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Aula 09 – Mulheres negras e indígenas na cultura visual “Baiana”: retrato convencional do ponto de vista da

do Oitocentos. composição, pose e expressão facial. Mas diferente por


ser uma mulher negra e colares.
Texto: Renata Bittencourt, Modos de Negra, modos de
branca: o retrato “Baiana” e a imagem da mulher negra II – A pintura “Baiana” e as modas e modos femininos
na arte do século XIX”. Dissertação, Unicamp. 2005. do Brasil do século XIX
Jorge Coli
Sinais exteriores da posição social dos indivíduos
Retrato “Baiana”, óleo sobre tela, de autoria não (vestuário e joias) – Indumentária: elemento simbólico.
identificada. Apresenta imagem de mulher negra, Moda – visualização sistemática de valores e padrões
desconhecida, adornada de belas joias, misturando de comportamento.
elementos de etilo comum aos hábitos das mulheres
brancas da época, e uma profusão de colares de outro Livro: Gilberto Freyre, Modos de homem e modas de
usualmente utilizados por mulheres negras. mulher – “mulher ornamental” – expressão de
feminilidade. Destacar encantos para homens.
Pintura é caso raro de retrato de mulher no XIX. Oposição entre gêneros: vulnerabilidade x força;
fragilidade x poder;
Objetivo do trabalho: investigar como a obra se
apresenta de maneira singular na retratística do Opostos não se aplicam da mesma maneira quando a
período, surgindo como imagem reveladora de seu equação é para mulheres negras. Sinhás brancas –
contexto histórico e cultural, bem como de relevantes delicadeza das roupas, enfatizando ambiente
questões relacionadas a gênero e etnicidade. doméstico. Mulheres negras: trabalhos diferentes,
vestuários diferentes. Diferenças também pelos
Estética híbrida da obra: elementos de distinção social elementos de grupos étnicos.
habituais da elite e outros de herança africana. Quais
sentidos tem essa sobreposição? Beleza da menina franzina negra x senhora de figura
maternal com quadris e coxas largas. Mas senhoras
MÉTODO: brancas evitam robustez de macho – vigor associado às
Para entender o retrato: é preciso entender o que está negras da senzala. (Freyre, Sobrados e Mucambos)
disponível para a leitura ao nosso olhar afastado
temporalmente. Entender a visualidade do período. Viajantes notavam para senhoras brancas: contraste
entre simplicidade extrema dos trajes no âmbito
I – Retrato e representação e a obra “Baiana” doméstico x ostentação da vestimenta na vida pública.

Singularidade: fato de se tratar de um retrato – havia Escravas: jogo de ocultar/revelar o corpo pelas roupas.
poucos retratos individuais de negros na iconografia do Ao contrário dos negros das casas-grandes e sobrados,
XIX e mais raros, de mulheres. Exemplos mais números ou dos negros de ganho, os da lavoura portavam trajes
são dos viajantes e fotografias. Poucos retratos a óleo. precários ou quase nus. Nos mercados de escravos:
quase nus. Negros que circulavam pelas cidades,
Retrato – é estrutura narrativa para remeter à vestidos. Vestido e identificado socialmente. Leis para
identidade da pessoa representada. Existência física + isso.
subjetiva. Vida e pensamento.
“Baiana”: mulher negra retratada estabelece para si
Perguntas à obra “Baiana”: que identidade se outro código de sensualidade pela exibição parcial e
apresenta através do retrato? Como a visão da imagem comedida dos ombros – “código erótico da elite”. [33]
daquela mulher traduz sua individualidade? Em
contexto marcado pela associação entre pele negra e II.II – Opulência dos senhores, luxo das escravas
servidão, que significados sua imagem quer projetar?
Escravas da casa vestindo-se como senhoras. Uso de
Século XIX: supervalorizava o corpo em caracterizações objetos de luxo nos escravos para reafirmar situação
genéricas, em detrimento da representação de social do indivíduo branco. “Adorno adicional do
aspectos subjetivos e individuais. senhor”. [36]

