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PREGANDO LITERATURA PROFÉTICA

Capítulo 10

PREGANDO LITERATURA PROFÉTICA

Em contraste com a narrativa hebraica, que tende a camuflar o fato que é


relevantemente tratado, a literatura profética declara de forma aberta sua rele-
vância imediata apresentando-se como pregação. Hans Walter afirma que,
“começando com Amós, temos pura e simplesmente coleções de declarações
dos profetas clássicos. Raras vezes os elementos da narrativa aparecem. Elas
têm a única função de tornar as declarações individuais compreensíveis (e.g.,
Amós 7.10-17)”.1 Embora Wolff exagere um pouco o caso, ele revela o im-
portante fato de que a origem da literatura profética repousa na pregação vi-
gente dos profetas clássicos. Contudo, apesar de denominar esses profetas de
“profetas literários”, devemos manter em mente que muitas profecias foram
faladas antes que elas, eventualmente, se tornassem a literatura que temos
hoje na Bíblia.
Quando pensamos na literatura profética, em geral pensamos acerca da cole-
ção de livros designados na Bíblia hebraica como “os profetas posteriores”. Embora
estes livros proféticos sejam nossa principal preocupação neste capítulo, nosso
foco é limitado e amplo. Por um lado, é limitado porque os profetas posteriores
contêm também outros gêneros além do profético – gêneros tais como narrativa
(e.g., Is 36–39 tomado de 2Rs 18–20; Jr 26–29; 32–45), cântico (e.g. Is 5.1-7;
42.10-13; 44.23; 49.13), sabedoria (e.g., Amós 3.3-6; Is 28.23; Ez 18.2), e
literatura apocalíptica (e.g., Is 24–27; Jl; Zc 12–14). Por outro lado, nosso foco
é mais amplo do que os profetas posteriores porque a literatura profética é en-

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contrada também em outros gêneros – em gêneros como a narrativa hebraica
(e.g., 1Rs 17), evangelho (e.g., Mt 24), e literatura apocalíptica (e.g., Ap 2-3).
Desta forma, embora este capítulo trate, em primeiro lugar, os Profetas Posterio-
res, a discussão se relaciona ao gênero profético, onde quer que seja encontrado
na Bíblia.
Examinaremos a essência da profecia bíblica e suas características lite-
rárias e, subseqüentemente, combinaremos estas compreensões com aque-
las dos capítulos 1º ao 8º para obtermos diretrizes práticas para a pregação
de literatura profética.

A ESSÊNCIA DA PROFECIA BÍBLICA

Uma Mensagem de Deus acerca de Deus


Os eruditos bíblicos, com freqüência, concordam que os profetas eram men-
sageiros de Deus, arautos que entregavam uma comunicação de Deus. Eles
falaram “no nome de Yahweh” (Jr 26.16). Conforme o nome deles nabi suben-
tende, eles foram “chamados” por Deus para falar por ele.2 Dessa forma, eles
falam as legítimas “palavras de Yahweh” (Jr 43.1). Os próprios profetas ressal-
taram que eles traziam uma mensagem de Deus através de seus pronunciamentos
freqüentes: “Assim diz Yahweh”, e “pois a boca de Yahweh o disse” (veja o capí-
tulo 1º).
Entretanto, a mensagem dos profetas não era somente uma mensagem de
Deus, mas também uma mensagem acerca de Deus, sua aliança, sua vontade,
seu julgamento, sua redenção, seu reino vindouro. O profeta Amós repetiu a
essência da profecia bíblica quando proclamou (4.12), “Prepara-te, ó Israel,
para te encontrares com o teu Deus”. A. B. Mickelsen comenta: “Esteja ele
discutindo o passado, o presente ou o futuro, o profeta está buscando fazer de
Deus a realidade mais genuína que os homens podem conhecer e experimen-
tar.”3 Assim, uma marca importante da profecia bíblica é seu caráter teocêntrico.

Uma Mensagem para o Presente


Uma segunda marca da profecia bíblica é que ela era endereçada pelos
profetas aos seus contemporâneos. Essa marca pode parecer autoevidente,
mas ela requer ênfase, hoje quando os dicionários definem a profecia como
“uma predição ou declaração de algo porvir”, e as pessoas estudam a profe-
cia para adquirir um plano do futuro. Como temos nossos profetas do tempo
e nossos profetas de mercado, assim temos nossos profetas “religiosos” que

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se aproximam da profecia bíblica como um “jogo de quebra cabeça”4 que irá
prever os eventos futuros quando as várias partes forem colocadas em seus
devidos lugares. Os pregadores podem, sem dúvida, pregar sermões sensa-
cionais e atrair uma boa multidão, usando a profecia para predizer o futuro,
mas a questão é: tal mensagem traz consigo a autoridade das Escrituras?

Profecias Datadas
Embora os profetas bíblicos de fato falassem acerca do futuro, o primeiro
dado bíblico é que eles se dirigiram a seus contemporâneos. Embora suas
mensagens freqüentemente se referissem ao futuro, as palavras dos profetas
foram endereçadas para o presente. É impressionante a constância com que
as profecias são precedidas por datas precisas: “Palavras que, em visão, vie-
ram a Amós... a respeito de Israel, nos dias de Uzias, rei de Judá, e nos dias
de Jeroboão, filho de Joás, rei de Israel, dois anos antes do terremoto” (Amós
1.1). “No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor” (Is 6.1). Em Jeremias
encontramos listados os anos exatos de diferentes profecias, por exemplo,
em 1.2-3; 3.6; 21.1; 25.1; 28.1; 32.1; 33.1; 34.1; 35.1; 36.1; 40.1; 42.7 e
45.1. Ezequiel, de forma semelhante, lista datas precisas não menos do que
14 vezes. Com certeza, não podemos ignorar as datas e ler estas profecias
como se elas fossem endereçadas diretamente para nós hoje.

Exposição Histórica
Além do mais, as próprias profecias revelam a preocupação do Senhor
em falar, antes de tudo, a seu povo daquela época e contexto. O Senhor diz
a Ezequiel, por exemplo: “Filho do homem, eu te dei por atalaia sobre a casa
de Israel; da minha boca ouvirás a palavra e os avisarás da minha parte” (Ez
3.17). Como uma lembrança da preocupação dos profetas com o presente,
se tem sugerido que se deveria pensar neles como pregadores de vanguar-
da, em vez de prenunciadores. Embora esta distinção esteja aberta à crítica
por estabelecer um falso contraste, entre o presente e o futuro, pensar nos
profetas como pregadores de vanguarda é útil na obtenção de uma aproxi-
mação apropriada para a profecia bíblica. Pois, está claro que os profetas,
antes de mais nada, se dirigiram à condição da nação, ao povo da aliança de
Deus. Eles levaram a público e chamaram a atenção para a idolatria, a cor-
rupção e a injustiça que existiam sob o verniz de religiosidade, e eles deman-
daram uma mudança radical. “A profecia é essencialmente um ministério de
revelação, um desnudar”, diz Wolff. “Os grandes profetas de Israel não so-
mente levantam o véu do futuro para destruir falsas expectativas; ao mesmo
tempo em que expõem a conduta de seus contemporâneos... Os profetas

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arrancam as máscaras e mostram a verdadeira face das pessoas por trás
delas.”5

A Necessidade de Interpretação Histórica


Em vista da datas específicas, dadas com as profecias bíblicas, assim como
seu foco sobre as pessoas daquela época e contexto, é evidente que a interpre-
tação histórica da profecia bíblica é um requisito para a interpretação válida. A
necessidade de interpretação histórica pode ser vista até mesmo quando olha-
mos de perto a profecia como predição do futuro.

Uma Mensagem acerca do Futuro


Não há dúvida que a predição do futuro é uma outra marca da profecia
bíblica. Isso não quer dizer que cada profecia necessariamente fala do fu-
turo, mas que, em geral, a profecia bíblica prediz eventos que devem ocor-
rer no futuro. Infelizmente, esse aspecto da profecia é muitas vezes mal
compreendido por intérpretes que juntam pequenas partes para adquirir
uma figura coerente dos últimos dias.

Nenhuma História do Futuro


A profecia bíblica, contudo, não é um tipo de história escrita “prognos-
ticada”. Mickelsen chama a atenção para o fato de que “a profecia nunca
dá uma figura completa de um evento, como o faz um relato histórico. O
historiador deve fornecer algum relato dos antecedentes de um evento, do
próprio evento e de suas conseqüências”.6 Mas a profecia não fornece to-
dos esses particulares. Naquele relato isolado, a profecia não é um tipo de
história escrita acerca do futuro.
Além do mais, os profetas falam acerca do futuro de um ponto de vista
específico e restrito. Delitzsch chama este ponto de vista de “o esboço do
horizonte do profeta”, enquanto outros preferem falar de “telescópio profé-
tico”.7 Esta “perspectiva profética” muita vezes é comparada a um viajante
que vê uma área montanhosa de uma certa distância. “Ele imagina que um
topo de montanha se levanta logo atrás do outro, quando, na realidade, eles
estão a milhas de distância”, como, por exemplo, na profecias a respeito do
“Dia do Senhor e da dupla vinda de Cristo”.8 Esta perspectiva profética,
embora olhe o futuro, dificilmente é uma perspectiva histórica tridimensional.
Além do mais, os profetas naturalmente dispõem suas predições numa
forma condicionada, histórica e culturalmente. O profeta “fala para seu povo

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na linguagem deles, no padrão de pensamento deles. Ele faz uso dos costu-
mes que eles conhecem. Quando ele se refere a meios de transporte, ele fala
a respeito de cavalos, carruagens, camelos, pequenas embarcações, grandes
navios de grãos. Quando ele fala acerca de armamentos, ele menciona lan-
ças, escudos, espadas, etc. Quando ele discute o significado e a maneira de
adoração, ele pode se referir ao templo e aos sacrifícios”.9 Esta forma condi-
cionada histórica e culturalmente é por completo omitida quando as pessoas,
com toda seriedade, sugerem que os profetas predizem para nosso tempo
uma reconstrução do templo em Jerusalém e a reinstituição de sacrifícios de
animais e uma batalha final travada com cavalos e carruagens e lanças e espa-
das. A própria forma de predições bíblicas indica que a preocupação dos
profetas não era em escrever com antecipação uma história para o 20 e 21
depois de Cristo (veja Hb 5–10).

O Futuro para uma Resposta Contemporânea


Não obstante, os profetas predizerem eventos que deveriam ocorrer no
futuro. Eles, contudo, predisseram esses eventos não tanto por causa do
futuro como por causa do presente, e não para satisfazer a curiosidade de
seus contemporâneos, mas para o arrependimento ou o encorajamento de-
les. Mickelsen habilmente adverte: “Perder de vista os ouvintes originais e
focalizar nossa atenção no que pode excitar a imaginação do curioso no
presente é perder de vista a razão real para a mensagem.”10 A mensagem do
futuro, seja de julgamento ou de salvação, foi proclamada para efetuar mu-
dança nos ouvintes originais. Bernhard Anderson ilustra vividamente como
o futuro pode impactar o presente: “Assim como o prognóstico de um mé-
dico, de que um paciente tem somente um curto tempo de vida, faz os mo-
mentos presentes do paciente mais preciosos e sérios, assim a proclamação
do profeta, do que Deus estava para fazer, acentuava a urgência do presen-
te. O profeta preocupava-se primeiramente com o presente. Sua tarefa era
comunicar a mensagem de Deus para o agora, e convocar o povo para
responder hoje.”11 Se as pessoas continuassem em sua apostasia, elas
sem dúvida sofreriam o julgamento predito; contudo, se elas arrepen-
dessem-se, se voltando para o Senhor e andando nos caminhos dele, o
Senhor suspenderia o julgamento e, em vez dele, mostraria a seu povo
as bênçãos da salvação (Jr 7.5-7; cf. Am 5.1-17).

