os dedos hirtos do assassino.
D. Antônio sorriu com desdém; e abaixando a sua mão fechada sobre o
alto da cabeça de Loredano, abateu­‑o a suas plantas como uma massa bruta
e inerte: então erguendo a ponta do pé à fronte do italiano, o estendeu de
costas sobre o pavimento.
O baque do corpo no chão ecoou no meio de um silêncio profundo; to‑
dos os aventureiros, mudos e estáticos, pareciam querer sumir­‑se pelo seio
da terra.
— Abaixai as armas, miseráveis! O ferro que há­‑de ferir o peito de
D. Antônio de Mariz não será manchado pela mão cobarde e traiçoeira de
vis assassinos! Deus reserva uma morte justa e gloriosa àqueles que viveram
uma vida honrada!
Os aventureiros aturdidos embainharam maquinalmente os punhais;
aquela palavra sonora, calma e firme, tinha um acento tão imperativo, uma
tal força de vontade, que era impossível resistir.
— O castigo que vos espera há­‑de ser rigoroso; não deveis contar com a
clemência nem com o perdão: quatro dentre vós à sorte, sofrerão a pena de
homizio; os outros farão o ofício dos executores da alta justiça. Bem vedes
que tanto a pena como o ofício são dignos de vós!
O fidalgo pronunciou estas palavras com um soberano desprezo, e en‑
carou os aventureiros como para ver se dentre eles partia alguma reclama‑
ção, algum murmúrio de desobediência; mas todos esses homens, há pouco
furiosos, estavam agora humildes e cabisbaixos.
— Dentro de uma hora — continuou o cavalheiro apontando para o
corpo de Loredano —, este homem será justiçado à frente da banda; para ele
não há julgamento; eu o condeno como pai, como chefe, como um homem
que mata o cão ingrato que o morde. É ignóbil demais para que o toque com
as minhas armas; entrego­‑o ao baraço e ao cutelo.
Com a mesma impassibilidade e o mesmo sossego que conservava desde
o momento em que aparecera imprevistamente, o velho fidalgo atravessou
por entre os aventureiros imóveis e respeitosos, e caminhou para a saída.

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60 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Aí voltou­‑se; e levando a mão ao chapéu descobriu a sua bela cabeça


encanecida, que destacava sobre o fundo negro da noite e no meio do clarão
avermelhado das tochas com um vigor de colorido admirável.
— Se algum de vós der o menor sinal de desobediência; se uma das mi‑
nhas ordens não for cumprida pronta e fielmente; eu, D. Antônio de Mariz,
vos juro por Deus e pela minha honra que desta casa não sairá um homem
vivo. Sois trinta; mas a vossa vida, de todos vós, tenho­‑a na minha mão; basta­
‑me um movimento para exterminar­‑vos, e livrar a terra de trinta assassinos.
No momento em que o fidalgo ia retirar­‑se apareceu Álvaro pálido de
emoção, mas brilhante de coragem e indignação.
— Quem se animou aqui a erguer a voz para D. Antônio de Mariz? —
exclamou o moço. O velho fidalgo sorrindo com orgulho pôs a mão no braço
do cavalheiro.
— Não vos ocupeis disto, Álvaro; sois bastante nobre para vingar uma
afronta desta natureza, e eu, bastante superior para não ser ofendido por ela.
— Mas, senhor, cumpre que se dê um exemplo!
— O exemplo vai ser dado, e como cumpre. Aqui não há senão culpados
e executores da pena. O lugar não vos compete. Vinde!
O moço não resistiu e acompanhou D. Antônio de Mariz, que se dirigiu
lentamente à sala, onde achou Aires Gomes.
Quanto a Peri, voltara ao jardim de Cecília, decidido a defender sua se‑
nhora contra o mundo inteiro.
O dia vinha rompendo.
O fidalgo chamou Aires Gomes e entrou com ele no seu gabinete de
armas, onde tiveram uma longa conferência de meia hora.
O que aí se passou ficou em segredo entre Deus e estes dois homens;
apenas Álvaro notou, quando a porta do gabinete se abriu, que D. Antônio
estava pensativo, e o escudeiro lívido como um morto.
Neste momento ouviu­‑se um pequeno rumor na entrada da sala; qua‑
tro aventureiros parados, imóveis, esperavam uma ordem do fidalgo para se
aproximarem.
D. Antônio fez­‑lhes um sinal; e eles vieram ajoelhar­‑se a seus pés;
as lágrimas rolavam por essas faces queimadas pelo sol; e a palavra tremia
balbuciante nesses lábios pálidos que há instantes vomitavam ameaças.
— Que significa isto? — perguntou o cavalheiro com severidade.
Um dos aventureiros respondeu:
— Viemo­‑nos entregar em vossas mãos; preferimos apelar para o vosso
coração do que recorrer às armas para escaparmos à punição de nossa falta.
— E vossos companheiros? — replicou o fidalgo.

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josé de alencar 61

— Deus lhes perdoe, senhor, a enormidade do crime que vão cometer.


Depois que vos retirastes tudo mudou; preparam­‑se para atacar­‑vos!
— Que venham — disse D. Antônio —, eu os receberei. Mas vós por
que não os acompanhais? Não sabeis que D. Antônio de Mariz perdoa uma
falta, mas nunca uma desobediência?
— Embora — disse o aventureiro que falava em nome de seus camara‑
das —; aceitaremos de bom grado o castigo que nos impuserdes. Mandai,
que obedeceremos. Somos quatro contra vinte e tantos; dai­‑nos essa puni‑
ção de morrer defendendo­‑vos, de reparar pela nossa morte um momento
de alucinação!... É a graça que vos pedimos!
D. Antônio olhou admirado os homens que estavam ajoelhados a seus
pés; e reconheceu neles os restos dos seus antigos companheiros de armas
do tempo em que o velho fidalgo combatia os inimigos de Portugal.
Sentiu­‑se comovido; sua alma grande, e inabalável no meio do perigo,
orgulhosa em face da ameaça, deixava­‑se facilmente dominar pelos senti‑
mentos nobres e generosos.
Essa prova de fidelidade que davam aqueles quatro homens na ocasião da
revolta geral dos seus companheiros; a ação que acabavam de praticar, e o sa‑
crifício com que desejavam expiar a sua falta, elevou­‑os no espírito do fidalgo.
— Erguei­‑vos. Reconheço­‑vos!... Já não sois os traidores que há pouco
repreendi; sois os bravos companheiros que pelejastes a meu lado; o que
fazeis agora, esquece o que fizestes há uma hora. Sim!... Mereceis que mor‑
ramos juntos, combatendo ainda uma vez na mesma fileira. D. Antônio de
Mariz vos perdoa. Podeis levantar a cabeça e trazê­‑la alta!
Os aventureiros ergueram­‑se radiantes do perdão que o nobre fidalgo
tinha lançado sobre suas cabeças; todos eles estavam prontos a dar sua vida
para salvarem o seu chefe.
O que tinha ocorrido depois da saída de D. Antônio do alpendre, seria
longo de escrever.
Loredano tornando a si da vertigem que lhe causara o atordoamento e
a violência da queda, soube da ordem que havia a seu respeito. Não era pre‑
ciso tanto para que o audaz aventureiro recorresse à sua eloqüência a fim de
excitar de novo à revolta.
Pintou a posição de todos como desesperada, atribuiu o seu castigo e as
desgraças que iam suceder ao fanatismo que havia por Peri; esgotou enfim
os recursos da sua inteligência.
D. Antônio não estava mais aí para conter com a sua presença a cólera
que ia fermentando, a excitação que começava a lavrar, a princípio surda‑
mente, as queixas e os murmúrios que afinal fizeram coro.

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62 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Um incidente veio atear a chama que lastrava; Peri, apenas começou


a romper o dia, viu a alguma distância do jardim o cadáver de Rui Soeiro;
e temendo que sua senhora acordando presenciasse esse triste espetáculo
tomou o corpo, e atravessando a esplanada, veio atirá­‑lo no meio do pátio.
Os aventureiros empalideceram e ficaram estupefatos; depois rompeu
a indignação feroz, raivosa, delirante; estavam como possessos de furor e
vingança. Não houve mais hesitação; a revolta pronunciou­‑se; apenas o pe‑
queno grupo de quatro homens que desde a saída de D. Antônio se conser‑
vava em distância não tomou parte na insubordinação.
Ao contrário, quando viram que seus companheiros, com Loredano à
frente, se preparavam para atacar o fidalgo, foram, como vimos, oferecer­‑se
voluntariamente ao castigo, e reunir­‑se ao seu chefe para partilharem a sua
sorte.
Pouco tardou para que João Feio não se apresentasse como parlamentá‑
rio da parte dos revoltosos; o fidalgo não o deixou falar.
— Dize a teus companheiros, rebelde, que D. Antônio de Mariz manda
e não discute condições: que eles estão condenados; e verão se sei ou não
cumprir o meu juramento.
O fidalgo tratou então de dispor os seus meios de defesa; apenas podia
contar com quatorze combatentes: ele, Álvaro, Peri, Aires Gomes, mestre
Nunes com os seus companheiros, e os quatro homens que se haviam con‑
servado fiéis; os inimigos eram em número de vinte e tantos.
Toda a sua família já então despertada recebeu a triste notícia de tantos
acontecimentos passados durante aquela noite fatal; D. Lauriana, Cecília
e Isabel recolheram­‑se ao oratório, e rezavam enquanto se preparava tudo
para uma resistência desesperada.
Os aventureiros comandados por Loredano arregimentaram­‑se e mar‑
charam para a casa dispostos a dar um assalto terrível; o seu furor redobrava
tanto mais, quanto o remorso no fundo da consciência começava a mostrar­
‑lhes toda a hediondez de sua ação.
No momento em que dobravam o canto, ouviu­‑se um som rouco que se
prolongou pelo espaço, como o eco surdo de um trovão em distância.
Peri estremeceu, e lançando­‑se para a beira da esplanada estendeu os
olhos pelo campo que costeava a floresta. Quase ao mesmo tempo um dos
aventureiros que estava ao lado de Loredano caiu traspassado por uma flecha.
— Os Aimorés!...
Apenas soltou Peri esta exclamação, uma linha movediça, longo arco de
cores vivas e brilhantes, agitou­‑se ao longe da planície irradiando à luz do
sol nascente.

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josé de alencar 63

Homens quase nus, de estatura gigantesca e aspecto feroz; cobertos de


peles de animais e penas amarelas e escarlates, armados de grossas clavas e
arcos enormes, avançavam soltando gritos medonhos.
A inúbia retroava; o som dos instrumentos de guerra misturado com
os brados e alaridos formavam um concerto horrível, harmonia sinistra que
revelava os instintos dessa horda selvagem reduzida à brutalidade das feras.
— Os Aimorés!... — repetiram os aventureiros empalidecendo.

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64 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Castro ALVES. «O navio negreiro (tragédia no mar)», in Os Escravos. [1884]


1997. Lisboa: Printer Portuguesa. 9-28.

‘Stamos em pleno mar... Doudo no espaço


Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele, correm… dançam
Como turbas de infantes inquieta!

‘Stamos em pleno mar… Do firmamento…


Os astros saltam como espumas de ouro…
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro!...

‘Stamos em pleno mar... Dois infinitos


Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes…
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?

‘Stamos em pleno mar… abrindo as velas


Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas…

Donde vem? Onde vae? Das náos errantes


Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço!
Neste Saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest’hora


Sentir deste painel a majestade!...
Embaixo — o mar… em cima — o firmamento…
E no mar e no céu — a imensidade!

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castro alves 65

Oh! Que doce harmonia traz­‑me a brisa!


Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! Ó rudes marinheiros,


Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço d’estes pélagos profundos!

Esperai!… esperai!... deixai que eu beba


Esta selvagem, livre poesia…
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento que nas cordas assobia...
………………………………………….

Por que foges assim, barco ligeiro?


Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar­‑te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,


Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá­‑me estas asas.

II
Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
Às vagas que deixa após.

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66 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavras do vulcão!

(O Inglês — marinheiro frio,


Que ao nascer no mar se achou,)
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir…
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga iónia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu…
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu!...

III
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais… inda mais… não pode olhar humano,
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas, que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras!...

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castro alves 67

É canto funeral!... Que tétricas figuras!...


Que cena infame e vil… Meu Deus! meu Deus! Que horror!

IV
Era um sonho dantesco... o tombadilho,
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros… estalar de açoite…
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar…

Negras mulheres, suspendendo às tetas


Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras, moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri­‑se a orquestra irónica, estridente…


E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais…
Se o velho arque, se no chão resvala,
Ouvem­‑se gritos… o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeira,


A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,


E após fitando o céu, que se desdobra
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
«Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei­‑os mais dançar!...»

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68 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

E ri­‑se a orquestra irónica, estridente...


E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais…
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!...
E ri­‑se Satanás!...

V
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei­‑me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...

Quem são estes desgraçados


Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noute confusa…
Dize­‑o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto


Onde a terra esposa a luz,
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus.
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.

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castro alves 69

Ontem simples, fortes, bravos…


Hoje míseros escravos,
Sem ar, sem luz, sem razão...

São mulheres desgraçadas,


Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe… bem longe vêm…
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N’alma — lágrimas e fel…
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá… nas areias infindas,


Das palmeiras no país,
Nasceram — crianças lindas,
Viveram — moças gentis…
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus…
… Adeus, ó choça do monte,
… Adeus, palmeiras da fonte!...
… Adeus, amores… adeus!…

Depois, o areal extenso…


Depois, o oceano de pó.
Depois — no horizonte imenso
Desertos… desertos só…
E a fome, o cansaço, a sede…
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p’ra não mais s’erguer!…
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,


A guerra, a caça ao leão,

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70 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

O sono dormido à toa


Sob as tendas d’amplidão!
Hoje… o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar…
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar…

Ontem plena liberdade,


A vontade por poder…
Hoje… cúm’lo de maldade,
Nem são livres p’ra morrer…
Prende­‑os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente ­—
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute… Irrisão!...

Senhor Deus dos desgraçados!


Dizei­‑me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, porque não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...

VI
Existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa­‑a transformar­‑se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?

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castro alves 71

Silêncio. Musa… chora, e chora tanto


Que o pavilhão se lave no teu pranto!...

Auriverde pendão de minha terra,


Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!


Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia de mais!... Da etérea plaga
Levantai­‑vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

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72 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

António Lobo ANTUNES. «Relato», in O Manual dos Inquisidores. 2005.


Lisboa: Dom Quixote. 163­‑175.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Não me lembro que dia da semana era mas lembro­‑me de ser dia de limpar a
capela e ao passar pelo escritório do senhor doutor os estores encontravam­
‑se subidos porque havia luz sob a porta e lá dentro o rádio aceso e a voz dele
ao telefone
— Que história é essa homem que diabo de história é essa?
e o relógio da cozinha soou uma porção de badaladas e portanto ama‑
nhecia. Não me lembro que dia era e todavia estávamos em abril dado exis‑
tirem gralhas novas no pomar e laranjeiras com pontinhos brancos, o senhor
doutor deixara o ministério zangado com o professor Caetano que visitara
uma ou duas ocasiões a quinta para o convencer a voltar, recebido não na
sala do piano, com a fotografia da rainha a assistir à conversa, mas no quarto
ao lado, mais pequeno, quase sem móveis, no qual dava ordens ao caseiro, ao
tractorista e ao padre após a missa
que considerava equivalente a lavrar campos ou a melhorar canteiros
o senhor doutor numa cadeira de braços apontando ao professor Cae‑
tano uma cadeira sem braços, e se eu rodava a maçaneta e aparecia com o
tabuleiro do bule e das chávenas e o prato das torradas afastavam­‑me com as
costas da mão antes de o professor Caetano poder abrir boca
— Este Presidente do Conselho não bebe chá Titina
furioso por o senhor almirante não o ter escolhido para dirigir o País,
ele que na tarde em que o professor Caetano falou na televisão a agradecer
os aplausos tirou da parede o retrato do senhor almirante que se abraçavam
a sorrir
— Atira­‑me este ventríloquo ao lixo
o professor Caetano que após uma hora a fingir não entender as humi‑
lhações se despedia no alto das escadas a insistir
— Se mudar de opinião avise­‑me estava a pensar em si para a Defesa ou
para os Negócios Estrangeiros
e o senhor doutor a dar meia volta sem que o outro tivesse tempo de
descer os degraus

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82 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Aluísio AZEVEDO. Excerto de «Capítulo I», in O Cortiço. [1890] 2012. São


Paulo: Ateliê Editorial. 77­‑ 82.

Era este o seu ideal. Havia muito que João Romão vivia exclusivamente para
essa ideia; sonhava com ela todas as noites; comparecia a todos os leilões de ma‑
teriais de construção; arrematava madeiramentos já servidos; comprava telha
em segunda mão; fazia pechinchas de cal e tijolos; o que era tudo depositado no
seu extenso chão vazio, cujo aspecto tomava em breve o carácter estranho de
uma enorme barricada tal era a variedade dos objetos que ali se apinhavam acu‑
mulados: tábuas e sarrafos, troncos de árvore, mastros de navio, caibros, restos
de carroças, chaminés de barro e de ferro, fogões desmantelados, pilhas e pilhas
de tijolos de todos os feitios, barricas de cimento, montes de areia e terra ver‑
melha, aglomerações de telhas velhas, escadas partidas, depósitos de cal, o dia‑
bo enfim; ao que ele, que sabia perfeitamente como essas coisas se furtavam,
resguardava, soltando à noite um formidável cão de fila.
Este cão era pretexto de eternas rezingas com a gente do Miranda,
a cujo quintal ninguém de casa podia descer, depois das dez horas da noite,
sem correr o risco de ser assaltado pela fera.
— É fazer o muro! dizia João Romão, sacudindo os ombros.
— Não faço! replicava o outro. Se ele é questão de capricho, eu também
tenho capricho!
Em compensação, não caía no quintal do Miranda galinha ou frango,
fugidos do cercado do vendeiro, que não levasse imediato sumiço. João Ro‑
mão protestava contra roubo em termos violentos, jurando vinganças terrí‑
veis, falando em dar tiros.
— Pois é fazer um muro no galinheiro! repontava o marido de Estela.
Daí a alguns meses, João Romão, depois de tentar um derradeiro esfor‑
ço para conseguir algumas braças do quintal do vizinho, resolveu principiar
as obras da estalagem.
— Deixa estar, conversava ele na cama com a Bertoleza; deixa estar que
ainda lhe hei­‑de entrar pelos fundos da casa, se é que não lhe entre pela fren‑
te! Mais cedo ou mais tarde como­‑lhe, não duas braças, mas seis, oito, todo
o quintal e até o próprio sobrado talvez!

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aluísio azevedo 83

E dizia isto com uma convicção de quem tudo pode e tudo espera da
sua perseverança, do seu esforço inquebrantável e da fecundidade prodi‑
giosa do seu dinheiro, dinheiro que só lhe saía das unhas para voltar mul‑
tiplicado.
Desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos os seus
atos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuniário. Só tinha
uma preocupação: aumentar os bens. Das suas hortas recolhia para si e para
a companheira os piores legumes, aqueles que, por maus, ninguém com‑
praria; as suas galinhas produziam muito e ele não comia um ovo, do que
no entanto gostava imenso; vendia­‑os todos e contentava­‑se com os restos
da comida dos trabalhadores. Aquilo já não era ambição, era uma moléstia
nervosa, uma loucura, um desespero de acumular; de reduzir tudo a moeda.
E seu tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer,
ia e vinha da pedreira para a venda, da venda às hortas e ao capinzal, sempre
em mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando para todos os lados,
com o seu eterno ar de cobiça, apoderando­‑se, com os olhos, de tudo aquilo
de que ele não podia apoderar­‑se logo com as unhas.
Entretanto, a rua lá fora povoava­‑se de um modo admirável. Construía­
‑se mal, porém muito; surgiam chalés e casinhas da noite para o dia; subiam
os aluguéis; as propriedades dobravam de valor. Montara­‑se uma fábrica de
massas italianas e outra de velas, e os trabalhadores passavam de manhã as
ave­‑marias, e a maior parte deles ia comer à casa de pasto que João Romão
arranjara aos fundos da sua venda. Abriram­‑se novas tavernas; nenhuma, po‑
rém, conseguia ser tão afreguesada como a dele. Nunca o seu negócio fora
tão bem, nunca o finório vendera tanto; vendia mais agora, muito mais, que
nos anos anteriores. Teve até de admitir caixeiros. As mercadorias não lhe
paravam nas prateleiras; o balcão estava cada vez mais lustroso, mais gasto.
E o dinheiro a pingar, vintém por vintém, dentro da gaveta, e a escorrer da
gaveta para a burra, aos cinquenta e aos cem mil­‑réis, e da burra para o ban‑
co, aos contos e aos contos.
Afinal, já lhe não bastava sortir o seu estabelecimento nos armazéns
fornecedores; começou a receber alguns gêneros diretamente da Europa: o
vinho, por exemplo, que ele dantes comprava aos quintos nas casas de ataca‑
do, vinha­‑lhe agora de Portugal às pipas, e de cada uma fazia três com água e
cachaça; e despachava faturas de barris de manteiga, de caixas de conserva,
caixões de fósforos, azeite, queijos, louça e muitas outras mercadorias.
Criou armazéns para depósito, aboliu a quitanda e transferiu o dormi‑
tório, aproveitando o espaço para ampliar a venda, que dobrou de tamanho
e ganhou mais duas portas.

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84 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Já não era uma simples taverna, era um bazar em que se encontrava de


tudo, objetos de armarinho, ferragens, porcelanas, utensílios de escritório,
roupa de riscado para os trabalhadores, fazenda para roupa de mulher, cha‑
péus de palha próprios para o serviço ao sol, perfumarias baratas, pentes de
chifre, lenços com versos de amor, e anéis e brincos de metal ordinário.
E toda a gentalha daquelas redondezas ia cair lá, ou então ali ao lado, na
casa de pasto, onde os operários das fábricas e os trabalhadores da pedreira
se reuniam depois do serviço, e ficavam bebendo e conversando até às dez
horas da noite, entre o espesso fumo dos cachimbos, do peixe frito em azei‑
te e dos lampiões de querosene.
Era João Romão quem lhes fornecia tudo, tudo, até dinheiro adiantado,
quando algum precisava. Por ali não se encontrava jornaleiro, cujo ordena‑
do não fosse inteirinho parar às mãos do velhaco. E sobre este cobre, quase
sempre emprestado aos tostões, cobrava juros de oito por cento ao mês, um
pouco mais do que levava aos que garantiam a dívida com penhores de ouro
ou prata.
Não obstante, as casinhas do cortiço, à proporção que se atamancavam,
enchiam­‑se logo, sem mesmo dar tempo a que as tintas secassem. Havia
grande avidez em alugá­‑las; aquele era o melhor ponto do bairro para a gente
do trabalho. Os empregados da pedreira preferiam todos morar lá, porque
ficavam a dois passos da obrigação.
O Miranda rebentava de raiva.
— Um cortiço! exclamava ele, possesso. Um cortiço! Maldito seja aque‑
le vendeiro de todos os diabos! Fazer­‑me um cortiço debaixo das janelas!...
Estragou­‑me a casa, o malvado!
E vomitava pragas, jurando que havia de vingar­‑se, e protestando aos
berros contra o pó que lhe invadia em ondas as salas, e contra o infernal ba‑
rulho dos pedreiros e carpinteiros que levavam a martelar de sol a sol.
O que aliás não impediu que as casinhas continuassem a surgir, uma
após outra, e fossem logo se enchendo, a estenderem­‑se unidas por ali afora,
desde a venda até quase ao morro, e depois dobrassem para o lado do Mi‑
randa e avançassem sobre o quintal deste, que parecia ameaçado por aquela
serpente de pedra e cal.
O Miranda mandou logo levantar o muro.
Nada! aquele demónio era capaz de invadir­‑lhe a casa até à sala de visitas!
E os quartos do cortiço pararam enfim de encontro ao muro do nego‑
ciante, formando com a continuação da casa deste um grande quadrilongo,
espécie de pátio de quartel, onde podia formar um batalhão.
Noventa e cinco casinhas comportou a imensa estalagem.

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aluísio azevedo 85

Prontas, João Romão mandou levantar na frente, nas vinte braças que
separavam a venda do sobrado do Miranda, um grosso muro de dez palmos
de altura, coroado de tacos de vidro e fundos de garrafa, e com um grande
portão no centro, onde se dependurou uma lanterna de vidraças vermelhas,
por cima de uma tabuleta amarela, em que se lia o seguinte, escrito a tinta
encarnada e sem ortografia:
«Estalagem de São Romão. Alugam­‑se casinhas e tinas para lavadeiras».
As casinhas eram alugadas por mês e as tinas por dia; tudo pago adian‑
tado. O preço de cada tina, metendo a água, quinhentos réis; sabão à parte.
As moradoras do cortiço tinham preferência e não pagavam nada para lavar.
Graças à abundância de água que lá havia, como em nenhuma outra par‑
te, e graças ao muito espaço de que se dispunha no cortiço para estender a
roupa, a concorrência às tinas não se fez esperar; acudiram lavadeiras de
todos os pontos da cidade, entre elas algumas vindas de bem longe. E, mal
vagava uma das casinhas, ou um quarto, um canto onde coubesse um col‑
chão, surgia uma nuvem de pretendentes a disputá­‑los.
E aquilo se foi constituindo numa grande lavanderia, agitada e baru‑
lhenta, com as suas cercas de varas, as suas hortaliças verdejantes e os seus
jardinzinhos de três e quatro palmos, que apareciam como manchas alegres
por entre a negrura das limosas tinas transbordantes e o reverbero das claras
barracas de algodão cru, armadas sobre os lustrosos bancos de lavar. E os
gotejantes jiraus, cobertos de roupa molhada, cintilavam ao sol, que nem
lagos de metal branco.
E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lo‑
dosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa
viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lamei‑
ro, e multiplicar­‑se como larvas no esterco.

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86 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Maria Isabel BARRENO, Maria Teresa HORTA e Maria Velho da


COSTA. «Extractos do diário de D. Maria Ana, descendente directa de
D. Mariana sobrinha de D. Mariana Alcoforado, e nascida por volta de 1800»,
in Novas Cartas Portuguesas. [1972] 1998. Lisboa: Dom Quixote. 151­‑155.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Partindo de Mariana, a primeira, sou eu a sétima geração, rebento extem‑


porâneo e filosófico desta linhagem feminina, que começa com os feitos
profanos duma freira e que a partir daí se constitui e toma consciência de
si, de sua necessidade, linhagem assim oposta ao esquecimento e à diluição,
à absorção rápida de um escândalo na paz das famílias e das sociedades.
Se homens constituem famílias e linhagens para se garantirem descen‑
dência de nomes e de propriedades, não será lógico que as mulheres utilizem
sua descendência sem nome nem propriedade para perpetuar o escândalo e
o inaceitável?
No fundo, como as ordens religiosas. Mas estas cedo perdem sua razão
original. Porque o que contesta não suporta ser instituído? Não só por isso;
mas também porque a contradição se vai tornando virtude passiva, e toda a
carência imposta — dor, miséria, obediência, castidade — vai sendo erigida
em virtude autocomplacente e absoluta. Para nos tornarmos irmãos dos que
têm fome e sede de justiça não julgo que sejam regras a instaurar, nem se‑
quer pró­‑justiça. As ordens religiosas fizeram seu caminho pela fome e pela
sede, até se negarem, até instaurarem o reino da injustiça. Irmãs Clarissas do
Desagravo, holocausto de mulheres que há uns séculos desagravam, noite e
dia, a profanação dumas hóstias. Não foram as hóstias feitas para desagravar
a profanação das pessoas?

*
Deixemos as freiras, que não são caso único. Que mulher não é freira, ofere‑
cida, abnegada, sem vida sua, afastada do mundo? Qual a mudança, na vida
das mulheres, ao longo dos séculos? No tempo de tia Mariana as mulheres
bordavam ou teciam ou fiavam ou cozinhavam, sujeitavam­‑se aos direitos
de seus maridos, engravidavam, tinham abortos ou faziam­‑nos, tinham fi‑
lhos, nados­‑mortos, nados­‑vivos, tratavam dos filhos, morriam de parto às
vezes, em suas casas, com móveis, cadeiras, cortinados; estamos em tempo
de civilização e de luzes, os homens fazem livros científicos e enciclopédias,

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90 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Camilo Castelo BRANCO. «Capítulo XIX», in Amor de Perdição. [1861]


2007. Lisboa: Imprensa Nacional — Casa da Moeda. 431­‑441 (só páginas
ímpares).

A verdade é algumas vezes o escolho de um romance.


Na vida real, recebemo­‑la como ela sai dos encontrados casos, ou da
lógica implacável das coisas; mas na novela, custa­‑nos a sofrer que o autor, se
inventa, não invente melhor; e, se copia, não minta por amor da arte.
Um romance, que estriba na verdade o seu merecimento, é frio, é im‑
pertinente, é uma coisa que não sacode os nervos, nem tira a gente, sequer
uma temporada, enquanto ele nos lembra, deste jogo de nora, cujos alcatru‑
zes somos, uns a subir, outros a descer, movidos pela manivela do egoísmo.
A verdade! se ela é feia, para que oferecê­‑la em painéis ao público!?
A verdade do coração humano! Se o coração humano tem filamentos de
ferro, que o prendem ao barro donde saiu, ou pesam nele e o submergem no
charco da culpa primitiva, para que é emergi­‑lo, retratá­‑lo, e pô­‑lo à venda!?
Os reparos são de quem tem o juízo no seu lugar; mas, pois que eu perdi
o meu a estudar a verdade, já agora a desforra que tenho é pintá­‑la como ela
é, feia e repugnante.
A desgraça afervora ou quebranta o amor?
Isso é que eu submeto à decisão do leitor inteligente. Factos e não teses
é o que eu trago para aqui. O pintor retrata uns olhos, e não explica as fun‑
ções ópticas do aparelho visual.
Ao cabo de dezanove meses de cárcere, Simão Botelho almejava um
raio de sol, uma lufada de ar não coada pelos ferros, o pavimento do céu, que
o da abóbada do seu cubículo pesava­‑lhe sobre o peito.
Ânsia de viver era a sua; não era já ânsia de amar.
Seis meses de sobressaltos diante da forca deviam distender­‑lhe as fi‑
bras do coração; e o coração para o amor quer­‑se forte e tenso de uma cer‑
ta rijeza, que se ganha com o bom sangue, com os anseios das esperanças,
e com as alegrias que o enchem e reforçam para os revezes.
Caiu a forca pavorosa aos olhos de Simão; mas os pulsos ficaram em
ferros, o pulmão ao ar mortal das cadeias, o espírito intanguido na glacial
estupidez de umas paredes salitrosas, e dum pavimento, que ressoa os der‑

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camilo castelo branco 91

radeiros passos do último padecente, e dum tecto que filtra a morte a gotas
de água.
O que é o coração, o coração dos dezoito anos, o coração sem remorsos,
o espírito anelante de glórias, ao cabo de dezoito meses de estagnação da
vida?
O coração é a víscera, ferida de paralisia, a primeira que falece sufocada
pelas rebeliões da alma que se identifica à natureza, e a quer, e se devora na
ânsia dela, e se estorce nas agonias da amputação, para as quais a saudade da
ventura extinta é um cautério em brasa; e o amor, que leva ao abismo pelo
caminho da sonhada felicidade, não é sequer um refrigério.
Ao deslaçar da garganta a corda da justiça, Simão Botelho teve uma hora
de desafogo, como que sentia o patíbulo lascar entre os seus braços, e então
convidou o coração da mulher, que o perdera, a assistir às segundas núpcias
da sua vida com a esperança.
Depois, a passo igual, a esperança fugia­‑lhe para as areias da Ásia, e o
coração entumecia­‑se de fel, o amor afogava­‑se nele, morte inevitável, quan‑
do não há abertura por onde a esperança entre a luzir na escuridão íntima.
Esperança para Simão Botelho, qual?
A Índia, a humilhação, a miséria, a indigência.
E os anelos daquela alma tinham mirado a ambições de um nome. Para
a felicidade do amor invidava as forças do talento; mas, além do amor, estava
a glória, o renome e a vã imortalidade, que só não é demência nas grandes
almas, e nos génios que se sentem previver nas gerações vindouras.
Mas grinaldas de amor a escorrerem sangue dos espinhos, essas infil‑
tram veneno corrosivo no pensamento, apagam no seio a faísca das nobres
afoitezas, apoucam a ideia que abrangera mundos, e paralisam de mortal
espasmo os estos do coração.
Assim te sentias tu, infeliz, quando dezoito meses de cárcere, com o
patíbulo ou degredo na linha do teu porvir, te haviam matado o melhor da
alma.
A ti mesmo perguntavas pelo teu passado, e o coração, se ousava res‑
ponder, retraía­‑se recriminado pelos ditames da razão.
Dalém, daquele convento onde outra existência agonizava, gementes
queixas te vinham espremer fel na chaga; e tu, que não sabias, nem podias
consolar, pedias palavras ao anjo da compaixão para ela, e recebias as do
demónio do desespero para ti.
Os dez anos de ferros, em que lhe quiseram minorar a pena, eram­‑lhe
mais horrorosos que o patíbulo. E aceitá­‑los­‑ia, por ventura, se amasse o
céu, onde Teresa bebia o ar, que nos pulmões se lhe formava em peçonha?

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92 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Creio: antes a masmorra, onde pode ouvir­‑se o som abafado de uma voz ami‑
ga; antes os paroxismos de dez anos sobre as lajes húmidas duma enxovia,
se, na hora extrema, a última faísca da paixão, ao bruxulear para morrer, nos
alumia o caminho do céu por onde o anjo do amor desditoso se levantou a
dar conta de si a Deus, e a pedir a alma do que ficou.
Teresa pedira a Simão Botelho que aceitasse dez anos de cadeia, e espe‑
rasse aí a sua redenção por ela.
«Dez anos! — dizia­‑lhe a inclausurada de Monchique — Em dez anos
terá morrido meu pai e eu serei tua esposa, e irei pedir ao rei que te per‑
doe, se não tiveres cumprido a sentença. Se vais ao degredo, para sempre te
perdi, Simão, porque morrerás, ou não acharás memória de mim, quando
voltares.»
Como a pobre se iludia nas horas em que as débeis forças de vida se lhe
concentravam no coração!
As ânsias, a lividez, o deperecimento tinham voltado. O sangue, que
criara novo, já lhe saía em golfadas com a tosse.
Se por amor ou piedade o condenado aceitasse os ferrolhos três mil
seiscentas e cinquenta vezes corridos sobre as suas longas noites solitárias,
nem assim Teresa susteria a pedra sepulcral que a vergava d’hora a hora.
«Não esperes nada, mártir — escrevia­‑lhe ele. — A luta com a desgraça
é inútil, e eu não posso já lutar. Foi um atroz engano o nosso encontro. Não
temos nada neste mundo. Caminhemos ao encontro da morte... Há um se‑
gredo que só no sepulcro se sabe. Ver­‑nos­‑emos?
«Vou. Abomino a pátria, abomino a minha família; todo este solo está
aos meus olhos coberto de forcas, e quantos homens falam a minha língua,
creio que os ouço vociferar as imprecações do carrasco. Em Portugal, nem a
liberdade com a opulência; nem já agora a realização das esperanças que me
dava o teu amor, Teresa!
«Esquece­‑te de mim, e adormece no seio do nada. Eu quero morrer, mas
não aqui. Apague­‑se a luz de meus olhos; mas a luz do céu, quero­‑a! Quero
ver o céu no meu último olhar.
«Não me peças que aceite dez anos de prisão. Tu não sabes o que é a li‑
berdade cativa dez anos! Não compreendes a tortura dos meus vinte meses.
A voz única que tenho ouvido é a da mulher piedosa que me esmola o pão de
cada dia, e a do aguazil que veio dar­‑me a sarcástica boa­‑nova de uma graça
real, que me comuta o morrer instantâneo da forca pelas agonias de dez
anos de cárcere.
«Salva­‑te, se podes, Teresa. Renuncia ao prestígio dum grande desgraça‑
do. Se teu pai te chama, vai. Se tem de renascer para ti uma aurora de paz,

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camilo castelo branco 93

vive para a felicidade desse dia. E se não, morre, Teresa, que a felicidade é a
morte, é o desfazerem­‑se em pó as fibras laceradas pela dor, é o esquecimen‑
to que salva das injúrias a memória dos padecentes.»
As palavras únicas de Teresa, em resposta àquela carta, significativa da
turvação do infeliz, foram estas: «Morrerei, Simão, morrerei. Perdoa tu ao
meu destino... Perdi­‑te... Bem sabes que sorte eu queria dar­‑te... e morro,
porque não posso, nem poderei jamais resgatar­‑te. Se podes, vive; não te
peço que morras, Simão; quero que vivas para me chorares. Consolar­‑te­‑á
o meu espírito... Estou tranquila... Vejo a aurora da paz... Adeus até ao céu,
Simão.»
Seguiram­‑se a esta carta muitos dias de terrível taciturnidade. Simão
Botelho não respondia às perguntas de Mariana. Di­‑lo­‑íeis arroubado nas
voluptuosas angústias do seu próprio aniquilamento. A criatura, posta por
Deus ao lado daqueles dezoito anos tão atribulados, chorava; mas as lágri‑
mas, se Simão as via, tiravam­‑no da mudez sossegada para ímpetos de afli‑
ção, que afinal o extenuavam.
Decorreram seis meses ainda.
E Teresa vivia, dizendo às suas consternadas companheiras que sabia ao
certo o dia do seu trespasse.
Duas primaveras vira Simão Botelho pelas grades do seu cárcere. A ter‑
ceira já inflorava as hortas, e esverdeava as florestas do Candal.
Era em Março de 1807.
No dia 10 desse mês, recebeu o condenado intimação para sair na pri‑
meira embarcação que levava âncora do Douro para a Índia. Nesse tempo
vinham aqui os navios buscar os degredados, e recebiam em Lisboa os que
tinham igual destino.
Nenhum estorvo impedia o embarque de Mariana, que se apresentou
ao corregedor do crime como criada do degredado, com passagem paga por
seu amo.
— E a passagem vale­‑a bem! — disse o galhofeiro magistrado. Simão
assistiu ao encaixotar de sua bagagem, numa quietação terrível, como se ig‑
norasse o seu destino.
Quis muitas vezes escrever a derradeira carta à moribunda Teresa,
e nem sinais de lágrimas podia já enviar­‑lhe no papel.
— Que trevas, meu Deus! — exclamava ele, e arrancava a mãos cheias
os cabelos — Dai­‑me lágrimas, Senhor! deixai­‑me chorar ou matai­‑me, que
este sofrimento é insuportável!
Mariana contemplava estarrecida estes e outros lances de loucura, ou os
não menos medonhos da letargia.

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94 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

— E Teresa! — bradava ele, surgindo subitamente do seu espasmo —


E aquela infeliz menina, que eu matei! Não hei­‑de vê­‑la mais, nunca mais!
Ninguém me levará ao degredo a notícia da sua morte! E quando a eu cha‑
mar para que me veja morrer digno dela, quem te dirá que eu morri, ó mártir!

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luís de camões 95

Luís de CAMÕES. «Canto III — Estâncias 118­‑137», in Os Lusíadas. [1572]


1992. Lisboa: Ministério da Educação e Instituto Camões. 88­‑ 93.

«Passada esta tão próspera vitória,


Tornado Afonso à Lusitana terra,
A se lograr da paz com tanta glória
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste, e dino da memória
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que despois de ser morta foi Rainha.

«Tu só, tu, puro Amor, com força crua,


Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

«Estavas, linda Inês, posta em sossego,


De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saüdosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas,

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96 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

«Do teu Príncipe ali te respondiam


As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.

«De outras belas senhoras e Princesas


Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas,
O velho pai sesudo, que respeita
O murmurar do povo e a fantasia
Do filho, que casar­‑se não queria,

«Tirar Inês ao mundo determina,


Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co sangue só da morte inclina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra a fraca dama delicada?

«Traziam­‑a os horríficos algozes


Ante o Rei, já movido a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.
Ela, com tristes e piedosas vozes,
Saídas só da mágoa e saüdade
Do seu Príncipe e filhos, que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava,

«Pera o céu cristalino alevantando,


Com lágrimas, os olhos piedosos
(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando

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luís de camões 97

Um dos duros ministros rigorosos);


E despois nos mininos atentando,
Que tão queridos tinha e tão mimosos,
Cuja orfindade como mãe temia,
Pera o avô cruel assi dizia:

— «Se já nas brutas feras, cuja mente


Natura fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que sòmente
Nas rapinas aéreas têm o intento,
Com pequenas crianças viu a gente
Terem tão piadoso sentimento
Como co a mãe de Nino já mostraram,
E cos irmãos que Roma edificaram:

«Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito


(Se de humano é matar a donzela,
Fraca e sem força, só por ter subjeito
O coração a quem soube vencê­‑la),
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova­‑te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.

«E se, vencendo a Maura resistência,


A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe também dar vida com demência
A quem pera perdê­‑la não fez erro.
Mas, se to assi merece esta inocência,
Põe­‑me em perpétuo e mísero desterro,
Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente,
Onde em lágrimas viva eternamente.

«Põe­‑me onde se use toda a feridade,


Entre liões e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei.
Ali, co amor intrínseco e vontade
Naquele por quem mouro, criarei

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98 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Estas relíquias suas, que aqui viste,


Que refrigério sejam da mãe triste.»

«Queria perdoar­‑lhe o Rei benino,


Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Arrancam das espadas de aço fino
Os que por bom tal feito ali apregoam.
Contra a dama, ó peitos carniceiros,
Feros vos amostrais — e cavaleiros?

«Qual contra a linda moça Policena,


Consolação extrema da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
Co ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela, os olhos com que o ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha)
Na mísera mãe postos, que endoudece,
Ao duro sacrifício se oferece:

«Tais contra Inês os brutos matadores,


No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que despois a fez Rainha,
As espadas banhando, e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, férvidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.

«Bem puderas, ó Sol, da vista destes,


Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mão de Atreu comia!
Vós, ó côncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Por muito grande espaço repetistes!

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luís de camões 99

«Assi como a bonina, que cortada


Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lacivas maltratada
Da minina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co a doce vida.

«As filhas do Mondego a morte escura


Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram.
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês, que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água e o nome Amores!

«Não correu muito tempo que a vingança


Não visse Pedro das mortais feridas,
Que, em tomando do Reino a governança,
A tomou dos fugidos homicidas;
Do outro Pedro cruíssimo os alcança,
Que ambos, imigos das humanas vidas,
O concerto fizeram, duro e injusto,
Que com Lépido e António fez Augusto.

«Este, castigador foi rigoroso


De latrocínios, mortes e adultérios;
Fazer nos maus cruezas, fero e iroso,
Eram os seus mais certos refrigérios.
As cidades guardando, justiçoso,
De todos os soberbos vitupérios,
Mais ladrões, castigando, à morte deu,
Que o vagabundo Alcides ou Teseu.

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100 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

António CARDOSO. «Pela calçada da Maria da Fonte», in Poemas de


Circunstância. [1961] 2014. Lisboa: Casa dos Estudantes do Império —
Colecção de Autores Ultramarinos — reprodução integral da 1.ª edição. 21­‑22.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Pela calçada da Maria da Fonte


manhã cedo, muito cedo,
a caminho da Baixa,
desce um formigueiro negro de povo.
É um rio novo que avança;
rostos duros, olhos mortiços,
deixaram ficar no Musseque
as histórias da noite que dura.

Pela calçada da Maria da Fonte


seis e meia. Os sonhos regressam
com a noite que desce. Pelos caminhos
há olhares, promessas de beijos
e ritmos quentes a transbordar…
Rostos duros, olhos de álcool
lentamente o formigueiro negro de povo
desagua Musseque em fora.

Pela calçada da Maria da Fonte


o povo desce, caminha, rumoreja,
lembra por ora um mar tranquilo
a vencer distâncias antigas.

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paulina chiziane 101

Paulina CHIZIANE. Ventos do Apocalipse. [1993] 1999. Lisboa: Caminho.


57­‑ 67.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Tudo morre. As plantas, os rios, a vida, acuda­‑nos Deus do céu, acudam­‑nos


deuses do fundo da terra e do mar! Mandem­‑nos chuva, uma gota de chuva!
Os tempos são maus, maus mesmo. Só as figueiras e embondeiros, que
conhecem a morada dos defuntos, é que parecem alegres com folhas verdes,
altivas e arrogantes. As mandioqueiras não atingem a altura de um vitelo, e o
milho não atinge a altura de um cabrito. Os feijoeiros não dão mais do que
seis pequenas folhas, e as vagens têm o tamanho do dedo menor.
No luto dos campos, espelha­‑se a desgraça dos homens: rostos magros,
braços finos, ventres dilatados numa mistura de fome e doenças. Corpos
outrora robustos são apenas sacos de ossos, tronco curvado, braços caídos
e pés rastejantes.
Da terra molhada nasce o verde, do verde a flor, da flor o algodão e o te‑
cido. A natureza quebrou o ciclo e os corpos andam em andrajos. As rapari‑
gas só têm trapos para esconder os mamilos e as ancas. As mulheres adultas,
de tronco nu e o traseiro em farrapos, exibem no peito duas papaias caídas e
flácidas. Homens de calças rotas nos joelhos e no traseiro, deixando o rabo à
espreita, espalhando sorrisos para toda a gente. Como os meninos, oh, para
esses não há problemas. Uma tanga no rabinho ou mesmo nus ao ar quente,
não faltando amuletos no pescoço, nos punhos, na cintura, para afastar os
maus espíritos.
A desgraça penetrou em Mananga. Já se ouvem rumores da guerra em
Macuácua, mas ultimamente os roquetes de bazucas e rajadas de metralha‑
doras aproximam­‑se de Alto Changane. Já se ouvem notícias de camponeses
mortos e capturados.
O momento é de dificuldades. Quem escapa da fome não escapa da
guerra; quem escapa da guerra é ameaçado pela fome. Os jovens arrumam a
trouxa e partem. Os velhos, as mulheres e as crianças ficam.
Os deuses são os alicerces do homem. O que seria do desespero dos
seres humanos sem esses omnipotentes invisíveis? Em cada alma há lamen‑
tos mas os deuses são a esperança. Quando o Sol adormece, há cânticos em

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108 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

João DIAS. «Godido (extra)», in Godido e Outros Contos. [1952] 2014. Lisboa:
Casa dos Estudantes do Império — África Nova. Secção de Moçambique
— reprodução integral da 1.ª edição. 41­‑45.

Texto sujeito a Direitos de Autor

«Era um vêgi um dia. Barranco chigou no nosso terra. Paiota, tinha degi.
E patrão ficou falar assi»: — «Agora machamba não é de prreto».
«Brranco ficou no terra».
O senhor Manuel Costa veio à povoação e assentou seus projectos ao lado
dos negros. Trazia máquinas, autoridade, réguas. Espalhou dinheiro e panos de
fantasia pelas gentes, trazendo à sua quinta os braços do sector. Trabalhar para
o senhor Costa era mais seguro porque se abrigavam dos maus tempos que
destroem os cultivos. Os brancos até lutam vantajosamente contra a Natureza.
Os pretos dividiam­‑se em dois grupos: os das pequenas machambas in‑
dependentes e os empregados da quinta. Os primeiros, sentido o peso dos
impostos, vendiam os seus produtos ao caseiro. De modo que uns subordi‑
nados directamente e outros conscientes de uma liberdade que não tinham,
todos viviam para o grande proprietário.
Quatro meses andados, no lugar o senhor Costa se tornou um verdadei‑
ro soba. Até fazia de juiz entre os indígenas.
Grandes camiões paravam ali. Os armazéns falavam de tudo que se pro‑
duzia e os carros afastavam­‑se de pneus em baixo, pingando amendoins ou
feijões que sacos rotos não seguravam. Aquela carga descongestionava os
armazéns e ia espalhar libras no senhor Costa.
Os produtos seguiam para grandes cidades.
Na aldeia, a fome.
«Di modo qui os prreto trabaia, trabaia e, às vêzi, fica fome no barriga
dele. Não t ẽcomida para o gente.»
Um feiticeiro disse uma vez que a fome que começava nascendo era uma
praga dos antepassados. Que andava um anjo mau na povoação. «Dá mim 20
cábêça hadi matar este chatice qui t no terra». Mas os negros supersticiosos
desconfiaram do que se lhe dizia e seguraram suas cabeças de gado.
O branco raivando riso, empurrou para longe o negro ladrão.
Os indígenas viram depois uma sombra e quiseram bater no feiticeiro
que deitava pesos em seus pensamentos.

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antónio ferreira 111

António FERREIRA. «Acto IV, Cena I», in Castro, in Poemas Lusitanos.


[1587] 2000. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 435-443.

Pacheco. El­‑rei. Coro. Castro Coelho [Filhos de Castro]

Pacheco
A presteza em tal caso é bom seguro,
e piedade, senhor, será crueza.
Cerra os olhos a lágrimas, e mágoas,
que to podem mover dessa constância.

Rei
Esta é, que a mim se vem: o rosto dino
de mais ditosos fados!

Coro
Eis a morte
vem. Vai­‑te entregar a ela: vai depressa,
terás que chorar menos.

Castro
Vou, amigas.
Acompanhai­‑me vós, amigas minhas, ajudai­‑me a pedir misericórdia.
Chorai o desemparo destes filhos
tão tenros, e inocentes. Filhos tristes,
vedes aqui o pai de vosso pai.
Eis aqui vosso avô, nosso senhor:
beijai­‑lhe a mão, pedi­‑lhe piedade
de vós, desta mãe vossa, cuja vida
vos vem, filhos, roubar.

Coro
Quem pode ver­‑te
que não chore, e s’abrande?

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112 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Castro
Meu senhor,
esta é a mãe de teus netos. Estes são
filhos daquele filho que tanto amas.
Esta é aquela coitada molher fraca,
contra quem vens armado de crueza.
Aqui me tens. Bastava teu mandado
pera eu segura, e livre t’esperar,
em ti, e em minh’inocência confiada.
Escusaras, senhor, todo este estrondo
d’armas e cavaleiros: que não foge,
nem se teme a inocência da justiça.
quando meus pecados me acusaram
a ti fora buscar: a ti tomara
por vida em minha morte. Agora vejo
que tu me vens buscar. Beijo estas mãos
reais tão piadosas, pois quiseste
por ti vir­‑te informar de minhas culpas.
Conhece­‑mas, senhor, como bom rei,
como clemente, e justo, e como pai
de teus vassalos todos, a quem nunca
negaste piedade com justiça.
Que vês em mim, senhor? Que vês em quem
em tuas mãos se mete tão segura?
Que fúria, que ira esta e, com que me buscas?
Mais contra imigos vens, que cruelmente
t’andassem tuas terras destruindo
a ferro, e fogo. Eu tremo, senhor, tremo
de me ver ante ti como me vejo,
molher, moça, inocente, serva tua,
tão só, sem por mim ter quem me defenda,
que a língua não s’atreve, o esprito treme
ante tua presença; porém, possam
estes moços, teus netos defender­‑me.
Eles falem por mim, eles sós ouve.
Mas não te falarão, senhor, com língua,
que inda não podem. Falam­‑te co’ as almas,
com suas idades tenras; com seu sangue,
que é teu, te falarão. Seu desemparo

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antónio ferreira 113

t’está pedindo vida: não lha negues.


Teus netos são, que nunca téqui viste:
e vê­‑los em tal tempo, que lhes tolhes
a glória, e o prazer, qu’em seus espritos
lhe está Deus revelando de te verem.

Rei
Tristes foram teus fados, Dona Inês,
triste ventura a tua.

Castro
Antes ditosa,
senhor, pois que me vejo ante teus olhos
em tempo tão estreito: põe­‑nos ora,
como nos outros sois, nesta coitada,
enche­‑os de piedade com justiça.
Vens­‑me, senhor, matar? Porque me matas?

Rei
Teus pecados te matam: cuida neles.

Castro
Pecados meus! Ao menos contra ti
nenhum, meu rei, me acusa. Contra Deus
me podem acusar muitos: mas ele ouve
as vozes d’alma triste, em que lhe pede
piedade, o Deus justo, Deus benino,
Que não mata, podendo­‑o com justiça,
mas dá tempo de vida, e espera tempo
só pera perdoar. Assi o fazes,
assi o fizeste sempre: pois não mudes
agora contra mim teu bom costume.

Rei
Tua morte m’estão outras muitas vidas
pedindo com clamores.

Pacheco
Foge o tempo.

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114 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Castro
Ó triste, triste! Meu senhor, não me ouves?
Sossega tua fúria, não a sigas.
Nunca conselhou bem: nunca deu tempo
de remédio a algum mal a ira. Sempre
traz arrependimento sem remédio.
Ouve minha razão, minh’inocência.
Culpa é, senhor, guardar amor constante
a quem mo tem? Se por amor me matas,
que farás ao imigo? Amei teu filho,
não o matei. Amor amor merece.
Estas são minhas culpas: estas queres
com morte castigar? Em que a mereço?

Pacheco
Dona Inês, contra ti é a sentença dada.
Despide essa tu’alma desse corpo
em bom estado, e seja prestesmente.
Não tenhas que chorar mais, que só a morte.

Castro
Ó meus amigos, porque não tirais
el­‑Rei de ira tamanha? A vós me vou,
em vós busco socorro: ajudai­‑me ora
pedir­‑lhe piedade. Ó cavaleiros,
que as tristes prometestes defender,
defendei­‑me, que mouro injustamente.
Se me vós não defendeis, vós me matais.

Coelho
Por mágoa dessas lágrimas te rogo
que este tempo, que tens, inda que estreito,
tomes pera remédio da tu’alma.
O que el­‑rei em ti faz, faz com justiça.
Nós o trazemos cá, não com tenção
de sermos em ti crus, mas de salvarmos
este reino, que pede esta tua morte.
(Que nunca, ó Deus, quisera que tal meio
nos fora necessário!) A el­‑rei perdoa,

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antónio ferreira 115

que crueza não faz. Se a nós fazemos,


por ti ante o grã Deus será pedida
vingança justa, se te não parece
que perdão merecemos nas tenções,
com que el­‑rei conselhamos. Ó ditosa,
Dona Inês, tua morte: pois só nela
se ganha a geral vida a todo o reino.
Bem vês por tua causa como estava,
além desse pecado, em que te tinha
o ifante forçada (que assi o cremos).
Mas pois para remédio é necessária
a morte sua, ou tua, é necessário
que tu sofras a tua com paciência,
que isso te ficará por maior glória
que aquela que esperavas cá do mundo.
E quanto mais injusta te parece,
tanto mais justa glória lá terás,
onde tudo se paga por medida.
Nós, que a teu parecer mal te matamos,
não viviremos muito: lá nos tens,
antes de muito tempo, ant’esse trono
do grã juiz, onde daremos conta
do mal que te fazemos. Não ouviste
já das romãs e gregas com que esforço
morreram muitas, só por glória sua?
Morre pois, Castro, morre de vontade,
pois não pode deixar de ser tua morte.

Castro
Triste prática, triste! Cru conselho
me dás. Quem o ouvira? Mas pois já mouro,
ouve­‑me, Rei senhor: ouve primeiro
a derradeira voz dest’alma triste.
Co estes teus pés me abraço, que não fujo.
Aqui me tens segura.

Rei
Que me queres?

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116 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Castro
Que te posso querer que tu não vejas?
Pergunta­‑te a ti mesmo o que me fazes,
a causa que te move a tal rigor.
Dou tua consciência em minha prova.
S’os olhos de teu filho s’enganaram
com o que viram em mim, que culpa tenho?
Paguei­‑lhe aquele amor com outro amor,
fraqueza costumada em todo estado.
Se contra Deus pequei, contra ti não.
Não soube defender­‑me, dei­‑me toda,
não a imigos teus, não a traidores,
a que alguns teus segredos descobrisse
confiados a mim, mas a teu filho,
príncipe deste reino. Vê que forças
podia eu ter contra tamanhas forças.
Não cuidava, senhor, que t’ofendia:
defenderas­‑mo tu, e obedecera,
inda que o grand’amor nunca se força.
Igualmente foi sempre entre nós ambos:
igualmente trocámos nossas almas.
Esta que te ora fala, é de teu filho,
em mim matas a ele: ele pede
vida par’estes filhos concebidos
em tanto amor. Não vês como parecem
aquele filho teu? Senhor meu, matas
todos, a mim matando: todos morrem.
Não sinto já, nem choro minha morte,
inda que injustamente assi me busca,
inda que estes meus dias assi corta,
na sua flor indina de tal golpe:
mas sinto aquela morte triste e dura
pera ti, e pera o reino, que tão certa
vejo naquele amor que esta me causa.
Não vivirá teu filho, dá­‑lhe vida,
senhor, dando­‑ma a mim: que eu me irei logo
onde nunca apareça, mas levando
estes penhores seus, que não conhecem
outros mimos, e tetas senão estas,

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antónio ferreira 117

que cortar­‑lh’ora queres. Ai, meus filhos,


chorai, pedi justiça aos altos céus.
Pedi misericórdia a vosso avô
contra vós tão cruel, meus inocentes.
Ficareis cá sem mim, sem vosso pai,
que não poderá ver­‑vos, sem me ver.
Abraçai­‑me, meus filhos, abraçai­‑me.
Despedi­‑vos dos peitos que mamastes.
Estes sós foram sempre, já vos deixam.
Ah, já vos desempara esta mãe vossa.
Que achará vosso pai, quando vier?
Achar­‑vos­‑á tão sós, sem vossa mãe;
não verá quem buscava; verá cheias
as casas, e paredes de meu sangue.
Ah, vejo­‑te morrer, senhor, por mim.
Meu senhor, já que eu mouro, vive tu.
Isto te peço, e rogo: vive, vive,
empara estes teus filhos que tant’amas,
e pague minha morte seus desastres,
se alguns os esperavam. Rei senhor,
pois podes socorrer a tantos males,
socorre­‑me, perdoa­‑me. Não posso
falar mais. Não me mates, não me mates.
Senhor, não to mereço.

Rei
Ó molher forte!
Venceste­‑me, abrandaste­‑me. Eu te deixo.
Vive, enquanto Deus quer.

Coro
Rei piadoso,
vive tu, pois perdoas: moura aquele
que sua dura tenção leva adiante.

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118 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Vergílio FERREIRA. «A galinha», in Contos. 1982. Amadora: Livraria


Bertrand. 175­‑183.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Minha mãe e minha tia foram à feira. Minha mãe com o meu pai e a minha
tia com o meu tio. Mas todos juntos. Na camioneta da carreira. Na feira
compraram muitas coisas e a certa altura minha mãe viu uma galinha e
disse:
— Olha que galinha engraçada.
E comprou­‑a também. Estava agachada como se a pôr ovos ou a chocá­
‑los. Era castanha nas asas, menos castanha para o pescoço, e a crista e o bico
tinham a cor de um bico e de uma crista. Nas costas levara um corte a toda
a volta para se formar uma tampa e meterem coisas dentro, porque era uma
galinha de barro. Minha tia, que se tinha afastado, veio ver, estava a minha
mãe a pagar depois de discutir. E perguntou quanto custava. A mulher disse
que vinte mil réis, minha tia começou aos berros, que aquilo só se o fosse
roubar, e a mulher vendeu­‑lhe uma outra igual por sete mil e quinhentos.
Minha mãe aí não se conformou, porque tinha regateado mas só conseguiria
baixar para doze e duzentos. A mulher disse:
— Foi por ser a última, minha senhora.
Minha tia confrontou as duas galinhas, que eram iguais, achando que a
de minha mãe era diferente.
— Só se foi por ser mais cara — disse minha mãe com a ironia que pôde.
Minha tia aqui voltou a erguer a voz. Não se via que era diferente? Não
se via que tinha o bico mais perfeito? E o rabo?
— Isto é lá rabo que se compare?
E tais coisas disse e tantas, com gente já a chegar­‑se, que minha mãe pôs
fim ao sermão, por não gostar de trovoadas:
— Mas se gostas mais desta, leva­‑a, mulher.
Foi o que ela quis ouvir. Trocou logo as galinhas, mas ainda disse:
— Mas sempre te digo que a minha é mais dura, basta bater­‑lhe assim
(bateu) para se ver que é mais forte.
— Então fica com ela outra vez — disse minha mãe.
— Não, não. Trafulhices, não. Está trocada, está trocada.

