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Adoração Reformada — A Adoração que de acordo com as Escrituras.

Copyright © 2001 | Os Puritanos

Traduzido do original em inglês:


Reformed Worship Is According To Scripture
Terry L. Johnson

Salvo indicação em contrário, as citações bíblicas foram extraídas da


versão Revista e Atualizada (2.a edição, 1993) de João Ferreira de
Almeida. © Sociedade Bíblica do Brasil.

1.a Edição em Português — Junho de 2001

É proibida a reprodução total ou parcial desta publicação sem a


autorização por escrito do editor, excetuando-se citações em resenhas
desde que citada a fonte.

PRODUÇÃO EDITORIAL:
Editor: Manoel S. Canuto
Tradutor: Josafá Vasconcelos
Revisor: Heraldo F. Almeida
Designer: Heraldo Almeida

ISBN: 978-85-62828-07-6

Crédito da foto de capa: Splitcast


ID da foto de stock: 173571992

www.os-puritanos.com
Sumário

Capa
Créditos
Buscando Orientação
Questões Introdutórias
Importância
A Adoração Começa com Deus

Adoração “Em Verdade”


De acordo com as Escrituras
Cheia das Escrituras

Adoração “Em Espírito”


Interna ou de Coração
Simples
Reverente

Concluindo o Assunto
Onde Isto nos Levará

Mídias
Nossos livros
Buscando Orientação
ARTIGOS DE JORNAIS, revistas e títulos de livros, têm focalizado a questão
experimentada praticamente por todas as congregações da América: “A
Guerra da Adoração”.1 E ela não se restringe às nossas igrejas. A mesma
batalha que divide as nossas congregações entre jovens e velhos, modernos e
tradicionais, brancos e minorias, também divide agências missionárias,
campos missionários e igrejas nacionais ao redor do mundo. As influências
da geração baby boom,2 da cultura de massa e do movimento carismático,
têm cooperado para trazer uma mudança rápida, controvertida e popular. As
formas de adoração tradicional: as ordens históricas do culto, os órgãos, os
hinos, os salmos metrificados, o credo, a oração “pastoral”, os sermões
bíblicos, tudo isso tem sido substituído pelas formas engendradas pela cultura
contemporânea: o soft rock, o formato coloquial e amigável de se expressar, a
atmosfera informal, o projetor multimídia e os sermões tópicos direcionados
às necessidades imediatas.
Igrejas Presbiterianas e Reformadas não têm ficado de fora dessas
tendências ou das consequências desse conflito. Toda a variedade de
“estilos”, da “busca amigável” à contrarreação litúrgica contemporânea dos
carismáticos, podem ser encontrados até nas denominações Presbiterianas
conservadoras. Se um observador da atualidade estiver certo, grande parte
dessas inovações forma um todo irresistível.3
Na resenha de um livro escrito por um teólogo Reformado que se propõe
a fazer uma entusiasmada defesa da adoração contemporânea, Jarryl Hart faz
a seguinte pergunta: “Pode ser mais agradável, mas será que é Reformada?”.4
A convicção assumida, mas não comprovada entre esses que fazem as
mudanças, é que a fé Reformada pode ser enxertada em qualquer forma de
adoração, seja ela reavivalista, litúrgica, carismática, contemporânea e ainda
assim florescer. Essa é uma teoria interessante, mas é somente uma teoria e
permanece sem provas. Além do mais, há boas razões para ceticismo. Minha
própria formação encoraja consideráveis reservas. Fui educado numa tradição
Batista reavivalista e frequentei a Igreja Comunitária da Graça de John
MacArthur durante os meados de 1970. Dessas duas fontes desenvolvi um
alto conceito da pregação, tanto expositiva como evangelística. Como
estudante da Universidade do Sul da Califórnia, recebi ampla influência dos
“corinhos” e das canções bíblicas do Maranatha Music e do Movimento
Jesus, dos quais na ocasião eu gostava muito. Deles eu aprendi algo sobre o
poder de mover as emoções, exercido pela música. Meus dois primeiros anos
de seminário foram passados no Trinity College, em Bristol, na Inglaterra,
onde, pela utilização diária do Livro Comum de Oração, aprendi o valor da
estrutura litúrgica reverente. Conquanto aprecie essas tradições, eu não creio
que elas ofereçam as formas que são adequadas para expressar e perpetuar a
fé Reformada. À igreja “baixa” da Inglaterra falta o senso da glória e da
majestade de Deus, que resulta da adoração bem-ordenada e teocêntrica. Já as
igrejas conservadoras anglicanas, pecam quanto à falta da espontaneidade e
do sentimento pessoal que são peculiares à adoração Reformada, com suas
orações espontâneas e pregação expositiva. O equilíbrio bíblico e
experimental que é característico da Fé Reformada é melhor expresso na
forma de culto que ela gera, isto é, a tradição Reformada de culto. Além do
mais, é questionável que o ethos Reformado, isto é, aquele conjunto de
elementos, tais como teologia, modo de ver a vida e o mundo, forma de
governo, piedade, adoração, enfim, tudo o que nos faz de fato ser
Reformados, possa ser enxertado em formas estranhas de adoração e ainda
assim sobreviver.
Não foi por acaso que o próprio Senhor Jesus se envolveu no debate
sobre a adoração com a mulher samaritana junto ao poço (Jo 4:7ss). Não há
nada de novo nessa controvérsia. Suas palavras tão básicas sobre o assunto
nos oferecem os princípios pelos quais tentaremos tratar a importante questão
que enfrentamos. Que questão? Para não perder o rumo, deixe-me tentar
enquadrá-la da maneira mais específica e precisa possível. Entre as milhares
de abordagens e formas pelas quais se pode tratar o assunto adoração, eu
proponho a seguinte questão: O que devemos fazer no Culto Público de
Adoração no Dia do Senhor? Creio que essa simples questão irá prover o
foco necessário, se quisermos tocar no cerne da questão, para não nos
perdermos em debates secundários. Esse modo de abordagem nos ajudará a
fazer a distinção necessária, se quisermos evitar confusão. Deixe-me explicar
o que não quero dizer sobre o assunto antes de colocar, com ênfase, o que eu
penso.
Questões Introdutórias
Público versus Particular
Em primeiro lugar, a questão a ser considerada não é o que poderia ser uma
expressão válida de adoração na privacidade de nosso quarto, ou no contexto
da família. Alguns escritores da atualidade tendem a obscurecer a distinção
entre adoração pública e particular, quando não a atacam abertamente.5 No
entanto, a distinção entre comportamento público e privado é a tônica da
aplicação da sabedoria bíblica (veja o livro de Provérbios). Por exemplo, o
vestuário que pode ser o mais apropriado na privacidade, seria qualificado de
ousado, provocativo e sedutor se simplesmente fosse exposto ao público.
Funções naturais, que se constituem um dom de Deus quando expressas
naturalmente no recesso do lar, em público seriam julgadas como vulgares,
rudes e até mesmo malignas. A intimidade conjugal é perfeitamente válida e
justa quando usufruída na reclusão do quarto do casal, mas se fosse exposta
ao público, o que é perfeitamente válido se torna imediatamente ímpio e
maligno. Em matéria de adoração, o Senhor Jesus ensinou que o que seria
apropriado em termos de posturas e expressões na oração em particular seria
inadequado em público, principalmente porque poderia atrair a atenção para a
pessoa. A colocação “praça” versus “quarto às portas fechadas” é crucial (Mt
6:4-6). Em relação à Ceia do Senhor, o apóstolo Paulo é direto: “Não tendes,
porventura, casas onde comer e beber?” (1Co 11:22). O comer, que seria
muito bem apropriado em casa, não o seria em público. Também há
perguntas que seriam bem-aceitas se fossem feitas em casa, mas não
deveriam ser feitas na assembleia pública (1Co 14:35). Esses poucos
exemplos ilustram como o ponto da distinção entre o “público/privado” é
vital, e que a Bíblia, ora explícita ora implicitamente, insiste que é necessário
fazer. Ela é enfática em determinar normas tanto éticas como litúrgicas.
Porque aquilo que pode ser permitido no culto doméstico privado, ou em
outras reuniões informais, não significa necessariamente que seja apropriado
em público. Por exemplo, no culto doméstico nós podemos comparecer de
pijamas. Eu posso fazer perguntas aos meus filhos, anotar seus pedidos de
oração e permitir que sugiram a seleção de cânticos. Mas tal vestuário e essa
interação entre pai e filhos, normalmente seriam impróprios para o culto
público. Num pequeno grupo de estudos, todos podemos discutir a passagem
que está sendo estudada e dar palpites sobre como ela deve ser entendida e
aplicada. Nós podemos, inclusive, tomar café e comer bolachinhas enquanto
discutimos. Tudo isso pode ser inofensivo e apropriado num contexto de
reunião informal e particular. Mas não no culto público. A questão não é,
então, o que pode ser uma prática válida para a nossa devoção particular, no
culto doméstico, ou nos pequenos grupos de estudo bíblico. Nosso interesse
está em determinar quais são as atividades apropriadas à reunião do Dia do
Senhor. Laboramos em erro se pensamos que a Bíblia não faz essa distinção,
e erro maior é pensar que nós mesmos não devemos fazer tal distinção.

“Amplo” versus “Limitado”


Segundo, a questão não é o que qualifica a adoração no sentido abrangente
em oposição ao limitado. Podemos perfeitamente salientar que o apóstolo
Paulo compara toda a vida a um culto de adoração no qual “apresentamos”
nosso corpo em “sacrifício vivo e santo” num “culto espiritual” (Rm 12:1).
Há, de fato, um sentido no qual podemos glorificar a Deus com toda a nossa
vida. Isso é verdade quando “comemos, bebemos ou fazemos qualquer coisa”
(1Co 10:31). Isso é adoração num sentido “amplo”. Nesse sentido eu posso
dizer que honro e adoro a Deus mesmo quando cavo um fosso, empino pipa
ou dou banho nas crianças. Tudo isso está muito bem e é bom, mas algumas
discussões recentes têm obscurecido essa distinção ao afirmar que o que
qualifica o primeiro pode também pertencer ao último.6 Então alguns
declaram que porque Deus pode ser glorificado por meio da música, da
dança, do teatro, dos vídeos clipes, nenhuma objeção deveria ser levantada
contra o seu uso no culto público. Mas o fato de uma coisa glorificar a Deus
“no todo da vida”, não responde à questão sobre se aquilo deve ou não fazer
parte do culto. Nós podemos apreciar todas essas atividades, e acharmos que
de fato Deus pode ser honrado por meio delas, e mesmo assim não aprovar
que sejam admitidas no culto público. Se eu devo ou não cavar um fosso,
empinar pipas, ou dar banho nos meus filhos no contexto do culto publico
não é a mesma questão se Deus pode ou não ser glorificado por meio dessas
coisas. Simplesmente não é verdade que toda atividade e expressão que
glorifica a Deus pode, por causa disso, ser transportada do contexto amplo de
adoração, para o contexto particular da assembleia pública. A questão
específica que precisamos responder é: o que deve ser feito no culto público
do Dia do Senhor?, e não, o que glorifica a Deus de um modo geral?7
Permitido Versus Apropriado
Terceiro, a questão não é meramente o que pode ser permitido, ou o que pode
ser tirado, e ainda permanecer no limite do que exige a regulamentação das
Escrituras. A adoração Reformada não pode ser reduzida a um princípio
regulador, particularmente a um princípio estritamente construído, mais do
que a Fé Reformada pode ser limitada aos “Cinco Pontos”. O princípio
regulador interpretado meramente como uma lista de elementos aprovados e
desaprovados não atinge (quando entendido estritamente) o ingrediente
fundamental da adoração: a reverência. Não toca na questão do decoro, por
exemplo. Não trata das palavras e ações apropriadas quando se fala de
reverência a Deus.8 Não, nossa questão é o que deve ser feito no culto
público. Pode ser permitido para uma igreja começar sua adoração com o
cântico “Fundo & Largo”, e então cantar como segundo hino “Zaqueu
Pequeno Como Um Anãozinho” e concluir o culto com “A B-Í-B-L-I-A”. “A
Escritura não proíbe isso”, um biblicista estrito poderia dizer.9 Mas todos
concordamos que isso seria no mínimo impróprio. Ou que não deveria ser
feito em circunstâncias normais. E pensamos assim, não porque exista um
verso das Escrituras que proíba essas canções infantis, mas por causa de um
senso geral do que é apropriado à natureza da assembleia reunida para
adoração no culto público do dia do Senhor. Nem todas as questões sobre
adoração e vida são respondidas pela aplicação direta de um verso da Bíblia.
Na verdade, esse é um modo legalista e fundamentalista de fazer as coisas.
Em vez disso, viver corretamente consiste muito pouco em aplicar regras
bíblicas às circunstâncias, antes requer a iluminação do Espírito Santo e
sabedoria em observar os princípios gerais ao se tomar as decisões diárias. Os
fariseus limitavam a aplicação da Bíblia à palavras específicas — não
matarás, como apenas não cometer assassinato, e assim por diante —
ignorando todas as demais aplicações abrangentes. Mas é na aplicação
abrangente que mais somos atingidos na nossa experiência de vida, e foi aí
que Jesus criticou os hipócritas dos seus dias (Mt 5:21-48). A maior parte da
vida é vivida “nas entrelinhas” dos mandamentos explícitos.
Por essa razão, os apóstolos regularmente apelavam para o que era
“conveniente”, “aplicável” ou ainda “próprio” à luz dos mandamentos
explícitos das Escrituras, sem, contudo precisar exatamente o que essas
coisas significavam. Eles esperavam que os crentes aplicassem sabedoria e
discernimento no que fosse apropriado. Então, temos de julgar o que é
“próprio” (do grego prepo = ser conveniente, aplicável, apropriado), por
exemplo, acerca do comprimento do cabelo, mesmo que seja para discernir a
questão a partir da natureza (1Co 11:13). Paulo diz a Tito para “falar as
coisas que são convenientes (do grego prepei) à sã doutrina” (Tito 2:1). As
mulheres devem adornar-se com vestuário “apropriado” (prepei) (1Tm 2:9,
10). Paulo diz aos Efésios para que evitassem falar o que não fosse “próprio”
(prepei) (Ef 5:3, 4). Nos dois últimos casos alguns detalhes são explicitados.
As mulheres devem se vestir “modestamente” e “discretamente”. Elas devem
evitar a ostentação evidenciada pelo frisado do cabelo e uso de ouro ou
pérolas e vestuário dispendioso. “Conversação torpe” e “chocarrices” são
listados como palavras inconvenientes. Mas nesses e noutros casos, o ponto
preciso em que se cruza a linha entre a pudico e o impudico, entre o discreto
e o indiscreto, entre o ridículo e o vulgar, não está explícito. Nós só podemos
saber por meio do Espírito de sabedoria que nos é dado. Quando uma saia é
muito curta? Em algum ponto ela se torna curta e o pecado da imodéstia é
objetiva e realmente cometido. A determinação disso terá de ser feita por
meio de um julgamento subjetivo. No entanto, a falha no julgamento
subjetivo leva ao pecado objetivo. Quase todas as questões de
comportamento (por exemplo, amor, pudicícia, frugalidade, integridade) são
resolvidas dessa maneira, em aplicar a sabedoria às questões que se
encontram além da aplicação de mandamentos específicos.
Na adoração, a mesma forma de julgamento é requerida. Nós não
devemos meramente perguntar sobre o que é permitido, mas sim o que é
apropriado, conveniente. Por exemplo, somos ordenados a adorar com
“reverência e santo temor” (Hb 12:28). Há formas de cantar, orar e pregar
que são irreverentes. Há palavras e ações estranhas que, para com a natureza
de Deus, do culto e do que se requer quanto à reverência, são totalmente
impróprias, inconvenientes e inaplicáveis. Mas em nenhum desses casos
podemos chegar a essa conclusão por causa de um verso específico das
Escrituras que diga, por exemplo, “Não começarás o culto jogando basquete
no corredor principal da nave do templo” (como fez um pastor presbiteriano
tradicional). Não se encontrará nenhum verso que diga especificamente que
as saias podem estar um centímetro acima do joelho, mas nunca um
centímetro e meio. Um pregador de televisão levou sua congregação a
responder entusiasticamente, depois de um belo solo: “E todos os filhos de
Deus disseram!” Então todos ao mesmo tempo responderam “Uau”! Não há
um verso sequer na Bíblia que proíba “Uau” como responso litúrgico. Coisas
como essas são discernidas pela sensatez. A Bíblia espera e ordena que não
nos limitemos a uma estrutura de culto estreita, legalista e fundamentalista
daquilo que é permitido no culto, e ensina, em vez disso, o que deve ser feito
quando a assembleia se reúne para a adoração. “Todas as coisas me são
lícitas” diz o apóstolo, “mas nem todas convêm” (1Co 6:12; 10:23).