Retrato – é resultado de relações de poder – complexa Sobre Leis da Metrópole sobre luxo exibido pelas
negociação entre artista e retratado escravas. Evitar perigo da confusão na percepção
social. Leis para controlar: “exibicionista opulência
senhorial”.
Texto: Lara, Silvia. Sob o signo da cor: trajes femininos clássica simplicidade no rosto. Ambiente fechado,
e relações raciais nas cidades de Salvador e do Rio de doméstico.
Janeiro, 1750-1815.
Fornarina: sem pudor, revela parte superior, tecido
Luxo também associado à luxúria das escravas ou transparente, mão direita no seio. Cabelo semelhante
libertas, ou de mulheres solitárias. ao da Velada, mas colocado junto a um torso oriental
que ajuda a criar atmosfera erotizante. Ambiente
Tentativas de estabelecer exclusividade do luxo a aberto (vegetação). Nome do pintor no braço (posse).
indivíduos brancos. Porém, prática de exibição de Contraste com fundo enfatiza brancura.
riqueza e poder não foram controladas pelas leis.
Senhores continuaram a exibir grupos de escravos Ingres (1780-1867): aluno de David, figura central na
ricamente paramentados a carregar cadeirinhas pintura francesa.
douradas. Hábitos ostentatórios resistentes à lei.
Retrato de Madame Sennones – amante e depois
Mas luxo era para minoria de escravos. Regra: roupas esposa do Visconde. Vermelho do vestido, seda
simples. Camisas, ceroulas de algodão, calças e camisas dourada, xale indiano – intimidade suntuosa. Anéis,
de estopa, calças de canga. Vestidos de pano da costa e colo com decote coberto por tecido levíssimo
de chita. Proibição de sapato. transparente. Rosto de forma ovalada. Olhar altivo e
quase indiferente ao observador, EROTISMO
Vestuário das baianas: um dos conjuntos de diferente do nu – está no vermelho apaixonado, na
indumentária afro-brasileira mais conhecidos. Padrão lisura da pele. SENSUALIDADE SUBLIMADA – beleza da
de indumentária de combinação de influências diversas mulher adornada. Ordem privada, restrita ao visconde.
– cultura nigeriana (braceletes e argolões), muçulmana
(rodilha ou turbante) e angolano-congolenses Grande Odalisca: mesmo ano de Sennones. Outros
(miçangas e balangandãs) paradigmas de representação. Exótica sensualidade,
não é ninfa ou figura mitológica. Tradução erotizada da
“Baiana”: colares lembram africanidade, mas visão romântica sobre oriente próximo. Sexualidade
indumentária se distancia da tipologia tradicional de feminina articulada com concepção de oriente exótico.
pano da costa e torso. A riqueza não é para projetar Realidade luxuosa, permissiva.
outrem (senhor, por exemplo), já que se trata de Análise:
retrato individual. Projeção da auto-imagem. a) Corpo bem próximo da tela.
b) Sensual e casta ao mesmo tempo. Revela
Observação: perguntas e dúvidas que Sandra apenas as costas, mas olha diretamente para
Koutsoukos faz para retratos – cenário, roupas, pose, observador.
quem são, objetos lhe pertencem ou não etc. c) Superfície suave do corpo em contato com
sedas e pele de anima. Lisura da pele x joias
detalhadas na cama. Pulso e cabelos
Parte II – Representação, Etnicidade e Gênero
adornados.
d) Sensualidade “frígida”. Sensual e lânguida.
Tradições de representação feminina: Corpo exposto e
Corpo ornamentado em Rafael e Ingres

Dois modelos: 1) versão sensualizada, nu, Texto: COLI, Jorge. “Pintura sem palavras ou os
representação da Vênus; 2) valorização da castidade e paradoxos de Ingres”. In: NOVAES, Addauto (org.),
da virtude feminina. Artepensamento. São Paulo: Companhia das Letras,
1994.
No século XIX: maior parte dos retratos de mulheres
negras refere-se à tradição 1, sensualidade, Afrodite; No Brasil – Século XIX: é possível reconhecer a
brancas – privilegia elogio moral das senhoras em seus presença das duas linhagens de representação que
espaços domésticos. observamos em Rafael e Ingres. [56]

Rafael: A velada e A Fornarina, mesmo ano, Argumento: “Baiana” – relaciona-se mais àquela que
provavelmente mesma modelo (talvez amante do valoriza mulher em sua dócil domesticidade, onde
pintor). símbolos materiais de distinção nos informam sobre
Velada: Uma figura suntuosa, discreta, casada e mãe. sua posição e papeis sociais. Mulher coberta e apreço
Coberta, com adornos convencionais e discretos, pela ornamentação. [56-57]
Matriz constante: corpo em imagens de menor Argumento: Retrato feito por Benoist difere da maior
individuação para mulheres negras. O nu é sempre o parte das imagens que vemos de indivíduos negros
outro – viajantes – interesse pelo corpo da mulher porque não apresenta a bela negra em atividades
negra. Construção de personagens de marcada servis, limitadas a segundo plano, tendo sua inserção
alteridade exótica, e nem sempre encontramos justificada pela presença de sua senhora. [65]
dimensão alegórica ou espiritualizante. Olhar
documental. “Curiosidade antropológica”. Negra deixa de ser “figura de fundo”, ganha distinção
individual, pose adota nobre inspiração, representada
dentro dos grandes cânones. Oposto de Olympia, de
V – “O retrato de negra”, de Marie Guillemine Benoist Manet [1863-1864].

Manet esteve no Brasil aos 17 anos. Fortes impressões


O “Retrato de negra” – uma das imagens de mulher de uma cidade povoada de escravos. Fez “Retrato de
negra mais emblemáticas da história da arte. Pintura Laura” 14 anos depois. Talvez Laura servido como
do século XVIII par XIX. Louvre. Benoist foi discipula de exemplo para Olympia.
David.

Seio direito à mostra, mão segura tecido para evitar VI – Retratos individuais de negros na pintura e na
maior desnudamento. Contraste entre alvura do tecido escultura: a poética das exceções
e pele. Olha diretamente para observador. Expressão
enigmática. Interior doméstico, vulnerabilidade e
sensualidade. Diálogo entre elementos de beleza Retrato – um dos gêneros mais difundidos no Brasil do
clássica e o “exótico”, reforçado pelo tecido nos XIX, mas ausência de retratados negros. Muitos artistas
cabelos. estrangeiros viviam de fazer retratos no Brasil.

