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DECISÃO NA ÓRBITA

DE PLUTÃO
Autor
HANS KNEIFEL

Tradução
AYRES CARLOS DE SOUZA

Digitalização
VITÓRIO

Revisão
ARLINDO_SAN
(De acordo, dentro do possível, com o Acordo Ortográfico válido desde 01/01/2009)
Na Terra e nos outros mundos do Império Solar os
calendários registram o final de julho do ano 3.438. Deste
modo, Perry Rhodan e seus 8.000 companheiros da Marco
Polo encontram-se já há exatamente um ano na NGC
4594, ou Gruelfin, a galáxia natal dos cappins.
Neste espaço de tempo aconteceu muita coisa —
tanto em Gruelfin como também na galáxia da
Humanidade. Enquanto em Gruelfin também caem os
últimos bastiões dos takerers, começando a se desenhar
uma era de paz para os atormentados povos estelares, o
cosmo nas proximidades do Sistema Solar está se
transformando cada vez mais na arena de uma disputa
gigantesca.
Culpado por isso é Vascalo, o takerer, que com suas
centenas de milhares de grandes naves robotizadas
(Coletores) e inúmeras unidades menores (Vassalos), está
tentando, há dias, subjugar os defensores do Sistema
Solar. Vascalo também não se deixa impressionar porque
os terranos receberam ajuda de todas as partes da Via-
Láctea, nem mesmo pelo fato de que as baixas do lado dos
invasores são especialmente elevadas.
Mesmo o desfalque que o Exército de
Pedotransferidores sofreu na lua de Saturno, Titã, quando
ele tentou tomar o Sistema Solar de surpresa, não o fez
desistir do seu plano de destruir os terranos.
E deste modo a luta entre os atacantes e os
defensores do Sistema Solar torna-se cada vez mais
encarniçada. As frotas se entrechocam — até que acontece
a “Decisão na órbita de Plutão”...

= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =
Perry Rhodan, Atlan e Ovaron — Três amigos festejam
uma despedida.
Vascalo — Chefe dos Invasores de Gruelfin.
Reginald Bell, Jullian Tifflor e Galbraith Deighton —
Os defensores do Sistema Solar.
Hachin Tsho Nashooshi — Comandante de uma Nave
de Comunicações.
Major Lefton Rapyrosa — Psicógrafo-positrônico da
Contra-Espionagem Solar.
A Proto-Mãe — O robô gigante segue o seu programa
fundamental.
1

Ovaron observou a paisagem que se estendia abaixo deles. Às costas eles


tinham as últimas fileiras de uma área de templos, construída em anfiteatro,
marcado por muitas colunas brancas e telhados arredondados. A enseada
artificial do desfiladeiro abria-se numa grande curva do rio, mais parecendo um
lago. Entre eles e a água havia muitas árvores, grandes gramados cheios de flores
e arbustos decorativos, entre os quais animais exóticos brincavam. A calma do
meio-dia cobria tudo, e só mais para trás, para além dos telhados e torres de
muitas edificações, erguiam-se para os céus as gigantescas formas prateadas das
duas astronaves, contrastando com o azul do firmamento por cima da cidade de
Ovarasch.
— Eu preciso saber — dizia Perry Rhodan baixinho — porque a ligação-
dakkar com Merceile, através de sua estação escondida no vale saca-rolhas,
deixou de funcionar. Por outro lado, nós não devíamos deixar que o medo pânico
envenene nossos últimos dias de paz e de despedida.
— O senhor tem razão, Perry — disse Ovaron. — O meu trabalho começa.
Eu vou esperar com calma as muitas pequenas disputas que certamente
aparecerão, dar um jeito de apaziguar as menores entre elas, e de resto procurar
fazer desta galáxia uma zona de paz e de calma, para um comércio sem
problemas e o intercâmbio de culturas e civilizações.
Um leve vento soprava da água.
Ele teve o efeito de uma voz distante, como um mensageiro murmurante de
um passado imenso, sobre os dois homens. Eles ouviram o leve farfalhar das
folhas. Os animais ergueram as cabeças, gritando queixosos. Uma nuvem cobriu
as cores das redondezas. De algum lugar veio um suave e baixo murmúrio, meio
abafado, como se uma multidão gigantesca louvasse um ídolo desconhecido.
— O que é isso? — perguntou Rhodan, interessado, levantando-se.
— Não tenho a menor ideia — disse Ovaron, meio sono-lento.
Eles estavam sentados sobre a pedra morna e se apoiavam nos encostos de
pedra, polidos por muitas costas, do conjunto templário. Agora, dias antes da
tencionada partida de Rhodan de volta à sua galáxia natal e para o Império Solar,
havia certamente horas disponíveis para os oito mil que tinham voado com
Rhodan, vivenciando inúmeras aventuras, nas quais eles poderiam recuperar-se
das suas fadigas. Dormir, deitar-se ao sol, deixar-se mal-acostumar pelos
ganjásicos mais que agradecidos... Os terranos gozaram aquilo como nunca. Por
esta razão e por outras semelhantes, também Ovaron e Rhodan haviam se
recolhido por curto tempo. A beleza do planeta Sikohat, que também era
chamado o Arrivanum, impressionou Rhodan.
Ele disse baixinho, e de olhos fechados:
— Estranho. Sempre que eu pude observar uma paisagem deste planeta
mais exatamente, eu tive uma sensação de um tipo muito especial.
Ovaron perguntou:
— Qual?
Então eles ouviram uma coisa bem diferente: uma exteriorização
inconfundivelmente subterrânea, um som que ficava para além de suas
experiências. Ele jamais o tinham ouvido, e também não conheciam a sua
significação. De algum modo de significação cósmica, mas mesmo assim bem
compreensível — quando se lhe conhecia a chave. Bem nas profundidades de
Sikohat alguma coisa se mexia. Um vulcão? Um rio de lava? Uma queda d'água
subterrânea? Eles não o sabiam.
— A sensação do artificial. O Arrivanum sempre me pareceu — e não
apenas a mim — como um mundo, que nada tem das paisagens pré-históricas de
um planeta normal. O senhor nunca notou isto? Tudo é cultivado, nada foi
deixado aqui ao acaso. Sikohat parece ser sem erros, totalmente superior, apesar
das capas de gelo dos polos, dos rios e das montanhas.
Ovaron abriu os olhos, perseguiu durante segundos as modificações de uma
enorme nuvem branca e disse:
— O senhor tem razão, Perry. Agora eu também o noto. Mas, ainda que
seja o caso do planeta ser artificial, ele tem tudo que um planeta “legítimo”
também tem. Calor no interior, sua aceleração de gravidade de superfície, um
envoltório de ar, uma atmosfera ligada, rotação em volta do sol e assim por
diante.
— Para máquinas pensantes, que puderam fazer desaparecer uma
microgaláxia, a criação de um mundo do tamanho de um planeta deveria ter sido
uma brincadeira de crianças, eu quis dizer.
Rhodan e Ovaron se entreolharam. Eles estavam um tanto abalados, e não
podiam dizer exatamente por que razão. Ovaron anuiu, inconfortável.
— Esses sons, ainda há pouco... o senhor sabe explicá-los, Perry?
Rhodan negou, lastimando.
Eles silenciaram novamente, recostaram-se, mas a calma parecia ter
acabado.
Depois, em intervalos, aconteceram coisas que deixaram Rhodan e Ovaron
ainda mais inquietos. Aquilo começou com os pássaros.
Inquietação...
Primeiramente foram somente alguns pássaros — bichinhos pequenos,
coloridos, luminosos, que tinham seus ninhos em arbustos em volta da arena.
Eles voaram para o alto, assustados, gritaram alto, como se cobras estivessem se
avizinhando dos seus ninhos. Aquelas pequenas bolas de penas coloridas se
transformaram em bandos de trinta ou sessenta unidades, que voavam por entre
as árvores, piando e enchendo o ar com sua gritaria.
— Sim — disse Ovaron. — Alguma coisa vai acontecer. Um
acontecimento que está fora de nossa compreensão.
Ele virou o seu rosto para Rhodan e respirou fundo. Rhodan olhou,
inseguro, para o rosto do Ganjo, depois ergueu os olhos, seguindo um bando de
pássaros. Entrementes ele se modificara drasticamente. Uma nuvem de mais de
mil bichos voava por entre as árvores, de um lado para o outro, afastando-se
finalmente na direção da água.
— Os animais foram atingidos por algum tipo de pânico — disse Rhodan.
— Nós devíamos fazer alguma coisa.
E então vieram os pássaros maiores.
Pássaros negros, azuis e amarelos, do tamanho de açores ou corvos terranos
ergueram-se dos galhos, formando pequenos grupos, aos quais se reuniam outros
grupos. Também eles estavam inquietos. Alguns dos exóticos pássaros pernaltas
corriam, gritando por entre as flores, batendo as suas asas cortadas. Um deles
tentou levantar-se do chão. Ele correu na direção dos dois homens, gritou e bateu
as asas. Depois o bicho correu declive abaixo, dando-se um impulso da parte
superior do muro de pedra, caindo em ângulo obtuso para baixo. A gritaria
emudeceu quando o pássaro, trinta metros abaixo, bateu violentamente em cima
das pedras, quebrando o pescoço. Em cima daquela pedra branca, marmórea,
formou-se uma mancha redonda de sangue. Um formidável bando de pássaros
semelhantes a pombos, passou voando por cima da arena para o leste, como se
quisesse encontrar proteção nas proximidades das espaçonaves. Rhodan ligou o
seu minicomunicador e disse:
— Chama Rhodan. Chamo o Lorde-Almirante Atlan.
Atlan respondeu segundos mais tarde. Rhodan disse:
— Preste atenção... aqui nas nossas proximidades, parece que todos os seres
viventes ficaram malucos. Está acontecendo alguma coisa que nós não
conhecemos. Vocês têm alguma medição disso, na Marco Polo?
Atlan hesitou um pouco, depois disse:
— Não, não temos medições, ao que eu saiba. Onde é que vocês estão?
— Estamos na área dos templos, exatamente entre a nave e Ovarasch, em
linha aérea, a cerca de três quilômetros de distância. Você virá nos apanhar?
— Naturalmente. Irei imediatamente.
Todos os pássaros do planeta agora pareciam estar nos ares. Eles voavam
em muitos círculos e curvas, mas era facilmente reconhecível que todos haviam
escolhido como direção geral da fuga o oeste. Pequenos animais corriam em
volta das casas e se enterravam na terra. Os habitantes saíram para as ruas,
olhavam para fora das janelas e enchiam os terraços. Havia uma insegurança
geral, que se espalhava. Vindo das naves, um planador veio pairando na direção
dos dois homens.
— Horrível! — disse Ovaron. — Novamente chateações. O que é que tudo
isso significa?
— Não sei dizer — retrucou Rhodan. — Mas dentro das naves nós
certamente estaremos seguros, aconteça o que acontecer. Será mais seguro do
que aqui nesse desfiladeiro pedregoso.
Era um planador da Marco Polo. Ele aproximou-se mais, freou, e o homem
que o pilotava parecia estar procurando alguém. Depois descobriu as duas figuras
na borda superior do anfiteatro. Figuras escuras se destacavam nitidamente
contra a luminosa claridade da pedra.
— Isso vem de dentro ou de fora? — perguntou Rhodan em voz alta.
— Com a experiência de sua longa vida, ele notava claramente que um
perigo invisível se avizinhava do planeta. Que perigo, isso nem se podia
imaginar.
— Acho antes, que do interior. Uma ameaça vinda de fora, os rastreadores
das naves teriam captado há muito tempo — disse Ovaron.
O planador chegou perto, colocou-se paralelo às pedras no ar, perto dos
degraus, e os dois homens conseguiram embarcar facilmente. Lorde-Almirante
Atlan, o homem que estava pilotando, anuiu para eles e disse baixinho:
— Certa vez em meus tempos antigos, na pré-história da Terra, eu vivenciei
um eclipse solar. Naqueles tempos os animais e as pessoas se mantiveram como
agora. Incerteza, incredulidade, velhas histórias e lendas surgiram... você está
pensando em alguma coisa determinada, Perry?
— Não. Não tenho nenhuma suspeita determinada — disse Rhodan. — Por
favor, voe devagar, e por caminhos indiretos para as naves.
— Era o que eu tinha planejado.
O planador deu meia-volta e tomou o caminho dos parques, que estavam
agrupados em torno das residências. Como um gás deslizante, a agitação se
espalhou. Ainda ninguém tinha sido dominado pelo pânico, como os animais,
ainda não.
— Não se preocupem — Atlan tentou acalmá-los. — Talvez tudo seja
apenas uma brincadeira, que nossa fantasia está se permitindo conosco. E certos
fenômenos subterrâneos não precisam ser exatamente perigosos.
Rhodan olhou atentamente para Atlan, do lado, e retrucou:
— Você acha que isto não é perigoso? Isso, entretanto, eu não creio.
O planador pairou por entre os edifícios e os templos do Arrivanum.
Ovarasch era uma sombra comprida. Todos os animais dessa zona se
encontravam agora em franco pânico, e não podia mais ser ignorado que havia
um acontecimento misterioso suspenso no ar.
— Eclipse do Sol? — perguntou Ovaron.
— Dificilmente — opinou Rhodan.
Eles não precisavam de palavras para se entenderem. Eles sabiam que
agora, nas duas grandes espaçonaves, a Poycara e a Marco Polo, começava uma
atividade febril. Os terranos tinham sido assustados pela inquietação geral do
mesmo modo que os ganjásicos de Sikohat. Mas o motivo para esta inquietação
ainda continuava pouco claro.
Atlan disse, enquanto pilotava o planador na direção das naves:
— No que você está pensando, Perry?
Rhodan ergueu os ombros. Ele tinha uma suspeita meio maluca, quase
fantástica, mas ainda não ousava dizê-lo.
— Possivelmente sob a superfície do planeta está acontecendo alguma coisa
que escapa ao nosso conhecimento. Aliás, aqui foram feitas perfurações
profundas e atividades semelhantes, Ovaron?
O Ganjo sacudiu a cabeça.
— Não, ao que eu saiba, nunca. O Arrivanum é uma espécie de santuário e
desde tempos imemoriais existem leis que proíbem escavações e mineração de
riquezas do solo. Por outro lado — eu não entendo de onde vem o material de
fissão, que alimenta o planeta com energia. Mas disso eu só tenho pouco
conhecimento. Eu conheço o Sikohat tão pouco como vocês terranos.
E como é que a Proto-Mãe entra nesse jogo? — anunciou-se o sentido-extra
de Atlan.
— Sim — disse ele, de repente. — Ovaron, talvez este seja um novo lance
de xadrez da Proto-Mãe?
Ovaron sacudiu a cabeça e gritou, agitado:
— Como já me foi comprovado muitas vezes, ela é bem-intencionada. Ela
não destruiria um planeta, que para mim é tão importante como o Sikohat!
O Lorde-Almirante disse:
— Os pensamentos de um gigantesco cérebro positrônico, de vez em
quando, são de uma lógica muito estranha. Talvez a Proto-Mãe empreende uma
coisa que somente para nós, com nossa limitada capacidade de raciocínio parece
insensato, para fazer alguma coisa num plano mais elevado, ou dar início a isto.
Lembrem-se das muitas surpresas que a Proto-Mãe já nos presenteou!
— Nisto o senhor naturalmente também tem razão, Atlan! — disse Ovaron.
Rhodan silenciou, sentado no seu assento e olhando a paisagem abaixo de
si. Agora o céu parecia escurecer, mas era apenas porque o planador entrara na
sombra da Poycara, dirigindo-se para uma grande eclusa. Atlan queria deixar
Ovaron na sua nave e depois voltar para a Marco Polo.
Um bando de pássaros gritando muito — agora eram pássaros do tamanho
de urubus, com pescoços compridos e penas coloridas — passou voando por
entre as paredes de bordo de ambas as naves. O planador voou uma curva
alongada e aproximou-se da eclusa aberta, pousou rapidamente e Ovaron saltou.
— Entre as naves existe uma ligação de vídeo — disse Rhodan. —
Naturalmente faremos troca de nossas informações, Ovaron.
— Naturalmente — disse o Ganjo.
— Até mais tarde.
O planador ergueu-se novamente e voou na direção da Marco Polo. Ele mal
modificou sua altura de voo. Quando o aparelho foi empurrado para o seu lugar
pelos robôs de serviço, e novamente ancorado, os dois homens, Rhodan e o
arcônida, ficaram parados um do lado do outro, olhando para a cidade lá
embaixo, sem antes terem se entendido sobre isto. Afinal de contas, eles aqui se
encontravam a quase dois mil metros de altura, onde o ar começava a ficar menos
denso.
Os seus olhos viram um movimento, que não se enquadrava naquela
imagem de verde e branco.
— Um obelisco... ele se movimentou, Perry? — murmurou Atlan.
— Realmente.
Atlan apontou para aquele acontecimento inconcebível.
Rhodan murmurou algumas palavras, meio assustado, meio uma
confirmação de suas suspeitas ainda não pronunciadas. Atlan perguntou, sem
virar a cabeça:
— O que é que você está dizendo?
— Eu já tinha imaginado uma coisa dessas, mas me negava a aceitar este
pensamento! — disse ele, baixinho.
Um dos muitos obeliscos de Sikohat ergueu-se dos seus fundamentos. Os
dois terranos puderam ver como largas esteiras de terra solta caíam do ar, quando
a esguia agulha de metal se ergueu absolutamente na vertical do chão, voando
muito lentamente para cima, e depois, como um dos antiquados foguetes de
grande potência, se tornava cada vez mais rápida. Sem qualquer propulsão
visível, o obelisco subia para o alto, agora já se encontrando muito acima da
cidade, tornando-se mais rápido e menor. Ele formou, naquele azul de aço do
firmamento, uma cunha comprida e refulgente, para finalmente desaparecer.
Tudo isso não levara mais que cento e cinquenta segundos.
— Vamos! — disse Rhodan. — Rápido, para a central. — Este fenômeno
tem que ser medido energeticamente.
Enquanto eles saíram da borda da eclusa para o interior da nave, tomando o
caminho da central pelos corredores e pelas rampas inclinadas, alguém deu alerta
geral. Este era um nítido sinal que a tripulação das estações de rastreamento e de
medições energéticas deviam ter feito algumas observações. Finalmente Atlan e
Rhodan chegaram à central, e receberam os relatórios.
Um dos homens apontou para a tela de vídeo de quatro metros quadrados,
que durante estes últimos dias tinha ficado ligada permanentemente. Enquanto
um homem, na frequência, de emergência, sintonizava todos os
minicomunicadores automaticamente, falando sem pausa, e chamando todos os
homens de volta da cidade para a nave, Rhodan e Atlan dirigiram-se rapidamente
para perto da tela. Ovaron estava visível. Ele tinha o olhar preocupado e até um
pouco amedrontado.
— Perry, eu acabei de receber um comunicado da Proto-Mãe.
Rhodan respondeu, rapidamente:
— Aliás, eu já contava com isso. O que foi que ela disse?
Ovaron engoliu em seco e respondeu depois:
— Foi apenas um comunicado curto. A Proto-Mãe disse que agora chegara
a hora para ele “entoar o grande choro de Morschaztas”.
Rhodan estava perplexo.
— O que?
— Estas foram as suas palavras. A Mãe-Ancestral disse-me que como
conceito, ela era idêntica com minha Proto-Célula, que no decorrer de duzentos
mil anos construiu uma grande quantidade de aparelhos adicionais, através de sua
própria decisão robótica. Ela se auto-reproduziu, como numa espécie de divisão
celular. Primeiramente duas, depois quatro, depois oito, depois dezesseis, e assim
por diante. Isso são os Coletores — ou isto são os Coletores, disse ela...
No mesmo momento ouviu-se uma voz em todos os alto-falantes. A
capacidade transmissora era tão elevada que ela se sobrepôs simplesmente a
todos os outros transmissores. Entre interferências irritantes, entre sons
ganjásicos ou terranos, cada homem que se encontrava próximo de um alto-
falante ligado, ouviu as seguintes palavras:
— Aqui fala a Proto-Mãe!
“Eu sou idêntica com a menor parte do planeta Sikohat. Porém a minha
totalidade consiste de trezentas e quarenta mil partes, do mesmo número de
Coletores. Minha missão dentro de pouco tempo estará cumprida, pois a
comutação final teve início. Nenhum poder de comando será capaz de me deter.”
E então houve um silêncio opressivo. Os terranos e a maioria dos
ganjásicos, que constantemente tinham a ver com estas noções, entenderam
muito depressa o que aqui estava sendo proclamado. E então a voz continuou:
— Eu sou a Proto-Mãe, Parte de muitas Partes.
“Eu sou a célula germinativa, o embrião, e eu estou integrada no Ovarasch.
O nome não veio de mim. Eu tenho que agir, sem tomar em consideração os
interesses de outras criaturas. Dentro de dez horas eu me dissecarei em todas as
minhas partes e realizarei o meu Programa Fundamental — isso demonstrou ser
necessário.
“Eu sou a Proto-Mãe!
“Dentro de dez horas este planeta deverá estar evacuado. Para este fim, eu
esgotarei todas as minhas possibilidades. Mas depois deste tempo decorrido, eu
terei que me dividir, para realizar o meu objetivo. Eu estou sendo chamada, e eu
irei para onde me chamam. Eu preciso fazer isso, e nada poderá me deter.”
Novamente uma pausa, como se o computador do cérebro positrônico se
intimidasse de dizer a verdade.
— Eu sou a Proto-Mãe!
“O espaço de tempo foi previamente anunciado. Todos os transmissores
para todas as direções serão ativados ao final deste comunicado. É possível
calcular-se, aritmeticamente, que todas as naves e todos os seres pensantes deste
planeta, possam pôr-se em segurança. O prazo para a fuga começa AGORA!”
A Mãe-Ancestral nada mais disse.
De repente, Rhodan ficara bem quieto. Ele verificara o porquê disso tudo.
Este planeta parecia alojar uma massa imensa de Coletores, que no decorrer dos
tempos tinham se desenvolvido a partir do proto-embrião. Com isto também
estaria explicado o enigma das muitas cavidades que haviam sido rastreadas,
quando da primeira aproximação a este planeta, de bordo da nave? Pertenciam,
nestas cavidades, na realidade aqueles Coletores, que tinham sido controlados
repetidas vezes, e que do mesmo modo se tinham esquivado destes controles,
porque outras comutações, que se sobrepunham, haviam sido executadas?
Rhodan virou-se para a tela de vídeo e disse:
— Nós terranos vamos cuidar de nossa gente, Ovaron. O senhor cuidará da
evacuação do planeta!
— Naturalmente!
Eles estavam acostumados a agir rapidamente e sem muita conversa inútil.
Cada receptor do planeta agora estava comutado a outro, e entre os muitos
hóspedes do planeta e a população propriamente muito pequena, não se
encontrava ninguém que no decorrer dos próximos dez minutos não soubesse
exatamente o que tinha a fazer. Os acontecimentos das últimas semanas e meses
tinham sido vivenciados juntos de modo tão intenso, que todos os ganjásicos se
controlaram muito rapidamente, e o pânico, que poderia ser temido, não
aconteceu. Havia um prazo, uma moratória, de dez horas.
Astronaves partiriam — sobrecarregadas naturalmente, mas mesmo assim
usadas como barcaças salvadoras...
Os ganjásicos passariam através dos transmissores, fazendo-se irradiar para
diversos planetas...
E a fina crosta do planeta de alguma maneira se dissolveria...
Daqui a dez horas...
2