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124 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Rubem FONSECA. «Passeio noturno I» e «Passeio noturno II», in Feliz


Ano Novo. [1975] 1990. São Paulo: Companhia das Letras. 61­‑ 71.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis, relatórios, estudos,


pesquisas, propostas, contratos. Minha mulher, jogando paciência na cama,
um copo de uísque na mesa de cabeceira, disse, sem tirar os olhos das cartas,
você está com um ar cansado. Os sons da casa: minha filha no quarto dela
treinando empostação de voz, a música quadrifonia do quarto do meu filho.
Você não vai largar essa mala?, perguntou minha mulher, tira essa roupa,
bebe um uisquinho, você precisa aprender a relaxar.
Fui para a biblioteca, o lugar da casa onde gostava de ficar isolado e
como sempre não fiz nada. Abri o volume de pesquisas sobre a mesa, não via
as letras e números, eu esperava apenas. Você não pára de trabalhar, aposto
que os teus sócios não trabalham nem a metade e ganham a mesma coisa,
entrou a minha mulher na sala com o copo na mão, já posso mandar servir
o jantar?
A copeira servia à francesa, meus filhos tinham crescido, eu e a minha
mulher estávamos gordos. E aquele vinho que você gosta, ela estalou a lín‑
gua com prazer. Meu filho me pediu dinheiro quando estávamos no cafezi‑
nho, minha filha me pediu dinheiro na hora do licor. Minha mulher nada
pediu, nós tínhamos conta bancária conjunta.
Vamos dar uma volta de carro?, convidei. Eu sabia que ela não ia, era
hora da novela. Não sei que graça você acha em passear de carro todas as
noites, também aquele carro custou uma fortuna, tem que ser usado, eu é
que cada vez me apego menos aos bens materiais, minha mulher respondeu.
Os carros dos meninos bloqueavam a porta da garagem, impedindo que
eu tirasse o meu. Tirei os carros dos dois, botei na rua, tirei o meu, botei na
rua, coloquei os dois carros novamente na garagem, fechei a porta, essas ma‑
nobras todas me deixaram levemente irritado, mas ao ver os pára­‑choques
salientes do meu carro, o reforço especial duplo de aço cromado, senti o co‑
ração bater apressado de euforia. Enfiei a chave na ignição, era um motor po‑
deroso que gerava a sua força em silêncio, escondido no capô aerodinâmico.
Saí, como sempre sem saber para onde ir, tinha que ser uma rua deserta,

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130 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Herberto HELDER. «Teorema», in Os Passos em Volta. [1963] 2015. Porto:


Porto Editora. 114­‑119.

Texto sujeito a Direitos de Autor

El­‑rei D. Pedro, o Cruel, está à janela, sobre a praça onde sobressai a estátua
municipal do marquês de Sá da Bandeira. Gosto deste rei louco, inocente
e brutal. Puseram­‑me de joelhos, com as mãos amarradas atrás das costas,
mas endireito a cabeça, viro o pescoço para o lado esquerdo, e vejo o rosto
violento e melancólico do meu pobre Senhor. Por baixo da janela aonde as‑
somou há uma outra, em estilo manuelino, uma relíquia, delicada obra de
pedra que resiste ao tempo. D. Pedro deita a vista distraída à praça fechada
pelos soldados. Contempla um momento a monstruosa igreja do Seminário,
retórica de vidraças e nichos, as pombas pousadas na cabeça e nos braços
do marquês, e detém­‑se em mim, em baixo, em mim que me ajoelhei no
meio de um grupo de soldados. O rei olha­‑me com simpatia. Fui condenado
por assassínio da sua amante favorita, D. Inês. Alguém quis defender­‑me,
alegando que eu era um patriota. Que desejava salvar o Reino da influência
castelhana. Tolice. Não me interessa o Reino. Matei­‑a para salvar o amor do
rei. D. Pedro sabe­‑o. Ele diz um gracejo. Toda a gente ri.
— Preparem­‑me esse coelho, que tenho fome.
O rei brinca com o meu nome. O meu apelido é Coelho.
O que este homem trabalhou pela nossa obra! Fez transportar o cadáver
da amante de uma ponta à outra do país, às costas do povo, entre tochas e
cânticos. Foi um espectáculo sinistro e exaltante através de cidades, vilas e
lugarejos.
Alguém ordena que me levante e agradeça ao meu Senhor. Fico em pé,
defronte do edifício. Distingo no rés­‑do­‑chão o letreiro da Barbearia Vidi‑
gal e o barbeiro de bigode louro que veio à porta assistir ao meu suplício.
Distingo também a janela manuelina e o rei esmagado entre os blocos dos
dois prédios ao lado.
— Senhor — digo eu — ­ , agradeço­‑te a minha morte. E ofereço­‑te a
morte de D. Inês. Isto era preciso para que o teu amor se salvasse.
— Muito bem — responde o rei. — Arranquem­‑lhe o coração pelas cos‑
tas, e tragam­‑mo.

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alexandre herculano 133

Alexandre HERCULANO. «Conclusão», in Eurico, o Presbítero. [1844] 1979.


Amadora: Bertrand. 269­‑275.

Da morte às trevas,
Imortal, te diriges!
Merobaude: Poema de Cristo

A ventura das armas muçulmanas tinha chegado ao apogeu, e a sua decli‑
nação começava, finalmente. E na verdade, a ira celeste contra os Godos
parecia dever estar satisfeita. O solo da Espanha era como uma ara imensa,
onde as chamas das cidades incendiadas serviam de fogo sagrado para con‑
sumir aos milhares as vítimas humanas. O silêncio do desalento reinava por
toda a parte, e os cristãos viam com aparente indiferença os seus vencedores
poluírem as últimas cousas que, até sem esperança, ainda defende uma na‑
ção conquistada — as mulheres e os templos. Teodemiro pagava bem caro
o procedimento que o desejo de salvar os seus súbditos o movera a seguir.
O pacto feito por ele com os árabes não tardou a ser por mil modos violado,
e o ilustre guerreiro teve de se arrepender, mas já debalde, por haver deposto
a espada aos pés dos infiéis, em vez de pelejar até a morte pela liberdade.
Fora isto o que Pelágio preferira, e a vitória coroou o seu confiar no esforço
dos verdadeiros godos e na piedade de Deus.
Os que têm lido a história daquela época sabem que a batalha de Cangas
de Onis foi o primeiro elo dessa cadeia de combates que, prolongando­‑se
através de quase oito séculos, fez recuar o Corão para as praias de África e
restituiu ao Evangelho esta boa terra de Espanha, terra, mais que nenhuma,
de mártires. Na batalha de junto de Auseba foram vingados os valentes que
pereceram nas margens do Chrysus; porque mais de vinte mil sarracenos
viram pela última vez a luz do Sol naquelas tristes solidões. Mas, nesse dia
de punição, esta devia abranger assim os infiéis, como os que lhes haviam
vendido a pátria e que ainda vinham disputar a seus irmãos a dura liberdade
de que gozavam nas brenhas intratáveis das Astúrias.
O ardil de Pelágio para resistir com vantagem aos muçulmanos, cem
vezes mais numerosos que os cristãos, surtira o desejado efeito. Ainda que

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134 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

muito a custo, os cavaleiros enviados em cilada para a floresta à esquerda das


gargantas de Covadonga puderam chegar aí sem serem sentidos dos árabes,
que se haviam aproximado mais cedo do que o fizera crer a narração do ve‑
lho Velido. Os infiéis pararam nas bordas do Deva, no sítio em que rompia
do vale, os seus almogaures tinham ousado penetrar avante. Os cavaleiros
da cilada, que a pouca distância passavam manso e manso, ouviram distinta‑
mente o tropear dos ginetes inimigos.
Mas, quando, ao primeiro alvor da manhã, Pelágio se encaminhava com
o seu pequeno esquadrão para a garganta das serras, já os árabes rompiam
por ela e começavam a espraiar­‑se, como ribeira que, saindo de leito aperta‑
do, se dilata pela campina. Os cristãos recuaram, e os infiéis, atribuindo ao
temor esta fuga simulada, precipitaram­‑se após eles. Pouco a pouco, o du‑
que de Cantábria atraiu­‑os para a entrada da gruta de Covadonga. Chegado
ali, pondo à boca a sua buzina, tirou um som prolongado. Imediatamente
os cimos dos rochedos, que pareciam inacessíveis, cobriram­‑se de fundi‑
bulários frecheiros, e uma nuvem de tiros choveu de toda a parte sobre os
africanos e sobre os renegados godos. Vacilaram, mas o desejo da vingança
levou­‑os a apinharem­‑se, esquadrões após esquadrões, à entrada da caver‑
na, onde, finalmente, encontravam desesperada resistência. Então, como se
despegassem do céu, grandes rochedos começaram a rolar sobre eles dos ci‑
mos do precipício que lhes ficava sobranceiro. Mãos invisíveis os impeliam.
Cada rocha traçava no meio daquele vulto informe que oscilava, naquela
vasta planície de alvos turbantes e de capacetes reluzentes, uma escura man‑
cha, semelhante a chaga horrível. Eram dez ou vinte guerreiros, cujos mem‑
bros esmagados, cujos ossos triturados, cujo sangue confundido espirravam
por cima das frontes dos seus companheiros. Era medonho!, porque a esse
espectáculo se ajuntava o grito de raiva e desesperação dos pelejadores, grito
feroz e agudo, só comparável ao bramido de cem leoas a quem os caçadores
do Atlas houvessem, na ausência delas, roubado os seus cachorrinhos.
Pela volta da tarde, apenas do numeroso e brilhante exército dos árabes
alguns milhares de cavaleiros fugiam desalentados diante dos foragidos das
Astúrias, que os perseguiam incansáveis além de Cangas de Onis.
Fora no momento em que Pelágio penetrava, na sua fingida fuga, sob o
vasto portal da gruta que o cavaleiro negro saía. O jovem guerreiro viu­‑o e
estremeceu. Eurico tinha as faces encovadas, o rosto pálido e transtornado,
e havia em todo o seu gesto uma tão singular expressão de tranquilidade
que fazia terror. Enquanto os cristãos defendiam a entrada ele esteve que‑
do, como indiferente ao combate; mas, logo que os árabes, acometidos já
pelas costas, principiaram a recuar, e que Pelágio pôde combater na planície,

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alexandre herculano 135

o cavaleiro, abrindo caminho com o franquisque, desapareceu no meio dos


inimigos. Desde esse momento, debalde o duque de Cantábria o buscou:
nem ele, nem ninguém mais o viu.
Era quase ao pôr do Sol. Seguindo a corrente do Deva, a pouco mais de
duas milhas das encostas do Auseba, dilatava­‑se nessa época denso bosque
de carvalhos, no meio do qual se abria vasta clareira, onde sobre dois roche‑
dos aprumados assentava um terceiro. Era, provavelmente, uma ara céltica.
Em frente de tosca ponte de pedras brutas lançada sobre o rio, uma senda
estreita e tortuosa atravessava a selva e, passando pela clareira, continua‑
va por meio dos outeiros vizinhos, dirigindo­‑se, nas suas mil voltas, para as
bandas da Galécia. Quatro cavaleiros, a pé e em fio, caminhavam por aquele
apertado carreiro. Pelos trajos e armas, conhecia­‑se que eram três cristãos
e um sarraceno. Chegados à clareira, este parou de repente e, voltando­‑se
com aspecto carregado para um dos três, disse­‑lhe:
— Nazareno, ofereceste­‑nos a salvação, se te seguíssemos: fiámo­‑nos
em ti, porque não precisavas de trair­‑nos. Estávamos nas mãos dos soldados
de Pelágio, e foi a um aceno teu que eles cessaram de perseguir­‑nos. Porém o
silêncio tenaz que tens guardado gera em mim graves suspeitas. Quem és tu?
Cumpre que sejas sincero, como nós. Sabe que tens diante de ti Mugueiz,
o amir da cavalaria árabe, Juliano, o conde de Septum, e Opas, o bispo de
Híspalis.
— Sabia­‑o — respondeu o cavaleiro —, por isso vos trouxe aqui. Queres
saber quem sou? Um soldado e um sacerdote de Cristo!
— Aqui!?...— atalhou o amir, levando a mão ao punho da espada e lan‑
çando os olhos em roda. — Para que fim?
— A ti, que não eras nosso irmão pelo berço; que tens combatido leal‑
mente connosco, inimigos da tua fé; a ti, que nos oprimes, porque nos ven‑
ceste com esforço e à luz do dia, foi para te ensinar um caminho que te con‑
duza em salvo às tendas dos teus soldados. É por ali!... A estes, que venderam
a terra da pátria, que cuspiram no altar do seu Deus, sem ousarem franca‑
mente renegá­‑lo, que ganharam nas trevas a vitória maldita da sua perfídia,
é para lhes ensinar o caminho do inferno... Ide, miseráveis, segui­‑o!
E quase a um tempo dois pesados golpes de franquisque assinalaram
profundamente os elmos de Opas e Juliano. No mesmo momento mais três
ferros reluziam.
Um contra três! Era um combate calado e temeroso. O cavaleiro da
Cruz parecia desprezar Mugueiz: os seus golpes retiniam só nas armaduras
dos dois godos. Primeiro o velho Opas, depois Juliano caíram.
Então, recuando, o guerreiro cristão exclamou:

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136 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

— Meu Deus! Meu Deus! Possa o sangue do mártir remir o crime do


presbítero!
E, largando o franquisque, levou as mãos ao capacete de bronze e
arrojou­‑o para longe de si.
Mugueiz, cego de cólera, vibrara a espada: o crânio do seu adversário
rangeu, e um jorro de sangue salpicou as faces do sarraceno.
Como tomba o abeto solitário da encosta ao passar do furacão, assim o
guerreiro misterioso do Chrysus caía para não mais se erguer!...
Nessa noite, quando Pelágio voltou à caverna, Hermengarda, deitada
sobre o seu leito, parecia dormir. Cansado do combate e vendo­‑a tranqui‑
la, o mancebo adormeceu, também, perto dela, sobre o duro pavimento da
gruta. Ao romper da manhã, acordou ao som de cântico suavíssimo. Era sua
irmã que cantava um dos hinos sagrados que muitas vezes ele ouvira entoar
na Catedral de Tárraco. Dizia­‑se que o seu autor fora um presbítero da dio‑
cese de Híspalis, chamado Eurico.
Quando Hermengarda acabou de cantar ficou um momento pensan‑
do. Depois, repentinamente, soltou uma destas risadas que fazem erriçar os
cabelos, tão tristes, soturnas e dolorosas são elas: tão completamente expri‑
mem irremediável alienação de espírito.
A desgraçada tinha, de feito, enlouquecido.

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antónio jacinto 137

António JACINTO. «Monangamba», in Poemas. [1950] 1985. Luanda:


Instituto Nacional do Livro e do Disco. 32­‑33.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Naquela roça grande não tem chuva


é o suor do meu rosto que rega as plantações;

Naquela roça grande tem café maduro


e aquele vermelho­‑cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.

O café vai ser torrado,


pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado

Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,


aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo? quem vai à tonga


Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém

fuba podre, peixe podre,


panos ruins, cinquenta angolares
«porrada se refilares»?

Quem?

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lídia jorge 139

Lídia JORGE. A Costa dos Murmúrios. [1988] 2008. Lisboa: Dom Quixote.
249­‑258.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Sim, falemos de Álvaro Sabino. Porque não?

Não, não utilize a visão do jornalista para pôr fim à sua narrativa verdadei‑
ra. Fez bem não utilizar. Eu compreendo que vinte anos depois ele tenha
guardado essa visão na memória. Compreendo que ele desejasse que assim
tivesse sido. Cumprindo os passos que eu lhe havia contado sobre o fim do
despachante, ele imaginou que dois capangas o iriam buscar a casa pelos
ombros, o enfiavam num carro, o levavam algemado para uma sala cujas ja‑
nelas dessem para o assoreado braço de mar. Muito bem — a sala para onde
foi levado teria só uma mesa rodeada por seis cadeiras. Foi isso que ele lhe
contou? Encontrou­‑me a mim, já sentada, branca, com os olhos amarelos,
no meio da cena vermelha. Sim, era vermelha porque as cadeiras de espal‑
dar eram estofadas de veludo dessa cor — disse Eva Lopo. A uma ponta da
mesa estava o capitão Jaime Forza Leal, a outra a sua linda mulher, também
pálida, ainda que nela ficasse bem, porque tinha os olhos verdes, o cabelo
quase rubro. O noivo estava no meio, em frente da cadeira vazia onde o jor‑
nalista deveria sentar­‑se. A restante cadeira destinava­‑se a um dos capangas,
o que fazia a sorte, os outros ficavam de pé. O noivo olhou para a Smith &
Wesson carregada, no meio da mesa com duas balas. O jornalista disse que
sim, que ele foi o primeiro a usar a arma. Pegou nela depois de movido o
tambor, aproximou­‑a do parietal. Clique! Nada. O jornalista lembrava­‑se
da cena que eu lhe havia contado em que tinha intervindo o despachante.
O jornalista estava cheio de coragem. O noivo levou a arma à cabeça. Cli‑
que! Nada. Então o jornalista contou­‑lhe ter sentido os esfíncteres do ânus
amolecerem, e ter percebido que à sua volta um cheiro a fezes se evolava a
partir do tampo da sua própria cadeira, ter sentido o cheiro alargar­‑se e en‑
cher o compartimento alugado para aquele fim. Em frente, no braço de mar,
estava uma barca com um rapaz negro, sentado, esperando. Fazia lua, via­‑se
o contorno do negro, esperando na água.
«Cheira aqui a merda» — disse o capitão.

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fernão lopes 147

Fernão LOPES. «Prólogo», in Crónica de D. João I — Primeira parte. (Edição


de Teresa Amado). [1443] 2017. Lisboa: Imprensa Nacional — Casa da
Moeda. 1­‑3.

Grande licença deu a afeiçom a muitos que teverom carrego de ordenar es‑
torias, mormente dos senhores em cuja mercê e terra viviam e hu forom
nados seus antigos avós, sendo­‑lhe muito favoravees no recontamento de
seus feitos. E tal favoreza como esta nace de mundanal afeiçom, a qual nom
é salvo conformidade dalg a cousa ao entendimento do homem. Assi que
a terra em que os homens per longo costume e tempo forom criados, gera
h a tal conformidade antre o seu entendimento e ela, que havendo de julgar
alg a sua cousa, assi em louvor como per contrairo, nunca per eles é derei‑
tamente recontada. Porque louvando­‑a dizem sempre mais daquelo que é,
e se doutro modo, nom escrevem suas perdas tam minguadamente como
acontecerom.
Outra cousa gera ainda esta conformidade e natural inclinaçom segun‑
do sentença dalg s, dizendo que o pregoeiro da vida, que é a fame, rece‑
bendo refeiçom pera o corpo, o sangue e espritus gerados de taes viandas
tem h a tal semelhança antre si que causa esta conformidade. Alg s outros
teverom que esto decia na semente, no tempo da geraçom. A qual despõe
per tal guisa aquelo que dela é gerado, que lhe fica esta conformidade tam‑
bém acerca da terra, como de seus dívidos. E assi parece que o sentio Tulio
quando veo a dizer: «Nós nom somos nados a nós mesmos, porque h a parte
de nós tem a terra e outra os parentes.» E porém o joizo do homem acerca de
tal terra ou pessoas, recontando seus feitos, sempre sopega.
Esta mundanal afeiçom fez a alg s estoriadores que os feitos de Castela
com os de Portugal escreverom, posto que homens de boa autoridade fos‑
sem, desviar da dereita estrada e correr per semideiros escusos por as min‑
guas das terras de que eram, em certos passos claramente nom serem vistas.
E espicialmente no grande desvairo que o mui virtuoso Rei da boa memoria
dom Joam, cujo regimento e reinado se segue, houve com o nobre e podero‑
so Rei dom Joam de Castela, poendo parte de seus bons feitos fora do louvor
que mereciam, e  adendo em alg s outros da guisa que nom acontecerom,
atrevendo­‑se a pubricar esto, em vida de taes que lhe forom companheiros,

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148 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

bem sabedores de todo o contrairo. Nós certamente levando outro modo,


posta adeparte toda afeiçom que por azo das ditas razões haver podiamos,
nosso desejo foi em esta obra escrever verdade sem outra mestura leixando
nos bons aquecimentos todo fingido louvor e nuamente mostrar ao pobo
quaesquer contrairas cousas da guisa que aveerom.
E se o senhor Deus a nós outorgasse o que a alg s escrevendo nom
negou, scilicet em suas obras clara certidom da verdade, sem dúvida nom
somente mentir do que sabemos mas ainda errando, falso nom quiriamos
dizer. Como assi seja que outra cousa nom é errar, salvo cuidar que é verdade
aquelo que é falso, e nós engando per ignorancia de velhas escripturas e des‑
vairados autores, bem podiamos ditando errar. Porque escrevendo homem
do que nom é certo, ou contará mais curto do que foi, ou falará mais largo
do que deve. Mas mentira em este volume, é muito afastada da nossa vonta‑
de. Ó com quanto cuidado e diligência vimos grandes volumes de livros de
desvairadas linguagens e terras! E isso mesmo púbricas escrituras de mui‑
tos cartários e outros logares, nas quaes depois de longas vegilias e grandes
trabalhos mais certidom haver nom podemos, da conteúda em esta obra.
E sendo achado em alg s livros o contrairo do que ela fala, cuidae que nom
sabedormente mas errando muito, disserom taes cousas.
Se outros per ventuira em esta cronica buscam fremosura e novidade
de palavras e nom a certidom das estorias, desprazer­‑lhe­‑á de nosso razoado,
muito ligeiro a eles de ouvir, e nom sem gram trabalho a nós de ordenar. Mas
nós nom curando de seu juizo, leixados os compostos e afeitados razoamen‑
tos que muito deleitom aqueles que ouvem, ante poemos a simprez verdade
que a afremosentada falsidade. Nem entendaes que certeficamos cousa sal‑
vo de muitos aprovada e per escrituras vestidas de fé. Doutra guisa ante nos
calariamos que escrever cousas falsas.
Que logar nos ficaria pera a fremosura e afeitamento das palavras, pois
todo nosso cuidado em isto despeso nom abasta pera ordenar a nua ver‑
dade? Porém apegando­‑nos a ela firme, os claros feitos dignos de grande
renembrança do mui famoso Rei dom Joam sendo Mestre, de que guisa ma‑
tou o conde Joam Fernandez, e como o pobo de Lixboa o tomou primeiro
por seu regedor e defensor e depois outros alg s do regno e de hi em deante
como regnou e em que tempo, breve e sãmente contados, poemos em praça
na seguinte ordem.

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fernão lopes 149

Fernão LOPES. «Capítulo XII», in Crónica de D. João I — Primeira parte.


(Edição de Teresa Amado). [1443] 2017. Lisboa: Imprensa Nacional — Casa
da Moeda. 23­‑26.

Como o bispo de Lixboa e outros forom mortos


e lançados da torre da Sé afundo

Sendo toda a cidade ocupada em este alvoroço, e vindo com o Mestre per
junto com a Sé, forom alg s nembrados que indo per ali com Alvoro Paez,
que bradarom aos de cima que repicassem; e que repicando em Sam Marti‑
nho e nas outras egrejas, que na Sé nom quiserom repicar. E souberom que
o bispo era em cima, e que mandara sarrar as portas sobre si. E porque era
castelão, disserom logo que era da parte da Rainha e do conde, e que el fora
sabedor da treiçom e morte que quiserom dar ao Mestre e que por aquelo
nom repicarom, assacando contra ele estas e outras muitas sospeitas, que
nom minguava quem as afirmar. E ficou logo ali gram parte do pobo, aceso
com brava sanha, por haver à pressa entrada a Sé, e filharem logo do bispo
vingança.
O bispo era natural de Samora e havia nome dom Martinho. E sendo
bispo do Algarve, houvera o bispado de Lixboa per Gonçalo Vasquez, lecen‑
ceado em Degredos, que lho ganhou do papa Clemente por haver o priorado
de Guimarães. Este bispo era grande leterado e bom eclesiastico, e regia mui
bem sua egreja, morando em cima da claustra dela por continuadamente vir
às horas e devinaes oficios. E ali tinha em vontade de mandar fazer casas
pera morarem todolos cónigos por haverem azo de melhor servir.
E sendo el comendo aquel dia, e o priol de Guimarães com ele, que ha‑
via h ano e mais que o nom vira senom entom, ouvirom gram volta no paço
da Rainha que era hi acerca, e carpinhas de molheres com grandes vozes de
gentes pelas ruas darredor, bradando todos que matavom o Mestre.
O bispo ouvindo tamanha volta e que cada vez era maior, bem cuidou
que nom era feito leve. E por segurança de qualquer cousa que avir podesse,
leixou a mesa a que estava e deceu­‑se per h a escada afundo à claustra, el e o
priol de Guimarães e h tabaliam de Silves que esse dia chegara por recadar
com ele. Com estes dous convidados e alg s seus se foi o bispo à mais alta
torre da Sé onde estam os sinos, mandando primeiro fechar à de dentro to‑
dalas portas da egreja. E quando Alvoro Paez per ali passou à ida, bradarom
aos de cima como dissemos que repicassem.

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150 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

O homem bom nom sabia que volta era aquela, desi porque o dar da campam
em tal egreja era azo de grande alvoroço da cidade, dovidou muito de o fazer. Eles
quando virom que nom repicarom na Sé e que o bispo daquela guisa estava na
torre, as portas da egreja fortemente fechadas e as nom podiam tam asinha que‑
brar, houverom escadas e entrarom per h a fresta e forom mui à pressa abertas.
Entrarom estonce quantos quiserom, porém muito poucos, em respei‑
to dos que estavom fora. E a comum voz de todos era que fossem acima ver
quem estava na torre e porque nom repicara como nas outras egrejas, e se
fosse o bispo que o deitassem afundo. Silvestre Estevez, homem honrado,
procurador da cidade, e o alcaide pequeno dela, e outros sobirom per h
a estreita escada que anda arredor, per que nom ia mais que h ante outro
nem podia nenguém entrar à torre em quanto a de cima defender quises‑
sem. O bispo vendo como era castelão, e de naçom a eles contraira, receava
muito em tal uniom, o que todo sesudo deve de recear, e nom lhe dava lo‑
gar que entrassem. Porém vendo­‑se sem culpa, desi tal pessoa e eclesiastica,
segurando­‑o eles porém primeiro e os que com el estavom, houveram en‑
trada acima. E preguntando­‑lhe por que nom mandara dar à campam, pois
aquelas gentes bradavom que repicassem, el se escusou per suas mansas e
boas razões, de geito que todos forom contentos.
A cega sanha que em taes feitos neh a cousa esguarda, começou tanto
de arder nos entendimentos do pobo que à porta principal da egreja estava,
que começarom de bradar altas vozes aos de cima, que estavom fazendo,
que nom deitavom o bispo afundo, dizendo: «Guardae­‑vos, nom vamos nós
lá; ca se nós la imos, todos vós havees de vir afundo com ele.» Os de cima,
que vontade nom tinham de lhe fazer mal nem nojo, era­‑lhe muito grave de
fazer; a h a por ser bispo, de mais seu prelado, desi por a segurança que lhe
haviam feita e nom sabiam que fezessem.
A sanha trigava os corações de todos e com menencoria grande começa‑
rom de bradar, olhando todos pera cima e dizendo: «Que tardada é essa que
vós lá fazees, que nom deitaes esse tredor afundo? E como? Já vos tornastes
castelãos come ele? E demais se vos peitou que o nom deitassees e soes já to‑
dos dh acordo?» Entom começarom todos de jurar que se o nom deitavom,
e iam acima, que todos veessem afundo com ele. E porquanto todo temor é
justo per que homem pode vir a morte ou acerca dela, houveram disto tam
grande receo, que logo o bispo foi morto com feridas e lançado à pressa
afundo, onde lhe forom dadas outras muitas, como se gançassem perdoança
que sua carne já pouco sentia.
Ali o desnuarom de toda vestidura, dando­‑lhe pedradas com muitos e
feos doestos atá que se enfadarom dele os hom s e os cachopos e foi rou‑

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fernão lopes 151

bado de quanto havia. Semelhavelmente foi lançado afundo aquel priol de


Guimarães seu convidado, porque h escudeiro que lhe mal queria, sobin‑
do acima com os do concelho, vio tempo azado pera o matar, e buscando­‑o
pela torre, achou­‑o escondido e matou­‑o. E nom tendo nenguém sentido
da morte dele porque estava com o bispo, nem havendo quem o levar dali,
deitarom­‑no da torre afundo.
O coitado do tabaliam que tam pouca culpa havia come os outros, co‑
meçarom de o trager afundo e de o doestar e empuxar dizendo que ele, que
com o bispo estava, bem sabia parte daquela treiçom. E tantas lhe derom
de punhadas atá que lhe começarom de dar feridas e matarom­‑no. E assi
morrerom todos três, e outros fugirom. E jouverom ali aquel dia e a noite o
priol e o tabaliam.
E em esse dia logo alg as refeces pessoas lançarom ao bispo onde jazia
nu, h baraço nas pernas, e chamando muitos cachopos que o arrastassem,
ia h rustico bradando deante: «Justiça que manda fazer nosso senhor o
Papa Urbano Sexto, neste tredor cismatico castelão, porque nom tinha com
a santa Egreja.» E assi o arrastarom pela cidade, com as vergonhosas partes
descubertas e o levarom ao Ressio onde o começarom de comer os cães, que
o nom ousava neh soterrar. E sendo já dele muito comesto, soterrarom­‑no
em outro dia ali no Ressio. E os outros dous forom depois soterrados, por
tirarem fedor dante suas vistas. E posto que [a] alg as pessoas taes cousas
parecessem mal e desonestamente feitas, neh era ousado dizer o contrairo.

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152 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Gregório de MATOS. «Aos principais da Bahia chamados os Caramurus


— Sonêtos», in Crônica do Viver Baiano Seiscentista, in Obras Completas de
Gregório de Matos, Volume IV. [16??] 1968. Bahia: Janaína Ltda. 840.

Há cousa como ver um Paiaiá


Mui prezado de ser Caramuru,
Descendente de sangue de Tatu,
Cujo torpe idioma é cobé pá.

A linha feminina é carimá


Moqueca, pititinga caruru
Mingau de puba, e vinho de caju
Pisado num pilão de Piraguá.

A masculina é um Aricobé.
Cuja filha Cobé um branco Paí
Dormiu no promontório de Passé.

O Branco era um marau, que veio aqui,


Ela era uma Índia de Maré
Cobé pá, Aricobé, Cobé Paí.

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nito mesquinho 153

Nito MESQUINHO. «Epitáfio», in O Parnaso Timorense. 2013. Lisboa:


Imprensa Nacional — Casa da Moeda. 12.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Anoitece. A leste a lua espia.


O carro estanca. O meio é transido.
Reina o ermo. Não há alarido.
Paira a quietude. Nem ave pipia.

Carro o deixamos. A voz alguém cria:


— «Cam’rada David aqui. Perdido.
No nosso ataque duro e renhido
À vila de Ainaro. Além morria!...»

Abeiramo­‑nos da campa, entretanto.


Minutos de silêncio à sua memória.
A hora é de paroxismo e de pranto.

— Sucumbiste, David, por uma causa!


Mas ficaste eterno na História,
Que os tombados em prol da mesma causa!

Outubro de 1975

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154 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Lília MOMPLÉ. «Os mortos e os vivos», in Neighbours. 1999. Maputo:


Associação de Escritores Moçambicanos. 101­‑105.

Texto sujeito a Direitos de Autor

A casa de Narguiss já não é mais a casa de Narguiss. Narguiss morreu. O cor‑


po imenso repousa agora na morgue, morgue para onde a Polícia o levou
para ser autopsiado. Foi retirado, há cerca de meia hora, no meio de altos
gritos e lamúrias das filhas mais velhas, de Fauzia e de algumas vizinhas que,
entretanto, foram aparecendo.
Só Muntaz compreendeu a necessidade da autópsia, tratando­‑se de
um crime. E foi ainda Muntaz que, valendo­‑se do facto de ser estudante
de medicina, pediu que a autópsia se realizasse com a maior urgência para
que o corpo regresse a casa ainda esta manhã pois, só em casa, poderá ser
tratado de acordo com os rituais de morte da religião maometana. Hão­‑de
vir então as experientes mulheres que darão banho ao corpo de Narguiss,
lhe espremerão as vísceras até que a água das lavagens saía límpida, livre de
qualquer impureza e, finalmente, o envolverão no imaculado pano branco
que lhe servirá de mortalha. Tudo isto farão as experientes mulheres mas,
por enquanto, o corpo repousa ainda na morgue.
Aqui, em casa, deitadas na grande cama de Narguiss, estão as três filhas,
cobertas com capulanas até à cabeça, oscilando, sob o efeito dos calmantes,
entre a sonolência e a dor. Sentadas nas esteiras espalhadas no chão para
o efeito, estão as mulheres que vão chegando, na sua maioria vizinhas do
prédio que, despertas desde a madrugada com o tiroteio na rua ocorrem
pressurosas, um pouco por compaixão e um pouco por curiosidade, ávidas
por saber pormenores de um crime tão estranho. Todas deixam os sapatos à
entrada do quarto e irrompem, chorando, até à cama onde repousam as três
raparigas, a quem beijam e abraçam, no meio de grandes lamentações. De‑
pois, sem mais uma lágrima, acomodam­‑se nas esteiras, mantendo­‑se num
silêncio lúgubre ou trocando comentários em voz baixa e lamurienta.
Os homens estão na sala e, enquanto não chega o cheé para rezar as
orações, comentam o crime. Consideram muito intrigante o facto de os
assassinos terem vindo com holofotes, num claro desprezo pela Seguran‑
ça deste País. Muito intrigante lhes parece também a rápida intervenção

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agostinho neto 159

Agostinho NETO. «Adeus à hora da largada», in A Sagrada Esperança. [1963]


1974. Lisboa: Edições 70. 47-48.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Minha Mãe
(todas as mães negras)
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

Mas a vida
matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
sou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe


a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz eléctrica
os homens bêbedos a cair

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carlos oliveira 161

Carlos OLIVEIRA. «Descrição da guerra em Guernica», in Trabalho


Poético. [1971] 2003. Lisboa: Assírio & Alvim. 300­‑309.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Entra pela janela


o anjo camponês;
com a terceira luz na mão;
minucioso, habituado
aos interiores de cereal,
aos utensílios
que dormem na fuligem;
os seus olhos rurais
não compreendem bem os símbolos
desta colheita: hélices,
motores furiosos;
e estende mais o braço; planta
no ar, como uma árvore,
a chama do candeeiro.

II
As outras duas luzes
são lisas, ofuscantes;
lembram a cal, o zinco branco
nas pedreiras;
ou nos umbrais
de cantaria aparelhada; bruscamente;
a arder; há o mesmo
branco na lâmpada do tecto;
o mesmo zinco
nas máquinas que voam
fabricando o incêndio; e assim,
por toda a parte,
a mesma cal mecânica
vibra os seus cutelos.

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166 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Graciliano RAMOS. «Baleia», in Vidas Secas. [1938] 1972. São Paulo:


Martins. 127­‑134.

Texto sujeito a Direitos de Autor

A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra­‑lhe


em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas
escuras supuravam e sangravam, cobertas de môscas. As chagas da bôca e a
inchação dos beiços dificultavam­‑lhe a comida e a bebida.
Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hi‑
drofobia e amarrara­‑lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho quei‑
mados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava­‑se nas estacas do curral ou
metia­‑se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas
murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de rôscas,
semelhantes a uma cauda de cascavel.
Então Fabiano resolveu matá­‑la. Foi buscar a espingarda de pederneira,
lixou­‑a, limpou­‑a com o saca­‑trapo e fêz tenção de carregá­‑la bem para a
cachorra não sofrer muito.
Sinha Vitória fechou­‑se na camarinha, rebocando os meninos assustados,
que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta:
— Vão bulir com a Baleia?
Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afli-
giam­‑nos, davam­‑lhes a suspeita de que Baleia corria perigo.
Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem
dizer não se diferençavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fôfo que
ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras.
Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas Sinha Vitória levou­
‑os para a cama de varas, deitou­‑os e esforçou­‑se por tapar­‑lhes os ouvidos:
prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas ore‑
lhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou­‑se e tratou de
subjugá­‑los, resmungando com energia.
Ela também tinha o coração pesado, mas resignava­‑se: naturalmente a
decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia.
Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma,
as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia.

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170 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Nelson RODRIGUES. «Capítulo 23», in O Casamento. [1966] 2017. Lisboa:


Tinta-da-china. 257-260.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Repetiu:
—Minha filha, sabe que eu estou no maior espanto, Glorinha, no maior
espanto? Você nunca falou assim, nunca!
Disse, violenta:
— E sabe por quê? Por quê? Nunca houve entre nós uma conversa séria.
— Mas converso tanto contigo!
Virou-se, desesperada:
— Ah, o senhor não me entende, papai! Não é isso. Nas nossas conver‑
sas, eu sinto, sabe? Sinto que o senhor não diz tudo. Nunca diz tudo.
— Mas tudo como? Digo, sim, digo!
— Há coisas que o senhor não diz.
— Que coisas? Isso é muito vago. Que é que eu não digo?
— Ora, papai, ora!
Sabino está quase chorando:
— Glorinha, se eu digo tudo ou nem tudo, é o de menos.
Berrou:
— De menos, vírgula. A mim, o senhor devia dizer tudo!
— Um momento, minha filha. Já chego lá. Primeiro, ouve, Glorinha.
Ouve. Pior do que tudo é o que você disse de sua mãe. Temos que aceitar nos‑
sos pais. Ninguém é perfeito. Mas temos que aceitar, e não julgar, os nossos
pais. É a sua mãe, Glorinha, é sua mãe!
Pulou no assento:
— É minha mãe e eu com isso? Por acaso, escolhi minha mãe?
— Esse raciocínio é monstruoso!
No seu espanto, Sabino ia perdendo a direção e batendo, de frente, num
carro que corria em sentido contrário. O outro chofer berrou:
— Filho-da-puta!
Aquilo estava nos ouvidos de Sabino: «Cuspir na cara de minha mãe!» Na
sua ira, encostou o carro mais adiante:
— Glorinha, você vai-me explicar isso direitinho. Você não está normal.

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luiz ruffato 173

Luiz RUFFATO. «Ratos», in Eles Eram Muitos Cavalos. [2001] 2011


( 7.ª edição). Rio de Janeiro: Record. 23­‑25.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Um rato, de pé sobre as patinhas traseiras, rilha uma casquinha de pão, ob‑


servando os companheiros que se espalham nervosos por sobre a imundí‑
cie, como personagens de um videogame. Outro, mais ousado, experimen‑
ta mastigar um pedaço de pano emplastrado de cocô mole, ainda fresco,
e, desazado, arranha algo macio e quente, que imediatamente se mexe,
assustando­‑o. No após, refeito, aferra os dentinhos na carne tenra, guincha.
Excitado, o bando achega­‑se, em convulsões.
O corpinho débil, mumificado em trapos fétidos, denuncia o incômo‑
do, o músculo da perna se contrai, o pulmão arma­‑se para o berreiro, expele
um choramingo entretanto, um balbucio de lábios magoados, um breve es‑
pasmo. A claridade envergonhada da manhã penetra desajeitada pelo teto
de folhas de zinco esburacadas, pelos rombos nas paredes de placas de out‑
doors. Mas, é noturno ainda o barraco.
A chupeta suja, de bico rasgado, que o bebê mordiscava, escapuliu ro‑
lando por sob a irmãzinha de três anos, que, a seu lado, suga o polegar com a
insaciedade de quando mamava nos seios da mãe. O peitinho chiou o sono
inteiro e ela tossiu e chorou, porque o cobertor fino, muxibento, que ganha‑
ram dos crentes, o irmãozinho de seis anos enrolou­‑se nele.
O colchão­‑de­‑mola­‑de­‑casal onde se aninham sobreveio numa tarde úmi‑
da, manchas escuras desenhando o pano rasgado, locas vomitando pó, abole‑
tado no teto de uma kombi de carreto, vencendo toda a Estrada de Itapeceri‑
ca, em­‑desde a Vila Andrade até o Jardim Irene, quando viviam com o Birôla,
o homem bom, ele. Uma vez levou a meninada no circo, palhaços, cachorro
ensinado roupinha­‑de­‑balé, macaco de velocípede, domador chicoteando
leão desdentado em­‑dentro da jaula, cavalos destros, trapezista, equilibrista,
pipoca, engolidor de espadas, maçã­‑do­‑amo, moças de maiô, algodão­‑doce,
serrador de gente, pirulito, sorvete de palito. Aí começou a abusar da mais
velha, agora de­‑maior, mas na época treze anos. Enfezada, despejou álcool nas
partes, riscou a cabeça de fósforo, o fogo ardeu a vizinhança, salvou os filhos,
mas o tal, aquele, em sonhos de crack torrou, carvão indigente.

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bernardo santareno 175

Bernardo SANTARENO. «Acto I», in O Judeu. 1999. Lisboa: Ática. 13-21.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Em toda a sua extensão visível, ao fundo e aos lados, o palco está revestido por uma
cortina negra que se abre apenas ao F. C., desenhando o contorno duma ogiva de vitral.
Este, fortemente iluminado, tem pintado o fundador do Santo Tribunal da Inquisição,
São Domingos, tal como o vemos no estandarte do Santo Ofício: A espada numa das
mãos e o ramo de oliveira na outra, tudo emoldurado pelo dístico «Misericordia et Jus‑
titia». Ainda ao F. C. por baixo do vitral, um grande Cristo Crucificado e agónico, de
madeira negra. Em plano mais dianteiro, também ao centro, uma mesa pétrea de altar
e sobre ela alguns candelabros em prata, com as altas velas todas acesas.
À direita e à esquerda da mesa, um pouco mais avançados para o público, dois
tronos sumptuosos, montados sobre estrado com degraus, de maneira a ficarem à
mesma altura.
Mais próximos dos espectadores, um de cada lado, dois grandes genuflexórios de
banco corrido, dispostos obliquamente e destinando-se aos réus do auto-de-fé.
À frente, ocupando os dois terços centrais do diâmetro transversal do palco, uma
grade baixa.
Ainda mais perto do público, situando-se à extrema D., ou E., cerca de três metros
acima do pavimento cénico, um púlpito de igreja cujo bojo avança mesmo sobre a
orquestra.

Durante alguns segundos, com o palco ainda em obscuridade completa, ouve-se o


EXURGE DOMINE ET JUDICA CAUSAM TUAM, cantado poderosamente
por um coro masculino. Sinos de catedral.
Luz sobre o púlpito. Silêncio. Todo o restante dispositivo cénico, tal como as perso‑
nagens que nele figuram, continua em obscuridade.

Padre Pregador
(Dirigindo-se aos espectadores de «O Judeu», que, nesta cena, funcionam como
assistentes do auto-de-fé.) Ai, irmãos, meus muito amados nas entranhas benditas
de Nosso Senhor! Ai, cristãos, herdeiros da justiça e da misericórdia divinas!
Vinde e contemplai comigo a fera bruteza da herética pravidade: Pior que a

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moacyr scliar 181

Moacyr SCLIAR. «Marrocos, 18 de Julho de 1972 a 15 de Setembro de


1972», in O Centauro no Jardim. [1980] 2011. São Paulo: Editora Schwarcz
Ltda. 158­‑165.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Encontrei a clínica num estado desolador. Os muros, antes já sujos, man‑


chados, agora estavam caindo; o portão já não existia. Um cachorro vadio
dormitava ao sol; quando me aproximei, acordou e pôs­‑se a rosnar, amea‑
çador. Bati palmas, gritei. Por fim apareceu o auxiliar do médico, soturno,
envelhecido. Me fez entrar. Respondendo por monossílabos às minhas per‑
guntas, conduziu­‑me pelo jardim, onde algumas roseiras ainda sobreviviam
em meio a um matagal de plantas daninhas e lagartos tomavam sol sobre a
arruinada amurada da fonte. Não vi ninguém. Aparentemente a clínica já
não albergava mais pacientes.
O médico marroquino — muito envelhecido, a calvície quase completa
compensada por uma maltratada barba grisalha — ficou surpreso ao me ver;
que bons ventos te trazem, Guedali? Viagem de passeio ou de negócios?
É uma espécie de negócio, eu disse, uma coisa que tenho em mente.
Sentiu que não era o momento de aprofundar o assunto; perguntou por Tita,
pelos gêmeos. Conversamos um pouco, eu disse que estava cansado, per‑
guntei se não podia me arranjar um quarto. E acrescentei: pago as diárias,
naturalmente. Seu rosto se iluminou: mas claro, Guedali, com todo o prazer!
Presumo que preferes a primeira classe. (Era evidente que precisava deses‑
peradamente do dinheiro.)
Conduziu­‑me até o quarto. Era o mesmo que Tita e eu tínhamos ocupa‑
do após a cirurgia. Como o resto da clínica, o aspecto era de abandono: teias
de aranha no teto, paredes rachadas, cortinas desbotadas. Ele mesmo se deu
conta: isto aqui está precisando de uma boa limpeza. Meu auxiliar cuidará
disso. Mas amanhã. Hoje deves descansar.
Não dormi a noite inteira. Fiquei andando de um lado para outro, pri‑
meiro no quarto e logo no jardim. Quando clareou o dia apareceu o médico
marroquino.
— Então? — Sorridente, mas apreensivo; brincalhão, mas um pouco
alarmado. Não muito alarmado; um homem vivido, conhecedor dos ris‑
cos que nos ameaçam (a rotura de uma pequena artéria no cérebro pode

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jorge de sena 187

Jorge de SENA. «Parte segunda — Capítulo V», in Sinais de Fogo. [1979]


1995. Porto: ASA. 67­‑ 73.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Quando cheguei à Figueira, a estação era um tumulto de espanhóis aos


gritos, com sacos e malas, crianças chorando, senhoras chamando umas
pelas outras, homens que brandiam jornais, e uma grande massa de gente
comprimindo­‑se nas bilheteiras.
Eu não entendia nada do que tinha acontecido, e não compreendia
como uma revolução — coisa que a minha família passava, em tempos idos,
no quarto escuro — podia obrigar as pessoas a uma agitação daquelas e a
quererem regressar precipitadamente. As revoluções eram feitas por mili‑
tares e por revolucionários, que se preparavam para isso, e esmagadas pelos
governos que as atacavam, sendo depois saudados por magotes de povo à
moda do Minho. As pessoas que veraneavam tão longe não podiam ser, por
certo, revolucionários. Pessoas dessas eram, sem dúvida, como nós: e, se não
tinham quarto escuro, nem precisavam dele, podiam muito bem esperar
sossegadamente, ao sol da Figueira e tomando banho de mar, ou sentadas
nos cafés, ou à volta das mesas de jogo do casino, que a revolução acabasse.
Isto eu meditava, de mala na mão, a caminho da casa de meus tios. Mas
ocorreu­‑me (tinha­‑me esquecido, ou fôra numa das revoluções escuras da
minha infância) que, uma vez, um tio meu estava em nossa casa, quando
a revolução rebentara, e a minha tia, não o vendo chegar, julgara que ele
tinha morrido. Aquela gente, portanto, não era de famílias completas, ou‑
tros membros da família tinham ficado em Espanha, e os que aqui estavam
temiam por eles. Ou por suas casas. Para mim, uma revolução não era uma
guerra. Era umas pessoas e uns regimentos que vinham para a rua, ou uns
quartéis que os da rua queriam assaltar. Mas lembrei­‑me das velhas gravuras
da Ilustração Portuguesa, do tempo da Grande Guerra, com os alemães rou‑
bando as casas dos belgas, e que eu folheara em pequeno, procurando figu‑
ras para recortar. Aquela gente temia, pois, por suas casas. Mas pareceu­‑me
incrível. Uma revolução em Espanha não era uma guerra, nem tinha alemães
que entrassem assim na casa de cada um. Os espanhóis, porém, eram uma
gente medonha, quem sabe o que fariam? Já via o portão dos jardins dos

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( 2)
M E M ÓR IA E V I DA

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germano almeida 195

Germano ALMEIDA. O Testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo.


[1989] 1998. Lisboa: Caminho. 82­‑ 85.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Com o carro fechado no armazém a servir de garagem, aplicou­‑se a apren‑


der a conduzir sob a orientação de nho Isidoro, instrutor experimentado
mas rigoroso e com alguns nomes menos simpáticos na ponta da língua para
castigar os aselhas. Mas enquanto foi só seguir a estrada em linha recta tudo
correu bem e não houve razões de queixa de parte a parte. Nas manobras é
que começaram a surgir dificuldades porque o Sr. Napumoceno não se en‑
tendia com a marcha a ré e num dia em que entortou o carro demasiada‑
mente, nho Isidoro, que estava no meio da estrada e comandava de longe a
instrução, gritou­‑lhe que endireitasse aquela merda. Mas aí o Sr. Napumo‑
ceno estacou o pé no travão com tal violência que o carro foi abaixo, nho
Isidoro, sem perceber continuava gritando não é lá, homem de Deus!, mas o
Sr. Napumoceno já estava fora do carro, de rosto fechado, estou em cima do
meu dinheiro e não admito desaforos e más­‑criações de ninguém. Eu sei que
você tem fama de boca suja, mas ou pede desculpas imediatamente ou aqui
mesmo dou o nosso contrato por revogado e vou para a minha casa a pé. Es‑
tavam lá pelos lados de Ribeira Julião, mas mesmo assim nho Isidoro viu­‑se
e desejou­‑se para convencer o Sr. Napumoceno que não tivera intenção de
ofender, fora apenas uma maneira de falar, e só após um formal eu peço que
me desculpe a linguagem grosseira! é que o Sr. Napumoceno acedeu a entrar
de novo para a viatura. Acabou assim por nunca chegar a aprender a fazer
marcha atrás, manobra que ele declarava perigosíssima, tão perigosíssima
que o próprio Código de Estradas a proíbe em distância superior a 5 metros!
E por isso a garagem da sua casa era um grande corredor com uma saída de
cada lado e nunca estacionava onde tivesse que cometer aquela infracção
ao Código. Mas o resto ele aprendeu com facilidade porque aproveitava o
armazém para se treinar no Ford durante duas horas em cada dia e por isso
no dia em que obteve a sua carta de condução e saiu com o carro ninguém se
atreveu a dizer que era um homem que acabava de fazer exame. O que logo
se disse e mesmo nos anos seguintes foi que sem dúvida era o carro mais lim‑
po e bem tratado da cidade e é verdade que o Sr. Napumoceno contratara

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marquesa de alorna 197

Marquesa de ALORNA. «Ao tempo», in Sonetos de Marquesa de Alorna


(Fixação de texto e estudo introdutório de Vanda Anastácio). [1844] 2007.
Rio de Janeiro: Editora 7 Letras. 149.

Tempo! que a mão benigna pões nas chagas


Que a saudade me abriu cruelmente,
Tu, que do espinho a dor suavemente
Vais tirando, e seu férreo efeito apagas:

Em ti somente espero; tu me afagas


E quando enxuta houveres a torrente
Do inútil pranto, que sai d’alma ardente,
A (em vão buscada) paz talvez me tragas.

Os olhos voltarei para o passado,


E sorrindo verei chegar das lidas
O pacífico termo desejado

Bem como à tarde as aves distraídas


Esquecendo um chuveiro dissipado
Cantam co’as plumas inda humedecidas.

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198 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Ana Luísa AMARAL. «Um pouco só de Goya: Carta a minha filha», in


Inversos (Poesia 1990~2010). 2010. Lisboa: Dom Quixote. 357-358.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila?


Eras pequena e o cabelo mais claro,
mas os olhos iguais. Na metáfora dada
pela infância, perguntavas do espanto
da morte e do nascer, e de quem se seguia
e porque se seguia, ou da total ausência
de razão nessa cadeia em sonho de novelo.

Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se


de junho, o teu cabelo claro mais escuro,
queria contar-te que a vida é também isso:
uma fila no espaço, uma fila no tempo,
e que o teu tempo ao meu se seguirá.

Num estilo que gostava, esse de um homem


que um dia lembrou Goya numa carta a seus
filhos, queria dizer-te que a vida é também
isto: uma espingarda às vezes carregada
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te
testamentos, falar-te de tigelas — é sempre
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua
de mentiras, em carinho de verso.

E o que queria dizer-te é dos nexos da vida,


de quem a habita para além do ar,
E que o respeito inteiro e infinito
não precisa de vir depois do amor.
Nem antes. Que as filas só são úteis

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200 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Carlos Drummond de ANDRADE. «Poema de sete faces», in Alguma


Poesia. [1978] 2013. São Paulo: Companhia das Letras. 11-12.

Texto sujeito a Direitos de Autor

desses que vivem na sombra


disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens


que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:


pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
perguntam nada.

O homem atrás do bigode


é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste


se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,


se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

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202 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Eugénio de ANDRADE. «Casa na chuva», in Ostinato Rigore: Escrita da terra


e outros epitáfios. [1964] 1977. Porto: Limiar. 80.

Texto sujeito a Direitos de Autor

A chuva, outra vez a chuva sobre as oliveiras.


Não sei porque voltou esta tarde
se minha mãe já se foi embora
já não vem à varanda para a ver cair
já não levanta os olhos da costura
para perguntar: ouves?
Oiço, mãe, é outra vez a chuva,
a chuva sobre o teu rosto.

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francisco de andrade 203

Francisco de ANDRADE. Cancioneiro Fernandes Tomás (Edição fac­‑símile).


[1540?­‑1614] 1971. Lisboa: Ministério da Educação Nacional. 3 (verso).

Lembranças que quereis a hum desterrado,


da patria da sua alma, ò dura sorte,
se Vossa pertensão he darme a morte,
deixai esse cuidado, a meu cuidado.

Tragedia triste sois do bem passado,


noite do entendimento que he meu norte,
da cativa vontade, hum grilhão forte,
a cujo som, sou cisne magoado.

Ay saudozas lembranças, se algum’ ora,


eu vos visse passar sem vela, eremo
pellas agoas cruéis do esquecimento:

Mas fazei vosso oficio muito embora,


que em desconto da morte que eu não temo
serei camaleão, ja que sois vento.

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204 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Mário de ANDRADE. «O peru de Natal», in Contos Novos. 1956. São Paulo:


Livraria Martins Editora. 95­‑103.

O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida


cinco meses antes, foi de conseqüências decisivas para a felicidade familiar.
Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da
felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves
dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta
de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, duma exemplaridade inca‑
paz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da
vida, aquêle gôsto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação
de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fôra de um bom erra‑
do, quase dramático, o puro sangue dos desmancha­‑prazeres.
Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximi‑
dades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória
obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação
de uma lembrança dolorosa em cada almôço, em cada gesto mínimo da fa‑
mília. Uma vez que eu sugerira a mamãe a idéia dela ir ver uma fita no cine‑
ma, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado!
A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara
apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por esponta‑
neidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.
Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontâneamente, a idéia
de fazer uma das minhas chamadas «loucuras». Essa fôra aliás, e desde muito
cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedi‑
nho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma repro‑
vação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos,
descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as
lições que dei ou recebi, não sei, duma criada de parentes: eu consegui no re‑
formatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de «louco». «É
doido, coitado!» falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescen‑
dente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provàvel‑
mente com aquêle prazer dos que se convencem de alguma superioridade.

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mário de andrade 205

Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz
tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com inte‑
gridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou
disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.
Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se ima‑
gina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo.
Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos
por causa dos quebra­‑nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias,
a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com
uma das minhas «loucuras»:
— Bom, no Natal, quero comer peru.
Houve um dêsses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia
solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convi‑
dar ninguém por causa do luto.
— Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania... Quando é que a
gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem
tôda essa parentada do diabo...
— Meu filho, não fale assim...
— Pois falo, pronto!
E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infi‑
nita, diz­‑que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o
momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a oca‑
sião. Me deu de supetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas
mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida.
Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru na‑
quela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados
pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos do‑
ces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida sinão trabalhar,
trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parenta‑
gem devorava tudo e inda levava embrulhinhos pros que não tinham podido
vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no entêrro dos
ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia inda provavam num naco de
perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem
servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato
o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.
Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas.
E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a sêca, douradi‑
nha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda,
em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como

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206 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti
onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele
ar de incenso assoprado, si não seria tentação do Dianho aproveitar receita
tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que
com meus «gostos», já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num
vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doi‑
do, mamãe adorava cerveja.
Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos,
num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que
sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sòzinho é que
estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de
mim a... culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos
como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento
geral:
— É louco mesmo!...
Comprou­‑se o peru, fêz­‑se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo
bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fôra engraçado:
assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não
fizera outra coisa aquêles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar
minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo
violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha
imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei
muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momen‑
to aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo
àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase po‑
breza sem razão.
— Não senhora, corte inteiro! só eu como tudo isso!
Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em
mim, que até era capaz de comer pouco, só pra que os outros quatro comes‑
sem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquêle peru comido a
sós, redescobria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo,
amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando
em Jesus... Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando
um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente
reduzido a fatias amplas.
— Eu que sirvo!
«É louco, mesmo!» pois por que havia de servir, si sempre mamãe ser‑
vira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra
mim e principiei uma distribuição heróica, enquanto mandava meu mano

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mário de andrade 207

servir a cerveja. Tomei conta logo dum pedaço admirável da «casca», cheio
de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada
de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua
parte no peru:
— Se lembre de seus manos, Juca!
Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquêle era o prato dela,
da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus cri‑
mes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou
sublime.
— Mamãe, êste é o da senhora! Não! Não passe não!
Foi quando ela não pôde mais com tanta comoção e principiou chorando.
Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela,
entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir
a torneirinha também, se esparramou no chôro. Então principiei dizendo
muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos... Diabo de
família bêsta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por
sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara
por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua fi‑
gura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.
Bom, principiou­‑se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava per‑
feito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sa‑
bores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e rede‑
sejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estôrvo petulante
dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma
censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe
por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.
Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que
gabar o peru era fortalecê­‑lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente
o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas
de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa,
insuportàvelmente obstruidora.
— Só falta seu pai…
Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto
que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai.
E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político.
Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei apa‑
rentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:
— É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de
tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente... (hesitei, mas

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208 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em
família.
E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dêle
foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Ago‑
ra todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fôra muito bom,
sempre se sacrificara tanto por nós, fora um santo que «vocês, meus filhos,
nunca poderão pagar o que devem a seu pai», um santo. Papai virara santo,
uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não pre‑
judicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto
ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.
Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever
«felicidade gustativa», mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscu‑
la, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores
do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquêle primeiro peru comido no
recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo,
mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então
uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão as‑
sim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.
Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe
fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo
menos que uma vez na vida coma peru de verdade!
A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor...
Depois vieram umas uvas leve e uns doces, que lá na minha terra levam o
nome de «bem­‑casados». Mas nem mesmo êste nome perigoso se associou
à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa
certa, em culto puro de contemplação.
Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por
duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco
importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica
antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder
sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela,
modo de contar onde é que ia e fazê­‑la sofrer seu bocado. As outras duas
mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!...

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augusto dos anjos 209

Augusto dos ANJOS. «Psicologia de um vencido», in As Aves Que aqui


Gorjeiam. [1912] 2005. Lisboa: Cotovia. 339.

Eu, filho do carbono e do amoníaco,


Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe­‑me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —


Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê­‑los,


E há-de deixar­‑me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

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210 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

António Lobo ANTUNES. «Retratos», in Quarto Livro de Crónicas. 2011.


Lisboa: Dom Quixote. 161­‑163.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Ponho­‑me a olhar as fotografias. Conheço as caras e não as conheço, con‑


geladas a meio de uma expressão com qualquer coisa de incompleto nelas.
Não é que lhes falte vida, têm vida, falta­‑lhes uma parte do que são, no caso
de lhes tocar toco papel, não carne, e ainda por cima com um rectângulo
de vidro a separar­‑nos. Só os mortos estão inteiros nos retratos porque se
tornaram retratos, são retratos, e o que guardo na memória vai­‑se desarti‑
culando, diluindo, deixando de ter forma: gestos, atitudes, cheiros que se
desvanecem lentamente como o perfume nos frascos vazios que conservam
uma vaga aura doce de flores. No caso dos vivos encontro fragmentos deles
que me não chegam nem consolam. Olham­‑me desprovidos de voz, de es‑
pessura. Digo­‑lhes o nome e não me respondem. Digo
— Tu
e observas­‑me indiferente, sempre com os mesmos brincos, o mesmo
penteado, a mesma blusa, a mesma idade que recusa os anos. Digo
— Tu
e nenhuma mão chega à minha cara, não respiras contra mim, não me
procuras, aprisionada na moldura. Porque é que o teu peito não respira? Por‑
que é que as tuas pernas não se enrolam nas minhas? Porque não sais daí?
Será o mesmo, o teu nome? Ou será que foi o meu nome a mudar? Perguntas,
perguntas. Cheio de perguntas sempre. Hoje almocei com os meus cama‑
radas de Companhia. Éramos cinco oficiais e o capelão que esteve sempre
connosco, tão escravo daquela miséria quanto nós. A conversa girou para
Deus, a morte, o significado da morte. A certa altura perguntei­‑lhe
(perguntas, perguntas)
— Que raio fazia Deus antes da Criação?
e a resposta não me satisfez. O Seu Espírito movia­‑se sobre as águas, diz
a Bíblia. Está bem. Mas em que coisas se entretinha? Se o Universo foi co‑
meçado num dado momento, como se sabe, em que se ocuparia Deus antes
de o inventar? Tentava paciências de cartas, aborrecia­‑se? Ouvi uma explica‑
ção comprida, às voltinhas. Gosto muito do capelão

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212 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Manuel BANDEIRA. «Evocação do Recife», in Libertinagem. [1930] 1998.


