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A REVOLUÇÃO FRANCESA E SUA SEDE DE SANGUE REPRESENTADA NA OBRA

UM CONTO DE DUAS CIDADES, DE CHARLES DICKENS

Raquel Nogue Costa (Letras – UNITAU)

A Revolução Francesa é um grande marco da história da humanidade, representando classes,


contrapondo-se à privilégios e a economia do país, o povo francês deu um novo rumo para sua história
e também para a história do mundo. A literatura acompanha os acontecimentos da sociedade, sejam
eles passados ou presentes, 25 anos depois do desfecho da Revolução Charles Dickens publicou “Um
conto de duas cidades”, romance ambientado no período revolucionário francês. Como plano de fundo
da narrativa há a sede de sangue que acompanhou o movimento e é tal característica que busca este
artigo destacar, além de discutir a respeito da mentalidade de massa e os problemas que podem advir
dela.
PALAVRAS-CHAVE: Revolução. Sangue. Povo. Guilhotina. Vinho. Charles Dickens. Um conto de
duas cidades.

1. Introdução

A Revolução Francesa é um marco para as democracias modernas, advinda de um


desejo de liberdade do povo, alterou toda a organização social e econômica da França. No
contexto da revolução havia um estado absoluto que permitia ao clero e a nobreza todos os
seus desejos e vontades atendidos e deixava o povo à margem, em condições precárias de
vida. O país passava por um grande déficit financeiro devido a um sistema arcaico de taxação
e pelo apoio do governo a Revolução Americana. Devido a essas dificuldades econômicas, o
Rei foi forçado a convocar os “Estados Gerais” (a Legislatura francesa) em 1789 pela
primeira vez desde 1614. O Terceiro Estado, como defendeu Eric J. Hobsbawn: “a entidade
fictícia destinada a representar todos os que não eram nobres nem membros do clero, mas de
fato dominada pela classe média”, proclamou então a Assembleia Nacional, onde se jurou
manter a assembleia indissolúvel até a elaboração de uma constituição.

Entretanto o povo tinha sede de mudança, e mudança rápida, então, no dia 14 de Julho
fizeram história. “Em tempos de revolução nada é mais poderoso do que a queda de símbolos.
A queda da Bastilha, que fez de 14 de julho a festa nacional francesa, ratificou a queda do
despotismo e foi saudada em todo o mundo como o princípio de libertação.” (Eric J.
Hobsbawm). Assim se deu início a Revolução Francesa, a “mãe” das revoluções, legítima, se
considerada a ideia de Hannah Arendt, por ter como princípio a liberdade de seu povo.

Só podemos falar de revolução quando esta característica de novidade está


presente e quando a novidade se liga à ideia de liberdade. É evidente que isto
significa que as revoluções são mais que insurreições bem sucedidas e que não
temos o direito de chamar revolução a qualquer golpe de estado ou até de vermos
uma revolução em cada guerra civil (ARENDT 2001: 39).

Entretanto, os 11 anos de Revolução não foram assim tão belos para quem a viveu de
perto, a fome não se resolveu assim que se tomou a Bastilha, o dinheiro também não apareceu
assim que a monarquia fora derrubada. Anos de luta e sofrimento se passaram na França, esse
sofrimento e essa dificuldade em se viver em meio ao movimento são retratados na obra “Um
conto de duas cidades”, de Charles Dickens. Buscando como fonte histórica Thomas Carlyle
para embasar sua obra, Dickens produziu uma narrativa de grande valor para a literatura.

Um conto de duas cidades não deixa de ser um romance, possui como principal enredo
os mocinhos, mesmo assim, não deixa de lado nenhum dos demais tipos de pessoas e
principalmente nenhuma das classes da época, possuindo representantes para os nobres, os
revolucionários, os burgueses e até mesmo as crianças. Delatando no plano de fundo a
crueldade que permeou a época e a Revolução.

2. As personagens principais e o sofrimento

Tendo como personagens principais Dr. Manette e sua filha Lucie, “Um conto de duas
cidades” inicia mostrando que os horrores na França começaram com a própria monarquia,
Dr. Manette viveu preso na França durante 18 anos, saindo de lá extremamente abalado e
parcialmente já era outra pessoa. Durante esse período sequer teve contato sua filha e viveu de
uma maneira completamente diferente, vindo a crer inclusive que ele era um sapateiro e não
um doutor.

Desde que fora libertado da masmorra Dr. Manette recebeu os cuidados da família
Defarge, revolucionários que o acolheram até que Lucie juntamente com um amigo da família
foi buscar o pai e trazê-lo “de volta à vida”. Assim, em meio a tanto horror Dickens ainda
consegue manter-se bastante poético na relação de Dr. Manette e sua filha. O autor retrata as
dificuldades pelas quais passa alguém que viveu anos em clausura, mas permite um pouco de
romantismo no carinho e afetividade que há entre suas duas personagens principais, Lucie e
Manette.