Os homens em torno de Reginald Bell sabiam muito bem que suas forças
logo enfraqueceriam. Na central da Intersolar encontravam-se tripulações, nos
rostos das quais via-se claramente que há dias e semanas nada mais tinham feito
que lutar. Sono de menos, interrupções, frequentes demais, de períodos de sono,
manobras intermináveis das naves terranas — tudo isto enfraquecia os homens e
as mulheres, deixando-os com as mãos trêmulas. Muito raramente se tinha visto a
bordo de uma nave de combate terrana, tantos homens de barba por fazer, super-
cansados e reagindo cada vez mais lentamente, que agora.
— E além do mais — disse Bell, que não se sentia muito melhor — o
campo de batalha modificou-se constantemente, mudando sempre de lugar.
Entrementes Vascalo recuou outra vez para dentro do seu Coletor do tamanho de
uma lua. Ainda há pouco verificamos que a batalha estava distante quatorze
anos-luz do Sistema Solar.
Este ponto de coordenadas modificava-se constantemente.
Ele saltava para a frente e para trás, como as figuras de um jogo de xadrez
tridimensional. Parecia que Vascalo — julgavam os poucos iniciados — tinha
novamente conseguido controle de comando sobre si mesmo e o gigantesco
Coletor. Entrementes também chegavam aqui os primeiros comboios dos noventa
mil Coletores, pelos quais fora morto o comandante acônida.
Ao mesmo tempo, entretanto, também chegavam frotas de ajuda para a
Terra, orientaram-se e se submeteram às ordens e instruções de Reginald Bell.
Bell gemeu:
— Maldição... se pelo menos Rhodan estivesse aqui.
O homem que estava sentado à sua esquerda, observando concentrado as
telas de vídeo, disse como numa restrição:
— Ele agora não sabe mais o que está se passando aqui. A ligação-dakkar
para Ovaron foi destruída, desde que Titã foi atacada. É verdade que levaram
Merceile, gravemente ferida, para Tahun?
Bell disse que sim.
— Sim. Nós a mandamos ao Centro Médico da USO. Quarenta mil e
noventa mil — isso são cento e trinta mil Coletores, que em parte tem o tamanho
de uma lua. É uma sorte que eles atacam de uma só direção, e não tentam se
aproximar da Terra e do Sol de diversos ângulos de voo.
A Estação Ovaron, através da qual os takerers tinham conseguido chegar a
Titã, tinha sido destruída, pela intervenção suicida de Merceile, e com isto,
entretanto, também o transmissor-dakkar. Não houve esperanças de salvar
alguma coisa da destruição, e restabelecer novamente a ligação com a galáxia do
Sombrero. Bell não teve mais possibilidade de entrar em contato com Rhodan. A
não ser por seus amigos Tifflor e Deighton, ele podia contar apenas consigo
mesmo. E uma tarefa deste tamanho ele ainda não tivera para solucionar durante
toda a sua vida.
Bell perguntou, à frente de um microfone:
— Nós temos ligação de radiovisão com a Theseus?
— Sim. O Comandante Nashooshi já espera há minutos, Sir.
— Ótimo — disse Bell e ficou escutando, com meio-ouvido, como a
estação de rádio confirmava a intervenção de uma pesada unidade de naves
fragmentárias pos-bi. — Ligue para cá!
Ele conhecia o muito condecorado homem que servia a bordo da nave de
reconhecimento. Hachin Tsho Nashooshi tinha descoberto, entre seus antigos
ancestrais, índios Apaches, e utilizara esta descoberta para destacá-la na sua
personalidade. Em vez de uma jaqueta de uniforme ele usava um colete de couro
selvagem, cheio de franjas e mangas compridas, além de um distintivo de posto
costurado. A sua nave tinha a difícil tarefa de coletar fotos de todas as partes dos
campos de batalha, e passar ininterruptamente informações sobre o transcorrer de
luta para Bell.
Nashooshi disse:
— Sir?
— Por favor, relate! — disse Bell, insistente.
O comandante começou:
— Eu me encontro numa posição da qual tenho uma visão geral de todo o
campo de batalha. Entrementes mais ou menos um terço dos noventa mil
Coletores chegaram. Eles estão lançando, ininterruptamente, Vassalos ao espaço.
Aqui vai uma imagem.
A sua figura esguia, alta, com o longo cabelo negro, quase azulado, com o
branco cinto de couro em volta da testa — sob a qual se escondia a faixa-dakkar
— deslizou lateralmente saindo do vídeo. Apareceu uma cena do cosmo. De um
Coletor, que tinha pelo menos mil metros de tamanho, estavam sendo lançados
ao espaço Vassalos bizarros, irregulares. Eles estavam muito bem armados, e em
situação de poder atacar duramente uma nave terrana das menores. Como um
colar de pérolas, a corrente dos Vassalos abandonou o Coletor. A imagem
desapareceu.
— Assim, ou parecido, as coisas estão por toda parte. Mas, ao mesmo
tempo, estão chegando as frotas de auxílio. Elas compreendem rapidamente a
situação. O Coronel Edmond Pontonac parece ter dado instruções excepcionais.
Aqui podem ver um destaque das naves ertrusianas, em luta com os Coletores.
Novamente houve uma mudança de imagem.
Um enxame de cerca de cem naves ertrusianas, que também tinham o
formato esférico das naves terranas, atirava-se com uma raiva feroz sobre um
Coletor, do tamanho de uma lua, e de formato irregular que estava justamente
lançando os seus Vassalos ao espaço. De vez em quando gigantescos núcleos de
fogo iluminavam o espaço, ofuscando a ótica das câmeras de captação de
imagem — um dos Vassalos simplesmente evaporou sob o fogo concentrado dos
ertrusianos. Eles lutavam descansados, e com o perigo diante dos olhos, pareciam
selvagens.
— Excelente! — disse Bell. — Portanto Pontonac teve sucesso. Aliás, ele
já regressou?
— Eu não ouvi nada a respeito — retrucou o apache. — Mas a Dará
Gilgama parece que está novamente no Sistema Solar. Este comunicado
entretanto não teve ainda confirmação.
— Hachin — disse Buli — eu preciso poder confiar no senhor. Fique fora
de todos os combates com a Theseus e me informe imediatamente, se alguma
coisa de excepcional está acontecendo. Desligo.
O homem com a jaqueta de couro cru anuiu.
— Naturalmente, Sir.
A ligação foi interrompida, e a tela escureceu.
Combates encarniçados começavam por toda parte. A última avaliação
revelara que menos de quarenta mil Coletores da primeira frota tinham
sobrevivido aos ataques dos terranos. Mas estes Coletores estavam vazios, os
seus Vassalos tinham sido destruídos.
Naves pos-bi estavam chegando e se atiravam com uma atividade suicida
de robôs sobre o inimigo.
Naves da União Central Galáctica intervinham na luta.
Uma forte formação de naves acônicas tinha sido avistada. Ela não lutou no
centro dos acontecimentos, mas rodeou o campo de batalha cósmico e ali
destruiu tudo que se interpunha no seu caminho.
Uma esquadrilha de duas mil naves da Federação Galáctica Normon chegou
e reforçou uma esquadrilha, já reunida, da frota natal terrana.
Uma formação de naves dos Saltadores, com seus característicos formatos
cilíndricos, interveio na luta. Lentamente uma espécie de equilíbrio de forças
parecia tornar-se pendular.
Mas...
Cada vez mais da reserva dos noventa mil Coletores, que agora no final do
seu longo caminho do centro da galáxia até aqui tinham chegado, apareciam
saídos do espaço linear, acossando do seu lado os defensores da Terra. Mas eles
continuavam a fazer pressão contra o Sistema Solar, vindos sempre apenas de um
lado.
A luta, mais uma vez, ficou parada, ao longo de uma linha de um “front”
muito comprido.
Os canhões iniciais-doppler dos Coletores e os canhões transformadores
dos terranos e das outras raças, eram usados sem interrupção.
***
Hachin Tsho Nashooshi, o que em terrano queria dizer “homem que lança
grandes pontes”, preparou-se para a sua missão. A sua nave, a Theseus, media
apenas cem metros de diâmetro e era o resultado da penúltima série de
construção, compacta, mas supradimensionada nas partes mais importantes. A
tripulação era de apenas cento e vinte homens, dos quais quarenta somente eram
responsáveis pela transmissão das fotos e imagens captadas, trabalhando em
turnos, além de cuidarem do rádio. A central era pequena, mas muito bem
equipada, e atrás do forte escudo paratrônico, inúmeras lentes e óticas de
gigantescas distâncias focais sobressaíam com espinhos para dentro do espaço
sideral. A nave se encontrava acima do campo de batalha mas, ainda assim,
suficientemente afastada, para não ser arrastada, por acaso, nos acontecimentos
da batalha. Hachin, entretanto, sentia bem fundo na boca do seu estômago uma
certa sensação muito desagradável. Hoje, no dia 19 de julho de 3.438, a batalha
defensiva pela Terra parecia aproximar-se rapidamente no seu ponto mais alto.
Mas ainda assim.... alguma coisa ficava para além deste acontecimento... Hachin
Tsho Nashooshi preparou-se para captar fotos bem diferentes, que teria que
retransmitir, do que aquelas que todos eles conheciam.
Ele levantou-se e alisou o seu cabelo negro para trás. Lentamente dirigiu-se
para a mesa, que se encontrava no centro da central. Com nove metros quadrados
de tamanho e quadradão, ela mostrava uma imagem negra da situação no campo
de batalha. Os pontos em cores diversas correspondiam aos impulsos dos
propulsores de formatos diferentes. Os pontos nitidamente rosados eram os
Coletores e os Vassalos, e todas as outras cores pertenciam à Terra e seus aliados
de última hora.
Parecia que um monstro gigantesco, invisível, estendia uma mão
gigantesca, visível, das profundezas do cosmo, na direção do Sistema Solar. Era
somente uma questão de tempo, quando a frota dos Coletores atacaria a Terra
diretamente. Uma vez os invasores já tinham estado em perigosa proximidade do
Sistema Solar.
— Motaen! — disse Hachin, a meia-voz.
Ele apontou para as diversas constelações e para os pontos que se
movimentavam silenciosos sobre a tela de imagem.
— Sir?
— Eu acho que conheço o conceito tático desses takerers. Deveria consistir
em mandar a maior parte dos seus Coletores para o espaço linear, durante a
próxima manobra da batalha, e tentar se aproximar dali, do Sistema Solar. Por
favor, preste atenção: logo que a primeira nave desaparecer, vamos ter que
informar às estações de vigilância do Sistema Solar. Efetue imediatamente uma
ligação geral.
Motaen, o Primeiro-Oficial de Comunicações, sorriu.
— Esta ligação já existe há mais de meia hora, Sir! — disse ele.
Hachin anuiu, sério, e retrucou:
— Eu sabia que podia confiar inteiramente em meus amigos a bordo!
E então eles continuaram a filmar os acontecimentos, enviando
ininterruptamente indicações importantes para as diversas naves. A imagem que
era transmitida pelo rádio, mais frequentemente, era aquela diante da qual os dois
homens se encontravam agora.
***
A grande usina metálica estava escondida em alguma parte sob a superfície
do planeta Terra. Ela trabalhava ininterruptamente há semanas. Era um ramal
inteiramente robotizado de fabricação, que precisava de apenas dez homens na
sua tripulação. Até mesmo os comandos para as manutenções das máquinas
altamente diferençadas, consistiam de robôs especiais.
Desde a adaptação para a nova fabricação, esta fábrica produzia diariamente
um único artigo: Faixas-dakkar!
Bill Davidson, o Primeiro-Engenheiro de Controles, olhou o seu relógio e
colocou a mão sobre um pesado interruptor negro. Diante de si ele tinha as
comutações gravadas e os cronômetros ligados às mesmas, além dos
numeradores dos departamentos unitários do processo de fabricação,
inteiramente automatizado.
— Mais trinta segundos! — disse ele.
Seus nove parceiros estavam sentados diante de outros consoles, a partir
dos quais eles controlavam todas as máquinas da fábrica. No começo do processo
os metais eram trazidos do depósito, depois eles passavam pelos diversos
departamentos, nos quais eram refinados. Um bloco gigantesco, no qual podia
notar-se que havia sido feito a toda pressa, finalmente fazia a impregnação do
metal, que repelia qualquer pedotransferidor.
Depois o metal era laminado.
Ele ficava cada vez mais fino, e era enrolado em enormes tambores...
Os rolos os levavam a um aparelho de corte, que cortava as fitas estreitas,
do largo laminado metálico.
Os cantos eram trabalhados.
Finalmente a máquina perfurava orifícios e estampava os fechos. Estas
faixas — ao que todos aqui supunham — não seriam mais usadas, por muito
tempo ainda. Ao final, elas novamente voltariam ao processo de produção como
sucatas.
Finalmente uma máquina empacotava as faixas-dakkar numa caixa de mil
unidades, que levava uma marca correspondente e que imediatamente era levada
ao departamento de distribuição. Dali as faixas seriam transportadas para os mais
distantes territórios da Terra e até mesmo aos outros oito planetas, no que alguns
planetas, como por exemplo Mercúrio, somente precisavam de muito poucas
unidades.
— Objetivo final: “Cada habitante do Sistema Solar uma faixa!” —
observou o homem que controlava o recebimento do metal vindo do depósito de
matéria-prima.
Ele riu e desligou a sua máquina.
O seu vizinho, que atentamente observava como a última faixa era
calandrada, disse:
— Estão justamente passando os últimos metros da última faixa de minha
máquina. Atenção... terminou.
Eles tinham sido rendidos e muitas vezes tinham até caído de sono por cima
dos seus consoles. Eles sabiam que serviço estavam prestando ao Império Solar.
Bilhões de faixas tinham saído desta fábrica. Agora, depois que a última faixa
larga deixara as máquinas, o trabalho terminara.
O número de existências teóricas havia sido ultrapassado em três por cento.
— Agora!
O segundo bloco de máquinas foi desligado e o ruído distante que vinha das
pesadas máquinas de tratamento do metal ficou menor. Aquilo quase lhes
chamou muito a atenção, pois nas semanas até hoje, eles tinham se acostumado
àqueles ruídos incessantes.
Um depois do outro, os departamentos isolados da fábrica foram parados.
Quando depois de trinta minutos, a última caixa cheia de faixas-dakkar foi
levada por robôs para o transmissor, o engenheiro-chefe baixou a alavanca do
interruptor geral.
A fábrica estava energeticamente parada.
— Pronto! — disse o engenheiro.
Os homens fecharam as comutações principais das suas estantes, enfiaram
as chaves no quadro de controle e se reuniram em torno do chefe.
— E agora? — perguntou um deles.
Ele chegou a balançar de cansaço.
O engenheiro deu uma gargalhada seca, acendeu um cigarro e acabou de
tomar o café que esfriara. Depois falou:
— Nós estamos prontos, e mesmo que quiséssemos continuar trabalhando
não temos mais material. Os depósitos estão vazios, e a maioria das máquinas,
graças ao trabalho forçado que lhes exigimos, encontra-se em estado desolador.
Nós vamos entrar nos planadores, vamos para casa e durante três dias ninguém
nos verá fora de nossas caminhas. Concordam?
Ele verificou que não havia vozes discordantes.
— Vamos, então! — disse ele. — Vamos sair daqui, imediatamente! Nós
fizemos mais do que podíamos. Cada terrano agora tem sua faixa-dakkar, e se
ainda existirem algumas pessoas sem faixa, isso será culpa do departamento de
distribuição e não nossa.
Quando abandonaram o grande recinto de controle em silêncio, ele ainda
disse:
— E além disso, ainda há este ressonador-Hollbeyn. Os pedotransferidores
praticamente não têm mais qualquer chance.
Eles mesmos naturalmente também usavam faixas-dakkar.
Eles abandonaram o local de produção e voaram através da noite para suas
casas, para junto de suas famílias. A Terra, um dos nove planetas, estava
preparada, para que os gigantescos fluxos de Coletores pudessem se mostrar
também nas proximidades do planeta. Então, por toda parte, chegaria a hora do
pânico. Mas cerca da metade da população da Terra neste momento estava
dormindo.
***
No Arrivanum tinha começado a desagregação geral.
A Marco Polo já se encontrava no espaço. Depois que os obeliscos, que
podiam ser vistos por toda parte na superfície de Sikohat, tinham abandonado
seus fundamentos, uma pequena tropa, trabalhando rapidamente, ousou avançar
até um lugar e descobriu que as colunas tinham estado ancoradas num
fundamento de aço. Esta explicação afastava até mesmo as últimas dúvidas nas
considerações de Rhodan.
— Evidentemente a Proto-Mãe é apenas a célula mais antiga de um
formidável sistema de Coletores reunidos. Juntos eles formam uma esfera — o
planeta Sikohat.
Quando, finalmente, depois de dez horas, todos os habitantes do planeta,
com seus pertences mais importantes e mais valiosos, tinham sido evacuados, o
planeta se desmanchou. Fascinados, os terranos e os ganjásicos, observaram este
processo, de bordo da Poycara, que fora a última nave que partira.
Do solo aparentemente chato do planeta saíam gigantescos planos, como
em câmera lenta. Tudo que se encontrava na superfície de um Coletor foi
erguido. Com isto ruíam as edificações, desmanchavam-se os parques e com isso
morriam as flores e os animais. Água corria pelos flancos da massa metálica e
evaporava.
Um terrano disse, sacudido pelo horror:
— Um planeta grande inteiro se desmancha em trezentas e quarenta mil
partes unitárias.
A massa metálica, geralmente oca e cheia de máquinas, havia tido mais ou
menos o mesmo tamanho, a mesma aceleração de gravidade de superfície, a
mesma massa que a Terra. A gravidade mais ou menos idêntica à da Terra
demonstrava isso. O calor interno que um planeta necessitava também estivera
presente, e os técnicos a bordo da nave podiam imaginar por quanto tempo as
máquinas no interior dos Coletores tinham produzido ar, oxigênio, hidrogênio,
nitrogênio e outros gases nobres.
— Olhem só para isso!
Em muitos lugares da superfície consumava-se agora o mesmo processo.
Coletores erguiam-se para fora do solo, junto com uma ilha de verde ou
edificações, transformando tudo em ruínas. Árvores velhas enormes caíam pelos
lados, e quando os destroços metálicos eram empurrados para cima e se giravam,
surgiam largas avalanchas de pedras, húmus e areias recheadas de plantas de
todos os tipos. Fantasmagoricamente por frações de segundos curvou-se para o
alto a água de um lago, avançando com uma fúria destruidora por cima das
margens. E cheio de crostas de lama e plantas aquáticas, entre as quais
rebrilhavam os corpos prateados dos peixes à luz do sol, elevou-se um outro
Coletor das águas, subindo cada vez mais, molhado e pingando como um animal
aquático.
Uma serra de montanhas balançou, ruiu sobre si mesma, e por entre as
montanhas ergueu-se um outro objeto voador.
Tudo se processava em silêncio.
Os Coletores ficavam cada vez mais rápidos, saíram em louca disparada, e
desapareceram numa velocidade inacreditável no espaço linear. Os propulsores
começavam a trabalhar e arrancavam consigo aqueles gigantescos troços
metálicos.
Ovaron disse, através da ligação de audiovídeo:
— Perry, nós nunca quisemos acreditá-lo, mas contra todas as expectativas,
o Ovarasch é idêntico com a verdadeira Proto-Mãe, com a Proto-Célula, com o
embrião. Eu mesmo mandei construí-la e programá-la naqueles tempos, mas o
formato era outro — agora uma parte das minhas recordações está voltando.
Parecia inacreditável, mas Ovaron não tinha razão de mentir, nem a si
mesmo nem aos seus amigos. Ele mesmo sofria sob um deslocamento de
memória, ocasionado por um imprevisível impulso-chave.
Rhodan parecia pensativo, enquanto observara a autodestruição do planeta.
O planeta-arquivo dos Moritatores tinha sido destruído por bombas, pelos
takerers, tendo desaparecido em chamas. Esta autodissolução fria, quase doentia,
absolutamente organizada, tinha uma significação ainda mais dramática para
Rhodan. Ele disse baixinho:
— Eu suponho que em muitas das cavidades subterrâneas, há muitos anos,
estavam estacionados aqueles Coletores, que agora lutam com a frota de Bell, nas
proximidades da Terra.
— Isso é muito provável — achou Ovaron.
Os Coletores, que agora entravam com aceleração máxima no espaço linear,
com grande probabilidade, tinham milhões dos mais diversos Vassalos a bordo,
todos eles tão armados e equipados com propulsores potentes, como as formas
até agora conhecidas dos Coletores.
O planeta morreu em silêncio.
Quanto mais Coletores desapareciam, tanto mais verde sumia, sumia a
água, desapareciam os sinais de superfície do planeta. A gravidade diminuía e os
gases escapavam para o cosmo. A água transformou-se em neblina, todas as
células explodiam, e a morte lentamente fez a sua colheita entre os animais do
planeta. Nuvens se dissolviam e depois de algumas horas, somente havia um
núcleo de aço, do tamanho de uma lua, que também se desfazia em partes
unitárias.
Naturalmente dentro dos Coletores encontravam-se propulsores de
dimesexta.
— Para onde voamos? — perguntou o Lorde-Almirante Atlan.
Ninguém respondeu.
Ovaron, de repente, parecia ter envelhecido anos. Ele balbuciou:
— Perry... eu agora me lembro. A Proto-Mãe mencionou um... um
programa fundamental. Esta Programação Absoluta fui eu mesmo que fiz. Esta...
esta é uma comutação especial, que elimina todas as ordens dadas até então, e
que ordena à Proto-Mãe que se destrua. No caso de um perigo agudo... ela
mesma se destruirá.
O arcônida concluiu:
— E como a Proto-Mãe é apenas uma parte, tanto ou quanto idêntica a
todos os seus Coletores, quando ela destrói a si mesma, ao mesmo tempo
destruirá também todos os Coletores. Onde se encontram, muitos Coletores?
Ovaron disse, desesperado:
— Nas proximidades do seu sistema natal, Perry.
Rhodan e Ovaron estavam abalados.
Esta conclusão significava que uma massa gigantesca de Coletores
apareceria nas proximidades da Terra — ou então ali, onde as outras partes das
construções de tamanhos planetários se encontravam —, somente para se
destruírem. Para Bell e todos os terranos isso significaria um pânico sem limites.
Ninguém ali imaginava o que se aproximava deles. E mesmo se Rhodan agora
iniciasse a perseguição, ele não conseguiria fazer mais nada.
— Tarde demais! — constatou ele.
Ele começou a imaginar que o Império Solar estava em vias de receber a
mais dura prova de resistência, que jamais assolara o planeta.
Algum tempo mais tarde ele deveria lembrar-se dessa suposição...
O que a Terra, dentro de alguns dias, teria que aguentar, era muito pouco,
comparado com os perigos que se aproximavam dela, em silêncio. Mas sobre
isto, nenhuma criatura vivente nas duas galáxias ainda tinha a menor ideia...
3

