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BRAUDEL, Fernand.

Civilização material, economia e capitalismo:


séculos XV - XVIII. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

Capítulo 1

OS INSTRUMENTOS DA TROCA

A economia, à primeira vista, consiste em duas enormes zonas: a produção,


o consumo. Aqui tudo acaba e se destrói, ali tudo começa e recomeça. “ Uma so­
ciedade” , escreveu Marx1, “ não pode parar de produzir, tal como não pode pa­
rar de consumir.” Verdade banal. Proudhon diz quase a mesma coisa quando afirma
que trabalhar e comer são a única finalidade aparente do homem. Mas entre esses
dois universos se insinua um terceiro, estreito mas vivaz como um rio, também
reconhecível à primeira vista: a troca ou, se se preferir, a economia de mercado
— imperfeita, descontínua, mas já coerciva durante os séculos que este livro estu­
da, e seguramente revolucionária. Num conjunto que tende obstinadamente para
um equilíbrio rotineiro e só sai dele para a ele voltar, é a zona da mudança e das
inovações. Marx a denomina esfera da circulação2, expressão que me obstino em
achar feliz. Por certo, a palavra circulação, vinda da fisiologia para a economia3,
abarca muitas coisas ao mesmo tempo. Segundo G. Schelle4, o editor das obras
completas de Turgot, este teria pensado em elaborar um Tratado da circulação em
que falaria dos bancos, do sistema de Law, do crédito, do câmbio e do comércio,
enfim, do luxo, isto é, de quase toda a economia tal como era então entendida.
Mas não terá a expressão economia de mercado hoje assumido também um senti­
do mais amplo que ultrapassa infinitamente a simples noção de circulação e de
troca?5

11
Os instrumentos da troca

Três universos, portanto. No primeiro tomo desta obra, destacamos o consu­


mo. Nos capítulos que se seguem, abordaremos a circulação. Os difíceis problemas
da produção virão em último lugar6. Não que se possa contestar Marx e Proudhon
dizendo que não são essenciais/'Mas, para o observador retrospectivo que é o his­
toriador, é difícil começar pela produção, domínio confuso, de árdua delimitação
i e ainda insuficientemente inventariado. A circulação, pelo contrário, tem a vanta­
gem de ser de fácil observação. Tudo nela é agitação e lhe assinala os movimentos.
O ruído das feiras chega distintamente a nossos ouvidos .^Não é exagero dizer que
posso avistar os negociantes, mercadores e vendedores, na praça do Rialto, em Ve­
neza, por volta de 1530, da própria janela da casa de Aretino, que com prazer con­
templa esse espetáculo cotidiano7; posso entrar, por volta de 1688 e até antes, na
Bolsa de Amsterdam sem me perder, diria mesmo que posso jogar lá sem cometer
erros. Georges Gurvitch objetar-me-ia imediatamente que o facilmente observável
corre o risco de ser o que não conta ou o secundário. Não estou tão certo disso
como ele e não creio que Turgot, às voltas com toda a economia do seu tempo,
possa ter-se enganado de todo ao privilegiar a circulação. E, se a gênese do capita­
lismo está estritamente ligada à troca, pode-se desprezá-la? Enfim, a produção é
a divisão do trabalho e, portanto, obrigatoriamente, a condenação dos homens à
troca.
Aliás, quem pensaria realmente em minimizar o papel do mercado? Mesmo
elementar, é o lugar predileto da oferta e da procura, do recurso a outrem, sem
o que não haveria economia no sentido comum da palavra, mas apenas uma vida
“ encerrada” (o inglês diz embedded) na auto-suficiência ou na não-economia. O
mercado é uma libertação, uma abertura, o acesso a outro mundo. É vir à tona.
A atividade dos homens, os excedentes que eles trocam passam aos poucos por essa
brecha estreita com tanta dificuldade, no princípio, como o camelo da Escritura
pelo buraco da agulha. Depois os buracos se alargaram, se multiplicaram, tornando-
se a sociedade, no fim do caminho, uma “ sociedade de mercado generalizado” 8.
No fim do caminho, portanto tardiamente, e nunca, conforme as diversas regiões,
na mesma data nem da mesma maneira. Não há, portanto, história simples e linear
do desenvolvimento dos mercados. Nesse ponto o tradicional, o arcaico, o moder­
no, o moderníssimo estão lado a lado. Ainda hoje. E certo que é fácil conseguir
reunir imagens significativas, mas não é fácil, mesmo no que se refere à Europa,
caso privilegiado, situá-las com exatidão relativamente umas às outras.
Virá esta dificuldade, de certo modo insinuante, também do fato de o nosso
campo de observação, do século XV ao XVIII, ser ainda um tempo insuficiente?
O campo de observação ideal deveria estender-se a todos os mercados do mundo,
desde as origens até os nossos dias. Foi o imenso domínio já debatido pela paixão
iconoclasta de Karl Polanyi9. Mas englobar numa mesma explicação os pseudomer-
cados da Babilônia antiga, os circuitos de troca dos primitivos das ilhas Trobriand
de hoje e os mercados da Europa medieval e pré-industrial, será isso possível? Não
estou plenamente convencido disso.
Seja como for, não vamos, de início, encerrar-nos em explicações gerais. Co­
meçaremos por descrever. Primeiro a Europa, testemunho essencial que conhece­
mos melhor do que os outros. Depois a não-Europa, pois nenhuma descrição nos
levaria a um princípio de explicação válido se não desse efetivamente a volta ao
mundo.
12
Veneza, ponte de Rialto. Quadro de Carpaccio, 1494.
(Veneza, Academia, clichê Giraudon.)

13
A EUROPA: AS ENGRENAGENS NO
LIMITE INFERIOR DAS TROCAS

Assim, em primeiro lugar, a Europa. Mesmo antes do século XV, ela elimina­
ra as formas mais arcaicas da troca. Os preços que conhecemos ou de cuja existên­
cia suspeitamos são, já no século XII, preços que flutuam10, prova da instalação
de mercados já “ modernos” capazes de, ocasionalmente, ligados uns com os ou-

1. PRECOCIDADE DAS FLUTUAÇÕES DE PREÇOS NA INGLATERRA

Segundo D. L. Farmer, “Some Prices Fluctuations in Angevin England” in The Economic History Review, 1956-1957,
p. 39. Note-se a subida concomitante dos preços dos diversos cereais por causa das más colheitas do ano de 1201.

tros, esboçar sistemas, ligações de cidade com cidade. Com efeito, praticamente
só os burgos e as cidades têm feiras locais. Raríssimas, algumas feiras de aldeia11
ainda existem no século XV, mas em quantidade insignificante. A cidade do Oci­
dente sorveu tudo, submeteu tudo à sua lei, às suas exigências, aos seus controles.
A feira tornou-se uma das suas engrenagens12.

Feiras regulares,
como hoje

Sob sua forma elementar, as feiras ainda hoje existem. Pelo menos vão sobre­
vivendo e, em dias fixos, ante nossos olhos, reconstituem-se nos locais habituais
de nossas cidades, com suas desordens, sua afluência, seus pregões, seus odores
violentos e o frescor de seus gêneros. Antigamente eram quase iguais: algumas ban­
cas, um toldo contra a chuva, um lugar numerado para cada vendedor13, fixado
de antemão, devidamente registrado e que é necessário pagar conforme as exigên­
cias das autoridades ou dos proprietários; uma multidão de compradores e uma
profusão de biscateiros, proletariado difuso e ativo: debulhadoras de ervilhas que
14
Os instrumentos da troca
têm fama de mexeriqueiras inveteradas, esfoladores de rãs (que chegam a Gene­
bra14 e a Paris15 em carretos inteiros, de mula), carregadores, varredores, carro­
ceiros, vendedores e vendedoras ambulantes, fiscais severos que transmitem de pais
para filhos seu mísero ofício, mercadores varejistas e, reconhecíveis pelas roupas,
camponeses e camponesas, burguesas em busca de algo para comprar, criadas que
são hábeis em passar a perna (dizem os ricos) nos patrões quanto ao preço (“ ferrar
a mula” , dizia-se então)16, padeiros que vão à feira vender grandes pães, açouguei­
ros com suas várias bancas atravancando ruas e praças, atacadistas (mercadores
de peixe, de queijo ou de manteiga por atacado)17, coletores de taxas... E depois,
expostas por toda a parte, as mercadorias, barras de manteiga, montes de legumes,
pilhas de queijos, de frutas, de peixes ainda pingando, de caça, carnes que o açou­
gueiro corta na hora, livros que não foram vendidos e cujas folhas impressas ser­
vem para embrulhar as mercadorias18. Dos campos chegam ainda a palha, a lenha,
o feno, a lã, até o cânhamo, o linho e mesmo tecidos dos teares de aldeia.
Se este mercado elementar, igual a si próprio, se mantém através dos séculos
é certamente porque, em sua simplicidade robusta, é imbatível, dado o frescor dos
gêneros perecíveis que fornece, trazidos diretamente das hortas e dos campos das
cercanias. Dados também seus preços baixos, pois esse mercado elementar, onde
se vende sobretudo “ sem intermediários” 19, é a forma mais direta, mais transpa­
rente de troca, a mais bem vigiada, protegida contra embustes. A mais justa? O
Livre des métiers de Boileau (redigido por volta de 1270)20 o diz insistentemente:
“ Pois há razões para que os gêneros cheguem à feira e aí se veja se são bons e leais
ou não [...] porque nas coisas [...] vendidas em plena feira todos podem tomar par­
te, o pobre e o rico.” * Segundo uma expressão alemã, é o comércio de mão na
mão, olhos nos olhos (HandAn-Hand, Auge-in-Auge Handel)21, a troca imediata:
o que se vende, vende-se sem demora, o que se compra, leva-se logo e paga-se no
mesmo instante; o crédito é pouco utilizado, e só de uma feira para outra22. Este
antiqüíssimo tipo de troca já era praticado em Pompéia, em Óstia ou em Timgad,
a Romana, e séculos, milênios antes: a Grécia antiga teve suas feiras; havia feiras
na China clássica, bem como no Egito faraônico, na Babilônia, onde a troca foi
tão precoce23. Os europeus descreveram o esplendor colorido e a organização da
feira “ de Tlalteco que fica perto de Tenochtitlan” (México)24 e as feiras “ regula­
mentadas e policiadas” da África Negra, cuja ordem os impressionou favoravel­
mente, a despeito da exigüidade das trocas25. Na Etiópia, a origem das feiras perde-
se na noite dos tempos26.

