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ESCOLA SECUNDÁRIA D.

SANCHO I
Português 11º ano
Ficha informativa

Cesário Verde

Características realistas:

 Supremacia do mundo externo, da materialidade dos objetos; impõe o real


concreto à sua poesia.

 Predomínio do cenário urbano (o favorito dos escritores realistas e naturalistas).


 Situa espácio-temporalmente as cenas apresentadas (ex: «Num Bairro Moderno»
- «dez horas da manhã»).
 Atenção ao pormenor, ao detalhe.
 A seleção temática: a dureza do trabalho («Cristalizações» e «Num Bairro
Moderno»); a doença e a injustiça social («Contrariedades»); a imoralidade das
«impuras», a desonestidade do «ratoneiro» e a «miséria do velho professor» em
«O Sentimento dum Ocidental».
 A presença do real histórico: a referência a Camões e o contexto sociopolítico em
«O Sentimento dum Ocidental».
 A linguagem burguesa, popular, coloquial, rica em termos concretos.
 Pelo facto da sua poesia ser estimulada pelo real, que inspira o poeta, que se deixa
absorver pelas formas materiais e concretas.

Características modernistas:

 «A poesia de Cesário Verde reflete a crise do naturalismo e o desencanto pela


estética realista. O poeta empenha-se no real, é certo, porém a instância da visão
subjetiva é marcante ao ponto de fazer vacilar a conceção de Cesário Verde como
poeta realista.» (Elisa Lopes). Mesmos nos textos mais frequentemente citados
como realistas, encontramos já um olhar subjetivo (porque seletivo), valorativo,
que se manifesta num impressionismo pictórico, pois mais do que a representação
do real importa a impressão do real, que suplanta o real objetivo. A realidade é
mediatizada pelo olhar do poeta, que recria, a partir do concreto, uma super-
realidade através da imaginação transfiguradora, metamorfoseando o real num
processo de reinvenção ou recontextualização precursora da estética surrealista.

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 Abre à poesia as portas da vida e assim traz o inestético, o vulgar, o feio, a


realidade trivial e quotidiana. A. C. Monteiro chama-lhe «o pendor subversivo».
 Forte componente sinestésica (cruzamento de várias sensações na apreensão do
real), de pendor impressionista, que valoriza a sensação em detrimento do objeto
real.
 Um certo interseccionismo entre planos diferentes, visualismo e memória, real e
imaginário, etc, (concretizado muitas vezes em hipálages sugestivas).

Características estilísticas:

 A estrutura narrativa dos seus poemas, em que encontramos ações protagonizadas


por agentes/atores (ex: «Deslumbramentos», «Cristalizações» e «Num Bairro
Moderno»).
 A estrutura deambulatória que configura uma poesia itinerante: a exploração do
espaço é feita através de sucessivas deambulações, numa perspetiva de câmara de
filmar, em que se vão fixando vários planos (ex: «Cristalizações», em que se
configuram vários planos, e «O Sentimento dum Ocidental», em que há um
fechamento cada vez maior dos cenários apreendidos pelo olhar). É uma espécie
de olhar itinerante e fragmentário, que reflete o passeio obsessivo pela cidade (e
também no campo em alguns poemas); uma poesia transeunte, errante. Exemplos
mais significativos são os poemas «Num Bairro Moderno», «O Sentimento dum
Ocidental», que definem a relação do poeta com a cidade.
 O olhar seletivo: a descrição/evocação do espaço é filtrada por um juízo de valor
transfigurador, profundamente sinestésico (ex: «Num Bairro Moderno»).
 O poeta é como um espelho em que vem repercutir-se a diversidade do mundo
citadino.
 O contraste luz/sombra: jogo lúdico de luz em que as imagens poéticas se
configuram em cintilações, descobrindo, presentificação e recriando a realidade
(ex: «O Sentimento dum Ocidental»). Tanto pode ser a luz do dia como a luz
artificial, como a luz metafórica que emana da visão da mulher. A incidência da
luz é uma forma de valorizar os objetos, entendendo-se a luz como princípio de
vida.
 Automatismo psíquico: associações desconexas de ideias, visível nas frases
curtas, na sequência de orações coordenadas assindéticas, que sugerem uma
acumulação, uma concatenação aleatória de ideias (ex: «Contrariedades», «O
Sentimento dum Ocidental).
 Adjetivação particularmente abundante e expressiva, com dupla e tripla
adjetivação, ao serviço de um impressionismo pictórico.
 Os substantivos presentificadores da realidade convocada, frequentemente em
enumeração, que sugere uma acumulação, um compósito de elementos,
característicos da construção pictórica.