Negros se tornam um dos assuntos de preferência dos


Pintura feita pouco depois da emancipação, abolição viajantes, mas raramente aparecem na pintura, em
da escravidão nas colônias francesas em 1794. especial em retratos.
Emancipação temporária [Napoleão cancela em 1802].
Alguns retratos são encontrados, a maioria de homens
Recepção à obra: “Em quem poderemos confiar na negros – escravos ou livres.
vida após tal horror! Foi uma branca e linda mão que
criou esta negritude”. “Horácio”, de Louis Rochet, provável único exemplo de
retrato escultórico de um escravo brasileiro. Escravo
Circulava na França ideia de que se negros eram menos que serviu ao artista francês quando esteve no Brasil.
do que humanos, certamente não mereciam ser Registro perene e dignificante. Rara representação
objetos de formas de arte elevadas. Indignação: quem individualizada. Rosto expressa cansaço, dignidade.
pode ser objeto de retrato?
“Retrato do Marinheiro Simão, o Carvoeiro”, de José
Seio: alude a papel maternal, mas no contexto político Correia de Lima, 1853, discípulo de Debret. Quadro
da França pós-revolução, significava LIBERDADE. feito para homenagear negro responsável pelo
Amazonas – extirpavam seio direito para ganhar salvamento da tripulação de um barco que naufragou
agilidade para lanças e dardos, mantinham esquerdo no Rio. Retrato de cunho moralizante, exalta valentia,
para amamentar filhos. Combinar atuação doméstica modo dignificante, modo viril. Expressão serena e
com vida pública. plácida, de heroísmo modesto. [83]

Mas imagem ainda reforça sexualidade acentuada, A redenção de Cam, Brocos – “Obra traduz a
associada às mulheres negras. perspectiva das elites sobre o negro e a consequente
perspectiva da academia sobre sua imagem. [...]
Conclusão: quadro é mistura entre vertente do nu ilustrar as teses de branqueamento”. [89]
antigo, caráter alegórico, e nu intimista, atmosfera
exótico. Lenço na cabeça – associado às trabalhadoras Boime sobre o negro nas representações seguiam três
escravas e imagens do oriente. temas:
a) Desumanidade do sistema
SEMELHANÇA COM POSE DE FORNARIA, de Rafael. b) Capacidade de o negro integrar-se à sociedade
Movimento das mãos que ocultam e revelam o seio. c) Potencial para subir além do seu estado
selvagem.
Nos séculos XVII e XVIII, atividade artística era
exercida no Brasil sobretudo por negros. Artistas e VII – Mulheres negras e o olhar dos artistas viajantes:
artífices dos negros “obreiros de todas as artes”. exotismo, trabalho e beleza
Universo acadêmico possibilitou ascensão social
de diversos artistas negros
Na obra de viajantes: observação de usos e costumes,
Texto: José Roberto Teixeira Leite. Pintores negros vestimentas típicas e retratística informal. Intenção
do Oitocentos. São Paulo: MMM Motores Diesel, documental.
1988.
Maciça presença negra na paisagem retratada pelos
Caráter conservador do meio artístico viajantes. Mulheres aparecem de duas formas:
oitocentista: Para Leite, incorporação de uma a) Identificação de tipos
filosofia de embranquecimento que garantiu b) Identificação de atividades
sucesso destes artistas. “fingir-se de brancos”.
Mundo exótico e seus personagens, catalogando
Telas que exibiam imagens de artistas negros entre espécies, vegetais e tipos humanos, exemplificar
pincéis e telas certamente impactava a grupos étnicos e hábitos locais.
sensibilidade da época – NEGRO FORA DO
CONTEXTO. [92] Objetivo: mostrar a distância entre “Baiana” e essas
perspectivas exotizantes. [106]
“Retrato de Arthur Timotheo da Costa” por
Chambelland: retratado mostrado como homem “Negras” – Debret
misterioso, num ambiente luxuoso, portando
indícios de distinção: bengala, luvas, sapatos Registro das diferenças visíveis observáveis entre
brilhosos, tudo usado com desenvoltura. Registro população negra. Construir tipologia [marcas de
elegante, um “dândi”, observador. nações, etnia, portos de origem]