Cidades
e feiras.

As feiras urbanas são realizadas geralmente uma ou duas vezes por semana.
Para abastecê-las, é necessário que o campo tenha tempo de produzir e de reunir
os gêneros e possa dispensar uma parte da sua mão-de-obra para a venda (confiada
* É saboroso o arcaico do original: “ Quar il est resons que les denrées viegnent en plein marchié
et illuec soient vues si elles sont bonnes et loyaux ou non [...] car aux choses [...] vendues en plein mar­
chié, tous pueent avoir part, et poure et riche.” (N.T.)

15
Os instrumentos da troca
de preferência às mulheres). É verdade que nas grandes cidades as feiras tendem
a ser diárias, como em Paris, onde, em princípio (e muitas vezes de fato), só deve­
riam realizar-se às quartas e aos sábados27. Seja como for, intermitentes ou contí­
nuos, esses mercados elementares entre campo e cidade, pelo seu número e incan­
sável repetição, representam a mais volumosa de todas as trocas conhecidas, como
observou Adam Smith. Por isso as autoridades urbanas empenharam-se em sua or­
ganização e vigilância: para elas, é uma questão vital. Ora, são autoridades próxi­
mas, prontas para punir, para regulamentar, que vigiam rigorosamente os preços?
Na Sicília, se um vendedor exigir um preço superior em um só “ grano” à tarifa
fixada, pode até ser condenado às galés! O caso aconteceu, em 2 de julho de 1611,
em Palermo28. Em Châteaudun29, os padeiros surpreendidos em delito pela tercei­
ra vez são “ jogados brutalmente de cima de uma carroça basculante, atados como
lingüiças” . Tal prática remontava a 1417, quando Carlos de Orléans deu aos esca-
binos direito de inspeção sobre os padeiros. A comunidade conseguirá a supressão
do suplício só em 1602.
/Mas vigilâncias e repreensões não impedem a feira de se expandir, de engros­
sar ao sabor da procura, de colocar-se no centro da vida citadina. Freqüentada em
dias fixos, a feira é um centro natural da vida social. É nela que as pessoas se en­
contram, conversam, se insultam, passam das ameaças às vias de fato, é nela que
' nascem alguns incidentes, depois processos reveladores de cumplicidades, é nela que
ocorrem as pouco freqüentes intervenções da ronda, espetaculares, é certo, tpas tam­
bém prudentes30, é nela que circulam as novidades políticas e as outras,/No con­
dado de Norfolk, em 1534, na praça pública da feira de Fakenham, criticam-se em
alta^voz os atos e os projetos do rei Henrique VIII31. E em qual mercado inglês
não’poderíamos ouvir, ao longo dos anos, as palavras veementes dos pregadores?
Essa multidão sensível interessa-se por todas as causas, até pelas boas. A feira é
também -o lugar predileto dos acordos de negócios ou de família. “ Em Giffoni,
na província de Salerno, no século XV, vemos pelos registros dos notários que no
dia da feira, além da venda dos gêneros alimentícios e dos produtos do artesanato
local, nota-se uma percentagem mais elevada [do que habitualmente] de contratos
de compra e venda de terrenos, de enfiteuses, de doações, de contratos de casamen­
to, de constituições de dotes.” 32 Tudo se acelera com a feira. Até, e com toda a
lógica, o movimento das lojas. Assim, em Lancaster, na Inglaterra, no final do sé­
culo XVII, William Stout, que ali tem loja, arranja ajudantes suplementares “on
the market and fair days” 33. Trata-se decerto de uma regra geral. Contanto, evi­
dentemente, que as lojas não sejam fechadas por lei, como acontece em muitas ci­
dades nos dias de feiras locais ou regionais34.
/Basta a sabedoria dos provérbios para provar que a feira e o mercado se si­
tuam no centro de uma vida de relações. Eis alguns exemplos35: “ Tudo se vende
na feira, menos a virtude e a honra.” “ Quem compra o peixe no mar [antes de
ser pescado] arrisca-se a ficar só com o cheiro.” Se não conheces bem a arte de
. comprar ou de vender, ah, “ a feira será tua mestra” . Como na feira ninguém está
só, “ pensa em ti e pensa na feira” , isto é, nos outros. Ao homem avisado, diz um
provérbio italiano, “vaipiú avere amici in piazza che denari nella cassa”, vale mais
um amigo na praça que dinheiro no cofre. Resistir às tentações da feira é a imagem
da sensatez para o folclore do Daomé atual. “ A quem te diz ‘Vem e compra!’ farás
bem em responder: ‘Não gasto mais do que tenho.” ’3tf

16
!» ’íiííí SU1! ' 1'f|?1*fî iflin í<(ji‘n jui ,

,m! f l%~* 13» I * r - 10 mj * ,

Em Paris, a feira do pão e a feira de aves, quai des Augustins, cerca de 1670. (Paris, Carna­
valet, clichê Giraudon.)

Os mercados e feiras se multiplicam


e se especializam

Adstritos às cidades, os mercados e feiras crescem com elas. Multiplicam-se,


^explodem em espaços urbanos demasiado pequenos para os conterem. E, como
sao a modernidade em marcha, sua aceleração não aceita muito entraves: impõem
impunemente seus estorvos, seus detritos, seus tenazes ajuntamentos. A solução
seria removê-los para as portas das cidades, mais além das muralhas, para os arra­
baldes, o que muitas vezes acontece com a criação de uma nova feira, como em
Paris na praça Saint-Bernard, no faubourg Saint-Antoine (2 de março de 1643);
como (outubro de 1660) “ entre a porta Saint-Michel e o fosso da nossa cidade
de Paris, a rua Enfer e a porta Saint-Jacques” 37. Mas os pontos de encontro an­
tigos, no coração das cidades, mantêm-se; é até já bem complicado deslocá-los
ligeiramente, como em 1667, da ponte Saint-Michel para a sua extremidade38 ou,
meio século mais tarde, da rua Mouffetard para o vizinho pátio do palacete dos
Patriarcas (maio de 1718)39. O novo não expulsa o velho. E, como as muralhas
se deslocam à medida que crescem as aglomerações, as feiras sensatamente instala­
das no perímetro externo acabam ficando, um belo dia, no interior dos muros e
ali permanecem.,/
Em Paris, Parlamento, escabinos, chefe de polícia (a partir de 1667) procuram
desesperadamente contê-los dentro de justos limites. Em vão. A rua Saint-Honoré
torna-se impraticável, em 1678, por causa de uma “ feira que se estabeleceu abusi­
Os instrumentos da troca
vamente perto e diante do matadouro dos Quinze-Vingts*, à rua Saint-Honoré, onde
nos dias de feira muitas mulheres e vendedoras, tanto dos campos como da cidade,
expõem seus produtos em plena rua e estorvam a passagem, a qual deve estar sem­
pre desimpedida por ser uma das mais freqüentadas e consideráveis de Paris” 40,
Abuso evidente, mas como saná-lo? Desimpedir um lugar é obstruir outro. Quase
cinqüenta anos mais tarde, a pequena feira dos Quinze-Vingts continua no local,
uma vez que, em 28 de junho de 1714, o comissário Brussel escreve a seu superior
do Châtelet: “ Saiba Vossa Excelência que hoje recebi queixa dos burgueses da fei­
ra dos Quinze-Vingts, onde fui buscar pão, contra vendedoras de cavala que jogam
fora as entranhas das suas cavalas, o que muito incomoda pela fetidez que espa­
lham no mercado. Seria bom [...] obrigar essas mulheres a porem as tais entranhas
em cestos para depois os despejarem na carroça do lixo, como fazem as debulhado­
ras de ervilhas.” 41 Mais escandalosa ainda, por realizar-se no adro de Notre-Dame,
durante a Semana Santa, é a Feira do Toucinho, na realidade uma grande feira
onde os pobres e os menos pobres de Paris vão comprar suas provisões de presun­
tos e de tiras de toucinho. A balança do peso público é instalada bem embaixo do
pórtico da catedral. E é um empurra-empurra incrível, para ver quem pesa as com­
pras antes que as do vizinho. E sucedem-se gracejos, zombarias, furtos. Nem os
guardas, encarregados da ordem, se comportam melhor do que os outros, e os tum-
beiros do vizinho Hôtel-Dieu permitem-se facécias burlescas42. Tudo isso não im­
pede que se autorize o cavaleiro de Gramont, em 1669, a “ estabelecer uma feira
nova entre a igreja de Notre-Dame e a ilha do Palácio” . Todos os sábados há en­
garrafamentos catastróficos. Na praça, apinhada de gente, não há como abrir pas­
sagem para os cortejos religiosos ou para a carruagem da rainha43.
/Claro que, mal um espaço fica livre, as feiras se apoderam dele. Todos os in­
vernos, em Moscou, quando o Moskova gela, instalam-se sobre o gelo lojas, barra­
cas, bancas44. É a época do ano em que, com a facilidade dos transportes em tre­
nó pela neve e o congelamento ao ar livre das carnes e dos animais abatidos, há
nos mercados, na véspera do Natal e no dia seguinte, um aumento regular das
trocas45/E m Londres, durante os invernos anormalmente frios do século XVII, é
uma festa poder transportar pelo rio gelado os festejos do Carnaval que “ em toda
a Inglaterra dura desde o Natal até o dia seguinte dos Reis” . “ Barracas que são
verdadeiros botequins” , enormes quartos de boi que assam ao ar livre, o vinho da
Espanha e a aguardente atraem toda a população, às vezes até o próprio rei (13
de janeiro de 1677)46. Em janeiro e fevereiro de 1683, porém, as coisas são menos
alegres. Um frio extraordinário surpreendeu a cidade; perto da foz do Tâmisa, enor­
mes bancos de gelo ameaçam esmagar os navios imobilizados. Faltam víveres e mer­
cadorias, os preços triplicam, quadruplicam, as ruas atulhadas de neve e de gelo
ficam impraticáveis. A vida refugia-se então no rio gelado que serve de estrada pa­
ra os carros de abastecimento e para as carruagens de aluguel; mercadores, lojistas,
artesãos ali erguem barracas. Improvisa-se uma monstruosa feira que dá a medida
da força numérica na enorme capital — tão monstruosa que parece um “ mercado
enorme” , escreve uma testemunha toscana — e claro que chegam logo os “ charla­
tães, os bufões e todos os inventores de artifícios e truques para obter algum di-
* Asilo para cegos, fundado por S. Luís em 1260, que funcionou até 1780 na rua Saint-Honoré,
sendo então transferido para o faubourg Saint-Antoine. (N.T.)

