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ÉTICA I
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ÉTICA I

ÉTICA I

CURSOS DE GRADUAÇÃO – EAD

CURSOS DE GRADUAÇÃO – EAD Ética I – Prof. Juan Antonio Acha e Prof. Dr. Pe.

Ética I – Prof. Juan Antonio Acha e Prof. Dr. Pe. Sérgio Ibanor Piva

Prof. Juan Antonio Acha e Prof. Dr. Pe. Sérgio Ibanor Piva Meu nome é Juan Antonio
Prof. Juan Antonio Acha e Prof. Dr. Pe. Sérgio Ibanor Piva Meu nome é Juan Antonio

Meu nome é Juan Antonio Acha. Sou graduado em

Licenciatura em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano

e realizo Pós-graduação na área de Gestão e Filosofia.

Atuo como docente em Antropologia Filosófica. Sempre fui preocupado com o valor da vida e da vida humana em especial, por isso tenho presente as palavras de Sócrates, referidas por Platão na Apologia de Sócrates: "Uma vida que não é examinada não vale a pena ser vivida".

e-mail: juan@claretiano.edu.br

Meu nome é Pe. Sérgio Ibanor Piva. Sou Doutor em Ciências

da Educação pela Università Pontificia Salesiana (Roma/1966),

especialista em Perfezionamento Didattico in Psicologia pela Universidade Salesiana (Roma/1963), em Psicologia da Educação pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Barão de Mauá (Ribeirão Preto/1972) e em Logoterapia aplicada à Educação pela Sociedade Brasileira de Logoterapia (1993). Atuo, dentre outras atribuições, como Reitor do Centro Universitário Claretiano e Orador Sacro, com mais de 10.000 homilias proferidas.

e-mail: reitor@claretiano.edu.br

Fazemos parte do Claretiano - Rede de Educação

Juan Antonio Acha

Sérgio Ibanor Piva

ÉTICA I

Caderno de Referência de Conteúdo

Batatais

Claretiano

2013

© Ação Educacional Claretiana, 2013 – Batatais (SP) Versão : dez./2013 170 A16e Acha, Juan

© Ação Educacional Claretiana, 2013 – Batatais (SP) Versão: dez./2013

170 A16e

Acha, Juan Antonio

Ética I / 92 p.

Juan Antonio Acha, Sérgio Ibanor Piva – Batatais, SP : Claretiano, 2013.

ISBN: 978-85-67425-57-3

1. Visão geral dos fundamentos da Ética, bem como das bases conceituais e de suas diferenças ligada à moral. 2. Influência do cristianismo no pensamento medieval ocidental. I. Piva, Sérgio Ibanor. II. Ética I.

CDD 170

Corpo Técnico Editorial do Material Didático Mediacional Coordenador de Material Didático Mediacional: J. Alves

Preparação Aline de Fátima Guedes Camila Maria Nardi Matos Carolina de Andrade Baviera Cátia Aparecida Ribeiro Dandara Louise Vieira Matavelli Elaine Aparecida de Lima Moraes Josiane Marchiori Martins Lidiane Maria Magalini Luciana A. Mani Adami Luciana dos Santos Sançana de Melo Luis Henrique de Souza Patrícia Alves Veronez Montera Rita Cristina Bartolomeu Rosemeire Cristina Astolphi Buzzelli Simone Rodrigues de Oliveira

Bibliotecária Ana Carolina Guimarães – CRB7: 64/11

Revisão Cecília Beatriz Alves Teixeira Felipe Aleixo Filipi Andrade de Deus Silveira Paulo Roberto F. M. Sposati Ortiz Rodrigo Ferreira Daverni Sônia Galindo Melo Talita Cristina Bartolomeu Vanessa Vergani Machado

Projeto gráfico, diagramação e capa Eduardo de Oliveira Azevedo Joice Cristina Micai Lúcia Maria de Sousa Ferrão Luis Antônio Guimarães Toloi Raphael Fantacini de Oliveira Tamires Botta Murakami de Souza Wagner Segato dos Santos

Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, a transmissão total ou parcial por qualquer forma e/ou qualquer meio (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação e distribuição na web), ou o arquivamento em qualquer sistema de banco de dados sem a permissão por escrito do autor e da Ação Educacional Claretiana.

Claretiano - Centro Universitário Rua Dom Bosco, 466 - Bairro: Castelo – Batatais SP – CEP 14.300-000 cead@claretiano.edu.br Fone: (16) 3660-1777 – Fax: (16) 3660-1780 – 0800 941 0006 www.claretianobt.com.br

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SUMÁRIO

CADERNO DE REFERÊNCIA DE CONTEÚDO

1 INTRODUÇÃO

7

2 ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO

8

3 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

20

UNIDADE 1 – FILOSOFIA MORAL – LEGADO GREGO

1

OBJETIVOS

21

2

CONTEÚDOS

21

3

ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE

22

4

INTRODUÇÃO À UNIDADE

23

5

ÉTICA NO ÂMBITO DA FILOSOFIA MORAL

24

6

FILÓSOFOS GREGOS, ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DA CIÊNCIA DO CARÁTER

E

DOS COSTUMES

26

7

PLATÃO, OS DIÁLOGOS SOCRÁTICOS: A VIRTUDE COMO SABEDORIA

27

8

O

FIM ÚLTIMO: A FELICIDADE

31

9

OS SOFISTAS, DEFENSORES DO " NÓMOS "

36

10

ESTOICOS E A LEI NATURAL, PERÍODO HELENISTA

37

11

TEXTOS COMPLEMENTAR

46

12

QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS

47

13

CONSIDERAÇÕES

49

14

E-REFERÊNCIAS

49

15

REFERÊNCIAS BLIBLIOGRÁFICAS

50

UNIDADE 2 – A FINALIDADE DA ÉTICA E A ESSÊNCIA DA MORAL

1

OBJETIVOS

53

2

CONTEÚDOS

54

3

ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE

54

4

INTRODUÇÃO À UNIDADE

55

5

MORAL

58

6

ÉTICA NORMATIVA E O FENÔMENO MORAL

66

7

QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS

68

8

CONSIDERAÇÕES

69

9

E-REFERÊNCIAS

70

10

REFERÊNCIAS BLIBLIOGRÁFICAS

71

UNIDADE 3 – ÉTICA MEDIEVAL, EMBASAMENTO CRISTÃO

1 OBJETIVOS

73

2 CONTEÚDOS

74

4

INTRODUÇÃO À UNIDADE

75

5

INFLUÊNCIA JUDEO-CRITÃ NA ÉTICA DA IDADE MÉDIA

76

6

PESSOA HUMANA

79

7

O FUNDAMENTO DA VIDA ÉTICA É A DIGNIDADE DA PESSOA

80

8

AGOSTINHO DE HIPONA

81

9

TOMÁS DE AQUINO: ÉTICA DA LEI NATURAL

84

10

QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS

88

11

CONSIDERAÇÃO FINAL

89

12

E-REFERÊNCIAS

90

13

REFERÊNCIAS BLIBLIOGRÁFICAS

91

Claretiano - Centro Universitário

Caderno de Referência de Conteúdo

CRC

Ementa –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

Visão geral dos fundamentos da Ética, bem como das bases conceituais e de suas diferenças ligadas à moral. Influência do Cristianismo no pensamento me- dieval ocidental.

––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

1. INTRODUÇÃO

O presente Material Didático Mediacional aspira introduzir o estudante de EaD no estudo dos problemas fundamentais da Ética no âmbito da Filosofia. A Ética é uma parte da Filosofia que estuda a vida moral dos homens. Centra-se no comportamento da pessoa.

Os temas que integram este material são: desenvolvimento histórico da Filosofia, moral dos gregos antigos até a Idade Média, doutrinas éticas fundamentais, importância da moral, estudo da Ética como essência da moral e relação da Ética com a moral.

Quanto ao corpo conceitual da Ética, apresentaremos uma completa explicação na Unidade 2. O conhecimento factual e a cla-

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reza conceitual são imprescindíveis na hora de realizar um juízo de orientação ética. O conhecimento é fundamental para poder atuar com liberdade. Se o leitor analisar em profundidade o maior diá- logo ético da antiguidade, o Críton, perceberá que Sócrates morre combatendo a ignorância e alertando para a necessidade de ana- lisar racionalmente as teorias éticas normativas existentes no seio da sociedade grega antiga (PLATÃO, 1999).

2. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO

Abordagem Geral

Prof. Juan Antonio Acha

Neste tópico, apresenta-se uma visão geral do que será estu- dado neste Caderno de Referência de Conteúdo. Aqui, você entrará em contato com os assuntos principais deste conteúdo de forma breve e geral e terá a oportunidade de aprofundar essas questões no estudo de cada unidade. Desse modo, essa Abordagem Geral visa fornecer-lhe o conhecimento básico necessário a partir do qual você possa construir um referencial teórico com base sólida – científica e cultural – para que, no futuro exercício de sua profis- são, você a exerça com competência cognitiva, ética e responsabi- lidade social. Vamos começar nossa análise pela apresentação das ideias e dos princípios básicos que fundamentam este CRC.

Neste CRC, a Ética é considerada como a parte da Filosofia que trata da reflexão sobre a moral, propiciando as condições para explicar racionalmente a conduta moral humana. Durante o estu- do das três unidades que a compõem, você perceberá que a Ética, desde suas origens na Grécia Antiga, é uma disciplina normativa, ou seja, é um saber que pretende elucidar as bases racionais da vida moral, que diferencia o que é do que deve ser. A Filosofia mo- ral expõe uma reflexão exaustiva sobre as diferentes morais.

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A moral é uma construção social mais do que uma ação de orientação normativa própria do indivíduo; podemos dizer que a moralidade está determinada por uma exigência exterior. É o ins- trumento de que se vale a sociedade para organizar as ações indi- viduais. Tem correspondência com a lei, com as convenções sociais e com a História.

Segundo Frankena (1969, p. 21), a moralidade surge como um conjunto de objetivos culturalmente definidos e como um conjunto de regras a governar a consecução de tais objetivos, que permanecem mais ou menos exteriores ao indivíduo e que a ele se impõem ou nele se inculcam como hábitos.

É característico dos sistemas morais oferecerem uma razão que justifique os preceitos, comandos, normas de conduta, proi- bições etc. A nossa história ocidental está repleta de testemunhos sobre nossa inclinação para justificar racionalmente os atos morais. A vida na sociedade ocidental, no que diz respeito à moral, é uma vida meditada; somos críticos das regras e valores da sociedade, como o fez Sócrates na Apologia (PLATÃO, 1999). Por outro lado, nenhuma prática pode prescindir de uma teoria que nos oriente sobre a conduta a adotar ante cada situação. Assim entendida, a moral é um sistema de conteúdos que organiza uma determinada forma de vida.

Sabemos que, ao longo da História, surgiram diferentes con- cepções morais. São objeto de estudo deste compêndio de Filoso- fia as Filosofias Antiga e Medieval. Nesse período que se estende por 2.000 anos, a Ética centrou-se no "ser" e a moralidade esteve atrelada ao homem. Os filósofos da Grécia Antiga conceberam a moral como a busca da felicidade (ou, como eles a definiram: da vida boa e da prática do bem), idealizando um meio de atingi-la. As bases para alcançar esse objetivo eram a correta deliberação racional, que permitia traçar as estratégias que conduziriam de forma segura para o que consideravam o fim da existência huma- na: a felicidade. Esse legado chegou à Idade Média, uma época im- pregnada de religiosidade, em que os critérios de bem e mal estão

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vinculados à fé e à esperança de vida após a morte. Nesse período,

o comportamento ético não foi moldado tão só por doutrinas ide- ais, mas, também por modelos pessoais.

No âmbito de abrangência da Ética como Filosofia moral está

a pessoa humana, considerada a partir de seu "ser" e sua conduta virtuosa ou viciosa.

A proposta pedagógica que orienta este CRC está em concor-

dância com Projeto Educativo Claretiano. Este propõe educar para

a liberdade, para que o educando possa atuar como pessoa, ou

seja, de forma livre, por entender que só assim poderá contribuir para a perfeição de seu humanismo que repercutirá na comunida- de onde atua e na global, onde está situado. A educação é aquele caminho a que o homem deve recorrer para que sua liberdade seja possível. Sem o conhecimento do que significa cada coisa, ficamos confinados a um universo limitado.

A liberdade, acompanhada de responsabilidade, possibilita-

rá a você tornar-se um ser ético. É importante salientarmos que liberdade não é falta de controle para fazer isto ou aquilo; a liber- dade é a capacidade do ser racional de ter condições de pensar an- tes de atuar e atuar pensando em cada ato que executa de forma consciente. Por ser livre, o ser humano pode atuar de diferentes maneiras, mas por ser um ser racional deve agir de forma ética. A partir dessa perspectiva, a Ética, como disciplina filosófica, propi- ciará a você condições para escolher de forma racional como agir diante determinadas circunstâncias, bem como propiciar os meios para avaliar um determinado ato moral como sendo ou não etica- mente correto.

A Ética não pode ser vista dissociada da realidade sócio- -histórica-cultural, ainda que nesse primeiro período do desenvol- vimento da Ética, que vai desde os gregos clássicos até a Idade Moderna, encontremos teorias abstratas como a de Platão ou de influência religiosa como ocorreu na Idade Média com o advento do Cristianismo.

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Glossário de Conceitos

O Glossário de Conceitos permite a você uma consulta rá- pida e precisa das definições conceituais, possibilitando-lhe um bom domínio dos termos técnico-científicos utilizados na área de conhecimento dos temas tratados no CRC Ética I. Veja, a seguir, a definição dos principais conceitos:

1) Amor: virtude central na maioria das tradições éticas, denotando uma atitude para com o outro que envolve tanto afeto como um compromisso sério em relação ao próximo.

2)

Amoral: termo que reúne o prefixo "a" ("acéfalo, priva-

3)

ção") e a palavra "moral" (o termo se refere aos campos da conduta humana). Tem a ver com os princípios que orientam a conduta do homem. Ser amoral significa não possuir um código moral. Antinomismo: literalmente significa "contra a lei". Ter- mo teológico-cristão nos primórdios da Igreja, afirma que a graça, por meio da fé, aboliu a lei, e que, portanto, o cristão não está sujeito à lei.

4) Autonomia: literalmente "lei de si mesmo". Exercício

5)

independente da vontade no sentido de obrar indepen- dentemente. Bem comum: ideia baseada em que o padrão normativo

6)

para a justiça é o bem das pessoas como um todo. Bem viver: como um princípio ético, o "bem viver" é fun-

7)

damento da moralidade e processo para tomar determi- nações éticas. Caráter: as várias dimensões de personalidade que dis- tinguem um indivíduo de outro.

8) Cinismo: escola de pensamento ético que afirma que todo comportamento humano é motivado pelo desejo egoísta, e que a bondade é a mais alta realização da vida. Para esses pensadores, a virtude está em alcançar a total independência do material. O cínico mais famoso é Dió- genes de Sínope.

9)

Compaixão: atitude ou emoção altruísta, leva a atos de- sinteressados.