Madrid: ALLCA XX. 24­‑26.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
— Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
A Rua da União onde eu brincava de chicote­‑queimado
e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê
na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras,
mexericos, namoros, risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!

À distância as vozes macias das meninas politonavam:


Roseira dá­‑me uma rosa
Craveiro dá­‑me um botão

(Dessas rosas muita rosa


Terá morrido em botão...)
De repente
nos longes da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:

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lima barreto 215

Lima BARRETO. «O homem que sabia javanês», in Novas Seletas — Lima


Barreto. [1911] 2004. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira. 59­‑ 70.

Em uma confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro, contava eu as partidas


que havia pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver.
Houve mesmo, uma das ocasiões, quando estive em Manaus, em que
fui obrigado a esconder a minha qualidade de bacharel, para mais confiança
obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho.
Contava eu isso.
O meu amigo ouvia­‑me calado, embevecido, gostando daquele meu Gil
Blas vivido, até que, em uma pausa da conversa, ao esgotarmos os copos,
observou a esmo:
— Tens levado uma vida bem engraçada, Castelo!
— Só assim se pode viver… Isto de uma ocupação única: sair de casa a
certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas? Não sei como me tenho
aguentado lá, no consulado!
— Cansa­‑se; mas não é disso que me admiro. O que me admira é que
tenhas corrido, é que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil im‑
becil e burocrático.
— Qual! Aqui mesmo, meu caro Castro, se podem arranjar belas pági‑
nas de vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês!
— Quando? Aqui, depois que voltaste do consulado?
— Não; antes. E, por sinal, fui nomeado cônsul por isso.
— Conta lá como foi. Bebes mais cerveja?
— Bebo.
Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos, e continuei:
— Eu tinha chegado havia pouco ao Rio e estava literalmente na mi‑
séria. Vivia fugido de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e
como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Commercio o anúncio seguinte:
«Precisa­‑se de um professor de língua javanesa. Cartas, etc.»
Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos con‑
correntes; se eu capiscasse quatro palavras, ia apresentar­‑me. Saí do café
e andei pelas ruas, sempre a imaginar­‑me professor de javanês, ganhando

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216 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os «cadá‑


veres». Insensivelmente dirigi­‑me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que
livro iria pedir; mas, entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha
e subi. Na escada, acudiu­‑me pedir a Grande Encyclopédie, letra J, a fim de
consultar o artigo relativo a Java e à língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sa‑
bendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipé‑
lago de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo
maleo­‑polinésico, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracte‑
res derivados do velho alfabeto hindu.
A Encyclopédie dava­‑me indicação de trabalhos sobre a tal língua malaia
e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o alfabeto, a sua pronun‑
ciação figurada e saí. Andei pelas ruas, perambulando e mastigando letras.
Na minha cabeça dançavam hieróglifos; de quando em quando consul‑
tava as minhas notas; entrava nos jardins e escrevia estes calungas na areia
para guardá­‑los bem na memória e habilitar a mão a escrevê­‑los.
À noite, quando pude entrar em casa sem ser visto, para evitar indis‑
cretas perguntas do encarregado, ainda continuei no quarto a engolir o meu
«a­‑b­‑c» malaio, e, com tanto afinco levei o propósito que, de manhã, o sabia
perfeitamente.
Convenci­‑me que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí; mas
não tão cedo que não me encontrasse com o encarregado dos aluguéis dos
cômodos:
— Senhor Castelo, quando salda a sua conta?
Respondi­‑lhe então eu, com a mais encantadora esperança:
— Breve… Espere um pouco… Tenha paciência… Vou ser nomeado
professor de javanês, e…
Por aí o homem interrompeu­‑me:
— Que diabo vem a ser isso, senhor Castelo?
Gostei da diversão e ataquei o patriotismo do homem:
— É uma língua que se fala lá pelas bandas do Timor. Sabe onde é?
Oh! alma ingênua! O homem esqueceu­‑se da minha dívida e disse­‑me
com aquele forte dos portugueses:
— Eu cá por mim, não sei bem; mas ouvi dizer que são umas terras que
temos lá para os lados de Macau. E o senhor sabe isso, senhor Castelo?
Animado com esta saída feliz que me deu o javanês, voltei a procurar
o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente propor­‑me ao professorado
do idioma oceânico. Redigi a resposta, passei pelo Jornal e lá deixei a car‑
ta. Em seguida, voltei à biblioteca e continuei os meus estudos de javanês.
Não fiz grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar o alfabeto javanês

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lima barreto 217

o único saber necessário a um professor de língua malaia ou se por ter me


empenhado mais na bibliografia e história literária do idioma que ia ensinar.
Ao cabo de dois dias, recebia eu uma carta para ir falar ao doutor Ma‑
nuel Feliciano Soares Albernaz, barão de Jacuecanga, à rua Conde de Bon‑
fim, não me recordo bem que número. É preciso não te esqueceres que en‑
trementes continuei estudando malaio, isto é, o tal javanês. Além do alfabe‑
to, fiquei sabendo o nome de alguns autores, também perguntar e responder
— «como está o senhor?» — e duas ou três regras de gramática, lastrado todo
esse saber com vinte palavras do léxico.
Não imaginas as grandes dificuldades com que lutei, para arranjar os
quatrocentos réis da viagem! É mais fácil — podes ficar certo — aprender
o javanês… Fui a pé. Cheguei suadíssimo; e, com maternal carinho, as ano‑
sas mangueiras, que se perfilavam em alameda diante da casa do titular, me
receberam, me acolheram e me reconfortaram. Em toda a minha vida, foi o
único momento em que cheguei a sentir a simpatia da natureza…
Era uma casa enorme que parecia estar deserta; estava mal tratada, mas
não sei porque me veio pensar que nesse mau tratamento havia mais des‑
leixo e cansaço de viver que mesmo pobreza. Devia haver anos que não era
pintada. As paredes descascavam e os beirais do telhado, daquelas telhas
vidradas de outros tempos, estavam desguarnecidos aqui e ali, como denta‑
duras decadentes ou mal cuidadas.
Olhei um pouco o jardim e vi a pujança vingativa com que a tiririca
e o carrapicho tinham expulsado os tinhorões e as begônias. Os crótons
continuavam, porém, a viver com a sua folhagem de cortes mortiças. Bati.
Custaram­‑me a abrir. Veio, por fim, um antigo preto africano, cujas barbas e
cabelo de algodão davam à sua fisionomia uma aguda impressão de velhice,
doçura e sofrimento.
Na sala, havia uma galeria de retratos: arrogantes senhores de barba em
colar se perfilavam enquadrados em imensas molduras douradas, e doces
perfis de senhoras, em bandos, com grandes leques, pareciam querer subir
aos ares, enfunadas pelos redondos vestidos à balão; mas, daquelas velhas
coisas, sobre as quais a poeira punha mais antiguidade e respeito, a que gos‑
tei mais de ver foi um belo jarrão de porcelana da China, a sua fragilidade,
a ingenuidade do desenho e aquele seu fosco brilho de luar, diziam­‑me a
mim que aquele objeto tinha sido feito por mãos de criança, a sonhar, para
encanto dos olhos fatigados dos velhos desiludidos…
Esperei um instante o dono da casa. Tardou um pouco. Um tanto trô‑
pego, com o lenço de Alcobaça na mão, tomando veneravelmente o simon‑
te de antanho, foi cheio de respeito que o vi chegar. Tive vontade de ir­‑me

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218 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

embora. Mesmo se não fosse ele o discípulo, era sempre um crime mistificar
aquele ancião, cuja velhice trazia à tona do meu pensamento alguma coisa de
augusto, de sagrado. Hesitei, mas fiquei.
— Eu sou — avancei — o professor de javanês, que o senhor disse pre‑
cisar.
— Sente­‑se — respondeu­‑me o velho — O senhor é daqui, do Rio?
— Não, sou de Canavieiras.
— Como? — fez ele. — Fale um pouco mais alto, que sou surdo.
— Sou de Canavieiras, na Bahia — insisti eu.
— Onde fez seus estudos?
— Em Salvador.
— E onde aprendeu o javanês? — indagou ele, com aquela teimosia pe‑
culiar aos velhos.
Não contava com essa pergunta, mas imediatamente arquitetei uma
mentira. Contei­‑lhe que o meu pai era javanês. Tripulante de um navio mer‑
cante, viera ter a Bahia, estabelecera­‑se nas proximidades de Canavieiras
como pescador, casara, prosperara e fora com ele que aprendi javanês.
— E ele acreditou? E o físico? — perguntou meu amigo, que até então
me ouvira calado.
— Não sou — objetei — lá muito diferente de um javanês. Estes meus
cabelos corridos, duros e grossos e a minha pele basané podem dar­‑me muito
bem o aspecto de um mestiço de malaio… Tu sabes bem que, entre nós, há
de tudo: índios, malaios, taitianos, malgaches, guanches, até godos. É uma
comparsaria de raças e tipos de fazer inveja ao mundo inteiro.
— Bem — fez o meu amigo — ­ , continua.
— O velho — emendei eu — ouviu­‑me atentamente, considerou de‑
moradamente o meu físico, pareceu que me julgava de fato filho de malaio e
perguntou­‑me com doçura:
— Então está disposto a ensinar­‑me javanês?
A resposta saiu­‑me sem querer:
— Pois não.
— O senhor há de ficar admirado — aduziu o barão de Jacuecanga —
que eu, nesta idade, ainda queira aprender qualquer coisa, mas…
— Não tenho que admirar. Têm­‑se visto exemplos e exemplos muito
fecundos…
— O que eu quero, meu caro senhor…?
— Castelo — adiantei eu.
— O que eu quero, meu caro senhor Castelo, é cumprir um juramento
de família. Não sei se o senhor sabe que eu sou neto do conselheiro Albernaz,

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lima barreto 219

aquele que acompanhou Pedro I, quando abdicou. Voltando de Londres,


trouxe para aqui um livro em língua esquisita, a que tinha grande estimação.
Fora um hindu ou siamês que lho dera, em Londres, em agradecimento a
não sei que serviço prestado por meu avô. Ao morrer meu avô, chamou meu
pai e lhe disse: «Filho, tenho este livro aqui, escrito em javanês. Disse­‑me
quem mo deu que ele evita desgraças e traz felicidades para quem o tem. Eu
não sei nada ao certo. Em todo o caso, guarda­‑o; mas, se queres que o fado
que me deitou o sábio oriental se cumpra, faze com que teu filho o entenda,
para que sempre a nossa raça seja feliz.» Meu pai — continuou o velho barão
— não acreditou muito na história; contudo, guardou o livro. Às portas da
morte, ele mo deu e disse­‑me o que prometera ao pai. Em começo, pouco
caso fiz da história do livro. Deitei­‑o a um canto e fabriquei minha vida.
Cheguei até a esquecer­‑me dele; mas, de uns tempos a esta parte, tenho pas‑
sado por tanto desgosto, tantas desgraças têm caído sobre a minha velhice
que me lembrei do talismã da família. Tenho que o ler, que o compreender,
se não quero que os meus últimos dias anunciem o desastre da minha poste‑
rioridade; e, para entendê­‑lo, é claro, que preciso entender o javanês. Eis aí.
Calou­‑se e notei que os olhos do velho se tinham orvalhado. Enxugou
discretamente os olhos e perguntou­‑me se queria ver o tal livro. Respondi­
‑lhe que sim. Chamou o criado, deu­‑lhe as instruções e explicou­‑me que
perdera todos os filhos, sobrinhos, só lhe restando uma filha casada, cuja
prole, porém, estava reduzida a um filho, débil de corpo e de saúde frágil e
oscilante.
Veio o livro. Era um velho calhamaço, um in­‑quarto antigo, encadernado
em couro, impresso em grandes letras, em um papel amarelado e grosso.
Faltava a folha do rosto e por isso não se podia ler a data da impressão. Tinha
ainda umas páginas de prefácio, escritas em inglês, onde li que se tratava das
histórias do príncipe Kulanga, escritor javanês de muito mérito.
Logo informei disso o velho barão que, não percebendo que eu tinha
chegado aí pelo inglês, ficou tendo em alta consideração o meu saber ma‑
laio. Estive ainda folheando o cartapácio, à laia de quem sabe magistralmen‑
te aquela espécie de vasconço, até que afinal contratamos as condições de
preço e de hora, comprometendo­‑me a fazer com que ele lesse o tal alfarrá‑
bio antes de um ano.
Dentro em pouco, dava a minha primeira lição, mas o velho não foi tão
diligente quanto eu. Não conseguia aprender a distinguir e a escrever nem
sequer quatro letras. Enfim, com metade do alfabeto levamos um mês e o
senhor barão de Jacuecanga não ficou lá muito senhor da matéria: aprendia
e desaprendia.

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220 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

A filha e o genro (penso que até aí nada sabiam da história do livro) vie‑
ram a ter notícias do estudo do velho; não se incomodaram. Acharam graça
e julgaram a coisa boa para distraí­‑lo.
Mas com o que tu vais ficar assombrado, meu caro Castro, é com a ad‑
miração que o genro ficou tendo pelo professor de javanês. Que coisa única!
Ele não se cansava de repetir: «É um assombro! Tão moço! Se eu soubesse
isso, ah! onde estava!»
O marido de dona Maria da Glória (assim se chamava a filha do barão),
era desembargador, homem relacionado e poderoso; mas não se pejava em
mostrar diante de todo o mundo a sua admiração pelo meu javanês. Por ou‑
tro lado, o barão estava contentíssimo. Ao fim de dois meses, desistira da
aprendizagem e pedira­‑me que lhe traduzisse, um dia sim outro não, um
trecho do livro encantado. Bastava entendê­‑lo, disse­‑me ele; nada se opunha
que outrem o traduzisse e ele ouvisse. Assim evitava a fadiga do estudo e
cumpria o encargo.
Sabes bem que até hoje nada sei de javanês, mas compus umas histórias
bem tolas e impingi­‑as ao velhote como sendo do crônicon. Como ele ouvia
aquelas bobagens!...
Ficava extático, como se estivesse a ouvir palavras de um anjo. E eu
crescia aos seus olhos!
Fez­‑me morar em sua casa, enchia­‑me de presentes, aumentava­‑me o
ordenado. Passava, enfim, uma vida regalada.
Contribuiu muito para isso o fato de vir ele a receber uma herança de
um seu parente esquecido que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a
coisa ao meu javanês; e eu estive quase a crê­‑lo também.
Fui perdendo os remorsos; mas, em todo o caso, sempre tive medo que
me aparecesse pela frente alguém que soubesse o tal patuá malaio. E esse meu
temor foi grande, quando o doce barão me mandou com uma carta ao viscon‑
de de Caruru, para que me fizesse entrar em diplomacia. Fiz­‑lhe todas as ob‑
jeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo. «Qual!» re‑
trucava ele. «Vá, menino; você sabe javanês!» Fui. Mandou­‑me o visconde para
a Secretaria dos Estrangeiros com diversas recomendações. Foi um sucesso.
O diretor chamou os chefes de seção: «Vejam só, um homem que sabe
javanês — que portento!»
Os chefes de seção cevaram­‑me aos oficiais e amanuenses e houve um
deles que me olhou mais com ódio do que com inveja ou admiração. E todos
diziam: «Então sabe javanês? É difícil? Não há quem o saiba aqui!»
O tal amanuense, que me olhou com ódio, acudiu então: «É verdade, mas
eu sei canaque. O senhor sabe?» Disse­‑lhe que não e fui à presença do ministro.

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lima barreto 221

A alta autoridade levantou­‑se, pôs as mãos às cadeiras, consertou o


pince­‑nez no nariz e perguntou: «Então, sabe javanês?» respondi­‑lhe que sim;
e, à sua pergunta onde o tinha aprendido, contei­‑lhe a história do tal pai
javanês. «Bem, disse­‑me o ministro, o senhor não deve ir para a diplomacia;
o seu físico não se presta… O bom seria um consulado na Ásia ou Oceânia.
Por ora, não há vaga, mas vou fazer uma reforma e o senhor entrará. De hoje
em diante, porém, fica adido ao meu ministério e quero que, para o ano,
parta para Bâle, onde vai representar o Brasil no Congresso de Lingüística.
Estude, leia o Hovelacque, o Max Muller, e outros!»
Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava empregado e
iria representar o Brasil em um congresso de sábios.
O velho barão veio a morrer, passou o livro ao genro para que o fizesse
chegar ao neto, quando tivesse a idade conveniente e fez­‑me uma deixa no
testamento.
Pus­‑me com afã no estudo das línguas maleo­‑polinésicas; mas não havia
meio!
Bem jantado, bem vestido, bem dormido, não tinha energia necessária
para fazer entrar na cachola aquelas coisas esquisitas. Comprei livros, assi‑
nei revistas: Revue Anthropologique et Linguistique, Proceedings of the English­
‑Oceanic Association, Archivo Glottologico Italiano, o diabo, mas nada! E a minha
fama crescia. Na rua, os informados apontavam­‑me, dizendo aos outros: «Lá
vai o sujeito que sabe javanês.» Nas livrarias, os gramáticos consultavam­‑me
sobre a colocação dos pronomes no tal jargão das ilhas de Sonda. Recebia
cartas dos eruditos do interior, os jornais citavam o meu saber e recusei acei‑
tar uma turma de alunos sequiosos de entenderem o tal javanês. A convite da
redação, escrevi, no Jornal do Commercio, um artigo de quatro colunas sobre
a literatura javanesa antiga e moderna…
— Como, se tu nada sabias? — interrompeu­‑me o atento Castro.
— Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o
auxílio de dicionários e umas poucas de geografias, e depois citei a mais não
poder.
— E nunca duvidaram? — perguntou­‑me ainda o meu amigo.
— Nunca. Isto é, uma vez quase fico perdido. A polícia prendeu um
sujeito, um marujo, um tipo bronzeado que só falava uma língua esquisita.
Chamaram diversos intérpretes, ninguém o entendia. Fui também chama‑
do, com todos os respeitos que a minha sabedoria merecia, naturalmente.
Demorei­‑me em ir, mas fui afinal. O homem já estava solto, graças à inter‑
venção do cônsul holandês, a quem ele se fez compreender com meia dúzia
de palavras holandesas. E o tal marujo era javanês — uf!

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222 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Chegou, enfim, a época do congresso, e lá fui para a Europa. Que de‑
lícia! Assisti à inauguração e às sessões preparatórias. Inscreveram­‑me na
seção do tupi­‑guarani e eu abalei para Paris. Antes, porém, fiz publicar no
Mensageiro de Bâle o meu retrato, notas biográficas e bibliográficas. Quando
voltei, o presidente pediu­‑me desculpas por me ter dado aquela seção; não
conhecia os meus trabalhos e julgara que, por ser eu americano­‑brasileiro,
me estava naturalmente indicada a seção do tupi­‑guarani. Aceitei as expli‑
cações e até hoje ainda não pude escrever as minhas obras sobre o javanês,
para lhe mandar, conforme prometi.
Acabado o congresso, fiz publicar extrato do artigo do Mensageiro de
Bâle, em Berlim, em Turim e Paris, onde os leitores das minhas obras me
ofereceram um banquete, presidido pelo senador Gorot. Custou­‑me toda
essa brincadeira, inclusive o banquete que me foi oferecido, cerca de dez mil
francos, quase toda a herança do crédulo e bom barão de Jacuecanga.
Não perdi meu tempo nem meu dinheiro. Passei a ser uma glória nacio‑
nal e, ao saltar no cais Pharoux, recebi uma ovação de todas as classes sociais
e o presidente da República, dias depois, convidava­‑me para almoçar em sua
companhia.
Dentro de seis meses fui despachado cônsul em Havana, onde estive
seis anos e para onde voltarei, a fim de aperfeiçoar os meus estudos das lín‑
guas da Malaia, Melanésia e Polinésia.
— É fantástico — observou Castro, agarrando o copo de cerveja.
— Olha: se não fosse estar contente, sabes que ia ser?
— Quê?
— Bacteriologista eminente. Vamos?
— Vamos.

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ruy belo 223

Ruy BELO. «Ácidos e óxidos», in Todos os Poemas I. 2004. Lisboa: Assírio &
Alvim. 209­‑211.

Texto sujeito a Direitos de Autor

É uma coisa estranha este verão


E no entanto ia jurar que estive aqui
Não me dói nada, não, A tia como está?
Claro que vale a pena, por que não?
Sim, sou eu, devo sem dúvida ser eu
Podem contar comigo, eu tenho uma doutrina
Não é bonito o mar, as ondas, tudo isto?
Até já soube formas de o dizer de outra maneira
Há coisas importantes, umas mais que outras
Basta limpar os pés alheios à entrada
e só mandarmos nós neste templo de nada
E o orgulho é a nossa verdadeira casa
Nesta altura do ano quando o vento sopra
sobre os nossos dias, sabes quem gostava de ser?
Não, cargos ou honras não, Um simples gato ao sol,
talvez uma maneira ou um sentido para as coisas

Ó dias encobertos de verão no meu país perdido


mais certos do que o sol consumido nos charcos no inverno,
estas ou outras formas de morrermos dia a dia
como quem cumpre escrupulosamente o seu horário de trabalho
Não eras tu, nem isto, nem aqui. Mas está bem,
estou pelos ajustes porque sei que não há mais
Pode ser que me engane, pode ser que seja eu
e no entanto estou de pé, rebolo­‑me no sol,
sou filho desta terra e vou fazendo anos
pois não se pode estar sem fazer nada
Curriculum atestado testemunho opinião...
que importa, se o verão mesmo é uma certa estação?
Escolhe inscreve­‑te pertence, não concordas

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226 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Fernanda BOTELHO. Xerazade e os Outros. 1964. Amadora: Bertrand


Editores. 18­‑22.

Texto sujeito a Direitos de Autor

— Isto hoje tem sido o diabo por aqui, nem queira saber! Até parece que já
não há criadas em Lisboa. Conte­‑me lá agora as suas andanças, enquanto es‑
tamos sós. Gostaram de si? Que lhe disseram? Aquilo deve ser um luxo, não?
— Saiba a menina Rosinha que aquilo é mesmo um luxo que eu nem sei
mas cheira­‑me a esturro que eu não nasci ontem e bem vejo as coisas. Uma
porta que mete respeito como a dum solar uma grandalhona duma porta
só lhe digo que não deve ser nada fácil puxar o brilho aos metais. Toquei
à campainha parecia um badalo lá muito longe levaram tempo a vir mas lá
vieram uma criada de farda toda bem brunida e disse o que é que vosse‑
mecê quer e eu disse venho de mando da agência foi a menina Rosinha da
agência que me mandou. Ela olhou­‑me mal­‑encarada eu sei como estas coi‑
sas são a princípio é sempre assim elas não gostam de caras novas mas é só
ao princípio que eu depois meto­‑me comigo e elas se querem afiar a língua
que vão namorar para as traseiras. Ela então disse­‑me entre para aí que eu
vou chamar não sei quem não percebi aquilo era mesmo um luxo e eu não
via mais nada. Esp’rei esp’rei fui olhando para os lados que é sempre bom
a gente saber onde se vai meter. Aquilo é que é uma entrada uma senhora
entrada ponha lá na sua ideia que dá sem favor cinco desta sala e sem favor
digo­‑lho eu os móveis todos em torcidos que para limpar o pó já lhe digo que
deve ser um bico de obra. Veio depois a senhora governanta que ela é mes‑
mo uma senhora não desfazendo na menina Rosinha uma senhora e bem­
‑educada toda sorrisos que só visto. A menina vem da parte da menina Rosa
perguntou­‑me ela muito delicada. Eu disse que sim senhora que vinha de
mando da menina Rosinha que era quem sempre me arranjava as casas que
vinha por causa dum lugar de criada de dentro que a menina Rosinha sabia
quem eu era que dava todas as referências e por aí fora. Quando eu estava a
despejar o saco e porque torna e porque deixa e a senhora governanta toda
sorrisos a ouvir­‑me muito delicada a tal campainha que parece um badalo
de igreja põe­‑se p’ra lá a tocar que nunca mais parava. A senhora governanta
até ficou aborrecida que com ela deve ser tudo pontos nos ii e aquilo não lhe

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228 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Albertino BRAGANÇA. «Solidão», in Rosa do Riboque e Outros Contos.


[1985] 1999. Lisboa: Caminho. 57­‑ 67.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Quando Mento Muala chegava, cheio de bons­‑dias (cuma bô sá ê, mina


mum?), cabelo levantado na cabeça, ar vivido, as raparigas comentavam, en‑
tusiasmadas:
— As pequenas!... Mento está chegar!
Vinha do mato, machim afiado, as calças enfiadas nas botas altas revira‑
das pelo cano, deixando a nu o teor branco do forro.
Por onde passasse eram sempre os suspiros das raparigas, o alvoroço das
mães aflitas, pois a presença de Mento pouco se conciliava com o sossego
das mais velhas de Almeirim e Maguida Malé.
Logo que chegasse, era sabido: ou saía uma história brejeira sobre as
suas façanhas nos campos da noite, o sono vezes sem conta interrompido
em váplegá e cama alheios, ou era um bate­‑mão, já pr’a já, que Deus não fez
tempo para se perder.
Transbordava vida, o raio do Mento. Folgazão de primeira, bailarino
como nenhum, era vê­‑lo enrolado no peito das raparigas, deixando­‑se trans‑
portar, embevecido, pela cadência da melodia. Deambulava então pelos
cantos do fundão, pisando terrenos só dele conhecidos, a voz sibilina sus‑
surrando o refrão aos ouvidos da rapariga que se lhe alojava nos braços.
Simples, despretensioso e respeitador, assim era Mento Muala. Mas
também brigão, quando a ocasião a isso o obrigasse. Como daquela vez
em Cova Barro, em que pusera termo à festa, em pleno momento de ani‑
mação.
Aconteceu que Mento conversava num grupo, enquanto do conjunto
saía um samba estridente, daqueles que incitam ao êxtase, à entrega total.
Nunca foi capaz de dizer donde surgira o par de dançarinos, mas o certo é
que se sentiu brutalmente pisado pelo homem, precisamente no dedinho
do pé esquerdo, onde um calo aflorava, rebelde, como couve­‑flor abrindo­‑se
numa horta, em pleno esplendor da gravana.
— Eh, você pisou­‑me! — reclamou Mento, a voz reflectindo dor, o ros‑
to margoso anunciando revolta iminente.

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camilo castelo branco 233

Camilo Castelo BRANCO. «O Cego de Landim — III», in Novelas do


Minho. [1875­‑1877] 2006. Porto: Caixotim. 125­‑129.

Ao Visconde de Ouguela

Sejamos amigos como foram nossos pais, e 


deixemos a nossos filhos o exemplo que recebemos.

I
Foi há treze anos, em uma tarde calmosa de Agosto, neste mesmo escritório,
e naquele canapé, que o cego de Landim esteve sentado. São inolvidáveis as
feições do homem. Tinha cinquenta e cinco anos, rijos como raros homens
de vida contrariada se gabam aos quarenta. Ressumbrava­‑lhe no semblante
anafado a paz e a saúde da consciência. Tinha as espáduas largas; cabia­‑lhe
muito ar no peito; coração e pulmões aviventavam­‑se na amplidão da pleu‑
ra elástica. Envidraçava as pupilas alvacentas com vidros esfumados, postos
em grandes aros de ouro. Trajava de preto, a sobrecasaca abotoada, a calça
justa, e a bota lustrosa; apertava na mão esquerda as luvas amarrotadas e
apoiava a direita no castão de prata de uma bengala.
Eu não o conhecia quando me deram um bilhete de visita com este
nome — ANTÓNIO JOSÉ PINTO MONTEIRO.
Em S. Miguel de Seide, uma visita, que se fizesse preceder do seu car‑
tão, era a primeira.
— Quem é? — perguntei ao criado.
— É o cego de Landim.
— E esse cego quem é?
O interrogado, para me esclarecer superabundantemente, respondeu
que era o CEGO, como se se tratasse de um cego por excelência e de histó‑
rica publicidade: Tobias, Homero, Milton, etc.
Mandei que o conduzissem ao meu escritório. Ouvi passos que subiam
rápidos e seguros uns doze degraus; e, no patamar da escada, esta pergunta
muito sacudida:
— À esquerda ou à direita?
— À esquerda — respondi, e fui recebê­‑lo à entrada.

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234 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Estendeu­‑me firme dous dedos, e desfechou­‑me logo em estilo de pre‑


sidente de câmara municipal sertaneja às pessoas reais, uma alocução à mi‑
nha imortalidade de romancista, lamentando que eu ainda não tivesse em
Portugal uma estátua... equestre; parece­‑me que ele não disse estátua eques‑
tre. Achei­‑lhe razão. Eu também já tinha lamentado aquilo mesmo; porém,
cumpria­‑me rejeitar modestamente a estátua, como o duque de Coimbra,
agradecendo a virginal lembrança do sr. Pinto Monteiro.
— Tenho ouvido ler os seus livros imortais — disse ele. — Não os leio
porque sou cego.
— Completamente? — perguntei, parecendo­‑me incompossível a ce‑
gueira absoluta com a segurança da sua agilidade nos movimentos.
— Completamente cego, há trinta e três anos. Na flor da idade, quando
saudava as flores da minha vigésima segunda primavera, ceguei.
— E resignou­‑se...
— Se me resignei!... Morri de dor, e ressuscitei em trevas eternas...
O sol, nunca mais!
Pungia­‑me a compaixão. Disse­‑lhe consolações banais; citei os mais lu‑
minosos cegos antigos e recentes. Nomeei­‑lhe o príncipe da lira peninsular,
Castilho, e ele atalhou:
— Castilho tem o génio que vê as coisas da terra e do céu. Eu tenho as
duas cegueiras do corpo e da alma.
Achei­‑o eloquentemente sóbrio e ático; figurou­‑se­‑me até literato dos
bons. Lembrei­‑me se ele vinha convidar­‑me para fundarmos um jornal em
Landim, ou se viria pedir­‑me para propor sócio correspondente da Acade‑
mia Real das Ciências.
Discreteámos de parte a parte em variados assuntos, até que ele expli‑
cou as suas pretensões. Tinha um litígio pendente sobre a posse disputada
de umas azenhas que lhe haviam custado três contos de réis, e pedia a minha
valiosa preponderância a fim de que os juízes de segunda instância lhe fizes‑
sem justiça inteira.
Observei­‑lhe que a minha influência poderia ser­‑lhe necessária, se a jus‑
tiça estivesse da parte do seu contendor; porquanto, quem não tem justiça
é que pede.
— Apoiado! — interrompeu ele. — A razão diz isso; mas acontece que
o meu contendor pede porque não tem justiça; ora não vão os juízes cuidar
que eu tenho mais confiança na lei do que neles.
Pareceu­‑me sagaz, argucioso e um pouco germânico o cego.
Deu­‑me quatro memoriais, acendeu o terceiro charuto, e ergue­‑se.
Acompanhei­‑o até ao portão, e vi­‑o cavalgar com garbo quase marialva uma

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camilo castelo branco 235

vistosa égua, passar as rédeas falsas pelas outras com destreza, esporear e
partir sozinho.

Ora o cego perdeu a demanda das azenhas porque as azenhas não eram per‑
feitamente dele, e eu não podia pedir aos desembargadores que as tirassem
ao dono e mas dessem a mim para eu as dar ao cego.
Nunca mais o vi. Retirou­‑me a sua admiração e mais a estátua. E, cinco
anos depois, morreu.
A história dos homens descomunais deve começar a escrever­‑se à lâm‑
pada do seu túmulo. À luz da vida tudo são miragens nas acções dos heróis
e estrabismos na contemplação dos panegiristas. É tempo de bosquejar o
perfil deste homem esquecido, e quem quiser que o tire a vulto em mármore
mais persistente. Pretendo desmentir os aleivosos que reputam Portugal um
alfobre de líricos, romancistas salobros de amorios de aldeia, porque não te‑
mos personagens bastantemente suculentos de quem se espremam roman‑
ces em 4 volumes.

II
Nascera em Landim em 11 de Dezembro de 1808.
1808! Os biógrafos portugueses, se escrevem de pessoa nascida naquela
data ou por perto, relatam­‑nos derramadamente a revolução a começar em
Luís XVI, exibem a guerra peninsular, e concluem o curso de história mo‑
derna ligando fatidicamente à evolução social o nascimento daquele sujeito.
No ano de 1808, uma das muitas pessoas que nasceram sem pesarem um
escrópulo, pelo peso velho, na balança dos lusos destinos, foi aquele Antó‑
nio José Pinto Monteiro.
Seu pai barbeava em Landim com ferocidade impune. A espada de
Afonso Henriques e as navalhas dele têm tradições sanguinárias. Ainda
hoje, transcorridos setenta anos, os netos dos seus fregueses parece que her‑
daram a sensação dos gilvazes dos avós. Em Landim fala­‑se dele como de
Torquemada em Valladolid. Aquele barbeiro é uma lenda como a de Gerião,
assassinado por Hércules, e a do monstro de Rodes cantado por Schiller.
António, o primogénito deste esfolador, estudou primeiras letras com
rara esperteza. Aos onze anos, era prodígio em tabuada e bastardinho. Aos
doze, imitava firmas com perfeição despremiada, e vingava­‑se do menos‑
preço em que o Estado o esquecia, estabelecendo correspondência entre
pessoas que não se correspondiam, mediante as quais, uma vez por outra,
agenciava alguns pintos.

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236 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Como talentos tais não se atabafam muito tempo debaixo do alqueire,


o rapaz sofreu algumas contusões. Um monge beneditino de Santo Tirso
compadeceu­‑se do moço, em tão verdes anos perdido, à conta da sua habi‑
lidade funesta: pagou­‑lhe a passagem para o Brasil, porque sabia que os ares
de Santa Cruz são como os do Éden para refazer inocentes.
Empregou­‑se como caixeiro no Rio. Foi estimado nos primeiros três
anos. Estremava­‑se dos seus broncos patrícios no dom da palavra, nas lé‑
rias aos fregueses, nos ardis lícitos do balcão, nas ladroíces consuetudinárias
que afirmam a vocação pronunciada, as quais, no calão da óptica mercantil,
se chamam: «lume no olho». Nas horas feriadas, lia aplicadamente e tangia
violão. A sua especialidade literária era a eloquência tribunícia. Estudara
francês para ler Mirabeau e Danton. Enchera­‑se deles, e ensaiava repúblicas
federalistas com os caixeiros, pedindo cabeças de reis a uns pobres parvajo‑
las que suspiravam apenas por cabeças de gorazes.
Os patrões não farejaram um acabado Robespierre no caixeiro; mas,
como desconhecessem a vantagem da apoteose dos girondinos em uma loja
de molhados, expulsaram­‑no como republicano.
Pinto Monteiro intrometeu­‑se na política brasileira, iniciou­‑se na ma‑
çonaria em 1830, fez discursos vermelhos contra o imperador e escreveu
clandestinamente. Esteve assim na fronteira do país prometido aos eter‑
nos Paturots. É indeterminável o estádio que ele ganharia, se um militar
imperialista lhe não cortasse o rosto com um látego. Uma das tagantadas
contundiu­‑lhe os olhos. Pinto Monteiro cegou.

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luís de camões 237

Luís de CAMÕES. «Canto VII —Estâncias 77­‑ 87», in Os Lusíadas. [1572]


1992. Lisboa: Ministério da Educação e Instituto Camões. 194­‑196.

Alça­‑se em pé, co ele o Gama junto,


Coelho de outra parte e o Mauritano;
Os olhos põe no bélico trasunto
De um velho branco, aspeito venerando,
Cujo nome não pode ser defunto
Enquanto houver no mundo trato humano:
No trajo a Grega usança está perfeita;
Um ramo, por insígnia, na direita.

Um ramo na mão tinha… Mas, ó cego,


Eu, que cometo, insano e temerário,
Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego,
Por caminho tão árduo, longo e vário!
Vosso favor invoco, que navego
Por alto mar, com vento tão contrário
Que, se não me ajudais, hei grande medo
Que o meu fraco batel se alague cedo.

Olhai que há tanto tempo que, cantando


O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,
A Fortuna me traz peregrinando,
Novos trabalhos vendo e novos danos:
Agora o mar, agora experimentando
Os perigos Mavórcios inumanos,
Qual Cánace, que a morte se condena,
N a mão sempre a espada e noutra a pena;

Agora, com pobreza avorrecida,


Por hospícios alheios degradado;
Agora, da esperança já adquirida,

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238 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

De novo mais que nunca derribado;


Agora às costas escapando a vida,
Que dum fio pendia tão delgado
Que não menos milagre foi salvar­‑se
Que pera o Rei Judaico acrecentar­‑se.

E ainda, Ninfas minhas, não bastava


Que tamanhas misérias me cercassem,
Senão que aqueles que eu cantando andava
Tal prémio de meus versos me tornassem:
A troco dos descansos que esperava,
Das capelas de louro que me honrassem,
Trabalhos nunca usados me inventaram,
Com que em tão duro estado me deitaram.

Vede, Ninfas, que engenhos de senhores


O vosso Tejo cria valerosos,
Que assi sabem prezar, com tais favores,
A quem os faz, cantando, gloriosos!
Que exemplos a futuros escritores,
Pera espertar engenhos curiosos,
Pera porem as cousas em memória
Que merecerem ter eterna glória!

Pois logo, em tantos males, é forçado


Que só vosso favor me não faleça,
Principalmente aqui, que sou chegado
Onde feitos diversos engrandeça:
Dai­‑mo vós sós, que eu tenho já jurado
Que não no empregue em quem o não mereça,
Nem por lisonja louve algum subido,
Sob pena de não ser agradecido.

Nem creiais, Ninfas, não, que fama desse


A quem ao bem comum e do seu Rei
Antepuser seu próprio interesse,
Imigo da divina e humana Lei.
Nenhum ambicioso que quisesse
Subir a grandes cargos, cantarei,

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luís de camões 239

Só por poder com torpes exercícios


Usar mais largamente de seus vícios;

Nenhum que use de seu poder bastante


Pera servir a seu desejo feio,
E que, por comprazer ao vulgo errante,
Se muda em mais figuras que Proteio.
Nem, Camenas, também cuideis que cante
Quem, com hábito honesto e grave, veio,
Por contentar o Rei, no ofício novo,
A despir e roubar o pobre povo!

Nem quem acha que é justo e que é direito


Guardar­‑se a lei do Rei severamente,
E não acha que é justo e bom respeito
Que se pague o suor da servil gente;
Nem quem sempre, com pouco experto peito,
Razões aprende, e cuida que é prudente,
Pera taxar, com mão rapace e escassa,
Os trabalhos alheios que não passa.

Aqueles sós direi que aventuraram


Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida,
Onde, perdendo­‑a, em fama a dilataram,
Tão bem de suas obras merecida.
Apolo e as Musas, que me acompanharam,
Me dobrarão a fúria concedida,
Enquanto eu tomo alento, descansado,
Por tornar ao trabalho, mais folgado.

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240 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Luís de CAMÕES. «Canção IX», in Rimas. 1994. Coimbra: Almedina.


220­‑223.

Junto de um seco, fero e estéril monte,


inútil e despido, calvo, informe,
da natureza em tudo aborrecido;
onde nem ave voa, ou fera dorme,
nem rio claro corre, ou ferve fonte,
nem verde ramo faz doce ruído;
cujo nome, do vulgo introduzido,
é felix, por antífrase, infelice;
o qual a Natureza
situou junto à parte
onde um braço de mar alto reparte
Abássia, da arábica aspereza,
onde fundada já foi Berenice,
ficando à parte donde
o sol que nele ferve se lhe esconde;

nele aparece o Cabo com que a costa


Africana, que vem do Austro correndo,
limite faz, Arómata chamado.
Arómata outro tempo, que, volvendo
os céus, a ruda língua mal composta,
dos próprios outro nome lhe tem dado.
Aqui, no mar, que quer apressurado
entrar pela garganta deste braço,
me trouxe um tempo e teve
minha fera ventura.

Aqui, nesta remota, áspera e dura


parte do mundo, quis que a vida breve
também de si deixasse um breve espaço,

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luís de camões 241

porque ficasse a vida


pelo mundo em pedaços repartida.

Aqui me achei gastando uns tristes dias,


tristes, forçados, maus e solitários,
trabalhosos, de dor e d’ira cheios,
não tendo tão somente por contrários
a vida, o sol ardente e águas frias,
os ares grossos, férvidos e feios,
mas os meus pensamentos, que são meios
para enganar a própria natureza,
também vi contra mi,
trazendo­‑me à memória
alg a já passada e breve glória,
que eu já no mundo vi, quando vivi,
por me dobrar dos males a aspereza,
por me mostrar que havia
no mundo muitas horas de alegria.

Aqui estiv’eu co estes pensamentos


gastando o tempo e a vida; os quais tão alto
me subiam nas asas, que caía
(e vede se seria leve o salto!)
de sonhados e vãos contentamentos
em desesperação de ver um dia.
Aqui o imaginar se convertia
num súbito chorar, e nuns suspiros
que rompiam os ares.
Aqui, a alma cativa,
chagada toda, estava em carne viva,
de dores rodeada e de pesares,
desamparada e descoberta aos tiros
da soberba Fortuna;
soberba, inexorável e importuna.

Não tinha parte donde se deitasse,


nem esperança alg a onde a cabeça
um pouco reclinasse, por descanso.
Tudo dor lhe era e causa que padeça,

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242 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

mas que pereça não, porque passasse


o que quis o Destino nunca manso.

Oh! que este irado mar, gritando, amanso!


Estes ventos da voz importunados,
parece que se enfreiam!
Sòmente o Céu severo,
as Estrelas e o Fado sempre fero,
com meu perpétuo dano se recreiam,
mostrando­‑se potentes e indignados
contra um corpo terreno,
bicho da terra vil e tão pequeno.

Se de tantos trabalhos só tirasse


saber inda por certo que alg a hora
lembrava a uns claros olhos que já vi;
e se esta triste voz, rompendo fora,
as orelhas angélicas tocasse
daquela em cujo riso já vivi;
a qual, tornada um pouco sobre si,
revolvendo na mente pressurosa
os tempos já passados
de meus doces errores,
de meus suaves males e furores,
por ela padecidos e buscados,
tornada (inda que tarde) piadosa,
um pouco lhe pesasse
e consigo por dura se julgasse;

isto só que soubesse, me seria


descanso para a vida que me fica;
co isto afagaria o sofrimento.
Ah! Senhora, Senhora, que tão rica
estais, que cá tão longe, de alegria,
me sustentais cum doce fingimento!
Em vos afigurando o pensamento,
foge todo o trabalho e toda a pena.
Só com vossas lembranças
me acho seguro e forte

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luís de camões 243

contra o rosto feroz da fera Morte,


e logo se me ajuntam esperanças
com que a fronte, tornada mais serena,
Torna os tormentos graves
em saüdades brandas e suaves.

Aqui co elas fico, perguntando


aos ventos amorosos, que respiram
da parte donde estais, por vós, Senhora,
às aves que ali voam, se vos viram
que fazíeis, que estáveis praticando,
onde, como, com quem, que dia e que hora.
Ali a vida cansada, que melhora,
toma novos espritos, com que vença
a Fortuna e trabalho,
só por tornar a ver­‑vos,
só por ir a servir­‑vos e querer­‑vos.
Diz­‑me o Tempo, que a tudo dará talho;
mas o Desejo ardente, que detença
nunca sofreu, sem tento
m’abre as chagas de novo ao sofrimento.

Assi vivo; e se alguém te perguntasse,


Canção, como não mouro,
podes­‑lhe responder que porque mouro.

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244 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Luís de CAMÕES. [Erros meus, má fortuna, amor ardente], in Rimas.


1994. Coimbra: Almedina. 170.

Erros meus, má fortuna, amor ardente


em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava o amor sòmente.

Tudo passei; mas tenho tão presente


a grande dor das cousas que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;


dei causa [a] que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.


Oh! quem tanto pudesse que fartasse
este meu duro génio de vinganças!

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luís cardoso 245

Luís CARDOSO. Crónica de Uma Travessia. 1997. Lisboa: Dom Quixote.


18­‑23.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Recebida a ordem de abandono de Laclubar, friorenta e ventosa, onde se


plantava o chá, morangos e dióspiros e se bebia leite de búfala, arrumadas
as malas, pertenças e petromax, descemos o planalto de Cribas num dia de
chuva que fazia escorregar os cavalos pelos caminhos lamacentos. Notei o
ar silencioso dos meus progenitores como se carregassem um pesado fardo
ou tivessem de cumprir uma lacrimosa pena ou penitência. O vale da ribei‑
ra de Lacló estendia­‑se numa longa distância e planície, ladeada de várzeas
de arroz; mais tarde um governador aqui tentaria fazer perdurar o seu es‑
tatuto, mandando construir uma ponte com o seu nome, imitando o outro
da mãe­‑pátria, mas que as águas rebeldes e insubmissas das monções se en‑
carregaram de transformar sucessivamente num monte de destroços — o
prenúncio do futuro. Nas várzeas construídas em talhões quadrangulares
adormeciam búfalos escuros, saíam homens de tronco nu que arrastavam
as pernas inchadas e pesadas dum mal dos campos alagados que o meu pai
dizia chamar­‑se em tétum ain­‑potes1, e que eu entendia como sendo os pés
em forma de botas.
Um velho Chevrolet aguardava­‑nos em Manatuto, e pouco depois o con‑
dutor dava à manivela e o carro roncava e suava através dos montes de Subão,
secos e cobertos de pedregulhos e eucaliptos brancos, disfarçando o grosso
filão de mármore que hoje é explorado pelos Indonésios. Em cada curva ha‑
via uma capelinha, uma santa, uma cruz branca com o nome duma entidade
falecida anunciando precaução. Minha mãe mandava parar em cada estação e
rezava uma oração, não fôssemos nós ter o mesmo destino daquelas entidades
que se desfizeram no longo precipício salpicado de rochas cortantes e que
acabava num fundo de mar calmo e azul com tubarões ao largo.
Díli ainda era uma cidade apagada de luz eléctrica quando fomos despe‑
jados na praia de Lecidere, próxima do Paço Episcopal. Dirigimo­‑nos à resi‑
dência do bispo, o então D. Jaime Garcia Goulart, que nos abençoou, ainda

1 Elefantíase.

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248 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Armando Silva CARVALHO. «Le Beau Séjour», in Lisboas. [2000] 2007.


Lisboa: Assírio & Alvim. 422­‑423.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Também este não dorme de noite


mas parece dormir dentro dos meus olhos.
Entre nós não há nada a não ser o corpo
de uma cerveja turva de sangue.

Estamos tão perto desse Beau Séjour


onde tudo se passa em panorama turístico
cenário de marquesas de azulejo
ou de sedutores com o pé no estribo.

São coisas velhas. E o novo aqui é o Brasil


do Ronaldo e a minha elegante camisa
azul­‑turquesa que soube delicadamente
enxugar uma lágrima de espuma.

Não sei com que respeito ele me faz cúmplice


do seu tédio e eu a ele do meu riso
de tradutor traído.
Eu sei. Claro que sei. Também vi esse filme.

Sai uma dose de mãozinhas de vitela


para as mãos deste príncipe
que me deixa passar por entre cortesãs
que não vê nem ouve e lhe pedem tremoços.

A cidade por dentro é um novelo de medos


e alguma ternura de papel pintado.
Não há como sermos grandes na cozinha
dizem as facas limpas já na sobremesa.

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250 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Maria Judite de CARVALHO. «George», in Seta Despedida. 1995. Lisboa:


Europa­‑América. 31­‑44.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Andam lentamente, mais do que se pode, como quem luta sem forças con‑
tra o vento, ou como quem caminha, também é possível, na pesada e es‑
pessa e dura água do mar. Mas não há água nem vento, só calor, na longa
rua onde George volta a passar depois de mais de vinte anos. Calor e tam‑
bém aquela aragem macia e como que redonda, de forno aberto, que talvez
venha do sul ou de qualquer outro ponto cardeal ou colateral, perdeu a
bússola não sabe onde nem quando, perdeu tanta coisa sem ser a bússola.
Perdeu ou largou?
Caminham pois lentamente, George e a outra cujo nome quase quis es‑
quecer, quase esqueceu. Trazem ambas vestidos claros, amplos, e a aragem
empurra­‑os ao de leve, um deles para o lado esquerdo de quem vai, o outro
para o lado direito de quem vem, ambos na mesma direcção, naturalmente.
O rosto da jovem que se aproxima é vago e sem contornos, uma pin‑
celada clara, e quando os tiver, a esses contornos, ele será o rosto de uma
fotografia que tem corrido mundo numa mala qualquer, que tem morado no
fundo de muitas gavetas, o único fetiche de George. As suas feições ainda
são incertas, salpicando a mancha pálida, como acontece com o rosto das
pessoas mortas. Mas, tal como essas pessoas, tem, vai ter, uma voz muito
real e viva, uma voz que a cal e as pás de terra, e a pedra e o tempo, e ainda
a distância e a confusão da vida de George, não prejudicaram. Quando falar
não criará espanto, um simples mal­‑estar.
Agora estão mais perto e ela encontra, ainda sem os ver, dois olhos lar‑
gos, semicerrados, uma boca fina, cabelos escuros, lisos, sobre um pescoço
alto de Modigliani. Mas nesse tempo, dantes, não sabia quem era Modigliani
e outros que tais, não eram lá de casa, os pais tinham sido condenados pelas
instâncias supremas à quase ignorância, gente de trabalho, diziam como se
os outros não trabalhassem, e sorriam um pouco com a superioridade dessa
mesma ignorância se a ouviam falar de um livro, de um filme, de um quadro
nem pensar, o único que tinham visto talvez fosse a velha estampa desbota‑
da do Angelus que estava na casa de jantar. Com superioridade, pois, e tam‑

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256 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Mia COUTO. «Quarto Capítulo», in Terra Sonâmbula. 1992. Lisboa:


Caminho. 69­‑ 91.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Uma vez mais Tuahir decide explorar os matos vizinhos. A estrada não traz
ninguém. Enquanto a guerra não terminasse era mesmo melhor que nenhu‑
ma pessoa estradeasse por ali. O velho sempre repetia:
— Alguma coisa, algum dia, há­‑de acontecer. Mas não aqui, emendava baixi‑
nho.
De facto, a única coisa que acontece é a consecutiva mudança da paisa‑
gem. Mas só Muidinga vê essas mudanças. Tuahir diz que são miragens, fru‑
tos do desejo de seu companheiro. Quem sabe essas visões eram resultado
de tanto se confinarem ao mesmo refúgio. Por isso ele queria uma vez mais
partir, tentar descobrir nem sabia o quê, uma réstia de esperança, uma saída
daquele cerco.
— Você quer sair, não é?
— Quero, tio. Esta estrada está morta.
— Esta estrada está morta!? Mas não entende que isso é muito bom, esta estrada
estar morta é que nos dá boa segurança?
— Mas nós, desta maneira, não vamos a lado nenhum...
— Isso quer dizer que também aqui não chega ninguém.
O velho pondera: não valia a pena insistir. O melhor seria uma menti‑
ra, dessas tecidas pela bondade. Diria ao miúdo que aceitava partir. Depois
fingiria afastar­‑se, enquanto andavam em círculos. Regressariam sempre ao
machimbombo, à mesma estrada de onde haviam partido. Assim ele fizera
desde a primeira vez que saíram da estrada.
Nessa tarde, o velho comanda uma dessas falsas viagens. Primeiro, se‑
guem ao longo da picada. A estrada onde moram surge a Muidinga com
novas vistas, parecendo pentear a savana, risco ao meio. Só depois deri‑
vam por atalhos e trilhos. No sossego da paisagem nenhuma coisa pedia
urgência. Contudo, Muidinga não está tranquilo: sempre o susto espreita
no farfalhar da folhagem, o segredar da morte, essa infatigável coscuvilhei‑
ra. Vão pisando caminhos saudosos do pé de gente. Tuahir segue à fren‑
te, abrindo trilhos por onde depois o rapaz avança. De repente, o mundo

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vimala devi 273

Vimala DEVI. «Ocaso», in Monção. [1963] 2003. Lisboa: Edições Escritor.


53­‑ 57.
­

Texto sujeito a Direitos de Autor

A avó passou a ser um símbolo. Em vida era respeitada por toda a família e os
manducares veneravam­‑na como a um ídolo previdente e protector. E mes‑
mo depois de morta, continuou a influenciar todas as nossas acções. Era ela,
sempre ela, quem, do coval, continuava a dirigir as nossas vidas.
Durante muitos anos, sempre que algum de nós hesitava perante os
enigmas do mundo, a nossa mãe, apossada do terrível medo de que se extin‑
guisse em nós a chama que a avó alimentara, dizia, esperançada:
«Que a vossa avó vos guie, meus filhos!»
Estas palavras, pronunciadas quase religiosamente, estimulavam­‑nos
como um elixir mágico que fazia remontar as velhas tradições brâmanes tão
respeitadas na família. Então, sem darmos por isso, a avó ressuscitava e vol‑
távamos a vê­‑la, sentada no cadeirão da sala de jantar, dirigindo a criadagem,
animosa e serena, ou na propriedade, a assistir ao colhimento de cocos, que
manducares cabisbaixos recolhiam para o godão.
Momento quase religioso era aquele em que, sentada à cabeceira da
mesa comprida, a avó presidia ao chá. Ensinava­‑nos a sorvê­‑lo serenamente,
aos pequenos goles, sem ruído. As visitas que aparecessem naquele momen‑
to eram convidadas a tomar parte na cerimónia, sem que, no entanto, o ri‑
tual sofresse a mínima alteração.
Quando eu e os meus irmãos íamos a casa de algum parente, a Mapu‑
çá, a Badém, ou a Pangim, recomendava­‑nos sempre discrição. Sabia que os
adultos se serviam muitas vezes das crianças para indagarem sobre os inte‑
riores da casa.
«‘Não sei’ é a melhor resposta quando lhes fazem muitas perguntas»,
dizia, sorrindo com malícia.
A morte súbita do nosso pai em África deitou­‑a abaixo. Pode dizer­‑se
que foi daí em diante que começou a envelhecer, como deliberadamente.
«Acabou­‑se a casa!», repetia sem parar, no quarto do oratório, onde pas‑
sou a ficar a maior parte do tempo, entre rezas, de olhos fixos na imagem do
Coração de Jesus.

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276 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Almeida FARIA. «21 — Tiago», in A Paixão. [1965] 2013. Porto: Porto


Editora. 97­‑101.

Texto sujeito a Direitos de Autor

De inverno assentava­‑se nos cômoros da quinta, ao pé da grande alcárcova


rumorosa e lavada, sob o caramanchão que pingava de chuva, e ali ficava
horas, de cócoras na terra, formando, paciente, figurinhas de barro, cães,
mulheres, cavaleiros; automóveis; amassava a terra com força numa bola,
a águalmagre corria esguichando pelos dedos, e o cu das calças era, em bre‑
ve, uma pasta de lama; a chuva encharcava­‑lhe os cabelos, fazia­‑o tiritar, mas
dali não saía nem por nada; essas rudes esculturas de terra estavam ligadas
à chuva como as heras às arvores (as heras cresciam pelas paredes da casa
numa força dinâmica, em ramos isolados, como os braços dum candelabro
sagrado, os seus sete altos braços, ou antes uma onda que pela rocha subisse,
rebentada, a rocha que forma as paredes do forno, do velho forno em que o
pão se faz há séculos, em volta do qual andam, esgravatando, sujas e agoiren‑
tas, as galinhas da Índia a que, pelo seu cantar agudo, lancinante, triste, trá‑
gico, o povo chama fracas, e que são do tamanho de perdizes, ou um pouco
maiores, mas pedrezes e pardas, de cabeça branca com massas encarnadas e,
em cima de tudo, uma crista sem graça; e avançam miseráveis por piteiras e
cardos, por entre o canavial alto, de canas velhas, grandes, cantantes como
pinheiros, ou ainda por cima das belas malvas vermelhas, alinhadas ao longo
do largo muro da quinta) e, quando o sol chegava e as nuvens fugiam, em‑
bora pudesse continuar aquilo, deixava tudo ali, secando e esboroando­‑se,
junto do rastejar lento duma beldroega (grossos caules castanhos pelo lado
de cima e dum verde puro em baixo, brilhando toda a um vermelho intenso,
quente, folhas carnudas e flores curtas e amarelas, redondas, sem ter cheiro),
não se lembrando mais das esculturas, dos seus altos relevos, senão quando
chovia; então recomeçava o ritual e obsessão, febril e surdamente; trazia
às vezes velhos brinquedos de pasta de cartão, um cavalo cinzento com o
jóquei, alegre e leve, em cima, pernas escarranchadas, dobradas, muito fir‑
mes, podendo separar­‑se do animal mas sem permanecer em pé se fora dele,
como certos homens feitos para uma coisa só e escravos dessa coisa, ele o
sabia, já, ou pressentia, através das suas infindáveis viagens; eram viagens de

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almeida faria 279

Yao FENG. «Peixe salgado», in Palavras Cansadas da Gramática. 2015.


Lisboa: Gradiva. 83.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Como é que um peixe salgado retornaria à vida?


Em busca daquela agulha de prata
percorreu todo o mar, prometeu amor,
que só findaria, no caso de as montanhas despencarem
ou de o mar secar,
e para ver o horizonte, saltou da água.

Agora, pendurado sob o sol,


deixa que a brisa o absorva até à última gota de mar.
E o sal que o destino lhe impõe
salga o tempo para além do mar.

Não conseguiu no entanto fechar os olhos


mesmo depois da morte.
Vendo que a chuva cai do telhado
para os rios, o peixe sonha o seu regresso ao mar.

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280 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Henrique de Senna FERNANDES. «Capítulo 3», in Amor e Dedinhos de Pés.


1994. Macau: Instituto Cultural de Macau. 19­‑24.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Que seria de Francisco da Mota Frontaria sem a protecção e o desvelo da


Títi Bita? Um garoto de rua. A sorte favorecera­‑o. Desde a primeira noite
de orfandade transplantou­‑se do inferno para o paraíso. Gozou dos bons
lençóis, um quarto só para ele, uma criada para servi­‑lo, fatinho limpo,
enlambuzando­‑se dos doces e salgados da tia.
Tornou­‑se o bonito menino da bondosa senhora, o seu afecto e a sua
fraqueza. Cheio de mimos, longe do rebenque do pai, que lhe batia por tudo
e por nada, dominou­‑a, alcançando tudo que a sua imaginação infantil ca‑
prichava, sem utilizar birras ou explosões de choro. Quando ouvia um «não»
inicial, punha­‑se com uma cara de coitado que amolentava logo o coração
da tia. Sendo de natureza alegre e gentil, Francisco conseguia atingir o seu
objectivo com beijos e meiguices. Para a Títi Bita era um anjo.
Era também uma criança formosa, asseada, cheirando a sabonete, os
cabelos bem penteados e, à vista de estranhos, obediente. Mas a boa educa‑
ção, a finura de maneiras, a partir dos sete anos, deveram­‑se, sobretudo, ao
Tio Timóteo.
Tendo, a princípio, acolhido muito mal o petiz, mudou, depois, de opi‑
nião. Afinal, essa criança, gostasse ou não gostasse, era um Frontaria, o úni‑
co que continuaria a família em Macau, já que a Providência, por um desses
mistérios cruéis, não lhes presenteara, a ele e à mulher, a ventura de terem
filhos. Engolindo um enorme desgosto, Timóteo Frontaria passou a encarar
o sobrinho como a única esperança da família. Depois de muitas discussões
com a irmã, ficou encarregado da educação do pimpolho. Entendeu criá­‑lo
à maneira prussiana, fundada na admiração pelos guerreiros que tão facil‑
mente tinham vencido os Franceses na Guerra de 1870. Perante o horror da
irmã Bita, gritava:
— O que este menino precisa é de disciplina. Tem o sangue sujo e neces‑
sita de uma boa limpeza para ser um homem.
As medidas que tomava eram, porém, contrariadas pela irmã e dali nas‑
ciam divergências intermináveis. Francisco nutria um respeito visceral pelo

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286 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

José Gomes FERREIRA. «Café 1945­‑1946­‑1947­‑1948», in Poeta Militante II.