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Proclamação Condicional
Se Deus fosse de fato afastar o julgamento predito em resposta ao arrepen-
dimento de seu povo, a implicação é que as proclamações dos profetas de
julgamento iminente eram condicionais: o julgamento viria somente se o povo
continuasse em seus maus caminhos. Esta condição não precisa estar explícita
em toda profecia; ela simplesmente pode estar subentendida (veja Jr 26.17-19;
Jn 3.4,10).
Contudo, alguns intérpretes têm sugerido que a mensagem dos profetas
era incondicional. De fato, Gene Tucker favorece a mudança do rótulo da
crítica da forma, de Gunkel de “ameaça” para “proclamação de julgamen-
to”, porque “o termo ameaça não é forte o suficiente para as más notícias
do profeta com respeito ao futuro. Ela é fraca demais, em primeiro lugar,
porque implica num elemento condicional”.12 Donald Gowan defende tam-
bém as proclamações incondicionais, ainda que ela o force a fazer uma
distinção entre os profetas anteriores (veja 2Rs 17.13) e os profetas poste-
riores: “O que os distinguia [os profetas posteriores] do resto era essa ame-
aça incondicional de destruição vindoura... Os profetas não exigiam refor-
ma, pois eles sabiam que era tarde demais; o fim da ordem vigente estava
próximo e não podia ser evitado.”13
Mas, pode-se fazer a pergunta: Por que os profetas pregaram para Israel
se eles sabiam que era tarde demais? E por que Deus os enviou a pregar se
não faria diferença de qualquer forma? Wolff responde, a saber, que “a
crítica dos profetas a seu próprio tempo tinha... a função de dar a base para
a punição”.14 Tucker sugere uma outra razão: “O futuro já tinha sido deci-
dido. O propósito da proclamação de julgamento era colocar aquele futuro
em movimento.” Aqui encontramos uma estranha noção desposada por
alguns críticos da forma. De acordo com Tucker, os profetas acreditavam
que a palavra de Deus que eles falavam tinha “o poder de criar história...
‘Através de sua palavra ameaçadora, eles acreditavam que estavam fazen-
do do futuro desastre algo inevitável’... porque achava-se que a palavra
profética era uma força poderosa, aqueles que discordavam dos profetas
não só os ignoravam, mas tentavam silenciá-los”.15 Em outras palavras, a
palavra proclamada de Deus era considerada, supostamente, como uma
“parte da divindade”,16 a qual, uma vez lançada, já não estava sob o con-
trole de Deus, mas realizava sua predição automaticamente.
É lamentável que esses críticos da forma estejam fazendo uma leitura de no-
ções decididamente pagãs e fatalistas nas formas bíblicas. Uma coisa é dizer que
a palavra de Deus é poderosa – e outra, muito diferente, é dizer que ela possui seu
próprio poder inerente; uma coisa é dizer que a palavra de Deus realiza seus

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propósitos –, e outra, é dizer que, uma vez falada, Deus já não controla aquela
palavra ou o futuro. Certamente, a Bíblia não oferece nenhuma evidência de que
a palavra de Deus, alguma vez, fosse considerada como uma entidade que tem
seu próprio poder inerente para produzir o que foi anunciado, sem consideração
da resposta humana ou da concernência de Deus.17 Esta idéia insulta a noção
bíblica central de soberania de Deus, que permanece no encargo de sua palavra e
que é capaz de mudar a conseqüência em resposta ao arrependimento humano.
Não é preciso buscar nos profetas clássicos, para descobrir que eles apresen-
tam um Deus que interage dinamicamente com seu povo. Jeremias proclamou no
nome do Senhor: “No momento em que eu falar acerca de uma nação ou de um
reino para o arrancar, derribar e destruir, se a tal nação se converter da maldade
contra a qual eu falei, também eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe”
(18.7-8; cf. 26.13-19). Joel (2.13-14) encoraja o povo: “Convertei-vos ao Se-
nhor, vosso Deus, porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se,
e grande em benignidade, e se arrepende do mal. Quem sabe se não se voltará, e
se arrependerá...?” E Jonas, irritado porque Deus não cumpriu a proclamação
dele: “Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida”, deixou escapar: “Não foi
isso o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso, me adiantei, fugindo
para Társis, pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-
se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal” (3.4 e 4.2; cf. 3.10). A
palavra de julgamento de Deus não fundiu o futuro em ferro, predeterminando sua
conseqüência exata, pois Deus permanece no controle de sua palavra e é livre
para responder ao arrependimento e à oração humana (Is 38.1-6).
Até mesmo Amós, o mais pessimista dos profetas, não simplesmente anun-
ciou o julgamento para que o povo pudesse saber as razões para quando ele
viesse. Nem pronunciou uma palavra que não pudesse ser parada. No mesmo
capítulo, no qual Amós anunciou a queda da “virgem de Israel”, ele roga ao povo
repetidamente: “Buscai-me e vivei”, “Buscai ao Senhor e vivei” e “Buscai o bem
e não o mal, para que vivais” (5.4, 6, 14). Este mesmo capítulo também articula
o que pode ser considerado o tema de todo o livro: “Antes, corra o juízo como
as águas; e a justiça, como ribeiro perene” (5.24). Ainda que se conclua, apesar
desses argumentos, que a evidência em Amós aponta para a inevitabilidade do
julgamento de Deus, deve-se lembrar que esta inevitabilidade não está arraiga-
da na palavra de julgamento de Deus, mas na obstinação do povo que falha em
reparar seus caminhos. Conseqüentemente, mesmo quando o julgamento pare-
ce inevitável, sua proclamação como tal ainda é condicional. “Este é o misteri-
oso paradoxo da fé hebraica”, escreve Abraham Heschel: “O Todo Poderoso e
Sábio pode mudar a palavra que ele proclama. O homem tem o poder de
modificar o desígnio dele.”18

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O Propósito da Proclamação
A distinção feita antigamente (veja o capítulo 6º) entre tema e propósito também
é útil na interpretação da profecia. Pois, um pouco da confusão acerca de procla-
mação condicional de julgamento é, em partes, causada pela falha em distinguir a
mensagem de seu propósito. Às vezes, a mensagem e o propósito são o mes-
mo, mas com freqüência eles diferem. Por exemplo, a mensagem de procla-
mação de julgamento está retardando a condenação, mas o propósito é tra-
zer Israel ao arrependimento para, desta forma, evitar o próprio conteúdo da
mensagem. “Acaso, tenho eu prazer na morte do perverso? – diz o Senhor
Deus; não desejo eu, antes, que ele se converta dos seus caminhos e viva?”
(Ez 18.23). Uma vez que Deus é o que ele é, seu propósito em anunciar julgamento
é ter Israel “de volta” para ele. “Os profetas do século 8º... olhavam em direção ao
amanhã de Deus com o propósito de enfatizar a urgência do hoje. Cada um à sua
própria forma ecoava o chamado que era ouvido nos legítimos cultos de adoração:
‘se hoje ouvirdes a sua voz’ (Sl 95.7b; ecoada em Hb 3.7; 4.7). Nas crises de seus
tempos eles anunciavam ao povo que estava sendo dada uma última chance para
corrigir seus caminhos.”19
Os profetas também anunciavam os eventos que deviam ocorrer num futuro
distante, muito além do tempo de vida de seus ouvintes. Embora essas proclama-
ções, na natureza do caso, não fossem condicionadas à resposta dos ouvintes
contemporâneos, elas não eram dadas, só para satisfazer a curiosidade deles
acerca do futuro, mas para guiá-los e encorajá-los. “Tais expressões escatológi-
cas conforme ‘Vede, os dias são chegados’, ‘e acontecerá naquele dia’, ‘naquele
tempo’, ‘naqueles dias’... pretendem... mostrar que o programa de Deus se mo-
verá para frente de acordo com a agenda dele. Ele irá agir, e o que ele fará afeta
o que os ouvintes estão fazendo agora. Se eles levarão em conta a atividade futura
dele, eles viverão de forma diferente daqueles que ignoram a realidade de Deus.”20
Portanto, esses eventos futuros distantes são anunciados para servir como sinais
de orientação para o povo de Deus – sinais de orientação que o ajudará a ter sua
conduta e a ajustar seu curso de vida, sinais de orientação que lhes darão direção,
esperança e encorajamento, mesmo nas horas mais difíceis.

Vindouro
Uma Mensagem acerca do Reino Vindouro
A mensagem dos profetas é, enfim, uma mensagem acerca do Rei vindouro
e o reino vindouro.

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Um Reino Universal
Isaías, em particular, esboça a dimensão universal deste reino, pois nós o
vemos espalhado até os confins da terra e incluindo pessoas de todas as
tribos e nações. “Nos últimos dias, acontecerá que o monte da Casa do Se-
nhor será estabelecido no cimo dos montes e se elevará sobre os outeiros, e
para ele afluirão todos os povos. Irão muitas nações e dirão: Vinde, e suba-
mos ao monte do Senhor e à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine os
seus caminhos, e andemos pelas suas veredas” (2.2-3). O convite para se
unir é dado a todos os povos: “Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os
limites da terra; porque eu sou Deus, e não há outro. Por mim mesmo tenho
jurado... Diante de mim se dobrará todo joelho, e jurará toda língua” (Is
45.22-23).

Continuidade com o Passado


O reino universal futuro é retratado em figuras do passado. Os profetas
falam de uma nova criação (Is 65.17; 66.22), um novo êxodo (Os 2.14-15; Is
40.3; 41.17-19; 43.16-17; 48.21; 52.12; Jr 23.7-8; 31.2-3), uma nova alian-
ça (Jr 31.31-34), um novo Davi (Is 11.1; Jr 23.5; Ez 34.23-24; 37.24-25), e
uma nova Jerusalém (Is 62; 65.18-25). O significado homilético deste retrato é
que há continuidade entre os atos de Deus no passado e seus atos no futuro. O
reino futuro é vindo não em algum império supra-histórico, mas dentro de nossa
história e em nosso mundo. “Os profetas visavam o estabelecimento do reino
de Deus na terra – contudo, sobre a terra transformada pelo poder de Deus.
Haverá continuidade entre ‘a coisa nova’ e ‘as primeiras coisas’ que Deus tinha
feito aqui na terra.”21 Conseqüentemente, essas proclamações acerca do futuro
distante têm relevância imediata para o povo de Deus antes, assim como agora.
Pois ela está dentro do horizonte humano que Deus realizará sua redenção – um
horizonte distante, talvez, mas ainda assim nosso horizonte.

O Rei Vindouro
Uma figura central no reino vindouro é o Rei vindouro. Com freqüência,
Deus é um alguém que vem em julgamento e salvação. Mas os profetas também
descrevem uma outra figura que estabelecerá este reino universal: “[meu servo]
Não desanimará, nem se quebrará até que ponha na terra o direito; e as terras
do mar aguardarão a sua doutrina” (Is 42.4). Embora os profetas pareçam
evitar o título de “Rei” para essa figura – provavelmente porque os reis em
Jerusalém “estavam agora emancipados de Yahweh e procedendo como go-

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vernantes independentes”22 – não há dúvida de que eles buscavam um Ungido,
um Messias, um governante como o Rei Davi, apenas mais poderoso.
As profecias que apontam para o Messias vindouro geralmente são classifi-
cadas como “messiânicas”. É óbvio que muitas profecias se referem indireta-
mente à era messiânica vindoura, e ao Dia do Senhor. Contudo, “somente quan-
do o Messias está claramente em vista, ou quando o reino messiânico é descri-
to, a profecia deveria ser chamada de messiânica. Caso contrário surge uma
grande confusão”.23 Mesmo naquele sentido restrito, a profecia messiânica
mostra uma grande extensão de razões e de detalhes.

Stephen Winward fornece um resumo sucinto.


Haverá um novo Davi no reino vindouro. Como o filho de Jessé, ele
seria originário de Belém, e nele repousaria o Espírito do Senhor
com seus diversos dons (Mq 5.2; Is 11.1-2). Ostentando os títulos de
nobreza: “Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade,
Príncipe da Paz”, do trono de Davi ele governará sobre um extenso
domínio com juízo e justiça (Is 9.6,7). Isaías o chama de “Deus
conosco”, e Jeremias, “O Senhor é nossa justiça” (Is 7.14; Jr 23.6).
Nos oráculos exílicos e pós-exílicos, ele é retratado como o bom
pastor e o rei humilde (Ez 34.23; Zc 9.9). De acordo com o profeta
anônimo do exílio, a salvação dentro da história seria realizada por
meio do Servo do Senhor. Apesar de rejeitado pelos homens, condu-
zido como um cordeiro para a matança, ressuscitado dos mortos e
altamente exaltado, através de seus sofrimentos vicários ele ganha-
ria salvação para as nações (Is 52.13 até 53.12).24

Quando se prega numa passagem messiânica, a tendência pode ser traçar uma
linha direta da profecia até Jesus no Novo Testamento. Mas, este atalho não faz
justiça à revelação histórica. As profecias messiânicas não podem ser isentadas
da interpretação histórica, não mais do que outros tipos de profecia. Uma vez que
as profecias messiânicas também foram endereçadas, antes de tudo, à pessoas
específicas no passado, devemos ouvir estas profecias, em primeiro lugar, da
maneira que estas pessoas as ouviram. Por exemplo, uma passagem acerca do
Servo do Senhor não deveria ser lida imediatamente como referindo-se a Cris-
to, pois em seu contexto original ela poderia referir-se à nação de Israel (e.g.,
Is 41.8; 44.21), ou ao remanescente justo que devia “tornar a trazer Jacó”
para Deus (e.g., Is 49.5), ou para o Servo Sofredor (Is 53). A interpretação
histórica sozinha pode determinar como o conceito é usado numa passagem
particular e qual o seu significado para Israel. Somente após seu significado
passado ter sido determinado pode-se mover legitimamente e com maior com-
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preensão, para seu cumprimento no Novo Testamento. Ou tome a bem co-
nhecida passagem messiânica, “Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal:
eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel” (Is
7.14). Antes de nos deslocarmos dessa passagem para o seu cumprimento no
Novo Testamento (Mt 1.23), deveríamos buscar compreendê-la em seu pró-
prio contexto histórico em Isaías, como um sinal para o rei Acaz. Ignorar a
interpretação histórica por causa da proclamação messiânica imediata falha
em fazer justiça à forma que o Senhor deu sua revelação historicamente: pri-
meiro o sinal para Acaz, então à Israel e finalmente o sinal para a Igreja do
Novo Testamento. Na profecia messiânica também deveríamos tentar desco-
brir sua importância histórica original e, daquele ponto inicial, buscar um pre-
enchimento da profecia até seu cumprimento total.