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10) Consciência: processo interior da responsabilidade mo- ral e da capacidade inata para discernir o bem e o mal. 11) Costume: padrão habitual de comportamento caracte- rístico de um grupo social específico. 12) Deontologia: é a ciência que estabelece normas direto- ras das atividades profissionais sob o signo de retidão moral ou honestidade, estabelecendo o bem a fazer e o mal a evitar no exercício da profissão. É uma disciplina normativa, mas também descritiva e empírica, que tem como finalidade a determinação dos deveres que devem ser cumpridos em determinadas circunstâncias sociais. 13) Deontologismo de regra: uma teoria do raciocínio moral na Ética deontológica que declara que a correção ou im- propriedade de um ato moral é determinado com base na obediência a um conjunto de regras ou princípios mo- rais. 14) Determinismo: termo ligado ao conceito de "livre-arbí- trio". O contrário na prática de arbitrar livremente. Com relação à Ética, afirma que as formas de comportamento são consequência inevitáveis de causas anteriores. 15) Empatia: capacidade de partilhar sentimentos de ou- tros. 16) Equidade: princípio de justiça que afirma que todas as pessoas devem ter equitativa partilha. 17) Eros: termo empregado para definir forma de amor como a presente no Banquete de Platão. Após o período marcado pelo surgimento do Novo Testamento foi usado para definir paixão carnal e irracional. 18) Estoico: nome grego que designa o pórtico ogival de Atenas, usado para diferenciar os filósofos da escola de Zenão de Cítio. 19) Ética: "ética", do grego "ethika", de "ethos", "comporta- mento, costume". Filosofia moral que envolve o estudo ou modo como devem viver os homens. Está subdividida segundo a forma de estudo em: Ética analítica, cristã, da libertação, da população, da reforma, da situação deon- tológica, dialética, do Antigo Testamento, do fazer, do Novo Testamento, do ser, do trabalho, empírica, evan-

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gélica, existencialista, feminista, geral, hindu, industrial, institucional, islâmica, judaica, maniqueísta, médica, medieval, normativa, patrística, pessoal, profissional, psicológica, tomista etc. 20) Ética cristã: parte de um conjunto de verdades revela- das a respeito de Deus, das relações do homem com seu Criador e do modo de vida prático que o homem deve seguir para obter a salvação. 21) Ética estoica: tem a ver com o direito romano e a moral cristã; o mais importante é a exaltação da natureza que

é animada pela divindade. Para Zenão, a virtude consiste

em viver em harmonia com a natureza. A lei natural apa- rece acima dos costumes e das leis dos povos. 22) Ética dos bens ou dos fins: doutrina ética iniciada pela filósofo grego Aristóteles. Ao contrário do empirismo re- lativista, essa doutrina admite a existência de um valor absoluto, que é o bem supremo.

23) Ética empírica: iniciada pelos sofistas, a Ética empírica tem sido defendida pelos relativistas e materialistas de todos os tempos. Seu fundamento é a experiência. Seu ponto de vista é de que as normas do comportamento ético derivam da própria atividade livre do homem. 24) Ética normativa: tem relação com a formação e elabo- ração das normas sociais e não com seu seguimento ou execução. 25) Eudaimonia: de "eu" que significa "bem disposto" e "daimon", "com um poder divino". "Eudaimon" é o ad- jetivo para feliz. 26) Eudemonismo: teoria ética que afirma que a felicidade é

o bem supremo e a base para a moral.

27) Felicidade: como termo ético, está relacionado às ideias do bem-viver. 28) Hedonismo: abordagem de reflexão ética que declara o prazer como valor mais alto a ser alcançado.

29) Instintos: força oposta à racional. 30) Juízos morais universais: são afirmações consideradas aplicáveis a qualquer situação e lugar.

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31) Lei Natural: lei fundada na própria natureza, que supõe um ordenamento de uma razão superior. A Lei natural é uma norma para o comportamento ético, considera- da inerente a todos os seres humanos por ser ocorrente com a essência que os causa. 32) Mal: privação ou ausência do bem. Aquilo oposto ao bem, que a ele resiste e o mina. 33) Moral: conjunto de normas estabelecidas e de caráter normativo que regem a convivência social. Sofre pro- gressos na medida em que se amplia seu campo de atu- ação. 34) Moral, moralidade, moralizar: do latim "mos" significa "costume", ou "uso". Envolve o que se deve acreditar como correto e bom. 35) Norma: termo ético que designa uma lei ou princípio que governa, direciona algum aspeto da conduta moral. 36) Pitágoras: filósofo matemático que, no século 6 a.C., de- senvolveu umas das primeiras reflexões filosóficas de or- dem moral a partir dos ensinamentos da religião orfista; propunha que a natureza intelectual é superior à sensu- al e recomendava a disciplina mental. Sócrates, Platão e Aristóteles são seguidores dessa Filosofia Moral. 37) Prazer: termo utilizado dentro da reflexão filosófica rela- cionado ao agradável, ao gozo. 38) Princípio: em Ética, designa um preceito geral. Os prin- cípios morais são equiparados a regras, os categóricos, a deveres inerentes. 39) Princípio ontológico: está na linha do ser, no que é bem no sentido natural. 40) Prudência: virtude que está relacionada à sabedoria. É uma das Virtudes Cardinais. 41) Sabedoria: reconhecida como virtude, associada à capa- cidade de viver bem no sentido moral. Também designa a capacidade de fazer juízos corretos. 42) Sofistas: nunca gostaram da criação de sistemas morais com bases religiosas tidos como absolutos. Protágoras ensinava que o juízo humano é subjetivo. Górgias, como

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crítica, colocava que os seres humanos não têm a capa- cidade para conhecer e muito menos comunicar esse co- nhecimento moral. Telêmaco acreditava na força como produtora da moral. 43) Temperança: esse termo denota virtude no pensamento ético grego, está associado a moderação e autocontrole. 44) Utilitarismo: teoria relacionada à Ética Teleológica volta- da para o princípio de utilidade. 45) Virtude: disposição para realizar atos moralmente cor- retos. Tendência para agir corretamente. Também consi- derada qualidade que torna a pessoa sábia. 46) Virtudes Cardinais: compreendem a prudência, justiça, temperança e coragem. Tomás de Aquino herda as qua- tro virtudes gregas e acrescenta as três virtudes teológi- cas: fé, esperança e amor

Esquema dos Conceitos-chave

Para que você tenha uma visão geral dos conceitos mais importantes deste estudo, apresentamos, a seguir (Figura 1), um Esquema dos Conceitos-chave. O mais aconselhável é que você mesmo faça o seu esquema de conceitos-chave ou até mesmo o seu mapa mental. Esse exercício é uma forma de você construir o seu conhecimento, ressignificando as informações a partir de suas próprias percepções.

É importante ressaltar que o propósito desse Esquema dos Conceitos-chave é representar, de maneira gráfica, as relações entre os conceitos por meio de palavras-chave, partindo dos mais complexos para os mais simples. Esse recurso pode auxiliar você na ordenação e na sequenciação hierarquizada dos conteúdos de ensino.

Com base na teoria de aprendizagem significativa, entende- -se que, por meio da organização das ideias e dos princípios em es- quemas e mapas mentais, o indivíduo pode construir o seu conhe- cimento de maneira mais produtiva e obter, assim, ganhos peda- gógicos significativos no seu processo de ensino e aprendizagem.

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Aplicado a diversas áreas do ensino e da aprendizagem escolar (tais como planejamentos de currículo, sistemas e pesquisas em Educação), o Esquema dos Conceitos-chave baseia-se, ainda, na ideia fundamental da Psicologia Cognitiva de Ausubel, que estabelece que a aprendizagem ocorre pela assimilação de novos conceitos e de proposições na estrutura cognitiva do aluno. Assim, novas ideias e informações são aprendidas, uma vez que existem pontos de ancoragem.

Tem-se de destacar que "aprendizagem" não significa, apenas, realizar acréscimos na estrutura cognitiva do aluno; é preciso, sobretudo, estabelecer modificações para que ela se configure como uma aprendizagem significativa. Para isso, é importante considerar as entradas de conhecimento e organizar bem os materiais de aprendizagem. Além disso, as novas ideias e os novos conceitos devem ser potencialmente significativos para o aluno, uma vez que, ao fixar esses conceitos nas suas já existentes estruturas cognitivas, outros serão também relembrados.

Nessa perspectiva, partindo-se do pressuposto de que é você o principal agente da construção do próprio conhecimento, por meio de sua predisposição afetiva e de suas motivações internas e externas, o Esquema dos Conceitos-chave tem por objetivo tornar significativa a sua aprendizagem, transformando o seu conhecimento sistematizado em conteúdo curricular, ou seja, estabelecendo uma relação entre aquilo que você acabou de conhecer com o que já fazia parte do seu conhecimento de mundo (adaptado do site disponível em: <http://penta2.ufrgs. br/edutools/mapasconceituais/utilizamapasconceituais.html>. Acesso em: 11 mar. 2010).

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As diferenças teorias éticas

começam a ser elaboradas

As

no século 5 a.C.

Primeira fase: Antiguidade clássica; período greco- romano; Idade Média.
Primeira fase: Antiguidade
clássica; período greco-
romano; Idade Média.
clássica; período greco- romano; Idade Média. Doutrinas morais, orientações imediatas para a vida moral.

Doutrinas morais, orientações imediatas para a vida moral. O que devo fazer diante tal situação?

para a vida moral. O que devo fazer diante tal situação? Teorias éticas são teorias filosóficas

Teorias éticas são teorias filosóficas que respondem: Por que utilizar essa moral concreta? As soluções estarão em concordância com os problemas de cada época.

estarão em concordância com os problemas de cada época. As filosofias moral ou ética não organizam

As filosofias moral ou ética não organizam de modo direto a vida cotidiana, seu objetivo é refletir sobre a moral.

As concepções morais são formadas por normas de condutas, comandos,

proibições e permissões. Todos adoramos uma determinada concepção moral.

A concepção moral dominante no período que vai desde a Grécia clássica até a Idade Média esteve centrada no ser humano.

clássica até a Idade Média esteve centrada no ser humano. • Para os filósofos gregos a

Para os filósofos gregos a moral era a meta para viver feliz.

A racionalidade moral permitia-lhes alcançar a máxima felicidade.

moral permitia-lhes alcançar a máxima felicidade. • A orientação moral da Idade Média incorpora

A orientação moral da Idade Média incorpora elementos procedentes dos filósofos gregos e latinos juntos com elementos judeu-cristãos.

Figura 1 Esquema dos Conceitos-chave do Caderno de Referência de Conteúdo Ética I.

Como pode observar, esse Esquema oferece a você, como dissemos anteriormente, uma visão geral dos conceitos mais im- portantes deste estudo. Ao segui-lo, será possível transitar en- tre os principais conceitos deste CRC e descobrir o caminho para construir o seu processo de ensino-aprendizagem. Da análise do esquema precedente, surge que a Ética se ocupa da moralidade. Existe uma pluralidade de enfoques em Filosofia Moral que permi- tem falar em Ética. Esta disciplina trata do início da reflexão ética que coincide com o período da Filosofia grega, denominado pe- ríodo socrático, que se estende até a Idade Média. Essa reflexão está comprometida com a razão prática, e visa ao bem de todas as pessoas. Como ser racional, o homem é capaz de decidir sua con- duta de acordo com a moral vigente (mores, costume, norma) ou de atuar de acordo com a sua reflexão (ethos, Ética).

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O Esquema dos Conceitos-chave é mais um dos recursos de aprendizagem que vem se somar àqueles disponíveis no ambien- te virtual, por meio de suas ferramentas interativas, bem como àqueles relacionados às atividades didático-pedagógicas realiza- das presencialmente no polo. Lembre-se de que você, aluno EaD, deve valer-se da sua autonomia na construção de seu próprio conhecimento.

Questões Autoavaliativas

No final de cada unidade, você encontrará algumas questões autoavaliativas sobre os conteúdos ali tratados, as quais podem ser de múltipla escolha, abertas objetivas ou abertas dissertati- vas.

Responder, discutir e comentar essas questões, bem como relacioná-las à prática do ensino de Filosofia, pode ser uma forma de você avaliar o seu conhecimento. Assim, mediante a resolução de questões pertinentes ao assunto tratado, você estará se prepa- rando para a avaliação final, que será dissertativa. Além disso, essa é uma maneira privilegiada de você testar seus conhecimentos e adquirir uma formação sólida para a sua prática profissional.

Você encontrará, ainda, no final de cada unidade, um gaba- rito correspondente às questões de múltipla escolha, que lhe per- mitirá conferir as suas respostas.

As questões de múltipla escolha são as que têm como respos- ta apenas uma alternativa correta. Por sua vez, entende-se por questões abertas objetivas as que se referem aos conteúdos matemáticos ou àqueles que exigem uma resposta determinada, inalterada. Já as questões abertas dissertativas obtêm por res- posta uma interpretação pessoal sobre o tema tratado; por isso, normalmente, não há nada relacionado a elas no item Gabarito. Você pode comentar suas respostas com o seu tutor ou com seus colegas de turma.

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Bibliografia Básica

É fundamental que você use a Bibliografia Básica em seus

estudos, mas não se prenda só a ela. Consulte, também, as

bibliografias complementares.

Figuras (ilustrações, quadros

Neste material instrucional, as ilustrações fazem parte inte- grante dos conteúdos, ou seja, elas não são meramente ilustra- tivas, pois esquematizam e resumem conteúdos explicitados no texto. Não deixe de observar a relação dessas figuras com os con- teúdos do CRC, pois relacionar aquilo que está no campo visual com o conceitual faz parte de uma boa formação intelectual.

)

Dicas (motivacionais)

O estudo deste CRC convida você a olhar, de forma mais apu- rada, a Educação como processo de emancipação do ser humano.

É

importante que você se atente às explicações teóricas, práticas

e

científicas que estão presentes nos meios de comunicação, bem

como partilhe suas descobertas com seus colegas, pois, ao com- partilhar com outras pessoas aquilo que você observa, permite-se descobrir algo que ainda não se conhece, aprendendo a ver e a notar o que não havia sido percebido antes. Observar é, portanto, uma capacidade que nos impele à maturidade.

Você, como aluno dos Cursos de Graduação na modalidade EaD, necessita de uma formação conceitual sólida e consistente. Para isso, você contará com a ajuda do tutor a distância, do tutor presencial e, sobretudo, da interação com seus colegas. Sugeri- mos, pois, que organize bem o seu tempo e realize as atividades nas datas estipuladas.

É importante, ainda, que você anote as suas reflexões em

seu caderno ou no Bloco de Anotações, pois, no futuro, elas pode-

rão ser utilizadas na elaboração de sua monografia ou de produ- ções científicas.

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Leia os livros da bibliografia indicada, para que você amplie seus horizontes teóricos. Coteje-os com o material didático, discu- ta a unidade com seus colegas e com o tutor e assista às videoau- las.

No final de cada unidade, você encontrará algumas questões autoavaliativas, que são importantes para a sua análise sobre os conteúdos desenvolvidos e para saber se estes foram significativos para sua formação. Indague, reflita, conteste e construa resenhas, pois esses procedimentos serão importantes para o seu amadure- cimento intelectual.

Lembre-se de que o segredo do sucesso em um curso na modalidade a distância é participar, ou seja, interagir, procurando sempre cooperar e colaborar com seus colegas e tutores.

Caso precise de auxílio sobre algum assunto relacionado a este CRC, entre em contato com seu tutor. Ele estará pronto para ajudar você.

3. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FRANKENA, W. K. Ética . Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1969. STANLEY, J. G.; SMITH, J. T. Dicionário de Ética. São Paulo: Vida, 2005. PLATÃO. Diálogos. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Os Pensadores).

EAD

Filosofia moral – legado grego

1. OBJETIVOS

1

Entender os fundamentos da Ética.

• Perceber quais são os objetos material e formal da Ética.

• Apreender as doutrinas éticas fundamentais que se de- senvolveram em diferentes épocas do pensamento oci- dental: ética grega, greco-romana, ética cristã medieval.

2. CONTEÚDOS

• A Ética como a parte da Filosofia que se dedica à reflexão sobre as questões morais.

• A tradição socrática e platônica, o conhecimento do bem como provocador da ação justa.

• A Ética sofista, mera convenção social.

• Aristóteles, ética e virtudes. Fim último da vida ética.

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A felicidade como eudaimonia.

• O estoicismo, a existência de uma ordem universal supe- rior.

Lei natural.

• As virtudes cardinais, princípios orientadores.

• Análise da proposta de fuga de Sócrates, apresentada por Platão no diálogo Críton.

3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE

Antes de iniciar o estudo desta unidade, é importante que você leia as orientações a seguir:

1)

Para iniciar o estudo desta unidade, você deve conside- rar que a Ética é uma reflexão sobre os sistemas morais, que são variados, já que os conteúdos morais variam de sociedade para sociedade e de época para época, en- quanto a reflexão ética, segundo os pensadores socráti- cos, não deveria ser assim.