Características temáticas:

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 Oposição cidade/campo, sendo a cidade um espaço de morte e o campo um espaço


de vida – valorização do natural em detrimento do artificial. O campo é visto como
um espaço de liberdade, do não isolamento; e a cidade como um espaço castrador,
opressor, símbolo da morte, da humilhação, da doença. A esta oposição associam-se
as oposições belo/feio, claro/escuro, força/fragilidade.

 Oposição passado/presente, em que o passado é visto como um tempo de harmonia


com a natureza, ao contrário de um presente contaminado pelos malefícios da cidade
(ex: «Nós»).

 A questão da inviabilidade do Amor na cidade.

 A humilhação (sentimental, estética, social).

 A preocupação com as injustiças sociais.

 O sentimento anti burguês.

 O perpétuo fluir do tempo, que só trará esperança para as gerações futuras.

 Presença obsessiva da figura feminina, vista:

→ negativamente, porque contaminada pela civilização urbana

- mulher opressora – mulher nórdica, fria, símbolo da eclosão do


desenvolvimento da cidade como fenómeno urbano, sinédoque da classe
social opressora e, por isso, geradora de um erotismo da humilhação (ex:
«Frígida», «Deslumbramentos» e «Esplêndida»), em que se reconhece a
influência de Baudelaire;

→ positivamente, porque relacionada com o campo, com os seus valores salutares

- - mulher anjo – visão angelical, reflexo de uma entidade divina, símbolo de


pureza campestre, com traços de uma beleza angelical, frequentemente com
os cabelos loiros, dotada de uma certa fragilidade («Em Petiz», «Nós», «De
Tarde» e «Setentrional») – também tem um efeito regenerador;

- mulher regeneradora – mulher frágil, pura, natural, simples, representa os


valores do campo na cidade, que regenera o sujeito poético e lhe estimula a
imaginação (ex: as figuras femininas de a «A Débil» e «Num Bairro
Moderno»);

- mulher oprimida – tísica, resignada, vítima da opressão social urbana,


humilhada, com a qual o sujeito poético se sente identificado ou por quem
nutre compaixão (ex: «Contrariedades»);

- mulher como sinédoque social – (ex: as «burguesinhas» e as varinas de «O


Sentimento dum Ocidental»

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como objeto do estímulo erótico

- mulher objeto – vista enquanto estímulo dos sentidos carnais, sensuais,


como impulso erótico (ex: atriz de «Cristalizações»).

Múltiplos olhares sobre a obra de Cesário Verde

Eduardo Lourenço

«O universo de Cesário não é um universo pensado, crítico, à maneira de Eça (...), é um


mundo sentido, palpado e ao mesmo tempo transcendido pelo sonho, que é desejo de um
lugar outro, de uma humanidade outra que inconscientemente o conforta na sua admiração
pela força, pela saúde e energia que a memória e o sangue lhe denegam.»

Jacinto do Prado Coelho

«Poeta do imediato, Cesário é também um poeta da memória...» (coletiva em «O


Sentimento dum Ocidental», pessoal em «Nós»)

Óscar Lopes

«É, porém, em «O Sentimento dum Ocidental» (...) que o poeta ultrapassa com maior
fôlego estrutural o seu naturalismo positivista, no mesmo momento em que parecia, aliás,
consumá-lo em poesia. (...) Cesário não se desprende da imanência aos dados da perceção
sensível, mas articula-o com um modo inteiramente novo, precursor do Cubismo ou
Interseccionismo.»

«Para Cesário, como depois para Pessoa, o eu, o tu, o nós, o tempo irreversível e as
dimensões reversíveis do espaço, as coisas mais simples constituem problemas e
despertam ânsias que a poesia apreende antes mesmo de se formularem em teoria.»

Luís Mourão

«... a sua poesia aparece, por isso, como um filtro por onde passa a cultura da «Geração
de 70» para o Modernismo. E que Cesário seja um personagem singular e sem escola, só

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mostra essa verdade «natural» de que entre o nascer e o morrer o mais difícil talvez seja
o espaço que vai de um ponto ao outro...