Cumprimento Progressivo
Muitas profecias do Antigo e do Novo Testamento, acerca do futuro e de
seu cumprimento, nos acostumaram a esperar um cumprimento gradual de
um evento predito: “ela deve ser cumprida por Deus, como o foi, para seu
conteúdo total.”25 Desta forma podemos ver progressão nas Escrituras em
termos dos detalhes da profecia – “A revelação posterior, muitas vezes, reve-
la elementos omitidos desde a revelação antiga”26 – e em termos do cumpri-
mento da profecia. Em relação a isso, William LaSor faz uma distinção útil
entre a profecia bíblica e a simples predição de eventos futuros. Em contraste
com a simples predição, ele sugere que a profecia “é uma revelação do pro-
pósito de Deus na presente situação e em caráter contínuo... Profecia, no
sentido que ela revela alguma parte do propósito redentivo de Deus, é pas-
sível de ser cumprida, de realizar um cumprimento, para que, quando ela
for totalmente cumprida, ela seja completa. Se compreendermos a pro-
fecia neste sentido, nós já não faremos a pergunta: ‘a profecia é passível de
mais de um cumprimento?’ Ela é capaz de mais e mais cumprimentos até
que ela seja totalmente cumprida”.27

CARACTERÍSTICAS LITERÁRIAS DA LITERATURA PROFÉTICA

A tarefa dos pregadores hoje, contudo, é mais do que reproclamação das


profecias faladas originalmente, pois essas profecias estão agora embutidas no
contexto literário de um livro e do cânon. As profecias faladas foram escritas
pelos próprios profetas (Is 8.16; 30.8), por um secretário (Jr 36.4, 32), ou
pelos discípulos dos profetas. Subseqüentemente, estas profecias escritas fo-

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ram colecionadas e, com freqüência, combinadas com narrativas autobiográfi-
cas, biográficas e outras narrativas explicativas e comentários. Por meio de um
processo complexo que já não podemos traçar, as profecias faladas, eventual-
mente, se tornaram a literatura que encontramos em nossas Bíblias hoje. Deve-
mos, primeiro, examinar a estrutura literária dos livros proféticos e, então, olhar
algumas das formas e das ferramentas retóricas usadas na literatura profética.

A Estrutura dos Livros Proféticos


Qualquer um que leia os profetas posteriores logo descobrirá e ficará frus-
trado pela falta de uma estrutura cronológica. Isto não quer dizer que os livros
proféticos não possuem estrutura alguma, mas somente que eles têm uma estru-
tura diferente da que poderíamos esperar na literatura ocidental e até mesmo,
em alguma medida, da narrativa hebraica.

Estrutura Cronológica
A falta generalizada de estrutura cronológica é devida, em parte, à origem
profética desses livros. Comentando Jeremias, Anderson escreve: “Nós deve-
ríamos perceber desde o princípio que não estamos lidando com um ‘livro’ no
sentido moderno, mas com uma antologia... A literatura profética é altamente
composta e carrega os traços de uma história complicada.”28 Alguns livros,
como Amós e Oséias, são compilações de “oráculos entregues em épocas dife-
rentes e reunidos em sua atual disposição pelo próprio profeta ou por seus
discípulos. Em conseqüência, os mesmos temas proféticos são muitas vezes
repetidos, com variações de situação para situação”.29 Mas outros livros reve-
lam uma estrutura cronológica. De acordo com von Rad, “Ezequiel é o primeiro
a nos dar o benefício de uma organização, de acordo com uma cronologia
baseada no tempo no qual os oráculos foram entregues”.30 Da mesma forma,
os livros de Ageu e Zacarias mostram desenvolvimento cronológico.

Estrutura Tópica
Os livros proféticos também exibem uma certa quantidade de organização por
assunto tópico. Esse arranjo tópico varia de pequenas unidades que contêm ações
simbólicas (Ez 4–5), visões (Am 7–9) ou oráculos, compartilhando “a mesma
abertura ou fórmulas concludentes” (Am 5.19–6.7; Is 5.8-24), para seções mai-
ores que reúnem oráculos, por exemplo, contra nações estrangeiras (Is 13–23; Jr
46–51; Ez 25–32).31 As compilações mais comuns são oráculos de julgamento
contra Israel e oráculos de salvação. De fato, a seqüência de oráculos – oráculos

290
PREGANDO LITERATURA PROFÉTICA
de julgamento seguidos por oráculos de salvação – forma um padrão abrangente
que estrutura muitos livros proféticos. Brevard Childs nota que esse padrão “se
estende aos três profetas mais importantes (Isaías, Jeremias e Ezequiel), assim
como a muitos dos livros menores (Oséias, Amós, Miquéias, Sofonias, Ageu,
Zacarias). O efeito é que a grande variedade de material profético tem sido orga-
nizado dentro de um esquema unificado, que funciona no fim como uma mensa-
gem de salvação”.32 Esse padrão de julgamento e de salvação também pode ser
observado dentro de subdivisões de certos livros.33 A implicação hermenêutica
óbvia desse padrão é que as profecias de julgamento faladas devem ser agora
lidas no contexto literário de salvação prometida.

Formas na Literatura Profética


Prosa e Poesia
Em distinção à prosa predominante na narrativa hebraica, a literatura pro-
fética é, em sua maior parte, poesia. Von Rad observa com respeito aos Pro-
fetas Posteriores: “Embora existam exceções, a própria forma de falar dos
profetas está, via de regra, em poesia: isso quer dizer que é um discurso
caracterizado por ritmo e paralelismo. Em contraste, passagens nas quais elas
não são narradoras de si mesmas, mas são os sujeitos da informação, estão
em prosa.”34 James West observa que “somente cinco desses livros (Oba-
dias, Miquéias, Naum, Habacuque e Sofonias) são traçados na forma poéti-
ca”, enquanto “o restante contém alguma quantidade de material em prosa:
discursos em prosa, narrativas autobiográficas ou biográficas e divagações
históricas”.35 A mistura de prosa e poesia nos Profetas Posteriores está obvi-
amente relacionada à mistura de narrativa e de discurso. Embora a narrativa
seja escrita em prosa,36 os discursos proféticos respondem pela poesia. Isto
não quer dizer que todos os discursos proféticos são poesia (para discursos
em prosa veja, e.g., Jr 7.1–8.3; 17.19-27; 18.1-12), nem que a distinção
entre prosa e poesia seja sempre aparente (compare a ARC e a ARA em Jr
11.15-16; 23.5-6; 31.31-34). Na verdade, já que a diferença entre poesia
hebraica e prosa quase não é clara, como a diferença entre a poesia e a prosa
inglesa, a distinção entre poesia e prosa bíblica é o sujeito de intenso debate
erudito e, desde o The Idea of Biblical Poetry [A Idéia de Poesia Bíblica],
de James Kugel, é um pouco difícil de compreender.37 Mas, em geral, pode-
mos dizer que os discursos proféticos estão, em sua maioria, na forma de
poesia.

291
O PREGADOR MODERNO E O TEXTO ANTIGO
Assim como as razões pelas quais os profetas usaram uma forma em vez de
outra, Robert Alter observa que a prosa parece ter sido preferida “na maioria das
situações onde o vetor do discurso era Deus para o profeta, em vez de Deus por
meio do profeta para o povo”.38 A poesia, contudo, parece ter sido preferida
para o discurso profético para o povo. Ela foi preferida não somente porque fazia
“o discurso público mais enfático e – literaria e figurativamente – mais memorá-
vel”, mas também pelo fato de que o profeta falava para Deus. “Uma vez que a
poesia é nosso melhor modelo humano de comunicação complexamente rica, não
somente solene, grave e enérgica, mas também densamente elaborada, com liga-
ções internas complexas, significados e implicações, faz sentido que o discurso
divino fosse representado pela poesia.”39 Em comparação com outras poesias
bíblicas, a poesia profética não é “notavelmente distinguida” na “forma e na técni-
ca básica”, diz Norman Gottwald. Contudo, o que distingue a poesia profética de
outra poesia é “sua formulação em direção à situações específicas. A ‘situação de
vida’ profética era o momento de crises sociais, políticas e religiosas quando os
homens devem decidir os destinos das pessoas e das nações”.40

Relatos, Discursos e Orações


Desde o estudo de Claus Westermann, em 1960: Basic Forms of Prophetic
Speech [Formas Básicas do Discurso Profético], a maioria dos críticos da
forma fazem distinção entre três formas mais importantes nos profetas poste-
riores: (1) relatos ou descrições, em geral na forma de narrativas acerca dos
profetas; (2) discursos proféticos, “as palavras de Deus entregues por um
mensageiro de Deus”; e (3) orações, “formas de expressão direcionadas do
homem para Deus”. Westermann nota que “estas três formas mais importan-
tes são confirmadas como os elementos básicos da tradição nos livros profé-
ticos em que eles representam ao tempo – e isto certamente não é uma casu-
alidade – as formas básicas de três partes do cânon: o relato é a forma básica
dos livros históricos, discursos para Deus na forma de lamento e adoração é
a forma básica do Saltério”. Não é de surpreender que os discursos proféti-
cos sejam “os principais componentes da maioria dos livros proféticos”. 41
Poderíamos adicionar que os discursos proféticos são típicos do gênero pro-
fético; sem discurso profético não há gênero profético. Uma vez que já discu-
timos narrativas (“relatos”) no capítulo 9º, e uma vez que os discursos profé-
ticos são típicos do gênero profético, neste capítulo iremos nos concentrar
nos discursos.

292
PREGANDO LITERATURA PROFÉTICA
Várias Formas Literárias
Nas proclamações de suas mensagens, os profetas usavam uma grande va-
riedade de formas literárias. “Há hinos fúnebres (Amós 5.1) e parodias do mes-
mo (Is 14.4-21). Há séries de ‘ais’ (Is 5.8ss.), que provavelmente também
tinham sua origem nas práticas fúnebres. Há discursos similares a procedimen-
tos legais (Mq 6.1ss.). Há parábolas (Is 5.1-7), dizeres de sabedoria (Am 3.3ss.)
e citações da Torá (Is 1.16-17).”42 Há oráculos proféticos, lamentos, diálogos,
hinos cúlticos e muito mais. Deveremos olhar mais de perto algumas das formas
mais proeminentes.
Os profetas, é óbvio, adaptaram formas de muitas áreas diferentes da vida,
mas uma forma é característica da profecia: o oráculo profético ou proclama-
ção. Não somente esta é, como von Rad afirma, “a forma que os profetas
usavam mais freqüentemente do que qualquer outra para entregar suas mensa-
gens”, mas também, como Wolff observa: “os profetas mostram que eles são
mensageiros de Yahweh quando fazem uso dessa categoria como a forma bási-
ca do que eles dizem.”43
Contudo, os críticos da forma não concordam inteiramente sobre os com-
ponentes dessa forma profética principal. Wolff declara: “Na categoria de pro-
clamação de há duas características: ela é introduzida pela fórmula: ‘Assim diz o
Senhor’ (e às vezes concluída com ‘diz o Senhor’), e Yahweh sempre fala na
primeira pessoa.”44 Mas, von Rad insiste que antes que se possa falar da cate-
goria literária de “oráculo profético”, a fórmula da mensagem “assim diz o Se-
nhor” deve ser precedida por um prefácio que dá “a primeira designação preci-
sa daqueles para quem ela foi planejada”.45 Entretanto, Gowan fala de “um
discurso de duas partes, uma proclamação acompanhada por uma razão”.46
Parece que o oráculo profético pode ser identificado por vários elementos,
sendo os mais importantes: (1) uma afirmação da razão para a ação de Yahweh,
(2) a fórmula da mensagem, e (3) a proclamação da ação de Yahweh. A ordem
destes elementos pode variar. Por exemplo, Amós 1.3-5 mostra a seguinte se-
qüência:
Assim diz o Senhor: (3a) Fórmula da mensagem
“Por três transgressões de Damasco... (3b) A razão
Por isso, meterei fogo... (4) O anúncio da ação de Yahweh

