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Gramática e literatura em português I - aula 9

1. Resumo

Nesta aula, foi analisado o seguinte soneto de Camões:

Aquela triste e leda madrugada,


cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade,
quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada


saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se de uma outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,


que de uns e de outros olhos derivadas,
se acrescentaram em grande e largo rio;

Ela viu as palavras magoadas,


que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso às almas condenadas.

Em contraste com o soneto analisado anteriormente (“Transforma-se o amador na


cousa amada”), de caráter antes de tudo filosófico e especulativo, este se destaca pelo
lirismo: onde antes tínhamos conceitos, agora temos imagens; onde tínhamos ideias,
temos agora sentimentos. Igualmente, se o soneto anterior trabalhava a partir de uma
teorização, abstrata, este surge a partir de uma situação concreta e até posicionada no
tempo, mesmo que o poeta não nos diga exatamente que posição temporal é essa.

Nos dois primeiros versos, temos o já muito comentado recurso ao paradoxo e à


antítese, constantemente atribuído a Camões e outros poetas de seu período: a
madrugada é triste e alegre, carregada de mágoa, mas também de piedade. O recurso ao
paradoxo pode resultar da simples prática de virtuosismo retórico, sem ter maior
sentido em si. No entanto, um paradoxo pode ser mais que uma simples figura de
linguagem, um mero uso da língua para criar absurdo. Pode ocorrer de um aparente
absurdo guardar uma verdade complexa. Em que sentido é triste e leda a madrugada de
que fala Camões, por que leva ela ao mesmo tempo mágoa e piedade?

Os próximos versos do primeiro quarteto parecem nos oferecer uma chave para o
enigma: o poeta quer que esta madrugada seja celebrada (podemos entender,
“poetizada”, “cantada” e, portanto, eternizada) sempre que houver – saudade! A
saudade é, portanto, o elemento que constitui aquela madrugada em algo que merece
ser eternizada – é por isso que o poeta a canta. No primeiro quarteto temos, portanto, o
tema ou motivo do poema (uma madrugada específica), o objetivo pelo qual foi
composto (celebrar e eternizar tal madrugada) e o elemento que faz a madrugada
merecedora de ser eternizada (a saudade).

 
Se as sentenças e propósitos do primeiro quarteto nos parecem relativamente claros, o
segundo nos apresenta uma implacável complexidade de ideias e sintaxe. A primeira
grande dificuldade consiste em perceber que o pronome que inicia o quarteto,
acompanhado do advérbio “só”, só encontrará o término da oração a que se refere no
terceiro verso: a oração subordinada adverbial temporal “(…) quando amena e
marchetada saía,” acompanhada de sua irmã reduzida de gerúndio “dando ao mundo
claridade” se intercalam entre o sujeito “Ela só” e o predicado que se inicia com “viu
apartar-se(…)” e se conclui com o final do quarteto. A madrugada, portanto, é a única
testemunha de um fenômeno melancólico: uma vontade se separa de outra – podemos
entender, dois amantes se separam. Essa vontade, no entanto, nos diz a adjetiva
restritiva que conclui o quarteto, “nunca poderá ver-se apartada”. O amor que foi
interrompido pela separação dos amantes se eterniza na memória.

No primeiro terceto, mais uma referência à madrugada, com a mesma estrutura “ela
só”, querendo dizer, “somente ela” viu as lágrimas se derramando dos olhos de ambos
os amantes e se juntando em um grande e largo rio, que pode ser um rio metafórico,
composto pelas lágrimas de tantos amantes que se separaram em tantas outras
madrugadas, ou mesmo um rio concreto, aquele sobre o qual parte o navio em que se
encontra o poeta, dando adeus à sua amada em terra firme. No segundo terceto, que
conclui o poema, mais uma referência sensorial: a madrugada ouviu palavras
magoadas, que arrefecem o ardor do fogo e dão repouso a almas que sofrem.

Podemos, com isso, arriscar uma resposta à pergunta inicial: a madrugada é triste por
presenciar o sofrimento de amantes que se separam, mas leda por permitir que esse
mesmo sofrimento possa ser significado e cantado; cheia da mágoa da separação, mas
também da piedade por aqueles que, separando-se de seus amores, poderão encontrar
nos versos um repouso para sua dor, que é compreendida, compartilhada e, por fim,
como queria o poeta – celebrada!