3. Um conto de dois fluídos sanguíneos

Dois fluídos sanguíneos - Vinho e Sangue- correm incessantemente pelos tubos de


ensaio que é o romance Um Conto de Duas Cidades, de Charles Dickens. O Vinho, como ele
mesmo ou como uma ferramenta iconográfica, é empregado muitas e muitas vezes no
romance. É, ao mesmo tempo, a chave de sustentação das massas e o símbolo maior do
derramamento de sangue. Quando um barril de vinho é derramado no Capítulo V: “A
Taberna”, as ruas de Saint Antoine são imediatamente infestadas pelos moradores da cidade,
que enxameiam o vinho derramado em uma tentativa desesperada de recolher todas as gotas
possíveis daquela inestimável fonte de nutrição.

Algo sobre a imagem através da qual este tumulto é retratado, dá uma poderosa
sensação de selvageria.

“O vinho era tinto e manchou de rubro o chão da rua estreita no subúrbio de


Santo Antônio[25], em Paris, por onde se espalhara. […]Aqueles que se haviam
atirado com avidez às aduelas do barril adquiriram nódoas vermelhas como sangue
ao redor da boca. E um rapaz alto, brincalhão e muito manchado, de cuja cabeça
quase caía um comprido barrete, mergulhou o dedo na lama tingida de vinho e
garatujou num muro “SANGUE”. Aproximava-se o tempo em que também essa
espécie de vinho se derramaria pelas pedras da rua, e seu corante tingiria de
vermelho muitos dos que ali se encontravam.” (DICKENS, Charles, 1859, p.32)

Na versão original, em inglês, aparecem expressões, como “mancharam” e “rajadas


como tigre”, trazendo uma recordação de bárbaros e canibais, pegando sangue rubro e fresco
e o esfregando em suas faces, em um delírio absoluto. A cena em que esses homens e
mulheres estão ocupados coletando o vinho e o esfregando em suas faces, É um claro
momento de iconografia, que representa a mais intensa pobreza concebível, a um povo já
ferido pela fome. Em dimensões metafóricas, este tenebroso espetáculo representa a
insaciável sede do povo por uma nova forma de vida e a única maneira de reverter o status
quo é levando este derramamento de sangue à classe dominante, ou seja, a aristocracia.
Charles Dickens não se incomoda em colocar esse paralelismo nas mãos de seus
leitores, sua metáfora funciona também como um presságio da carnificina e sangue que, em
um futuro não tão distante, será derramado por toda cidade, tal qual o vinho. Outro uso
interessante da metáfora de “derramar o vinho” é o fato que os Defarges administram uma
taverna. Os Defarges, que se mostrarão mais a frente como o centro rebelde das atividades
revolucionárias no romance.

O principal ponto de vista de “Um conto de duas cidades” é da característica brutal da


Revolução, a presença do vinho e também do sangue é constante em toda a narrativa. Mais
uma vez relacionando ao vinho, assim como muito dessa bebida purpura pode deixar as
pessoas embriagadas e um tanto insanas, muito sangue derramado pode criar uma multidão
faminta por mais e mais sangue. A França passou por esse momento de “sede de sangue”,
onde já não era mais suficiente matar os indivíduos que prejudicaram diretamente os pobres,
sendo necessário matar suas esposas, filhos e qualquer um que já tivesse sido visto,
simplesmente sentado preguiçosamente ao lado deles, assim todos participavam dessa
carnificina incontrolável. Mesmo assim, de acordo com o que escreveu Hobsbawm em “A era
das Revoluções”:

“a escolha era simples; ou o Terror, com todos os seus defeitos do ponto de


vista da classe média, ou a destruição da Revolução, a desintegração do Estado
nacional e provavelmente — já não havia o exemplo da Polônia? — o
desaparecimento do país.”.

Através do paralelismo e simbolismo do “vinho e sangue”, Dickens encaminha seu


argumento sobre a incontrolável e inflamável natureza da mentalidade de massa. É importante
observar que esse mesmo pensamento de massa que forçou as pessoas a irem para as ruas de
Saint Antoine, em tempos que virão, será a fagulha para o mais sangrento conflito e
eventualmente para a Revolução, a tomada Bastilha e envio de inúmeros nobres para a morte.
O paralelismo entre vinho e sangue se faz notável pelo conhecimento do leitor do contexto
histórico - também apresentado no início do romance - no qual o romance se passa. Dickens
inicia sua narrativa com as seguintes palavras:

Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade
da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da
descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o
inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós,
íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário — em
suma, o período era em tal medida semelhante ao presente que algumas de suas mais
ruidosas autoridades insistiram em seu recebimento, para o bem ou para o mal,
apenas no grau superlativo de comparação. (DICKENS, Charles, 1859, p.9)

A Guilhotina, personificada no romance, também se mostra como ponto chave para a


posição do romance como histórico, sempre que mencionada recebe letra maiúscula, sendo
tratada realmente como uma personagem, como no capítulo XV:

Os carros fúnebres desfilam ruidosamente pelo leito áspero e esburacado


das ruas de Paris. Seis carros mortuários carregam o vinho de cada dia para La
Guillotine. Todos os devoradores e insaciáveis monstros imaginados desde que a
imaginação surgiu no Homem se fundiram numa única realização, a Guilhotina. E,
contudo, não existe na França, a despeito de sua rica variedade de solo e de clima,
uma folha, ou grama, ou raiz, ou um ramo novo, ou um grão de pimenta que possa
amadurecer em condições melhores do que aquelas que engendraram esse horror.
(DICKENS, Charles, 1859, p.329)

No trecho acima há a presença da Guilhotina e também do vinho como sinônimo de


sangue, Dickens com a personificação da Guilhotina, escrita inclusive na língua materna da
revolução, o francês, alerta sobre a humanidade e seus movimentos de massa que levaram tal
objeto a tamanha grandeza. Todos passaram a ser possíveis alvos da poderosa maquina de
matar: La Guillotine.

