Sei sulla pagina 1di 154

Introdução ao Antigo Testamento

Stefan Kürle

Introdução ao Antigo Testamento Stefan Kürle
Agosto/ 2014 Coordenação editorial: Depto. Desenvolvimento Institucional Professor autor: Dr. Stefan Kürle

Agosto/ 2014

Coordenação editorial: Depto. Desenvolvimento Institucional Professor autor: Dr. Stefan Kürle Coordenadoria de Ensino a Distância: Gedeon J. Lidório Jr

Projeto Gráfico:Mauro S. R. Teixeira Capa: Mauro S. R. Teixeira Revisão: Éder Wilton Gustavo Felix Calado Designer Instrucional: Wilhan José Gomes Impressão: ARTGRAF - Ind. Gráfica e Editora

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por:

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por: Rua: Martinho Lutero, 277 - Gleba Palhano -

Rua: Martinho Lutero, 277 - Gleba Palhano - Londrina - PR 86055-670 Tel.: (43) 3371.0200

SUMÁRIO Unid. - 01 O Antigo testamento como Cânon 05 U n i d .

SUMÁRIO

Unid. - 01 O Antigo testamento como Cânon

05

Unid. - 02 A história do texto do Antigo Testamento

15

Unid. - 03 O Antigo Oriente Próximo

21

Unid. - 04 Religião no Antigo Oriente Próximo

29

Unid. - 05 A Torá: formas da literatura e teologia

39

Unid. - 06 Levítico e o tema da Torá

53

Unid. - 07 Os livros históricos

59

Unid. - 08

A natureza da narrativa bíblica e a ética do

textos históricos

65

Unid. - 09 A literatura sapiencial

71

Unid. - 10 O otimismo quebrado

79

Unid. - 11 Os livros poéticos I: Os salmos

87

Unid. - 12 Os livros poéticos II: Teologia de Salmos e Cântico dos Cânticos

101

Unid. - 13 Os livros proféticos I: O profeta e seu livro

107

Unid. - 14 Os livros poéticos II: Aspectos teológicos e um

panorama dos profetas

115

Unid. - 15 Épocas: A pré-monarquia

123

Unid. - 16 Épocas: Monarquia (parte I)

133

Unid. - 17 Épocas: Monarquia (parte II)

139

Unid. - 18 Exílio e Pós-Exílio

147

04

04 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento

04 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento Unidade - 01 O Antigo Testamento como Cânon

Testamento Unidade - 01 O Antigo Testamento como Cânon Introdução Nessa unidade e na próxima, descobriremos

Introdução

Nessa unidade e na próxima, descobriremos alguns fatos básicos sobre o papel do AT na teologia cristã e do texto em si dessa grande obra da literatura do mundo. O

AT era a Bíblia dos primeiros cristãos e também a Bíblia de Jesus. Tanto Jesus como os primeiros cristãos costumavam ler o AT em uma tradução grega (a Septuaginta [LXX]).

A imagem seguinte mostra uma página desse texto (um

manuscrito do meio do séc. IV – sem ir a uma biblioteca você pode ver esse livro maravilhoso: http://www. codexsinaiticus.org). Antes de continuarmos, faremos uma breve pausa

para refletir sobre os teus sentimentos com relação ao AT. Que parte do AT você levaria para uma ilha deserta? De que livro do AT você tem medo para preparar um sermão?

O que você precisa, sobretudo, para estabelecer um melhor

relacionamento com o AT?

para estabelecer um melhor relacionamento com o AT? Duas páginas do Codex Sinaiticus - o AT

Duas páginas do Codex Sinaiticus - o AT em grego. É um texto que os primeiros cristãos liam. Observe: O texto é sem divisões entre as palavras e usa só maiúsculas.

ObjetivosAo final da unidade, o aluno: 1. Refletirá sobre o papel do AT na sua

Ao final da unidade, o aluno:

1. Refletirá sobre o papel do AT na sua comunidade;

2. Conhecerá as várias maneiras de denominar o AT;

3. Descobrirá o conteúdo e a ordem de várias tradições

do cânon.

Plano da unidade

• Por que estudamos o AT?

• Precisamos do Antigo Testamento?

• O nome “Antigo Testamento”

• Estrutura e origem do cânon do AT

• A teologia do cânon

Por que estudamos o AT?

O Antigo Testamento é a primeira e a maior parte da Bíblia

cristã. A Bíblia cristã é uma unidade inseparável entre o Antigo e o Novo Testamento.

uma unidade inseparável entre o Antigo e o Novo Testamento. Para pensar Que papel desempenha o

Para pensar

Que papel desempenha o AT na sua comunidade? Em quantos domingos há uma leitura desta parte da Bíblia? Qual porcentagem dos sermões foi baseada no AT durante os últimos 12 meses? Por que isso acontece? – qual é sua interpretação?

Coloque as suas ideias no nosso fórum!

A Bíblia tem um papel decisivo para a fé cristã. Ela é testemunha de Deus em suas ações no mundo. A pergunta com que muitas religiões se ocupam é: “Como conhecer a deus?” Algumas filosofias e religiões acham que o seu deus pode ser reconhecido pelo pensamento humano, pela nossa interpretação do mundo, ou experiências paranormais. Outra máxima vale para a religião cristã: o Deus cristão quer ser reconhecido como aquele que já se revelou para os homens. Isso

06

cristão quer ser reconhecido como aquele que já se revelou para os homens. Isso 06 Introdução

Introdução ao Antigo Testamento

cristão quer ser reconhecido como aquele que já se revelou para os homens. Isso 06 Introdução

significa que a Bíblia é testemunha de Deus na caminhada do povo Israel e ao enviar de Jesus. O AT era a Bíblia de Jesus: Jesus era judeu, conhecia as escrituras sagradas do judaísmo e testemunhou de que não havia nenhum outro

deus além do Deus dos patriarcas de Israel: o Deus de Abraão, Isaque

e Jacó. A Bíblia não só testemunha da experiência de Jesus, mas da

totalidade dos procedimentos de Deus “Pai”, como Jesus disse no primeiro pedido do Pai Nosso. Isto também nos amarra, como cristãos,

ao AT. Sem dúvida, Deus está continuamente agindo na história e está

presente também nos dias de hoje, mas na Bíblia o testemunho nos foi interpretado mais claramente. Consequentemente: na fé cristã podemos refletir sobre Deus somente na interação com a Bíblia. Sem a Bíblia não há nenhum conhecimento de Deus que seja confiável.

A Bíblia nos traz experiências das primeiras testemunhas de

nossa fé. Pois a Bíblia preserva o testemunho da fé desde gerações distantes, sendo assim, nossa obrigação em torno dos textos bíblicos

é dupla:

• Precisamos de uma compreensão histórica – o que o texto

significava;

• Precisamos buscar o significado atual dos textos bíblicos – o que o texto significa.

Precisamos do Antigo Testamento?

Na história cristã houve e ainda há a tentativa de desvalorizar o AT como um documento obsoleto ou eliminá-lo do cânon cristão.

Já em meados do séc. II o teólogo cristão Marcião de Sinope

elaborou a tese de que o Deus proclamado por Jesus e Paulo estava em contradição ao deus vingativo e feroz do AT. Em discussões calorosas,

a Igreja Antiga insistiu na primeira parte do cânon e descartou Marcião como herege da igreja junto com seus numerosos seguidores. Mas as perguntas que Marcião propusera foram levantadas muitas vezes durante a história da igreja. No século IXX o famoso historiador da igreja, Adolf von

Harnack, exigiu que finalmente estava na hora da igreja cristã lançar

o AT (como símbolo da grande paralisação eclesiástica) no monte de

escória da história (HARNACK, 1924, p. 217). A desvalorização do AT frequentemente andava e anda junto com

a desvalorização do povo judaico. O antijudaísmo cristão contribuiu com o antissemitismo moderno. A igreja entendeu como um novo

Israel herdando o status do antigo povo de Deus que consequentemente deserdou. O AT, por consequência, era a escritura sagrada de uma religião estranha e sem graça. Por isso, não podemos esquecer o seguinte: Jesus era judeu, Paulo também. O que é chamado no cristianismo de “Antigo Testamento” era a Bíblia que ambos possuíam. As escrituras judaicas determinavam seus pensamentos e conversas. Além disso, os textos do Novo Testamento não podem ser entendidos sem

o AT. Eles frequentemente reiteram os conceitos, imagens, metáforas, fundamentos, histórias e teologia do AT. Só pense sobre esse nome “Jesus Cristo” ou “Messias”! Podemos chamar a Bíblia cristã de uma “edição ampliada” do AT. Queremos dizer que nessa “nova edição” há novas escrituras

que foram tomando o título

(biografias, livros históricos, cartas

de sagradas escrituras. Isso tem algumas implicações para a nossa concepção e para o nome do AT.

O nome “Antigo Testamento”

O AT não conta com nenhuma designação própria para sua

coleção de livros. Como já vimos, a escritura sagrada dos judeus foi

a Bíblia de Jesus e de seus discípulos. Por isso o NT refere-se ao AT como “a escritura” ou “as escrituras”. No NT percebemos uma diferenciação entre esse corpus das

escrituras:

• “a lei (de Moisés) e os profetas”- Mt 5,17; 7,12; 11,13; 22,40; Lc 16,16; Jo 1,45; At 24,14; 28,23; Rm 3,21;

Mt 5,17; 7,12; 11,13; 22,40; Lc 16,16; Jo 1,45; At 24,14; 28,23; Rm 3,21; ) 08

)

08

Mt 5,17; 7,12; 11,13; 22,40; Lc 16,16; Jo 1,45; At 24,14; 28,23; Rm 3,21; ) 08

Introdução ao Antigo Testamento

Mt 5,17; 7,12; 11,13; 22,40; Lc 16,16; Jo 1,45; At 24,14; 28,23; Rm 3,21; ) 08

“Moisés e os profetas”- Lc 16,29.31;

• “Moisés, os profetas e as escrituras”- Lc 24,27;

• “a lei de Moisés, os profetas e os Salmos”- Lc 24,44;

Essa divisão em três partes também conhecemos no prólogo à

tradução grega do livro apócrifo Eclesiástico ("Sirácida”, 132 a.C.):

“Muitas e grandes coisas são nos dados através da lei, dos profetas e

das outras escrituras, que lhe seguem

A terminologia “testamento” sugere a ideia de “aliança” como podemos observar no NT:

• Lc 22,20; 1Co 11,25: “Este cálice é o novo testamento/aliança

no meu sangue

• 2Co 3,6: “O qual nos fez também capazes de ser ministros de

um novo testamento/aliança

• Hb 9,15; 12,24: Jesus como Mediador do novo testamento/ aliança.

”.

”;

”;

como Mediador do novo testamento/ aliança. ”. ”; ”; Para pensar Que nome você usaria para

Para pensar

Que nome você usaria para o AT – se você fosse decidir? Coloque as suas ideias no nosso fórum!

Então, podemos deduzir que as ações de Deus anteriormente são da “velha aliança/antigo testamento”? Especialmente 2Co 3,6 (evidentemente) põe uma relação desigual entre a velha e nova aliança. Mas isso não é correto no que tange a relação entre AT e NT. E com o anuncio do novo testamento já no AT, em Jr 31, precisamos distinguir bem esses conceitos de aliança. Entretanto, em 2Co 3,14 lemos: “Mas os seus sentidos se endureceram; porque até hoje, quando fazem a leitura da antiga aliança, o mesmo véu permanece, não lhes sendo revelado que, em Cristo, é removido”. Aqui, onde se lê “antiga aliança,” refere-se, obviamente, a um livro. O que nos leva a concluir, por um lado, em um comentário sobre o AT no NT que o AT é antiquado. Por outro lado, isso obviamente não é verdade para todo o AT. Contudo, aqui encontramos essa tensão entre a continuidade e descontinuidade ao descrever a relação entre os dois testamentos (livros). Por causa disso, Erich Zenger sugere descrever o AT como

“Primeiro Testamento” (ZENGER, 2003). Alguns teólogos também

usam o termo “Bíblia Hebraica” ou “Tanach”, uma palavra artificial que vem das letras iniciais das palavras hebraicas, que descrevem

o conteúdo tripartido do AT: Torá, Neviim e Ketuvim (Instrução-

Lei, Profetas e Escrituras). Essas possibilidades evitam termos que

sugerem uma depreciação do AT. Todavia, chamar essa primeira parte da Bíblia cristã “Antigo Testamento” é uma designação tradicional que está sempre nos lembrando de que precisamos do Novo Testamento como continuação. Contudo, devemos estar alertas aos perigos de uma desvalorização dos livros incluídos e também da probabilidade de barreiras na conversação com os judeus. Pelo menos hoje precisamos de uma forte valorização do AT. Especialmente em nossa sociedade, na qual a fé cristã está cada vez menos conhecida, devemos enfatizar mais a leitura do AT. Sem o AT toda a salvação de Jesus fica “no ar”. Além disso, o AT esclarece as perguntas fundamentais do ser humano em relação a Deus. Uma questão: Por que as pessoas precisam da redenção por meio de Jesus Cristo, se não sabem que Deus as criou para pertencerem

a ele, porém estão separadas Dele pelo pecado? Exatamente isso é testemunhado pelo AT!

Estrutura e origem do cânon do AT O conteúdo do AT

Diferente do NT, o cânon do AT possui diferenças de tamanho para várias igrejas cristãs. As dúvidas giram, acima de tudo, em torno dos livros apócrifos (literalmente “livros escondidos”). A Igreja Antiga os incluiu em torno de 400 d.C. Eram livros que o judaísmo e os primeiros cristãos não incluíam nas escrituras sagradas. Foram os reformadores no séc. XV que decidiram que todos os livros sem fundamento hebraico não deviam ser utilizados nos cultos públicos, sendo que, dessa forma, eles também não pertenciam ao cânon. A Igreja Católica ficou com os apócrifos (Judite, Tobias, Baruque, Eclesiástico, Sabedoria de Salomão, I e II Macabeus, além de adições aos livros de Ester e Daniel). Ela aceitou esses livros como “livros deuterocanônicos” (= livros de um segundo cânon). Entretanto, a

10

como “livros deuterocanônicos” (= livros de um segundo cânon). Entretanto, a 10 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento

como “livros deuterocanônicos” (= livros de um segundo cânon). Entretanto, a 10 Introdução ao Antigo Testamento

Igreja Ocidental (Igreja Ortodoxa) decidiu, apenas em 1672, incluir os livros Judite, Tobias, Eclesiástico e Sabedoria de Salomão.

A tradição judaica desde o início se limitou para as escrituras

hebraicas (ou aramaicas; partes de Esdras e Daniel). Esta delimitação

do conteúdo do cânon (judaico) pode ser datada no tempo de Jesus.

O cânon judaico reflete os tempos de origem e canonização dos

vários livros da coleção. Também podemos perceber uma hierarquia entre os livros – nenhum dos livros tem a mesma autoridade que a Torá. Por isso a tradição rabínica colocou um alto valor na “Torá Oral” que traz a maior parte da Torá do Sinai. Essa tradição oral foi escrita na Mishná e outros livros. Esses textos nunca foram continuados pela igreja cristã. A hierarquia é também visível nas leituras na sinagoga. A Torá é lida inteiramente todos os anos. Vários textos dos profetas são lidos como comentários da Torá. Entre as Escrituras, os Salmos e os Megilloth (“cinco rolos”: Cântico; Rute; Lamentações; Eclesiastes; Ester) fazem parte da liturgia - mas com uma função menos importante que a Torá. Os últimos são lidos nas grandes festas do judaísmo:

Os 5 Megilloth

• Festa das semanas (Schavuot) - Rute;

• Festa da páscoa (Pessach) - Cântico;

• Festa dos Tabernáculos (Sucot) - Eclesiastes;

• Festa de comemoração da destruição do templo (Tishá BeAv) - Lamentações;

• Festa de Purim - Ester

• Festa de comemoração da destruição do templo (Tishá BeAv) - Lamentações; • Festa de Purim

A teologia do cânon

A palavra grega “cânon” significa “regra” ou “instrumento de

medir”. Com o termo “cânon do AT” determina-se a coleção encerrada de escritos inspirados pelo Espírito Santo. Abrange aqueles escritos que têm autoridade normativa para a igreja, isto é, que servem como regra para a nossa fé e vida como crentes. Podemos resumir uma interpretação teológica do cânon (seguinte Erich Zenger):

 

I Gn – Dt

Revelação originária no Sinai

Torá como promessa e interpelação

 

II Js - 2Mc

História de Israel na terra

Passado

III Jó – Sr

 

Sabedoria para a vida

Presente

IV Is – Ml

 

Profetismo

Futuro

Zenger está explicando: “Cabe ler assim o que vimos acima:

Os livros Gn-Dt preservam que a Torá revelada no Sinai, contendo os dois focos “mandamento do amor a Deus” - “mandamento do amor ao próximo” (cf. Mc 12,28-34par.), constitui a revelação originária de Deus, fundamentada na Criação e quem vem a todos os povos por meio de Israel. O fato de os Dez Mandamentos terem sido outorgados como proclamação de direito divino e de direito humano conforme a “história” no deserto do Sinai e anterior à tomada da terra, descrita em Gn-Dt, é interpretado pela própria tradição judaica como mandamentos que não devem ser lei de vida apenas para Israel, mas para todos os povos. Isso vale justamente para os cristãos, que devem “cumprir“ a Torá no discipulado de Jesus (cf. Mt 22,34-39 com base em Mt 5,17-20). Os blocos subsequentes II-IV visam conduzir para essa vida com a Torá do Sinai:

O bloco II (Js-2Mc) demonstra a partir do exemplo de Israel o

que acontece numa comunidade que vive com essa Torá, mostra sua concretização e como isso ocorre, mas também que pode fracassar. Os leitores cristãos da Bíblia devem sentir e experimentá-lo com esse

12

fracassar. Os leitores cristãos da Bíblia devem sentir e experimentá-lo com esse 12 Introdução ao Antigo

Introdução ao Antigo Testamento

fracassar. Os leitores cristãos da Bíblia devem sentir e experimentá-lo com esse 12 Introdução ao Antigo

povo, envolvendo-se intimamente – como história de suas irmãs e seus irmãos judeus (não como história deles próprios) e como história do seu Deus comum.

O bloco III (Jó-Sr) convida cada pessoa a buscar, com ajuda

desses escritos sapienciais, a verdadeira sabedoria salvadora da vida.

A maneira de fazê-lo é ouvir a Torá, orando-a e meditando nela, pois ela se comunica, a todos os que se abrem a ela, por meio da Criação e das instruções a Israel.

O bloco IV (Is-Ml) projeta a visão de que o mundo e a história

chegam à plenitude quando os povos peregrinam até Sião, para lá aprender a grande Torá da paz de Javé (Is 2,1-5: texto programático canônico no início do bloco IV) e para participar desse modo da renovação ou restauração fundamental de tudo, prometida pelos livros dos profetas a toda a terra – e que acontecerá, naturalmente não deixando Israel de fora, mas por meio desse povo e com ele. A partir de profetismo, que por diversas correntes foi lido no tempo de Jesus como promessa escatológica, isto é, como projeto de um drama consistente do fim dos tempos, até mesmo a Torá (bloco I) adquire um dinamismo profético-escatológico na perspectiva da expectativa imediata do fim. Por outro lado, o agir de Javé em e por meio de Jesus (singularmente no evento da Páscoa), testemunhado no Novo Testamento, pode ser entendido como ato decisivo no contexto desse drama escatológico anunciado pelos profetas. Dessa maneira, na Bíblia cristã, o profetismo abre-se em direção do Novo Testamento que o segue” (ZENGER, 2003, p. 40s)

maneira, na Bíblia cristã, o profetismo abre-se em direção do Novo Testamento que o segue” (ZENGER,

Neste sentido podemos também ler o NT:

Fundamentação:

Torá

Evangelhos

Passado:

Livros históricos Livros sapienciais Livros proféticos

Atos dos Apóstolos Epístolas Apostólicas Apocalipse de João

Presente:

Futuro:

Apostólicas Apocalipse de João Presente: Futuro: Referências Bibliográficas HARNACK, A. VON. Marcion. Das

Referências Bibliográficas

HARNACK, A. VON. Marcion. Das Evangelium vom fremden Gott. 2. ed. Leipzig: [s.n.], 1924.

ZENGER, E. Introdução ao Antigo Testamento. [S.l.]: Edições Loyola,

2003.

14

1924. ZENGER, E. Introdução ao Antigo Testamento. [S.l.]: Edições Loyola, 2003. 14 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento

1924. ZENGER, E. Introdução ao Antigo Testamento. [S.l.]: Edições Loyola, 2003. 14 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento Unidade - 02 A história do texto do Antigo Testamento

Unidade - 02 A história do texto do Antigo Testamento Introdução Livros não caem do céu,

Introdução

Livros não caem do céu, normalmente. Textos escritos (em vez de textos orais) têm autores, usam letras, uma certa língua (ou mais de uma) e utilizam algum meio material para serem preservados no tempo. Nessa unidade, refletiremos sobre o texto do AT e a sua história. Até que Você pudesse acessar os textos do AT através de um belo volume impresso de papel, com capa de couro e em uma língua inteligível para você, contudo, até isso ser possível houve uma longa história de produção, tradição e tradução. Vamos descobrir umas das suas etapas nessa unidade.

Vamos descobrir umas das suas etapas nessa unidade. Você se lembra do Codex Sinaiticus (unidada 1).