18
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Feira sobre o Tâmisa em 1683. Esta gravura reproduzida no livro de Edward Robinson, The
Early English Coffee Houses, é representativa do luxo da feira que se realiza sobre as águas
geladas do rio. À esquerda, a Torre de Londres: no fundo, a Ponte de Londres. (Fototeca
A. Colin.)

nheiro” 47. E o que esta reunião anormal deixou como recordação foi uma feira
(The Fair on the Thames, 1683). Uma gravura canhestra retrata o incidente sem
nos restituir sua mescla de pitoresco48.
/ P ot toda a parte, o aumento das trocas levou as cidades a construir mercados
(halles), isto é, feiras cobertas, muitas vezes rodeados pelas feiras ao ar livre. São
1quase sempre mercados permanentes e especializados. Conhecemos inúmeros mer­
cados de tecidos49. Mesmo uma cidade média como Carpentras tem o seu50. Bar­
celona instalou a sua ala deis draps por cima da Bolsa, a Lonja5K O de Londres,
Blaçkwell Hall52, construído em 1397, reconstruído em 1558, destruído pelo fogo
em 1666, reconstruído em 1672, tem dimensões excepcionais. As vendas, por muito
tempo limitadas a alguns dias por semana, tornam-se diárias no século XVIII, e
os country clothiers contraem o hábito de ali deixar em depósito as peças que não
são vendidas para o mercado seguinte. Por volta de 1660, o mercado tinha seus
carregadores, seus empregados permanentes, toda uma organização complicada.
Mas, mesmo antes dessa expansão, a Basinghall Street, onde se ergue o complexo
edifício, é já o “ centro do bairro dos negócios” , muito mais ainda do que é, para
Veneza, o Fondaco dei Tedeschi53.
/H á, evidentemente, diferentes mercados conforme as mercadorias que abri­
gam. Assim, temos mercados do trigo (em Toulouse desde 1203)54, do vinho, de
19
Na Bretanha, o mercado do Faouèt (fim do século XVI). (Clichê Giraudon.)

couros, dc calçado, dc peles (nas cidades alemãs Kornhaüser, Pelzhaüser, Schuh-


haüser) e, mesmo em Górlitz, numa região produtora da preciosa planta tintorial,
um mercado do pastel-dos-tintureiros55.)No século XVI, os burgos e cidades da
Inglaterra vêem construir-se numerosos mercados com diversos nomes, muitas/ve-
zes custeados por um rico mercador do lugar, num rasgo de generosidade56:/Em
Amiens, no século XVII, o mercado de fios realiza-se no centro da cidade, atrás
da igreja de Saint-Firmin-en-Castillon, a dois passos do grande mercado, o merca­
do do trigo: os artesãos ali se abastecem todos os dias de fio de lã chamado de
sarjeta, “ desengordurado depois da cardadura e geralmente fiado em roca” ; trata-se
de um produto fornecido à cidade pelos fiandeiros dos campos vizinhos57. Tam­
bém as bancas dos açougueiros, próximas umas das outras num espaço coberto,
são, a bem dizer, mercados. É assim em Évreux58; é assim em Troyes, dentro de
um galpão escuro59; é assim em Veneza, onde os Beccarie, os grandes açougues
da cidade, estão reunidos, a partir de 1339, a poucos passos da praça do Rialto,
na antiga Ca’ Querini, com a rua e o canal que têm o mesmo nome de Beccarie
e a igreja de San Matteo, igreja dos açougueiros, que só será destruída no princí­
pio do século XIX60.
/a palavra halle pode, portanto, ter mais de um significado, do simples merca­
do coberto até o edifício e a organização complexa dos Halles que muito cedo cons­
tituíram o primeiro “ ventre de Paris” . A enorme instalação remonta a Filipe
Augusto61. É então que se constrói o vasto conjunto nos Champeaux, nas imedia­
ções do cemitério dos Innocents, que só será desativado muito mais tarde, em

20
Os instrumentos da troca
178662. Mas, quando da vasta recessão que ocorreu, de um modo geral, entre 1350
e 1450, houve uma evidente deterioração dos Halles. Em virtude dessa recessão,
evidentemente; mas também por causa da concorrência das lojas vizinhas. Seja co­
mo for, a crise dos Halles não é tipicamente parisiense//É patente em outras cida­
des do reino. Edifícios desativados caem em ruínas. Alguns recebem as imundícies
da vizinhança. Em Paris, o mercado dos tecelões, “ segundo as contas de 1484 a
1487, serviu pelo menos em parte de abrigo para as carretas da artilharia do
Rei” 63. São conhecidas as considerações de Roberto S. Lopez64 sobre o papel de
“ indicadores” desempenhado pelos edifícios religiosos: se sua construção se inter­
rompe, como aconteceu com a catedral de Bolonha em 1233, com a catedral de
Siena em 1265 ou com a de Santa Maria dei Fiore em Florença em 1301-1302, é
sinal de crise. Poderíamos promover os mercados, cuja história global nunca se
tentou fazer, a essa mesma dignidade de “ indicadores” ? Se sim, a recuperação,
em Paris, corresponderia aos anos de 1543-1572, mais os últimos do que os primei­
ros deste período. O edito de Francisco I (20 de setembro de 1543), registrado no
Parlamento em 11 de outubro seguinte, não passa, efetivamente, de um primeiro
gesto. Outros se seguiram. Finalidade aparente: mais embelezar Paris do que dotá-
la de um organismo poderoso. E, no entanto, o retorno a uma vida mais ativa,
o progresso da capital, a redução, após a restauração dos Halles, do número de
lojas e de pontos de venda nas imediações fazem dessa uma operação mercantil
excepcional. Seja como for, a partir do fim do século XVI, os Halles, que vestiram
roupa nova, recuperam a antiga atividade do tempo de S. Luís. Também aí houve
“ Renascimento” 65.
/Slenhuma planta dos Halles pode dar-nos uma imagem exata desse vasto con­
junto: espaços cobertos, espaços descobertos, pilares que sustentam as arcadas das
casas vizinhas, vida mercantil transbordante que, ao mesmo tempo, se aproveita
da desordem e do atravancamento e cria ambos em proveito próprio. Diz Savary
(1761)66 que esse mercado compósito não mais se modificou desde o século XVI.
Não é de crer: houve contínuos movimentos e deslocamentos internos. Mais duas
inovações no século XVIII: em 1767, o mercado de trigo é removido e reconstruído
no local do antigo palacete de Soissons; no fim do século, há reconstrução do mer­
cado de peixe de mar, do mercado de couros, e transferência do mercado de vinhos
para além da porta de Saint-Bernard. E não param de surgir projetos para organi­
zar e, já, mudar os Halles de local. Mas o enorme conjunto (50.000 m2 de terre­
no) ali permaneceu, com muita lógica/
/Em edifício coberto ficam apenas os mercados de tecidos rústicos, de tecidos
finos, de peixe salgado e de peixe fresco. Mas ao redor destas construções, colados
a elas, erguem-se ao ar livre os mercados de trigo, de farinha, de manteiga a granel,
de velas, de filaças e cordas para poços. Junto aos “ pilares” , dispostos ao redor,
alojam-se como podem adeleiros, padeiros, sapateiros e “ outros pobres mestres dos
comerciantes de Paris que têm direito de se instalar no mercado” . Contam dois
viajantes holandeses67: “ Em 1? de março [1657], vimos o Adelo que fica ao lado
dos Halles. É uma grande galeria, sustentada por pilares de pedra de cantaria, de­
baixo da qual se alojam todos os vendedores de roupas velhas. [...] Duas vezes por
semana há feira pública: é quando todos os adeleiros, entre os quais há aparente­
mente grande número de judeus, expõem suas mercadorias. A qualquer hora que
por ali se passe, é-se incomodado pelos contínuos pregões, bom capote militar! be-
21
Os instrumentos da troca
lo gibão! e pelos pormenores que contam de suas mercadorias, puxando as pessoas
para que entrem nas lojas. [...] É difícil acreditar na prodigiosa quantidade de tra­
jes e de móveis que eles têm: há alguns muito bonitos, mas é perigoso comprá-los
se não se é conhecedor, pois têm uma maravilhosa habilidade para retocar e remen­
dar o que é velho de maneira que pareça novo.” Como as lojas são mal ilumina­
das, ‘‘pensa-se ter comprado um traje preto e, quando se chega à luz, é verde ou
roxo [ou] manchado como a pele do leopardo” .
Soma de mercados colados uns aos outros, onde se amontoam detritos, águas
servidas, peixe podre, os belos Halles são também ‘‘o pior e o mais sujo dos bairros
de Paris” , confessa Piganiol de la Force (1742)68. São também a capital das dis­
cussões ruidosas e da gíria. As vendedoras, muito mais numerosas do que os ven­
dedores, dão o tom; têm fama de serem ‘‘as bocas mais grosseiras de toda a Pa­
ris” . ‘‘Ei! Ó desavergonhada! Fala aí! Ei, grande puta! És marafona dos estudan­
tes' Vai lá! Vai para o colégio de Montaigu! Não tens vergonha na cara? Carcaça
velha' Levas poucas! Desavergonhada! Safardana, estás bêbada até o gargalo.” .
É assim que falam as peixeiras do século XVII69. E, com certeza, até mais tarde.