Nós versus Eles


A questão não é o que eu pessoalmente quero, ou que a minha congregação
quer, ou o que minha geração quer, ou, não permita Deus, o que meu partido
quer. A questão é o que se “deve” fazer. Essa é uma questão que deve ser
levantada, não só para o nosso grupo, mas para toda a igreja reunida. O que
nós devemos fazer no culto público? Por mais de uma geração essa pergunta
tem sido respondida idiossincraticamente, com cada ministro de louvor ou
“equipe de louvor”, igreja ou grupos, tomando sua própria decisão sem olhar
para a comunhão dos santos e a unidade da igreja como um todo. Isso não
pode continuar sendo aceitável para uma igreja que se diz universal, com
denominações interligadas. Há um só batismo, não muitos (Ef 4:4ss). Quando
o batismo e outras formas de adoração são múltiplos, é virtualmente
impossível que a igreja permaneça unida. Se a igreja não está unida na
adoração, não estará unida em nenhum outro sentido, ainda que se tente
qualquer coisa para se dizer o contrário. As questões da unidade e da
diversidade são antigas e complexas, mas não podemos senão chegar à
conclusão de que em nossos dias a unidade tem sido comprometida pela
diversidade. Não existe mais uma identidade de culto entre as Igrejas
Presbiterianas e Reformadas. Como já pudemos notar, algumas congregações
têm seguido um tipo de liturgia tradicional, outras preferem a adoração
contemporânea da “busca de emoções”, e outras ainda tentam uma posição
entre os dois extremos. Essa situação não tem precedentes na história prática
das igrejas Reformadas, uma tentativa que surgiu, sem dúvida, a partir de
nobres intenções, como evangelismo, interação entre as pessoas, mas de
consequências sérias que não têm recebido a atenção que merecem. Por
exemplo, como uma denominação Reformada pode lidar com membros que
se mudam para outra igreja da própria denominação, cuja prática de adoração
é completamente diferente? Já mencionamos essa bizarra situação, que
evidencia a divisão existente entre as formas tradicional e contemporânea de
adoração. Aqueles que pensam que ser leais aos “Cinco Pontos” e à doutrina
da inerrância irá manter unida a denominação, subestimam o poder emotivo
das formas atrevidas.10
Consequentemente perguntamos: Como as Igrejas Presbiterianas
tradicionais poderão deixar de se fragmentar em milhares de diferentes
facções, se o multiculturalismo litúrgico de hoje não for refreado? O moderno
“pensamento otimizado” em missiologia insiste numa forma distintiva de
ministério que atinja as diferenças e preferências de gostos de cada cultura,
tanto doméstica como estrangeira.11 Tal ministério inclui a adoração pública
das igrejas. Sendo assim, os jovens devem ter seu louvor e os mais velhos o
deles. Da mesma forma os hispânicos, os afro-americanos, os asiáticos, e,
presumivelmente, os sertanejos, os skatistas, os surfistas etc. Atrás desse
pensamento está a concepção de que toda forma de música, linguagem e
formato são equivalentes, um relativismo estético, se você preferir. Rotulam
de elitismo todo esforço em direção à adoração apropriada, a uma estética
padronizada, à tradição Reformada, ou unidade na adoração. É difícil
imaginar uma filosofia mais perfeita para separar e dividir as igrejas em
grupos afins. Um autor contemporâneo refere-se a esta geração de ministérios
específicos, como “a sala dos espelhos”! “Quando isso vai parar?”, ele
pergunta. “A potencialidade de proliferação interminável de novos subgrupos
começa a parecer que é baseada em nada mais substancial do que a produção
de novos estilos.”12 No entanto, estamos convencidos de que um consenso
deve ser encontrado e um grau significativo de uniformidade tem de ser
alcançado, se a igreja quiser transcender as diferenças culturais conforme
Cristo lhe ordenou fazer (Ef 4:4ss; Gl 3:28; Jo 17:27ss).
Além do mais, estamos convencidos de que só se alcançará consenso e
unidade ao se abandonar a nova e corrente teoria de acomodação à cultura e à
geração, em prol da adoração que transcenda interesses culturais estritos e
que apela grandemente a padrões bíblicos basilares e a qualidades estéticas
universais. Esse foi o ideal a que as gerações anteriores aspiraram. O Saltério
de Genebra, por exemplo, foi imediatamente traduzido para o holandês,
alemão, inglês, e espanhol (e uma meia dúzia de outras línguas incluindo o
italiano, boêmio, polonês, latim e hebraico),13 junto com adaptações da
Forma de Orações para as Igrejas, de Calvino. Semelhantemente, gerações
anteriores de missionários Presbiterianos e Reformados levaram os seus
Manuais de Culto e Saltérios para as terras estrangeiras para onde iam,
porque estes não eram tidos como expressão de culto de uma cultura em
particular, mas de uma cultura eclesiástica que é universal e transcendente.14
Unidade e não diversidade é o ideal. É o melhor, e não a tendência de
alguém, que provê o fundamento dessa cultura transcendente e universal da
igreja.15 “A igreja é o lugar onde as diferenças de gerações devem ser
superadas, e não agravadas”, diz Gene Edward Veith. “Somente a igreja que
resistir ser tão somente de uma geração, poderá ser relevante para as
demais.”16

Evangelismo versus Adoração


Quinto, a pergunta a que desejamos responder é o que devemos fazer num
culto e não o que normalmente se deve fazer em outros dias. Entendemos que
o propósito do culto é a adoração. As igrejas normalmente se reúnem para
outros propósitos, tais como reuniões evangelísticas, Conferências Bíblicas,
reuniões administrativas ou para almoços e jantares de confraternização. Mas
no tempo designado para a adoração, a igreja deveria se limitar àquelas
atividades que são exclusivamente consideradas de exercício devocional. Pela
integridade do culto, como serviço de adoração, não se deveria admitir outra
atividade, por mais nobres e dignos que sejam seus fins, tais como
cumprimentos de comunhão, avisos, atividades evangelísticas, estudos
bíblicos, ou qualquer outra coisa. Algumas dessas atividades têm fins
secundários de adoração, ou são subproduto da verdadeira adoração. Ao
adorarmos fruímos da exposição da Palavra e da comunhão dos santos. O
evangelismo tem lugar durante a adoração, como resultado da exposição
bíblica cristocêntrica, bem como por meio do impacto abrangente que o culto
exerce. O incrédulo
é por todos convencido e por todos julgado; tornam-se-lhe manifestos os segredos do
coração, e assim, prostrando-se com a face em terra, adorará a Deus, testemunhando
que Deus está, de fato, no meio de vós (1Co 14:24).

O Dr. Edmundo Clowney chamou isso de “evangelismo doxológico”.


Mas evangelismo, estudo bíblico, comunhão e assuntos administrativos da
igreja, não são propósitos ou fins para o qual a Assembleia se reúne e não se
deve permitir que o culto seja deturpado, tornando-o algo que ele não é.17
Por outro lado, nós não estamos tentando responder a questões
concernentes a como as Conferências Bíblicas, os jantares de comunhão, as
reuniões administrativas da igreja ou os encontros evangelísticos deveriam
ser conduzidos fora do culto público. Por exemplo, geralmente reuniões
específicas de evangelismo, tais como shows de bonecos (para crianças),
concertos de soft rock (para adolescentes) e concertos de grandes bandas
(para os mais maduros), podem ser apropriadas para outras ocasiões. Em
outras palavras, não estamos aqui para dizer o que se deve fazer nos outros
seis dias da semana. Estamos somente tratando do que está ordenado, e
portanto é obrigatório, para o culto no Dia do Senhor, tanto pela manhã como
à noite.
Importância
Assim, nossa pergunta é: o que deve ser feito no Culto Público no Dia do
Senhor?
Qual a importância de respondermos esta questão? Vamos colocar desta
maneira: Que importância tem a adoração? Você precisa parar para pensar
nisso por um instante, comparando a adoração com outras várias atividades
da vida. E mesmo se fizermos uma consideração superficial, iremos chegar,
indubitavelmente à conclusão de que nada do que fazemos é tão importante
quanto a adoração. Não, nada de natureza secular, como trabalho, diversão,
ou mesmo a vida familiar, nem mesmo as atividades de cunho religioso,
como evangelismo, comunhão, caridade ou qualquer disciplina espiritual
particular é tão importante. Não há, portanto, pergunta mais importante a ser
respondida que essa!
No texto básico que iremos examinar, Jesus diz que o Pai “procura”
verdadeiros adoradores (Jo 4:23). É dessa forma que Jesus resume a atividade
salvífica do Pai. Qual o interesse do Pai na pregação do evangelho? O que
Ele intenta fazer por meio do seu Filho? Qual é o fim último da encarnação,
da expiação e de toda a redenção? É o Pai buscando adoradores! Que forma
inusitada e não habitual de Deus se dirigir a pecadores! No entanto, é assim.
Robert G. Rayburn ressalta que “Em nenhum lugar nas Escrituras lemos que
Deus tenha buscado qualquer coisa dos pecadores”. A Bíblia não nos diz que
Deus busca testemunhas, servos ou contribuintes. Ele busca adoradores.
Rayburn continua, “não é sem motivo que a única vez na Escritura onde a
palavra buscar é usada como atividade de Deus, é em conexão com a busca
de verdadeiros adoradores”.18
Há, então, um sentido verdadeiro em que o Evangelho Cristão trata da
adoração. O “evangelho eterno” que pregamos é resumido pelo anjo em
Apocalipse 14:7, como: “Temei a Deus e dai-lhe glória (…) e adorai aquele
que fez o céu (…) ” Como já vimos, a vida cristã é apresentada pelo apóstolo
Paulo como um ato de adoração quando “apresentamos” a Deus o nosso
corpo como um “sacrifício vivo e santo”. Esse é um “culto racional” (Rm
12:1). A finalidade do evangelho é tornar pecadores santos, a fim de serem
adoradores. Note como o Senhor Jesus passa do tópico adoração para o de
salvação no verso 22, “Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que
sabemos porque a salvação vem dos judeus” (Jo 4:22). Ser salvo é ser liberto
da ignorância e da opressão da idolatria. Para os judeus, “saber” como adorar,
é possuir a “salvação”, nada menos. Talvez não estejamos acostumados a ver
a coisa dessa forma, como estou apresentando agora, mas esse é o ensino do
Novo Testamento. A finalidade ou o propósito do evangelismo e de missões é
criar um povo para adorar a Deus. Os discípulos de Cristo são “pedras vivas”,
“edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes
sacrifícios espirituais agradáveis a Deus” (1Pd 2:5; Ef 2:18-22). Deus criou
“um povo para si mesmo” para que “proclamassem as virtudes daquele que
vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pd 2:9). Nisso se
constitui a obra missionária da igreja, a vida cristã e a vida de adoração. John
Piper resume bem nosso ponto:
Missões não é o objetivo principal da igreja, mas sim a adoração. Missões existem
porque Deus é o alvo e não o homem. Quando esta era passar e os incontáveis
milhões de redimidos caírem com o rosto em terra diante do trono de Deus, não
haverá mais missões. Trata-se de uma necessidade temporária, mas a adoração
existirá para sempre.19

A adoração é a nossa “prioridade máxima”, como o título de um recente


livro declara. Cada Filho de Deus deveria saber disso.
Não é apenas a Bíblia que enfatiza a importância da adoração; a herança
Presbiteriana e Reformada faz o mesmo. Muitos historiadores modernos do
período da Reforma, têm feito com que a personalidade marcante de Lutero,
na sua luta pela fé, acabe obscurecendo o coração da Reforma Suíça e
Calvinista. Para Lutero e os luteranos, o foco principal era a Justificação pela
Fé. “Como pode um homem ser justo diante de Deus?” era a questão
fundamental. Mas para Zuínglio, Calvino e a “nata dos Reformadores”, o
tema principal não era a justificação, conquanto reconhecessem sua
importância. O foco deles era a adoração. “Como Deus deveria ser adorado?”
constituía a pergunta crucial. Para os luteranos, o inimigo da fé eram as
“obras”. Para os Reformados, a “idolatria”.
Carlos M. N. Eire, em seu aclamado War Against the Idols (Guerra
contra os ídolos), relembra à nossa geração aquilo que os antigos
historiadores já haviam percebido. “O foco central do Protestantismo
Reformado foi a interpretação da adoração (…)”. Distinguindo os luteranos
dos zuinglianos, ele diz:
A diferença principal é que, para os zuinglianos, a proposta Reformada não era
encontrar um Deus justo, mas em voltar-se da idolatria para o Deus verdadeiro.20

O mesmo pode ser dito das obras de Heinrich Bullinger (sucessor de


Zuínglio em Zurique), Martin Bucer em Estrasburgo, William Farel em
Neuchatel, e mais tarde João Calvino em Genebra. A Reforma se espalhou
com esses homens pregando contra a adoração medieval idólatra, e o povo
respondeu com sua fúria iconoclasta. Vitrais eram quebrados, relíquias eram
profanadas, estátuas despedaçadas, altares danificados e igrejas lavadas e
caiadas novamente. Farel, diz Eire, “usava as imagens e a missa como tema
dos seus sermões para dar curso à Reforma”.21 Em Genebra durante os
primeiros anos da Reforma, “o foco da atenção não era o assunto da
justificação, mas as missas e as imagens e tudo que dizia respeito aos seus
abusos”.22 Ambos, Farel e Calvino descreveram suas conversões, não como
sendo salvos das obras de injustiça prioritariamente, mas da idolatria. Como
os tessalonissences, eles tinham “deixado os ídolos para servirem ao Deus
vivo” (1Ts 1:9).
Em 1543, um folheto intitulado On the Necessity of Reforming the
Church (Sobre a necessidade de reformar a igreja), Calvino lista os dois
elementos que definem o Cristianismo, os quais, em suas palavras,
constituem “o todo da substância do Cristianismo”. Esses dois elementos são
primeiro “um conhecimento de qual é a maneira certa de se adorar a Deus; e
o segundo é a fonte de onde emana a salvação”.23 W. Robert Godfrey
comenta, “De forma enfática Calvino coloca a adoração à frente da salvação
em sua lista dos dois elementos mais importantes do Cristianismo bíblico”.24
Eire comenta mais adiante:
Calvino define o lugar da adoração como nenhum dos seus predecessores tinha feito
antes (…) Adoração, ele diz, deve ser o interesse central dos cristãos. Não é uma
questão periférica, mas a “substância última” da Fé Cristã (…) alguém já disse que
esta se tornou a definição fundamental que caracteriza o Calvinismo.25

Qual é o ponto central do estudo bíblico e teológico do evangelismo e de


missões, do conhecimento de Deus e de toda a religião cristã? A resposta é: a
adoração. O verdadeiro conhecimento de Deus leva à adoração correta, que
por sua vez, leva ao viver correto. Os teólogos da Reforma pregaram Soli
Deo Gloria em todas as áreas da vida, porque eles tinham em vista a
adoração.
Fazendo da adoração o componente existencial necessário do conhecimento, Calvino
a torna o elo entre pensamento e ação, entre a teologia e a sua aplicação prática. Foi
uma teologia eminentemente prática que Calvino desenvolveu como resultado disso.
Religião não é meramente um conjunto de doutrinas, mas antes, uma forma de adorar,
um estilo de vida.26

Não somente no continente Europeu, mas também na GrãBretanha, o


coração da batalha entre os seguidores de Calvino e os da Igreja Anglicana
oficial era a questão da adoração. Por cem anos os Puritanos lutaram para
reformar o Livro Comum de Orações de acordo com os padrões de Genebra,
culminando com a Guerra Civil, a convocação da Assembleia de Westminster
e a aprovação por parte do Parlamento do Diretory for the Public Worship of
God (Diretório do Culto Público de Deus) para os reinos da Inglaterra,
Escócia, Gales e Irlanda.
Não, de fato não estamos acostumados a pensar na adoração dessa forma
hoje. A situação presente não poderia ser mais irônica, mesmo onde
encontramos igrejas que se identificam como herdeiras da Reforma, como a
PCA, a qual, em nome da liberdade, falha em prover diretórios para a
adoração. Poucos têm disposição para pensar com cuidado a respeito da
adoração. Um número menor ainda vê a necessidade disso. Não somente
muitos não veem nenhuma conexão entre doutrina e vida prática, como
também não veem conexão entre adoração e vida prática. Assim, para que
regularmos a adoração, quando geralmente se presume que isso só serviria
para dividir e é algo que não tem valor prioritário? Nós tendemos a ser como
os detratores de Calvino, que o acusaram de fraturar a unidade da igreja com
futilidades. Como esses detratores, no entanto, estamos errados acerca disso.
Questões acerca de como devemos adorar a Deus são as mais importantes de
todas, por direito próprio e por suas aplicações abrangentes.
A Adoração Começa com Deus
Lembre-se do que foi dito em João 4. Jesus encontra a mulher samaritana
junto ao poço. Ele lhe oferece água viva, a qual ela deseja. Mas então Jesus
traz à tona alguns problemas que ela estava enfrentando no seu cotidiano. Já
tivera cinco maridos, mas agora estava vivendo com um homem que não era
seu marido. Fisgada, ela muda totalmente a direção da conversa, e passa de
moralidade para religião, perguntando se o lugar certo para adorar era
Samaria ou Jerusalém. E diz, “Nossos pais adoraram neste monte, mas vós
dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar” (Jo 4:20). Ele inicia
sua resposta dizendo, “Mulher podes crer-me que a hora vem, quando nem
neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai”. Jesus em parte se alinha
com os judeus no debate ao dizer:
Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a
Salvação vem dos judeus (Jo 4:22).