2)

Durante a leitura dos conteúdos desta unidade, leve em conta que as teorias éticas gregas, concebidas entre o século 5 e o século 6 a.C., estão condicionadas pela ne- cessidade de auxiliar a participação dos cidadãos na vida política da cidade. Observe também que o início da re- flexão teve como articulistas Sócrates e os sofistas, e que eles deixaram de lado o estudo exaustivo da physis para se aprofundar nas questões da polis. São centrais nesse período:

a) Ética socrática: baseada no caráter eterno de valores como Bem, Virtude, Justiça, Saber.

b) Ética platônica: alicerçada no Bem, valor supremo não conveniado.

c) Ética aristotélica: fundamentada no princípio de fe- licidade a ser atingido pelos membros da sociedade.

d) Ética sofista: defensora do relativismo dos valores e da predominância da vontade do mais forte.

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3)

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23

Com o advento do império de Alexandre Magno, o mapa político e social da Grécia Antiga muda drasticamente, e a relação do homem com a polis deixa de ser fundamen- tal para reger o comportamento moral. Surge uma ética mais individualista:

a) A Ética epicurista, de Epicuro e Lucrécio.

b) A Ética hedonista de Aristipo de Cirene, baseada no prazer. O verdadeiro sábio é aquele que sabe apre- ciar os prazeres mais sutis e elevados. Seu objetivo é sentir-se dono e não objeto do prazer.

c) A Ética dos cínicos de Diógenes, preocupados com a harmonia do sábio com a natureza.

d) A Ética de Pirro, Sexto Empírio etc., denominada cép- tica.

e) A Ética estoica de Zenão, Sêneca e Marco Aurélio, que

se preocupa com a relação do homem com a natu- reza. O ideal do homem estoico está em conseguir alcançar o estado de ataraxia. Isto é, alcançar o do- mínio para ser imperturbável ante as dores, paixões e problemas existenciais. 4) Para ponderar sobre outra óptica os conceitos desen- volvidos nesta primeira unidade, sugerimos que leia o artigo de Mariá Brochado, intitulado Prolegômenos à Ética Ocidental, que foi publicado na revista do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais, disponível em:

<http://revista.tce.mg.gov.br/Content/Upload/

Materia/637.pdf>.

4. INTRODUÇÃO À UNIDADE

Os conteúdos desta primeira unidade auxiliarão você, aluno, a entender mais claramente as questões filosóficas acerca da Éti- ca. Para isso, partiremos da proposta grega clássica sobre o com- portamento ético, levando em consideração que a preocupação por estabelecer o que está bem e o que está mal apõe códigos e normas morais e é tão antiga como a humanidade.

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O fundamento que inspira a Ética grega é a busca de uma

compreensão racional dos princípios que regem a conduta hu- mana. Sócrates, segundo Platão (1999), levantou a seguinte tese:

como deve viver um homem para alcançar a eudaimonia? Sócra- tes, nesse primeiro período do pensamento, levanta questões éti- cas fundamentais que são discutidas na Filosofia da atualidade.

O tema da Ética grega gira em torno das seguintes questões:

da concordância com a ideia de "Bem em si mesmo" (proposta pla- tônica); da compreensão dos termos eudaimonia e aretê (presen- tes na Ética a Nicômaco, de Aristóteles), que chegam até a Ética do estoicismo antigo. Encontramos o cimo da Ética grega na relação do indivíduo com a polis, ou seja, ele está no desenvolvimento do ethos no enfrentamento do cidadão com as exigências da socieda- de organizada da qual faz parte.

Além dos pensadores mencionados, devemos destacar a participação dos sofistas no ato de relacionar a Ética à ação hu- mana. Mesmo assim, sua proposta difere da socrática, pois estes trouxeram à reflexão a norma (nómos) como a única ordem válida para construir a organização social e política.

Da leitura dos escritos gregos sobre Ética surge a pergunta:

a lei, quer política, quer moral, é consequência de uma necessida- de natural, produto de uma vontade ou razão ordenadora, ou do nómos?

Da leitura das diferentes propostas éticas da Grécia Antiga, surge a interrogação: qual seria a melhor lei para uma cidade: a que surge da ordem da Natureza (do ser) ou aquela que deriva das convenções humanas?

5. ÉTICA NO ÂMBITO DA FILOSOFIA MORAL

Podemos dizer que o interesse por regular, mediante normas

preestabelecidas, as ações dos seres humanos é tão antigo como

a humanidade; formam parte de todas as sociedades e culturas as

prescrições, proibições, códigos e normas que definem sua moral.

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Por isso, a Filosofia Moral ou Ética tem como objetivo escla- recer os juízos morais, e serve, em última instância, de orientação moral.

Vamos supor que precisemos realizar um juízo ético sobre o problema do aborto envolvendo fetos anencéfalos (que nascem sem o cérebro) ou referir-nos ao problema da corrupção. O correto é analisar essas questões à luz de argumentos racionais e com conhecimento do tema, para estabelecer se a concepção moral que valida a questão mostra boas razões ou não. Da reflexão filo- sófica sobre o tema surgirá uma orientação que pode concordar ou discordar com a posição moral em questão.

A Filosofia Moral compreende tanto a Ética como a moral. Ética tem relação com o "bem"; moral com o "justo", que impulsio- na o conjunto de regras que fixam condições de convivência.

Como alerta, segundo Cortina e Martínez (2005, p. 10-11), para compreender melhor que tipo de saberes constituem a Ética, devemos lembrar-nos da distinção aristotélica entre saberes:

O "saber teorético" é aquele cuja finalidade é o próprio saber, a verdade, e cujos objetos são seres que existem independentemente da vontade e da ação dos homens. Está composto de três grandes ciências teoréticas: a Físi- ca, a Matemática e a Teologia ou Filosofia primeira, pos- teriormente Metafísica.

2) O "saber teórico" (mas não teorético, pois seu princí- pio ou causa é o homem como agente) é aquele que se constitui a partir da finalidade de conhecer a realidade. Para as Ciências Teóricas, seu objeto de conhecimento depende da vontade e da ação humanas.

O "saber prático", que é o que mais nos interessa nes- te momento, é aquele que pretende dirigir a atuação humana, o fazer humano. Para Aristóteles, a sabedoria prática está relacionada à capacidade de justificar as normas e valores que ajudam a ordenar a vida em socie- dade, que ajudam a viver de forma ordenada, sem con- flitos. O saber prático possibilita viver de forma digna,

1)

3)

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a viver uma boa vida. Vejamos o que dizem Cortina e Martínez (2005, p. 11) sobre esse saber:

Na classificação aristotélica, os saberes práticos eram agrupados sob o rótulo "filosofia prática", rótulo que abarca não só a Ética (sa- ber prático destinado a orientar a tomada de decisões prudentes que nos leva a conseguir uma vida boa), mas também a Economia (saber prático encarregado da boa administração dos bens da casa e da cidade) e a Política (saber prático que tem por objeto o bom governo da pólis).

Os saberes práticos são aqueles que servem para orientar a vida de forma boa e justa, que nos auxiliam na hora de agir, contri- buindo para adotar a atitude mais correta ante cada situação par- ticular. Estes são normativos, nos mostram como conduzir a vida de forma justa.

Ainda segundo Cortina e Martínez (2005, p. 10-11), Aristóte- les agrupou os saberes práticos dentro da denominação "Filosofia Prática". A Ética é concebida por Aristóteles como um saber orien- tador para alcançar a felicidade e a vida boa, assim, está dentro do âmbito da Filosofia Prática.

6. FILÓSOFOS GREGOS, ELEMENTOS FUNDAMEN- TAIS DA CIÊNCIA DO CARÁTER E DOS COSTUMES

Comparato (2006, p. 471-473) explica que os gregos desco- briram que a razão está desdobrada em duas capacidades.

Uma tem a ver com o caráter objetivo, corresponde à capaci- dade do ser humano de enxergar as essências por trás das formas individuais, e possibilita agir de acordo com esse conhecimento. Chamaram-na de razão especulativa; por meio da análise da coisa apreendida se chega à verdade.

A segunda fase da razão tem relação com o agir e o fazer se- gundo a arte (belo) e a técnica (o útil). Uma das mais importantes dimensões da razão é sua capacidade ética, com ela organizamos nosso comportamento no mundo, ela serve para indicar a linha reta.

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27

Sócrates foi o primeiro pensador a colocar que no âmbito da Ética se encontram as noções de felicidade, de virtudes e de caráter.

7. PLATÃO, OS DIÁLOGOS SOCRÁTICOS: A VIRTUDE COMO SABEDORIA

Para a tradição socrática e platônica, só o conhecimento do bem poderia dirigir a ação justa.

Antes de Sócrates, não existia na Grécia uma reflexão orga- nizada sobre o "homem moral" a não ser a posição relativista dos sofistas. Ele inicia a reflexão sobre a Ética, e por isso é chamado "Pai da Ética". Contudo, devemos apontar o fato de que, nos perío- dos anteriores, sempre houve uma definição perfeita do que era o bem comum e o bem individual.

Para os sofistas, a Ética é mera convenção social ou pactos entre os homens; Sócrates os refuta e também critica os tradicio- nalistas: os primeiros por não reconhecer a realidade objetiva dos valores éticos, e os segundos por não se aprofundar no caráter permanente desses valores.

Com exceção de uns poucos fragmentos de Heráclito e Xenófanes, encontramos entre os sofistas e e Sócrates (século V a.C.) as pri- meiras reflexões filosóficas sobre questões morais. Com relação aos sofistas, sabe-se que consideram a si mesmos mestres da virtu- de, concretamente a "virtude política" ou excelência da gestão dos assuntos públicos. Mas ao mesmo tempo suas doutrinas filosóficas defendem – ao que parece – posições individualistas e relativistas que de fato conduzem ao ceticismo ante a própria noção da virtu- de política. Eles alardeiam saber como educar os jovens para que cheguem a ser "bons cidadãos" e ao mesmo tempo negam a possi- bilidade de alcançar critérios seguros para saber em que consiste a boa cidadania (CORTINA; MARTÍNEZ, 2005, p. 53).

Sócrates defende a necessidade de estabelecer critérios ra- cionais para diferenciar a verdadeira virtude da virtude aparente defendida pelos sofistas. Essa doutrina que equipara sabedoria e virtude é denominada "Intelectualismo ético" e está apoiada no

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pressuposto de que os conceitos morais não são produto de con- venções nem de pactos, porque estão referidos às realidades uni- versais, às ideias. A bondade em si, a prudência em si, o que é justo em si mesmo, como todos os outros valores morais, existem por si próprios. O homem, por intermédio da razão, os pode definir objetivamente e, uma vez conhecidos, os pode levar para a vida prática. A moral baseada nesses princípios universais (ideias) deve presidir a vida individual, tanto a do cidadão, como a da Polis.

A Ética socrática é profundamente racionalista. Para esse pensador, só o reto conhecimento das coisas leva ao homem a vi- ver bem. Seu grande legado está relacionado a esse saber com uma ordem que emana da natureza das coisas, da essência delas.

Tanto para Platão como para Sócrates, só o conhecimento do que é virtude pode tornar o homem virtuoso. Platão afirma

que só o "sábio" é virtuoso, porque unicamente conhecendo o que

é virtude, ou seja, conhecendo a ideia de virtude é possível ser

virtuoso. Hoje essa afirmação seria no mínimo ingênua, mas de- vemos considerá-la no contexto do Mundo das Ideias na Filosofia platônica para entender esse raciocínio. Sugerimos a releitura do

Mito ou Alegoria da caverna (PLATÃO, 2006, livro VII, p. 267) para entender melhor o "sábio", que é aquele que está em contato com

o Mundo das Ideias. Na Ética, como na Antropologia platônica, de- vemos pensar em um bem absoluto, um Bem com "B" maiúsculo.

Em Fédon, Platão coloca em evidência seu dualismo antro- pológico, evidenciando que o corpo dificulta o acesso às virtudes

e ao verdadeiro conhecimento. Nesse ponto discrepa de seu discí- pulo Aristóteles.

Logo no período socrático, Platão começa a trabalhar sua

teoria das formas ou das ideias, colocando a forma do Bem agathós como a forma metafísica suprema. Platão (1999, p. 149) diz que "a alma quando está em si mesma e analisa as coisas por si mesmas, sem se valer do corpo, encaminha-se para o que é puro,

Dando continuidade ao pensamen-

eterno, imortal, imutável [ to:

]".

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Há algum sentido corporal por meio do qual chegaste a apreciar

as coisas de que te falo como a nobreza, a sanidade, a força, em

resumo, a essência de todas as coisas, isto é, aquilo que são nelas mesmas?

Não, o conseguirá claramente quem examine as coisas apenas com

o pensamento, sem pretender aumentar sua meditação com a

vista, nem sustentar seu raciocínio por nenhum outro sentido cor- poral; aquele que se servir do pensamento sem nenhuma mistura procurará encontrar a essência pura e verdadeira sem o auxílio dos olhos ou ouvidos e, por assim dizê-lo, completamente isolado do corpo (PLATÃO, 1999, p. 127).

É muito clara a distinção metafísica entre corpo e alma: o

corpo é visto como um cárcere da alma, e o prazer e os sentidos são extremamente desvalorizados.

Os filósofos, ao verem sua alma presa ao corpo são obrigados a apreciar as coisas por intermédio do corpo, como se fosse através

de uma cerca ou prisão. Ao sentirem que a força dessa ligação cor- poral consiste em paixões que fazem com que a alma acorrentada

Consolam-se e a advertem para não

utilizar os sentidos mais do que exige a necessidade, aconselhando-

-a recolher-se e encerrar-se em si mesma, a não crer em nenhum

ajude a apertar seus ferros [

].

testemunho que não seja o seu próprio (PLATÃO, 1999, p. 149).

A felicidade, eudaimonia

Eudaimonia é um termo formado por o prefixo "eu" que significa "bem disposto" e "daimon", "com um poder divino"; "eudaimon" é o adjetivo para "feliz". No pensamento grego anti- go, ser feliz significa poder usufruir os dons divinos. Para Platão, a felicidade é produto da sabedoria. O sábio que acede ao mundo das ideias é então eudaímon: feliz. Contrariamente a esse pensa- mento, para Aristóteles a felicidade é uma atividade acessível ao ser virtuoso que respeita os valores morais.

Esse tema foi comentado por Platão nas obra A República, (2006, 354a) e As Leis (1991, livro 5) e citado por Aristóteles em Ética a Nicômaco (2002, livro 1).

A proposta platônica também é diferente da defendida pelo

estoicismo; para os seguidores dessa doutrina, a felicidade resulta

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da vida harmoniosa, mas não é um fim (telos), e sim um estado concomitante. Porém, tanto para Platão como para Aristóteles, a felicidade é o fim da ação humana.

A virtude, aretê

a felicidade é o fim da ação humana. A virtude, aretê Figura 1 A escola de

Figura 1 A escola de Atenas (1509-1510), quadro de Rafael, que mostra Platão ao centro.

Em A República (PLATÃO, 2006), Platão, ao reportar-se ás qualidades da cidade, enumera as quatro virtudes principais: a sabedoria (sophia), a coragem ou fortaleza de ânimo (andreia), a temperança (sophrosyne) e a justiça (dikaiosyne). Posteriormente essas virtudes foram chamadas de cardeais, ou seja, fundamen- tais. Platão alerta: não basta conhecer a virtude, devemos também fazer algo voluntariamente para conservar-nos virtuosos.

A República não é simplesmente uma utopia, nem simples- mente uma obra de Filosofia Política; envolve um projeto ético-político-educativo. Está baseada num princípio ético: para que exista uma sociedade justa, esta deve estar governada por pessoas justas e receber uma educação específica.

Para concluir esse tema, é oportuno citar as palavras de Cor- tina e Martínez (2005, p. 57):

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Talvez o que mais chame a atenção da teoria ética de Platão seja sua insistência na noção de um bem absoluto e objetivo – o Bem com maiúscula – que, em sua qualidade de Idéia Suprema no mun- do das Ideias, constitui a razão última de tudo o que existe e de toda possibilidade de conhecimento. [ ]

Platão afirma que só os que têm a capacidade e a constância ade- quadas chegarão a se encontrar frente a frente com o Bem em si.

Quanto às demais pessoas, que por falta de capacidades natu-

] [

rais não chegarem à contemplação da Idéia de Bem, encontrarão o tipo de felicidade que lhes corresponde atendendo às capacidades que têm, sempre e quando, é claro, desempenharem cabalmente as virtudes próprias de sua função social.