A calma com que Hachin Tsho Nashooshi pegou a bolsa de tabaco era mais
que forçada. Motaen estava parado ao lado, olhando pensativo os dedos do
comandante. Diante de si os homens tinham — já há dias — a imagem de vídeo,
quase graficamente desenhada, de diversas formações de frotas. Entrementes
todas as frotas de ajuda anunciadas tinham chegado, e participavam da luta. Os
comandantes, tanto como seus governos, tinham compreendido que uma ameaça
à Terra através desses robôs, dentro dos quais havia os pedotransferidores, era, ao
mesmo tempo, uma ameaça aos seus próprios planetas.
Motaen, Primeiro-Oficial de Comunicações, disse, devagar:
— Meu irmão pele-vermelha prepara o cachimbo da paz? Não acha que é
um pouco cedo demais?
Hachin tirou do bolso de sua jaqueta de couro um cachimbo de terracota
branca, mais ou menos do comprimento de uma mão, encheu-o lentamente e com
concentração, para desviar sua atenção, e depois colocou o isqueiro junto ao
tabaco.
— O irmão pele-vermelha está tentando acalmar os seus nervos abalados —
declarou ele.
— O irmão pele-vermelha está fumando as penas de um pássaro morto? —
quis saber Motaen, lacônico.
— Soldo de menos para comprar um bom tabaco! — disse o comandante.
Eles observaram como a falange da torrente de Coletores se aproximava
sincronicamente das linhas de defesa dos terranos e das outras frotas, e Hachin
disse:
— Eu acho que chegou a hora — Motaen, mensagem para Bell. Texto: “Os
Coletores, agora, ou em pouco tempo, tentarão passar por nossas linhas, para
avançar para o Sistema Solar.”
— Entendido!
Com um pulo, Motaen estava junto do microfone, passando, agitadamente,
a sua mensagem para o Marechal-de-Estado Reginald Bell. Bell reagiu também
rapidamente, dizendo a milhares de comandantes o que tinham que fazer.
Os Coletores aceleraram e avançaram.
A manobra era transparente.
Em vista disso, as naves terranas e todas as suas frotas auxiliares, que juntas
eram em maior número que as unidades da frota terrana, se desviaram. Elas
recuaram e aceleraram ao máximo.
— Os primeiros Coletores desapareceram! Alarme linear! — disse o índio.
De sua boca saiu uma enorme nuvem de fumaça, e Motaen tossiu
provocante, enquanto continuavam passando os comunicados.
Os homens da nave de comunicações trabalharam rapidamente e
modelarmente em conjunto.
Quase ao mesmo tempo os primeiros cruzadores terranos saltaram para o
espaço linear. A nave de comunicações Theseus esperou alguns minutos, até que
somente se viam destroços à deriva na tela de vídeo, depois também entrou no
espaço linear.
Vinte milhões de quilômetros antes da órbita de Plutão, a nave
rematerializou novamente no espaço normal.
— Agora o perigo está dentro do Sistema Solar! — disse o comandante,
rouco.
A nave modificou sua posição, voou com velocidade da luz para fora do
plano de elíptica, e freou novamente, quando o campo de luta pôde novamente
ser visto, numa visão geral. Uma imagem semelhante construiu-se no gigantesco
console. Novamente perguntas, respostas e informações corriam entre a Theseus
e a Intersolar, de uma para a outra.
— No instante em que Reginald Bell podia esperar acertar os Coletores
com toda a sua potência, Vascalo recuou com suas naves para o espaço linear —
disse Motaen, baixinho.
O índio retrucou:
— Nas proximidades da órbita de Plutão... Parece que Bell está lançando
comandos de caça.
Ele apontou para alguns pontos, que recuavam em velocidade espantosa das
fileiras dos defensores, reunindo-se novamente, muito longe, atrás do front.
— O takerer tem suas unidades sob pulso firme.
— Exatamente.
Um ordenança entrou, entregando uma mensagem da cabine de rádio ao
Primeiro-Oficial. O homem virou-se e disse:
— A nave-correio de Deighton acaba de chegar. Mas a Dará Gilgama tinha
a tripulação de uma nave de nome Giordano Bruno Júnior a bordo. Tomaram
Pontonac e alguns de seus homens como reféns, por uma conta não paga, num
planeta do Sistema Shomona.
— Inacreditável — disse o comandante.
E então os seus olhos ficaram esbugalhados e ele esqueceu de pitar o seu
cachimbo.
— Mas isso é o inferno! — disse ele.
Ele observara as telas de vídeo normais da galeria panorâmica. Viu nas
mesmas uma massa incontável de objetos semelhantes a naves espaciais ou
meteoros metálicos, virem voando velozmente na direção da sua nave, a Theseus.
Era uma massa que era impossível contar.
— Acelerar a nave. Objetos em rota de colisão! — gritou ele, alto.
A Theseus, cujas máquinas trabalhavam em ponto morto, aceleraram
novamente; o rastreamento constatou o ângulo de aproximação de voo e a nave
saiu voando velozmente pela lateral para fora da órbita dos novos objetos que
vinham vindo.
— Imediata ligação com Bell! — disse Hachin Tsho Nashooshi, entre os
dentes.
Um dos seus homens pôs-se ao trabalho de fotografar um determinado
pedaço cúbico do espaço, e calcular, depois multiplicou o mesmo com o tamanho
do território espacial determinado. Depois a comunicação desceu para a central.
— Cerca de trezentos e quarenta mil objetos. Grande semelhança com os
Coletores até agora conhecidos.
Hachin gritou, sem entender:
— Acabo ficando louco! Imediatamente, uma ligação com o Marechal-de-
Estado!
— Entendido!
Os Coletores foram observados muito detidamente. Eles vinham mais ou
menos da mesma direção cósmica para dentro do centro do Sistema Solar, ou
seja, mais ou menos na direção do planeta Terra. Trezentos e quarenta mil
Coletores — reforços para as unidades, que Vascalo já controlava.
A imagem de Reginald Bell apareceu no vídeo.
— Sir! — disse Hachin, agitado. — Perigo!
Bell piscou os olhos, confuso.
— O que há?
O índio disse o que havia e se esforçou para não demonstrar muito
nitidamente o seu medo. Ele deu as coordenadas exatas, a velocidade dos
Coletores que vinham voando velozmente — entrementes a mesma era só de um
terço da velocidade da luz ainda —, depois deu a posição e sua suspeita.
Bell disse, abalado:
— Isso significa, pelo menos, lutas pesadíssimas e enormes baixas.
Reforços para Vascalo!
— Receio que seja assim, Sir! — confirmou Hachin.
— Maldição! receio que isso vai ser uma luta muito dura! — disse Bell
pensativo, depois ergueu a mão.
— Continue observando, Hachin, e mande-me suas observações como até
agora tem feito. Eu vou ver o que é possível fazer. Quanto tempo ainda temos?
Instintivamente Hachin olhou para o relógio entre os instrumentos. As
cifras diziam-lhe que hoje registrava-se o dia vinte e quatro de julho. Uma data
mortal para o Sistema Solar.
— Cerca de duas horas ainda, Sir. O senhor tem diretivas especiais para
nós?
— Obrigado — disse Bell. — Não, nada de instruções especiais.
Portanto os Coletores ainda precisavam de duas horas para chegarem às
proximidades do planeta Plutão. Este número enorme de Coletores, em parte do
tamanho de luas, recheados de Vassalos, dirigia-se para o campo de batalha no
espaço sideral. E lentamente formou-se o pânico ao seu redor. Os cerca de cem
mil comandantes de naves, quando ouviram o comunicado de Bell, viam-se
diante de uma superioridade numérica de um para mais de três — somados os
antigos e os Coletores recém-chegados perfaziam uma relação numérica de um
para quatro vírgula sete. Este era, mesmo para os mais valentes pilotos de risco e
as melhores equipagens de artilharia, um empreendimento suicida.
***
Anagash Eriget era o takerer, que há semanas — e por uma razão, que nem
ele mesmo conhecia exatamente — se movimentava cada vez mais nas
proximidades do pedoautocrata. Ele era um takerer normal, não um
pedotransferidor. Mas ele possuía uma grande vantagem. Ele sabia controlar-se e
geralmente trazia estampada no rosto uma expressão de calma. Ele era um
homem calmo, de cerca de quarenta anos de idade, alto e esguio.
Agora ele aproximou-se de Vascalo, o Torto, que estava sentado diante das
gigantescas telas no interior do Coletor do tamanho de uma lua, dando suas
ordens.
— Vascalo — disse Anagash, a meia-voz, e um pouco humildemente.
Segundos depois, dois olhos escuros, expressivos, olhavam para ele,
emoldurados pelo rosto notavelmente bem talhado do takerer.
— O que há?
Anagash disse, calmamente:
— Eu não tenho intenção de enraivecê-lo, Vascalo — mas há algum tempo
eu tenho uma sensação que não agradará a nenhum de nós.
Vascalo não sentiu-se absolutamente enraivecido. Os êxitos dos últimos
dias, que apesar da forte defensiva dos terranos tinham sido conquistados,
enchiam-no com a alegria do conquistador, que se aproximava da sua vitória. Ele
sorriu e perguntou:
— Que sensação, Anagash?
— Uma sensação muito incômoda, Vascalo. Eu estou convencido que entre
a conquista deste importante sistema-chave dos terranos e o dia de hoje, ainda se
erguerá um grande obstáculo. Não levando em conta que somente poucos
Coletores aterrissarão ali ilesos e não destruídos.
Vascalo recostou-se confortavelmente na poltrona e perguntou, um pouco
espantado:
— No que está pensando, Anagash Eriget?
— Num acontecimento terrível que se colocará contra nós! — disse
Anagash, em voz baixa.
E agora ele quase lastimava por ter expresso os seus receios em voz alta.
— Fale com mais precisão! — exigiu-lhe Vascalo.
— Vamos levar em consideração que ainda existem outros Coletores que
nós não controlamos. O que vai acontecer, se eles chegarem aqui?
Vascalo começou a rir.
— Neste caso, e graças à comutação através da qual eu controlo este
enxame aqui, se juntarão ao nosso ataque!
— Assim espero! — disse Anagash.
— Eram estes os seus receios? — quis saber Vascalo, não tirando os olhos
das telas de vídeo. A luta com as naves terranas continuava, há já muitos dias.
Ainda levaria algum tempo até que a vitória fosse definitiva — mas também isto
era apenas uma questão de tempo e de saber esperar.
— Sim, eram estes os meus receios. Eu espero que, de modo algum, eu
venha a ter razão! — disse Anagash.
— É o que também espero! — confirmou Vascalo.
A luta encarniçada continuava.
***
Todos os receptores, que trabalhavam em onda de hipercomunicador
normal, de repente emudeceram, e os homens ergueram as cabeças e esperaram,
tensos, o que Reginald Bell tinha para lhes dizer. Eles mal conseguiam esconder
o receio, pois sabiam o que aconteceriam às suas frotas.
Do mesmo modo todos os receptores, que também estavam sintonizados
com a onda da frota, durante segundos interromperam suas atividades. Um
transmissor quase gigantesco parecia trabalhar repentinamente, a maioria dos
receptores e transmissores se entendiam na onda da frota.
E então a notícia veio até os ouvidos de todos.
— Aqui fala a Proto-Mãe!
Reginald Bell olhou rapidamente para a tela, com a qual estava em ligação
com o quartel-general dos terranos. O quartel-general ficava nas proximidades de
Terrânia City, em grandes bunkers subterrâneos. Ainda não se via nenhuma
imagem que correspondesse com o texto da notícia — somente a parte superior
do corpo de um oficial do departamento de combate e de sua coordenação, podia
ser visto.
Aquela primeira mensagem foi repetida:
— Aqui fala a Proto-Mãe!
De golpe, todos os combates foram encerrados. Também as unidades
takerers interromperam os seus tiroteios com os canhões iniciais-doppler.
— Pouco depois do momento de minha criação, eu recebi uma ordem do
Ganjo, ou seja, o chamado Programa Fundamental. Este programa significa
muito para mim, que logo que tomar conhecimento de que minhas partes isoladas
cometem ações criminosas, eu começo a agir.
Eu tenho conhecimento e prova de que isto está acontecendo.
Dentro do quadro do programa definitivo, ou seja do Programa
Fundamental, que coloca fora de funcionamento todos os outros e as comutações
e ligações anteriores, eu estou agindo. Eu já dei início à primeira ação, há dias
atrás.
Esta ação dizia:
“Todas as peças unitárias de meu sistema supra-ordenado, mas ainda assim
controlável, se separaram e com isso destruíram uma massa complexa. E então
nós viajamos para o local, no qual nossas partes ainda faltantes agiam. E aqui
estamos nós, aqui estou eu.”
Então apareceram imagens nas telas de vídeo de Bell.
Imagens espantosas.
Alguém murmurou, assustado:
— Maldição... mas isso é a Marco Polo!
— Correto. E a outra nave?
— A Poycara, a nave de Ovaron — disse Bell.
As duas naves pairavam a uma distância mínima diante de um palco, que
Bell conhecia devido às descrições de Merceile, quando ela ainda se encontrava
na lua Titã. Ele não sabia o que devia pensar de tudo aquilo. Para este processo
não havia paralelos, nada poderia ajudá-lo, para em pouco tempo chegar a uma
decisão correta.
Depois, durante uma hora, correu um programa pelas telas, um programa
que era mais do que simplesmente espantoso.
Filmes foram mostrados e explicados.
Conversas foram repetidas, que Rhodan tinha mantido com Ovaron, o
Ganjo, com a Proto-Mãe, a Proto-Mãe com Joaquim Manuel Cascal e outros
comandantes. As comutações do traidor Guvalasch foram reproduzidas, muito
altas, e muitos detalhes mais. Deighton e Tifflor, entrementes regressados a Titã
pelo transmissor, filmaram estas mensagens. Caso se tivesse sorte, mais tarde
seria possível reuni-las num sistema sensato e transparente.
Naturalmente também Vascalo estava na escuta, pois ele também tinha
ligado um receptor no comprimento de onda da frota, e verificou que muitas
conversas eram feitas em terrano, ou seja, na língua estranha, e em Novo
Gruelfin, sua própria língua.
As notícias interromperam a luta.
Os comandantes de frotas terranas e os seus ajudantes de outros sistemas
tinham chegado ao ponto mais baixo do seu desespero.
Eles assumiram que aqueles trezentos e quarenta mil Coletores
representavam o último e decisivo reforço para os takerers.
Exatamente isso também pensava Vascalo, o Torto.
Somente Anagash Eriget sabia que isto não era assim. Ele sabia que estes
Coletores lhes trariam a morte...
4

Lentamente e de modo imperceptível, o local das lutas tinha se transferido


na direção do planeta Plutão, através da constante derivação própria das naves e
devido a inúmeras manobras durante o ataque e a defesa. Por acaso as naves e os
Coletores tinham estado em movimento ao longo de uma larga órbita,
ligeiramente diferente em linha reta, em ligeira curvatura divergente de Plutão.
Agora concentrava-se a ordem da batalha nas proximidades do planeta, mas
ainda a uma respeitável distância.
A comutação em bloco final, que o takerer utilizava, tinha ordenado a todos
os Coletores para no momento se manterem passivos.
Este instante durou muito tempo... horas a fio...
As notícias continuavam chegando.
Imagens da Galáxia de Gruelfin, que tinham sido tomadas no decorrer do
espaço de tempo de meses, eram reproduzidas.
Através disto ficou provado que cada um dos quatrocentos e setenta mil
Coletores tinha armazenado em sua memória positrônica tudo que suas lentes
haviam filmado, registrando-o nos seus bancos de dados, e retransmitindo-o
imediatamente, como símbolos informáticos, para a Proto-Mãe. E estes Coletores
pareciam ter voado através de todos os territórios da galáxia do Sombrero.
A estação comutadora Central...
A Nuvem Vermelha Terrosh...
A luta do Tachkar, entrementes morto, com as tripulações terrano-
ganjásicas...
Os comandos das tripulações terrano-ganjásicas...
E novamente Ovaron e Rhodan...
Todas as figuras e acontecimentos dos últimos meses foram mostrados mais
uma vez. Ininterruptamente corriam as transmissões, e depois que Deighton tinha
se entendido com o cérebro gigantesco da Proto-Mãe, transmitia-se em vinte e
nove canais separados. Finalmente tinham se passado muitas horas e Deighton
perguntou:
— Proto-Mãe?
— Quem fala?
— Um terrano, cuja tarefa é defender o seu sistema natal!
Nestas últimas palavras Reginald Bell riu, às gargalhadas, depois de ter
seguido tudo com olhos cansados.
— O que é que você quer?
— Eu entendi por suas transmissões que você — quem quer que você seja
— está querendo dizer a nós, terranos, que devemos ter confiança nas suas ações,
que são iminentes. Isso é correto?
A Mãe-Ancestral respondeu:
— Corretíssimo.
— Depois da entrada em ação do Programa Fundamental você foi obrigada
a agir de acordo com sua lógica singular. Correto?
— Correto! — disse a Proto-Mãe, na onda da frota.
Alguns milhões de tripulações de naves entrementes escutavam este
diálogo. Algumas dezenas de milhares também viam as imagens, ou pelo menos
uma parte delas. No meio de uma pausa na luta, a máquina desenrolou um
panorama gigantesco e exótico de uma outra galáxia. As largas fitas de vídeo
passavam por cabeçotes e armazenavam tudo — tanto imagens como sons,
filmes, como conversas — em diversos idiomas e alguns dialetos.
— Você desfez um planeta, que na realidade era você mesma, em diversas
partes unitárias e veio até aqui. Correto?
— Correto.
Deighton prosseguiu:
— Nós colocamos nossas últimas esperanças em você, Proto-Mãe. Para que
são essas quantidades formidáveis de Coletores que se reúnem nas proximidades
de nosso nono planeta?
A Proto-Mãe declarou, lacônica:
— Eu sou eles. Eles são eu.
— Eu entendo — confirmou Tifflor, e depois prosseguiu em voz mais alta:
— Você tem nossa total confiança, isso eu posso dizer. Mas como sinal de
que também nós temos a sua confiança e que devemos contar com a sua ajuda,
precisamos insistir em que alguns de nossos homens penetrem em você. Se você
é a Proto-Mãe, então você tem uma certa semelhança com um Coletor. Portanto
você é como os Coletores. Por dentro oco, e equipada com instalações
mantenedoras da vida. Estou enganado?
— Você não está enganado! — disse a Proto-Mãe. — O que é que você
quer?
— Como primeira prova de suas afirmações nós vimos todos os filmes e
ouvimos todas as conversas.
— Objetivamente correto!
— Nós vamos reunir um grupo de homens, que você deve receber.
Primeiramente eles controlarão até que distância você está pronta a ajudar a nós,
terranos, e em segundo lugar, que informações você ainda pode nos dar. Isso é
possível?
A Proto-Mãe disse:
— Eu disponho de um transmissor. Vocês podem mandar os homens
através do transmissor?
Tifflor retrucou rápido:
— Nós precisamos das especificações exatas do transmissor. Por favor
escreva-as em números terranos, e em símbolos de cálculos; você deve conhecer
a conversão numérica.
— Já estou calculando.
Poucos segundos mais tarde, quando a imagem foi transmitida, era certo
que era possível pôr os pés no obelisco que a Proto-Mãe designava de Ovarasch,
através de uma simples ligação por transmissor. Esta era a célula-mater de todos
os Coletores, idêntica com a Proto-Mãe. Nada mais que um gigantesco cérebro
totalmente integrado, que era embutido em paredes, tetos e assoalhos.
Tifflor disse baixinho para Deighton:
— Naturalmente esta é uma solução de emergência, pois nós reconhecemos
claramente, que este sistema, apesar da ajuda de nossos recentes aliados, não
pode fazer frente por muito tempo aos ataques das massas de Coletores. Em caso
de necessidade, nós poderíamos ter detido o Coletor com Vascalo, mas também
isso é questionável.
Deighton respondeu:
— Se nossos psicólogos têm razão...
— ...e disto não podemos duvidar, pois os psicólogos sempre têm razão em
caso de dúvida... — interrompeu Tifflor, sorrindo.
— ...neste caso, já agora está começando a retirada dos chamados aliados.
Covardia pessoal de alguns comandantes pode ser um dos motivos, um segundo e
mais importante é, de qualquer modo, que estas frotas irão tentar proteger seus
sistemas natais. É sempre a velha história. O outro concluiu:
— Mas com um texto novo, meu amigo!
Depois eles se voltaram novamente para o diálogo com a Proto-Mãe.
— Quando podemos mandar os homens?
Resposta:
— Por mim, imediatamente. Os senhores não têm muito tempo para
investigações e controles, pois o Programa Fundamental está correndo, e uma vez
ligado, acaba terminando. Eu não consigo mais detê-lo. Não posso detê-lo mais,
depois que o alimentei ao computador positrônico.
Tifflor perguntou, preocupado:
— Já está correndo?
— Sim.
— Quanto tempo os homens têm, contando a partir de agora?
— De acordo com a medida de tempo de vocês, uma hora.
— Entendido. Dentro de meia hora eles estarão com você.
— Eu os receberei muito bem, e os prevenirei logo que o tempo se esgotar.
— Excelente!
Tifflor e Deighton se entreolharam, depois disseram, como a uma só voz:
— Rapyrosa?
— Naturalmente, Lefton Rapyrosa!
O diálogo com a Proto-Mãe terminara. E depois que Hachin Tsho
Nashooshi, de bordo da Theseus chamara, ele recebeu a tarefa de funcionar como
estação de transbordo, para segurança adicional. Ele mandou seus melhores
homens entendidos em transmissores para o recinto do transmissor e ordenou que
se efetuassem as necessárias comutações.
E então começaram as reações das diferentes pessoas e grupos.
Elas eram altamente elucidativas.
***
Na onda da Frota, alguns segundos mais tarde, ouviu-se a voz de Reginald
Bell. Ela soava fria e pausada. Ele disse, decidido:
— Meus senhores! Nós temos uma pausa no combate. Se Vascalo não
intervir outra vez imediatamente — sim, eu sei que muito provavelmente ele
também está na escuta —, então nós podemos retirar as naves com avarias e
recolher os destroços. Além disso, podemos cuidar dos feridos, e executar
trabalhos semelhantes. Os comandantes em questão sabem onde eles têm que
aterrissar. Mesmo assim, as estações continuam tripuladas. Eu conto com uma
reação de Vascalo, imediatamente após este comunicado.
— Entendido! — veio pelos alto-falantes.
A Intersolar, que por enquanto tinha conseguido passar pela luta sem sofrer
um só impacto, encontrava-se no meio de uma fileira extensa de naves
defensoras. Nas telas, as naves e as formas exóticas dos Coletores encobriam as
estrelas. Ninguém sabia o que iria acontecer agora. Era a calma antes da
tempestade, ou como o silêncio mortal, que reina um instante antes de um
furacão.
As duas concentrações de frotas se confrontavam, as naves estavam à
deriva, com pouco impulso próprio, numa direção conjunta.
O planeta Plutão.
Desocupado, a não ser por certo número de fortes de bloqueio automáticos
e instalações robóticas. A diminuta tripulação tinha sido evacuada, por ordem de
Tifflor, quando Hachin pela primeira vez comunicara que os Coletores
ressurgiriam nas proximidades imediatas do Sistema Solar.
Bell gozou da pausa, mas ficou atento.
Ele não sabia o que se seguiria agora, mas o que dizia respeito a ele e à sua
tripulação, ele contava até com o pior.
***
Com o pior contava também Anagash Eriget.
Ele estava sentado, todo curvado e pálido, na sua poltrona, e de vez em
quando olhava para Vascalo, que recebia seguidamente comunicados e executava
comutações. Anagash estava com um medo indescritível, mas esforçava-se muito
para não demonstrá-lo.
Vascalo olhou para ele.
— O que é que o senhor tem? — perguntou ele.
— Medo! — reconheceu Anagash.
Vascalo olhou-o longamente. Não podia ver-se, no seu rosto, as emoções
que dominavam Vascalo. Ele estava acostumado a empurrar para o lado,
dificuldades ou adversários, que se colocavam no seu caminho, ou então de
eliminá-los, quando não era possível empurrá-los para o lado. Desta vez, ele
parecia estar de bom humor.
— O senhor tem medo?
— Sim. Da Proto-Mãe e do seu Programa Fundamental. Nós escutamos
também o que ela comunicou a esses malditos terranos. Eu tenho medo daquilo
que este robô vai empreender.
Vascalo retrucou baixinho:
— Saia da minha presença! Eu preciso de homens valentes!
Na sua voz podia ouvir-se uma ameaça tão clara, que Anagash começou a
sentir um medo maior ainda, e rapidamente deixou o recinto.
Depois que Vascalo pôde se voltar novamente às suas comutações, também
sentiu que tinham ocorrido algumas modificações.
Ele quis comutar uma centúria de Vassalos para levá-los a atacar a nave-
capitânia de Bell, e em caso de necessidade se autodestruir na empreitada.
Os vassalos não se mexeram do lugar.
— Maldito robô! — vociferou Vascalo.
Ele ficou inseguro, acabou fazendo uma comutação errada, com a qual os
Vassalos começaram a se mexer. Mas apenas algumas centenas de metros.
Depois voltaram novamente para as suas antigas posições.
Os Vassalos não o obedeciam mais!
Agora também Vascalo, a quem chamavam de “o Torto”, também sentiu
um pouco do medo que Eriget tinha demonstrado tão claramente.
A Comutação-Final em Bloco tornara-se ineficaz?
Estranho, pois o seu Coletor, do tamanho de uma lua, obedecia às suas
ordens como sempre.
Ele tentou-o uma segunda vez.
— Os Vassalos não se mexem! — verificou ele, e olhou em volta, sem
saber o que fazer. Depois gritou em voz alta:
— Anagash!
O takerer, alguns minutos depois, estava tremendo diante dele e perguntou:
— O que deseja?
Vascalo confessou, por sua vez:
— Eu estou com medo, Anagash!
E então tentou, pela terceira vez, obrigar os Vassalos a um ataque à
Intersolar de Reginald Bell.
***
O cachimbo que Hachin agora fumava, parecia-lhe ter sabor novamente.
Curiosamente também Motaen não tossia mais. A Theseus estava pronta a
receber os duzentos homens de Terrânia City a bordo, e irradiá-los através do seu
transmissor, com rapidez fulminante, para a Proto-Mãe. Qual das peças metálicas
que estava à deriva lá fora seria essa Proto-Mãe?
Graças ao forte transmissor, eles tinham podido rastrear exatamente só uma
concentração de Coletores, e não desviavam sua ótica deles.
Mas qual daqueles Coletores seria a tal Proto-Mãe?
— Irmão pele-vermelha... — começou Motaen.
Hachin fez um gesto defensivo.
— Pare com essas besteiras, cara-pálida! — disse ele. — Será melhor que
me acompanhe lá para baixo, para a sala do transmissor. Conhece Rapyrosa?
O oficial de comunicações retrucou:
— Quem não conhece Rapyrosa?
Hachin respondeu, bem-humoradamente:
— Eu não o conheço.
— Eu, infelizmente, também não — respondeu Motaen, deixando a central
ao lado do comandante.
A luta chegara a uma paralisação.
Como uma nuvem gigante, a redonda formação de Coletores — ou da
Proto-Mãe — estava dependurada por cima de um estreito recorte da órbita de
Plutão. Parecia que todas as outras aglomerações de naves estavam com medo
daquilo. Enquanto os dois homens caminhavam pelo corredor estreito, naquele
quadro diversos pontos começaram a se mexer.
Um dos homens das comunicações estudou profissionalmente essa
ocorrência e depois opinou:
— Os pontos correspondem a naves acônicas. Elas estão lentamente se
retirando das formações terranas.
— Típico! — disse um outro. — Elas estão fugindo, apesar de até agora
terem lutado de maneira exemplar.
Evidentemente este parecia ter sido um primeiro sinal, pois durante as horas
seguintes também formaram-se partes de outras frotas e abandonaram a linha de
defesa comum.
Motaen e Hachin estavam parados diante dos pilares luminosos do
transmissor. Diante do console de comutações trabalhavam os oficiais de
controle, mas eles apenas examinavam as sintonizações. Uma tela de monitor
ligava-os com o bunker em Terrânia City. Na tela podia ver-se uma longa fileira
de homens envergando pesados trajes de combate, que mantinham seus capacetes
fechados.
O comandante disse:
— Qual deles é Rapyrosa?
— É aquele em cujo traje, na frente e atrás, tem um grande algarismo Um,
na realidade deveria ser o chefe.
Os postos de controle se entenderam.
Depois os primeiros homens puseram os pés no transmissor...
...e imediatamente estavam na nave.
— Quer apostar? — perguntou Motaen.
— Apostar no que? — perguntou Hachin.
— Que o Um é Rapyrosa?
Rapyrosa parecia ter ligado o seu microfone externo, pois ele veio ao
encontro do comandante e abriu o seu capacete. Era o homem com o traje de
número Um. Ele sacudiu a mão do índio e disse:
— Major Lefton Rapyrosa, apresentando-se com duzentos homens. O
senhor tem os dados exatos do transmissor contrário?
— Naturalmente. Nós vamos transportá-los suavemente, como um pacote
de manteiga, dentro da Proto-Mãe.
Rapyrosa colocou-se de lado, para dar lugar aos seus cento e noventa e
nove homens. Eles saíam, em rápida sequência, um atrás do outro, de dentro do
transmissor e se distribuíam em semicírculo em volta do aparelho. Depois de
serem contados, verificando-se que não faltava ninguém, os especialistas ligaram
o transmissor para o aparelho que se encontrava na Proto-Mãe.
O Major Rapyrosa era especialista da Contra-Espionagem robotécnica. O
seu título oficial, que aliás ninguém usava, era Psicógrafo-Positrônico.
Respondendo a pergunta petulante de Motaen ele mesmo somente pode dizer
algumas generalidades. De qualquer forma ele sabia como tratar as coisas
positrônicas corretamente, conforme garantia. Ele parecia digno de credibilidade,
um homem de quase noventa anos, baixo e parecendo muito resistente.
Ele virou-se e disse:
— Homens — por favor, ouçam! Nós temos a tarefa de xeretar neste
monstro robótico, que é bastante honorável. O local, para o qual seremos
transmitidos dentro de poucos segundos, é “Terra Nova”. Por esta razão não
vamos correr qualquer risco. Primeiramente um grupo de quatro. Se dentro de
segundos ela não mandar ninguém de volta, noventa e seis homens seguirão
imediatamente. Os cem homens restantes esperam aqui, até que eu dê a ordem
para entrarem em ação. Entendido?
Podia ouvir-se um murmúrio de todos que concordavam.
— Excelente — disse Lefton, fechou seu capacete, executou os últimos
controles e pegou a arma destravada na mão.
Ele anuiu para Hachin e seus técnicos, e subiu com três homens na
plataforma.
Os quatro homens sumiram imediatamente, e depois de alguns segundos os
técnicos colocaram o transmissor novamente em recepção.
Ninguém voltou.
Novamente o aparelho foi colocado em transmissão. O resto do primeiro
grupo seguiu. Cem homens ficaram para trás na Theseus e esperaram. Por razões
de cautela, o transmissor estava pronto para recepção e ninguém modificou nada
nos controles e nas comutações.
Os cem homens tinham levado um equipamento volumoso com eles:
gravadores, detectores, ferramentas especiais e muitas outras coisas, que faziam
parte do equipamento dos especialistas positrônicos. Provavelmente os aparelhos
não seriam necessários, mais provável era que eles poderiam ser usados com
bons resultados.
E então os homens da Theseus esperaram!
Eles esperaram apenas quinze minutos, e então fez-se entre a Ovarasch e a
nave uma clara conexão de radiocomunicação. Rapyrosa foi o primeiro a
descrever onde ele se encontrava.
— Estão na escuta? — perguntou Hachin Tsho Nashooshi.
Seu oficial de comunicações confirmou.
— Sim, escutei e tomei as medidas devidas. Caso tivermos que procurar os
especialistas, nós os encontraremos. Eles estão metidos numa gigantesca coluna,
que por dentro é dividida em muitos recintos, como os conveses de uma
gigantesca torre residencial.
Hachin observou:
— O senhor realmente conta com tudo, não é mesmo?
— Especialmente com o fato de que a técnica também pode falhar. E nós
nos encontramos em tempos muito inseguros, comandante.
Hachin suspirou e tirou o cachimbo, novamente apagado, do bolso de sua
jaqueta.
— A quem diz isto, Bell! — disse ele.
***
Meia hora depois que o comando tinha posto os pés de dentro da Proto-
Mãe, todas as naves acônicas se retiraram.
Elas deram uma guinada, aceleraram e depois abandonaram o local de
ajuntamento das outras naves. Ninguém passou um rádio, ninguém explicou
alguma coisa, ninguém se desculpou. Os comandantes ácones tinham se
entendido entre eles e agora agiam rapidamente. Minutos depois eles tinham
desaparecido na escuridão do cosmo, entrando no espaço linear. A Terra tinha
perdido o primeiro dos duvidosos aliados.
A luta ainda não ressurgira novamente.
5