CESÁRIO VERDE

TEMÁTICAS

A cidade e o campo
 A natureza, ávida mas “honesta”, “salutar” e sempre jovem, aparece-nos pintada nos
seus poemas como nas evocações da pintura geral (“pinto quadros por letras, por sinais”)
– característica impressionista, porque é nas letras como um artista plástico.

 Identifica-se com a cidade presente, deambulando pelas ruas e becos; revive por
evocação da memória todo o passado e os seus dramas; acha sempre assuntos e sofre uma
opressão que lhe provoca um desejo “absurdo de sofrer”: ao anoitecer, ruas soturnas e
melancólicas, com sombras, bulício...; o enjoo, a perturbação, a monotonia (“Nas nossas
ruas, ao anoitecer,/ Há tal soturnidade, há tal melancolia,/ Que as sombras, o bulício do
Tejo, a maresia/ Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.” – Sentimento de um
ocidental)

 Do campo capta a vitalidade e a força telúrica; não canta o convencionalismo idílico,


mas a natureza, os pomares, as canseiras da família durante as colheitas.

 A cidade surge viva com homens vivos; mas nela há a doença, a dor, a miséria, o
grotesco, a beleza e a sua decomposição fatal... No campo há a saúde, o refúgio durante
a peste na cidade...

 “Ao nível pessoal, a cidade significa a ausência, a impossibilidade ou a perversão do


amor, e o campo a sua expressão idílica. Ao nível social, a cidade significa opressão, e o
campo a recusa da mesma e a possibilidade do exercício da liberdade.”

 No campo, a vida é ativa, saudável, natural e livre, por oposição à vida limitada,
reprimida e doentia na cidade. (“Que de fruta! E que fresca e temporã./ Nas duas boas
quintas bem muradas, /Em que o Sol, nos talhões e nas latadas,/ Bate de chapa, logo de
manhã” – Nós)

 As descrições de quadros e tipos citadinos retratando Lisboa em diversas


facetas e segundo ângulos de visão de personagens várias (Num Bairro Moderno;
Cristalizações; O Sentimento dum Ocidental).

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 A invasão simbólica da cidade pela vitalidade e pelo colorido saudável dos


produtos do campo (como por exemplo, a “giga” da “rota, pequenina, azafamada”
rapariga em Num Bairro Moderno).

Binómio cidade/campo
O contraste cidade/campo é um dos temas fundamentais da poesia de Cesário e revela-nos o seu
amor ao rústico e natural, que celebra por oposição a um certo repúdio da perversidade e dos
valores urbanos a que, no entanto, adere.

 A cidade personifica a ausência de amor e, consequentemente, de vida. Ela surge como uma
prisão que desperta no sujeito “um desejo absurdo de sofrer”. É um foco de infeções, de doença,
de MORTE. É um símbolo de opressão, de injustiça, de industrialização, e surge, por vezes, como
ponto de partida para evocações, divagações

 O campo, por oposição, aparece associado à vitalidade, à alegria do trabalho


produtivo e útil, nunca como fonte de devaneio sentimental. Aparece ligado à
fertilidade, à saúde, à liberdade, à VIDA. A força inspiradora de Cesário é a terra-mãe,
daí surgir o mito de Anteu, uma vez que a terra é força vital para Cesário. O poeta
encontra a energia perdida quando volta para o campo, anima-o, revitaliza-o, dá-lhe
saúde, tal como Anteu era invencível quando estava em contacto com a mãe-terra.

O campo é, para Cesário, uma realidade concreta, observada tão rigorosamente e descrita tão
minuciosamente como a própria cidade o havia sido: um campo em que o trabalho e os
trabalhadores são parte integrante, um campo útil onde o poeta se identifica com o povo (Petiz).
É no poema Nós que Cesário revela melhor o seu amor ao campo, elogiando-o por oposição à
cidade e considerando-o “um salutar refúgio”.

A oposição cidade/campo conduz simbolicamente à oposição morte/vida. É a morte que cria em


Cesário uma repulsa à cidade por onde gostava de deambular mas que acaba por aprisioná-lo.

A humilhação
- a humilhação sentimental:

 a mulher formosa, fria, distante e altiva (Esplêndida; Deslumbramentos;


Frígida);

 a mulher fatal da época/a humilhação do sujeito poético tentando a aproximação


(Esplêndida);

 a mulher burguesa, rica, distante e altiva/a humilhação do sujeito poético que não
ousa aproximar-se devido à sua baixa condição social (Humilhações);

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 a mulher fatal, bela e artificial, poderosa e desumana/a consequente humilhação


do poeta (“Milady, é perigoso contemplá-la (...)/ Com seus gestos de neve e de metal.”,
Deslumbramentos);

 a mulher fatal, pálida e bela, fria, distante e impassível que o poeta deseja e
receia/a humilhação e a necessidade de controlar os impulsos amorosos (Frígida).