Conhecimento conta. Verdade conta. A adoração samaritana estava


errada. Os samaritanos, e por implicação todo o povo, precisam olhar para os
judeus, e em particular para o livro dos judeus, a Bíblia, a fim de aprenderem
como louvar a Deus e possuir a salvação. Então ele repete a substância do
verso 21 acrescentando:
Mas vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em
espírito e em verdade; Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem
em espírito e em verdade (Jo 4:23-24).

Eu acredito que essa foi a mais revolucionária afirmação de todas que o


Senhor Jesus fez. Claramente ele está dizendo que o lugar de adoração não
tem mais importância, mas sim o espírito. Ele está marginalizando o aspecto
exterior da adoração e está dando proeminência ao interior. Você deve se
lembrar de que Jerusalém tinha sua importância porque o templo estava lá. E
com o templo, o altar, os sacerdotes e os sacrifícios. Se o lugar da adoração
não é mais importante, todo o sistema do Antigo Testamento está
ultrapassado. A adoração tipológica do Antigo Testamento, com todos
aqueles símbolos do Grande Sumo Sacerdote e Cordeiro de Deus que iria
tirar o pecado do mundo, foi abolido com uma palavra e contrastado com o
que seria estabelecido em seu lugar. Contra aquilo que era temporário,
tipológico e exterior, surge um novo pacto de adoração que é agora oferecido
“em espírito e em verdade”. O que isso significa? Significa simplesmente que
contra os erros dos samaritanos, a adoração deve ser “em verdade”, isto é, de
acordo com a revelação divina da Verdade; contra o que concerne ao exterior,
que é temporário, como lugar e procedimentos, a adoração deve ser “em
espírito”, que é uma questão de coração, espírito e motivações corretas.
Quais são as justificativas teológicas para essas mudanças tão drásticas?
Notem que a única palavra de explicação que Jesus dá, além das
afirmações de que as mudanças virão, é que “Deus é espírito” (v.24). Essa
simples afirmação provê o fundamento, a orientação e a perspectiva de onde
todo o resto flui. Adoração começa com a doutrina de Deus. Porque Deus é
espírito, a adoração “tem” de ser em “espírito e em verdade”. Esse “tem de
ser,” da adoração é resultado direto da natureza imutável de Deus. A
adoração é como Jesus diz que deve ser, porque Deus é o que é. Esse é um
sentido verdadeiro e não podemos dizer nada mais importante sobre a
adoração do que isso. Só há um Deus e esse Deus é espírito. A questão
essencial sobre a adoração é respondida em relação a Ele. Se começarmos a
discutir sobre a adoração em qualquer outro terreno, estaremos em terreno
errado. Temos de seguir Jesus nisso. Os samaritanos e os judeus travavam
sua “guerra” particular a respeito dessa questão. Mas as dúvidas sobre a
adoração não se respondem tendo como referência judeus, samaritanos ou
qualquer outro povo. O ponto crucial de tudo procede da existência e da
natureza de Deus. Isso significa dizer que, num senso mais profundo do que
já temos considerado, a adoração é para Deus. Nós não podemos adorar
plenamente sem que isso seja observado pela congregação. A preocupação do
apóstolo Paulo a respeito de edificação em 1Coríntios 14 mostra isso
claramente. A primeira coisa a ser considerada na adoração é o que Deus quer
ou requer dela. De fato, o que o povo de Samaria ou de Jerusalém poderia
achar significativo ou desejasse, não é levado em conta por Jesus e nem
sequer considerado por ele. A questão crítica é Deus, sua natureza e seus
requisitos. Nós vamos tomar a expressão “Deus é espírito” como princípio-
chave de orientação para nos guiar ao longo do restante de nossa discussão.
Porque Deus é espírito, a ênfase exterior e tipológica do Antigo Testamento
tem de ser temporária. A adoração tem necessariamente de ser “em espírito”.
Porque Deus é espírito, a adoração deve também ser praticada com
integridade em relação à fidelidade para com a revelação própria de Deus,
porque ela deve ser “em verdade”.
Vamos tratar dos dois separadamente, começando com o último. Mas,
antes, devemos notar que há dois lados na adoração, e devemos tratar ambos
de modo correto. Há o lado do coração da adoração (em espírito) e o lado do
conteúdo e da forma (em verdade). Ambos são necessários. Ambos
ordenados. Vez por outra ouvimos a pergunta: “Você está dizendo que Deus
não tem se agradado de certos grupos cristãos, que com empenho, sinceridade
e devoção têm apresentado sua adoração a ele? A resposta que
frequentemente se dá é que a forma não é relevante. Deus se importa tanto
com a forma e o conteúdo da adoração quanto com seu espírito. Mas alguém
pode ser muito sincero e ainda assim estar sinceramente errado, ao oferecer a
Deus uma adoração numa forma que ele não autorizou. O caso extremo disso
é encontrado na adoração pagã, como a adoração dos profetas de Baal no
Monte Carmelo, que praticavam um cerimonial de automutilação, com
danças e gritos frenéticos (1Reis 18:25-29). Você acha que eles eram sinceros
e devotados? Não tenha dúvida! Da mesma forma os antigos cananeus, que
ofereciam seus filhos a Moloque, como sacrifício humano. Dificilmente
podemos imaginar uma expressão religiosa de maior zelo e devoção. Mas
trata-se de uma forma totalmente errada e não foi autorizada ou ordenada por
Deus.
A forma é importante sim. Jesus disse que a adoração tem de ser
conduzida por ambos: atitude correta e forma correta, isto é, em espírito e em
verdade.

1 Por exemplo: Michael S.Hamilton, “The Triumph of the Praise Songs: How Guitars Beat Out the
Organ in the Worship Wars”, Cristianity Today (12 de julho de 1999), pp. 29-32; Elmer Towns,
“Putting an End to Worship Wars” (Nashville: Broadman & Holman Publisher,1997).
2 Geração nascida logo após a II Guerra Mundial, quando houve um explosivo aumento do índice de
natalidade.
3 Emily Brink, “Trends in Christian and Reformed Worship”, Calvin Theological Journal, 32 (1997),
395~407. Ela afirma que o culto Reformado tornar-se-á mais genérico (pegando empréstimos
principalmente do movimento carismático), mais diversificado, mais experiencial e menos
racional, mais emocional, fará um maior uso do laicato e se baseará em um calendário eclesiástico.
4 Darryl Hart, “It May Be Refreshing But Is It Reformed?”, Calvin Theological Journal, 32 (1997), p.
407ss O livro resenhado é Worship in Spirit and Truth : A Refreshing Study of the Principles &
Pratice of Biblical Worship, de John Frame (Phillipsburg, New Jersey: Presbyterian & Reformed
Publishers, 1996). Com a publicação de seu segundo volume sobre esse assunto, Contemporary
Worship Music: A Biblical Preference (Phillipsburg, New Jersey: Presbiterian & Reformed
Publishers, 1997), Frame firmou-se como o teólogo da Nova Escola da atualidade. Por isso,
estaremos interagindo regularmente com ele à medida que desenvolvermos a visão histórica da
adoração Reformada.
5 John Frame, Worship, p. 44ss Frame afirma que a aplicação do princípio regulador somente ao
culto formal ou “oficial” é “não-bíblico”. “O Novo Testamento simplesmente não faz essa
distinção”, ele diz, de modo que “é virtualmente impossível provar que algo seja divinamente
requerido especificamente para o culto público” (Worship p. 44). Ele classifica isso de visão
“Puritana”, e conclui que se o princípio regulador se aplica a tudo, então deve ser aplicado a toda
adoração, pública e privada, formal e informal. Ele argumenta vigorosamente a favor dessa visão.
“Eu rejeito a limitação do princípio regulador ao culto público (...) ( (...) ) ele governa toda a
adoração (ênfase dele), quer formal ou informal (...) ( (...) ) limitar a doutrina ao culto oficial é
roubar a sua força bíblica” (Worship, pp. 44, 45). Mas como sempre acontece, alguém deve estar
se perguntando a qual dos Puritanos Frame está se referindo. Nenhum Puritano, ou pelo menos
nessa matéria, nenhum dos mais importantes porta-vozes do princípio regulador teria dito que ele
só se aplica ao culto público e não ao culto privado. Em vez disso, eles insistiram, e nós também,
que o princípio se aplica diferentemente. Por exemplo, não se pode sacrificar um bode no culto
doméstico, ou queimar incenso, enquanto deve-se ler a Bíblia, cantar Salmos e orar. Em cada
instância a aplicação seria a mesma, pública e privada. Por outro lado, não se deve, (como os
Puritanos teriam argumentado), ministrar os sacramentos na adoração em família. Por quê? Pelo
menos num aspecto a resposta seria porque o princípio regulador se aplica diferentemente. O que é
permitido publicamente, e chamado de ato oficial de culto, não é permitido particularmente. Toda
adoração então é regulada pela Palavra de Deus, mas a aplicação é diferente em contextos
diferentes, se formal ou informal, público ou privado.
6 Frame, “Some Questions About the Regulative Principle”, Westminster Theological Journal, vol.
54, (1992), pp. 357-366. Em outro lugar Frame diz que não há uma “clara distinção entre o que
somos na reunião e o que somos fora dela (...) a diferença de adoração no sentido mais amplo e
adoração no sentido mais estrito, é apenas em grau” ( Worship, p. 34).
7 Veja a resposta de T. David Gordon a Frame, “Some Answer About the Regulative Principle”,
Westminster Teological Journal, vol. 55, (1993), pp. 331-329.
8 Nós estamos deixando de lado, por enquanto, a questão sobre se o princípio regulador deve ou não
ser construído de modo estrito. Uma vez que o princípio regulador tem como suporte o segundo
mandamento, temos a reverência e outros assuntos relacionados contidos no seu escopo.
9 Perdemos a conta das vezes em que Frame alega que alguma prática tradicional é “antibíblica” ou
que “a Escritura não diz em parte alguma” ou que “não há razão bíblica” ou que “a Escritura não
ordenam em lugar algum” sobre uma certa prática quando na verdade ela se baseia tanto em
exemplos bíblicos (não apenas mandamentos) quanto no sentido de ser apropriada com respeito ao
culto público. Worship xii, 44, 53, 70, 73, 82, 93, 104, 129, etc. (...)
10 Veja Terry Johnson, Leading in Worship (Oak Ridge Tenn: The Covenant Foundation,1996), p. 2.
11 Frame argumenta que a música deve ser “plena de significado” para o adorador, o que ele
identifica com inteligibilidade, o que, segundo ele “implica contemporaneidade”. Assim, minha
forma preferível de música popular se torna a música do culto público e a igreja começa sua
jornada na estrada declinante da liturgia do trotskismo. John M. Frame, Contemporary Worship
Music, (Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, pp.17-20.
12 Dieter & Valerie Zander, “The Evolution of Gen X — Ministry “, Regeneration Quarterly, 5,3
(1999). p.17.
13 John D. Wituliet, “The Spirituality of the Psalter: Metrical Psalms in Liturgy and Life in Calvin´s
Geneva”, Calvin Thelogical Journal, 32 (1997), p. 273.
14 Calvino, por exemplo, insistia para que a música na Igreja fosse exclusiva. Ele se opunha ao uso
de melodias seculares e insistia no sentido de que as músicas fossem caracterizadas pela gravidade
e majestade. Veja Wituliet, Ibid, pp. 273-297.
15 A discussão de Frame segue a direção oposta, a nosso ver insustentável, senão um caso clássico de
reductio absurdum. Conquanto ele admita que “questões de qualidade e propriedade” devam ser
consideradas, sua real preocupação é que nenhum gosto individual ou de grupos, ou preferências,
deveria ser imposto aos outros. Consequentemente, a “música de todo mundo deveria ser ouvida”
(Contemporary, p. 25). Para Frame a questão toda é meu gosto versus seu gosto, e uma vez que a
preferência de ninguém deve ser considerada como superior a de outros, todas devem ter
representação igual. E para não se dar o caso de alguém não compreender, ele até mesmo dá
exemplos do que ele quer dizer com “música de todo mundo”: “música dos velhos e música dos
jovens; europeia, afro-americana e outras músicas étnicas; música complexa e música simples”.
Para nós toda essa discussão carece de base. 1. É ilusória. A música da igreja não é música de
qualquer grupo. É um engano se falar de “música dos velhos” — a geração da Segunda Guerra
Mundial não levou suas preferências culturais, por exemplo, Tommy Dorsey e Benny Goodman,
para dentro do templo. A igreja tem a sua própria linguagem e música, que transcende a qualquer
gosto ou preferência de um grupo em particular ou de uma geração. A geração dos baby boomers
talvez seja a primeira, na história da igreja, a tentar impor uma preferência musical sobre os
demais, e a reivindicar que só assim a adoração faz sentido para eles. Isso chega perto de ser uma
chantagem de geração. 2. É ingênua. Ele atribui o conflito de estilos de adoração ao “egoísmo”,
mas não, é claro, da parte dos revisionistas. Não, ele tem em mente os tradicionais, que são
relutantes a se curvarem ao seu ultimato. Uma resistência em ceder é condenada como insistência
egoísta pelas “preferências individuais” sobre o “padrão bíblico”. Essa é uma formidável
exortação para fazer a igreja descer a estrada que dá lugar à adoração das preferências individuais
e de grupos. Aqueles que estão tentando proteger a adoração histórica Reformada na sua
simplicidade, espiritualidade, forma substancial, sua qualidade e valor acima do tempo, sua
singularidade pela pregação expositiva, orações espontâneas, grandes hinos e Salmos metrificados,
são admoestados — “nós devemos considerar os outros superiores a nós mesmos” (Worship, p.
84). Isso, para ele, se deve mais à resistência do que ao gosto, por parte dos tradicionais. Os
tradicionais defendem princípios, não preferências. 3. É impraticável. Essa adoração diversificada
na sua expressão cultural na sua linguagem e canções, é impraticável. Como cada grupo seria
satisfeito durante o culto? Adotaríamos um sistema de cota litúrgica? Como seria um culto desse
tipo? O que aconteceria se o nosso grupo fosse menos favorecido na seleção dos cânticos?
Deveríamos protestar? Ou melhor, deveríamos iniciar nossa própria igreja para praticarmos o
nosso próprio gosto? Ou, quem sabe termos sessões diferentes de cultos. Esse cenário familiar da
segregação étnica e de gerações ressalta ainda mais a nossa convicção de que Frame e outros estão
se aventurando ladeira abaixo pela estrada errada. Gostos e preferências pessoais não deveriam ser
introduzidos na discussão sobre adoração. A igreja deve transcender, e não imitar, a “cultura pop”
contemporânea.
16 Gene Edward Veith, “Through Generations”, For the Life of the World (março de 1998), vol. 2,
no. 1,9. Veith também diz, “Quando estamos cantando hinos na igreja, não estamos seguindo
preferências de “estilo” de ninguém na congregação. Essa é a música da igreja, totalmente
diferente, seja qual for a sua origem, da preferência e do gosto musical da geração que estiver
reunida no momento para o culto. Ninguém deve se sentir ofendido ou excluído, todos são
elevados para muito além de um tempo em particular, de um grupo ou geração, na extraordinária
experiência da adoração”.
17 Frame repetidamente apela para a Grande Comissão como fator determinante na ordem do culto
(Worship, pp.146-147,150).
18 O Come Let Us Worship, pp. 15, 16.
19 Let The Nations Be Glad, the Supremacy of God in Missions, Grand Rapids: Baker Books, 1993.
20 Carlos M. N. Eire, War Against the Idols (Cambridge: Cambridge University Press, 1986), pp. 2,
85.
21 Ibid., p.119.
22 Ibid., p.143.
23 Ibid., p.126; (também encontrado na Selected Works of John Calvin, vol. 1, p.126)
24 Robert W. Godfrey, “Calvin and the Worship of God” (manuscrito não publicado, s.d.).
25 Carlos M. N. Eire, War Agaisnt the Idols, pp. 232, 233.
26 Ibid., p. 232.
II
Adoração “Em Verdade”
VAMOS CONSIDERAR os dois princípios originais da adoração bíblica na
ordem inversa, começando com “verdade”, depois consideraremos “espírito”.
Jesus disse que a adoração deve ser “em verdade”. Isso deve ser entendido
em dois sentidos.
De acordo com as Escrituras
Primeiro, a adoração que é “em verdade” é de acordo com as Escrituras. Os
samaritanos não eram diferentes do resto da humanidade. “Vós adorais o que
não sabeis”, disse Jesus à mulher samaritana. É quase sem limites as formas
nas quais Deus pode ser adorado. Jesus está insistindo em que o façamos do
modo correto. Temos de adorá-Lo de acordo com Sua autorrevelação. Se
vamos adorá-Lo em verdade, temos de nos submeter à revelação bíblica.
Calvino afirma que a adoração “legítima” é aquela que “o próprio Deus
estabeleceu”.27 Ele insiste na “rejeição de qualquer modo de adoração que
não seja sancionado ou ordenado por Deus”.28 Esse princípio se tornou
conhecido como “princípio regulador”.29 No entendimento dos católicos,
luteranos e anglicanos, ele é chamado de “princípio normativo” — normas
gerais são dadas, mas qualquer coisa que não for expressamente proibida
pelas Escrituras, é permitida na adoração. A prática Reformada é mais
rigorosa. Ela afirma que tudo aquilo que não for ordenado pela Escritura (ou
por mandamento, exemplo, ou ainda dedução de princípios abrangentes) é
proibido. A Confissão de Fé de Westminster trata do assunto do seguinte
modo:
o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo, e é tão
limitado por sua própria vontade revelada, que ele não pode ser adorado segundo as
imaginações e invenções dos homens, ou sugestões de Satanás, nem sob qualquer
representação visível, ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras
(xxi.i).