Viagem do século xx em mim. [1945­‑1948] 1977. Lisboa: Moraes Editora. 68.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Vai­‑te, Poesia!

Deixa­‑me ver friamente


a realidade nua
sem ninfas de iludir
ou violinos de lua.

Vai­‑te, Poesia!

Não transformes o mundo


descarnado e terrível
num céu de esquecer
com mendigos de nuvens
famintos de estrelas
e feridas a cheirarem a cravos
— enquanto os outros, os de carne verdadeira,
uivam em vão
a sua fome de cadelas
e de pão.

Vai­‑te, Poesia!

Deixa­‑me ver a vida


exacta e intolerável
neste planeta feito de carne humana a chorar
onde um anjo me arrasta todas as noites para casa pelos cabelos
com bandeiras de lume nos olhos,
para fabricar sonhos
carregados de dinamite de lágrimas.

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288 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Vergílio FERREIRA. «Capítulo XXXVII», in Para Sempre. [1983] 1984.


Lisboa: Bertrand. 301­‑306.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Levanto­‑me do sofá, atravesso o corredor. Mas quando entro na sala da


escada para o andar de cima. A um canto está a máquina de costura, tia
Luísa senta­‑se­‑lhe em frente. Está imóvel, um pouco dobrada. À luz dúbia
da tarde que entra pela janela, vejo­‑lhe a face de cera, os óculos partidos,
na ponta do nariz. Da tábua da máquina cai­‑lhe em pregas para o chão um
lençol todo em folhos. Deve estar a remendá­‑lo, mas não se move. Tem as
mãos paradas junto à agulha no acerto do trabalho. Ficou decerto assim
desde sempre, parada na eternidade. A casa adormece no silêncio, só de
vez em quando passa uma ave com o seu grito no esquadriado da janela.
Ao lado, encostado à parede, está um grande baú de couro. É um baú de
pêlo amarelo, corrido de pregaria nas arestas, assente em dois suportes de
madeira. Nos sítios mais manuseados o pêlo raspou­‑se, ficou só o couro à
mostra. É um baú onde se guardavam as grandes roupas das camas, lençóis,
cobertas de malha com relevos. Por cima, na parede, há uma imagem do
Coração de Maria colada num rendilhado de papel já a desfazer­‑se. E de
repente reparo que há um vulto sentado no baú — conheço­‑te, conheço­‑te,
desde quando? minha imagem de outrora, de um tempo perdido na me‑
mória. Veste o seu fato de veludo preto, os calções desajeitados até abaixo
dos joelhos. O casaco prende por um cinto com um botão, a camisa abre
numa gola branca saída do casaco. Está sentado no baú de couro, as mãos
inertes no colo, os joelhos unidos de um encolhimento interior, os olhos
perdidos no chão. Sapatos e meias pretas até abaixo dos joelhos, é um fato
de luto.
Conheço­‑te, fito­‑te ainda um pouco na hesitação de te ver aqui, estás
só.
— Paulinho — digo­‑lhe a medo.
— Que é que queres?
Ergue a face devagar — que é que queres? Tens o cabelo corrido para a
testa, mas a um canto arrepiava­‑se, formando ninho.
— Que é que tens? — pergunto­‑lhe ainda. — Ainda perguntas?

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292 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Almeida GARRETT. «Solidão», in Flores sem Fruto. [1845] 1984. Lisboa:


Comunicação. 58­‑ 62.

Alonguei­‑me fugindo e vivi na


soedade.
ARRAES — DO PSALM.

I
Solidão, eu te saúdo! silêncio dos bosques, salve! A ti, venho, ó natureza;
abre­‑me o teu seio.
Venho depor nele o peso aborrecido da existência; venho despir as fadigas
da vida.
Quero pensar só comigo; quero falar a sós com o meu coração.
Os homens não me deixam; amparai­‑me vós, solidões amenas, abrigai­‑me,
ó solidões deleitosas.
Franqueia­‑me, ó soledade, o tesouro das tuas selvas; abre­‑me o santuário
das tuas grutas.
Eu perguntarei aos troncos pelas idades que viram correr, e os troncos me
responderão, meneando as suas ramas: «Elas passaram!»
Eu contarei aos prados os meus amores; e as boninas abrirão o cálix para
me dizer: «Também nós amamos.»
Interrogarei os penhascos pelos ecos das vozes dos homens; e os penhascos
mudos não ousarão repetir­‑me os sons falazes dessa voz.
Eu direi às ruínas: «Que é das mãos que vos construíram, que é das raças
que vos habitaram?»
E as ruínas se calarão; mas a pedra de um sepulcro falará por elas.
A pedra do sepulcro dirá: «A morte passou, e as suas pegadas ficaram
impressas no caminho dos séculos.»
Solidão, eu te saúdo! silêncio dos bosques, salve!

II
Que doce não é fugir dos homens para viver com as plantas!
Que prazer não é deixar essas habitações alinhadas pelo prumo de sua pe‑
quenez e vir no desalinho dos campos folgar em liberdade com a natureza!
Nascentes que rompeis do seio das rochas! vós não sois comprimidas nos
estreitos canais que fabricou a arte:

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almeida garrett 293

Livres surgis da terra, livres jorrais das penhas; e livres correis dos montes a
cobrejar nos prados por entre o matiz das flores.
Árvores frondosas, vegetai sem medo; a foice do jardineiro não vos
despojará da rama para o monótono prazer do luxo contrafeito.
E vós, rochedos majestosos, repousai tranquilos nas elevações da terra: que
não vira o cinzel do t’estatuário roubar­‑vos as formas da natureza:
Para transmitir ao neto degenerado as feições do avô ambicioso.
Solidão, eu te saúdo! Silêncio dos bosques, salve.

III
Solidão, eu venho a ti, já me não quero senão no teu seio.
Trago o coração oprimido; uma mão de Cerro mo aperta.
O espinho da dor está cravado no meio dele; a angústia o torce sem
piedade.
O afogo lhe travou das artérias; todo o peso da desgraça está em cima dele.
O meu sangue já não tem vida; e circula de mau grado pelas veias froixas.
Arde­‑me não sei que fogo no íntimo do peito: queria chorar e não tenho
lágrimas.
Travam­‑me na boca os azedumes do passado; aridez do futuro secou os
meus olhos.
O que foi e o que há­‑de ser anda­‑me esvoaçando pela fantasia; são
pensamentos de asas negras como o corvo agoureiro.
O momento que é desaparece no meio deles; porque não é nada.
O homem não tem senão o passado e o futuro; passado para chorar,
o futuro para temer.
O presente não é nada; e é só o que ele sabe.
Já se esqueceu do passado, e o futuro não lho disse Deus.
Eu vivo no futuro por uma esperança mais ténue que o fio da aranha; existe
no passado porque ainda se me não foi o amargor dos tragos que bebi.
O presente está no meio, como o ponto no centro do círculo; mas a sua
existência é quimera.
Os raios que partem para a circunferência são reais: tal é a minha vida.
Daquele ponto imaginário tiro linhas verdadeiras para o que fui e para o
que hei­‑de ser; todas vão parar na desgraça.
Eu tive coração, amei; ainda o tenho, e amo.
Mas o meu amor fadou­‑o a desventura; bafejou­‑o o sopro do mal.
Fui planta que só lágrimas a regaram; o sol da felicidade não se riu para ela.
Deu flores outoniças que não desabrocharam: o granizo as acrescentou a
geada lhes queimou os germes.

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294 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Não houve esperança de fruto; só o prazer, mas tão louco! de as colher sem
ela.
Por isso está triste a minha alma; triste até à morte.
E os homens cuidam que eu sou feliz; e eu rego de noite o meu leito com
as lágrimas dos olhos. Porque a noite fez­‑se para chorar, quem tem que
chorar; de dia o avisado mente e ri.
Por isso eu não quero viver mais com os homens; porque quero chorar de
noite e de dia.
A cidade é para mim o deserto; a solidão é a minha pátria.
Solidão, eu te saúdo! Silêncio dos bosques salve!

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teolinda gersão 295

Teolinda GERSÃO. A Árvore das Palavras. [1997] 2000. Lisboa: Dom


Quixote. 16­‑22.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Todas as coisas, no quintal, dançavam, as folhas, a terra, as manchas de sol,


os ramos, as árvores, as sombras. Dançavam e não tinham limite, nada tinha
limite, nem mesmo o corpo, que crescia em todas as direcções e era grande
como o mundo. O corpo era a árvore e o corpo era o vento. Tocava­‑se no
céu levantando apenas um pouco a cabeça, balançava­‑se no vento dançando,
nessa altura a vida era dançada, só de pôr um pé adiante do outro o corpo
se acendia em festa: tudo estava nele e era ele, os gritos altos dos pássaros,
o bafo quente do Verão africano, a grande noite povoada de estrelas. Mas o
infinito não tinha sobressalto, nem sequer surpresa, era uma ideia simples,
apenas a certeza de que se podia crescer até ao céu.
Talvez porque se era tão grande se sabiam todos os segredos, o mundo
era familiar, nos mais ínfimos detalhes conhecido: sabia­‑se a casca sinuosa
do caracol e o ruído da chuva sobre as folhas. As manchas do sol no muro e
a cantilena alta das cigarras. O sabor da terra sobre a língua e o gosto adoci‑
cado das formigas.
O quintal e a casa também não tinham limite e tudo cabia dentro deles:
ouviam­‑se, quando a gente se distraía e pensava, os passos furtivos dos ani‑
mais selvagens, e dormindo sentia­‑se na cara o seu bafo. E quando se dormia
assim fundo, os pés e os braços misturavam­‑se com o seu corpo bravo e sa‑
biam de repente o salto, de um ramo para outro, mesmo quando era preciso
saltar sobre as torrentes e as quedas de água dos sonhos.
Então suspirava­‑se, respirando com a boca entreaberta nos lençóis,
voltava­‑se a cabeça na almofada, mas continuava­‑se a correr na selva, poi‑
sando sem ruído as patas grossas, farejando o ar tépido da noite. Atento
ao menor rumor, por entre as folhas. Percorriam­‑se longos caminhos, na
floresta e na noite. Bebia­‑se enfim, a água procurada há muito. Baixava­
‑se a cabeça até tocar na superfície e partia­‑se de novo, no pé ligeiro do
antílope.
Ou mergulhava­‑se todo o corpo na água, para matar a sede mais depres‑
sa, e era­‑se então um corpo lodoso e satisfeito de paquiderme afundado.

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alexandre herculano 299

Alexandre HERCULANO. «Tristezas do desterro», in Poesias. [1838?] 1977.


Amadora: Bertrand. 122­‑123.

ERIT TRISTIS ET MOERENS


ISAIAS
1

Terra cara da pátria, eu te hei saudado


D’entre as dores do exílio. Pelas ondas
Do irrequieto mar mandei­‑te o choro
Da saudade longínqua. Sobre as águas,
Que de Albion nas ribas escabrosas
Vem marulhando branqueiar de escuma
A negra rocha em promontório erguido,
D’onde o insulano audaz contempla o imenso
Império seu, o abysmo, aos olhos turvos
Não sentida uma lagryma fugiu­‑me,
E devorou­‑a o mar. A vaga incerta,
Que rola livre, peregrina eterna,
Mais que os homens piedosa, irá depô­‑la,
Minha terra natal, nas praias tuas.
Essa lagryma aceita: é quando póde
Do desterro enviar­‑te um pobre filho.

No silêncio da noite, em solo estranho,


Pátria minha gentil, em ti pensando,
Para os astros de Deus olhei: fulgiam,
Neste céu achatado, tristemente
Com luz mortiça e pallida, não ricos
De inspiração e amor, quaes lá refulgem.
Pela sombra ameníssima, que chama
Do afastado oriente o sol no ocaso,
No teu profundo céu has­‑de tu vê­‑los:
Do desterrado filho os votos levam:
Acceita­‑os delles, desgraçada pátria!

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300 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Já se acercava o tenebroso inverno;


Vinha fugindo a rápida andorinha,
Para um abrigo te ir pedir, oh pátria,
Em cujos valles nunca alveja a neve:
Juncto de mim passou: em suas asas
Também mandei o filial suspiro.

Pelo dorso das vagas rugidoras


Eu corri de além mar para estas plagas
Pelas antenas, em nublada noite,
Ouvi o vento sul que assobiava,
E de ouvi­‑lo folguei. Da pátria vinha:
Seu rijo sopro refrescou­‑me as veias.

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alda lara 301

Alda LARA. «Testamento», in Poemas. 1973. Lobito: Capricórnio. 27­‑28.

Texto sujeito a Direitos de Autor

À prostituta mais nova,


do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro…

E àquela virgem esquecida


rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda…

Este um rosário antigo,


ofereço­‑o àquele amigo
que não acredita em Deus…

E os livros, rosários meus


das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,


esses, que são de dor
sincera e desordenada…
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo­‑os a ti, meu Amor…

Para que, na paz da hora,


em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,

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ângelo de lima 303

Ângelo de LIMA. «Pára­‑me de repente o pensamento», in Poesias


Completas. 1991. Lisboa: Assírio & Alvim. 14.

Pára­‑me de repente o Pensamento...


— Como se de repente sofreado
Na Douda Correria... em que, levado...
— Anda em Busca... da Paz... do Esquecimento

— Pára Surpreso... Escrutador... Atento


Como para... um Cavalo Alucinado
Ante um Abismo... ante seus pés rasgado...
— Pára… e Fica... e Demora­‑se um Momento...

Vem trazido na Douda Correria


Pára à beira do Abismo e se demora

E Mergulha na Noute, Escura e Fria


Um Olhar d’Aço, que na Noute explora...

— Mas a Espora da dor seu flanco estria...

— E Ele Galga... e Prossegue... sob a Espora!

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304 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Irene LISBOA. Solidão — Notas do punho de uma mulher (Organização e


prefácio de Paula Morão). [1939] 1992. Lisboa: Presença. 19­‑20; 22­‑24; 54­
‑55; 101.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Eu gostava, na verdade, de ter língua, mas uma língua forte e simples, desafec‑
tada, impulsiva, verdadeira, uma língua expressiva e sincera (estou mentalmen‑
te a ver como a de quem, e só me lembro da pobre Emília, encostada àquela
porta a contar as infelicidades da sua Poldina...), eu gostava de ser senhora de
uma língua que fosse um látego para os meus estados de espírito, que firme‑
mente os retalhasse! Falaria hoje, e talvez sempre, da minha inquietação... Não
é um estado moral simples, é um estado enervado e de desacomodação!
Falaria também, se pudesse, dos confusos desejos e das imprevistas an‑
siedades que de súbito se abatem sobre nós e nos derrotam! Do vácuo senti‑
mental e das nossas íntimas, profundas impressões de desaire...
Mas como? É infantil querer tornar os sentimentos claros. Os roman‑
cistas é que pretendem justificar sempre as crises morais. No entanto, não
me parece que a língua dos romancistas, dos analistas dos sentimentos,
seja alguma vez capaz de dar o verdadeiro enervamento, de se adequar a
ele. A língua do enervamento, se realmente existisse, devia ser bem confusa,
inextricável e intransmissível.
[19-20]

Entrei de fora há bocado. O sol era o rei da casa, um sol de Inverno, radioso.
Como de costume, deixei que as lágrimas me molhassem os olhos, destas
lágrimas que não caem. O sol, extremamente plácido e colorido, poisava nas
paredes e no chão, derramava­‑se por toda a parte.
Amarelo, sanguíneo?, dizia eu mentalmente.
Apenas sol...
Mas tinha pressa de vir escrever, de escrever enquanto houvesse sol,
para que ele me inspirasse, para me sentir debaixo da sua impressão.
Apesar disso fui fazer o chá e andei de umas casas para outras, e ainda
me sentei a ler um artigo. E o sol pôs­‑se... A sua luz ia desaparecendo lenta‑
mente, serenamente.
Que olímpico poente! Merecia ser cantado em versos solenes, descansados.

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baltasar lopes 309

Baltasar LOPES. Chiquinho. [1947] 1984. Lisboa: Editor África. 13­‑22.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Como quem ouve uma melodia muito triste, recordo a casinha em que nas‑
ci, no Caleijão. O destino fez­‑me conhecer casas bem maiores, casas onde
parece que habita constantemente o tumulto, mas nenhuma eu trocaria pela
nossa morada coberta de telha francesa e embocada de cal por fora, que meu
avô construiu com dinheiro ganho de­‑riba da água do mar. Mamãe­‑Velha
lembrava sempre com orgulho a origem honrada da nossa casa. Pena que
o meu avô tivesse morrido tão novo, sem gozar direitamente o produto do
seu trabalho.
E lá toda a minha gente se fixou. Ela povoou­‑se das imagens que en‑
chiam o nosso mundo. O nascimento dos meninos. O balanço da criação.
O trabalho das hortas e a fadiga de mandar a comida para os trabalhadores.
A partida de Papai para a América. A ansiedade quando chegavam cartas.
Os melhoramentos a pouco e pouco introduzidos com os dólares que rece‑
bíamos. Mamãe deslizava como uma sombra silenciosa no trafêgo da casa.
Mamãe­‑Velha não parava, indo de um lado para outro, como se nada pudesse
fazer­‑se sem a sua fiscalização e os seus gritos. A minha avó só sabia querer a
sua gente descompondo.
Ao lado da casa grande, de quatro quartos, ficava a casinha desaguada,
onde Mamãe fazia a despensa, e que nos dias de chuva servia para abrigar as
galinhas da criação. Encostada à casa de moradia, ela tinha de longe, com o
seu tecto rectangular, inclinado para drenar a água, um ar de bezerro a pojar
nas mamas da mãe.
A casinha desaguada era a tentação da meninência. Mamãe guardava lá
o barril da farinha­‑de­‑pau, a talisca que ficava da rala da mandioca e o pei‑
xe seco da ilha do Sal, tão bom para se misturar na boca, mesmo cru, com
a mãozada de farinha apanhada às escondidas. Os meus dois irmãos mais
novos incitavam­‑me as incursões na despensa. Lela e Nanduca não mediam
bem a responsabilidade que resultaria da descoberta do delito. Por isso cho‑
ravam, quasi gritando, quando eu hesitava:
—Mano Chiquinho, Mamãe não vê…

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baltasar lopes 317

Gregório de MATOS. «Soneto», in Crônica de Viver Baiano Seiscentista. 1968.


Bahia: Janaína. 428.

Triste Bahia! oh quão dessemelhante


Estás, e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vejo eu já, tu a mi abundante.

A ti tocou­‑te a máquina mercante,


Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi­‑me trocando, e tem trocado
Tanto negócio, e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente


Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sangaz Brichote.

Oh se quisera Deus, que de repente


Um dia amanheceras tão sisuda
Que fôra de algodão o teu capote!

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318 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

José Rodrigues MIGUÉIS. Léah e Outras Histórias. [1958] 1968. Lisboa:


Estúdios Cor. 9­‑13.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Lembro perfeitamente a tarde quieta em que parei à porta da pensão, para


tomar um quarto sem refeições: Chambre à louer. Puxei a argola de latão da
campainha e esperei alguns instantes. A porta abriu­‑se e vi aparecer uma
mulher forte, rosada, loira e mal penteada, com um avental de riscado azul,
por sinal um pouco enxovalhado. Sorriu e acolheu­‑me cordialmente. Era a
patroa — Annette­‑Marie, Madame Lambertin «para o servir». Levou­‑me
então ao quarto e (supunha eu) último andar, sacudindo chaves e falando
sempre numa voz ligeiramente rouca, entrecortada, que a ascensão tornou
ofegante. Chegou lá cima quase áfona. Pensei no alcoolismo, em complica‑
ções cardíacas. De caminho fiquei sabendo a história de quase todos os hós‑
pedes, gente sossegada, nenhum barulho. Um cão preto, pequeno, sem rabo
nem raça, subia jovialmente adiante de nós: era o Bouboule, «um amor». Nos
patamares pulava­‑me entre as pernas, a lamber­‑me os dedos, como se fôsse‑
mos velhos conhecidos.
O quarto tinha duas grandes janelas para o céu leitoso, os telhados ve‑
lhos e as chaminés apinhadas. Papel desbotado nas paredes, o oleado gasto,
com alguns remendos, a cama larga e fofa, e um fogão de ferro de modelo
antigo. Era modesto e a renda em conta. Decidi ficar.
Logo de entrada a pensão tinha o quer que fosse de decadente, descui‑
dado e boémio. Sem ser suja, era menos hostilmente asseada que muitas
das que até ali eu tinha visitado. Havia, naturalmente, o fartum odioso das
batatas fritas em sebo de carneiro, mas que fazer? Por toda a parte era o
mesmo cheiro. De resto, tinha concluído havia muito que as batatas fritas
são deliciosas quando comidas como a perdiz: de mão no nariz.
Madame Lambertin era flamenga à vista desarmada, e de maneiras
bastante livres, mas com certa tinta bondosa. Devia passar bem dos trinta.
Quando sorria, o sorriso enchia­‑lhe a cara toda. Tinha os olhos verdes e bas‑
tante vivos. Da janela do meu quarto passei a vê­‑la atravessar todos os dias
a rua, a caminho da brasserie da esquina, em frente, onde ia aplacar um deus
insaciável. Voltava com uma cabazada de garrafas de gueuze. Chegava a beber

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322 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

António NOBRE. «Viagens na minha terra», in Só. [1892] 1983. Porto:


Civilização. 74­‑ 78.

Às vezes, passo horas inteiras


Olhos fitos nestas braseiras,
Sonhando o tempo que lá vai;
E jornadeio em fantasia
Essas jornadas que eu fazia
Ao velho Douro, mais meu Pai.

Que pitoresca era a jornada!


Logo, ao subir da madrugada,
Prontos os dois para partir:
— Adeus ! adeus ! é curta a ausência,
Adeus! — rodava a diligência
Com campainhas a tinir!

E, dia e noite, aurora a aurora,


Por essa doida terra fora,
Cheia de Cor, de Luz, de Som,
Habituado à minha alcova
Em tudo eu via coisa nova,
Que bom era, meu Deus! que bom

Moinhos ao vento! Eiras! Solares!


Antepassados! Rios! Luares!
Tudo isso eu guardo, aqui ficou:
Ó paisagem etérea e doce,
Depois do Ventre que me trouxe,
A ti devo eu tudo que sou!

No arame oscilante do Fio,


Amavam (era o mês do cio)

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antónio nobre 323

Lavandiscas e tentilhões...
Águas do rio vão passando
Muito mansinhas, mas, chegando
Ao Mar, transformam­‑se em leões!

Ao Sol, fulgura o Oiro dos milhos!


Os lavradores mailos filhos
A terra estrumam, e depois
Os bois atrelam ao arado
E ouve­‑se além no descampado
Num ímpeto, aos berros: — Eh! bois!

E, enquanto a velha mala­‑posta,


A custo vai subindo a encosta
Em mira ao lar dos meus Avós,
Os aldeões, de longe, alerta,
Olham pasmados, boca aberta...
A gente segue e deixa­‑os sós.

Que pena faz ver os que ficam!


Pobres, humildes, não implicam,
Tiram com respeito o chapéu:
Outros, passando a nosso lado,
Diziam: «Deus seja louvado!»
«Louvado seja!» dizia eu.

E, meiga, tombava a tardinha...


No chão, jogando a vermelhinha,
Outros vejo a discutir.
Carpiam, místicas, as fontes...
Água fria de Trás­‑os­‑Montes
Que faz sede só de se ouvir!

E, na subida de Novelas,
O rubro e gordo Cabanelas
Dava­‑me as guias para a mão:
Isso... queriam os cavalos!
Que eu não podia chicoteá­‑los...
Era uma dor de coração.

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324 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Depois, cansados da viagem,


Repoisávamos na estalagem
(Que era em Casais, mesmo ao dobrar...)
Vinha a Sra. Ana das Dores
«Que hão­‑de querer os meus Senhores?
Há pão e carne para assar...»

Oh! ingénuas mesas, honradas!


Toalhas brancas, marmeladas,
Vinho virgem no copo a rir...
O cuco da sala, cantando...
(Mas o Cabanelas, entrando,
Vendo a hora: «É preciso partir»).

Caía a noite. Eu ia fora,


Vendo uma estrela que lá mora,
No firmamento português:
E ela traçava­‑me o meu fado
«Serás Poeta e desgraçado!»
Assim se disse, assim se fez.

Meu pobre Infante, em que cismavas,


Porque é que os olhos profundavas
No Céu sem par do teu país?
Ias, talvez, moço troveiro,
A cismar num amor primeiro:
Por primeiro, logo infeliz...

E o carro ia aos solavancos.


Os passageiros, todos brancos,
Ressonavam nos seus gabões:
E eu ia alerta, olhando a estrada,
Que em certo sítio, na Trovoada,
Costumavam sair ladrões.

Ladrões! Ó sonho! Ó maravilha!


Fazer parte duma quadrilha,
Rondar, à Lua, entre pinhais!
Ser Capitão! trazer pistolas,

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antónio nobre 325

Mas não roubando, — dando esmolas


Dependuradas dos punhais...

E a mala­‑posta ia indo, ia indo.


O luar, cada vez mais lindo,
Caía em lágrimas, — e, enfim,
Tão pontual, às onze e meia,
Entrava, soberba, na aldeia
Cheia de guizos, tlim, tlim, tlim!

Lá vejo ainda a nossa Casa


Toda de lume, cor de brasa,
Altiva, entre árvores, tão só!
Lá se abrem os portões gradeados,
Lá vêm com velas os criados,
Lá vem, sorrindo, a minha Avó.

E então, Jesus! quantos abraços!


— Qu’é dos teus olhos, dos teus braços,
Valha­‑me Deus! como ele vem!
E admirada, com as mãos juntas,
Toda me enchia de perguntas,
Como se eu viesse de Betlém!

E os teus estudos, tens­‑me andado?


Tomara eu ver­‑te formado!
Livre de Coimbra, minha flor!
Mas vens tão magro, tão sumido...
Trazes tu no peito escondido,
E que eu não saiba, algum amor?

No entanto entrava no meu quarto:


Tudo tão bom, tudo tão farto!
Que leito aquele e a água, Jesus!
E os lençóis! rico cheiro a linho!
— Vá, dorme, que vens cansadinho.
Não adormeças com a luz!

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326 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

E eu deitava­‑me, mudo e triste.


(— Reza também o Terço, ouviste?)
Versos, bailando dentro em mim...
Não tinha tempo de ir na sala,
De novo: — Apaga a luz! — Que rala!
Descansa, minha Avó, que sim!

Ora, às ocultas, eu trazia


No seio, um livro e lia, lia,
Garrett da minha paixão...
Daí a pouco a mesma reza:
— Não vás dormir de luz acesa,
Apaga a luz!... (E eu ainda... não!)

E continuava, lendo, lendo...


O dia vinha já rompendo
De novo: — Já dormes, diz?
— Bff!... e dormia com a ideia
Naquela tia Doroteia,
De que fala Júlio Dinis.

Ó Portugal da minha infância,


Não sei que é, amo­‑te a distância,
Amo­‑te mais, quando estou só...
Qual de vós não teve na Vida
Uma jornada parecida,
Ou assim, como eu, uma Avó?

Paris, 1892.

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eça de queirós 327

Eça de QUEIRÓS. A Cidade e as Serras. [1901] 2016. Lisboa: Livros do


Brasil. 116­‑121.

Logo nessa manhã (com uma actividade em que eu reconheci a pressa en‑
joada de quem bebe óleo de rícino) escreveu ao Silvério mandando caiar,
assoalhar, envidraçar o casarão. E depois do almoço apareceu na Biblioteca,
chamado lentamente pelo telefone, para combinar a remessa de mobílias e
confortos, o director da Companhia Universal de Transportes.
Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado num
jaquetão de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre botas bran‑
cas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira uma roseta multicor
resumindo as suas condecorações exóticas de Madagáscar, da Nicarágua,
da Pérsia, outras ainda, que provavam a universalidade dos seus serviços.
Apenas Jacinto mencionou «Tormes, no Douro...» — ele logo, através de um
sorriso superior estendeu o braço, detendo outros esclarecimentos, na sua
intimidade minuciosa com essas regiões.
— Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente!
Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota — enquanto
eu considerava, assombrado, a vastidão do seu saber corográfico, assim fa‑
miliar com os recantos de uma serra de Portugal e com todos os seus velhos
solares. Já ele atirara a carteira para o bolso... «E nós, seus caros senhores,
não tínhamos senão a encaixotar as roupas, as mobílias, as preciosidades!
Ele mandaria as suas carroças buscar os caixotes, a que poria, em grossa le‑
tra, com grossa tinta, o endereço...»
— Tormes, perfeitamente! Linha Norte­‑Espanha­‑Medina­‑ Salamanca...
Perfeitamente! Tormes... Muito pitoresco! E antigo, histórico! Perfeitamen‑
te, perfeitamente!
Desengonçou a cabeça numa vénia profundíssima — e saiu da Biblioteca,
com passos que devoravam léguas, anunciavam a presteza dos seus Transportes.
— Vê tu — murmurou Jacinto muito sério. — Que prontidão, que faci‑
lidade!... Em Portugal era uma tragédia. Não há senão Paris!
Começou então no 202 o colossal encaixotamento de todos os confor‑
tos necessários ao meu Príncipe para um mês de serra áspera — camas de

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328 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

pena, banheiras de níquel, lâmpadas Carcel, divãs profundos, cortinas para


vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os sótãos,
onde se arrecadavam os pesados trastes do avô «Galeão», foram esvaziados
— porque o casarão medieval de 1410 comportava os tremós românticos de
1830. De todos os armazéns de Paris chegavam cada manhã fardos, caixas,
temerosos embrulhos que os emaladores desfaziam, atulhando os corredo‑
res de montes de palha e de papel pardo, onde os nossos passos açodados se
enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido, organizava a remessa de fornalhas,
geleiras, bocais de trufas, latas de conservas, bojudas garrafas de águas mi‑
nerais. Jacinto, lembrando as trovoadas da serra, comprou um imenso pára­
‑raios. Desde o amanhecer, nos pátios, no jardim, se martelava, se pregava,
com vasto fragor, como na construção de uma cidade. E o desfilar das ba‑
gagens, através do portão, lembrava uma página de Heródoto contando a
marcha dos Persas.
Das janelas, Jacinto, com o braço estendido, saboreava aquela activida‑
de e aquela disciplina:
— Vê tu, Zé Fernandes, que facilidade!... Saímos do 202, chegamos à
serra, encontramos o 202. Não há senão Paris!
Recomeçara a amar a Cidade, o meu Príncipe, enquanto preparava o seu
Êxodo. Depois de ter, toda a manhã, apressado os encaixotadores, descortina‑
do confortos novos para o abandonado solar, telefonado gordas listas de enco‑
mendas a cada loja de Paris — era com delícia que se vestia, se perfumava, se
floria, se enterrava na vitória ou saltava para a almofada do faetonte, e corria
ao Bosque, e saudava a barba talmúdica do Efraim, e os bandós furiosamen‑
te negros da Verghane, e o psicólogo de fiacre, e a condessa de Trèves na sua
nova caleche de oito molas fornecida pelas operações conjuntas da Bolsa e da
Alcova. Depois arrebanhava amigos para jantares de surpresa no Voisin ou
no Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a impaciência de uma fome
alegre, vigiando fervorosamente que os Bordéus estivessem bem aquecidos e
os Champagnes bem granitados. E no teatro das Nouveautés, no Palais Royal,
nos Buffos, ria, batendo na coxa, com encanecidas facécias de encanecidas
farsas, antiquíssimos trejeitos de antiquíssimos actores, com que já rira na sua
infância, antes da guerra, sob o segundo Napoleão!
De novo, em duas semanas, se abarrotaram as páginas da sua agenda.
A magnificência do seu traje, como imperador Frederico II de Suábia, des‑
lumbrou, no baile mascarado da princesa de Cravon­‑Rogan (onde também
fui, de «moço de forcado»). E na Associação para o Desenvolvimento das
Religiões Esotéricas discursou e batalhou bravamente pela construção de
um templo budista em Montmartre!

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eça de queirós 329

Com espanto meu recomeçou também a conversar, como nos tempos


de Escola, da «famosa Civilização nas suas máximas proporções». Mandou
encaixotar o seu velho telescópio para o usar em Tormes. Receei mesmo que
no seu espírito germinasse a ideia de criar, no cimo da serra, uma Cidade
com todos os seus órgãos. Pelo menos não consentia o meu Jacinto que es‑
sas semanas da silvestre Tormes interrompessem a ilimitada acumulação das
noções — porque uma manhã rompeu pelo meu quarto, desolado, gritando
que entre tantos confortos e formas de Civilização esquecêramos os livros!
Assim era — e que vexame para a nossa Intelectualidade! Mas que livros
escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu Príncipe
decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao estudo da História Natural —
e nós mesmos, imediatamente, deitámos para o fundo de um vasto caixo‑
te novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plínio. Despejámos depois
para dentro, às braçadas, Geologia, Mineralogia, Botânica... Espalhámos
por cima uma camada aérea de Astronomia. E, para fixar bem no caixote
estas Ciências oscilantes, entalámos em redor cunhas de Metafísica.
Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, saiu do por‑
tão do 202 na derradeira carroça da Companhia dos Transportes, toda esta
animação de Jacinto se abateu como a efervescência num copo de champa‑
nhe. Era em meados já tépidos de Março. E de novo os seus desagradáveis
bocejos atroaram o 202, e todos os sofás rangeram sob o peso do corpo que
ele lhes atirava para cima, mortalmente vencido pela fartura e pelo tédio,
num desejo de repouso eterno, bem envolto de solidão e silêncio. Deses‑
perei. O quê! Aturaria eu ainda aquele Príncipe palpando amargamente a
caveira, e, quando o crepúsculo entristecia a Biblioteca, aludindo, num tom
rouco, à doçura das mortes rápidas pela violência misericordiosa do ácido
cianídrico? Ah não, caramba! E uma tarde em que o encontrei estirado sobre
um divã, de braços em cruz, como se fosse a sua estátua de mármore sobre o
seu jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando:
— Acorda, homem! Vamos para Tormes! O casarão deve estar pronto,
a reluzir, a abarrotar de coisas! Os ossos de teus avós pedem repouso, em
cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos nós, os vivos!...
Irra! São cinco de Abril!... É o bom tempo da serra!
O meu Príncipe ressurgiu lentamente da inércia de pedra:
— O Silvério não me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com efeito,
deve estar tudo preparado... Já lá temos certamente criados, o cozinheiro de
Lisboa... Eu só levo o Grilo, e o Anatole que enverniza bem o calçado, e tem
jeito como pedicuro… Hoje é domingo.
Atirou os pés para o tapete, com heroísmo:

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330 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

— Bem, partimos no sábado!... Avisa tu o Silvério!


Começou então o laborioso e pensativo estudo dos horários — e o dedo
magro de Jacinto, por sobre o mapa, avançando e recuando entre Paris e
Tormes. Para escolher o salão que devíamos habitar durante a temida jor‑
nada, duas vezes percorremos o depósito da estação de Orléans, atolados
em lama, atrás do chefe do tráfico que entontecia. O meu Príncipe recusava
este salão por causa da cor tristonha dos estofos; depois recusava aquele por
causa da mesquinhez aflitiva do Water­‑ Closet! Uma das suas inquietações
era o banho, nas manhãs que passaríamos rolando. Sugeri uma banheira de
borracha. Jacinto, indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o trans‑
bordo em Medina del Campo, de noite, nas trevas da velha Castela. Debalde
a Companhia do Norte de Espanha e de Salamanca, por cartas, por tele‑
gramas, sossegaram o meu camarada, afirmando que, quando ele chegasse
no comboio de Irun dentro do seu salão, já outro salão ligado ao comboio
de Portugal esperaria, bem aquecido, bem alumiado, com uma ceia que lhe
ofertava um dos directores, D. Esteban Castillo, ruidoso e rubicundo con‑
viva do 202! Jacinto corria os dedos ansiosos pela face: «E os sacos, as peles,
os livros, quem os transportaria do salão de Irun para o salão de Salamanca?»
Eu berrava, desesperado, que os carregadores de Medina eram os mais rá‑
pidos, os mais destros de toda a Europa! Ele murmurava: — Pois sim, mas
em Espanha, de noite!... — A noite, longe da Cidade, sem telefone, sem luz
eléctrica, sem postos de polícia, parecia ao meu Príncipe povoada de surpre‑
sas e assaltos. Só acalmou depois de verificar no Observatório Astronómico,
sob a garantia do sábio professor Bertrand, que a noite da nossa jornada era
de lua cheia!
Enfim, na sexta­‑feira, findou a tremenda organização daquela viagem
histórica! O sábado predestinado amanheceu com generoso sol, de afagado‑
ra doçura. E eu acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel pardo,
as fotografias das criaturinhas suaves que, nesses vinte e sete meses de Paris,
me tinham chamado «mon petit chou! mon rat chéri!» — quando Jacinto rom‑
peu pelo quarto, com um soberbo ramo de orquídeas na sobrecasaca, pálido
e todo nervoso.
— Vamos ao Bosque, por despedida?
Fomos — à grande despedida! E que encanto! Até nas almofadas e mo‑
las da vitória senti logo uma elasticidade mais embaladora.

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antero de quental 331

Antero de QUENTAL. «Despondency», in Sonetos. [1886] 1994. Lisboa:


Imprensa Nacional — Casa da Moeda. 84.

Deixá­‑la ir, a ave, a quem roubaram


Ninho e filhos e tudo, sem piedade...
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as asas partidas a levaram...

Deixá­‑la ir a vela, que arrojaram


Os tufões pelo mar, na escuridade,
Quando a noite surgiu da imensidade,
Quando os ventos do Sul se levantaram...

Deixá­‑la ir, a alma lastimosa,


Que perdeu fé e paz e confiança,
À morte queda, à morte silenciosa...

Deixá­‑la ir, a nota desprendida


Dum canto extremo... e a última esperança...
E a vida... e o amor... deixá­‑la ir, a vida!

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332 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Vasco Mousinho de QUEVEDO. «Soneto XXX», in Discurso sobre a Vida,


e Morte, de Santa Isabel Rainha de Portugal, & Outras Varias Rimas. (Edição
fac­‑símile). 1597. Lisboa: Manoel de Lyra, a custa de Esteuão Lopez.

Quando a vezes a mi, por mi pergunto


Quem fuy responde que me não conhece
Com não ser, de quem sou me desconhece
E t me por defunto, o jaà defunto.

Elle chorame a mi, por elle ajunto


Com elle minhas lagrimas, e creçe
H a com outra dor, pois se offereçe
Chorar quem jaà fuy, e quem sou junto.

Choro porque o não vejo qual o via,


Elle por que me veê, qual veê chora,
De mi, e delle soò lagrimas hàa.

Espero por h dia, cada dia


Que ou acabe de ser quem sou agora
Ou acabe o lembrarme quem fuy jaà

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josé régio 333

José RÉGIO. «Cântico negro», in Poesia I. 2001. Lisboa: Imprensa Nacional


— Casa da Moeda. 81­‑ 82.

Texto sujeito a Direitos de Autor

«Vem por aqui» — dizem­‑me alguns com olhos doces,


Estendendo­‑me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: «vem por aqui»!
Eu olho­‑os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:


Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem­‑vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde


Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Porque me repetis: «vem por aqui»?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi


Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

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joão guimarães rosa 335

João Guimarães ROSA. «A terceira margem do rio», in Primeiras Estórias.


1988. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 32­‑37.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Nosso Pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde
mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas,
quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não fi‑
gurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos.
Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente
— minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou
fazer para si uma canoa.
Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, peque‑
na, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve
de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever
durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra
a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para
pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda
era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se esten‑
dendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma
da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalçou o chapéu e decidiu um
adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa,
não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbra‑
vejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: —
«Cê vai, o cê fique, você nunca volte!» Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou
mando para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de
nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega
que um propósito perguntei: — «Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?»
Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me man‑
dando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber.
Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo
— a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.
Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executa‑
va a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio,

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Miguel TORGA. Diários IX­‑XVI. [1964­‑1993]. Lisboa: Dom Quixote.
1272­‑1276.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Coimbra, 25 de Abril de 1974 — Golpe militar. Assim eu acreditasse nos mili‑


tares. Foram eles que, durante os últimos macerados cinquenta anos pátrios,
nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam e asseguraram com as
baionetas o poder, a tirania. Quem poderá esquecê­‑lo? Mas pronto: de qual‑
quer maneira, é um passo. Oxalá não seja duradoiramente de parada...

Coimbra, 27 de Abril de 1974 — Ocupação das instalações da Pide. Enquanto,


juntamente com outros veteranos da oposição ao fascismo, presenciava a
fúria de alguns exaltados que reclamavam a chacina dos agentes, acossados
lá dentro, e lhes destruíam as viaturas, ia pensando no facto curioso de as
vinganças raras vezes serem exercidas pelas efectivas vítimas da repressão.
Há nelas um pudor que as não deixa macular o sofrimento. São os outros, os
que não sofreram, que se excedem, como se estivessem de má consciência e
quisessem alardear um desespero que jamais sentiram.

Coimbra, 1 de Maio de 1974 — Colossal cortejo pelas ruas da cidade. Uma ex‑
plosão gregária de alegria indutiva a desfilar diante das forças de repressão
remetidas aos quartéis.
— Mais bonito do que a Rainha Santa... — dizia uma popular.
Segui o caudal humano, calado, a ouvir vivas e morras, travado por não
sei que incerteza, sem poder vibrar com o entusiasmo que me rodeava, na
recôndita e vã esperança de ser contagiado. Há horas que são de todos.
Porque não havia aquela de ser também minha? Mas não. Dentro de mim
ressoava apenas uma pergunta: em que oceano de bom senso iria desaguar
aquele delírio? Que oculta e avisada abnegação estaria pronta para guiar no
caminho da história a cegueira daquela confiança?
A velhice é isto: ou se chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de
lucidez.

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344 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Alfredo TRONI. Nga Mutúri. [1882] 1991. Lisboa: Edições 70. 43­‑ 55.

II

Passou alguns anos naquela vida. Tinha aprendido um pouco a língua dos
brancos, e já não era desajeitada no vestir dos panos como quando viera.
Um dia o muari esteve doente e meteu­‑se com ela e dois moleques num
navio, que os levou a Luanda.
O senhor foi tirado para o escaler e levado do cais numa machila, muito
doente, para uma casa grande de sobrado. — Que ela seguia atrás da machila
a correr, com trabalho, por causa da muita areia. — Depois melhorou, pas‑
sou para outra casa, onde abriu loja. Tinha muitas chitas, lenços e riscados,
que vendia às pretas da quitanda, e a outra gente.
Nga Ndreza conheceu então o que era, e o que devia parecer. Esqueceu­
‑se da primeira época da sua vida, e respondia com umas reticências duvido‑
sas às perguntas que lhe faziam sobre a sua origem.
— Que não sabia bem — isto com ares maliciosos — quem era o pai,
mas que se lembrava de um branco quando era pequenita, que a tomava nos
braços e a sentava à mesa. — Exactamente o que vira fazer à filha da mucama
de um amigo do muari. E como era fula todas as comadres que a iam visitar
com a ideia de lhe beber o vinho e comer o presunto que o patrão comprava,
diziam que sim, que ela tinha sangue branco.
E ela gostava muito, e nessas ocasiões levantava importante e cautelosa
a tampa cheia de pregos da caixa de vinho do Porto; e, enquanto o patrão
estava na jogatina, gastava muito, fazia ceias e bebia demais.
Quando o patrão vinha de madrugada, e mimoseava o moleque que ficara
deitado à porta para lha abrir, com uma antiga moeda de prata de seis macutas
(ainda então havia deste dinheiro, hoje está todo no Banco) se ganhava, ou
com uma saraivada de pontapés se perdia, encontrava­‑a a dormir na sua estei‑
ra; e ele muito grosso, como diziam os caixeiros quando o viam assim, acordava­
‑a com umas falas arrastadas para o ajudar a deitar­‑se, aconchegando­‑lhe o
inchado fígado com uma travesseira, e dando­‑lhe fomentação no baço mais
inchado ainda, rogando ele muitas pragas com as dores.

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alfredo troni 345

A cena de que ela se não quer lembrar, mas, por mais que faça naquelas
horas de recolhimento, apresenta­‑se nítida à sua memória, foi a da surra que
o patrão lhe mandou dar.
Como não pode repelir a lembrança, começa no seu pensamento a ate‑
nuar o crime — que ela não tivera culpa, porque enfim era menina nova, e o
patrão não se importava com ela senão de meses a meses.
Cada vez que se lembrava, sentia os mesmos arrepios que a repassaram
quando o patrão deu com ela e o preto da machila, o Ebo, um bonito moço
da Ginga, forte e esbelto, com uns olhos que eram os seus pecados, na casa
por trás da loja onde arrecadavam cascos vazios e outras coisas, ambos en‑
costados a uma pipa. Ainda lhe tilintam aos ouvidos, como os mazuela dos
carregadores, as palavras que disse o patrão:
— Ah, grande..., eu já andava desconfiado. Deixa estar.
Ela pôde fugir pela porta do pátio, e subir pela escada que ia dar à casa
de mesa.
Daí a pouco apareceu o patrão seguido de dois pretos do Bengo que
tinham vindo com as cargas; e mandando­‑a amarrar no pátio ao mastro que
segurava a caixa do macaco, levantaram­‑lhe os panos e levou cinquenta chi‑
cotadas. Ainda se lhe apertam os músculos da parte açoitada com esta lem‑
brança, custa­‑lhe mais a vergonha que sentiu. Se o patrão lhe desse um tiro
ou uma facada, como fez um rapaz das cubatas (ainda então não estava na
Ngombota a quem acontecera o mesmo com a barregã, e então feia como o
manipanso de um cabinda que ele era, vá; mas açoitada como os negros, ela
a mucama Nga Muhatu como diziam, era demais).
Enquanto o chicote zunia e o macaco dava saltos na caixa abanando o
mastro que a segurava, ela pensava em se matar. E é que também lhe doía
muito.
Quando a desamarraram, caiu com o rosto para o chão e fingiu­‑se mor‑
ta. Foi um feliz expediente. O patrão disse: — Oh! diabo! Matei o raio da
preta.
Disse que a levassem para o quarto, e mandou à moleca que lhe tinha
dado a ela, a Bebeca, que fosse para lá deitar­‑lhe água na cabeça. Nga Ndreza
não saiu do quarto por muito tempo, e a todo o momento esperava que o
patrão a vendesse.

III

O quarto dela ficava ao pé da casa de mesa, a varanda, e sempre que o patrão


ia jantar, punha­‑se a olhar e a escutar ao buraco da fechadura para ver se

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346 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

falava nela. Tinha bem dito à Bebeca para lhe contar se o patrão dizia alguma
coisa.
Não buliu no comer que lhe ia da mesa, mas tasquinhava umas postas
de peixe compradas na taberna de um degredado, e quicuanga, mas tudo às
escondidas.
Um dia o patrão ao jantar, depois de os caixeiros descerem para a loja,
disse para um vizinho muito amigo que jantava com ele:
— Assim como assim, fica como dantes. Estou doente, ela já sabe os
meus usos. Se há­‑de vir outra que faça o mesmo e não me sirva...
— É melhor, é — disse o vizinho com compadecimentos hipócritas. —
Tu és doente, e aquilo não valeu nada. Talvez até nem chegassem a fazer mal.
— Isso não, que eu vi muito bem...
— Pois sim, mas no fim de contas nós estamos velhos. E depois — fez
com uma fingida resignação canalha — tudo é o mesmo. Olha, a que eu
lá tenho, que tem fama de ter muito juízo, e sabes que esteve em casa da
D. Luísa a aprender, quem sabe o que fará?
— Não — disse o patrão com mágoa —, a tua Chica é boa rapariga,
todos o dizem.
— Pois sim, eu também disse aquilo só por falar. Que, deixa­‑me dizer­
‑te, coitadinha dela se mo fizesse! Mas, meu amigo, eu não como miolo de
enxergão, não tenho a tua boa fé, a mim ninguém me faz o ninho atrás de
orelha.
E Nga Ndreza ao ouvir isto dardejou­‑lhe um olhar pelo buraco da fecha‑
dura que, se o vizinho o visse, não falaria tanto.
Porque ela mais que uma vez pela janela do beco tinha surpreendido a
Chica na varanda, em brincadeiras com o caixeiro, o Serra, que o vizinho
queria fazer sócio — e quando foi ao Bengo dar balanço à loja que lá tinha,
entregue a um degredado, uma vez o Serra não lhe estivera a fazer cócegas,
e a Chica em corridinhas, com o pano seguro só num ombro, a fingir­‑se zan‑
gada, batendo­‑lhe com a mão e dizendo catucasi — ambul’ home — ngambu‑
riaimi — cambo sonhi —, mas em grandes gargalhadas? Oh! se tinha visto.
E depois a Chica não fugiu para a camarinha e o Serra não foi atrás dela,
e fechou­‑se a porta, e lá estiveram um bom bocado, saindo o Serra primei‑
ro, muito comprometido, e muito corado, olhando desconfiado em volta,
e depois ela, como se não tivesse havido nada, não veio ralhar com uma se‑
veridade digna com a moleca que estava no pátio a brincar com o preto da
loja?! Tal e qual.
E nessa rápida lembrança que acompanhou o tal olhar, murmurou:
— Que burro!

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alfredo troni 347

Dois dias depois Nga Ndreza já corria pela varanda e à noite o patrão
dormiu muito melhor com a fomentação no baço e o conchego da travessei‑
ra debaixo do fígado.

Mas Nga Ndreza andava triste, não tinha filho. — As amigas, muito invejo‑
sas, diga­‑se a verdade, diziam que talvez fosse dela, mas que era mau — que
os brancos não se prendiam bem, senão quando tinham filhos, que precisava
ter um. Lembraram­‑lhe promessas a Nossa Senhora de Muxima, ou que fi‑
zesse feitiços, e fê­‑los.
Havia uns dias que o muari, quando entrava na camarinha, começava a
cheirar, a cheirar, fazendo desagradáveis trejeitos — cheirava­‑lhe mal. Que
seria o gato, ou o cão, e corria os cantos da casa, mas nada. Nga Ndreza esten‑
dia a sua esteira ao pé da cama, e ficava muito quieta fingindo dormir.
Uma noite o muari disse que havia de saber a causa do mau cheiro. Cha‑
mou os moleques, o da mesa que era o Muhongo, e o da loja, e fê­‑los revistar
tudo. Estava desesperado, eis que o Muhongo começou a desfazer a cama e a
mexer no colchão.
Nga Ndreza entrou a resmonear, mas o moleque continuava procuran‑
do, até que achando um buraco no colchão pela parte de baixo, e metendo a
mão, tirou uns pés, uns ossos e uma cabeça de galo com a sua crista e penas.
Nga Ndreza ficou atrapalhada; o patrão olhou para ela, não disse mais
nada: foi a um canto, tirou um junco e, zás, zás, zás, nas suas costas roliças e
luzidias. — Caíram­‑lhe os panos de cima, e mesmo assim, com as mãos cru‑
zadas no seio, fugiu para a varanda. O patrão deixou­‑a, e nessa noite dormiu
numa cama de campanha que estava ao pé da sala onde jogavam às vezes.
Era a cama onde costumava dormir o juiz um grande sono, até vir a can‑
ja, quando ia lá à batota, e o limpavam logo ao princípio.
No dia seguinte veio o mestre Pedro, colchoeiro, e fez novo colchão.
Nga Ndreza esteve muito séria; não comeu, nesse dia nem no outro.
Enfim as coisas compuseram­‑se. Tinha chegado novo sortimento ao pa‑
trão, e ele mandou­‑a chamar uma noite à loja depois de fechadas as portas
da rua e ali lhe fez escolher um pano da costa, umas peças de chita e um fio
de corais, daqueles grandes que custam a macunha tato ni tato nikipaca — cada
bago, bagos muito grandes. Então ela contou­‑lhe tudo, com certas reservas
todavia. — Disse­‑lhe ele que se não importasse, que se morresse não havia
de ficar sem nada.

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348 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Pouco tempo depois o patão entrou numa noite para casa a queixar­‑se
de uma pontada no lado esquerdo, e pontada foi que no outro dia estava
morto.
Nga Ndreza portou­‑se dignamente.
Quando vieram os galfarros da Junta, como dizia o vizinho, que ficara
testamenteiro, o escrivão deputado (ainda não havia secretário como hoje)
viu­‑a sobre a cama ao lado do cadáver do patrão, que estava coberto com um
lençol.
O escrivão­‑deputado chegara do Reino havia pouco tempo e estranhou
o caso; mas o escriturário, filho do país, muito asseado e com o peitilho da
camisa muito lustroso, fez uma cortesia, digna e disse: — São os usos da
terra, é óbito.
E como o defunto encarregara o testamenteiro de liquidar a herança e
entregá­‑la aos herdeiros directamente, pouco tiveram a fazer, saindo logo
o escrivão­‑deputado na frente, em seguida o vizinho com muitas cortesias
e dizendo a tudo: — «Sim senhor, sim» —, e mais atrás o escriturário que
perdeu uns minutos a cumprimentar muitas raparigas, todas com os seus
panos negros a cheirar muito, à tinta, e que faziam companhia à Nga Mu‑
túri. O escriturário ao sair a porta cruzou com a sua conhecida que entrava
rebolando muito presumida as cadeiras monstruosas, mas com o parecer
consternadíssimo, e ao cruzar deu­‑lhe ali um belo apertão, mas conservando
sempre a gravidade da ocasião.

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cesário verde 349

Cesário VERDE. «Carta 14», in Cânticos do Realismo e Outros Poemas. [1876­‑7]


2006. Lisboa: Relógio D’Água. 190­‑191.

14
António

Fiquei hoje em casa, um pouco adoentado, com suposições de doenças,


de futuros quebrados, confusamente baço, sem lucidez de cérebro nem de
ponto de vista. Enquanto o sol, numa grande esteira clara, me entrou pelo
quarto, estive bem contente, exuberante, cheio; a luz doirada e tépida sorria
no estuque das paredes, nas cercaduras de flores pintadas, no mogno polido
das cadeiras, no verniz de ferro do meu leito modesto de solteiro, na colcha
muito lavada, com um bom cheiro de barrela e de alfazema, e na minha ima‑
ginação de rapaz saudável.
Mais tarde abri todas as três janelas para receber mais claridade; invadiu­
‑me a sombra triste, a melancolia do crepúsculo, a friagem antipática da hu‑
midade. Quando pus a testa sobre os vidros para espairecer os olhos pelo
jardim que vegeta debaixo, lembrei­‑me de imensas coisas que passaram, dos
meus tempos de criança, do colégio de que voltava às quatro horas a um
toque de sineta, de minha irmã que morreu e que iluminava todas as casas
com a sua beleza alta e sossegada, dos meus temas de francês, dum caixeiro
que foi para o Brasil e que me agarrava ao colo balançando­‑me com ameaças
e sustos de me arremessar lá ao fundo do pátio que já não existe também.
Agora há aqui uma padaria em que se está erguendo uma chaminé enor‑
me de forno, para deitar o fumo muito acima. Os pedreiros, porque era qua‑
se Ave­‑Marias, demoravam o trabalho devagarinho, poupavam o resto do
aviamento, da cal; e tudo, a natureza, os arvoredos dos quintais próximos,
a linha dos prédios na Praça da Alegria aonde mora o Oliveira, o rumor lon‑
gínquo dos trens, e até um homem que passava descalço, com um regador
verde numa das mãos, pelas sinuosidades das áleas no jardim; tudo, tudo me
parecia lento, tristonho, com silêncios de preguiça iluminada.
Mandei acender o candeeiro e passou­‑me a doença imediatamente; e
não sei por que corrente de pensamentos. Ah! já sei: No domingo encomen‑
dei um fiambre numa salsicharia francesa que há na Rua Nova do Carmo e
que tem na montra um pequenino viveiro de peixinhos de água doce, num
rio em miniatura.

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350 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Ora, ou eu me engano bastante ou a casa de madame é a única daquele


género que se encontra em Lisboa. Pois bem, lembrei­‑me de lhe fazer con‑
corrência, de me estabelecer com luxo, espavento, réclame e fregueses da
alta vida que se dissipa em molhos apetitosos, em carnes frias que vêm do
estrangeiro, em temperos esquisitos.
Eu queria ver o salame, o porco, as frutas em pirâmides, as conservas
com grandes rótulos, o chouriço de sangue, as hortaliças em grande toilette,
todos os peixes variegados do Oceano a reluzirem; eu queria ver tudo pre‑
parado, a ganhar dinheiro, a fazer escândalo honesto, a dar­‑me celebridade
prática, satisfação, gordura recomendável.
E que me dizes?
No entanto, os desejos imensos de te enviar um bouquet de saudades.

Lisboa, 1877*
Cesário
É claro que recebi a tua carta.

*
[1876]

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josé luandino vieira 351

José Luandino VIEIRA. «A fronteira de asfalto», in A Cidade e a Infância.


1957. Lisboa: Edições 70. 91­‑ 97.

Texto sujeito a Direitos de Autor

A menina das tranças loiras olhou para ele, sorriu e estendeu a mão.
— Combinado?
— Combinado — disse ele.
Riram os dois e continuaram a andar, pisando as flores violeta que caíam
das árvores.
— Neve cor de violeta — disse ele.
— Mas tu nunca viste neve…
— Pois não, mas creio que cai assim...
— É branca, muito branca...
— Como tu!
E um sorriso triste aflorou medrosamente aos lábios dele.
— Ricardo! Também há neve cinzenta... cinzenta­‑escura.
— Lembra­‑te da nossa combinação. Não mais.
— Sim, não mais falar da tua cor. Mas quem falou primeiro foste tu.
Ao chegarem à ponta do passeio ambos fizeram meia volta e vieram
pelo mesmo caminho. A menina tinha tranças loiras e laços vermelhos.
— Marina, lembras­‑te da nossa infância? — e voltou­‑se subitamente
para ela.
Olhou­‑a nos olhos. A menina baixou o olhar para a biqueira dos sapatos
pretos e disse:
— Quando tu fazias carros com rodas de patins e me empurravas à volta
do bairro? Sim, lembro­‑me...
A pergunta que o perseguia há meses saiu finalmente.
— E tu achas que está tudo como então? Como quando brincávamos à
barra do lenço ou às escondidas? Quando eu era o teu amigo Ricardo, um
pretinho muito limpo e educado, no dizer de tua mãe? Achas...
E com as próprias palavras ia­‑se excitando. Os olhos brilhavam e o cére‑
bro ficava vazio porque tudo o que acumulara saía numa torrente de palavras.
— ... que eu posso continuar a ser teu amigo...
— Ricardo!

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(3)
HU M OR , SÁT IRA E I RO N I A

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onésimo teotónio almeida 357

Onésimo Teotónio ALMEIDA. «Acto III», in No Seio desse Amargo Mar.


