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FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DO VALE DO SÃO FRANCISCO

Curso de Ciências Sociais

TEORIA ANTROPOLÓGICA
Professora: Luzania Barreto Rodrigues
Data: 21/12/2018

Aluno (a):_________________________________________________________

PROVA I

1 - Com a descoberta do Novo Mundo, através das cartas dos primeiros viajantes, o
Ocidente depara-se com alteridades insuspeitadas. No século XVI, vê-se a gênese da
reflexão antropológica, isto é, a elaboração de dois discursos ideológicos concorrentes
sobre os habitantes de terras extra-européias. Quais são e em que consistem estes
discursos? (2,0).

Com a “descoberta” das Américas pelos navegantes europeus, interessam-se esses


povos por refletir sobre seu modo de vida, de organização social, cultura, mas,
principalmente, pelo debate sobre a sua natureza enquanto humanidade. Dentro desse
debate, cedo, veremos duas visões distintas, melhores cristalizadas nas posições de dois
pensadores do século 16: o dominicano Las Casas, e o jurista Sepúlveda. Las Casas
partia do discurso condescendente e paternalista de fascinação com o estranho (e uma
visão negativa de sua própria sociedade), como podemos observar aqui:

“Esses povos igualavam ou até superavam muitas nações e uma


ordem política que, em alguns reinos, é melhor que a nossa. […] Esses
povos igualavam ou até superavam muitas nações do mundo
conhecidas como policiadas e razoáveis, e não eram inferiores a
nenhuma delas. Assim, igualavam-se aos gregos e os romanos, e até,
em alguns de seus costumes, os superavam. Eles superavam também
a Inglaterra, a França, e algumas de nossas regiões da Espanha. […]
Pois a maioria dessas nações do mundo, senão todas, foram muito
mais pervertidas, irracionais e depravadas, e deram mostra de muito
menos prudência e sagacidade em sua forma de se governarem e
exercerem as virtudes morais”.
(In. Aprender Antropologia, LAPLATINE, F. p. 26)

Sepúlveda, no entanto, tinha uma visão antagônica, partindo de uma


recusa do estranho (frente a uma visão positiva a respeito de sua
própria sociedade), baseando-se numa falta em relação à sua
sociedade, como podemos observar aqui:

Aqueles que superam os outros em prudência e razão, mesmo que


não sejam superiores em força física, aqueles são, por natureza, os
senhores; ao contrário, porém, os preguiçosos, os espíritos lentos,
mesmo que tenham as forças físicas para cumprir todas as tarefas
necessárias, são, por natureza, servos. E é justo e útil que sejam
servos, e vemos isso sancionado pela própria lei divina. [...] E será
sempre justo e conforme o direito natural que essas pessoas estejam
submetidas ao império de príncipes e de nações mais cultas e
humanas, de modo que [...] eles abandonem a barbárie e se
conformem a uma vida mais humana e ao culto da virtude. E, se eles
recusarem esse império, pode-se impô-lo pelo meio das armas e essa
guerra sera justa, bem como o declara o direito natural que os homens
honrados, inteligentes, virtuosos e humanos dominem aqueles que
não têm essas virtudes".
(In. Aprender Antropologia, LAPLATINE, F. p. 27)

Ambas visões veem a diversidade cultural, não como um dado da


realidade da especificidade humana (que é a característica de
produzir cultura e história que lhes confere essa diversidade), mas
como uma anomalia, uma aberração, um erro de percurso, onde
essas culturas estranhas são como alienígenas para os povos
europeus, sobre as quais se debruçaram em busca de justificativas
pelas quais essas culturas seriam tão diversas da civilização ocidental
(ou, pelo menos, do recorte europeu central desta civilização).

Deste empreendimento, decorrem dois discursos: o do “mau


selvagem” em contraposição ao “bom civilizado” e o do “bom
selvagem” em contraposição ao “mau civilizado”, pelos quais
podemos estabelecer um paralelo entre o primeiro e a visão de
Sepúlveda, e entre a última e a visão de Las Casas.

Partindo do que havia de estranho (em contraposição à civilização


europeia) nas civilizações do Novo Mundo, esses sujeitos vão basear
seu estudo sobre a humanidade ou não-humanidade desses povos
estranhos. Vão julgar, a princípio se estes tem alguma ou nenhuma
religião, a forma com se vestem, como se alimentam, sua
inteligência, baseadas nos critérios ocidentais de conhecimento e na
inteligibilidade de sua língua. Não reconhecendo ou estranhando
essas características nos povos do Novo Mundo, os europeus vão
relegar o estudo dessas comunidades ao campo da zoologia e outras
ciências naturais, sem nunca lhes ocorrer que essas culturas
estranhas decorrem da própria diversidade humana. Não
reconhecendo essa diversidade, desumanizam os “selvagens”.

Essa desumanização vai ser carregada ao longo dos séculos até a


história recente, bastando observar as práticas do racismo
“científico”, como o estudo da frenologia, e a justificação do
neocolonialismo como a dos franceses sobre os argelinos, belgas
sobre os congoleses, ingleses sobre os aborígenes da Oceania, entre
outros.