Onde a Bíblia ensina isso? Certamente o ponto é deixado claro numa


detalhada prescrição de adoração encontrada em Êxodo 25-40 e Levítico, mas
também nos seguintes:
Caim e Abel (Gn 4:3-8) — essa foi a primeira “guerra de adoração”. Abel
ofereceu “das primícias do seu rebanho e da gordura deste”, mas Caim ofereceu
“do fruto da terra”. O Senhor “agradou-se de Abel e de sua oferta; ao passo que
de Caim e de sua oferta não se agradou”. Por quê? O Senhor lhe responde, “Por
que andas irado, e por que descaiu o teu semblante? Se procederes bem, não é
certo que serás aceito?”. Isso implica que ambos, o espírito e a verdade da sua
oferta eram deficientes. Tratava-se, ou de uma oferta desautorizada, ou de uma
oferta autorizada, mas apresentada de forma errada.
O Segundo Mandamento (Êx 20:4) — Ao proibir a adoração de imagens, Deus
declara que Ele somente pode determinar como deve ser adorado. Embora o seu
uso seja, via de regra, profundamente sincero (como auxílio à adoração),
imagens não o agradam, e por inferência, qualquer outra coisa que ele não
tenha sancionado.
O Bezerro de Ouro (Êx. 32) — provavelmente uma representação de Jeová
(veja os vv. 4, 5, 8), mas totalmente inaceitável para ser usada na adoração, por
não ser autorizada.
Nadabe e Abiú (Lv 10) — eles ofereceram “fogo estranho” ao Senhor, o que se
constitui numa oferta oferecida de “maneira diferente daquela que o Senhor lhes
havia ordenado” (10:1), e Deus os matou. Ao fazer isso, Deus deixou uma
afirmação para todas as eras — “Mostrarei a minha santidade naqueles que se
cheguem a mim (…)” (10:2, 3), o que só pode significar que os que se
aproximam de Deus devem fazer isso de maneira consistente com a forma que
ele ordenou.
Admoestação para que nada seja adicionado ou tirado dos mandamentos de
Deus (Dt 4:2; 12:32).
A rejeição da adoração não prescrita de Saul e o princípio “obedecer é melhor
que o sacrificar” (1Sm 15:22). Obedecer a quê? Obedecer aos mandamentos de
Deus com relação à adoração.
A rejeição dos ritos pagãos, “(…) o que nunca lhes ordenei, nem falei, nem me
passou pela mente” (Jr 19:5; 32:35). O que podemos deduzir é que os ritos
observados em Israel eram apenas aqueles que Deus havia falado ou ordenado.
A rejeição de Jesus à adoração farisaica, citando as palavra de Isaías que diz,
“em vão me adoram, ensinando doutrinas e preceitos de homens” (Mc 7:7, Mt
15:9, Is 29:13).
A rejeição da adoração samaritana por Jesus, uma vez que eles adoravam “o
que não conheciam” (Jo 4:22). A “verdadeira” adoração era impossível para
eles, uma vez que haviam maquinado seu próprio modo de adorar. A adoração
que é em “verdade” é baseada no conhecimento do que Deus tem ordenado.
A rejeição do que os antigos teólogos puritanos chamavam de “adoração da
vontade” traduzida na versão moderna de Colossenses como “...preceitos e
doutrinas de homens...culto de si mesmo, falsa humildade e rigor ascético...”,
todas sendo práticas religiosas, sem dúvida nenhuma feitas com toda
sinceridade, mas inaceitáveis por serem de sua própria fabricação (Cl 2:22,23
RA).

Esses são apenas alguns exemplos e outras passagens poderiam ser


citadas. Elas nos ensinam claramente que não estamos livres para improvisar
a nossa adoração. Calvino adverte contra o perigo da “armadilha da
novidade”. É preciso notar que o princípio regulador não se fundamenta
apenas nos textos-prova acima, mas é também uma implicação necessária dos
princípios fundamentais da Teologia Reformada. A rejeição do princípio
regulador implicaria necessariamente em comprometer princípios centrais da
fé Reformada. Considere este esboço, que foi sugerido, a princípio, nos
escritos de T. David Gordon:
As doutrina de Deus e do Homem — nenhum sistema de teologia tem dado
maior ênfase à distinção entre criatura/criador do que o Calvinismo bíblico.
Nenhum deles tem levado em conta nem dado a conhecer o grande abismo que
há entre o Deus infinito do céu e da terra e o homem finito. “Meus pensamentos
não são os vossos pensamentos e nem os vossos caminhos os meus caminhos”
(Is 55:8, 9). “Quem conheceu a mente do Senhor?”, pergunta o apóstolo Paulo
(Rm 11:34). A criatura não pode saber que tipo de adoração agradará a Deus à
parte de Sua autorrevelação. Não é essa a implicação óbvia da visão Reformada
sobre as naturezas de Deus e do homem?
A Doutrina do Pecado — ademais, nenhum sistema de teologia tem enfatizado
a extensão dos efeitos da queda na natureza humana como a fé Reformada. A
Depravação Total é a frase que usamos para descrever a corrupção de todas as
faculdades da mente, vontade e afeições humanas. “O coração humano está
cheio de maldades”, diz Eclesiastes (9.3). “Enganoso é o coração mais do que
todas as coisas e desesperadamente corrupto”, diz Jeremias 17.9. “Não há justo
(…) não há ninguém que faça o bem (…) não há ninguém que busque a Deus”
(Rm 3:10-12). A Confissão de Fé de Westminster diz que na queda, Adão e Eva
e sua posteridade foram “inteiramente corrompidos em todas as faculdades e
partes do corpo e da alma” e “estão totalmente indispostos, incapazes e adversos
a todo bem e inteiramente inclinados a todo o mal” (vi.ii,iv). Isso nunca foi
afirmado de maneira tão forte e precisa quanto essa. O resultado dessa
corrupção radical do homem é levá-lo, além da ignorância finita, em relação ao
infinito que já discutimos, ao princípio positivo da idolatria. O homem é, por
natureza, um idólatra (Rm 1:18-32). Ele não pode e não irá ser diferente. O
coração humano é uma “fábrica de ídolos”, disse Calvino. Nós não somos
competentes para determinar a adoração que honra a Deus. Se seguirmos as
indicações do nosso senso comum natural, o fim será a distorção. Uma
apreciação humilde disso requererá que olhemos para Deus para que ele nos
diga o que deseja de nós.
A Doutrina da Escritura — Nenhuma tradição elevou a autoridade e suficiência
da Escritura até o nível que a tradição Reformada o fez. Sola Scriptura é um
princípio fundamental de toda herança Protestante Reformada. Nossa autoridade
final em toda matéria de fé e conduta é a Escritura. “O Juiz Supremo, pelo qual
todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas (…) não pode ser
outro senão o Espírito Santo falando na Escritura”(CFW i.x). Para essa tarefa de
ordenar a fé e a vida, a Escritura é suficiente. O apóstolo Paulo escreve:
Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a
repreensão, para a correção, para educação na justiça, a fim de que o
homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa
obra (2Tm 3:16,17).

Os santos são adequadamente equipados para “toda boa obra” pela


Escritura. Ela ensina, reprova, corrige e nos treina para as tarefas da vida.
Somente pelas Escrituras somos “perfeitamente habilitados” para “toda”, não
algumas ou a maioria, mas “toda boa obra”. A obra de suma importância da
adoração, não deveria apenas ser incluída, mas deveria estar no topo de
qualquer lista de boas obras para as quais a Escritura está designada a nos
equipar. Outra vez citamos a Confissão:
Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele
e para salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou
pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em
tempo algum (...) (i.vi).

A Doutrina da Igreja — A tradição Reformada tem firmemente limitado a


autoridade e o poder da igreja às áreas específicas que lhe foram delegadas por
Cristo. A sua autoridade é toda-inclusiva (as “chaves” de Mt 16:18ss; 18:18)
mas é “ministerial e declarativa”. Ela pode administrar o que Cristo a tem
chamado a administrar, e pode declarar o que Cristo a tem chamado a declarar,
como diz T. David Gordon, “mas isso não quer dizer que ela tenha poder
arbitrário para estruturar novas ordenanças e leis”.30 A igreja não pode
“escravizar a consciência” por meio de regras não ordenadas ou não impostas
pela Escritura. O princípio regulador é a expressão mais legítima dessa
liberdade na área da adoração. Na adoração da igreja, só se pode requerer dos
seus membros o que Cristo requer e nada mais. Dessa forma o povo está livre
das tradições e maquinações de meros homens.

Talvez a doutrina da Soberania de Deus, a doutrina que mais dá


substância e forma ao pensamento Reformado, seja o que melhor resume o
que estamos tentando afirmar. Porque o nosso Deus é um Deus soberano, Ele
também é soberano a respeito de Sua adoração. Somente Ele pode ordenar,
de forma correta, a Sua adoração (por meio da Sua Palavra, à qual Sua igreja
está sujeita). Ele não é obrigado a receber qualquer adoração inventada por
homens finitos e caídos, ou até mesmo aquela criada por oficiais redimidos
da igreja. Ele é o Senhor. Ele é soberano. Somente Ele pode e autoriza a
adoração que O agrada.
Então, devemos fazer no culto aquilo que está de “acordo com as
Escrituras”. Devemos nos limitar àquelas coisas que Ele mesmo autorizou e
prometeu abençoar. Isso não é algo odioso ou um fardo pesado de carregar. É
somente uma questão de aceitar aquelas atividades ou elementos da adoração
que Deus autorizou, e aos quais Ele vinculou as Sua promessas. O princípio
regulador flui necessariamente de todo sistema da Teologia Reformada.
Isso nos leva à seguinte questão: O quê, especificamente, Ele autorizou?
Quais são os elementos que Ele ordenou para o culto? A Confissão
especifica:
Orações, com ações de graça (…) leitura das Escrituras, com santo temor (…) a sã
pregação da Palavra e a consciente atenção a ela...o cântico de Salmos com gratidão
no coração; bem como a devida administração e digna recepção dos sacramentos
instituídos por Cristo — são todos parte do culto comum oferecido a Deus (xxxi.iii,v).

Acrescentando, ela fala de elementos ocasionais tais como “juramentos


religiosos” e “votos” (credos, pactos de membresia e votos de ordenação)
como parte legítima do “culto religioso” (xxi.v, xxii.i). Textos como Atos
2:42 nos dão um vislumbre da adoração na igreja primitiva, com um uso
simples da Palavra, dos sacramentos e da oração. Vemos também o apóstolo
Paulo regulamentando a oração (1Co 11:2-16; 14:14-17; 2Tm 2:1-3), os
cânticos de louvor (1Co 14:26,27; Cl 3:16; Ef 5:19), a ministração da Palavra
(1Co 14:29-33; 1Tm 4:13; 2Tm 4:1,2), o Ofertório (1Co 16:1,2) e a Santa
Ceia (1Co 11:17-34). Esses parecem ter sido os elementos regulares do culto
na igreja apostólica. A oração, a leitura das Escrituras, a pregação das
Escrituras, o cântico de Salmos, a ministração dos sacramentos e os
juramentos religiosos, são todos feitos “de acordo com as Escrituras”,
modelados pelo exemplo apostólico, regulados pelas ordenanças apostólicas e
acompanhados pelas divinas promessas de bênçãos.
A esta altura, alguém de opinião contrária poderá perguntar sobre o
púlpito, os hinários, as luzes, os microfones e questionar a consistência com a
qual o princípio regulador está sendo aplicado. Onde se encontra, nas
Escrituras, a permissão para essas inovações? A tradição Reformada, e
especialmente os Padrões de Westminster, distinguem entre elementos (que
são determinados pelas Escrituras e não podem ser mudados), formas (o
conteúdo dos elementos, a respeito dos quais há bastante liberdade) e
circunstâncias, que são governadas por considerações mais abrangentes. Por
exemplo, o elemento da oração pode ser expresso por meio da forma escrita
ou da extemporânea. O elemento da pregação pode ser textual ou tópico
quanto à forma. O elemento da leitura das Escrituras pode ser expresso de
várias formas: uns poucos versículos ou um capítulo ou mais, de Gênesis a
Apocalipse, ou em qualquer lugar entre ambos. Em cada um desses casos, a
forma é o conteúdo e estrutura pelos quais o elemento é expresso. A forma
tem seus limites (não se pode representar ou “dançar um sermão” ou
representar por mímica a oração, mormente porque dramatização, dança e
mímica não são formas de pregação e oração, mas elementos novos, não
obstante a argumentação dos seus proponentes),31 mas há uma gama de
escolhas. T. David Gordon reconhece que essa categoria “parece ser menos
conhecida que a categoria dos “elementos” ou “circunstâncias”. No entanto,
esta tem sido uma parte importante da discussão sobre a adoração desde a
Reforma. Por exemplo, Calvino publicou uma Forma de Orações para a
Igreja (1542) e o Catecismo Maior, e muitos autores Reformados, desde
então, têm se referido à Oração do Senhor como uma forma de oração e
várias formas de oração para a família e orações públicas têm sido publicadas
através dos anos. Também debates sobre formas “livres” versus formas
“fixas” de adoração, têm sido travados pelos Presbiterianos desde os dias dos
Puritanos. Uma familiaridade superficial com a literatura clássica do
Protestantismo, atestará o que estamos dizendo. “Forma” é a palavra
tradicionalmente usada para identificar o conteúdo de um elemento e a
maneira como ele está estruturado.32
As circunstâncias são mencionadas pela Confissão:
(…) há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus (…) comuns às ações e
sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas pela luz da natureza e pela
prudência cristã, segundo as regras da Palavra, que sempre devem ser observadas
(i.xvi).

