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PULSO|DEZEMBRO 1

Nasce a PULSO

B
asta encontrar alguém desmaiado ou aparentemente sem os
PLANO DAS MINORIAS sentidos para a primeira iniciativa ser verificar a sua pulsação,
pág. 6 principal indicativo de que a pessoa está ou não viva. O pulso
é a resposta dos batimentos do coração, desde a calmaria até a
aceleração desmedida. É por meio dele que se observa, por exemplo,
O VIOLENTO SILÊNCIO o caos atribuído à adrenalina de se estar diante de um perigo
DAS RUAS pág. 9 qualquer ou a serenidade apontada pela paz de se estar em situação
confortável. Isso tudo percorre as veias do corpo humano e carrega
aquilo que o corpo precisa: a vida. O pulso revela a vida e é isso que
NA NOITE E NAS a esta publicação quer abordar: tudo o que faz o mundo pulsar.
REDES: POUCO
SILÊNCIO, MUITAS Como nem sempre tudo o que circula pelo sangue é saudável, os bons
nutrientes acabam por dividir espaço com os maus, muitas vezes
HISTÓRIAS pág. 12 imperceptíveis. É necessário distinguir o que faz bem e o que faz mal.
Para isso é preciso conhecer na intimidade cada um dos ingredientes.
BOHEMIAN RHAPSODY: E quem anda pelas ruas está a meio caminho de conhecê-los e pulsar
definitivamente com o cotidiano sem máscaras.
QUEEN COMO VOCÊ
NUNCA VIU pág. 22 O leitor está convidado a saborear os ingredientes que percorrem as
veias do mundo real paulistano, de casas e mentes.

VILÕES PARA O Sem preconceitos e lidando apenas com os fatos, esta edição de
ESTADO, HERÓIS DE Pulso revela as intimidades e as técnicas de garotas de programa
SUAS FAMÍLIAS: A VIDA que refundam a prostituição a partir das redes sociais; traça
uma radiografia das propostas econômicas do ativista social que
DOS “MARRETEIROS” pleiteou ser presidente do Brasil; conta histórias de marreteiros
DOS TRILHOS DE SP que se sustentam dos trens da CPTM; articula defesa aos direitos
pág. 24 de moradores em situação de rua; e publica resenha sobre o filme
Bohemian Rhapsody e os encontros de Freddie Mercury.

HUMOR pág. 28 Convite feito. Vem pulsar.

REDAÇÃO
Adriano Garcia Caio Rogério Claudio Porto Gervásio Henrique Victor Ricardo
Plano das minorias
Plataforma econômica de presidenciável
ativista apontava caminhos para o combate aos
privilégios da classe dominante

Por: Gervásio Henrique

C andidato à Presidência da República pelo


Partido Socialismo e Liberdade – PSOL
nas eleições deste ano, Guilherme Boulos
priorizava, em seu plano de governo, o combate
do Estado, de modo a atuar na política monetária
e fiscal, além de se voltar principalmente para a
proteção dos direitos sociais.

às desigualdades sociais no Brasil por meio de Boulos acredita que o liberalismo comprometerá
intervenções econômicas. Como confirmação da os direitos dos trabalhadores, com as reformas
luta que trava neste campo, ele lidera o Movimento da Previdência e Trabalhista. Além disso, entende
dos Trabalhadores Sem Teto – MTST, que reivindica que esse tipo de conduta propiciará o aumento das
moradia popular para quem não tem. riquezas das classes mais poderosas.

Seguindo os ideais do teórico econômico John Vicente Filho, Mestre em Economia pela Pontifícia
Maynard Keynes (1883-1946), que enxerga o Estado Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP,
com a função de controlar parte da macroeconomia, explica que eram levantadas, no programa de
os economistas Marco Antonio Rocha e Laura Boulos, questões como a necessidade de uma
Carvalho lideraram as medidas que estruturaram a reforma tributária, com a criação de impostos
plataforma econômica do candidato. sobre grandes fortunas e o estabelecimento de uma
carga tributária progressiva, para frear as políticas
Plano Econômico de Governo anticíclicas de isenção fiscal para as empresas e
buscar a redução dos indicadores de desigualdade.
A proposta econômica de Boulos, com preceitos do Assim, parte da retomada do crescimento econômico
socialismo, assim como a ideologia do projeto em si, viria de seria os investimentos públicos.
hasteia a bandeira de nação soberana, democrática e
igualitária. As ideias do ex-candidato não atendiam Robusto, o plano de governo de Boulos destacava:
aos interesses da classe dominante, além de ser revogação da reforma trabalhista e reconstrução da
contra o conservadorismo. seguridade social, reforma no sistema tributário,
alíquota de 35¨% de IR para rendimentos maiores
Defensor de planos emergenciais para recuperar a que R$ 325 mil por ano e o fortalecimento de
economia, com a intervenção da Máquina Pública, empresas públicas.
o plano econômico de Boulos também se colocava
contra as privatizações e dava relevância ao papel “As consequências das propostas com certeza

6 PULSO|DEZEMBRO
seriam positivas no que diz respeito à autonomia Plataforma econômica de Boulos:
econômica nacional, geração de emprego e renda.
Tendo como base uma política industrial que sirva os
anseios da classe trabalhadora e não ao contrário”,
> revogação da reforma
conclui Vicente. trabalhista;
Polêmicas e desafios > processo de reconstrução da
seguridade social;
A descrença da opinião pública com ideias mais à
esquerda do espectro político leva os opositores > reforma no sistema tributário,
a usarem a crise humanitária na Venezuela como com alíquota de 35¨% de IR para
exemplo pontual de que políticas econômicas
desse campo não seriam boas para o Brasil. No
rendimentos maiores que R$ 325
entanto, o momento venezuelano é consequência mil por ano;
da deflagração da crise do petróleo local, segundo
Boulos. > fortalecimento de empresas
públicas.
Portugal, por outro lado, serve como “exemplo
positivo”por ter uma plataforma governista baseada
na democracia e na política de bem-estar social. O
atual governo português tem priorizado repasses Por aqui, Guilherme Boulos pretendia revogar
econômicos ao campo social, como, por exemplo, medidas do governo Michel Temer, como a Emenda
a reposição de salários e o descongelamento de Constitucional 95 – ou “Teto dos Gastos”, e as
carreiras (caso da classe dos professores), em busca reformas trabalhista e da previdência, por entender
do desenvolvimento da população. Os resultados de que o congelamento nos investimentos por 20 anos
tais práticas surgem na forma de crescimento do compromete os serviços públicos fundamentais e
PIB nos últimos anos. as mudanças nas relações de trabalho e no sistema
previdenciário influenciam, para pior, a qualidade
de vida dos brasileiros.