Também parece que não podemos insistir na presença de todos os três ele-
mentos, antes de reconhecer um oráculo profético, porque ocorrem exemplos
onde somente dois elementos revelam um oráculo profético. Por exemplo, Isaías
8.6-8 omite a fórmula de mensagem central “assim diz o Senhor”, mas mesmo

293
O PREGADOR MODERNO E O TEXTO ANTIGO
assim dois elementos (o terceiro está implícito no v. 5) são claramente um orá-
culo profético:

“Em vista de este povo ter desprezado... (6) A razão


eis que o Senhor fará vir sobre eles... ” (7) O anúncio da ação de Yahweh

Portanto, na identificação da forma do oráculo profético, não podemos insistir


numa seqüência específica de elementos ou na presença dos três elementos. Des-
sa forma, também devemos conceder aos profetas a flexibilidade que, tão pron-
tamente, lhes concedemos no seu uso de outras formas.
O oráculo profético consiste de dois tipos básicos: o discurso de juízo pro-
fético e o discurso de salvação profética, que têm sido, cada um por sua vez,
dividido em dois subtipos.47 Note também que o oráculo profético é capaz de
incorporar várias outras formas.48 Devemos olhar em duas dessas outras for-
mas: o processo pactual e o hino fúnebre.
Às vezes os profetas proclamam o julgamento de Deus tomando empresta-
do a linguagem legal das cortes. Essa forma, conhecida como o processo
pactual, era adaptada de forma ideal para acusar a nação do seu pecado e
anunciar o veredicto de Deus.
Por exemplo, em Miquéias 6.1-2 Yahweh convoca seu povo para o tri-
bunal:
Ouvi, agora, o que diz o Senhor:
Levanta-te, defende a tua causa perante os montes,
e ouçam os outeiros a tua voz.
Ouvi, montes, a controvérsia do Senhor,
e vós, duráveis fundamentos da terra,
porque o Senhor tem controvérsia com o seu povo
e com Israel entrará em juízo.

Então se segue a acusação de Yahweh:


“Povo meu, que te tenho feito?
E com que te enfadei?
Responde-me!”

Esta acusação é seguida pelo argumento de defesa (vs. 6-7) e a acusação


(v. 8; cf. Os 4.1-17; Is 3.13-26).49
Uma outra forma efetiva era a do hino fúnebre. Essa forma era bem apro-
priada para chocar o despreocupado Israel, para que tomasse consciência de
sua posição precária diante de Deus e do mundo. Por exemplo, Amós (5.1-2)

294
PREGANDO LITERATURA PROFÉTICA
“canta um hino fúnebre sobre Israel. Esta pequena lamentação (qinah) aparece
numa métrica-qinah 3-2, e imita os hinos que os pranteadores usavam no cená-
rio de morte:
Caiu a virgem de Israel,
nunca mais tornará a levantar-se;
estendida está na sua terra,
e não há quem a levante.50

No estudo de muitas formas na literatura profética, duas coisas


devem ser mantidas em mente. Primeira, como von Rad chama a aten-
ção, a forma “nunca é alguma coisa externa, preocupada com o estilo
literário somente... o que determinava a escolha da forma era, em pri-
meiro lugar, o tema da mensagem”.51 Segunda, a atenção aos detalhes
da forma não deveriam nos cegar para o foco teocêntrico da profecia e
de suas formas.
Elizabeth Achtemeier mostra a variabilidade de forma e de constância do
foco teológico dos profetas:

Essa forma [de oráculo profético] sofre grandes variações nos profe-
tas maiores e é quase dissipado em Ezequiel, mas a ênfase sobre a
atividade de Deus permanece, e é apresentada em todos os gêneros
principais de literatura profética. Se a forma é a de oráculo de des-
graça pronunciado sobre o morto (Is 5.8-10), procedimento legal (Is
41.21-24), parábola (Is 5.1-7), hino fúnebre de lamentação (Jr 9.17-
22), Torá profético ou ensino (Is 1.10-17), oráculo de salvação (Jr
35-18, 19), oráculo sacerdotal de salvação (Is 41.8-13), ou alegoria
(Ez 17.1-21), a referência principal é a de atividade de Deus entre
seu povo ou entre as nações como um todo e, na verdade, nenhum
sermão da literatura profética lida com aqueles oráculos, a não ser
que trate daquela dinâmica da atividade de Yahweh.52

Estruturas Retóricas
Como os profetas, em seus discursos, podem usar várias formas, e formas
dentro de formas, assim eles podem usar estruturas retóricas, e estruturas retó-
ricas dentro de estruturas. Às vezes, as estruturas retóricas, como inclusão e
quiasmo, incluem as formas,53 e às vezes essas estruturas, em especial a repeti-
ção e o paralelismo, funcionam dentro de formas.

295
O PREGADOR MODERNO E O TEXTO ANTIGO
A discussão da narrativa hebraica (veja o capítulo 9º) aplica-se também às nar-
rativas encontradas nos profetas posteriores. Também aqui encontramos cenas,
caracterizações, diálogos, enredos, narradores, assim como estruturas retóricas.54
Não precisamos repetir aquela discussão aqui, mas nos concentraremos, em vez
disso, nas estruturas retóricas dos discursos dos profetas.
Como observamos anteriormente, os discursos dos profetas consistem
de prosa e de poesia, mas em especial de poesia. Notamos que a diferença
entre as duas não é tão fácil de descrever, como a diferença entre a prosa e
a poesia inglesa. Essa dificuldade está relacionada ao fato de que a prosa
hebraica, por causa de seu uso artístico de estruturas retóricas, tende a
formar uma continuidade com a poesia, onde encontramos essas mesmas
estruturas retóricas, se bem que de forma mais condensada e em quantida-
des maiores. Uma diferença chave entre poesia e prosa é o paralelo delica-
damente equilibrado entre verso e verso. Alter fala do paralelismo de sig-
nificado como “um modo da essência, formal no qual o poeta se sentia
livre para modificar ou, ocasionalmente, abandonar completamente”.55 De
acordo com Norman Gottwald: “A característica formal fundamental da
poesia canônica é a correspondência de pensamento nos versos sucessi-
vos, conhecido como paralelismo de membros. O pensamento pode ser
repetido, contrastado ou avançado; ele pode ser figurativo, em forma de
escada, ou invertido. O paralelismo pode estar dentro de linhas ou entre as
linhas.”56 Com os discursos dos profetas, portanto, particularmente aque-
les escritos em poesia, deveríamos discernir as formas principais de para-
lelismo além de outras estruturas retóricas, como repetição, inclusão e
quiasmo. Olharemos brevemente em cada um deles.
Paralelismo Sinonímico
Uma forma comum de paralelismo é o paralelismo sinonímico, o qual
“afirma o mesmo pensamento em sucessivas linhas métricas [versos]”.57
Por exemplo, os dois versos de Isaías 45.11b dizem quase a mesma coisa:
Quereis dar ordens acerca de meus filhos
e acerca das obras de minhas mãos?

Contudo, o paralelismo sinonímico faz mais do que o nome sugere; ele não
diz só a mesma coisa de novo, mas a diz de uma forma diferente e, conseqüen-
temente, com um significado diferente. Alter faz uma observação válida de que
“a expressão literária abomina o paralelismo completo, assim como a linguagem
resiste à verdadeira sinonímia, o hábito sempre introduz pequenas cunhas de
diferença entre termos exatamente parecidos”. Ele sugere que “o padrão pre-

296
PREGANDO LITERATURA PROFÉTICA
dominante da poesia bíblica é mover de um termo padrão no primeiro versículo
para um termo mais literário ou pretensioso no segundo versículo”. “O movi-
mento característico de significado é um dos inten-sificadores ou da intensifica-
ção..., de focalização, de especificação, de concretização e até mesmo do que
poderia ser chamado de dramatização... A regra mestre... é que o termo geral
ocorre no primeiro versículo e um exemplo mais específico da categoria geral
no segundo versículo.”58 Por exemplo, Isaías 45.12 duas vezes mostra este
movimento do geral para o específico:
Eu fiz a terra
e criei nela o homem;
as minhas mãos estenderam os céus,
e a todos os seus exércitos dei as minhas ordens.

Paralelismo Invertido
O paralelismo invertido é parecido com o paralelismo sinonímico,
mas inverte os elementos na segunda linha métrica para que o padrão
mude de ABAB para ABBA. Por exemplo, Isaías 2.3c mostra o paralelis-
mo invertido:
porque de Sião sairá a lei,
e a palavra do Senhor, de Jerusalém.

Com respeito ao relacionamento entre paralelismo invertido e quiasmo,


veja a discussão abaixo sobre quiasmo.

Paralelismo Antitético
“O paralelismo antitético equilibra as linhas métricas [versos] por meio
da oposição ou do contraste de pensamento.”59 Ele não ocorre freqüente-
mente nos profetas, mas há alguns exemplos, como Isaías 1.16b-17a:
cessai de fazer o mal.
Aprendei a fazer o bem

Isaías 1.3 mostra uma combinação interessante com seus quatro versos:
O boi conhece o seu possuidor,
e o jumento, o dono da sua manjedoura;
mas Israel não tem conhecimento,
o meu povo não entende.

297
O PREGADOR MODERNO E O TEXTO ANTIGO
Os primeiros dois versos, assim como os últimos dois, exibem paralelismo
sinonímico (chamado “paralelismo sinonímico interno”, porque ele ocorre entre
dois versos). O relacionamento entre os dois primeiros versos e os últimos dois
mostra o paralelismo antitético (chamado “paralelismo entitético externo”), ob-
serva Wolff, “as alternativas aguçam a percepção do indivíduo”.60

Paralelismo Sintético
O paralelismo sintético, finalmente, “compara as linhas métricas [versos] nas
quais o segundo elemento desenvolve o pensamento do primeiro”.61 Oséias
5.14 conduz a exibição de pelo menos três tipos de paralelismo nos quatro
versos:
Porque para Efraim serei como um leão
e como um leãozinho, para a casa de Judá;
eu, eu mesmo, os despedaçarei e ir-me-ei embora;
arrebatá-los-ei, e não haverá quem os livre.

Os versos um e dois estão na forma de paralelismo sinonímico. Os


primeiros dois versos e os dois últimos formam o paralelismo sintético;
“a linguagem figurativa nas duas primeiras linhas é explicada nos dois
seguintes”. E, finalmente, os versos três e quatro demonstram “o parale-
lismo climático: a última linha resume o pensamento da terceira e a leva
adiante”.62

Repetição
Assim como a repetição é a chave para o descobrimento das estruturas
retóricas na narrativa hebraica, assim ela o é na literatura profética. Como
vimos no capítulo 9º, a repetição pode funcionar em vários níveis, como
palavras-chave, proposição, tema e uma seqüência de ações. Na literatura
profética encontramos a mesma extensão de repetição. Por exemplo, Amós
(1.3–2.5) antecede seu oráculo contra Israel com sete oráculos que possu-
em a mesma estrutura:
Fórmula da mensagem “Assim diz o Senhor”
A razão “Por três transgressões...”
Proclamação da ação de Yahweh “Por isso, meterei fogo...”
Fórmula final da mensagem “... diz o Senhor”.

298
PREGANDO LITERATURA PROFÉTICA
Uma vez que essa é a forma de oráculo profético, também podemos dizer
que essa é uma repetição sétupla daquela forma particular, embora a repetição
ainda ocorra nos detalhes dentro de cada uma das sete formas. Contudo, até
mesmo essa repetição detalhada não somente diz a mesma coisa repetidamen-
te, mas mostra progressão nas diferenças. Por exemplo, os oráculos giram ao
redor de Israel – Damasco, Gaza, Tiro – e aproximam-se cada vez mais, em
termos de laços familiares – Edom, Amom, Moabe, Judá –, até o próprio Israel
ser confrontado. Além disso, enquanto as outras nações são condenadas por
ignorar vários direitos humanos, como geralmente se percebia, Judá é conde-
nado por rejeitar “a lei do Senhor”. Mas, o impacto geral é o do julgamento –
uma impressão deixada pela repetição sétupla do mesmo tema antes do profeta
se voltar para Israel.

