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A Torre do Inferno do “rei do lixo” (Coina) – Por Vitor

Manuel Adrião

O meu reconhecido agradecimento ao senhor doutor Rui Pires, dedicado


investigador da história da Quinta da Torre de Coina e devotado amigo da terra,
por todas as informações que me disponibilizou e confiou.

O Autor

Dominando a paisagem circundante, altiva e estranha, a Torre do Inferno encontra-


se junto à Estrada Nacional n.º 10 em Coina, freguesia do Concelho do Barreiro,
dentro da propriedade do famoso e controverso Manuel Martins Gomes Júnior, o
“rei do lixo”, que deu brado em Lisboa e na margem sul do Tejo nos primeiros
decénios do século XX.

A quinta onde se encontra a também chamada Torre de Coina chamava-se no século


XVIII Quinta de São Joaquim e era um pouso, lugar de recreio e passagem entre as
duas bandas do Tejo e deste para o Além-Tejo (Alentejo), que “mandou fazer a
sua fazenda (expensa)” Joaquim de Pina Manique, desembargador da Casa da
Suplicação, “cavaleiro fidalgo da Casa de Sua Majestade e professo da Ordem de
Cristo no Mestrado da mesma Ordem”, irmão mais novo do célebre Intendente-
Geral da Segurança Pública no reinado de D. Maria I, Diogo Inácio de Pina Manique,
o ultra-conservador que fundou a Casa Pia de Lisboa. Ainda hoje a marca de D.
Joaquim está patente na quinta, numa inscrição lapidar encimada pela Cruz de
Cristo incrostada no muro da propriedade. Com as mudanças políticas ocorridas no
século XIX e a dispersão da família Pina Manique, a propriedade entrou numa fase
de abandono e decadência até que, nos finais desse século, foi comprada pelo
famoso “rei do lixo” que vinha construindo um império a partir do nada!

A vida de Manuel Martins Gomes Júnior replete-se de contradições em lances


“claros-escuros” onde a obscuridade dos factos é maior que a clareza dos actos,
motivo que tem levado os seus raríssimos biógrafos a confessarem ser a mesma
mais conhecida pelas maledicências e incoerências dos inúmeros inimigos que
Manuel Martins granjeou ao longo da sua vida que pelos factos concretos, os quais
por se manterem desconhecidos impossibilitam a feitura da sua biografia com
veracidade exacta.

Manuel Gomes Júnior nasceu em 11 de Novembro de 1860 no seio de uma família


humilde em Santo António da Charneca, no Barreiro, filho de Manuel Martins e de
Maria Gertrudes Martins. Desde cedo prometera a si mesmo mudar da vida
miserável e tornar-se rico, e foi o que fez! Após ter trabalhado durante algum
tempo como marçano em Lisboa e juntado algumas economias, regressou ao
Barreiro onde comprou uma padaria de venda de cereais; para ter autonomia no
negócio, adquiriu o moinho de água de moagem de cereais em frente à Quinta de
São Vicente, que também viria a ser sua e onde fundaria a Sociedade Agrícola da
Quinta de São Vicente. Posteriormente, com a compra de propriedades rurais a
norte e a sul do Tejo, sobretudo no Alentejo, fundou a Companhia Agrícola de
Portugal, contribuindo consideravelmente para o desenvolvimento sócio-
económico da lavoura e agropecucária no país, mormente na região sul. Diz-se –
sem prova nenhuma mas originada no bulício inflamado das inimizades
republicanas/monárquicas do seu tempo – que após assinar um contrato com uma
seguradora ele próprio terá ateado fogo ao moinho, e como nunca se provou que
não tivesse sido acidente foi indemenizado com uma elevada quantia. Com parte
desse dinheiro comprou uma pequena propriedade e entregou-se à especulação
agrícola, emprestando dinheiro, sob pesados juros, aos proprietários vizinhos de
Coina para cultivarem os seus terrenos. Numa época em que as colheitas foram
más e os agricultores não tiveram como saldar as dívidas contraídas, Manuel Gomes
não lhes perdoou: anexou as parcelas dos devedores à sua, formando assim uma
quinta com mais de 300 hectares. Já em 1908 era dono da Quinta da Trindade na
Azinheira, Seixal, tendo chamado a si a reconstrução do edifício apalaçado e
construído ainda o «castelinho», nesse que fora propriedade de D. Brites Pereira,
sobrinha de D. Nuno Álvares Pereira, que aí fundara a ermida da Senhora da Boa
Viagem para os religiosos da Ordem da Santíssima Trindade, extinta em 1834. Foi
assim, também, que a partir de 20.5.1897 (segundo a Carta de Arrematação do
Ministério das Finanças) a Quinta do Manique ou de São Joaquim ficou na sua posse,
tudo graças aos seus dotes de especulador, diz a vox populi sentenciosa. Tornou-
se um grande proprietário, e havia que rentabilizar o terreno. Dedicou-se à
suínicultura após firmar um contrato com um grande negociante e exportador de
carnes de Lisboa. Alugou-lhe o espaço da quinta para criação de porcos e participou
no negócio de exportação de carnes. Pouco tempo depois o seu sócio morreu e
Manuel Gomes assumiu o controlo total do negócio, passando a ser um rico
negociante de carnes. Devido à sua inclinação natural para os negócios e ao seu
carácter empreendedor, atingiu o auge ao assegurar o controlo da recolha dos lixos
em Lisboa (à altura os lixos eram apenas matéria orgânica) com a arrematação
feita com a respectiva Câmara em 27 de Março de 1907, transportando-os para
Coina nas suas cinco fragatas para servirem de alimento aos porcos, não gastando
com isso um só tostão! Morreu na sua Quinta da Alfarrobeira, na Estrada do Calhariz
de Benfica, e foi enterrado um dia após a sua morte, no cemitério do Alto de São
João em 9 de Novembro de 1943, numa simples cova aberta à última hora, nas
traseiras de majestosos jazigos, tendo por última mortalha quatro tábuas de pinho
forradas de pano preto e por acompanhamento, além de raras pessoas de família,
meia dúzia de amigos que conseguiram romper a discrição em que o acto se
envolveu. Vítima de doença prolongada, ainda assim a lenda popular insiste que
ele morreu em circunstâncias estranhas cujas causas nunca foram apuradas.
Após a sua morte, a Quinta da Torre de Coina passou para o seu genro António
Zanolete Ramada Curto e tornou-se o principal centro agrícola da região. Em 1957
vendeu-a a José Mota, irmão dos grandes proprietários e industriais de curtumes
Joaquim Baptista Mota e António Baptista Mota, que mudaram o nome do imóvel
para Quinta de São Vicente fundando aí a Sociedade Agrícola da Quinta de São
Vicente, transformando a propriedade numa importante exploração pornícola.
Igualmente melhorou-se o seu jardim palaciano, o labirinto de arbustos, a
escadaria de pedra, o pomar e as palmeiras em volta da capela.
Em 1972 a herdade foi novamente vendida, desta vez a António Xavier de Lima,
conhecido urbanizador da margem sul. Este afirmou publicamente possuir um
projecto para reconverter a quinta e transformar o palácio numa pousada com
cerca de 85 quartos. Mas na noite de 5 de Junho de de 1988 o palácio foi totalmente
devorado pelas chamas de um incêndio, que não poucos dizem ter sido ateado de
propósito. Xavier de Lima disse depois ao jornal A Capital que o restauro do imóvel
implicava um investimento não suportável. Desde aí o palácio com a torre e a
quinta em volta encontram-se num total abandono, já tendo abatido toda a parte
intermédia e o terceiro terraço do edifício, a cada dia transformando-se mais e
mais numa enorme ruína este que é o ex-libris da histórica vila de Coina cuja
autarquia, sem dúvida, deveria cuidar melhor do seu património, muito mais sendo
este um exemplar de arquitectura única no país construído com os mais ricos
materiais da época.
Manuel Martins Gomes Júnior e a sua família nunca habitaram esta Quinta da Torre
(por as suas obras terem sido interrompidas cerca de 1913-1914, deixando o imóvel
incompleto), mas o facto de tê-la adquirido e lhe imposto o aspecto realengo
imponente como espécie de memória póstuma do primitivo pouso cujo donatário
estava ligado à Casa Real, sendo também ele “rei” (do lixo) por certo quis ter um
palácio condigno com tal título, ou melhor, alcunha, que os mais desaforados de
Coina também apodavam de “porco sujo”. Com isso descurava-se o óbvio da sua
intenção: contribuir para a higiene pública da capital então frágil em cultura
profiláctica, ao mesmo tempo que a sua perspicácia empresarial via nisso uma
forma gratuita de aumentar a sua riqueza. Diz a vox populi que foi a sua vingança
republicana sobre o regime monárquico, pousando no lugar dos antigos cortesãos
lixo e porcos. À propriedade rebaptizou-a com o novo e inquietante nome de Quinta
do Inferno, com a sua Torre do Diabo que mandou fazer em 1910, dizendo-se que
transformou a capela da quinta em armazém e estábulo (sendo certo que em 1906
abriu uma escola dotada na mesma que ofereceu à educação gratuita dos seus
empregados e filhos), e às suas fragatas transformadas em arrastos do lixo deu-
lhes os nomes de Mafarrico, Mefistófeles, Demo, Diabo, Satanás, Belzebu,
Horrífico, Caronte, Plutão, Averno e outros mais mimosamente escolhidos para
chocar a conservadora e católica flora. Por certo tratou-se de uma provocação
desaforada ao regime eclesiástico secular que a recente Revolução de 5 de Outubro
depusera, mas com isso ficou até hoje com fama de ateu anti-deísta impenitente
dotado de um feitio irregular e pouco afectivo.