8. O FIM ÚLTIMO: A FELICIDADE

Aristóteles expõe suas reflexões éticas na obra Ética a Nicô- maco (ARISTÓTELES, 2002). Também escreveu outras duas obras sobre este tema: a Ética a Eudemo, que reflete elementos de seu período de juventude, e a Grande Moral ou magna moralia, na qual aparecem de forma resumida as ideias centrais da Ética a Ni- cômaco, a obra Política, que para Aristóteles é um desdobramento da Ética.

Aristóteles inicia a Ética a Nicômaco afirmando que toda ação humana se realiza visando um fim; o fim que impulsiona a ação coincide com o bem, se identifica com o bem. Ainda assim, alerta o pensador, muitas das ações que o indivíduo executa são

"instrumentos" para possibilitar a realização do fim. Por exemplo,

o fato de submeter-se aos cuidados da Medicina preventiva tende

a evitar futuras intervenções mais complexas e perigosas, possi- bilitando um fim que não é o imediato. Alimentar-nos de forma racional sem cometer excessos para ter boa saúde também visa

a um fim não imediato. A correta alimentação é um instrumento,

como a Medicina preventiva, para ter boa saúde, que é o fim últi- mo da ação.

Aqui surge a pergunta: existe algum fim que não seja um ins- trumento para alcançar outro bem mais cobiçado? Aristóteles diz

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nessa obra que a felicidade é o bem último. A felicidade é aquele estado a que todos aspiraram por natureza. A felicidade é um con- ceito que está identificado com a boa vida. O problema é que não são todos os homens que concebem de forma clara o que é a ver- dadeira felicidade, muitos, procurando a felicidade, se entregam ao prazer, procuram acumular riquezas materiais, cargos de reco- nhecimento, honras, enquanto a verdadeira felicidade é viver de forma virtuosa, sem cometer excessos. Quanto maior for o núme- ro de virtudes que o indivíduo pratica, mais virtuoso ele será, e a

prática consciente da virtude está diretamente ligada à felicidade.

A felicidade é então o maior dos bens, é um bem em si (ARISTÓTE- LES, 2002, livro 1, 1).

Ninguém pode buscar a felicidade pela felicidade; a felici- dade não é uma coisa que pode ser adquirida. Muitos imaginam que, adentrando no mundo dos prazeres, das posses materiais, do poder, podem "comprar" a felicidade, mas esta é um bem absolu- to, é considerada um bem em si mesmo. Só podemos alcançar a felicidade como consequência de uma vida reta e virtuosa.

No livro 2 da Metafísica (2006), Aristóteles descreve o que entende por virtude e vício. O homem deve repetir as boas ações, aquelas consagradas como boas. Praticando boas ações e descar- tando as erradas, adquire-se um hábito, que, para Aristóteles, é a Virtude. Por sua vez, se a minha conduta não é a correta e mesmo

assim persisto nela, estarei adquirindo um vício. Virtudes e vícios têm relação com a conduta escolhida. Todo bom hábito deve ter como farol o termo médio, que se encontra entre os extremos. Al- guns vícios são produto do excesso, outros, da privação; a virtude escolhe o termo médio. Assim, a virtude é o termo médio, mas

a perfeição que a determina é o Bem. Contudo, não existe uma

norma rígida sobre como se comportar perante determinado fato. Continuamente devemos, racionalmente, tomar decisões corre- tas. Mesmo que exista essa necessidade de avaliar continuamente nossas decisões, não podemos nem pensar que Aristóteles aceite

a relatividade da virtude. Acontece que o que é termo médio para uns pode ser extremo para outros e vice-versa.

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Ora, realmente parece haver diversas finalidades visadas por nos- sas ações; entretanto, ao elegermos algumas delas, por exemplo, a riqueza, ou flautas e instrumentos em geral – como um meio para algo mais, fica claro que nem todas são finalidades completas, ao passo que o bem, mas excelente (o bem supremo) parece algo completo. Conseqüentemente, se houver alguma coisa que, por si só, seja a finalidade completa, essa coisa – ou se houver várias finalidades completas, aquela entre elas que for a mais completa será o em que é o objeto da nossa investigação. Ao nos referirmos a graus do completo, queremos dizer que uma coisa buscada como uma finalidade em si mesma é mais completa do que uma busca- da como um meio para alguma coisa mais e que uma coisa jamais eleita como um meio para qualquer coisa mais é mais completa do que as coisas eleitas tanto como finalidade em si mesmas quanto meios para aquela coisa; em conformidade com isso, chamamos de absolutamente completa uma coisa sempre eleita como uma finalidade e nunca como um meio.

Ora, a felicidade, acima de tudo o mais, parece ser absolutamente completa nesse sentido uma vez que sempre optamos por ela mes-

ma [

].

Mas ninguém opta pela felicidade pela honra, pelo prazer

etc. [

]

(ARISTÓTELES, 2002, p. 15-16).

Virtudes éticas e dianoéticas

Para explicar as virtudes, Aristóteles (2002) parte da análise da ação humana.

Aristóteles, com relação às ações humanas, determina que existem três aspectos principais presentes nelas: a volição, a deliberação e a decisão.

Sobre a primeira, a vontade, Aristóteles afirma que está orientada para o bem. Portanto, a preocupação não é sobre o que queremos, e sim sobre que caminhos escolhemos para alcançar o bem, que já está determinado na própria natureza humana. O segundo aspeto sim é fundamental: a deliberação, como e o quê fazer; este inspira o terceiro, a decisão.

Mas como a felicidade é uma certa atividade da alma em conformi- dade com a virtude perfeita, é mister examinar natureza da virtude por isto provavelmente nos ajudará em nossa investigação da na- tureza da felicidade. Acresça-se que aprece que o verdadeiro esta- dista é alguém que realizou um estudo especial da virtude, visto ser sua meta tornar os cidadãos indivíduos virtuosos e respeitadores da lei.

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A

virtude que temos que considerar é a virtude humana, visto que

o

bem e a felicidade que nos dispomos a buscar foram o bem hu-

mano e a felicidade humana. Mas a felicidade humana significa, a nosso ver, excelência da alma, não excelência do corpo; em coerên- cia com isso definimos a felicidade como uma atividade da alma [

Ora, a virtude também é diferenciada em consonância com a divi- são da alma (vegetativa, apetitiva e racional). Algumas formas de virtude são chamadas de virtudes intelectuais, e outras virtudes morais. A sabedoria, o entendimento e a prudência são virtudes intelectuais; a generosidade e a temperança são virtudes morais. Ao descrever o caráter moral de alguém não falamos que se trata de alguém sábio ou capaz de entendimento, mas que é uma pessoa moderada ou sóbria. Mas o homem sábio também é louvado por sua disposição e chamamos virtudes às disposições dignas de lou- vor (ARISTÓTELES, 2002, p. 60-63).

Aristóteles continua explicando que as virtudes éticas são resultado de nossos costumes e hábitos e são dirigidas a dominar a alma sensitiva. Durante toda nossa existência, vamos desenvol- vendo um ethos. Para as virtudes éticas, vale a teoria do justo- -meio; por exemplo, entre a vaidade (que é um excesso) e a extre- ma modéstia (que evidencia falta de autoestima) está o respeito próprio, que coincide como o justo-meio, que é uma virtude.

As principais virtudes são: fortaleza, temperança e justiça.

As virtudes dianoéticas, relacionadas às funções da alma racional, formam parte do intelecto (nous) e do pensamento (noésis). Seu desenvolvimento depende da boa educação.

As principais virtudes dianoéticas são: sabedoria e prudên- cia. Segundo Aristóteles (2002, livro 10-6, p. 274, 275):

A felicidade não pode ser uma disposição do caráter, porque se o

fosse poderia ser possuída por um individuo que passasse a totali- dade de sua vida adormecido vivendo a vida de um vegetal, ou por alguém que estivesse mergulhando no mais profundo infortúnio.

Fica claro que a felicidade deve ser considerada uma atividade

desejável em si mesma e não entre aquelas desejáveis a título de meios para alguma coisa. Mas a felicidade consiste na atividade de acordo com a virtude.

] [

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35

Continuando o raciocínio, vejamos um extrato da obra de Ana Leonor Santos (2008, p. 39-43), o qual explica a função da educação responsável pela formação do êthos:

] [

A ética deve importar particularmente a alguns seres humanos –

aqueles que não estão sob protecção imediata dos deuses. Mas este conjunto de seres a que a ética diz respeito é intersectado por um outro, respeitante aos animais, aos quais Aristóteles aplica o termo êthos.

[ ]

Do (êthos) animal ao humano

No homem: diferentemente do que acontece com os animais, não há um êthos da espécie humana; no nosso caso, a singulari- dade manifesta-se também nas diferenças individuais de carácter

– justificadas pela ausência de regulação natural da faculdade de-

siderativa (regulação vigente no mundo animal) –, para cuja for- mação contribuem os hábitos adquiridos através da educação. [ ] Assim sendo, e apesar de algumas diferenças individuais devidas

à natureza – já que nem todos são igualmente receptivos à edu-

cação –, existe uma dimensão de indeterminação que vai adqui- rindo forma graças à educação e que é, porventura, responsável pela formação do êthos numa dimensão que não estritamente psicológica, ao mesmo tempo, e pelo mesmo motivo, responsável pela imputabilidade das noções de bem e de mal ao ser humano, juntamente com a posse da razão e a ausência de auto-suficiência. Pela posse da razão percebe-se que o homem não é um simples animal; pela ausência de auto-suficiência ele afasta-se dos deuses. A sua situação é intermédia: entre um e outros encontra-se o único ser vivo que percebe o bem e o mal, o justo e o injusto, distinções cujo conhecimento lhe é indispensável na medida em que nem o seu carácter está determinado pela natureza nem o seu compor- tamento é padronizado. Deve, pois, escolher o comportamento a adoptar, após um período de deliberação, durante o qual se supõe que a percepção ética acima referida exerça influência, caso tenha sido correctamente adquirida, formando um carácter temperado.

O ideal grego consistia na beatitude da contemplação. O ro- mano, porém, era o oposto do grego, caracterizando-se pelo espí- rito prático.

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9. OS SOFISTAS, DEFENSORES DO " NÓMOS "

Segundo Guthrie (1995, p. 62-69), no século 5 a.C., como consequência das teorias físicas da evolução da vida desde a ma- téria inanimada, surgiram teorias que se opuseram às alinhadas à perfeição da "Raça dourada" de Hesíodo. Essas teorias evolutivas relatam que, no começo os homens viviam como os animais, não tinham ideia de organização social nem econômica, morriam em grande número de frio, de fome e de ataque de feras. As necessi- dades lhes impuseram a precisão da comunicação racional, apren- der a falar simbolicamente e a armazenar alimentos para períodos de escassez como o inverno e épocas de seca. Isso marcou o co- meço da vida civilizada em comunidade, para isso foi fundamental observar o respeito pelos direitos do outro. Esses relatos de corte racionalista referido à evolução humana estão em forte oposição às teorias religiosas baseadas na idade da perfeição de Hesíodo ou da Idade do Amor de Empédocles.

Os seguidores das teorias evolucionistas estavam a favor de que o "nómos" fosse considerado o meio para elevar a vida huma- na a uma vida civilizada. Um dos grandes defensores dessa teo- ria do progresso é Protágoras; na lista de suas obras encontramos uma que se destaca nesse sentido, Sobre o estado original do ho- mem. Esse pensador sofista defende que o avanço moral depende da experiência e da educação. Por tanto, discorda de Sócrates ao defender que a "aretê" (ou "conteúdo moral") é uma habilidade adquirida respeitando as leis.

Para Protágoras, então, autodomínio e senso de justiça são virtudes necessárias à sociedade, que por sua vez é necessária para a sobre- vivência humana; e nomoi são as linhas-mestras fixadas pelo Esta- do para ensinar aos cidadãos os limites dentro dos quais podem se movimentar-se sem violá-las (GUTHRIE, 1995, p. 69).

Segundo Guthrie (1995, p. 57), o termo "nomo", "norma es- crita", para os pensadores do século 5 a.C. é alguma coisa em que se acredita, que se pratica e se aceita por certa. Assim é aceito que povos diferentes tenham diferentes nomis.

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Segundo Heráclito, as leis humanas são sustentadas pelas leis divinas (nómos-physis); para os sofistas elas dependem de cos- tumes e hábitos.

10. ESTOICOS E A LEI NATURAL, PERÍODO HELENISTA

Enquanto a Grécia viveu seu momento de maior esplendor cultural no século 5 a.C., no período helenista reinou a confusão política e moral. Esses tempos foram marcados por inúmeras guer- ras, ruíram as cidades de Atenas, Esparta e Tebas, enquanto isso,

viram surgir novas cidades de cultura grega, entre elas Alexandria

e Antioquia.

Na Filosofia, podemos destacar diferentes escolas:

a) Os cínicos (400 a.C.), que cultivavam a ideia de que ser feliz dependia de se liberar das coisas transitórias. Para esses pensadores, a felicidade é um bem que pode ser alcançado por todos, pois ela não consiste em luxúria, poder político ou boa saúde, e sim em se libertar disso tudo.

b) Os estoicos, cujo fundador é Zenão, e os epicuristas, es- cola fundada por Epicuro. Ambos os grupos acreditavam que a Ética e as questões morais eram mais importantes do que as questões teóricas. Baseavam sua Filosofia em um individualismo moral. Os estoicos, em geral, prega- vam uma vida austera, mas os epicuristas defendiam o prazer (hedoné), só que o prazer que procede do exer- cício do lógos. No campo da moral proclamavam viver conforme a natureza, sendo a natureza o lógos, ou seja, deveria se viver em concordância com a razão.

c) O neoplatonismo, que conserva traços do movimento inspirado pelos pré-socráticos, Demócrito e Heráclito de Éfeso.

Os estoicos acreditavam no destino e na resignação ante o irremediável. Como diz Comparato (2006, p. 109): "É inegável que

o pensamento estoico insere-se na linha histórica das filosofias de Pacificação da alma".

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O estoicismo representa a reunião de um grande número de pensadores. Os primeiros foram Zenão de Cítio (322-264 a.C.) e Crísipo (232-204 a.C.). Cuidado para não confundir Zenão de Cito com Zenão de Eleia, conhecido por seus paradoxos! Infelizmente não existe nenhuma obra completa desses pensadores; abundam citações e comentários de seguidores ou detratores, mas faltam os textos originais. Para todos os estoicos, era muito importante a exaltação da ordem da natureza.

Ainda segundo Comparato (2006), os estoicos defendem que existe uma ordem universal superior. Por isso é possível dizer que, para os estoicos, natureza (physis) e razão (logos) se confun- dem. A natureza possui um princípio racional que é responsável por organizar as estruturas do mundo, a vida, em todos seis níveis, inclusive a humana e a verdade ética. Motivado por esta ideia, Ze- não divide a Filosofia em: Lógica, Física e Ética. Para ele a virtude consiste em viver em concordância com a natureza.

Cortina e Martínez (2005, p. 61-63) falam que sob a denomi- nação de estoicos agrupam-se as doutrinas filosóficas de um amplo conjunto de autores gregos e romanos que viveram nos séculos III a.C. e II d.C. Eles julgaram necessário indagar em que consiste a or- dem do universo para determinar qual devia ser o comportamento correto dos seres humano. Acreditam que deve haver uma Razão primeira comum, que será ao mesmo tempo a Lei que rege o uni- verso. Essa razão cósmica, esse logos, é providente, ou seja, cuida de tudo o que existe. O sábio é o que consegue conquistar os bens internos e desprezar os externos, chegando a ser, nas palavras de Sêneca, "artífice de sua própria vida". Já aparece aqui, ainda que de forma rudimentar a concepção de liberdade como autonomia, que será desenvolvida posteriormente por Santo Agostinho.

Natureza como lei

Está presente em diversas culturas da Antiguidade Clássica a concepção de que existem leis universais ou um direito que é comum a todos.

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Aristóteles (2005) escreve na obra Retórica que existem leis particulares dos povos e leis comuns ao gênero humano. As últi- mas são conforme à natureza, pois existe algo que todos, de certo modo, percebemos ser.