Um “Dândi negro com olhar provocador”. Retrato Negras, de Debret: não há nomes, apenas identidade
do modo como ele era percebido socialmente – étnica e status social. Visão caleidoscópica de feminino,
indicar sua posição social no retrato. em que se misturam o belo e o grotesco, o ocidental e
o africano. Investiga feições, a diversidade.
Obra rompe com convenção do uso do retrato para Sensualidade nos olhares castamente desviados e nos
relacionar poder e prestígio aos indivíduos brancos leves sorrisos faceiros das mulheres à direita (Rebolo e
de destaque. Faz isso com homem negro. Obra nos Benguela)
traz um homem descrito em função de seus
atributos culturais. Especial atenção aos adornos, penteados,
indumentária, cabelos. Não olha estado natural dos
“Mulata quitandeira”, de Antonio Ferrigno, humanos, mas estado geral da sociedade,
problematiza as possibilidades de integração negra transformação pela cultura.
na sociedade pós-abolição.
Rugendas
Análise: mulher sentada no chão de terra, entrada Também fez representação de tipos, identificando
de habitação simples. Corpo antiacadêmico, grupos e os associando a temperamentos
abandonado, decomposto, ombros curvados, olhos
cerrados, cachimbo, carteira de fumo no chão, “Preparação Da raiz de mandioca”, Rugendas: corpos
chinelos gastos, pés com solas grossas (escravidão), mais fluidos, sem característica escultórica, mulheres
ausência de delicadeza nas mãos. Formas pesadas. com seios cobertos.
Bandeja de ervas arrumadas para venda. Temas
humildes, “exuberância modesta”. Mulher no centro – Seios à mostra, observados pelo
feitor. Dimensão do corpo em “S”, sensual, adorno na
Supor que obra representa mulher liberta. orelha, blusa que escorrega pelos ombros, olhar que
Detalhes pitorescos da vida rural. Abolição não parece devolvido ao senhor. Chave da “sedução” e não
criou prosperidade. Realidade imutável, presa a “violência” destacada por Rugendas.
um tempo cuja passagem é árdua e lenta. [101]
Hercule Florence
“Negra rebolo”, 1828. / Hercule Florence, Negra
Cabinda (detalhe), 1828.
“Naked” diverso de “Nude” – “estar nu” (naked) é Livro: Cristina Costa, A imagem da mulher: um estudo
estar privado de roupas, com constrangimento e de arte brasileira. Rio de Janeiro: Senac, 2002.
vulnerabilidade. Nude – nu ligado à arte, não implica
em desconforto, corpo confiante e em equilíbrio. Texto: Tatiana H. P. Lotiero – Contornos do (in)visível: a
redenção de Cam, racismo e o estética na pintura
Imagens feitas pelos viajantes: “[...] tentam brasileira do último Oitocentos. [Dissertação – USP,
circunscrever a admiração da mulher negra á dimensão orientada por Lilia Schwarcz]
do material de seu corpo, visto como exemplar de um
coletivo definido pela cor da pele. No entanto, as
A tela: A redenção de Cam, Modestro Brocos (1852-
imagens que nos chegam oscilam entre a indiginidade
1936), 1895.
da objetificação e a poética homenagem à beleza
negra”. [Renata Bittencourt, Modos de negra, modos
1 - Senhora negra com mãos erguida ao céu, como se
de branca, p.126]
agradecesse um milagre. 2 – jovem ao centro da tela
tem pele mais clara, com ares de ensinamento, aponta
Frontalidade disponibiliza corpo para observação
a avó. 3 – A criança, ponto mais claro da tela – veste
curiosa.
roupa muito branca, está voltada para a velha e segura
uma laranja. Núcleo narrativo: presente e passado. 4 –
Posse momentânea e virtual do artista sobre seu
Homem cumpre papel de pai. Tem costas viradas para
modelo e o desejo de toque sublimado na superfície
mulher, mas olha de esgueiro para menino. Não se
da pintura. Mas no caso com mulheres negras:
tocam. Atrás dele, um varal de roupas brancas.
possibilidades reais de contato visual e até sexual.
Senhora está descalça, filha tem pés na terra e em
Corpos escravos e submissos.
parte no chão de pedra (transição) e uma aliança no
dedo. Apesar de não-brancas, nenhuma das mulheres
Florence:
usa trajes marcados por sinais étnicos evidentes.
Aquarelas criadas a partir de mulheres específicas, não
Variação dos tons de pele.
lançou mão de artifícios para tornar a nudez aceitável
aos padrões morais vigentes. Nãos e trata de arte para
O que é o quadro: alude às natividades e demais
salões. Objetivos documentais. Cenários reais de
imagens da Sagrada Família. A laranja faz as vezes da
mulheres anônimas.
maçã que inaugura o pecado original (mas agora com
caráter tropical) – Aclimatada. Roupas brancas:
Retrato da “Baiana” está na contramão das
purificação. Palmeira – aspecto tropical, mas também
perspectivas mostradas até aqui.
dendezeiro africano.
Nega dimensão erótica que se impõe às mulheres
Todos os elementos introduzidos na configuração
negras, recusa identidade generalizante, possui
estética da cena convergem para seu caráter alegórico,
dignidades únicas e diferenciadas. Mesmo sua
que se conclui com o título.
relação/origem com tradição africana ou afro-brasileira
é informada por elemento fora de seu corpo. Não são
Trajetória do quadro: A tela é bastante criticada por
cicatrizes, mas a profusão de colares que a conectam
estudiosos e críticos posteriores, sendo vista como
com uma estética negra. Não é uma evidência de local
preconceituosa, discriminatória e patética. Mas na
ou grupo de origem que a caracterizam, mas um
época em que foi lançada, 1895, foi muito elogiada.
elemento cultural crioulo, afro-brasileiro. [129]
Tela – Ganhou medalha de ouro da Exposição Geral de
Belas Artes em 1895. Parecia canalizar preocupações
correntes no pós-abolição – transformação da
Texto: “Algo além do moderno: a mulher negra na população de ascendência negra em branca.
pintura brasileira no início do século XX”, Maraliz de
Castro Vieira Christo. Tela pode ser lida como uma defesa da mescla racial,
orientada para o embranquecimento.

Contemporâneos: A tela, em 1911, foi usada por João


Batista de Lacerda, médico, antropólogo e diretor do
Museu Nacional, para ilustrar sua tese no I Congresso
Internacional das Raças, em Londres. Segundo o
cientista, tela mostrava que em três gerações, uma
“seleção sexual” permitiria alcançar o branqueamento
da raça negra em solo nacional.
Pergunta da dissertação: em que medida a tela se O que dissertação fará:
revela capaz de produzir sua própria tese sobre o 1 – ver crítica contemporânea a observar como esta
embranquecimento? também esteve dividida diante da obra

Hipótese: A redenção de Cam de fato propõe um 2 – Adensar os sentidos do realismo no quadro.


modelo de reflexão pictográfica sobre o
embranquecimento, procurando demonstrar uma tese 3 – Fará análise da tela que, em diálogo com dados
acerca do tema. biográficos e outros quadros – seja capaz de situar a
especificidade com relação ao branqueamento.
Discussão bibliográfica
Não há trabalho dedicado só a ela. Embora seja a tela 4 – Entender intenções a partir do modelo de
mais citada de Brocos, ela é usada em trabalhos sobre Baxandall. Ou seja: indaga-la não sobre os desígnios do
racismo, interracialidade e teorias raciais no Brasil e autor no momento de sua produção, mas sim sobre a
EUA. Trabalho de Lacerda também é citado junto com qualidade intencional que emerge do próprio objeto e
ela. que, muitas vezes, independe da vontade do artista.