Vicente, porém, acredita que o Plano de Boulos


Portugal é ‘exemplo teria dificuldades em se estabelecer, de acordo com
a situação político econômica do país.
positivo’ graças
a sua plataforma Radical
governista baseada Chamado de “radical” por muitos, o ex-candidato
na democracia e na se defende dizendo que o atual momento do país,
política de bem-estar economicamente estagnado e pós-recessão –
resultado de uma das maiores crises econômicas
social da história –, requer atitudes corajosas que há
muito tempo não são realizadas, sobretudo no
incentivo à “desconcentração de renda”, o oposto

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Guilherme Boulos: radical ou defensor das
minorias?
/CAMPANHA GUILHERME BOULOS - DIVULGAÇÃO

ao que acontece atualmente. No Brasil, seis pessoas novo desde a redemocratização e tem vida marcada
concentram a mesma riqueza que cem milhões de pela luta por moradia à frente do MTST, do qual é
brasileiros, segundo recente levantamento da ONG coordenador nacional.
britânica Oxfam.
Boulos é filho de médicos e professores da
Para Vicente, o eixo do programa de Boulos seria Universidade de São Paulo – USP e vem de uma
a alteração dos pilares atuais de funcionamento família de classe média de São Paulo. Ele é formado
da economia brasileira, que foram estabelecidos a em Filosofia pela USP e atua como psicanalista e
partir dos anos 1990, como, por exemplo, o tripé escritor, e, com passagem por escolas da rede
macroeconômico – inflação, juros e câmbio. pública de ensino em São Paulo, hoje leciona em uma
escola de especialização. A guinada à esquerda de
Na visão do ex-candidato, os mecanismos colocados Boulos o levou a deixar a casa dos pais para morar
impedem políticas econômicas baseadas no bem- em uma ocupação do MTST, em Osasco, na Grande SP.
estar social e o motor propulsor para atender as Boulos iniciou sua militância junto aos movimentos
demandas da sociedade seriam os bancos públicos sociais, principalmente de esquerda, em 1997,
e nacionais, por possibilitarem investimentos em quando entrou para a União da Juventude Comunista
longo prazo. – UJC, coletivo ligado ao Partido Comunista
Brasileiro – PCB, e em seguida no Movimento dos
Boulos Trabalhadores Sem-Terra – MST e MTST, onde
permanece até hoje.
Guilherme Castro Boulos é paulistano e tem 36
anos. Foi o candidato a presidente do Brasil mais

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opinião | pulso

Moradora em situação de rua desolada na


região da estação da Luz, centro de SP
/CLAUDIO PORTO

O violento silêncio das ruas


Em grandes metrópoles, pessoas em situação de rua são
vítimas das mais diversas formas de violência, que vão da
indiferença ao assassinato; como mudar tal cenário?
Por: Adriano Garcia

U m dos maiores dramas das grandes metrópoles


é o das pessoas em situação de rua. Exposto
a situações adversas e em condição de
vulnerabilidade, o grupo sofre com a falta de
É muito difícil aferir qual o real número de
moradores de rua, ainda mais em uma cidade
como São Paulo. A Prefeitura estima que hoje o
número esteja entre 20 e 25 mil pessoas. Já o
mínimas condições de sobrevivência, desde a Movimento Estadual da População de Rua de São
possibilidade de alimentação, higiene e locais Paulo questiona a metodologia do censo e calcula
seguros para dormir, a casos de violência que já são mais de 32 mil pessoas vivendo nas
explícita – a falta de moradia por si só já é uma ruas e avenidas da cidade, com crescimento de
grave violência. Trata-se de pessoas que, salvo mais de 1,5 mil moradores de rua aoano. É uma
alguns esforços públicos de assistência social, situação alarmante. As estimativas apontam que,
estão amplamente desamparadas e se tornaram enquanto a população total da cidade cresce 0.7%
invisíveis para a maioria da sociedade, ainda que ao ano, o número de pessoas nessas condições
saltem aos olhos de todos. aumentaquatro vezes mais, alcançando 4.1% no

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Morador em situação de rua dorme em meio aos
pertences próximo ao Theatro Municipal
/CLAUDIO PORTO

mesmo período. Os levantamentos indicam ainda tema, chegando a casos concretos de agressões
que cerca de 3% das pessoas em condição de rua e assassinatos. No campo da violência indireta:
sejam crianças e em torno de 15% são mulheres. falemos das milhares de pessoas que acabam por
Grande drama que recaí sobre essas pessoas, a encontrar moradia em imóveis abandonados e, de
violência direta se revela de inúmeras formas, certa forma, assumem o risco de tragédias como
seja na naturalização e indiferença com o fato a queda do edifício Wilton Paes de Almeida, no
de pessoas viverem em situação tão precária, Largo do Paissandu, em maio passado. O prédio
passando pela omissão do Poder Público quantoao havia sido ocupado por pessoas que não têm onde
morar, relegados ao total descaso. Nada foi feito
para dar moradia digna a elas e o desfecho, neste
caso, foi uma tragédia que deixou sete mortos
Prefeitura estima e 146 famílias desabrigadas e sem o pouco dos
que entre 20 e pertences que tinham. Como não dizer que isto é
25 mil pessoas uma violência?

estejam morando O caminho para amenizar o sofrimento da


nas ruas população de rua passa por um dispositivo legal
que já existe: épreciso que se siga de forma
urgente o queprevêo Estatuto das cidades, que

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Moradores deitados sobre colchões e enrolados em cobertores
próximo a uma das entradas da estação República do Metrô
/CLAUDIO PORTO

Não é possível mais conviver com este problema


de forma passiva. A reflexão aí está e deve
População de ocorrer em todos os setores da sociedade, para
rua cresce 4 pressionar as instituições competentes, que
detêm os mecanismos para colocar as mudanças
vezes mais que necessárias em prática e, com isso, devolver a
o restante dos dignidade e a cidadania a milhões de brasileiros,
que merecem no mínimo tanto respeito como
moradores de SP todos os outros.

trata, além da regularização fundiária, dessa


situação de imóveis com dívidas e abandonados,
que acabam ocupados por pessoas desabrigadas.
Caso não haja negociação, os espaços devem ser
incluídos em um grande programa habitacional,
subsidiado pelas esferas do Poder Público, como
instrumento para redução do déficit.