A cidade deve
intervir

Por mais complicado, por mais peculiar que seja o mercado central de Paris,
limita-se a traduzir a complexidade e as necessidades de abastecimento de uma grande
cidade que muito cedo extravasou as proporções correntes. Como as mesmas cau­
sas produzem os mesmos efeitos, logo que Londres se desenvolve da maneira que
sabemos, a capital inglesa é invadida por mercados m últiplos e desordenados. In­
capazes de caber nos antigos espaços que lhes eram reservados, transbordam para
as ruas vizinhas, que se tornam cada uma delas uma espécie de m ercado especiali­
zado: peixe, legumes, criação, etc. No tempo de Elizabeth, atulham a cada dia mais
as ruas mais movimentadas da capital. Só o grande incêndio de 1666, The Great
Fire, permitirá um ordenamento geral. As autoridades constroem então, para de­
simpedir as ruas, grandes edifícios ao redor de amplos pátios. São, portanto, mer­
cados confinados, mas a céu aberto, alguns especializados, principalm ente de ata­
cado, outros mais diversificados.
Leadenhall, o mais extenso de todos — dizia-se que era o maior da Europa
—, é o que oferece um espetáculo comparável aos Halles de Paris. Mas com mais
ordem, sem dúvida. Leadenhall absorveu em quatro edifícios todos os mercados
que se espraiaram, antes de 1666, ao redor da sua antiga localização, os de Grace-
church Street, Cornhill, The Poultry, New Fish Street, Eastcheap. Num pátio, 100
bancas de açougueiros fornecem carne bovina; em outro, 140 são reservadas às ou­
tras carnes; em outro lugar vende-se peixe, queijo, manteiga, pregos, quinquilha­
ria... No total, ‘‘um mercado monstro, objeto de orgulho citadino e um dos gran­
des espetáculos da cidade” . Claro, a ordem de que Leadenhall era símbolo durou
pouco. Continuando a crescer, a cidade ultrapassa as soluções sensatas, volta a en­
frentar as velhas dificuldades; já em 1699, por certo mais cedo, as bancas invadem
de novo as ruas, alojam-se sob os portais das casas, vendedores espalham-se pela
cidade a despeito das proibições que atingem os mercadores ambulantes. Entre es-

22
Em Paris, a vendedora de arenque e outras peixeiras em plena ação nos Halles; em primeiro
plano, um mercador de bolinhos. Estampa anônima da época da Fronda. (Cabinet des Es­
tampes, clichê B.N.)

23
Os instrumentos da troca
ses pregoeiros da rua, os mais pitorescos são as peixeiras, com a mercadoria num
cesto que levam à cabeça. Têm má reputação, são alvo de troça e também explora­
r a s . Se o dia foi bom, é certo encontrá-las à noite no botequim. Decerto são tão
malcriadas e agressivas como as peixeiras dos Halles70. Mas voltemos a Paris.
//Para garantir seu abastecimento, Paris tem de organizar uma enorme região
ao redor da capital: o peixe e as ostras vêm de Dieppe, do Crotoy, de Saint-Valéry.
Conta um viajante (1728) que passa perto das duas cidades: “ Só se vê caça de mar
(sic).” Mas é impossível pôr a mão, acrescenta, “ nesse peixe que nos segue por to­
dos os lados [...] Levam-no todo a Paris” 71. Os queijos vêm de Meaux; a mantei­
ga, de Gournay, perto de Dieppe, ou de Isigny; os animais de abate, das feiras de
Poissy, de Sceaux e de mais longe, de Neubourg; o bom pão, de Gonesse; os legu­
mes secos, de Caudebec, na Normandia, onde há feira todos os sábados72... Daí
uma série de medidas que devem ser continuamente tomadas e modificadas. Trata-
se, no essencial, de salvaguardar a zona de abastecimento direto da cidade, de per­
mitir o exercício da atividade dos produtores, revendedores e transportadores, to­
dos atores modestos, que não param de abastecer os mercados da grande cidade.
Foi portanto afastada para além desta zona das proximidades a ação livre dos mer­
cadores profissionais. Um regulamento da polícia do Châtelet (1622) ampliou para
dez léguas o raio do círculo além do qual os mercadores podem ocupar-se do abas­
tecimento de trigo; para sete léguas a compra de gado vivo (1635); para vinte léguas
a das vitelas chamadas “ de leite” e dos porcos (1665); para quatro léguas a dos
peixes de água doce, no princípio do século XVII73; para vinte léguas as compras
de vinho por atacado74.
Há muitos outros problemas: um dos mais graves é o abastecimento de cava­
los — e de gado. Efetua-se em mercados tumultuosos que, na medida do possível,
são transferidos para a periferia ou para fora dos muros da cidade. O que virá a
ser a praça de Vosges, espaço abandonado junto de Tournelles, terá sido durante
muito tempo um mercado de cavalos75. Paris está, pois, permanentemente rodea­
da por uma coroa de feiras, quase feiras gordas. Fecha-se uma, abre-se outra no
dia seguinte com os mesmos ajuntamentos de pessoas e de animais. Numa dessas
feiras, provavelmente Saint-Victor, temos em 1667, segundo testemunhas ocula­
res76, “ mais de três mil cavalos [ao mesmo tempo] e é um prodígio haver tantos,
pois há a feira duas vezes por semana” . Na realidade, o comércio dos cavalos pe­
netra na cidade inteira: há cavalos “ novos” que vêm das províncias ou do estran­
geiro, porém mais ainda cavalos “ velhos” , isto é [...] que já serviram” , ou seja,
de segunda mão, de que “ os burgueses querem [por vezes] desfazer-se sem enviá-
los ao mercado” , donde um enxame de corretores e ferreiros que servem de inter­
mediários a serviço dos mercadores de cavalos e daqueles proprietários de cavalari­
ças. Além disso, cada bairro tem os seus alugadores de cavalos77.
Também as grandes feiras de gado são enormes ajuntamentos, em Sceaux (às
segundas-feiras) e em Poissy (às quintas), nas quatro portas da pequena cidade (por­
tas das Damas, da Ponte, de Conflans, de Paris)78. Um ativíssimo comércio de car­
ne é aí organizado por uma cadeia de “ financiadores” que adiantam nas feiras o
dinheiro das compras (e depois se fazem reembolsar), de intermediários, de bate­
dores (os griblins ou os bâtonniers) que percorrem toda a França para comprar ga­
do e, finalmente, de açougueiros, nem todos míseros varejistas: alguns chegam a
fundar dinastias burguesas79. Segundo um levantamento, todas as semanas se ven­

24
Os instrumentos da troca
dem nos mercados de Paris, arredondando os números, em 1707, 1.300 bois, 8.200
carneiros e quase 2 mil vitelas (100 mil nesse ano). Em 1707, os financiadores “ que
se apoderaram tanto do mercado de Poissy como do mercado de Sceaux queixam-
se de que negócios são fechados [fora do seu controle] nas cercanias de Paris, como
no Petit-Montreuil” 80.
Registre-se que o mercado de carne que abastece Paris se estende por grande
parte da França, tal como as zonas de onde a capital tira, regular ou irregularmen­
te, seu trigo81. ÍEssa extensão levanta o problema das estradas e das ligações — pro­
blema considerável de que é quase impossível, em poucas palavras, sequer assina­
lar as grandes linhas. O essencial é, sem dúvida, pôr a serviço do abastecimento
de Paris as vias fluviais — o Yonne, o Aube, o Marne, o Oise, que deságuam no
Sena, e o próprio Sena. Em sua travessia da cidade, este apresenta seus “ portos”
— 26 ao todo, em 1754 —, que são também espantosos e grandes mercados onde
tudo é mais em conta. Os dois mais importantes são o porto de Grève, para onde
confluem os tráficos de montante: trigo, vinho, lenha, feno (embora neste abaste­
cimento o porto das Tulherias pareça superá-lo); o porto Saint-Nicolas82, que re­
cebe as mercadorias vindas do jusante. Pela água do rio, inúmeros barcos, carrua­
gens fluviais e, já na época de Luís XIV, “bachoteurs” , pequenos barcos postos
à disposição dos clientes, espécie de fiacres fluviais83, análogos às milhares de “ gôn­
dolas” que, no Tâmisa, a montante da ponte de Londres, tanta gente prefere aos
solavancos das carruagens da cidade84,,
Por mais complexo que pareça, o caso de Paris compara-se a dez ou vinte ou­
tros casos análogos. Qualquer cidade importante exige uma zona de abastecimento
de acordo com suas dimensões. Assim, a serviço de Madrid, organiza-se no século
XVIII a mobilização abusiva da maior parte dos meios de transporte de Castela,
a ponto de quebrar toda a economia do país85. Em Lisboa, segundo Tirso de Mo-
lina (1625), tudo era maravilhosamente simples, as frutas, a neve trazida da Serra
da Estrela, os alimentos que chegavam pelo mar bonançoso: “ Os habitantes que
estão comendo, sentados à mesa, vêem as redes dos pescadores encherem-se de pei­
xes [...] capturados a suas portas.” 86 É um prazer para os olhos, diz um relato de
julho-agosto de 1633, avistar no Tejo as centenas, os milhares de barcos de pesca87.
Glutona, preguiçosa, indiferente aos tempos, a cidade comeria o mar. Mas a ima­
gem é bonita demais. Na realidade, Lisboa vive numa lida sem fim para conseguir
o trigo para o pão de cada dia. Aliás, quanto mais povoada é uma cidade, mais
aleatório se torna seu abastecimento. Veneza, já no século XV, tem de comprar
na Hungria os bois que consome88. Istambul, que no século XVI atinge talvez os
700 mil habitantes, devora os rebanhos de carneiros dos Bálcãs, o trigo do mar Ne­
gro e do Egito. Contudo, se o governo violento do Sultão não tivesse mão firme,
a enorme cidade passaria por penúrias, carestias, fomes trágicas que aliás, ao lon­
go dos anos, não lhe foram poupadas89.

