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FICHAMENTO

FUNARI, Pedro Paulo. Os historiadores e a cultura material. In: PINSKY, Carla


Bassanezi (Org.). Fontes Históricas. 2.e.d., 2ª reimpressão. São Paulo: Contexto, 2010.
P. 82-109. Disponível em: https://arqueologiaupf.wordpress.com/2015/12/01/os-
historiadores-e-a-cultura-material/ Acesso em: 09/04/2019.
Fabricio J. Nazzari Vicroski

As origens
Inicialmente Funari apresenta uma breve descrição sobre as origens da pesquisa
histórica na Grécia Antiga, materializada pelos escritos de Heródoto (484 – 424 a.C.),
Tucídides (464 – 401 a.C.) e Salústio (86 – 34 a.C.). Na época a História era entendida,
antes de tudo, como um gênero literário, seu objetivo era compreender o presente
através de investigações sobre o passado, metaforicamente esta sistematização dos
acontecimentos passou a designar o estudo do passado. “A Historia, como relato do
passado, tinha, pois, um caráter ético, no sentido de que impulsionava os homens a
agirem em certa direção” (p. 82). Tratava-se de uma moralidade cristã, interrompida
somente no século XIX com o surgimento da História moderna, como fruto da luta
iluminista contra as concepções religiosas do mundo.
Os primeiros historiadores modernos buscavam conhecer “aquilo que realmente
aconteceu”, exigindo para tanto o conhecimento das fontes e documentos escritos. Estes
documentos deveriam ser analisados em sua língua original, reduzindo assim a
probabilidade de fraudes. Sob este viés, “os documentos escritos tornaram-se sinônimos
de História, a tal ponto que, até hoje, usamos a expressão Pré-História para referirmo-
nos a um passado sem escrita” (p. 84).
Todavia, os antigos historiadores consultavam os documentos somente de forma
indireta, pois para eles a História se fazia com testemunhos, paisagens e objetos,
portanto, visitavam os lugares dos acontecimentos históricos, registravam os relatos dos
habitantes, as características da paisagem, dos templos e edifícios, logo, faziam uso
de fontes materiais, atualmente denominadas de fontes arqueológicas, fazendo com
que por muito tempo a Arqueologia fosse encarada como uma disciplina auxiliar da
História.

A Arqueologia como disciplina histórica e as fontes


A Arqueologia surgiu devido à necessidade de disponibilizar as fontes escritas e de
complementar os dados existentes, utilizando-se para isso das informações obtidas
através da análise de vestígios materiais. Considerando a importância atribuída aos
documentos históricos, os historiadores do início do século XIX direcionaram seus
esforços para a publicação de antigos documentos. Na esteira deste processo, surgiu a
preocupação com a preservação destes acervos e a criação de arquivos públicos,
consequentemente, houve um grande esforço dos arqueólogos no sentido de compor
acervos e publicar os resultados de suas análises. O século XIX marca a transição do
significado atribuído à cultura material, deixando de ser considerada como um artefato
artístico ou objeto de colecionador, para assumir a característica de fonte histórica,
abandonando assim a categoria do estético e pessoal em benefício do científico e
coletivo. O acervo de antiguidades foi transformado em fonte científica de informação,
a exemplo da civilização maia, até então com a escrita não decifrada, passou a ser
objeto de estudo dos historiadores, que passaram a utilizar os artefatos materiais como
fonte primária. “Visando à transformação da cultura material em fonte histórica, foram
sendo criados métodos científicos para esse trabalho arqueológico” (p. 86).