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Na noite e nas redes:
pouco silêncio, muitas
histórias
Discussão sobre o papel e a origem da prostituição
remonta às origens do ser humano; no Brasil, debate está
travado enquanto a prática sofre mudanças a partir das
páginas da internet
Por: Claudio Porto
com colaboração de Caio Rogério

Q uero conhecer a puta. A puta da cidade. A


única. A fornecedora. Na rua de baixo, onde é
proibido passar. Onde o ar é vidro ardendo. E
labaredas torram a língua de quem disser: Eu quero
a puta. Quero a puta, quero a puta[...]”, assim, como
referência a figura da “puta” no poema “A Puta”.
Ao lado de “prostituta”, “garota de programa”
e “acompanhante”, o termo é uma das formas de
nominar as mulheres, de faixas etárias distintas,
que sobrevivem financeiramente da prática sexual.
em um canto lírico carregado de contundência, o
poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade fez A vida de Drummond marcou o século XX. Já o debate

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sobre o papel e a origem da prostituição, sobretudo trocavam sexo por comida.
quanto ao status de profissão mais antiga do mundo,
remonta às origens do ser humano. Ao menos é o PROSTITUIÇÃO PELO MUNDO E NO BRASIL
que afirma o escritor inglês Rudyard Kipling (1865-
1936), autor de “O Livro da Selva” – obra que deu Para além da discussão sobre as origens, a
origem à animação “Mogli: O Menino Lobo” –, no prostituição tem servido de base para políticas
conto “On The City Wall” – “Na Muralha da Cidade”, públicas em países pelo mundo, sobretudo na
em tradução livre –, de 1889. Bastou Kipling Europa. Enquanto em países como a Suécia, França,
relatar que Lalun, uma das personagens do conto, Islândia, Canadá, Cingapura, África do Sul, Coreia do
era membra da “profissão mais antiga do mundo”, Sul, Irlanda do Norte e Noruega a prática é proibida,
para a sabedoria popular tomar a expressão como com penalidades aplicadas não às prostitutas, mas
um tipo de eufemismo – ato de suavizar – para a aos clientes, na Holanda, Dinamarca e Alemanha,
palavra cortesã, como eram chamadas as mulheres os poderes públicos locais hastearam, com
que trocavam sexo por dinheiro ou qualquer outro certo sucesso, a bandeira da regulamentação da

Frequentemente, a visão preconcebida da prostituta como


‘mulher de vida fácil’ tem legitimado ações de violência,
tanto física como simbólica, contra ela. Sendo assim,
negar a essas mulheres o status de trabalhadora, acaba
reforçando o estigma que recai sobre elas, impelindo-as à
marginalização social e dificultando, ainda mais, a negação
de seus direitos. Nesse sentido, a regulamentação é
importante sim, ao passo que traz à tona a discussão acerca
das mais diversas condições de trabalho e existenciais
vivenciadas pelas pessoas que se ocupam dessa atividade
Fabiana Rodrigues de Sousa, Doutora em Educação e professora no UNISAL

benefício naquela época. prática, com a criação de impostos específicos


aos estabelecimentos e às profissionais em troca
A máxima deixou de ter validade quando três de uma rede de seguridade social com direito à
pesquisadores da Universidade de Havard, nos EUA, Previdência Social e seguro-desemprego.
afirmaram que cozinheiro seria a profissão mais
antiga do mundo. No artigo “Energetic Consequences No Brasil, apesar de não regulamentada, a prática
of Thermal and Nonthermal Food Processing” – é reconhecida como ocupação profissional pelo
Consequências energéticas do processamento de Ministério do Trabalho desde 2002. A Doutora em
alimentos térmicos e não-térmicos –, publicado Educação e professora do Centro Universitário
em 2011 pela revista acadêmica Proceedings of the Salesiano de São Paulo – UNISAL, Fabiana Rodrigues
National Academy of Sciences, eles lembram que o de Sousa, coordena pesquisas sobre o tema ao longo
chef, enquanto ocupação, surgiu com a descoberta de 15 anos e afirma que o reconhecimento foi uma
do fogo há mais 300 mil anos. Para os menos das maiores conquistas do movimento social de
apegados às descobertas acadêmicas, a lógica prostitutas brasileiras. “No entanto, a prática não
desmente a máxima de Kipling: havia mulheres que é considerada uma profissão, o que tem dificultado

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a ampliação do debate acerca dos direitos e das
condições vividas pelas pessoas que se dedicam a
essa atividade. O preconceito e o estigma associados
a essa prática se configuram como os principais
obstáculos à garantia de proteção e direitos sociais
às prostitutas”, relata.

Em uma pesquisa rápida no portal de transparência


pública da Câmara Federal, o termo “prostituição”
gera 107 resultados entre Proposta de Emenda à
Constituição – PEC, Projeto de Lei Complementar –
PLP e Projeto de Lei – PL que em algum momento
tramitaram na Casa. Professora Fabiana em frente a um
painel com Paulo Freire desenhado
/ARQUIVO PESSOAL
SP SEGUE O MAU EXEMPLO