Casado com Maria de Oliveira Bello (1871 – 23.7.1967), às suas duas filhas legítimas
pôs os nomes de Ceres e Cibele, e às ilegítimas anteriores ao casamento, os de
Proserpina e Flora, enquanto um sobrinho recebeu o nome de Libertino e a um
outro afilhado quis pôr-lhe o nome de Livre Pensador, e como tal não foi possível
após reflectir um instante mandou que lhe chamassem Rodas Nepervil, que é o
nome anterior lido ao contrário. Estes nomes são já um sinal claro de erudição
requintada de Manuel Martins e também, aparte a óbvia provocação desaforada ao
regime eclesiástico, indício da sua afiliação e perfilha secreta do pensamento
hermético greco-latino adoptado sobretudo pela Maçonaria do tempo.

Figura política de peso na época, republicano e humanista, foi regedor de Santo


António da Charneca, construiu a primeira escola de ensino primário na freguesia,
financiou colectividades, fundou a supradita Companhia Agrícola de Portugal,
concedeu regalias aos seus funcionários e protegeu os pobres. Foi um apóstolo do
ideal de “sociedade republicana” justa e igualitária que se sonhou nos primeiros
tempos do regime, o que se conformava ao ideal político perfilhado pela Maçonaria
Portuguesa na qual Manuel Martins seria afiliado, o que não está provado mas
tabém não descartada a hipótese severa de o ter sido, como quase todos os
republicanos desse período terem, de uma forma ou doutra, andado de ligações
com essa Ordem. Os conflitos permanentes, os vícios dos políticos aburguesados, o
esquecimento rápido do ideal de “sociedade justa e perfeita” e a cada vez maior
ditadura republicana onde o radicalismo carbonário embatia violentamente contra
os princípios elementares do regime recente afligindo o povo esmagado pela
estultícia dos golpes e contra-golpes militares onde de manhã havia um parlamento
e à tarde outro diferente, tudo isso levou Manuel Martins Gomes Júnior à desilusão
profunda do regime que acreditara e ao seu afastamento do círculo político do
Partído Democrático de Afonso Costa em 1913, apesar de em 1922 ter ainda
apoiado a direcção do Partido Radical (formação republicana populista que não
passou de partido minoritário) que financiou, talvez pretendendo contribuir
através dele para a restauração do ideal republicano que sonhara e via seriamente
moribundo, muito mais desde que Portugal sofreu o sério revez no conflito da I
Grande Guerra Mundial (1916) e depois com o assassinato de Sidónio Pais (1918).
Se ele foi maçom como o seu amigo pessoal e Prémio Nobel da Medicina, professor
Egas Moniz, seu executor testamentário, o seu desquite do Grande Oriente Lusitano
terá acontecido por volta de 1913, o mesmo ano em que Egas Moniz se afastou da
Maçonaria em sérias discordâncias com a mesma, a ponto de vir a bater-se em
duelo (em 1914) com o general Norton de Matos, futuro Grão-Mestre do G.O.L.