O caso de
Londres

,A seu modo, o caso de Londres é exemplar. Encerra, mutatis mutandis, tudo


o que podemos evocar a propósito de metrópoles precocemente tentaculares//Mais
25
r

Em Londres, a feira de Eastcheap, em 1598, descrita por Stow (Survey of LondorV como
feira de carne. Os açougueiros moram nas casas de ambos os lados da rua, bem como aque­
les que vendem pratos prontos. (Fototeca A. Colin.)

esclarecido do que outros pela investigação histórica90) permite discernir conclu­


sões que ultrapassam o pitoresco ou o anedótico. N. S. B. Gras91 teve razão em
ver nele um exemplo típico das regras de Von Thiinen sobre a organização zonal
do espaço econômico/Uma organização que teria mesmo sido feita ao redor de
Londres um século mais cedo do que ao redor de Paris92. A zona posta a serviço
de Londres em breve tende a abarcar quase todo o espaço da produção e do co­
mércio inglês. No século XVI, de todo modo, chega à Escócia ao norte, à Mancha
ao sul, ao mar do Norte a leste, cuja navegação de cabotagem é essencial ao seu
dia-a-dia, a oeste ao País de Gales e à Cornualha. Mas nesse espaço há regiões
pouco ou mal exploradas — até insubmissas —, como Bristol e a região circundan­
te. Como em Paris (e como no esquema de Thiinen), as regiões mais afastadas es­
tão relacionadas com o comércio de gado: o País de Gales já participava nesse jo ­
go no século,XVI e muito mais tarde a Escócia, depois da união, em 1707, com
a Inglaterra.
//O coração do mercado londrino são evidentemente as regiões do Tâmisa, ter­
ras próximas, de acesso fácil, com suas vias fluviais e sua coroa de cidades-escala
(Uxbridge, Brentford, Kingston, Hampstead, Watford, St. Albans, Hertford, Croy-
don, Dartford) que trabalham com afã a serviço da capital, se ocupam em moer
o grão e exportar a farinha, em preparar o malte, em expedir víveres ou produtos
manufaturados à enorme cidade. Se dispuséssemos de sucessivas imagens desse mer­
cado “ metropolitano” , vê-lo-íamos estender-se, engordar de ano para ano, no pró­
prio ritmo de crescimento da cidade (em 1600, 250 mil habitantes no máximo; 500
mil ou até mais, em 1700)/A população global da Inglaterra não pára, por sua vez,
Os instrumentos da troca
de aumentar, porém mais devagar. Como exprimi-lo melhor do que fez uma histo­
riadora: Londres vai comer a Inglaterra, “is going to eat up England” 93? Não era
o próprio Jaime I quem dizia: “ With time England mil only be London” 94? Evi-
dent^mente, estas frases são a um só tempo exatas e inexatas. Há sub e sobreavalia-
çãOí/O que Londres devora não é apenas o interior da Inglaterra, mas também,
se assim podemos dizer, o exterior, uns 2/3 ao menos, uns 3/4 ou até uns 4/5 do
seu comércio externo95. Mas, mesmo com o reforço do tríplice apetite da Corte,
do Exército e da Marinha, Londres não devora tudo, não submete tudo à atração
irresistível dos seus capitais e dos seus preços altos. E até, sob sua influência, a pro­
dução nacional cresce, tanto nos campos ingleses como nas pequenas cidades, “ mais
distribuidoras do que consumidoras” 96. Há certa reciprocidade nos serviços
prestados J
/O que se constrói em virtude do progresso de Londres é realmente a moderni­
dade da vida inglesa. O enriquecimento dos campos próximos torna-se evidente,
aos olhos dos viajantes, com as criadas de estalagem “ que tomaríamos por damas,
tão bem vestidas andavam” , com camponeses bem vestidos, que comem pão bran­
co e não usam tamancos, como o camponês francês, e andam até a cavalo97. Mas,
em toda a sua extensão, a Inglaterra e ao longe a Escócia, o País de Gales, são
atingidos e transformados pelos tentáculos do polvo urbano98. Qualquer região que
Londres atinge tende a especializar-se, a transformar-se, a comercializar-se, em se­
tores ainda limitados, é verdade, pois entre as regiões modernizadas mantém-se mui­
tas vezes o regime rural, com seus sítios e suas culturas tradicionais/Assim, o Kent,
ao sul do Tâmisa, muito perto de Londres, vê crescer nas suas terras os pomares
e as plantações de lúpulo que abastecem a capital, mas o próprio Kent continua
o mesmo, com seus camponeses, seus trigais, seus rebanhos, seus bosques compac­
tos (covis de salteadores) e, o que não engana, a abundância de sua caça: faisões,
perdizes, tetrazes, codornízes, cercetas, patos selvagens... e essa espécie de hortula-
na inglesa, o cartaxo — “ só dá para uma dentada, mas não há nada mais
suculento” 99.
//Outro efeito da organização do mercado londrino é a ruptura (inevitável, da­
da a amplitude das tarefas) do mercado tradicional, do open market, mercado pú­
blico, transparente, que punha frente a frente o produtor-vendedor e o compra­
dor-consumidor da cidade. A distância entre ambos torna-se grande demais para
ser transposta totalmente por gente modesta. O mercador, o terceiro homem, sur­
giu há muito tempo, pelo menos desde o século XIII, na Inglaterra, entre o campo
e a cidade, particularmente para o comércio do trigoJ Pouco a pouco, formam-se
cadeias de intermediários, de um lado, entre o produtor e o grande mercador, do
outro, entre este e os revendedores, sendo que por essas cadeias passará a maior
parte do comércio de manteiga, de queijo, de produtos avícolas, de frutas, de legu­
mes, de leite... Nesse jogo, perdem-se as prescrições, hábitos e tradições, que voam
em estilhaços. Quem diria que o ventre de Londres ou o ventre de Paris iam ser
revolucionários! Bastou-lhes crescer.

27
Os instrumentos da troca
Melhor seria
contar

Estas evoluções ficariam muito mais claras para nós se dispuséssemos de nú­
meros, de balanços, de documentos “ seriais” . Ora, seria possível reuni-los em grande
número, como demonstra o mapa que extraímos do excelente trabalho de Alan Eve-
ritt (1967) relativo aos mercados ingleses e galeses de 1500 a 1640100; ou o mapa
por nós elaborado dos mercados da généralité* de Caen em 1722; ou o levantamen­
to referente ao século XVIII, fornecido por Eckart Schremmer101, dos mercados
da Baviera. Mas estes estudos, e outros, apenas abrem um caminho de pesquisa

Calculando por condado a zona média servida por cada cidade-mercado, A. Everitt obtém números que vão de mais
de 100.000 acres (isto é, 40.000 ha, sendo o acre cerca de 40 ares) no extremo Norte e no Oeste, a menos de 30.000
acres, isto é, 12.000 ha. Quanto mais povoada é uma regido, mais restrita é a área de mercado. Segundo A. Everitt,
“ The Market Town”, in The Agrarian History of England and Wales, p.p. J. Thirsk, 1967, p. 497.

* Circunscrição financeira antiga a cargo de um général conseiller de finances. (N.T.)

28
Cada cidade tem pelo menos um mercado, habitualmente vários. Aos mercados e feiras locais, há que acrescentar
as feiras regionais. Mesma referência do mapa anterior, pp. 468-473.

