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TRANSCRIÇÃO DE ENREVISTAS

Fabiana Lopes da Cunha, Londres. Inglaterra, 2017.

Entrevista: Hayle Gadelha

Tempo: 31:18.

Fabiana: Bom, estou aqui com Hayle Gadelha. É dia 29 de julho de 2017 e
estamos na embaixada brasileira. Primeiramente eu gostaria de saber um
pouco da sua história, de onde você é? Como começou a atuar como agente
cultural aqui na embaixada?

Hayle Gadelha: Bom, sou do Rio de Janeiro, diplomata desde 2007, agora
em agosta fazem 10 anos. Nunca havia antes trabalhado no setor cultural.
Eu venho de Pequim onde trabalhava no setor de comércio e investimentos.
Há 3 anos eu vim para Londres, onde tenho tido uma atuação intensa no
que diz respeito a questão orçamentária. Mesmo assim, conseguimos fazer
um trabalho muito diverso.

Fabiana: Eu vejo que a embaixada do Brasil aqui em Londres tem muitas


atividades. Quer dizer que mesmo com toda essa dificuldade orçamentária
vocês ainda conseguem trabalhar e fazer uma agenda. Eu gostaria de saber
se essa agenda é fixa? Existe algum tipo de planejamento? Como funciona
isso?

Hayle Gadelha: Existe um planejamento em situações normais. Ele é feito


em conjunto com Brasília e a partir das realidades locais cada chefe
apresenta um planejamento para o ano seguinte. Parte dele é referendada
pela capital. Agora que o orçamento está tendendo a zero a gente busca
parceria em outras áreas, no setor privado, por meio de patrocínios.
Portanto tem sido um momento, eu diria, menos proativo como seria num
cenário ideal. Mas mesmo assim temos conseguido atuar de uma forma
bem sucedida, com cineclubes e outras manifestações artísticas.

Fabiana: Certo. E dentre esses patrocinadores tem algum que contribui


mais para a realização dos eventos?

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Hayle Gadelha: Na verdade tem sido muito pouco agora, com a crise
brasileira acaba também atinge negativamente as expectativas das
empresas. O que tem de mais ativo na atualidade é um concurso de artes
plásticas, patrocinado pelo Banco Itaú. Fora isso não nada mais regular, o
que acontece são encontros de artistas que conseguem patrocínio por meio
de caminhos próprios. O espaço da embaixada é muito bem utilizado na
promoção de eventos nas mais diversas áreas.

Fabiana: E quando um artista quer realizar um evento aqui na embaixada,


como ele deve proceder?

Hayle Gadelha: O agendamento deve ser feito até novembro de todo ano.
A gente sempre recebe propostas para o ano seguinte. Seguindo um
planejamento prévio. Eventualmente ocorrem instruções para a realização
de projetos de interesse do governo.

Fabiana: E as instituições, qual o vinculo delas com a embaixada


brasileira.

Hayle Gadelha: É uma questão puramente institucional mesmo. A própria


embaixada não recebe nenhum tipo de dinheiro, de ninguém, não tem
como.

Fabiana: Isso é questão importante, ou seja, a embaixada acaba se


tornando um espaço que está disponível para a realização da cultura. Vocês
tem um levantamento desses eventos? Como os projetos estão
relacionados, porque é um dado importante para compreender a difusão da
cultura brasileira em Londres.

Hayle Gadelha: A embaixada já chegou a receber cerca de 200 projetos.


Talvez em relação a essa decrescente capacidade financeira de responder a
essa demanda, houve uma ligeira queda. O ano passado já foi menos de
150. Mas por outro lado, nunca houve tantos eventos aqui, filtrando
projetos que se financiam por meio dos patrocínios que mencionei. Temos
certo cuidado com os recursos, para não haver nenhuma exclusão e
elitização do espaço. Sempre buscamos ampliar os financiamentos para
realizar os eventos artísticos.

Fabiana: Bom, a Paraíso School utiliza bastante o espaço aqui. Acredito


que todo ano eles fazem o lançamento das fantasias aqui na embaixada.
Qual o contato com a escola?
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Hayle Gadelha: A relação da embaixada com a Paraíso é um tanto
esporádica. Fizemos durante 3 anos seguidos o Brazil Day que era um
grande evento da embaixada com um público com mais de 60.000 pessoas.
Um dos anos a Paraíso foi uma das atrações. Fora isso, existe uma
dinâmica uma dinâmica de eventos que nós da embaixada indicamos
escolas de samba, entre elas, as duas principais hoje que são a Paraíso e a
London School. O que mais tem ocorrido é indicações de entidades
culturais que representam as relações culturais. Nós cedemos espaço
mesmo sendo eventos que não são diretamente ligados às políticas culturais
da embaixada.

Fabiana: Eu observei no site que existem muitas instituições de caridade


que se interessam e apoiam esses eventos. Qual a relação da embaixada
com essas instituições?

Aily Gadelha: Nós abrimos espaços, realizamos parcerias pontuais.

Fabiana: Você acredita, baseado em sua experiência nesse âmbito cultural,


que o samba ainda é o grande símbolo da brasilidade?

Aily Gadelha: Seguramente. É um símbolo central. Tanto o samba Latu


sensu, como o samba difundido pelas escolas de samba que são duas
nuances diferentes. Mas tanto um, quanto outro são fortes. Mas as escolas
de samba hoje, em escala mundial, tem maior impacto, muitas vezes
negativos, pois geram interpretações equivocadas da cultura brasileira. Eu
sempre busco ressaltar a importância positiva, mas muitas vezes é
associado com questões nocivas, como a hiperssexalização da mulher
brasileira. Enfim, sempre há cuidado de nossa parte em trabalhar esses
pontos que geram controvérsias em relação a nossa cultura. No centro
desse grande caldo cultural brasileiro está o samba, a maior expressão
popular e a escola de samba é uma manifestação ímpar, uma festividade
que cativa os melhores sentimentos mundo a fora. Mesmo na China, onde
eu estava anteriormente, existem tentativas de reproduzir escolas samba
para fazer o carnaval. Acredito que essa questão deve ocupar espaço
central nas políticas internacionais do Estado brasileiro. Quer dizer, que
tipo de imagem do Brasil se pretende difundir mundo a fora? É uma
questão de máxima importância em minha opinião.