A exemplo da Câmara dos deputados, a maior cidade PROSTITUIÇÃO COMO PROCESSOS


da América do Sul, São Paulo, acumula projetos EDUCATIVOS
arquivados ou com tramitação parada, o que trava
a discussão sobre pontos do frágil resguardo legal Para Fabiana Rodrigues de Sousa, em sua
das garotas de programa. Nas poucas vezes em que tese “A noite também educa: compreensões e
a Câmara Municipal se posicionou o debate seguiu significados atribuídos por prostitutas à prática
pelo caminho não da regulamentação da profissão, da prostituição”, a relação entre garotas de
mas sim pela criação de áreas exclusivas para a programa, sobretudo as de ruas e de casas
prática sexual no centro expandido da cidade ou, noturnas, e a clientela vai além da questão
com base em um discurso econômico e em parte profissional e se comporta como “processos
defensor de costumes tradicionais, na defesa do educativos” – termo técnico dado por ela
fechamento de estabelecimentos como boates e aos pontos em comum detectados entre as
hotéis. prostitutas. No estudo, que se baseou na corrente
teórica da Educação Popular – método lançado em
De acordo com o portal de transparência da
meados do século XX e defendia pelo educador
Câmara Municipal, há na Casa 13 PLs que tratam
Paulo Freire (1921-1997) com o objetivo de
de prostituição na condição de objeto – base – ou
como parte do projeto, sendo o primeiro de 1992 e priorizar os saberes e culturas populares em
o mais recente de agosto de 2015. sua construção –, a Doutora descreve que
“na prostituição são consolidados diferentes
Todas as iniciativas partiram dos próprios processos educativos tais como aprender a ouvir,
vereadores e apenas uma, que tratava de suspensão a conversar, a representar papéis, a seduzir e
de alvará de estabelecimentos com atividade ilegal a identificar as fantasias do cliente. Também
– no qual a prostituição se encaixa –, logrou o êxito são adquiridas algumas habilidades como ser
da sanção e posterior promulgação – quando a lei simpática, aprender a extrair informações e
começa a vigorar. A primeira deu entrada na Câmara traçar o perfil do cliente, respeitar o estilo
em 1992 sob a numeração 396/92. O autor, o então de cada cliente, saber conviver e relacionar-
vereador José Índio Ferreira do Nascimento, do

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extinto Partido do Povo Brasileiro – PPB, pretendia Também são adquiridas
implantar “zonas especiais de livre frequência” para algumas habilidades
como ser simpática,
a “prática saudável do sexo” na Capital. Tais zonas aprender a extrair
seriam fiscalizadas por profissionais especializados informações e traçar o
em Sociologia, Psicologia, Pedagogia e Saúde perfil do cliente
Pública. O projeto teve cinco comissões designadas
para seu trâmite, porém, não ultrapassou a barreira
da primeira comissão pela qual passa boa parte se com pessoas e costumes diversos, já que as
das propostas de leis, a Comissão de Constituição prostitutas, comumente, viajam para diferentes
e Justiça – CCJ, e seguiu para o arquivamento cidades e boates”.
definitivo em 2001.
Sousa diz ainda que “esses processos educativos
Em 1997 o então vereador Carlos Neder (PT) não são desenvolvidos somente visando a obter
apresentou o PL 122/97 propondo a criação, ao maiores ganhos financeiros, mas também são
menos no papel, do programa assistencial Pro- empregados pelas prostitutas no sentido de
Meninas, “destinado a adolescentes do sexo ampliar a leitura do mundo e a compreensão de
feminino com vivência de rua ou na prostituição”. A sua realidade”. Apesar de a pesquisa ter sido
proposta passou por um processo de aprovação que feita em São Carlos, município do interior de São
se arrastou por 14 anos, sendo aprovada em duas
Paulo, as descobertas apontadas por ela puderam
votações – a primeira ainda em 1997 e a segunda
ser percebidas pela equipe de Pulso no contato
em 2011, ano em que o então prefeito Gilberto
Kassab (DEM) a vetou por completo. com profissionais da cidade de São Paulo.

*1
PROJETOS DE LEI O único projeto

PROSTITUIÇÃO
aprovado e, por
conseguinte,
promulgado data de
2003 e estabelecie a
“suspensão e a
cassação do alvará de
funcionament o dos
esta belecimentos que
comete m atividades
APROVADOS

2
ilegai s”

EM TRAMITAÇÃO
CÂMARA MUNICIPAL
13 PLs tratam de
prostituição na
condição de
6
ARQUIVADOS

4
objeto ou como
parte do projeto,
sendo o primeiro
de 1992 e o mais
OUTROS ENCAMINHAMENTOS
recente de agosto
de 2015

Fonte: Portal de Transparência Pública da Câmara Municipal de São Paulo

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O ano de 1997 foi ainda o que mais recebeu PLs e atentatórios ao pudor”.
com propostas de intervenção à prostituição.
Nos 23 anos que separam o primeiro e último
Além de Neder, outros dois vereadores entraram projetos – 1992 e 2015 –, há muitas idas e
com projetos naquele ano – um retirado de pauta vindas de propostas focadas em cassar alvarás de
pelo próprio autor e outro arquivado em 2001. funcionamento de casas noturnas e aplicação de
As iniciativas municipais, à época, acompanhavam sanções a estabelecimentos que comercializam
o debate sobre o tema lançado pela Câmara dos prostituição ou tráfico de pessoas, como o PL
Deputados na forma do PL 3436/97, do então 382/15, do vereador Quito Formiga (PSDB). Apesar
deputado Wigberto Tartuce (PPB). O PL, arquivado de ter sido arquivado em janeiro de 2017, o PL
em meados de 1999, buscava a “regulamentação voltou à tramitação na Câmara em abril do mesmo
das atividades exercidas por pessoas que praticam a ano e, hoje, consta como “em andamento” na Casa.
prostituição em desacordo com os costumes morais A última deliberação data de 11/10 passado.

O SEXO NA NOITE PAULISTANA PERDE ESPAÇO PARA AS REDES

Não há hora nem lugar. São Paulo Estar nas ruas tem seus riscos, As que preferem ser abordadas:
não para, e elas conhecem a mas há um tipo de aprendizado algumas ainda estão nas ruas,
máxima. Expostas como produtos que só adquire quem está lá. Elas, outras migraram ou já iniciam
prontos ao consumo, garotas por exemplo, abordam apenas suas carreiras no universo do
de programa ainda ocupam um cliente por vez. Não são de entretenimento sexual a partir
as calçadas da região central desprender atenção a duplas ou das páginas da internet. Dos
da capital paulista, numa das grupos com dois ou mais homens. tradicionais blogs aos perfis
atividades mais conhecidas da Isso, claro, aquelas que não e contas nas redes sociais e
cidade. Todos sabem que elas esperam para serem abordadas. plataformas de relacionamento,
estão ali. A roupa, por vezes as chamadas “acompanhantes”
um vestido ou shorts jeans oferecem seus serviços com a
relativamente curtos, e a bolsa praticidade de um toque na tela
como acessório indispensável dão e exibem-se com a liberdade de
a letra de que, ao cair da noite, quem não corre o risco de ser
estão a serviço nos arredores atacada com a violência gratuita
da estação da Luz ou em ruas da de clientes hostis.
República e Princesa Isabel.
Não que eles tenham deixado de