29
Os instrumentos da troca

Pondo de lado cinco ou seis aldeias que, excepcionalmente, conservaram seus


mercados, contam-se, na Inglaterra dos séculos XVI e XVII, 760 cidades ou burgos
com uma ou várias feiras, e 50 no País de Gales, com por volta de 800 localidades
providas de feiras regulares. Se a população total dos dois países se situa em cerca
de 5,5 milhões de habitantes, cada uma dessas localidades abrange nas suas trocas,
em média, 6 mil a 7 mil pessoas, ao passo que reúne dentro de seus limites, também
em média, mil habitantes. De modo que uma aglomeração mercantil implicaria sua
vida de trocas, por alto, entre seis e sete vezes o volume da sua própria população/
Encontramos proporções análogas na Baviera, no fim do século XVIII: conta-se
aí uma feira para cada 7.300 habitantes102. Tal coincidência não deve fazer-nos
pensar numa regularidade qualquer. As proporções variam seguramente de uma
época para outra, de uma região para outra. E ainda é preciso estar atento para
a forma como cada cálculo é feito.
Sabemos, de todo modo, que havia provavelmente mais feiras na Inglaterra
do século XIII do que na Inglaterra elisabetana, embora esta tivesse praticamente
a mesma população que a outra. Isso se explica quer por uma maior atividade, por­
tanto uma irradiação maior de cada elemento na época de Elisabeth, quer por um
sobrequipamento de mercados da Inglaterra medieval, aferrando-se os senhores,
por uma questão de honra ou por espírito do lucro, a criar mercados. Seja como
for, houve, nesse intervalo, “ mercados desaparecidos l03, decerto tão interessan­
tes como as “ aldeias desaparecidas” em torno das quais, não sem razão, a histo­
riografia recente fez tanto barulho.
Com o surto do século XVI, sobretudo depois de 1570, criam-se novos merca­
dos, ou renascem das suas cinzas, quiçá das suas sonolências. Quantas discussões
a seu respeito! Vão-se buscar velhos forais para ver quem tem, ou terá, o direito
de cobrar as taxas do mercado, quem assumirá as despesas de seu equipamento:
a lanterna, o sino, a cruz, a báscula, as lojas, as adegas ou os galpões para alugar.
E assim por diante.
/Ao mesmo tempo, em escala nacional, desenha-se uma divisão das trocas en­
tre mercados, conforme a natureza das mercadorias oferecidas, conforme as dis-
vtancias, a facilidade ou dificuldade dos acessos e dos transportes, conforme a geo­
grafia da produção assim como do consumo. Os cerca de 800 mercados urbanos
enumerados por Everitt se irradiam, em média, por um espaço de sete milhas de
diâmetro (11 km). Nas imediações dos anos de 1600, o trigo por via terrestre não
viaja mais de 10 milhas, quase sempre não vai além das 5; os bovinos deslocam-se
1por distâncias que chegam a 11 milhas; os carneiros, 40 a 70; as lãs e tecidos de
lã, de 20 a 40. Em Doncaster, no Yorkshire, um dos maiores mercados lanígeros,
os compradores do tempo de Carlos I vêm de Gainsborough (21 milhas), Lincoln
(40 milhas), Warsop (25 milhas), Pleasley (26 milhas), Blankney (50 milhas). No

Legenda referente à p. 30

4. MERCADOS E FEIRAS DA GÉNÉRALITÉ DE CAEN EM 1725


Mapa elaborado por G, Arbellot, segundo os arquivos departamentais do Calvados (C maço 1358). J. -C. Perrot apontou-
me mais seis feiras regionais (Saint-Jean-da- Vai 1, Berry 2, Mortain 1, Vassy 2) que nõo constam neste mapa. No
total, 197 feiras, a maior parte das quais dura um dia, algumas 2 ou 3 dias, a grande feira de Caen, 15 dias. No total,
223 dias de feira por ano. Quanto às feiras locais, são 85 por semana, havendo, por ano, 4.420 dias de feira. A popula­
ção da généralité está então compreendida entre 600.000 e 620.000 pessoas. A sua superfície é de cerca de 11.524 km2.
Levantamentos análogos permitiram úteis comparações através do território francês.

31
A sitiante vai à feira vender aves vivas. Ilustração de um manuscrito do British Museum
de 1598 (Eg. 1222, f. 73). (Fototeca A. Colin.)

Lincolnshire, John Hatcher de Careby vende seus carneiros em Stamford, seus bois
ou suas vacas em Newark, compra novilhos em Spilsby, peixe em Boston, vinho
em Bourne, mercadorias de luxo em Londres. Esta dispersão é significativa de uma
crescente especialização dos mercados. Das 800 cidades e burgos da Inglaterra e
do País de Gales, 300 pelo menos limitam-se a atividades exclusivas: 133, ao co­
mércio de trigo; 26, ao de malte; 6, ao de frutas; 92, ao de bovinos; 32, ao de car­
neiros; 13, ao de cavalos; 14, ao de porcos; 30, ao de peixe; 21, ao de caça e aves;
12, ao de manteiga e de queijo; mais de 30, ao comércio de lã bruta ou fiada; 27
ou mais, à venda de tecidos de lã; 11, à de produtos de couro; 8, à de linho; pelo
menos 4, à de cânhamo. Sem contar as especialidades restritas e no mínimo inespe­
radas: Wymondham limita-se às colheres e torneiras de madeira.'
Claro que a especialização dos mercados vai acentuar-se no século XVIII, e
não só na Inglaterra. Por isso, se tivéssemos a possibilidade de marcar estatistica­
mente suas etapas no resto da Europa, ficaríamos com uma espécie de mapa do
crescimento europeu que substituiria com vantagem os dados puramente descriti­
vos de que dispomos.
/Entretanto — e esta é a mais importante conclusão que se deduz da obra de
Everitt —, com o crescimento demográfico e o desenvolvimento inglês dos séculos
XVI e XVII, esse equipamento de mercados regulares revela-se inadequado, apesar
da especialização, da concentração e da considerável contribuição das grandes fei­
ras — outro instrumento tradicional de troca ao qual voltaremos104. O aumento
das trocas favorece o recurso a novos canais de circulação, mais livres e mais dire­
tos. O crescimento de Londres contribui para isso, como vimos. Daí o sucesso do
que Alan Everitt chama, na falta de melhor termo, de private market, que na reali-

32
Os instrumentos da troca
dade nada mais é senão uma forma de resolver os problemas do mercado público,
o open market, rigorosamente vigiado. Os agentes desses mercados privados são amiú­
de grandes mercadores ambulantes, até mesmo mascates, ou vendedores a domicí­
lio: vão até as cozinhas dos sítios comprar antecipadamente o trigo, a cevada, os
carneiros, a lã, as aves, as peles de coelho e de carneiro. Há, assim, uma extensão
do mercado em direção às aldeias. Muitas vezes os recém-chegados instalam-se nas
estalagens, substitutos dos mercados que começam a desempenhar importante pa­
pel. Pulam de um condado para outro, de uma cidade para outra, associando-se aqui
com um lojista, ali com um mascate ou um atacadista. Eles próprios chegam a atuar
como verdadeiros atacadistas, como intermediários de todos os gêneros, prontos tanto
a. entregar cevada aos cervejeiros dos Países Baixos como a comprar, no Báltico,
o centeio pedido em Bristol. Por vezes dois ou três se associam, para dividir os riscos. ‘
Esse recém-chegado de múltiplas caras é detestado, odiado por suas esperte­
zas, por sua intransigência e dureza, como dizem fartamente os processos que sur­
gem. Essas novas formas de troca, ajustadas a partir de um simples bilhete que com­
promete definitivamente o vendedor (que muitas vezes não sabe ler), acarretam qüi-
proquós e mesmo dramas. Mas, para o mercador que puxa seus cavalos de carga
ou vigia os embarques de cereal ao longo dos rios, o duro ofício de itinerante tem
seus encantos: atravessar a Inglaterra da Escócia à Cornualha, encontrar, de esta­
lagem em estalagem, amigos ou compadres; sentir que pertence a um mundo de
negócios inteligente e ousado — e tudo isso ganhando bem a vida. É uma revolu­
ção que passa da economia para o comportamento social. Não é por acaso, pensa
Everitt, que essas novas atividades se desenvolvem ao mesmo tempo que se afirma
o grupo político dos Independentes. No fim da guerra civil, quando os caminhos
e as estradas ficam de novo completamente abertos, por volta de 1647, Hugh Pe­
ter, um cornualhês dado a sermões, exclama: “ Oh, que feliz mudança! Ver as pes­
soas transitando de novo de Edimburgo para o Land’s End da Cornualha sem se­
rem bloqueadas em nossas próprias portas; ver as grandes estradas animadas de
novo; ouvir o carroceiro assobiando para encorajar a parelha; ver o postilhão se­
manal em seu trajeto de costume; ver as colinas alegrarem-se, os vales rirem!” 105

Verdade inglesa,
verdade européia

/ 0 private market não é apenas uma realidade da Inglaterra. Também no con­


tinente parece que o mercador recupera o gosto pela itinerância. Em Basiléia, o
sensato e ativo Andreas Ryff, que não parou, durante a segunda metade do século
XVI, de andar em todas as direções — em média trinta viagens por ano —, dizia
de si próprio: “Hab wenig Ruh gehabt, dass mich der Sattel nicht an das Hinterteil
gebrannt hat”: tive tão pouco sossego, que a sela nunca deixou de me aquecer o
traseiro106. É verdade que nem sempre é fácil, no estado da informação de que dis­
pomos, distinguir entre os feirantes que vão de feira em feira e os mercadores dese­
josos de comprar nas próprias fontes de produção. Mas é certo que, em quase toda
a Europa, o mercado público se revela ao mesmo tempo insuficiente e vigiado de­
mais e, aonde quer que nos leve a observação, desvios e vias oblíquas são ou hão
de ser utilizados.

33
A mercadora de legumes e seu burro. “Acelga fresquinha, o espinafre fresquinho. ” Madei­
ra gravada do século XVI. (Coleção Viollet.)