Manuel Martins Gomes Júnior, ao centro, rodeado pelos seus empregados na


Quinta do Inferno no início do século XX

O anti-deísmo do ateu e opulento Manuel Martins terá sido mais uma blague
provocatória de fachada que propriamente uma convicção íntima, provocação
como essa de repreender a esposa sempre que a via pôr azeite nas lamparinas do
oratório da capela da sua quinta de Benfica: “Maria, não é melhor guardares esse
azeite para regar o bacalhau e as batatas?” Em contraste flagrante com esse
aparente zelo jacobino misturado a um apreciado gosto anarquista de bon-
vivant provocateur, deixou no seu testamento (onde consta a fortuna fabulosa
orçada em 34.552.370$80 contos (24 milhões e 152 mil escudos em bens
imobiliários, e 9 milhões e 50 mil escudos em bens mobiliários), segundo a Relação
de Bens a 24 de Outubro de 1943, sendo notário José Valente de Araújo, de Lisboa,
e a fonte do Ministério das Finanças o processo n.º 7385 de 9 de Novembro de 1943)
a doação de larga quantia em dinheiro às Misericórdias Franciscanas da sua escolha
prévia: duzentos e cinquenta contos em dinheiro à Santa Casa da Misericódia de
Lisboa; duzentos e cinquenta contos à Santa Casa da Misericórdia de Alcácer do
Sal; duzentos e cinquenta contos à Santa Casa da Misericórdia de Setúbal; duzentos
e cinquenta contos à Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, com a condição,
quanto a essa última legatária, de manter permanentemente uma escola primária
mista em Coina, satisfazendo todas as despesas da mesma. Isto além de ter
contribuído amplamente para substituir a desmoronada capela de Nossa Senhora
dos Remédios de Coina por uma outra igreja mais condigna, e de ter decidido e
promovido a construção da sede da Sociedade Filarmónica União Agrícola 1.º de
Dezembro, em Santo António da Charneca. Assim se revelou tão humanista quanto
religioso que no âmago era mas escondia…

Além disso, o Palácio e Torre da Quinta do Inferno apresentam sinais claros de


simbologia com fundo deísta, conhecimento esse que Manuel Martins Júnior terá
recolhido no meio esotérico em voga na época, ou seja, na própria Maçonaria
Iniciática, no que tem mais de simbológica e espiritual e menos de política e
temporal. Por isso, ainda hoje a vox populi diz sem saber que ele destinava-se a
ser a nova sede da Maçonaria Portuguesa, por a anterior ter ardido há pouco tempo,
o que não é verdade no que toca, pelo menos, à sede central onde está o Palácio
Maçónico na Rua do Grémio Lusitano, no Bairro Alto de Lisboa. Também não possuo
informações exactas de ter havido qualquer incêndio em alguma Loja da margem
sul. Concluo que o sentido de “nova sede maçónica” será diverso do da voz do
povo: ele está no próprio simbolismo do edifício que causa estranheza geral, menos
àqueles que detêm o conhecimento exacto do seu significado iniciático: os
arquitectos maçons que edificaram o imóvel e deixaram os sinais secretos da sua
afiliação esotérica, por certo de acordo com a vontade expressa do proprietário,
mesmo acaso ou decerto despossuído de maiores profundezas do pensamento
esotérico.
A botânica maçónica marcou presença determinante junto do operariato, do
empreseriado, dos intelectuais e até dos religiosos da margem sul do Tejo. Nisso é
incontornável a pessoa do farmacêutico António Augusto Louro (Sabugal,
22.10.1870 – Alcanena, 1.8.1949), cuja farmácia no Seixal foi local de encontro e
debates de ideais maçónicos e republicanos. Carbonário e maçom conciliador, foi
nomeado Garante da Amizade entre os Irmãos e Lojas situadas no Vale do Seixal.
Autorizado por decreto do Grão-Mestre interino Francisco Gomes da Silva, em 16
de Julho de 1906 fundou no Barreiro a Loja “Esperança de Porvir”, e já antes, a 13
do mesmo mês, fundara em Sesimbra o Triângulo n.º 82 (compostos de 3 Mestres-
Maçons), instalado a 22 de Novembro de 1906 e que em 1912 ainda estava em
actividade. Em 4 de Dezembro de 1906, foi autorizado a fundar um novo Triângulo
na Moita, que se transformou na Loja “Boa Viagem”. Esta Loja, instalada em 10 de
Maio de 1908, recebeu o n.º 275 e seguia o Rito Francês. Pertenceu a ela João
Martins Gomes, irmão do supracitado Manuel Martins Gomes, que exerceria o cargo
de Venerável na Loja Renascença do G.O.L. em Lisboa, depois da cissão ocorrida
no Grande Oriente Lusitano Unido em 1914, quando a Loja “Boa Viagem” adoptou
o nome de Loja “Firmeza”, vindo a abater colunas, a encerrar em 1919. Existem
também registos do Triângulo “Feio Terenas”, no Seixal.

Todos esses núcleos maçónicos, onde maçons e carbonários estavam


inextrincavelmente misturados, seguiam o Rito Francês, cujos ideais de há muito
vinham inspirando os republicanos portugueses até culminar no regicídio e
consequente revolução, com a Cabornária à dianteira e a Maçonaria por detrás. E
como esta ficasse bem para trás em relação àquela que impunha-lhe a linha política
do Partido Democrático segundo o seu entendimento particular, o Grão-Mestre
Magalhães Lima do G.O.L.U. contestou em 1914 a autoridade do Supremo Conselho
do Grau 33 (a entidade reguladora dos Altos Graus do Rito Escocês Antigo e Aceite
e tradicionalmente tuteladora dos Graus Simbólicos do mesmo Rito), forçando a
uma direcção única sob a sua égide (uma direcção «democrática» fortemente
politizada, que a um tempo administraria a Obediência e regularia a Ritualística).
Magalhães Lima sabendo que o Supremo Conselho coexistia com o largo espectro
político, não quis ver-se refém da governação da República. Dessa querela brotou
a dissidência esperada e provocada: a generalidade dos membros do Supremo
Conselho abandonou o Grande Oriente, acompanhada de várias Lojas, indo formar
o Grémio Luso-Escocês, só voltando a reintegrar-se naquele em 1926. Os
dois irmãos Martins Gomes teriam seguido, como fez Egas Moniz, o Grémio Luso-
Escocês.
António Augusto Louro (1870-1949)

A ser maçom, o “rei do lixo” terá com certeza frequentado a Loja “Boa Viagem”,
na Moita, e a Loja “Esperança de Porvir” (… a sociedade republicana), no Barreiro.
Esta funcionava no primeiro andar do edifício hoje ocupado por um restaurante no
Largo Alexandre Herculano. Tinha como extensão gremial a Sociedade Democrática
União Barreirense – Os Franceses. Nesta, os anarquistas, socialistas e republicanos
tinham um espaço de favorecimento cultural, não só através do convívio mas
também pelo acesso franco a bibliotecas. Este centro republicano tal como outros
idênticos foram um dos veículos de infiltração da Carbonária, organização
revolucionária armada paralela da maçónica de que existiram vários núcleos ou
“vendas” na margem sul do Tejo, nomeadamente no Barreiro, em Palmela, na
Moita, em Almada, em Cacilhas, na Aldeia Galega e em Alcochete. A antecipação
da proclamação da República pelas 12:30 horas do dia 4 de Outubro de 1910 nos
Paços do Concelho do Barreiro, sitos na antiga Rua Albers, eram cabornárias as
vozes proclamadoras de Ricardo y Alberty e João dos Santos Pimenta, membros da

Junta Revolucionária.

