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Bretanha mágica (deuses, druidas, templários, mitos e

lendas) – Por Vitor Manuel Adrião

Bretanha mágica

A Bretanha é a “terra da deusa Dana”, a mesma Danu dos primitivos Tuatha de


Danand, povo mítico antecessor do celta que preenche a mitologia bretã, irlandesa
e escocesa do qual diz-se ter vindo do Oriente, da Ásia Central, e por isso alguns
orientalistas também lhe chamam Duat de Ananda, ou seja, o “Povo do Paraíso
Terreal”. Apareceu tão subitamente como desapareceu de repente, diz-se, nas
entranhas cavernosas da Terra. Mas deixou os sinais da sua passagem civilizadora
aqui: os monumentos megalíticos, os deuses e a religião dos celtas posteriores, ou
seja, as bases teológicas do druidismo, e até mesmo se lhes atribui a invenção das
carroças, isto é, a divulgação da roda, inspirada no formato do disco solar de quem
diziam ser morada da sua divindade suprema, indistintamente
chamada Dagda ou Lug, consorte da mesma Danu.

O culto do deus Dagda, Lug, Lugus ou Lux sobreviveu através dos ligures, dos celtas
e até se durante a romanização da Gália, período no qual os galos pós-celtas não
deixaram de cultuar esse deus mágico, terapeuta, músico, alquimista e
metalúrgico, afim ao início da era dos metais, que o Cristianismo veio a incorporar
no seu santoral adaptando-o à hagiografia de um São Lucas ou de um São Lourenço,
por exemplo, personagens com nomes de raiz “luz” em conformidade às suas vidas
santificadas pelo pautado de vivências solares ou claramente espirituais, na
demanda do mais elevado Deus do Universo.

Assim é o mesmo Lug, considerado próprio Deus do Sol que armado da sua lança
mágica expulsou da Bretanha os maus demónios após uma batalha terrível em que
conjurou os poderes celestes para levar à vitória o seu povo Tuatha de Danand,
como contam as antigas sagas celtas. Mais tarde, durante a cristianização bretã, a
lança mágica de Lugseria associada à espada de fogo do Arcanjo São Miguel e este
mesmo, por sua primazia celeste e luminosa junto do Trono de Deus, vindo a ser
identificado à pessoa solar e primordial do panteão céltico que era o deus Lug. Foi
assim que este reapareceu no culto cristão sob a forma de Mikael ou Miguel, por
ambos deterem o poderio divino junto dos homens.

A deusa Dana ou Danu, por sua vez, era reconhecida a divindade da Terra, da Vida
e da Morte, sendo tão relevante que o seu grupo humano de semi-deuses é
comummente apelidado “Povo de Dana ou Danu”, donde Thuat de Danand. A sua
importância terá sido tão grande que deu o seu nome ao País de Dinan ou Danu,
hoje sendo a bretãCôtes-d´Armor. Após a cristianização da Bretanha, a
deusa Dana, iconografada como uma sereia ou mulher sobrenatural vinda de
“Além-Mar”, o Ultramar designativo simbólico do “outro lado do Mundo”, ou
melhor, do “Outro Mundo”, veio a ser incorporada à figura da Padroeira da
Bretanha, Santana, mãe da Virgem Maria, adaptação feita para substituir o forte
culto celta à deusa Lusina, a mesma Danuprimitiva. No século XIV Jean d´Arras
adaptou a figura de Lusina à sereia sobrenaturalMelusina, personagem central do
seu romance a qual se diz ter dado origem às Armas de Lusignan.

Uma outra santa caríssima ao Cristianismo é Brígida, mas também esta é uma
“segunda versão” adaptada da primitiva deusa Brigite dos Tuatha de Danand e dos
celtas. As sagas bretãs dizem que ela era filha do deus Dagda e que veio a ser a
Musa da inspiração dos bardos, por possuir o Som que vibra no Universo, e também
aquela que conduz as almas ao Awen, que era o Céu para esses povos antigos. Além
disso, como grande druidisa ou sábia sabia das propriedades mágicas e medicinais
das plantas, pelo que também a consideravam deusa curandeira. Ora
a Brígida cristã veio a ser reconhecida como santa intercessora junto do Céu,
curadora dos corpos e almas aflitos e é tradicionalmente associada à Luz, tal
qual Brigite a filha de Lug.
Os Tuatha de Danand, a quem o rio Danúbio e mesmo o rio Guadiana em Portugal
devem o seu nome, apareceram em três vagas distintas na Europa inaugurando uma
nova era de civilização: 1.ª) vindos do Oriente em era incerta, desembarcaram na
costa oeste da Irlanda por volta do 1.º de Maio, dizem as crónicas, que é a data do
festival de Beltane ou comemoração da Primavera; 2.ª) da Irlanda ou Erin passaram
à Escócia, onde impuseram a cultura e o culto do deus Lug, depressa alastrando ao
restante território da actual Grã-Bretanha; 3.º) no ano 1000 a. C., data da aparição
do alinhamento megalítico de Carnac e do santuário de Stonehenge, Sul de
Inglaterra, vindos da Península Ibérica (Galiza, Norte e Centro de Portugal)
os Tuatha de Danand instalam-se na Bretanha e Grã-Bretanha, ficando conhecidos
como Milesianos. É a estes que se deve a maioria dos monumentos megalíticos da
Idade do Bronze encontrados nesta parte do Norte de França. Estas três vagas
civilizacionais ficaram conhecidas nas crónicas ogâmicas que falam deste povo
mítico, como “as três guerras travadas pelos Tuatha de Danand contra os Fir Bolg,
povos decadentes substituídos pela civilização daqueles”.

Aos Milesianos ou Mile Espaine se uniriam depois os Celtas gahélicos fundadores da


actual Gália. Depois da conquista desta pelos Romanos, a Bretanha passou a fazer
parte da Armórica (Aremoricae, “quie está defronte ao mar”). Cerca do ano 500
d. C. os Bretões da Ilha Grande Bretanha sendo atacados pelos Anglo-saxões
emigraram para aqui, a Pequena Bretanha, trazendo os seus costumes e língua,
cedo incorporando-se nos dos autóctones que nas Côtes-du-Nord eram o País de
Dinan, o “Povo da deusa Dana”.

A presença céltica, substituta primitiva da Tuatha de Danand, é dominante na


Bretanha, nomeadamente nas artes plásticas, na música e na religião. Nesta, é
possível reconhecer na cruz celta símbolos druídicos coincidindo com o simbolismo
cristão. A correspondência quaternária da cruz ilustra a repartição dos quatro
elementos: ar, fogo, água e terra, e de suas qualidades tradicionais: frio, quente,
húmido e seco. Ela coincide com a divisão medieval da região bretã em três reinos
(Domnonée, Cornualha e Bro Waroch) incorporado ao quarto que era o próprio
Ducado da Bretanha, independente do reino de França até 1532. Actualmente
coincide com os cinco departamentos regionais criados a partir de 1790: Côtes-
d´Armor, Finistère, Ille-et-Vilaine, Morbihan e finalmente o quinto ao centro da
cruz, Loire-Atlantique, que é onde fica Nantes, capital da Bretanha.

Sobressaindo os braços da cruz celta, popularmente chamada “cruz solar”, de um


círculo central que os irradia para fora, havendo outro círculo ao centro, os eixos
vertical e horizontal formados pelos braços do cruzeiro lembram a passagem do
tempo, os pontos cardeais do espaço, enquanto o círculo mantém a memória
perene dos ciclos de manifestação da Vida Universal. Mas o centro, no qual não há
mais nem tempo nem mudança de nenhuma espécie, é o sítio de passagem ou
comunicação entre este e o Outro Mundo, que para celtas e cristãos corresponde
ao Paraíso. É, pois, um ônfalo, umponto de ruptura do tempo e do espaço que
propício à passagem para outras dimensões espirituais que muitos druidas e até
religiosos cristãos procuraram adentrar, e talvez alguns tenham conseguido, em
suas vidas corporais procurando a respectiva imortalidade incorporal.

A estreita correspondência das antigas concepções celtas e de dados esotéricos


cristãos, permite considerar que a cruz inscrita no círculo, propagada na Bretanha
a partir do século VII, tenha representado, quiçá ainda represente, a síntese íntima
e perfeita do cristianismo e da tradição celta que até hoje é imagem de marca
característica da Bretanha mágica.
A Bretanha (Breizh, em bretão, Bretagne, em francês) ficou composta, em termos
históricos, por duas áreas linguísticas: a Baixa Bretanha ou Breizh Izel, a Oeste
(Finistére, Morbihan e a parte ocidental de Côtes d´Armor), onde se fala a língua
céltica do grupo britânico (aparentado ao galês e ao cornualho) designada como
bretão (ou bretão armórico); e a Alta Bretanha ou Breizh Uhel, a Leste (Ille-et-
Vilaine, Côtes d´Armor e Loire-Atlantique), onde se falam dialectos românicos
(langues d´oïl) conhecidos como “Gallo”.

Os nomes realmente bretões só aparecem nos últimos séculos da Idade Média,


período no qual a língua bretã falava-se a oeste de uma linha indo de Saint-Brieuc
a Saint-Nazaire, passando por Loudeac e Ploermel. Portanto, o limite entre os
nomes bretões e os nomes franceses não era muito claro, porque numerosas
migrações tiveram lugar no decurso dos séculos entre os dois lados dessa linha.
Pode-se então estimar que os nomes mais antigos de famílias bretãs remontam ao
século XI.

É nesse século que aparecem os nomes ditos “solenes”, ou seja, muito próximos
ou mesmo ligados às lendas de Cavalaria, particularmente à do rei Artur e seus
cavaleiros da Távola Redonda tendo por conselheiro o druida Merlim, saga essa que
se diz ter transcorrido na “floresta mágica” de Brocéliand, aqui mesmo na
Bretanha, onde cavaleiros andantes e magos druidas conviveram e deixaram fama
envolta em halo de mistério. Então aparece um nome como o do
cavaleiro Gwenole, nome bretão oriundo de gwenn, “branco”, e uual, “valoroso”.
Pode-se igualmente citar Catuun, “o homem de combate”, formado de cat,
“combate”, e de uun, “o homem”.

Mais alguns exemplos de nomes bretões


correntes: Legoff (“ferreiro”), Prigent(provindo de prit, “bela”, e gent, “raça”),
etc. Alguns prefixos podem ajudar a reconhecer um nome bretão: ab e ap na raiz
de mab ou map, “filho de”, ou então ker, significando “o domínio”, “a cidade”, “o
lugar”.

Nas diversas expressões das artes plásticas, e nomeadamente na música, ainda hoje
a influência ancestral do espírito celta consegue a “anular” a presença cristã que
veio com a romanização nos séculos V-VI. Ao nível musical, a música de dança
cantada (kan ha diskan, ou canto e contra-canto) é interpretada com dois
instrumentos tradicionais da Bretanha herdados, assim como as danças, da cultura
celta: o biniou (espécie de gaita de foles, também chamada “cornemuse bretã”) e
a bombarda (espécie de oboé), que são muito tocados tanto na Alta como na Baixa
Bretanha. Os bailarinos juntam-se nas chamadas fest-noz (festas nocturnas) ou
nas fest-deiz (festas diurnas), como primitivamente faziam as populações celtas
para celebrarem alegremente o amor e a vida, ora à volta das fogueiras, ora em
campos trigais celebrando a abundância e prosperidade.

Mistério iniciático dos 7 Santos fundadores da Bretanha

Os 7 Santos fundadores da Bretanha (cristã) parecem ser uma cópia fiel dos
originais 7 druidas que assistiam à cabeça da religião celta na mesma Bretanha. As
suas vidas quase improváveis deram-se nos séculos V e VI na época da emigração
bretã na Armórica, e a sua história é aquela da passagem da Gália Armórica à
Bretanha. Supondo-se que esses religiosos tenham pertencido à aristocracia britto-
romana, por serem portadores de nomes latinos gentílicos, como por
exemplo Paulus Aurelianus (Saint Pol Aurélien), vieram a instalar-se em sete
lugares distintos que já eram espaços de peregrinação e culto celta, tendo aí
fundado as suas dioceses, e depois de mortos esses religiosos foram proclamados
“santos” pelo povo devido aos milagres que ocorriam junto às suas sepulturas.
Tendo os sete santos fundado sete cidades episcopais, o itinerário de peregrinação
a todos eles corresponde ao que a Tradição Iniciática das Idades apelida de
Caminho da Iniciação, demarcado por sete etapas distintas onde em cada uma se
adquire novo e mais amplo estado de consciência, correspondendo a determinado
elemento da Natureza, rumo à Perfeição Divina assinalada pelo Centro Primordial,
tanto no Homem como na Terra (o supremo estado interior simbolizado
tradicionalmente pelo “túmulo milagroso” de algum santo falecido, ou então pela
gruta ou a cripta simbólica doônfalo, literalmente “umbigo”, indicativo do mesmo
Centro Primordial).
Sendo o itinerário da peregrinação católica aos túmulos dos sete santos possível
adaptação de igual roteiro sagrado pelos celtas, para todos os efeitos modalidade
dinâmica ou móvel de encontro entre as duas tradições, as ditas cidades episcopais
bretãs podem assim ser transpostas para os sete estados que demarcam o Caminho
da Verdadeira Iniciação, que é sempre, seja sob que modalidade for, o da
transformação da Vida Energia em Vida Consciência, tanto na Natureza como na
sua partícula individualizada, o Homem.