Você se lembra do Codex Sinaiticus (unidada 1). Essa tradução marca um passo importantíssimo na história do texto do AT.

marca um passo importantíssimo na história do texto do AT. Objetivos Ao final da unidade, o

Objetivos

Ao final da unidade, o aluno:

1. Conhecerá parte da história da tradição do texto do AT;

2. Terá uma noção das complicações durante o processo

de tradução.

Plano da unidade

Alguns fatos interessantes da caminhada do texto do AT

• Os rolos de Qumran (os papiros do Mar Morto)

• A Septuaginta (LXX)

• Os Massoretas

• A Bíblia Hebraica

Alguns fatos interessantes da caminhada do texto do AT

As palavras do Antigo Testamento (tanto como as do NT) foram escritas por homens (Jo 1,14), mas sob o controle do Espírito Santo (chamamos isso de a “inspiração” da palavra de Deus). Isso significa que o AT tem uma origem humana que devemos conhecer a fim de poder perceber melhor a sua mensagem. Os passos da formação da Bíblia que conhecemos hoje foram os seguintes:

Homens de Deus

que conhecemos hoje foram os seguintes: Homens de Deus Tabuletas de argila - Fonte: Wikimidia Commons

Tabuletas de argila - Fonte: Wikimidia Commons

• …contaram e transmitiram as palavras de Deus oralmente. (Dt 6,6-7; 1Co 15,3);

• …escreveram textos em tabuletas de argila e em folhas de

papiro (Éx 17,14; Jr 36,2; Lc 1,1-3);

• …copiaram as tabuletas e as folhas e juntaram-nas em rolos e em códices (compilações de folhas de papiro ou pergaminho);

Depois dos rolos e códices vêm os livros escritos e mais tarde os livros impressos. Os textos originais do AT (isto é, os textos escritos pelo próprio autor) não existem mais. A única coisa que temos hoje em dia são cópias e cópias das cópias. Arqueólogos conseguiram achar pedaços e partes de cópias bastante velhas dos textos do AT, mas nunca acharam um texto original escrito por um autor bíblico.

acharam um texto original escrito por um autor bíblico. Bíblia de Gutenberg (início de Gêneses) Uma

Bíblia de Gutenberg (início de Gêneses) Uma das primeiras Bíblias impressas. Fonte: Wikimidia Commons

16

(início de Gêneses) Uma das primeiras Bíblias impressas. Fonte: Wikimidia Commons 16 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento

(início de Gêneses) Uma das primeiras Bíblias impressas. Fonte: Wikimidia Commons 16 Introdução ao Antigo Testamento

Os rolos de Qumran (os papiros do Mar Morto)

No ano de 1947, um jovem pastor de ovelhas achou em uma cova nas montanhas perto do mar morto uns rolos de escritura depositadas em cântaros de barro. Levou alguns deles e os vendeu na feira da sua aldeia. Por acaso um arqueólogo passou por aquela feira e achou os rolos. Logo reconheceu o grande valor deles e comprou-os. Depois pediu ao jovem que lhe mostrasse o lugar onde é que tinha achado os rolos. Assim foram descobertos as cavernas de Qumran, que contêm uma antiga biblioteca de um monastério judaico (os monges de Qumran), situado perto do Mar Morto, onde foram guardados um grande número de textos sagrados do AT originários do ano 200 a.C. isto é, quase mil anos mais velhos de que os códices de Aleppo e Leningrado. A investigação dos rolos de Qumran mostrou que não existe uma diferença significativa entre os textos do ano 200 a.C. e as cópias do ano 930 d.C. Uma prova maravilhosa da fidelidade e exatidão do processo da tradição dos textos sagrados do AT.

do processo da tradição dos textos sagrados do AT. A Septuaginta (LXX) A primeira coleção completa

A Septuaginta (LXX)

A primeira coleção completa dos livros do AT foi a tradução dos livros do AT na língua grega chamada Septuaginta, comumente conhecida pela sigla LXX. A palavra “Septuaginta“ é latina e significa “Setenta”, que se escreve em letras romanas: “LXX”. O nome “Septuaginta“ vem de uma tradição antiga que diz que esta tradução foi feita por setenta e dois homens em setenta e dois dias. Mas na verdade este trabalho levou muito mais tempo, mais ou menos de 300 até 100 a.C. A razão porque esta tradução foi feita é a seguinte: Houve muitos judeus no império Romano, que viveram fora da terra de Israel e que não aprendera a língua hebraica dos seus antepassados. Eles precisaram

fragmento de um pergaminho da LXX de uma tradução de suas Sagradas Escrituras na língua

fragmento de um pergaminho da LXX

de uma tradução de suas Sagradas Escrituras na língua oficial do Império Romano que era o Grego. A qualidade e o estilo da tradução são bem variados de livro para livro – do literal à paráfrase. A LXX teve a seguinte ordem: Torá - Livros Históricos - Livros Poéticos - Apócrifos

- Livros Proféticos. A LXX era a Bíblia que os apóstolos e a igreja primitiva liam e citavam. Por isso, algumas citações no NT do AT parecem um pouco livres e diferentes do nosso AT, que foi traduzido do hebraico.

Fonte: Wikimidia Commons

Os Massoretas

As cópias mais importantes dos textos do AT que temos são as cópias na língua hebraica, feitos por uma escola israelita de escribas chamados Massoretas. Os Massoretas foram homens com uma grande tradição na arte de escrever e copiar. Produziram cópias dos livros do AT e ao mesmo tempo tiveram o alvo de manter o texto original inalterado e ileso. Durante muitos séculos, os Massoretas mantiveram uma tradição irrepreensível e imaculada dos textos do AT. Porém, as cópias mais velhas dos Massoretas que temos hoje em dia são originárias do ano 930 d.C. São os códices chamados Codex Aleppo e

do ano 930 d.C. São os códices chamados Codex Aleppo e Página dos Targumim (traduções, paráfrases

Página dos Targumim (traduções, paráfrases e comentários em aramaico da Bíblia hebraica Fonte: Wikimidia Commons

18

paráfrases e comentários em aramaico da Bíblia hebraica Fonte: Wikimidia Commons 18 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento

paráfrases e comentários em aramaico da Bíblia hebraica Fonte: Wikimidia Commons 18 Introdução ao Antigo Testamento

Codex Leningradensis (têm estes nomes porque se encontram hoje em dia nos arquivos das cidades de Alepo e Leninegrado (St. Petersburgo). Isso significa que entre o tempo em que o último livro do AT foi escrito (400 a.C.) e o tempo em que a cópia mais velha do AT inteiro que temos foi escrita, existe um espaço de mais de que 1000 anos!

A Bíblia Hebraica

Ao ver o uso da LXX na igreja cristã, i.e. como os crentes provaram com a LXX que Jesus Cristo é o Messias, os judeus decidiram abandonar esta tradução grega e voltaram para a sua Bíblia Hebraica, isto é, a coleção dos livros do AT na língua hebraica. Esta coleção já tinha existido antes de Cristo (Jesus mesmo a usou, Lc 24,27 e Mt 23,34), mas foi estabelecida como Cânon Hebraico fixo somente no ano 90 d.C. (sínodo de Jabne ou Jâmnia) em rejeição da LXX que os Cristãos usaram. A ordem dos livros da Bíblia Hebraica foi diferente da ordem da LXX: Lei - profetas anteriores (Livros Históricos) - profetas posteriores - escrituras. Enquanto os Cristãos seguindo a LXX mantiveram a ordem antiga com os profetas posteriores no fim (os quais apontam para Cristo!), os Judeus colocaram os 5 rolos das festas (Rute, Cant., Ecl., Lam., Ester) e os livros do tempo do cativeiro (Daniel, Esdras, Neemias, Crônicas) no fim do seu cânon.

(Daniel, Esdras, Neemias, Crônicas) no fim do seu cânon. Referências Bibliográficas Harnack, Adolf von. Marcion .

Referências Bibliográficas

Harnack, Adolf von. Marcion. Das Evangelium vom fremden Gott. Leipzig, 2 a ed., 1924. Zenger, Erich. Introdução ao Antigo Testamento. Petrópolis: Edições Loyola, 2003.

Anotações 20 Introdução ao Antigo Testamento

Anotações

20

Anotações 20 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento

Anotações 20 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento Unidade - 03 O antigo Oriente Próximo

ao Antigo Testamento Unidade - 03 O antigo Oriente Próximo Introdução Antes de continuarmos, quero que

Introdução

Antes de continuarmos, quero que você reflita sobre os seus

conhecimentos do contexto histórico do AT. Quais são as fontes do

conhecimento (livros, filmes, viagens, escola interpretar um artefato arqueológico agora:

Essa imagem faz parte de um relevo do palácio de Senaqueribe, em Nínive. O rei assírio Senaqueribe conquistou Laquis (uma cidade perto de Jerusalém) com um terrível derramamento de sangue – arqueólogos descobriram uma vala comum com 1.500 esqueletos humanos, principalmente de mulheres

e crianças. Os afrescos

Vamos tentar

seu

)?

de mulheres e crianças. Os afrescos Vamos tentar seu )? (pinturas) mostram a batalha de Laquis

(pinturas) mostram a batalha de Laquis em uma série de cenas, quase como uma história em quadrinhos. No meio do afresco, a cidade é invadida. Depois podemos ver os cativos de Judá marcharem para fora da cidade, enquanto outros são despidos e empilhados em lanças

assírias. Os prisioneiros são torturados e assassinados. Em seguida, no último painel, o rei Senaqueribe se senta no trono, recebendo a rendição de um oficial em a seu acampamento. É este acampamento

que vemos em nosso painel acima. Esta imagem serve como exemplo

para estudar o estilo da arte dessa época. Observe a falta de perspectiva – este estilo é chamado aspectivo. Isso significa que as coisas mais importantes são as maiores (falta de perspectiva).

Outros detalhes, como cronologia ou rostos individuais, tão importante para nossa convenção de arte (por isso gostamos muito de emoções etc.), não recebem nenhuma atenção. Algo que você pode confirmar apenas no museu (ou em uma imagem completa) é que os retratos de Laquis são do mesmo tamanho que as do acampamento do rei, que está desenhado com detalhes com as mesas cheias de comida e coisas preciosas. Lembre-se que a história normalmente foi escrita (ou desenhada) pelos vencedores. Poderíamos falar muito mais sobre essa cena – talvez sobre os símbolos religiosos ou as inscrições no afresco. Mas para mim é suficiente mostrar as grandes diferenças entre o mundo antigo e nosso tempo através da arte que espelha muito a cultura geral.

tempo através da arte que espelha muito a cultura geral. Objetivos Ao final da unidade, o

Objetivos

Ao final da unidade, o aluno:

1. Identificará aspetos gerais das culturas do Antigo

Oriente Próximo;

2. Refletirá sobre os aspectos geográficos e físicos do

Antigo Oriente Próximo.

Plano da unidade

• O mundo do Antigo Oriente Próximo

• Por que estudamos essa cultura e história?

• Como sabemos sobre o mundo do Antigo Oriente Próximo?

• Cronologia

• Geografia

22

Como sabemos sobre o mundo do Antigo Oriente Próximo? • Cronologia • Geografia 22 Introdução ao

Introdução ao Antigo Testamento

Como sabemos sobre o mundo do Antigo Oriente Próximo? • Cronologia • Geografia 22 Introdução ao

Por que estudamos essa cultura e história?

Os textos bíblicos não são textos sagrados descolados do tempo

e da realidade, que podem ser entendidos diretamente, sejam por

iniciantes ou através de uma miraculosa inspiração do Espírito Santo.

Não é a tarefa do Espírito Santo explicar esses textos diretamente sem um

estudo mais aprofundado

– infelizmente isso significa muito trabalho para nós. Os textos da Bíblia foram escritos para destinatários específicos. Estes beneficiários viviam em um mundo muito diferente do nosso. Viviam em condições políticas específicas, contextos sociais e econômicos concretos e tinham sua própria cultura e visão do mundo. Os autores da Bíblia, cujos textos são inspirados por Deus,

Que pena!

da Bíblia, cujos textos são inspirados por Deus, Que pena! Você pode imaginar a diferença na

Você pode imaginar a diferença na cultura essa obra mostra um texto litúrgico hebraico. Fonte: Wikimidia Commons

só tinham em mente essas pessoas. A tentativa era comunicar com eficácia e transmitir suas mensagens. Portanto, agora, temos o problema de que esses textos não são escritos para nós especificamente. A nossa tarefa é nos colocar na situação dos primeiros destinatários da Bíblia, e para fazermos isso, precisamos, ao máximo, estudar o contexto histórico e cultural. Para este projeto não podemos limitar-nos só à cultura e à história da Palestina. Durante o tempo do AT, Israel não foi a cultura dominante, era apenas uma pequena tribo que dependia fortemente

de outros povos vizinhos. Os israelitas adotaram as ideias, os costumes

e a cultura das grandes potências em torno deles. Fazemos isso não

muito diferente hoje em dia, quando somos orientados pela cultura da América do Norte ou da Europa. Muitas vezes, emprestamos nossa própria consciência para lidar com os poderosos. Assim, Israel sempre esteve estabelecida muito firmemente em seu contexto cultural. Estudando as outras grandes culturas, melhoraremos nossa compreensão da Bíblia.

Como sabemos sobre o mundo do Antigo Oriente Próximo?

Ao começarmos a estudar sobre as culturas antigas, encontraremos o termo “Arqueologia Bíblica”, definida como o estudo arqueológico de Israel e da Palestina. Ela é uma disciplina independente e trabalha estreitamente ligada com o Próximo Oriente. Outros estudos se relacionam com os da Suméria, Babilônia, Assíria ou Egito. Para definir arqueologia, vou citar o seguinte: “A arqueologia é a investigação das sociedades

“A arqueologia é a investigação das sociedades Hazor (norte de Israel) - Fonte: Wikimidia Commons humanas

Hazor (norte de Israel) - Fonte: Wikimidia Commons

humanas através do estudo de vestígios materiais por elas deixados (artefatos). Embora a imagem do profissional em arqueologia mais difundida seja a de seu trabalho nas escavações, seu trabalho é muito mais complexo e extenso. Ele necessita interpretar os vestígios materiais que encontrou, contextualizá-los e cruzar informações com uma grande variedade de áreas, utilizando uma abordagem interdisciplinar, de modo que encontre respostas que possa construir conhecimento a respeito das sociedades que estuda. Sendo que a arqueologia é imprescindível para investigar os agrupamentos humanos ágrafos (sem escrita), ou qualquer outra sociedade extinta, sua importância para a antropologia é imensa. Através do estudo arqueológico, a antropologia conseguiu informações acerca dessas sociedades, uma vez que a maioria não pode ser observada e estudada através de técnicas etnográficas normais, pelo fato dessas sociedades não existirem mais, nem terem deixado vestígios escritos. Sendo que, mesmo muitos vestígios escritos de sociedades extintas que temos hoje para estudo foram descobertos através de escavações arqueológicas, como tábuas de argila com escrita cuneiforme da Mesopotâmia. 1

Então, o que aprendemos através dessa descrição? A arqueologia

1 Da página web http://gpveritas.org/portal/index.php?option=com_ content&view=article&id=59&Itemid=68, 14/08/09

24

content&view=article&id=59&Itemid=68, 14/08/09 24 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento

content&view=article&id=59&Itemid=68, 14/08/09 24 Introdução ao Antigo Testamento

é uma ciência interpretativa e por isso interdisciplinar. Muitas decisões dependem fortemente da antropologia, da filosofia, da história e da sociologia adotada pelo interpretador. Sabendo disso, precisamos ler os resultados dos arqueólogos e fazer a relação entre tais resultados e

a Bíblia.

Umacoisamuitoimportantesobreoassunto“Bíbliaearqueologia”

é: a Bíblia deve ser vista como fonte. Não faz sentido provar ou refutar

a Bíblia com a arqueologia. Um artefato interpreta outro artefato – um

texto interpreta o outro texto. A Bíblia é um destes textos – ela é um documento mais contemporâneo do que nós. Faz parte da humildade científica (e cristã), lermos a Bíblia com muita bem-querência e como uma fonte que está dando luz para nosso entendimento a respeito da antiguidade.

Cronologia

nosso entendimento a respeito da antiguidade. Cronologia Cena no Obelisco Negro de Salmanasar III (Museu Britãnico),

Cena no Obelisco Negro de Salmanasar III (Museu Britãnico), encontrado em Nimrud menciona o nome de Jeú, rei de Israel: “O tributo de Jeú, filho de Omri: eu recebi dele prata, ouro, uma tigela de ouro, um vaso de ouro com fundo aguçado, copos de ouro, baldes de ouro, estanho, um bastão de um rei [e] lanças”. - Fonte: Wikimidia Commons

Para uma cronologia do Antigo Oriente Próximo, referimo- nos a uma página da web 2 , com bastantes detalhes. Isso pode ser interessante, mas se você fosse como eu, essas listas me dariam uma certa medida de aborrecimento. Eu gosto muito mais de saber sobre costumes, religiões e outras coisas culturais do passado. Por outro lado… totalmente sem dados, nosso entendimento do passado é sem estrutura e é fácil fazer confusão dos períodos. Então, vou apresentar uma tabela 3 que pode nos ajudar um pouco a não nos perdermos da história do antigo oriente próximo.

2 Extrato da página web: http://www.assis.unesp.br/ierocha/cronoriente.htm, 07/08/09. 3 Traduzido de T. C. Mitchell und British Museum, The Bible in the British Museum (Paulist Press, 2004), 17.

26 Introdução ao Antigo Testamento

26

26 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento

26 Introdução ao Antigo Testamento

Observe que em diferentes regiões as épocas com o mesmo nome começam em um outro tempo. Por que é isso? Vem da história da arqueologia. Os artefatos que os arqueologistas acharam e interpretaram foram de épocas diferentes, mas de materiais e formas iguais. Isso significa que as diferentes culturas se desenvolveram em velocidades diferentes. Essas épocas veem da observação de artefatos, isto é, de cerâmicas, muros, objetos cúlticos, objetos artesanais – coisas que são feitas por homens. Podemos construir outros esquemas para a divisão de épocas, ou seja, quando temos vestígios arqueológicos que incluem textos. Com essas informações podemos reconstruir o mundo político, social, religioso ou cultural. Podemos observar isso em nossa tabela também:

com os dados mais recentes, quando são incluídos nomes de vários povos que dominaram essa respectiva região. Nossa compreensão dessas épocas aumentou bastante nos dois últimos séculos. Você pode perceber isso no estudo dessa lista cronológica na internet, conforme já falei acima. Uma das coisas mais interessantes para nós, como leitores da Bíblia, referente ao assunto da cronologia, são as sincronias entre os eventos e os personagens bíblicos e do mundo de outros povos nessa região. E aqui entramos em um terreno muito perigoso e com muitas brigas científicas. É bom lembrar que todas essas discussões vêm da interpretação dos fatos arqueológicos. O fato puro não vale nada. Apenas um fato interpretado tem valor para nós e pode ajudar na nossa leitura da Bíblia. Achar um vestígio arqueológico é uma coisa, mas interpretá-lo é outra coisa – e muito mais difícil.

Geografia

“Se partirmos do Golfo Pérsico e traçarmos uma meia-lua, passando pelas nascentes dos rios Tigre e Eufrates, colocando a outra ponta na foz do Nilo, no Egito, teremos uma região bastante fértil, onde se desenrolaram os acontecimentos narrados na Bíblia. É a chamada “meia-lua fértil” ou “Crescente Fértil”, dentro do qual está também a Palestina. Esta faixa de terra é regada por importantes rios, que condicionavam a vida do Antigo Oriente. Foram os rios que determinaram o estabelecimento da agricultura, da sedentarização e

das rotas comerciais por onde passavam as caravanas que iam desde a Mesopotâmia até o Egito ou a Arábia”. 4 “Os mesopotâmicos não se caracterizavam pela construção de uma unidade política. Entre eles, sempre predominaram os pequenos Estados, que tinham nas cidades seu centro político, formando as chamadas cidades-Estados. Cada uma delas controlava seu próprio território rural e pastoril e a própria rede de irrigação”. 5 O clima deste crescente dependia muito da chuva regular. No Egito, o Nilo inundou regularmente a planície do rio. Na Mesopotâmia os grandes rios carregam a água que foi usada para a irrigação dos campos para habilitar a agricultura. A falta de chuva ocasionou consequências sérias para a população. Por isso, cresceu em todas as partes dessa região uma preocupação com cultos da fertilidade para assegurar o ciclo dos tempos e a chuva regular. Descobrimos muitos textos míticos que refletem a situação geográfica e climática. Como podemos perceber no AT, o povo de Israel sempre teve tendências para adotar esses cultos pagãos. É sempre mais fácil para o ser humano “fazer” alguma coisa para assegurar a sua própria vida do que confiar em um Deus que tem tudo na sua mão. Outro aspecto muito importante para Israel foi a sua localização. Nonordeste,ficavaaBabilôniaeAssíria;nosudoeste,oEgito.Essespovos eram os grandes poderes políticos da época. Como país relativamente fraco, Israel ficou a mercê dos caprichos dos reis da Babilônia, Assíria e do Egito. Estes impérios também tiveram um grande interesse na madeira que crescia na Palestina dessa época. Como o AT é uma coleção profundamente teológica faz muito sentido olhar um pouco o contexto religioso das várias culturas da época da sua formação. Assim faremos na unidade seguinte.

época da sua formação. Assim faremos na unidade seguinte. 4 http://www.airtonjo.com/historia04.htm , 07/08/09. 5

4 http://www.airtonjo.com/historia04.htm, 07/08/09. 5 http://pt.wikipedia.org/wiki/Mesopotamia, 07/08/09.