- a humilhação estética:

 a revolta pela incompreensão que os outros manifestam em relação à sua poesia


e pela recusa de publicação por alguns jornais (“Arte? Não lhes convém, visto que os seus
leitores/ Deliram por Zaccone”; “Agora sinto-me eu cheio de raivas frias/ Por causa dum
jornal me rejeitar, há dias/ Um folhetim de versos.”, Contrariedades).

- a humilhação social:

 o povo comum oprimido pelos poderosos (Humilhações);

 o abandono a que são votados os doentes (“Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões
doentes (...)/ O doutor deixou-a...”, Contrariedades);

 o povo dominado por uma oligarquia poderosa (a “Milady” de Deslumbramentos é


uma representante dessa oligarquia).

 A BUSCA DA PERFEIÇÃO FORMAL

- Cesário busca a expressão clara, objetiva e concreta;

- As suas descrições têm pouco de poético – prosaísmo lírico –, pois procura


explorar a notação objetiva e sóbria das graças e dos horrores da vida da cidade ou a
profunda vitalidade da paisagem campestre – características de um realista.

- A preocupação com:

 a beleza e a perfeição da sua poesia (a musicalidade, a harmonia, a escolha dos


sons...);

 o vocabulário – a expressividade verbal, a adjetivação abundante, rica e


expressiva, a precisão vocabular (chega mesmo a usar termos técnicos), o colorido da
linguagem...;

 os recursos fónicos – as aliterações, que contribuem para a musicalidade e para a


perfeição formal;

 os processos estilísticos – abundância de imagens, as metáforas, as sinestesias...;

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 a regularidade métrica, estrófica e rimática (na métrica, preferência pelo verso


decassilábico e pelo alexandrino; na organização estrófica, a preferência evidente pela
quadra que lhe permitia registar as observações e saltar com facilidade para outros
assuntos).

A imagética Feminina
 A mulher fatal, altiva, aristocrática, “frígida” que atrai/fascina o sujeito poético, provocando-
lhe o desejo de humilhação. É o tipo citadino artificial, surge portanto associada à cidade servindo
para retratar os valores decadentes e a violência social. Esta mulher surge na poesia de Cesário
incorporando um valor erótico que simultaneamente desperta o desejo e arrasta para a morte
conduzindo a um erotismo da humilhação (Esplêndida, Vaidosa, Frígida).

 A mulher angélica, “tímida pombinha”, natural, pura, acompanhada pela mãe, embora
pertencente à cidade, encarna qualidades inerentes ao campo. Desperta no poeta o desejo de
proteção e tem um efeito regenerador (Frágil).

Questão Social
O poeta coloca-se ao lado dos desfavorecidos, dos injustiçados, dos marginalizados e admira a
força física, a pujança do povo trabalhador.

O poeta interessa-se pelo conflito social do campo e da cidade, procurando documentá-lo e


analisá-lo, embora sem interferir.

 Anatomia do homem oprimido pela cidade

 Integração da realidade comezinha no mundo poético.

O Impressionismo adaptado ao Real


“A mim o que me preocupa é o que me rodeia”

A poesia do quotidiano despoetiza o ato poético, daí que a sua poesia seja classificada
como prosaica, concreta. O poeta pretende captar as impressões que os objetos lhe
deixam através dos sentidos.

Ao vaguear, ao deambular, o poeta perceciona a cidade e o “eu” é o resultado daquilo que vê.

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Cesário não hesita em descrever nos seus poemas ambientes que, segundo a conceção da poesia,
não tinham nada de poético.

Cesário não só surpreende os aspetos da realidade como sabe perfeitamente fazer uma reflexão
sobre as personagens e certas condições.

A representação do real quotidiano é, frequentemente, marcada pela captação perfeita dos efeitos
da luz e por uma grande capacidade de fazer ressaltar a solidez das formas (visão objetiva),
embora sem menosprezar uma certa visão subjetiva – Cesário procura representar a impressão
que o real deixa em si próprio e às vezes transfigura a realidade, transpondo-a numa outra.