1.ª Etapa – Quimper, fundada por Saint Corentin

Atributo: Peixe

Significado: Firmação da Fé

Estado e Elemento: Físico e Terra

2.ª Etapa – Vannes, fundada por Saint Patern

Atributo: Igreja

Significado: Afirmação da Fé

Estado e Elemento: Vital e Água

3.ª Etapa – Dol, fundada por Saint Samson

Atributo: Serpente

Significado: Vencer a heresia

Estado e Elemento: Emocional e Fogo

4.ª Etapa – Saint-Malo, fundada por Saint Malo (Melaine)

Atributo: Barca

Significado: Evangelização

Estado e Elemento: Mental Concreto e Ar

5.ª Etapa – Saint-Brieuc, fundada por Saint Brieuc


Atributo: Lobo

Significado: Dons dos sacramentos

Estado e Elemento: Mental Superior e Éter

6.ª Etapa – Tréguier, fundada por Saint Tugdual

Atributo: Pomba e pergaminho

Significado: Sabedoria da Palavra

Estado e Elemento: Intuicional e Subatómico

7.ª Etapa – Saint-Pol-de-Léon, fundada por Saint Pol Aurélien

Atributo: Dragão

Significado: Posse da Sabedoria

Estado e Elemento: Espiritual e Atómico

A fama dos sete santos originou a criação do Tro-Breizh, a “peregrinação aos Sete
Santos”, devido aos numerosos milagres produzidos em torno dos seus túmulos, o
que veio a popularizar este primitivo itinerário iniciático contribuindo fortemente
para a identidade religiosa bretã.
Esta tradição dos “Sete Santos fundadores da Bretanha” tem origem nessas outras
bizantina e muçulmana referentes aos “Sete Adormecidos de Éfeso” e aos “Sete
Adormecidos da Caverna”. Na versão cristã, os “sete Adormecidos” eram sete
nobres cristãos (Maximiano, Malchus, Marciano, Dinis, João, Serapião e
Constantino) que escapando às perseguições de Décio, o imperador romano,
refugiaram-se numa caverna da montanha próxima da cidade de Éfeso, e aí Deus
adormeceu-os por tempo indeterminado. Na versão muçulmana, esses mesmos
“Sete Adormecidos de Éfeso” são chamados Ahl-a-Kahf ou Ashâb-al-Kahf,
literalmente, “as gentes da caverna ou a gruta”, citadas na 18.ª surata do Al Corão.
Será na tradição transhimalaia referente aos Sete Rishis ou “Reis Divinos” que
desde o Mundo Subterrâneo de Agharta dirigem os destinos da Humanidade, que os
cristãos e árabes terão recolhido e adaptado às suas doutrina o conceito dos “Sete
Sábios e Santos Adormecidos na Caverna”, ideia também explanada por Platão,
tendo a gruta secreta o significado de “oculta e inviolável”. O sentido de
“adormecer” equivale ao estado de “inactivo”, o que, pegando ainda na tradição
transhimalaia, significa que está “acordado” ou “activo” um determinado Rei
Divino durante determinado ciclo, enquanto os outros “dormem”. No Final dos
Tempos ou do Ciclo de Manifestação Universal, todos os Sete Reis estarão despertos
e implantarão a Concórdia Universal sobre a Terra, tal é a mensagem derradeira
desta mesma tradição espiritual comum às religiões cristã e islâmica. Nesta, é
ainda um cão, chamado Qitmir, quem guia os peregrinos até à entrada da Caverna
de acesso ao Paraíso Perdido onde estão os “Sete Adormecidos”. Posto assim e
vendo que Saint Brieuc tem por atributo um lobo ou um cão, assim como Saint Malo
a barca alusiva da mesma Agharta, ou até mesmo Saint Samson e Saint Pol tendo
por atributos a serpente cuja expressão superior é o dragão, mas ambos expressivos
do Fogo da Sabedoria oculta no seio da Terra, acaso não é tudo isto por demais
significativo?

Monte Saint-Michel, um Centro Cósmico na Terra

O Monte de Saint-Michel é sem dúvida a expressão de um Centro Cósmico no mapa


gnoseológico de França para os estudiosos da Tradição Primordial, os quais chegam
a situar aí a “cabeça” espiritual de França, dispondo o seu “coração” em Paris, a
“cidade-luz”, e o “ventre” em Lyon, a cidade eleita pelos ocultistas dos últimos
três séculos para fundarem e propagarem os seus movimentos e ideias esotéricas
para toda a França, Europa e até o Mundo, como foi o caso da famosa Maçonaria
Egípcia de Cagliostro (século XVIII), iniciada nessa cidade no sul do país.

Fazendo fronteira da Normandia com a Bretanha, na embocadura do rio Couesnon,


no departamento da Mancha, desde muito cedo (século IV-V) esta ilhota rochosa
foi consagrada a Saint-Michel e Notre-Dame Sous-Terra, “debaixo da Terra”,
portanto, subterrânea. Inicialmente habitada por druidas ou sacerdotes da religião
céltica que chamaram ao local Monte Tombe, da palavra celta tun, significando
“elevação”, mas que depois os eremitas cristãos usando do latim converteriam
em tumba, ou seja, a “tumba ou sepulcro”, contudo prevalecendo até hoje a raiz
do filólogo original celta por que se conhece esta ilha de Tombelaine ou o Monte
Dol, a ver com dólmen, o “jazigo funerário” dos antigos celtas.

No princípio do século VIII o Arcanjo São Miguel apareceu em sonhos a Aubert, bispo
de Avranches, cidade próxima do Monte, e ordenou-lhe que construísse um
mosteiro nessa ilhota granítica. Ele assim fez, depois das provas de veracidade que
pediu ao Ser divino e este lhe deu, desde tocar com o seu dedo o crânio do religioso
incrédulo, significando que lhe transmitiu a iluminação espiritual, até descobrir-se
um touro roubado no alto da ilhota, como lhe predissera o Arcanjo, mas que é
alegoria de uma nova religião, cristã, substituir a primitiva celta representada no
touro “roubado”, animal totémico dessa primitiva sociedade agrária. Após, em 16
de Outubro de 708 consagrou ao Arcanjo de Deus o recém fundado mosteiro
beneditino no Monte da sua evocação, originalmente chamado “Monte Saint-Michel
em perigo do mar” (Mons Sancti Michaeli in periculo mari), epíteto dando a
entender que seria sobretudo evocado por alguma confraria piscatória local.

Esse mosteiro recebeu reformas românicas nos séculos XI-XII e em sua volta nasceu
uma pequena cidade fortificada, a que se dá o nome convencional de “bastide”, e
no século XIII recebeu a influência magnífica do gótico a ponto de até ao presente
chamar-se a esta construção a “Maravilha”.
No cimo do pináculo mais elevado do mosteiro, cerca de 80 metros de altura,
destaca-se a estátua dourada do Arcanjo São Miguel elevando na destra a espada e
tendo aos pés o dragão, aparentemente representativo da heresia, realmente
expressivo dotellos-draconis latino ou wouifre em celta, que é dizer, as energia
telúricas correndo no seio da Terra mantendo a vida nesta, tal qual as veias no
corpo humano são os condutos do sangue vital à sobrevivência orgânica.

O Arcanjo Miguel ou Mikael vem a ser Metraton, “a medida (meta, metra)


perpendicular da Terra ao Sol (Aton)”, pelo que é o intermediário entre o próprio
Eterno e a Humanidade mortal. Este facto regista-se em alguns pormenores da
estátua alada do Ser sobrenatural: a sua espada erguida em perpendicular ao
corpo; a ponta bainha da arma tocando a cauda do dragão, designando a função
intermediária ou psicopompa; finalmente a rodela céltica apontando para baixo,
simbólica do Sol que alumia a Terra, justificação reforçada pela cor dourada ou
solar do conjunto com o Arcanjo dardejando raios de luz de sua cabeça, auréola
esta decerto inspirada na primitiva iconografia mitraica, a do deus solar Mitra que
o igualmente solar Cristo substituiu pela adopção católica dos primitivos símbolos
daquele.
Se Mikael ou Miguel é quem liga a Terra ao Céu, essa assinala-se neste lugar na
cripta românica de Nossa Senhora Subterrânea, ligada aos primitivos cultos
ctónicos dos celtas e primeiros cristãos eremitas daqui, a qual é consignada na
Cabala judaica Shekinah, a “Presença Real de Deus” na Terra, tradicionalmente
assumida como aspecto feminino da Divindade, e é assim que se liga às águas, à
mulher, à Mãe Divina associada ao próprio Espírito Santo. Já Miguel representa o
aspecto masculino da Divindade, a terra, o homem, o Pai Eterno. Terra e água são,
com efeito, os elementos predominantes que dão o dom de “Maravilha” a este Mons
Saint-Michaeli.
Vários indícios apontam este mosteiro beneditino como importante centro
espiritual, talvez o mais importante de toda a França medieval dos primeiros
tempos do cristianismo europeu. É aqui que entra a doutrina oculta
da Shekinah para os hebreus, ou Sakinah para os árabes, tendo o seu principal
ponto de referência no Antigo Testamento, nas passagens onde se trata da
instituição de um centro religioso e espiritual: a construção do Tabernáculo, a
edificação dos Templos de Salomão e de Zorobabel. Tal centro, constituído em
condições regularmente definidas, devia ser efectivamente o lugar da Manifestação
Divina, da “Presença Real de Deus”, Shekinah, sempre representada como “Luz”
tornando o lugar da sua implementação verdadeiro Centro Cósmico na Terra,
“cabeça” original da Fé que vai expandir-se a outras partes. Foi precisamente isso
que aconteceu aqui no Monte Saint-Michel, em cuja Shekinahestá a causa
da Influência Espiritual presidindo a todas as modalidades de Iniciação e
Iluminação. Ainda que a Igreja Cristã lhe chame Bênção, o sentido exacto
é Influência Espiritual, como se traduz no termo hebraico original, berakoth, e no
árabe barakah.

Tão importante era este centro religioso e espiritual que ficaram célebres
asperegrinationes michaelis para ele durante a Idade Média: os peregrinos
proviam-se de um bordão de madeira com um nó no centro e um cajado curvo no
extremo, carregavam um alforge de couro, vestiam uma capa vermelha
chamada pelerina, e por alguma das cinco rotas principais chegavam ao Monte.
Seguiam pelos montais ou “caminhos do Paraíso”. Chegado à meta, diante de São
Miguel no altar-mor da igreja, quase sempre o peregrino fazia-lhe uma oferta: uma
concha de molusco ou uma insígnia de peregrinação; estes objectos de pano ou
estanho coziam-se na roupa e representavam o Arcanjo.

Saint Melaine e o Rei sagrado (Saint-Pierre de Rennes)

No frontão da igreja de Saint-Pierre de Rennes, capital da Bretanha, está um grupo


escultórico cujo simbolismo e significado liga-se inteiramente à saga mítica de
Saint Melaine e à própria fundação da monarquia cristã pelo rei merovíngio Clóvis
(cerca de 466 – 27.11.511), neste território cedo alastrando a todo o espaço da
actual França.

Saint Melaine, considerado o Padroeiro da Bretanha, nasceu em data incerta em


Plaz no Cérebro, perto de Redon, e morreu em data igualmente incerta, talvez 6
de Novembro de 535, ou 572 ou mais provavelmente 530, sendo enterrado sobre a
colina do Campo de Repouso onde foi construída a pró-catedral de Notre-Dame em
Saint Melaine de Rennes.

No frontão em causa tem-se ao centro um globo com três flores-de-lis encimado


por uma coroa real suportada por dois anjos laterais apontando abaixo a Cruz com
a Pomba do Espírito Santo. Expressivo das Armas da Monarquia francesa inaugurada
pelo rei Clóvis que teve por conselheiro Melaine, diz-se que a mesma foi fundada
por obra e graça do Espírito Santo, acontecimento centralizado na pessoa do santo
padroeiro da Bretanha encabeçando um tipo peculiar de iniciação senhorial ou
mariana. O seu próprio nome Melaine, em latim Melanius ou Mellanus, é o derivado
do antigo bretãoMael, que quer dizer “príncipe” e vem a revelar a sua origem
nobre galo-romana, cuja casa familiar ainda jovem transformou num mosteiro, ou
seja, da sua descendência consanguínea sairia a ascendência espiritual dum colégio
mestral, sob a sua chefia humana e o Orago sobre-humano de Santa Maria e o
Espírito Santo, por certo destinado à constituição de uma realeza bretã
independente do jugo político do império romano, o que só conseguiria pela
conversão ao Cristianismo da soberania gallo-romana vigente.