1991. Lisboa: Edições Salamandra. 109­‑123.

Texto sujeito a Direitos de Autor

(Jovem) (Num dos lados do palco, à boca de cena, sentado numa poltrona com luz a
incidir apenas sobre ele)

Jovem
Depois daquela desastrosa experiência de Lisboa, refugiei­‑me nos meus
transes. Estava farto do mundo à minha volta. Durante meses vivi obceca‑
do. Dava tudo por tudo por um transe. Tornei­‑me dependente. Alienei­‑me
em absoluto. Felizmente tenho vivido em paz nos últimos meses. Quando
detecto sintomas de um transe iminente, vou para o ar livre e faço exercí‑
cio. Estava a tornar­‑se­‑me uma doença, esse voyeurismo, como se passasse
o dia de focinho contra a porta de vizinhos a espreitar­‑lhes pelo buraco da
fechadura. Valeu­‑me o meu analista. Diagnosticou­‑me uma fixação obsessi‑
va na figura do meu pai, manifestada através dessa obsessão com os «pais da
açorianidade», acrescida de um complexo de culpa que, segundo o analista,
ele terá projectado em mim gerando essa necessidade imperiosa de me fazer
procriar para continuar­‑lhe o nome da família. Ele era filho único tal como
eu próprio. Reflexo óbvio de um instinto de defesa. Casou em Lisboa. Sim,
minha mãe era alfacinha. E de uma família enorme, com o nome por toda a
parte. O meu pai viveu sempre assustado com o poder do seu sogro. Poder
populacional, sim. Quando havia um ajuntamento familiar, era um exército.
E ele sentia­‑se uma ilha no meio daquele mar agitado e estranho. Mas não
sei porque estou para aqui com esta lenga­‑lenga. Ignoro se isto é Freud ou
Lacan, mas também não vale a pena saber. Tenho andado mais calmo, graças
a Deus e ao analista, que para mim devem ser a mesma coisa. Bom, mas isto
tudo para dizer que tenho evitado esses transes que me levam à Atlântida.
No entanto, com os acontecimentos dos últimos tempos por esse mundo
fora, tive uma irresistível tentação de saber que reacções provocaram lá em
baixo as reviravoltas cá em cima. É que não sou eu o único voyeur. Na Atlân‑
tida, no último domingo de cada mês, há o Serão de Periscópio. Quem disse
que os mortos não se importam com o mundo que deixaram? Vão lá vê­‑los

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364 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Jorge AMADO. A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Agua. 1978. Mem


Martins: Europa­‑América. 13­‑26; 55; 97-100.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro


D’água. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoi‑
mento das testemunhas, lacunas diversas. Não há clareza sobre hora, local
e frase derradeira. A família, apoiada por vizinhos e conhecidos, mantém­
‑se intransigente na versão da tranquila morte matinal, sem testemunhas,
sem aparato, sem frase, acontecida quase vinte horas antes daquela outra
propalada e comentada morte na agonia da noite, quando a Lua se desfez
sobre o mar e aconteceram mistérios na orla do cais da Baía. Presenciada,
no entanto, por testemunhas idóneas, largamente falada nas ladeiras e be‑
cos escusos, a frase final repetida de boca em boca, representou, na opinião
daquela gente, mais que uma simples despedida do mundo, um testemunho
profético, mensagem de profundo conteúdo (como escreveria um jovem au‑
tor do nosso tempo).
Tantas testemunhas idóneas, entre as quais Mestre Manuel e Quitéria
do Olho Arregalado, mulher de uma só palavra, e, apesar disso, há quem
negue toda e qualquer autenticidade não só à admirada frase mas a todos
os acontecimentos daquela noite memorável, quando, em hora duvidosa e
em condições discutíveis, Quincas Berro D’água mergulhou no mar da Baía
e viajou para sempre, para nunca mais voltar. Assim é o mundo, povoado
de cépticos e negativistas, amarrados, como bois na canga, à ordem e à lei,
aos procedimentos habituais, ao papel selado. Exibem eles, vitoriosamente,
o atestado de óbito assinado pelo médico quase ao meio­‑dia e com esse sim‑
ples papel — só porque contém letras impressas e estampilhas — tentam
apagar as horas intensamente vividas por Quincas Berro D’água até sua par‑
tida, por livre e espontânea vontade, como declarou, em alto e bom som, aos
amigos e outras pessoas presentes.
A família do morto — sua respeitável filha e seu formalizado genro,
funcionário público de promissora carreira; tia Marocas e seu irmão mais
moço, comerciante com modesto crédito num Banco — afirma não passar
toda a história de grossa intrujice, invenção de bêbedos inveterados, patifes

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372 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

António Lobo ANTUNES. As Naus. [1988] 2006. Lisboa: Dom Quixote.


71­‑ 77.

Texto sujeito a Direitos de Autor

À segunda ou terceira semana e após muitas naus de descobertas cheias de


pupilas aflitas e de bagagem pouca apertada contra o oco do ventre, o ho‑
mem de nome Luís desistiu de aguardar o frigorífico e o fogão, decerto rou‑
bados pelos cafres em Loanda e vendidos aos alemães das fazendas do Ga‑
bão, e decidiu que o pai, que fervia na urna um bulício de minhocas, teria de
contentar­‑se com um enterro furtivo, à noite, nas sombras que os cemitérios
esquecem junto aos muros, onde a erva é mais alta que o olhar dos coveiros.
Um dos guardas, que conversava com ele ao fim da tarde a assistir às mano‑
bras das galés e ao aportar das caravelas esquartejadas por ventos estranhos,
comandadas por espectros de tricórnio que os coitos das sereias alucinavam,
oferecia­‑lhe os restos da marmita do jantar, ou seja batatas empasteladas de
gordura, pedúnculos de banana e cartilagens de frango pegadas ao alumínio
do fundo, comida de marinheiro de terra cozinhada pela mu­lher numa mar‑
quise do Beato, envidraçada pelo ranho dos filhos. Os galeões, depenados
de velas, trepavam a pulso, na manhã, o óleo de traineiras do Tejo a fim de
levarem ao paço a sua própria desgraça, um pinguim recém­‑nascido do es‑
treito de Magalhães num boião de compota e caixotes de cinzeiros made in
Hong Kong de Sacavém. Queimavam­‑se hereges por aqui e por ali, em estra‑
dozinhos de palco descobertos, para adoçar o povo. Matava­‑se um ou outro
espanhol por desfastio. E o mais era a pleurisia das locomotivas, as gaivotas
de sempre e os pedaços de antracite dos ratos dos arbustos, escapados aos
barcos, alimentados de bolachas de araruta e de múmias de corsários.
O cabo, que nos intervalos das rondas de serviço se instalava à secretá‑
ria a decifrar, num grande dispêndio de cigarros, ordens de serviço de gra‑
mática terrível, emprestou ao homem de nome Luís a embalagem de cartão
onde guardava a um canto o lixo das repartições marítimas, jornais da Mo‑
narchia, alísios, cartas inúteis, os girassóis das bússolas à procura de nortes
desencontrados, para que não saísse da área do seu posto um sujeito de urna
às costas a vaguear pela cidade na mira de um cemitério onde ancorar os
úmeros espalhados do morto. Despejaram­‑na num talude junto à via­‑férrea,

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manuel maria barbosa du bocage 377

Manuel Maria Barbosa du BOCAGE. «O macaco declamando», in Obra


Completa, Volume III. 2007 (Edição de Daniel Pires). Porto: Caixotim. 21.

Um mono, vendo­‑se um dia


Entre brutal multidão
Dizem lhe deu na cabeça
Fazer uma pregação

Creio que seria o tema


Indigno de se tratar,
Mas isso pouco importava,
Porque o ponto era gritar.

Teve mil vivas, mil palmas,


Proferindo à boca cheia
Sentenças de quinze arrobas,
Palavras de légua e meia.

Isto acontece ao poeta,


Orador, e outros que tais:
Néscios o que entendem menos
É o que celebram mais.

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378 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Nuno BRAGANÇA. A Noite e o Riso (Obras Completas, Volume I). [1969]


1995. Lisboa: Dom Quixote. 47­‑ 58.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Criado embora entre hálitos de faisão, cedo me especializei na arte de esten‑


der os braços. Dia após dia os mais laboriosos, cansativos forcejos projecta‑
vam meus membros anteriores em­‑frentemente. E isto assim até que perdi
as mãos de vista.
Não que o meu sorriso fosse esgar, ou o meu gargalhar inexistente; mas
uma certa palidez no semblante geral denunciava (ao que parece) más pos‑
sibilidades. Foi nessa época que se pôs o problema de eu ser ou não envolvi‑
do a fundo nas malhas da F.R.I.P.M.S. (Fundação do Recrutamento Infantil
Pró­‑Movimento Selecta). Reunido o Conselho de Família, verificou­‑se (e
registou­‑se em acta) a ausência do meu tio Augusto, que não pôde compa‑
recer, ocupado, como estava, a violentar a filha menos vesga do jardineiro.
Decidiu­‑se que eu não seria imediatamente recrutado: a debilidade era o
meu forte. Foi­‑me oferecido um gato de peluche e, como nesse dia perfiz
cinco anos, assim terminou a minha recuada infância.

No dia a seguir àquele em que comecei a usar risca ao lado fui transportado
para uma habitação na berma da cidade. Pela poeirenta rua deslizavam car‑
ros, volumes, carteiros e toda a sorte de animais. Como um rio, o barulho do
que na rua decorria se raspava de encontro aos muros da que, agora, era a
minha casa. Lá dentro, na fofa viuvez de um canapé acolchoado, um Mestre
de Rythmos me sondava os músculos e as articulações, na esperança de po‑
der contribuir para o meu futuro alindamento. Lembro­‑me de que um moço
de talho chamado Isaac fazia sempre cócegas à mesma criada e no mesmo
sítio. Lembro­‑me ainda de que, quando a noite caía e a rua se tornava numa
tira preta colada aos vidros, eu ia sentar­‑me na casa de banho para ouvir pin‑
gar as torneiras, pois tinha medo do silêncio.

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382 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Camilo Castelo BRANCO. Coração, Cabeça e Estômago. [1862] 2006. Porto:


Caixotim. 162­‑167.

CABEÇA I
JORNALISTA I

O homem não se deve somente à sua felicidade: — primeira máxima.


O principal egoísta é aquele que se desvela em explorar o coração alheio para opulen‑
tar o próprio com as deleitações do amor: — segunda máxima.
Como a felicidade do egoísta é um paradoxo, a felicidade pelo amor é impossível: —
terceira máxima.
quarta: — O bem particular é resultado do bem geral.
Quem quiser ser feliz há­‑de convencer­‑se de que sacrificou ao bem geral uma parte dos
seus prazeres individuais: — quinta máxima.
O amor, considerado fonte de contentamentos ideais, é o sonho dum doudo sublime:
— sexta.
Sétima: — A mulher é uma contingência: quem quiser constituí­‑la essência de sua
vida, aleija­‑se na alma, e cairá setenta vezes sete vezes das muletas a que se ampare
do chão mal gradado e barrancoso do seu falso caminho.

Estas sete máximas fui eu que as compus, depois de ler a antiguidade, e al‑
guns almanaques, que tratavam do amor.
Entrei a cogitar no modo de ser útil à humanidade com a minha expe‑
riência e inteligência do coração humano. Ofereceu­‑se­‑me logo azo de exer‑
citar as minhas benévolas disposições. Escrevi para o Periódico dos Pobres do
Porto uma correspondência contra o regedor da minha fre­guesia, acusando­
‑o de me prender um criado para recruta. Nesta correspondência, discorri
largamente acerca dos direitos do homem. Examinei o que foi a liberdade
em Grécia e Roma. Procurei­‑a no berço do cristianismo, e vim com ela, atra‑
vés dos séculos, até à revolução francesa, que eu denominei o último verbo
da sociabilidade humana: tudo isto por causa do recruta, e contra o regedor
da minha freguesia, que eu cobri de epítetos tais como ominoso, e paxá de três
caudas.
O regedor respondeu­‑me, e eu repliquei. Seguiu­‑se uma série de cor‑
respondências, que podiam formar um livro importante para a história dos
costumes dos regedores em Portugal no século xix.

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camilo castelo branco 383

O prurido de escrever correspondências, a respeito doutras muitas coi‑


sas, e mormente da dotação do clero — matéria que veio a ponto, quando
eu tive uma questão com o meu pároco por causa da côngrua e pé­‑de­‑altar,
— insinuou­­‑me a persuasão de que havia em mim pronunciadas tendên‑
cias para escritor político. Discutia­‑se naquele tempo o sr. conde de Tomar,
a quem uns chamavam Barba­‑roxa, e outros marquês de Pombal. Decidi­‑me
a favor dos segundos, que tinham incontestável razão. Escrevi uma série de
artigos, com muito suco, em grande parte copiados do Dicionário­‑político de
Garnier­‑Pagés; e, na parte de minha lavra, havia ali uma verdura de ideias que
ninguém lhe metia dente. Por essa ocasião, recebi de vários pontos do país
diferentes cartas, umas insultadoras, capitulando­‑me de besta; outras, no
mais moderado de seus encómios, profetizavam em mim o Girardin por­
tuguês. De Mirandela recebi a lisonjeira nova de se andarem quotizando al‑
guns amigos da ordem para me oferecerem uma pena. Veio a pena, passado
algum tempo; mas era uma pena de galinhola, uma zombaria que eu repeli
com todas as potências do meu desprezo.
Como as minhas doutrinas andassem encon­tradas com as do regedor
e do pároco — afeiçoados à revolução militar de 1844 — maquinaram eles
contra mim ciladas, que me iam sendo fatais, sob pretexto de eu ser parti‑
dário do sr. Costa Cabral. As sevícias do rancor chegaram ao extremo de
me matarem uma cabra, que pastava no passal do vigário, e aleijaram­‑me
uma égua, que, num ímpeto de castidade, escouceara um garrano do rege‑
dor. Estas prepotências eram indicativas de algum grande atentado contra
a minha vida. Saí, portanto, da minha aldeia, e fui para o Porto, expor com
desassombro ao sol da civilização, os meus talentos em matéria de governa‑
ção pública.
Fiquei grandemente surpreendido e embaçado quando cheguei ao Por‑
to, e dei fé que ninguém se ocupava a falar de mim! À mesa redonda do
hotel, onde me hospedei, tratou­‑se o assunto da política; e, como era essa a
feliz conjunção de eu divulgar o meu nome, encaminhei habilmente a con‑
trovérsia, até me declarar Silvestre da Silva, autor dos artigos epigrafados:
OS PORTUGUESES NA BALANÇA DO MUNDO.
Ninguém me conheceu o nome, a não ser um literato localista, que teve
a audácia de me dizer que os meus artigos tresandavam ao montesinho,
e que as minhas ideias entouriam o estômago intelectual como se fossem
castanhas cozidas. Donde ele concluía que a minha literatura tinha a cor
local dos seus alimentos, e denunciava a morosidade das minhas digestões.
Devo a este lorpa a popularidade, que alcancei logo aos primeiros dias da
minha chegada. Àqueles sarcasmos respondi com um murro de consistência

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384 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

provinciana, murro que devia também ter a cor local da pesada digestão das
castanhas. O literato desafiou­‑me, e teve a bravura de me propor um duelo
à pistola à ponta de lenço. Responderam os meus padrinhos que eu optava
pelo murro à ponta do nariz. Com esta pequena modificação à sua propos‑
ta, o localista retirou a honra da peleja, e desafogou na secção das locais,
chamando­‑me onagro, e vários outros adjectivos, cujo período eu lhe arre‑
dondei com um puxão de orelhas na primeira ocasião.
Assim, pois, inaugurei a minha entrada no Porto.

II

Naquele tempo, a cidade heróica estava muito mais adiantada em policia‑


mento que hoje. Uma dúzia das principais famílias abriam frequentemente
os seus salões, e rivalizavam na profusão do serviço. Comia­‑se muito.
Posto que os dissabores fundos da minha vida passada me fizessem ver
com tédio os regalos da sociedade, fui obrigado pela minha posição nas letras
a comparecer nos focos da civilização. Escrevi alguns folhetins, historiando
os prazeres fictícios daquelas noitadas, e mediante eles granjeei a estima das
donas da casa; e quer­‑me pa­recer que, se eu tivesse coração naquela época, as
virtudes da cidade da virgem seriam hoje uma coisa muito equívoca.

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luís de camões 385

Luís de CAMÕES. Auto dos Anfitriões. [1587] 1981. Lisboa: Comunicação.


35-51.

Feito por Luís de Camões, no qual entram as figuras seguintes:


Anfatrião; Almena, sua mulher; Sósia, seu moço; Brómia, sua criada; Bel‑
ferrão, patrão; Auré­lio, primo dela, com seu moço; Júpiter e Mercúrio; e entra logo
Almena, saudosa do marido, que é na guerra, e diz

Almena Ah! Senhor Anfatrião


Onde está todo meu bem!
Pois meus olhos vos não vêem,
Falarei co’o coração,
Que dentro n’alma vos tem.
Ausentes duas vontades,
Qual corre mores perigos,
Qual sofre mais crueldades:
Se vós entre os inimigos,
Se eu entre as saudades?

Que a Ventura, que vos traz


Tão longe de vossa terra,
Tantos desconcertos faz,
Que se vos levou a guerra,
Não me quis deixar em paz.
Brómia, quem, com vida ter,
Da vida já desespera,
Que lhe poderás dizer?

Brómia Que nunca se viu prazer,


Senão quando não se espera.

E portanto não devia


De ser triste a fantasia;
Porque Vossa Mercê creia
Que o prazer sempre salteia
Quem dele mais desconfia.

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386 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Eu tenho no coração,
Do Senhor Anfatrião
Venha hoje alguma nova:
Não receba alteração,
Que a verdadeira afeição
Na longa ausência se prova.

Almena Dizei logo a Feliseu


Que chegue muito apressado
Ao cais, e busque meio
De saber [se] algum recado
Do porto pérsico veio.
E mais lhe haveis de dizer
(Isto vos dou por ofício)
De alguma nova saber,
Enquanto eu vou fazer
Aos Deuses sacrifício.

Vai­‑se Almena, e diz Brómia

Brómia Saudades de minha ama,


Chorinhos e devações,
Sacrifícios e orações,
Me hão­‑de lançar numa cama,
Certamente.
Nós, mulheres de semente,
Somos sedenho tão tosco!
Com qualquer vento que vente,
Queremos forçadamente
Que os Deuses vivam connosco.

Quero Feliseu chamar,


E dizer­‑lhe aonde há­‑de ir.
Mas ele, como me vir,
Logo há­‑de querer rinchar,
De travesso.
Eu que de zombar não cesso,
Por ficar com ele em salvo,
Lanço­‑lhe um e outro remesso;

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luís de camões 387

Aos seus furto­‑lhe o alvo,


E então ele fica avesso.

Porque o melhor destas danças,


Com uns vendiços assi,
É trazê­‑los por aqui
Ao cheiro das esperanças,
Por viver.
Há os homem de trazer
Nos amores assim mornos,
Só para ter que fazer;
E depois, ao remeter,
Lançar­‑lhe a capa nos cornos.

Feliseu, se estais à mão,


Chegai cá, vem como um gamo;
Bem sei que não chamo em vão.

Vem Feliseu

Feliseu Chamais­‑me? Também vos chamo;


Porém eu ouço, e vós não.
Senhora, que me matais!
Se vós já nunca me ouvis,
Ou me ouvis e vos calais,
Dizei: porque me chamais,
Se me vós a mim fugis?
Brómia Eu vos fujo?
Feliseu Fugis, digo,
De dar a meus males cabo.

Brómia Sabei que desse perigo


Não fujo como de imigo,
Fujo como do diabo.
Feliseu Dai ao demo essa tenção,
Usai antes de cortes,
Caí vós nesta razão.
Brómia Do perigo fogem os pés,
Do diabo o coração.

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388 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Feliseu Dizeis­‑me que nessa briga


Do meu coração fugis.
Brómia Ainda que eu isso diga...
Feliseu Ah! minha doce inimiga!
Bem sinto que me sentis;
Mas para que me chamais?
Brómia Manda­‑vos minha Senhora
Que chegueis daqui ao cais,
E algumas novas saibais
De Anfatrião nesta hora.

Feliseu Quem as não sabe de si,


De outrem como as saberá?
Brómia Não nas sabeis vós de mi?
Feliseu Má trama venha por ti,
Dona feiticeira má!
Porque não me olhas direito,
Cadela, que assim me cortas?
Brómia Porque vos quero dar portas;
Que, se eu olhar de outro jeito,
Trarei cem mil vidas mortas.
Feliseu E pois para que me andais
Enganando há cem mil anos?
Brómia Dou­‑vos vida com enganos.
Feliseu Nesses enganinhos tais
Acho cruéis desenganos.
Brómia Quanto a esses vos quero eu dar:
Vós cuidais que estais na sela?
Pois podeis­‑vos descer dela,
Que eu nunca vos pude olhar.
Feliseu Jogais comigo à panela?

Tendes­‑me há tanto cativo,


E desenganais­‑me agora?
Tudo isto é o que privo!
Assim, que é isso, Senhora?
Dou­‑che­‑lo morto, dou­‑che­‑lo vivo?
Se me vós desenganais
No cabo de tantos anos,

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luís de camões 389

Direi, se licença dais.


Dais­‑me vida com enganos.
Desenganos, já chegais.

Mas se isso havia de ser,


Dizei, má desconhecida,
Desterro de meu viver,
Que vos custava dizer:
Amor, vai buscar tua vida?
Brómia Zombais? Falais­‑me coprinhas?
Feliseu Rir­‑vos­‑eis, se vem à mão.
Copras não, mas isto são
Ansias y pasiones minhas
Dos bofes e coração.

Brómia Is­‑vos fazendo de uns sengos...


Feliseu Perdóneme Dios, si peco.
Brómia Nesses dentinhos flamengos,
Conheço que sois um peco
De todos quatro avoengos.
Feliseu Tudo vos levo em capelo,
Já que estais tanto em agraço.
Porém, falando singelo,
A furto desse mau zelo,
Quereis­‑me dar um abraço?

Brómia Ora digo que não posso


Usar convosco de fero.
Tomai­‑o.
Feliseu Já o não quero,
Porque esse abraço vosso,
Sabei que é engano mero.
Brómia Oh! vós sois de uns sensabores...
Abraço pedis assim?
Se eu remango de um chapim...
Feliseu Tudo isso são favores.
Zombai, vingai­‑vos de mim.
Brómia Vós, de furioso touro,
As garrochas não sentis.

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390 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Feliseu Vedes, com isso sou mouro:


Quando cuido que sois ouro,
Acho­‑vos toda ceitis.
Brómia Enfim, sanha de vilão
Vos fez perder um bom dia.
Feliseu Já agora eu o tomaria;
Quereis­‑mo dar?
Brómia Ora não.
Cocei­‑vos eu todavia.
Feliseu Pois, Senhora, a quem vos ama
Sois tão desarrazoada,
Quero tomar outra dama;
Que não digam os de Alfama
Que não tenho namorada.
Brómia Deixai­‑me.
Feliseu Vós me deixais.
Brómia Deixai­‑me.
Feliseu Zombais de mi?
Brómia Deixai­‑me. Pois me enjeitais,
Eu me ausentarei daqui,
Onde me mais não vejais.

Feliseu Boa está a zombaria!


Brómia Não são essas minhas manhas.
Feliseu Porem, is­‑vos todavia?
Brómia Voyme a terras extrañas
Adó Ventura me guía.

Vai­‑se Brómia e diz

Feliseu Fantasias de donzelas,


Não há quem como eu as quebre;
Porque certo cuidam elas
Que com palavrinhas belas
Vos vendem gato por lebre.

Esta tem lá para si


Que eu sou por ela finado,
E crê que zomba de mim;

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luís de camões 391

E eu digo­‑lhe que sim,


Sou por ela esperdiçado.
Preza­‑se dumas seguras;
E eu não quero mais Frandes:
Dou­‑lhe trela às travessuras,
Porque destas coçaduras
Se fazem as chagas grandes.
Que estas, que andam sempre à vela,
Estas vos digo eu que coço;
Porque, de firmes na sela,
Crêem que falsam a costela,
E ficam pelo pescoço.
Que quando estas damas tais
Me cacham, então recacho.
Mas disto agora não mais.
Quero­‑me ir daqui ao cais,
Ver se algumas novas acho.

Vai­‑se Feliseu e vêm Júpiter e Mercúrio, e diz Júpiter

Júpiter Oh! grande e alto destino!


Oh! potência tão profana!
Que a seta de um minino
Faça que meu ser divino
Se perca por cousa humana!
Que me aproveitam céus
Onde minha essência mora
Com tanto poder, se agora
A quem me adora por Deus.
Sirvo eu como senhora?

Oh! que estranha afeição!


Quem em baixa cousa vai pôr
A vontade e o coração
Sabe tão pouco de Amor
Quão pouco Amor da razão.
Mas que remédio hei­‑de ter
Contra mulher tão terrível,
Que se não pode vencer?

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392 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Mercúrio Alto Senhor, a teu poder


O difícil lhe é possível.

Júpiter Tu não vês que esta mulher


Se preza de virtuosa?
Mercúrio Senhor, tudo pode ser;
Que para quem muito quer,
Sempre a afeição é manhosa.
Seu marido está ausente
Na guerra, longe daqui;
Tu, que és Júpiter potente,
Tomarás sua forma em ti,
Que o farás mui facilmente.
E eu me transformarei
Na de Sósia, criado seu;
E ao arraial me irei,
Onde logo saberei
Como a batalha se deu.
E assim poderás entrar,
Em lugar de seu marido.
E para que sejas crido,
Poderás também contar
Quanta eu lá tiver sabido.

Júpiter Quem arde em tamanho fogo


Tira­‑lhe a virtude a cor
De subtil e sabedor;
E quem fora está do jogo
Enxerga o lanço melhor.
Mas tu, que dos sabedores
Tanto avante sempre estás,
Se deus és dos mercadores,
Sê­‑lo­‑ás dos amadores,
Pois tal remédio me dás.

Ponha­‑se logo em efeito,


Que não sofre dilação
Quem o fogo tem no peito;
E tu, vai logo direito
Onde anda Anfatrião.

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luís de camões 393

Vão­‑se e vem Feliseu e Calisto, e diz Feliseu

Feliseu Adó bueno por aquí.


Tão longe do acostumado?
Calisto Mais longe vou eu de mi,
De ir perto de meu cuidado.
Feliseu No andar vos conheci.
Calisto E vós onde vos lançais
Com vossa contemplação?
Feliseu Eu chego daqui ao cais
A saber de Anfatrião
Não sei se vou por demais.
Calisto Porque «por demais» dizeis?
Feliseu Porque nada ali é certo.
Calisto Novas lá não nas busqueis,
Que aqui as tendes mais perto.
Feliseu Pois dai­‑mas, se as sabeis.
Calisto Um navio é já chegado
À barra, que vem de lá;
Traz de Anfatrião recado,
Diz que o deixa embarcado
Para se vir para cá.

Tem vencido aquele rei;


E diz, segundo lhe ouvi,
Que esta noite será aqui.
Feliseu Essas novas levarei
A Almena, que torne em Si,
Porque ela tem major guerra
Co’os temores de perdê­‑lo,
Que ele co’o rei dessa terra.
Calisto Onde amor lançar o selo,
Nenhuma cousa o desterra.

Porque inda que o pensamento


Vos fique, Senhor, em calma,
Por morte ou apartamento,
Sempre vos lá ficam na alma
As pegadas do tormento.

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394 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Feliseu Isso é um segredo mero,


A que o amor nos obriga
Por isso, em caso tão fero,
Senhor, nunca ninguém diga:
Já lho quis, e não lho quero.
Eu quis bem a uma mulher,
Que vós conhecestes bem,
E, com muito lhe querer,
Casou­‑se.
Calisto Oh! e com quem,
Que ainda o não posso crer?
Feliseu Com um mercador, que veio
Agora do Egipto rico.
Calisto Isso traz água no bico.
Esse homem é parvo ou feio?
Feliseu Pois vedes? Disso me pico.

E em pago desta treição,


Afora outros mil descontos
Que traz consigo a afeição,
Sempre os sinais destes pontos
Trarei no meu coração.
Calisto Viste­‑la mais?
Feliseu Senhor, vi,
Na janelinha da grade
Passei, e disse­‑lhe assi:
— Casada sem piedade,
Porque não na aveis de mi?
Calisto Que vos disse?
Feliseu Lá no centro
Lhe enxerguei pouca alegria;
E como quem lhe doía,
Metendo­‑se para dentro,
Disse: — Ya paso folía.
Calisto Ah! má sem conhecimento!
Quem lhe desse mil chofradas!
Feliseu Senhor, como são casadas,
Casam­‑se co’o esquecimento
Das cousas que são passadas.

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luís de camões 395

Calisto Lembranças de vos deixar


Picar­‑vos­‑ão como tojos.
Feliseu Senhor, haveis de assentar
Que onde Amor vos quer matar,
Siempre allá miran [los] ojos.
Um mote, Senhor, mandei
Um dia, estando com febre,
Só da paixão que tomei.
Calisto Pois vejamos quem tem lebre.
Feliseu Senhor, eu vo­‑lo direi:
Mote
Vós por outrem, eu por vós;
Vós contente, e eu penado;
Vós casada, eu cansado.
P’los santos de minha dona!
Calisto Senhor, vós só [o] fizestes?
Feliseu Sim, que ninguém me ajudou.

Calisto Se vós só o compusestes,


Crede que extremos dissestes.
Nunca Orlando tal falou!
Senhor, fizestes­‑lhe pé?
Feliseu Senhor, sim; todo um ano...
Vós zombais, se não me engano.
Calisto Não, mas dou­‑vos minha fé
Que nunca vi tão bom pano.
Feliseu Ora olhe Vossa Mercê:
Volta
Olhai em quão fundos vaus
Por vossa causa me afogo,
Que outro me ganha o jogo,
E eu triste pago os paus.
Olhos travessos e maus,
Inda eu veja o meu cuidado
Por esse vosso trocado.

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396 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Suleiman CASSAMO. «Avó versus televisor», in Amor de Baobá. 1997.


Lisboa: Caminho. 23­‑24.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Antes do televisor, era minha avó que nos contava estórias. Não tínhamos
então o luxo dos sofás, e nos sentávamos à volta da fogueira. A avó morreu,
veio o televisor. Tudo bem.
Um dia, recebemos a visita de um tal Umberto Eco, um italiano de dis‑
tintos óculos viajando pelo Mundo no Jornal de Artes e Letras de Lisboa.
Eco perguntou­‑nos da roupa de luto.
— É da avó — lhe dissemos.
E mais não dissemos porque estávamos entretidos com as maravilhas
da nova aquisição.
Mas Eco, apontando para o televisor, disse simplesmente:
— Foi tão rápido, foi um salto.
Algum tempo após essa ilustre visita, julgo compreender o sentido do
seu comentário. Basta um olhar por esta sala. Está aqui o luxo: a alcatifa, os
móveis, a aparelhagem de música, o mais original relógio de parede desper‑
diçando horas. Tudo. Mas, os livros? Nem que fosse para inglês ver, cadê?
Não será o salto de que fala Eco? Estamos passando da avó ao televisor
sem passar pelo livro, esse excelente suporte do conhecimento e da Cultura.
O televisor ocupa, agora, na estante, o lugar do livro. A Cultura pode
passar pela televisão, receitam alguns. Mas com disfarce de espectáculo.
Que a televisão é o lugar do espectáculo e da alienação.
Ao Umberto Eco o meu tardio aceno. Partilho contigo a Ciência dos
compêndios. Minha avó era uma enciclopédia viva. O que mais dói não é a
sua morte em si. É que não houve tempo de gravar na imortalidade do papel
a sua sabedoria, fazer dela Livro.
Com minha saudosa avó, apagou­‑se a fogueira que nos juntava, morre‑
ram os jogos desse tempo, morreu um tempo irrecuperável.
A televisão colocou o Mundo à porta da nossa casa, reconhece Eco. Sem
dúvida: no mesmo instante em que Chiquinho Conde chuta, em Setúbal,
nós, seus conterrâneos, sabe­‑se lá a quantos mil quilómetros, gritamos o
golo moçambicano do Vitória. Um milagre.

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398 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

José CRAVEIRINHA. «Ninguém», in Karingana ua Karingana [Obra Poética I].


[1974] 1980. Maputo: Associação dos Escritores Moçambicanos. 79.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Andaimes
até ao décimo quinto andar
do moderno edifício de betão armado.

O ritmo
florestal dos ferros erguidos arquitectonicamente no ar
e um transeunte curioso
que pergunta:
— Já caiu alguém dos andaimes?

O pausado ronronar
dos motores a óleos pesados
e a tranquila resposta do senhor empreiteiro:
— Ninguém. Só dois pretos.

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suleiman cassamo 399

Reinaldo FERREIRA. [Deixai os doidos governar entre comparsas!], in O


Chão da Palavra / Poemas. 1998. Lisboa: Vega. 89.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Deixai os doidos governar entre comparsas!


Deixai­‑os declamar dos seus balcões
Sobre as praças desertas!
Deixai as frases odiosas que eles disserem,
Como morcegos à luz do Sol,
Atónitas baterem de parede em parede,
Até morrerem no ar
Que as não ouviu
Nem percutiu
À distância da multidão que partiu!
Deixai­‑os gritar pelos salões vazios,
Eles, os portentosos mais que os mares,
Eles, os caudalosos mais que os rios,
O medo de estar sós
Entre os milhares
De esgares
Reflectidos dos colossais
Cristais
Hílares
Que a sua grandeza lhes sonhou!

© Nova Vega.

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400 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Luís Bernardo HONWANA. «As mãos dos pretos», in Nós Matámos o Cão
Tinhoso. [1968] 1972. Porto: Afrontamento. 111­‑114.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Já não sei a que propósito é que isso vinha, mas o Senhor Professor disse
um dia que as palmas das mãos dos pretos são mais claras do que o resto
do corpo porque ainda há poucos séculos os avós deles andavam com elas
apoiadas ao chão, como os bichos do mato, sem as exporem ao sol, que lhes
ia escurecendo o resto do corpo. Lembrei­‑me disso quando o Senhor Padre,
depois de dizer na catequese que nós não prestávamos mesmo para nada e
que até os pretos eram melhores do que nós, voltou a falar nisso de as mãos
deles serem mais claras, dizendo que isso era assim porque eles, às escondi‑
das, andavam sempre de mãos postas, a rezar.
Eu achei um piadão tal a essa coisa de as mãos dos pretos serem mais
claras que agora é ver­‑me a não largar seja quem for enquanto não me disser
porque é que eles têm as palmas das mãos assim mais claras. A Dona Dores,
por exemplo, disse­‑me que Deus fez­‑lhes as mãos assim mais claras para não
sujarem a comida que fazem para os seus patrões ou qualquer outra coisa
que lhes mandem fazer e que não deva ficar senão limpa.
O Senhor Antunes da Coca­‑ Cola, que só aparece na vila de vez em quan‑
do, quando as coca­‑colas das cantinas já tenham sido todas vendidas, disse que
tudo o que me tinham contado era aldrabice. Claro que não sei se realmente
era, mas ele garantiu­‑me que era. Depois de eu lhe dizer que sim, que era al‑
drabice, ele contou então o que sabia desta coisa das mãos dos pretos. Assim:
«Antigamente, há muitos anos, Deus, Nosso Senhor, Jesus Cristo, Vir‑
gem Maria, São Pedro, muitos outros santos, todos os anjos que nessa al‑
tura estavam no céu e algumas pessoas que tinham morrido e ido para o
céu, fizeram uma reunião e resolveram fazer pretos. Sabes como? Pegaram
em barro, enfiaram­‑no em moldes usados e para cozer o barro das criaturas
levaram­‑nas para os fornos celestes; como tinham pressa e não houvesse lu‑
gar nenhum, ao pé do brasido, penduraram­‑nas nas chaminés. Fumo, fumo,
fumo e aí os tens escurinhos como carvões. E tu agora queres saber porque
é que as mãos deles ficaram brancas? Pois então se eles tiveram de se agarrar
enquanto o barro deles cozia?!»

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manuel laranjeira 403

Manuel LARANJEIRA. «Carta a Unamuno sobre a vocação suicida dos


portugueses III», in Obras de Manuel Laranjeira, Volume I. (Organização de
José Carlos Seabra Pereira). 1993. Lisboa: ASA. 466­‑468.

Amigo:
Não imagina o prazer que senti ao saber que V., espírito superior, anda‑
va a compor um livro sobre as coisas da minha terra, desta minha tão desgra‑
çada terra de Portugal.
Desgraçada — é a palavra.
O pessimismo suicida de Antero de Quental, de Soares dos Reis, de Ca‑
milo, mesmo do próprio Alexandre Herculano (que se suicidou pelo isola‑
mento como os monges) não são flores negras e artificiais de decadentismo
literário. Essas estranhas figuras de trágica desesperação irrompem espon‑
taneamente, como árvores envenenadas, do seio da Terra Portuguesa. São
nossas: são portuguesas: pagaram por todos: expiaram a desgraça de todos
nós. Dir­‑se­‑ia que foi toda uma raça que se suicidou.
Em Portugal chegou­‑se a este princípio de filosofia desesperada — o
suicídio é um recurso nobre, e uma espécie de redenção moral. Neste malfa‑
dado país, tudo o que é nobre suicida­‑se; tudo o que é canalha triunfa.
Chegámos a isto, amigo. Eis a nossa desgraça. Desgraça de todos nós,
porque todos a sentimos pesar sobre nós, sobre o nosso espírito, sobre a
nossa alma desolada e triste, como uma atmosfera de pesadelo, depressiva e
má. O nosso mal é uma espécie de cansaço moral, de tédio moral, o cansaço
e o tédio de todos os que se fartaram — de crer.
Crer…! Em Portugal, a única crença ainda digna de respeito é a crença
— na morte libertadora.
É horrível, mas é assim.
A Europa despreza­‑nos; a Europa civilizada ignora­‑nos; a Europa me‑
díocre, burguesa, prática e egoísta, detesta­‑nos, como se detesta gente sem
vergonha, sobretudo... sem dinheiro. Apesar disso, em Portugal ainda há
muita nobreza moral, ainda há pelo menos nobreza moral bastante para
morrer, e ainda existem coisas bem dignas de simpatia.
O seu livro há­‑de reabilitar­‑nos um pouco, seguramente. V., que é ho‑
mem de paixão e sentimento, e vê as coisas da vida através da lógica afectiva,

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404 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

há­‑de ser naturalmente levado a defender calorosamente um povo essen‑


cialmente sentimental. Tão sentimental, que se deixou dominar pela emoti‑
vidade despótica de um alienado com o delírio da tirania.
Bem sei: a lógica afectiva muitas vezes turva a visão nítida e precisa dos
factos; mas, em compensação, permite pressentir e compreender pela in‑
teligência do coração. O seu livro, amigo, sobre as coisas e desventuras da
minha Terra, visto à luz fria da lógica utilitarista, poderá conter muitas inter‑
pretações erróneas, muitos modos de ver falsos; mas conterá também, com
certeza, algumas verdades que só podem ser adivinhadas e compreendidas
pelos espíritos afectivos.
Diz V. que tudo aquilo que se tem passado e está passando em Portugal
é o desarollo de uma espécie de tumor social.
Será, será. Será a morte até.
Há quem diga que o tumor é apenas um abcesso que, depois de supu‑
rar, nos permitirá viver ainda largos dias de desafogo e bem­‑estar. (Ainda há
também optimistas em Portugal).
Eu, por mim, não sei, não sei: em boa verdade, amigo, não sei para onde
vamos. Sei que vamos mal. Para onde? Para onde nos levarem os maus ven‑
tos do destino. Para onde? Vamos...
Quando penso que sobre nós pesa a herança trágica, secular, de uma
ignorância podre e de uma corrupção criminosa, o meu espírito enegrece e
sinto­‑me adentrado de um pavor indizível, talvez absurdo. E, mais que saber
se vamos para a vida ou para a morte, me preocupa saber se morreremos
nobre ou miseravelmente.
Bem vê, amigo, a vida, quer se trate da vida de um homem, quer se trate
da vida de um povo, é uma coisa bem pequena, bem desprezível. O impor‑
tante é o uso que se faz desta vida. Um minuto de vida bem empregada vale
mais do que a eternidade da vida inutilmente vivida. E em Portugal (veja a
profundidade do nosso mal!) há almas tão sucumbidas que dizem que —
tanto faz morrer de um modo como de outro. Esta insensibilidade moral é
pior do que a morte, não é verdade?
Às vezes, em horas de desânimo, chego a crer que esta tristeza negra
nos sobe da alma aos olhos; e, então, tenho a impressão intolerável e louca
de que em Portugal todos trazemos os olhos vestidos de luto por nós mes‑
mos.
É claro, eu sou português e portanto filho de um povo que atravessa
uma hora indecisa, crepuscular do seu destino. É possível, pois, como acon‑
tece a quase todos os enfermos, que eu não tenha a compreensão clara do
nosso estado.

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manuel laranjeira 405

E, como acontece ainda a quase todos os enfermos, o meu espírito tem


intercadências de abatimento e entusiasmo, de fé e desânimo, de crença e
desesperança.
Isto quer singelamente significar que quanto eu digo das coisas e des‑
ditas de Portugal, o digo como português. Repito: Portugal atravessa uma
hora indecisa, gris, crepuscular, do seu destino.
Será o crepúsculo que precede o dia e a vida, ou o crepúsculo que ante‑
cede a noite e a morte?
Não sei, não sei, não sei...
Há meses ainda, quando Portugal atravessava os dias terríveis da di‑
tadura de Franco, eu cria que íamos ressurgir. Nessa ocasião publiquei uns
artigos (vou mandar procurá­‑los no Porto, para lhos enviar) fervorosos de
optimismo e crença. Hoje, porém, há uma tranquilidade podre que me as‑
susta deveras. Não falta mesmo por aí quem diga que isto não é já um povo,
mas sim — o cadáver de um povo.
Não sei, não sei...
Esta carta, interminável como a desventura, lhe dirá, amigo, o estado
do meu espírito neste momento. É possível que eu me engane (oxalá!) e que
isto seja devido um pouco ao estado depressivo dos meus nervos doentes.
Demais, eu reconheço­‑o: acerca dos males da minha terra, não falo como
médico, falo como enfermo.
E, porque falo como enfermo, é que esta carta já vai demasiado longa e
enfadonha. É que todos os doentes gostam de falar muito das suas enfermi‑
dades, e é esta a minha única desculpa.
Perdoe­‑me e creia sempre na profunda estima e admiração do seu afec‑
tuoso

Espinho, 28 de Outubro de 1908


Manuel Laranjeira

P. S. Tantas coisas que eu desejava dizer­‑lhe ainda em resposta à sua carta!


Mas que quer? Quando me ponho a falar da minha pobre terra e sobretudo
das desditas da minha pobre terra, sou assim (como os doentes!), esqueço­
‑me de tudo o mais. Perdoe­‑me.
E recomende­‑me aos Pinilla.
Do coração amigo
M. L.

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406 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Joaquim Dias Cordeiro da MATTA. «Libelo a Portugal», in Delírios. [1889]


2003. Lisboa: Imprensa Nacional — Casa da Moeda. 146.

(A Arantes Braga)
Ex nihilo nihil

Portugal foste grande... Tuas tradições


gloriosas assombram todas as nações!

De Camões o poema e de Herculano a história,


tudo, ó egrégio velho, fala em tua glória.

Porém se eras o forte, o temerário, o ousado,


da marítima empresa o grande iniciador,
o intrépido, o valente náutico — soldado —
atestando em doiradas páginas ao mundo
qual foi — após heróicas lidas — teu valor;
hoje, ó velho leão, estás moribundo!...

O que foste, ai! apenas em livros se lê,


tua força potente hoje exausta é!...

Se pra a cova sem força e alento caminhando,


já vais tua misérrima vida chorando,
e mesmo os filhos teus teu fado amaldiçoam
e tua triste morte, ó velhinho, apregoam; ¬
oh! não deixes Angola em mísera orfandade,
oh! dá­‑lhe, Portugal, a sua liberdade...

Barra do Cuanza, 9 de Março de 1883

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francisco manuel de melo 407

Francisco Manuel de MELO. O Fidalgo Aprendiz. [1665]. Lisboa: Centro de


Estudos de Teatro. http://www.cet­‑e­‑seiscentos.com/obras (consultado a
22.9.2017).

PRIMEIRA JORNADA
Sai Afonso Mendes vestido à portuguesa antiga, botas, barbas, festo, pelote,
gorra, espada em talabarte.

Sou velho, já fui mancebo


cousa que, mal que lhes pês,
virá por vossas mercês.
Naci no Lagar do Sebo,
faz hoje setenta e três.

Fui prezado, fui temido,


passei sóis, passei serenos,
rompi bons vintadozenos
já nunca mudei vestido
e inda fato mudei menos.

Sei o Açougue no Ressio,


os Estaus na Inquisição,
vi el rei dom Sebastião.
Sem dinheiro quis ter brio,
fiquei perpétuo rescão.

Hoje sirvo, não sei donde,


lá de riba, um escudeiro,
enfronhado em cavaleiro,
que, de andar posto em ser conde,
se não conde, é cond’Andeiro.

Com dous mil e cento a seco


me tomou para seu aio:
sou seu paje e seu lacaio,
e ainda hei de ser seu Pacheco
conforme a tudo me ensaio.

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408 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Se n a sandice encalha,
dou­‑o ò demo que é testudo!
Presume de homem sisudo,
de nada sabe migalha,
e anda enxovalhando tudo.

Morto por ser namorado,


contrabaxo e trovador,
cavaleiro e dançador,
enfim fidalgo acabado,
valentão e caçador.

Mas a comadre minha,


molher para muita aquela,
anda armando­‑lhe esparrela
c’uma filha bonitinha
que eu fico que caia nela.

Oh, pesar do meu pai torto,


(descreo dos castelhanos)
pois à fé que é de bons panos
e ressurgir pode um morto,
mas que seja de cem anos.

Entra na dança comigo


um chapado velhacão
que eu crismei em dom Beltrão.
Inculquei­‑lho por amigo
e o negócio anda em feição.

Porque o tal Beltrão pretende


a menina tal qual era.
A velha está como cera,
mas faz que nada entende
só pelo ganho que espera.

Eis meu amo.

Mundos em português - Tomo I_PAG.indd 408 18/06/11 13:07


francisco manuel de melo 409

Sai dom Gil como de por casa, gualteira, balandrau e chinelas e um pito ao pes‑
coço e venha assoviando.

Gil Olá, criados!


Almeida, Costa, Miranda!
Malovento, a ess’outra banda,
que desta já são lançados!

Sacratário, há tal dormir?


Estribeiro!, aio!
Afonso Senhor.
Gil Se chamara o confessor,
tinha jeito de não vir.

Afonso Que manda vossa mercê?


Gil Que tenhais mais cortesia.
Afonso Que mandais?
Gil A «senhoria»
não sei para quando é?!

Afonso Basta, que tomou teiró


de querer mais do que é seu.
Gil Aio, não sejas sandeu
que nisso não sou eu só.

Os criados donde são?


Afonso Todos são dos seus lugares.
Gil Folgais de me dares pesares?
Pergunto­‑vos donde estão.
Afonso Em casa do inculcador.
Gil Que dizeis, Afonso Mendes?
Afonso Que os tenhais já que os não tendes
e então pedí-mos, senhor.

Gil Só por isso eu os terei.


Afonso Bem podeis quando quiserdes
que, para quando os tiverdes
conta deles vos darei.

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410 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Batem à porta.

Gil Enquanto não há porteiro,


vêde quem bate a essa porta.
Afonso Isso sim, é o que importa:
ser ginete e ser sendeiro.

Chega à porta e torna logo.

O maestre de esgrima chama


que vos vem a dar lição.
Gil Venha, mas como quem são
que bate como a dama.

Ensinai­‑o a falar fora.

Entra o Mestre da Esgrima, com grandes guedelhas, colete de ante, espada muito
comprida e embuçado como valente.

Mestre de Esgrima Guarde Deus a vossancé.


Gil Ó aio, pois isto é
o que eu vos disse inda agora?

Afonso Pois se ele termo não tem,


que importa que fale assim?
Gil Vem­‑me ele ensinar a mim?
Pois ensinai­‑o também.

Mestre de Esgrima Se lição há de tomar


despachemos, que tem homem
outros mil que lição tomem.
Gil Que me haveis vós de ensinar?

Mestre de Esgrima Quê? Dous talhos sacudidos,


um mão — dobre um alta baxo,
três tretas de unhas abaxo,
quatro panos, seis surzidos.

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francisco manuel de melo 411

Gil Sabeis mais?


Mestre de Esgrima Não, não sei al.
Gil Pois se vós, bem que secreta,
não me dais alg a treta,
que ninguém me empeça em mal,

que posto que faça amouco


nem por toque ou por remoque
ferro nenhum me não toque
digo­‑vos que sabeis pouco.

Mestre de Esgrima Se disto para que valho


quer saber. Ensinar­‑lh’­‑emos.
Gil Ora sus, aprenderemos,
já que tomastes trabalho.

Mestre de Esgrima Há espadas?


Gil Sou quieto.
Mestre de Esgrima Nem adaga?
Gil Faz­‑me mal.
Mestre de Esgrima Há montante?
Gil Não.
Mestre de Esgrima Mangual?
Gil Menos que tudo.
Mestre de Esgrima Há espeto?
Gil Tenho a casa sem adorno,
vim há pouco…
AFONSO Não riais
de tal dito.
Gil Quanta mais
que eu como assado do forno,

com que os espetos escuso,


porque é mais tenro ao trinchar.
Mestre de Esgrima Há cana de esfulinhar?
Gil Nem há cana nem há fuso.

Mestre de Esgrima Vou­‑me logo.


Gil Tende mão!

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412 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Ó aio, andai sem tardança


e havei­‑me da vezinhança
com que possa dar lição.
Afonso Pois eu, mesquinho de mi,
quem me há a mi de dar arneses?
Gil Ora buscai, que mil vezes
acha homem as cousas per i.

Vai­‑se Afonso Mendes.

Olhai, mestre: eu sou morgado,


não tenho irmão nem irmã,
tenho um casal na Alousã,
e não me quero arriscado

em prefias nem arrufos.


Mestre de Esgrima Eu sei já que quereis.

Entra Afonso Mendes com dous chapins velhos na mão.

Afonso Ora sus, descansareis!


Aqui trago dous pantufos.

Gil Chapins trazeis? Ora ide,


aio, não sejais assim.

Afonso Pois eu sei quem c’um chapim


faz fataxas como um Cide.

Gil Ouvi sempre a minha tia


tomar o que o tempo dá
que é grão siso. Dai­‑os cá.

Beje Afonso Mendes os pantufos e lhos entregue.

Afonso Tome vossa senhoria.

Toma dom Gil os pantufos e convida ao Mestre com qualquer deles.

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francisco manuel de melo 413

Gil Escolhei, não haja engano.


Já sou frio como a neve.

Faz que lhe toma o peso.

Vistes vós cousa mais leve?


Brigarei com ele um ano.

Ponha­‑se cada um com seu chapim na mão, em postura de esgrimir.

Mestre de Esgrima Seja a primeira lição


que desta arte se vos dê
que andeis ligeiro do pé,
muito mais do que da mão.

Gil Tá, tá! Escusai a prosa,


que eu sei que sois de primor.
Mestre de Esgrima Logo os peis havreis de pôr…
Gil Já sei.
Mestre de Esgrima Onde?
Gil Em polvorosa.

Mestre de Esgrima Despois dessa entendei logo


que em vos chegando a puxar
ò ponto haveis de tomar.
Gil Já sei: às de vila­‑diogo.
Mestre de Esgrima Dai dous talhos ao giolho,
como quem faz remoinho.
Gil Mestre, jogai de mansinho,
que me vasareis um olho.

Esgrima só.

Afonso Oh Deos, que grão desconcórdia.

Batem à porta.

Gil Batem?
Afonso Sim.

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414 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Gil Respondei lá.


Afonso Já vou.
Gil Visita será.
Afonso Da santa misericórdia.

Vai­‑se Afonso Mendes. Esgrimem dom Gil e o Mestre.

Gil Axopra que isso é cortar,


por são Tal que vos desmembre.
Mestre de Esgrima Calai, que é por que vos lembre.
Gil Prometo de me alembrar.

Torna Afonso Mendes.

Afonso Quatro mestres juntos vem.


Gil Eles tem mui boa andança.
Vem o da solfa?
Afonso E o da dança.
Gil E o das trovas?
Afonso Vem também.
Gil Todavia nenhum tarda,
são finíssimos…
Afonso Basbaques.
Gil Falta algum?
Afonso Sim. Mestre Jaques.
Gil E para vós mestre Albarda!

Mestre de Esgrima Vós tendes lição tomado


vou­‑me andando.
Gil Afonso Mendes,
dai­‑lhe ora aí se o tendes
um meio vintém selado.

Mestre de Esgrima Oh, enfreado ele o fora


se nos topáramos sós.
Gil Eu me lembrarei de vós.
Sem mais talhos ide embora.

Vai­‑se o Mestre de Esgrima.

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francisco manuel de melo 415

Afonso Qual quereis qu’entre primeiro?


Gil O da dança.
Afonso Entra e nô mais.

Entra o Mestre da Dança, muito polido, fazendo mesuras. Põe­‑se de joelhos dian‑
te de dom Gil, pega­‑lhe nas mãos para lhas bejar.

Mestre de Dança Dai­‑me as mãos.


Gil Não mas comais,
que não são mãos de carneiro,

Sois o Mestre?

Mestre E o rei David


mais antigo da cidade.
Gil Tereis grande habilidade.
Mestre de Dança Estive já em Madrid.

Gil Oh, se fostes a Castela


sabereis cem mil mudanças.
Mestre de Dança Para mudanças e danças
todos sabemos mais que ela.

Gil Ora tiro o balandrau


que o aprender sempre é virtude.

Tira o capote.

Mestre de Dança Há em casa algum laúde?


Afonso Não há mais que um birimbau.

Mestre de Dança Violas?


Afonso Sim, achareis
na botica.
Mestre de Dança Harpa?
Afonso De couro.
Mestre de Dança Nem um sestro?
Afonso Um sestro agouro.
Mestre de Dança Nem sequer dous cascavéis?

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416 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Gil Eu andei com a alma nos dentes


est’outros dias passados,
porque diz que os namorados
nunca podem ser contentes.

Despedi toda a capela,


que em desafinando estroje,
de sorte que, quanto é hoje
fareis som numa panela.

Mas por vida dos Coutinhos,


que isto se fique entre nós,
mestre que bem sabeis vós
que o tempo vai de escarninhos.

Eu quisera­‑me encampar
sem primeiro andar em contos,
costumando­‑se homens tontos
que o seu viver é matar.

Mestre de Dança Senhor das portas adentro


todos passam dela e dela
mandai que venha a panela.
Afonso Ontem deu c’os tampãos dentro.

Gil Quebrou­‑se? Sou desgraçado.


Afonso Pois agastai­‑vos de nada?
Gil Não é ela a destampada
que vós sois o destampado!

E calaste­‑lo?! Está bom.


Mestre de Dança Eu vos tangerei co’a mão.
Gil Tangei, que eu não dou lição
assim sem tom e sem som.

Mestre de Dança Passeai por essa casa,


que vos quero dar o ar.
Gil Isso é querer­‑me aleijar,
dar­‑me o ar estando em brasa.

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francisco manuel de melo 417

Mestre de Dança Fazei mesuras.

Faça dom Gil muitas mesuras sem feição.

Gil Aos pares.


Mestre de Dança Este pé esse acompanha
sempre.
Afonso Não, ninguém lhe ganha
em mostrar os calcanhares.

Mestre de Dança Andai, parai, dai três voltas


i depressa, i de espaço;
haveis de andar a compasso!

Faz dom Gil tudo quanto o Mestre lhe manda.

Gil Melhor é lançar­‑me soltas.

Mestre de Dança Podeis entrar num sarau


segundo o bem que aprendeis.
Gil Pois, mestre, que mais sabeis?
Mestre de Dança a alta um pé-de-chibau

galharda, pavana, rica


e nestas novas mudanças.
Gil Tende, que isso não são danças
senão cousas de botica.

Sabeis o sapateado,
o terolero, o vilão,
o mochachim?
Mestre de Dança Senhor, não.
Gil Pois sois mestre mui minguado.

Mestre de Dança Não falais como quem sois.


Gil Andai d’i sem mais contenda,
que eu não sou homem que aprenda
por bicos de roxinóis.

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418 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Afonso Tomai­‑vos c’o mentecato,


mais falido que centeo
por lhe não dar outro meo,
faz dele gato sapato.
Gil Andai.

Vai­‑se o Mestre da Dança.

Mestre Vou­‑me, que é preciso.


Afonso Quem mandais que entre?
Gil Esperai.
que por via de meu pai
que estou cansado de siso.

Mas por saber cousas novas


é tudo bem empregado.
Entre esse licenciado,
que diz que é mestre das trovas.

Este ofício me contenta


que, inda que há quebras, há sobras,
e enfim são estas as obras
que não gastam ferramenta.

Venha o trovador solene.

Vai Afonso Mendes à porta e traz consigo um estudantão muito sujo e muito mal
vestido. Entre muito devagar fazendo cortesias.

Poeta O claro humor de Pirene


em diplúvios fragantes candidize
borde, esmalte, retoque, aromatize.
Gil Aio, este homem vem perene.
Poeta A graça, a gentileza, a fidalguia
o grão valor, o literário estudo
de vossa senhoria.
Gil Vêdes, aio? Todavia,
bem disse eu que era sesudo.

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francisco manuel de melo 419

Poeta Ante vossa presença jaz estático


um culto professor do estudo crítico
que outros querem chamar humor frenético.
Gil Aio, ouvis que vem asmático?
Chamai­‑me logo o meu físico,
que este me há de deixar ético.
Afonso Meu senhor, nunca se espante,
que estes tais palram assim.
Gil Mestre, não faleis latim
que eu nunca fui estudante.

Poeta Falarei como mandais


bom português, velho, relho.
Gil Crede que é melhor conselho.
Poeta Venho a ver do que gostais.

Gil Sois poeta?


Poeta E o declaro.
Gil Fazeis motes?
Poeta E os remendo.
Gil Remendão sois? Ou entendo
eu mal, ou não falais claro.

Poeta Às vezes sou de obra­‑prima,


calçado velho outra vez.
Chega um fidalgo cortês,
destes nem prosa, nem rima

que tem seus jeitos no paço


vem de noite, sem ser visto
mostra um hábito de Cristo,
pede­‑me um mote e lho faço.

Outro que engasgado vem


com dous versos sem feição
pede nô mais de um tacão
paga e lanço­‑lho também.

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420 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Quantos namoram na rua


que em mi cada qual se fia.
Gil Ah, por isso eu sempre ouvia:
«eles bebem e homem sua».

Ora, de um enguirimanço
chamado, como por momo,
cabeça de motes como
vos vai, senhor mestre?
Poeta Manso.
Querei­‑lo saber de mim?
Dir­‑vo­‑lo­‑ei.
Gil Dizei ora.
Poeta Como ora digamos…
Gil Nora
que anda à roda e não tem fim…

se fazem?
Poeta Começa
preguntando o que mais ousa.
Gil Calai, senhor, que em tal cousa
nunca achei peis nem cabeça.

Fazeis sonetos?
Poeta Jeitosos.
Gil Romances?
Poeta Podem­‑se ler.
Gil Décimas?
Poeta Quantas quiser.
Gil Trecetos?
Poeta São vagarosos.
Afonso Dai vós ò demo o famaco,
como ele os homens estreita.
Gil Pois fazei­‑los por receita
ou assim trovas em saco?

Poeta Os versos tem seu quilate


e medidas já sabidas.
Gil Oh, se os fazeis por medidas
sereis poeta alfaiate!

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francisco manuel de melo 421

Mas ora sus, escutai,


bem que não tive lição,
a trova com feição.
Poeta Podeis dizer.
Gil Ei­‑la vai:
Vós estais no vosso estrado,
jazendo como um prelado,
e eu, triste, na chuminé
como um negro bujamé.

Poeta Não a fez tal frei Sicrócio


Gil Pois é toda em consoante.
Poeta Ora vamos adiante.
Gil Ouvi­‑lhe agora o negócio:

sendo todos de um terrão


minha mana Grimanesa
não sei eu por que rezão
quereis sempre ser princesa
e eu seja madraceirão.
Todo o mundo por vós chama,
que há chamar de muitos modos;
a mim apupam­‑me todos,
do Mocambo intés Alfama.

Poeta Há mais?
Gil Não.
Poeta Estão bem feitos,
mas falta para dez um.
Gil Mestre não falta nenhum.
São eles todos perfeitos?

Poeta Todos, mas um falta.


Gil Eu sei
que não falta. Homem, não vês
que de cada cousa dez
levam a para el rei?
Pois eu não sou dos de Malta,
pago como paga o prove;

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422 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

de sorte que se tem nove,


nenhum para dez lhe falta.

Chega Afonso Mendes à porta e torna logo.

Afonso Dou tais mestres ao pecado!


Ora eis chega dom Beltrão.
Gil Vem por mim. Traz coche?
Afonso Não.
Gil Em que vem?
Afonso No seu calçado.
Gil Ora embora, como é perto
ir­‑nos­‑emos passeando.
Poeta Eu também me vou andando.
Gil Ficamos neste concerto:

Mandar­‑vos­‑eis o murzelo,
vireis cá todos os dias.
Poeta Em dobro as senhorias
e vou­‑me muito singelo.

Vai­‑se o Poeta.

Gil Dom Beltrão não quer subir?


Afonso Diz que antes quer passear.
agora o leva a cortar.
Gil Ora sus, vou­‑me vestir.

Aio, dizei­‑me, é estreita


essa rua?
Afonso Senhor não.
Gil E agora este dom Beltrão
é homem de mão direita?

Afonso Nada aos amigos negai


que essa regra é cousa crua.
Gil Não que um fidalgo na rua
há de saber como vai.

Entram­‑se ambos, tocam­‑se as violas e se acaba a primeira jornada.