O símbolo mais evidente da porventura afiliação de Manuel Martins Gomes Júnior


ao pensamento esotérico está no seu ex-libris (gravado nos objectos pessoais, nas
fragatas, nas alfaias agrícolas e até nos badalos do gado, de que é exemplo a foto
acima): uma meia-lua erecta com as pontas voltadas para a direita e uma estrela
de cinco pontas dentro dela. Símbolo islâmico é muito comum no Alentejo (onde
este proprietário possuiu várias herdades próximas a Alcácer do Sal), em cuja
etnografia popular encontra-se com frequência e sempre dotado de propriedades
mágicas. À meia-lua o povo confere a propriedade de preservar as crianças dos
ataques ou doenças da Lua, que aqui Gomes Júnior transpõe para as suas
propriedades e bens a modo de protecção dos males psíquicos ou lunares que
possam afligir tanto a ele como aos seus familiares, empregados, gados e terrenos.
O signo de Salomão, o pentagrama, reforça o sentido de protecção absoluta. Isto é
atestado pelo professor Joaquim Roque no seu trabalho sobre Etnografia
Alentejana – Rezas e benzeduras populares (Beja, 1946). Aprofundando mais ainda
o significado deste emblema fazendo recurso à ciência dosTatvas ou “vibrações
subtis da matéria”, tem-se a meia-lua vertical virada para a direita como o símbolo
esotérico do estado Subatómico ou Anupadaka, em sânscrito, sob a influência
planetária de Mercúrio (Budha, em sânscrito), enquanto o pentagrama constitui-se
na reunião dos cinco elementos manifestados expressando o quinto como gerador
de todos eles: o Éter ou Akasha, em sânscrito, sob a influência planetária
deVénus (Shukra, em sânscrito). Mercúrio e Vénus juntos, ou Hermes e Afrodite,
dondeHermafrodita, expressam o estado primordial a que um dia o Homem volverá
como Ser Perfeito reintegrado à condição Divina. Seria esta reintegração final a
mensagem que Manuel Martins Gomes Júnior pretendia afirmar veladamente no
seu ex-libris, assim mesmo dispondo-se sob a protecção mágica dos
deuses Marus, Marutas, Morias,Marizes, vulgo Mouros?… Talvez, o mistério
mantém-se bem cerrado.
Voltando ao Palácio do Inferno, o sinal
mais evidente da sua intenção esotérica está no labirinto, tanto o floral do jardim
como o pétreo do palácio, onde circular neste mostrava-se bastante complicado
para o visitante, não só como uma demonstração cabal de grandeza e poder pela
imponência do edifício em si mas também por ser verdadeiramente um labirinto,
cujo significado liga-se inteiramente ao mundo da Tradição Iniciática.

A origem mitológica do labirinto é o palácio cretense de Minos, onde estava


encerrado o minotauro e donde Teseu só conseguiu sair com a ajuda do fio-de-
Ariadne. O minotauro representa a natureza animal, o labirinto a caminho tortuoso
da Iniciação a ser percorrido por Teseu, o Iniciado, e sair triunfalmente do mesmo
graças ao fio de Ariadne, ou seja, à ligação permanente à sua Alma ocultada sob a
veste carnal. Vencer a besta animal em si equivalia a alcançar o Centro e triunfar
na Iniciação. A ver com isso e ao mesmo tempo, os labirintos esculpidos no chão
de algumas igrejas medievais eram a assinatura das confrarias iniciáticas de
construtores livres, e para os que não tinham posses para viajar substituíam a
peregrinação efectiva à Terra Santa. Por isto, às vezes encontra-se no centro do
labirinto as figuras ou do próprio arquitecto ou do Templo de Jerusalém,
representando o eleito que chega ao Centro do Mundo, assinalado pelo mesmo
Templo de Salomão. Assim, o crente que não podia realizar a peregrinação real
percorria em imaginação o labirinto, até chegar ao ponto central, ao lugar santo:
era peregrino sem sair do lugar, fazendo devotamente o trajecto de joelhos.

Na tradição cabalística, retomada pelos alquimistas, o labirinto preencheria uma


função mágica que seria dos segredos atribuídos ao rei Salomão. É por esta razão
que o labirinto das catedrais (sendo uma série de círculos concêntricos
interrompidos em certos pontos de modo a formar um trajecto bizarro e
inextrincável) era chamado delabirinto de Salomão. Aos olhos dos alquimistas,
tratava-se de uma imagem do trabalho inteiro da Grande Obra Hermética com as
suas dificuldades principais: o caminho estreito mas seguro que o alquimista deve
percorrer para alcançar o centro, representando a Pedra Filosofal sinónima de
Iluminação ou Realização Espiritual, com a sua natureza superior (representada nos
metais nobres, como o ouro e a prata) dando combate à sua natureza inferior
(assinalada nos metais impuros, como o chumbo e o ferro); esses conhecimentos
equivaliam a vencer e sair incólume do intrincado labirinto da Iniciação. Esta
interpretação ia de encontro à professada na doutrina ascética de alguns místicos
cristãos e árabes: concentrar-se em si mesmo, em meio dos mil rumos incertos das
sensações, das emoções e das ideias, eliminando todo o obstáculo à intuição pura,
e volver-se à Luz Espiritual sem deixar-se prender nos desvios das veredas
sensoriais e mentais. A ida e volta no labirinto eram representativas da morte e da
ressurreição espiritual.

De maneira que o labirinto expressa o caminhar do homem para o interior de si


mesmo, para uma espécie de santuário ou cripta misteriosa (representada na cave
do Palácio do Inferno) expressando o que há de mais misterioso e sagrado nele. É
aí, nessa cripta, verdadeiro templo do Espírito Santo na alma em estado de graça,
que se reencontra a unidade perdida do Ser que se dispersara na multidão dos
desejos. A chegada ao centro do labirinto, como no fim de uma Iniciação, introduz
o Iniciado numa cela invisível, que os artistas dos labirintos sempre deixaram
envolta em mistério, ou melhor, que cada um podia imaginar segundo a sua própria
intuição ou afinidades pessoais.