Sucedendo a Saint Amand como bispo de Rennes no século VI, Melaine privou com
o soberano Clóvis, e como seu conselheiro secular decerto influenciou a este e a
sua mulher Clotilde que no ano 496 viu aparecer-lhe um Anjo que lhe ofereceu um
lírio, reprodução hagiográfica do episódio primaz ocorrido com a Virgem Maria
quando lhe apareceu Gabriel, o Anjo da Natividade trazendo o lírio e assinalando-
a como portadora da semente que frutificaria como Realeza Divina. Com efeito,
aqui será Clotilde a primeira a converte-se ao Cristianismo pela possível afiliação
ao colégio de Melaine, e depois o marido, de quem se diz que foi ungido rei cristão
com o santo óleo trazido do Céu no bico de uma Pomba que era o próprio Espírito
Santo, facto que neste frontão se assinala na Pomba no centro da Cruz de Malta ou
dos Hospitalários, também conhecida por Cruz de São João, o mesmo que baptizou
Cristo e lhe reconheceu a legitimidade Divina, facto que transposto para este
quadro bretão significa o reconhecimento cristão de Clóvis, cujo reinado colocou
sob o padroado do Espírito Santo assinalado nas três flores-de-lis em triângulo
invertido, simbólico da vulva feminina dando à luz um novo estado psicossocial,
aqui a monarquia cristã cuja fundação se atribuiu à própria Santa Maria incarnação
do Espírito Santo, desta maneira cabeça da Santíssima Trindade, regime esse que
viria a submeter a população galo-romana da Bretanha.

A unção divina como rito de passagem confirmando que além de rei temporal se é
também rei espiritual ou ungido, a ministração dos óleos poderá ser feita por um
pontífice homem, mas para todos os efeitos quem os traz é a mulher, neste caso
de Clóvis, o Espírito Santo.

Os galo-romanos bretãos daqui eram os Redones (donde Rennes herda o seu nome,
a latina Civitas Redonum na Gália romana, mas que antes chamava-se Condat em
celta), nome da tribo gaulesa que povoou esta parte da Armórica no século II a. C.,
dizendo-se que esta igreja de Saint-Pierre está construída sobre um antigo
santuário do povoRedone, raiz do termo celta red, “ir a cavalo” ou “ir em carro”,
possível alusão às primitivas peregrinações que sairiam daqui rumo ao Monte de
Saint-Michel, cujo símbolo do Arcanjo lanceando o dragão também está aqui
assinalado num medalhão, entre o globo real e a Cruz de Malta, esta que parece
conter um enigma relacionado com esse facto.

A Cruz mostra-se cortada muito propositadamente por duas linhas cruzadas e


segundo vários autores parece tratar-se de uma cabala gemátrica ou jogo criptado
de letras, onde aparecem o E e o S que se cruzam para formar as
palavras Esse e Sees de dois lugares muito conhecidos: Esse, perto de Rennes, para
o célebre dólmen da Rocha das Fadas (Roche aux Fées), e Sees, na Normandia, para
a roda medieval da sua catedral gótica. O conjunto codifica as latitude e longitude
dum lugar celebérrimo: o Monte Saint-Michel! O “rei Sol”, Luís XIV, foi Grão-Mestre
da Ordem de Saint-Michel, fundada por Luís XI. E neste frontão aparece, também
muito significativamente, a divisa do “rei Sol”: Nec pluribus impar, “a nenhum
outro comparável”, encimada pela cabeça humana que representa o Astro-Rei.

A vida de Saint Melaine está recheada de factos extraordinários que atestam a sua
envergadura de personagem civilizador e político. Contudo a sua popularidade
deve-se sobretudo aos milagres que se produziram após a sua morte, enquanto o
seu corpo era transportado de barca sobre a Vilaine até Rennes. O mais
espectacular deles é bastante espantoso: ele libertou vários prisioneiros doentes
encerrados numa torre, na qual se abriu uma brecha à passagem da barca enquanto
os prisioneiros viam as suas cadeias cair. O sentido desta lenda é claramente
político: refere-se à libertação do povo galo-romano do jugo do império latino.
A viagem marítima, neste caso fluvial, depois de morto, ainda assim fazendo
milagres e conduzindo sobrenaturalmente a nau ou barca, converte o santo em
nauta, ou seja, em hábil nas artes sagradas do mar que se confunde com o Além,
o Mundo dos Imortais, o que significa na linguagem esotérica que em vida alcançou
o grau elevado do Mestrado transcendente. Dirigir a barca e operar milagres sobre
as águas, equivale a ter alcançado o domínio absoluto das forças desconhecidas da
Natureza, que só pode ser alcançado por aquele que, mediante o processo
iniciático, se identifique com ela.

Em Rennes actualmente Saint Melaine tem três dias de festa em sua memória: 6
de Novembro (morte), 6 de Janeiro (enterro) e 11 de Outubro (transladação).

Saint-Thélo e o cervo de Daoulas (Finistére)

Num recanto da igreja da abadia de Santa Maria de Daoulas, em Finistére, vê-se


uma curiosa imagem dum bispo com báculo e mitra montando um veado, tudo em
madeira policromada do século XIII, o que tem suscitado as mais variadas
interrogações sobre quem seja e o que significa.
Trata-se de Saint-Thélo, um dos santos bretões mais ou menos míticos cuja
santidade não é reconhecida oficialmente pela Igreja Católica. Thélo ou Théliau foi
bispo de Landaff, no País de Gales, sendo filho de Ensic e de sua mulher, Guenhaff.
Nasceu perto do ano 485 na parte meridional de Inglaterra, perto da cidade de
Monmouth, e acostou a Dol (Ille-et-Vilaine), na Bretanha, onde foi acolhido cerca
de 549 pelo bispo Samson. A sua morte é comummente fixada nos anos 560 ou 565.
De notar ainda que fora sagrado bispo de Landaff para substituir o seu mestre
entretanto falecido, Saint Dubrice, no ano 520, e depois quando se retirou
substituiu-o o seu sobrinho, Saint Oudocée.

O nome deste santo anda associado ao sentido da cidade de Saint-Thélo, comuna


francesa da região administrativa da Bretanha Norte, no departamento Côtes-
d´Armor, nascida do desmembramento da paróquia primitiva de Cadelac, por causa
da redução ou detrimento da floresta de Loudéac, onde os celtas tinham
importante santuário dedicado ao deus Cernunnos, representado com cabeça de
veado.
É por essa razão que alguns vêem em Saint-Thélo, como em Saint Edern, o deus
celta Cernunnos cristianizado. Com isso, deu-se o mais elevado significado ao
próprio cervo, animal associado a Thélo que vem a ser um derivado hipocorístico
de Eliud (to-eliud) significando “Ungido de Deus”, ou seja, o próprio Cristo. É assim
que o cervo ou veado aparece na iconografia medieval relacionada ao tema dos
“santos caçadores”, por norma reis, com uma cruz brilhante entre as suas hastes,
indicativo de animal sagrado perseguido em montarias reais que depois se deixa
imolar e após ressuscita, tal qual a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo.

Portador do Lenho Sagrado na sua cornadura, o cervo é assim sinal de renovação


cíclica e, precisamente por isso, intermediário entre o Homem e a sua
Transcendência (tal qual o Cristo é intermédio entre Deus Pai e a Humanidade);
conhecedor das plantas, tanto medicinais como místicas, e divindade em si mesma
entre os celtas, que o representavam em Cernunnos e o dignificavam como
portador de abundâncias e de agilidade, tanto física como espiritual.

O facto de Thélo montar (donde “montaria”, que é uma modalidade da Iniciação


obtida após demanda ou peregrinação, portanto, Iniciação activa ou “guerreira”
(kshatriya, em sânscrito) própria para reis e cavaleiros, donde as artes venatórias
da falcoaria e montaria serem exclusivas da nobreza e por isso chamadas iniciação
real, igualmenteiniciação senhorial ou mariana, por ser Santa Maria quem assiste
ao cavaleiro de demanda cuja profissão de armas dá-lhe como vizinha constante a
morte, donde ele evocar constantemente: “Ave Maria, orai por nós na hora da
nossa morte”…) o cervo, tem o duplo significado dele ter-se unido com Cristo,
passando também a ser “Ungido de Deus”, um Ser Crístico, e igualmente a
passagem cíclica da religião celta à cristã, o que se representa nesse santo bretão
sobre o animal.

Sendo o cervo animal de abundância e agilidade para os celtas, sinal de


exteriorização das próprias e divinizadas forças telúricas animando a Terra, só as
poderia “montar” umHommo-Teluricus, isto é, o próprio Thélo ou Thelos, nova
versão cristianizada do primitivo deus da abundância Cernunnos, agora celebrado
anualmente a 9 de Fevereiro, disposto assim no calendário litúrgico muito
apropriadamente para não se confundir com o Imbolc ou Oilmec, que a cultura
celta celebrava a 2 de Fevereiro como uma das suas principais festividades
agrárias, celebrando a recuperação da terra do Inverno e o Sol fortalecendo-se
para a Primavera. Era a época de início do processo de aragem da terra e do
plantio, processo cujo êxito punham sob a protecção da deusa Brígida (Brigith ou
Briga), que era quem abençoava as semeaduras para que frutificassem e dessem
boas colheitas.

Igualmente não deixa de ser significativo o facto dos antigos cavaleiros da Ordem
do Templo terem uma especial veneração por Saint-Thélo, inclusive aparecendo o
nome deste (Saint Theliaut) numa acta de 1182 enumerando os bens dos
Templários na Bretanha, particularmente em Saint-Thélo cujo primitivo mosteiro
de Daoulas, fundado no século VI, foi substituída pela abadia de Santa Maria cerca
de 1167-1173, dos cónegos regulares de Santo Agostinho. Esta casa religiosa esteve
sob a protecção directa do Templo, podendo até aventar-se a hipótese da imagem
de Saint-Thélo e o Cervo serem produção templária.

Assim como Saint-Thélo aparece iconografado junto ao cervo divino, igualmente


aparecem outros santos, como São Conrado, São Eustáquio, Santa Genoveva, São
Frutuoso de Braga, São Mamede e Santo Huberto, este o mais famoso dos santos
“reis caçadores”, mas que também em Portugal se retrata na lenda templária do
sítio da Nazaré, onde o almirante-mor da frota templária, D. Fuas Roupinho, ao
perseguir um cervo, foi salvo de cair num precipício pela própria Virgem Maria que
lhe apareceu fazendo o cavalo estacar.

A milagrosa Virgem Negra de Folgoet

A devoção à milagrosa Virgem Negra de Folgoet datará do século XIV, época da


cristianização desta Deusa Mãe por via da propaganda milagrosa de uma estranha
lenda relacionada com Ela e um tal de Salaün que na floresta próxima descobrira
a sua imagem enegrecida pela terra onde estivera enterrada durante séculos.

Conta a lenda que um eremita chamado Salaün, a quem o povo alcunhava de “For
ar Coat” (Louco do Bosque), vivia junto de uma fonte encantada na floresta
próxima de Lesneven (consumida por um incêndio em 1427). Este Salaün era
devotadíssimo da Virgem Maria e tinha uma imagem da mesma, que dizia ter
descoberto enterrada junto a essa fonte. Pouco depois da sua morte em 1358, com
a idade de 48 anos, descobriu-se que uma flor-de-lis tinha criado raízes na sua boca
e que sobre a mesma escrava escrito em letras de ouro: Ave-Maria. A devoção ao
santo eremita e à santa imagem milagrosa cresceu rapidamente e em breve trecho
deu-se início à construção da basílica de Folgoet.

Salaün será sobretudo a conversão em eremita cristão do “espírito da floresta”


para os antigos celtas, o deus Cernenus, que os latinos chamaram Silvano (do
latim silva, “floresta”) e era a divindade dos povos pastoris. A floresta ou bosque
é a forma adoptada para exprimir a própria Natureza Mãe origem da vida e dos
seres, inclusive dos deuses menores do gallo-romano, e que veio a tomar a cor
negra por sua condição de Divindade Primordial. O próprio
topónimo Folgoet reforça esse sentido mágico-florestal, pois provém do
latim folum, “folhagem”, e do bretão coat, “árvore”.

A flor-de-lis que saía da boca de Salaün, Silvano ou Cernenus como estilização da


flor do lírio, assinalava a passagem definitiva do culto ancestral ao cristão por via
da devoção mariana que constituía uma espécie de nascimento religioso pré-
anunciado pela aparição milagrosa da imagem da Virgem, sendo que
tradicionalmente o lírio é a flor da anunciação.

Mesmo anunciando a nova forma cultual da Mãe Divina, esta mantém a sua cor
negra original de Deusa Mãe Primordial, herança iconográfica dos cultos ancestrais
dos celtas relacionados com a Mãe Terra, o Útero Gerador, a Deusa da Fertilidade
e Fecundidade. Quando é fértil está manifestada, tem a cor branca. Quando é
fecunda encerra a semente ocultada, tem a cor negra. Portanto o atributo de
fecundidade está primeiro que o de fertilidade, pois nada é fértil sem ser primeiro
fecundado.