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francisco manuel de melo 423

SEGUNDA JORNADA
Sai Isabel e Brites, sua filha, a primeira de velha e a segunda de dama do Bairro
Alto.

Isabel Adulo o teu malvaísco,


Brites, filha, e o solimão?
Que é da arruda?
Brites Melhor me fora trovisco,
que me mudara o carão,
que essa muda.
Contra a firme vontade,
não há erva nem peçonha
com virtude,
nem amor há com verdade,
que por mais mudas que ponha,
que se mude.

Isabel Brites, não sejas criança!


Fidalguinhos de colher
são tormento!
Tudo é vender esperança;
e, quando os haveis mister,
malovento!
Grandes crenchas penteadas,
dões fulanos, todos dões,
ai, ai, ai!
E se as molheres honradas
lhe pedem quatro tostões:
«Perdoai».

Brites Mas que não tenham ceitil,


saibam falar português,
tenham arte!
Olhai lá para um dom Gil,
mais cansado que um maltês.
Brites, guar­‑te
que é ver um mancebo brando
falar de noite, a a porta,

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424 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

donde trata.
Pois verde­‑lo ir andando,
o ar parece que corta,
e ele mata!
Pois, se acaso for à feira,
passará sem vos trazer
ramalhete,
sem que nada de vós queira?
Aquilo, a quem o entender,
põe ferrete!
Um falar com tanto jeito,
um ditinho de repente,
que afeiçoa,
um ter em tudo respeito...
Ai, mate­‑me Deus co’a gente
de Lisboa!

Isabel Meu espelho, eu não te tolho


que tenhas lá para ti
passatempo,
que a mim em me enchendo o olho,
também (má hora!), era assi
no meu tempo.
Mas esse dom Gil que ofendes
é mui rico e abastado,
e é noviço.
Inculcou­‑mo Afonso Mendes,
que o traz, sendo seu criado,
a teu serviço.

Também nisso entra o galante


que tu conheces e quer
ser teu cujo.
Brites Qual?
Isabel Beltrão.
Brites Ai, o bargante!
E vós, mãe, a lho sofrer!
Ui, o sujo!

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francisco manuel de melo 425

Batem à porta.

Isabel Vê quem chama.

Chegue Brites à porta.

Brites Ai, eles são!


Isabel Sus, ao estrado, e depressa,
que ei­‑los vem.

Digam fora, batendo:

[Voz] Oulá!
Isabel Quem é?

Digam fora:

[Voz] D. Beltrão
e dom Gil, minha condessa,
homens de bem.
Isabel Brites, não é para rir
ver qual vem, homem de corte
o embusteiro?

Digam fora:

[Voz] Mandais que possam subir?


Isabel E decer quando lhe importe.

Entra dom Beltrão, vestido de cortesão, e dom Gil, de estranha figura e muito
enfeitado.

Beltrão Sou primeiro.


Isabel Vós sois o mais abelhudo.
Beltrão Em servir­‑vos diligente.
Isabel Sede embora!
Brites Guarde Deus tanto veludo.
Tomastes­‑nos de repente.
Gil Ó Senhora…

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426 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Beltrão Ó senhora, ante quem é


sem sal o salgado mar
se vos vir,
fale­‑nos vossa mercê.
Isabel Eu não digo só falar,
mas servir.
Gil A vossos peis, minha estrela,
ó dama de grão primor,
jaz aquele
que, quanto em vós há de bela,
tanto de firme amador
haverá nele.
Brites Tanto amor em poucos dias?
Deveis ser de bom comer,
sem fastio.
Gil Sou contrário de aprofias
e se Amor cozer­‑me quer
sou cotio.
Brites Como é, senhor, vossa graça?
Gil Dom Gil Cogominho.
Brites Apelo
Santiago!
Gil Estranhais?! Sou de grão raça.
Brites Sede antes Gil Cogumelo
ou saramago.
Gil Até Gil nabo, se é bom,
serei, dama, deste dia,
pois gostais;
e não só deixar o dom,
mas a própria senhoria
se mandais.
Por vós desejo correr
todo o mundo como um galgo
trás de haveres.
Brites Se vós flor haveis de ser,
antes sede, meu fidalgo,
malmequeres;
Tendes dama?
Gil Ela me tem.

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francisco manuel de melo 427

Brites É ditosa?
Gil Não o nego.
Brites Cuitadinho.
Gil Preso estou.
Brites E ela também?
Gil Ela não, que eu sou o cego
e o cachorrinho.
Brites Sois delgado.
Gil Tal que quebro.
Brites Ui por ele como pega
e aprofia.
Gil Oh, meu anjo e meu requebro,
quem vos vira a vós a cega
e ele a guia.
Brites Sois poeta?
Gil Assi se roge.
Brites Grande?
Gil Se estou namorado
trato disso.
Brites Que obrais?
Gil Não trabalho em loje.
Brites Sois poeta de sobrado?
Gil Isso, isso.
Brites Tangeis?
Gil Qualquer cousa tanjo.
Brites Cantais se a dor vos provoca?
Gil Se me toma,
não me gabo eu ora de anjo,
mas canto, que quem tem boca
vai a Roma.
Brites Que voz?
Gil Como voz?
Brites Não digo
senão se a baxo ou a tenor
se entremete.
Gil Dos altos era eu amigo,
mas hoje só tem louvor
o falsete.
Brites Entoai, por meu prazer,

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428 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

qualquer cousa.
Gil Sem guitarra?!
Brites Ei­‑la, tomai.

Dá­‑lhe a viola. Tange como que quer cantar.

Gil Pois que não posso al fazer...


Brites Ai, que canta e não escarra!
Gil Ora, ei­‑lo vai!

Canta dom Gil o melhor que pode o que se segue.

Gil (cantando) «Passeava­‑se Silvana


por um corredor um dia.»
Brites Ai, senhor, eu não queria
senão letra castelhana.
Gil Cantarei algaravia,
se mandais. Pois, que quereis?
Brites A letra nova quero.

Canta.

Gil «A cazar va caballero.»


Brites Ai, mãe, acinte o fazeis?
Por isso eu me desespero.

Gil Ora estai, que já entendo.


Quereis romances trovados,
«mis amorosos cuidados
como se estarán dormiendo.»
Brites Isto foram meus pecados!
Vós cuido que estais zombando,
ora dizei.
Gil Já me estanco.
«Gavião, gavião branco,
vai ferido e vai voando...»
Brites Ui, pelo pássaro manco.
Sabeis alg a ao divino?
Gil Sei.

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francisco manuel de melo 429

Brites Dizei.
Gil Pois é famosa:
«Andorinha gloriosa...»
Brites Tendes cousas de menino.
Gil Sou todo amor, minha rosa.

Chegue a falar como em segredo, dom Gil e Brites, e diga Isabel a dom Beltrão:

Isabel Ora sus, pois há de ser


tendes dado recado,
bom é levá­‑lo esfaimado;
e quando o sino correr
tende tudo aparelhado.
As redes lhe vou armar,
eu vos fico que ele caia.
Beltrão E eu que vós tenhais a saia!
Brites haveis de ensinar.
Isabel À minha conta deixai­‑a.

Vai­‑se Isabel dond’está dom Gil e Brites.

Isabel Vedes vós como se achega?


Dão­‑lhe o pé, e toma a mão.
Falar ninguém vo-lo nega,
mas falar de cortesão.
Gil Senhora Dona, não cude
de mim que sou malfazejo,
que sei desta casa, e vejo
a honra e muita virtude,
e viver nela desejo.
Isabel Nesta ao menos não será,
antes ando nessa andança
tenho mui má vezinhança
e outra casa tenho já
lá no bairro da Esperança.
Mas, por não ter dez mil réis
que venço nas obras pias,
me não mudei estes dias.
Gil Ó senhora, que dizeis?

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430 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Dez mil réis são ninharias


Isabel Ninharias?! Ai de mi,
[Ap.] ele entrou no labarinto!
Bofé, senhor, isso sinto;
mas por isso eu sempre vi
rir­‑se o farto do faminto.
Gil Vou buscá­‑los, venho asinha.
Isabel Não tomeis tanta canseira
que amenhã é terça­‑feira:
venderei a vasquinha,
mas que a vá queimar à feira.

Gil Fatos vos quisera eu ricos,


queimados não, perfumados.
Isabel Não que eu devo dez cruzados,
afora assi outros bicos,
que homem vive c’os honrados.

Gil Senhora, a tudo me ponho,


que eu compricurtos não çafo.
Isabel Bom é chegar a bom bafo,
porque enfim se me envergonho,
bem sei com quem desabafo.

O que vós, filho, vereis,


dou a Deos muitos louvores,
que em nós, como nas melhores,
cruzados não achareis,
porém achareis primores.

Brites é muito muchacha,


deixai que assi vo­‑lo diga,
há de ser mui vossa amiga
quanto mais que não é tacha
estranhar, se é rapariga.
O que importa agora é
que vos vades e tragais,
pois quereis, esses reais
de que nos fazeis mercê

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francisco manuel de melo 431

e em dando as nove venhais.

Terei as cousas dispostas,


ir­‑nos-emos em profia
a noite a todos confia,
que este andar c’o fato às costas
não honra a gente, de dia.
Gil Tal dita não teve igual.
A colher­‑me em outro estado
lá fora todo o morgado,
que sou de humor liberal,
além de estar namorado.

Ora, pois com termo honesto


vosso sou, será rezão
dar­‑me a mão.
Brites Mão? Tentação,
envidai vós vosso resto,
que então ganhareis a mão.
Gil Vou­‑me, enfim.
Isabel Ide, senhor,
co’a Madalena, ide andando.
Gil Não irei senão voando.
Brites Adeos.
Gil Adeos, meu amor.
Isabel Vindes?
Gil Venho.
Isabel Às nove?
Gil Em dando.
Beltrão Caiu?
Isabel Disso duvidais?
Beltrão E esmechou­‑se?
Isabel Na metade
do coração.
Beltrão De verdade
tendes mão contra estes tais.
Isabel Graças à necessidade.

Vai­‑se dom Gil e dom Beltrão.

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432 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Ora sus, isto está feito.


O pelão há de ir pelado,
tudo tenho concertado,
meu compadre é para um feito,
e o Beltrão como pintado.

Se cada qual der ajuda


à farsa, há de ser de ver!
Brites Nela não me hei de meter.
Isabel Tu serás figura muda,
Brites, filha, isto há de ser.
Esta não foi a primeira,
nem ele, o triste mostrengo,
lhe há de valer o ser sengo.
Não te lembra na Ribeira
a que lhe fiz ao framengo?
Brites Mãe, olhai que o mundo é bola,
não vos quisera mais dores.
Isabel De outros perigos maiores
saí já, não sejais tola!
Vivam bons, tenho senhores!

Pois se quem mais o persegue


é o criado e o amigo,
donde está i o perigo?
Brites Que o amigo e o criado entregue.
Isabel Esse achaque é já antigo.

Brites, não sejais cobarde,


o feito está resoluto.
Eu cuido que gente escuto.
Recolhamo­‑nos, que é tarde,
e eles não tardarão muto.

Vão­‑se Isabel e Brites, e se acaba a segunda jornada.

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josé luís mendonça 433

José Luís MENDONÇA. «Subpoesia», in Quero Acordar a Alva. 1997.


Luanda: INALD. 23.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Subsarianos somos
sujeitos subentendidos
subespécies do submundo

subalimentados somos
surtos de subepidemias
sumariamente submortos

do subdólar somos
subdesenvolvidos assuntos
de um sul subserviente.

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434 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

José de Almada NEGREIROS. O Manifesto Anti­‑Dantas e por Extenso por


José de Almada Negreiros Poeta de Orpheu Futurista e tudo! [1915] 2015. Lisboa:
Assírio & Alvim. 17­‑18.

Texto sujeito a Direitos de Autor

DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D’IN‑


DIGENTES, D’INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RESMA DE CHAR‑
LATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PODE PARIR ABAIXO DE ZERO!
ABAIXO A GERAÇÃO!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS À PRÔA É UMA CANÔA EM SECCO!
O DANTAS É UM CIGANO!
O DANTAS É MEIO CIGANO!
O DANTAS SABERÁ GRAMMATICA, SABERÁ SYNTAXE, SABERÁ ME‑
DICINA, SABERÁ FAZER CEIAS P’RA CARDEAES, SABERÁ TUDO
MENOS ESCREVER QUE É A ÚNICA COISA QUE ELLE FAZ!
O DANTAS PESCA TANTO DE POESIA QUE ATÉ FAZ
SONETOS COM LIGAS DE DUQUEZAS!
O DANTAS É UM HABILIDOSO!
O DANTAS VESTE­‑ SE MAL!
O DANTAS USA CEROULAS DE MALHA!
O DANTAS ESPÉCULA E INÓCULA OS CONCUBINOS!
O DANTAS É DANTAS!
O DANTAS É JÚLIO!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
O DANTAS FEZ UMA SORÔR MARIANNA QUE TANTO O PODIA SER
COMO A SORÔR IGNEZ, OU A IGNEZ DE CASTRO, OU A LEONOR
TELLES, OU O MESTRE D’AVIZ, OU A DÔNA CONSTANÇA, OU A
NAU CATH’RINETA, OU A MARIA RAPAZ!
E O DANTAS TEVE CLAQUE! E O DANTAS TEVE PALMAS! E O DANTAS
AGRADECEU!
O DANTAS É UM CIGANÃO!
NÃO É PRECISO IR P’RÓ ROCIO P’RA SE SER PANTOMINEIRO, BASTA
SER­‑ SE PANTOMINEIRO!
NÃO É PRECISO DISFARÇAR­‑ SE P’RA SE SER SALTEADOR, BASTA ES‑

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436 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Carmo NETO. Degravata. 2007. Luanda: União dos Escritores Angolanos


(UEA).

Texto sujeito a Direitos de Autor

Ontem, ao desfolhar as manhãs do antigamente, revi o homem degravata a


passar, bem parecido, pele brilhante e lisa, Kota João Faztudo, casado com a
alegria e de voz cristalina.
Víamos passar o Kota, enquanto conversávamos à sombra das manguei‑
ras. Oh! Novas e velhas mangueiras, seus troncos dançavam e assobiavam e,
para regalo da garotada, as mangueiras deixavam cair as mangas. Oh! Man‑
gueiras da Missão Católica!
Mesmo senhoras com tambores e cabaças a oscilar na cabeça inclina‑
vam e curvavam o pescoço pra ver o Kota João Faztudo passar — oh!, com
que charme! Trabalhava no hospital. De afazer concretamente desconheci‑
do, era, no entanto, tratado por Sôtor, degravata. Toda a gente olhava em
sentinela para o Kota João Faztudo.
Com espanto, incredulidade na cara e desdém, Manuel Viagem disse ao Zé
Kamauindo que o homem era uma mentira. Os olhares restantes entristece‑
ram. Ninguém concordava. João Faztudo era o único nativo não submaltratado.
E Adalberto, matulão, esperto e zombeteiro elevou a voz e disse com
energia:
— É dagravata!
Degravata ou não, o homem era Sôtor respeitado. Mais vozes amonta‑
nharam a desconfiança.
Ante a acentuação pontuada sempre com um «não é verdade», Kota
João Faztudo nunca denunciou, no entanto, o fingimento da sua gravata,
tampouco a dor por alguma da provocação bisbilhoteira, até um dia ser des‑
coberto, por unanimidade e aclamação, criado do Hospital, lavador de ba‑
cios, sem blindagem nas narinas!
Houve gracejo e troça. Beto Canivete, um gajo nem bonito nem feio e
com um ar de visão romântica, decidiu roubar a experiência.
Era vê­‑lo plantado nos passeios da cidade, degravata a olhar pra colegas
e amigos refractários a enxamearem camiões, e, ele, com a isenção militar na
gravata, saudado em continência rigorosa, por oficiais superiores.

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438 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Nélida PIÑON. «I love my husband», in O Calor das Coisas e Outros Contos.


[1980] 2001. Lisboa: Círculo de Leitores. 43­‑49.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Eu amo meu marido. De manhã à noite. Mal acordo, ofereço­‑lhe café. Ele
suspira exausto da noite sempre mal dormida e começa a barbear­‑se. Bato­‑lhe
à porta três vezes, antes que o café esfrie. Ele grunhe com raiva e eu vocifero
com aflição. Não quero meu esforço confundido com um líquido frio que ele
tragará como me traga duas vezes por semana, especialmente no sábado.
Depois, arrumo­‑lhe o nó da gravata e ele protesta por consertar­‑lhe uni‑
camente a parte menor de sua vida. Rio para que ele saia mais tranquilo,
capaz de enfrentar a vida lá fora e trazer de volta para a sala de visitas um pão
sempre quentinho e farto.
Ele diz que sou exigente, fico em casa lavando a louça, fazendo com‑
pras, e por cima reclamo da vida, enquanto ele constrói o seu mundo com
pequenos tijolos. E ainda que alguns destes muros venham ao chão, os ami‑
gos o cumprimentam pelo esforço de criar olarias de barro, todas sólidas e
visíveis.
A mim também me saúdam por alimentar um homem que sonha com
casas grandes, senzalas e mocambos, e assim faz o país progredir. E é por isto
que sou a sombra do homem que todos dizem eu amar. Deixo que o sol entre
pela casa, para dourar os objetos comprados com o esforço comum. Embora
ele não me cumprimente pelos objetos fluorescentes. Ao contrário, através
da certeza do meu amor, proclama que não faço outra coisa senão consumir
o dinheiro que ele arrecada no Verão. Eu peço então que compreenda minha
nostalgia por uma terra antigamente trabalhada pela mulher, ele franze o
rosto como se eu lhe estivesse propondo uma teoria que envergonha a famí‑
lia e a escritura definitiva do nosso apartamento.
O que mais quer, mulher, não lhe basta termos casado em comunhão
de bens? E dizendo que eu era parte do seu futuro, que só ele porém tinha
o direito de construir, percebi que a generosidade do homem habilitava­‑me
a ser apenas dona de um passado com regras ditadas no convívio comum.
Comecei a ambicionar que maravilha não seria viver apenas no passa‑
do, antes que este tempo pretérito nos tenha sido ditado pelo homem que

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444 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Fernão Mendes PINTO. «Capítulos LIV e LV», in Peregrinação. [1614]


1998. Lisboa: Relógio D’Água, Imprensa Nacional­— Casa da Moeda.
150­‑156.

CAPÍTULO LIV. DOS MAIS TRABALHOS QUE PASSAMOS NESTA ILHA,


& DA MANEYRA COM QUE MILAGROSAMENTE NOS
SALVAMOS

Todos os que escapamos daquelle miserauel naufragio atras deixo cõtado,


andamos nùs & descalços por aquella praya, & por aquelles matos, passando
tãtos frios, & tãtas fomes, muytos dos cõpanheyros, estãdo fallando h s
cos outros cahião supitamente mortos em terra de pura fraqueza, & não
causaua isto tãto a falta do mãtimento, quanto sermos esse comiamos
muyto perjudicial, por ser todo podre & bolor to, & al de feder incõpor‑
tauelmente, amargaua de maneyra não auia qu o pudesse meter na boca.
Mas como Deos nosso Senhor de sua propria natureza he b infinito, não ha
hy parte tão remota, n tão deserta onde se lhe possaõ escõder as miserias
dos peccadores, & onde os não socorra cõ h s effeitos da sua infinita mi‑
sericordia tão alheyos da nossa imaginação, se pusermos b os olhos nos
termos por onde eles corr , veremos claram te saõ mais obras milagrosas
de suas diuinas mãos curso de natureza, cõ o nosso fraco juizo muytas
vezes se engana; digo isto, porq estãdo nós h dia, era o em se celebra a
festa do Arcanjo São Miguel, derramãdo todos muytas lagrimas, & cõ tanta
desconfiança de todo o remedio humano, quãta nos daua a fraqueza de nos‑
sa miseria & pouca fee, passou acaso voando por cima de nos h milhano
vinha de detras de h cabeço que a ilha fazia contra a parte do Sul, & penei‑
rando no ár cõ asas estendidas lhe cahio das unhas hum mugem fresco de
quasi hum palmo de comprido, & dando junto donde estaua Antonio de Fa‑
ria, o fez ficar hum pouco confuso & indeterminado até conheceo o era;
& despois de estar h pouco olhando para o peixe, se pôs em joelhos, & em
meyo de muytas lagrimas lhe corrião pelo rosto abaixo, arrãcando do mais
intrinseco do seu peito h grande suspiro, disse, Senhor Iesu Christo, eter‑
no Filho de Deos, peçote humildemente pelas dores da tua sagrada paixão,
que nos não acoimes a desconfiãça em a miseria da nossa fraqueza nos t
postos, porque muyto bem creyo aquelle antiguam te foste para Daniel
no lago dos liões quanto pelo Profeta Habacuc o mandaste prouer, esse por
tua misericordia nos serás agora aquy, & o seràs em toda a parte onde qual‑

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fernão mendes pinto 445

quer peccador chamar por ty com firme fee & esperança, pelo que Senhor
meu, & Deos meu te peço, não por mim, senão por ty, & pela intercessaõ
deste teu santo Anjo, cuja festa tua Santa Igreja oje nos representa, não po‑
nhas os olhos no que te merecemos, mas no que tu mereceste para nós, porq
assi tenhas por b de nos conceder o remedio só de ty esperamos, & nos
mãdes por tua misericordia cõ daquy nos leues a terra de Christaõs, onde
perseuerando em teu santo seruico, acabemos fieis. E tomãdo o mugem
o assou n as brasas, & o deu aos doentes tinhaõ delle mais necessidade.
E olhãdo para a parte do outeyro dõde o milhano viera vimos outros muytos
que voãdo se aleuãtauão & abaixauão, pelo sospeitou poderia auer aly
alg a caça ou carniça em aquellas aues se ceuauão, & como todos estaua‑
mos desejosos de alg remedio para os do tes, tinhamos muytos, nos fo‑
mos em procissão o milhor pudemos, cõ nossa ladainha enuolta em lagri‑
mas para aquella parte, & subidos encima do morro, descubrimos h valle
muyto plano de muytas aruores de diuersas fruytas, & pelo meyo delle h a
ribeyra de agoa doce, & antes de chegarmos a ella nos deparou nosso Senhor
h veado degolado de aquella hora h tigre começaua a comer, & dandolhe
todos h a grãde grita, nolo deixou assi como estaua, & se foy fugindo para o
mais espesso do mato. Nos v do isto, o tomamos em bõ pronostico, & nos
decemos abaixo à ribeyra, & nella nos agasalhamos aquella noite, cõ grãde
banquete deste veado, como de muytos mug s nella tomamos, porq auia
aly muyta quantidade de milhanos decião à agoa, onde tomauão muytos
daquelles peixes, & cõ as gritas nós lhe dauamos, lhe cahião muitas vezes
das unhas. Nesta ribeira cõtinuamos esta nossa pescaria desde a segunda
feyra que chegamos a ella, até o sabbado seguinte, no qual logo pela menham
vimos vir h a vella demandar a ilha, & estando nòs duuidosos se ferraria ella
o porto, ou não, nos decemos abaixo à praya onde nos tinhamos perdido, &
passada quasi meya hora enxergamos que era cousa pequena, pelo que nos
foy forçado tornarmonos a meter para dentro do mato, por nos não verem.
Chegada ao porto esta embarcação era h a fermosa lanteea de remo, os
que nella vinhaõ a atracaraõ cõ dous proizes de popa & de proa cõ a ribancei‑
ra a ponta da calheta fazia, para se poderem seruir com prancha, & desem‑
barcados todos em terra, que seriaõ atè trinta pessoas pouco mais ou menos,
entenderaõ logo em fazerem agoada, & lenha, lauarem sua ropa, & guisarem
de comer, & alg s se occupauão em lutas, & em outros passatempos, bem
fora de lhes parecer que podia auer aly quem os estoruasse. V do Antonio de
Faria quão descuydados & desordenados todos andauão, & na embarcaçaõ
não auia pessoa nenh a que nola pudesse tolher, nos disse, estando nos todos
juntos, bem vedes senhores & irmaõs meus, o triste estado em que nossos

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446 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

peccados nos tem posto, de que eu creyo & vos cõfesso sòs os meus foraõ
causa, mas como nosso Senhor he infinitamente misericordioso, eu espero
nelle que não ha de permitir acabemos aquy tão miserauelmente. E ainda
sey quão escusado he trazervos à memoria quanto nos importa trabalhar
por tomarmos esta embarcação que nosso Senhor milagrosamente aquy nos
trouxe, todauia volo lembro, para todos assi como estamos, co seu santo
nome, na boca & no coraçaõ arremetamos juntamente a ella, & antes nos
sintão nos lancemos todos dentro como a ganharmos vos peço não enten‑
damos em mais em nos apoderarmos das armas acharmos, porque com
ellas nos possamos defender, & ficar senhores disto em despois de Deos
està toda a nossa saluação, & tanto eu disser tres vezes Iesu, nome de Iesu,
fazey o me virdes fazer, a  todos responderaõ assi o fariaõ sem falta nenh
a. E preparados nos no modo conueniente a tão bom proposito, Antonio
de Faria fez o sinal que disse, & arremeteo logo correndo, & nòs todos junto
cõ elle & chegando à lanteaa, nos apoderamos logo della sem contradiçaõ
alg a & largando as proizes com que estaua atracada, nos afastamos ao mar
obra de hum tiro de besta. Os Chins que estauão descuydados disto, tanto
que sentirão a reuolta, acudirão logo à praya com grande pressa, & vendo a
embarcação tomada ficarão tão pasmados nenhum delles se soube dar a
conselho; & tirandolhe nós com hum meyo berço de ferro trazião na lan‑
teaa, se acolheraõ todos ao mato, onde então ficaraõ chorando o successo da
sua mà fortuna, como nòs atê então tinhamos chorado o nosso.

CAPÍTULO LV. COMO NOS PARTIMOS DESTA ILHA DOS LADROES


PARA O PORTO DE LIAMPO, & DO QUE PASSAMOS ATE
CHEGARMOS A HUM RIO QUE SE DIZIA XINGRAU

Despois de sermos todos recolhidos na lanteaa, & seguros de nos poderem os


Chins empecer em cousa alg a, nos pusemos a comer muyto descansadam te
o seu jantar h velho lhe tinha aparelhado, o qual era dous tachos de arroz
com ad s & toucinho picado, que então nos foy a todos de muyto gosto, se‑
gundo o apetite todos lhe tinhamos. Despois que acabamos de jantar, &
demos graças a Deos pela merce que nos fizera se buscou a fazenda vinha na
lanteaa, & se achou nella seda, retrós, citins, damascos, & tres boyões grandes
de almiscar, & tudo foy avaliado em quatro mil cruzados, afora h a boa mata‑
lotagem de arroz, açucar, lacões & duas capoeiras de galinhas, que então se
estimaraõ mais que tudo para conualecerem os doentes, de que ainda auia
muytos, & começando h s & outros a cortar pelas peças sem medo, nos prou‑

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fernão mendes pinto 447

emos de toda a falta que então tinhamos. Antonio de Faria vendo hum minino
que tambem aly estaua de doze ate treze annos, muyto aluo & bem assombra‑
do, lhe preguntou donde vinha aquella lanteaa, ou porque causa viera aly ter,
cuja era, & para onde hia? o qual lhe respondeo, era do sem ventura de meu
pay, a quem cahio em sorte triste & desauenturada tomardes lhe vòs outros
em menos de h a hora o que elle ganhou em mais de trinta annos, o qual vinha
de hum lugar que se chama Quoamão, onde a troco de prata comprou toda
essa fazenda que ahy tendes, para a yr vender aos juncos Sião que estão no
porto de Comhay, & porq lhe faltaua a agoa quiz a sua triste fortuna que a
viesse tomar aquy para vos lhe tomardes sua fazenda sem nenhum terror da
justiça do Ceo. Antonio de Faria lhe disse que não chorasse, & o afagou quan‑
to pode, prometendolhe que o trataria como filho, porque nessa conta o ti‑
nha, & o teria sempre, a q o moço, olhando para elle, respondeo com h sorri‑
so, a modo de escarneo; não cuydes de mim inda que me vejas minino, que sou
tão paruo que possa cuydar de ty que roubandome meu pay me ajas a mym de
tratar como filho, & se es esse dizes, eu te peço muyto muyto muyto por
amor do teu Deos me deixes botar a nado a essa triste terra, onde fica quem
me gerou, porq esse he o meu pay verdadeyro, com o qual quero antes morrer
aly naquelle mato, onde o vejo estarme chorando, que viuer entre gente tão
mà como vos outros sois; alg s dos aly estauão o reprenderaõ, & lhe disseraõ
não dissesse aquillo, porque não era bem dito, a que elle respondeo, sabeis
porque volo digo, porq vos vy louuar a Deos despois de fartos com as mãos
aleuantadas, & cos beiços vntados, como hom s que lhes parece que basta
arreganhar os dentes ao Ceo sem satisfazer o que t roubado, pois, entendey
que o Senhor da mão poderosa não nos obriga tanto a bolir cos beiços, quãto
nos defende tomar o alheyo, quanto mais roubar & matar, que saõ dous pecca‑
dos tão graues, quãto despois de mortos conhecereis no riguroso castigo de
sua diuina justiça. Espantado Antonio de Faria das rezo s deste moco, lhe dis‑
se, se queria ser Christaõ, a que o moço, pondo os olhos nelle, respondeo, não
entendo isso que dizes, nem sey que cousa he essa que me cometes, declaramo
primeyro, então te responderey a proposito. E declarandolho Antonio de Fa‑
ria por palauras discretas ao seu modo, lhe não respondeo o moço a ellas, mas
pondo os olhos no Ceo, com as mãos aleuantadas disse chorando, bendita seja
senhor a tua paciencia, que sofre auer na terra gente que falle tão bem de ty, &
vse tão pouco da tua ley como estes miseraueis & cegos, que cuydão que furtar
& pregar te pode satisfazer como aos principes tyrannos que reynão na terra.
E não querendo mais responder a pregunta nenh a, se foy pòr a hum canto
a chorar, sem em tres dias querer comer cousa nenh a de quantas lhe dauão.
Tomandose então conselho sobre o caminho que daly se faria, ou que ròta se

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448 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

seguiria, se para o Norte, se para o Sul, ouue sobre isto alguns pareceres bem
differentes, por fim dos quais se assentou que nos fossemos a Liampoo, que
era hum porto adiante daly para o Norte duzentas & sessenta legoas, porque
poderia ser que ao longo da costa nos melhorariamos doutra embarcaçaõ
mayor & mais acomodada a nosso proposito, porq aquella era muyto peque‑
na para tão comprida viagem, e cõ receyos de tantas tempestades quantas
causaõ as l as nouas na costa da China, onde cõtinuamente se perdião muy‑
tos nauios. Com esta determinação demos a vella ja quasi sol posto daquy
desta ilha, ficando os Chins na praya como pasmados, & corremos aquella
noite com a proa a Lesnordeste, & sendo ja quasi menhã ouuemos vista de
hum ilheo se dezia Guintoo, no qual tomamos h a barcaça de pescadores
cõ muyta soma de peixe fresco, da qual tomamos o necessario, cõ mais oito
hom s de doze que nella achamos, para nos marearem a lanteaa, porq a nos‑
sa g te não estaua para o poder fazer, por vir muyto fraca & debilitada dos
trabalhos passados. E perguntados estes oito pescadores que portos auia
por aquella costa atê o Chincheo, onde nos parecia que podiamos achar alg
a nao de Malaca, nos disseraõ que daly a dezoito legoas estaua hum rio
muyto bom, & de bom surgidoiro, se dezia Xinguau, onde cõtinuam te
auia muytos juncos que carregauão de sal, de pedrahume, de azeite, de mos‑
tarda, & de gergelim, no qual b largamente nos podiamos aparelhar, &
prouer de tudo o de tiuessemos necessidade, na entrada do qual estaua
h a aldea pequena se chamaua Xamoy, pouoada de pescadores, & de g te
pobre, mas que daly a tres legoas pelo rio acima estaua a cidade onde auia
muyta seda, porcelanas, & outras sortes de fazendas que de veniaga se
leuauão para diuersas partes. Com esta informaçaõ nos fomos demandar
este rio, onde chegamos ao outro dia à tarde, & surgimos defronte delle obra
de h a legoa ao mar, por arrecearmos nossos peccados nos trouxessem
aquy alg a desauentura, como as passadas. Aquella noite seguinte tomamos
hum parao de pescadores, & lhe perguntamos juncos estauão dentro,
quantos eraõ, & que g te tinhaõ, & outras cousas que faziaõ a nosso caso,
a que responderaõ que là encima na cidade aueria obra de duzentos j cos
som te, porq os mais eraõ ja partidos para Ainão, & Sumbor, & Lailoo, &
outros portos da Cauchenchina, mas que aly na pouoaçaõ de Xamoy podia‑
mos estar seguros, onde nos venderião todo o mantimento que ouuessemos
myster. Com isto entramos para dentro do rio, & surgindo dentro da aldea
nos deixamos assi estar obra de meya hora; & seria isto então a meya noite
pouco mais ou menos. E vendo Antonio de Faria que lanteaa em que vinha‑
mos não era embarcaçaõ sufici te para irmos daly a Liampoo, onde tinha‑
mos determinado de yr, assentou com parecer dos mais companheyros &

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fernão mendes pinto 449

soldados de se prouer de outra milhor; & ainda que naquelle t po não es‑
tauamos para cometer cousa alg a, todauia a necessidade nos obrigou a fa‑
zermos mais do que as nossas forças requerião. Estaua então naquelle porto
surto hum junco pequeno só, & sem auer outro nenhum, o qual tinha pouca
gente, & esses que erão estauão então todos dormindo, & vendo Antonio de
Faria que era esta boa occasiaõ para effeituar seu intento, fez logo arriar da
amarra, & se igualou com elle, & escolhendo dos vinte & sete soldados que
leuaua os quinze, com mais oito moços, se subio acima ao conuès do junco,
sem atè então ser sentido de ningu , & achando nelle dormindo seis ou sete
Chins marinheiros, os mandou atar de peis & de maõs, ameaçandoos que se
bradassem os avia de matar a todos, pelo que nenhum delles com medo ou‑
sou de fallar, & cortandolhe ambas as amarras com que estaua surto, o mais
depressa que pode se fez à vella para fora do rio, & velejando tudo o que
restaua da noite sempre coa proa no mar, foy amanhecer junto de h a ilha
que se chamaua Pullo Quirim noue legoas dõde tinha partido. E ajudando‑
nos Deos cõ vento fresco de vellas cheas, fomos daly a tres dias surgir a h a
ilha chamada Luxitay, na qual foy necessario para conualecencia dos doentes
determonos quinze dias, assi por ella ser muyto sadia, & de boas agoas,
como por algum refresco que pescadores aly nos trazião a troco de arroz.
Aly foy buscado todo o junco, & não se achou nelle mais fazenda que arroz
somente, que aly no porto de Xamoy se estaua vendendo, de que a mayor
parte se lançou ao mar, por ficar o junco mais boyãte, & menos perigoso para
a nossa viagem. E baldeando o fato da lanteaa dentro no junco, a varamos
em terra para a espalmarmos, por nos ser necessaria para fazermos agoadas
nos portos onde entrassemos. Nisto gastamos, como ja disse, quinze dias
nesta ilha, nos quais os enfermos cõualeceraõ de todo, & nos partimos na via
do reyno de Liampoo, onde tinhamos por nouas que auia muyta gente Por‑
tuguesa, que ahy era vinda de Malaca, de Çunda, de Sião, & de Patane, a qual
toda naquelle tempo aly custumaua de vir inuernar.

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450 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Eça de QUEIRÓS. «Singularidades de uma rapariga loura», in Contos I.


[1874] 2009. Lisboa: Imprensa Nacional — Casa da Moeda. 174­‑181.

Tinha­‑se passado uma semana, quando um dia Macário viu, da sua carteira,
que ela, a loira, saía com a mãe, porque se acostumava a considerar mãe dela
aquela magnífica pessoa, magnificamente pálida e vestida de luto.
Macário veio à janela e viu­‑as atravessar a rua, e entrarem no armazém.
No seu armazém! Desceu logo trémulo, sôfrego, apaixonado e com palpi‑
tações. Estavam elas já encostadas ao balcão e um caixeiro desdobrava­
‑lhes defronte casimiras pretas. Isto comoveu Macário. Ele mesmo mo
disse.
— Porque enfim, meu caro, não era natural que elas viessem comprar,
para si, casimiras pretas.
E não: elas não usavam amazonas, não quereriam decerto estofar cadei‑
ras com casimira preta, não havia homens em casa delas, portanto aquela
vinda ao armazém era um meio delicado de o ver de perto, de lhe falar, e ti‑
nha o encanto penetrante de uma mentira sentimental. Eu disse a Macário:
que sendo assim, ele devia estranhar aquele movimento amoroso, porque
denotava na mãe uma cumplicidade equívoca. Ele confessou­‑me que nem
pensava em tal. O que fez foi chegar ao balcão e dizer estupidamente:
— Sim, senhor, vão bem servidas, estas casimiras não encolhem.
E a loira ergueu para ele o seu olhar azul e foi como se Macário se sen‑
tisse envolvido na doçura de um céu.
Mas quando ele ia dizer­‑lhe uma palavra reveladora e veemente, apare‑
ceu ao fundo do armazém o tio Francisco, com o seu comprido casaco cor
de pinhão, de botões amarelos. Como era singular e desusado achar­‑se o
senhor guarda­‑livros vendendo ao balcão, e o tio Francisco com a sua crítica
estreita e celibatária [podia] escandalizar­‑se, Macário começou a subir vaga‑
rosamente a escada em caracol que levava ao escritório, e ainda ouviu a voz
delicada da loira dizer brandamente:
— Agora queria ver lenços da Índia.
E o caixeiro foi buscar um pequenino pacote daqueles lenços, acamados
e apertados numa tira de papel dourado.

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eça de queirós 451

Macário, que tinha visto naquela visita uma revelação de amor, quase
uma declaração, esteve todo o dia entregue às impaciências amargas da pai‑
xão. Andava distraído, abstracto, pueril, não deu atenção à escrituração,
jantou calado, sem escutar o tio Francisco que exaltava as almôndegas, mal
reparou no seu ordenado que lhe foi pago em pintos às três horas, e não en‑
tendeu bem as recomendações do tio e a preocupação dos caixeiros sobre o
desaparecimento de um pacote de lenços da Índia.
— É o costume de deixar entrar pobres no armazém, tinha dito no seu
laconismo majestoso o tio Francisco; são doze mil réis de lenços. Lance à
minha conta.
Macário no entanto ruminava secretamente uma carta, mas sucedeu
que ao outro dia, estando ele à varanda, a mãe, a de cabelos pretos, veio
encostar­‑se ao peitoril da janela, e neste momento, passava na rua um rapaz
amigo de Macário, que vendo aquela senhora afirmou­‑se e tirou­‑lhe com
uma cortesia toda risonha o seu chapéu de palha. Macário ficou radioso:
logo nessa noite procurou o amigo, e abruptamente sem meia­‑tinta:
— Quem é aquela mulher que tu hoje cumprimentaste defronte do ar‑
mazém?
— É a Vilaça. Bela mulher.
— E a filha?
— A filha!
— Sim, uma loira, clara, com um leque chinês.
— Ah! sim. É filha.
— É o que eu dizia…
— Sim e então?
— É bonita.
— É bonita.
— É gente de bem, hein?
— Sim, gente de bem.
— Está bom! Tu conhece­‑las muito?
— Conheço­‑as. Muito não. Encontrava­‑as dantes em casa de D. Cláudia.
— Bem, ouve lá.
E Macário, contando a história do seu coração acordado e exigen‑
te, e falando do amor com as exaltações de então, pediu­‑lhe como a gló‑
ria da sua vida que achasse um meio de o encaixar lá. Não era difícil. As Vila‑
ças costumavam ir aos sábados a casa de um tabelião muito rico da Rua
dos Calafates: eram assembleias simples e pacatas, onde se cantavam
motetes ao cravo, se glosavam motes e havia jogos de prendas do tempo
da senhora D. Maria I, e às nove horas a criada servia a orchata. Bem. Logo

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452 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

no primeiro sábado, Macário, de casaca azul, calças de ganga com presilhas


de trama de metal, gravata de cetim roxo, curvava­‑se diante da esposa do ta‑
belião, a senhora D. Maria da Graça, pessoa seca e aguçada, com um vestido
bordado a matiz, um nariz adunco, uma enorme luneta de tartaruga, a plu‑
ma de marabout nos seus cabelos grisalhos. A um canto da sala já lá estava,
entre um frou­‑frou de vestidos enormes, a menina Vilaça, a loira, vestida de
branco, simples, fresca, com o seu ar de gravura colorida. A mãe Vilaça, a so‑
berba mulher pálida, cochichava com um desembargador de figura apopléc‑
tica. O tabelião era homem letrado, latinista, e amigo das musas; escrevia
num jornal de então, a Alcofa das Damas: porque era sobretudo galante, e ele
mesmo se intitulava numa ode pitoresca, moço escudeiro de Vénus. Assim as
suas reuniões eram ocupadas pelas belas­‑artes — e numa noite um poeta do
tempo devia vir ler um poemeto intitulado Elmira ou a vingança do venezia‑
no!... Começavam então a aparecer as primeiras audácias românticas. As re‑
voluções da Grécia principiavam a atrair os espíritos romanescos e saídos da
mitologia para os países maravilhosos do Oriente. Por toda a parte se falava
no paxá de Janina. E a poesia apossava­‑se vorazmente deste mundo novo e
virginal de minaretes, serralhos, sultanas cor de âmbar, piratas do arquipé‑
lago, e salas rendilhadas, cheias do perfume do aloés onde paxás decrépitos
acariciam leões. — De sorte que a curiosidade era grande — e quando o
poeta apareceu com os cabelos compridos, o nariz adunco e fatal, o pescoço
entalado na alta gola do seu frak à Restauração e um canudo de lata na mão
— o Sr. Macário é que não teve sensação, porque lá estava todo absorvido,
falando com a menina Vilaça, e dizia­‑lhe meigamente:
— Então, noutro dia, gostou das casimiras?
— Muito, disse ela baixo.
E desde esse momento envolveu­‑os um destino nupcial.
No entanto na larga sala, a noite passava­‑se espiritualmente. Macário
não pôde dar todos os pormenores históricos e característicos daquela as‑
sembleia. Lembrava­‑se apenas que um corregedor de Leiria recitava o Ma‑
drigal a Lídia: lia­‑o de pé, com uma luneta redonda aplicada sobre o papel,
a perna direita lançada para diante, a mão na abertura do colete branco de
gola alta, e em redor o círculo das damas, recamadas de vestidos de rama‑
gens, cobertas de plumas, as mangas estreitas, terminadas num fofo de ren‑
das; mitenes de retrós preto cheios da cintilação dos anéis; tinham sorrisos
ternos, cochichos, doces murmurações, risinhos, e um brando palpitar de
leques recamados de lentejoulas. — Muito bonito, diziam, muito bonito!
E o corregedor desviando a luneta, cumprimentava sorrindo, e via­‑se­‑lhe
um dente podre.

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eça de queirós 453

Depois a preciosa D. Jerónima da Piedade e Sande, sentando­‑se com


maneiras comovidas, ao cravo, cantou com a sua voz roufenha, a antiga ária
de Sully:

Oh Ricardo, oh meu rei,


O mundo te abandona.

o que obrigou o terrível Gaudêncio, democrata de 20 e admirador de Robes‑


pierre, a rosnar rancorosamente junto de Macário:
— Reis­‑víboras!
Depois, o cónego Savedra cantou uma modinha de Pernambuco muito
usada no tempo do senhor D. João VI: lindas moças, lindas moças — e a noite
ia assim correndo, literária, pachorrenta, erudita, requintada e toda cheia
de musas.
Oito dias depois, Macário era recebido em casa da Vilaça, num do‑
mingo. A mãe convidara­‑o, dizendo­‑lhe: espero que o vizinho honre aquela
choupana. — E até o desembargador apopléctico, que estava ao lado, excla‑
mou: choupana! diga alcáçar! formosa dama!
Estava, nesta noite, o amigo do chapéu de palha, um velho cavaleiro de
Malta, trôpego, estúpido e surdo, um beneficiado da Sé, ilustre pela sua voz
de tiple, e as manas Hilárias, a mais velha das quais, tendo assistido, como
aia de uma senhora da Casa da Mina, à tourada de Salvaterra, em que morreu
o conde dos Arcos, nunca deixava de narrar os episódios pitorescos daquela
tarde: a figura do conde dos Arcos de cara rapada e uma fita de cetim escar‑
late no rabicho; o soneto que um magro poeta parasita da Casa de Vimioso,
recitou quando o conde entrou, fazendo ladear o seu cavalo negro, arreado
à espanhola, com um xairel onde as suas armas estavam lavradas em prata;
o tombo que nesse momento um frade de S. Francisco deu da trincheira alta,
e a hilaridade da corte, que até a sr.ª condessa de Pavolide apertava as mãos
nas ilhargas; depois el­‑rei o senhor D. José I, vestido de veludo escarlate,
recamado de oiro, todo encostado ao rebordo do seu palanque, e fazendo
girar entre dois dedos a sua caixa de rapé cravejada, e por trás imóveis, o fí‑
sico Lourenço, e o frade, seu confessor; depois o rico aspecto da praça cheia
de gente de Salvaterra, maiorais, mendigos dos arredores, frades, lacaios,
e o grito que houve, quando D. José I entrou; — Viva el­‑rei, nosso senhor,
e o povo ajoelhou, e el­‑rei tinha­‑se sentado, comendo doces, que um criado
trouxe num saco de veludo atrás dele; depois a morte do conde dos Arcos,
os desmaios, e até el­‑rei todo debruçado, batendo com a mão no parapei‑
to, gritava na confusão, e logo o capelão da Casa dos Arcos tinha corrido a

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454 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

buscar a extrema­‑unção; ela, Hilária, ficara atarracada de pavor, sentia os


urros dos bois, gritos agudos de mulheres, os ganidos dos flatos, e vira então
um velho, todo vestido de veludo preto, com a fina espada na mão, debater­
‑se entre fidalgos e damas que o seguraram, e querer atirar­‑se à praça, bra‑
dando de raiva. É o pai do conde: ela então desmaia nos braços de um padre
da Congregação. Quando veio a si, achou­‑se junto da praça; a berlinda real
está à porta, com os postilhões emplumados, os machos cheios de guizos e
os batedores com pampilhos: el­‑rei já estava dentro, escondido no fundo,
pálido, sorvendo febrilmente rapé, todo encolhido com o confessor; e de‑
fronte, com uma das mãos apoiada à alta bengala, forte, espaduado, com o
aspecto carregado, o marquês de Pombal, falando devagar e intimativamen‑
te, e gesticulando com a luneta: mas os batedores picaram, os estalos dos
postilhões retiniram, e a berlinda partiu ao galope, enquanto o povo gritava:
Viva el­‑rei nosso senhor — e o sino da porta da capela do paço tocava a fina‑
dos! Era uma honra que el­‑rei concedia à Casa dos Arcos.
Quando D. Hilária acabou de contar, suspirando, estas desgraças pas‑
sadas, começou­‑se a jogar. Era singular que Macário não se lembrava o que
tinha jogado nessa noite radiosa. Só se recordava que ele tinha ficado ao lado
da menina Vilaça, que se chamava Luísa, que ele reparara muito na sua fina
pele rosada, tocada de luz, e na meiga e amorosa pequenez da sua mão com
uma unha mais polida que o marfim de Dieppe. E lembrava­‑se também de
um acidente excêntrico, que determinava nele, desde esse dia, uma grande
hostilidade ao clero da Sé. Macário estava sentado à mesa e ao pé dele Luísa:
Luísa estava toda voltada para ele, com uma das mãos apoiando a sua fina ca‑
beça loura e amorosa, e a outra esquecida no regaço. Defronte estava o be‑
neficiado, com o seu barrete preto, os seus óculos na ponta aguda do nariz,
o tom azulado da forte barba rapada, e as suas duas grandes orelhas, compli‑
cadas e cheias de cabelo, separadas do crânio como dois postigos abertos.
Ora, como era necessário no fim do jogo pagar uns tentos ao cavaleiro de
Malta que estava ao lado do beneficiado, Macário tirou da algibeira uma
peça e quando o cavaleiro, todo curvado e com um olho pisco, fazia a soma
dos tentos nas costas de um ás, Macário conversava com Luísa, e fazia girar
sobre o pano verde a sua peça de ouro, como um bilro ou um pião. Era uma
peça nova que luzia, faiscava, rodando, e feria a vista como uma bola de né‑
voa dourada. Luísa sorria vendo­‑a girar, girar, e parecia a Macário que todo o
céu, a pureza, a bondade das flores e a castidade das estrelas estavam naque‑
le claro sorriso, distraído, espiritual, arcangélico, com que gira, gira, a peça
de ouro nova. Mas de repente a peça correndo até à borda da mesa caiu para
o lado do regaço de Luísa, e desapareceu, sem se ouvir no soalho de tábuas

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eça de queirós 455

o seu ruído metálico. O beneficiado abaixou­‑se logo cortesmente: Macário


afastou a cadeira, olhando para debaixo da mesa; a mãe Vilaça alumiou com
um castiçal, e Luísa ergueu­‑se e sacudiu com [uma] pequenina pan­cada o seu
vestido de cassa. A peça não apareceu.
— É célebre, disse o amigo de chapéu de palha, eu não ouvi tinir no chão.
— Nem eu, nem eu, disseram.
O beneficiado, curvado como um F buscava tenazmente, e [a] Hilária
mais nova rosnava o responso de Santo António.
— Pois a casa não tem buracos, dizia a mãe Vilaça.
— Sumiço assim, resmungava o beneficiado.
No entanto Macário exalava­‑se em exclamações desinteressadas:
— Pelo amor de Deus! Ora que tem! Amanhã aparecerá! Tenham a bon‑
dade! Por quem são! Então sr.ª D. Luísa! Pelo amor de Deus! Não vale nada!
Mas mentalmente estabeleceu — que houvera uma subtracção —
e atribuiu­‑a ao beneficiado. A peça rolara, decerto, até junto dele, sem ruído:
ele pusera­‑lhe em cima o seu vasto sapato eclesiástico e tachado, depois no
movimento brusco e curto que tivera, empolgara­‑a vilmente. E quando saí‑
ram, o beneficiado, todo embrulhado no seu vasto capote de camelão, dizia
a Macário pela escada:
— Ora o sumiço da peça, hein, que brincadeira!
— Acha, sr. beneficiado, disse Macário parando, absorto de imprudência.
— Ora essa! Se acho! Se lhe parece! Uma peça de 7500 réis. Só se o se‑
nhor as semeia! Safa! Eu dava em doido.
Macário teve tédio daquela astúcia fria. Não lhe respondeu, o benefi‑
ciado é que acrescentou:
— Amanhã mande lá pela manhã, homem. Que diabo… Deus me per‑
doe! Que diabo, uma peça não se perde assim. Que bolada, hein!
E Macário tinha vontade de lhe bater.
Foi neste ponto que Macário me disse com a voz singularmente sentida:
— Enfim meu amigo, para encurtarmos razões resolvi­‑me casar com ela.
— Mas a peça.
— Não pensei mais nisso! Pensava eu lá na peça! Resolvi­‑me casar com ela!

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456 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

João Ubaldo RIBEIRO. «Capítulo I», in Viva o Povo Brasileiro. [1984] 2009.
Lisboa: Edições Nelson de Matos. 15­‑26.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Contudo, nunca foi bem estabelecida a primeira encarnação do Alferes José


Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponta das Baleias, pouco
antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro dis‑
paradas pelas bombardetas portuguesas, que daqui a pouco chegarão com
o mar. Vai morrer na flor da mocidade, sem mesmo ainda conhecer mulher
e sem ter feito qualquer coisa de memorável. E certamente com a imagina‑
ção vazia que aqui desfruta desta viração anterior à morte, pois não viveu o
bastante para realmente imaginar, como até hoje fazem os muito idosos em
sua terra, todos demasiado velhos para querer experimentar o que lá seja,
e então deliram de cócoras com seus cachimbos de três palmos, rodeados
pelo fascínio dos mais novos e mentindo estupendamente. E talvez falte
apenas um minuto, talvez menos, para que os portugueses apareçam à fren‑
te deste sol forte de inverno na Baía de Todos os Santos e façam enxamear
sobre ele aquelas esferazinhas de ferro e pedra que o matarão com grande
dor, furando­‑lhe um olho, estilhaçando­‑lhe os ossos da cabeça e obrigando­
‑o a curvar­‑se abraçado a si mesmo, sem nem poder pensar em sua morte.
No quadro «O Alferes Brandão Galvão Perora às Gaivotas», vê­‑se que é o 10
de junho de 1822, numa folhinha que singra os ares, portada de um lado pelo
bico de uma gaivota e do outro pelo aguço de uma lança envolvida nas cores
e insígnias da liberdade. Já mortalmente atingido, erguendo­‑se com um olho
a escorrer pela barba abaixo, ele arengou às gaivotas que, antes distraídas,
adejavam sobre os brigues e baleeiras do comandante português Trinta Dia‑
bos. Disse­‑lhes não uma mas muitas frases célebres, na voz trêmula porém
estentórea desde então sempre imitada nas salas de aula ou, faltando estas,
nas visitas em que é necessário ouvir discursos. Pois, se depois da metralha
portuguesa não havia ali mais que as aves marinhas, o oceano e a indiferen‑
ça dos acontecimentos naturais, havia o suficiente para que se gravassem
para todo o sempre na consciência dos homens as palavras que ele agora
pronuncia, embora daqui não se ouçam, nem de mais perto, nem se vejam
seus lábios movendo­‑se, nem se enxergue em seu rosto mais que a expressão

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466 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Manuel RUI. Quem Me Dera Ser Onda. 1993. Lisboa: Cotovia. 7­‑15.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Faustino só tirava o dedo do botão quando o elevador aparecia.


— Como é? Porco no elevador?
— Porco não. Leitão, camarada Faustino.
— Dá no mesmo em matéria de interpretação de leis.
— Quais leis?
— O problema é que a gente combinou na assembleia de moradores e
o camarada estava presente. Votação por unanimidade. Aqui no elevador só
pessoas. E coisas só no monta­‑cargas.
— Mas leitão é coisa?
— Nada disso. Bichos ficou combinado cão, gato ou passarinho. Agora
se for galinha depenada, leitão ou cabrito já morto, limpo e embrulhado,
passa como carne, também está previsto. Leitão assim vivo é que não tem
direito, camarada Diogo, cai na alçada da lei.
— Alçada como? Primeiro o monta­‑cargas está avariado. Um dia inteiro que a
sua mulher andou a carregar embambas para cima e para baixo. E depois o monta­
‑cargas, está a ver? Em segundo o leitão está em trânsito, não anda de cima para
baixo e de baixo para cima. E foi este leitão que trouxe catolotolo aqui no prédio?
Pararam no sétimo. O leitão estava renitente mas Diogo arrastou­‑o
pela corda. E, já com a chave na porta, olhou para trás e não viu o vizinho.
— Mãe! O pai trouxe leitão!
— Calma só, Zeca. Deixa passar o pai.
— Saiam da frente.
Diogo atravessou a sala comum, chegou na varanda larga que dava para
a rua, levantou alguma roupa pendurada no arame e atou a corda do leitão na
barra que separava as persianas.
— Olha só, ronca que chega. — Ruca aproximava­‑se tentando a familia‑
ridade com o bicho.
— Está bem, mas primeiro organizar. Liloca, levanta o bafo do rádio
todo, e vocês, Zeca e Ruca, vão depressa na casa do camarada Nazário ver se
está lá o nosso vizinho Faustino. Depressa!

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manuel rui 471

Mário de SÁ­‑ CARNEIRO. «Fim», in Poemas Completos. [1916] 1996. Lisboa:


Assírio & Alvim. 142.

— Quando eu morrer batam em latas,


Rompam aos saltos e aos pinotes —
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas.

Que o meu caixão vá sobre um burro


Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro…

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472 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Dina SALÚSTIO. A Louca de Serrano. [1998] 2001 (2.ª edição). Mindelo:


Spleen Edições. 135­‑142.

Texto sujeito a Direitos de Autor

A cada ano que passava, a beleza de Serrano impressionava menos as pes‑


soas, incluindo os serraneses e as serranas que, até pouco tempo atrás, olha‑
vam para ela, embevecidos, como a coisa mais preciosa da terra; e se eles não
sabiam traduzir isso em imagens faladas, o olhar, de vez em quando, muito
raramente, diga­‑se, deixava passar uma ponta de orgulho, perante a nature‑
za forte que os guardava.
O vale estava tão intacto como no dia do seu baptismo, o mesmo cheiro,
a mesma fonte que nas tardes mais frias soltava fumo para o ar, as mesmas plan‑
tas e pedras, as mesmas pessoas. Não lhe faltava nada, mas perdera a capacidade
de causar espanto a alguém, como uma senhora bela, mas esgotada. Isso. Ser‑
rano parecia que estava a esgotar­‑se, como se o seu tempo estivesse no limite.
Entregues a si mesmos, os camponeses pareciam uma caricatura de má‑
quinas esventradas e abandonadas à volta da vida e do botequim do largo
onde expunham as preocupações e queixas que normalmente iam ter aos jo‑
vens que deixaram de regressar à aldeia depois de cumprir o serviço militar,
aos homens cada vez mais velhos e às mulheres, elas também descompen‑
sadas e sobrecarregadas de desprazer. Também comentava­‑se com mais fre‑
quência os boatos sobre a construção de importantes obras públicas, onde
se inscrevia uma barragem.
Se se quiser contabilizar benefícios, o único que se pode aqui referir
é que com a ameaça que pairava sobre os aldeões, eles tinham começado a
articular algumas ideias e a tentar pôr para fora alguns pensamentos, ligados
à situação em que se encontravam, mas, em todo caso, pensamentos. Tinha
sido uma grande conquista, a manipulação do pensamento, e não há dúvi‑
da que se a sua história não tem sido alterada, quem sabe, acabassem por
descobrir gargalhadas, abraços e palavras, perdessem a letargia que os fazia
insignificantes e subservientes e aprendessem, eles próprios, a desenhar o
seu destino. Mas isso seria pedir demais porque, na fase da esfera vital em
que se encontravam, não teriam essa capacidade.

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josé saramago 479

José SARAMAGO. O Ano da Morte de Ricardo Reis. Lisboa: Caminho, 1995.


154­‑160.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Ai como é diferente o carnaval em Portugal. Lá nas terras de além e de Ca‑


bral, onde canta o sabiá e brilha o Cruzeiro do Sul, sob aquele céu glorioso,
e calor, e se o céu turvou, ao menos o calor não falta, desfilam os blocos
dançando avenida abaixo, com vidrilhos que parecem diamantes, lantejoilas
que fulgem como pedras preciosas, panos que talvez não sejam sedas e ce‑
tins mas cobrem e descobrem os corpos como se o fossem, nas cabeças on‑
deiam plumas e penas, araras, aves­‑do­‑paraíso, galos silvestres, e o samba, o
samba terramoto da alma, até Ricardo Reis, sóbrio homem, muitas vezes
sentiu moverem­‑se dentro de si os refreados tumultos dionisíacos, só por
medo do seu corpo se não lançava no turbilhão, saber como estas coisas co‑
meçam, ainda podemos, mas não como irão acabar. Em Lisboa não corre
esses perigos. O céu está como tem estado, chuvoso, mas, vá lá, não tanto
que o corso não possa desfilar, vai descer a Avenida da Liberdade, entre as
conhecidas alas de gente pobre, dos bairros, é certo que também há cadeiras
para quem as puder alugar, mas essas irão ter pouca freguesia, estão numa
sopa, parece partida carnavalesca, senta­‑te aqui ao pé de mim, ai que fiquei
toda molhada. Estes carros armados rangem, bamboleiam, pintalgados de
figuras, em cima deles há gente que ri e faz caretas, máscaras de feio e de
bonito, atiram com parcimónia serpentinas ao público, saquinhos de milho
e feijão que acertando aleijam, e o público retribui com um entusiasmo tris‑
te. Passam algumas carruagens abertas, levando provisão de guarda­‑chuvas,
acenam lá de dentro meninas e cavalheiros que atiram confetti uns aos ou‑
tros. Alegrias destas também as há entre o público, por exemplo, está esta
rapariga a olhar o desfile e vem por trás dela um rapaz com uma mão cheia
de papelinhos, aperta­‑lhos contra a boca, esfrega freneticamente e vai apro‑
veitando a surpresa para a apalpar onde pode, depois ela fica a cuspinhar,
a cuspinhar, enquanto ele afastado ri, são modos de galantear à portuguesa,
há casamentos que começaram assim e são felizes. Usam­‑se bisnagas para
atirar ao pescoço ou à cara das pessoas esguichos de água, ainda conservam
o nome de lança­‑perfumes, é o que resta, o nome, do tempo em que foram

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484 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

António José da SILVA [at.]. Obras do Fradinho da Mão Furada. [1860­‑1]


1997. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 83 ­‑ 93.