Todos os autores que a usaram, acentuaram sua 5 – Alargar discussões sobre estilo á luz de
importância documental para os debates que interrogações envolvendo a tela – para compreender o
desenvolvem. que o estilo pode revelar a respeito da intenção de A
Redenção de Cam, em contraposição com outros
Schwarcz – vincula a tela e as projeções sobre o futuro quadros. [Capítulo 2]
racial do país, mas alerta sobre risco das leituras
unívocas. Diz que se enfatiza aspecto “científico” da Cita: R. Naves, Almeida Júnior: o sol no meio do
mescla, mas imagem também tem “tom milagreiro” – Caminho [Artigo] nota p.32.
filho [cristo na manjedoura], a avó rezando. O que a
ciência não dava conta, crendice resolveria. Cita: Perutti, D. C. Considerações sobre a representação
do negro na obra de Almeida Júnior. E Almeida Júnior,
A comparação com EUA: EUA viam mescla como gestos feitos de tinta. Alameda, 2011.
maldição, no Brasil ela surgirá como solução. Trabalhos
mostram como em determinados modelos
LOTIERZO: diz que incluirá em suas análises Almeida
classificatórios, havia hesitação em chamar de brancos
Júnior, Antonio Ferrigno, Antonio Rafael Pinto Bandeira
descendentes de uniões inter-raciais.
e Arthur Timotheo da Costa.

Cita artigo Maraliz Christo: “Algo além do moderno: a Sobre Brocos:


mulher negra na pintura brasileira no início do século Espanhol, nasceu em 1852, naturalizou-se brasileiro
XX.” LER!!!!! em 1890. De família de artistas. Vem para América do
Sul em 1871, aos 20 anos. Colaborou no Mequetrefe.
Maraliz CHRISTO: quadro seria “demonstrativo de uma Teve aula com Victor Meirelles e Zeferino da Costa na
tese, mais do que interrogação sobre as condições de Academia Imperial de Belas Artes (AIBA);
incorporação da mulher negra na sociedade brasileira”
Cita Renata Bittencourt, “Modos de negra, modos de Interesse pelas temáticas que combinavam narrativas
branca” – para a autora, tela teria objetivo de ilustrar épicas ou bíblicas com a presença de tipos sociais locais
as teses de branqueamento correntes na época e a – o que impunha desafio de explorar distintas
preocupação da capacidade do negro de integrar-se à tonalidades de tons terrosos na caracterização da pele
sociedade dominante. de personagens considerados tipicamente brasileiros.
Tela busca propor um modelo pictórico par o processo
branqueador. Esteve na Europa entre 1877-1890, estudando nas
principais academias e ateliês. Na Escola de Belas Artes
Cita: Heloísa Lima “A presença negra nas telas: visita ás de Paris, teve aulas com TAINE [determinismos, clima,
exposições do circuito da Academia Imperial de Belas geografia; raça]
Artes” (p30) Retorna ao Brasil em 1891, vai ser professor de escolas
de 2º grau, a convite de Benjamin Constant. Depois
LOTIERZO: debates sobe embranquecimento não dará aulas na AIBA, a convite de Rodolpho Bernardelli.
convergiam para um consenso. Volta para Europa em 1897
Central: Brocos foi reconhecido pelos críticos do Problema encontrado nessas expedições: como
período como um artista que se dedicou ao estudo e reproduzir luminosidade e TONS DE PELE dos nativos.
pintura de personagens negras, de modo que a Na busca de SOLUÇÕES – SISTEMA DE NOTAÇÃO
temática parece ter feito parte de um projeto pictórico “ETNOGRÁFICA” – para distinguir tipos puros de
maior, que abraçou no Brasil. miscigenados em solo colonial.

Branquitude e masculinidade. Delacroix – sua pintura era a “antítese damistura


característica da geografia racial” local, porque buscava
tipos puros e tinham olhos fechados para miscigenação
Capítulo 3: “A tela, por seus esquemas” em curso. 191

REVISÃO DO CONCEITO DE “COR LOCAL”: deixava de


Da mulher negra na pintura da Europa oitocentista: ser cor predominante de um corpo ou objeto, para
alguns exemplos ganhar sentido de “assunto pitoresco”.