A “luz da natureza”, a “prudência cristã” e as “regras gerais da Palavra”


nos ajudam a resolver questões circunstanciais que são “comuns às ações
humanas e à sociedade”, isto é, comuns aos ajuntamentos públicos. Por
exemplo, todas assembleias públicas devem resolver assuntos de iluminação,
amplificação sonora, horário e lugar das reuniões, se haverá canto ou
responso grupal, ou como prover textos para o grupo. Como serão essas
questões resolvidas? Pela utilização da “prudência cristã” ou de um senso
espiritual comum. Não devemos esperar que a Escritura apresente textos
sobre essas questões. Voltando ao exemplo da oração, eu posso fazer no culto
(trata-se de um elemento autorizado) uma oração extemporânea ou escrita
(questão de forma), usando ou não um microfone (questão de circunstância).
Posso pregar (elemento) sobre o Evangelho de Marcos ou Lucas (forma)
numa assembleia toda iluminada por luz elétrica ou lamparinas
(circunstâncias).
Então deve haver uma consistência na aplicação do princípio regulador,
que reconheça a importante distinção entre elementos, que requer sanção
escriturística (por meio de mandamento, exemplo ou dedução), liberdade nas
formas e senso comum nas circunstâncias. O princípio regulador, como
esboçado, demonstra o que o povo Reformado entende por adoração que é
“de acordo com as Escrituras”. Isso resume a visão Reformada de culto. Sem
dúvida isso é Calvinismo em adoração”, como disse T. David Gordon. Esse é
o princípio histórico pelo qual a igreja Reformada tem enunciado o seu
entendimento da ordem de Jesus quanto à adoração “em verdade”.
Cheia das Escrituras
Segundo, a adoração “em verdade” deve ser cheia das Escrituras. A adoração
não deve somente ser governada pela Palavra, ela tem de estar saturada da
Palavra. A Bíblia provê tanto a estrutura quanto o conteúdo da nossa
adoração. A adoração pagã é caracterizada por ser não-cognitiva. É mais um
estado da mente do que um funcionar da mente. Ela opera muito mais no
nível do sentimento e da experiência do que no do pensamento. A adoração
cristã, no entanto, é racional e cheia de conteúdo. Temos de amar a Deus com
nossa mente (Mt 20:37). Nosso “culto espiritual de adoração” é oferecido
com “renovação da nossa mente” (Rm 12:1,2). Como afirmava Calvino (e
Agostinho antes dele), nisso está a “diferença entre o cântico dos homens e o
cântico dos pássaros). O pardal e o rouxinol podem cantar maravilhosamente,
“mas somente o homem é capaz de cantar sabendo o que está cantando”.33
Nossos “salmos, hinos e cânticos espirituais” “ensinam e admoestam” (Cl
3:16). Nossa adoração é uma conversa de mão dupla, na qual Deus nos fala
inteligivelmente, de um lado, pela sua Palavra, e nós falamos inteligivelmente
de outro, com as palavras que ele mesmo nos ensinou. Nossa mente nunca
deverá ficar “infrutífera”. Antes, devemos “orar com o espírito” e “também
com entendimento”. Da mesma forma, devemos “cantar com o espírito” e
“também cantar com entendimento” (1Co 14:14,15). O que Deus uniu, jamais
devemos separar.
Então, nosso louvor dever ser modelado pelos Salmos bíblicos, nossa
confissão de pecados pelo arrependimento bíblico, nossa confissão de fé
pelas doutrinas bíblicas e nossa pregação pelos textos bíblicos. Nós nos
dirigimos a Deus de forma inteligente (com louvor Bíblico e confissão). E
Ele se dirige a nós inteligentemente (por meio de sua Palavra). Colocando
tudo isso de forma simples, na adoração nós oramos a Bíblia, cantamos a
Bíblia, lemos a Bíblia e pregamos a Bíblia. A linguagem da adoração Cristã é
a linguagem da Bíblia. Por quê? Porque é isso que converte, santifica e
edifica o povo de Deus.
O apóstolo Paulo nos ensina, que “a fé vem pela pregação, e a pregação,
pela palavra de Cristo” (Rm 10:17). Como nascemos de novo? Pela Palavra
de Deus (1Pd 1:23-25). Como crescemos em Cristo? Pelo “leite espiritual”
(1Pd 2:2). Como somos santificados e amadurecidos? Como somos feitos à
imagem de Cristo? Pela Palavra de Deus efetivando sua obra em nós (1Ts
2:13). O Evangelho (euangellion) é o poder de Deus (Rm 1:16; 1Co 1:18,
24). A mensagem do Evangelho (kerigma) consiste “em demonstração do
Espírito e do poder” (1Co 2:4). E vem “em poder no Espírito Santo e em
plena convicção” (1Ts 1:5). Jesus disse que somos santificados pela Palavra
da verdade (Jo 17:17). Consequentemente, nossa adoração tem de ser cheia
de conteúdo bíblico.
Alguém pode pensar que isso é óbvio para qualquer um que tenha vivido
num ambiente evangélico. Desafortunadamente não podemos contar com isso
hoje. O conteúdo bíblico tem desaparecido rapidamente da adoração
evangélica. Alguém, quem sabe, na tentativa de avaliar “nosso tempo”,
olhando somente para algumas canções ou sermões em particular, pode
perguntar: “o que há de errado com tudo isso?”34 Pensamos que o mais
sensato é não olhar exemplos isolados, mas identificar a trajetória da
adoração evangélica desde a geração passada até a atual. Basta uma única
geração atrás, entre os Protestantes, e já encontraremos uma porção
substancial da Escritura sendo lida, os sermões sendo expositivos, os hinos
estando repletos de conteúdo bíblico e referências. Hoje, muito pouco da
Escritura é lido. Os sermões são tópicos. Os corinhos são comparativamente
de pouco conteúdo bíblico, e os poucos que o têm são repetitivos com a
frequência de um mantra.35 As orações são curtas ou inexistentes, e expressas
em linguagem excessivamente familiar e pobres de Bíblia. Os sacramentos,
que requerem considerável leitura bíblica e explanação para serem
propriamente administrados, são observados com pouca frequência e até
removidos para o meio da semana. Evangélicos e Reformados não podem se
conformar com inovações desse tipo. Não é preciso ser profeta para sentir
que há problemas se aproximando! Como podemos chamar de “adoração”
um culto onde a Bíblia não é lida, não é pregada, não é cantada, não é orada e
o máximo que encontramos são indícios dessas coisas? Podemos chamar isso
de culto? Ou se trata de um evento? Ou uma celebração? Se essas coisas que
são chamadas de “sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação
pela fé em Cristo Jesus” estão ausentes, que tipo de igreja existirá depois de
uma geração de “adoração” sem estas “sagradas letras”? (2Tm 3:15).
Podemos esboçar nosso princípio como segue:
Ler a Bíblia — O Diretório do Culto Público de Deus, da Assembleia de
Westminster, recomenda a leitura de capítulos inteiros da Escritura. Paulo diz à
Timóteo, “aplica-te à leitura, à exortação e ao ensino” (1Tm 4:13). No Culto
Reformado, nós não lemos somente um verso ou dois aqui e ali, mas passagens
inteiras da Escritura.
Pregar a Bíblia — “Desde os primórdios a pregação é tida como uma
explanação da Escritura lida”, diz Hughes Old, argumentando a partir de
Neemias 8. Ela “não é uma palestra sobre um assunto religioso, antes é uma
exposição de uma passagem da Escritura”.36 “Prega a Palavra”, diz Paulo a
Timóteo (2Tm 4:2). De maneira expositiva, sequencial, verso por verso, livro
por livro, pregando através de toda a Bíblia “todo o designo de Deus” (At
20:27), era a prática de muitos dos Pais da Igreja (por exemplo, Crisóstomo,
Agostinho), de todos os Reformadores e dos melhores dos seus herdeiros desde
então. A Palavra pregada é a característica central do culto Reformado.37
Cantar a Bíblia — Nossos cânticos deveriam ser ricos de conteúdo bíblico e
teológico. As divisões de opinião nos dias de hoje sobre música, estão no âmago
da nossa guerra que envolve a adoração. No entanto, alguns princípios são
facilmente identificáveis. Primeiro, o que faz um cântico de adoração ser
legítimo? Resposta, que ele pareça um Salmo. Alguns protestantes Reformados
cantam, às vezes, somente Salmos. Mas mesmo que esta não seja a nossa
convicção, deveríamos reconhecer que se deve cantar Salmos e reconhecer que
eles fornecem o modelo da hinódia cristã. Se os cânticos que cantamos na
adoração se assemelham aos Salmos, eles naturalmente, desenvolverão temas
abrangentes e com o mínimo de repetição. Serão ricos no seu conteúdo
teológico e experimental. Irão nos falar a respeito de Deus, do homem, do
pecado, da salvação e da vida cristã. Eles irão expressar todas as áreas das
experiências e emoções humanas. Segundo, o que faz a música do culto ser
autêntica? Muitos, apressadamente, irão dizer que Deus não nos deixou um
livro de partituras. Isso é verdade, mas ele nos deixou um livro de versos líricos
(os Salmos), e sua forma irá determinar, em muito, o tipo de música que deve
ser cantada. Colocando simplesmente, a música deve se harmonizar com as
palavras. Ela deve ser bem-elaborada o suficiente para receber conteúdo
substancial de várias linhas e estrofes. Será utilizado o mínimo de repetição. Ela
deverá ser apropriada tanto para o estilo emocional dos Salmos, como dos hinos
cristãos baseados na Escritura. Cante a Bíblia.
Orar a Bíblia - As orações públicas das igrejas Reformadas deveriam ser ricas
de conteúdo bíblico e teológico. Não aprendemos que a linguagem da nossa
devoção cristã deve vir da Bíblia? Não aprendemos que a linguagem da
confissão e do arrependimento vem da Bíblia? Não aprendemos que as
promessas de Deus, que devemos reivindicar e nas quais devemos crer, vêm da
Bíblia? Não aprendemos, ainda, que a vontade de Deus e os desejos de Deus
para o seu povo, pelos quais devemos rogar em oração, vêm da Bíblia? Desde
que essas coisas são assim, as orações públicas deveriam repetir e ecoar a
Bíblia. Era dessa forma que se compreendia no passado. Matthew Henry38 e
Isaac Watts39 produziram um manual de oração para treinar pastores
protestantes de todas as gerações a fim de orarem a linguagem da Escritura, que
é usado até hoje. Recentemente Hughes Old produziu um trabalho semelhante.40
A Bíblia e os Sacramentos — Foi Agostinho quem primeiro se referiu aos
sacramentos como “palavra visível”. Eles devem ser acompanhados de farta
leitura bíblica (por exemplo, das palavras de instituição e exortação) e
explanação teológica (por exemplo, o pacto e a natureza dos sacramentos). Eles
são em si mesmos símbolos visíveis das verdades do evangelho. No culto
Reformado, a Palavra e os sacramentos nunca estão separados. Por quê? E nesse
caso então, por que ler, pregar, cantar e orar a Bíblia? Porque a fé vem pelo
ouvir a Palavra de Deus (Rm 10:17).

Então, concluímos que a adoração do Protestantismo Reformado é


simples. Nós tão-somente lemos, pregamos, oramos e cantamos a Bíblia.
Falaremos mais adiante dessa “simplicidade”. Algumas vezes essa ênfase
dada à Bíblia na adoração Reformada tem sido criticada com sendo muito
“cognitiva” ou “intelectual”,41 bem como também, antiemocional e contrária
às artes. Conquanto este não seja o lugar para tratarmos de todos estes
assuntos (teologia da arte, teoria da psicologia humana e filosofia do
aprendizado), queremos simplesmente responder dizendo que a adoração tem
de ser “de acordo com a Escritura”. Em se tratando de entendimento, a
Escritura fala do homem todo, mente, vontade e emoções. Sermões, cânticos
e orações repletos de Escritura não podem ser simplesmente classificados de
“intelectuais” ou “acadêmicos”, mais do que uma comunicação firme e
carinhosa de um pai com seu amado filho o seria. É estranho que tal coisa
possa ser considerada desse modo.
A reforma da adoração demanda que não somente estruturemos nosso
culto com elementos bíblicos, mas que também revigoremos nossas formas
com conteúdo bíblico. O que devemos fazer na adoração? O que Deus
prometeu abençoar nela? A leitura, a pregação, o cântico e a oração das
Escrituras, junto com os sacramentos biblicamente explicados e
administrados.