1.º TOMO

PRÓLOGO

A quem quizer ler

Leytor curiozo, nestas fabulosas Obras do Fradinho da Mão Furada te offe‑


reço dezenganos de suas tentaçoens e experiências de suas penas, para fugi‑
res a h as e temeres as outras; que no entretenimento da ociozidade acharás
o proveytozo, se prudente te quizeres inclinar à doutrina que nellas se te in‑
volve, para que ache em ti melhor acolhimento o moral entre o profano com
que se disfarça; que estão os gostos hoje tão de mao gosto, que se inclinão
mais ao que damna que ao que aproveyta. Faze o sinal da cruz primeyro que
as leyas, para que o mao fuja e ao bom te persuadas.
De cinco folgos te dou esta beberagem; se te não souber bem, suspende
no primeiro a tua direção, que te não vay nisso nada; e calumnia, e murmura
quanto quizeres, pois hés livre senhor de teu alvedrio e são baldadas as des‑
culpas com tençoens maliciozas.
Vale.

DÉCIMA

Ao Autor, de h amigo seu.

Com diabólica sciência


do Diabinho, que escreveis,
ao mundo mostrar quereis
do acertado a excelência.
Sirva­‑lhe pois de advertência
para temer seus enganos
deste assumpto os dezenganos,

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antónio josé da silva 485

porque resplandece mais


tirar exemplos moraes
de documentos profanos.

Fim

PROÉMIO

Estranhos são os meyos que a fortuna toma para facilitar aos homens felli‑
cidades: dos mais pobres nascimentos muitas vezes os expoem a dignidades
supremas, e dos mais nobres e ricos muitas vezes os precipita a desgraças
incomparáveis.
Baldadas são as diligências contra este destino impenetrável e misterio‑
zo, sem prejuízo do livre alvedrio, porque, como dizem os velhos, «a quem
Deus quer ajudar o vento lhe ajunta a lenha». Quantos merecimentos vemos
abatidos e desprezados sem migalha de estrela? Quantos deméritos com
todo o Sette Estrelo estimados e preferidos? Effeyto monstruozo da for‑
tuna, cujos sumptuosos edifícios custuma fabricar sem alicerces, e por esta
razão durão tão pouco.
Não hé a penetração deste segredo para a humana capacidade, mas,
concernente à nossa história, o princípio do primeiro parágrafo, como se
verá no meyo que a fortuna tomou para enriquecer h afligido e pobre sol‑
dado.
Nem sempre se podem escrever histórias verdadeyras, políticas e exem‑
plares; também do fabulozo se colhe muito fructo, por ser salsa para de‑
zemfastio da doutrina que nelle se pode involver aos que se aplicão mais a
ociozidades illícitas que à lição dos livros espirituaes e graves.
De que servem as fábulas que os Antigos escreverão, mais que de in‑
vectiva e assumpto de cathólicas moralidades? Que não profana a lição o
fabulozo, quando se toma por motivo para ensinar o acertado, nem reprovar
licenciozidades geralmente dos que prevaricão offende o merecimento dos
que seguem o dictame da razão, não sofrendo o génio curiozo ociozidades,
por não mallograr o tempo.

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486 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

FOLGO 1.º

Retirou­‑se h soldado da milícia de Flandes, em tempo de Phelipe Segundo,


chamado André Peralta, afligido e maltratado da guerra, tão pobre como
soldado e tão desgraçado como pobre.
Depois de entrar neste Reyno aonde havia nascido caminhava para Lis‑
boa, pátria comua de estrangeiros, madrasta dos naturaes e protectora dos
venturozos.
Começou de anoutecer­‑lhe h a légoa de distância da cidade de Évo‑
ra em h sítio aonde estavão h as cazas abertas e dezocupadas de gente.
E vendo o soldado caminhante que a noute ameaçava com a escuridão me‑
donha e que as nuvens sem descansar chovião dilúvios de agoa, se resolveo a
passar a noute como podesse em alg a caza mais reparada daquelle edifício,
contentando­‑se nelle para seu sustento com o limitado provimento de seu
alforge; e cortando com a espada ramos de h as árvores e valados que perto
estavão para ascender fogo, a que se enxugasse da chuva e reparasse do frio,
se recolheo a h a das cazas que julgou mais acomodada.
Tirou do alforge fuzil e pederneyra, que hé a mais importante alfaya de
quem caminha, e ascendeo fogo, à cuja claridade, varrendo com huns ramos
parte da caza em que se acomodou, despois de se enxugar ceou do pobre
sustento que trazia.
Já tinha o Soldado, depois de cear, dormido h breve sono, e seria passada
a terça parte da noute, quando o acordou h grande estrondo que nas vizinhas
salas se fazia; e aplicando ao lume alg as ramas já secas a elle, para que com
mais claridade podesse melhor testemunhar o que aquillo era, o uvio que h a
voz dezentoada e medonha lhe dizia: «Despeja, atrevido soldado, este apozen‑
to, se não queres morrer nelle derribando e desfazendo­‑o sobre ty.»
A esta voz attendendo o Soldado, vio, ao seu parecer, que as paredes da
caza em que estava estremecião, pronosticando sua ruína, e que os fragmen‑
tos das antigas portas e janellas se quebravão; mas nem por este respeito
perdendo o ânimo, fazendo das tripas coração, por não o matar o medo pri‑
meiro que o perigo, como muitas vezes acontece aos dezalentados, respon‑
deo à dezentoada voz:
«Se hés espírito transmigrado desta vida, e necessitas de alg suffrágio nella,
eu te requeiro da parte de Deus me digas quem hés e o que pretendes, que âni‑
mo tenho para te ouvir, e te prometo que eu farey tudo o de que necessitares
para teu remédio, ainda que por ser h pobre soldado me seja necessário mendi‑
gar para isso; e se hés espírito maligno, nada se me dá de teus ameaços, que aqui
tenho a cruz da minha espada e palavras me ensina a santa fé cathólica que me

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antónio josé da silva 487

livrarão de ti e de teus poderes, que não tens jurisdição para executares sem a
Divina Providência o permitir; e assim se eu aqui te enfado, pouco tempo terás
esta moléstia, pois hé já da noute passada a mayor parte, e apenas aparecer a
primeira luz da resplandecente aurora, logo despejo, que o rigor da escuridão e
tempestade que está fazendo me não dá lugar a obedecer­‑te logo. Com isto me
parece que se em ti há alg conhecimento da razão te podes dar por satisfeito e
haver­‑me por desculpado de me atrever a ser teu hóspede; e se no campo havia
de morrer esta noute posto à chuva e ao frio, mais lícito me pareceo amparar­‑me
ao abrigo do solitário desta caza, em que me recolhi.»
— Ora, já que estás tão pertinaz em não despejar, lhe disse a voz, tanto
te choverá aqui como no campo.
E dizendo isto, em h breve instante destelhou o telhado da caza, e fi‑
cou chovendo nella como na rua.
O Soldado, vendo­‑se naquelle aperto, não teve outro remédio mais que
metter­‑se no canto da chaminé, e tornando às boas com o dono da caza, que
athé o diabo se obriga de lizonjas pelo que tem de enganos, lhe disse:
«Senhor Barrabás, ou qualquer príncipe infernal, ou quem Vossa Dia‑
brura seja, não hé política de sogeitos grandes uzarem de rigores com os
humildes. Perdoe Vossa Diabrura violar o solitário desta caza com a minha
assistência, considerando que o medo e o frio faz metter ao homem com
o seu inimigo, e, como o frio desta noute era tão grande, me obrigou a não
reparar. Sirva­‑se Vossa Diabrura de tornar a telhar a caza, para que me repa‑
re da chuva, que em rompendo a luz do dia a despejarey logo. Contente­‑se
por castigo de meu erro com os sobresaltos e sustos que me tem dado, que
tanto hé o de mais como o de menos, e se quer que conversemos h pouco,
apareça, que ânimo tenho para isso, e, por mais feyo que se me reprezente,
não me aproveitarey das palavras que sey para me livrar de Sua Demonência,
nem lhe direy «vade Satanás retro!», nem o notificarey com os exorcismos que
tanto descompoem a Vossa Diabrura.»
O bom termo e a cortezia parece que athé o diabo obriga. Palavras não
erão dittas, quando a caza estava outra vez telhada e o Diabinho da Mão
Furada em prezença do nosso soldado Peralta, em figura de fradinho de pe‑
quena estatura, mas de disformes feyçoens: os narizes rombos e asquerozos,
os olhos encovados em profundas grutas, a boca formidável, com dentes de
javali, e os pés de bode; o qual, ao sobresalto de Peralta, disse estas palavras:
«Não sou, oh animozo soldado, nenh destes príncipes infernaes que disses‑
tes: sou comissário geral, sim, para tentador e provocador de maldades. De‑
pois que por soberbos e ingratos o nosso ineffável Creador nos dezpenhou
das celestiaes alturas, huns de nós fomos sepultados nos abismos infernaes,

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488 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

outros ficámos no ar e na superfície da terra, tendo nossa pena para não


movermos as tempestades e terremotos, se não quando o poder que nos pre‑
cipitou o permite para castigar o mundo.
Destes sou eu h dos mais perversos e endiabrado de todos. Eu fuy o
que inventey o tabaco para que os homens perdessem o sentido e regalo do
olfato e andassem sempre ennodados delle, e bem se vê que foy invectiva
minha vício tanto sem gosto alg , pois não sofrem os que o tomão, quando
espirrão, que lhe digão «Dominus tecum», porque logo respondem para evitá­
‑lo: «Senhores, hé tabaco!». E têm por delícia estar sempre mettendo em
pó pelos narizes e bebendo­‑o em fumo pela boca à imitação do Inferno. Eu
inventey os sapatos acolherados com h palmo de polivi e a sua forquinha
diante, em sinal do que merece quem tal uza. Eu inventey os rebuços de
meyo olho por licenciar às mulheres liberdades, os monhos, as anágoas, os
guarda­‑infantes e outras sarandajes e decotados provocadores de lascívias.
Não fallo em capoinas, saranbeques, chacoynas, sarabandas e seguidilhas
deshonestas, que isto são couzas de nonada para mim.
Huns me chamão Diabinho da Mão Furada e outros Fradinho, por ter‑
mos alguns de nós as mãos tão rotas de liberdades, que em muitas cazas
onde andamos fazemos ferver o mel, crescer o azeite, augmentarem­‑se os
bens, lograrem­‑se felicidades, e sobretudo, quando nos merecem com boa
companhia que nos fazem, descobrimos tezouros escondidos aos donos das
cazas em que andamos.
A estas me incliney para minha habitação pelos infelices donos que ti‑
verão e execráveis malefícios que nellas se executarão. Daqui tenho ordem
de Lúcifer para acudir a todos os mágicos e bruxas que com nosco têm pac‑
to, para lhe dar razão do que por meyo da minha indústria querem saber.
Determinava fazer­‑te má hospedagem, mas, vendo­‑te tão animozo
e justificado, revoguey a minha tenção, que athé os diabos, pelo que tive‑
mos de atrevidos, respeitamos os sugeitos valerozos, que não somos nós tão
feyos como nos pintão. E já folgo de ter por hóspede esta noute para a passar
conversando contigo, por [seres] homem de inestimável valor, a quem mi‑
nha prezença não atemoriza, como [a] alguns coutadinhos que só do nome
se assombrão e suspendem. E assim não partirás daqui sem hires aproveita‑
do e te fazer grandes bens.

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nicolau tolentino 489

Nicolau TOLENTINO. «A Guerra», in Memoriais e Sátiras. [1801] 1995.


Porto: Felício & Cabral. 87.

Sátira oferecida ao visconde de Vila Nova da Cerveira depois marquês de


Ponte de Lima, no ano de 1778.

Il.mo e Ex.mo Sr.


A sátira da guerra, que ponho nas respeitáveis mãos de V. Ex.ª, tem por
objecto os costumes, sem que a sua crítica aponte, nem remotamente, in‑
divíduo algum em particular; este é o seu único merecimento, o qual me
esforça a levantá­‑la à grande honra de ser oferecida a V. Ex.ª.
Não me acovarda o nome de sátira, só odioso ao vulgo igno­rante: V. Ex.ª
sabe que, quando ela fere nos costumes, sem assinalar os homens, é a espécie
de poesia em que mais vezes se dão as mãos os seus dois fins, a utilidade e o
recreio.
A estimação de Horácio, e o desterro de Juvenal, de mistura com o meu
génio, me ensinaram a falar com moderação; e ainda que talvez seja esta a
única instrução que eu tire das suas obras, com ela me atrevo a esperar bom
acolhimento a uma sátira, que se em V. Ex.ª não agradar ao homem de bom
saber, ao menos não escandalizará o homem de bons costumes.
V. Ex.ª, que sabe colher dos livros mais fruto que o do prazer, não se
envergonhou de ler os filósofos que escreveram em verso: a alta filosofia de
costumes, de que vão cheios os livros da antiguidade, nada perde nos olhos
de V. Ex.ª, quando vai ornada com as belezas da poesia.
As diversas espécies desta arte são inteiramente conhecidas por V. Ex.ª:
eu tive algumas vezes a honra de ouvir falar a V. Ex.ª nas poesias dos gregos,
dos romanos e dos franceses, fa­zendo entre elas tão justos paralelos, e falan‑
do tanto de dentro, que me parecia impossível que V. Ex.ª achasse tempo
para os outros estudos mais importantes, com que esclareceu o seu espírito,
se eu não tivesse lido que Cícero no meio do tumulto e das tempestades
de Roma, encarregado dos mais importantes negócios da república, achava
tempo para ler, e disputar sobre os poetas e filósofos da Grécia e da sua
pátria.

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490 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Não me valho da experiência que tenho do quanto V. Ex.ª é dado ao


estado das boas artes, para lhe tecer com isto um elogio: tenho a honra de
conhecer V. Ex.ª, e sei que os seus lou­vores seriam o único modo de se lhe
fazer odiosa a verdade.
Valho­‑me desta experiência, senhor, para desculpa de ir cansar a V. Ex.ª
com a leitura dos meus versos. O nome de poeta é desprezado da maior
parte dos homens; fazem consistir a poesia em número de sílabas, e na união
dos consoantes, e provam com isto a futilidade da arte: é quase um vício o
ser poeta; confundem­‑no com o homem sem carácter, e imputam à poesia
os erros da humanidade; e por isso achei natural, que uma arte desprezada
pela ignorância, fosse vingar os seus direitos aos pés de V. Ex.ª.
Os meus versos terão o sucesso de desagradarem a V. Ex.ª, por serem
maus; mas, por serem versos, é impossível que sejam leitura odiosa a quem
decorou e analisa os poetas de Augusto e de Luís XIV.
Para protector dos versos que ofereço, não procurei só em V. Ex.ª o
homem de letras, procurei também o ministro de estado. Vejo a Europa
em armas; ouço o flagelo da guerra ao redor dos confins da minha pátria; e
pareceu­‑me que não desaprovaria sátira da guerra aquele ministro hábil, que
debaixo das direcções dos seus soberanos, intenta e consegue manter uma
paz profunda no meio dos fogos das nações armadas.
E eu abençoarei este trabalho de meu curto engenho, se V. Ex.ª se dig‑
nar de pôr benignamente os olhos sobre ele e sobre o seu actor, o qual é de
V. Ex.ª o criado mais humilde.

Musa, pois cuidas que é sal


O fel de autores perversos,
E o mundo levas a mal,
Porque leste quatro versos
De Horácio e de Juvenal,

Agora os verás queimar,


Já que em vão os fecho e os sumo;
E leve o volúvel ar,
De envolta c’o turvo fumo,
O teu furor de rimar.

Se tu de ferir não cessas,


Que serve ser bom o intento?
Mais carapuças não teças;

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nicolau tolentino 491

Que importa dá­‑las ao vento,


Se podem achar cabeças?

Tendo as sátiras por boas,


Do Parnaso nos dois cumes
Em hora negra revoas;
Tu dás golpes nos costumes,
E cuidam que é nas pessoas.

Deixa esquipar Inglaterra


Cem naus de alterosa popa;
Deixa regar sangue a terra.
Que te importa que na Europa
Haja paz, ou haja guerra?

Deixa que os bons e a gentalha


Brigar ao Casaca vão;
E que, enquanto a turba ralha,
Vá recebendo o balcão
Os despojos da batalha.

Que tens tu, que ornada história


Diga que peitos ferinos,
Em sanguinosa vitória,
Inumanos, assassinos,
São do mundo a honra e a glória?

As guerras precisas são:


Nelas a paz se assegura;
Não metas em tudo a mão,
Musa louca; porventura
Encomendam­‑te o sermão?

Deixa que o roto taful,


A quem na pátria foi mal,
Vá cruzar de norte a sul;
Cubram­‑lhe o corpo venal
Três palmos de pano azul.

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492 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Deixa que em tarimba estreita


O desperte a aurora ingrata;
Qu’o duro cabo, que o espreita,
O faça, ao som da chibata,
Virar à esquerda e à direita;

Deixa­‑lhe em sangue envolver


Duro pão, que lhe dá Marte;
E para poder viver,
Deixa­‑lhe aprender esta arte
De matar e de morrer.

Vá junto à queimada zona


Arvorar, em rotos muros,
O estandarte de Belona;
Calejem­‑lhe os ombros duros
As correias da patrona;

Voe­‑lhe aos ares um pé;


Sobre o outro, com valor,
A Plutão cem mortos dê;
Arda de raiva e furor
Sem nunca saber porquê.

Sem causa, entre dentes trazes


A grande arte das batalhas;
Murmuras dos seus sequazes;
E quando da guerra ralhas,
Outra com a língua fazes.

Dizes que uma guerra acesa


É teatro de impiedade;
Chamas­‑lhe crua fereza,
Flagelo da humanidade,
Triste horror da natureza.

Pintas um bravo guerreiro,


E a meus olhos vens mostrá­‑lo,
Para ferir mais ligeiro,

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nicolau tolentino 493

Metendo o ardente cavalo


Sobre o exangue companheiro;

A um lado e a outro lado


A morte mandando vai
C’o sanguinoso traçado,
Até que ele mesmo cai
De um pelouro atravessado.

Co’as cabeças abatidas


Vão de ferro vil marcados,
Maldizendo as tristes vidas,
Mil cativos maniatados,
Vertendo sangue as feridas;

Entre horrorosos troféus


O general desumano
Manda falso incenso aos céus,
E de espalhar sangue humano
Vai dando louvor a Deus.

Dizes que se compra quina,


Porque altas febres desterra,
E que em colégios se ensina,
Em uma aula a arte da guerra,
Em outra a da medicina;

Que no frio, vasto norte,


Cem Boerhaves eloquentes
Enchem de oiro o cofre forte,
Porque perdidos doentes
Arrancam das mãos da morte;

Que ali mesmo grosso fruto


Colhe Saxe entre os soldados,
Porque em minado reduto
Fez voar despedaçados
Dez mil homens num minuto.

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494 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Tirando então consequências,


Zombar dos homens procuras,
E das suas vãs ciências;
Sempre cheios de loucuras,
E cheios de incoerências.

Se a paz, em dias felizes,


À cara pátria os conduz,
Dizes que estes infelizes
Mostram, rindo, os peitos nus,
Cortados de cicatrizes;

Que este reconta aos parentes


Como em perigoso pasto,
Zunindo balas ardentes,
Uma lhe quebrou um braço,
Outra lhe levou os dentes;

Que outro, da perna cortada


Abençoa a horrível chaga,
Porque ao peito pendurada
Trará algum dia, em paga,
Inútil fita encarnada.

Dizes que entre os animais


Proíbe guerras o instinto;
E que, surdo a tristes ais,
Vês com horror o homem tinto
No sangue dos seus iguais.

Musa, não discorres bem;


Pois se uns com os outros cabem,
E juntos a um pasto vêm,
É só porque inda não sabem
A virtude que o oiro tem.

Por preciosos metais


Não põem peito a bravos mares;
Traze exemplos mais iguais;

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nicolau tolentino 495

Sábios homens não compares


Com os brutos animais.

Trazem focinho no chão,


E nós sempre ao alto olhamos;
Temos em dote a razão;
E por isso levantamos
Uns contra os outros a mão.

Se os homens se não matassem,


E impunemente crescessem,
Pode ser que não achassem
Nem fontes de que bebessem,
Nem campos que semeassem.

Em vão febres inimigas


Os mirrados corpos gastam;
Tornam as forças antigas;
E está visto que não bastam
Nem malignas, nem bexigas.

Travem­‑se cruas batalhas,


Arrasem batidos muros
Os soldados de quem ralhas;
Adornem­‑lhes os membros duros
Grossas, tresdobradas malhas.

Sabe que mil males faz


A mole tranquilidade,
E que em seu seio nos traz
Brando luxo e ociosidade,
Danosos filhos da paz,

Que nos causa ocultos danos,


Fingindo rosto inocente;
Que a guerra de largos anos
Conservou antigamente
A inocência dos romanos;

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496 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Que enquanto ao duro exercício


Eram seus corpos afeitos,
E da paz não houve indício,
Não lavrava nos seus peitos
Mortal peçonha do vício.

Não havia mãos profanas;


Eram suas almas sãs;
E nas símplices cabanas
Fiavam grosseiras lãs
As castas moças romanas.

Fez Jano os povos amigos,


Inerte ócio os peitos toma;
C’os combates, c’os perigos
Foram­‑se, ó austera Roma,
Os teus costumes amigos.

Entre as nações sossegadas


Sabe que o ócio arraigado,
E as paixões em paz criadas,
Fazem mais sangue no estado,
Do que os gumes das espadas.

Deixa, pois, haver queixumes;


Metam­‑se armadas no fundo,
Acenda a guerra os seus lumes;
Que assim tornará ao mundo
A inocência dos costumes.

A intacta fé, a verdade


Venham com as baterias;
Desça do céu a amizade;
E tome a doirar os dias
De Saturno a antiga idade.

Musa vã, que em ti não cabes,


Os guerreiros arraiais
Nem vituperes, nem gabes;

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nicolau tolentino 497

E não te metas jamais


A falar no que não sabes.

Haja bloqueio, haja assédio,


O sangue humano espalhado
Nem sempre te cause tédio;
Que em boa dose tornado,
Té o veneno é remédio.

Deixa ir o mundo seu passo;


E, contra si mesmo armado,
Corte c’um braço o outro braço;
Põe na boca um cadeado,
Faze o que eu mil vezes faço.

Emprega melhor teu canto;


E pois queres que te louvem,
Mão das sátiras levanto;
Poesias que os homens ouvem,
Um com riso, e cem com pranto.

De bons anos na função


Leva a Fílis fria glosa;
Beija­‑lhe a nevada mão;
Chama­‑lhe Vénus formosa,
Inda que seja um dragão.

Éclogas também dão fama;


Fala em surrão, e em curral;
E do vulgo os olhos chama
Nas paredes do Arsenal,
Cheia de aplauso e de lama.

De galegos rodeada
Aos aristarcos escapa;
Té que das tendas chamada,
Sejas protectora capa
De manteiga e marmelada.

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498 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Jorge Ferreira de VASCONCELOS. «Acto III, Cena I», in Comedia


Eufrosina. [1555] 1951. Eugenio Asensio: Madrid, segundo a edição princeps
de 1555. 160-170.

Eufrosina. Sílvia de Sousa

Eufrosina — Que soberbas são estas, senhora? Quem poderá convos‑


co? Já não quereis ver ninguém, todo vosso entender é naquele primo,
alg ’hora teremos nós também algum parente?
Sílvia — Pois, senhora, faço muito bem, ama cada um os seus.
Eufrosina — Si, mas andais tão vã que vos não ousa homem falar.
Sílvia — Vistes aquilo, algo me viu já. Se me houvesse inveja que dita
seria, mas bem sei que zomba sempre de tudo. Trouxe­‑me a carta de meu
irmão com que folgo em estremo.
Eufrosina — E que vos diz nela?
Sílvia — Que espera vir muito rico de lá, e que me não case sem ele
porque tudo quer pera mim.
Eufrosina — Traga­‑vo­‑lo Deus com muito bem, mas pera isso espero
em Deus que não seja ele cá necessário, que se eu tever amparo não faltará
pera vós, segundo sei de meu pai que vo­‑lo não deseja menos.
Sílvia — Assi o creio eu dele, e nessa esperança vivo. Prazerá ao senhor
Deus qu’inda a eu verei condessa, porém, senhora, quanto mais tanto me‑
lhor.
Eufrosina — Quereis­‑me mostrar a carta?
Sílvia — De mil vontades e aí lhe beija as mãos.
Eufrosina — Escreve muito bem, mostrá­‑la­‑eis a meu pai que folgará
de a ver. Vosso primo e ele seriam grandes almas?
Sílvia — Unha e carne, e companheiros na corte com outro mancebo
natural também daqui que se chama Cariófilo.
Eufrosina — Moços da câmara d’el­‑Rei?
Sílvia — Si, senhora, e vieram ambos agora folgar cá este verão. Meu
primo, senhora, é grande marca de homem, muito discreto, trovador, músi‑
co e muito galante, mais brando na prática e conversação que vos perdereis
por ele. Ele viu­‑vos ontem e gabou­‑vos de muito fermosa, jurando que não
havia no paço dama que vos desse pelos pés, que se lá andásseis, vos adora‑
riam, mas que lhe parecia que éreis fria da condição.

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jorge ferreira de vasconcelos 499

Eufrosina — Ali má hora, asinha mo ele enxergou! Contai­‑me disso,


mas por vossa vida!
Sílvia — Assi me salve Deus que me disse que não crera poder ter o
mundo tanta fermosura se a não vira, que se a tirassem por natural só o re‑
trato bastava pera matar de improviso, como a fegura da fortuna ao mance‑
bo ateniense.
Eufrosina — Livre­‑nos Deus. Bofé, com vossa licença, Sílvia de Sousa,
não no digo por lhe querer mal, mas pareceu­‑m’ele um grande maninelo.
Sílvia — Ai, ai, bem, em que isso tem senhora dar­‑lhe’­‑eis com a ca‑
vaca, bom galardão é esse. Maninelo! Camanha graça, si, desse pé se calça
ele, pois cuida o outro que mata a brasa de demo e sa mãe e que não há mais
galantaria em todo o mundo que a sua.
Eufrosina — Polo ele cuidar nem por isso há logo de ser, pois se vê o
contrairo.
Sílvia — Ora no mais, no mais, entendida sois, senhora. É certo que
nos espreitou quanto falámos.
Eufrosina — Pois si, vedes vós isso, não tinha ora eu al cuidado.
Sílvia — Como se faz de novas, dissingulai mana: inda qu’eu sou tosca,
bem vejo a mosca.
Eufrosina — Que me vistes, Jesu, livre­‑me Deus, já m’eu hoje não le‑
vantarei sem falso testemunho?
Sílvia — Assi me visse ora rainha como a vi per este e per este, e a ouvi
inda rir­‑se quando se ele enfiou com paixão de a certa cousa.
Eufrosina — E ele que demo vos contava pera tanto sentimento?
Sílvia — Como o ela viu, também o ouviria.
Eufrosina — Melhor m’ouça Deus no seu reino. Acertei passar assi,
e não sei como, olhei pela greta e então o vi assi sentido.
Sílvia — Ah, confessar sem açoutes, como a logo acolhi.
Eufrosina — Que confesso? Eu espreitei­‑o?
Sílvia — Não a mim, que las vendo y las revendo.
Eufrosina — Olhai vós já a cousa pera espreitar nem fazer caso dele!
Sílvia — Pois bem, bem, daquelas cousas tais tem ela muitas.
Eufrosina — Que boa ventura pera ter, ante lo queria perder que
achar. Porém, de verdade, que vos contava ele, que o fazia estar tão sentido,
alg as parvoíces?
Sílvia — Assi é o menino tolo. Ai mãe minha, graça lhe acho eu, mas
pouca. Com’é certo se lho dissesse.
Eufrosina — Ora pois, dizei!
Sílvia — Bofé não direi, nem sairá pola boca.

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500 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Eufrosina — Ora, por vida minha, Sílvia de Sousa!


Sílvia — Senhora Eufrosina, verças que não haveis de comer, não nas
cureis de mexer!
Eufrosina — E, se eu adivinhar, dir­‑mo­‑eis?
Sílvia — Pode ser.
Eufrosina — A certa levada destes galantes é amores. Contar­‑vos­‑ia
alg as saudades da corte e alguns gabos vãos.
Sílvia — Isso é, mas são daqui da cidade.
Eufrosina — E o coitado, tão desfavorecido anda, ou de muito enle‑
vado?
Sílvia — Ela que lhe vai nisso? Leixai­‑me, rogo­‑vos, senhora! Por isso,
dizem bem, que são as mulheres mortas por saber: qu’ela agora tem a ver
com os amores do outro?
Eufrosina — Como sois parvoa, mana, que vai nisso agora, ou que
nojo vos faz sabê­‑lo eu? Se lhe eu por isso houvesse de fazer algum mal.
Sílvia — O demo o sabe.
Eufrosina — Mas eu, por a orelha me entra, por outra me sai.
Sílvia — Ora, senhora, descanse e repouse que não lho hei­‑de dizer. Que
quer ela agora? Zombar de meu primo e dizê­‑lo a quem lho quiser ouvir?
Eufrosina — Bem casarei eu com essa fama que me vistes vós desco‑
brir, agora quero eu haver merencoria da conta em que me tendes.
Sílvia — Como se ela faz crime, ora quer que lho diga?
Eufrosina — Quero!
Sílvia — Há­‑me de jurar que a viva criatura o diga.
Eufrosina — Juro por vida de meu senhor.
Sílvia — E assi mo promete como fidalga?
Eufrosina — Prometo.
Sílvia — Ora quero ver. Olhe, senhora, o que me promete.
Eufrosina — Acabai já, Jesu, como sois desconfiada! Quant’eu não sei
já que vos diga. Juro a estas letras per que se escrevem as palavras de Deus,
pois me fazeis poer boca nele.
Sílvia — Que o não digais.
Eufrosina — Que o não diga! Ai mãe, ainda qu’eu fora a mor palreira
do mundo!
Sílvia — Haveis de saber, senhora, a mor graça do mundo. Ele quis­‑me
dar a entender que era perdido d’amores da senhora Eufrosina des a primei‑
ra hora que vos viu, e isto com grandes conjuros que não saísse de mim.
Eufrosina — Não mo digais, mas de verdade, e pola sua negra vida
espezinhada?

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jorge ferreira de vasconcelos 501

Sílvia — Assi eu viva, que estes eram os seus sentimentos.


Eufrosina — Ora o tem bem parado. O demo me deu adivinhar qu’era
ele um grande sandeu. Quererá cuidar per via de cortesão que é vivo! Quan‑
to engano há no mundo! Parece­‑vos que cousa são homens, doudos e es‑
tavados, que cuidam que acertam tudo o que lhe vem à openião e que em
lançando os olhos logo o campo fica por eles. Olhai vós a amargura pera ter
pensamento em mim, certamente eu não posso leixar de haver grande me‑
rencorea de tão grande doudice. Vistes aquela fantesia de ninguém! Queria
muito saber se lhe lembra ele quem eu sou e que viu em mim pera presu‑
mir isso. E, vós senhora muito desapassionada estáveis­‑lho, ouvindo alto, de
bom som, e não lhe podeis dizer que vos não falasse tais doudices.
Sílvia — E que lhe havia de fazer ou que sabe ela o que lhe eu disse?
Podia­‑lhe tapar a boca ou dar­‑lhe ao pau, mas por isso fui eu grande tola que
lhe disse nada. Não debalde arreceava eu e me punha em não lho dizer por
nenh a via, mas disse­‑lho por acabar com suas perseguições, que des que co‑
meça nunca acaba, no mais que assi pera rirmos. Bem parece que adivinhava
eu essa merencorea.
Eufrosina — E não é pera a haver? Como é graciosa.
Sílvia — Estas cousas, senhora, quanto menos caso se faz delas, tanto
mais se apagam. Os homens tem olhos e ninguém lhos pode tolher, e te‑
rem pensamentos muito menos, e as estranhezas das mulheres nesta parte
não se louvam porque ninguém as obriga nem força ao que não querem e
quanto mais se descuidam destas lembranças mais esfriam o fundamento
delas.
Eufrosina — Não me conselheis nisto que eu sei muito bem o que me
cumpre, e de fazer as cousas leves nos princípios vem depois os fins a serem
muito pesados. E porque eu entendo quanto vai em atalhar as más openiões
daqui vo­‑lo digo logo, se ele cá tornar que o desenganeis muito bem, que vos
não fale mais nisso ou não venha aqui mais que vo­‑lo não consentirei, já que
estais nesta casa comigo.
Sílvia — Eu mereço tudo isto e muito mais, o demo m’a mim mandou
falar, sempre o calar foi bem, nem há cousa mais proveitosa que o silêncio.
Bem me temia eu do que havia de ser, e pois assi o quis assi o tenho, mas dos
escarmentados se fazem os arteiros, e por isso quando me a mim aquecer
outra tal.
Eufrosina — E pois que quereis vós agora, senhora, que se ande ele
gabando pela cidade que anda d’amores comigo, parece­‑vos que será bem?
Sílvia — Pera quê falar isso? Tão peca sou eu que não entenda quan‑
to nisso vai, e bem senhora, e que conta daria eu de mim dessa maneira.

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502 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Se eu não soubesse muito certo que é tudo nele pedra, em poço, com minhas
mãos, me mataria. Quanto mais qu’eu não lho louvo nem louvei, mas lancei­
‑lhe o feito à zombaria, e passei por isso levemente, como quem não quer a
cousa, nem me lembrava, por cuido nem por penso, se me nisso não faláreis,
mas por bem fazer, mal haver, eu sou assi ditosa! Tirou­‑me os olhos que lho
dissesse e eu, simprezmente, não lho soube negar; e agora quer­‑me tolher
que não fale com um primo que tenho por irmão. Pois que parecerá isso,
fazer caso onde o não há? Melhor seria certo lançar tudo por detrás, qu’eu
segura estou de lhe falar mais nele.
Eufrosina — O doudo! E se vem a mão, andá­‑lo­‑á dizendo a todo mun‑
do e a minha fama não se quer assi, que a das mulheres mais está no que di‑
zem que no que é. Pois que cousa pera vir ter às orelhas de meu senhor, que
fará barafundas, ficaremos bem aviadas, vós e eu!
Sílvia — E ele como o há de saber? Estais muito enganada, senhora,
bem podeis descansar dessa parte, que é o mais calado homem do mundo e
traz mais ponto nisso. Sabeis quanto? Que quando me disse assi que andava
agastado, que o eu importunei que me dissesse a causa, disse­‑mo por cum‑
prir comigo polo que me quer, e em nenhum modo me quis dizer o nome,
dizendo­‑me que seu mal o não tinha nem ninguém o saberia dele. Mas como
nós outras sempre somos mortas por saber, fui com ele como vós, senhora,
agora comigo, e tanto o conjurei que sobre minha fé mo descobriu.
Eufrosina — Dessa maneira se descobrem todos os segredos, e de um
noutro secretamente ficam mais púbricos que as cousas púbricas. Tudo isso
são foscas, foscas e mais estes cortesãos que tem por gentileza serem rotos
e vulgares.
Sílvia — Esses serão uns que se prezam de despejo polo que dizem.
Homem vergonhoso o diabo o trouxe ao paço e todo o saber tem na língua,
mas meu primo é outra cousa e tem outra capacidade.
Eufrosina — Venha o demo e escolha, tais são uns como os outros. Do
rio manso me guarde Deus que do bravo eu me guardarei. Esses tais mos‑
tram o pão e escondem a pedra, que mor doudice e pequice pode haver que
meter­‑se­‑lhe em cabeça querer­‑me bem!
Sílvia — Ora, senhora, não falemos nisso mais e serão quitas questões.
Eufrosina — Não, mas de verdade, que razão lhe achais ou que des‑
culpa?
Sílvia — Antes olhando­‑o sem paixão, pois quer que lhe responda,
é muito grande discrição, porque vós, senhora, sois muito fidalga, e os gran‑
des espritos sempre se endereçam a cousas altas. Vós, senhora muito fermosa,
dom da natureza que tem a jurdição nos mais claros entendimentos. Vós, se‑

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jorge ferreira de vasconcelos 503

nhora, muito discreta, raro primor, e per que mais se singulariza toda pessoa
humana, finalmente vós, senhora, muito tudo! Ora, sendo isto como é eu diria
que quem se não vence por tanta cousa junta falta­‑lhe saber pera o entender,
e meu primo de ter a discrição muito viva caiu neste conhecimento por seu
mal, como me ele dizia. Dezia muito bem quando eu zombava dele e o re‑
prendia de ter pouca razão: «menos a tendes vós, prima. A um simpres que não
alcança o que eu entendo, não seria muito namorar­‑se da senhora Eufrosina,
pois tem tanta força a fermosura: que Ciro, carecendo de sentido natural, com
a vista de a mulher fermosa o cobrou, e muito menos será perdê­‑lo, segundo
Orestes pola sua Hermíone, e juntamente a vida como o filho de Demétrio,
quanto mais eu que vendo­‑a pasmei enlevado de tal visão, porque nunca vi tal
resplandor nem creio que os deuses o vissem no Olimpo. E contemprando no
seu aspeito dentro lhe enxergava a alma de mil perfeições que dava lustro
ao de fora, pubricando maravilhas de divina natureza, assi que seu singular
parecer traz consigo a desculpa na razão do que causa. Dai­‑me vós não ter
olhos nem entendimento e então culpai­‑me. E outras muitas razões que por
si dava, que não sei onde achava tanto que dizer, e atou­‑me que não lhe soube
responder e por fim disse­‑lhe que se despedisse disso como a galinha dos den‑
tes e, como digo, per a orelha me entrou e per outra me saiu. Quant’a para
respeito de vo­‑lo, senhora, dizer, se me não desatinareis, inda que houve dó da
sua fraqueza que parecia grande amor.
Eufrosina — Não falemos mais nessas pequices que me corro de gas‑
tar nisso tempo e avisai­‑vos como do fogo, que não lhe digais que o sei, nem
cousa alg a outra de mim.
Sílvia — Jesu, senhora, guarde­‑me Deus, isso lhe havia eu de dizer?
Melhor siso me deu a mim Deus. Achastes a menina palreira? Antes bradei
com ele, de maneira que desesperado de mim, com raiva, fez­‑me voto solene
de vos querer sempre bem e morrer por isso.
Eufrosina — Tapará sua cova, e não se perderá nele Veneza, e far­‑lhe­
‑ão o que não fazem ao cavalo del rei.
Sílvia — Calemo­‑nos, senhora, que vem vosso pai.

CRITÉRIOS DE TRANSCRIÇÃO
Decidiu­‑se normalizar a pontuação e a acentuação para maior comodi‑
dade de leitura. Manteve­‑se o uso do apóstrofo para indicar vogais suprimi‑
das uma vez que, além de se revelarem marcas da oralidade próprias do texto
dramático, imprimem ritmo ao texto e caracterizam personagens (par’estas,
j’agora, etc.). Actualizaram­‑se as formas que claramente sugeriam erro tipo‑
gráficos ou acidentais (troca de letras, marcas de pontuação, etc.).

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504 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Actualizaram­‑se as palavras, cuja forma fonológica se pressupõe não


ter sido alterada, apesar da sua evolução ortográfica ou que tenham sofrido
recuperação etimológica. Actualizaram­‑se ainda os grupos vocálicos orais
<ao>, <oa> e <ea>, <eo>).
Não obstante, mantiveram­‑se arcaísmos fonológicos e lexicais e alguns
casos de dupla e até tripla grafia em que, ou não foi possível estabelecer a
forma predominante das ocorrências, ou porque foram consideradas como
traços caracterizadores, intencionais ou não, dos falares das personagens.

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gil vicente 505

Gil VICENTE. «Cena I», in Auto da Barca do Inferno. [1517(62)] 2002.


Lisboa: Centro de Estudos de Teatro, Imprensa Nacional — Casa da
Moeda. 215-225.

Representa­‑se na obra seguinte a prefiguração sobre a regurosa acusação


que os migos fazem a todas as almas humanas, no ponto que per morte
de seus terrestes corpos se partem. E por tratar desta matéria põe o autor
por figura que no dito momento elas chegam a um profundo braço de mar,
onde estão dous batéis: um deles passa pera a glória, o outro pera o inferno.
É repartida em três partes: de cada embarcação a cena. Esta primeira é da
viagem do Inferno. Trata­‑se polas figuras seguintes: primeiramente, a bar‑
ca do inferno, Arrais e Barqueiro dela, diabos. Barca do paraíso, Arrais e
Barqueiros dela, anjos. Passageiros: Fidalgo, Onzeneiro, Joane, Sapateiro,
Frade, Florença, Alcouviteira, Judeu, Corregedor, Procurador, Enforcado,
quatro Cavaleiros. Esta prefiguração se escreve neste primeiro livro, nas
obras de devação, porque a segunda e terceira parte foram representadas
na capela, mas esta primeira foi representada de câmara, pera consolação da
muito católica e santa rainha dona Maria, estando enferma do mal de que
faleceu, na era do Senhor de 1517.

Arrais do Inferno À barca à barca oulá


que temos gentil maré
ora venha o caro a ré.
Companheiro Feito feito.
Diabo Bem está.
e atesa aquele palanco
e despeja aquele banco
pera a gente que virá.

À barca à barca uu
asinha que se quer ir.
Oh que tempo de partir
louvores a Berzebuu.
Ora sus que fazes tu?

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506 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Despeja todo esse leito.


Companheiro Em bon’ora logo é feito.
Diabo Abaixa aramá esse cu.

Faze aquela poja lesta


e alija aquela driça.
Companheiro Oh oh caça oh oh iça.
Diabo Oh que caravela esta.
Põe bandeiras que é festa
verga alta âncora a pique.
Ó precioso dom Anrique
cá vindes vós que cousa é esta?

Fidalgo Esta barca onde vai ora


que assi está apercebida?
Diabo Vai pera a ilha perdida
e há de partir logo ess’hora.
Fidalgo Pera lá vai a senhora?
Diabo Senhor a vosso serviço.
Fidalgo Parece­‑me isso cortiço.
Diabo Porque a vedes lá de fora.
Fidalgo Porém a que terra passais?
Diabo Pera o inferno senhor.
Fidalgo Terra é bem sem sabor.
Diabo Quê? E também cá zombais?
Fidalgo E passageiros achais
pera tal habitação?
Diabo Vejo­‑vos eu em feição
pera ir ao nosso cais.

Fidalgo Parece­‑te a ti assi.


Diabo Em que esperas ter guarida?
Fidalgo Que deixo na outra Vida
quem reze sempre por mi.
Diabo Quem reze sempre por ti
hi hi hi hi hi hi hi
e tu viveste a teu prazer
cuidando cá guarecer
porque rezem lá por ti.

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gil vicente 507

Embarca ou embarcai
que haveis d’ir à derradeira
mandai meter a cadeira
que assi passou vosso pai.
Fidalgo Que que que. E assi lhe vai?
Diabo Vai ou vem. Embarcai prestes
segundo lá escolhestes
assi cá vos contentai.

Pois que já a morte passastes


haveis de passar o rio.

Fidalgo Não há aqui outro navio?


Diabo Não senhor que este fretastes
e já quando espirastes
me tínheis dado sinal.
Fidalgo Que sinal foi esse tal?
Diabo Do que vós vos contentastes.
Fidalgo A estoutra barca me vou.
Ou da barca pera onde is?
Ah barqueiros não m’ouvis?
Respondei­‑me. Oulá ou.
Pardeos aviado estou
quant’a isto é já pior que
gericocins salvanor
cuidam cá que sou eu grou.

Anjo Que mandais?


Fidalgo Que me digais
pois parti tam sem aviso
se a barca do paraíso
é esta em que navegais.
Anjo Esta é. Que lhe buscais?
Fidalgo Que me leixeis embarcar.
Sou fidalgo de solar
é bem que me recolhais.
Anjo Não s’embarca tirania
neste batel divinal.
Fidalgo Não sei por que haveis por mal

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508 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

que entre minha senhoria.


Anjo Pera vossa fantesia
mui pequena é esta barca.
Fidalgo Pera senhor de tal marca
não há ‘qui mais cortesia?

Venha a prancha e o atavio


levai­‑me desta ribeira.
Anjo Não vindes vós de maneira
pera entrar neste navio
essoutro vai mais vazio
a cadeira entrará
e o rabo caberá
e todo vosso senhorio.

Ireis lá mais espaçoso


vós e vossa senhoria
contando da tirania
de que éreis tam curioso.
E porque de generoso
desprezastes os pequenos
achar­‑vos­‑eis tanto menos
quanto mais fostes fumoso.

Diabo À barca à barca senhores.


Oh que maré tam de prata
um ventezinho que mata
e valentes remadores.
Cantando:Vos me veniredes a la mano
a la mano me veniredes
e vós veredes
peixes nas redes.

Fidalgo Ao inferno todavia


inferno há i pera mi?
Oh triste enquanto vivi
nunca cri que o i havia
tive que era fantesia
folgava ser adorado

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gil vicente 509

confiei em meu estado


e não vi que me perdia.

Venha essa prancha e veremos


esta barca de tristura.

Diabo Embarque vossa doçura


que cá nos entenderemos.
Tomareis um par de remos
veremos como remais
e chegando ao nosso cais
nós vos desembarcaremos.

Fidalgo Mas esperai­‑me aqui


tornarei à outra vida
ver minha dama querida
que se quer matar por mi.
Diabo Que se quer matar por ti?
Fidalgo Isto bem certo o sei eu.
Diabo Oh namorado sandeu
o maior que nunca vi.

Fidalgo Era tanto seu querer


que m’escrevia mil dias.
Diabo Quantas mentiras que lias
e tu morto de prazer.
Fidalgo Pera que é escarnecer
que nam havia mais no bem?
Diabo Assi vivas tu amém
como te tinha querer.
Fidalgo Isto quanto ò que eu conheço.
Diabo Pois estando tu espirando
se estava ela requebrando
com outro de menos preço.
Fidalgo Dá­‑me licença, te peço
que vá ver minha molher.
Diabo E ela por não te ver
despenhar­‑s’­‑á dum cabeço.

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510 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Quanto ela hoje rezou


antre seus gritos e gritas
foi dar glórias infinitas
a quem na desabafou.
Fidalgo Quant’a ela bem chorou.
Diabo E não há i choro d’alegria?
Fidalgo E as lástimas que dezia?
Diabo Sua mãe lhas ensinou.

Entrai meu senhor entrai


venha a prancha ponde o pé.
Fidalgo Entremos pois que assi é.
Diabo Ora agora descansai
passeai e sospirai
entanto virá mais gente.
Fidalgo Oh barca como és ardente
maldito quem em ti vai.

Diz o Diabo ao Moço da cadeira:

Tu seu moço vai­‑te di


que a cadeira é cá sobeja
cousa qu’esteve na igreja
nam s’ há d’embarcar aqui.
Cá lha darão de marfi
marchetada de dolores
com tais modos de lavores
que estará fora de si.

À barca à barca boa gente


que queremos dar à vela
chegar ela chegar ela
muitos e de boa mente.

Chega um Onzeneiro e diz:

Oh que barca tam valente


pera onde caminhais?
Diabo Oh que màora venhais

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gil vicente 511

Onzeneiro meu parente.

Como tardastes vós tanto?


Onzeneiro Mais quisera eu lá tardar.
Na safra do apanhar
me deu Saturno quebranto.
Diabo Ora mui muito m’espanto
nam vos livrar o dinheiro.
Onzeneiro Nem tam sóis pera o barqueiro
nam me deixaram nem tanto.

Diabo Ora entrai entrai aqui.


Onzeneiro Nam hei eu i d’embarcar.
Diabo Oh que gentil recear
e que cousas pera mi.
Onzeneiro Ind’agora faleci
deixai­‑me buscar batel.
Diabo Pesar de Jam Pimintel
por que nam irás aqui?

Onzeneiro E pera onde é a viagem?


Diabo Pera onde tu hás d’ir.
Estamos pera partir
nam cures de mais linguagem.
Onzeneiro Mas pera onde é a passagem?
Diabo Pera a infernal comarca.
Onzeneiro Dixe nam m’embarco eu nessa barca
estoutra tem avantagem.

Vai­‑se à barca do Anjo e diz:

Ou da barca oulá ou
haveis logo de partir?
Anjo E onde queres tu ir?
Onzeneiro Eu pera o paraíso vou.
Anjo Pois quant’eu bem fora estou
de te levar pera lá.
Essoutra te levará
vai pera quem t’enganou.

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512 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Onzeneiro Porquê?
Anjo Porque esse bolsão
tomará todo navio.
Onzeneiro Juro a Deos que vai vazio.
Anjo Nam já no teu coração.
Onzeneiro Lá me ficam de rondão
vinte e seis milhões n a arca
pois que onzena tanto abarca
nam lhe dais embarcação?

Torna ao Diabo e diz:

Oulá ou demo barqueiro


sabeis vós no que m’eu fundo;
quero lá tornar ò mundo
e trazê­‑lo meu dinheiro.
Que aqueloutro marinheiro
porque me vê vir sem nada
dá­‑me tanta borregada
como arrais lá do Barreiro.

Diabo Entra entra e remarás


nam percamos mais maré.
Onzeneiro Todavia.
Diabo Por força é
que te pês cá entrarás
irás servir Satanás
pois que sempre t’ajudou.
Onzeneiro Oh triste quem me cegou.
Diabo Cal­‑te que cá chorarás.

Entrando no batel diz ao Fidalgo:

Onzeneiro Santa Joana de Valdês


cá é vossa senhoria.
Fidalgo Dá ò demo a cortesia.
Diabo Ouvis? Falai vós cortês.
Vós Fidalgo cuidareis
que estais em vossa pousada?

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gil vicente 513

Dar­‑vos­‑ei tanta pancada


C’um remo que arrenegueis.

Vem um Parvo e diz ao Arrais do Inferno:

Ou daquela.
Diabo Quem é?
Parvo Eu sou.
É esta naviarra nossa?
Diabo De quem?
Parvo Dos tolos.
Diabo Vossa.
Entra.
Parvo De pulo ou de voo?
Oh pesar de meu avô
soma vim a adoecer
e fui màora morrer
e nela pera mi só.

Diabo De que morreste?


Parvo De quê?
Samica de caganeira.
Diabo De quê?
Parvo De cagamerdeira
má ravugem que te dê.
Diabo Entra põe aqui o pé.
Parvo Oulá não tombe o zambuco.
Diabo Entra tolazo enuco
que se nos vai a maré.

Parvo Aguardai aguardai lá.


E onde havemos nós d’ir ter?
Diabo Ao porto de Lucifer.
Parvo Como?
Diabo Ò inferno, entra cá
Parvo Ò inferno? Ieramá.
Hiu hiu barca do cornudo
beiçudo beiçudo
rachador d’Alverca hu ha.

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514 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Çapateiro da Candosa
antrecosto de carrapato
sapato sapato
filho da grande aleivosa.
Tua molher é tinhosa
e há de parir um sapo
chentado no guardanapo
neto da cagarrinhosa.

Furta cebolas hiu hiu


escomungado nas igrejas
burrela cornudo sejas
toma o pão que te caiu.
A molher que te fogiu
pera a ilha da Madeira
ratinho da Giesteira
o demo que te pariu.

Hiu hiu lanço­‑te a pulha


de pica na aquela
hiu hiu caga na vela
cabeça de grulha.
Perna de cigarra velha
pelourinho da Pampulha
rabo de forno de telha.

Chegando à barca da glória diz:

Ou da barca.
Anjo Tu que queres?
Parvo Quereis­‑me passar além?
Anjo Quem és tu?
Parvo Nam sou ninguém.
Anjo Tu passarás se quiseres
porque em todos teus fazeres
per malícia nam erraste.
Tua simpreza t’abaste
pera gozar dos prazeres.

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gil vicente 515

Espera entanto per i


veremos se vem alguém
merecedor de tal bem
que deva d’entrar aqui.

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516 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Arménio VIEIRA. «O Escriba explica a Ramósis quem são os unicórnios e


bicórnios», in O Eleito do Sol. 1992. Lisboa: Vega. 107­‑112.

Texto sujeito a Direitos de Autor

O implacável Ramósis, que era um homem sensato acima dos cem por
cento, às vezes dava­‑ se ao luxo de perder tempo a ler coisas do arco­‑da­
‑velha. Foi desse modo que chegou a um fragmento de diálogo da autoria
de um matemático da Idade Média Egípcia, o mesmo que inventou a
hipótese de o peso da Terra ser igual ao de uma melancia elevado à tri‑
gésima milionésima potência. Eis o fragmento, que muito intrigou Sua
Excelência.
—(Os Unicórnios) devem ser uns bichos com um aspecto muito estranho.
—Lá isso são.1
Em consequência disso, o poderoso Ramósis ordenou aos seus guardas
que o escriba egípcio fosse arrancado da cama pela terceira vez.
Assim que o estremunhado herói entrou na sala de audiências, o man‑
dão de Karnak proferiu:
—O Unicórnio não existe.
—Não é verdade — objectou o vencedor da Esfinge.
—Nesse caso, diz lá como é.
—Nada mais simples: à parte as feições, realmente indescritíveis, o Uni‑
córnio é quadrúpede, muito peludo e ostenta um corno a meio da testa.
—Isso cheira­‑me a rinoceronte.
—Se fosse rinoceronte, eu estaria calado. Naa... Excelência, queira fa‑
zer o favor de aguçar essas orelhas: é um Uniiiicórnio!
—Está bem. Pode saber­‑se onde ele vive?
—Na grande planície de fogo que fica no centro da Terra.
—Alimentando­‑se de quê? De fogo, será?
—Parece lógico, Excelência, mas não. O Unicórnio come ouro nos dias
úteis e diamante aos domingos e feriados.
—É mesmo rico o Unicórnio!

1 Amenemop — matemático e autor fantástico que passou por sucessivas metempsicoses. A sua
última reencarnação foi o inglês Lewis Carroll.

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padre antónio vieira 521

Padre António VIEIRA. «Sermão de S. António aos peixes», in Sermões do


Padre António Vieira. (Apresentação crítica, selecção, notas e sugestões para
análise literária de Margarida Vieira Mendes). 1982. Lisboa: Seara Nova.
69­‑ 80.

SERMÃO DE S. ANTÓNIO
PREGADO NA CIDADE DE S. LUÍS DO MARANHÃO
NO ANO DE 1654

Este Sermão (que todo é alegórico) pregou o Autor três dias antes de se embarcar ocul‑
tamente para o Reino, a pro­curar o remédio da salvação dos índios, pelas causas que se
apontam no I Sermão do I Tomo1. E nele tocou todos os pon­tos de doutrina (posto que
perseguida) que mais necessários eram ao bem espi­ritual e temporal daquela terra,
como fa­cilmente se pode entender das mesmas alegorias.

Vos estis sal terrae2. (MATEUS, 5)

I
Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os Pregadores, sois o sal da terra:
e chama­‑lhes sal da terra, porque quer que façam na terra, o que faz o sal.
O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta
como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou
qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque
a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os Pregadores não pre‑
gam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes,
sendo verdadeira a doutrina que lhe dão, a não querem receber. Ou é porque
o sal não salga, e os Pregadores dizem uma coisa e fazem outra; ou porque a
terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem,
que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os Pre­gadores se pregam
a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez
de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal.
Suposto pois, que, ou o sal não salgue ou a terra se não deixe salgar, que
se há­‑de fazer a este sal, e que se há­‑de fazer a esta terra? O que se há­‑de fazer

1 O Sermão da Sexagésima.
2 Tradução: Vós sois o sal da terra.

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522 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

ao sal que não salga, Cristo o disse logo: Quod si sal evanuerit, in quo salietur?
Ad nihilum valet ultra, nisi ut mittatur foras et conculcetur ab hominibus1. Se o sal
perder a substância e a vir­tude, e o Pregador faltar à doutrina e ao exemplo,
o que se lhe há­‑de fazer, é lançá­‑lo fora como inútil, para que seja pisado de
todos. Quem se atrevera a dizer tal cousa, se o mesmo Cristo a não pronun­
ciara? Assim como não há quem seja mais digno de reverência e de ser posto
sobre a cabeça2 que o Pregador que ensina e faz o que deve, assim é merece‑
dor de todo o desprezo e de ser metido debaixo dos pés, o que com a palavra
ou com a vida prega o contrário.
Isto é o que se deve fazer ao sal que não salga. E à terra que se não deixa
salgar, que se lhe há­‑de fazer? Este ponto não resolveu Cristo Senhor nosso
no Evangelho; mas temos sobre ele a resolução do nosso grande português
S. António, que hoje cele­bramos, e a mais galharda e gloriosa resolução que
nenhum Santo tomou. Pregava S. António em Itália na cidade de Arimino,
contra os Hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento
são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o Santo, mas chegou o
Povo a se levantar contra ele, e faltou pouco para que lhe não tirassem a
vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria
o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com
os pés descalços não podia fazer esta protestação; e uns pés, a que se não
pegou nada da terra, não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar­‑se­‑ia?
Calar­‑se­‑ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura
a prudência, ou a covar­dia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia na‑
quele peito, não se rendeu a semelhantes parti­dos. Pois que fez? Mudou so‑
mente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças,
vai­‑se às praias, deixa a terra, vai­‑se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já
que me não querem ouvir os homens, ouçam­‑me os peixes. Oh maravilhas
do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as
on­das, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos,
e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pre‑
gava e eles ouviam.
Se a Igreja quer que preguemos de Santo António sobre o Evangelho, dê­
‑nos outro. Vos estis sal terrae: É muito bom Texto para os outros Santos Douto‑
res; mas para Santo António vem­‑lhe muito curto. Os outros Santos Doutores
da Igreja foram sal da terra, S. António foi sal da terra e foi sal do mar. Este é
o assunto que eu tinha para tomar hoje. Mas há muitos dias que tenho meti‑

1 Mateus, 5, 13 (N. de V.).


2 Em alto lugar, em alto conceito.

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padre antónio vieira 523

do no pensamento que nas festas dos Santos é melhor pregar como eles, que
pregar deles. Quanto mais que o são1 da minha doutrina, qualquer que ele seja,
tem tido nesta terra uma fortuna tão parecida à de Santo António em Arimi‑
no, que é força segui­‑la em tudo. Muitas vezes vos tenho pregado nesta igreja,
e nou­tras, de manhã e de tarde, de dia e de noite, sem­pre com doutrina muito
clara, muito sólida, muito verdadeira, e a que mais necessária e importante é
a esta terra, para emenda e reforma dos vícios que a corrompem. O fruto que
tenho colhido desta doutrina, e se a terra tem tomado o sal, ou se tem tomado
dele, vós o sabeis e eu por vós o sinto.
Isto suposto, quero hoje, à imitação de S. Antó­nio, voltar­‑me da terra
ao mar, e já que os homens se não aproveitam, pregar aos peixes. O mar está
tão perto que bem me ouvirão. Os demais podem deixar o sermão, pois não
é para eles. Maria, quer dizer, Domina maris: Senhora do mar; e posto que o
assunto seja tão desusado, espero que me não falte com a costumada graça.
Ave Maria.

II
Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao
menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes; ouvem e não falam.
Uma só cousa pudera desconsolar o Pregador, que é serem gente os peixes
que se não há­‑de converter. Mas esta dor é tão ordinária2, que já pelo costu‑
me quase se não sente. Por esta causa não falarei hoje em Céu nem Inferno;
e assim será menos triste este Sermão, do que os meus parecem aos homens,
pelos encaminhar sempre à lembrança destes dois fins.
Vos estis sal terrae. Haveis de saber, irmãos peixes, que o sal, filho do
mar como vós, tem duas propriedades, as quais em vós mesmos se experi­
mentam: conservar o são e preservá­‑lo, para que se não corrompa. Estas
mesmas propriedades tinham as pregações do vosso Pregador S. António,
como também as devem ter as de todos os Pregadores. Uma é louvar o bem,
outra repreender o mal: louvar o bem para o conservar e repreender o mal
para preservar dele. Nem cuideis que isto pertence só aos homens, porque
também nos peixes tem seu lugar. Assim o diz o grande Doutor da Igreja
São Basílio: Non carpere solum, reprehendereque pos­sumus pisces, sed sunt in illis,
et quae prosequenda sunt imitatione3. Não só há que notar, diz o Santo, e que
repreender nos peixes, senão também que imitar e louvar. Quanto Cristo

1 «o são»: o efeito salutar do sal contra a corrupção, portanto o efeito da doutrina.