28

, 07/08/09. 5 http://pt.wikipedia.org/wiki/Mesopotamia, 07/08/09. 28 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento

, 07/08/09. 5 http://pt.wikipedia.org/wiki/Mesopotamia, 07/08/09. 28 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento Unidade - 04 Religião no Antigo Oriente Próximo

IntroduçãoTestamento Unidade - 04 Religião no Antigo Oriente Próximo A história do Antigo Oriente Próximo abraça

A história do Antigo Oriente Próximo abraça mais de dois milênios, desde a Idade do Bronze à Idade do Ferro (cf. “Cronologia” na unidade anterior), na região hoje conhecida como o Médio Oriente. Houve muitos contatos culturais, o que justifica resumir toda a região sob um único termo, mas isso não significa, evidentemente, que cada período histórico e cada região não deva ser analisada individualmente para uma descrição detalhada. Queremos tentar delinear os traços comuns das religiões do Antigo Oriente Próximo.

Objetivosos traços comuns das religiões do Antigo Oriente Próximo. Ao final da unidade, o aluno: 1.

Ao final da unidade, o aluno:

1. Terá conhecido os elementos básicos da religião do Antigo Oriente Próximo;

bíblica

informada do contexto cultural de Israel.

2. Terá

estudado

um

exemplo

de

leitura

Plano da unidade

• Religião no Antigo Oriente Próximo – Tendências

gerais

• Um exemplo da interação dos autores do AT com o seu contexto – Gênesis 1

Religião no Antigo Oriente Próximo – Tendências gerais

1

O Antigo Oriente Próximo inclui as seguintes sub-regiões – aqui

juntos com as respectivas religiões (vale a pena descobrir um pouco sobre cada uma região ou cultura na wikipédia):

• Mesopotâmia (Sumer, Assíria, Akkad): religião assyro- babilônica, mitologia mesopotâmia;

• Elam;

• Antigo Egito: religião egípcia antiga;

• O Levante (Canaã, Ugarit, Ebla, Mitanni): religião Cananeia;

• Anatólia (o império hitita, Assuwa, Arzawa): mitologia hitita, mitologia hurrita;

• Do Cáucaso e da Armênia (Urartu);

• Chipre, Creta (civilização minóica): religião minoica. Nossas primeiras fontes (2000 a.C.) permitem-nos ver a

mitologia mesopotâmia e egípcia. A religião grega antiga foi fortemente influenciada pela mitologia do Antigo Oriente Próximo. Os cultos de mistério do helenismo foram novamente influenciados pela mitologia egípcia. Existem amplas práticas que essas religiões muitas vezes têm em comum:

• Rituais de purificação e santificação;

• Sacrifícios (sacrifício animal, libação, raramente – mas em

muito dos textos mitológicos – sacrifício humano);

• Politeísmo;

• Estado (e cidades-estados): religiões patrocinadas (teocracia);

• Adivinhação;

• Magia (invocações, amuletos).

• Adivinhação; • Magia (invocações, amuletos). Modelo de argila de um fígado usado para advinhação da

Modelo de argila de um fígado usado para advinhação da Babilônia Antiga, por volta de 1900-1600 aC; Sippar - provávelmente no sul do Iraque moderno. Bristsh Museum, London, Western Asia Collection - Fonte: Wikimidia Commons

1 Um resumo e tradução de http://en.wikipedia.org/wiki/Mesopotamian_religion; 15/08/09.

30

resumo e tradução de http://en.wikipedia.org/wiki/Mesopotamian_religion; 15/08/09. 30 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento

resumo e tradução de http://en.wikipedia.org/wiki/Mesopotamian_religion; 15/08/09. 30 Introdução ao Antigo Testamento

Normalmente, as religiões do Antigo Oriente Próximo foram centradas em torno de teocracias, dominando regiões com um culto da divindade principal de uma cidade-estado. Houve também vários motivos mitológicos e divindades super-regionais, tais como “Tammuz e a descida ao submundo”. Essas religiões centravam-se ao redor da adivinhação. Observamos as formas seguintes:

• Apantomancia: vendo animais (e.g. o famoso “gato preto”);

• Cleromancia: sorteio;

• Hepatoscopia: observando o fígado de um animal;

• Nefelomancia: observando o formato das nuvens;

• Ornitomancia: observando aves em voo;

• Capnomancia: observando fumo;

• Oniromancia: adivinhação através de sonhos. Em outras palavras: Não existe quase nada que não pode ser usado para acalmar a sede do ser humano para saber do seu futuro. Em volta desse sistema de adivinhação, construiu-se um mundo de profissionais e ritos que sustentaram grandes áreas econômicas. As religiões do Antigo Oriente Próximo são formas de animismo.

do Antigo Oriente Próximo são formas de animismo. Immanuel Kant: “O Iluminismo representa a saída dos

Immanuel Kant: “O Iluminismo representa a saída dos seres humanos de uma tutelagem que estes mesmos se impuseram a si. Tutelados são aqueles que se encontram incapazes de fazer uso da própria razão independentemente da direção de outrem. É-se culpado da própria tutelagem quando esta resulta não de uma deficiência do entendimento, mas da falta de resolução e coragem para se fazer uso do entendimento independentemente da direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem para fazer uso da tua própria razão! – esse é o lema do Iluminismo”.

Hoje em dia, ainda podemos encontrar muitas formas de animismo. Animismo tem

muito a ver com religião, mas não se limita

a essa área. A diferenciação entre uma parte

religiosa e outras partes da vida e da realidade

é um pensamento muito recente, da época

do iluminismo (séc. XVII-XVIII). Mas isso é uma distinção fora do pensamento de muitas culturas de hoje (inclusive uma grande parte dos brasileiros e vários povos pós-modernos na Europa e América do

Immanuel Kant Fonte: Wikimidia Commons

Norte) e de todas as culturas antigas. O animismo pode ser definido como uma “visão geral do mundo” – que existe em muitas variações

e intensidades. Vou listar alguns aspetos gerais do animismo abaixo:

• A atividade está relacionada com o invisível. Animistas

supõem que o mundo visível relaciona-se com o invisível. Uma

interação existe entre o divino e o humano, o sagrado e o profano,

o sagrado e o secular. As influências de Deus, deuses, espíritos e

antepassados afetam a vida. Os seres humanos são pensados para ser controlados por forças espirituais, sejam eles pais ou fantasmas, deuses ou espíritos, feitiçaria ou magia, maldições ou o mau-olhado. Os humanos, por sua vez, pediam para apaziguar os poderes através de sacrifícios e libações, para alcançar o poder de lidar com o mal

através do ritual e para proteger-se através de encantos e amuletos. Em contextos animistas nenhuma distinção pode ser feita entre o natural

e o sobrenatural. “Aconteça o que acontecer no mundo físico tem no

seu espiritual as coordenadas

Tudo o que o homem fez, usa e projeta

é interpenetrado com a interação com o mundo espiritual” (Steyne, Powerful Spirits, 1989, 39).

• A vida é interligada. Animistas acreditam que tudo na vida

está interligado. Os indivíduos estão intimamente ligados às suas famílias, algumas das quais vivem e alguns que já passaram para o reino espiritual (i.e. morreram). Eles também estão ligados ao mundo espiritual: Os anseios ambivalentes de deuses e espíritos impactam

a vida. Animistas sentiam uma conexão com a natureza (as estrelas,

planetas e a lua), cujos elementos afetavam os acontecimentos terrenos. O reino natural está tão relacionado com o reino humano que profissionais podem augurar eventos atuais e futuros, usando as

várias técnicas mencionadas acima.

• O poder é procurado para controlar a vida. Animistas buscam o poder de controlar os assuntos da vida cotidiana. A essência do animismo é poder – poder do ancestral de controlar os de sua linhagem, o poder de mau-olhado para matar um recém-nascido ou

arruinar uma safra, a energia de planetas para afetar o destino da terra,

o poder do demônio para possuir um espírito, a força da magia de

controlar os acontecimentos humanos, o poder das forças impessoais

32

da magia de controlar os acontecimentos humanos, o poder das forças impessoais 32 Introdução ao Antigo

Introdução ao Antigo Testamento

da magia de controlar os acontecimentos humanos, o poder das forças impessoais 32 Introdução ao Antigo

para curar um filho ou tornar uma pessoa rica. A fundação do animismo “é baseada no poder e no poder de personalidades” (Kamps, The biblical forms and elements of power encounter, 1986, 5).

• A adivinhação tenta determinar o controle. Animistas

buscam determinar ou adivinhar quais são os poderes e as forças que influenciam suas vidas. Adivinhação é o processo decisório, através do qual os animistas determinam o impacto das competências pessoais

e impessoais sobre si mesmo. É um método de trazer à tona o que

está oculto ou desconhecido para tomar decisões cotidianas da vida.

A grande preocupação nessa área são os poderes que causam mal.

Animistas, consequentemente, vivem com medo. Eles acreditam que somente com o uso dos poderes a vida pode ser bem sucedida. Por isso, buscam desesperadamente informações para afastar o mal e

manipular os poderes para fazer a sua licitação. Eles podem apaziguar

os espíritos, antes e após a colheita, procurar o mundo espiritual para segurar sucesso antes do casamento de sua filha, determinar como os planetas e as estrelas organizam o dia de uma eleição importante, ou

o filho homem é vestido como uma menina de modo que não possam ser lesado pelo mau olhado de uma vizinha com ciúmes.

ser lesado pelo mau olhado de uma vizinha com ciúmes. Para pensar O animismo, como descrito

Para pensar

O animismo, como descrito aqui, é uma forca ou filosofia em baixo de muitas formas de religiões (incluindo o Cristianismo!). Observe alguns pensamentos e tradições em sua história como cristão. Tem alguns pontos de contato com estruturas do animismo? Eu, por minha parte, posso nomear muitas formas do cristianismo tradicional e também moderno na Alemanha, minha cultura maternal.

Coloque as suas ideias no nosso fórum!

De forma muito generalizada, podemos resumir o animista como uma pessoa que quer influenciar os poderes do mundo inteiro

para aumentar o seu bem em todos os aspectos. Ele tem a convicção

de pode mudar o seu destino, inclusive paga para outras pessoas que

têm um acesso melhor a esses poderes. O animista nunca se torna um fatalista! Ele sempre busca e acha um jeito.

É óbvio que o AT foi escrito em um contexto animista. O animismo da antiguidade veio em várias formas e expressões. Sua expressão religiosa são os vários cultos que podemos estudar como as religiões de Sumer, Babilônia, Assíria, Hitita, Ebla, Ugarit, Fenícia, Canaã, Egito, etc. Sabendo deste contexto, podemos observar muitos textos bíblicos que criticam certas formas de espiritualidade e pensamentos religiosos ligados a uma estrutura mental do animismo que adentraram ao povo de Israel. Os israelitas ofereceram nas alturas, pagaram adivinhadores, adoraram deuses canaanitas (e.g. Baal, Astarte), fizeram um boi para representar Deus, porque o animismo é uma forma de pensamento sobre o mundo. Obviamente, o animismo está ligado com a nossa mesma humanidade, ou seja, estes textos ainda são muito atuais hoje. Só precisamos nos lembrar que não devemos ler o AT com os óculos do iluminismo. O mundo do AT não conhece uma separação entre espiritual e material e muitas das outras distinções que fazemos tão facilmente com nossa mente bem imersa na filosofia do iluminismo. Foi a minha intenção escrever mais sobre a história e cultura de vários países – como Assíria, Babilônia ou Egito, mas falta espaço e talvez paciência de sua parte para ler. Talvez você possa usar a Wikipédia para descobrir alguns fatos interessantes sobre essas culturas. Também seria bom você ler alguns textos desses tempos, só para se imergir mais no contexto do antigo Israel.

Um exemplo da interação dos autores do AT com o seu contexto – Gênesis 1 2

A interação entre o AT com seu contexto ocorre quando comparamos o conteúdo de Gênesis 1-11 com as histórias contadas por outros povos daquela época e região. Em 1872, George Smith descobriu no Museu Britânico o primeiro texto paralelo bem próximo ao Gênesis 1-11. Traduzindo uma tábua cuneiforme da biblioteca assíria de Assurbanipal (séc. VII a.C.) em Nínive, ele percebeu que tinha encontrado um relato de um dilúvio global que em muitos aspectos se assemelhava à história contada em Gênesis. Mais tarde foi descoberto que o texto de Smith fazia parte da Epopeia de Gilgamesh.

2 Cf. Gordon J. Wenham, The Pentateuch, vol. 1, Exploring the Old Testament (SPCK, 2003), 9ff.

34

J. Wenham, The Pentateuch, vol. 1, Exploring the Old Testament (SPCK, 2003), 9ff. 34 Introdução ao

Introdução ao Antigo Testamento

J. Wenham, The Pentateuch, vol. 1, Exploring the Old Testament (SPCK, 2003), 9ff. 34 Introdução ao

Essa obra conta a respeito de um grande rei que saiu do seu papel real para viajar pelo mundo em busca da imortalidade. A epopeia de Gilgamesh foi composta provavelmente por volta de 1700 a.C. e posteriormente revisada em 1200 a.C. para produzir a mais conhecida versão dessa epopeia. Os estudiosos acharam que a história do dilúvio provavelmente foi emprestada pelo autor da epopeia de Gilgamesh de uma outra fonte, a qual utilizou para realçar seu próprio texto. Uma possível fonte para a história do dilúvio é um épico Atrahasis, um poema épico da antiga Babilônia (1600 aC), que abrange a história do mundo desde a criação do homem até a nova ordem depois do dilúvio. Tudo começa quando os deuses menores viviam na terra escavando os rios e canais, e cultivavam os alimentos para os grandes deuses. Mas, depois de 3.600 anos os deuses menores se cansaram do seu trabalho e entraram em greve. Eles cercaram o grande deus Enlil em seu palácio, que finalmente cedeu. Um outro deus maior, Ea, e a deusa-mãe Nintu, então, criaram sete casais, sete homens e sete mulheres, para fazer o trabalho no lugar dos deuses menores.

Mas a criação da humanidade gerou problemas para os grandes deuses. Depois de 600 anos a população tinha crescido tanto que o barulho humano perturbou o descanso dos grandes deuses! Enlil, por conseguinte, determinou que uma praga devesse apagá-los. Mas um sacrifício oportuno ao deus da praga por Atrahasis (significa “extra- sábio”) parou a praga. Então, a população cresceu de novo, e Enlil tentou controlar o crescimento da humanidade mais duas vezes – pela seca e pela fome. E novamente sacrifícios aos deuses certos resolveram a situação. Eventualmente, Enlil persuadiu todos os seus colegas divinos a apoiar o seu plano para destruir a humanidade, enviando um dilúvio universal. No entanto, o deus Ea não concordou com esta proposta e, secretamente, abriu o jogo e recomendou que Atrahasis construísse

Fonte: Wikimidia Commons

Figura de Gilgamesh

e, secretamente, abriu o jogo e recomendou que Atrahasis construísse Fonte: Wikimidia Commons Figura de Gilgamesh
um navio para a sua família, amigos e animais para escapar. A inundação foi realmente

um navio para a sua família, amigos e animais para escapar. A inundação foi realmente catastrófica, acabando com todas as criaturas e assustando até os deuses por sua ferocidade. Mas Atrahasis e sua equipe sobreviveram. O barco finalmentedesembarcou em uma montanha e os de dentro desembarcaram. Piedoso, Atrahasis ofereceu um sacrifício tão logo que desembarcou. Imediatamente os deuses rodearam o sacrifício ansiosos por experimentarem a oferenda. Eles estavam com muita fome! Destruir a humanidade em uma enchente significou que os sacrifícios pararam, logo os deuses também não tinham nada para comer. Chegando ao sacrifício um pouco tarde, Enlil, o deus mais poderoso,ficouchocadoecomraivaaoencontraralgunssereshumanos. Ele se acalmou quando os outros deuses explicavam que a culpa foi de

Ea. Enlil concedeu vida eterna a Atrahasis, o único homem a alcançar este objetivo. No entanto, para impedir que a explosão demográfica ficasse novamente fora de controle, Enlil e Nintu redesenharam

a humanidade um pouco. A partir de agora, algumas mulheres

sofreriam de infertilidade, os bebês muitas vezes seriam natimortos ou morreriam muito jovens, e ainda outras mulheres entrariam em ordens religiosas e nunca mais teriam filhos. Finalmente, parece que a partir de então, a morte passou a vir a todos em idade avançada: Até agora as pessoas morriam apenas de doenças ou se fossem mortas por alguém. Existe mais um texto do mesmo período da epopeia de Atrahasis,

é a história suméria da inundação. Este texto também relata sobre

a criação do homem e culmina com a história do grande dilúvio. Infelizmente, muitas partes da história suméria estão perdidas, mas

a versão reconstruída mostra paralelos com Gênesis 1-9 bastantes surpreendentes. Paralelos entre a história da inundação suméria e a de Gênesis

1-9:

36

Paralelos entre a história da inundação suméria e a de Gênesis 1-9: 36 Introdução ao Antigo

Introdução ao Antigo Testamento

Paralelos entre a história da inundação suméria e a de Gênesis 1-9: 36 Introdução ao Antigo

História da

   

inundação

Conteúdo

Gênesis

suméria

 

Criação do homem e dos animais; triste condição do homem, não há canais de irrigação, sem roupas, sem medo de animais, incluindo cobras.

Gn 1

Linhas 1-36

Gn 2-3

37-50

Deusa Nintur planeja acabar com o nomadismo humano.

Gn. 4,1-16

51-85

Falta de plano de Nintur.

 
 

Estabelecimento da realeza (reis, corte, palácios );

 

86-100

A

incluindo Eridu; Estabelecimento de culto.

construção das primeiras cidades,

Gn 4,17-18

Gn 4,26

101-134

Lista de reis antediluvianos.

Gn 5

 

Ruído humano.

Gn 6,1-8

135-260

O

dilúvio.

Gn 6,9-9,29

Há semelhanças suficientes para conjecturar que ambos, Gênesis e a história da inundação suméria, são dependentes de um entendimento comum do que ocorreu no início da história humana. Mas podemos observar que as interpretações desses acontecimentos são muito diferentes – embora o gênero dos vários textos seja muito semelhante. Esses textos do Antigo Oriente Próximo abrem uma porta para entender o mundo em que o AT se formou. É importante conhecer este mundo para fazer uma contextualização desses textos antigos para nossa situação hoje. A modernidade também tem os seus mitos da origem do

homem – a evolução biológica, a evolução sociológica e econômica. Estes “textos” falam bastante sobre valores e visões da humanidade em geral e bem específico quando pensamos sobre assuntos da ética ou da moralidade. O Deus da Bíblia quer que alinhemos nossa interpretação da humanidade ao texto bíblico e vivamos um sonho, que ele tem sobre nossa comunidade e sociedade. Como Gênesis 1-11 foi um texto muito contra-cultural em seu contexto, precisamos ter uma visão da humanidade contrária a que está propagada hoje em nossa cultura pós-cristã.

a que está propagada hoje em nossa cultura pós-cristã. Referências Bibliográficas Mitchell, T. C., and British

Referências Bibliográficas

Mitchell, T. C., and British Museum. The Bible in the British Museum. Paulist Press, 2004. Wenham, Gordon J. The Pentateuch. Vol. 1. Exploring the Old Testament. SPCK, 2003.

38

Wenham, Gordon J. The Pentateuch . Vol. 1. Exploring the Old Testament. SPCK, 2003. 38 Introdução

Introdução ao Antigo Testamento

Wenham, Gordon J. The Pentateuch . Vol. 1. Exploring the Old Testament. SPCK, 2003. 38 Introdução

Introdução ao Antigo Testamento Unidade - 05 A Torá: formas da literatura e teologia

IntroduçãoUnidade - 05 A Torá: formas da literatura e teologia Iniciamos nosso trabalho com a Bíblia.

Iniciamos nosso trabalho com a Bíblia. O plano para as próximas unidade é o seguinte: Primeiro falaremos e pensaremos sobre as grandes partes do AT e os vários gêneros maiores desses textos. Começando com a Torá (ou Pentateuco), descobriremos aspetos selecionados dos textos para aumentar o nosso conhecimento e diminuir o nosso medo ao abordá-los.

Objetivoso nosso conhecimento e diminuir o nosso medo ao abordá-los. Ao final da unidade, o aluno:

Ao final da unidade, o aluno:

1. Conhecerá melhor a estrutura geral da Torá;

2. Lerá sobre o papel fundamental dessa parte do AT

para a leitura da Bíblia inteira;

3. Refletirá sobre um exemplo de uma leitura teológica

contextual.

Plano da unidade

• Uma vista geral da Torá

• A Torá como Fundamento da Bíblia

• A Teologia de Gn 1-11 no contexto do Antigo Oriente Próximo

• Formas literárias na Torá

A Torá: formas da literatura e teologia

A Torá: formas da literatura e teologia Observe bem essa tabela 1 . Os nomes dos

Observe bem essa tabela 1 . Os nomes dos cinco livros nas diversas línguas (hebraico, grego e latim) são programáticos. Qual é a ligação entre o nome e o conteúdo para cada livro? Você está convidado a colocar suas ideias no nosso fórum. Como primeira parte do AT, esses livros (também chamados de “pentateuco” – que significa “cinco livros”) são fundamentais para entender o restante do AT e até mesmo a Bíblia inteira. Todos os outros livros bíblicos têm o Pentateuco como base e desdobram os temas lá mencionados. Como tal, grande parte da Bíblia pressupõe a Torá e toma como certo que a conhecemos. Sem saber bem a literatura da Torá, perdemos muitas das alusões sutis para os seus temas, o que nos ajudará a entender muitas passagens do AT, bem como do NT.