1 – Olympia, de Manet (1863) – coloca lado a lado Além disso: “Cor local” agora queria dizer: APREENDER
uma mulher branca e uma negra. A primeira, uma A APARÊNCIA E TAMBÉM CARÁTER DAS COISAS.
prostituta. A segunda, uma criada.
Delacroix: em seu Dicionário de Belas Artes, associa
Inversão: geralmente mulher negra associada a “cor local” a “localidade”.
sexualidade.
Explora de modo original um topos caro da pintura ao Nomeia “cor local” como “cor primitiva”.
pensamento ocidental: oposição negro x branco; claro
x escuro. Uso de contrastes complementares nessa pintura:
verde e vermelho; amarelo e azul; laranja e violeta;
Branco e negro: são categorias formais, mas que Isso tornou-se marca da pintura orientalista e
ganham contornos ideológicos explícitos. Contexto do paradigma constitutivo do olhar europeu sobre os não-
imperialismo/colonialismo. Vinculação ideológica brancos, carregando ideia de primitivismo, de raças
entre “raça” e “cor”. puras, e de uma superioridade racial dos brancos.

Outro exemplo tipo do colonialismo: associação entre Paletas de tons em que predomina a visão contrastiva
raça e sexualidade. GÊNERO + RAÇA + COR entre verde, vermelho, amarelo, azul, laranja e roxo.

Pintura orientalista: Como Delacroix lida com a articulação entre os


Legitimação da empreitada colonialista – fantasias marcadores gênero/sexualidade/raça?
brancas e masculinas. Mulheres vistas como
propriedades, espólios dessa empreitada. Delacroix – curiosidade particular pelas mulheres
muçulmanas. Chegando ao norte da África, impasse:
DELACROIX (1798-1863): Femmes d’Algier dans leurs essas ou são inacessíveis ou não se deixam ver
appartements, 1834. (clausura doméstica).

Tornou-se referência no sistema de cor empregado em Já as negras: aparecem nas páginas de seus diários
pinturas orientalistas. como criaturas servis, com tom pejorativo: traços
Viagem para Norte da África, Marrocos, Cádiz, Sevilha disformes, ríspidas que barram seu acesso ao harém.
e finalmente Argélia. Lá visita harem de corsário turco,
que inspirou famosa pintura. Se as muçulmanas não se deixavam ver, as judias se
tornavam seu modelo feminino prioritário no oriente.
Invasão francesa da África do Norte, iniciada com Se passaram por argelinas muçulmanas. Seu harém,
Bonaparte em 1801 no Egito, construiu novo logo, é uma forma fabricada – produto de uma
paradigma orientalista na pintura. Novos matizes para operação imaginada do pintor.
elementos exóticos e exuberantes – topos central do
uso da cor. “Fantasias colonialistas” – haréns emergiam como
lugares povoados de mulheres brancas e sempre
Uso das CORES CONTRASTANTES: cores contrastantes dispostas a realizar seus desejos sexuais.
vistas sem mesclas, com sentido puro.
Metamorfose do corpo masculino em feminino: Imagens da ciência vão parar nas representações
afirmação velada da superioridade do homem branco pictóricas.
em relação aos demais. Por sinal, homens argelinos
jamais apareciam nessas imagens, consideradas Após vários exemplos – quadros em que coexistem
eróticas, ao lado das mulheres, a não ser como mulheres brancas (odaliscas, prostitutas, etc.) com
eunucos. mulheres negras, autora conclui a predominância de
um olhar branco e masculino na representação destas.
Tudo iria mudar, pois em 1834, o sultão da Argélia
seria deposto pelos franceses. Depois disso, visão do FORMA VISUAL ASSUMIDA – ESPELHAM PADRÃO
harém de Delacroix seria ridicularizada. [Discursos DOMINANTE E SE CONVERTEM EM IMPOSIÇÕES DE
anticoloniais] UM MODELO DE VISÃO SOBRE O PÚBLICO.
NATURALIZAM. (208).
Delacroix: mulheres de pele mais clara – seios
pequenos, transparências e modos (e nudez) “Se Delacroix e boa parte dos pintores orientalistas
sugestivos, nunca explícitos. Negras: seios grandes, estão mais imediatamente próximos – porque à serviço
exagerados, volume nos quadris, nádegas. – da empreitada colonial francesa, colocando os corpos
das mulheres brancas e das personagens não-brancas
No século XIX, a sexualidade do negro, mulher e (de ambos os sexos) na posição de objetos de desejo
homem, tornou-se ícone de sexualidade desviante. Por (as primeiras) e dominação (todos), o naturalismo de
isso, em Olympia, de Manet, colocar a mulher branca Manet aponta para uma tendência crescente à
ao lado da negra, sugeria tais práticas. Jeito implícito patologização, em chave científica, da modernidade,
de sugerir similaridade sexual. em que a anomalia encontra a sua forma ideal no
corpo negro e no corpo feminino. Manet renuncia a
“Vênus Hotentote” – Sara Bartmaan – africana oposição claro x escuro. [209]
escalada pela indústria do entretenimento colonial,
exposta em 1810 em Londres e depois em 1814 em BROCOS – se ele queria abordar problema do
Paris. Atribuído a ela sexualidade patológica, cujos embranquecimento, se queria fazer um elogio à mescla
sintomas seriam o tamanho (hipertrofia) das nádegas e racial – implicaria em escolhas distintas de Delacroix e
órgão genital. orientalistas + construção de corpos dotados de
qualidades diferentes daquelas de Sara Baartman.
Observação:
Sarah Baartman morreu em 29 de dezembro de 1815,
mas o show, sob uma perspectiva ainda mais macabra, Da mulher negra nas telas de Brocos: algumas
continuou. Seu cérebro, esqueleto e órgãos sexuais observações
continuaram sendo exibidos em um museu de Paris até
1974. Seus restos mortais só retornaram à África em
2002, após a França concordar com um pedido feito Engenho de Mandioca:
por Nelson Mandela. Ela foi levada para a Europa, 1 - desejo de particularizar cada personagem (cada
aparentemente, sob promessas falsas por um médico uma com uma feição);
britânico. Recebeu o nome artístico de "A Vênus 2 – As duas da frente: uma de costas, não deixa
Hotentote" e foi transformada em uma atração de circo contorno de nádegas e quadris evidentes – saia
em Londres e Paris, onde multidões observavam seu volumosa. A outra, de perfil, orelha darwinica,
traseiro. evidencia-se mais os contornos.
3 – Mas outras, nem todas, tem traços redondos.
CIÊNCIA: Mulher negra sexualizada – não só em Outras são magras, algumas com braços fortes. Uma
imagens, mas com aval da ciência. parece estar grávida, outra amamenta.