Linguagem e Estilo:

Cesário Verde é caracterizado pela utilização do Parnasianismo que é a busca da perfeição formal
através de uma poesia descritiva e fazendo desta algo de escultórico, esculpindo o concreto com
nitidez e perfeição. O parnasianismo é também a necessidade de objetivar ou despersonalizar a
poesia e corresponde à reação naturalista que aparece no romance. Os temas desta corrente
literária são temas do quotidiano com um enorme rigor a nível de aspeto formal e há uma
aproximação da poesia às artes plásticas, nomeadamente a nível da utilização das cores e dos
dados sensoriais.

Através deste parnasianismo ele propõe uma explicação para o que observa com objetividade e,
quando recorre à subjetividade, apenas transpõe, pela imaginação transfiguradora, a realidade
captada numa outra que só o olhar de artista pode notar.

Cesário utiliza também uma linguagem prosaica, ou seja, aproxima-se da prosa e da linguagem
do quotidiano.

A obra de Cesário caracteriza-se também pela técnica impressionista ao acumular pormenores das
sensações captadas e pelo recurso às sinestesias, que lhe permitem transmitir sugestões e
impressões da realidade.

A nível morfossintático recorre à expressividade verbal, à adjetivação abundante, rica e


expressiva, por vezes em hipálage, ao colorido da linguagem e tem uma tendência para as frases
curtas.

 Vocabulário concreto
 Linguagem coloquial
 Predomínio do uso do decassílabo e do Alexandrino
 Uso do assíndeto que resulta da técnica de justaposição de várias perceções
 Técnica descritiva assente em sinestesias, hipálages, na expressividade do advérbio, no
uso do diminutivo e na utilização da ironia como forma de cortar o sentimentalismo
(equilibrar).

CESÁRIO VERDE (Poeta: 1855 – 1886)

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QUANDO TUDO ACONTECEU...

1855: A 23 de Fevereiro, num prédio da Rua da Padaria (junto à Sé de Lisboa), nasce


José Joaquim CESÁRIO VERDE, filho de Maria da Piedade dos Santos Verde e de José
Anastácio Verde. – 1857: Peste em Lisboa; a família Verde refugia-se na sua quinta de
Linda-a-Pastora. – 1865: Os Verde passam a morar na Rua do Salitre (Lisboa). Cesário
conclui a instrução primária e começa a estudar inglês e francês. – 1872: Cesário começa
a trabalhar na loja de ferragens do pai, na Rua dos Fanqueiros. Com 19 anos, tuberculosa,
morre Maria Julia, irmã de Cesário. – 1873: Cesário matricula-se no Curso Superior de
Letras, onde conhece e se torna grande amigo do escritor Silva Pinto. Publica os seus
primeiros poemas no Diário de Notícias. – 1874: Publica mais poemas no Diário de
Notícias (Lisboa) e nos jornais do Porto Diário da Tarde e A Tribuna. Ramalho Ortigão
crava-lhe uma Farpa a propósito do poema Esplêndida. Boémia revolucionária no
“Martinho”. – 1875: Cesário conhece e faz amizade com Macedo Papança (futuro conde
de Monsaraz). Continua a publicar poemas no Mosaico (Coimbra), n’A Tribuna e n’O
Porto. Começa a dirigir a loja da Rua dos Fanqueiros e a quinta de Linda-a-Pastora. –
1876: Desenvolve negócios. Frequenta a casa de Papança, na Travessa da Assunção, onde
se cruza com Guerra Junqueiro, Gomes Leal e João de Deus. Os Verde mudam-se para a
Rua das Trinas. – 1877: Volta a colaborar no Diário de Notícias. Queixa-se dos primeiros
sintomas de tuberculose. – 1878: Passa a viver em Linda-a-Pastora. Nos jornais publica
Noitada, Manhãs Brumosas, Em Petiz. – 1879: Publica Cristalizações no primeiro
número da Revista de Coimbra. É atacado pela republicana Angelina Vidal n’A Tribuna
do Povo e pelo monárquico Diário Ilustrado. – 1880: Publica O Sentimento dum
Ocidental no número do Jornal de Viagens (Porto) dedicado ao tricentenário de Camões.
Os Verde exportam maçãs para Inglaterra, Alemanha e Brasil. – 1881: Cesário participa
no “Grupo do Leão” e convive com Abel Botelho, Alberto de Oliveira, Fialho de
Almeida, Gualdino Gomes e com os pintores José Malhoa, Silva Porto, Columbano e
Rafael Bordalo Pinheiro. – 1882: Morre, tuberculoso, Joaquim Tomás, irmão de Cesário.
– 1883: Cesário viaja para França, numa tentativa malograda de exportar vinhos
portugueses. – 1884: Publica Nós. Deixa de frequentar os meios literários. Ativa negócios,
produz, compra e exporta frutas. Recolhe-se a Linda-a-Pastora. – 1885: Agrava-se o seu
estado de saúde mas regressa a Lisboa e continua a trabalhar na loja da Rua dos
Fanqueiros. – 1886: Extremamente doente, instala-se em Caneças. Vai depois para casa