O sentido teológico de Inferno merece também abordagem. Sobre este tema


doInferno ou Hades, as crenças antigas – egípcias, gregas e romanas – variaram
muito e por isso na Antiguidade eram diversificadas e numerosas. Entre os
gregos, Hades era o deus dos mortos que reinava no mundo subterrâneo ocultado
aos que vivem sobre a Terra, e por isso chamavam esse deus de o Invisível. Como
ninguém ousasse pronunciar-lhe o nome, por temor de excitar a sua cólera, ele
recebeu o apodo de Plutão, o Rico, nome que implica um terrível sarcasmo, mais
que um eufemismo, para designar as riquezas subterrâneas da Terra que fazem
parte do império dos mortos e são guardadas por estes, oque está em conformidade
com o sentido de “as riquezas infernais inalcançáveis pela cobiça do homem
vulgar”. Esse sarcasmo de o Rico torna-se ainda mais macabro quando é colocada
a cornucópia da riqueza nas mãos de Plutão, ainda que, contudo, no simbolismo
tradicional o subterrâneo indicativo das jazidas ricas represente o lugar supremo
das metamorfoses dos seres, das passagens da morte à vida, da germinação mística
dos seres humanos e da germinação natural de toda a vida.
A Gruta do Inferno próxima da Quinta da Torre de Coina

As características de Hades ou o Inferno, também chamado Tártaro, são as mesmas


por toda a parte: lugar invisível, eternamente sem saída (salvo pela porta da
reencarnação da alma num novo corpo humano, como prova da piedade divina
assinalada na Virgem, aqui, Nossa Senhora dos Remédios da capela de Coina que
pertencera à Quinta do Manique), perdido nas trevas geladas e no lume da
consciência atormentada, assombrado por monstros e demónios que castigam
incessantemente as almas dos defuntos que nas suas vidas terrenas caracterizaram-
se pela maldade dos seus actos. No Egipto, conforme está ilustrado no túmulo de
Ramsés VI em Tebas, o Inferno era simbolizado por cavernas tenebrosas (as
mesmas Talas do Hinduísmo ou o Baixo Astralda Teosofia) repletas de almas
danadas, chamadas pretas ou porcus, em sânscrito e latim, como os mesmos kama-
rupas que talvez ou por certo provocaram a «morte misteriosa» de Manuel Martins
Gomes Júnior, vítima do choque de retorno das suas próprias expressões,
atendendo ao princípio de que a energia segue o pensamento. Mas nem todos os
mortos eram vítimas de Hades: os eleitos, os iniciados, os sábios e heróis conheciam
outras moradas que não eram as regiões tenebrosas, pois dirigiam-se para as Ilhas
Venturosas, os Campos Elíseos (as mesmas Lokas do Hinduísmo ou o Mundo
Mentalda Teosofia), onde a luz e a felicidade lhes eram prodigadas. E também
nisto se integra Gomes Júnior quando «faz as pazes», quando se «reconcilia» com
Igreja depois de 1914. Isto se alguma vez andou desavindo com a mesma…Alguns
textos bretões da Idade Média mencionam o Inferno qualificando-o de an ifern yen,
“o inferno gelado”. Esta expressão é de tal modo contrária às normas usuais que
deve ser considerada como uma reminiscência das antigas concepções célticas
relativas ao não-Ser, ou a não manifestação da Vida na Forma.
Segundo a crença dos povos turcos altaicos, chega-se perto dos espíritos dos
Infernos quando se caminha do Oeste para o Este, ou seja, no sentido inverso ao
do percurso solar, que simboliza, ao contrário, o movimento vital progressivo. Essa
caminhada no sentido oposto ao da luz, em vez de ir ao seu encontro, representa
a regressão para as trevas, o que se representa na inversão dos valores naturais e
dos símbolos tradicionais.

Na tradição cristã, a conjunção luz-treva expressa os dois princípios opostos: o Céu


e o Inferno. Plutarco já descrevia o Tártaro como privado de Sol. Se a luz se
identifica com a Vida e com Deus, o Inferno significa a privação de Deus e da Vida.

A essência íntima do Inferno é o próprio pecado mortal em que os danados


morreram. É a perda da presença de Deus, e como já nada mais pode iludir a alma
do defunto, separada do corpo e das realidades sensíveis, o Inferno é a sua
desventura absoluta, a privação radical, tormento misterioso e insondável. É a
derrota total, definitiva e irremediável de uma existência humana. A conversão do
danado já não é mais possível; empedernido em seu pecado, ele está para sempre
cravado na sua dor.

Para os cristãos, contudo, resta um ponto de apoio seguro para não tombar na
danação eterna, esse ponto é a própria milagrosa Maria Santíssima encarnando o
mistério da Misercórdia Divina e a sua prática entre os homens (e a ela,
Misericórdia, se encomendou o «ateu» Manuel Martins). Concebida como envolta
na Misericórdia infinita do Pai pelo Filho e o Espírito Santo (preservada do pecado
demoníaco), o seu agir está assinalado pelo amor efectivo à Humanidade,
especialmente aos pecadores e sofredores (o que vai bem com o humanitarismo do
mesmo Manuel Martins). Oficialmente, a Igreja Católica aprovou em 15 de Agosto
de 1968 o formulário da Missa Votiva “Santa Maria, Rainha e Mãe de Misericórdia”,
mas a invocação “Salve, Rainha de Misericórdia” encontra-se pela primeira vez no
bispo Adhemar de Le Puy (+ 1098), que destaca a qualidade do olhar materno de
Maria, “esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei”, e conclui com o sentido
desta sua Misericórdia: “Ó clemente, ó piedosa, ó doce, Virgem Maria”. Já o título
“Mãe de Misericórdia” crê-se que foi dado pela primeira vez a Maria por Santo Odão
(+ 942), abade de Cluny: Ego sum Mater misericordiae (“Eu sou a Mãe de
Misericórdia”), Maria lhe teria dito em sonho. Na Igreja Oriental encontram-se
testemunhos ainda mais antigos, tendo o padre ou pope Tiago de Sarug (+ 521)
aplicado a Maria explicitamente o título de “Mãe de Misericórdia” (Sermo de
transitu), o que é considerado por muitos como a sua primeira atribuição em
absoluto.