Inclusão
O exemplo de Amós mostra também como a repetição pode ser usada para
inclusão (inclusio): a introdução “assim diz o Senhor” é de novo citada no “diz
o Senhor”, produzindo assim um fechamento. Aqui a inclusão serve para mar-
car os limites de cada unidade, enquanto que a repetição das palavras também
reitera que esta é uma mensagem do próprio Yahweh. Um outro exemplo de
inclusão é encontrado no oráculo contra Tiro em Ezequiel 26.15-18:
Assim diz o Senhor Deus a Tiro: Não tremerão as terras do mar com o
estrondo da tua queda?...
Agora, estremecerão as ilhas no dia da tua queda; as ilhas, que estão no
mar, turbar-se-ão com tua saída.

Aqui, de novo, a inclusão marca os limites da unidade e a repetição de ilhas


tremendo e estremecendo contribui para a repetição interna de estremecimen-
to para denotar o prospecto terrível do julgamento do Senhor sobre Tiro.
Jack Lundbom vê a inclusão funcionando em três termos: o do livro como um
todo (“Palavras de Jeremias” [1.1] e “Até aqui as palavras de Jeremias” [51.64];
o dos discursos como um todo (poemas); e o de unidades (estrofes) dentro dos
discursos. Infelizmente, muitas das inclusões são perdidas no padrão das tradu-
ções para o português. Ele também argumenta que “nem todas as inclusões o são
mesmo. A maioria consiste de vocabulário repetido ou da fraseologia no início e
fim de uma unidade. Mas, é necessário somente que o fim mostre continuidade
com o início, e que esta continuidade seja tomada como uma tentativa deliberada
do autor para efetuar o encerramento”.63 É claro que a falta de vocabulário repe-
tido adiciona uma maior incerteza para a identificação de inclusão.

299
O PREGADOR MODERNO E O TEXTO ANTIGO
Quiasmo
Nos capítulos 3º e 9º ficamos inteirados com o quiasmo. O quiasmo e o
paralelismo invertido geralmente são identificáveis, mas é útil distingui-
los. Todos os quiasmos são formas de paralelismo invertido, mas nem todo
paralelismo invertido é um quiasmo, pois além de mostrar o paralelismo inverti-
do, o verdadeiro quiasmo revela o foco, o ponto essencial de uma passagem.
Qual, por exemplo, é a estrutura de Jeremias 2.9?
Portanto, ainda pleitearei convosco,...
e até com os filhos de vossos filhos pleitearei.

Enquanto alguns rotulam a estrutura desse verso de “quiasmo”, é mais preciso


chamá-lo de “paralelismo invertido” já que lhe falta “centralidade climática”.64
Os quiasmos podem marcar os limites de unidades, grandes ou pequenas, e
revelam o foco central delas. Alguns exemplos dos profetas serão suficientes.
Amós 5.10-13 exibe as seguintes estruturas quiásticas, que focalizam a passa-
gem sobre o julgamento da opulência.65
A Aborreceis na porta ao que vos repreende
e abominais o que fala sinceramente.
B Portanto, visto que pisais o pobre
e dele exigis tributo de trigo,
C não habitareis nas casas de pedras lavradas que tendes edificado;
nem bebereis do vinho das vides desejáveis que tendes plantado.
Porque sei serem muitas as vossas transgressões
e graves os vossos pecados;
B’ afligis o justo, tomais suborno
e rejeitais os necessitados na porta.
A’ Portanto, o que for prudente guardará, então, silêncio,
porque é tempo mau.

Um outro bom exemplo de quiasmo é encontrado na oração de Jonas.


Essa estrutura quiástica estabelece os limites da unidade literária (1.17–
2.10; Mt 2.1-11) e os focaliza na incursão de Jonas e na redenção de Yah-
weh ao traze-lo do “abismo”. A estrutura também salienta a ênfase teocêntrica
por toda a parte.
1.17-2.1 A Yahweh ordena que um grande peixe engula Jonas
2.2 B A oração de Jonas do Sheol: um lamento
2.3-4 C Embora afastado da presença de Yahweh, Jonas
continua a olhar para o “templo santo” dele.

300
PREGANDO LITERATURA PROFÉTICA
2.5-6b D A descida de Jonas até os “fundamentos dos montes”
2.6c D’ Yahweh faz Jonas subir “da sepultura”
2.7 C’ Embora sua alma “desfalecesse” dentro dele, Jonas conti-
nuava a voltar-se para Yahweh em seu “santo templo”.
2.8-9 B’ A oração de Jonas no templo de Yahweh: uma ação de graças
2.10 A’ Sob a palavra de Yahweh o peixe vomita Jonas em terra seca.66

A repetição, a inclusão e o quiasmo servem à várias funções nos discursos


proféticos. Lundbom resume concisamente: “As estruturas alertam a audiência
para aonde a pregação está indo, funcionando às vezes para recolocar o foco,
outras vezes para dar uma ênfase necessária – seja no meio ou no fim. No caso
de quiasmos, a variação às vezes é necessária quando o discurso se baseia em
grande parte sobre a repetição. E, para os ouvintes, a inclusão e o quiasmo são
ferramentas mnemônicas auxiliando-os na retenção.”67

DIRETRIZES PARA PREGAÇÃO NA LITERATURA PROFÉTICA

Nesta seção final, integraremos aos resultados de nossa investigação na profe-


cia bíblica com os capítulos gerais sobre interpretação e pregação. Na busca por
diretrizes específicas para a pregação de literatura profética, seguiremos o pro-
cesso de preparação de sermão passo a passo, partindo da seleção do texto,
para a interpretação integral, depois para a formulação do tema e deste para a
determinação da forma e daí, para a pregação relevante.

Texto
Escolha do Texto
Para a literatura profética, assim como para qualquer outro gênero, deve-
se ser cuidadoso para escolher um texto de pregação que seja uma unida-
de. Os pregadores podem ser tentados a isolar uma declaração profética
expressiva para certas ocasiões, mas esta declaração funciona biblicamen-
te em seu próprio contexto histórico e literário. Quando há uma deficiên-
cia no orçamento da igreja, por exemplo, não se vai simplesmente isolar
Malaquias 3.10a, “trazei todos os dízimos”, para persuadir os membros da
igreja a cumprir suas obrigações financeiras, pois o texto fala de trazer os
dízimos à “casa do tesouro” e de comida ao templo e de pessoas que ti-
nham se afastado completamente de Deus. Porque a palavra profética foi
falada numa situação específica e para ela, deve-se resistir à tentação de
isolar o discurso profético de seu contexto histórico, sem mencionar o isola-
mento de um fragmento de discurso profético de seu contexto literário.

301
O PREGADOR MODERNO E O TEXTO ANTIGO
Como vimos, a literatura profética é distintiva em mostrar, em quase toda
parte, seu caráter oral original. Os oráculos proféticos são freqüentemente in-
troduzidos pelas datas em que eles foram recebidos pela primeira vez, ou da-
dos por outra informação histórica. Kurt Frör argumenta que, na pregação dos
profetas, um texto de pregação proveitoso consiste não somente dos oráculos
proféticos, mas da perícope em que a palavra está unida com a situação histó-
rica singular, em que ela foi falada originalmente.68 É claro que nem todos os
oráculos proféticos foram registrados com seu contexto histórico, mas onde
quer que datas e situações históricas estejam presentes no contexto literário
imediato, é bom incluí-las no texto de pregação. Com referências históricas no
próprio texto de pregação, a interpretação histórica – que é necessária de qual-
quer forma – fluirá do texto de pregação e se ligará a ele.
O texto de pregação dever ser também uma unidade literária. Von Rad salien-
ta a razão para essa exigência quando nota: “Adicionar um verso da unidade que
segue, ou omitir um que pertence propriamente ao espaço de um oráculo, pode
alterar todo o significado.”69 Em outras palavras, a escolha errada do texto pode
desencaminhar o sermão desde o início, porque o conduzirá à interpretação erra-
da. Conseqüentemente, é boa política estudar a passagem com cuidado para
com formas e estruturas literárias. Formas como o oráculo profético, processo
pactual e hino fúnebre mostram, muitas vezes, os limites originais da unidade. As
estruturas retóricas tais como inclusão e quiasmo, sinalizam para a audiência ori-
ginal o fim de uma unidade ao retornar para seu início. A terminação de uma série
de repetições poderia ter o mesmo efeito. Os pregadores hoje podem fazer bom
uso desses indícios originais para detectar uma unidade literária.
Contudo, uma unidade literária não é necessariamente um texto de pregação
completo. Conforme notamos acima, o texto de pregação deveria se estender,
se possível, além da unidade literária de um oráculo profético para incluir o
contexto histórico. Num estilo parecido, John Willis adverte acerca de se isolar
as unidades de um diálogo. “As palavras de dois ou mais locutores, numa situa-
ção de diálogo, não deveriam ser isoladas em perícopes separadas, ainda que
elas contenham uma unidade de pensamento completo em si mesmas (como,
e.g., as palavras das pessoas em [Jr] 3.22b-25; 14.7-9,19-22). Em vez disso,
a perícope inclui tudo dentro do diálogo.”70 A preocupação aqui é evitar a
distorção da subseqüente interpretação e pregar selecionando-se um texto que
tenha somente um foco limitado ou um ângulo restrito ou uma idéia não bíblica.
O texto de pregação deveria ser de tamanho suficiente para abranger a mensa-
gem normativa central. Se este se torna comprido demais para a cobertura
adequada, uma seção menor pode ser selecionada, contanto que ela seja cen-
tral e, subseqüentemente, interpretada em seu contexto maior.

302
PREGANDO LITERATURA PROFÉTICA
Interpretação Literária
Uma vez que o texto tenha sido escolhido, ele deve ser interpretado inte-
gralmente, ou seja, em todos os seus aspectos e dimensões. Alguns falam de
“análise gramático-histórico-contextual”. Mickelsen explica esses três adjeti-
vos como segue: o indivíduo “deve compreender o significado das palavras e
o relacionamento exato que elas têm uma com a outra. Ele deveria conhecer
o contexto histórico do profeta e do povo para quem o profeta ministra. Tam-
bém observar o contexto que precede a passagem e o contexto que segue a
passagem”.71 A interpretação integral procura fazer tudo isso e mais. Deverí-
amos tentar obter uma idéia de toda a figura examinando, por sua vez, a
interpretação teológica, a histórica e a literária, conforme ela se aplica espe-
cificamente à literatura profética.

O Significado das Palavras


Na interpretação literária nossa primeira preocupação é com as palavras e o
significado delas em suas combinações específicas no texto. Já que muito da
literatura profética é poesia, deve-se ter uma observação cuidadosa dos vários
tipos de paralelismo e como eles são usados para reforçar, esclarecer e ampliar
o significado da passagem.

Metáfora
Figuras de linguagem estão em evidência na literatura profética. Os profetas
exibem uma predileção particular pela metáfora. A metáfora tem o poder de
nos fazer ver a realidade de novas maneiras, de ângulos diferentes e surpreen-
dentes. Por exemplo, Wolff observa que “somente Oséias, em várias passa-
gens, chama Yahweh de marido de Israel, amante, noivo, pai, médico, pastor,
passarinheiro e até mesmo de leão, leopardo, urso, chuva serôdia, cipreste,
traça e podridão”.72 Se este sumário dá uma idéia da extensão das metáforas
proféticas, deve-se observar também que os profetas, freqüentemente, se con-
centram numa metáfora, nutrindo-a, ampliando-a de várias formas. “Uma figu-
ra, ou um bando de figuras, intimamente relacionadas, tendem a governar uma
seqüência de várias linhas. Para Leitwörter, palavras-chave, são sustentadas
como uma forma de tornar claramente compreendidas as ênfases do poema...
Uma concentração de palavras quase sinônimas é disposta sobre uma passa-
gem inteira.”73
Como um exemplo de tal concentração sobre uma metáfora em particular,
consideremos as profecias de Ezequiel contra Tiro. Sua primeira metáfora para

303
O PREGADOR MODERNO E O TEXTO ANTIGO
Tiro é a figura da “rocha”, a qual não somente descreve a localização de Tiro
fora da costa, mas é também o significado do nome. “Chamar a cidade de
‘rocha’ é falar metaforicamente, apelar para a identidade da cidade, as qualida-
des do chão sobre o qual ela foi construída”, escreve Carol Newsom. “‘‘Ro-
cha’ forma o filtro através do qual o caráter e a existência da cidade são perce-
bidos.” Mas, esta percepção de solidez e segurança é logo despedaçada quan-
do o Senhor anuncia seu julgamento sobre a “rocha”: “eu varrerei o seu pó, e
farei dela penha descalvada. No meio do mar, virá a ser um enxugadouro de
redes” (Ez 26.4b-5a.). No próximo capítulo, Ezequiel muda a metáfora para
um navio: Tiro é um lindo navio, que foi construído com cuidado, rico por causa
de sua habilidade de negociar. “Após a longa e demorada descrição da cons-
trução do navio e sua tripulação, Ezequiel apenas leva o navio para o mar e o
afunda num versículo simples e repentino (v. 26). Imediatamente a sensação de
fragilidade do navio domina as conotações para o ouvinte. O esquema metafó-
rico através do qual os leitores estavam organizando suas idéias a respeito da
riqueza e do poder de Tiro é, por si só, reordenado para que se entenda que
Tiro é vulnerável à súbita destruição, apesar da perfeição de seu poder”.74 Este
exemplo demonstra não somente como os profetas usavam metáfora, mas tam-
bém como a interpretação literária e histórica caminham juntas, mesmo na inter-
pretação de metáforas, pois alguém que não está inteirado do fato de que Tiro
era um centro de comércio rico e seguro, sobre uma ilha rochosa fora da costa
fenícia, dificilmente, poderia entender a força da metáfora.