27 Jonh Calvin, Institute of the Christian Religion (Filadélfia: The Westminster Press, 1960), II.8.17
28 John Calvin (João Calvino), “On the Necessity of Reforming the Church” in Selected Works of
John Calvin, Vol. 1, (Baker Book House, 1983 [1844]), p. 133.
29 É quase de desesperar quando Frame distingue sua metodologia da dos Puritanos como
simplesmente “aquela que obedece a tudo o que Deus diz na Escritura sobre a adoração”. Ou,
ainda, “devemos simplesmente buscar a Escritura para determinar o que é apropriado e o que não
é apropriado fazer quando a igreja se reúne, como um corpo em nome do Senhor Jesus” (Worship,
pp. 54, 55). O que mais, senão isso, que o Protestantismo Reformado tem procurado fazer ao
longo de 480 anos?
30 T. David Gordon, “Presbiterian Worship: Its Distinguishing Principles” (manuscrito não
publicado, s. d.).
31 Frame vê a dramatização como “uma forma de pregação e ensino”, lembrando que “a pregação
bíblica e o ensino contêm muitos elementos dramáticos” (Worship, p. 93).
32 Gordon oferece o seguinte apoio: “O Catecismo Maior, Pergunta 186 diz: ”Toda a Palavra de
Deus é usada para nos dirigir no dever da oração, mas a regra especial que regulamenta e direciona
a oração é a forma de oração que nosso Salvador ensinou aos seus discípulos, comumente
chamada de Oração Dominical”. E o Breve Catecismo, Pergunta 99 diz: “Toda a Palavra de Deus
é útil para nos dirigir na oração, mas a regra de direção especial está na forma de oração que Cristo
ensinou aos seus discípulos, comumente chamada Oração Dominical”. Igualmente os
direcionamentos do Diretório de Culto da Igreja Presbiteriana da América encontraria paralelos
nas antigas formas de governo, de onde foram tiradas estas afirmações: “47.6. O Senhor Jesus
Cristo não prescreveu um forma fixa para o culto público, mas no interesse da vida e do poder na
adoração, deu à sua Igreja uma grande medida de liberdade nessa matéria. Não pode ser
esquecido, no entanto, que só há verdadeira liberdade onde as regras da Palavra de Deus são
observadas e onde o Espírito de Deus está presente. E que todas as coisas devem ser feitas com
decência e ordem, e que o povo de Deus O sirva com reverência e na beleza da Sua santidade.
“52-4. O Ministro não se restringirá a uma forma fixa de oração para o culto público, contudo é
dever do ministro, antes de dar início aos trabalhos, preparar-se e qualificar-se para essa parte de
seu ministério, bem como para a pregação. “63-3. O Culto Doméstico, que deve ser observado por
todas as famílias, consiste em oração, leitura das Escrituras e cânticos de louvor; ou, de forma
breve, expressar sincero reconhecimento a Deus”. T.David Gordon, “Some Answers Regarding the
Regulative Principle”, Westminster Theological Journal, Vol. 55.2, (outono de 1993), 326 n18.
33 Prefácio ao Saltério, 1543.
34 O livro de John Frame é particularmente deficiente nesse ponto. Ele gasta muito dos seus esforços
defendendo esta música ou aquela prática, sem observar o quadro todo. Ele nunca considera a
trajetória. De onde viemos no mundo evangélico? Para onde estamos indo? É impossível fazer
uma avaliação adequada das partes sem considerar o todo.
35 David Wells analisou o contudo bíblico de 406 corinhos de dois dos mais populares cancioneiros,
Worship Song of the Vineyard e Maranatha! Music Praise Chorus Book. Ele comparou com 662
hinos do Convenant Hymnal. Resumiu suas conclusões dizendo que “da grande maioria das
canções que eu analisei, 58.9%, não oferecem apoio doutrinário ou explicação para o louvor; nos
hinos clássicos examinados, foi raro encontrar hinos que não estivessem firmados sobre, ou não
desenvolvessem algum aspecto de uma doutrina” (ênfase minha). Além do que, importantes temas
bíblicos eram amplamente ignorados. Por exemplo, o tema igreja é encontrado em 1.2% dos
corinhos; pecado, arrependimento e desejo por santidade, em 3.6%; a santidade de Deus em 4.3%.
Lousing Our Virtue (Grand Rapids: Eerdmans, 1998), p. 44.
36 Hughes O. Old, Worship, pp. 59, 60.
37 Enfaticamente Frame escreve, “não há um mandamento específico, que eu saiba, que obrigue a ter
sermão no culto” (Some Questions, Westminster Theological Journal, vol 54 [1990], 366 n 10). É
de admirar que haja um tipo de “biblicismo” que considere necessário fazer tal declaração. Onde
em toda a Bíblia o povo de Deus se reuniu e a Escritura não foi lida e explicada? (Dt 26.1ss; Êx
24.1-11; Ne 8.1-8; Lc 4.14-21; At 20.7ss; etc.) Para um irresistível exemplo contra Frame a esse
respeito, veja Hudghes O. Old, “The Reading and Preaching of the Scriptures in the Worship of
the Christian Church”, Volumes 1 e 2 (Grand Rapids: Eerdmans, 1998).
38 J. Ligon Duncan III (org.), Matthew Henry´s A Method for Prayer (Greenville: Reformed
Academic Press, 1994).
39 Isaac Watts, So Amazing So Divine: A Guide to Living Prayer (Brewster, Massachusetts: Paraclete
Press, 1997). Esta é uma versão adaptada de A Guide to Prayer de Watts.
40 Hughes O. Old, Leading in Prayer (Grand Rapids: Eerdmans, 1995).
41 Robert Webber e John Frame dizem tipicamente coisas desse tipo. “Por séculos o foco do
pensamento Protestante da adoração tem sido considerar a adoração como uma ação cerebral”, diz
Webber. “O que fazia uma adoração era o sermão” (Robert Webber, “Reaffirming the Arts”,
Worship Leader, vol 8, n.6, novembro/dezembro de 1999, p. 10). Também Frame, Worship, pp.
77-78. Frame mostra-se preocupado pelo fato de os hinos tradicionais terem um conteúdo
excessivamente bíblico/teológico. Por exemplo, “Brilha, Jesus brilha” funciona muito melhor na
edificação do que “Do Amor Unigênito do Pai”, pois este último “contém muitas informações
doutrinárias para edificar verdadeiramente” (Contemporary, p. 116). Ele regularmente torna sua
argumentação tendenciosa ao referir-se ao “conteúdo intelectual” das músicas e dos sermões em
vez de ao conteúdo bíblico, como ponto principal (Contemporary, 98ss).
III
Adoração “Em Espírito”
JESUS DIZ: porque “Deus é Espírito” a adoração não pode ser somente “em
verdade”, mas também “em espírito”. Lembre-se, Jesus está respondendo ao
debate levantado pela mulher samaritana. A pergunta dela é sobre onde o
homem deve adorar, “neste monte” ou “em Jerusalém” (v.20), no meu
edifício ou no seu, e por extensão, segundo esse ritual ou aquele? Ela está se
referindo a adoração externa. Ele, toma o partido dos judeus (e da revelação
Bíblica) quanto ao verdadeiro conteúdo e forma de adoração. Mas, e quanto
ao lugar, local e edifício? Isto agora não é relevante. “Nem”, foi o que Jesus
disse (v.21). O lugar, e certas formas externas de adoração não são mais
objetos de consideração. Se o edifício e o local não são mais significantes,
Então o que é significante? Além de ser Bíblico na sua estrutura e conteúdo, a
adoração precisa ser conduzida num “espírito” correto. Ela é oferecida em
nome de Jesus, que é a “verdade” (Jo 14:6) e no poder do Espírito Santo, sem
o qual ninguém pode dizer Senhor Jesus (1Co 12:03). O lado interno da
adoração, que é o intento, o motivo, a intensidade, a sinceridade, é coisa
crucial. A adoração neotestamentária, assistida e inspirada pelo Espírito
Santo, deve ser predominantemente espiritual e subjetiva, o que não
caracterizava a adoração do Velho Testamento. Nisto está a diferença.
Interna ou de Coração
Primeiro, a adoração que é em “espírito”, é interna e do coração. Porquanto
Deus é espírito, Ele tem de ser adorado espiritualmente. A verdadeira
adoração não é uma questão de lugares sagrados, mas uma condição
espiritual do coração. Deus está no céu. Não há mais nenhum edifício santo,
lugar santo, ou coisas santas, através das quais exclusivamente a bênção de
Deus é mediada. A palestina não é a ‘Terra Santa”, onde Deus estaria mais
presente do que em outros lugares. Nosso lugar de adoração não é mais “a
casa de Deus”, ou um “santuário”, onde Deus habita de um modo mais
especial que em outro lugar. Deus não fez promessas para conceder sua
bênção em conexão com um lugar ou o local de adoração. Esta distinção de
termos, podia ser melhor compreendida a um século atrás, quando o espaço
de adoração na igreja Presbiteriana era chamado simplesmente de “edifício da
igreja” ou “casa da igreja”. Não era chamado de “santuário”. Deus habita no
seu povo. Ele é formado de “pedras vivas”, que se tornaram “casa espiritual”
para Deus (1Pd 2:5; Ef 2:19-22). O edifício, somente se torna a casa de Deus,
quando o Seu povo está presente nele. A adoração nunca pode ser uma
questão de comparecer no edifício certo, na hora certa, para o ritual certo.
“E o que dizer do Velho Testamento?”. Esta é uma pergunta que
frequentemente ouvimos. “Eles não possuíram um edifício santo, uma terra
santa e símbolos santos?”. Sim, de fato eles possuíram, mas Jesus os aboliu.
Esta é a razão crucial porque a natureza simbólica e tipológica da adoração
do Velho Testamento precisa ser compreendida. Foram dadas a Israel figuras
visíveis de realidades espirituais que seriam cumpridas em Cristo. Cordeiros
foram sacrificados, incenso foi queimado, sangue foi aspergido, vestes
sacerdotais foram usadas. A adoração veterotestamentária, era
proeminentemente simbólica, exatamente por se situar antes da encarnação
do Verbo. Jerusalém, o templo, os sacerdotes, os altares, o incenso e os
sacrifícios, tinham razão de ser, porque através deles Deus proveu tipos do
Cristo que haveria de vir. Estes estimulantes sensoriais, no entanto, que
seriam ultrapassados pelo Antítipo, Cristo, que viria, devem ser interpretados,
não como elementos de continuidade, mas sim, elementos que foram
designados, pela fé, temporariamente, e portanto, necessariamente inferiores
à revelação do Antítipo no evangelho.
Outra vez, temos que tomar cuidado para não exagerar. A diferença está
na ênfase. Os sacramentos, no Novo Testamento, são também uma
representação do evangelho. Eles são “sinais sensíveis”, por meio dos quais,
“Cristo e os benefícios da nova aliança são representados” (Breve
Catecismo). Não há nada inerentemente errado com os símbolos. Mesmo
com eles o Velho Testamento não estava destituído de “espírito” e “verdade”.
Porém mantê-los, seria absurdo. Não há dúvida que havia muito de espírito e
verdade na adoração do Velho Testamento. Os símbolos do Velho
Testamento nunca foram um fim em si mesmos, ao contrário, apontavam para
o interno e espiritual. O templo físico, apontava para o Corpo de Cristo e o
templo espiritual, a Igreja (Jo 2:21). Os cordeiros sacrificados, apontavam
para o Cordeiro de Deus. O sangue de bois e de bodes, não podiam nunca
tirar os pecados (Hb 10:4). Os sacerdotes e seus aparatos, apontavam para
Cristo, nosso grande Sumo Sacerdote (Hb 2:27,18). Os sacrifícios agradáveis
a Deus, tinham de ser sempre “o espírito quebrantado; coração compungido e
contrito” (Sl 51:17).42 Havia verdade de espírito no Velho Testamento, mas
não com a magnitude e clareza do Novo.
Então qual é a diferença? É uma diferença de ênfase e proporção. O
Velho Testamento estava cheio de símbolos na antecipação de Cristo. Estes
símbolos são por natureza temporários. O Novo Testamento tem somente
dois: o batismo e a Ceia do Senhor. Então a adoração no Novo Testamento é
“em espírito”, o que significa que não há uma ênfase nos símbolos e tipos
como havia na adoração do Velho Testamento.
O comentário de Calvino em João 4 diz o seguinte:
Por estas palavras (“em espírito”) ele não quer declarar que Deus não era adorado,
pelos pais, de maneira espiritual, mas somente quer ressaltar e distinguir a forma
externa; Isto é, enquanto eles tinham o Espírito obscurecido por várias figuras, nós O
temos em simplicidade.43

Jesus, então, está enfatizando a espiritualidade da adoração do Novo


Testamento, contra a natureza simbólica e tipológica do Velho.
A igreja tem algumas vezes sucumbido à tentação de retornar à adoração
tipológica e pensar outra vez em seus ministros como sacerdotes, em seus
edifícios como templos, e a Mesa do Senhor como um altar e a Santa Ceia
como um sacrifício. Já tem adicionado incenso, procissões e batinas. Através
de ritual, cerimônias, arte, pompa, drama, dança e, às vezes, através da
música tem procurado estimular e inspirar fé. Este era exatamente o
pensamento da igreja medieval, para quem estes recursos eram “os livros dos
não instruídos”. Segundo Philip Schaff “a peça sacra” foi “criado pelo clero e
apresentado primeiro nas igrejas” e se tornaram “de certa forma, um
substituto medieval do sermão e da Escola Dominical”.44 Esta suplantação do
papel central que o sermão exercia na igreja primitiva, foi um
desenvolvimento desastroso na história da igreja, como será também, toda
tentativa de trazer de volta uma adoração Cristã exteriorizada.
Vamos resumir o que estamos expondo. Por que deveria todo
movimento, na direção do símbolo, ao invés do Espírito, ser visto
negativamente pelos proponentes da adoração Reformada? Pelas seguintes
razões:
1. Os símbolos do Velho Testamento foram temporários por natureza. O templo, e
tudo em conexão com ele, tiveram sentido somente para suprir uma necessidade
da época. Eles foram uma figura fraca do Messias, até que Sua glória fosse
“vista” em Jesus Cristo (Jo 1:14).
2. Os símbolos, por natureza, são inferiores à revelação verbal. Esta é a razão por
que a igreja não tem “sacramentos mudos”, como J.A. Motyer colocou. Os
sacramentos devem estar sempre acompanhados por uma palavra de explicação.
Eles não se interpretam por si mesmos. Eles dependem da Palavra de uma forma
em que a Palavra não depende deles. Então a lei, conforme a revelação de Deus
em Cristo, é somente uma “sombra” e “não a verdadeira forma das coisas” (Hb
10:1). Cristo é a “verdadeira forma das coisas”. O ponto do livro de Hebreus, é
exortar a não voltar aos símbolos e tipos Aarônicos (3:12; 4:13; 6:1-8; 7:10;
10:26-31 e 11 a 13). Quem tem a forma não necessita da sombra. Não perca
tempo olhando para a sombra do seu Amado, quando Ele próprio está bem
diante de você.
3. A adição de símbolos, além dos dois instituídos por Cristo, é um desprezo aos
meios de graça ordenados. O que Hughes O. Old disse da atitude dos
Reformadores, quanto ao batismo, é verdadeiro para todo tipo de adoração em
geral:

“Foi porque os Reformadores tiveram em altíssima conta os sinais dados


por Deus, que eles desdenharam aqueles, que eram meramente humanos e
acabavam obscurecendo os verdadeiros”.45

Símbolos estranhos, ritos e movimentos, inocentes em si mesmos e


talvez até mesmo significativos, simbolicamente aos olhos, devem ser
evitados se não são requeridos na Escritura ou não estão estreitamente ligados
ao culto. “Uma visualização elaborada”, diz Godfrey, “poderia interferir no
nosso enlevo espiritual, fixando nossas mentes por demais na terra”.46 Paulo
fala de Jesus Cristo, sendo “exposto publicamente como crucificado” diante
dos “olhos” dos Gálatas (Gl 3:1). Isto só pode ser, uma referência metafórica
da pregação. O evangelho, lido e pregado, é uma exposição de Cristo muito
melhor do que qualquer símbolo material. Os símbolos não autorizados,
desviam a atenção, e às vezes de maneira muito distante, daqueles
significados (incluindo os símbolos ordenados) que Deus tem prometido
abençoar. Lembremo-nos, fé é a convicção das coisas “que se não veem” (Hb
12:1)! A verdadeira fé, vem através da Palavra (Rm 10:17). A Verdadeira
adoração, então, deve ser primordialmente (embora não absolutamente) não
material, não sensorial e não simbólica. Na verdadeira adoração somos
elevados a Deus, nos céus, pela fé. Pela fé nós nos achegamos a Deus, no Seu
trono de Graça, e O adoramos lá. Pela fé, vemos Cristo no Seu evangelho.
Isto é o que devemos estar fazendo semana após semana, culto após culto.
Nós estamos adorando a Deus no céu, a quem vemos lá, em toda Sua glória,
pelos olhos da fé. Esta é a razão porque enfatizamos a necessidade de um
preparo para o culto. Nossos corações precisam estar corretos. Fé é
crucialmente importante. Não venha para o culto faltando um minuto para
começar. Não pense que tudo que você precisa fazer, é estar presente no
edifício certo, na hora certa e onde o ritual certo está acontecendo. Chegue
cedo. Ore para que o seu coração seja receptivo. Prepare-se para ver Deus
pela fé. Deus deve ser adorado em espírito, com um espírito reto, e com
atitudes corretas.
Simples
Segundo, a adoração “em espírito” é simples. A adoração no Novo
Testamento é destituída de normas e complexidade cerimonial. Isto está de
acordo com tudo o que temos visto até aqui a respeito de uma adoração
bíblica e espiritual. Ela é simples. Não há Jerusalém, nem Templo e nem
instruções levíticas. Quando falamos isso, temos que deixar claro o que não
queremos dizer. Alguns pensam que, pelo fato de não haver Livro de Levítico
— ou seja, nenhum procedimento elaborado, como instrução para a adoração
do Novo Testamento — que Deus deixou a igreja livre para adorar como ela
bem quiser. “A resposta de Calvino” para este tipo de argumentação, diz
Godfrey, “seria que, a ausência de um livro de Levítico no Novo Testamento,
reflete mais a simplicidade da adoração na igreja de Cristo do que uma
liberdade criativa (…) O Novo Testamento está cheio, como um guia
completo, de afirmações que sustentam a adoração simples dos filhos de
Deus em Espírito. Nenhuma liberdade é dada no Novo Testamento para
inventar formas de adoração, mais do que a que é dada no Velho”.47
Instruções detalhadas no Novo Testamento seriam apropriadas, se a
adoração no Novo Testamento fosse de ritual elaborado, rico em simbolismo
e complexa. Isto é verdadeiro no Antigo Testamento, com as instruções
levíticas, que eram sombras de Cristo. O sacerdócio levítico exigia que se
observasse com detalhes o ritual, os simbolismos e as normas. Vamos
lembrar o que estava envolvido. O Velho Testamento requeria uma
observação precisa dos detalhes envolvendo a adoração, que incluía o
seguinte:
As dimensões do tabernáculo/templo (Ex 26-27; 1Rs 6-7, 2Cr 3).
Os móveis do tabernáculo/templo, incluindo as cortinas (Êx 26:1-14), bases de
encaixe e tábuas (Êx 26:15-30), a arca do concerto (Êx 25:10-22), a mesa da
proposição (Êx 25:23-30), o candelabro de ouro (Êx 25:31-46; Nm 8:1-4), véu e
reposteiro (Êx 26:31-37), o altar de bronze (Êx 27:1-8) e (1Rs. 6; 2Cr 4).
Uso de vestimentas sacerdotais, incluindo o peitoral, efode, estola, turbante,
cinto e túnica (Êx 28, 30).
Rituais detalhados incluindo a consagração dos sacerdotes (Êx 29:1-9; Lv 8;
Nm 8:1-22), os sacrifícios (Êx 29:10-30; Lv 16:1-17:16; Lv 1-7; Nm 28, 29), o
incenso (Êx 30:1-21, 34-38), a comida sacerdotal (Êx 29:31-37), o óleo da
unção (Êx 30:22-23), os animais do sacrifício (Lv 22:17-33), e outras regras
sacerdotais (Lv 21:1-22; 16).
Uma agenda de oferendas regulares incluindo as manhãs e noites diariamente
(Êx 29:38-46; Nm 28:1-8), sábado semanal (Nm 28:9-10), e mensal (Nm.
28:11-15).
Calendário de dias Santos, incluindo a Páscoa (Lv 16:29-34; 23:5; Nm 28:16),
Pães Asmos (Lv 23:6-8; Nm 28:17ss), Primeiros frutos (Lv 23:9-25; Nm
28:16ss), o Dia da Expiação (Lv 26:26-32; Nm 29), e Tendas (Lv 23:38-44).