16 PULSO|DEZEMBRO
existir. Os hostis uma vez ou outra econômica materializada na
aparecem, porém, agora, com troca de sexo por dinheiro,
menos frequência. Na nova versão pois, para além dela, podemos
da prostituição, que está longe observar relações educativas, de
de substituir a milenar, a noite amizade e solidariedade – entre
paulistana mantém seu charme, prostitutas, clientela e demais
mas deixa de servir como o único pessoas que interagem em
espaço para a comercialização de 42 mil seguidores em apenas contextos de prostituição – e de
da prática. Na internet, as uma rede social. “Gosto muito cuidado e proteção – entre elas e
garotas determinam quem e onde de sexo”, confessa Stokweel, seus filhos e filhas –”.
atender e o maior temor são os que recorda ter iniciado a vida
comentários desrespeitosos e os de garota de programa com 17
perfis falsos. anos, quando saiu com um “cara Fui tirada de vadia,
[Sic] que conheci em uma sala
As mudanças no mercado da de bate papo, deixei uma breve inclusive com a
prostituição não influenciaram
nas razões expostas por boa
mensagem falando sobre meu minha família me
trabalho de acompanhante, e ele
parte das garotas para estarem me chamou no MSN”. Em troca
desrespeitando
Gabriela Stokweel,
ali: quando não afirmam que recebeu 70 reais de cachê. garota de programa
gostam do que fazem, o alto
retorno financeiro julgado como
“fácil” é a principal explicação
para a prática sexual em troca de
benefícios.

Gabriela Stokweel – nome fictício


–, que prefere não se identificar,
faz parte do grupo de garotas Garota de programa, Gabriela
Stokweel em série de fotos de perfil
que descobriu que podia ganhar /ARQUIVO PESSOAL
dinheiro fazendo o que gosta. Mesmo sendo integrante de Stokweel só passou a pensar
uma família de classe média de tal forma, conta, quando
Saída da casa dos pais aos 18 anos, alta, Stokweel diz que a prática “fui tirada de vadia, inclusive
a loira Gabriela tem 25 anos e a permitiu unir o “útil ao com a minha família me
muitos fãs na internet – são mais maravilhoso”, por envolver desrespeitando”. Esse tipo de
dinheiro e abrir espaço para que “explosão”, segundo a professora
explorasse seus desejos. Fabiana Rodrigues, está entre os
processos educativos estudados
O relato de Stokweel contraria por ela. “Tive a oportunidade
uma recomendação da Doutora de identificar e discutir alguns
Fabiana Rodrigues. A professora diz processos educativos, como
que é “preciso evitar abordagens desenvolver a autoestima, erguer
reducionistas que limitam a a cabeça e não ter vergonha de
prostituição à sua dimensão ser prostituta”, explica.

PULSO|DEZEMBRO 17
Já a paranaense de nome manteve relacionamento até está com outro parceiro sexual.
fictício Sara Müller, de 27 anos março passado, apresentou uma Então conversamos sobre essa
e com aproximadamente 66 mil maneira de conseguir dinheiro decisão e ele deu o maior apoio”,
seguidores em apenas uma rede mais rápido e, de quebra, realizar ressaltando que a decisão
social, deixou a casa em que vivia um fetiche sexual seu. de entrar para o universo do
com a mãe – única integrante entretenimento sexual não levou
de sua família – em 2015, Müller explica que “estava com em conta apenas o desejo do
para conquistar não somente muita vontade de sair de casa e então namorado, mas o aspecto
a independência financeira, pensei em como eu poderia fazer financeiro favorável e o desgaste
até porque trabalhava em uma para conseguir dinheiro mais do convívio familiar de muitas
agência de viagens, mas a rápido. Na época eu namorava e brigas com a mãe.
privacidade de morar sozinha. Em ele tinha o fetiche de ‘se fingir
janeiro daquele ano, o primeiro de corno’, que sente prazer Enquanto Stokweel chegou a
e único namorado, com quem em ver ou saber que a mulher trabalhar nas ruas antes de

Com o trabalho eu pagava as


minhas contas, minha faculdade
e o dinheiro dos programas eu
colocava na poupança. E tem mais,
os pais acham que, por morarmos
com eles, vão mandar na gente o
tempo inteiro, e isso estava me
incomodando acompanhante
Sara Müller,
de
luxo

Acompanhante de luxo, autora e blogueira,


Sara Müller prefere não mostrar o rosto
/ARQUIVO PESSOAL E CLAUDIO PORTO

18 PULSO|DEZEMBRO
oferecer seus serviços apenas corpo, parece acompanhar a nova em troca de remuneração ou
por meio de aplicativo de geração de garotas de programa apenas serve de meio para a
relacionamento, Sara Müller que se apoiam na internet. independência financeira. Ela diz
iniciou e segue sua trajetória na Tanto Müller quanto Stokweel que “há também outros motivos,
internet, com perfis em redes classificam suas atividades como a possibilidade de viajar, de
sociais e administrando um blog, como satisfatórias e caminho conhecer novos lugares, pessoas e
o “Diário de Sara Müller”, em que relativamente fácil para alcançar culturas, de ter horários flexíveis
escreve sobre os encontros. Müller objetivos que vão além dos e sem jornada preestabelecida
lançou um e-book no início deste prazeres do sexo. e fixa”, assim como a simples
ano e Stokweel é proprietária de identificação com o “estilo de
um canal de vídeos em um dos Na mesma linha, a Doutora Fabiana vida boêmio, no qual é possível
maiores websites de conteúdo Rodrigues também acredita que beber, conversar e aproveitar a
pornográfico do mundo. o significado da prostituição noite”.
A exposição, não somente do supera a relação profissional

OLHAR ACADÊMICO

Ao longo de 15 anos de pesquisa junto às garotas, Já a primeira, a abolicionista, “o ingresso e