O Palácio do Inferno está disposto em três corpos distintos: a torre sobre o edifício
(com três níveis, rés-de-chão, primeiro e segundo andares e a cave, o que constitui
uma prefiguração simbólica das Três Pessoas da Trindade dispostas em Planos
igualmente distintos, como seja: a torre para o mais alto, o Céu ou o Mundo do Pai;
o edifício para a Terra santificada pela presença do Filho; a cave para o Inferno
ouInfera, “lugar inferior ou interior”, de onde e de si mesmo o Espírito Santo dá à
luz a Criação Universal.
Finalmente, tem-se a torre que é uma espécie de espada cravada na cunha ou coina
do Concelho do Barreiro. A espada cravada na rocha ou no chão, é simbolismo que
pessoalmente já vivifiquei ou realizei algumas vezes, e que levou alguns a
vociferarem sobre o que desconhecem absolutamente, tanto no real como no
simbólico, ficando-se pela impertinência beata e simplista característica primária
da ignorância cabal das profundezas do mundo iniciático.

Esse é o símbolo tradicional do centro axial dum enclave iniciático (ou sistema
geográfico) marcado pela espada cravada na rocha, figurando o símbolo astrológico
da Terra (um círculo ou um monte coroado por uma cruz) e igualmente a chave da
Sabedoria Iniciática, que aqui em Coina e nas redondezas terão sido seus zelosos
custódios os primitivos Templários, a quem São Bernardo de Claraval regulou pela
Regra de Cavalaria que lhes deu, onde cavaleiro cristão demandava por essa forma
dinâmica a iniciação espiritual tomado de ânimo e coragem no manuseio destemido
das armas sagradas, evocando sempre a protecção de Santa Maria e a força de São
Miguel, como protótipos celestes do seu ideal terreno que era fazer a guerra santa,
a cruzada, cujo sentido maior era o de combater-se a si mesmo, aperfeiçoar-se
humana e espiritualmente debastando as suas imperfeições ou vicissitudes mortais,
derrotando os seus demónios interiores, e com isso não raro além de guerreiro
também era monge, unindo a espada à fé, a acção das virtudes humanas do bom
cavaleiro aos dotes da santidade demandada.

Vista como se apresenta, tem-se a espada como símbolo axial e polar que se
identifica ao fiel da balança. Entre os citas, o Eixo do Mundo e a Actividade Celeste
eram representados por uma espada fincada no cume de uma montanha. A ideia
de que a espada cravada na terra possa produzir uma fonte, não deixa de estar
relacionada com a actividade produtora do Céu, pela conotação existente entre o
relâmpago e a produção da chuva. Como a espada simboliza o fogo em forma de
relâmpago, este é atraído pela água da terra, e por isto a têmpera da espada
expressa sempre a união dos dois elementos fogo e água, por outras palavras, o
perfeito equilíbrio do Espírito e da Alma na própria Matéria.

A espada de fogo designa, segundo Fílon (in De Cherubim), o Logos e o Sol. Quando
Deus através de São Miguel expulsou Adão do Paraíso Terreal, ele colocou diante
do Jardim do Éden os Querubins e a chama da espada flamejante para proteger o
caminho da Árvore da Vida (Génesis, 3, 24). Segundo Fílon, os dois Querubins
representam o movimento do Universo, o deslocamento eterno do conjunto do céu,
ou ainda, dos dois hemisférios. Numa outra interpretação do mesmo autor, os
Querubins representam os dois atributos supremos de Deus: a Bondade e o Poder
(que se representariam depois em Santa Maria e São Miguel). A espada refere-se
ao Sol, cujo percurso faz a volta do Universo inteiro, marcado pelos 12 signos no
prazo de um ano terrestre. A espada relaciona-se também à razão, que reúne a um
só tempo os dois atributos de Bondade e de Poder: pela razão, Deus é generoso e
soberano ao mesmo tempo (De Cherubim, 21-27).

Nas tradições cristãs, a espada é uma arma nobre que pertence aos cavaleiros
cristãos. Ela émuitas vezes mencionada nas canções de gesta. Rolando, Olivier,
Turpin, Carlos Magno, Artur Pendragon, Ganelão e o emir Baligant, todos eles
possuíam espadas individualizadas que tinham nomes, a guisa de “génios mágicos”
encadeados às mesmas, como, por exemplo, Joyeuse (“Alegre”), Durandal,
Excalibur ou Cabiburna, Corte, Bantraine, Musaguine, etc. Esses nomes provam a
individualização da espada, ademais associada à ideia de luminosidade, de
claridade, pois a lâmina é qualificada de cintilante.

Também relacionada à ideia de Verbo, de Sabedoria e Revelação, às vezes a espada


designa a palavra e a eloquência, pois a língua, assim como a espada, tem dois
gumes.

Relacionada à luz e ao relâmpago, a lâmina da espada brilha, ela é, diziam os


antigos cruzados, uma figuração da Cruz de Luz. Na Índia, a espada do sacrificador
védico é o raio do deus Indra, correlacionado ao Fogo Celeste. Em termos de
Alquimia, a espada dos filósofos é o fogo do cadinho. Ainda na Índia védica, a
espada apareceu associada aos deuses Assuras ou da Mente mas empunhada
pelo Bodhisattva ou “Buda de Compaixão”, como símbolo do combate pela
conquista da Sabedoria e da libertação dos desejos inferiores, pois a espada
luminosa corta as trevas da ignorância e do pecado. Do mesmo modo, a espada do
Deus Vishnu (equivalente ao Filho na Trindade cristã) é de fogo e expressa a
Sabedoria pura e a Virtude absoluta. Quando está dentro da bainha, esta
representa a nescidade e a obscuridade, motivo pelo qual jamais um profano
poderia tirar a espada da bainha, sob pena dos maiores castigos corporais e
espirituais.
Finalmente, a espada é o símbolo do estado militar (kshatriya, em sânscrito) e da
sua virtude, a bravura, bem como da sua função, o poderio. O poderio tem um
duplo aspecto: o destruidor (embora essa destruição possa aplicar-se contra a
injustiça, a maledicência e a ignorância, e por causa disso tornar-se positiva) e o
construtor, pois estabelece e mantém a paz e a justiça. Todos esses símbolos
convêm literalmente à espada, quando ela é o emblema do rei e da nobreza.
Quando associada à balança, ela relaciona-se mais especialmente com com a
justiça com a dupla lâmina: premeia o justo e castiga o prevaricador.

Símbolo guerreiro, a espada é também o símbolo da guerra santa (e não das


conquistas arianas, tal como pretendem alguns a respeito da iconografia hindu, a
menos que se trate de conquistas espirituais). Antes de tudo, a guerra santa é
uma guerra interior, e esta será igualmente a significação da espada trazida pelo
Cristo (Mateus, 10,34). Sob o seu duplo aspecto destruidor e criador, ela é o
símbolo do Verbo, da Palavra. O khitabou orador islâmico costuma segurar uma
espada de madeira durante a sua predicação; oApocalipse de São João (1, 16)
descreve uma espada de dois gumes saindo da boca do Verbo.