Aos cem terranos pareceu que tinham passado através de uma parede para
dentro de uma sala gigantesca. No primeiro momento eles não sabiam onde se
encontravam, mas então a voz da Proto-Mãe disse que ela era um sistema
fechado, e que eles podiam desistir do uso dos seus trajes.
Rapyrosa, que era desconfiado por natureza, mandou efetuar um teste,
depois deu a permissão para que abrissem os capacetes.
Primeiro ele perguntou onde se encontrava.
A Proto-Mãe o informou.
Depois ergueu uma transmissora que irradiava em uma das frequências
especiais da nave de comunicações. Ele falou com Hachin e descreveu-lhe o que
a Proto-Mãe lhe comunicava. Em seguida seria fácil reencontrar este objeto
novamente — ele não tinha qualquer semelhança com os outros Coletores.
Quando esta medida de segurança foi terminada, os terranos seguiram
adiante.
Como primeira coisa, eles foram recebidos por uma massa de pequenos
robôs, que saíam de pequenos buracos de um revestimento de parede, que para
surpresa dos especialistas era de um luxo faustoso, quase bárbaro.
— Sigam-nos! — disse um dos robôs voadores.
A gravidade dessa construção velha de duzentos milênios fora montada de
tal forma que os terranos tinham a impressão de se encontrarem dentro de um
obelisco que estava ereto, vertical ao centro de suas forças de gravidade. Eles
subiram lentamente por escadas e rampas inclinadas, admirando as instalações
dos andares isolados. Eles eram mobiliados com peças gigantescas, com muitas
peles e pesadas cortinas. No meio disso tudo via-se e se fotografava sempre
pesadas e complicadas unidades de comutação, armários e pesadas aparelhagens,
cujo sentido não se conhecia. Aqui havia uma grande quantidade de telas, que
entretanto sempre mostravam a mesma coisa:
O cosmo, que estava recheado com uma grande quantidade de formas de
aço, denteadas. Raramente via-se uma estrela, por entre as escuras massas de
metal.
Finalmente, depois de uma hora de marcha, eles chegaram a uma sala de
comutações. Aqui a voz da Proto-Mãe retomou novamente a condução e as
explicações.
— Agora estão numa central de comutações que é idêntica à estação de
comutações que foi construída e programada por Ovaron, o Ganjo, há duzentos
mil anos atrás — disse a Proto-Mãe.
Lefton Rapyrosa perguntou:
— E aqui também vamos obter todas as informações de que necessitamos?
— Eu estou disposta a fornecê-las. Entretanto atentem para o fato de que,
conforme seu cálculo de tempos, somente se passarão ainda cento e quarenta
minutos até a hora em que a comutação final modificará todas as
individualidades! — disse a Proto-Mãe, numa advertência.
— Isso é muito tempo para um curioso — retrucou Rapyrosa. — Amigos,
ergam o aparelho de radiotransmissão, liguem os gravadores, coloquem os
gravadores de vídeo-fitas nas inserções e façam perguntas, sempre que alguma
coisa não está bem clara.
Os seus homens imediatamente se puseram ao trabalho.
Rapyrosa começou:
— Eu lhe pergunto, Proto-Mãe, o que você é realmente. Relate-nos sua
história, que sem dúvida alguma se encontra nos seus arquivos.
— Para isso o tempo não é suficiente, terrano! — foi a resposta.
Microfones embutidos escondidos apanhavam cada murmúrio em qualquer
parte do recinto, e alto-falantes, também invisíveis, reproduziam as palavras do
gigantesco cérebro positrônico. Em telas de monitores, luzinhas começaram a
tremeluzir, e os especialistas em eletrônica agiram rapidamente, procurando pela
alimentação e inserindo os cabos.
— Neste caso, relate-nos tão corretamente e com a abrangência que o
tempo que temos à disposição o permitir! — pediu Lefton.
— Com muito gosto. Eu risco as memórias que não interessam, e que não
fazem parte do núcleo da História.
O aparelho de rádio transmitia cada palavra para a nave de comunicações, e
dali foi feita uma ligação para Bell e ao mesmo tempo uma outra para o quartel-
general terrano.
— Depois que eu fui construída e que estava equipada com um programa,
que me possibilitava a reprodução e a modificação das reproduções, logo teve
início a decadência do Reino Ganjásico. A minha ordem básica era — e ainda é:
“Eu teria que esperar até o regresso de Ovaron. Eu teria que reagir com uma
atitude mais ou menos passiva contra possíveis ataques takerer. Portanto comecei
a me reproduzir repetidas vezes, mandando essas formações, que eu chamei de
Coletores, para outros planetas, geralmente não habitados. Ali eles mineravam
metais e minérios, voltavam para mim, e no cosmo eu comecei a construir mais e
mais Coletores, que, por seu lado, se reproduziam, mandando essas reproduções
também para buscarem novas matérias-primas. Uma vez que a célula-mater era
obrigada a executar as construções, parede com parede, como um cristal
crescente, nós temos o formato encaixado dos Coletores. Quando eles voam
isolados, eles se parecem como partes irreconhecíveis de um todo confuso.
“Os primeiros cem Coletores eram simples e primitivos, nada mais que
fábricas móveis para a produção de coletores.
“A segunda geração, entretanto, já era melhor, superior, construída com os
últimos conhecimentos da técnica. Nós reuníamos não apenas metais, mas
também conhecimentos...”
Quanto mais tempo a voz falava, por mais tempo as imagens dos primeiros
séculos passavam nas telas, mostrando a obra dessa surpreendente criatura
metálica, mais os terranos ficavam espantados.
Eles aqui ouviam contada uma História, que englobava um tempo bem
maior do que a Humanidade em geral conhecia.
A História da pequena galáxia Morschaztas...
***
Vascalo bateu com ambos os punhos fechados em cima do console e gritou:
— Vocês são todos criaturas incapazes! Os Coletores não me obedecem
mais... ou apenas ainda de má vontade, e só depois de comutações com a maior
urgência!
Um milhão e quatrocentos mil takerers encontravam-se a bordo dessa
massa de Coletores. Eles arrancavam os apliques e tentavam colocar as
comutações sob seu controle manual, mas nada aconteceu.
As máquinas não obedeciam mais.
Elas não faziam nada.
Essa situação durou mais de uma hora. Durante este tempo, e como que a
um comando secreto, todas as naves dos saltadores saíram voando velozmente,
deixando os terranos para trás. As quantidades das naves diminuíam
drasticamente de hora a hora, e nestes instantes recuavam as formações da União
Central Galáctica, formando-se para uma partida em massa, para dentro do
espaço linear.
E também aqui, novamente — nenhuma desculpa, nenhuma explicação.
Somente um movimento em massa de astronaves.
Ninguém tinha uma explicação para isso — para o fato dos Coletores não
atacarem mais.
Finalmente Hachin informou ao Marechal-de-Estado:
— Sir! A bola dos Coletores, que são comandadas por Vascalo, não reagem
mais em ações isoladas. Mas todo aquele globo há cinco minutos está derivando
lentamente na direção dos Coletores novos, que acabaram de chegar.
Evidentemente deve acontecer uma confraternização.
Bell, que parecia pálido e caído, opinou, preocupado:
— Um movimento coletivo, por assim dizer, dos Coletores. Obrigado,
Hachin. Tudo anotado.
— Entendido.
Vascalo — isso parecia ficar mais claro — quanto mais durava o
desenvolvimento da ação, não tinha mais poder sobre os Coletores nem sobre os
Vassalos. Exatamente na hora em que esta suspeita começava a se transformar
em certeza, os Vassalos reagiram.
Certamente não da maneira como Vascalo queria.
De repente, de um segundo para outro, eles tomaram velocidade, voando
em ziguezague e em círculos inacreditáveis, numa confusão geral. Eles
encontraram os “seus” Coletores, e entraram nos hangares, ordenadamente. Isso
aconteceu enquanto as naves da União Central Galáctica abandonavam o local
das batalhas, em comboios enormes. Um quarto de hora mais tarde elas tinham
sido engolidas pelo espaço linear, como se jamais tivessem estado nas
proximidades do Sistema Solar.
Era impressionante e fascinante para todos que olhavam para uma tela de
videorrastreamento como em cerca de cento e trinta mil Coletores entravam, de
cada vez, centenas de Vassalos nos hangares.
Bell verificou:
— Esta circunstância deve ser ocasionada somente pelas ordens de rádio da
Proto-Mãe, que age segundo o seu Programa Fundamental — se o restinho de
minha mente ainda não afetado não me engana.
A Proto-Mãe fez ambas as coisas, ao mesmo tempo: Ela executou,
consequentemente, como um relógio, as comutações do seu Programa
Fundamental. E ela informou aos terranos...
— Nós também reunimos sabedoria, e esta sabedoria tornou-se de valor
cada vez mais elevado e melhor para nós ou para mim, pois os Coletores são eu e
eu sou eles. A Célula-Mater, consistente de duzentos e noventa e nove Coletores.
“Nós começamos a criar cada vez mais construções anexas, que tinham
suas próprias armas e naves auxiliares, seus próprios sistemas internos e seus
robôs, que podiam movimentar-se livremente. Nós tivemos um aliado
poderoso...”
O terrano disse, pensativo:
— O tempo?
— Correto. O tempo nos ajudou. No decorrer dos séculos e dos milênios,
nasceram milhares de Coletores. Lentamente eles se tornaram uma esfera do
tamanho de um planeta. Sikohat, era o nome do planeta ainda há poucos dias
atrás, agora ele não existe mais.
“Nem todos os Coletores podiam ser encontrados ali. Muitos deles corriam
através da galáxia Gruelfin, para observar os movimentos e os empreendimentos
dos takerers e registrá-los cuidadosamente. A sabedoria histórica detalhada, que
foi reunida e ainda se encontra nos arquivos robóticos dos Coletores, pode ser
chamado de imensa. Nós víamos e anotávamos quase tudo.
“Naturalmente houve séries de comutações erradas. Todas elas eram de
significação secundária, porque naturalmente todas as reproduções que eram
registradas pela Célula-Mater, o mesmo Programa Fundamental, não tinham
modificado um único bit. Muitos milhares de Coletores se perderam, e deste
modo formaram formidáveis cavidades ocas na massa do planeta.
“Outros, por seu lado, acabavam submetidos — mas não por muito tempo
— à influência de outros poderes ou de pessoas isoladas.
“Eu também perdi — mas só passageiramente — o controle de muitos
Coletores e Vassalos, devido à grande distância. O Programa Fundamental —
isto eu sabia por milênios — sempre os traria de volta sob minhas ordens, caso
não tivessem sido destruídos. Naturalmente muitos Coletores foram destruídos.
“E então outros impedimentos ocorreram. Como por exemplo com os
aparelhos comudaque.
“Eu havia criado os mesmos para que eu pudesse dar um certo apoio
técnico a indivíduos em quem eu pudesse confiar, através de possibilidades de
comutações. Eu era uma máquina, e naqueles tempos ainda não estava
familiarizada com a desconfiança, pois estes cinturões-comudaque podiam ser
usados abusivamente, o que naturalmente também aconteceu, por último por
Guvalasch, o assassino e traidor.
“Cinco milênios depois de minha criação, fui descoberta por um Tachkar
que me programou como arma secreta para si mesmo, através de uma Comutação
Final em Bloco, que lhe dava a segurança de poder dispor de mim a qualquer
tempo. Eu teria que ter reagido, mas primeiramente a Comutação Fundamental
Final não foi tocada por isso, e o ato da programação não podia ser impedido por
mim, nem eu pude apagar a programação especial.
“Felizmente o Tachkar jamais fez uso dessa comutação, e também todos os
seus sucessores nunca a empregaram. Até agora ela conservou-se sem ser
utilizada.
“Somente porque alguém descobriu esta indicação nos arquivos de um dos
primeiros Tachkars, até há bem pouco tempo Vascalo conseguiu controlar uma
parte dos meus Coletores. Ele dominou todas as unidades que no decorrer dos
tempos tinham se afastado de mim. Isto, a partir de agora, não é mais possível. O
cronômetro da Programação Fundamental não pode mais ser parado. Ele termina
com a supressão de todo Coletivo e todas as Individualidades.”
Como que hipnotizados, os cem terrenos estavam de ouvidos atentos.
— E o que aconteceu agora, depois que Ovaron, o Ganjo legítimo, voltou
novamente para casa? — quis saber o psicógrafo positrônico.
A Proto-Mãe esclareceu:
— Daqui em diante, uma vez que o Ganjo Ovaron voltou para a sua pátria,
baseado em minha primeira e mais importante programação, a minha tarefa
existencial foi cumprida.
“Eu recebi a ordem pessoalmente de Ovaron, para me desintegrar, caso
minha lógica positrônica tivesse a impressão de que eu ou os Coletores se
tornariam poderosos demais.
“A primeira crise veio quando eu tinha preenchido, ou seja, reconstruído as
lacunas das cavidades dentro do planeta Sikohat. Eu tinha inchado até me tornar
uma esfera do tamanho de um planeta. Eu me transformara num misterioso
planeta, onde era proibido fazer perfurações. E certo dia chegaram os ganjásicos
e eu os influenciei lentamente. Eu ergui os obeliscos, e finalmente deixei que me
tirassem do centro do planeta, de dentro do núcleo quente, para o alto. Eu era a
maior elevação, desse mundo. Mas tudo isso é o passado.”
Milhões de fotos individuais foram tiradas, e lentamente a máquina lançou
bobinas de mais lembranças.
Parecia que um moribundo estava querendo legar seus últimos e mais
preciosos bens.
— Ovaron — continuou relatando a Proto-Mãe — queria impedir por esta
primeira programação, que eu, como cérebro-robô, pudesse tomar o poder na sua
ausência. Esta possibilidade existiu, mesmo assim, mas o meu programa
impedia-me de fazê-lo, pois através disto eu teria causado a minha própria
destruição. E eu também sabia que não devia me destruir.”
— Terranos!
Alarmado, Lefton Rapyrosa perguntou:
— O que há?
No mesmo segundo veio, de um recinto que ficava muito abaixo, um abalo
surdo. Eles ainda não o sabiam, mas segundos mais tarde ouviu-se a voz agitada
de Hachin:
— O que está acontecendo com vocês? O transmissor deixou de funcionar?
De dentro de nosso aparelho saiu uma língua de fogo e um fogaréu de peças
unitárias derretidas pelo fogo. A ligação por transmissor está sem funcionar.
A Proto-Mãe disse:
— Tarde demais... tarde demais... eu autodissolvo. Isso não estava previsto.
Vocês estão incluídos.
Rapyrosa não queria acreditar.
— Deve haver um caminho para fora — disse ele, nitidamente. — Mostre-
nos o caminho, Proto-Mãe! Por que o transmissor foi destruído?
A Proto-Mãe declarou, com a calma de uma máquina:
— Enquanto está correndo para o seu fim a Programação Fundamental, eu
não tenho influência sobre peças isoladas de minha alimentação energética, que
deixam de funcionar. Existem dois caminhos para fora, dentro do cosmo. Aliás,
são três, se também a última possibilidade é esgotada.
— Quais?
A Proto-Mãe:
— Uma escotilha no meu antigo fundamento — exatamente na outra
extremidade. À mesma distância da segunda escotilha, que se encontra na minha
ponta.
Rapyrosa apontou para cima, para o teto:
— Ali está a escotilha, no teto?
— Sim.
O terrano agiu rapidamente, após ter refletido. Ele disse em voz alta:
— Hachin! Venha nos apanhar! Rápido, caso contrário todos vamos morrer
aqui! Nós vamos tentar alcançar a extremidade mais estreita, para dali ver o
cosmo. Espere por nós ali!
— Entendido! Vamos imediatamente!
Rapyrosa voltou-se para os seus homens e disse, decidido:
— Nós vamos conseguir escapar, e com tudo que temos. Arranquem as
bobinas dos aparelhos, metam as mesmas nos seus bolsos, e fiquem preparados
para fechar os capacetes. Proto-Mãe!
— Estou ouvindo!
— Antes que você abra a escotilha na ponta, desligue as instalações que
fornecem o ar respirável. E antes que seja tarde, esta escotilha precisa ser aberta!
Trata-se de cem vidas, de cem amigos do Ganjo. Entendido?
— Eu entendi. Em exatamente quarenta e três minutos de vosso tempo, a
escotilha será aberta.
Rapyrosa virou-se para a escada, pegou quatro largas fitas com dados
gravados, e colocou-as nos bolsos do seu traje de combate. Depois ele respirou
fundo, anuiu para os seus homens e correu rapidamente para a escada.
Quando ele estava correndo escada acima, ouviu a voz da Proto-Mãe:
— Meus robôs vão ajudar vocês, enquanto a sua alimentação energética
perdurar.
No mesmo instante, uma daquelas máquinas de aspecto exótico que
pairavam por ali, pegou-o pela parte de trás do seu cinturão, levantou-o e saiu
voando rapidamente por cima de escadas e rampas, dentro de uma espiral que a
todo instante mudava de direção.
Os noventa e nove homens o seguiram.
Todos os aparelhos pesados ficaram para trás. A marcha da morte dos cem
homens começara.
E a mortífera contagem regressiva da Proto-Mãe apostava corrida com eles.
CANHÃO-TRANSFORMADOR TERRANO
Dados Técnicos:

Capacidade de tiro/raio: 4.000 gigatoneladas. Modo de


Funcionamento: O canhão trabalha parecido com um transmissor fictício.
Os projéteis chegam, através de um desmaterializador, até o fecho do
canhão e são transformados num impulso energético de 5-D. O projetor
de disparo (cano) coloca este impulso a caminho, como é feito num
transmissor fictício. O materializador do alvo goniometra impulsos do
alvo e consegue assim uma garantia de acerto integral, uma vez que
simplesmente transforma, na prática, o alvo numa estação receptora da
radiação (tiro) do transmissor.