Rodrigues analisou as duas correntes teóricas a permanência são considerados como frutos
sobre a temática prostituição: a abolicionista, da coação de outra pessoa, nunca resultado
que percebe a prostituta como vítima destituída de ação voluntária ou escolha da mulher”,
de voz e da capacidade de falar por si, e a define, destacando que, nessa perspectiva, a
regulamentarista que afirma a autodeterminação prostituta foi levada pelas vicissitudes da vida
da garota de programa, percebendo-a como a “cair” na prostituição, reforçando os riscos
sujeito capaz de realizar escolhas, ainda que tais e vulnerabilidades da prática e tornando a
escolhas sejam feitas em um contexto de poucas prostituta em alguém que precisa ser “resgatada”
oportunidades sociais, como, por exemplo, o e “salva”.
difícil acesso à educação, moradia e trabalho.
Rodrigues vai além e afirma que as garotas
A Doutora explica que, na regulamentarista, sabem as diferentes formas de percebê-las
“é reconhecida a possibilidade de exercício e têm se organizado para reprovar qualquer
voluntário da prostituição e entende-se aspecto da teoria abolicionista, que as reduzem
que a prostituta, além de realizar escolhas, à condição de vítima. A movimentação, segundo
é capaz de identificar os problemas que a a pesquisadora, dar-se porque a figura da “puta
desafiam cotidianamente – machismo, racismo, coitadinha”, historicamente, não tem colaborado
neoliberalismo, sexismo, putafobia, entre outros na luta por direitos.
– dentro e fora dos contextos de exercício de
prostituição e, como mulher, é capaz de engajar- Ao contrário, tem reforçado o processo de
se na busca pela transformação de sua realidade, coisificação e desumanização das mulheres
criando estratégias e ações voltadas à superação prostitutas, alimentando a violência e o estigma
de tais problemas”. sobre esse grupo social.

PULSO|DEZEMBRO 19
SEGURANÇA E APOSENTADORIA sobre prostituição foi deturpada, COM A PALAVRA
sendo “possível observar que
Os perigos da atividade foram justamente essas questões têm A equipe de Pulso entrou em
sendo extintos à medida que as sido destacadas e veiculadas contato, por e-mail, com a
garotas vão aderindo protocolos nos mais diversos meios de assessoria de comunicação da
de segurança e experiência. comunicação, sobretudo, por Câmara Municipal de São Paulo,
Entre as ações, segundo Fabiana grupos abolicionistas que querem com o objetivo de obter algum
Rodrigues, está a “criação de perpetuar a imagem da prostituta posicionamento sobre os projetos
redes de solidariedade, nas como vítima, uma vez que nutrem de lei citados na reportagem.
quais partilham informações a intenção política de erradicar a A assessoria da Câmara não
sobre clientela, proprietárias/ prática da prostituição”. respondeu o contato.
os de casas noturnas, locais
bons, seguros e com as melhores Por ora, tanto Gabriela Stokweel NOTA
condições para prestar os como Sara Müller não têm o
serviços”. desejo de deixar a vida de garota A íntegra das entrevistas com a
de programa. Ambas afirmam Doutora e Mestra em Educação
“A vulnerabilidade e os riscos que o tempo as tornaram mais Fabiana Rodrigues de Sousa e com
da atividade nem sempre se profissionais e que ainda há a garota de programa Sara Müller
constituem como tema central sonhos a se realizar antes da estão disponíveis no website
que define o seu fazer e sua aposentadoria. jcronistas.com
ocupação”, afirma a professora,
que lembra como a discussão

20 PULSO|DEZEMBRO
PULSO|DEZEMBRO 21
resenha | pulso
Bohemian Rhapsody: Queen como
você nunca viu
Com atuação sensacional de Remi Malek, filme transporta o
telespectador para dentro da história
Por: Caio Rogério

E streou esta semana em todos os cinemas do Brasil


e do mundo o filme Bohemian Rhapsody, contando
a história de Freddie Mercury e da banda Queen. O
filme busca retratar o encontro de Freddie e os outros
com arqueólogos). Talvez isso tenha chamado atenção
para ser escolhido para o papel e também o físico muito
parecido com o cantor. Fez participação em diversos
episódios de series e filmes e atualmente ele interpreta
integrantes da banda, até o fim do período em que o protagonista Elliot, na série de TV americana Mr. Robot,
tocaram juntos e a história está sensacional. Cuidado atualmente em sua 3.ª temporada. Nela ele faz o papel
com os spoilers. de um hacker que derruba o sistema financeiro mundial,
derrubando assim o capitalismo. E em setembro de 2016
Como todos os fãs de cinema e música tive minhas conquistou o Emmy por melhor ator da mesma série.
ressalvas. Na maioria das vezes quando há uma transição,
seja dos quadrinhos pra tela, ou da vida real pro cinema, Mas como Freddie Mercury, ele se superou. Apesar de,
a história é alterada para que fique mais chamativa, o à primeira vista não se parecer muito com o cantor,
que faz com que fuja da realidade dos fatos e desanime Malik usou e abusou de trejeitos, poses e falas originais,
quem foi com alta expectativa ao cinema. Bohemian adotando até mesmo o uso de próteses dentárias para
Raphsody parece ser a grande exceção. uma melhor performance. Parece revisitar as memórias
de Mercury enquanto caminha pelas cenas. Vemos cenas
O ator Rami Malek conseguiu, numa atuação maestral, épicas de seus relacionamentos, os duradouros e os
trazer a nós uma verdadeira reencarnação de Farrokh efêmeros, passageiros e boêmios. Vemos suas festas
Bulsara, ou, conhecido pelo seu nome artístico, Freddie
Mercury. O vocalista do Queen era um rapaz ingllês que
gostava de música e começou sua vida sendo carregador
de malas no aeroporto. Até que em um dos momentos
que tira pra descontrair, indo a shows de rock, conhece
os outros integrantes do que viria a ser a banda inglesa
Queen no futuro: Brian May, John Deacon e Roger Taylor.

Malek, ator americano de origem egípcia, vinha ganhando


espaço e construindo sua carreira, sendo chamado e
cotado para series e participações em filmes. Havia
participado do filme “Uma noite no Museu”, interpretando
o Faraó Ahkemenrah, onde adotou um sotaque Inglês
/REPRODUÇÃO
para o papel (o faraó adquire o sotaque devido a contato