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de um amigo, no Lumiar (às portas de Lisboa), onde vem a morrer a 19 de Julho. – 1887:
Silva Pinto edita O Livro de Cesário Verde.

O CANCRO E A LARANJA (OU TALVEZ LIMÃO)

Releio Malraux. Quando Perkens, uma das suas personagens, compara o tempo a
um cancro, recordo os versos de Cesário Verde escritos em 1874:

(...)
Vai-nos minando o tempo - o cancro enorme
Que te há-de corromper o corpo de vestal.
(...)

Coincidência?

Pouso o livro, pego noutro. Folheio Las Uvas y el Viento de Pablo Neruda, editado em
1954. No poema Lámpara Marina, diz o chileno:

Cuando tú desembarcas
en Lisboa
(...)
las casas,
las puertas,
los techos,
las ventanas

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salpicadas del oro limonero.


(...)

E então lembro-me dos versos de Cesário escritos em 1879:

(...)
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja destilada.
(...)

Coincidência, ao repetir-se, deixa de o ser. Mastigo a dedução e é quanto basta para saltar
para a segunda metade do século XIX em busca do realista, do impressionista, do poeta
conciso tão ignorado pelos seus contemporâneos. É o que normalmente acontece àqueles
que se afastam do rebanho das convenções. Fernando Pessoa conhece bem tais
desencontros. No Livro do Desassossego irá escrever:

“Vivo numa época anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário
Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos
versos que foram dele.”

PESTE

José Anastácio Verde tem uma loja de ferragens na Rua dos Fanqueiros, em
Lisboa. É um comerciante bem sucedido e dono ainda de uma quinta em Linda-a-Pastora
(a uns quinze quilómetros da capital). Em 1852 casa com Maria da Piedade dos Santos.
O casal vai morar num andar de um prédio na Rua da Padaria, próximo da velha Sé de
Lisboa. Em 1853 nasce-lhes Maria Júlia, a primogénita. Em 1855 o segundo filho, José
Joaquim CESÁRIO. E no ano seguinte, Adelaide Eugénia, menina que morrerá com 3
anos. Em 1858, Joaquim Tomás, o quarto filho. E em 1862, Jorge, o quinto e último filho.

Próximo da Rua da Padaria há um arco escuro onde se acumulam excrementos e


cabeças de peixe. A Baixa de Lisboa é toda assim, não lhe faltam focos de infeção em
becos e vielas. No Verão de 1857 irrompe a febre amarela, peste a ceifar a vida dos
lisboetas. Os Verde abandonam a capital, refugiam-se em Linda-a-Pastora. Cesário
evocará a fuga:

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(...)
Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre
E o Cólera também andaram na cidade,
Que esta população, com um terror de lebre,
Fugiu da capital como da tempestade.

Ora meu pai, depois das nossas vidas salvas,


(Até então nós só tivéramos sarampo)
Tantos nos viu crescer entre uns montões de malvas
Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!

Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:


O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
Mesmo no nosso prédio, os outros inquilinos
Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.
(...)

Sem canalizações, em muitos burgos ermos,


Secavam dejeções cobertas de mosqueiros.
E os médicos, ao pé dos padres e coveiros,
Os últimos fiéis, tremiam dos enfermos!

Uma iluminação a azeite de purgueira,


e noite, amarelava os prédios macilentos.
Barricas de alcatrão ardiam; de maneira
Que tinham tons d’inferno outros arruamentos.
(...)

E o campo, desde então, segundo o que me lembro,


É todo o meu amor de todos estes anos!
Nós vamos para lá; somos provincianos,
Desde o calor de Maio aos frios de Novembro!