Com esse atributo de fecundidade vem a ser a Matéria-Prima, a Primordial Negra


ou ante-Manifestação dos alquimistas, em conformidade à prerrogativa bíblica de
que “antes da Luz (branca, dia) havia a Treva (negra, noite)”. Isto mesmo é
corroborado pelo enigmático Jean-Julien Champagne (1839 – 1953) que usou o
pseudónimoFulcanelli, alquimista francês contemporâneo autor de duas magníficas
obras de Alquimia: O Mistério das Catedrais (1926) e As Mansões Filosofais (1930).

Famosa pelo seu grande poder de realizar milagres sempre a ver com a vida e a
morte e tornando os lugares da sua aparição pólos de peregrinação intensa e de
grande poder, no contexto da sociedade rural medieval a Virgem Negra era
sobretudo uma deusa agrícola por cuja imagem se manifestavam os atributos
benéficos da Grande Deus Mãe Primordial, cujo culto original tinha honras maiores
que ao Deus Filho, por ser Ela a origem da Fé, e assim mesmo da Natureza fecunda
de que dependiam os povos. Dizer-se que esteve muito tempo escondida na terra,
é o mesmo que a consignar Deusa Oculta, Negra, o que se assinala na Lua expressiva
do Útero, da Matriz da Criação cujas fases regulam os períodos agrários de
semeadura e colheita, e também o da gestação dos seres.
Por isso a cor negra da Virgem é a mesma primordial apontando o Grande Útero da
Vida gerada nele e a ele, no final da existência, a mesma Vida se recolhe. Com
isso, a Grande Mãe, com o seu potencial de gestação e geração, possibilita todas
as manifestações, transformações e evoluções da Vida, a qual recolhe a si no final
de cada manifestação, seja ela a de um homem ou a de um mundo. Razão porque
personifica aMagna Dea, a Grande Deusa, Maha-Shakti para o Oriente, a Força Vital
que gera, mantém, anima e unifica, que sendo Ela o Oceano da Vida conduz aos
seres imersos nas suas correntes através dos movimentos das suas Águas da Vida,
donde ser apelidada daConceição ou Concepção, sobreposta à Lua crescente que,
como astro da noite ou do negro, representativo do Caos ou Noite Cósmica, o
mesmo Pralaya do Oriente, assiste aos ciclos de vida e morte de todos os seres. O
período de existência destes vem a ser o Cosmos ou Dia Cósmico, Manvantara para
os orientais, marcado pela cor branca e a Lua Cheia, para todos os efeitos,
antecedido pelo negro primordial.

Por essa razão a Virgem Negra simboliza a Terra Virgem, ainda não fecundada ou
povoada, pelo que vem a valorizar o elemento passivo do estado virginal. O
escurecimento das imagens das Virgens, enaltecido na Europa ocidental no final da
Idade Média, também se deveu à cor sombria dos ícones orientais da religião
bizantina, nessa época exercendo grande influência na arte religiosa latina.

Por outro lado, no período medieval coincidente com a aparição de qualquer


Virgem Negra, houve sempre uma reactivação social, artística e cultural no seio da
sociedade pela aproximação do Ocidente ao Oriente, e assim mesmo uma irrupção
do elemento feminino, não só com o culto mariano mas também de forma
idealizada no amor cortês, apesar das grandes discussões dos teóricos escolásticos
sobre a Natureza, a carne e o pecado, a alma e a virtude, semeando uma
improdutiva disfunção entre o Espírito e a Matéria que chegou aos nossos dias.

Finalmente, para o Islão a virgindade de Deus como Mulher é a Luz inviolada que
ilumina os Eleitos; a esse título, é chamada de Virgem-Mãe a hora da vida que é a
primeira. Mas é também a última. É Ela que abre o caminho da Iluminação e leva
a termo o místico caminhar. A Virgem de Luz revela ao Eleito a forma espiritual
que nele é o Novo Homem, tornando-se seu Guia e conduzindo-o em direcção às
Alturas da Cidade Celeste que aqui, no Folgoet, estaria representada na floresta
encantada onde morou Salaün e morreu com a Ave- Maria na boca.

O Graal de Saint-Michel-en-Grève

Saint-Michel-en-Grève é lugar bretão testemunho flagrante da substituição quase


abrupta do culto primitivo às divindades ancestrais por outras novas cristianizadas
possuídas de atributos idênticos aos daquelas. É assim que aparece aqui São
Miguelocupando o lugar original do deus celta Lug herdeiro da tradição
de Dagda ou Daga Devos, o “deus bom”, dos Tutha-de-Danand.

Na igreja de Saint-Michel-en-Grève suspeita-se que o beatíssimo São Miguel


vencendo aos pés o Demónio emblemático da heresia e das crenças heréticas, como
se vê no seu altar, poderá muito bem ser a imagem substituta do primitivo deus
Lug, e que o Demónio vencido possa ser a figuração diabolizada pelas forças
dominantes do império latino da primitiva religião celta.

Essa transformação cultual de Lug em Miguel representa-se na águia esculpida no


altar a qual significativamente foi um dos símbolos desse deus da primitiva religião
solar celta, sendo ela mesma símbolo eminentemente solar, emula da
ave Fénix que ressuscita das suas próprias cinzas ao calor do Sol. Sendo
subsidiariamente símbolo imperial, e nos santos sinal de adscrição a uma concreta
mística activa capaz de superar todos os embaraços que possa antepor-lhe o mundo
profano. O seu domínio é o do ar, ou seja, o dos céus que conquista nos quais
carece de rivais. A águia é a excelsa mensageira de Deus, e considera-se
mensageiro de Deus quem a tem como atributo ou sinal, como Mikael ou Lug.

Na base da arcada dentro da igreja de Saint-Michel-en-Gréve, aparece o relevo do


Cálice Eucarístico, de forma súbita um tanto inusitada. Objecto litúrgico cristão
expressa aqui a memória dum outro similar ancestral: o caldeirão de Dagda. Tal
caldeirão tinha propriedades “mágicas”, isto é, terapêuticas e
espirituais. Terapêuticaspor os Tuatha-de-Danand possivelmente servirem-se dele
para fabricar medicamentos herbários; e espirituais pelo significado transcendente
do objecto pomo central da função sacerdotal assegurada pelo deus Dagda,
justamente até aparecer na forma de Lug entre os celtas bretãos. O “caldeirão
mágico” de Dagda é reproduzido fielmente no mito do Saint Vaisel, o “Santo Vaso”
que os Cavaleiros da Távola Redonda demandaram incansavelmente nas florestas
encantadas da Bretanha, chamando-lhe Santo Graal.
É aí que o Graal assume duplo sentido interligado: como Graal-Consciência ou
estado de consciência espiritual, e como Graal-Objecto, representativo dessa
mesma condição consciencial demandada cuja revelação ou meta final corresponde
sempre à aparição da Virgem Maria ou até mesmo a do Espírito Santo, quando não
pelo próprio São Miguel.

Graal tem afinidade filológica com o grego Krater, literalmente, “copo, vaso ou
vasilha grande”, onde se misturava o vinho com a água e depois era despejado nos
copos dos comensais, pelo que também tem a vez com a raiz Kera, “misturar”. Mas
esta mistura também tem um sentido alquímico que a liturgia lhe impôs: o vinho
dionisíaco ou crístico junto à água mercurial opera a transformação corporal do
Homem, ou seja da Matéria, o que é representado pela Virgem revelada. É assim
que Graal, Krater eKera originam as expressões provençais Graalz e Grazale,
“prato”, que pela afinidade com o latino Gradalis deu “gradual”, isto é,
gradualmente servido ou transmitido, sobretudo na sua função iniciática. Por
transformação e adaptação filológica em conformidade a conter algum líquido ou
seiva vital que com o Cristianismo se identificou como o Sangue de Cristo, em breve
o Saint Vaisel é chamado de Sang Realou San Greal (Saint Graal), para todos os
efeitos significando “vaso”, como o caldeirão de Dagda, o vaso alquímico e até
mesmo o útero iniciático da Mulher, microcosmo do maior da Mãe-Terra.

Alguns trovadores medievais (Robert de Boron, Chrétien de Troyes e Wolfram


d´Eschenbach) também interpretaram o Graal como uma pedra, chamando-
lhe Garal, literalmente, “Pedra de Deus”, assim dando igualmente sentido graálico
ao altar da liturgia, como “pedra ou mesa do sacrifício divino”. Vai neste sentido
a versão mais esotérica de tendência cristã relativa aos elementos célticos da
narrativa do Santo Graal onde se mostra o sentido baptismal, eucarístico e
pentecostal da água hermética ou mercurial transformada em vinho da Salvação,
símbolo gnóstico da própria Sabedoria Divina que, desfeche a mesma tradição, é
quem revela o Graal em Glóriajunto a Galaaz, epíteto arturiano do próprio Cristo.

A pedra santa é aqui, nesta paróquia de Saint-Michel-en-Grève, igualmente alusiva


ao culto primitivo às pedras, algumas talhadas em forma antropomórfica, pela
população celta da Bretanha, o que foi severamente condenado, com posterior
perseguição feroz mas pouco eficaz, nos concílios toledanos dos anos 681 e 682, e
no concílio de Rouen em 698, tornando proscritos os veneratores lapidum,
“adoradores das pedras”, através do anatema sit veneratoribus lapidum,
“anátema aos veneradores das pedras”.

As primitivas lendas cristãs da Bretanha dão José de Arimateia como o portador do


“Evangelho do Graal” aí, ou seja, da sua Tradição que disseminou em pouco por
toda esta região mágica cedo alastrando à Europa inteira e até chegando ao Novo
Mundo, a América, seguindo um itinerário secreto por sete catedrais cristãs desde
cedo ligadas ao mesmo Saint Vaisel, como sejam: 1.ª) Abadia de Westminster,
Londres, Inglaterra; 2.ª) Santa Maria Maggiore, Roma, Itália; 3.ª) Catedral do
Precioso Sangue, Bruges, Bélgica; 4.ª) Catedral de Santa Maria Maior (Sé
Patriarcal), Lisboa, Portugal; 5.ª) Catedral de S. Pedro e S. Paulo, Washington,
E.U.A.; 6.ª) Catedral da Cidade do México, México; 7.ª) Basílica do Salvador, S.
Salvador da Bahia, Brasil.

A paróquia de Saint-Michel-en-Grève era a Locmikel en Haye, possuindo a raiz loc o


significado comum de “lugar”, mas com a especificidade religiosa de “lugar
consagrado”, assim se identificando ao temo hindustânico loka, que significa o
mesmo.Loc como “lugar” associa-se a Lug-ara, “altar de Lug” ou “lugar do deus
Lug”, como o seria aqui. A verdade é que o culto a Saint-Michel propaga-se na
Bretanha entre o final do século X e a primeira metade do século XII, destinado a
suceder às antigas divindades pagãs ou campesinas às quais os altares druidas
estavam consagrados, sobretudo a Lug, o supremo deus “Luminoso” do panteão
gallo-celta. É exactamente a partir dessa época que em torno do “lugar
consagrado” (Locmikel) fixou-se população fundando paróquia. É também na
mesma época que os nomes em loc foram estabelecidos na Bretanha.

A Capela do Graal em Tréhorenteuc

A Lenda Áurea de Jacobo Voragine e os chamados Evangelhos Apócrifos,


particularmente os Evangelhos de Filipe, Maria Madalena e José de Arimateia os
quais a Igreja não reconhece no seu dogma oficial, falam unanimemente que após
a Paixão do Senhor diversos Apóstolos vieram para a Europa, dentre eles Maria
Madalena e José de Arimateia, uma trazendo o Vaso do Bálsamo com que ungiu o
divino Mestre e que desembarcou no Sul de França, e o outro carregando o Cálice
Sagrado que recolheu o Sangue do Salvador e que desembarcou no Norte de França,
na Bretanha. Daqui incansável peregrinou até ao Sul do País pregando a Palavra e
fundando igrejas. Depois desapareceu, dizem uns que voltou ao Norte e daí passou
para a Grã-Bretanha, e outros afirmam que está sepultado na catedral de Nicósia,
em Chipre, onde é venerado como São Trófimo.

O facto é que a lenda da Linhagem Sagrada dos Apóstolos tem por finalidade
retratar a primitiva diáspora apostólica ao Ocidente europeu para nele implantar
e expandir o Cristianismo, facto que aqui na Bretanha se revestiu de mitos
maravilhados por sua união à religião original dos celtas. Foi assim que o Caldeirão
de Dagda dos sábios druidas se transformou no Santo Graal dos bardos cristãos,
cuja prova mais flagrante tem-se nesta igreja de Sainte Onenne de Tréhorenteuc,
mais conhecida por Capela do Graal.

A decoração e imobiliário da mesma transmite a mensagem da passagem do


celticismo ao cristianismo através do mito do rei Artur e do mago Merlim, este
representando o sacerdócio druida e aquele a cavalaria cristã, assegurada por
paladinos em número igual aos 12 Apóstolos de Cristo, tendo fundado a Ordem da
Távola Redonda em cujo centro se colocava a Taça do Graal, símbolo da sua
demanda mística cujo fim era o seu encontro com Deus Espírito Santo representado
no mesmo Saint Vaisel, o qual lhes concederia a luz da imortalidade espiritual a
quem chamavam “Santo Amor” ou “Suma Caridade”. Interessante
que Tréhorenteuc significa em bretão “País da Caridade”, e está próximo da
floresta mágica de Brocéliand palco da demanda do Santo Graal pelos druidas e
cavaleiros deste mais célebre e misterioso de todos os mitos medievais.