Uma vista geral da Torá

Gênesis

Êxodo

Levítico

Números

Deuteronômio

 

Do Egito

 

Do Sinai pelo deserto a Moab (à divisa da terra prometida)

Instruções para a vida na terra da promessa

Criação e

promessa

da terra

pelo

deserto ao

Sinai

NO SINAI

Israel a caminho

Mais uma tabela do Zenger 2 . Em um nível narrativo podemos interpretar a Torá como biografia dramática do povo Israel. É um caminho que começa com o chamado de Abraão dentre as nações e termina com um final aberto na fronteira da terra prometida. É um caminho cheio de sofrimento e conflito.

1 Cf. Erich Zenger. Introdução ao Antigo Testamento (Edições Loyola, 2003) 46.

2 Cf. Ibid. 48.

40

Introdução ao Antigo Testamento (Edições Loyola, 2003) 46. 2 Cf. Ibid. 48. 40 Introdução ao Antigo

Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento (Edições Loyola, 2003) 46. 2 Cf. Ibid. 48. 40 Introdução ao Antigo

Copiei um bloco inteiro do texto de Zenger, porque não posso explicar melhor:

c) Os cinco livros estão agrupados, em forma de quiasmo espelhado, em torno do livro do Levítico como centro teológico. O Gênesis e o Deuteronômio formam a moldura externa:

O Gênesis e o Deuteronômio formam a moldura externa : Êxodo e Números perfazem a moldura

Êxodo e Números perfazem a moldura interna. Eles se estruturam paralelamente por meio de numerosas histórias iguais. O Sinai constitui quase que um tipo de divisor de águas (antes do Sinai era “legítimo” clamar por pão e água, depois do Sinai isso ao pecado):

clamar por pão e água, depois do Sinai isso ao pecado): Êxodo e Números perfazem a

Êxodo e Números perfazem a moldura interna. Eles se estruturam paralelamente por meio de numerosas histórias iguais. O Sinai constitui quase que um tipo de divisor de águas (antes do Sinai era “legítimo” clamar por pão e água, depois do Sinai isso ao pecado):

tipo de divisor de águas (antes do Sinai era “legítimo” clamar por pão e água, depois

A Torá como Fundamento da Bíblia

A Torá como Fundamento da Bíblia Podemos fazer tudo - só faça! A Torá nos dá

Podemos fazer tudo - só faça!

A Torá nos dá a narrativa fundamental que forma a cosmovisão bíblica. O que quero dizer com isso? Bem, todas as culturas e

sociedades têm suas narrativas fundamentais. Estes explicam o que

o mundo é, como funciona, o que deu errado com o mundo, onde

nós podemos achar a esperança para colocá-lo certo de novo. Para dar um exemplo de uma cultura estrangeira para todos nós: o “sonho

americano” (American Dream) – este afirma que “você só precisa

tomar seu destino em suas próprias mãos e você terá sucesso. Ajude

a si mesmo e Deus vai te ajudar.” Esta é uma espécie moderna (no

sentido filosófico da palavra) da visão da vida – cheia de positivismo (e calvinismo!). Ainda muitos norte-americanos são levados por ela a uma atitude imperialista referente outros povos e culturas que contam outras histórias sobre o mundo. Eu ainda não estou muito bem familiarizado com a cultura brasileira, a fim de observar algumas das narrativas profundas que são fundamentais para a sua visão de mundo. Talvez eu precisasse estudar mais de Darcy Ribeiro “O Povo Brasileiro” e outros interpretes da sua cultura… Talvez alguns de vocês possam apontar-me os livros certos para que eu possa aprender sobre as fundações de sua bela cultura. Mas você pegou o ponto – a Torá molda a cosmovisão bíblica de uma forma muito profunda. Então é melhor conhecer estes livros para entender corretamente a Bíblia – e até mesmo o nosso próprio mundo. Cada seção da Bíblia desenvolve mais o tema do Pentateuco. Se

42

próprio mundo. Cada seção da Bíblia desenvolve mais o tema do Pentateuco. Se 42 Introdução ao

Introdução ao Antigo Testamento

próprio mundo. Cada seção da Bíblia desenvolve mais o tema do Pentateuco. Se 42 Introdução ao

estivermos certos em interpretar Gn 12:1-3 (“chamado de Abraão”) como sendo a exposição original desse tema, ele é reafirmado com variações em Gênesis e desenvolvido nos livros seguintes. O AT inteiro gira em torno da relação entre os descendentes de Abraão e a terra, o seu crescimento como uma nação, e sua relação singular com Deus. Os progressos realizados no cumprimento das promessas feitas a Abraão não andam em uma só direção. Recuos são frequentes, tanto no Pentateuco como posteriormente. O livro de Números narra o adiamento de 40 anos da chegada à terra santa como um resultado da falta da fé dos espiões. O livro dos Reis narra a queda de Jerusalém e o exílio do povo para a Babilônia por causa de sua infidelidade a Deus. No entanto, ambos os episódios foram seguidos por perdão e um novo começo que acabou levando a um maior cumprimento das promessas. Mas nem dentro do período bíblico nem nos dois milênios seguintes, o cumprimento integral tem sido alcançado. Se os judeus modernos interpretam o seu regresso à terra de Israel como cumprimento da promessa a Abraão e como resposta às suas orações, eles não desfrutam da paz e da segurança prevista pelo Pentateuco. Os cristãos afirmam que a vinda de Jesus trouxe mais próximo o dia em que em Abraão “todas as famílias serão abençoadas”. Mas eles também oram para que o Reino de Deus seja vindo e sua vontade seja feita na terra como no céu. Desta forma, o Pentateuco ainda fala tanto para o presente como falou ao passado. 3

ainda fala tanto para o presente como falou ao passado. 3 Para pensar Olhando pra as

Para pensar

Olhando pra as questões fundamentais da humanidade, como você reescreveria ou usaria o Gênesis para responder aos questionamentos de sua própria cultura e comunidade?

Coloque as suas ideias no nosso fórum!

3 Gordon J. Wenham, The Pentateuch. Vol. 1. Exploring the Old Testament. SPCK, 2003, 197.

A Teologia de Gn 1-11 no contexto do Antigo Oriente Próximo

Dando continuidade à última unidade, gostaria de destacar

algumas perspectivas sobre a teologia dos primeiros capítulos da Torá,

a fim de nos deixar entusiasmados sobre esta parte fundamental da Bíblia. Na unidade 2, conclui com um parágrafo sobre o contexto literário de Gn 1-11.

A teologia nunca “acontece” no meio do nada. Ela é sempre, e

em qualquer tempo, incorporada a um contexto muito concreto. Toda

a nossa vida influencia a nossa teologia, nossos pensamentos sobre

Deus, sobre a humanidade e sobre o mundo maior. Cultura, tendências

sociais, filosofia, literatura, artes, economia, amigos, natureza, origem social, educação e qualquer outro aspecto da vida molda a nossa teologia. Isso significa que nossa teologia é feita em reação ao nosso contexto.

O que isso tem a ver com a leitura de Gênesis a Deuteronômio?

Bem, esses livros representam a “teologia”, eles falam sobre Deus, sobre os seres humanos em frente a Deus. Eles tentam moldar a nossa percepção do mundo, querem que comecemos a ver por um nova perspectiva a nossa realidade presente. Ao pegar alguns dos temas mais fundamentais da nossa humanidade, a Torá aborda questões como a nossa origem, nosso destino, nossa razão de ser, porque há mal neste mundo, como lidar com ele, e o que esperamos. Cada cultura fornece respostas para estas perguntas. Não há surpresas quando o AT quer dar respostas a esses assuntos. O objetivo é avaliar, remoldar e corrigir as respostas prevalecentes entre os povos vizinhos de Israel. Nós não precisamos propor que o autor de Gênesis literalmente leu ou copiou de textos paralelos do Antigo Oriente Próximo. Essas histórias circularam no mundo antigo, em diferentes versões, sejam elas escritas ou orais. A maioria das pessoas, então conhecia a história do dilúvio, embora não tivessem ouvido ou lido os épicos de Atrahasis ou de Gilgamesh, assim como hoje as pessoas sabem sobre a evolução sem ter lido Darwin (veja Gertz, 2009, que propõe uma tradição “científica” comum a muitos povos do antigo oriente).

44

que propõe uma tradição “científica” comum a muitos povos do antigo oriente). 44 Introdução ao Antigo

Introdução ao Antigo Testamento

que propõe uma tradição “científica” comum a muitos povos do antigo oriente). 44 Introdução ao Antigo
Mapa mostrando canais de irrigação perto do Eufrates. Homem foi criado para construí-los e produzir

Mapa mostrando canais de irrigação perto do Eufrates. Homem foi criado para construí-los e produzir alimentos pelos deuses. Fonte: Wikimedia Commons

O que temos em Gênesis 1-11 é uma reinterpretação teológica de grandes histórias de origem tradicional. Vamos resumir alguns aspectos das histórias paralelas sobre a criação e o dilúvio que ouvimos na última unidade. Os deuses da mesopotâmia são bastante ativos e se relacionam entre si de uma forma muito “humana”: Traição e brigas são comuns e as reações parecem começar a mão às vezes. Mas estas interações na esfera divina certamente não são o ponto principal dessas narrativas ou poemas. No centro estão os seres humanos, que vivem, mais ou menos, sob a condição de sofrimento causado pelos deuses. Gênesis 1-11 é semelhante: Embora Deus seja naturalmente ativo, todas as suas ações estão relacionadas ao homem. Nada é dito sobre suas interações com outros seres espirituais. Este silêncio fala alto no contexto literário e cultural antigo. Para os autores bíblicos é claro desde o início, que o homem tem de se relacionar com apenas um Deus, seu criador e mantenedor. Contudo, a religião babilônica era politeísta em seu coração. Além disso, nós, como seres humanos, não somos o resultado dos caprichos e fantasias, das modas e manias

dos deuses. Em Gênesis existe apenas um Deus, que cria e controla tudo. Considerando que os deuses da Babilônia não podem controlar a inundação, o Deus de Gênesis pode – e ele pode muito soberanamente. Gênesis 1 narra como Deus criou o mundo passo a passo. Na Mesopotâmia, pensaram que o sol e a lua eram deuses muito importantes, enquanto em Gênesis eles são meramente criados no quarto dia – a luz podia existir sem eles. Outra reinterpretação surpreendente do relato de Gênesis é sobre a questão da finalidade da criação do homem. No pensamento mesopotâmico o homem não é mais do que um escravo para fazer o trabalho para as divindades menores. Em Gn 1-2 tudo é criado com referência ao bem-estar da humanidade. A humanidade é a clímax, o ponto de referência de toda a criação. Deus faz tudo para ela, criou-lhe

um ambiente ideal para viver e deu-lhe a tarefa régia de cuidar do resto da criação. Considerando que os deuses da Babilônia deverão receber alimentos, o próprio Deus está dando alimentos ao homem. Segundo a visão do mundo mesopotâmico, um dos grandes problemas com a humanidade é a fertilidade: a explosão populacional perturbou o sono dos deuses. Apenas algumas alterações no processo de reprodução poderiam resolver o problema (algumas mulheres são inférteis e muitos bebês morrem cedo na vida). Gênesis tem uma perspectiva diferente.

A fertilidade é uma benção divina e Deus encoraja explicitamente a

procriação (“Sede fecundos e multiplicai-vos” Gn 1:28). O mesmo

é verdade, depois do dilúvio (lemos três vezes: “Sede fecundos e multiplicai-vos” – 8:17; 9:1; 9:7)!

“Sede fecundos e multiplicai-vos” – 8:17; 9:1; 9:7)! Para pensar Pense sobre as qualidades éticas dos

Para pensar

Pense sobre as qualidades éticas dos deuses da Babilônia e compare-as com a atitude de Deus, vista em suas reações sobre o pecado humano (Gn 3 e 6-9). O que você conclui? Tente pensar sobre as grandes histórias, líderes e ídolos da sua própria cultura – o que os brasileiros aprendem com eles hoje? Que histórias, como cristãos, devemos contar?

Coloque as suas ideias no nosso fórum!

46

histórias, como cristãos, devemos contar? Coloque as suas ideias no nosso fórum! 46 Introdução ao Antigo

Introdução ao Antigo Testamento

histórias, como cristãos, devemos contar? Coloque as suas ideias no nosso fórum! 46 Introdução ao Antigo

Esta lista poderia continuar por um bom tempo e encorajo-lhes vivamente a retornar a Gn 1-11 e reler as histórias com essa perspectiva. Você certamente vai descobrir muitas ironias e notas marginais com alto significado teológico. A propósito: Nunca assuma que a Bíblia não contém humor! Já nos primeiros capítulos, ironia, jogos engraçados com palavras e uma distorção deliberada de ideias estrangeiras dominam o texto. Nós só temos que ler com os olhos certos. Eu deliberadamente não discuti todas as questões das ciências naturais e a teoria da evolução em relação ao texto de Gênesis 1-11. Tenho medo que, hoje em dia, muitos cristãos fiquem presos nesses debates e às vezes sintam a necessidade de oferecer sacrifícios

intelectuais (“A Bíblia diz isso, então eu acredito dessa forma, aconteça

ou sucumbir à rejeição da conta bíblica da criação

por completo. Gênesis 1-11 foi escrito para aumentar nossa fé em um

o que acontecer

”)

Deus amoroso e com propósito, o qual cuida de nós e deseja a nossa presença com ele. Se estes textos acabam por aumentar suas dúvidas e ameaçar a sua fé, você pode considerar a releitura na luz da perspectiva interpretativa acima. Você pode ter observado – com um olho treinado na interpretação de textos – que esta perspectiva diferente tem muito

a ver com a forma como nós percebemos o gênero de Gn 1-11. O que

quero dizer com isso? Vou tentar dar uma resposta na próxima seção desta unidade.

Formas literárias na Torá

Quando lemos a Bíblia, precisamos estar conscientes de que é literatura. A Bíblia não é um livro mágico, descolado e isolado, mas –

como já vimos – é parte de um contexto histórico, cultural e literário. É um dos desafios para nós, leitores da Bíblia – e especialmente para nós que estamos ensinando os outros a ler a Bíblia – uma vez que o nosso tempo, a nossa cultura e a nossa literatura são muito diferentes da maneira antiga de fazer textos, de escrever. Logo, estamos propensos

a erros de interpretação, se não atentarmos para este fato e utilizar os

conceitos formados pela literatura contemporânea ao ler a Bíblia. É uma tarefa difícil deixar as nossas próprias convenções literárias para trás e ler a Bíblia sobre o fundo de suas próprias convenções literárias.

Muitos especialistas estão tentando isto e, nos últimos 30 anos, estamos muito mais perto de fazer justiça à Bíblia como literatura antiga. É a palavra de Deus, e só por isso vale a pena todo esse esforço! Aqui, nós não podemos ainda tentar resolver questões desta área de pesquisa bíblica, mas podemos fazer um começo. O truque é estar alerta para o gênero de um determinado texto bíblico. Um gênero é uma forma literária, é a forma exterior para além do conteúdo do texto. Você vai imediatamente reconhecer a seguinte forma literária:

Não quero fazer comentário sobre o conteúdo deste “texto”. Isso é para outras pessoas – sou teólogo, e nada mais. Obviamente, temos a forma de um obituário. A cor, o layout, as imagens falam- nos de imediato. “Sabemos” este texto. Todos nós procuramos, nos primeiros segundos de ver isso, o nome do falecido e talvez alguns detalhes sobre o funeral. Só no segundo relance, percebemos que este é um texto irônico. Este é um exemplo extremo de como o gênero funciona para um leitor que está habituado a certa convenção literária. Na Bíblia encontramos o mesmo fenômeno. Como já vimos, qualquer pessoa crescendo no segundo milênio a.C. e lesse Gn 1-11, imediatamente compararia esse texto em sua mente com textos semelhantes sobre a origem do mundo e da criação da humanidade. Qualquer leitor de Êxodo 20-24 irá instantaneamente reconhecer a semelhança na forma (e conteúdo) desta passagem com outras coleções de lei do Antigo Oriente Próximo. Sabendo disso, precisamos pensar sobre o lugar vivencial do texto que estamos lendo. Assim como no nosso exemplo do obituário, o uso “normal” de um gênero literário em que a Bíblia é bastante limitada. No Antigo Oriente Próximo, histórias sobre a origem do mundo e da humanidade não foram em nenhuma forma concebidas para serem lidas como tratados científicos sobre aspectos físicos, geológicos ou biológicos deste evento. Temos outros tratados como esses escritos na mesma época – sobre a matemática, a engenharia civil, a magia

esses escritos na mesma época – sobre a matemática, a engenharia civil, a magia 48 Introdução

48

esses escritos na mesma época – sobre a matemática, a engenharia civil, a magia 48 Introdução

Introdução ao Antigo Testamento

esses escritos na mesma época – sobre a matemática, a engenharia civil, a magia 48 Introdução

e a economia –, mas estes também não têm uma forma semelhante

das revistas científicas de hoje. Portanto, histórias sobre a origem da humanidade são literárias, textos poéticos que tentam moldar a visão dos leitores, para estabelecer uma ordem e para interpretar as dificuldades da vida. Outro exemplo são as coleções de lei na Bíblia. Seria fatal lê- los como um advogado lê, por exemplo, um decreto legislativo. Arqueólogos encontraram muitas coleções de lei do Antigo Oriente Próximo e as semelhanças na forma e no conteúdo com as leis bíblicas são impressionantes. Sabemos quando essas leis foram publicadas pelos seus respectivos reis. Normalmente, isso acontecia no final do seu reinado, quando o velho rei tentou estabelecer um monumento (literário) da sua sabedoria e capacidade jurídica. Sugerindo essa função para essas coleções faz sentido, já que quase não foram encontrados qualquer processo judicial (… e foram encontrados muitos destes documentos) que citem essas grandes coleções de lei de alguma maneira. A lei realmente praticada nos tribunais das cidades era bem diferente das encontradas nas coleções de lei. O que isso significa para a nossa leitura das coleções de lei na bíblia? Eu sugiro que as lêssemos como uma tentativa de definir Deus como rei no contexto do antigo oriente. Eles pensaram sobre o rei como o pastor do povo, um líder com a responsabilidade de cuidar de seu povo, para estabelecer a paz interna e externa e as condições

adequadas para o povo prosperar. Neste pano de

a

condições adequadas para o povo prosperar. Neste pano de a Stela do rei Hamurábi da Babilônia

Stela do rei Hamurábi da

Babilônia (1972-1950). Acima o deus Marduque

está dando ao rei o reinado.

fundo, as leis bíblicas nos dizem muito sobre o caráter de Deus, seus valores e suas atitudes sobre

a sociedade e a humanidade em geral. E tudo de uma forma muito

prática e contextualizada, relevante para a vida cotidiana de Israel. Finalmente quero escrever um pouco sobre a velha antítese “lei e evangelho”. Muitos teólogos, especialmente a partir da tradição reformada, fizeram uma distinção muito drástica e nítida entre os

Fonte: Wikimedia Commons

partes “legalistas” da Torá e a mensagem do evangelho do NT. Isso representa uma leitura completamente deficiente das coleções de lei na Torá. Podemos encontrar uma melhor compreensão e interpretação do direito bíblico quando prestamos atenção aos vários gêneros da Torá.

quando prestamos atenção aos vários gêneros da Torá. Para pensar O Novo Testamento afirma a validade

Para pensar

O Novo Testamento afirma a validade permanente dos dez

mandamentos para a igreja primitiva (por exemplo, Mt 19,16- 19; Mc 10,17-20; Rm 13,9-10).

Mas eles são praticáveis hoje no Brasil moderno? Se você fosse o presidente, quais mandamentos tentaria implantar e quais deixaria de lado? Liste-os em ordem de importância – a

violação de quais você mais duramente penalizaria? Quais são

as diferenças presentes em sua lista e o que isso fala sobre os valores da sociedade moderna e os valores bíblicos?

Coloque as suas ideias no nosso fórum!

Esses podem ser reduzidos, a grosso modo, a duas formas básicas: textos narrativos e informativo e textos de ordens,

regulamentos e apelos. Estes dois gêneros não podem ser separados

o

Pentateuco possui uma estrutura dialética de história e lei. A “lei” brota sempre a partir da “história”. De forma paradigmática podemos depreender essa imbricação dinamizadora de “história” e “lei” (i. é, do agir e da vontade de Deus) da estrutura dos Dez Mandamentos bíblicos (Ex 20,2-17 || Dt 5,6-21). Fundamental é a libertação de Israel do Egito (“história”), citada no começo (Ex 20,2 = Dt 5,6) como “sentença basilar”. A intenção dos mandamentos e das proibições (“lei”) que seguem é preservar e comprovar essa liberdade trazida e desejada por Deus, para que a história da libertação prossiga. De modo semelhantemente fundamental, o entrelaçamento da revelação de Javé (o nome próprio de Deus no AT, SK) na história e na sua vontade é explicado na chamada catequese de crianças em Dt 6,20-25”. 4 Com isso, precisamos ter muito cuidado ao falar do judaísmo

– eles formam um “tecido” de textos legislativos e narrativos. “

4 ZENGER, Introdução ao Antigo Testamento, 50-51.

50

legislativos e narrativos. “ 4 ZENGER, Introdução ao Antigo Testamento, 50-51. 50 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento

legislativos e narrativos. “ 4 ZENGER, Introdução ao Antigo Testamento, 50-51. 50 Introdução ao Antigo Testamento

como uma religião legalista: “A obediência à lei, exigida por Israel, não constitui a fundamentação, mas a comprovação de sua existência como povo de Deus, bem como a resposta ao amor com que Deus

o amou primeiro. A obediência tampouco produz a salvação, porém

move Deus a redimir Israel com a sua misericórdia.” (Otto Kaiser, Der Gott des Alten Testaments, 351) Assim, podemos esboçar a estrutura macro da Torá como resultado da tensão entre a história (Deus agindo para o seu povo)

e a lei (mostrando a forma como Israel pode realmente viver como é chamado, como povo de Deus).

pode realmente viver como é chamado, como povo de Deus). A “Torá”, nesse sentido, é mais

A “Torá”, nesse sentido, é mais bem entendida como instrução por qual o autor pretende ensinar seus leitores a viver realmente o que eles já são – parte do povo escolhido de Deus. Lendo os evangelhos do Novo Testamento, chegamos a um propósito muito semelhante comunicativamente: os evangelhos são projetados para serem “cursos de discipulado” – para ensinar os seguidores de Jesus como ser parte desta nova família de Jesus, a igreja.