1. Reator d e fusão d e alta capacidade em construção


compacta.
2. Tanque de pressão de deutério.
3. Transformador de energia térmico-eletrônico.
4. Transformador estrutural para transformação de corrente em
impulsos energéticos de 5a dimensão.
5. Bloco de distribuição de energia.
6. Conduto de campo energético.
7. Canhões de impulsos defensivos, guiados por robôs (4
unidades).
8. Placa de solo para absorção de abalos.
9. Bomba desintegradora para auto-destruição do canhão.
10. Transformador de realização.
11. Desmaterializador.
12. Baterias de alimentação de alta capacidade (2 unidades).
13. Antecâmara com eclusa para bomba.
14. Console de controle e vigilância.
15. Bomba de fusão transformadora com força explosiva de
4.000 gigatoneladas.
16. Magazine com alimentação de munição eletromagnética.
17. Carregador eletrônico.
18. Projetar de disparo.
19. Antena goniometradora para captação de alvo e câmera de
controle ótico.
20. Motores de comando para a boca.
21. Materializador de alvo.
22. Cúpula de plástico blindado transparente.
23. Positrônica (computador) de comando e vigilância para o
canhão.
24. Ligações de comando e para a central de artilharia.
6

Vascalo, o pedoautocrata, fechou os olhos e encostou-se pesadamente na


sua poltrona. Ele tentou dominar-se, com todas as forças que tinha à sua
disposição. Ele respirou fundo e lentamente e pensou em coisas sem importância,
mas sentiu que o medo se apossava dele sorrateiramente. Era o medo desnudado
de uma criatura que pode prever a hora de sua morte... naturalmente a uma
grande distância ainda, mas existente e ameaçadora.
— Os Coletores e os Vassalos — murmurou Vascalo. — Eles não me
obedecem mais. A Comutação Final em Bloco não funciona mais.
No seu medo reunia-se ainda a consciência que de hora em hora aumentava
cada vez mais. Tratava-se de que seu treinamento de décadas e as muitas
frustrações que ele aceitara para si espontaneamente, tinham sido em vão.
Este longo e doloroso desenvolvimento podia encontrar o seu fim aqui.
Um fim contra o qual Vascalo se empinava internamente.
Tudo em vão... Todos os esforços para nada...
A coroação de sua vida, ou seja, a vitória sobre os odiados amigos do Ganjo
e o prosseguimento do governo do Tachkar, saíam do âmbito das probabilidades.
O drama desta disputa silenciosa entre sonho e realidade, entre imaginação e
fatos, acontecia no interior do takerer, ninguém o notava, nem mesmo Anagash
Eriget.
— Medo... receio... — murmurou Vascalo.
A sua mente, uma das melhores do Reino Takerer, recusava-se a aceitar
esta solução.
A Comutação Final em Bloco, com a ajuda da qual ele tinha distribuído
ordens para quantidades gigantescas de Coletores e Vassalos lançados ao espaço,
tinha falhado, fora suprimida. Isso somente podia ser obra da Proto-Mãe, que de
sua parte surgira aqui nas proximidades do pequeno planeta, com uma
quantidade enorme de Coletores, formando um aglomerado semelhante a um
enxame de abelhas. Esta comutação de dispensar ordens até agora era tida como
irrevogável — um erro!
Vascalo podia sentir o medo aumentar.
As reflexões e os pensamentos frios, controlados e pragmáticos de Vascalo,
tornaram-se incertos, cheios de pânico e nada confiáveis. Ele sentia-se como um
animal numa jaula.
Medo!
Pânico!
Desespero!
Vascalo caiu pesadamente para a frente, enterrando o rosto em ambas as
mãos, cuja beleza era famosa. A corcunda informe elevou-se no ar. Nenhum
takerer, dos que se encontravam no Coletor do tamanho de uma lua, que
autonomamente e sem qualquer ordem, chamara de volta aos seus hangares todos
os Vassalos, ousou mexer-se.
E então um deles fez uma observação aterradora:
— Todos os Vassalos estão de volta aos hangares. Somente os que estão
totalmente destruídos ainda pairam no espaço. Muitos deles foram rebocados por
seus companheiros, e puxados para dentro dos Coletores.
Isto parecia ser o começo do fim.
***
No mesmo segundo em que o pânico inundou Vascalo, bloqueando suas
reflexões, Lefton Rapyrosa encontrava-se na frente dos seus noventa e nove
homens. Por um instante passou-lhe pela cabeça que a sua cautela exagerada era
justificada: ele tinha, pelo menos, colocado cem vidas humanas muito menos em
perigo.
Ele perguntou ao microfone do seu traje espacial:
— Tudo em ordem, amigos?
Depois de alguns segundos, dois homens ao mesmo tempo disseram:
— Até agora, sim!
Os robôs carregaram os homens para cima. Passaram bem juntinho de
rampas, de escadas e através de simples dutos. Depois um elevador rápido levou
os homens mais ou menos cinquenta metros mais para o alto. lentamente eles se
aproximavam do seu destino, mas, conforme Rapyrosa observou, aquilo ia
devagar demais.
Lefton encontrava-se justamente no meio de uma rampa, quando notou que
estava caindo.
Ele estendeu as mãos e os pés, e parou a queda. O corpo do robô caiu
pesadamente sobre suas costas, depois a máquina rolou barulhentamente escada
abaixo, derrubando os especialistas que vinham atrás. Por toda parte os homens
praguejavam, levantando-se novamente e gemendo muito.
A voz da Proto-Mãe falou:
— Sinto muito. A energia para todas as instalações robóticas dentro de
Ovarasch terminou. Vocês não podem mais contar em serem transportados
adiante.
Rapyrosa respirou fundo, fez um esforço para controlar-se e depois berrou:
— Quantos metros ainda faltam até a ponta, Proto-Mãe?
A resposta não se fez esperar:
— Faltam ainda mil e cem metros. Ou seja, duzentos e vinte conveses ou
planos.
Este número pareceu excessivamente grande a Rapyrosa. Duzentos e vinte
andares — isso correspondia à escalada de uma montanha de altura média. Mas
certamente não haveria outra possibilidade.
— Entendido! — disse ele. — Existem possibilidades de ajuda?
— Sim. No elevador de alta velocidade. Dentro de seis minutos ele será
desligado, mas até então...
— Onde? — interrompeu Rapyrosa.
— Dois planos acima, as luzes pisca-pisca indicarão o caminho.
Ele acenou para trás e saiu correndo. Agora cada segundo contava. Seus
homens o seguiram rápida, mas disciplinadamente. Um deles parecia ter
quebrado o pulso e o homem ao seu lado tirou-lhe o pesado aparelho cassete, que
ele carregava. Os terranos correram, ofegantes, dois lances de escada acima,
depois a porta do elevador abriu-se à sua frente.
— Vamos! Tantos quanto possível, e o mais depressa possível. Vocês
sobem exatamente oitenta segundos, depois param o elevador.
Era uma cabine bastante grande, onde couberam quarenta e sete homens.
Rapyrosa ficou parado e controlou a passagem do tempo. Os outros homens se
preparavam, ninguém falava.
Setenta... setenta e cinco...
— Oitenta segundos.
Lâmpadas que se acenderam demonstraram que o elevador parara. Lá em
cima os homens agora saíram de dentro do elevador aos pulos, e Rapyrosa
apertou o botão de chamada. Quase cinco segundos antes do esperado, a porta
abriu-se novamente, e então o terrano gritou:
— Temos que entrar todos, depressa!
A primeira leva apertou-se para dentro do elevador. Os homens subiram nas
palmas das mãos juntadas dos companheiros e sentaram-se nos seus ombros.
Rapyrosa foi o último a se esgueirar para dentro, sentiu-se erguido, e a placa da
porta que se fechava golpeou fortemente o seu tornozelo protegido pela bota.
Depois o elevador subiu velozmente. Lefton não tirou os olhos do cubo no qual
estava embutido o relógio eletrônico. O elevador subia cada vez mais para o alto.
Trezentos segundos.
Trezentos e quarenta...
— Logo vamos ser atirados por cima do telhado, com uma rolha de
champanha! — gritou alguém, estertorando.
— Espero que não com os trajes espaciais abertos! — observou um outro.
— Parem o veículo! — gritou Lefton.
De repente ele ficou um pouco mais leve, quando entrou a aceleração
negativa. Depois o elevador parou. Quando os homens se atiraram para fora da
cabine, apagou a luz dentro do elemento arredondado do elevador. Eles tinham
escapado exatamente ainda em tempo, caso contrário teriam que fazer um furo
através da cabine e do revestimento do duto do elevador, com o uso de suas
armas de raios. Segundos mais tarde eles se reuniram novamente, e Rapyrosa
perguntou, claramente:
— Eu pergunto ao primeiro grupo, que supostamente se encontra abaixo de
nós. Onde estão vocês?
A resposta veio através do alto-falante de capacete:
— Quatorze conveses abaixo de vocês. Nós vimos o elevador passar por
nós, velozmente.
— Simplesmente venham atrás de nós! — disse Rapyrosa. — Afinal de
contas ainda estamos vivos. Nós vamos continuar subindo.
Depois ele chamou, claramente mais alto:
— Proto-Mãe?
— Estou ouvindo!
— Quantos conveses ainda temos pela frente?
— Mais de cem conveses ainda. Eu estou preparando a comutação que abre
a escotilha. Vocês ainda têm tempo até que o programa termine.
Rapyrosa falou com voz rouca:
— Uma nave vem nos apanhar. Desligue seus escudos de proteção, Proto-
Mãe, e possibilite o atracamento da nave ou a sua aproximação da ponta do
obelisco.
— Vou fazer todo o possível.
Enquanto continuaram correndo adiante, Rapyrosa sintonizou o canal, no
qual falara por último com Hachin Tsho Nashooshi. Ele disse, tossindo ao
microfone:
— Hachin, estou chamando! Responda rapidamente!
A voz profunda do índio saiu dos alto-falantes:
— Estou em voo de aproximação, passando a Theseus exatamente entre
dois enormes Coletores. Eles não se afastam, mas também não estreitam o meu
caminho. Entrementes estou vendo o obelisco... sim, também a ponta. Estou em
rota direta para ele.
Lefton olhou para trás, os seus homens ainda podiam segui-lo. Ele sentiu o
suor correndo-lhe pela testa, molhando-lhe as sobrancelhas. A sua respiração era
estertorante.
— Ótimo. Eu fico na escuta. Nós estamos a cerca de quinhentos metros de
distância da ponta.
Os terranos mal tinham tempo para olharem as instalações. Mas a
consciência de que a nave de comunicações terrana estava bem próxima,
acalmou-os um pouco. Entretanto subir as escadas, nem por isso, ficou mais
fácil. Com os pulmões doendo, os terranos continuaram subindo, degrau após
degrau. A primeira seção ia um pouco na frente.
Alguns minutos mais tarde, a voz da Proto-Mãe falou:
— Dentro de poucos minutos a alimentação de ar respirável deixará de
funcionar. Preparem-se para isso, terranos!
— Entendido! Fechar capacetes, ligar a alimentação do traje — berrou
Rapyrosa para trás, passando por um homem, que lhe anuiu. Também o rosto do
especialista de radiocomunicações estava coberto de suor. Agora a corrida mortal
com a morte entrava na sua última fase, na fase decisiva. Faltavam ainda um total
de cem conveses, cerca de quinhentos metros numa distância em linha reta. Os
homens continuaram correndo como autômatos.
Ininterruptamente...
Escada após escada, degrau por degrau...
***
Alguns minutos depois, os homens da nave de comunicações, que agora
freava a velocidade, colocando-se cautelosamente do lado do obelisco, puderam
registrar dois acontecimentos inacreditáveis.
Primeiramente um gigantesco Coletor, com uma grande superfície
ligeiramente arredondada, formado como um gigantesco cone pontudo, cujas
superfícies laterais se dividiam em milhares de cantos e ângulos, pôs-se em
movimento.
Ele aproximou-se lentamente e com cautela da parte inferior do formidável
obelisco. Depois ele se ajeitou de tal modo, que no grande buraco aberto de sua
superfície lisa, a parte inferior da coluna se ajustou perfeitamente. Metro a metro,
então, a construção deslizou adiante, até que a parte inferior do tubo pairava
exatamente por cima do buraco.
Motaen murmurou, como que hipnotizado:
— Um quebra-cabeças cósmico. Os Coletores se encaixam. Este aqui,
supostamente, antes foi o fundamento do obelisco.
O índio empurrou a cinto de couro mais para o alto da testa e puxou do
bolso o seu cachimbo de barro, apagado. Ele disse baixinho:
— Olhe, ali, o obelisco se encaixa exatamente no vão livre.
— Realmente!
Os homens da Theseus ficaram olhando em silêncio, como o gigantesco
Coletor se colocou lentamente por cima do obelisco que parecia uma coluna. Aos
metros, aquela forma alongada deslizou para dentro do vão livre, até que
finalmente um ligeiro abalo passou por toda aquela construção dupla. Ambas as
peças do jogo agora estavam fixas.
O segundo acontecimento:
Entre os Coletores que se movimentavam, havia uma abertura, através da
qual podia ver-se as estrelas. Quando a Theseus, com pequenos impulsos de seus
propulsores normais, mas com o escudo de proteção ligado novamente, tomou
um pouco de velocidade, para aproximar-se da ponta do obelisco, as tripulações
viram como três Coletores, que vinham de direções diferentes, se encaixaram.
Com eles foi criada, dentro de dois minutos, uma forma bem maior, mas
logicamente encaixada.
— Seria este o Programa Fundamental? — perguntou Motaen baixo.
Ele ficou fascinado em ver que sem qualquer desenvolvimento energético
visível, estas peças, que eram maiores que bólidos gigantes, se juntavam. Agora a
Theseus pairava, envolta por uma bola semicôncava de Coletores, diretamente
diante da ponta do obelisco.
De repente formou-se na ponta uma fenda estreita, muito clara. A fenda
alargou-se, transformando-se num quadrado, e podia ver-se nitidamente que se
tratava de uma escotilha.
O comandante empurrava o seu cachimbo de barro, impaciente, de um
canto da boca para o outro. Finalmente, quando a insegurança e a espera já o
deixara nervoso, ele perguntou, em voz alta:
— Maldição! Ainda não temos notícias de Lefton?
— Não, nada, Sir! — respondeu um dos homens.
Eles continuaram esperando.
Vascalo ainda não se restabelecera de seu atordoamento. Deste modo, ele
também não percebeu que alguns Coletores de sua formação, nos quais um
milhão de takerers esperavam para entrarem em ação, começavam a se
movimentar.
E era realmente bastante mais rápido e com mais objetivo, do que tinha sido
até agora, este leve movimento derivando na direção de Plutão.
Vascalo também não viu que no primeiro grupo de três Coletores, de
repente havia dez, depois quinze, e finalmente trinta. Alguns minutos mais tarde,
mais sessenta Coletores puseram-se em movimento, e em meio das formas
gigantescas que esperavam, criou-se uma célula-mãe, parecida com um cristal
em crescimento, e que se expandia cada vez mais. Silenciosamente, um jogo de
sombras gigantesco juntou os Coletores.
Como se um relógio desumano fosse desfiando as horas...
Meia hora mais tarde finalmente todos os cento e trinta mil Coletores se
movimentaram — ou aquilo que ainda sobrava deles.
Agora também a Federação Galáctica Normon retirava-se com as suas
naves.
O espaço em volta de Plutão se esvaziava.
Somente todas as naves da frota natal e outras frotas de apoio ainda
esperavam, nas suas antigas linhas defensivas, que se desdobravam entre Plutão e
Urano.
Os Coletores pareciam todos submetidos a um único ritmo misterioso.
***
— Finalmente! — disse Hachin.
O rádio chamou, e a voz morta de cansaço de Rapyrosa disse:
— Hachin, tire-nos daqui. Nós estamos acabados. Não podemos mais!
O índio perguntou rápido:
— Vocês podem rastreá-la exatamente?
— Naturalmente. Fracamente, mas com exatidão.
Hachin, que via na galeria panorâmica como os Coletores se juntavam em
volta da Theseus, ameaçando esmagá-la, ergueu os ombros e aproximou o seu
queixo do microfone.
— Lefton! — disse ele, áspero.
— Sim?
— Diga à Proto-Mãe que a alimentação de ar respirável foi desligada, e ela
disse também que a escotilha está aberta. Nós ainda temos mais ou menos trinta
andares ou mais.
— Nós vamos ajudá-los, Lefton! — garantiu Hachin.
Depois ele se virou e deu algumas ordens.
A nave movimentava-se imperceptivelmente, e um holofote foi ligado. Ele
era dirigido da seção de rádio, e primeiramente designava o lugar atrás do qual
trabalhava o transmissor de Rapyrosa. Depois ele irradiou para esta meta. Um
canhão foi colocado em posição, os homens no console semi-automático de
disparo miraram muito exatamente, e então um longo raio branco comeu o metal.
Houve faíscas para todos os lados. Fumaça subiu, mas logo se desmanchou no
vácuo. Depois as bordas de um buraco mais ou menos redondo apareceram,
incandescentes, ficaram brancas e se fundiram.
— Adiante! — disse Hachin. — Atirem mais profundamente!
O tiro foi repetido, e de repente veio a voz de Lefton:
— Chega! Nós já estamos vendo vocês!
— Cessar fogo! — gritou o índio.
E então o raio apagou-se. Motaen já participara de um comando de
salvamento, e com dez homens, todos em trajes espaciais leves, entrou voando
rapidamente para dentro de uma eclusa de hangar vazia. Luz acendeu-se, e quatro
longas cordas foram atiradas. Elas bateram violentamente contra a parede do
pilar e ficaram presas ali por suas garras magnéticas.
Motaen disse:
— Comandante! Nós estamos prontos! Diga a Lefton que ele pode pairar
para cá com seus homens.
— Entendido!
Quando depois de pouco tempo num cone de luz de um forte holofote
surgiu o traje de combate prateado do primeiro terrano, segurando o braço,
protetoramente diante da sua viseira, eles desligaram o holofote novamente, e em
seu lugar ligaram dois outros, que iluminaram o buraco de um outro ângulo. O
homem pegou o cabo, deu-se um empurrão, puxando-se através do espaço vazio
até a outra nave. Quando entrou no âmbito da gravidade artificial, os homens da
nave o receberam.
O seguinte veio.
Quando o décimo estava a caminho, Motaen viu que Rapyrosa estava
parado junto do buraco, ajudando os seus homens.
Motaen olhou para a direita, para a esquerda, para cima e para baixo. Ele
assustou-se e disse, com insistência:
— Comandante, diga a Rapyrosa que se apresse. Os Coletores se
aproximam de todos os lados. Logo estaremos metidos dentro de uma armadilha!
— Entendido! — declarou o comandante.
Agora também a Theseus, com todos os membros de sua tripulação e o time
de comando da Contra-Espionagem de Terrânia City estavam em grande perigo.
De todos os lados aproximavam-se os Coletores.
7