Sendo a espada símbolo do Verbo, já a torre expressa aqui a de Babel, que foi onde
a Humanidade começou a falar as diversas línguas numa babilónia em que ninguém
se entendia, depois de Deus ter sido desafiado e castigado dessa forma as suas
criaturas (Génesis, 11 :1-9). Babel ou confusão é também a que provoca a visão
imediata daTorre do Inferno no comum das gentes, sejam esclarecidas ou simples,
para todos os efeitos, desprevenidas e logo surpreendidas.

O palácio suportando a torre do “rei do lixo”, quer um quer outra repartem-se em


três andares, ficando a torre para o Mundo Celeste (Mental, Astral e Etérico) e o
palácio para o Mundo Terrestre (Agharta, Duat, Badagas), representando a cave do
edifício o ponto de intercessão entre os dois Mundos, ou seja, o Plano Físico, a
partir do qual se sobe ou se desce. Por outro lado, o imóvel completo compõe-se
de sete andares (incluindo a cave) ou divisões que juntas ao
apodo inferno remetem para a tradição oculta da Torre de Babel cuja história é
muito diferente da citação bíblica remetendo para os meados da 4.ª Raça-Mãe, a
Atlante, anterior à actual 5.ª Raça-Mãe Ariana. OPaís de Mu, como era então
conhecida a Atlântida, dividia-se em sete reinos, regiões ou cantões cada qual com
o seu governador próprio, tendo como dirigente máximo um Governo Geral
composto de uma tríade imperial ou khou habitando numa Oitava Cidade
(Muakram ou Aptalântida), separada das demais por altíssimas muralhas… Nessa
Oitava Cidade encontrava-se a representação humana da própria Divindade na
Terra, nas pessoas de Mu-Ka, Mu-Ísis e Ra-Mu expressando, respectivamente, os
1.º, 2.º e 3.º Logos. A Bíblia relata que numa tentativa de “escalar o céu” (as
altíssimas muralhas) foi construída a Torre de Babel, e que essa tentativa foi
interrompida devido à confusão advinda (castigo kármico) dos próprios
construtores, os quais passaram a falar línguas diferentes (que também é alusão
velada à fundação de sete Colégios Iniciáticos cada qual com Tónica diferente dos
outros, e assim mesmo aos sete Ramos Raciais destinados à sementeira da Raça
futura, cada qual dirigido por um desses Colégios, cujo quintolevava de
nome Kurat-Avarat).

Na verdade, a passagem bíblica refere-se ao que ocorreu com a destruição das


altíssimas muralhas da Oitava Cidade. No sentido sentido caótico BABEL significa
realmente “confusão” (do hebraico Bavel), por os Nirmanakayas Negros influindo
nosRakshasas da mesma espécie, por sua vez inspirando o povo à cólera e à revolta,
terem tentado derrubar a as muralhas da referida Cidade para a destruir. E como
não o conseguissem, mataram os dois Tulkus (espécies de sósias) dos Gémeos
Espirituais Mu-Ka e Mu-Ísis, aos quais o seu filho, o sacerdote Ra-Mu, deu cobertura
defensiva.

A partir desse evento o País de Mu entrou em decadência, muito mais quando a


Fraternidade Negra tentou e conseguiu exercer a sua terrível influência sobre o
governante da 4.ª cidade atlante, fazendo deste um avatara sinistro liderando o
movimento destruidor que varreu do mapa da face da Terra tão portentosa
civilização dos finais do Período Terciário e de quase todo o Quaternário. Nisto,
vale bem o apodo sinistro Torre do Inferno…

Mas no sentido iniciático, evolucional a Torre de Babel como Zigurate (Torre-


Templo destinada a culto astrolátrico sobretudo solar) expressava a
própria Muakramrepresentativa do Céu na Terra, e por isso BAB-EL mais que tudo
quer dizer Porta do Céu, tal qual o acadiano BAB-ILU (donde o
termo Babilónia), Portal de Deus. O termo acadiano, passado ao sumério, ao
caldaico, ao fenício e ao hebraico, BAB-EL aparece junto a BAAL, este
como Senhor, Deus, e aquele com a sua Morada. BAAL ou ADON (ADONAI) era um
Deus Fálico, isto é, Gerador da Vida na Forma, e por isso representava-se por uma
torre elevada ou por um alto monte onde se plantava um santuário de culto solar,
ou então, posteriormente tão-só uma cruz ou uma espada cravada no cimo do
monte. “Quem subirá ao monte (o lugar elevado) do Senhor? Quem estará no lugar
de seu Kadushu (Sol)?” (Salmos, 24-3). BAAL vem a ser assim o SOL, e quando em
certo sentido é devorado pelo ardente MOLOCH, o seu irmão sinistro que vive na
cripta do mundo, ou seja, o próprio Deus SATURNO, BAAL assume então o
nomitativo BAAL-TZEPHON, o Deus da Cripta, representando o SOL DA MEIA-NOITE,
o Saturnino ou Subterrâneo expressivo da própria SHAMBALLAH como Sol Central
da Terra. Trata-se do mesmo BAAL-ADONIS dos Sôds ou Mistérios Judaicos pré-
babilónicos, que se converteu, graças ao Massorah, no ADONAI, o JEHOVAH
posterior com vogais.

BAAL-ADONIS é também herança filológica atlante por se referir a PUSH-ADONIS ou


POSEIDONIS, a Morada de Adonis, o 7.º Princípio Espiritual, e que designa a parte
do continente atlante que submergiu 9.564 anos a. C. O nome dessa «ilha», a que
sobrou do primeiro cataclismo que vitimou a Atlântida há cerca de 850.000 anos,
foi-nos transmitido por Platão nas suas obras Timeu (ou a Natureza) e Crítias (ou
a Atlântida).

Não creio que Manuel Martins Gomes Júnior soubesse de todos esses conhecimentos
iniciáticos, mas possivelmente alguns dos construtores do seu palácio e torre
poderiam possuir fragmentos esparsos dos mesmos, pois que a simbologia do imóvel
está em conformidade com a Tradição Iniciáticas das Idades, inclusive o Rio Tejo
fazendo a vez de “Mar da Atlântida” em cuja margem se levantou a célebre Torre
de Babel, que nesta de Coina servia para o “rei do lixo” subir ao seu topo para
avistar as suas vastas propriedades no Seixal, diz a vox populi sempre com
explicação simples e prática, mas que não parece verossímil.