Nesta igreja de Sainte Onenne, os seus símbolos celtas estão convertidos em


iconologia cristã, mas sem lhes retirar o halo mágico que envolve todo o espaço
sagrado, cuja riqueza encontra-se nas diferentes ilustrações evocando as lendas
arturianas confundidas com as celtas através dos seus vitrais e pinturas, onde num
quadro vê-se a aparição do Santo Graal aos cavaleiros da Távola Redonda que,
dizem alguns, era feita de carvalho e de freixo. Ora este último nome,
freixo ou onn, em celta, veio a darOne, Onnen e Onenne, afinal o nome da santa
eremita do lugar.

Num mosaico, vê-se o cerf volant aureolado com o colar crucífero no pescoço,
tendo em sua volta quatro leões aureolados. Representam Cristo e os quatro
Evangelistas, ou seja, é alegoria da cristianização do povo da floresta de Brocéliand
vista atrás do cervo, o qual seguia os seus druidas cujo maior de todos, Merlim,
dizem estar aí sepultado e cuja pedra de sepultura aparece entre os leões da
pintura.

Numa pintura em vitral, os Anjos seguram o Santo Graal para onde Jesus Cristo
verte o Seu Sangue, alanceado no peito pela lança do centurião romano Longino,
lança essa identificada aqui à outra lança mágica de Lug, deus supremo do panteão
celta. Toda essa cena paira sobre o rei Artur e seus pares que à mesa ou távola
comungam da ceia de pão e vinho, prerrogativa celta da Eucaristia cristã.

Num outro quadro, apresenta-se uma cena de amor cortês: num banquete com o
rei Artur à cabeça de uma mesa repleta de iguarias, vêem-se donzelas e trovadores
tendo à frente de todos Sainte Onenne segurando o bastão de freixo com uma mão
e com a outra abraçando um bouquet de rosas, flores do Amor cuja filosofia os
trovadores, como fiéis do mesmo, divulgaram por toda a Europa junto das cortes e
do povo.

Há ainda a pintura alegórica do lugar próximo do Vale sem Retorno, lugar das
últimas predições de Merlim quanto ao desaparecimento da religião celta até então
a única que havia, e também o lugar onde a fada Morgana aprisionou os seus
amantes infiéis dentro de uma muralha de fogo guardada por um gigante barbudo
armado de uma maça, fogo esse saído de dois dragões que vomitam chamas um ao
outro: o dragão branco do Bem, e o dragão vermelho do Mal. Por fim, aparece na
cena Lancelot du Lac, o “melhor cavaleiro do mundo”, que vence as provas
colocadas sobre o seu caminho e liberta os prisioneiros.
Esta igreja única no seu género, não deixando adivinhar exteriormente a sua
riqueza interior, emana uma permanente mensagem de tolerância aos seus
visitantes. Foi para esta pequena comuna que em 1942 veio desterrado o abade
Gillard, porque contrariava o clero com as suas ideias heterodoxas que raiavam a
«heresia» do mundo esotérico ou iniciático, muito particularmente quanto à
Linhagem Sagrada dos Apóstolos em que acreditava. Ele decidiu reconstruir esta
igreja românica, e o primeiro vitral chamado da “Távola Redonda” foi realizado e
posto em 1943 por um pintor de Nantes, Henri Uzureau. A partir de 1945, o abade
foi ajudado por dois prisioneiros de guerra alemães, o ebanista Peter Wissdorf, que
fabricou os bancos e a abóbada de madeira, e o artista pintor Karl Rezabeck, que
realizou quatro quadros representando o mundo celta, a lenda arturiana e o
cristianismo. Os vitrais, os quadros e o mosaico do “Cervo branco com colar de
ouro” criado por um artista contemporâneo, Jean Delpech, representam os vários
elementos desses três mundos, unificados harmoniosamente pelo abade. Para isso,
ele encontrou um elo comum entre eles: o Santo Graal. Este é frequentemente
representado, e por isso esta igreja também tem o nome de capela do Graal.
Actualmente, o abade falecido está sepultado sob a igreja.

“Deploração do Cristo” em Chapelle-de-Brain

Na igreja paroquial de Chapelle-de-Brain consagrada a Saint Melaine, está um


grupo escultórico de cerâmica policromada retratando a “Deploração do Cristo”.
Retrata a passagem sacrificial em que após retirado da Cruz o corpo inerte de Jesus
jaz no regaço de sua Mãe dolorosa amparada por Maria Madalena ajoelhada a seus
pés, e por João Evangelista atrás dela confortando-a. Ladeando a cena trágica,
está à direita Nicodemus portando a caixa dos bálsamos destinados a perfumar o
corpo de Cristo, e à esquerda José de Arimateia apresentando o sudário com que
se envolveria o mesmo corpo inerte.

Esta cena clássica do Cristianismo parecendo nada ter de heterodoxa e estar dentro
dos cânones ortodoxos da doutrina católica, contudo oculta uma mensagem que é
das mais importantes apesar de todas as controvérsias à sua volta: a da “linhagem
sagrada” pressupostamente iniciada por Jesus Cristo e Maria Madalena.

Escusando penetrar o terreno movediço das efabulações fantasistas e cingindo à


linguagem viva dos símbolos tradicionais, antes de tudo o mais impõe-se indicar
que o episódio da Mater Dolorosa foi propagado a partir do século XIII pelos
Franciscanos, interpretando-o como o “sacrifício do inocente Cordeiro de Deus”,
mensagem de entrega incondicional desses Espirituais às dores do mundo e que
veio a ser concretizada como Misericórdias ou casas religiosas de socorro social, e
sobretudo como promessa de Ressurreição, base da Fé cristã e justificativa do
Segundo Advento do Senhor.

José de Arimateia (celebrado a 17 de Março) é uma das primeiras figuras da lenda


e tradição do Santo Graal, pois terá sido ele quem recolheu o Sangue de Cristo no
Cálice da Última Ceia, após a morte do Mestre no Calvário, e depois o terá trazido
para o Ocidente. Envolver o corpo santo no sudário e depois depô-lo na cripta
fúnebre, é sinal de sabedoria secreta entretanto cessada de revelar-se
directamente por o corpo do seu emissor, Jesus, estar desfalecido. Recolhendo-se
o Sangue Real ou Sang Grealno Cálice Sagrado, como a mais pura essência vital que
o Homem tem, significa a manutenção da tradição secreta ou esotérica do Cristo,
já não como Revelação directa pelo Próprio mas como Culto permanente da
celebração de promessa de Ressurreição e Advento ou Parúsia Universal, realização
a consumar-se quando um dia Homem e Deus serão um só: Humanidade divinizada.
Esta é a mensagem carregada pela figura de José de Arimateia com o sudário,
tendo encabeçado a diáspora dos Apóstolos ao Ocidente europeu como “linhagem
sagrada”, segundo a lenda áurea, e tendo na cabeça o barrete frígio ou “livre” o
mesmo aponta-o simbolicamente como Adepto Perfeito ou Iniciado na Tradição
Secreta revelada por Jesus Cristo, a mesma de que falam por metáforas os quatro
evangelhos canónicos e abertamente o número vultuoso dos ditos evangelhos
apócrifos, termo grego que quer dizer “secreto”, não reconhecidos oficialmente
mas que eram estudados no movimento dos gnósticos ou “filhos da Sabedoria”
(teósofos) dos primeiros tempos do Cristianismo.

Nicodemus (celebrado a 3 de Agosto) segundo o relato no Evangelho de João fazia


parte do sinédrio judaico e opôs-se à condenação de Cristo, de quem era
considerado o Seu “discípulo secreto”. Iconograficamente figura nos Descimentos
da Cruz e nos Enterros de Cristo, junto aos pés de Jesus. Lavar e perfumar com
bálsamos o corpo inerte, tem o sentido simbólico de reconhecer Cristo como Santo
verdadeiro em vida e assim reconhecendo a santidade do cadáver, prestando
veneração a esse que, por algum motivo transcendente, mantém os valores
espirituais muito além da sua própria putrefacção. Com a unção fúnebre,
Nicodemus reconhece no corpo desfalecido que fora animado efectivamente pelo
Ungido de Deus, o Cristo. Essa extrema-unção perpetua-se até hoje como
derradeiro sacramento da Igreja Católica.
A presença de João Evangelista na “Deploração de Cristo” e por se lhe atribuir o
livro do Apocalipse que refere o Advento de Cristo e da Jerusalém Celeste sobre a
Terra, representa o “discípulo amado” ou o conservador da doutrina do Amor,
sentido dada à mesma Gnose como conhecimento da natureza de Deus e crença de
salvação pela sabedoria espiritual. Esta salvação pressupõe a ressurreição corporal.
Ciente disso, conforta a Mater Dolorosa, expressiva da própria Mãe-Terra, Mater-
Rhea ou Matéria por momentos separada do seu Princípio Espiritual assinalado no
Cristo imolado, e por isso chora e geme sendo confortada também por Maria
Madalena, esta e João espiritualmente “Filhos de Viúva”. Maria Madalena é quem
encerra a promessa de ressurreição e eternidade do Cristo, e por isso ao terceiro
dia da Morte do Salvador é ela a primeira a vê-lo ressuscitado.

Não é importante que acaso Maria Madalena e Jesus de Nazaré tenham casado e
dado geração. Se aconteceu, é muito natural que assim fosse porque era de lei
judaica que os rabinos, e Jesus era rabino, casassem. O importante é que Maria
Madalena, ainda segundo a lenda áurea, veio para a Europa, para França e deu
início ao seu apostolado que marcou decisivamente a presença da Mulher na Igreja,
como Apóstola da Palavra e como Profeta de Advento.

É muito significativo que esta “Deploração de Cristo” (transferida para aqui em


1886 dum oratório situado no cemitério local que a tradição oral diz ter sido
oferecida pelo cardeal Richelieu (1585-1642) a uma família de Brain, que o
canónico Guillotin de Corson diz ter vivido neste lugar em 1781 e atribui a feitura
da peça ao escultor Tavau Pierre-Jean) esteja precisamente aqui, na antiga Plaz
berço natal de Saint Melaine e que é hoje Brain, termo proveniente do
bretão bren ou brenno, significando “pinhal extenso” que havia aqui no século XII.
Nesta época o culto céltico ainda não se desvanecera completamente, pelo que a
Cruz do Senhor era então uma mistura de elementos decorativos da arte celta o
que vinha a distingui-la notavelmente doutros formatos de cruz.

A cruz celta inscrevesse num círculo que as suas extremidades ultrapassam, de


modo que ela conjugue o simbolismo da cruz e do círculo. Pode-se acrescentar
ainda o elemento central, a pequena esfera no centro geométrico da cruz e no
meio dos braços. No primeiro período da arte celta as cruzes eram completamente
inscritas no círculo e sem qualquer decoração. Depois os braços passaram a
ultrapassar ligeiramente o círculo. Finalmente, as cruzes são feitas maiores,
cobertas e rendilhadas. É possível reconhecer neste tipo de cruz símbolos celtas
coincidindo com o simbolismo cristão.

Por essa via poderá ser que a “Deploração de Cristo” também seja referência à
tradição celto-cristã, que sem a presença maior dos Apóstolos talvez nunca
conseguisse estabelecer-se na França druida e vencer a tarasca, o dragão mítico
simbólico da “heresia”, isto é, da primitiva religião celta aos olhos da nova cristã.

Os Templários na Bretanha

A Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão, vulgo Ordem


dos Templários (aprovada pelo Papa Honório II em 1128 e abolida pelo Papa
Clemente V em 1314), foi o primeiro instituto de monges cavaleiros que o mundo
ocidental conheceu. Conhecidos por sua valentia nas batalhas em que eram quase
invencíveis, assim como pelas suas riquezas que todos lhes confiavam, ricos e
pobres, por os considerarem de honestidade imaculada, e também conhecidos
pelas manobras político diplomáticas que mantinham com todo o mundo civilizado,
mormente com o Oriente islâmico, o que mais distinguiu os Templários foi
sobretudo a fama de que possuiriam conhecimentos esotéricos ou iniciáticos
heterodoxos muito superiores à comum ortodoxia da religião católica convencional.
Esta fama veio a ser a causa principal da sua ensombração e abolição no século
XIV.

Apesar da Ordem dos Templários ter sido fundada na Terra Santa, em Jerusalém,
a sua organização jurídica e militar aconteceu na Europa, em França donde era
originário o seu 1.º Mestre Hugo de Payens (1070-1136). Durante o século XII os
Templários expandiram-se rapidamente por toda Bretanha, indo edificar castelos,
palácios e igrejas graças às numerosas doações de terrenos que a nobreza e o
eclesiástico bretão lhes fez. Em 1217 o duque Pierre Mauclerc e Alix de Bretagne,
sua mulher, confirmaram aos cavaleiros do Templo todas as doações feitas pelos
seus predecessores: Conan III e Conan IV, Alain Le Noir, conde de Penthièvre, Hoël,
conde de Nantes, o que Geoffroy III e a duquesa Constance. Eles acrescentaram a
oferta de uma terra em Messac que se tornou do Templo da Coëffrie, e alguns
direitos nas vilas de Châteaulin, Châteauneuf, Lannion, Morlaix… No mesmo ano,
Pierre Mauclerc isentou os Templários de pagarem direitos de passagem nos
territórios ducais da Bretanha.