Hipérbole
Os profetas também faziam uso efetivo da afirmação exagerada, conhecida
como hipérbole. Wolff diz que “a hipérbole tem ainda mais impacto” do que a
metáfora porque “sua intensificação dramática... força o ouvinte a reconhecer o
veredicto de culpado”. Por exemplo, Amós (4.1) chama as mulheres ricas de
Samaria de “vacas de Basã”, retratando-as como “gado escolhido sendo en-
gordado para o mercado, esmagando insensivelmente (i.e., opressão), e sua
sede por bebida forte”.75

Formas e Estruturas
Além de prestar atenção às várias figuras de linguagem, na interpretação
literária deve-se buscar por várias formas que possam dar um indício para o
significado. Contudo, é preciso relembrar que os profetas às vezes usam for-
mas antigas para comunicar novos significados (i.e., o hino fúnebre como uma
canção de menosprezo, Isaías 14.4-15). O reconhecimento de estruturas retó-

304
PREGANDO LITERATURA PROFÉTICA
ricas é também útil no discernimento da verdade de uma passagem; a repetição
pode ser um bom indício para o coração da passagem, e a estrutura quiástica
também mostrará a preocupação central dela.

Contexto Literário e Histórico


A interpretação literária investiga profundamente o significado da passagem
em seu contexto literário. Uma passagem deve ser compreendida primeiro em
seu contexto literário imediato, mas, em última instância, no contexto do livro e do
cânon. Neste ponto, contudo, os eruditos discordam. Por um lado, von Rad, por
causa de sua ênfase no entendimento tradicional-histórico, tira a ênfase do con-
texto literário presente na profecia: “Cada logion [dito ou expressão não registra-
da, mas conservadas pela tradição oral] era, para aqueles a quem ele fora ende-
reçado, a palavra de Yahweh... Tudo o que temos são as várias palavras individu-
ais nas quais, sobre cada ocasião específica, a palavra de Yahweh era proclama-
da de forma diferente.”76 Por outro lado, Childs, por causa de sua ênfase sobre a
compreensão canônica, praticamente elimina o contexto histórico original: “Acei-
tar que os profetas só podem ser compreendidos, se cada oráculo for relaciona-
do a um evento histórico específico ou localizado em seu ambiente cultural original
é introduzir uma grande confusão hermenêutica dentro da disciplina e tornar a
compreensão das Escrituras canônicas praticamente impossível.”77 Ele argumen-
ta que, “no processo de transmissão, a tradição, que uma vez surgiu num ambien-
te particular e se dirigia à várias situações históricas, foi formada de maneira que
serve como uma expressão normativa da vontade de Deus para as gerações
posteriores de Israel, que não tinham parte naqueles eventos históricos originais.
Em suma, os oráculos proféticos que foram direcionados para uma geração fo-
ram adaptados dentro da Sagrada Escritura por um processo canônico para ser
usado por uma outra geração”. Nesse caso, por exemplo, Childs entende a mu-
dança em Amós, do julgamento nos capítulos 1º–8º para a promessa de salvação
no capítulo 9º, não como uma razão para “distinguir entre oráculos genuínos e não
genuínos”, não como uma tentativa de suavizar a mensagem ríspida de Amós, mas
para “confirmar a verdade da profecia original de Amós e encerrá-la dentro de
uma perspectiva teológica mais ampla da vontade divina, que inclui esperança e
redenção final”.78
Contudo, não acho que as opções de interpretação estritamente histórica ou
interpretação literária canônica sejam um verdadeiro dilema. Parece-me que po-
demos reconhecer a importância da interpretação histórica de cada oráculo pro-
fético enquanto reconhecemos, ao mesmo tempo, que o contexto literário canô-
nico adicionou uma nova dimensão para sua interpretação. Em outras palavras,
em vez de entender a interpretação histórica e a canônica como pólos opostos, eu

305
O PREGADOR MODERNO E O TEXTO ANTIGO
entendo o último como um extensão do primeiro. Esta saída pela tangente não
resolve todos os problemas, como veremos na formulação do tema abaixo, mas,
pelo menos, ela nos permite fazer justiça ao contexto literário, assim como ao
contexto histórico do texto.

Interpretação Histórica
Na interpretação histórica tenta-se ouvir a mensagem da mesma forma
que os receptores originais a ouviam.

Profecias Datadas
Uma vez que a literatura profética claramente mostra que a maior parte de suas
profecias foram faladas em situações históricas específicas, não se pode ignorar a
interpretação histórica e ainda ter uma interpretação válida. Stephen Winward expli-
ca: “A revelação foi para os contemporâneos do profeta que a receberam; ela foi
comunicada nas formas de pensamento e de linguagem deles, relacionada à neces-
sidade deles, relevante para a situação em que eles viviam. Esse é o porquê de
sempre ser necessário olhar para uma mensagem dada contra o pano de fundo da
situação histórica em que ela foi entregue. Somente quando estudada em seu con-
texto original pode-se compreender qualquer mensagem corretamente, e ser corre-
tamente re-aplicada para as circunstâncias mudadas de nosso próprio tempo.”79
É claro que algumas profecias carecem de referências históricas específicas,
e, desta forma, sua interpretação histórica necessitará ser contra um pano de
fundo mais geral, tal como o Israel pré-exílio ou pós-exílio. Entretanto, outras
profecias têm sido datadas com cuidado, geralmente na sobreinscrição do livro
(e.g., Amós 1.1), mas também dentro do livro. Na verdade, as quatro profecias
de Ageu são datadas até no dia: em nosso calendário, 29 de agosto de 520; 17
de outubro de 520 e duas em 18 de dezembro de 520 a.C. Essas datas, assim
como as referências mais gerais, capacitam-nos a localizar o oráculo original
em seu contexto histórico e a compreendê-lo de forma adequada.

O Propósito do Autor
Na interpretação histórica pode-se, também, fazer as perguntas iniciais acerca
do propósito do autor. Por que o profeta falou da forma que o fez? A que proble-
mas ele respondia? Que questão ele procura responder para seus receptores?
Seu propósito imediato era ensinar, reprovar, corrigir, confortar, predizer eventos
futuros? Estas questões devem ser mantidas em mente ainda quando se conside-
ra, subseqüentemente, a passagem em seus contextos literários mais amplos.

306
PREGANDO LITERATURA PROFÉTICA
Teológica
Interpretação Teológica
A interpretação teológica nos lembra que a preocupação primária da Escritura
é nos familiarizar com Deus, sua palavra, sua vontade e seus atos.

Interpretação Teocêntrica
Na literatura profética, a ênfase teocêntrica é tão evidente que é difícil ignorá-
la. Contudo, esta característica central pode ser negligenciada na ocupação de
preparação do sermão e atenção aos detalhes. Conseqüentemente, a interpreta-
ção teológica serve a uma função útil, ela relembra o pregador da preocupação
central dos profetas – a preocupação de revelar Deus atuando na História com o
propósito de restabelecer seu reino sobre a terra.
Às vezes esta verdade central é negligenciada, porque os pregadores con-
centram-se na pessoa do profeta. Se sermões biográficos e sobre personagens
são recomendados para a narrativa histórica, eu suponho que os profetas são
animais de caça também, já que a própria literatura profética se opõe a qual-
quer uso semelhante dos profetas. Von Rad observa que a leitura da literatura
profética, com uma visão para os “detalhes biográficos, introduz nessas históri-
as um ponto de vista que é estranho a elas mesmas. Até mesmo a idéia de
‘personalidades proféticas’, que tão prontamente vêem à nossa mente, está
muito longe de ser o que as próprias fontes nos oferecem... certamente pode-
mos sentir que as fontes são opostas a qualquer tentativa de descrever as ‘vi-
das’ dos profetas. Tivesse o escritor de Amós 7.10ss. tido qualquer intenção de
fornecer informação acerca da própria vida de Amós, ele nunca teria terminado
seu relato como o fez, e teria falhado em informar ao leitor se o profeta concor-
dou ou não com a ordem de deportação”.80 Os profetas são descritos resumi-
damente só como office boys, como mensageiros do Senhor, para fornecer um
pano de fundo para a mensagem deles, pois as mensagens são o foco central.
Mesmo quando o foco, em algumas ocasiões, muda para o próprio profeta,
por exemplo: Jeremias em seu sofrimento ou Oséias e seu casamento, a con-
centração sobre o profeta não é por causa dele, mas por causa da mensagem
que está sendo proclamada por meio da vida e do seu sofrimento.

Predições e Cumprimentos
A verdade teocêntrica da literatura profética também pode ser negligenciada
quando os pregadores se tornam demasiadamente absorvidos em análises detalha-
das de predições e cumprimentos. É claro, quando os profetas profetizam a respei-

307
O PREGADOR MODERNO E O TEXTO ANTIGO
to aos eventos futuros, deve-se considerar a questão de cumprimento, mas não ao
custo de negligenciar a relevância dessa palavra para os seus ouvintes imediatos .
Algumas das questões que precisam ser levantadas, quando a passagem fala dos
eventos futuros, são as seguintes: a profecia era condicional ou incondicional? Se ela
era condicional, aquela condição era satisfeita, a saber, pelo arrependimento, para
que a profecia não precisasse ser cumprida? Se a condição não era para ser satis-
feita ou se a profecia era incondicional, foi ela cumprida nos tempos do Antigo
Testamento?81
As profecias a respeito da queda de Samaria e Israel foram cumpridas em
721 a.C. e a respeito da queda de Jerusalém e de Judá em 587 a.C. As profe-
cias a respeito da restauração da terra prometida foram cumpridas nos sucessi-
vos retornos para a terra de 538 a.C. em diante. Estes cumprimentos não que-
rem dizer que essas profecias, a respeito do julgamento e da restauração, estão
agora concluídas e já não falam hoje. Pelo contrário, quando se entende a rea-
lização como um cumprimento gradual, então os julgamentos de 721 e 587
a.C., de fato, são estágios maiores no processo de realização, mas no contexto
do Novo Testamento podemos ver estágios posteriores: o julgamento que caiu
sobre o Servo sofredor, Jesus Cristo, e finalmente o julgamento final, quando os
ímpios serão expulsos da terra (Ap 20.15). E o retorno para a terra da promes-
sa em 538 a.C., de fato, foi um estágio importante no cumprimento das profe-
cias a respeito da restauração da terra, mas à luz do Novo Testamento pode-
mos ver estágios posteriores: os mansos “herdarão a terra”, disse Jesus (Mt
5.5), e Apocalipse 21 mostra o cumprimento final da restauração da terra, quando
veremos o povo de Deus gozar da shalom (paz) sobre a terra renovada.82
Dessa forma, a relevância e a perspectiva escatológica das profecias antigas
também são válidas para nós hoje – tenham estas profecias sido parcialmente
cumpridas no passado ou, como algumas da profecias a respeito da nova cria-
ção (Is 65–66), esperem elas seu total cumprimento no futuro.