Aristóteles (2005, p. 114) cita a afirmação de Antígona de que tais leis "não são de hoje nem de ontem, senão que sempre existiram".

"Natureza", para Burgos (2007), deriva da palavra latina "na- tura", tradução do temo grego "physis", substantivo que tem por

raiz "nascer, crescer, produzir, reproduzir etc.". Mas, para o grego antigo, "natura", "natureza", "physis" é tudo o que existe, é o con- junto da infinidade de coisas que existem, mas também o senti- do por que surge e vive cada um em particular. A natureza assim entendida sugere perfeição, beleza, espontaneidade, harmonia; é perpassada por leis que são independentes do homem. Burgos

(2007, p. 22) nos diz que "[ intermédio da razão".

Ainda segundo Burgos (2007), é de Aristóteles a definição que diz que também é natureza o elemento primeiro, imutável, a essência que faz com que as coisas tenham um princípio ativo que lhes empurra para a perfeição do ser. Burgos (2007, p. 31) escre- ve: "O conceito de natureza ultrapassa o mundo físico e alcança o metafísico; por essa perspectiva, natureza é a essência enquanto princípio de operação" (tradução nossa). Natureza inclui a nature- za humana, abarca a dimensão de alma física e também de alma intelectual, inclui a dimensão humana de liberdade. Platão, na Re- pública (2006, 486a), explica que existe uma natureza filosófica, physis philósophos, que é inata.

o homem só pode aceder a elas por

]

Segundo Comparato (2006), a Ética estoica difundida por Cí- cero e trazida para Roma por Panécio se destaca pelos seguintes princípios:

a) A lei natural está acima dos costumes e das leis dos povos, ela não depende da vontade popular;

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b) Viver em harmonia com a natureza;

c) Saber conformar seu próprio interesse com o interesse da co- letividade, observando o bem comum e as leis que emanam da ordem natural;

d) Respeitar ao próximo pelo fato de ser pessoa humana de acor- do com a lei natural implica em não atentar contra os direitos alheios;

e) Só o respeito pela lei natural resguarda as virtudes (amor à pá- tria, piedade, vontade de fazer o bem etc.);

f) O termo Lex toma em Cícero o sentido geral e abstrato de princípio, tal como a palavra "nómos" na filosofia grega. A lei se define como "a razão fundamental, ínsita na natureza, que ordena o que se deve fazer e proíbe o contrário". A lei verda- deira é, portanto, a expressão da razão e da justiça. Segue-se que um mandamento injusto, ainda que revestido de aparência legal, não é lei, senão corrupção dela; assim como uma receita médica que induz a morte do paciente não é uma verdadeira receita em essência. Um mandamento pernicioso, votado pelo povo, é tão pouco uma lei quanto aquele promulgado por uma assembléia de bandidos (CÍCERO apud COMPARATO, 2006, p.

112-113).

Para viver em harmonia com a natureza, o ser humano, que é um, não pode ser dividido em alma e corpo como substâncias diferentes desde o ponto de vista hierárquico como supusera Pla- tão; deve controlar as paixões (a dor, o medo, o desejo sexual, o prazer pelo prazer). Para alcançar o estágio de sábio, o ser humano deve controlar sua conduta sendo indiferente, apático aos fatos exteriores sobre os quais não tem poder nenhum (morte, dores pelo corpo, beleza ou feiura de seus traços, riqueza material ou pobreza, condição social etc.). Para os helênicos, viver em concor- dância com a natureza consiste, em última instância, em viver em harmonia consigo mesmo, afirma Comparato (2006, p. 110).

Para os Estoicos o sistema físico, o lógico e ético encontram- -se unificados pela noção de logos. A Física estoica enxerga o mun- do como um ser vivo totalmente racional, governado por uma es- pécie de Providência racional (pronoia).

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A phýsis se apresenta aos olhos estoicos como algo sagra- do, evocando a soma daquilo que é permanente e essencial nos fenômenos naturais, não no sentido de um Deus criador como o do cristianismo, e sim como princípio de racionalidade que se en- contra em todas as coisas, em especial no homem, que contém em si o logoi spermatikoi, ou seja, a capacidade de racionalidade equivalente.

Cícero (2012) sustenta que a beleza e a complexidade do mundo, onde tudo está em equilíbrio e se ajusta perfeitamente, são provas ontológicas da existência de uma inteligência superior que tudo governa e ordena. Não foram átomos acidentais os for- jadores do mundo como pensaram os epicuristas. Viver de acordo com a natureza significa respeitar o princípio que opera nela.

Estoicismo e o Estado Universal

Para os estoicos, não existem atos maus em si mesmos; o mal moral sintetiza a ausência da reta ordem na vontade humana. Nenhuma ação é por si boa ou má, também não pode ser con- siderado bom ou ruim o que não é nem virtude nem vício, já que nos é indiferente. Os estoicos aderem às virtudes cardinais propos- tas por Platão: Prudência, Temperança, Fortaleza e Justiça, e pres- taram uma grande atenção a problemas da conduta para alcançar o fim da vida humana, que é a felicidade. Para isso, ensinam que devemos ser virtuosos (viver de acordo com a lei da natureza). En- tendem que tudo no universo é regido pela lei natural, e o homem racional deve se adaptar a sua própria natureza-essencial e viver de acordo com as leis do universo.

Os estoicos usaram a alegoria de um cachorro amarrado a uma carroça para ilustrar nossa realidade: quando ela se movi- menta, o cão deve ir atrás dela, mas isso pode ser feito de duas maneiras: aceitando o fato ou ir sem aceitá-lo, sendo arrastado pelo pescoço. Tudo o que acontece depende da natureza orde- nada por Deus. A morte é inevitável e estamos destinados a ela, como a maior ou menor fama, riqueza, pobreza, dor ou alegria, tudo faz parte do nosso destino.

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Eles, os estoicos, são deterministas, nada acontece fora da ordem da natureza. Tudo tem um significado e uma razão. Para ser feliz, o homem deve aceitar sua finidade e seu destino, deve conformar-se com a sua condição de transitoriedade e fragilidade; a vida humana é passageira se comparada aos milhões de anos do universo. O sábio estoico é aquele que não nega a sua transitorie- dade e se acredita eterno, não nega a sua fragilidade e se pensa invulnerável, já que o engano implica sofrimento. A máxima estoi- ca diz: para evitar o sofrimento, devemos aceitar o nosso destino.

Assim, o termo "estoicismo" ficou associado à resistência ao infortúnio e à fortaleza ante a nossa sensibilidade. No entanto, o pensamento estoico vai muito além disso: sustentará o amor como fundamento do direito verdadeiro e exporá as bases para ideali- zar uma sociedade de todos os homens, uma sociedade universal unida pelo princípio da fraternidade. Ensinará que não deve haver cidades-estados governadas por diferentes sistemas jurídicos, to- das devem observar ou ter como base o princípio da igualdade de todos os homens que emerge da Lei Natural. Assim, delineiam as bases do Estado Universal, no qual as pessoas convivem juntas em harmonia guiadas pela luz da razão. Iniciam-se desse modo os alicerces do edifício dos Direitos Humanos.

Os estoicos explicam a história que envolve o desenvol- vimento da sociedade da seguinte forma: no começo da história humana, as pessoas conviviam sem divisão de classes ou naciona- lidades. No primeiro estágio social, denominado Idade de Ouro, não era aceito qualquer tipo de discriminação ou dominação de um sobre seus semelhantes, uma vez que todos participavam da propriedade comum dos bens conseguidos. A humanidade era formada por uma comunidade de homens livres e iguais, que foi terminando quando se instalou a troca, a ganância e o egoísmo.

Assim, o Direito Natural perfeito e absoluto teve de ser substituído por outro, relativo, que levasse em conta a natureza imperfeita do homem e observasse as condições reais da realidade

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social. Para corresponder ao princípio do Direito Natural, deveria se evitar a discriminação por sexo, raça, condição socioeconômica, promovendo a liberdade e igualdade de todos os homens.

Essa concepção de Direito Natural defendida pelos estoicos teve uma grande influência sobre o ulterior desenvolvimento do Direito; está presente no pensamento dos Padres da Igreja, influen- ciou as instituições jurídicas do Direito Romano que foi legado para os povos do Ocidente, primeiramente, para logo se universalizar.

do Ocidente, primeiramente, para logo se universalizar. Figura 2 O império romano antigo . Para Comparato

Figura 2 O império romano antigo.

Para Comparato (2006, p. 111-112), Cícero, por exemplo, ex- plicou que o Direito Civil é simplesmente a manifestação huma- na da Lei Natural. O verdadeiro Direito não pode ser diferente em Atenas e Roma por ser de aplicação universal, imutável, eterna e obrigatória para todos os povos. Observemos o que diz Comparato (2006, p. 116-117):

A partir do final da Segunda Guerra Púnica (218-201 a.C.),

inicia-se o chamado período helenístico da história jurídica roma- na, em que os jurisconsultos passam a aplicar o método dialético grego na análise do Direito.

A dialética foi introduzida em Roma pelos estóicos, notadamente por Panécio.

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O método dialético consistia, antes de tudo, na classificação dos

dados da realidade empírica pelo duplo processo de distinção (diairesis, differentia) e do relacionamento (synthesis), o qual con- duzia ao estabelecimento de gêneros e espécies (distinctio, divisio), ou seja, à formulação de conceitos.

Uma vez formulados os conceitos, o segundo passo da análi-

se dialética consistia em descobrir os princípios ou explicações ra- cionais da realidade. Uma breve narração das coisas (brevis rerum narration).

Mas a contribuição dos estóicos para a criação da ciência jurídica não se limita à introdução do método da análise dialética da reali- dade jurídica. Eles trouxeram também para Roma uma visão ética do mundo, expressa em um sistema de princípios.

Por exemplo, há uma correspondência, essências entre as virtudes cardinais e as tendências fundamentais da natureza humana. A jus- tiça, segundo Panécio, corresponde com tendência do indivíduo a viver em harmonia com a humanidade. A prudência, à tendência natural à descoberta da verdade e ao cumprimento dos valores morais. Por sua vez, a virtude da moderação, ou razoabilidade, que ele denominara sophrossyne, está ligada à tendência natural do respeito à dignidade própria e à dos outros homens (Aidôs). A qual conduz à beleza moral (kálon) que os romanos traduziram por decorum ou honestum, em oposição à seca utilidade. Na verdade, nada pode existir de útil na vida que não seja, ao mesmo tempo, justo e honesto.

O jurisconsulto Celso, segundo Comparato (2006, p. 448), define o Direito como o Bom e Equitativo. Declara que os princí- pios jurídicos fundamentais são três:

] [

a) Viver de modo honesto.

b) Não lesar ninguém.

c) Atribuir a cada um o que lhe corresponde.

Esses princípios formam a base do Direito Comum a todos os povos, e surgem do princípio do Direito Natural. Por serem supe- riores aos do Direito convencionado, regem todas as ações éticas.

Não podemos encerrar o tema dos estóicos sem deixarmos de tratar de outro grande filósofo cuja importância para a Ética será tão grande que sua corrente ética receberá o seu nome. Refe- rimo-nos ao filósofo Epicuro, que tem uma reputação até um pou-

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co injusta por parte de alguns filósofos cristãos, pois o consideram estimulador da autoindulgência e da supremacia da alegria. Talvez porque nos jardins (comunidade dos discípulos de Epicuro) reina- va a alegria por sobre as outras práticas educativas, a vida simples guiada pelo sensível desconsiderando a imortalidade da alma no sentido platônico. No que respeita à moral, esse pensador defende a Regra de Ouro: é impossível viver uma vida prazerosa sem viver sabiamente e é impossível viver bem e com prudência (evitando a dor, o perigo, a doença etc.) sem se viver uma vida agradável. Em realidade, buscava mais a extinção do sofrimento do que propria- mente o prazer.

O mérito de Epicuro está em ter compreendido que havia alguma

coisa que reclamava um grande número de espíritos e em ter-lhes dado satisfação de uma forma admirável. Muitos homens, com

efeito, preocupam-se acima de tudo em ser felizes; a felicidade é

o último termo das suas aspirações; mas, como são inteligentes,

não podem recusar o terem em conta as exigências do seu espíri- to; não poderiam ser completamente felizes se não dessem uma razão plausível da sua regra de procedimento; sentem a necessi- dade de conceber uma explicação do espetáculo que apresentam os seres e os fenômenos do mundo, mas não apresentam muitas dificuldades, não são muito exigentes em matéria de explicação; contentam-se de boa vontade com a primeira teoria que lhes pro- põem, que julgam compreender e que aceitam com confiança; não

se dão ao trabalho de a complicar, de a aprofundar; se as suas dou-

trinas apresentam algumas contradições, não dão por isso ou não se inquietam com a sua resolução. O epicurismo trazia-lhes preci- samente aquilo que eles pediam: "Ó aberta e simples e direta via", diz Cícero (JOYAU, in Os Pensadores, 1985).

A Lei moral, inspirada no Direito Natural impresso por Deus no homem, deve ser aplicada na vida cotidiana. O homem deve controlar as paixões (amor, admiração, ódio, tristeza, alegria e de- sejo) e encaminhar-se para uma vida justa. Segundo Agostinho (2000), como o homem possui uma vontade livre, é responsável ante Deus e ante si mesmo por sua vida.

Esse e outros temas serão estudaremos na Unidade 3.

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11. TEXTOS COMPLEMENTAR

Sócrates, o patrono da Filosofia Moral, nos últimos dias de sua vida deixa, como está retratado na obra Críton de Platão, um grande ensinamento sobre o que é bom, virtuoso, justo e sobre como atuar corretamente ante as desavenças, injustiças etc.

atuar corretamente ante as desavenças, injustiças etc. Figura 3 A morte de Sócrates (1787), quadro de

Figura 3 A morte de Sócrates (1787), quadro de Jacques-Louis David.

Segundo Platão (2012), Sócrates está na prisão de Atenas es- perando a hora de sua execução. Analisando a proposta de fuga apresentada por Críton, Sócrates conclui que nunca devemos agir de forma moralmente errada. Para fundamentar sua posição, utili- za três argumentos por meio dos quais mostra que nessas circuns- tâncias é errado fugir:

1)

Nunca devemos lesar ninguém, e muito menos o Estado

2)

e seu conjunto de leis. Se Sócrates fugisse, estaria desonrando o acordo de acei-

3)

tar as leis do Estado, faltando às promessas realizadas. A sociedade e Estado em que vivemos são nossos pais e mestres e é errado desobedecer ao pai e ao mestre.

Sócrates defende os seguintes princípios: nunca se deve agir injustamente, nunca se deve fazer mal aos outros, nem mesmo como paga do mal que nos é feito. Se ele se transformasse num

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fora da lei, nenhum bem estaria fazendo a si mesmo, a seus amigos e familiares.

Em Críton, Platão exemplifica a Filosofia Moral argumentando sobre a forma como deve ser justificada uma importante decisão prática. Sócrates podia ter fugido da prisão e saído de Atenas, ou pedido clemência aceitando o que os políticos argumentavam con- tra ele, mas não quis, preferiu cumprir com as leis da cidade. Prefe- riu terminar sua vida salvando sua integridade moral.

Leia os Diálogos Platônicos, especialmente o Críton ou o Dever, disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/

cv000015.pdf>.

12. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS

Sugerimos que você procure responder, discutir e comentar as questões a seguir, que tratam da temática desenvolvida nesta unidade, ou seja, sobre a proposta grega clássica e sobre o com- portamento ético.

A autoavaliação pode ser uma ferramenta importante para você testar o seu desempenho. Se você encontrar dificuldades em responder a essas questões, procure revisar os conteúdos estuda- dos para sanar as suas dúvidas. Esse é o momento ideal para que você faça uma revisão desta unidade. Lembre-se de que, na Edu- cação a Distância, a construção do conhecimento ocorre de forma cooperativa e colaborativa; compartilhe, portanto, as suas desco- bertas com os seus colegas.