2 Frequente.
3 Basílio (N. de V.).

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524 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

comparou a sua Igreja à rede de pesca, Sagenae missae in mare1, diz que os pes‑
cadores recolheram os peixes bons e lançaram fora os maus: Collegerunt bo‑
nos in vasa, malos autem foras miserunt2. E onde há bons e maus, há que louvar
e que repreender. Suposto isto, para que procedamos com clareza, dividirei,
peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar­‑vos­‑ei as vossas
atitu­des, no segundo repreender­‑vos­‑ei os vossos vícios. E desta maneira sa‑
tisfaremos às obrigações do sal, que melhor vos está a ouvi­‑las vivos, que
experi­mentá­‑las depois de mortos.
Começando, pois, pelos vossos louvores, irmãos peixes, bem vos pu‑
dera eu dizer, que entre todas as criaturas viventes e sensitivas, vós fostes
as pri­meiras que Deus criou. A vós criou primeiro que as aves, do ar, a vós
primeiro que aos animais da terra, e a vós primeiro que ao mesmo3 homem.
Ao homem deu Deus a monarquia e domínio de todos os animais dos três
elementos, e nas provisões4, em que o honrou com estes poderes, os primei‑
ros nomeados foram os peixes: Et praesit piscibus maris, et volatilibus caeli, et
bestiis, universaeque terrae5. Entre todos os animais do mundo, os peixes são
os mais e os peixes os maiores. Que comparação têm em número as espécies
das aves e as dos animais terrestres com as dos peixes? Que comparação na
grandeza o Elefante com a Baleia? Por isso Moisés, Cronista da criação, ca‑
lando os nomes de todos os animais, só a ela no­meou pelo seu: Creavit Deus
cete grandia6. E os três músicos da fornalha da Babilónia o cantaram também
como singular entre todos: Benedicite, cete et omnia quae moventur in aquis, Do‑
mino7. Estes e outros louvores, estas e outras excelências de vossa geração
e grandeza vos pudera dizer, ó peixes; mas isto é lá para os homens, que se
deixam levar destas vaidades, e é também para os lugares em que tem lugar
a adulação, e não para o púlpito.
Vindo pois, irmãos, às vossas virtudes, que são as que só podem dar o
verdadeiro louvor, a primeira que se me oferece aos olhos hoje, é aquela obe‑
diência, com que chamados acudistes todos pela honra de vosso Criador
e Senhor, e aquela ordem, quietação e atenção com que ouvistes a palavra
de Deus da boca de seu servo António. Oh grande louvor verdadeiramen‑
te para os peixes, e grande afronta e confusão para os homens! Os homens

1 Mateus, 13, 47 (N. de V.). Trad.: Redes lançadas ao mar.


2 Mateus, 13, 48 (N. de V.).
3 Ao próprio homem.
4 Documentos, decretos.
5 Génesis, 1, 26 (N. de V.). Trad.: Para que presidam aos peixes do mar, às aves do céu, às bestas e a
toda a terra.
6 Génesis, 1, 26 (N. de V.). Trad.: Criou Deus os grandes cetáceos.
7 Daniel, 3, 79 (N. de V.). Trad.: Bendizei, Senhor, o cetáceo e todos os que se movem nas águas.

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padre antónio vieira 525

perseguindo a António, querendo­‑o lançar da terra e ainda do mundo, se


pudessem, porque lhe repreen­dia seus vícios, porque lhe não queria falar à
von­tade1 e condescender com seus erros, e no mesmo tempo os peixes em
inumerável concurso acudindo à sua voz, atentos e suspensos às suas pala‑
vras, escutando com silêncio, e com sinais de admiração e assenso (como
se tiveram entendimento) o que não entendiam! Quem olhasse neste passo
para o mar e para a terra, e visse na terra os homens tão furiosos e obstina‑
dos e no mar os peixes tão quietos e tão devotos, que havia de dizer? Pode‑
ria cuidar que os peixes irracionais se tinham convertido em homens, e os
homens não em peixes, mas em feras. Aos homens deu Deus uso de razão,
e não aos pei­xes; mas neste caso os homens tinham a razão sem o uso, e os
peixes o uso sem a razão. Muito louvor mereceis, peixes, por este respei‑
to e devoção que tivestes aos Pregadores da palavra de Deus, e tanto mais
quanto não foi só esta a vez em que assim o fizestes. Ia Jonas, Pregador do
mesmo Deus, em­barcado em um navio, quando se levantou aquela grande
tempestade; e como o trataram os homens, como o trataram os peixes? Os
homens lançaram­‑no ao mar a ser comido dos peixes, e o peixe que o comeu,
levou­‑o às praias de Nínive, para que lá pregasse e salvasse aqueles homens.
É possível que os peixes ajudam à salvação dos homens, e os ho­mens lançam
ao mar os ministros da salvação? Vede, peixes, e não vos venha vanglória,
quanto melhores sois que os homens. Os homens tiveram entranhas para
deitar Jonas ao mar, e o peixe reco­lheu nas entranhas a Jonas, para o levar
vivo à terra.
Mas porque nestas duas acções teve maior parte a Omnipotência que
a natureza (como também em todas as milagrosas que obram os homens),
passo às virtudes naturais e próprias vossas. Falando dos peixes, Aristóteles
diz que só eles entre todos os animais se não domam nem domesticam. Dos
ani­mais terrestres o cão é tão doméstico, o cavalo tão sujeito, o boi tão ser‑
viçal, o bugio tão amigo ou tão lisonjeiro, e até os leões e os tigres com arte e
bene­fícios se amansam. Dos animais do ar, afora aquelas aves que se criam e
vivem connosco, o papagaio nos fala, o rouxinol nos canta, o açor nos ajuda
e nos recreia; e até as grandes aves de rapina, encolhendo as unhas, reco‑
nhecem a mão de quem recebem o sustento. Os peixes, pelo contrário, lá se
vivem nos seus mares e rios, lá se mergulham nos seus pegos, lá se escondem
nas suas grutas, e não há nenhum tão grande que se fie do homem, nem
tão pequeno que não fuja dele. Os Autores comummente con­denam esta
condição dos peixes, e a deitam à pouca docilidade ou demasiada bruteza;

1 Dirigindo­‑se às paixões, ao sentimento.

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526 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

mas eu sou de mui diferente opinião. Não condeno, antes louvo muito aos
peixes este seu retiro, e me parece que se não fora natureza, era grande pru‑
dência. Peixes! Quanto mais longe dos homens, tanto melhor; trato e fa‑
miliaridade com eles, Deus vos livre! Se os animais da terra e do ar querem
ser seus familiares, façam­‑no muito embora, que com suas pensões o fazem.
Cante­‑lhe aos homens o rouxinol, mas na sua gaiola; diga­‑lhe ditos o papa‑
gaio, mas na sua cadeia; vá com eles à caça o açor, mas nas suas piozes1, faça­
‑lhe bufonerias o bugio, mas no seu cepo; contente­‑se o cão de lhe roer um
osso, mas levado onde não quer pela trela; preze­‑se o boi de lhe chamarem
fermoso ou fidalgo, mas com o jugo sobre a cerviz, puxando pelo arado e
pelo carro; glorie­‑se o cavalo de mastigar freios dourados, mas debaixo da
vara e da espora; e se os tigres e os leões lhe comem a ração da carne que
não caçaram nos bosques, sejam presos e encerrados com grades de ferro.
E entretanto vós, peixes, longe dos homens e fora dessas cortesanias, vive‑
reis só convosco, sim, mas como peixe na água. De casa e das portas adentro
tendes o exemplo de toda esta verdade, o qual vos quero lembrar, porque há
Filósofos que dizem que não tendes memória. No tempo de Noé sucedeu o
Dilúvio que cobriu e alagou o mundo, e de todos os animais quais livra­ram
melhor? Dos leões escaparam dois, leão e leoa, e assim dos outros animais
da terra; das águias escaparam duas, fêmea e macho, e assim das outras aves.
E dos peixes? Todos escaparam, antes não só escaparam todos, mas ficaram
muito mais largos que dantes, porque a terra e o mar tudo era mar. Pois
se morreram naquele universal castigo todos os animais da terra e todas as
aves, porque não morreram também os peixes? Sabeis porquê? Diz S. Am‑
brósio: porque os outros animais, como mais domésticos ou mais vizinhos,
tinham mais comu­nicação com os homens; os peixes viviam longe e retira‑
dos deles. Facilmente pudera Deus fazer que as águas fossem venenosas e
matassem todos os peixes, assim como afogaram todos os outros ani­mais.
Bem o experimentais na força daquelas ervas com que, infeccionados os
poços e lagos, a mesma água vos mata; mas como o Dilúvio era um castigo
universal que Deus dava aos homens por seus peca­dos, e ao mundo pelos
pecados dos homens, foi altíssima providência da divina Justiça que nele
houvesse esta diversidade ou distinção, para que o mesmo mundo visse que
da companhia dos homens lhe viera todo o mal e que por isso os animais que
viviam mais perto deles, foram também castigados e os que andavam longe
ficaram livres. Vede, pei­xes, quão grande bem é estar longe dos homens. Per‑
guntado um grande Filósofo, qual era a me­lhor terra do mundo, respondeu

1 Correia que prendia a perna da ave.

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padre antónio vieira 527

que a mais deserta, porque tinha os homens mais longe. Se isto vos pregou
também S. António, e foi este um dos bene­fícios de que vos exortou a dar
graças ao Criador, bem vos pudera alegar consigo que quanto mais buscava
a Deus, tanto mais fugia dos homens. Para fugir dos homens deixou a casa
de seus Pais e se recolheu ou acolheu a uma Religião, onde profes­sasse per‑
pétua clausura. E porque nem aqui o deixavam os que ele tinha deixado,
primeiro deixou Lisboa, depois Coimbra, e finalmente Portugal. Para fugir
e se esconder dos homens, mudou o Hábito, mudou o nome, e até a si mes‑
mo se mudou, ocultando sua grande sabedoria debaixo da opinião de idiota,
com que não fosse conhecido nem bus­cado, antes deixado de todos, como
lhe sucedeu com seus próprios irmãos no Capítulo Geral de Assis. Dali se
retirou a fazer vida solitária em um ermo, do qual nunca saíra, se Deus como
por força o não manifestara, e por fim acabou a vida em outro deserto tanto
mais unido com Deus, quanto mais apartado dos homens.

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(4)
POE SIA SOBRE P O ES I A

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oswald de andrade 531

Oswald de ANDRADE. «Manifesto antropófago», in A Utopia


Antropofágica. [1928] 2017. São Paulo: Companhia das Letras. 43‑60.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosofica‑


mente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de


todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

Tupi or not tupi that is the question.

Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.

Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.

Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em dra‑


ma. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia
impressa.

O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo inte‑


rior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema ame‑
ricano informará.

Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com


toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos tou‑
ristes. No país da cobra grande.

Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais.


E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental.
Preguiçosos no mapa­‑múndi do Brasil.

Uma consciência participante, uma rítmica religiosa.

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536 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Sophia de Mello Breyner ANDRESEN. «Para Arpad Szènes», in O Nome


das Coisas. 1977. Lisboa: Moraes Editores. 13.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Assim a luz ao madrugar liberta


E uma se multiplica
Para inventar o espanto o alvoroço a festa
Do reino revelado

Oásis e palmar — distância justa


Atenta invenção do que foi dado
O pintor pinta no tempo respirado
Reconhece o mundo como um rosto amado

Pinta as longas extensões as longas lisas linhas


O caminhar comprido da terra e suas crinas

Pinta o quadro dentro do qual o quadro


Se tece malha a malha como em tear a teia
O outro quadro do quadro convocador convocado
Pinta o bicho egípcio os dedos da palmeira

Assim a luz ao madrugar liberta


A ternura funda nossa aliança com as coisas
Eis o mito solar a fina mão do trigo o bicho grego

O amor que move o sol e os outros astros


— Como o Dante Alighieri disse
Move e situa o quarto o dia o quadro

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machado de assis 537

Machado de ASSIS. «Um homem célebre», in Um Homem Célebre —


Antologia de contos. 2005. Lisboa: Cotovia. 179­‑189.

— Ah! o senhor é que é o Pestana? perguntou Sinhazinha Mota, fazendo um


largo gesto admirativo. E logo depois, corrigindo a familiaridade: — Descul‑
pe meu modo, mas... é mesmo o senhor?
Vexado, aborrecido, Pestana respondeu que sim, que era ele. Vinha do
piano, enxugando a testa com o lenço, e ia a chegar à janela, quando a moça o
fez parar. Não era baile; apenas um sarau íntimo, pouca gente, vinte pessoas
ao todo, que tinham ido jantar com a viúva Camargo, rua do Areal, naquele
dia dos anos dela, cinco de novembro de 1875... Boa e patusca viúva! Amava
o riso e a folga, apesar dos sessenta anos em que entrava, e foi a última vez
que folgou e riu, pois faleceu nos primeiros dias de 1876. Boa e patusca viúva!
Com que alma e diligência arranjou ali umas danças, logo depois do jantar,
pedindo ao Pestana que tocasse uma quadrilha! Nem foi preciso acabar o
pedido; Pestana curvou­‑se gentilmente, e correu ao piano. Finda a quadri‑
lha, mal teriam descansado uns dez minutos, a viúva correu novamente ao
Pestana para um obséquio mui particular.
— Diga, minha senhora.
— É que nos toque agora aquela sua polca Não bula comigo, nhonhô.
Pestana fez uma careta, mas dissimulou depressa, inclinou­‑se calado,
sem gentileza, e foi para o piano, sem entusiasmo. Ouvidos os primeiros
compassos, derramou­‑se pela sala uma alegria nova, os cavalheiros correram
às damas, e os pares entraram a saracotear a polca da moda. Da moda; tinha
sido publicada vinte dias antes, e já não havia recanto da cidade, em que
não fosse conhecida. Ia chegando à consagração do assobio e da cantarola
noturna.
Sinhazinha Mota estava longe de supor que aquele Pestana que ela vira
à mesa de jantar e depois ao piano, metido numa sobrecasaca cor de rapé,
cabelo negro, longo e cacheado, olhos cuidosos, queixo rapado, era o mes‑
mo Pestana compositor; foi uma amiga que lho disse quando o viu vir do
piano, acabada a polca. Daí a pergunta admirativa. Vimos que ele respondeu
aborrecido e vexado. Nem assim as duas moças lhe pouparam finezas, tais e

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538 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

tantas, que a mais modesta vaidade se contentaria de as ouvir; ele recebeu­‑as


cada vez mais enfadado, até que, alegando dor de cabeça, pediu licença para
sair. Nem elas, nem a dona da casa, ninguém logrou retê­‑lo. Ofereceram­‑lhe
remédios caseiros, algum repouso, não aceitou nada, teimou em sair e saiu.
Rua fora, caminhou depressa, com medo de que ainda o chamassem;
só afrouxou, depois que dobrou a esquina da rua Formosa. Mas aí mesmo
esperava­‑o a sua grande polca festiva. De uma casa modesta, à direita, a pou‑
cos metros de distância, saíam as notas da composição do dia, sopradas em
clarineta. Dançava­‑se. Pestana parou alguns instantes, pensou em arrepiar
caminho, mas dispôs­‑se a andar, estugou o passo, atravessou a rua, e seguiu
pelo lado oposto ao da casa do baile. As notas foram­‑se perdendo, ao longe,
e o nosso homem entrou na rua do Aterrado, onde morava. Já perto de casa,
viu vir dois homens; um deles, passando rentezinho com o Pestana, come‑
çou a assobiar a mesma polca, rijamente, com brio, e o outro pegou a tempo
na música, e aí foram os dois abaixo, ruidosos e alegres, enquanto o autor da
peça, desesperado, corria a meter­‑se em casa.
Em casa, respirou. Casa velha, escada velha, um preto velho que o ser‑
via, e que veio saber se ele queria cear.
— Não quero nada, bradou o Pestana; faça­‑me café e vá dormir.
Despiu­‑se, enfiou uma camisola, e foi para a sala dos fundos. Quando o
preto acendeu o gás da sala, Pestana sorriu e, dentro d’alma, cumprimentou
uns dez retratos que pendiam da parede. Um só era a óleo, o de um padre,
que o educara, que lhe ensinara latim e música, e que, segundo os ociosos,
era o próprio pai do Pestana. Certo é que lhe deixou em herança aquela casa
velha, e os velhos trastes, ainda do tempo de Pedro I. Compusera alguns mo‑
tetes o padre, era doido por música, sacra ou profana, cujo gosto incutiu no
moço, ou também lhe transmitiu no sangue, se é que tinham razão as bocas
vadias, coisa de que se não ocupa a minha história, como ides ver.
Os demais retratos eram de compositores clássicos, Cimarosa, Mozart,
Beethoven, Gluck, Bach, Schumann, e ainda uns três, alguns gravados, ou‑
tros litografados, todos mal encaixilhados e de diferente tamanho, mas pos‑
tos ali como santos de uma igreja. O piano era o altar; o evangelho da noite
lá estava aberto: era uma sonata de Beethoven.
Veio o café; Pestana engoliu a primeira xícara, e sentou­‑se ao piano. Olhou
para o retrato de Beethoven, e começou a executar a sonata, sem saber de si,
desvairado ou absorto, mas com grande perfeição. Repetiu a peça; depois pa‑
rou alguns instantes, levantou­‑se e foi a uma das janelas. Tornou ao piano; era
a vez de Mozart, pegou de um trecho, e executou­‑o do mesmo modo, com a
alma alhures. Haydn levou­‑o à meia­‑noite e à segunda xícara de café.

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machado de assis 539

Entre a meia­‑noite e uma hora, Pestana pouco mais fez que estar à ja‑
nela e olhar para as estrelas, entrar e olhar para os retratos. De quando em
quando ia ao piano, e, de pé, dava uns golpes soltos no teclado, como se
procurasse algum pensamento; mas o pensamento não aparecia e ele voltava
a encostar­‑se à janela. As estrelas pareciam­‑lhe outras tantas notas musicais
fixadas no céu à espera de alguém que as fosse descolar; tempo viria em que o
céu tinha de ficar vazio, mas então a terra seria uma constelação de partitu‑
ras. Nenhuma imagem, desvario ou reflexão trazia uma lembrança qualquer
de Sinhazinha Mota, que entretanto, a essa mesma hora, adormecia pensan‑
do nele, famoso autor de tantas polcas amadas. Talvez a idéia conjugal tirou
à moça alguns momentos de sono. Que tinha? Ela ia em vinte anos, ele em
trinta, boa conta. A moça dormia ao som da polca, ouvida de cor, enquanto
o autor desta não cuidava nem da polca nem da moça, mas das velhas obras
clássicas, interrogando o céu e a noite, rogando aos anjos, em último caso
ao diabo. Por que não faria ele uma só que fosse daquelas páginas imortais?
Às vezes, como que ia surgir das profundezas do inconsciente uma au‑
rora de idéia; ele corria ao piano, para aventá­‑la inteira, traduzida, em sons,
mas era em vão; a idéia esvaía­‑se. Outras vezes, sentado, ao piano, deixava
os dedos correrem, à ventura, a ver se as fantasias brotavam deles, como dos
de Mozart; mas nada, nada, a inspiração não vinha, a imaginação deixava­‑se
estar dormindo. Se acaso uma idéia aparecia, definida e bela, era eco apenas
de alguma peça alheia, que a memória repetia, e que ele supunha inventar.
Então, irritado, erguia­‑se, jurava abandonar a arte, ir plantar café ou puxar
carroça; mas daí a dez minutos, ei­‑lo outra vez, com os olhos em Mozart,
a imitá­‑lo ao piano.
Duas, três, quatro horas. Depois das quatro foi dormir; estava cansa‑
do, desanimado, morto; tinha que dar lições no dia seguinte. Pouco dormiu;
acordou às sete horas. Vestiu­‑se e almoçou.
— Meu senhor quer a bengala ou o chapéu­‑de­‑sol? perguntou o preto,
segundo as ordens que tinha, porque as distrações do senhor eram freqüentes.
— A bengala.
— Mas parece que hoje chove.
— Chove, repetiu Pestana maquinalmente.
— Parece que sim, senhor, o céu está meio escuro.
Pestana olhava para o preto, vago, preocupado. De repente:
— Espera aí.
Correu à sala dos retratos, abriu o piano, sentou­‑se e espalmou as mãos
no teclado. Começou a tocar alguma coisa própria, uma inspiração real e
pronta, uma polca, uma polca buliçosa, como dizem os anúncios. Nenhuma

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540 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

repulsa da parte do compositor; os dedos iam arrancando as notas, ligando­


‑as, meneando­‑as; dir­‑se­‑ia que a musa compunha e bailava a um tempo. Pes‑
tana esquecera as discípulas, esquecera o preto, que o esperava com a ben‑
gala e o guarda­‑chuva, esquecera até os retratos que pendiam gravemente
da parede. Compunha só, teclando ou escrevendo, sem os vãos esforços da
véspera, sem exasperação, sem nada pedir ao céu, sem interrogar os olhos de
Mozart. Nenhum tédio. Vida, graça, novidade, escorriam­‑lhe da alma como
de uma fonte perene.
Em pouco tempo estava a polca feita. Corrigiu ainda alguns pontos,
quando voltou para jantar: mas já a cantarolava, andando, na rua. Gostou
dela; na composição recente e inédita circulava o sangue da paternidade e
da vocação. Dois dias depois, foi levá­‑la ao editor das outras polcas suas, que
andariam já por umas trinta. O editor achou­‑a linda.
— Vai fazer grande efeito.
Veio a questão do título. Pestana, quando compôs a primeira polca, em
1871, quis dar­‑lhe um título poético, escolheu este: Pingos de sol. O editor aba‑
nou a cabeça, e disse­‑lhe que os títulos deviam ser, já de si, destinados à po‑
pularidade, ou por alusão a algum sucesso do dia, ou pela graça das palavras;
indicou­‑lhe dois: A lei de 28 de setembro, ou Candongas não fazem festa.
— Mas que quer dizer Candongas não fazem festa?, perguntou o autor.
— Não quer dizer nada, mas populariza­‑se logo.
Pestana, ainda donzel inédito, recusou qualquer das denominações e
guardou a polca; mas não tardou que compusesse outra, e a comichão da pu‑
blicidade levou­‑o a imprimir as duas, com os títulos que ao editor pareces‑
sem mais atraentes ou apropriados. Assim se regulou pelo tempo adiante.
Agora, quando Pestana entregou a nova polca, e passaram ao título,
o editor acudiu que trazia um, desde muitos dias, para a primeira obra que
ele lhe apresentasse, título de espavento, longo e meneado. Era este: Senhora
dona, guarde o seu balaio.
— E para a vez seguinte, acrescentou, já trago outro de cor.
Exposta à venda, esgotou­‑se logo a primeira edição. A fama do compo‑
sitor bastava à procura; mas a obra em si mesma era adequada ao gênero,
original, convidava a dançá­‑la e decorava­‑se depressa. Em oito dias, estava
célebre. Pestana, durante os primeiros, andou deveras namorado da com‑
posição, gostava de a cantarolar baixinho, detinha­‑se na rua, para ouvi­‑la
tocar em alguma casa, e zangava­‑se quando não a tocavam bem. Desde logo,
as orquestras de teatro a executaram, e ele lá foi a um deles. Não desgostou
também de a ouvir assobiada, uma noite, por um vulto que descia a rua do
Aterrado.

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machado de assis 541

Essa lua­‑de­‑mel durou apenas um quarto de lua. Como das outras vezes,
e mais depressa ainda, os velhos mestres retratados o fizeram sangrar de
remorsos. Vexado e enfastiado, Pestana arremeteu contra aquela que o viera
consolar tantas vezes, musa de olhos marotos e gestos arredondados, fácil
e graciosa. E aí voltaram as náuseas de si mesmo, o ódio a quem lhe pedia
a nova polca da moda, e juntamente o esforço de compor alguma coisa ao
sabor clássico, uma página que fosse, uma só, mas tal que pudesse ser enca‑
dernada entre Bach e Schumann. Vão estudo, inútil esforço. Mergulhava
naquele Jordão sem sair batizado. Noites e noites, gastou­‑as assim, confiado
e teimoso, certo de que a vontade era tudo, e que, uma vez que abrisse mão
da música fácil...
— As polcas que vão para o inferno fazer dançar o diabo, disse ele um
dia, de madrugada, ao deitar­‑se.
Mas as polcas não quiseram ir tão fundo. Vinham à casa de Pesta‑
na, à própria sala dos retratos, irrompiam tão prontas, que ele não tinha
mais que o tempo de as compor, imprimi­‑las depois, gostá­‑las alguns dias,
aborrecê­‑las, e tornar às velhas fontes, donde lhe não manava nada. Nessa
alternativa viveu até casar, e depois de casar.
— Casar com quem? perguntou Sinhazinha Mota ao tio escrivão que
lhe deu aquela notícia.
— Vai casar com uma viúva.
— Velha?
— Vinte e sete anos.
— Bonita?
— Não, nem feia, assim, assim. Ouvi dizer que ele se enamorou dela,
porque a ouviu cantar na última festa de S. Francisco de Paula. Mas ouvi
também que ela possui outra prenda, que não é rara, mas vale menos: está
tísica.
Os escrivães não deviam ter espírito, — mau espírito, quero dizer. A so‑
brinha deste sentiu no fim um pingo de bálsamo, que lhe curou a dentadinha
da inveja. Era tudo verdade. Pestana casou daí a dias com uma viúva de vinte
e sete anos, boa cantora e tísica. Recebeu­‑a como a esposa espiritual do seu
gênio. O celibato era, sem dúvida, a causa da esterilidade e do transvio, di‑
zia ele consigo; artisticamente considerava­‑se um arruador de horas mortas;
tinha as polcas por aventuras de petimetres. Agora, sim, é que ia engendrar
uma família de obras sérias, profundas, inspiradas e trabalhadas.
Essa esperança abotoou desde as primeiras horas do amor, e desabro‑
chou à primeira aurora do casamento. Maria, balbuciou a alma dele, dá­‑me o
que não achei na solidão das noites, nem no tumulto dos dias.

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542 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Desde logo, para comemorar o consórcio, teve idéia de compor um


noturno. Chamar­‑lhe­‑ia Ave Maria. A felicidade como que lhe trouxe um
princípio de inspiração; não querendo dizer nada à mulher, antes de pronto,
trabalhava às escondidas; coisa difícil, porque Maria, que amava igualmente
a arte, vinha tocar com ele, ou ouvi­‑lo somente, horas e horas, na sala dos re‑
tratos. Chegaram a fazer alguns concertos semanais, com três artistas, ami‑
gos do Pestana. Um domingo, porém, não se pôde ter o marido, e chamou
a mulher para tocar um trecho do noturno; não lhe disse o que era nem de
quem era. De repente, parando, interrogou­‑a com os olhos.
— Acaba, disse Maria; não é Chopin?
Pestana empalideceu, fitou os olhos no ar, repetiu um ou dois trechos e
ergueu­‑se. Maria assentou­‑se ao piano, e, depois de algum esforço de memó‑
ria, executou a peça de Chopin. A idéia, o motivo eram os mesmos; Pestana
achara­‑os em algum daqueles becos escuros da memória, velha cidade de
traições. Triste, desesperado, saiu de casa, e dirigiu­‑se para o lado da ponte,
caminho de S. Cristóvão.
— Para que lutar? dizia ele. Vou com as polcas... Viva a polca!
Homens que passavam por ele, e ouviam isto, ficavam olhando, como
para um doido. E ele ia andando, alucinado, mortificado, eterna peteca entre
a ambição e a vocação... Passou o velho matadouro; ao chegar à porteira da
estrada de ferro, teve idéia de ir pelo trilho acima e esperar o primeiro trem
que viesse e o esmagasse. O guarda fê­‑lo recuar. Voltou a si e tornou a casa.
Poucos dias depois, — uma clara e fresca manhã de maio de 1876, —
eram seis horas, Pestana sentiu nos dedos um frêmito particular e conheci‑
do. Ergueu­‑se devagarinho, para não acordar Maria, que tossira toda a noite,
e agora dormia profundamente. Foi para a sala dos retratos, abriu o piano,
e, o mais surdamente que pôde, extraiu uma polca. Fê­‑la publicar com um
pseudônimo; nos dois meses seguintes compôs e publicou mais duas. Maria
não soube nada; ia tossindo e morrendo, até que expirou, uma noite, nos
braços do marido, apavorado e desesperado.
Era noite de Natal. A dor do Pestana teve um acréscimo, porque na vi‑
zinhança havia um baile, em que se tocaram várias de suas melhores polcas.
Já o baile era duro de sofrer; as suas composições davam­‑lhe um ar de ironia
e perversidade. Ele sentia a cadência dos passos, adivinhava os movimentos,
porventura lúbricos, a que obrigava alguma daquelas composições; tudo isso
ao pé do cadáver pálido, um molho de ossos, estendido na cama... Todas as
horas da noite passaram assim, vagarosas ou rápidas, úmidas de lágrimas e
de suor, de águas­‑da­‑colônia e de Labarraque, saltando sem parar, como ao
som da polca de um grande Pestana invisível.

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machado de assis 543

Enterrada a mulher, o viúvo teve uma única preocupação: deixar a mú‑


sica, depois de compor um Requiem, que faria executar no primeiro aniver‑
sário da morte de Maria. Escolheria outro emprego, escrevente, carteiro,
mascate, qualquer coisa que lhe fizesse esquecer a arte assassina e surda.
Começou a obra; empregou tudo, arrojo, paciência, meditação, e até
os caprichos do acaso, como fizera outrora, imitando Mozart. Releu e es‑
tudou o Requiem deste autor. Passaram­‑se semanas e meses. A obra, célere
a princípio, afrouxou o andar. Pestana tinha altos e baixos. Ora achava­‑a
incompleta, não lhe sentia a alma sacra, nem idéia, nem inspiração, nem
método; ora elevava­‑se­‑lhe o coração e trabalhava com vigor. Oito meses,
nove, dez, onze, e o Requiem não estava concluído. Redobrou de esforços;
esqueceu lições e amizades. Tinha refeito muitas vezes a obra; mas agora
queria concluí­‑la, fosse como fosse. Quinze dias, oito, cinco... A aurora do
aniversário veio achá­‑lo trabalhando.
Contentou­‑se da missa rezada e simples, para ele só. Não se pode dizer
se todas as lágrimas que lhe vieram sorrateiramente aos olhos, foram do ma‑
rido, ou se algumas eram do compositor. Certo é que nunca mais tornou ao
Requiem.
— Para quê? dizia ele a si mesmo.
Correu ainda um ano. No princípio de 1878, apareceu­‑lhe o editor.
— Lá vão dois anos, disse este, que nos não dá um ar da sua graça. Toda
a gente pergunta se o senhor perdeu o talento. Que tem feito?
— Nada.
— Bem sei o golpe que o feriu; mas lá vão dois anos. Venho propor­‑lhe
um contrato: vinte polcas durante doze meses; o preço antigo, e uma por‑
centagem maior na venda. Depois, acabado o ano, podemos renovar.
Pestana assentiu com um gesto. Poucas lições tinha, vendera a casa para
saldar dívidas, e as necessidades iam comendo o resto, que era assaz escasso.
Aceitou o contrato.
— Mas a primeira polca há de ser já, explicou o editor. É urgente. Viu
a carta do Imperador ao Caxias? Os liberais foram chamados ao poder; vão
fazer a reforma eleitoral. A polca há de chamar­‑se: Bravos à eleição direta! Não
é política; é um bom título de ocasião.
Pestana compôs a primeira obra do contrato. Apesar do longo tempo de
silêncio, não perdera a originalidade nem a inspiração. Trazia a mesma nota
genial. As outras polcas vieram vindo, regularmente. Conservara os retratos
e os repertórios; mas fugia de gastar todas as noites ao piano, para não cair
em novas tentativas. Já agora pedia uma entrada de graça, sempre que havia
alguma boa ópera ou concerto de artista, ia, metia­‑se a um canto, gozando

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544 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

aquela porção de coisas que nunca lhe haviam de brotar do cérebro. Uma ou
outra vez, ao tornar para casa, cheio de música, despertava nele o maestro
inédito; então, sentava­‑se ao piano, e, sem idéia, tirava algumas notas, até
que ia dormir, vinte ou trinta minutos depois.
Assim foram passando os anos, até 1885. A fama do Pestana dera­‑lhe de‑
finitivamente o primeiro lugar entre os compositores de polcas; mas o pri‑
meiro lugar da aldeia não contentava a este César, que continuava a preferir­
‑lhe, não o segundo, mas o centésimo em Roma. Tinha ainda as alternativas
de outro tempo, acerca de suas composições; a diferença é que eram menos
violentas. Nem entusiasmo nas primeiras horas, nem horror depois da pri‑
meira semana; algum prazer e certo fastio.
Naquele ano, apanhou uma febre de nada, que em poucos dias cres‑
ceu, até virar perniciosa. Já estava em perigo, quando lhe apareceu o editor,
que não sabia da doença, e ia dar­‑lhe notícia da subida dos conservadores,
e pedir­‑lhe uma polca de ocasião. O enfermeiro, pobre clarineta de teatro,
referiu­‑lhe o estado do Pestana, de modo que o editor entendeu calar­‑se.
O doente é que instou para que lhe dissesse o que era; o editor obedeceu.
— Mas há de ser quando estiver bom de todo, concluiu.
— Logo que a febre decline um pouco, disse o Pestana. Seguiu­‑se uma
pausa de alguns segundos. O clarineta foi pé ante pé preparar o remédio;
o editor levantou­‑se e despediu­‑se.
— Adeus.
— Olhe, disse o Pestana, como é provável que eu morra por estes dias,
faço­‑lhe logo duas polcas; a outra servirá para quando subirem os liberais.
Foi a única pilhéria que disse em toda a vida, e era tempo, porque ex‑
pirou na madrugada seguinte, às quatro horas e cinco minutos, bem com os
homens e mal consigo mesmo.

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manuel maria barbosa du bocage 545

Manuel Maria Barbosa du BOCAGE. «Camões, grande Camões, quão


semelhante», in Opera Omnia, 1.º Volume. 1969. Lisboa: Bertrand. 85.

Camões, grande Camões, quão semelhante


Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar co’o sacrílego gigante;

Como tu, junto ao Ganges sussurrante,


Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura


Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.

Modelo meu tu és, mas... oh, tristeza!...


Se te imito nos transes da Ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.

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546 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Fiama Hasse Pais BRANDÃO. «Quando eu vir vaguear por dentro da


casa», in Obra Breve. [1977] 2017. Lisboa: Assírio & Alvim. 39­‑40.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Quando eu vir vaguear por dentro da casa


o abeto que cresceu no bosque, hei­‑de
ajoelhar no soalho. Todas as coisas
comunicam entre si a totalidade das suas formas.
A mão que vai surgir do abeto apontará
para mim.

Tenho de despir as tiras de brocado que envolvem


as veias,
as cadeias de ouro dos rins. Deixar
que as unhas longas da árvore passem
entre mim e o imo dos quartos interiores da casa.

Se essa figura imponente, a árvore, me reconhecer,


vou interromper o que escrevo, esperar ansiosa
a atracção que a insónia desse vulto
há­‑de exercer sobre mim. Rodo
até à tontura da morte.
Torturo­‑me
até à alegria. Encontro na casa
o tema da despossuição e a agonia.

A pobreza antiga com que o corpo cai


para uma vala. Preso apenas às pérolas
que tinem nas orelhas. Dante deixou­‑nos resvalar,
com os cânones clássicos, como se o poema
fosse uma escada. É­‑o, quando as figuras austeras
da Natureza perseguem os mortais. Querem confirmar
a sua configuração. Querem ser
reais, quando se aproximam.

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548 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Luís de CAMÕES. «Canto I — Estâncias 1­‑ 83», in Os Lusíadas. 1992.


Lisboa: Ministério da Educação e Instituto Camões. 1­‑20.

As armas e os Barões assinalados


Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas


Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Cessem do sábio Grego e do Troiano


As navegações grandes que fizeram;
Cale­‑se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

E vós, Tágides minhas, pois criado


Tendes em mi um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado

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luís de camões 549

Foi de mi vosso rio alegremente,


Dai­‑me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloco e corrente,
Por que de vossas águas Febo ordene
Que não tenham enveja às de Hipocrene.

Dai­‑me a fúria grande e sonorosa,


E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai­‑me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.

E vós, ó bem nascida segurança


Da Lusitana antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade;
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
Pera do mundo a Deus dar parte grande;

Vós, tenro e novo ramo florecente


De a árvore, de Cristo mais amada
Que nenh a nascida no Ocidente,
Cesárea ou Cristianíssima chamada
(Vede­‑o no vosso escudo, que presente
Vos amostra a vitória já passada,
Na qual vos deu por armas e deixou
As que Ele pera si na Cruz tomou);

Vós, poderoso Rei, cujo alto Império


O Sol, logo em nascendo, vê primeiro,
Vê­‑o também no meio do Hemisfério,
E quando dece o deixa derradeiro;
Vós, que esperamos jugo e vitupério
Do torpe Ismaelita cavaleiro,

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550 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Do Turco Oriental e do Gentio


Que inda bebe o licor do santo Rio:

Inclinai por um pouco a majestade


Que nesse tenro gesto vos contemplo,
Que já se mostra qual na inteira idade,
Quando subindo ireis ao eterno templo;
Os olhos da real benignidade
Ponde no chão: vereis um novo exemplo
De amor dos pátrios feitos valerosos,
Em versos divulgado numerosos.

Vereis amor da pátria, não movido


De prémio vil, mas alto e quási eterno;
Que não é prémio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor superno,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de tal gente.

Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,


Fantásticas, fingidas, mentirosas,
Louvar os vossos, como nas estranhas
Musas, de engrandecer­‑se desejosas:
As verdadeiras vossas são tamanhas
Que excedem as sonhadas, fabulosas,
Que excedem Rodamonte e o vão Rugeiro
E Orlando, inda que fora verdadeiro.

Por estes vos darei um Nuno fero,


Que fez ao Rei e ao Reino tal serviço,
Um Egas e um Dom Fuas, que de Homero
A cítara par’ eles só cobiço;
Pois polos Doze Pares dar­‑vos quero
Os Doze de Inglaterra e o seu Magriço;
Dou­‑vos também aquele ilustre Gama,
Que para si de Eneias toma a fama.

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luís de camões 551

Pois se a troco de Carlos, Rei de França,


Ou de César, quereis igual memória,
Vede o primeiro Afonso, cuja lança
Escura faz qualquer estranha glória;
E aquele que a seu Reino a segurança
Deixou, com a grande e próspera vitória;
Outro Joane, invicto cavaleiro;
O quarto e quinto Afonsos e o terceiro.

Nem deixarão meus versos esquecidos


Aqueles que nos Reinos lá da Aurora
Se fizeram por armas tão subidos,
Vossa bandeira sempre vencedora:
Um Pacheco fortíssimo e os temidos
Almeidas, por quem sempre o Tejo chora,
Albuquerque terríbil, Castro forte,
E outros em quem poder não teve a morte.

E, enquanto eu estes canto — e a vós não posso,


Sublime Rei, que não me atrevo a tanto —,
Tomai as rédeas vós do Reino vosso:
Dareis matéria a nunca ouvido canto.
Comecem a sentir o peso grosso
(Que polo mundo todo faça espanto)
De exércitos e feitos singulares,
De África as terras e do Oriente os mares.

Em vós os olhos tem o Mouro frio,


Em quem vê seu exício afigurado;
Só com vos ver, o bárbaro Gentio
Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;
Tétis todo o cerúleo senhorio
Tem pera vós por dote aparelhado,
Que, afeiçoada ao gesto belo e tenro,
Deseja de comprar­‑vos pera genro.

Em vós se vêm, da Olímpica morada,


Dos dous avós as almas cá famosas;
a, na paz angélica dourada,

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552 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Outra, pelas batalhas sanguinosas.


Em vós esperam ver­‑se renovada
Sua memória e obras valerosas;
E lá vos têm lugar, no fim da idade,
No templo da suprema Eternidade.

Mas, enquanto este tempo passa lento


De regerdes os povos, que o desejam,
Dai vós favor ao novo atrevimento,
Pera que estes meus versos vossos sejam,
E vereis ir cortando o salso argento
Os vossos Argonautas, por que vejam
Que são vistos de vós no mar irado,
E costumai­‑vos já a ser invocado.

Já no largo Oceano navegavam,


As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Próteu são cortadas,

Quando os Deuses no Olimpo luminoso,


Onde o governo está da humana gente,
Se ajuntam em consílio glorioso,
Sobre as causas futuras do Oriente.
Pisando o cristalino Céu fermoso,
Vêm pela Via Láctea juntamente,
Convocados, da parte de Tonante,
Pelo neto gentil do velho Atlante.

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luís de camões 553

Luís de CAMÕES. «Canção X», in Rimas. 1994. Coimbra: Almedina. 223­


‑229.

Vinde cá, meu tão certo secretário


dos queixumes que sempre ando fazendo,
papel, com que a pena desafogo!
As sem­‑razões digamos que, vivendo,
me faz o inexorável e contrário
Destino, surdo a lágrimas e a rogo.
Deitemos água pouca em muito fogo;
acenda­‑se com gritos um tormento
que a todas as memórias seja estranho.
Digamos mal tamanho
a Deus, ao mundo, à gente e, enfim, ao vento,
a quem já muitas vezes o contei,
tanto debalde como o conto agora;
mas, já que para errores fui nascido,
vir este a ser um deles não duvido.
Que, pois já de acertar estou tão fora,
não me culpem também, se nisto errei.
Sequer este refúgio só terei:
falar e errar sem culpa, livremente.
Triste quem de tão pouco está contente!

Já me desenganei que de queixar­‑me


não se alcança remédio; mas quem pena,
forçado lhe é gritar, se a dor é grande.
Gritarei; mas é débil e pequena
a voz para poder desabafar­‑me,
porque nem com gritar a dor se abrande.
Quem me dará sequer que fora mande
lágrimas e suspiros infinitos
iguais ao mal que dentro n’ alma mora?

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554 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Mas quem pode alg ’ hora


medir o mal com lágrimas ou gritos?
Enfim, direi aquilo que me ensinam
a ira, a mágoa, e delas a lembrança,
que é outra dor por si, mais dura e firme.
Chegai, desesperados, para ouvir­‑me,
e fujam os que vivem de esperança
ou aqueles que nela se imaginam,
porque Amor e Fortuna determinam
de lhe darem poder para entenderem,
à medida dos males que tiverem.

[Quando vim da materna sepultura


de novo ao mundo, logo me fizeram
Estrelas infelices obrigado;
com ter livre alvedrio, mo não deram,
que eu conheci mil vezes na ventura
o milhor, e pior segui, forçado.
E, para que o tormento conformado
me dessem com a idade, quando abrisse
inda minino, os olhos, brandamente,
manda que, diligente,
um Minino sem olhos me ferisse.
As lágrimas da infância já manavam
com a saüdade namorada;
o som dos gritos, que no berço dava,
já como de suspiros me soava.
Co a idade e Fado estava concertado;
porque quando, por caso, me embalavam,
se versos de Amor tristes me cantavam,
logo m’ adormecia a natureza,
que tão conforme estava co a tristeza.]

Foi minha ama a fera, que o destino


não quis que mulher fosse a que tivesse
tal nome para mim; nem a haveria.
Assi criado fui, porque bebesse
o veneno amoroso, de minino,
que na maior idade beberia,

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luís de camões 555

e, por costume, não me mataria.


Logo então vi a imagem e semelhança
daquela humana fera tão fermosa,
suave e venenosa,
que me criou aos peitos da esperança;
de quem eu vi despois o original,
que de todos os grandes desatinos
faz a culpa soberba e soberana.
Parece­‑me que tinha forma humana,
mas cintilava espíritos divinos.
Um meneio e presença tinha tal
que se vangloriava todo o mal
na vista dela; a sombra, co a viveza,
excedia o poder da Natureza.

Que género tão novo de tormento


teve Amor, que não fosse, não sòmente
provado em mim, mas todo executado?
Implacáveis durezas, que o fervente
desejo, que dá força ao pensamento,
tinham de seu propósito abalado,
e de se ver, corrido e injuriado;
aqui, sombras fantásticas, trazidas
de alg as temerárias esperanças;
as bem­‑aventuranças
nelas também pintadas e fingidas;
mas a dor do desprezo recebido,
que a fantasia me desatinava,
estes enganos punha em desconcerto;
aqui, o adevinhar e o ter por certo
que era verdade quanto adevinhava,
e logo o desdizer­‑se, de corrido;
dar às cousas que via outro sentido,
e para tudo, enfim, buscar razões;
mas eram muitas mais as sem­‑razões.

[Não sei como sabia estar roubando


cos raios das entranhas, que fugiam
por ela, pelos olhos sutilmente!

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556 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Pouco a pouco invencíveis me saíam,


bem como do véu húmido exalando
está o sutil humor o Sol ardente.
Enfim, o gesto puro e transparente,
para quem fica baixo e sem valia
este nome de belo e de fermoso;
o doce e piadoso
mover d’ olhos, que as almas suspendia
foram as ervas mágicas, que o Céu
me fez beber; as quais, por longos anos,
noutro ser me tiveram transformado,
e tão contente de me ver trocado
que as mágoas enganava cos enganos;
e diante dos olhos punha o véu
que me encobrisse o mal, que assi creceu,
como quem com afagos se criava
daquele para quem crecido estava.]

Pois quem pode pintar a vida ausente,


com um descontentar­‑me quanto via,
e aquele estar tão longe donde estava;
o falar, sem saber o que dezia;
andar, sem ver por onde, e juntamente
suspirar sem saber que suspirava?
Pois quando aquele mal m’ atormentava
e aquela dor que das Tartáreas águas
saiu ao mundo, e mais que todas doe,
que tantas vezes soe
duras iras tornar em brandas mágoas;
agora, co furor da mágoa irado,
querer e não querer deixar d’amar,
e mudar noutra parte por vingança
o desejo privado de esperança,
que tão mal se podia já mudar;
agora, a saüdade do passado
tormento, puro, doce e magoado,
fazia converter estes furores
em magoadas lágrimas de amores.

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luís de camões 557

Que desculpas comigo que buscava


quando o suave Amor me não sofria
culpa na cousa amada, e tão amada!
Enfim, eram remédios que fingia
o medo do tormento que ensinava
a vida a sustentar­‑se, de enganada.
Nisto a parte dela foi passada,
na qual se tive algum contentamento
breve, imperfeito, tímido, indecente,

não foi senão semente


de longo e amaríssimo tormento.
Este curso contino de tristeza,
estes passos tão vãmente espalhados,
me foram apagando o ardente gosto
que tão de siso n’alma tinha posto,
daqueles pensamentos namorados
em que eu criei a tenra natureza,
que do longo costume da aspereza,
contra quem força humana não resiste,
se converteu no gosto de ser triste.

Destarte a vida noutra fui trocando;


eu não, mas o destino fero, irado,
que eu ainda assi por outra não trocara.
Fez­‑me deixar o pátrio ninho amado,
passando o longo mar, que ameaçando
tantas vezes me esteve a vida cara.
Agora, exprimentando a fúria rara
de Marte, que cos olhos quis que logo
visse e tocasse o acerbo fruto seu
(e neste escudo meu
a pintura verão do infesto fogo);
agora, peregrino vago e errante,
vendo nações, linguages e costumes,
Céus vários, qualidades diferentes,
só por seguir com passos diligentes
a ti, Fortuna injusta, que consumes
as idades, levando­‑lhe diante

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558 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

a esperança em vista de diamante,


mas quando das mãos cai se conhece
que é frágil vidro aquilo que aparece.

A piedade humana me faltava,


a gente amiga já contrária via,
no primeiro perigo; e, no segundo,
terra em que pôr os pés me falecia,
ar para respirar se me negava,
e faltavam­‑me, enfim, o tempo e o mundo.
Que segredo tão árduo e tão profundo:
nascer para viver, e para a vida
faltar­‑me quanto o mundo tem para ela!
E não poder perdê­‑la,
estando tantas vezes já perdida!
Enfim, não houve transe de fortuna,
nem perigos, nem casos duvidosos,
injustiças daqueles, que o confuso
regimento do mundo, antigo abuso,
faz sobre os outros homens poderosos,
que eu não passasse, atado à grã coluna
do sofrimento meu, que a importuna
perseguição de males em pedaços
mil vezes fez, à força de seus braços.

Não conto tanto males como aquele


que, despois da tormenta procelosa,
os casos dela conta em porto ledo;
que inda agora a Fortuna flutuosa
a tamanhas misérias me compele,
que de dar um só passo tenho medo.
Já de mal que me venha não me arredo,
nem bem que me faleça já pretendo,
que para mim não val astúcia humana;
de força soberana,
da Providência, enfim, divina, pendo.
Isto que cuido e vejo, às vezes tomo
para consolação de tantos danos.
Mas a fraqueza humana, quando lança

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luís de camões 559

os olhos no que corre, e não alcança


senão memória dos passados anos,
as águas que então bebo, e o pão que como,
lágrimas tristes são, que eu nunca domo
senão com fabricar na fantasia
fantásticas pinturas de alegria.

Que se possível fosse, que tornasse


o tempo para trás, como a memória,
pelos vestígios da primeira idade,
e de novo tecendo a antiga história
de meus doces errores, me levasse
pelas flores que vi da mocidade;
e a lembrança da longa saüdade
então fosse maior contentamento,
vendo a conversação leda e suave,
onde a e outra chave
esteve de meu novo pensamento,
os campos, as passadas, os sinais,
a fermosura, os olhos, a brandura,
a graça, a mansidão, a cortesia,
a sincera amizade, que desvia,
toda a baixa tenção, terrena, impura,
como a qual outra alg a não vi mais…
Ah! vãs memórias, onde me levais
o fraco coração, que ainda não posso
domar este tão vão desejo vosso?

Nô mais, Canção, nô mais; qu’ irei falando


sem o sentir, mil anos. E se acaso
te culparem de larga e de pesada,
não pode ser (lhe dize) limitada
a água do mar em tão pequeno vaso.
Nem eu delicadezas vou cantando
co gosto do louvor, mas explicando
puras verdades já por mim passadas.
Oxalá foram fábulas sonhadas!

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560 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Ruy Duarte de CARVALHO. «Aprendizagem do dizer festivo», in Hábito


da Terra. 1988. Luanda: União dos Escritores Angolanos. 9­‑13.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Atento, desde sempre, às falas do lugar, nada sei dos sinais se os não confir‑
mo no encontro da memória com a matriz, quando a carência impõe esfor‑
ços de equilíbrio não entre o corpo e as formas que o sustêm mas entre as
margens de uma paragem breve. Registo acasos que desmentem datas e só
as não confundem porque é mesmo assim; regularmente e a confirmar a his‑
tória. Que se constrói, a vida, um texto? Em busca das coordenadas recorro
diligente à pauta de um compasso para saber no texto em que me inscrevo o
que se sabe do que havia já, as leis que alguma angústia desvendasse, o lega‑
do da argúcia, a vocação da pausa.
Um texto é como um esforço de existir. A intenção de um lado, uma
proposta vaga, uma moral herdada. Do outro lado o curso das palavras, a es‑
teira do seu eco, os sons e os gestos seguidos uns aos outros, um som que
pede um som e essa resposta é já um bolbo de emoção autónoma de força
para florir madura, à revelia da intenção primeira.
Assim na vida, quero dizer, no texto. Uma questão de sons, de gestos
repartidos, mas já numa cadência que depois está lá. A coerência a haver a
comandar o ritmo e a garantir a forma. De que adianta iluminar­‑lhe o chão?

2.
Confirmações. Sinais. Encontro da memória com a matriz, a conjunção não
entre o corpo e as formas, a paisagem, mas entre as margens, magras, de
uma paragem breve.
Lembranças registadas que confundem datas, não desmentidas só por‑
que para sempre assim, regularmente e a confundir a história.
Que se constrói? Um texto ou um percurso? A intenção de um lado,
resposta vaga, moral herdada. Do outro lado o curso da palavra, da resposta,
o som e o gesto seguidos um ao outro, um som que aponta a um gesto que
exige um som liberto, e o acto assim é já um bolbo de intenção segura, à re‑
velia da emoção primeira.

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564 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Mário CESARINY. «Louvor e simplificação de Álvaro de Campos


(fragmento)», in Nobilíssima Visão. [1953] 1991. Lisboa: Assírio & Alvim.
64­‑ 73.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Há uma hora, há uma hora certa


que um milhão de pessoas está a sair para a rua.
Há uma hora, desde as sete e meia horas da manhã
que um milhão de pessoas está a sair para a rua.
Estamos no ano da graça de 1946
em Lisboa, a sair para o meio da rua,
Saímos? Mas sim, saímos!
Saímos: seres usuais, gente­‑gente, olhos, narinas, bocas,
gente feliz, gente infeliz, um banqueiro, alfaiates, telefonistas, varinas,
caixeiros desempregados,
uns com os outros, uns dentro dos outros
tossicando, sorrindo, abrindo os sobretudos, descendo aos mictórios para
apanhar eléctricos,
gente atrasada em relação ao barco para o Barreiro
que afinal ainda lá estava apitando estridentemente,
gente de luto, normalmente silenciosa
mas obrigada a falar ao vizinho da frente
na plataforma veloz do eléctrico em marcha,
gente jovial a acompanhar enterros
e uma mãe triste a aceitar dois bolos para a sua menina,
Há uma hora, isto: Lisboa e muito mais.
Humanidade cordial, em suma,
com todas as consequências disso mesmo
e a sair a sair para o meio da rua.

E agora, neste momento — que horas são?


a telefonista guarda o batom na mala usa os auscultadores liga electricamente
Lisboa a Santarém
e começou o dia
o pedreiro escalou para o telhado mais alto e cantou qualquer coisa

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570 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Natália CORREIA. «No túmulo de Florbela», in Poesia Completa. [1985­‑ 90]


1999. Lisboa: Dom Quixote. 557.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Infanta de ossos. No mármore que os veste


corre indiferentemente um aranhiço.
E tu que a um sopro de ar estremecias
agora no país das lajes frias,
soberba e mítica nem mesmo dás por isso.

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maria velho da costa 571

Maria Velho da COSTA. Missa in Albis. 1988. Lisboa: Dom Quixote. 9­‑14.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Dorme ou dormitará na penumbra com a tesoura aberta entre o médio e o po‑


legar da mão esquerda. Brilha­‑lhe no colo. Como se alheia, sem desmoronar­
‑se ou ficar descomposta, com esse pássaro metálico sobre o colo negro. Dian‑
te dela as coisas podem tomar o seu princípio.
É essa paragem que deve ter sido então assustadora. Como se não lhe
conhecia um início, um caminhar até à inalterabilidade daquele quarto, ela
deve ter impressionado então como um vaticínio funesto, um cargo.
Quem fala ou vê? Eu? Sara?
Ou a imposição dessa presença nasça da visão que imponho, quem?, de
uma figura retirada, reconhecida porém de alguma figuração.
Do colo descem­‑lhe até ao chão as figuras que recorta dos jornais e de
revistas velhas, algumas já amarelecidas, e as grinaldas abertas com perícia
e velocidade.
Não assistimos, quando este tempo teve início, mas há uma continuida‑
de aparente no que se passa com ela, acordada ou a dormir.
Quem esteve com ela até chegarem aqui este olhar, ou esta escuta, que
a dizem?
Ninguém pode impedir­‑me de a continuar a estar, nem mesmo nós, cuja
mágoa e pudor interditariam este quarto, ou esta voz, de uma visão destas.
Nunca seria a indiferença. Houve um destino assim que confronta ou que
espera. Quem a faz?
Não é objecto de escândalo nem da compaixão de ninguém. A vida da
casa passa­‑se à sua margem, contendo­‑a. Como uma água parada recorda
pelo reverso a precariedade da paisagem naufragada. Como contém as zo‑
nas de obscuridade e luz dos outros quartos, as empenas dos corredores al‑
tíssimos, as vozes de exaltação e da rotina, a emanação como um ronco sur‑
do, permanente e inaudível, do mobiliário pesado, dos espelhos biselados,
dos búzios, das presas de elefante esburgadas do vivo.
Ela, Ema, é um foco inerte, de absorção negra.
Às vezes fala. E, se alguém está presente, sobressalta­‑se apenas um

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maria velho da costa 575

Dom DINIS, Rei de Portugal. [Proençaes soem mui bem trobar], in ­


A Lírica Galego­‑Portuguesa. 1983. Lisboa: Comunicação. 286.

Proençaes soem mui bem trobar


e dizem eles que é com amor;
mais os que trobam no tempo da frol
e nom em outro, sei eu bem que nom
am tam gram coita no seu coraçom,
qual m’eu por mia senhor vejo levar.

Pero que trobam e sabem loar


sas senhores o mais e o melhor
que eles podem, sõo sabedor
que os que trobam quand’a frol sazom
á, e nom ante, se Deus mi perdom,
nom am tal coita qual eu ei sem par.

Ca os que trobam e que s’alegrar


vam eno tempo que tem a color
a frol consigu’e, tanto que se for
aquel tempo, logu’em trobar razom
nom am, nom vivem em qual perdiçom
oj’eu vivo, que pois m’á de matar.

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576 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Mário DIONÍSIO. [Só tintas claras Delicadas], in Poesia Incompleta. 1982.


Mem Martins: Europa­‑América. 336­‑337.

Texto sujeito a Direitos de Autor

Só tintas claras Delicadas


gradações de riso aberto e de frescura
clareza de mim mesmo agora mesmo vista
noutros olhos suspensa e repetida
nos olhos todos que a desejam sem procura
como se um bem o maior bem pudesse haver na vida
sem conquista

Tintas claras que sonho se me furtam sem remédio


Outra vez roxo e negro as vão cobrindo
e com elas quem amo e todo o resto

Ao branco se mistura um sujo breu que não é tédio


ou indiferença mas tristeza dum tempo em que se morre
em caves de tortura e esquecimento
as palavras de fogo só as ouve o vento
e os amantes se perdem no caminho
contra fantasmas que eles mesmos vão urdindo

Pintura escura negra pegajosa faço e a detesto


em raiva cega transformando o meu carinho
e de raiva criando um vão tormento
que tudo diz e diz tão pouco ou pouco mais que nada

Pintura negra e feia suja cujo visco de mim mesmo escorre


ao arrepio de cada pincelada
que minha mão por mão desconhecida vai pousando
e não posso apagar nem evitar nem acusar desventuradamente
ou iludir sequer com desespero amando e rebuscando e só traindo
a claridade impenitente

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578 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Florbela ESPANCA. «Ser Poeta», in Obras Completas de Florbela Espanca —


Poesia: 1918­‑1930. [1934] 1986. Lisboa: Dom Quixote. 186.

Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior


Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor


E não saber sequer que se deseja!
E ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!


Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar­‑te, assim, perdidamente...


É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê­‑lo cantando a toda a gente!

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mário dionísio 579

Daniel FILIPE. «Pequena ode marítima», in Pátria, Lugar de Exílio. 1963.


Lisboa: Presença. 58.

Texto sujeito a Direitos de Autor

À flor dos dias, teu sorriso


desce sobre a planície como chuva habitada
por um sol interior. Nada mais é preciso
para sermos, de novo, só Amado e Amada.

Nada mais é preciso? Uma rosa, talvez:


uma corola aberta na paisagem vazia,
polvilhando de cor o rústico entremez
de que somos actores
apenas por um dia.

Ó mar de sonho e grades!


(Teu sorriso
promete uma evasão sempre adiada).
Ó mar da quietação, o glauco espelho liso!
Somos dois, outra vez, na praia desolada.

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580 literatura-mundo i: mundos em português (vol. i)

Almeida GARRETT. «Canto décimo», in Camões de Almeida Garrett.


(Apresentação crítica, notas e sugestões para análise literária de Teresa
Sousa de Almeida). [1825] 1986. Lisboa: Comunicação. 189.

Canto Décimo

XIV
Sua pobre habitação os dous entraram;
E tristes horas, dias, meses passam
Arrastados e longos, — qual o tempo
Para infelizes anda — sem que a sorte
Mais ditosos os visse, ou a amizade
Menos unidos. — Mas a mão tremente,
Encarquilhada e seca já sobre eles
Ia estendendo a pálida indigência;
E a fome... a fome alfim. — Clamor pequeno
Que de minhas endechas ténue soa,
Se junte aos brados das canções eternas
Com que o teu nome, generoso António,
Já pelo mundo engrandecido ecoa.
Vêde­‑o, vai pelas sombras caridosas
Da noite, de vergonhas coitadora,