Uma nota do Traitéde Delamare assinala, em abril de 1693, em Paris, as frau­


des de feirantes “ que, em vez de venderem suas mercadorias nos mercados ou nas
feiras públicas, as venderam em hospedarias [...] e fora 107. Elabora além disso
um inventário minucioso de todos os meios usados pelos moleiros, padeiros, açou­
gueiros, mercadores e armazenadores abusivos ou improvisados para se abastece­
rem a menor preço e em detrimento das entregas normais às feiras108. Já por volta
de 1385, em Évreux, na Normandia, os defensores da ordem pública denunciam
os produtores e revendedores que chegam a um acordo ‘ sussurrando ao ouvido,
falando baixo por sinais, por palavras estranhas ou meias palavras” . Outra infra­
ção da regra: os revendedores vão ao encontro dos camponeses e compram-lhes
os produtos “ antes que cheguem aos Halles” 109- Também em Carpentras, no sé­
culo XVI, as “ répétières” (vendedoras de legumes) percorrem as estradas para com­
prar a preço baixo as mercadorias que estão sendo levadas às feiras110. É uma prá­
tica freqüente em todas as cidades111. O que não impede que em Londres, em ple­
no século XVIII, em abril de 1764, seja ainda denunciada como fraudulenta. O
governo, diz uma correspondência diplomática, “ deveria pelo menos tomar algum
cuidado com os murmúrios que suscita no povo a excessiva carestia das provisões
da boca; e tanto mais que os murmúrios se baseiam num abuso que pode ser justa­
mente imputado aos que governam [...] porque a principal causa dessa carestia [...]
é a avidez dos monopolizadores de que esta capital fervilha. Recentemente, puseram-
se em condições de se antecipar às feiras, correndo pelas avenidas ao encontro do
camponês e arrebatando-lhe os carregamentos dos diferentes víveres que trazem para
vender pelo preço que acham melhor...” 112- “ Perniciosa corja” , diz ainda nossa
testemunha. Mas é uma corja existente por toda a parte.
E por toda a parte também, múltiplo, abundante, perseguido em vão, o verda­
deiro contrabando zomba dos regulamentos, tanto das alfândegas quanto dos fis­
cos comunais. Os tecidos pintados das índias, o sal, o tabaco, os vinhos, o álcool
— tudo lhe serve. Em Dole, no Franco-Condado (1? de julho de 1728), “ o comércio

34
Os instrumentos da troca

das mercadorias contrabandeadas fazia-se publicamente... pois um mercador teve


a ousadia de intentar uma ação para cobrar o pagamento desse tipo de mercado­
ria” 113. ‘‘Vossa Excelência” , escreve a Desmarets um de seus agentes (o último dos
inspetores gerais do longo reinado de Luís XIV), ‘‘poderia pôr um exército em to­
da a costa da Bretanha e da Normandia que nem assim conseguiria evitar as
fraudes.” 114

Mercados e mercados:
o mercado de trabalho

O m ercado direto ou indireto, a troca m ultiform e não cessam de abalar as eco­


nom ias, mesmo as mais tranqüilas. Agitam-nas; outros dirão: vivificam-nas. De
qualquer m aneira, um belo dia, logicamente, tudo passará pelo m ercado, não ape­
nas os produtos da terra ou da indústria, mas tam bém as propriedades fundiárias,
o dinheiro, que se m ovim enta mais depressa do que qualquer outra m ercadoria,
o trabalho, o esforço dos homens, para não falar do próprio homem.
/C laro que nas cidades, vilas e aldeias sempre houve transações com casas, ter­
renos para construção, habitações, lojas ou moradias de aluguel. O interessante não
é estabelecer, com documentos na mão, que se vendem casas em Gênova no século
i XIII115 ou que, na mesma época, em Florença, alugam-se os terrenos nos quais de­
pois se constroem as casas116. O importante é ver multiplicarem-se essas trocas e
essas transações, ver delinearem-se mercados imobiliários que um belo dia revelam
surtos especulativos. É então necessário que as transações tenham atingido certo
volume. É isso que demonstram, a partir do século XVI, as variações dos aluguéis
de Paris (inclusive os das lojas): seus preços são puxados infalivelmente pelas vagas
sucessivas da conjuntura e da inflação 117//É também o que prova, por si só, um
simples pormenor: em Cesena, pequena cidade no meio das riquezas agrícolas da
Emilia, um contrato de locação de loja (17 de outubro de 1622), conservado por
acaso na Biblioteca Municipal, está estipulado num impresso prévio: basta preen­
cher os espaços em branco e depois assinar118. As especulações têm um aspecto ain­
da mais moderno: “ promotores” e clientes não datam de hoje. Em Paris, no sécu­
lo XVI, podemos seguir parcialmente especulações com a área muito tempo baldia
do Pré-aux-Clercs119, nas proximidades do Sena, ou com a área não menos baldia
de Tournelles, onde o consórcio dirigido pelo presidente Harlay, a partir de 1594,
empreende a frutuosa construção das magníficas casas da atual praça de Vosges:
elas serão a seguir alugadas às grandes famílias da nobreza120. No século XVII,
prosperam especulações ao redor do faubourg Saint-Germain e por certo em ou­
tros lugares121. Com Luís XV e Luís XVI, estando a capital coberta de canteiros
de obras, o mercado imobiliário conhece dias ainda melhores. Em agosto de 1781,
um veneziano informa um de seus correspondentes de que a bela alameda do Palais-
Royal, em Paris, foi destruída, suas árvores abatidas “nonnostante le mormora-
zioni di tutta la città” \ com efeito, o duque de Chartres tem o projeto de “ erguer
casas, ali para depois alugá-las...” 122.
Quanto às terras rurais, a evolução é a mesma: a “ terra” acaba por ser engoli­
da pelo mercado. Na Bretanha, já no fim do século XIII123, decerto em outras re-
35
Os instrumentos da troca
giões e decerto mais cedo, as senhorias são vendidas e revendidas. Dispomos, na
Europa, no tocante às vendas de terras, de séries reveladoras de preços124 e de nu­
merosas referências sobre o aumento regular delas/Por exemplo, na Espanha, em
1558, segundo um embaixador veneziano125, beni che si solevano lasciare a
otto e dieci per cento si vendono a quatro e cinque” , os bens (as terras) que habi­
tualmente eram cedidos por 8 ou 10%, isto é, 12,5 ou 10 vezes o seu rendimento,
são vendidos a 4 e 5%, isto é, 25 ou 20 vezes o seu rendimento, dobraram “ com
a abundância de dinheiro” . No século XVIII, os arrendamentos de senhorias bre­
tãs são tratados em Saint-Malo e através de seus grandes mercadores, graças a ca­
deias de intermediários que vão a Paris e à Ferme générale126./As gazetas recebem
também os anúncios de propriedades à venda127. A publicidade aqui não está atra­
sada. Em todo o caso, com ou sem publicidade, por toda a Europa a terra não
pára, mediante compras, vendas e revendas, de mudar de mãos. É óbvio que este
movimento está em toda a parte ligado à transformação econômica e social que
despoja os antigos proprietários, senhores ou camponeses, em benefício dos novos-
ricos das cidades. Já no século XIII, na Ile-de-France, multiplicam-se os “ senhores
sem terra” (a expressão é de Marc Bloch) ou os “ senhorios-cotós” , como diz Guy
Fourquin128.^
Do mercado do dinheiro, a curto e a longo prazo, voltaremos a tratar com
vagar: está no cerne do crescimento europeu, sendo significativo que não se tenha
desenvolvido em toda a parte com o mesmo ritmo e com a mesma eficácia. Univer­
sal, pelo contrário, é o aparecimento de financiadores e de redes de usurários, tan­
to os judeus ou os lombardos como os cadurcos; ou, na Baviera, os conventos que
se especializam nos empréstimos a camponeses129. Sempre que dispomos de infor­
mações, está presente a usura, com boa saúde. E é assim em todas as civilizações
do mundo.
//Em contrapartida, o mercado do dinheiro a prazo só pode existir em zonas
de economia já muito ativa. Esse mercado apresenta-se desde o século XIII na Itá­
lia, na Alemanha, nos Países Baixos. Nesses países, tudo concorre para criá-lo: a
acumulação de capitais, o comércio de longa distância, os artifícios da letra de câm­
bio, os “ títulos” de uma dívida pública que cedo foram criados, os investimentos
nas atividades artesanais e industriais ou na construção naval, ou em viagens de
navios que, aumentando desmedidamente já antes do século XV, deixam de ser pro­
priedades individuais. A seguir, o grande mercado do dinheiro se deslocará para
a Holanda. Mais tarde, para Londres.,
Mas, de todos esses mercados difusos, o mais importante, segundo a ótica des­
te livro, é o do trabalho. Deixo de lado, como Marx, o caso clássico da escravatu­
ra, destinada todavia a prolongar-se e a renascer130. O problema, para nós, é ver
como é que o homem, ou pelo menos seu trabalho, se torna mercadoria. Um espíri­
to forte, como Thomas Hobbes (1588-1679), já pode dizer que “ a energia (diría­
mos a força de trabalho) de cada indivíduo é uma mercadoria” , uma coisa que se
oferece normalmente à troca no seio da concorrência do mercado131 — contudo
esta não é uma noção muito familiar na época. Gosto desta reflexão ocasional de
um obscuro cônsul da França em Gênova, decerto um espírito atrasado em relação
ao seu tempo: “ É a primeira vez, Monsenhor, que ouço afirmar que um homem
pode ser considerado moeda.” Ricardo escreverá muito simplesmente: “ O traba­
lho, bem como todas as coisas que se podem comprar e vender...” 132