Confira, a seguir, as questões propostas para verificar o seu desempenho no estudo desta unidade:

1)

Aristóteles, no livro 2 da Metafísica (2006), descreve o que entende por vir- tude e vício. Esclarece que virtudes e vícios têm relação com a conduta es- colhida, e afirma: o hábito sempre deve ter como farol o termo médio, que se encontra entre os extremos. Responda:

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2)

3)

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a) Como Aristóteles explica o que é virtude?

b) Vício é o contrário de virtude?

Como se denominam os seguidores das teorias evolucionistas que estão a favor do nómos? E como estes entendem a Ética? Justifique sua resposta.

O que você entende por "Intelectualismo ético"?

4) Os estoicos julgaram necessário indagar em que consiste a ordem do uni- verso para determinar qual devia ser o comportamento correto dos seres humanos. Acreditam que deve haver uma Razão primeira comum. Disserte sobre a proposta ética dos estoicos, referenciando-a do Direito Natural.

5)

O estoicismo representa a reunião de um grande número de pensadores. Mencione os principais e comente sua proposta ética.

6) Uma das primeiras preocupações da Ética é idealizar uma teoria normativa que venha auxiliar-nos a resolver problemas sobre o que é certo e sobre como devemos agir. Sócrates, no diálogo Críton e na Apologia, justifica seus juízos normativos: "Não devo tentar fugir da prisão, o conhecimento é um bem, é sempre mal lesar outrem".

7)

Se fugisse, Sócrates evitaria ser morto injustamente, mas, para isso, iria de- sobedecer a lei, nomos, que como cidadão jurou respeitar. Ainda que a lei seja injusta deve ser acatada? Do ponto de vista ético, isto é correto? Assi- nale qual das seguintes alternativas não é compatível com as teorias éticas socrática e platônica:

a) Para a tradição socrática e platônica, só o conhecimento do bem poderia dirigir a ação justa.

b) Sócrates defende a necessidade de se estabelecer critérios racionais para diferenciar a verdadeira virtude da virtude aparente, defendida pe- los sofistas. Essa doutrina que equipara sabedoria e virtude é denomina- da "Intelectualismo ético".

c) Platão afirma que só o sábio é virtuoso, porque unicamente conhece o que é virtude, ou seja, conhecendo a Ideia de virtude é possível ser vir- tuoso.

d) Tanto para Platão como para Aristóteles a felicidade é o fim da ação hu- mana.

e) Na República (2006), Platão, ao reportar sobre as qualidades da cidade, enumera as quatro virtudes principais: o individualismo, a vontade ou ânimo, o amor e a medida justa. Posteriormente essas virtudes foram chamadas de cardeais.

Gabarito

13. CONSIDERAÇÕES

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A moral sempre esteve presente em todas as sociedades e culturas na forma de regulamento do comportamento social, o que supõe que sempre existiu uma reflexão filosófica sobre ela, e tam- bém porque é próprio da natureza humana esclarecer os critérios que levam a ter uma boa vida. No entanto, foi com Sócrates que a

Ética se organiza a partir de princípios teóricos racionais. Fervente opositor do relativismo sofista, defendeu a existência de normas

e valores morais absolutos e imutáveis. Esse pensador ateniense

afirmava que, para alcançar a felicidade, devemos ser virtuosos e, para alcançar a virtude, dependemos do conhecimento.

Assim, o termo grego eudaimonia se relaciona com aretê,

entendido como virtude. As virtudes no trinômio Sócrates, Platão

e principalmente Aristóteles cobraram sentido enquanto caminho

para alcançar a felicidade. As reflexões socráticas sobre a Filoso- fia Moral possibilitaram o surgimento de muitas propostas éticas. Platão considerava que a felicidade era o fim da ação humana, e o bem, o fim da Ética. Aristóteles definiu a felicidade também como fim que concorda com o atributo humano da razão. E os estoicos aderiram às virtudes cardinais, propostas por Platão, e centraram sua reflexão nos problemas da conduta para alcançar o fim da vida humana, que é a felicidade.

14. E-REFERÊNCIAS

Lista de figuras

Figura 1 A escola de Atenas (1509-1510), quadro de Rafael, que mostra Platão ao centro. Disponível em: <http://jornaldefilosofia-diriodeaula.blogspot.com.br/2012/01/os- sofista.html>. Acesso em: 24 abr. 2013.

Figura 2 O império romano antigo. Disponível em: <http://profellingtonalexandre.

24

abr. 2013.

Figura 3 A morte de Sócrates (1787), quadro de Jacques-Louis David. Disponível em:

blogspot.com.br/2012/09/historia-de-roma-antiga-e-o-imperio.html>.

Acesso

em:

<http://paxprofundis.org/livros/apologia/apologia.htm>. Acesso em: 24 abr. 2013.

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BROCHADO, M. Prolegômenos à Ética Ocidental. Revista do Tribunal de Contas do Estado

de Minas Gerais, Belo Horizonte, ano XXVII, v. 73, n. 4, out./dez. 2009. Disponível em:

<http://revista.tce.mg.gov.br/Content/Upload/Materia/637.pdf> Acesso em: 24 abr.

2013.

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EARNHART, P. O sermão da montanha. Extraindo os tesouros das Escrituras: exposições práticas. São Paulo, 1997. Disponível em: <http://www.estudosdabiblia.net/som.pdf>. Acesso em: 24 abr. 2013.

PESSANHA, J. A. M. (Org.). Antologia de textos / Epicuro. Da natureza / Tito Lucrécio Caro. Da república / Marco Túlio Cícero. Consolação a minha mãe Hélvia; Da tranqüilidade da alma; Medéia ; Apocoloquintose do divino Cláudio / Lúcio Aneu Sêneca. Meditações / Marco Aurélio. Traduções e notas de Agostinho da Silva et al.; estudos introdutórios de E. Joyau e G. Ribbeck. 3. ed. São Paulo : Abril Cultural, 1985. (Os Pensadores). Disponível em: <http://www.nhu.ufms.br/Bioetica/Textos/Livros/OS%20PENSADORES%20-%20

Epicuro,%20Lucr%C3%A9cio,%20C%C3%ADcero,%20S%C3%AAneca,%20Marco%20

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23 abr. 2013.

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Libero Rangel de Andrade, Gilda Maria Reale Strazynski. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987. (Os Pensadores). Disponível em: <http://bvespirita.com/Os%20Pensadores%20 -%20S%C3%B3crates%20(Jos%C3%A9%20Am%C3%A9rico%20Motta).pdf>. Acesso em:

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COMPARATO, F. K. Ética – Direito, moral e religião no mundo moderno. São Paulo:

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CORTINA, A.; MARTÍNEZ, E. Ética. São Paulo: Loyola, 2005.

GUTHRIE, W. K. C. Os Sofistas . São Paulo: Paulus, 1995.

MACINTYRE, A. Depois da virtude. Bauru: EDUSC, 2001.

PLATÃO. A República. São Paulo: Martin Fontes, 2006.

Diálogos Platônicos. São Paulo: Nova Cultura, 1999. (Coleção Os Pensadores).

Las Leyes. Epinomis. El político. México D.F.: Editorial Porrúa, 1991.

STANLEY, J. G.; SMITH, J. T. Dicionário de Ética. São Paulo: Vida, 2005.

VERGNIÈRES, S. Ética e política em Aristóteles: physis, ethos, nomos. São Paulo: Paulus,

1999.

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EAD

A finalidade da Ética e a essência da moral

1. OBJETIVOS

2

• Entender o cerne da reflexão ética na perspectiva filosó- fica.

• Apreender a natureza, o objeto e o campo semântico da Ética e da moral.

• Compreender a relação que o aspecto moral tem com a liberdade humana.

• Dotar de uma ideia adequada o que é um valor moral.

• Entender a presença iniludível de regras morais no seio da sociedade.

• Compreender por que as normas morais são de caráter obrigatório.

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2. CONTEÚDOS

• A Ética no âmbito das disciplinas filosóficas.

• Razão prática e Ética.

• Análise dos termos "moral", "moralidade", "ética".

• Diversidade de concepções morais e éticas.

• Campo da Ética e campo da moral.

• Conceitos fundamentais da Ética: o ser humano, razão, história, liberdade.

• Ética e religião: os grandes princípios éticos.

3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE

Antes de iniciar o estudo desta unidade, é importante que você leia as orientações a seguir:

1)

Os temas desta segunda unidade são bastante questio- nadores, porém é bom lembrar que, na reflexão sobre o sentido que as coisas têm, não existe receita pronta. A única receita é desenvolver a capacidade de discernir, de possuir o próprio pensamento e de ser crítico.

2)

Como você pôde perceber, para os gregos antigos o ho-

3)

mem não vive imerso no meio ambiente; vive na me- diação da liberdade que se realiza dentro de um mundo humano, estruturado pela cultura. Para entender as dife- rentes concepções éticas do período que vai dos gregos antigos até a Idade Média, você deverá levar em con- ta que é própria do homem a capacidade de decidir, de agir com autonomia e responsabilidade, de posicionar- -se diante da realidade com autodeterminação, ou seja, de tomar decisões e atitudes dentro das circunstâncias da vida a partir de critérios que são identificados pela consciência. O ser humano é um ser de responsabilidade porque a dimensão racional lhe possibilita escolher com liberdade. Ao longo da vida, podemos adotar uma única concepção moral ou, pelo contrário, podemos nos apropriar, em

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55

algum momento de nossas vidas, de alguma outra que consideremos mais apropriada, em parte ou na totali- dade. Em realidade, no mundo globalizado existe uma multiplicidade de concepções morais, que apresentam diversidades no que toca a definição do que é bem ou mal. Os costumes, do latim "mores", estão presentes na identidade dos povos, mas nem tudo o que pertence aos costumes tem relevância moral. 4) Somos seres no mundo, no mundo realizamos nossa vida. Para ajudá-lo a refletir sobre a Ética e a práxis, não deixe de ler as seguintes obras de Leonardo Boff:

Ética e moral: a busca dos fundamentos. Disponível em: <http://pt.scribd.com/doc/89815308/Etica-e- moral-a-busca-dos-fundamentos>.

em:

<http://cursa.ihmc.us/rid=1GMSLFWNB-5RXV9C-GSQ/

Saber%20Cuidar%20-%20Etica%20do%20Humano.

pdf>. Para aprofundar seus conhecimentos sobre a Ética e a moral, sugerimos que assista ao filme O Jardineiro Fiel (2005), dirigido por Fernando Meirelles. Após assisti-lo, você estará apto a realizar a última questão do Tópico Questões Autoavaliativas desta unidade!

5)

Saber

cuidar:

ética

do

humano.

Disponível

4. INTRODUÇÃO À UNIDADE

Como vimos na primeira unidade, quando analisamos as di- ferentes doutrinas éticas da Antiguidade, a Ética é uma reflexão sobre a conduta humana considerando seus dois aspectos: parti- cular ou subjetivo e social ou objetivo. A dimensão subjetiva cor- responde à noção grega de "êthos", forma de ser da pessoa, tra- duzida por "caráter", enquanto a parte dos costumes e hábitos, o que tem como desencadeador o social, corresponde ao conceito de "ethos", traduzido como "o que vem da casa", "o que surge dos costumes da comunidade". As teorias éticas buscam responder às

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perguntas: por que existe a moral? Por que esse sistema moral é válido para orientar nossa vida social? Enquanto as morais con- cretas buscam esclarecer de que modo podemos organizar uma boa sociedade, respondem à pergunta: como devo atuar ou o que devo fazer ante tal ou qual situação?

Tanto os pensadores citados na primeira unidade como os pensadores da Ética medieval propunham uma moral universal obrigatória para toda a humanidade, que na Grécia Antiga estava baseada em normas de validez objetiva, em supostos necessaria- mente verdadeiros, enquanto na Idade Média ela dependia da pa- lavra de Deus.

Porém, é bom esclarecer que a moral não pode estar fun- damentada em um primeiro princípio indemonstrável (tese fun-

damentalista). A comunidade é formada por pessoas; quando dizemos que o homem é pessoa, estamos supondo que tem auto- nomia ética, traduzida como a capacidade de distinção entre bem

e mal. E, também, que possui a capacidade de autodeterminação,

de assumir a condução de sua própria vida desde a perspectiva

moral.

Diferente do resto dos entes, o ser humano contém na sua natureza a dimensão de pessoa, evidenciada na disposição que possui para atuar de forma autônoma ante uma ação concreta.

Por ser pessoa, ante um caso extremo pode escolher entre o me- lhor e o pior dos males. A liberdade é a capacidade de que dispõe

o ser humano de obrar ou não obrar, de se sentir responsável por

seus atos voluntários; a liberdade ética caracteriza a pessoa. A pes- soa humana pode agir em conformidade com agentes externos ou não, por isso o direito a considera como sujeito ético e um ser de responsabilidade. A responsabilidade tem relação com a capaci- dade humana de exercer reflexivamente os atos, ponderando as consequências (boas ou más) dos mesmos. Atuar com responsa- bilidade equivale a crescer em direção ao bem (ao ser) no sentido

de um crescimento individual e comunitário, traduzido como hu- manização.

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Enfim, a reflexão ética e o comportamento moral são ineren- tes ao homem livre.

Analisando os escritos de Aristóteles (2002, livro II) vamos perceber que, para esse autor, a palavra "ética" procede do ter- mo grego "ethos", termo que, na Filosofia aristotélica, possui dois sentidos: por um lado, significa "morada, casa familiar, lugar onde se habita" e, em segundo lugar, quer dizer "modo de ser" ou "o caráter de que o ser humano vai se apropriando ao longo de sua vida". Esses dois momentos também estão presentes na hora de idealizar as virtudes: na mesma obra, faz referência a duas formas de virtudes: aquelas inatas (dianõetikaí) e as que são adquiridas pelo hábito (ethikaí).

Na Retórica (2005, livro II, 12-14), Aristóteles distingue os di- ferentes tipos de "êthes", mas estas têm relação com o amadure- cimento, com a idade. Assim o ético (ethos) compreende o caráter do homem, os seus costumes e também a moral. Dessa forma, podemos descartar as tentativas de considerar a moral como um sistema normativo, fixo, que vale em todos os momentos e cir- cunstâncias.

Na passagem do grego para latim, os dois termos gregos, ethos e êthos, foram englobados num único termo, "moralitas", de "moris", que vai significar tanto o modo de ser como aquela disposição de cada um para o bem, para a retitude.

Paul Ricoeur (2011), na obra Ética e moral, pergunta: é pre- ciso distinguir moral e Ética? Esclarecendo que nada na etimologia das palavras nem no uso histórico das mesmas o exige, a diferen- ça é clara: a primeira vem do latim, enquanto a outra, do grego. Mesmo que ambas remetam à ideia dos costumes (ethos/mores) é importante esclarecer que, por convenção, se reserva o termo "ética" para a intenção da vida boa realizada sob o signo das ações estimadas boas, e o termo "moral" para o lado obrigatório, marca- do por normas, obrigações, interdições caracterizadas ao mesmo tempo por uma exigência de universalidade e por um efeito de constrição.

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5. MORAL

Schopenhauer diz que instituir moral é simples, o difícil é funda- mentá-la. E Wittgenstein acrescenta, instituir moral é simples, fundamentá-la impossível.

Vásquez (2007, p. 19) diz que os problemas éticos se caracte- rizam por sua generalidade e se diferenciam dos problemas morais da vida cotidiana, que são os que têm relação com as situações concretas. A Ética, como Filosofia moral, serve para fundamentar ou justificar a forma de comportamento moral. A moral diz sobre o modo de comportar-se do ser humano, que, por natureza, é his- tórico, ele é um ser de liberdade e responsabilidade ética. É um ser que não nasce perfeito, tem como característica produzir-se e aperfeiçoar-se mediante suas ações. O ser humano vive como uma pessoa quando é senhor de si mesmo; sem liberdade de escolha lhe é impossível a responsabilidade ética. A moral está presente em toda coletividade na forma de regulamento do comportamen- to social, ela tem uma dimensão social, mas essa realidade não para no binômio homem/sociedade; o ser humano tem interesses pessoais além dos coletivos. A moral, nesse sentido, deve estar baseada na responsabilidade pessoal.