Nada se equipara a isso em parte alguma do Novo Testamento. As


ordenanças mais aproximadas, que poderíamos encontrar no Novo
Testamento, seriam os sacramentos da Santa Ceia e Batismo. Mas ainda
assim não encontramos nenhum daqueles detalhes que foram ordenados no
Velho Testamento. Veja só uma pequena parte do que era requerido de Arão
e dos sacerdotes ao oferecerem os sacrifícios de expiação:
Entrará Arão no santuário com isto: Um novilho, para oferta pelo pecado, e um
carneiro, para holocausto. Vestirá ele a túnica de linho, sagrada, terá as calças de
linho sobre a pele, cingir-se-á com cinto de linho e se cobrirá com a mitra de linho;
são estas as vestes sagradas. Banhará o seu corpo em água e, então, as vestirá. Da
congregação dos filhos de Israel tomará dois bodes, para oferta pelo pecado, e um
carneiro, para o holocausto (…) Tomará também, de sobre o altar, o incensário
cheio de brasas de fogo, diante do Senhor, e dois punhados de incenso aromático
bem moído e o trará pra dentro do véu. Porá um incenso sobre o fogo, perante o
Senhor, para que a nuvem do incenso cubra o propiciatório, que está sobre o
Testemunho, para que não morra. Tomará do sangue do novilho e, com o dedo, o
aspergirá sobre a frente do propiciatório; e, diante do propiciatório, aspergirá sete
vezes do sangue, com o dedo (Lv 16:3-5; 12-14, etc.).

“Então entrará..., tomará..., vestirá (...) e aspergirá..., etc”. Instruções


semelhantes no Novo Testamento poderiam ter sido dadas. Aos Ministros,
seria, por exemplo, ordenado a começarem os cultos aspergindo água santa,
acendendo incenso, curvando-se para o ocidente três vezes, enquanto fazem o
sinal da cruz recitando o “Pai Nosso”. Um calendário inteiro de estações e
dias santos, a semelhança daqueles do Velho Testamento, poderia ter sido
dado. Em outras palavras, um ritual para se achegar a Deus, com
procedimentos definidos, rico em simbolismo e ancorado num calendário que
poderia ter sido dado. Mas não há nada disso. O que não significa que a igreja
está livre para fazer a adoração do modo que ela desejar. Mas quer dizer, que
a nossa adoração é para ser simples, direta, sem ritual elaborado, destituída de
formas complexas, liberta de um calendário e ciclos naturais, contudo,
limitada ao uso daqueles símbolos instituídos por Cristo, a santa Ceia e o
Batismo. Se a igreja inventar uma adoração jungida por ritual, simbolismo e
normas, estará minando o propósito de Deus de que nossa adoração seja
simples, e estará voltando às sombras do Velho Testamento. Rejeite isso, não
aceite a pompa e as circunstâncias da liturgia medieval. Não abrace tão pouco
a extravagante alta voltagem da adoração contemporânea. Não crie um novo
sacerdócio de técnicos, artistas e atores. Nossa adoração é simples e,
portanto, universalmente válida; ela pode ser conduzida e usufruída em
qualquer lugar, a qualquer hora, seja qual for o salário, educação, ou perícia
tecnológica dos envolvidos. Pode ser feita num iglu no Alasca, numa cabana
de palha no Congo, ou numa grande catedral em Paris. Deus agora pode ser
adorado tanto em Samaria como em Jerusalém. Repetimos a implicação de
Hebreus 8-10. As ordenanças levíticas foram “uma cópia e sombra das coisas
celestiais”, mas Cristo, “obteve o mais excelente ministério” (8:5, 6). A
entrada de Cristo nos céus mesmo, e não num templo terreno, “uma mera
cópia do verdadeiro”, necessariamente significa a abolição da “cópia” antiga
(9:23ss). A Lei, Ele diz, foi “somente uma sombra dos bens vindouros que se
tornou realidade em Cristo (10:1). Ele escreve:
Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santos dos Santos, pelo sangue de
Jesus, pelo novo e vivo caminho que Ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela Sua
carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero
coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e
lavado o corpo com água pura (Hb 10:19-22).

O seu ponto é que não deveríamos retornar aos símbolos complexos, aos
rituais, e normas pelas quais o povo de Deus se aproximava dEle no Velho
Testamento. Essa forma de adoração foi abolida em Cristo, que cumpriu
todas as funções sacerdotais e sacrificiais, em nosso favor de uma vez por
todas. A nossa forma de nos achegarmos a Deus é “nova e viva”. Nosso
sacrifício é “um sacrifício de louvor, que é o fruto dos lábios que dá graças ao
Seu nome”, não é um sacrifício material com normas prescritas sobre um
altar (Hb 13:15). O pouco da adoração, praticada pela igreja primitiva, que
temos registrado no Novo Testamento reafirma este ponto. Os cristãos
primitivos devotaram-se à “doutrina dos apóstolos, à comunhão, ao partir do
pão e às orações” (At 2:42). Eles não seguiram o ritual ricamente elaborado
do templo, mas, a simples e singela adoração da sinagoga. Seus cultos eram
simples ministrações da Palavra, sacramentos e oração. Assim deveríamos
nós também fazer.
Reverente
Terceiro e finalmente, a adoração que é “em espírito”, é reverente. O espírito
de adoração é o espírito de reverência. Os crentes devem “oferecer a Deus um
culto aceitável, com reverência e santo temor” (Hb 12:28). A adoração nunca
foi conduzida de modo superficial e frívolo. Quando oramos, não oramos
meramente “Nosso Pai”, mas “Pai nosso que estás nos céus, santificado seja
Teu nome”. O nosso zelo para com a oração, e para com todo o nosso louvor,
é que o nome de Deus seja honrado e reverenciado, ou santificado, porque
Ele é o Pai que está nos céus. A verdadeira adoração sempre deve ser séria,
substancial, sólida, sóbria e reverente.
O que é reverência? A Bíblia não nos permite dar a esta palavra o
significado que desejarmos. Reverência é um justo temor. Um dos erros
comuns na discussão da adoração de hoje é o entendimento errado sobre o
conceito Bíblico de “temor de Deus”. Isto é absolutamente central na
espiritualidade do Velho Testamento. “É o fator religioso decisivo na piedade
do Antigo Testamento”, diz um dicionário teológico48. O temor (hebraico
yare) do Senhor, é o primeiro sinal da verdadeira fé (Êx 14:31), e o princípio
da sabedoria (hebraico yrah; Pv 1:7; Sl 111:1-10). Os olhos do Senhor estão
sobre os que O temem (Sl 33:18); Ele se acampa ao redor deles e a eles nada
lhes falta (Sl 34:7,9) Sua misericórdia é grande para com eles (Sl 103:11); Se
apieda deles (Sl 103:13); Ele os abençoa (128:1); satisfaz seus desejos (Sl
145:19); e se alegra neles (Sl 147:11). Conquanto este temor não é terror, não
é tão pouco uma suave apreciação. Há um temor que é “devido” a Deus (Sl
90:11). Consequentemente, àqueles que é dito para temer a Deus com justo
temor, também lhes é dito para “tremer”. Os que recebem aprovação de Deus
são os “humildes e contritos de espírito e que “tremem” de Sua Palavra” (Is
66:2). No Sl 96:9, o “Adorai ao Senhor na beleza da Sua Santidade” está em
paralelo com “tremei diante Dele, todas as terras”. Adorar e tremer vão lado a
lado. Toda terra é conclamada a tremer diante do nosso Deus (Sl 77:18; 99:1;
104:32; Is. 64:2; Jr 33:9). Até nosso regozijo é com tremor
Servi ao Senhor com temor e alegrai-vos Nele com tremor (Sl 2:11).

Outras expressões físicas de reverência, são descritas da mesma forma.


Elas também nos ajudam a entender o significado de reverência. O Salmista
diz:
E me prostrarei diante do Teu santo templo no Teu temor (Sl 5:7b).

Porque o Salmista reverencia (hebraico yirah) Deus, ele se inclina.


Novamente o Salmista diz:
Vinde, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do Senhor, que nos criou (Sl
95:6).

Prostrar-se e ajoelhar-se são respostas apropriadas por parte daqueles


que estão na presença de Deus (Sl 138:2). Moisés, “imediatamente prostrou-
se em terra e adorou” quando o Senhor passou diante dele (Êx 34:8).
Salomão ajoelhou-se enquanto orava (2Cr 6:3), e todo povo “se inclinou”
com o rosto em terra sobre o pavimento e adorou e louvou ao Senhor (2Cr
7:3). Da mesma forma, Esdras, caiu de joelhos em confissão, permaneceu
prostrado, e em seguida todo o povo “inclinou-se e adorou o Senhor com o
rosto em terra” (Ed 9:5,6; 10:1; Ne 8:6).
Quando passamos para o Novo Testamento, há alguma mudança
significativa? Não, a piedade do Velho Testamento, a piedade dos Salmos,
dos Profetas e de Provérbios, é a mesma piedade do Novo Testamento. Jesus
assume essa continuidade dizendo:
Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele
que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo (Mt 10:28).

Conquanto isto não é terror, é um forte temor (grego phobos) o que


Jesus ordenou. Ele também assume essa continuidade na parábola da viúva
persistente, que aproximou-se do juiz que “não temia a Deus nem respeitava
aos homens” (Lc 18:1, 2, 4). O Novo Testamento define o ímpio como aquele
que não teme a Deus (Rm 3:18), enquanto cristãos, são aqueles que estão
“andando no temor do Senhor” (At 9:31). O temor de Deus é regularmente
apresentado como uma motivação para a vida cristã. Os cristãos estão
“aperfeiçoando a santidade no temor de Deus” (2Co 7:1), “sujeitando-vos uns
aos outros no temor de Deus” (Ef 5:21), e eles se conduzem com temor
durante o tempo da sua peregrinação sobre a terra. Esta última referência
carece de um exame:
Ora, se invocais como Pai àquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo as
obras de cada um, portai-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação (1Pd
1:17).

Aqui os temas de adoção e temor são apresentados juntos. Se o Juiz é


nosso Pai, temos que nos conduzir com temor! (Rm 11:20; Cl 3:22; Hb 4:1;
1Pd 2:17). Segundo o último livro da Bíblia, o céu é povoado por aqueles que
temem a Deus (Ap 11:18). Tanto o apelo ao evangelho, como o apelo à
adoração encontrado no Apocalipse, é apelo ao temor a Deus (Ap. 14:7; 15:4;
19:5).
Nem tão pouco existe temor no Novo Testamento sem tremor,
prostração e ato de se inclinar. O Apóstolo Paulo diz:
Assim, pois, amados meus, como sempre obedeceste, não só na minha presença,
porém, muito mais agora, na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com
temor e tremor (Fp 2:12).

“Temor e tremor” estão juntos aqui e em outros lugares no Novo


Testamento, como estiveram no Velho Testamento. Os coríntios são
recomendados, porque sua obediência era acompanhada pelo “temor e
tremor” (2Co 7:15; cf. 1Co 2:3; Ef 6:5). Semelhantemente o Apóstolo João,
quando teve a sua visão de Cristo sobre o Seu trono, “caiu aos Seus pés como
morto” (Ap 1:17). Paulo conclui a extensa oração com a qual inicia sua
epístola aos Efésios, dizendo:
Por esta razão, dobro os meus joelhos diante do Pai (Ef 3:14).

Ele também promete que:


Um dia ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra, e debaixo da terra,
e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai (Fp. 2:10,
11).

Finalmente, nós lemos dos 24 anciões do Apocalipse, que eles


“prostraram-se diante daquele que se assenta no Trono”, que “prostraram-se e
adoraram” (Ap 4:10; 5:14; cf 5:8). A reverência do Velho e do Novo
Testamentos é um santo temor que pode ser expresso através de tremor,
dobrar os joelhos, se inclinar ou prostrar-se.
Se Deus não está preocupado com a postura, certamente está com
relação às atitudes do coração que refletem esses movimentos. Alguns
autores querem evitar expressões como, “grave” e “solene” e advogam
expressões mais amigáveis, suaves, com uma atmosfera mais informal para o
culto. Mas alguém poderia me responder como seria possível este tipo de
coisa, e ainda obtermos o verdadeiro e bíblico conceito de reverência.49 E
como alguém poderia descrever, como seria o humor de uma assembleia
onde os adoradores estão tremendo, de joelhos, inclinados e prostrados diante
do Todo Poderoso?
E o que dizer da alegria? Depende do que se entende por alegria. A
alegria Cristã, não é a mesma alegria que alguém experimenta numa bodega
ou num baile, mas a alegria daqueles que temem a um Deus a quem amam.
Talvez ajude de novo, fazermos algumas distinções. Mesmo no mundo dos
esportes, há uma diferença entre a alegria expressa no momento em que um
jogador faz o gol do campeonato e a alegria sentida por ocasião do banquete
concedido, no clube, em comemoração da vitória. Em ambos os casos a
emoção é a alegria, contudo a maneira de expressá-la difere quando a
situação muda de um lugar para outro. Da mesma forma, a alegria do louvor,
não é a mesma do estádio. Esta alegria não é expressa por “ah eu tô maluco!”,
subindo e descendo nos bancos, gritando e assobiando. Eu uma vez, ouvi um
pregador perguntar, por que não ficamos agitados na igreja como fazemos no
estádio de futebol? A resposta é que esse tipo de agitação não é apropriado
para o culto público e é um tipo diferente de alegria. “Deleitar” e “temer”
estão lado a lado no Salmo 112:1. Como já tivemos a oportunidade de ver, a
alegria Cristã é compatível com o “tremer” (Sl 2:11). Presumimos que os 24
anciões, estavam cheios de alegria quando se sentiram prostrados diante de
Deus. Sem dúvida, prostrar-se e sentir alegria, estão juntos na experiência dos
homens sábios, que “se alegraram com intenso júbilo (…) e prostrados o
adoraram” (Mt 2:10,11). Nossa alegria é uma profunda emoção, semelhante à
paz que o mundo não conhece. Não é o barulho excitante da arena, mas “a
alegria indizível e cheia de glória” (1Pd 1:8). John Newton colocou desta
forma:

Salvador, se da cidade de Sião


Eu, pela graça um membro sou,
Deixa que o mundo zombe e me despreze,
Eu me gloriarei em Teu nome:
Os prazeres do mundo desvanecem,
Em toda sua honra pompa e orgulho;
Alegrias sólidas e tesouro duradouro
Só os filhos de Sião, e mais ninguém, podem conhecer.
O mundo conhece somente os prazeres passageiros e temporais.
Experimentam num momento e logo tudo se acaba. Nossas alegrias são
“alegrias sólidas” que somente “os filhos de Sião” experimentam. Bard
Thompsom em Liturgies of the Western Church (Liturgias da Igreja
Ocidental), expõe a liturgia de Calvino que “era baseada no Soli Deo Gloria,
embora ao mesmo tempo dominada e forjada pelo estilo austero de toda
piedade Calvinista”50. Nossa alegria é uma alegria reverente, e demonstrada
em público com retraimento. As ostentações exibicionistas de zelo, seja por
gritos, levantar de mãos, pulos ou por outras manifestações físicas, têm sido
deixadas de lado nos círculos Reformados, por um senso do que seja
apropriado para adoração no culto público, uma vez que o desejo não é
chamar a atenção para si próprio. Nós não oramos de forma que sejamos
visto pelos homens, quer na esquina ou no santuário. Somente Deus é quem
deve ser glorificado (Mt 6:1-18).