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Fabiana: De fato, e isso é um das questões da minha pesquisa. Bom,
pensando na sua experiência e em tudo isso que você me disse, qual a visão
que os Ingleses têm do Brasil? Como enxerga essa questão hoje?

Aily Gadelha: Acho que uma visão surpreendentemente limitada em


comparação com outros países da Europa continental. Desde as grandes
guerras do século passado eles optaram em estabelecer relações culturais
com países ligados a língua inglesa. Isso criou uma imagem do Brasil um
tanto periférica entre os britânicos. Eu tenho estudado essa questão, e claro
hoje têm ocorrido algumas mudanças em relação essa imagem da cultura
brasileira aqui. Interessante, no Brasil nós não temos nenhuma dúvida que
somos ocidentais. Agora, se você perguntar aqui, o Brasil não é
considerado parte do Ocidente, é uma questão muito curiosa. A América
Latina tem essa imagem aqui.

Fabiana: Interessante essa questão. No King’s College isso pode ser


observado nas taxas de pagamento. Para os latino-americanos ou africanos
a taxa era bem maior, pelo menos há alguns anos atrás quando eu pensei
em fazer meu doutorado aqui, hoje pode ser que tenha mudado isso.

Aily Gadelha: Sim, hoje eles dividem em europeus e não-europeus. Eu


mesmo estou fazendo meu doutorado no King’s e pago mais caro que
qualquer europeu. Mas voltando a falar da imagem do Brasil que
predomina aqui, eu acredito que ela seja difusa, limitada e distorcida. Claro
que a possibilidade de modificar isso é grande, mas há muitas dificuldades
para superar essa questão.

Fabiana: Qual o tema do seu doutorado?

Aily Gadelha: Estou estudando exatamente essa questão da diplomacia


pública, como ela pode impactar a percepção da imagem de um país, de
uma cultura. É uma vertente da diplomacia que não mais se limita aos
relacionamentos entre os Estados, mas busca compreender o engajamento
das populações e de suas manifestações culturais e de que maneira isso
implica em relações públicas mais amplas. Eu estudo caso específico entre
os anos 1930 e 1940 que é primeira exposição de arte brasileira realizada
em Londres em 1944 na Royal Academy, com quadros dos maiores artistas
modernistas brasileiros. Essa exposição obteve um forte apoio do Itamaraty
e foi muito inovadora e estava inserida também no contexto da Segunda
Guerra Mundial e foi uma tentativa das políticas externas brasileiras de
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projetar uma imagem no pós-guerra, uma imagem que o Brasil queria
ocupar na nova configuração mundial que estava se formando. O Brasil
sempre quis ser percebido como um país sofisticado, moderno e superar os
preconceitos e visão primitiva que havia naquele momento. Tudo isso por
meio da arte.

Fabiana: Interessante, muito interessante. Aproveitando que você está


falando de academia, tem uma sessão acadêmica na embaixada, não?
Gostaria de saber como funciona?

Aily Gadelha: Conheço menos essa área. Tem outra colega que está afrete
desse setor – Cooperação Internacional Ciência e Tecnologia. Existe uma
série de auxílios para estudantes, por meio do programa Ciências Sem
Fronteiras, além de outras instituições de pesquisa, que são muitas. Enfim,
tem uma gama muito grande de atividades. Eu realmente não sou a melhor
pessoa para falar sobre isso, mas posso indicar minha colega, a Maria
Cecília, que está por dentro desse assunto, ela vai poder te dar muito mais
detalhes sobre essa questão.

Fabiana: Eu gostaria de saber sobre o livro que você está lendo, pois fiquei
super interessada. (risos).

Aily Gadelha: Esse é um documento do Itamaraty.

Fabiana: Seria muito interessante entender como eram essas relações no


período 1930, 1940 e como elas são hoje. No meu mestrado eu trabalhei
com esse período e tem muita importância histórica, principalmente
relacionada a essa questão da preocupação da imagem do Brasil no
exterior. Há todo um pensar sobre o Brasil que me interessa muito.

Aily Gadelha: Esse documento, que é um telegrama, é na realidade um


estudo da relação da difusão da cultura brasileira em Londres, com algumas
propostas no que diz respeito à cooperação intelectual. O Brasil é um dos
países pioneiros em buscar projetar sua cultura no exterior, com apoio do
Itamaraty.

Fabiana: Para finalizar, uma última questão, afinal não quero tomar muito
seu tempo. Com essa crise e sucessivos escândalos que tem ocorrido no
Brasil, você acredita que a imagem do Brasil em Londres sofreu ainda mais
de maneira negativa?

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Aily Gadelha: Isso com certeza! Um impacto muito negativo. Esses
escândalos de corrupção, a instabilidade política geram efeitos
extremamente depreciativos na imagem do Brasil que como eu disse
sempre foi difusa, É algo muito ruim, de fato Por outro lado, a Copa do
Mundo em 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016 geraram impactos bem
positivos. Então existem rankings em que o Brasil subiu nos últimos anos.
Mas de modo geral o impacto é desfavorável.

Fabiana: Muito obrigado pela conversa, foi com certeza muito


significativa.