Quando os cavaleiros Templários foram acusados de heresias por Filipe o Belo, rei
de França, presos, torturados, condenados às galés ou executados, como aconteceu
a Jacques de Molay, último Mestre Geral do Templo queimado vivo na ilha dos
Judeus, em Paris, em 14 de Março de 1314, ninguém acreditou na culpa apontada
aos Templários pelo rei francês que todos sabiam estar muito endividado com o
Templo e cobiçava as suas riquezas, enquanto o papa Clemente V, que o monarca
colocara no trono de S. Pedro, não passava de um luxurioso fraco manipulado à-
vontade por Filipe IV.

Na Bretanha não se encontrou o menor indício a respeito dos crimes monstruosos


atribuídos aos Templários, que começaram a ser detidos em toda a França em 13
de Outubro de 1307. Os habitantes do Templo de Carentoir dizem até que os
cavaleiros que aí viviam, após serem presos foram massacrados junto a um carvalho
que ainda existe não longe da sua residência. Quando os comissários de Filipe o
Belo foram a Nantes, em 10 de Agosto de 1308, para apresarem os bens dos
Templários em nome do rei, o povo sublevou-se contra eles e expulsou-os da
cidade.
É na Bretanha que se tem o melhor testemunho da proximidade da Ordem do
Templo à cultura druida dos celtas, mormente na inter-relação Homem, Natureza
e Cosmos, que era parte vital da mundivivência de uma sociedade agrária
tradicional, cultura que os Templários herdam daqueles, nomeadamente:

– As bases geométricas da arquitectura, como se repara, por exemplo, na


composição dos cromeleques “quadrados” com o menir fálico, da pujança viril,
cravado ao centro, que viriam a estar na inspiração geométrica do “quadrado da
terra” e do “padrão” oumundus da arquitectura românica nascida dos colegium
fabrorum ou de artífices da Roma Antiga. Há mesmo casos repetidos de antas
primitivas terem sido posteriormente adaptadas a ermidas e capelas cristãs, como
também o do aproveitamento do espaço de antigos cromeleques para sobre eles se
assentarem as bases de igrejas e castelos, e assim igualmente o aproveitamento
de muitas mamoas para “mães d’água”.

– O conhecimento geomântico exacto do movimento das linhas telúricas da Terra


e os pontos de encontro de várias delas como nódulos telúricos, assim sabendo
onde estavam as terras e águas boas para semeadura e consumo, como igualmente
o lugar preciso para plantar um edifício, sacro ou não, que ficasse isolado das
correntes hidro-telúricas negativas afectando o espaço ambiental e meteorológico,
e assim aos temperamentos humanos e dos restantes seres vivos (animais, vegetais
e minerais).

– O conhecimento exacto das propriedades medicinais das plantas e minerais, ou


seja, a farmacognosia, aplicada como farmacologia natural sendo claramente um
saber taumatúrgico ou terapêutico herdado dos celtas. Foram os médicos da Ordem
do Templo quem descobriram a causa da lepra negra (assim chamada por deixar os
corpos enegrecidos, em putrefacção ainda vivos, contaminando de imediato
outros): estaria no centeio (com que se fazia o pão) plantado em zonas pantanosas
próximas do mar, contaminado pelo salitre e os insectos.
Esses são exemplos da recolha feita do saber celta pelos mais doutos do Templo, e
que tanto a arte, como a religião e a medicina populares, do conhecimento dos
mais antigos, ainda preserva.

Tendo os Templários existindo numa sociedade sobretudo rural, foi assim que
herdaram os conhecimentos celtas relativos ao entendimento geomântico da Terra
como um Ente vivo, cujas veias sanguíneas no ser humano têm o seu equivalente
nos veios telúricos por onde discorre a energia vital do Globo. Esses conhecimentos
tradicionais foram chamados de leys. Na Idade Média e durante a Renascença,
as leys consistiam em padrões ou alinhamentos de faixas ou linhas invisíveis cuja
potência teoriza, demarca e liga entre si determinados espaços sagrados e naturais
como lugares mágicos. Hoje essa teoria antiga geomântica já perdeu o seu foro de
ciência tradicional e é apresentada pelas hodiernas crenças neo-espiritualistas que
a popularizam como radiestesia, energia psíquica, mística, cósmica, etc., que vale
o que vale como crença urbana desconhecida da Tradição Primordial.

Santo Sudário dos Templários (Sainte-Marie du Menez Home)

Na região de Plomodiern (Finistére), a algumas centenas de metros da capela


templária de Sainte-Marie du Menez-Hom, encontra-se o lugar chamado “Croas
Rhu” ou “Campo da Cruz Vermelha” (alusão à cor vermelha tradicional da Cruz
Templária), onde pode ver-se um calvário muito estranho que indica, segundo a
tradição popular, o sítio dum tesouro oculto pelos Templários antes da sua
detenção entre 1307 e 1314 no reinado de Filipe IV, o Belo.

Esse calvário templário está no meio de vegetação abundante e é só conhecido do


povo local, que o mostrou a François Gazay, em Setembro de 2001, investigando a
pista já mencionada em 1997 no livro Les Sites Templiers de France, editado pelas
Editions Ouest-France. O curioso monumento está à beira dum pequeno caminho
que leva à capela de Sainte-Marie du Menez-Hom, cuja sacristia leva o curioso
nome “Câmara dos Monges Vermelhos”, evocando a presença dos Templários na
região.
Para facilitar a visita ao lugar do calvário e não se perder no caminho, o visitante
deve obrigatoriamente informar-se junto da Associação dos Amigos de Sainte-Marie
du Menez Hom.

O calvário templário dizem uns que é anterior a 1307, e outros contrapõem que
data de 1544, ainda que nesta altura só tenha recebido beneficiamentos,
mormente na coluna e cruz mas não na imagem que a ilustra, que essa é anterior
e templária, como se nota na diferença entre materiais utilizados. O mesmo vale
para a capela templária, reconstruída em 1570 e enriquecida a partir de 1663.

No calvário vê-se a figura de um Anjo mostrando o Santo Sudário com o rosto de


Cristo, e é nisto que se liga ao sentido profundo da Bandeira Templária cujo
significado transcendente, afinal de contas, vem a ser o pressuposto “tesouro
templário” escondido debaixo do monumento.

O emblema de Advento para a Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo


de Salomão era a sua própria bandeira, a Balsa ou Balsão com o signo da
Cristandade ao centro – a cruz pátea vermelha sobre campo axadrezado branco e
negro. Ela ia adiante no itinerário cíclico da Ordem no Oriente e no Ocidente, tanto
no exercício das Armas como no culto da Fé.
Os Templários tinham também uma bandeira secundária ou Gonfalão, com uma
cruz negra sobre campo branco. Cada comando tinha a sua bandeira própria (e
ainda uma segunda, de reserva, que era desenrolada e desfraldada no caso da
primeira se perder na refrega da batalha). Em marcha, a Balsa era levada pelo
escudeiro da Ordem, e não pelo gonfaloneiro. Em combate também não era levado
pelo gonfaloneiro. Esse porta-bandeira oficial, balsão ou signífero, comandava dez
cavaleiros que defendiam a Balsa– empunhada por um cavaleiro de reconhecida
valentia. Quem perdesse a Balsa em batalha era irremediavelmente expulso da
Ordem. Compreende-se essa medida drástica pelo facto de, por regra, ser
o Balsão dos Templários o último a abandonar o campo de batalha em caso de
derrota.

Tanto pela importância militar da Balsa quanto e principalmente pelo seu sentido
sagrado, tal importância viria a ser posta em pé de igualdade com o famoso Sudário
de Cristo que diz-se ter pertencido aos Templários que o recolheram em Bizâncio
e levaram para França, juntamente com outras relíquias sagradas. Com efeito,
segundo Ian Wilson o Santo Sudário parece ter estado durante algum tempo na
posse dos Templários, e seria uma peça dobrada de maneira a só apresentar o Rosto
ensanguentado de Cristo e que teria sido enviada para Edessa (actual Urfa, na
Turquia), ainda em vida dos Apóstolos, como um retrato do Senhor destinado à
devoção dum rei local. De Edessa, após várias vicissitudes, teria passado para
Constantinopla (Bizâncio) em 944 d. C., e aí foi recebido como a mais importante
relíquia no mundo religioso conhecido, já nessa altura conhecida por Mandylion.
Permaneceu entre os bizantinos durante vários séculos e desapareceu da catedral
de Boucoleon (Balsão?) durante o saque de Constantinopla pelos cruzados (da 4.ª
Cruzada) em 12 de Abril de 1204.

Posteriormente o Mandylion apareceu na posse dos Templários, cerca de 1208,


através dos religiosos do Mosteiro de Santa Maria de Blachernes, e era exposto aos
fiéis todas as Sextas-Feiras Santas. Tendo sido desdobrado o pano santo, após mais
de mil anos, ficou a descoberto (ou redescoberto) a sua forma actual, mostrando
a dupla imagem do corpo de Cristo (frente e costas) conforme Ele jazia no seu
túmulo.

A preciosa relíquia passou para a família do Mestre do Templo na Normandia,


Geoffroy de Charnay, que morreu com Jacques de Molay na fogueira ateada em
Paris por ordem do rei Filipe IV. Tempos depois (1357) a família de Charnay através
do seu representante, o outro conde Geoffroy de Charney, apresentou à veneração
dos fiéis em França a relíquia já como Santo Sudário (primeiro em Lirey, diocese
de Troyes, e depois em Montfort, mais precisamente em Saint-Hipolyte-sur-Doubs).
Nos meados do século XV (1452) Margarida de Charney, herdeira do espólio da
família, cedeu a relíquia a Ana de Lusignan, esposa do duque Luís de Sabóia, em
troca do usufruto do castelo e das terras de Mirabel. O Santo Sudário ficou assim
na posse da Casa de Sabóia e, eventualmente, é exposto em vários locais, estando
desde 1613 em Turim, Itália, onde é venerado e exposto ao culto até hoje.
Tecnicamente propriedade da Casa de Sabóia, acabou sendo legado à catedral de
Turim pelo rei de Itália, Umberto II de Sabóia e Lorena.
Reza a lenda dourada pertencente ao ciclo literário do Graal, que Santa Verónica
enxugou o suor (donde sudor e sudário) e o sangue do rosto de Cristo enquanto
carregava o madeiro pesado a caminho do Calvário, e que nesse tecido de linho
ficou impressa, a modo de “negativo” de fotografia, a Santa Face. Depois, após a
descida da Cruz, o morto do Senhor foi envolvido com essa mesma mortalha por
José de Arimateia e Nicodemus, e todo o corpo suado e sangrento também ficou
impresso no pano.

Apesar dos recentes testes químicos com “carbono 14” provarem que o Sudário de
Turim não é anterior ao século XII, contudo a mesma lenda dourada mantém ter
sido o próprio José de Arimateia a trazer o Santo Sudário ou a Santa Verónica para
o Ocidente, muito antes de para Edessa indo primeiro para o País de Gales,
precisamente para Glastoubury, onde se perdeu a sua pista até ser reachada já na
mesma Edessa.

Quanto a Verónica de Edessa, de Jerusalém e de Soulac (4 de Fevereiro), é uma


santa fictícia identificada muitas vezes com a mulher que sofria de fluxo de sangue
e que se curou tocando na orla das vestes de Cristo. Aparece, episodicamente,
limpando com um pano a face ensanguentada de Cristo, a caminho do Calvário.
Miraculosamente, a Santa Face de Jesus ficou impressa nesse panejamento.
Segundo a lenda áurea, terá casado com Santo Amador e vindo para a Gália,
passando da Grande para a Pequena Bretanha. É representada tendo nas mãos um
panejamento com a vera Efígie de Cristo.

Tal como a Bandeira Templária representa com a sua Cruz o Espírito de Cristo e a
cabeça espiritual da Ordem, também o Sudário com o rosto do Senhor expressa a
santidade mental representando a cabeça da Igreja, de que afinal a Ordem era
guardiã. Por isso a associação entre Cruz e Cristo, porque aquela era considerada
a verdadeira da Salvação, tal como a “Verónica” com o retrato directo de Cristo
estampado era considera a Verdade (donde Vera e Verónica) testemunhal da
Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Nisto, os Templários tinham o
vermelho da Cruz para a Paixão, o negro da Bandeira para a Morte, e o branco da
mesma Bandeira para a Ressurreição, a Vida Eterna. Vera e Crux vem a
dar Verdadeira Cruz, o mesmo que Cristo Verdadeiro incarnado no espírito da Regra
de Vida da Ordem dos Templários.