Fontes epigráficas e artefatos


Dentre os grandes acervos arqueológicos disponíveis no século XIX, as inscrições
receberam uma atenção particular dos pesquisadores, transformando radicalmente o
próprio conceito de fonte histórica, além de influenciar de forma decisiva a escrita da
História.
A história de antigas civilizações como a grega e a romana, antes baseada somente em
fontes de tradição textual, passou a incorporar os dados proporcionados pela
Arqueologia. “Até mesmo a periodização da História passou a ser tributária dessas
fontes, como no caso do Egito Antigo, de modo que as próprias categorias do
historiador passaram, já no século XIX, a ser tributárias da Arqueologia” (p. 88).
O final do século XIX e início do século XX marcou a ampliação do conjunto de fontes
arqueológicas, cujo processo também se aprofundou ao longo do século XX no âmbito
da pesquisa histórica. A objetividade histórica apregoada pelo positivismo passou a ser
questionada pelas Ciências Humanas, exigindo mudanças conceituais. Os historiadores
deixaram de lado a “busca pela verdade”, bem como sua ênfase no fato histórico e seus
grandes personagens, em benefício do quotidiano das pessoas comuns, cuja abordagem
era alimentada pelos dados resultantes das pesquisas arqueológicas, pois a cultura
material é constituída, em sua maioria, de artefatos banais de uso cotidiano, legados à
posteridade de forma involuntária. “A partir daí, as fontes arqueológicas passaram a ser
parte integrante e essencial da pesquisa histórica e os bons historiadores, mesmo quando
não se dedicam, no detalhe, à cultura material, não deixam de levá-la em conta” (p. 90).
A Escola dos Annales representa a incorporação da cultura material como fonte
histórica no âmbito dos movimentos historiográficos do século XX, buscando assim
uma ampliação das fontes para além dos arquivos e documentos escritos. O estudo da
cultura material também foi recorrente na historiografia marxista, porém, fundamentado
na percepção de que as relações sociais e a História estão alicerçadas em relações
materiais

Como usar: As ferramentas interpretativas e as informações prévias


Assim como um documento escrito, as fontes arqueológicas também precisam ser
analisadas e interpretadas, pois muitas vezes os vestígios se limitam à objetos de pedra,
artefatos cerâmicos, restos de alimentação, fogueiras ou vestígios de habitações. A fim
de extrair informações destas fontes, é preciso fazer uso de ferramentas
interpretativas, pois “sem modelos interpretativos, corremos o risco de pensar que
estamos, diretamente e sem mediação, “descobrindo” o que aconteceu” (p. 94).
Também é fundamental (quando disponível) realizar o levantamento das informações
já registradas sobre a sociedade pesquisada, além de estar atento aos achados
arqueológicos, às evidências materiais que permitem ao historiador formular
hipóteses.
Para períodos mais recentes pode-se traçar paralelos etnográficos, abordando as fontes
arqueológicas em analogia com outros povos em situação semelhante. Determinados
comportamentos atuais podem auxiliar na formulação de conceitos aplicados à
sociedades passadas.

Fontes arqueológicas e fontes escritas


Várias sociedades ágrafas são mencionadas em escritos de outras civilizações com as
quais tiveram contato, possibilitando o seu estudo através de uma abordagem articulada
entre as fontes escritas e a cultura material. Serve-nos de exemplo as possibilidades de
estudo do contato entre europeus e indígenas na América, ou ainda a análise da
formação das cidades coloniais brasileiras que, assim como as cidades medievais
portuguesas, apresentam uma forte influência do período romano.
As fontes arqueológicas também permitem o acesso aos segmentos sociais pouco
visíveis, pois mesmo em sociedades com escrita há segmentos iletrados da população
que se mantêm ausentes das fontes escritas ou são mencionados de forma negativa.
Neste sentido, as diferenças e contradições entre as fontes podem ser utilizadas pelo
historiador a fim de esclarecer e melhor interpretar o seu objeto de estudo, a exemplo da
chamada República de Palmares, destruída pelos portugueses em 1694, cuja fonte de
conhecimento histórico ficou restrita, durante séculos, aos documentos oficiais, que
apresentavam uma visão parcial e tendenciosa.
A partir de escavações arqueológicas realizadas no local, foi produzido um grande
volume de informações que permitiu questionar as fontes escritas, evidenciando a
mescla cultural, a importância da participação de indígenas e colonos, além da formação
da uma elite local.