42 Talvez um exemplo paralelo possa ajudar. Nós lemos no evangelho de João que “a lei foi dada
através de Moisés; graça e verdade vieram por Jesus Cristo” não porque o Antigo Testamento era
só lei e totalmente destituído de espírito e verdade, ou porque o Novo Testamento é todo graça e
destituído de lei, mas tão somente como uma questão de ênfase (Jo 1:17). É claro que havia graça
e verdade. Mas havia mais ênfase na lei no Velho Testamento e graça no Novo Testamento. Há
mais verdade agora em que tudo está pleno e claro em Cristo.
43 John Calvin, “On The Necessity of Reforming the Church” in Selected Works of John Calvin,
vol.1 (Baker Book House, 1983 [1844]), 128.
44 Philip Shaff, “History of the Christian Church”, vol.5 (1907; reprint, Grand Rapids: W. B.
Eerdman´s, 1947), 869.
45 Hughes O. Old, The Shaping of the Reformed Baptismed Rite in the Sixteenth Century (Grand
Rapids: Eerdman´s, 1992), 286
46 Robert W. Godfrey, “Calvin and the Worshi of God,” (manuscrito não publicado), 15.
47 Ibid., 19,11.
48 Colin Brown (ed.) The New International Dictionary of New Testament Theology, Vol. 1 (Grand
Rapids: Zondervan Publishing House, 1975), 622.
49 Frame não encontra “razões bíblicas” para acreditar que o culto deva ser conduzido numa
“atmosfera solene”. Ele reduz “dignidade” a “uma palavra codificada para formalidade”, e diz que
“o Novo Testamento, em nenhum lugar, ordena a formalidade para o culto” “Ao todo” ele diz: “ao
que me parece, as considerações mais relevantes, são a favor do culto informal com uma atmosfera
amigável, convidativa no seu estilo de linguagem e música” (Worship, 82, 84).
50 Bard Thompsom, “Liturgies of the Western Church” (Philadelphia: Fortress Press, 1961), 193.
IV
Concluindo o Assunto
TALVEZ AGORA seja necessário avançar um pouco mais discutindo a
natureza da “submissão e austeridade” da piedade Reformada à luz de
reivindicações feitas quanto àquelas expressões físicas exuberantes. Dança
(Sl 149 e 150) aclamar e aplaudir com as mãos (Sl 47), o levantar as mãos
(inúmeros textos), são todos apontados como expressões bíblicas de louvor,
que deveriam ser usadas hoje na igreja. Um proponente chega a dizer que é
um “absurdo”51 pensarmos que a Escritura e seu princípio regulador proíba
dança no culto. Deixando de lado o fato inconteste de que ninguém, mas
ninguém mesmo, em toda a tradição cristã ortodoxa, quer Grego Ortodoxa,
Católico Romana, ou Protestante, jamais advogou ou defendeu dança no
culto, a não ser, em tempos recentes. Há, ainda, outras considerações que
queremos fazer sobre a forma como os Salmos e outros textos têm sido
usados para fazer avançar a adoração com demonstrações físicas.
Primeiro, os Salmos, dos exemplos que conhecemos, descrevem
emoções e ações pessoais, as quais, necessariamente, não devem ser
entendidas como praticadas na adoração pública. Deixe-me citar alguns
exemplos. Mais de um terço dos Salmos podem ser classificados de cânticos
de lamento ou súplicas. O salmista descreve a si próprio como gemendo,
chorando, suspirando, em lágrimas, angustiado, confuso, em solidão,
dormente, moído, ansioso, desconsolado, em desespero, doente, morto e
trucidado (Sl 5:1,2; 6:6-7:10; 25:16,18; 38:6-9, 15-17; 42:11ss; 69:20; 44:22;
etc.). Devemos então, porque encontramos estas emoções e ações descritas
nos Salmos, pensar que elas também deveriam ser expressas no nosso culto
público? Devemos ainda acreditar que quando um Salmo é lido ou cantado
no culto, que eles se constituem um apelo para gemidos choros e suspiros
audíveis? Deveria o adorador repetir as emoções ali descritas? A atitude
mental? Ou a postura corporal? Deveríamos nós cantar as descrições de
suspiros e lágrimas, suspirando e derramando lágrimas? Uma seleção bem
cuidadosa de leitura dos Salmos seria requerida dos que reivindicam
demonstrações físicas ou audíveis, como levantar as mãos, aplaudir, dançar e
gritar, a fim de deixar de lado aqueles Salmos que falam de prostração, choro
e gemido. Na adoração, é bom lembrar que há momentos em que não estamos
preparados para tal convite.
Segundo, os Salmos lembram eventos da vida de Israel, nos quais o
louvor foi expresso em formas não típicas da assembleia pública. Por
exemplo, o Salmo 47, lembra o transporte da arca da aliança, da casa de
Obed-edom para Jerusalém. Esse transporte teve a característica de uma
parada de celebração de uma vitória, com trombetas, aclamações e dança
(2Sm. 6:12-15). Davi mesmo, nos é dito, “dançou diante do Senhor com
todas as forças”. Mas é coisa muito diferente dizer que esta mesma expressão
de alegria seria empregada pela nação reunida ante os santos dos santos, ou
que deveria ser empregada na assembleia pública de hoje. A dança pode
louvar a Deus se pensarmos na adoração no sentido “mais abrangente”.
Casamentos e outras festas e celebrações, podem até ter sido ocasião para
isto. Por exemplo, Miriam e as mulheres de Israel, celebraram com tamborins
e dança quando o mar Vermelho fechou sobre o exército egípcio, destruindo-
o (Êx 5:20). Mas esta foi uma celebração pública, não um culto de adoração.
O Salmo 81 menciona celebrações públicas tais como lua nova, lua cheia,
dias de festa, com uma demonstração exuberante nestes dias. Vemos agora
como é vital distinguirmos como essas coisas diferem. A Bíblia não ensina,
nem sugere, que a dança seja um elemento aprovado e abençoado para o
culto público, e a história não conhece nenhum registro desta prática
realizada no templo de Israel e nas sinagogas, ou na igreja cristã. Não
podemos encontrar nenhum mandamento, nenhum exemplo, ou nenhuma
promessa.
A única referência no Novo Testamento que encontramos, está em 1Co
10:7. Lá Paulo cita Êx 32:6 e o incidente do “bezerro de ouro”.
Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles; Porquanto está escrito: O povo
assentou-se para comer e beber e levantou-se para divertir-se (1Co 10:7).

O “divertir” a que o texto se refere, é descrito em Êx 32:19:


Logo que se aproximou do arraial, viu ele o bezerro e as danças; então, acendendo-
se-lhe a ira, arrojou das mãos as tábuas e quebrou-as ao pé do monte (Êx 32:19).

As pessoas estavam “dançando” de fato, a RSV, (Versão Padrão


Revisada) traduz esta palavra do termo grego (paizin), encontrado somente
aqui no Novo Testamento, como “dançar”. O termo, contudo, possui uma
vasta gama de significados: “jogar, praticar esporte, gracejar, cantar e dançar”
(segundo Thayer), ou “jogar, entreter alguém e dançar” (segundo Arndt &
Gingrich), aqui ele se refere claramente à dança litúrgica. Note: O Apóstolo
Paulo chama os participantes de “idólatras”. A “dança”, em volta do bezerro
de ouro, é vista por Paulo (e Moisés!), como idolatria pagã pura e
simplesmente. Tal divertimento era adoração falsa, tanto quanto era a
idolatria do ídolo.
Dança também é listada como uma expressão de louvor no Salmo 149 e
150, no entanto, aqueles que querem aqui justificar a dança no culto terão,
mais uma vez, de ler seus textos seletivamente. O mesmo Salmo que diz
“louve Seu nome com dança” (versão do rei Tiago) também diz:
Exultem de glória os santos, e no seu leito cantem de júbilo, nos seus lábios estejam
os altos louvores de Deus, nas suas mãos espada de dois gumes (Sl 149:5,6).

Desde que os Salmos nos direcionam a “cantar com alegria em nossas


(camas)”, deveríamos então trazer nossos colchonetes para o culto? Desde
que estes que trazem “altos louvores a Deus” em seus lábios devem ter uma
“espada de dois gumes em suas mãos”, deveríamos nós também trazer
espadas conosco para o culto e movê-las na hora da adoração? Certamente
está claro que não podemos aludir aos movimentos e ações nos Salmos e nos
basear nisso somente para concluir que eles pertencem ao culto público.
Porque os Salmos se reportam a eventos da historia de Israel, eles descrevem
celebrações públicas que envolvem elementos (danças, mover de espadas,
aclamações, e aplausos, etc.) e coisas, que ordinariamente não são
apropriadas para o culto público regular.
Terceiro, algumas práticas que são defendidas hoje, envolvem não
somente uma leitura seletiva, mas uma leitura equivocada do seus
significados na Escritura. Consideremos em particular o levantar das mãos.
Não é difícil determinar o significado desta prática na Escritura. Trata-se
simplesmente de uma postura para oração. Alguém pode orar de pé (postura
mais comum — 1Sm 1:26; Mt 11:25; Lc 18:11,13), de joelhos (2Cr 6:13; Sl
95:6; Dn 6:10; Lc 22:41; At 7:60, 9:40, 20:36, 21:5), sentado (2Sm 7:18), ou
prostrado (Nm 16:22; Js 5:14; Dn 8:17; Ap 1:17, 4:10, 5:8, 5:14, 11:16). O
levantar das mãos é uma das formas aceitáveis como parte das posturas de
oração. A famosa oração de Moisés durante a batalha de Israel, contra
Ameleque, nos dá um bom exemplo, mas há muitos outros, como: (Êx
17:9ss; Sl 28:1, 2, 63:4, 72:2, 119:47, 134:2, 1412, 143:4 etc.). Então, se
devemos levantar as mãos no culto, isto deveria ser feito simbolicamente, em
nome da congregação pelo ministro, ou, por toda congregação, durante a
oração como uma postura de intercessão.
Mas, o movimento carismático, tomou o que era uma postura para
oração e o tornou numa resposta pessoal de agitação emocional. Como por
exemplo, quando alguém, movido pelos eventos do culto, levanta a mão de
outra pessoa. Quanto a se é ou não uma coisa apropriada a fazer, o nosso
ponto de vista é que não é bíblico fazer. Em geral as pessoas não examinam
na Bíblia as referências quanto ao levantar das mãos, simplesmente se
identificam com um grupo a que pertencem. Levantar as mãos representa o
levantar uma oração a Deus, sendo assim é apropriado assumi-la quando
oramos. A única coisa comum que o levantar de mãos bíblico tem a ver com
o levantar de mãos carismático é que as mãos ficam suspensas no ar. Uma é a
postura de intercessão; outra é, na verdade, uma ostentação de agitação
espiritual, à qual, a nosso ver, é melhor não fazer concessão.
Onde Isto nos Levará
Então, onde isto nos levará? A.W. Tozer escreveu um panfleto, alguns anos
atrás, intitulado Worship The Missing Jewel of the Evangelical Church
(Adoração: A Joia Perdida da Igreja Evangélica), onde ele lamenta a
irreverência que acontecia na maioria das igrejas tradicionais daqueles dias.
Algumas continuam a empregar o modelo reavivalista. Como as igrejas onde
eu cresci, onde a “adoração” consiste de cânticos superficiais, intercalados
com palavras superficiais, virtualmente sem oração, sem confissão de
pecados, pouca leitura bíblica, um sermão evangelístico, apelo e tchau! Na
verdade isto não é um culto — é uma reunião de “reavivamento”. Alguns
tomam este mesmo formato, e para incrementar, adicionam um coral
produzido, solos, dramas, esquetes e dança. Eu digo que esta variação é
necessária porque a audiência objetivada é a congregação e não o céu. Seja o
que for que se tente dizer em contrário, a verdadeira intenção é apresentar
algo para as pessoas (incluindo não crentes no meio do povo) e não ao
Senhor. Não é por essa razão que os aplausos têm sido tão comuns nesses
cultos? E não é por essa razão também que nossas igrejas parecem mais com
teatros do que com igrejas?
A alternativa Carismática é um pouco melhor, se é que há algo bom. Ela
encoraja as pessoas a buscarem ao Senhor e a deleitarem-se nEle, coisa que,
infelizmente, falta em muitas igrejas tradicionais. No entanto, o estilo
Carismático, podemos dizer com bastante certeza, é fortemente não-
cognitivo. Os louvores, e os consequentes pensamentos a respeito de Deus,
são regularmente banais, repetitivos e vazios de conteúdo sério. O que o
“adorador” sente e experimenta, tende ser superficial e centrado nele mesmo.
Ele é movido não pela verdade, mas pelo que sente; e a experiência acaba se
tornando um fim em si mesma. E isto também, a longo prazo, resultará em
falência espiritual. Uma pessoa pode mergulhar no poço das emoções muitas
vezes; é maravilhoso enquanto dura, mas no fim acabará seco.
Muitos jovens que nasceram nestas igrejas, agora estão dando meia volta
com seus próprios pés e procurando igrejas litúrgicas. Alguns estão na
“Trilha de Cantuária”, como Robert Weber colocou. Outros se uniram às
igrejas Católicas Romanas; e alguns seguiram até mesmo um ex-líder da
Cruzada Estudantil para Cristo, e uniram-se à Igreja Ortodoxa Grega, que
agora mantém uma “Diocese Evangélica” designada a acomodar evangélicos
que desejam fazer a transição para a Ortodoxia. Fazer da adoração
instrumento de evangelização, terapia, ou entretenimento, é bancarrota na
certa. Isto não alimenta a alma, assim como a outra alternativa de um ritual
frio, também não alimenta. Os “aromas e sinos” das cerimônias da Igreja
Anglicana “alta”, não geram fé profunda, e acaba, na verdade, inibindo um
verdadeiro conhecimento pessoal de Cristo. Num certo aspecto, não passa de
uma outra forma de entretenimento, outra forma de agradar os sentidos. É
mais “religioso” na forma, mas muito duvidoso em seus efeitos.
Qual é então a resposta? A simples, espiritual e reverente adoração da
herança Calvinista; a adoração na qual nós lemos, pregamos, oramos e
cantamos a Bíblia. Somente este tipo de adoração pode sustentar e nutrir a fé
e a piedade Reformada. Nela, nós temos ordem sem sufocamento, liberdade
sem caos, edificação sem entretenimento, reverência sem a rotina não-
cognitiva. A adoração Reformada visa a Glória de Deus somente e, para
tanto, provê um formato na qual a verdadeira adoração tem lugar. Somente a
Palavra de Deus estabelece a ordem do Seu culto — não as invenções e a
tradição dos homens. Glória pois a Deus somente — Soli Deo Gloria.
Que assim seja!

51 Frame, Worship, 131. Isto nos parece um modo nada humilde de se referir aos pontos de vista de
um oponente teológico.
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Projeto Os Puritanos

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