22 PULSO|DEZEMBRO
excêntricas e a sua busca pelo diferente. Seu amor por e coadjuvantes da história. Se você chega até as cenas
gatos e sua paixão pela melhor amiga Mary Austin, com finais do filme e vê as imagens dos músicos na época,
quem teve um realinhamento de 6 anos e deixou a maior toma um susto tamanha a semelhança deles com os
parte de sua fortuna após sua morte. Temos uma clássica originais. Toda a excentricidade e genialidade de Mercury
cena onde Freddie, que nasceu com quatro incisivos a mais chega até nós de forma natural, pura, honesta, longe de
na boca, teve sua aparência questionada numa coletiva de qualquer caricatura forçada e preconceituosa. Vemos sua
imprensa. Em uma das cenas, um repórter pergunta: “Por sexualidade bilateral sem qualquer preconceito, apesar
que não conserta seus dentes? ” Ele responde: “Porque de muitas vaias de pessoas conservadoras que dominam o
com minha boca assim consigo atingir notas que nenhuma nosso atual cenário político e também os cinemas.
outra pessoa consegue”.
Um filme que parece agradar a gregos e troianos. Críticos
Não parece que estamos diante de um filme, a impressão ao redor do mundo dizem que é uma biografia Nutella,
que temos é que estamos lá, na época em que ocorreram que pega leve nos fatos, como a homossexualidade e as
os fatos, ali, como um integrante da banda, ou um drogas, para não chocar a família tradicional, aborda a
figurante da cena. O coração dispara, você quer conversar AIDS de forma cruel e como se Freddie fosse o vilão da
com aquele Freddie, entender suas angustias, abraçá-lo, história toda. Ao meu ver, são pessoas que não gostam que
sorrir com ele, chorar. Transmite uma empatia que poucas se toquem em ídolos e seus altares, que mexam em suas
vezes vi um filme me despertar. E olha que, como disse, memorias. Se você é fã sai extasiado da sessão, quem não
eu tinha minhas dúvidas. Depois da troca de Sacha Baron conhecia antes, passa a gostar. Lembro-me na infância
Cohen, comediante e ator, que se parece demais com de ouvir de adultos conservadores e extremamente
Freddie, achei que Remi não fosse dar conta, que talvez machistas que, ao passar músicas da banda Queen na
tivesse sido escolhido apenas por estar em alta, como televisão diziam: “Esse viado era mais macho que muito
ocorre muito com atores de Hollywood, sabe quando sai homem. Esse tem o meu respeito”. Antes desse filme,
muitos filmes seguidos com o mesmo ator porque ele está Mercury já era respeitado, pela sua música acima de tudo,
famosinho? Ele rouba a cena, faz e faz bem feito. Sem falar pela emoção que transmitia quando seu som ecoava nos
nos figurinos, que estão totalmente fieis aos originais. ouvidos das pessoas, e de gerações mais novas, como a
Podemos ver praticamente todas as roupas que já foram minha, que não puderam presenciar enquanto ele ainda
vistas sendo usadas pelo vocalista, em shows, entrevistas, era vivo. Se restava alguma dúvida de seu talento e obra,
programas de televisão. A atuação nos convence e não o filme vem pra por um ponto final em tudo isso. Como
falo só do protagonista. Todos os integrantes, parecem diria o cartaz do filme: “A única coisa mais impactante
se dedicar de corpo e alma, entre músicos, advogados que a sua obra era a sua música”. Amém, Freddie, amém.

/REPRODUÇÃO

PULSO|DEZEMBRO 23
Vilões para o
Estado, heróis
de suas famílias:
a vida dos
“Marreteiros”
dos trilhos de SP
Acompanhamos a jornada dos ambulantes que se arriscam
física e financeiramente todos os dias para sobreviver, em
meio a uma guerra contra a segurança da CPTM
Por: Adriano Garcia
Victor Ricardo

E les são reservados, por vezes


arredios. Foram necessários
meses para ganhar a confiança
de grande parte dos vendedores
estação Estudantes, em Mogi
das Cruzes. Uma aproximação
cautelosa, pois o ambiente é
hostil. Estes trabalhadores temem
E são os Policiais Ferroviários,
na visão desse grupo de
trabalhadores, os grandes
adversários na luta pelo ganha-
ambulantes que trabalham na tudo. Regra básica: sem imagens pão. Para T.S.R, 26 anos – vamos
mais movimentada linha da CPTM que possam os identificar. Nem identificar assim os ambulantes,
em São Paulo, a 11 Coral, que mesmo fotos sem o rosto tem com suas iniciais –, há abuso de
liga a estação da Luz, no Centro, consentimento, já que, segundo poder na atuação dos agentes. “É
ao extremo Leste da região eles, suas vestes podem gerar do humor deles, se o dia tá bom
metropolitana – primeiramente uma identificação por parte dos ou não. Se eles sentirem vontade
até Guaianases e com final na Policiais Ferroviários. de pegar só a sua mercadoria e

24 PULSO|DEZEMBRO
te botar pra fora é essas. Se eles paga imposto, tá embutido no
sentirem vontade de te passar produto”, conta S.S.R, de 38 anos.
uma rasteira e te encher de bica Outro vendedor, R.R de 22 anos,
fazem. A gente vai fazer o quê?”, comenta sobre como despista
relata. Isso revolta A.A, de 30 os rivais: “o negócio é ser mais
anos, que afirma: “cara, nem esperto que eles. A gente tem
contravenção é, não existe uma que ver eles antes deles verem
lei que proíba a gente de atuar. A a gente. A gente não entra aqui
gente vende pra policial inclusive. pra perder, a gente quer estourar,
É que o Estado quer que pobre se ganhar dinheiro. Cada vez que a
lasque”. gente dá nossa mercadoria de
graça pra esses mer*** a gente
São muitos os relatos de casos fica na neurose”.
de violência, a maioria prefere
não declarar nada formalmente, Em meio a este cenário surgem
mas as histórias surgem. “Ah histórias de pessoas comuns,
cara, acontece muito, eles são que acabaram sendo levadas
as ‘autoridades’ aqui dentro, se a essa rotina, por falta de
você é abordado tem que ficar oportunidades, o que é gerado cara, aqui é livre entre a gente,
‘pianinho’, se eles acharem pelas mais diversas situações. se chegar com respeito, pode
que você ta achando ruim ou “Aqui tem de tudo cara. Tem cara trampar à vontade”, descreve
tá resistindo, você pode ir pra que tá processando a firma e por S.S.R. E realmente comprovamos
que, como disse o ambulante, “há
de tudo”. Uma dessas histórias é
E como você vai ‘gostar’ de a da senhora M.S.R, de 58 anos:
“Eu trabalhava com costura, mas
perder a mercadoria? A gente não consegui mais trabalho por
compra no atacadista como deS.S.R,
38 conta da artrite e nem consigo
qualquer comerciante. Quem anos o atestado médico. Tenho dois
disse que a gente não paga filhos, o mais velho casou e
imposto, tá embutido no produto saiu de casa e o outro sofre de
depressão e não trabalha, nem sai
do quarto. Eu trabalho sem folga,
salinha e ser agredido. Tem cara isso não consegue mais emprego. sete dias por semana, não tenho o
que já foi parar no hospital, Tem aposentado por invalidez que que fazer. Bate um desespero às
já teve traumatismo craniano. não consegue se sustentar com o vezes. Mas eu não posso deixar ele
Principalmente se eles acharem que ganha. Tem sim ex-presidiário desamparado, às vezes não tenho
que o cara não tem orientação, que não consegue emprego, mas nenhuma vontade, mas tenho que
eles agridem mesmo, te tem na quer viver honestamente e por vir”. Ela fala ainda da relação das
mão. E como você vai ‘gostar’ isso tá aqui. Tem muito casal mulheres com os guardas. “Olha,
de perder a mercadoria? A que deixa os filhos com as avós eu sinto que por a gente ser
gente compra no atacadista e vem pra cá, casais jovens. Tem mais velha – há outras senhoras
como qualquer comerciante. até quem vem só pra fazer o ‘do de mais idade trabalhando como
Quem disse que a gente não baile’ e é assim que tem que ser ambulantes – às vezes eles