2. Exercícios

1. No que toca ao conteúdo do poema, o que podemos dizer sobre sua divisão em
estrofes:
a. O tratamento do assunto acompanha perfeitamente a divisão do soneto
em quartetos e tercetos: nos quartetos, temos referências aos
sentimentos pessoais do poeta; nos tercetos, temos referências aos
sentimentos que são atribuídos à madrugada.
b. Não há uma divisão lógica aparente; todo o poema é composto de
sensações contraditórias que se misturam ao longo das estrofes sem que
haja uma relação visível entre elas.
c. No primeiro quarteto, o poeta introduz seu tema e a razão por que quer
vê-lo tratado em um poema; no segundo quarteto e nos tercetos, há
propriamente o “cantar”.
d. O primeiro quarteto traz o ponto de vista e os sentimentos do poeta; o
segundo quarteto, os de sua amada; os tercetos apresentam uma
reflexão sobre ambos.
e. Os quartetos apresentam uma descrição da madrugada, os tercetos
trazem reflexões sobre seu significado.

 
2. Ainda sobre a divisão estrófica, lembramos que, no soneto que se inicia com
“Transforma-se o amador na coisa amada”, o “mas” que abre o primeiro terceto
marca uma relação de contradição entre o que foi dito nos quartetos e o que será
dito nos tercetos. Que tipo de relação vemos entre o que vai dito nos quartetos e
nos tercetos do soneto aqui analisado?
a. Também de contradição, já que os tercetos apresentam uma lição
otimista, contrastando com o desespero apresentado nos quartetos.
b. De conclusão: é nos tercetos que o poeta explica por que disse, ao longo
dos dois quartetos, que quer que a madrugada seja sempre celebrada.
c. De continuidade: no primeiro quarteto, vemos o poeta enunciar o
objetivo do poema; no segundo quarteto e nos dois tercetos, o vemos
descrever em primeira pessoa seus próprios sentimentos relativos ao
que ocorreu naquela madrugada.
d. De continuidade e sequência, o segundo quarteto e os dois tercetos
apresentam sequencialmente uma série de situações que são
presenciadas pela madrugada, como reforça a repetição do pronome
“ela” no início dos versos que abrem cada uma dessas estrofes e que se
referem à “triste e leda madrugada” que abre a primeira estrofe.
e. De generalização: os quartetos se atêm a um episódio específico em que
se separam dois amantes; o que se diz nos tercetos é algo que se refere a
todos os amantes que se separam.
3. O verso “Viu apartar-se de uma outra vontade” tem uma sintaxe
particularmente complexa. Como podemos analisá-lo sintaticamente?
a. A dificuldade se deve ao fato de que o sujeito do verbo “apartar” está
oculto; devemos subentender, depois de “apartar-se” a presença do
sintagma [o amante], ou seja, a madrugada “viu [o amante] apartar-se
de uma outra vontade”, entenda-se, a vontade da amada de quem se
despede.
b. As expressões “de uma” e “outra” são sintagmas diferentes, com funções
sintáticas diferentes, a saber, objeto indireto (“de uma”) e sujeito
(“outra”); a oração desdobrada em ordem direta ficaria: “Viu outra
vontade apartar-se de uma.”
c. Há um desvio da sintaxe tradicional bastante incomum aí: o pronome “-
se” funciona como objeto direto e o sintagma “de uma outra vontade”
funciona como objeto indireto, ambos complementando o verbo
“apartar”; no entanto, não há sujeito para o mesmo verbo.
d. Trata-se de uma oração na voz passiva sintética (ou pronominal), tendo
o sintagma “uma outra vontade” como sujeito da oração e o pronome “-
se” como partícula apassivadora.
e. Não há sujeito nessa oração porque o verbo “apartar” é impessoal, ou
seja, jamais vem regido por um sujeito.
4. Qual a importância do sentimento de “saudade” para a dinâmica interna do
poema?
a. Como vimos, o poeta quer que a madrugada referida seja celebrada ao
longo dos tempos. A saudade é o sentimento que o motiva a desejar tal
celebração, ou seja, é devido à saudade que aquela madrugada toma uma
importância que deve ser eternizada.

 
b. O poeta declara, no primeiro quarteto, que escreveu o poema
inteiramente inspirado pela saudade que sente de sua amada.
c. A saudade é um dos sentimentos que surgem no poema, assim como a
mágoa, a piedade, a tristeza e a alegria, e não tem nenhuma importância
especial.
d. A importância se dá pelo fato do sentimento de saudade ser atribuído à
madrugada, ou seja, a madrugada sente saudades do amor que ela viu
nos dois amantes que se separavam.
e. “Saudade” é uma palavra que só existe na língua portuguesa; por isso,
sempre que aparece em um poema de língua portuguesa, adquire uma
importância singular.