Sem dúvida que esta obra foi uma demonstração da sua grandeza e poder, e nisto
poderá ter querido celebrar a memória do há muito desaparecido castelo de Coina,
destruído durante a reconquista cristã da margem sul do Tejo aos árabes,
acontecimento no qual a Ordem dos Templários e a Ordem de Santiago tiveram
primazia ainda durante o reinado de D. Sancho I. Como lugar extremo do Concelho
do Barreiro, a etimologia de Coina liga-se à sua posição estratégica. Com efeito,
em documentos do século XII ao XIV existem registos da
grafia cuinha, coinha e coinaprovindas de cunha, “rochedo isolado cuja forma
lembra um cunha”. Coina é também avassoura feita de hastes secas para limpar o
trigo do casulo e do palhiço, sendo que o transitivo coinar significa “limpar o trigo
com a coina”. Possivelmente será referência ao palhiço que cresce nos sapais junto
às margens pouco profundas e lodosas desta parte do Tejo comunicando com a sua
bacia chamada Mar da Palha.

Diversos filólogos dão origem latina ao nome desta localidade afirmando derivar de
“Água Boa” (que também não deixa de ser memória ultramarina da
Atlântida):Equabona, Quabona, Quouna, Couna e Coina, sendo que o documento
mais antigo que a ela se refere é o Roteiro Militar de Antonino Pio, do princípio do
Século II d. C., informando que próximo daqui viveu o general e estadista romano
Quintus Sertorius (126 a. C. – 73 a. C.). Mário de Sá no tomo VI das Grandes Vias
da Lusitânia (O itinerário de Antonino Pio), Lisboa, Sociedade Astória Lda., 1967,
descreve:

“(…) Exacta é a posição de Equabona em Coina-a-Velha (no Vale de Coina e junto


do “Castelo dos Mouros”) onde houve uma remota localidade romana. Coina (a
Nova) no esteiro do Tejo, era o porto marítimo de Equabona, que, desenvolvendo-
se adentro da era portuguesa, veio a ganhar foros de vila. E foi das mais notáveis
da Riba Tejo, debaixo da simples designação de Coina.

“Na época romana a via de Lisboa a Equabona era, tanto quanto possível, terrestre,
e é na deste teor que se marcam as XVI milhas de extensão do cais de Cacilhas a
Coina-a-Velha por Cova da Piedade, Torre da Marinha (extremidade do esteiro da
Amora), Rio do Judeu, Foros do Perú, Quinta da Conceição. É curso para 13,26
quilómetros, na equivalência das XVI milhas do texto.”

Quintus Sertorius

Ainda sobre Equabona ou Aquabona, o poeta e professor do Liceu de Évora, António


Maria de Oliveira Parreira, num trabalho avulso feito em 13 de Novembro de 1882,
escreveu o seguinte:
“(…) A situação de Equabona é completamente incerta, não obstante designar-se
unanimemente como correspondente a Coina, valendo para isso uma remota
semelhança das palavras e a circunstância de haver perto um lugar chamado Coina-
a-Velha. Alguns escritores chamam-lhe Abona e num Códice da Biblioteca de Paris
pertencente ao século X encontra-se a denominação de Aqua Bona. Pode ser que
esta povoação romana estivesse situada nesta região da margem sul do Tejo,
apesar de não se lhe poder determinar a situação precisa. O nome Aqua Bona só
por ironia poderia convir à Coina moderna, local apaulado e sezonático, mas
poderia pertencer a qualquer povoação que demorasse da falda dos montes de
Azeitão e que desse o nome a todo esse trato de terreno até ao Tejo. Em Coina-a-
Velha, lugar de que fala Hubner, numa propriedade denominada Casal do Bispo, no
cimo de um monte existem as ruínas de um castelo que conserva ainda as quatro
paredes da torre meridional em perfeita conservação até à altura de mais de três
metros, outra torre mais arruinada do lado norte, pedaços de muralha abatidos e
uma cisterna, tudo envolto em altas moitas de carrasco. As paredes da cisterna são
de uma argamassa composta de cal, areia e tijolo britado, o que lhes dá o aspecto
de um só tijolo inteiriço: só desabou a parte da abóbada. Os lanços de muralha
abatidos parecem ter sido demolidos expressamente à cunha e não ser a sua ruína
obra do tempo.”

Joaquim Pedro da Assunção Rasteiro é de opinião que o castelo de Coina-a-Velha é


o mesmo de que fala D. Afonso Henriques num documento de 1184 (in castelo
caune), fazendo doação dele a Bernardo Mendes, cónego da igreja de Santa Maria
de Lisboa, aparecendo também no testamento do seu filho D. Sancho I
(constructione murorum de couna). Alexandre Herculano, na sua História de
Portugal, fala na forte linha defensiva dos castelos de Almada, Coina, Palmela e
Alcácer do Sal, dizendo que o conquistador árabe Iacub-el-Mansur em 1191 tomou
o castelo de Coina arrasando-o, mas em 1195 a região seria reconquistada por D.
Sancho I o qual possivelmente mandou reconstruir a fortaleza, para todo o efeito,
desaparecida há muitos séculos.
Em resumo, pode dizer-se que há 800 anos no Casal do Bispo existia uma povoação
que se chamava Equabona e tinha um castelo. O povo foi mudando o nome até ficar
emCoina. O terreno que fica entre a Vala Real e a Ribeira dos Canais também veio
a chamar-se de Coina, a de Azeitão começou a dizer-se de Coina-a-Velha e a outra
deCoina-a-Nova, ou só Coina. A povoação de Casal do Bispo foi abandonada até que
desapareceu, mas nasceu outra mais adiante, com o mesmo nome. No século XVIII
a povoação de Coina-a-Velha foi baptizada com o nome de Aldeia de Nossa Senhora
da Piedade, ou só Aldeia da Piedade. Isto porque Diogo da Silva de Carvalho, dono
da Quinta das Donas, construiu na sua propriedade uma capela privada pondo-a sob
o Orago de Nossa Senhora da Piedade, e depressa da capela o nome passou para a
aldeia.
Memória sumptuosa dos tempos idos resta a Quinta da Torre de Coina, num
avançado estado de degradação. Se não forem tomadas medidas urgentes, este
património singular do Concelho do Barreiro e único no País tem morte anunciada,
mandando para o lixo mais uma página da História de Portugal como coisa de
somenos importância. Deixo o apelo às boas vontades das consciências da
autoridade política e da proprietária do imóvel, para que se entendam e acudam
rápido a salvar e recuperar a quinta em nome do interesse cultural comum. Por
enquanto se mantiver de pé o Palácio de Coina, por certo a memória do “rei do
lixo” permanecerá viva!