Profecias Messiânicas
Quando as profecias do Antigo Testamento são entendidas no contexto do
Novo Testamento, muitas revelarão seu cumprimento em Jesus Cristo. É claro
que os próprios escritores do Novo Testamento, freqüentemente, explicam a pessoa
e ações de Jesus como cumprimento da profecia do Antigo Testamento. De fato,
Pedro (1Pe 1.11) escreve que foi o Espírito do próprio Cristo que iluminou os
profetas: eles investigavam “com atenção qual a ocasião ou quais as circunstân-
cias oportunas, indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava, ao dar de
antemão testemunho sobre os sofrimentos referentes a Cristo e sobre as glórias
que os seguiriam”. E Paulo escreve em 2 Coríntios 1.20: “Porque quantas são as

308
PREGANDO LITERATURA PROFÉTICA
promessas de Deus, tantas têm nele o sim [o Filho de Deus, Jesus Cristo].” Em
conseqüência, os intérpretes perdem o coração da profecia quando eles falham
em ligá-la a Jesus Cristo.
As profecias messiânicas, por definição, encontram seu cumprimento em
Jesus Cristo. No nascimento de Jesus, Mateus percebe o cumprimento de
Isaías 7.14: “Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a virgem
conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel.” No local de nasci-
mento de Jesus, Mateus percebe o cumprimento de Miquéias 5.2: “E tu,
Belém-Efrata,... de ti me sairá o que há de reinar em Israel.” Outras profeci-
as, tais como as passagens do Servo em Isaías, são mais gerais, mas também
podem ser diretamente relacionadas ao nascimento, vida, morte e ressurrei-
ção de Jesus. Uma vez que as profecias messiânicas encontram seu cumpri-
mento em Jesus, esta ligação deveria, de fato, ser feita no sermão.
Todavia, quando se prega na profecia do Antigo Testamento, não se de-
veria mover rápido demais para o Novo Testamento. Para alguns pregado-
res, traçar uma linha até Jesus no Novo Testamento é o coração da pregação
cristocêntrica, mas é preciso fazer a pergunta: o que se conclui pelo simples
traçar de uma linha até Jesus? Essa linha edifica a congregação? Tome, por
exemplo, um sermão sobre uma passagem de Isaías a respeito do Servo so-
fredor. No interesse de pregar um sermão cristocêntrico, muitos tendem a
mover-se depressa do Servo Sofredor em Isaías para o Servo Sofredor no
Novo Testamento. Mas, o que se ganha com essa mudança rápida para o
Novo Testamento? Se o texto é do Antigo Testamento, com certeza, deve-se
descobrir a profundidade da profecia do Antigo Testamento – à luz do Novo
Testamento – antes de se fazer a mudança para o Novo Testamento. John Bright
comenta sobre as passagens do Servo:

Por mais que o Servo seja retratado, mesmo quando concebido como o
Redentor vindouro, a missão do Servo sempre é colocada diante de Isra-
el como seu chamado e destino. Não é suficiente descrever o Servo; o
chamado anuncia: ‘Quem há entre vós que tema ao Senhor e que ouça a
voz do seu Servo?’ (50.10). Israel deve ser o povo do Servo; somente
então ele será o povo de Deus. Assim como o Servo, à semelhança dos
profetas, proclama a justiça de Deus para o mundo, assim deve fazer
Israel; como o Servo, à semelhança dos sacerdotes, media a salvação de
Deus para os homens por meio de seu sofrimento, assim deve fazer Israel.
Como o Servo ganha a vitória e o Reino através de seu sacrifício, assim Israel
não deve conhecer nenhum outro caminho real.83

309
O PREGADOR MODERNO E O TEXTO ANTIGO
Com esse tipo de exposição, a linha para Cristo não somente se torna muito
mais significante, mas a relevância da passagem para a igreja é exposta no que o
Novo Testamento mostra que a Igreja, hoje, é Serva de Deus no mundo.

Formulação do Tema
Tema
A formulação do tema da profecia na forma de uma declaração, virá
com muita naturalidade, uma vez que a profecia sempre afirma algo. A
formulação precisa do tema do sermão é muito complicada, contudo, para
a profecia é preciso se levar em conta vários fatores.

Tema, Propósito e Contexto Literário


O tema do texto pode estar evidente, a saber, uma passagem de Amós
proclamando julgamento sobre Israel, mas o propósito do profeta em chamar a
nação ao arrependimento emite uma luz muito diferente sobre esse tema e esse
julgamento: a profecia é condicional. Esta é uma razão porque o tema do texto
não pode funcionar diretamente como o tema para um sermão contemporâneo.
Uma segunda razão repousa no fato de que esta profecia condicional de julga-
mento é agora parte de um livro que termina com uma profecia de salvação.
Esse contexto literário afeta a forma que o tema do texto deveria ser formula-
do? Tucker afirma: “Quando os discursos que foram entregues através dos
anos, sobre várias e diversas ocasiões, foram colecionados e então registrados,
foi lhes dado uma vida nova e diferente ...um discurso que, no original, servia a
um propósito pode servir a um propósito diferente no contexto do livro.”84 Não
é preciso que se concorde com a formulação extrema de Tucker para perceber
que o novo contexto literário pode mudar a verdade de uma passagem.

Dois Horizontes
Podemos ver o problema também do ponto de vista da audiência. Quando
desejamos ouvir a passagem como a audiência original a ouvia, que audiência
nós temos em mente? Aquela que ouvia a mensagem falada originalmente ou
aquela que ouviu ou leu a mensagem escrita? Em alguns casos a diferença pode
ser menor, mas no caso de Isaías, por exemplo, ela faz a diferença entre a
audiência pré-exílica e uma audiência exílica ou pós-exílica. Assim, antes da
formulação do tema do texto é preciso se levar em consideração dois horizon-
tes, o da audiência original e o dos receptores do livro.85 Via de regra, contudo,
a diferença será menor, e o tema da passagem no contexto do livro não será
mais do que uma extensão do tema original.

310
PREGANDO LITERATURA PROFÉTICA
O Tema do Sermão
Uma vez que o tema do texto tenha sido formulado em seu contexto literário,
aquele tema deveria ser traçado através das Escrituras por confirmações, analogias,
contrastes, cumprimentos, intensificações ou ampliações. Com essa informação, ele
deveria ser projetado para o horizonte da audiência contemporânea e, se necessá-
rio, ser alterado para funcionar como um tema de sermão que fala hoje como falava
originalmente, mas agora, no contexto de toda a Bíblia e numa nova situação. Um
esquema de passos envolvidos (1 a 6) pode ajudar a visualizar essa proposta para
a formulação do tema:

A Forma do Sermão
A forma do sermão deveria respeitar a forma do texto. Essa estipulação não
quer dizer que os sermões sobre passagens na forma de um hino fúnebre ou de
um processo deveriam copiar estas formas para as audiências contemporâneas,
mas isso quer dizer que os pregadores deveriam tentar transmitir para suas audi-
ências contemporâneas a disposição e os sentimentos originalmente evocados
por estas formas. Na liturgia, assim como no sermão, pode ser possível capturar
a tristeza de um hino fúnebre ou um lamento ou a atmosfera prosaica de um
processo ou a alegria de um oráculo de salvação ou de um hino de alegria (e.g., Is
44.23). Quando a profecia está em poesia, o sermão pode imitar o uso da profe-
cia de figuras concretas. Quando a profecia prolonga uma metáfora, o sermão
pode seguir o rumo e permitir à audiência participar nesta nova e, às vezes, sur-
preendente visão. Acima de tudo, um sermão sobre profecia exige uma forma
que, semelhante ao oráculo profético, dirija-se à audiência diretamente com a
ANTES AGORA
1 sermão
texto
6

2
contexto
do livro

5
tema do
3 tema do texto 4 contexto da Bíblia sermão

311
O PREGADOR MODERNO E O TEXTO ANTIGO
palavra do Senhor, que não deixe dúvida sobre quem quebrou as estipulações da
aliança com Deus e que resultados terríveis isso terá; mas também, uma forma
que seja capaz de transmitir a bondade graciosa de Deus e sua redenção final.

A Relevância do Sermão
A mensagem dos profetas, como temos percebido, era intensamente rele-
vante para sua audiência original, muitas vezes uma questão de vida ou de
morte. A mesma relevância deveria ser a marca oficial dos sermões sobre
profecia hoje. Contudo, os pregadores nunca podem perder de vista o fato de
que suas congregações não são o Israel pré-exílico, nem o pós-exílico, mas a
Igreja de Jesus Cristo no século 21. Desta forma, a lacuna histórico-cultural
faz sentir sua presença.

A Lacuna Histórico-Cultural
Na busca por um sermão relevante será grande a tentação de ignorar a lacuna
histórico-cultural traçando-se uma simples equação histórica; assim como Amós
condenou a injustiça de Israel, assim o pregador contemporâneo condena a injus-
tiça das nações contemporâneas. Mas não se pode apenas tomar a mensagem de
julgamento de Amós, transportá-la para o século 21 e por milhares de quilôme-
tros, e descarregá-la sobre as nações contemporâneas. Além de outras conside-
rações, o fato de que Israel era o povo especial de Deus impede esta identifica-
ção simplista entre o antes e o agora. Nas palavras de Elizabeth Achtemeier: “O
contexto do relacionamento pactual milita contra o traçar paralelos diretos entre a
vida de Israel, como uma nação, e a vida de qualquer Estado secular dos dias de
hoje.”86 Os pregadores devem aceitar as conseqüências da interpretação históri-
ca. Por exemplo, Isaías condenou a aliança de Judá com a Assíria (cap. 7) e mais
tarde sua aliança com o Egito (30.1-5; 31.1-3). “Ele opõe-se à confiança em tais
alianças e nas armas militares, nos termos mais fortes, apelando, em vez disso,
para a fé na ação protetora de Yahweh, como a base da política externa e da
defesa de Judá (cf. Is 30.15-17). O pregador que deseja aplicar esses oráculos
para as modernas questões internacionais, não deveria meramente retirá-los de
seu contexto histórico e impô-los, por bem ou por mal, sobre o século 21 como
princípios eternos. Eles não podem ser usados para dar sanção divina absoluta
para o pacifismo ou isolacionismo moderno.”87

312
PREGANDO LITERATURA PROFÉTICA
Analogias entre o Antes e o Agora
A questão, portanto, é como pregar de maneira tão relevante quanto os
profetas o fizeram, enquanto se faz justiça a situação histórica única deles e a
nossa. Parte da resposta repousa na busca de analogias adequadas entre o
antes e o agora. Deveríamos observar, antes de tudo, a analogia entre a audiên-
cia endereçada antes e a audiência de hoje: Israel e a Igreja de hoje são o povo
pactual de Deus. Além do mais, as exigências de Deus para com seu povo
pactual, de antes e de agora, são no geral as mesmas: amar ao Senhor seu Deus
e amar seu próximo. Dessa forma, também hoje o julgamento de Deus espera
por aqueles que ‘vendem o justo por dinheiro e condenam o necessitado por
causa de um par de sandálias’ (Amós 2.6), ou aqueles que usam a religião
como um pretexto para a avareza e a injustiça (cf. Is 1.10-17), ou que misturam
as idolatrias modernas (como a autojustificação) com o evangelho de Cristo
(cf. Os 13.2-4). Esses pecados são pecados na Nova Aliança, também.”88
Uma vez que hoje nos tornamos uma aldeia global, é totalmente legítimo traçar
analogias entre a condenação das pessoas em Israel, que se tornavam ricas às
custas do pobre, e nossos ricos hoje às custas do pobre das nações do Tercei-
ro Mundo. Os profetas expunham o pecado onde eles o viam. Ao mesmo tem-
po, eles anunciavam o perdão de Deus àqueles que se arrependiam, e este
perdão pode ser proclamado com convicção ainda maior, após a vinda de
Cristo, do que antes de sua morte e ressurreição.
A conexão principal entre o antes e o agora, contudo, repousa no Deus
pactual fiel que é o mesmo ontem, hoje e para sempre. Conforme observamos,
a mensagem dos profetas é fundamentalmente acerca de Deus e de suas ações
para restaurar seu reino na terra. Essa mensagem ainda é verdadeira hoje tam-
bém. De fato, os julgamentos de Deus do passado são uma lembrança sensata
para as pessoas de hoje, de que Deus é totalmente sério com relação à destrui-
ção do ímpio, e suas promessas de um futuro glorioso são tanto um farol de
esperança e encorajamento para os cristãos contemporâneos, como o foram
para os israelitas antigos.
○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○

Notas
1
Wolff, “Prophecy”, 15.
2
O significado original por ter sido passivo, “aquele chamado (por Deus)”, mas a utiliza-
ção subseqüente pode ter dado à palavra uma conotação ativa, “aquele chamando (para
Deus)”. Veja Johannes Schildenberger, “Prophet”, em Encyclopedia of Biblical Theology,
organizado por J. B. Bauer (Nova York: Crossroad, 1981), 716. Cf. LaSor, Hubbard, and
Bush, OT Survey, p. 289-299.