Jesus como ser parte desta nova família de Jesus, a igreja. Referências Bibliográficas CARDOSO, CIRO FLAMARION

Referências Bibliográficas

CARDOSO, CIRO FLAMARION SANTANA. Sociedades do antigo oriente próximo. Serie Principios 47. São Paulo: Editora Atica, 1986. GERTZ, J.-C. Altbabylonische Polemik im priesterlichen Schöpfungsbericht? ZThK, v. 106, n. 2, p. 137–155, 2009. WENHAM, GORDON J. The Pentateuch. Vol. 1. Exploring the Old Testament. SPCK, 2003. ZENGER, ERICH. Introdução ao Antigo Testamento. Edições Loyola,

2003.

Anotações 52 Introdução ao Antigo Testamento

Anotações

52

Anotações 52 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento

Anotações 52 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento Unidade - 06 Levítico e o tema da Torá

IntroduçãoAntigo Testamento Unidade - 06 Levítico e o tema da Torá Vou tentar incluir algumas dicas

Vou tentar incluir algumas dicas sobre Levítico, porque esse certamente é um dos livros com o qual muitos de vocês têm alguns problemas. Nele podemos ver muito bem a cosmovisão fundamental por trás da espiritualidade israelita. Para finalizar as duas unidades sobre a Torá, veremos se há um tema principal que reúne esses cinco livros.

Objetivosse há um tema principal que reúne esses cinco livros. Ao final da unidade, o aluno:

Ao final da unidade, o aluno:

1. Pensará sobre os aspetos teológicos no fundo do culto israelita; 2. Discutirá algumas possibilidades sobre o tema geral da Torá.

Plano da unidade

• Lutando com Levítico

• O Tema da Torá

Para pensar O que você acha sobre o cumprimento parcial das promessas divinas aos patriarcas?

Para pensar

O que você acha sobre o cumprimento parcial das promessas divinas aos patriarcas? Clines está correto ao dizer que na Torá só se observa um cumprimento parcial das promessas? Ou podemos encontrar também um cumprimento total ou áreas onde não há qualquer cumprimento? Observe as quatro partes das promessas: a terra, os descendentes, a relação entre o homem e Deus e a benção para as nações. Você seria capaz de atribuir um “grau do cumprimento” destas quatro áreas da promessa?

Lutando com Levítico

Mesmo que as crianças judaicas aprendessem a ler usando o livro de Levítico, nós, modernos, tendemos a ter dificuldades em apreciar este livro. Isto é muito triste, porque Levítico nos proporciona uma

visão mais profunda da reflexão teológica judaica. Mas ler estas seções repetitivas sobre sacrifícios bem revoltantes, sobre definições de puro

e impuro e sobre rituais estranhos nos dias especiais não é o favorito

de todos. Muitos de nós, que crescemos em um contexto completamente moderno, temos uma aversão inerente a qualquer tipo de ritual. Nós tendemos a perceber os rituais como irrelevantes, chatos e obsoletos.

Mas – tendo dito isso – é preciso pensar duas vezes: Por que é que você levanta os braços em louvor? Por que é que algumas pessoas começam

a gritar quando oram ou pregam? Por que é que se põe um rosto

triste quando as pessoas vão a um funeral? Por que é que são pontuais na escola, mas ao visitar os amigos não? Por que nós perguntamos “Como está?”, mesmo se não estamos interessados em uma verdadeira resposta? Por que algumas pessoas se abraçam e outros só recebem um balanço de cabeça fraco? Esses exemplos são suficientes para perceber

a onipresença do ritual em toda a nossa cultura. Os antropólogos dizem que os rituais revelam os valores nos seus níveis mais profundos. E ainda: os rituais são coisas do grupo. São convenções e, portanto, revelam os valores do grupo. Imaginem as diferenças entre uma missa católica e um culto pentecostal. Aqui as

54

Imaginem as diferenças entre uma missa católica e um culto pentecostal. Aqui as 54 Introdução ao

Introdução ao Antigo Testamento

Imaginem as diferenças entre uma missa católica e um culto pentecostal. Aqui as 54 Introdução ao

denominações estão expressando os seus valores fundamentais. Levítico define os rituais mais importantes do antigo Israel.

Ele fala de sacrifícios, de cerimônias de purificação, do calendário religioso, dos ritos referente ao nascimento e às práticas funerárias. Aqui só poderei comentar sobre o sacrifício e alguns aspectos de pureza e impureza de uma maneira muito geral. Para leitores modernos, o sacrifício parece uma forma bizarra de adoração. Como podemos entender o que está acontecendo lá e porque significou tanto para um piedoso israelita de 3000 anos atrás? A maioria das pessoas no antigo Israel tentaram sobreviver da agricultura de subsistência. A carne era um luxo raro que só era comido em grandes festivais ou quando se

recebia convidados. Oferecer um

Um altar achado em Beersheba, Israel (I séc. aC). Fonte: Wikimidia Commons

sacrifício animal era como servir uma refeição excelente para um hóspede importante – o próprio Deus. A presença de Deus foi simbolizada pelo altar e o fogo sobre ele. Portanto, o sacrifício era um ato de hospitalidade generosa embora

compreenda que Deus realmente não dependa dele para sobreviver (cf. Sl 50:12-13). Para uma sociedade camponesa pobre, animais eram sua poupança de longo prazo. Oferecer o melhor de seus animais

(geralmente necessários para a criação do rebanho) era um ato de grande generosidade e dedicação. Assim, Levítico muitas vezes define

o sacrifício como “um cheiro suave ao Senhor” (Lv 1:9.13.17

Em todos os sacrifícios o sangue simboliza a fonte da vida. Esta vida é simbolicamente devolvida a Deus ao derramar o sangue sobre

ou contra o altar. O sangue – porque é a vida – é puro e, portanto, capaz de limpar o altar, o santuário, o acampamento e o pecador. Sem essa limpeza, Deus não seria capaz de morar com o povo. O sangue funciona como limpador, tornando possível a comunhão contínua entre Deus

e Israel. O altar pode ser entendido como um mediador entre Deus

tornando possível a comunhão contínua entre Deus e Israel. O altar pode ser entendido como um

).

e o homem. Assim, os sacerdotes (ou Moisés) representam Deus ao

homem e o homem a Deus. Limpar o altar com o sangue sacrificial

significa que, ao mesmo tempo, a pessoa, que oferece o sacrifício é representada diante de Deus junto ao altar, e também é lavada no altar. Assim, neste mundo conceitual, a limpeza é intimamente ligada ao perdão e, portanto, à restituição da comunhão com Deus. Isso nos leva à questão da pureza e impureza. Esses conceitos têm muito pouco a ver com a higiene, e muito mais com uma expressão metafórica da religião. Para o israelita todo o cosmos é estruturado por princípios de pureza e impureza. Isso é muito difícil de entender

a partir de uma perspectiva moderna. Para Israel o mundo inteiro

é estruturado através das linhas de pureza: tempo, espaço, pessoas

e coisas. Há coisas, pessoas, tempos e espaços (por exemplo, as ferramentas no templo) que são muito intimamente relacionados com

Deus, o sumo-sagrado, assim eles são “muito santos”. O resto do mundo

e do tempo é menos santo. Então, os sacerdotes têm de atingir padrões

mais elevados de santidade que os levitas e os israelitas comuns. Um passo mais à frente (em termos de distância a Deus) estão os pagãos. A mesma hierarquia existe com respeito a lugares: o templo de Jerusalém em si mesmo tem vários níveis de santidade (o santo dos santos – as várias praças), mas também a terra de Israel é percebida como “terra santa”. Agora, nos tempos depois da Páscoa, as coisas são diferentes:

Todo o mundo é a terra de Deus – isso já é uma antecipação da nova criação, que um dia Deus vai estabelecer. Qual é a lógica por trás da diferenciação do mundo em santo e profano, puro e impuro? Muitas ideias têm sido propostas, algumas delas mais sensatas do que outras. Com certeza não cabe definir a pureza através de ideias nutricionistas modernas. Um bom lugar para começar seria a consciência da natureza de linguagem metafórica e simbólica. Para Israel, tudo o que simbolicamente reflete Deus como o doador da vida perfeita é puro. Assim, qualquer deficiência, como doenças de pele ou ferimentos, tornarão uma pessoa impura. Certos animais são “normais” (como os peixes com escamas ou animais com unhas

Certos animais são “normais” (como os peixes com escamas ou animais com unhas 56 Introdução ao

56

Certos animais são “normais” (como os peixes com escamas ou animais com unhas 56 Introdução ao

Introdução ao Antigo Testamento

Certos animais são “normais” (como os peixes com escamas ou animais com unhas 56 Introdução ao

fendidas) –, enquanto outros são “menos normais” e, portanto, são impuros por definição (como os peixes sem escamas ou répteis, que não vivem na água, mas têm escamas). A pior forma de impureza é

a morte. Assim, os sacerdotes não devem tocar os cadáveres. Aves de

rapina são associadas com a morte. Quanto aos porcos, basta olhar para

o

que eles comem! Observe que estas definições são muito subjetivas

e

dependem fortemente do horizonte israelita da agricultura e da sua

localização geográfica. Deus é o Deus da vida e, portanto, as únicas coisas que refletem perfeitamente essa abundância de vida podem ser intimamente relacionadas a Ele. Pensando em Jesus – Ele é a vida em pessoa. Sua santidade é tão perfeita, que “contamina” a impureza de todos nós e assim nos torna aptos para estar na presença de Deus. O que isso significa para a sua própria santidade, vou deixar para você decidir.

O Tema da Torá

Lendo os cinco livros da Torá – qual é seu tema unificador? Esta

é uma questão relativamente recente em estudos bíblicos. Em 1978,

David Clines escreveu seu livro influente “O Tema do Pentateuco”. Ele afirmou que na perspectiva do processo histórico referente à origem literária desses livros (uma coisa que quase todos os estudiosos da Bíblia acharam de suma importância à interpretação bíblica) não ajudou muito. Temos que ler o resultado final deste processo – o

texto como veio a nós. E ao ler isto, podemos começar a entender o ponto principal que o autor ou os autores quiseram transmitir aos seus leitores através do contar a sua história. Esta não é uma tarefa fácil, mas ajudará em nossa discussão sobre o gênero do Pentateuco. Acima falávamos sobre a dialética “lei e narrativa”. Ambas caminham juntas como fios em um tecido e, assim, criou uma nova coisa que os judeus chamavam “Torá”. Torá é muito mais do que “lei”. Podemos traduzir melhor: Torá é ensino. Este é o objetivo comunicativo do Pentateuco:

ensinar através de história e através de instruções sobre… Mas qual é

o conteúdo do ensino? Isto irá definir o tema dos livros. Podemos tomar nosso início com a sugestão de Clines: O tema do Pentateuco é o cumprimento parcial – o que implica também a não- realização – da promessa ou da bênção dos patriarcas (Gn 12:1-3). A

promessa ou a bênção é tanto a iniciativa divina em um mundo onde as iniciativas humanas provocam sempre o desastre como uma reafirmação das intenções divinas primordiais para o homem. 1 Não podemos só observar como este tema é verdadeiro referente

a Torá em sua totalidade, mas também como esse tema é desenvolvido

nas partes constituintes – basta olhar para as histórias de Abraão, ou

a história do bezerro de ouro. Note-se também como Clines inclui

Gênesis 1-11 em seu tema! Este tema pode ajudar bastante na nossa leitura dos primeiros cinco livros da Bíblia. A Torá abre o caminho à literatura bíblica e estabelece a base da cosmovisão bíblica. Mas ela continua a ser um livro sem conclusão. Assim, nós, como leitores, estamos ansiosos para aprender mais sobre como tudo se desenrola e como veio até o lugar onde estamos hoje.

se desenrola e como veio até o lugar onde estamos hoje. Referências Bibliográficas BECKWITH, ROGER T.,

Referências Bibliográficas

BECKWITH, ROGER T., MARTIN J. SELMAN, eds. Sacrifice in the Bible. Wipf & Stock Publishers, 1995. CARDOSO, CIRO FLAMARION SANTANA. Sociedades do antigo oriente próximo. Serie Principios 47. São Paulo: Editora Atica, 1986.

CLINES, DAVID J. A. The Theme of the Pentateuch. Sheffield: JSOT Press,

1978.

DOUGLAS, MARY. Implicit meanings: Selected Essays in Anthropology.

Routledge, 1975. ———. Pureza e Perigo. Translated by Sónia Pereira da Silva. Perspectivas do homem 39. Lisboa: Edições 70, 1991. ———. Purity and Danger: An Analysis of Concepts of Pollution and Taboo. Routledge, 1966. JENSON, PHILIP PETER. Graded holiness: A Key to the Priestly Conception of the World. JSOT Press, 1992. WENHAM, GORDON J. The Pentateuch. Vol. 1. Exploring the Old Testament. SPCK, 2003. ZENGER, ERICH. Introdução ao Antigo Testamento. Edições Loyola,

2003.

1 DAVID J. A. CLINES, The Theme of the Pentateuch (Sheffield: JSOT Press, 1978), 29.

58

DAVID J. A. CLINES, The Theme of the Pentateuch (Sheffield: JSOT Press, 1978), 29. 58 Introdução

Introdução ao Antigo Testamento

DAVID J. A. CLINES, The Theme of the Pentateuch (Sheffield: JSOT Press, 1978), 29. 58 Introdução

Introdução ao Antigo Testamento Unidade - 07 Os livros históricos

ao Antigo Testamento Unidade - 07 Os livros históricos Introdução Como observamos em nossa primeira unidade,

Introdução

Como observamos em nossa primeira unidade, o cânon do AT tem várias partes. Já falamos sobre a Torá e descobrimos que essa parte é o fundamento do AT. Nessa unidade quero introduzir mais uma das seções do AT, os livros históricos. Eles apresentam, naturalmente, principalmente narrativas. Eu vou usar o termo “histórias” para significar “livros históricos do AT” – será mais breve. Devido aos muitos capítulos abrangidos por estes livros, não posso ir a qualquer detalhe sobre o conteúdo real dos mesmos. Em vez disso, vou me concentrar nos grandes temas e assuntos gerais, porque nós vamos cobrir alguns aspectos dos livros históricos mais tarde no curso, quando falarmos sobre a história de Israel. Uma perspectiva interessante vem do A. Ceresko. Ele introduz duas dimensões libertadoras na Bíblia:

“As tradições históricas de Israel falam da luta pela criação de uma comunidade humana livre do domínio e da exploração, uma sociedade em que os homens e mulheres viviam juntos como irmãos e irmãs sob o regime justo e amoroso de Deus. Essas tradições históricas destacam uma libertação política e socioeconômica. De outro lado, os escritos sapienciais constituem um esforço em favor da libertação pessoal, uma libertação que livra os indivíduos das fontes psíquicas da servidão pessoal ou social – a ambição, a luxúria ou um orgulho e uma agressividade desmesurados, por exemplo”. 1 Sobre estes livros sapienciais vamos estudar mais na próxima unidade.

1 Anthony R. Ceresko, A Sabedoria no Antigo Testamento. Espiritualidade Libertadora (São Paulo:

Paulus, 2004), 11-12.

Objetivos Ao final da unidade, o aluno: 1. Refletirá sobre a diferença entre história e

Objetivos

Ao final da unidade, o aluno:

1. Refletirá sobre a diferença entre história e historiografia; 2. Descobrirá os vários níveis de leitura das histórias.

Plano da unidade

• O Gênero das Histórias

• Visão panorâmica das histórias

O Gênero das Histórias

Gostaria de salientar que, nesta unidade, vou apenas concentrar- me nos livros históricos do AT como literatura. Vamos rever os acontecimentos históricos que foram gravados nesses livros nas unidades 9 e 10. Nós precisamos fazer uma distinção importante entre história e historiografia. História são fatos reais lembrados por uma comunidade ou indivíduos. Algumas coisas são omitidas a partir desta memória e outras sobrevivem séculos sem serem esquecidas. História é passado e não reproduzível. Nós só podemos falar sobre história. Por outro lado, podemos escrever sobre história. O resultado de escrever sobre a história é então chamado historiografia - uma narração de eventos passados a partir de uma perspectiva específica. Esta última frase é muito, muito importante. Precisamos manter isso em mente ao ler os livros históricos da Bíblia, assim como durante a leitura de qualquer outra historiografia, antiga ou moderna. Em seguida estão algumas implicações importantes deste gênero:

• Historiografia é necessariamente seletiva, não podemos gravar

tudo o que aconteceu.

• Historiografia está necessariamente vinculada a certo ponto de vista, não podemos registrar a história de forma objetiva.

60

a certo ponto de vista, não podemos registrar a história de forma objetiva. 60 Introdução ao

Introdução ao Antigo Testamento

a certo ponto de vista, não podemos registrar a história de forma objetiva. 60 Introdução ao

• Todo o registro da nossa história é movido por determinados

interesses e uma série de pressupostos que poderiam ser conscientes, mas muitas vezes não são.

• Historiografia é escrita intencionalmente: os autores querem influenciar o pensamento e a conduta de seus contemporâneos.

o pensamento e a conduta de seus contemporâneos. “Omri foi rei de Judá”, Mesha Stele (ca.

“Omri foi rei de Judá”, Mesha Stele (ca. 852-841 aC) - Fonte: Wikimidia Commons

• Historiografia bíblica está amplamente tomando notas de

muitas coisas comuns, tais como projetos de construção ou conflitos tribais, mas também coisas como conversas particulares e até mesmo relatos de sentimentos (a sua qualidade literária).

• Além disso, a historiografia bíblica reflete opiniões teológicas. Isto pode ser visto muito bem no entendimento das histórias sobre

causalidade: Os atos de Yhwh de graça ou de juízo geral, determinam

a sequência dos acontecimentos.

• Por fim, a historiografia bíblica é praticamente anônima. Isto

é particularmente estranho para nós. Como nós gostamos de receber

todo o crédito por aquilo que produzimos. Mas temos que aceitar o fato da anonímia e, portanto, sermos cuidadosos ao criar qualquer especulação ou adivinhação nesta área. Muitas coisas mais poderiam ser ditas sobre o assunto, mas você já entendeu a ideia geral: historiografia é literatura em seu sentido mais amplo. 1 Em seguida, vou apresentar uma visão geral das histórias. Depois quero dar a minha resposta para a nossa pergunta introdutória (sobre Sansão). Finalmente vou acrescentar alguns aspectos sobre a ética refletida nas histórias.

1 Assim, todos os livros do AT são literatura e, como tal, querem comunicar certas coisas para os seus leitores propostos. Há um trabalho brilhante na crítica literária da Bíblia por Meir Sternberg (The Poetics of Biblical Narrative. Bloomington: Indiana University Press, 1985), que tenta descobrir a forma como trabalha a narrativa bíblica. Se for possível, sugiro que leia este volume. Você vai ficar fascinado novamente pelas narrativas bíblicas e pela leitura com “outros olhos” em sintonia com a Bíblia e apreciará a sua qualidade literária.

Visão panorâmica das histórias 2

Como estão na Bíblia hoje, as histórias formam a continuação

da narrativa iniciada no Pentateuco. O Pentateuco descreve a criação do mundo e os primórdios da história humana e, em seguida, em sua maior parte, enfoca as relações do criador com o povo de Israel. Deus compromete-se com Israel por aliança e lhes dá um chamado,

de trazer a bênção para as nações do mundo. Deuteronômio, o último

livro do Pentateuco, termina com Israel prestes a entrar em Canaã, a terra que Deus prometeu dar-lhes como território nacional. Neste

ponto, as histórias começam.

Josué descreve a conquista de Israel sobre Canaã sob a liderança

de Josué, e a divisão de Canaã e partes da Cisjordânia (a terra ao leste

do rio Jordão) entre as 12 tribos de Israel. Os próximos capítulos de Josué demonstram que até o final da vida de Josué os israelitas ainda

não tomaram posse completa de Canaã. Em Juízes, a geração posterior a de Josué não completou a conquista de Canaã. Segue-se um longo período de infidelidade religiosa e de instabilidade política. Líderes (juízes) surgem, mas

apenas trazem alívio temporário. O livro termina com Israel ainda sem a plena posse das terras. Rute é situada no período dos juízes. Rute, uma mulher moabita, adentrou a uma família israelita, trazendo bênção para si mesma e aos outros. Ela é uma ancestral de Davi, futuro rei de Israel. Samuel é o último dos juízes de Israel, mas os livros de Samuel, em homenagem a ele, descrevem os primórdios da monarquia em Israel.