Fica subentendido que o Santo Sudário, como arquétipo, teria o protótipo


drapejante na que seria a Bandeira Templária, a Balsa ou Beaucéant, cujo
significado em francês expressa isso mesmo: “beleza interior” (beau+céans) ou “o
mais belo espiritual”, verdadeiro tesouro de riqueza celeste, o próprio Cristo,
representado neste calvário ignorado do enclave templário de Sainte-Marie du
Menez-Home.

Raridades de Notre-Dame du Temple (Pléboulle)


Pléboulle é um dos mais notáveis enclaves templários da Bretanha Norte onde ainda
subsistem muitos vestígios da antiga presença da Ordem dos Cavaleiros Templários,
a começar pela capela da Santa Cruz do Templo, que a partir da metade do século
XVII passou a ser conhecida como capela de Nossa Senhora do Templo.

A origem desta capela templária recua ao século XII, sendo datada de 1150 a parte
Este do edifício edificado poucos anos após o Papa Inocêncio II, em 1139, ter
concedido aos Templários o direito de construir capelas para seu próprio uso nas
quais, em princípio, o povo não era admitido aos ofícios, o que tem a explicação
imediata de tratar-se de uma Ordem Militar em cujo espaço reservado a sociedade
civil não era admitida.

Com as perseguições à Ordem do Templo e ficando ao abandono as suas possessões,


em 1312 o nome Pierre du Guesclin, senhor de Montbran e Plancoët, tomou posse
da propriedade e cerca de 1350 a família du Guesclin restaurou e ampliou a antiga
capela templária. O brasão de Pierre du Guesclin está por cima do pórtico de
entrada na capela e consta de uma águia bicéfala sobre um escudo. Segundo a
lenda, este nobre foi associado aos Templários e até considerado Grão-Mestre dos
mesmos depois de abolida a Ordem, o que parece um exagero óbvio da sua simpatia
por eles.

A capela abriga as estátuas em madeira policromada da Virgem (século XVI) e


da Virgem e o Menino (século XVIII), esta que é considerada milagrosa até se
dizendo ser uma cópia fiel da primitiva dos Templários. No antigo cemitério dos
leprosos anexo à capela, está uma cruz de data desconhecida que recebeu
melhoramentos no século XVII mas cuja origem também é atribuída aos Templários.
Mercê da inclemência temporal, entretanto desapareceram outros testemunhos da
presença Templária em Pléboulle, como foi o caso da capela de São João Baptista,
demolida. O portal dessa acha-se no presbitério de Hénanbihen. Houve também
uma esmolaria que pertenceu aos Templários, cujos responsáveis pela Ordem aqui
foram: Henry du Vergier (em 1261), Pierre de Banhol (em 1286), Barthelemy Morlet
(de 1302 a 1303), Sergent Hélio Raynald (de 1307 a 1308). O mosteiro da Santa Cruz
de Montbran (assim denominado em 1201) foi igualmente uma possessão da Ordem
do Templo.

Desse mosteiro da Santa Cruz ainda resta a torre dos Templários em Montbran,
datada do século XII mas que foi alcunhada no século XVIII de “torre sarracena”,
pretendendo a tradição popular que junto a ela os antigos cavaleiros-monges
enterraram um tesouro. Octogonal por fora e circular por dentro, esta torre ergue-
se no promontório que domina o vale de Frémur, próxima da antiga via romana
ligando Aleth (Saint-Servan) a Carhaix. Coberta de vegetação e havendo o risco
permanente de cair uma pedra, a visita a esta ruína é livre e gratuita apesar de
estar numa propriedade privada.
Os Templários tiveram Santa Maria como o seu “maior Tesouro” por “estar presente
no princípio e no fim da nossa Religião”, como consta da sua Regra, procurando a
ressurreição espiritual pela Graça da Mãe Divina. É por isto que a lenda local diz
que os Templários instalaram-se no alto lugar de Pléboulle e Montbran esperando
com isso facilitar a sua ressurreição por estarem mais próximos do céu.

Sendo igualmente sinónima de Sabedoria fosse sob que forma cultual tivesse (Dana,
Lusina, Cibele, etc.), Maria expressava a reunião de todos os saberes antigos e
novos num tellos loci ou “lugar telúrico”, desde os tempos imemoriais assinalado
pólo de atracção e concentração das várias correntes religiosas e espirituais do
saber por que se buscava a Luz da Alma Universal assinalada na mesma Mãe Divina,
sob que nome tivesse. Entra nisto Pléboulle (do latim Plebes Pauli, “Paróquia de
Paul”), primitivo enclave mágico depois tomado e tornado enclave templário.

Tais enclaves como pontos nevrálgicos no mapa da Tradição Primordial onde a


conquista espiritual era facilitada por maior “afrouxamento” da fronteira entre a
Terra e o Céu, caracterizam-se como lugares de cultos remotos, encruzilhadas de
pontos seculares de crenças, sítios mágicos para o comum das gentes, todos foram
as metas secretas da Milícia Templária. Nesses enclaves que continha a mensagem
da Sabedoria Ancestral, não reconheciam fronteiras territoriais, com a mesma não
as tem.
O facto inúmeras vezes repetido de ser precisamente nesse tipo de lugares –
pobres, agrestes, de acesso difícil – que se encontram os restos mais valiosos do
Passado remoto, subentende que tais restos não correspondem tanto ao facto de
neles se haver desenrolado noutros tempos a vida comunal, mas sobretudo por
terem sido núcleos culturais, deliberadamente afastados dos centros populacionais
pelo seu próprio carácter sagrado.

O sagrado acha-se intimamente ligado ao secreto. Isto porque o sentido da


transcendência para o qual converge toda a crença religiosa e espiritual
representa, para o ser humano comum, um mistério total intransponível. A crença
originou o temor, ou melhor, é uma fonte desse temor: o medo último da morte e
do que se possa encontrar por detrás dela. E esse mesmo medo visceral criou a
dependência do homem comum em relação àqueles que tiveram – ou aparentaram
ter – conhecimento certo do chamado Além, ou por outra, dos Mistérios da Vida,
como foi o caso de vários Templários que além de ilustrados eram iluminados.

Esses Templários sabiam que existe uma realidade que nada tem a ver com o bem
supremo nem com o mal mais abominável, embora seja atribuída a um ou outro
segundo a circunstância imperante. O fundo dessa realidade é o conhecimento, um
conhecimento sagrado em que o homem penetra muitas vezes e, quando o fez, vê-
se inevitavelmente classificado de santo ou demónio, sem que chegue a ser uma
coisa nem outra, mas um ser essencialmente humano que ousar levantar o “Véu de
Ísis” em algum enclave cultural consignado pela Tradição.

Todos esses enclaves típicos das manifestações religiosas e espirituais ancestrais,


significativamente estão representados nas áreas onde houve Mestrado Templário
de um modo ainda mais específico, restrito e vivo. Observa-se isso na Bretanha
Templária, cujos enclaves reclamados, desejados, exigidos pelo Templo, quase
sempre duramente, custosamente conquistados, encontram-se sempre nas
proximidades ou em contacto íntimo com esses lugares sagrados, com esses núcleos
de magia milenar cuja intensidade é mais forte e se sente em toda a Pléboulle.

Capela Templária do Mestre Jacques (Saint-Alban)

Os “monges vermelhos” encontram-se um pouco por toda a parte na Bretanha. Eles


são malditos. Envoltos em mortalhas e montados em esqueletos de cavalos,
galopam à noite ao acaso nos bosques e a maldição abate-se sobre aquele que, por
desgraça, cruze o seu caminho. Esses fantasmas maléficos são, nas crenças
populares, aqueles dos antigos Templários.

Diz-se que a memória colectiva bretã atribui-lhes os crimes mais atrozes, e isto
depois dos agentes de Filipe IV terem envenenado o povo com as maiores mentiras
sobre a Ordem do Templo, cujas riquezas e poder esse rei francês ambicionava.
Dessa má fama também não escapa a capela templária de Saint-Jacques em Saint-
Alban, Bretanha Norte.
A construção deste templo de Saint-Jacques le Majeur é efectivamente atribuída
aos Templários, donos da comenda de Saint-Alban de Verulam (mártir inglês do
século III decapitado em Verulamium, na Grã-Bretanha) que é um
desmembramento da paróquia primitiva de Pléneuf. A carta de aforamento de 1182
refere a aldeia próxima daqui, Hôtellerie, como propriedade do Templo, e a carta
de aforamento de 1256 cita explicitamente esta capela e lugar como pertencendo
à mesma Ordem.

Plantada sobre um antigo espaço cultual celta, esta capela foi utilizada pelos
Templários como albergue dos peregrinos a Saint-Jacques de Compostelle que
tinham de passar por este caminho gallo-romano de Aleth a Carhaix, já
secularizado no tempo de Saint-Guillaume Volpiano ou de Cluny, que por volta do
ano 1000 recebeu a hospitalidade em Saint-Alban do senhor de Coron. Por esta
razão a capela foi consagrada a Saint-Jacques le Majeur.

Este templo românico gótico ainda conserva testemunhos artísticos cuja feitura se
atribui aos próprios Templários: no interior, tem-se debaixo das arcadas uma
escultura representando um javali perseguido por cães. Na sociedade tradicional
celta o javali representava a autoridade espiritual detida pelo druida, o sacerdote
dessa religião, pelo que os cães retratados dentro da capela serão os domini-
cannes, os “cães do Senhor” como guardiões da própria Igreja, simbólicos dos
próprios monges templários que perseguiam e asseguravam a legitimidade a
autoridade espiritual daquela. No exterior, tem-se o grupo esculpido da “Virgem e
do Menino” protegendo um peregrino compostelano, datado do início do século
XIV.

Este caminho gallo-romano de Saint-Alban e Saint-Jacques e até mesmo a capela,


diz avox populi que aquele era percorrido por fadas e esta feita pelas mesmas.
Depois de terem percorrido durante muito tempo outras partes do mundo, as fadas
passaram a percorrer o caminho de Saint-Alban procurando um lugar para
descansar eternamente. Como eram fadas cristãs, diz a lenda, começaram a
construir uma capela para si. Mas uma manhã, enquanto procuravam materiais para
a edificação do templo, encontraram no caminho uma pega morta, de patas para
o ar. Procuraram uma mulher velha, sábia, e perguntaram-lhe o que significava
aquilo. Ela respondeu-lhes que a eternidade terrena não existe ao contrário do que
acreditavam. Então as fadas deixaram este lugar abandonando a sua obra. Desde
esse dia nunca mais ninguém de Saint-Alban as viu e a capela de Saint-Jacques
permaneceu inacabada.

As fadas como entes sobrenaturais que povoam a Natureza etérica, são uma
maneira simples e até poética de exprimir a condição sobrenatural ou fora do
comum que dotava a natureza dos peregrinos que passavam por Saint-Alban a
caminho de Compostela, muito longe daí, na Galiza hispânica, cuja firmeza de
vontade em chegar à meta era realmente sobre-humana. Por outro lado, refere-se
aos conhecimentos avançados dos Templários sobre arquitectura e a maneira
perfeita de construírem os seus edifícios, facto atribuído pelo homem vulgar a
“forças sobrenaturais”. O facto da capela ter ficado inacabada tem uma explicação
muito óbvia:

Até hoje há quem não saiba bem se esta capela de Saint-Alban era consagrada ao
Apóstolo Saint-Jacques ou ao Mestre Jacques de Molay, que foi o último a ocupar
o Mestrado Geral da Ordem do Templo. Isto porque no início do século XIV Jacques
de Molay começou as obras de construção de uma torre dianteira da capela, mas
que foram subitamente interrompidas com a prisão do Mestre e dos Templários em
13 de Outubro de 1307, por ordem de Filipe IV, e este domínio do Templo reverteu
de imediato, quase instantaneamente, para o duque da Bretanha, Jean III. Este
realizou algumas obras na capela, mas a torre ficou para sempre inacabada,
possivelmente por os conhecimentos arquitectónicos dos Templários terem morrido
com estes e o seu último Mestre.

Sem dúvida que se perdeu a chave do sentido real das lendas sobre o Templo na
Bretanha, mas através das mesmas pode reter-se que os Bretões, herdeiros dos
Celtas, vieram a associar na sua alma colectiva o vermelho, cor do fogo, aos
próprios Templários, adeptos do Espírito Santo. A presença desses “monges
vermelhos” (assim apelidados por causa da cruz vermelha que traziam estampada
nos seus mantos e capas) é reencontrada essencialmente junto às suas antigas
comendas outrora edificadas sobre lugares celtas, por vezes nas proximidades de
menires e de dolmens, indo constituir além de enclaves sagrados igualmente
mágicos.
Mais espantoso ainda: os Bretões atribuem frequentemente aos Templários
santuários construídos muito depois da sua desaparição, ocorrida em 1312 com a
abolição da Ordem pelo papa Clemente V. Neste caso, a origem do edifício é
sempre misteriosa ou pelo menos obscura, e o lugar onde está é frequentado e
venerado desde os tempos mais remotos. Isto significa que, apesar da desaparição
da Ordem do Templo, poderá muito bem ter sobrevivido alguma facção operativa
sua, ou então formada dentro dela tendo saído antes da abolição papal, possuída
dos pressupostos saberes secretos ou esotéricos dos Templários sobre a arte
arquitectónica, por exemplo, como foi o caso dos Monges-Construtores, a maioria
beneditinos e clunienses a que pertenceu Saint-Bernard de Claraval, inspirador
espiritual da Milícia de Cavaleiros-Monges.