Série de pesquisas sobre prostituição – entre elas as Ou seja: Brocos foge a associações obrigatórias de
de Lombroso, que encontravam padrão fisionômico e negras com a prostituição e ou sexualidade patológica;
anatômico comum para essas mulheres – entre elas: e ao uso de cores que pudessem remeter ao
gordas, rostos assimétricos, narizes desfigurados, primitivismo. A presença de duas crianças aponta
hipertrofia do crânio na parte parietal, “orelha de desfaziam atribuições de infertilidade.
Darwin”. Cabelos escuros, grossos, mandíbulas fortes.
Gordas: quadris largos, nádegas grandes. Anomalia 4 – todas possuem mesmo tom de pele, privilegia
sexual, tal como Sara. harmonia dos tons terrosos.
Possível referência às fotos de Victor Frond (Brazil passado por diferentes etapas de amadurecimento
pitoresco). Esses álbuns se tornam referência nos anos entre 1892 e 1933 – anos de lançamento de engenho
de 1880. de mandioca e Viaje a Marte, e que isto serve de
explicação para possíveis variações. Entretanto, quadro
Em Brocos – acentua tipo de postura feminina curvada, e livro correspondem ao mesmo problema, qual seja, o
sentada no chão, como aparece em litografias de de propor modelos para um suposto “aperfeiçoamento
Frond. Também se inspira em desenhos de da raça”.
camponesas, trabalhadoras, italianas.
Brocos percebeu que precisava explorar um MODELO
EUGENIA: Brocos tinha projeto eugenista [em outra PRÓPRIO, voltado à ideia de embranquecimento, no
parte do trabalho], explicitado no livro Viaje a Marte - contexto do Brasil republicano, e isto dependia de
livro no qual via como lícita e central para mulheres representações alternativas do corpo feminino, que
histéricas, de temperamento ardente e as pudessem indicar preceitos morais distintos. (229)
voluntariosas que se tornariam peças-chave em seu
projeto de “seleção sexual”. “Irmãs humanitárias” – Isso porque: o processo embranquecedor dependida
mulheres dedicadas à vida pública, prostituição, caso de um reconhecimento da mulher negra como uma
não se casassem. (223) esposa em potencial e não apenas como objeto sexual
[230]
[AMOSTRA DE IMAGENS DE SOLUÇÕES FORMAIS
DISTINTAS A PARTIR DAS QUAIS BROCOS PROCUROU MODELOS VIGENTES no horizonte intelectual do XIX:
RESPONDER AO PROBLEMA DA INCORPORAÇÃO DA sexualidade destrutiva, que jamais seriam vistas com
POPULAÇÃO NÃO-BRANCA À SOCIEDADE mães de família.
BRASILEIRA].
Romances como: O Chromo (Horácio de Carvalho,
Da mulher negra, segundo a opinião pública nacional: 1888), A Carne (Júlio Ribeiro, 1888), - tinham
diálogos possíveis personagens condicionadas pelos princípios de Darwin
e Spencer, com conclusões pessimistas das teorias
A redenção de Cam – temática bíblica e emprego de raciais. Mas a Redenção de Cam ia em outro sentido.
recursos formais – “sagrada família” interracial.
Bertoleza – Cortiço: crioula trintona, gorda, de pernas
Gênese da história bíblica – maldição de Cam – a curtas e grossas, cachaço [pescoço] largo. Sempre suja,
persistência da história e como ela ganha conotações cheirando a peixe e não tem filhos com o português. Se
raciais e depois científicas no XIX. mata.

Pintura como alegoria – 227. Quadro pensado no Leonor – criada no mesmo romance – é negrinha
contexto da incorporação dos não brancos à sociedade virgem, ligeira, viva, lisa e seca como um moleque,
brasileira do futuro republicano. Para isso, Brocos obscenidade. Predisposição precoce à sexualidade.
produziu “corporalidades”.
O Mulato – a mãe do protagonista Raimundo é velha
Viaje à Marte [1933], obra de ficção científica de louca, requebros estranhos, vulto esquelético e
Brocos – elogiava políticas eugênicas, aperfeiçoamento andrajoso, crise histérica.
da raça. No livro, corpo feminino está sujeito à
intervenções – ali as mulheres tem o dever de se casar, Personagens negras não apareciam casadas ou
ou voluntariar-se numa irmandade, colocando-se a realizadas como mães nos romances.
serviço do prazer masculino e da reprodução da
espécie. Caso não correspondam aos modelos de Rita Baiana, do Cortiço, a mulata, que como Nana,
beleza e saúde, são submetidas à esterilização. pintada por Manet, une no mesmo corpo atributos de
branca e de negra. Bela e perfumada, sensualidade
Argumento: “Buscamos argumentar que, ao afastar-se incontrolável, destrutiva, leva a tragédias. Jamais
dos modelos de representação da mulher negra engravida – infertilidade dos mestiços (teorias). Mulata
convencionais na Europa, o artista terá buscado – “Depravado tipo brasileiro” (Nina Rodrigues) –
constituir padrões visuais capazes de aludir a processos feitiços, luxúria, faceirice;
de “seleção sexual” condizentes com suas projeções
racistas de embranquecimento”. [228-229] Vidinha, em Memórias de um Sargento de Milícias:
mulata x “beleza branca” de Isaura (embora seja uma
“Não se pode perder de vista que aquilo que “não-branca”).
encaramos como o racialismo de Brocos pode ter
A redenção de Cam, por suas particularidades clara. Inscrição da capacidade no CORPO e não na
mente.
Numa era marcada pela disseminação de sistemas
científicos na esfera pública, Brocos recorreu à PESO DA MATERNIDADE ORIENTADA – sobre corpos
iconografia cristã. Fé + Ciência. negros femininos. (246)