O reinado de Saul, primeiro rei de Israel, termina em desastre. Mas

Davi emerge como o sucessor de Saul e conclui a conquista de Canaã

ao tomar Jerusalém. Ele derrota ou faz alianças com nações vizinhas,

trazendo estabilidade. Durante os últimos anos do seu reinado, ele tem de superar uma rebelião liderada por seu filho Absalão. Os livros dos Reis descrevem o reinado de Salomão, filho de Davi, que constrói um templo para YHWH, em Jerusalém. Após sua morte, seu único reino se divide nos reinos do norte, Israel e o do sul, Judá. O

2 Este sumário foi traduzido de Philip E. Satterthwaite and J. Gordon McConville, A Guide to the Historical Books, vol. 2, Exploring the Old Testament (InterVarsity Press, 2007), 1-3.

62

Books, vol. 2, Exploring the Old Testament (InterVarsity Press, 2007), 1-3. 62 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento

Books, vol. 2, Exploring the Old Testament (InterVarsity Press, 2007), 1-3. 62 Introdução ao Antigo Testamento

restante de Reis descreve o declínio gradual dos dois reinos. O autor

atribui este declínio à infidelidade religiosa. Os assírios destroem o reino do norte e levam os sobreviventes ao exílio. Algumas gerações depois, os babilônios fazem o mesmo com o reino do sul. Jerusalém e o templo são destruídos. Os livros das Crônicas seletivamente recontam a narrativa que atravessa todos os livros já mencionados. As genealogias em I Crônicas 1-9 remontam a Adão, ou seja, até o início do Pentateuco, mas a maior parte das Crônicas corre paralela a Samuel e Reis. Há, no entanto, muitas omissões e acréscimos em relação a Samuel e Reis, e muitas diferenças de ênfase. Os últimos versos de II Crônicas descrevem como o rei persa Ciro, que tinha conquistado a Babilônia, promulgou um decreto que permitiu a sobrevivência do reino do sul e o retorno de seus descendentes do exílio. Os livros de Esdras e Neemias, em homenagem a dois líderes no período pós-exílico, tomam o decreto de Ciro como seu ponto de partida. Eles descrevem o regresso de grupos sucessivos da Babilônia para

o antigo território de Judá,

a reconstrução do templo e

dos muros de Jerusalém, e o regulamento da comunidade restaurada em Judá, com base

na lei de Moisés. O livro de Ester tem sua narrativa localizada na Pérsia, no período pós-exílico. Este livro também descreve o que aconteceu aos descendentes dos antigos cidadãos de Judá,

Boaz e Rute (Welser Bibel, sec. XIV) Fonte: Wikimidia Commons

mas centra-se sobre os judeus (o termo começa a ser usado em Neemias e Ester), que não retornaram. Ester e Mordecai, dois judeus que se envolveram com as obras da corte persa, conseguiram evitar uma ameaça de todo o império persa para os judeus.

que se envolveram com as obras da corte persa, conseguiram evitar uma ameaça de todo o
Referências Bibliográficas BARTON, JOHN. Understanding Old Testament Ethics: Approaches and Explorations. Louisville:

Referências Bibliográficas

BARTON, JOHN. Understanding Old Testament Ethics: Approaches and Explorations. Louisville: Westminster John Knox Press, 2003. CERESKO, ANTHONY R. A Sabedoria no Antigo Testamento. Espiritualidade Libertadora. São Paulo: Paulus, 2004. SATTERTHWAITE, PHILIP E., and J. GORDON MCCONVILLE. A Guide to the Historical Books. Vol. 2. Exploring the Old Testament. InterVarsity Press, 2007. WENHAM, GORDON J. Story as Torah: Reading Old Testament Narrative Ethically. Grand Rapids: Baker Academic, 2000. WRIGHT, CHRISTOPHER J. H. Old Testament Ethics for the People of God. Downers Grove: Inter-Varsity Press, 2004.

64

Testament Ethics for the People of God. Downers Grove: Inter-Varsity Press, 2004. 64 Introdução ao Antigo

Introdução ao Antigo Testamento

Testament Ethics for the People of God. Downers Grove: Inter-Varsity Press, 2004. 64 Introdução ao Antigo

Introdução ao Antigo Testamento Unidade - 08 A natureza da narrativa bíblica e a ética dos textos históricos

Introduçãoda narrativa bíblica e a ética dos textos históricos Antes de continuamos, quero que vocês reflitam

Antes de continuamos, quero que vocês reflitam sobre

a seguinte questão: Como você explicaria o fato de Sansão

perder sua força quando seu cabelo foi cortado (Jz 16:16-

21; cf. 13:5) e recuperá-la quando seu cabelo cresce de volta (16:22, 28-31)? Esta questão é uma questão real – não quero deixar vocês chocados ou semear dúvidas em vocês sobre

a Bíblia. Este texto é, evidentemente, extremista, mas gera questões que fazem parte da nossa luta com as narrativas do Antigo Testamento. Outra área interessante é a visão ética das narrativas do AT. Será que tudo o que Abraão, Davi e Elias fizeram

em suas vidas foi exemplar, só porque eles são os heróis da

bíblia?

Objetivosfoi exemplar, só porque eles são os heróis da bíblia? Ao final da unidade, o aluno:

Ao final da unidade, o aluno:

1. Terá lido sobre a interpretação de uma narrativa

exemplar;

2. Ficará atento para as dificuldades de descobrir a

ética das histórias.

Plano da unidade

• Sansão – uma narrativa simbólica

• A Ética das Histórias

Sansão – uma narrativa simbólica 1

Sempre tive minhas dificuldades com essa narrativa. Quando era criança achei legal – um homem, quase um super-homem, que estava fazendo coisas grandes para o povo de Deus. Mas já parecia

um pouco estranho que a força dele dependesse do comprimento dos seus cabelos. Parece muito estranho, especialmente porque a Bíblia normalmente não utiliza tais conceitos, quase mágicos, para explicar eventos. Ao ler essa passagem com um pouco mais de atenção, ainda mais coisas acabam sendo bastante estranhas. Na tragicomédia Sansão

é uma figura bastante alarmante. Juízes 13 suscita grandes esperanças quanto ao seu papel como libertador (13:5), mas logo podemos observar como Sansão fez tudo terrivelmente errado – praticamente

o tempo todo. Ele era um nazireu (uma pessoa separada para ser mais

santa, cf. Nm 6:18-20), mas contaminou-se grosseiramente comendo mel silvestre da carcaça de um leão, tocando os ossos de burro morto, casando com uma mulher filisteia (estrangeira – Dt 7:3-4), uma vez que os filisteus eram a principal ameaça principal a Israel neste momento, não sendo motivado por uma preocupação com o seu povo, mas por um desejo sexual e conduzido por uma dívida pessoal a sua própria honra e, finalmente, terminando sua vida com um ato de vingança pessoal. Por conseguinte, o autor de Juízes não termina sua narrativa com a fórmula habitual de paz, com a qual ele termina quase todos os outros ciclos do seu livro. Assim como as outras narrativas, você pode lê-la em vários níveis.

Não é muito difícil interpretar a história de Sansão no nível biográfico:

Você observa um líder escolhido por Deus que se comporta mal e colhe

o que plantou. Pode-se aprender muito sobre santidade e integridade

pessoal, mas existem algumas dificuldades, alguns aspectos da história

1 Se refere a Gordon J. Wenham, Story as Torah: reading Old Testament narrative ethically (Grand Rapids: Baker Academic, 2000), 52; Se refere a Satterthwaite and McConville, A Guide to the Historical Books, 2:87-88.

66

Se refere a Satterthwaite and McConville, A Guide to the Historical Books, 2:87-88. 66 Introdução ao

Introdução ao Antigo Testamento

Se refere a Satterthwaite and McConville, A Guide to the Historical Books, 2:87-88. 66 Introdução ao

permanecem quase irreais: Sansão brincando com os líderes dos filisteus deliberadamente, colocando-se em risco para demonstrar a sua força (Jz 16). Também encontramos alguns elementos dos contos folclóricos: uma mulher estéril dando à luz (13); charadas (14) e, como já observamos, a força mágica (16). Esta é uma narrativa que, pela sua estranheza, sugere que não se pode ler simplesmente pelo seu valor literal, mas sim como uma espécie de parábola da posição de Israel em frente de Yhwh: Israel compromete a sua vocação divina, comete erros, encontra-se em situações difíceis, é resgatado por Deus e, em seguida, é aparentemente negligenciado, mas por fim não é abandonado. Assim, Sansão pode ser visto como simbólico para Israel. Aqui nós observamos como uma narrativa sobre um personagem histórico pode ser usado para obter uma mensagem que vai muito além de informar sobre os acontecimentos passados. A técnica de composição para apontar o leitor a este nível de leitura é, neste caso, colocar algumas situações fora do comum. E lembre-se sempre:

os israelitas antigos não eram tão bobos assim: Normalmente força não é relacionada a cabelos; e normalmente colunas não podem ser destruídas com a força de um homem. Juízes destaca a loucura de Israel estar propenso a negar a Deus durante todo o tempo. Assim, a insistência do autor na história de Sansão e no controle de Deus sobre o destino de Israel reforça a mensagem central teológica e ética dos juízes: fidelidade total a Deus é indispensável. Se as pessoas apenas reconhecessem que Deus controlava os assuntos humanos, eles não dariam a sua fidelidade a qualquer outro.

A Ética das Histórias

Lendo a história, por vezes, admiramo-nos sobre a ética das pessoas envolvidas ou sobre o que Deus, aparentemente, aceita como um comportamento ético. Basta pensar sobre as atitudes dos patriarcas em Gênesis e as histórias revoltantes em Juízes, ou as guerras em Josué. Ou os métodos questionáveis de David. Você certamente será capaz de acrescentar coisas novas a essa lista. Parece não ser totalmente estranho que muitas pessoas hoje em dia tendem a rejeitar o AT por estes motivos. Como eles podem aceitar um livro como normativo que

aprova um comportamento aparentemente muito questionável – e, às vezes, até exige isso?

O processo de deduzir a ética dos autores das histórias é bastante

difícil. É realmente bom tudo o que Abraão fez? Será que o fato de ser o rei escolhido por Deus permitia a Davi agir da forma que agiu? Será que o autor de Josué realmente aprovou o genocídio que Israel realizou no processo de conquista de Canaã? Precisamos ter cuidado, uma série de estudos têm surgido para nos guiar nesse caminho: 2

• Precisamos ter uma perspectiva histórica: textos de épocas

diferentes podem ter pontos de vista diferentes e, sendo assim, podem diferir de nossos tempos.

• Temos que tentar discernir o relatório das ações e os ideais subjacentes.

• Precisamos estar atentos à avaliação literária de eventos e até mesmo à falta dela. Muitas vezes os autores bíblicos dão o seu veredicto nas entrelinhas, por exemplo, a maneira que um personagem se desenvolveu, ou o fato de um autor simplesmente ficar em silêncio sobre determinados resultados ou reações.

• Nós também precisamos estar cientes do fato de que, por vezes,

nós, como seres humanos, tendemos a fazer outras coisas que Deus

tem nos destinado inicialmente.

A questão da ética no AT nunca será fácil e difícil ao mesmo

tempo, especialmente nas histórias. Mas, ao mesmo tempo em que estamos tendo bastante cuidado para não lermos esses textos de forma muito plana, começamos a descobrir muitas informações valiosas sobre o comportamento humano e como lidar com ele de uma forma fiel à complexidade do mundo. Em nossa vida real raramente há um preto e um branco. Muitas vezes tentamos nos orientar em uma névoa cinzenta. Isso não era diferente nos tempos antigos. Precisamos ter os olhos fixados em Deus e em seguida, tentar explorar a vida a partir do ponto de vista do amor e da justiça.

2 Por exemplo John Barton, Understanding Old Testament Ethics: Approaches and Explorations (Louisville: Westminster John Knox Press, 2003); Wenham, Story as Torah: reading Old Testament narrative ethically; Christopher J. H. Wright, Old Testament Ethics for the People of God (Downers Grove: Inter-Varsity Press, 2004).

68

Testament Ethics for the People of God (Downers Grove: Inter-Varsity Press, 2004). 68 Introdução ao Antigo

Introdução ao Antigo Testamento

Testament Ethics for the People of God (Downers Grove: Inter-Varsity Press, 2004). 68 Introdução ao Antigo
Referências Bibliográficas BARTON, JOHN. Understanding Old Testament Ethics: Approaches and Explorations. Louisville:

Referências Bibliográficas

BARTON, JOHN. Understanding Old Testament Ethics: Approaches and Explorations. Louisville: Westminster John Knox Press, 2003. CERESKO, ANTHONY R. A Sabedoria no Antigo Testamento. Espiritualidade Libertadora. São Paulo: Paulus, 2004. SATTERTHWAITE, PHILIP E., and J. GORDON MCCONVILLE. A Guide to the Historical Books. Vol. 2. Exploring the Old Testament. InterVarsity Press, 2007. WENHAM, GORDON J. Story as Torah: Reading Old Testament Narrative Ethically. Grand Rapids: Baker Academic, 2000. WRIGHT, CHRISTOPHER J. H. Old Testament Ethics for the People of God. Downers Grove: Inter-Varsity Press, 2004.

Anotações 70 Introdução ao Antigo Testamento

Anotações

70

Anotações 70 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento

Anotações 70 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento Unidade - 09 A literatura sapiencial

Introduçãoao Antigo Testamento Unidade - 09 A literatura sapiencial Os livros sapienciais são um grupo de

Os livros sapienciais são um grupo de livros que são principalmente diferenciados em razão dos seus gêneros literários: eles usam uma linguagem mais poética e são unificados por uma perspectiva da vida mais filosófica. De novo, vou me concentrar nos grandes temas e

assuntos gerais. Quero te lembrar da citação de A. Ceresko

na apresentação da unidade 4. Você se lembra das duas

dimensões libertadoras na Bíblia: “As tradições históricas

de Israel falam da luta pela criação de uma comunidade

humana livre do domínio e da exploração, uma sociedade

em que os homens e mulheres viviam juntos como irmãos

e irmãs sob o regime justo e amoroso de Deus. Essas tradições históricas destacam uma libertação política e socioeconômica. De outro lado, os escritos sapienciais constituem um esforço em favor da libertação pessoal, uma

libertação que livra os indivíduos das fontes psíquicas da servidão pessoal ou social – a ambição, a luxúria ou um orgulho e uma agressividade desmesurados, por exemplo”. 1

O projeto dos livros sapienciais consiste em levar o

indivíduo a se tornar ser humano maduro, capaz de amar

e ser amado.

a se tornar ser humano maduro, capaz de amar e ser amado. Para pensar O que

Para pensar

O que significa o termo “sabedoria” hoje? Como é que o relacionamos a conhecimento, compreensão, inteligência, experiência?

1 Anthony R. Ceresko, A Sabedoria no Antigo Testamento. Espiritualidade Libertadora (São Paulo:

Paulus, 2004), 11-12.

Dentro da Bíblia hebraica há três livros (Jó, Provérbios e Eclesiastes) que, apesar das suas diferenças, têm muito em comum. Portanto, os acadêmicos passaram a considerá-los como representantes de um tipo distinto de literatura. O que estes três livros têm em comum é que eles estão preocupados com a sabedoria. Se você usar uma concordância e pesquisar a palavra, você encontrará que a “sabedoria” (ou os seus cognatos) aparecem com relativa frequência. Abaixo quero escrever um pouco sobre o fenômeno “sabedoria” e depois vou introduzir o livro de Provérbios. Os outros dois livros sapienciais têm uma perspectiva diferente e muito mais pessimista. Vou comparar essas duas perspectivas no final dessa unidade. 2

comparar essas duas perspectivas no final dessa unidade. 2 Objetivos Ao final da unidade, o aluno:

Objetivos

Ao final da unidade, o aluno:

1. Poderá relacionar os vários livros sapienciais entre

eles;

2. Poderá apontar as diferenças teológicas entre os

livros sapienciais.

Plano da unidade

• Sabedoria – a experiência humana

• Provérbios – “O mundo funciona assim

2 Talvez você esteja à espera de algumas anotações sobre Cantares. Este livro é ainda mais ligado com poesia – então vou tratá-lo na unidade sobre Salmos.

72

é ainda mais ligado com poesia – então vou tratá-lo na unidade sobre Salmos. 72 Introdução

Introdução ao Antigo Testamento

é ainda mais ligado com poesia – então vou tratá-lo na unidade sobre Salmos. 72 Introdução

Sabedoria – a experiência humana 3

A sabedoria é uma abordagem à realidade que pode ser descrita nos seguintes pontos de vista:

• Humanista: ela se preocupa com o que é bom para o homem e

a mulher;

• Experiencial: ela está enraizada em uma observação cuidadosa da vida, do comportamento humano e da natureza;

Prático: ela usa a teoria para dar conselhos em situações da vida

real

Menos ligada a muitas coisas que normalmente são vistas

como peculiarmente israelitas: Não há nenhuma menção dos grandes momentos da história de Israel, da aliança do Sinai ou da aliança com Davi. O templo, o seu sistema de sacrifícios e o calendário das festas quase não são mencionados. Nem o sacerdote nem o profeta recebem menção ao lado do “sábio”

e do tolo.

profeta recebem menção ao lado do “sábio” e do tolo. Uma árvore com raízes fortes, um

Uma árvore com raízes fortes, um símbolo judaico da sabedoria. Fonte: Wikimidia Commons

um símbolo judaico da sabedoria. Fonte: Wikimidia Commons Sidelight Em outras partes do Antigo Testamento, a

Sidelight

Em outras partes do Antigo Testamento, a palavra hebraica para sabedoria “hokmah” significa algo como “habilidade”: o conhecimento prático em qualquer esfera, desde o artesão até o político. Mas em P hokmah é sempre habilidade de viver: a capacidade do indivíduo conduzir sua vida da melhor forma possível (Cf. Whybray, Proverbs, NCB, London: 1994, 4).

3 Usei muito o livro de Ernest C. Lucas, A Guide to the Psalms & Wisdom Literature, Exploring the Old Testament, Volume 3 (InterVarsity Press, 2003), 79-115.

Sugestão

Use uma concordância para estudar os temas abaixo no livro de Provérbios. “Desenhe” um retrato dessas diferenças de caráter:

1. o mentiroso

2. o homem perverso

3. o mexeriqueiro

4. o bajulador

5. o escarnecedor

6. o justo e o mal

7. o sábio e o tolo

8. o uso sábio das palavras

Por que não preparar um estudo bíblico sobre estes temas para sua comunidade?

Ao lermos os livros bíblicos que são bastante diferentes das nossas convenções literárias, é sempre muito útil olhar para mais longe e encontrar um texto que nos ajude a entendê-los no seu próprio contexto. E, de fato, descobrimos que Jó, Provérbios e Eclesiastes não são únicos dentro do corpus da literatura judaica antiga ou na literatura de todo o mundo do Antigo Oriente. Há dois livros apócrifos ou deuterocanônicos que podem ser classificados como literatura sapiencial: Jesus Ben Sirá (ou Eclesiástico; do sec. II a.C.) e Sabedoria de Salomão (sec. I a.C.). Estes dois livros nos mostram como as ideias e os temas encontrados na literatura sapiencial da Bíblia Hebraica foram recebidos e desenvolvidos entre os judeus da Palestina (Ben Sirá) e entre os greco-judeus da diáspora de língua grega (Sabedoria). Uma boa parte da literatura que sobreviveu desde o antigo Egito e Mesopotâmia chegou a ser chamada de “literatura sapiencial”, devido a sua comparabilidade com a sabedoria bíblica. Há uma maior diversidade entre os textos que entre os três livros bíblicos, e eles claramente ostentam a marca distintiva das suas próprias culturas. Isso leva alguns estudiosos a hesitar em dar-lhes o rótulo de “literatura sapiencial”. No entanto, apesar da sua diversidade, para a maioria

74

de “literatura sapiencial”. No entanto, apesar da sua diversidade, para a maioria 74 Introdução ao Antigo

Introdução ao Antigo Testamento

de “literatura sapiencial”. No entanto, apesar da sua diversidade, para a maioria 74 Introdução ao Antigo

dos estudiosos estes textos do Egito, Israel e Mesopotâmia ainda têm bastante em comum, logo, são razoavelmente condizentes a essa classificação. Enquanto o material egípcio e mesopotâmico for usado com cuidado, encontraremos nele um contexto mais amplo dentro do qual poderemos compreender os livros bíblicos. Claro que há debates acadêmicos sobre quem copiou de quem, ou onde essa literatura tem a sua Sitz im Leben (lugar vivencial) na sociedade israelita antiga. Isso não deve nos perturbar. Podemos assumir seguramente que a sabedoria israelita era decorrente da experiência das pessoas comuns. Essas experiências foram transmitidas informalmente, provavelmente em um contexto familiar. No entanto, isso não exclui a possibilidade de receber influência de fora de Israel. Especialmente no contexto da educação formal e do contexto régio. É muito provável que encontremos os resultados de todos esses processos na literatura da sabedoria bíblica. Não surpreendentemente, nós realmente podemos encontrar exemplos de literatura sapiencial em quase todas as sociedades humanas. Muitas vezes, a sabedoria é transmitida oralmente por ditos curtos e frases que resumem regras para viver em um mundo complexo, observando o mundo, comparando eventos e raciocinando para levar à sabedoria. É teologicamente significativo que a sabedoria judaica sempre aceite como base o conhecimento de Deus como criador, que ordenou o seu mundo. Esta ordem deve ser reconhecida:

O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do santo a prudência” (Pv 9:10).

e o conhecimento do santo a prudência ” (Pv 9:10). Para pensar Leia o “prólogo” do

Para pensar

Leia o “prólogo” do livro de Provérbios (Pv 1:2-6) com a declaração sobre a finalidade do livro. Você pode pensar em qualquer forma moderna comparável a essa “literatura de sabedoria”?