PULSO|DEZEMBRO 25
deixam a gente passar, tem algum
respeito. Lógico que a gente não
pode mostrar pra eles, a gente
tem que fazer bem escondidinho,
mas eu to aqui todo dia meu filho,
se eles quiserem eles tomam”,
narra.

No período que passamos junto


aos vendedores ambulantes vimos
muitas situações. Na propaganda Marreteiro em um dos trens da
Linha 11 - Coral da CPTM
institucional da CPTM fala- /CLAUDIO PORTO
se em “procedência duvidosa”
das mercadorias e que se “não
comprar, ambulante vai acabar”, pelo bom-senso das pessoas, conheço os meus direitos hein’.
o que revolta A.A: “como assim pedindo lugares para mães com Eles recuam na hora. Acho que
a gente vai acabar? A gente vai crianças de colo e idosos. Há um é isso que falta pra nossa classe
perder o sustento e vai morrer? bordão com o qual eles brincam também, se organizar, saber os
Querem fazer a atividade que que diz: “alguém pode dar o lugar direitos. A gente sofre abuso
eles acham que é ilegal acabar? para a criança com a mãe no porque a maioria é de moleque
Regulamentem ou cadastrem colo’?”. Uma forma divertida de desinformado, bitolado. Já
para emprego ou até mesmo para lutar contra a falta de cidadania teve processo aqui, já teve cara
empreendedorismo, deem alguma de alguns. “É cara, tem isso – a sendo exonerado, já pararam de
chance”. frase –, a gente brinca né cara, colocar os caras à paisana um
a gente faz disso uma forma de tempo atrás, mas passou, pessoal
Como assim amenizar uma situação que dá esqueceu e agora ta acontecendo
a gente vai uma puta neurose. O país tá desse tudo de novo”, diz S.S.R.
acabar? A A.A, jeito aí que a gente tá vendo e vai
piorar agora com Bolsonaro por De acordo com a CPTM, 90% dos
gente vai de 30
causa disso. Cada um pensa só passageiros são contra a atividade
perder o anos
em si mesmo e foda-se o outro. dos vendedores ambulantes,
sustento e Cara, eu conheço meus direitos, porém não há na peça publicitária
vai morrer? eu tô em toda sessão aberta da qualquer informação sobre a
Câmara, orçamento participativo, metodologia do levantamento.
o não cumprimento de Estatutos,
Em várias oportunidades, os
que faz com que muita coisa A equipe de Pulso conversou
ambulantes são muito mais do
não aconteça pro pobre, pro informalmente com usuários dos
que “ilegais que atrapalham e
pessoal da periferia. A falta de trens e a opinião, claro que cada
sujam a viagem”, como coloca
investimento em cultura, eu tô aspa dita de uma maneira, seguiu
a CPTM. Há vezes em que eles
lá, junto com o movimento hip- uma mesma linha: a de que são
fazem o papel de “zeladores
hop. Eu conheço os meus direitos, pessoas que estão trabalhando
do trem”, apartando brigas,
sempre que um cara desses que honestamente para sobreviver e
interceptando batedores de
nem polícia é, ameaça pôr a mão que ninguém deveria ter direito
carteira e até mesmo clamando
em mim é isso que eu falo: ‘eu de tomar suas coisas. Inclusive, a

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frase “por que não correm atrás quando a gente não faz RM – engolem o choro e, com o olhar
de bandido” pôde ser ouvida Documento de Recolhimento de ainda marejado, transformam-
algumas vezes. Mercadorias –. Esse negócio de se em pedintes com o RM na mão
que passageiro reprova a gente em busca da colaboração das
A também experiente V.L.S, trabalhar aqui é tudo mentira pessoas. Tais relatos sustentam
de 55 anos, acredita que deve rapaz. É porque eles são contra o algumas questões: alguém
ficar ainda por muito tempo povo mesmo”. realmente lucra com a repressão
trabalhando sobre os trilhos aos vendedores ambulantes? A
da CPTM. “Meu filho, eu vivi a Muitos dos vendedores população realmente reprova a
vida inteira aqui dentro, vai ser ambulantes não quiseram se atividade desses trabalhadores?
agora que vou sair? Eu já tive pronunciar, assim como não A regulamentação da atividade
um quiosque aí na estação, mas pudemos registrar situações geraria prejuízos a algum setor?

Vendedor ambulante com sacola de produtos


na plataforma central da estação da Luz
/CLAUDIO PORTO

o mundo gira, tive de voltar pra como alguns vendedores Enfim, são perguntas que ficam
cá e voltei com orgulho, porque correndo para os trilhos na no ar e que talvez você que esteja
é o que eu sei fazer. A gente tentativa de escapar de guardas lendo já imagine as respostas.
vive daqui, a gente zela por aqui, fardados ou não; ambulantes
somos tratados como lixo, mas feridos após a abordagem de COM A PALAVRA
é a gente que repreende quando agentes de segurança; pessoas
alguém vem fazer bagunça aqui desoladas por terem perdido A equipe de Pulso entrou em
dentro, vem roubar. Guarda tá nem a mercadoria comprada com o contato, por e-mail, com a
aí, quer mais é comer de graça o único dinheiro que tinham; e assessoria de comunicação da
que a gente pagou pra comprar vendedores que, após perderem CPTM e não obteve resposta até
e revender. Eles comemoram vão por um momento às lágrimas o fechamento desta reportagem.

PULSO|DEZEMBRO 27
humor | pulso

Pulse

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