Brocos mantém diálogo seletivo com convenções. 5 – dedo da mãe que aponta e não aponta para avó –
indicando anjos (dimensão do invisível – algo que se
Quadro: lembra “madona que segura o filho”. José; e o encontra e não se encontra na imagem).
anjo que intermedeia (a avó), indicando que para o
embranquecimento dependia-se de um voluntarismo 6 - Mão do bebê – benção do menino Jesus ou
dos próprios afro-descendentes que pretendia reconhecimento da avó. A laranja que ele carrega:
extingui-los. “Auto sacrifício” (Coelho Neto). frutas referências ao paraíso ou fertilidade
(Renascimento).
Por conta da referência bíblica é que personagens
femininas do quadro escapam à modelagem então 7 – Posicionamento do quadro: teleologia racialista –
vigente na representação de negras e mulatas. desaparição progressiva da raça negra.

Análise do quadro: 8 – Vó (para ser elemento primitivo) – incorpora


1 – vó com pose de estátua. Rigidez corporal. “Figura contrastes da pintura de Delacroix e do orientalismo.
de argila” – rosto é mancha de cor uniforme – santas
populares. [P240] 9 – Mãe – simetria dos traços, harmônica, centro da
imagem – chão de pedra, alusivo ao trabalho humano
2 – Virgem Negra (cultuada) para refutar suspeitas de de pavimentação, modernidade. Avó no chão de terra.
infertilidade. Virgem negra, no Brasil, vista como Cores da mãe: contrastes complementares de azul,
protetora dos escravos. violeta e rosa com amarelo e laranja. Jovem está a
meio do caminho.
3 – Mulher ao centro – Madona.
10 – O pai: pele clara, não se vê envolvido em
4 – Avó magra. Filha com formas arredondadas e esquemas de cores contrastantes. Bem desenhado,
cintura fina, quadril coberto (calculadamente) pelo xale traços nítidos, pisa no chão de pedra com os dois pés.
e pelo bebê. Mãos pequenas e delicadas. Rosto sem
deformações e exageros. Somente mão é exagerada, 11 – Bebê – ponto mais alvo da cena: envolve
para mostrar aliança – moral sexual vigente. paradoxos – branco, mas envolto por contrastes (azul,
Extremamente vestidas, evitando trajes com sinais laranja, cores da mãe); está voltado para a avó, de
étnicos; Não se mostram orelhas; costas para o pai, parecendo contradizer o movimento
que caminha no sentido do branco, do pai. Coloca-o
Argumento: transformação de Brocos dos modos num degrau antes do pai. Menino é espelho do pai –
vigentes de representação não estava livre de branco e homem, afastando-se da linhagem materna.
preconceitos -negros reduzidos a corpos reprodutores Por outro lado, está no colo da mãe e compartilha com
x alma negra/existência intelectual. Vistos como ela lugar intermediário. Dúvida no seio do pensamento
corporalidades puras. tautológico: Será a criança branca???

Cita crônica de Coelho Netto na GN em 19 set, 1895, Temores do atavismo e atinge problema da
pp.1-2. Autor escreveu Rei Negro, peça que conta a classificação cromática no Brasil. Quem pode ser
história de um escravo que vendia escravos em nome branco?
do dono.

Ideia de morte e incorporação espiritual. CENTRAL: Criança é interrogação. Jornais discordam


Transformação corporal – branqueamento – atrelada à sobre de que cor é a criança no quadro. Autora resgata
descoberta da espiritualidade. esses comentários. Ou seja, impasses quanto à
discussões sobre o tema. Quadro, então, é espécie de
OU seja: “reconhecimento da espiritualidade ou indagação sobre a cor/raça no Brasil.
dimensão intelectual dos não-brancos passa a
depender de uma atestada capacidade corporal – CRONICAS: Fantasio comenta o quadro. [250] Atribui a
feminina – de geração de descendentes de pele mais responsabilidade pela transformação racial ao pai. Bilac
atribui ao pai. Coelho Netto elogia sacrifício da mulher
negra, como a responsável pelo processo de
branqueamento.

Conclusão: ao final, encontramos não uma criança


branca, mas uma incógnita, tanto por sua dimensão
formal, quanto em termos da recepção da tela. Queria:
questionar a própria indefinição de brancura que
percebia existir no Brasil. Era preciso saber quem era
ou não branco. [253-254]