313
O PREGADOR MODERNO E O TEXTO ANTIGO
3
Mickelsen, Interpreting the Bible, 287.
4
Veja Boersma, Is the Bible a Jigsaw Puzzle...: An Evaluation of Hal Lindsey´s Writings.
5
Wolff, Confrontations, 35.
6
Mickelsen, Interpreting the Bible, 289. Cf. p. 292: “A profecia não pode ser história
escrita com antecedência porque Deus não revela elementos primários e secundários que
sejam essenciais, até mesmo, para uma figura histórica incompleta.”
7
Veja J. B. Payne, Encyclopedia of Biblical Prophecy, 137.
8
Berkhof, Principles of Biblical Interpretation, 150.
9
Mickelson, Interpreting the Bible, 295.
10
Ibid., 288; cf. p. 287: “A predição dos atos de Deus foi dada para um povo histórico em
particular, para animá-los e movimentá-los. Eles podem não ter compreendido todo o
significado da mensagem, mas ela – com a revelação de coisas futuras – foi dada para
influenciar a ação presente.”
11
Anderson, Understanding the OT, 227.
12
Tucker, Form Criticism of the OT, 62.
13
Gowan, Reclaiming the OT, 125, 126. Wolff semelhantemente afirma: “Em, absoluta-
mente, lugar algum se pode perceber que o profeta espera uma alteração de circunstância
por meio do arrependimento das pessoas, com base em suas acusações. O caso é o contrá-
rio” (“Prophecy”, 22).
14
Wolff, “Prophecy”, 22. Cf. Tucker, Form Criticism of the OT, 64.
15
Tucker, Form Criticism of the OT, 62, citando G. Fohrer, JBL 80 (1961), 318.
16
L. Dürr, citado em Schmidt, TDOT, III, 120, 121: “Nesse ponto, já aparece no AT, no
fim de seu desenvolvimento, o conceito da ‘palavra divina’, que procede da divindade,
mas opera de forma independente, movendo-se em silêncio e em segurança em seu curso,
uma parte da divindade, a portadora de poder divino, claramente distinta dela e ainda
assim pertencente a ela, uma hypostasis [essência] no real sentido da palavra.”
17
Cf. Schmidt, TDOT, III, 121: “No AT... dabhar não representa uma força personificada
que existe mais ou menos independente de Deus, uma ‘substância natural tangível’ [Dürr].”
18
Heschel, Prophets, II, 66. Cf. I, 174: “O pecado não é um beco sem saída, nem a culpa
é uma armadilha fatal. O pecado pode ser lavado pelo arrependimento e restituição, e
além da culpa está o alvorecer do perdão. A porta nunca está trancada, a ameaça de
condenação não é a última palavra.”
19
Anderson, Eight Century Prophets, 23.
20
Mickelsen, Interpreting the Bible, 288.
21
Winward, Guide to the Prophets, 33.
22
Von Rad, OT Theology, II, 172.
23
LaSor, Hubbard, e Bush, OT Survey, 397, 398.
24
Winward, Guide to the Prophets, 33.
25
A. Szeruda, Das Wort Jahwes, 24, conforme citado em Schmidt, TDOT, III, 115.

314
PREGANDO LITERATURA PROFÉTICA
26
Mickelsen, Interpreting the Bible, 292.
27
LaSor, TynBul 29 (1978), 55.
28
Anderson, Understanding the OT, 369.
29
Ibid., 284. Cf. Youg, Introduction to the OT, 249, sobre a falta de estrutura em Jeremias e a
repetição resultante. Mas veja a estrutura sugerida por Rosenberg, “Jeremiah”, 190, 191.
30
Von Rad, OT Theology, II, 33; cf. p. 221.
31
West, Introduction to the Bible, 235.
32
Childs, OT Theology, 238.
33
Por exemplo, Miquéias mostra este padrão em cada uma de suas subdivisões, sem
restrição de se ela está dividida em duas ou três partes. Veja LaSor, Hubbard e Bush, OT
Survey, 359, 360.
34
Von Rad, OT Theology, II, 33.
35
West, Introduction to the Bible, 234.
36
Tem-se sugerido que “os escritores hebreus antigos geralmente evitavam o verso narra-
tivo... por causa de suas associações com a mitologia pagã” (Alter, Art of Biblical Poetry,
28, referindo-se a S. Talmon).
37
Veja Kugel, Idea of Biblical Poetry, 59-95, especialmente pp. 82-84. Cf. Stek, “When
the Spirit Was Poetic”, 75, 76. Alter fala “da extensão desanimadora de discussão sobre
este tópico” (Art of Biblical Poetry, 4).
38
Alter, Art of Biblical Poetry, 138. A prosa também era preferida na “visão do oráculo,
como aquelas que tomam uma boa parte de Zacarias, ou como a visão da panela ao fogo
no início do livro de Jeremias (1.13-19)” (ibid., 137).
39
Ibid., 140, 141.
40
Gottwalld, IDB, III, 838. Cf. Alter, Art of Biblical Poetry, 139-40.
41
Westermann, Basic Forms, 90-92. Veja também Tucker, Form Criticism of the OT, 57-59;
e Gowan, Reclaiming the OT, 121.
42
Gowan, Reclaiming the OT, 122. Cf. von Rad, OT Theology, II, 38.
43
Von Rad, OT Theology, II, 37, com respeito à “formula mensageira”; Wolff, The OT, 76.
44
Wolff, The OT, 76.
45
Von Rad, OT Theology, II, 37.
46
Gowan, Reclaiming the OT, 123; cf. Achtemeier, “Preaching from Isaiah”, 120.
47
Sobre os “discursos de julgamento profético para indivíduos” e “proclamação de julga-
mento contra Israel”, veja Westermann, Basic Forms, 129-210; para o “oráculo de salva-
ção” e “proclamação de salvação”, veja, e.g. Merrill, BSac 144 (1987), 153-155.
48
Cf. Wolff, The OT, 76: “Com sua flexibilidade característica eles [os profetas] eram capa-
zes de incorporar nessa forma básica muitas outras categorias.”
49
Para uma análise mais detalhada desta forma de processo, veja, e.g., Merrill, BSac 144
(1987), 148-153.

315
O PREGADOR MODERNO E O TEXTO ANTIGO
50
Anderson, Understanding the OT, 275.
51
Von Rad, OT Theology, II, 39.
52
Achtemeier, “Preaching from Isaiah”, 120.
53
Veja Lundbom, Jeremiah, 113: “Temos visto que os discursos de Jeremias são controla-
dos não por estruturas de gêneros fixos, i.e., carta, processo, hino, lamento, discurso de
julgamento ou o seja o que for, mas por estruturas que foram ditadas pelos cânones da
retórica hebraica dos séculos 6º ao 8º a.C.”
54
Para um uso freqüente de diálogo em Jeremias, veja Willis, “Dialogue between Prophet
and Audience as a Rhetorical Device em the Book of Jeremiah”, JSOT 33 (1985), 63-82.
Habacuque, é claro, consiste principalmente de dois círculos de diálogo entre o profeta e
o Senhor. O diálogo é depois encontrado com visões (Am 7.7-9; Jr 1.11-14), na dialética
de afirmação-objeção-refutação (Ml 1.2-3, 3-6; 2.10-16, 17; 3.7, 8, 13), na forma de
processo (Mq 6.1-8), etc.
55
Alter, “Characteristics of Ancient Hebrew Poetry”, 612. Ao procurar formular a diferença
entre prosa e poesia adequadamente, Alter afirma: “Muitas destas profecias em prosa
fazem uso de estruturas semânticas-sintéticas, vagamente paralelas, que de longe recor-
dam o contexto de poesia, mas sem a solidez, o caráter rítmico forte e a regularidade do
equilíbrio semântico e o desenvolvimento que são observáveis no verso bíblico” (Art of
Biblical Poetry, 137). Cf. p. 138 sobre “a regularidade rítmica de afirmações equilibradas
que nós encontraremos na poesia profética característica”, e pp. 7-9 sobre o “paralelismo
semântico”, “paralelismo sintático” e “paralelismo de ênfases entre os versos”.
56
Gottwald, IDB, III, 829. Cf. p. 830: “O costume do poeta hebreu de comparar pensamento
contra pensamento, frase contra frase, palavra contra palavra, é uma característica persis-
tente de seu método de trabalho.”
57
Ibid., 831. Note que ocasionalmente mais do que dois “versos” compõem uma linha inteira.
58
Alter, Art of Biblical Poetry, 10, 13, 19; veja p. 22 para algumas exceções à regra. Cf.
idem, “Characteristics of Ancient Hebrew Poetry”, 615-620. Cf. também Muilenburg,
VTSup 1 (1953), 99.
59
Gottwald, IDB, III, 832.
60
Wolff, The OT, 71.
61
Gottwald, IDB, III, 832.
62
Wolff, The OT, 71.
63
Lundbom, Jeremiah, 16, 17. Com Oséias 8.9-13 como exemplo.
64
Para a primeira visão, veja Lundbom, Jeremiah, 62; cf. Gottwald, IDB, III, 833. Para a
última visão, veja, e.g., Dillard, JSOT 30 (1984), 86, que insiste que o quiasmo exibe não
somente repetição, inversão e equilíbrio, mas também “centralidade climática”.
65
Garrett, JETS 27/3 (1984), 275. Veja idem, JETS 28/3 (1985), 295-297 para a sugestão de
dois quiasmos entrelaçados cobrindo todo o livro de Joel.
66
Adaptado de Christensen, JBL 104/2 (1985), 226. Para outro exemplo, veja ibid., 230. Para
o delicado entrelaçamento de estruturas quiásticas dentro de um grande quiasmo, abran-

316
PREGANDO LITERATURA PROFÉTICA
gendo todo o livro de Jonas, veja idem, JETS 28/2 (1985), 133-140. Para um quiasmo
sugerido, estruturando todo o livro de Jeremias, veja Rosenberg, “Jeremiah”, 190-191.
67
Lundbom, Jeremiah, 114.
68
Frör, Biblische Hermeneutik, 227.
69
Von Rad, OT Theology, II, 39.
70
Willis, JSOT 33 (1985), 76.
71
Mickelsen, Interpreting the Bible, 299.
72
Wolff, The OT, 72.
73
Alter, Art of Biblical Poetry, 144.
74
Newsom, “Maker of Metaphors”, in Interpreting the Prophets, 192-194.
75
Wolff, The OT, 72.
76
Von Rad, OT Theology, II, 130. Cf. p. 299: “A mensagem de todo profeta era exatamente
direcionada para encontrar um tempo específico, e ela continha uma oferta que nunca era
repetida, em especial na mesma forma como ela tinha com o emissor original.”
77
Childs, Int 32 (1978) 53. Cf. sua Introduction, 337: “Especificamente em termos do Deutero-
Isaías, a forma final da literatura fornecia uma estrutura completamente nova e não-histó-
rica para a mensagem profética que separava a mensagem de sua ancoragem histórica
original e tornava-a acessível para todas as gerações futuras” (ênfase minha).
78
Childs, Int 32 (1978), 47, 49. Para mais exemplos, veja pp. 49-53.
79
Winward, Guide to the Prophets, 29.
80
Von Rad, OT Theology, II, 35; sobre Jeremias veja p. 206-208.
81
Cf. Ramm, Protestant Biblical Interpretation, 250-253.
82
Armeding, Dreams, Visions and Oracles, 71, adverte: “O significado pretendido pelo
autor deveria, inicialmente, controlar nossa investigação, para a qual se pode adicionar
a possível ampliação à luz de paralelos entre o Novo e o Antigo Testamento. Dessa
forma, para o cristão do Novo Testamento, há uma liberdade para se mudar de um tipo de
visão mecânica, uma a uma, que lê a profecia preditiva como somente uma série de
registros de diários escritos antes do evento, e também um sistema rígido demais de
interpretação que limita a imaginação e liberdade para se reconhecer as correspondências
e equivalências divinamente pretendidas.”
83
Bright, Kingdom of God, 151.
84
Tucker, Form Criticism of the OT, 70, 71.
85
Às vezes, na literatura profética deve-se levar em conta um terceiro horizonte, o dos
“relatados”, i.e., o grupo a quem o “narrador” se dirigiu diretamente. Os relatados podem
ser distinguidos da audiência original e dos receptores originais do livro, particularmente,
nas profecias contra as nações. Por exemplo, em Isaías 14.28-32 Isaías dirige um oráculo
diretamente à Filistía, mas o objetivo dele é os ouvidos e, mais tarde, os olhos de Judá.

317
O PREGADOR MODERNO E O TEXTO ANTIGO
Semelhantemente, em Naum o narrador se dirige aos ninivitas, enquanto suas observa-
ções visam aos judeus. Para a distinção entre autor, autor implícito e narrador, e entre leitor,
leitor implícito e relatado, veja Longman, Literary Approaches, 83-87.
86
Achtemeier, “Preaching from Isaiah”, 122.
87
Ibid., 124.
88
Fee e Stuart, How to Read the Bible, 163.

318