Para conceituar o termo moral, devemos partir da ideia de que existe uma série de morais concretas com características his- tóricas, todas elas compostas de regras que orientam o comporta- mento, sendo, portanto, normativas. Essas regras fazem referên- cias a ações concretas: não mentir, não roubar, não enganar, não desrespeitar os pais, os maiores etc. E, como contrapartida, estão as ações morais, que fazem referência às normas: ser solidário com quem precisa, não jogar lixo na rua, não perturbar o descanso dos vizinhos com sons altos ou gritos, dar bons exemplos aos menores etc., o que, muitas vezes, supera o alcance da norma. As normas impõem um comportamento moral e esses atos devem estar em consonância com elas.

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Também devemos considerar que a Ética não cria a moral; ela procura determinar a essência da moral. A Ética é concebida como a ciência da moral.

Diferença de moral e moralidade

Segundo Vásquez (2007, p. 66), existe uma distinção entre moral e moralidade:

A moral tende a transformar-se em moralidade devido à exigência de realização que está na essência do corpo normativo; a mora- lidade é a moral em ação, a moral praticada. Por isso, lembrando que não é possível levantar um muro instransponível entre as duas esferas, cremos que é melhor empregar um termo só – o da moral como se costuma fazer tradicionalmente e não dois. Mas, deve fi- car claro que se utilizamos um só, com ele se indicam os dois planos da moral, o normativo ou prescritivo e o prático ou efetivo, ambos integrados na conduta humana concreta.

Diferentes sociedades, diferentes concepções morais

Como diz Vásquez (2007, p. 67), "A moral possui, em sua es- sência, uma qualidade social". Toda sociedade, ainda as mais pri- mitivas, possuem normas morais que convivem com outras nor- mas, as jurídicas, as religiosas, técnicas etc., e todos os indivíduos adotam uma concepção moral determinada pelo simples fato de pertencer a uma sociedade. Toda mudança radical na estrutura social traz consigo uma mudança na moral. A História apresenta uma sequência de morais que correspondem às diferentes socie- dades que se sucederam no tempo. É importante esclarecer que essa linha não deve ser necessariamente ascendente, como a do conhecimento científico, social ou cultural. Toda sociedade em seu momento teve códigos morais, e estes podem ser considerados avançados ou deficientes, independente do momento histórico. As sociedades escravistas podem ter sido as piores, mas, se com- paradas às que aceitavam o canibalismo, foram melhores; mesmo assim foram péssimas.

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Na realidade cotidiana, percebemos que algumas comuni- dades (gens) progrediriam mais que outras, tiveram melhores nor- mas morais, na medida em que estimularam a responsabilidade dos atos dos integrantes. Portanto, uma sociedade é mais eleva- da em seu desenvolvimento moral quanto maior seja o grau de liberdade e responsabilidade que todos os seus membros têm. É verdade que na sociedade há uma série de padrões que mode- lam o comportamento social dos indivíduos, e que estes variam de uma para outra, mas a sociedade é a união de homens livres que, com suas relações, a constroem. A sociedade não existe sem os indivíduos concretos, e estes também não existem fora do social. Como alerta Vásquez (2007, p. 67), não devemos considerar a so- ciedade como algo que existe em si e por si, como uma realidade substancial que se sustenta independentemente dos homens que a formam.

A moral é fundamental para garantir a ordem ou a harmonia

da sociedade, ela regulamenta a conduta entre os homens. Os in- divíduos que compõem a sociedade aceitam os valores, as normas que a distinguem, e se submetem livremente a eles.

A moral tem uma concordância com o Direito, ambos ba-

seiam-se em regras que visam organizar a partir do ponto de vista da conveniência a maioria das ações humanas. Porém, diferen- ciam-se no fato de que, enquanto o Direito garante o cumprimen- to do sistema social em vigor, a moral procura fazer com que os indivíduos que compõem a sociedade harmonizem de maneira consciente, voluntária e livre seus interesses pessoais com os in- teresses coletivos.

As idéias, normas e relações sociais nascem e se desenvolvem em

correspondência com uma necessidade social. [

da moral consiste na regulamentação das relações entre os ho- mens (entre os indivíduos e entre o indivíduo e a comunidade) para contribuir assim no sentido de manter e garantir uma determinada ordem social. Esta ação também se cumpre no Direito. Graças ao Direito, cujas normas, para assegurar o seu cumprimento, contam com o dispositivo coercitivo do estado, assim consegue-se que os indivíduos aceitem – voluntária ou involuntariamente – a ordem

] A função social

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social que é juridicamente formulada. Mas isso não considerado suficiente, procura-se que os indivíduos aceitem de forma íntima e livremente, por convicção pessoal, os fins, princípios, valores e interesses dominantes em uma determinada sociedade. Tal função social que a moral deve cumprir (VÁSQUEZ, 2007, p. 69).

A moral acontece em dois planos: o normativo e o factual.

No primeiro, encontramos as normas, regras e princípios que exi- gem obediência e, no segundo, estão os atos humanos denomina- dos morais que têm relação com esses princípios.

O enriquecimento da vida moral acarreta um aumento de

responsabilidade individual, e isso depende do exercício da liber- dade e da responsabilidade humana. Quem não tem liberdade não pode ser responsável pelos seus atos, por isso a massificação dos dias de hoje apresenta-se como impedimento para o progresso da moral.

apresenta-se como impedimento para o progresso da moral. Figura 1 Astreia, divindade que difundia entre os

Figura 1 Astreia, divindade que difundia entre os homens sentimentos de justiça e de virtude.

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Astreia, filha de Zeus e Têmis. "Segundo Grimal (1997, p. 51), ‘ela espalhava entre os homens os sentimentos de justiça e de virtude. Isto passava-se na tempo da Idade de Ouro. Mas depois que os mortais degeneraram e a inclinação para o mal se espalhou pelo mundo, Astreia subiu de novo ao céu’" (SUPREMO TRIBUNAL FE- DERAL, 2012).

Diferentes usos do termo moral

Cortina e Martínez (2005, p. 13) alertam sobre a pluralidade de significados que o termo moral possui na linguagem atual: "O termo moral é utilizado hoje em dia de maneiras muito diferentes, dependendo dos contextos. Essa multiplicidade de usos dá lugar a muitos mal-entendidos".

Frequentemente utilizamos esse termo como adjetivo: "fu- lano é imoral". Como adjetivo estamos fazendo um julgamento das ações dos indivíduos na medida em que estes não respeitam valo- res estabelecidos, normas ou princípios consagrados como morais.

Outras vezes, ele é utilizado como substantivo; "a moral" equivale a um conjunto de ordens, normas de conduta, proibições e permissões relacionados à vida boa para um determinado grupo social. Assim, o termo "moral" equivale à forma de vida no sentido coletivo, como norma correta de conduta.

Outro uso do termo "moral" como substantivo faz referência ao código de conduta pessoal ou de alguma instituição: "fulano tem uma moral muito rígida". Tais instituições impõem uma moral muito rigorosa, ou carecem de moral. Dessa forma, o termo faz referência ao código moral que inspira a conduta do indivíduo ou da instituição.

Também é normal ouvir a palavra "amoral". Esse termo reú- ne o prefixo "a" (acéfalo, privação) e a palavra "moral" (o termo se refere aos campos da conduta humana e tem a ver com os princí- pios que orientam a conduta do homem), ser amoral significa não

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possuir um código moral. Cuidado, essa palavra não é sinônimo de imoral. A conduta dos animais é amoral, ou seja, não tem relação com a moralidade que rege a sociedade de seres humanos, em que são moralmente maduros, cada um é senhor de seus atos e é responsável por sua conduta moral. A invenção da bomba atômi- ca é em si um descobrimento científico amoral. O uso no caso do bombardeio americano ao Japão foi imoral. Um tem relação com

o desenvolvimento de um princípio físico e o outro com o uso des- truidor desse princípio, com a intenção de matar e destruir.

Pessoas imorais são aquelas que, reconhecendo a validade das normas e dos valores da sociedade, os infringem, priorizando seu próprio interesse.

Outro termo de uso frequente que tem relação com moral é: "ter a moral bem alta"; nesse caso, refere-se à confiança, à co- ragem que tem o indivíduo para fazer frente a um determinado desafio. A moral deixa de ser um dever para refletir uma determi- nada atitude.

Outro uso frequente do termo "moral" como substantivo, no sentido de moral como "a ciência que trata do bem geral da comu- nidade", faz referência àquele conjunto de normas estabelecidas

e de caráter normativo que regem à convivência social. A mesma

tem um caráter histórico. Sofre progressos na medida em que se amplia o campo de atuação, ou seja, que se universaliza.

Atos morais

Os atos morais são atos essencialmente humanos. Neles dis- tinguimos três elementos: objeto, fim e circunstâncias.

São motivados por uma eleição relacionada com a pergunta "por quê?", sucedida pela indagação "para quê?", relacionada à finalidade do referido ato. A consciência das possíveis consequên- cias de nossos atos é importante para a valoração moral. Os atos morais devem ser realizados de forma voluntária, podendo esco- lher realizá-los ou não.

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O ato humano implica uma estrutura baseada nos seguintes

princípios:

1) Cognoscitivo: é um princípio fundamental, já que não

2)

podemos querer algo se não temos conhecimento de sua existência. Assim, o conhecimento intelectual é in- dispensável para a realização do ato moral. Volitivo: é voluntário. Todo ato moral deve ser voluntá- rio e para isso devemos prever de forma antecipada as consequências de tal ação.

A

liberdade é componente essencial; sem ela estaríamos ao

nível animal. Para que exista o ato moral, devemos ser responsá- veis pelo mesmo.

Como disse o Papa João Paulo II (2013): "Nenhum homem pode esquivar-se às perguntas fundamentais: Que devo fazer? Como discernir o bem do mal?".

O bom como valor moral

Vásquez (2007, p. 135) diz que todo ato moral inclui a neces- sidade de escolher entre vários atos possíveis. Todo ato moral no sentido positivo é um ato valioso. Mas, o que é bom? Lembremos que, na Unidade 1, para Sócrates e seus principais discípulos, o bom é o absoluto, incondicionado. Na Idade Média, o bom concor- da com a vontade de Deus. O bom tem concordância, então, com a razão ordenadora presente na natureza. Durante a Idade Mo- derna, esse conceito muda, condicionado pelo progresso socioe- conômico. O problema do que fazer ante cada situação concreta é um problema prático-moral, mas definir o que é bom tem caráter teórico, é de competência da Ética.

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© U2 - A finalidade da Ética e a essência da moral 65 Figura 2 Têmis,

Figura 2 Têmis, divindade grega responsável por definir a justiça, no sentido moral

Moral e religião

Toda crença religiosa leva, implícita, uma determinada con- cepção moral e uma visão de mundo ou cosmovisão. As grandes religiões, como o Cristianismo, Budismo e Islamismo, possuem um corpo doutrinar moral, em geral muito bem elaborado, que o crente deve observar para orientar suas ações. Nele detalham-se valores, objetivos, normas e virtudes que servirão para orientar a ação. Entretanto, a religião não compreende só um código moral; é uma forma de relacionar-se com o transcendente e ordenador.

A obrigatoriedade moral

A realização da moral é um fato individual, porém a moral responde aos interesses da sociedade, formada pelos indivíduos e sua vida econômica, política, espiritual e social.

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As teorias morais são sistematizações de algum conjunto de valores: princípios ou normas, como é o caso da moral cristã, da laicista, moral protestante etc. Ante a pergunta: "qual moral deve ser cultivada?", existem diferentes teorias: egoístas, utilitaristas, as teleológicas ou deontológicas, formalistas etc.

Todas as teorias morais partem de uma concepção de ho- mem. Muitas vezes essa concepção é abstrata e a teoria deriva- da será também abstrata; em outros casos, estará relacionada às ideias de sociedade e em concordância com a História. Contudo, seja qual for a concepção de homem, a humanidade sempre admi- tirá a obrigatoriedade da moral.

6. ÉTICA NORMATIVA E O FENÔMENO MORAL

As normas morais são de caráter obrigatório, mas a moral não entra em nossa consciência como uma "injeção"; pelo con- trário, é de responsabilidade pessoal do sujeito. Ante o caráter normativo da mesma, é preciso responder à questão: como devo agir ante determinada situação? Os filósofos morais colocam como alternativas as "teorias teleológicas" e as "teorias deontológicas".

As teorias teleológicas (de "telos" que, em grego, significa "fim") baseiam-se nas ideias de que o padrão para decidir o que é certo e o errado, o conveniente e o inconveniente depende da quantidade de bem que a ação vai causar. Assim, uma ação é boa se produz consequências intrínsecas boas superiores ao mal pro- duzido.

Como diz Frankena (1969, p. 29), o teologista pode assumir qualquer posição com relação ao que é o bem no sentido não mo- ral. Frequentemente os teologistas têm sido hedonistas, relacio- nando o bem ao prazer. Em Aristóteles (2002), a Ética teria um caráter propriamente teleológico e não deontológico, e esclarece, na Ética a Nicômaco, que só pode ser bom aquele que é orientado para o bem em seus afetos e em suas inclinações.

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Já as teorias deontológicas (de "déon", palavra grega para "dever") negam a proposta teleológica, e defendem que existem outras características legitimadoras do ato moral. Partem de juízos como: "devemos sempre cumprir nossas promessas, independen- te das cosequências de dito ato moral". Defendem que o caráter específico de cada ato diante de cada situação impede que pos- samos apelar para uma norma geral que determine o que deve- mos fazer. Essa posição é comum a diversas teorias éticas, como a kantiana, as intuicionistas e contratualistas etc., que analisaremos futuramente no CRC Ética II. Todas elas postulam a existência de princípios e deveres morais, independentes de seus efeitos. Para esses éticos, as ações humanas são boas ou más por sua coerência com esses princípios, não por suas consequências.

Frankena (1969, p. 39) destaca ainda as teorias ato-deoanto- lógicas, que são aquelas que não propõem qualquer padrão para determinar o que é certo ou errado em casos particulares. Os juí- zos particulares não devem seguir uma determinada regra. Os ato- -deoantológicos não propõem nenhum princípio orientador.

Uma aproximação às teorias éticas é importante para enten- der o fenômeno da moral. Assim, para finalizar esta unidade, suge- rimos a leitura do mito O anel de Giges, contido no livro II da A Re- pública, em que Platão discute sobre a deficiência do ser humano ante a possibilidade de ser imoral porque não terá consequências:

PLATÃO. A República. São Paulo: Martin Fontes, 2006.

PLATÃO. A República . São Paulo: Martin Fontes, 2006. Figura 3 O anel de Giges .

Figura 3 O anel de Giges.

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7. QUESTÕES AUTOAVALIATIVAS

Chegamos ao final desta unidade. Sugerimos que você pro- cure analisar, responder e comentar as questões a seguir, que tra- tam da temática aqui desenvolvida, ou seja, dos problemas éticos e dos problemas morais da vida cotidiana.

1)

Com base nos conteúdos desta unidade e nos conhecimentos sobre a rela- ção entre Ética e moral, analise se é correto afirmar que:

Os problemas éticos são caracterizados pela generalidade. Seria inútil recorrer

Ética para encontrar uma norma de ação para uma situação concreta. A ética vai ajudar na análise do comportamento pautado por normas, que consiste o fim do comportamento moral.

à

Resposta:

2)

Responda as seguintes questões:

a) O que é moral?

b) O que é Ética?

3)

O homem se diferencia do animal, pois se relaciona de forma diferente com

o

mundo exterior, transforma-o, conhece-o. O animal vive sua relação com

mundo exterior de forma única; já o homem intervém na natureza de for- mas diferentes, segundo a sua cultura. Mas, não nos é permitido fazer qualquer coisa!

o

Aqui surge o problema da responsabilidade. Para falar em responsabilidade ante nossos atos de conduta, devemos referir-nos ao conhecimento, de um lado, e à liberdade, de outro. A ignorância e a falta de liberdade (entendida como coação) permitem eximir o sujeito da responsabilidade por seus atos.

Você considera possível argumentar "ignorância" ante as normas morais e as leis positivas para não ser responsável por nossas ações?