Coloque no fórum as suas ideias!

Nos livros sapienciais da Bíblia, o conceito “sabedoria” não significa inteligência ou sabedoria intelectual, mas a capacidade de gerenciar a vida cotidiana. Essa habilidade é baseada na observação dos processos sempre repetidos da vida e das relações de reflexão e transferência dessas experiências.

Provérbios – “O mundo funciona assim

Provérbios, na sua perspectiva sapiencial da vida, é bastante otimista de que o mundo tem uma lógica de bom funcionamento

e que o povo sábio pode descobrir isso. Assume-se que o mundo

está em um equilíbrio de forças, equilíbrio garantido por Deus. O mundo não é irracional, é reconhecível e confiável. O homem bom encontra o sucesso e reconhecimento, o homem mau tropeça em sua própria impiedade e será punido. Cada ato está sendo seguido por um pronunciamento de reciprocidade. Essa relação é chamada a relação

de ato-consequência e Provérbios tem em grande estima esta relação. O propósito do livro de Provérbios é fornecer instrução para um viver bem-sucedido. Sendo assim, é um livro pedagógico que foca

a educação. Nesse contexto educativo, Provérbios lida menos com a

recompensa e punição, e se concentra mais nas consequências naturais de um ato. Esta é a mensagem de sabedoria: Vale a pena fazer o bem, e deixar o mal. Em seguida, irá correr bem para você. Naturalmente, essa relação de ato-consequência tem seus limites. Já os contribuintes de Provérbios revelam que eles têm uma visão mais nuançada da realidade. Assim, a pobreza pode também ser o resultado de injustiça (13:23) e não de preguiça (10:4). Injustiça também pode levar à riqueza (16:8). Veja também essa introspecção bem profunda: Os passos do homem são dirigidos pelo Senhor; como, pois, entenderá o homem o seu caminho? (20:24). Aceitamos nossos

limites humanos – isso é realismo. Nem sempre (talvez raramente) a colheita de uma boa semente é tão boa quanto era de esperar. Os limites deste tipo de sabedoria são alcançados quando você começa a deduzir a ação da consequência:

.(Kuntillet ‘Ağrūd)

Homem - sec. VIII a.C

a deduzir a ação da consequência: .(Kuntillet ‘Ağrūd) Homem - sec. VIII a.C 76 Introdução ao

76

a deduzir a ação da consequência: .(Kuntillet ‘Ağrūd) Homem - sec. VIII a.C 76 Introdução ao

Introdução ao Antigo Testamento

a deduzir a ação da consequência: .(Kuntillet ‘Ağrūd) Homem - sec. VIII a.C 76 Introdução ao

“Quem é rico é sábio e justo.”, “Quando você é pobre, você deve ter sido preguiçoso, caso contrário não seria pobre”; “Qualquer pessoa que está doente ou sofrendo, deve ser culpado de alguma coisa. A doença é o resultado de mau comportamento”. Isso não é sabedoria – é uma filosofia sem amor da classe média que alcançou prosperidade. Portanto, tenha cuidado:

a lógica da relação de ato-consequência funciona em uma direção só! Isto é o que descobrimos ao ler os livros de Jó e Eclesiastes. Mas antes de nos preocupamos

com esses livros mais pessimistas, eu

Pedagogia (imagem de um livro da idade média)

gostaria de levantar algumas questões sobre a literatura e teologia de Provérbios. O que é um provérbio? Eles não são tão fáceis de definir, mas podemos observar o seguinte:

tão fáceis de definir, mas podemos observar o seguinte: • Um provérbio é breve. • Um

• Um provérbio é breve.

• Um provérbio é baseado na experiência.

• Um provérbio muitas vezes surge da observação cuidadosa da vida e do mundo.

• Um provérbio é expressado de forma memorável.

• Um provérbio pretende apresentar uma visão valiosa.

Assim, podemos dizer: um provérbio bíblico é uma reflexão sobre a vida cristalizada em uma frase breve e memorável.

Algumas coisas não devem ser esquecidas: Em primeiro lugar, uma única frase sapiencial carece de contexto. Este contexto deve ser elaborado pelo leitor. Isso é exatamente o que faz um provérbio tão atraente por um lado, mas por outro lado, às vezes, de difícil compreensão. Quando temos consciência disso, os dois provérbios “opostos” fazem muito sentido:

“Não respondas ao tolo segundo a sua estultícia; para que também não te faças semelhante a ele. Responde ao tolo segundo a sua estultícia, para que não seja sábio aos seus próprios olhos” (Pv 26:4-5).

Muitos provérbios bíblicos são simplesmente observações “do jeito que está” e não contém qualquer avaliação explícita. Não devemos simplesmente assumir que a declaração de uma realidade significa a sua aprovação. Compare o seguinte:

O presente é, aos olhos dos que o recebem, como pedra preciosa; para onde quer que se volte servirá de proveito” (17:8).

“O ímpio toma presentes em secreto para perverter as veredas da justiça” (17:23).

Lendo estes dois provérbios juntos, podemos concluir que o suborno frequentemente funciona, mas que é errado utilizá-lo. Isso se equilibra ainda mais: “O que age com avareza perturba a sua casa, mas o que odeia presentes viverá” (15:27). Nem todos os provérbios oferecem conselhos bons – eles podem ser apenas uma observação da nossa realidade. Finalmente, os provérbios não são leis. Eles são observações permanentes, que descrevem a norma e não expressam o inevitável. Isso nós já observamos a partir da perspectiva diferente no parágrafo anterior. A vida e os seres humanos são complexos demais para serem resumidos em uma breve frase ou para detalhar a verdade sobre uma determinada situação. Aqueles que são sábios estão cientes de usar os provérbios com a devida discrição.

cientes de usar os provérbios com a devida discrição. Referências Bibliográficas CERESKO, ANTHONY R. A

Referências Bibliográficas

CERESKO, ANTHONY R. A Sabedoria no Antigo Testamento. Espiritualidade Libertadora. São Paulo: Paulus, 2004. CRENSHAW, JAMES L. Ecclesiastes: a Commentary. OTL. Philadelphia:

Westminster Press, 1987. LUCAS, ERNEST C. A Guide to the Psalms & Wisdom Literature. Exploring the Old Testament, Volume 3. InterVarsity Press, 2003. PERDUE, LEO G. Wisdom & Creation: The Theology of Wisdom Literature. Nashville: Abingdon, 1994. WHYBRAY, NORMAN. “Qoheleth, Preacher of Joy.” JSOT, no. 23 (1982):

87-98.

78

1994. WHYBRAY, NORMAN. “Qoheleth, Preacher of Joy.” JSOT, no. 23 (1982): 87-98. 78 Introdução ao Antigo

Introdução ao Antigo Testamento

1994. WHYBRAY, NORMAN. “Qoheleth, Preacher of Joy.” JSOT, no. 23 (1982): 87-98. 78 Introdução ao Antigo

Introdução ao Antigo Testamento Unidade - 10 O otimismo quebrado

Introduçãoao Antigo Testamento Unidade - 10 O otimismo quebrado Dentro da Bíblia hebraica há três livros

Dentro da Bíblia hebraica há três livros (Jó, Provérbios e Eclesiastes) que, apesar das suas diferenças, têm muito em comum. Portanto, os acadêmicos passaram a considerá-los como representantes de um tipo distinto de literatura. O que estes três livros têm em comum é que eles estão preocupados com a sabedoria. Se você usar uma concordância e pesquisar a palavra, você encontrará que a “sabedoria” (ou os seus cognatos) aparecem com relativa frequência. Abaixo quero escrever um pouco sobre o fenômeno “sabedoria” e depois vou introduzir os livros de Jó e Eclesiastes. 1

Objetivose depois vou introduzir os livros de Jó e Eclesiastes. 1 Ao final da unidade, o

Ao final da unidade, o aluno:

1. Poderá relacionar os vários livros sapienciais entre

eles;

2. Poderá apontar as diferenças teológicas entre os

livros sapienciais.

Plano da unidade

• Jó e quando Deus faz o que Ele quer

• Eclesiastes – estabelece-se no insondável da vida

1 Talvez você esteja à espera de algumas anotações sobre Cantares. Este livro é ainda mais ligado com a poesia – então vou tratá-lo na unidade sobre Salmos.

Jó e quando Deus faz o que Ele quer Se a conexão entre ato e

Jó e quando Deus faz o que Ele quer

Se a conexão entre ato e consequência é quebrada pelo pecado e

pela injustiça, o que a sabedoria pode oferecer em uma crise? Por que

o insucesso? Por que é que os opressores são ricos e gordos? Por que

é que alguns sofrem de uma doença ou da pobreza mesmo não tendo

feito nada de errado e sendo tementes a Deus? Muitas vezes, o mundo parece estar fora de ordem. Parece que Deus não está fazendo o seu trabalho para manter o sistema. As respostas do padrão tradicional

são bastante insatisfatórias para explicar a causa do sofrimento. Isso pode ser visto no livro de Jó (e mesmo em nossa própria realidade). Considerando que você já leu o resumo de Hans Walter Wolff

do livro de Jó, vou tocar em alguns outros pontos interessantes, que

podem nos ensinar algo sobre como lidar com algumas dificuldades

na Bíblia Hebraica. A primeira coisa seria como lidar com as tensões

evidentes no estilo de um determinado livro. Em Jó, o cenário narrativo que constrói quase uma moldura ao redor do diálogo (Jó 1-2; 42:7- 17) é esteticamente bem diferente dessa parte principal do livro, que é um diálogo de estilo alto-poético, artisticamente tecido. Além disso, o cenário narrativo demonstra a localização de Jó e seus amigos em Edom, sendo então, um contemporâneo de Abraão. As outras características do livro, no entanto, sugerem fortemente os séculos

IV ou III para a sua forma final. Para complicar ainda mais, muitos

estudiosos sugerem que o capítulo 28, o poema sobre a sabedoria, não pode fazer parte da primeira composição, por ser tão calmo e tranquilo

em sua entonação. O que podemos dizer sobre estas coisas? Durante as últimas décadas, várias coisas mudaram consideravelmente na área de estudos bíblicos e cada vez mais os teólogos estão preparados para tentar ver os textos bíblicos com olhos literários. Isso significa que eles tentam entender a Bíblia como literatura e não como documentos arbitrários que testemunham sobre

80

a Bíblia como literatura e não como documentos arbitrários que testemunham sobre 80 Introdução ao Antigo

Introdução ao Antigo Testamento

a Bíblia como literatura e não como documentos arbitrários que testemunham sobre 80 Introdução ao Antigo

a fé dos antigos israelitas. Como já falei, muitos suspeitam que o cenário narrativo de Jó seja secundário, apenas porque difere no estilo e no vocabulário. Atualmente, um consenso está se desenvolvendo, o de que

a moldura narrativa molda integralmente a compreensão do diálogo.

Com a narrativa, o leitor sabe muito mais do que Jó sabia. Por isso, para o leitor nunca aparece a questão se Jó merece o seu sofrimento. Então, se torna muito mais importante para o leitor, assim como os amigos discutem, como o sofrimento se desenvolve teologicamente e, finalmente, como Deus resolverá esse enigma para Jó.

e, finalmente, como Deus resolverá esse enigma para Jó. Sidelight Em hebraico, há uma distinção forte

Sidelight

Em hebraico, há uma distinção forte entre o artigo determinado e o indeterminado. Em Jó encontramos sempre “Satanás” com artigo determinado (“o Satanás”). Podemos assim supor que aqui “Satanás” é um título (o acusador / adversário), não um nome. Só muito mais tarde na literatura judaica - e, claro, nos escritos cristãos - encontramos a ideia de que “Satanás” denota um ser especificamente demoníaco.

Lembre-se: este tipo de desenvolvimento do sentido de vocabulário ocorre muitas vezes na Bíblia. Sabendo disso podemos evitar uma interpretação ao pé da letra.

O capítulo 28, com seu tom calmo, não combina com a argumentação calorosa de Jó. O que é falado por Jó parece ser sugerido pela titulação 27:1. No entanto, há uma nova posição no 29:1, que introduz um novo argumento. Assim, podemos supor que o cap. 28 nunca foi destinado a ser lido como a fala de Jó, mas sim como um comentário do autor. Na verdade, Jó 28 vem em um momento muito apropriado do diálogo. É uma expressão do ponto de vista de que os humanos têm a capacidade de compreender a sabedoria divina e que a resposta adequada a esta questão é ter reverência a Deus e evitar o mal. Isto prepara o caminho para os discursos divinos – e ajuda o leitor a separar mentalmente o último discurso de Jó do diálogo anterior. Uma nota breve sobre a questão teológica deve terminar nossa reflexão sobre Jó. Como já observado, muitos estudiosos veem uma aparente tensão teológica entre o epílogo e o resto do livro. Os versos de abertura do prólogo parecem indicar a doutrina convencional de recompensa e punição. Jó é apresentado tanto como “íntegro e reto,

temente a Deus e afastando-se do mal” e como “o maior de todos os povos do oriente”, o leitor pode supor que existe uma ligação direta entre a sua grande piedade e sua grande riqueza e posição social. No entanto, o pressuposto de que sempre deveria haver tal ligação é

quebrado quando Deus aceita o desafio do satanás, para experimentar Jó. O diálogo, em seguida, explora as implicações do rompimento desse vínculo. Em Jó 42:7-9, Deus condena os amigos de Jó por defenderem

a posição de que deve haver uma ligação entre a religiosidade e a

prosperidade. No entanto, a restauração de Jó parece restabelecer essa ligação, contradizendo a essência da mensagem do livro. Houve numerosas tentativas para resolver essa aparente tensão. Reitero apenas algumas das mais prováveis. Em função da quebra da ligação entre a justiça e a prosperidade,

a restauração de Jó não deve ser entendida como justiça, mas como o

fato de que o teste está terminado. Foi argumentado que a arte do livro

exigia isso. É preciso que haja uma conclusão adequada para o teste, e

qualquer coisa além da restauração de Jó seria intolerável para o leitor. Outros veem no epílogo, não tanto a restauração de Jô, mas

a restauração da reputação de Deus. A aceitação de Deus ao teste de Satanás e a aflição de Jó, no mínimo, levanta questões sobre a preocupação de Deus com Jó. Isto precisa ser direcionado. Uma resposta é dada, pelo menos em certa medida no epílogo, ao tratamento de Deus para com Jó. Em ambas as interpretações do epílogo os estudiosos salientam que Deus age livremente, não sob a restrição de qualquer vinculação inevitável de piedade e de prosperidade, como fora afirmado pelos amigos de Jó. As ações de Deus no epílogo devem ser vistas como decorrentes da liberdade de Deus. Esta liberdade é a lição a ser aprendida com os diálogos e seu clímax nas intervenções divinas. Deus não é obrigado a agir de acordo com uma lei rigorosa de recompensa e punição. Ele pode agir gratuitamente para com os seus servos – e Ele

age!

agir gratuitamente para com os seus servos – e Ele age! Para pensar A ideia de

Para pensar

A ideia de uma ligação direta entre a piedade e a prosperidade é bastante comum no Brasil moderno – no pensamento popular, bem como na religião. Como este fato faz o livro de Jó ser relevante nos dias de hoje? Coloque no fórum as suas ideias!

82

faz o livro de Jó ser relevante nos dias de hoje? Coloque no fórum as suas

Introdução ao Antigo Testamento

faz o livro de Jó ser relevante nos dias de hoje? Coloque no fórum as suas

Eclesiastes – estabelece-se no insondável da vida

Eclesiastes – estabelece-se no insondável da vida Sidelight O livro de Eclesiastes apresenta o seu autor

Sidelight

O livro de Eclesiastes apresenta o seu autor como “Qohelet” (1:1). Aqui eu irei usar essa palavra no hebraico para evitar a decisão de traduzir como “pregador” ou talvez melhor como “professor”. Esse homem certamente ensinava mais do que pregava.

O versículo mais conhecido de Eclesiastes é claramente 1:2:

“Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é

vaidade”. Isto é repetido no final de 12:8. Outro refrão no livro é 1:14:

“ eis que tudo era vaidade e aflição de espírito”. Usando apenas uma

concordância você poderá encontrar todas as referências. Claramente, uma questão importante na vontade de compreender a teologia Qohelet é entender o que ele entende por “vaidade”. Infelizmente, a palavra hebraica que o autor usa (hevel) tem uma gama de significados possíveis. Os mais comuns que têm sido relacionados à Qohelet são:

• Vaidade, no sentido da insignificância, inutilidade;

• Absurdo, no sentido do que é não é razoável ou é irracional;

• Absurdo, no sentido de que é incompreensível e misterioso;

Efemeridade, que passa rapidamente.

O “lema” de 1:2 é seguido imediatamente pelo “tema” em 1:3: “O que as pessoas ganham em toda a labuta em que elas trabalham sob o sol?” A palavra chave aqui é a palavra hebraica traduzida como ganhar (hebr. jitron). As duas declarações devem ser interpretadas à luz de cada uma. Cada uma fica em sua própria maneira “universal” em seu alcance. A repetição da “vaidade de vaidades” em 1:2 é uma forma hebraica de expressar um superlativo “completamente/totalmente inútil”, e este é seguido por dizer “tudo é vaidade”, de modo que nada é excluído. As frases “toda a labuta” e “sob o sol” dão a 1:3 um sentido inclusivo também.

É impressionante como as interpretações destes versículos podem ser variadas. Crenshaw 1 compreende esses versículos como expressão

de uma visão profundamente pessimista sobre a vida. Ele traduz hevel como “absurdo” ou “fútil” e, portanto, 1:2 representa uma avaliação muito negativa da vida. A palavra jitron ele traduz como vantagem

da vida. A palavra jitron ele traduz como vantagem e, portanto, 1:3 expressa que os seres

e,

portanto, 1:3 expressa que

os

seres humanos podem não

ganhar nada, independente de todos os seus esforços. Perdue 2 , por outro lado, interpreta Qohelet como tendo uma visão menos pessimista. Ele vê na

raiz hebraica de hevel o sentido da respiração e aponta para

a sua qualidade metafórica

A grandeza da palavra refere-se ao número de vezes que essa

palavra aparece no livro Eclesiastes.

“efemeridade”. A vida é como um vento, uma sombra, muito instável e breve. Para Perdue, Qohelet lamenta a brevidade da vida e não a sua insignificância. Estas duas concepções diferentes de 1:2-3 levam-nos a diferentes compreensões das várias passagens em Eclesiastes, que defendem o gozo da vida (por exemplo, 3:12 e 22; 5:18; 11:8-9). Crenshaw vê isso como algo que incentiva os prazeres em uma tentativa sem fundamento para salvar alguma coisa além da insignificância da vida. Com base no entendimento de Perdue, essas passagens podem ser vistas sob uma luz mais positiva. Whybray 3 assinala que essas passagens formam uma série onde há um aumento constante de ênfase, e que o último nessa série (11:9-12,7) tem uma posição chave no final do livro. Uma característica comum dessas passagens é a afirmação de que todo prazer vem como um dom de Deus. As exortações a aceitar o gozo da vida como um dom de Deus podem ser vistas como, implicitamente, afirmações de que, apesar de sua brevidade, a vida tem algumas qualidades positivas, porque Deus não abandonou suas criaturas a uma vida de desespero completo.

1 James L. Crenshaw, Ecclesiastes: a Commentary, OTL (Philadelphia: Westminster Press, 1987). 2 Leo G. Perdue, Wisdom & Creation: The Theology of Wisdom Literature (Nashville: Abingdon,

1994).

3 Norman Whybray, “Qoheleth, Preacher of Joy,” JSOT, no. 23 (1982): 87-98.

84

3 Norman Whybray, “Qoheleth, Preacher of Joy,” JSOT, no. 23 (1982): 87-98. 84 Introdução ao Antigo

Introdução ao Antigo Testamento

3 Norman Whybray, “Qoheleth, Preacher of Joy,” JSOT, no. 23 (1982): 87-98. 84 Introdução ao Antigo

Há muitas outras coisas neste livro filosófico que podem manter

a nós, leitores da Bíblia, ocupados por algum tempo. Por exemplo,

a datação e a autoria estão longe de serem fáceis de resolver. Ou a

questão de saber se Qohelet citava trechos de outros pensadores, a fim

de comentar sobre eles, ou o fato de que ele tem sim uma visão de

mundo muito dualista, em que ele tenta encontrar algum equilíbrio evitando extremos. Claro que, como este não é um curso somente sobre o livro de Eclesiastes, não poderemos entrar em mais detalhes. Mas eu os encorajo a olhar para alguns temas que este livro cobre. Lê-lo com o foco no que ele tem a dizer sobre alguns grandes temas teológicos: a grandeza de Deus, a sua incompreensibilidade, a sua fiabilidade, a brevidade da vida, a segurança do juízo, os dons que

Deus dá, os contrastes entre seres humanos e animais

recolha todos

os versículos relevantes e olhe para as passagens em conjunto. E no final, ouça os conselhos do “professor”: E, ademais disto, filho meu, atenta: não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne!

para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne! Referências Bibliográficas CERESKO, ANTHONY R.