O planeta Plutão foi abalado por fortes tremores, quando as últimas ordens
da Proto-Mãe foram transmitidas.
Os Coletores, que Vascalo controlara até agora, de repente se
movimentaram.
Mais de um milhão de takerers tiveram suas esperanças renegadas, depois
que os pedotransferidores entre eles tinham sido catapultados de volta a cada
tentativa sua.
Mas este movimento não podia ser influenciado.
Fuga!
Os cerca de cento e trinta mil Coletores ganharam velocidade. Eles
abandonavam as posições que tinham ocupado até então.
Estupefatos, os homens da frota terrana viram como o seu adversário
mudava de posicionamento. Os terranos, entrementes, estavam novamente
sozinhos — nenhuma outra nave que não fosse da frota natal encontrava-se aqui
no local dos combates. Todos os “aliados” tinham fugido.
Os Coletores abandonaram os limites do Sistema Solar.
Em forma de estrela, eles voaram velozmente por cima de Plutão na direção
da grande concentração de Coletores, que nas horas passadas somente se
movimentara no interior da nuvem. Cada vez mais Coletores da Proto-Mãe se
reuniam, em aglomerados. Criou-se um núcleo firme, metálico, em cuja
superfície loucamente denteada os outros Coletores se uniam. Sem juntas, eles
cresciam juntos e cresciam para todos os lados. Criaram-se cavidades vazias, um
planeta metálico formava-se crescendo de dentro para fora.
Ainda faltavam inúmeros fragmentos, mas a cada hora mais Coletores se
juntavam ao sistema.
Eles fizeram isso tudo enquanto as formações da frota de Vascalo se
aproximavam.
Quanto mais espesso ficava o núcleo, maior era a sua massa. As relações de
atração mútua de massas influenciaram o planeta próximo, cujos tremores
ficavam cada vez mais fortes. A crosta gelada arrebentou, tempestades de metano
bramiam furiosas, fendas se abriam, e gigantescos véus de nevoeiros
abandonaram o planeta, em forma de fios, e se diluíram no vácuo.
O aperto dos Coletores parecia imenso e impossível de ser destrinchado,
mas as ordens de comutação da Proto-Mãe e a memória exata dos diversos
computadores de cálculos, que conheciam os seus antigos “vizinhos” exatamente,
impediam um caos total. Era uma nuvem gigantesca, giratória, que parecia uma
tempestade de neve, na qual cada floco tinha um lugar exato e mantinha uma
órbita precisa, predestinada. Neste enxame girando majestosamente, agora os
primeiros Coletores de Vascalo entraram voando, perdendo-se na multidão.
Atônitos e sem entender, milhões de astronautas terranos olhavam este
espetáculo, que podia ser visto nas suas telas de imagens.
O que parecia um gracioso bale, para a Theseus era um perigo
absolutamente mortífero.
Na eclusa da nave, Motaen bateu com o punho fechado no revestimento da
parede e disse, nervoso:
— Rapaz! Dê-se um empurrão! Venha para cá mas bem depressa!
Agora Rapyrosa, o último do seu grupo, acocorou-se, soltou o cabo e deu-
se um empurrão. Quando já tinha deixado dez metros atrás de si, os cabos foram
recolhidos, passando perigosamente por ele, zunindo. Motaen pegou o braço do
homem e gritou:
— Pronto!
O comandante ouviu, e sentou-se diante do piloto.
Enquanto se fechavam as portas da eclusa, a Theseus manobrou para longe,
afastando-se da ponta do obelisco. Eles ligaram os escudos e não ousaram
acelerar mais. Seguiu-se uma rota, que deixou o comandante totalmente exausto.
Ele voou lentamente e em linhas de parafuso, rodeou os Coletores, como bólidos
voando preguiçosamente, evitou outros objetos, que vinham ao encontro da nave
em rota de colisão, acelerou durante segundos, quando se oferecia uma
possibilidade, e constantemente os homens viam nas telas de vídeo nada mais
que Coletores de todos os tamanhos, que se movimentavam em círculos.
Eles pareciam naturalmente estar na borda exterior do enxame, mas entre
eles e o cosmo livre havia milhares de quilômetros.
E lá fora também vinha voando velozmente os outros Coletores — a
maioria em rota de colisão. O índio trabalhava, suando. Depois de três horas ele
viu diante de si o cosmo livre. Nas telas de rastreamento ele reconheceu os
objetos que vinham voando velozmente, e mais atrás a frota terrana. Eles
estavam salvos.
O comandante levantou-se e disse:
— Motaen, por favor coloque a nave em uma posição entre a frota e este
formigueiro de aço aqui. Eu estou completamente exausto.
O oficial de comunicações deu a rota ao piloto, depois falou com Reginald
Bell, que tinha escutado tudo, através da ligação existente.
Rapyrosa colocou uma das fitas gravadas, sintonizou um canal da nave de
comunicações e todos os receptores da onda da frota puderam ouvir a História da
Proto-Mãe.
Rapyrosa disse para Motaen:
— Este foi um salvamento por um fio, parceiro. A Proto-Mãe agora reuniu
todos os Coletores com o seu Programa Fundamental. Todas as outras
programações foram apagadas, com correspondentes comutações de segurança.
Sabe o que isso significa?
O Primeiro-Oficial de Comunicações anuiu e disse:
— Eu acho que sei. Estes cerca de quatrocentos e setenta mil Coletores...
imaginem só — quase meio milhão de peças de ferro... eles irão se reunir, sim —
para que e por que?
O psicógrafo disse:
— Para formarem um planeta gigantesco de aço. É inacreditável. Está com
as câmeras ligadas?
— Naturalmente.
— Isso é bom. Este é um documento histórico de primeira categoria.
A nave finalmente ficou parada numa posição, sem perigo, de qualquer
ponto de vista. O planeta Plutão estava se dissolvendo, e seus destroços voavam
na direção do gigantesco objeto metálico, que se conglomerava a duzentos mil
quilômetros de distância dele.
— Plutão não resistirá a esta aglutinação! — disse Hachin Tsho Nashooshi,
quando apareceu novamente na central. Nas telas de vídeo eles viram o início da
catástrofe, e na tela numérica no centro da central eles viram os inúmeros ecos
dos Coletores. Eles agora resultavam numa imagem parecida com um
aglomerado de estrelas, cujas estrelas exteriores se movimentavam isoladamente.
O núcleo era espesso e compacto. Ele já media trinta mil quilômetros no seu
diâmetro.
— O que vai acontecer? — perguntou Rapyrosa.
Ele estava colossalmente aliviado: todos os seus homens e as bobinas e as
fitas cheias de documentos sonoros e de vídeo de grande importância haviam
sido salvos, estavam em segurança. Se a Theseus não tivesse intervindo sem
ordem — todos teriam se perdido.
Como os takerers que estavam trancados ali.
— Este acontecimento não tem exemplo igual em toda a galáxia. — Uma
massa semelhante de corpos robóticos não existe uma segunda vez — disse o
comandante Nashooshi baixinho. Como todos os outros homens, ele olhava
alternadamente a imagem oticamente livre da galeria panorâmica e a instalação
em bicolor, da tela deitada do departamento de rastreamento.
— Este é um fenômeno de uma outra Via-Láctea. Com nossa relação à
técnica, isso não pode coadunar-se — opinou o chefe do grupo de comando de
duzentos homens. Ele colocou a mão no braço de Motaen e perguntou, em voz
baixa:
— A ligação por transmissor, entre a Theseus e o Quartel-General, já foi
restabelecida?
— Nossos técnicos estão justamente trabalhando nisso, Lefton.
— Eu preciso fazer um relatório para Deighton e Tifflor, e me justificar a
respeito do equipamento faltante — disse o psicógrafo, mas sorriu ao mesmo
tempo.
— Está bem.
O desenvolvimento continuou.
Depois de outras seis horas, no lugar do turbilhão havia uma massa
compacta. Seu diâmetro era de pouco menos de quarenta e nove mil quilômetros
e correspondia mais ou menos ao planeta Netuno, levemente atrofiado. Plutão
entretanto estava tendo seu últimos abalos. O planeta quebrou-se em bilhões de
destroços, fortes tremores explodiam cada vez mais lascas do núcleo firme, e
estes pedaços sólidos varriam através do espaço livre, na direção da esfera maior
que ficava bem perto do antigo nono planeta.
Somente uma diminuta excrescência sobre esta gigantesca coisa redonda,
era o obelisco.
O Ovarasch, idêntico com a célula-mater da Proto-Mãe.
— E ali agora estão trancados mais de um milhão de takerers! — disse o
comandante. — Terrível!
Rapyrosa disse baixinho, mas com voz firme:
— Qualquer agressor tem que calcular automaticamente, que ele, e não o
seu adversário, pode ser a vítima.
— Isso não faz os takerers nem mais simpáticos nem mais vivos — disse
Hachin, friamente.
Rapyrosa perguntou, angustiado:
— E o que vai acontecer agora?
Ninguém lhe respondeu. Por isso ele continuou:
— Nós fomos os seres humanos, que se apoderaram garantidamente da
última chance de sair deste gigantesco sistema.
— Depois da contagem regressiva da Proto-Mãe, não há mais nenhuma
possibilidade de fuga. E para onde os takerers poderiam fugir? Nem mesmo os
pedotransferidores puderam escapar, pois cada terrano no sistema usa uma faixa-
dakkar.
Esta afirmação, basicamente, podia ser duvidosa, mas acertava no cerne da
verdade. Cada homem de algum modo importante neste sistema usava a faixa, e
os poucos outros que não a portavam, podiam ter certeza de que um ressonador-
Hollbeyn estava nas proximidades.
Rapyrosa anuiu e continuou:
— A célula básica, um formidável cérebro robótico com memórias e
informações, que foram reunidas durante duzentos mil anos, está totalmente
ligada, em via única, no Programa Fundamental. O que nós não conhecemos é o
ponto final deste programa. O que fará a Proto-Mãe?
— Certamente vai desaparecer do sistema. — da mesma maneira como veio
até aqui. Nós agora sabemos que os Coletores, que vieram com Vascalo, também
apenas eram peças perdidas da Proto-Mãe. Ela somente podia colocá-los
novamente sob as suas ordens, se deixasse entrar em funcionamento o Programa
Fundamental, alimentado por Ovaron. E foi isso que aconteceu.
— O fim?
— Nem imagino!
O planeta Plutão não existia mais.
A frota terrana ainda esperava, mas o alerta não tinha sido absolutamente
suspenso.
Todos os fortes planetários também se encontravam em prontidão de alerta,
e esperavam por outras notícias.
Todo aquele que não estivesse dormindo estava esperando por notícias.
Todos os videofones ligados mostravam as imagens que a nave de comunicações
Theseus tinha captado. A ligação por hiper-rádio é a onda da frota funcionava a
contento. Os terranos ficaram olhando, enquanto os últimos destroços de Plutão
choviam sobre o novo planeta artificial.
Rapyrosa, uma hora mais tarde, passou com sua tripulação, pelo
transmissor, e rematerializou no Quartel-General terrano.
A Humanidade do Sistema Solar esperava tensamente pelo
desenvolvimento da situação. O que iria acontecer?
***
Aconteceu no dia vinte e seis de julho de 3.438, uma hora antes da meia-
noite — tempo normal da Terra.
Uma mensagem de rádio, que novamente foi irradiada na onda da frota e no
plano-dakkar, pôde ser captada:
— Eu sou a Proto-Mãe.
“Conforme meus cálculos e informações fiquei sabendo que, com todos os
meus Coletores e Vassalos, que foram produzidos por mim mesma, me tornei
poderosa demais. Era possível usar-me a mim ou minhas partes, para executar
coisas reprováveis, no sentido de minhas máximas éticas e morais, programadas.
Isso aconteceu repetidas vezes.
A adição resulta num valor insuportavelmente elevado.
Este valor disparou minha Programação Fundamental. Eu vou me
desintegrar.
Alguém, em alguma nave qualquer, murmurou:
— Este é o grande choro de Morschaztas.
E então a Proto-Mãe agiu.
Aquele complexo do tamanho de um planeta começou a tremer e a vibrar.
Uma incandescência uniforme e simétrica se espalhou.
***
Vascalo, o Torto, o pedoautocrata instintivo, o parente do Tachkar, que
entrementes fora assassinado, estava sentado, todo encurvado, na sua poltrona.
Fazia uma hora que ele não abandonava esta poltrona.
Ele observava as telas de vídeo, sem realmente ver o que era mostrado por
elas. Naturalmente ele notou, no fundo de sua mente fortemente exigida, que o
Coletor do tamanho de uma lua, em cujo interior ele se encontrava junto com
seus fiéis, estava se movimentando. Naturalmente ele sentia exatamente que este
movimento nada mais tinha a ver com suas próprias comutações, que uma
vontade estranha ou uma comutação estranha o ditava, mas mesmo esta reflexão
passou por ele, sem provocar reações.
Ele murmurou, desesperado:
— Tudo perdido... tudo em vão... toda uma vida...
Sua voz se modificara. Ela normalmente possuía todo o espectro, ele a
dominava desde a suave lisonja até a ordem alta e cortante. Agora esta era a voz
de um homem alquebrado, grasnante, rouca e sem esperanças. Quando ele tirou
os dedos de diante dos olhos, Anagash Eriget pôde ver que eles tremiam. Eriget
era o único takerer que ainda ficara neste recinto, e trancara a escotilha por
dentro.
Porém dentro do Coletor reinava um pânico aberto.
Os takerers tentavam deixar o Coletor. Todos que não eram
pedotransferidores, vestiram trajes espaciais, e tentavam encontrar um caminho
para fora, através de corredores, galerias, rampas e escadas acima e para baixo.
Muitos deles entraram em Vassalos e tentaram fazer com que se lançassem ao
espaço. Quando notaram que todas as comutações de nada valiam mais,
começaram a destruir os instrumentos, numa fúria cega.
Explosões e chispas voando para todos os lados foram as consequências.
Os pedotransferidores queriam salvar-se à sua maneira. Eles goniometraram
terranos nas naves e transferiam-se para os corpos destes, mas eram repelidos
pelas faixas-dakkar, caindo novamente de volta aos seus próprios corpos.
— Eu acabo ficando maluco... — gritou Vascalo.
Anagash conservou-se calmo; agora, que ele sabia que a sua morte era
iminente, reconquistara o seu controle. Ele não sabia como isso tinha acontecido,
mas para ele significava que poderia morrer com dignidade — e era assim que
pretendia morrer.
Os transferidores, que conseguiam pular para dentro de seres humanos que
não portavam uma faixa-dakkar — e eram só poucos —, eram reconhecidos pelo
ressonador, sendo obrigados a abandonarem estes corpos novamente, sempre que
recebiam ameaças de morte.
— Eu não aguento mais... — soluçou Vascalo.
O Coletor com todos os seus frenéticos ocupantes continuava
movimentando-se na direção do centro imaginário de uma concentração em
massa. Nas telas de vídeo de há muito já não se viam mais estrelas, nem mesmo a
falange de naves terranas, mas apenas ainda corpos gigantes ameaçadores,
parcamente iluminados, que tinham muitos cantos e saliências e que sempre que
se tocavam, logo se encaixavam como peças modulares de uma construção
maior.
Anagash ficou olhando, sem se perturbar, como Vascalo deixou-se cair para
a frente, escorregando enviesadamente do console e caindo ao chão. Logo depois
o aleijado pôs-se novamente de pé, girou a parte superior do corpo e olhou para o
outro takerer.
— O que está fazendo aqui? — perguntou ele.
— Estou esperando! — declarou Anagash Eriget, calmamente.
Ele ergueu o braço e apontou para as telas. Agora este Coletor do tamanho
de uma lua já não estava mais sozinho. De todos os lados vinham exemplares
menores que se agregavam a ele. Batidas ocas, ecoantes, abalaram as
construções, mas mesmo assim eles não saíam da rota, pelo que se podia
perceber ainda a olho nu.
Vascalo cambaleou.
O seu rosto estava pálido como cinza, e inchado, sulcado de muitas rugas
profundas. Os grandes olhos pareciam inexpressivos, e um fio de saliva escorria-
lhe do canto esquerdo da boca. Anagash registrou todas estas observações
impassível, curiosamente desinteressado e totalmente calmo. Ele mesmo era
quem mais se admirava de sua calma. Vascalo aproximou-se dele, com as pernas
cambaleantes. Os seus dedos, como garras, enterraram-se na jaqueta de Eriget.
— O senhor está calmo? — murmurou Vascalo. — E tudo está em ruínas!
— Sim — disse Anagash — e um pouco mais de dignidade lhe ficaria bem
melhor.
Vascalo levantou a mão e esbofeteou Anagash, batendo-lhe na boca.
— Por que está fazendo isso? — perguntou Anagash, baixinho.
— Eu... eu não sei... — lamentou-se Vascalo, e cambaleou de volta ao seu
console.
Ele levantou os olhos para as telas de vídeo que lhe mostravam
impiedosamente a verdade. Algumas seções já não se viam mais, uma vez que no
lugar onde se encontravam as lentes das câmeras, outros Coletores já se haviam
encaixado.
De repente Vascalo gritou, estridente:
— Eu vou me transferir!
— Boa sorte! — observou Anagash, secamente.
Como antes, ele estava encostado junto da escotilha fechada, e sentia, mais
que ouvia, os outros takerers gritarem furiosos. Eles se encontravam na mesma
situação de Vascalo, e o medo da morte os dominava. Ninguém poderia
sobreviver, mas cada um calculava para si uma microscópica chance, que logo
perceberia. Os takerers não se importavam em cometer assassinatos para protelar
a própria morte.
O Coletor do tamanho de uma lua, junto com seus apêndices, foi sugado
velozmente por um gigantesco buraco negro.
Somente um segmento das telas de vídeo ainda funcionava.
O Coletor agora encontrava-se no fundo de um enorme buraco. O buraco
consistia do mais puro negro. Escuridão, trevas, ameaça de morte. Estas noções
atravessaram a cabeça de Anagash.
A borda do buraco era um pouquinho mais clara que as paredes e o fundo.
Esta claridade derivava das estrelas, que em parte se espelhavam nos Coletores,
nas suas superfícies rasgadas, cheias de cantos, cavidades e ângulos.
De repente os olhos do takerer ficaram esbugalhados.
Na última tela ele viu como uma pequena nave terrana, com propulsores
soltando faíscas, varreu por cima do buraco, desviou-se de um Coletor
gigantesco, e então apareceu novamente, mais uma vez voando numa linha
curva, como num saca-rolhas, e finalmente, com velocidade enorme, saiu voando
dali quase em linha reta. As torrentes de partículas, saindo dos reatores dos
propulsores da saliência de propulsão, iluminaram os flancos de outros Coletores.
E então o buraco se fechou.
Anagash sentiu a diferença, e então viu o pseudocorpo trêmulo de Vascalo,
caído do lado da poltrona.
Logo em seguida, Vascalo estava novamente ali, de pé.
— Não consigo! — gritou ele, desesperado.
Parecia que ele tinha perdido os seus dons extraordinários.
Ele olhou para o alto, para as telas, e justamente agora escureceu o vídeo
quase redondo. Um verdadeiro colosso de Coletores encaixados aproximou-se,
apagou a luz das estrelas e lentamente desceu para o fundo do desfiladeiro
metálico. Até mesmo a última tela e vídeo deixara de funcionar, e agora somente
os inúmeros aparelhos e escalas iluminavam aquele recinto quase sextavado, em
forma de colméia, no qual se encontravam dois takerers.
Eles estavam ali, de pé.
Um homem que subordinara toda a sua vida à ideia de Poder, Conquista e
Domínio, e que agora se encontrava diante de uma derrota irrevogável. Ele vira
isso claramente e se opusera a este pensamento, por isso a clareza de sua mente
sofrera. Ele não tinha mais o poder da pedotransferência e agora sentia
obscuramente como à sua volta e em volta do seu Coletor as massas metálicas se
amontoavam e se comprimiam.
O outro, que durante toda a sua vida só soubera de funções subordinadas e
que gora estava com a morte certa diante dos olhos, encontrara a paz interior e
exterior, para poder morrer em paz. Ele fazia parte do séquito pessoal de
Vascalo, e ele o acompanhara voluntariamente. E agora via o seu fim.
De repente a luz apagou.
— O que foi isso? — gritou Vascalo, girando aleatoriamente os
comutadores, baixando alavancas e tropeçando.
— Isso é o fim — disse Anagash, entregue.
Ele notou que em algum lugar diante dele, naquela escuridão absoluta, um
homem se rolava no chão, choramingando.
O tempo passou.
A climatização parou de funcionar, e logo podia sentir-se o frio.
Mas logo o calor começou a aumentar cada vez mais.
Do lado de fora gritavam, enfurecidos, os takerers.
Vascalo ainda choramingava. Ele ainda estava choramingando quando o
chão começou a ficar quente, e quando todos os revestimentos e isolamentos
começaram a soltar fumaça e a feder. Aquela choramingação passou para uma
tosse sufocada, que finalmente parou. Estava ficando ainda mais quente. Nos
cantos do recinto, Anagash podia ver manchas vermelhas, que se espalhavam
cada vez mais. A pele das mãos e do rosto começou a empolar, e o cabelo
queimava e fedia.
O tempo passou. Minuto após minuto, ele passou com uma vagarosidade
torturante.
E então os takerers morreram. Os gritos nos corredores do Coletor ficaram
mais baixos, por toda parte ouvia-se uma tosse torturante.
Finalmente todas as paredes ardiam, num branco incandescente.
Tudo se queimou.
***
Aquela incandescência vermelho-escura lentamente mudou de cor.
Vermelho-escuro, vermelho-claro, laranja, mais claro, e finalmente branco como
cal e logo depois também branco-azulado. As óticas desciam os filtros sobre as
lentes, e os terranos afastavam os olhos, quando tinham que olhar, piscando, para
as telas de vídeo, de um branco exagerado. E depois viram, através de filtros
quase marrons, como gigantescos relâmpagos atravessavam, fulminantes, o
espaço sideral.
O hiperespaço rasgou-se, e todos os sensores registraram abalos fantásticos
da estrutura espacial.
Em muitos planetas o solo estremeceu.
Ondas imensas de marés enchentes atravessaram os mares.
Imensas energias percutiam através do espaço normal, tridimensional. O
Sol produziu inúmeras manchas solares, que continuariam visíveis por mais de
seis meses.
A luz azulada tremia e pulsava, as pausas entre as máximas de claridade
ficaram cada vez mais longas.
Finalmente a bola encolheu, rebrilhou ainda algumas vezes e depois
apagou-se completamente.
Os filtros foram novamente retirados dos instrumentos.
Nem um só grão de poeira sobrara.
Não havia mais nenhum Vassalo, nenhum takerer, e nenhum Vascalo. Não
havia mais nenhum Coletor, que pudesse ameaçar a Terra. Não havia mais
obeliscos e não havia mais nenhum Arrivanum, nenhum Sikohat.
O encanto fora quebrado. O alarme foi levantado.
Somente alguns destroços ainda derivavam lentamente na direção do que
antes fora um centro de massa existente. Estes eram destroços da maior batalha
pela Terra. Pedaços de Vassalos, avarias, carcaças de naves e pedaços de metal
antes incandescentes.
Todos os seres humanos no Sistema Solar respiraram aliviados.
***
Quando ele foi acordado pela torrente de luz muito clara, que vinha da
direção do sistema, o homem esguio, cuja testa era curiosamente alta, esfregou os
olhos.
— Eu compreendo — murmurou ele. — O final da luta!
Ele abriu a janela, e olhou para a noite lá fora, cheia da claridade
semelhante a uma aurora boreal, mostrando todas as cores até bem acima de um
azul muito luminoso. A luz precisara de menos de cinco horas para alcançar a
Terra, vindo da órbita de Plutão.
O dorminhoco que fora acordado disse:
— Uma luta termina, e algum dia também terminará o domínio do Homo
sapiens, e de todas as outras criaturas que pensam nas suas categorias.
O homem era o filho de um astronauta, cujos ancestrais tinham sido, sem
exceção, astronautas, e que tinham trazido muitas lembranças e memórias de
outros planetas. A forte radiação dura cósmica, à qual eles tinham estado
expostos, apesar de todos os trajes protetores, tinha feito deles mutantes, sem que
eles o soubessem.
Também ele era um mutante — mas ele não se tomava absolutamente como
um mutante.
Ele era o degrau seguinte, praticamente mais alto, da humanidade. Depois
do Homo sapiens, o “homem branco”, veio o Homo superior, o homem superior,
com todas as suas capacidades incontestáveis.
Ele mesmo era alguém que sabia que ele contava a essa nova raça, que
basicamente não se diferenciava, no exterior, dos muitos representantes do Homo
sapiens.
Além disso ele sabia:
— Astronaves têm que existir, mas armas não precisam existir. O homem
agora já teve tempo, durante milênios, de se matar com armas, de se deixar matar
ou de matar outros homens ou criaturas. Isso algum dia vai acabar.
E este dia — isto ele sabia — ou melhor, imaginava — não estava mais
muito distante.
Ainda havia outras mutações. Ele recusava a noção de mutante, quando
pensava no seu status especial. Mutante, para ele, era uma designação negativa.
Mas os homens da tribo do Homo superior eram positivos.
Por enquanto eles ainda eram uma pequena minoria, que consistia, sem
exceção, de homens altamente qualificados, que passavam em todos os seus
exames e testes com notas excelentes. Esta minoria mantinha-se silenciosa,
observante e sempre na espera. Aliás, era extremamente raro que dois homens
desse grupo se encontrassem, e ainda mais raro, que se identificassem ou
conheciam mutuamente.
Somente uma diretriz ética era mantida por todos:
O homem não foi criado para usar suas armas — e tudo que se podia
derivar, fabricar ou construir a partir dessas armas — contra outros seres
pensantes ou contra sua própria raça, não importava de que forma. Qualquer
conflito devia ser resolvido através do diálogo e da eloquência.
E justamente nesta reflexão encontrava-se o núcleo do fracasso.
Infelizmente, pensou o Homo superior.
Ele olhou pensativamente o jogo de luzes, depois o homem fechou a janela
novamente e registrou que o sistema de alarme tinha sido consequentemente
interrompido. Ele deitou-se novamente e continuou dormindo.
Como se nada tivesse acontecido.
***
Reginald Bell ergueu-se de um salto, bateu no ombro do seu piloto e disse:
— Nós interrompemos o alerta no sistema. Rapaz! Voe de volta para
Terrânia City com a Intersolar. Faça um pouso macio, para que ninguém acorde.
Eu vou dormir.
Sem maiores comentários, ele deixou a central, e dentro de vinte minutos
transformara a sua intenção em fato consumado.
As diversas partes da frota formaram-se rapidamente e saíram voando
velozmente. Elas voavam em velocidade abaixo da luz, de volta às suas diversas
bases e apoio e somente algumas poucas naves com tripulações descansadas
ainda voavam reconhecimentos próximos, nesta área do espaço. Os terranos eram
desconfiados, e tinham toda razão para isso.
Também a Theseus retirou-se.
Sua tarefa podia ser designada como bem solucionada.
Pontonac não ousava tirar sua faixa-dakkar, mas ele estava sentado no
banco, massageando suas têmporas.
— O que é que o senhor tem, chefe? — perguntou Drosen K. Willshire.
Eles ainda se encontravam no sistema solar Syordon na área de domínio da
Ordem Shomona. Os calendários registravam o dia 27 de julho de 3.438, e nada
havia acontecido. Nenhuma notícia da Terra fora recebida, e muito menos
nenhum cheque, ou uma comunicação interestelar bancária, avisando que Homer
G. Adams tinha pago suas dívidas.
— Dores de cabeça! — retrucou Pontonac.
Ele piscou os olhos, diante do sol muito claro, que caía sobre ele pelo
telhado de folhas. No momento eles se encontravam há duas horas no zoológico
da capital Thaumata Major do planeta Caudor II, no qual eles haviam sido
tomados como reféns, ou como correspondentes vivos de um “crédito
Lombardo”. Pontonac, Willshire e cento e cinquenta homens da Data Gilgama.
— Faz tempo que sofre disso? — perguntou Willshire.
Pontonac anuiu e confirmou:
— Desde o dia em que fui assumido por aquele pedoautocrata Vascalo. Eu
tenho estas dores de cabeça raramente, e em intervalos bastante irregulares, mas
então elas tomam conta de mim. E duram por várias horas, quase nunca por
menos tempo.
Willshire olhou para o seu relógio, e pensou no café da manhã do hotel, que
tinha sido ruim em quase todos os planetas, ou melhor em todos os hotéis perto
dos espaçoportos. Esta manhã, para seu grande divertimento, ele encontrara no
seu café — que aliás também não tinha gosto de café — um bicho que um
cientista terrano designara por “barata de cozinha, ordinária”.
Drosen disse, lacônico:
— Nós já estamos falando há cinco minutos sobre sua dor de cabeça, chefe.
Deite-se na horizontal sobre o banco, espere cinquenta e cinco minutos e tudo
terá passado.
Pontonac sorriu, paciente. O seu rosto, entretanto, não mostrava
absolutamente qualquer expressão cordial.
Há mais de um mês eles já estavam aprisionados aqui.
Eles moravam num hotel bastante bom: O Castle Hotel Count. Mas o hotel
tinha todas as falhas que um hotel podia ter. Atendendo às suas queixas, Wandte
Artian tinha respondido que eles podiam mudar-se sempre que quisessem para
um hotel de primeira classe, se pagassem a diferença de preços em solares
conversíveis livremente, eles mesmos. Naturalmente cento e cinquenta e dois
homens, depois dessa, tinham desistido da mudança.
Drosen caminhou dez metros para longe do banco e sentou-se então sobre
um largo parapeito, por baixo do qual havia um valão largo e profundo. Por trás
corria um ribeirão que tinha sido represado, formando um lago foiciforme. O
lago englobava um areal que, na sua parte traseira, chegava à beira e uma mata
tropical.
Na sombra, exatamente entre a areia e a mata tropical, estava deitado um
animal selvagem, de mais de duzentos e cinquenta quilos, com um pelo amarelo-
dourado, cujos desenhos pareciam uma porção de olhos, uns embutidos nos
outros.
Drosen olhou para lá e disse, espantado:
— Lá está nosso gatão-confusão!
Pontonac não respondeu.
A sua dor de cabeça o ocupava, a ele e ao seu bem-estar, apenas um terço
do seu tempo. As outras duas parcelas tinham que ver com a estada aqui, ou
melhor, com a estada forçada e com a incerteza desagradável, do que estava se
passando no distante Sistema Solar. Como estava transcorrendo a batalha
defensiva contra os Coletores? Vascalo, o Torto, já reinava soberano sobre a
Humanidade escravizada, que devido a isto se teriam transformado em joguetes
sem vontade própria dos pedotransferidores? Ele não sabia, e também não
haviam chegado notícias até aqui. Ele não tinha sequer uma nave, com a qual ele
poderia ouvir mensagens de rádio no hiperplano. A corrente de informações fora
interrompida.
Lentamente Willshire girou a cabeça.
Ele sabia no que o comandante estava pensando. Todos eles pensavam nisto
e se perguntavam diariamente, sempre cheios de dúvidas, como estaria a situação
no Sistema Solar. As conversas oscilavam entre a falta de esperança, e ceticismo,
e um otimismo borbulhante.
Willshire olhou para dentro de outros cercados ao ar livre e grandes jaulas,
que continham animais exóticos, cujos nomes ele não conhecia.
Ele esperou pacientemente e em silêncio até que Pontonac se mexeu
novamente.
— Passou? — perguntou Drosen, curto.
Edmond anuiu. Ele mastigou pensativamente um palito de dentes, que
apanhara no Castle-Hotel. Depois ele piscou, espantado, apontou por cima do
ombro de Willshire e gritou baixo, mas em tom surpreso:
— Mas este é o nosso “tigre-dentes-de-sabre”!
— Realmente — opinou Drosen, secamente. — É ele mesmo. Em toda a
sua beleza e astúcia.
Como se a voz de Pontonac fosse um sinal, a fera levantou-se, flexionou a
sua musculatura formidável, abriu a sua bocarra e urrou. Depois ela veio
lentamente até a borda do lago represado, olhou o comandante com os seus
grandes olhos e urrou novamente.
— Ele o reconhece, chefe! — disse Drosen. — Desta vez não é o cappin
dentro do tigre que reconhece o terrano, mas este é um relacionamento normal
homem-animal.
Pontonac apoiou-se na balaustrada e por seu lado olhou o tigre. Depois ele
disse, explicando:
— Todos os animais me amam, apesar de não se poder dizer de mim que eu
sou exatamente um grande domador de animais. Os mastodontes perdem cabelos
tão terrivelmente, que isso deixa confusos os robôs de limpeza na casa.
Willshire sorriu, torturado.
Depois, entretanto, estacou. O tigre vinha vindo pela água, e quando o lago
ficou fundo demais, ele nadou até a borda, e ficou parado depois em cima do
largo paredão de separação, entre o fosso e os homens.
A sua pata dianteira mexeu-se.
— O que é que o animal tem? — perguntou Willshire.
— Alegria de nos rever, seu ignorante! — disse Pontonac.
— Afinal, o animal teve que vivenciar que eu lhe dei uns dois ou três tiros
que o aleijaram. Ele me reconhece como o seu senhor.
Drosen opinou:
— Isso eu também faço, apesar do senhor nunca ter me aleijado, chefe.
Pontonac sorriu, divertido, e fez uma piada:
— É que o senhor não tem dois dentes compridos tão bonitos!
Depois ficou sério novamente. A garra pontuda e cortante da pata riscou
alguma coisa na pedra artificial suja e úmida. Quando depois o animal
lentamente e inseguro voltou, sacudindo a cabeça de um lado para o outro, os
dois homens viram cheios de espanto, um triângulo. Um triângulo assimétrico.
— Isso não pode ser verdade! — disse Drosen, estupefato.
— Um triângulo! Talvez o tigre esteja querendo ensinar-lhe o teorema de
Pitágoras. Pontonac silenciou por alguns longos minutos.
O animal fez um círculo quase redondo, um retângulo e um quadrado.
Depois ficou novamente parado, imóvel.
— E mesmo que o senhor morra de rir — disse o comandante da
desaparecida Dará Gilgama — este animal é inteligente! Provavelmente semi-
inteligente!
Eles ficaram parados, em silêncio, e estavam mais que perplexos.
Finalmente o comandante falou:
— Drosen — disse ele, abanando a mão —, por favor não pense que estou
louco, devido a psicose de prisão ou a neurose de internamente, ou coisa
semelhante. Mas não se pode mais esconder que o tigre nos riscou quatro
fórmulas matemáticas — ou desenhos — no cimento. Correto?
Drosen observou o tigre, como se fosse de platina pura.
— Correto!
— Desde a assunção de um cappin eu tenho dores de cabeça em períodos
irregulares. E o cappin somente me teve em seu poder durante algum tempo,
talvez só segundos.
— Eu começo a entender.
Pontonac continuou falando, e lentamente ele se entusiasmou ao falar.
— E dentro deste animal o cappin esteve mais de quinze dias. Quase quatro
semanas, incluindo o tempo no zoológico de Terrânia City. Talvez isso tenha
provocado certas modificações no cérebro deste animal, de modo que temos ali
uma espécie de pseudo-inteligência. Pense bem: estes desenhos, um terrano de
oito anos não faria tão exatos. Tenho razão?
— Presumivelmente sim. Afinal o senhor sempre tem razão — disse
Drosen, mordaz. — Especialmente com sua apreciação otimista da duração de
nossa estada voluntária aqui e sua crítica desse castelo de baratas de cozinha.
Eles observaram novamente o tigre, e o tigre olhou para eles, diretamente.
— E o que pretende fazer? Saltar até o outro lado do fosso e usar o tigre,
para cavalgar nas costas dele até a Giordano Bruno Júnior?
— Essa seria uma ideia, sobre a qual valeria a pena raciocinar! — disse
Pontonac.
— Sem brincadeiras, chefe. O que devemos fazer?
— Eu quero chegar perto do tigre — disse Pontonac. — Afinal de contas,
ainda nos deixaram nossas armas. Vamos voltar amanhã, e então vamos tentar
entrar no fosso.
Quando eles acenaram para o animal, ele ergueu uma pata. Era a pata
direita, dianteira. Os homens se viraram, ouviram passos, e finalmente uma
figura alta e esguia saiu detrás de uns arbustos. Era um homem que eles
conheciam, e que sempre parecia estar sofrendo terrivelmente de uma úlcera
estomacal.
Pontonac observou, zombeteiro:
— Veja só, nosso amigo Wandte Artian. O que o traz aqui, inquisidor?
O comandante até se controlou e sacudiu, tal como Drosen, a mão do
homem da segurança.
— Eu falei com um comandante de nave — disse Wandte — que me
relatou coisas sobre a luta dos Coletores contra a frota natal terrana. Há um boato
que corre por toda a galáxia.
Desconfiado, Edmond V. Pontonac quis saber:
— Que boato?
— A terra venceu. Vascalo, que me foi descrito tão plasticamente pelos
senhores, dizem, sofreu a última derrota de sua vida. Inclusive porque com ela
também perdeu esta última. Conforme já disse — é um boato.
— Mais alguma coisa?
— Nada. Também nenhuma notícia de Adams.
— As confusões da guerra, o senhor sabe — disse Drosen.
— Nós não poderíamos falar em uma moratória para a Terra?
Wandte riu.
— Moratória de pagamento para a Terra? O que está pensando?
Eles caminharam lentamente pelos caminhos brancos, bem cuidados, de
pedregulho, e tristemente, ao que parecia, o tigre-dentes-de-sabre olhou atrás
dele. Os seus passos e suas vozes se distanciaram, tornaram-se mais baixas.
— Quanto tempo, aliás, ainda seremos retidos aqui? — perguntou
Pontonac, chateado.
Wandte Artian abriu os braços num gesto de lástima e respondeu com uma
expressão azeda no rosto:
— Eu não sei. Enquanto Adams não pagar, nós retemos os senhores aqui.
Eu sinto honestamente, mas nós somos um planeta pequeno, que não pode se dar
ao luxo de esperar tanto tempo. E todos os nossos meios, de recebermos os
milhões, foram esgotados.
Pontonac e Willshire se entreolharam.
— Realmente para mim isso é muito desagradável — repetiu Wandte. —
Por favor, acreditem-me. Eu não tenho nada contra os senhores pessoalmente,
mas terei que impedir que tentem fugir, pois serei responsabilizado de que
Caudor II retenha estes reféns. Talvez a ordem de pagamento chegue amanhã,
quem sabe?
— Talvez. Quem sabe? — macaqueou Pontonac.
Willshire disse:
— Agora pelo menos conhecemos o valor de um homem. De qualquer
modo, já é alguma coisa. A exigência, ou seja, a soma dividida por cento e
cinquenta e dois.
Pontonac, que registrava exatamente a insegurança em Artian, disse, cínico:
— Esses são preços para terranos-usados, amigo!
Eles ficaram parados perto da saída. Os três homens se entreolharam, e
mais uma vez Pontonac sentiu muito exatamente que Artian estava inseguro. Este
homem executara a ordem do seu Governo Planetário, mas não se sentia
absolutamente confortável no seu papel. Esta era uma nítida violação de
costumes interestelares. Mas o que é que ele poderia fazer? Ele e a sua gente
tinham que garantir que Willshire, Pontonac e seus cento e cinquenta homens não
fugissem ou pudessem partir, antes que a exigência do pagamento de milhões
fosse atendida.
— Nós não podíamos ajudar ao senhor e a nós? — quis saber Edmond.
Wandte Artian olhou-o ceticamente.
— Eu não saberia de que modo, comandante — respondeu ele. — O senhor
tem alguma boa sugestão?
Willshire apontou na direção do espaçoporto e explicou:
— Nós tripulamos a Giordano Bruno Júnior e voamos com a mesma para a
Terra para, com toda a autoridade, colocar a exigência. Esta é uma possibilidade.
A segunda é que o senhor jamais receberá o seu dinheiro.
Ele tocou com quatro dedos sua faixa-dakkar.
— Por que não?
— Porque eventualmente já agora a Terra estará ocupada pelos takerers.
Concedo que esta é uma possibilidade que eu não gostaria de ter que levar em
consideração — disse Pontonac, e meteu o bico de sua bota no pedregulho do
caminho, levantando poeira.
Artian sacudiu energicamente o seu crânio estreito.
— Tudo isso são coisas que eu não posso decidir. Eu vou levar a pergunta
ao meu governo, mas não posso garantir nada. Eu pessoalmente nunca tive a
responsabilidade de detê-los aqui à força e não tenciono tê-la. Um bom dia aos
senhores, cavalheiros.
Eles anuíram-lhe e viram que ele subiu no seu pequeno planador do
governo, que saiu pairando em seguida. Eles estavam novamente sozinhos.
Depois de algum tempo, Pontonac disse:
— Esta noite vamos tentar chegar nas proximidades da nave. Vamos ver
que possibilidades ainda temos.
Willshire retrucou.
— Eu vou ajudá-lo, chefe!
— Eu vou sozinho! — disse Pontonac, recusando. — E vou desarmado!
Lentamente eles passearam até a estação do trem subterrâneo e voltaram
com ele para o hotel, ao qual Willshire somente ainda se referia como “Castelo
das baratas de cozinha”.
***
Era muito depois da meia-noite. Pontonac controlou no seu quarto a carga
de suas baterias de longo funcionamento, vestiu um pulôver fino, escuro, e foi até
a porta. Ele caminhou abertamente pelo corredor, para o elevador, através do
hall, e abandonou o edifício. Depois atravessou a rua e meteu-se na sombra das
árvores que se erguiam na borda de um pequeno parque. Lentamente caminhou
para a estação do metrô, sentou-se numa cabine e viajou para o espaçoporto. Ele
desembarcou uma estação antes do edifício central, que consistia de prédios da
administração, a torre de controle, alguns restaurantes e as usuais construções
anexas de qualquer espaçoporto de um planeta não muito grande, com
relativamente poucas partidas e chegadas.
— Para a esquerda — disse ele.
Ele desviou-se para a esquerda e seguiu a linha dos focos de iluminação,
que se perdiam circularmente na escuridão, e se desmanchavam dentro das
muitas luzes no horizonte. O espaçoporto era rodeado de um grande círculo de
um alto aterro, em cima do qual cresciam inúmeros arbustos e muitas árvores.
Depois de quinze minutos de marcha a pé, Pontonac voltou-se para a direita
e desapareceu entre os galhos. Uma vez ele parou, ao ouvir os ruídos de um robô
de limpeza, que recolhia papéis, lixo e galhos secos, e que a cada cinquenta
metros enterrava o lixo no chão, na forma de poeira finamente moída. Depois ele
trepou adiante e logo se encontrou no cume do aterro. Daqui ele tinha uma vista
muito boa para o revestimento de cimento armado branco da superfície do
espaçoporto. Ele viu a Giordano imediatamente.
Ela estava parada a cerca de quinhentos metros de distância dele.
— Hum! — fez Edmond e refletiu.
Por baixo dele ficava a descida bastante íngreme do aterro. Depois vinha
uma pista de planadores de cerca de cinco metros de largura, anexo a um muro
de pedras de fôrma, que consistiam de plástico e cimento-armado. Por trás
começava o espaçoporto redondo. Muito mais para a direita, diante dos pavilhões
de manutenção, estavam as naves que o tinham aprisionado aqui, forçando-o a
um pouso, ou pelo menos uma parte dessa pequena frota. Elas estavam no
escuro, e somente as protuberâncias equatoriais encontravam-se iluminadas pelas
luzes de alguns holofotes, das proximidades. Talvez estivessem sofrendo reparos
ali.
A Giordano, entretanto, era iluminada toda de um lado, a rampa tinha sido
descida, e tocava o chão.
Alguns robôs e um sentinela chateado marchavam em volta da nave; o
homem parou, encostou-se no apoio do trem de pouso e fumou um cigarro.
— Preciso chegar mais perto! — disse Edmond.
Ele desceu o declive quase em silêncio e agora encontrava-se no escuro
entre os últimos arbustos e a pista. Lentamente ele continuou andando até se
encontrar mais ou menos à mesma altura com a nave. Depois atravessou
rapidamente a pista de planadores, puxou-se para cima com o braço direito e
colocou as pernas de aço por cima da coroa do muro. Por alguns segundos ele
ficou sentado, impregnando-se de cada detalhe que estava vendo.
Havia a calma em volta da nave, a circunstância de que a Giordano somente
era iluminada por poucos holofotes. Por toda parte não se via ninguém, exceto a
sentinela e os robôs de vigilância.
Era fácil alcançar a nave, e se eles conseguissem desviar a atenção dos
comandantes das outras naves, eventualmente poderiam escapar.
Desde pôr os pés numa nave, até alcançarem o espaço linear, passavam-se
em regra cerca de dez a doze minutos.
Este era o espaço de tempo de que eles precisavam.
— Com um time de três homens, eu já agiria esta noite mesmo — disse-se
Pontonac. — Mas eu tenho cento e cinquenta homens. Esta multidão de pessoas
eu não conseguirei colocar a bordo sem serem vistas. E um pouso, num ponto de
encontro secreto, nas proximidades da cidade... eu não sei se isso sairia bem.
Ele girou lentamente a cabeça.
— Agora eu sei como é que nós vamos conseguir isto! — disse ele.
Edmond impregnou-se daquela imagem. Nos dias seguintes aqui nada ou
muito pouco se modificaria... O chefe de segurança deste planeta parecia não
saber que somente muito pouca coisa era necessário para impedir que um
punhado de homens decididos, pelo menos empreendessem uma tentativa de
fuga.
Pontonac deixou-se escorregar novamente de cima do muro, trepou por
cima do aterro e viajou, pensativamente, de volta para o hotel. Tanto ele como
também Willshire haviam examinado o seu quarto repetidas vezes em busca de
microfones de “escuta” escondidos, que não existiam. Pontonac pediu um par de
copos e gelo, e foi até o quarto de Willshire. Este estava jogando cartas, com três
oficiais da nave.
— Olá, comandante, o senhor está com as botas sujas de terra! — foi
saudando Pontonac.
— E um excelente planozinho na cabeça! — disse Edmond. — Vocês
topam? Nós vamos roubar a Giordano Bruno!
Os homens, surpresos, deixaram cair as cartas, giraram suas poltronas, e
ficaram olhando, enquanto Pontonac enchia os copos de alguma bebida alcoólica.
— Para isso precisamos de alguns planadores, pelo menos de vinte
uniformes e mais algumas coisinhas! — disse o comandante.
— Como assim?
Ele começou a desenvolver-lhes o seu plano. Eles não pretendiam assaltar
ninguém, mas queriam executar uma rápida pequena manobra, de modo que
ninguém suspeitaria de nada. A ênfase ficava no “rápido”.
Duas horas mais tarde, Pontonac disse:
— Nós temos uns dois dias de tempo, e em caso de necessidade podemos
nos permitir mais algum tempo adicional. Precisamos esgotar todas as nossas
possibilidades e então agir de modo fulminante.
Ele despediu-se dos seus homens e voltou para o seu quarto.
Enquanto estava deitado na sua cama, os braços cruzados atrás da cabeça,
ele pensava na Terra.
Ele tinha advertido os outros blocos de poder, pedindo-lhes que ajudassem.
Provavelmente estavam lhe escondendo notícias correspondentes sobre o curso
das batalhas, ou realmente eles não tinham qualquer notícia. Todas as noções e
pessoas, todas as espécies de ameaças e todas as possibilidades para o Império
Solar, que se desviavam da invasão das gigantescas quantidades de Coletores,
passaram pela cabeça de Pontonac. Elas destruíram o bom humor que ele tinha
conseguido de volta, a muito custo, nas últimas horas.
Então ele pensou em Caryna Nillbärg, e a calma acabou de vez.
Ele tinha que dar um jeito de sair daqui o mais depressa possível para
aterrissar na Terra. E de repente ele lembrou-se do tigre, que possivelmente se
tornara semi-inteligente. Ele naturalmente o teria que deixar aqui, nesta fuga
rápida.
E ele quase teve pena do animal...
8