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MARIA JÚLIA

Aos 10 anos Cesário conclui a instrução primária e começa a estudar francês e


inglês, prepara-se para ser o correspondente comercial da firma do pai.

Entretanto os Verde tinham-se mudado para um prédio da Rua do Salitre. Os ares,


por ali, são mais saudáveis do que os da Rua da Padaria ou da Rua dos Fanqueiros (onde
a família também chegara a morar). O que não evita que Maria Júlia, aos 19 anos (1872),
morra tuberculosa. Cesário irá recordá-la, sempre:

(...)
Unicamente, a minha doce irmã,
Como uma ténue e imaculada rosa,
Dava a nota galante e melindrosa
Na trabalheira rústica, aldeã.

E foi num ano pródigo, excelente,


Cuja amargura nada sei que adoce,
Que nós perdemos essa flor precoce,
Que cresceu e morreu rapidamente!

Ai daqueles que nascem neste caos,


E, sendo fracos, sejam generosos!
As doenças assaltam os bondosos
E - custa a crer - deixam viver os maus!
(...)

E que fazer se a geração decai!


Se a seiva genealógica se gasta!

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Tudo empobrece! Extingue-se uma casta!


Morre o filho primeiro do que o pai!

Mas seja como for, tudo se sente


Da tua ausência! Ah! Como o ar nos falta,
Ó flor cortada, susceptível, alta,
Que assim secaste prematuramente!

Eu que de vezes tenho o desprazer


De reflectir no túmulo! E medito
No eterno Incognoscível infinito,
Que as ideias não podem abranger!
(...)

Resumo:
Poesia:

- parnasianismo: “arte pela arte” -> Tendência artística que procura a confeção perfeita
através da poesia descritiva. Preocupação com a perfeição, o rigor formal, a regularidade
métrica, estrófica e rimática. Retorno ao racionalismo e às formas poéticas clássicas.
Busca da impessoalidade e da impassibilidade.

- impressionismo: acumula pormenores das sensações captadas e recorre às sinestesias.

As palavras antecipam a simbolismo.

- poeta-pintor: capta as impressões da realidade que o cerca com grande objetividade;

transmite as perceções sensoriais.

- Pintura literária e rítmica de temas comuns e realidades comezinhas, escolhendo as


palavras que melhor os refletem.

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- Não canta motivos idealistas, mas coisas que observa a cada instante; descreve
ambientes que nada têm de poético.

- Não dá a conhecer-se, nem dá a conhecer o que sente -> oposto ao romantismo

- recorre raramente à subjetividade -> imaginação transfiguradora

- poesia do quotidiano: nasce da impressão que o “fora” deixa no “dentro” do poeta.

- Interesse pelo conflito social do campo e da cidade.

- Nível morfossintático: expressividade verbal, adjetivação abundante, rica e expressiva


(hipálage), precisão vocabular, colorido da linguagem, frases curtas e acumulativas,
quadras em versos decassilábicos ou alexandrinos.

- O mito de Anteu permite caracterizar o novo vigor que se manifesta quando há um


reencontro com a origem, com a mãe-terra. É assim que se pode falar deste mito em
Cesário Verde na medida em que o contacto com o campo parece reanimá-lo, dando-lhe
forças, energias, saúde.

Binómios e Dicotomias em Cesário Verde:

Cidade Campo

Mulher fatal Mulher angélica

Morte Vida

- Cidade: - deambulação do poeta; melancolia; monotonia; “desejo absurdo de viver”;


vícios; fantasias mórbidas; miséria; sofrimento; poluição; cheiro nauseabundo, seres

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ESCOLA SECUNDÁRIA D. SANCHO I
Português 11º ano
Ficha informativa

humanos dúbios e exploradores; ricos pretensiosos que desprezam os humildes; incomoda


o poeta e os trabalhadores que nela procuram melhores condições de vida.

Mulher citadina: fatal, frígida, calculista, madura, destrutiva, dominadora, sem


sentimentos, erótica, artificial, predadora, vampírica, formosa, fria, altiva.

Subjetividade do tempo e a morte: cidade = certeza para a morte

- Campo: - vida rústica de canseiras, vitalidade, saúde, liberdade, rejuvenescimento, vida,


fertilidade, identificação do poeta com o povo campesino, local de trabalho onde acontece
alegrias e tristezas (oposto ao local paradisíaco defendido por poetas anteriores).

Mulher campesina: proporciona um amor puro e desconfinado, frágil, terna,


ingénua, despretensiosa.

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