Referências Bibliográficas

CERESKO, ANTHONY R. A Sabedoria no Antigo Testamento. Espiritualidade Libertadora. São Paulo: Paulus, 2004. CRENSHAW, JAMES L. Ecclesiastes: a Commentary. OTL. Philadelphia:

Westminster Press, 1987. LUCAS, ERNEST C. A Guide to the Psalms & Wisdom Literature. Exploring the Old Testament, Volume 3. InterVarsity Press, 2003. PERDUE, LEO G. Wisdom & Creation: The Theology of Wisdom Literature. Nashville: Abingdon, 1994. WHYBRAY, NORMAN. “Qoheleth, Preacher of Joy.” JSOT, no. 23 (1982):

87-98.

Anotações 86 Introdução ao Antigo Testamento

Anotações

86

Anotações 86 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento

Anotações 86 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento Unidade - 11 Os livros poéticos 1 - Os salmos

Testamento Unidade - 11 Os livros poéticos 1 - Os salmos As palavras em Salmos -

As palavras em Salmos - a grandeza é correspondente com a frequência com que aparece no livro. Criando o mesmo tipo de imagem que as canções usadas nas igrejas de hoje - será que o “eu” apareceria como a maior palavra?

hoje - será que o “eu” apareceria como a maior palavra? Introdução Você gosta de poesia?

Introdução

Você gosta de poesia? Ler poemas sempre é um esforço um pouco maior do que ler outras formas da literatura. Para você, o que distingue um poema de um texto que não é um poema? A rima é importante para você quando se trata de poemas? Qual é a natureza de um poema? Que tipo de linguagem é utilizada e que é necessária para uma boa leitura a partir do leitor? O que fazemos com canções? São canções poemas? Poderíamos descrever os hinos antigos da igreja como poemas, ou melhor, as músicas mais recentes das marcas Hillsong, Vineyard e Cia.? Nesta unidade, iremos descobrir alguns aspectos básicos da poesia hebraica. Quando se trata de Salmos, vamos falar sobre os diferentes tipos de Salmos e aspectos teológicos (como vingança e retaliação).

Objetivos Ao final da unidade, o aluno: 1. Conhecerá os gêneros literários básicos dos salmos;

Objetivos

Ao final da unidade, o aluno:

1. Conhecerá os gêneros literários básicos dos salmos;

2. Poderá distinguir as várias formas do paralelismo

membrorum.

Plano da unidade

• Poesia hebraica

• O Saltério – um livro!

• Os gêneros dos Salmos

Poesia Hebraica

Textos poéticos do antigo Israel não têm a aparência que normalmente esperamos de poemas. Eles não rimam. Mesmo quando você lê-los em hebraico, não rimam. Você pode já ter observado isto, lendo poesia moderna. Alguns poetas modernos escrevem sem rima. Geralmente, na poética a linguagem é utilizada com fins estéticos. Isso significa que o poeta normalmente toma grande atenção com a forma do texto e com a escolha das palavras. Um poeta bom pode comunicar emoções e sutilezas que um texto de prosa não pode transmitir. “A poesia é a mínima distância entre o sentimento e o papel” (Levi Trevisan). Então, quando lemos poesia devemos interrogar menos “Que é isto?” e mais “Que significa isto?” Poemas querem abrir – ou até construir – um mundo de significado. Normalmente, neste mundo, encontramos bastante metáforas, linguagem indireta, repetições e exageros. Tudo isso não é diferente com a poesia hebraica. A forma literária mais utilizada neste grupo de textos é o parallelismus membrorum (paralelismo das partes). Os poetas do Antigo Israel criaram textos que vivem de diferencas sutis no significado de palavras ou de expressões. É um processo semântico onde uma linha expressa uma

88

de palavras ou de expressões. É um processo semântico onde uma linha expressa uma 88 Introdução

Introdução ao Antigo Testamento

de palavras ou de expressões. É um processo semântico onde uma linha expressa uma 88 Introdução

ideia e a linha seguinte a mesma coisa, mas com palavras diferentes.

A linha A é secundada da linha B. Podemos observar três tipos gerais

de paralelismo:

• Paralelismo sinônimo: a mesma ideia é repetida em ambas as linhas (Sl 33,10-11):

O SENHOR desfaz o conselho dos gentios, quebranta os

intentos dos povos.

O

conselho do SENHOR permanece para sempre; os intentos

do

seu coração de geração em geração.

• Paralelismo antitético: a segunda linha contrasta o que é dito na primeira linha (Sl 30,5):

Porque a sua ira dura só um momento; no seu favor está a vida.

O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.

• Paralelismo sintético: aqui podemos colocar todos os versículos

em que a segunda linha nem repete nem contrasta a primeira. Relações possíveis seriam explicação ou intensificação. Só quando lidos como síntese estas linhas fazem bom sentido.

Obviamente, não é possível pressionar cada frase da poesia bíblica a este sistema. E poesia hebraica também é muito mais do que

). A linguagem é

sempre mais complicada para que nós não possamos apenas estudar

o significado das palavras. Assim adicional, podemos observar os seguintes aspectos da poesia hebraica:

• Concisão: as frases muitas vezes parecem ser muito curtas, mesmo faltando palavras que seriam gramaticalmente ou semanticamente necessárias. (Sl 12,3: O SENHOR cortará todos os lábios lisonjeiros, a língua que fala soberbamente.);

• Paralelismo gramatical (de palavras individuais ou de unidades sintáticas);

“arquétipos de pensamento” (sinonímia, antinomia

• Paralelismo fonológico (algumas linhas jogam com o som das palavras; Sl 32,1 – é claro que você só ouve na leitura em hebraico:

Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada (nesui), e cujo pecado é coberto (kesui).);

• Utilização de pares de palavras: homem/mulher, céu/terra,

fidelidade/verdade, acordar/dormir

SENHOR; mas a terra a deu aos filhos dos homens.);

• Ritmo, mas esta é uma característica bastante difícil e muito variável (algo somente visto no original hebraico);

• Linguagem figurada: já temos observado isso quando refletindo sobre poesia em geral. Frequentemente não podemos entender literalmente (Is 55,12: Os montes e os outeiros romperão em cântico diante de vós, e todas as árvores do campo baterão palmas.).

Por que isso é importante para nós? Bem, basicamente você não pode ler a poesia como outros textos não-poéticos. Muitas vezes, uma leitura literalmente não faz sentido – e não deve nos assustar. Como sempre: não é tão importante interpretar a Bíblia literalmente, mas interpretá-la corretamente! A consciência de suas características literárias ajuda muito a evitar muitas armadilhas exegéticas.

(Sl 115,16: Os céus são os céus do

Saltério – um livro!

Dentro do cânon, os Salmos ocupa uma posição especial. Neste livro, diferentes linhas do Antigo Testamento são juntadas. Aqui, há retrospecção da história de Israel (Sl 78, 106 e outras), há elementos proféticos (Sl 50 e em outros lugares), e textos de sabedoria (Sl 1, 49 e outras). O saltério combina o que em outras partes do cânon fica para si.

O saltério guia o leitor na oração, um caminho de lamento a louvor. No início do livro superam os salmos de lamento, mas no final todo mundo se junta no louvor a Deus. Este é o caminho por onde cada salmo de lamento quer levar o orador. Também é a linha principal que atravessa todo o livro. Como um “livro de orações da Bíblia”, o saltério é indispensável para a igreja do Novo Testamento. Ele nos ensina como podemos falar com Deus e nos mostra Deus como o todo-poderoso é misericordioso, um Deus que se volta a nós em cada necessidade. Só ele merece toda honra.

90

um Deus que se volta a nós em cada necessidade. Só ele merece toda honra. 90

Introdução ao Antigo Testamento

um Deus que se volta a nós em cada necessidade. Só ele merece toda honra. 90
O Livro dos Salmos é na verdade uma coleção de diferentes tipos de poesia, que

O Livro dos Salmos é na verdade uma coleção de diferentes tipos de poesia, que abrange muitos séculos de história (de 1100 a.C., os Sl 29 e 68, a c. 400 aC, o Sl 119), e atinge – essencialmente – a sua forma atual em torno de 300 a.C. Esta forma atual é uma unidade ou só uma coleção arbitrária de textos independentes? Podemos reconhecer várias características diferentes de formação, mas estes estruturam o livro apenas em parte, não o livro inteiro. A mais óbvia é a divisão dos

150 Salmos em cinco livros. No final de cada livro tem uma doxologia breve. 1 Através destas cinco partes do Saltério é formalmente criada em paralelo o Pentateuco. No entanto, não podemos determinar uma correlação mais extensa ou profunda. Para concluir, quero enfatizar que o saltério é realmente um livro. Podemos descobrir muitos grupos de Salmos que são compostos deliberadamente juntos. Um exemplo:

Sl 26-32 começa com três salmos de pedido (26-28) que correspondem aos três salmos de agradecimento (30-32). No centro Sl 29 celebra Deus como um rei que salva o seu povo.

Os Gêneros dos Salmos 2

Após um período de focalizar o contexto histórico do texto bíblico, no início do século XX, estudiosos da Bíblia concentrarão sua atenção sobre o próprio texto bíblico. Um dos primeiros e mais importantes desenvolvimentos que surgiram a partir dessa mudança foi o reconhecimento de que muitos dos Salmos têm padrões recorrentes de estrutura, o fluxo do pensamento, e até temas e técnicas de composição. A partir deste reconhecimento, os acadêmicos desenvolveram um campo de estudo chamado de “método histórico- formal” ou “análise das formas”.

histórico- formal” ou “análise das formas”. 1 Erich Zenger, Introdução ao Antigo Testamento

1 Erich Zenger, Introdução ao Antigo Testamento (Edições Loyola, 2003), 314. 2 Aprendi muito de http://www.crivoice.org/psalmgenre.html, 01/10/09

92

2003), 314. 2 Aprendi muito de http://www.crivoice.org/psalmgenre.html, 01/10/09 92 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento

2003), 314. 2 Aprendi muito de http://www.crivoice.org/psalmgenre.html, 01/10/09 92 Introdução ao Antigo Testamento

Este método de estudo começa com o entendimento de que os

aspectos de uma cultura particular que ocorrem em ocasiões repetidas

e regulares, como as práticas religiosas, tendem a assumir uma

estrutura ou formas estáveis. Podemos ver isso em quase todos cultos

de adoração, onde a sequência do culto é relativamente previsível, uma vez que muitos aspectos do culto são repetidos a cada semana. Em muitos casos, por exemplo, podemos prever com muita precisão as palavras exatas que uma certa pessoa vai usar em oração. É por isso que muitas igrejas desenvolvem uma Ordem de Culto para estruturar esses elementos recorrentes. Tendemos a responder aos estímulos que são familiares e reconhecíveis, e estes sinais comunicam para nós muito mais do que simplesmente o que as próprias palavras dizem. Eles evocam uma gama completa de pensamentos, sentimentos ou experiências, simplesmente porque são conhecidos e repetidos. Podemos até fazer piadas sobre a familiaridade de algumas dessas formas. Lembro-me de um comentário, até certo ponto verdadeiro, de um pastor que, quando chegou ao ponto de seu sermão, em que disse “em conclusão”, todo mundo sabia que isso significava apenas trinta minutos mais de

pregação!

Um dos usos mais óbvios dessas formas ocorre em orações, simplesmente porque elas são repetidas tantas vezes. Especialmente

as orações antes das refeições tendem a assumir uma qualidade ritual com as mesmas palavras ou frases usadas repetidamente. Isso não é

necessariamentenegativo,poisessarepetiçãodáestruturaparaaocasião

e fornece sinais para que as pessoas, em determinadas atividades,

saibam o que está ocorrendo e as respostas que são esperadas. Desde quando o Saltério é uma coleção de orações da comunidade de fé, não é surpreendente que encontremos nessas estruturas as repetições e os métodos convencionais de expressão. Mesmo que haja uma grande variedade nos salmos – e cada salmo tenha o direito de ser lido em uma base individual –, há também muitos aspectos que são partilhados: importantes elementos estruturais, as formas padronizadas de se referir aos problemas enfrentados pelos indivíduos ou a comunidade, e como expressar os gritos de ajuda. É esta estrutura que dá provas de que os Salmos eram parte da vida espiritual pública

do antigo Israel, bem como fornecer-nos com algumas ferramentas para compreender melhor a importância teológica dessas orações. 3 A maioria dos estudiosos da Bíblia concordam no seguinte sistema de classificação dos salmos:

• Hinos

• Louvor geral de Deus

• Salmos celebrando Deus como Rei

• Salmos de Sião (46, 48, 76, 84,87, 122)

• Salmos de Lamentação

• Individuais

• Coletivos

• Salmos de Ações de Graça (Todah)

• Individuais

• Coletivas

• Salmos reais

• Tipos menores: Salmos da Confiança, Salmos Sapienciais

Hinos - Tendem a seguir uma estrutura tríplice simples:

Tipo: Hino

• Eles abrem com uma chamada para louvar a Deus;

• A parte maior dá os motivos de louvor;

• O salmo encerra com um apelo renovado para adorar;

Salmo 117 é um exemplo:

Louvai ao SENHOR todas as nações, louvai-o todos os povos.

Porque a sua benignidade é grande para conosco, e a verdade do SENHOR dura para sempre.

Louvai ao SENHOR.

3 Usei muito de Ernest C. Lucas, A Guide to the Psalms & Wisdom Literature, Exploring the Old Testament, Volume 3 (InterVarsity Press, 2003), 1-28.

94

Literature, Exploring the Old Testament, Volume 3 (InterVarsity Press, 2003), 1-28. 94 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento

Literature, Exploring the Old Testament, Volume 3 (InterVarsity Press, 2003), 1-28. 94 Introdução ao Antigo Testamento

Sugestão

Um outro bom exemplo de Hino, seria Salmo 113 - Leia este Salmo e descubra onde suas seções começam e terminam!

A função de um Hino ou “Salmo de Louvor descritivo”

(Westermann) é a de louvar a Deus porque ele é Deus, e sabemos que Ele é porque gritamos por Ele e Ele agiu. Enquanto os Salmos de Ações de Graça começam com a libertação de Deus na história e finalizam com louvor, os hinos assumem a libertação e as ações de

Deus na história, e louvam a Deus por ser o tipo de Deus que age de determinadas maneiras.

hinos são um pouco mais distantes das ações de Deus na história e não são em resposta a qualquer experiência particular ou imediata de Deus. Enquanto eles estão solidamente assentes na compreensão de que Deus agiu no passado na vida das pessoas e da comunidade, os hinos se desenvolvem além da experiência imediata para uma estabilidade na vida que permite a reflexão sobre a natureza e o caráter de Deus como aquele que oferece e proporciona.

Os

o caráter de Deus como aquele que oferece e proporciona. Os Um livro teológico em alemão:

Um livro teológico em alemão:

“Discurso de resolução de conflitos com Deus” - Uma perspectiva para ver os Salmos.

Salmos de Lamentação

Consistem no maior grupo no saltério. Mais ou menos uma terceira parte dos salmos pertence a este tipo. Eles expressam a reação do autor a Deus quando enfrenta uma situação de necessidade ou aflição. Sua estrutura é relativamente flexível: nem todos os elementos aparecem em todos os salmos e nem sempre na mesma sequência.

Tipo: Salmo de Lamentação

• Endereço a Deus, Invocação;

• Reclamação a Deus (descrição do problema: uma crise de

qualquer tipo; em salmos penitenciais é o pecado; uma reivindicação

de inocência; uma condenação do “mau” ou do “inimigo”;

Afirmação de Confiança (“Mas, quanto a mim” ou “Não

obstante”; isto, às vezes, é o ponto de viragem do salmo);

Petição (para a intervenção de Deus; muitas vezes usa-se a expressão “salvar” ou “entregar”);

• Aviso de Resposta (voto de louvor, de adoração);

• Exclamação de louvor.

Um bom exemplo deste tipo é Sl 54 (lamentação individual): 1. Salva-me, ó Deus, pelo
Um bom exemplo deste tipo é Sl 54 (lamentação individual):
1. Salva-me, ó Deus, pelo teu nome, e
Invocação de Deus
faze-me justiça pelo teu poder.
2. O Deus, ouve a minha oração, inclina
Petição
os teus ouvidos às palavras da minha boca.
3. Porque
os
estranhos
se
levantam
Reclamação
contra mim, e tiranos procuram a minha vida;
não têm posto Deus perante os seus olhos.
4. Eis que Deus é o meu ajudador, o
Afirmação de
confiança
Senhor está com aqueles que sustêm a minha
alma.
Chamada de
5. 5 Ele recompensará com o mal os
Vingança
meus inimigos. Destrói-os na tua verdade.
6. Eu te oferecerei voluntariamente
Voto
sacrifícios; louvarei o teu nome, ó SENHOR,
porque é bom.
7. Pois me tem livrado de toda a angústia;
Exclamação de
Louvor
e os meus olhos viram o meu desejo sobre os
meus inimigos.
96
Introdução ao Antigo Testamento

A função de um Lamento é fornecer uma estrutura para a crise,

mágoa, tristeza ou desespero, para mover o adorador da dor à alegria, da escuridão à luz, do desespero à esperança. Esse movimento da dor

à alegria não é só uma experiência psicológica ou litúrgica, ainda que as inclua. E não é uma libertação física da crise, ainda que muitas vezes seja a antecipe. O movimento para “fora das profundezas” é profundamente espiritual.

O significado teológico de um lamento é a expressão da confiança

em Deus, mesmo na ausência de qualquer prova de que ele está ativo no

mundo. Através de uma estrutura sequencial e deliberada, o lamento se movimenta da articulação da emoção na crise à petição para que Deus intervenha, a uma afirmação de confiança em Deus mesmo que não haja a libertação imediata da crise.

Salmos de Ações de Graça - Podem ser chamados também Salmos de Todah – essa palavra hebraica significa “agradecimento”. Estes Salmos são ligados às Lamentações que quase sempre incluem um voto de agradecimento ou de um sacrifício de agradecimento. Este sacrifício é especial, pois apenas uma parte do animal é queimada no altar, o resto é levado para casa pelo adorador para fazer uma festa – um churrasco, se quiser – para os amigos e a família. Assim, todos podem juntar-se na ação de graças e louvor a Deus. Todah é um tipo de louvor oferecido a Deus para testemunhar à comunidade o que Deus fez. Este fato coloca a “ação de graças” firmemente no culto da comunidade como um sinal visível de louvor a Deus por sua graça.

da comunidade como um sinal visível de louvor a Deus por sua graça. Este tipo de

Este tipo de Salmo tem uma estrutura tríplice:

Tipo: ação de graça

Introdução que envolve o nome de Deus (Javé). Pode

incluir uma declaração da intenção de agradecer Deus e pode ser expandido por várias adições hínicas;

A seção principal é basicamente um relato da experiência do

salmista (isto pode incluir uma descrição de seu estado anterior de

angústia; uma oração de libertação, que foi proferida neste estado; uma conta do ato de Deus da libertação; uma referência para o cumprimento do seu voto);

Conclusão, incluindo muitas vezes uma exortação ao louvor a Deus.

Salmo 116 é um bom exemplo deste tipo:

1 - 2 3 - 11 12 - 19a

Introdução: invocação de Deus Relato da experiência Intenção de cumprir a promessa

19b

Exortação ao louvor.

Salmos Reais - Formam um grupo de salmos unificados por seus conteúdos, embora sejam de vários tipos. O tema revolve em torno da

relação entre Deus e o rei. Salmos 2, 18, 20, 21, 45, 72, 89, 101, 110, 132, 144 são geralmente considerados Salmos Reais. Segundo Gunkel, famoso estudioso dos salmos, a configuração original dos Salmos Reais foi a coroação do rei de Israel. Contudo, eles foram preservados

e adaptados para outros usos muito tempo depois de a monarquia

chegar ao fim. O restante de seu propósito original é óbvio e nos ajuda

a compreender algumas das características destes salmos.

Tipos menores - No grupo misto de tipos menores, encontramos tipos especializados de salmos, novamente unificados por tema. Vou mencionar apenas dois tipos que são relacionados, ambos são reflexivos

e chegam mais perto de serem tratados teológicos do que orações.

98

são reflexivos e chegam mais perto de serem tratados teológicos do que orações. 98 Introdução ao

Introdução ao Antigo Testamento

são reflexivos e chegam mais perto de serem tratados teológicos do que orações. 98 Introdução ao

Salmos Sapienciais - Os Salmos Sapienciais são assim chamados porque eles compartilham características com as tradições de sabedoria do Antigo Testamento (Jó, Provérbios, Eclesiastes) em termos de estrutura literária, vocabulário e conceitos. Eles lidam frequentemente com temas como as injustiças da vida e a justiça de Deus, a responsabilidade de escolher o caminho correto ou o modo de vida, o valor relativo das riquezas e a natureza transitória da existência humana.

Poemas da Lei - Os Poemas da Lei, que incluem o Salmo 119, são simplesmente salmos que refletem sobre o valor de viver uma vida boa pelas instruções de Deus preservada na Torá. Tematicamente, eles estão perto dos salmos de agradecimento, em que a Torá é celebrada como um dom gratuito de Deus, pela qual Ele fornece instruções para viver bem a vida no mundo que Ele criou.

instruções para viver bem a vida no mundo que Ele criou. Referências Bibliográficas Lucas, Ernest C.

Referências Bibliográficas

Lucas, Ernest C. A Guide to the Psalms & Wisdom Literature. Exploring the Old Testament, Volume 3. InterVarsity Press, 2003.

Zenger, Erich. Introdução ao Antigo Testamento. Edições Loyola,

2003.

Anotações 100 Introdução ao Antigo Testamento

Anotações

100

Anotações 100 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento

Anotações 100 Introdução ao Antigo Testamento

Introdução ao Antigo Testamento Unidade - 12 Os livros poéticos - 2 Teologia de Salmos e Cântico dos Cânticos