Esta era a última noite. Tudo que agora era feito e dito, tinha o caráter de
um epílogo:
Era de noite.
A luz do luar que inundava o gigantesco terraço transformava a luz que
vinha de inúmeras lâmpadas e objetos luminosos numa torrente luminosa
prateada e nebulosa. Nem todos os oito mil membros da tripulação tinham
encontrado lugar aqui, mas mais embaixo, no gramado do velho parque, a
multidão se espalhara. Por toda parte havia música, risos, escutava-se o tilintar de
copos e conversas.
Mais de dez mil pessoas de muitas raças tinham se reunido aqui para a
despedida.
Registrava-se o dia 27 de julho de 3.438. Logo seria meia-noite.
Num lugar um pouco menos barulhento do terraço, nas proximidades do bar
comprido, casualmente se encontrara um grupo.
Os cinco homens e a jovem mulher estava de muito bom humor, e sem
exceção tinham grandes copos cheios de bebida alcoólica nas mãos.
Justamente estava falando Joaquim Manuel Cascal, chefe das naves-
auxiliares da gigantesca Marco Polo, que estava pousada, pronta para a partida, a
apenas quinze quilômetros de distância.
Cascal dizia:
— O que me toca especialmente de modo agradável, minhas senhoras e
meus senhores, é a circunstância de que não deixaremos que o processo desta
despedida se transforme numa tragédia.
O Lorde-Almirante Atlan ergueu o seu copo e disse bem-humoradamente:
— Para isso o senhor, sem dúvida alguma, vai cuidar com a sua inclinação
para o sarcasmo.
Cascal garantiu de modo exagerado:
— Desde que eu conheço melhor Cláudia Chabrol eu não sou mais
sarcástico. O senhor naturalmente não vai tentar, esta noite, embebedar-se
exageradamente, senhor Administrador-Geral?
Rhodan riu, ele usava um uniforme de bordo, branco, que não parecia
absolutamente militar.
— De modo algum! — disse ele, em voz alta. — Eu não quero dar-lhe a
oportunidade de ter que me transportar, balbuciante, para dentro de um planador
de transportes.
— Que ótimo — disse Ovaron. — Vocês partem amanhã de manhã. Este é
o fim das aventuras, não é verdade?
Por um instante formou-se um ambiente ligeiramente saudoso. As pessoas
aqui presentes, começaram a lembrar-se da cadeia de acontecimentos, que aqui
chegava ao fim. Em poucas horas, se ergueria aquela montanha de metal cujo
nome era Marco Polo, abandonando o planeta. Na outra extremidade do voo
ficava a Terra, ficava o sistema pátrio...
E também estes homens lembraram-se de que nenhum dos enigmas
existentes fora realmente resolvido. O que agora aconteceria com a Proto-Mãe?
O que ela realizara, o que ela conseguira, no Sistema Solar? Era certo — como a
memória repentinamente conseguida de volta pelo Ganjo — que a Proto-Mãe
realmente se destruiria com todos os seus Coletores?
Ninguém o sabia, mas só se pensava muito pouco nestas incertezas.
Rhodan perguntou, sério:
— O fim de nossas aventuras conjuntas, Ganjo Ovaron?
— É o que eu acho. Todos vocês terão outras coisas esperando, na vossa
pátria. Mas eu estou muito contente de que conseguimos alcançar a meta que nos
propusemos. O senhor, Perry, e também eu. Eu sou Ganjo, e o senhor tem a
certeza de que não aconteceu nenhuma invasão takerer, ou seja, nenhuma se
concretizou.
— É isso aí — retrucou o Administrador-Geral, tomando um grande gole.
Espantados, Cascal e Waringer ficaram olhando aquilo, pois o chefe era famoso
por sua sobriedade.
Cláudia Chabrol, que estava parada ao lado de Cascal e agora usava o seu
cabelo mais curto, o que a fazia parecer mais jovem, perguntou depois de algum
tempo:
— Como é que vai se comportar, no conflito com os juclas, Ovaron?
Entre os juclas e os inúmeros outros povos da galáxia Gruelfin tinha
estourado uma guerra, uma luta aberta. Os planetas estavam fartos de serem
dirigidos por tiranos, e também aqui, nesta centelha provocadora, o
reaparecimento do Ganjo fora um divisor de águas, um ponto marcante. Ovaron
transformou-se numa figura simbólica desta galáxia, mas um símbolo de valores
positivos, dos quais alguns se chamavam paz, justiça, inteligência e razão. Os
povos, por sua vez, não queriam trocar uma ditadura por outra, e se recusavam a
se deixarem governar por crianças, que naturalmente agiam de forma espiritual
superior, mas que pensavam de modo amoral e bestial. Portanto eles se
defenderam e puseram os agressores para correr.
Ovaron olhou de modo curioso para Cláudia. Ele esperara uma outra
pergunta dela?
— O que quer dizer com isso, Cláudia? — perguntou ele.
Puderam ouvir-se alguns compassos de música nitidamente, mas logo o
barulho que dezenas de milhares de terranos e ganjásicos faziam, fechou-se
novamente por cima daquele grupo.
— Exatamente o que perguntei. Como vai comportar-se? O senhor vai
intervir, vai apaziguar, ou o que vai fazer?
Ovaron girou a cabeça e olhou por alguns segundos para as pessoas que
festejavam lá embaixo, depois respondeu:
— Eu vou me guardar de intervir nos combates encarniçados. Eu
continuarei neutro, e ficarei esperando na retaguarda. Depois desse tempo, cujo
fim, aliás, eu já posso prever, eu ordenarei os interesses da política interna, de
ordem econômica, e as coisas culturais e civilizadoras dos ganjásicos. Afinal de
contas, muita coisa foi destruída, muita coisa deve ser removida e substituída por
outras formas.
Cláudia anuiu. Ela já esperara por esta resposta.
— Satisfeita? — perguntou Ovaron e acenou para a garota ganjásica que
trabalhava atrás do bar, e que entrementes já fora avisada quem eram as pessoas
que ela estava servindo.
Novos copos, cheios, vieram.
— Sim, totalmente satisfeita.
Cascal brincou:
— Mas ela só vai ficar totalmente satisfeita quando estiver novamente em
Terrânia City, e ali tricotar, com muito empenho, o pulôver que ela me prometeu,
e que deverei usar um dia. Certamente, dentro dele, vou parecer Vascalo, o
Torto.
Waringer observou, rindo baixinho:
— Ou como Icho Tolot!
Foi uma gargalhada geral.
Nas últimas horas eles tinham repassado, antes de vir para esta festa, os
comunicados recebidos de diversos campos de batalha. Através deles, sabia-se
claramente que os juclas estavam sofrendo derrotas destruidoras. Estas derrotas
pareciam sobrecarregar sua mentalidade, e ficou patente que eles recuavam, e
cada vez mais se afastavam de seus propósitos guerreiros.
Com isso, entretanto, ninguém ficou satisfeito.
Eles teriam que desistir disso tudo de uma vez por todas. Uma vez que eles
não temiam nada mais do que a morte, ainda mais que envelhecer, a paz
definitiva na galáxia Gruelfin — ou na galáxia do Sombrero, como ela era
chamada pelos terranos — também apenas era uma questão de tempo.
Cascal colocou o seu braço em volta dos ombros de Cláudia e levantou o
seu copo, mas ao fazê-lo olhou na direção de Waringer. Geoffrey Abel Waringer
estava sentado confortavelmente no braço de uma poltrona e parecia levemente
alcoolizado.
— Professor, uma pergunta oficial? — disse Cascal.
— Por que não? Quer que eu lhe explique, mais uma vez, a natureza do
rádio-dakkar? — retrucou Waringer.
— Não — disse Cascal. — Nada tão simples. Desta vez é apenas uma
pergunta que o senhor pode responder facilmente. Esses sensores-
transformadores vão mesmo funcionar, caso precisemos deles?
Atlan corrigiu-o, rindo:
— Sensores-transformadores, Joak!
— Não fui eu que inventei esse nome — defendeu-se Cascal. — Os
sensores-transformadores do Professor Pralitz vão funcionar, Professor Doutor
Waringer?
Waringer olhou fascinado um cubinho de gelo rotativo dentro da sua
bebida, que cheirava a whisky e tinha o gosto de Calvados, e respondeu
rabugento:
— É claro, seu capitão abelhudo de naves-auxiliares!
Cascal ergueu as sobrancelhas, mas não afrouxou. Ele disse, por sua vez:
— Tem certeza disso?
Waringer pulou de cima da balaustrada, empertigou-se diante de Cascal e
declarou, bamboleando ligeiramente:
— Estes quatro sensores-transformadores de Pralitz vão trabalhar sem
problemas, pois eles foram examinados, testados e “checados” por técnicos e
cientistas ganjásicos. Eles vão funcionar, de qualquer jeito.
— Que bom para todos nós — verificou Cascal. — Eu agora vou me
misturar, com Cláudia, a gente comum, pois quero ainda me divertir um pouco
esta noite. Do senhor, Ganjo Ovaron, eu ainda me despedirei muito cordialmente,
antes da festa haver terminado e antes que todo o álcool tenha sido tomado.
Rhodan, Ovaron, Atlan e Waringer ficaram para trás.
— Rapaz desavergonhado! — disse Waringer, tomando tudo que havia no
seu copo. — Mas é simpático. E um bom terrano!
— Agora o senhor já está ficando sarcástico! — disse Atlan.
Ele retirou-se lentamente, enquanto os outros conversavam entre eles. Ele
caminhou ao longo do bar, empurrando o seu copo adiante de si, sobre o tampo e
sorriu para a garota que estava atrás da parede divisória. Finalmente, minutos
mais tarde, Rhodan encontrou o Lorde-Almirante, conversando animadamente
com a garota ganjásica. O assunto primeiro era sobre a incerteza de Atlan quanto
ao que poderia beber mais, depois ele começou a falar sobre coisas
decisivamente mais interessantes.
Finalmente Waringer também saiu.
Ele pretendia — ao que disse em voz baixa — controlar mais uma vez os
sensores-transformadores de Pralitz. Precisou de exatamente um minuto, antes de
poder pronunciar corretamente, aquela palavra comprida, complicada.
***
— Conforme Cascal já disse, meu amigo — declarou o Ganjo —, não
queremos fazer uma tragédia antiga dessa despedida.
Rhodan disse, baixinho:
— Eu nunca tencionei fazer isso, Ovaron. Eu lhe desejo, em tudo que
empreender, muita sorte. Talvez consigamos, algum dia, levantar entre nossas
duas galáxias, um grande pedogoniometrador ou uma transmissora-dakkar
permanente. No momento não se pode pensar nisso. Nós devíamos, de qualquer
modo, manter uma ligação.
Eles depuseram os copos e desceram lentamente a escada para o parque.
Eles passaram por terranos agitados, ganjásicos bêbados, mas apenas por gente
muito alegre.
— Isso nós faremos. Durante algum tempo eu vou voar com a Poycara ao
lado dos senhores, e dar à todos os meus amigos uma espécie de escolta.
— Um belo gesto, Ganjo — disse Rhodan, satisfeito.
Curioso, pensou ele. Nas semanas e nos meses em que uma aventura
seguira-se a outra, eles tinham tido, ininterruptamente, assuntos suficientes para
conversarem ou até mesmo brigarem a respeito. Agora, nesta última hora alegre e
divertida, eles não se lembravam de nada. De qualquer modo um entendia o
outro.
— O senhor ainda tem desejos ou problemas, que Gruelfin ou eu possamos
lhe solucionar ou facilitar, Perry? — perguntou Ovaron.
Ele lastimava muito, não ter mais à sua disposição como amigo, este
homem ao seu lado. Os conselhos de Rhodan e de Atlan sempre tinham sido
bem-vindos, e geralmente ele lucrara com eles.
— Não que eu saiba — disse Rhodan, a meia-voz. — Eu tenho um desejo,
ou seja, que todos nós consigamos regressar à Terra sem complicações. Uma
quantidade gigantesca de trabalho espera por nós, presumindo-se naturalmente
que os takerers não venceram.
Ovaron garantiu:
— Eles não venceram, Perry! Não seja tão desconfiado. Eles não podem ter
vencido, porque a Proto-Mãe, com todas as suas partes, se autodestruiu. Eu sei
disso muito exatamente — pois fui eu mesmo que a programei — há duzentos
mil anos atrás!
Rhodan ficou parado, para deixar passar um grupo de terranos e ganjásicos.
— Eu mesmo vou ter que me convencer disso, e eu me convencerei! —
prometeu ele.
Em algum momento daquela noite eles se despediram.
Depois os seus planadores saíram voando em direções diferentes. Ovaron
guiou o seu veículo para a Poycara e Rhodan tomou curso para a Marco Polo.
A longa festa estava terminando.
***
Era uma visão que não tinha rival.
Primeiramente a Poycara elevou-se lentamente do espaçoporto, com os
projetores antigravitacionais ligados, subindo cada vez mais, como um ovo
gigantesco. Os primeiros raios do sol bateram no seu casco, fazendo-o rebrilhar.
Inúmeras câmeras e lentes de vídeo dirigiram-se para a nave.
Depois as últimas comportas da Marco Polo se fecharam.
A bola gigante elevou-se e seguiu a Poycara. As naves furaram a fina
coberta de nuvens, pairando cada vez mais altas e finalmente desapareceram
como pequeninos pontos azulados re-lampejantes, no azul do céu matinal.
A viagem para a Terra começara.
Enquanto ambas as naves se tornavam cada vez mais velozes, e todos os
computadores calculavam a rota da Marco Polo, examinando repetidas vezes o
programa, a nave esférica lentamente fez uma evolução, saindo de sua órbita na
direção da galáxia natal. De segundo a segundo ela tornou-se mais rápida, e a
Poycara, a uma distância segura, mantinha a sua rota e velocidade. Então a
tripulação ganjásica irradiou uma mensagem:

“UM BOM VOO, MARCO POLO!


E BREVE CHEGADA À TERRA!”

A nave esférica acelerava apenas com valores mínimos, mas


consequentemente. Os membros da tripulação que estavam sentados diante dos
consoles e dos instrumentos, ansiavam, como Rhodan e Atlan, chegarem ao
ponto final do voo, pois todos eles somente estariam em segurança, quando o
Sistema Solar fosse atingido.
Depois a Poycara ficou para trás, ficou menor e finalmente também
desapareceu como eco nos aparelhos de rastreamento dirigidos para trás.
Diante da nave espalhava-se o eterno panorama das estrelas.
O voo para a Terra tinha início...
***
O círculo fechou-se, pensou o Administrador-Geral, que estava sentado
silenciosamente, na grande poltrona anatômica no meio da central. O encosto
tinha sido baixado bastante para trás e Rhodan pôde ver, atrás do faiscar de
milhões de estrelas de Gruelfin, as formas embaciadas da roda-de-fogo, como se
mostrava aos seus olhos, em perspectiva angular, a própria galáxia.
Um círculo...
Há duzentos mil anos, eles tinham se encontrado, sob condições
desfavoráveis e inimigas. Ovaron, Merceile, Takvorian.
Ovaron puxara uma segunda fita através do tempo, e agora regressara
novamente ao seu reino, em crítica situação, tendo assumido outra vez o poder
como Ganjo. O seu entendimento ainda ficaria muito tempo com este espaço de
tempo, e os problemas pessoais do homem Ovaron estariam solucionados. Mas
este era um assunto exclusivamente de Ovaron. Ele resolveria estes problemas,
como resolvera muitos, antes. Rhodan tinha seus próprios problemas e estes
começavam já agora, na troca do espaço normal, para dentro de um sistema
relativo.
Os sensores-transformadores pareciam estar em ordem. A tripulação e toda
a biopositrônica trabalhavam confiavelmente.
Merceile.
Ela se encontrava no lugar para onde Rhodan voava. Na galáxia dos
terranos. Ela destruíra a ligação-dakkar, ou a mesma fora interrompida por algo
ou por alguém. Tomara que o Roi Danton se encontrasse por perto, para cuidar
dela... Merceile, ao que pensava Rhodan, amava o seu filho. Se Roi a amava,
sobre isso não reinava nenhuma certeza — com Roi nunca se sabia ao certo o que
ele realmente pensava ou sentia.
Depois de longamente hesitar, Takvorian tinha-se decidido voar com os
terranos, e calculava que, sempre que ele tivesse vontade, poderia voltar para o
seu amigo Ovaron, através de uma ligação que ainda não existia, e que o deixaria
em Gruelfin.
Ele era apenas uma das figuras não-humanas que povoavam a nave.
A Terra, pensou Rhodan.
O que me espera ali? Que problemas vou ter, e que problemas sérios teriam
surgido entrementes?
Estes e pensamentos semelhantes passavam por sua cabeça, enquanto a
nave perfurava o negror do cosmo salpicado de estrelas, tornando-se cada vez
mais rápida. Finalmente ela voou apenas um pouco abaixo da velocidade-luz, e
era possível pensar-se em dar início às necessárias manobras.
O que ficava no final da viagem?
De repente a Marco Polo desapareceu do sistema relativo do espaço normal
tridimensional, com seus véus de gases e nuvens de hidrogênio, com todos os
seus sóis e planetas, com bólidos e meteoros e poeira interestelar.
O círculo se fechara.
9

Em volta da grande mesa-redonda, no grande birô de Rhodan, no último


andar da Administração em Terrânia City estavam sentados quatro homens.
Eram eles a quem se tinham entregue a responsabilidade pelo Império
Solar, ou melhor, a quem impuseram esta tarefa.
Roi olhou para a projeção tridimensional da galáxia, que preenchia uma
parede dos fundos do recinto. Durante alguns dias ele dividira a alegria dos
terranos, pelo término surpreendente da luta, mas agora estava cheio de
preocupações.
Reginald Bell perguntou, a meia-voz e preocupado:
— Como vai Merceile, Roi?
Michael Rhodan, ou seja, Roi Danton, mordeu o seu lábio inferior e relatou:
— Faz uma hora que falei com os médicos especialistas em Tahun. As
notícias são daquele tipo irritantemente otimista, que faz pensar no pior. A moça
naturalmente tem chances, mas no momento eles não podem dizer se podem ou
não ainda ocorrer complicações. A retórica habitual dos médicos.
Galbraith Deighton anuiu e respondeu:
— Você sabe, naturalmente, que nós lhe desejamos muita sorte.
Entrementes começamos a remover a confusão existente nas proximidades de
Plutão... Parece catastrófico, mas vamos dar conta do recado.
Bell disse, chateado:
— Muito mais importante é se eles vão dar conta do recado! Os homens da
Marco Polo naturalmente! E Perry!
— Você está preocupado porque acha que eles não conseguirão dar conta
do recado? — quis saber Tifflor.
— Naturalmente! — disse Bell.
Eles não sabiam nada de concreto, mas num dos últimos contatos pelo
rádio, entre Merceile e o Marechal-de-Estado, a garota takerer dissera que sabia
que Rhodan dentro de poucos dias ousaria partir para a Terra. Isso podia ser um
boato, mas Bell era um pouco mais otimista que seus três amigos neste recinto.
Ele acreditava que, nestes dias, Rhodan iniciaria a partida para a Terra.
— Por que você acredita que Rhodan está vindo? — perguntou o Roi.
Ele naturalmente tinha sua teoria própria, mas queria saber o que Bell
pensava a respeito.
— Porque seguramente ele mesmo observou como aquela gigantesca frota
de Coletores partiu da galáxia do Sombrero. Ele deve ter acreditado que eles se
reuniram com os Coletores de Vascalo. Não importa, se ele sabia alguma coisa
sobre o Programa Fundamental da Proto-Mãe ou se supôs que ela se atiraria na
batalha com Bell... Rhodan ficaria dominado pelas preocupações a respeito do
destino da Terra. Eu, pessoalmente, acho que ele já está a caminho!
Reginald Bell recostou-se novamente, e balançou, agitado, a sua poltrona.
Ele olhou os rostos céticos dos outros três homens. Finalmente Deighton falou
outra vez:
— O Complexo Titã, nós já discutimos exaustivamente, e todas as medidas
foram tomadas e em parte até já executadas. Graças ao grande potencial, isto é
um trabalho relativamente rápido.
— O que nos leva a Plutão — comentou Tifflor, secamente. — O planeta se
foi. Sumiu, se evaporou. Eu sugiro diminuirmos o raio do escudo de proteção
paratrônico, de um pouco mais de quarenta unidades astronômicas para trinta e
uma unidades astronômicas, o que corresponde a distância do planeta Netuno.
Bell perguntou:
— Vantagem? Desvantagens?
— Nenhuma desvantagem — disse Roi. — Nós poupamos uma imensa
quantidade de energia, que pode ser utilizada melhor e com mais vantagem em
outros lugares. Mesmo que só se trate de diminuir a carga de vários aparelhos
porque sua capacidade será diminuída.
Bell refletiu, depois disse:
— Como representante de Rhodan eu posso assumir a responsabilidade
disso. Afinal de contas, trata-se de uma coisa absolutamente positiva e uma
medida de poupança ainda por cima. No que concerne às frotas — as naves que
foram danificadas encontram-se nos estaleiros, as tripulações estão de licença na
pátria, e todos nós agora temos um pouco de tempo, para nos ocuparmos com
coisas menores. Por exemplo, nossos negócios de serviços correntes. Como é que
a destruição de Plutão afetou os outros oito planetas?
Deighton respondeu:
— Basicamente de maneira inofensiva. Não levando em conta danos
materiais de dimensões médias, como rompimentos de diques, algumas pontes
ruídas e trechos de terra inundadas, não houve nada de mais sério. Vamos ficar
prontos com isso, no máximo dentro de um ano.
Bell estava satisfeito.
— Então era isso — disse ele. — Meus amigos, primeiro vamos comer, e
depois vamos voltar ao nosso trabalho. A situação distendeu-se e nós temos as
coisas firmemente em nossas mãos. Como única preocupação verdadeira resta-
nos a incerteza se Perry partiu, ou quando ele partiu.
Roi pensou no seu pai, depois acrescentou:
— E, se ele partiu, quando chegará aqui. Eu não sei... mas eu não consigo
me livrar da maldita sensação de que ele ainda está calmamente sentado em
algum lugar com Ovaron, discutindo questões de políticas de força e
pensamentos pacifistas, enquanto nós estamos aqui, nervosos, roendo nossas
unhas.
Bell parecia resignado.
— Como nossa ligação com Gruelfin não existe mais, vamos ficar na
incerteza. Se você tem problemas, Roi, ligue para mim. Eu estarei aqui a
qualquer hora, ou então você me alcançará em meus outros postos.
Ele bateu no ombro de Michael, para consolá-lo. Os homens abandonaram
a Administração e se dirigiram novamente aos seus locais de trabalho.
Mas a incerteza permaneceu.
Onde estava Perry Rhodan?

***
**
*
Dirigida por seu Programa Fundamental,
houve a intervenção da Proto-Mãe, que impediu
maiores desgraças — ainda que a custa dos
planetas Sikohat e Plutão.
De qualquer modo o Sistema Solar foi
salvo pela intervenção do cérebro-robô
ganjásico. E para Perry; Rhodan e para os
homens e as mulheres da Marco Polo chegou a
hora da despedida de Gruelfin. Eles iniciam o
voo de regresso à galáxia...
O que os terranos vivenciam no seu voo, o
que eles encontram na Via-Láctea, isso não
pretendemos revelar-lhe aqui, agora, caro
leitor.
Pois é o assunto do número de Jubileu da
série — o no 500, e tem por título — Eles
Vieram do Nada.

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