O misterioso templo de Lanleff

Em Lanleff existe um monumento muito antigo que tem intrigado os estudiosos que
não encontram uma resposta definitiva sobre quem o edificou e o que terá sido,
mas sendo muitas as teorias e algumas delas bastante extravagantes.

Trata-se de uma construção circular formada por uma cintura dupla de muralhas,
uma exterior e outra interior; aquela ocupa um espaço de trinta pés de diâmetro
e a outra, construída a nove pés da precedente, é concêntrica. O muro interior
desta é aberto por doze arcadas, cada uma com a largura de cinco pés e a altura
de nove; cada arcada forma uma abóbada completa e é sustida lateralmente por
pilastras de três pés, e cada um dos seus lados está decorado por numa coluna
adossada de cinco polegadas. No muro exterior vêem-se doze aberturas de janelas
que correspondem às doze arcadas do muro interior. Estas janelas são de tamanho
e grandeza diferentes que minguam à medida que se avança para o fundo, sendo o
espaço que as separa também decorado de colunas. Este monumento foi construído
com bastante solidez e a pedra utilizada, o granito róseo, foi da melhor qualidade
e beleza.

Está-se perante um edifício em labirinto, que hoje talvez servisse de vestíbulo à


igreja sucursal. Realmente labiríntica e enigmática tem sido a sua presença até
hoje.
Diz-se que foi construído pelos primitivos celtas bretãos para celebrarem os
solstícios e equinócios durante os quais faziam a circunvalação ritual para o centro,
ou então pelos gallo-romanos, ou ainda como um baptistério merovíngio. Poderia
ser alguma dessas teorias, mas o facto é que o edifício não é tão velho quanto isso,
logo, essas teorias ficam sem efeito. Também se diz que foi edificado pelos
“monges vermelhos”, isto é, os cavaleiros templários, mas não há documento
algum atestando casas da Ordem do Templo aqui, e logo outros dizem que não
foram templários mas cavaleiros da Ordem de São João do Hospital quem de facto
estiveram aqui, mas igualmente não há provas de tal… Em que se fica?

Este monumento de traça bizantina misturada à românica, constitui-se da rotunda


de uma antiga igreja circular beneditina dedicada à Virgem Maria, como atesta
uma carta de 1148 informando de uma doação feita à igreja de Santa Maria de
Lanlem (o Lem é o antigo nome do rio Leff) dos monges beneditinos. Os
especialistas pensam que ela foi construída nos finais do século XI ou no início do
XII à imitação do Santo Sepulcro de Jerusalém, aceitando como prova a carta de
do duque Conan IV que é a única a referir os templários como tendo em 1160 vários
bens nesta parte do bispado de Tréguier, os quais terão andado de ligações com os
beneditinos e lhes comunicado os conhecimentos orientais cuja arquitectura que
veio a caracterizar este monumento que, de facto, é a réplica exacta da rotunda
do Santo Sepulcro, em Jerusalém.
Igualmente a ciência etimológica dá Lanleff como fundada por eremitas cristãos,
os quais foram os beneditinos dos primeiros séculos do cristianismo na Europa, pois
que caracterizou-se então por um tipo eremita e anacoreta. Com
efeito, Lanleff provém do antigo bretão lann, “eremitério”, passando a ser citado
pelo nome actual nas cartas da abadia de Beauport a partir do século XIII.

O formato labiríntico do edifício vem a expressar o caminho cristocêntrico que


caracterizou a vida monástica dos beneditinos medievais, ou seja, percorrerem
interiormente o caminho tortuoso da sua condição humana, o que se representava
no labirinto, até alcançarem o Grande Centro, ou seja, a derradeira União Mística
com Cristo em suas consciências espirituais. O labirinto era uma combinação de
dois motivos: o da espiral e o da trança, e exprimia uma vontade muito evidente
de representar o Infinito sob os dois aspectos de que ele se reveste na concepção
humana, isto é, o Infinito eternamente na mutação da espiral, pelo menos
teoricamente, pelo que pode ser pensado como sem fim, e o Infinito do eterno
retorno figurado pela trança, mas aqui pelo Sepulcro vazio do Salvador que
entretanto ressuscitou e a humanidade dos fiéis procura o encontro final com Ele.
Quanto mais difícil é a viagem pelo labirinto, quanto mais numerosos e árduos são
os obstáculos, mais o adepto se transforma e, no decurso desta iniciação
itinerante, adquire um novo ser.

É assim que o labirinto expressa o caminho que conduz o homem ao interior de si


mesmo, a uma espécie de santuário interno ou escondido, no qual reside o mais
misterioso e santo da pessoa humana, o seu Espírito Imortal. Pensa-se aqui em Mens
Sana, “Mente Sã”, o Templo do Espírito Santo na alma em estado de graça. A
chegada ao centro do labirinto, como ponto final de uma iniciação, introduz o
iniciado numa “cripta ou cela invisível”, representação simbólica do seu próprio
Ser Espiritual com quem se une marcando o final do caminho cristocêntrico, como
testemunham estas misteriosas ruínas do templo-labirinto de Lanleff.

O apelo beneditino a uma vida desprendida da cobiça material e que fazia parte
da sua catequese humanista junto do povo simples deu lugar à lenda da “troca com
o Diabo”, que ainda hoje corre em Lanleff e conta assim:

Uma pobre e infeliz mulher fez uma troca com o Diabo: o seu filho em troco de
moedas de ouro. Lúcifer aceitou de imediato o negócio e depositou um punhado
de moedas na borda da fonte próximo do templo de Lanleff, pois que desejava a
criança para si. Quando a mãe indigna foi recolher o dinheiro, ela queimou-se
gravemente: das moedas saíam as chamas do Inferno. Com gritos de dor ela
afastou-se abandonando as moedas de ouro que se incrustaram para sempre no
granito da borda. Quem desde então passa por Lanleff e vai à fonte, se molhar a
sua borda pode ser que as 14 moedas de ouro apareçam. Mas deve reflectir bem
antes de as ver e as tocar…

O “Lapidário” de Marbod de Rennes

A catedral de Rennes, capital da Bretanha, ainda hoje evoca aí a presença de um


dos mais famosos hagiógrafos da Antiguidade que à cultura megalítica pré e proto-
histórica bretã substituiu por um singular Lapidário judaico-cristão que foi dos mais
famosos da Idade Média: Marbod, Marbodus ou Merboldus (Angers, 1035 – Rennes,
1123).

Este famoso teólogo beneditino Marbod de Rennes, em cuja catedral foi bispo em
1096 nomeado pelo Papa Urbano II (1088-1099), pouco antes dessa data redigiu aí
o seuLapidário (Liber Lapidum) depressa traduzido para outras línguas, incluindo a
hebraica, e a sua enorme celebridade tornou-o o modelo obrigatório dos tratados
ulteriores sobre minerais.

O Liber Lapidum ou Lapidibus, importante Lapidário hexamétrico escrito em latim,


trata das virtudes e propriedades terapêuticas das pedras preciosas ou gemas,
sendo composto de um prólogo, 60 estrofes consagradas cada uma a uma pedra, e
um epílogo onde justifica o seu termo latino Lapidum para designar o seu tratado,
que hoje a Biblioteca de Geociências da Universidade de Rennes possui uma cópia
da tradução do mesmo.
As virtudes terapêuticas das gemas preciosas, atribuindo-lhes até propriedades
miraculosas, são descritas pelo bispo Marbod nos seguintes e literais exemplos:

A ágata é boa para a vista;

O jaspe é soberano contra a febre;

A safira rejuvenesce o corpo, tranquiliza as almas receosas e alivia as cóleras do


céu;

A esmeralda é útil aos advogados e devolve a razão aos insensatos;

O berilo é utilizado contra perturbações do fígado e para evitar rompantes


intempestivos;

A ametista evita a ebriedade.


Esses são exemplos da enorme quantidade de propriedades terapêuticas das pedras
preciosas catalogas por Marbod, o primeiro a sistematizar a gemologia ou ciência
que estuda as gemas minerais, mas aí acrescida do sentido taumatúrgico
característico da mentalidade mágica medieval, muito mais no ambiente bretão da
época ainda trescalando por toda a parte a presença da religiosidade céltica dos
druidas, para quem os minerais e vegetais possuíam sempre propriedades
sobrenaturais associadas aos deuses do seu panteão, que eram quem as atribuía.

Em geral, distinguem-se três tipos de lapidários: os lapidários


mágicos ou astrológicos, que Marbod expõe recorrendo à heterodoxia das crenças
astrolátricas celta e judaica; os lapidários simbólicos cristãos, que ele sistematiza
associando as virtudes de cada gema a cada um dos Apóstolos de Cristo, ficando o
ouro para Este mesmo, tomando por fonte de inspiração as pedras preciosas de que
se compõe a Jerusalém Celeste descrita no Apocalipse (21:18-22); os lapidários
científicos, e nisto ele pretendeu dar sistematização científica à gemologia, no que
terá tido êxito por a sua obra ser a mais popular da literatura científica medieval.

Neste seu Lapidário Marbod de Rennes estabelece a relação entre o Cristianismo e


o Judaísmo ao interpretar as doze gemas do peitoral do Sumo-Sacerdote do Templo
de Jerusalém e a relação das mesmas com as 12 tribos de Israel, dando consecução
literária ao que era usual na liturgia católica medieval, ou seja, costumava-se
colocar ao lado do racional estufado um peitoral de metal imitado directamente
do “Peitoral do Julgamento” do Sumo-Sacerdote (Kohen Gadol), ordenado
canonicamente conforme está descrito no Antigo Testamento, em Êxodo 28: 15-
29.

O Sumo-Sacerdote da religião judaica tinha como insígnia maior da sua função de


supremo testemunho da vida e julgador da morte ou destino das 12 tribos de Israel,
opeitoral, que era uma bolsa de 22 cm2 feita de material formosamente tecido. Na
frente do peitoral foram firmadas as doze pedras preciosas em quatro filas de três,
e em cada uma destas pedras foi gravado o nome de uma das tribos de Israel:

Primeira fileira: Rubi – Ruben; Esmeralda – Simeão; Topázio – Levi.

Segunda fileira: Carbúnculo – Judá; Safira – Isaac; Diamante – Zebulão.

Terceira fileira: Jacinto – Dan; Ágata – Naftali; Ametista – Gad.

Quarta fileira: Crisólito – Asher; Ónix – José; Jaspe – Benjamim.

No Cristianismo, a racional ou peitoral era uma peça ornamental que caiu em


desuso; consistia em duas peças rectangulares ornamentadas, uma sobre o peito e
outra sobre as costas, ligadas por ombreiras circulares, ou em gola; gozou de
popularidade na Alemanha a partir do século XII. Este paramento era um tanto
semelhante a uma peça de indumentária usada pelos sumos sacerdotes judeus dos
tempos bíblicos. A racionalera um paramento característico dos arcebispos de
Reims, considerados como os sucessores dos sumos sacerdotes de Israel, devido ao
privilégio de sagração dos reis franceses. Também era usada pelos bispos de Liége
e de Toul.
Dispondo-se o peitoral ao lado da racional na primitiva liturgia católica, significava
que assim eram unidas simbolicamente as Escrituras Velha e Nova, os Profetas e os
Apóstolos, respectivamente representados por Jacob, “pai” de Israel e da
Jerusalém Terrestre, e por Cristo, “pai” da Palavra e da Jerusalém Celeste, aos
quais os antigos davam o atributo do Sol e do ouro, ficando os Apóstolos
relacionados a signos astrológicos em simpatia com as doze gemas preciosas
descritas. O peitoral cristão no altar vinha a descrever:

Primeira fileira: Carneiro – Pedro; Touro – Lucas; Gémeos – Tomé e Judas Tadeu.

Segunda fileira: Caranguejo – Judas Iscariotes; Leão – Marcos; Virgem – Simão


Cananeu.

Terceira fileira: Balança – Bartolomeu; Escorpião – Mateus; Sagitário – Filipe e


André.

Quarta fileira: Capricórnio – Paulo; Aquário – João; Peixes – Tiago Maior e Tiago
Menor.

As pedras preciosas acabam sendo o símbolo da transmutação do opaco em


translúcido, e num sentido espiritual, das trevas em luz, da imperfeição em
perfeição. É assim que a Nova Jerusalém é toda revestida de pedrarias, significando
que dentro desse universo novo todas as condições e todos os níveis de existência
terão passado por uma transmutação radical no sentido de uma perfeição sem igual
na Terra de hoje e de natureza toda luminosa ou espiritual.

Essa foi a mensagem de Advento que Marbod de Rennes, o implacável acusador


público das consciências pecaminosas do seu tempo, pretendeu transmitir no
seu Lapidário. E em certa medida conseguiu.