Nessa dicotomia, os europeus, “civilizados”, vão se contrapor aos


“selvagens” do novo mundo, onde os europeus são os seres dotados
de história, capazes de produzir ciência, inovação, cultura, arte, tem
espírito, podem evoluir. Os selvagens, por outro lado, estão
estagnados em sua condição “animalesca”, não podendo alcançar a
“civilização” dos ocidentais.

Como podemos observar nas acepções de Hegel, para quem os


africanos eram “os seres mais atrozes que tenha no mundo, seu semelhante e para
eles apenas uma carne como qualquer outra, suas guerras são ferozes: e sua religião
pura superstição" (Op. Cit. p. 30) e de Pauw,

“[..] não inventam nada, não empreendem nada, e não estendem a


esfera de sua concepção além do que veem, pusilânimes, covardes,
irritados, sem nobreza de espírito, o desânimo e a falta absoluta
daquilo que constitui o animal racional os tornam inuteis para si
mesmos e para a sociedade”. (Ibid. p. 30).

Já o discurso do “bom selvagem” em contraposição ao “mau


civilizado”, onde, pelo contrário, o selvagem vive feliz com os frutos
que a natureza lhe oferece, e a civilização o embruteceria. Permanece
a interlocução desumanizadora do europeu, ainda que com uma
valoração positiva do estado de “barbárie” dos povos do Novo Mundo,
onde o não contato com a civilização seria uma plenitude da
humanidade, livre das privações da sociedade organizada. Embora só
vá se desenvolver de forma mais sistematizada este discurso na obra
de Rousseau e, posteriormente, na tradição romântica, já desde as
cartas de Américo Vespúcio vemos o embrião dessa visão:

“As pessoas estão nuas, são bonitas, de pele escura, de corpo


elegante. Nenhum possui qualquer coisa que seja, pois tudo e
colocado em comum. E os homens tomam por mulheres aquelas que
lhes agradam, sejam elas sua mãe, sua irmã, ou sua amiga, entre as
quais eles não fazem diferença. Eles vivem cinquenta anos. E não têm
governo”.
(Ibid. p. 32)

Essa perspectiva vai consistir de uma crítica da brutalidade da


civilização é do elogio da ingenuidade dos selvagens que vivem da
natureza. Como nas palavras de Montaigne, que afirmava: “Podemos
portanto de fato chamá-los de bárbaros quanto às regras da razão,
mas não quanto a nós mesmos, que os superamos em toda sorte de
barbárie”. (Ibid. p. 33)

Em ambos os casos, as culturas estrangeiras, especialmente as mais


isoladas, são destituídas, nas análises destes pensadores, de
legitimação da sua humanidade. Esses dois discursos ainda pululam
no imaginário ocidental, mas, no corolário das ciências sociais,
especificamente na antropologia, são perspectivas a respeito da
cultura dos outros que caracterizam um pensamento “pré-
antropológico”, uma vez que não consideram seu objeto de estudo
como verdadeiramente humano (anthropos).

2 – Quais foram as principais contribuições do Evolucionismo Cultural para a


construção, a posteriori, da antropologia moderna? (2,0).
3 – O que distingue o sistema de comunicação humano daqueles próprios dos demais
animais? (2,0)

4 – Defina Cultura enquanto sistema simbólico (2,0).

5 – Discorra sobre a lógica do etnocentrismo (2,0).

Em seu aspecto crítico positivo, o etnocentrismo é uma característica de todas as


comunidades humanas, uma vez que é uma forma de afirmar a própria identidade, frente
às outras, característica que se expressa em todas as culturas. Por outro lado, o
etnocentrismo pode ser uma ferramenta de desumanização, instrumentalizada para
subjugar, explorar, e até mesmo exterminar outras comunidades. Em algumas culturas,
esse caráter desumanizador se expressa desde a sua linguagem, como no caso dos
habitantes de Java, que definem o ser humano como especificamente javanês, e às suas
crianças, e outras párias sociais (“loucos”, “imorais”, “simplórios”), lhes é designado
ser “ainda não-javanês” (ndurung djawa), em contraposição ao sujeito já apropriado da
cultura, o “já javanês”, ou, simplesmente, “humano” (sampum djawa). Ser humano,
então, nas diversas comunidades humanas, não é apenas dispor de um corpo biológico
próprio da espécie humana, mas estar inserido naquela cultura, aprender suas linguagens
e códigos, costumes, se apropriar de seu sistema simbólico e ser um membro funcional
daquela sociedade. É comum a todas as sociedades humanas, portanto, considerar que o
seu modo de vida e sua visão de mundo é a correta, a natural e o diferente é a anomalia,
o monstruoso, o alienígena, o bárbaro.

A visão etnocêntrica, portanto, é aquela que estranha, aliena e, até mesmo, desumaniza o
que estiver para além dos limites da nossa comunidade.