4)

Sobre Ética podemos afirmar que:

a) é um conjunto de regras que determina ou que mostra como os indiví- duos devem se comportar em determinado grupo social.

b) é um estudo sistemático que se ocupa da reflexão e do estudo do com- portamento humano, bem como da sua relação com o belo e com a arte.

c) é a parte da Filosofia que se ocupa da reflexão sobre as noções e princí- pios que fundamentam a vida moral, da discussão acerca do que é certo ou errado e do comportamento dos indivíduos.

d) é o estudo dos comportamentos individuais.

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Ética como condição da vida política e social em geral. No entanto, sabemos que muitas vezes se fala da Ética sem ter claro qual é seu significado. Identi- fique situações em que a palavra "ética" aparece na mídia com um sentido apresentado neste CRC.

6)

Escreva uma breve dissertação respondendo à seguinte questão: por que devo obedecer às leis morais?

7)

Diferencie "moralidade" de "moralismo" e dê um exemplo de moralismo.

8)

Sobre o mito O anel de Giges, presente no livro II de A República, de Platão, Glaucón expõe a Sócrates que aqueles que seguem a justiça o fazem por desejo próprio ou para evitar punições? Justifique sua resposta.

9)

Como exercício de reflexão, propomos que você analise, na prática, a essên- cia dos termos "ética" e "moral". Para isso, é preciso que você assista ao fil- me O Jardineiro Fiel (2005). Esse filme permite reflexividade sobre os temas éticos e você poderá entrar em contato com juízos de dever efetivo, regras morais e juízos éticos. Após assistir ao filme, analise qual é a justificação válida para a conduta moral.

Gabarito

4)

c.

8. CONSIDERAÇÕES

É comum na Filosofia encontrarmos correntes de pensa- mento que embaraçam o significado dos termos "ética" e "moral" por partirem eles de uma mesma fonte, o "ethos". Essa posição é muito discutida porque as funções dos dois saberes são bem diferenciadas: a Ética consiste fundamentalmente numa reflexão filosófica sobre a moral, enquanto a esta última competem as nor- mas e códigos que regulam o comportamento dos indivíduos em sociedade.

Moral e Ética respondem a diferentes questionamentos, já que a moral tem relação com os códigos que versam sobre a ação do indivíduo na sociedade e opera ante o questionamento: o que devo fazer perante determinada situação concreta? Enquanto isso, a Ética atua num nível teórico, tratando de responder a perguntas

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70 © Ética I

sobre o fundamento da moral, sua aplicação na vida cotidiana, sua incidência no bom funcionamento da sociedade etc.

O problema está na interpretação do ethos grego, que tinha como fundamento a ideia de auto-perfeição, liberdade, estética etc. O ethos tinha uma função transcendente, na medida em que era a meta para a perfeição, imitativa da beleza dos deuses.

9. E-REFERÊNCIAS

Lista de Figuras

Figura 1 Astreia, divindade que difundia entre os homens sentimentos de justiça e de virtude. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/cms/verTexto.asp?servico=bibliot ecaConsultaProdutoBibliotecaSimboloJustica&pagina=astreia>. Acesso em: 26 abr. 2013.

Figura 2 Têmis, divindade grega responsável por definir a justiça, no sentido moral. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/cms/verTexto.asp?servico=bibliotecaCons ultaProdutoBibliotecaSimboloJustica&pagina=temis>. Acesso em: 26 abr. 2013. Figura 3 O anel de Giges. Disponível em: <http://www.outonos.com.br/filosofia.asp>. Acesso em: 26 abr. 2013.

Sites pesquisados

ARISTÓTELES. Moral. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/ texto/bk000424.pdf>. Acesso em: 26 abr. 2013.

BOFF, L. Ética e moral: a busca dos fundamentos. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2003. Disponível em: <http://pt.scribd.com/doc/89815308/Etica-e-moral-a-busca-dos-fundamentos> Acesso em 26 abr. de 2013.

Saber cuidar: Ética do humano. Disponível em: <http://cursa.ihmc.us/

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JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Veritatis Splendor. Disponível em: <http://www. rainhamaria.com.br/Pagina/193/CARTA-ENCICLICA-VERITATIS-SPLENDOR>. Acesso em:

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2013.

© U2 - A finalidade da Ética e a essência da moral

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10. REFERÊNCIAS BLIBLIOGRÁFICAS

ARISTÓTELES. Arte retórica e arte poética. 17. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005. Ética a Nicômaco. São Paulo: Edipro, 2002. BOFF, L. Ética e moral: a busca dos fundamentos. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2003. CORTINA, A.; MARTÍNEZ, E. Ética. São Paulo: Loyola, 2005. FRANKENA, W. K. Ética . Rio de Janeiro: Zahar, 1969. GARCÍA GÓMEZ-HERAS, J. M. Teorías de la moralidad. Madrid: Síntesis, 2004. PLATÃO. Diálogos Platônicos. São Paulo: Nova Cultura, 1999. (Coleção Os Pensadores). VÁZQUEZ, A. S. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: 2007.

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EAD

Ética medieval, embasamento cristão

1. OBJETIVOS

3

• Entender o contexto em que se desenvolveu a Ética reli- giosa.

• Perceber e examinar criticamente as principais questões éticas derivadas da religião cristã.

• Reconhecer os principais representantes da Filosofia cris- tã medieval.

• Reflexionar sobre a influência da Filosofia platônica, aris- totélica, da Bíblia judaica e dos primeiros escritos cristãos na formação da Ética medieval.

• Identificar os fatores que contribuíram para essa nova sín- tese ético-moral.

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2. CONTEÚDOS

• As Éticas medievais.

• Concepção de pessoa humana.

• A obra de Santo Agostinho.

• A Ética eudemonista de Tomás de Aquino.

• A origem das virtudes.

3. ORIENTAÇÕES PARA O ESTUDO DA UNIDADE

Antes de iniciar o estudo desta unidade, é importante que você leia as orientações a seguir:

1) Nesta unidade, apresentam-se as linhas fundamentais

2)

3)

de duas escolas medievais que entrelaçaram o pensa- mento grego com o cristão, a Patrística, representada no pensamento de Agostinho de Hipona, e a Escolástica, analisada por meio da obra de Tomás de Aquino. A Ética é a parte da Filosofia que trata da moral e das obrigações dos homens; portanto, é a ciência da con- duta. No período medieval, impregna-se com elemen- tos das doutrinas clássicas que têm como fim último do agir humano a felicidade. Esta, que motivou a concepção de Ética grega clássica, passa a depender da observân- cia dos princípios cristãos, que considera o fim último da ação humana a caridade, caminho para aceder à vi- são de Deus. Nesse contexto, a Ética medieval passa a contemplar os homens menos afortunados, os oprimi- dos pela escravidão, os limitados, os explorados, os des- criminados etc. Assim como no período grego antigo, quando a Filosofia se caracterizou por discutir a relação do homem com a polis, o predomínio da razão e sua pro- dução, a Filosofia durante o medievo não estabeleceu fronteiras precisas entre religião, cultura e Estado. A Ética da Idade Média tem como característica o teo- centrismo. A mensagem cristã apresenta um profundo conteúdo moral que vem de Deus e se encontra impres-

o teo- centrismo. A mensagem cristã apresenta um profundo conteúdo moral que vem de Deus e

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so na natureza criada. Santo Agostinho e Tomás de Aqui- no – este último fora discípulo de Santo Antonio Magno –, durante a Alta Idade Média, foram dois dos maiores pensadores que sintetizaram o pensamento cristão me- dieval. Ambos são considerados "Pais da Igreja". O pri- meiro representa a Patrística, movimento que abarca desde o fim do Cristianismo primitivo até aproximada- mente o século 12. O segundo é representante da Es- colástica, movimento que se divide em: inicial (séculos 9-13), com forte influência do neoplatonismo; Escolás- tica clássica (séculos 14-15), com evidente domínio do aristotelismo com embasamento cristão; e a Escolástica tardia (séculos 15-16). O que caracteriza este período histórico é ter Deus como

4)

sumo Bem, pois todas as perfeições provêm dele. 5) Um dado histórico que você, aluno, deve ter para en- tender esse momento é que, no início da Idade Média (século 5, que coincide com a queda do Império Romano de Ocidente), as instituições romanas ruíram e o seu sis- tema jurídico sofreu grandes perdas. Todavia, a religião Cristã já era a religião oficial do Império Romano. Em 312 d.C., o imperador romano Constantino converteu-se ao Cristianismo; em seguida, o imperador Teodósio, em 390 d.C., por meio do Edito de Tessalônica, tornou o Cris- tianismo a religião oficial do Império. Os cristãos trou- xeram a palavra de Jesus Cristo, que pregava a santida- de pessoal. Veremos que, para os pensadores das duas escolas citadas anteriormente, o fim último da vontade humana é o Bem supremo.

4. INTRODUÇÃO À UNIDADE

O apóstolo Paulo trouxe as noções evangélicas ao mundo greco-romano e a mensagem contida nos Evangelhos revolucio- nou os valores tradicionais, e pode ser descrita como uma das maiores revoluções éticas da humanidade.

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Os romanos, de tradição imperialista, escravista e politeísta enfrentaram pregações como: "os pobres são moralmente supe- riores aos ricos" (Lucas 112, 32); "a salvação não advém do cum- primento dos rituais religiosos e sim das atitudes que temos com nós mesmos e com os outros. Amar a Deus acima de tudo e amar ao próximo como a ti mesmo" (Mateus 19, 16-30) e (Lucas 18, 18- 30). O Sermão da Montanha (Mateus 5, 20-28) contém as bases da nova Ética que invade ocidente.

Nesse contexto, Deus já não é um frio modelo de justiça, é onipresente, um exemplo de amor. Porém, seus princípios são im- perativos.

Os autores da Antiguidade Clássica utilizaram a expressão "direito natural" (ius naturale) para referirem-se a quaisquer prin- cípios considerados reitores da conduta humana diferentes dos originados na legislação humana ou direito positivo (ius positivum). Vimos, na Unidade 1, que, para a cultura grega, exis- tem leis universais, cuja origem é tida como divina. Aristóteles, na Retórica (2005), as descreve como "koinoi nomoi" (comuns a to- dos os povos); paralelamente existem as leis particulares de cada povo, descritas por Aristóteles como "ídioi nomoi".

5. INFLUÊNCIA JUDEO-CRITÃ NA ÉTICA DA IDADE MÉDIA

A Ética teocrática e teológica é aquela que identifica o Bem

com a vontade de Deus. Dentro dessa categoria, incluem-se as Éti-

. A relação e o reconhecimento do outro cons-

titui a base para essa Ética, precisamente porque a realização da justiça consiste no reconhecimento da alteridade do outro. Nes- se sentido, o Cristianismo manda em seis de seus mandamentos amar o próximo como a si mesmo.

cas hebreia e cristã

"AMARÁS O PRÓXIMO COMO A TI MESMO" Jesus disse a seus discí- pulos: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei" (Jo 13,34). Em resposta à pergunta feita acerca do primeiro dos mandamentos,

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Jesus diz: "O primeiro é: ‘Ouve, ó Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor, e amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração,

de toda a tua alma, com todo o teu espírito, e com toda a tua força’.

O segundo é este: ‘Amarás O teu próximo como a ti mesmo’. Não

existe outro mandamento maior do que estes" (Mc 12, 29-31).

O apóstolo S. Paulo o recorda: "Quem ama o outro cumpriu a lei. De

fato, os preceitos ‘não cometerás adultério, não matarás, não furta- rás, não cobiçarás’ e todos os Outros se resumem nesta sentença:

amarás o teu próximo como a ti mesmo. A caridade não pratica o mal contra o próximo. Portanto a caridade é a plenitude da lei" (Rm 13, 8-10). (CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 1993, §2196, p. 449).

Nesse preceito bíblico, está muito clara a importância da experiência alteritária. Bauman (2005, p. 101) afirma que amar o próximo como amamos a nós mesmos significaria respeitar a sin- gularidade de cada um. Assim, amar ao próximo tem relação com tolerância e promoção da individualidade do outro, o valor de nos- sas diferenças enriquece o mundo.

A grande síntese da moralidade bíblica está expressa nos Dez Mandamentos (Ex 20, 10). As chamadas "duas tábuas da lei" mos- tram os deveres das pessoas para com Deus nos três primeiros mandamentos, e para com o seu próximo nos sete seguintes.

mandamentos, e para com o seu próximo nos sete seguintes. Figura 1 Os Dez Mandamentos .

Figura 1 Os Dez Mandamentos.

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A moralidade para os cristãos não é criada de forma arbitrá- ria por Deus; provém do caráter inato de Deus, que é bom, portan- to não pode ser aceito pecado ou ruptura com a ordem divina. A lei moral é obra da sabedoria divina:

obra excelente do criador, a lei moral fornece os fundamentos só- lidos sobre os quais pode o homem construir o edifício das regras morais que orientam suas ações (CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, 1993, p. 449-450).

Para alcançar a felicidade, que coincide com a contemplação de Deus, devemos impedir que o pecado tome o lugar da ordem moral existente na criação.

o mal não é senão a corrupção da ordem natural. A natureza

má é, portanto, a que está corrompida, porque a que não está cor- rompida é boa. Porém, ainda quando corrompida, a natureza, não deixa de ser boa; quando corrompida, é má. (AGOSTINHO, 2005, p 25).

] [

A Ética de Jesus está contida nos seus ensinamentos e é ilus- trada pela sua vida. O Sermão da Montanha, uma das melhores sínteses da Ética cristã, apresenta as bases éticas de Jesus, carac- terizada pela humildade, misericórdia, integridade e veracidade, a busca da justiça e da paz, pelo perdão, a generosidade e, acima de tudo, pelo amor a Deus que se desprende do amor ao próximo.

acima de tudo, pelo amor a Deus que se desprende do amor ao próximo. Figura 2

Figura 2 Lápide sepulcral com peixes e âncora.

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Joseph Klausner, escritor judeu, escreveu, na obra titulada Jesus de Nazareth (1996), que é universalmente aceito que Cristo ensinou a mais pura e sublime Ética, já que a mesma supera os preceitos morais e as máximas dos homens sábios da antiguidade.

6. PESSOA HUMANA

Apoiada na declaração do Livro do Gênesis, que diz que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1, 26-27), a Bíblia eleva à condição de dignidade "todos os seres humanos" por participarem da condição divina.

O conceito de pessoa humana reflete a essência de todos

os seres humanos. Segundo Comparato (2006, p. 457), o concei- to de pessoa humana toma forma com Boécio no século 6. Esse pensador define a pessoa humana como "substância individual da natureza racional", definição que, posteriormente, foi adotada por Tomás de Aquino.

O nome "pessoa" vem ganhando destaque desde a Antigui-

dade grega. Platão, na República (2006), e Aristóteles, na Meta- física (2006), destacaram a capacidade racional como condição de imortalidade existente entre os deuses e que se repete no ser humano. Contudo, o conceito de pessoa humana nos moldes cris- tãos, mesmo que mantendo pontos em comum com a concepção grega clássica, traz uma nova visão do mundo e do homem. Desta- ca o ser pessoal do homem como imagem e semelhança de Deus (MARÍAS, 1975, p. 78).

Segundo Lucas (1996), a palavra "pessoa" é derivada do ver- bo latino "personare", que significa "ressoar" em português. Os pensadores comprometidos com essa radical visão de ser humano colocaram a origem da pessoa na cultura grega. "Pessoa" decorre do vocábulo grego "prósopon", que significa "máscara", em alusão às máscaras utilizadas pelos atores nas tragédias gregas, que re- presentavam personagens (pessoas) das diferentes classes sociais.

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Suas vozes ressoavam por meio das máscaras utilizadas pelos ato- res; assim também na pessoa ressoa uma voz que tem caracterís- ticas de divindade por trás de sua forma biológica.

No Direito romano, eram pessoas os que possuíam direitos e deveres de cidadãos; os escravos e os estrangeiros não eram pes- soa para essa forma de Direito. Com a difusão da idia cristã de espiritualidade e imortalidade da alma e a noção de que todos os homens são filhos de Deus e iguais em direitos, o conceito de pes- soa se universalizou em todo o Império Romano.

de pes - soa se universalizou em todo o Império Romano. Figura 3 Martírio dos escravos

Figura 3 Martírio dos escravos.