As fontes arqueológicas e os estudos dos conflitos


Mesmo nos casos em que os documentos escritos são abundantes, “as fontes
arqueológicas podem fornecer indícios de conflitos e resistência, em geral subestimados
pela literatura produzida pelos letrados” (p. 102). O comportamento de resistência é
muitas vezes registrado em fontes escritas a partir do ponto de vista do grupo
dominante, induzindo o pesquisador a considerar tal comportamento como desviante ou
representante de uma minoria.
A partir de documentos escritos, por exemplo, pode-se inferir que os próprios escravos
africanos aceitavam passivamente e submetiam-se à escravidão, ao passo que os
esforços de resistência eram pontuais e desviantes.
A cultura material encontrada nas casas-grandes norte americanas indica uma prática
utilizada pelos escravos a fim de prejudicar seus dominadores, tais vestígios
correspondem à unhas, cabelos, pó de cobra, escorpião, entre outros, escondidos nos
cruzamentos das paredes. Segundo sua simbologia, tais elementos poderiam causar
doenças aos moradores, indicando a presença de um código simbólico de resistência
utilizado pelos escravos e ignorado pelas fontes escritas.
É importante destacar que os vestígios arqueológicos constituem uma fonte de
informação não apenas para os períodos mais recuados da História, mas também para
épocas e episódios recentes, tais fontes “ajudam o historiador a dar conta de um passado
muito mais complexo, contraditório, múltiplo e variado do que apenas uma única fonte
de informação permitiria supor” (p. 105).

Condições de acesso
Para ter acesso à acervos arqueológicos o historiador pode participar de escavações
arqueológicas, ou ainda pesquisar coleções disponíveis em museus e consultar os
estudos já publicados, sendo que este último procedimento corresponde à situação mais
comum, pois algumas publicações, catálogos de peças e relatórios de pesquisa trazem
um grande volume de dados descritivos, cabendo aos arqueólogos e historiadores o
esforço analítico e interpretativo. Assim como na documentação escrita, é importante
realizar o fichamento das fontes arqueológicas, separando as interpretações da
documentação primária.
Por fim, além dos tópicos relacionados, Funari apresenta um guia de leituras sobre o
mundo das fontes arqueológicas no Brasil e no exterior, destinado àqueles que
pretendem se aprofundar no estudo das fontes arqueológicas.
Trata-se de um ensaio de grande relevância para os historiadores que utilizam a cultura
material como fonte de pesquisa. Para além de um texto introdutório, o autor nos trás
um relato das possibilidades vislumbradas através de sua prática profissional.
Independente do viés teórico e metodológico adotado pelos historiadores, é notório o
fato de que a multiplicidade de fontes tende a possibilitar o cruzamento,
complementação e a crítica das fontes, enriquecendo a prática historiográfica. Sob este
viés, a cultura material pode ser utilizada pelos pesquisadores para elucidar temas da
história remota, bem como de períodos recentes. O texto de Funari é um convite aos
historiadores, pois além de demonstrar que a pesquisa da cultura material não é
exclusividade dos arqueólogos, também perpassa sem percalços as discussões sobre a
cientificidade da escrita da história, que por vezes atuam como forças restritivas ao
avanço da pesquisa, rompendo conceitos e apontando um horizonte de possibilidades.
Arqueólogo do Núcleo do Pré-História e Arqueologia da Universidade de Passo Fundo
(NuPHA/UPF). Doutorando junto ao Programa de Pós-Graduação em História
(PPGH/UPF). Resenha realizada no âmbito da disciplina intitulada “Fundamentos da
Pesquisa Histórica”, ministrada pelo Prof. Dr. Adelar Heinsfeld (2º semestre de 2015).