Graciosas moças, mulheres encantadoras de cabelos castanhos, pretos e


grisalhos, jovens, rapazes robustos, velhos, nobres e plebeus, todos formavam o
rubro vinho para La Guillotine, diariamente tirado das adegas dos sombrios cárceres
e carregado até ela pelas ruas para saciar-lhe a devoradora sede. Liberdade,
Igualdade, Fraternidade ou Morte; a última, muito mais fácil de conceder do que as
outras, ó Guillotine! (DICKENS, Charles, 1859, p.244)

A aparição do vinho fazendo alusão ao sangue e ao sofrimento permeiam toda a


narrativa, sendo claramente declarado como no trecho acima ou de maneira dramática como
no trecho abaixo.

À medida que esses brutos giravam e giravam a manivela, com os cabelos


desgrenhados batendo-lhes nas frontes e nos pescoços, algumas das mulheres
derramavam vinho em suas bocas para que bebessem; e o sangue que gotejava, mais
o vinho que se entornava e mais as faíscas provocadas pelo atrito na pedra, toda essa
maligna atmosfera parecia uma infernal mistura de sangue coagulado e fogo.
(DICKENS, Charles, 1859, p.232)
4. Considerações finais
Um conto de duas cidades é um romance de Charles Dickens repleto de características
da Revolução Francesa e se mantem fiel a realidade, para isso busca representar as diferentes
classes sociais e apresenta inclusive alguns estereótipos, como a personagem Monsigneur que
é a própria burguesia personificada ou o casal Defarge que representa os revolucionários.
Com esse estilo de representações Dickens nos apresenta La Guillotine, assim como faria uma
personagem “ela” carrega a sociedade francesa cada vez mais para a violência e lidera as
mortes da revolução. “Mais do que todas, uma hedionda figura tornou-se tão familiar como se
existisse desde o início dos tempos, uma afiada figura de gênero feminino chamada La Guillotine.”
(DICKENS, Charles, 1859, p.243)

O vinho também é utilizado pelo autor para tratar da sede de sangue dos
revolucionários, a bebida que possui grande significado e presença na vida dos franceses e
europeus até hoje é apresentada em paralelo ao sangue. Assim como precisam do vinho,
precisam do sangue, o vinho ludibria quem o bebe e quem se vê com sangue nas mão quer ter
ainda mais esse sangue.

Ambientado em Paris e também na Inglaterra Charles Dickens caminha pelo período


de 1775 e 1793 e não fala da revolução de forma geral e nem faz menção a líderes, mas
evidencia a situação social e suas consequências. George Lukács em seu livro Ensaios sobre
Literatura:

Dickens representa a sociedade burguesa que se está consolidando através


de graves crises: representam as complexas leis que presidem à formação dela, os
múltiplos e tortuosos caminhos que conduzem da velha sociedade em decomposição
à nova que está surgindo. (LUKÁCS, 1968, p. 56)

5. Referências

PUGA, Rogério Miguel. O Essencial sobre o Romance Histórico. Lisboa: Imprensa Nacional
/ Casa da Moeda, 2006.
HOBSBAWM, Eric J. A ERA DAS REVOLUÇÕES (1798-1848). 35º ed. Rio de Janeiro:
Paz & Terra, 2015.
DICKENS, Charles. Um conto de duas cidades. São Paulo – SP Nova Cultural, 2011.
MICHELET, Jules. Histoire de la Révolution Française (1792-1793). Paris, Gallimard, 1952
(1853).
PATTEN, Robert L., JORDAN, John O., WATERS, Catherine. Dickens and the Catastrophic
Continuum of History in A Tale of Two Cities,” in ELH, Vol. 51, No. 3, Fall, 1984, pp. 575-
87.
PIRES, Caroline Caputo. Literatura, história e memória em Um conto de duas Cidades de
Charles Dickens. Disponível em: <http://www.ufjf.br/darandina/files/2010/12/Literatura-
hist%C3%B3ria-e-mem%C3%B3ria-em-Um-conto-de-duas-Cidades-de-Charles-
Dickens.pdf>
CARREIRA, Eduardo José Antunes Netto. REPRESENTAÇÕES E PRÁTICAS DE
VIOLÊNCIA POLÍTICA NA REVOLUÇÃO FRANCESA Sobre as origens do conceito
terrorismo. Disponível em:
<http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/20107/1/2016_EduardoJoseAntunesNettoCarreira.
pdf>