36
Os instrumentos da troca
. Mas não há dúvida: o mercado de trabalho — como realidade, se não como con­
ceito — não é uma criação da era industrial. O mercado de trabalho é aquele em que
um homem, venha de onde vier, se apresenta despojado de seus tradicionais “ meios
de produção” , supondo que alguma vez os teve: uma terra, um tear, um cavalo, uma
carroça... Ele só tem a oferecer as mãos, os braços, sua “ força de trabalho” . E, cla­
ro, sua habilidade. O homem que se aluga ou se vende desse modo passa pelo buraco
estreito do mercado e sai da economia tradicional. O fenômeno apresenta-se com
invulgar clareza no que diz respeito aos mineiros da Europa central. Por muito tem­
po, artesãos independentes, trabalhando em grupos pequenos, são forçados, nos sé­
culos XV e XVI, a passar para o controle dos mercadores, os únicos capazes de for­
necer o dinheiro necessário aos investimentos consideráveis que o equipamento das
minas profundas exige. Ei-los assalariados JA palavra decisiva é dita, em 1549, pelos
escabinos de Joachimsthal, pequena cidade mineira da Boêmia: ‘‘Um dá o dinheiro,
o outro faz o trabalho” (Der eine gibt das Geld, der andere tut die Arbeit). Que fór­
mula melhor poderíamos apresentar do confronto precoce do Capital e do Traba­
lho?133 É verdade que o salariado, depois de instituído, pode desaparecer, como
aconteceu nos vinhedos da Hungria: em Tokai com os anos de 1570, em Nagybanyn
em 1575, em Szentgyórgy Bazin em 1601, em toda a parte se restabelece a servidão
camponesa134. Mas isso é peculiar da Europa de Leste. No Ocidente, as passagens
ao salariado, fenômeno irreversível, foram muitas vezes precoces e sobretudo mais
numerosas do que se costuma dizer.
Já no século XIII, a praça de Grève, em Paris, e as vizinhas praça “ Jurée” ,
perto de Saint-Paul-des-Champs, e a praça ao lado da igreja de Saint-Gervais, “ perto
da casa da Conserve” , são os lugares habituais de contratação135. Datados de 1288
e 1290, conservaram-se curiosos contratos de trabalho para uma olaria dos arredo­
res de Piacenza, na Lombardia136. Entre 1253 e 1379, comprovam alguns documen­
tos, a zona rural portuguesa já tem assalariados137/E m 1393, em Auxerre138, na
Borgonha, os operários viticultores entram em greve (recorde-se que uma cidade
está então meio imersa na vida agrícola e que a vinha é objeto de uma espécie de
indústria)^) incidente revela-nos que todos os dias no fim da primavera, na praça
da cidade, diaristas e empregadores encontram-se ao nascer do sol, sendo os em­
pregadores muitas vezes representados por uma espécie de contramestres, os clo-
siers. É um dos primeiros mercados de trabalho que nos é dado entrever, com pro­
vas na mão. Em Hamburgo, em 1480, os Tagelöhner, trabalhadores diaristas,
dirigiam-se à Trostbrücke à procura de patrão. Já se trata de um “ transparente
mercado de trabalho” 139. No tempo de Tallemant des Réaux, “ em Avignon, os
criados de aluguel ficavam na ponte” 140. Havia outros mercados, quanto mais não
fosse nas grandes feiras, as “ de aluguel” (“ a partir de São João, de São Miguel,
de São Martinho, do Dia de Todos-os-Santos, do Natal, da Páscoa...” 141), em que
trabalhadores agrícolas, homens e mulheres, se apresentavam para o exame dos con­
tratadores (camponeses abastados ou nobres, como o senhor de Gouberville142),
como gado cujas qualidades é lícito avaliar e verificar. “ Cada povoado ou aldeia
grande da baixa Normandia, por volta de 1560, possui assim seu local de contrata­
ção que faz lembrar tanto o mercado de escravos como a feira.” 143 Em Évreux,
a feira dos burros, no dia de São João (24 de junho), é também o dia da contrata­
ção de criados144. Nas colheitas, nas vindimas, aflui de toda a parte uma mão-de-
obra supletiva contratada conforme o costume, em troca de dinheiro ou de uma
remuneração em espécies. Estamos certos de que se trata de um enorme movimen-

37
Os instrumentos da troca
to: de vez em quando uma estatística145 afirma-o vigorosamente. Ou então é uma
microobservação precisa — como junto de uma pequena cidade de Anjou, Château-
Gontier, nos séculos XVII e XVIII146 —. que mostra o pulular de “ diaristas” pa­
ra “ abater, serrar e rachar madeira; podar a vinha, vindimar; capinar, cavar, fazer
a horta [...], semear legumes; ceifar e guardar o feno; cortar o trigo, enfeixar a
palha, bater o grão, limpá-lo...” . Um relato referente a Paris147 menciona, só pa­
ra os ofícios do porto do feno, “ atracadores de barcos, carregadores, atadores, as­
sentadores, enfeixadores, tarefeiros...” . Essas listas e outras análogas fazem-nos
sonhar, porque, atrás de cada palavra, é preciso imaginar, numa sociedade urbana
ou rural, um trabalho assalariado mais ou menos duradouro. Decerto é nas zonas
rurais, onde vive a maioria da população, que devemos imaginar o essencial, em
termos numéricos, do mercado de trabalho. Outro enorme recrutamento criado pelo
desenvolvimento do Estado moderno é o dos soldados mercenários. Sabe-se onde
comprá-los, eles sabem onde vender-se: é a própria regra do mercado. Da mesma
forma, para os criados, os de copa, os de libré, com sua hierarquia precisa, cedo
começou a haver umas espécies de agências de colocação, em Paris desde o século
XIV, em Nuremberg seguramente desde 1421148-
Com o passar dos anos, os mercados de trabalho oficializam-se, suas regras
tornam-se mais claras. Le livre commode des adresses de Parispour 1692, de Abra-
ham du Pradel (pseudônimo de um certo Nicolas de Blégny), dá aos parisienses
informações deste gênero149: deseja criada? Dirija-se à rua da Vannerie, à “ agên­
cia de recomendadoras” ; encontrará um criado no Mercado Novo, um cozinheiro
“ na Grève” . Quer um “ moço de recados” ? Se é comerciante, vá à rua Quincam-
poix; cirurgião, rua dos Cordeliers; boticário, rua da Huchette; os pedreiros e ser­
ventes “ do Limousin” oferecem seus serviços na Grève; mas os sapateiros, serra­
lheiros, marceneiros, tanoeiros, arcabuzeiros, assadores e outros empregam-se por
si sós, apresentando-se nas lojas” .
No seu conjunto, é verdade que a história do salariado continua pouco conhe­
cida. Todavia, as sondagens mostram a amplitude crescente da mão-de-obra assa­
lariada. Na Inglaterra, sob os Tudor, “ está provado que [...] bem mais da metade,
até dois terços dos lares recebiam pelo menos uma parte de seus rendimentos em
forma de salários” 150. No princípio do século XVII, nas cidades hanseáticas, es­
pecialmente em Stralsund, o número dos assalariados não pára de aumentar e aca­
ba por representar cerca de 50%, pelo menos, da população151. Quanto a Paris,
às vésperas da Revolução, o número ultrapassaria 50%
Falta muito, claro, para que a evolução há tanto tempo iniciada chegue a seu
termo; falta mesmo muito. Turgot deplora-o numa observação casual: “ Não há
uma circulação do trabalho, como há uma circulação do dinheiro.” 153 Contudo,
o movimento está lançado e encaminha-se a tudo o que o futuro possa comportar,
neste campo, de mudanças, de adaptações, de sofrimentos também.
Com efeito, ninguém duvida que a passagem ao salariado, sejam quais forem
suas motivações e benefícios econômicos, é acompanhada por certa decadência so­
cial. Temos a prova disso, no século XVIII, com as inúmeras greves154 e a eviden­
te impaciência operária. Jean-Jacques Rousseau falou desses homens: “ se os qui­
serem humilhar, logo as malas estão feitas; levam seus braços e vão-se embora” 155.
Essa suscetibilidade, essa consciência social, terão elas verdadeiramente nascido com
as premissas da grande indústria? Não, sem dúvida. Na Itália, tradicionalmente,
os pintores são artesãos que trabalham em sua oficina com empregados que, muitas

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No Hungria, no século XVIII, levam um porco para o Colégio de Debrecen. (Documento
do autor.)

vezes, são os próprios filhos. Como os mercadores, mantêm livros contábeis: te­
mos os de Lorenzo Lotto, de Bassano, de Farinati, do Guerchino156. Só o dono
da loja é mercador, em contato com os clientes, de quem aceita as encomendas.
Os ajudantes, inclusive os filhos, já prontos para rebelar-se, são, quando muito,
assalariados. Isto posto, facilmente se compreendem as confidências de um pintor,
Bernardino India, ao correspondente Scipione Cibo: artistas bem colocados, Ales­
sandro Acciaioli e Baldovini, quiseram tomá-lo a seu serviço. Recusou, pois queria
conservar a liberdade e não queria abandonar os negócios próprios “per un vil sa-
lario” 157. Isso em 1590!

O mercado é um limite
que se desloca

'o mercado, na verdade, é um limite, como que uma divisão entre águas flu­
viais. Não se viverá da mesma maneira conforme se estiver de um lado ou do outro
da barreira./Estar condenado a abastecer-se unicamente na feira local é o caso, en­
tre milhares de outros, dos operários de seda de Messina158, imigrados na cidade
e prisioneiros do seu abastecimento (muito mais até do que os nobres ou os burgue­
ses, que em geral possuem terras nos arredores, uma horta, um pomar, e portanto

Legenda das páginas 40-41

Feira local em Antuérpia. Mestre anônimo do fim do século XVI. Museu Real de Belas-Artes
de Antuérpia. (Copyright A.C.L., Bruxelas.)
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